OUVINDO FREVO

Quando a vida é boa, não precisa pressa. Até quarta-feira, a pisada é essa. Pra que vida melhor? Fale quem tiver boca! Eu nunca vi coisa assim! Oh! Que gente tão louca!…

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Mestre Alcides, mecânico por profissão e boêmio por opção, depois de quatro ou cinco doses, saía a cantar serestas e dores de cotovelo pelas ruas de Palmares. Para surpresa de todos, naquela manhã – biriteiro de respeito, ele não tinha hora para beber -, com sua voz de quase Vicente Celestino, o mestre se fartava em um frevo.

– Danou-se. O mestre já está no carnaval… – Gritou algum inconveniente.

Assim se fazia a vida. Injustamente frevo era música para se tocar no carnaval e praticamente durante todo o ano vivíamos privados dos emocionantes acordes que tanto nos toca o coração e a alma.

Eu mesmo fui vítima do preconceito. O fato se deu logo depois que desembarquei em Brasília.

O dia amanheceu azul, azul tão lindo que me faz sonhar…” Era um julho já bem longínquo e eu, mesmo envergando paletó e gravata, de certa forma sonhava enquanto baixava nos corredores da Câmara dos Deputado, onde trabalhava. Entrei na sala cantarolando um frevo já agora antigo. “De Pernambuco eu trago um abraço, um traço, um laço e a barriga pro ar. Um frevo torto, um pecado bem moço, um sorriso no bolso e um deixa pra lá…

O compositor, Marcelo Montenegro, e a música se perderam nos eflúvios (sempre quis usar esta expressão) do tempo. Nunca mais tive conhecimento de ambos, e até o compacto simples, gravado pela Rosemblit, que por anos guardei em minha coleção de discos, sumiu misteriosamente num desses encantamentos da arte. O certo é que cantarolava o frevo e alguém me interceptou:

– Mas isso não é música de carnaval?

É sim, música de carnaval, devo ter respondido, mas já ali solidificou-se em mim a certeza de que o frevo está bem além dessa limitação. A sofisticação de sua melodia preenche a alma de todo um povo e isso o faz útil e pertinente em todas as épocas do ano. Nós pernambucanos trazemos no âmago esta melodia. Aprendemos com sua poesia a descobrir o real sentimento telúrico. Brincamos reconhecendo a fortaleza de seus acordes. E seguimos pela vida a cantar sua riqueza.

Quem é de fato bom pernambucano” é também capaz de alinhavar em seu cotidiano, “de janeiro a janeiro”, a melodia excitante, pois isso é que marca uma das nossas características. A capacidade de poder ser feliz mesmo cantando em tom menor.

De chapéu de sol aberto” conquistamos as praias de todos os recantos do mundo com um riso escancarado para a vida. Somos felizes mesmo na miséria que também nos marca e macula. E não precisamos apenas do carnaval para demonstrar nossa alegria.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Conto isso.

Voltei Recife”, depois de quase um ano de ausência, bem no começo de um dezembro, e já ouvi pelas ruas os “clarins de Momo”. Isso mesmo – dezembro já era carnaval. Ante meu espanto fui atualizado por um amigo. Moço, aqui é frevo o ano inteiro. Só se abre uma exceção nas lidas juninas, e olhe lá.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Preciso voltar amiúde à terra, “mas tem que ser depressa, tem que ser pra já. Eu quero sem demora o que ficou por lá.” Voltar a dormir “um sonho que durou três dias” e me que despertou para a certeza de que “o Recife tem o carnaval melhor do meu Brasil”. E vejo isso pelas ruas. Meninos, eu vi Naná Vasconcelos com quatrocentos batuqueiros de maracatu abrindo a “festa maior da raça” tocando uma bachiana de Villa-Lobos. Este encanto prova, com todas as possibilidades de uma equação matemática, que não existe época nem tempo para se deleitar com o “micróbio do frevo”, pois ele “é de amargar”, né Capiba?

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Mas as pessoas são resistentes.

Bebericava uma cachaça no sossego de minha casa deixando que Claudionor Germano, a voz do frevo, no bem dizer de José Teles, alumiasse todo o ambiente falando de tempos idos – “Antigamente quando eu ouvia, vindo de longe, a orquestra de meu bloco…” -, quando um vizinho entra mitigando seu espanto: Chegou carnaval? De imediato lembrei de um amigo que gostava de ouvir ópera a pleno volume e tinha que escutar o desaforo dos vizinhos: Chegou ele com essa música de velório. Destarte não tive como fugir da resposta. Não chegou carnaval, apenas a alegria não foi ainda embora.

E isso é o frevo: a felicidade perene. Mesmo quando fala de desilusões: “A dor de uma saudade vive sempre em meu coração, ao relembrar alguém que partiu deixando a recordação, nunca mais…” Há sempre uma certeza de que esses amores de carnaval se perpetuarão. “Domingo brincarei com você, meu bem. Segunda-feira brincarei com você também. Terça-feira, nem é bom falar, brincarei com você até o sol raiar… E no carnaval do ano que vem brincarei com você e o bebê também…

Por isso canto frevo trezentos e sessenta e cinco dias por ano, pois nunca deixei de atender às pastoras de Getúlio Cavalcanti: “Falam tanto que meu bloco está dando adeus pra nunca mais sair e, depois que ele desfilar, do seu povo vai se despedir. No regresso de não mais voltar, suas pastoras vão pedir: Não deixem não que um bloco campeão guarde no peito a dor de não cantar…

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Por isso canto.

Como Mestre Alcides, não escolho tempo nem hora para ser feliz.

Evoé Baco!


UM ANO BOM

O tempo passa, mas as histórias, parece, perderam a idade. Usando de um vocabulário mais comum, não acredito na condição de envelhecimento dos fatos, das histórias. Digo isso diante do inevitável: estamos em fevereiro, mas ainda me inquietam as acontecências do ano passado, de um 2016 não muito bem louvado. E já pisamos nos passos e compassos de fevereiro. Neste ritmo até pensei em cantar com Marcelo Montenegro, um infelizmente esquecido cantor e compositor catendense, autor de um precioso frevo: “Capiba, chegou fevereiro, o ano inteiro cansei de esperar…

Nada de melodias alegres, minha atenção continua voltada para as marcas do passado, um passado não tão distante, mas, mesmo assim, um tempo pretérito: 2016. Um ano, segundo a voz geral, de desgraças e maldições. E por andar na contramão das gentes, conto histórias.

Éramos uma mesa de confraternização de final de ano, como outra qualquer. Nada de opulências nestes tempos de crise. Sequer podíamos cantar, como o poeta Carlos Pena Filho, “são trinta copos de chopp, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados”. Ali éramos apenas cinco pessoas, cinco amigos diante de uma mesa com alguma cerveja, sucos de frutas e água mineral a se despedir de um ano complicado. Entre uma beliscada e outra no petisco que servia de entrada, as mágoas deixadas pelas águas há pouco passadas iam sendo debulhadas.

Um dos presentes perdera a esposa, depois de um casamento de quarenta anos. Foi uma perda difícil, dolorosa. Como os personagens bíblicos, por quarenta dias a mulher foi definhando com o câncer que lhe comia as energias vitais, desfazia sua vida, deitava silêncio sobre os dias de um futuro que não chegou a existir. Por quarenta dias, o marido chorou suas dores e a fatalidade irrevogável de seu destino de viúvo. E ali contava seus lamentos para finalizar com uma assertiva também fatal: “Agora é seguir a vida…”

Um outro, jornalista de longo curso, conhecedor de antigas redações, onde a máquina de datilografia, o cigarro e alguns goles de uma bebida qualquer – do café à cachaça – eram uma ordem inconteste e temperavam as longas conversas, também tinha um carnê de mágoas para quitar. Lastimava-se do infarto que sofrera, da obrigatoriedade médica de abandonar um velho companheiro, o cigarro, a quem ainda se mantêm teimosamente fiel. “Mas agora fumo bem menos”, garante, assegurando ainda que a dor do infarto é tão aguda quando a clássica dor do parto, segundo relatos incontáveis que ouviu em sua outrora passagem pelo jornalismo policial. “Mas ainda me sobrou vida para alguns tragos, de cerveja e cigarro, afinal, cavalo velho não aprende pisada nova…”

O mais novo da roda, também já sabia contar as contas de um rosário. Não vira mortes próximas nem sentira as agruras do coração, nem mesmo os amorosos. Seu casamento estava seguro e o emprego garantido. Mesmo assim perdera renda. Tinha umas aplicações que não renderam lá o montante sonhado fazendo adiantar para tempos mais prósperos uma longa viagem de férias. Também diluíra nas águas da Petrobrás umas poucas, mais outrora valiosas, ações. Precisava reconstruir o patrimônio pois a esposa estava cansada de morar de aluguel e já não tinha mais renda que permitisse se cadastrar no Minha Casa, Minha Vida. Mesmo assim queria celebrar a vida e distribuía vinho e chocolate aos presentes.

A única mulher da mesa lamentava o aperto que fez o pai de sua filha perder recursos e, consequentemente, diminuir a pensão alimentícia. Também, a filha andava com problemas na escola e a artrose da mãe, já bem idosa, se agravava e ela, a filha, sentia crescer as responsabilidades de suas costas nem lá tão largas. Além disso havia o problema financeiro. O salário já não acompanhava o padrão de vida de antes e algumas restrições já começavam a se apresentar em sua mesa e em seu guarda-roupas. “Ainda bem que, pelo menos hoje, temos uma mesa farta. Vamos celebrar.”

Diante daquela mesa, na medida do possível, farta, já nos últimos dias do ano, comecei a enxergar 2017 como um puxadinho de 2016. Nada no horizonte claro e aberto de Brasília anunciava bonança. Lá nos longes, as nuvens escuras, bonitas de chover, nuvens da invernada de janeiro caminhavam em nossa direção…

De repente despertei para o óbvio. Chegamos ali porque vivemos, diria o Conselheiro Acácio. E de minha parte o ano não foi tão trágico. Tive dores, mas nenhum infarto de próprio peito nem morte em família, também. E 2016 não foi de todo mau. Nas orlas da aposentadoria, vi crescer as perspectivas daquilo que sempre quis ser: um escritor full-time. Ganhei prêmios literários. Estreei como teatrólogo. Assinei contratos para novos livros. Retomei velhos amores, como a delícia de reler Hermilo Borba Filho, Osman Lins e Nikos Kazantzákis. Cultivei novas e velhas amizades. Tomei bons vinhos em boas companhias. Conheci novas terras e sabores. Vivi a vida com a intensidade que ela merece.

Um ano qualquer pode ser difícil ou mesmo bom, como todos os anos – outra inspiração do conselheiro. O normal, no entanto, é que ele tenha as duas faces, como Jano, o mito romano. Afinal em um espaço de 361 dias pode acontecer tudo, inclusive nada, como diria Acioli Neto. Há sempre os momentos tensos e outros nem tanto, afinal assim se faz a vida. E a vida é imponderável, imprevisível, quase sempre. Seus tijolos se fabricam em diferentes fôrmas, são modelados por oleiros vários, não se repetem, enfim. Daí seu fascínio.

O que importa é que o dólar caiu, o presidente dos Estados Unidos é maluco, nossa política se equilibra entra a tragédia e a comédia, esta crônica de Ano Novo está atrasada, semana que vem é carnaval e nós estamos vivos.

E viva a vida.


PARA NOS LIVRAR DO MAL

O livro simplesmente chegou às nossas mãos e rodopiou inquietantemente no círculo daqueles jovens ávidos por leituras – qualquer leitura. Creio que não nos interessou discutir sua trajetória, seu caminho improvável das prensas de uma gráfica até aqueles recantos da cidade. Apenas nos desafiava a necessidade e a urgência de sua leitura.

Palmares, naqueles idos da década de 1970, era cercada de mistérios. Um dia acordei – e já desde aqueles tempos costumava acordar nos cedos dos dias – com o Exército em minha porta. Soldados fardados, paramentados, com fuzis, baionetas e outros tantos aparatos bélicos acampados bem ali, no longo da praça Santo Amaro. Pareciam fazer um exercício qualquer, movimentos indecifráveis para meus pobres olhos de civil. Para aquele pouco mais que um menino que fui, sonhador de horizontes liberais, estava ali a concretude do clima aterrorizantemente opressivo que se vivia então. E o medo criou asas e pairou sobre a cidade durante longas horas.

Pouco adiantou o gesto de simpatia dos samangos a distribuírem barras de chocolate e pequenos fogareiros de fogo breve, mas ainda capaz de fazer um café ou cozinhar um ovo. Tudo era medo e apreensão. Até que no final da tarde os homens fardados desmontaram suas barracas, montaram na carroceria de caminhões fechados e seguiram seus destinos.

Ficou o mistério da visita. E a pobre urbe açucareira retomou sua passividade.

Assim era Palmares, e o grupo de adolescentes corria à cata de leituras e músicas e sonhos e liberdades e tudo aquilo que imagina conquistar todo aquele que sequer tem corpo e força para as lutas naturais da vida. E no meio do turbilhão estava o livro e suas provocações, com seu título e o nome de seu autor a nos provocar: Minha Luta – Adolf Hitler.

Com o bicho debaixo do braço, corri para a rede que se armava numa varanda dos fundos da casa. Foi uma tarde de confirmação do horror e quase nenhuma surpresa. Naturalmente que é sempre muito fácil ser profeta do passado, mas a cada linha lida, pelo pouco que ainda lembro da experiência, uma linguagem panfletária e odienta confirmava a ambição pelo poder, a defesa do totalitarismo, a disposição de promover o extermínio de tudo e de todos que lhe impedissem a ação.

Fechei o livro crente que dele nada restava senão um discurso e uma loucura. Estava feliz, no entanto. Mais uma vez a leitura tinha me salvado.

Explico.

Só com conhecimento é possível entender e combater as ideias adversárias. E ali, naquele instante, definitivamente me afastava das correntes da opressão, viessem elas pela esquerda ou pela direita.

Anos depois, entrando no gabinete do senador Teotônio Vilela, o velho Menestrel das Alagoas, confirmei esta certeza ao ver sobre a mesa um outro livro: Conjunto Política – O Poder Executivo & Geopolítica do Brasil. Autor: Golbery do Couto e Silva.

– O senhor está lendo isso, Senador?

– Claro, seu Maurício. A gente precisa conhecer o que pensa o adversário para melhor combater o bom combate.

Hoje acredito, embora não encontre razões para isso, que o mundo subestimou o discurso e a loucura de Hitler. Seus gestos de fanfarrão talvez tenham maquiado o mostro que se encobria com a capa do puritanismo. Vale lembrar que aquele senhor de bigode bizarro não bebia, não fumava, era vegetariano e tinha propensões para as artes plásticas.

Diante desta informação, aliás, nasceu a piada pronta que encantou minha geração. Melhor mesmo é ficar com Winston Churchill, que bebia e fumava diariamente, além de ser um ótimo frasista: “Eu me uniria ao próprio diabo para combater Hitler”, justificou sua união com Stalin.

Há pouco tempo o Minha Luta entrou em domínio público e explodiu em todo o mundo uma febre por sua reedição. O fenômeno se explica pelo fato de a Alemanha, detentora dos direitos autorais, sempre ter proibido sua circulação. Por aqui a Geração Editorial preparou uma edição especial, prenha de artigos e comentários escrito por especialistas. Mas um juiz, não sei bem de onde, proibiu a circulação do livro.

O magistrado deve ter lá suas razões, no entanto não acredito que elas sejam tão intensas, tão imensas, tão capazes de mascarar um fato histórico. Além disso, não tenho certeza se um texto como aquele, de baixa qualidade literária e tão cheio de ódio, guarde poderes para forjar cidadãos totalitários. As pessoas, defende minha parca filosofia, guardam propensões que terminam por aflorar em uma hora qualquer e formulam suas crenças baseadas nas próprias experiências e na maneira como constroem o próprio caráter.

Li Minha Luta e abominei o nazismo, como li um outro livro, escrito por um religioso, onde se ensinava todas as técnicas para melhor arrancar confissões dos hereges. Este texto foi leitura obrigatório dos inquisidores do Santo Inquérito lá pela segunda metade do segundo milênio. É um texto forte, e até comovente em alguns momentos, mas nem por isso tornei-me torturador.

“Todo pessimista é um chato. Todo otimista é um tolo. O melhor é ser realista.” Aprendi a lição com o mestre Ariano Suassuna. Acredito que a leitura forme, transforme os homens. Eu mesmo sou um exemplo disso. Tudo que fiz e conquistei, se conquistei alguma coisa na vida, foi a partir de minhas leituras. Destarte sei a força e o poder dos livros, mas a diversidade deles é que estabelece a diferença entre o bem o e o mal.

