PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXVII

Múcio Leão 1898-1969

Múcio Carneiro Leão nasceu no Recife, em 17/2/1898. Escritor, poeta, jornalista, crítico literário e orador. Realizou os primeiro estudos no ginásio Pernambucano e, em seguida, ingressou na Faculdade de Direito, onde seu pai era professor. Diplomado em 1909, logo mudou-se para o Rio de Janeiro.

Começou como redator do Correio da Manhã, além de exercer a crítica literária atraindo a atenção dos colegas e dos escritores da época. Em 1924 foi trabalhar no Jornal do Brasil, onde trabalhou por longa data. Em 1934, com a morte de João Ribeiro, substituiu-o na coluna de crítica literária. Paralelamente, exerceu diversos cargos e comissões públicas: oficial de gabinete do Ministro da Fazenda (1925); fiscal geral das Loterias (1926); agente fiscal do Imposto de Consumo (1926); presidente da Comissão de Teatro do Ministério da Educação (1939) e professor de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (1948-1967).

Em 1935 entrou para a ABL-Academia Brasileira de Letras, e na condição de um homem organizado com tino administrativo, logo foi empossado como segundo-secretário (1936); primeiro-secretário (1937, 1938); secretário-geral (1942, 1943, 1946 e 1948) e presidente da ABL, em 1944. Era também um documentalista por vocação e organizou inúmeras publicações, notadamente a obra crítica de João Ribeiro: Estudos críticos (1934), Clássicos e românticos brasileiros (1952), Os modernos (1952), Parnasianismo e Simbolismo (1957), Autores de ficção (1959), Críticos e ensaístas (1959), Filólogos (1961), Historiadores (1961). Na ABL deu especial atenção à organização de seu Arquivo, que atualmente leva seu nome.

Em 1941, junto com outros intelectuais, como Cassiano Ricardo e Ribeiro Couto, fundou o jornal “A Manhã”, criando ali um caderno literário “Autores e Livros”, que se transformou numa vasta e preciosa história da literatura brasileira (11 volumes de 1941 a 1950). Em 1951 foi eleito sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde proferiu uma série de palestras sobre o título O pensamento de João Ribeiro, publicadas na Revista do IHGB, em 1961. Como poeta,

“Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha”.

Manuel Bandeira, enquadrou-o dente os poetas, que tendo iniciado no Simbolismo, “se definirão mais completamente na corrente modernista”.

Foi um escritor profícuo e publicou ensaios: Ensaios contemporâneos (1923), Atividades jornalísticas de Joaquim Nabuco, (1949) Emoção e harmonia (1952), Salvador de Mendonça (1952), Capistrano e a cultura nacional (1953), José de Alencar (1955), O pensamento de João Ribeiro (1960); romances: No Fim do Caminho (1930), Castigada (1934): contos: A promessa inútil e outros contos (1928), Prêmio de pureza (1931); conferências: O Romance de Machado de Assis (1952), A poesia brasileira na época colonial (1954), O Contista Machado de Assis (1958) e poesias: Tesouro Recôndito (1926), Os países inexistentes (1949) e Poesias (1949).

Faleceu em 12/ 8/1969. No ano do seu centenário – 1998 – a ABL publicou sua biografia, escrita pelo acadêmico Murilo Melo Filho.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXVI

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

Vicente do Rego Monteiro nasceu no Recife, em 19/12/1899. Pintor, desenhista, escultor, professor e poeta. Sua mãe, Elisa Cândida Figueiredo Melo, era prima do pintor Perdo Américo. Ainda criança, iniciou-se na pintura sob a influência de sua irmã pintora Fédor. Em seguida foi estudar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e complementou seus estudos artístiticos na França, nas academias Colarossi, Julian e Grande Chaumière. Em Paris, mantém contato com alguns dos grandes pintores da época: Modigliani, Fernand Léger, Gorges Braque, Joán Miró, Albert Gleizes, Jean Metzinger e Louis Marcoussis.

De volta ao Brasil, em 1915, se estabeleceu no Rio de Janeiro. Sua primeira exposição individual se deu em 1918, no Teatro Santa Isabel, no Recife. Dois anos depois, expõe pela primeira vez em São Paulo e mantém contato com Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Pedro Alexandrino e Victor Brecheret. Em 1921 retorna à Paris e manifesta interesse pelas estilizações da “Art Deco”. Não querendo perder a oportunidade de participar do grande evento que marcaria o início da arte moderna no país, deixou algumas obras, enfatizando a temática nacional, com o crítico e poeta Ronald de Carvalho, para incluir na exposição da Semana de Arte Moderna de 1922.

Em 1923, montou um ateliê em Paris e integrou-se ao grupo da “Galerie L’Effort Moderne” e fez desenhos de máscaras e figurinos para o balé Legendes Indiennes de Lamazonie. Inspirado na cerâmica marajoara e na cultura indígena, ilustrou o livro de P. L. Duchartre – Légendes, Croyances et Talismãs dês Indiens de l’Amazonie. Em 1930, depois de uma longa estada em Paris, veio ao Brasil trazendo a exposição da escola de Paris ao Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Exposição que inclui, entre outros, quadros de Pablo Picasso, Georges Braque, Joan Miró, Gino Severini, Fernand Léger e suas próprias obras. Essa exposição é importante por ser a primeira mostra internacional de arte moderna realizada no Brasil, com artistas ligados às inovações nas artes plásticas, como o cubismo e o surrealismo. Ao ser apresentada em São Paulo, a mostra foi acrescida de telas de Tarsila do Amaral, que o artista conhecera em Paris na década anterior.

A partir de 1930 fixou residência no Recife, alternando períodos no Brasil e na França até 1950. Era um pintor e poeta difenciado não apenas nas suas obras. Tinha gostos próprios, distintos dos demais artistas. Por exemplo, adorava carros e corridas. Em 1931 disputou o o Grand Prix do Automóvel Clube da França. Outra de suas paixões era a dança. Já em 1921, realizou o espetáculo Lendas, crenças e talismãs dos índios do Amazonas, no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro. Diz-se que era também um exímio dançarino e chegou a vencer alguns concursos de dança de salão em Paris. Em 1938 foi nomeado diretor da Imprensa Oficial e Professor de Desenho do Ginásio Pernambucano. No ano seguinte fundou, junto com Edgar Fernandes, a Revista Renovação, dedicada à educação popular.

Em 1941, publica seus primeiros versos, Poemas de Bolso, organiza e promove vários salões e congressos de poesia no Brasil e na França. Entusiasmado com a editoração, fundou, em 1946, Paris a editora “La Presse à Bras”, dedicada a publicar poesias brasileiras e francesas. De volta ao Brasil, em 1950, viajou pelo país e passou a lecionar pintura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE no período 1957-1966. Seu segundo livro de poemas Broussais – La Charité foi contemplado com o Prêmio Guillaume Appolinaire, em 1960.

Segundo os críticos, sua pintura é marcada pela sinuosidade e sensualidade. Seu estilo se apresenta contido nas cores e contrastes, e reportam a um clima místico e metafísico. A temática religiosa é freqüente em sua pintura, chegando a pintar cenas do Novo Testamento, com figuras que, pela densidade e volume, se aproximam da escultura. A partir da década de 1950, volta a dedicar-se com maior intensidade à pintura, tornando mais constantes em suas obras temas regionais como, em O Vaqueiro e O Aguardenteiro. Frequentemente utilizava grande simplificação formal e uma gama cromática reduzida, às quais alia interpretação monumental do art deco. Faleceu em 5/6/1970 e no ano seguinte o MAC-Museu de Arte Contemporânea de São Paulo realizou uma retrospectiva póstuma; em 1997, o MAM-Museu de Arte Moderna (SP) realiza outra grande retrospectiva. Sua obra integra importantes acervos de museus brasileiros e europeus.

GARANHUNS – CIDADE DAS COLINAS PERDIDAS

Dizem que são sete colinas, mas falemos apenas das três mais conhecidas. As outras devem estar mais perdidas ainda.

Monte Sinai

A construção do Colégio 15 de Novembro, em 1925, fez com que os moradores da rua do Alecrim fossem transferidos para a planície localizada pouco adiante. O então prefeito Euclides Dourado percorreu, junto com seu assistente Leonilo Ferreira do Nascimento, a antiga estrada que ligava a cidade ao povoado de Frexeiras. Ao passarem ao lado de um vistoso monte, o prefeito logo batizou o local com o nome “Monte Sinai”. Subiram o monte e passaram a apreciar a planície que se estendia até a cidade. Verificaram, também, que o monte ficava em perfeito alinhamento com a Rua do Recife, atual Rua Dr. José Mariano. O prefeito comentou:

– Nesta planície é que deveria ter sido iniciado o povoamento da cidade.

Seu assistente sugeriu perguntando:

– E porque o senhor não funda outra cidade nela?

O prefeito passou o dia e a noite pensando naquela planície e no monte de onde se descortinava bela vista panorâmica. Em sua mente vinha a imagem do local cortado por ruas e avenidas e, dentre elas, a principal fazendo a ligação com a rua do Recife. No dia seguinte, convidou seu amigo, o engenheiro Ruben van der Linden, para um passeio pelo local e expôs seu plano de ocupação daquela enorme àrea. Dias depois o novo bairro estava demarcado com algumas ruas e uma avenida principal fazendo a ligação com a cidade. Com esta avenida, que viria a se chamar Rui Barbosa, já aberta, foi possível chegar de carro até o topo do Monte Sinai.

Numa das visitas que fazia ao Monte para verificar o andamento das obras, o prefeito levou seu fllho José Maria Dourado. Enquanto apreciavam o panorama, perguntou-lhe:

– Que nome poderíamos dar a este local?

O filho, pego de surpresa, não vacilou: Heliópolis. O velho ficou resmungando o nome e o filho passou a explicar:

– Sim, Heliópolis, não vê o senhor como o sol ilumina toda a planície?

E assim ficou oficialmente batizado o bairro, chamado de “Arraial” durante muito tempo, e que se tornou o mais importante da cidade.

Na década de 1960 foi instalado no topo do Monte Sinai um Hotel de luxo, tendo em vista o aproveitamento turístico que o local propiciava. Mas o empreendimento não progrediu e o prédio hoje é ocupado por um destacamento da Polícia Militar. Toda a área em torno do Monte Sinai encontra-se ocupada por novos bairros e, assim, aquela colina ficou perdida como ponto turístico.

Mirante da Independência

No ano do centenário da Independência do Brasil, em 1922, Dom João Tavares de Moura, o primeiro bispo da Diocese de Garanhuns, criou a freguesia de São Sebastião da Boa Vista, com a inauguração da respectiva igreja. Como era setembro, o então prefeito Coronel José de Almeida Filho decidiu aproveitar a data para lançar no topo do monte, um pouco acima da igreja, a pedra fundamental de um majestoso monumento ao centenário da Independência da Pátria. Novamente, o engenheiro Ruben van der Linden foi chamado para desempenhar o papel de arquiteto e projetar o monumento e o traçado dos arredores. No ano seguinte, nas festividades do dia da Independência, o monumento foi inaugurado com toda a pompa e circunstância que a data requer.

O bairro da Boa Vista, devido a proximidade do centro da cidade, logo prosperou e em pouco tempo o local já estava habitado inclusive pelo comércio. Na década de 1960, o local se constituía em ponto de visitação para apreciar boa parte da cidade. Mas, pouquíssimas pessoas conhecem o local como uma referência ao centenário da Independência. Hoje, se alguém perguntar pelo Mirante da Independência, ninguém vai saber onde fica. Eu dei esse nome na época em que costumava subir até ali para apreciar a vista panorâmica da cidade. O local é mais conhecido como “pirulito da Boa Vista” e, se existe um nome oficial, está completamente esquecido pela população. Do ponto de vista turístico, também é completamente ignorado pelos visitantes, pois não há referência alguma sobre o local, não obstante se constituir numa área bem planejada e agradável ao lazer. O monumento encontra-se hoje no centro de uma grande zona residencial e comercial, e tem sido visitado por algumas poucas pessoas curiosas em saber o que significa aquele monumento. É a segunda colina perdida.

Dentro em breve, em setembro de 2022, o monumento completa seu primeiro centenário. Garanhuns talvez seja a única cidade do País a comemorar o centenário da Independência nestes moldes. Desse modo, daqui a pouco, teremos o centenário do Monumento e o bicentenário da Independência. Uma oportunidade excepcional para a revitalização e reinauguração do local aproveitando as festividades que a data enseja. Garanhuns destaca-se hoje como uma cidade turística, mas não vem fazendo uso de suas colinas, mesmo aquelas já demarcadas e que hoje encontram-se praticamente perdidas como locais de atração turística.

Alto do Magano

Este foi o único local construído como ponto de atração turística, devido ao local onde se encontra. A 260 metros de altura sobre o centro da cidade e 1030 sobre o nível do mar, o prefeito Celso Galvão construiu um monumento encimado com a imagem do Cristo Crucificado, esculpida pelo artista Renato Pantaleão, inaugurado em dezembro de 1954. Na década de 1960 era a colina mais conhecida de Garanhuns e também a menos visitada, devido a distância. De lá é possível uma visão de longo alcance e 360 graus sobre a cidade. Há pouco tempo, estive por lá e encontrei o local renovado e aprazível, com alguns visitantes, mas sem infra-estrutura alguma disponível aos turistas. Não existe sequer uma condução que leve o turista até o local. Em 2022, na comemoração do bicentenário da independência, caso a prefeitura encampe a ideia de restaurar o Mirante da Boa Vista, seria oportuno dar alguma visibilidade, também, ao Alto do Magano ou “Cristo Redentor”, como é mais conhecido na cidade.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA)

Republicação em homenagem ao centenário de Chacrinha neste mês de setembro de 2017

Falar dos pernambucanos ilustres é chover no molhado, pois são muitos e há muito tempo falados. Mas tendo em vista o Bicentenário da Revolução agora em março de 2017 – que antecedeu em 5 anos a Independência do Brasil – é hora de lembrarmos os nomes e feitos destes conterrâneos que ajudaram a fazer a História do Estado e do Brasil. Comecemos pelos nomes menos conhecidos como pernambucanos e muito conhecidos em todo o Brasil.

Incluiremos também alguns nomes que não são nativos, mas que muita gente acha que é pernambucano, tais como Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Ariano Suassuna etc. Certa vez um cearense disse que “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Ele está certo, os dois primeiros são do Ceará e o terceiro é paraibano, mas não podia nem ouvir falar o nome da cidade João Pessoa. De qualquer modo, viveram e fizeram carreira em Pernambuco, e daí vem a justificativa da apropriação que faremos.

Toda 3ª Feira a coluna divulgará um nome num verbete conciso e completo. Está visto que a empreitada é coletiva dos leitores fubanicos, que quiserem colaborar enviando nomes, os respectivos verbetes e sugestões. Eu sozinho não vou poder fazer uma grande lista. Iniciemos com os nomes que tenho e fico no aguardo das colaborações, que certamente virão dos leitores.

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JOSÉ ABELARDO BARBOSA DE MEDEIROS (Chacrinha)

Chacrinha (Set/1917 – Jun/1988)

Nasceu em Surubim, em 30/09/1917. Filho de um comerciante não bem sucedido. Porém, e não obstante as sucessivas crises financeiras da família, teve uma infância tranquila. Quando menino gostava de brincar montando “teatrinhos”. Esta habilidade levou-o a trabalhar como vitrinista da loja do pai em Caruaru, onde a família se estabeleceu. Aos 10 anos partiram para Campina Grande em busca de negócios mais promissores. Ao completar 17 anos foi estudar no Recife, e logo entrou na Faculdade de Medicina. Dotado de certa desenvoltura, teve uma breve experiência como locutor na Rádio Clube do Recife aos 18 anos. No ano seguinte foi dar uma palestra sobre alcoolismo na Radio Clube de Pernambuco, ampliando seus contatos com o mundo da comunicação.

Por essa época tocava bateria e integrava o “Bando Acadêmico” junto com seus colegas de faculdade e não demonstrava muito interesse pela Medicina. Aos 21 anos decidiu dar um rumo diferente a sua vida como músico e embarcou no navio Bagé rumo à Alemanha. No entanto, naquele ano (1939) estourou a Segunda Guerra Mundial, impedindo o prosseguimento da viagem. Foi obrigado a desembarcar no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu e passou a trabalhar como locutor. Passou por diversas Rádios, mas o carregado sotaque nordestino não combinava bem com a função de locutor comercial. Na Rádio Clube de Niterói, deu-se conta que sua “praia” não era aquela e pediu à direção da emissora para fazer um programa de música carnavalesca tarde da noite. A Rádio funcionava numa chácara próxima do Cassino de Icaraí. O programa “O Rei Momo na Chacrinha” foi ao ar em 1942 e foi um sucesso. Ganhou fama de “doido” e o programa passou a se chamar “O Cassino da Chacrinha”. Irreverência era o que não faltava no programa, dando origem ao personagem que adquiria fama no Rádio. No programa ele simulava entrevistas com gente famosa e recriava a atmosfera de um cassino com diversos efeitos sonoros, incluindo galos e outros bichos. Ao mesmo tempo em que comandava o programa gravou diversas músicas de carnaval, enquanto a fama se alardeava. O programa foi efetivado como “Cassino do Chacrinha”.

Em 1945 passou a trabalhar na grande Rádio Nacional apresentando os programas “Noite dançante” aos sábados, e “Tarde dançante melhoral” aos domingos, quando não havia futebol. Mas tudo indicava que seu talento era mesmo a “chacrinha”. Assim, o programa voltou ao ar em outras rádios até chegar na Rádio Globo, em 1947. Nos anos seguintes trabalhou em outras rádios e gravando marchinhas de carnaval, até 1956 quando estreou na TV Tupi com o programa “Rancho alegre”. Mas como estava predestinado ao papel de “doido”, voltou a apresentar o “A Discoteca do Chacrinha” e a “Hora da buzina” nas TVs Rio, Excelsior, Tupi e Globo. Em 1959 já era considerado o programa mais popular da TV brasileira. Mesmo fazendo sucesso na TV não abandonou o Rádio, o que só veio acontecer em 1967 quando foi contratado pela TV Globo para apresentar dois programas: “Discoteca do Chacrinha” às quartas-feiras, e “A Hora da Buzina”, aos domingos, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”.

Tudo indica que o contrato com a Globo não ia tão bem quanto o sucesso, e ele voltou para a TV Tupi em 1972. Anos depois passou a atuar na TV Bandeirantes (1978) e só voltou à TV Globo em março de 1982 para apresentar seu maior sucesso, o “Cassino do Chacrinha” nas tardes de sábado. Era uma mistura de programa de auditório, atrações musicais – lançou diversos cantores de grande sucesso – e show de calouros, dirigido pelo filho José Aurélio “Leleco” Barbosa e Helmar Sergio. Apresentando-se sempre com roupas espalhafatosas, rodeado de belas “chacretes” e atirando bacalhau na plateia, o programa tornou-se uma poderosa atração da TV atingindo altos índices de audiência. Era reverenciado como um gênio da comunicação pelo Diretor da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho, o poderoso Boni, devido as frases e bordões que soltava no ar: “Na televisão nada se cria, tudo se copia”; “Eu vim para confundir, não para explicar!” e “Quem não se comunica, se trumbica!” entre outros.

No auge de sua carreira surgiu o Movimento Tropicalista, e ele passou a ser adorado pelos seus protagonistas (Gilberto Gil e Caetano Veloso). Em 1986 recebeu o título de “Doutor Honoris Causa”, da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro. Em 1988 foi descoberto um câncer no pulmão e teve que se ausentar do programa alguns sábados, quando foi substituído pelos humoristas Paulo Silvino e João Kleber. Em 2 de junho voltou a comandar o programa ainda não totalmente restabelecido. Adorava o palco e dizia que gostaria de morrer em serviço. Por pouco isto não chegou a acontecer: faleceu 28 dias depois aos 70 anos. Cerca de 30 mil pessoas foram dar adeus ao “Velho guerreiro” no saguão principal da Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXV

Oliveira Lima 1867-1928

Manuel de Oliveira Lima nasceu no Recife, em 25/12/1867. Historiador, escritor, crítico literário, jornalista, professor, bibliófilo e embaixador. Filho do português Luís de Oliveira Lima e da pernambucana Maria Benedita de Oliveira Lima. Aos seis anos, a família mudou-se para Lisboa, onde concluiu os primeiros estudos. Em 1885 ingressou na Escola Superior de Letras e dá início a atividade jornalística como correspondente do Jornal do Recife. A princípio escreve sobre artes e teatro, mas logo passou a comentar sobre a política inglesa e criticar o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República Brasileira. Daí veio sua fama de monarquista.

Concluiu o curso superior em 1887 e, com o domínio perfeito dos idiomas francês e inglês, se interessa pela carreira diplomática e pelos estudos da História. Em 1890 retornou ao Recife, casou-se com Flora Cavalcanti, uma professora de inglês e francês, e passa a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores como Adido à legação em Lisboa. No ano seguinte foi promovido a Secretário e mais tarde foi designado para trabalhar em Berlim. Em 1896 foi transferido para Washington como Primeiro-Secretário sob às ordens de Salvador de Mendonça.
Foi um escritor e leitor visceral, e mantinha estreita amizade com diversos escritores, tais como Gilberto Freyre e Machado de Assis e participou ativamente da fundação da ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1897, Pouco depois foi transferido para a Embaixada de Londres, onde conviveu com Joaquim Nabuco, Eduardo Prado e Graça Aranha. Em seguida foi embaixador no Japão por dois anos. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses, alertando sobre o perigo de uma mistura com “raças inferiores”. Enquanto isso, sua bibliografia incorporava novas obras, além de manter uma colaboração permanente com artigos nos jornais de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Na condição de um dos primeiros literatos, entrou para a ABL em julho de 1903

Em 1904 foi nomeado para a Venezuela, o que lhe causou profundo desgosto. Depois foi chefiar a legação brasileira em Bruxelas, cumulativamente com a da Suécia, em 1907. Visto como um importante intelectual, foi convidado, em 1911, pela Universidade de Paris para uma série de conferências, intituladas por ele, de “Formação da nacionalidade brasileira”. No ano seguinte veio o convite para uma série de conferências em diversas universidades americanas.

Pouco depois foi cotado para a chefia da legação em Londres, em 1913, mas foi vetado pelo Senador Pinheiro Machado, sob a acusação de ser monarquista. Também era mal-visto pelo governo britânico por defender o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha. Para agravar a situação, suas relações com o Barão do Rio Branco não se davam a contento para ambos, devido a sua franqueza e a dificuldade do Barão em aceitar críticas. Mas a principal divergência entre os dois referia-se a política externa brasileira. Ele criticava a “Doutrina Monroe” e não gostava do “pan-americanismo” que impunha a liderança norte-americana no continente sul-americano. Seu temor era que a herança cultural europeia do Brasil se visse diminuída, caso o País seguisse a política externa dos Estados Unidos,

Mais ligado a cultura e política européias, seu pensamento sobre a diplomacia brasileira era claro: “O imperialismo contemporâneo assenta sobre o negócio. A pujante democracia norte-americana nasceu do conúbio da liberdade com o interesse: os frutos da frondosa árvore são os pomos de ouro da antiga fábula. O dever primordial dos nossos governantes é tratar de colocar e tornar assim remuneradora a produção nacional, pois que sem fortuna não há vigor e sem vigor, não se pode infundir respeito”. Assim, defendia sempre a dignidade do Brasil na condução dos negócios externos e isto não coincidia com os objetivos prioritários do Barão do Rio Branco

Possuia uma quantidadade de livros sobre o Brasil, que se constituia no 3º maior acervo, perdendo apenas para a Biblioteca Nacional e Biblioteca da USP. Sua bilioteca foi doada à Univesidade Católica de Washington, onde era professor, com uma imposição: ele próprio seria o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos. Não fez a doação à uma instituição brasileira por temer que a coleção não recebesse os cuidados necessários. São 58 mil livros além de correspondência trocada com intelectuais, mais de 600 quadros e incontáveis álbuns de recortes com notícias de jornais. Sua produção bibliográfica é expressiva e sua obra mais importante, em sua opinião e segundo os críticos, é a biografia Dom João VI no Brasil, publicada em 1909. É considerada pelos historiadores a obra mais completa sobre aquele período, um clássico da historiogrfia brasileira.

Seu primeiro livro – Pernambuco: seu desenvolvimento histórico – saiu em 1894 e a partir daí pode-se destacar outros importantes lançamentos: Aspectos da literatura colonial brasileira (1896), O reconhecimento do Império (1902), No Japão (1903) Panamericanismo e Cartas de Estocolmo (1907), La Langue portugaise, La Littérature brésilienne (1909), Machado de Assis et son oeuvre littéraire (1909), Formation historique de la nationalité brésilliene (1911), Evolução histórica da América Latina comparada com a América inglesa (1914), História da civilização (1921), O movimento da Independência (1922), Aspectos da história e da cultura do Brasil (1923), D. Pedro I e D. Miguel (1925), O Império brasileiro (1927) A publicação póstuma de suas Memórias, publicada em 1937 pela José Olympio, teve enorme repercussão, sobretudo pelas revelações íntimas e apreciações críticas.

No início do século XX, foi um dos mais polêmicos e intelectualizados homens de letras do Brasil. Participou de importantes debates e levantou bandeiras que interessavam a toda a humanidade. Mesmo hoje, em se tratando das modernas relações internacionais, muitos ainda o consideram como uma das figuras mais representativas da diplomacia. Um famoso escritor sueco ressaltou que o historiador-diplomata era “o embaixador da intelectualidade brasileira”. Como uma das homenagens que lhe foram feitas, na casa onde nasceu na rua que leva seu nome, no bairro da Boa Vista, no Recife, funciona hoje o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco. Faleceu em 24/3/1928, e foi sepultado no cemitério Mont Olivet, Washington. Na lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros”

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – XXXIV

Ulisses Pernambucano 1892-1943

Ulisses Pernambucano de Mello Sobrinho nasceu no Recife, em 6/2/1892. Médico neurologista e psiquiatra, e professor procedente de uma tradicional família pernambucana. Realizou os primeiro estudos no Ginásio Aires Gama e partiu para o Rio de Janeiros, onde foi diplomado pela Faculdade de Medicina em 1912. Escolheu a psiquiatria como especialidade e foi médico-residente do Hospital Nacional de Alienados, tendo como supervisor o prof. Juliano Moreira, o fundador da psiquiatria brasileira. Em seguida defendeu a tese Sobre algumas manifestações nervosos da Heredo-Sífiles, obtendo o grau de Doutor em Medicina.

De volta a Pernambuco, abriu um consultório na cidade de Vitória de Santo Antão, onde em decorrência das precárias condições de vida e das necessidades da população, atuou também como médico generalista. Em 1914, transferiu-se para cidade paranaense de Lapa, já consolidado profissionalmente. Casou, em 1915, com a doutora Albertina Carneiro Leão, sua prima. Com saudades de sua terra, amigos e parentes retornou ao Recife em 1916. Dois anos após, concorreu à recém-criada cadeira de Psicologia e Pedagogia, na Escola Normal Oficial de Pernambuco. Obteve o 1ª lugar no concurso, mas por questões politicas, o governador Manuel Borba nomeou o 2ª colocado.

No mesmo ano, prestou concurso para professor de Lógica, Psicologia e História da Filosofia no Ginásio Pernambucano, obtendo, de novo, o 1º lugar. Assumiu o cargo de professor catedrático no Ginásio onde mais tarde foi Diretor. Em 1923, foi nomeado Diretor da Escola Normal, em cuja função se manteve até 1927. Teve uma gestão marcada por reformas de caráter social: introduziu o exame de seleção para admissão à Escola Normal, quando anteriormente o ingresso nesse estabelecimento obedecia a critérios de amizade ou apadrinhamento; criou um jornal, a merenda escolar, os exames de promoção por média em conjunto, entre outras medidas.

Antes de criar o Instituto de Psicologia, em 1925, preparou o pessoal para lidar com o trabalho a ser iniciado e como diretor reuniu pessoas interessadas nessa área, como Anita Paes Barreto, que assumiu a direção da Escola Normal. Em 1930 assumiu a direção do Ginásio Pernambucano e dois anos depois passou a dirigir o Hospital da Tamarineira, que apresentava, na época, aparelhamento insuficiente e métodos terapêuticos inadequados. Tomou a tarefa de reformar o hospital e enfrentou políticos e poderosos da época. Uma das primeiras medidas foi retirá-lo do controle da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia e passá-lo para a gestão do Estado. Por essa época foi também professor de Neuro-Psiquiatria e Clínica Neurológica na Faculdade de Medicina do Recife.

Sua filosofia de trabalho estava assentada na integração dos conhecimentos de Antropologia e Sociologia aplicado na prática e no ensino da Psiquiatria. Advogava uma Psiquiatria com laços com seu meio social e preconizava que o psiquiatra fosse um defensor do doente mental, destacando a necessidade de garantir cuidados básicos de higiene e alimentação aos enfermos e o registro clínico completo das observações médicas. Tal orientação tinha como base as ideias preventivas de higiene mental, divulgadas por Clifford Beers, em seu livro Um espírito que achou a si mesmo (1908), que motivou a criação de “serviços de higiene mental” pelo mundo.

Teve atuação destacada em defesa das minorias marginalizadas, tais como, crianças excepcionais, doentes mentais, negros e adeptos de seitas africanas. Com este posicionamento e tendo em vista a “intentona comunista de 1935”, que se anunciava, foi acusado de comunista, gerando conflitos e redução das verbas para manutenção da qualidade do atendimento aos pacientes. Cansado de enfrentar forças poderosas, chega ao seu limite e em 8/11/1935, pede demissão do cargo de diretor da instituição que implantara. Dias depois é considerado persona non grata ao regime de força então vigente, e detido e preso na Casa de Detenção do Recife, por 60 dias.

Em 1936, cansado das perseguições e injúrias, sofre um ataque cardíaco, que comprometeu seu coração. Mesmo assim, em julho do mesmo ano, fundou o Sanatório Recife, instituição modelar de prestação de serviços aos doentes mentais. É o primeiro do Estado no âmbito da iniciativa privada, e logo se tornou um importante centro psiquiátrico. Em 1937, um grupo fiel de colaboradores, se solidarizou publicamente com o “Mestre” e publicou os Estudos Pernambucanos, dedicados a Ulysses Pernambucano. Acolheu em seu Sanatório muitos de seus discípulos, como Arnaldo Di Lascio, René Ribeiro, Luiz Cerqueira, entre outros, os quais se tornaram posteriormente expoentes na psiquiatria pernambucana. Sua última iniciativa, infelizmente não concluída, foi a seleção, em Pernambuco, dos elementos componentes do Corpo Expedicionário Brasileiro, mediante uma triagem psicométrica e reclassificação dos soldados nas armas e serviços, mediante provas de seleção profissional.

Como propugnador da cooperação científica, atuou nesse campo criando a Liga de Higiene Mental de Pernambuco e a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro. Foi membro correspondente da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (RJ); sócio efetivo e ex-presidente da Sociedade de Medicina de Pernambuco; sócio efetivo e ex-presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco; fundador e presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Brasil; membro-correspondente da Academia Nacional de Medicina; Membro honorário da Sociedade de Psiquiatria e Medicina Legal de La Plata (Argentina); fundador da revista “Neurobiologia”, que hoje é a mais antiga revista de Psiquiatria do Brasil. Em termos de obras publicadas, sua produção é significativa, onde destacam-se as obras Bases fisiológicas da ambidestria (1924), As medidas de estatura dos escolares de Pernambuco (1927), As doenças mentais entre os negros de Pernambuco (1935).

Seu primo Gilberto Freyre costumava dizer que ele era mais pernambucano do que muitos, pois trazia isso no próprio nome. Sua última contribuição para a Psiquiatria brasileira se deu na abertura do III Congresso da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, realizado em Natal, em outubro de 1943, com a conferência de abertura, intitulada “A ação social do psiquiatra”. Faleceu dois meses depois, ainda jovem, em 5/12/1943. 40 anos depois, em 1983, o Hospital da Tamarineira recebeu o nome de “Hospital Ulisses Pernambucano”.

PERNAMBUCANOS FAMOSOS XXXIII

Madame Satã 1900-1976

João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá, em 25/2/1900. Considerado uma referência na cultura marginal urbana do século XX. Muitos afirmam que foi a primeira “drag queen”, numa época em que esse nome não existia. Ele se auto-denominava “primeiro travesti-artístico brasileiro”. Criado numa família pobre de 17 irmãos, ficou órfão de pai aos 7 anos. Sua mãe – Dona Firmina -, não podendo cuidar de todos, trocou-o por uma égua. Assim, ele foi morar com outra família na condição de ajudante, ou seja, quase escravo.

Em tais condições, não se deu bem com esta família e mudou-se para o Recife, onde viveu de pequenos serviços prestados. Posteriormente, foi adotado por uma senhora e mudou-se para o Rio de Janeiro. A vida de serviçal que levava também não lhe agradou e, aos 13 anos, fugiu de casa e caiu na vida, indo morar no bairro da Lapa, reduto carioca da malandragem e boemia. Analfabeto, o melhor emprego que conseguiu foi o de carregador de marmitas. Posteriormente, trabalhou como segurança de casas noturnas e cuidava que as meretrizes não fossem vítimas de estupro ou agressão. Por essa época aprendeu capoeira e tornou-se um exímio “jogador” ou lutador de capoeira.

Por essa época participou de pequenos bacanais promovidos pelas prostitutas, e neles atuava como “homem e como bicha, mas acabei tomando gosto mesmo pela prática homossexual”, conforme declarou. Depois passou a fazer pequenos trabalhos, como cozinheiro, garçom e, eventualmente, como prostituto. A partir de 1923 começou a conquistar alguma respeitabilidade nas rodas da malandragem, adquirindo a fama de destemido e até valentão, conhecido como Caranguejo, um malandro que pisa macio, com leveza, para não se dar mal. Trabalha dando proteção a bares, cabarés, bichas, moleques e prostitutas – isto é, quando não está curtindo a noite com Chico Alves, Nelson Cavaquinho e outros cantores e compositores que frequentavam a Lapa.

Ficou atraído pela vida noturna, de bar em bar, e enveredou pelo mundo artístico. Em 1928 começou a fazer uma encenação imitando Carmen Miranda numa boate. Depois conseguiu uma participação no show “Loucos em Copacabana”, na praça Tiradentes. Ali surgia o transformista – a “Mulata do Balacochê” – anos antes de receber o epiteto Madame Satã. A carreira de transformista durou pouco, foi interrompida por uma prisão.

Acusado pela morte de um guarda civil, foi encarcerado na Ilha Grande.

Foi solto em 1930, quando inicia a era do rádio, a era Vargas e um ar de modernização tomando o Rio. Em 1937, Clóvis Bornay criou no Teatro Municipal os carnavais de gala e concurso de fantasia. Na Praça Tiradentes, as bichas já pulavam o carnaval no bloco “Caçadores de Veados”, criado em 1930. Copiando Clóvis Bornay, a turma resolveu promover, em 1938, um concurso de fantasia no Teatro República. Ele foi vestido de morcego, numa roupa escandalosa e muita lantejoula. Ganhou o 1º lugar e recebeu um tapete e um rádio Emerson. Semanas depois foi preso junto com outras bichas para simples averiguação. Um policial reconheceu-o e lembou que sua fantasia era parecida com a do personagem do filme de Cecil B, De Mille intitulado Madame Satã. “Ei, não era você que estava vestido de Madame Satã no carnaval?” Ali foi batizado e por ironia da história, por um milico

Foi preso várias vezes e frequentemente enfrentava a polícia, sendo detido por desacato à autoridade diversas vezes. Como bom capoeirista, lutou várias vezes contra mais de um policial, geralmente em resposta a insultos que tivessem como alvo mendigos, prostitutas, travestis e negros. Na década de 1940 há pouca coisa escrita sobre sua vida, mas sabe-se que tentou se afastar da malandragem, abriu uma lavanderia, pegou uma menina abandonada para criar (a primeira de 6 filhos que adotou), passou uma temporada em São Paulo e iniciou uma relação complicada com Maria Faissal, uma garota que conheceu na Lapa e com quem viveu muitos anos.

A partir da década de 1950, a Lapa vai perdendo a fama de bairro boêmio e a modernidade das boates e nightclubes vai se instalando em Copacabana, o bairro que vai abrigar a bossa nova. Em 1955 ocorre uma das brigas mais notórias de Satã. O compositor Geraldo Pereira (autor de Falsa baiana) era um tipo que gostava de implicar com os homosseexuais. Contam que numa passagem pelo Bar Capela, ele encrespou com Satã. Dizem que foi uma briga das boas, e Geraldo não se deu bem. Contam tmabém que o soco de Satã era um coice de mula. Assim, Geraldo foi parar no hospital e logo morreu devido a uma hemorragia. A culpa de sua morte não recaiu diretamente sobre Satã, pois foi uma briga de golpes limpos. Mas, ele ficou mais visado ainda depois dessa briga. Meses depois, foi preso sob a acusação de aplicar o “golpe do suadouro” (atual “boa-noite ciderela”). Voltou para Ilha Grande, onde ficou até 1965.

Ao sair com 65 anos, já não podia manter aquele ritmo de vida da malandragem. Por outro lado, a Lapa também já não era a mesma. Passou por um projeto de reurbanização e os tempos são outros. Decide, então, ficar na Ilha Grande e morar numa pequena chácara, onde passa a cozinhar para uns e outros, criar galinhas e fazer pequenos bicos. No inicio da década de 1970, quando ele está totalmente esquecido e alijado da vida carioca, surge um fato inusitado. A turma do jornal “O Pasquim” – Millôr Fernandes, Paulo Francis, Sergio Cabral, Jaguar, Fortuna Paulo Garcez e Chico Júnior – decide entrevistá-lo. A entrevista, publicada em 5/5/1971.

A entrevista, publicada em 5/5/1971, causou um certo furor na imprensa, além do furo jornalístico que representou, e “ressuscitou” Madame Satã no meio político-social. Vale lembrar que estávamos nos “anos de chumbo” da ditadura militar, onde transgredir era uma ato de coragem, e Satã era um exemplo de transgressão. Vamos transcrever 4 pertguntas de Millôr Fernandes para dar uma ideia da entrevista, mas quem quiser vê-la inteira, pode acessar o site Tiro de Letra.

Millôr – Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Millôr – Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

Isso é o que diz a história, né?

Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr – Você tem consciência que é do estofo de homem como você que se fazem líderes. Você se transformou em um marginal. Se você fosse alfabetizado você seria um líder.

Eu vou lhe explicar uma coisa: Deus dá o frio conforme a roupa. Se eu fosse um intelectual, é assim que se fala? Eu não sei dizer essas coisas. Deus disse: faz por onde que eu te ajudo. Mas Deus não me ajudou porque ele sabe que se me ajudasse eu vendia o mundo com o dinheiro dele.

Na época, a contracultura estava na moda e Hélio Oiticica criou o slogan: “Seja marginal, seja herói”. Nesse contexto, Satã representava tudo o que as pessoas gostariam de ser: bem resolvidos em sua história de vida, fortes em sua luta contra a opressão, livres em sua sexualidade. Assim, ele voltou ao palco da vida carioca, cultuado pela intelectualidade e pela mídia popular. Apareceu na TV no programa do Silvio Santos ao lado de Elke Maravilha; sua imitação de Carmen Miranda vira show na boate Cafona’s; em 1972 o escritor Sylvan Paezzo publica o livro Memórias de Madame Satã; no ano seguinte sua história é associada ao filme Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura. Em 1974 seu desejo de se tornar artista parece se concretizar: o grupo de teatro “Chegança” encena a peça Lampião no inferno, de Jairo Lima, no Teatro Miguel Lemos, e convidam-no para fazer o papel de Satanás. A peça não despertou a atenção da crítica, mas representou sua realização artística, aos 74 anos.

Entusiasmado com o repentino sucesso, voltou a morar na Lapa em quartos de pequenos hotéis. Aguinaldo Silva, repórter policial na época, foi um dos últimos jornalistas a conversar com ele e escrever sobre sua personalidade. Queria um fazer um retrato mais pessoal, afastado da atmosfera heroica e mítica que o cercava, e conseguiu. O ano de 1976 marca sua despedida desse mundo. Em fevereiro, magro e adoentado, dá entrada num hospital como indigente. Jaguar e a turma do Pasquim ficam sabendo e transferem-no para o hospital do INAMPS, em Ipanema. Vitimado por um câncer de pulmão em estágio avançado, disse onde gostaria de ser sepultado. Faleceu em 14/4/1976 e Jaguar levou o caixão num pequeno barco até Ilha Grande. Em 2002, foi retratado no filme Madame Satã, premiado aqui e no exterior, interpretado por Lázaro Ramos. Em 2004 saiu uma nova biografia – O Rei da Lapa: Madame Satã e a malandragem carioca, de Gilmar Rocha, segundo o qual “a malandragem fornece pistas para a reflexão sobre aspectos da sociedade brasileira, tais como a violência, a honra, a valentia e a malícia, inseridos em contexto de classes populares.”. Em 2015, foi homenageado no Carnaval pela Escola de Samba Portela, que apresentou os 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro. Em junho 2017, estreou em São Paulo a peça Madame Satã: um musical brasileiro, com direção de João das Neves. (Agradeço ao jornalista Pedro “Pepa” Silva pelo texto publicado no site Revista Geni, de onde parte desse relato foi extraído)

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PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VI

Delmiro Gouveia 1863-1917

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização do país com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai, e aos cinco anos a família mudou-se para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe viria a se casar com o advogado Meira Matos, que vioru seu padastro e patrão. Com a morte de sua mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos de idade, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamado “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren – que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas – e outras empresas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar a empresa e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club. Uma área de 129m de comprimento, 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandona-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no coração do sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro.

O passo seguinte é a exploração do potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos de intenso trabalho construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. Logo depois já estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Não é por outra razão que a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia, em 1943.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram as pressões e venderam a fábrica á empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruiram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e escombros no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. P. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXII

Luiz Freire 1896-1963

Luiz de Barros Freire nasceu no Recife, em 16/3/1896. Engenheiro, professor e incentivador de talentos na área científica. Houve uma época, meados do século XX, em que se falava de uma tal “Escola de matemáticos do Recife”. Ele ocupou lugar destacado nesta famosa Escola. Formado em engenharia civil pela Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1918, ingressou na mesma como professor contratado em 1920. No ano anterior, conquistou a cátedra de Matemática da Escola Normal de Pernambuco. Sua carreira de professor havia iniciado bem antes no Ginásio Pernambucano e alguns colégios particulares, como Nóbrega e Osvaldo Cruz, nos cursos complementares de Engenharia.

A Escola de Engenharia foi um centro de formação de engenheiros, técnicos para o mercado industrial em expansão e um centro de formação de cientistas preocupados com os estudos físicos, matemáticos, cósmicos, etc. Produziu, em meados do século XX, cientistas que ganharam projeção mundial no ramo. Foi criada no governo de Barbosa Lima Sobrinho, com a finalidade de fornecer mão-de-obra qualificada ao Estado, no momento em que ocorria um certo desenvolvimento industrial.

Em 1934 foi aprovado em concurso para professor catedrático de Física e recebeu o título de Doutor em Ciências Físicas e Matemática. Em 1943 foi nomeado professor catedrático de Análise Matemática da Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega, hoje integrada a Universidade Católica de Pernambuco. Seu grande sonho – realizado em 1952 – foi implantar um Instituto de Física e Matemática na Universidade do Recife. Para ele, a função da Universidade não era apenas transmitir conhecimento, mas também produzir conhecimento. Em última instância, seu objetivo era montar uma equipe de grandes físicos e matemáticos num centro de produção científica em áreas altamente especializada.

Dirigiu este Instituto, mantendo intercâmbio com instituições semelhantes no país e no exterior, sobretudo em Paris, onde esteve em missão científica do CNPq, em 1958. Trouxe para o Recife para ministrar cursos avançados no Instituto, grandes mestres do porte e dimensão, tais como Bruhat, Arnaud Dejoy e Roger Godement. Uma de suas proezas foi deduzir a famosa expressão do chamado “Potencial Vetor”, utilizando, já naquela época, a linguagem do cálculo vetorial com recursos dos operadores vetoriais. Preocupados em formar discípulos, como bom professor que era, manteve um íntimo relacionamento com o núcleo de pernambucanos radicados no Rio e em São Paulo, como Mário Schenberg, José Leite Lopes, Leopoldo Nachbin, Joaquim Cardoso entre outros. Encaminhou para estudos nesse centro, estudantes pernambucanos que se aperfeiçoaram e hoje são físicos e engenheiros notáveis, como Fernando Souza Barros, Ricardo Palmeira, David Gorodovitz, Rômulo Maciel, Fernando Cardoso Gama, José Waldir de Medeiros Campelo, Jaime Azevedo Gusmão Filho e José de Medeiros Machado. Estes bolsistas trabalharam sob a supervisão e orientação de César Lattes, na ocasião em que ele se tornara famoso por suas pesquisas sobre Radiações Cósmicas.

Desse modo, destacou-se com professor, incentivador e formador de estudiosos na sua área de atuação; organizador e dirigente das instituições de ensino e pesquisa, além de produzir conhecimentos científicos. No Rio de Janeiro, exerceu o cargo de professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), sob a direção de seu colega Anísio Teixeira. Como professor, vejamos o depoimento de seu aluno José Leite Lopes: “Quando passei no vestibular e fiz o primeiro ano de Química Industrial, o professor de Física era o Luis Freire. Esse era a figura mais notável de todas porque era um homem de uma grande cultura em Matemática e em Física, um grande espírito filosófico e de crítica e dava as aulas de uma maneira muito elegante, muito atraente, Foi ele, exatamente, ao fazer já o curso no primeiro ano, que me desviou da Química Industrial. Ele foi um arquiteto de valores humanos”.

Logo que foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas (atual CNPq), em 1951, foi nomeado membro integrante da Comissão de Ciências Físicas e Matemáticas, ocupando este cargo até seu falecimento. Vale ressaltar que a Lei nº 1.310, de 15/1/1951 que criou o Conselho, foi chamada na época de “Lei Áurea da pesquisa no Brasil”.

Foi também membro da ABC-Academia Brasileira de Ciências, mérito alcançado pelo belo trabalho realizado, quando do estabelecimento da “Lei dos Estados Correspondentes e da Equação Geral da Excitabilidade dos Nervos e dos Músculos”, trabalho esse que o professor Miguel Osório de Almeida comentou em sua Memória, intitulada A Propos de Ia Nouvelle Théorie de I’Excitation Electrique des Tissus de H.M. Monnier, reivindicando a prioridade do trabalho para o professor Luiz Freire, porque o professor Monnier, da Sorbonne, alcançou resultados idênticos e menos completos, só a primeira parte do trabalho, não deduzindo a lei.

Como cientista renomado foi convidado para dirigir ou integrar diversas instituições: presidente do Instituto Tecnológico de Pernambuco; diretor técnico da Associação Brasileira de Educação; presidente da Comissão de Professores Universitários de Física do Brasil; membro do Conselho Orientador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada-IMPA; membro fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas-CBPF; membro do Comité Internacional do jubileu Científico do professor Arnaud Denjoy, da Sorbonne e do Instituto de França; membro da American Mathematical Society e do “Conimbrigensis Instituti Academia.”

Quanto aos trabalhos publicados, destacam-se: Da ciência matemática, sua metodologia, tese de concurso em 1919; Concepção cartesiana e as séries de Fourier, tese para concurso em 1921. No Boletim de Engenharia publicou entre outros: Teoria da relatividade, contraditando o trabalho do físico H. Bouasse, de Toulouse, subordinado ao mesmo título; Vetores polares e axiais, A arte do matemático e os incompreendedores, A filosofia de Henri Poincaré, O problema dos três corpos, Equação geral das escalas termométricas. A Revista Brasileira de Matemática publicou A Bossa das Matemáticas, que veio a receber elogios do sábio Charles Ricket, detentor de prêmio Nobel. Na revista da Escola Politécnica do Rio de Janeiro publicou As matemáticas ante os problemas de filosofia natural. Para a Gazeta de Matemática de Lisboa, escreveu: Os Potenciais, Escalar e Vetorial, Os espaços a conexão linear ou superficial, simples ou múltipla, “A Função Exponencial, A filosofia natura, Equação geral das escalas termométricas.

Dentre os grandes brasileiros esquecidos no “Panteão das Ciências” Luiz Freire ocupa lugar de destaque. Seu nome foi justamente dado à avenida onde está localizado o Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco. Faleceu em 17/7/1963.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – V

Frei Damião 1898-1997

Entre os nossos homenageados Frei Damião é o único duplamente honorário: Pernambucano desde 1977 e Recifense desde 1995

Frei Damião de Bozzano (Pio Giannotti) nasceu em 5/11/1898, na Toscana, Italia. Frade radicado no Brasil em processo de beatificação. Oriundo de uma família de sólida formação católica, teve um irmão padre e uma irmã freira. A primeira experiência religiosa se deu aos 10 anos, em sua primeira comunhão. Na volta para casa, o menino desapareceu e sua irmã foi procurá-lo. Encontrou-o no sótão da casa, ajoelhado junto a um crucifixo chorando a paixão de Cristo. Durante toda sua vida jamais se separou deste crucifixo.

Sua formação religiosa iniciou aos 13 anos, na Ordem dos Frades Menores Capuchinos. Aos 17 emitiu os primeiros votos, recebendo o nome de Damião de Bozzano, indicando sua cidade de origem. Em 1918 foi convocado para o serviço militar na Primeira Guerra Mundial. De volta ao convento, no ano seguinte, retomou a vida monástica. Em 1920 iniciou os estudos de Filosofia e Teologia e foi enviado à Universidade Gregoriana de Roma, onde foi laureado em Direito Canônico e Teologia Dogmática, tendo se ordenado sacerdote em 1923.

Dois anos após, passou a vice-mestre de noviços, e no ano seguinte foi nomeado diretor e professor dos frades estudantes, cargo que exerceu até 1931, ano de sua vinda para o Brasil. Aqui foi eleito Conselheiro da então Custódia Geral dos Capuchinhos de Pernambuco e dedicou-se às Santas Missões durante 66 anos. Sua primeira missa foi na cidade de Gravatá, na capela de São Miguel, no Riacho do Mel. Anualmente, no mês de maio, realiza-se naquela cidade as Festividades de Frei Damião: uma grande caminhada sai da Igreja Matriz Nossa Senhora de Santa’Ana (centro de Gravatá) e vai até a Capela do Riacho do Mel.

As “Santas Missões”, que ele realizava, começava na segunda-feira. Ao cair da tarde, o missionário era recebido na entrada da cidade e conduzido, geralmente em carreatas, à igreja matriz. Ali dirigia as primeiras palavras à multidão que esperava, sedenta, ouvir a voz do Peregrino de Deus. À noite, rezava o terço com o povo, fazia o grande sermão, seguido da bênção do Santíssimo Sacramento, e, em seguida, confissão para os homens até meia-noite ou mais. Nas primeiras horas do amanhecer, às 4h30min., com a campainha na mão, acordava os cristãos: “Vinde pais e vinde mães…”, chamando as pessoas para a caminhada de penitência, seguida do canto do Ofício de Nossa Senhora ou das benditas Almas do Purgatório, e da celebração da missa e das confissões.

Durante a semana da Missão, havia encontros com as mulheres, com os homens, com os jovens, catecismo para as crianças, visitas aos doentes e aos encarcerados. O encerramento dava-se no domingo com a procissão dos motoristas e bênção dos automóveis pela manhã e, á noite, o grande sermão com os últimos conselhos do missionário. Sua pregação de conteúdo moral e apologético, propondo, assim, demonstrar a verdade da doutrina cristã católica, sistematizando a fé cristã católica, sua origem, credibilidade e autenticidade.

Como companheiros de missões, contava com o apoio de Frei Antônio de Terrinca, Frei Cipriano de Ponteccio, Frei Eduardo de Strettoia, Frei Félix de Pomezzana e, principalmente, Frei Fernando Rossi. Confessava mais de 12 horas por dia, celebrava com o povo o Sacramento do Perdão de Deus, era carinhoso e, às vezes, severo. Tinha uma resistência extraordinária. Até 1990, pregou missões no mesmo ritmo, de segunda a domingo, de 10 de janeiro a 31 de dezembro, parando apenas quando estava doente e, mesmo no hospital, não deixava de atender ao povo. Arrastava multidões. Todos queriam ouvir sua voz e tocá-lo. Era querido pelo povo como um pai, um padrinho, alguém da família. Não falava simplesmente à multidão, mas ao coração de cada um em particular.

Em 1975, recebeu a medalha cunhada em ouro de “Amigo da Cidade de Sousa”, na Paraíba, quando permitiu que se construísse a primeira estátua em sua homenagem, tendo colocado a pedra fundamental e no ano seguinte com a missa de inauguração. Obra do escultor pernambucano Abelardo da Hora, a estátua foi erguida no Alto da Bênção de Deus, e se constitui num local de visitação por milhares de fieis. Em 2004, foi inaugurado o “Memorial Frei Damião” em Guarabira, Paraíba. Outras estátuas suas encontram-se localizadas no mirante de algumas cidades nordestinas. Em São Joaquim do Monte (PE), todos os anos milhares de romeiros chegam para prestar suas homenagens ao Frade. A “Romaria de Frei Damião” ocorre todos os anos no inicio de setembro. O ponto central da peregrinação é a sua estátua erguida no Cruzeiro.

Durante muito tempo, sofreu de erisipela, devido à má circulação sanguínea. Em 1990, após ter sofrido uma embolia pulmonar, diminuiu o ritmo das Santas Missões, passando apenas para os finais de semana. Na casa que lhe fora construída como enfermaria, viveu cercado pelo carinho do seu povo que, aos milhares, vinha ao seu encontro. Mas, em 1997, sua saúde agravou-se e foi internado várias vezes no Real Hospital Português do Recife, Ele pregou sua última Santa Missão na cidade de Capoeiras-PE, em fevereiro de 1997. Depois, adoeceu novamente tendo que ser levado ao Hospital Sara Kubitschek, em Brasília-DF, para que lhe fosse confeccionada uma cadeira ortopédica que o ajudasse a respirar melhor.

Em 12/5/1997 foi novamente internado no Recife, mas em dado momento foi encontrado rezando com o povo numa das salas do hospital. Fora sua última missão: rezar com o povo o rosário de Nossa Senhora. No dia seguinte, sofreu um derrame cerebral e faleceu em 31/5/1997. No Convento de São Félix, onde se encontra sepultado, ocorrem diversas celebrações em sua memória, todo final de maio. Sua biografia – Frei Damião: O Missionário dos Sertões – foi bem detalhada e publicada pelo escritor Luis Cristovão dos Santos. Entre os nordestinos sua santidade é reconhecida por quase todos e o Processo de Beatificação e Canonização, vem tramitando desde 2003.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXI

Mata e Silva 1916-1988

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu em Garanhuns, em 28/7/1916. Fundador da Escola Iniciática de Umbanda no Brasil e mais conhecido como Mestre Yapacani. A herança colonialista fez com que os brasileiros adorassem os nomes estrangeiros, e já naquela época seu pai seu pai deu-lhe o nome do 28º presidente dos EUA. Aos 5 anos a família mudou-se para o Rio de janeiro e suas primeiras experiências pré-mediúnicas (visões) ocorreram aos 12 anos, através de visões de Entidades espirituais, sobre as quais não tinha compreensão alguma. Aos 16 anos começam as primeiras incorporações do Preto Velho denominado “Pai Cândido”.

Aos 17 anos, em 1933, passou a buscar um local para o desenvolvimento de seu dom espiritual e visitou diversos terreiros de Umbanda. Entretanto, seu guia espiritual lhe transmitia a ideia que ele teria sua própria casa de auxílio espírita. Aos 21 anos foi morar na Pavuna e montou seu primeiro Terreiro. A partir de 1954, Pai Guiné passou a direcionar sua vida mediúnica com a mensagem “Sete lágrimas de Pai Preto”, que viria a ser um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista.

Neste ano começou a escrever para o “Jornal de Umbanda” e iniciou a escrita de uma obra fundamental que viria reformular os procedimentos da Umbanda. Por essa época teve várias visões mediúnicas em que se via um Velho Payé folheando um grande livro junto a um Colegiado de Mentores Espirituais que discutiam da oportunidade do lançamento do livro. Foi decidido que o momento era chegado e, em 1956, o livro Umbanda de todos nós (A Lei revelada) foi lançado com seus próprios recursos, numa tiragem de 3.500 exemplares.

Esgotado rapidamente, teve a segunda edição lançada pela Livraria Freitas Bastos. O livro foi bem aceito por milhares de umbandistas, mas também incomodou muitos pseudo-umbandistas interessados na venda de ilusões. Durante sua vida escreveu diversas obras mediúnicas de caráter doutrinário a respeito do que ele mesmo gostava de denominar como “Umbanda Esotérica”. Seus livros expunham conceitos hermenêuticos e filosófico-científicos sobre sua religião com a natural austeridade que lhe era própria, não fazendo nenhuma reserva de juízo ao movimento Umbandista de sua época. Também era conhecido pelas suas opiniões contundentes ao método popular (e muitas vezes ignorante) de se praticar a Umbanda. Combatia com toda sua força intelectual os rituais de matança com animais, bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros, as vaidades fetichistas de dirigentes e “Pais-de-santo”, e rejeitava completamente a falta de critério e metodologia dessa massa tida como Umbandista.

Após um breve recesso diante dos ataques que sofreu, Pai Guiné assumiu a manutenção pelo peu reequlibrio astrofísico, para logo orientá-lo na escrita de mais um livro em 1957: Umbanda: sua eterna doutrina, abordando conceitos esotéricos e metafícos nunca expostos. A obra, de novo, foi bem recebida aos estudiosos e ubandistas sérios e, mais uma vez, passou desapercebida pela grande massa de umbandistas pouco afeita ao estudo. Para complementar e ampliar os conceitos expostos nesta obra, lançou pouco depois a Doutrina secreta da Umbanda, um tratado mais completo sobre esta religião.

Mesmo sendo lido e estudado pelos adeptos mais esclarecidos, seu santuário em Itacuruçá era frequentado pela gente simples e humilde, que nem sequer sabiam do renome do Velho Matta como um escritor e pensador renomado no meio umbandista. Em 1961 escreveu outra importante obra doutrinária: Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto Velho, obra mediúnica apresentando um diálogo entre um Filho-de-Fé e a Entidade espiritual que se diz Preto-velho (Pai Guiné). Esta obra apresenta uma maior facilidade de entendimento para grande parte dos umbandistas.

Em seu Santuário eram atendidas pessoas das mais longínquas regiões do Brasil. Lá, os dramas do ser humano eram tratados á Luz da Razão e da Caridade. Durante 10 anos o Velho Matta atendeu e ministrou remédios da flora local e alopatias simples que ele mesmo comprava quando ia á cidade do Rio de Janeiro. Seguindo sua tarefa missionária, escreveu sua quinta obra: Mistérios e práticas da Lei de Umbanda, que relata de forma simples e objetiva as raízes míticas da Umbanda, aprofundando-se no sincretismo dos Cultos Afro-Brasileiros. Em 1962 surge à sexta obra: Segredos da Magia da Umbanda e Quimbanda, que aborda a magia Etéreo-Física e revela de maneira simples e prática determinados rituais seletos da Magia de Umbanda. Sua sétima obra, Umbanda e o Poder da Mediunidade explica como e porque ressurgiu a Umbanda no Brasil, mostrando as verdadeiras origens da Umbanda, contendo aspectos importantíssimos e úteis ao entendimento das pessoas simples e interessadas no aprofundamento destes conhecimentos.

Atendendo a muitos pedidos dos simpatizantes e adeptos de suas obras, lançou em 1969 o livro que sintetizava e simplificava os sete anteriores. Esse livro: Umbanda do Brasil esgotou-se em seis meses. Em 1975, lançou sua última obra: Macumbas e Candomblés na Umbanda, registrando as vivências místicas e religiosas dos chamados Cultos Afro-Brasileiros, mostrando os graus consenciais dos adeptos e praticantes dos vários níveis da Umbanda Popular. Para facilitar o estudo de suas obras, ele mesmo classificou-a da seguinte maneira: 1º grau – Mistérios e práticas da Lei de Umbanda; 2º grau – Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto-Velho; 3º grau – Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda; 4º grau – Umbanda e o poder da Mediunidade; 5º e 6º graus – Umbanda de todos nós; 7º grau – Sua eterna doutrina e doutrina secreta da Umbanda. Segundo a Sagrada Corrente Astral da Umbanda, seus livros levarão mais de 50 anos para serem completamente assimilados e colocados em prática. Sua obras preparam, ajustam e apontam para a Umbanda do 3º milênio.

Segundo alguns relatos, ele era totalmente avesso ao endeusamento e a mistificação de sua pessoa. Era muito sensível e de personalidade firme. Era inteligentíssimo e tinha os sentidos muito aguçados. Mas era um profundo solitário, apesar de cercarem-no centenas de pessoas. A todos tinha uma palavra amiga e individualizada. Não tratava casos, tratava Almas, e tinha para cada pessoa uma forma de agir, segundo o seu grau de entendimento. Sua cultura era exuberante, mas sem perder a simplicidade e originalidade. De tudo falava, era atualizadíssimo nos mínimos detalhes. Discutia ciência, política, filosofia, arte, ciências sociais, com naturalidade. Em 1977 foi convidado por Rogério Sganzerla para participar do filme “Ritos Populares – Umbanda no Brasil, exibido anos depois em diversos festivais de cinema. A produção tem 18 minutos de duração e sua consecução durou 9 anos de 1977 a 1986. O documentário registra o depoimento de Matta e Silva, em passeios pelas ruas do Rio de Janeiro, onde narra sua própria trajetória e a criação da Umbanda Esotérica, alternando com cenas de transe e de rituais filmados na mata e na “Tenda de Umbanda Oriental”, em Itacuruçá. Mostra também o Mestre com suas obras na Livraria Freitas Bastos, no Rio de Janeiro.

Durante 50 anos de mediunidade, Matta e Silva nunca se curvou aos ataques dos encarnados e desencarnados do baixo astral. Sua palavra e sua pena foram armas fiéis defensoras da verdadeira Umbanda. Com elas combateu a vigarice e os vendedores do “conto do orixá”, os vaidosos mistificadores e os fanáticos que proliferam no meio umbandista. Durante 25 anos visitou mais de 600 Terreiros para poder relatar, em suas obras, o que se passava no seio do Movimento Umbandista. Trouxe à Luz a Umbanda Esotérica que, infelizmente, é praticada na atualidade por poucos Terreiros, mas que, segundo o Astral Superior, se instalará definitivamente no meio umbandista a partir deste milênio.

Seus discípulos têm dito que “se você pensa que a Umbanda de verdade é essa manifestação ruidosa da massa, que grita, baba, bebe, berra e se contorce de charutão e cigarro de palha na boca, ao som ensurdecedor dos atabaques (ótimos veículos para estimular o animismo vicioso), não leia as obras de Matta e Silva porque sua decepção será muito grande. Porém, se o grau consciencional lhe permite ver adiante e saber que a verdadeira Umbanda está acima de tudo isso, não deixe de ler seus livros. O “Velho Matta” faleceu em 17/4/1988.

NOVELA DO FRIBOI – 3º CAPÍTULO

Minha amiga noveleira me convenceu a continuar esta narrativa. Disse-me que a história é boa e precisa apenas incluir mais um conflito com gente famosa e concluir até o ponto em que os fatos chegaram. É uma novela da vida real que está se desenrolando e enrolando ao mesmo tempo, onde ninguém sabe quem é o mocinho e quem é o bandido; quem vai dizer isso é a Justiça no final da história, que ainda não está à vista. Este aspecto, garantiu ela, instiga a curiosidade do público e melhora a novela. Todos conhecem o conflito a que ela se refere; prossigamos, então.

Em 2014, a JBS se encontrava numa situação bastante confortável. Até ali não havia propaganda alguma de sua carne, e resolveram fazer uma campanha publicitária em grande estilo. Para isso, escolheram o “rei” Roberto Carlos como protagonista. Mas foram advertidos que ele é vegetariano. Melhor ainda, concluíram. Ele voltaria a ser carnívoro após conhecer a carne Friboi. Só precisaria combinar com ele, e essa combinação custou R$ 25 milhões, segundo uns, ou R$ 40 milhões segundo outros.

A propaganda entrou ar com o “rei” cantando “Eu voltei, voltei para ficar…” enquanto, sentado à mesa, certificava-se com o garçom se o filé era realmente Friboi. No entanto, ele sequer cortou o filé. Não se via ele levando um pedaço à boca, nem comendo a tal carne. O público ficou curioso em ver o cantor se transformar em carnívoro, e a propaganda virou uma polêmica. Será que ele voltou mesmo a comer carne? A polêmica foi se espalhando, enquanto a carne ficou em segundo plano. A propaganda não “pegou” no público e o contrato publicitário foi rompido pela empresa. Roberto Carlos entrou com uma ação na Justiça, cobrando o pagamento de uma multa rescisória de R$ 7,2 milhões. A JBS aceitou pagar apenas 3,2 milhões e não posso informar se caso está resolvido.

Nas eleições daquele o ano, quando o governo do PT foi reeleito, a JBS contribuiu com R$391,8 milhões para candidatos de 16 partidos políticos. Um valor maior do que a soma da contribuição de todas as empresas. A aquisição de novas empresas continuou no mesmo ritmo. O setor de aves foi reforçado com a compra da “Céu Azul Alimentos” e da “Belafoods”, no Brasil, e da “Tyson Foods”, no México, onde tornou-se líder no mercado. Fechou o ano de 2014 com mais duas aquisições: a australiana “Primo Smallgoods” e a paranaense “Big Frango”. Em 2015 adquiriu, nos EUA, a divisão de suínos da “Cargil”, incluindo duas unidades de processamento, cinco fábricas de ração e quatro granjas em diversos estados americanos. Com esta aquisição, paga a vista, ampliou bastante seu portfólio de produtos nos EUA.

No mercado comentava-se que o crescimento da JBS tinha uma lógica inversa. Quando os outros vão crescendo e adquirindo, eles vão adquirindo e crescendo. Um fenômeno intrigante, que chamava a atenção da imprensa. Porém, não foi um jornal ou revista da área econômica que realizou a melhor matéria sobre o vertiginoso crescimento da empresa. Foi a revista “Piauí” que publicou, em fevereiro de 2015, uma extensa reportagem intitulada “O estouro da boiada”, com um duplo significado: a gigantesca dimensão da empresa e/ou uma premonição do que estava por vir.

E o que estava por vir não era pouco. Como é sabido, os Batista gastaram mais de R$30 bilhões na compra de empresas e criaram, do nada, uma das maiores fabricantes de celulose do mundo, a “Eldorado”. Para isso, contou com a parceria do BNDES e crédito de bancos privados, ávidos por participarem dessa incrível ascensão. Quem poderia imaginar que um impeachment se aproximava do governo petista e mudaria o rumo da história?

Pois bem, foi o que se deu em agosto de 2016 e o império da carne começou a desandar. Tudo começou, como vimos no 2º capítulo, em 17 de março deste ano, com a “Operação carne fraca”, da Polícia Federal. Um abalo sísmico provocado na empresa e no mercado mundial da carne. Certamente foi um abalo previsto pelos gêmeos, pois 10 dias antes Joesley teve aquele encontro fatídico com o presidente Temer na calada da noite, com o gravadorzinho ligado no bolso. O que ele pretendia com aquela gravação? Queria se precaver contra alguma coisa que lhe ocorresse? Ficou com esta gravação durante dois meses, vendo o desenrolar da “Operação carne fraca”, até que em 17 de maio entrou em contato com a PGR-Procuradoria Geral da República e fez sua delação premiada, segundo a opinião de muitos juristas, excessivamente premiada.

No final de maio já estava negociado um acordo de leniência, onde o grupo J&F aceitou pagar R$10,3 bilhões no prazo de 25 anos, o maior do mundo, junto ao MPF-Ministério Público Federal. Desta data até agora, o que vemos é o que tem saído na imprensa. A reportagem mais expressiva saiu na revista Exame, de 12 de julho. A capa mostra o anúncio “Família vende tudo”, como normalmente se faz quando uma família quer mudar para outro lugar. Por esta época boa parte dos Batista já se encontrava nos EUA. Enquanto isso, o governo Temer é investigado e ameaçado de impeachment e a peleja continua.

Uma peleja jurídica e política ao mesmo tempo.

Em 31 de julho, a revista Época trouxe na capa ampla reportagem detalhando as provas de todas as denúncias feitas pelos irmãos gêmeos, colocando mais lenha na fogueira. A partir de agora, a correria do grupo J&F é para vender as empresas adquiridas, mas não está fácil. Dizem que mesmo vendendo tudo não dá para pagar todas as dívidas. Fica faltando uns R$2 bilhões. Este é o quadro que se apresenta no plano econômico. Mas falta ainda encontrar uma solução no plano jurídico. No plano administrativo, Joesley já foi afastado do comando da empresa e o BNDES quer o mesmo destino para Wesley. Desse modo, a novela continua e a partir deste ponto, pode ser acompanhada diariamente pela imprensa escrita, falada e televisada.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXX

Olegário Mariano 1889-1958

Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu no Recife, em 24/03/1889. Poeta, político e diplomata. Filho dos abolicionistas e republicanos José Mariano Carneiro da Cunha e Olegária Carneiro da Cunha. Concluiu os cursos primário e secundário no Colégio Pestalozzi, e no inicio do século XX mudou-se para o Rio de Janeiro. Estreou na vida literária aos 22 anos, com o livro Angelus (1911), uma poesia identificada com os preceitos do Simbolismo, já em decadência. Integrou o círculo de poetas, composto por Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Menezes, Coelho Neto, Martins Fontes etc.

Sua poesia lírica é simples, de fundo romântico, na fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o “poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos. Segundo um crítico da época, sua poesia “foi breve e faiscante como a das cigarras que tão bem cantou. Não foi um navegador de águas profundas, nem era esse o seu desígnio. Foi, entretanto, mestre e mago nas águas cristalinas, correntes e cantantes de um lirismo arrebatador.

Exerceu diversas atividades, tais como inspetor do ensino secundário e censor de teatro; representou o Brasil, em 1918, como secretário de embaixada na Bolívia, na Missão Melo Franco. Em 1926 entrou para a ABL-Academia Brasileira de Letras. Na política, participou ativamente da Assembléia Constituinte, que elaborou a Carta de 1934 e, três anos depois, foi eleito deputado federal.

Antes de se tornar diplomata, manteve laços culturais com Portugal, sendo designado ministro plenipotenciário no terceiro centenário da Restauração de Portugal, em 1940. Em seguida foi delegado da ABL na Conferência Interacadêmica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945. O cargo de embaixador em Portugal viria a ser ocupado no período em 1953-54. Assim como ocorrera com o pai, que recebeu um cartório do presidente Rodrigues Alves, ganhou o seu de Getúlio Vargas, em 1930.

O lirismo de sua poesia levou-o a vencer o concurso promovido pela revista “Fon-Fon”, em 1938, onde foi aclamado Príncipe dos Poetas Brasileiros, sucedendo Alberto de Oliveira. Sua obra – Toda uma vida de poesia – foi reunida em dois volumes, publicada pela editora José Olympio em 1957. Além de poesia, publicou durante anos, sob o pseudônimo de João da Avenida, nas revistas “Careta” e “Para Todos”, crônicas mundanas em versos humorísticos. Mais tarde esse material foi reunido e publicado em dois livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1938).

Joubert de Carvalho musicou diversas de suas poesias: Cai, cai balão. Tutu marambá, De papo pro ar, Dor de recordar etc e levou-o a gostar da experiência, fazendo parceria com outros compositores, como Gastão Lamounier (Remiscência, Arrependimento e Suave recordação), entre outros.

Deixou uma espécie de autobiografia, sob o título: Se não me falha a memória. Sua obra é composta de 23 livros, dentre os quais destacam-se: Últimas Cigarras (1920), Sonetos (1921), Cidade Maravilhosa (1922), Canto da minha terra (1931), Poemas de amor e de saudade (1932), O amor na poesia brasileira (1933), O enamorado da vida (1937), A vida que já vivi, memórias (1945) e Cantigas de encurtar caminho (1949). Faleceu em 28/11/1958, no Rio de Janeiro.

FÁBULA DO FRIBOI – 2ª PARTE

Na final da década de 1990, a Friboi encontrava-se no melhor dos mundos. Zé Mineiro, Júnior e os gêmeos tocavam a empresa com empenho e, sobretudo, uma vontade de crescer ainda mais. Com o livre trânsito estabelecido com os políticos de Brasília, o velho abriu os olhos de Júnior para a vida pública. Por que não? O bom relacionamento mantido com deputados, ministros e a administração local poderia melhorar em muito o desenvolvimento da empresa. Dinheiro para isso não faltava, e popularidade no meio daquele eleitorado era fácil de se conquistar.

Assim, o novo milênio se apresentava com as melhores perspectivas para a família Batista. Brasília, de novo, surge com enormes promessas de alavancar a empresa, tal como no passado. A chegada do governo Lula ao poder, em 2003, representou uma oportunidade extraordinária de alavancar os negócios. A partir de agora, a expansão se dá rumo ao mercado externo, com a aquisição da Swift argentina, em 2005. O processo de expansão foi intensificado dois anos depois com a abertura do capital, tendo suas ações negociadas na Bolsa de Valores. No mesmo ano encontraram uma “mina de ouro”, o BNDES com um negócio melhor do que emprestar dinheiro. Conseguiram firmar uma parceria, onde o Governo ficou sócio da empresa.

Assim, adquiriram a Swift americana, tornaram-se a maior empresa de processamento de carne do mundo e iniciaram um período de aquisições nunca visto no mercado. Ainda em 2007 adquiriram 50% da italiana “Inalca” e entraram no mercado europeu de alimentos. Em 2011 tiveram de se desfazer do negócio, devido a desentendimentos com a “Cremonini”, detentora dos outros 50%. Mas, isso não é problema, as aquisições continuaram de vento em popa. Em 2008 mais duas aquisições se realizam: a australiana “Tasman Group” e a divisão de bifes da americana “Smithfields Beef”. Tentaram comprar, também, a “National Beef”, mas o governo dos EUA resolver barrar essa aquisição, temendo uma diminuição da concorrência e um aumento de preços para os consumidores.

Em 2009 a expansão se dá no Brasil, com a compra da “Bertin”, e de novo nos EUA, com a aquisição da “Pilgrim’s Pride”. Com isso, fez sua estreia no mercado de frangos. No ano seguinte, voltam à Austrália e adquirem a “Rockdale Beef”. Em seguida, com a venda dos 50% da Inalca, adquirem a italiana “Rigamonti”, especializada em alimentos embutidos. Em 2011 adquiriu a divisão de cosméticos da “Bertin” e ampliou sua participação no ramo de sabonetes e produtos de limpeza. A divisão da JBS neste ramo, chamada Flora, já atuava no setor desde a década de 1980.

Em 2012 foi criada a holding J&F Investimentos para abarcar todas as empresas do conglomerado, que agora não é apenas de carne. Envolve papel e celulose, banco, usina de biodiesel, etc. Mas é de carne que os Batistas mais entendem, e assim pegam pesado no mercado de frangos. No mesmo ano adquirem, no Brasil, a “Frangosul”, “Tramonto” “Agrovêneto” e “Seara”. No Canadá, compram a XL Foods e as aquisições não param por aí. Mas, uma amiga me alertou para o fato desta “novela” estar ficando chata, só tem compra de empresas! Não tem casamento, não?

Tem, e dos grandes. Em 25/12/2012 Joesley se casou com Ticiana Villas Boas, uma bonita apresentadora de TV. O casamento, disse a coluna social, chegou a parar São Paulo e se deu em três etapas: primeiro, sem a presença de familiares e amigos, no Taj Mahal, na Índia; o segundo foi em Bora Bora, ilha da Polinésia Francesa; o terceiro foi em São Paulo numa festa cinematográfica para mil convidados, decorada com 50 mil orquídeas brancas e shows de Ivete Sangalo e a dupla sertaneja Bruno e Marrone. Entre os convidados estavam políticos de todos os calibres no âmbito nacional e regional. Quem quiser ver a grandiosidade da festa, pode dar uma olhada no site Inesquecível Casamento. O irmão Wesley também se casou em dezembro de 2012, mas ao contrário do irmão Joesley optou por um esquema mais discreto, na Casa Fasano.

E “Júnior Friboi”? Por onde anda? Seus contatos políticos se encaminharam tão bem que logo se afiliou ao PMDB através do presidente do partido e vice-presidente da República Michel Temer. Com um padrinho desse porte, ele se anima, a candidatar-se a governador de Goiás nas eleições de 2014. Para não restar dúvidas sobre a vitória, contrata, a peso de ouro, o melhor marqueteiro político: Duda Mendonça. O fato causou um tremor no interior do partido. Antigos correligionários queriam ver Íris Rezende de novo naquele pleito. Dá-se o racha partidário e Júnior acabou retirando sua candidatura. Marconi Perillo, do PSDB, venceu a eleição e Júnior foi recompensado com uma boa bolada. A imprensa noticiou que o govenador Perillo criou uma lei perdoando um bilhão de reais que a JBS devia ao Governo de Goiás. Foi negociada uma dívida de R$1,3 bilhões por R$320 milhões. Estes rapazes são realmente fantásticos. Júnior Friboi se afastou da JBF e criou sua própria JBJ

Tudo corria muito bem com mais aquisições de empresas como a Alpargatas, Sadia, Perdigão, Seara, Vigor etc. até que em 17/3/2017 surge a “Operação Carne Fraca”, da Polícia Federal, em alguns frigoríficos e a JBS foi enquadrada. Trata-se da adulteração da carne vendida no Brasil e no exterior.

Foi um “Deus nos acuda” no mercado internacional da carne e, consequentemente, na economia brasileira, a maior exportadora de carne do mundo.

Os grandes mercados importadores passaram a ameaçar a compra da carne brasileira. Os ministros da Economia, da Agricultura e o próprio presidente da República entraram em cena para desacreditar aquela operação policial e acalmar os compradores internacionais. No Palácio do Planalto foi montada uma operação política para minimizar o estrago feito, sem saber que outra operação política, esta sim, de proporções gigantescas, estava sendo tramada pelos irmãos gêmeos. 10 dias antes de ser deflagrada a “Operação Carne Fraca”, em 7/3/2017 Joesley pôs um gravadorzinho no bolso do paletó e foi conversar, na calada da noite, com o presidente da República num encontro “informal”, na garagem do Palácio do Jaburu. A conversa foi um acerto de contas referentes as contribuições que a Friboi vinha fazendo com o pagamento de uma suposta “compra do silencio” de Eduardo Cunha, preso em Curitiba.

Pouco depois, em 17/5/2017, Joesley entrou em contato com a Procuradoria Geral da República com a finalidade de fazer uma “delação premiada”. Entregou a fita gravada em troca de sua liberdade e toda a família, que se mudaria para os EUA. A delação de Joesley causou um estrago e tanto no já convalescente quadro político nacional. Com uma só pancada, derrubou um futuro presidente (Aécio Neves) e comprometeu seriamente o atual presidente. Minha intenção era concluir a “Fábula do Friboi” ou novela, por aqui. Porém, a fábula ainda não foi concluída. O presidente vem se defendendo como pode e como não pode também. Os benefícios recebidos com a “delação premiada” vêm sendo questionados. E assim a novela comporta um 3º capitulo, que não sei se farei.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXIX

Hermilo Borba Filho (1917-1976)

Hermilo Borba Filho nasceu em Palmares, em 8/7/1917. Advogado, escritor, crítico literário, jornalista, tradutor, dramaturgo e fundador do TPN-Teatro Popular do Nordeste. Sua carreira iniciou em 1930 como ator, ponto e diretor na Sociedade de Cultura Palmarense. “Em toda a minha vida quis ser dramaturgo. Mesmo aos 16, 17 anos, escrevi uma peças que eram umas porcarias.”, declarou. Em 1936, mudou-se para o Recife e passou a trabalhar como ponto do Grupo Gente Nossa. Como escritor, teve seu primeiro conto publicado na revista “Renovação”, em 1941. O título do conto – As pernas daquela moça – anunciava o surgimento de um escritor com uma pegada erótica bastante pronunciada. Pensou em ser médico, mas abandonou o curso no 3º ano. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1946, diplomou-se em 1950 e nunca exerceu a profissão de advogado.

Enquanto estudante de Direito, fundou com seu amigo Ariano Suassuna, o TEP-Teatro do Estudante de Pernambuco, em 1946. Ariano deixou um registro desse encontro: “Encontramo-nos, pela primeira vez, quando entramos ambos para a Faculdade de Direito, no ano de 1946. Ali teria início, sob a liderança dele, o importante movimento do Teatro do Estudante de Pernambuco. Nós íamos para a faculdade pela manhã, mas a universidade onde realmente se fazia a nossa verdadeira formação era a casa de Hermilo, na Rua do Capim, casa onde, à noite, nos reuníamos até altas horas, conversando, concordando e discordando, brigando e ensinando. Hermilo, que acreditava demais em mim, metia-me na mão, quase à força, os livros que achava que ajudariam na minha caminhada. Foi ele quem praticamente me intimou a escrever a primeira peça de teatro”.

No ano seguinte iniciou a coluna “Fora de Cena”, no jornal “Folha da Manhã”, do Recife. A partir de 1953 passou a viver em São Paulo, onde fez doublé de jornalista e dramaturgo. Como bom jornalista, atuou como diretor da revista “Visão” e trabalho nos jornais “Última Hora’ e “Correio Paulistano”. No teatro, dirigiu as companhias de Nídia Lícia, Sergio Cardoso, Teatro Paulistano de Comédia e integrou a Comissão Estadual de Teatro. Em 1957, encenou a peça Auto da Compadecida, com a qual recebe o prêmio de Diretor revelação da APCT-Associação Paulista de Críticos Teatrais.

De volta ao Recife, em 1958, foi integrar o corpo docente do curso de teatro da Universidade do Recife (atual UFPE). No mesmo ano fundou, junto com Paulo Freire, o “MCP-Movimento de Cultura Popular. Em 1960, Junto com seu amigo Ariano Suassuna, funda o TPN, afim de abrir caminho para o “teatro de arte” em caráter profissional na região. O objetivo é encontrar uma maneira nordestina de interpretar e de encenar, pautado pela qualidade artística e divulgar uma estética épica, baseada em folguedos populares. Junto com Hermilo e Suassuna, encontram-se outros ex-integrantes do TEP: Gastão de Holanda, José de Moraes Pinho e Capiba. No mesmo ano fundou, também, o Teatro de Arena do Recife, onde encena peças de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, dois expoentes do Teatro Oficina, de São Paulo.

Sua ligação, já de longa data, com a colega Leda leva-o a romper seu casamento com Débora em 1969 e casar-se com a atriz Leda Alves. O casal passa a ter uma intensa vida cultural, levando-o a uma liderança natural no métier das artes cênicas. Tal liderança teve como consequência a ocupação de diversas funções públicas no Recife. Seu trabalho como agitador cultural lhe valeu diversos prêmios e condecorações, como o título de “Chevalier des Arts e des Lettres”, concedido pelo governo francês, em 1969, entregue em 1972 por André Malraux.

Exerceu atividades culturais em muitas entidades: Serviço Nacional de Teatro, Secretaria de Educação e Cultura de São Paulo, Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco, Escolinha de Arte do Recife, Centro Cultural Luiz Freire. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, colabora para a implantação do Curso de Teatro, em 1967; na Universidade Federal da Paraíba, ministra a disciplina de história do espetáculo; no Centro de Comunicação Social do Nordeste-Cecosne, leciona história do espetáculo. Em 1969, criou o “Teatroneco”, dedicado ao teatro de bonecos. Seu amigo Osman Lins, de quem ele encena uma peça no TPN, afirmou que “em todos os cargos e funções que ocupa Hermilo Borba Filho luta pela transformação: Há por trás de quase todos esses títulos e iniciativas um combate que passa desapercebido do público: as incompatibilidades com as funções ou o empenho no sentido de renová-las”.

Em conferências, artigos e nos diversos livros que publicou, relê as teorias universais do teatro a partir da ótica das manifestações festivas do Nordeste. Depois de duas palestras publicadas em 1947, Teatro, Arte do Povo e Reflexões sobre a Mise en scène, escreve o primeiro manual de história do teatro editado no Brasil, História do Teatro, em 1950. Na década de 1960, publicou: Teoria e Prática do Teatro (1960), Diálogo do Encenador (1964), Espetáculos Populares do Nordeste e Fisionomia e Espírito do Mamulengo (1966), Apresentação do Bumba-Meu-Boi (1967), e a nova edição da História do Teatro, com o título de História do Espetáculo (1968). Na dramaturgia, deixou publicada diversas peças: Electra no circo (1944), João sem terra (1947), A barca de ouro (1949), Auto da mula-de-padre (1953), Um Paroquiano Inevitável (1965). Não chegou a ver a encenação de duas de suas peças: A Donzela Joana (1966) e Sobrados e Mocambos (1972), uma peça segundo sugestões de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor.

Na literatura escreveu Os caminhos da solidão (1957), Sol das almas (1964) e a tetralogia que o consagrou, também, como romancista, Um cavaleiro da segunda decadência: Margem das lembranças (1966), A porteira do mundo (1967), O cavalo da noite (1968) e Deus no pasto (1972). Trata-se de uma obra de forte cunho memorialístico e autobiográfico, que o fazem ser comparado, em sua escrita, ao dramaturgo norte-americano Henry Miller, autor, aliás, a quem ele dedicou um ensaio biográfico. Toda sua obra encontra-se na Biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco. Trata-se de uma bibliografia contando com 245 itens entre obras próprias e obras sobre o autor, entre os quais os livros póstumos: Palmares e o coração (1997) e Louvações, encantamentos e outras crônicas (2000). Faleceu em 2/6/1976.

Em sua homenagem, foi instituída, em 1983, pela Prefeitura dos Palmares, a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho; em 1988 foi criado pela Prefeitura da Cidade do Recife, o Centro de Formação das Artes Cênicas APOLO-HERMILO, formado pelo Teatro Hermilo Borba Filho e Teatro Apolo; em 2007, foram reeditadas 12 de suas peças, a Coleção Selecionado, pela FUNARTE-Fundação Nacional da Arte. Foi um dos grandes pesquisadores e propagadores da cultura popular nordestina.

FÁBULA DO FRIBOI – 1ª PARTE

Casa de Carne Mineira – Anápolis, 1953

Era um vez, agora há pouco, um jovem açougueiro que se estabeleceu em Anápolis. O cara veio com disposição, sabia abater gado, tinha um pequeno rebanho e era bom negociante. Em pouco tempo a “Casa de Carnes Mineira” atendia não apenas a clientela local, como também fornecia carne para outros açougues da cidade e redondezas. Logo ficou conhecido na região como “Zé Mineiro” e passou a dominar o mercado da carne naquela região.

No começo abatia cinco bois por dia e distribuía a carne numa Kombi. Com apenas 23 anos seu negócio crescia a olhos vistos e já podia se considerar um empresário bem-sucedido. Não mais que de repente, como dizia o poeta, surge uma metrópole na região, Brasília, a nova capital do Brasil. Em 1957 acorreram para o local centenas de nordestinos, que adoram carne. Depois de 1960, com a inauguração da cidade, surgem centenas de cariocas, que apreciam carne e gente de toda parte do Brasil. Incluindo os gaúchos, que aproveitaram para montar suas churrascarias.

Quando se fala da “pessoa certa, na hora e local certo”, é o caso do “Zé Mineiro”. Afinal, quem poderia abastecer de carne toda aquela população? Em contato com as empresas construtoras, ele começou a fornecer carnes para os refeitórios dos “candangos”. Passou a abater 30 bois por dia com perspectivas de ampliação, pois a construção da cidade se dava em ritmo acelerado. Logo mais seria preciso atender também os açougues que surgiriam na cidade. O negócio foi se afirmando, tornando-se a principal fornecedora de carnes de Brasília e redondezas. Em 1969, foi o primeiro frigorífico do Brasil a usar o selo SIF. Até ali não havia a exigência de um “Serviço de Inspeção Federal” para controlar a qualidade da carne.

Em 1960, junto com a fundação da cidade, nasceu o primeiro filho, que recebeu o mesmo nome do pai, certamente com a intenção de dar continuidade à empresa JBS, as letras iniciais de seu nome. Com Brasília inaugurada, os negócios foram alavancados rapidamente. Em 1962 arrendaram um matadouro em Luiziânia, passando a abater 50 bois por dia. ”Zé Mineiro”, maneiro e hábil nos negócios, logo travou bons contatos com os políticos e passou a atender também o novo governo que ali se estabelecia. Com isso, sua empresa deu um salto surpreendente.

Em 1968 foi adquirido um matadouro em Planaltina, e passou a abater 200 bois por dia. O império da carne do Zé Mineiro vai se afirmando e criaram um novo nome para a empresa: “Friboi”, que logo virou marca consagrada no mercado. Na condição de fornecedor quase exclusivo de carne para toda a região, os negócios foram crescendo de forma vertiginosa com a aquisição de novas instalações nos arredores de Brasília. Em 1972 nasceram os gêmeos Joesley e Wesley, quando o filho mais velho já era conhecido por “Júnior Friboi”. Curioso é que mesmo carregando esse apelido, o rapaz não deu continuidade aos negócios do patriarca. Mais tarde enveredou para a política e os caçulas gêmeos é quem substituíram o velho no comando da empresa.

A partir daí a empresa passou a crescer exponencialmente, com a aquisição e diversos abatedouros e fábricas de conservas de carne e diversificação de produtos, chegando a ter uma fábrica de sabão e cosméticos. Em 1993 instalou em Anápolis uma indústria com capacidade de desossar carne e abater 1000 bois por dia. A essa altura já estavam abastecendo os mercados do Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. No período 1996-1999 instalaram novas unidades de processamento em Goiânia, Barra do Garça (MT) e Andradina (SP) e partiram para a exportação de carne para os EUA e Europa. O abate agora é de 5.800 cabeças por dia, e representou uma nova guinada na empresa.

Em 2004 é chegada a hora de estabelecer o império da carne. A sede corporativa da empresa foi transferida para São Paulo junto com 150 funcionários e centralizando as operações de sete unidades instaladas em outros locais. Por esta época, os gêmeos já estão com 32 anos e aos poucos passam assumir o comando da empresa. “Aos poucos” é força de expressão; pois os rapazes, seguindo a tradição familiar de bons relacionamentos com os políticos, deram rapidamente um impulso gigantesco à empresa com a chegada do Governo Lula em 2003. Não perca a 2ª parte desta fábula, e veja até onde estes gêmeos levaram o empreendimento do seu “Zé Mineiro”.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXVIII

Aloísio Sérgio Barbosa de Magalhães nasceu no Recife, em 5/11/1927. Advogado, artista plástico, gravador, cenógrafo, professor e designer gráfico, formou-se em Direito, em 1950, pela UFPE-Universidade Federal de Pernambuco e nunca exerceu a profissão. Por essa época esteve mais interessado em teatro, participando do TEP-Teatro do Estudante de Pernambuco, sob a direção de Hermilo Borba Filho, como cenógrafo e figurinista, além de dirigir o Teatro de Bonecos. Em seguida, ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e passou dois anos em Paris, onde estudou museologia na Escola do Louvre e estagiou no atelier 17, do gravador Stanley Willer Hayter.

A carreira artística tem início na pintura, mas logo se encaminhou para a pesquisa no domínio da tipografia e artes gráficas. Em 1954 fundou – junto com os amigos Gastão de Holanda, José Laurênio de Melo e Orlando da Costa Ferreira – o “Gráfico Amador”, uma oficina experimental de artes gráficas, com o objetivo de publicar breves textos literários em pequenas tiragens para distribuição entre os 57 sócios (artistas e intelectuais do Recife). A oficina contava com o estímulo da “Le Corbusier Graphique”, de Paris e da “Curwen Press”, de Londres. Estas publicações, apresentado uma excepcional qualidade artística, constituem-se hoje em raridades editoriais. Em 1959 foram apresentadas numa exposição na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que foi o berço do que viria a ser o “Design brasileiro” pouco depois.

Em 1956 ganhou outra bolsa de estudos, agora do governo americano, e passa a estudar artes gráficas e programação visual nos EUA. Lá publicou os livros Doorway to portuguese e Doorway to Brasília sobre a arquitetura do País, em parceria com o designer Eugene Feldman, fundador da editora Falcon Press e lecionou na Philadelphia Museum of Art. Retornou ao Brasil em 1960, e passou a residir no Rio de Janeiro, onde monta seu escritório de comunicação visual – o M+N+P – em sociedade com Luiz Fernando Noronha e Artur Lício Pontual. Pouco depois, montou o escritório “Aloisio Magalhães Programação Visual Desenho Industrial Ltda”, onde, ao lado dos colaboradores Roberto Lanari, Joaquim Redig e Rafael Rodrigues, e começa a realizar projetos para empresas públicas e privadas. Via o design como uma obra artística e defendia que seu uso comercial era uma maneira dela ser usufruída pela comunidade e não restrita apenas às casas dos colecionadores.

“Achei que por meio do design, em trabalhos pragmáticos de uso coletivo, poderia encontrar uma fonte de questões muito mais viva e dinâmica. A ideia de participação do coletivo era o que mais me interessava. A atividade do pintor demasiadamente subjetiva, isolou muito o artista da comunidade e o que me interessava era retomar este contato de maneira direta e participante.”

Em 1963, junto com outros profissionais da área, participou ativamente da criação da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial, onde vai lecionar comunicação visual. No ano seguinte, surge o primeiro trabalho de grande visibilidade: o símbolo do 4º Centenário do Rio de Janeiro. Em seguida, surgem outros trabalhos importantes: identidade visual da Petrobrás; criação da primeira marca da TV Globo; símbolo da Fundação Bienal de São Paulo, Sesquicentenário da Independência; marcas das empresas Light, Unibanco, Banespa, Souza Cruz, Itaipu Binacional. Na criação de símbolos, sua técnica consiste em partir, na maioria das vezes, de uma unidade que é refletida, explorando a tridimensionalidade e a rotação do volume no espaço. Nessa época intensifica a editoração de livros de arte. Em 1966 é convidado pela Casa da Moeda para desenhar as cédulas e moedas do cruzeiro novo.

No período 1975-1980 foi coordenador do projeto do Centro Nacional de Referência Cultural-CNRC e 1976-1980 integrou o Conselho de Cultura do Distrito Federal. Com tais atividades políticas, foi se afastando do design e passou a exercer, em tempo integral a função de gestor cultural, ocupando cargos relevantes na administração federal. Em 1979 foi nomeado diretor do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e, no ano seguinte, presidente da Fundação Nacional Pró-Memória, quando inicia campanha pela preservação do patrimônio histórico brasileiro. Apresentou propostas de preservação especialmente em relação a Ouro Preto e as ruínas de São Miguel das Missões. Neste ponto, o País começa a ter uma visão do “design” e a se apropriar disso como patrimônio nacional. Em 1981 é designado Secretário da Cultura, do MEC-Ministério da Educação e Cultura. Pode-se dizer que, graças ao seu esforço e atuação política, os bens culturais e a preservação do patrimônio histórico nacional alcançam outro patamar. O design passa ser visto como um valioso bem intangível.

Em 1981 assume foi nomeado vice-presidente do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco e em junho do ano seguinte, viajou para a Itália para tomar posse como presidente da Reunião de Ministros da Cultura dos Países Latinos. Na ocasião sofreu um fulminante Acidente Vascular Cerebral (AVC) e veio a falecer em 13/06/1982. Logo após sua morte foi homenageado no Recife, dando nome à Galeria Metropolitana de Arte do Recife. Em 1999, o nome da instituição é alterado para “Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães-MAMAM”. Em seguida foi editado o livro E triunfo?, registrando seu pensamento e ação à frente dos organismos federais de cultura. Seu legado foi reunido no livro póstumo – A herança do olhar: o design de Aloísio Magalhães -, publicado pelo SENAC/RJ em 2003 e organizado pelo seu colega de trabalho João de Souza Leite, reunindo ensaios de vários autores. Na condição de artista plástico teve 20 exposições individuais, 16 coletivas e 21 póstumas no Brasil e no exterior.

Em 2014, o Itaú Cultural realizou, em São Paulo, uma grande exposição revendo toda sua obra. As salas expõem sua produção nas artes plásticas, no desenho e na política. São telas, fotografias de época e documentos sobre sua vida e influências artísticas. Atualmente, o IMGB-Instituto Memória Gráfica Brasileira mantém o site Aloísio Magalhães, trazendo o acervo do artista, dividido em 5 partes: 1 – trajetória pessoal, vida familiar, viagens e contatos internacionais; 2 – produção artística, ideias e concepção da arte; 3 – experimentos gráficos; 4 – o designer e sua vasta produção na área; 5 – o pensamento cultural, onde são retratadas suas ideias e o trato dos bens culturais no País.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS IV

Burle Marx (1909-1994)

Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, em 4/8/1909. Artista plástico, pintor, designer, arquiteto, tapeceiro, cantor lírico para os amigos e um dos paisagistas mais renomados do mundo. Filho da recifense Cecília Burle e de Wilhelm Marx, judeu alemão, parente de Karl Marx. Aos 4 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro. Logo que os negócios (exportação e importação de couros) do pai prosperaram, foram morar num casarão do Leme, onde ele, aos 8 anos, começou a cultivar mudas de plantas e iniciar sua própria coleção.

Em 1928, teve um problema nos olhos e a família foi procurar tratamento na Alemanha, onde permaneceram até 1929. Lá entrou em contato com as vanguardas artísticas e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen, onde encontrou a vegetação brasileira numa estufa. Ficou fascinado com a beleza das plantas tropicais. Mas o fascínio mesmo, neste momento, se deu com a pintura, a partir das visitas que fez às exposições de Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Van Gogh. Entusiasmado, passou a estudar pintura no ateliê de Degner Klem. De volta ao Brasil, em 1930, Seu amigo e vizinho Lucio Costa o incentivou a entrar na Escola Nacional de Belas Artes. Aí conheceu e fez amizade com alguns nomes que se destacariam na moderna arquitetura brasileira: Oscar Niemayer, Hélio Uchoa, Milton Ribeiro etc.

Seu primeiro projeto paisagístico se deu em 1932, a pedido do amigo Lúcio Costa, para o jardim da residência da família Schwartz. Mas o primeiro projeto público se deu em 1934, na Praça de Casa Forte, no Recife, onde projetou mais 5 praças mais tarde, todas tombadas pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No mesmo ano foi designado Diretor de Parques e Jardins do famoso DAU-Departamento de Arquitetura e Urbanismo, onde trabalhava Joaquim Cardoso, que viria a ser o calculista das obras de Niemayer. Neste cargo projetou diversos logradouros, fazendo uso intensivo da vegetação nativa e a se destacar na área. Em 1935, projetou a Praça Euclides da Cunha (Recife), que ficou conhecida como “Cactário Madalena”, devido a sua ornamentação com plantas da caatinga e do sertão nordestino. A partir daí passou a imprimir um caráter de brasilidade ao seu trabalho, livrando-se da influência europeia, onde predominam as azaleias, camélias, magnólias e nogueiras.

Para isso contava com o apoio de Luiz Nunes, Diretor do DAU e Atilio Correa Lima, gestor do Plano Urbanístico da cidade, e de simpatizantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias e Joaquim Cardoso. Dois anos depois, o DAU partiu para um projeto mais ambicioso e deixou ao seu cargo o projeto do primeiro Parque Ecológico do Recife. Devido a sua atuação nesta cidade, é celebrada no Recife a “Semana Burle Marx”, no inicio do mês de agosto, conforme a Lei Municipal nº 17.571, de 2009. Passou 3 anos residindo no Recife e retorna ao Rio de Janeiro, em 1937.

Em seguida foi convidado para projetar os jardins do Edifício Gustavo Capanema (na época Ministério da Educação e da Saúde), no Rio de Janeiro. Idealizou um terraço-jardim que é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Com vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim apresentava uma configuração inédita no país e no mundo. Por essa época toma aulas de pintura com Cândido Portinari, de quem se tornaria assistente, e Mario de Andrade, no Instituo de Arte da Universidade do Distrito Federal.

No final da década de 1930 sua obra paisagística já está perfeitamente integrada à arquitetura moderna, uma tendência mundial que abrange as artes de um modo geral. Ele passa a integrar o grupo de arquitetos adeptos da escola alemã Bauhaus, influenciados pela corrente francesa liderada por Le Corbusier. Trata-se de um estilo humanista integrador de todas as artes. Em 1949 adquiriu o Sitio Santo Antônio da Bica, em Campo Grande (RJ), com 365.000 m², e passa a viajar pelo Brasil, junto com botânicos, em busca de plantas tropicais. O objetivo foi coletar e catalogar exemplares para reproduzir, no sitio, a diversidade fitogeográfica brasileira.

Sua participação na definição da Arquitetura Moderna Brasileira foi fundamental, tendo atuado nas equipes responsáveis por diversos projetos célebres. A partir daí, passou a trabalhar com uma linguagem bastante orgânica e evolutiva, identificando-a muito com vanguardas artísticas como a arte abstrata, o concretismo, o construtivismo. Como é, também, pintor, as plantas baixas de seus projetos lembram em muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos através dos elementos de vegetação nativa. Daí em diante sua parceria em trabalhos com Oscar Niemayer e Lúcio Costa toma impulso. Como arquiteto, inclui em seus parques e jardins elementos arquitetônicos como colunas e arcadas, encontrados em demolições; utiliza ainda mosaicos e painéis de azulejos, recuperando a tradição portuguesa.

A partir da década de 1950, passou a utilizar em seus trabalhos uma ordenação mais geometrizante, como ocorreu na Praça da Independência (João Pessoa), no Parque do Flamengo (RJ) ou Parque Ibirapuera (SP). Em 61 anos de carreira, assinou mais de dois mil projetos em todo o mundo e recebeu inúmeras honrarias. Mas a homenagem que mais o sensibilizou foi ver seu nome designando uma espécie de plantas tropicais: a Calathea Burle Marxii”, conhecida popularmente como “Calatea Burle Marx” ou “Maranta de Burle Marx”. Por essa época é contratado para projetar parques públicos em diversas cidades: 1950 – Parque Generalissimo Francisco de Miranda (Caracas, 1950), Jardins da Cidade Universitária da Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1953), Jardim do Aeroporto da Pampulha (Belo Horizonte, 1953), Balneário Municipal de Águas de Lindóia (SP, 1954), Paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1955), Paisagismo da Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina (1960), Paisagismo para o Eixo Monumental de Brasília (1961), Paisagismo do Aterro do Flamengo (1968), 1968 – Projeta o paisagismo da Embaixada do Brasil em Washington, USA, 1970), Paisagismo do Palácio Karnak (Teresina, 1970), Paisagismo do aterro da Bahia Sul em Florianópolis (1971) .

Tais atividades não o afastaram da pintura, e desde a década de 1930 participou de 74 exposições individuais, 71 coletivas e 22 póstumas. Seu traço revela influências de Pablo Picasso e dos muralistas mexicanos. Nos retratos, aproxima-se de Candido Portinari e Di Cavalcanti. Segundo os críticos de arte, a partir de década de 1950 “a tendência para a abstração consolida-se e a paleta muda, passando a incluir muitas nuances de azul, verde e amarelo mais vivos. Em suas telas o trabalho com a cor está associado ao desenho, que se sobrepõe e estrutura a composição. Nos anos 1980, passa a realizar composições geométricas em acrílico, os contornos são desenhados com a cor, as telas adquirem um aspecto fluído, flexível e ganham leveza.

A dedicação à pintura é intensificada com sua mudança para o sítio Santo Antônio da Bica (RJ), em 1972, onde passou a cultivar 3.500 espécies de plantas do mundo inteito, criando um verdadeiro “Éden Tropical”. Em 1985, o sítio é doado ao governo federal, passando a chamar-se Sitio Burle Marx, mantido pelo IPAH e aberto a visitação pública. Constitui-se num valioso patrimônio paisagístico, arquitetônico e botânico, além de uma escola para jardineiros e botânico. Em São Paulo, é mantido desde 1994, o Parque Burle Marx, no bairro do Morumbi, com 168.000 m2 e mantido pela Fundação Aron Birmann em parceria com a Prefeitura da cidade.

Em 1982, recebeu o título Doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, e do Royal College of Art, em Londres, dentre as tantas homenagens recebidas com nomes de diversos logradouros, escolas e instituições. Sua obra pode ser melhor consultada nos diversos livros publicados sobre suas contribuições ao paisagismo e nos livros de sua autoria: Arte e paisagem: conferências escolhidas. São Paulo: Nobel, 1987 e Arte e paisagem: a estética de Burle Marx. São Paulo: MAC/USP, 1997. Faleceu em 4/6/1994, no Rio de Janeiro.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXVII

Joaquim Cardoso (1897-1978)

Joaquim Maria Moreira Cardoso nasceu no Recife, em 26/08/1897. Desenhista, editor, engenheiro, professor e poeta. Ultimamente vem sendo reconhecido mais como poeta do que engenheiro, devido a reedição de suas obras e, talvez, ao fato de haver mais glamour em ser poeta do que ser engenheiro. Mas, ele mesmo enxerga uma certa similitude entre os dois afazeres: “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia.” Foi o engenheiro responsável pelos cálculos que permitiram a construção dos mais importantes monumentos de Brasília e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetados por Oscar Niemeyer, que chamava-o “o brasileiro mais culto que existia”.

A infância e os primeiros estudos se deram em várias escolas do bairro Zumbi e no Ginásio Pernambucano, onde se encontrava entre os redatores do jornal “O Arrabalde”, em 1913. Talentoso desenhista, no ano seguinte já trabalhava como caricaturista do “Diário de Pernambuco”. O interesse pela literatura esteve sempre presente e suas primeiras poesias datam de 1924. Mas o primeiro livro – Poemas – surgiu apenas em 1947, devido a insistência dos amigos, prefaciado por Carlos Drummond de Andrade, um de seus incentivadores.

Em 1915 entrou na Faculdade de Engenharia, mas só foi diplomado quinze anos depois, devido a morte do pai e as dificuldades econômicas que o levaram a trabalhar como topógrafo na Comissão Geodésica do Recife, em 1919. Nesse trabalho conheceu boa parte do interior do Estado, e adquiriu experiência vivendo isolado no mato e aldeias indígenas, expondo-se a situações perigosas na mata do Engenho do Meio. Em 1923 passou uma curta temporada, na casa de sua irmã, conhecendo o Rio de Janeiro.

De volta ao Recife, reencontrou Benedito Monteiro, colega redator na época de “O Arrabalde”, agora modernista fervoroso e declamador de poetas como Luiz Aranha, Sergio Milliet e Oswald de Andrade. Antes da Semana de Arte de 1922, já havia no Recife um movimento precursor do Modernismo. Vem daí o apelido de “São João Batista do Modernismo”, atribuído a Manuel Bandeira. Por essa época desfrutou a vida boêmia literária nos cafés do Recife ao lado dos amigos Osório Borba, Luiz Jardim, Ascenso Ferreira, Olívio Montenegro, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, então de volta dos EUA.

De 1924 a 1925 foi diretor da “Revista do Norte”, e apurou seu gosto pelas artes gráficas, chegando a elaborar vinhetas e um alfabeto, cujas letras eram inspiradas em motivos nordestinos. A revista publicou seu poema mais famoso e de maior impacto na época: Recife morto, “elaborando no interior da linguagem poética a fascinação lírica de duas realidades contrárias: o Recife da tradição e o Recife da manhã vindoura”. Em 1927 voltou à Faculdade e concluiu o curso de Engenharia em 1930. Em seguida foi trabalhar na Diretoria de Architetura e Urbanismo-DAU, primeira instituição governamental criada no Brasil com essa finalidade. Além de Luiz Nunes, coordenador, a DAU contava com Burle Marx, que aí projetou seus primeiros jardins, e dos arquitetos João Correia Lima e Fernando Saturnino de Brito. Em 1935, a DAU se fez representar na Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha, em Porto Alegre, tendo Luiz Nunes projetado o “Pavilhão de Pernambuco”. Foram exibidas todas as obras e projetos e um grande número de maquetes e essa mostra representa a primeira exposição de arquitetura moderna no Brasil.

Esta experiência pioneira foi interrompida pelo Golpe de Estado de 1937. A partir daí ele passa a elaborar o cálculo estrutural de grande parte dos edifícios modernos do Recife e dar aula na Escola de Belas Artes, que ajudou a fundar, em 1939, exercendo a cátedra de Teoria e Filosofia da Arquitetura. Sobre este período, declarou: “Tive a oportunidade de colaborar com arquitetos que chegaram a aliar instintivamente a consciência perfeita do meio físico ao espírito tradicional, conseguindo, ao mesmo tempo, os melhores efeitos plásticos do concreto armado. …Foram utilizados todos os elementos arquitetônicos novos, a coberta-terrasse, o pilotis, as janelas de grandes vãos, a cor como elemento modificador do espaço e da iluminação, a estrutura independente etc., assim como o emprego de estruturas especiais para a realização de formas puras, que somente com o concreto se pode realizar e que são soluções mais livres e perfeitas… E se procurou integrar os edifícios na paisagem…” “Os volumes e superfícies vazados, que antigamente eram resolvidos com as venezianas, foram criados agora com o emprego justo e adequado de um material pernambucano por excelência: o combogó… Estas superfícies de combogó, atuando nas fachadas muito insoladas, como verdadeiro ‘brise-soleil’, produzem desenhos caprichosos de sombra e luz, de bom efeito decorativo.”

Em 1938 foi à Europa, viajando pela França, Portugal e Espanha em plena guerra civil. Na volta, reassumiu seu emprego no Departamento de Obras Públicas. No ano seguinte foi escolhido pelos alunos como paraninfo da turma da Escola de Engenharia de Pernambuco. Seu discurso na solenidade de formatura não agradou o interventor do Estado e foi “convidado” a fazer uma estrada em pleno sertão. Sua recusa custou-lhe a demissão do emprego. Passou um tempo curtindo a literatura e a vida boêmia com os amigos no Recife e, em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar com Rodrigo de Melo Franco no Serviço do Patrimônio Histórico.

Em 1941, foi convidado por Oscar Niemeyer para fazer os cálculos estruturais no conjunto da Pampulha, um momento de grande importância na formação da Arquitetura Moderna Brasileira, sobre o qual ele se manifestou mais tarde: “O uso frequente das linhas curvas, no Cassino, na Igreja e na Casa do Baile, que se manifesta definitivamente na ‘forma aerodinâmica’… numa intenção de leveza, de desligamento do solo e das condições materiais, e mais ainda numa sugestão de efeito dinâmico. Compreendendo, já nessa época, que as imposições orgânicas a que está sujeita a boa arquitetura não definem categoricamente a sua forma; antes, deixam-na ainda indeterminada, ele alcança, partindo daquelas premissas indispensáveis, uma expressão mais pura, mais simples, mais fácil de ver, provocando também um movimento de admiração e surpresa.”

No Rio de Janeiro dos anos 40, a parceria Cardoso-Niemayer é efetivada, contando com outras amizades, que formam o “Grupo do Patrimônio”, com reuniões semanais na casa de Rodrigo de Melo Franco. Aproxima-se também do grupo, escritores pernambucanos residentes no Rio, em especial João Cabral de Melo, que todos os dias ia ao seu escritório, Manoel Bandeira, Eustáquio Duarte e Evaldo Coutinho. Foi esse grupo que promoveu a edição do seu primeiro livro, Poemas, em comemoração ao seu cinquentenário.

Antes de rumarem para a construção de Brasília, o Grupo do Patrimônio finca suas bases fundando a revista “Módulo”, em 1955, uma referência na moderna arquitetura brasileira. Aprofundando as afinidades políticas com Niemayer, ele passa a colaborar com o quinzenário “Paratodos”, dirigido pelos irmãos Jorge e James Amado, um jornal de cunho essencialmente político.

A partir de 1956, passa a dirigir a Seção de Cálculo Estrutural do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap. Trata-se de uma equipe de 5 calculistas e 12 desenhistas trabalhando em período integral na projeção dos principais edifícios da nova capital federal. Um dos desafios foi fazer a cúpula da Câmara dos Deputados parecer que flutuava, apoiando-a numa laje, como se estivesse apenas tocando-a. Para isso, pesquisou os mais diferentes tipos de estrutura. Dominando inglês, alemão, russo e francês, acessou as mais recentes experiências e casos analisados e resolvidos por diversos autores, físicos e matemáticos, o que exigiu muito esforço e audácia do calculista e sua equipe. Outros desafios eram a esbeltez dos perfis e reduzidas seções dos pontos de apoio das colunas dos palácios de pórticos e da catedral. Hoje quando se fala de Brasília, os gênios exaltados são apenas Niemayer e Lúcio Costa, esquecendo-se do calculista que fez aquelas belas estruturas permanecerem em pé.

Em 1967 aposentou-se como servidor público e permaneceu trabalhando no seu escritório até 1972, logo depois da tragédia ocorrida com o desabamento do Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, causando a morte de 68 operários. Uma obra do governo estadual, projetada por Niemayer e calculada no seu escritório. O fato deixou-o transtornado mesmo sendo provado que não teve culpa alguma no acidente. Mesmo assim, foi inicialmente condenado, em março de 1974, a dois anos e dez meses de prisão. Seu advogado Evandro Lins e Silva conseguiu provar sua inocência e foi absolvido. A tragédia e a peleja judiciária causaram-lhe uma profunda depressão, não encontrando mais condições psicológicas para o trabalho.

Pouco antes disso, em 1973, foi morar junto aos familiares, no Recife. Recebeu diversas homenagens e manifestações de solidariedade de entidades culturais e estudantis: eleito para a Academia Pernambucana de Letras, em 1975; sócio benemérito do IAB-Instituto dos Arquitetos do Brasil; doutor honoris causa pela UFPE; Prêmio Auguste Perret, da União Internacional de Arquitetos; denominação de diversos logradouros, escolas e teatro em Pernambuco. Ao completar 80 anos, em 1977, doou sua biblioteca de quase oito mil volumes à UFPE, passou uma temporada ao lado do seu amigo Niemayer, no Rio e retornou ao Recife, onde veio falecer em 4/11/1978. Deixou diversos livros inacabados, que foram publicados posteriormente. Entre as obras literárias, destacam-se: Poemas (1947), O coronel de Macambira: bumba meu boi (teatro) (1963), Poesia completa (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O interior da matéria (1976).

Perambulando pelo Recife encontro o poeta na ponte, que me concedeu esta foto

LITERATURA E MÚSICA

Muita gente ouviu João Cabral dizer em suas entrevistas que não gosta de música. Abriu uma exceção apenas para o flamenco, que conheceu em Sevilla, enquanto diplomata; e para o frevo, devido a sua origem pernambucana. Fiquei matutando: como é possível o autor de um poema como Morte e vida severina, musicado pelo Chico Buarque, não gostar de música? Vale dizer que se trata de uma canção que contribuiu significativamente para projetar estes dois expoentes da literatura e da música.

Só mais tarde, é que o espanto foi dissipado através de uma entrevista de Ferreira Gullar, dizendo isso não era verdade e que João Cabral, nessa questão, mentia com muito talento. Assim, passei a reparar nas entrevistas com escritores que as perguntas sobre os relacionamentos Literatura x Música são mais frequentes do que eu supunha. Fui, então, verificar a bibliografia referente a este relacionamento e deparei com uma quantidade razoável de livros, artigos, teses e textos publicados.

Desse modo, foi concebido o 6º volume da obra “Mistérios da criação literária”. Mas foi no decorrer de sua feitura que verifiquei que tais relações são mais antigas do que imaginamos; que a música pode ser entendida como uma “literatura cantada”; que o ritmo também é uma característica literária; que, enfim, são expressões de um mesmo sentimento humano e que têm finalidades semelhantes.

Porém, as diferenças são também marcantes: basta ver que a música, por ser imaterial, é “absorvida” imediatamente pelo sentido; enquanto a literatura para ser “inoculada” exige, além da leitura, o raciocínio. Não deixa de ser interessante ver a contrariedade dos poetas quando o público fica enaltecendo Caetano Veloso ou Chico Buarque como grandes poetas. Affonso Romano de Sant’Anna diz: “Os músicos aprenderam muito com a literatura, Chico, Caetano, Gil aprenderam muito. E praticaram isso. Mas há um mal-entendido em tudo isso, porque fica parecendo de repente que são os maiores poetas brasileiros. Então uma coisa que tem que se esclarecida é o seguinte: eles são muito bons poetas, com a música atrás. Se tirar a música e deixar só o texto, poucos textos deles vão resistir”.

Ferreira Gullar, de modo diverso, diz o mesmo: “Letra de música não é poema. Pode conter poesia. Como o poema a contém ou não. Mas são gêneros específicos. Uma letra de música precisa de música. Você pode encontrar exceções, mas na grande maioria dos casos uma letra de música necessita da música para alcançar sua expressão cabal. Existe uma música conhecidíssima, verdadeira obra-prima da MPB, que diz assim: “Podemos ser amigos, simplesmente / Amigos simplesmente, e nada mais”. Chama-se “Chuvas de verão; é da autoria de Fernando Lobo. Mas se suprimirmos a música, alguém poderia dizer que isso é poesia? Não é”

Esta é apenas uma das polêmicas que a coletânea de depoimentos enseja. São quase 100 respostas acrescido de farto material bibliográfico enfocando as tais relações. O livro foi lançado em 2015 e encontra-se esgotado no mercado livreiro. Mas ainda disponho de alguns exemplares, que poso fornecer aos interessados ao custo de R$ 30 reais (frete incluso) através do e-mail: literacria@gmail.com

Os seis volumes podem ser vistos e consultados, em parte, no site Tiro de Letra.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXVI


Manezinho Araújo (1910-1993)

Manuel Pereira de Araújo nasceu no Cabo de Santo Agostinho, em 27/09/1910. Cantor, compositor, jornalista e pintor. De origem humilde, passou a infância no bairro de Casa Amarela, no Recife, onde concluiu os primeiros estudos. Na adolescência conheceu Minona Carneiro, grande cantador de emboladas, seu incentivador, através do qual tomou gosto pelo gênero e veio a se tornar um dos maiores intérpretes da embolada. Trata-se uma forma musical do nordestino, cuja origem remonta à literatura de cordel. De forma bem humorada, o embolador discorre sobre pessoas ou fatos cantando vantagens como se fosse um cronista.

Ingressou como soldado no exército, participando da Revolução de 1930. Quando seu pelotão chegou à Bahia, a revolta já havia acabada e sua tropa recebeu como prêmio uma viagem para o Rio de Janeiro já na condição de sargento. Decidiu ficar no Rio, passou por alguns perrengues para sobreviver e começou a cantar emboladas nos cabarés da cidade. Durou pouco essa temporada e voltou ao Recife, numa viagem de navio. Em Salvador embarcou um quarteto famoso: Carmen Miranda, Almirante, o violonista Josué de Barros e seu filho Betinho. Durante a viagem, participou de algumas rodas musicais, foi incentivado pela cantora e recebeu a promessa de Josué de Barros de lançá-lo no Rádio.

Em 1933 voltou ao Rio de Janeiro e pouco depois começou a trabalhar na Rádio Mairynk Veiga, onde assinou um contrato de exclusividade, para atuar como cantador de emboladas no programa “Casé”, comandado por Ademar Casé. Em pouco tempo, passou a viajar para apresentações em outros estados e ficou conhecido como o ”rei da embolada”. Foi o primeiro artista brasileiro a gravar jingles para importantes empresas. Foi contratado para a campanha dos sabonetes “Lifeboy”, fazia propaganda do óleo de peroba ao mesmo tempo em que compunha e se apresentava nos programas de diversas rádios.

Até a década de 1950, gravou mais de 50 discos 78 rpms e quatro LPs e teve suas composições gravadas por diversos cantores(as). Pode-se afirmar que deve-se a ele o interesse dos sulistas pelo folclore e músicas nordestinas. Além da música, participou de vários filmes e cinejornais da Atlântida, seja cantando emboladas ou contando causos. Era também um talentoso humorista. Em 1942, gravou com o cantor e compositor mineiro De Morais a valsa Minas Gerais, que se tornaria o hino popular do estado de Minas Gerais. Em 1945 gravou a música Dezessete e setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel, um de seus grandes sucessos. Com Fernando Lobo, gravou Cuma é o nome dele?, Maria roxa, Pra onde vai valente?, De jeito nenhum, coroné, Vatapá, Amô de rede, Tamanqueiro, Palmatória e Vapô de caragola; com Ismael Neto, compôs Suspiro que vai e vem; com Hervê Clodovil, compôs Rua do sol, Tem dó e A saudade é de matar. Em 1956, gravou mais um de seus grandes sucessos, a embolada Cuma é o nome dele, que serviu de prefixo para seus programas e apresentações.

Em 1957, chateado com diversos aspectos ligados ao meio artístico, entre os quais a autopromoção dos fãs clubes, decidiu “pendurar as chuteiras”, com um grande show no Tijuca Tênis Clube, com cerca de 15 mil pessoas, entre amigos e admiradores. Com o dinheiro arrecadado aproveitou sua fama de brincalhão e hospitaleiro para abrir um restaurante – Cabeça Chata – em Copacabana, onde a cozinha era comandada por sua esposa dona Lálá, e ele divertia a clientela com suas cantorias. O restaurante ficou famoso com alguns pratos, particularmente a “galinha ao molho pardo” e o “bobó de camarão”. Chegou a ser frequentado por gente famosa no âmbito nacional e internacional.

Em 1962, fechou o restaurante e mudou-se para São Paulo, onde reabriu o Cabeça Chata na Rua Augusta. Mas o empreendimento não durou muito; fechou o restaurante e passou a dedicar-se a pintura. A esposa adquiriu uma gravura inglesa para enfeitar a parede. Ele reparou bem, e disse: “Melhor do que isso, eu faço”. Dona Lalá, então, desafiou-o: “Então faça!”. Começou com aquarela e guache sem orientação alguma e dizendo-se “ceguinho em técnica”. Demonstrando algum jeito para a coisa, ganhou da esposa um conjunto de tintas a óleo e passou pintar cenas da infância, e da vida retratando cidades, paisagens, palafitas, barqueiros, pescadores etc.

Em pouco tempo passou de cantor famoso a pintor conceituado em seu estilo primitivo. Em 1963, deu-se a primeira exposição individual, em São Paulo, na Galeria Astréia e, dois anos depois, ocorre outra individual, na Galeria Capela. Publica, no Rio de Janeiro. Em 1968, sai publicado o álbum de serigrafias Meu Brasil, com apresentação de Aldemir Martins. Ao todo, realizou mais de 30 exposições, onde os quadros alcançaram boa vendagem. Alguns dos quadros se encontram em diversos museus do Brasil e no Museu Calouste Gulbenkian , em Lisboa. Segundo os críticos de arte, são três as características recorrentes em sua pintura: a presença das linhas compositivas bem definidas, traçadas com clareza; a cadência marcada, a distribuição marcada de elementos pela superfície da pintura e a escolha de temas ligados ao universo popular: a colheita, a religião, a feira, a favela.

Foi nesta condição de pintor renomado que o “rei da embolada” faleceu em São Paulo, em 23/05/1993, aos 83 anos. Em 2010, Geraldo Maia compilou alguns de seus sucessos e gravou o CD “Ladrão de purezas”, para que seu centenário não passasse em “brancas nuvens” da música. Por esta época, Inconformado com o descaso e o pouco conhecimento do compositor/pintor em sua própria terra, o jornalista José Teles passou a investigar mais sua obra e encontrou apenas um pequeno livro – Um certo Manezinho Araújo – escrito por Bernardo Alves e publicado pela Uzyna Cultural, contendo a vida, discografia e uma entrevista do compositor em 1978. Sua pesquisa resultou no livro lançado em 2013, Cuma é o nome dele? – Manezinho Araújo, o rei da embolada, pela Editora Bagaço. A biografia musical de uma das figuras mais populares do Brasil na época de ouro dos programas de rádio, no período 1930-1954.

LITERATURA E POLÍTICA

Bem sei que não estamos em tempos de falar de amenidades na política. Mas como já falei das relações política-polícia, me autorizo a falar agora da literatura para concluir a série dos “Mistérios da criação literária”, que venho expondo nesta coluna. O fato é que este relacionamento existe e tem causado polêmica e muitos debates: Qual a função social da literatura? Ela deve ser politizada? Qual o papel social do escritor? A literatura está acima destas coisas mundanas? E por aí vai.

A discussão sobre o engajamento político do escritor não é nova e tem resultado uma quantidade razoável de estudos e e debates no meio acadêmico e fora dele. Nas entrevistas com os escritores, o posicionamento política é solicitado frequentemente. Segundo o crítico literário João Gaspar Simões “para aqueles que afirmam hoje que a literatura é m instrumento de difusão de ideias reivindicadoras dos direitos dos oprimidos, é evidente que o escritor é um intérprete de um estado de espírito protestativo e que a sua missão não passa de subsidiária”.

É isto, a literatura pode ser subsidiária se quiser. Mas, se quiser também pode ser mais que subsidiária. “Papel e tinta aguenta tudo”, já diziam os antigos. Como já afirmei, o objetivo da série é levantar as opiniões de centenas de escritores sobre as tais relações para termos uma ideia do que se passa em suas cabeças. A diversidade de opiniões aqui é enorme, tal como nos outros volumes. Alguns escritores, notadamente politizados, expressam uma opinião contrária ao envolvimento político da literatura; outros colocam a política apenas como um um dos temas, entre tantos, da literatura; outros acham que a literatura tem uma função política e deve sempre trazer uma “mensagem” social.

Vejamos algumas: Rachel de Queiroz: A arte engajada é uma prostituição da arte. Todo artista sincero não pode colocar uma arte a serviço de uma pregação”. Octavio Paz: “É um ingenuidade tratar de mudar o mundo com um poema ou romance! O que posso fazer como escritor é iluminar um pouco esta ou aquela região da realidade”. Julio Cortázar: “Eu creio numa literatura comprometida politicamente. A obra literária realizada com essa preocupação tende a restringir-se, a decrescer de nível, a estreitar os seus horizontes”. Juan José Saer: “O importante, para mim, está nos valores literários. Gosto de escritores de direita, como Celine ou Borges. Não de Vargas Llosa, mas não porque é um escritor de direita, e sim porque suas formas literárias me parecem caducas”. Ismail Kadaré: “Não sou um escritor eminentemente político, mas acho que tenho o dever de falar do destino trágico do meu povo num momento em que ele corre o risco de ser simplesmente exterminado”. George Orwell: “Nenhum livro é genuinamente livre de preconceito político. A percepção de que a arte não deveria ter nada a ver com política é, em si mesma, uma atitude política”. Gabriel Garcia Márquez: “A política é uma atitude moral. Acho que se deve defender um elenco de valores essenciais… Sou político de emergência. Se eu não fosse latino-americano não estaria na política. Mas como um intelectual pode sentir-se feliz dando-se ao luxo de discutir o destino da alma, quando os problemas existentes são sobrevivência física, saúde, educação, ignorância etc.?”

Para complementar, o livro traz um levantamento bibliográfico com resumos sobre estas relações. Este é o 5º volume da série editada em 2007, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e se encontra esgotado no mercado livreiro. Mas ainda disponho de alguns exemplares, que posso fornecer ao custo de R$ 25 reais (frete incluso). Os interessados devem entrar em contado através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXV

José Leite Lopes (1918-2006)

José Leite Lopes nasceu no Recife, em 28/10/1918. Físico e renomado cientista, fundador de importantes organismos dedicado às ciências. É reconhecido internacionalmente por suas contribuições à física teórica. Filho de José Ferreira Lopes e de Beatriz Coelho Leite, perdeu a mãe três dias após o nascimento e foi criado pela avó junto com os dois irmãos. Realizou os primeiros estudos no Colégio Marista, e iniciou a formação acadêmica na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939, onde se graduou em Química industrial. Em 1940 ingressou no curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio Janeiro, concluído em 1942.

Durante o curso de Física, lecionou no Instituto Lafayette e estagiou com Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica. Ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Zerrener, em 1943, para estudar e trabalhar no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia da USP. No ano seguinte iniciou o doutoramento na Universidade de Princeton, USA, onde trabalhou com alguns cientistas, como Einstein, Jauch, Pauli e Reichenbach. Sua tese de doutorado foi orientada pelo Prof. Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física). Em 1946 recebeu o título de PhD e foi nomeado professor de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia, onde realizou pesquisas em Eletrodinâmica em 1947. Manteve-se neste cargo até 1969, quando foi cassado pelo regime militar.

Em 1949, junto com César Lattes e outros pesquisadores, criou o CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, e no mesmo ano foi convidado por Oppenheimer para trabalhar no Advanced Study Institute de Princeton. Lá, junto com Feynman, publicou um trabalho sobre a descrição do deutron, pela teoria pseudo-escalar, com tratamento adequado à singularidade da força sensorial na origem. Em seguida, foi secretário científico da 1ª Conferência Internacional sobre Aplicações Pacíficas da Energia Atômica. A partir daí ficou conhecido também como pacifista, mantendo uma participação política.

A consagração internacional viria com a publicação do seu famoso artigo A Model of the Universal Fermi Interaction (1958), onde concluiu que se as interações fracas têm esta forma e se elas são os resultados da troca de bósons vetoriais entre os férmions, então estes bósons deveriam pertencer a uma mesma família, como os fótons que são também vetoriais. Neste trabalho foi previsto e provada a existência do chamado bóson Z0, uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo de um átomo e criou uma equação abrindo caminho para a unificação eletrofraca. Algumas hipóteses fundamentais apresentadas serviram de base para estudos posteriores e foram confirmadas pelos cientistas Abdus Salam, Steve Weinberg e Sheldon Glascow, premiados (1979) com o Nobel de Física, pela publicação de um trabalho bastante semelhante ao desenvolvido por ele 20 anos antes, o que demonstra a injustiça política que permeia a premiação da Academia Sueca.

Além de pesquisador incansável, foi também articulador, fundador e diretor de destacadas instituições, tais como: CNEN-Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, FINEP- Financiadora de Estudos e Projetos, SBF-Sociedade Brasileira de Física, ELAF-Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro, para onde convidou para dar cursos físicos da estatura de Feynman, Yang, Laguarrique e Puppi. Para ele, a física a “mãe das ciências” e lutou para que os países subdesenvolvidos desenvolvessem mais pesquisas. Sempre se mostrou crítico à falta de incentivos à ciência no Brasil. Devido ao senso crítico, não era bem visto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Com o Golpe Militar, foi acusado de manter ligações com o Partido Comunista, sendo obrigado a viver como exilado na França. Em Paris, a convite de Maurice Lévy, foi professor da Faculdade de Ciências de Orsay até 1967. No ano seguinte retornou ao Brasil e passou a organizar o Instituto de Física da UFRJ, onde foi nomeado Diretor. As condições políticas do Brasil recrudesceram e ele foi novamente perseguido pelos militares. Foi vitimado pelo famigerado AI-5, teve os direitos políticos cassado e foi aposentado compulsoriamente em 1969. Prestigiado no exterior, aceitou o convite para lecionar na Carnegie-Mellon University (1969-1970) e na Universidade de Strasbourg, onde ficou de 1970 a 1986, onde acumulou o cargo de Vice-Diretor do Centro de Recherches Nucleaires de 1975 a 1978.

Publicou vários livros adotados em universidades de todo o mundo, tais como Fondements de la physique atomique (Hermann, 1967), Lectures on symmetries (Gordon & Breach, 1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983), Theorie relativiste de la gravitation (Masson, 1993) e Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração com B. Escoubès, Masson, 1995). Em 1989, recebeu da UNESCO o “Science Prize”, único físico brasileiro detentor dessa prestigiada premiação. Outras condecorações: Medalha da Universidade de Strasbourg (1986), Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasília, 1994), Medalha Nacional de Ciências, Alvaro Alberto(1989).

Seu colega Amós Troper diz que “Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada”. Mas poucos conhecem seu lado artístico, desenvolvido a partir da década de 1950. E não se trata apenas de uma atividade de lazer destinada a descarregar as tensões da vida. “Se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a ‘desespiritualização’ moderna e a morte”. São desenhos e pinturas, onde prevalecem paisagens, casario, figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais, e cujo colorido revela alguma influência de seu conterrâneo Cícero Dias. Parte de sua produção artística foi apresentada na exposição “Espaços da Catedral Imaginária”, realizada pelos seus colegas, no hall do CBPF, em outubro de 1998, com a curadoria de Miriam de Carvalho e Francisco Caruso. Outra exposição intitulada “Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes”, apresentando novas obras foi realizada pela Academia Brasileira de Ciências, em novembro de 2003, com a curadoria de Celeste Nogueira Campos.

Seu retorno definitivo ao Brasil se deu em 1985, com a promulgação da Anistia. Voltou a dirigir o CBPF, onde permaneceu como Pesquisador Titular até fins de dezembro de 2005, quando foi internado no Hospital Samaritano, devido a complicações de uma endoscopia. Faleceu em 12/06/2006, após seis meses em coma, por falência múltipla dos órgãos. Seu corpo foi enviado para velório no CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que ele ajudou a fundar e foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Clique para acessar: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

GALINHA AO MOLHO PARDO

Na década de 70 ouvi uma história que Paul Bocuse esteve por aqui, na década anterior, para conhecer nossa culinária regional. Após degustar vários pratos, elegeu dois em condições de figurarem no cardápio da culinária internacional: Feijoada e Galinha ao molho pardo. No primeiro, acertou em cheio. E no segundo, errou em cheio?

Onde ele comeu essa galinha? Como era servido o molho pardo? A “iguaria” pode ter sido servida no famoso restaurante “O Cabeça Chata”, comandado por Manezinho Araújo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, onde permaneceu até 1963. Dizem que lá serviam uma boa galinha ao molho pardo. Não cheguei a frequentar o restaurante, mas conheço o molho pardo desde criança.

Ajudava minha mãe, segurando as asas da galinha, enquanto ela prendia a cabeça e cortava o pescoço, previamente depenado, com uma faca afiada. O sangue escorria num prato fundo com umas três colheres de vinagre, evitando assim que coalhasse. A galinha esperneava, o sangue jorrava, e em poucos minutos estava morta. Era uma cena corriqueira nas famílias nordestinas, porém difícil de se executar hoje em dia.

Em seguida, o molho era colocado de lado e partia-se para o preparo da galinha: O cozido era como o de uma galinha qualquer, ao molho e bem temperada com coentro, cebolinha, cominho e outros temperos. A gordura que se desprendia da galinha melhorava bastante o molho que a cozinhava e dava-lhe um sabor especial. Depois de umas duas horas de cozimento o prato estava pronto para comer, e somente umas poucas pessoas se lembravam do molho pardo.

Ele ficava numa vasilha num lado distante da mesa, pois havia gente que não podia nem ver aquele molho escuro, grosso. Outros, como eu, meu pai e minha mãe, adoravam o molho e com ele lambuzávamos as coxas da galinha antes de degluti-la. Era comer e lamber os beiços, como se dizia naquela época.

Fazer o molho era bem fácil; a dificuldade estava em obter o sangue vivo da galinha. Uma vez cozida, retira-se umas duas ou três conchas do molho e coloca-se junto com o sangue numa pequena panela e põe-se a cozinhar. Salga a gosto e em cinco minutos está pronto o molho pardo.

Anos depois, vendo algumas galinhas no quintal da minha sogra no interior de São Paulo, cuidei para que matassem a galinha daquela maneira e me dispus a fazer o molho. A princípio acharam estranho, primitivo e mesmo repugnante aquele modo de matar a galinha: “isto é um assassinato”, disseram alguns. Mas, quando o prato estava na mesa, esqueciam-se do “crime” cometido e comiam extasiados os pedaços de galinhas lambuzados com o molho pardo.

Assim, me acostumei a fazer a tal galinhada em São Paulo (capital), onde podia encontrar galinha caipira em qualquer granja. Escolhia a ave e pedia para matar, instruindo como obter o sangue em separado. Com o passar do tempo, ficou difícil encontrar galinha caipira viva. Algumas granjas têm, mas não matam na hora; outras não as vendem vivas. Levar para casa, extrair o sangue quando não se tem um quintal torna a operação mais difícil ainda.

Nos restaurantes nem se fala disso. Depois do “Cabeça Chata”, nunca mais ouvi falar em servirem o prato em São Paulo ou no Rio de Janeiro. É um prato que se fazia antigamente, mas que ainda permanece na lembrança de muita gente. Certa vez ouvi falar de um restaurante em Natal (RN) que servia o prato, mas era muito caro; era um prato chique.

Outra vez, encontrei o prato servido num boteco de Caruaru. Era um prato comum, igual o PF (prato feito) que faziam e cobravam o mesmo preço. Fiz o pedido e fiquei salivando enquanto esperava. Não foi boa a experiência: a galinha não era muito caipira e o molho veio junto misturado com os pedaços de carne. Reclamei com o dono do boteco que não era assim que se servia, o molho pardo tinha que vir separado para o freguês utilizá-lo ao seu gosto. Mas não teve jeito. Só serviam daquele modo.

Hoje é quase impossível comer a galinha ao molho pardo em São Paulo ou no Rio de Janeiro. O Governo proibiu a venda da galinha viva e não se pode obter o sangue para fins comestíveis, apenas para industrialização. Ouvi dizer que procurando muito pode-se encontrar um local onde servem o prato, mas é clandestino e, portanto, ilegal. É a intromissão do governo em nossa cozinha, impedindo que se deguste um bom prato.

Voltando ao Paul Bocuse, se ele viesse aqui hoje e quisesse comer aquele prato, seria difícil, teria que incorrer num delito. Dizem que o prato é de origem francesa, levado para Portugal e daí para cá na época colonial. Como se vê estamos diante de um típico caso onde a modernidade não incorporou, ou melhor, desconheceu totalmente e destruiu a tradição com a mãozona do Governo. Hoje eu vivo na cidade de São Paulo, tenho bem viva a memória gustativa do molho pardo, gostaria muito de lambuzá-lo numa coxa de galinha, mas estou proibido por duas leis: uma proíbe a venda da ave viva; outra proíbe o uso doméstico do seu sangue.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXIV

Orlando Dias (1923-2001)

José Adauto Michiles nasceu no Recife, em 01/08/1923. Compositor e cantor representante do estilo chamado hoje de “brega-romântico”. Dedicou-se à música sob a influência de seu avô, violonista e poeta. Iniciou a carreira artística em 1938, num programa de calouros, na Radio Clube de Pernambuco, imitando Orlando Silva, o “Cantor das multidões”.

Casou-se no inicio da década de 1940 e mudou-se para o Rio de Janeiro. Conseguiu um contrato na Radio Mayrink Veiga, mas não ficou no Rio por muito tempo. Em 1946 voltou ao Recife e pouco depois viúvo. Desiludido, decidiu viver de novo no Rio, em 1950, onde veio a gravar seu primeiro disco pela gravadora “Todamérica”, em 1952. Tinha um estilo próprio composto de um gestual exagerado, teatral, com o lenço branco acenando para o público, muitas vezes se ajoelhando e declamando versos emotivos ou dando um “muito obrigado minhas fãs”. Para melhorar o visual romântico da época vestia roupas desalinhadas.

De 1953 em diante foi se afirmando como cantor romântico e gravando sucessos como o samba Não te quero bem nem mal, de J.Cascata e Leonel Azevedo; o fox-trote Façamos as pazes, de Luiz de França e Ubirajara Nesdan (1954); o baião Perigo de morte, de Gordurinha e Nelson Bastos (1955). Em 1959 estreou na gravadora Odeon com os boleros Se eu pudesse, de Valdir Machado e Nas tuas horas de tristeza, de Cid Magalhães. Na década de 1950 ainda não havia o que chamamos de MPB. O que existiam eram cantores ecléticos, que gravavam para todos os gostos, dos mais refinados aos menos exigentes. Foi aí que surgiram os primeiros cantores de um tipo de música popularesca, de sentimentalismo exagerado que, tempos depois, passou a ser chamado de brega-romântico.

Em 1960 atinge o auge de sua carreira e passa a ser cobiçado pelos compositores românticos. Gravou a guarânia Minha serás eternamente, de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal. No ano seguinte, lançou o bolero Tenho ciúme de tudo, um grande sucesso, de Valdir Rocha, de quem gravou outros boleros. Outro de seus grandes sucessos foi Perdoa-me pelo bem que te quero. Em 1963, gravou o LP Se a vida fosse um sonho bom, muito bem recebido pelo público, trazendo além da faixa-título, Beija-me, ambas de Valdir Machado. Para animar o carnaval de 1965, lançou o samba Saravá, de Zilda Gonçalves e Jorge Silva. No ano seguinte gravou mais um LP pela Odeon: O ator da canção, incluindo músicas de Arsênio Carvalho (Sonho de amor) e Ramirez (Uma esmola).

Junto com Anísio Silva e Altemar Dutra, ele fazia a tríade do gênero brega-romântico que influenciou músicos como Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Reginaldo Rossi. Em 1968, lançou o LP “O Atual”, pela Odeon , destacando as músicas Amor desesperado, de Dino Ramos e Perdoa-me, de Manzareno. Em 1973, gravou mais um LP pela Odeon, intitulado “O cantor mais popular do Brasil”, com destaques para Leva-me contigo, de sua autoria, e Tu partiste, de Pedrinho. Na década de 1980 passou a viajar pelo interior do país para divulgar seus discos e apresentação em rádios locais. Tais viagens estenderam-se em seguida pelo exterior: França, Holanda e Itália. Em 1997, regravou vários sucessos em CD intitulado “Vinte supersucessos”. Em 2000, teve dois discos relançados pela EMI Music dentro da Série BIS, comprovando uma carreira plena de sucessos.

Ao longo da carreira, vendeu cerca de 6 milhões de discos. Ele vivia com sua filha no Rio de Janeiro, e nos últimos anos sofria do mal de Parkinson. Faleceu em 11/08/2001, a 10 dias de completar 78 anos, vítima de um infarto.

LITERATURA E CINEMA

O cinema está embutido na literatura antes mesmo de seu surgimento no final do século XIX. Como assim? Expliquemos: Existe uma teoria limite, segundo a qual há uma essência do cinema, de um “pré-cinema” embutido em alguns textos literários “anteriores à forma de expressão cinematográfica, e que teriam como especificidade o fato de os escritores ordenarem o relato em função da incidência do olhar do narrador, da sua ‘ocularização’ da cena a narrar”, conforme o escritor espanhol Jorge Urrutia . Desse modo, a narrativa cinematográfica estava apenas aguardando o aparecimento de uma tecnologia para concretizá-la.

O surgimento da fotografia poucos anos antes foi o primeiro passo. A partir daí foi só “passar’ ou exibir 24 fotogramas por segundo através de um aparelho apropriado para dar a ideia de movimentação das imagens. Assim, temos o cinema numa explicação bastante simplificada. Está visto, pois, que as relações entre o cinema e a literatura são umbilicais e que, desse modo, o cinema é o segundo filho da literatura. O primeiro é o jornalismo, conforme já vimos aqui. Diante disso, passei a coletar os depoimentos dos escritores e cineastas sobre o relacionamento destas duas artes.

O trabalho resultou na edição do volume 4 da série “Mistérios da criação literária”, que venho divulgando aqui, publicada em 2007, sob o patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. São 80 depoimentos seguidos de uma pesquisa bibliográfica enfocando tais relações, onde os autores desfilam suas impressões sobre as influências mútuas ocorridas ao longo do tempo. Então quer dizer que o cinema também influencia a criação literária? Sim, a partir de dado momento, aquelas longas descrições de paisagens dos antigos romances tornaram-se anacrônicas. O cinema faz isto muito melhor. Há quem admita o roteiro cinematográfico como um gênero literário e até existem escritores que trabalham o texto com um olho na literatura e outro no cinema, havidos por verem sua obra filmada.

Na opinião do cineasta Jorge Furtado, é natural que alguém “se decepcione quando vê as imagens criadas pelo cineasta e diga: gostei mais do livro”. Pois, ao ler o romance, cada leitor cria suas próprias imagens, que podem ser mais belas ou mais bem feitas do que aquelas que o cineasta imaginou. Vale ressaltar que esta é a opinião de um cineasta. Mas, existem também escritores apologistas do cinema como arte. Henry Miller, por exemplo, chega ao cúmulo do absurdo em saudar a substituição da literatura pelo cinema: “O cinema é o mais livre de todos os meios de comunicação, pode-se realizar maravilhas com ele. De fato, eu iria saudar o dia em que os filmes substituíssem a literatura, quando não houvesse mais necessidade de ler”.

Está visto que o autor disse isto no calor de uma entrevista para provocar debate ou brincar com o entrevistador. As duas artes convivem muito bem e estão sempre fazendo intercâmbios em seus modos narrativos. Muitos dos depoimentos e a bibliografia podem ser consultados no site Tiro de Letra. Quanto ao livro, encontra-se esgotado no mercado livreiro, mas disponho de alguns exemplares que podem ser adquiridos ao custo de R$ 25 reais (porte pago) através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXIII

Lula Cardoso Ayres

Luiz Gonzaga Cardoso Ayres nasceu em Rio Formoso, em 26/09/1910. Pintor, desenhista, ilustrador, cenógrafo, fotógrafo, programador visual e professor. Seu talento artístico surgiu na infância e foi incentivado pelo pai João Cardoso Ayres, um dos donos da Usina Cucaú e mais tarde (1930), junto com outros acionistas paulistas, da Companhia União dos Refinadores. Era conhecido na região como o “Rei do Acúcar”. Aos 12 anos estudou desenho e pintura com o artista alemão Heinrich Moser, cujo aprendizado foi fundamental em sua carreira.

“Considero muito importante tudo que aprendi, não como aluno, mas como ajudante do mestre Moser. Ele nos ensinava desde como se deve lavar um pincel, principal instrumento de trabalho do pintor, até as técnicas de pintura. Dizia-me sempre não entender um pintor de uma só técnica – o óleo, a aquarela, o guache ou o bico de pena. Mandava-nos fazer tudo, até pintar em vidro, retocar vitrais que então fazia. Esse meu período junto a Moser foi de 1922 até fins de 1924.”

Em 1925 foi morar em Paris, onde tomou contato com o movimento “Art déco” na Exposição Internacional de Artes Decorativas. Este movimento modificou radicalmente os rumos das artes decorativas e influenciou. Em 1930 retornou ao Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro. Frequentou, como aluno ouvinte, a Escola Nacional de Belas Artes, tendo como professores Rodolfo Amoedo e Carlos Chamberlland, que exerceram grande influência em sua obra. Pouco depois, conheceu Cândido Portinari, de quem se tornou amigo e discípulo. Abriu um ateliê no Bairro Laranjeiras e passou a exercer a veia artística em termos profissionais.

Por essa época, passou a se interessar, também, por cenários para teatro. Trabalhou na companhia de Procópio Ferreira, que lhe deu carta branca para suas criações. Em fins de 1932, com a crise do açúcar, voltou ao Recife a pedido do pai, para ajudar na administração da usina. Não se deu bem nessa atividade e passou a pesquisar a realidade regional, a fazer documentação fotográfica verificando tipos, cenas, costumes e incorporando a fotografia ao seu trabalho de desenho e pintura. Tal vivência lhe possibilitou uma estreita ligação com os temas locais No ano seguinte, já entrosado com os artistas do Recife, como Cícero Dias, passou a realizar exposições e agitar a vida cultural do Recife. Em 1934, participou da exposição de pintura do Congresso Afro Brasileiro, organizado por Gilberto Freyre, com quem fez amizade e recebeu influências “Realmente a obra dele, naquele tempo, abriu-me uma porta que ainda estava fechada, chamando a atenção para as coisas que estavam mais perto da gente. Para o conteúdo social…

Suas exposições individuais e coletivas se expandem para outras capitais do país e no exterior. Porém, em 1945 passou por alguns perrengues financeiros, e retornou ao Recife. Executou cerca de 100 painéis e murais em várias cidades; fez ilustrações para livros; fundou um curso de desenho para crianças e foi professor na Escola de Belas Artes da UFPE. A partir de 1950 sua produção volta-se para o abstracionismo, porém sem abrir mão da figuração. Tal mudança se dá com a participação nas primeiras Bienais de São Paulo, demonstrada nas telas Ex-Votos e Três Ex-Votos, que são exemplos da solução encontrada nessa fase, que trabalha sobre a figura para chegar a uma síntese.

Na década de 1960 seu nome é reconhecido em âmbito nacional com a amostra retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo, organizada por Pietro Maria Bardi. Seus trabalhos incorporam o figurativismo e o abstracionismo. Figuras do carnaval recifense, do frevo, maracatu, bumba meu boi e cortadores de cana são recorrentes em suas pinturas. Para Gilberto Freyre, “O que ele desejava era impregnar-se de povo, de região, de tradição… Nenhum pintor brasileiro de qualquer época, dentre os maiores, que tenha sido ou seja ao mesmo tempo tão moderno e tão da sua terra; tão da sua gente; e, ainda, tão sobrecarregado do que há de misterioso, de irracional, de espiritual na vida, no passado, nos sofrimentos, nas alegrias, nas esperanças, nas ansiedades dessa sua gente”.

Em 1978 sua obra é analisada no livro Lula Cardoso Ayres: Revisăo Crítica e Atualidadedo crítico de arte Clarival do Prado Valladares. Suas obras são expostas nos grandes museus do mundo. Em 1984, foi convidado pelo Metrô do Recife para pintar murais em suas estações, que se constituem em suas últimas obras. Faleceu no Recife, em 30/06/1987. Em 1993 foi criado o Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão dos Guararapes. Trata-se do único museu privado brasileiro dedicado a um único artista plástico. Seu acervo é constituído por mais 300 trabalhos entre pinturas, fotografias, ilustrações, trabalhos gráficos, e mais de 50 projetos de suas cenografias, painéis e murais.

POLÍCIA, POLÍTICA E JUSTIÇA NO BRASIL

As palavras “police’ e “policy”, não obstante a semelhança e origem comum, são distintas e os falantes da língua inglesa sabem bem disso. Como diz o ditado “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra”. No entanto, cá entre nós há uma certa confusão e uma mistura quanto ao sentido destas palavras, fazendo com se confundam no linguajar popular. O responsável pela confusão é o próprio Governo brasileiro e parte do povo interessada em misturar os conceitos. Por exemplo: uma manifestação publica de protesto ou reivindicação de direitos é um caso político. Mas quando os “Black box” encapuçados se misturam entre os manifestantes e começam o quebra-quebra de lojas, bancos e patrimônio público, trata-se de uma caso de polícia.

Veja-se o caso do “mensalão”. Se fizermos uma pesquisa de opinião publica para saber se o caso é de polícia ou política, dirão que é de politica porque ocorreu no âmbito do congresso nacional. Mas está claro que é um caso de policia, não importando onde ocorreu. Tanto é que a polícia prendeu algumas pessoas e uns poucos políticos, a justiça condenou-as e a política seguiu seu caminho. Depois veio o caso do “petrolão”, um prosseguimento em escala maior do “mensalão”, conforme as investigações confirmaram. Este caso ajudou mais ainda a embaralhar os conceitos, devido ao fato de envolver e prenderem mais políticos que o anterior. Ao final, o caso policial resultou num grande caso político: o impeachment da presidente da República. Isto reforçou o aspecto político e contribuiu bastante para que o caso ficasse na área política.

De novo, não importa onde o caso se deu. Roubo é roubo independente do onde ocorreu. A política prossegue com novo presidente, e quando tudo parecia estar se resolvendo surge um novo caso de polícia com o escândalo da JBF, o maior produtor de carne do mundo. Neste caso, o embaralhamento entre os conceitos de polícia e política ficou mais evidente. Quase todos os políticos foram corrompidos, fazendo dos atos políticos moeda de troca com empresários inescrupulosos. O caso está levando a um novo impeachment da presidência da República. Agora a confusão é total porque envolveu todos os partidos políticos. A polícia federal entrou em campo com a “Operação Lava-Jato”, prendeu muitos políticos e grandes empresários e a justiça foi solicitada a arbitrar uma saída.

Assim, o que se vê agora é o descrédito total da política, a proeminência da polícia prendendo políticos e empresários e a Justiça se equilibrando numa corda bamba na busca de uma saída para a crise generalizada que assola o País. Para completar o quadro sombrio que se apresenta, a população ou grande parte dela está confusa e se digladiando entre si diante dos casos de polícia, confundindo com política. Mas porque a Justiça está numa “corda bamba”? Por que infelizmente ela tem um viés político. Os magistrados são indicados por políticos, e desse modo voltamos ao inicio do problema. Quanto a polarização do povo dividido no julgamento dos casos sem saber se é um caso de polícia ou política, a confusão tem se agravado ainda mais, devido ao comportamento de alguns políticos querendo resolver o problema fora da arena política ou da Justiça.

Agora há pouco, em 29 de maio, num evento organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de formação do Partido dos Trabalhadores, um seminário intitulado “Estado de Direito ou Estado de Exceção” (divulgado aqui em 7 de junho) o senador Roberto Requião conclamou a plateia: “o que estamos esperando para cruzar o rio, para jogar a cartada decisiva de nossas vidas? Senhores e senhoras, universitários aqui presentes. Convençam-se. Não há mais espaço para a conversa e para os bons modos”. A deputada Benedita da Silva foi mais explicita em sua conclamação: “Quem sabe faz a hora e faz a luta. A gente sabe disso. E na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção. Com a luta e vamos à luta, com qualquer que sejam as nossas armas”.

Como se vê, até a Bíblia foi invocada para justificar a insanidade dos políticos. E aí estamos diante de um caso de polícia ou de política? Creio que o caso está mais nas mãos da Justiça. Mas esta também não se fez presente, e assim vamos tocando o barco não se sabe para onde

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXII

Osman Lins (1924-1978)

Osman da Costa Lins nasceu em Vitória de Santo Antão, em 05/071924. Escritor, poeta, ensaísta e dramaturgo. Perdeu a mãe aos 16 dias, em decorrência de um parto complicado. Como ela não deixou fotografia, ele passou a vida procurando construir o rosto inexistente. “Isso configura a minha vida como escritor, pois parece que o trabalho do escritor, metaforicamente, seria construir com a imaginação um rosto que não existe. Isso talvez tenha me conduzido a suprir de algum modo, através da imaginação, essa ausência.” Assim, a fotografia constitui-se num fator que aparece em vários momentos de sua obra.

Foi criado pela avó e, principalmente, pela tia casada com Antônio Figueiredo, caixeiro-viajante, de quem o menino ouvia narrações de suas viagens, e que despertou-lhe o gosto de narrar e o fez escritor. “Foi ele o meu primeiro livro, meu iniciador na arte de narrar, assim como Totônia foi a primeira influência literária de José Lins do Rego. Com a diferença de que as suas histórias não falavam de princesas ou dos Doze pares de França. Mas dos homens que conhecia e do chão onde pisava. Foi a ele, e não a um escritor, que procurei imitar, quando – tateando o meu destino e dando o passo inicial no que viria a ser, mais tarde o projeto central da minha vida – esbocei as primeiras narrativas.”

Sua ligação com o pai, Teófanes da Costa Lima, alfaiate se dá de modo mais distante, porém não menos afetiva. Mais tarde publicará crônicas dedicadas ao dia do alfaiate e fará algumas reflexões sobre as relações entre o trabalho do escritor e do artesão: “Creio, assim, que o Dia do Alfaiate desaparecerá em breve do nosso calendário de comemorações. Desaparecem, com as alfaiatarias, oficiais como meu pai, que mantinham com as medidas e os riscos uma intimidade cheia de nobreza. É, com isto, a razão de ser da homenagem, já que os novos tempos mostram-se desdenhosos para com os oficiais delicados, cujo sentido não está em produzir muito e sim em produzir serenamente”.

Realizou os primeiros estudos no Colégio Santo Antão (1932-35) e no Ginásio de Vitória (1936-40). Aí teve como professor José Aragão, uma espécie de tutor de quem herdou o sentido da disciplina e discernimento na ordenação narrativa. Em 1941, mudou-se para Recife, onde passou a trabalhar como escriturário na secretaria de um Ginásio. Por essa época surge seu primeiro texto publicado no suplemento literário de um jornal do Recife: Menino mau e Fantasmas. Em 1943, passou no concurso para trabalhar no Banco do Brasil e deixou a literatura em repouso. No ano seguinte entrou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife.

Ao mesmo tempo em que estuda Economia, passou a escrever um romance por mais de dois anos. Concluiu-o mas não publicou; foi mais um exercício de escrita criativa exercido com apurado senso crítico. Em 1947 casou-se com Maria do Carmo, torna-se pai de três filhos e passa a escrever com regularidade nas horas vagas. Começou com contos, apresenta-os em concursos e obtém algumas premiações. Em 1951 intensifica a atividade literária fazendo parte do corpo de redação da revista “Memorandum”, da Associação Atlética do Banco do Brasil e colaborador do Suplemento Literário do Diário de Pernambuco. Participou, também, da produção e direção de programas radiofônicos culturais, na Rádio Jornal do Commércio, em Recife.

Por essa época vai se definindo o artesão da palavra, tendo seus livros premiados e aclamados pelo público: O visitante, lançado em 1955, recebeu o prêmio “Fábio Prado” e Os gestos, lançado em 1957, agraciado com o prêmio “Monteiro Lobato”, ambos em São Paulo. Neste mesmo ano publicou a peça teatral O vale sem sol, com a qual obtém destaque especial no concurso da Companhia Tônia-Celi-Autran. Com os contatos mantidos em São Paulo, passou a colaborar com críticas para o jornal “O Estado de São Paulo”. Em 1960, concluiu o curso de Dramaturgia na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, tendo como professores Joel Pontes e Hermilo Borba Filho, que veio a se tornar seu amigo.

Suas viagens ao Rio de Janeiro e São Paulo se intensificam, e tornam o escritor mais conhecido em âmbito nacional. Em 1961, ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa, passou seis meses em Paris. Enquanto isso, no Rio de Janeiro estreia sua peça Lisbela e o prisioneiro, recebendo o prêmio Concurso Cia. Tônia-Celi-Autran. No mesmo ano é publicado o romance O fiel e a pedra, premiado pela UBE-União Brasileira de Escritores. Sobre este romance, ele diz seu lançamento corresponde a uma “plataforma de chegada de saída”, encerrando uma fase de sua ficção em termos tradicionais.

Em seguida e em função de seu projeto literário, muda-se para São Paulo. Observa-se a concretização de um processo que já vinha se desenvolvendo internamente com grandes repercussões na sua vida familiar e na sua escrita. Dois anos após, concretiza-se a separação de sua esposa, que retorna ao Recife junto com as filhas. A partir de agora terá que trabalhar mais para manter a família distante. Lançou Marinheiro de primeira viagem, e passou a publicar contos nas revistas “Cláudia”, “Senhor” e “Vogue”, antecipando futuros capítulos de romances. Sua peça é encenada no Teatro Bela Vista.

O ano de 1964, dominado pela agitação política, é pródigo de acontecimentos: engajou-se na defesa da dramaturgia brasileira com artigos polêmicos na imprensa; sua peça premiada Lisbela e o prisioneiro é publicada em livro; sua fama de intelectual e militante cultural se estabelece; casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. Em 1966, publica Nove novena e dá inicio a outra fase de sua ficção: uma construção estrutural rigorosa, em que se aliam precisão e fantasia, prosa e poesia, reflexão e estória. Tais inovações poéticas atraem o olhar da crítica, que ressaltou sua dimensão política sem fazer concessões à literatura engajada. Ainda em 1966, é publicado, no Recife, seu livro de ensaios Um mundo estagnado. Em 1967, passou a publicar regularmente no jornal “A Gazeta”, de São Paulo.

Em 1969 lançou Guerra sem testemunha: o escritor, sua condição e a realidade social, um ensaio onde faz uma reflexão sobre o ofício do escritor. No ano seguinte, aposentou-se do Banco do Brasil e passou a dar aulas de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília. Ao mesmo tempo em que leciona, realiza o curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo e começa a escrever seu romance mais conhecido e enigmático: Avalovara. Em 1973 defendeu seu doutoramento, com a tese Lima Barreto e o espaço romanesco, que será publicada em 1975. Desiludido com o ensino e o desinteresse dos professores e alunos pela literatura, afastou-se do ambiente universitário e passou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Desde então, passou a colaborar com mais frequência com o Suplemento Literário d’ O Estado de São Paulo e escrever roteiros para a televisão.

Em 1975 deu-se o lançamento de Avalovara, seu livro mais importante, um romance que propõe um complexo jogo de leitura, cuja narrativa é uma obra de engenharia, construída a partir de um palíndromo dentro de uma espiral onde vão sendo desenvolvidos todos os capítulos do livro. O livro é o ponto de chegada de suas inovações narrativas, causando certo alvoroço no meio da crítica literária e certa estranheza no público. Tais experimentos literários são compartilhados com sua esposa, também escritora, com quem escreveu a quatro mãos o livro La Paz existe? a partir de uma viagem que fizeram ao Peru e Bolívia.

Em 1977 e no ano seguinte são publicados vários trabalhos na área do romance, do teatro, do ensaio, roteiros, casos especiais para a TV e até livro infantil (O diabo na noite de Natal). Tais atividades não o desviam da preparação do seu próximo romance: Uma cabeça levada em triunfo. Mas não pode concluí-lo. Surgem os sintomas de um câncer decorrente de um melanoma tardiamente diagnosticado, vindo a falecer aos 54 anos, em 08/07/1978. Foi um escritor “aberto à experimentação, afeito aos vôos e riscos, avesso à repetição dos caminhos conhecidos”. Em 2013, sua filha Angela Lins, junto com outros apreciadores de sua obra, criou o Instituto Cultural Osman Lins, no Recife, com a missão de resgatar a memória, conservar o acervo, criar um espaço para eventos, conceder bolsas de estudos, reeditar os livros e divulgar a obra do escritor.

Concluindo, vale repetir sua última declaração, publicada no Jornal do Comércio, de 16/07/1978: “Como diz T.S. Eliot num de seus poemas, ‘Para nós há somente tentativa. O resto não é de nossa conta.’ Desde a minha estreia com O Visitante, até a publicação, agora, de A Rainha dos Cárceres da Grécia, venho dando o melhor de mim mesmo à literatura, procurando realizar uma obra tão alta quanto permitam as minhas forças. Isto é o que posso fazer e o que tenho feito. Só posso ter certeza, portanto, de que a minha é uma contribuição séria. Quanto á sua importância, dentro do romance brasileiro, não me compete julgar. Mais: a qualidade da obra ‘não é da nossa conta’. Só podemos fazê-la bem: mas fazê-la bem não decorre de uma intenção, de um ato da nossa vontade. (baseado no site do autor: Osman Lins 

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 2

Como você escreve? Como se dá a criação literária? Como procede ao escrever? São perguntas tão recorrentes nas entrevistas com os escritores quanto a “Por que escrever?” desvendada aqui domingo passado (clique). O fato me levou a coligir, do mesmo modo, as respostas à esta pergunta. Deixemos a filosofia (Por que?) de lado e partamos para o pragmático ”Como?” Cheguei até a encontrar pesquisas anteriores, como na primeira pergunta, sobre o assunto. Em 1932, o crítico francês Georges Charensol decidiu perguntar aos seus colegas escritores como se dava o processo da escrita e reuniu as respostas no livro Comment ils écrivent, publicado na coleção “Histoire Littéraire”, da Éditions Montaigne.

Ele reuniu 50 respostas de ilustres escritores da época, entre os quais encontram-se alguns famosos até hoje: Paul Valéry, Jean Cocteau, Collete, François Mauriac, André Maurois e Georges Simenon. No momento meu levantamento conta com mais de 300 respostas. Reuni umas 100 de autores mais conhecidos e publiquei o volume 2 da série “Mistérios da criação literária, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Os livros desta série podem ser consultados no meu site Tiro de Letra Dos seis volumes editados, este foi o mais procurado pelos leitores e o mais vendido nas livrarias.

Imagino que algumas pessoas confundiram-no com um livro de auto-ajuda ou manual de escrita criativa. Uma moça chegou a me perguntar se era isso mesmo, se o conteúdo ensinava como escrever. Respondi que não; que o propósito foi reunir muitos escritores dizendo como eles procedem ao escrever. Ela vendo tantos procedimentos, quem sabe, poderia encontrar algum mais conveniente ao seu modo.

De fato, as respostas são as mais diferentes possíveis, conforme assinalou Ignácio de Loyola Brandão na introdução: “Cada um tem um processo, um método, um sistema, uma idiossincrasia, uma superstição e muitas manias”. Conta-se que tem alguns escritores que gostam de escrever nus; e outros têm como hábito escrever em pé. Mas isto é folclore ou fofoca e, de qualquer modo, não são estes aspectos que motivaram a pesquisa. O que motivou a empreitada foi “encarar o aspecto instrumental da palavra. Ou, visto de outro ângulo, os modos como o escritor utiliza o aparato necessário ao registro do texto, enquanto elabora o parto da criação”, nas palavras de Fábio Lucas, o prefaciador do livro.

O escritor Bernardo Ajzenberg faz uma advertência e uma conclusão pertinentes na orelha do livro: “Não estamos diante de um relatório médico protocolar ou de um inventário frio das atividades profissionais de uma determinada categoria social. Tampouco diante de um estudo psicológico… A graça e o mérito de um levantamento tão minucioso como o que o presente livro nos apresenta estão justamente em propiciar ao leitor o saudável exercício de distinguir, à luz de tão curiosos depoimentos, a realidade do método e dos instrumentos do trabalho artístico existente por trás dos possíveis filetes de invenção”.

Entre as respostas encontramos algumas interessantes, como a de Juan Rulfo: “No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o vôo. Quando você achar que chegou aonde queria é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito”; ou Vladimir Nabokov: “O esquema vem antes da coisa. Preencho os claros da palavra cruzada, em qualquer parte, com toda liberdade. Anoto os trechos em fichas, até terminar o romance. Meu esquema é flexível, mas sou bastante exigente quanto a meus instrumentos de trabalho: fichas de cartolina com pauta e lápis bem apontados, macios, com borracha”; ou Moacyr Scliar: “Às vezes faço anotações. Mas isso é uma fraqueza. É melhor não anotar nada. A ideia verdadeira persegue o escritor. Este, aliás, é um bom teste: não escrever de imediato. Se a ideia for boa, legítima, ela reaparece sempre”.

Como material suplementar propiciando um aprofundamento no tema, inclui uma bibliografia com resumos de 18 livros referentes ao assunto. Os interessados em saber mais algumas repostas, podem consultar o site citado. O livro atualmente se encontra esgotado no mercado livreiro, mas ainda disponho de alguns exemplares, e os interessados em sua aquisição ao custo de R$ 25 reais (porte pago), podem entrar em contato através do e-mail: literacria@gmail.com 

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXI

Moacir Santos (1926-2006)

Moacir José dos Santos nasceu em 26/07/1926, em São José do Belmonte. Compositor, maestro, arranjador e multi-instrumentalista. É considerado como um dos principais arranjadores, que renovou a linguagem da harmonia na música popular brasileira. Órfão de pai e mãe aos 3 anos, foi morar com a madrinha em Flores do Pajeú. Desde cedo sua brincadeira predileta era imitar a banda de música da cidade, com seus amigos, utilizando-se de latinhas e pífanos. Não perdia os ensaios da banda e foi aprendendo a tocar todos os instrumentos. Aos 10 anos já se aventurava na trompa, saxofone, percussão, clarineta, violão e banjo, até que foi incorporado aos 14 anos como clarinetista da Banda Municipal.

Em seguida fugiu de casa e fez uma peregrinação por diversas cidades do sertão, sempre tocando em bandas municipais até 1943, quando foi trabalhar na Rádio Clube do Recife, e se apresentava num programa comandado por Antônio Maria. Em 1944 foi para João Pessoa para cumprir o serviço militar. No exército foi logo acolhido na banda marcial. No ano seguinte ingressou na Rádio Tabajara da Paraíba como saxofonista solista. Foi aí que conheceu sua futura mulher Cleonice Santos. O casal decidiu tentar a vida no Rio de Janeiro, em 1948, e logo foi contratado pela Rádio Nacional, onde trabalhou por 18 anos, como maestro. A Direção da casa, não botando fé naquele negrinho, pediu ao maestro titular Chiquinho para explicar como havia sido feito o teste com o jovem maestro e ouviu a seguinte explicação: “O teste foi para nós, senhor diretor. Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Entretanto, ele colocou umas músicas para nós e nós não as tocamos”.

Em abril de 1949 nasceu o único filho do casal e no mesmo ano ele decidiu estudar regência. Ingressou no curso do maestro Guerra Peixe, um dos mais importantes do País. Depois, em busca de uma formação mais sólida e diversificada ingressou no curso do maestro alemão Hans-Joachim Koellreuter, precursor do dodecafonismo no Brasil, de quem se tornou assistente. O curso era de 5 anos, mas ele atingiu a excelência em 3 anos em todas as disciplinas. Em 1954 foi trabalhar em São Paulo, contratado como diretor artístico da TV Record. Ficou apenas dois anos e retornou ao Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como assistente de Ari Barroso nas gravadoras Copacabana e Rozenblit. Em seguida, passou a dar aulas e ficar famoso como professor de gente muito talentosa como Paulo Moura, Carlos Lyra, Flora Purim, Oscar Castro-Neves, Baden Powell, Maurício Einhorn, Sérgio Mendes, João Donato, Roberto Menescal, Nara Leão, Dori Caymmi e Airto Moreira entre outros. Com esse time de alunos é que ficou conhecido como “Patrono da Bossa Nova”.

Foi parceiro de Vinicius de Moraes, que o homenageou na canção Samba da benção: “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos/como este meu Brasil de todos os santos”. Baden Powell também não economizava em elogios: “Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas sabedorias”. Prestigiado pelos grandes músicos, teve seu primeiro álbum solo gravado pela lendária gravadora Forma, em 1965, intitulado Coisas. Perguntado por que escolheu esse nome, respondeu: “Os compositores eruditos chamam suas músicas de ‘opus’. Desejei ser um compositor erudito, mas não ousei. Então, ‘coisas’ é minha tentativa de ser um deles”. Foi também procurado pelos cineastas para fazer trilhas sonoras para filmes tais como: Love in the Pacific, Seara vermelha, Ganga Zumba, O santo médico, Os fuzis etc.

Em 1967 foi convidado para a estreia mundial do filme Amor no Pacífico, e decidiu fixar residência em Pasadena, Califórnia, onde passou a viver compondo trilhas para o cinema e ministrando aulas de música. As condições de vida de um músico negro aqui eram bem mais desfavoráveis do que nos EUA, onde teve seu valor devidamente reconhecido. Lá chegou a gravar mais três discos, considerados clássicos: Maestro (1972), Saudade (1974) e Carnival of the spirits (1975). Passou a visitar o Brasil esporadicamente seja para apresentações ou para receber homenagens. Em 1985, abriu junto com Radamés Gnattali, no Rio de Janeiro, o I Free Jazz Festival. Em 1996, foi condecorado pelo Presidente Fernando Henrique com a comenda da Ordem do Rio Branco. No mesmo ano, foi homenageado no Brazilian Summer Festival, em Los Angeles. Nos EUA, o tropetista Wyinton Marsalis chamava-o de “Mestre”.

Entre suas composições mais célebres estão Nanã (com Mario Telles), Menino travesso, Triste de quem, Se disser que sim (com Vinicius de Moraes) e Coisa nº 5. Em 2001 sua obra foi relançada no Brasil, através do álbum Ouro negro, com arranjos e produção de Mario Adnet e Zé Nogueira e participações especiais de Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, Ed Motta, João Bosco, João Donato etc. Em 2005 foi lançado um DVD com um show da “Banda Ouro Negro” e um disco, pela gravadora Biscoito Fino, com algumas músicas inéditas do inicio de sua carreira, intitulado Choros & Alegria. Em julho de 2006 foi agraciado com o Prêmio Shell de Música. Dois meses após faleceu, em 06/08/2006.

Havia a intenção de publicar uma autobiografia, mas não foi possível. Porém entre os manuscritos encontra-se uma declaração sobre suas intenções como compositor: “Procuro dar-lhes (às composições) caráter essencialmente moderno, bem atual. Espero criar algo absolutamente pessoal – e para isso estou dando o melhor dos meus esforços. Esforços de quem quer vencer, criar. Eu sou um africano nascido no Brasil. Há 500 anos, eu fui trazido para o Brasil nos genes de meus ancestrais. Sonho em fazer minha música para um aspecto que não se enquadra na poética popular do ‘pintar um quadro diferente’. Na música popular o ritmo é constante, é uma diferença. Eu sinto a falta, quando estou embrenhado em música sinfônica, sinto falta daquele ritmo que é o meu berço. Vou ter que achar um jeito de que os instrumentos façam minha percussão, que eu fique satisfeito. Pois bem, esse é meu sonho não realizado.”

A musicista e pesquisadora Andrea Ernest Dias realizou uma pesquisa de fôlego sobre o músico e sua obra, objeto de sua tese de doutoramento. A tese resultou na biografia que ele não conseguiu realizar, publicada em 2014 pela editora Folha Seca: Moacir Santos, ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro. Em agosto de 2016, a revista “Continente”, publicada pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco, publicou uma alentada reportagem em comemoração aos 10 anos de morte do maestro e anunciou alguns projetos de resgate de sua música. Pelo menos em seu estado natal ele pode ser reconhecido; só está faltando ser descoberto pelo Brasil.

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA

Semana passada falamos de jornalismo e literatura, e disse que venho pesquisando há anos sobre os mistérios da criação literária. Pediram-me para falar mais sobre isso, sobre o que tenho encontrado. Pois bem, vamos lá. Comecei na década de 1980 procurando respostas à pergunta: Por que escrever? insistentemente feita aos escritores em suas entrevistas. Cheguei a encontrar mais de 700 respostas. Realizei um levantamento bibliográfico sobre o tema, anexei mais de 100 respostas e publiquei o livro “Por que escrevo?”, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, em 1999. O livro foi distribuído nas bibliotecas públicas de todo o Estado.

Anos depois, em 2007, a mesma secretaria patrocinou uma 3ª edição do livro juntamente com outros 4 volumes, numa série que dei o título de “Mistérios da criação literária”. Todos estes livros podem ser vistos e consultados no site Tiro de Letra. As respostas à pergunta Por que escrevo? são tão inusitadas quanto diferenciadas entre os escritores. Tem até uma que me convenceram a não incluir no livro e hoje me arrependo por isso. É a resposta de Ivan Lessa: “A gente escreve para ficar famoso, comer uma mulher ou ganhar dinheiro”. Quem lhe perguntou foi uma jornalista e não sei dizer se ele conseguiu seu segundo intento.

A variedade de respostas é grande, conforme assinalado pelo saudoso Daniel Piza na introdução do livro: “É curioso notar os mais diversos tipos de respostas. Há os que desconversam, os que justificam, os que sentimentalizam, os que racionalizam, os que tergivessam – há, enfim, os que aumentam e os que diminuem sua própria atividade. A resposta final deve estar em algum lugar na soma de todas estas, ou em seu intervalo”. O livro ficou no mercado livreiro até poucos anos atrás e se encontra esgotado. Em fins do ano passado sou surpreendido pela sua inclusão na Cátedra UNESCO de Leitura, que elaborou um consistente resumo transcrito a seguir:

“O livro apresenta seis divisões. Todas orbitam na tentativa de explicar o porquê se escreve. Prefácio, introdução, apresentação e princípios antecedem aos cento e dezesseis depoimentos, em ordem alfabética, extraídos de livros ou de entrevistas de vários autores nacionais e estrangeiros. Segue-se uma minibiografia dos depoentes após cada réplica, que, às vezes, não é a resposta à pergunta “Por que escrevo?” é um trecho colhido de fontes ficcionais ou não que sacia, em parte, a curiosidade do leitor. Os testemunhos dos escritores revelam alguns traços comuns passíveis de serem sintetizados: “a escrita surge como uma resposta possível aos mistérios, a certas cenas e a emoções inexplicáveis; escrever para desconcertar o maior número possível de pessoas; escreve-se por prazer, para “ordenar os fatos que a gente observa e dar sentido à vida e, juntamente com isso, há o amor pelas palavras por si próprias e pelo desejo de manipulá-las”; escreve-se por pura vaidade, por catarse para viver; escreve-se em busca da imortalidade, em busca da compreensão do mundo. Com diferenças de vida, de estilo, de época, escrever move a vida, concede leituras do mundo, permite diálogos inumeráveis.

Como um ato a mais, o organizador apresenta uma bibliografia comentada, espaço em que, José Domingos de Brito, como num prólogo, discorre sobre alguns conceitos atribuídos à bibliografia e explica o seu denominado estado da arte: “buscar o que existe sobre o assunto”. Vinte oito autores, expostos de forma cronológica, escrevem sobre livro, leitor, autor, escritura e temas afins. Escrever é uma tarefa que muitos perseguem, nem tantos conseguem, mas que unge o criador de poderes. Em outras épocas, depois do ato da escrita, vinha a árdua tarefa de procurar uma editora para que a obra chegasse ao leitor. Hoje, com a Internet e com os meios que propiciam a postagem gratuita de textos de famosos e de anônimos, todos podem lançar na tela sua criação. Ainda mais: caso o texto se espalhe como um vírus, caia no gosto dos internautas, esteja nos sites de relacionamento, o novato escritor, a despeito da ausência ou presença do talento, terá seu texto lido/olhado por muitos. Livros teóricos são comentados/recomendados e mostram os olhares vários dos autores sobre a arte/a profissão de escrever. De Shopenhauer (1851), José de Alencar (1893) a Fernando Sabino, Mário de Andrade (2003), Margaret Atwood (2004), há um bom material aberto à consulta para os que desejam escrever ou para os que almejam entender o que move a escritura. Há conselhos, como os de Shopenhauer e Antônio Albalat: “Dizer muitas palavras para comunicar poucas ideias é sempre um sinal inequívoco de mediocridade”. Ambos são enfáticos na defesa do estilo claro, simples, sem rodeios. Sartre trata o assunto com vigor lítero-filosófico e sentencia que “a leitura é criação redigida”, pois a escrita “só pode encontrar seu acabamento na leitura” ao leitor, portanto, é confiada a tarefa de concluir de múltiplas formas o que o escritor começou. Depois da fala dos que são do ofício, o organizador acrescenta dois textos sobre temas transversais: Olvidos misteriosos e Um invento editorial. O livro – Por que escrevo? – cumpre sua missão, principalmente aponta novas leituras cuja faina é mostrar a pluralidade dos autores e a diversidade de razões que os fazem traduzir/inventar a vida na escrita”.

Próxima semana falaremos do vol. 2 – Como escrevo?, contendo também muitos mistérios. Ainda disponho de alguns exemplares e os interessados em adquiri-lo ao custo de R$ 25 reais (porte pago) podem entrar em contado através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XX

José Ermírio de Moraes (1900-1973)

José Ermírio de Moraes nasceu em Nazaré da Mata, em 21/01/1900. Engenheiro, político, administrador e um dos maiores empreendedores brasileiros do século 20. Transformou uma pequena tecelagem em Sorocaba num conglomerado de empresas: o Grupo Votorantim. Filho de Ermírio Barroso de Morais e Francisca Jesuína Pessoa de Albuquerque Morais, uma família tradicional de usineiros pernambucanos. Concluiu os primeiros estudos no Recife e foi estudar engenharia na conceituada Colorado School of Mines, USA, onde foi diplomado em 1921.

Numa viagem pela Europa, conheceu o português António Pereira Inácio, que o convidou para trabalhar em sua fábrica de tecidos “Votorantim”, em Sorocaba, quando retornasse ao Brasil. Convite aceito, migrou de Pernambuco para São Paulo em dezembro de 1924, e passou a se dar muito bem com a família portuguesa. Deu-se tão bem que se casou com sua única filha, Helena. Comprou as ações da fábrica de tecidos, e em 1925 passou a dirigir a Sociedade Anônima Votorantim. A partir daí foi se consolidando como líder empresarial e fundou, junto com outros empresários, o CIESP-Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, em março de 1928.

Em 1931, o presidente Getúlio Vargas criou uma estrutura sindical ligada ao governo. Assim, o CIESP teve o nome alterado para FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Só mais tarde, em 1939, os empresários conseguiram permissão para montar uma sociedade civil vinculada à FIESP. Desse modo, voltou a existir o CIESP com as finalidades originais, porém adaptadas ao momento. Hoje as duas sigas se confundem numa mesma instituição.

Nas eleições presidenciais de março de 1930, a classe empresarial paulista apoiou a chapa encabeçada por Júlio Prestes, vencedora do pleito. No entanto, em outubro irrompeu a revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Os paulistas, contando com uma forte classe empresarial, não admitiram o Governo Provisório de Vargas e como consequência eclodiu, em julho de 1932, a Revolução Constitucionalista disposta a derrubar o Governo de Vargas. Ermírio de Moraes seguiu a maioria dos empresários e participou ativamente do movimento. Derrotados, assinaram um armistício com o governo federal, em 2 de outubro de 1932.

Dessa época em diante o que se vê é um estupendo crescimento da Votorantim, com uma grande diversificação das atividades industriais. Em 1933 iniciou a construção de sua primeira fábrica de cimento, inaugurada em 1936. No ano seguinte, foi criada a Companhia Nitro Química Brasileira, que passou a produzir seda artificial e fortaleceu substancialmente a indústria têxtil. Em seguida partiu para o setor siderúrgico e criou a Companhia Siderúrgica Barra Mansa. Em 1941, incrementou o setor com a criação da Companhia Brasileira de Alumínio e, em 1957, adquiriu o controle da Companhia Brasileira de Metais.

Em meados da década de 1950, passou a se interessar por política e, animado com o desempenho de Jânio Quadros no governo de São Paulo, ajudou no financiamento de sua campanha à presidência em 1960. Em junho de 1961, foi convidado pelo govenador Carvalho Pinto para dirigir a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Em 1962 ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro, concorrendo ao Senado por Pernambuco. No mesmo pleito, financiou a candidatura de Miguel Arraes ao governo de Pernambuco, apoiado pelas esquerdas e pelos nacionalistas. Ambos foram eleitos.

Diante da efervescência política na época e a volta ao presidencialismo, João Goulart, ao constituir seu ministério em janeiro de 1963, nomeou-o para o Ministério da Agricultura. Sua primeira medida foi a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, para regular as relações de trabalho entre os fazendeiros e o trabalhador rural. Em junho de 1963 foi substituído no Ministério e voltou a ocupar sua cadeira no Senado. Com o golpe militar de 1964, foi eleito presidente nacional do PTB, em maio de 1965 e permaneceu no cargo até outubro, quando todos os partidos foram extintos pela ditadura. Com a instituição do bipartidarismo, filiou-se ao MDB-Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição consentida pelos militares. Em 1970 tentou reeleger-se senador por Pernambuco, mas não conseguiu e abandonou a vida política.

Por essa época a direção do Grupo Votorantim já se encontrava sob o comando dos filhos Antônio Ermírio de Moraes e José Ermírio de Moraes Filho. Na história econômica do Brasil ele é um das personalidades mais representativas, que buscou a auto-suficiência no mercado nacional e diversificou a indústria na cidade de São Paulo, que se confunde com a industrialização brasileira. Veio a falecer em 09/08/1973. Em 2009 o Senado Federal criou o Diploma José Ermírio de Moraes, outorgado anualmente como reconhecimento aos empresários de destaque que contribuíram para a economia nacional e o progresso do país.

LITERATURA E JORNALISMO

Semana passada falamos sobre jornalismo literário (clique aqui) e hoje vamos falar de literatura e jornalismo. Começamos a história pelo final, pois jornalismo literário é o resultado das relações entre literatura e jornalismo. Tais relações iniciaram com a invenção da imprensa (que não por acaso é sinônimo de jornalismo) e vêm se intensificando até hoje, quando o jornalismo se tornou um gênero literário. Assim, jornalismo literário pode ser visto como o ápice de um relacionamento secular entre as duas áreas que foram separadas por volta do século XIX, ao ponto de se tornarem totalmente autônomas.

Essa autonomia se observa há mais de um século, quando o jornalista francês Jules Huret, em 1891, realizou uma pesquisa, entrevistando 64 escritores com algumas perguntas sobre as diferenças e semelhanças entre o jornalismo e a literatura. A pesquisa – Enquête sur l’évolution littéraire – foi reeditada em 1999, em Paris, pela Librarie José Corti. Cá entre nós, João do Rio, certamente tomou conhecimento dessa pesquisa, pois em 1904 realizou um estudo, entrevistando 36 dos principais intelectuais brasileiros para saber se a atividade jornalística atrapalhava ou ajudava quem quisesse a se dedicar à literatura, e publicou-o sob o título O momento literário, pela Livraria Garnier.

A mesma pesquisa foi retomada 100 anos depois através de uma tese de doutorado, realizada por Cristiane Costa, e publicada no livro Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904-2004, editada pela Companhia das Letras, em 2005. Ela quis saber como os novos autores responderiam à pergunta formulada por João do Rio, e para isso desdobrou a pergunta em 13 outras, tais como: “Pretendia ser escritor quando entrou no jornalismo?”. “A linguagem dos jornais oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia o texto literário?”. “A profissionalização através da imprensa permite a sobrevivência financeira do escritor ou o afasta de seu caminho?”. “Até que ponto a obra literária é influenciada pela atividade jornalística?”.

Por essa época eu vinha pesquisando os mistérios da criação literária, sem me dar conta destas pesquisas. Mas já tinha obtido uma resposta de Ernest Hemingway à pergunta feita por João do Rio: “O trabalho de jornal não prejudica um jovem escritor e poderá mesmo ajuda-lo, se ele sair a tempo”. Com isso, fiquei motivado a fazer um levantamento das respostas de diversos escritores referentes às relações ente literatura e jornalismo. Obtive mais de 100 respostas, realizei uma bibliografia sobre o assunto e publiquei o livro Literatura e jornalismo: coletânea de depoimentos célebres e bibliografia resumida, pela editora Novera, em 2007.

As respostas são muito diversificadas. Exemplos: Gustave Flaubert: Considero uma das felicidades de minha vida não escrever nos jornais; isso prejudica a minha bolsa, mas faz bem à minha consciência” José Saramago: “Fui jornalista durante uns três anos. Numa vida tão longa três anos é quase nada… Foi quando, em 1975, deixei o jornal e me dediquei inteiramente ao trabalho literário. O jornalismo não preparou o escritor” João Antonio: “Eu nunca deixei de ser escritor, o que existe é o incrível preconceito entre escritores e repórteres…”. Mempo Giardinelli “Meu lema é: proibido ‘literalizar’ o jornalismo; proibido ‘jornalizar’ a literatura. São dois códigos diferentes. E me alegra que sejam diferentes. Gilles Lapouge: “Eu tinha tendência ao lirismo e à frase rebuscada. As obrigações do jornalismo me ensinaram a escrever, a tomar as coisas mais de perto e me obrigaram ao exercício de uma certa humildade”.

Quem quiser saber quais escritores responderam à pergunta, basta consultar o site Tiro de Letra onde abrimos algumas respostas. Os interessados em adquirir o livro, ao custo de R$ 20 reais (com porte pago), podem entrar em contato pelo e-mail: literacria@gmail.com.br ou através do site.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XIX

Solano Trindade (1908-1974)

Francisco Solano Trindade nasceu no Recife, em 24/07/1908. Poeta, teatrólogo, ator, pintor, pesquisador do folclore e um dos principais fundadores da cidade de Embu das Artes, na área metropolitana de São Paulo. Antes dele era apenas Embu e não figurava no roteiro turístico paulistano. Com sua chegada teve as artes agregada ao nome. De origem humilde, com o pai sapateiro Manuel Abílio Trindade e a mãe quituteira Dona Emerenciana, estudou no Recife até o segundo grau e participou, por um ano, do curso de desenho do Liceu de Artes e Ofícios. Compôs seus primeiros poemas, ainda jovem, em meados da década de 1920.

No inicio da década de 1930, passou a se interessar pela questão da identidade cultural dos negros e participou ativamente da organização do I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, em 1934, contando com o apoio de Gilberto Freyre. O lançamento do livro Casa Grande & Senzala, em 1933, é o mote para a realização do congresso. Pouco depois, em 1937, realizou o II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador. Logo, é um dos pioneiros na luta pelo reconhecimento dos negros como categoria social relevante, no Brasil.

No início da década de 1940, fez um périplo pelo Brasil, certamente na busca de um lugar para se fixar. Seguiu para Belo Horizonte e depois para o Rio Grande do Sul, onde fundou um grupo de arte popular em Pelotas. Em seguida retorna ao Recife, talvez para matar a saudade, e logo parte para o Rio de Janeiro, onde fixa residência em 1942. Seu primeiro livro Poemas de uma vida simples foi publicado em 1944, mas foi apreendido. Um dos poemas – Tem gente com fome – causou-lhe a prisão e posterior perseguição politica. Neste mesmo ano colaborou com seu amigo, o maestro Abigail Moura, no primeiro concerto da Orquestra Afro-Brasileira e fundou, junto com Haroldo Costa, o Teatro Folclórico Brasileiro.

Em 1945, ao lado de outro grande amigo, Abdias do Nascimento, constituíram o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, que veio a ser o braço político do Teatro Experimental do Negro (TEN), liderado por Abdias. Mesmo participando do TEN, em 1950 fundou junto com a esposa Margarida Trindade e Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Era um grupo sediado na UNE-União Nacional dos Estudantes, formado por estudantes, operários e domésticas, cuja temática e inspiração eram baseadas nas manifestações culturais brasileiras, como o bumba-meu-boi, caboclinhos, dança do coco, capoeira etc. Faziam uma adaptação para o teatro destas danças e músicas, que mais tarde resultou na criação do grupo de dança Brasiliana, e realizou inúmeras apresentações aqui e no exterior.

A militância politica se deu no Partido Comunista e sua casa transformou-se na célula “Tiradentes”, reunindo uma turma de intelectuais, jornalistas, artistas e escritores cariocas. Certa vez a polícia do governo Dutra invadiu sua casa à procura de armas. Não encontrando, levaram-no preso. Pouco depois foi solto com o espirito revigorado para continuar sua trajetória libertária

Em fins da década de 1950, decidiu transferir o TPB para São Paulo, aproveitando a intensa vida cultural da cidade. Fixa residência na cidade de Embu, para onde mudam-se também muitos de seus amigos. Lá já residia o escultor japonês Tadakiyo Sakai, com se afiliou e exerceram grande influência no desenvolvimento das artes na cidade. O que se vê em seguida é a transformação da pequena cidade num verdadeiro centro cultural e de artes a céu aberto. Viveu no Embu de 1961 a 1970 e lá o TPB teve sua melhor fase, com apresentações sempre muito concorridas. Entre 1958 e 1961 lançou mais duas antologias de poemas: Seis tempos de poesia e Cantares ao meu povo, ambos bem recebidos pela crítica e pelo público.

É consenso no meio da crítica literária que Solano Trindade foi o grande criador da poesia assumidamente negra. Há quem diga que seus poemas têm mais crítica social do que poesia propriamente dita, mas quem é do ramo, como Carlos Drummond de Andrade, disse que “há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”. Além das atividades literárias e nas artes plásticas, participou como ator em diversos filmes: Agulha no Palheiro (1955), Mistérios da Ilha de Vênus (1960), O Santo Milagroso (1966) e A hora e a vez de Augusto Matraga (1966).

Em 1970 a saúde começou a fraquejar. Teve uma pneumonia e arteriosclerose. Passou por diversos hospitais até falecer no Rio de Janeiro em 20/02/1974. Sua filha Raquel Trindade e os netos continuam sua obra em Embu das Artes, onde um teatro popular, uma escola e uma rua levam seu nome. No Rio de Janeiro foi criado em 1975 o Centro Cultural Solano Trindade e em 1976, em São Paulo, a Escola de Samba Vai-Vai desfilou com o samba enredo homenageando o poeta.

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JORNALISMO LITERÁRIO

Nem todos os escritores consideram o Jornalismo um gênero literário. André Gide, por exemplo, acha que jornalismo é uma coisa e literatura é outra. Entre nós, Alceu Amoroso Lima e Antônio Olinto defendem com veemência que trata-se de um gênero literário. Há, inclusive, quem acredite que Euclides da Cunha seja o pivô dessa polêmica. O crítico literário Marcelo Moraes Caetano afirma: “há quem torça o nariz para reconhecer o jornalismo como gênero literário, razão principal, aliás, pela qual muitos não dizem que ele foi jornalista, porque consideram que isso seria diminuir ou amesquinha sua grandiosidade”.

Independente dessa polêmica, o jornalismo literário é um gênero que vem se destacando desde meados do século passado. No Brasil ele aplicado exemplarmente com a revista Realidade, em 1966. Antes e depois disso, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolfe, entre outros, aplicaram-no com maestria nos EUA. No entanto Edvaldo Pereira Lima defende que o “New journalism” americano foi a manifestação de um momento do Jornalismo Literário. Isso quer dizer que o Jornalismo Literário, como forma narrativa, de captação do real, já existia antes e continua existindo após o New Journalism. Para confirmar esta afirmação, José Hamilton Ribeiro declarou que na redação da “Realidade” (1966) eles não tomaram conhecimento do que os norte-americanos estavam fazendo. Logo, o Jornalismo Literário no Brasil não foi influenciado pelos norte-americanos.

Quando verificamos que Os sertões (1902) foi escrito a partir das anotações de uma série de reportagens sob o título “Diário de uma expedição” publicada em agosto de 1897 n’O Estado de São Paulo, relatando os últimos dias de Canudos, veremos que Euclides da Cunha escreveu um romance de “não-ficção”, bem antes de Truman Capote, quando escreveu A sangue frio. Porém, não é um autor lembrado quando se fala de jornalismo literário, e neste sentido parece que Marcelo Moraes Caetano tem razão.

Logo após o curto período de “Realidade” surgiram diversas revistas onde as matérias eram pautadas sob a ótica do Jornalismo Literário: Ex- (1974) Versus (1975), Repórter (1978), Plural (1979), Careta (1980) entre outras. Em 1966, Marcos Faerman levou-o para o “Jornal da tarde”, um dos jornais que mais apostaram no Jornalismo Literário. Desse modo, a imprensa brasileira tem uma longa tradição nesta área, contando hoje com uma Academia Brasileira de Jornalismo Literário. No entanto e paradoxalmente, hoje temos poucas revistas e nenhum jornal que privilegia o jornalismo literário. Temos apenas algumas como a revista “Piauí” (São Paulo), “Continente” (Recife) e “Revestrés” (Teresina). O que aconteceu com o Jornalismo Literário? Com a palavra, os teóricos das comunicações.

PERNAMBUCANAS ILUSTRES XVIII

Bárbara de Alencar (1760-1832)

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/02/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Três de seus cinco filhos – José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves – também foram revolucionários (o primeiro era padre, político e jornalista, foi o pai do romancista José de Alencar). Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento.

No Crato, ela constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados a pé para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 600 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano (se tornaria senador em 1832)
O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas dotadas do sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Assim foi que Bárbara de Alencar se tornou a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, ainda se trava uma batalha pelo seu reconhecimento como heroína da História brasileira. Falecida em 18/08/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. Em Fortaleza, a partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome agracia três mulheres com a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Seu nome passou a denominar alguns logradouros; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos da história.

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RECIFE E MANHATTAN 2: AS TORRES GÊMEAS

Agora há pouco, em 19/03/2017 (clique aqui) eu e Paulo Mendes Campos reclamávamos aqui sobre o estrago que os altíssimos edifícios vêm fazendo no bairro de Boa Viagem, ao ponto de tapar o sol na praia às 16hs. Na ocasião eu apenas mencionei o caso das Torres Gêmeas sem me dar conta do tamanho do estrago que elas vêm fazendo no velho centro do Recife. Só depois fiquei sabendo que as torres impediram que o centro histórico do Recife fosse considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. As construtoras e o interesse mesquinho e imediato não vêm o benefício de termos dois patrimônios da humanidade, um ao lado do outro (Recife e Olinda).

Diante do fato e de sua gravidade, fui verificar como e porque se ergueram as torres. O caso se deu há mais de 12 anos, e desde o inicio foi envolto num clima de desconfiança começando já na licitação para aquisição do terreno onde as torres foram construídas. O noticiário da época informou que seu terreno foi a leilão sem que a empresa proprietária (Mesbla) tenha sido notificada, o que já se constitui numa grave irregularidade. O leilão marcado para o dia 24/03/2003 às 12h30, foi modificado para as 9h00 da manhã sem qualquer notificação oficial. Assim, apenas a empresa Moura Debeux apareceu como interessada no leilão. Outra dúvida levantada foi junto ao leiloeiro, João Dias Martins, na época com sua nomeação revogada. Junto a dúvida, levantou-se uma pergunta incômoda: como ele poderia ter sido o leiloeiro oficial?

Isto é apenas o inicio do “imbróglio“ que se alongará por mais alguns anos. A primeira causa contra as torres gêmeas começou em 2005. O alegado foi que aqueles prédios afetaram a visão de monumentos e a harmonia do conjunto arquitetônico da região. O MPF-Ministério Publico Federal ganhou a causa em primeira instância e a justiça determinou a demolição das obras. A causa prossegue em outras instâncias e em 2008 o TRF-Tribunal Regional Federal da 5ª Região reformou a sentença e liberou as obras.

A Procuradoria recorreu dessa decisão ao STJ-Superior Tribunal de Justiça. O caso foi distribuído ao então ministro José de Castro Meira, membro da primeira turma da corte. O ministro deu voto favorável à Meira Dubeux, acompanhado pelos ministros Luiz Fux e Denise Arruda. Um dos argumentos alegados foi o fato de o IPHAN não ter se oposto ao empreendimento.

O tempo passa devagar nos tribunais superiores. Assim, em 2011 o ministro do STJ Castro Meira foi o relator e deu voto favorável a construtora que mantinha negócio imobiliário com o filho dele, o advogado Marcos Meira. As torres gêmeas pode, então, crescerem à vontade. A controvérsia continua e no ano passado, em sinal de protesto, Kleber Mendonça, diretor do filme “Aquarius”, excluiu digitalmente as torres da imagem de uma cena aérea do cais de Santa Rita. Em termos jurídicos não sei em que ponto se encontra o imbróglio das torres. Mas sei que outro empreendimento ainda maior e mais devastador, ao lado dali, se encontra em andamento e que já mobilizou a população contra sua instalação. É o projeto de urbanização do Cais José Estelita, com previsão de 13 torres de 40 andares.

A construtora é a mesma das torres: a Moura Dubeux, e o projeto faz parte de um plano urbanístico maior denominado “Projeto Novo Recife”, que se estende até Olinda. Trata-se de um plano urbanístico eivado de irregularidades, protestos dos urbanistas e da população afetada. Não vamos entrar no detalhamento deste projeto agora, o espaço aqui é pouco para isso. Na Internet há uma considerável quantidade de dados e informações sobre o projeto.

Para concluir por enquanto – pois estou visualizando a necessidade de retomarmos o assunto – vejo que o processo de transformar o Recife numa Manhattan com todos seus defeitos, continua de vento em popa. Agora mesmo temos o projeto “Jardins de Aurora”, encabeçado pela mesma construtora Moura Dubeux, bem no centro do Recife. São duas torres de 42 andares, batizadas de Capibaribe e Beberibe. O projeto é semelhante ao das Torres Gêmeas e vem sendo apresentado como jóia rara do mercado imobiliário no Recife. Tal como nos projetos anteriores, os “Jardins de Aurora” vem sendo criticado pelos urbanistas. Até onde a “mania de grandeza” dos pernambucanos quer chegar? É preciso advertir estas construtoras e os adoradores de viver nas alturas que a nossa “mania de grandeza” refere-se aos ideais e não aos grandes edifícios.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XVII

Ascenso Ferreira (1895-1965)

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira Nasceu em Palmares, em 09/05/1895. Poeta integrante da Semana de Arte Moderna de 1922, que se destacou pela temática regional e folclórica de sua terra. Passou toda a infância em Palmares – conhecida como “Atenas Pernambucana” e Terra dos Poetas” – e aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe, Dona Marocas, professora. Ficou órfão do pai aos 6 anos e a família passou por alguns perrengues. Aos 13 anos, passou a trabalhar com o padrinho na bodega “A Fronteira”. Era balconista e teve um aprendizado indispensável ao futuro poeta, na lida com a freguesia em busca de uma quarta de carne seca, bicadas de aguardente, cuias de farinha e meias garrafas de querosene.

Aos 16 anos publicou seu primeiro poema – Flor fenecida – no jornal “A Noticia de Palmares”, e aos 21 fundou a sociedade “Hora Literária” junto com outros poetas da cidade. No ano seguinte, o rapaz que fora registrado como Aníbal Torres, resolveu ser poeta e mudou seu nome para Ascenso Ferreira. Por defender o abolicionismo e a cidadania, passou a ser perseguido politicamente. Por isso, não encontrava trabalho em sua cidade e teve que se mudar para o Recife aos 24 anos. Conseguiu um emprego de escriturário no Tesouro do Estado de Pernambuco e se meteu na boemia recifense. Passou a publicar seus poemas no “Diário de Pernambuco”. Era o poeta preferido dos alunos da Faculdade de Direito do Recife, que certa vez o obrigaram a recitar seus poemas no palco do Teatro Santa Isabel. Era dotado de um aguçado sentido de ritmo e seus poemas engraçados encantavam a rapaziada. Ele não fez faculdade alguma, dizia-se que ele “aprendeu sem se ensinar”.

Certa vez numa roda de conversa sobre as semelhanças entre o nordestino e o gaúcho, realçando a intrepidez e valentia, ele fez um versinho e recitou-o imitando o sotaque sulista:

Riscando os cavalos !
Tinindo as esporas !
Saí de meus pagos em louca arrancada !

Para que ?
Pra nada !

Na década de 1920 fez amizade com Luís da Câmara Cascudo, com o poeta Joaquim Cardoso, Souza Barros, Gouveia de Barros entre outros. Em 1921 casou-se com Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, mas o casamento durou pouco. Em seguida passou a participar do Movimento Modernista e publicou seu primeiro poema modernista intitulado Lusco-Fusco. Em 1927, incentivado por Manuel Bandeira, publicou seu primeiro livro: Catimbó. O livro foi um sucesso de público e crítica e logo saiu uma segunda edição, com lançamentos no Rio de Janeiro e São Paulo. Seus poemas ficam melhor quando recitados , o que ele fazia muito bem. Em São Paulo, deu um recital no Teatro de Brinquedos, sendo muito aplaudido, e fez amizade com vários intelectuais e artistas: Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Alvaro Moreira, Oswald de Andrade, Olívia Penteado, Afonso Arinos, Tarsila do Amaral.

Por essa época passou boa parte de seu tempo viajando pelo Brasil dando recitais. Numa dessas viagens, conheceu e tornou-se amigo do poeta chileno Pablo Neruda, que participava do Congresso de Escritores, em Goiás. Em 1939 publicou o segundo livro Cana caiana, com as ilustrações de Lula Cardoso Ayres. Nessa época, tornara a viajar para o Rio de Janeiro, onde conheceu Cândido Portinari, Sérgio Milliet, Osvaldo Costa, entre outras personalidades. No início da década de 1940, se aposentou como diretor da Receita do Tesouro do Estado de Pernambuco e veio a se apaixonar por uma jovem adolescente – Maria de Lourdes Medeiros – indo viver em sua companhia. Com ela teve uma filha, que passou a ser a grande preocupação de sua vida. Temia morrer antes de poder cria-la.

Em seguida preparou a edição de outro livro – Poemas e xenhehém -, que só pode ser lançado em 1951, incorporado à edição de Poemas, que foi o primeiro livro surgido no Brasil apresentando um disco de poesias recitadas pelo seu autor. Nesta edição foi incluído o poema O trem de Alagoas, musicado por Villa-Lobos. Em 1955 tomou gosta pela política e passou a trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência. Uma vez eleito, JK nomeou-o para dirigir o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Mas a nomeação logo foi cancelada devido a pressão de um grupo de intelectuais que não aceitaram no cargo um poeta irreverente com fama de boêmio. Deve ter pesado também no caso, o fato de ele não ser acadêmico. Mesmo assim, conseguiu ser nomeado assessor do Ministério da Educação e Cultura, onde passava todo mês para pegar o salário.

Em 1956 assinou um contrato com a prestigiada editora José Olympio, para uma nova edição de seus poemas. Pouco depois lançou um álbum duplo de discos com suas obras completas: 64 poemas escolhidos e 3 historietas populares, com apresentação de seu amigo Câmara Cascudo. Em 1963, a Editora José Olympio lançou Catimbó e outros poemas, seu último livro. A figura de Ascenso contribuía com o tipo brincalhão e amigo de todos. Gordo com quase dois metros de altura, vozeirão, chapéu de palha, suspensório e fumando um grande charuto, animava as rodas de amigos ou plateias. Manuel Bandeira descrevia-o assim: “Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama […] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos”. Luís da Câmara Cascudo também fez um retrato semelhante: “Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados”.

Tendo em vista o pouco conhecimento que temos do poeta, vale a pena colocarmos algumas opiniões relevantes sobre sua obra. Mario de Andrade: “Em numerosas passagens de ‘Cana caiana’ é tamanho o equilíbrio e a verdade da expressão lírica e formal, que se tem o sentimento muito firme da perfeição clássica”. Tristão de Athayde: “…um livro profundamente típico do Nordeste, de poemas do campo e do povo, que reflete a feição nativa, bárbara e localista do nosso modernismo: ‘Catimbó’ do sr. Ascenso Ferreira”. José Lins do Rego: “A poesia de ‘Catimbó’ a gente lê sempre e tem sempre vontade de ler outra vez. É uma poesia de verdade mais para o ouvido do que para os olhos. Daí o sr. Medeiros de Albuquerque, que é um homem surdo, não a perceber”. José Condé: “Ascenso Ferreira, incomparável como sempre, vate dos carrascais sertanejos, cantor dos engenhos e dos pastoris nordestinos, dos bêbados de feira, do trem de Alagoas e das velhas ruas do Recife”.

Numa avaliação crítica de sua obra, verifica-se ele iniciou a carreira com modelos poéticos tradicionais, compondo sonetos, baladas e madrigais. Só depois da Semana de Arte Moderna e sob a influência de Mario de Andrade, Joaquim Cardoso e Câmara Cascudo entre outros, é que sua poesia retorna aos temas regionais ligados aos engenhos, vaqueiros, cangaceiros, cegos violeiros, folguedos e das lendas populares. Além disso, a adesão ao modernismo implica também numa incorporação de recursos modernistas, como o aproveitamento poético da linguagem popular e o humor. Tal como Mario de Andrade em Macunaíma, ele gostava de ironizar a ética do trabalho numa referência a “preguiça inata” dos brasileiros: “Hora de comer – comer! / Hora de dormir – dormir! / Hora de vadiar – vadiar! / Hora de trabalhar? / – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!“. Acrescente-se aqui o aguçado senso de ritmo nos versos dedicados ao trem de Alagoas, quando passava por Catende e musicados por Alceu Valença: “Vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende / com vontade de chegar […]“. Mário de Andrade chegou a dizer que seu compromisso entre fala e musicalidade era tanto que “mais sistematização sonora seria diretamente música”.

Em 5 de maio de 1965, faltando apenas quatro dias para completar 70 anos de idade, o poeta faleceu no Hospital Centenário, no Recife. Em sua homenagem e agradecimento, a Prefeitura ergueu seu busto na Rua Apolo, local onde ele gostava de vadear e perambular.

No pedestal do busto foram gravados um de seus versos preferidos:

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife, que atrás do arruado
deserto ficou,
criança , de novo,
eu sinto que sou

A CHAMA

O que é poesia? Quem é poeta?

Poesia, para mim, é o ponto alto, a linha de chegada da Literatura. A partir daí pode mudar de nome e virar até religião, filosofia, psicologia, sei lá. É um texto que exprime um sentimento profundo, um esclarecimento, uma verdade facilmente compreensível por ouvidos atentos. Isso é o que eu acho que seja, é a definição que arrisco. Mas, está visto que isto não é definição, nem ao menos conceituação. Tanto eu como os poetas acham difícil encontrar uma definição acabada. É um enigma, tal como os mistérios da criação literária. Quem é poeta? É o mesmo enigma. Porém, reconheço uma e outro quando vejo um poema como esse, de Ascenso Ferreira:

A Chama

Na minha vida cruel e ávara
És irrequieta chama clara
Iluminando a solidão.
Porém, repara bem, repara
E vê se a nada se compara
O imenso horror dessa aflição:
Se acaricio a chama clara
A chama queima minha mão.

Um poema que exprime um sentimento e uma verdade. Mais tarde, folheando uma biografia de Monteiro Lobato, encontro um bilhete que ele mandou ao seu amigo Godofredo Rangel:

“Somos vítimas de um destino, Rangel.
Nascemos para perseguir a borboleta de fogo.
Se não a pegarmos, seremos infelizes;
e se a pegarmos, lá se nos queimam as mãos”

Quando Monteiro Lobato escreveu isto, tinha conhecimento do poema de Ascenso Ferreira? Ou vice-versa? Pode ser que sim, pode ser que não, não saberemos. O que sabemos é que eles chegaram à mesma verdade e expressaram-na de modo semelhante. Um é poema; outro é um bilhete poético? Pois bem, o que é poesia? Quem é poeta? Ascenso é poeta. E Lobato também?

Há uns 30 anos venho lidando com os mistérios da criação literária, perguntando por que se escreve? Como se escreve? O que é inspiração? etc. Já recolhi centenas de respostas de grandes escritores sem chegar a uma conclusão. As respostas vêm sendo divulgadas no site Tiro de Letra há 10 anos. Trata-se de uma enorme coleção de respostas e continua em aberto, pois como disse o crítico literário Fábio Lucas, “Não é estimulante continuar? A busca é a Literatura, e a busca não tem fim”.

Dois anos atrás, em parceria com o poeta e pesquisador Delmino Gritti, também interessado em saber o que é poesia, passamos a coletar as tentativas de definição expressas por diversos poetas e escritores. Chegamos até o momento a mais de 100 respostas e vimos publicando-as juntamente com um ensaio escrito pelo Delmino, que podem ser consultados no link O que é Poesia?. O Nordeste é um celeiro fértil de poetas, a Paraíba, então, nem se fala. Assim, essa divulgação neste prestigiado Jornal tem a intenção de ampliar a coleção de respostas com as colaborações que esperamos receber dos poetas nordestinos.

(Em tempo: como citamos Ascenso Ferreira, aguardem até 3ª feira uma biografia concisa do ilustre poeta pernambucano, de Palmares).


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