PERNAMBUCANOS ILUSTRES XX

José Ermírio de Moraes (1900-1973)

José Ermírio de Moraes nasceu em Nazaré da Mata, em 21/01/1900. Engenheiro, político, administrador e um dos maiores empreendedores brasileiros do século 20. Transformou uma pequena tecelagem em Sorocaba num conglomerado de empresas: o Grupo Votorantim. Filho de Ermírio Barroso de Morais e Francisca Jesuína Pessoa de Albuquerque Morais, uma família tradicional de usineiros pernambucanos. Concluiu os primeiros estudos no Recife e foi estudar engenharia na conceituada Colorado School of Mines, USA, onde foi diplomado em 1921.

Numa viagem pela Europa, conheceu o português António Pereira Inácio, que o convidou para trabalhar em sua fábrica de tecidos “Votorantim”, em Sorocaba, quando retornasse ao Brasil. Convite aceito, migrou de Pernambuco para São Paulo em dezembro de 1924, e passou a se dar muito bem com a família portuguesa. Deu-se tão bem que se casou com sua única filha, Helena. Comprou as ações da fábrica de tecidos, e em 1925 passou a dirigir a Sociedade Anônima Votorantim. A partir daí foi se consolidando como líder empresarial e fundou, junto com outros empresários, o CIESP-Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, em março de 1928.

Em 1931, o presidente Getúlio Vargas criou uma estrutura sindical ligada ao governo. Assim, o CIESP teve o nome alterado para FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Só mais tarde, em 1939, os empresários conseguiram permissão para montar uma sociedade civil vinculada à FIESP. Desse modo, voltou a existir o CIESP com as finalidades originais, porém adaptadas ao momento. Hoje as duas sigas se confundem numa mesma instituição.

Nas eleições presidenciais de março de 1930, a classe empresarial paulista apoiou a chapa encabeçada por Júlio Prestes, vencedora do pleito. No entanto, em outubro irrompeu a revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Os paulistas, contando com uma forte classe empresarial, não admitiram o Governo Provisório de Vargas e como consequência eclodiu, em julho de 1932, a Revolução Constitucionalista disposta a derrubar o Governo de Vargas. Ermírio de Moraes seguiu a maioria dos empresários e participou ativamente do movimento. Derrotados, assinaram um armistício com o governo federal, em 2 de outubro de 1932.

Dessa época em diante o que se vê é um estupendo crescimento da Votorantim, com uma grande diversificação das atividades industriais. Em 1933 iniciou a construção de sua primeira fábrica de cimento, inaugurada em 1936. No ano seguinte, foi criada a Companhia Nitro Química Brasileira, que passou a produzir seda artificial e fortaleceu substancialmente a indústria têxtil. Em seguida partiu para o setor siderúrgico e criou a Companhia Siderúrgica Barra Mansa. Em 1941, incrementou o setor com a criação da Companhia Brasileira de Alumínio e, em 1957, adquiriu o controle da Companhia Brasileira de Metais.

Em meados da década de 1950, passou a se interessar por política e, animado com o desempenho de Jânio Quadros no governo de São Paulo, ajudou no financiamento de sua campanha à presidência em 1960. Em junho de 1961, foi convidado pelo govenador Carvalho Pinto para dirigir a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Em 1962 ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro, concorrendo ao Senado por Pernambuco. No mesmo pleito, financiou a candidatura de Miguel Arraes ao governo de Pernambuco, apoiado pelas esquerdas e pelos nacionalistas. Ambos foram eleitos.

Diante da efervescência política na época e a volta ao presidencialismo, João Goulart, ao constituir seu ministério em janeiro de 1963, nomeou-o para o Ministério da Agricultura. Sua primeira medida foi a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, para regular as relações de trabalho entre os fazendeiros e o trabalhador rural. Em junho de 1963 foi substituído no Ministério e voltou a ocupar sua cadeira no Senado. Com o golpe militar de 1964, foi eleito presidente nacional do PTB, em maio de 1965 e permaneceu no cargo até outubro, quando todos os partidos foram extintos pela ditadura. Com a instituição do bipartidarismo, filiou-se ao MDB-Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição consentida pelos militares. Em 1970 tentou reeleger-se senador por Pernambuco, mas não conseguiu e abandonou a vida política.

Por essa época a direção do Grupo Votorantim já se encontrava sob o comando dos filhos Antônio Ermírio de Moraes e José Ermírio de Moraes Filho. Na história econômica do Brasil ele é um das personalidades mais representativas, que buscou a auto-suficiência no mercado nacional e diversificou a indústria na cidade de São Paulo, que se confunde com a industrialização brasileira. Veio a falecer em 09/08/1973. Em 2009 o Senado Federal criou o Diploma José Ermírio de Moraes, outorgado anualmente como reconhecimento aos empresários de destaque que contribuíram para a economia nacional e o progresso do país.

LITERATURA E JORNALISMO

Semana passada falamos sobre jornalismo literário (clique aqui) e hoje vamos falar de literatura e jornalismo. Começamos a história pelo final, pois jornalismo literário é o resultado das relações entre literatura e jornalismo. Tais relações iniciaram com a invenção da imprensa (que não por acaso é sinônimo de jornalismo) e vêm se intensificando até hoje, quando o jornalismo se tornou um gênero literário. Assim, jornalismo literário pode ser visto como o ápice de um relacionamento secular entre as duas áreas que foram separadas por volta do século XIX, ao ponto de se tornarem totalmente autônomas.

Essa autonomia se observa há mais de um século, quando o jornalista francês Jules Huret, em 1891, realizou uma pesquisa, entrevistando 64 escritores com algumas perguntas sobre as diferenças e semelhanças entre o jornalismo e a literatura. A pesquisa – Enquête sur l’évolution littéraire – foi reeditada em 1999, em Paris, pela Librarie José Corti. Cá entre nós, João do Rio, certamente tomou conhecimento dessa pesquisa, pois em 1904 realizou um estudo, entrevistando 36 dos principais intelectuais brasileiros para saber se a atividade jornalística atrapalhava ou ajudava quem quisesse a se dedicar à literatura, e publicou-o sob o título O momento literário, pela Livraria Garnier.

A mesma pesquisa foi retomada 100 anos depois através de uma tese de doutorado, realizada por Cristiane Costa, e publicada no livro Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904-2004, editada pela Companhia das Letras, em 2005. Ela quis saber como os novos autores responderiam à pergunta formulada por João do Rio, e para isso desdobrou a pergunta em 13 outras, tais como: “Pretendia ser escritor quando entrou no jornalismo?”. “A linguagem dos jornais oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia o texto literário?”. “A profissionalização através da imprensa permite a sobrevivência financeira do escritor ou o afasta de seu caminho?”. “Até que ponto a obra literária é influenciada pela atividade jornalística?”.

Por essa época eu vinha pesquisando os mistérios da criação literária, sem me dar conta destas pesquisas. Mas já tinha obtido uma resposta de Ernest Hemingway à pergunta feita por João do Rio: “O trabalho de jornal não prejudica um jovem escritor e poderá mesmo ajuda-lo, se ele sair a tempo”. Com isso, fiquei motivado a fazer um levantamento das respostas de diversos escritores referentes às relações ente literatura e jornalismo. Obtive mais de 100 respostas, realizei uma bibliografia sobre o assunto e publiquei o livro Literatura e jornalismo: coletânea de depoimentos célebres e bibliografia resumida, pela editora Novera, em 2007.

As respostas são muito diversificadas. Exemplos: Gustave Flaubert: Considero uma das felicidades de minha vida não escrever nos jornais; isso prejudica a minha bolsa, mas faz bem à minha consciência” José Saramago: “Fui jornalista durante uns três anos. Numa vida tão longa três anos é quase nada… Foi quando, em 1975, deixei o jornal e me dediquei inteiramente ao trabalho literário. O jornalismo não preparou o escritor” João Antonio: “Eu nunca deixei de ser escritor, o que existe é o incrível preconceito entre escritores e repórteres…”. Mempo Giardinelli “Meu lema é: proibido ‘literalizar’ o jornalismo; proibido ‘jornalizar’ a literatura. São dois códigos diferentes. E me alegra que sejam diferentes. Gilles Lapouge: “Eu tinha tendência ao lirismo e à frase rebuscada. As obrigações do jornalismo me ensinaram a escrever, a tomar as coisas mais de perto e me obrigaram ao exercício de uma certa humildade”.

Quem quiser saber quais escritores responderam à pergunta, basta consultar o site Tiro de Letra onde abrimos algumas respostas. Os interessados em adquirir o livro, ao custo de R$ 20 reais (com porte pago), podem entrar em contato pelo e-mail: literacria@gmail.com.br ou através do site.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XIX

Solano Trindade (1908-1974)

Francisco Solano Trindade nasceu no Recife, em 24/07/1908. Poeta, teatrólogo, ator, pintor, pesquisador do folclore e um dos principais fundadores da cidade de Embu das Artes, na área metropolitana de São Paulo. Antes dele era apenas Embu e não figurava no roteiro turístico paulistano. Com sua chegada teve as artes agregada ao nome. De origem humilde, com o pai sapateiro Manuel Abílio Trindade e a mãe quituteira Dona Emerenciana, estudou no Recife até o segundo grau e participou, por um ano, do curso de desenho do Liceu de Artes e Ofícios. Compôs seus primeiros poemas, ainda jovem, em meados da década de 1920.

No inicio da década de 1930, passou a se interessar pela questão da identidade cultural dos negros e participou ativamente da organização do I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, em 1934, contando com o apoio de Gilberto Freyre. O lançamento do livro Casa Grande & Senzala, em 1933, é o mote para a realização do congresso. Pouco depois, em 1937, realizou o II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador. Logo, é um dos pioneiros na luta pelo reconhecimento dos negros como categoria social relevante, no Brasil.

No início da década de 1940, fez um périplo pelo Brasil, certamente na busca de um lugar para se fixar. Seguiu para Belo Horizonte e depois para o Rio Grande do Sul, onde fundou um grupo de arte popular em Pelotas. Em seguida retorna ao Recife, talvez para matar a saudade, e logo parte para o Rio de Janeiro, onde fixa residência em 1942. Seu primeiro livro Poemas de uma vida simples foi publicado em 1944, mas foi apreendido. Um dos poemas – Tem gente com fome – causou-lhe a prisão e posterior perseguição politica. Neste mesmo ano colaborou com seu amigo, o maestro Abigail Moura, no primeiro concerto da Orquestra Afro-Brasileira e fundou, junto com Haroldo Costa, o Teatro Folclórico Brasileiro.

Em 1945, ao lado de outro grande amigo, Abdias do Nascimento, constituíram o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, que veio a ser o braço político do Teatro Experimental do Negro (TEN), liderado por Abdias. Mesmo participando do TEN, em 1950 fundou junto com a esposa Margarida Trindade e Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Era um grupo sediado na UNE-União Nacional dos Estudantes, formado por estudantes, operários e domésticas, cuja temática e inspiração eram baseadas nas manifestações culturais brasileiras, como o bumba-meu-boi, caboclinhos, dança do coco, capoeira etc. Faziam uma adaptação para o teatro destas danças e músicas, que mais tarde resultou na criação do grupo de dança Brasiliana, e realizou inúmeras apresentações aqui e no exterior.

A militância politica se deu no Partido Comunista e sua casa transformou-se na célula “Tiradentes”, reunindo uma turma de intelectuais, jornalistas, artistas e escritores cariocas. Certa vez a polícia do governo Dutra invadiu sua casa à procura de armas. Não encontrando, levaram-no preso. Pouco depois foi solto com o espirito revigorado para continuar sua trajetória libertária

Em fins da década de 1950, decidiu transferir o TPB para São Paulo, aproveitando a intensa vida cultural da cidade. Fixa residência na cidade de Embu, para onde mudam-se também muitos de seus amigos. Lá já residia o escultor japonês Tadakiyo Sakai, com se afiliou e exerceram grande influência no desenvolvimento das artes na cidade. O que se vê em seguida é a transformação da pequena cidade num verdadeiro centro cultural e de artes a céu aberto. Viveu no Embu de 1961 a 1970 e lá o TPB teve sua melhor fase, com apresentações sempre muito concorridas. Entre 1958 e 1961 lançou mais duas antologias de poemas: Seis tempos de poesia e Cantares ao meu povo, ambos bem recebidos pela crítica e pelo público.

É consenso no meio da crítica literária que Solano Trindade foi o grande criador da poesia assumidamente negra. Há quem diga que seus poemas têm mais crítica social do que poesia propriamente dita, mas quem é do ramo, como Carlos Drummond de Andrade, disse que “há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”. Além das atividades literárias e nas artes plásticas, participou como ator em diversos filmes: Agulha no Palheiro (1955), Mistérios da Ilha de Vênus (1960), O Santo Milagroso (1966) e A hora e a vez de Augusto Matraga (1966).

Em 1970 a saúde começou a fraquejar. Teve uma pneumonia e arteriosclerose. Passou por diversos hospitais até falecer no Rio de Janeiro em 20/02/1974. Sua filha Raquel Trindade e os netos continuam sua obra em Embu das Artes, onde um teatro popular, uma escola e uma rua levam seu nome. No Rio de Janeiro foi criado em 1975 o Centro Cultural Solano Trindade e em 1976, em São Paulo, a Escola de Samba Vai-Vai desfilou com o samba enredo homenageando o poeta.

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JORNALISMO LITERÁRIO

Nem todos os escritores consideram o Jornalismo um gênero literário. André Gide, por exemplo, acha que jornalismo é uma coisa e literatura é outra. Entre nós, Alceu Amoroso Lima e Antônio Olinto defendem com veemência que trata-se de um gênero literário. Há, inclusive, quem acredite que Euclides da Cunha seja o pivô dessa polêmica. O crítico literário Marcelo Moraes Caetano afirma: “há quem torça o nariz para reconhecer o jornalismo como gênero literário, razão principal, aliás, pela qual muitos não dizem que ele foi jornalista, porque consideram que isso seria diminuir ou amesquinha sua grandiosidade”.

Independente dessa polêmica, o jornalismo literário é um gênero que vem se destacando desde meados do século passado. No Brasil ele aplicado exemplarmente com a revista Realidade, em 1966. Antes e depois disso, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolfe, entre outros, aplicaram-no com maestria nos EUA. No entanto Edvaldo Pereira Lima defende que o “New journalism” americano foi a manifestação de um momento do Jornalismo Literário. Isso quer dizer que o Jornalismo Literário, como forma narrativa, de captação do real, já existia antes e continua existindo após o New Journalism. Para confirmar esta afirmação, José Hamilton Ribeiro declarou que na redação da “Realidade” (1966) eles não tomaram conhecimento do que os norte-americanos estavam fazendo. Logo, o Jornalismo Literário no Brasil não foi influenciado pelos norte-americanos.

Quando verificamos que Os sertões (1902) foi escrito a partir das anotações de uma série de reportagens sob o título “Diário de uma expedição” publicada em agosto de 1897 n’O Estado de São Paulo, relatando os últimos dias de Canudos, veremos que Euclides da Cunha escreveu um romance de “não-ficção”, bem antes de Truman Capote, quando escreveu A sangue frio. Porém, não é um autor lembrado quando se fala de jornalismo literário, e neste sentido parece que Marcelo Moraes Caetano tem razão.

Logo após o curto período de “Realidade” surgiram diversas revistas onde as matérias eram pautadas sob a ótica do Jornalismo Literário: Ex- (1974) Versus (1975), Repórter (1978), Plural (1979), Careta (1980) entre outras. Em 1966, Marcos Faerman levou-o para o “Jornal da tarde”, um dos jornais que mais apostaram no Jornalismo Literário. Desse modo, a imprensa brasileira tem uma longa tradição nesta área, contando hoje com uma Academia Brasileira de Jornalismo Literário. No entanto e paradoxalmente, hoje temos poucas revistas e nenhum jornal que privilegia o jornalismo literário. Temos apenas algumas como a revista “Piauí” (São Paulo), “Continente” (Recife) e “Revestrés” (Teresina). O que aconteceu com o Jornalismo Literário? Com a palavra, os teóricos das comunicações.

PERNAMBUCANAS ILUSTRES XVIII

Bárbara de Alencar (1760-1832)

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/02/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Três de seus cinco filhos – José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves – também foram revolucionários (o primeiro era padre, político e jornalista, foi o pai do romancista José de Alencar). Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento.

No Crato, ela constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados a pé para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 600 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano (se tornaria senador em 1832)
O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas dotadas do sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Assim foi que Bárbara de Alencar se tornou a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, ainda se trava uma batalha pelo seu reconhecimento como heroína da História brasileira. Falecida em 18/08/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. Em Fortaleza, a partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome agracia três mulheres com a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Seu nome passou a denominar alguns logradouros; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos da história.

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RECIFE E MANHATTAN 2: AS TORRES GÊMEAS

Agora há pouco, em 19/03/2017 (clique aqui) eu e Paulo Mendes Campos reclamávamos aqui sobre o estrago que os altíssimos edifícios vêm fazendo no bairro de Boa Viagem, ao ponto de tapar o sol na praia às 16hs. Na ocasião eu apenas mencionei o caso das Torres Gêmeas sem me dar conta do tamanho do estrago que elas vêm fazendo no velho centro do Recife. Só depois fiquei sabendo que as torres impediram que o centro histórico do Recife fosse considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. As construtoras e o interesse mesquinho e imediato não vêm o benefício de termos dois patrimônios da humanidade, um ao lado do outro (Recife e Olinda).

Diante do fato e de sua gravidade, fui verificar como e porque se ergueram as torres. O caso se deu há mais de 12 anos, e desde o inicio foi envolto num clima de desconfiança começando já na licitação para aquisição do terreno onde as torres foram construídas. O noticiário da época informou que seu terreno foi a leilão sem que a empresa proprietária (Mesbla) tenha sido notificada, o que já se constitui numa grave irregularidade. O leilão marcado para o dia 24/03/2003 às 12h30, foi modificado para as 9h00 da manhã sem qualquer notificação oficial. Assim, apenas a empresa Moura Debeux apareceu como interessada no leilão. Outra dúvida levantada foi junto ao leiloeiro, João Dias Martins, na época com sua nomeação revogada. Junto a dúvida, levantou-se uma pergunta incômoda: como ele poderia ter sido o leiloeiro oficial?

Isto é apenas o inicio do “imbróglio“ que se alongará por mais alguns anos. A primeira causa contra as torres gêmeas começou em 2005. O alegado foi que aqueles prédios afetaram a visão de monumentos e a harmonia do conjunto arquitetônico da região. O MPF-Ministério Publico Federal ganhou a causa em primeira instância e a justiça determinou a demolição das obras. A causa prossegue em outras instâncias e em 2008 o TRF-Tribunal Regional Federal da 5ª Região reformou a sentença e liberou as obras.

A Procuradoria recorreu dessa decisão ao STJ-Superior Tribunal de Justiça. O caso foi distribuído ao então ministro José de Castro Meira, membro da primeira turma da corte. O ministro deu voto favorável à Meira Dubeux, acompanhado pelos ministros Luiz Fux e Denise Arruda. Um dos argumentos alegados foi o fato de o IPHAN não ter se oposto ao empreendimento.

O tempo passa devagar nos tribunais superiores. Assim, em 2011 o ministro do STJ Castro Meira foi o relator e deu voto favorável a construtora que mantinha negócio imobiliário com o filho dele, o advogado Marcos Meira. As torres gêmeas pode, então, crescerem à vontade. A controvérsia continua e no ano passado, em sinal de protesto, Kleber Mendonça, diretor do filme “Aquarius”, excluiu digitalmente as torres da imagem de uma cena aérea do cais de Santa Rita. Em termos jurídicos não sei em que ponto se encontra o imbróglio das torres. Mas sei que outro empreendimento ainda maior e mais devastador, ao lado dali, se encontra em andamento e que já mobilizou a população contra sua instalação. É o projeto de urbanização do Cais José Estelita, com previsão de 13 torres de 40 andares.

A construtora é a mesma das torres: a Moura Dubeux, e o projeto faz parte de um plano urbanístico maior denominado “Projeto Novo Recife”, que se estende até Olinda. Trata-se de um plano urbanístico eivado de irregularidades, protestos dos urbanistas e da população afetada. Não vamos entrar no detalhamento deste projeto agora, o espaço aqui é pouco para isso. Na Internet há uma considerável quantidade de dados e informações sobre o projeto.

Para concluir por enquanto – pois estou visualizando a necessidade de retomarmos o assunto – vejo que o processo de transformar o Recife numa Manhattan com todos seus defeitos, continua de vento em popa. Agora mesmo temos o projeto “Jardins de Aurora”, encabeçado pela mesma construtora Moura Dubeux, bem no centro do Recife. São duas torres de 42 andares, batizadas de Capibaribe e Beberibe. O projeto é semelhante ao das Torres Gêmeas e vem sendo apresentado como jóia rara do mercado imobiliário no Recife. Tal como nos projetos anteriores, os “Jardins de Aurora” vem sendo criticado pelos urbanistas. Até onde a “mania de grandeza” dos pernambucanos quer chegar? É preciso advertir estas construtoras e os adoradores de viver nas alturas que a nossa “mania de grandeza” refere-se aos ideais e não aos grandes edifícios.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XVII

Ascenso Ferreira (1895-1965)

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira Nasceu em Palmares, em 09/05/1895. Poeta integrante da Semana de Arte Moderna de 1922, que se destacou pela temática regional e folclórica de sua terra. Passou toda a infância em Palmares – conhecida como “Atenas Pernambucana” e Terra dos Poetas” – e aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe, Dona Marocas, professora. Ficou órfão do pai aos 6 anos e a família passou por alguns perrengues. Aos 13 anos, passou a trabalhar com o padrinho na bodega “A Fronteira”. Era balconista e teve um aprendizado indispensável ao futuro poeta, na lida com a freguesia em busca de uma quarta de carne seca, bicadas de aguardente, cuias de farinha e meias garrafas de querosene.

Aos 16 anos publicou seu primeiro poema – Flor fenecida – no jornal “A Noticia de Palmares”, e aos 21 fundou a sociedade “Hora Literária” junto com outros poetas da cidade. No ano seguinte, o rapaz que fora registrado como Aníbal Torres, resolveu ser poeta e mudou seu nome para Ascenso Ferreira. Por defender o abolicionismo e a cidadania, passou a ser perseguido politicamente. Por isso, não encontrava trabalho em sua cidade e teve que se mudar para o Recife aos 24 anos. Conseguiu um emprego de escriturário no Tesouro do Estado de Pernambuco e se meteu na boemia recifense. Passou a publicar seus poemas no “Diário de Pernambuco”. Era o poeta preferido dos alunos da Faculdade de Direito do Recife, que certa vez o obrigaram a recitar seus poemas no palco do Teatro Santa Isabel. Era dotado de um aguçado sentido de ritmo e seus poemas engraçados encantavam a rapaziada. Ele não fez faculdade alguma, dizia-se que ele “aprendeu sem se ensinar”.

Certa vez numa roda de conversa sobre as semelhanças entre o nordestino e o gaúcho, realçando a intrepidez e valentia, ele fez um versinho e recitou-o imitando o sotaque sulista:

Riscando os cavalos !
Tinindo as esporas !
Saí de meus pagos em louca arrancada !

Para que ?
Pra nada !

Na década de 1920 fez amizade com Luís da Câmara Cascudo, com o poeta Joaquim Cardoso, Souza Barros, Gouveia de Barros entre outros. Em 1921 casou-se com Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, mas o casamento durou pouco. Em seguida passou a participar do Movimento Modernista e publicou seu primeiro poema modernista intitulado Lusco-Fusco. Em 1927, incentivado por Manuel Bandeira, publicou seu primeiro livro: Catimbó. O livro foi um sucesso de público e crítica e logo saiu uma segunda edição, com lançamentos no Rio de Janeiro e São Paulo. Seus poemas ficam melhor quando recitados , o que ele fazia muito bem. Em São Paulo, deu um recital no Teatro de Brinquedos, sendo muito aplaudido, e fez amizade com vários intelectuais e artistas: Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Alvaro Moreira, Oswald de Andrade, Olívia Penteado, Afonso Arinos, Tarsila do Amaral.