Acho que não voltarei a ler o Minha Luta, pois tenho mais o que fazer na vida, mesmo assim sou contra sua proibição. Conhecer o que pensam nossos desiguais é também uma forma de crescimento.


UMA CRÔNICA ROUBADA

– Você tem uma crônica para me emprestar?

Quem me contou dessa prática foi Fernando Sabino. O mineiro disse-me que, no sufoco do prazo e diante da total e absoluta falta de assunto, costumava ligar para os amigos – Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos eram os, digamos, agiotas mais requisitados – solicitando o empréstimo de uma crônica. A recíproca também era verdadeira. Várias vezes teve que ceder breves histórias que serviram de brilhantes textos dos amigos.

Eles somente não ousavam incomodar o velho Rubem Braga. Paulo Mendes até que tentou. Apanhou o telefone e fez o desesperado pedido.

– E eu lá tenho crônica para emprestar a vagabundo! – respondeu um vetusto cronista batendo o telefone.

Desesperado para voltar a ocupar este espaço fubânico, e na ausência de cronistas a quem ligar e de um assunto qualquer que fugisse de nossa política prenhe de largas emoções, apelei para o roubo. Isso mesmo, roubei uma crônica e confesso o crime.

No final do ano passado, querendo prestar uma homenagem à Rádio Cultura dos Palmares, o editor Arnaldo Ferreira, das Edições Bagaço, me ligou. Tencionava fazer uma agenda para o ínclito sistema de comunicação. E pediu-me um texto. Escrevi uma crônica.

As condicionantes da vida, no entanto, murcharam o projeto e a crônica ficou quicando nos arquivos de meu computador.

Hoje lembrei da coitada.

Destarte, impoluto leitor, eu, ladrão de mim mesmo, apresentou-lhe a crônica roubada.

* * *

Palmares Falando com o Mundo

A rua se chamava Coronel Izácio, mas a gente só falava no Caminho Para Treze de Maio. Entre a repressão militar que se insinuava na possível bravura de um coronel que até hoje não sei de quem se trata e a liberdade da data festiva, vivíamos num Palmares lúdico, em um terreno de descobertas. E o edifício avermelhado, de fachada alta, com amplo auditório nos levava a imaginar o mundo que estava para além do horizonte de canaviais, para além da ponte de Japaranduba.

Todas as manhãs despertávamos às oito horas com o prefixo da Rádio Cultura dos Palmares, que não chegava a ser uma rádio, mas um serviço de alto-falante. Naquelas primeiras horas vinham as notícias lidas das páginas do Diário de Pernambuco. E ficávamos sabendo de mortes e tragédias e esperanças e tudo mais que o mundo podia oferecer às imaginações soltas e perdidas naquele microcosmo com cheiro e sabor permanentes de açúcar e injustiças e possibilidades de futuro.

Depois vinham as músicas de Marinês e sua Gente, Roberto Carlos e todos os outros ritmos que nos embalavam. Serra Grande era a melhor das aguardentes, mas eu Pitu e tu Pitu, todo mundo a se servir nas farras que então ensaiávamos, e a festa subitamente era interrompida. Todas as vezes que morria alguém de escol, para nosso desgosto, a rádio passava o dia a tocar música clássica. Uma chatice.

Então passávamos, carrancudos, naquele quase feriado, em frente ao prédio avermelhado na direção de Pirangi. Eu ainda não sabia o tanto que me deliciavam os acordes de Beethoven, Mozart, Bach.

Mas logo vinham outras festas.

O auditório, certa feita, abriu as portas para receber Waldick Soriano. Ele bebia durante a apresentação e soltava a voz em infinitos boleros. Ensaiávamos vaias e ríamos de tudo e de nada. Outro dia foi Nelson Gonçalves quem tomou conta do palco bebericando uma caneca que dizia ser café enquanto cantava largos sambas-canção. Teve uma senhora que se desentendeu com o cantor já não sei porque. Pouca atenção prestávamos a tudo. A vida era feita de outros prazeres e eu não sabia que havia um belo Brasil profundo embalado por vozeirões e boleros e canções e mágoas infindas. Vínhamos de três raças muito tristes, mas eu desconhecia tal fato.

Com prazer e expectativa fui ao auditório para ouvir de viva voz o Coronel Ludugero, um artista de Caruaru que ganhava o mundo falando com alegria de um Nordeste abissal, lírico e despido de tristezas. Um Nordeste que, adverso em suas configurações tradicionais, transformava homens em gênios artísticos. O Coronel passou mal e não conseguiu se apresentar. Saí dali frustrado e talvez indignado com quem dizia horrores do artista. Eu era tão somente um menino, mas começava a entender melhor o mundo à minha volta. E a compreensão foi tão concreta que protestei, anos depois, contra a vaia dada a Luís Gonzaga pelos medíocres de plantão na quadra do Colégio Diocesano.

Quando a Rádio Cultura se tornou de fato em uma rádio, destituindo os velhos alto-falantes e se enfronhando pelas ondas do Padre Landel de Moura, eu já não estava mais em Palmares, mas, como todo criminoso volta à cena do crime, sempre volto à cidade, as vezes apenas em memória e coração.

Numa dessas voltas ouvi Do Rego, logo de manhã cedo, despertando o povo com um chocalho, transpirando Nordeste por todos os poros. E ao meio-dia se ouvia o programa Combate caminhado à toa pelas ruas, pois todas as casas respiravam as notícias policiais.

Hoje não sei o que toca em suas ondas, mas lembro do espanto de seu Luiz, pai do escritor Luiz Berto, diante daquelas salas geladas e cheias de microfones. “Pra mim essa é a melhor rádio do mundo, mas eu também só conheça essa.” Para mim, que conheço outras tantas rádios, a Rádio Cultura dos Palmares é a melhor do mundo, pois trago na alma a herança que ela me legou.

Não chegava a ser uma rádio, era um serviço de alto-falante, mas nos emprenhava de cultura. Minha árvore de hoje é um tanto da semente que ela ontem regou.


O BAIÃO DOS NOMES

Foi uma ligação à serviço. Estava fazendo uma matéria para o jornal onde trabalhava ou talvez estivesse envolvido com os ditames publicitários de uma campanha política, o certo é que precisei ligar para o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal em busca de alguma informação. O atendente foi muito atencioso e intensamente paciente com toda minha gama de dúvidas. Satisfeito e já tramando minha matéria, ou minha estratégia, perguntei a graça de meu entrevistado. “Ilindisco”. Tomei um susto diante da resposta.

Não tenho muita certeza, mas acho que a partir daí voltei a me interessar pela história de nomes estranhos, e logo retomei a leitura de um livro emblemático de Mário Souto Maior, um dos meus mestres, Nomes Próprios Pouco Comuns. Mário sempre me garantiu que os nomes ali registrados são verdadeiros, até os mais extravagantes como Comigo É Nove Na Garruncha Trouxada e Corizanda Brilhante Loureiro Curveiro.

Acredito no mestre, afinal é mesmo uma dança de baião o que fazem os pais diante de um balcão cartorial.

Isso mesmo se deu com o jogador de futebol Odivan. Um tio, fã de Roberto Carlos, foi escalado para registrar o menino e na hora da onça beber água lembrou do então sucesso do cantor, O Divã, onde ele, numa sessão de psicanálise, lembra o acidente em que perdeu um pé. Estava escolhido o nome do futuro atleta.

Os pais são sempre bem intencionados, mas a vida é um mistério cotidiano e nos surpreende em seu caminhar de bêbado.

Um amigo, nascido no Piauí, recebeu na pia batismal o nome de Valdemar que, segundo um dicionário de nomes próprios, tem origem germânica e significa soberano brilhante. E um dia, na boca do caixa de um banco, teve que enfrentar um diálogo constrangedor. “Esse cheque é seu?”, “Sim, algum problema?”, “Não, só queria saber como você está lidando com essa nova onda aí”. Corria o ano de 1982 e o caixa se referia a uma música que tocava em todas as rádios, onde um certo Piu Piu de Marapendi garantia “hoje eu vou me dar bem”, mas no final da noite terminava pegando um travesti chamado Valdemar e insistia no refrão: “O nome dela é Valdemar, o nome dela é Valdemar”. Meu amigo foi honesto: “Estou levando na esportiva.” “Eu, que também me chamo Valdemar, procuro fazer o mesmo”, respondeu o infeliz interlocutor.

Bráulio foi vítima do Ministério da Saúde.

Numa publicidade em defesa do uso da camisinha o pênis era chamado de Bráulio. Tive que apartar muitas brigas de um amigo de meus filhos, no tempo em que eles eram menores. Chamava-se Bráulio e não se conformava com as brincadeiras recorrentes, aquilo que hoje os politicamente corretos chamam de bullying. Enfim, o menino não conseguia levar tudo no bom humor, nem tentar ganhar alguns dividendos como fez um seu xará dono da Pizzaria Bráulio, em São Paulo. Na frente do estabelecimento abriu uma sugestiva faixa: “Venha comer aqui. O Bráulio está duro.”

Melhor sorte teve uma menina do interior de São Paulo.

Entrei no bar onde numa mesa larga estavam alguns amigos. Vinha sozinho e pensava apenas em comer e beber alguma coisa, e nesta condição fui chamado para me sentar entre eles. Foi então que estive pela primeira e única vez com Sócrates, já ex-jogador de futebol, mas ainda um ídolo para mim. É certo que não tinha mais a habilidade de driblar adversários nem usar com harmonia e graça o poder de seu calcanhar. O gênio, no entanto, não se restringiu aos campos onde, coisa do destino, nunca ganhou uma copa do mundo. Paciência, o futebol tem seus segredos, mas os bares, na opulência das conversas e dos tragos, guardam também seus mistérios que se desvanecem ao longo da noite.

E ali estava Sócrates muito bem à vontade, entre amigos, comidinhas gordurosamente básicas e copos de cerveja. Foi ele quem contou que, exercendo a profissão de médico, fez o parto de uma menina em Ribeirão Preto. O pai, emocionado com o fato de ter um ídolo como parteiro da filha, decidiu homenageá-lo. “Doutor, vou dar à menina um nome inspirado no seu.” “E como será este nome”, quis saber. “Socarina”, respondeu o pai orgulhoso. “Pelo amor de Deus, homem, não faça uma coisa dessa com sua filha.” E depois de muita conversa convenceu aquele senhor a dar à filha o nome da esposa do médico, Regina.
Caso parecido, mas menos grave, aconteceu com meu irmão.

Nascido sob a sombra da Usina Catende, vinha ao mundo carregando um quase compromisso assumido por meu pai. Uma tia de minha mãe pedira que o menino tivesse o nome de seu marido, à época, um político de destaque nas terras das Alagoas. O problema é que o vetusto senhor se chamava José Caralâmpio. Meu pai até se assanhou com a sugestão, mas o bebê foi salvo do nome, digamos, incomum, por determinação de minha avó, dona Bibi, que logo sentenciou: “O menino vai se chamar Gilberto.” E assim foi registrado e batizado, então.

Bem menos sorte teve um líder sindical de Brasília.

Era professor de profissão e se assinava Cícero Rola. Candidato a deputado distrital por um partido de esquerda, lutava contra os donos do poder estabelecidos na cidade com um slogan que era um primor do marketing político, digamos, fescenino: Rola Neles.

Perdeu as eleições. Acho que ninguém, àquela época, estava disposto a literalmente foder os poderosos.


VOU-ME EMBORA PRA ÓBIDOS

Conheci João Pinho numa reunião de escritores, na Casa de Autores, um grupo formado em torno da livreira e escritora Iris Borges. Mensalmente e sempre estamos ali a desvendar caminhos para melhor divulgar nossos trabalhos e, claro, o que se escreve por estas bandas do Atlântico.

O português franzino, de falar manso e recheado de humor, nos contou uma história mirabolante. Cansado das desventuras de uma bem sucedida carreira de executivo em uma multinacional, jogou tudo pelos ares e resolveu montar uma livraria. Reuniu amigos e recursos, alugou um galpão numa antiga área industrial de Lisboa e ali implantou seu sonho: a Ler Devagar, um espaço amplo com livros, um piano e um café. Virou um ponto de referência capaz de resgatar a vida do bairro esquecido pelas condicionantes econômicas. Como efeito colateral, os aluguéis aumentaram e a livraria teve que migrar, mas resiste em novo endereço como um espaço de privilégio para as artes da palavra.

Inquieto, João anunciava, prenhe de entusiasmo, seu mais novo e concreto delírio: transformar a pequena aldeia de Óbidos numa cidade literária. Para tanto implantara pelas ruas medievais onze livrarias – isso mesmo, onze livrarias. E mais, estava às vésperas do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos.

Conheço Óbidos, a cidade das rainhas. Esclareço: uma velha tradição portuguesa mandava que os reis dessem às suas consortes a cidade como dote de casamento. É uma dessas pérolas que ficam e se mantêm quase intactas, tanto que hoje tem apenas 87 habitantes – não errei, são mesmo 87 habitantes -, apesar de estar a 80 quilômetros de Lisboa. Como sustentar ali onze livrarias e um festival internacional de literatura? O pulo do gato está em um dado animador. A cidadezinha recebe diariamente milhares de visitantes de todos os cantos da Europa encantados com sua paisagem, sua história e, agora, seus livros.

Ficamos todos encantados com as provocações de João Pinho e loucos para seguirmos viagem até os reinos portugueses. Tínhamos, no entanto, um compromisso com Goiás e íamos, por aqueles dias, viver as emoções sempre renovadas da Festa Literária de Pirenópolis – a Flipiri.

Tudo do lado de cá era dificuldade e desafio. Com a crise econômica, em cima da hora, patrocinadores saltavam do barco e a escassez de recursos instigava nossas imaginações e disposições. Fomos em frente, e entre atropelos e reinvenções, lá estávamos a falar com o público, a apresentar a aventura da leitura para alunos, a provocar professores pelos caminhos das bibliotecas.

Na festa, fui dar com os costados no vilarejo de Radiolândia para uma manhã de prazer conversando com alunos atentos e preparados sobre os mistérios dos folguedos. Eles tinham lido os livros da coleção Crônicas do Mateus e buscavam saber um pouco mais sobre os cantos das pastorinhas, o bailar do bumba-meu-boi, as lutas do lambe-sujo, os volteios da quadrilha junina, os passos de frevo de papangus e cabocolinhos.

Enquanto isso, no centro da cidade, uma professora menos tolerante pressionava Clara Arreguy. Acusava o livro Siga as Setas Amarelas, onde a escritora ficciona sua experiência pelos caminhos de Santiago, de defender o ateísmo, de fazer apologia às drogas, de exagerar no uso de palavrões. Com a calma que lhe caracteriza, Clara rebatia pontuando as verdades que colheu na vida e recebia o aplauso dos alunos.

Nessa vida de mascates da literatura nos equilibramos nos extremos. Enfrentamos aplausos e desafios com a mesma disposição com que sentamos diariamente para encarar a brancura assustadora da tela em branco. Em todos estes limites temperamos nossos sentimentos com o elixir de nossas crenças. Somos pessoas comuns que carregam a graça e a maldição de contar histórias apenas com o propósito de manter aceso o veio da imaginação, pois nesta linha se sustenta toda a vida humana.

Hoje descobrimos pelas sondas da tecnologia que Marte é inabitável, mas ninguém consegue apagar de nossos sonhos os seres esverdeados que dali desciam para nos dominar. Hoje sabemos que nenhum ser é capaz de criar pelos e garras e dentes afiados diante da lua cheia, mas nos caminhos escuros e solitários dos sertões tememos o encontro possível com lobisomens e mulas-sem-cabeça. Vivemos do imaginário, enfim.

Por isso, vez por outra, sonhamos vencer Atlânticos e Himalaias para vivermos da bonança e da compreensão que se escondem em terras mais civilizadas. Terras onde a generosidade dos homens está a nos estender tapetes e facilidades. Por que mitigar perenemente o patrocínio e o apoio de uma gente que nos é indiferente? Enquanto falamos dos frutos da terra, nosso povo olha para o céu catando vampiros.

O poeta Oswald de Andrade, pelos começos do século passado, batia no peito seu orgulho: “Já falei de literatura no Sindicato dos Padeiros de Santos e na Sorbonne.” Outro dia, uma estudante universitária me perguntou quem era mesmo Oswald de Andrade. Fiquei pensando se valeu a pena todo caminhar do inquieto paulista.
Vou-me embora pra Óbidos, lá sou amigo…

Não. Definitivamente, não. Ficarei mesmo por aqui, por Pirenópolis, por Quebrangulo, por onde me levar esta sina de resistir, de tentar construir pedra a pedra, do lado de cá do Atlântico, a pátria libertária das letras.

