PERNAMBUCANOS ILUSTRES – LII

Luiz Gonzaga 1912-1989

Esclarecimento: Encerramos o “Painel dos Ilustres Pernambucanos”, iniciado em janeiro e apresentado semanalmente até agora. O Bicentenário da Revolução de 1817 mereceu uma comemoração à sua altura. Relacionamos, elegemos e relatamos os pernambucanos mais relevantes, os maiorais na História do Brasil e do Mundo, bem ao gosto da mania de grandeza de alguns nativos. Tal empreitada só foi possível graças a acolhida do Editor Luiz Berto neste Jornal da Besta Fubana, com quem dividimos os méritos deste trabalho.

O levantamento de 52 nomes, dividido em 3 quadrimestres, partiu dos nomes mais destacados em âmbito nacional, e pouco conhecidos como nativos. Em seguida parte para os nomes destacados, porém mais ou menos esquecidos e que precisavam ser convidados a participar dessa festa. Para concluir, passamos a apresentar os nomes “realmente”, como diria Chacrinha, relevantes e reconhecidos como pernambucanos e finalizamos com uma de suas maiores expressões: Luiz Gonzaga. Como estamos ainda em festas de ano novo, brindamos os leitores com um final apoteótico, onde Gonzaga canta seu maior sucesso junto com os melhores acordeonistas do Brasil: Sivuca, Dominguinhos e Osvaldinho.

* * *

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em Exu, em 13/12/1912. Compositor e cantor, foi um dos mais importantes músicos do Brasil. Filho de Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, conhecida na região por “Mãe Santana” e Januário José dos Santos do Nascimento, sanfoneiro amador. Não era adolescente ainda quando passou a se apresentar em bailes, forrós e feiras, de início acompanhando seu pai. Autêntico representante da cultura nordestina e manteve-se fiel às suas origens mesmo seguindo carreira musical no sudeste do Brasil. O gênero musical que o consagrou foi o baião. A canção emblemática de sua carreira foi Asa Branca, composta em 1947 em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira.

Antes dos 18 anos apaixonou-se por Nazarena, filha de um coronel que não consentia aquele namoro. Passaram a namorar escondidos e quando foram descobertos o casal levou uma surra de seus pais. Gonzaga porque desonrou a moça e a moça porque deixou-se ser desonrada. Arrumaram um outro noivo para ela e ele foi ameaçado de morte caso se aproximasse dela. Revoltado por não poder ficar com Nazarena, saiu de casa, ingressou no exército no Crato (CE) e passou nove anos viajando pelo Brasil, na condição de soldado. Conheceu Domingos Ambrósio, também soldado já conhecido como acordeonista, e passou a se interessar pela vida de sanfoneiro. Com a eclosão da Revolução de 30 viajou por todo o país com sua tropa. No Exército, ficou conhecido como o Corneteiro 122.

Clique aqui e leia este artigo completo »

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VIII

Isaac Aboab da Fonseca (1605-1693)

Esclarecimento: O Painel de Pernambucanos Honorários surgiu logo após darmos inicio ao “Painel dos Ilustres”, em janeiro deste ano. Quando surgiram os nomes de Helder Câmara, Ariano Suassuna e Miguel Arraes, normalmente tidos como pernambucanos, fui alertado por um cearense com a advertência: “os pernambucanos gostam de gozar com a pica dos outros”. Realmente são nomes que apenas viveram e fizeram história em Pernambuco, e que pediam uma participação no painel. Assim, foi criado um painel especial dedicado aos nomes que lá estiveram, viveram por algum período e deixaram registrado sua marca na região. Ao longo deste ano, conseguimos publicar o verbete cine-biográfico de oito destacados nomes, encerrando o ano e a comemoração do bicentenário da Revolução de 1817 com o rabino Isaac Aboab da Fonseca. A intenção é continuarmos com o painel em 2018, incluindo nomes como: Farias Brito, Castro Alves, Gregório de Matos, Assis Chateaubriand, Tobias Barreto, Graciliano Ramos, Mauricio de Nassau, José Lins do Rego e muitos outros.

* * *

Isaac Aboab da Fonseca nasceu em Castro Daire, Portugal, em 1605. Rabino, escritor e uma das maiores autoridades religiosas do mundo judaico. Foi o primeiro rabino a chegar ao Brasil no periodo colonial. Veio junto com os holandeses em 1641, por ocasião da Invasão Holandesa em Pernambuco. Ainda criança emigrou, com a família, para a França e em seguida para Amsterdam, devido a perseguição aos judeus movida pela inquisição em Portugal. Era bisneto do úlitmo Gaon de Castilla (máxima autoridade no ensino e interpretação da Lei) Aos sete já se encontrava em Amsterdam, onde sua famíla foi acolhida pela Coroa holandesa, que atuava na vanguarda do movimento de reforma do catolicismo, e adotou a política de acolher perseguidos religiosos de várias partes da Europa.

Com a invasão holandesa, em 1630, em Pernambuco, a mais rica capitania portuguesa na época, a comunidade portuguesa radicada em Amsterdam freta alguns navios e passa a se mudar para o Recife. Isaac foi designado para chefiar a comunidade judaica e em 1641 chegou no Brasil. Assim, tornou-se o primeiro religioso judeu em toda a América. Foi também o primeiro escritor de textos literários em hebraico do Novo Mundo, ao redigir três orações em que relata o sofrimento do povo judeu.

Um de seus primeiros feitos foi a construção da Sinagoga Kahal Zur Israel (Rochedo de Israel), a primeira das Américas. Com a vitória dos portugueses, na Batalha de Guararapes, em 1654, foi dado um prazo de 30 dias para a comunidade judaica se retirar do Brasil. Isaac organizou a retirada de volta à Holanda. No caminho, decidiram aportar na costa nordeste da América do Norte, na foz do Rio Hudson, onde se encontrava instalada uma filial da Companhia da Indias Ocidentais, formada por judeus holandeses. Aí se estabeleceu e fundou um povoado a que deram o nome de Nova Amsterdam, a origem da cidade de Nova Iorque. Lá fundaram a primeira comunidade judaica no solo norte-americano: a Shearith Israel (Remanescente de Israel)

Em seguida retornou à Amsterdam, reencontra a família e empenhou-se na construção da Grande Sinagoga Portuguesa de Amsterdam, conforme o traçado do arquiteto holandês Elias Bouman. A inauguração da Sinagoga, contando com a presença do Príncipe de Orange, se deu em 2/8/1675. A monumental Sinagoga destinava-se ao serviço de uma comunidade de 3.000 fiéis, na sua maioria oriundos de Portugal. Acima da porta principal, lê-se em letras douradas original hebraico de parte do Salmo 5.8: “Mas eu, pela vossa grande bondade, entrarei na Vossa casa prostrar-me-ei no Vosso Santo Templo, com a reverência a Vós devida.” Além do sentido próprio, as palavras trazem através das estrelas colocadas sobre os caracteres em hebraico, o ano da fundação do templo (5432=1672) e o nome do seu fundador: o chacham Aboab.

Teve atuação destacada como diretor da Academia Religiosa, onde participou do tribunal que excomungou o filósofo Spinoza, em 1656. Escreveu várias obras em castelhano e em hebraico e ficou conhecido pelo apelido de São João da Luz. Erudito, sua biblioteca contava com 18 manuscritos em hebraico, 373 livros em hebraico e 53 em outras línguas. Foi autor do primeiro “Piyut”, poema litúrgico judaico cantado ou recitado durante os cultos religiosos. Este Piyut foi escrito durante o terrível cerco das forças portuguesas em 1646 em Recife, o que levou a uma grande fome e desespero entre todos os habitantes do Recife. Para os judeus era ainda pior, porque sabiam que uma vez que os portugueses reconquistassem o território, a Inquisição certamente seguiria o curso que teve em Portugal.

O “Piyut” foi escrito em agradecimento pela chegada de dois navios holandeses carregados com provisões. Faleceu em 9/4/1693.

“Mi Chamocha” (“Quem como tu?) – Recife, 1646

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – LI

Dominguinhos

Esclarecimento: Como se trata de uma comemoração, uma festa, não podia deixar de chamar Dominguinhos para iniciar o encerramento.

Convidei-o “pessoalmente”, já que somos de Garanhuns. Ele reparou bem os integrantes do painel, balançou a cabeça afirmativamente, disse muito bem, agradeceu a honraria, mas declinou do convite:

– “Fico grato e envaidecido com o convite, mas não vou poder aceitar. O painel está bom, a homenagem é merecida, mas está faltando um compadre meu, que não poderia faltar”.
Sabendo a quem ele se referia, adiantei:

– “Sabe, Dominguinhos, na verdade você é o penúltimo ilustre que vai abrir os festejos de encerramento. Mas quem vai encerrar mesmo é o seu compadre Luiz Gonzaga. Desculpe, mas você vai apenas anunciar sua entrada e depois tocar e cantar juntos”.

Ele ficou me olhando com os olhos arregalados, sério o quanto podia e, meio espantado, emendou:

– “Mas, por que você não disse logo!?”

* * *

José Domingos de Morais nasceu em Garanhuns, em 12/2/1941. Filho de um conhecido tocador e afinador de sanfona, Mestre Chicão, e de Dona Mariinha, uma família humilde de 17 filhos. Aos seis anos ganhou uma sanfona de oito baixos e logo aprendeu a tocar. Para ajudar no orçamento familiar, passou a se apresentar em feiras e portas de hotéis junto com os irmãos Moraes e Valdomiro, formando o trio “Os Três Pinguins”. Tornou-se um bom sanfoneiro e passou a ser conhecido na cidade como “Neném do acordeon”.

Em 1948, tocando na porta do ainda hoje maior hotel da cidade (Tavares Correia), teve a sorte de encontrar Luiz Gonzaga, lá hospedado. Ele ficou impressionado com a habilidade do garoto na sanfona. O trio foi convidado a tocar dentro do hotel para ele e seus acompanhantes. Ao final da apresentação, Gonzaga entregou-lhe um maço de dinheiro e seu endereço no Rio de janeiro, junto com a recomendação de procurá-lo quando crescesse um pouco mais e fosse ao Rio. Após esse encontro, foi estudar no numa escola de Olinda, onde passou 4 anos e voltou para Garanhuns.

A situação econômica da família não era das melhores, e Mestre Chicão achou que com tantos filhos bons de trabalho, poderia se dar melhor no Rio de janeiro. Em 1954 embarcaram num caminhão “pau-de-arara” e em onze dias chegaram em Nilópolis. Pouco depois foram procurar Luiz Gonzaga, que morava no bairro do Méier. Neste reencontro, ganhou de presente uma bela sanfona de oitenta baixos. “Em cinco minutos, ele me deu uma sanfona novinha, sem eu pedir nada”. De posse do novo instrumento formou com Miudinho e Borborema o Trio Nordestino, passando a se apresentar em circos e arrasta-pés de pequenas cidades do interior do Rio. Em 1956, já acompanhava Luiz Gonzaga em shows e gravações. No ano seguinte, recebeu o nome artístico de “Dominguinhos” dado pelo próprio Gonzaga. No mesmo ano faz sua primeira gravação profissional, tocando na música Moça de feira, com seu famoso padrinho artístico. Por essa época, “Gonzaga estava divulgando para a imprensa o disco ‘Forró no Escuro’ quando ele me apresentou como seu herdeiro artístico aos repórteres. Foi uma surpresa muito grande, não esperava mesmo”, lembrou-se numa entrevista no fim de 2012.

Em 1958 casou-se com Janete, sua primeira mulher. Deste casamento nascem os filhos Mauro e Madeleine. Continuou se apresentando em programas de rádio e casas noturnas, até gravar seu primeiro disco, Fim de festa, em 1964. No ano seguinte, Pedro Sertanejo, um dos pioneiros do forró no Sul do país (pai de Oswaldinho do Acordeon), o convidou para gravar um disco “long play” dirigido aos migrantes nordestinos em sua pequena gravadora “Cantagalo”. Após a gravação de mais dois discos, voltou a integrar o grupo de Gonzaga em 1967, viajando pelo nordeste e dividindo as funções de sanfoneiro e motorista. Numa dessas viagens, conheceu uma cantora de forró, a pernambucana Anastácia, com quem compôs mais de 200 canções, inclusive um de seus maiores sucessos, Eu só quero um xodó, em uma parceria e casamento que durou onze anos. Com término desse segundo casamento, Anastácia ficou enfurecida e destruiu 150 fitas cassete com melodias inéditas, conforme uma declaração dela mesmo em 2013.

Sua reintegração ao grupo de Luiz Gonzaga trouxe-lhe reputação como músico e arranjador, aproximando-se de artistas consagrados dos movimentos bossa nova e MPB, nas décadas de 1970 e 1980. Trabalhou junto a músicos de renome, como Nara Leão, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Chico Buarque e Toquinho entre outros. Acabou consolidando uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop. Segundo Gilberto Gil, que também é sanfoneiro, “Dominguinhos foi além, em uma direção que Gonzaga não pôde, não teve tempo. Ele foi na direção do início de Gonzaga, o instrumentista, da época das boates do Mangue, no Rio de Janeiro, quando ele tocava tango, choro, polca, foxtrot, tocava tudo, repertório internacional, tudo na sanfona”.

Participou de diversos festivais de música nacionais, com diversos discos gravados. Até 1978, já havia gravado sete LPs. O famoso “Forró do Dominguinhos” além de espalhar-se pelo País nos shows que ele fazia para plateias universitárias, virou um gênero musical. No final da década de 1970, conheceu a também cantora Guadalupe Mendonça, com quem se casou em 1980. Deste casamento, nasceu uma filha, a cantora Livys Morhays. Seguiram-se as gravações de mais discos até o LP Isso aqui tá bom demais, em 1985, uma de suas músicas de maior repercussão. O sucesso continuou no ano seguinte com lançamento de outro LP, aproveitando a grande vendagem do anterior, intitulado Gostoso Demais. O título haveria de render mais frutos e, em 1990, lançou outro disco com o título Aqui Tá Ficando Bom.