Por essa época passou boa parte de seu tempo viajando pelo Brasil dando recitais. Numa dessas viagens, conheceu e tornou-se amigo do poeta chileno Pablo Neruda, que participava do Congresso de Escritores, em Goiás. Em 1939 publicou o segundo livro Cana caiana, com as ilustrações de Lula Cardoso Ayres. Nessa época, tornara a viajar para o Rio de Janeiro, onde conheceu Cândido Portinari, Sérgio Milliet, Osvaldo Costa, entre outras personalidades. No início da década de 1940, se aposentou como diretor da Receita do Tesouro do Estado de Pernambuco e veio a se apaixonar por uma jovem adolescente – Maria de Lourdes Medeiros – indo viver em sua companhia. Com ela teve uma filha, que passou a ser a grande preocupação de sua vida. Temia morrer antes de poder cria-la.

Em seguida preparou a edição de outro livro – Poemas e xenhehém -, que só pode ser lançado em 1951, incorporado à edição de Poemas, que foi o primeiro livro surgido no Brasil apresentando um disco de poesias recitadas pelo seu autor. Nesta edição foi incluído o poema O trem de Alagoas, musicado por Villa-Lobos. Em 1955 tomou gosta pela política e passou a trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência. Uma vez eleito, JK nomeou-o para dirigir o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Mas a nomeação logo foi cancelada devido a pressão de um grupo de intelectuais que não aceitaram no cargo um poeta irreverente com fama de boêmio. Deve ter pesado também no caso, o fato de ele não ser acadêmico. Mesmo assim, conseguiu ser nomeado assessor do Ministério da Educação e Cultura, onde passava todo mês para pegar o salário.

Em 1956 assinou um contrato com a prestigiada editora José Olympio, para uma nova edição de seus poemas. Pouco depois lançou um álbum duplo de discos com suas obras completas: 64 poemas escolhidos e 3 historietas populares, com apresentação de seu amigo Câmara Cascudo. Em 1963, a Editora José Olympio lançou Catimbó e outros poemas, seu último livro. A figura de Ascenso contribuía com o tipo brincalhão e amigo de todos. Gordo com quase dois metros de altura, vozeirão, chapéu de palha, suspensório e fumando um grande charuto, animava as rodas de amigos ou plateias. Manuel Bandeira descrevia-o assim: “Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama […] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos”. Luís da Câmara Cascudo também fez um retrato semelhante: “Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados”.

Tendo em vista o pouco conhecimento que temos do poeta, vale a pena colocarmos algumas opiniões relevantes sobre sua obra. Mario de Andrade: “Em numerosas passagens de ‘Cana caiana’ é tamanho o equilíbrio e a verdade da expressão lírica e formal, que se tem o sentimento muito firme da perfeição clássica”. Tristão de Athayde: “…um livro profundamente típico do Nordeste, de poemas do campo e do povo, que reflete a feição nativa, bárbara e localista do nosso modernismo: ‘Catimbó’ do sr. Ascenso Ferreira”. José Lins do Rego: “A poesia de ‘Catimbó’ a gente lê sempre e tem sempre vontade de ler outra vez. É uma poesia de verdade mais para o ouvido do que para os olhos. Daí o sr. Medeiros de Albuquerque, que é um homem surdo, não a perceber”. José Condé: “Ascenso Ferreira, incomparável como sempre, vate dos carrascais sertanejos, cantor dos engenhos e dos pastoris nordestinos, dos bêbados de feira, do trem de Alagoas e das velhas ruas do Recife”.

Numa avaliação crítica de sua obra, verifica-se ele iniciou a carreira com modelos poéticos tradicionais, compondo sonetos, baladas e madrigais. Só depois da Semana de Arte Moderna e sob a influência de Mario de Andrade, Joaquim Cardoso e Câmara Cascudo entre outros, é que sua poesia retorna aos temas regionais ligados aos engenhos, vaqueiros, cangaceiros, cegos violeiros, folguedos e das lendas populares. Além disso, a adesão ao modernismo implica também numa incorporação de recursos modernistas, como o aproveitamento poético da linguagem popular e o humor. Tal como Mario de Andrade em Macunaíma, ele gostava de ironizar a ética do trabalho numa referência a “preguiça inata” dos brasileiros: “Hora de comer – comer! / Hora de dormir – dormir! / Hora de vadiar – vadiar! / Hora de trabalhar? / – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!“. Acrescente-se aqui o aguçado senso de ritmo nos versos dedicados ao trem de Alagoas, quando passava por Catende e musicados por Alceu Valença: “Vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende / com vontade de chegar […]“. Mário de Andrade chegou a dizer que seu compromisso entre fala e musicalidade era tanto que “mais sistematização sonora seria diretamente música”.

Em 5 de maio de 1965, faltando apenas quatro dias para completar 70 anos de idade, o poeta faleceu no Hospital Centenário, no Recife. Em sua homenagem e agradecimento, a Prefeitura ergueu seu busto na Rua Apolo, local onde ele gostava de vadear e perambular.

No pedestal do busto foram gravados um de seus versos preferidos:

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife, que atrás do arruado
deserto ficou,
criança , de novo,
eu sinto que sou

A CHAMA

O que é poesia? Quem é poeta?

Poesia, para mim, é o ponto alto, a linha de chegada da Literatura. A partir daí pode mudar de nome e virar até religião, filosofia, psicologia, sei lá. É um texto que exprime um sentimento profundo, um esclarecimento, uma verdade facilmente compreensível por ouvidos atentos. Isso é o que eu acho que seja, é a definição que arrisco. Mas, está visto que isto não é definição, nem ao menos conceituação. Tanto eu como os poetas acham difícil encontrar uma definição acabada. É um enigma, tal como os mistérios da criação literária. Quem é poeta? É o mesmo enigma. Porém, reconheço uma e outro quando vejo um poema como esse, de Ascenso Ferreira:

A Chama

Na minha vida cruel e ávara
És irrequieta chama clara
Iluminando a solidão.
Porém, repara bem, repara
E vê se a nada se compara
O imenso horror dessa aflição:
Se acaricio a chama clara
A chama queima minha mão.

Um poema que exprime um sentimento e uma verdade. Mais tarde, folheando uma biografia de Monteiro Lobato, encontro um bilhete que ele mandou ao seu amigo Godofredo Rangel:

“Somos vítimas de um destino, Rangel.
Nascemos para perseguir a borboleta de fogo.
Se não a pegarmos, seremos infelizes;
e se a pegarmos, lá se nos queimam as mãos”

Quando Monteiro Lobato escreveu isto, tinha conhecimento do poema de Ascenso Ferreira? Ou vice-versa? Pode ser que sim, pode ser que não, não saberemos. O que sabemos é que eles chegaram à mesma verdade e expressaram-na de modo semelhante. Um é poema; outro é um bilhete poético? Pois bem, o que é poesia? Quem é poeta? Ascenso é poeta. E Lobato também?

Há uns 30 anos venho lidando com os mistérios da criação literária, perguntando por que se escreve? Como se escreve? O que é inspiração? etc. Já recolhi centenas de respostas de grandes escritores sem chegar a uma conclusão. As respostas vêm sendo divulgadas no site Tiro de Letra há 10 anos. Trata-se de uma enorme coleção de respostas e continua em aberto, pois como disse o crítico literário Fábio Lucas, “Não é estimulante continuar? A busca é a Literatura, e a busca não tem fim”.

Dois anos atrás, em parceria com o poeta e pesquisador Delmino Gritti, também interessado em saber o que é poesia, passamos a coletar as tentativas de definição expressas por diversos poetas e escritores. Chegamos até o momento a mais de 100 respostas e vimos publicando-as juntamente com um ensaio escrito pelo Delmino, que podem ser consultados no link O que é Poesia?. O Nordeste é um celeiro fértil de poetas, a Paraíba, então, nem se fala. Assim, essa divulgação neste prestigiado Jornal tem a intenção de ampliar a coleção de respostas com as colaborações que esperamos receber dos poetas nordestinos.

(Em tempo: como citamos Ascenso Ferreira, aguardem até 3ª feira uma biografia concisa do ilustre poeta pernambucano, de Palmares).

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XV

Josué de Castro (1908-1973)

Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 05/09/1908. Médico, nutrólogo, geógrafo, professor, político, escritor e autoridade mundial no combate à fome. Sua atuação no plano nacional e internacional abrangeu o plano ecológico com estudos e projetos, bem como o plano político com participação em vários organismos sociais. Seus primeiros estudos se deram em casa com sua mãe professora e continuados no Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano, tradicionais escolas do Recife. Durante a infância, morava próximo aos mangues da cidade, uma região de mocambos habitada por retirantes e caranguejos. Foi seu primeiro contato com o problema da fome visto de perto.

Em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade Nacional de Medicina, onde permaneceu durante seis anos. Não obstante o interesse pela psiquiatria, foi levado a se especializar em Nutrição. Aos 21 anos retornou ao Recife e montou sua clínica. Pouco depois foi contratado por uma fábrica para examinar trabalhadores com problemas de saúde indefinidos e acusados de indolência. Numa conversa com os patrões expôs o diagnóstico: “Sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença dessa gente é fome”. Foi demitido do emprego e passou a encarar a dimensão social da doença, que era ocultada por preconceitos sociais e climáticos.

Sua preocupação social ficou mais aguçada com o momento de agitação política da época. A Revolução de 30 dera inicio ao Estado Novo, colocando a política brasileira num estado de ebulição. Mas, ele manteve-se longe da militância político-partidária e passou a realizar pesquisas sociais referentes aos problemas da alimentação e da habitação em bairros operários do Recife. Seus estudos levaram-no a ver a fome como uma catástrofe social e não uma consequência das condições físicas, climáticas e étnicas, como alguns estudos afirmavam. Sua conclusão foi que o desnível social resultava de uma estrutura econômica e social impostas no período colonial e mantidas nos períodos Imperial e republicano. Em 1932 tornou-se professor livre-docente de fisiologia da Faculdade de Medicina de Recife, com a tese O problema fisiológico na alimentação. No mesmo ano orientou a realização de uma pesquisa pioneira no Brasil, relacionando a produtividade com a alimentação do trabalhador.

A pesquisa resultou na publicação de seu primeiro livro em 1935: Condições de vida das classes operárias do Recife, publicado pelo Departamento de Saúde Pública, e serviu como base posterior para a formulação do salário-mínimo. No mesmo ano casou-se com sua ex-aluna Glace Rego Pinto e foi morar no Rio de Janeiro. Após breve período de dificuldades financeiras, passou a lecionar Antropologia na Universidade do Distrito Federal (UDF), organizada por Anísio Teixeira. Paralelo a atividade docente, passou a escrever com regularidade e publicou o livro Alimentação e raça, em 1936. Embora não fosse filiado à ALN-Aliança Libertadora Nacional, publicou vários artigos em jornais ligados a essa organização. Em 1937, utilizando-se do método geográfico para apresentar o mapa das regiões alimentares, publicou o livro: A alimentação brasileira à luz da geografia humana, lançado pela Livraria do Globo, causando grande expectativa no meio acadêmico e político-social. Ao todo chegou a publicar 30 livros, e com tantas atividades ainda achou tempo para incursionar na literatura, publicando junto com Cecília Meireles, o livro Festa das letras, em 1939.

Nesta época foi criada a Universidade do Brasil, com a extinção da UDF, onde passou a ocupar interinamente a Cátedra de Geografia Humana, na qual se efetivaria em 1957, por concurso, defendendo a tese sobre Fatores de localização da cidade do Recife. Em 1938 foi convidado pelo governo italiano para realizar conferências nas universidades de Roma e Nápoles sobre a temática “Os problemas de aclimatação humana nos trópicos”. A partir daí, passou a ficar famoso e conhecido até fora do Brasil por suas atividades como nutrólogo, sociólogo, geógrafo etc. De 1940 em diante participou de todos os projetos governamentais ligados à alimentação, como a educação alimentar; coordenou a implantação dos primeiros restaurantes populares; dirigiu as pesquisas do Instituto de Tecnologia Alimentar e criou periódico Arquivos Brasileiros de Nutrologia. Ainda em 1940, passou a trabalhar no Serviço de Alimentação e de Previdência Social (SAPS), e fundou a Sociedade Brasileira de Alimentação. Em março de 1944 foi criado o Instituto Técnico de Alimentação (ITA), cuja direção ficou a seu cargo. Foi convidado oficial de vários países para estudar os problemas de alimentação e nutrição: Argentina (1942), Estados Unidos (1943), República Dominicana e México (1945) e França (1947).

O ano de 1946 foi marcado pela publicação de Geografia da fome, que causou impacto nos grupos conservadores e tirou da obscuridade o quadro trágico da fome no país. Enfatizou as origens socioeconômicas da tragédia e denunciou as explicações deterministas desse quadro. No mesmo ano, fundou e dirigiu o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil. Cinco anos após lançou Geopolítica da fome, causando impacto ainda maior, quando mudou sua escala de trabalho, passando a analisar o problema da fome no mundo inteiro. Os dois livros definiriam sua posição política e disposição de luta. Divulgados em vários idiomas, fizeram crescer o respeito e admiração ao seu trabalho, contribuindo para que em 1951 ele fosse colocado na presidência do Conselho Executivo da FAO-Food and Agricultural Organization (1952-56) e membro da Comissão Nacional de Política Agrária, criada por Vargas em 1951 e, dois anos depois, nomeado vice-presidente da Comissão Nacional de Bem-estar Social. Naquele ano, ele fora ainda candidato de Vargas, que voltara ao poder pelo voto, a Ministro da Agricultura, mas a forte oposição de grupos conservadores do PSD-Partido Social Democrático que apoiavam o governo impediu a sua ascensão ao Ministério.

Uma de suas facetas pouco conhecida é seu gosto pelo cinema. Na época em que dirigia a FAO, em Roma, ele se aproximou do mundo do cinema e seus escritos suscitaram interesse de cineastas do neo-realismo italiano, como Roberto Rosseline e Cesare Zavattini, ambos envolvidos em projetos de realizar filmes baseados em Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. Desses projetos, realizou-se apenas o segmento brasileiro do projeto de Zavattini, que resultou no filme “O Drama das Secas”, filme de Rodolfo Nanni de 1958.

Convidado a participar diretamente na política, ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro e exerceu dois mandatos como Deputado Federal (1954-58 e 1958-62). Foi o deputado federal mais votado em todo o Nordeste. Ao final do segundo mandato, foi designado embaixador do Brasil na Conferência Internacional de Desenvolvimento, da ONU, em Genebra e em seguida, na reunião da FAO, em Roma. Como Deputado, apresentou o projeto de regulamentação da profissão de nutricionista e o projeto de reforma agrária, entendida como “um processo de revisão das relações jurídicas e econômicas entre os que detêm a propriedade rural e os que nela trabalham”. Com o Golpe de 1964, foi destituído do cargo de embaixador do Brasil junto aos organismos internacionais da ONU, em Bruxelas. Sem condições de voltar à pátria, estabeleceu-se em Paris e continuou sua luta contra a fome e o subdesenvolvimento.

Em Paris foi acolhido pelo governo francês, que o designou professor associado do Centro Universitário de Vincennes, lecionando também na própria Universidade de Paris. Ministrou aulas para alunos de pós-graduação no Instituto de Altos Estudos para a América Latina, então dirigido pelo geógrafo Pierre Mombeig, que conhecia bem o Brasil. Chefiou o Centro Internacional de Desenvolvimento, atuando sobretudo na África e desenvolvendo trabalhos, especificamente no Marrocos. Presidiu o Comitê para a Constituição dos Povos e foi vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial. Nesta fase, além da influência sobre os estudantes de todo o mundo que convergiam para estudar em Paris, canalizou esforços para os problemas da Paz. Aí viveu os 10 últimos anos, onde faleceu em 24/09/1973 e foi sepultado no Rio de Janeiro.

Entre os prêmios e condecorações que recebeu, constam: Prêmio Pandiá Calógeras (1937), Professor Honoris-Causa da Universidade de San Domingos e de San Marcos (1950), Prêmio Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos (1952), Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial da Paz (1954), Oficial da Legião de Honra, do governo francês (1955), Grã-Cruz in memoriam, da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura (2006). Foi ainda indicado ao Prêmio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965. Sua memória e legado são mantidos no Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro, fundado em 1979 no Recife. Em 1989 sua família incorporou todo seu acervo documental e biblioteca ao Centro, colocados à disposição e do público e pesquisadores. Trata-se de um expressivo acervo de informações referentes ao problemas da fome e do subdesenvolvimento.

* * *

DESAPONTAMENTO COM A CAUSA DA DESAPOSENTAÇÃO NA REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Contribui com o INSS durante 40 anos, desde 1965, quando contava com 14 anos. Naquela época menor de idade podia trabalhar com registro na “Carteira de Trabalho do Menor”. No começo era uma porcentagem sobre um salário-mínimo. Dez anos após contribuía com bem mais, era uma porcentagem sobre quase dez salários-mínimos. Nas décadas seguintes a porcentagem passou para quase vinte salários-mínimos, ultrapassando os vinte durante alguns anos.

Em 1997, com 30 anos de contribuição e com a ameaça de se extinguir a “aposentadoria proporcional”, requeri a minha. Continuei trabalhando (e pagando o INSS, porém sem direito a reajuste na aposentadoria) mais 10 anos, e passei a receber R$ 600 e poucos p/ mês. Representava pouco mais de 5 salários-mínimos e era a mesada do meu filho, que estudava fora de São Paulo. Achei muito pouco comparado com os valores que eu paguei durante 30 anos. Mas serviu como “ajuda de custo”, apenas isto. Com o tempo esse valor foi sendo reduzido a cada ano, pois os reajustes para quem ganha acima do salário-mínimo é menor. Desse modo, em pouco tempo minha aposentadoria será também um salário-mínimo. Hoje é menos que 3, mas a tendência é chegar a 1 salário-mínimo.

Uma forma de corrigir essa injustiça foi encontrada no processo de “desaposentação”, que resulta numa troca da antiga aposentadoria por outra acrescida pelos anos trabalhados (e pagos) a mais após a aposentadoria. Nada mais justo: você recebe de acordo com sua contribuição. Assim, durante uns 10 anos mais de 180 mil injustiçados entraram com ação judicial contra o INSS para rever os valores pagos. Eu fui um deles, e aguardamos esse tempo todo uma decisão que terminou chegando ao STF-Supremo Tribunal Federal para julgamento no ano passado. Pouco antes disso, a ministra Cármen Lúcia, antes de se tornar presidente do STF demonstrava-se favorável ao pleito da desaposentação. Não só ela, mais alguns juízes também concordavam com o pleito e julgaram pela sua validade, beneficiando umas poucas ações impetradas em alguns estados. Porém, no ano passado a cause chegou ao STF encontrando a Sra. Carmén Lúcia com presidente.

Todos achavam que, deduzindo sobre seu posicionamento anterior, bem como a jurisprudência criada com algumas causas já ganhas em outras instâncias, a causa da desaposentação finalmente chegaria ao final com o reajuste requerido, fazendo justiça ao pleito de milhares de aposentados que não conseguem sobreviver com o pouco que recebem. Mas eis que na hora da votação o pleito foi rejeitado por 4 a 7 votos, incluindo o voto desfavorável da presidente Cármen Lúcia. Injunções políticas, falta de recursos e interesses particulares fizeram que a desaposentação não fosse aprovada e os 180 mil aposentados que impetraram a causa ficaram a ver navios. O “mensalão” e o “petrolão” não foram apenas os fatores que atrasaram durante tanto tempo o julgamento da causa; foram também a causa da falta de recursos do governo para efetuar o reajuste.

Agora a reforma da previdência está na ordem do dia e não se fala mais em desaposentação. O que aconteceu? As federações e a COBAP-Confederação Brasileira de Aposentados desistiram dessa reinvindicação? Os aposentados que contribuíram para aumentar substancialmente o caixa do governo, são os prejudicados pelos desmantelos do governo? Não seria o caso de aproveitarmos a reforma da previdência para o governo resolver essa pendência com os aposentados que pagaram a mais? Não se constitui em ato de extrema covardia, aproveitar-se do fraco poder de mobilização politica dos velhinhos? O que estas entidades “representativas” dos aposentado pretendem fazer?

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XIII

Mario Pedrosa (1900-1981)

Mário Xavier de Andrade Pedrosa nasceu em Timbaúba, em 25/04/1900, no Engenho Juçaral. Filho de Pedro da Cunha Pedrosa, ex-senador da República e ex-ministro do Tribunal de Contas. Aos 13 anos foi estudar na Suíça e retornou aos 16 anos. Passou a viver no Rio de Janeiro, onde formou-se na Faculdade de Direito. Em 1924 mudou-se para São Paulo e foi trabalhar como redator de política internacional no jornal “Diário da Noite” ao mesmo tempo em que escreve artigos de crítica literária. Nesta ocasião, aproxima-se dos modernistas, em especial de Mario de Andrade.

Filiado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro em 1926, foi estudar em na Escola Leninista de Moscou, em 1927. Mas devido a problemas de saúde se instalou em Berlim, onde estudou economia filosofia e estética. De volta ao Brasil em 1929, passou a integrar o grupo de simpatizantes do “movimento trotskista internacional” no âmbito do PCB, o que motivou sua expulsão do partido no mesmo ano. Em 1931 fundou a Liga Comunista, junto com os amigos Fúlvio Abramo, Lívio Xavier. Aristides Lobo e Benjamin Péret. Com a Revolução Constitucionalista de 1932, é preso e libertado pouco depois. Com a finalidade de publicar textos marxistas no Brasil, fundou a editora Unitas, e passou a dar palestras sobre as tendências da arte moderna. Em 1936, o grupo de amigos decide criar o Partido Operário Leninista.

Instalado o Estado Novo, em 1937, optou pelo exílio na França. No ano seguinte, no Congresso de Fundação da Quarta Internacional, representou alguns partidos operários da América Latina, com o pseudônimo de Lebrum, e foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional (CEI) da IV Internacional. Três anos após, voltou clandestinamente para o Brasil. Logo foi preso e pouco depois foi solto com a condição de deixar imediatamente o País. Em 1941 seguiu para os EUA, e passou a trabalhar na União Pan-Americana, futura OEA-Organização dos Estados Americanos. Nesta ocasião escreveu um artigo sobre os painéis de Cândido Portinari, exibidos na Biblioteca do Congresso, em Washington. Em seguida passou a trabalhar na seção de cinema do Escritório de Coordenação de Negócios Interamericanos, em Nova Iorque. Durante o período de 1945-1945 exerceu a função de correspondente, nos EUA, do jornal carioca “Correio da Manhã”.

Em 1945 retornou ao Brasil e participou da criação do grupo “União Socialista Popular” e passou a colaborar na edição do semanário “A Vanguarda Socialista”. Por essa época encarou a vida acadêmica mais a sério e, em 1949, ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil. Sua tese sobre arte e Gestalt influenciou jovens artistas, que se tornariam importantes nomes da arte concreta na década de 1950. No ano seguinte obteve o título de professor livre-docente. A partir daí a vida do crítico de arte tomou impulso: participou ativamente da criação do Movimento Concretista; curador da II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953) e Secretário-Geral da IV Bienal (1957); organizou uma exposição sobre arquitetura brasileira, no Japão (1958); organizou o Congresso Internacional Extraordinário dos Críticos de Arte, antecipando a fundação de Brasília, em 1959, quando apresentou seu trabalho “A cidade nova – síntese das artes”; vice-presidente da Associação; vice-presidente da AICA-Associação Internacional dos Críticos de Arte (1957-1970); diretor do Museu de Arte Moderna-MAM, de São Paulo (1961-1963); presidente da Associação Brasileira de Críticos da Arte (1962); Secretário do Conselho Federal de Cultura (1961-62) além de integrar o júri de várias bienais de artes plásticas no mundo.