E vamos em frente que a esperança é o nosso mais prazeroso alimento.


RIOS QUE PASSAM

Era um tempo heroico e nobre.

O Conde Bagnuolo fugia de Porto Calvo, então sitiada pelas tropas holandesas. Seguia por terra, na esperança de encontrar o rio Camaragibe onde um navio de bandeira portuguesa daria guarida à fuga épica, carregada de homens, mulheres e crianças desesperados. Pelo caminho ficavam os mais fracos, enquanto no rio, numa batalha naval, o Conde Maurício de Nassau abatia os navios portugueses e desandava as esperanças de Bagnuolo. E o mercenário italiano teve que descer a pé até Penedo, atravessar a nado o São Francisco e conseguir chegar à segurança de Sergipe Del Rey.

O Camaragibe foi o rio de minha infância, ou melhor, um dos tantos rios de minha infância. Com a autoridade de minha meninice, nadava no banheiro das mulheres, onde moças e senhoras, peitos ao vento, lavavam roupas e se banhavam inocentes, como as índias do tempo dos condes, e preenchiam meus primeiros alumbramentos.

Depois, anos depois, o Camaragibe cresceu em fúrias, e eu em malícias. Suas águas transportavam os malefícios do esquistossoma, invadiam as ruas de Matriz de Camaragibe, afogavam o Caranguejo, bairro pobre onde se abrigava um pobre cabaré, matavam um sanfoneiro de respeito que animou muitas de minhas noites de forró e cerveja.

Foi por este tempo que o mundo me afastou daquelas águas, daqueles viventes frequentemente assombrados pelos fantasmas do assoreamento. Os canaviais implacáveis derrubavam as matas ciliares carregando milhões de carradas de areia para o leito do velho Camaragibe. Outro dia, passando por sobre sua ponte, vi as terras ainda mais paupérrimas do Caranguejo e o curso d’água tomado por barrancos. Calmamente um homem montado em sua moto cortava as terras onde antes era somente caudal e força.

Os rios morrem, e dizem os estudiosos, de duas doenças graves e quase irreversíveis. O assoreamento e a salinização. O São Francisco vem sofrendo destes dois males. A gula de energia elétrica e progresso represou suas águas, fez barragens à granel, matou a rizicultura, minguou o volume dos peixes, criou barrancos, dificultou o passar das canoas.

No livro que escreveu em 1587 o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa fala de uma luta titânica, coisa de gigantes imensos. As águas do São Francisco querendo vencer o mar e o Atlântico querendo engolir o rio. Briga fera, e o caudal de água doce entrava léguas e léguas oceano a dentro. Também na tela onde Frans Post registrou a fuga de Bagnuolo vê-se os navios holandeses serenos, pacificados. Do Penedo, nada além do Forte Maurício, de Sergipe Del Rey, somente a várzea fértil, o cacto solitário e as gentes que chegam.

Por quê lembro dessas histórias antigas, dessas tragédias modernas?

Dia desses, numa roda de cachaça, o ministro Carlos Átila (foi porta-voz do presidente Figueiredo e ministro do Tribunal de Contas da União) contava de uma visita que fez à cidade natal, Nova Lima, em Minas Gerais. E já nada, ou quase, encontrou dos dias passados. Tudo que lhe parecia tão prenhe de eternidade estava findo. Matas e homens foram substituídos por asfaltos e outras gentes.

Aos remanescentes de seus dias antigos perguntou pela Geladinha. Era uma lagoa cercada de vasto arvoredo de água gelada e cristalina. Estava soterrada. Nem mesmo um fraco veio líquido, para remédio, era possível conseguir ali. Também não mais havia a mata de onde se colhia lenha boa para os fogões.

Todas as tardes, pontualmente, o lenhador trazia no lombo de um burro uma carrada de lenha que abastecia o fogão sempre aceso da casa de sua avó. Ali se comia a mais preciosa comida dos Gerais. Pão-de-queijo e leitão assado nasciam no forno. Das panelas e chaleiras expostas sobre a chapa de ferro, tutus, couves, galinhas com quiabo, linguiças, torresmos, bolinhos, mandiocas, cafés. Mal sabia o futuro ministro que aquelas delícias eram cumplices de um crime ecológico, dos assassinos que ajudaram a matar a Geladinha.

Todas estas nebulosidades lembram um romance de Gabriel García Márquez, onde as matas fartas das margens dos rios colombianos vão sendo desbastadas para dar de comer aos navios a vapor. E dali saíam bananas e gentes para os confortos da Europa.

O povo do Camaragibe parece que chegava tão longe. Maceió e Rio de Janeiro eram os limites. O açúcar chegava mais longe, acredito, e vencia o desafio de lutar contra o açúcar de beterraba para além do mar oceano. Já o homem do São Francisco, pela largueza de seu curso, correu também trechos largos. O Barão de Penedo ponteou seu saber na corte inglesa. Também o algodão que cresceu nas barrancas generosas abasteceu a fome das máquinas que estavam além do porto de Liverpool.

Homens e produtos trazem no âmago a mobilidade, despertam cobiça, enquanto os rios morrem na solidão do esquecimento.


CONVERSA DE BOTEQUIM

“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa…”

A música de Noel Rosa embalou o final de minha infância. Eu a aprendi numa coleção de discos que minha mãe comprava na banca de revistas. Desde então me encantei pela instituição, o botequim. Havia um, a Toca do Mug, na praça onde eu morava, mas por ali apenas passava, de longe olhava para seu interior e tentava adivinhar as altas e alegres conversas que varavam noites e dias.

Guiado pelos versos de Noel pensava em futebol, na fumaça do cigarro, as anotações feitas com caneta tinteiro, guarda-chuvas solenes, bicheiros manipulando a esperança dos fregueses, mas ainda não conseguia entender o sentido do pendura. Tudo bem, valia o embalo do samba: “Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente…”cb

Pouco tempo depois, como sempre precoce, já me sentava naquelas mesas, mas não falávamos de futebol. Nossas derivações volteavam pela literatura e pela música. Tínhamos cabelos fartos e o sonho das artes. Alguns tocavam violão, e embalados pelos acordes políticos que conseguiam vencer a censura, discutíamos também política e, claro, o esplendor das mulheres.

Com as modernizações que os novos tempos pedem, continuamos a nos reunir em torno dos mesmos assuntos, agora recheados com a memória vivida por nós mesmo. E sempre que volto prá casa lembro de uma lição do mestre Orlando Tejo.

Numa das eternas noites de Salvador, junto com o poeta Bráulio Tavares, Tejo, já abstêmio de muitos anos, com seu inseparável cachimbo, resistiu toda madrugada ouvindo cantadores de viola e contando sua farta coleção de causos. Na manhã seguinte, deixando o bar, Bráulio não se conteve: “Tejo, como é que você aguenta ficar até essa hora num boteco, ouvindo conversa de bêbedo e sem beber?” “Na verdade o que encanta no bar não é bebida, mas a conversa com os amigos.”

Com este propósito ainda hoje frequento os bares que surgem em meu caminhar, estejam onde estiverem: Oropa, França ou Bahia.

Dia desses desembarquei em São Paulo para um seminário. No final do primeiro dia do evento vi que pouco tinha o que aprender por ali. Resisti e até voltei na manhã seguinte para ouvir um amigo que tinha uma palestra programada, mas depois do almoço esqueci o circunlóquio e fui viver a cidade. Liguei para uns amigos e combinei um botequim de final de tarde.

Como sempre, cheguei um pouco antes da hora marcada e fiquei por ali, vasculhando as páginas de uns livros que acabara de comprar. Como não tinha outra coisa a fazer diante da cerveja gelada, a não ser bebê-la, prestei atenção na mesa ao lado. O casal que ali estava não fugia ao modelo da modernidade. Cada um dos dois viventes, frente aos respectivos copos de cerveja, enfiava a cabeça no celular e teclava freneticamente. Pouco se falavam, mas se espremiam e gesticulavam e torciam e teclavam, teclavam.

Comecei a defender para os botequins a determinação que escutamos no início de todos os espetáculos e nas salas de cinema: “Por favor, desliguem seus celulares”. Mas aí o cidadão deu o ar de sua palavra: “Merda. Errei três perguntas. Quem foi Ismael Nery? O que é xilogravura? E casa de purgar? Será que tem a ver com purgatório?” “Não sei. Também errei essas aí”, respondeu sua solidária companheira.

Além de diálogo, parece que está faltando cultura aos botecos. Pelo menos esta era a conclusão óbvia diante do casal exercendo uma solidão a dois numa disputa de conhecimento que, parece, pouco havia por ali. Sobreviviam no ambiente, no entanto, outras instituições indispensáveis a um bom boteco: o tira-gosto gorduroso, a reclamação política, a animação do bar ao lado.

Enquanto o garçom pousava em minha mesa um frango à passarinho caprichado no azeite, um senhor que passava se queixou ao dono do bar da Prefeitura Municipal que há meses botou uns blocos de cimento na calçada: “Isso só serve para atrapalhar o pedestre”. “Botaram estas pedras aí para interditar um restaurante que diziam estar irregular. Já reclamei várias vezes, mas de nada adiantou. E olhe que pago regularmente o IPTU”, respondeu solidário o empresário.

Enquanto todo acontecia, indiferentes aos movimentos loucos da cidade, um grupo ria às gargalhadas no bar ao lado.

Mudou o bar? Não. Acho que seus frequentadores estão derivando cada vez mais para a solidão da modernidade.

Enfim chegaram os amigos que esperava, um pouco antes de começar a temer o dia em que terei que me curvar à sentença de Vinicius de Moraes: “A pior das solidões é a companhia de um paulista”. Ou pelo menos a companhia daquele casal que vi em um bar próximo à Paulista.


AS ESCULTURAS DO PODER

Todas as vezes que chegava à casa de vó Bibi, em Catende, chamava-me a atenção aquele gaúcho postado em sua sala. Tinha porte heroico e postura máscula. Ficava sobre a mesa de centro, em sua cor bronzeada, com um laço pendendo da mão, larga bombacha, vasto bigode, lenço amarrado na cabeça.

Anos depois, batendo com os costados em Porto Alegre, lá estava o gaúcho, ou melhor, a estátua O Laçador, um monumento da cidade esculpido por Antonio Caringi Filho. Ele usou como modelo o agrônomo Paixão Corte, um tradicionalista empedernido. Aliás, Corte esteve na vanguarda do movimento de ressurreição das mais profundas tradições gauchescas, lá pelos idos da década de 1940, ainda quando estudante em Porto Alegre, ajudando na fundação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas.laçador

Conheci e entrevistei o velho Paixão Cortes, o ouvi falar de suas crenças com a mesma paixão (desculpem, mas a expressão é inevitável) de um adolescente. E custava a acreditar que ele servira de modelo à estátua símbolo de Porto Alegre. Tudo bem, vamos dar um desconto. Eu o encontrei lá pela metade da década de 1990, quando o folclorista corria para a casa dos quase setenta anos, e a estátua foi feita em 1954, quando ele então beirava os vinte e sete. Os contrastes eram então compreensíveis, afinal, como diz a canção, “churrasco e bom chimarrão, fandango, trago e mulher, é disso que o velho gosta”.

Todas estas lembranças desencadearam-se durante a leitura de um livro, claro, a biografia de outro gaúcho que se transformou numa grotesca estátua, um busto achatado, quase o desenho de um animal pré-histórico, tais são suas feições rechonchudas e largas e imensa, enfim, Getúlio Vargas merecia mais respeito. E a biografia escrita por Lira Neto bem demonstra isso ao tirar do ex-presidente a capa soberana do mito para nos revelar um homem quase comum, um intelectual, um político hábil que também vacilava diante do imponderável de sua surpreendente trajetória, mas que, como bom campeiro, nunca deixou o cavalo selado passar impune em sua frente.

Tinha mesmo uma visão ampla do mundo, este Getúlio. Tanto assim que, nos informa Lira Neto, quando deputado federal, lá por volta de 1927, ainda durante o governo do ex-presidente Artur Bernardes, Vargas intercedeu por um afilhado, o artista Antonio Caringi Filho, que ganhou o cargo de adido consular na Alemanha. Na Europa não sei se o moço exerceu alguma função diplomática, mas aprimorou muito bem sua técnica artística na Escola de Belas-Artes de Munique e, depois, tornou-se uma espécie de escultor oficial do Rio Grande.

Não sei se como forma de agradecimento, mas fato é que em 1955 Caringi esculpiu um honesto busto de Vargas e espalhou várias réplicas por cidades gaúchas, uma obra esteticamente bem mais bonita que o monstrengo de uma praça da Glória, no Rio de Janeiro.

É isso, houve um tempo em que as injunções políticas davam resultados bem mais sólidos e artísticos que os meros escândalos da modernidade. E por falar em modernismos, o movimento que levou este nome e que desabou sobre o Brasil em 1922 foi realizado à sombra generosa do Palácio dos Bandeirantes, ou seja, do governo paulista.

Também foi política a ação que transformou o Recife num museu a céu aberto. Em 1955, quando Pelópidas da Silveira era prefeito da cidade, Abelardo da Hora foi convidado a esculpir figuras populares para as praças do lugar. E danou-se a trabalhar, e até hoje estão espalhados pelos logradouros Violeiros, Vendedor de Pirulito, Lavadeiras, Cangaceiros, toda uma lembrança viva do jeito tão Pernambuco de ser. Aproveitando a deixa, no início dos anos 1960, Abelardo sugere à Câmara Municipal do Recife uma lei exigindo que toda nova edificação da cidade trouxesse uma obra de arte. Apesar de um ou outro mal gosto aqui e acolá, o resultado é que a urbe se tornou bem mais bonita, humana e alegre.

Viajante, as cidades são descobertas em doses homeopáticas. E somente assim suas surpresas se revelam.

De Porto Alegre, depois de enxergar, O Laçador, caso o cristão tenha recursos e disposição, é possível ir ao Rio de Janeiro e, fechando os olhos para o Getúlio da Glória, encontrar pela cidade Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco, Braguinha, Carlos Drummond de Andrade, Luiz Gonzaga, Zózimo Barroso, Tom Jobim, todos solidificados em estátuas primorosas, algumas com leveza bailarina.

Também no Recife, depois da visita obrigatória às incontáveis esculturas de Abelardo, vamos descobrindo Brennand e Cícero Dias no Marco Zero. E o passeio segue em conversas com os poetas Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Carlos Pena Filho, João Cabral de Melo Neto, e no mais segue um infindável caminho de obras espalhadas por ruas e edifícios. Descobri-las, viajante, é um exercício que acalanta a alma.

Foi transitando por estes destinos que descobri encantos e me aventurei no mundo das perspectivas. E se uma breve escultura postada na mesa de centro de minha avó em Catende foi capaz de me levar para o mundo, imagine o quanto me move a arte viva de Abelardo da Hora.


UM HOMEM FEITO DE LIVROS

Que me perdoem Graham Bell e seu padrinho, o Imperador Dom Pedro II, mas telefone é um bicho dado a fornecer tristes notícias. E se toca à noite, em horas impróprias, é porque a desgraça tem dimensões bíblicas. Mas naquele dia tocou durante a tarde, e do outro lado veio a voz suave de uma amiga, a professora Maria de Jesus Evangelista, a Maju:

– Nosso amigo Edson Nery se foi.

Não sei bem porque esta história me apanhou no caminho de casa para o trabalho, quando tentava encontrar um assunto para escrever uma crônica, pois meu débito de texto com o Jornal da Besta Fubana, para minha vergonha, já tem o acúmulo de alguns meses. Ameaçado de ser jogado no SPC dos escribas, vinha tentando arrancar histórias da cabeça fraca quando me surge a imagem do velho Edson Nery da Fonseca.

O conheci quando ainda ministrava aulas na UnB, mas pouco tempo depois me deparei com sua fúria santa. Bradava contra a imbecilidade que quase sempre cerca as decisões burocráticas. E, como sempre, estava prenhe de razão. Aos 70 anos, ainda vigoroso e ativo, fora obrigado a se aposentar da universidade por imposição das leis que determinam o limite de idade para o exercício de uma função do serviço público.nery-da-fonsec

Logo depois deixou também Brasília e voltou para Olinda. Queria viver à beira-mar, cercado de gatos e livros.

