EM DEFESA DO JORNALISMO

Há poucos anos perdemos um jornalista valoroso – Heródoto Barbeiro – da TV Cultura e Rádio CBN. O “bispo” Macedo comprou-o por uma bagatela irrecusável segundo muitos e o próprio jornalista, que continua lá na TV Record News (fechada) numa boa. Não sei se mais feliz, pois antes era um renomado jornalista reconhecido nas ruas. Hoje ninguém, talvez nem os próprios assinantes daquela TV, sabem quem é ou quem foi Heródoto Barbeiro.

Agora estamos perdendo outro grande jornalista – William Waack – por um motivo bizarro: um ataque dos correligionários de Torquemada, conforme bem denominou outro jornalista, o José Nêumane. Não se trata de defender o jornalista com sua piada sem graça, feita no ano passado em off e revelada agora por motivos não revelados, mas sabemos agora que havia a intenção de levar uma grana com a denúncia. Passaram um ano tentando levantar uma grana e como não conseguiram, mostraram o vídeo. O nome disso é extorsão. O fato é este: uma tentativa de extorsão feita por dois “colegas” travestidos de “politicamente corretos” derrubou um dos bons poucos jornalistas que temos. Imagino que se Paulo Francis estivesse vivo, não estaria trabalhando.

Até quando vamos aguentar essa turma do “politicamente correto” vigiando cada passa, cada palavrinha dita fora do contexto ou fora do que acham correto, mesmo que seja para achacar alguma pessoa? Alguns jornalistas saíram em defesa do William Waack, como o José Nêumane, Augusto Nunes, José Roberto Guzzo e Reinaldo Azevedo e os próprios colegas (negros) do jornalista. Mas, diante do alarido, a TV Globo sente-se obrigada a afastá-lo com medo da perda de audiência. Não sabem que vão perder muito mais audiência com seu afastamento.

Diante do inusitado, proponho ao nosso editor Luiz Berto abrir espaço aqui para o jornalista continuar expondo seus matérias e pontos-de-vista. Sei que sua audiência será de apenas umas 100 mil pessoas/dia. É pouco diante daquela existente na TV, porém muito mais qualificada. Enquanto isso, vamos esperando passar esse período de inquisição onde não se pode se falar qualquer bobagem, mesmo que seja em particular. Como todo mundo tem celular e uma câmera de filmar/gravar qualquer um está sujeito a ser demitido de seu emprego ou até ser preso devido a uma bobagem. E assim vamos perdendo nossos valorosos jornalistas.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – LV

João Cabral de Melo Neto 1920-1999

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife, em 9/1/1920. Diplomata e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Oriundo de uma aristocrática família pernambucana, é primo de Manuel Bandeira e de Gilberto Freyre. Passou toda a infância em engenhos de açúcar nas cidades de São Lourenço da Mata e Moreno. Com a mudança da família para Recife, em 1930, iniciou o curso primário no Colégio Marista.

Aos 15 anos seu talento não despontou na poesia e sim no futebol. Foi campeão juvenil pelo Santa Cruz. Trabalhou na Associação Comercial de Pernambuco e no Departamento de Estatística do Estado. O talento para a literatura viria aos 18 anos, quando começou a frequentar as tertúlias do Café Lafayette, famoso “point” de intelectuais do Recife. Lá fez bons amigos, como o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris, devido a eclosão da II Guerra Mundial; o poeta e crítico Willy Lewin, dono de uma grande biblioteca literária e o poeta e engenheiro Joaquim Cardoso, que exerceram forte influência em sua carreira.     

Aos 20 anos foi morar no Rio de Janeiro, e logo se integra ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório do médico e poeta Jorge de Lima junto com Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e outros poetas.  No ano seguinte, voltou ao Recife para participar do Congresso de Poesia, onde apresentou suas Considerações sobre o poeta dormindo. Em 1942 publicou seu primeiro livro, Pedra do Sono, com forte teor surrealista. Foi convocado para servir à  FEB-Força Expedicionária Brasileira, mas é dispensado por motivo de saúde. Em seguida foi aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP-Departamento de Administração do Serviço Público. Passou a frequentar a roda de intelectuais, agora alargada no “Café Amarelinho” e “Café Vermelhinho”, no Centro do Rio e publica o segundo livro  Os três mal-amados, em 1943.

Dois anos após, seu estilo poético vai se afirmando naquilo que viria a ser sua marca registrada: uma poesia concisa e precisa, demonstrada no livro  O engenheiro numa edição custeada por seu amigo Augusto Frederico Schmidt. Necessitando de emprego, fez concurso para a carreira diplomática e foi nomeado em 1945 para trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro de 1946, casou-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira e em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. Em 1947 foi transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. 

Em paralelo a função diplomática, passou a editar  numa pequena tipografia artesanal alguns livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganhou mais dois filhos: Inês e Luiz. Tornou-se amigo de Miró e escreveu um ensaio sobre o pintor, publicado em sua tipografia. Em 1950, foi transferido para o Consulado Geral, em Londres, e publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder ao inquérito, onde é acusado de subversão. O PCB-Partido Comunista estava na ilegalidade e ele foi acusado de criar uma “célula” no MRE-Ministério das Relações Exteriores, junto com mais quatro diplomatas. Foram afastados do Itamaraty em 20/3/1953, mas retornaram em 1954 após recorrerem ao STF-Supremo Tribunal Federal.

Em 1954 recebeu o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo, com o livro O Rio, escrito no ano anterior. Em seguida volta a residir no Recife, onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal. No mesmo ano a Editora Orfeu lançou seus Poemas Reunidos.. Por esta época já integrava a plêiade dos poetas brasileiros, com a publicação do livro Duas águas, publicado pela José Olympio Editora em 1956. O livro reúne seus livros anteriores e os inéditos: Paisagens com figuras, Uma faca só lâmina e Morte e vida Severina, “um auto de natal” solicitado pela dramaturga Maria Clara Machado, do teatro “O Tablado”. Ela achou o auto muito triste e não encenou. Mais tarde, Roberto Freire, diretor do TUCA-Teatro de Universidade Católica(SP), pediu para Chico Buarque de Holanda  musicar o texto. A peça foi encenada em diversas cidades brasileiras e correu o mundo, tornando-se sua obra mais conhecida. Representou o Brasil no Festival de Nancy, onde ganhou o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Posteriormente a peça foi transposta para disco (LP), cinema e série especial de TV.

Pouco depois foi removido, de novo, para Barcelona na condição de cônsul adjunto e com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir. É o lugar onde se deu melhor, devido as semelhanças com o Recife. Em 1958 foi removido para o Consulado Geral em Marselha, na França. Recebeu o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, no Recife. Em 1960, seu livro Quaderna foi publicado em Lisboa, quando ocorreu nova remoção. Agora para Madrid, como secretário da Embaixada. A vida de diplomata é compartilhada com o lançamento de livros. Em Madrid foi publicado Dois parlamentos.   

Em 1961, foi nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha,  mudou-se para essa cidade, onde reside pela segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João.

Em seguida publicou A educação pela pedra, pelo qual recebeu três prêmios “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro; “Luisa Cláudio de Souza”, do Pen Club e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. Em 1967 foi promovido a cônsul geral, vindo a ocupar o Consulado em Barcelona. No ano seguinte publica suas Poesias completas e é eleito para a ABL-Academia Brasileira de Letras. Uma nova transferência se deu em 1969 para a embaixada de Assunção, como ministro conselheiro. No mesmo ano Tornou-se membro da Hispania Society of América. e recebeu a comenda da As mudanças são uma constante em sua vida diplomática. Em 1970, foi nomeado embaixador em Dacar, Senegal, cargo exercido cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry.

Tão constante como as mudanças devido a carreira diplomática, são as condecorações recebidas: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1974),  Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal (1976), Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Guararapes (1980),  Grã-Cruz da Ordem Zila Mamede (1980),  Doutor Honoris Causa das Universidades Federal do Rio Grande do Norte (1982) e Federal de Pernambuco (1986)., Medalha Carneiro Vilela (1985), Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (1986), Comenda do Mérito Aeronáutico, Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada de Portugal (1987), Grã-Cruz do Equador,  Medalha de Humanidades do Nordeste, Ordem Militar de Cristo de Portugal (1998) Ordem de Mérito Pernambucano, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho.

São constantes também as premiações literárias:  Prêmio Olavo Bilac da ABL-Academia Brasileira de Letras (1955), Grande Prêmio de Crítica da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte (1975), Prêmio Moinho Recife (1984), Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura (1988), Prêmio Camões, outorgado pelos governos do Brasil e  Portugal (1990), Pedro Nava (1991), Casa das Américas, pelo Governo do Estado de São Paulo (1992); Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma (1992), Prêmio Jabuti, da  Câmara Brasileira do Livro (1993).,  Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (1994), Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro, Criadores de Cultura, da Prefeitura do Recife. Vale lembrar que foi o autor brasileiro mais cotado para receber o Prêmio Nobel de Literatura

Continuando com as remoções diplomáticas, foi nomeado embaixador em Quito, Equador, em 1980 ano em que publica A escola das facas. Em 1982 vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Em 1986, com o falecimento de sua mulher, casou-se em segundas núpcias com a poetisa Marly de Oliveira. Em 1987 foi removido para o Rio de Janeiro e publicou  Crime na Calle Relator. Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois.

A década de 1990 inicia com a aposentadoria do diplomata e vai encontrar sua saúde e o ânimo fragilizados. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, sua esposa passa a escrever alguns textos ditados pelo poeta. É assim que surgem mais dois livros: Primeiros poemas (1990) e Sevilha andando. O último livro publicado se deu no ano de seu falecimento – Tecendo a Manhã -, em 9/10/1999, aos 79 anos, reconhecido como um de seus melhores poemas. Neste mesmo ano é distinguido com uma “edição da plêiade”, publicada pela Editora Nova Aguilar: João Cabral de Melo Neto, Obra Completa, uma distinção dirigida à poucos autores brasileiros. Mais tarde, Carlos William Leite, editor da  conceituada revista (digital) “Bula”, realizou uma enquete entre seus leitores, pedindo para apontar seus poemas mais significativos, e publicou os 10 melhores poemas de João Cabral de Melo Neto.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VII

Celso Furtado

Celso Monteiro Furtado nasceu em 26/7/1920, em Pombal, Paraíba. Jornalista, advogado e economista dos mais conceituados em todo o mundo. Realizou os estudos primários em sua terra natal e os secundários no tradicional Ginásio Pernambucano do Recife. Em 1939 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vai estudar na Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Em 1943, foi aprovado no concurso do DASP para assistente administrativo. No ano seguinte concluiu o curso de Direito e em 1945 foi convocado pelo Exército para lutar na II Guerra Mundial. Com a patente de aspirante de oficial, obtida no CPOR, segue para a Itália, integrando a FEB-Força Expedicionária Brasileira. Nesta etapa, publicou seu primeiro livro por conta própria: De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária, sobre a presença brasileira na Itália.

Servindo na Toscana, como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano, sofreu um acidente na ofensiva final dos aliados e foi internado num hospital norte-americano. Em 1946 ganhou o prêmio Franklin D. Roosevelt, promovido pelo Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio “Trajetória da democracia na América”. No mesmo ano ingressou no curso de doutorado em economia da Universidade de Paris-Sorbonne, concluído em 1948 com a tese “L’économie coloniale brésilienne”, dirigida por Maurica Byé, obtendo a menção “très bien”. Enquanto isso, exerce a função de correspondente da “Revista da Semana”, “Panfleto” e “Observador Econômico e Financeiro”. Em Paris conheceu sua primeira esposa, a química argentina Lucia Tosi. De volta ao Brasil, retomou o trabalho no DASP e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, passando a trabalhar na revista “Conjuntura Econômica”.

Em 1949, mudou-se para Santiago do Chile para integrar a recém-criada CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU. No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria-executiva da CEPAL, foi nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento, e passou a cumprir missões até 1957 nos países: Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, enquanto visita universidades norte-americanas, onde passa a debater sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento. Seu primeiro ensaio de análise econômica, Características gerais da economia brasileira, foi publicado na Revista Brasileira de Economia, da FGV, em 1950. Dois anos depois, publicou seu primeiro artigo de circulação internacional, Formação de capital e desenvolvimento econômico, traduzido para o “International Economic Papers”, da Associação Internacional de Economia.

Em 1953, preside o Grupo Misto CEPAL-BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), enfatizando as técnicas de planejamento, que elabora um estudo sobre a economia brasileira. Tal estudo, editado em 1955, será a base do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. No ano anterior, junto com um grupo de amigos, criou o Clube de Economistas, que lança a “Revista Econômica Brasileira” e publica A economia brasileira, seu primeiro livro de economia sobre a teoria do desenvolvimento e subdesenvolvimento. Em 1956, passou a morar na Cidade do México, em missão da CEPAL, e publicou seu segundo livro Uma economia dependente. No ano seguinte mudou-se para a Inglaterra, onde passa o ano letivo de 1957-58 no King’s College da Universidade de Cambridge, a convite do professor Nicholas Kaldor. Aí escreveu seu livro mais conhecido, Formação econômica do Brasil, que lhe dará projeção internacional.

De volta ao Brasil, desligou-se da CEPAL e assumiu uma diretoria do BNDE. Foi nomeado, pelo presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste e elaborou o estudo “Uma política de desenvolvimento para o Nordeste”, dando origem, em 1959, a SUDENE-Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, com sede no Recife. Na condição de superintendente, encontrou-se com o presidente Kennedy, em 1961, cujo governo decide apoiar um programa de cooperação com a SUDENE e, semanas depois, com o ministro Che Guevara, chefe da delegação cubana à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso. Em 1962 foi nomeado como o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao país pelo presidente João Goulart. No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à SUDENE, quando concebe e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.

Logo após o golpe militar de abri de 1964, teve seus direitos políticos cassados por dez anos, dando início ao exílio e um périplo por diversos países. Ainda em abril, aceitou convite para dar seminários em Santiago do Chile. Em seguida foi morar em New Haven (USA), onde foi pesquisador graduado do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Yale. Por essa época, publicou o livro Dialética do desenvolvimento e fez diversas conferências em universidades norte-americanas, além de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo. Em 1965, mudou-se para a França, a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico. É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do general de Gaulle, e permanecerá nos quadros da Sorbonne por vinte anos.

Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. Os temas discutidos são reunidos no livro Um Projeto para o Brasil (1968). Aliás, publicar livros foi uma constante em sua vida: Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina (1966), Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967), Formação Econômica da América Latina (1969). No correr da década de 1970, fez diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências da ONU. Neste período foi professor-visitante da American University, da Columbia University, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e nomeado “Fellow do King’s College”. Em 1973 publicou A Hegemonia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da América Latina, dando a entender uma relação de causalidade entre os dois fenômenos. O interesse pela área editorial o faz juntar-se a um grupo liderado pelo industrial e deputado Fernando Gasparian na compra da Editora Paz e Terra, em 1974. Uma destacada editora na área das ciências sociais.

