FÁBULA DO FRIBOI – 1ª PARTE

Casa de Carne Mineira – Anápolis, 1953

Era um vez, agora há pouco, um jovem açougueiro que se estabeleceu em Anápolis. O cara veio com disposição, sabia abater gado, tinha um pequeno rebanho e era bom negociante. Em pouco tempo a “Casa de Carnes Mineira” atendia não apenas a clientela local, como também fornecia carne para outros açougues da cidade e redondezas. Logo ficou conhecido na região como “Zé Mineiro” e passou a dominar o mercado da carne naquela região.

No começo abatia cinco bois por dia e distribuía a carne numa Kombi. Com apenas 23 anos seu negócio crescia a olhos vistos e já podia se considerar um empresário bem-sucedido. Não mais que de repente, como dizia o poeta, surge uma metrópole na região, Brasília, a nova capital do Brasil. Em 1957 acorreram para o local centenas de nordestinos, que adoram carne. Depois de 1960, com a inauguração da cidade, surgem centenas de cariocas, que apreciam carne e gente de toda parte do Brasil. Incluindo os gaúchos, que aproveitaram para montar suas churrascarias.

Quando se fala da “pessoa certa, na hora e local certo”, é o caso do “Zé Mineiro”. Afinal, quem poderia abastecer de carne toda aquela população? Em contato com as empresas construtoras, ele começou a fornecer carnes para os refeitórios dos “candangos”. Passou a abater 30 bois por dia com perspectivas de ampliação, pois a construção da cidade se dava em ritmo acelerado. Logo mais seria preciso atender também os açougues que surgiriam na cidade. O negócio foi se afirmando, tornando-se a principal fornecedora de carnes de Brasília e redondezas. Em 1969, foi o primeiro frigorífico do Brasil a usar o selo SIF. Até ali não havia a exigência de um “Serviço de Inspeção Federal” para controlar a qualidade da carne.

Em 1960, junto com a fundação da cidade, nasceu o primeiro filho, que recebeu o mesmo nome do pai, certamente com a intenção de dar continuidade à empresa JBS, as letras iniciais de seu nome. Com Brasília inaugurada, os negócios foram alavancados rapidamente. Em 1962 arrendaram um matadouro em Luiziânia, passando a abater 50 bois por dia. ”Zé Mineiro”, maneiro e hábil nos negócios, logo travou bons contatos com os políticos e passou a atender também o novo governo que ali se estabelecia. Com isso, sua empresa deu um salto surpreendente.

Em 1968 foi adquirido um matadouro em Planaltina, e passou a abater 200 bois por dia. O império da carne do Zé Mineiro vai se afirmando e criaram um novo nome para a empresa: “Friboi”, que logo virou marca consagrada no mercado. Na condição de fornecedor quase exclusivo de carne para toda a região, os negócios foram crescendo de forma vertiginosa com a aquisição de novas instalações nos arredores de Brasília. Em 1972 nasceram os gêmeos Joesley e Wesley, quando o filho mais velho já era conhecido por “Júnior Friboi”. Curioso é que mesmo carregando esse apelido, o rapaz não deu continuidade aos negócios do patriarca. Mais tarde enveredou para a política e os caçulas gêmeos é quem substituíram o velho no comando da empresa.

A partir daí a empresa passou a crescer exponencialmente, com a aquisição e diversos abatedouros e fábricas de conservas de carne e diversificação de produtos, chegando a ter uma fábrica de sabão e cosméticos. Em 1993 instalou em Anápolis uma indústria com capacidade de desossar carne e abater 1000 bois por dia. A essa altura já estavam abastecendo os mercados do Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades. No período 1996-1999 instalaram novas unidades de processamento em Goiânia, Barra do Garça (MT) e Andradina (SP) e partiram para a exportação de carne para os EUA e Europa. O abate agora é de 5.800 cabeças por dia, e representou uma nova guinada na empresa.

Em 2004 é chegada a hora de estabelecer o império da carne. A sede corporativa da empresa foi transferida para São Paulo junto com 150 funcionários e centralizando as operações de sete unidades instaladas em outros locais. Por esta época, os gêmeos já estão com 32 anos e aos poucos passam assumir o comando da empresa. “Aos poucos” é força de expressão; pois os rapazes, seguindo a tradição familiar de bons relacionamentos com os políticos, deram rapidamente um impulso gigantesco à empresa com a chegada do Governo Lula em 2003. Não perca a 2ª parte desta fábula, e veja até onde estes gêmeos levaram o empreendimento do seu “Zé Mineiro”.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXVIII

Aloísio Sérgio Barbosa de Magalhães nasceu no Recife, em 5/11/1927. Advogado, artista plástico, gravador, cenógrafo, professor e designer gráfico, formou-se em Direito, em 1950, pela UFPE-Universidade Federal de Pernambuco e nunca exerceu a profissão. Por essa época esteve mais interessado em teatro, participando do TEP-Teatro do Estudante de Pernambuco, sob a direção de Hermilo Borba Filho, como cenógrafo e figurinista, além de dirigir o Teatro de Bonecos. Em seguida, ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e passou dois anos em Paris, onde estudou museologia na Escola do Louvre e estagiou no atelier 17, do gravador Stanley Willer Hayter.

A carreira artística tem início na pintura, mas logo se encaminhou para a pesquisa no domínio da tipografia e artes gráficas. Em 1954 fundou – junto com os amigos Gastão de Holanda, José Laurênio de Melo e Orlando da Costa Ferreira – o “Gráfico Amador”, uma oficina experimental de artes gráficas, com o objetivo de publicar breves textos literários em pequenas tiragens para distribuição entre os 57 sócios (artistas e intelectuais do Recife). A oficina contava com o estímulo da “Le Corbusier Graphique”, de Paris e da “Curwen Press”, de Londres. Estas publicações, apresentado uma excepcional qualidade artística, constituem-se hoje em raridades editoriais. Em 1959 foram apresentadas numa exposição na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que foi o berço do que viria a ser o “Design brasileiro” pouco depois.

Em 1956 ganhou outra bolsa de estudos, agora do governo americano, e passa a estudar artes gráficas e programação visual nos EUA. Lá publicou os livros Doorway to portuguese e Doorway to Brasília sobre a arquitetura do País, em parceria com o designer Eugene Feldman, fundador da editora Falcon Press e lecionou na Philadelphia Museum of Art. Retornou ao Brasil em 1960, e passou a residir no Rio de Janeiro, onde monta seu escritório de comunicação visual – o M+N+P – em sociedade com Luiz Fernando Noronha e Artur Lício Pontual. Pouco depois, montou o escritório “Aloisio Magalhães Programação Visual Desenho Industrial Ltda”, onde, ao lado dos colaboradores Roberto Lanari, Joaquim Redig e Rafael Rodrigues, e começa a realizar projetos para empresas públicas e privadas. Via o design como uma obra artística e defendia que seu uso comercial era uma maneira dela ser usufruída pela comunidade e não restrita apenas às casas dos colecionadores.

“Achei que por meio do design, em trabalhos pragmáticos de uso coletivo, poderia encontrar uma fonte de questões muito mais viva e dinâmica. A ideia de participação do coletivo era o que mais me interessava. A atividade do pintor demasiadamente subjetiva, isolou muito o artista da comunidade e o que me interessava era retomar este contato de maneira direta e participante.”

Em 1963, junto com outros profissionais da área, participou ativamente da criação da ESDI-Escola Superior de Desenho Industrial, onde vai lecionar comunicação visual. No ano seguinte, surge o primeiro trabalho de grande visibilidade: o símbolo do 4º Centenário do Rio de Janeiro. Em seguida, surgem outros trabalhos importantes: identidade visual da Petrobrás; criação da primeira marca da TV Globo; símbolo da Fundação Bienal de São Paulo, Sesquicentenário da Independência; marcas das empresas Light, Unibanco, Banespa, Souza Cruz, Itaipu Binacional. Na criação de símbolos, sua técnica consiste em partir, na maioria das vezes, de uma unidade que é refletida, explorando a tridimensionalidade e a rotação do volume no espaço. Nessa época intensifica a editoração de livros de arte. Em 1966 é convidado pela Casa da Moeda para desenhar as cédulas e moedas do cruzeiro novo.

No período 1975-1980 foi coordenador do projeto do Centro Nacional de Referência Cultural-CNRC e 1976-1980 integrou o Conselho de Cultura do Distrito Federal. Com tais atividades políticas, foi se afastando do design e passou a exercer, em tempo integral a função de gestor cultural, ocupando cargos relevantes na administração federal. Em 1979 foi nomeado diretor do IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e, no ano seguinte, presidente da Fundação Nacional Pró-Memória, quando inicia campanha pela preservação do patrimônio histórico brasileiro. Apresentou propostas de preservação especialmente em relação a Ouro Preto e as ruínas de São Miguel das Missões. Neste ponto, o País começa a ter uma visão do “design” e a se apropriar disso como patrimônio nacional. Em 1981 é designado Secretário da Cultura, do MEC-Ministério da Educação e Cultura. Pode-se dizer que, graças ao seu esforço e atuação política, os bens culturais e a preservação do patrimônio histórico nacional alcançam outro patamar. O design passa ser visto como um valioso bem intangível.

Em 1981 assume foi nomeado vice-presidente do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco e em junho do ano seguinte, viajou para a Itália para tomar posse como presidente da Reunião de Ministros da Cultura dos Países Latinos. Na ocasião sofreu um fulminante Acidente Vascular Cerebral (AVC) e veio a falecer em 13/06/1982. Logo após sua morte foi homenageado no Recife, dando nome à Galeria Metropolitana de Arte do Recife. Em 1999, o nome da instituição é alterado para “Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães-MAMAM”. Em seguida foi editado o livro E triunfo?, registrando seu pensamento e ação à frente dos organismos federais de cultura. Seu legado foi reunido no livro póstumo – A herança do olhar: o design de Aloísio Magalhães -, publicado pelo SENAC/RJ em 2003 e organizado pelo seu colega de trabalho João de Souza Leite, reunindo ensaios de vários autores. Na condição de artista plástico teve 20 exposições individuais, 16 coletivas e 21 póstumas no Brasil e no exterior.

Em 2014, o Itaú Cultural realizou, em São Paulo, uma grande exposição revendo toda sua obra. As salas expõem sua produção nas artes plásticas, no desenho e na política. São telas, fotografias de época e documentos sobre sua vida e influências artísticas. Atualmente, o IMGB-Instituto Memória Gráfica Brasileira mantém o site Aloísio Magalhães, trazendo o acervo do artista, dividido em 5 partes: 1 – trajetória pessoal, vida familiar, viagens e contatos internacionais; 2 – produção artística, ideias e concepção da arte; 3 – experimentos gráficos; 4 – o designer e sua vasta produção na área; 5 – o pensamento cultural, onde são retratadas suas ideias e o trato dos bens culturais no País.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS IV

Burle Marx (1909-1994)

Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo, em 4/8/1909. Artista plástico, pintor, designer, arquiteto, tapeceiro, cantor lírico para os amigos e um dos paisagistas mais renomados do mundo. Filho da recifense Cecília Burle e de Wilhelm Marx, judeu alemão, parente de Karl Marx. Aos 4 anos, a família se mudou para o Rio de Janeiro. Logo que os negócios (exportação e importação de couros) do pai prosperaram, foram morar num casarão do Leme, onde ele, aos 8 anos, começou a cultivar mudas de plantas e iniciar sua própria coleção.

Em 1928, teve um problema nos olhos e a família foi procurar tratamento na Alemanha, onde permaneceram até 1929. Lá entrou em contato com as vanguardas artísticas e conheceu o Jardim Botânico de Dahlen, onde encontrou a vegetação brasileira numa estufa. Ficou fascinado com a beleza das plantas tropicais. Mas o fascínio mesmo, neste momento, se deu com a pintura, a partir das visitas que fez às exposições de Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Van Gogh. Entusiasmado, passou a estudar pintura no ateliê de Degner Klem. De volta ao Brasil, em 1930, Seu amigo e vizinho Lucio Costa o incentivou a entrar na Escola Nacional de Belas Artes. Aí conheceu e fez amizade com alguns nomes que se destacariam na moderna arquitetura brasileira: Oscar Niemayer, Hélio Uchoa, Milton Ribeiro etc.

Seu primeiro projeto paisagístico se deu em 1932, a pedido do amigo Lúcio Costa, para o jardim da residência da família Schwartz. Mas o primeiro projeto público se deu em 1934, na Praça de Casa Forte, no Recife, onde projetou mais 5 praças mais tarde, todas tombadas pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No mesmo ano foi designado Diretor de Parques e Jardins do famoso DAU-Departamento de Arquitetura e Urbanismo, onde trabalhava Joaquim Cardoso, que viria a ser o calculista das obras de Niemayer. Neste cargo projetou diversos logradouros, fazendo uso intensivo da vegetação nativa e a se destacar na área. Em 1935, projetou a Praça Euclides da Cunha (Recife), que ficou conhecida como “Cactário Madalena”, devido a sua ornamentação com plantas da caatinga e do sertão nordestino. A partir daí passou a imprimir um caráter de brasilidade ao seu trabalho, livrando-se da influência europeia, onde predominam as azaleias, camélias, magnólias e nogueiras.

Para isso contava com o apoio de Luiz Nunes, Diretor do DAU e Atilio Correa Lima, gestor do Plano Urbanístico da cidade, e de simpatizantes como Gilberto Freyre, Cícero Dias e Joaquim Cardoso. Dois anos depois, o DAU partiu para um projeto mais ambicioso e deixou ao seu cargo o projeto do primeiro Parque Ecológico do Recife. Devido a sua atuação nesta cidade, é celebrada no Recife a “Semana Burle Marx”, no inicio do mês de agosto, conforme a Lei Municipal nº 17.571, de 2009. Passou 3 anos residindo no Recife e retorna ao Rio de Janeiro, em 1937.

Em seguida foi convidado para projetar os jardins do Edifício Gustavo Capanema (na época Ministério da Educação e da Saúde), no Rio de Janeiro. Idealizou um terraço-jardim que é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Com vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim apresentava uma configuração inédita no país e no mundo. Por essa época toma aulas de pintura com Cândido Portinari, de quem se tornaria assistente, e Mario de Andrade, no Instituo de Arte da Universidade do Distrito Federal.

No final da década de 1930 sua obra paisagística já está perfeitamente integrada à arquitetura moderna, uma tendência mundial que abrange as artes de um modo geral. Ele passa a integrar o grupo de arquitetos adeptos da escola alemã Bauhaus, influenciados pela corrente francesa liderada por Le Corbusier. Trata-se de um estilo humanista integrador de todas as artes. Em 1949 adquiriu o Sitio Santo Antônio da Bica, em Campo Grande (RJ), com 365.000 m², e passa a viajar pelo Brasil, junto com botânicos, em busca de plantas tropicais. O objetivo foi coletar e catalogar exemplares para reproduzir, no sitio, a diversidade fitogeográfica brasileira.

Sua participação na definição da Arquitetura Moderna Brasileira foi fundamental, tendo atuado nas equipes responsáveis por diversos projetos célebres. A partir daí, passou a trabalhar com uma linguagem bastante orgânica e evolutiva, identificando-a muito com vanguardas artísticas como a arte abstrata, o concretismo, o construtivismo. Como é, também, pintor, as plantas baixas de seus projetos lembram em muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos através dos elementos de vegetação nativa. Daí em diante sua parceria em trabalhos com Oscar Niemayer e Lúcio Costa toma impulso. Como arquiteto, inclui em seus parques e jardins elementos arquitetônicos como colunas e arcadas, encontrados em demolições; utiliza ainda mosaicos e painéis de azulejos, recuperando a tradição portuguesa.

A partir da década de 1950, passou a utilizar em seus trabalhos uma ordenação mais geometrizante, como ocorreu na Praça da Independência (João Pessoa), no Parque do Flamengo (RJ) ou Parque Ibirapuera (SP). Em 61 anos de carreira, assinou mais de dois mil projetos em todo o mundo e recebeu inúmeras honrarias. Mas a homenagem que mais o sensibilizou foi ver seu nome designando uma espécie de plantas tropicais: a Calathea Burle Marxii”, conhecida popularmente como “Calatea Burle Marx” ou “Maranta de Burle Marx”. Por essa época é contratado para projetar parques públicos em diversas cidades: 1950 – Parque Generalissimo Francisco de Miranda (Caracas, 1950), Jardins da Cidade Universitária da Universidade do Brasil (Rio de Janeiro, 1953), Jardim do Aeroporto da Pampulha (Belo Horizonte, 1953), Balneário Municipal de Águas de Lindóia (SP, 1954), Paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1955), Paisagismo da Praça da Cidadania da Universidade Federal de Santa Catarina (1960), Paisagismo para o Eixo Monumental de Brasília (1961), Paisagismo do Aterro do Flamengo (1968), 1968 – Projeta o paisagismo da Embaixada do Brasil em Washington, USA, 1970), Paisagismo do Palácio Karnak (Teresina, 1970), Paisagismo do aterro da Bahia Sul em Florianópolis (1971) .

Tais atividades não o afastaram da pintura, e desde a década de 1930 participou de 74 exposições individuais, 71 coletivas e 22 póstumas. Seu traço revela influências de Pablo Picasso e dos muralistas mexicanos. Nos retratos, aproxima-se de Candido Portinari e Di Cavalcanti. Segundo os críticos de arte, a partir de década de 1950 “a tendência para a abstração consolida-se e a paleta muda, passando a incluir muitas nuances de azul, verde e amarelo mais vivos. Em suas telas o trabalho com a cor está associado ao desenho, que se sobrepõe e estrutura a composição. Nos anos 1980, passa a realizar composições geométricas em acrílico, os contornos são desenhados com a cor, as telas adquirem um aspecto fluído, flexível e ganham leveza.

A dedicação à pintura é intensificada com sua mudança para o sítio Santo Antônio da Bica (RJ), em 1972, onde passou a cultivar 3.500 espécies de plantas do mundo inteito, criando um verdadeiro “Éden Tropical”. Em 1985, o sítio é doado ao governo federal, passando a chamar-se Sitio Burle Marx, mantido pelo IPAH e aberto a visitação pública. Constitui-se num valioso patrimônio paisagístico, arquitetônico e botânico, além de uma escola para jardineiros e botânico. Em São Paulo, é mantido desde 1994, o Parque Burle Marx, no bairro do Morumbi, com 168.000 m2 e mantido pela Fundação Aron Birmann em parceria com a Prefeitura da cidade.

Em 1982, recebeu o título Doutor honoris causa da Academia Real de Belas Artes de Haia, e do Royal College of Art, em Londres, dentre as tantas homenagens recebidas com nomes de diversos logradouros, escolas e instituições. Sua obra pode ser melhor consultada nos diversos livros publicados sobre suas contribuições ao paisagismo e nos livros de sua autoria: Arte e paisagem: conferências escolhidas. São Paulo: Nobel, 1987 e Arte e paisagem: a estética de Burle Marx. São Paulo: MAC/USP, 1997. Faleceu em 4/6/1994, no Rio de Janeiro.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXVII

Joaquim Cardoso (1897-1978)

Joaquim Maria Moreira Cardoso nasceu no Recife, em 26/08/1897. Desenhista, editor, engenheiro, professor e poeta. Ultimamente vem sendo reconhecido mais como poeta do que engenheiro, devido a reedição de suas obras e, talvez, ao fato de haver mais glamour em ser poeta do que ser engenheiro. Mas, ele mesmo enxerga uma certa similitude entre os dois afazeres: “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia.” Foi o engenheiro responsável pelos cálculos que permitiram a construção dos mais importantes monumentos de Brasília e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetados por Oscar Niemeyer, que chamava-o “o brasileiro mais culto que existia”.

A infância e os primeiros estudos se deram em várias escolas do bairro Zumbi e no Ginásio Pernambucano, onde se encontrava entre os redatores do jornal “O Arrabalde”, em 1913. Talentoso desenhista, no ano seguinte já trabalhava como caricaturista do “Diário de Pernambuco”. O interesse pela literatura esteve sempre presente e suas primeiras poesias datam de 1924. Mas o primeiro livro – Poemas – surgiu apenas em 1947, devido a insistência dos amigos, prefaciado por Carlos Drummond de Andrade, um de seus incentivadores.

Em 1915 entrou na Faculdade de Engenharia, mas só foi diplomado quinze anos depois, devido a morte do pai e as dificuldades econômicas que o levaram a trabalhar como topógrafo na Comissão Geodésica do Recife, em 1919. Nesse trabalho conheceu boa parte do interior do Estado, e adquiriu experiência vivendo isolado no mato e aldeias indígenas, expondo-se a situações perigosas na mata do Engenho do Meio. Em 1923 passou uma curta temporada, na casa de sua irmã, conhecendo o Rio de Janeiro.

De volta ao Recife, reencontrou Benedito Monteiro, colega redator na época de “O Arrabalde”, agora modernista fervoroso e declamador de poetas como Luiz Aranha, Sergio Milliet e Oswald de Andrade. Antes da Semana de Arte de 1922, já havia no Recife um movimento precursor do Modernismo. Vem daí o apelido de “São João Batista do Modernismo”, atribuído a Manuel Bandeira. Por essa época desfrutou a vida boêmia literária nos cafés do Recife ao lado dos amigos Osório Borba, Luiz Jardim, Ascenso Ferreira, Olívio Montenegro, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, então de volta dos EUA.

De 1924 a 1925 foi diretor da “Revista do Norte”, e apurou seu gosto pelas artes gráficas, chegando a elaborar vinhetas e um alfabeto, cujas letras eram inspiradas em motivos nordestinos. A revista publicou seu poema mais famoso e de maior impacto na época: Recife morto, “elaborando no interior da linguagem poética a fascinação lírica de duas realidades contrárias: o Recife da tradição e o Recife da manhã vindoura”. Em 1927 voltou à Faculdade e concluiu o curso de Engenharia em 1930. Em seguida foi trabalhar na Diretoria de Architetura e Urbanismo-DAU, primeira instituição governamental criada no Brasil com essa finalidade. Além de Luiz Nunes, coordenador, a DAU contava com Burle Marx, que aí projetou seus primeiros jardins, e dos arquitetos João Correia Lima e Fernando Saturnino de Brito. Em 1935, a DAU se fez representar na Exposição do Centenário da Revolução Farroupilha, em Porto Alegre, tendo Luiz Nunes projetado o “Pavilhão de Pernambuco”. Foram exibidas todas as obras e projetos e um grande número de maquetes e essa mostra representa a primeira exposição de arquitetura moderna no Brasil.

Esta experiência pioneira foi interrompida pelo Golpe de Estado de 1937. A partir daí ele passa a elaborar o cálculo estrutural de grande parte dos edifícios modernos do Recife e dar aula na Escola de Belas Artes, que ajudou a fundar, em 1939, exercendo a cátedra de Teoria e Filosofia da Arquitetura. Sobre este período, declarou: “Tive a oportunidade de colaborar com arquitetos que chegaram a aliar instintivamente a consciência perfeita do meio físico ao espírito tradicional, conseguindo, ao mesmo tempo, os melhores efeitos plásticos do concreto armado. …Foram utilizados todos os elementos arquitetônicos novos, a coberta-terrasse, o pilotis, as janelas de grandes vãos, a cor como elemento modificador do espaço e da iluminação, a estrutura independente etc., assim como o emprego de estruturas especiais para a realização de formas puras, que somente com o concreto se pode realizar e que são soluções mais livres e perfeitas… E se procurou integrar os edifícios na paisagem…” “Os volumes e superfícies vazados, que antigamente eram resolvidos com as venezianas, foram criados agora com o emprego justo e adequado de um material pernambucano por excelência: o combogó… Estas superfícies de combogó, atuando nas fachadas muito insoladas, como verdadeiro ‘brise-soleil’, produzem desenhos caprichosos de sombra e luz, de bom efeito decorativo.”

Em 1938 foi à Europa, viajando pela França, Portugal e Espanha em plena guerra civil. Na volta, reassumiu seu emprego no Departamento de Obras Públicas. No ano seguinte foi escolhido pelos alunos como paraninfo da turma da Escola de Engenharia de Pernambuco. Seu discurso na solenidade de formatura não agradou o interventor do Estado e foi “convidado” a fazer uma estrada em pleno sertão. Sua recusa custou-lhe a demissão do emprego. Passou um tempo curtindo a literatura e a vida boêmia com os amigos no Recife e, em 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar com Rodrigo de Melo Franco no Serviço do Patrimônio Histórico.

Em 1941, foi convidado por Oscar Niemeyer para fazer os cálculos estruturais no conjunto da Pampulha, um momento de grande importância na formação da Arquitetura Moderna Brasileira, sobre o qual ele se manifestou mais tarde: “O uso frequente das linhas curvas, no Cassino, na Igreja e na Casa do Baile, que se manifesta definitivamente na ‘forma aerodinâmica’… numa intenção de leveza, de desligamento do solo e das condições materiais, e mais ainda numa sugestão de efeito dinâmico. Compreendendo, já nessa época, que as imposições orgânicas a que está sujeita a boa arquitetura não definem categoricamente a sua forma; antes, deixam-na ainda indeterminada, ele alcança, partindo daquelas premissas indispensáveis, uma expressão mais pura, mais simples, mais fácil de ver, provocando também um movimento de admiração e surpresa.”

No Rio de Janeiro dos anos 40, a parceria Cardoso-Niemayer é efetivada, contando com outras amizades, que formam o “Grupo do Patrimônio”, com reuniões semanais na casa de Rodrigo de Melo Franco. Aproxima-se também do grupo, escritores pernambucanos residentes no Rio, em especial João Cabral de Melo, que todos os dias ia ao seu escritório, Manoel Bandeira, Eustáquio Duarte e Evaldo Coutinho. Foi esse grupo que promoveu a edição do seu primeiro livro, Poemas, em comemoração ao seu cinquentenário.

Antes de rumarem para a construção de Brasília, o Grupo do Patrimônio finca suas bases fundando a revista “Módulo”, em 1955, uma referência na moderna arquitetura brasileira. Aprofundando as afinidades políticas com Niemayer, ele passa a colaborar com o quinzenário “Paratodos”, dirigido pelos irmãos Jorge e James Amado, um jornal de cunho essencialmente político.

A partir de 1956, passa a dirigir a Seção de Cálculo Estrutural do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap. Trata-se de uma equipe de 5 calculistas e 12 desenhistas trabalhando em período integral na projeção dos principais edifícios da nova capital federal. Um dos desafios foi fazer a cúpula da Câmara dos Deputados parecer que flutuava, apoiando-a numa laje, como se estivesse apenas tocando-a. Para isso, pesquisou os mais diferentes tipos de estrutura. Dominando inglês, alemão, russo e francês, acessou as mais recentes experiências e casos analisados e resolvidos por diversos autores, físicos e matemáticos, o que exigiu muito esforço e audácia do calculista e sua equipe. Outros desafios eram a esbeltez dos perfis e reduzidas seções dos pontos de apoio das colunas dos palácios de pórticos e da catedral. Hoje quando se fala de Brasília, os gênios exaltados são apenas Niemayer e Lúcio Costa, esquecendo-se do calculista que fez aquelas belas estruturas permanecerem em pé.