Contra a opinião de todos os amigos restaurou uma casa que pertencia a um dos conventos da cidade e ali passou a morar. Incontáveis foram os conselhos para que comprasse um imóvel mais moderno e confortável, que o dinheiro gasto na reforma seria mais que suficiente, que a moradia seria mais um patrimônio e não um empréstimo. Nada o demovia. “Um dia, visitando Gilberto Freyre, ele resolveu discorrer sobre as vantagens de se morar em uma casa velha, mas logo foi interrompido por dona Madalena que danou-se a falar em goteiras, infiltrações e outros tantos transtornos. Gilberto rebateu: tudo o que ela diz é verdade, mas nós não podemos deixar de morar junto aos fantasmas do passado”, rebatia Edson calando a todos.

Voltava assim à origem de tudo, a Pernambuco, onde descobriu os livros e o prazer da leitura. Contava histórias e mais histórias das aventuras pelas antigas livrarias do Recife, das conversas com intelectuais de fato, dos amigos que tinham partido: Gilberto Freyre, Zé Lins do Rego, Carlos Pena Filho, e os nomes seguiam num rosário infindo de personalidades.

De Gilberto chegou a ser o maior especialista, mas um dia se disse superado. “Hoje existem outros que entendem mais da obra de Gilberto do que eu”, dizia sem modesta ou ressentimento.

Dono de uma memória invejável não esquecia nada e ainda recitava poemas e mais poemas de cor. Aliás, esta sua proeza com a poesia eu descobri antes mesmo de o conhecer. Num dos prédios do Setor de Autarquias, em Brasília, o Ministério da Cultura montou uma loja onde vendia as publicações de suas fundações. Ali encontrei um disco, um velho LP, com Edson recitando os poemas de Augusto dos Anjos, um material lançado pela Fundação Joaquim Nabuco, uma preciosidade que ainda hoje guardo e escuto.

E era mesmo interessante ver aquele homem de quase dois metros de altura, branco, de olhos claros, com elegância de lorde inglês discorrer sobre poetas clássicos e populares. Edson era movido, desde que levado pelos caminhos da cultura, pelos fios da contradição. Lembro bem do espanto de Luís Gutemberg a nos contar de suas lembranças de Maceió dos anos 1950. Edson vivia então na cidade, onde ministrava aulas para um grupo de bibliotecários. E Luís o via diariamente, livros sob o braço, passar por sua porta. Sempre sério, sempre compenetrado. Mas daí veio o carnaval e um Luís perplexo viu um eufórico Edson no meio de um bloco a dançar passos de frevo.

Tudo que era humano, da reflexão das bibliotecas à euforia dos carnavais, encantava Edson.

E tinha lá suas manias.

Um dia nos encontramos em Maceió. Dali iríamos, juntos com o poeta Lêdo Ivo, para Penedo onde Edson faria uma palestra na Casa do Penedo. À noite fomos jantar num restaurante onde era servida a melhor carapeba da cidade. O garçom, com toda gentileza do mundo, trouxe até à mesa, ainda cru, o peixe que iríamos devorar. Quando, enfim, voltou com o bicho devidamente pronto, Edson se negou a comer. “Não como nenhuma carne que vejo antes de estar cozida.”

No dia seguinte, quando nos encontramos na recepção do hotel para irmos ao Penedo, vinha ele com uma mala imensa, um exagero para aquela viagem de apenas três dias. Mas foi logo se desculpando. “Não viajo sem tudo que me parece indispensável, meus paletós, meus livros, meu uísque.” E seguimos até a beira do São Francisco onde fez uma dissertação perfeita, uma indiscutível lição onde apontava Lêdo Ivo como o mais alagoano de todos os poetas. E como nunca esquecia o Recife, leu um poema onde Lêdo exalta com paixão o velho burgo pernambucano, poema que nunca publicou em nenhum de seus livros, mas que Edson sabia muito bem onde encontrar.

Em novembro de 2013, durante a Fliporto, nas primeiras horas da manhã, resolvi caminhar por Olinda. E encontro o cineasta Vladimir Carvalho sentado em uma calçada. Pensei que aquilo fosse fruto de uma noite de bebedeira, mas logo lembrei que o mestre não é dado aos exageros. “Estou esperando uma equipe para gravar uma entrevista com Edson Nery.” Resolvi ficar também na espera.

O velho senhor feito de livros repousava numa cama cercada por altas prateleiras abarrotadas de raros volumes. Enquanto Vladimir arrumava equipamentos e luzes, conversamos sobre Brasília, Penedo e, claro, livros. Fui embora quando o cineasta o pediu para falar sobre Cícero Dias. Nunca mais nos vimos.

Buscando informações sobre Edson descobri que há poucos dias, em 22 de junho de 2015, fez um ano que recebi o telefonema de Maju. E para não maldizer de todo Graham Bell, lembro que numa madrugada antiga, quando o relógio marcava uma hora, toca a assustadora campainha. Atendi apavorado. Do outro lado veio a inconfundível voz de Edson Nery da Fonseca:

– Maurício, acabo de ler um livro seu. E tenho apenas uma coisa para lhe dizer: Você é um escritor.

E desligou antes mesmo de ouvir meu emocionado obrigado.


MANUAL DE PREFERÊNCIAS DE UM SUBVERSIVO

É por isso que eu não gosto de padre.

O brado forte do Pereira na mesa de um bar do Recife naquele longínquo dois de maio de um distante final da década de 1970 não surpreendeu ninguém. Era comum derramar seu manual de preferências diante do copo de cuba libre.

É por isso que eu não gosto de americano. E destrinchava uma mítica origem para a famigerada mistura de rum Montilla com Coca-Cola, a única possibilidade de nossos famélicos bolsos estudantis. Segundo meu sapiente amigo os americanos, antes da revolução redentora dos barbudos de Sierra Maestra, faziam de Cuba um cabaré, um universo de orgias pagas em dólares e degradações, com rumba, prostitutas bonitas, como no poema de Manuel Bandeira, casinos, rum e charutos. Como uma espécie de provocação velada, misturavam o indigno refrigerante imperialista ao rum arrancado do suor dos canavieiros e proclamavam: Cuba Libre.

Tempo depois, lendo o delicioso e bebível Guia de Drinques dos Grandes Escritores Americanos, de Edward Hemingway e Mark Bailey, encontrei uma outra origem para o coquetel. Durante a Guerra Hispano-Americana, em 1898, os soldados do Tio Sam recebiam Coca-Cola entre seus suprimentos. Um deles teria misturado o refrigerante ao rum, espremido um limão na bebida e gritado: Viva Cuba libre. Assim teria sido criado e batizado o drinque que Pereira, entre protestos, degustava num bar do Recife.cubalibrecocktail1

Meu amigo Pereira, a quem não pude contestar, posto que desconhecia esta versão mais plausível para a cuba libre com que nos empanturrávamos, assim seguia debulhando suas ladainhas revolucionárias. É por isso que eu não gosto de soldados. São todos burros. E dava exemplos. Circulava por todo Recife com seu boné verde estampando uma estrela vermelha à testa, símbolo máximo do exército comunista chinês, que brilhava aos ventos do Nordeste e não era incomodado. Os gorilas, em sua retórica, eram uns jumentos incapazes de reconhecerem os símbolos ideológicos de sua predileção.

Destarte não surpreendeu ninguém sua proclamação naquela tarde de depois do feriado quando os espaços do tempo ainda nos permitiam saborear uma cuba libre com gelo e goles largos de caldinho de feijão: É por isso que eu não gosto de padre.

O que deixou todo mundo estupefato foi a declaração seguinte: “Ontem na missa…” “Como é que é? Você foi à missa?” “É que mãe pediu para acompanha-la…” Somente assim descobrimos que o mais exaltado dos revolucionários recifenses daqueles idos era um filho exemplar, obediente, quase um congregado mariano. Passado o susto Pereira retomou o fio de sua narrativa.

“Devo salientar que era uma missa dedicada ao dia do trabalho.” Bom, então estava tudo explicado e justificado, faltava mesmo era dizer os motivos de sua fúria anticlerical. E Pereira matou nossa curiosidade. Durante o sermão o padre, em defesa do trabalho e dos trabalhadores, lembrou, para ódio de nosso mais caro subversivo, que o trabalho dignifica o homem. “Um idiota”, bradava apoplético, “o que dignifica o homem é o salário”.

Tentei uma piadinha de ocasião para desanuviar o clima: “Mestre Pereira, esta tese é controversa. Os vereadores do Recife têm bons salários e nem assim são dignos…” “E eu estou falando de homens, de trabalhadores de fato, aqueles que acordam com os galos, mourejam como os cavalos e vão dormir com os morcegos. Estes merecem o direito à uma casa pequena, mas confortável e digna; merecem uma mesa, singela, mas com proteínas suficientes e dignidade; merecem escolas, modestas, mas eficientes e dignas; merecem hospitais, despretensiosos, mas com pronto atendimento e dignidade…”

Assim regávamos algumas de nossas tardes recifenses. Tínhamos todos os sonhos e ainda nenhuma frustração. Um dia a vida se encarregou de nos apartar. Bebemos os últimos goles de nossas cubas libres e nunca mais nos vimos. Não sei de Pereira, se ainda acalenta revoluções ou se apascentou suas fúrias e já olha com outros olhos os americanos, os soldados, os padres. Tudo é possível. O que parece se perpetuar é esta condição de oprimido que macula os desejos dos trabalhadores defendidos por meu amigo.

Olho os jornais e a história é recorrente.

Ainda estes dias, no Paraná, um grupo de trabalhadores, professores, foi às ruas protestar contra uma lei que muda seu sistema previdenciário. O governo estadual, sem oferecer nada em troca, exigia mais um sacrifício do elo mais frágil da corrente. Diante do protesto, botou a polícia em ação e as bombas de gás lacrimogênio arderam olhos infantis, cães ferozes morderam trabalhadores, balas de borrachas cortaram a carne dos que lutavam por seus direitos, por sua dignidade.

Indiferente a tudo e a todos, os deputados imunes obedeceram ao governo e aprovaram a lei. E o governador, insinuando que a culpa de tudo estava com os grevistas, disse, sem abrir mão de qualquer privilégio, que só podia lamentar toda acontecência.

Vivemos um tempo de inversão de valores e contradições. Estes dias estudantes depredaram a escola onde estudavam, no interior de Goiás, para protestar contra a diretora que exigia disciplina e cumprimento de horário. Aprendi muito cedo que disciplina e divisão do tempo entre lazer e produção sempre foi a base da civilização e da dignidade. Por isso o rum nunca foi um entrave à defesa de nossas sonhos, à concretização de nossas lutas.

As vezes sinto muito a falta da ira santa de meu amigo Pereira. Como assistiu a derrocada da União Soviética? À Queda do muro de Berlim? Ao fim da ditadura militar? Por onde ele anda? Como está vendo o mundo? Sei somente das lições que seu doce e contraditório radicalismo involuntariamente imprimiu em meu espírito.


UM CANTO DE TERNURA

Edu Lobo costuma brincar com as pessoas que conhece fazendo uma única pergunta: Onde você estava quando ouviu Chega de Saudade pela primeira vez? Eu não saberia responder, mas tenho a impressão que ouvi o clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes numa gravação de Gal Costa e não na arrebatadora interpretação de João Gilberto.

Isso se deu nos idos de 1973 quando a baiana lançou o clássico LP Índia, que vinha envolvido por um plástico azul. E quando a gente abriu aquele mistério desvendava uma das mais belas capas de disco que a pouca pureza de meus doze anos permitia contemplar. Que sonhos sonhei com aquela doçura a dizer que no peito dos desafinados também bate um coração? Outra de minhas infindáveis incertezas.elis-regina

O que lembro perfeitamente é de ver pela precariedade de uma TV em preto e branco uma pequena e jovem cantora sacudir os braços enquanto convocava todos para a beleza dos versos de Vinicius de Moraes musicados por Edu Lobo e o Arrastão se espraiando pelo palco, pelo mundo, pela minha devoção eterna. Era Elis Regina com sua força irresistível. Desde então nunca mais parei de ouvi-la.

Hoje acho estranha esta lembrança. O 1º. Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, ensina-me o professor Google, que Arrastão e Elis ganharam, se deu em 1964, e eu ainda não tinha feito três anos de idade. Não acredito ser tão prodigioso nas lembranças. Não importa, enfim, o certo é que sei da imagem e da imensa ternura daquele canto.

É certo também que a paixão pelo canto de Elis é antiga, data de séculos, talvez. E estranho mesmo era um amigo meu que morava em João Pessoa, o Gordo. Era dono de uma invejável discoteca, onde se podia escutar de tudo, ou melhor, de quase tudo. Um dia, garimpando entre raríssimos discos de tudo quanto era estilo, estranhei: “Ô Gordo, você não tem nada de Elis Regina?” “Detesto essa moça”. Pronto, foi o que bastou. Durante o resto de nossa amizade travamos homéricos duelos salientando os prós e os contras da cantora.

Nestas brigas eu podia exibir com bravata minha “intimidade” com Elis. “Gordo, aquela mulher tem um domínio de palco e sua voz ao vivo é de uma clareza…” E discorria os momentos vividos em dois de seus grandes shows, Falso Brilhante e Transversal do Tempo, que assisti extasiado no Teatro Santa Izabel. Realmente era algo deslumbrante. Elis, com pouco mais de um metro e meio domando uma banda refinadíssima, de músicos habilíssimos e uma voz capaz de enfrentar todas as modulações e todos os tons. Uma pitonisa encarnada a nos encaminhar pelas veredas do sublime.

E como não consiga convencer o Gordo, sacava minha mais poderosa arma em defesa da gaúcha. “Pois saiba que ela é muito generosa, e não estou falando apenas dos tantos compositores jovens que ajuda a descobrir.” E então contava minha mais doce lembrança da cantora. Era Recife e os tempos eram de repressão política. Talvez tenha sido em 1978 quando Elis percorria o país com o show Transversal do Tempo. A cidade vivia a angústia de ter Cajá, secretário de Dom Helder Câmara, preso pela ditadura militar.

Todas as formas de resistência eram válidas para dizer da indignação de muitos. E assim, na segunda-feira após o final de semana em que Elis se apresentou, foi celebrada pelo próprio Dom Hélder uma missa pela libertação de Cajá. Saí do Teatro do Parque depois de assistir ao Projeto Pixinguinha, acho, com Nara Leão e Dominguinhos, e fui direto para a igreja, que ainda estava meio vazia. Sentei em um banco imediatamente atrás da fileira de bancos destinados aos convidados. E vejo Elis Regina e toda sua banda sentarem exatamente em minha frente. Pouca atenção prestei à missa e ainda tive a indescritível emoção de abraçá-la. Literalmente um adolescente diante de seu sonho.

Anos depois, conversando com Paulinho Tapajós, ele me disse que Elis tinha um humor extremamente variável. Um dia, sabendo que ele estava reformando sua casa, ofereceu-lhe umas grades que talvez fossem úteis à reforma. Paulinho foi, no dia seguinte, à casa de Elis para buscar as tais grandes e foi recebido com apupos e desaforos. Respondeu com outros tantos desaforos e se mandou. Poucas horas depois chega à porta de Paulinho um carro com as grades, um buquê de rosas e um pedido de desculpas de Elis.

Em outras palavras, a Pimentinha bem merecia o apelido que lhe deu Vinicius de Moraes.

Assim o melhor mesmo é continuar ouvindo seu canto de ternura, um canto capaz de acender vidas.

Nestes dias em que se comemorou os setenta anos da cantora vi, entre surpreso e feliz, o depoimento de seu filho João Marcelo Boscôli. Ele contava que nasceu desenganado pelos médicos. Era uma criança frágil, incapaz de sobreviver. Elis pediu para ficar com o menino naquela que seria sua única noite, e cantou baixinho no ouvido da criança durante toda noite.

Na manhã seguinte, quando o médico voltou ao hospital, ficou espantado. O menino já não tinha mais nenhum sinal de fragilidade e com certeza sobreviveria e com certeza fora salvo pelo canto de ternura da mãe.

Sua morte também foi uma terrível surpresa. Lembro que estava em Matriz de Camaragibe, nas Alagoas, e pelo resto do dia fiquei diante da televisão vendo todas as notícias, enquanto na vitrola tocavam todos os discos de Elis que estavam à minha mão. E muito bebi em sua homenagem.

Sei que a maturidade chega quando as músicas que gostamos já não tocam no rádio, mas foi pelo rádio que estes dias escutei a voz de Elis em dueto com Gilberto Gil cantando Ladeira da Preguiça. No final o locutor me trouxe frustração e alegria. Quem cantava era Maria Rita, sua filha que traz na voz uma Elis sempre viva.


