11 maio 2012 CANTO DO ARRIBADO - Maurício Melo Júnior

Desembarquei no final da tarde e uma chuva fina molhava com insistência até os ossos. Uma lama negra e também diáfana cobria as ruas recortadas com asfalto e uma para mim estranha pavimentação de tijolos batidos. Passei por raros palácios, escassos edifícios e algumas casas de alvenaria sim, mas o destaque ficava para as construções de madeira brotadas da terra limpa, do barro amolecido e branco. E a luz fraca do crepúsculo aumentava a carga de angústia e tristeza. Estava sob as fortes nuvens gordas de umidade, estava na Amazônia.
Dia desses lembrei a primeira vez que cheguei em Rio Branco, no Acre, um acontecimento do século passado, diante da surpresa de uma amiga, Andrea. Recém chegada de uma viagem àquela cidade, voltou convicta de que a capital é feia. Por força de uma dialética intrínseca me pus num campo de oposição. “Mestre Rubem Braga me ensinou que nenhuma cidade que tem rio é feia”, respondi, e segui em meu destempero verborrágico.
Carece tino e certa disposição para o novo todas as vezes que se entra numa cidade cercada pelas águas, sobretudo se ela reforça sua proteção com imensas florestas. O sentido de miudeza toma o viajante e se ele é desprovido dos atributos da humildade, somente vai se abastecer de angústia. Tudo naquelas comunidades é pequeno, miúdo, chocho diante da enormidade natural. E se o cristão é ateu, aí danou-se. As contradições de seus sentimentos junta-se à certeza de que o universo tem outro centro que não é o homem. E aí crescem todas as incertezas.
Na dúvida, o melhor é achar tudo feio.
Foi esta minha saída quando inaugurei a convivência com Belém do Pará. A cidade que eu tinha em mim era mítica, vinha nas vozes escritas de Dalcídio Jurandir, Leandro Tocantins, Benedicto Monteiro, Vicente Cecim. Tudo beleza e luminosidade apesar das nódoas da desigualdade social. Mas quando entrei ali na vez primeira, já com a noite densa, tudo que enxerguei foi a opressão das ruas estreitas, dos bairros pobres, das palafitas equilibrando homens, mulheres e misérias.
A luminosidade do dia me apanhou ainda angustiado, e logo me jogou num caldeirão efervescente, num calor que desenhava manchas de suor por toda a minha roupa. A umidade entranhava na pele, vencia a carne, se abrigava nos ossos. E as primeiras horas passaram, por dever de ofício, entre reuniões e debates. Daí chegou a tarde e a chuva me encontrou num feira de farinhas. Todas as granulações e cores se mostravam. E foi pisando a lama fina sobre o paralelepípedo, enquanto provava a trituração torrada da mandioca, que fui reconhecendo a cidade.
Outras vezes voltei lá, mas agora já entranhado de um espírito aberto e infante. Respirei os ares infindos da baía do Guajará, comprei ervas no Ver-o-Peso, vi um rato imenso, quase um gato, correr na direção do rio, amenizei o calor sob as mangueiras da Avenida Nazaré e me abriguei na Basílica. Até o cemitério dos Ingleses me pareceu bonito em sua arquitetura fúnebre.
Tudo já estava além dos sentidos da estranheza, tudo já estava nos condomínios do íntimo. Até mesmo a cena aparentemente dramática que vi no Museu Goeldi. Olhava embevecido os jardins e, num lago cercado, vi quando um funcionário atirou um pato. O bicho tentou voar, mas foi impedido pelo bote certeiro de um jacaré. O papo branco, translúcido, se erguia fora da água e pude ver onde inutilmente se debatia a ave.
Lendo O Turista Aprendiz soube que aquilo é normal. Mário de Andrade descreve a mesma cena, mas com maior propriedade, afinal, como conta, quem atirou o pato ao jacaré no final da década de 1920 foi o próprio Emílio Goeldi.
Tudo era natural, enfim, e a cidade tinha um rio.
Não basta ter um rio, no entanto. É preciso também o vivente está cercado de disposição poética, do contrário até mesmo os cenários lúdicos da infância se umedece de tristeza. Vejam. Uma noite em Palmares e eu caminhava sozinho por suas ruas escuras, pouco definidas pela precária iluminação pública. Caminhava sobre um solo estranho. A cidade que me protegeu com luminosidade nos idos de minha infância e adolescente já não era aquela e sequer seu o rio Una mostrava generosidade. Tudo se mostrava como as cidades mortas descritas por Monteiro Lobato. E a angústia me fez voltar para casa e, no dia seguinte, tomar outras ruas. Precisava me preparar para entender que a cidade, como eu, havia crescido, havia mudado.
Volto sempre a Rio Branco e ela já não surpreende minha estranheza. Não sei se a beleza tomou conta de seus espaços, mas enxergo a alegria solar que enxuga as águas fartas da tristeza. Olho o rio Acre com a visão inaugural de quem acredita na vida. A gente que passa por mim tem no rosto a esperança daqueles que venceram tudo, da fome à injustiça, na construção de seus dias. E isso é mais um ponto na beleza acesa pela floresta que, mesmo rala, ainda insiste em abraçar a urbanidade dos homens.
Continuo a pisar a lama fina e o chão de tijolo batido. A chuva ainda cai sobre a cidade, mas já não atinge meus ossos, fica mesmo no remanso da pele, da sentimentalidade que nos leva a olhar o que se esconde por trás da aparência. Assim vou criando felicidades.
Todas as cidades que conheci na Amazônia têm um rio à porta. E isso já lhes garante uma imensa cota de beleza. O mais são os encantos que nascem na alma.
Só não posso afiançar que minha amiga Andrea concorda comigo.










