Em 1967 aposentou-se como servidor público e permaneceu trabalhando no seu escritório até 1972, logo depois da tragédia ocorrida com o desabamento do Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, causando a morte de 68 operários. Uma obra do governo estadual, projetada por Niemayer e calculada no seu escritório. O fato deixou-o transtornado mesmo sendo provado que não teve culpa alguma no acidente. Mesmo assim, foi inicialmente condenado, em março de 1974, a dois anos e dez meses de prisão. Seu advogado Evandro Lins e Silva conseguiu provar sua inocência e foi absolvido. A tragédia e a peleja judiciária causaram-lhe uma profunda depressão, não encontrando mais condições psicológicas para o trabalho.

Pouco antes disso, em 1973, foi morar junto aos familiares, no Recife. Recebeu diversas homenagens e manifestações de solidariedade de entidades culturais e estudantis: eleito para a Academia Pernambucana de Letras, em 1975; sócio benemérito do IAB-Instituto dos Arquitetos do Brasil; doutor honoris causa pela UFPE; Prêmio Auguste Perret, da União Internacional de Arquitetos; denominação de diversos logradouros, escolas e teatro em Pernambuco. Ao completar 80 anos, em 1977, doou sua biblioteca de quase oito mil volumes à UFPE, passou uma temporada ao lado do seu amigo Niemayer, no Rio e retornou ao Recife, onde veio falecer em 4/11/1978. Deixou diversos livros inacabados, que foram publicados posteriormente. Entre as obras literárias, destacam-se: Poemas (1947), O coronel de Macambira: bumba meu boi (teatro) (1963), Poesia completa (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O interior da matéria (1976).

Perambulando pelo Recife encontro o poeta na ponte, que me concedeu esta foto

LITERATURA E MÚSICA

Muita gente ouviu João Cabral dizer em suas entrevistas que não gosta de música. Abriu uma exceção apenas para o flamenco, que conheceu em Sevilla, enquanto diplomata; e para o frevo, devido a sua origem pernambucana. Fiquei matutando: como é possível o autor de um poema como Morte e vida severina, musicado pelo Chico Buarque, não gostar de música? Vale dizer que se trata de uma canção que contribuiu significativamente para projetar estes dois expoentes da literatura e da música.

Só mais tarde, é que o espanto foi dissipado através de uma entrevista de Ferreira Gullar, dizendo isso não era verdade e que João Cabral, nessa questão, mentia com muito talento. Assim, passei a reparar nas entrevistas com escritores que as perguntas sobre os relacionamentos Literatura x Música são mais frequentes do que eu supunha. Fui, então, verificar a bibliografia referente a este relacionamento e deparei com uma quantidade razoável de livros, artigos, teses e textos publicados.

Desse modo, foi concebido o 6º volume da obra “Mistérios da criação literária”. Mas foi no decorrer de sua feitura que verifiquei que tais relações são mais antigas do que imaginamos; que a música pode ser entendida como uma “literatura cantada”; que o ritmo também é uma característica literária; que, enfim, são expressões de um mesmo sentimento humano e que têm finalidades semelhantes.

Porém, as diferenças são também marcantes: basta ver que a música, por ser imaterial, é “absorvida” imediatamente pelo sentido; enquanto a literatura para ser “inoculada” exige, além da leitura, o raciocínio. Não deixa de ser interessante ver a contrariedade dos poetas quando o público fica enaltecendo Caetano Veloso ou Chico Buarque como grandes poetas. Affonso Romano de Sant’Anna diz: “Os músicos aprenderam muito com a literatura, Chico, Caetano, Gil aprenderam muito. E praticaram isso. Mas há um mal-entendido em tudo isso, porque fica parecendo de repente que são os maiores poetas brasileiros. Então uma coisa que tem que se esclarecida é o seguinte: eles são muito bons poetas, com a música atrás. Se tirar a música e deixar só o texto, poucos textos deles vão resistir”.

Ferreira Gullar, de modo diverso, diz o mesmo: “Letra de música não é poema. Pode conter poesia. Como o poema a contém ou não. Mas são gêneros específicos. Uma letra de música precisa de música. Você pode encontrar exceções, mas na grande maioria dos casos uma letra de música necessita da música para alcançar sua expressão cabal. Existe uma música conhecidíssima, verdadeira obra-prima da MPB, que diz assim: “Podemos ser amigos, simplesmente / Amigos simplesmente, e nada mais”. Chama-se “Chuvas de verão; é da autoria de Fernando Lobo. Mas se suprimirmos a música, alguém poderia dizer que isso é poesia? Não é”

Esta é apenas uma das polêmicas que a coletânea de depoimentos enseja. São quase 100 respostas acrescido de farto material bibliográfico enfocando as tais relações. O livro foi lançado em 2015 e encontra-se esgotado no mercado livreiro. Mas ainda disponho de alguns exemplares, que poso fornecer aos interessados ao custo de R$ 30 reais (frete incluso) através do e-mail: literacria@gmail.com

Os seis volumes podem ser vistos e consultados, em parte, no site Tiro de Letra.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXVI


Manezinho Araújo (1910-1993)

Manuel Pereira de Araújo nasceu no Cabo de Santo Agostinho, em 27/09/1910. Cantor, compositor, jornalista e pintor. De origem humilde, passou a infância no bairro de Casa Amarela, no Recife, onde concluiu os primeiros estudos. Na adolescência conheceu Minona Carneiro, grande cantador de emboladas, seu incentivador, através do qual tomou gosto pelo gênero e veio a se tornar um dos maiores intérpretes da embolada. Trata-se uma forma musical do nordestino, cuja origem remonta à literatura de cordel. De forma bem humorada, o embolador discorre sobre pessoas ou fatos cantando vantagens como se fosse um cronista.

Ingressou como soldado no exército, participando da Revolução de 1930. Quando seu pelotão chegou à Bahia, a revolta já havia acabada e sua tropa recebeu como prêmio uma viagem para o Rio de Janeiro já na condição de sargento. Decidiu ficar no Rio, passou por alguns perrengues para sobreviver e começou a cantar emboladas nos cabarés da cidade. Durou pouco essa temporada e voltou ao Recife, numa viagem de navio. Em Salvador embarcou um quarteto famoso: Carmen Miranda, Almirante, o violonista Josué de Barros e seu filho Betinho. Durante a viagem, participou de algumas rodas musicais, foi incentivado pela cantora e recebeu a promessa de Josué de Barros de lançá-lo no Rádio.

Em 1933 voltou ao Rio de Janeiro e pouco depois começou a trabalhar na Rádio Mairynk Veiga, onde assinou um contrato de exclusividade, para atuar como cantador de emboladas no programa “Casé”, comandado por Ademar Casé. Em pouco tempo, passou a viajar para apresentações em outros estados e ficou conhecido como o ”rei da embolada”. Foi o primeiro artista brasileiro a gravar jingles para importantes empresas. Foi contratado para a campanha dos sabonetes “Lifeboy”, fazia propaganda do óleo de peroba ao mesmo tempo em que compunha e se apresentava nos programas de diversas rádios.

Até a década de 1950, gravou mais de 50 discos 78 rpms e quatro LPs e teve suas composições gravadas por diversos cantores(as). Pode-se afirmar que deve-se a ele o interesse dos sulistas pelo folclore e músicas nordestinas. Além da música, participou de vários filmes e cinejornais da Atlântida, seja cantando emboladas ou contando causos. Era também um talentoso humorista. Em 1942, gravou com o cantor e compositor mineiro De Morais a valsa Minas Gerais, que se tornaria o hino popular do estado de Minas Gerais. Em 1945 gravou a música Dezessete e setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel, um de seus grandes sucessos. Com Fernando Lobo, gravou Cuma é o nome dele?, Maria roxa, Pra onde vai valente?, De jeito nenhum, coroné, Vatapá, Amô de rede, Tamanqueiro, Palmatória e Vapô de caragola; com Ismael Neto, compôs Suspiro que vai e vem; com Hervê Clodovil, compôs Rua do sol, Tem dó e A saudade é de matar. Em 1956, gravou mais um de seus grandes sucessos, a embolada Cuma é o nome dele, que serviu de prefixo para seus programas e apresentações.

Em 1957, chateado com diversos aspectos ligados ao meio artístico, entre os quais a autopromoção dos fãs clubes, decidiu “pendurar as chuteiras”, com um grande show no Tijuca Tênis Clube, com cerca de 15 mil pessoas, entre amigos e admiradores. Com o dinheiro arrecadado aproveitou sua fama de brincalhão e hospitaleiro para abrir um restaurante – Cabeça Chata – em Copacabana, onde a cozinha era comandada por sua esposa dona Lálá, e ele divertia a clientela com suas cantorias. O restaurante ficou famoso com alguns pratos, particularmente a “galinha ao molho pardo” e o “bobó de camarão”. Chegou a ser frequentado por gente famosa no âmbito nacional e internacional.

Em 1962, fechou o restaurante e mudou-se para São Paulo, onde reabriu o Cabeça Chata na Rua Augusta. Mas o empreendimento não durou muito; fechou o restaurante e passou a dedicar-se a pintura. A esposa adquiriu uma gravura inglesa para enfeitar a parede. Ele reparou bem, e disse: “Melhor do que isso, eu faço”. Dona Lalá, então, desafiou-o: “Então faça!”. Começou com aquarela e guache sem orientação alguma e dizendo-se “ceguinho em técnica”. Demonstrando algum jeito para a coisa, ganhou da esposa um conjunto de tintas a óleo e passou pintar cenas da infância, e da vida retratando cidades, paisagens, palafitas, barqueiros, pescadores etc.

Em pouco tempo passou de cantor famoso a pintor conceituado em seu estilo primitivo. Em 1963, deu-se a primeira exposição individual, em São Paulo, na Galeria Astréia e, dois anos depois, ocorre outra individual, na Galeria Capela. Publica, no Rio de Janeiro. Em 1968, sai publicado o álbum de serigrafias Meu Brasil, com apresentação de Aldemir Martins. Ao todo, realizou mais de 30 exposições, onde os quadros alcançaram boa vendagem. Alguns dos quadros se encontram em diversos museus do Brasil e no Museu Calouste Gulbenkian , em Lisboa. Segundo os críticos de arte, são três as características recorrentes em sua pintura: a presença das linhas compositivas bem definidas, traçadas com clareza; a cadência marcada, a distribuição marcada de elementos pela superfície da pintura e a escolha de temas ligados ao universo popular: a colheita, a religião, a feira, a favela.

Foi nesta condição de pintor renomado que o “rei da embolada” faleceu em São Paulo, em 23/05/1993, aos 83 anos. Em 2010, Geraldo Maia compilou alguns de seus sucessos e gravou o CD “Ladrão de purezas”, para que seu centenário não passasse em “brancas nuvens” da música. Por esta época, Inconformado com o descaso e o pouco conhecimento do compositor/pintor em sua própria terra, o jornalista José Teles passou a investigar mais sua obra e encontrou apenas um pequeno livro – Um certo Manezinho Araújo – escrito por Bernardo Alves e publicado pela Uzyna Cultural, contendo a vida, discografia e uma entrevista do compositor em 1978. Sua pesquisa resultou no livro lançado em 2013, Cuma é o nome dele? – Manezinho Araújo, o rei da embolada, pela Editora Bagaço. A biografia musical de uma das figuras mais populares do Brasil na época de ouro dos programas de rádio, no período 1930-1954.

LITERATURA E POLÍTICA

Bem sei que não estamos em tempos de falar de amenidades na política. Mas como já falei das relações política-polícia, me autorizo a falar agora da literatura para concluir a série dos “Mistérios da criação literária”, que venho expondo nesta coluna. O fato é que este relacionamento existe e tem causado polêmica e muitos debates: Qual a função social da literatura? Ela deve ser politizada? Qual o papel social do escritor? A literatura está acima destas coisas mundanas? E por aí vai.

A discussão sobre o engajamento político do escritor não é nova e tem resultado uma quantidade razoável de estudos e e debates no meio acadêmico e fora dele. Nas entrevistas com os escritores, o posicionamento política é solicitado frequentemente. Segundo o crítico literário João Gaspar Simões “para aqueles que afirmam hoje que a literatura é m instrumento de difusão de ideias reivindicadoras dos direitos dos oprimidos, é evidente que o escritor é um intérprete de um estado de espírito protestativo e que a sua missão não passa de subsidiária”.

É isto, a literatura pode ser subsidiária se quiser. Mas, se quiser também pode ser mais que subsidiária. “Papel e tinta aguenta tudo”, já diziam os antigos. Como já afirmei, o objetivo da série é levantar as opiniões de centenas de escritores sobre as tais relações para termos uma ideia do que se passa em suas cabeças. A diversidade de opiniões aqui é enorme, tal como nos outros volumes. Alguns escritores, notadamente politizados, expressam uma opinião contrária ao envolvimento político da literatura; outros colocam a política apenas como um um dos temas, entre tantos, da literatura; outros acham que a literatura tem uma função política e deve sempre trazer uma “mensagem” social.

Vejamos algumas: Rachel de Queiroz: A arte engajada é uma prostituição da arte. Todo artista sincero não pode colocar uma arte a serviço de uma pregação”. Octavio Paz: “É um ingenuidade tratar de mudar o mundo com um poema ou romance! O que posso fazer como escritor é iluminar um pouco esta ou aquela região da realidade”. Julio Cortázar: “Eu creio numa literatura comprometida politicamente. A obra literária realizada com essa preocupação tende a restringir-se, a decrescer de nível, a estreitar os seus horizontes”. Juan José Saer: “O importante, para mim, está nos valores literários. Gosto de escritores de direita, como Celine ou Borges. Não de Vargas Llosa, mas não porque é um escritor de direita, e sim porque suas formas literárias me parecem caducas”. Ismail Kadaré: “Não sou um escritor eminentemente político, mas acho que tenho o dever de falar do destino trágico do meu povo num momento em que ele corre o risco de ser simplesmente exterminado”. George Orwell: “Nenhum livro é genuinamente livre de preconceito político. A percepção de que a arte não deveria ter nada a ver com política é, em si mesma, uma atitude política”. Gabriel Garcia Márquez: “A política é uma atitude moral. Acho que se deve defender um elenco de valores essenciais… Sou político de emergência. Se eu não fosse latino-americano não estaria na política. Mas como um intelectual pode sentir-se feliz dando-se ao luxo de discutir o destino da alma, quando os problemas existentes são sobrevivência física, saúde, educação, ignorância etc.?”

Para complementar, o livro traz um levantamento bibliográfico com resumos sobre estas relações. Este é o 5º volume da série editada em 2007, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e se encontra esgotado no mercado livreiro. Mas ainda disponho de alguns exemplares, que posso fornecer ao custo de R$ 25 reais (frete incluso). Os interessados devem entrar em contado através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXV

José Leite Lopes (1918-2006)

José Leite Lopes nasceu no Recife, em 28/10/1918. Físico e renomado cientista, fundador de importantes organismos dedicado às ciências. É reconhecido internacionalmente por suas contribuições à física teórica. Filho de José Ferreira Lopes e de Beatriz Coelho Leite, perdeu a mãe três dias após o nascimento e foi criado pela avó junto com os dois irmãos. Realizou os primeiros estudos no Colégio Marista, e iniciou a formação acadêmica na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939, onde se graduou em Química industrial. Em 1940 ingressou no curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio Janeiro, concluído em 1942.

Durante o curso de Física, lecionou no Instituto Lafayette e estagiou com Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica. Ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Zerrener, em 1943, para estudar e trabalhar no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia da USP. No ano seguinte iniciou o doutoramento na Universidade de Princeton, USA, onde trabalhou com alguns cientistas, como Einstein, Jauch, Pauli e Reichenbach. Sua tese de doutorado foi orientada pelo Prof. Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física). Em 1946 recebeu o título de PhD e foi nomeado professor de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia, onde realizou pesquisas em Eletrodinâmica em 1947. Manteve-se neste cargo até 1969, quando foi cassado pelo regime militar.

Em 1949, junto com César Lattes e outros pesquisadores, criou o CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, e no mesmo ano foi convidado por Oppenheimer para trabalhar no Advanced Study Institute de Princeton. Lá, junto com Feynman, publicou um trabalho sobre a descrição do deutron, pela teoria pseudo-escalar, com tratamento adequado à singularidade da força sensorial na origem. Em seguida, foi secretário científico da 1ª Conferência Internacional sobre Aplicações Pacíficas da Energia Atômica. A partir daí ficou conhecido também como pacifista, mantendo uma participação política.

A consagração internacional viria com a publicação do seu famoso artigo A Model of the Universal Fermi Interaction (1958), onde concluiu que se as interações fracas têm esta forma e se elas são os resultados da troca de bósons vetoriais entre os férmions, então estes bósons deveriam pertencer a uma mesma família, como os fótons que são também vetoriais. Neste trabalho foi previsto e provada a existência do chamado bóson Z0, uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo de um átomo e criou uma equação abrindo caminho para a unificação eletrofraca. Algumas hipóteses fundamentais apresentadas serviram de base para estudos posteriores e foram confirmadas pelos cientistas Abdus Salam, Steve Weinberg e Sheldon Glascow, premiados (1979) com o Nobel de Física, pela publicação de um trabalho bastante semelhante ao desenvolvido por ele 20 anos antes, o que demonstra a injustiça política que permeia a premiação da Academia Sueca.

Além de pesquisador incansável, foi também articulador, fundador e diretor de destacadas instituições, tais como: CNEN-Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, FINEP- Financiadora de Estudos e Projetos, SBF-Sociedade Brasileira de Física, ELAF-Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro, para onde convidou para dar cursos físicos da estatura de Feynman, Yang, Laguarrique e Puppi. Para ele, a física a “mãe das ciências” e lutou para que os países subdesenvolvidos desenvolvessem mais pesquisas. Sempre se mostrou crítico à falta de incentivos à ciência no Brasil. Devido ao senso crítico, não era bem visto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Com o Golpe Militar, foi acusado de manter ligações com o Partido Comunista, sendo obrigado a viver como exilado na França. Em Paris, a convite de Maurice Lévy, foi professor da Faculdade de Ciências de Orsay até 1967. No ano seguinte retornou ao Brasil e passou a organizar o Instituto de Física da UFRJ, onde foi nomeado Diretor. As condições políticas do Brasil recrudesceram e ele foi novamente perseguido pelos militares. Foi vitimado pelo famigerado AI-5, teve os direitos políticos cassado e foi aposentado compulsoriamente em 1969. Prestigiado no exterior, aceitou o convite para lecionar na Carnegie-Mellon University (1969-1970) e na Universidade de Strasbourg, onde ficou de 1970 a 1986, onde acumulou o cargo de Vice-Diretor do Centro de Recherches Nucleaires de 1975 a 1978.

Publicou vários livros adotados em universidades de todo o mundo, tais como Fondements de la physique atomique (Hermann, 1967), Lectures on symmetries (Gordon & Breach, 1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983), Theorie relativiste de la gravitation (Masson, 1993) e Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração com B. Escoubès, Masson, 1995). Em 1989, recebeu da UNESCO o “Science Prize”, único físico brasileiro detentor dessa prestigiada premiação. Outras condecorações: Medalha da Universidade de Strasbourg (1986), Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasília, 1994), Medalha Nacional de Ciências, Alvaro Alberto(1989).

Seu colega Amós Troper diz que “Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada”. Mas poucos conhecem seu lado artístico, desenvolvido a partir da década de 1950. E não se trata apenas de uma atividade de lazer destinada a descarregar as tensões da vida. “Se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a ‘desespiritualização’ moderna e a morte”. São desenhos e pinturas, onde prevalecem paisagens, casario, figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais, e cujo colorido revela alguma influência de seu conterrâneo Cícero Dias. Parte de sua produção artística foi apresentada na exposição “Espaços da Catedral Imaginária”, realizada pelos seus colegas, no hall do CBPF, em outubro de 1998, com a curadoria de Miriam de Carvalho e Francisco Caruso. Outra exposição intitulada “Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes”, apresentando novas obras foi realizada pela Academia Brasileira de Ciências, em novembro de 2003, com a curadoria de Celeste Nogueira Campos.

Seu retorno definitivo ao Brasil se deu em 1985, com a promulgação da Anistia. Voltou a dirigir o CBPF, onde permaneceu como Pesquisador Titular até fins de dezembro de 2005, quando foi internado no Hospital Samaritano, devido a complicações de uma endoscopia. Faleceu em 12/06/2006, após seis meses em coma, por falência múltipla dos órgãos. Seu corpo foi enviado para velório no CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que ele ajudou a fundar e foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

Clique para acessar: Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas

GALINHA AO MOLHO PARDO

Na década de 70 ouvi uma história que Paul Bocuse esteve por aqui, na década anterior, para conhecer nossa culinária regional. Após degustar vários pratos, elegeu dois em condições de figurarem no cardápio da culinária internacional: Feijoada e Galinha ao molho pardo. No primeiro, acertou em cheio. E no segundo, errou em cheio?

Onde ele comeu essa galinha? Como era servido o molho pardo? A “iguaria” pode ter sido servida no famoso restaurante “O Cabeça Chata”, comandado por Manezinho Araújo, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, onde permaneceu até 1963. Dizem que lá serviam uma boa galinha ao molho pardo. Não cheguei a frequentar o restaurante, mas conheço o molho pardo desde criança.

Ajudava minha mãe, segurando as asas da galinha, enquanto ela prendia a cabeça e cortava o pescoço, previamente depenado, com uma faca afiada. O sangue escorria num prato fundo com umas três colheres de vinagre, evitando assim que coalhasse. A galinha esperneava, o sangue jorrava, e em poucos minutos estava morta. Era uma cena corriqueira nas famílias nordestinas, porém difícil de se executar hoje em dia.

Em seguida, o molho era colocado de lado e partia-se para o preparo da galinha: O cozido era como o de uma galinha qualquer, ao molho e bem temperada com coentro, cebolinha, cominho e outros temperos. A gordura que se desprendia da galinha melhorava bastante o molho que a cozinhava e dava-lhe um sabor especial. Depois de umas duas horas de cozimento o prato estava pronto para comer, e somente umas poucas pessoas se lembravam do molho pardo.

Ele ficava numa vasilha num lado distante da mesa, pois havia gente que não podia nem ver aquele molho escuro, grosso. Outros, como eu, meu pai e minha mãe, adoravam o molho e com ele lambuzávamos as coxas da galinha antes de degluti-la. Era comer e lamber os beiços, como se dizia naquela época.

Fazer o molho era bem fácil; a dificuldade estava em obter o sangue vivo da galinha. Uma vez cozida, retira-se umas duas ou três conchas do molho e coloca-se junto com o sangue numa pequena panela e põe-se a cozinhar. Salga a gosto e em cinco minutos está pronto o molho pardo.

Anos depois, vendo algumas galinhas no quintal da minha sogra no interior de São Paulo, cuidei para que matassem a galinha daquela maneira e me dispus a fazer o molho. A princípio acharam estranho, primitivo e mesmo repugnante aquele modo de matar a galinha: “isto é um assassinato”, disseram alguns. Mas, quando o prato estava na mesa, esqueciam-se do “crime” cometido e comiam extasiados os pedaços de galinhas lambuzados com o molho pardo.

Assim, me acostumei a fazer a tal galinhada em São Paulo (capital), onde podia encontrar galinha caipira em qualquer granja. Escolhia a ave e pedia para matar, instruindo como obter o sangue em separado. Com o passar do tempo, ficou difícil encontrar galinha caipira viva. Algumas granjas têm, mas não matam na hora; outras não as vendem vivas. Levar para casa, extrair o sangue quando não se tem um quintal torna a operação mais difícil ainda.

Nos restaurantes nem se fala disso. Depois do “Cabeça Chata”, nunca mais ouvi falar em servirem o prato em São Paulo ou no Rio de Janeiro. É um prato que se fazia antigamente, mas que ainda permanece na lembrança de muita gente. Certa vez ouvi falar de um restaurante em Natal (RN) que servia o prato, mas era muito caro; era um prato chique.

Outra vez, encontrei o prato servido num boteco de Caruaru. Era um prato comum, igual o PF (prato feito) que faziam e cobravam o mesmo preço. Fiz o pedido e fiquei salivando enquanto esperava. Não foi boa a experiência: a galinha não era muito caipira e o molho veio junto misturado com os pedaços de carne. Reclamei com o dono do boteco que não era assim que se servia, o molho pardo tinha que vir separado para o freguês utilizá-lo ao seu gosto. Mas não teve jeito. Só serviam daquele modo.

Hoje é quase impossível comer a galinha ao molho pardo em São Paulo ou no Rio de Janeiro. O Governo proibiu a venda da galinha viva e não se pode obter o sangue para fins comestíveis, apenas para industrialização. Ouvi dizer que procurando muito pode-se encontrar um local onde servem o prato, mas é clandestino e, portanto, ilegal. É a intromissão do governo em nossa cozinha, impedindo que se deguste um bom prato.

Voltando ao Paul Bocuse, se ele viesse aqui hoje e quisesse comer aquele prato, seria difícil, teria que incorrer num delito. Dizem que o prato é de origem francesa, levado para Portugal e daí para cá na época colonial. Como se vê estamos diante de um típico caso onde a modernidade não incorporou, ou melhor, desconheceu totalmente e destruiu a tradição com a mãozona do Governo. Hoje eu vivo na cidade de São Paulo, tenho bem viva a memória gustativa do molho pardo, gostaria muito de lambuzá-lo numa coxa de galinha, mas estou proibido por duas leis: uma proíbe a venda da ave viva; outra proíbe o uso doméstico do seu sangue.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXIV

Orlando Dias (1923-2001)

José Adauto Michiles nasceu no Recife, em 01/08/1923. Compositor e cantor representante do estilo chamado hoje de “brega-romântico”. Dedicou-se à música sob a influência de seu avô, violonista e poeta. Iniciou a carreira artística em 1938, num programa de calouros, na Radio Clube de Pernambuco, imitando Orlando Silva, o “Cantor das multidões”.

Casou-se no inicio da década de 1940 e mudou-se para o Rio de Janeiro. Conseguiu um contrato na Radio Mayrink Veiga, mas não ficou no Rio por muito tempo. Em 1946 voltou ao Recife e pouco depois viúvo. Desiludido, decidiu viver de novo no Rio, em 1950, onde veio a gravar seu primeiro disco pela gravadora “Todamérica”, em 1952. Tinha um estilo próprio composto de um gestual exagerado, teatral, com o lenço branco acenando para o público, muitas vezes se ajoelhando e declamando versos emotivos ou dando um “muito obrigado minhas fãs”. Para melhorar o visual romântico da época vestia roupas desalinhadas.