UMA GAITA NA PAULISTA

Era uma tarde como outra qualquer e eu vinha de um compromisso, como outro qualquer. Nada mais se anunciava no horizonte restrito marcado pelos arranha-céus imensos da Avenida Paulista. Uma multidão na velha rotina de se espremer pelos espaços largos, mas mesmo assim insuficientes do velho logradouro. Se o instante pedisse poesia, daria até para parafrasear Drummond: A rua passa cheia de gentes: gentes brancas pretas amarelas. Para que tanta gente, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.

Habituei-me a transitar entre pessoas, correr diuturnamente como qualquer bicho urbano. E para aguentar tamanha overdose de barulhos e ansiedades vez por outro me refugio em recantos tranquilos, mas logo desce a noite e com ela os demônios da solidão turvando o ambiente onde até o acalanto do silêncio se torna opressivo, e aí recorro à música, aos bares, e aprendo que o silêncio somente se faz belo quando em contraponto com o ensurdecedor delírio da urbanidade.

Isso se deu num dos desembarques em Fernando de Noronha, nosso lado leste do Éden. Ali se caminha pelos dois extremos de um mesmo barbante. Silêncio de fato é coisa rara, há sempre o mar a bater, pássaros a cantar, quando não o canto desafinado e melancolicamente eufórico dos turistas. Para os mais insistentes, no entanto, há a possibilidade de se buscar a canção do vento olhando o amanhecer que chega junto com os golfinhos à baía dos Golfinhos, uma enseada entre a praia do Sancho e a baía dos Porcos.

Na cata desta aventura, lá estava eu, às quatro horas de uma madrugada, em pé na frente da pousada que me abrigava. Logo chegou um desses jipes Toyota Bandeirante capazes de enfrentar qualquer atoleiro mais renitente. E fomos nós, eu e uma família paulista “na ânsia incoercível de roubar a luz, / (…) à espera de que o sol desponte”, diria Augusto dos Anjos. E enquanto o sol não chegava, conversávamos. Ao saber que o grupo se formava em sua maioria por paulistas, o motorista revelou seu sonho. Ficar todo um dia caminhando pela Avenida Paulista.

Mesmo no paraíso de Noronha o imaginário da Paulista doma as pessoas. Por isso todas as vezes que atravesso seus quase três quilômetros, mesmo pressionado pela urgência que ali se respira, ainda me paro a pensar como ela se tornou esta gigante, este símbolo de todas as riquezas e todas as misérias deste país gigante.

Zélia Gattai morou numa rua paralela à Paulista lá pelo primeiro quartel do século passado, quando ainda havia ali somente casarões herdados da fartura do café. O luxo já então ficava na avenida, onde os leiteiros e os cortejos fúnebres eram proibidos de passar. A exceção apenas para os defuntos de escol, os barões, os aristocratas. Foi assim que a menina Zélia, com as veias anarquistas da família italiana, aprendeu a conhecer as desigualdades e as injustiças do mundo.

Hoje já quase nenhum casarão está de pé, a maioria tombou para abrir espaço para os espigões que furam o céu e ocultam o horizonte. O concreto começou a deitar suas teias lá pela década de 1950, quando a moça deixou de ser exclusivamente residencial e logo vieram os altos edifícios e se alargaram as calçadas e talvez tenha sido nestas amplidões limitadas pelas construções que nasceu o sonho de poesia concreta, para descaso de meu amigo Alexei Bueno: “Em uma cidade feia como São Paulo só pode nascer mesmo uma poesia concreta”, costuma desabafar.

Curiosamente o acervo do poeta Augusto de Campos, um dos pais do concretismo, está abrigado numa sala climatizada da Casa das Rosas, um dos últimos casarões sobreviventes da Avenida Paulista. E vejo nisso um casamento perfeito, pois da varanda do espaço cultural é possível ver um colorido retrato, ao seu modo, cubista de outro cultor do concreto armado, o arquiteto Oscar Niemeyer. A obra é de um gênio da arte mural, o grafiteiro Cobra.

A Paulista tem esta capacidade de síntese da nação, e mesmo a miséria dosa sua presença por ali. Sob o vão livre do Masp, a bela caixa retangular de concreto concebida por Lina Bo Bard, onde se guarda uma das mais valiosas coleções de arte do planeta, um espaço sobrevoado por incansáveis e barulhentos helicópteros, vi numa manhã de sol um homem a comer restos de pão que ele ordenadamente organizara no chão, e fumava restos de cigarro que encontrava numa caixa de areia que tinha ao lado.

Sob este mesmo vão, num domingo, vasculhando as barracas de uma feira de antiguidades, encontrei um dos Quixotes que moram comigo em minha casa.

Em uma tarde não muito longe, do camarote plácido de um bar, vi a avenida ser invadida por uma horda de desgraçados, mutilados, feridos de uma batalha que desconhecia. De que recanto selvagem vinha aquela horda coberta com farrapos pretos de onde pingava sangue? Antes de encontrar a resposta percebi que desfilavam com sincronismo e até graça. E assim descobri que a moda ditava marcar pela Internet essas modernas procissões de zumbis. Divertiam mais que aterrorizavam.

Voltando à tarde inicial desta crônica, vinha no ritmo de pressa que a avenida nos exige e pouca atenção dava ao som ao redor. Estava obsecado pela estética de mais um livro que tinha lido e sobre as vertentes de um autor que precisava entrevistar quando a surpresa me parou. No meio da multidão um som novo e estranho para mim. De bermuda, chinelo e camiseta o que me pareceu um autêntico escocês tocava sua gaita de fole e conseguia a mágica liberdade de trazer serenidade para o mundo feérico da Paulista. Um alinhamento natural para este universo de contradições.


POEIRA E CAÇUÁ

Nos conhecemos nos espaço da adolescência, nos idos de Palmares Era o tempo dos cabelos compridos, das calças boca-sino, do violão sob os braços. Um estética meio hippie dominava o visual da turma: Célio Coelhinho, Nito, Zé Ripe, Gulu, Marcos Ripe, Ozi.

Tentávamos inventar nossas próprias canções enquanto escutávamos o que havia de mais brasileiro naquele instante.

Da terra de nascença tirávamos Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Alceu Valença, Flaviola, Marcone Notaro, Ave Sangria, o Pessoal do Ceará, Fagner, Belchior, Djavan, Pinto do Monteiro, Lourival e Dimas Batista, Baracho, Lia de Tamaracá; de outras plagas vinham Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo, Vinicius, Tom, Almondegas, Cartola, Beth Carvalho, Carlinhos Vergueiro, Milton Nascimento, Márcio e Lô Borges – os ouvidos eram antenas eternamente ligadas a todos os sentidos. Ou melhor, a quase todos. Lembro que um dia, na ressaca, por questões de preferência e cefaleia, quebrei um disco do Kiss que o irmão de Gulu teimava em escutar.

Sinceramente já naqueles idos nos encantavam bem mais os assovios de Veludo do Pife. Até hoje lembro com respeito e admiração uma estrofe recitada por um seu ajudante, o João:

Eu subi no céu a pé
Fui falar com o Criador
E Pedro me perguntou:
João o que que tu quer?
Vim falar com São Tomé
Que é de minha obrigação
Que eu quero meu coração
No riso de uma mulher.

Depois nos perdemos, mas vez em quando nos reencontramos. Como velhos amigos, nos divertimos com as lembranças. Vários ainda fazem música: Marcos Hippie adotou o nome de Marcos de Olinda e vive no Rio de Janeiro, Zé Ripe outro dia cantou as estações de trem que separam Palmares do Recife, Nito faz shows infantis nas Alagoas, Ozi dos Palmares circula pelas brenhas de São Paulo com CDs e encontros com Dominguinhos e o maestro Spok. Outros, como eu, Célio e Gulu, ficaram mesmos voltados aos descaminhos burocráticos que a vida prática pede.

Nunca pensei que as velhas parcerias voltassem, mas como gosto de batucar sandices e inventar histórias num teclado de computador, esse dias fiquei surpreso com o pedido de Ozi: Queria uma letra para musicar. Provocado, arrisquei. O resultado está aí e, como diria Ariano Suassuna, se gostarem podem aplaudir, se não gostarem façam de conta que não ouviram

Poeira e Caçuá

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Caminho de sol, macambira e pedra
Com a poeira embaçando o além.
O peito é todo um caçuá de alegria
Sonho sonhando com o cheiro do meu bem.
Dedilhando na viola uma cantiga
Me anuncio pelo apito de um trem.

Nessa viagem do sertão até a mata
Só a saudade é o que maltrata.

Agreste é terra onde planto as tristezas
Prá florescerem no mundo da esperança.
Engordo o gado com o sal dos sentimentos
Que faz nascer um sorriso de criança.
E desço o rio na barcaça dos contentes
Pois o sol nasce sempre com minha chegança.

Invado a mata que sobrou no meio da cana
Sinto na pele os pingos fartos do orvalho.
Mastigo o doce do melaço dos teus beijos
Nosso destino nesse sítio eu embaralho.


A VAIDADE REPAGINADA

A moça se achegou à mesa onde, procurando o que fazer numa manhã de repartição pública, lia em paz o meu jornal.

– Sabe o Jards Macalé? Você sabe que ele é meu amigo, não sabe? Pois eu não te conto.

Ficou feliz quando comunique que sabia quem era o compositor carioca e mais, também tinha conhecimento de sua amizade com ele. Apesar de ter prometido não contar, ela terminou por destrinchar uma historinha interessante.

Depois de incontáveis casamentos, Jards se apaixonou pela cantora Anna de Holanda, então ministra da Cultura, e resolveu pedir o aval de Miúcha, espécie de matriarca informal da família Buarque de Holanda. Tomou o telefone e se pôs em ação:

– Miúcha, estou apaixona pela Anna e quero saber se na família ainda tem espaço para negro?

– Para negro tem, não tem mais espaço é para doido.

E assim terminou o movimento do barco que não chegou a sair do cais.

Minha amiga também foi embora e eu voltei aos meus jornais para continuar assistindo ao espetáculo das celebridades e das pessoas que giram em seu entornou, afinal, sobretudo depois que os celulares passaram a filmar e a fotografar, cresceu em proporções geodésicas a multidão dos que conhecem celebridades. Ou pior, daqueles que se dizem celebridades.

Longe se vai o tempo em que tudo não passava de uma brincadeira quase inocente. Neste idos, em Palmares, circulava um tipo popular – uma história de quando havia ainda tipos populares –, o Dito. Ele se dizia tão conhecido que até Ataulfo Alves teria feito uma música para ele. Claro que ninguém acreditava nisso, mas ele provava cantando um verso de Na Cadência do Samba:

– Diz o Dito popular morre o homem, fica a fama.

Contando isso a um amigo meu de São Paulo, o Dirceu (não era o José, que fique bem claro), e logo ele atacou:

– Não seja por isso. Erasmo Carlos fez uma música prá mim.

E cantarolou: “Um homem prá chamar Dirceu, mesmo que seja eu.”

Nessa proposta de se fazer íntimo de mitos, celebridades, famosos, pessoas de escol, etc., etc., ninguém conseguiu ir tão longe quanto Tira-Teima, o Serpente da Palmeira, já que nascido fora na Palmeira dos Índios, nos recantos das Alagoas. Pois bem, o poeta repentista e irresponsável de carteirinha, talvez para pagar todos os pecados que cometeu vida a fora, tinha uma irmã que era freira, esposa de Jesus, como gostava de salientar o cantador. Assim, todas as vezes que se atrevia a falar das Escrituras, começava de maneira pomposa:

– Quando meu cunhado andava pela Palestina…

Nos tempos modernos a coisa é bem mais grave. Por esses dias, numa roda de boteco, se praticava o esporte de preferência nacional: falar mal de políticos. Cada um que contasse um caso mais escabroso que o outro. Eu que não tenho mais paciência para estes exercício – como Kafka, tudo que não é literatura me aborrece -, tentei mudar o rumo da prosa:

– Camaradas esta conversa é muito antiga, pois como diz o padre Antônio Vieira “tempos houve em que os demônios falavam e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os políticos, ainda é pior mundo.”

E logo uma mocinha saltou na frente.

– Gostei desse padre, é melhor que o padre Marcelo. Onde é que ele reza missa? Vou lá só prá tirar uma foto com ele.

Voltei à cerveja, com preguiça de comunicá-la que, pelos meus parcos conhecimentos religiosos, desde 1697 que ele talvez faça pregações no céu.

Mas assim são os viventes, não apenas sonham em se tornar celebridades, querem ser íntimos de tais peças. E a qualquer sinal de possibilidade já se põem a postos para a ação. Em outro boteco tocou meu celular.

– Desculpem, preciso atender. É o Santana, um artista amigo meu.

E logos uns dois queriam saber se se tratava do guitarrista mexicano. Desculpem, não chego a tanto, aliás quase nunca escuto o ícone de Woodstock. O telefonema era mesmo Santana, o Cantador, amigo velho ainda dos tempos de Palmares.

E por falar em México, andava zanzando pelo Rio de Janeiro quando soube que o escritor mexicano Carlos Fuentes iria falar sobre suas leituras de Machado de Assis. Desabalei para a Academia Brasileira de Letras. Num momento lá qualquer conversava com Nélida Piñon quando uma senhora de aspecto distinto se aproximou.

– Desculpe. O senhor pode tirar uma foto minha com a escritora?

E já foi me passando a máquina. Fiz-lhe a gentileza e ela sumiu no meia da multidão, não sem antes me perguntar o nome e agradecer-me.

Dias depois, em minha caixa de e-mail, a surpresa. A dita senhora, não sei como descobriu meu endereço eletrônico e mandou-me várias das fotos que conseguiu naquele dia de glórias – para ela, que fique bem claro – e um texto onde comunicava e se desculpava. Dizia ter me encontrado na internet e que não tirou uma foto comigo por não saber que eu também era famoso. Logo eu, famoso? Só se for prás minhas negas, como se dizia antigamente.

É isso. Parece que pouco adiantou Deus ter cunhado a vaidade como um dos sete pecados capitais.


DO OFÍCIO DE GARIMPAR

Sobre minha mesa, uma revista. Antiga. Fatos e FotosDocumento Histórico, de julho de 1969. A manchete anuncia: “O Homem na Lua – Exclusivo: Um disco com a voz do astronauta relatando a sua chegada à Lua.” Um feito memorável marcado na capa da revista com um desenho de Neil Armstrong dando o primeiro passo na lua. Sim, um desenho. Era impossível uma foto revelando a cena.

Um feito histórico, tanto que em Catende, Galego, gari da Prefeitura Municipal, cujo filho nasceu no exato momento em que o astronauta chegava à lua, incentivado pelo médico, batizou o rebento com o nome de Neil Armstrong Pereira da Silva. Chegou mesmo a mandar uma carta para a Nasa com a foto e a certidão de nascimento do Galeguinho. Meses depois foi bater à porta de minha avó, dona Bibi, cheio de frustração.

– Dona Bibi esses americanos não valem nada. Veja que eu batizei o menino e eles me mandam uns livros e uns retratos dos astronautas. Bem que poderiam me mandar um bólar.

– Galego, e o que é esse bólar que você fala?

– Não é o dinheiro deles, dona Bibi!!!

Um pragmático, esse Galego. Bem ao contrário de Macaxeira, engraxate de ofício, que não acreditava de jeito nenhum que o homem tinha chegado à lua. Quando minha vó tentou convencê-lo falando das imagens que ele mesmo tinha assistido na televisão, respondeu de pronto:

– Muito me admira a senhora, dona Bibi. Uma mulher tão instruída e não conhece os truques do cinema americano.

Já em Palmares, naqueles idos, ninguém conseguia caminhar pelas ruas sem ouvir a Rádio Cultura dos Palmares, então um mero serviço de autofalantes. E a música era o principal cardápio da emissora. Luiz Gonzaga, então, era frequência permanente, o que muito me ajudou em minha formação musical, mas também criou alguns vãos. Um exemplo? Até hoje não costumo escutar Beatles, o que muito espanta os interlocutores a quem conto o fato. Mas isso é outra história, o que quero falar é de Luiz Gonzaga cantado O Jumento é Nosso Irmão nos autofalantes palmarenses: “Padre Vieira falou que o jumento é nosso irmão.” E eu, menino metido a besta, que já tinha lido uns dois ou três sermões do Padre Antônio Vieira, e acreditava saber de tudo desta vida, gritava indignado: “O Padre Antônio Vieira nunca falou de jumento em suas prédicas.”