Nos anos 1978-81, integrou o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. Na mesma época, recebeu um mandato do Commitee for Development Planning, da ONU. Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, coordenou seminários sobre a economia brasileira e internacional, em Paris. A partir de 1979, com a Lei da Anistia, retorna com frequência ao Brasil, retoma a vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Em 1985 foi convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo, mas infelizmente não pode assumir com a morte de Tancredo. Foi nomeado embaixador do Brasil junto à futura União Européia, e integrante da Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição. No ano seguinte, foi nomeado ministro da Cultura do governo José Sarney. Uma de suas primeiras medidas foi a aprovação da lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pediu demissão do cargo, retomando suas atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.

O gosto pela memória o faz publicar, no ano seguinte, seu primeiro autobiográfico: A fantasia organizada. O segundo, A fantasia desfeita, viria em 1989, e o terceiro, Os ares do mundo, em 1991, ano em que se filiou ao “Pen Club do Brasil”. No período 1987-90 integrou a South Commission, criada por Julius Nyerere, e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Hemisfério Sul. Entre 1993-95 atuou no grupo dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/UNESCO, presidida por Javier Pérez de Cuéllar. Entre 1996-98 integrou a Comissão Internacional de Bioética da UNESCO. Com tantas contribuições, foi homenageado, em 1997, com um congresso internacional em Paris, organizado pela Maison des Sciences de l’Homme e a UNESCO, intitulado “A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento”, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França e outros países. No mesmo ano foi criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste (Itália), o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política. O reconhecimento pelo seu trabalho é seguido pela outorga do título de Doutor Honoris Causa pelas universidades Lisboa, Brasília, Campinas, Rio Grande do Sul, Paraíba e Grenoble, na França. Junto a estes títulos, junta-se a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada de Portugal, outorgada em 1986.

Com tantos livros publicados e o gosto pela Literatura, tinha um lugar reservado na Academia Brasileira de Letras, que veio ocorrer em 1997. No discurso de posse, declarou “O fundador desta Cadeira número 11 foi um antepassado meu, Lúcio Furtado de Mendonça , de quem possivelmente herdei os pendores memorialísticos, o gosto mal sucedido pela ficção literária e uma irreprimível sensibilidade social. Esse socialista declarado empenhou-se na criação desta Academia e certamente a ele mais do que a ninguém devemos a existência desta nobre Instituição.” Anos depois, em 2009, a ABL inaugurou a “Biblioteca Celso Furtado”, contendo os 7542 livros que lhe pertenceram.

Celso Furtado faz parte dos pensadores brasileiros que consideram o subdesenvolvimento como uma forma de organização social no interior do sistema capitalista, sendo contrário à ideia de que seja uma etapa para o desenvolvimento, como podem sugerir os termos de país “emergente” e “em desenvolvimento”. Na verdade, o subdesenvolvimento é um processo estrutural específico e não uma fase pela qual tenham passado os países hoje considerados desenvolvidos. Publicou mais de 40 livros, além de inúmeros artigos. Seu último livro é uma profunda análise do subdesenvolvimento, um tema que a que dedicou toda sua vida, intitulado justamente de Raízes do subdesenvolvimento (2003). Pouco antes de falecer, foi homenageado durante a abertura oficial da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em junho de 2004. No mês em que faleceu, foi surpreendido com uma distinção que o comoveu: comenda “Casa Avelino de Queiroga Cavalcante”. Outorgada pela Câmara Municipal de Pombal pelos relevantes serviços prestados a humanidade. Pode falecer tranquilo, em 20/11/2004, reconhecido em sua terra natal.

PERNAMBUCANOS FAMOSOS XLIV

Lampião

Virgulino Ferreira da Silva nasceu em Serra Talhada, em 4/6/1898. Ficou conhecido como “Rei do Cangaço”, por ser o mais bem sucedido líder cangaceiro da história. Ganhou o apelido “Lampião” devido a sua capacidade de disparar consecutivamente, iluminando a noite. Desde criança demonstrava certa habilidade como vaqueiro, cuidava do gado, trabalhava com artesanato de couro e conduzia tropas de burros para comercializar na região da caatinga. Por volta dos 19 anos, chegou a trabalhar para Delmiro Gouveia transportando algodão e couro de bode para a fábrica da Pedra, hoje município homônimo do empresário que o fundou. Esse conhecimento precoce dos caminhos do sertão foi valioso para o futuro cangaceiro.

Era visto como um garoto inteligente, pois era alfabetizado e usava óculos para leitura, características incomuns para a região. Ainda menino, ganhou um presente de seu tio, a biografia de Napoleão Bonaparte. Ficou admirado com a bravura do imperador e seu traje, o que vai lhe permitir mais tarde a introdução de várias novidades no cangaço desde o formato do chapéu em meia lua, até a formação de grupos armados e táticas de guerra. Sua família travava uma uma disputa de terras com outras famílias locais, quando seu pai foi morto em confronto com a polícia em 1919. Virgulino jurou vingança e, junto com dois irmãos, passou a integrar um bando chefiado pelo cangaceiro Sinhô Pereira. Em 1922, tornou-se líder do bando, nomeado pelo proprio chefe, que resolveu se afastar do bando, devido a dura perseguição da polícia. .

No mesmo ano matou o informante que entregou seu pai à polícia, e realizou o maior assalto da história do cangaço àquela altura, contra a Baronesa de Água Branca, em Alagoas. A partir daí sua fama vai se alastrando como salteador de pequenas cidades e fazendas em cinco estados do Nordeste. Foi acusado de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, estupros e saques. Entretanto e paradoxalmente, a fama de justiceiro foi se afirmando até se tornar uma especie de Robin Hood do sertão, que roubava de fazendeiros, políticos e coronéis para dar aos pobres miseráveis. Tal contradição permanece no imaginário popular até hoje.

Não se sabe quantos assaltos, saques, invasões ele cometeu ao longo da vida, mas calcula-se em torno de 200. Em 1926, Juazeiro do Norte (CE), não foi saqueada devido a intervenção do Padre Cícero, que o convenceu a não molestar os habitantes. Lampião vinha de uma família católica e tinha admiração e respeito pelo “Padim Cíço”, com o qual manteve certo relacionamento, que foi além do aspecto religioso. O Padre, além de religioso, era um habilidoso e influente político que mantinha boas relações com Floro Bartolomeu, deputado federal pelo Ceará. Por essa época, a Coluna Prestes avançava pelo Nordeste e ameaçava o Governo de Arthur Bernardes. Para o Padre Cícero, só havia em todo Nordeste uma pessoa que poderia derrotar a Coluna e indicou o nome de Virgulino.
O deputado organizou uma força de combate composta de sertanejos e jagunços do Cariri, denominada “Batalhões Patrióticos”, e escreveu uma carta convidando Lampião para o combate. Mas antes de enviá-la, pediu ao Padre Cícero para endossar o pedido e enviar ao cangaceiro. Poderíamos perguntar: mas como se deu isso, se Lampião era um bandido procurado pela polícia? O fato é que naquela época a politica local era o que imperava, e o pragmatismo (e oportunismo) politico também. Lampião viu ali uma boa oportunidade para largar o cangaço e seguir a vida como respeitável homem do Governo. Em 12/3/1926, seguiu para Juazeiro com 50 homens e ficou acampado nas proximidades da cidade. Padre Cícero foi ao seu encontro em comitiva e lhe outorgou uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um funcionário do Ministério da Agricultura, ou seja, um documento sem valor algum.

Além dele, os capangas receberam patentes inferiores e todo o grupo recebeu fuzis automáticos, muita munição e cem contos de réis. Um conto equivaleria mais tarde a mil cruzeiros. O agora “Capitão Virgulino” parte para o enfrentamento com a Coluna Prestes. Como não era ingênuo, resolveu testar sua autoridade. Mandou um recado aos seus desafetos em Pernambuco (Vila de Nazaré), querendo saber como seria recebido na condição de oficial do Exercito Patriótico. A resposta dos nazarenos foi concisa: “ à bala”. Desapontado com sua pseudolegalidade, volta para falar com o Padre Cícero, mas não é recebido. Assim, interrompeu sua curta carreira militar de defensor público e retoma a vida de cangaceiro, agora bem mais armado, aterrorizando os sertões nordestinos.

Confiante com sua tropa armada com fuzis automáticos, decidiu atacar a grande cidade de Mossoró (RN), em 13/6/1927. O bando entrou na cidade dividido em quatro subgrupos. Avisado previamente do ataque, o prefeito Rodolfo Fernandes organizou uma tropa, distribuiu seu pessoal nas quatro torres da cidade e derrotou o bando. Até hoje a cidade mantém orgulhosa o Memorial da Resistência, que retrata a história da única cidade que botou o bando de Lampião para correr. As invasões e ataques nas cidades e fazendas seguiram seu curso em outos estados chegando até a Bahia, onde o bando incorporou novos cangaceiros.

Em dezembro de 1929, entrou em Queimadas (BA); cortou os fios do telégrafo; sequestrou os telegrafistas e pediu um resgate de 500 mil réis. Depois, foi até a cadeia, prendeu o sargento e sete soldados. Foi almoçar e depois voltou para a cadeia e soltou todos os presos. Mandou os soldados ajoelharem e matou um por um. Pela tarde, saqueou o comércio, conseguindo 20 contos de réis. À noite foi ao cinema e depois mandou fazer um baile. Lampião era assim mesmo: violento, vaidoso e festeiro. Pouco depois invadiu a cidade de Quinjigue. Após o saque e matar alguns, fez outro baile e distribuiu dinheiro entre a população carente. Como se vê, era também caridoso. Foi na Bahia, na cidade de Santa Brígida (Raso da Catarina), em dezembro de 1930, que ele conheceu Maria Bonita, casada com um sapateiro, mas apaixonada pelo cangaceiro. Ela juntou-se ao grupo, sendo a primeira mulher a participar do cangaço.

No mesmo ano foi noticia no “New York Times”, numa reportagem sobre a violência no Brasil. Em 1931, Corisco, seu fiel escudeiro, também consegue uma mulher – Dadá – logo incorporada ao bando. Apartir daí a presença feminina no bando é constante. Em 1932, Maria Bonita teve uma filha – Expedita Ferreira Nunes – e existe uma informação não comprovada que teve mais filhos. Na Bahia os ataques prosseguem em diversas cidades e fazendas. Por essa época recebeu uma informação para tomar cuidado, pois a volante do Capitão Bezerra estava no seu encalço. “Diga a ele que não tenho medo de boi velhaco, quanto mais de bezerra”, foi sua reposta. O Governo baiano espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, “de qualquer modo, o famigerado bandido”. Seria algo como 200 mil reais hoje em dia, e isto fez com que retornassem à Sergipe. A legislação da época, que proibia a polícia estadual de agir além de suas fronteiras, favorecia a ação do bando, que ficava permanentemente viajando ente os estados do Nordeste.

O ex-secretário do Padre Cícero, Benjamin Abraão, fotógrafo e metido a cineasta teve um encontro com Lampião, em 1936, e convence-o a se deixar fotografar e filmar juntamente com todo o bando. Foram vários encontros com o fotógrafo e em 6/3/1937 saiu uma reportagem na revista “O Cruzeiro” intitulada “Filmando Lampião”, que irritou Lourival Fontes, chefe do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda, do Governo Vargas. O filme foi apreendido e fez com que o Governo desse ordens expressas de capturar o famigerado cangaceiro. Em 27/6/1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Por volta das 5hs. do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se preparavam para tomar café, quando um cangaceiro deu o alarme. Era tarde demais. Os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, e os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

Os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças fizeram um “tour” por diversas cidades. Percorrendo os estados nordestinos, o tenente João Bezerra exibia as cabeças – já em adiantado estado de decomposição – por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas, onde foram arrumados cuidadosamente na escadaria da Prefeitura, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografados. Depois seguiram Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA. Em seguida ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de 30 anos. Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno a seus parentes. O economista Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, em especial, empreendeu esforços para sepultar os cangaceiros e parar, de uma vez por todas, aquela macabra exibição pública.

O enterro dos restos mortais só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24/5/1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília, logo reforçado por pressões sociais e do Clero. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Tais fatos contribuíram para ampliar e eternizar o mito, que antes mesmo já era conhecido internacionalmente. Em 1953, o filme O cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, foi o primeiro a conquistar as telas do mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras e de melhor trilha sonora, com a música Mulher Rendeira.

Um fato interessante e pouco divulgado é que Mulher Rendeira é uma música composta pelo próprio Lampião. Isto foi confirmado por alguns biógrafos e recebeu a chancela de Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó, que era rendeira, em 1922. Tornou-se um hino de guerra dos cangaceiros, tendo inclusive relatos de que muitos ataques às cidades teriam sido feitos com os cangaceiros cantando Mulher rendeira.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLIII

Luís Jardim

Luís Inácio de Miranda Jardim nasceu em Garanhuns, em 8/12/1901. Escritor, pintor, tradutor, desenhista e dramaturgo. Filho do professor Manoel Jardim e de Angélica Aurora, foi alfabetizado em casa, mas realizou os primeiros estudos na escola particular de seu primo, Arthur Brasiliense Maia, chamada Grêmio Literário Raul Pompéia. Foi também na infância, a partir dos nove anos, que começou a desenhar, incentivado pelos tios Argemiro e Souza.

Em 1917 ocorreu a “Hecatombe de Garanhuns”, uma chacina provocada por motivos políticos que vitimou dentre outros seu pai. Desolado, deixa a cidade e passou a viver no Recife. Ao chegar, ficou encantado e decepcionado ao mesmo tempo com a cidade: “dois rios a serviço de uma cidade, defronte o oceano. Aquelas pontes, a cidade plana […]. A Rua da Aurora era um primor […] o cais […], a praia de Boa Viagem, mansa, bonita […]”. Entretanto, achava o Recife uma cidade “descuidada e o recifense sem maior interesse, ou sem grande entusiasmo pela sua terra […], os prefeitos nunca tiraram partido do encanto natural da cidade”.

Trabalhou no comércio como balconista, estudou inglês e conheceu Alice, com quem veio a se casar. Em 1928 conheceu Gilberto Freyre, de quem se tornaria amigo e aconselhou-o a escrever seu primeiro artigo – Análise estética da pintura -, publicado no jornal “A Província”, em 1929. Já ambientado na cidade, frequentou o Café Lafayette, reduto da intelectualidade do Recife, onde manteve fortes laços de amizade, particularmente Osório Borba e Joaquim Cardoso.

Seus primeiros desenhos foram publicados na “Revista do Norte” e no jornal “A Província”. Ilustrou e/ou fez a capa de importantes livros: Guia Prático Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre; Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira; Riacho Doce, Menino de Engenho e a maior parte dos livros de José Lins do Rego; Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e descritiva da cidade, de Gastão Cruls; O Quinze, de Raquel de Queiroz dentre outros. Em seguida, e por influência de Gilberto Freyre, foi para o Rio de Janeiro fazer uma exposição dos seus trabalhos em aquarela e não voltou mais ao Recife.