De 1953 em diante foi se afirmando como cantor romântico e gravando sucessos como o samba Não te quero bem nem mal, de J.Cascata e Leonel Azevedo; o fox-trote Façamos as pazes, de Luiz de França e Ubirajara Nesdan (1954); o baião Perigo de morte, de Gordurinha e Nelson Bastos (1955). Em 1959 estreou na gravadora Odeon com os boleros Se eu pudesse, de Valdir Machado e Nas tuas horas de tristeza, de Cid Magalhães. Na década de 1950 ainda não havia o que chamamos de MPB. O que existiam eram cantores ecléticos, que gravavam para todos os gostos, dos mais refinados aos menos exigentes. Foi aí que surgiram os primeiros cantores de um tipo de música popularesca, de sentimentalismo exagerado que, tempos depois, passou a ser chamado de brega-romântico.

Em 1960 atinge o auge de sua carreira e passa a ser cobiçado pelos compositores românticos. Gravou a guarânia Minha serás eternamente, de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal. No ano seguinte, lançou o bolero Tenho ciúme de tudo, um grande sucesso, de Valdir Rocha, de quem gravou outros boleros. Outro de seus grandes sucessos foi Perdoa-me pelo bem que te quero. Em 1963, gravou o LP Se a vida fosse um sonho bom, muito bem recebido pelo público, trazendo além da faixa-título, Beija-me, ambas de Valdir Machado. Para animar o carnaval de 1965, lançou o samba Saravá, de Zilda Gonçalves e Jorge Silva. No ano seguinte gravou mais um LP pela Odeon: O ator da canção, incluindo músicas de Arsênio Carvalho (Sonho de amor) e Ramirez (Uma esmola).

Junto com Anísio Silva e Altemar Dutra, ele fazia a tríade do gênero brega-romântico que influenciou músicos como Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Reginaldo Rossi. Em 1968, lançou o LP “O Atual”, pela Odeon , destacando as músicas Amor desesperado, de Dino Ramos e Perdoa-me, de Manzareno. Em 1973, gravou mais um LP pela Odeon, intitulado “O cantor mais popular do Brasil”, com destaques para Leva-me contigo, de sua autoria, e Tu partiste, de Pedrinho. Na década de 1980 passou a viajar pelo interior do país para divulgar seus discos e apresentação em rádios locais. Tais viagens estenderam-se em seguida pelo exterior: França, Holanda e Itália. Em 1997, regravou vários sucessos em CD intitulado “Vinte supersucessos”. Em 2000, teve dois discos relançados pela EMI Music dentro da Série BIS, comprovando uma carreira plena de sucessos.

Ao longo da carreira, vendeu cerca de 6 milhões de discos. Ele vivia com sua filha no Rio de Janeiro, e nos últimos anos sofria do mal de Parkinson. Faleceu em 11/08/2001, a 10 dias de completar 78 anos, vítima de um infarto.

LITERATURA E CINEMA

O cinema está embutido na literatura antes mesmo de seu surgimento no final do século XIX. Como assim? Expliquemos: Existe uma teoria limite, segundo a qual há uma essência do cinema, de um “pré-cinema” embutido em alguns textos literários “anteriores à forma de expressão cinematográfica, e que teriam como especificidade o fato de os escritores ordenarem o relato em função da incidência do olhar do narrador, da sua ‘ocularização’ da cena a narrar”, conforme o escritor espanhol Jorge Urrutia . Desse modo, a narrativa cinematográfica estava apenas aguardando o aparecimento de uma tecnologia para concretizá-la.

O surgimento da fotografia poucos anos antes foi o primeiro passo. A partir daí foi só “passar’ ou exibir 24 fotogramas por segundo através de um aparelho apropriado para dar a ideia de movimentação das imagens. Assim, temos o cinema numa explicação bastante simplificada. Está visto, pois, que as relações entre o cinema e a literatura são umbilicais e que, desse modo, o cinema é o segundo filho da literatura. O primeiro é o jornalismo, conforme já vimos aqui. Diante disso, passei a coletar os depoimentos dos escritores e cineastas sobre o relacionamento destas duas artes.

O trabalho resultou na edição do volume 4 da série “Mistérios da criação literária”, que venho divulgando aqui, publicada em 2007, sob o patrocínio da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. São 80 depoimentos seguidos de uma pesquisa bibliográfica enfocando tais relações, onde os autores desfilam suas impressões sobre as influências mútuas ocorridas ao longo do tempo. Então quer dizer que o cinema também influencia a criação literária? Sim, a partir de dado momento, aquelas longas descrições de paisagens dos antigos romances tornaram-se anacrônicas. O cinema faz isto muito melhor. Há quem admita o roteiro cinematográfico como um gênero literário e até existem escritores que trabalham o texto com um olho na literatura e outro no cinema, havidos por verem sua obra filmada.

Na opinião do cineasta Jorge Furtado, é natural que alguém “se decepcione quando vê as imagens criadas pelo cineasta e diga: gostei mais do livro”. Pois, ao ler o romance, cada leitor cria suas próprias imagens, que podem ser mais belas ou mais bem feitas do que aquelas que o cineasta imaginou. Vale ressaltar que esta é a opinião de um cineasta. Mas, existem também escritores apologistas do cinema como arte. Henry Miller, por exemplo, chega ao cúmulo do absurdo em saudar a substituição da literatura pelo cinema: “O cinema é o mais livre de todos os meios de comunicação, pode-se realizar maravilhas com ele. De fato, eu iria saudar o dia em que os filmes substituíssem a literatura, quando não houvesse mais necessidade de ler”.

Está visto que o autor disse isto no calor de uma entrevista para provocar debate ou brincar com o entrevistador. As duas artes convivem muito bem e estão sempre fazendo intercâmbios em seus modos narrativos. Muitos dos depoimentos e a bibliografia podem ser consultados no site Tiro de Letra. Quanto ao livro, encontra-se esgotado no mercado livreiro, mas disponho de alguns exemplares que podem ser adquiridos ao custo de R$ 25 reais (porte pago) através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXIII

Lula Cardoso Ayres

Luiz Gonzaga Cardoso Ayres nasceu em Rio Formoso, em 26/09/1910. Pintor, desenhista, ilustrador, cenógrafo, fotógrafo, programador visual e professor. Seu talento artístico surgiu na infância e foi incentivado pelo pai João Cardoso Ayres, um dos donos da Usina Cucaú e mais tarde (1930), junto com outros acionistas paulistas, da Companhia União dos Refinadores. Era conhecido na região como o “Rei do Acúcar”. Aos 12 anos estudou desenho e pintura com o artista alemão Heinrich Moser, cujo aprendizado foi fundamental em sua carreira.

“Considero muito importante tudo que aprendi, não como aluno, mas como ajudante do mestre Moser. Ele nos ensinava desde como se deve lavar um pincel, principal instrumento de trabalho do pintor, até as técnicas de pintura. Dizia-me sempre não entender um pintor de uma só técnica – o óleo, a aquarela, o guache ou o bico de pena. Mandava-nos fazer tudo, até pintar em vidro, retocar vitrais que então fazia. Esse meu período junto a Moser foi de 1922 até fins de 1924.”

Em 1925 foi morar em Paris, onde tomou contato com o movimento “Art déco” na Exposição Internacional de Artes Decorativas. Este movimento modificou radicalmente os rumos das artes decorativas e influenciou. Em 1930 retornou ao Brasil e passou a viver no Rio de Janeiro. Frequentou, como aluno ouvinte, a Escola Nacional de Belas Artes, tendo como professores Rodolfo Amoedo e Carlos Chamberlland, que exerceram grande influência em sua obra. Pouco depois, conheceu Cândido Portinari, de quem se tornou amigo e discípulo. Abriu um ateliê no Bairro Laranjeiras e passou a exercer a veia artística em termos profissionais.

Por essa época, passou a se interessar, também, por cenários para teatro. Trabalhou na companhia de Procópio Ferreira, que lhe deu carta branca para suas criações. Em fins de 1932, com a crise do açúcar, voltou ao Recife a pedido do pai, para ajudar na administração da usina. Não se deu bem nessa atividade e passou a pesquisar a realidade regional, a fazer documentação fotográfica verificando tipos, cenas, costumes e incorporando a fotografia ao seu trabalho de desenho e pintura. Tal vivência lhe possibilitou uma estreita ligação com os temas locais No ano seguinte, já entrosado com os artistas do Recife, como Cícero Dias, passou a realizar exposições e agitar a vida cultural do Recife. Em 1934, participou da exposição de pintura do Congresso Afro Brasileiro, organizado por Gilberto Freyre, com quem fez amizade e recebeu influências “Realmente a obra dele, naquele tempo, abriu-me uma porta que ainda estava fechada, chamando a atenção para as coisas que estavam mais perto da gente. Para o conteúdo social…

Suas exposições individuais e coletivas se expandem para outras capitais do país e no exterior. Porém, em 1945 passou por alguns perrengues financeiros, e retornou ao Recife. Executou cerca de 100 painéis e murais em várias cidades; fez ilustrações para livros; fundou um curso de desenho para crianças e foi professor na Escola de Belas Artes da UFPE. A partir de 1950 sua produção volta-se para o abstracionismo, porém sem abrir mão da figuração. Tal mudança se dá com a participação nas primeiras Bienais de São Paulo, demonstrada nas telas Ex-Votos e Três Ex-Votos, que são exemplos da solução encontrada nessa fase, que trabalha sobre a figura para chegar a uma síntese.

Na década de 1960 seu nome é reconhecido em âmbito nacional com a amostra retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo, organizada por Pietro Maria Bardi. Seus trabalhos incorporam o figurativismo e o abstracionismo. Figuras do carnaval recifense, do frevo, maracatu, bumba meu boi e cortadores de cana são recorrentes em suas pinturas. Para Gilberto Freyre, “O que ele desejava era impregnar-se de povo, de região, de tradição… Nenhum pintor brasileiro de qualquer época, dentre os maiores, que tenha sido ou seja ao mesmo tempo tão moderno e tão da sua terra; tão da sua gente; e, ainda, tão sobrecarregado do que há de misterioso, de irracional, de espiritual na vida, no passado, nos sofrimentos, nas alegrias, nas esperanças, nas ansiedades dessa sua gente”.

Em 1978 sua obra é analisada no livro Lula Cardoso Ayres: Revisăo Crítica e Atualidadedo crítico de arte Clarival do Prado Valladares. Suas obras são expostas nos grandes museus do mundo. Em 1984, foi convidado pelo Metrô do Recife para pintar murais em suas estações, que se constituem em suas últimas obras. Faleceu no Recife, em 30/06/1987. Em 1993 foi criado o Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres, em Jaboatão dos Guararapes. Trata-se do único museu privado brasileiro dedicado a um único artista plástico. Seu acervo é constituído por mais 300 trabalhos entre pinturas, fotografias, ilustrações, trabalhos gráficos, e mais de 50 projetos de suas cenografias, painéis e murais.

POLÍCIA, POLÍTICA E JUSTIÇA NO BRASIL

As palavras “police’ e “policy”, não obstante a semelhança e origem comum, são distintas e os falantes da língua inglesa sabem bem disso. Como diz o ditado “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra”. No entanto, cá entre nós há uma certa confusão e uma mistura quanto ao sentido destas palavras, fazendo com se confundam no linguajar popular. O responsável pela confusão é o próprio Governo brasileiro e parte do povo interessada em misturar os conceitos. Por exemplo: uma manifestação publica de protesto ou reivindicação de direitos é um caso político. Mas quando os “Black box” encapuçados se misturam entre os manifestantes e começam o quebra-quebra de lojas, bancos e patrimônio público, trata-se de uma caso de polícia.

Veja-se o caso do “mensalão”. Se fizermos uma pesquisa de opinião publica para saber se o caso é de polícia ou política, dirão que é de politica porque ocorreu no âmbito do congresso nacional. Mas está claro que é um caso de policia, não importando onde ocorreu. Tanto é que a polícia prendeu algumas pessoas e uns poucos políticos, a justiça condenou-as e a política seguiu seu caminho. Depois veio o caso do “petrolão”, um prosseguimento em escala maior do “mensalão”, conforme as investigações confirmaram. Este caso ajudou mais ainda a embaralhar os conceitos, devido ao fato de envolver e prenderem mais políticos que o anterior. Ao final, o caso policial resultou num grande caso político: o impeachment da presidente da República. Isto reforçou o aspecto político e contribuiu bastante para que o caso ficasse na área política.

De novo, não importa onde o caso se deu. Roubo é roubo independente do onde ocorreu. A política prossegue com novo presidente, e quando tudo parecia estar se resolvendo surge um novo caso de polícia com o escândalo da JBF, o maior produtor de carne do mundo. Neste caso, o embaralhamento entre os conceitos de polícia e política ficou mais evidente. Quase todos os políticos foram corrompidos, fazendo dos atos políticos moeda de troca com empresários inescrupulosos. O caso está levando a um novo impeachment da presidência da República. Agora a confusão é total porque envolveu todos os partidos políticos. A polícia federal entrou em campo com a “Operação Lava-Jato”, prendeu muitos políticos e grandes empresários e a justiça foi solicitada a arbitrar uma saída.

Assim, o que se vê agora é o descrédito total da política, a proeminência da polícia prendendo políticos e empresários e a Justiça se equilibrando numa corda bamba na busca de uma saída para a crise generalizada que assola o País. Para completar o quadro sombrio que se apresenta, a população ou grande parte dela está confusa e se digladiando entre si diante dos casos de polícia, confundindo com política. Mas porque a Justiça está numa “corda bamba”? Por que infelizmente ela tem um viés político. Os magistrados são indicados por políticos, e desse modo voltamos ao inicio do problema. Quanto a polarização do povo dividido no julgamento dos casos sem saber se é um caso de polícia ou política, a confusão tem se agravado ainda mais, devido ao comportamento de alguns políticos querendo resolver o problema fora da arena política ou da Justiça.

Agora há pouco, em 29 de maio, num evento organizado pela Fundação Perseu Abramo, órgão de formação do Partido dos Trabalhadores, um seminário intitulado “Estado de Direito ou Estado de Exceção” (divulgado aqui em 7 de junho) o senador Roberto Requião conclamou a plateia: “o que estamos esperando para cruzar o rio, para jogar a cartada decisiva de nossas vidas? Senhores e senhoras, universitários aqui presentes. Convençam-se. Não há mais espaço para a conversa e para os bons modos”. A deputada Benedita da Silva foi mais explicita em sua conclamação: “Quem sabe faz a hora e faz a luta. A gente sabe disso. E na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção. Com a luta e vamos à luta, com qualquer que sejam as nossas armas”.

Como se vê, até a Bíblia foi invocada para justificar a insanidade dos políticos. E aí estamos diante de um caso de polícia ou de política? Creio que o caso está mais nas mãos da Justiça. Mas esta também não se fez presente, e assim vamos tocando o barco não se sabe para onde

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXII

Osman Lins (1924-1978)

Osman da Costa Lins nasceu em Vitória de Santo Antão, em 05/071924. Escritor, poeta, ensaísta e dramaturgo. Perdeu a mãe aos 16 dias, em decorrência de um parto complicado. Como ela não deixou fotografia, ele passou a vida procurando construir o rosto inexistente. “Isso configura a minha vida como escritor, pois parece que o trabalho do escritor, metaforicamente, seria construir com a imaginação um rosto que não existe. Isso talvez tenha me conduzido a suprir de algum modo, através da imaginação, essa ausência.” Assim, a fotografia constitui-se num fator que aparece em vários momentos de sua obra.

Foi criado pela avó e, principalmente, pela tia casada com Antônio Figueiredo, caixeiro-viajante, de quem o menino ouvia narrações de suas viagens, e que despertou-lhe o gosto de narrar e o fez escritor. “Foi ele o meu primeiro livro, meu iniciador na arte de narrar, assim como Totônia foi a primeira influência literária de José Lins do Rego. Com a diferença de que as suas histórias não falavam de princesas ou dos Doze pares de França. Mas dos homens que conhecia e do chão onde pisava. Foi a ele, e não a um escritor, que procurei imitar, quando – tateando o meu destino e dando o passo inicial no que viria a ser, mais tarde o projeto central da minha vida – esbocei as primeiras narrativas.”

Sua ligação com o pai, Teófanes da Costa Lima, alfaiate se dá de modo mais distante, porém não menos afetiva. Mais tarde publicará crônicas dedicadas ao dia do alfaiate e fará algumas reflexões sobre as relações entre o trabalho do escritor e do artesão: “Creio, assim, que o Dia do Alfaiate desaparecerá em breve do nosso calendário de comemorações. Desaparecem, com as alfaiatarias, oficiais como meu pai, que mantinham com as medidas e os riscos uma intimidade cheia de nobreza. É, com isto, a razão de ser da homenagem, já que os novos tempos mostram-se desdenhosos para com os oficiais delicados, cujo sentido não está em produzir muito e sim em produzir serenamente”.

Realizou os primeiros estudos no Colégio Santo Antão (1932-35) e no Ginásio de Vitória (1936-40). Aí teve como professor José Aragão, uma espécie de tutor de quem herdou o sentido da disciplina e discernimento na ordenação narrativa. Em 1941, mudou-se para Recife, onde passou a trabalhar como escriturário na secretaria de um Ginásio. Por essa época surge seu primeiro texto publicado no suplemento literário de um jornal do Recife: Menino mau e Fantasmas. Em 1943, passou no concurso para trabalhar no Banco do Brasil e deixou a literatura em repouso. No ano seguinte entrou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife.

Ao mesmo tempo em que estuda Economia, passou a escrever um romance por mais de dois anos. Concluiu-o mas não publicou; foi mais um exercício de escrita criativa exercido com apurado senso crítico. Em 1947 casou-se com Maria do Carmo, torna-se pai de três filhos e passa a escrever com regularidade nas horas vagas. Começou com contos, apresenta-os em concursos e obtém algumas premiações. Em 1951 intensifica a atividade literária fazendo parte do corpo de redação da revista “Memorandum”, da Associação Atlética do Banco do Brasil e colaborador do Suplemento Literário do Diário de Pernambuco. Participou, também, da produção e direção de programas radiofônicos culturais, na Rádio Jornal do Commércio, em Recife.

Por essa época vai se definindo o artesão da palavra, tendo seus livros premiados e aclamados pelo público: O visitante, lançado em 1955, recebeu o prêmio “Fábio Prado” e Os gestos, lançado em 1957, agraciado com o prêmio “Monteiro Lobato”, ambos em São Paulo. Neste mesmo ano publicou a peça teatral O vale sem sol, com a qual obtém destaque especial no concurso da Companhia Tônia-Celi-Autran. Com os contatos mantidos em São Paulo, passou a colaborar com críticas para o jornal “O Estado de São Paulo”. Em 1960, concluiu o curso de Dramaturgia na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, tendo como professores Joel Pontes e Hermilo Borba Filho, que veio a se tornar seu amigo.

Suas viagens ao Rio de Janeiro e São Paulo se intensificam, e tornam o escritor mais conhecido em âmbito nacional. Em 1961, ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa, passou seis meses em Paris. Enquanto isso, no Rio de Janeiro estreia sua peça Lisbela e o prisioneiro, recebendo o prêmio Concurso Cia. Tônia-Celi-Autran. No mesmo ano é publicado o romance O fiel e a pedra, premiado pela UBE-União Brasileira de Escritores. Sobre este romance, ele diz seu lançamento corresponde a uma “plataforma de chegada de saída”, encerrando uma fase de sua ficção em termos tradicionais.

Em seguida e em função de seu projeto literário, muda-se para São Paulo. Observa-se a concretização de um processo que já vinha se desenvolvendo internamente com grandes repercussões na sua vida familiar e na sua escrita. Dois anos após, concretiza-se a separação de sua esposa, que retorna ao Recife junto com as filhas. A partir de agora terá que trabalhar mais para manter a família distante. Lançou Marinheiro de primeira viagem, e passou a publicar contos nas revistas “Cláudia”, “Senhor” e “Vogue”, antecipando futuros capítulos de romances. Sua peça é encenada no Teatro Bela Vista.

O ano de 1964, dominado pela agitação política, é pródigo de acontecimentos: engajou-se na defesa da dramaturgia brasileira com artigos polêmicos na imprensa; sua peça premiada Lisbela e o prisioneiro é publicada em livro; sua fama de intelectual e militante cultural se estabelece; casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. Em 1966, publica Nove novena e dá inicio a outra fase de sua ficção: uma construção estrutural rigorosa, em que se aliam precisão e fantasia, prosa e poesia, reflexão e estória. Tais inovações poéticas atraem o olhar da crítica, que ressaltou sua dimensão política sem fazer concessões à literatura engajada. Ainda em 1966, é publicado, no Recife, seu livro de ensaios Um mundo estagnado. Em 1967, passou a publicar regularmente no jornal “A Gazeta”, de São Paulo.

Em 1969 lançou Guerra sem testemunha: o escritor, sua condição e a realidade social, um ensaio onde faz uma reflexão sobre o ofício do escritor. No ano seguinte, aposentou-se do Banco do Brasil e passou a dar aulas de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília. Ao mesmo tempo em que leciona, realiza o curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo e começa a escrever seu romance mais conhecido e enigmático: Avalovara. Em 1973 defendeu seu doutoramento, com a tese Lima Barreto e o espaço romanesco, que será publicada em 1975. Desiludido com o ensino e o desinteresse dos professores e alunos pela literatura, afastou-se do ambiente universitário e passou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Desde então, passou a colaborar com mais frequência com o Suplemento Literário d’ O Estado de São Paulo e escrever roteiros para a televisão.

Em 1975 deu-se o lançamento de Avalovara, seu livro mais importante, um romance que propõe um complexo jogo de leitura, cuja narrativa é uma obra de engenharia, construída a partir de um palíndromo dentro de uma espiral onde vão sendo desenvolvidos todos os capítulos do livro. O livro é o ponto de chegada de suas inovações narrativas, causando certo alvoroço no meio da crítica literária e certa estranheza no público. Tais experimentos literários são compartilhados com sua esposa, também escritora, com quem escreveu a quatro mãos o livro La Paz existe? a partir de uma viagem que fizeram ao Peru e Bolívia.

Em 1977 e no ano seguinte são publicados vários trabalhos na área do romance, do teatro, do ensaio, roteiros, casos especiais para a TV e até livro infantil (O diabo na noite de Natal). Tais atividades não o desviam da preparação do seu próximo romance: Uma cabeça levada em triunfo. Mas não pode concluí-lo. Surgem os sintomas de um câncer decorrente de um melanoma tardiamente diagnosticado, vindo a falecer aos 54 anos, em 08/07/1978. Foi um escritor “aberto à experimentação, afeito aos vôos e riscos, avesso à repetição dos caminhos conhecidos”. Em 2013, sua filha Angela Lins, junto com outros apreciadores de sua obra, criou o Instituto Cultural Osman Lins, no Recife, com a missão de resgatar a memória, conservar o acervo, criar um espaço para eventos, conceder bolsas de estudos, reeditar os livros e divulgar a obra do escritor.

Concluindo, vale repetir sua última declaração, publicada no Jornal do Comércio, de 16/07/1978: “Como diz T.S. Eliot num de seus poemas, ‘Para nós há somente tentativa. O resto não é de nossa conta.’ Desde a minha estreia com O Visitante, até a publicação, agora, de A Rainha dos Cárceres da Grécia, venho dando o melhor de mim mesmo à literatura, procurando realizar uma obra tão alta quanto permitam as minhas forças. Isto é o que posso fazer e o que tenho feito. Só posso ter certeza, portanto, de que a minha é uma contribuição séria. Quanto á sua importância, dentro do romance brasileiro, não me compete julgar. Mais: a qualidade da obra ‘não é da nossa conta’. Só podemos fazê-la bem: mas fazê-la bem não decorre de uma intenção, de um ato da nossa vontade. (baseado no site do autor: Osman Lins 

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA 2

Como você escreve? Como se dá a criação literária? Como procede ao escrever? São perguntas tão recorrentes nas entrevistas com os escritores quanto a “Por que escrever?” desvendada aqui domingo passado (clique). O fato me levou a coligir, do mesmo modo, as respostas à esta pergunta. Deixemos a filosofia (Por que?) de lado e partamos para o pragmático ”Como?” Cheguei até a encontrar pesquisas anteriores, como na primeira pergunta, sobre o assunto. Em 1932, o crítico francês Georges Charensol decidiu perguntar aos seus colegas escritores como se dava o processo da escrita e reuniu as respostas no livro Comment ils écrivent, publicado na coleção “Histoire Littéraire”, da Éditions Montaigne.

Ele reuniu 50 respostas de ilustres escritores da época, entre os quais encontram-se alguns famosos até hoje: Paul Valéry, Jean Cocteau, Collete, François Mauriac, André Maurois e Georges Simenon. No momento meu levantamento conta com mais de 300 respostas. Reuni umas 100 de autores mais conhecidos e publiquei o volume 2 da série “Mistérios da criação literária, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Os livros desta série podem ser consultados no meu site Tiro de Letra Dos seis volumes editados, este foi o mais procurado pelos leitores e o mais vendido nas livrarias.

Imagino que algumas pessoas confundiram-no com um livro de auto-ajuda ou manual de escrita criativa. Uma moça chegou a me perguntar se era isso mesmo, se o conteúdo ensinava como escrever. Respondi que não; que o propósito foi reunir muitos escritores dizendo como eles procedem ao escrever. Ela vendo tantos procedimentos, quem sabe, poderia encontrar algum mais conveniente ao seu modo.

De fato, as respostas são as mais diferentes possíveis, conforme assinalou Ignácio de Loyola Brandão na introdução: “Cada um tem um processo, um método, um sistema, uma idiossincrasia, uma superstição e muitas manias”. Conta-se que tem alguns escritores que gostam de escrever nus; e outros têm como hábito escrever em pé. Mas isto é folclore ou fofoca e, de qualquer modo, não são estes aspectos que motivaram a pesquisa. O que motivou a empreitada foi “encarar o aspecto instrumental da palavra. Ou, visto de outro ângulo, os modos como o escritor utiliza o aparato necessário ao registro do texto, enquanto elabora o parto da criação”, nas palavras de Fábio Lucas, o prefaciador do livro.

O escritor Bernardo Ajzenberg faz uma advertência e uma conclusão pertinentes na orelha do livro: “Não estamos diante de um relatório médico protocolar ou de um inventário frio das atividades profissionais de uma determinada categoria social. Tampouco diante de um estudo psicológico… A graça e o mérito de um levantamento tão minucioso como o que o presente livro nos apresenta estão justamente em propiciar ao leitor o saudável exercício de distinguir, à luz de tão curiosos depoimentos, a realidade do método e dos instrumentos do trabalho artístico existente por trás dos possíveis filetes de invenção”.