Tempos depois, já bem mais taludinho, em Brasília, alguém falou da passagem meio folclórica pela Câmara dos Deputados de um padre cearense, Antônio Vieira, o padre do jumento. Segui o rastro da dica e aprendi que este outro Antônio publicara um livro então desaparecido das livrarias: O Jumento, Nosso Irmão – O Jumento na História, Religião, Economia, Folclore, Literatura. A dedicatória é um primor: “Dedico este livro ao meu amigo, o Burro, e aos meus amigos que não são burros.”

O certo que passei a correr sebos de tudo quanto era canto em que me encontrava à cata do tal livro. Parece brincadeira, mas é fato que levei uns bons trinta anos para encontrar o volume, e o achei no meio de uma prateleira empoeirada e apinhada com volumes dedicados ao folclórico brasileiro e por um preço irrisório. Era uma segunda edição datada de 1964 e lançada pela Livraria Freitas Bastos do Rio de Janeiro. Claro que comprei de imediato e corri para casa para ler o bicho. Uma maravilha de erudição e humor. Merece ser reeditado com urgência, sobretudo nestes tempo em que os jumentos estão sendo abandonados pelas estradas nordestinas.

Enfim, para me penitenciar de minha burrice de antanho devo reler toda a obra dos Antônios, o cearense e o português.

Garimpar sebo é um prazer indescritível, pelo menos para mim que outra coisa não sei fazer senão ler os textos alheios. E quando se acha uma preciosidade este prazer é imensurável. O curioso é que nos sebos a preciosidade nasce do inusitado de um volume. Conto mais uma.

Andava sonhando ler Avalovara, brilhante romance experimental de Osman Lins que, lá pelo começo da década de 1980, andava sumido das livrarias. Procurava em sebos, claro. E o encontrei no Antiquário, de Brasília, uma das melhores casas do ramo que já conheci. Basta dizer que entre seus clientes estava o general Golbery. Pois bem, lá estava o romance em sua primeira edição, de 1973, lançada pela Melhoramentos. Quando comecei a folhear o volume logo vi que a compra era inevitável, e por uma dedicatória rabiscada na folha de rosto: “Ary, ofereço-lhe esta obra, cujo altor é professor da Faculdade de Filosofia de Marília. Espero que goste. Feliz Natal. 25/12/73.” E segue uma assinatura ilegível. Isso mesmo, não escrevi errado. O cidadão escreveu autor com “l”. E isso explica os sofrimentos que o professor Osman Lins debulhou em seus artigos.

Não lembro a primeira vez que entrei em um sebo, mas já estudante no Recife corria as calçadas do centro da cidade garimpando os livros ali expostos. Foi assim que encontrei o romance Homens e Caranguejos, de Josué de Castro, numa de suas primeiras edições. Infelizmente já não a tenho comigo, mas outro dia li uma antiga entrevista de Chico Science confessando que encontrou e comprou este mesmo livro também numa das calçadas do Recife, e foi a partir desta leitura que criou o Movimento Mangue Beat.

Eu, que não tenho talento para nada, não criei movimento nenhum. Mesmo assim guardo a lição que aprendi com Josué de Castro e outros incontáveis mestre. A vida repousa com segurança nos mangues e nas prateleiras empoeiradas.


NOTÍCIAS DE UM NOVO VÍCIO

mc1

O diabo se esconde nos detalhes, apregoavam os antigos oradores católicos. E estavam certos. No gesto mais banal de um cidadão, pode se esconder as artimanhas do demo. E isso é que me faz contar minha triste história de vícios, senhor.

Como servidor público exemplar dou-me o direito de um ócio matinal e cotidiano. Todo os dias, quando chego à repartição, depois do cafezinho obrigatório, ligo o computador para checar meus e-mails. A tecnologia, sobretudo a informática, devo alertá-los, é o caminho mas eficiente para as tentações diabólicas hodiernas. Ela, a tecnologia, abre as portas do inferno, renega os ensinamentos cristãos e leva os homens a vícios nunca antes pensados.

Foi o que se deu comigo.

De princípio devo confessar que nunca fui afeito aos jogos dos leilões. Aqueles salões repletos de homens sisudos a levantar o dedo sempre que uma peça lhe assanha a cobiça, nunca me fascinou. Por isso estranhei quando em minha caixa de e-mails um deles me anunciava os leilões do dia. A curiosidade, outra eficiente arma demoníaca, levou-me a abrir a mensagem. E lá estava outra tentação: um leilão de livros.

Segui em frente.

mc2

Nesta primeira experiência diabólica fui despertando os confins mais íntimos de meus desejos. O lote 20 era uma revista lançada no dia da inauguração de Brasília. No 162, estava uma biografia de Luiz Gonzaga. A provocação de fato veio com os lotes 199 e 458, respectivamente, O Amigo da Infância, uma coleção de oito livros que li avidamente em minha infância palmarense, e O Homem e a Terra na Usina Catende, um volume lançado em 1941. Não resistI. Logo me cadastrei no sítio e me danei a dar lances. Uma homenagem a Manuel Bandeira, documentos históricos de Pernambuco, os sobrados recifenses na visão de Aderbal Jurema. Ao todo foram nove lances, dos quais arrematei quatro. Perdi Manuel Bandeira e o Amigo da Infância, mas conquistei os sobrados recifenses e a Usina Catende.

Este livro sobre a usina tem uma gênese bem interessante. No início da década de 1940, Catende lançou um projeto ousado no mercado. Passou a comprar e arrendar as propriedades em seu entorno. Era o início de um processo que passou a se chamar moagem da cana própria. Houve reação. Acusavam a usina de estar matando o fornecedor de cana, um dos elos fundamentais do processo de distribuição das riquezas da região. O livro, uma reação aos reclamos, fala dos ganhos sociais distribuídos pela indústria aos trabalhadores. Fala de escolas, irrigação, transporte, energia, policlínica, moradias decentes.

Tudo era verdade. Trinta anos depois, na década de 1970, quando costumeiramente eu zanzava pelas ruas de Catende, podia ver resquícios destas benesses que o tempo e a falta de visão dos novos donos da usina estavam deixando se deteriorar. Por outro lado, gostaria de ver a reação de Darel Valença lendo este livro.

MC3MC4

O artista plástico Darel, hoje um nome internacional, foi menino na Usina Catende desta época. Ele nasceu em 1924. Não tinha ainda treze anos quando começou a desenhar as peças industriais da usina. Aos dezesseis anos, em 1941, ano da publicação do tal livro, foi falar com o sargento Costa Azevedo, dono da usina, sobre suas pretensões de ir para o Recife estudar artes plásticas. O homem subiu nas tamancas: “É isso que dá ajudar essa gente. Quando crescem vêm logo morder nosso pé.” Depois de contar-me esta história, o bom Darel sentenciou: “O filha da puta queria que eu vivesse o resto da vida como empregado dele. Nunca pensou em meu crescimento profissional.”

E esta é a lógica do patronado. Catende, com Costa Azevedo, foi progressista, dinâmica, imensa, mas tinha como base o lucro, como qualquer indústria. E se fazia uma política social, meritória, diga-se, era para melhor prender o trabalhador aos seus serviços. Ou seja, dava com uma mão para tirar com a outra.

Melhor é esquecer os princípios doutrinários marxistas e voltar ao relato de meu novo vício.

Passados uns dias, satisfeito com a leitura de meus livros, outra tentação me chega pelo e-mail. Fiquei louco. Um volume falava das carrancas do São Francisco, outro do Brasil holandês, outro sobre Pedro II, e mais um sobre Olinda, e um Pereira da Costa, e a coleção infantil de Lobato. Tentei várias vezes acessar meu cadastro e não consegui. Mandei uma mensagem para o sítio que me confirmou a senha, e nada. Terminei por perder a possibilidade de entrar no jogo. E assim recolhi-me com minhas frustrações.

Isso somente até o dia de uma nova tentação. Desta vez não poderia perder um livro de meus antigos desejos, O Poeta Insólito, onde se publicou as fotomontagens feitas pelo poeta Jorge de Lima. Tentei acessar meu cadastro, e nada. Não tive dúvida, me recadastrei e joguei meus lances. Arrematei três preciosidades. Além do Jorge de Lima, o Mário de Andrade – Fotógrafo e Turista Aprendiz e Pau-Brasil, a coletânea de artigos organizada por Eduardo Bueno.

Em seguida, em outo leilão, arrematei a coleção Mistérios da Criação Literárias, de José Domingos de Brito, e a biografia de Machado de Assis, quatro volumes, escrita por R. Magalhães Júnior. E agora já aguardo o resultado de novo jogo onde tento conquistar algumas publicações sobre Brasília, uma biografia de Vitalino, um Câmara Cascudo…

Doutor, será que isso tem cura?


QUIPAPÁ – UMA MINA VIRTUAL

A velha rotina que assola todo cronista. Durante longos minutos, horas mesmo, a pensar a frase inicial, o tema que desaguará em uma nova crônica. E simplesmente nada acontece.

Constantemente sofro esta angústia. Acordo preocupado em escrever uma crônica, mas, problema crônico, nem sempre baixa o santo para me trazer um assunto no mínimo digno. Como jornalista de relativo curso aprendi a escrever sob as determinantes da pressão. Uma aprendizagem complementada pelas lições de um mestre, Luis Fernando Verissimo, para quem a inspiração sempre vem com o esgotamento do prazo dado pelo editor. Destarte nunca consigo deixar aquele texto pré-pronto na gaveta para as eventuais emergências. Sempre parto do nada.

Tudo bem, nada nasce do nada, pregam os evolucionistas, daí que sempre recorro aos bancos de dados mais óbvios. E hoje se deu exatamente assim. Assisti aos telejornais da manhã. Nada de novo além de eleições e a velha guerra entre brinquedos eletrônicos e tradicionais nestes dias de segundo turno e festa das crianças. Passei para os jornais impressos que me repetiram as mesmas manchetes. Rememorei velhos fastos de Palmares, mas nada que me espantasse a preguiça, me despertasse a, vá lá, inspiração. Como último tiro recorri à minha caixa de correio eletrônico.

E estou ali correndo uma lista quase infinda de ofertas mirabolantes e imperdíveis. Relógios, automóveis, remédios para todos os males, cartomantes, uma diversidade maior que a feira de Caruaru. Saio jogando tudo na lixeira sem sequer ler. Em meio a toda essa parafernália, um e-mail da editora Autêntica me desperta a atenção. Anuncia a tradução do primeiro romance escrito pelo francês Hubert Tézenas. Nada de mais não fosse o título, O Ouro de Quipapá. Será que estão falando mesmo da Quipapá que conheço? Na dúvida recorri ao dicionário, mas tanto Aurélio quanto Houaiss nada me esclarecem. E ainda o título original do romance, L’Or de Quipapá, a me atentar o juízo.

O que levaria um francês a falar de ouro em Quipapá? Pelo que lembro, nunca li qualquer referência à cidade em qualquer autor brasileiro. Também desconheço a existência de qualquer jazida por ali. Sei sim de uma cidade miúda, encravada na zona canavieira com uma larga praça em frente a uma bela igreja, onde meu tio Dila se casou.

Gastei vários dias de minha infância naquelas ruas tranquilas. Meu tio Fernando morava ali, numa casa de quintal imenso, que chegava à rua de trás. Lembro que uma senhora que morava em frente e que tinha sempre um biscoito de polvilho para nos oferecer. Sua sala era modesta, com móveis escuros de madeira e, numa mesa de centro, uma casinha de papel, uma singela embalagem de biscoito Maria. No alto de um morro tinha um cruzeiro e muito planejamos, eu e meus primos, subir até lá apenas com as forças de nossos pés de meninos. Nunca concretizamos o desejo e o cruzeiro ficou sempre como aquele mito que se olha de longe e com respeito.

Tudo em Quipapá era assim, tinha cores infantis e apontava futuros.

quipapá

Quipapá, 25.381 habitantes e a 180 quilômetros do Recife

O futuro, ao que me parece, nunca chegou a Quipapá. Para mim ela continua a ser a cidadezinha que todos desconhecem a origem do nome. Uma lenda local conta que o diabo vinha de uma longa e terrível viagem pelo sertão. Trazia toda família. Quando chegaram naquele sítio farto em água e arvoredo, o filho do cão pediu: “Aqui, papá”. E assim batizou a cidade. Até meu amigo Homero Fonseca, profundo conhecedor da toponímia pernambucana, fala da lenda e ainda de outra, que teria sido Zumbi em uma de suas fugas que chegou por ali e ficou espantado com o tanto de quipá que infestava o lugar. Sei não, quipá somente é farto no sertão. E não dá para ficar sonhando com a sextilha de Pinto do Monteiro que, para falar da desgraça que era a terra de um sertanejo, lascou:

Tua terra é muito ruim.
Só dá quipá e urtiga.
Planto milho, milho nasce,
Cresce, mas não dá espiga.
De legume de caroço
Só dá verruga e bexiga.

Deixando o nome de lado, voltou ao francês. Como o senhor Hubert Tézenas descobriu este recanto encravado no fim do mundo Pernambucano? Pelo que me conta a editora, o moço nasceu em Paris, mas um dia, em 1985, jogou tudo pro alto e veio para o Brasil. Durante dez anos viveu por aqui a traduzir romances sentimentais para ganhar a vida. Voltou para a França e continuou seu ofício de tradutor. Até traduziu três bons brasileiros: Edney Silvestre, Raimundo Carrero e Alberto Mussa. E, estreando como romancista, lembrou de Quipapá.

O enredo do romance me parece bem instigante. Em 1987, no Recife, o corretor de imóveis Alberico Cruz assiste ao assassinato de um sindicalista rural. Passa então a ser o principal suspeito do crime. Chega a ser preso, mas foge da prisão e, junto com um repórter, sai à procura do verdadeiro culpado. Então se deparam com Quipapá e a uma série de injustiças sociais, como uma mina explorada com trabalho escravo.

Somos o povo curioso. Nos últimos quarenta anos, pelo menos, grande parte de nossos escritores buscam nos grandes centros urbanos o ponto de apoio para suas inquietações ficcionais. Queremos a todo custo deixar de ser a nação agrária tão decantada pelo romance de 30. E vem um francês para nos dizer que ainda não resolvemos questões básicas nos sertão. E ele tem razão. Precisamos mergulhar no Brasil profundo e descobrir ali o sentido real de nossa alma. Assim certamente iremos enxergar o que move os desacertos sociais de nossas metrópoles.

E fecho a crônica para ir à livraria. Vou buscar O Ouro de Quipapá. Quero ler a trama, quero rever minha infância e, quem sabe, também fabular sobre um Brasil ainda vivo.


BRASIL, UMA AVENIDA

Desembarquei no aeroporto para seguir o caminho da maresia, Aeroporto Tom Jobim, um que tinha intimidade com estas coisas de sol, de sal, de sul. Confesso que minha alma não cantava nem estava morto de saudade e o tanto que vi do Rio de Janeiro dava-me certo desencanto, desalento. Sob a canícula das horas matinais, nas proximidades das nove da manhã, avistei o emaranhado de ruas e ruelas a quase ocultar avenidas largas tomadas por carros e caminhões a trafegar rápidos e indiferentes. E lá no alto, mas bem firmada na terra, a igreja de Nossa Senhora da Penha reverberando pontos de paz, embora aos seus pés o caos seja o regime, a complexidade do Alemão a desenhar dores.

“Nossa Senhora da Penha / minha voz talvez não tenha / o poder de exaltar. / Vou pedir à padroeira / numa prece verdadeira / que dê paz para o meu lar…” Eu, desprovido que sou do dom da crença, quando a vejo, revejo a voz de Luiz Gonzaga, a música de Guio de Morais, os versos de David Nasser vindos de um tempo em que o Rio foi tomado pelo baião e se fez tão nordestino. Agora os ritmos e as cores são outros, talvez mais cosmopolitas, mas com certeza tão sem sabores.

Isso são outros quinhentos, enfim, importa que desembarquei, apanhei as malas, uma van e o rumo da zona Norte, pois tinha mais de duzentos quilômetros pela frente numa estrada que oferece imensas e belíssimas visões do paraíso, praias encantadas, recortadas por montanhas, emendadas no azul infindo do mar salgado, das lágrimas de Portugal, como diria Fernando Pessoa. A vida, no entanto, não esquece nunca de abrigar as contradições no mesmo espaço. E pela estrada também erguem-se casas mal projetadas, com tijolos expostos pela ausência de rebocos, edifícios capengas, mambembes, sem atrativos, além de uma usina nuclear.

Bem estou adiantando os bois, correndo. Prudente é voltar ao embarque na van. E foi assim, com a alma mais voltada para o repouso da preguiça que para os dotes de cantadora, que segui olhando o panorama por uma janela ampla e protegida por película. E chegamos à avenida. E embora tenha três faixas de rolamento de cada lado, ela me parece estreita, sobretudo agora, com o rugir do tráfego intenso. Tudo me é estranho e, paradoxalmente, íntimo. Estamos no Brasil.

Vovó Cambinda – Trabalho para o amor. A placa tosca, com fundo branco encardido e letras azuis desbotadas, chamou minha atenção dispersa. Desde bem antes de Machado de Assis que estas cartomantes vendem ilusões às pessoas que buscam amor e sucesso. E sempre com estes nomes africanos ou ciganos, e sempre com poderes etéreos capazes de milagres e encantos. Encanta-me a figura, sua capacidade de envolver incautos, e por vezes maldigo minhas descrenças, afinal, não fossem elas talvez aprendesse com os bruxos modernos mil histórias para contar. Paciência, resta-me o prejuízo.

Esqueci a avó mezzo africana quando percebi, por informação de outra placa, que estava em Parada de Lucas. Tenho uma profunda curiosidade sobre o nome de logradouros e bairros e cidades, de certa forma, compensa minhas perdas míticas. Descrever por que um beco de Palmares se chamava Engole-Homem, me fascina. Aquela era a mais discreta via que nos levava ao cabaré da cidade, e os homens seguiam descuidados pela rua Coronel Izácio e de repente eram engolidos pelo beco. Parada de Lucas deve ter alguma história que a disposição qualquer dia me levará a descobrir.

Entre carros e caminhões, paro e avanço e sigo. De repente estamos em Cordovil. Conta-se que este é o primeiro bairro carioca a ser banhado pelas águas da baía da Guanabara, e eu, de ingênuo, sempre achei que tivesse ganhado o nome em homenagem ao compositor Hervé Cordovil. Tá certo, ele foi cria do século XX e o bairro certamente é bem mais antigo, mas não custa nada delirar e prestar reverência a quem foi parceiro na vida de viajante do velho Luiz Gonzaga. Recorro ao Google, então. Aliás, não dá para esquecer a dúvida do poeta Valmir Jordão: “Se doutor Google / tudo explica, / doutor Freud / como fica?” Voltemos a Cordovil. Descubro que aquele sítio pertenceu, “no século XVII, ao Provedor da Fazenda Real Bartolomeu de Siqueira Cordovil, natural de Alvito, Évora, Portugal, que posteriormente foi transformado no Engenho do Provedor da Fazenda Real, Francisco Cordovil de Siqueira e Mello, filho de Bartolomeu.” Esses portugueses estão sempre em nossos caminhos de ilusões.

E aqui está o subúrbio, tão criativo e encantador. Fascína-me o orgulho que as pessoas daqui têm em se identificar com o lugar. Uma padaria se chama Aninha de Irajá e a academia de ginástica, Gata de Irajá. Certo está Biliu de Campina que não cansa de proclamar: “Se o Erasmo é de Roterdam, porque eu não posso ser de Campina?”

Passam casas descaiadas, os prédios tortos, os muros que impedem os pedestres de invadirem as pistas de rolamento e também uma escola imensa, o CAIC Adão Pereira, resquício do sonho de Brizola e Darcy em dotar os confins do estado com uma educação de qualidade. O sonho acabou, ficaram algumas edificações que resistem e o barulho da política. Vejo lado a lado os cartazes de Cidinha Campos, que um dia foi uma combativa radialista, e Malafaia, que um dia foi pastor evangélico, campo onde ainda apascenta seus votos, e Laura Carneiro, que um dia herdou do pai, o senador Nelson Carneiro, que um dia foi deputado pela Bahia, alguns votos e esta vontade intangível de servir ao povo.

Hoje, lembrando minha passagem pela avenida, vejo nos jornais a foto de uma mãe de cócoras se escondendo atrás do muro de proteção que separa as pistas de rolamento das casas. A senhora tenta proteger a filha dos tiros que nascem da guerra entre bandidos e polícia. Olho a foto, mas somente enxergo um Brasil que insiste em não mudar.


AQUELAS QUE PASSAM, NÃO PASSARAM

É uma moça loura e alta. Eu a olho sem cobiças ou desejos, somente alimento o prazer de ver o belo. Não sei seu nome, mas que importa um nome, Gullar, a esta hora da tarde em Brasília à mesa do almoço sob uma luz fluorescente entre funcionários públicos e garçons dentro de um enigma? E a esfinge passa galante, como gazela em sua elegância despojada. Usa sempre roupas vivas, descontraídas e rouba sossegos posto que se torna ainda mais bela e sensual, e me agrada ter esta visão quase cotidiana, pois trabalhamos no mesmo edifício. Tem os olhos assustados de quem se surpreende com a presença alheia e este ar de insegurança a despoja das malícias, enquanto ela passa.

Certamente ela é carioca, Vinicius, não por estarmos em Paraty, mas basta o jeitinho dela andar. É, não sei se tem carinhozinho assim para dá, pois vejo somente seu riso de dentes claros e perfeitos. Uma risada sincera, daquelas que nascem no espírito, no âmago da alegria, enquanto ela passa, enquanto tomo uma cachaça no sossego de um bar, sobre as pedras irregulares da pavimentação arcaica que desequilibra a cadeira onde sento, mas favorece o molejo sincopado da morena que caminha com passos de eterna embriaguez. A saia é curta, mas generosa ao favorecer minha visão de observador privilegiado e involuntário, enquanto ela passa.

Os olhos trazem minúsculos aquários, Aldir, também de peixinhos tropicais. Sabe aquelas mulheres que um homem não esquece? Era ela. Discretas sardas na pele que se instalou pouco abaixo dos olhos, os tais aquários, azuis, vivos, marinheiros, e os cabelos ruivos e longos um pouco assanhados pela brisa de Olinda. Eu que sentei na calçada da Igreja da Sé somente para ver o Recife longínquo, além das ladeiras, a vi passar solitária e séria. Não quis nem desejei adivinhar seus dias, basta-me saber de sua existência para a vida se tornar mais ampla, plena, mais excitante.

Lá vem o Brasil, Moraes, descendo a ladeira, mas de ônibus. Estava a caminho do centro de Porto Alegre quando o transporte parou no topo de uma ladeira e ela entrou. Passou pela roleta e caminhou com seu rosto afilado com biótipo italiano, mas na pele rescendia a discreta palidez da morenice, uma mistura de raças estampada na face. Vinha em minha direção e pude ver cada detalhe de seus lábios que, mesmo fechados e sérios, pareciam sorria. Trazia certamente a alegria de quem está ciente que carrega em si mesma a felicidade, e a transborda para além dos limites da miséria do mundo. Sabe-se que o homem é mal em sua essência, mas a beleza quando chega descarrega todo o pessimismo existente e prevalece por si mesma. Aquela moça era a configuração perfeita deste instante, e trazia também em si a síntese mais perfeita de um país, a áurea de luz de três raças muito felizes que se uniram para construir o éden.

Percebe-se o frescor também na pureza, afinal, Mautner, Nova York não é a América, e ali é possível fazer uma leitura o mundo, do senso cosmopolita do homem. Eu talvez estivesse pensando nisso quando a vi passar com galhardia e vestes infantis. Não, não era uma menina, mas uma moça em flor, como diria Proust, e eu fiquei em seu regaço, à sua sombra, a vendo passar, caminhando, pisando os estreitos passeios do Central Parque. Japonesa de origem, ou de fato, dá para deduzir pelos clássicos olhos estreitos, por onde passa pouca luz, mais de onde emana a luminosidade do sol nascente, que vem encantando e obscurece todas as outras nobrezas naturais. Mesmo os dóceis esquilos estão ausentes, não ousam se mostrar ao encanto do riso tímido e permanente da garota. Não está sozinha, outras duas ou três a acompanham, mas nada parece existir ao redor, enquanto ela passa.

Amigo Neruda eu também queria deixar meu sangue rodeando a doçura daquela sua conterrânea que na fria manhã do aeroporto de Santiago vestia-se com o rigor ainda mais frio de uma farda militar. Também passava e olhava a todos como se fôssemos todos suspeitos de algum crime, embora, com sinceridade meu poeta, não importaria de me prender naquele encanto. Fui discreto, como manda a prudência nesta hora, mas a latinidade que resplandecia da pele morena de seu rosto, seus olhos abertos para os mundos e as paixões, seus lábios recheados de carnes macias e presumivelmente doces a despia da falta de atração de sua veste e a encobria com o manto diáfano e sensual de quem dança uma rumba, pois seus passos era de bailarina, e de nada mais precisava para nos alumbrar enquanto passava.

Teve uma que não passava somente, mas dançava de fato. Caminhando entre os casarões coloniais de São Luís do Maranhão, Jorge de Lima, vi a mulher a quem não dei nenhum nome de mulher nascida, nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras, nem de astros, nem de flores, apenas a vi com olhos de encanto. E ela dançava a sensualidade de um reggae e explodia a negritude de sua pele na celsitude de seu corpo esguio de falsa magra, posto que era possível adivinhar o que escondia o vestido largo enquanto ela dançava. Apanhei minha máquina fotográfica e, como Carlos Pena Filho, aprisionei no azul aquelas horas gratas. Não lhe dei nome de musa, mas a guardei comigo até chegar em São Paulo, meu pouso seguinte. Ali um gatuno levou a sacola onde estava a máquina e o registro da beleza. Talvez tenha sido melhor assim, pois sua imagem, como sábio egoísta, ainda guardo só para mim – a imagem da mulher que dançava e passava.

A lista é infinda e a crônica tem espaço curto. Melhor é preservar a lembrança e dormir com minhas verdades, afinal todas estas mulheres certamente acreditavam que simplesmente passaram.


DA COLHEITA DE VOTOS

Era uma roda de amigos reunida num dos corredores do Senado Federal. Todos alinhadamente vestidos de paletó e gravata davam suas explicações para o sempre complicado quadro político e social do país, e buscavam entender os caminhos e descaminhos das novas decisões do parlamento. O problema era que quando estávamos chegando próximo de alguma solução, surgia um estraga prazer.

– Vocês estão sabendo o que aconteceu com aquele senador? Não?

E logo vinha mais uma notícia escabrosa, mais um caminho para o escândalo anunciado. E assim seguimos até que o cientista político Paulo Kramer sentenciou:

– É, nós não gostamos de política, gostamos da fofoca política.

E assim se fazem os melhores analistas políticos que conheço.

Lembro-me desse fato porque estamos em plena safra das eleições, como diria meu amigo Jessier Quirino. E confesso que sou um animal político, não no sentido prático, mas como mero espectador e, claro, apreciador dos bastidores, onde o que acontece quase sempre não serve para a História, mas gera excelentes histórias. E aprendi a caminhar por aí ainda muito novo.

Na Palmares dos anos 70, época de eleição era tempo de festa. Corríamos todos os comícios para olhar as meninas, chupar rolete de cana e ouvir os criativos oradores. Num desses, escutei de um defensor da candidatura de Jader Carlos à prefeitura: “Eu não sou politiqueiro nem tampouco orador comprado.” Até hoje não consegui saber o preço de um orador, mas tudo bem, são coisas da vida.comício

Nesta tal campanha meu pai despontava como um dos oradores mais solicitados, mas defendia a eleição de seu Nezinho, e um dia implicou com o jingle de Jader. Originário de Belém de Maria, Jader era chamado de forasteiro, tinha até uma referência a isso no jingle de seu Nezinho, cantado por Everaldo Souza: “…um forasteiro quer mandar aqui / Ele se manque, todo mundo sabe, / Ô bicho, / Temos seu Nezinho aqui.

Pois bem, Jader rebateu com uma musiquinha onde dizia que Palmares precisava de um homem para governá-la. Papai é que não gostou da história e deu o troco num comício.

– Ouvi a música de nosso adversário dizendo que Palmares precisa de homem. Ele quer homem prá quê? Para rezar tem o bispo Dom Acácio. Para tratar de doentes tem doutor Silvio Magalhães.

E depois de citar outros tantos expoentes profissionais palmarenses, concluiu:

– Para administrar a cidade temos seu Nezinho. Mas se eles querem um reprodutor, temos aqui o Zezé Polodoro.

Como o próprio nome denuncia, Polodoro era um motorista, ex-combatente da II Guerra Mundial e conhecido por ser muito bem dotado.

As campanhas modernas praticamente extinguiram essa excelente forma de comunicação, o comício. Assisti incontáveis e praticamente de todos tenho uma larga memória afetiva. Em muitos fui expectador privilegiado, pois estava no palanque, muitas vezes uma simples carroceria de caminhão.

Num desses, em Maceió, tinha mais gente em cima do caminhão do que na plateia, e com um agravante, todo povo estava na calçada oposta, o que deixava a rua completamente vazia. Quando falava o deputado Alcides Falcão em defesa de sua reeleição à Assembleia Legislativa, um bêbedo se postou estrategicamente no meio da rua, entre o caminhão e o povo. Previ o óbvio: o comício acabaria em breve. Já até nos esquecíamos da agonia que era ouvir Alcides. Fumante inveterado discursava sempre com um cigarro aceso entre os dedos. Empertigado, pouco se mexia e a cinza na ponta do cigarro crescia ao sabor do vento, e não sabíamos se prestávamos atenção às palavras do orador ou às ameaças de queda da cinza de seu cigarro.

Estávamos nesta agonia quando o bêbado resolveu se manifestar:

– É tudo corno aí em cima.

Alcides engasgou, deixou cair a cinza do cigarro e eu, solteiro naquela ocasião, me danei a ri com o povo. Enfim, não havia mais clima para o falatório.

Maceió tinha uma boa fartura de oradores criativos. Um deles era Doutor, um negro de quase dois metros de altura, de cabelos brancos, sempre vestido de branco e funcionário da Petrobrás. Em todas as eleições ele se candidatava pela oposição. O problema era que nos comícios sempre estava alguém para buzinar em seu ouvido o que deveria falar, justificando: “Falar eu sei, o que me falta é o tema.” E um dia convocou um gaiato que gritou o primeiro tema – Divaldo Suruagy.

“Esse Divaldo Suaruagy não vale nada. É um moleque que não paga direito o trabalhador público…” E seguiu seu discurso até que o orientador deu um novo tema – Casal, a companhia de saneamento de Alagoas. “A Casal é a miséria do povo pobre. Nunca entrega a água de maneira correta, todo dia deixa o trabalhador na seca e ainda cobra uma fortuna na conta, roubando sempre o povo…” e veio outro tema – A Petrobrás. “A Petrobrás… A Petrobrás não rapaz, é lá que eu trabalho.” Protestou se virando para o pitaqueiro e perdendo o ritmo do discurso.

As leis eleitorais e os marqueteiros praticamente aboliram os comícios e grande parte da graça das campanhas. Os candidatos hoje são pasteurizados, enformados e até já não agridem com tanta frequência a língua portuguesa. Uma chatice esses programas eleitorais modernos. Sequer aparece alguém com um penico na cabeça, como fazia Zé Muniz em Alagoas.

Acho que até a fofoca política tem perdido sabor e o jeito é ficar somente rezando, pois o fundamental é que esta nova safra dê bons frutos.


DOS TRABALHOS DE CAETANA

onca_caetana

A Onça Caetana

É uma moça, o que se vê, ou antes se pressente, e tem por nome Caetana. Desce de paragens imensas, de altos inalcançáveis na hora que melhor lhe encanta, geralmente com o sopro frio da brisa madrugadeira. Misteriosa, se veste de onça, uma suçuarana que abraça homens e mulheres e meninos em sua faina melancólica. Seu trabalho é de dor e saudade. E sua contabilidade se adensa com o passar das horas. Multiplicar a população de anjos e demônios é o saldo de seu livro caixa.
 
Ultimamente, mesmo com a certeza de sua infalibilidade, Caetana vem me surpreendendo.
  
Fazem quase dois meses. Tomava café da manhã numa pousada de Pirenopólis, onde teria mais um debate literário e já seguiria para Brasília. Precisava desfazer e refazer as malas, posto que à noite tomaria o rumo de uma nova e longa viagem. Na programação, um mês fora de casa. Voltando ao café, a escritora Margarida Patriota pergunta-me: “Você conhece Nilto Maciel?” “Sim, meu grande amigo.” “Eu não o conhecia, mas soube que foi encontrado morto em casa, há poucos dias.” Segurei o impacto da notícia e durante toda minha viagem pensava no amigo e em sua tragédia pessoal, abraçar Caetana na quase solidão de uma casa pouco habitada.