No Rio foi funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool, do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, da Editora José Olympio além de redator de vários jornais. Em 1937 participou do Concurso Literário Infantil do Ministério da Educação e recebeu os dois primeiros lugares com histórias do folclore nacional: O Boi Aruá – livro que Monteiro Lobato considerou “o mais belo do gênero escrito no Brasil” – e O Tatu e o Macaco. Em 1940, foram publicados com ilustrações e, em 1942, foram traduzidos e publicados em inglês por uma editora de Nova York. Noutro concurso de contos para o Prêmio Humberto de Campos, em 1938, venceu seu concorrente Guimarães Rosa, que inscreveu a primeira versão de Sagarana com o livro de contos Maria Perigosa. Com este prêmio, conquistou o Rio de Janeiro.

As premiações foram uma constante em sua vida literária. Em 1958 recebeu da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Cláudio de Souza, categoria teatro, com a peça Isabel do Sertão e, em 1968, recebeu o Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infantil com As Proezas do Menino Jesus, um livro publicado em edições sucessivas, com direito a prefácio e estudo de Tristão de Athayde. Escreveu ainda As aventuras do menino Chico de Assis (1971), Meu pequeno mundo (1977), Façanhas do cavalo voador (1978) e O ajudante de mentiroso. Além de escritor, desenhista e pintor, foi tradutor do poema hindu Nalá e Damayanti e da peça teatral de Arthur Miller, A Morte do Caixeiro Viajante.

O livro de contos Maria Perigosa, foi reeditado com o patrocínio da prefeitura de Garanhuns, em 1979, no centenário da cidade. Nesta época, a prefeitura afixou uma placa comemorativa na casa que lhe serviu de residência. Por essa época, ele já havia tomado a decisão de se enclausurar em seu apartamento no Rio de Janeiro, e não participou dessas homenagens. Mais tarde, em 1990, o município criou o espaço cultural que leva seu nome. Antes dessa homenagem, a Fundação Joaquim Nabuco em parceria com a Editora Massangana decidiram homenageá-lo e pediram ao seu amigo Edson Nery da Fonseca que organizasse o livro Imagem e texto: homenagem ao pintor e escritor Luís Jardim (Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1985). Posteriormente a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco-FUNDARPE, também prestou sua homenagem, em 1989, com o lançamento do livro Luís Jardim: ficção e vida, escrito por Maria da Paz Ribeiro Dantas, um ensaio incluído na “Biblioteca Comunitária de Pernambuco”. Faleceu em 1/1/1987.

Espaço Cultural Luiz Jardim, em Garanhuns (PE)

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLII

Bastos Tigre

Manuel Bastos Tigre nasceu no Recife, em 12/3/1882. Bbibliotecário, engenheiro, jornalista, poeta, compositor, humorista, dramaturgo e publicitário. Realizou o curso secundário no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. Formou-se engenheiro pela Escola Politécnica, em 1906, mas não seguiu esta profissão. No entanto, chegou a trabalhar na General Electric e no DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra as Secas.

Era um homem de múltiplos talentos, particularmente como pioneiro da publicidade brasileira. O slogan “Se é bayer é bom”, que correu o mundo, é dele. Em 1934, fez a letra de um jingle musicado por Ary Barroso e cantado por Orlando Silva: “Chopp em garrafa”. Naquele ano a Brahma passou a engarrafar o produto. Assim, foi o criador do primeiro jingle no mercado da publicidade brasileira.

Em 1915, prestou concurso para bibliotecário do Museu Nacional com uma tese sobre classificação bibliográfica. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos. Exerceu a profissão por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário concursado no Brasil. No dia do seu aniversário – 12 de março – é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem.

Segundo o historiador Marcelo Balaban, que acabou de lançar o e-book pela Editora da Unicamp (2017) Estilo moderno: humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre, analisando sua trajetória, “ele viveu no início do século XX, o dilema enfrentado até hoje por grande parte dos artistas: agradar o grande público, viver do seu ofício ou ser aceito entre os grandes. Melhor dizendo era mais um “trilema” do que um “dilema”, pois ele vivia entre alta literatura (poesia), o humor ligeiro e o mercado publicitário. Ainda conforme o historiador, “Apesar de reconhecido como mestre do gênero humorístico pelo público e mesmo por seus pares, Tigre foi sendo esquecido pela crítica literária e abandonado por muitos de seus colegas escritores. Seu legado resumiu-se a slogans publicitários”.

O humor trocadilhesco, os epigramas, os sonetos humorísticos e as peças de teatro do chamado gênero ligeiro, como revistas de ano e vaudevilles, garantiram-lhe prestígio em sua época. Fazia sucesso junto ao público que consumia avidamente esse tipo de literatura. Por outro lado, era olhado com desconfiança por seus colegas escritores que o viam mais interessado em agradar um público pouco ilustrado do que em desenvolver uma arte maior, José Domingos de Brito nasceu em 9/8/1950, em Jupi, Pernambuco. Bibliotecário, professor, pesquisador e editor. Fundador, presidente e diretor cultural do Sindicato dos Bibliotecários do Estado de São Paulo no período 1979-1992. Organizador ou reorganizador dos centros de documentação e bibliotecas dos órgãos e empresas: Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (1985-1986); Companhia de Engenharia de Tráfego-CET/SP (1976-1980); Companhia Municipal de Transportes Coletivos-CMTC (1983-1986); Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (1986-1992); Parlamento Latino-Americano (1993-2007); União Brasileira de Escritores (2008-atual).

No final da década de 1910, ele encontrou na publicidade uma oportunidade de reforçar o orçamento doméstico. Dedicou boa parte de seu tempo a esta atividade, chegando a abrir um escritório especializado, o simulacro de uma agencia de publicidade. Sua produção literária, além da veia humorística, conta também com uma crítica política contundente, conforme se vê no poema abaixo:

ESTA REPÚBLICA

É certo que a República vai torta;
Ninguém nega a duríssima verdade.
Da pátria o seio a corrupção invade
E a lei, de há muito tempo, é letra morta.

A quem sinta altivez, força e vontade
Ficou trancada do Poder a porta:
Mas felizmente a vida nos conforta
De esperança, uma dúbia claridade.

Porque (ninguém se iluda), “isto” que assim
A pobre Pátria fere, ultraja e explora,
Jamais o sonho foi de Benjamin.

Os motivos do mal não são mistério:
– É que a gentinha que governa agora
É o rebotalho que sobrou do Império

Veja-se a atualidade de seu poema: a corrupção entre nós é um problema já no nascimento da República. Publicou mais de 30 livros, dos quais destacamos os títulos abaixo: Saguão da Posteridade (1902), Versos Perversos (1905), Moinhos de Vento (1913), Bolhas de Sabão (1919), Arlequim (1922), Fonte da Carioca (1922), Penso, logo… eis isto (1923), A Ceia dos Coronéis (1924), Carnaval: poemas em louvor ao Momo (1932), Entardecer (1935), As Parábolas de Cristo (1937), Senhorita Vitamina (1942), Aconteceu ou Podia ter Acontecido (1944), Conceitos e Preceitos (1946). Musa Gaiata (1949) e Sol de Inverno (1955).

Em 1982, a Associação Brasileira de Imprensa-ABI em parceria com a FUNARTE publicou As vidas de Bastos Tigre, 1882-1982. Catálogo da exposição comemorativa do centenário de nascimento. Faleceu em 1/8/1957.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLI

Capiba 1904-1997

Lourenço da Fonseca Barbosa nasceu em Surubim, em 28/10/1904. Músico e mais conhecido compositor de frevos do Brasil. Não obstante ter composto mais de 200 canções, que vão do samba à música erudita, é com o frevo que ficou marcado na memória musical brasileira. Poucos sabem que é o autor de Maria Betânia (1944), a canção que tanto agradou Caetano Veloso, ainda criança, fazendo com que ele insistisse com a mãe, Dona Canô, para que ele desse esse nome à irmã que estava para nascer em 18/6/1946. Filho de Severino Atanásio de Souza Barbosa, mestre de banda, orquestrador, arranjador, tenor de igrejas, clarinetista e violonista. Aos 8 anos já tocava trompa, e mesmo antes de aprender a ler, já entendia uma partitura. Com dez anos tocava vários instrumentos de sopro e participava, junto com os irmãos, da banda “Lira da Borborema”, dirigida pelo pai, em Itaperoá (PB).

Em 1914, a família mudou-se para Campina Grande (PB), onde o pai foi dirigir a “Charanga Afonso Campos”. Pouco depois substituiu a irmã, que tocava piano no cinema Fox. Jamais havia enfrentado um piano. Em 10 dias aprendeu a tocar 7 valsas dedilhadas. Com 16 anos tornou-se pianista profissional, dando vida e voz aos heróis do cinema mudo. Daí em diante, passou a dividir seu tempo entre o piano e o futebol, no qual chegou a se destacar, integrando times profissionais da cidade (América e Campinense Clube). Aos 20 anos, foi obrigado pela família a trocar a música e o futebol pelos estudos.

Mudou-se para João Pessoa PB, onde se matriculou num liceu. Mesmo contrariando a opinião dos pais, não abriu mão da música e compôs sua primeira composição, a valsa Meu destino, em 1925. Em seguida morreu o pianista do Cine Rio Branco, o principal da cidade. Assim, no mesmo ano, tornou-se pianista do cine Rio Branco, mas logo surgiu o filme sonoro e ele sentiu que seu emprego teria vida curta. Depois de fundar uma orquestra de baile, para atuar no Clube Astréia, e um conjunto, o Jazz Independência, venceu em 1929, com o tango Flor das ingratas, um concurso patrocinado pela revista “Vida Doméstica”, do Rio de Janeiro, que o publicou em fevereiro do ano seguinte.

Em 1930 participou do concurso carnavalesco da Casa Edison, classificando-se em quarto lugar com o samba Não quero mais (com João Santos Coelho Filho), gravado para o Carnaval desse ano por Francisco Alves. Foi sua primeira música gravada com o pseudônimo de José Pato.

No mesmo ano, deixou João Pessoa, seguiu para Recife, onde entrou, por concurso, no Banco do Brasil, mas não deixou a música. Ou melhor, se empenhou mais ainda aproveitando seu exíguo tempo para isso. Em 1931 fundou a Jazz-Band Acadêmica, formada por estudantes universitários, e que destinava à Casa do Estudante Pobre toda a renda auferida em bailes.

Em 1932 compôs a Valsa verde (com Ferreira dos Santos), apresentada pela Jazz-Band Acadêmica na festa de formatura dos alunos de medicina. A orquestra, da qual era regente e pianista, tornou-se uma das mais famosas de Recife, apresentando-se também em outros Estados.

Ainda em 1932 compôs, com Ascenso Ferreira, o maracatu É de tororó, que, depois de se tornar um sucesso em Recife, foi levado para o Rio de Janeiro, sendo incluído numa revista de Jardel Jércolis, que excursionou pelo Brasil, Espanha e Portugal. A experiência ao lado dos acadêmicos fez com que se interessasse em cursar direito, sem deixar de lado a música e o trabalho no banco. Nesse ambiente conheceu Hermeto Pascoal e Sivuca, com os quais fundou o trio “O Mundo Pegando Fogo”. Em 1934 venceu o concurso de frevo, promovido pelo Diário de Pernambuco, com o frevo-canção É de Amargar, gravado por Mario Reis, uma de suas composições mais famosas. Em 1936, seu frevo-canção Manda embora essa tristeza foi gravado por Araci de Almeida.

Dois anos depois, formou-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Recife, mas nunca foi buscar o diploma. Em vez disso, foi buscar a premiação de um concurso de tangos em João Pessoa. A atividade musical vai se intensificando e se diversificando até 1943, quando compôs a canção Maria Bethânia, feita para a peça Senhora de Engenho, de Mário Sette, dirigida por Hermógenes Viana. No ano seguinte, a canção foi gravada por Nelson Gonçalves e se tornou conhecida em todo o país.

No período 1947-48, compôs uma série de músicas para peças teatrais, na época em que os escritores Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna fundaram o Teatro de Estudantes de Pernambuco e, mais tarde, o Teatro Popular do Nordeste, do qual foi presidente.

Tomou gosto pelo teatro e do final da década de 1940 até meados da década de 1960, compôs músicas para diversas peças: Haja pau (de José de Morais Pinho) e Mãe da lua (de Hermilo Borba Filho), para o Teatro de Bonecos; Amor de dom Perlimpim com Belisa em seu jardim (de Federico García Lorca), para o Teatro de Estudantes de Pernambuco; A pena e a lei (de Ariano Suassuna); Mandrágora (de Maquiavel), Viola do Diabo (da pintora Ladjane), encenadas pelo Teatro Popular do Nordeste; e O coronel de Macambira (de Joaquim Cardoso), pelo Teatro do Ministério da Educação e Saúde, entre outas.

Também musicou vários poemas de autores brasileiros: Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Alphonsus de Guimarães, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho e Ferreyra dos Santos, com quem compôs a “Valsa Verde”, que fez grande sucesso. Em 1949 conheceu o maestro Guerra-Peixe, quando este foi trabalhar na Rádio Clube do Recife. Com ele estudou harmonia e composição erudita, passando a compor um concerto para piano, outro para flauta, um trio para violão, violino e celo, e uma suíte para piano, orquestrada por Guerra-Peixe. Seu concerto para flauta, dedicado a Esteban Ester, foi executado pelo próprio flautista no Brasil, Uruguai, Chile, Argentina e França.

Em 1950, no concurso da prefeitura de Recife para a comemoração do primeiro centenário do Teatro Santa Isabel, vencido por Guerra-Peixe, obteve o segundo lugar com uma abertura solene para orquestra sinfônica. No mesmo ano compôs o maracatu Elefante, mais tarde gravado na França.

Em 1957 compôs, para o Carnaval, o maracatu Nação Nagô. Após 30 anos de serviço, aposentou-se do Banco do Brasil em 1961. Incentivado pela artista plástica Lidjane Bandeira, passou a dedicar-se ao hobby da pintura, ao mesmo tempo em que inscreve suas composições em festivais de música popular.

Em 1964, alcançou em todo o Brasil seu maior sucesso da década, com o samba-canção A mesma rosa amarela (letra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho). Dois anos depois, sua composição Dia de festa ficou entre as finalistas do I FIC-Festival Internacional da Canção, da TV-Rio, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, no II FIC, da TV Globo, obteve o quinto lugar e medalha de ouro com seu samba-baião São os do Norte que vêm, com letra de Ariano Suassuna. Em 1968 concorreu no III FIC com A cantiga de Jesuíno (letra de Ariano Suassuna) e o samba-afro Por causa de um amor. Compôs ainda diversas canções e músicas para a Orquestra Armorial de Pernambuco: Sem lei nem rei, e para o Quarteto Armorial: Toada e desafio. No início dos anos 1970, foi eleito patrono do Movimento Armorial, e recebeu títulos de Cidadão Benemérito de Olinda, Recife e Campina Grande.