Entre as respostas encontramos algumas interessantes, como a de Juan Rulfo: “No começo, você deve escrever levado pelo vento, até sentir que está voando. A partir daí, o ritmo e a atmosfera se desenham sozinhos. É só seguir o vôo. Quando você achar que chegou aonde queria é que começa o verdadeiro trabalho: cortar, cortar muito”; ou Vladimir Nabokov: “O esquema vem antes da coisa. Preencho os claros da palavra cruzada, em qualquer parte, com toda liberdade. Anoto os trechos em fichas, até terminar o romance. Meu esquema é flexível, mas sou bastante exigente quanto a meus instrumentos de trabalho: fichas de cartolina com pauta e lápis bem apontados, macios, com borracha”; ou Moacyr Scliar: “Às vezes faço anotações. Mas isso é uma fraqueza. É melhor não anotar nada. A ideia verdadeira persegue o escritor. Este, aliás, é um bom teste: não escrever de imediato. Se a ideia for boa, legítima, ela reaparece sempre”.

Como material suplementar propiciando um aprofundamento no tema, inclui uma bibliografia com resumos de 18 livros referentes ao assunto. Os interessados em saber mais algumas repostas, podem consultar o site citado. O livro atualmente se encontra esgotado no mercado livreiro, mas ainda disponho de alguns exemplares, e os interessados em sua aquisição ao custo de R$ 25 reais (porte pago), podem entrar em contato através do e-mail: literacria@gmail.com 

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXI

Moacir Santos (1926-2006)

Moacir José dos Santos nasceu em 26/07/1926, em São José do Belmonte. Compositor, maestro, arranjador e multi-instrumentalista. É considerado como um dos principais arranjadores, que renovou a linguagem da harmonia na música popular brasileira. Órfão de pai e mãe aos 3 anos, foi morar com a madrinha em Flores do Pajeú. Desde cedo sua brincadeira predileta era imitar a banda de música da cidade, com seus amigos, utilizando-se de latinhas e pífanos. Não perdia os ensaios da banda e foi aprendendo a tocar todos os instrumentos. Aos 10 anos já se aventurava na trompa, saxofone, percussão, clarineta, violão e banjo, até que foi incorporado aos 14 anos como clarinetista da Banda Municipal.

Em seguida fugiu de casa e fez uma peregrinação por diversas cidades do sertão, sempre tocando em bandas municipais até 1943, quando foi trabalhar na Rádio Clube do Recife, e se apresentava num programa comandado por Antônio Maria. Em 1944 foi para João Pessoa para cumprir o serviço militar. No exército foi logo acolhido na banda marcial. No ano seguinte ingressou na Rádio Tabajara da Paraíba como saxofonista solista. Foi aí que conheceu sua futura mulher Cleonice Santos. O casal decidiu tentar a vida no Rio de Janeiro, em 1948, e logo foi contratado pela Rádio Nacional, onde trabalhou por 18 anos, como maestro. A Direção da casa, não botando fé naquele negrinho, pediu ao maestro titular Chiquinho para explicar como havia sido feito o teste com o jovem maestro e ouviu a seguinte explicação: “O teste foi para nós, senhor diretor. Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Entretanto, ele colocou umas músicas para nós e nós não as tocamos”.

Em abril de 1949 nasceu o único filho do casal e no mesmo ano ele decidiu estudar regência. Ingressou no curso do maestro Guerra Peixe, um dos mais importantes do País. Depois, em busca de uma formação mais sólida e diversificada ingressou no curso do maestro alemão Hans-Joachim Koellreuter, precursor do dodecafonismo no Brasil, de quem se tornou assistente. O curso era de 5 anos, mas ele atingiu a excelência em 3 anos em todas as disciplinas. Em 1954 foi trabalhar em São Paulo, contratado como diretor artístico da TV Record. Ficou apenas dois anos e retornou ao Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como assistente de Ari Barroso nas gravadoras Copacabana e Rozenblit. Em seguida, passou a dar aulas e ficar famoso como professor de gente muito talentosa como Paulo Moura, Carlos Lyra, Flora Purim, Oscar Castro-Neves, Baden Powell, Maurício Einhorn, Sérgio Mendes, João Donato, Roberto Menescal, Nara Leão, Dori Caymmi e Airto Moreira entre outros. Com esse time de alunos é que ficou conhecido como “Patrono da Bossa Nova”.

Foi parceiro de Vinicius de Moraes, que o homenageou na canção Samba da benção: “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos/como este meu Brasil de todos os santos”. Baden Powell também não economizava em elogios: “Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas sabedorias”. Prestigiado pelos grandes músicos, teve seu primeiro álbum solo gravado pela lendária gravadora Forma, em 1965, intitulado Coisas. Perguntado por que escolheu esse nome, respondeu: “Os compositores eruditos chamam suas músicas de ‘opus’. Desejei ser um compositor erudito, mas não ousei. Então, ‘coisas’ é minha tentativa de ser um deles”. Foi também procurado pelos cineastas para fazer trilhas sonoras para filmes tais como: Love in the Pacific, Seara vermelha, Ganga Zumba, O santo médico, Os fuzis etc.

Em 1967 foi convidado para a estreia mundial do filme Amor no Pacífico, e decidiu fixar residência em Pasadena, Califórnia, onde passou a viver compondo trilhas para o cinema e ministrando aulas de música. As condições de vida de um músico negro aqui eram bem mais desfavoráveis do que nos EUA, onde teve seu valor devidamente reconhecido. Lá chegou a gravar mais três discos, considerados clássicos: Maestro (1972), Saudade (1974) e Carnival of the spirits (1975). Passou a visitar o Brasil esporadicamente seja para apresentações ou para receber homenagens. Em 1985, abriu junto com Radamés Gnattali, no Rio de Janeiro, o I Free Jazz Festival. Em 1996, foi condecorado pelo Presidente Fernando Henrique com a comenda da Ordem do Rio Branco. No mesmo ano, foi homenageado no Brazilian Summer Festival, em Los Angeles. Nos EUA, o tropetista Wyinton Marsalis chamava-o de “Mestre”.

Entre suas composições mais célebres estão Nanã (com Mario Telles), Menino travesso, Triste de quem, Se disser que sim (com Vinicius de Moraes) e Coisa nº 5. Em 2001 sua obra foi relançada no Brasil, através do álbum Ouro negro, com arranjos e produção de Mario Adnet e Zé Nogueira e participações especiais de Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, Ed Motta, João Bosco, João Donato etc. Em 2005 foi lançado um DVD com um show da “Banda Ouro Negro” e um disco, pela gravadora Biscoito Fino, com algumas músicas inéditas do inicio de sua carreira, intitulado Choros & Alegria. Em julho de 2006 foi agraciado com o Prêmio Shell de Música. Dois meses após faleceu, em 06/08/2006.

Havia a intenção de publicar uma autobiografia, mas não foi possível. Porém entre os manuscritos encontra-se uma declaração sobre suas intenções como compositor: “Procuro dar-lhes (às composições) caráter essencialmente moderno, bem atual. Espero criar algo absolutamente pessoal – e para isso estou dando o melhor dos meus esforços. Esforços de quem quer vencer, criar. Eu sou um africano nascido no Brasil. Há 500 anos, eu fui trazido para o Brasil nos genes de meus ancestrais. Sonho em fazer minha música para um aspecto que não se enquadra na poética popular do ‘pintar um quadro diferente’. Na música popular o ritmo é constante, é uma diferença. Eu sinto a falta, quando estou embrenhado em música sinfônica, sinto falta daquele ritmo que é o meu berço. Vou ter que achar um jeito de que os instrumentos façam minha percussão, que eu fique satisfeito. Pois bem, esse é meu sonho não realizado.”

A musicista e pesquisadora Andrea Ernest Dias realizou uma pesquisa de fôlego sobre o músico e sua obra, objeto de sua tese de doutoramento. A tese resultou na biografia que ele não conseguiu realizar, publicada em 2014 pela editora Folha Seca: Moacir Santos, ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro. Em agosto de 2016, a revista “Continente”, publicada pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco, publicou uma alentada reportagem em comemoração aos 10 anos de morte do maestro e anunciou alguns projetos de resgate de sua música. Pelo menos em seu estado natal ele pode ser reconhecido; só está faltando ser descoberto pelo Brasil.

MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO LITERÁRIA

Semana passada falamos de jornalismo e literatura, e disse que venho pesquisando há anos sobre os mistérios da criação literária. Pediram-me para falar mais sobre isso, sobre o que tenho encontrado. Pois bem, vamos lá. Comecei na década de 1980 procurando respostas à pergunta: Por que escrever? insistentemente feita aos escritores em suas entrevistas. Cheguei a encontrar mais de 700 respostas. Realizei um levantamento bibliográfico sobre o tema, anexei mais de 100 respostas e publiquei o livro “Por que escrevo?”, com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, em 1999. O livro foi distribuído nas bibliotecas públicas de todo o Estado.

Anos depois, em 2007, a mesma secretaria patrocinou uma 3ª edição do livro juntamente com outros 4 volumes, numa série que dei o título de “Mistérios da criação literária”. Todos estes livros podem ser vistos e consultados no site Tiro de Letra. As respostas à pergunta Por que escrevo? são tão inusitadas quanto diferenciadas entre os escritores. Tem até uma que me convenceram a não incluir no livro e hoje me arrependo por isso. É a resposta de Ivan Lessa: “A gente escreve para ficar famoso, comer uma mulher ou ganhar dinheiro”. Quem lhe perguntou foi uma jornalista e não sei dizer se ele conseguiu seu segundo intento.

A variedade de respostas é grande, conforme assinalado pelo saudoso Daniel Piza na introdução do livro: “É curioso notar os mais diversos tipos de respostas. Há os que desconversam, os que justificam, os que sentimentalizam, os que racionalizam, os que tergivessam – há, enfim, os que aumentam e os que diminuem sua própria atividade. A resposta final deve estar em algum lugar na soma de todas estas, ou em seu intervalo”. O livro ficou no mercado livreiro até poucos anos atrás e se encontra esgotado. Em fins do ano passado sou surpreendido pela sua inclusão na Cátedra UNESCO de Leitura, que elaborou um consistente resumo transcrito a seguir:

“O livro apresenta seis divisões. Todas orbitam na tentativa de explicar o porquê se escreve. Prefácio, introdução, apresentação e princípios antecedem aos cento e dezesseis depoimentos, em ordem alfabética, extraídos de livros ou de entrevistas de vários autores nacionais e estrangeiros. Segue-se uma minibiografia dos depoentes após cada réplica, que, às vezes, não é a resposta à pergunta “Por que escrevo?” é um trecho colhido de fontes ficcionais ou não que sacia, em parte, a curiosidade do leitor. Os testemunhos dos escritores revelam alguns traços comuns passíveis de serem sintetizados: “a escrita surge como uma resposta possível aos mistérios, a certas cenas e a emoções inexplicáveis; escrever para desconcertar o maior número possível de pessoas; escreve-se por prazer, para “ordenar os fatos que a gente observa e dar sentido à vida e, juntamente com isso, há o amor pelas palavras por si próprias e pelo desejo de manipulá-las”; escreve-se por pura vaidade, por catarse para viver; escreve-se em busca da imortalidade, em busca da compreensão do mundo. Com diferenças de vida, de estilo, de época, escrever move a vida, concede leituras do mundo, permite diálogos inumeráveis.

Como um ato a mais, o organizador apresenta uma bibliografia comentada, espaço em que, José Domingos de Brito, como num prólogo, discorre sobre alguns conceitos atribuídos à bibliografia e explica o seu denominado estado da arte: “buscar o que existe sobre o assunto”. Vinte oito autores, expostos de forma cronológica, escrevem sobre livro, leitor, autor, escritura e temas afins. Escrever é uma tarefa que muitos perseguem, nem tantos conseguem, mas que unge o criador de poderes. Em outras épocas, depois do ato da escrita, vinha a árdua tarefa de procurar uma editora para que a obra chegasse ao leitor. Hoje, com a Internet e com os meios que propiciam a postagem gratuita de textos de famosos e de anônimos, todos podem lançar na tela sua criação. Ainda mais: caso o texto se espalhe como um vírus, caia no gosto dos internautas, esteja nos sites de relacionamento, o novato escritor, a despeito da ausência ou presença do talento, terá seu texto lido/olhado por muitos. Livros teóricos são comentados/recomendados e mostram os olhares vários dos autores sobre a arte/a profissão de escrever. De Shopenhauer (1851), José de Alencar (1893) a Fernando Sabino, Mário de Andrade (2003), Margaret Atwood (2004), há um bom material aberto à consulta para os que desejam escrever ou para os que almejam entender o que move a escritura. Há conselhos, como os de Shopenhauer e Antônio Albalat: “Dizer muitas palavras para comunicar poucas ideias é sempre um sinal inequívoco de mediocridade”. Ambos são enfáticos na defesa do estilo claro, simples, sem rodeios. Sartre trata o assunto com vigor lítero-filosófico e sentencia que “a leitura é criação redigida”, pois a escrita “só pode encontrar seu acabamento na leitura” ao leitor, portanto, é confiada a tarefa de concluir de múltiplas formas o que o escritor começou. Depois da fala dos que são do ofício, o organizador acrescenta dois textos sobre temas transversais: Olvidos misteriosos e Um invento editorial. O livro – Por que escrevo? – cumpre sua missão, principalmente aponta novas leituras cuja faina é mostrar a pluralidade dos autores e a diversidade de razões que os fazem traduzir/inventar a vida na escrita”.

Próxima semana falaremos do vol. 2 – Como escrevo?, contendo também muitos mistérios. Ainda disponho de alguns exemplares e os interessados em adquiri-lo ao custo de R$ 25 reais (porte pago) podem entrar em contado através do e-mail: literacria@gmail.com

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XX

José Ermírio de Moraes (1900-1973)

José Ermírio de Moraes nasceu em Nazaré da Mata, em 21/01/1900. Engenheiro, político, administrador e um dos maiores empreendedores brasileiros do século 20. Transformou uma pequena tecelagem em Sorocaba num conglomerado de empresas: o Grupo Votorantim. Filho de Ermírio Barroso de Morais e Francisca Jesuína Pessoa de Albuquerque Morais, uma família tradicional de usineiros pernambucanos. Concluiu os primeiros estudos no Recife e foi estudar engenharia na conceituada Colorado School of Mines, USA, onde foi diplomado em 1921.

Numa viagem pela Europa, conheceu o português António Pereira Inácio, que o convidou para trabalhar em sua fábrica de tecidos “Votorantim”, em Sorocaba, quando retornasse ao Brasil. Convite aceito, migrou de Pernambuco para São Paulo em dezembro de 1924, e passou a se dar muito bem com a família portuguesa. Deu-se tão bem que se casou com sua única filha, Helena. Comprou as ações da fábrica de tecidos, e em 1925 passou a dirigir a Sociedade Anônima Votorantim. A partir daí foi se consolidando como líder empresarial e fundou, junto com outros empresários, o CIESP-Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, em março de 1928.

Em 1931, o presidente Getúlio Vargas criou uma estrutura sindical ligada ao governo. Assim, o CIESP teve o nome alterado para FIESP-Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Só mais tarde, em 1939, os empresários conseguiram permissão para montar uma sociedade civil vinculada à FIESP. Desse modo, voltou a existir o CIESP com as finalidades originais, porém adaptadas ao momento. Hoje as duas sigas se confundem numa mesma instituição.

Nas eleições presidenciais de março de 1930, a classe empresarial paulista apoiou a chapa encabeçada por Júlio Prestes, vencedora do pleito. No entanto, em outubro irrompeu a revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Os paulistas, contando com uma forte classe empresarial, não admitiram o Governo Provisório de Vargas e como consequência eclodiu, em julho de 1932, a Revolução Constitucionalista disposta a derrubar o Governo de Vargas. Ermírio de Moraes seguiu a maioria dos empresários e participou ativamente do movimento. Derrotados, assinaram um armistício com o governo federal, em 2 de outubro de 1932.

Dessa época em diante o que se vê é um estupendo crescimento da Votorantim, com uma grande diversificação das atividades industriais. Em 1933 iniciou a construção de sua primeira fábrica de cimento, inaugurada em 1936. No ano seguinte, foi criada a Companhia Nitro Química Brasileira, que passou a produzir seda artificial e fortaleceu substancialmente a indústria têxtil. Em seguida partiu para o setor siderúrgico e criou a Companhia Siderúrgica Barra Mansa. Em 1941, incrementou o setor com a criação da Companhia Brasileira de Alumínio e, em 1957, adquiriu o controle da Companhia Brasileira de Metais.

Em meados da década de 1950, passou a se interessar por política e, animado com o desempenho de Jânio Quadros no governo de São Paulo, ajudou no financiamento de sua campanha à presidência em 1960. Em junho de 1961, foi convidado pelo govenador Carvalho Pinto para dirigir a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Em 1962 ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro, concorrendo ao Senado por Pernambuco. No mesmo pleito, financiou a candidatura de Miguel Arraes ao governo de Pernambuco, apoiado pelas esquerdas e pelos nacionalistas. Ambos foram eleitos.

Diante da efervescência política na época e a volta ao presidencialismo, João Goulart, ao constituir seu ministério em janeiro de 1963, nomeou-o para o Ministério da Agricultura. Sua primeira medida foi a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, para regular as relações de trabalho entre os fazendeiros e o trabalhador rural. Em junho de 1963 foi substituído no Ministério e voltou a ocupar sua cadeira no Senado. Com o golpe militar de 1964, foi eleito presidente nacional do PTB, em maio de 1965 e permaneceu no cargo até outubro, quando todos os partidos foram extintos pela ditadura. Com a instituição do bipartidarismo, filiou-se ao MDB-Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição consentida pelos militares. Em 1970 tentou reeleger-se senador por Pernambuco, mas não conseguiu e abandonou a vida política.

Por essa época a direção do Grupo Votorantim já se encontrava sob o comando dos filhos Antônio Ermírio de Moraes e José Ermírio de Moraes Filho. Na história econômica do Brasil ele é um das personalidades mais representativas, que buscou a auto-suficiência no mercado nacional e diversificou a indústria na cidade de São Paulo, que se confunde com a industrialização brasileira. Veio a falecer em 09/08/1973. Em 2009 o Senado Federal criou o Diploma José Ermírio de Moraes, outorgado anualmente como reconhecimento aos empresários de destaque que contribuíram para a economia nacional e o progresso do país.

LITERATURA E JORNALISMO

Semana passada falamos sobre jornalismo literário (clique aqui) e hoje vamos falar de literatura e jornalismo. Começamos a história pelo final, pois jornalismo literário é o resultado das relações entre literatura e jornalismo. Tais relações iniciaram com a invenção da imprensa (que não por acaso é sinônimo de jornalismo) e vêm se intensificando até hoje, quando o jornalismo se tornou um gênero literário. Assim, jornalismo literário pode ser visto como o ápice de um relacionamento secular entre as duas áreas que foram separadas por volta do século XIX, ao ponto de se tornarem totalmente autônomas.

Essa autonomia se observa há mais de um século, quando o jornalista francês Jules Huret, em 1891, realizou uma pesquisa, entrevistando 64 escritores com algumas perguntas sobre as diferenças e semelhanças entre o jornalismo e a literatura. A pesquisa – Enquête sur l’évolution littéraire – foi reeditada em 1999, em Paris, pela Librarie José Corti. Cá entre nós, João do Rio, certamente tomou conhecimento dessa pesquisa, pois em 1904 realizou um estudo, entrevistando 36 dos principais intelectuais brasileiros para saber se a atividade jornalística atrapalhava ou ajudava quem quisesse a se dedicar à literatura, e publicou-o sob o título O momento literário, pela Livraria Garnier.

A mesma pesquisa foi retomada 100 anos depois através de uma tese de doutorado, realizada por Cristiane Costa, e publicada no livro Pena de aluguel: escritores jornalistas no Brasil 1904-2004, editada pela Companhia das Letras, em 2005. Ela quis saber como os novos autores responderiam à pergunta formulada por João do Rio, e para isso desdobrou a pergunta em 13 outras, tais como: “Pretendia ser escritor quando entrou no jornalismo?”. “A linguagem dos jornais oferece um aperfeiçoamento formal ou bloqueia o texto literário?”. “A profissionalização através da imprensa permite a sobrevivência financeira do escritor ou o afasta de seu caminho?”. “Até que ponto a obra literária é influenciada pela atividade jornalística?”.

Por essa época eu vinha pesquisando os mistérios da criação literária, sem me dar conta destas pesquisas. Mas já tinha obtido uma resposta de Ernest Hemingway à pergunta feita por João do Rio: “O trabalho de jornal não prejudica um jovem escritor e poderá mesmo ajuda-lo, se ele sair a tempo”. Com isso, fiquei motivado a fazer um levantamento das respostas de diversos escritores referentes às relações ente literatura e jornalismo. Obtive mais de 100 respostas, realizei uma bibliografia sobre o assunto e publiquei o livro Literatura e jornalismo: coletânea de depoimentos célebres e bibliografia resumida, pela editora Novera, em 2007.

As respostas são muito diversificadas. Exemplos: Gustave Flaubert: Considero uma das felicidades de minha vida não escrever nos jornais; isso prejudica a minha bolsa, mas faz bem à minha consciência” José Saramago: “Fui jornalista durante uns três anos. Numa vida tão longa três anos é quase nada… Foi quando, em 1975, deixei o jornal e me dediquei inteiramente ao trabalho literário. O jornalismo não preparou o escritor” João Antonio: “Eu nunca deixei de ser escritor, o que existe é o incrível preconceito entre escritores e repórteres…”. Mempo Giardinelli “Meu lema é: proibido ‘literalizar’ o jornalismo; proibido ‘jornalizar’ a literatura. São dois códigos diferentes. E me alegra que sejam diferentes. Gilles Lapouge: “Eu tinha tendência ao lirismo e à frase rebuscada. As obrigações do jornalismo me ensinaram a escrever, a tomar as coisas mais de perto e me obrigaram ao exercício de uma certa humildade”.

Quem quiser saber quais escritores responderam à pergunta, basta consultar o site Tiro de Letra onde abrimos algumas respostas. Os interessados em adquirir o livro, ao custo de R$ 20 reais (com porte pago), podem entrar em contato pelo e-mail: literacria@gmail.com.br ou através do site.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XIX

Solano Trindade (1908-1974)

Francisco Solano Trindade nasceu no Recife, em 24/07/1908. Poeta, teatrólogo, ator, pintor, pesquisador do folclore e um dos principais fundadores da cidade de Embu das Artes, na área metropolitana de São Paulo. Antes dele era apenas Embu e não figurava no roteiro turístico paulistano. Com sua chegada teve as artes agregada ao nome. De origem humilde, com o pai sapateiro Manuel Abílio Trindade e a mãe quituteira Dona Emerenciana, estudou no Recife até o segundo grau e participou, por um ano, do curso de desenho do Liceu de Artes e Ofícios. Compôs seus primeiros poemas, ainda jovem, em meados da década de 1920.

No inicio da década de 1930, passou a se interessar pela questão da identidade cultural dos negros e participou ativamente da organização do I Congresso Afro-Brasileiro, no Recife, em 1934, contando com o apoio de Gilberto Freyre. O lançamento do livro Casa Grande & Senzala, em 1933, é o mote para a realização do congresso. Pouco depois, em 1937, realizou o II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador. Logo, é um dos pioneiros na luta pelo reconhecimento dos negros como categoria social relevante, no Brasil.

No início da década de 1940, fez um périplo pelo Brasil, certamente na busca de um lugar para se fixar. Seguiu para Belo Horizonte e depois para o Rio Grande do Sul, onde fundou um grupo de arte popular em Pelotas. Em seguida retorna ao Recife, talvez para matar a saudade, e logo parte para o Rio de Janeiro, onde fixa residência em 1942. Seu primeiro livro Poemas de uma vida simples foi publicado em 1944, mas foi apreendido. Um dos poemas – Tem gente com fome – causou-lhe a prisão e posterior perseguição politica. Neste mesmo ano colaborou com seu amigo, o maestro Abigail Moura, no primeiro concerto da Orquestra Afro-Brasileira e fundou, junto com Haroldo Costa, o Teatro Folclórico Brasileiro.

Em 1945, ao lado de outro grande amigo, Abdias do Nascimento, constituíram o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, que veio a ser o braço político do Teatro Experimental do Negro (TEN), liderado por Abdias. Mesmo participando do TEN, em 1950 fundou junto com a esposa Margarida Trindade e Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Era um grupo sediado na UNE-União Nacional dos Estudantes, formado por estudantes, operários e domésticas, cuja temática e inspiração eram baseadas nas manifestações culturais brasileiras, como o bumba-meu-boi, caboclinhos, dança do coco, capoeira etc. Faziam uma adaptação para o teatro destas danças e músicas, que mais tarde resultou na criação do grupo de dança Brasiliana, e realizou inúmeras apresentações aqui e no exterior.

A militância politica se deu no Partido Comunista e sua casa transformou-se na célula “Tiradentes”, reunindo uma turma de intelectuais, jornalistas, artistas e escritores cariocas. Certa vez a polícia do governo Dutra invadiu sua casa à procura de armas. Não encontrando, levaram-no preso. Pouco depois foi solto com o espirito revigorado para continuar sua trajetória libertária

Em fins da década de 1950, decidiu transferir o TPB para São Paulo, aproveitando a intensa vida cultural da cidade. Fixa residência na cidade de Embu, para onde mudam-se também muitos de seus amigos. Lá já residia o escultor japonês Tadakiyo Sakai, com se afiliou e exerceram grande influência no desenvolvimento das artes na cidade. O que se vê em seguida é a transformação da pequena cidade num verdadeiro centro cultural e de artes a céu aberto. Viveu no Embu de 1961 a 1970 e lá o TPB teve sua melhor fase, com apresentações sempre muito concorridas. Entre 1958 e 1961 lançou mais duas antologias de poemas: Seis tempos de poesia e Cantares ao meu povo, ambos bem recebidos pela crítica e pelo público.

É consenso no meio da crítica literária que Solano Trindade foi o grande criador da poesia assumidamente negra. Há quem diga que seus poemas têm mais crítica social do que poesia propriamente dita, mas quem é do ramo, como Carlos Drummond de Andrade, disse que “há nesses versos uma força natural e uma voz individual rica e ardente que se confunde com a voz coletiva”. Além das atividades literárias e nas artes plásticas, participou como ator em diversos filmes: Agulha no Palheiro (1955), Mistérios da Ilha de Vênus (1960), O Santo Milagroso (1966) e A hora e a vez de Augusto Matraga (1966).

Em 1970 a saúde começou a fraquejar. Teve uma pneumonia e arteriosclerose. Passou por diversos hospitais até falecer no Rio de Janeiro em 20/02/1974. Sua filha Raquel Trindade e os netos continuam sua obra em Embu das Artes, onde um teatro popular, uma escola e uma rua levam seu nome. No Rio de Janeiro foi criado em 1975 o Centro Cultural Solano Trindade e em 1976, em São Paulo, a Escola de Samba Vai-Vai desfilou com o samba enredo homenageando o poeta.

* * *

JORNALISMO LITERÁRIO

Nem todos os escritores consideram o Jornalismo um gênero literário. André Gide, por exemplo, acha que jornalismo é uma coisa e literatura é outra. Entre nós, Alceu Amoroso Lima e Antônio Olinto defendem com veemência que trata-se de um gênero literário. Há, inclusive, quem acredite que Euclides da Cunha seja o pivô dessa polêmica. O crítico literário Marcelo Moraes Caetano afirma: “há quem torça o nariz para reconhecer o jornalismo como gênero literário, razão principal, aliás, pela qual muitos não dizem que ele foi jornalista, porque consideram que isso seria diminuir ou amesquinha sua grandiosidade”.

Independente dessa polêmica, o jornalismo literário é um gênero que vem se destacando desde meados do século passado. No Brasil ele aplicado exemplarmente com a revista Realidade, em 1966. Antes e depois disso, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolfe, entre outros, aplicaram-no com maestria nos EUA. No entanto Edvaldo Pereira Lima defende que o “New journalism” americano foi a manifestação de um momento do Jornalismo Literário. Isso quer dizer que o Jornalismo Literário, como forma narrativa, de captação do real, já existia antes e continua existindo após o New Journalism. Para confirmar esta afirmação, José Hamilton Ribeiro declarou que na redação da “Realidade” (1966) eles não tomaram conhecimento do que os norte-americanos estavam fazendo. Logo, o Jornalismo Literário no Brasil não foi influenciado pelos norte-americanos.

Quando verificamos que Os sertões (1902) foi escrito a partir das anotações de uma série de reportagens sob o título “Diário de uma expedição” publicada em agosto de 1897 n’O Estado de São Paulo, relatando os últimos dias de Canudos, veremos que Euclides da Cunha escreveu um romance de “não-ficção”, bem antes de Truman Capote, quando escreveu A sangue frio. Porém, não é um autor lembrado quando se fala de jornalismo literário, e neste sentido parece que Marcelo Moraes Caetano tem razão.

Logo após o curto período de “Realidade” surgiram diversas revistas onde as matérias eram pautadas sob a ótica do Jornalismo Literário: Ex- (1974) Versus (1975), Repórter (1978), Plural (1979), Careta (1980) entre outras. Em 1966, Marcos Faerman levou-o para o “Jornal da tarde”, um dos jornais que mais apostaram no Jornalismo Literário. Desse modo, a imprensa brasileira tem uma longa tradição nesta área, contando hoje com uma Academia Brasileira de Jornalismo Literário. No entanto e paradoxalmente, hoje temos poucas revistas e nenhum jornal que privilegia o jornalismo literário. Temos apenas algumas como a revista “Piauí” (São Paulo), “Continente” (Recife) e “Revestrés” (Teresina). O que aconteceu com o Jornalismo Literário? Com a palavra, os teóricos das comunicações.

PERNAMBUCANAS ILUSTRES XVIII

Bárbara de Alencar (1760-1832)

Bárbara Pereira de Alencar nasceu em Exu, em 11/02/1760. Bem antes de ser avó do romancista José de Alencar, foi uma destacada ativista que participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, em 1824. Três de seus cinco filhos – José Martiniano de Pereira Alencar, Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves – também foram revolucionários (o primeiro era padre, político e jornalista, foi o pai do romancista José de Alencar). Ainda adolescente, mudou-se para a vila do Crato, onde se estabeleceu e tornou-se matriarca de uma família que se notabilizou no Ceará, numa época onde a mulher se restringia a criar filhos e o patriarcado se impunha de modo rigoroso. Casou, aos 22 anos, com o comerciante português José Gonçalves dos Santos. Ela própria fez o pedido de casamento.

No Crato, ela constituiu em sua casa o núcleo do movimento revolucionário, em meados de 1815, que se organizava em Pernambuco. “Dona Bárbara sempre foi considerada a cabeça pensante. Ela tinha a política nas veias e, na articulação, era a referência do grupo”, afirma o escritor Roberto Gaspar, autor do livro Bárbara de Alencar, a Guerreira do Brasil. Quando estourou a Revolução Pernambucana, em 1817, Ela junto com seu filho José Martiniano (futuro pai do romancista), durante a missa dominical, proclamou a república tal como se fizera no Recife. As tropas da coroa portuguesa foram enviadas para conter a revolta, prenderam todos e foram enviados a pé para Fortaleza sob o sol escaldante, e levaram um mês num percurso de 600 km.

Uma vez presa, obrigaram-na a fazer uma peregrinação pelos calabouços de Fortaleza, Recife e Salvador. Em 1821 foi libertada, mas não se intimidou nem abandonou o sonho de ver o Brasil livre do jugo português. Em 1824 o movimento revolucionário “Confederação do Equador”, liderado por Frei Caneca, no Recife se espalhou pelo Nordeste e encontrou-a junto aos filhos pronta para a nova revolta. Carlos de Alencar e Tristão Gonçalves morreram em combate; José Martiniano (se tornaria senador em 1832)
O sobrenome Alencar foi perseguido pelo poder constituído durante muitos anos após a Confederação do Equador. Algumas pessoas dotadas do sobrenome, mesmo sem participação na vida política, acabaram virando mártires. Conta-se que pelo menos 13 parentes, por consanguinidade e afinidade, foram assassinadas. Quando seu filho José Martiniano foi eleito Senador do Império, em 1832, Dom Pedro II vetou seu nome. Mesmo já tendo sido Ministro da Justiça, o Imperador temia o sangue revolucionário que corria nas veias da Família Alencar.

Assim foi que Bárbara de Alencar se tornou a primeira revolucionária e primeira presa politica da História do Brasil. Não deixa de ser paradoxal o fato de até hoje, quando o feminismo avança no País, ainda se trava uma batalha pelo seu reconhecimento como heroína da História brasileira. Falecida em 18/08/1832, apenas no Ceará seu nome é reconhecido e ainda lembrado no imaginário popular. Luiz Gonzaga, também nascido em Exu, nos seus shows na região do Cariri, gostava de saudar “Dona Bárbara de Alencar”. Em Fortaleza, a partir de 11 de fevereiro de 2005, O Centro Cultural que leva seu nome agracia três mulheres com a “Medalha Bárbara de Alencar”, uma respeitável condecoração. O Centro Administrativo do Governo do Ceará é batizado com seu nome. Uma estátua da heroína foi erguida na Praça Medianeira.

Em 1980, o poeta Caetano Ximenes de Aragão lançou o livro-poema Romanceiro de Bárbara, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará. Seu nome passou a denominar alguns logradouros; seu túmulo ainda está em processo de tombamento; e seu reconhecimento como heroína nacional ocorreu agora há pouco, em 22 de dezembro de 2014, pela Lei 13.056, com seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria Tancredo Neves, em Brasília. Só está faltando os historiadores se darem conta de sua importância na História do Brasil e passarem a incluir seu nome nos manuais didáticos da história.

* * *

RECIFE E MANHATTAN 2: AS TORRES GÊMEAS

Agora há pouco, em 19/03/2017 (clique aqui) eu e Paulo Mendes Campos reclamávamos aqui sobre o estrago que os altíssimos edifícios vêm fazendo no bairro de Boa Viagem, ao ponto de tapar o sol na praia às 16hs. Na ocasião eu apenas mencionei o caso das Torres Gêmeas sem me dar conta do tamanho do estrago que elas vêm fazendo no velho centro do Recife. Só depois fiquei sabendo que as torres impediram que o centro histórico do Recife fosse considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. As construtoras e o interesse mesquinho e imediato não vêm o benefício de termos dois patrimônios da humanidade, um ao lado do outro (Recife e Olinda).

Diante do fato e de sua gravidade, fui verificar como e porque se ergueram as torres. O caso se deu há mais de 12 anos, e desde o inicio foi envolto num clima de desconfiança começando já na licitação para aquisição do terreno onde as torres foram construídas. O noticiário da época informou que seu terreno foi a leilão sem que a empresa proprietária (Mesbla) tenha sido notificada, o que já se constitui numa grave irregularidade. O leilão marcado para o dia 24/03/2003 às 12h30, foi modificado para as 9h00 da manhã sem qualquer notificação oficial. Assim, apenas a empresa Moura Debeux apareceu como interessada no leilão. Outra dúvida levantada foi junto ao leiloeiro, João Dias Martins, na época com sua nomeação revogada. Junto a dúvida, levantou-se uma pergunta incômoda: como ele poderia ter sido o leiloeiro oficial?

Isto é apenas o inicio do “imbróglio“ que se alongará por mais alguns anos. A primeira causa contra as torres gêmeas começou em 2005. O alegado foi que aqueles prédios afetaram a visão de monumentos e a harmonia do conjunto arquitetônico da região. O MPF-Ministério Publico Federal ganhou a causa em primeira instância e a justiça determinou a demolição das obras. A causa prossegue em outras instâncias e em 2008 o TRF-Tribunal Regional Federal da 5ª Região reformou a sentença e liberou as obras.

A Procuradoria recorreu dessa decisão ao STJ-Superior Tribunal de Justiça. O caso foi distribuído ao então ministro José de Castro Meira, membro da primeira turma da corte. O ministro deu voto favorável à Meira Dubeux, acompanhado pelos ministros Luiz Fux e Denise Arruda. Um dos argumentos alegados foi o fato de o IPHAN não ter se oposto ao empreendimento.

O tempo passa devagar nos tribunais superiores. Assim, em 2011 o ministro do STJ Castro Meira foi o relator e deu voto favorável a construtora que mantinha negócio imobiliário com o filho dele, o advogado Marcos Meira. As torres gêmeas pode, então, crescerem à vontade. A controvérsia continua e no ano passado, em sinal de protesto, Kleber Mendonça, diretor do filme “Aquarius”, excluiu digitalmente as torres da imagem de uma cena aérea do cais de Santa Rita. Em termos jurídicos não sei em que ponto se encontra o imbróglio das torres. Mas sei que outro empreendimento ainda maior e mais devastador, ao lado dali, se encontra em andamento e que já mobilizou a população contra sua instalação. É o projeto de urbanização do Cais José Estelita, com previsão de 13 torres de 40 andares.

A construtora é a mesma das torres: a Moura Dubeux, e o projeto faz parte de um plano urbanístico maior denominado “Projeto Novo Recife”, que se estende até Olinda. Trata-se de um plano urbanístico eivado de irregularidades, protestos dos urbanistas e da população afetada. Não vamos entrar no detalhamento deste projeto agora, o espaço aqui é pouco para isso. Na Internet há uma considerável quantidade de dados e informações sobre o projeto.

Para concluir por enquanto – pois estou visualizando a necessidade de retomarmos o assunto – vejo que o processo de transformar o Recife numa Manhattan com todos seus defeitos, continua de vento em popa. Agora mesmo temos o projeto “Jardins de Aurora”, encabeçado pela mesma construtora Moura Dubeux, bem no centro do Recife. São duas torres de 42 andares, batizadas de Capibaribe e Beberibe. O projeto é semelhante ao das Torres Gêmeas e vem sendo apresentado como jóia rara do mercado imobiliário no Recife. Tal como nos projetos anteriores, os “Jardins de Aurora” vem sendo criticado pelos urbanistas. Até onde a “mania de grandeza” dos pernambucanos quer chegar? É preciso advertir estas construtoras e os adoradores de viver nas alturas que a nossa “mania de grandeza” refere-se aos ideais e não aos grandes edifícios.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XVII

Ascenso Ferreira (1895-1965)

Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira Nasceu em Palmares, em 09/05/1895. Poeta integrante da Semana de Arte Moderna de 1922, que se destacou pela temática regional e folclórica de sua terra. Passou toda a infância em Palmares – conhecida como “Atenas Pernambucana” e Terra dos Poetas” – e aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe, Dona Marocas, professora. Ficou órfão do pai aos 6 anos e a família passou por alguns perrengues. Aos 13 anos, passou a trabalhar com o padrinho na bodega “A Fronteira”. Era balconista e teve um aprendizado indispensável ao futuro poeta, na lida com a freguesia em busca de uma quarta de carne seca, bicadas de aguardente, cuias de farinha e meias garrafas de querosene.

Aos 16 anos publicou seu primeiro poema – Flor fenecida – no jornal “A Noticia de Palmares”, e aos 21 fundou a sociedade “Hora Literária” junto com outros poetas da cidade. No ano seguinte, o rapaz que fora registrado como Aníbal Torres, resolveu ser poeta e mudou seu nome para Ascenso Ferreira. Por defender o abolicionismo e a cidadania, passou a ser perseguido politicamente. Por isso, não encontrava trabalho em sua cidade e teve que se mudar para o Recife aos 24 anos. Conseguiu um emprego de escriturário no Tesouro do Estado de Pernambuco e se meteu na boemia recifense. Passou a publicar seus poemas no “Diário de Pernambuco”. Era o poeta preferido dos alunos da Faculdade de Direito do Recife, que certa vez o obrigaram a recitar seus poemas no palco do Teatro Santa Isabel. Era dotado de um aguçado sentido de ritmo e seus poemas engraçados encantavam a rapaziada. Ele não fez faculdade alguma, dizia-se que ele “aprendeu sem se ensinar”.

Certa vez numa roda de conversa sobre as semelhanças entre o nordestino e o gaúcho, realçando a intrepidez e valentia, ele fez um versinho e recitou-o imitando o sotaque sulista:

Riscando os cavalos !
Tinindo as esporas !
Saí de meus pagos em louca arrancada !

Para que ?
Pra nada !

Na década de 1920 fez amizade com Luís da Câmara Cascudo, com o poeta Joaquim Cardoso, Souza Barros, Gouveia de Barros entre outros. Em 1921 casou-se com Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz, mas o casamento durou pouco. Em seguida passou a participar do Movimento Modernista e publicou seu primeiro poema modernista intitulado Lusco-Fusco. Em 1927, incentivado por Manuel Bandeira, publicou seu primeiro livro: Catimbó. O livro foi um sucesso de público e crítica e logo saiu uma segunda edição, com lançamentos no Rio de Janeiro e São Paulo. Seus poemas ficam melhor quando recitados , o que ele fazia muito bem. Em São Paulo, deu um recital no Teatro de Brinquedos, sendo muito aplaudido, e fez amizade com vários intelectuais e artistas: Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Alvaro Moreira, Oswald de Andrade, Olívia Penteado, Afonso Arinos, Tarsila do Amaral.

Por essa época passou boa parte de seu tempo viajando pelo Brasil dando recitais. Numa dessas viagens, conheceu e tornou-se amigo do poeta chileno Pablo Neruda, que participava do Congresso de Escritores, em Goiás. Em 1939 publicou o segundo livro Cana caiana, com as ilustrações de Lula Cardoso Ayres. Nessa época, tornara a viajar para o Rio de Janeiro, onde conheceu Cândido Portinari, Sérgio Milliet, Osvaldo Costa, entre outras personalidades. No início da década de 1940, se aposentou como diretor da Receita do Tesouro do Estado de Pernambuco e veio a se apaixonar por uma jovem adolescente – Maria de Lourdes Medeiros – indo viver em sua companhia. Com ela teve uma filha, que passou a ser a grande preocupação de sua vida. Temia morrer antes de poder cria-la.

Em seguida preparou a edição de outro livro – Poemas e xenhehém -, que só pode ser lançado em 1951, incorporado à edição de Poemas, que foi o primeiro livro surgido no Brasil apresentando um disco de poesias recitadas pelo seu autor. Nesta edição foi incluído o poema O trem de Alagoas, musicado por Villa-Lobos. Em 1955 tomou gosta pela política e passou a trabalhar na campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência. Uma vez eleito, JK nomeou-o para dirigir o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, no Recife. Mas a nomeação logo foi cancelada devido a pressão de um grupo de intelectuais que não aceitaram no cargo um poeta irreverente com fama de boêmio. Deve ter pesado também no caso, o fato de ele não ser acadêmico. Mesmo assim, conseguiu ser nomeado assessor do Ministério da Educação e Cultura, onde passava todo mês para pegar o salário.

Em 1956 assinou um contrato com a prestigiada editora José Olympio, para uma nova edição de seus poemas. Pouco depois lançou um álbum duplo de discos com suas obras completas: 64 poemas escolhidos e 3 historietas populares, com apresentação de seu amigo Câmara Cascudo. Em 1963, a Editora José Olympio lançou Catimbó e outros poemas, seu último livro. A figura de Ascenso contribuía com o tipo brincalhão e amigo de todos. Gordo com quase dois metros de altura, vozeirão, chapéu de palha, suspensório e fumando um grande charuto, animava as rodas de amigos ou plateias. Manuel Bandeira descrevia-o assim: “Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio, assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e cantou o drama doloroso do matuto a quem ama […] Os seus poemas são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos”. Luís da Câmara Cascudo também fez um retrato semelhante: “Ascenso Ferreira, Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura, coroando mais de cem quilos bem pesados”.

Tendo em vista o pouco conhecimento que temos do poeta, vale a pena colocarmos algumas opiniões relevantes sobre sua obra. Mario de Andrade: “Em numerosas passagens de ‘Cana caiana’ é tamanho o equilíbrio e a verdade da expressão lírica e formal, que se tem o sentimento muito firme da perfeição clássica”. Tristão de Athayde: “…um livro profundamente típico do Nordeste, de poemas do campo e do povo, que reflete a feição nativa, bárbara e localista do nosso modernismo: ‘Catimbó’ do sr. Ascenso Ferreira”. José Lins do Rego: “A poesia de ‘Catimbó’ a gente lê sempre e tem sempre vontade de ler outra vez. É uma poesia de verdade mais para o ouvido do que para os olhos. Daí o sr. Medeiros de Albuquerque, que é um homem surdo, não a perceber”. José Condé: “Ascenso Ferreira, incomparável como sempre, vate dos carrascais sertanejos, cantor dos engenhos e dos pastoris nordestinos, dos bêbados de feira, do trem de Alagoas e das velhas ruas do Recife”.

Numa avaliação crítica de sua obra, verifica-se ele iniciou a carreira com modelos poéticos tradicionais, compondo sonetos, baladas e madrigais. Só depois da Semana de Arte Moderna e sob a influência de Mario de Andrade, Joaquim Cardoso e Câmara Cascudo entre outros, é que sua poesia retorna aos temas regionais ligados aos engenhos, vaqueiros, cangaceiros, cegos violeiros, folguedos e das lendas populares. Além disso, a adesão ao modernismo implica também numa incorporação de recursos modernistas, como o aproveitamento poético da linguagem popular e o humor. Tal como Mario de Andrade em Macunaíma, ele gostava de ironizar a ética do trabalho numa referência a “preguiça inata” dos brasileiros: “Hora de comer – comer! / Hora de dormir – dormir! / Hora de vadiar – vadiar! / Hora de trabalhar? / – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!“. Acrescente-se aqui o aguçado senso de ritmo nos versos dedicados ao trem de Alagoas, quando passava por Catende e musicados por Alceu Valença: “Vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende, / vou danado pra Catende / com vontade de chegar […]“. Mário de Andrade chegou a dizer que seu compromisso entre fala e musicalidade era tanto que “mais sistematização sonora seria diretamente música”.

Em 5 de maio de 1965, faltando apenas quatro dias para completar 70 anos de idade, o poeta faleceu no Hospital Centenário, no Recife. Em sua homenagem e agradecimento, a Prefeitura ergueu seu busto na Rua Apolo, local onde ele gostava de vadear e perambular.

No pedestal do busto foram gravados um de seus versos preferidos:

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife, que atrás do arruado
deserto ficou,
criança , de novo,
eu sinto que sou

A CHAMA

O que é poesia? Quem é poeta?

Poesia, para mim, é o ponto alto, a linha de chegada da Literatura. A partir daí pode mudar de nome e virar até religião, filosofia, psicologia, sei lá. É um texto que exprime um sentimento profundo, um esclarecimento, uma verdade facilmente compreensível por ouvidos atentos. Isso é o que eu acho que seja, é a definição que arrisco. Mas, está visto que isto não é definição, nem ao menos conceituação. Tanto eu como os poetas acham difícil encontrar uma definição acabada. É um enigma, tal como os mistérios da criação literária. Quem é poeta? É o mesmo enigma. Porém, reconheço uma e outro quando vejo um poema como esse, de Ascenso Ferreira:

A Chama

Na minha vida cruel e ávara
És irrequieta chama clara
Iluminando a solidão.
Porém, repara bem, repara
E vê se a nada se compara
O imenso horror dessa aflição:
Se acaricio a chama clara
A chama queima minha mão.

Um poema que exprime um sentimento e uma verdade. Mais tarde, folheando uma biografia de Monteiro Lobato, encontro um bilhete que ele mandou ao seu amigo Godofredo Rangel:

“Somos vítimas de um destino, Rangel.
Nascemos para perseguir a borboleta de fogo.
Se não a pegarmos, seremos infelizes;
e se a pegarmos, lá se nos queimam as mãos”

Quando Monteiro Lobato escreveu isto, tinha conhecimento do poema de Ascenso Ferreira? Ou vice-versa? Pode ser que sim, pode ser que não, não saberemos. O que sabemos é que eles chegaram à mesma verdade e expressaram-na de modo semelhante. Um é poema; outro é um bilhete poético? Pois bem, o que é poesia? Quem é poeta? Ascenso é poeta. E Lobato também?

Há uns 30 anos venho lidando com os mistérios da criação literária, perguntando por que se escreve? Como se escreve? O que é inspiração? etc. Já recolhi centenas de respostas de grandes escritores sem chegar a uma conclusão. As respostas vêm sendo divulgadas no site Tiro de Letra há 10 anos. Trata-se de uma enorme coleção de respostas e continua em aberto, pois como disse o crítico literário Fábio Lucas, “Não é estimulante continuar? A busca é a Literatura, e a busca não tem fim”.

Dois anos atrás, em parceria com o poeta e pesquisador Delmino Gritti, também interessado em saber o que é poesia, passamos a coletar as tentativas de definição expressas por diversos poetas e escritores. Chegamos até o momento a mais de 100 respostas e vimos publicando-as juntamente com um ensaio escrito pelo Delmino, que podem ser consultados no link O que é Poesia?. O Nordeste é um celeiro fértil de poetas, a Paraíba, então, nem se fala. Assim, essa divulgação neste prestigiado Jornal tem a intenção de ampliar a coleção de respostas com as colaborações que esperamos receber dos poetas nordestinos.

(Em tempo: como citamos Ascenso Ferreira, aguardem até 3ª feira uma biografia concisa do ilustre poeta pernambucano, de Palmares).

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XV

Josué de Castro (1908-1973)

Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 05/09/1908. Médico, nutrólogo, geógrafo, professor, político, escritor e autoridade mundial no combate à fome. Sua atuação no plano nacional e internacional abrangeu o plano ecológico com estudos e projetos, bem como o plano político com participação em vários organismos sociais. Seus primeiros estudos se deram em casa com sua mãe professora e continuados no Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano, tradicionais escolas do Recife. Durante a infância, morava próximo aos mangues da cidade, uma região de mocambos habitada por retirantes e caranguejos. Foi seu primeiro contato com o problema da fome visto de perto.

Em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade Nacional de Medicina, onde permaneceu durante seis anos. Não obstante o interesse pela psiquiatria, foi levado a se especializar em Nutrição. Aos 21 anos retornou ao Recife e montou sua clínica. Pouco depois foi contratado por uma fábrica para examinar trabalhadores com problemas de saúde indefinidos e acusados de indolência. Numa conversa com os patrões expôs o diagnóstico: “Sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença dessa gente é fome”. Foi demitido do emprego e passou a encarar a dimensão social da doença, que era ocultada por preconceitos sociais e climáticos.

Sua preocupação social ficou mais aguçada com o momento de agitação política da época. A Revolução de 30 dera inicio ao Estado Novo, colocando a política brasileira num estado de ebulição. Mas, ele manteve-se longe da militância político-partidária e passou a realizar pesquisas sociais referentes aos problemas da alimentação e da habitação em bairros operários do Recife. Seus estudos levaram-no a ver a fome como uma catástrofe social e não uma consequência das condições físicas, climáticas e étnicas, como alguns estudos afirmavam. Sua conclusão foi que o desnível social resultava de uma estrutura econômica e social impostas no período colonial e mantidas nos períodos Imperial e republicano. Em 1932 tornou-se professor livre-docente de fisiologia da Faculdade de Medicina de Recife, com a tese O problema fisiológico na alimentação. No mesmo ano orientou a realização de uma pesquisa pioneira no Brasil, relacionando a produtividade com a alimentação do trabalhador.

A pesquisa resultou na publicação de seu primeiro livro em 1935: Condições de vida das classes operárias do Recife, publicado pelo Departamento de Saúde Pública, e serviu como base posterior para a formulação do salário-mínimo. No mesmo ano casou-se com sua ex-aluna Glace Rego Pinto e foi morar no Rio de Janeiro. Após breve período de dificuldades financeiras, passou a lecionar Antropologia na Universidade do Distrito Federal (UDF), organizada por Anísio Teixeira. Paralelo a atividade docente, passou a escrever com regularidade e publicou o livro Alimentação e raça, em 1936. Embora não fosse filiado à ALN-Aliança Libertadora Nacional, publicou vários artigos em jornais ligados a essa organização. Em 1937, utilizando-se do método geográfico para apresentar o mapa das regiões alimentares, publicou o livro: A alimentação brasileira à luz da geografia humana, lançado pela Livraria do Globo, causando grande expectativa no meio acadêmico e político-social. Ao todo chegou a publicar 30 livros, e com tantas atividades ainda achou tempo para incursionar na literatura, publicando junto com Cecília Meireles, o livro Festa das letras, em 1939.

Nesta época foi criada a Universidade do Brasil, com a extinção da UDF, onde passou a ocupar interinamente a Cátedra de Geografia Humana, na qual se efetivaria em 1957, por concurso, defendendo a tese sobre Fatores de localização da cidade do Recife. Em 1938 foi convidado pelo governo italiano para realizar conferências nas universidades de Roma e Nápoles sobre a temática “Os problemas de aclimatação humana nos trópicos”. A partir daí, passou a ficar famoso e conhecido até fora do Brasil por suas atividades como nutrólogo, sociólogo, geógrafo etc. De 1940 em diante participou de todos os projetos governamentais ligados à alimentação, como a educação alimentar; coordenou a implantação dos primeiros restaurantes populares; dirigiu as pesquisas do Instituto de Tecnologia Alimentar e criou periódico Arquivos Brasileiros de Nutrologia. Ainda em 1940, passou a trabalhar no Serviço de Alimentação e de Previdência Social (SAPS), e fundou a Sociedade Brasileira de Alimentação. Em março de 1944 foi criado o Instituto Técnico de Alimentação (ITA), cuja direção ficou a seu cargo. Foi convidado oficial de vários países para estudar os problemas de alimentação e nutrição: Argentina (1942), Estados Unidos (1943), República Dominicana e México (1945) e França (1947).