E realmente estava. Não durou muito tempo o surgimento das premiações: em 2002, foi vencedor do Grammy Latino com o CD Chegando de Mansinho. Após 5 anos sem lançar um trabalho solo, voltou a gravar pelo selo Eldorado o disco Conterrâneos e foi agraciado com o Prêmio TIM (2007) na categoria Melhor Cantor Regional. Em 2007, concorreu ao 8º Grammy Latino com mesmo álbum na categoria melhor disco regional. Em 2008, foi o grande homenageado do Prêmio Tim de Música Brasileira. Em 2010, foi o vencedor do Prêmio Shell de Música. Em 2012, foi novamente agraciado com um Grammy Latino: Melhor Álbum de Raiz Brasileiro, com o CD e DVD Iluminado. Ao todo, foram 47 discos gravados, muitos deles em parceria com os principais cantores do Brasil, além de renomados instrumentistas como Yamandú Costa em discos de 2007 e 2010. Seu último disco gravado recebeu um título apropriado: Iluminado. Em fins de 2012, houve uma grande comemoração do centenário do nascimento de Luiz Gonzaga. Durante o show no dia centenário, 13 de dezembro, realizado em sua terra natal, Exu (PE), Gilberto Gil reiterou um comentário feito antigamente: “Dominguinhos teve a herança do Gonzaga, que ele incorporou, através das canções, dos estilos, o gosto pelo xote, xaxado”.

Por essa época já vinha lutando contra um câncer de pulmão e apresentava problemas relacionados a arritimia cardiaca e foi internado no Hospital Santa Joana, no Recife, em dezembro de 2012. Um mês depois foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês em São Paulo. No decorrer dos meses seguintes seu quadro se agravou, tendo sofrido várias paradas cardíacas. Em março seu filho Mauro declarou à imprensa que o cantor não deveria mais retornar do coma em que se encontrava. Em julho, ocorreu uma breve melhora e deixou a UTI, mas permaneceu internado, com quadro considerado estável. Poucos dias depois o quadro se agravou novamente, voltou para a UTI e faleceu em 23/7/2013. Seu velório foi realizado na Assembleia Legislativa de Pernambuco, e recebeu inúmeros artistas e autoridades. Apenas dois dias após seu falecimento, recebeu homenagem em show realizado em Recife por Elba Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo, Nando Cordel, Jorge de Altinho, Flávio José e outros artistas.

Devido a uma disputa judicial entre os familiares, quanto ao local do sepultamento, seu corpo teve dois sepultamentos. O primeiro foi no “Cemitério Morada da Paz” em Paulista, Região Metropolitana do Recife. Pouco depois foi encontrada uma entrevista dada ao radialista Geraldo Freire, da Rádio Jornal do Comércio, no Recife, onde expressou o desejo de ser sepultado em sua cidade natal. Dois meses depois, em 26 de setembro, seu corpo foi transferido para Garanhuns, onde foi sepultado no “Cemitério São Miguel”, com as devidas honras num cortejo com milhares de pessoas, organizado pelo governo municipal. Na lápide do mausoléu foi colocada sua foto em aço escovado, com a legenda “De volta pro meu aconchego”, trecho de uma de suas músicas mais conhecidas, expressando seu desejo. Em 2014, a prefeitura realizou o 1º “Festival Viva Dominguinhos”, evento musical anual incorporado ao calendário turístico da cidade no mês de abril.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – L

Gilberto Freyre 1900-1987

Esclarecimento: Vamos encerrar o “Painel dos Ilustres Pernambucanos” sob os aplausos de Gilberto Freyre manifestando sua alegria diante dos nomes que o compõe. Esta é a galeria de personalidades que escolhemos durante este ano para comemorar o bicentenário da Revolução Pernambucana de 1817. Como toda comemoração termina em festa, convidamos o ilustre Dominguinhos para animá-la na próxima semana.

* * *

Gilberto de Mello Freyre nasceu no Recife, em 15/3/1900. Polímata, ou seja, “aquele que aprendeu muito”, cujo conhecimento não se restringe apenas a uma área. Sociólogo, antropólogo, historiador, escritor, jornalista, psicanalista, poeta e pintor. Mas, segundo ele mesmo “um brasileiro que descende de gente quase toda ibérica, com algum sangue ameríndio e fixada há longo tempo no país”. É considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX. Filho do Dr. Alfredo Freyre, Juiz de Direito e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife e de D. Francisca de Mello Freyre. Iniciou os estudos no tradicional Colégio Americano Batista, o antigo Gilreath, em 1908.

Teve dificuldade em aprender a escrever, pois gostava mais de desenhar e foi alfabetizado primeiro na língua inglesa com o professor particular Mr. Williams, que elogiava seus desenhos. Assim, passou também a ter aulas particulares com o pintor Telles Júnior. Em 1911 escreveu um soneto camoniano num caderno cheio de desenhos e caricaturas. Aos 14 anos, deu aulas de latim, no colégio onde estudava, participou do grupo literário e tornou-se redator-chefe de “O Lábaro”, o jornalzinho da escola. Aos 15 anos, passou a ter aulas particulares, de francês, com Madamme Meunier.

Em 1916, manteve correspondência com o jornalista Carlos Dias Fernandes, de João Pessoa, que o convidou para dar uma palestra. O pai não aprovou este contato, pois considerava aquele jornalista um boêmio. Mas a mãe autorizou a viajem e ele foi à Paraíba dar uma palestra sobre Spencer e o problema da educação no Brasil. O texto foi publicado no jornal “O Norte”. O rapaz era precoce e o contato com um jornalista boêmio haveria de marcar seu caráter pelo resto da vida. Na adolescência tinha como leituras, o Peregrino de Bunyan, uma biografia do Dr. Livingstone e obras de Spencer e Auguste Comte.

Foi eleito presidente do Clube de Informações Mundiais, fundado pela Associação Cristã de Moços do Recife e em 1917 concluiu o curso do Colégio Americano Batista. Foi escolhido para ser o orador da turma, cujo paraninfo é o historiador Oliveira Lima, de quem se torna amigo. Começou a estudar grego e torna-se membro da Igreja Evangélica, para desgosto da mãe e toda a família católica. Com uma bolsa de estudos adquirida no Colégio, partiu para os EUA, em 1918, no Texas, e passa a estudar na Universidade de Baylor. Logo iniciou uma colaboração com o “Diário de Pernambuco”, enviando cartas para a coluna “Da outra América”, e passou a escrever os primeiros artigos em inglês e as primeiras caricaturas, publicadas num jornal da cidade de Waco. Na faculdade, teve aulas de literatura com A.J. Armstrong, crítico literário especializado em filosofia e na poesia de Robert Browning.

Clique aqui e leia este artigo completo »

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – LIX

Manuel Bandeira

Esclarecimento: O painel dos ilustres pernambucanos está chegando ao final junto com o ano do Bicentenário da Revolução de 1817. Para isso, decidi iniciar o encerramento com poesia e bandeira, como manda o costume de encerrar-se as boas comemorações. Para o ato final, na próxima 3ª feira, será convidado um freire para fechar a solenidade.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no Recife em 19/4/1886. Crítico literário, professor, tradutor e um dos grandes poetas da língua portuguesa. Originário de uma tradicional família pernambucana. Aos 4 anos a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ele passa a estudar no Colégio Pedro II. Ao concluir o curso de Humanidades, em 1903, a família foi morar em São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica.

Interrompeu o curso em 1904, devido a tuberculose, e procurou tratamento em Campanha, Quixeramobim, Uruquê, Maranguape, Teresópolis e Petrópolis. Não conseguindo a cura por aqui, foi para a Suíça e ficou internado no Sanatório de Clavadel, onde permaneceu de junho de 1913 a outubro de 1914. Lá manteve contatos com o poeta Paul Éluard, também internado, e sua mulher Gala, que depois se casaria com Salvador Dali. Com o início da I Guerra Mundial, retornou ao Brasil e passou a residir no Rio de Janeiro. Em 1916 faleceu sua mãe, Francelina e no mesmo ano passou a escrever seu primeiro livro de poesias A Cinza das Horas, publicado em 1917, numa edição de 200 exemplares, com seus próprios recursos. Dois anos depois, publicou seu segundo livro, Carnaval, que despertou interesse nos paulistas que vieram a fazer a Semana de Arte Moderna, cujo verso diz: “Quero beber! Cantar asneiras / No esto brutal das bebedeiras / Que tudo emborca e faz em caco… / Evoé Baco!”. Um crítico do Recife escreveu no Diário de Pernambuco: “O sr. Bandeira conseguiu plenamente o que queria”. O comentário do crítico arrancou gargalhadas do poeta.

A partir de 1920, com o falecimento de seu pai, Manuel Carneiro, passou a levar uma vida social mais intensa. Numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, em Copacabana, em 1921, conheceu Mário de Andrade e estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Osvaldo Orico. Passou a se corresponder com Mario de Andrade, foi convidado para participar da Semana de Arte Moderna de 1922, mas não pode ir. Na ocasião, Ronald de Carvalho lê seu poema Os Sapos, do livro Carnaval. No mesmo ano viajou a São Paulo e mantém contato com os principais participantes da “Semana”: Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti Del Picchia, Luís Aranha, Rubens Borba de Morais e Yan de Almeida Prado. No Rio de Janeiro, seus contatos permanentes são com Jaime Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais, neto, Dante Milano.

Em 1924 publica, de novo às suas expensas, o livro Poesias, que reúne A Cinza das Horas, Carnaval e um novo livro, O Ritmo Dissoluto. Precisando trabalhar, colabora no “Mês Modernista”, série de trabalhos de modernistas publicado pelo jornal A Noite, em 1925, e escreve crítica musical para a revista “A Ideia Ilustrada”. Escreve também sobre música para a Ariel, de São Paulo, uma revista de cultura musical. Em seguida, a serviço de uma empresa jornalística, passou a viajar pelo Brasil. Em Pouso Alto (MG) conheceu Carlos Drummond de Andrade; viaja para os estados do Norte e Nordeste e passeia pelas cidades de Salvador, João Pessoa, Belém e São Luís. No ano seguinte visita Belo Horizonte e as cidades históricas de Minas Gerais. Ainda em busca de novos trabalhos, inicia uma colaboração semanal de crônicas no “Diário Nacional” e na “Revista de Antropofagia” (São Paulo), e em “A Província” (Recife), dirigido por Gilberto Freyre.

Em 1930 publicou Libertinagem, numa edição, mais uma vez, custeada pelo poeta. Seu nome vai se estabelecendo no cenário cultural do Rio, onde novos amigos vão surgindo. Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Cultura é um deles e convida-o para assumir o cargo de inspetor de ensino secundário. Ao completar 50 anos em 1936, os amigos publicam uma Homenagem a Manuel Bandeira, livro com poemas, estudos críticos e comentários dos principais escritores brasileiros. No mesmo ano publicou Estrela da Manhã e Crônicas da Província do Brasil. De 1938 a 1943, foi professor de literatura no Colégio D. Pedro II. Em 1940 entrou para a Academia Brasileira de Letras, e publicou suas Poesias Completas, com a inclusão da Lira dos Cinquent’Anos. Publica ainda Noções de História das Literaturas e, em separata da “Revista do Brasil”, A Autoria das Cartas Chilenas

Começou a fazer crítica de artes plásticas no jornal “A Manhã”, em 1941, e no ano seguinte é nomeado membro da Sociedade Filipe de Oliveira, ao mesmo tempo em que publica a edição dos Sonetos Completos e Poemas Escolhidos de Antero de Quental. Em seguida foi nomeado professor de literatura hispano-americana da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. A “máquina” de publicar não pára e nos anos seguintes, publica Obras Poéticas de Gonçalves Dias, numa edição crítica e comentada e Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard, seguidos de Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos. Junto com as edições surgem as reedições; em 1948 foram reeditados três de seus livros: Poesias Completas, Poesias Escolhidas e Poemas Traduzidos, além da publicação de Mafuá do Malungo, impresso em Barcelona pelo amigo João Cabral de Melo Neto.

Em 1950, a pedido de amigos e apenas para compor a chapa, candidatou-se a deputado pelo PSB-Partido Socialista Brasileiro, mesmo sabendo que não tinha chances de eleger-se. As publicações continuam: o livro de poesias Opus 10 e a biografia de Gonçalves Dias. Por esta época passou a sentir dores e foi submetido a uma operação de cálculos no ureter. Em 1954 publicou um de seus poemas mais conhecidos: Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia e num balanço de sua produção poética, publica 50 Poemas escolhidos pelo autor. No ano seguinte, inicia uma colaboração como cronista no “Jornal do Brasil” e na “Folha da Manhã”, de São Paulo. Como se sabe, o poeta não vive só de poesia. O teatro também faz parte de seu trabalho. Desse modo, traduz as peças de Schiler (Maria Stuart), Shakespeare (Macbeth) e Jean Cocteau (La Machine Infernale). Com a aposentadoria em 1956, aproveita para traduzir mais peças: Juno and the Paycock, de Sean O’Casey, e The Rainmaker, de N. Richard Nash. Mas a vida não é só trabalho, e agora aposentado fez um tour de três meses pela Europa, visitando Londres, Paris e algumas cidades da Holanda.

Na volta, continuou com as crônicas no “Jornal do Brasil”, agora bissemanais, e na “Folha de São Paulo”. Prossegue com as traduções de peças: Colóquio sinfonieta (de Jean Tardieu), A Casamenteira (de Thorton Wilder) e Dom Juan Tenorio (de Zorrilla), e passa a ser homenageado com algumas edições especiais: Pasárgada, volume de poemas escolhidos, com ilustração de Aldemir Martins e sua obra completa em dois volumes – Poesia e Prosa -, pela Editora Aguilar, as prestigiadas “edições da Plêiade”. Em Salvador são publicadas, em edição artesanal, Estrela da Tarde e uma seleção de poemas de amor intitulada Alumbramentos. Por esta época sua obra começa a ser traduzida e publicada no exterior: a editora Pierre Seghers publica, em Paris, Poèmes, uma antologia de seus poemas e na coleção “Poètes d’Aujourd’hui”, o volume Manuel Bandeira. Nos EUA, a Charles Frank Publications edita A brief history of brazilian literature. Nesse período, publicou para a Editora El Ateneo as biografias de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves.

Ao completar 80 anos, em 1966, recebeu diversas homenagens, entre as quais a festa que a Editora José Olympio realizou em sua sede. Mais de mil pessoas são convidadas para assistirem o lançamento de um volume especial de Estrela da Vida Inteira (poesias completas e traduções de poesia) e Andorinha Andorinha (seleção de textos em prosa, organizada por Carlos Drummond de Andrade). Nessa etapa da vida, junta suas economias e compra uma casa em Teresópolis, a única de sua propriedade, a cidade que conheceu na infância. Já chegou a confessar que suas raízes mais profundas estavam fincadas em Petrópolis e não no Recife. Porém, não houve tempo de usufruí-la. Surgem os problemas de saúde, ele deixa seu apartamento na Avenida Beira-Mar e se transfere para o apartamento, em Copacabana, de Maria de Lourdes Heitor de Souza, sua companheira dos últimos anos. Faleceu em 13/10/1968 e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.

Bem sei que o leitor vai sentir aqui a falta de uma análise/crítica literária sobre sua obra. Neste verbete não disponho de espaço para isso, nem seria possível se fazer um resumo satisfatório da montanha de escritos sobre seu legado literário. O leitor poderá encontrar todos estes escritos na Internet. No entanto, gostaria de opinar sobre sua poesia discordando do próprio poeta quando escreveu:

“Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!”

* * *

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – LXVIII

Joaquim Nabuco 1849-1910

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no Recife, em 19/8/1849. Advogado, político, orador, memorialista e diplomata reconhecido como um dos maiores homens públicos do Brasil. Liderou a campanha Abolicionista, tendo nascido e criado no meio da aristocracia escravista. Viveu até os 8 anos, com a madrinha no engenho Massangana. Em seguida mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Em 1865, foi morar em São Paulo, fez os 3 primeiros anos do curso de Direito e formou-se no Recife, em 1870. Foi colega de Castro Alves, que lhe incutiu as bases de seu caráter literário e abolicionista. Aos 20 anos, ainda estudante, assumiu o caso de um escravo acusado de assassinato, defendendo-o perante o tribunal do júri de Recife.

Em 1873, durante uma viagem para a Europa, manteve um relacionamento amoroso com a investidora financeira e filantrópica Eufrásia Teixeira Leite, detentora de uma das maiores fortunas do mundo na época. Ela herdou, em 1872, uma fortuna equivalente a 5% do valor das exportações brasileiras. O romance durou até 1887 e dois anos depois, aos 38 anos, casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Foi adido de primeira classe na Embaixada de Londres e depois em Washington, de 1876 a 1879. Como era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, estava destinado a ter uma atividade política. Porém se opunha aos interesses dos poderosos senhores de engenho, e isto dificultou sua entrada na vida política. Começou escrevendo artigos abolicionistas para diversas revistas.

Em 1878, com a volta ao poder do Partido Liberal, onde seu pai era influente, foi eleito deputado geral e lutou pela eleição direta, pela participação dos não católicos no Parlamento e, principalmente, pela abolição total da escravidão sem indenizações aos donos de escravos. Criou a Sociedade Antiescravidão Brasileira, escrevendo um manifesto; fundou o jornal “O Abolicionista”: e viajou pelo exterior para divulgar a causa e obter apoio. Teve o apoio imediato da Inglaterra, uma das nações que mais combatia a escravidão, que se constituía num empecilho à sua expansão industrial e comercial em todo o mundo. Porém, mesmo assim, não conseguiu demover o conservadorismo na política nacional e foi derrotado nas eleições seguintes. Foi morar em Londres, onde viveu entre 1882-1884, e escreveu O abolicionismo, livro em que aproveitou para expor suas ideias sobre a reforma agrária. Seu plano era perfeito: beneficiar os negros libertos com terras para viver e trabalhar. Se fosse executado, hoje o Brasil seria outro.

De volta ao Brasil foi novamente deputado, e continuou com sua campanha abolicionista escrevendo diversos livretos antiescravagistas. Noutra viagem à Londres, apresentou uma proposta na Associação de Direito Internacional e, em Roma, fez uma visita ao Papa Leão XIII, que chegou a lhe prometer uma encíclica em favor da abolição. Apesar das ideias progressistas, mantinha o ideal monarquista com receio da perda da unificação territorial, como ocorreu com a América espanhola desmembrada em 18 repúblicas. No entanto, o ideal republicano crescia a cada dia. Para defender a monarquia, apresentou, em 1885, um projeto de monarquia federativa, defendendo a descentralização do poder para dar mais autonomia às províncias. Tal estratégia visava atender os anseios republicanos sem abrir mão da monarquia. Ele não via contradição política neste posicionamento, pois admirava o sistema presidencialista dos EUA e a monarquia parlamentar inglesa. Deixou registrado seu apreço pela monarquia no livro Por que continuo a ser monarquista (1890).

Em 1888, com fim da escravidão, recebeu o título de visconde, mas recusou a comenda do governo imperial. Em seguida, com a proclamação da República, em 1889, passou a dedicar-se mais à vida de escritor memorialista. Nessa fase de espontâneo afastamento, viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Frequentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras. Ele foi o fundador da Cadeira nº 27 e secretário-geral até 1899 e de 1908 a 1910.

Nesse período publicou duas de suas obras mais importantes: Um estadista do Império (1897-1899), em 3 volumes, uma biografia de seu pai e relato da história do Brasil naquele período e Minha formação (1900), livro de memórias. Na época o Brasil ainda não tinha embaixadas em outros países; o que havia eram legações para discutir questões diplomáticas. Mas, com a República era preciso estreitar os laços com outras nações através de embaixadas. Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu convencê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, foi acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, foi indicado pelo barão do Rio Branco, para assumir a primeira embaixada brasileira no exterior, em Washington, onde permaneceu até a morte. Ao lado de tantas atividades, vale acrescentar que Joaquim Nabuco, ao lado de Rui Barbosa, assumiu posição de destaque na luta pela liberdade religiosa no Brasil que, na época, tinha a religião católica como oficial, constituindo-se em um Estado confessional. Ele defendia a separação entre Estado e Religião, bem como a laicidade do ensino público.

Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana, em companhia do Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Foi muito prestigiado não apenas junto ao governo norte-americano, bem como ao povo e a comunidade acadêmica. Proferiu diversas palestras nas universidades sobre a cultura brasileira e foi um grande propagador dos Lusíadas, de Camões. Tais incursões na área literária lhe garantiram o grau de “doutor em letras” pela universidade de Yale. Quando faleceu, em Washington, em 17/1/1910, seu corpo foi conduzido, com solenidade excepcional, para o cemitério, e depois foi trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, onde foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. As solenidades de sepultamento em Washington, Rio de Janeiro e Recife duraram em torno de um mês.

Após o falecimento, as homenagens são frequentes até o momento. Em 1949 foi criada a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), vinculada ao Ministério da Educação, com o propósito de preservar seu legado histórico-cultural; na década de 1990, o Engenho Massangana, onde ele passou a infância, foi tombado pelo Patrimônio Histórico sob o nome de Parque Nacional da Abolição. Em seguida, a FUNDAJ criou em suas dependências o Centro Científico e Cultural Engenho Massangana (CCEM). Outras homenagens: na data de seu nascimento, 19 de agosto, comemora-se o Dia do historiador; a lei nº ei nº 11.946,] de 15/6/2009, instituiu o ano de 2010 como “Ano Nacional Joaquim Nabuco”; em 2/6/2014, seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, pela Lei nº 12.988; em 28/9/1915, seu nome passou a designar uma das praças públicas mais relevantes do Recife, onde se encontra sua estátua.

Praça Joaquim Nabuco, no Recife

Cenas do funeral de Joaquim Nabuco em Washington, em abril de 1910 – Chegada do ataúde, numa carreta de artilharia, à Igreja de São Mateus

O Presidente dos EUA, William H. Taft e a Sra Taft chegando à Igreja

Os marinheiros do North Carolina formados em frente ao Palácio Monroe

As representações oficiais ao saírem do Palácio Monroe, onde ficou exposto o corpo de Joaquim Nabuco

ILUSTRES PERNAMBUCANOS – XLVII

Frei Caneca 1779-1825

Frei Joaquim do Amor Divino Caneca nasceu no Recife, em 20/8/1779, recebendo o nome de Joaquim da Silva Rabelo. Em 1796, aos 17 anos, tomou o hábito carmelita e aos 22, com licença do Núncio Apostólico de Lisboa, ordenou-se padre e adotou o nome Joaquim do Amor Divino, acrescentando o apelido Caneca, em homenagem a seu pai, o português Domingos da Silva Rabelo. Como era “tanoeiro”, fabricante de canecas de flandres, daí o apelido de “Caneca”.

Em 1803 foi nomeado professor de Retórica e Geometria de seu convento, onde lecionou posteriormente Filosofia racional e moral. A partir de certo momento, o “seu interesse extrapolou os muros do claustro, como indica seu provimento na cadeira pública de geometria da comarca de Alagoas“. Ali permaneceu pouco tempo, dada a perspectiva de nomeação para idêntica cadeira no Recife, a qual não se concretizou devido a eclosão da Revolução de 1817. Partidário do liberalismo e ideais republicanos, frequentou a Academia do Paraíso, um dos centros de reunião daqueles que, influenciados pela Revolução Francesa e pela independência dos EUA, conspiravam contra o jugo português.

Foi um dos próceres do movimento de emancipação brasileira, que levou à independência. Muito combativo, lutava contra o despotismo e as relações de dependência que caracterizavam o período o colonial. Nessa época o Recife estava dominado pelos sentimentos liberais. Padres, militares, e maçons uniram-se pela emancipação política do Brasil. Frei Caneca, Padre Roma, Domingos José Martins, Abreu e Lima entre outros, preparavam o levante em 6 de março, que conduziu à Revolução Pernambucana de 1817. O movimento foi vitorioso apenas por 74 dias. Seus líderes foram mortos, outros presos e alguns levados para Salvador. Dentre os quais Frei Caneca e Abreu e Lima. Conta a história que “Com uma pesada corrente de ferro no pescoço o prisioneiro ia andando devagar. Estava descalço, usava uma batina suja e rasgada, vigiado por soldados bem armados. Em direção ao porto, caminhava em silêncio”. A Revolução Pernambucana tinha sido esmagada, mas a ideia de libertar a província do poder central estava cada vez mais viva. Sua atuação, segundo a acusação, teria sido como capitão de guerrilhas, o que lhe valeu quatro anos de prisão em Salvador.

Depois de quatro anos preso, obteve o perdão Real reivindicado pelo movimento constitucionalista de Portugal. Enquanto preso, dedicou-se a redação de uma Gramática da língua portuguesa. Neste período, aproveitou para traduzir o texto francês “O espelho das mulheres ou a Arte de Realizar, por meio das Graças, os Encantos da Formusura”. Consta que o Frei não aceitava o celibato e chegou a ter três filhas. Traduziu, também, o texto da Enciclopédia Britânica “História da Franco-Maçonaria”. Libertado em 1821, regressou ao Recife, onde passou a lecionar geometria elementar. Em seguida foi professor de retórica e filosofia em Pernambuco e Alagoas. Escreveu, em 1822, “Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão” e “De um cidadão e deveres deste para com a mesma pátria e, em 1823, O caçador atirando à arara pernambucana” e as “Cartas de Pítia a Damão, Tratado de eloquência e História da Província de Pernambuco“.

Além de professor e escritor, exerceu a função de jornalista. Em 1823, fundou o jornal semanal “Typhis Pernambucano”, um veículo usado para criticar a situação política e atingir as massas, esclarecendo-as sobre a defesa dos seus direitos. É sabido que a Independência do Brasil, proclamada em 1822, não foi aquela preconizada pelos revoltosos de Pernambuco. A outorga da constituição de 1824 e a demissão de Manuel de Carvalho Pais de Andrade, chefe da Junta Governativa Provincial (de Pernambuco), foi o estopim da revolução conhecida como “Confederação do Equador” e que obteve apoios setoriais na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Para muitos historiadores, esta rebelião foi um prolongamento da Revolução Pernambucana.

Frei Caneca foi seu principal líder. Seu jornal, que circulou de dezembro de 1823 até agosto de 1824, foi sua arma que alimentava as ideias revolucionárias. “Quem bebe da minha caneca tem sede de Liberdade” dizia Caneca. É preciso salientar que ele depositava alguma confiança no império constitucional, conforme pode ser verificado no Sermão de aclamação de D. Pedro I. Porém a partir do momento em que o imperador convoca o exército, fecha a Assembleia Constituinte e impõe o seu próprio projeto de Constituição, seus ideais libertários são feridos e ele passa a exercer, sobretudo através de sua pena, todo o seu poder combativo. Irritou-se quando dom Pedro, na fala do trono à Constituinte, depois da separação, prometeu defender a pátria e a Constituição, caso esta seja “digna do Brasil e de mim”. Com o fracasso da rebelião, retirou-se para o interior, na companhia de parte das tropas. Nesta ocasião escreveu o “Intinerário de uma viagem ao Ceará”.

Ainda em 1824, foi preso no Ceará e submetido a julgamento pela Comissão Militar, sendo condenado à morte por enforcamento. Os carrascos designados se recusaram a executá-lo e a pena foi modificada para fuzilamento, que veio a ocorrer no Forte das Cinco Pontas, em 13/1/1825. Sua execução foi realizada por um pelotão comandado pelo brigadeiro Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro. Na ocasião, demonstrou grande serenidade e coragem e sua morte foi cercada de uma auréola mística e heroísmo pelo povo pernambucano. Sua história e legado foram reconstituídos pelo historiador Evaldo Cabral de Melo, no livro Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, publicado pela Editora 34, em 2001. O livro integra a coleção “Formadores do Brasil”, dirigida por Jorge Caldeira, e que tem por objetivo resgatar obras fundamentais do pensamento sobre a Nação brasileira. Trata-se de uma figura pouco estudada na historiografia brasileira, mas que foi, além de importante revolucionário, um dos pensadores políticos mais consistentes de seu tempo.

Muito antes, entre 1875 e 1876 ocorreu a publicação póstuma das Obras Políticas e Literárias de Frei do Amor Divino Caneca, organizadas por Antonio Joaquim de Melo. A bibliografia sobre Frei Caneca é tão vasta quanto seu desconhecimento público. Agora há pouco, um programa de TV de São Paulo, fez uma enquete na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping do mesmo nome, para saber se as pessoas sabiam quem era o dito cujo. Ninguém sabia. Em Pernambuco, claro, ele é mais conhecido. Em 1982, o governo do estado encarregou Cícero Dias da execução de uma pintura sobre sua vida. A encomenda requer que o artista traduza em imagens a saga de um dos mais respeitados heróis pernambucanos. Cícero decidiu contá-la através de dois painéis, cada um deles contendo 12 telas expostas na Casa de Cultura do Recife, as quais podem ser vistas abaixo.

Em 1984, João Cabral de Melo Neto escreveu O Auto do Frade, contando a história do último dia de Frei Caneca. No auto, temos seu cortejo por toda a cidade de Recife, como numa procissão, até ser fuzilado, finalmente, longe dos olhos do povo. Segue abaixo, alguns trechos do poema:

Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Por que será que ele não fala,
nem diz nada sua boca muda?
Senhor que ele foi das palavras,
não há uma só que hoje acuda.
– Parecia que estava bêbado.
Era álcool ou sua desrazão?
– Bêbado da luz do Recife:
fez esquercer sua aflição.
– Mas pareceu falar em versos.
É isso estar bêbado ou não?
– Mesmo sem querer fala em verso
quem fala a partir do coração.
– Eu era um ponto qualquer
na planície sem medida,
em que as coisas recortadas
pareciam mais precisas,
mais lavadas, mais dispostas
segundo clara justiça.
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma folha
de papel, receptiva:
o mundo tem alma autônoma,
é de alma inquieta e explosiva.

Risco nesse papel praia,
em sua brancura crítica,
que exige sempre a justeza
em qualquer caligrafia;
que exige que as coisas nele
sejam de linhas precisas;
e que não faz diferença
entre a justeza e a justiça. (p. 37)

– Veio andando calmo e sem medo,
ar aberto de amigo, e brando.
– Não veio desafiando a morte
nem indiferença ostentando.
– Veio como se num passeio,
mas onde o esperasse um estranho. 
– É um homem como qualquer um,
e profeta não se pretende.
– É um homem e isso não chegou:
um homem plantado e terrestre.
(…)
Viveu bem plantado na vida,
coisa que a gente nunca esquece.

– Esperar é viver num tempo
em que o tempo foi suspendido.
– Mesmo sabendo o que se espera,
na espera tensa ele é abolido.
– Se se quer que chegue ou que não,
numa espera o tempo é abolido.
– E o tempo longo mais encurta
o da vida, é como um suicídio.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLVI

Paulo Freire 1921-1997

Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Recife, em 19/9/1921. Educador, pedagogo e filósofo. Idealizador do movimento denominado “Pedagogia Crítica”, é também o Patrono da Educação Brasileira e um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial. Graduado pela Faculdade de Direito do Recife, em ??? Oriundo de uma família da classe média, vivenciou a pobreza e a fome na infância durante a depressão de 1929, uma experiência que o levaria a se preocupar com os mais pobres e o ajudaria a construir seu revolucionário método de alfabetização.

Casou-se, em 1944, com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira, com quem teve cinco filhos. Após a morte de sua primeira esposa, casou-se com Ana Maria Araújo Freire, uma ex-aluna. Foi professor de Língua Portuguesa do Colégio Oswaldo Cruz e diretor do setor de Educação e Cultura do SESI (Serviço Social da Indústria) de 1947-1954 e superintendente do mesmo de 1954-1957. Ao lado de outros educadores e pessoas interessadas na educação escolarizada, fundou o Instituto Capibaribe.

Sua filosofia educacional expressou-se primeiramente em 1958 na sua tese de concurso para a universidade do Recife, e, mais tarde, como professor de História e Filosofia da Educação daquela Universidade, bem como em suas primeiras experiências de alfabetização como a de Angicos, Rio Grande do Norte, em 1963. Ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. A partir daí, criou um método inovador de alfabetização, adotado primeiramente em Pernambuco. Seu projeto educacional estava vinculado ao nacionalismo desenvolvimentista do governo João Goulart.

A metodologia por ele desenvolvida foi muito utilizada no Brasil em campanhas de alfabetização e, por isso, ele foi acusado de subverter a ordem instituída, sendo preso após o Golpe Militar de 1964. Depois de 72 dias de reclusão, foi convencido a deixar o país. Exilou-se primeiro no Chile, onde desenvolveu alguns programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (ICIRA). Foi aí que escreveu sua obra mais conhecida: Pedagogia do oprimido (1968). Outras obras menos conhecidas, porém relevantes: Educação como prática da liberdade (1967), Cartas à Guiné-Bissau (1975), Pedagogia da esperança (1992), À sombra desta mangueira (1995) e Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa (1997).

O fundamento de sua prática didática encontra-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à por ele denominada educação bancária, tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes, o educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado. Este método de alfabetização dialético, se diferenciou do “vanguardismo” dos intelectuais de esquerda tradicionais e sempre defendeu o diálogo com as pessoas simples, não só como método, mas como um modo de ser realmente democrático.

Em 1969, trabalhou como professor na Universidade de Harvard, em estreita colaboração com numerosos grupos engajados em novas experiências educacionais. Durante os dez anos seguintes, foi Consultor Especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra. Nesse período, deu consultoria educacional junto a vários governos do Terceiro Mundo, principalmente na África. Em 1980, depois de 16 anos de exílio, retornou ao Brasil para “reaprender” seu país. Lecionou na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na política, integrou o Partido dos Trabalhadores e foi Secretário de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989-1992). Durante seu mandato, fez um grande esforço na implementação de movimentos de alfabetização, de revisão curricular e empenhou-se na recuperação salarial dos professores.

Foi reconhecido mundialmente pela sua prática educativa através de numerosas homenagens. É cidadão honorário de várias cidades no Brasil e no exterior; recebeu o título de doutor Honoris Causa por 29 universidades da Europa e América, além das premiações: Prêmio Rei Balduíno para o Desenvolvimento (Bélgica, 1980); Prêmio UNESCO da Educação para a Paz (1986) e Prêmio Andres Belloda da Organização dos Estados Americanos, como Educador do Continente (1992). Em 13/4/2012 foi sancionada a lei 12.612 que declara o educador Paulo Freire como o Patrono da Educação Brasileira. Faleceu em 2/5/1997.

ROTEIRO TURÍSTICO DA REPÚBLICA DE PALMARES

Quando fiquei sabendo que “palmares” não é apenas a reunião de muitas palmeiras, tampouco o nome de um quilombo, e sim de uma grande área que se estende da Serra da Barriga, em Alagoas, até o Porto de Galinhas, em Pernambuco, decidi conhecer a região que os negros fugitivos da escravidão delimitaram como sua “República” na época do Brasil colonial. Era uma área de aproximadamente 360 km., do tamanho do estado do Rio de Janeiro, composta por 10 aldeias e diversos quilombos espalhados pela região.

A viagem começa em União dos Palmares, pequena cidade de Alagoas, na divisa com Pernambuco. É ali que se encontra o Quilombo dos Macacos, a capital da “República”, localizado no topo da Serra da Barriga. O local foi tombado pelo Patrimônio Histórico e hoje é administrado pela Fundação Cultural Palmares. Trata-se de um ponto turístico pouco explorado no Nordeste, não obstante ser um local agradável com uma bela vista panorâmica e alguma infraestrutura disponível aos visitantes. Vejam abaixo a entrada do local e um mapa detalhando os pontos principais e instalações:

Saindo de União dos Palmares, em uma hora de viagem, chego em Caruaru. Ou melhor, no antigo Quilombo Kalulu, que deu origem àquela cidade. Não sei se o quilombo ficava no Morro do Bom Jesus ou no Alto do Moura, local de visitação obrigatória para quem for a Caruaru, pois ali se instalaram os artesãos da cidade e o Museu do Mestre Vitalino. É considerado pela UNESCO como o maior centro de arte figurativa das Américas. Neste ponto da viagem, eu que estava apenas querendo conhecer a “República” sou brindado com uma visita a um dos maiores museus a céu aberto do Brasil.

Seguindo viagem mais uma hora de carro, chego em Garanhuns, cidade localizada no Planalto da Borborema, a 900 metros de altitude, entrecortada por colinas. “Cidade das sete colinas” é um dos nomes do local. Outro nome atribuído pelos turistas é “Suíça Pernambucana”, devido ao frio. Uma destas colinas – o “Columinho” ainda hoje abriga alguns negros e já foi reconhecido como região quilombola. Outro quilombo importante situava-se no Alto do Magano, o ponto mais alto da cidade, mas que já não guarda resquícios da época dos “palmarinos”. A cidade foi fundada por Simôa Gomes, neta de Domingos Jorge Velho. Como se sabe, este bandeirante paulista foi contratado pelo governo português, instalado em Pernambuco, para derrotar Zumbi e destruir o Quilombo de Palmares. Como recompensa, recebeu uma extensa porção de terras que chegava até Garanhuns.

Prosseguindo na viagem, em menos de uma hora chego em Palmares, pequena e tradicional cidade, também chamada de “Atenas Pernambucana” e “Terra dos Poetas”, por ser o berço de grandes poetas e escritores. O nome da cidade, diz a wikipedia, é uma homenagem ao “Quilombo dos Palmares, que se instalou em seu entorno e resistiu durante muito tempo sob o comando do valente negro Zumbi”. Neste ponto da viagem sou confundido pela História e me pergunto: mas não foi em União dos Palmares, onde Zumbi reinou? Não importa, depois veremos isto com maior clareza. O que interessa agora é que toda esta região é a Republica dos Palmares, que vai até o litoral, no Cabo de Santo Agostinho, e é para lá que vamos tomar banho de praia, pois o calor está pedindo.

Em menos de uma hora, chegamos, por fim, ao Porto de Galinhas. Logo procuro saber a origem do nome, e fico sabendo que ali antigamente era um ponto de chegada dos escravos negros ilegais, transportados embaixo dos engradados de galinhas-d’angola. A chegada dos navios era anunciada no povoado discretamente: “Tem galinha nova no porto!”. Concluindo o roteiro, vi que não foi apenas turístico de apreciável qualidade; foi também histórico de grande importância para o País ao mesmo tempo em que conheci uma das mais belas regiões do Nordeste.

EM DEFESA DO JORNALISMO

Há poucos anos perdemos um jornalista valoroso – Heródoto Barbeiro – da TV Cultura e Rádio CBN. O “bispo” Macedo comprou-o por uma bagatela irrecusável segundo muitos e o próprio jornalista, que continua lá na TV Record News (fechada) numa boa. Não sei se mais feliz, pois antes era um renomado jornalista reconhecido nas ruas. Hoje ninguém, talvez nem os próprios assinantes daquela TV, sabem quem é ou quem foi Heródoto Barbeiro.

Agora estamos perdendo outro grande jornalista – William Waack – por um motivo bizarro: um ataque dos correligionários de Torquemada, conforme bem denominou outro jornalista, o José Nêumane. Não se trata de defender o jornalista com sua piada sem graça, feita no ano passado em off e revelada agora por motivos não revelados, mas sabemos agora que havia a intenção de levar uma grana com a denúncia. Passaram um ano tentando levantar uma grana e como não conseguiram, mostraram o vídeo. O nome disso é extorsão. O fato é este: uma tentativa de extorsão feita por dois “colegas” travestidos de “politicamente corretos” derrubou um dos bons poucos jornalistas que temos. Imagino que se Paulo Francis estivesse vivo, não estaria trabalhando.

Até quando vamos aguentar essa turma do “politicamente correto” vigiando cada passa, cada palavrinha dita fora do contexto ou fora do que acham correto, mesmo que seja para achacar alguma pessoa? Alguns jornalistas saíram em defesa do William Waack, como o José Nêumane, Augusto Nunes, José Roberto Guzzo e Reinaldo Azevedo e os próprios colegas (negros) do jornalista. Mas, diante do alarido, a TV Globo sente-se obrigada a afastá-lo com medo da perda de audiência. Não sabem que vão perder muito mais audiência com seu afastamento.

Diante do inusitado, proponho ao nosso editor Luiz Berto abrir espaço aqui para o jornalista continuar expondo seus matérias e pontos-de-vista. Sei que sua audiência será de apenas umas 100 mil pessoas/dia. É pouco diante daquela existente na TV, porém muito mais qualificada. Enquanto isso, vamos esperando passar esse período de inquisição onde não se pode se falar qualquer bobagem, mesmo que seja em particular. Como todo mundo tem celular e uma câmera de filmar/gravar qualquer um está sujeito a ser demitido de seu emprego ou até ser preso devido a uma bobagem. E assim vamos perdendo nossos valorosos jornalistas.

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – LV

João Cabral de Melo Neto 1920-1999

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife, em 9/1/1920. Diplomata e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Oriundo de uma aristocrática família pernambucana, é primo de Manuel Bandeira e de Gilberto Freyre. Passou toda a infância em engenhos de açúcar nas cidades de São Lourenço da Mata e Moreno. Com a mudança da família para Recife, em 1930, iniciou o curso primário no Colégio Marista.

Aos 15 anos seu talento não despontou na poesia e sim no futebol. Foi campeão juvenil pelo Santa Cruz. Trabalhou na Associação Comercial de Pernambuco e no Departamento de Estatística do Estado. O talento para a literatura viria aos 18 anos, quando começou a frequentar as tertúlias do Café Lafayette, famoso “point” de intelectuais do Recife. Lá fez bons amigos, como o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris, devido a eclosão da II Guerra Mundial; o poeta e crítico Willy Lewin, dono de uma grande biblioteca literária e o poeta e engenheiro Joaquim Cardoso, que exerceram forte influência em sua carreira.     

Aos 20 anos foi morar no Rio de Janeiro, e logo se integra ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório do médico e poeta Jorge de Lima junto com Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e outros poetas.  No ano seguinte, voltou ao Recife para participar do Congresso de Poesia, onde apresentou suas Considerações sobre o poeta dormindo. Em 1942 publicou seu primeiro livro, Pedra do Sono, com forte teor surrealista. Foi convocado para servir à  FEB-Força Expedicionária Brasileira, mas é dispensado por motivo de saúde. Em seguida foi aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP-Departamento de Administração do Serviço Público. Passou a frequentar a roda de intelectuais, agora alargada no “Café Amarelinho” e “Café Vermelhinho”, no Centro do Rio e publica o segundo livro  Os três mal-amados, em 1943.

Dois anos após, seu estilo poético vai se afirmando naquilo que viria a ser sua marca registrada: uma poesia concisa e precisa, demonstrada no livro  O engenheiro numa edição custeada por seu amigo Augusto Frederico Schmidt. Necessitando de emprego, fez concurso para a carreira diplomática e foi nomeado em 1945 para trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro de 1946, casou-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira e em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. Em 1947 foi transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. 

Em paralelo a função diplomática, passou a editar  numa pequena tipografia artesanal alguns livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganhou mais dois filhos: Inês e Luiz. Tornou-se amigo de Miró e escreveu um ensaio sobre o pintor, publicado em sua tipografia. Em 1950, foi transferido para o Consulado Geral, em Londres, e publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder ao inquérito, onde é acusado de subversão. O PCB-Partido Comunista estava na ilegalidade e ele foi acusado de criar uma “célula” no MRE-Ministério das Relações Exteriores, junto com mais quatro diplomatas. Foram afastados do Itamaraty em 20/3/1953, mas retornaram em 1954 após recorrerem ao STF-Supremo Tribunal Federal.

Em 1954 recebeu o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo, com o livro O Rio, escrito no ano anterior. Em seguida volta a residir no Recife, onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal. No mesmo ano a Editora Orfeu lançou seus Poemas Reunidos.. Por esta época já integrava a plêiade dos poetas brasileiros, com a publicação do livro Duas águas, publicado pela José Olympio Editora em 1956. O livro reúne seus livros anteriores e os inéditos: Paisagens com figuras, Uma faca só lâmina e Morte e vida Severina, “um auto de natal” solicitado pela dramaturga Maria Clara Machado, do teatro “O Tablado”. Ela achou o auto muito triste e não encenou. Mais tarde, Roberto Freire, diretor do TUCA-Teatro de Universidade Católica(SP), pediu para Chico Buarque de Holanda  musicar o texto. A peça foi encenada em diversas cidades brasileiras e correu o mundo, tornando-se sua obra mais conhecida. Representou o Brasil no Festival de Nancy, onde ganhou o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Posteriormente a peça foi transposta para disco (LP), cinema e série especial de TV.

Pouco depois foi removido, de novo, para Barcelona na condição de cônsul adjunto e com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir. É o lugar onde se deu melhor, devido as semelhanças com o Recife. Em 1958 foi removido para o Consulado Geral em Marselha, na França. Recebeu o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, no Recife. Em 1960, seu livro Quaderna foi publicado em Lisboa, quando ocorreu nova remoção. Agora para Madrid, como secretário da Embaixada. A vida de diplomata é compartilhada com o lançamento de livros. Em Madrid foi publicado Dois parlamentos.   

Em 1961, foi nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha,  mudou-se para essa cidade, onde reside pela segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João.

Em seguida publicou A educação pela pedra, pelo qual recebeu três prêmios “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro; “Luisa Cláudio de Souza”, do Pen Club e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. Em 1967 foi promovido a cônsul geral, vindo a ocupar o Consulado em Barcelona. No ano seguinte publica suas Poesias completas e é eleito para a ABL-Academia Brasileira de Letras. Uma nova transferência se deu em 1969 para a embaixada de Assunção, como ministro conselheiro. No mesmo ano Tornou-se membro da Hispania Society of América. e recebeu a comenda da As mudanças são uma constante em sua vida diplomática. Em 1970, foi nomeado embaixador em Dacar, Senegal, cargo exercido cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry.

Tão constante como as mudanças devido a carreira diplomática, são as condecorações recebidas: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1974),  Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal (1976), Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Guararapes (1980),  Grã-Cruz da Ordem Zila Mamede (1980),  Doutor Honoris Causa das Universidades Federal do Rio Grande do Norte (1982) e Federal de Pernambuco (1986)., Medalha Carneiro Vilela (1985), Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (1986), Comenda do Mérito Aeronáutico, Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada de Portugal (1987), Grã-Cruz do Equador,  Medalha de Humanidades do Nordeste, Ordem Militar de Cristo de Portugal (1998) Ordem de Mérito Pernambucano, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho.

São constantes também as premiações literárias:  Prêmio Olavo Bilac da ABL-Academia Brasileira de Letras (1955), Grande Prêmio de Crítica da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte (1975), Prêmio Moinho Recife (1984), Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura (1988), Prêmio Camões, outorgado pelos governos do Brasil e  Portugal (1990), Pedro Nava (1991), Casa das Américas, pelo Governo do Estado de São Paulo (1992); Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma (1992), Prêmio Jabuti, da  Câmara Brasileira do Livro (1993).,  Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (1994), Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro, Criadores de Cultura, da Prefeitura do Recife. Vale lembrar que foi o autor brasileiro mais cotado para receber o Prêmio Nobel de Literatura

Continuando com as remoções diplomáticas, foi nomeado embaixador em Quito, Equador, em 1980 ano em que publica A escola das facas. Em 1982 vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Em 1986, com o falecimento de sua mulher, casou-se em segundas núpcias com a poetisa Marly de Oliveira. Em 1987 foi removido para o Rio de Janeiro e publicou  Crime na Calle Relator. Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois.

A década de 1990 inicia com a aposentadoria do diplomata e vai encontrar sua saúde e o ânimo fragilizados. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, sua esposa passa a escrever alguns textos ditados pelo poeta. É assim que surgem mais dois livros: Primeiros poemas (1990) e Sevilha andando. O último livro publicado se deu no ano de seu falecimento – Tecendo a Manhã -, em 9/10/1999, aos 79 anos, reconhecido como um de seus melhores poemas. Neste mesmo ano é distinguido com uma “edição da plêiade”, publicada pela Editora Nova Aguilar: João Cabral de Melo Neto, Obra Completa, uma distinção dirigida à poucos autores brasileiros. Mais tarde, Carlos William Leite, editor da  conceituada revista (digital) “Bula”, realizou uma enquete entre seus leitores, pedindo para apontar seus poemas mais significativos, e publicou os 10 melhores poemas de João Cabral de Melo Neto.

PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VII

Celso Furtado

Celso Monteiro Furtado nasceu em 26/7/1920, em Pombal, Paraíba. Jornalista, advogado e economista dos mais conceituados em todo o mundo. Realizou os estudos primários em sua terra natal e os secundários no tradicional Ginásio Pernambucano do Recife. Em 1939 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vai estudar na Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Em 1943, foi aprovado no concurso do DASP para assistente administrativo. No ano seguinte concluiu o curso de Direito e em 1945 foi convocado pelo Exército para lutar na II Guerra Mundial. Com a patente de aspirante de oficial, obtida no CPOR, segue para a Itália, integrando a FEB-Força Expedicionária Brasileira. Nesta etapa, publicou seu primeiro livro por conta própria: De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária, sobre a presença brasileira na Itália.

Servindo na Toscana, como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano, sofreu um acidente na ofensiva final dos aliados e foi internado num hospital norte-americano. Em 1946 ganhou o prêmio Franklin D. Roosevelt, promovido pelo Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio “Trajetória da democracia na América”. No mesmo ano ingressou no curso de doutorado em economia da Universidade de Paris-Sorbonne, concluído em 1948 com a tese “L’économie coloniale brésilienne”, dirigida por Maurica Byé, obtendo a menção “très bien”. Enquanto isso, exerce a função de correspondente da “Revista da Semana”, “Panfleto” e “Observador Econômico e Financeiro”. Em Paris conheceu sua primeira esposa, a química argentina Lucia Tosi. De volta ao Brasil, retomou o trabalho no DASP e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, passando a trabalhar na revista “Conjuntura Econômica”.

Em 1949, mudou-se para Santiago do Chile para integrar a recém-criada CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU. No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria-executiva da CEPAL, foi nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento, e passou a cumprir missões até 1957 nos países: Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, enquanto visita universidades norte-americanas, onde passa a debater sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento. Seu primeiro ensaio de análise econômica, Características gerais da economia brasileira, foi publicado na Revista Brasileira de Economia, da FGV, em 1950. Dois anos depois, publicou seu primeiro artigo de circulação internacional, Formação de capital e desenvolvimento econômico, traduzido para o “International Economic Papers”, da Associação Internacional de Economia.

Em 1953, preside o Grupo Misto CEPAL-BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), enfatizando as técnicas de planejamento, que elabora um estudo sobre a economia brasileira. Tal estudo, editado em 1955, será a base do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. No ano anterior, junto com um grupo de amigos, criou o Clube de Economistas, que lança a “Revista Econômica Brasileira” e publica A economia brasileira, seu primeiro livro de economia sobre a teoria do desenvolvimento e subdesenvolvimento. Em 1956, passou a morar na Cidade do México, em missão da CEPAL, e publicou seu segundo livro Uma economia dependente. No ano seguinte mudou-se para a Inglaterra, onde passa o ano letivo de 1957-58 no King’s College da Universidade de Cambridge, a convite do professor Nicholas Kaldor. Aí escreveu seu livro mais conhecido, Formação econômica do Brasil, que lhe dará projeção internacional.

De volta ao Brasil, desligou-se da CEPAL e assumiu uma diretoria do BNDE. Foi nomeado, pelo presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste e elaborou o estudo “Uma política de desenvolvimento para o Nordeste”, dando origem, em 1959, a SUDENE-Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, com sede no Recife. Na condição de superintendente, encontrou-se com o presidente Kennedy, em 1961, cujo governo decide apoiar um programa de cooperação com a SUDENE e, semanas depois, com o ministro Che Guevara, chefe da delegação cubana à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso. Em 1962 foi nomeado como o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao país pelo presidente João Goulart. No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à SUDENE, quando concebe e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.

Logo após o golpe militar de abri de 1964, teve seus direitos políticos cassados por dez anos, dando início ao exílio e um périplo por diversos países. Ainda em abril, aceitou convite para dar seminários em Santiago do Chile. Em seguida foi morar em New Haven (USA), onde foi pesquisador graduado do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Yale. Por essa época, publicou o livro Dialética do desenvolvimento e fez diversas conferências em universidades norte-americanas, além de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo. Em 1965, mudou-se para a França, a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico. É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do general de Gaulle, e permanecerá nos quadros da Sorbonne por vinte anos.

Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. Os temas discutidos são reunidos no livro Um Projeto para o Brasil (1968). Aliás, publicar livros foi uma constante em sua vida: Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina (1966), Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967), Formação Econômica da América Latina (1969). No correr da década de 1970, fez diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências da ONU. Neste período foi professor-visitante da American University, da Columbia University, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e nomeado “Fellow do King’s College”. Em 1973 publicou A Hegemonia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da América Latina, dando a entender uma relação de causalidade entre os dois fenômenos. O interesse pela área editorial o faz juntar-se a um grupo liderado pelo industrial e deputado Fernando Gasparian na compra da Editora Paz e Terra, em 1974. Uma destacada editora na área das ciências sociais.

Nos anos 1978-81, integrou o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. Na mesma época, recebeu um mandato do Commitee for Development Planning, da ONU. Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, coordenou seminários sobre a economia brasileira e internacional, em Paris. A partir de 1979, com a Lei da Anistia, retorna com frequência ao Brasil, retoma a vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Em 1985 foi convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo, mas infelizmente não pode assumir com a morte de Tancredo. Foi nomeado embaixador do Brasil junto à futura União Européia, e integrante da Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição. No ano seguinte, foi nomeado ministro da Cultura do governo José Sarney. Uma de suas primeiras medidas foi a aprovação da lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pediu demissão do cargo, retomando suas atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.

O gosto pela memória o faz publicar, no ano seguinte, seu primeiro autobiográfico: A fantasia organizada. O segundo, A fantasia desfeita, viria em 1989, e o terceiro, Os ares do mundo, em 1991, ano em que se filiou ao “Pen Club do Brasil”. No período 1987-90 integrou a South Commission, criada por Julius Nyerere, e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Hemisfério Sul. Entre 1993-95 atuou no grupo dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/UNESCO, presidida por Javier Pérez de Cuéllar. Entre 1996-98 integrou a Comissão Internacional de Bioética da UNESCO. Com tantas contribuições, foi homenageado, em 1997, com um congresso internacional em Paris, organizado pela Maison des Sciences de l’Homme e a UNESCO, intitulado “A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento”, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França e outros países. No mesmo ano foi criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste (Itália), o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política. O reconhecimento pelo seu trabalho é seguido pela outorga do título de Doutor Honoris Causa pelas universidades Lisboa, Brasília, Campinas, Rio Grande do Sul, Paraíba e Grenoble, na França. Junto a estes títulos, junta-se a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada de Portugal, outorgada em 1986.

Com tantos livros publicados e o gosto pela Literatura, tinha um lugar reservado na Academia Brasileira de Letras, que veio ocorrer em 1997. No discurso de posse, declarou “O fundador desta Cadeira número 11 foi um antepassado meu, Lúcio Furtado de Mendonça , de quem possivelmente herdei os pendores memorialísticos, o gosto mal sucedido pela ficção literária e uma irreprimível sensibilidade social. Esse socialista declarado empenhou-se na criação desta Academia e certamente a ele mais do que a ninguém devemos a existência desta nobre Instituição.” Anos depois, em 2009, a ABL inaugurou a “Biblioteca Celso Furtado”, contendo os 7542 livros que lhe pertenceram.

Celso Furtado faz parte dos pensadores brasileiros que consideram o subdesenvolvimento como uma forma de organização social no interior do sistema capitalista, sendo contrário à ideia de que seja uma etapa para o desenvolvimento, como podem sugerir os termos de país “emergente” e “em desenvolvimento”. Na verdade, o subdesenvolvimento é um processo estrutural específico e não uma fase pela qual tenham passado os países hoje considerados desenvolvidos. Publicou mais de 40 livros, além de inúmeros artigos. Seu último livro é uma profunda análise do subdesenvolvimento, um tema que a que dedicou toda sua vida, intitulado justamente de Raízes do subdesenvolvimento (2003). Pouco antes de falecer, foi homenageado durante a abertura oficial da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em junho de 2004. No mês em que faleceu, foi surpreendido com uma distinção que o comoveu: comenda “Casa Avelino de Queiroga Cavalcante”. Outorgada pela Câmara Municipal de Pombal pelos relevantes serviços prestados a humanidade. Pode falecer tranquilo, em 20/11/2004, reconhecido em sua terra natal.

PERNAMBUCANOS FAMOSOS XLIV

Lampião

Virgulino Ferreira da Silva nasceu em Serra Talhada, em 4/6/1898. Ficou conhecido como “Rei do Cangaço”, por ser o mais bem sucedido líder cangaceiro da história. Ganhou o apelido “Lampião” devido a sua capacidade de disparar consecutivamente, iluminando a noite. Desde criança demonstrava certa habilidade como vaqueiro, cuidava do gado, trabalhava com artesanato de couro e conduzia tropas de burros para comercializar na região da caatinga. Por volta dos 19 anos, chegou a trabalhar para Delmiro Gouveia transportando algodão e couro de bode para a fábrica da Pedra, hoje município homônimo do empresário que o fundou. Esse conhecimento precoce dos caminhos do sertão foi valioso para o futuro cangaceiro.

Era visto como um garoto inteligente, pois era alfabetizado e usava óculos para leitura, características incomuns para a região. Ainda menino, ganhou um presente de seu tio, a biografia de Napoleão Bonaparte. Ficou admirado com a bravura do imperador e seu traje, o que vai lhe permitir mais tarde a introdução de várias novidades no cangaço desde o formato do chapéu em meia lua, até a formação de grupos armados e táticas de guerra. Sua família travava uma uma disputa de terras com outras famílias locais, quando seu pai foi morto em confronto com a polícia em 1919. Virgulino jurou vingança e, junto com dois irmãos, passou a integrar um bando chefiado pelo cangaceiro Sinhô Pereira. Em 1922, tornou-se líder do bando, nomeado pelo proprio chefe, que resolveu se afastar do bando, devido a dura perseguição da polícia. .

No mesmo ano matou o informante que entregou seu pai à polícia, e realizou o maior assalto da história do cangaço àquela altura, contra a Baronesa de Água Branca, em Alagoas. A partir daí sua fama vai se alastrando como salteador de pequenas cidades e fazendas em cinco estados do Nordeste. Foi acusado de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, estupros e saques. Entretanto e paradoxalmente, a fama de justiceiro foi se afirmando até se tornar uma especie de Robin Hood do sertão, que roubava de fazendeiros, políticos e coronéis para dar aos pobres miseráveis. Tal contradição permanece no imaginário popular até hoje.

Não se sabe quantos assaltos, saques, invasões ele cometeu ao longo da vida, mas calcula-se em torno de 200. Em 1926, Juazeiro do Norte (CE), não foi saqueada devido a intervenção do Padre Cícero, que o convenceu a não molestar os habitantes. Lampião vinha de uma família católica e tinha admiração e respeito pelo “Padim Cíço”, com o qual manteve certo relacionamento, que foi além do aspecto religioso. O Padre, além de religioso, era um habilidoso e influente político que mantinha boas relações com Floro Bartolomeu, deputado federal pelo Ceará. Por essa época, a Coluna Prestes avançava pelo Nordeste e ameaçava o Governo de Arthur Bernardes. Para o Padre Cícero, só havia em todo Nordeste uma pessoa que poderia derrotar a Coluna e indicou o nome de Virgulino.
O deputado organizou uma força de combate composta de sertanejos e jagunços do Cariri, denominada “Batalhões Patrióticos”, e escreveu uma carta convidando Lampião para o combate. Mas antes de enviá-la, pediu ao Padre Cícero para endossar o pedido e enviar ao cangaceiro. Poderíamos perguntar: mas como se deu isso, se Lampião era um bandido procurado pela polícia? O fato é que naquela época a politica local era o que imperava, e o pragmatismo (e oportunismo) politico também. Lampião viu ali uma boa oportunidade para largar o cangaço e seguir a vida como respeitável homem do Governo. Em 12/3/1926, seguiu para Juazeiro com 50 homens e ficou acampado nas proximidades da cidade. Padre Cícero foi ao seu encontro em comitiva e lhe outorgou uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um funcionário do Ministério da Agricultura, ou seja, um documento sem valor algum.

Além dele, os capangas receberam patentes inferiores e todo o grupo recebeu fuzis automáticos, muita munição e cem contos de réis. Um conto equivaleria mais tarde a mil cruzeiros. O agora “Capitão Virgulino” parte para o enfrentamento com a Coluna Prestes. Como não era ingênuo, resolveu testar sua autoridade. Mandou um recado aos seus desafetos em Pernambuco (Vila de Nazaré), querendo saber como seria recebido na condição de oficial do Exercito Patriótico. A resposta dos nazarenos foi concisa: “ à bala”. Desapontado com sua pseudolegalidade, volta para falar com o Padre Cícero, mas não é recebido. Assim, interrompeu sua curta carreira militar de defensor público e retoma a vida de cangaceiro, agora bem mais armado, aterrorizando os sertões nordestinos.

Confiante com sua tropa armada com fuzis automáticos, decidiu atacar a grande cidade de Mossoró (RN), em 13/6/1927. O bando entrou na cidade dividido em quatro subgrupos. Avisado previamente do ataque, o prefeito Rodolfo Fernandes organizou uma tropa, distribuiu seu pessoal nas quatro torres da cidade e derrotou o bando. Até hoje a cidade mantém orgulhosa o Memorial da Resistência, que retrata a história da única cidade que botou o bando de Lampião para correr. As invasões e ataques nas cidades e fazendas seguiram seu curso em outos estados chegando até a Bahia, onde o bando incorporou novos cangaceiros.

Em dezembro de 1929, entrou em Queimadas (BA); cortou os fios do telégrafo; sequestrou os telegrafistas e pediu um resgate de 500 mil réis. Depois, foi até a cadeia, prendeu o sargento e sete soldados. Foi almoçar e depois voltou para a cadeia e soltou todos os presos. Mandou os soldados ajoelharem e matou um por um. Pela tarde, saqueou o comércio, conseguindo 20 contos de réis. À noite foi ao cinema e depois mandou fazer um baile. Lampião era assim mesmo: violento, vaidoso e festeiro. Pouco depois invadiu a cidade de Quinjigue. Após o saque e matar alguns, fez outro baile e distribuiu dinheiro entre a população carente. Como se vê, era também caridoso. Foi na Bahia, na cidade de Santa Brígida (Raso da Catarina), em dezembro de 1930, que ele conheceu Maria Bonita, casada com um sapateiro, mas apaixonada pelo cangaceiro. Ela juntou-se ao grupo, sendo a primeira mulher a participar do cangaço.

No mesmo ano foi noticia no “New York Times”, numa reportagem sobre a violência no Brasil. Em 1931, Corisco, seu fiel escudeiro, também consegue uma mulher – Dadá – logo incorporada ao bando. Apartir daí a presença feminina no bando é constante. Em 1932, Maria Bonita teve uma filha – Expedita Ferreira Nunes – e existe uma informação não comprovada que teve mais filhos. Na Bahia os ataques prosseguem em diversas cidades e fazendas. Por essa época recebeu uma informação para tomar cuidado, pois a volante do Capitão Bezerra estava no seu encalço. “Diga a ele que não tenho medo de boi velhaco, quanto mais de bezerra”, foi sua reposta. O Governo baiano espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, “de qualquer modo, o famigerado bandido”. Seria algo como 200 mil reais hoje em dia, e isto fez com que retornassem à Sergipe. A legislação da época, que proibia a polícia estadual de agir além de suas fronteiras, favorecia a ação do bando, que ficava permanentemente viajando ente os estados do Nordeste.

O ex-secretário do Padre Cícero, Benjamin Abraão, fotógrafo e metido a cineasta teve um encontro com Lampião, em 1936, e convence-o a se deixar fotografar e filmar juntamente com todo o bando. Foram vários encontros com o fotógrafo e em 6/3/1937 saiu uma reportagem na revista “O Cruzeiro” intitulada “Filmando Lampião”, que irritou Lourival Fontes, chefe do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda, do Governo Vargas. O filme foi apreendido e fez com que o Governo desse ordens expressas de capturar o famigerado cangaceiro. Em 27/6/1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Por volta das 5hs. do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se preparavam para tomar café, quando um cangaceiro deu o alarme. Era tarde demais. Os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, e os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

Os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças fizeram um “tour” por diversas cidades. Percorrendo os estados nordestinos, o tenente João Bezerra exibia as cabeças – já em adiantado estado de decomposição – por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas, onde foram arrumados cuidadosamente na escadaria da Prefeitura, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografados. Depois seguiram Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA. Em seguida ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de 30 anos. Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno a seus parentes. O economista Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, em especial, empreendeu esforços para sepultar os cangaceiros e parar, de uma vez por todas, aquela macabra exibição pública.

O enterro dos restos mortais só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24/5/1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília, logo reforçado por pressões sociais e do Clero. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Tais fatos contribuíram para ampliar e eternizar o mito, que antes mesmo já era conhecido internacionalmente. Em 1953, o filme O cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, foi o primeiro a conquistar as telas do mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras e de melhor trilha sonora, com a música Mulher Rendeira.

Um fato interessante e pouco divulgado é que Mulher Rendeira é uma música composta pelo próprio Lampião. Isto foi confirmado por alguns biógrafos e recebeu a chancela de Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó, que era rendeira, em 1922. Tornou-se um hino de guerra dos cangaceiros, tendo inclusive relatos de que muitos ataques às cidades teriam sido feitos com os cangaceiros cantando Mulher rendeira.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLIII

Luís Jardim

Luís Inácio de Miranda Jardim nasceu em Garanhuns, em 8/12/1901. Escritor, pintor, tradutor, desenhista e dramaturgo. Filho do professor Manoel Jardim e de Angélica Aurora, foi alfabetizado em casa, mas realizou os primeiros estudos na escola particular de seu primo, Arthur Brasiliense Maia, chamada Grêmio Literário Raul Pompéia. Foi também na infância, a partir dos nove anos, que começou a desenhar, incentivado pelos tios Argemiro e Souza.

Em 1917 ocorreu a “Hecatombe de Garanhuns”, uma chacina provocada por motivos políticos que vitimou dentre outros seu pai. Desolado, deixa a cidade e passou a viver no Recife. Ao chegar, ficou encantado e decepcionado ao mesmo tempo com a cidade: “dois rios a serviço de uma cidade, defronte o oceano. Aquelas pontes, a cidade plana […]. A Rua da Aurora era um primor […] o cais […], a praia de Boa Viagem, mansa, bonita […]”. Entretanto, achava o Recife uma cidade “descuidada e o recifense sem maior interesse, ou sem grande entusiasmo pela sua terra […], os prefeitos nunca tiraram partido do encanto natural da cidade”.

Trabalhou no comércio como balconista, estudou inglês e conheceu Alice, com quem veio a se casar. Em 1928 conheceu Gilberto Freyre, de quem se tornaria amigo e aconselhou-o a escrever seu primeiro artigo – Análise estética da pintura -, publicado no jornal “A Província”, em 1929. Já ambientado na cidade, frequentou o Café Lafayette, reduto da intelectualidade do Recife, onde manteve fortes laços de amizade, particularmente Osório Borba e Joaquim Cardoso.

Seus primeiros desenhos foram publicados na “Revista do Norte” e no jornal “A Província”. Ilustrou e/ou fez a capa de importantes livros: Guia Prático Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre; Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira; Riacho Doce, Menino de Engenho e a maior parte dos livros de José Lins do Rego; Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e descritiva da cidade, de Gastão Cruls; O Quinze, de Raquel de Queiroz dentre outros. Em seguida, e por influência de Gilberto Freyre, foi para o Rio de Janeiro fazer uma exposição dos seus trabalhos em aquarela e não voltou mais ao Recife.

No Rio foi funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool, do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, da Editora José Olympio além de redator de vários jornais. Em 1937 participou do Concurso Literário Infantil do Ministério da Educação e recebeu os dois primeiros lugares com histórias do folclore nacional: O Boi Aruá – livro que Monteiro Lobato considerou “o mais belo do gênero escrito no Brasil” – e O Tatu e o Macaco. Em 1940, foram publicados com ilustrações e, em 1942, foram traduzidos e publicados em inglês por uma editora de Nova York. Noutro concurso de contos para o Prêmio Humberto de Campos, em 1938, venceu seu concorrente Guimarães Rosa, que inscreveu a primeira versão de Sagarana com o livro de contos Maria Perigosa. Com este prêmio, conquistou o Rio de Janeiro.

As premiações foram uma constante em sua vida literária. Em 1958 recebeu da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Cláudio de Souza, categoria teatro, com a peça Isabel do Sertão e, em 1968, recebeu o Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infantil com As Proezas do Menino Jesus, um livro publicado em edições sucessivas, com direito a prefácio e estudo de Tristão de Athayde. Escreveu ainda As aventuras do menino Chico de Assis (1971), Meu pequeno mundo (1977), Façanhas do cavalo voador (1978) e O ajudante de mentiroso. Além de escritor, desenhista e pintor, foi tradutor do poema hindu Nalá e Damayanti e da peça teatral de Arthur Miller, A Morte do Caixeiro Viajante.

O livro de contos Maria Perigosa, foi reeditado com o patrocínio da prefeitura de Garanhuns, em 1979, no centenário da cidade. Nesta época, a prefeitura afixou uma placa comemorativa na casa que lhe serviu de residência. Por essa época, ele já havia tomado a decisão de se enclausurar em seu apartamento no Rio de Janeiro, e não participou dessas homenagens. Mais tarde, em 1990, o município criou o espaço cultural que leva seu nome. Antes dessa homenagem, a Fundação Joaquim Nabuco em parceria com a Editora Massangana decidiram homenageá-lo e pediram ao seu amigo Edson Nery da Fonseca que organizasse o livro Imagem e texto: homenagem ao pintor e escritor Luís Jardim (Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1985). Posteriormente a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco-FUNDARPE, também prestou sua homenagem, em 1989, com o lançamento do livro Luís Jardim: ficção e vida, escrito por Maria da Paz Ribeiro Dantas, um ensaio incluído na “Biblioteca Comunitária de Pernambuco”. Faleceu em 1/1/1987.

Espaço Cultural Luiz Jardim, em Garanhuns (PE)

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLII

Bastos Tigre

Manuel Bastos Tigre nasceu no Recife, em 12/3/1882. Bbibliotecário, engenheiro, jornalista, poeta, compositor, humorista, dramaturgo e publicitário. Realizou o curso secundário no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. Formou-se engenheiro pela Escola Politécnica, em 1906, mas não seguiu esta profissão. No entanto, chegou a trabalhar na General Electric e no DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra as Secas.

Era um homem de múltiplos talentos, particularmente como pioneiro da publicidade brasileira. O slogan “Se é bayer é bom”, que correu o mundo, é dele. Em 1934, fez a letra de um jingle musicado por Ary Barroso e cantado por Orlando Silva: “Chopp em garrafa”. Naquele ano a Brahma passou a engarrafar o produto. Assim, foi o criador do primeiro jingle no mercado da publicidade brasileira.

Em 1915, prestou concurso para bibliotecário do Museu Nacional com uma tese sobre classificação bibliográfica. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos. Exerceu a profissão por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário concursado no Brasil. No dia do seu aniversário – 12 de março – é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem.

Segundo o historiador Marcelo Balaban, que acabou de lançar o e-book pela Editora da Unicamp (2017) Estilo moderno: humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre, analisando sua trajetória, “ele viveu no início do século XX, o dilema enfrentado até hoje por grande parte dos artistas: agradar o grande público, viver do seu ofício ou ser aceito entre os grandes. Melhor dizendo era mais um “trilema” do que um “dilema”, pois ele vivia entre alta literatura (poesia), o humor ligeiro e o mercado publicitário. Ainda conforme o historiador, “Apesar de reconhecido como mestre do gênero humorístico pelo público e mesmo por seus pares, Tigre foi sendo esquecido pela crítica literária e abandonado por muitos de seus colegas escritores. Seu legado resumiu-se a slogans publicitários”.

O humor trocadilhesco, os epigramas, os sonetos humorísticos e as peças de teatro do chamado gênero ligeiro, como revistas de ano e vaudevilles, garantiram-lhe prestígio em sua época. Fazia sucesso junto ao público que consumia avidamente esse tipo de literatura. Por outro lado, era olhado com desconfiança por seus colegas escritores que o viam mais interessado em agradar um público pouco ilustrado do que em desenvolver uma arte maior, José Domingos de Brito nasceu em 9/8/1950, em Jupi, Pernambuco. Bibliotecário, professor, pesquisador e editor. Fundador, presidente e diretor cultural do Sindicato dos Bibliotecários do Estado de São Paulo no período 1979-1992. Organizador ou reorganizador dos centros de documentação e bibliotecas dos órgãos e empresas: Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (1985-1986); Companhia de Engenharia de Tráfego-CET/SP (1976-1980); Companhia Municipal de Transportes Coletivos-CMTC (1983-1986); Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (1986-1992); Parlamento Latino-Americano (1993-2007); União Brasileira de Escritores (2008-atual).

No final da década de 1910, ele encontrou na publicidade uma oportunidade de reforçar o orçamento doméstico. Dedicou boa parte de seu tempo a esta atividade, chegando a abrir um escritório especializado, o simulacro de uma agencia de publicidade. Sua produção literária, além da veia humorística, conta também com uma crítica política contundente, conforme se vê no poema abaixo:

ESTA REPÚBLICA

É certo que a República vai torta;
Ninguém nega a duríssima verdade.
Da pátria o seio a corrupção invade
E a lei, de há muito tempo, é letra morta.

A quem sinta altivez, força e vontade
Ficou trancada do Poder a porta:
Mas felizmente a vida nos conforta
De esperança, uma dúbia claridade.

Porque (ninguém se iluda), “isto” que assim
A pobre Pátria fere, ultraja e explora,
Jamais o sonho foi de Benjamin.

Os motivos do mal não são mistério:
– É que a gentinha que governa agora
É o rebotalho que sobrou do Império

Veja-se a atualidade de seu poema: a corrupção entre nós é um problema já no nascimento da República. Publicou mais de 30 livros, dos quais destacamos os títulos abaixo: Saguão da Posteridade (1902), Versos Perversos (1905), Moinhos de Vento (1913), Bolhas de Sabão (1919), Arlequim (1922), Fonte da Carioca (1922), Penso, logo… eis isto (1923), A Ceia dos Coronéis (1924), Carnaval: poemas em louvor ao Momo (1932), Entardecer (1935), As Parábolas de Cristo (1937), Senhorita Vitamina (1942), Aconteceu ou Podia ter Acontecido (1944), Conceitos e Preceitos (1946). Musa Gaiata (1949) e Sol de Inverno (1955).

Em 1982, a Associação Brasileira de Imprensa-ABI em parceria com a FUNARTE publicou As vidas de Bastos Tigre, 1882-1982. Catálogo da exposição comemorativa do centenário de nascimento. Faleceu em 1/8/1957.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS XLI

Capiba 1904-1997

Lourenço da Fonseca Barbosa nasceu em Surubim, em 28/10/1904. Músico e mais conhecido compositor de frevos do Brasil. Não obstante ter composto mais de 200 canções, que vão do samba à música erudita, é com o frevo que ficou marcado na memória musical brasileira. Poucos sabem que é o autor de Maria Betânia (1944), a canção que tanto agradou Caetano Veloso, ainda criança, fazendo com que ele insistisse com a mãe, Dona Canô, para que ele desse esse nome à irmã que estava para nascer em 18/6/1946. Filho de Severino Atanásio de Souza Barbosa, mestre de banda, orquestrador, arranjador, tenor de igrejas, clarinetista e violonista. Aos 8 anos já tocava trompa, e mesmo antes de aprender a ler, já entendia uma partitura. Com dez anos tocava vários instrumentos de sopro e participava, junto com os irmãos, da banda “Lira da Borborema”, dirigida pelo pai, em Itaperoá (PB).

Em 1914, a família mudou-se para Campina Grande (PB), onde o pai foi dirigir a “Charanga Afonso Campos”. Pouco depois substituiu a irmã, que tocava piano no cinema Fox. Jamais havia enfrentado um piano. Em 10 dias aprendeu a tocar 7 valsas dedilhadas. Com 16 anos tornou-se pianista profissional, dando vida e voz aos heróis do cinema mudo. Daí em diante, passou a dividir seu tempo entre o piano e o futebol, no qual chegou a se destacar, integrando times profissionais da cidade (América e Campinense Clube). Aos 20 anos, foi obrigado pela família a trocar a música e o futebol pelos estudos.

Mudou-se para João Pessoa PB, onde se matriculou num liceu. Mesmo contrariando a opinião dos pais, não abriu mão da música e compôs sua primeira composição, a valsa Meu destino, em 1925. Em seguida morreu o pianista do Cine Rio Branco, o principal da cidade. Assim, no mesmo ano, tornou-se pianista do cine Rio Branco, mas logo surgiu o filme sonoro e ele sentiu que seu emprego teria vida curta. Depois de fundar uma orquestra de baile, para atuar no Clube Astréia, e um conjunto, o Jazz Independência, venceu em 1929, com o tango Flor das ingratas, um concurso patrocinado pela revista “Vida Doméstica”, do Rio de Janeiro, que o publicou em fevereiro do ano seguinte.

Em 1930 participou do concurso carnavalesco da Casa Edison, classificando-se em quarto lugar com o samba Não quero mais (com João Santos Coelho Filho), gravado para o Carnaval desse ano por Francisco Alves. Foi sua primeira música gravada com o pseudônimo de José Pato.

No mesmo ano, deixou João Pessoa, seguiu para Recife, onde entrou, por concurso, no Banco do Brasil, mas não deixou a música. Ou melhor, se empenhou mais ainda aproveitando seu exíguo tempo para isso. Em 1931 fundou a Jazz-Band Acadêmica, formada por estudantes universitários, e que destinava à Casa do Estudante Pobre toda a renda auferida em bailes.

Em 1932 compôs a Valsa verde (com Ferreira dos Santos), apresentada pela Jazz-Band Acadêmica na festa de formatura dos alunos de medicina. A orquestra, da qual era regente e pianista, tornou-se uma das mais famosas de Recife, apresentando-se também em outros Estados.

Ainda em 1932 compôs, com Ascenso Ferreira, o maracatu É de tororó, que, depois de se tornar um sucesso em Recife, foi levado para o Rio de Janeiro, sendo incluído numa revista de Jardel Jércolis, que excursionou pelo Brasil, Espanha e Portugal. A experiência ao lado dos acadêmicos fez com que se interessasse em cursar direito, sem deixar de lado a música e o trabalho no banco. Nesse ambiente conheceu Hermeto Pascoal e Sivuca, com os quais fundou o trio “O Mundo Pegando Fogo”. Em 1934 venceu o concurso de frevo, promovido pelo Diário de Pernambuco, com o frevo-canção É de Amargar, gravado por Mario Reis, uma de suas composições mais famosas. Em 1936, seu frevo-canção Manda embora essa tristeza foi gravado por Araci de Almeida.

Dois anos depois, formou-se em advocacia pela Faculdade de Direito do Recife, mas nunca foi buscar o diploma. Em vez disso, foi buscar a premiação de um concurso de tangos em João Pessoa. A atividade musical vai se intensificando e se diversificando até 1943, quando compôs a canção Maria Bethânia, feita para a peça Senhora de Engenho, de Mário Sette, dirigida por Hermógenes Viana. No ano seguinte, a canção foi gravada por Nelson Gonçalves e se tornou conhecida em todo o país.

No período 1947-48, compôs uma série de músicas para peças teatrais, na época em que os escritores Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna fundaram o Teatro de Estudantes de Pernambuco e, mais tarde, o Teatro Popular do Nordeste, do qual foi presidente.

Tomou gosto pelo teatro e do final da década de 1940 até meados da década de 1960, compôs músicas para diversas peças: Haja pau (de José de Morais Pinho) e Mãe da lua (de Hermilo Borba Filho), para o Teatro de Bonecos; Amor de dom Perlimpim com Belisa em seu jardim (de Federico García Lorca), para o Teatro de Estudantes de Pernambuco; A pena e a lei (de Ariano Suassuna); Mandrágora (de Maquiavel), Viola do Diabo (da pintora Ladjane), encenadas pelo Teatro Popular do Nordeste; e O coronel de Macambira (de Joaquim Cardoso), pelo Teatro do Ministério da Educação e Saúde, entre outas.

Também musicou vários poemas de autores brasileiros: Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Ariano Suassuna, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Alphonsus de Guimarães, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho e Ferreyra dos Santos, com quem compôs a “Valsa Verde”, que fez grande sucesso. Em 1949 conheceu o maestro Guerra-Peixe, quando este foi trabalhar na Rádio Clube do Recife. Com ele estudou harmonia e composição erudita, passando a compor um concerto para piano, outro para flauta, um trio para violão, violino e celo, e uma suíte para piano, orquestrada por Guerra-Peixe. Seu concerto para flauta, dedicado a Esteban Ester, foi executado pelo próprio flautista no Brasil, Uruguai, Chile, Argentina e França.

Em 1950, no concurso da prefeitura de Recife para a comemoração do primeiro centenário do Teatro Santa Isabel, vencido por Guerra-Peixe, obteve o segundo lugar com uma abertura solene para orquestra sinfônica. No mesmo ano compôs o maracatu Elefante, mais tarde gravado na França.

Em 1957 compôs, para o Carnaval, o maracatu Nação Nagô. Após 30 anos de serviço, aposentou-se do Banco do Brasil em 1961. Incentivado pela artista plástica Lidjane Bandeira, passou a dedicar-se ao hobby da pintura, ao mesmo tempo em que inscreve suas composições em festivais de música popular.

Em 1964, alcançou em todo o Brasil seu maior sucesso da década, com o samba-canção A mesma rosa amarela (letra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho). Dois anos depois, sua composição Dia de festa ficou entre as finalistas do I FIC-Festival Internacional da Canção, da TV-Rio, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, no II FIC, da TV Globo, obteve o quinto lugar e medalha de ouro com seu samba-baião São os do Norte que vêm, com letra de Ariano Suassuna. Em 1968 concorreu no III FIC com A cantiga de Jesuíno (letra de Ariano Suassuna) e o samba-afro Por causa de um amor. Compôs ainda diversas canções e músicas para a Orquestra Armorial de Pernambuco: Sem lei nem rei, e para o Quarteto Armorial: Toada e desafio. No início dos anos 1970, foi eleito patrono do Movimento Armorial, e recebeu títulos de Cidadão Benemérito de Olinda, Recife e Campina Grande.

Em 1984, ao completar 80 anos, seu grande amigo e admirador, Hermínio Bello de Carvalho, produziu um belíssimo disco e sendo tema do concurso de monografias Lucio Rangel, teve um estudo sobre sua vida e obra publicada pela Funarte-Fundação Nacional de Arte. No ano seguinte, outro grande amigo, Leonardo Dantas Silva, diretor de assuntos culturais da Fundarpe, estimulou-o a escrever um livro sobre sua vida e obra. Assim, em 1985, foi lançado Capiba: o livro das ocorrências, no qual recorda fatos e ocorrências de sua vida, numa linguagem solta como se estivéssemos a ouvi-lo em seu linguajar e sotaque característicos.

Capiba produziu uma obra caudalosa. São mais de 200 composições gravadas, das quais cerca de metade são frevos. Entre as não gravadas, estima-se que tenha deixado umas 400 composições inéditas, entre frevos, canções e peças eruditas. Desesperada Solidão (1983) foi uma das suas últimas canções. Faleceu em 31/12/1997. Em 2014, com o objetivo de marcar os 110 anos do multiartista, o SESC do Recife prestou-lhe uma homenagem diferenciada, apresentando uma exposição de suas pinturas, denominada “Simplesmente Capiba”. Em 2017, autoridades municipais e estaduais manifestaram a intenção de criar dois museus dedicado à memória de Capiba. São projetos que, infelizmente, se desenvolvem em separado: em Surubim e no Recife. Em sua cidade, o Ministério da Cultura, juntamente com a diretoria da Associação Cultural Capiba, noticiou esta intenção no início do ano. No Recife, o governo do Estado realizou o tombamento de sua casa no bairro do Espinheiro, em outubro, e está desenvolvendo o projeto de transformá-la em museu. Dizem que poucas personalidades brasileiras têm mais de três biografias. Além da autobiografia Capiba: o livro das ocorrências, ele tem cinco. Entre elas vale destacar uma publicada em 1984, a de seu amigo Carlos Eduardo Carvalho dos Santos – Capiba: sua vida e suas canções – , também meu amigo e colunista deste Jornal da Besta Fubana.

ENSAIO DE NOVELA DA FRIBOI

Esclarecimento: Esta “novela” iniciou como uma fábula, aqui publicada em 23 de julho  Fábula do Friboi – 1ª Parte, para contar uma prodigiosa história empresarial. Como foi possível um pequeno açougue tornar-se líder mundial no mercado da carne, em negócios com um Governo e desmoronar devido ao conluio com outro, 60 anos após. O “impeachment” da Dilma e as operações “Carne fraca” e “Lava-jato” não estavam nos planos da JBF, nem de ninguém.

A “novela” veio junto com o conselho de uma amiga noveleira, que depois se fez “consultora editorial” e demos continuidade na semana seguinte  Fábula do Friboi – 2ª Parte meio sem querer, pois os fatos ainda estavam acontecendo e não sabíamos, como não sabemos até agora, qual o final da história. Mesmo assim, partimos para o 3º capítulo Fábula do Friboi – 3ª Parte, concluindo com um aviso aos leitores para acompanhar a “novela” através da imprensa escrita, falada e televisada diariamente.

Porém, o quadro mudou bastante. A “casa caiu”; Zé Mineiro teve que retomar o controle da empresa e vejamos no que vai dar neste

4º Capítulo

Com base na delação premiada, Rodrigo Janot, da Procuradoria Geral da República-PGR, envia ao STF denúncia contra Aécio Neves, em 2 de junho, e contra o presidente Temer em 27 de junho. Com isso Temer torna-se o primeiro presidente da história a ser acusado criminalmente no exercício do mandato. Assim, o mundo político e jurídico entram em convulsão na tentativa de blindar o presidente da República. A denúncia tramita por uma comissão especial e chega ao plenário da Câmara dos Deputados em 2 de agosto. Os parlamentares, devidamente instruídos e cooptados pelo Palácio do Planalto, não autorizam o encaminhamento da denúncia ao STF, pois como se trata do presidente, a tramitação é essa. Temer está salvo por enquanto.

Enquanto isso, a PGR recebe de Joesley outro lote de fitas gravadas, enviadas por engano. As fitas traziam diálogos comprometendo o próprio delator. A gravação apresenta diálogos entre Joesley e seu assistente onde se afirma que ele foi auxiliado em sua delação por um ex-procurador da PGR. Até agora não se sabe como nem porque Joesley deu esse “tiro no pé”. Ele tentou explicar que aquilo foi uma “conversa de bêbado”, que não fazia sentido etc. Mas para a PGR fez muito sentido e um estrago e tanto no decurso do processo. No dia 4 de setembro, o procurador Rodrigo Janot deu uma entrevista coletiva para denunciar o conteúdo das fitas e colocar em xeque a concessão da delação premiada, sem contudo prejudicar as denúncias contra o presidente.

A notícia foi um prato cheio oferecido aos defensores do presidente, agora munidos de argumentos desautorizando a delação premiada. O que se deu em seguida foi uma intensa discussão sobre a validade da delação e a possibilidade do delator ser preso, o que veio ocorrer em 10 de setembro. A situação é revertida contra o Grupo JBF, agravada com os milhões que o Grupo faturou com a delação, além dos benefícios já obtidos. Três dias após, (13/9) o então presidente do Grupo, Wesley Batista, irmão gêmeo de Joesley, é preso por suspeita de lucro ilegal no mercado financeiro.

A situação do conglomerado de empresas JB&S vai se complicando a passos largos. Conseguiram se incompatibilizar com o poder legislativo, judiciário e executivo ao mesmo tempo. Ninguém do poder político e empresarial quer ver um Batista no comando da empresa. Mas, o mercado exige alguém no comando, até mesmo para resolver estas questões. Neste instante, com os filhos presos, o velho “Zé Mineiro” entra em ação. Numa reunião do Conselho Administrativo do Grupo, em 16 de setembro, ele consegue voltar à presidência da empresa. Não é isso que o mercado, o BNDES (maior acionista) nem Brasília queriam, mas é o que sucedeu. O patriarca, cujo nome é a sigla da empresa, jamais poderia imaginar que isso pudesse acontecer mais de 30 anos após deixar o comando da empresa para seus filhos.

Quanto ao Joesley – o protagonista maior dessa novela – a derrocada caminha a passos largos em todos os sentidos. No ambiente familiar, antes mesmo de ser preso, sua linda e jovem esposa pediu para que saísse de casa; seu irmão gêmeo também foi preso em seguida; o pai, aos 84 anos, teve que assumir o comando do Grupo. Uma tragédia para novela nenhuma botar defeito. Na ocasião em que Joesley se encaminhava para a prisão, um jornalista perguntou: “Qual foi sua maior perda nesse processo de delação?”. A resposta foi clara e demonstrou uma ponta de esperança: “A maior perda foi me transformar, do dia para a noite, de um empresário respeitado, admirado e querido num sujeito que fica sendo esculhambado e chamado de bandido pelo presidente da República.

Esse é um duro custo reputacional. Mas eu vou me recuperar, acho que sociedade mais para a frente vai entender o que eu fiz”.

O tempo dirá qual vai ser o entendimento possível. Enquanto isso, “Zé Mineiro” volta a colocar seu talento empresarial no serviço de salvação do “império”, que agora não é só da carne. Ele conseguirá recuperar alguma coisa, mesmo que seja na área da carne, onde reinou tanto tempo? Não sabemos agora; talvez nos próximos capítulos. Nem sabemos ao certo quando se darão tais capítulos, pois como os leitores podem perceber, esta novela segue o ritmo da Justiça. Sabemos todos que a Justiça entre nós é imprevisível e muito lenta.

Por exemplo, somente agora o MPF-Ministério Público Federal se pronunciou sobre os crimes cometidos pelos irmãos Batista no momento da delação premiada, em março. Desde aquela época sabia-se que eles faturaram mais de R$200 milhões com a venda de ações da empresa em alta antes da gravação da conversa com o presidente nos porões do Palácio do Jaburu e em baixa logo após sua divulgação pela imprensa. Nesse interim, o irmão Wesley sabia que tal divulgação causaria uma expressiva queda do Dólar. Assim, compraram muitos dólares em baixa para vender no outro dia em alta. Isto se chama manipulação do mercado financeiro com base em informação privilegiada. Um crime, que só agora, em 10 de outubro, foi denunciado pelo MPF. Esta denúncia se deu há 5 dias, agravando ainda mais a situação do Grupo JB&S e da família Batista. Assim, sou obrigado a repetir, como no capítulo anterior, que os leitores podem acompanhar os próximos capítulos diariamente pela imprensa escrita, falada e televisada incessantemente.

ILUSTRES PERNAMBUCANOS

Zumbi dos Palmares (1655-1695)

Zumbi dos Palmares nasceu supostamente em 1655 na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, pertencente hoje ao município de União dos Palmares, Alagoas. A história deste personagem é controversa, mas existe um consenso em se admitir que era um menino, neto da princesa Aqualtune, filha de um rei africano do Congo. Aos sete anos foi aprisionado pela expedição de Brás da Rocha Cardoso, numa invasão a Serra da Barriga, e entregue ao padre Antonio Melo, do distrito de Porto Calvo. Recebeu o nome de Francisco e uma educação formal. Aos 10 anos já sabia latim e português e, aos 12, tornou-se coroinha. Demonstrava ser um garoto inteligente e ajudava na celebração das missas. Dizia-se que o menino era dono de “um engenho jamais imaginado na sua raça e que bem poucas vezes encontrara em brancos”.

Com 15 anos, Francisco fugiu de Porto Cavo e volta para a Serra da Barriga, adotando o nome de Zumbi e passando a fazer parte da Família Real, pois foi adotado pelo então rei Ganga Zumba. A nação palmarina começou a se formar por volta de 1597, com Aqualtune. Rapidamente a comunidade cresceu, porque era constantemente alimentada pela chegada de negros fugidos, de índios e de brancos pobres. Palmares chegou a ter 30 mil habitantes e, com sua organização e consequente fortalecimento, passou a ser vista como uma ameaça perigosa ao poder colonial. Além de praticarem uma agricultura considerada avançada para os padrões da época, desenvolveram uma atividade metalúrgica organizada para sua defesa e subsistência e chegaram a estabelecer comércio com localidades próximas.

Entre 1602 e 1694, os palmarinos resistiram a 66 expedições coloniais, tanto de portugueses como de holandeses. Foi a maior e mais longa expressão contestatória da escravidão em todo o mundo. De todos os líderes da resistência negra, dois se tornaram conhecidos: Ganga Zumba e Zumbi. Este, porém, foi o líder mais famoso da confederação de quilombos de Palmares, que se estendia pelos territórios atuais de Alagoas e Pernambuco. A Serra da Barriga era a sede da República de Palmares, mas sua extensão ia além da cidade hoje conhecida como Palmares. A cidade onde ficava a sede é conhecida hoje como União dos Palmares. Zumbi teve pelo menos cinco filhos, mas não há registro histórico suficiente para comprovar a tese tradicional que ele teria se casado com uma mulher branca de nome Maria. O nome de Zumbi apareceu pela primeira vez em documentos portugueses, em 1673, quando uma expedição chefiada por Jácome Bezerra foi desbaratada. Tornou-se um grande guerreiro e estrategista militar na luta para defender Palmares contra os portugueses.

Em 1675, a tropa portuguesa comandada pelo Sargento-mor Manuel Lopes Galvão, conseguiu ocupar o local, um mocambo com mais de mil choupanas. Mas depois de uma retirada que durou cinco meses, os negros contra-atacam, entre eles Zumbi com apenas vinte anos de idade, e após um combate feroz, Manuel Lopes é obrigado a se retirar para Recife. Palmares se estendia então da margem esquerda do São Francisco até o Cabo de Santo Agostinho e tinha mais de duzentos quilômetros de extensão, era uma república com uma rede de onze mocambos, que se assemelhavam as cidades muradas medievais da Europa, mas no lugar das pedras havia paliçadas de madeira. O principal mocambo, o que foi fundado pelo primeiro grupo de escravos foragidos, ficava na Serra da Barriga e levava o nome de Cerca do Macaco. Duas ruas espaçosas com umas 1500 choupanas e uns oito mil habitantes.

Ganga Zumba, cansado de muitas guerras, assinou um acordo de paz com os portugueses, em 1678. Isso desagradou uma parte significativa dos quilombolas, que viam a transferência para Cucaú como uma forma de controlar a comunidade, além de não resolver o problema da escravidão. Foi nesse momento que Zumbi rompeu com Ganga Zumba, que foi envenenado em 1680, sendo aclamado Grande Chefe por aqueles que ficaram em Palmares. Subordinou toda a vida do quilombo em função das exigências da guerra: deslocou povoações para locais mais remotos; incorporou e treinou para a luta todos os homens válidos; aumentou os postos de vigilância e observação; reuniu armas e munições e reforçou as fortificações da aldeia do Macaco ou Cerco Real, o quartel-general do quilombo, tornou-a quase inexpugnável e decretou a lei marcial: quem tentasse deserdar seria morto. Durante os anos 1680-1691, Zumbi conseguiu derrotar todas as expedições enviadas contra o quilombo dos Palmares.

Em 1692, a aldeia do Macaco foi atacada por Domingos Jorge Velho, experiente bandeirante paulista na “caça” de índios, trazido para enfrentar os quilombolas. Mas teve suas tropas arrasadas. Pediu reforço e recebeu ajuda de uma tropa comandada por Bernardo Viera de Melo. O quilombo ficou sitiado, mas só capitulou no dia 6 de fevereiro de 1694, quando as tropas conseguiram invadir o local derrotando os quilombolas após 94 anos de resistência. Durante o ataque, Zumbi caiu ferido em um desfiladeiro, o que gerou o mito de que o herói se suicidara para evitar a escravização. No entanto, em 1695, Zumbi voltou a comandar ataques. Em seguida foi traído por um de seus comandantes, Antônio Soares, e assassinado em 20 de novembro de 1695. A cabeça de Zumbi foi decepada e levada para Recife, onde foi pendurada no Pátio do Carmo, em Olinda, até sua total decomposição com a finalidade de desfazer a crença da população na lenda de sua imortalidade. Em 2007 foi criado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, no mesmo local da sede do Quilombo (Serra da Barriga), na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Além deste memorial, existem mais dois dedicados a Zumbi dos Palmares, em Volta Redonda (RJ) e Teresina (PI). Atualmente, no dia da morte de Zumbi, 20 de novembro, é comemorado no Brasil o dia da Consciência Negra.

* * *

PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXIX

Rossini Ferreira 1919-2001

Rossini Ferreira nasceu em Nazaré da Mata, em 7/7/1919. Músico e bandolinista. Filho do clarinetista Antonio Sabino, mestre de banda de música em Timbaúba e Nazaré da Mata, teve contato com o bandolim ainda criança e tirava os sons “por intuição”, conforme afirmava. Aos 12 anos, a família mudou-se para o Recife e, aos 17, formou o primeiro grupo, um conjunto vocal que imitava o “Bando da Lua”, que acompanhava Carmen Miranda. Aprendeu a tocar sozinho seu instrumento.

Na década de 1930, com a ascensão do rádio como meio de comunicação de massa, emergiram os grupos regionais. Os programas aconteciam nas rádios com música ao vivo, interpretada por grupos que tinham na figura de um dos instrumentistas – geralmente o mais performático dos solistas – a liderança do regional. Na Rádio Clube de Pernambuco, o som do regional e da orquestra era ditado pelo flautista Felinho. Quando este se afastou, Rossini deixou o Bando Pernambucano para se integrar ao cast da rádio. Ele se orgulhava ao recordar que tocava contratado como funcionário. “E de carteira assinada”.

A atividade de músico, no entanto, começava somente a partir das 20h. Durante o dia trabalhava no Setor de Carteira de Resseguro da empresa Seguradora Indústria e Comércio. “Naquele tempo não se ganhava dinheiro como músico”, explica. “Jacob (do Bandolim) mesmo, era escrivão em cartório”.

Em 1959 empreendeu uma lendária viagem de músicos pernambucanos ao Rio, onde foram recebidos com honras na casa de Jacob do Bandolim, numa reunião com músicos do porte de Radamés Gnattali, Pixinguinha, César Farias e o então garoto Paulinho da Viola. Dez anos após a viagem veio a morar no Rio de Janeiro, onde ganhou diversos concursos de choro, como o “Brasileiro”, promovido pela TV Bandeirantes. Aos 70 anos de idade foi convidado a voltar à Recife para lecionar no Conservatório Pernambucano de Música e ser solista de um dos mais geniais grupos instrumentais brasileiros, a “Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco”.

Nesta orquestra gravou um LP pela Funarte, posteriormente lançado em CD. Possui ainda um CD com 20 composições suas, gravado pela Kuarup (KCD 098) em 1999. Autor de dezenas de choros, maxixes, valsas, scottish etc. seu colega W. M. Santos editou em 1996, em Campina Grande, um livro de partituras com 55 composições suas. Recife é reconhecido como uma das “sedes” do choro, e ali estão alguns dos melhores bandolinistas da história da música brasileira, como Luperce Miranda e Rossini Ferreira.
Foi autor de uma obra invejável, grande parte desta inédita em gravação e publicação, e que merece maior atenção das gravadoras e editoras. A exemplo da maioria dos chorões de sua geração, o bandolinista teve que dividir as atividades de músico autodidata com profissões fora do perímetro artístico. Ainda assim, aposentado, mostrou-se aberto a novos desafios, como o de aprender a ler música e lecionar, já septuagenário. Faleceu em 16/3/2001.

LUIZ GONZÁGUA

Certa manhã de março de 1991, eu estava numa autoestrada chegando em Bruxelas. Liguei o rádio para saber como era e o que havia naquela cidade. O locutor, muito animado, logo anunciou: “e agora vamos ouvir LUIZ GONZÁGUA”. Demos boas risadas com sua pronuncia e passamos a comentar: “Faz sentido, ele deve ter conhecido o cantor através de Asa Branca ou Vozes da Seca e não teve dúvida em incluir a água em seu nome”. Mas a música que tocou em seguida foi O fole roncou.

Assim, entramos na cidade animadíssimos ao som de um forró arretado. A cidade pareceu bem mais alegre do que realmente era. A música nos proporcionava uma saudade gostosa e um certo orgulho de sermos conterrâneos do ilustre cantor.

Esta digressão saudosista serve para informar aos leitores fubânicos que o painel de “Ilustres pernambucanos”, que vimos publicando aqui às terças-feiras, desde o início do ano, está próximo do fim. Hoje estamos no ilustre nº 40 e no final de dezembro chegaremos ao nº 53 apresentando Luiz Gonzaga. Desse modo, vamos encerrar o painel comemorativo do bicentenário da Revolução Pernambucana, de 1817. Confesso que eu mesmo fiquei surpreendido com tantos nomes ilustres, que ilustram e fazem de Pernambuco um lugar destacado no País. Começamos com Chacrinha e terminamos com Luiz Gonzaga. Creio que que acertamos nos nomes apropriados para animar uma festa comemorativa de 200 anos. Quem quiser ver todo o painel, pode acessar o link Tiro de Letra.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa