OS ROMANCISTAS DE 1917 (1) – ENTRE O ESCÁRNIO E O PROTESTO

Poderia tê-lo conhecido.

Nos idos de 1976, quando morreu o escritor, eu, na quadra dos quatorze anos, andava pelas ruas de uma Palmares lúdica, embora real. Lia tudo que vinha às mãos, mas nunca ouvira falar do autor, misto de dramaturgo e prosador, nascido por ali nas longínquas horas de 1917.

Quando baixou em minha frente sua novela póstuma, Os Ambulantes de Deus, foram dois choques. Primeiro aprendi que a literatura se abrigava no quintal de minha casa, depois lamentei não poder mais conversar com o mágico, o brincante que manipulava as palavras e os sentimentos de um mundo renovado.

Hermilo Borba Filho, é nele que penso ao falar de romancistas nascidos em 1917. Conheço seis deles. Além de Hermilo, José Condé, Antonio Callado, Josué Montello, Herberto Sales e Gerardo Mello Mourão, este mais poeta que romancista, e que um dia também morou em Palmares. A safra foi fértil, enfim, e aparentemente eles nada têm em comum, além da luta vã no universo das palavras. Todos, no entanto, trazem em seus discursos, como esteio e esperança, o homem do povo, o elemento popular.

E certamente foi Hermilo o mais radical nesta quadra. Desde seu primeiro texto ficcional, o romance Os Caminhos da Solidão, o que nos traz é a força amarga e cruel do homem do interior, o homem que não se curva às sentimentalidades e constrói sua vida com os fios da adversidade. Um homem real e que se desnuda nas cidades que Gilberto Freyre chamou de rurbanas, como um dia foi Palmares.

Seu segundo romance, Sol das Almas, ainda na linhagem do realismo social nascido no consciente dos romancistas de 1930, inova na forma e nos dramas-feridas que toca. O médico viciado em mofina, a mulher que seduz os homens para sustentar o vício do marido, o pastor evangélico que se perde em pecados. E em torno o elemento popular a circular em bares e ruas da cidade, a embarcar no trem que leva ao mundo aberto do Recife.

Esta doce radicalidade de rechear o universo erudito com os traquejos do povo, já vem em sua dramaturgia. Chegou a adaptar para os palcos, em tom de farsa, A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, filho. A peça, com Dercy Gonçalves no papel principal e direção de Flávio Rangel, resultou num imenso fracasso. Não se entregou.

Com o manancial capturado lá na Commedia dell’Arte construiu um dos mais emblemáticos textos de nossa dramaturgia, A Donzela Joana, a história da heroína francesa contada em plena Restauração Pernambucana, entre 1645 e 1654, e encenada dentro de um espetáculo de bumba-meu-boi.

Curiosamente não participa, pelo menos ativamente, do Movimento Armorial, criado pelo amigo Ariano Suassuna em 1970. O movimento trazia em si a necessidade de dar um sentido erudito às manifestações culturais do povo, e esta foi a luta de toda a vida de Hermilo. Aliás, com a tetralogia Um Cavaleiro da Segunda Decadência, formada pelos romances Margem das Lembranças, A Porteira do Mundo, O Cavalo da Noite e Deus no Pasto, onde Ariano aparece como Adriano, usa a própria biografia para estabelecer a falta de limites entre as várias vertentes culturais. Rasgando todos os pudores descreve com maestria a trajetória, a formação de um intelectual permanentemente envolvido com o populacho.

E daí se atira ao experimento estético mais radical de sua obra, o romance Agá, onde usa de todas as formas literárias, até mesmo das histórias em quadrinhos, para falar da degradação política do mundo que o cerca. Escracha as ditaduras e as opressões com uma linguagem desabrida e sincera, embora profundamente cruel, mesmo sem perder um certo lirismo, o que torno seu discurso ainda mais tocante e real.

Aliás, começara este trabalho no ano anterior ao lançamento do romance, em 1973, quando lança o primeiro volume de uma trilogia de contos, O General Está Pintando. Neste trabalho que se completa com os volumes As Meninas do Sobrado e Sete Dias a Cavalo, é o brincante que fala mais alto. O escritor já despejara sua bile no último romance que escreveu e agora queria trabalhar, e trabalhou, uma estética mais voltada para o picaresco, onde a crítica social dança com a alegria sem perder sua condição de punhal.

A faina literária de Hermilo encerra num ponto altíssimo com a novela Os Ambulantes de Deus. Durante cinco anos seis personagens atravessam numa canoa o rio Una. Nesta aventura vão experimentando todas as desventuras naturais do homem da zona da mata pernambucana. As cheias do rio, a calda da usina, as injustiças sociais. Mais uma vez o escritor se volta contra a miséria de uma gente que não perder o riso e sabe transformar tudo em arte e beleza. E o fundamental: nada é dito com o maniqueísmo reducionista do pobre bom e do rico malvado. Os homens criados por Hermilo são contraditórios e dúbios como a própria natureza humana.

Ele diz isso também em sua dramaturgia que começa como adolescente ainda em Palmares. Depois aprimora o fazer de encenador e produz textos brilhantes, como João sem Terra, onde, sempre trabalhando no limiar do clássico e do popular, traça a corrida do vivente dos latifúndios nordestinos.

Hermilo viveu para sua arte. Não quis da vida muito além disso. E trazia consigo uma generosidade latente, viva. Escritor consagrado falava nos jornais de um o anônimo contista de Palmares que queria apresentar às editoras. Para Ariano Suassuna deu de presente os caminhos que levariam a toda uma esplêndida carreira. Apanhou Raimundo Carrero pelas mãos e o conduziu até o editor Ênio Silveira. Era assim um homem de arte e desprendimento que se encantou no topo de sua produção artística, no auge de seu amadurecimento humano.

Um dia a professora Cleonice Berardinelli, conhecedora maior da obra de Fernando Pessoa, disse-me que poderia ter conhecido o poeta português. E concluiu: “melhor isso não ter acontecido. Talvez eu me decepcionasse”. Acho que não me decepcionaria se tivesse um dia estado com Hermilo, mas o melhor é guardar comigo a imagem, certamente irreal, do escritor que me enche de surpresa e prazer em cada nova releitura.


AS CIGARRAS ESTÃO CANTANDO

Pensei em gritar: “Zefa, Zefa, as cigarras estão cantando, Zefa…” Mas lembrei que não havia nenhuma Zefa por perto e que o brado seria plágio ao imenso Jorge de Lima: “Zefa, chegou o inverno! / Formigas de asas e tanajuras! / Chegou o inverno! / Lama e mais lama / chuva e mais chuva, Zefa! / Vai nascer tudo, Zefa…”, canta ele em seu poema Inverno.

O fato é que as cigarras começaram a cantar no Cerrado e isso é anúncio de chuva. Desde que por aqui desembarquei que fui aprendendo os caprichos da natureza árida desse pedaço de chão. A seca intensa começa por volta de março, mais tardar em abril, e queima as árvores retorcidas, fazendo a gente acreditar que nenhum lastro de vida se abriga mais ali. Mas logo vem a florada dos ipês. Primeiro o ipê rosa, depois o amarelo e por fim o branco. É um perder as flores para que o outro comece a exibir suas cores. Há gente que acredita numa quarta florada, a do ipê roxo, mas, dizem os botânicos, isso é lenda urbana, ou melhor, somente uma outra tonalidade de um rosa mais caprichoso.

E aí cantam as cigarras… a gente caminha sob as árvores ouvido o zunido agudo, bonito para meu gosto de pouca musicalidade. E há quem se irrite com os bichinhos canoros. Chegam a acusa-los de não deixar a cidade dormir. Civilizadamente sugiro que tamponem os ouvidos, ou, cangaceiramente, mando que se danem da cidade ao ouvir o primeiro tilintar do cicadídeo.

Há séculos estes bichinhos são injustiçados. Creio que tudo começou com La Fontaine, no século XVII. Para exaltar a dignidade do trabalho, o francês criou a famigerada lenda onde a cigarra passa o verão a cantar enquanto a formiga trabalha. No inverno, sem mantimentos guardados e faminta, a cigarra procura a formiga que lhe nega ajuda. Mas só mesmo na Europa alguém pode pedir ajuda à formiga. Por aqui, há muito rezamos que ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Destarte, coube a Millôr Fernandes resolveu a pendenga. Segundo nosso cronista, é verdade que a cigarra passou o verão cantando, mas, para frustração dos europeus, no inverno, com o dinheiro ganho com direitos autorais e apresentações, foi passear numa praia caribenha. Embora eu ache que ela desembarcou em Brasília… E aqui passou a anunciar as chuvas.

Sem bem que falo de um tempo onde até o calendário e o clima deitavam honestidade, seguiam rigorosamente suas determinantes. Lembro bem do Sete de Setembro neste Planalto que, como previu Juscelino Kubitschek, se tornou o centro das altas decisões nacionais. Pela manhã a multidão se encaminhava para o Eixão, onde desfilavam soldados orgulhosos de seus fuzis, de seus tanques de guerra, ao som de uma musiquinha.

Eu tinha horror à festa desde que lera um texto de Albert Einstein: “a pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem sente prazer ao marchar ao som de uma musiquinha, este homem não merece um cérebro humano, já que a espinha dorsal o satisfaz”. Como era impossível passar impune ao ler tal afirmativa na casa dos quinze anos, aproveitava o feriado nacional para me satisfazer com as cervejas dos clubes e bares e esperar a chuva.

Isso era também uma certeza. Nas tardes de sete de setembro chovia em Brasília. Eram as primeiras chuvas, aquelas que pouco molham o asfalto, mas bastante para nos aliviar do calor inclemente e dá mote para os meteorologistas de botequim: “o aguaceiro esse ano chega decomforça…”. E enquanto a chuva não descia decomforça nos hidratávamos com cerveja.

Não tínhamos a ousadia do sertanejo. Muitas vezes vi a cena. Rodando pelas estradas sob um céu bonito de chover, sentia os primeiros pingos e, súbito, explodir a festa. Nos terreiros das fazendas, a gente sertaneja saía de casa e, sob a água bondosa, conversava, dançava, ria de felicidade.

Cá em Brasília ficávamos sob a proteção dos tetos, pois as águas, além de alívio, traziam infortúnios. Quando engrossava seu corpo sobre o asfalto, não chegava a arrastar a poeira feita lama nem o óleo deixado pelos automóveis. Esta alquimia transforma o chão áspero numa superfície deslizante, e os acidente machucam veículos e pessoas mais sensíveis aos bens materiais, pois assim caminha a humanidade no Planalto Central.

Falo como se o tempo fosse passado, pois o tempo é passado. Há muito a natureza tem reagido aos desmandos dos homens e já não se faz tão pontual e rigorosa em seus gestos. Outubro caminho célere para seus estertores e as chuvas não despencaram. Meus ouvidos pouco musicais parecem perceber certa rouquidão na voz das cigarras, e a chuva não cai.

A gravidade do fato fica no advento de estarmos assentados num dos mais generosos berços hídricos do Brasil. No Distrito Federal, que hoje sofre com a falta de água, assentasse o Parque Nacional das Águas Emendadas, berço de duas grandes bacias fluviais, a Tocantins/Araguaia, que corre até o Atlântico, e a Paraná, fundamental na formação do Estuário do Plata. E padecemos de sede.

Definitivamente a natureza endoideceu, como a anatomia de Vladimir Maiakovski – “em mim a natureza enlouqueceu. Sou todo coração”. A natureza hoje é toda uma ebulição de contradições. Desorienta a própria marcha natural de biodiversidade. Ainda esta semana vi vários ipês amarelos floridos. Pareceram-me fantasmas retardatários.

Mas nos resta a esperança da natureza está brincando de esconde-esconde. O padre Antonio Vieira, no Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, fala de uma certa mentira do céu que acontece diariamente no Maranhão: “Amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso dia, e dentro de uma hora tolda o céu de nuvens, e começa a chover no mais entranhado inverno”.

Tomara que toda esta agonia não passe de uma longa mentira do céu.


ALUMBRAMENTO: UMA CIDADE

 Sou homem do interior, anterior aos encantos luminosos do mundo externo.

Lá do longe – 128 quilômetros -, no canavial, à sombra do bueiro da usina, via o Recife como o objeto mais longínquo que cabia à mão alcançar, ali estava o fim do mundo e o início do meu paraíso particular. O olhar do menino enxergava a cidade na régua das impossibilidades, um espaço que se vestia com as cores do apenas desejo que fui alimentando aos poucos.

Tenho a lembrança antiga de um carnaval. É o que de mais distante chega a memória. Sei que havia cores e bailados nas ruas, mas minha visão é de um mundo em preto e branco, foliões com alegria renovada tomando o chão da praça Maciel Pinheiro. Os leões de pedra olhando-me e eu com medo – a euforia contrastava com o sentimento mesquinho. Acho que meu avô estava doente, num leito do Hospital Português. Uma lembrança difusa, como devem ser as reminiscências da infância.

O certo é que entravámos com solenidade no hospital de ambiente branco e asséptico, mas meu tio, Jones Melo, o galã Roberto da novela A Moça do Sobrado Grande, veiculada pela TV Jornal do Commercio, chegava sob o deslumbramento de enfermeiras e pacientes. E a direção do Português, para evitar transtornos, o proibiu de visitar o pai em horas regulares. Somente conseguia chegar ali se esgueirando nos mais tardios instantes da noite.

Tudo era lúdico naquela cidade, e mesmo a morte e suas dores estavam suavizadas pelos encantamentos tantos.

À beira do Capibaribe, na rua da Aurora, tinha um tobogã, para mim imenso, interminável. Com o heroísmo à flor da pele, subia aquelas escadas sem fim para escorregar sentado em sacos de estopa pelo quase infinito ondulante feito em chapas de metal. Naquela tarde brincante, subindo a escadaria, uma freira caminhava à minha frente. Súbito o vento libidinoso do Atlântico levantou a saia da religiosa. Vi sua calcinha imensa e imaculadamente branca. Aquele foi o pecado maior de minha infância.

Minha intimidade com o Recife foi crescendo assim.

Na adolescência saía de Palmares num ônibus da Viação Rio Una para comprar livros e discos. Partia no cedo da manhã e voltava no fim da tarde, cheio de deleites para meus próximos dias. Comprei Tieta do Agreste na Livro 7 e comecei a ler no ônibus da volta. De Jorge Amado tinha me deliciado apenas com a primeira fase, a socialista, que chegava até Os Subterrâneos da Liberdade. Depois de Gabriela, Cravo e Canela, aquele ar picaresco do baiano, que eu desconhecia, não me interessava. Foi voltando do Recife que descobri a obra única de Jorge, um escritor que se apoderou do picaresco para melhor solidificar sua linhagem de protesto e denúncia.

Quando enfim sai do interior atraído pelas luzes da capital, deixei para trás alguns sonhos e segui me desfazendo de ilusões e despojos de amores adolescentes. Uma ex-namorada, bela e morena, me deixara solitário ao pé do muro de chapisco do Colégio Nossa Senhora de Lourdes e carreguei em minha bagagem a vontade de reviver os desejos testemunhados pelo deserto beco do Confiança.

Desembarquei na cidade, no Recife, para mitigar os bancos do Colégio Alpha, na rua Corredor do Bispo. Fui morar na rua do Cotovelo, na Boa Vista. Desculpem. Sei que há muitos anos, muito antes de meu nascimento, a via já se chamava rua Visconde de Goiana, uma homenagem justa. O homem teve cabedal. Foi político, fazendeiro e magistrado. Nascido no Recife, se formou na Universidade de Coimbra e voltou ao Brasil nas águas da família Real que fugia de Napoleão nos idos de 1807. A partir daí governou o Rio de Janeiro e o Pará e descambou em mandos até dirigir a Faculdade de Direito de Olinda. Homem de escol, é certo, mas que nunca deveria ter roubado o lúdico cotovelo da rua onde morei, da rua onde sempre volto para tomar sorvete na Frisabor.

Uma fase de estudos, mas também de boemia. Íamos ao Mustang tomar chope e comer largos sanduíches. Ao Bar Atenas, na Rio Branco, para reviver o ambiente grego que assistíamos nos filmes do São Luiz. Ao Bar do Tenente, no Pátio de São José, para beber cerveja, dançar ciranda e paquerar os livros da Livraria Cordel. Ao Ele e Ela, num dos becos que desaguam na rua da Imperatriz, para bebericar cachaça com caldinho de feijão. E íamos…

Véio Faceta, certa noite, se apresentou no bar da Livro 7. Fui ver o espetáculo levado por um tio, Paulo Rogério, que optou por sentar na fila do gargarejo. O artista estava visivelmente desencontrado naquele ambiente pouco popular, mas não deixou de fazer a festa. E como precisava de um gancho para segurar a descontração, resolveu fazer meu casamento com uma de suas pastoras, e logo uma a quem chamava de Póica. Vermelho de vergonha, aguentei firme as provocações sem fim de Faceta.

Saindo dali fui afogar meu constrangimento em outros bares, em outros copos. Madrugada alta, na volta para casa, meu tio, como era de costume, passou no Cemitério de Santo Amaro para comprar rosas para a esposa que, desprovida de humor, o esperava em casa.

Já por este tempo morava em Afogados, na rua Vinte e Um de Abril, e dali saía no ônibus-elétrico da Mustadinha para chegar ao Centro, pois minha cidade, onde aprendi a ser mais que brasileiro, aprendi a ser pernambucano, só chegava à ponte do Pina, estava muito aquém de Boa Viagem, vinha pelos bairros de Santo Antônio, de São José, pela Boa Vista e desaguava em Apipucos. Um Recife interior que me fez introspectivo e feliz.

E um dia tive que deixar o Recife… fui correr trecho, ganhar o mundo, mas meu horizonte ficou para sempre aberto pela Mata Atlântica de Dois Irmãos, para sempre expandido para Atlântico.

Esta cidade hoje é tão minha, tão intimamente minha, que as vezes me pego chamando-a por um nome antigo: Mauriciópolis, a Cidade Maurícia.


REFLEXÕES À BEIRA-MAR

“Pisar a areia. Ver o mar. Sentir a brisa úmida de encontro à pele do meu rosto recém-escanhoado. Dia quente, céu azul, o sol brilhando sem tréguas. Verão carioca. O sol forte cega-me. Sinto que o pouco contato com ele, durante o último ano, fez com que os meus olhos esquecessem a clara e plena luminosidade. Como velhos amigos que se reencontram, por enquanto tateamos um ao outro no nosso primeiro contato em busca de um ponto de apoio no passado.”

Sempre me incomodou este trecho do romance Em Liberdade, de Silviano Santiago. Explico. O texto tenta transcreve um suposto diário de Graciliano Ramos depois que deixou a prisão. E por que o incômodo? Vamos lá.

“O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito… O mar…”, diz a canção de Caymmi. Realmente é bonito, mas não para todos. E Graciliano era um desses. Daí ler a cena quase idílica do escritor com o mar não me parece verossímil. Intimidade com o sol até vá lá, mas com o mar?

E não se pode condenar o velho Graça, é uma questão de preferência. “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito…”, Caymmi tem razão, mas não aos olhos de todos, repito. Os versos, há décadas, invadem os ouvidos com harmonia, beleza, sensibilidade. Acarinham os corações mais empedernidos e mesmo aqueles que não conhecem o mar ficam a sonhar com suas ondas, seu azul intenso, sua profunda beleza. Já outros olham toda aquela paisagem líquida com despreza e até enfado.

Lembro de um amigo perdido pelo tempo, Antônio Campos, um poeta do Recife, tradutor refinado de William Blaker (não confundir com o escritor e advogado homônimo, idealizador da Fliporto). Os poetas, mesmo os líricos, nem sempre são praticantes da delicadeza. Antônio estava nesse balaio. Costumava ler ao lado de uma janela e, quando os textos, sobretudo os poemas, não lhe tocavam, jogava o volume pela janela. Foi o descarte bibliográfico mais radical que conheci.

Pois bem, voltando ao mar, estávamos em São José da Coroa Grande e Antônio, com seu inseparável cachimbo, balançava numa rede enquanto lia. Alguém de passagem atirou-lhe o convite: “Antônio, vamos ver o mar?” “Ver o quê? Ali não tem novidade nenhuma, só um bocado de água indo prá frente e prá trás…”

Graciliano devia ter uma opinião parecida. Lembro-me de seu filho, Ricardo Ramos, contando que, certa feita, caminhando com o pai pelo Rio de Janeiro, diante das montanhas e do mar, suspirou: “É muito bonito…”. “Prefiro o sertão”, respondeu o velho. E frente ao espanto do filho começou a descrever a paisagem seca, esturricada, cheia de cactos e misérias. Anos depois Ricardo lembrava: “E ele quase me convenceu de que tinha razão…”

Li e reli Memórias de Cárceres e sempre me admirou o fato de Graciliano descrever toda uma viagem marítima sem falar no mar. O máximo de concessão que faz é quando, de passagem por Maceió, olha pela escotilha e vislumbra as casas distantes, as casas, não a praia. Também em seu romance Angústia, que se passa todo ele na ensolarada Maceió, o ambiente é o do centro, da praça dos Martírios, do Bebedouro, não chega sequer perto da Pajuçara.

Mas também não se pode botar Silviano Santiago em uma fogueira inquisitorial. Ele escreveu Em Liberdade num instante de angústia, com um irmão preso pelos agentes da repressão da ditadura militar dos anos 1970, e sentia a necessidade de falar de prisões e liberdades. E logo de saída transcrever como epígrafe uma sentença do mestre Otto Maria Carpeaux: “Vou construir meu Graciliano Ramos.”

Apenas pensei nisso tudo caminhando pelo calçadão da Pajuçara e encontrando ali, eternizado em bronze, o velho Graça, com seu inseparável cigarro e seu terno largo. Nada mais destoante para minha visão de rabugento que prefere encontrá-lo no beco da Moeda, na rua do Macena. Desculpe leitor, mas aprendi com Mário Quintana que “um erro em bronze é um erro eterno”.

Deixando a rabugice de lado, reconheço que as homenagens devem ser feitas e são merecidas por muitos. No entanto há exageros e contradições. Foi o que se deu com o escritor Valter Pedrosa Amorim.

Eu o conheci ali pelo início da década de 1980, já com alguns livros de contos e um romance publicados. Alagoano, vinha de uma família de tradições comunistas. Um de seus primos, Jayme Pedrosa, fora assassinado durante a repressão militar. E assim Valter não negava suas convicções. E por elas sofria. Naquele tempo, como engenheiro sanitarista, trabalhava na consultoria de uma instituição internacional lá para as bandas da Colômbia, pois não conseguia nenhum emprego no Brasil. Por suas crenças políticas fora demitido de várias companhias estatais de saneamento, a última em Brasília, onde então morava sua família.

Tinha um sonho, entrar para a Academia Alagoana de Letras e resolveu se candidatar à vaga deixada pelo senador Teotônio Vilela. Começou a cabalar votos e estava indo muito bem, a eleição líquida e certa, não havia a menor possibilidade de derrota, até que se deu o desastre. Foi à Maceió para acompanhar de perto o pleito e logo concedeu entrevista a um jornal que estampou sua declaração como manchete: “Chego à Academia como cidadão comunista”.

Volto derrotado para Bogotá. Alagoas, que expulsou de suas terras Graciliano Ramos o acusando de comungar com o credo comunista, não perdoou seu filho Valter.

Para minha surpresa, anos depois, num sábado pela manhã, abro o jornal e leio, consternado, o convite para a missa de sétimo dia em louvor à alma do velho comunista Valter Pedrosas Amorim.

As homenagens são justas, mas às vezes contraditórias.

Não me espantarei se algum dia encontra uma estátua de Valter Pedrosa Amorim na calçada da igreja dos Martírios.


DESCARNAVAL, OU QUASE

Distanciam-se os hinos de Momo, diriam os pessimistas, mas existem os otimistas que vêm aproximar-se de maneira célere a chegada de um novo carnaval. Entre um e outro tempo, nos resta a saudade da festa e a expectativa de novas euforias. “Quem é de fato bom pernambucano…”, há décadas canta a canção.

Nestes tempos pretensamente politicamente corretos, no entanto, até o carnaval tem sido vítima da intolerância policialesca. Bem antes de suar os clarins já circulava na Internet mensagem com os lúdicos dedos do humor apontando para as polêmicas marchinhas carnavalescas. O teu cabelo não nega é racismo, a cabeleira do Zezé é homofobia, vou beijar-te agora, assédio sexual… e por aí seguiam as condenações.

Tudo parecia brincadeira, mas a coisa tomou outra dimensão. Vi várias matérias na TV onde os compositores de marchinhas, sobretudo João Roberto Kelly, eram questionados e chamados a explicar a verve humorística. O próprio Kelly tentava suavizar os versos de sua Maria Sapatão dizendo que tudo foi uma inspiração do Chacrinha, o Velho Guerreiro, que pediu algo bem mais apimentado, mas ele, malandro velho, optou por uma letra mais leve, mais dúbia… “de dias é Maria, de noite é João…”

A criatividade, no entanto, parecia fadada a perder a peleja.

Poucos dias antes do carnaval, um amigo meu, professor de música, foi provocado a selecionar o repertório da festinha carnavalesca de uma escola primária. Cumpriu a missão com o maior prazer e desprendimento, mas logo foi chamado pela diretora da unidade, e o argumento era o mesmo lido nas redes sociais: impossível tocar estas músicas, pois o teu cabelo não nega é racismo, a cabeleira do Zezé é homofobia, vou beijar-te agora, assédio sexual…

Parafraseando Shakespeare, há mais intolerância entre o céu e a terra do que posso imaginar nossa vã indignação…

As vezes penso que os intolerantes, ainda bem, não costumam escutar a música popular, do contrário, alguns compositores, como Noel Rosa, já estariam condenados em todas as inquisições possíveis. É do poeta da Vila algumas pérolas da misoginia, ou do anti-feminismo. Quando sua esposa, preocupada com o pouco dinheiro que circulava pelo doce lar do compositor, informou que iria arranjar um trabalho, o poeta cantou: “Você vai se quiser, pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar. Mas não vá dizer depois, que você não tem vestido e que o jantar não dá pra dois… todo cargo masculino, desde o grande ao pequenino, hoje em dia é pra mulher, e por causa dos palhaços, ela esquece que tem braços, nem cozinhar ela quer…”

Em outro samba, bem mais cáustico, Noel se lamentava de uma certa figura: “Oh, que mulher indigesta, indigesta, merece um tijolo na testa. Esta mulher é ladina, toma dinheiro, é até chantagista. Arrancou-me dois dentes de platina, e foi logo vender pro dentista. E quando se manifesta, o que merece é entrar no açoite. Ela mais indigesta do que prato de salada de pepino à meia-noite…”

Versátil, talvez para gáudio das feministas, Noel exaltou a sabedoria da mulher num amor de parceria cantado por Araci de Almeida. “Saiba primeiro que fulana é minha amiga e comigo ela não briga, com ciúme de você. Você provoca briga entre rivais para depois ver nos jornais, seu nome e seu clichê. Há muito tempo minha amiga me avisava que ela sempre conversava com você no seu jardim, e começou nossa parceria, eu fui por ela
e ela foi por mim. (…) Nós aturamos os seus modos irritantes, mas filamos bons jantares nos melhores restaurantes. Você não sai de nosso pensamento, você foi negócio, e foi divertimento.”

Bom, tomara que aí o velho Noel não esteja melindrando os modernos metrossexuais…

E por falar em vila Isabel, Martinho da Vila é quem foi certa feita crucificado por cantar o verso “você não passa de uma mulher…”. Curioso é que exatamente no tempo em que o exército de anjos vingadores caia em cima do compositor, a socialite (é, essa coisa virou qualitativo…) falida Carmem Mayrink Veiga se queixava aos repórteres da revista Veja: “Hoje trabalho como uma negra qualquer…”

Eu pelo menos não escutei nenhum grito contra essa manifestação de racismo claro e evidente…

Tudo tem seu tempo certo, ensina uma outra canção popular. É preciso aprender e entender o tempo em que essas músicas foram compostas, afinal, Graciliano Ramos não pode ser visto como idiota ao dizer que o futebol não vingaria no Brasil. Ele falava de uma prática dos anos 1920 quando aquele era um esporte elitista, onde os negros só podiam jogar se pintassem o rosto com um pó branco.

Essa mania de desandar a verve humorística das gentes, no entanto, é coisa antiga. Lembro de uma apresentadora de programa infantil que condenava ao fogo dos infernos a ingênua cantiga de roda “Atirei o pau no gato…”, dizia ser uma apologia à violência contra os animais, etc., peibufo e coisa e tal. Essa moça, creio, chegou a montar uma loja para criança chamada Não Atirei o Pau no Gato.

Ela ficaria indignada lendo Millôr Fernandes: “Á noite todos os pardos são gatos”?

Meu conforto é que, a história nos traz incontáveis provas, a inteligência sempre vence a intransigência. Que o diga uma moça que fagueira desfilava pelas ruas carnavalescas de Olinda com uma blusa branca onde se li em letras garrafais: Me Atirei no Pau do Gato.


OUVINDO FREVO

Quando a vida é boa, não precisa pressa. Até quarta-feira, a pisada é essa. Pra que vida melhor? Fale quem tiver boca! Eu nunca vi coisa assim! Oh! Que gente tão louca!…

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Mestre Alcides, mecânico por profissão e boêmio por opção, depois de quatro ou cinco doses, saía a cantar serestas e dores de cotovelo pelas ruas de Palmares. Para surpresa de todos, naquela manhã – biriteiro de respeito, ele não tinha hora para beber -, com sua voz de quase Vicente Celestino, o mestre se fartava em um frevo.

– Danou-se. O mestre já está no carnaval… – Gritou algum inconveniente.

Assim se fazia a vida. Injustamente frevo era música para se tocar no carnaval e praticamente durante todo o ano vivíamos privados dos emocionantes acordes que tanto nos toca o coração e a alma.

Eu mesmo fui vítima do preconceito. O fato se deu logo depois que desembarquei em Brasília.

O dia amanheceu azul, azul tão lindo que me faz sonhar…” Era um julho já bem longínquo e eu, mesmo envergando paletó e gravata, de certa forma sonhava enquanto baixava nos corredores da Câmara dos Deputado, onde trabalhava. Entrei na sala cantarolando um frevo já agora antigo. “De Pernambuco eu trago um abraço, um traço, um laço e a barriga pro ar. Um frevo torto, um pecado bem moço, um sorriso no bolso e um deixa pra lá…

O compositor, Marcelo Montenegro, e a música se perderam nos eflúvios (sempre quis usar esta expressão) do tempo. Nunca mais tive conhecimento de ambos, e até o compacto simples, gravado pela Rosemblit, que por anos guardei em minha coleção de discos, sumiu misteriosamente num desses encantamentos da arte. O certo é que cantarolava o frevo e alguém me interceptou:

– Mas isso não é música de carnaval?

É sim, música de carnaval, devo ter respondido, mas já ali solidificou-se em mim a certeza de que o frevo está bem além dessa limitação. A sofisticação de sua melodia preenche a alma de todo um povo e isso o faz útil e pertinente em todas as épocas do ano. Nós pernambucanos trazemos no âmago esta melodia. Aprendemos com sua poesia a descobrir o real sentimento telúrico. Brincamos reconhecendo a fortaleza de seus acordes. E seguimos pela vida a cantar sua riqueza.

Quem é de fato bom pernambucano” é também capaz de alinhavar em seu cotidiano, “de janeiro a janeiro”, a melodia excitante, pois isso é que marca uma das nossas características. A capacidade de poder ser feliz mesmo cantando em tom menor.

De chapéu de sol aberto” conquistamos as praias de todos os recantos do mundo com um riso escancarado para a vida. Somos felizes mesmo na miséria que também nos marca e macula. E não precisamos apenas do carnaval para demonstrar nossa alegria.

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Conto isso.

Voltei Recife”, depois de quase um ano de ausência, bem no começo de um dezembro, e já ouvi pelas ruas os “clarins de Momo”. Isso mesmo – dezembro já era carnaval. Ante meu espanto fui atualizado por um amigo. Moço, aqui é frevo o ano inteiro. Só se abre uma exceção nas lidas juninas, e olhe lá.

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Preciso voltar amiúde à terra, “mas tem que ser depressa, tem que ser pra já. Eu quero sem demora o que ficou por lá.” Voltar a dormir “um sonho que durou três dias” e me que despertou para a certeza de que “o Recife tem o carnaval melhor do meu Brasil”. E vejo isso pelas ruas. Meninos, eu vi Naná Vasconcelos com quatrocentos batuqueiros de maracatu abrindo a “festa maior da raça” tocando uma bachiana de Villa-Lobos. Este encanto prova, com todas as possibilidades de uma equação matemática, que não existe época nem tempo para se deleitar com o “micróbio do frevo”, pois ele “é de amargar”, né Capiba?

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Mas as pessoas são resistentes.

Bebericava uma cachaça no sossego de minha casa deixando que Claudionor Germano, a voz do frevo, no bem dizer de José Teles, alumiasse todo o ambiente falando de tempos idos – “Antigamente quando eu ouvia, vindo de longe, a orquestra de meu bloco…” -, quando um vizinho entra mitigando seu espanto: Chegou carnaval? De imediato lembrei de um amigo que gostava de ouvir ópera a pleno volume e tinha que escutar o desaforo dos vizinhos: Chegou ele com essa música de velório. Destarte não tive como fugir da resposta. Não chegou carnaval, apenas a alegria não foi ainda embora.

E isso é o frevo: a felicidade perene. Mesmo quando fala de desilusões: “A dor de uma saudade vive sempre em meu coração, ao relembrar alguém que partiu deixando a recordação, nunca mais…” Há sempre uma certeza de que esses amores de carnaval se perpetuarão. “Domingo brincarei com você, meu bem. Segunda-feira brincarei com você também. Terça-feira, nem é bom falar, brincarei com você até o sol raiar… E no carnaval do ano que vem brincarei com você e o bebê também…

Por isso canto frevo trezentos e sessenta e cinco dias por ano, pois nunca deixei de atender às pastoras de Getúlio Cavalcanti: “Falam tanto que meu bloco está dando adeus pra nunca mais sair e, depois que ele desfilar, do seu povo vai se despedir. No regresso de não mais voltar, suas pastoras vão pedir: Não deixem não que um bloco campeão guarde no peito a dor de não cantar…

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Por isso canto.

Como Mestre Alcides, não escolho tempo nem hora para ser feliz.

Evoé Baco!


UM ANO BOM

O tempo passa, mas as histórias, parece, perderam a idade. Usando de um vocabulário mais comum, não acredito na condição de envelhecimento dos fatos, das histórias. Digo isso diante do inevitável: estamos em fevereiro, mas ainda me inquietam as acontecências do ano passado, de um 2016 não muito bem louvado. E já pisamos nos passos e compassos de fevereiro. Neste ritmo até pensei em cantar com Marcelo Montenegro, um infelizmente esquecido cantor e compositor catendense, autor de um precioso frevo: “Capiba, chegou fevereiro, o ano inteiro cansei de esperar…

Nada de melodias alegres, minha atenção continua voltada para as marcas do passado, um passado não tão distante, mas, mesmo assim, um tempo pretérito: 2016. Um ano, segundo a voz geral, de desgraças e maldições. E por andar na contramão das gentes, conto histórias.

Éramos uma mesa de confraternização de final de ano, como outra qualquer. Nada de opulências nestes tempos de crise. Sequer podíamos cantar, como o poeta Carlos Pena Filho, “são trinta copos de chopp, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados”. Ali éramos apenas cinco pessoas, cinco amigos diante de uma mesa com alguma cerveja, sucos de frutas e água mineral a se despedir de um ano complicado. Entre uma beliscada e outra no petisco que servia de entrada, as mágoas deixadas pelas águas há pouco passadas iam sendo debulhadas.

Um dos presentes perdera a esposa, depois de um casamento de quarenta anos. Foi uma perda difícil, dolorosa. Como os personagens bíblicos, por quarenta dias a mulher foi definhando com o câncer que lhe comia as energias vitais, desfazia sua vida, deitava silêncio sobre os dias de um futuro que não chegou a existir. Por quarenta dias, o marido chorou suas dores e a fatalidade irrevogável de seu destino de viúvo. E ali contava seus lamentos para finalizar com uma assertiva também fatal: “Agora é seguir a vida…”

Um outro, jornalista de longo curso, conhecedor de antigas redações, onde a máquina de datilografia, o cigarro e alguns goles de uma bebida qualquer – do café à cachaça – eram uma ordem inconteste e temperavam as longas conversas, também tinha um carnê de mágoas para quitar. Lastimava-se do infarto que sofrera, da obrigatoriedade médica de abandonar um velho companheiro, o cigarro, a quem ainda se mantêm teimosamente fiel. “Mas agora fumo bem menos”, garante, assegurando ainda que a dor do infarto é tão aguda quando a clássica dor do parto, segundo relatos incontáveis que ouviu em sua outrora passagem pelo jornalismo policial. “Mas ainda me sobrou vida para alguns tragos, de cerveja e cigarro, afinal, cavalo velho não aprende pisada nova…”

O mais novo da roda, também já sabia contar as contas de um rosário. Não vira mortes próximas nem sentira as agruras do coração, nem mesmo os amorosos. Seu casamento estava seguro e o emprego garantido. Mesmo assim perdera renda. Tinha umas aplicações que não renderam lá o montante sonhado fazendo adiantar para tempos mais prósperos uma longa viagem de férias. Também diluíra nas águas da Petrobrás umas poucas, mais outrora valiosas, ações. Precisava reconstruir o patrimônio pois a esposa estava cansada de morar de aluguel e já não tinha mais renda que permitisse se cadastrar no Minha Casa, Minha Vida. Mesmo assim queria celebrar a vida e distribuía vinho e chocolate aos presentes.

A única mulher da mesa lamentava o aperto que fez o pai de sua filha perder recursos e, consequentemente, diminuir a pensão alimentícia. Também, a filha andava com problemas na escola e a artrose da mãe, já bem idosa, se agravava e ela, a filha, sentia crescer as responsabilidades de suas costas nem lá tão largas. Além disso havia o problema financeiro. O salário já não acompanhava o padrão de vida de antes e algumas restrições já começavam a se apresentar em sua mesa e em seu guarda-roupas. “Ainda bem que, pelo menos hoje, temos uma mesa farta. Vamos celebrar.”

Diante daquela mesa, na medida do possível, farta, já nos últimos dias do ano, comecei a enxergar 2017 como um puxadinho de 2016. Nada no horizonte claro e aberto de Brasília anunciava bonança. Lá nos longes, as nuvens escuras, bonitas de chover, nuvens da invernada de janeiro caminhavam em nossa direção…

De repente despertei para o óbvio. Chegamos ali porque vivemos, diria o Conselheiro Acácio. E de minha parte o ano não foi tão trágico. Tive dores, mas nenhum infarto de próprio peito nem morte em família, também. E 2016 não foi de todo mau. Nas orlas da aposentadoria, vi crescer as perspectivas daquilo que sempre quis ser: um escritor full-time. Ganhei prêmios literários. Estreei como teatrólogo. Assinei contratos para novos livros. Retomei velhos amores, como a delícia de reler Hermilo Borba Filho, Osman Lins e Nikos Kazantzákis. Cultivei novas e velhas amizades. Tomei bons vinhos em boas companhias. Conheci novas terras e sabores. Vivi a vida com a intensidade que ela merece.

Um ano qualquer pode ser difícil ou mesmo bom, como todos os anos – outra inspiração do conselheiro. O normal, no entanto, é que ele tenha as duas faces, como Jano, o mito romano. Afinal em um espaço de 361 dias pode acontecer tudo, inclusive nada, como diria Acioli Neto. Há sempre os momentos tensos e outros nem tanto, afinal assim se faz a vida. E a vida é imponderável, imprevisível, quase sempre. Seus tijolos se fabricam em diferentes fôrmas, são modelados por oleiros vários, não se repetem, enfim. Daí seu fascínio.

O que importa é que o dólar caiu, o presidente dos Estados Unidos é maluco, nossa política se equilibra entra a tragédia e a comédia, esta crônica de Ano Novo está atrasada, semana que vem é carnaval e nós estamos vivos.

E viva a vida.


PARA NOS LIVRAR DO MAL

O livro simplesmente chegou às nossas mãos e rodopiou inquietantemente no círculo daqueles jovens ávidos por leituras – qualquer leitura. Creio que não nos interessou discutir sua trajetória, seu caminho improvável das prensas de uma gráfica até aqueles recantos da cidade. Apenas nos desafiava a necessidade e a urgência de sua leitura.

Palmares, naqueles idos da década de 1970, era cercada de mistérios. Um dia acordei – e já desde aqueles tempos costumava acordar nos cedos dos dias – com o Exército em minha porta. Soldados fardados, paramentados, com fuzis, baionetas e outros tantos aparatos bélicos acampados bem ali, no longo da praça Santo Amaro. Pareciam fazer um exercício qualquer, movimentos indecifráveis para meus pobres olhos de civil. Para aquele pouco mais que um menino que fui, sonhador de horizontes liberais, estava ali a concretude do clima aterrorizantemente opressivo que se vivia então. E o medo criou asas e pairou sobre a cidade durante longas horas.

Pouco adiantou o gesto de simpatia dos samangos a distribuírem barras de chocolate e pequenos fogareiros de fogo breve, mas ainda capaz de fazer um café ou cozinhar um ovo. Tudo era medo e apreensão. Até que no final da tarde os homens fardados desmontaram suas barracas, montaram na carroceria de caminhões fechados e seguiram seus destinos.

Ficou o mistério da visita. E a pobre urbe açucareira retomou sua passividade.

Assim era Palmares, e o grupo de adolescentes corria à cata de leituras e músicas e sonhos e liberdades e tudo aquilo que imagina conquistar todo aquele que sequer tem corpo e força para as lutas naturais da vida. E no meio do turbilhão estava o livro e suas provocações, com seu título e o nome de seu autor a nos provocar: Minha Luta – Adolf Hitler.

Com o bicho debaixo do braço, corri para a rede que se armava numa varanda dos fundos da casa. Foi uma tarde de confirmação do horror e quase nenhuma surpresa. Naturalmente que é sempre muito fácil ser profeta do passado, mas a cada linha lida, pelo pouco que ainda lembro da experiência, uma linguagem panfletária e odienta confirmava a ambição pelo poder, a defesa do totalitarismo, a disposição de promover o extermínio de tudo e de todos que lhe impedissem a ação.

Fechei o livro crente que dele nada restava senão um discurso e uma loucura. Estava feliz, no entanto. Mais uma vez a leitura tinha me salvado.

Explico.

Só com conhecimento é possível entender e combater as ideias adversárias. E ali, naquele instante, definitivamente me afastava das correntes da opressão, viessem elas pela esquerda ou pela direita.

Anos depois, entrando no gabinete do senador Teotônio Vilela, o velho Menestrel das Alagoas, confirmei esta certeza ao ver sobre a mesa um outro livro: Conjunto Política – O Poder Executivo & Geopolítica do Brasil. Autor: Golbery do Couto e Silva.

– O senhor está lendo isso, Senador?

– Claro, seu Maurício. A gente precisa conhecer o que pensa o adversário para melhor combater o bom combate.

Hoje acredito, embora não encontre razões para isso, que o mundo subestimou o discurso e a loucura de Hitler. Seus gestos de fanfarrão talvez tenham maquiado o mostro que se encobria com a capa do puritanismo. Vale lembrar que aquele senhor de bigode bizarro não bebia, não fumava, era vegetariano e tinha propensões para as artes plásticas.

Diante desta informação, aliás, nasceu a piada pronta que encantou minha geração. Melhor mesmo é ficar com Winston Churchill, que bebia e fumava diariamente, além de ser um ótimo frasista: “Eu me uniria ao próprio diabo para combater Hitler”, justificou sua união com Stalin.

Há pouco tempo o Minha Luta entrou em domínio público e explodiu em todo o mundo uma febre por sua reedição. O fenômeno se explica pelo fato de a Alemanha, detentora dos direitos autorais, sempre ter proibido sua circulação. Por aqui a Geração Editorial preparou uma edição especial, prenha de artigos e comentários escrito por especialistas. Mas um juiz, não sei bem de onde, proibiu a circulação do livro.

O magistrado deve ter lá suas razões, no entanto não acredito que elas sejam tão intensas, tão imensas, tão capazes de mascarar um fato histórico. Além disso, não tenho certeza se um texto como aquele, de baixa qualidade literária e tão cheio de ódio, guarde poderes para forjar cidadãos totalitários. As pessoas, defende minha parca filosofia, guardam propensões que terminam por aflorar em uma hora qualquer e formulam suas crenças baseadas nas próprias experiências e na maneira como constroem o próprio caráter.

Li Minha Luta e abominei o nazismo, como li um outro livro, escrito por um religioso, onde se ensinava todas as técnicas para melhor arrancar confissões dos hereges. Este texto foi leitura obrigatório dos inquisidores do Santo Inquérito lá pela segunda metade do segundo milênio. É um texto forte, e até comovente em alguns momentos, mas nem por isso tornei-me torturador.

“Todo pessimista é um chato. Todo otimista é um tolo. O melhor é ser realista.” Aprendi a lição com o mestre Ariano Suassuna. Acredito que a leitura forme, transforme os homens. Eu mesmo sou um exemplo disso. Tudo que fiz e conquistei, se conquistei alguma coisa na vida, foi a partir de minhas leituras. Destarte sei a força e o poder dos livros, mas a diversidade deles é que estabelece a diferença entre o bem o e o mal.

Acho que não voltarei a ler o Minha Luta, pois tenho mais o que fazer na vida, mesmo assim sou contra sua proibição. Conhecer o que pensam nossos desiguais é também uma forma de crescimento.


UMA CRÔNICA ROUBADA

– Você tem uma crônica para me emprestar?

Quem me contou dessa prática foi Fernando Sabino. O mineiro disse-me que, no sufoco do prazo e diante da total e absoluta falta de assunto, costumava ligar para os amigos – Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos eram os, digamos, agiotas mais requisitados – solicitando o empréstimo de uma crônica. A recíproca também era verdadeira. Várias vezes teve que ceder breves histórias que serviram de brilhantes textos dos amigos.

Eles somente não ousavam incomodar o velho Rubem Braga. Paulo Mendes até que tentou. Apanhou o telefone e fez o desesperado pedido.

– E eu lá tenho crônica para emprestar a vagabundo! – respondeu um vetusto cronista batendo o telefone.

Desesperado para voltar a ocupar este espaço fubânico, e na ausência de cronistas a quem ligar e de um assunto qualquer que fugisse de nossa política prenhe de largas emoções, apelei para o roubo. Isso mesmo, roubei uma crônica e confesso o crime.

No final do ano passado, querendo prestar uma homenagem à Rádio Cultura dos Palmares, o editor Arnaldo Ferreira, das Edições Bagaço, me ligou. Tencionava fazer uma agenda para o ínclito sistema de comunicação. E pediu-me um texto. Escrevi uma crônica.

As condicionantes da vida, no entanto, murcharam o projeto e a crônica ficou quicando nos arquivos de meu computador.

Hoje lembrei da coitada.

Destarte, impoluto leitor, eu, ladrão de mim mesmo, apresentou-lhe a crônica roubada.

* * *

Palmares Falando com o Mundo

A rua se chamava Coronel Izácio, mas a gente só falava no Caminho Para Treze de Maio. Entre a repressão militar que se insinuava na possível bravura de um coronel que até hoje não sei de quem se trata e a liberdade da data festiva, vivíamos num Palmares lúdico, em um terreno de descobertas. E o edifício avermelhado, de fachada alta, com amplo auditório nos levava a imaginar o mundo que estava para além do horizonte de canaviais, para além da ponte de Japaranduba.

Todas as manhãs despertávamos às oito horas com o prefixo da Rádio Cultura dos Palmares, que não chegava a ser uma rádio, mas um serviço de alto-falante. Naquelas primeiras horas vinham as notícias lidas das páginas do Diário de Pernambuco. E ficávamos sabendo de mortes e tragédias e esperanças e tudo mais que o mundo podia oferecer às imaginações soltas e perdidas naquele microcosmo com cheiro e sabor permanentes de açúcar e injustiças e possibilidades de futuro.

Depois vinham as músicas de Marinês e sua Gente, Roberto Carlos e todos os outros ritmos que nos embalavam. Serra Grande era a melhor das aguardentes, mas eu Pitu e tu Pitu, todo mundo a se servir nas farras que então ensaiávamos, e a festa subitamente era interrompida. Todas as vezes que morria alguém de escol, para nosso desgosto, a rádio passava o dia a tocar música clássica. Uma chatice.

Então passávamos, carrancudos, naquele quase feriado, em frente ao prédio avermelhado na direção de Pirangi. Eu ainda não sabia o tanto que me deliciavam os acordes de Beethoven, Mozart, Bach.

Mas logo vinham outras festas.

O auditório, certa feita, abriu as portas para receber Waldick Soriano. Ele bebia durante a apresentação e soltava a voz em infinitos boleros. Ensaiávamos vaias e ríamos de tudo e de nada. Outro dia foi Nelson Gonçalves quem tomou conta do palco bebericando uma caneca que dizia ser café enquanto cantava largos sambas-canção. Teve uma senhora que se desentendeu com o cantor já não sei porque. Pouca atenção prestávamos a tudo. A vida era feita de outros prazeres e eu não sabia que havia um belo Brasil profundo embalado por vozeirões e boleros e canções e mágoas infindas. Vínhamos de três raças muito tristes, mas eu desconhecia tal fato.

Com prazer e expectativa fui ao auditório para ouvir de viva voz o Coronel Ludugero, um artista de Caruaru que ganhava o mundo falando com alegria de um Nordeste abissal, lírico e despido de tristezas. Um Nordeste que, adverso em suas configurações tradicionais, transformava homens em gênios artísticos. O Coronel passou mal e não conseguiu se apresentar. Saí dali frustrado e talvez indignado com quem dizia horrores do artista. Eu era tão somente um menino, mas começava a entender melhor o mundo à minha volta. E a compreensão foi tão concreta que protestei, anos depois, contra a vaia dada a Luís Gonzaga pelos medíocres de plantão na quadra do Colégio Diocesano.

Quando a Rádio Cultura se tornou de fato em uma rádio, destituindo os velhos alto-falantes e se enfronhando pelas ondas do Padre Landel de Moura, eu já não estava mais em Palmares, mas, como todo criminoso volta à cena do crime, sempre volto à cidade, as vezes apenas em memória e coração.

Numa dessas voltas ouvi Do Rego, logo de manhã cedo, despertando o povo com um chocalho, transpirando Nordeste por todos os poros. E ao meio-dia se ouvia o programa Combate caminhado à toa pelas ruas, pois todas as casas respiravam as notícias policiais.

Hoje não sei o que toca em suas ondas, mas lembro do espanto de seu Luiz, pai do escritor Luiz Berto, diante daquelas salas geladas e cheias de microfones. “Pra mim essa é a melhor rádio do mundo, mas eu também só conheça essa.” Para mim, que conheço outras tantas rádios, a Rádio Cultura dos Palmares é a melhor do mundo, pois trago na alma a herança que ela me legou.

Não chegava a ser uma rádio, era um serviço de alto-falante, mas nos emprenhava de cultura. Minha árvore de hoje é um tanto da semente que ela ontem regou.


O BAIÃO DOS NOMES

Foi uma ligação à serviço. Estava fazendo uma matéria para o jornal onde trabalhava ou talvez estivesse envolvido com os ditames publicitários de uma campanha política, o certo é que precisei ligar para o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal em busca de alguma informação. O atendente foi muito atencioso e intensamente paciente com toda minha gama de dúvidas. Satisfeito e já tramando minha matéria, ou minha estratégia, perguntei a graça de meu entrevistado. “Ilindisco”. Tomei um susto diante da resposta.

Não tenho muita certeza, mas acho que a partir daí voltei a me interessar pela história de nomes estranhos, e logo retomei a leitura de um livro emblemático de Mário Souto Maior, um dos meus mestres, Nomes Próprios Pouco Comuns. Mário sempre me garantiu que os nomes ali registrados são verdadeiros, até os mais extravagantes como Comigo É Nove Na Garruncha Trouxada e Corizanda Brilhante Loureiro Curveiro.

Acredito no mestre, afinal é mesmo uma dança de baião o que fazem os pais diante de um balcão cartorial.

Isso mesmo se deu com o jogador de futebol Odivan. Um tio, fã de Roberto Carlos, foi escalado para registrar o menino e na hora da onça beber água lembrou do então sucesso do cantor, O Divã, onde ele, numa sessão de psicanálise, lembra o acidente em que perdeu um pé. Estava escolhido o nome do futuro atleta.

Os pais são sempre bem intencionados, mas a vida é um mistério cotidiano e nos surpreende em seu caminhar de bêbado.

Um amigo, nascido no Piauí, recebeu na pia batismal o nome de Valdemar que, segundo um dicionário de nomes próprios, tem origem germânica e significa soberano brilhante. E um dia, na boca do caixa de um banco, teve que enfrentar um diálogo constrangedor. “Esse cheque é seu?”, “Sim, algum problema?”, “Não, só queria saber como você está lidando com essa nova onda aí”. Corria o ano de 1982 e o caixa se referia a uma música que tocava em todas as rádios, onde um certo Piu Piu de Marapendi garantia “hoje eu vou me dar bem”, mas no final da noite terminava pegando um travesti chamado Valdemar e insistia no refrão: “O nome dela é Valdemar, o nome dela é Valdemar”. Meu amigo foi honesto: “Estou levando na esportiva.” “Eu, que também me chamo Valdemar, procuro fazer o mesmo”, respondeu o infeliz interlocutor.

Bráulio foi vítima do Ministério da Saúde.

Numa publicidade em defesa do uso da camisinha o pênis era chamado de Bráulio. Tive que apartar muitas brigas de um amigo de meus filhos, no tempo em que eles eram menores. Chamava-se Bráulio e não se conformava com as brincadeiras recorrentes, aquilo que hoje os politicamente corretos chamam de bullying. Enfim, o menino não conseguia levar tudo no bom humor, nem tentar ganhar alguns dividendos como fez um seu xará dono da Pizzaria Bráulio, em São Paulo. Na frente do estabelecimento abriu uma sugestiva faixa: “Venha comer aqui. O Bráulio está duro.”

Melhor sorte teve uma menina do interior de São Paulo.

Entrei no bar onde numa mesa larga estavam alguns amigos. Vinha sozinho e pensava apenas em comer e beber alguma coisa, e nesta condição fui chamado para me sentar entre eles. Foi então que estive pela primeira e única vez com Sócrates, já ex-jogador de futebol, mas ainda um ídolo para mim. É certo que não tinha mais a habilidade de driblar adversários nem usar com harmonia e graça o poder de seu calcanhar. O gênio, no entanto, não se restringiu aos campos onde, coisa do destino, nunca ganhou uma copa do mundo. Paciência, o futebol tem seus segredos, mas os bares, na opulência das conversas e dos tragos, guardam também seus mistérios que se desvanecem ao longo da noite.

E ali estava Sócrates muito bem à vontade, entre amigos, comidinhas gordurosamente básicas e copos de cerveja. Foi ele quem contou que, exercendo a profissão de médico, fez o parto de uma menina em Ribeirão Preto. O pai, emocionado com o fato de ter um ídolo como parteiro da filha, decidiu homenageá-lo. “Doutor, vou dar à menina um nome inspirado no seu.” “E como será este nome”, quis saber. “Socarina”, respondeu o pai orgulhoso. “Pelo amor de Deus, homem, não faça uma coisa dessa com sua filha.” E depois de muita conversa convenceu aquele senhor a dar à filha o nome da esposa do médico, Regina.
Caso parecido, mas menos grave, aconteceu com meu irmão.

Nascido sob a sombra da Usina Catende, vinha ao mundo carregando um quase compromisso assumido por meu pai. Uma tia de minha mãe pedira que o menino tivesse o nome de seu marido, à época, um político de destaque nas terras das Alagoas. O problema é que o vetusto senhor se chamava José Caralâmpio. Meu pai até se assanhou com a sugestão, mas o bebê foi salvo do nome, digamos, incomum, por determinação de minha avó, dona Bibi, que logo sentenciou: “O menino vai se chamar Gilberto.” E assim foi registrado e batizado, então.

Bem menos sorte teve um líder sindical de Brasília.

Era professor de profissão e se assinava Cícero Rola. Candidato a deputado distrital por um partido de esquerda, lutava contra os donos do poder estabelecidos na cidade com um slogan que era um primor do marketing político, digamos, fescenino: Rola Neles.

Perdeu as eleições. Acho que ninguém, àquela época, estava disposto a literalmente foder os poderosos.


VOU-ME EMBORA PRA ÓBIDOS

Conheci João Pinho numa reunião de escritores, na Casa de Autores, um grupo formado em torno da livreira e escritora Iris Borges. Mensalmente e sempre estamos ali a desvendar caminhos para melhor divulgar nossos trabalhos e, claro, o que se escreve por estas bandas do Atlântico.

O português franzino, de falar manso e recheado de humor, nos contou uma história mirabolante. Cansado das desventuras de uma bem sucedida carreira de executivo em uma multinacional, jogou tudo pelos ares e resolveu montar uma livraria. Reuniu amigos e recursos, alugou um galpão numa antiga área industrial de Lisboa e ali implantou seu sonho: a Ler Devagar, um espaço amplo com livros, um piano e um café. Virou um ponto de referência capaz de resgatar a vida do bairro esquecido pelas condicionantes econômicas. Como efeito colateral, os aluguéis aumentaram e a livraria teve que migrar, mas resiste em novo endereço como um espaço de privilégio para as artes da palavra.

Inquieto, João anunciava, prenhe de entusiasmo, seu mais novo e concreto delírio: transformar a pequena aldeia de Óbidos numa cidade literária. Para tanto implantara pelas ruas medievais onze livrarias – isso mesmo, onze livrarias. E mais, estava às vésperas do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos.

Conheço Óbidos, a cidade das rainhas. Esclareço: uma velha tradição portuguesa mandava que os reis dessem às suas consortes a cidade como dote de casamento. É uma dessas pérolas que ficam e se mantêm quase intactas, tanto que hoje tem apenas 87 habitantes – não errei, são mesmo 87 habitantes -, apesar de estar a 80 quilômetros de Lisboa. Como sustentar ali onze livrarias e um festival internacional de literatura? O pulo do gato está em um dado animador. A cidadezinha recebe diariamente milhares de visitantes de todos os cantos da Europa encantados com sua paisagem, sua história e, agora, seus livros.

Ficamos todos encantados com as provocações de João Pinho e loucos para seguirmos viagem até os reinos portugueses. Tínhamos, no entanto, um compromisso com Goiás e íamos, por aqueles dias, viver as emoções sempre renovadas da Festa Literária de Pirenópolis – a Flipiri.

Tudo do lado de cá era dificuldade e desafio. Com a crise econômica, em cima da hora, patrocinadores saltavam do barco e a escassez de recursos instigava nossas imaginações e disposições. Fomos em frente, e entre atropelos e reinvenções, lá estávamos a falar com o público, a apresentar a aventura da leitura para alunos, a provocar professores pelos caminhos das bibliotecas.

Na festa, fui dar com os costados no vilarejo de Radiolândia para uma manhã de prazer conversando com alunos atentos e preparados sobre os mistérios dos folguedos. Eles tinham lido os livros da coleção Crônicas do Mateus e buscavam saber um pouco mais sobre os cantos das pastorinhas, o bailar do bumba-meu-boi, as lutas do lambe-sujo, os volteios da quadrilha junina, os passos de frevo de papangus e cabocolinhos.

Enquanto isso, no centro da cidade, uma professora menos tolerante pressionava Clara Arreguy. Acusava o livro Siga as Setas Amarelas, onde a escritora ficciona sua experiência pelos caminhos de Santiago, de defender o ateísmo, de fazer apologia às drogas, de exagerar no uso de palavrões. Com a calma que lhe caracteriza, Clara rebatia pontuando as verdades que colheu na vida e recebia o aplauso dos alunos.

Nessa vida de mascates da literatura nos equilibramos nos extremos. Enfrentamos aplausos e desafios com a mesma disposição com que sentamos diariamente para encarar a brancura assustadora da tela em branco. Em todos estes limites temperamos nossos sentimentos com o elixir de nossas crenças. Somos pessoas comuns que carregam a graça e a maldição de contar histórias apenas com o propósito de manter aceso o veio da imaginação, pois nesta linha se sustenta toda a vida humana.

Hoje descobrimos pelas sondas da tecnologia que Marte é inabitável, mas ninguém consegue apagar de nossos sonhos os seres esverdeados que dali desciam para nos dominar. Hoje sabemos que nenhum ser é capaz de criar pelos e garras e dentes afiados diante da lua cheia, mas nos caminhos escuros e solitários dos sertões tememos o encontro possível com lobisomens e mulas-sem-cabeça. Vivemos do imaginário, enfim.

Por isso, vez por outra, sonhamos vencer Atlânticos e Himalaias para vivermos da bonança e da compreensão que se escondem em terras mais civilizadas. Terras onde a generosidade dos homens está a nos estender tapetes e facilidades. Por que mitigar perenemente o patrocínio e o apoio de uma gente que nos é indiferente? Enquanto falamos dos frutos da terra, nosso povo olha para o céu catando vampiros.

O poeta Oswald de Andrade, pelos começos do século passado, batia no peito seu orgulho: “Já falei de literatura no Sindicato dos Padeiros de Santos e na Sorbonne.” Outro dia, uma estudante universitária me perguntou quem era mesmo Oswald de Andrade. Fiquei pensando se valeu a pena todo caminhar do inquieto paulista.
Vou-me embora pra Óbidos, lá sou amigo…

Não. Definitivamente, não. Ficarei mesmo por aqui, por Pirenópolis, por Quebrangulo, por onde me levar esta sina de resistir, de tentar construir pedra a pedra, do lado de cá do Atlântico, a pátria libertária das letras.

E vamos em frente que a esperança é o nosso mais prazeroso alimento.


RIOS QUE PASSAM

Era um tempo heroico e nobre.

O Conde Bagnuolo fugia de Porto Calvo, então sitiada pelas tropas holandesas. Seguia por terra, na esperança de encontrar o rio Camaragibe onde um navio de bandeira portuguesa daria guarida à fuga épica, carregada de homens, mulheres e crianças desesperados. Pelo caminho ficavam os mais fracos, enquanto no rio, numa batalha naval, o Conde Maurício de Nassau abatia os navios portugueses e desandava as esperanças de Bagnuolo. E o mercenário italiano teve que descer a pé até Penedo, atravessar a nado o São Francisco e conseguir chegar à segurança de Sergipe Del Rey.

O Camaragibe foi o rio de minha infância, ou melhor, um dos tantos rios de minha infância. Com a autoridade de minha meninice, nadava no banheiro das mulheres, onde moças e senhoras, peitos ao vento, lavavam roupas e se banhavam inocentes, como as índias do tempo dos condes, e preenchiam meus primeiros alumbramentos.

Depois, anos depois, o Camaragibe cresceu em fúrias, e eu em malícias. Suas águas transportavam os malefícios do esquistossoma, invadiam as ruas de Matriz de Camaragibe, afogavam o Caranguejo, bairro pobre onde se abrigava um pobre cabaré, matavam um sanfoneiro de respeito que animou muitas de minhas noites de forró e cerveja.

Foi por este tempo que o mundo me afastou daquelas águas, daqueles viventes frequentemente assombrados pelos fantasmas do assoreamento. Os canaviais implacáveis derrubavam as matas ciliares carregando milhões de carradas de areia para o leito do velho Camaragibe. Outro dia, passando por sobre sua ponte, vi as terras ainda mais paupérrimas do Caranguejo e o curso d’água tomado por barrancos. Calmamente um homem montado em sua moto cortava as terras onde antes era somente caudal e força.

Os rios morrem, e dizem os estudiosos, de duas doenças graves e quase irreversíveis. O assoreamento e a salinização. O São Francisco vem sofrendo destes dois males. A gula de energia elétrica e progresso represou suas águas, fez barragens à granel, matou a rizicultura, minguou o volume dos peixes, criou barrancos, dificultou o passar das canoas.

No livro que escreveu em 1587 o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa fala de uma luta titânica, coisa de gigantes imensos. As águas do São Francisco querendo vencer o mar e o Atlântico querendo engolir o rio. Briga fera, e o caudal de água doce entrava léguas e léguas oceano a dentro. Também na tela onde Frans Post registrou a fuga de Bagnuolo vê-se os navios holandeses serenos, pacificados. Do Penedo, nada além do Forte Maurício, de Sergipe Del Rey, somente a várzea fértil, o cacto solitário e as gentes que chegam.

Por quê lembro dessas histórias antigas, dessas tragédias modernas?

Dia desses, numa roda de cachaça, o ministro Carlos Átila (foi porta-voz do presidente Figueiredo e ministro do Tribunal de Contas da União) contava de uma visita que fez à cidade natal, Nova Lima, em Minas Gerais. E já nada, ou quase, encontrou dos dias passados. Tudo que lhe parecia tão prenhe de eternidade estava findo. Matas e homens foram substituídos por asfaltos e outras gentes.

Aos remanescentes de seus dias antigos perguntou pela Geladinha. Era uma lagoa cercada de vasto arvoredo de água gelada e cristalina. Estava soterrada. Nem mesmo um fraco veio líquido, para remédio, era possível conseguir ali. Também não mais havia a mata de onde se colhia lenha boa para os fogões.

Todas as tardes, pontualmente, o lenhador trazia no lombo de um burro uma carrada de lenha que abastecia o fogão sempre aceso da casa de sua avó. Ali se comia a mais preciosa comida dos Gerais. Pão-de-queijo e leitão assado nasciam no forno. Das panelas e chaleiras expostas sobre a chapa de ferro, tutus, couves, galinhas com quiabo, linguiças, torresmos, bolinhos, mandiocas, cafés. Mal sabia o futuro ministro que aquelas delícias eram cumplices de um crime ecológico, dos assassinos que ajudaram a matar a Geladinha.

Todas estas nebulosidades lembram um romance de Gabriel García Márquez, onde as matas fartas das margens dos rios colombianos vão sendo desbastadas para dar de comer aos navios a vapor. E dali saíam bananas e gentes para os confortos da Europa.

O povo do Camaragibe parece que chegava tão longe. Maceió e Rio de Janeiro eram os limites. O açúcar chegava mais longe, acredito, e vencia o desafio de lutar contra o açúcar de beterraba para além do mar oceano. Já o homem do São Francisco, pela largueza de seu curso, correu também trechos largos. O Barão de Penedo ponteou seu saber na corte inglesa. Também o algodão que cresceu nas barrancas generosas abasteceu a fome das máquinas que estavam além do porto de Liverpool.

Homens e produtos trazem no âmago a mobilidade, despertam cobiça, enquanto os rios morrem na solidão do esquecimento.


CONVERSA DE BOTEQUIM

“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa…”

A música de Noel Rosa embalou o final de minha infância. Eu a aprendi numa coleção de discos que minha mãe comprava na banca de revistas. Desde então me encantei pela instituição, o botequim. Havia um, a Toca do Mug, na praça onde eu morava, mas por ali apenas passava, de longe olhava para seu interior e tentava adivinhar as altas e alegres conversas que varavam noites e dias.

Guiado pelos versos de Noel pensava em futebol, na fumaça do cigarro, as anotações feitas com caneta tinteiro, guarda-chuvas solenes, bicheiros manipulando a esperança dos fregueses, mas ainda não conseguia entender o sentido do pendura. Tudo bem, valia o embalo do samba: “Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente…”cb

Pouco tempo depois, como sempre precoce, já me sentava naquelas mesas, mas não falávamos de futebol. Nossas derivações volteavam pela literatura e pela música. Tínhamos cabelos fartos e o sonho das artes. Alguns tocavam violão, e embalados pelos acordes políticos que conseguiam vencer a censura, discutíamos também política e, claro, o esplendor das mulheres.

Com as modernizações que os novos tempos pedem, continuamos a nos reunir em torno dos mesmos assuntos, agora recheados com a memória vivida por nós mesmo. E sempre que volto prá casa lembro de uma lição do mestre Orlando Tejo.

Numa das eternas noites de Salvador, junto com o poeta Bráulio Tavares, Tejo, já abstêmio de muitos anos, com seu inseparável cachimbo, resistiu toda madrugada ouvindo cantadores de viola e contando sua farta coleção de causos. Na manhã seguinte, deixando o bar, Bráulio não se conteve: “Tejo, como é que você aguenta ficar até essa hora num boteco, ouvindo conversa de bêbedo e sem beber?” “Na verdade o que encanta no bar não é bebida, mas a conversa com os amigos.”

Com este propósito ainda hoje frequento os bares que surgem em meu caminhar, estejam onde estiverem: Oropa, França ou Bahia.

Dia desses desembarquei em São Paulo para um seminário. No final do primeiro dia do evento vi que pouco tinha o que aprender por ali. Resisti e até voltei na manhã seguinte para ouvir um amigo que tinha uma palestra programada, mas depois do almoço esqueci o circunlóquio e fui viver a cidade. Liguei para uns amigos e combinei um botequim de final de tarde.

Como sempre, cheguei um pouco antes da hora marcada e fiquei por ali, vasculhando as páginas de uns livros que acabara de comprar. Como não tinha outra coisa a fazer diante da cerveja gelada, a não ser bebê-la, prestei atenção na mesa ao lado. O casal que ali estava não fugia ao modelo da modernidade. Cada um dos dois viventes, frente aos respectivos copos de cerveja, enfiava a cabeça no celular e teclava freneticamente. Pouco se falavam, mas se espremiam e gesticulavam e torciam e teclavam, teclavam.

Comecei a defender para os botequins a determinação que escutamos no início de todos os espetáculos e nas salas de cinema: “Por favor, desliguem seus celulares”. Mas aí o cidadão deu o ar de sua palavra: “Merda. Errei três perguntas. Quem foi Ismael Nery? O que é xilogravura? E casa de purgar? Será que tem a ver com purgatório?” “Não sei. Também errei essas aí”, respondeu sua solidária companheira.

Além de diálogo, parece que está faltando cultura aos botecos. Pelo menos esta era a conclusão óbvia diante do casal exercendo uma solidão a dois numa disputa de conhecimento que, parece, pouco havia por ali. Sobreviviam no ambiente, no entanto, outras instituições indispensáveis a um bom boteco: o tira-gosto gorduroso, a reclamação política, a animação do bar ao lado.

Enquanto o garçom pousava em minha mesa um frango à passarinho caprichado no azeite, um senhor que passava se queixou ao dono do bar da Prefeitura Municipal que há meses botou uns blocos de cimento na calçada: “Isso só serve para atrapalhar o pedestre”. “Botaram estas pedras aí para interditar um restaurante que diziam estar irregular. Já reclamei várias vezes, mas de nada adiantou. E olhe que pago regularmente o IPTU”, respondeu solidário o empresário.

Enquanto todo acontecia, indiferentes aos movimentos loucos da cidade, um grupo ria às gargalhadas no bar ao lado.

Mudou o bar? Não. Acho que seus frequentadores estão derivando cada vez mais para a solidão da modernidade.

Enfim chegaram os amigos que esperava, um pouco antes de começar a temer o dia em que terei que me curvar à sentença de Vinicius de Moraes: “A pior das solidões é a companhia de um paulista”. Ou pelo menos a companhia daquele casal que vi em um bar próximo à Paulista.


AS ESCULTURAS DO PODER

Todas as vezes que chegava à casa de vó Bibi, em Catende, chamava-me a atenção aquele gaúcho postado em sua sala. Tinha porte heroico e postura máscula. Ficava sobre a mesa de centro, em sua cor bronzeada, com um laço pendendo da mão, larga bombacha, vasto bigode, lenço amarrado na cabeça.

Anos depois, batendo com os costados em Porto Alegre, lá estava o gaúcho, ou melhor, a estátua O Laçador, um monumento da cidade esculpido por Antonio Caringi Filho. Ele usou como modelo o agrônomo Paixão Corte, um tradicionalista empedernido. Aliás, Corte esteve na vanguarda do movimento de ressurreição das mais profundas tradições gauchescas, lá pelos idos da década de 1940, ainda quando estudante em Porto Alegre, ajudando na fundação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas.laçador

Conheci e entrevistei o velho Paixão Cortes, o ouvi falar de suas crenças com a mesma paixão (desculpem, mas a expressão é inevitável) de um adolescente. E custava a acreditar que ele servira de modelo à estátua símbolo de Porto Alegre. Tudo bem, vamos dar um desconto. Eu o encontrei lá pela metade da década de 1990, quando o folclorista corria para a casa dos quase setenta anos, e a estátua foi feita em 1954, quando ele então beirava os vinte e sete. Os contrastes eram então compreensíveis, afinal, como diz a canção, “churrasco e bom chimarrão, fandango, trago e mulher, é disso que o velho gosta”.

Todas estas lembranças desencadearam-se durante a leitura de um livro, claro, a biografia de outro gaúcho que se transformou numa grotesca estátua, um busto achatado, quase o desenho de um animal pré-histórico, tais são suas feições rechonchudas e largas e imensa, enfim, Getúlio Vargas merecia mais respeito. E a biografia escrita por Lira Neto bem demonstra isso ao tirar do ex-presidente a capa soberana do mito para nos revelar um homem quase comum, um intelectual, um político hábil que também vacilava diante do imponderável de sua surpreendente trajetória, mas que, como bom campeiro, nunca deixou o cavalo selado passar impune em sua frente.

Tinha mesmo uma visão ampla do mundo, este Getúlio. Tanto assim que, nos informa Lira Neto, quando deputado federal, lá por volta de 1927, ainda durante o governo do ex-presidente Artur Bernardes, Vargas intercedeu por um afilhado, o artista Antonio Caringi Filho, que ganhou o cargo de adido consular na Alemanha. Na Europa não sei se o moço exerceu alguma função diplomática, mas aprimorou muito bem sua técnica artística na Escola de Belas-Artes de Munique e, depois, tornou-se uma espécie de escultor oficial do Rio Grande.

Não sei se como forma de agradecimento, mas fato é que em 1955 Caringi esculpiu um honesto busto de Vargas e espalhou várias réplicas por cidades gaúchas, uma obra esteticamente bem mais bonita que o monstrengo de uma praça da Glória, no Rio de Janeiro.

É isso, houve um tempo em que as injunções políticas davam resultados bem mais sólidos e artísticos que os meros escândalos da modernidade. E por falar em modernismos, o movimento que levou este nome e que desabou sobre o Brasil em 1922 foi realizado à sombra generosa do Palácio dos Bandeirantes, ou seja, do governo paulista.

Também foi política a ação que transformou o Recife num museu a céu aberto. Em 1955, quando Pelópidas da Silveira era prefeito da cidade, Abelardo da Hora foi convidado a esculpir figuras populares para as praças do lugar. E danou-se a trabalhar, e até hoje estão espalhados pelos logradouros Violeiros, Vendedor de Pirulito, Lavadeiras, Cangaceiros, toda uma lembrança viva do jeito tão Pernambuco de ser. Aproveitando a deixa, no início dos anos 1960, Abelardo sugere à Câmara Municipal do Recife uma lei exigindo que toda nova edificação da cidade trouxesse uma obra de arte. Apesar de um ou outro mal gosto aqui e acolá, o resultado é que a urbe se tornou bem mais bonita, humana e alegre.

Viajante, as cidades são descobertas em doses homeopáticas. E somente assim suas surpresas se revelam.

De Porto Alegre, depois de enxergar, O Laçador, caso o cristão tenha recursos e disposição, é possível ir ao Rio de Janeiro e, fechando os olhos para o Getúlio da Glória, encontrar pela cidade Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco, Braguinha, Carlos Drummond de Andrade, Luiz Gonzaga, Zózimo Barroso, Tom Jobim, todos solidificados em estátuas primorosas, algumas com leveza bailarina.

Também no Recife, depois da visita obrigatória às incontáveis esculturas de Abelardo, vamos descobrindo Brennand e Cícero Dias no Marco Zero. E o passeio segue em conversas com os poetas Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Carlos Pena Filho, João Cabral de Melo Neto, e no mais segue um infindável caminho de obras espalhadas por ruas e edifícios. Descobri-las, viajante, é um exercício que acalanta a alma.

Foi transitando por estes destinos que descobri encantos e me aventurei no mundo das perspectivas. E se uma breve escultura postada na mesa de centro de minha avó em Catende foi capaz de me levar para o mundo, imagine o quanto me move a arte viva de Abelardo da Hora.


UM HOMEM FEITO DE LIVROS

Que me perdoem Graham Bell e seu padrinho, o Imperador Dom Pedro II, mas telefone é um bicho dado a fornecer tristes notícias. E se toca à noite, em horas impróprias, é porque a desgraça tem dimensões bíblicas. Mas naquele dia tocou durante a tarde, e do outro lado veio a voz suave de uma amiga, a professora Maria de Jesus Evangelista, a Maju:

– Nosso amigo Edson Nery se foi.

Não sei bem porque esta história me apanhou no caminho de casa para o trabalho, quando tentava encontrar um assunto para escrever uma crônica, pois meu débito de texto com o Jornal da Besta Fubana, para minha vergonha, já tem o acúmulo de alguns meses. Ameaçado de ser jogado no SPC dos escribas, vinha tentando arrancar histórias da cabeça fraca quando me surge a imagem do velho Edson Nery da Fonseca.

O conheci quando ainda ministrava aulas na UnB, mas pouco tempo depois me deparei com sua fúria santa. Bradava contra a imbecilidade que quase sempre cerca as decisões burocráticas. E, como sempre, estava prenhe de razão. Aos 70 anos, ainda vigoroso e ativo, fora obrigado a se aposentar da universidade por imposição das leis que determinam o limite de idade para o exercício de uma função do serviço público.nery-da-fonsec

Logo depois deixou também Brasília e voltou para Olinda. Queria viver à beira-mar, cercado de gatos e livros.

Contra a opinião de todos os amigos restaurou uma casa que pertencia a um dos conventos da cidade e ali passou a morar. Incontáveis foram os conselhos para que comprasse um imóvel mais moderno e confortável, que o dinheiro gasto na reforma seria mais que suficiente, que a moradia seria mais um patrimônio e não um empréstimo. Nada o demovia. “Um dia, visitando Gilberto Freyre, ele resolveu discorrer sobre as vantagens de se morar em uma casa velha, mas logo foi interrompido por dona Madalena que danou-se a falar em goteiras, infiltrações e outros tantos transtornos. Gilberto rebateu: tudo o que ela diz é verdade, mas nós não podemos deixar de morar junto aos fantasmas do passado”, rebatia Edson calando a todos.

Voltava assim à origem de tudo, a Pernambuco, onde descobriu os livros e o prazer da leitura. Contava histórias e mais histórias das aventuras pelas antigas livrarias do Recife, das conversas com intelectuais de fato, dos amigos que tinham partido: Gilberto Freyre, Zé Lins do Rego, Carlos Pena Filho, e os nomes seguiam num rosário infindo de personalidades.

De Gilberto chegou a ser o maior especialista, mas um dia se disse superado. “Hoje existem outros que entendem mais da obra de Gilberto do que eu”, dizia sem modesta ou ressentimento.

Dono de uma memória invejável não esquecia nada e ainda recitava poemas e mais poemas de cor. Aliás, esta sua proeza com a poesia eu descobri antes mesmo de o conhecer. Num dos prédios do Setor de Autarquias, em Brasília, o Ministério da Cultura montou uma loja onde vendia as publicações de suas fundações. Ali encontrei um disco, um velho LP, com Edson recitando os poemas de Augusto dos Anjos, um material lançado pela Fundação Joaquim Nabuco, uma preciosidade que ainda hoje guardo e escuto.

E era mesmo interessante ver aquele homem de quase dois metros de altura, branco, de olhos claros, com elegância de lorde inglês discorrer sobre poetas clássicos e populares. Edson era movido, desde que levado pelos caminhos da cultura, pelos fios da contradição. Lembro bem do espanto de Luís Gutemberg a nos contar de suas lembranças de Maceió dos anos 1950. Edson vivia então na cidade, onde ministrava aulas para um grupo de bibliotecários. E Luís o via diariamente, livros sob o braço, passar por sua porta. Sempre sério, sempre compenetrado. Mas daí veio o carnaval e um Luís perplexo viu um eufórico Edson no meio de um bloco a dançar passos de frevo.

Tudo que era humano, da reflexão das bibliotecas à euforia dos carnavais, encantava Edson.

E tinha lá suas manias.

Um dia nos encontramos em Maceió. Dali iríamos, juntos com o poeta Lêdo Ivo, para Penedo onde Edson faria uma palestra na Casa do Penedo. À noite fomos jantar num restaurante onde era servida a melhor carapeba da cidade. O garçom, com toda gentileza do mundo, trouxe até à mesa, ainda cru, o peixe que iríamos devorar. Quando, enfim, voltou com o bicho devidamente pronto, Edson se negou a comer. “Não como nenhuma carne que vejo antes de estar cozida.”

No dia seguinte, quando nos encontramos na recepção do hotel para irmos ao Penedo, vinha ele com uma mala imensa, um exagero para aquela viagem de apenas três dias. Mas foi logo se desculpando. “Não viajo sem tudo que me parece indispensável, meus paletós, meus livros, meu uísque.” E seguimos até a beira do São Francisco onde fez uma dissertação perfeita, uma indiscutível lição onde apontava Lêdo Ivo como o mais alagoano de todos os poetas. E como nunca esquecia o Recife, leu um poema onde Lêdo exalta com paixão o velho burgo pernambucano, poema que nunca publicou em nenhum de seus livros, mas que Edson sabia muito bem onde encontrar.

Em novembro de 2013, durante a Fliporto, nas primeiras horas da manhã, resolvi caminhar por Olinda. E encontro o cineasta Vladimir Carvalho sentado em uma calçada. Pensei que aquilo fosse fruto de uma noite de bebedeira, mas logo lembrei que o mestre não é dado aos exageros. “Estou esperando uma equipe para gravar uma entrevista com Edson Nery.” Resolvi ficar também na espera.

O velho senhor feito de livros repousava numa cama cercada por altas prateleiras abarrotadas de raros volumes. Enquanto Vladimir arrumava equipamentos e luzes, conversamos sobre Brasília, Penedo e, claro, livros. Fui embora quando o cineasta o pediu para falar sobre Cícero Dias. Nunca mais nos vimos.

Buscando informações sobre Edson descobri que há poucos dias, em 22 de junho de 2015, fez um ano que recebi o telefonema de Maju. E para não maldizer de todo Graham Bell, lembro que numa madrugada antiga, quando o relógio marcava uma hora, toca a assustadora campainha. Atendi apavorado. Do outro lado veio a inconfundível voz de Edson Nery da Fonseca:

– Maurício, acabo de ler um livro seu. E tenho apenas uma coisa para lhe dizer: Você é um escritor.

E desligou antes mesmo de ouvir meu emocionado obrigado.


MANUAL DE PREFERÊNCIAS DE UM SUBVERSIVO

É por isso que eu não gosto de padre.

O brado forte do Pereira na mesa de um bar do Recife naquele longínquo dois de maio de um distante final da década de 1970 não surpreendeu ninguém. Era comum derramar seu manual de preferências diante do copo de cuba libre.

É por isso que eu não gosto de americano. E destrinchava uma mítica origem para a famigerada mistura de rum Montilla com Coca-Cola, a única possibilidade de nossos famélicos bolsos estudantis. Segundo meu sapiente amigo os americanos, antes da revolução redentora dos barbudos de Sierra Maestra, faziam de Cuba um cabaré, um universo de orgias pagas em dólares e degradações, com rumba, prostitutas bonitas, como no poema de Manuel Bandeira, casinos, rum e charutos. Como uma espécie de provocação velada, misturavam o indigno refrigerante imperialista ao rum arrancado do suor dos canavieiros e proclamavam: Cuba Libre.

Tempo depois, lendo o delicioso e bebível Guia de Drinques dos Grandes Escritores Americanos, de Edward Hemingway e Mark Bailey, encontrei uma outra origem para o coquetel. Durante a Guerra Hispano-Americana, em 1898, os soldados do Tio Sam recebiam Coca-Cola entre seus suprimentos. Um deles teria misturado o refrigerante ao rum, espremido um limão na bebida e gritado: Viva Cuba libre. Assim teria sido criado e batizado o drinque que Pereira, entre protestos, degustava num bar do Recife.cubalibrecocktail1

Meu amigo Pereira, a quem não pude contestar, posto que desconhecia esta versão mais plausível para a cuba libre com que nos empanturrávamos, assim seguia debulhando suas ladainhas revolucionárias. É por isso que eu não gosto de soldados. São todos burros. E dava exemplos. Circulava por todo Recife com seu boné verde estampando uma estrela vermelha à testa, símbolo máximo do exército comunista chinês, que brilhava aos ventos do Nordeste e não era incomodado. Os gorilas, em sua retórica, eram uns jumentos incapazes de reconhecerem os símbolos ideológicos de sua predileção.

Destarte não surpreendeu ninguém sua proclamação naquela tarde de depois do feriado quando os espaços do tempo ainda nos permitiam saborear uma cuba libre com gelo e goles largos de caldinho de feijão: É por isso que eu não gosto de padre.

O que deixou todo mundo estupefato foi a declaração seguinte: “Ontem na missa…” “Como é que é? Você foi à missa?” “É que mãe pediu para acompanha-la…” Somente assim descobrimos que o mais exaltado dos revolucionários recifenses daqueles idos era um filho exemplar, obediente, quase um congregado mariano. Passado o susto Pereira retomou o fio de sua narrativa.

“Devo salientar que era uma missa dedicada ao dia do trabalho.” Bom, então estava tudo explicado e justificado, faltava mesmo era dizer os motivos de sua fúria anticlerical. E Pereira matou nossa curiosidade. Durante o sermão o padre, em defesa do trabalho e dos trabalhadores, lembrou, para ódio de nosso mais caro subversivo, que o trabalho dignifica o homem. “Um idiota”, bradava apoplético, “o que dignifica o homem é o salário”.

Tentei uma piadinha de ocasião para desanuviar o clima: “Mestre Pereira, esta tese é controversa. Os vereadores do Recife têm bons salários e nem assim são dignos…” “E eu estou falando de homens, de trabalhadores de fato, aqueles que acordam com os galos, mourejam como os cavalos e vão dormir com os morcegos. Estes merecem o direito à uma casa pequena, mas confortável e digna; merecem uma mesa, singela, mas com proteínas suficientes e dignidade; merecem escolas, modestas, mas eficientes e dignas; merecem hospitais, despretensiosos, mas com pronto atendimento e dignidade…”

Assim regávamos algumas de nossas tardes recifenses. Tínhamos todos os sonhos e ainda nenhuma frustração. Um dia a vida se encarregou de nos apartar. Bebemos os últimos goles de nossas cubas libres e nunca mais nos vimos. Não sei de Pereira, se ainda acalenta revoluções ou se apascentou suas fúrias e já olha com outros olhos os americanos, os soldados, os padres. Tudo é possível. O que parece se perpetuar é esta condição de oprimido que macula os desejos dos trabalhadores defendidos por meu amigo.

Olho os jornais e a história é recorrente.

Ainda estes dias, no Paraná, um grupo de trabalhadores, professores, foi às ruas protestar contra uma lei que muda seu sistema previdenciário. O governo estadual, sem oferecer nada em troca, exigia mais um sacrifício do elo mais frágil da corrente. Diante do protesto, botou a polícia em ação e as bombas de gás lacrimogênio arderam olhos infantis, cães ferozes morderam trabalhadores, balas de borrachas cortaram a carne dos que lutavam por seus direitos, por sua dignidade.

Indiferente a tudo e a todos, os deputados imunes obedeceram ao governo e aprovaram a lei. E o governador, insinuando que a culpa de tudo estava com os grevistas, disse, sem abrir mão de qualquer privilégio, que só podia lamentar toda acontecência.

Vivemos um tempo de inversão de valores e contradições. Estes dias estudantes depredaram a escola onde estudavam, no interior de Goiás, para protestar contra a diretora que exigia disciplina e cumprimento de horário. Aprendi muito cedo que disciplina e divisão do tempo entre lazer e produção sempre foi a base da civilização e da dignidade. Por isso o rum nunca foi um entrave à defesa de nossas sonhos, à concretização de nossas lutas.

As vezes sinto muito a falta da ira santa de meu amigo Pereira. Como assistiu a derrocada da União Soviética? À Queda do muro de Berlim? Ao fim da ditadura militar? Por onde ele anda? Como está vendo o mundo? Sei somente das lições que seu doce e contraditório radicalismo involuntariamente imprimiu em meu espírito.


UM CANTO DE TERNURA

Edu Lobo costuma brincar com as pessoas que conhece fazendo uma única pergunta: Onde você estava quando ouviu Chega de Saudade pela primeira vez? Eu não saberia responder, mas tenho a impressão que ouvi o clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes numa gravação de Gal Costa e não na arrebatadora interpretação de João Gilberto.

Isso se deu nos idos de 1973 quando a baiana lançou o clássico LP Índia, que vinha envolvido por um plástico azul. E quando a gente abriu aquele mistério desvendava uma das mais belas capas de disco que a pouca pureza de meus doze anos permitia contemplar. Que sonhos sonhei com aquela doçura a dizer que no peito dos desafinados também bate um coração? Outra de minhas infindáveis incertezas.elis-regina

O que lembro perfeitamente é de ver pela precariedade de uma TV em preto e branco uma pequena e jovem cantora sacudir os braços enquanto convocava todos para a beleza dos versos de Vinicius de Moraes musicados por Edu Lobo e o Arrastão se espraiando pelo palco, pelo mundo, pela minha devoção eterna. Era Elis Regina com sua força irresistível. Desde então nunca mais parei de ouvi-la.

Hoje acho estranha esta lembrança. O 1º. Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, ensina-me o professor Google, que Arrastão e Elis ganharam, se deu em 1964, e eu ainda não tinha feito três anos de idade. Não acredito ser tão prodigioso nas lembranças. Não importa, enfim, o certo é que sei da imagem e da imensa ternura daquele canto.

É certo também que a paixão pelo canto de Elis é antiga, data de séculos, talvez. E estranho mesmo era um amigo meu que morava em João Pessoa, o Gordo. Era dono de uma invejável discoteca, onde se podia escutar de tudo, ou melhor, de quase tudo. Um dia, garimpando entre raríssimos discos de tudo quanto era estilo, estranhei: “Ô Gordo, você não tem nada de Elis Regina?” “Detesto essa moça”. Pronto, foi o que bastou. Durante o resto de nossa amizade travamos homéricos duelos salientando os prós e os contras da cantora.

Nestas brigas eu podia exibir com bravata minha “intimidade” com Elis. “Gordo, aquela mulher tem um domínio de palco e sua voz ao vivo é de uma clareza…” E discorria os momentos vividos em dois de seus grandes shows, Falso Brilhante e Transversal do Tempo, que assisti extasiado no Teatro Santa Izabel. Realmente era algo deslumbrante. Elis, com pouco mais de um metro e meio domando uma banda refinadíssima, de músicos habilíssimos e uma voz capaz de enfrentar todas as modulações e todos os tons. Uma pitonisa encarnada a nos encaminhar pelas veredas do sublime.

E como não consiga convencer o Gordo, sacava minha mais poderosa arma em defesa da gaúcha. “Pois saiba que ela é muito generosa, e não estou falando apenas dos tantos compositores jovens que ajuda a descobrir.” E então contava minha mais doce lembrança da cantora. Era Recife e os tempos eram de repressão política. Talvez tenha sido em 1978 quando Elis percorria o país com o show Transversal do Tempo. A cidade vivia a angústia de ter Cajá, secretário de Dom Helder Câmara, preso pela ditadura militar.

Todas as formas de resistência eram válidas para dizer da indignação de muitos. E assim, na segunda-feira após o final de semana em que Elis se apresentou, foi celebrada pelo próprio Dom Hélder uma missa pela libertação de Cajá. Saí do Teatro do Parque depois de assistir ao Projeto Pixinguinha, acho, com Nara Leão e Dominguinhos, e fui direto para a igreja, que ainda estava meio vazia. Sentei em um banco imediatamente atrás da fileira de bancos destinados aos convidados. E vejo Elis Regina e toda sua banda sentarem exatamente em minha frente. Pouca atenção prestei à missa e ainda tive a indescritível emoção de abraçá-la. Literalmente um adolescente diante de seu sonho.

Anos depois, conversando com Paulinho Tapajós, ele me disse que Elis tinha um humor extremamente variável. Um dia, sabendo que ele estava reformando sua casa, ofereceu-lhe umas grades que talvez fossem úteis à reforma. Paulinho foi, no dia seguinte, à casa de Elis para buscar as tais grandes e foi recebido com apupos e desaforos. Respondeu com outros tantos desaforos e se mandou. Poucas horas depois chega à porta de Paulinho um carro com as grades, um buquê de rosas e um pedido de desculpas de Elis.

Em outras palavras, a Pimentinha bem merecia o apelido que lhe deu Vinicius de Moraes.

Assim o melhor mesmo é continuar ouvindo seu canto de ternura, um canto capaz de acender vidas.

Nestes dias em que se comemorou os setenta anos da cantora vi, entre surpreso e feliz, o depoimento de seu filho João Marcelo Boscôli. Ele contava que nasceu desenganado pelos médicos. Era uma criança frágil, incapaz de sobreviver. Elis pediu para ficar com o menino naquela que seria sua única noite, e cantou baixinho no ouvido da criança durante toda noite.

Na manhã seguinte, quando o médico voltou ao hospital, ficou espantado. O menino já não tinha mais nenhum sinal de fragilidade e com certeza sobreviveria e com certeza fora salvo pelo canto de ternura da mãe.

Sua morte também foi uma terrível surpresa. Lembro que estava em Matriz de Camaragibe, nas Alagoas, e pelo resto do dia fiquei diante da televisão vendo todas as notícias, enquanto na vitrola tocavam todos os discos de Elis que estavam à minha mão. E muito bebi em sua homenagem.

Sei que a maturidade chega quando as músicas que gostamos já não tocam no rádio, mas foi pelo rádio que estes dias escutei a voz de Elis em dueto com Gilberto Gil cantando Ladeira da Preguiça. No final o locutor me trouxe frustração e alegria. Quem cantava era Maria Rita, sua filha que traz na voz uma Elis sempre viva.


UMA GAITA NA PAULISTA

Era uma tarde como outra qualquer e eu vinha de um compromisso, como outro qualquer. Nada mais se anunciava no horizonte restrito marcado pelos arranha-céus imensos da Avenida Paulista. Uma multidão na velha rotina de se espremer pelos espaços largos, mas mesmo assim insuficientes do velho logradouro. Se o instante pedisse poesia, daria até para parafrasear Drummond: A rua passa cheia de gentes: gentes brancas pretas amarelas. Para que tanta gente, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.

Habituei-me a transitar entre pessoas, correr diuturnamente como qualquer bicho urbano. E para aguentar tamanha overdose de barulhos e ansiedades vez por outro me refugio em recantos tranquilos, mas logo desce a noite e com ela os demônios da solidão turvando o ambiente onde até o acalanto do silêncio se torna opressivo, e aí recorro à música, aos bares, e aprendo que o silêncio somente se faz belo quando em contraponto com o ensurdecedor delírio da urbanidade.

Isso se deu num dos desembarques em Fernando de Noronha, nosso lado leste do Éden. Ali se caminha pelos dois extremos de um mesmo barbante. Silêncio de fato é coisa rara, há sempre o mar a bater, pássaros a cantar, quando não o canto desafinado e melancolicamente eufórico dos turistas. Para os mais insistentes, no entanto, há a possibilidade de se buscar a canção do vento olhando o amanhecer que chega junto com os golfinhos à baía dos Golfinhos, uma enseada entre a praia do Sancho e a baía dos Porcos.

Na cata desta aventura, lá estava eu, às quatro horas de uma madrugada, em pé na frente da pousada que me abrigava. Logo chegou um desses jipes Toyota Bandeirante capazes de enfrentar qualquer atoleiro mais renitente. E fomos nós, eu e uma família paulista “na ânsia incoercível de roubar a luz, / (…) à espera de que o sol desponte”, diria Augusto dos Anjos. E enquanto o sol não chegava, conversávamos. Ao saber que o grupo se formava em sua maioria por paulistas, o motorista revelou seu sonho. Ficar todo um dia caminhando pela Avenida Paulista.

Mesmo no paraíso de Noronha o imaginário da Paulista doma as pessoas. Por isso todas as vezes que atravesso seus quase três quilômetros, mesmo pressionado pela urgência que ali se respira, ainda me paro a pensar como ela se tornou esta gigante, este símbolo de todas as riquezas e todas as misérias deste país gigante.

Zélia Gattai morou numa rua paralela à Paulista lá pelo primeiro quartel do século passado, quando ainda havia ali somente casarões herdados da fartura do café. O luxo já então ficava na avenida, onde os leiteiros e os cortejos fúnebres eram proibidos de passar. A exceção apenas para os defuntos de escol, os barões, os aristocratas. Foi assim que a menina Zélia, com as veias anarquistas da família italiana, aprendeu a conhecer as desigualdades e as injustiças do mundo.

Hoje já quase nenhum casarão está de pé, a maioria tombou para abrir espaço para os espigões que furam o céu e ocultam o horizonte. O concreto começou a deitar suas teias lá pela década de 1950, quando a moça deixou de ser exclusivamente residencial e logo vieram os altos edifícios e se alargaram as calçadas e talvez tenha sido nestas amplidões limitadas pelas construções que nasceu o sonho de poesia concreta, para descaso de meu amigo Alexei Bueno: “Em uma cidade feia como São Paulo só pode nascer mesmo uma poesia concreta”, costuma desabafar.

Curiosamente o acervo do poeta Augusto de Campos, um dos pais do concretismo, está abrigado numa sala climatizada da Casa das Rosas, um dos últimos casarões sobreviventes da Avenida Paulista. E vejo nisso um casamento perfeito, pois da varanda do espaço cultural é possível ver um colorido retrato, ao seu modo, cubista de outro cultor do concreto armado, o arquiteto Oscar Niemeyer. A obra é de um gênio da arte mural, o grafiteiro Cobra.

A Paulista tem esta capacidade de síntese da nação, e mesmo a miséria dosa sua presença por ali. Sob o vão livre do Masp, a bela caixa retangular de concreto concebida por Lina Bo Bard, onde se guarda uma das mais valiosas coleções de arte do planeta, um espaço sobrevoado por incansáveis e barulhentos helicópteros, vi numa manhã de sol um homem a comer restos de pão que ele ordenadamente organizara no chão, e fumava restos de cigarro que encontrava numa caixa de areia que tinha ao lado.

Sob este mesmo vão, num domingo, vasculhando as barracas de uma feira de antiguidades, encontrei um dos Quixotes que moram comigo em minha casa.

Em uma tarde não muito longe, do camarote plácido de um bar, vi a avenida ser invadida por uma horda de desgraçados, mutilados, feridos de uma batalha que desconhecia. De que recanto selvagem vinha aquela horda coberta com farrapos pretos de onde pingava sangue? Antes de encontrar a resposta percebi que desfilavam com sincronismo e até graça. E assim descobri que a moda ditava marcar pela Internet essas modernas procissões de zumbis. Divertiam mais que aterrorizavam.

Voltando à tarde inicial desta crônica, vinha no ritmo de pressa que a avenida nos exige e pouca atenção dava ao som ao redor. Estava obsecado pela estética de mais um livro que tinha lido e sobre as vertentes de um autor que precisava entrevistar quando a surpresa me parou. No meio da multidão um som novo e estranho para mim. De bermuda, chinelo e camiseta o que me pareceu um autêntico escocês tocava sua gaita de fole e conseguia a mágica liberdade de trazer serenidade para o mundo feérico da Paulista. Um alinhamento natural para este universo de contradições.


POEIRA E CAÇUÁ

Nos conhecemos nos espaço da adolescência, nos idos de Palmares Era o tempo dos cabelos compridos, das calças boca-sino, do violão sob os braços. Um estética meio hippie dominava o visual da turma: Célio Coelhinho, Nito, Zé Ripe, Gulu, Marcos Ripe, Ozi.

Tentávamos inventar nossas próprias canções enquanto escutávamos o que havia de mais brasileiro naquele instante.

Da terra de nascença tirávamos Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Alceu Valença, Flaviola, Marcone Notaro, Ave Sangria, o Pessoal do Ceará, Fagner, Belchior, Djavan, Pinto do Monteiro, Lourival e Dimas Batista, Baracho, Lia de Tamaracá; de outras plagas vinham Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Vinicius, Tom, Almondegas, Cartola, Beth Carvalho, Carlinhos Vergueiro, Milton Nascimento, Márcio e Lô Borges – os ouvidos eram antenas eternamente ligadas a todos os sentidos. Ou melhor, a quase todos. Lembro que um dia, na ressaca, por questões de preferência e cefaleia, quebrei um disco do Kiss que o irmão de Gulu teimava em escutar.

Sinceramente já naqueles idos nos encantavam bem mais os assovios de Veludo do Pife. Até hoje lembro com respeito e admiração uma estrofe recitada por um seu ajudante, o João:

Eu subi no céu a pé
Fui falar com o Criador
E Pedro me perguntou:
João o que que tu quer?
Vim falar com São Tomé
Que é de minha obrigação
Que eu quero meu coração
No riso de uma mulher.

Depois nos perdemos, mas vez em quando nos reencontramos. Como velhos amigos, nos divertimos com as lembranças. Vários ainda fazem música: Marcos Hippie adotou o nome de Marcos de Olinda e vive no Rio de Janeiro, Zé Ripe outro dia cantou as estações de trem que separam Palmares do Recife, Nito faz shows infantis nas Alagoas, Ozi dos Palmares circula pelas brenhas de São Paulo com CDs e encontros com Dominguinhos e o maestro Spok. Outros, como eu, Célio e Gulu, ficaram mesmos voltados aos descaminhos burocráticos que a vida prática pede.

Nunca pensei que as velhas parcerias voltassem, mas como gosto de batucar sandices e inventar histórias num teclado de computador, esse dias fiquei surpreso com o pedido de Ozi: Queria uma letra para musicar. Provocado, arrisquei. O resultado está aí e, como diria Ariano Suassuna, se gostarem podem aplaudir, se não gostarem façam de conta que não ouviram

Poeira e Caçuá

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Caminho de sol, macambira e pedra
Com a poeira embaçando o além.
O peito é todo um caçuá de alegria
Sonho sonhando com o cheiro do meu bem.
Dedilhando na viola uma cantiga
Me anuncio pelo apito de um trem.

Nessa viagem do sertão até a mata
Só a saudade é o que maltrata.

Agreste é terra onde planto as tristezas
Prá florescerem no mundo da esperança.
Engordo o gado com o sal dos sentimentos
Que faz nascer um sorriso de criança.
E desço o rio na barcaça dos contentes
Pois o sol nasce sempre com minha chegança.

Invado a mata que sobrou no meio da cana
Sinto na pele os pingos fartos do orvalho.
Mastigo o doce do melaço dos teus beijos
Nosso destino nesse sítio eu embaralho.


A VAIDADE REPAGINADA

A moça se achegou à mesa onde, procurando o que fazer numa manhã de repartição pública, lia em paz o meu jornal.

– Sabe o Jards Macalé? Você sabe que ele é meu amigo, não sabe? Pois eu não te conto.

Ficou feliz quando comunique que sabia quem era o compositor carioca e mais, também tinha conhecimento de sua amizade com ele. Apesar de ter prometido não contar, ela terminou por destrinchar uma historinha interessante.

Depois de incontáveis casamentos, Jards se apaixonou pela cantora Anna de Holanda, então ministra da Cultura, e resolveu pedir o aval de Miúcha, espécie de matriarca informal da família Buarque de Holanda. Tomou o telefone e se pôs em ação:

– Miúcha, estou apaixona pela Anna e quero saber se na família ainda tem espaço para negro?

– Para negro tem, não tem mais espaço é para doido.

E assim terminou o movimento do barco que não chegou a sair do cais.

Minha amiga também foi embora e eu voltei aos meus jornais para continuar assistindo ao espetáculo das celebridades e das pessoas que giram em seu entornou, afinal, sobretudo depois que os celulares passaram a filmar e a fotografar, cresceu em proporções geodésicas a multidão dos que conhecem celebridades. Ou pior, daqueles que se dizem celebridades.

Longe se vai o tempo em que tudo não passava de uma brincadeira quase inocente. Neste idos, em Palmares, circulava um tipo popular – uma história de quando havia ainda tipos populares –, o Dito. Ele se dizia tão conhecido que até Ataulfo Alves teria feito uma música para ele. Claro que ninguém acreditava nisso, mas ele provava cantando um verso de Na Cadência do Samba:

– Diz o Dito popular morre o homem, fica a fama.

Contando isso a um amigo meu de São Paulo, o Dirceu (não era o José, que fique bem claro), e logo ele atacou:

– Não seja por isso. Erasmo Carlos fez uma música prá mim.

E cantarolou: “Um homem prá chamar Dirceu, mesmo que seja eu.”

Nessa proposta de se fazer íntimo de mitos, celebridades, famosos, pessoas de escol, etc., etc., ninguém conseguiu ir tão longe quanto Tira-Teima, o Serpente da Palmeira, já que nascido fora na Palmeira dos Índios, nos recantos das Alagoas. Pois bem, o poeta repentista e irresponsável de carteirinha, talvez para pagar todos os pecados que cometeu vida a fora, tinha uma irmã que era freira, esposa de Jesus, como gostava de salientar o cantador. Assim, todas as vezes que se atrevia a falar das Escrituras, começava de maneira pomposa:

– Quando meu cunhado andava pela Palestina…

Nos tempos modernos a coisa é bem mais grave. Por esses dias, numa roda de boteco, se praticava o esporte de preferência nacional: falar mal de políticos. Cada um que contasse um caso mais escabroso que o outro. Eu que não tenho mais paciência para estes exercício – como Kafka, tudo que não é literatura me aborrece -, tentei mudar o rumo da prosa:

– Camaradas esta conversa é muito antiga, pois como diz o padre Antônio Vieira “tempos houve em que os demônios falavam e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos, ainda é pior mundo.”

E logo uma mocinha saltou na frente.

– Gostei desse padre, é melhor que o padre Marcelo. Onde é que ele reza missa? Vou lá só prá tirar uma foto com ele.

Voltei à cerveja, com preguiça de comunicá-la que, pelos meus parcos conhecimentos religiosos, desde 1697 que ele talvez faça pregações no céu.

Mas assim são os viventes, não apenas sonham em se tornar celebridades, querem ser íntimos de tais peças. E a qualquer sinal de possibilidade já se põem a postos para a ação. Em outro boteco tocou meu celular.

– Desculpem, preciso atender. É o Santana, um artista amigo meu.

E logos uns dois queriam saber se se tratava do guitarrista mexicano. Desculpem, não chego a tanto, aliás quase nunca escuto o ícone de Woodstock. O telefonema era mesmo Santana, o Cantador, amigo velho ainda dos tempos de Palmares.

E por falar em México, andava zanzando pelo Rio de Janeiro quando soube que o escritor mexicano Carlos Fuentes iria falar sobre suas leituras de Machado de Assis. Desabalei para a Academia Brasileira de Letras. Num momento lá qualquer conversava com Nélida Piñon quando uma senhora de aspecto distinto se aproximou.

– Desculpe. O senhor pode tirar uma foto minha com a escritora?

E já foi me passando a máquina. Fiz-lhe a gentileza e ela sumiu no meia da multidão, não sem antes me perguntar o nome e agradecer-me.

Dias depois, em minha caixa de e-mail, a surpresa. A dita senhora, não sei como descobriu meu endereço eletrônico e mandou-me várias das fotos que conseguiu naquele dia de glórias – para ela, que fique bem claro – e um texto onde comunicava e se desculpava. Dizia ter me encontrado na internet e que não tirou uma foto comigo por não saber que eu também era famoso. Logo eu, famoso? Só se for prás minhas negas, como se dizia antigamente.

É isso. Parece que pouco adiantou Deus ter cunhado a vaidade como um dos sete pecados capitais.


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