Em 1984, ao completar 80 anos, seu grande amigo e admirador, Hermínio Bello de Carvalho, produziu um belíssimo disco e sendo tema do concurso de monografias Lucio Rangel, teve um estudo sobre sua vida e obra publicada pela Funarte-Fundação Nacional de Arte. No ano seguinte, outro grande amigo, Leonardo Dantas Silva, diretor de assuntos culturais da Fundarpe, estimulou-o a escrever um livro sobre sua vida e obra. Assim, em 1985, foi lançado Capiba: o livro das ocorrências, no qual recorda fatos e ocorrências de sua vida, numa linguagem solta como se estivéssemos a ouvi-lo em seu linguajar e sotaque característicos.

Capiba produziu uma obra caudalosa. São mais de 200 composições gravadas, das quais cerca de metade são frevos. Entre as não gravadas, estima-se que tenha deixado umas 400 composições inéditas, entre frevos, canções e peças eruditas. Desesperada Solidão (1983) foi uma das suas últimas canções. Faleceu em 31/12/1997. Em 2014, com o objetivo de marcar os 110 anos do multiartista, o SESC do Recife prestou-lhe uma homenagem diferenciada, apresentando uma exposição de suas pinturas, denominada “Simplesmente Capiba”. Em 2017, autoridades municipais e estaduais manifestaram a intenção de criar dois museus dedicado à memória de Capiba. São projetos que, infelizmente, se desenvolvem em separado: em Surubim e no Recife. Em sua cidade, o Ministério da Cultura, juntamente com a diretoria da Associação Cultural Capiba, noticiou esta intenção no início do ano. No Recife, o governo do Estado realizou o tombamento de sua casa no bairro do Espinheiro, em outubro, e está desenvolvendo o projeto de transformá-la em museu. Dizem que poucas personalidades brasileiras têm mais de três biografias. Além da autobiografia Capiba: o livro das ocorrências, ele tem cinco. Entre elas vale destacar uma publicada em 1984, a de seu amigo Carlos Eduardo Carvalho dos Santos – Capiba: sua vida e suas canções – , também meu amigo e colunista deste Jornal da Besta Fubana.

ENSAIO DE NOVELA DA FRIBOI

Esclarecimento: Esta “novela” iniciou como uma fábula, aqui publicada em 23 de julho  Fábula do Friboi – 1ª Parte, para contar uma prodigiosa história empresarial. Como foi possível um pequeno açougue tornar-se líder mundial no mercado da carne, em negócios com um Governo e desmoronar devido ao conluio com outro, 60 anos após. O “impeachment” da Dilma e as operações “Carne fraca” e “Lava-jato” não estavam nos planos da JBF, nem de ninguém.

A “novela” veio junto com o conselho de uma amiga noveleira, que depois se fez “consultora editorial” e demos continuidade na semana seguinte  Fábula do Friboi – 2ª Parte meio sem querer, pois os fatos ainda estavam acontecendo e não sabíamos, como não sabemos até agora, qual o final da história. Mesmo assim, partimos para o 3º capítulo Fábula do Friboi – 3ª Parte, concluindo com um aviso aos leitores para acompanhar a “novela” através da imprensa escrita, falada e televisada diariamente.

Porém, o quadro mudou bastante. A “casa caiu”; Zé Mineiro teve que retomar o controle da empresa e vejamos no que vai dar neste

4º Capítulo

Com base na delação premiada, Rodrigo Janot, da Procuradoria Geral da República-PGR, envia ao STF denúncia contra Aécio Neves, em 2 de junho, e contra o presidente Temer em 27 de junho. Com isso Temer torna-se o primeiro presidente da história a ser acusado criminalmente no exercício do mandato. Assim, o mundo político e jurídico entram em convulsão na tentativa de blindar o presidente da República. A denúncia tramita por uma comissão especial e chega ao plenário da Câmara dos Deputados em 2 de agosto. Os parlamentares, devidamente instruídos e cooptados pelo Palácio do Planalto, não autorizam o encaminhamento da denúncia ao STF, pois como se trata do presidente, a tramitação é essa. Temer está salvo por enquanto.

Enquanto isso, a PGR recebe de Joesley outro lote de fitas gravadas, enviadas por engano. As fitas traziam diálogos comprometendo o próprio delator. A gravação apresenta diálogos entre Joesley e seu assistente onde se afirma que ele foi auxiliado em sua delação por um ex-procurador da PGR. Até agora não se sabe como nem porque Joesley deu esse “tiro no pé”. Ele tentou explicar que aquilo foi uma “conversa de bêbado”, que não fazia sentido etc. Mas para a PGR fez muito sentido e um estrago e tanto no decurso do processo. No dia 4 de setembro, o procurador Rodrigo Janot deu uma entrevista coletiva para denunciar o conteúdo das fitas e colocar em xeque a concessão da delação premiada, sem contudo prejudicar as denúncias contra o presidente.

A notícia foi um prato cheio oferecido aos defensores do presidente, agora munidos de argumentos desautorizando a delação premiada. O que se deu em seguida foi uma intensa discussão sobre a validade da delação e a possibilidade do delator ser preso, o que veio ocorrer em 10 de setembro. A situação é revertida contra o Grupo JBF, agravada com os milhões que o Grupo faturou com a delação, além dos benefícios já obtidos. Três dias após, (13/9) o então presidente do Grupo, Wesley Batista, irmão gêmeo de Joesley, é preso por suspeita de lucro ilegal no mercado financeiro.

A situação do conglomerado de empresas JB&S vai se complicando a passos largos. Conseguiram se incompatibilizar com o poder legislativo, judiciário e executivo ao mesmo tempo. Ninguém do poder político e empresarial quer ver um Batista no comando da empresa. Mas, o mercado exige alguém no comando, até mesmo para resolver estas questões. Neste instante, com os filhos presos, o velho “Zé Mineiro” entra em ação. Numa reunião do Conselho Administrativo do Grupo, em 16 de setembro, ele consegue voltar à presidência da empresa. Não é isso que o mercado, o BNDES (maior acionista) nem Brasília queriam, mas é o que sucedeu. O patriarca, cujo nome é a sigla da empresa, jamais poderia imaginar que isso pudesse acontecer mais de 30 anos após deixar o comando da empresa para seus filhos.

Quanto ao Joesley – o protagonista maior dessa novela – a derrocada caminha a passos largos em todos os sentidos. No ambiente familiar, antes mesmo de ser preso, sua linda e jovem esposa pediu para que saísse de casa; seu irmão gêmeo também foi preso em seguida; o pai, aos 84 anos, teve que assumir o comando do Grupo. Uma tragédia para novela nenhuma botar defeito. Na ocasião em que Joesley se encaminhava para a prisão, um jornalista perguntou: “Qual foi sua maior perda nesse processo de delação?”. A resposta foi clara e demonstrou uma ponta de esperança: “A maior perda foi me transformar, do dia para a noite, de um empresário respeitado, admirado e querido num sujeito que fica sendo esculhambado e chamado de bandido pelo presidente da República.

Esse é um duro custo reputacional. Mas eu vou me recuperar, acho que sociedade mais para a frente vai entender o que eu fiz”.

O tempo dirá qual vai ser o entendimento possível. Enquanto isso, “Zé Mineiro” volta a colocar seu talento empresarial no serviço de salvação do “império”, que agora não é só da carne. Ele conseguirá recuperar alguma coisa, mesmo que seja na área da carne, onde reinou tanto tempo? Não sabemos agora; talvez nos próximos capítulos. Nem sabemos ao certo quando se darão tais capítulos, pois como os leitores podem perceber, esta novela segue o ritmo da Justiça. Sabemos todos que a Justiça entre nós é imprevisível e muito lenta.

Por exemplo, somente agora o MPF-Ministério Público Federal se pronunciou sobre os crimes cometidos pelos irmãos Batista no momento da delação premiada, em março. Desde aquela época sabia-se que eles faturaram mais de R$200 milhões com a venda de ações da empresa em alta antes da gravação da conversa com o presidente nos porões do Palácio do Jaburu e em baixa logo após sua divulgação pela imprensa. Nesse interim, o irmão Wesley sabia que tal divulgação causaria uma expressiva queda do Dólar. Assim, compraram muitos dólares em baixa para vender no outro dia em alta. Isto se chama manipulação do mercado financeiro com base em informação privilegiada. Um crime, que só agora, em 10 de outubro, foi denunciado pelo MPF. Esta denúncia se deu há 5 dias, agravando ainda mais a situação do Grupo JB&S e da família Batista. Assim, sou obrigado a repetir, como no capítulo anterior, que os leitores podem acompanhar os próximos capítulos diariamente pela imprensa escrita, falada e televisada incessantemente.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS

Zumbi dos Palmares (1655-1695)

Zumbi dos Palmares nasceu supostamente em 1655 na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, pertencente hoje ao município de União dos Palmares, Alagoas. A história deste personagem é controversa, mas existe um consenso em se admitir que era um menino, neto da princesa Aqualtune, filha de um rei africano do Congo. Aos sete anos foi aprisionado pela expedição de Brás da Rocha Cardoso, numa invasão a Serra da Barriga, e entregue ao padre Antonio Melo, do distrito de Porto Calvo. Recebeu o nome de Francisco e uma educação formal. Aos 10 anos já sabia latim e português e, aos 12, tornou-se coroinha. Demonstrava ser um garoto inteligente e ajudava na celebração das missas. Dizia-se que o menino era dono de “um engenho jamais imaginado na sua raça e que bem poucas vezes encontrara em brancos”.

Com 15 anos, Francisco fugiu de Porto Cavo e volta para a Serra da Barriga, adotando o nome de Zumbi e passando a fazer parte da Família Real, pois foi adotado pelo então rei Ganga Zumba. A nação palmarina começou a se formar por volta de 1597, com Aqualtune. Rapidamente a comunidade cresceu, porque era constantemente alimentada pela chegada de negros fugidos, de índios e de brancos pobres. Palmares chegou a ter 30 mil habitantes e, com sua organização e consequente fortalecimento, passou a ser vista como uma ameaça perigosa ao poder colonial. Além de praticarem uma agricultura considerada avançada para os padrões da época, desenvolveram uma atividade metalúrgica organizada para sua defesa e subsistência e chegaram a estabelecer comércio com localidades próximas.

Entre 1602 e 1694, os palmarinos resistiram a 66 expedições coloniais, tanto de portugueses como de holandeses. Foi a maior e mais longa expressão contestatória da escravidão em todo o mundo. De todos os líderes da resistência negra, dois se tornaram conhecidos: Ganga Zumba e Zumbi. Este, porém, foi o líder mais famoso da confederação de quilombos de Palmares, que se estendia pelos territórios atuais de Alagoas e Pernambuco. A Serra da Barriga era a sede da República de Palmares, mas sua extensão ia além da cidade hoje conhecida como Palmares. A cidade onde ficava a sede é conhecida hoje como União dos Palmares. Zumbi teve pelo menos cinco filhos, mas não há registro histórico suficiente para comprovar a tese tradicional que ele teria se casado com uma mulher branca de nome Maria. O nome de Zumbi apareceu pela primeira vez em documentos portugueses, em 1673, quando uma expedição chefiada por Jácome Bezerra foi desbaratada. Tornou-se um grande guerreiro e estrategista militar na luta para defender Palmares contra os portugueses.

Em 1675, a tropa portuguesa comandada pelo Sargento-mor Manuel Lopes Galvão, conseguiu ocupar o local, um mocambo com mais de mil choupanas. Mas depois de uma retirada que durou cinco meses, os negros contra-atacam, entre eles Zumbi com apenas vinte anos de idade, e após um combate feroz, Manuel Lopes é obrigado a se retirar para Recife. Palmares se estendia então da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho e tinha mais de duzentos quilômetros de extensão, era uma república com uma rede de onze mocambos, que se assemelhavam as cidades muradas medievais da Europa, mas no lugar das pedras havia paliçadas de madeira. O principal mocambo, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, ficava na Serra da Barriga e levava o nome de Cerca do Macaco. Duas ruas espaçosas com umas 1500 choupanas e uns oito mil habitantes.

Ganga Zumba, cansado de muitas guerras, assinou um acordo de paz com os portugueses, em 1678. Isso desagradou uma parte significativa dos quilombolas, que viam a transferência para Cucaú como uma forma de controlar a comunidade, além de não resolver o problema da escravidão. Foi nesse momento que Zumbi rompeu com Ganga Zumba, que foi envenenado em 1680, sendo aclamado Grande Chefe por aqueles que ficaram em Palmares. Subordinou toda a vida do quilombo em função das exigências da guerra: deslocou povoações para locais mais remotos; incorporou e treinou para a luta todos os homens válidos; aumentou os postos de vigilância e observação; reuniu armas e munições e reforçou as fortificações da aldeia do Macaco ou Cerco Real, o quartel-general do quilombo, tornou-a quase inexpugnável e decretou a lei marcial: quem tentasse deserdar seria morto. Durante os anos 1680-1691, Zumbi conseguiu derrotar todas as expedições enviadas contra o quilombo dos Palmares.

Em 1692, a aldeia do Macaco foi atacada por Domingos Jorge Velho, experiente bandeirante paulista na “caça” de índios, trazido para enfrentar os quilombolas. Mas teve suas tropas arrasadas. Pediu reforço e recebeu ajuda de uma tropa comandada por Bernardo Viera de Melo. O quilombo ficou sitiado, mas só capitulou no dia 6 de fevereiro de 1694, quando as tropas conseguiram invadir o local derrotando os quilombolas após 94 anos de resistência. Durante o ataque, Zumbi caiu ferido em um desfiladeiro, o que gerou o mito de que o herói se suicidara para evitar a escravização. No entanto, em 1695, Zumbi voltou a comandar ataques. Em seguida foi traído por um de seus comandantes, Antônio Soares, e assassinado em 20 de novembro de 1695. A cabeça de Zumbi foi decepada e levada para Recife, onde foi pendurada no Pátio do Carmo, em Olinda, até sua total decomposição com a finalidade de desfazer a crença da população na lenda de sua imortalidade. Em 2007 foi criado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, no mesmo local da sede do Quilombo (Serra da Barriga), na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Além deste memorial, existem mais dois dedicados a Zumbi dos Palmares, em Volta Redonda (RJ) e Teresina (PI). Atualmente, no dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é comemorado no Brasil o dia da Consciência Negra.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXIX

Rossini Ferreira 1919-2001

Rossini Ferreira nasceu em Nazaré da Mata, em 7/7/1919. Músico e bandolinista. Filho do clarinetista Antonio Sabino, mestre de banda de música em Timbaúba e Nazaré da Mata, teve contato com o bandolim ainda criança e tirava os sons “por intuição”, conforme afirmava. Aos 12 anos, a família mudou-se para o Recife e, aos 17, formou o primeiro grupo, um conjunto vocal que imitava o “Bando da Lua”, que acompanhava Carmen Miranda. Aprendeu a tocar sozinho seu instrumento.

Na década de 1930, com a ascensão do rádio como meio de comunicação de massa, emergiram os grupos regionais. Os programas aconteciam nas rádios com música ao vivo, interpretada por grupos que tinham na figura de um dos instrumentistas – geralmente o mais performático dos solistas – a liderança do regional. Na Rádio Clube de Pernambuco, o som do regional e da orquestra era ditado pelo flautista Felinho. Quando este se afastou, Rossini deixou o Bando Pernambucano para se integrar ao cast da rádio. Ele se orgulhava ao recordar que tocava contratado como funcionário. “E de carteira assinada”.

A atividade de músico, no entanto, começava somente a partir das 20h. Durante o dia trabalhava no Setor de Carteira de Resseguro da empresa Seguradora Indústria e Comércio. “Naquele tempo não se ganhava dinheiro como músico”, explica. “Jacob (do Bandolim) mesmo, era escrivão em cartório”.

Em 1959 empreendeu uma lendária viagem de músicos pernambucanos ao Rio, onde foram recebidos com honras na casa de Jacob do Bandolim, numa reunião com músicos do porte de Radamés Gnattali, Pixinguinha, César Farias e o então garoto Paulinho da Viola. Dez anos após a viagem veio a morar no Rio de Janeiro, onde ganhou diversos concursos de choro, como o “Brasileiro”, promovido pela TV Bandeirantes. Aos 70 anos de idade foi convidado a voltar à Recife para lecionar no Conservatório Pernambucano de Música e ser solista de um dos mais geniais grupos instrumentais brasileiros, a “Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco”.

Nesta orquestra gravou um LP pela Funarte, posteriormente lançado em CD. Possui ainda um CD com 20 composições suas, gravado pela Kuarup (KCD 098) em 1999. Autor de dezenas de choros, maxixes, valsas, scottish etc. seu colega W. M. Santos editou em 1996, em Campina Grande, um livro de partituras com 55 composições suas. Recife é reconhecido como uma das “sedes” do choro, e ali estão alguns dos melhores bandolinistas da história da música brasileira, como Luperce Miranda e Rossini Ferreira.
Foi autor de uma obra invejável, grande parte desta inédita em gravação e publicação, e que merece maior atenção das gravadoras e editoras. A exemplo da maioria dos chorões de sua geração, o bandolinista teve que dividir as atividades de músico autodidata com profissões fora do perímetro artístico. Ainda assim, aposentado, mostrou-se aberto a novos desafios, como o de aprender a ler música e lecionar, já septuagenário. Faleceu em 16/3/2001.

LUIZ GONZÁGUA

Certa manhã de março de 1991, eu estava numa autoestrada chegando em Bruxelas. Liguei o rádio para saber como era e o que havia naquela cidade. O locutor, muito animado, logo anunciou: “e agora vamos ouvir LUIZ GONZÁGUA”. Demos boas risadas com sua pronuncia e passamos a comentar: “Faz sentido, ele deve ter conhecido o cantor através de Asa Branca ou Vozes da Seca e não teve dúvida em incluir a água em seu nome”. Mas a música que tocou em seguida foi O fole roncou.

Assim, entramos na cidade animadíssimos ao som de um forró arretado. A cidade pareceu bem mais alegre do que realmente era. A música nos proporcionava uma saudade gostosa e um certo orgulho de sermos conterrâneos do ilustre cantor.

Esta digressão saudosista serve para informar aos leitores fubânicos que o painel de “Ilustres pernambucanos”, que vimos publicando aqui às terças-feiras, desde o início do ano, está próximo do fim. Hoje estamos no ilustre nº 40 e no final de dezembro chegaremos ao nº 53 apresentando Luiz Gonzaga. Desse modo, vamos encerrar o painel comemorativo do bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817. Confesso que eu mesmo fiquei surpreendido com tantos nomes ilustres, que ilustram e fazem de Pernambuco um lugar destacado no País. Começamos com Chacrinha e terminamos com Luiz Gonzaga. Creio que que acertamos nos nomes apropriados para animar uma festa comemorativa de 200 anos. Quem quiser ver todo o painel, pode acessar o link Tiro de Letra.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXVIII

Francisco Brennand (1927)

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand Nasceu em Recife, em 11/6/1927. Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador e gravador. Aos 10 anos, foi morar no Rio de Janeiro e ingressou no Colégio Aldridge. No ano seguinte transferiu-se para Petrópolis e passa a ser interno no Colégio São Vicente de Paula. Em 1939, retornou ao Recife e matriculou-se no Colégio Marista, onde conclui o ginásio em 1942. Nesta escola, foi colega de Ariano Suassuna, com quem produzia um jornal literário, encarregando-se de realizar as ilustrações para seus textos e poemas. Nessa época, passou a trabalhar na Cerâmica São João, antiga propriedade da família, como aluno informal do escultor Abelardo da Hora.

Acreditava ser a cerâmica uma arte utilitária menor, e assim passou a dedicar-se mais à pintura a óleo, instruído por Alvaro Amorim e Murilo Lagreca. Em 1947, recebeu o 1º prêmio de pintura do Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco, com o quadro de uma paisagem inspirada no engenho São João, intitulada, “Segunda visão da terra”. No ano seguinte, recebeu outro 1º prêmio e uma menção honrosa por seu auto-retrato como Cardeal inquisidor, inspirado no retrato do cardeal inquisidor, Dom Fernando Nino de Guevara, de El Greco. Até o fim da década de 1940, pintou basicamente naturezas-mortas. Por essa época, Cicero Dias realiza uma exposição no Recife e, admirado com o talento do rapaz, convence seu pai a mandá-lo para Paris, para lapidar seu talento.

No final de 1948, casou-se com Deborah e, em fevereiro de 1949, o casal embrarca para Paris. Lá deparou-se com uma exposição de cerâmicas de Picasso, e descobre que muitos dos artistas da Escola de Paris haviam passado pela cerâmica: Chagall, Matisse, Braque, Gauguin e Miró. Fez cursos com André Lhote e Fernand Léger e entrou em contato com grandes pintores, que são também ceramistas, e descobriu seu meio de expressão. Por esta época, numa passagem por Barcelona, descobre Gaudi e o uso de uma técnica tradicional catalã, o “trencardis”. Em 1952, retorna ao Brasil, mas logo em seguida decidiu aprofundar-se no conhecimento das técnicas da cerâmica, iniciando estágio numa fábrica de “majólicas” em Perúgia, Itália. No estágio aprendeu a usar esmaltes cerâmicos e queimas sucessivas da peça, em várias temperaturas. Em cada fornada é aplicada uma camada de esmalte. Dando à superfície uma grande variedade de cores e texturas. Os materiais, levados à temperatura de 1400ºC, fundem-se numa espécie de rocha, dura e resistente como o quartzo.

Sua arte começa a tomar forma e, com a inauguração da fábrica de azulejos da família em 1954, cria seu seu primeiro grande painel em cerâmica. No ano seguinte, participou da III Bienal de Barcelona; em 1958, inaugurou o mural do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife e, em 1961, o mural Anchieta, no Ginásio Itanhaém, em São Paulo. Entre 1961 e 1962 realizou uma das obras mais significativas da sua carreira: Batalha dos Guararapes, para uma agência do Banco da Lavoura de Minas Gerais, no Recife. Em 1963 foi convidado pelo governador Miguel Arraes para chefiar a Casa Civil. Neste cargo convence o Governo a transformar a antiga Casa de Detenção na atual Casa de Cultura do Recife.

Em 1970, integrou o Movimento Armorial, idealizado pelo seu amigo Ariano Suassuna, e inicia a restauração da velha olaria da família, transformando-a num enorme ateliê e passa a expor painéis e esculturas, muitas delas a céu aberto no jardim central. Seu ateliê passou a ser povoado de seres fantásticos, representados em relevos, painéis, objetos cerâmicos e esculturas. Sua fama e originalidade vão se espalhando através de várias exposições nacionais e internacionais, individuais (23) e coletivas (78). Recebeu diversos prêmios, sendo o mais importante deles, o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, concedido pela OEA -Organização dos Estados Americanos, em 1993.

Esta premiação abre caminho para uma grande exposição retrospectiva de sua produção na “Staatliche Kunsthalle”, em Berlim. Em 1997, foi publicado o livro Brennand, pela editora Métron, com texto de Olívio Tavares de Araújo. No ano seguinte, é realizada outra retrospectiva “Brennand: Esculturas 1974-1998”, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Desde os anos 1990, são lançados vários vídeos sobre sua obra, entre eles, Francisco Brennand: Oficina de Mitos, pela Rede Sesc/Senac de Televisão, em 2000.

Hoje, a Oficina Brennand é um ponto turístico importante da cidade do Recife. Um complexo arquitetônico formado por vários núcleos construtivos que ocupam cerca de 15 mil metros quadrados. Abriga mais de 2000 peças, possui um jardim cujo traçado é de Roberto Burle Marx, uma capela restaurada por Paulo Mendes da Rocha, um Templo do Sacrifício que remete ao massacre das civilizações pré-colombianas, galerias distintas dedicadas à cerâmica e à pintura, lagos, fontes e totens, formando um impressionante museu aberto. Tem até uma loja, a Bibliopolion, onde podem ser encontrados livros sobre o artista, peças cerâmicas, cartões postais, serigrafias e uma lanchonete, chamada Cantina dos Deuses. Trata-se de um santuário das artes, onde se respira modernidade, porém com 100 anos completado neste ano de 2017. O ano em que ele foi condecorado com a Medalha do Mérito Guararapes – Grã Cruz, a mais alta honraria do Estado de Pernambuco.

Ele conta como surgiu a ideia de criar este espaço: “Um belo dia, atravessando a ponte que ligava nossa outra propriedade ao lado de cá, eu encontrei essa fábrica em ruínas. Senti que era meu dever recuperá-la. À medida que eu estudava a origem dessas terras, onde se inscreve a Batalha de Guararapes, pude compreender que esse lugar deveria ser eternizado. Aqui há uma história a glorificar. Tem a dimensão do sagrado”.

Enchendo-se de coragem, foi dizer ao pai o que pretendia. “Estava com 45 anos, era imensamente jovem e absolutamente irresponsável”. Foi essa cerâmica original que garantiu os recursos para Oficina nos primeiros anos. Procurado por um grupo de jovens arquitetos que conheciam seu trabalho, ele venceu a concorrência para fornecer o revestimento do edifício-sede da então poderosa Sudene. “Eu não vendi minha alma para o Diabo. Nunca deixei de ser um artista para ser um empresário”, diz ele.

Sua cerâmica faz sucesso em edifícios de todo o País. Com o dinheiro entrando, viu que era possível manter parte das peças que produzia. Assim, os vazios que resultavam da retirada de equipamentos industriais da Oficina foram preenchidos com esculturas e murais. Ainda assim, seu santuário permaneceria secreto por muito tempo. “Onze anos depois de eu ter restaurado a fábrica, um motorista de táxi trouxe quatro turistas de São Paulo. Eles ficaram admirados. Lá fora, o taxista me abordou e disse: ‘Isso aqui parece o Egito’. Eu entendi que ele estava em busca de uma analogia para a palavra mistério. Percebi que deveria seguir trabalhando daquela mesma forma”.

Visitem o site Oficina Brennad

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXVII

Múcio Leão 1898-1969

Múcio Carneiro Leão nasceu no Recife, em 17/2/1898. Escritor, poeta, jornalista, crítico literário e orador. Realizou os primeiro estudos no ginásio Pernambucano e, em seguida, ingressou na Faculdade de Direito, onde seu pai era professor. Diplomado em 1909, logo mudou-se para o Rio de Janeiro.

Começou como redator do Correio da Manhã, além de exercer a crítica literária atraindo a atenção dos colegas e dos escritores da época. Em 1924 foi trabalhar no Jornal do Brasil, onde trabalhou por longa data. Em 1934, com a morte de João Ribeiro, substituiu-o na coluna de crítica literária. Paralelamente, exerceu diversos cargos e comissões públicas: oficial de gabinete do Ministro da Fazenda (1925); fiscal geral das Loterias (1926); agente fiscal do Imposto de Consumo (1926); presidente da Comissão de Teatro do Ministério da Educação (1939) e professor de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (1948-1967).

Em 1935 entrou para a ABL-Academia Brasileira de Letras, e na condição de um homem organizado com tino administrativo, logo foi empossado como segundo-secretário (1936); primeiro-secretário (1937, 1938); secretário-geral (1942, 1943, 1946 e 1948) e presidente da ABL, em 1944. Era também um documentalista por vocação e organizou inúmeras publicações, notadamente a obra crítica de João Ribeiro: Estudos críticos (1934), Clássicos e românticos brasileiros (1952), Os modernos (1952), Parnasianismo e Simbolismo (1957), Autores de ficção (1959), Críticos e ensaístas (1959), Filólogos (1961), Historiadores (1961). Na ABL deu especial atenção à organização de seu Arquivo, que atualmente leva seu nome.

Em 1941, junto com outros intelectuais, como Cassiano Ricardo e Ribeiro Couto, fundou o jornal “A Manhã”, criando ali um caderno literário “Autores e Livros”, que se transformou numa vasta e preciosa história da literatura brasileira (11 volumes de 1941 a 1950). Em 1951 foi eleito sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde proferiu uma série de palestras sobre o título O pensamento de João Ribeiro, publicadas na Revista do IHGB, em 1961. Como poeta,

“Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha”.

Manuel Bandeira, enquadrou-o dente os poetas, que tendo iniciado no Simbolismo, “se definirão mais completamente na corrente modernista”.

Foi um escritor profícuo e publicou ensaios: Ensaios contemporâneos (1923), Atividades jornalísticas de Joaquim Nabuco, (1949) Emoção e harmonia (1952), Salvador de Mendonça (1952), Capistrano e a cultura nacional (1953), José de Alencar (1955), O pensamento de João Ribeiro (1960); romances: No Fim do Caminho (1930), Castigada (1934): contos: A promessa inútil e outros contos (1928), Prêmio de pureza (1931); conferências: O Romance de Machado de Assis (1952), A poesia brasileira na época colonial (1954), O Contista Machado de Assis (1958) e poesias: Tesouro Recôndito (1926), Os países inexistentes (1949) e Poesias (1949).

Faleceu em 12/ 8/1969. No ano do seu centenário – 1998 – a ABL publicou sua biografia, escrita pelo acadêmico Murilo Melo Filho.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXVI

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

Vicente do Rego Monteiro nasceu no Recife, em 19/12/1899. Pintor, desenhista, escultor, professor e poeta. Sua mãe, Elisa Cândida Figueiredo Melo, era prima do pintor Perdo Américo. Ainda criança, iniciou-se na pintura sob a influência de sua irmã pintora Fédor. Em seguida foi estudar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e complementou seus estudos artístiticos na França, nas academias Colarossi, Julian e Grande Chaumière. Em Paris, mantém contato com alguns dos grandes pintores da época: Modigliani, Fernand Léger, Gorges Braque, Joán Miró, Albert Gleizes, Jean Metzinger e Louis Marcoussis.

De volta ao Brasil, em 1915, se estabeleceu no Rio de Janeiro. Sua primeira exposição individual se deu em 1918, no Teatro Santa Isabel, no Recife. Dois anos depois, expõe pela primeira vez em São Paulo e mantém contato com Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Pedro Alexandrino e Victor Brecheret. Em 1921 retorna à Paris e manifesta interesse pelas estilizações da “Art Deco”. Não querendo perder a oportunidade de participar do grande evento que marcaria o início da arte moderna no país, deixou algumas obras, enfatizando a temática nacional, com o crítico e poeta Ronald de Carvalho, para incluir na exposição da Semana de Arte Moderna de 1922.

Em 1923, montou um ateliê em Paris e integrou-se ao grupo da “Galerie L’Effort Moderne” e fez desenhos de máscaras e figurinos para o balé Legendes Indiennes de Lamazonie. Inspirado na cerâmica marajoara e na cultura indígena, ilustrou o livro de P. L. Duchartre – Légendes, Croyances et Talismãs dês Indiens de l’Amazonie. Em 1930, depois de uma longa estada em Paris, veio ao Brasil trazendo a exposição da escola de Paris ao Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Exposição que inclui, entre outros, quadros de Pablo Picasso, Georges Braque, Joan Miró, Gino Severini, Fernand Léger e suas próprias obras. Essa exposição é importante por ser a primeira mostra internacional de arte moderna realizada no Brasil, com artistas ligados às inovações nas artes plásticas, como o cubismo e o surrealismo. Ao ser apresentada em São Paulo, a mostra foi acrescida de telas de Tarsila do Amaral, que o artista conhecera em Paris na década anterior.

A partir de 1930 fixou residência no Recife, alternando períodos no Brasil e na França até 1950. Era um pintor e poeta difenciado não apenas nas suas obras. Tinha gostos próprios, distintos dos demais artistas. Por exemplo, adorava carros e corridas. Em 1931 disputou o o Grand Prix do Automóvel Clube da França. Outra de suas paixões era a dança. Já em 1921, realizou o espetáculo Lendas, crenças e talismãs dos índios do Amazonas, no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro. Diz-se que era também um exímio dançarino e chegou a vencer alguns concursos de dança de salão em Paris. Em 1938 foi nomeado diretor da Imprensa Oficial e Professor de Desenho do Ginásio Pernambucano. No ano seguinte fundou, junto com Edgar Fernandes, a Revista Renovação, dedicada à educação popular.

Em 1941, publica seus primeiros versos, Poemas de Bolso, organiza e promove vários salões e congressos de poesia no Brasil e na França. Entusiasmado com a editoração, fundou, em 1946, Paris a editora “La Presse à Bras”, dedicada a publicar poesias brasileiras e francesas. De volta ao Brasil, em 1950, viajou pelo país e passou a lecionar pintura na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE no período 1957-1966. Seu segundo livro de poemas Broussais – La Charité foi contemplado com o Prêmio Guillaume Appolinaire, em 1960.

Segundo os críticos, sua pintura é marcada pela sinuosidade e sensualidade. Seu estilo se apresenta contido nas cores e contrastes, e reportam a um clima místico e metafísico. A temática religiosa é freqüente em sua pintura, chegando a pintar cenas do Novo Testamento, com figuras que, pela densidade e volume, se aproximam da escultura. A partir da década de 1950, volta a dedicar-se com maior intensidade à pintura, tornando mais constantes em suas obras temas regionais como, em O Vaqueiro e O Aguardenteiro. Frequentemente utilizava grande simplificação formal e uma gama cromática reduzida, às quais alia interpretação monumental do art deco. Faleceu em 5/6/1970 e no ano seguinte o MAC-Museu de Arte Contemporânea de São Paulo realizou uma retrospectiva póstuma; em 1997, o MAM-Museu de Arte Moderna (SP) realiza outra grande retrospectiva. Sua obra integra importantes acervos de museus brasileiros e europeus.

GARANHUNS – CIDADE DAS COLINAS PERDIDAS

Dizem que são sete colinas, mas falemos apenas das três mais conhecidas. As outras devem estar mais perdidas ainda.

Monte Sinai

A construção do Colégio 15 de Novembro, em 1925, fez com que os moradores da rua do Alecrim fossem transferidos para a planície localizada pouco adiante. O então prefeito Euclides Dourado percorreu, junto com seu assistente Leonilo Ferreira do Nascimento, a antiga estrada que ligava a cidade ao povoado de Frexeiras. Ao passarem ao lado de um vistoso monte, o prefeito logo batizou o local com o nome “Monte Sinai”. Subiram o monte e passaram a apreciar a planície que se estendia até a cidade. Verificaram, também, que o monte ficava em perfeito alinhamento com a Rua do Recife, atual Rua Dr. José Mariano. O prefeito comentou:

– Nesta planície é que deveria ter sido iniciado o povoamento da cidade.

Seu assistente sugeriu perguntando:

– E porque o senhor não funda outra cidade nela?

O prefeito passou o dia e a noite pensando naquela planície e no monte de onde se descortinava bela vista panorâmica. Em sua mente vinha a imagem do local cortado por ruas e avenidas e, dentre elas, a principal fazendo a ligação com a rua do Recife. No dia seguinte, convidou seu amigo, o engenheiro Ruben van der Linden, para um passeio pelo local e expôs seu plano de ocupação daquela enorme àrea. Dias depois o novo bairro estava demarcado com algumas ruas e uma avenida principal fazendo a ligação com a cidade. Com esta avenida, que viria a se chamar Rui Barbosa, já aberta, foi possível chegar de carro até o topo do Monte Sinai.

Numa das visitas que fazia ao Monte para verificar o andamento das obras, o prefeito levou seu fllho José Maria Dourado. Enquanto apreciavam o panorama, perguntou-lhe:

– Que nome poderíamos dar a este local?

O filho, pego de surpresa, não vacilou: Heliópolis. O velho ficou resmungando o nome e o filho passou a explicar:

– Sim, Heliópolis, não vê o senhor como o sol ilumina toda a planície?

E assim ficou oficialmente batizado o bairro, chamado de “Arraial” durante muito tempo, e que se tornou o mais importante da cidade.

Na década de 1960 foi instalado no topo do Monte Sinai um Hotel de luxo, tendo em vista o aproveitamento turístico que o local propiciava. Mas o empreendimento não progrediu e o prédio hoje é ocupado por um destacamento da Polícia Militar. Toda a área em torno do Monte Sinai encontra-se ocupada por novos bairros e, assim, aquela colina ficou perdida como ponto turístico.

Mirante da Independência

No ano do centenário da Independência do Brasil, em 1922, Dom João Tavares de Moura, o primeiro bispo da Diocese de Garanhuns, criou a freguesia de São Sebastião da Boa Vista, com a inauguração da respectiva igreja. Como era setembro, o então prefeito Coronel José de Almeida Filho decidiu aproveitar a data para lançar no topo do monte, um pouco acima da igreja, a pedra fundamental de um majestoso monumento ao centenário da Independência da Pátria. Novamente, o engenheiro Ruben van der Linden foi chamado para desempenhar o papel de arquiteto e projetar o monumento e o traçado dos arredores. No ano seguinte, nas festividades do dia da Independência, o monumento foi inaugurado com toda a pompa e circunstância que a data requer.

O bairro da Boa Vista, devido a proximidade do centro da cidade, logo prosperou e em pouco tempo o local já estava habitado inclusive pelo comércio. Na década de 1960, o local se constituía em ponto de visitação para apreciar boa parte da cidade. Mas, pouquíssimas pessoas conhecem o local como uma referência ao centenário da Independência. Hoje, se alguém perguntar pelo Mirante da Independência, ninguém vai saber onde fica. Eu dei esse nome na época em que costumava subir até ali para apreciar a vista panorâmica da cidade. O local é mais conhecido como “pirulito da Boa Vista” e, se existe um nome oficial, está completamente esquecido pela população. Do ponto de vista turístico, também é completamente ignorado pelos visitantes, pois não há referência alguma sobre o local, não obstante se constituir numa área bem planejada e agradável ao lazer. O monumento encontra-se hoje no centro de uma grande zona residencial e comercial, e tem sido visitado por algumas poucas pessoas curiosas em saber o que significa aquele monumento. É a segunda colina perdida.

Dentro em breve, em setembro de 2022, o monumento completa seu primeiro centenário. Garanhuns talvez seja a única cidade do País a comemorar o centenário da Independência nestes moldes. Desse modo, daqui a pouco, teremos o centenário do Monumento e o bicentenário da Independência. Uma oportunidade excepcional para a revitalização e reinauguração do local aproveitando as festividades que a data enseja. Garanhuns destaca-se hoje como uma cidade turística, mas não vem fazendo uso de suas colinas, mesmo aquelas já demarcadas e que hoje encontram-se praticamente perdidas como locais de atração turística.

Alto do Magano

Este foi o único local construído como ponto de atração turística, devido ao local onde se encontra. A 260 metros de altura sobre o centro da cidade e 1030 sobre o nível do mar, o prefeito Celso Galvão construiu um monumento encimado com a imagem do Cristo Crucificado, esculpida pelo artista Renato Pantaleão, inaugurado em dezembro de 1954. Na década de 1960 era a colina mais conhecida de Garanhuns e também a menos visitada, devido a distância. De lá é possível uma visão de longo alcance e 360 graus sobre a cidade. Há pouco tempo, estive por lá e encontrei o local renovado e aprazível, com alguns visitantes, mas sem infra-estrutura alguma disponível aos turistas. Não existe sequer uma condução que leve o turista até o local. Em 2022, na comemoração do bicentenário da independência, caso a prefeitura encampe a ideia de restaurar o Mirante da Boa Vista, seria oportuno dar alguma visibilidade, também, ao Alto do Magano ou “Cristo Redentor”, como é mais conhecido na cidade.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES (QUE VOCÊ DESCONHECIA)

Republicação em homenagem ao centenário de Chacrinha neste mês de setembro de 2017

Falar dos pernambucanos ilustres é chover no molhado, pois são muitos e há muito tempo falados. Mas tendo em vista o Bicentenário da Revolução agora em março de 2017 – que antecedeu em 5 anos a Independência do Brasil – é hora de lembrarmos os nomes e feitos destes conterrâneos que ajudaram a fazer a História do Estado e do Brasil. Comecemos pelos nomes menos conhecidos como pernambucanos e muito conhecidos em todo o Brasil.

Incluiremos também alguns nomes que não são nativos, mas que muita gente acha que é pernambucano, tais como Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Ariano Suassuna etc. Certa vez um cearense disse que “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Ele está certo, os dois primeiros são do Ceará e o terceiro é paraibano, mas não podia nem ouvir falar o nome da cidade João Pessoa. De qualquer modo, viveram e fizeram carreira em Pernambuco, e daí vem a justificativa da apropriação que faremos.

Toda 3ª Feira a coluna divulgará um nome num verbete conciso e completo. Está visto que a empreitada é coletiva dos leitores fubanicos, que quiserem colaborar enviando nomes, os respectivos verbetes e sugestões. Eu sozinho não vou poder fazer uma grande lista. Iniciemos com os nomes que tenho e fico no aguardo das colaborações, que certamente virão dos leitores.

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JOSÉ ABELARDO BARBOSA DE MEDEIROS (Chacrinha)

Chacrinha (Set/1917 – Jun/1988)

Nasceu em Surubim, em 30/09/1917. Filho de um comerciante não bem sucedido. Porém, e não obstante as sucessivas crises financeiras da família, teve uma infância tranquila. Quando menino gostava de brincar montando “teatrinhos”. Esta habilidade levou-o a trabalhar como vitrinista da loja do pai em Caruaru, onde a família se estabeleceu. Aos 10 anos partiram para Campina Grande em busca de negócios mais promissores. Ao completar 17 anos foi estudar no Recife, e logo entrou na Faculdade de Medicina. Dotado de certa desenvoltura, teve uma breve experiência como locutor na Rádio Clube do Recife aos 18 anos. No ano seguinte foi dar uma palestra sobre alcoolismo na Radio Clube de Pernambuco, ampliando seus contatos com o mundo da comunicação.

Por essa época tocava bateria e integrava o “Bando Acadêmico” junto com seus colegas de faculdade e não demonstrava muito interesse pela Medicina. Aos 21 anos decidiu dar um rumo diferente a sua vida como músico e embarcou no navio Bagé rumo à Alemanha. No entanto, naquele ano (1939) estourou a Segunda Guerra Mundial, impedindo o prosseguimento da viagem. Foi obrigado a desembarcar no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu e passou a trabalhar como locutor. Passou por diversas Rádios, mas o carregado sotaque nordestino não combinava bem com a função de locutor comercial. Na Rádio Clube de Niterói, deu-se conta que sua “praia” não era aquela e pediu à direção da emissora para fazer um programa de música carnavalesca tarde da noite. A Rádio funcionava numa chácara próxima do Cassino de Icaraí. O programa “O Rei Momo na Chacrinha” foi ao ar em 1942 e foi um sucesso. Ganhou fama de “doido” e o programa passou a se chamar “O Cassino da Chacrinha”. Irreverência era o que não faltava no programa, dando origem ao personagem que adquiria fama no Rádio. No programa ele simulava entrevistas com gente famosa e recriava a atmosfera de um cassino com diversos efeitos sonoros, incluindo galos e outros bichos. Ao mesmo tempo em que comandava o programa gravou diversas músicas de carnaval, enquanto a fama se alardeava. O programa foi efetivado como “Cassino do Chacrinha”.

Em 1945 passou a trabalhar na grande Rádio Nacional apresentando os programas “Noite dançante” aos sábados, e “Tarde dançante melhoral” aos domingos, quando não havia futebol. Mas tudo indicava que seu talento era mesmo a “chacrinha”. Assim, o programa voltou ao ar em outras rádios até chegar na Rádio Globo, em 1947. Nos anos seguintes trabalhou em outras rádios e gravando marchinhas de carnaval, até 1956 quando estreou na TV Tupi com o programa “Rancho alegre”. Mas como estava predestinado ao papel de “doido”, voltou a apresentar o “A Discoteca do Chacrinha” e a “Hora da buzina” nas TVs Rio, Excelsior, Tupi e Globo. Em 1959 já era considerado o programa mais popular da TV brasileira. Mesmo fazendo sucesso na TV não abandonou o Rádio, o que só veio acontecer em 1967 quando foi contratado pela TV Globo para apresentar dois programas: “Discoteca do Chacrinha” às quartas-feiras, e “A Hora da Buzina”, aos domingos, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”.

Tudo indica que o contrato com a Globo não ia tão bem quanto o sucesso, e ele voltou para a TV Tupi em 1972. Anos depois passou a atuar na TV Bandeirantes (1978) e só voltou à TV Globo em março de 1982 para apresentar seu maior sucesso, o “Cassino do Chacrinha” nas tardes de sábado. Era uma mistura de programa de auditório, atrações musicais – lançou diversos cantores de grande sucesso – e show de calouros, dirigido pelo filho José Aurélio “Leleco” Barbosa e Helmar Sergio. Apresentando-se sempre com roupas espalhafatosas, rodeado de belas “chacretes” e atirando bacalhau na plateia, o programa tornou-se uma poderosa atração da TV atingindo altos índices de audiência. Era reverenciado como um gênio da comunicação pelo Diretor da Rede Globo, José Bonifácio Sobrinho, o poderoso Boni, devido as frases e bordões que soltava no ar: “Na televisão nada se cria, tudo se copia”; “Eu vim para confundir, não para explicar!” e “Quem não se comunica, se trumbica!” entre outros.

No auge de sua carreira surgiu o Movimento Tropicalista, e ele passou a ser adorado pelos seus protagonistas (Gilberto Gil e Caetano Veloso). Em 1986 recebeu o título de “Doutor Honoris Causa”, da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro. Em 1988 foi descoberto um câncer no pulmão e teve que se ausentar do programa alguns sábados, quando foi substituído pelos humoristas Paulo Silvino e João Kleber. Em 2 de junho voltou a comandar o programa ainda não totalmente restabelecido. Adorava o palco e dizia que gostaria de morrer em serviço. Por pouco isto não chegou a acontecer: faleceu 28 dias depois aos 70 anos. Cerca de 30 mil pessoas foram dar adeus ao “Velho guerreiro” no saguão principal da Câmara dos Vereadores, no Rio de Janeiro.

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PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXV

Oliveira Lima 1867-1928

Manuel de Oliveira Lima nasceu no Recife, em 25/12/1867. Historiador, escritor, crítico literário, jornalista, professor, bibliófilo e embaixador. Filho do português Luís de Oliveira Lima e da pernambucana Maria Benedita de Oliveira Lima. Aos seis anos, a família mudou-se para Lisboa, onde concluiu os primeiros estudos. Em 1885 ingressou na Escola Superior de Letras e dá início a atividade jornalística como correspondente do Jornal do Recife. A princípio escreve sobre artes e teatro, mas logo passou a comentar sobre a política inglesa e criticar o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República Brasileira. Daí veio sua fama de monarquista.

Concluiu o curso superior em 1887 e, com o domínio perfeito dos idiomas francês e inglês, se interessa pela carreira diplomática e pelos estudos da História. Em 1890 retornou ao Recife, casou-se com Flora Cavalcanti, uma professora de inglês e francês, e passa a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores como Adido à legação em Lisboa. No ano seguinte foi promovido a Secretário e mais tarde foi designado para trabalhar em Berlim. Em 1896 foi transferido para Washington como Primeiro-Secretário sob às ordens de Salvador de Mendonça.
Foi um escritor e leitor visceral, e mantinha estreita amizade com diversos escritores, tais como Gilberto Freyre e Machado de Assis e participou ativamente da fundação da ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1897, Pouco depois foi transferido para a Embaixada de Londres, onde conviveu com Joaquim Nabuco, Eduardo Prado e Graça Aranha. Em seguida foi embaixador no Japão por dois anos. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses, alertando sobre o perigo de uma mistura com “raças inferiores”. Enquanto isso, sua bibliografia incorporava novas obras, além de manter uma colaboração permanente com artigos nos jornais de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Na condição de um dos primeiros literatos, entrou para a ABL em julho de 1903

Em 1904 foi nomeado para a Venezuela, o que lhe causou profundo desgosto. Depois foi chefiar a legação brasileira em Bruxelas, cumulativamente com a da Suécia, em 1907. Visto como um importante intelectual, foi convidado, em 1911, pela Universidade de Paris para uma série de conferências, intituladas por ele, de “Formação da nacionalidade brasileira”. No ano seguinte veio o convite para uma série de conferências em diversas universidades americanas.

Pouco depois foi cotado para a chefia da legação em Londres, em 1913, mas foi vetado pelo Senador Pinheiro Machado, sob a acusação de ser monarquista. Também era mal-visto pelo governo britânico por defender o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha. Para agravar a situação, suas relações com o Barão do Rio Branco não se davam a contento para ambos, devido a sua franqueza e a dificuldade do Barão em aceitar críticas. Mas a principal divergência entre os dois referia-se a política externa brasileira. Ele criticava a “Doutrina Monroe” e não gostava do “pan-americanismo” que impunha a liderança norte-americana no continente sul-americano. Seu temor era que a herança cultural europeia do Brasil se visse diminuída, caso o País seguisse a política externa dos Estados Unidos,

Mais ligado a cultura e política européias, seu pensamento sobre a diplomacia brasileira era claro: “O imperialismo contemporâneo assenta sobre o negócio. A pujante democracia norte-americana nasceu do conúbio da liberdade com o interesse: os frutos da frondosa árvore são os pomos de ouro da antiga fábula. O dever primordial dos nossos governantes é tratar de colocar e tornar assim remuneradora a produção nacional, pois que sem fortuna não há vigor e sem vigor, não se pode infundir respeito”. Assim, defendia sempre a dignidade do Brasil na condução dos negócios externos e isto não coincidia com os objetivos prioritários do Barão do Rio Branco

Possuia uma quantidadade de livros sobre o Brasil, que se constituia no 3º maior acervo, perdendo apenas para a Biblioteca Nacional e Biblioteca da USP. Sua bilioteca foi doada à Univesidade Católica de Washington, onde era professor, com uma imposição: ele próprio seria o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos. Não fez a doação à uma instituição brasileira por temer que a coleção não recebesse os cuidados necessários. São 58 mil livros além de correspondência trocada com intelectuais, mais de 600 quadros e incontáveis álbuns de recortes com notícias de jornais. Sua produção bibliográfica é expressiva e sua obra mais importante, em sua opinião e segundo os críticos, é a biografia Dom João VI no Brasil, publicada em 1909. É considerada pelos historiadores a obra mais completa sobre aquele período, um clássico da historiogrfia brasileira.

Seu primeiro livro – Pernambuco: seu desenvolvimento histórico – saiu em 1894 e a partir daí pode-se destacar outros importantes lançamentos: Aspectos da literatura colonial brasileira (1896), O reconhecimento do Império (1902), No Japão (1903) Panamericanismo e Cartas de Estocolmo (1907), La Langue portugaise, La Littérature brésilienne (1909), Machado de Assis et son oeuvre littéraire (1909), Formation historique de la nationalité brésilliene (1911), Evolução histórica da América Latina comparada com a América inglesa (1914), História da civilização (1921), O movimento da Independência (1922), Aspectos da história e da cultura do Brasil (1923), D. Pedro I e D. Miguel (1925), O Império brasileiro (1927) A publicação póstuma de suas Memórias, publicada em 1937 pela José Olympio, teve enorme repercussão, sobretudo pelas revelações íntimas e apreciações críticas.

No início do século XX, foi um dos mais polêmicos e intelectualizados homens de letras do Brasil. Participou de importantes debates e levantou bandeiras que interessavam a toda a humanidade. Mesmo hoje, em se tratando das modernas relações internacionais, muitos ainda o consideram como uma das figuras mais representativas da diplomacia. Um famoso escritor sueco ressaltou que o historiador-diplomata era “o embaixador da intelectualidade brasileira”. Como uma das homenagens que lhe foram feitas, na casa onde nasceu na rua que leva seu nome, no bairro da Boa Vista, no Recife, funciona hoje o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco. Faleceu em 24/3/1928, e foi sepultado no cemitério Mont Olivet, Washington. Na lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros”

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – XXXIV

Ulisses Pernambucano 1892-1943

Ulisses Pernambucano de Mello Sobrinho nasceu no Recife, em 6/2/1892. Médico neurologista e psiquiatra, e professor procedente de uma tradicional família pernambucana. Realizou os primeiro estudos no Ginásio Aires Gama e partiu para o Rio de Janeiros, onde foi diplomado pela Faculdade de Medicina em 1912. Escolheu a psiquiatria como especialidade e foi médico-residente do Hospital Nacional de Alienados, tendo como supervisor o prof. Juliano Moreira, o fundador da psiquiatria brasileira. Em seguida defendeu a tese Sobre algumas manifestações nervosos da Heredo-Sífiles, obtendo o grau de Doutor em Medicina.

De volta a Pernambuco, abriu um consultório na cidade de Vitória de Santo Antão, onde em decorrência das precárias condições de vida e das necessidades da população, atuou também como médico generalista. Em 1914, transferiu-se para cidade paranaense de Lapa, já consolidado profissionalmente. Casou, em 1915, com a doutora Albertina Carneiro Leão, sua prima. Com saudades de sua terra, amigos e parentes retornou ao Recife em 1916. Dois anos após, concorreu à recém-criada cadeira de Psicologia e Pedagogia, na Escola Normal Oficial de Pernambuco. Obteve o 1ª lugar no concurso, mas por questões politicas, o governador Manuel Borba nomeou o 2ª colocado.

No mesmo ano, prestou concurso para professor de Lógica, Psicologia e História da Filosofia no Ginásio Pernambucano, obtendo, de novo, o 1º lugar. Assumiu o cargo de professor catedrático no Ginásio onde mais tarde foi Diretor. Em 1923, foi nomeado Diretor da Escola Normal, em cuja função se manteve até 1927. Teve uma gestão marcada por reformas de caráter social: introduziu o exame de seleção para admissão à Escola Normal, quando anteriormente o ingresso nesse estabelecimento obedecia a critérios de amizade ou apadrinhamento; criou um jornal, a merenda escolar, os exames de promoção por média em conjunto, entre outras medidas.

Antes de criar o Instituto de Psicologia, em 1925, preparou o pessoal para lidar com o trabalho a ser iniciado e como diretor reuniu pessoas interessadas nessa área, como Anita Paes Barreto, que assumiu a direção da Escola Normal. Em 1930 assumiu a direção do Ginásio Pernambucano e dois anos depois passou a dirigir o Hospital da Tamarineira, que apresentava, na época, aparelhamento insuficiente e métodos terapêuticos inadequados. Tomou a tarefa de reformar o hospital e enfrentou políticos e poderosos da época. Uma das primeiras medidas foi retirá-lo do controle da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia e passá-lo para a gestão do Estado. Por essa época foi também professor de Neuro-Psiquiatria e Clínica Neurológica na Faculdade de Medicina do Recife.

Sua filosofia de trabalho estava assentada na integração dos conhecimentos de Antropologia e Sociologia aplicado na prática e no ensino da Psiquiatria. Advogava uma Psiquiatria com laços com seu meio social e preconizava que o psiquiatra fosse um defensor do doente mental, destacando a necessidade de garantir cuidados básicos de higiene e alimentação aos enfermos e o registro clínico completo das observações médicas. Tal orientação tinha como base as ideias preventivas de higiene mental, divulgadas por Clifford Beers, em seu livro Um espírito que achou a si mesmo (1908), que motivou a criação de “serviços de higiene mental” pelo mundo.

Teve atuação destacada em defesa das minorias marginalizadas, tais como, crianças excepcionais, doentes mentais, negros e adeptos de seitas africanas. Com este posicionamento e tendo em vista a “intentona comunista de 1935”, que se anunciava, foi acusado de comunista, gerando conflitos e redução das verbas para manutenção da qualidade do atendimento aos pacientes. Cansado de enfrentar forças poderosas, chega ao seu limite e em 8/11/1935, pede demissão do cargo de diretor da instituição que implantara. Dias depois é considerado persona non grata ao regime de força então vigente, e detido e preso na Casa de Detenção do Recife, por 60 dias.

Em 1936, cansado das perseguições e injúrias, sofre um ataque cardíaco, que comprometeu seu coração. Mesmo assim, em julho do mesmo ano, fundou o Sanatório Recife, instituição modelar de prestação de serviços aos doentes mentais. É o primeiro do Estado no âmbito da iniciativa privada, e logo se tornou um importante centro psiquiátrico. Em 1937, um grupo fiel de colaboradores, se solidarizou publicamente com o “Mestre” e publicou os Estudos Pernambucanos, dedicados a Ulysses Pernambucano. Acolheu em seu Sanatório muitos de seus discípulos, como Arnaldo Di Lascio, René Ribeiro, Luiz Cerqueira, entre outros, os quais se tornaram posteriormente expoentes na psiquiatria pernambucana. Sua última iniciativa, infelizmente não concluída, foi a seleção, em Pernambuco, dos elementos componentes do Corpo Expedicionário Brasileiro, mediante uma triagem psicométrica e reclassificação dos soldados nas armas e serviços, mediante provas de seleção profissional.

Como propugnador da cooperação científica, atuou nesse campo criando a Liga de Higiene Mental de Pernambuco e a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro. Foi membro correspondente da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (RJ); sócio efetivo e ex-presidente da Sociedade de Medicina de Pernambuco; sócio efetivo e ex-presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco; fundador e presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Brasil; membro-correspondente da Academia Nacional de Medicina; Membro honorário da Sociedade de Psiquiatria e Medicina Legal de La Plata (Argentina); fundador da revista “Neurobiologia”, que hoje é a mais antiga revista de Psiquiatria do Brasil. Em termos de obras publicadas, sua produção é significativa, onde destacam-se as obras Bases fisiológicas da ambidestria (1924), As medidas de estatura dos escolares de Pernambuco (1927), As doenças mentais entre os negros de Pernambuco (1935).

Seu primo Gilberto Freyre costumava dizer que ele era mais pernambucano do que muitos, pois trazia isso no próprio nome. Sua última contribuição para a Psiquiatria brasileira se deu na abertura do III Congresso da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, realizado em Natal, em outubro de 1943, com a conferência de abertura, intitulada “A ação social do psiquiatra”. Faleceu dois meses depois, ainda jovem, em 5/12/1943. 40 anos depois, em 1983, o Hospital da Tamarineira recebeu o nome de “Hospital Ulisses Pernambucano”.

PERNAMBUCANOS FAMOSOS XXXIII

Madame Satã 1900-1976

João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá, em 25/2/1900. Considerado uma referência na cultura marginal urbana do século XX. Muitos afirmam que foi a primeira “drag queen”, numa época em que esse nome não existia. Ele se auto-denominava “primeiro travesti-artístico brasileiro”. Criado numa família pobre de 17 irmãos, ficou órfão de pai aos 7 anos. Sua mãe – Dona Firmina -, não podendo cuidar de todos, trocou-o por uma égua. Assim, ele foi morar com outra família na condição de ajudante, ou seja, quase escravo.

Em tais condições, não se deu bem com esta família e mudou-se para o Recife, onde viveu de pequenos serviços prestados. Posteriormente, foi adotado por uma senhora e mudou-se para o Rio de Janeiro. A vida de serviçal que levava também não lhe agradou e, aos 13 anos, fugiu de casa e caiu na vida, indo morar no bairro da Lapa, reduto carioca da malandragem e boemia. Analfabeto, o melhor emprego que conseguiu foi o de carregador de marmitas. Posteriormente, trabalhou como segurança de casas noturnas e cuidava que as meretrizes não fossem vítimas de estupro ou agressão. Por essa época aprendeu capoeira e tornou-se um exímio “jogador” ou lutador de capoeira.

Por essa época participou de pequenos bacanais promovidos pelas prostitutas, e neles atuava como “homem e como bicha, mas acabei tomando gosto mesmo pela prática homossexual”, conforme declarou. Depois passou a fazer pequenos trabalhos, como cozinheiro, garçom e, eventualmente, como prostituto. A partir de 1923 começou a conquistar alguma respeitabilidade nas rodas da malandragem, adquirindo a fama de destemido e até valentão, conhecido como Caranguejo, um malandro que pisa macio, com leveza, para não se dar mal. Trabalha dando proteção a bares, cabarés, bichas, moleques e prostitutas – isto é, quando não está curtindo a noite com Chico Alves, Nelson Cavaquinho e outros cantores e compositores que frequentavam a Lapa.