Chegamos ao ponto onde Mario Pedrosa é um mentor e porta-voz de uma vanguarda artística, uma autoridade no mundo da crítica de arte, que se afasta do objetivismo e racionalismo dos anos 1950. Mas aqui surge uma pergunta: ele é mais político ou é mais artista ou crítico e teórico da arte? Como se fundem estas duas áreas tão distintas? Para ele “arte” e “política” são as duas formas mais elevadas de expressão humana. Assim, propõe que a única postura diante da vida é o engajamento político, mas defendendo a plena liberdade de expressão artística. Desde a juventude envolveu-se com estes dois universos, contando com o amigo e cunhado, o poeta surrealista Benjamin Péret.

No entanto, logo depois ele se afastou da concepção de arte engajada, que embalava boa parte do movimento esquerdista. Tal pensamento estava embasado no “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente”, elaborado por André Breton e Leon Trotsky em 1938, defendendo que a “arte tem um potencial libertário e revolucionário em si”. Já no inicio da década de 1940, conforme Antonio Cândido, ele “surpreendeu ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma”, passando a apoiar uma arte sem mensagem social e desconectada com a política explícita. Dessa forma passou combater a arte do “realismo socialista”, afirmando que toda arte é abstrata e que não é “a maior ou menor fidelidade da representação externa que determinará a maior ou menor qualidade estética”. Essa nova postura clama por “Toda liberdade à arte” e influencia a II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953), trazendo para o Brasil artistas de vanguarda: surrealistas, cubistas, futuristas e abstracionistas.

Em 1957, publicou o livro Poeta e pintor concreto, sobre o novo movimento literário. Sua preocupação era unir a “brasilidade”, a “tradição cultural local” a uma arte mais universal, como a abstrata e o concretismo, pouco aceitos pela velha guarda do movimento modernista. Assim, ele vê na pintura de Alfredo Volpi uma conciliação destes dois aspectos. No inicio da década de 1960, dedicou-se a solidificar o movimento concretista em âmbito nacional ao mesmo tempo em que se preocupa com a situação política do País, com a renúncia de Jânio Quadros em 1961. Pouco depois do Golpe de 1964, passou a se ocupar mais com a temática politica, e publica dois livros em 1966: A opção brasileira e A opção imperialista, onde reflete sobre o golpe e suas consequências, a política imperialista norte-americana, a burguesia nacional etc.

Em 1968, com o recrudescimento da ditadura militar, ele passou a denunciar a tortura aos presos políticos e a combater o regime. Foi processado em 1970, e tornou público seu pedido asilo no Chile. Ao tomar conhecimento do fato, o “The New York Times Review of Books” publicou carta aberta assinada por importantes artistas, como Picasso, Calder, Henry Moore e Max Bill, responsabilizando o governo brasileiro por sua integridade física. No Chile, onde se processava, pelo voto, uma revolução socialista sob o governo de Salvador Allende, fundou o Museu da Solidariedade, um dos mais importantes do país. O acervo, com mais de cinco mil obras de arte, continha obras de Picasso, Calder, Miró, Soulages entre outros, todas elas doadas graças ao seu prestígio internacional. Ainda no Chile contatou militantes brasileiros exilados e com o argentino trotskista Nahud Moreno. De tais contatos surgirão posteriormente novos movimentos organizados, tais como “Liga Operária” e “Convergência Socialista”.

Juntamente com a atividade política, passou a lecionar na Faculdade de Belas Artes de Santiago até a queda e morte de Salvador Allende, em 1973. Em seguida ficou uma temporada no México e logo se muda para Paris, onde viveu quatro anos e publicou inúmeros artigos para revistas de todo o mundo. Seu regresso ao Brasil se dá em outubro de 1977, quando foi absolvido por unanimidade. Passou a escrever regularmente na “Folha de São Paulo” e a batalhar pela reconstrução do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro-MAM, após o incêndio que o destruíra em 1978. No ano seguinte publicou um importante livro reunindo sua tese Da natureza afetiva da forma na obra de arte com outros ensaios intitulado Arte/forma e personalidade. No entanto, a veia política também se expressa ostensivamente, tornando-se o primeiro intelectual a participar da criação do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

Dias antes de falecer, em 11/11/1981, lançou uma coletânea de artigos sobre artes plásticas: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. Sua produção bibliográfica é composta por mais de 20 livros, muitos dos quais vem sendo reeditados até hoje. Sua biblioteca, de oito mil livros, folhetos e periódicos, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. Seu arquivo composto de documentos, correspondência, artigos, fotos etc. estão reunidos no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa-CEMAP, sob os cuidados da UNESP-Universidade Estadual Paulista, em São Paulo.

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A GRETOESTE DEIXOU MAIS RASTROS DO QUE TRILHOS

Apenas os nordestinos com mais de 60 anos saberão o significado da palavra “Gretoeste”: uma corruptela do nome Great Western, antiga empresa ferroviária inglesa existente em Pernambuco. Na Inglaterra, ela representou a conquista e a expansão para oeste, no século XIX; no Brasil começou fazendo o mesmo em direção ao agreste pernambucano. Assim, poderia se pensar que a palavra tem origem no termo “agreste”. Não. É pura coincidência etimológica. Uma coincidência interessante, digamos.

A Great Western of Brazil Railway é a primeira rede ferroviária, de importância econômica, no Brasil. Criada em 1873, contava com 1.600 km. de trilhos em quatro estados do Nordeste: Pernambuco (sede), Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Durante 77 anos cruzou estes estados com trens de passageiros e carga até 1950, quando foi nacionalizada, passando a se chamar Rede Ferroviária do Nordeste (RFN), antecessora da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). Neste período deixou mais rastros do que os trilhos do trem em sua trajetória, disse um cantador de repentes.

Segundo William Edmundson, pesquisador inglês radicado em João Pessoa, “Foi a primeira empresa no Brasil a proibir, por contrato, o trabalho escravo na construção e na operação da ferrovia”, E, em 1923, inaugurou a assistência social no Brasil com uma caixa de aposentadoria e pensões para os trabalhadores. Em 1928 foi criada a Associação Athlética Great Western. O “Ferroviários”, como era chamado, era o time de futebol, mas a Associação contava com outros esportes, como o atletismo, basquete, voleibol e tênis. No futebol integrava a 1ª Divisão do Campeonato Pernambucano, e em 1942 foi vice-campeão. Mas não estamos aqui para falar de esportes, a menção serve apenas para dimensionar o quanto a empresa era importante no seio da comunidade.

A primeira linha, inaugurada em 1879, ligava Recife a Limoeiro, passando por Caxangá, São Lourenço da Mata, Pau d’Alho e Tracunhaém, com ramais para Nazaré da Mata e Vitória de Santo Antão. Mais tarde, em 1886, a Great Western construiu a Estrada de Ferro Central de Pernambuco, ligando Recife a Caruaru e passando por Vitória de Santo Antão, Gravatá e Bezerros. Por essa época esta região exportava para o Recife grande quantidade de produtos, além de realizar a maior feira de gado da região. Em princípios do século XIX, a empresa tinha anexado a maior parte das linhas férreas existentes na região.

Quando estourou a II Guerra Mundial, tiveram que recorrer à lenha substituindo o carvão de pedra, causando a devastação das florestas. Para amenizar o problema, a empresa criou várias reservas florestais, onde eram cultivadas plantas nativas e aclimatadas no País para abastecer os trens. Vê-se que naquela época já se impunha uma consciência ecológica para evitar o desmatamento da região. Só mais tarde, em 1953, sob a direção da RFN, é que se daria dieselização de suas linhas, com a aquisição de 13 locomotivas diesel-elétricas.

Muitos estudos e teses confirmam a importância da Great Western no desenvolvimento do Nordeste. Dizem que é impossível escrever a história econômica da região sem consultar os arquivos e relatórios da empresa. É idêntica a história das ferrovias inglesas no desenvolvimento do Estado de São Paulo. Sua história acaba em 1950, com a criação da RFN e posteriormente, em 1957, com a RFFSA. Mais tarde, em 1985, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) passa a operar o que restou da empresa. No mesmo ano, foi inaugurado o Metrô do Recife, seguindo a rota da linha original da Great Western.

Toda essa história foi resgatada pelo pesquisador inglês William Edmundson, radicado em João Pessoa, e publicada no seu livro A Gretoeste: a história da Great Western of Brasil, lançado no ano passado pela Editora Ideia. O livro com 350 páginas, texto conciso e leitura agradável, embora com rigor acadêmico, traz informações relevantes tanto para os fanáticos por trens quanto para os interessados na história econômica do Nordeste.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XII

Gregório Bezerra (1900-1983)

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas, em 13/03/1900. Trabalhou na agricultura ainda criança e ficou órfão do pai aos sete anos, e da mãe aos nove. Foi morar no Recife junto a família dos fazendeiros que empregavam seus pais, mas não ficou muito tempo. A promessa de estudar não foi adiante e permaneceu analfabeto até os 25 anos. Passou boa parte da infância dormindo na rua e entre as catacumbas do cemitério de Santo Amaro. Nessa época trabalhou como carregador de malas na estação ferroviária, ajudante de pedreiro e jornaleiro.

Foi como vendedor de jornas que começou a se interessar pela política, através da leitura que os colegas faziam para ele. Em 1917 foi preso pela primeira vez, quando participava de uma manifestação de apoio à Revolução Bolchevique, que se passava na Rússia e à greve geral reivindicando direitos trabalhistas. Passou cinco anos preso na Casa de Detenção do Recife, onde conheceu o cangaceiro Antonio Silvino, do quem se tornou amigo. Ao sair da prisão, em 1922, com dificuldades de arrumar emprego, alistou-se no Exército e dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização. Com a intenção de fazer carreira militar, entrou para a Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro e foi instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas. Em 1929, retorna ao Recife e filia-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Dois anos depois, é designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza. Por sua própria conta, criou uma célula do PCB em Fortaleza, contrariando a orientação do partido. Em 1935 participou da “Intentona Comunista”, movimento promovido pela ANL-Aliança Libertadora Nacional, na condição de líder do levante militar. Na tentativa de roubar armamentos do CPOR, foi preso acusado pela morte de um tenente e ferimento de outro. Nesta segunda prisão, recebeu uma condenação de 28 anos, primeiro em Fernando de Noronha, seguida por outra temporada no Rio de Janeiro, no Presídio Frei Caneca. Nesta ocasião, dividiu a cela com o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Foi aí que aprimorou seus conhecimentos sobre as condições econômicas e políticas do Brasil, bem como sobre o movimento comunista internacional.

Com o fim do Estado Novo e a legalização do PCB em 1945, foi anistiado e elegeu-se deputado federal constituinte por Pernambuco, com a maior votação do estado. Em 1948 foi cassado junto com todos os parlamentares comunistas. Passou a viver na clandestinidade por nove anos, e neste período viajou para Goiás e Paraná, organizando núcleos sindicais como militante do PCB. A terceira prisão veio em 1964, com o Golpe Militar. Foi preso enquanto organizava a resistência armada dos camponeses ao golpe em apoio ao governo de João Goulart (federal) e Miguel Arraes (estadual). Levado para o Recife, sofreu as mais terríveis torturas e humilhações públicas: teve os pés imersos em ácido de bateria e foi obrigado a andar sobre britas. Em seguida foi arrastado pelas ruas de Casa Forte, enquanto o tenente-coronel Darcy Viana Vilock incitava a população a linchá-lo. O povo, consternado pela cena, não atendeu a incitação do coronel. Estas cenas foram transmitidas ao vivo pela televisão.

Em 1967 foi condenado a 19 anos de prisão, e foi libertado em 1969, junto com outros 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. Passou a viver na Rússia após um curto período no México e Cuba, só retornando ao Brasil em 1979, com a promulgação da anistia. Logo em seguida começou a divergir do PCB e desligou-se de seus quadros. No mesmo ano publicou sua autobiografia “Memórias” (relançado em 2011 pela Boitempo Editorial).

Pouco depois, filou-se ao PMDB, candidatou-se a Deputado Federal, em 1982, mas perdeu e ficou como suplente. No ano seguinte, já doente, declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas”. Faleceu em 21/10/1983. Em sua homenagem, o poeta Ferreira Gullar compôs o poema-cordel intitulado “História de um valente”.

Valentes, conheci muitos,
e valentões, muito mais.
Uns só Valente no nome
uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
só com capangas atrás.
Mas existe nessa terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor.

Em 2004 foi realizado o documentário de 28 minutos “Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”, dirigido por Anna Paula Novaes, Raquel barros e Rosevanya Albuquerque. O filme ganhou os prêmios de Destaque e Menção Honrosa no Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

* * *

O IMPÉRIO DE NAPOLEÃO ACABOU NO RECIFE

É sabido que o império de Napoleão acabou na Batalha de Waterloo, em 1815. Porém, é sabido também que os impérios não acabam assim de repente. O que restou e o que foi feito do famoso exército napoleônico? Após seu degredo para a Ilha de Santa Helena, muitos de seus altos oficiais foram presos; outros mortos; e outros debandaram pelo mundo afora. Muitos foram parar nos Estados Unidos; pais ainda em formação; brigando com a Inglaterra; logo, um bom lugar para começarem nova vida. Nos EUA, se estabeleceram na maior cidade americana da época: Filadélfia, a cidade do amor fraternal como diz seu nome; um lugar apropriado para receber estrangeiros; grande centro da Maçonaria internacional; ideal para reunir gente disposta a empreender, conspirar, lutar. Assim era a Filadélfia em 1817, a primeira capital dos EUA.

No mesmo ano o Brasil se agitava com a Revolução Pernambucana em curso, pretendendo tornar-se independente de Portugal. O movimento eclodiu em março de 1817, com a tomada do Palácio do Governo, na praça do Erário, onde se depositava o dinheiro português. Para presidir o Erário foi designado o influente comerciante Antonio Gonçalves da Cruz Cabugá. Em seguida, o Comitê Revolucionário enviou emissários às províncias vizinhas, com a finalidade de obter apoio interno; e para o exterior na busca de apoio externo, particularmente dos EUA.

Em maio de 1817, Cruz Cabugá desembarcou na Filadélfia com 800 mil dólares na mala e a missão de (1) comprar armas para combater as tropas inimigas, (2) convencer o governo americano a apoiar a Revolução e (3) recrutar alguns experientes militares franceses para ajudar a formar o exército que nascia em Pernambuco.

Não sabemos se chegou a comprar as armas, mas obteve um relativo apoio do governo americano. Enquanto durasse a revolta, os navios pernambucanos poderiam navegar em águas norte-americanas e, caso fracassassem, receberia os exilados. O contato com os militares franceses, regado a vinho e cachaça que ele levou, animou-os a participar da empreitada. Cruz Cabugá conseguiu contratar quatro veteranos de Napoleão: Conde Pontelécoulant, coronel Latapie, ordenança Artong e o soldado Roulet. Foi o que deu para conseguir com o dinheiro que levara.

Os franceses viram ali uma oportunidade de resgatar Napoleão, preso na ilha de Santa Helena e levá-lo para o Recife. Vencida a batalha, poderiam partir para a reconquista do Império na Europa. Napoleão também viu vantagem na empreitada. Seria uma oportunidade para se vingar de Dom João VI, o rei fujão de Portugal. Negócio fechado, os quatro franceses embarcaram para o Recife, enquanto Cabugá concluía as negociações.

Imprevistos da História auxiliados pela demora da navegação fizeram com que os quatros franceses demorassem a chegar e foram presos antes mesmo de desembarcar. Recife estava sitiada pelas tropas portuguesas. Cruz Cabugá, sabendo do ocorrido, ficou por ali mesmo até que as coisas esfriassem, digamos assim.

A História não lida com suposições, mas não custa nada imaginar que Napoleão tenha vindo, vencido a batalha contra os portugueses e instalado seu governo em Pernambuco. Foi o que Sérgio C. Buarque imaginou e escreveu o livreto Pernambuco imortal, imortal: devaneios de um cronista republicano do século XIX, editado pela Fundação Astrojildo Pereira, recentemente lançado. Napoleão se instalou no Recife e seus oficiais passaram a preparar a retomada da França. Enquanto isso, ele se refastelava com as delícias e o clima da terra, até que uma morena cor de jambo atravessou seu caminho.

Certo dia, ele reuniu todos os oficiais no terraço do Palácio das Princesas, e ao lado da morena anunciou: “Compatriotas, decidi abandonar o meu projeto de restauração da França e os convido a me acompanharem na entrega a este pequeno e inculto país que estamos construindo nos trópicos. A partir de agora, sou apenas pernambucano, um revolucionário pernambucano, um republicano dedicado à glória de Pernambuco. Tenho quase 50 anos, amo esta mulher cor de jambo que me ensinou a amar esta terra e que carrega um pequeno Napoleão no seu ventre. Não quero mais navegar por esses mares. Quero formar uma família e construir uma nação aqui. Dedicar o resto dos meus dias à proteção ao progresso desta terra”.

E assim termina a aventura napoleônica no Recife. Uma história engraçada cujo começo e meio estão repletos de fatos, intrigas e desilusões, que não vou contar para não estragar o prazer da leitura dos interessados em suposições históricas.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XI

Barbosa Lima Sobrinho 1897-2000

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho nasceu em Recife, em 22/01/1897. Foi essencialmente um jornalista, mas teve atuação destacada também como atleta, historiador, escritor, advogado e político. Seu nome já apareceu no Guinness of Recordes como o jornalista mais antigo do mundo em atividade. Durante 76 anos escreveu um artigo semanal no Jornal do Brasil (1924-2000), período no qual publicou mais de 4 mil artigos. Presidiu por três vezes a ABI-Associação Brasileira de Imprensa (1926-1927, 1930-1932 e 1978-2000) e a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977. Ou seja, teve toda a sua vida dedicada ao jornalismo entremeada com outras atividades. Oriundo de uma família tradicional do Recife, deve seu nome ao tio Barbosa Lima, que governou Pernambuco no período 1892-1896. O que lhe garantiu tanta longevidade foi o fato de ter sido, na juventude, atleta nadador e remador. “No Clube Náutico Capibaribe, no Recife, eu era o proa da guarnição dos remadores. Nossa guarnição foi a única do Brasil que teve dois acadêmicos, o Múcio Leão e eu”,

Ainda criança, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso primário. Poucos anos depois, retorna ao Recife, onde concluiu os primeiros estudos no Colégio Salesiano e Instituto Ginasial Pernambucano, em 1911. Aos 13 anos já escrevia nos jornaizinhos destas escolas, e aos 15 anos publicou seus primeiros artigos no jornal A Província, do Recife. Em 1913 entrou para a Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1917, quando passou a trabalhar como adjunto de promotor. A partir daí exerceu a advocacia sem deixar de colaborar na imprensa: Diário de Pernambuco, Pequeno Jornal e Jornal do Recife, onde publicava uma crônica dominical de 1919 a 1921. Neste ano mudou-se para o Rio de Janeiro e foi contratado imediatamente pelo Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator-chefe. Em 1926 foi eleito presidente da ABI pela primeira vez. Foi quem instituiu a profissão de jornalista, de fato, no Brasil: conseguiu unificar a classe, então dividida em três associações, reformulou os estatutos da entidade, instituiu a carteira de jornalista e o título de sócio e estabeleceu intercâmbio com as associações de imprensa dos estados, proporcionando a integração dos jornalistas em todo o país.

Em 1931, decidiu se casar com Maria José e foi pedi-la ao pai. O velho Horácio Pereira foi honesto e suscinto:

– “Minha filha não sabe cozinhar, não sabe costurar e nem passar”.

O jovem pretendente não deixou por menos:

– “Se eu quisesse uma empregada, doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do País”.

Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça. No final do mandato foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde atuou também como secretário-geral em 1952; presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955 e 1956; diretor da biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993.

No ano seguinte (1938), foi designado presidente do IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, onde conheceu, deu emprego e ficou amigo de Miguel Arraes. Em sua gestão o IAA realizou com sucesso as primeiras experiências na utilização do álcool como combustível automotivo, através da mistura de álcool anidro e gasolina. Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando escasseou o petróleo, houve um mês, em São Paulo, em que os veículos só contaram com aquele tipo de combustível fornecido pelo IAA. Vê-se hoje o pioneirismo do IAA na política energética: apenas na década de 1970, a política de produção do álcool como substituto da gasolina seria adotada pelo governo, passando a implementar a fabricação de veículos movidos à álcool para fazer frente ao alto custo da importação do petróleo. No plano interno, estabeleceu o serviço assistencial médico e dentário para os funcionários e seus dependentes, além de providenciar a transferência do IAA para uma nova sede, na praça 15 de Novembro, no Rio de Janeiro. Clique aqui e leia este artigo completo »

MAURICIO DE NASSAU RETOMA O RECIFE

O espírito de Mauricio de Nassau de vez em quando baixa no Recife. Seu apreço pela cidade é tamanho que deu seu nome à cidade: “Mauricéia”, que mais tarde Mario de Andrade imitou em São Paulo com “Paulicéia, mesmo que seja desvairada, um sinal dos tempos.

O que ele fez pela cidade em sete anos de governo em termos de infraestrutura (e também de superestrutura), considerando-se os recursos da época, é inatingível por qualquer governante até hoje. O plano urbanístico, palácios, jardins, pontes e diques ainda estão lá para quem quiser ver. Claro que para isso recebeu uma ajuda substancial da colônia judaica, pois ninguém faria aquilo tudo isso sozinho. Quando foi chamado de volta à Holanda, os judeus se mobilizaram e quiseram cobrir o salário que lhe pagavam para que permanecesse na cidade. Não teve jeito, voltou para a Europa e se instalou na Alemanha.

Mas não esqueceu a cidade que mais tarde Albert Camus chamou de “Veneza Brasileira”. Tanto é que 66 anos depois de seu retorno à Europa, foi chamado de volta para ajudar na emancipação do Recife numa revolta contra o domínio português instalado em Olinda. Em 1710 esteve por aqui auxiliando os recifenses na condição de estrategista dos mascates. Nassau não era político nem militar, era um empresário que exercia o poder com o conhecimento dos homens de negócios. Quanto a exploração da mão de obra escrava, não fazia como os portugueses que exploravam, torturavam e matavam os trabalhadores. Dizia que pode-se tosquiar a ovelha, mas o cutelo não pode atingir a pele do animal, numa analogia ao tratamento dado pelos portugueses.

Sua ajuda foi decisiva: Recife venceu a Guerra dos Mascates, conquistou a autonomia e pode prosseguir com seu talento para se tornar uma metrópole mundial, como ele idealizara. Mais tarde, em 1817, foi solicitado de novo a colaborar com a independência da Nação Pernambucana (e por extensão, brasileira). Porém, não botou muita fé no empenho; achou que a pretensão era grande demais e não veio participar diretamente do embate. Manteve uma ajuda à distância, dando apenas consultoria aos revoltosos através da inspiração. Um dos fatores que o desanimou foi a participação de militares napoleônicos articulada pelos revoltosos, e até a possibilidade de se transferir Napoleão, preso na Ilha de Santa Helena, para o Recife, com o intuito de retomar o Império Napoleônico. Sabe-se que as relações entre a Alemanha e a França não eram cordiais. A Revolução Pernambucana prosperou apenas por 74 dias e foi fragorosamente derrotada. Mesmo assim, antecipou uma independência negociada cinco anos depois.

Como empresário multinacional (foi um dos dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais), sua estratégia era outra. Seu negócio era manter o domínio através de novos mercados, e Pernambuco tinha cacife para isto. Passados todos estes anos, eis que Nassau surge de novo, agora inspirando um alemão empresário e art designer, para restaurar o que restou daquela época e retomar o devido lugar do Recife no mapa mundial. Agora não se trata mais de invasão territorial, pois o processo de globalização iniciado naquela época se dá hoje de modo diverso. O processo hoje se dá pelo meio empresarial, onde Nassau tem uma longa e comprovada experiência.

Seu conterrâneo, Klaus Meyer, esteve no Recife e foi inspirado por Nassau a se apaixonar pela cidade. Na busca de um lugar para morar e trabalhar, encontrou na Rua da Soledade (bairro da Boa Vista) um vistoso casarão, de 1840, com o nome de “Villa Ritinha” esculpido no pórtico, o nome da esposa do proprietário. O local pertencia a um casal de portugueses, onde se dava grandes festas da elite pernambucana do século XIX. Tem até um elevador, um dos primeiros do Recife, que vai ser restaurado. O alemão se apaixonou de imediato pelo imponente prédio, e comprou-o. “Quando eu comecei a restaurar a casa, descobri que havia muitas obras de arte cobertas por pinturas e achei que isso não poderia ficar fechado. As pessoas tem o direito de conhecer isso. Mudei todo o plano”, disse Meyer.

Iniciou a restauração do prédio de 400m² há três anos, e as pinturas, afrescos e altos-relevos em estilo francês e italiano da época foram aparecendo por baixo das camadas de tintas retiradas. São belíssimos quadros espalhados pelas salas e corredores do casarão. Seu projeto consiste na instalação de um centro cultural com café, bar, auditório e galeria de arte para visitação pública. A Villa Ritinha pode ser vista em todo seu esplendor na Intenet (https://www.youtube.com/watch?v=UlGsQhri–Y). Sua ideia é estimular outros empresários a adquirirem mais casarões antigos nas redondezas, restaurá-los e retomar a beleza que um dia foi chamada de “Veneza Brasileira”.

A iniciativa de Klaus Meyer estimulou a Prefeitura do Recife a retomar a restauração da cidade iniciada na década de 1990, com a Rua do Bom Jesus. Ou será que foi o espírito de Nassau interferindo e influenciando também na municipalidade? Não importa, o que interessa é que o secretário de Planejamento Urbano, Antônio Alexandre, está disposto a restaurar boa parte dos prédios antigos que se encontram abandonados, alguns correndo o perigo de desmoronar. “Começou como um polo institucional e agora está atraindo o interesse do mercado imobiliário. Vamos começar a fazer experimentos na cidade”, declarou. Pelo que temos “percebido”, Nassau anda agora exercendo sua influência nos empresários do Porto Digital, de modo a transformar toda aquela parte do centro velho do Recife num belo recanto onde o antigo e o novo se conjugam em perfeita harmonia.

PERNAMBUCANOS HONORÁVEIS (III)

Miguel Arraes, junto com Dom Hélder Câmara e Ariano Suassuna, talvez seja o mais conhecido “pernambucano honorável” até agora destacado nesta coluna. Demos este título aos nomes que muitas pessoas acham que é pernambucano para não faltar com a verdade e ao mesmo tempo dar uma satisfação aos nossos vizinhos paraibanos e cearenses que alegam o fato de os pernambucanos “gostarem de gozar com a pica dos outros”. Nas próximas semanas vamos alargar o leque de personalidades, incluindo outros nomes ilustres que, não sendo nativos, viveram parte de suas vidas e tiveram atuação relevante no estado de Pernambuco. Estamos abertos às sugestões dos leitores fubânicos para ampliar a galeria.

Miguel Arraes (1916-2005)

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15/12/1916, em Araripe, CE. Advogado, economista, politico e governador de Pernambuco por três vezes, além de deputado federal, estadual e prefeito do Recife. Ainda hoje é homenageado como um mito na política pernambucana. Filho de agricultores, seu pai foi um empreendedor que montou um matadouro e uma indústria de beneficiamento de algodão. Ainda jovem mudou-se para a cidade do Crato, a fim de concluir o ginásio. Por essa época, um fato viria marcar sua personalidade e selou seu destino político: testemunhou a prisão de três flagelados presos por tentarem fugir da seca para Fortaleza. Mais tarde afirmou: “É uma lembrança que guardo para sempre. Era um horror difícil de compreender e marcou meu jeito de ver as coisas”.

Ao concluir o curso secundário no Colégio Diocesano, em 1932, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde entrou na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). No mesmo ano foi aprovado num concurso para trabalhar como escriturário no IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, no Recife. Com isso conseguiu se transferir para a Faculdade de Direito do Recife, e concluiu o curso em 1937. No IAA fez carreira por algum tempo e conheceu Barbosa Lima Sobrinho, com quem travou um longo relacionamento e que o levou definitivamente para a Política. Em 1943, aos 27 anos, já era Delegado Regional do IAA. Foi aí que conheceu o poder de influência da aristocracia canavieira contrapondo com a vida miserável no campo.

Em 1948, o amigo Barbosa Lima Sobrinho, agora Governador do Estado, convidou-o para comandar a Secretaria da Fazenda. Em seguida disputou a sua primeira eleição para deputado estadual pelo PSD-Partido Social Democrático, mas ficou na suplência, vindo ocupar o cargo posteriormente. No ano seguinte casou com Célia de Souza Leão, irmã do usineiro Cid Sampaio, com quem manteve uma relação de parceria e concorrência. Em 1958 foi eleito deputado estadual. No ano seguinte, sob o governo de Cid Sampaio foi novamente Secretário da Fazenda e no mesmo ano aceitou – a pedido das forças progressistas – ser candidato a prefeito do Recife. Foi seu primeiro mandato executivo. Em 1961, faleceu sua esposa com quem teve oito filhos. No ano seguinte foi eleito governador de Pernambuco pelo PST-Partido Social Trabalhista, apoiado pelo PCB-Partido Comunista Brasileiro. No mesmo ano, casou-se com Maria Madalena Fiúza, com quem teve mais dois filhos.

Sua atuação ficou marcada com programas destacados na área da educação e no setor rural. O “Acordo do Campo” feito com os usineiros compreendia o pagamento do salário mínimo aos trabalhadores rurais. Apoiou a criação de sindicatos, associações comunitárias e as ligas camponesas, liderada pelo deputado Francisco Julião. Nessa época o as relações de trabalho dos canavieiros com os senhores de engenho eram consideradas como semiescravidão. Tais atividades fizeram com que, em abril de 1964, o Palácio das Princesas fosse cercado pelo militares, que lhe propuseram a renúncia ao cargo para evitar a prisão. Não só recusou a proposta como fez uma corajosa declaração pública, num ato de bravura, que não foi veiculada pelo Radio, pois as emissoras já estavam ocupadas pelos militares.

Foi deposto e preso na Ilha de Fernando de Noronha por 11 meses. Libertado em 1965 seguiu para o Rio de Janeiro, onde orientado pelo seu advogado Sobral Pinto, procurou o exílio para evitar uma nova prisão. Pediu asilo na Embaixada da Argélia, um país com problemas sociais semelhantes aos do Brasil. Passou 14 anos, junto com a família, em Argel colaborando com o governo argelino e sobrevivendo com tradutor. Nesta função traduziu um importante livro politico do russo Serge Tchakhotine, A mistificação das massas pela propaganda política, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 1967. Neste mesmo ano foi condenado à revelia com a pena de 23 anos de prisão, pelo crime de subversão.

Retornou ao Brasil em 1979, com a Anistia. Com todo esse tempo fora do país, o povo pernambucano não esqueceu do político. Uma multidão foi recebê-lo no aeroporto com faixas: “ARRAESTAÍ”. 50 mil pessoas estiveram presentes no comício de boas-vindas. Retomou a trajetória política filiando-se ao PMDB e foi eleito Deputado Federal em 1982. Na eleição seguinte (1986) foi eleito governador pela segunda vez. Nesta gestão implementou programas voltados ao pequeno agricultor, tais como o “Vaca na corda” (financiando a compra de uma vaca), “Chapéu de palha” (empregando canavieiros na época de entressafra) No final da década, desencantado com a linha politica do PMDB, ajudou a criar o PSB-Partido Socialista Brasileiro, foi seu presidente nacional e elegeu-se Deputado Federal (1991-1993) com a maior votação proporcional do país.

Em 1994 foi eleito governador pela terceira vez, aos 78 anos. Contam uma história que não se sabe se é piada ou não: seus assessores ficaram preocupados com a idade avançada do candidato e foram lhe perguntar como estava a saúde; se era o caso de enfrentar mais um mandato; se estava realmente disposto etc. Sua resposta foi hilariante:

– Eu vou consultar minha mãe.

Nesta gestão realizou o maior programa de eletrificação rural do estado, o “Luz que produz”, que mais tarde influenciou o programa “Luz para todos”, no Governo Lula. Por outro lado, foi um período marcado por uma grave crise financeira e pela greve das policias civil e militar. Para piorar o quadro, foi um dos principais opositores do presidente Fernando Henrique Cardoso, o que lhe causou grande prejuízo político. Isto faz com que não se reeleja governador em 1998. Perdeu a eleição para seu ex-aliado Jarbas Vasconcelos.

Não abandona a política e continua suas articulações com políticos em todo o país na presidência do PDB-Partido Socialista Brasileiro. A esta altura, passa a ser chamado de “Oráculo do Nordeste”, devido a fama e a idade avançada. Em 2003, aos 86 anos é eleito deputado federal pelo PSB, integra a base aliada do Governo Lula e indica seu neto e herdeiro político Eduardo Campos para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Fumante contumaz, começa a ter a saúde comprometida. Em 16/06/2005 foi internado com uma suspeita de dengue. Pouco depois foi detectada uma infecção pulmonar. Em seguida uma artéria do pulmão se rompeu; é submetido a uma cirurgia de emergência; tem uma breve melhora e esteve para deixar a UTI em 12 de agosto. Mas no dia seguinte o quadro volta a piorar e se dá o falecimento, aos 88 anos.

Logo após o falecimento, o nome de Miguel Arraes passa a denominar diversos logradouros, escolas e instituições. No ano seguinte, a jornalista Teresa Rozowykwiat lançou o livro Arraes, a primeira biografia autorizada sobre a vida do ex-governador. Trata-se de um relato com informações exclusivas repassadas pela viúva Magdalena Arraes, com detalhes de sua personalidade que só os mais íntimos conheciam. Isto animou seus amigos a criar, em 2008, o Instituto Miguel Arraes, com o objetivo de preservar e divulgar seu legado e memória. Na ocasião o jornalista Lailson de Holanda realizou uma exposição com mais de 500 charges desde sua chegada do exílio. Posteriormente lançou um livro com a coleção das melhores charges, intitulado Arraestaqui. Para concluir e demostrar a importância e abrangência nacional de seu nome, Miguel Arraes foi homenageado, no Carnaval de 2016 no Rio de Janeiro, pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

* * *

FEITOS & FATOS PERNAMBUCANOS (III)

Ainda criança, ouvia os radialistas do Recife, com voz grave e solene, darem o prefixo de suas emissoras, e emendavam cheio de orgulho: “De Pernambuco para o Mundo!”, o pessoal do sudeste ria e gozava da mania de grandeza daquela gente, vendo no ato apenas prepotência e orgulho desprovidos de razão, quando na verdade tal comportamento está lastreado em fatos e feitos reais.

O fato real é a condição histórica e geográfica do Recife ser a primeira metrópole brasileira de caráter mundial mais próxima da Europa e da América. Os feitos são decorrentes deste fato, confirmados em diversas áreas, conforme o levantamento das informações realizado até o momento. Com alguns dados em mãos, fui agraciado com a sorte de encontrar, no Recife, um jornal onde pude divulgá-los, o Jornal da Besta Fubana. Iniciei a série de “Feitos & Fatos Pernambucanos” em 6/12/2016 com 14 itens, pedindo aos leitores que colaborassem com o levantamento. Em apenas uma semana recebi 22 contribuições somando 36 itens publicados em 13/12/2016.

É preciso ressaltar que boa parte das contribuições vieram do amigo Carlos Eduardo dos Santos, também colunista deste Jornal. Além disso, recebemos colaborações de alguns leitores, tais como incluir Recife como a nascente do Oceano Atlântico, através da foz dos rios Capibaribe e Beberibe e atribuir aos recifenses a fundação de Nova Iorque. Porém, tivemos que descartar estas contribuições, pois no primeiro caso é apenas um acidente geográfico que beneficia e embeleza a cidade, mas não é um feito pernambucano. Quanto a fundação de Nova Iorque, atribuída aos judeus que foram expulsos do Recife em 1654, também não procede. A cidade foi fundada pelos holandeses um pouco antes e recebeu apenas uma ajuda de 23 judeus que saíram do Recife, cujos descendentes contribuíram substancialmente na formação dos EUA e na criação da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

Posteriormente, mais alguns leitores gaiatos enviaram “colaborações”, no sentido de incluir o fato de Pernambuco ser o maior produtor de maconha do Brasil, produzida na região de Cabrobó, ou incluir o Cais de Santa Rita como a maior zona de meretrício do Brasil, nas décadas de 1940/1950. Vamos descartar estas colaborações, pois não se trata de coligir os defeitos. Vamos relacionar apenas os feitos. Sabemos que o pioneirismo e a grandiosidade do Estado se dá em muitas áreas. Assim, apresentamos os itens coletados até o momento e continuamos a pesquisa, contando sempre com a colaboração dos leitores fubânicos.

1- 1ª Igreja do Brasil (Igarassu, 1535)
2- 1ª Santa Casa de Misericórdia do Brasil (Olinda, 1540)
3- 1ª Câmara Municipal (Olinda, 1548)
4- 1º Farol Marítimo (Olinda, 1548)
5- 1º Convento Franciscano (Olinda, 1577)

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES X

Antônio Maria (1921-1964)

Antônio Maria Araújo de Morais nasceu no Recife, em 17/03/1921. Compositor, poeta, jornalista, radialista e cronista, teve uma infância privilegiada. O pai era um usineiro que perdeu tudo especulando com o preço do açúcar, e morreu antes que ele saísse da adolescência. Estudou no Colégio Marista e teve professores particulares de piano e francês. A tendência para a boêmia manifestou-se logo cedo: “Quando eu fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e 5 mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei num botequim”. Numa aposta com os amigos, tomou um pileque, entrou na praia de Boa Viagem e quase morreu afogado. Com a falência familiar, teve que trabalhar aos 17 anos como apresentador de um programa musical, na Rádio Clube de Pernambuco. Aos 19 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi locutor esportivo da Rádio Ipanema.

Foi morar na Cinelândia, no mesmo prédio onde viviam os conterrâneos Fernando Lobo e Abelardo Barbosa (futuro Chacrinha), além de Dorival Caymmy e o pintor Augusto Rodrigues. Não se deu bem profissionalmente, e retorna ao Recife após 10 meses. Casou-se com Maria Gonçalves Ferreira, em 1944, e mudou-se para Fortaleza, onde vai trabalhar na Rádio Clube do Ceará. No ano seguinte mudou-se para Salvador para atuar como diretor das Emissoras Associadas e faz amizade com Di Cavalcanti e Jorge Amado. Em boa companhia, dá inicio efetivo a vida boêmia. Em 1947 volta ao Rio de Janeiro com dois filhos e passa a trabalhar como diretor artístico da Rádio Tupy. Junto com a direção artística, redigia o programa Minha terra é assim e apresentava O tempo e a música, com grandes artistas. Em seguida passou a redigir o programa humorístico Rua da alegria, de muito sucesso. Chegou a ter três programas por semana e sua criatividade e inteligência ficaram marcadas por algum tempo na década de ouro do rádio.

Com a inauguração da TV Tupy, em 1951, Assis Chateaubriand convida-o para ser o diretor de Produção. Por essa época começa a escrever suas crônicas diárias n’O Jornal. Por mais de 15 anos comandou as colunas A noite é grande e “O Jornal de Antonio Maria”. A vida boêmia toma impulso e cria a frase “A noite é uma criança”. Em fins de 1952 Getúlio Vargas deu uma grande ajuda financeira à Rádio Mayrink Veiga em troca de apoio político. Para manter o ataque contra a Rádio Tupi, contratou os grandes nomes do rádio e Maria foi um dos primeiros. Foi contratado com um salário de 50 mil cruzeiros, o mais alto do rádio no Brasil até então. O boêmio não fez por menos: comprou seu primeiro “cadillac”, o carro símbolo de status na época.

Em 1954, passa a trabalhar no jornal O Globo, cujo anúncio dá a medida de sua importância: “O Globo inaugurará amanhã mais uma seção diária Mesa de pista. Está a cargo de Antônio Maria. É dispensável a apresentação do cintilante cronista. Todos o conhecem. Todos o admiram. Não há quem não leia com prazer o que ele escreve. Conhecedor profundo da vida da cidade, Antônio Maria nos dará todos os dias aspectos e flagrantes das reuniões e diversões noturnas da cidade. Não será propriamente um cronista social. Será um cronista da noite carioca, naquilo que ela tem de mais curioso e pitoresco”. Na opinião de Luís Fernando Veríssimo, foi o melhor cronista da literatura brasileira. Em seguida foi trabalhar no jornal Última Hora, quando retoma O Jornal de Antonio Maria e inaugura o Romance Policial de Copacabana, com crônicas e reportagens. Além de comandar seu programa, participava de outros, como o de Sargentelli, Preto no branco e de Ary Barroso Rio, eu gosto de você, na TV Rio, em 1957.

Era considerado um homem de sete instrumentos, como se dizia na época. Participava de shows na boate Casablanca, junto com Paulo Soledade; na boate Ninght and Day, junto com Ary Barroso, com o show A mulher e o diabo; compunha jingles publicitários; caricaturista de suas crônicas e locutor esportivo. Foi ele que transmitiu o gol do Uruguai no final trágica da Copa do mundo de 1950. Como compositor, gravou algumas músicas clássicas: Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Menino Grande, Canção da volta, Tuas mãos, Se eu morresse amanhã, além do Samba do Orfeu e Manhã de carnaval foram feitas em parceria com Luís Bonfá. Chegou a fazer sucesso internacional com Nat King Cole cantando em inglês Ninguém me ama e Tuas mãos. Todos os grandes intérpretes gravaram suas músicas: Nora Ney, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Lúcio Alves, Doris Monteiro, Jamelão, Ângela Maria, Aracy de Almeida, Agostinho dos Santos, Dircinha Batista.

Como compositor, chegou a ser considerado o rei do samba-canção. De toda sua produção musical, apenas 62 foram gravadas. Em sua maioria são músicas tristes, de dor-de-cotovelo. Mas não eram só samba-canção. Certa vez escreveu em seu diário “Muitas vezes, de madrugada, o menino acordava com o clarim e as vozes de um bloco. Eles estavam voltando. O canto que eles entoavam se chamava ‘de regresso’. Não sei de lembrança que me comova tão profundamente. Não sei de vontade igual a esta que estou sentindo, de ser o menino que acordava de madrugada, com as vozes de metais e as vozes humanas daquele Carnaval liricamente subversivo”. Era a saudade do Recife batendo forte. Com tais sentimentos compôs os frevos nº 1 e nº 2, dois clássicos gravados por Nara Leão e Maria Bethânia. São os frevos saudosos mais alegres e tristes ao mesmo tempo do repertório pernambucano.

Era um homem de muitos amigos (e inimigos). Sua amizade com Vinicius de Moraes era tamanha ao ponto de parecerem irmãos. E de fato eram iguais no gosto pelas mulheres e pela boemia. Foi ele quem apelidou Vinicius de “poetinha”. A amizade ficou eternizada num belo texto de despedida no dia de sua morte. Carlos Heitor Cony era outro grande amigo. Certa vez ligou para ele dizendo: “Cony, você nunca me enganou!”. Relatou que vindo de São Paulo, sentou no avião ao lado de uma bela mulher que lia o livro Matéria de memórias, de Cony. Ele puxou conversa, apresentou-se como o autor do livro e passou a desfiar um rosário de infelicidades: era um desgraçado; nunca teve sucesso, exceto com a literatura; que as mulheres o abandonavam etc. etc. “Mas Maria!….” era tudo o que Cony conseguia falar. “Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque depois nós fomos para cama. Ou melhor, você foi para a cama com a mulher”. E Cony, curioso: “E aí?” “E aí é que aconteceu o problema” gargalhava enquanto explicava. “Você broxou Cony!, você broxou!!!”

Não obstante a vida boêmia, tantos amigos e um caráter extrovertido, Maria foi um homem que sempre teve a solidão como companheira, como se deduz de sua crônica Oração em 30/03/1954: “Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”. Vez ou outra aproveitava suas crônicas para desabafar sua solidão: “Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor”.

Em fins da década de 1950, comandava o prestigiado programa de entrevistas na TV Rio Encontros com Antônio Maria, onde deu uma cantada, ao vivo e em público, em Maysa e entrevistou o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, quando foi criado o slogan “rouba mas faz”. Por esta época apaixonou-se por Danusa Leão, a mulher de seu patrão Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, onde era um dos colunistas mais apreciados. Os dois acabaram decidindo morar juntos. O romance não se encaminhou como era esperado. Danusa, sempre muito extrovertida, lhe provocava um ciúme doentio, e as brigas eram frequentes. Mas ela suportou até 1964, quando veio o golpe militar. Samuel Wainer foi para o exílio e ela se decidiu por reatar o casamento e acompanhá-lo. Doente, com problemas cardíacos desde criança – “Sou cardisplicente, costumava dizer na sua displicência -, com sérias limitações para comer e beber como gostava, sua saúde foi bastante afetada pela separação. Na madrugada de 15 de outubro de 1964, ao sair da boate Bistrô, no posto 4 de Copacabana, foi fulminado por um enfarte do miocárdio. Pode-se dizer que morreu em plena atividade no seu local de trabalho.

Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus, no Recife antigo

RECIFE & MANHATTAN

O problema urbano apresentado no filme Aquarius, de Kleber Mendonça, parece uma cena bucólica diante do que vou contar. Pois, o que se pretendia demolir ali (no filme) era um pequeno e antigo prédio de três andares; enquanto o que vou relatar trata-se de um grande edifício. Em 1969 estive “hospedado”, na condição de turista-mochileiro, na Praça de Boa Viagem. Um lugar agradável, arborizado, com bancos para sentar, dormir e palestrar. Uma beleza! Para chegar na praia, bastava atravessar a rua e de lá a vista da praça ficava mais bonita ainda: o arvoredo, a igrejinha ao fundo, e do lado esquerdo um edifício moderno, de uns 10 andares, fazendo a curva na esquina da praça com a avenida. Era um hotel de luxo (o Hotel Boa Viagem).

Voltei à praça 30 anos depois e não encontrei o edifício. No lugar dele encontro um espigão de uns 40 andares. Do lado direito, encontra-se outros espigões do mesmo tamanho. A praça ficou espremida entre uma enorme fileira de edifícios altíssimos que se estende pela orla de lado a lado. Desnecessário dizer que esse novo entorno desfigurou a praça, deixando-a mais acanhada, limitada pelos altos edifícios. É o preço inevitável que se paga pelo progresso, dizem alguns. Mas será que vale a pena? A desfiguração urbana provocada causou alguma melhoria na paisagem?; a qualidade de vida daqueles recifenses teve alguma melhoria? Esta mudança na paisagem da orla de Boa Viagem já vinha acontecendo bem antes de minha estadia como turista-mochileiro. Em 1960 o poeta e cronista Paulo Mendes Campos esteve hospedado por lá e escreveu uma crônica, publicada na revista “Manchete”, exatamente sobre a altura dos edifícios que começavam a pipocar no lugar de prédios já de bom tamanho. O que ele disse?: “Alguém poderia imaginar a municipalidade de Roma permitindo que se construíssem arranha-céus nas áreas que restam da cidade antiga? Em Boa Viagem se comete um desvario parecido. Não se trata de ruínas ilustres, mas de um patrimônio social que seria preciso preservar e transmitir intato às gerações. Pois essa mensagem de vida, de beleza e graça está sendo devastada pela ganância imobiliária, repetindo-se na praia pernambucana a estupidez grosseira que arrasou Copacabana em vinte anos. Os primeiros edifícios de apartamentos saltam com despudor agressivo da orla marítima”.

Constatado o estrago feito na paisagem urbana, ele parte para a denúncia e advertência: “O crime vai sendo praticado sem que os habitantes de Recife acreditem que se possa fazer ainda alguma coisa para evitá-lo. A andar nesse passo, o Brasil acabará aleijado, natural e exuberante nas áreas que o homem não atingiu, e confinado e imprevidente nas concentrações humanas. Tanta imprevidência, tanta falta de respeito pelos que ainda não se fizeram adultos, é de dar muita pena e muita raiva. Estragar Boa Viagem é envenenar as águas de uma fonte pura”.