O ano de 1946 foi marcado pela publicação de Geografia da fome, que causou impacto nos grupos conservadores e tirou da obscuridade o quadro trágico da fome no país. Enfatizou as origens socioeconômicas da tragédia e denunciou as explicações deterministas desse quadro. No mesmo ano, fundou e dirigiu o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil. Cinco anos após lançou Geopolítica da fome, causando impacto ainda maior, quando mudou sua escala de trabalho, passando a analisar o problema da fome no mundo inteiro. Os dois livros definiriam sua posição política e disposição de luta. Divulgados em vários idiomas, fizeram crescer o respeito e admiração ao seu trabalho, contribuindo para que em 1951 ele fosse colocado na presidência do Conselho Executivo da FAO-Food and Agricultural Organization (1952-56) e membro da Comissão Nacional de Política Agrária, criada por Vargas em 1951 e, dois anos depois, nomeado vice-presidente da Comissão Nacional de Bem-estar Social. Naquele ano, ele fora ainda candidato de Vargas, que voltara ao poder pelo voto, a Ministro da Agricultura, mas a forte oposição de grupos conservadores do PSD-Partido Social Democrático que apoiavam o governo impediu a sua ascensão ao Ministério.

Uma de suas facetas pouco conhecida é seu gosto pelo cinema. Na época em que dirigia a FAO, em Roma, ele se aproximou do mundo do cinema e seus escritos suscitaram interesse de cineastas do neo-realismo italiano, como Roberto Rosseline e Cesare Zavattini, ambos envolvidos em projetos de realizar filmes baseados em Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. Desses projetos, realizou-se apenas o segmento brasileiro do projeto de Zavattini, que resultou no filme “O Drama das Secas”, filme de Rodolfo Nanni de 1958.

Convidado a participar diretamente na política, ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro e exerceu dois mandatos como Deputado Federal (1954-58 e 1958-62). Foi o deputado federal mais votado em todo o Nordeste. Ao final do segundo mandato, foi designado embaixador do Brasil na Conferência Internacional de Desenvolvimento, da ONU, em Genebra e em seguida, na reunião da FAO, em Roma. Como Deputado, apresentou o projeto de regulamentação da profissão de nutricionista e o projeto de reforma agrária, entendida como “um processo de revisão das relações jurídicas e econômicas entre os que detêm a propriedade rural e os que nela trabalham”. Com o Golpe de 1964, foi destituído do cargo de embaixador do Brasil junto aos organismos internacionais da ONU, em Bruxelas. Sem condições de voltar à pátria, estabeleceu-se em Paris e continuou sua luta contra a fome e o subdesenvolvimento.

Em Paris foi acolhido pelo governo francês, que o designou professor associado do Centro Universitário de Vincennes, lecionando também na própria Universidade de Paris. Ministrou aulas para alunos de pós-graduação no Instituto de Altos Estudos para a América Latina, então dirigido pelo geógrafo Pierre Mombeig, que conhecia bem o Brasil. Chefiou o Centro Internacional de Desenvolvimento, atuando sobretudo na África e desenvolvendo trabalhos, especificamente no Marrocos. Presidiu o Comitê para a Constituição dos Povos e foi vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial. Nesta fase, além da influência sobre os estudantes de todo o mundo que convergiam para estudar em Paris, canalizou esforços para os problemas da Paz. Aí viveu os 10 últimos anos, onde faleceu em 24/09/1973 e foi sepultado no Rio de Janeiro.

Entre os prêmios e condecorações que recebeu, constam: Prêmio Pandiá Calógeras (1937), Professor Honoris-Causa da Universidade de San Domingos e de San Marcos (1950), Prêmio Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos (1952), Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial da Paz (1954), Oficial da Legião de Honra, do governo francês (1955), Grã-Cruz in memoriam, da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura (2006). Foi ainda indicado ao Prêmio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965. Sua memória e legado são mantidos no Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro, fundado em 1979 no Recife. Em 1989 sua família incorporou todo seu acervo documental e biblioteca ao Centro, colocados à disposição e do público e pesquisadores. Trata-se de um expressivo acervo de informações referentes ao problemas da fome e do subdesenvolvimento.

* * *

DESAPONTAMENTO COM A CAUSA DA DESAPOSENTAÇÃO NA REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Contribui com o INSS durante 40 anos, desde 1965, quando contava com 14 anos. Naquela época menor de idade podia trabalhar com registro na “Carteira de Trabalho do Menor”. No começo era uma porcentagem sobre um salário-mínimo. Dez anos após contribuía com bem mais, era uma porcentagem sobre quase dez salários-mínimos. Nas décadas seguintes a porcentagem passou para quase vinte salários-mínimos, ultrapassando os vinte durante alguns anos.

Em 1997, com 30 anos de contribuição e com a ameaça de se extinguir a “aposentadoria proporcional”, requeri a minha. Continuei trabalhando (e pagando o INSS, porém sem direito a reajuste na aposentadoria) mais 10 anos, e passei a receber R$ 600 e poucos p/ mês. Representava pouco mais de 5 salários-mínimos e era a mesada do meu filho, que estudava fora de São Paulo. Achei muito pouco comparado com os valores que eu paguei durante 30 anos. Mas serviu como “ajuda de custo”, apenas isto. Com o tempo esse valor foi sendo reduzido a cada ano, pois os reajustes para quem ganha acima do salário-mínimo é menor. Desse modo, em pouco tempo minha aposentadoria será também um salário-mínimo. Hoje é menos que 3, mas a tendência é chegar a 1 salário-mínimo.

Uma forma de corrigir essa injustiça foi encontrada no processo de “desaposentação”, que resulta numa troca da antiga aposentadoria por outra acrescida pelos anos trabalhados (e pagos) a mais após a aposentadoria. Nada mais justo: você recebe de acordo com sua contribuição. Assim, durante uns 10 anos mais de 180 mil injustiçados entraram com ação judicial contra o INSS para rever os valores pagos. Eu fui um deles, e aguardamos esse tempo todo uma decisão que terminou chegando ao STF-Supremo Tribunal Federal para julgamento no ano passado. Pouco antes disso, a ministra Cármen Lúcia, antes de se tornar presidente do STF demonstrava-se favorável ao pleito da desaposentação. Não só ela, mais alguns juízes também concordavam com o pleito e julgaram pela sua validade, beneficiando umas poucas ações impetradas em alguns estados. Porém, no ano passado a cause chegou ao STF encontrando a Sra. Carmén Lúcia com presidente.

Todos achavam que, deduzindo sobre seu posicionamento anterior, bem como a jurisprudência criada com algumas causas já ganhas em outras instâncias, a causa da desaposentação finalmente chegaria ao final com o reajuste requerido, fazendo justiça ao pleito de milhares de aposentados que não conseguem sobreviver com o pouco que recebem. Mas eis que na hora da votação o pleito foi rejeitado por 4 a 7 votos, incluindo o voto desfavorável da presidente Cármen Lúcia. Injunções políticas, falta de recursos e interesses particulares fizeram que a desaposentação não fosse aprovada e os 180 mil aposentados que impetraram a causa ficaram a ver navios. O “mensalão” e o “petrolão” não foram apenas os fatores que atrasaram durante tanto tempo o julgamento da causa; foram também a causa da falta de recursos do governo para efetuar o reajuste.

Agora a reforma da previdência está na ordem do dia e não se fala mais em desaposentação. O que aconteceu? As federações e a COBAP-Confederação Brasileira de Aposentados desistiram dessa reinvindicação? Os aposentados que contribuíram para aumentar substancialmente o caixa do governo, são os prejudicados pelos desmantelos do governo? Não seria o caso de aproveitarmos a reforma da previdência para o governo resolver essa pendência com os aposentados que pagaram a mais? Não se constitui em ato de extrema covardia, aproveitar-se do fraco poder de mobilização politica dos velhinhos? O que estas entidades “representativas” dos aposentado pretendem fazer?

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XIII

Mario Pedrosa (1900-1981)

Mário Xavier de Andrade Pedrosa nasceu em Timbaúba, em 25/04/1900, no Engenho Juçaral. Filho de Pedro da Cunha Pedrosa, ex-senador da República e ex-ministro do Tribunal de Contas. Aos 13 anos foi estudar na Suíça e retornou aos 16 anos. Passou a viver no Rio de Janeiro, onde formou-se na Faculdade de Direito. Em 1924 mudou-se para São Paulo e foi trabalhar como redator de política internacional no jornal “Diário da Noite” ao mesmo tempo em que escreve artigos de crítica literária. Nesta ocasião, aproxima-se dos modernistas, em especial de Mario de Andrade.

Filiado ao PCB-Partido Comunista Brasileiro em 1926, foi estudar em na Escola Leninista de Moscou, em 1927. Mas devido a problemas de saúde se instalou em Berlim, onde estudou economia filosofia e estética. De volta ao Brasil em 1929, passou a integrar o grupo de simpatizantes do “movimento trotskista internacional” no âmbito do PCB, o que motivou sua expulsão do partido no mesmo ano. Em 1931 fundou a Liga Comunista, junto com os amigos Fúlvio Abramo, Lívio Xavier. Aristides Lobo e Benjamin Péret. Com a Revolução Constitucionalista de 1932, é preso e libertado pouco depois. Com a finalidade de publicar textos marxistas no Brasil, fundou a editora Unitas, e passou a dar palestras sobre as tendências da arte moderna. Em 1936, o grupo de amigos decide criar o Partido Operário Leninista.

Instalado o Estado Novo, em 1937, optou pelo exílio na França. No ano seguinte, no Congresso de Fundação da Quarta Internacional, representou alguns partidos operários da América Latina, com o pseudônimo de Lebrum, e foi eleito para o Comitê Executivo da Internacional (CEI) da IV Internacional. Três anos após, voltou clandestinamente para o Brasil. Logo foi preso e pouco depois foi solto com a condição de deixar imediatamente o País. Em 1941 seguiu para os EUA, e passou a trabalhar na União Pan-Americana, futura OEA-Organização dos Estados Americanos. Nesta ocasião escreveu um artigo sobre os painéis de Cândido Portinari, exibidos na Biblioteca do Congresso, em Washington. Em seguida passou a trabalhar na seção de cinema do Escritório de Coordenação de Negócios Interamericanos, em Nova Iorque. Durante o período de 1945-1945 exerceu a função de correspondente, nos EUA, do jornal carioca “Correio da Manhã”.

Em 1945 retornou ao Brasil e participou da criação do grupo “União Socialista Popular” e passou a colaborar na edição do semanário “A Vanguarda Socialista”. Por essa época encarou a vida acadêmica mais a sério e, em 1949, ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil. Sua tese sobre arte e Gestalt influenciou jovens artistas, que se tornariam importantes nomes da arte concreta na década de 1950. No ano seguinte obteve o título de professor livre-docente. A partir daí a vida do crítico de arte tomou impulso: participou ativamente da criação do Movimento Concretista; curador da II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953) e Secretário-Geral da IV Bienal (1957); organizou uma exposição sobre arquitetura brasileira, no Japão (1958); organizou o Congresso Internacional Extraordinário dos Críticos de Arte, antecipando a fundação de Brasília, em 1959, quando apresentou seu trabalho “A cidade nova – síntese das artes”; vice-presidente da Associação; vice-presidente da AICA-Associação Internacional dos Críticos de Arte (1957-1970); diretor do Museu de Arte Moderna-MAM, de São Paulo (1961-1963); presidente da Associação Brasileira de Críticos da Arte (1962); Secretário do Conselho Federal de Cultura (1961-62) além de integrar o júri de várias bienais de artes plásticas no mundo.

Chegamos ao ponto onde Mario Pedrosa é um mentor e porta-voz de uma vanguarda artística, uma autoridade no mundo da crítica de arte, que se afasta do objetivismo e racionalismo dos anos 1950. Mas aqui surge uma pergunta: ele é mais político ou é mais artista ou crítico e teórico da arte? Como se fundem estas duas áreas tão distintas? Para ele “arte” e “política” são as duas formas mais elevadas de expressão humana. Assim, propõe que a única postura diante da vida é o engajamento político, mas defendendo a plena liberdade de expressão artística. Desde a juventude envolveu-se com estes dois universos, contando com o amigo e cunhado, o poeta surrealista Benjamin Péret.

No entanto, logo depois ele se afastou da concepção de arte engajada, que embalava boa parte do movimento esquerdista. Tal pensamento estava embasado no “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente”, elaborado por André Breton e Leon Trotsky em 1938, defendendo que a “arte tem um potencial libertário e revolucionário em si”. Já no inicio da década de 1940, conforme Antonio Cândido, ele “surpreendeu ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma”, passando a apoiar uma arte sem mensagem social e desconectada com a política explícita. Dessa forma passou combater a arte do “realismo socialista”, afirmando que toda arte é abstrata e que não é “a maior ou menor fidelidade da representação externa que determinará a maior ou menor qualidade estética”. Essa nova postura clama por “Toda liberdade à arte” e influencia a II Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1953), trazendo para o Brasil artistas de vanguarda: surrealistas, cubistas, futuristas e abstracionistas.

Em 1957, publicou o livro Poeta e pintor concreto, sobre o novo movimento literário. Sua preocupação era unir a “brasilidade”, a “tradição cultural local” a uma arte mais universal, como a abstrata e o concretismo, pouco aceitos pela velha guarda do movimento modernista. Assim, ele vê na pintura de Alfredo Volpi uma conciliação destes dois aspectos. No inicio da década de 1960, dedicou-se a solidificar o movimento concretista em âmbito nacional ao mesmo tempo em que se preocupa com a situação política do País, com a renúncia de Jânio Quadros em 1961. Pouco depois do Golpe de 1964, passou a se ocupar mais com a temática politica, e publica dois livros em 1966: A opção brasileira e A opção imperialista, onde reflete sobre o golpe e suas consequências, a política imperialista norte-americana, a burguesia nacional etc.

Em 1968, com o recrudescimento da ditadura militar, ele passou a denunciar a tortura aos presos políticos e a combater o regime. Foi processado em 1970, e tornou público seu pedido asilo no Chile. Ao tomar conhecimento do fato, o “The New York Times Review of Books” publicou carta aberta assinada por importantes artistas, como Picasso, Calder, Henry Moore e Max Bill, responsabilizando o governo brasileiro por sua integridade física. No Chile, onde se processava, pelo voto, uma revolução socialista sob o governo de Salvador Allende, fundou o Museu da Solidariedade, um dos mais importantes do país. O acervo, com mais de cinco mil obras de arte, continha obras de Picasso, Calder, Miró, Soulages entre outros, todas elas doadas graças ao seu prestígio internacional. Ainda no Chile contatou militantes brasileiros exilados e com o argentino trotskista Nahud Moreno. De tais contatos surgirão posteriormente novos movimentos organizados, tais como “Liga Operária” e “Convergência Socialista”.

Juntamente com a atividade política, passou a lecionar na Faculdade de Belas Artes de Santiago até a queda e morte de Salvador Allende, em 1973. Em seguida ficou uma temporada no México e logo se muda para Paris, onde viveu quatro anos e publicou inúmeros artigos para revistas de todo o mundo. Seu regresso ao Brasil se dá em outubro de 1977, quando foi absolvido por unanimidade. Passou a escrever regularmente na “Folha de São Paulo” e a batalhar pela reconstrução do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro-MAM, após o incêndio que o destruíra em 1978. No ano seguinte publicou um importante livro reunindo sua tese Da natureza afetiva da forma na obra de arte com outros ensaios intitulado Arte/forma e personalidade. No entanto, a veia política também se expressa ostensivamente, tornando-se o primeiro intelectual a participar da criação do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

Dias antes de falecer, em 11/11/1981, lançou uma coletânea de artigos sobre artes plásticas: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. Sua produção bibliográfica é composta por mais de 20 livros, muitos dos quais vem sendo reeditados até hoje. Sua biblioteca, de oito mil livros, folhetos e periódicos, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional. Seu arquivo composto de documentos, correspondência, artigos, fotos etc. estão reunidos no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa-CEMAP, sob os cuidados da UNESP-Universidade Estadual Paulista, em São Paulo.

* * *

A GRETOESTE DEIXOU MAIS RASTROS DO QUE TRILHOS

Apenas os nordestinos com mais de 60 anos saberão o significado da palavra “Gretoeste”: uma corruptela do nome Great Western, antiga empresa ferroviária inglesa existente em Pernambuco. Na Inglaterra, ela representou a conquista e a expansão para oeste, no século XIX; no Brasil começou fazendo o mesmo em direção ao agreste pernambucano. Assim, poderia se pensar que a palavra tem origem no termo “agreste”. Não. É pura coincidência etimológica. Uma coincidência interessante, digamos.

A Great Western of Brazil Railway é a primeira rede ferroviária, de importância econômica, no Brasil. Criada em 1873, contava com 1.600 km. de trilhos em quatro estados do Nordeste: Pernambuco (sede), Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Durante 77 anos cruzou estes estados com trens de passageiros e carga até 1950, quando foi nacionalizada, passando a se chamar Rede Ferroviária do Nordeste (RFN), antecessora da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). Neste período deixou mais rastros do que os trilhos do trem em sua trajetória, disse um cantador de repentes.

Segundo William Edmundson, pesquisador inglês radicado em João Pessoa, “Foi a primeira empresa no Brasil a proibir, por contrato, o trabalho escravo na construção e na operação da ferrovia”, E, em 1923, inaugurou a assistência social no Brasil com uma caixa de aposentadoria e pensões para os trabalhadores. Em 1928 foi criada a Associação Athlética Great Western. O “Ferroviários”, como era chamado, era o time de futebol, mas a Associação contava com outros esportes, como o atletismo, basquete, voleibol e tênis. No futebol integrava a 1ª Divisão do Campeonato Pernambucano, e em 1942 foi vice-campeão. Mas não estamos aqui para falar de esportes, a menção serve apenas para dimensionar o quanto a empresa era importante no seio da comunidade.

A primeira linha, inaugurada em 1879, ligava Recife a Limoeiro, passando por Caxangá, São Lourenço da Mata, Pau d’Alho e Tracunhaém, com ramais para Nazaré da Mata e Vitória de Santo Antão. Mais tarde, em 1886, a Great Western construiu a Estrada de Ferro Central de Pernambuco, ligando Recife a Caruaru e passando por Vitória de Santo Antão, Gravatá e Bezerros. Por essa época esta região exportava para o Recife grande quantidade de produtos, além de realizar a maior feira de gado da região. Em princípios do século XIX, a empresa tinha anexado a maior parte das linhas férreas existentes na região.

Quando estourou a II Guerra Mundial, tiveram que recorrer à lenha substituindo o carvão de pedra, causando a devastação das florestas. Para amenizar o problema, a empresa criou várias reservas florestais, onde eram cultivadas plantas nativas e aclimatadas no País para abastecer os trens. Vê-se que naquela época já se impunha uma consciência ecológica para evitar o desmatamento da região. Só mais tarde, em 1953, sob a direção da RFN, é que se daria dieselização de suas linhas, com a aquisição de 13 locomotivas diesel-elétricas.

Muitos estudos e teses confirmam a importância da Great Western no desenvolvimento do Nordeste. Dizem que é impossível escrever a história econômica da região sem consultar os arquivos e relatórios da empresa. É idêntica a história das ferrovias inglesas no desenvolvimento do Estado de São Paulo. Sua história acaba em 1950, com a criação da RFN e posteriormente, em 1957, com a RFFSA. Mais tarde, em 1985, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) passa a operar o que restou da empresa. No mesmo ano, foi inaugurado o Metrô do Recife, seguindo a rota da linha original da Great Western.

Toda essa história foi resgatada pelo pesquisador inglês William Edmundson, radicado em João Pessoa, e publicada no seu livro A Gretoeste: a história da Great Western of Brasil, lançado no ano passado pela Editora Ideia. O livro com 350 páginas, texto conciso e leitura agradável, embora com rigor acadêmico, traz informações relevantes tanto para os fanáticos por trens quanto para os interessados na história econômica do Nordeste.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES XII

Gregório Bezerra (1900-1983)

Gregório Lourenço Bezerra nasceu em Panelas, em 13/03/1900. Trabalhou na agricultura ainda criança e ficou órfão do pai aos sete anos, e da mãe aos nove. Foi morar no Recife junto a família dos fazendeiros que empregavam seus pais, mas não ficou muito tempo. A promessa de estudar não foi adiante e permaneceu analfabeto até os 25 anos. Passou boa parte da infância dormindo na rua e entre as catacumbas do cemitério de Santo Amaro. Nessa época trabalhou como carregador de malas na estação ferroviária, ajudante de pedreiro e jornaleiro.

Foi como vendedor de jornas que começou a se interessar pela política, através da leitura que os colegas faziam para ele. Em 1917 foi preso pela primeira vez, quando participava de uma manifestação de apoio à Revolução Bolchevique, que se passava na Rússia e à greve geral reivindicando direitos trabalhistas. Passou cinco anos preso na Casa de Detenção do Recife, onde conheceu o cangaceiro Antonio Silvino, do quem se tornou amigo. Ao sair da prisão, em 1922, com dificuldades de arrumar emprego, alistou-se no Exército e dedicou-se, como autodidata, à sua própria alfabetização. Com a intenção de fazer carreira militar, entrou para a Escola de Sargentos de Infantaria, no Rio de Janeiro e foi instrutor da Companhia de Metralhadoras Pesadas. Em 1929, retorna ao Recife e filia-se ao PCB-Partido Comunista Brasileiro.

Dois anos depois, é designado instrutor de educação física do Colégio Militar de Fortaleza. Por sua própria conta, criou uma célula do PCB em Fortaleza, contrariando a orientação do partido. Em 1935 participou da “Intentona Comunista”, movimento promovido pela ANL-Aliança Libertadora Nacional, na condição de líder do levante militar. Na tentativa de roubar armamentos do CPOR, foi preso acusado pela morte de um tenente e ferimento de outro. Nesta segunda prisão, recebeu uma condenação de 28 anos, primeiro em Fernando de Noronha, seguida por outra temporada no Rio de Janeiro, no Presídio Frei Caneca. Nesta ocasião, dividiu a cela com o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes. Foi aí que aprimorou seus conhecimentos sobre as condições econômicas e políticas do Brasil, bem como sobre o movimento comunista internacional.

Com o fim do Estado Novo e a legalização do PCB em 1945, foi anistiado e elegeu-se deputado federal constituinte por Pernambuco, com a maior votação do estado. Em 1948 foi cassado junto com todos os parlamentares comunistas. Passou a viver na clandestinidade por nove anos, e neste período viajou para Goiás e Paraná, organizando núcleos sindicais como militante do PCB. A terceira prisão veio em 1964, com o Golpe Militar. Foi preso enquanto organizava a resistência armada dos camponeses ao golpe em apoio ao governo de João Goulart (federal) e Miguel Arraes (estadual). Levado para o Recife, sofreu as mais terríveis torturas e humilhações públicas: teve os pés imersos em ácido de bateria e foi obrigado a andar sobre britas. Em seguida foi arrastado pelas ruas de Casa Forte, enquanto o tenente-coronel Darcy Viana Vilock incitava a população a linchá-lo. O povo, consternado pela cena, não atendeu a incitação do coronel. Estas cenas foram transmitidas ao vivo pela televisão.

Em 1967 foi condenado a 19 anos de prisão, e foi libertado em 1969, junto com outros 14 presos políticos, em troca da libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, sequestrado pelos guerrilheiros. Passou a viver na Rússia após um curto período no México e Cuba, só retornando ao Brasil em 1979, com a promulgação da anistia. Logo em seguida começou a divergir do PCB e desligou-se de seus quadros. No mesmo ano publicou sua autobiografia “Memórias” (relançado em 2011 pela Boitempo Editorial).

Pouco depois, filou-se ao PMDB, candidatou-se a Deputado Federal, em 1982, mas perdeu e ficou como suplente. No ano seguinte, já doente, declarou: “Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas”. Faleceu em 21/10/1983. Em sua homenagem, o poeta Ferreira Gullar compôs o poema-cordel intitulado “História de um valente”.

Valentes, conheci muitos,
e valentões, muito mais.
Uns só Valente no nome
uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
só com capangas atrás.
Mas existe nessa terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta da sua gente
e que luta a seu favor,
como Gregório Bezerra,
feito de ferro e de flor.

Em 2004 foi realizado o documentário de 28 minutos “Gregório Bezerra, feito de ferro e de flor”, dirigido por Anna Paula Novaes, Raquel barros e Rosevanya Albuquerque. O filme ganhou os prêmios de Destaque e Menção Honrosa no Festival Brasileiro de Cinema Universitário.

* * *

O IMPÉRIO DE NAPOLEÃO ACABOU NO RECIFE

É sabido que o império de Napoleão acabou na Batalha de Waterloo, em 1815. Porém, é sabido também que os impérios não acabam assim de repente. O que restou e o que foi feito do famoso exército napoleônico? Após seu degredo para a Ilha de Santa Helena, muitos de seus altos oficiais foram presos; outros mortos; e outros debandaram pelo mundo afora. Muitos foram parar nos Estados Unidos; pais ainda em formação; brigando com a Inglaterra; logo, um bom lugar para começarem nova vida. Nos EUA, se estabeleceram na maior cidade americana da época: Filadélfia, a cidade do amor fraternal como diz seu nome; um lugar apropriado para receber estrangeiros; grande centro da Maçonaria internacional; ideal para reunir gente disposta a empreender, conspirar, lutar. Assim era a Filadélfia em 1817, a primeira capital dos EUA.

No mesmo ano o Brasil se agitava com a Revolução Pernambucana em curso, pretendendo tornar-se independente de Portugal. O movimento eclodiu em março de 1817, com a tomada do Palácio do Governo, na praça do Erário, onde se depositava o dinheiro português. Para presidir o Erário foi designado o influente comerciante Antonio Gonçalves da Cruz Cabugá. Em seguida, o Comitê Revolucionário enviou emissários às províncias vizinhas, com a finalidade de obter apoio interno; e para o exterior na busca de apoio externo, particularmente dos EUA.

Em maio de 1817, Cruz Cabugá desembarcou na Filadélfia com 800 mil dólares na mala e a missão de (1) comprar armas para combater as tropas inimigas, (2) convencer o governo americano a apoiar a Revolução e (3) recrutar alguns experientes militares franceses para ajudar a formar o exército que nascia em Pernambuco.

Não sabemos se chegou a comprar as armas, mas obteve um relativo apoio do governo americano. Enquanto durasse a revolta, os navios pernambucanos poderiam navegar em águas norte-americanas e, caso fracassassem, receberia os exilados. O contato com os militares franceses, regado a vinho e cachaça que ele levou, animou-os a participar da empreitada. Cruz Cabugá conseguiu contratar quatro veteranos de Napoleão: Conde Pontelécoulant, coronel Latapie, ordenança Artong e o soldado Roulet. Foi o que deu para conseguir com o dinheiro que levara.

Os franceses viram ali uma oportunidade de resgatar Napoleão, preso na ilha de Santa Helena e levá-lo para o Recife. Vencida a batalha, poderiam partir para a reconquista do Império na Europa. Napoleão também viu vantagem na empreitada. Seria uma oportunidade para se vingar de Dom João VI, o rei fujão de Portugal. Negócio fechado, os quatro franceses embarcaram para o Recife, enquanto Cabugá concluía as negociações.

Imprevistos da História auxiliados pela demora da navegação fizeram com que os quatros franceses demorassem a chegar e foram presos antes mesmo de desembarcar. Recife estava sitiada pelas tropas portuguesas. Cruz Cabugá, sabendo do ocorrido, ficou por ali mesmo até que as coisas esfriassem, digamos assim.

A História não lida com suposições, mas não custa nada imaginar que Napoleão tenha vindo, vencido a batalha contra os portugueses e instalado seu governo em Pernambuco. Foi o que Sérgio C. Buarque imaginou e escreveu o livreto Pernambuco imortal, imortal: devaneios de um cronista republicano do século XIX, editado pela Fundação Astrojildo Pereira, recentemente lançado. Napoleão se instalou no Recife e seus oficiais passaram a preparar a retomada da França. Enquanto isso, ele se refastelava com as delícias e o clima da terra, até que uma morena cor de jambo atravessou seu caminho.

Certo dia, ele reuniu todos os oficiais no terraço do Palácio das Princesas, e ao lado da morena anunciou: “Compatriotas, decidi abandonar o meu projeto de restauração da França e os convido a me acompanharem na entrega a este pequeno e inculto país que estamos construindo nos trópicos. A partir de agora, sou apenas pernambucano, um revolucionário pernambucano, um republicano dedicado à glória de Pernambuco. Tenho quase 50 anos, amo esta mulher cor de jambo que me ensinou a amar esta terra e que carrega um pequeno Napoleão no seu ventre. Não quero mais navegar por esses mares. Quero formar uma família e construir uma nação aqui. Dedicar o resto dos meus dias à proteção ao progresso desta terra”.

E assim termina a aventura napoleônica no Recife. Uma história engraçada cujo começo e meio estão repletos de fatos, intrigas e desilusões, que não vou contar para não estragar o prazer da leitura dos interessados em suposições históricas.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XI

Barbosa Lima Sobrinho 1897-2000

Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho nasceu em Recife, em 22/01/1897. Foi essencialmente um jornalista, mas teve atuação destacada também como atleta, historiador, escritor, advogado e político. Seu nome já apareceu no Guinness of Recordes como o jornalista mais antigo do mundo em atividade. Durante 76 anos escreveu um artigo semanal no Jornal do Brasil (1924-2000), período no qual publicou mais de 4 mil artigos. Presidiu por três vezes a ABI-Associação Brasileira de Imprensa (1926-1927, 1930-1932 e 1978-2000) e a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977. Ou seja, teve toda a sua vida dedicada ao jornalismo entremeada com outras atividades. Oriundo de uma família tradicional do Recife, deve seu nome ao tio Barbosa Lima, que governou Pernambuco no período 1892-1896. O que lhe garantiu tanta longevidade foi o fato de ter sido, na juventude, atleta nadador e remador. “No Clube Náutico Capibaribe, no Recife, eu era o proa da guarnição dos remadores. Nossa guarnição foi a única do Brasil que teve dois acadêmicos, o Múcio Leão e eu”,

Ainda criança, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou o curso primário. Poucos anos depois, retorna ao Recife, onde concluiu os primeiros estudos no Colégio Salesiano e Instituto Ginasial Pernambucano, em 1911. Aos 13 anos já escrevia nos jornaizinhos destas escolas, e aos 15 anos publicou seus primeiros artigos no jornal A Província, do Recife. Em 1913 entrou para a Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1917, quando passou a trabalhar como adjunto de promotor. A partir daí exerceu a advocacia sem deixar de colaborar na imprensa: Diário de Pernambuco, Pequeno Jornal e Jornal do Recife, onde publicava uma crônica dominical de 1919 a 1921. Neste ano mudou-se para o Rio de Janeiro e foi contratado imediatamente pelo Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator-chefe. Em 1926 foi eleito presidente da ABI pela primeira vez. Foi quem instituiu a profissão de jornalista, de fato, no Brasil: conseguiu unificar a classe, então dividida em três associações, reformulou os estatutos da entidade, instituiu a carteira de jornalista e o título de sócio e estabeleceu intercâmbio com as associações de imprensa dos estados, proporcionando a integração dos jornalistas em todo o país.

Em 1931, decidiu se casar com Maria José e foi pedi-la ao pai. O velho Horácio Pereira foi honesto e suscinto:

– “Minha filha não sabe cozinhar, não sabe costurar e nem passar”.

O jovem pretendente não deixou por menos:

– “Se eu quisesse uma empregada, doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do País”.

Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça. No final do mandato foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde atuou também como secretário-geral em 1952; presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955 e 1956; diretor da biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993.

No ano seguinte (1938), foi designado presidente do IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, onde conheceu, deu emprego e ficou amigo de Miguel Arraes. Em sua gestão o IAA realizou com sucesso as primeiras experiências na utilização do álcool como combustível automotivo, através da mistura de álcool anidro e gasolina. Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), quando escasseou o petróleo, houve um mês, em São Paulo, em que os veículos só contaram com aquele tipo de combustível fornecido pelo IAA. Vê-se hoje o pioneirismo do IAA na política energética: apenas na década de 1970, a política de produção do álcool como substituto da gasolina seria adotada pelo governo, passando a implementar a fabricação de veículos movidos à álcool para fazer frente ao alto custo da importação do petróleo. No plano interno, estabeleceu o serviço assistencial médico e dentário para os funcionários e seus dependentes, além de providenciar a transferência do IAA para uma nova sede, na praça 15 de Novembro, no Rio de Janeiro. Clique aqui e leia este artigo completo »

MAURICIO DE NASSAU RETOMA O RECIFE

O espírito de Mauricio de Nassau de vez em quando baixa no Recife. Seu apreço pela cidade é tamanho que deu seu nome à cidade: “Mauricéia”, que mais tarde Mario de Andrade imitou em São Paulo com “Paulicéia, mesmo que seja desvairada, um sinal dos tempos.

O que ele fez pela cidade em sete anos de governo em termos de infraestrutura (e também de superestrutura), considerando-se os recursos da época, é inatingível por qualquer governante até hoje. O plano urbanístico, palácios, jardins, pontes e diques ainda estão lá para quem quiser ver. Claro que para isso recebeu uma ajuda substancial da colônia judaica, pois ninguém faria aquilo tudo isso sozinho. Quando foi chamado de volta à Holanda, os judeus se mobilizaram e quiseram cobrir o salário que lhe pagavam para que permanecesse na cidade. Não teve jeito, voltou para a Europa e se instalou na Alemanha.

Mas não esqueceu a cidade que mais tarde Albert Camus chamou de “Veneza Brasileira”. Tanto é que 66 anos depois de seu retorno à Europa, foi chamado de volta para ajudar na emancipação do Recife numa revolta contra o domínio português instalado em Olinda. Em 1710 esteve por aqui auxiliando os recifenses na condição de estrategista dos mascates. Nassau não era político nem militar, era um empresário que exercia o poder com o conhecimento dos homens de negócios. Quanto a exploração da mão de obra escrava, não fazia como os portugueses que exploravam, torturavam e matavam os trabalhadores. Dizia que pode-se tosquiar a ovelha, mas o cutelo não pode atingir a pele do animal, numa analogia ao tratamento dado pelos portugueses.

Sua ajuda foi decisiva: Recife venceu a Guerra dos Mascates, conquistou a autonomia e pode prosseguir com seu talento para se tornar uma metrópole mundial, como ele idealizara. Mais tarde, em 1817, foi solicitado de novo a colaborar com a independência da Nação Pernambucana (e por extensão, brasileira). Porém, não botou muita fé no empenho; achou que a pretensão era grande demais e não veio participar diretamente do embate. Manteve uma ajuda à distância, dando apenas consultoria aos revoltosos através da inspiração. Um dos fatores que o desanimou foi a participação de militares napoleônicos articulada pelos revoltosos, e até a possibilidade de se transferir Napoleão, preso na Ilha de Santa Helena, para o Recife, com o intuito de retomar o Império Napoleônico. Sabe-se que as relações entre a Alemanha e a França não eram cordiais. A Revolução Pernambucana prosperou apenas por 74 dias e foi fragorosamente derrotada. Mesmo assim, antecipou uma independência negociada cinco anos depois.

Como empresário multinacional (foi um dos dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais), sua estratégia era outra. Seu negócio era manter o domínio através de novos mercados, e Pernambuco tinha cacife para isto. Passados todos estes anos, eis que Nassau surge de novo, agora inspirando um alemão empresário e art designer, para restaurar o que restou daquela época e retomar o devido lugar do Recife no mapa mundial. Agora não se trata mais de invasão territorial, pois o processo de globalização iniciado naquela época se dá hoje de modo diverso. O processo hoje se dá pelo meio empresarial, onde Nassau tem uma longa e comprovada experiência.

Seu conterrâneo, Klaus Meyer, esteve no Recife e foi inspirado por Nassau a se apaixonar pela cidade. Na busca de um lugar para morar e trabalhar, encontrou na Rua da Soledade (bairro da Boa Vista) um vistoso casarão, de 1840, com o nome de “Villa Ritinha” esculpido no pórtico, o nome da esposa do proprietário. O local pertencia a um casal de portugueses, onde se dava grandes festas da elite pernambucana do século XIX. Tem até um elevador, um dos primeiros do Recife, que vai ser restaurado. O alemão se apaixonou de imediato pelo imponente prédio, e comprou-o. “Quando eu comecei a restaurar a casa, descobri que havia muitas obras de arte cobertas por pinturas e achei que isso não poderia ficar fechado. As pessoas tem o direito de conhecer isso. Mudei todo o plano”, disse Meyer.

Iniciou a restauração do prédio de 400m² há três anos, e as pinturas, afrescos e altos-relevos em estilo francês e italiano da época foram aparecendo por baixo das camadas de tintas retiradas. São belíssimos quadros espalhados pelas salas e corredores do casarão. Seu projeto consiste na instalação de um centro cultural com café, bar, auditório e galeria de arte para visitação pública. A Villa Ritinha pode ser vista em todo seu esplendor na Intenet (https://www.youtube.com/watch?v=UlGsQhri–Y). Sua ideia é estimular outros empresários a adquirirem mais casarões antigos nas redondezas, restaurá-los e retomar a beleza que um dia foi chamada de “Veneza Brasileira”.

A iniciativa de Klaus Meyer estimulou a Prefeitura do Recife a retomar a restauração da cidade iniciada na década de 1990, com a Rua do Bom Jesus. Ou será que foi o espírito de Nassau interferindo e influenciando também na municipalidade? Não importa, o que interessa é que o secretário de Planejamento Urbano, Antônio Alexandre, está disposto a restaurar boa parte dos prédios antigos que se encontram abandonados, alguns correndo o perigo de desmoronar. “Começou como um polo institucional e agora está atraindo o interesse do mercado imobiliário. Vamos começar a fazer experimentos na cidade”, declarou. Pelo que temos “percebido”, Nassau anda agora exercendo sua influência nos empresários do Porto Digital, de modo a transformar toda aquela parte do centro velho do Recife num belo recanto onde o antigo e o novo se conjugam em perfeita harmonia.

PERNAMBUCANOS HONORÁVEIS (III)

Miguel Arraes, junto com Dom Hélder Câmara e Ariano Suassuna, talvez seja o mais conhecido “pernambucano honorável” até agora destacado nesta coluna. Demos este título aos nomes que muitas pessoas acham que é pernambucano para não faltar com a verdade e ao mesmo tempo dar uma satisfação aos nossos vizinhos paraibanos e cearenses que alegam o fato de os pernambucanos “gostarem de gozar com a pica dos outros”. Nas próximas semanas vamos alargar o leque de personalidades, incluindo outros nomes ilustres que, não sendo nativos, viveram parte de suas vidas e tiveram atuação relevante no estado de Pernambuco. Estamos abertos às sugestões dos leitores fubânicos para ampliar a galeria.

Miguel Arraes (1916-2005)

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15/12/1916, em Araripe, CE. Advogado, economista, politico e governador de Pernambuco por três vezes, além de deputado federal, estadual e prefeito do Recife. Ainda hoje é homenageado como um mito na política pernambucana. Filho de agricultores, seu pai foi um empreendedor que montou um matadouro e uma indústria de beneficiamento de algodão. Ainda jovem mudou-se para a cidade do Crato, a fim de concluir o ginásio. Por essa época, um fato viria marcar sua personalidade e selou seu destino político: testemunhou a prisão de três flagelados presos por tentarem fugir da seca para Fortaleza. Mais tarde afirmou: “É uma lembrança que guardo para sempre. Era um horror difícil de compreender e marcou meu jeito de ver as coisas”.

Ao concluir o curso secundário no Colégio Diocesano, em 1932, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde entrou na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). No mesmo ano foi aprovado num concurso para trabalhar como escriturário no IAA-Instituto do Açúcar e do Álcool, no Recife. Com isso conseguiu se transferir para a Faculdade de Direito do Recife, e concluiu o curso em 1937. No IAA fez carreira por algum tempo e conheceu Barbosa Lima Sobrinho, com quem travou um longo relacionamento e que o levou definitivamente para a Política. Em 1943, aos 27 anos, já era Delegado Regional do IAA. Foi aí que conheceu o poder de influência da aristocracia canavieira contrapondo com a vida miserável no campo.

Em 1948, o amigo Barbosa Lima Sobrinho, agora Governador do Estado, convidou-o para comandar a Secretaria da Fazenda. Em seguida disputou a sua primeira eleição para deputado estadual pelo PSD-Partido Social Democrático, mas ficou na suplência, vindo ocupar o cargo posteriormente. No ano seguinte casou com Célia de Souza Leão, irmã do usineiro Cid Sampaio, com quem manteve uma relação de parceria e concorrência. Em 1958 foi eleito deputado estadual. No ano seguinte, sob o governo de Cid Sampaio foi novamente Secretário da Fazenda e no mesmo ano aceitou – a pedido das forças progressistas – ser candidato a prefeito do Recife. Foi seu primeiro mandato executivo. Em 1961, faleceu sua esposa com quem teve oito filhos. No ano seguinte foi eleito governador de Pernambuco pelo PST-Partido Social Trabalhista, apoiado pelo PCB-Partido Comunista Brasileiro. No mesmo ano, casou-se com Maria Madalena Fiúza, com quem teve mais dois filhos.

Sua atuação ficou marcada com programas destacados na área da educação e no setor rural. O “Acordo do Campo” feito com os usineiros compreendia o pagamento do salário mínimo aos trabalhadores rurais. Apoiou a criação de sindicatos, associações comunitárias e as ligas camponesas, liderada pelo deputado Francisco Julião. Nessa época o as relações de trabalho dos canavieiros com os senhores de engenho eram consideradas como semiescravidão. Tais atividades fizeram com que, em abril de 1964, o Palácio das Princesas fosse cercado pelo militares, que lhe propuseram a renúncia ao cargo para evitar a prisão. Não só recusou a proposta como fez uma corajosa declaração pública, num ato de bravura, que não foi veiculada pelo Radio, pois as emissoras já estavam ocupadas pelos militares.

Foi deposto e preso na Ilha de Fernando de Noronha por 11 meses. Libertado em 1965 seguiu para o Rio de Janeiro, onde orientado pelo seu advogado Sobral Pinto, procurou o exílio para evitar uma nova prisão. Pediu asilo na Embaixada da Argélia, um país com problemas sociais semelhantes aos do Brasil. Passou 14 anos, junto com a família, em Argel colaborando com o governo argelino e sobrevivendo com tradutor. Nesta função traduziu um importante livro politico do russo Serge Tchakhotine, A mistificação das massas pela propaganda política, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 1967. Neste mesmo ano foi condenado à revelia com a pena de 23 anos de prisão, pelo crime de subversão.

Retornou ao Brasil em 1979, com a Anistia. Com todo esse tempo fora do país, o povo pernambucano não esqueceu do político. Uma multidão foi recebê-lo no aeroporto com faixas: “ARRAESTAÍ”. 50 mil pessoas estiveram presentes no comício de boas-vindas. Retomou a trajetória política filiando-se ao PMDB e foi eleito Deputado Federal em 1982. Na eleição seguinte (1986) foi eleito governador pela segunda vez. Nesta gestão implementou programas voltados ao pequeno agricultor, tais como o “Vaca na corda” (financiando a compra de uma vaca), “Chapéu de palha” (empregando canavieiros na época de entressafra) No final da década, desencantado com a linha politica do PMDB, ajudou a criar o PSB-Partido Socialista Brasileiro, foi seu presidente nacional e elegeu-se Deputado Federal (1991-1993) com a maior votação proporcional do país.

Em 1994 foi eleito governador pela terceira vez, aos 78 anos. Contam uma história que não se sabe se é piada ou não: seus assessores ficaram preocupados com a idade avançada do candidato e foram lhe perguntar como estava a saúde; se era o caso de enfrentar mais um mandato; se estava realmente disposto etc. Sua resposta foi hilariante:

– Eu vou consultar minha mãe.

Nesta gestão realizou o maior programa de eletrificação rural do estado, o “Luz que produz”, que mais tarde influenciou o programa “Luz para todos”, no Governo Lula. Por outro lado, foi um período marcado por uma grave crise financeira e pela greve das policias civil e militar. Para piorar o quadro, foi um dos principais opositores do presidente Fernando Henrique Cardoso, o que lhe causou grande prejuízo político. Isto faz com que não se reeleja governador em 1998. Perdeu a eleição para seu ex-aliado Jarbas Vasconcelos.

Não abandona a política e continua suas articulações com políticos em todo o país na presidência do PDB-Partido Socialista Brasileiro. A esta altura, passa a ser chamado de “Oráculo do Nordeste”, devido a fama e a idade avançada. Em 2003, aos 86 anos é eleito deputado federal pelo PSB, integra a base aliada do Governo Lula e indica seu neto e herdeiro político Eduardo Campos para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Fumante contumaz, começa a ter a saúde comprometida. Em 16/06/2005 foi internado com uma suspeita de dengue. Pouco depois foi detectada uma infecção pulmonar. Em seguida uma artéria do pulmão se rompeu; é submetido a uma cirurgia de emergência; tem uma breve melhora e esteve para deixar a UTI em 12 de agosto. Mas no dia seguinte o quadro volta a piorar e se dá o falecimento, aos 88 anos.

Logo após o falecimento, o nome de Miguel Arraes passa a denominar diversos logradouros, escolas e instituições. No ano seguinte, a jornalista Teresa Rozowykwiat lançou o livro Arraes, a primeira biografia autorizada sobre a vida do ex-governador. Trata-se de um relato com informações exclusivas repassadas pela viúva Magdalena Arraes, com detalhes de sua personalidade que só os mais íntimos conheciam. Isto animou seus amigos a criar, em 2008, o Instituto Miguel Arraes, com o objetivo de preservar e divulgar seu legado e memória. Na ocasião o jornalista Lailson de Holanda realizou uma exposição com mais de 500 charges desde sua chegada do exílio. Posteriormente lançou um livro com a coleção das melhores charges, intitulado Arraestaqui. Para concluir e demostrar a importância e abrangência nacional de seu nome, Miguel Arraes foi homenageado, no Carnaval de 2016 no Rio de Janeiro, pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

* * *

FEITOS & FATOS PERNAMBUCANOS (III)

Ainda criança, ouvia os radialistas do Recife, com voz grave e solene, darem o prefixo de suas emissoras, e emendavam cheio de orgulho: “De Pernambuco para o Mundo!”, o pessoal do sudeste ria e gozava da mania de grandeza daquela gente, vendo no ato apenas prepotência e orgulho desprovidos de razão, quando na verdade tal comportamento está lastreado em fatos e feitos reais.

O fato real é a condição histórica e geográfica do Recife ser a primeira metrópole brasileira de caráter mundial mais próxima da Europa e da América. Os feitos são decorrentes deste fato, confirmados em diversas áreas, conforme o levantamento das informações realizado até o momento. Com alguns dados em mãos, fui agraciado com a sorte de encontrar, no Recife, um jornal onde pude divulgá-los, o Jornal da Besta Fubana. Iniciei a série de “Feitos & Fatos Pernambucanos” em 6/12/2016 com 14 itens, pedindo aos leitores que colaborassem com o levantamento. Em apenas uma semana recebi 22 contribuições somando 36 itens publicados em 13/12/2016.

É preciso ressaltar que boa parte das contribuições vieram do amigo Carlos Eduardo dos Santos, também colunista deste Jornal. Além disso, recebemos colaborações de alguns leitores, tais como incluir Recife como a nascente do Oceano Atlântico, através da foz dos rios Capibaribe e Beberibe e atribuir aos recifenses a fundação de Nova Iorque. Porém, tivemos que descartar estas contribuições, pois no primeiro caso é apenas um acidente geográfico que beneficia e embeleza a cidade, mas não é um feito pernambucano. Quanto a fundação de Nova Iorque, atribuída aos judeus que foram expulsos do Recife em 1654, também não procede. A cidade foi fundada pelos holandeses um pouco antes e recebeu apenas uma ajuda de 23 judeus que saíram do Recife, cujos descendentes contribuíram substancialmente na formação dos EUA e na criação da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

Posteriormente, mais alguns leitores gaiatos enviaram “colaborações”, no sentido de incluir o fato de Pernambuco ser o maior produtor de maconha do Brasil, produzida na região de Cabrobó, ou incluir o Cais de Santa Rita como a maior zona de meretrício do Brasil, nas décadas de 1940/1950. Vamos descartar estas colaborações, pois não se trata de coligir os defeitos. Vamos relacionar apenas os feitos. Sabemos que o pioneirismo e a grandiosidade do Estado se dá em muitas áreas. Assim, apresentamos os itens coletados até o momento e continuamos a pesquisa, contando sempre com a colaboração dos leitores fubânicos.

1- 1ª Igreja do Brasil (Igarassu, 1535)
2- 1ª Santa Casa de Misericórdia do Brasil (Olinda, 1540)
3- 1ª Câmara Municipal (Olinda, 1548)
4- 1º Farol Marítimo (Olinda, 1548)
5- 1º Convento Franciscano (Olinda, 1577)

Clique aqui e leia este artigo completo »

PERNAMBUCANOS ILUSTRES X

Antônio Maria (1921-1964)

Antônio Maria Araújo de Morais nasceu no Recife, em 17/03/1921. Compositor, poeta, jornalista, radialista e cronista, teve uma infância privilegiada. O pai era um usineiro que perdeu tudo especulando com o preço do açúcar, e morreu antes que ele saísse da adolescência. Estudou no Colégio Marista e teve professores particulares de piano e francês. A tendência para a boêmia manifestou-se logo cedo: “Quando eu fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e 5 mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei num botequim”. Numa aposta com os amigos, tomou um pileque, entrou na praia de Boa Viagem e quase morreu afogado. Com a falência familiar, teve que trabalhar aos 17 anos como apresentador de um programa musical, na Rádio Clube de Pernambuco. Aos 19 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi locutor esportivo da Rádio Ipanema.

Foi morar na Cinelândia, no mesmo prédio onde viviam os conterrâneos Fernando Lobo e Abelardo Barbosa (futuro Chacrinha), além de Dorival Caymmy e o pintor Augusto Rodrigues. Não se deu bem profissionalmente, e retorna ao Recife após 10 meses. Casou-se com Maria Gonçalves Ferreira, em 1944, e mudou-se para Fortaleza, onde vai trabalhar na Rádio Clube do Ceará. No ano seguinte mudou-se para Salvador para atuar como diretor das Emissoras Associadas e faz amizade com Di Cavalcanti e Jorge Amado. Em boa companhia, dá inicio efetivo a vida boêmia. Em 1947 volta ao Rio de Janeiro com dois filhos e passa a trabalhar como diretor artístico da Rádio Tupy. Junto com a direção artística, redigia o programa Minha terra é assim e apresentava O tempo e a música, com grandes artistas. Em seguida passou a redigir o programa humorístico Rua da alegria, de muito sucesso. Chegou a ter três programas por semana e sua criatividade e inteligência ficaram marcadas por algum tempo na década de ouro do rádio.

Com a inauguração da TV Tupy, em 1951, Assis Chateaubriand convida-o para ser o diretor de Produção. Por essa época começa a escrever suas crônicas diárias n’O Jornal. Por mais de 15 anos comandou as colunas A noite é grande e “O Jornal de Antonio Maria”. A vida boêmia toma impulso e cria a frase “A noite é uma criança”. Em fins de 1952 Getúlio Vargas deu uma grande ajuda financeira à Rádio Mayrink Veiga em troca de apoio político. Para manter o ataque contra a Rádio Tupi, contratou os grandes nomes do rádio e Maria foi um dos primeiros. Foi contratado com um salário de 50 mil cruzeiros, o mais alto do rádio no Brasil até então. O boêmio não fez por menos: comprou seu primeiro “cadillac”, o carro símbolo de status na época.

Em 1954, passa a trabalhar no jornal O Globo, cujo anúncio dá a medida de sua importância: “O Globo inaugurará amanhã mais uma seção diária Mesa de pista. Está a cargo de Antônio Maria. É dispensável a apresentação do cintilante cronista. Todos o conhecem. Todos o admiram. Não há quem não leia com prazer o que ele escreve. Conhecedor profundo da vida da cidade, Antônio Maria nos dará todos os dias aspectos e flagrantes das reuniões e diversões noturnas da cidade. Não será propriamente um cronista social. Será um cronista da noite carioca, naquilo que ela tem de mais curioso e pitoresco”. Na opinião de Luís Fernando Veríssimo, foi o melhor cronista da literatura brasileira. Em seguida foi trabalhar no jornal Última Hora, quando retoma O Jornal de Antonio Maria e inaugura o Romance Policial de Copacabana, com crônicas e reportagens. Além de comandar seu programa, participava de outros, como o de Sargentelli, Preto no branco e de Ary Barroso Rio, eu gosto de você, na TV Rio, em 1957.

Era considerado um homem de sete instrumentos, como se dizia na época. Participava de shows na boate Casablanca, junto com Paulo Soledade; na boate Ninght and Day, junto com Ary Barroso, com o show A mulher e o diabo; compunha jingles publicitários; caricaturista de suas crônicas e locutor esportivo. Foi ele que transmitiu o gol do Uruguai no final trágica da Copa do mundo de 1950. Como compositor, gravou algumas músicas clássicas: Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Menino Grande, Canção da volta, Tuas mãos, Se eu morresse amanhã, além do Samba do Orfeu e Manhã de carnaval foram feitas em parceria com Luís Bonfá. Chegou a fazer sucesso internacional com Nat King Cole cantando em inglês Ninguém me ama e Tuas mãos. Todos os grandes intérpretes gravaram suas músicas: Nora Ney, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Lúcio Alves, Doris Monteiro, Jamelão, Ângela Maria, Aracy de Almeida, Agostinho dos Santos, Dircinha Batista.

Como compositor, chegou a ser considerado o rei do samba-canção. De toda sua produção musical, apenas 62 foram gravadas. Em sua maioria são músicas tristes, de dor-de-cotovelo. Mas não eram só samba-canção. Certa vez escreveu em seu diário “Muitas vezes, de madrugada, o menino acordava com o clarim e as vozes de um bloco. Eles estavam voltando. O canto que eles entoavam se chamava ‘de regresso’. Não sei de lembrança que me comova tão profundamente. Não sei de vontade igual a esta que estou sentindo, de ser o menino que acordava de madrugada, com as vozes de metais e as vozes humanas daquele Carnaval liricamente subversivo”. Era a saudade do Recife batendo forte. Com tais sentimentos compôs os frevos nº 1 e nº 2, dois clássicos gravados por Nara Leão e Maria Bethânia. São os frevos saudosos mais alegres e tristes ao mesmo tempo do repertório pernambucano.

Era um homem de muitos amigos (e inimigos). Sua amizade com Vinicius de Moraes era tamanha ao ponto de parecerem irmãos. E de fato eram iguais no gosto pelas mulheres e pela boemia. Foi ele quem apelidou Vinicius de “poetinha”. A amizade ficou eternizada num belo texto de despedida no dia de sua morte. Carlos Heitor Cony era outro grande amigo. Certa vez ligou para ele dizendo: “Cony, você nunca me enganou!”. Relatou que vindo de São Paulo, sentou no avião ao lado de uma bela mulher que lia o livro Matéria de memórias, de Cony. Ele puxou conversa, apresentou-se como o autor do livro e passou a desfiar um rosário de infelicidades: era um desgraçado; nunca teve sucesso, exceto com a literatura; que as mulheres o abandonavam etc. etc. “Mas Maria!….” era tudo o que Cony conseguia falar. “Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque depois nós fomos para cama. Ou melhor, você foi para a cama com a mulher”. E Cony, curioso: “E aí?” “E aí é que aconteceu o problema” gargalhava enquanto explicava. “Você broxou Cony!, você broxou!!!”

Não obstante a vida boêmia, tantos amigos e um caráter extrovertido, Maria foi um homem que sempre teve a solidão como companheira, como se deduz de sua crônica Oração em 30/03/1954: “Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”. Vez ou outra aproveitava suas crônicas para desabafar sua solidão: “Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor”.

Em fins da década de 1950, comandava o prestigiado programa de entrevistas na TV Rio Encontros com Antônio Maria, onde deu uma cantada, ao vivo e em público, em Maysa e entrevistou o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, quando foi criado o slogan “rouba mas faz”. Por esta época apaixonou-se por Danusa Leão, a mulher de seu patrão Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, onde era um dos colunistas mais apreciados. Os dois acabaram decidindo morar juntos. O romance não se encaminhou como era esperado. Danusa, sempre muito extrovertida, lhe provocava um ciúme doentio, e as brigas eram frequentes. Mas ela suportou até 1964, quando veio o golpe militar. Samuel Wainer foi para o exílio e ela se decidiu por reatar o casamento e acompanhá-lo. Doente, com problemas cardíacos desde criança – “Sou cardisplicente, costumava dizer na sua displicência -, com sérias limitações para comer e beber como gostava, sua saúde foi bastante afetada pela separação. Na madrugada de 15 de outubro de 1964, ao sair da boate Bistrô, no posto 4 de Copacabana, foi fulminado por um enfarte do miocárdio. Pode-se dizer que morreu em plena atividade no seu local de trabalho.

Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus, no Recife antigo

RECIFE & MANHATTAN

O problema urbano apresentado no filme Aquarius, de Kleber Mendonça, parece uma cena bucólica diante do que vou contar. Pois, o que se pretendia demolir ali (no filme) era um pequeno e antigo prédio de três andares; enquanto o que vou relatar trata-se de um grande edifício. Em 1969 estive “hospedado”, na condição de turista-mochileiro, na Praça de Boa Viagem. Um lugar agradável, arborizado, com bancos para sentar, dormir e palestrar. Uma beleza! Para chegar na praia, bastava atravessar a rua e de lá a vista da praça ficava mais bonita ainda: o arvoredo, a igrejinha ao fundo, e do lado esquerdo um edifício moderno, de uns 10 andares, fazendo a curva na esquina da praça com a avenida. Era um hotel de luxo (o Hotel Boa Viagem).

Voltei à praça 30 anos depois e não encontrei o edifício. No lugar dele encontro um espigão de uns 40 andares. Do lado direito, encontra-se outros espigões do mesmo tamanho. A praça ficou espremida entre uma enorme fileira de edifícios altíssimos que se estende pela orla de lado a lado. Desnecessário dizer que esse novo entorno desfigurou a praça, deixando-a mais acanhada, limitada pelos altos edifícios. É o preço inevitável que se paga pelo progresso, dizem alguns. Mas será que vale a pena? A desfiguração urbana provocada causou alguma melhoria na paisagem?; a qualidade de vida daqueles recifenses teve alguma melhoria? Esta mudança na paisagem da orla de Boa Viagem já vinha acontecendo bem antes de minha estadia como turista-mochileiro. Em 1960 o poeta e cronista Paulo Mendes Campos esteve hospedado por lá e escreveu uma crônica, publicada na revista “Manchete”, exatamente sobre a altura dos edifícios que começavam a pipocar no lugar de prédios já de bom tamanho. O que ele disse?: “Alguém poderia imaginar a municipalidade de Roma permitindo que se construíssem arranha-céus nas áreas que restam da cidade antiga? Em Boa Viagem se comete um desvario parecido. Não se trata de ruínas ilustres, mas de um patrimônio social que seria preciso preservar e transmitir intato às gerações. Pois essa mensagem de vida, de beleza e graça está sendo devastada pela ganância imobiliária, repetindo-se na praia pernambucana a estupidez grosseira que arrasou Copacabana em vinte anos. Os primeiros edifícios de apartamentos saltam com despudor agressivo da orla marítima”.

Constatado o estrago feito na paisagem urbana, ele parte para a denúncia e advertência: “O crime vai sendo praticado sem que os habitantes de Recife acreditem que se possa fazer ainda alguma coisa para evitá-lo. A andar nesse passo, o Brasil acabará aleijado, natural e exuberante nas áreas que o homem não atingiu, e confinado e imprevidente nas concentrações humanas. Tanta imprevidência, tanta falta de respeito pelos que ainda não se fizeram adultos, é de dar muita pena e muita raiva. Estragar Boa Viagem é envenenar as águas de uma fonte pura”.

Mais 10 anos se passam e retorno ao Recife para matar saudades. Flanando pelo centro velho, deparo estarrecido com duas torres enormes, de 42 andares. “São as torres gêmeas” em total desacordo urbanístico com o Cais de Santa Rita, onde estão instaladas. A motivação dessa ganância imobiliária é óbvia: adensamento da população, valorização do custo dos imóveis, aproveitamento da infraestrutura viária etc. E quanto a beleza e conforto urbano? Será que haverá lucros aí também? O desejo e a preferência pelos altos edifícios nas grandes (e agora também nas pequenas) cidades brasileiras vêm sendo criticadas desde princípios do século passado. Em 1927 Pirandello esteve no Rio de Janeiro e foi entrevistado por Sergio Buarque de Holanda. Conversa vai e vem, e ele foi solicitado a dizer o que está achando da cidade. Sua resposta foi uma advertência aos cariocas que, ao seu ver, estavam imitando sem necessidade a cidade de Nova Iorque: “Os arranha-céus no Brasil provêm de um erro profundo. É injustificável e lamentável numa terra rica de espaço esse sistema de construções que em outras cidades, em Nova Iorque, por exemplo, tem sua explicação e sua razão de ser. No Rio de Janeiro a existência dos arranha-céus não tem sentido. É uma imitação. As formas de arte não resultam de uma vontade. Não há forma de arte intencional. E, por isso mesmo, os vossos arranha-céus, que não correspondem a uma necessidade, que não surgem espontaneamente da terra, são necessariamente uma expressão falsa de arte. Penso muito que, de um modo geral, a arquitetura no Rio é quase uma ofensa à paisagem. Deve-se procurar sempre uma linha correspondente à da natureza” (¹).

Agora há pouco, em 10/1/17 (), falamos aqui sobre a origem histórica comum de Recife e Manhattan e mostramos a semelhança geográfica. (clique aqui para ler) As imagens poderiam servir para não seguirmos no mesmo caminho. Será que estamos condenados a copiar inclusive os defeitos das grandes metrópoles?

* * *

(¹) Entrevista conduzida por Sergio Buarque de Holanda e publicada n’O Jornal (RJ), 11/12/1927. (reproduzida n’ O Estado de São Paulo, 31/12/1988)

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – IX

Cícero Dias (1907-2003)

Cícero dos Santos Dias nasceu em 05/03/1907, em Escada. Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor, foi um dos primeiros pintores modernista do Brasil. Passou toda a infância no Engenho Jundiá, estudando e aprendendo a desenhar em Escada até os 13 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro, com a finalidade de se tornar pintor. O interesse pelo desenho e pintura surgiu logo cedo e sua obstinação em se aperfeiçoar nesta arte surpreendeu seus pais. No período 1925-1927 estudou arquitetura e pintura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não concluiu o curso, pois discordava da orientação. Decidiu se juntar ao grupo modernista de São Paulo, colaborando com a Revista de Antropofagia.

Sua primeira exposição se deu em 1929, com o mural Eu vi o mundo… ele começava no Recife. Um enorme mural de 15 metros expondo mulheres nuas, sonhos, crianças brincando etc. Uma obra ousada para aqueles tempos, que não encontrou lugar para ser exposto. Em contato com o Dr. Juliano Moreira, que gostou muito do mural, foi-lhe oferecido um saguão de um hospício, onde se realizava um congresso internacional. Assim, foi ali mesmo que o mural foi apresentado ao público, num hospício. Foi uma “coisa de louco”, pode-se dizer. Este mural é considerado sua obra prima e é considerado uma das mais importantes da história da arte no país. Em 1930 ganhou uma bolsa de estudos e passa uma breve temporada em Paris em contato com os modernistas. No ano seguinte dá-se uma exposição na Enba, e Di Cavalcanti convida-o a expor seu mural. Tal como na exposição do hospício, o mural causou escândalo e debates no métier refratário à arte moderna.

A partir de 1932, passa a lecionar desenho no seu ateliê no Recife; a ilustrar livros, como Casa grande & senzala, de seu amigo Gilberto Freyre (1933); e a pintar e agitar o incipiente meio cultural. Com a instauração do Estado Novo, teve seu ateliê invadido várias vezes por tropas policiais, até que foi preso, em 1937, acusado de ser simpatizante do Partido Comunista, o que de fato era verdade. Desgostoso com a realidade e incentivado por Di Cavalcanti, decidiu se mudar definitivamente para Paris, em 1937. Começa, então, uma longa amizade com os artistas surrealistas, como André Breton, Paul Éluard, Fernand Léger, Henri Matisse e Pablo Picasso, que lá se encontrava asilado. Em 1943 casou-se com a francesa Raymonde e teve a filha Sylvia, da qual Picasso foi o padrinho. Com esse pedigree, não poderia deixar de ser também pintora. Sobre esta amizade, vale dizer que os dois dividiam o mesmo telefone e que ele acompanhou a elaboração do famoso quadro Guernica. Acredita-se que Picasso exerceu uma influência marcante em seus trabalhos posteriores.

Na II Guerra Mundial, durante a ocupação da França pelos nazistas, foi preso na cidade de Baden-Baden junto com um grupo de estrangeiros. Mas logo foi trocado por espiões nazistas que estavam presos no Brasil. A partir de 1943 passa a viver em Lisboa como Adido Cultural da Embaixada do Brasil até 1945, e participa do Salão de Arte Moderna, onde foi premiado. Ao final da guerra, retorna à Paris a pedido de Picasso, que lhe envia um exemplar de sua peça de teatro O prazer agarrado pela cauda, com a dedicatória: “Para Dias, cuja presença em Paris é obrigatória”. Nesse instante dá-se uma transição fundamental em sua obra, conhecida como fase vegetal, na qual ele sai da figuração, vai para a abstração e integra-se ao grupo abstrato Espace. No mesmo ano de 1945 expõe em Londres, Paris e Amsterdam. Em 1948 decide visitar a terra natal e, envolvido mais intensamente com murais, inaugura o primeiro mural abstrato da América Latina, no prédio da Secretaria da Fazenda, em Recife. No ano seguinte participa da Exposição de Arte Mural de Avignon (1949); na XXVI Bienal de Veneza (1952); exposição do grupo “Klar Form”, na Dinamarca, Suécia e Finlândia (1952); II Bienal de São Paulo (1953). Exposição Universal de Bruxelas (1958) Assim vai construindo sua carreira de renomado pintor em nível internacional.

A partir de 1960 voltou com mais firmeza à arte figurativa, e as exposições e as exposições continuam nos museus de Paris, Nova Iorque, San Francisco. Em 1965, a VIII Bienal de São Paulo dedicou-lhe uma sala especial. No mesmo ano, a Bienal de Veneza realizou uma exposição retrospectiva de 40 anos de pintura. Suas viagens ao Recife eram frequentes, e os amigos diziam que ele vivia em Paris, mas a cabeça estava em Pernambuco. Em 1970 realizou diversas exposições individuais no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1980 instalou dois painéis no hall central da Casa de Cultura, no Recife, representando as revoluções pernambucanas de 1817 e 1824. Em 1981, o Museu da Arte Moderna-MAM realizou uma retrospectiva de sua obra. Sete anos depois, O MAM realizou outra retrospectiva intitulada Cícero Dias: síntese da obra, que percorreu diversas capitais brasileiras.

Noutra viagem ao Brasil, inaugura, em 1991, um painel de 20 metros na Estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo, e no mesmo ano é inaugurada a Sala Cícero Dias no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1998 foi reconhecido tardiamente não como pintor e sim como herói nacional: recebeu a medalha da Ordem Nacional do Mérito da França, uma insígnia só conferida a heróis nacionais franceses, por ter conseguido furar o cerco dos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, e ter chegado a Londres com um exemplar do poema Libertè, de Paul Èluard. O poema, na forma de panfleto, foi despejado por toda a Europa pelos aviões aliados.

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Em 1999, o Marco Zero do Recife passou por uma grande reforma e o governo de Pernambuco convidou-o para participar da construção da “nova” praça Rio Branco. No ano seguinte voltou ao Recife para inaugurar uma rosa-dos-ventos, estilizada, no chão da praça, cartão postal da cidade. Nesta ocasião a Prefeitura do Recife presta-lhe uma justa homenagem: a inauguração de uma praça com o seu nome. Dois anos depois, esteve novamente no Recife para o lançamento do livro Cícero Dias: uma vida pela pintura, do jornalista Mário Hélio. Aproveitou a viagem para fazer mais uma exposição individual em São Paulo, na Galeria Portal. Ao longo de sua vida, realizou mais de 50 exposições individuais, 240 exposições coletivas e mais de 10 exposições póstumas em todo o mundo.

Neste exato momento, o Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, está apresentando a exposição Cicero Dias: um percurso poético, com 120 obras do artista, além de textos, fotos e documentos apresentando sua trajetória. Integra a exposição um grande número de trabalhos vindos de coleções particulares da França, possibilitando a apreciação de boa parte de sua obra. A exposição, com curadoria honorária de sua filha Sylvia Dias, encontra-se dividida em três grandes núcleos que delineiam seu percurso artístico: 1- Brasil, 2- Europa, 3- Monsieur Dias: uma vida em Paris. Cada um deles, por sua vez, é dividido em novos segmentos. A ideia é que a visitação seja feita de forma linear. A exposição ficará no CCBB de Brasília até o dia 3 de abril e depois seguirá para as filiais do CCBB de São Paulo (21/04 a 10/07) e Rio de Janeiro (01/08 a 25/09). Cícero Dias faleceu em 28/01/2003, e seu corpo foi sepultado no cemitério de Montparnasse, em Paris.

* * *

Entrevista concedida a Napoleão Sabóia, publicada n’O Estado de São Paulo, de 24/09/1999, sob o título “Pintura da Cícero Dias alimenta-se de música e poesia.”

Estado – Desde quando estreou com a exposição de 1928, os críticos sugerem comparações suas com o russo Chagall, por exemplo, e o situam em diferentes escolas – figurativa, abstracionista, surrealista. Poderia identificar-se de uma vez por todas?

Cícero Dias – Não gosto das etiquetas. O que me identifica com Chagall são as origens comuns de nossa arte na pintura popular, nas manifestações folclóricas, culturais de nossas terras respectivas. É por isso que falam que meus quadros lembram os de Chagall e vice-versa. Acontece, porém, que, quando comecei a pintar de verdade, a partir dos anos 20, não havia no Brasil reproduções de Chagall e de outros pintores de vanguarda. O que houve, pois, foi uma coincidência entre mim e Chagall.

Clique aqui e leia este artigo completo »

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – VIII (QUE VOCÊ DESCONHECIA)

Abreu e Lima em Pernambuco é mais conhecido como o nome de uma cidade da Grande Recife do que uma pessoa de carne e osso. No Brasil, então, é totalmente desconhecido, sendo ignorado nos livros de História. Não é como na Venezuela, onde é devidamente reconhecido como herói entre os “Libertadores da América”. Agora que comemoramos o bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817, é hora de fazermos esta singela homenagem.

General Abreu e Lima

José Inácio de Abreu e Lima nasceu em Recife, em 06/04/1794. Foi um militar, político, jornalista e escritor, filho do Padre Roma, ambos heróis da Revolução Pernambucana de 1817. Cursou a Academia Militar do Rio de Janeiro (1812-1816), saindo como capitão de artilharia. Sua patente de general deve-se ao fato de ter sido chefe do Estado-Maior de Bolívar por mais de 10 anos. Teve papel destacado nas campanhas de independência da Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, entre 1818 e 1832. Na Venezuela é considerado um dos “Libertadores da América”, e tem seu busto exposto em praça pública de Caracas.

Seu reconhecimento como herói brasileiro ocorreu apenas na década de 1940, quando o governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, deu o nome de Abreu e Lima ao distrito de Maricota, tornado Município em 1982. Em 1816 foi preso sob a acusação de insubordinação e adesão a rebelião pernambucana que se iniciava. Para mantê-lo isolado do movimento, transferem-no para a Bahia, onde irá cumprir sua pena e é obrigado a presenciar o fuzilamento de seu pai no ano seguinte. Fugiu da prisão em Salvador com a ajuda da Maçonaria, em outubro de 1817, e foi para os EUA, onde se abrigavam muitos combatentes pela liberdade nas Américas. Durante um ano conviveu com os libertários norte-americanos e exilados franceses, e entrou em contato com Simón Bolívar, com quem decidiu se aliar na construção da “Pátria Grande”.

Em princípios de 1819, com apenas 24 anos, já estava na cidade de Angostura, no meio da Selva Amazônica, o quartel-general de Bolívar, de quem se tornou fiel escudeiro até sua morte, em 1831. Com a morte de Bolívar, e o não reconhecimento de sua patente pelo governo do General Santander, que o sucedeu, deixou a Colômbia. Dirigiu-se para os Estados Unidos, em Philadelphia, a meca dos Maçons, e manteve contatos com os próceres da Revolução Americana. Na sequência partiu para a França Europa e manteve contatos com os militares rebeldes aliados de Napoleão. Em seguida retornou ao Brasil, em 1832, estabelecendo-se no Rio de Janeiro.

Na década seguinte, em 1844, retorna ao Recife e passa novamente a conspirar contra o governo imperial. Seu envolvimento na Revolução Praieira, em 1848, é controverso. Uns dizem que ele não teve participação direta no conflito; quem teve foram seus irmãos. Outros dizem que sim, participou ativamente dos embates. De qualquer modo, isto lhe custou dois anos de prisão em Fernando de Noronha. Anistiado, retirou-se da política, sem abrir mão de suas convicções libertárias. Em 1855 publica o primeiro livro nas Américas sobre o socialismo intitulado “O Socialismo”, sem citar Marx.

O livro foi reeditado em 1979 pela Editora Paz e Terra, com prefácio de Barbosa Lima Sobrinho, onde afirmou: “No dia em que o Brasil se interessar realmente pelo seu relacionamento com as repúblicas da América Espanhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país”. A partir daí passa escrever regularmente no “Diário de Pernambuco”, publicar livros e ensaios históricos e a polemizar com o clero conservador.

Em 1867 publicou dois livros – As Bíblias falsificadas ou duas respostas a Joaquim Pinto Campos e O Deus dos judeus e o Deus dos cristãos – em que expunha as suas ideias liberais sobre religião, defendendo a liberdade religiosa. Tais livros acirraram a briga com o clero recifense, e lhe causaram transtornos mais tarde, quando morreu. Outros livros publicados: Compêndio de História do Brasil (1843), Sinopse cronológica da história do Brasil (1844), História universal (1847), Reforma Eleitoral-Eleição Direta (1862). Sua condição de historiador, não anulava a de polemista que mantinha diversos políticos através da imprensa. Um deles era o republicano Evaristo da Veiga, que o chamava pejorativamente de “General das massas”. A este epíteto, ele respondeu: “Com efeito a minha causa está afeita ao povo; é às massas para quem apelo, porque eu sou parte delas; sou membro desse todo a quem desprezais a cada instante e a quem tendes chamado vil canalha”.

Segundo Vamireh Chacon, autor da biografia Abreu e Lima: General de Bolívar (Rio Janeiro: Paz e Terra, 1983), realizada com o patrocínio do governo Venezuelano), como político, ele “começou como liberal, transformando-se lentamente, pelas decepções, num liberal moderado clássico e ao fim da vida em simpatizante do socialismo utópico, itinerário mais que pessoal, precursor de muitos outros”. Em relação a politica brasileira, passou a ver na monarquia constitucional o único sistema capaz de manter a nação brasileira coesa. Tal posicionamento é decorrente de sua decepção o com o esfacelamento da Grã-Colômbia.

A historiadora Claudia Poncioni tem uma explicação para a ausência de Abreu e Lima na História do Brasil: “Entre os personagens históricos brasileiros do século XIX, nenhum teve um percurso comparável ao de Abreu e Lima. No entanto, a constituição do papel dos “grandes homens” brasileiros se faz, no Império, principalmente sob a égide do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição criada em 1838 para sustentar o projeto de construção da identidade nacional imperial, que emerge naquele período. No panteão brasileiro, ilustrado pela revista do Instituto, o lugar de Abreu e Lima, como já foi dito, é proporcionalmente inverso ao alcance histórico do personagem”.

Os ideais revolucionários e republicanos de Abreu e Lima incomodaram bastante o poder constituído na época, ao ponto de ser castigado mesmo depois de morto. Devido às polêmicas que travou com o clero recifense e ao fato de ser Maçom, o bispo de Olinda Dom Francisco Cardoso Aires impediu que ele fosse sepultado no cemitério de Santo Amaro. Assim, teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses, quando faleceu em 08/03/1869.

A lembrança dos brasileiros sobre a importância de Abreu e Lima para a história do Brasil foi reativada em agosto de 1981, com a visita do Presidente da Venezuela Luis Herrera Campins e comitiva ao seu túmulo. Seu nome foi relembrado em 2003, por ocasião da visita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acompanhado pelo presidente Lula, à cidade de Abreu e Lima. Na ocasião eles inauguraram os bustos de Abreu e Lima e Simon Bolívar e reafirmaram o desejo de construir naquela cidade uma refinaria de petróleo, fruto de uma parceria entre a Petrobrás e a PDVSA-Petróleo da Venezuela. O projeto de construção da refinaria foi lançado em 2005, mas até o momento não foi concluído no todo.

Busto de Abreu e Lima no extremo oeste da Avenida Bolivar, em Caracas, Venezuela

REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA

Comemorando o Bicentenário da REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA que antecipou em 5 anos a INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – Proposta de revisão da história

Nosso primeiro grito de independência se deu em 1789, em Ouro Preto. O levante foi abortado logo no inicio, e pegaram o Tiradentes, literalmente, para Cristo. Foi executado e esquartejado num espetáculo tão infame que alguns historiadores apontam o episódio como a possível causa para a preservação de sua memória. De fato, ele “pagou o pato” sozinho e o movimento visava a autonomia apenas da província de Minas Gerais. Mas este é o marco da independência enaltecido e contado nos livros de História até hoje, tornado feriado nacional. Para garantir sua permanência, o movimento está esculpido em bronze no lado esquerdo do Monumento à Independência, nas margens do Ipiranga. Do lado direito está o segundo grito de independência, em 1817, no Recife, que o leitor vê acima.

A Revolução Pernambucana prosperou por 74 dias e deixou 1500 mortos e feridos, além de 800 degredados. Teve um alcance nacional e internacional. As províncias vizinhas foram convidadas a participar e foi solicitado o apoio do exterior na luta pela independência. Assim, é o caso de se perguntar por que esse movimento, não obstante ser o estopim que levou o Brasil à independência, não é levado em consideração na história da emancipação do Brasil? Segundo o historiador Paulo Santos, observa-se uma falta de interesse na manutenção dessa memória. “Somente na República Velha, porque interessava ao regime então vigente, 1817 foi valorizado. O dia seis de março, no centenário da Revolução, em 1917, foi até feriado nacional. O Império, o Estado Novo e o regime militar de 1964, porém, empurraram aquele movimento para baixo do tapete.”

Outro historiador, Oliveira Lima, referia-se a 1817 como a única revolução brasileira merecedora deste nome. Alguns podem alegar que são historiadores pernambucanos, e que estão puxando a sardinha para seu braseiro. Mas, basta ver a história e verificar a extensão de suas consequências. Pernambuco não perdeu apenas centenas de brasileiros na luta por uma nova república, perdeu também grande parte de seu território. Desse modo, nesta comemoração do segundo bicentenário, é justo que se faça uma revisão histórica desse movimento e sua importância para a independência do Brasil. Não se trata apenas de uma questão de respeito à história, mas também de consideração e gratidão aos mártires que deram suas vidas por uma nação livre e independente.

Concretamente, é preciso reconhecer o caráter nacional do movimento; revisar os estudos de História e seus desdobramentos; e atualizar os livros escolares de História do Brasil, inserindo o movimento no devido lugar na história da independência brasileira.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa