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VIRGULINO, VULGO: LAMPIÃO

Durante um tiroteio nas imediações de Mata Grande/Alagoas, contra uma volante da força alagoana onde o alvo principal seria o tenente Lucena, acontece um episódio interessante que termina entrando para a história do cangaço. Já era noite e o grupo atirava sem parar. Um cangaceiro que lutava próximo a Virgulino deixou o cigarro de palha cair no chão. Como estava escuro esse companheiro não conseguia localizar onde havia caído o cigarro.

- Caiu o cigarro e não consigo encontrar. – disse ele a Virgulino.

- Vou atirar e, no clarão, vosmicê procura o cigarro. O cangaceiro atirava com tanta rapidez que o companheiro pilheriou para os demais:

- Vôte homi, inté parece um “lampião”!

- Acende lampião, acende lampião! Dizia Virgulino dando risadas.

Desde esse dia o seu apelido passou a ser “Lampião”, devido à rapidez com que manuseava o rifle. Esta, entre tantas outras, é uma das versões correntes de como Virgulino adotou o codinome Lampião. Anos depois, fazendo alusão à sua arma, Virgulino soltou estas loas numa roda de amigos:

“Meu rifle é o de dez tiros,
Desse da boca amarrada
Cruzeta do ponto branco
D’argolinha pendurada,
Cano de aço legítimo,
Da culatra reforçada. “

Naqueles tempos, de completo abandono e um crescente surto de violência no Sertão, seja da parte dos cangaceiros, seja da polícia, o nome de Lampião se fez ecoar nos quatro cantos da região.

Seu simples pronunciamento já causava pavor e medo. Não existia, com raríssimas excessões, valente para peitá-lo. Não havia coronel, poderoso e forte, a ponto de não temê-lo.

A polícia recuava, outros bandos se uniam a ele, o coronel cedia e o povo, de um modo geral, respeitava sua força e coragem. No íntimo, queriam ser como ele: destemido, valente e determinado.

Lampião não temia a morte.

Desprezava a vida.

Encarnou a justiça à sua maneira e, também a seu modo, governou o Sertão. Tudo o que aplicou nessa nova profissão aprendera com o grande Sinhô Pereira, homem de família nobre, honrado e educado.

No mais, tinha grandes dotes de inteligência e um enorme espírito de liderança. Prova disto é o simples fato de ser ele, por exemplo, o mais novo dos três irmãos que entraram inicialmente para o cangaço e ter para sí a responsabilidade de comandar seu bando, que antes era comandado pelo irmão mais velho Antonio. A propósito, quando o Sinhô Pereira resolveu abandonar o cangaço passou a coroa e as responsabilidades, que não deviam ser poucas, da manutenção de um grupo, para ele. Lampião, de tão inteligente que foi, resolveu logo subdividir estes grupos em sub-grupos, – coisa que cangaceiro nenhum havia pensado antes – , para, assim, aumentar seu raio de ação e reduzir os gastos do seu bando.

A única coisa negativa nessa sua idéia foi o fato de, estando os grupos dispersos atuando cada qual na sua área, frequentemente os crimes praticados por qualquer um deles era, de pronto, atribuidos ao grupo de Lampião. A exemplo do ataque à cidade de Souza/PB, onde Livino e Sabino cercaram e depredaram a mesma e, posteriormente, os jornais noticiaram que Lampião havia invadido a cidade, enquanto este convalescia de um tiro que esfacelou-lhe o tornozelo. Muitos estupros, mortes e desatinos foram praticados por cangaceiros vários e de grupos variados, mas, sendo sub grupo do chefe, o crime era atribuido a este.

Suas táticas de terror, artificios que o transformaram em mito, aprendeu com a vida e sabia que necessitava usá-las da melhor forma possível. Pois para ele, era essa a única linguagem que aquele povo, infelizmente, tão pobre e inculto, entendia. 

E era esta linguagem que a polícia e os potentados da época, leia-se coronéis e políticos, usavam para toda e qualquer pessoa que lhe caisse nas garras. Neste mesmo período, por volta de 1922/1925, o governo da Paraíba precisou intervir junto ao poder Pernambucano a respeito das ações da polícia deste segundo estado que, na caça aos cangaceiros praticavam toda a sorte de maltratos à população indefesa nas zonas rurais.

Não vamos pensar que assassinatos, estupros, degolas, sangramentos, surras, torturas, etc, eram obra apenas de cangaceiros. Esses tipos de artifícios eram coisas comuns ( ! )  de se praticar naquele mundo seco e perdido, onde travava-se uma guerra de titãs, quando duas facções se cruzavam.

O valente militar Mané Neto, por exemplo, era um dos mais terríveis torturadores da polícia. A população Paraibana, Baiana e mesmo a pernambucana, conheceram o peso de sua autoridade. A presença do valente Mané Neto numa batalha já era por sí só, motivo para fazer tremer o mais valente cangaceiro.

E não era porque poderia ser morto por este, mas porque poderia ser “pego” por ele e, assim, torturado das formas mais horrendas possíveis.

O proprio Lampião afirmava aos seus que, “se Mané Neto chegou, precurem sarvá  a metade da vida que a outra já foi!”.  

“…Quando integrava o bando
Do chefe Sinhô Pereira
Virgulino batalhava
Junto com a cabroeira
Era noite, tava escuro,
E seu compadre “Pé duro”
Lhe falou desta maneira:

- Compadre o meu cigarro
Desprendeu da minha boca,
E eu não consigo encontrá-lo
Pois a claridade é pouca,
Você me ajude a achá-lo
Pois agora, de fumá-lo
Me deu uma vontade louca!

- Compadre não se avexe
Que a gente vai encontrar
O seu paisano de palha
Se abaixe pra procurar
Eu vou, com meu mosquetão
Fazer aqui um clarão
Pra mode o senhor achar!

Virgulino com destreza
Apontou o mosquetão
Descarregando no piso
Toda sua munição.
De perto a cangaceirada
Gritava entusiasmada:
– Te acende Lampião!!!!

O matuto encontrou
O seu cigarro perdido
E Virgulino ganhou
Neste dia um apelido…
Morreu nesse dia então
Virgulino, o cidadão,
Nasceu Lampião, o bandido…”

Extraído do livro “ Lampião, a Trajetória de um Rei sem Castelo” – Autor Paulo Moura – Editora Espaço Idéa. São Paulo/SP. Editora ASNAI. Recife/PE – 2008. 1ª Edição


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MEU RIFLE ATIRA CANTANDO…

A violência no sertão nordestino sempre fora uma constante desde os primórdios.

Para melhor se fixar no tempo e no espaço lembremos das incursões dos colonizadores que expulsaram os nativos de suas terras litorâneas empurrando-os para o interior, matando, escravizando e, sobretudo, destruindo suas comunidades em nome do progresso e da civilização. É ledo engano se afirmar ou se acreditar que a colonização do nosso País se deu de forma pacifica.

É importante ressaltar também que, essas “entradas” promovidas pelo homem branco nos territórios indígenas brasileiros se dava ainda (e inclusive) nos idos de 1878 (este grifo serve apenas como reflexão para que o leitor tenha a idéia de quem eram os verdadeiros bandidos: o perseguidor ou o perseguido).

Desde seu descobrimento até a época em que a escravidão se tornara um entrave social para o país e a república já acenava como nova forma de governo, no sertão o camponês travava uma luta feroz contra inimigos naturais: os índios, remanescentes de tribos que não aceitaram viver sob o julgo do branco colonizador; os animais ferozes, que existiam em grande quantidade nas matas nordestinas e as intempéries da natureza, a exemplo da seca, fenômeno este, que sempre assolou esses rincões, trazendo muitas mortes e forjando retirantes.

Estes três fatores – agindo em conjunto ou não – contribuíram de alguma forma para a formação da personalidade do homem da caatinga que procurava, à duras penas, se adaptar ao seu habitat.

Além desses fatores ainda viria a travar luta pelo domínio das terras contra seu próprio vizinho. Surgem daí as intrigas de famílias que, alastrando-se por toda região transformam o sertão numa zona perigosa. É nestes rincões que nascem, anos após anos, homens afeitos à luta, homens dispostos e abnegados, valentes e corajosos, acostumados à rusticidade do meio e ao trato com os animais de criação – seja castrando, abatendo e retirando o seu couro – e com o traquejar da arma branca.

Naqueles tempos de total abandono social, tudo era resolvido na ponta do facão ou do bacamarte. O auxílio público quando chegou ao sertão não fora imparcial, antes valorizavam quem gozava de melhores condições sócio – econômicas e estes, consequentemente, eram os coronéis ou os ricos fazendeiros.  O homem pobre não representava nada, a não ser mão de obra barata e farta para enriquecer cada vez mais o poderoso coronel.

Um povo carente de ensino. Sem noções básicas de direitos e deveres, sem predisposição ao entendimento, não poderia evitar os entreveros familiares agindo na forma da lei, pois lei não conheciam ou ao menos não compartilhavam dela.

Ontem, como hoje, nenhuma outra instituição tinha tanto valor quanto o seio familiar. O sertanejo a preza como se fosse o seu bem maior. São solidários,  têm normas de conduta e o líder detêm, ainda hoje, o poder para opinar e aconselhar ou mesmo proferir uma sentença.

Ao filho desfeiteado, o pai chegava a negar-lhe a benção enquanto o mesmo não fosse à forra e sujeitasse o inimigo. Resolvida a questão o pai tornava a reconsiderá-lo. Abençoando-o e enaltecendo sua valentia. No sertão tinha dessas coisas.

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CORISCO, O DIABO LOURO

 

Cristino Gomes da Silva Cleto. Este é foi o nome de uma das figuras mais legendárias do cangaço, o terrível Corisco. Ou, Diabo Louro.

Figura atormentada pelo destino nasceu em 10/08/1907, num dia de sábado, na Serra da Jurema, no município de Matinha de Água Branca, em Alagoas. Filho de Manoel Gomes da Silva e de Firmina Cleto, teve seis irmãos: Vicente, Francisco, Maria, Jovita, Teodora e Rosinha.

Seu pai morreu muito jovem deixando a viúva com a obrigação de criar sozinha, os filhos ainda pequenos. Dona Firmina, austera e moralista tratava os filhos com pulsos de ferro, surrando-os freqüentemente por motivos nem sempre justificáveis. Cristino, de temperamento rebelde desde cedo, fugiu de casa ainda aos 14 anos de idade após uma destas memoráveis surras. Naquele tempo a família já morava na vila de Pedra de Delmiro/Alagoas.

Foi parar em laranjeiras, Sergipe, onde passou cerca de três anos trabalhando como entregador de leite. Em fins de 1923, volta para casa muito doente e é recebido pela mãe, saudosa e muito arrependida.

Em 1924 é convocado para o serviço militar, indo destacar em Aracajú/Sergipe. Alto, olhos azuis, loiro, bem parecido, inteligente e disposto, destaca-se entre os demais recrutas, atraindo para si a admiração dos superiores. Afeiçoa-se às armas, que aprende a manejar com precisão.

Em julho daquele ano o tenente Maynard participa de uma revolta contra o governo, ao qual mostra-se infrutífera devido à reação do presidente, apoiado pelos “coronéis” do interior com suas milícias de jagunços. Tendo sido um dos mais exaltados no momento da sublevação, Cristino é também um dos mais perseguidos. Foge então para Pedra de Delmiro para esconder-se ao lado da família, mas em pouco tempo chega uma precatória solicitando sua prisão. Foge então para mais longe, Paraíba. Até então não imaginaria que passaria, a partir dali, a viver fugindo até o fim dos seus dias.

Na Paraíba, homiziou-se em Lagoa do Monteiro, terra do célebre bacharel-cangaceiro Santa Cruz, habitat dos valentões. Naquele tempo o sertão fervilhava de cangaceiros. A mudança não lhe foi benéfica.

Cristino por algum tempo foi trabalhar na roça e no trato com o gado, mas como nem sempre de trabalho vive o homem tornou-se freqüentador assíduo dos forrós de fim de semana. Certa feita tira uma moça para dançar e recebe um “não”. Insiste, e é esbofeteado por um parente da moça. Apanhar na cara é uma desmoralização que o sertanejo não perdoa. Vai à casa do patrão, arma-se e despeja toda a carga de um rifle sobre o agressor, matando-o. Consegue fugir, indo ocultar-se em uma das fazendas do patrão. Estávamos nos fins de 1925.

É orientado pelo patrão a entregar-se às autoridades. Ele providenciaria que a pena lhe fosse branda. Confiante, Cristino se entrega e é levado a júri. O tiro lhe sai pela culatra e Pega 15 anos de prisão. O Estado naquela época, não tinha condições de manter prisioneiros encarcerados por tão longo período e normalmente resolvia o problema da maneira mais simples.

Escoltava-se um grupo de prisioneiros com penas iguais ou superiores a 15 anos, até um local deserto na caatinga, mandava que os infelizes cavassem suas próprias covas e fuzilava-os à queima roupa. Às vezes, para economizar munição ou não fazer barulho, optava-se pelo processo da sangria lenta: “Ferro na taba do queixo… feito bode”.

Por sorte, Cristino ficou numa cela com oito companheiros, e um deles era protegido pelo prefeito do lugar. Poucos dias depois recebe uma sacola com alimentos, contendo ainda ferramentas para a fuga e um bilhete avisando que no dia seguinte todos seriam fuzilados e que por isso tratassem de fugir enquanto era tempo. No dia seguinte, quando o sol nascia na Paraíba, Cristino era novamente um homem livre.

Vai parar em Villa Bela (atual Serra Talhada), refugiando-se na fazenda Carnaúba, reduto da família Pereira, celebres no Pajeú devido aos aguerridos combates contra as famílias Nogueiras e Carvalhos. Né da Carnaúba precisava de homens valentes na sua terra para utilizá-los quando necessário, colocando-o entre seus moradores. Novamente Cristino volta pra a vida normal de cuidar do gado e da roça. Estávamos no inverno de 1926. Certo dia, o filho do prefeito de Villa Bela, em visita à fazenda Carnaúba, reconhece Cristino e avisa a seu Né que seu pai recebera uma precatória para sua prisão, e que se fosse levado para a Paraíba seria certamente executado no caminho.

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CANGAÇO E IDENTIDADE REGIONAL

…e seus reflexos no processo de ensino e aprendizagem

Apesar das inúmeras pesquisas, teses, dissertações, etc. Sobre o fenômeno do Cangaço no Nordeste do Brasil, quase nada disso foi levado às salas de aulas dos ensinos médio e fundamental. O tema ficou quase que restrito aos aspectos turísticos e, de certo modo, folclóricos. Os acadêmicos (as universidades) não repassaram os resultados de tantas e tantas elucubrações sobre o assunto, que também sempre foi tido como tabu pela sociedade ou pelo poder político regional.

O tema “A construção da identidade regional e seus reflexos no processo de ensino e aprendizagem” que me fora repassado para realização de palestra ocorrida em Mossoró/RN, onde dissertei sobre o tema, tem um link muito interessante com a metodologia de Paulo Freire, ou a Pedagogia do Oprimido. Não se trata apenas da questão do mito Lampião, mas da discussão sobre uma realidade política e social inerente à característica peculiar de todo um povo, o nordestino da época.

Em outras palavras, em se falando de Cangaço, o saber escolar não acompanhou o saber histórico porque isso poderia significar, entre outras coisas, transformação. Isso, desde tempos de antanho até os dias atuais.

A questão do Cangaço é tão “relevada” propositadamente no Brasil que, por incrível que pareça, praticamente não há um só documentário, analítico, completo e independente sobre o tema. Ficamos a mercê de um “Globo Repórter” e outras reportagens do tipo, que sempre terminam por trazer algumas informações tendenciosas sobre o tema, sem o íntegro compromisso com a verdade histórica.

Lembrando que o processo ensino-aprendizagem ocorre a todo o momento e em qualquer lugar. Questiona-se então neste processo, qual o papel da escola? Como esta deve ser considerada? E qual o papel do professor?

É função da escola realizar a mediação entre o conhecimento prévio dos alunos e o sistematizado, propiciando formas de acesso ao conhecimento científico. Nesse sentido os alunos caminham, ao mesmo tempo, na apropriação do conhecimento sistematizado, na capacidade de buscar e organizar informações, no desenvolvimento de seu pensamento e na formação de conceitos. O processo de ensino deve, pois, possibilitar a apropriação dos conteúdos e da própria atividade de conhecer.

Não que o tema cangaço tenha que ser matéria obrigatória para os alunos dos ensinos médio e fundamental. Porém, seria muito importante que os jovens do Brasil em geral e do nordeste em particular tomassem conhecimento do que foi e do que representou o fenômeno Cangaço na vida e no cotidiano sertanejo. Quais as mudanças que o cangaço proporcionou para estas regiões (se boas ou ruins).

Assim como é importante para os jovens estudar e conhecer as histórias das insurreições que ocorreram no Brasil, em diversos momentos e em diversas regiões do país, acho da máxima importância os jovens nordestinos conhecerem e discutirem o fenômeno do cangaço e a sua importância na construção da identidade regional da região.

Longe de querer fazer uma apologia ao cangaço, tampouco querer enaltecer a figura do cangaceiro Lampião ou de outro cangaceiro qualquer. Temos que louvar, entender, estudar e, inclusive, contextualizar o cangaço naqueles idos de 20 e 30, onde um fenômeno mais aterrador que o cangaço e até mesmo, que a seca, dominava o nordeste. O Coronelismo.


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CORONÉIS X CANGACEIROS

Muitos foram os cangaceiros que fizeram estória na região sertaneja. Desde o século XVIII estes valentes malfeitores aterrorizaram a vida de muitas pessoas em todo o nordeste.

Cabeleira, Lucas da Feira, Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia Noite, Antônio Silvino, Sinhô Pereira e… Lampião.

Todos estes homens se celebrizaram mais pela violência que praticaram do que por qualquer outra coisa que tenham feito. A indagação que nos é feita à luz de toda essa casta de homens brutos nos leva a querer sondar nos anais da história o porque de tanta violência.

Numa terra onde a justiça é cega… e reta, esses homens, pelos crimes que cometeram, seriam condenados às penas máximas. Porém, levando em consideração a terra em que viveram e os costumes que nela absorveram, lhes cabe um recurso: eram homens ignorantes, embrutecidos, alheios à justiça.

Em contrapartida temos os coronéis do sertão. Homens brutos, porém com alguma instrução. Conhecedores das leis, mas apenas no que tange a seus direitos. Civilizados, mas apenas para com os seus.

Um registro feito pelo pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, em seu livro “Guerreiros do Sol” mostra bem que em tempos de antanho, política e banditismo eram galhos de uma mesma árvore e por conseguinte praticavam dos mesmos abusos, com apenas uma agravante: enquanto o bandido lutava para se manter e sobreviver, o político lutava pelo poder.

Abaixo, algumas ocorrências praticadas por alguns coronéis que, em sua maioria, tinham vida política acentuada:

 1901- O Coronel Antônio Joaquim depõe violentamente seu correligionário político Antônio Róseo Jamacaru, assumindo o comando da situação em Missão Velha;

1904- Após um tiroteio que se inicia no dia 27 de junho e se prolonga até as 15:00 horas do dia 29, é deposto o chefe político do Crato, coronel José Belém de Figueiredo, pelo coronel Antônio Luiz Alves Pequeno, que recrutara um verdadeiro exercito privado em municípios vizinhos e no sertão pernambucano;

1906- Após oito horas de fogo, cai o chefe político de Barbalha, coronel Manuel Ribeiro da Costa, deposto pôr um correligionário seu;

1906- Chefiando 400 homens, o “major” José Inácio de Souza, do Barro, depõe o chefe situacionista de Aurora, coronel Leite Teixeira Neto, pondo em seu lugar o coronel Cândido Ribeiro Campos. O deposto tem seus bens saqueados e incendiados e é expulso do município;

1906- Os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios reúnem cerca de mil homens em armas para atacar o coronel Antônio Alves Pequeno, do Crato, que levanta um exército equivalente em sua defesa;

1907- O coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão, coronel Honório Lima, assumindo o comando político em Lavras;

1908- A vila de Campos Sales é atacada pelo coronel Raimundo Bento de Souza Baleco, que depõe o chefe político José Maia;

1915- O coronel Raimundo Cardoso dos Santos, é deposto à bala, a 13 de junho, por líderes políticos de Brejo Santo;

1923- É assassinado em Fortaleza, por motivos políticos, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima, chefe de Lavras;

Eis aí o panorama político e social do sertão nordestino dos tempos de Lampião. A lei de Talião. A valentia não era apenas dom, mas atributo para se viver naquela terra cinzenta, de injustiças sociais e muitos chefes políticos insolentes que não eram taxados de bandidos, mas era tão ou mais bandido do que o tabaréu que para ele trabalhava e dos cangaceiros que viviam das armas, cobrando tributos e saqueando propriedades.

E o poeta Francisco das Chagas Batista nos deixa de herança alguns versos que bem exemplificam os costumes e a visão dos homens daquelas paragens:

Como ninguém ignora
Na minha pátria natal
Ser cangaceiro é a coisa
Mais comum e natural
Pôr isso herdei de meu pai
Este costume brutal…”

“No bacamarte eu achei
Leis que decidem questão
Que fazem melhor progresso
De que qualquer escrivão
As balas eram os soldados
Com que eu fazia prisão “idem”.


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