Mais 10 anos se passam e retorno ao Recife para matar saudades. Flanando pelo centro velho, deparo estarrecido com duas torres enormes, de 42 andares. “São as torres gêmeas” em total desacordo urbanístico com o Cais de Santa Rita, onde estão instaladas. A motivação dessa ganância imobiliária é óbvia: adensamento da população, valorização do custo dos imóveis, aproveitamento da infraestrutura viária etc. E quanto a beleza e conforto urbano? Será que haverá lucros aí também? O desejo e a preferência pelos altos edifícios nas grandes (e agora também nas pequenas) cidades brasileiras vêm sendo criticadas desde princípios do século passado. Em 1927 Pirandello esteve no Rio de Janeiro e foi entrevistado por Sergio Buarque de Holanda. Conversa vai e vem, e ele foi solicitado a dizer o que está achando da cidade. Sua resposta foi uma advertência aos cariocas que, ao seu ver, estavam imitando sem necessidade a cidade de Nova Iorque: “Os arranha-céus no Brasil provêm de um erro profundo. É injustificável e lamentável numa terra rica de espaço esse sistema de construções que em outras cidades, em Nova Iorque, por exemplo, tem sua explicação e sua razão de ser. No Rio de Janeiro a existência dos arranha-céus não tem sentido. É uma imitação. As formas de arte não resultam de uma vontade. Não há forma de arte intencional. E, por isso mesmo, os vossos arranha-céus, que não correspondem a uma necessidade, que não surgem espontaneamente da terra, são necessariamente uma expressão falsa de arte. Penso muito que, de um modo geral, a arquitetura no Rio é quase uma ofensa à paisagem. Deve-se procurar sempre uma linha correspondente à da natureza” (¹).

Agora há pouco, em 10/1/17 (), falamos aqui sobre a origem histórica comum de Recife e Manhattan e mostramos a semelhança geográfica. (clique aqui para ler) As imagens poderiam servir para não seguirmos no mesmo caminho. Será que estamos condenados a copiar inclusive os defeitos das grandes metrópoles?

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(¹) Entrevista conduzida por Sergio Buarque de Holanda e publicada n’O Jornal (RJ), 11/12/1927. (reproduzida n’ O Estado de São Paulo, 31/12/1988)

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – IX

Cícero Dias (1907-2003)

Cícero dos Santos Dias nasceu em 05/03/1907, em Escada. Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor, foi um dos primeiros pintores modernista do Brasil. Passou toda a infância no Engenho Jundiá, estudando e aprendendo a desenhar em Escada até os 13 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro, com a finalidade de se tornar pintor. O interesse pelo desenho e pintura surgiu logo cedo e sua obstinação em se aperfeiçoar nesta arte surpreendeu seus pais. No período 1925-1927 estudou arquitetura e pintura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não concluiu o curso, pois discordava da orientação. Decidiu se juntar ao grupo modernista de São Paulo, colaborando com a Revista de Antropofagia.

Sua primeira exposição se deu em 1929, com o mural Eu vi o mundo… ele começava no Recife. Um enorme mural de 15 metros expondo mulheres nuas, sonhos, crianças brincando etc. Uma obra ousada para aqueles tempos, que não encontrou lugar para ser exposto. Em contato com o Dr. Juliano Moreira, que gostou muito do mural, foi-lhe oferecido um saguão de um hospício, onde se realizava um congresso internacional. Assim, foi ali mesmo que o mural foi apresentado ao público, num hospício. Foi uma “coisa de louco”, pode-se dizer. Este mural é considerado sua obra prima e é considerado uma das mais importantes da história da arte no país. Em 1930 ganhou uma bolsa de estudos e passa uma breve temporada em Paris em contato com os modernistas. No ano seguinte dá-se uma exposição na Enba, e Di Cavalcanti convida-o a expor seu mural. Tal como na exposição do hospício, o mural causou escândalo e debates no métier refratário à arte moderna.

A partir de 1932, passa a lecionar desenho no seu ateliê no Recife; a ilustrar livros, como Casa grande & senzala, de seu amigo Gilberto Freyre (1933); e a pintar e agitar o incipiente meio cultural. Com a instauração do Estado Novo, teve seu ateliê invadido várias vezes por tropas policiais, até que foi preso, em 1937, acusado de ser simpatizante do Partido Comunista, o que de fato era verdade. Desgostoso com a realidade e incentivado por Di Cavalcanti, decidiu se mudar definitivamente para Paris, em 1937. Começa, então, uma longa amizade com os artistas surrealistas, como André Breton, Paul Éluard, Fernand Léger, Henri Matisse e Pablo Picasso, que lá se encontrava asilado. Em 1943 casou-se com a francesa Raymonde e teve a filha Sylvia, da qual Picasso foi o padrinho. Com esse pedigree, não poderia deixar de ser também pintora. Sobre esta amizade, vale dizer que os dois dividiam o mesmo telefone e que ele acompanhou a elaboração do famoso quadro Guernica. Acredita-se que Picasso exerceu uma influência marcante em seus trabalhos posteriores.

Na II Guerra Mundial, durante a ocupação da França pelos nazistas, foi preso na cidade de Baden-Baden junto com um grupo de estrangeiros. Mas logo foi trocado por espiões nazistas que estavam presos no Brasil. A partir de 1943 passa a viver em Lisboa como Adido Cultural da Embaixada do Brasil até 1945, e participa do Salão de Arte Moderna, onde foi premiado. Ao final da guerra, retorna à Paris a pedido de Picasso, que lhe envia um exemplar de sua peça de teatro O prazer agarrado pela cauda, com a dedicatória: “Para Dias, cuja presença em Paris é obrigatória”. Nesse instante dá-se uma transição fundamental em sua obra, conhecida como fase vegetal, na qual ele sai da figuração, vai para a abstração e integra-se ao grupo abstrato Espace. No mesmo ano de 1945 expõe em Londres, Paris e Amsterdam. Em 1948 decide visitar a terra natal e, envolvido mais intensamente com murais, inaugura o primeiro mural abstrato da América Latina, no prédio da Secretaria da Fazenda, em Recife. No ano seguinte participa da Exposição de Arte Mural de Avignon (1949); na XXVI Bienal de Veneza (1952); exposição do grupo “Klar Form”, na Dinamarca, Suécia e Finlândia (1952); II Bienal de São Paulo (1953). Exposição Universal de Bruxelas (1958) Assim vai construindo sua carreira de renomado pintor em nível internacional.

A partir de 1960 voltou com mais firmeza à arte figurativa, e as exposições e as exposições continuam nos museus de Paris, Nova Iorque, San Francisco. Em 1965, a VIII Bienal de São Paulo dedicou-lhe uma sala especial. No mesmo ano, a Bienal de Veneza realizou uma exposição retrospectiva de 40 anos de pintura. Suas viagens ao Recife eram frequentes, e os amigos diziam que ele vivia em Paris, mas a cabeça estava em Pernambuco. Em 1970 realizou diversas exposições individuais no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1980 instalou dois painéis no hall central da Casa de Cultura, no Recife, representando as revoluções pernambucanas de 1817 e 1824. Em 1981, o Museu da Arte Moderna-MAM realizou uma retrospectiva de sua obra. Sete anos depois, O MAM realizou outra retrospectiva intitulada Cícero Dias: síntese da obra, que percorreu diversas capitais brasileiras.

Noutra viagem ao Brasil, inaugura, em 1991, um painel de 20 metros na Estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo, e no mesmo ano é inaugurada a Sala Cícero Dias no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1998 foi reconhecido tardiamente não como pintor e sim como herói nacional: recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito da França, uma insígnia só conferida a heróis nacionais franceses, por ter conseguido furar o cerco dos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, e ter chegado a Londres com um exemplar do poema Libertè, de Paul Èluard. O poema, na forma de panfleto, foi despejado por toda a Europa pelos aviões aliados.

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Em 1999, o Marco Zero do Recife passou por uma grande reforma e o governo de Pernambuco convidou-o para participar da construção da “nova” praça Rio Branco. No ano seguinte voltou ao Recife para inaugurar uma rosa-dos-ventos, estilizada, no chão da praça, cartão postal da cidade. Nesta ocasião a Prefeitura do Recife presta-lhe uma justa homenagem: a inauguração de uma praça com o seu nome. Dois anos depois, esteve novamente no Recife para o lançamento do livro Cícero Dias: uma vida pela pintura, do jornalista Mário Hélio. Aproveitou a viagem para fazer mais uma exposição individual em São Paulo, na Galeria Portal. Ao longo de sua vida, realizou mais de 50 exposições individuais, 240 exposições coletivas e mais de 10 exposições póstumas em todo o mundo.

Neste exato momento, o Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, está apresentando a exposição Cicero Dias: um percurso poético, com 120 obras do artista, além de textos, fotos e documentos apresentando sua trajetória. Integra a exposição um grande número de trabalhos vindos de coleções particulares da França, possibilitando a apreciação de boa parte de sua obra. A exposição, com curadoria honorária de sua filha Sylvia Dias, encontra-se dividida em três grandes núcleos que delineiam seu percurso artístico: 1- Brasil, 2- Europa, 3- Monsieur Dias: uma vida em Paris. Cada um deles, por sua vez, é dividido em novos segmentos. A ideia é que a visitação seja feita de forma linear. A exposição ficará no CCBB de Brasília até o dia 3 de abril e depois seguirá para as filiais do CCBB de São Paulo (21/04 a 10/07) e Rio de Janeiro (01/08 a 25/09). Cícero Dias faleceu em 28/01/2003, e seu corpo foi sepultado no cemitério de Montparnasse, em Paris.

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Entrevista concedida a Napoleão Sabóia, publicada n’O Estado de São Paulo, de 24/09/1999, sob o título “Pintura da Cícero Dias alimenta-se de música e poesia.”

Estado – Desde quando estreou com a exposição de 1928, os críticos sugerem comparações suas com o russo Chagall, por exemplo, e o situam em diferentes escolas – figurativa, abstracionista, surrealista. Poderia identificar-se de uma vez por todas?

Cícero Dias – Não gosto das etiquetas. O que me identifica com Chagall são as origens comuns de nossa arte na pintura popular, nas manifestações folclóricas, culturais de nossas terras respectivas. É por isso que falam que meus quadros lembram os de Chagall e vice-versa. Acontece, porém, que, quando comecei a pintar de verdade, a partir dos anos 20, não havia no Brasil reproduções de Chagall e de outros pintores de vanguarda. O que houve, pois, foi uma coincidência entre mim e Chagall.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES – VIII (QUE VOCÊ DESCONHECIA)

Abreu e Lima em Pernambuco é mais conhecido como o nome de uma cidade da Grande Recife do que uma pessoa de carne e osso. No Brasil, então, é totalmente desconhecido, sendo ignorado nos livros de História. Não é como na Venezuela, onde é devidamente reconhecido como herói entre os “Libertadores da América”. Agora que comemoramos o bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817, é hora de fazermos esta singela homenagem.

General Abreu e Lima

José Inácio de Abreu e Lima nasceu em Recife, em 06/04/1794. Foi um militar, político, jornalista e escritor, filho do Padre Roma, ambos heróis da Revolução Pernambucana de 1817. Cursou a Academia Militar do Rio de Janeiro (1812-1816), saindo como capitão de artilharia. Sua patente de general deve-se ao fato de ter sido chefe do Estado-Maior de Bolívar por mais de 10 anos. Teve papel destacado nas campanhas de independência da Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, entre 1818 e 1832. Na Venezuela é considerado um dos “Libertadores da América”, e tem seu busto exposto em praça pública de Caracas.

Seu reconhecimento como herói brasileiro ocorreu apenas na década de 1940, quando o governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, deu o nome de Abreu e Lima ao distrito de Maricota, tornado Município em 1982. Em 1816 foi preso sob a acusação de insubordinação e adesão a rebelião pernambucana que se iniciava. Para mantê-lo isolado do movimento, transferem-no para a Bahia, onde irá cumprir sua pena e é obrigado a presenciar o fuzilamento de seu pai no ano seguinte. Fugiu da prisão em Salvador com a ajuda da Maçonaria, em outubro de 1817, e foi para os EUA, onde se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. Durante um ano conviveu com os libertários norte-americanos e exilados franceses, e entrou em contato com Simón Bolívar, com quem decidiu se aliar na construção da “Pátria Grande”.

Em princípios de 1819, com apenas 24 anos, já estava na cidade de Angostura, no meio da Selva Amazônica, o quartel-general de Bolívar, de quem se tornou fiel escudeiro até sua morte, em 1831. Com a morte de Bolívar, e o não reconhecimento de sua patente pelo governo do General Santander, que o sucedeu, deixou a Colômbia. Dirigiu-se para os Estados Unidos, em Philadelphia, a meca dos Maçons, e manteve contatos com os próceres da Revolução Americana. Na sequência partiu para a França Europa e manteve contatos com os militares rebeldes aliados de Napoleão. Em seguida retornou ao Brasil, em 1832, estabelecendo-se no Rio de Janeiro.

Na década seguinte, em 1844, retorna ao Recife e passa novamente a conspirar contra o governo imperial. Seu envolvimento na Revolução Praieira, em 1848, é controverso. Uns dizem que ele não teve participação direta no conflito; quem teve foram seus irmãos. Outros dizem que sim, participou ativamente dos embates. De qualquer modo, isto lhe custou dois anos de prisão em Fernando de Noronha. Anistiado, retirou-se da política, sem abrir mão de suas convicções libertárias. Em 1855 publica o primeiro livro nas Américas sobre o socialismo intitulado “O Socialismo”, sem citar Marx.

O livro foi reeditado em 1979 pela Editora Paz e Terra, com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho, onde afirmou: “No dia em que o Brasil se interessar realmente pelo seu relacionamento com as repúblicas da América Espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país”. A partir daí passa escrever regularmente no “Diário de Pernambuco”, publicar livros e ensaios históricos e a polemizar com o clero conservador.

Em 1867 publicou dois livros – As Bíblias falsificadas ou duas respostas a Joaquim Pinto Campos e O Deus dos judeus e o Deus dos cristãos – em que expunha as suas ideias liberais sobre religião, defendendo a liberdade religiosa. Tais livros acirraram a briga com o clero recifense, e lhe causaram transtornos mais tarde, quando morreu. Outros livros publicados: Compêndio de História do Brasil (1843), Sinopse cronológica da história do Brasil (1844), História universal (1847), Reforma Eleitoral-Eleição Direta (1862). Sua condição de historiador, não anulava a de polemista que mantinha diversos políticos através da imprensa. Um deles era o republicano Evaristo da Veiga, que o chamava pejorativamente de “General das massas”. A este epíteto, ele respondeu: “Com efeito a minha causa está afeita ao povo; é às massas para quem apelo, porque eu sou parte delas; sou membro desse todo a quem desprezais a cada instante e a quem tendes chamado vil canalha”.

Segundo Vamireh Chacon, autor da biografia Abreu e Lima: General de Bolívar (Rio Janeiro: Paz e Terra, 1983), realizada com o patrocínio do governo Venezuelano), como político, ele “começou como liberal, transformando-se lentamente, pelas decepções, num liberal moderado clássico e ao fim da vida em simpatizante do socialismo utópico, itinerário mais que pessoal, precursor de muitos outros”. Em relação a politica brasileira, passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Tal posicionamento é decorrente de sua decepção o com o esfacelamento da Grã-Colômbia.

A historiadora Claudia Poncioni tem uma explicação para a ausência de Abreu e Lima na História do Brasil: “Entre os personagens históricos brasileiros do século XIX, nenhum teve um percurso comparável ao de Abreu e Lima. No entanto, a constituição do papel dos “grandes homens” brasileiros se faz, no Império, principalmente sob a égide do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição criada em 1838 para sustentar o projeto de construção da identidade nacional imperial, que emerge naquele período. No panteão brasileiro, ilustrado pela revista do Instituto, o lugar de Abreu e Lima, como já foi dito, é proporcionalmente inverso ao alcance histórico do personagem”.

Os ideais revolucionários e republicanos de Abreu e Lima incomodaram bastante o poder constituído na época, ao ponto de ser castigado mesmo depois de morto. Devido às polêmicas que travou com o clero recifense e ao fato de ser Maçom, o bispo de Olinda Dom Francisco Cardoso Aires impediu que ele fosse sepultado no cemitério de Santo Amaro. Assim, teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses, quando faleceu em 08/03/1869.

A lembrança dos brasileiros sobre a importância de Abreu e Lima para a história do Brasil foi reativada em agosto de 1981, com a visita do Presidente da Venezuela Luis Herrera Campins e comitiva ao seu túmulo. Seu nome foi relembrado em 2003, por ocasião da visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acompanhado pelo presidente Lula, à cidade de Abreu e Lima. Na ocasião eles inauguraram os bustos de Abreu e Lima e Simon Bolívar e reafirmaram o desejo de construir naquela cidade uma refinaria de petróleo, fruto de uma parceria entre a Petrobrás e a PDVSA-Petróleo da Venezuela. O projeto de construção da refinaria foi lançado em 2005, mas até o momento não foi concluído no todo.

Busto de Abreu e Lima no extremo oeste da Avenida Bolivar, em Caracas, Venezuela

REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA

Comemorando o Bicentenário da REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA que antecipou em 5 anos a INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – Proposta de revisão da história

Nosso primeiro grito de independência se deu em 1789, em Ouro Preto. O levante foi abortado logo no inicio, e pegaram o Tiradentes, literalmente, para Cristo. Foi executado e esquartejado num espetáculo tão infame que alguns historiadores apontam o episódio como a possível causa para a preservação de sua memória. De fato, ele “pagou o pato” sozinho e o movimento visava a autonomia apenas da província de Minas Gerais. Mas este é o marco da independência enaltecido e contado nos livros de História até hoje, tornado feriado nacional. Para garantir sua permanência, o movimento está esculpido em bronze no lado esquerdo do Monumento à Independência, nas margens do Ipiranga. Do lado direito está o segundo grito de independência, em 1817, no Recife, que o leitor vê acima.

A Revolução Pernambucana prosperou por 74 dias e deixou 1500 mortos e feridos, além de 800 degredados. Teve um alcance nacional e internacional. As províncias vizinhas foram convidadas a participar e foi solicitado o apoio do exterior na luta pela independência. Assim, é o caso de se perguntar por que esse movimento, não obstante ser o estopim que levou o Brasil à independência, não é levado em consideração na história da emancipação do Brasil? Segundo o historiador Paulo Santos, observa-se uma falta de interesse na manutenção dessa memória. “Somente na República Velha, porque interessava ao regime então vigente, 1817 foi valorizado. O dia seis de março, no centenário da Revolução, em 1917, foi até feriado nacional. O Império, o Estado Novo e o regime militar de 1964, porém, empurraram aquele movimento para baixo do tapete.”

Outro historiador, Oliveira Lima, referia-se a 1817 como a única revolução brasileira merecedora deste nome. Alguns podem alegar que são historiadores pernambucanos, e que estão puxando a sardinha para seu braseiro. Mas, basta ver a história e verificar a extensão de suas consequências. Pernambuco não perdeu apenas centenas de brasileiros na luta por uma nova república, perdeu também grande parte de seu território. Desse modo, nesta comemoração do segundo bicentenário, é justo que se faça uma revisão histórica desse movimento e sua importância para a independência do Brasil. Não se trata apenas de uma questão de respeito à história, mas também de consideração e gratidão aos mártires que deram suas vidas por uma nação livre e independente.

Concretamente, é preciso reconhecer o caráter nacional do movimento; revisar os estudos de História e seus desdobramentos; e atualizar os livros escolares de História do Brasil, inserindo o movimento no devido lugar na história da independência brasileira.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS (II)

Ariano Suassuna passou a maior parte de sua vida no Recife. Por motivos óbvios, mantinha um certo afastamento de sua terra natal, a Paraíba. Este título de cidadão honorário pouco lhe acrescenta na sua longa lista de homenagens, é apenas mais um reconhecimento e gratidão aos seus serviços prestados à cultura brasileira.

Ariano Suassuna (1927-2014)

Ariano Vilar Suassuna nasceu em 16/06/1927, em João Pessoa, PB. Filho de Rita de Cássia Vilar e João Suassuna, presidente da província (atual governador do estado). Logo, nasceu nas dependências do Palácio da Redenção, sede do Executivo paraibano. Em 1928 a família passou a viver no Sertão, na cidade de Souza. Dois anos após, com Revolução de 1930, seu pai é assassinado por motivos políticos, e a família mudou-se para Taperoá, onde viveu até 1937 e concluiu o curso primário. Aí assistiu, pela primeira vez, o teatro de mamulengos e desafios de viola, na feira da cidade, cujo caráter de “improvisação” marcou definitivamente toda sua produção artística posterior. Após breve estadia em Campina Grande, passou a viver no Recife a partir de 1942.

Estreou na literatura precocemente, em 1945, com o poema Noturno, publicado no Jornal do Commercio, do Recife. Neste ano concluiu o curso secundário no Ginásio Pernambucano, no Colégio Americano Batista e no Colégio Osvaldo Cruz. Em 1946 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, conhece Hermilo Borba Filho e fundam o TEP-Teatro de Estudante de Pernambuco. Sua primeira peça Uma mulher vestida de sol, com a qual ganhou o prêmio “Nicolau Carlos Magno”, é representada até hoje. Em seguida escreveu Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa) e Os Homens de Barro, montada pelo TEP em 1948.

Ao concluir o curso de Direito, em 1950, recebeu o Prêmio Martins Pena, com a peça Auto de João da Cruz. Em seguida foi diagnosticado uma doença pulmonar, fazendo-o retornar a Taperoá para se curar. Enquanto se tratava, escreveu e montou a peça Torturas de um coração. Em 1952 voltou a morar no Recife e passa a trabalhar como advogado, fazendo teatro nas horas vagas: O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955), que o projetou em todo o país, considerada o texto mais popular do moderno teatro brasileiro. A peça foi adaptada para o cinema e para a televisão, e é considerada uma das peças brasileiras mais encenadas até hoje. Nos anos seguintes foram encenadas algumas peças fora do circuito do Recife: O casamento suspeito (1958), O santo e a porca (1958), O homem da vaca e o poder da fortuna (1959) e A pena e a lei (1959), premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro.

A amizade mantida com Hermilo Borba Filho prosperou com a criação do Teatro Popular do Nordeste, em 1959. A criação de peças prossegue com a Farsa da Boa Preguiça (1960) e A caseira e a Catarina (1962). Por esta época decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre Estética, interrompe temporariamente a carreira de dramaturgo e passa a estudar na UFPE. Tais estudos resultaram na defesa da tese de livre-docência A onça castanha e a ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira, em 1976. Passa a exercer o cargo de professor da UFPE ao mesmo tempo em que se afirma como expressivo “agitador cultural”. Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura, em 1967, do qual fez parte até 1973 e do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, no período 1968-1972; dirigiu o Departamento de Extensão Cultural da UFPE, em 1969 e iniciou o “Movimento Armorial”, em 1970, com o concerto “Três séculos de música nordestina – do Barroco ao Armorial” e com uma exposição de gravura, pintura e escultura.

Na definição dele mesmo, “A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos folhetos do romanceiro popular do Nordeste com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus cantares, e com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e espetáculos que ilustra suas capas com esse mesmo romanceiro relacionados”. Seu objetivo foi o de valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte erudita a partir das raízes populares da cultura do País. Seu emprego na música resultou na criação da “Orquestra Armorial”, que deu origem ao “Quinteto Armorial”. Um dos remanescentes desse grupo é o músico Antônio Nóbrega, que comanda o Instituto Brincante, em São Paulo. Mais tarde o quinteto se desfez, dando origem ao “Quarteto Romançal”. Na gravura, a arte armorial é representada pelo pintor Gilvan Samico. Na Literatura, é o próprio Ariano quem se destaca com O romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971). Um “romance-memorial-poema-folhetim”, como definiu o poeta Carlos Drummond de Andrade, e emendou “Não é qualquer vida que produz uma obra desse calibre”.

Sobre o Romance d’A pedra do reino, lembremos que Ariano construiu, em São José do Belmonte (PE), um santuário ao ar livre, composto de 16 esculturas de pedra, com 3,50 m de altura, dispostas em círculo, representando o sagrado e o profano. Nos últimos anos de vida ele fazia anualmente uma cavalgada/procissão nas redondezas, vestido a caráter, junto com outros participantes. Tais atividades se davam simultaneamente ao cargo de Secretário de Educação e Cultura do Recife (1975-1978), ao doutoramento em História (1976), aulas de Estética, Teoria do Teatro e História da Cultura Brasileira, na UFPE, onde lecionou por 32 anos e aposentou-se em 1994.

Ao se aposentar, o Governador Miguel Arraes convida-o para comandar a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. Exerceu o cargo por quatro anos (1994-1998), e deu um impulso extraordinário à cultura nordestina com o patrocínio de diversos artistas, tanto na divulgação como na promoção e sustentação de suas atividades. Por essa época, inicia uma nova atividade exercida além de seu mandato como Secretário de Cultura e além dos limites do Estado: são as “aulas-espetáculo” apresentadas em todo o País. Foram dezenas de apresentações para plateias enormes, onde contava “causos” e exaltava a cultura brasileira de um modo divertido. Suas apresentações foram consolidadas num projeto intitulado “Arte como missão”. Ele mesmo dizia que fazia isso por uma necessidade de retribuição pelo que tinha recebido do povo brasileiro.

Em 2011 foi convidado pelo governador Eduardo Campos para ingressar no PSB-Partido Socialista Brasileiro, na condição de Presidente de Honra, e declarou que encerraria sua vida política neste cargo. Juntamente com o cargo, que não lhe exigia atividade alguma, aceitou também ser assessor especial para assuntos culturais, do Governador até abril de 2014.

Durante sua vida, recebeu diversas homenagens e condecorações: título de Doutor Honoris Causa pelas universidades: UFRN-Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFPB-Universidade Federal da Paraíba, UFRP-Universidade Federal Rural de Pernambuco, UFPF-Universidade de Passo Fundo e UFCE-Universidade Federal do Ceará. Foi também integrante de três academias de letras: Academia Brasileira de Letras (1989), Academia Pernambucana de Letras (1993) e Academia Paraibana de Letras (2000). Em 2002, foi tema de enredo no carnaval carioca na escola de samba “Império Serrano”, intulado: “Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino’. Em 2008 foi novamente tema de enredo da escola de samba “Mancha Verde” no carnaval paulista. Em 2013 sua mais famosa obra, o Auto da Compadecida foi o tema da escola de samba “Pérola Negra”, em São Paulo.

Em 2013 Ariano foi internado duas vezes devida a um infarto de pequenas proporções e um aneurisma cerebral. A recomendação médica era de repouso e pouco esforço. Mas ele continuou com suas “aulas-espetáculo” por todo o País. Em 16 de julho fez uma apresentação para 1600 pessoas no Teatro Castro Alves, em Salvador. Dois dias após se apresentou no 24º FIG-Festival de Inverno de Garanhuns. Começou falando da morte com bom humor: “Eu até pedi para Caetana (expressão que representa a morte) que ela não viesse em 2014, só para ver essas homenagens todas que fazem. Estou tentando não ficar vaidoso”. Voltou ao Recife e em seguida sofreu um acidente vascular cerebral. Não resistiu e faleceu em 23/07/2014. Por pouco não morreu no palco, como gostaria.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) VII

Tempos atrás eu e muitas pessoas no Sudeste tínhamos como certo que Naná fosse nascido e criado em Salvador. Se o “cabra” é o maior tocador de berimbau do mundo, como não ser baiano? Só em 2002, quando ele começou a abrir o carnaval do Recife, é que fui me dar conta. No ano passado ele abriu o carnaval pela última vez, mas no Jornal da Besta Fubana a abertura ainda é dele.

Naná Vasconcelos (1944-2016)

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu no Recife, em 2/08/1944. Músico considerado uma autoridade mundial em percussão, recebeu o Prêmio Grammy oito vezes e foi eleito por oito vezes o melhor percussionista do mundo, pela revista americana “Dow Beat”, a mais prestigiada publicação sobre jazz. Filho de Pierre de Holanda Vasconcelos, também músico de quem ganhou, aos 11 anos, seu primeiro instrumento musical: um bangô. Aos 12 anos já acompanhava o conjunto do pai e tocava nos bailes do clube carnavalesco “Batutas de São José”.

Ainda jovem, foi percussionista da Banda Municipal do Recife, tocou maracas nos frevos de Nelson Ferreira e acompanhou Bienvenido Granda, nos estúdios da gravadora Rozenblit. Até aquela época, a percussão se restringia aos pandeiros, tambores, tumbadores, maracas e bangôs. Em 1966 Naná passou a se interessar pelo berimbau e empenhou-se em explorar todas as potencialidades do instrumento. Uma de suas influências foi Jimi Hendrix, que ao explorar todos os recursos musicais da guitarra, lhe abriu as portas para as ilimitadas possibilidades do berimbau. Passou a tocar vários ritmos transportando a técnica usada na bateria para o berimbau, que era, até então, usado apenas na capoeira.

Segundo o pesquisador Ben-Hur Demeneck, ele “conseguiu fazer do berimbau um instrumento solista, tanto em grupos de jazz quanto em orquestras eruditas. A sua trajetória musical pode encher páginas com as ocorrências nominais de suas conquistas globais. No entanto, para comentar sua musicalidade, nenhuma delas compete com a perturbadora capacidade de arrancar o público de sua realidade mais imediata e de atarantar os críticos com sua variedade de timbres”.

Em 1967 ganhou uma passagem de ônibus do Mestre Capiba e foi para o Rio de Janeiro se aventurar na carreira de músico. No ano seguinte tornou-se o percussionista preferido pela maioria das estrelas da MPB e do Rock “Udigrudi” da época. Gravou com Milton Nascimento, Gal Costa, Jards Macalé, Caetano Veloso, Luiz Eça, Mutantes, Som Imaginário etc. No ano seguinte, viajou para São Paulo junto com Geraldo Azevedo e participou do “Quarteto Novo”, que acompanhou Geraldo Vandré no 3º Festival Internacional da Canção. Em seguida foi convidado para participar das trilhas sonoras dos filmes Pindorama, de Arnaldo Jabor e Minha Namorada, de Zelito Viana.

Em 1970 formou o “Trio do Bagaço”, com Nelson Ângelo e Mauricio Maestro. A convite de Luiz Eça, o trio fez uma apresentação no México. Lá encontraram o saxofonista argentino Gato Barbieri, que o convidou para integrar seu grupo. Gravou o Long play El incredible Naná com Augustin Perreyra Lucena. A partir daí Naná começa a ganhar o mundo (ou foi o mundo que o ganhou?) e fazer sucesso internacional. Se apresentaram em Nova Iorque e Montreaux, na Suiça, onde deixou o público extasiado com seu berimbau. Em 1977 participou do álbum gravado por Egberto Gismonti, Dança das cabeças, que lhe rendeu o prêmio Grammy. Seu trabalho se intensifica, tocando em vários lugares do mundo, e gravando com muitos músicos internacionais que o convidam: Miles Davis, Bib King, Jean-Luc Ponty, Paul Simon, Thelonius Monk, Talking Heads, Pat Metheny etc.

Mesmo após viver 10 anos no exterior, não perdeu a identidade, o que fez com que se tornasse famoso e ficado mais conhecido lá fora do que no Brasil. Todo ano tinha que retornar à Europa, a convite, para realizar concertos nos festivais. De volta para casa, na década de 1980, se aproximou do cenário musical brasileiro a partir da direção artística do festival Panorama Percussivo Mundial, o “PercPan”, em Salvador, onde se apresentam os maiores percussionistas do País e do mundo. Nesta ocasião ao ver tanta criança na rua, mexeu com sua sensibilidade e responsabilidade social “Isso me fez querer fazer alguma coisa”, e criou o projeto “ABC das Artes” e o “ABC Musical” para retirar as crianças desvalidas das ruas.

A partir de 2002 passou a ser o mestre de cerimônias do carnaval do Recife, abrindo as festividades no Marco Zero da cidade, acompanhado pelo cortejo de nações de maracatu. Em 2013 foi o grande homenageado do Carnaval, e declarou emocionado: “Ser homenageado vivo já é uma vitória. Na minha terra, são duas. O que mais posso querer?”. Em 2015 lançou o “Projeto Café no Bule”, juntamente com o cantor Zeca Baleiro e Paulo Lepetit. Em dezembro do mesmo ano recebe o título de “Doutor Honoris Causa” pela UFPE-Universidade Federal de Pernambuco, sem nunca ter diploma de curso superior.

Segundo o músico Pantico Rocha, “o principal legado que ele deixou foi o de ser um grande valorizador da cultura negra, da percussão brasileira, da dança e de todas as influências afro-brasileiras.” Já para o percussionista Hoto Júnior “Naná usava muita percussão corporal, e isso pros gringos era uma coisa que não existia na década de 1970”. E assumindo a influência recebida, declarou: “Posso dizer que sou percussionista porque, quando era criança, vi o Naná se apresentar. Assisti a um show na TV, eu tinha uns seios ou sete anos e ele fazia efeitos com a voz, com a banda inteira parada vendo o cara fugindo de tudo o que é normal, totalmente fora do contexto, construindo a carreira e a identidade musical dele”. Naná deixou gravado 29 discos solo e teve participação em mais de 60 gravações de artistas nacionais e principalmente internacionais, além de trilhas sonoras para diversos filmes.

Em 2015 foi diagnosticado um câncer no pulmão, mas não parou de compor e se apresentar. Em setembro, após iniciar as seções de quimioterapia, gravou um vídeo recitando poesias e divulgou na Internet. Em fevereiro de 2016, abriu os festejos do carnaval, no Recife. Em 27 de fevereiro apresentou-se no I Festival Internacional de Percussão, junto com Lui Coimbra, em Salvador e passou mal logo após o show. Tinha apresentações agendadas na Ásia para o mês de abril e uma turnê internacional com o amigo Egberto Gismonti. Em março foi internado, e na manhã de 9/3/2016 teve uma parada cardíaca e veio a falecer aos 71 anos.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) VI

Cardeal Arcoverde (1850-1930)

Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti nasceu em Cimbres (atual Pesqueira), em 17/01/1850. Começou a ser preparado para o sacerdócio aos 13 anos, no Seminário Menor, em Cajazeiras (PB) e aos 16 foi enviado ao Pontifício Colégio Pio Latino-Americano, em Roma, onde cursou ciências e letras, filosofia e teologia; e direito canônico na Universidade Gregoriana. Foi ordenado padre, em 1874, na Arquibasílica de São João de Latrão, a catedral da Diocese de Roma. Em seguida passou dois anos estudando ciências naturais na Universidade de Sorbonne, em Paris. De volta ao Brasil, foi professor de francês e diretor do Ginásio Pernambucano do Recife, e professor de Filosofia e reitor do Seminário de Olinda. Foi também pároco em alguns bairros recifenses e em Pesqueira por dois anos. Em maio de 1884 recebeu o título de “Prelado Doméstico de Sua Santidade”.

Em 1888, foi indicado por Dom Pedro II como bispo auxiliar da Bahia, mas recusou o cargo. Em 1890 foi indicado bispo de Goiás, o que foi confirmado pelo Papa Leão XIII. Em outubro do mesmo ano foi sagrado bispo. Regressando ao Brasil, foi morar em Itu (SP), onde passou a lecionar no Colégio São Luis, dos Jesuitas. Em 1892 foi designado bispo auxiliar de Dom Lino Deodato Rodrigues, arcebispo de São Paulo. Nesta função, viajou à Europa contatar as congregações religiosas que deveriam vir ao Brasil para ações missionárias e de educação. Em agosto de 1894, em Paris, soube do falecimento de Dom Lino, sendo nomeado seu sucessor. Em setembro do mesmo ano toma posse como 10º bispo de São Paulo.

Na condição de bispo diocesano de São Paulo de 1894 a 1897 teve importante atuação para superar os atritos com o novo regime republicano, principalmente no que se referia à extinção do ensino religioso nas escolas públicas. Em seu bispado foi iniciada a construção de diversas igrejas em São Paulo, como a do Bom Jesus, no Brás; elevou a capela de Santa Cecília a tradicional Paróquia de Santa Cecília; fundou Paróquia Santuário Nossa Senhora da Assunção Aparecida, em Aparecida; a construção de um prédio para a congregação dos Missionários do Imaculado Coração de Maria e fundou a Federação das Associações Católicas. Seu preparo e disposição de trabalho atraem a simpatia do Papa Leão XIII, que o designa Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, em 1897, devido ao falecimento de Dom João Esberardo. No ano seguinte foi empossado como membro-titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O Arcebispado de Dom Arcoverde no Rio durou até 1905 e, infelizmente as biografias não trazem muita coisa sobre esse período. Mas tendo em vista sua capacidade e obstinação em organizar e criar, sua gestão foi profícua. Foi isto que o capacitou para chegar ao cardinalato em dezembro de 1905. O Papa Pio X, durante a realização de um Consistório secreto, ordenou-o cardeal da Santa Igreja, com o título de presbítero da Igreja de São Bonifácio e Santo Aleixo, em Roma. Em março do ano seguinte, o Papa lhe impôs o barrete, tornando-o o primeiro cardeal do Brasil e da América Latina. De volta ao Brasil, em abril de 1906, foi recebido no Rio de Janeiro com grandes manifestações e homenagens. Durante algum tempo alimentou a imprensa de esperanças de que dentro dos próximos 50 anos, o Brasil, sendo a maior nação católica fora da Europa, fizesse um Papa.

O Cardeal passou alguns anos afastado de suas funções prelatícias, em razão da saúde, permanecendo no cargo até a sua morte, em 18/04/1930, uma Sexta-Feira Santa, quando era ainda o único cardeal da igreja latino-americana. Durante seu cardinalato foi o principal responsável pela consagração de nove bispos. Sua produção bibliográfica não grande, mas é expressiva. Além das inúmeras cartas pastorais, publicou Síntese de Filosofia (1886), Federação Católica (1896) e Sinopse de Lógica (1918). Seu nome é lembrado em diversas cidades do país. O município de Rio Branco, em Pernambuco teve o nome alterado, em 1943, para Arcoverde em sua homenagem, devido ao fato de ter sido batizado numa capela deste local; é também nome de uma importante rua da cidade de São Paulo e nome de uma estação do Metrô do Rio de Janeiro, além de inúmeros logradouros e escolas em todo o Brasil.

Cardeal Arcoverde, um ilustre pernambucano

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS (I)

Quando iniciamos a série dos “Pernambucanos ilustres”, disse que gostaria de incluir alguns nomes que muita gente acha que é de Pernambuco, tais como Miguel Arraes, Ariano Suassuna e Dom Hélder Câmara. Isto provocou um cearense dizendo que “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Tentei explicar a apropriação dizendo que estes nomes passaram a maior parte de suas vidas no Recife e aí fizeram suas carreiras, mas não teve jeito. Então, para não magoar nossos vizinhos, encontrei uma forma de homenageá-los com o título de Cidadãos Honorários.
Pernambucanos Honorários I

Dom Hélder Câmara (1909-1999)

Dom Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, em 07/02/1909. Filho de um jornalista, maçom e crítico teatral e uma professora primária, manifestou sua vocação para o sacerdócio desde cedo. Hélder é o 12º dos 13 filhos. Aos 14 anos ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza, onde concluiu o curso ginasial e os estudos de filosofia e teologia. Demonstrava uma certa desenvoltura nos debates de classe sobre estas áreas. Com autorização especial do Vaticano, foi ordenado padre com apenas 22 anos de idade. Além da vocação religiosa, dispunha de uma vontade e talento excepcionais para o trabalho. Em 1931 fundou a Legião Cearense do Trabalho e, dois anos depois, a Sindicalização Operária Feminina Católica, congregando as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. Envolveu-se, também, com a Educação, participando do planejamento e politica de educação pública, até ser nomeado diretor do Departamento de Educação do Ceará, cargo que exerceu por cinco anos.

Sentindo necessidade de se aprofundar nesta área, procurou ser transferido, em 1936, para o Rio de Janeiro, onde passou a se dedicar a atividades apostólicas e ocupou o cargo de Diretor Técnico do Ensino da Religião. Por esta época sentiu-se atraído por um movimento político denominado “Ação Integralista Brasileira”, cujo programa pregava o resgate dos valores de Deus, Pátria e Família. Considerou que esse “é o maior programa cristão de assistencialismo da história do Brasil”. Porém, mais tarde, ao perceber as implicações ideológicas, afastou-se de qualquer compromisso político-partidário. No Rio, seu diretor espiritual foi o Padre Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do Brasil, a PUC-RJ, cuja convivência veio lhe injetar mais ânimo na área da educação e organização social.

Logo após a II Guerra Mundial (1945) fundou a Comissão Católica Nacional de Imigração, para apoiar a imigração de refugiados. Nesta atividade ganhou projeção e visibilidade, e em março de 1952 foi ordenado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Menos de um mês depois foi ordenado Bispo, em 20/04/1952. aos 43 anos. Seu trabalho consistiu em promover o colegiado de bispos e incentivar a renovação da Igreja, através de um fortalecimento de seu compromisso social. Sua convicção era que a Igreja tinha que desempenhar uma função social, além da religiosa. Com tais ideias, em 1950, entrou em contato com o subsecretário de estado do Vaticano, Monsenhor Giovanni Batista Montini, futuro Papa Paulo VI. Expôs seu plano e conseguiu a aprovação para a criação da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1952, onde atuou como secretário geral até 1964.

Pouco tempo depois, articulou com o mesmo Monsenhor Montini uma organização mais ampla, incluindo os bispos da América Latina. Assim, foi criada a CELAM-Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em 1955, com sede em Bogotá. Participou ativamente das conferências gerais do CELAM como delegado do episcopado brasileiro até 1992 (1ª no Rio de Janeiro; 2ª em Medellín, em 1968; 3ª em Puebla, em 1979 e 4ª em Santo Domingo, em 1992). Além de delegado brasileiro, exerceu os cargos de presidente e vice-presidente no CELAM. Com tal bagagem e liderança, parte para organização do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, realizado no Rio de Janeiro em 1955, contando com a presença de cardeais e bispos de todo o mundo. Em 1956 fundou a Cruzada São Sebastião, cujo objetivo era dar moradia decente aos favelados do Rio de Janeiro. Com esta iniciativa conseguiu, junto ao governo, a construção de diversos conjuntos habitacionais. Em 1959 obteve outra conquista relevante para os pobres: a criação do Banco da Providência para atender pessoas carentes, fornecendo pequenos empréstimos.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) V

Surfando na onda do empreendedorismo, a galeria dos ilustres pernambucanos decidiu incluir um notório empresário: José Ermírio de Moraes, fundador do Grupo Votorantim. Mas eis que o colunista é surpreendido com outro nome, não menos notório: Norberto Odebrecht. Um sobrenome cuja notoriedade foi ampliada ao extremo nos dias atuais com a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e que até agora não apenas você desconhecia que fosse pernambucano. O colunista também.

Norberto Odebrecht (1920-2014)

Nasceu no Recife em 9/10/1920. Filho de Emilio Odebrecht, muda-se para Salvador aos cinco anos, onde conclui os cursos primário e secundário. Aprendeu os ofícios de pedreiro, serralheiro, armador, bem como exerceu cargos de chefia nos setores de almoxarifado e transportes na empresa de construção civil do pai “Emilio Odebrecht & Cia.”, onde começou a trabalhar aos 15 anos. Seu aprendizado profissional se deu com os mestres-de-obras e operários. É a terceira geração de uma família alemã de engenheiros, que emigrou para o Brasil em 1856.

Seguindo a tradição familiar, aos 18 anos ingressou no curso de Engenharia da Escola Politécnica de Salvador. No 3º ano, a empresa passou por algumas dificuldades decorrentes da 2ª Guerra Mundial e uma crise no setor. Emílio retirou-se dos negócios, em 1941, e retorna à Santa Catarina, sua terra natal, fazendo com que ele assuma a direção da empresa aos 21 anos. Conciliando trabalho, estudos e serviço militar, conclui a faculdade em 1943. Seguindo a orientação do Banco da Bahia, fundou sua própria empresa para negociar as dívidas e continuar os negócios do pai. Assim nasceu a Construtora Norberto Odebrecht, tendo como preceitos básicos a parceria e confiança nas pessoas.

Passou a atuar na Bahia, a partir de parcerias com a Petrobrás e a Sudene, e enveredou para outros estados da região. Tem inicio a construção de uma marca diferenciada em termos de qualidade, inovação e produtividade. A conclusão Edifício Belo Horizonte, em Salvador, por exemplo, deu-se em sete meses, quando a média na época era de três anos. A empresa se expandiu rapidamente e em 1965 foi criada a Fundação Odebrecht com propostas de desenvolvimento social e cultural. Três anos depois iniciou a sistematização de seu conhecimento adquirido, publicando alguns livros: De que necessitamos (1968), Pontos de referência (1970), Educação pelo trabalho (1991) e Sobreviver, crescer e perpetuar (1983), com o qual sistematizou a chamada “Tecnologia Empresarial Odebrecht”, com os princípios, conceitos e critérios adotados pela Organização. Esta experiência editorial abriu caminho para o patrocínio de diversas obras de arte brasileira, editadas posteriormente.

Com uma filial no Recife desde 1961, estimulada pela ação da Sudene, conquista algumas obras em Pernambuco, tais como as fábricas da Willys Overland, Coperbo, Alpargatas Confecções e Tintas Coral do Nordeste. Em 1969 inicia-se a expansão para o Sudeste brasileiro, com a construção de grandes obras no Rio de Janeiro: edifício-sede da Petrobras, campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aeroporto Internacional do Galeão e a Usina Termonuclear Angra I. Na década de 1970 já está consolidada como uma das grandes construtoras do país, expandindo e diversificando seus negócios nas áreas de perfuração de poços de petróleo (Odebrecht Perfurações Ltda) e com a aquisição de 1/3 do capital da Companhia Petroquímica de Camaçari. Em seguida a empresa passa por processo de internacionalização com obras no Peru (Hidrelétrica Charcani V) e no Chile (obras de desvio do Rio Mau Le para a Hidrelétrica Colbún Machicura)

Na década de 1980 a expansão é ampliada com incorporação de outra grande construtora, a CBPO-Companhia Brasileira de Projetos e Obras, responsável pelas obras de grandes rodovias paulistas, como Imigrantes, Trabalhadores e Castelo Branco. É criada a holding Odebrecht S/A e amplia-se sua carteira de contratos no exterior. Com a incorporação da empresa Tenenge, os negócios alavancados com a construção de hidrelétricas no Brasil e no exterior. Em 1988 adquire a construtora José Bento Pedroso & Filhos, em Lisboa, e passa a atuar em Portugal. Em 1991 começa a operar nos Estados Unidos, sendo a primeira empresa brasileira a realizar uma obra pública naquele país (Metromover). A ampliação da empresa alcança a Inglaterra com a aquisição da SLP Engineering, especializada na construção de plataformas de petróleo. A empresa vai se firmando como uma das grandes multinacionais do mundo. Em 1994 a Organização Odebrecht completou 50 anos com presença marcada em 21 países, contando com 34 mil integrantes.

Pouco antes disso, em 1991, Norberto, com 71 anos de idade, passou a Presidência da Odebrecht S.A. ao filho Emílio e torna-se presidente do Conselho de Administração, cargo que mais adiante (1998) o filho assume e ele passa a ser o Presidente de Honra da Odebrecht S.A., além de Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht. Por essa época a Fundação Odebrecht redireciona o foco de sua atuação para a educação de jovens da região do Baixo Sul da Bahia. Em 1995 a empresa passa a atuar mais pesado na área de petroquímica e saneamento. É criada a OPP Química e Odebrecht Ambiental com a concessão pelo serviço público de saneamento, em Limeira, SP. No ano seguinte é formada a empresa Triken, a partir da aquisição do controle acionário da CPC e da Salgema. Em 1998 dá-se o inicio da 2ª geração no comando da empresa, com Emilio Odebrecht na presidência do Conselho de Administração.

A empresa torna-se o maior grupo petroquímico da América do Sul com a aquisição do controle da COPENE-Companhia Petroquímica do Nordeste. Em 2001 a principal revista de engenharia do mundo (ENR-Engineering News Records) reconhece a Odebrecht a maior empresa na construção de usinas hidrelétricas e aquedutos, a maior construtora da América Latina e uma das 30 maiores exportadoras de serviços do mundo. O fato é consolidado com a criação da Brasken, que reúne todos os ativos petroquímicos. Nesta ocasião Emilio Odebrecht concentra-se na presidência do Conselho de Administração e transfere a presidência da empresa para Pedro Novis. Em 2004 a empresa ao comemorar 60 anos, com 40 mil funcionários em 16 países, é eleita a Melhor Empresa de Engenharia da América Latina, pela revista Global Finace.

Em 2007 o grupo incorpora mais duas empresas: Odebrecht Agroindustrial e Odebrecht Realizações Imobiliárias, inicia projetos na Líbia e na Libéria e adquire ativos petroquímicos do Grupo Ipiranga. A expansão continua de vento em popa e em 2009 a presidência da empresa passa para Marcelo Odebrecht, neto do patriarca. Com essa mudança na direção, o conglomerado toma novo impulso e é eleita a Melhor Empresa Familiar do Mundo pelo IMD-Institute for Management Development. Novas aquisições são realizadas: a Brasken incorpora a Quattor e a Sunoco Chemicals, tornando-se a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas. São intensificados os investimentos em transporte e logística, com a criação da Odebrecht TransPort. Em 2011 passa a atuar na área da Defesa, com a aquisição de duas quatro plantas industriais da Dow Chemical nos EUA e Alemanha. É criada a Odebrecht Defesa e Tecnologia. A empresa entra no ranking das 10 empresas mais admiradas pelos jovens do Brasil, conforme a Companhia de Talentos. Agora o conglomerado emprega mais de 180 mil pessoas com atuação em 23 países em todos os continentes.

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SÃO PAULO

Recebi do meu compadre Cícero, que vive em Nazaré da Mata, breve relato sobre sua recente visita à Cidade de São Paulo na semana de seu 463º aniversário, perguntando se seria possível sua publicação neste prestigiado jornal.

* * *

Revisitando
SÃO PAULO
50 anos após
nos seus 463 anos

Cícero da Mata

“Alguma coisa acontece em meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”

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Desci a praça Antônio Prado contente com o tratamento dado ao entorno. O mirante continua lá, ainda visitável, no topo do prédio do antigo Banespa. Os velhos prédios ao lado também continuam intactos. No lugar de um amontoado de caixas de engraxate, botaram uma engraxataria num quiosque moderno em estilo antigo. Os paulistanos, chegados que são numa desculpa qualquer para um descanso, encontram ali um bom pretexto para uma parada e lustrar o sapato.

Na medida em que vou descendo fico admirando com o “jardim da ladeira São João” fincado no trecho que vai até a rua Libero Badaró. Daquele alto dá para ver que a alameda se estende até o largo do Paissandu. Tudo alargado, bom de passeio, sem carros, sem o “buraco do Adhemar”. Mas, peraí: esse restaurante da esquina, o “Guanabara”, não era na rua São Bento? O garçon me explica: “Mudou pra cá com a construção da estação do Metrô na década de 1970”.

No Rio de Janeiro também tiraram o “Lamas” do Largo do Machado e botaram na Marquês de Abrantes, na mesma época. Realmente estes metrôs facilitaram a mobilidade, mas precisavam deslocar a tradição gastronômica? Por que a modernidade não incorporou a tradição? Aqui os metrôs são responsáveis pela perda da memória urbana, referente aos restaurantes. Não precisava ser assim, pois comer e passear não são incompatíveis. E estes não são casos isolados, o saudoso “Restaurante do Julio”, na rua Mauá, também foi escorraçado pela estação Luz, do Metrô. A estação Sé também desalojou o Restaurante Gouveia, onde se comia o melhor bife à parmegiana de São Paulo. Deve haver mais restaurantes desalojados pelo metrôs no centro de outras cidades.

Ao cruzar o Anhangabaú deparo admirado com o parque ali instalado. Uma beleza! A praça do Correio ficou ligada à praça Ramos de Azevedo por uma esplanada livre de carros. Em suas extremidades, botaram duas estações do Metrô: São Bento e Anhagabaú. Aqui eles acertaram, pois o lugar hoje é palco de manifestações públicas e precisa de acesso e evasão fáceis. E o Cine Cairo, onde foi parar? Mantiveram apenas a fachada para dar alguma graça ao prédio que botaram em seu lugar: um enorme conjunto arquitetônico, denominado “Praça das Artes”, que dá acesso à av. São João e rua Conselheiro Crispiniano.

Subo um pouco mais, esperançoso para rever o largo do Paissandu, recanto boêmio da Cinelândia paulista. À medida que vou chegando, o contentamento vai se esvaindo dando lugar à decepção. Não há mais boêmia alguma por ali. A degradação se expõe em todos os cantos do largo: um bando de prostitutas ocupa a pracinha; barracas e camelôs ocupam as calçadas; rockeiros e hippies ocuparam o primeiro shopping center do Brasil, denominado “Grandes Galerias”. Agora é “Galeria do Rock”.

O Cine Art-Palácio foi transformado em salas de cinema de sexo explícito. Assim, o largo do Paissandu transformou-se numa zona comercial degradada, que nem de longe lembra a zona boêmia da Cinelândia ali existente no final da década de 1950. Só restou – incrustado ali, resistindo não se sabe por quanto tempo – o restaurante “Ponto Chic”, com seu velho sanduiche “Bauru”. Prossigo pela avenida com a calçada alargada e transformada numa extensão do largo. A degradação segue o alargamento. Ao chegar na Ipiranga, vagueio de um lado para o outro e me espanto com uma dúzia de grandes prédios lacrados e outros transformados em garagens. Parece uma zona em ruínas. Um trânsito de carros e gente toma todo o espaço, fazendo daquilo apenas um lugar de passagem, e rápido, pois pode ser perigoso. Restou apenas o Bar Brahma, que sabiamente avançou na calçada, mas perdeu muito de seu encanto. Nesse instante meu coração já combalido não aguenta mais e evoca a canção de Caetano Veloso.

Exausto, não tanto pela caminhada, preciso de um descanso para a mente. Basta seguir um pouco mais e sentarei naqueles bancos da praça Julio Mesquita, em baixo de uma árvore ao lado da fonte das Lagostas. Mas o local está muito mudado. Botaram a fonte sem água dentro de uma redoma de vidro, onde não dá para ver os peixinhos que lá nadavam. Dizem que aquilo ficou abandonado por anos e agora estão revitalizando. Mas não estão conseguindo: os vidros já foram quebrados algumas vezes, deram uma melhorada no piso e o entorno é mais conhecido como o centro da “zona” propriamente dita. Por sorte encontrei o “Moraes” ainda lá, também, resistindo. Comi seu famoso filé com alho e descansei um pouco ali mesmo, dentro do restaurante. Ficar na praça seria uma temeridade.

Prosseguindo mais um pouco, cruzo a Duque de Caxias e tenho a terceira decepção: encontro um monstrengo invadindo e tomando a avenida de lado a lado, o tal do Minhocão. A enorme serpente de concreto armado cobriu o passeio público e abriu um albergue de mendigos e vagabundos em seu lugar. Fiquei com medo de entrar naquele “cortiço” lúgubre e sujo. Como chegar na bela praça Marechal Deodoro? Coragem! Pressinto, pelo andar da carruagem, uma quarta decepção. Onde já se viu cobrir uma praça como aquela com uma avenida elevada de mão dupla e trânsito intenso?

Fico sabendo que a serpente não acabou apenas com parte da avenida São João. Engoliu também a rua Amaral Gurgel e boa parte do tradicional bairro de Santa Cecília. Um estrago e tanto ao centro da cidade. Depois de tanta decepção, resta ainda uma esperança de salvação daquela parte do centro. Informaram-me que aquela aberração da arquitetura urbana vem sendo denunciada há tempos e que sua demolição já se constituiu em projeto apresentado pela Prefeitura. No entanto, agentes do mercado imobiliário estimam que, se isso acontecer, não será antes de 2025. Gostaria muito de estar vivo até lá. Não poderia ser antes?.

Cicero da Mata é da década de 1930, criado no agreste pernambucano até 1950, quando passou a viver em São Paulo. Retornou à terra natal em 1967. O relato acima é fruto de uma visita à São Paulo em janeiro de 2017, aos 87 anos.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) – IV

Iniciamos esta série com dois pesos pesados na Comunicação e nas Artes. E para não dizer que tratamos apenas de entretenimento, incluímos um peso, talvez mais pesado ainda na área da Ciência. Porém, sem abdicar das Artes, pois é sabido que o velho Schenberg era também um grande crítico de arte. Prosseguimos com uma volta ao cerne da Comunicação (jornalismo) e, de novo, sem abdicar das Artes. Nelson Rodrigues nasceu jornalista, mas onde pontificou mesmo foi nas Artes, como vemos a seguir.

Nelson Rodrigues (1912-1980)

Nasceu no Recife em 23/08/1912. Jornalista, cronista, romancista e dramaturgo, é considerado o iniciador do teatro moderno brasileiro. Aos quatro anos a família se muda para o Rio de Janeiro, para se juntar ao pai Mario Rodrigues, deputado federal e jornalista que deixou o Recife indisposto com os políticos tradicionais. Aos sete anos pediu à mãe para entrar na escola, onde no ano seguinte participou de um concurso de redação. O tema era livre e o melhor trabalho seria lido na classe. A professora quase desmaiou ao ver sua redação: era uma história de adultério. Na infância suas leituras eram de adulto, romances onde a temática era uma só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.

Aos 13 anos “botou calças compridas” para trabalhar como repórter de polícia no jornal de seu pai “A Manhã”, onde também trabalhavam alguns de seus 13 irmãos. No jornal manteve contatos com colaboradores ilustres: Monteiro Lobato, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho, José do Patrocínio, Aparício Torelly, Mauricio Lacerda etc. O jovem jornalista impressionou os colegas com sua facilidade em dramatizar pequenos acontecimentos. Ágil na escrita, logo ganhou uma coluna assinada e publica seu primeiro artigo em fevereiro de 1928. O título era “A tragédia da pedra…” com as famosas reticências que lhe acompanharam em tantos outros artigos. Depois exercitou seu lado sombrio com a crônica “O rato…”, onde descreve a morte de um rato atropelado por um carro. Em seguida começa a “bater” em Ruy Barbosa, para desespero de seu pai. No segundo artigo esculhambando a “Águia de Haia”, perdeu a coluna e foi rebaixado para a seção de polícia. O jornal, mal administrado e cheio de dívidas é vendido ao sócio. Pouco depois, seu pai lançou um novo jornal “Crítica”, em fins de 1928, que fez muito sucesso com uma circulação de 130 mil exemplares.

Nesta ocasião dá-se o assassinato de Carlos Pinto, repórter do jornal “A Democracia”. Correu a notícia que o mandante do crime foi um dos Rodrigues, e a policia prende todos eles: pai, mãe e os filhos. Nelson escapou porque estava no Recife, passando uma temporada para se livrar de uma depressão. Junto aos primos conheceu o Recife, Olinda, Boa Viagem e a zona do Cais do Porto, tida como a maior da América do Sul. Sua prima Netinha, com mantinha um namoro por carta quando estava no Rio, tirou-o da depressão e ele voltou para a redação do jornal “Crítica”. Em 26 de dezembro de 1920 o jornal estava sem assunto para a primeira página e Mario Rodrigues estampou o desquite de um casal famoso: Sylvia e José Thibau. No outro dia Sylvia entra na redação procurando o editor. Não encontrando-o pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro. Nelson, com 17 anos, estava ao lado e assistiu a cena. A família ficou traumatizada com a morte violenta.

Dois meses após, Mario Rodrigues sofre uma trombose cerebral e falece aos 44 anos. Como diz o ditado que “desgraça pouca é bobagem” estoura a Revolução de 30. Em 24 de outubro o Governo é deposto e todos os jornais do velho regime foram invadidos e empastelados. Pouco depois voltaram a circular, exceto “Crítica” o jornal dos Rodrigues. A família inteira passou um perrengue que durou uns meses, até que surgiu uma oportunidade. Em 1931 Roberto Marinho convida seu irmão Mario Filho (que dá nome ao Estádio do Maracanã) para assumir a página de esportes do jornal “O Globo”. Em 1932 Nelson, também, é contratado com um ordenado de 500 mil réis por mês. Com uma vida desregrada e fumando muito, pegou uma tuberculose e ficou 14 meses, entre 1934-1935, internado em Campos de Jordão, para onde retornaria outras vezes.

Casou com Elza Bretanha, também jornalista d’O Globo, com quem namorava há 2 anos, em 1940 sem avisar as famílias, e foi morar no Engenho Novo. Era a volta ao subúrbio levando uma vida de penúria. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila para assistir A família Lerolero, de Raimundo Magalhães Júnior, e ouviu o comentário: “Esta chanchada está rendendo os tubos”. Parou e pensou: por que não escrever teatro? Em meados de 1941 é concluída sua primeira peça: A mulher sem pecado, que só foi encenada no fim de 1942. Não foi um sucesso de público, mas alguns críticos elogiaram. No ano seguinte, escreve Vestido de noiva e distribui cópias entre os jornalistas, críticos e amigos. Manuel Bandeira elogiou e, com este aporte, conseguiu elogios em quase todos os jornais. Mas falavam que a peça era muito complexa, que exigia um cenário de alto custo; portanto dificilmente alguém se proporia a encená-la. Até que a peça caiu nas mãos de Zbignew Ziembinski, um ator e diretor polonês recém-chegado ao Brasil. “Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso”, foi o comentário de Ziembinski.

A partir daí começa a ficar famoso, odiado e amado pela crítica e pelo público. Porém, ainda com dificuldades financeiras e procurando outro emprego. Em 1945, através de David Nasser, é apresentado a Freddy Chateaubriand, da revista “O Cruzeiro”. Passa a trabalhar na revista com um salário de cinco mil cruzeiros, sete vezes mais do que ganhava n’O Globo. Assume o cargo de diretor de redação das revistas “Detetive” e “O Guri”. Depois soube que Freddy Chateaubriand estava querendo um folhetim para levantar a tiragem d’O Jornal. Ele se ofereceu para escrevê-lo e assim nasceu “Suzana Flag”, o pseudônimo que assinava a novela Meu destino é pecar. O folhetim alavancou as vendas do jornal e tornou-se um livro, cuja venda ultrapassou 300 mil exemplares. Isto estimulou-o a escrever outro folhetim: Escravas do amor, outro retumbante sucesso.

Sua terceira peça – Álbum de família – surge em 1946. A peça, com o incesto como tema central, foi proibida pela censura e só foi liberada 19 anos depois, em 1965. Nos anos seguintes teve suas peças interditadas pela censura, passou a ser sinônimo de obsceno e tarado e ficou conhecido como autor maldito. Ainda em 1946 aproveitou o sucesso de “Suzana Flag”, publicando sua “autobiografia”, intitulada Minha vida e foi outro sucesso de vendas. Evidentemente não era do conhecimento do público que se tratava de um pseudônimo. Em 1948 estréia mais uma peça: Anjo negro, gerando mais polêmica e consagrando-o como “maldito”. Seguem-se Senhora dos afogados (1948) e Dorotéia (1949).

Fanático torcedor do Fluminense, foi um grande cronista esportivo, ao mesmo tempo que escrevia reportagens policiais e folhetins romanescos. Em 1950 passou a trabalhar no jornal “Última Hora”. O dono do jornal, Samuel Wainer, propôs que ele escrevesse, com pagamento extra, uma coluna diária tratando de um fato qualquer, mas que fosse real. O título proposto foi Atire a primeira pedra. Nelson não gostou e propôs outro: A vida como ela é. Tal como nos folhetins anteriores, foi um grande sucesso que ajudava bastante a vender o jornal nas bancas. No ano seguinte, e aproveitando o sucesso dos folhetins, relançou Suzana Flag em O homem proibido. Sem sombra de dúvida foi a autor de romances de maior sucesso, publicados na forma de folhetins em jornais.

Em 1953 estreia no Teatro Municipal “A falecida” uma comédia chamada de “tragédia carioca” para atrair o público. Por esta época sua vida financeira já estava bem equilibrada ao ponto de manter outra família. Manteve um romance com Yolanda que durou cinco anos e lhe rendeu três filhos, que ele não reconheceu como seus. Para melhorar a situação financeira, a família Rodrigues ganha, em 1955, uma ação contra o Governo de indenização pela destruição do jornal “Crítica” e recebem uma boa bolada. Nelson compra um apartamento em Teresópolis e um carro para a mulher, a legítima. Esse período de prosperidade durou pouco. Teve um problema de vesícula e após a operação de alto risco ficou três meses sem publicar suas colunas nos jornais. A coluna publicada em “A Manchete Esportiva” foi interrompida de novembro de 1958 a março de 1959.

Em seguida cria outro personagem de folhetim, mais um sucesso: Engraçadinha, que entreteve os leitores da “Última Hora” até fevereiro de 1960. Depois, repetindo o sucesso que teve com Suzana Flag, foram publicados dois livros biográficos: Engraçadinha – seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito e Engraçadinha – depois dos trinta. Certo dia conheceu um motorista de ônibus, malandro exibido que tinha todos os dentes de ouro. Ele misturou o cara com outro conhecido, o bicheiro carioca Arlindo Pimenta, e criou o personagem “Boca de ouro”. Como nas peças anteriores, tem problemas com a censura, mas fez grande sucesso em 1961, com Milton Moraes no papel principal.

Surge nova amante, mulher casada que logo se separa do marido, e dois anos depois ele também separa-se de Elza. O fato causou comoção entre os amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Claudio Mello e Souza, pois a esposa Elza chegou a tentar suicídio. Pode-se dizer que ele viveu uma “tragédia Rodrigueana” na própria pele. A nova esposa deu um trato em sua aparência, e logo começou a participar do programa esportivo “Grande resenha Facit”, da TV Rio, dirigido por Walter Clark. Era o primeiro programa tipo mesa-redonda da televisão brasileira. Isto não o impedia de continuar com suas peças: Beijo no asfalto (1960), Bonitinha, mas ordinária (1962), Toda nudez será castigada (1965) etc. Algumas delas passaram para a tela do cinema. Sua penúltima peça – Anti-Nelson Rodrigues – foi encenada em 1973, com direção de Paulo César Pereio. A última foi A serpente, escrita em 1979. Quase todas elas vêm sendo encenadas até hoje.

O início da década de 1970 marca também os “anos de chumbo” da ditadura. Nelson mantinha um relacionamento com alguns militares. Precisou deles para tirar seu filho Nelsinho, preso politico, da cadeia. Conseguiu com o presidente Médici um indulto para que ele saísse do País, mas Nelsinho não aceitou o privilégio. Sua fama de reacionário no meio politico não eram menor que a de “maldito” ou “pornográfico”. Não obstante isso, batalhou para para localizar e libertar alguns amigos, entre eles Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Em 1974 a saúde se complica de novo. É operado de um aneurisma da aorta. Apesar da proibição médica, voltou a fumar. Em 1977 é novamente internado com uma arritmia ventricular grave e insuficiência respiratória. Em tais condições, consegue que a esposa Elza volte para casa. Bem antes disso já andavam se encontrando quase todas as noites no restaurante “O bigode de meu tio”, na Vila Isabel. Em fins do mesmo ano, com a saúde abalada, reuniu algumas crônicas e publicou seu último livro: O reacionário: memórias e confissões. Mesmo doente, aceitou um convite para fazer o lançamento numa livraria em Florianópolis. Como não viajava de avião, foram 15 horas de carro junto com uma irmã, que lhe servira como enfermeira. Passou a tarde inteira sentado ao lado de uma pilha de livros, de caneta em punho, aguardando a chegada dos interessados num autógrafo. Não apareceu ninguém, nenhum livro foi vendido naquela tarde.

A viagem de volta foi marcada por um silêncio constrangedor, o qual marcou seus últimos anos de vida. Faleceu em 21/12/1980, manhã de domingo. Naquele mesmo dia fez 13 pontos na Loteria Esportiva, num “bolão” junto com seus amigos do jornal “O Globo”. À tarde a seleção brasileira jogava contra a Suíça, em Cuiabá. No meio da partida, o Brasil inteiro assistiu pela TV o juiz Arnaldo César Coelho interrompendo o jogo com um minuto de silêncio para homenagear o grande dramaturgo.

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Otto Lara Resende entrevista Nelson Rodrigues

JUDEUS NO RECIFE E MANHATTAN: O FILME

Vasculhando os compêndios da história de Pernambuco deparo com a chegada da colônia judaica no Recife com a vinda de Mauricio de Nassau. Foi uma segunda diáspora empreendida pelos judeus de origem portuguesa que viviam em Amsterdam. Acharam que aqui poderiam viver em paz com sua religião sob a proteção de um governo tolerante. Era também uma oportunidade para voltar às suas origens ibéricas. Eram aproximadamente 600 judeus dispostos em 150 famílias, o que representa quase metade da população civil branca do Recife na época. Dizem que havia mais judeus no Recife do que em Amsterdam. Trata-se de uma elite judaica que ajudou Nassau no estabelecimento de uma nova civilização nos trópicos. Quando Nassau estava para ser demitido pela Companhia das Índias Ocidentais, em 1644, eles foram procurá-lo perguntando quanto ele recebia de salário pelo seu emprego de administrador daquela região. Estavam dispostos a cobrir a quantia, caso ele permanecesse na cidade.

Nassau regressou para a Holanda e os judeus amargaram mais 10 anos de convivência forçada com os portugueses até 1654, quando foram expulsos após a derrota dos holandeses na Batalha de Guararapes. Como se tratava de uma elite composta por homens de “bens”, a coroa portuguesa dispensou-lhes um tratamento diferenciado: deram-lhes 90 dias para deixar o Brasil. Os judeus, então, fretaram 17 navios e partiram de volta à Holanda. O retorno foi uma verdadeira epopéia. Um dos navios, a fragata “Valk” se desgarrou da frota e foi assaltada por piratas. Resgatados por um navio francês, foram levados para um entreposto da Companhia das Índias Ocidentais, em Nova Amsterdam (atual Nova Iorque).

Se estabeleceram numa ilha na foz do Rio Hudson, mais tarde chamada de Manhattan, e ajudaram a fundar os Estados Unidos da América. Aqui começa a história dos judeus na América, cuja participação foi relevante para fazer dos EUA o país que é hoje. Pois os descendentes destes judeus que foram expulsos do Recife ajudaram George Washington na independência do país e, mais tarde, na criação da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Até hoje eles mantém um cemitério próximo ao Central Park e reverenciam aqueles pioneiros fundadores da cidade. Esta história é contada nos livros ao mesmo tempo em que é esquecida na história do Brasil. Tem sido mais lembrada na história dos EUA, onde todo ano os judeus norte-americanos comemoram a data e reverenciam os patrícios sepultados naquele cemitério.

Aguçado pela curiosidade, fui na Internet procurar mais informações sobre a colônia judaica em Pernambuco. O volume de dados e informações é enorme. Aí encontrei um filme contando essa história de modo pormenorizado: O Rochedo e a Estrela, realizado pela cineasta pernambucana Katia Mesel com os recursos da Lei Rouanet. O filme de 85 minutos foi rodado nos EUA, Holanda, Curaçao e Brasil. Em 2004 fizeram uma versão de 30 minutos apresentada em Nova Iorque, por ocasião dos 450 anos da chegada dos judeus de Pernambuco. Mais tarde foi exibido no 15º Cine PE Festival de Audiovisual, em maio de 2011. O trailer do filme pode ser visto na Internet.

Mas como ver o filme inteiro? Empreendi uma longa caçada na Internet, mas encontro apenas o trailer. Não encontro nem lugar onde pudesse comprá-lo. Assim, passei a procurar a diretora do filme na intenção de adquiri-lo. Encontrei-a no Facebook, peço um contato e longo tempo depois recebo resposta. Assim conheci Katia Mesel, que me falou das dificuldades enfrentadas na distribuição do filme. Perguntei-lhe o que vem impedindo sua distribuição no circuito dos grandes cinemas, e conversamos sobre as dificuldades da exibição de filmes não comerciais. Avancei um pouco mais e perguntei se existem forças conspiratórias impedindo a distribuição do filme. Pois trata-se de um documento relevante para a história de dois países: Brasil e EUA. Sua resposta foi imediata:
– “É isso, Brito: existe uma má vontade em exibir o filme.

Manifestei o interesse em adquirir o filme para vê-lo e distribuir entre os amigos. Ela providenciou cinco cópias, das quais ainda tenho uma em DVD, que posso disponibilizá-la aos leitores fubânicos. Toda essa história está melhor contada no site Tiro de Letra.

Cartaz do filme:

Obs.: “Rochedo de Israel” é o nome da Sinagoga Kahal Zur Israel, no Recife

PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) – III

MARIO SCHENBERG (1914-1990)

Nasceu no Recife, em 02/07/1914. Porém há informação segura que nasceu em 1916. A data foi alterada visando a entrada na escola mais cedo do que o permitido. Físico, crítico de arte, político, pacifista e fotógrafo. Concluído os cursos primário e secundário, entrou na Faculdade de Engenharia do Recife em 1931. No 3º ano foi transferido para a Escola Politécnica, em São Paulo, sob a influência de seu professor Luís Freire, notável instigador de talentos. Em 1935 formou-se em engenharia elétrica e, no ano seguinte, em matemática na recém fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FFCL. Neste período esteve em contato direto com os professores Giuseppe Occhialini, Giacomo Albanese, Luigi Fantappié e Gleb Wataghin, que o convida para desempenhar a função de preparador de física geral e experimental na Escola Politécnica. Em 1937 deixou esse cargo para se tornar assistente de física teórica da FFCL.

A diversificação de interesses data de sua infância e foi influenciada pelas viagens feitas com seus pais à Europa. Desde cedo mostrou também notável capacidade para a matemática, encantando-se com a geometria, que teve forte influência em seus trabalhos posteriores. O interesse pela política, e particularmente o marxismo, começou também na adolescência.

Como pode uma pessoa ter se destacado em áreas tão distintas como a ciência, as artes e a política? Para saber sobre o “físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte”, uma historiadora realizou uma pesquisa de fôlego sobre sua produção na área científica e nas artes. A conclusão a que chegou é que a arte surgiu primeiro em seu horizonte. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais”.(¹)

Em 1939 partiu para a Europa, onde passou uma breve temporada trabalhando no Instituto de Física da Universidade de Roma com o físico italiano Enrico Fermi; em Zurique, com Wolfgang Pauli e em Paris com Frédéric Joliot-Curie no Collège de France. Em 1940, já de volta ao Brasil, obteve uma bolsa da Fundação Guggenheim para passar uma curta temporada nos EUA, junto ao astrofísico George Gamow. Aí fez uma de suas principais descobertas: o “Processo Urca”. Trata-se de um estudo para entender o colapso de estrelas supernovas.

Outra de suas descobertas recebeu o nome de “Limite Schenberg-Chandrasekhar”, realizada num trabalho junto com o físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar. Schenberg calculou, em 1942, a massa que pode ter o núcleo de uma estrela em que não mais ocorram reações de fusão nuclear, mas que consiga suportar o peso das camadas mais externas. Para um núcleo de hélio, valores típicos desse limite são de 10% a 15% da massa da estrela. Devido a tais descobertas, Albert Einstein o apontou como um dos dez mais importantes cientistas de sua época. É considerado, ainda hoje, o maior fisico teórico do Brasil.

Em 1944 já exercia a crítica de arte de modo regular; mais dois anos é contratado para inaugurar a cadeira de Mecânica Racional e Celeste da FFCL, atual instituto de Física da USP. Isto confirma o modo simultâneo como exercia ambas as atividades. Anos mais tarde, dirigiu por oito anos o Departamento de Física da Universidade de São Paulo-USP (1953-1961). Seu curriculum na área científica é extenso: Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. Publicou mais de uma centena de trabalhos em física teórica, física experimental, astrofísica, mecânica quântica, mecânica estatística, relatividade geral, teoria quântica do campo, fundamentos de física, além de escrever muitos trabalhos em matemática. Foi membro do Institute for Advanced Studies de Princeton e do Observatório Astronômico de Yerkes. Em Bruxelas, trabalhou em raios cósmicos e mecânica estatística. Criou o Laboratório de Estado Sólido da USP, instalou o primeiro computador da universidade, criando o curso de computação, e presidiu a Sociedade Brasileira de Física de 1979 a 1981.

Em 1969 foi o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias, em Kioto, Japão. Neste mesmo ano foi aposentado compulsoriamente pelo Governo, através do Ato Institucional nº 5. Na área política seu envolvimento não foi menos intenso, sendo eleito duas vezes deputado estadual de São Paulo (1946 e 1962) pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1947, sob a liderança do economista e empresário Caio Prado Júnior, a bancada aprovou o Artigo 123 da Constitução do Estado de São Paulo, instituindo os fundos de amparo à pesquisa no estado para impulsionar o seu desenvolvimento científico e tecnológico. Esse projeto levou mais tarde à concepção da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Era considerado um orador influente, chegando a mudar a orientação da bancada por diversas vezes. Devido a tais atividades, foi cassado e preso mais de uma vez pela ditadura militar brasileira.

Após a aposentadoria compulsória é proibido de frequentar a USP e passa por um período de isolamento e cerceamento de qualquer atividade política-social. Este período é compartilhado com sua amiga e conterrânea Clarice Lispector numa carta: “Desde 1970, minha situação geral se modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a crítica de arte militante. Foi um desafio tremendo, mas creio que pude reagir de um modo criativo, não só retomando com maior energia as pesquisas anteriores sobre teoria da Gravitação e o problema das relações entre Física e Geometria, como também fazendo estudos filosóficos mais sistemáticos. Publiquei três trabalhos longos de Física, e aprofundei bastante o meu pensamento sobre Arte. Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja um ponto de partida para um ensaio mais longo”.

Como crítico de arte mantinha grande interesse por artes plásticas, tendo convivido com artistas brasileiros como Di Cavalcanti, Lasar Segall, José Pancetti, Mário Gruber, Cândido Portinari, Antonio Bandeira, Carlos Scliar etc. e também estrangeiros, como Bruno Giorgi, Marc Chagall e Pablo Picasso. Escreveu diversos artigos sobre artistas contemporâneos brasileiros como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Hélio Oiticica etc.

Era considerado um “mecenas das artes” não no sentido de financiar artistas, pois não era rico; e sim de aconselhá-los e ampará-los num período difícil da política brasileira. Foi casado com Julieta Bárbara Guerrini, ex-mulher do poeta Oswald de Andrade, e com a artista plástica Lourdes Cedran. Teve uma única filha, a geneticista Ana Clara Guerrini Schenberg. Em 1979, com seus direitos políticos reabilitados com a abertura que se nciava, voltou para a USP e lecionou alguns cursos. Recebeu o título de Prof. Emérito em 1982 e, em 1984, foi homenageado com um Simpósio Internacional, no Instituto de Física, e a publicação de um número especial da Revista Brasileira de Física pelos 70 anos. Pouco depois, os sintomas de uma doença degenerativa acentuaram-se. Faleceu em 10 de novembro de 1990.

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(¹) VEIRA, Alecsandra Matias de. Schenberg – Crítica e Criação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA) – II

Antes de prosseguir com os ilustres pernambucanos é preciso um esclarecimento. Até porque já fui advertido que essa mania que temos de “gozar com a pica dos outros” está indo longe demais. “Já chegou na Ucrânia! Assim também é demais!” Foi o que me disseram, mas eu explico: Clarice Lispector veio da Ucrânia para o Brasil com pouco mais de um ano. “Nunca botei os pés naquela terra, lá só andei no colo”, declarou. Ficou no Recife até os 12 anos. Ou seja, foi lá que passou toda a infância, a época de formação e definição da pessoa. Foi lá que aprendeu a escrever, e escreveu alguma coisa. Ou seja, o germe de sua escrita (e sua personalidade) surgiu no Recife. Depois foi morar no Rio de Janeiro e tornou-se jornalista. Burilou a escrita e tornou-se escritora. Depois ganhou o mundo (ou foi o mundo que a ganhou?) e entrou para a literatura universal. Além do mais, ela própria se disse pernambucana mais de uma vez. E se ela o disse, quem há de contradizer?

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Clarice Lispector – (1920-1977)

Nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920 e veio para o Brasil com pouco mais de um ano. A família de origem tradicional judaica é obrigada a emigrar devido a Guerra Civil Russa e a perseguição aos judeus. Com muito custo, conseguiram passaporte para o Brasil e, após uma estadia em Maceió, se instalam no Recife, onde foram melhor acolhidos pelos patrícios. Passaram a viver no bairro da Boa Vista, onde a família conquistou um certo padrão de vida. Aos 7 anos Clarice já era uma leitora habitual seguindo o costume das famílias judaicas. Aos 8 anos foi ao Teatro pela primeira vez e ficou encantada com a encenação. Tanto que em seguida escreveu uma peça – Pobre menina rica – que, infelizmente se perdeu. Aos10 anos passou a escrever contos e se animou em enviá-los ao suplemento infantil do “Diário de Pernambuco”. O jornal não publicou porque não pareciam contos infantis; não continham fadas ou piratas; referiam-se mais a sensações.

Em 1930 sua mãe falece ainda jovem, aos 42 anos. Clarice e suas duas irmãs mais velhas passam por alguns perrengues, mas a família se mantém unida e tocando a vida.

Fez o curso primário na Escola João Barbalho, demonstrando interesse por matemática e chegando a dar aulas aos filhos dos vizinhos com dificuldades na matéria. Em 1932 Clarice entra no Ginásio Pernambucano e no ano seguinte, conforme sua declaração, “tomei posse da vontade de escrever”. Nesta época, um dos livros que lhe causou impacto foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. A ânsia de escrever foi se alargando e chegou a escrever um conto enorme, que não acabava nunca e não chegou a ser concluído. Também lia muito, misturando tudo e escolhendo os livros pelos títulos. Lia livros de mocinhas e Dostoiévski ao mesmo tempo. Em seguida, com a vida estabilizada, o pai compra uma casa e passam a morar na Avenida Conde da Boa Vista, área central do Recife. Mantinham bons contatos familiares com Agamenon Magalhães, professor de sua irmã e mais tarde governador do Estado. Por essa época, Clarice aprendeu hebraico no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro.

Em 1935, o pai resolveu alavancar seus negócios e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde esperava que as filhas encontrassem bons maridos no círculo judaico carioca. Foram morar no bairro da Tijuca, onde Clarice concluiu o ginásio no Colégio Silvio Leite. Em 1937 entrou numa escola preparatória para a Faculdade de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ), não obstante a discordância de seu pai. Ela era mulher e não pertencia a elite carioca. Mas seu desejo de mudanças sociais levaram-na a isso. A vivência no Recife deixou marcas, e sem orientação profissional se interessou pelo curso de Direito. Tinha como objetivo estudar advocacia para reformar as penitenciárias, declarou mais tarde.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA)

Falar dos pernambucanos ilustres é chover no molhado, pois são muitos e há muito tempo falados. Mas tendo em vista o Bicentenário da Revolução agora em março de 2017 – que antecedeu em 5 anos a Independência do Brasil – é hora de lembrarmos os nomes e feitos destes conterrâneos que ajudaram a fazer a História do Estado e do Brasil. Comecemos pelos nomes menos conhecidos como pernambucanos e muito conhecidos em todo o Brasil.

Incluiremos também alguns nomes que não são nativos, mas que muita gente acha que é pernambucano, tais como Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Ariano Suassuna etc. Certa vez um cearense disse que “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Ele está certo, os dois primeiros são do Ceará e o terceiro é paraibano, mas não podia nem ouvir falar o nome da cidade João Pessoa. De qualquer modo, viveram e fizeram carreira em Pernambuco, e daí vem a justificativa da apropriação que faremos.

Toda 3ª Feira a coluna divulgará um nome num verbete conciso e completo. Está visto que a empreitada é coletiva dos leitores fubanicos, que quiserem colaborar enviando nomes, os respectivos verbetes e sugestões. Eu sozinho não vou poder fazer uma grande lista. Iniciemos com os nomes que tenho e fico no aguardo das colaborações, que certamente virão dos leitores.

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JOSÉ ABELARDO BARBOSA DE MEDEIROS (Chacrinha)

Chacrinha (Set/1917 – Jun/1988)

Nasceu em Surubim, em 30/09/1917. Filho de um comerciante não bem sucedido. Porém, e não obstante as sucessivas crises financeiras da família, teve uma infância tranquila. Quando menino gostava de brincar montando “teatrinhos”. Esta habilidade levou-o a trabalhar como vitrinista da loja do pai em Caruaru, onde a família se estabeleceu. Aos 10 anos partiram para Campina Grande em busca de negócios mais promissores. Ao completar 17 anos foi estudar no Recife, e logo entrou na Faculdade de Medicina. Dotado de certa desenvoltura, teve uma breve experiência como locutor na Rádio Clube do Recife aos 18 anos. No ano seguinte foi dar uma palestra sobre alcoolismo na Radio Clube de Pernambuco, ampliando seus contatos com o mundo da comunicação.

Por essa época tocava bateria e integrava o “Bando Acadêmico” junto com seus colegas de faculdade e não demonstrava muito interesse pela Medicina. Aos 21 anos decidiu dar um rumo diferente a sua vida como músico e embarcou no navio Bagé rumo à Alemanha. No entanto, naquele ano (1939) estourou a Segunda Guerra Mundial, impedindo o prosseguimento da viagem. Foi obrigado a desembarcar no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu e passou a trabalhar como locutor. Passou por diversas Rádios, mas o carregado sotaque nordestino não combinava bem com a função de locutor comercial. Na Rádio Clube de Niterói, deu-se conta que sua “praia” não era aquela e pediu à direção da emissora para fazer um programa de música carnavalesca tarde da noite. A Rádio funcionava numa chácara próxima do Cassino de Icaraí. O programa “O Rei Momo na Chacrinha” foi ao ar em 1942 e foi um sucesso. Ganhou fama de “doido” e o programa passou a se chamar “O Cassino da Chacrinha”. Irreverência era o que não faltava no programa, dando origem ao personagem que adquiria fama no Rádio. No programa ele simulava entrevistas com gente famosa e recriava a atmosfera de um cassino com diversos efeitos sonoros, incluindo galos e outros bichos. Ao mesmo tempo em que comandava o programa gravou diversas músicas de carnaval, enquanto a fama se alardeava. O programa foi efetivado como “Cassino do Chacrinha”.

Em 1945 passou a trabalhar na grande Rádio Nacional apresentando os programas “Noite dançante” aos sábados, e “Tarde dançante melhoral” aos domingos, quando não havia futebol. Mas tudo indicava que seu talento era mesmo a “chacrinha”. Assim, o programa voltou ao ar em outras rádios até chegar na Rádio Globo, em 1947. Nos anos seguintes trabalhou em outras rádios e gravando marchinhas de carnaval, até 1956 quando estreou na TV Tupi com o programa “Rancho alegre”. Mas como estava predestinado ao papel de “doido”, voltou a apresentar o “A Discoteca do Chacrinha” e a “Hora da buzina” nas TVs Rio, Excelsior, Tupi e Globo. Em 1959 já era considerado o programa mais popular da TV brasileira. Mesmo fazendo sucesso na TV não abandonou o Rádio, o que só veio acontecer em 1967 quando foi contratado pela TV Globo para apresentar dois programas: “Discoteca do Chacrinha” às quartas-feiras, e “A Hora da Buzina”, aos domingos, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”.

Tudo indica que o contrato com a Globo não ia tão bem quanto o sucesso, e ele voltou para a TV Tupi em 1972. Anos depois passou a atuar na TV Bandeirantes (1978) e só voltou à TV Globo em março de 1982 para apresentar seu maior sucesso, o “Cassino do Chacrinha” nas tardes de sábado. Era uma mistura de programa de auditório, atrações musicais – lançou diversos cantores de grande sucesso – e show de calouros, dirigido pelo filho José Aurélio “Leleco” Barbosa e Helmar Sergio. Apresentando-se sempre com roupas espalhafatosas, rodeado de belas “chacretes” e atirando bacalhau na plateia, o programa tornou-se uma poderosa atração da TV atingindo altos índices de audiência. Era reverenciado como um gênio da comunicação pelo Diretor da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho, o poderoso Boni, devido as frases e bordões que soltava no ar: “Na televisão nada se cria, tudo se copia”; “Eu vim para confundir, não para explicar!” e “Quem não se comunica, se trumbica!” entre outros.

No auge de sua carreira surgiu o Movimento Tropicalista, e ele passou a ser adorado pelos seus protagonistas (Gilberto Gil e Caetano Veloso). Em 1986 recebeu o título de “Doutor Honoris Causa”, da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro. Em 1988 foi descoberto um câncer no pulmão e teve que se ausentar do programa alguns sábados, quando foi substituído pelos humoristas Paulo Silvino e João Kleber. Em 2 de junho voltou a comandar o programa ainda não totalmente restabelecido. Adorava o palco e dizia que gostaria de morrer em serviço. Por pouco isto não chegou a acontecer: faleceu 28 dias depois aos 70 anos. Cerca de 30 mil pessoas foram dar adeus ao “Velho guerreiro” no saguão principal da Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro.

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FEITOS & FATOS PERNAMBUCANOS II

Recebemos dos leitores muitas contribuições na tarefa de relacionar os “Feitos & Fatos Pernambucanos”. Porém, tivemos que descartar duas. A primeira refere-se a criação do Oceano Atlântico, que teria nascido a partir da foz dos rios Beberibe e Capiberibe. Isto é apenas um acidente geográfico que beneficia e embeleza o Estado, mas não é um feito pernambucano. A segunda refere-se a fundação de Nova Iorque, atribuída aos judeus que foram expulsos do Recife em 1654. Também não procede. A cidade foi fundada pelos holandeses um pouco antes e recebeu “apenas” uma ajuda de 23 judeus que saíram do Recife, cujos descendentes contribuíram substancialmente na formação dos EUA e na criação da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

Quero agradecer particularmente ao colega Carlos Eduardo dos Santos, colunista do JBF, que enviou diversos feitos e vieram engrossar a listagem abaixo:

1 – Surgimento do primeiro texto literário do Brasil, conforme Capistrano de Abreu e José Veríssimo.

2 – Recife torna-se a primeira cidade planejada urbanisticamente das Américas. A primeira “cidade mundial” do continente americano, com o governo de Mauricio de Nassau.

3- Além da história e decorrente destes fatos, ocorreram outros feitos, tais como:

1- 1ª Igreja do Brasil (Igarassu, 1535)
2- 1ª Santa Casa de Misericórdia do Brasil (Olinda, 1540)
3- 1ª Câmara Municipal (Olinda, 1548)
4- 1º Farol Marítimo (Olinda, 1548)
5- 1º Convento Franciscano (Olinda, 1577)
6- 1º Convento Carmelita (Olinda, 1588)
7- 1º Poema brasileiro (“Prosopopéia”, 1601)
8- 1ª Sinagoga das Américas (Kahal Zur Israel, 1636)
9- Primeiras imagens das américas (Franz Post e Eckhout, (1638)
10-1º Observatório astronômico do hemisfério sul (Palácio Friburgo, 1639)
11- 1ª Assembléia Legislativa da América do Sul (1640)
12- 1ª Fábrica de cerveja do Brasil (1641)
13- 1ª ponte de grande porte do Brasil (Ponte Mauricio de Nassau, 1643)
14- 1º Zoológico das Américas (Governo Mauricio de Nassau)
15- 1º Jardim Botânico das Américas (idem)
16- 1º Museu Natural das Américas (idem)
17- 1º Corpo de Bombeiros das Américas (idem)
18- Primeiras moedas cunhadas no Brasil (1646)
19- 1º Cemitério Judaico das Américas (1646
20- Berço do Exército Brasileiro (Batalha de Guararapes, 1654)
21- 1º Grito de República (Guerra dos Mascates, 1710)
22- 1ª Loja Maçônica do Brasil (Itambé, 1801)
23- 1ª Independência do Brasil (Revolução Pernambucana, 1817)
24- 1ª Operação cesariana (1817)
25- 1º Governo Republicano (1824)
26- 1º Jornal diário da América Latina (Diário de Pernambuco, 1825)
27- 1ª Escola Pública (Ginásio Pernambucano, 1825)
28- Primeiros Cursos Jurídicos (junto com SP, 1827)
29- 1ª Ponte pênsil das Américas (Caxangá, 1842, destruida em 1869)
30- 1ª Linha regular de vapores para a Europa, (Treviot, 1852)
31- 1ª Farmácia do Brasil (Drogaria Conceição, 1861)
32- 1º Trem urbano (Maxambomba, 1867)
33- 1º Mercado público do Brasil (Mercado de São José, 1873)
34- 1º Restaurante ainda ativo do Brasil (Restaurante Leite, 1882)
35- 1º Cardeal da América Latina (Cardeal Arcoverde, 1905)
36- 1ª Radio do Brasil (Radio Clube de Pernambuco, 1919)

A ideia é reunir estas efemérides e divulgá-las ao público na comemoração do Bicentenário da Revolução Pernambucana, que teremos agora em março de 2017.

Não posso dizer com certeza se a lista está completa. Os leitores é que dirão, e caso haja algo a acrescentar, solicito a gentileza de enviar para a coluna.

Vamos animar essa festa.

FEITOS & FATOS PERNAMBUCANOS

Quando os radialistas do Recife alardeavam com voz tronituante o prefixo de suas emissoras, e emendavam cheio de orgulho: “De Pernambuco para o Mundo!”, o pessoal do sudeste ria e gozava da mania de grandeza daquela gente. Achavam que era apenas prepotência e orgulho desprovidos de razão, quando na verdade tais sentimentos se baseiam em fatos e feitos reais.

O fato real é a condição histórica e geográfica de ser a primeira metrópole brasileira de caráter mundial mais próxima da Europa e da América. No plano histórico, o protagonismo confirma-se em diversas áreas, conforme os feitos descobertos até o momento:

1 – Para começar foi em Pernambuco que surgiu o primeiro texto literário do Brasil, conforme Capistrano de Abreu e José Veríssimo.

2 – Na sequência, Recife torna-se a primeira cidade planejada urbanisticamente das Américas. A primeira “cidade mundial” do continente americano, com o governo de Mauricio de Nassau.

3 – Decorrente destes fatos, ocorreram outros feitos, tais como:

a) 1ª Sinagoga das Américas (Kahal Zur Israel, 1636)
b) 1º Observatório astronômico do hemisfério sul (Palácio Friburgo, 1639)
c) 1ª ponte de grande porte do Brasil (Ponte Mauricio de Nassau, 1643)
d) 1º Zoológico das Américas (Governo Mauricio de Nassau)
e) 1º Jardim Botânico das Américas (idem)
f) 1º Museu Natural das Américas (idem)
g) 1º Corpo de Bombeiros das Américas (idem)
h) Berço do Exército Brasileiro (Batalha de Guararapes, 1654)
i) 1ª Emancipação nacional, independência do Brasil (Revolução Pernambucana, 1817)
j) 1º jornal diário da América Latina (Diário de Pernambuco, 1825)
k) 1ª ponte pênsil das Américas (Ponte da Caxangá, 1842. (Destruida em 1869)
l) 1º mercado público do Brasil (Mercado de São José, 1873)
m) Primeira Radio do Brasil (Radio Clube de Pernambuco, 1919)
n) 1ª linha regular de vapores para a Europa, (Treviot, 1852)

A ideia é reunir estas efemérides e divulgá-las ao público na comemoração do Bicentenário da Revolução Pernambucana, que teremos agora em março de 2017.

Estou certo que a lista acima não está completa e para isto, gostaria de contar com a colaboração dos leitores do JBF no envio de outros feitos & fatos pernambucanos para animar a festa.


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