Ficou atraído pela vida noturna, de bar em bar, e enveredou pelo mundo artístico. Em 1928 começou a fazer uma encenação imitando Carmen Miranda numa boate. Depois conseguiu uma participação no show “Loucos em Copacabana”, na praça Tiradentes. Ali surgia o transformista – a “Mulata do Balacochê” – anos antes de receber o epiteto Madame Satã. A carreira de transformista durou pouco, foi interrompida por uma prisão.

Acusado pela morte de um guarda civil, foi encarcerado na Ilha Grande.

Foi solto em 1930, quando inicia a era do rádio, a era Vargas e um ar de modernização tomando o Rio. Em 1937, Clóvis Bornay criou no Teatro Municipal os carnavais de gala e concurso de fantasia. Na Praça Tiradentes, as bichas já pulavam o carnaval no bloco “Caçadores de Veados”, criado em 1930. Copiando Clóvis Bornay, a turma resolveu promover, em 1938, um concurso de fantasia no Teatro República. Ele foi vestido de morcego, numa roupa escandalosa e muita lantejoula. Ganhou o 1º lugar e recebeu um tapete e um rádio Emerson. Semanas depois foi preso junto com outras bichas para simples averiguação. Um policial reconheceu-o e lembou que sua fantasia era parecida com a do personagem do filme de Cecil B, De Mille intitulado Madame Satã. “Ei, não era você que estava vestido de Madame Satã no carnaval?” Ali foi batizado e por ironia da história, por um milico

Foi preso várias vezes e frequentemente enfrentava a polícia, sendo detido por desacato à autoridade diversas vezes. Como bom capoeirista, lutou várias vezes contra mais de um policial, geralmente em resposta a insultos que tivessem como alvo mendigos, prostitutas, travestis e negros. Na década de 1940 há pouca coisa escrita sobre sua vida, mas sabe-se que tentou se afastar da malandragem, abriu uma lavanderia, pegou uma menina abandonada para criar (a primeira de 6 filhos que adotou), passou uma temporada em São Paulo e iniciou uma relação complicada com Maria Faissal, uma garota que conheceu na Lapa e com quem viveu muitos anos.

A partir da década de 1950, a Lapa vai perdendo a fama de bairro boêmio e a modernidade das boates e nightclubes vai se instalando em Copacabana, o bairro que vai abrigar a bossa nova. Em 1955 ocorre uma das brigas mais notórias de Satã. O compositor Geraldo Pereira (autor de Falsa baiana) era um tipo que gostava de implicar com os homosseexuais. Contam que numa passagem pelo Bar Capela, ele encrespou com Satã. Dizem que foi uma briga das boas, e Geraldo não se deu bem. Contam tmabém que o soco de Satã era um coice de mula. Assim, Geraldo foi parar no hospital e logo morreu devido a uma hemorragia. A culpa de sua morte não recaiu diretamente sobre Satã, pois foi uma briga de golpes limpos. Mas, ele ficou mais visado ainda depois dessa briga. Meses depois, foi preso sob a acusação de aplicar o “golpe do suadouro” (atual “boa-noite ciderela”). Voltou para Ilha Grande, onde ficou até 1965.

Ao sair com 65 anos, já não podia manter aquele ritmo de vida da malandragem. Por outro lado, a Lapa também já não era a mesma. Passou por um projeto de reurbanização e os tempos são outros. Decide, então, ficar na Ilha Grande e morar numa pequena chácara, onde passa a cozinhar para uns e outros, criar galinhas e fazer pequenos bicos. No inicio da década de 1970, quando ele está totalmente esquecido e alijado da vida carioca, surge um fato inusitado. A turma do jornal “O Pasquim” – Millôr Fernandes, Paulo Francis, Sergio Cabral, Jaguar, Fortuna Paulo Garcez e Chico Júnior – decide entrevistá-lo. A entrevista, publicada em 5/5/1971.

A entrevista, publicada em 5/5/1971, causou um certo furor na imprensa, além do furo jornalístico que representou, e “ressuscitou” Madame Satã no meio político-social. Vale lembrar que estávamos nos “anos de chumbo” da ditadura militar, onde transgredir era uma ato de coragem, e Satã era um exemplo de transgressão. Vamos transcrever 4 pertguntas de Millôr Fernandes para dar uma ideia da entrevista, mas quem quiser vê-la inteira, pode acessar o site Tiro de Letra.

Millôr – Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Millôr – Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

Isso é o que diz a história, né?

Millôr – De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr – Você tem consciência que é do estofo de homem como você que se fazem líderes. Você se transformou em um marginal. Se você fosse alfabetizado você seria um líder.

Eu vou lhe explicar uma coisa: Deus dá o frio conforme a roupa. Se eu fosse um intelectual, é assim que se fala? Eu não sei dizer essas coisas. Deus disse: faz por onde que eu te ajudo. Mas Deus não me ajudou porque ele sabe que se me ajudasse eu vendia o mundo com o dinheiro dele.

Na época, a contracultura estava na moda e Hélio Oiticica criou o slogan: “Seja marginal, seja herói”. Nesse contexto, Satã representava tudo o que as pessoas gostariam de ser: bem resolvidos em sua história de vida, fortes em sua luta contra a opressão, livres em sua sexualidade. Assim, ele voltou ao palco da vida carioca, cultuado pela intelectualidade e pela mídia popular. Apareceu na TV no programa do Silvio Santos ao lado de Elke Maravilha; sua imitação de Carmen Miranda vira show na boate Cafona’s; em 1972 o escritor Sylvan Paezzo publica o livro Memórias de Madame Satã; no ano seguinte sua história é associada ao filme Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura. Em 1974 seu desejo de se tornar artista parece se concretizar: o grupo de teatro “Chegança” encena a peça Lampião no inferno, de Jairo Lima, no Teatro Miguel Lemos, e convidam-no para fazer o papel de Satanás. A peça não despertou a atenção da crítica, mas representou sua realização artística, aos 74 anos.

Entusiasmado com o repentino sucesso, voltou a morar na Lapa em quartos de pequenos hotéis. Aguinaldo Silva, repórter policial na época, foi um dos últimos jornalistas a conversar com ele e escrever sobre sua personalidade. Queria um fazer um retrato mais pessoal, afastado da atmosfera heroica e mítica que o cercava, e conseguiu. O ano de 1976 marca sua despedida desse mundo. Em fevereiro, magro e adoentado, dá entrada num hospital como indigente. Jaguar e a turma do Pasquim ficam sabendo e transferem-no para o hospital do INAMPS, em Ipanema. Vitimado por um câncer de pulmão em estágio avançado, disse onde gostaria de ser sepultado. Faleceu em 14/4/1976 e Jaguar levou o caixão num pequeno barco até Ilha Grande. Em 2002, foi retratado no filme Madame Satã, premiado aqui e no exterior, interpretado por Lázaro Ramos. Em 2004 saiu uma nova biografia – O Rei da Lapa: Madame Satã e a malandragem carioca, de Gilmar Rocha, segundo o qual “a malandragem fornece pistas para a reflexão sobre aspectos da sociedade brasileira, tais como a violência, a honra, a valentia e a malícia, inseridos em contexto de classes populares.”. Em 2015, foi homenageado no Carnaval pela Escola de Samba Portela, que apresentou os 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro. Em junho 2017, estreou em São Paulo a peça Madame Satã: um musical brasileiro, com direção de João das Neves. (Agradeço ao jornalista Pedro “Pepa” Silva pelo texto publicado no site Revista Geni, de onde parte desse relato foi extraído)

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PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VI

Delmiro Gouveia 1863-1917

Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu, Ceará, em 5/6/1863. Pioneiro da industrialização do país com o aproveitamento do potencial hidrelétrico. Seu pai faleceu na Guerra do Paraguai, e aos cinco anos a família mudou-se para Goiana (PE) e em seguida para Recife, onde a mãe viria a se casar com o advogado Meira Matos, que vioru seu padastro e patrão. Com a morte de sua mãe, começou a trabalhar, aos 15 anos de idade, como cobrador da Brazilian Street Railways Company, chamado “maxambomba”, o primeiro trem urbano do país. Foi sendo promovido até chegar a chefe da Estação de Caxangá.

Dotado de espírito empreendedor, foi se aventurar pelo interior do Estado como caixeiro-viajante, em 1881. Dois anos depois, casou-se com a filha do tabelião de Pesqueira e voltou para o Recife. Viu no comércio de peles de cabras e ovelhas um bom negócio e, a partir de 1883, passou a viajar pelas cidades do interior, obtendo grande sucesso neste negócio. Três anos após, estabeleceu-se no ramo de couros e passou a trabalhar, comissionado, junto ao imigrante sueco Herman Theodor Lundgren – que viria a ser o fundador das Casas Pernambucanas – e outras empresas. Em 1889 foi trabalhar no curtume do americano John Sanford, com matriz na Filadélfia. Em 1892 assumiu a gerência da filial, aprendeu a falar inglês, passou um tempo na matriz e na volta adquiriu as instalações do escritório da empresa que faliu. Em 1896 criou sua própria empresa, a Delmiro Gouveia & Cia. e foi contratando os melhores funcionários das empresas concorrentes.

Em 1898, decidiu alavancar a empresa e instalou um “mercado modelo” no terreno comprado do Derby Club. Uma área de 129m de comprimento, 264 boxes com balcão de mármore e mandou erguer um palacete para sua residência. Em 1899 inaugurou o “Derby”, um grande centro comercial e de lazer com mercado, hotel de luxo, cassino, parque de diversões e loteamento residencial. Uma inovação no comércio, vista hoje como o primeiro “shopping center” do país. Na época, o poder político em Pernambuco estava com Rosa e Silva, vice-presidente da República. Inovador, agressivo no mercado e desligado dos políticos dominantes, Delmiro era visto como uma ameaça aos grandes usineiros. Jovem, rico, e uma tumultuada vida amorosa, era alvo constante de fofocas, escândalos e denúncias na imprensa, mantendo-o em constante evidência.

Tudo isso era agravado pela oposição que fazia ao poderoso grupo político liderado por Rosa e Silva. Assim, suas mercadorias eram constantemente apreendidas e de vez em quando recebia ameaças de morte. Em janeiro de 1900, o mercado foi incendiado supostamente a mando de Rosa e Silva, com quem ele foi tomar satisfações. Por ter agredido o vice-presidente, foi preso. Mas foi solto no dia seguinte através de um “habeas corpus”. Sua esposa abandona-o, retornando à casa dos pais, e ele volta ao comércio de couro, abrindo nova empresa, a Iona & Krause. Em setembro de 1902, apaixonou-se por uma jovem menor de idade, propõe uma fuga e se escondem na Usina Beltrão. A jovem, de 16 anos, era filha do governador de Pernambuco, nascida fora do casamento. No mês seguinte a jovem é resgatada e ele fugiu num vapor em direção a Penedo (AL).

Em 1903 instalou-se em Pedra, um lugarejo perdido no coração do sertão, mas de localização estratégica para os negócios que pretendia instalar. A cidade, localizada na Microrregião alagoana do Sertão do São Francisco, é uma divisa com três estados: Pernambuco, Sergipe e Bahia. Ali comprou uma fazenda às margens da Ferrovia Paulo Afonso e começou a construir uma grande empresa com currais, açude e prédios para o curtume. Pouco depois mandou buscar a jovem que havia sido raptada – Carmélia Eulina do Amaral Gusmão – com quem teve três filhos. Sua empresa prosperou e em pouco tempo transforma-se num grande entreposto comercial de peles de bode e carneiro.

O passo seguinte é a exploração do potencial energético da Cachoeira de Paulo Afonso. Em dois anos de intenso trabalho construiu uma Usina Hidrelétrica com potência de 1.500 HP, inaugurada em 1913. No ano seguinte fundou a “Companhia Agro Fabril Mercantil” a primeira fábrica na América do Sul a fabricar linhas de costura e fios para malharia. Logo depois já estava exportando para o Peru e Chile. Construiu uma vila operária, abriu estradas e os funcionários recebiam vários benefícios. A “Fábrica de Linhas Estrela” e a cidade que ele construiu eram modelos para a época. Não é por outra razão que a cidade passou a se chamar Delmiro Gouveia, em 1943.

O poderio econômico da empresa – em 1916 tinha 2000 funcionários e já produzia mais de 500.000 carretéis de linha por dia – chamou a atenção do conglomerado inglês Machine Cotton, que tentou por todos os meios comprar a fábrica. Por motivos políticos e questões de terras, entrou em conflito também com vários coronéis da região. Em 10/10/1917 ele estava em frente ao seu chalé, quando foi assassinado com três tiros disparados por pistoleiros. O assassinato é atribuído pela maioria de seus biógrafos aos coronéis José Rodrigues de Lima (de Piranhas) e José Gomes de Lima (de Jatobá), os quais entraram em conflito com por motivos políticos e econômicos. Nunca se descobriu quem foram os reais mandantes do assassinato, mas houve quem incluísse no rol dos suspeitos os diretores da Machine Cotton. Os herdeiros não resistiram as pressões e venderam a fábrica á empresa inglesa, detentora na América Latina da marca “Linhas Corrente”. Ato contínuo, os ingleses destruiram os prédios da fábrica e lançaram as máquinas e escombros no Rio São Francisco, livrando-se da incômoda concorrência.

Devido ao seu ímpeto empreendedor, inovações e conquistas na área econômica e industrial, tornou-se um mito na história do Brasil. No centenário de seu nascimento, em 1963, foram realizados eventos em algumas capitais e homenagens no Congresso Nacional. Em 1977, estreou a peça O Coronel dos Coronéis, escrita por Maurício Segall, No ano seguinte, o cineasta Geraldo Sarno realizou o documentário Delmiro Gouveia: O Homem e a Terra, que, sete anos depois, foi transformado no filme Coronel Delmiro Gouveia. Sua trajetória já foi contada em diversos livros biográficos e de ficção. Foi o primeiro industrial brasileiro com forte caráter nacionalista, que enfrentou o “imperialismo econômico”, conforme seu depoimento publicado no livro de Olympio Menezes: Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife, IJNPS/MEC, 1963. P. 134. “Nossa Fábrica ocupa 2.000 operários brasileiros e nossa linha é fabricada com matéria prima exclusivamente nacional. Esperamos que o público não deixará de comprar a nossa linha, de superior qualidade, para dar preferência a mercadoria estrangeira ou com rótulo aparente de nacional. Se não fosse a linha “Estrela” o preço de um carretel estaria por 500 réis ou mais; o público deve o benefício do barateamento deste artigo de primeira necessidade, à nossa indústria”.

Em 1993, a Federação das Indústrias de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, a FUNDAJ e o BANDEPE instituíram o “Prêmio Delmiro Gouveia de Vanguarda Industrial”, destinado a distinguir anualmente “as indústrias que se destacarem pela adoção de inovações nas áreas de qualidade, relações trabalhistas, gestão empresarial e interação com a comunidade”.


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