Era um homem pacato, de riso largo e uma generosidade tamanha. Excelente contista, muito publicou. Depois de morar alguns anos em Brasília, voltou para o Ceará, sua Fortaleza, e ali fez trincheira de sua batalha literária. Viveu para o ofício.

Na volta para casa encontro sobre a minha mesa de trabalho uma pilha de correspondências a serem abertas. Entre os pacotes um mandado por Nilto com seu último livro publicado, Sôbolas Manhãs, e um simpático bilhete datado de 10 de abril, dezenove dias antes de sua morte. O carimbo dos Correios me diz que a carta foi postada no dia 16. Agora olho o volume ainda intacto. Nas urgências de botar a casa e o trabalho em ordem ainda não pude lê-lo, mas como sei que a única forma de homenagear um escritor é ler seus escritos, início a reverência ainda hoje.nm7

Foram meses de intensas atividades, este primeiro semestre do ano. Muito que ler, muito que escrever, muito que conhecer. Sempre a inquietude levada pelo novo a mover meus sonhos e  desejos. Além disso, não deu para fugir das provocações externas, como acompanhar os jogos da Copa. Tenho interesse por todos os tipos de festa. E enquanto assistia a um desses jogos, toca o telefone. Do outro lado da linha minha amiga Maju, professora da Universidade de Brasília, onde cultiva com carinho o acervo deixado por outro grande amigo, o poeta Cassiano Nunes. “Nosso amigo Edson Nery foi embora”, disse-me com sua voz quase infantil.

Edson tinha uma memória privilegiada. Por incontáveis horas nos contou histórias infindas de literatos e intelectuais com quem conviveu. Gilberto Freyre, Capiba, Manuel Bandeira, era imensa a lista de seus afetos. Como também era inesgotável o repertório de poesias que dizia de cor. João Cabral, Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos corriam noite a fora na voz meio britânica, meio nordestina de Edson.

Numa manhã de novembro, caminhando à toa pelas ruas de Olinda, encontro o cineasta Vladimir de Carvalho sentado numa calçada. Aquilo não era farra, posto que o moço não é dado a estas extravagâncias. “Estou aqui esperando uma equipe para gravar uma entrevista com Edson Nery. Você vem comigo?” Claro que não fugi ao convite.

Edson, imenso, estava deitado numa cama enorme, dessas hospitalares, já abatido pelo ido dos anos. A cabeça é que não falhava, como sempre. Conversamos um bocado sobre poesia, Brasília e livros. Mas aí chegou a hora de falar sobre Cícero Dias, tema de interesse de Vladimir. Fui embora, tinha chegado a hora dos profissionais. E caminhei por Olinda já com saudades do último encontro com um de meus mestres mais diletos.

Tinha tomado a decisão de não ir ao trabalho naquele dia. Ficaria em casa cuidando de uma outra missão, analisar contos inscritos em um concurso. Tocava a vida quando tocou o telefone. “Maurício, morreu João Ubaldo Ribeiro. Você pode vir aqui cuidar de uma matéria?” Era minha editora e claro que logo me desembalei para a TV para me enfronhar na missão.

Não chegamos a ser amigos próximos, mas nos conhecíamos. Há um mito que me tem por alagoano, e João acreditava nele. Soube disso em um de nossos encontros. “Maurício, você que vem de Alagoas, já viu o retrato de meu pai na Casa do Penedo? Já não aguento mais as pessoas falando desse retrato.” Eu conhecia o tal retrato posto na bela casa de cultura, mas apenas ri do comentário do escritor.

Coisa melhor se deu em sua posse na Academia Brasileira de Letras. Fui lá como jornalista. E estava conversando com o escritor Herberto Sales quando se aproximou o responsável pelo cerimonial. “Doutor Herberto, a cerimônia vai começar. O senhor pode ir para salão?” E voltando-se para mim, “O senhor pode me acompanhar?” Aconselhado a ser obediente deste os tempos do Externato Santa Inês, em Palmares, segui o moço que pediu-me: “Sente-se aqui.” Sentei e percebi que havia um cartão na cadeira. Puxei o bicho e li: reservado às senhoras dos senhores acadêmicos. Fiquei por ali, e se alguém viesse me questionar, tinha já uma resposta pronta: “Sou marido de Rachel de Queirós”.

Enfim, assisti em paz toda cerimônia.

Dias depois encontrei Jorge Amado, padrinho da eleição de João Ubaldo para a Academia, mas que não estivera na posse. “Jorge, você chegou a ler o discurso de João Ubaldo na Academia?” “Sim. Um discurso maravilhoso. Chato como todo bom discurso deve ser.”

Hoje João já não discursa. Em minha prateleira vejo a lombada de seu último romance, O Albatroz Azul. Ainda não o li, mas devo fazer-lhe esta homenagem.           
 
Um dos pressupostos da idade é assistir a moça Caetana ceifar em nosso canteiro de afetividades. Enquanto isso vamos ficando por aqui, a cultivar saudades, a carregar a certeza da condição utópica da imortalidade, dois outros predicados da maturidade. A obra do artista, enfim, é quem vence de fato a morte.


QUANDO CHEGA A DESEJADA

Meu pai comprou uma televisão nova. Era grande, de não sei quantas polegadas, e foi instalada com pompas e circunstâncias em nossa sala de visitas. Outras questões técnicas ainda incomodavam, afinal, a recepção de imagem e som não era das melhores. Foi necessário eleger um vilão, e ele logo surgiu. O Morro do Matadouro, imponente por trás da casa, interferia na transmissão. Então se ergueu uma antena imensa, altíssima, capaz de vencer as forças da natureza e nos trazer as sonhadas ilusões da festa. Víamos surgir nossos heróis naquela tela em imagens ainda não tão perfeitas e em preto e branco, mas tudo estava dentro do mais alto padrão tecnológico daqueles idos. Sala cheia de amigos, cerveja e refrigerante liberados, todos e tudo prontos para as emoções.
 
Elas, as emoções, seriam fortes. Estávamos em junho de 1970 e a Tchecoslováquia faz um gol contra o Brasil. Desce um gelo siberiano sobre a sala, e o clima assim se mantém até que nosso time reage e termina vencendo a partida por quatro a um. Abriram-se as portas da festa que já naquele tempo, eu não tinha como saber então, foi politizada. Darcy Ribeiro conta que, exilado, torceu pelo Brasil escondido da mulher, a antropóloga Berta Ribeiro. Ela acreditava que uma vitória da seleção favoreceria a ditadura militar.
 
Esta é a primeira Copa Mundial de Futebol de que tenho lembrança. Já naqueles idos não me empolgava tanto aquela correria de vinte dois homens dentro de um retângulo em busca de uma bola e várias conquistas. Preguiçoso por índole preferia me deixar no sofá na companhia de um livro qualquer. Mas a cada quatro anos o evento terminava por envolver a todos e eu não podia fugir e me isolar do coro dos contentes, afinal, tudo era festa e esplendor.
 
Em 1974 houve um pedido musical de Luiz Américo para que Zagallo mexesse no time e diante da covardia de Pelé em não se dispor a disputar mais uma Copa perguntava o cantor: “Quem é que vai pro lugar dele?”. Foi o começo de uma sequencia de tristezas. Mesmo assim, quatro anos depois lá estávamos nós, com as esperanças renovadas. 1978, já com um copo de cerveja na mão, fui à Argentina assistir aos jogos, não ao país dos hermanos, que fique claro, mas um decente cabaré de Palmares xará do vencedor daquele embate depois de uma suspeita vitória de seis a zero sobre o Peru. 1982, já em Brasília, comprei uma imensa bandeira e, depois da eliminação do Brasil na segunda fase pelos pés de Paolo Rossi, da Itália, ainda ousei sair tremulando a tal bandeira de carona no carro de um amigo, mas logo tive que recolhê-la. Um menino que jogava bola num dos gramados da cidade gritou: “Guarda essa merda”. Convencido que o patriotismo é um sentimento efêmero, segui seu conselho.
 
Hoje, cronista de pouco imaginação, tentei fugir ao tema, mas não deu. Pelo menos até meados do próximo mês não haverá outro assunto pelas mesas de reunião, jantar ou bar. E novamente seguem meus contágios. Recebi de um amigo, o Tom Torres, um CD com 78 músicas falando de futebol e Copa do Mundo. O carteiro nem bem havia ido embora e já o telefone toca.
 
– Maurício, descobri mais três músicas que não estão no CD. Vou lhe mandar pela Internet.
  
E ainda me deu instruções de como fazer um novo e mais completo disquinho.
 
Um outro amigo, o Messias, entrou em minha sala de trabalho desesperado.
 
– Preciso encontrar um boteco para assistir aos jogos. E não posso levar minha mulher.
 
E logo explicou seu drama que, aliás, é bem comum. Durante todo o jogo ele é cobrado pela esposa a explicar cada lance, cada impedimento, cada escanteio. E como não dá para conciliar as atenções, termina por perder momentos fundamentais da partida.

E se nem o Messias está imune a estes perrengues, imagine eu. Dia desses, num boteco, minha mulher insistia para que eu fizesse todos os cálculos possíveis para descobrir que resultado classificaria quem para a próxima etapa. Optei por me fazer de surdo e tomar outros goles de cerveja, seguir a vida e enfrentar a fúria feminina.
 
No entanto, façamos justiça. Não são somente as mulheres que fazem este tipo de pressão. Vamos aos fatos.
 
Meu amigo Luiz Berto andava bodejando pelos Estados Unidos. Entre a programação que lhe arranjam por lá estava a participação em uma partida de futebol americano, claro que como espectador, pois já então sua protuberante forma física não lhe permitia aquele exagero de esforço. E assim seguiu para o estádio. Sentou ao lado de um chinês que participava do mesmo congraçamento que ele. Lá pras tantas, sem entender nada do que se passava no campo, resolveu pedir uma ajuda ao china, e o moço, num inglês desgraçado, passou a deitar todas as regras do tal jogo. Resultado, Berto saiu dali, em matéria de futebol americano, mais burro do que entrara e ainda atrapalhou o divertimento do gentil discípulo de Confúcio.
 
Agora estamos aqui unidos em protestos contra os valores gastos com o evento, escandalizados com as declarações da filha de João Havelange, renegando os votos dados ao PT, pedindo mais saúde e educação, suplicando a volta do movimento do passe-livre, mas sem vandalismo, indignados com senadores e deputados que aproveitam a Copa para esticar as férias remuneradas, dizendo que da festa de abertura somente sobraram as pernas de Claudia Leite e Jennifer Lopez, etc., etc., etc. Isso até Galvão Bueno proclamar: “Bem amigos da Rede Globo”. Aí tomamos nossos lugares, vestimos nossas peles de especialistas em futebol e nos preparamos para novas emoções, afinal a vida, implacável, não deixa de ir em frente.
 
E que os santos protejam as canelas de Neymar.


CARTAS AMERICANAS (XI) – ANÚNCIOS DA BANALIDADE

MY1

Seguia meu caminho natural de já quase um mês quando cruzei com a jovem gordinha por quem passei tantas outras vezes. Vinha, como sempre, alinhada em suas possibilidades. Vestido rosa pouco acima dos joelhos a revelar coxas largas cobertas por meias pretas. Trazia o rosto de expressão assustada, o mesmo de todas as outras vezes. Nunca me cumprimentou, nunca a cumprimentei, e ali tive a certeza de que não mais nos veríamos por todas as nossas vidas. Isso não chega a ser a letra de um bolero, mas apenas o que nos garante a estatística natural da vida, afinal, dei-me conta, era minha última semana nesta cidade, pelo nesta temporada.

O cotidiano, com suas cenas banais, também desperta para a excepcionalidade da vida. Muitas vezes basta uma paisagem besta, daquelas que já fatigaram as retinas, para nos trazer a consciência plena sobre a riqueza das vivências múltiplas. A passagem da moça por meu caminho já normal alumiou os sentidos.

MY2

Vim para destravar o inglês estudado há séculos e de maneira anárquica. Fiz um tanto disso, e fui além. Percebi as misérias e as riquezas escondidas nos tijolos aparentes das paredes. No mar de minhas sensações aprendi que por estas esquinas quem escuta Duke Ellington pode subitamente ser ferido pela estridência do rap, Emimem e 50 Cent explodindo dinamites em nossas cabeças. Neste ritmo de mediocridades, o professor crente na originalidade, abriu nosso último encontro ao som de Piri Piradinha, com Gabriel Valim a criar infernos em terras alheias.
 
A música, a tão decantada linguagem universal, parece ter desabado para o abismo kitsch. Nestes dias finais, esperando o sinal de trânsito me dar passagem, ouvi uma música. Achei que viesse de algum carro, mas todos passavam e o som ficava. Só então me dei conta de que ao meu lado, com um aparelho em altura suficiente para chegar aos meus ouvidos, um moço, já mais para senhor, escutava uma música claramente latina. Acreditei que fosse Roberto Carlos, mas Iara me garantiu que o cantor soltava a voz em claro espanhol. Talvez a saudade tenha me criado alguma ilusão, e não deu para dizimar as dúvidas. O sujeito seguiu apressado e se foi no atropelo da cidade, ou talvez tentasse se livrar de um outro, um seu concorrente que escutava um rap.

MY3

São os sons da cidade, que ainda conta com motos, ambulâncias e carros de bombeiros dando sua estridente contribuição. Salvou-me Joe Lovano com seu jazz encorpado de ritmos africanos. A suavidade das melodias, de um sax cortando a noite do Blue Note nos dá esperanças na salvação do mundo. Afinal, por estes espaços já transitaram Tom Jobim e Frank Sinatra. Também escutei pelas ruas, nos parques, suave e bela música chinesa, jazz tradicional, um violino clássico e até um piano de ritmos doces e marcantes.

O bom gosto resiste, e eu já estou de volta. Malas fechadas, degusto meus drinques derradeiros. Acalento a saudade de casa, afinal, viajar é também consolidar a certeza de que temos um pouso seguro.

MY4

Foi mais ou menos isso que disse hoje a Lucy, a bela senhora que todos os dias nos recebeu na porta do curso. Durante todo mês nos abordou com palavras de esperança e alegria, e isso fez minha vida melhor. Hoje lhe desejei felicidades pela última vez. Tenho certeza de que será feliz, de que é feliz. Se um dia voltar, vou tentar revê-la, afinal viajamos também para acumular emoções sadias e bonitas.


CARTAS AMERICANAS (X) – CENAS DA VIDA E DAS MORTES

H2

Voltávamos de Arapiraca. Um velório. Não que a cidade fosse um cemitério, muito pelo contrário, fervilhava a paciente vidinha do agreste alagoano. Voltávamos sim de um velório de fato. Acabara de morrer o pai de um amigo que, por seus arroubos pessoais, tinha certa liderança política. E lá estivemos como amigos e como correligionários. Coisas da cena política da província.
 
Tínhamos terminado de assistir aos rituais próprios daquelas horas. Choros intermináveis, rezas a perder de vista, discursos à beira do túmulo. Agora era enfrentar uma viagem de pouco mais de uma hora até Maceió na esperança de chegar para uma cerveja de início de noite e um merecido descanso. Nada tínhamos o que falar durante o percurso, eu, o motorista e Eduardo Magalhães, um cientista político que vivera por muitos anos nos Estados Unidos. E foi ele quem salvou o assunto da viagem.
 
Principiou confessando que nunca se habituara aos rituais da morte praticados pelos americanos. E contou. Quando morre alguém por ali, o primeiro a ser notificado é o agente funerário, é dele o trabalho de cuidar do defunto, que deve ser embalsamado. Isso para esperar chegar os parentes que por ventura estejam longe e também se organizar a recepção de despedida. Coisa de uma semana depois, já com tudo pragmaticamente organizado, o velório acontece de fato. Coisa rápida. Geralmente em casa mesmo recebem o caixão, rezam e parte para o cemitério. Ali, depois de novas rezas e nenhum choro, enterram de fato o cidadão e voltam para casa, onde os espera uma festa para lembrar quem partiu e rever suas fotos, geralmente olhadas com ironia. E se come muito, e também se bebe. Depois que os convidados vão embora a família resolve o que fazer com os bens deixados pelo morto e está finda toda história.

H1H3

Lembro, ainda hoje, ao recordar essa história o mítico The End dos filmes americanos. A partir dali já nada mais havia, mesmo as lembranças deveriam ser apagadas para as emoções de uma nova película. 

Nesta segunda-feira, quando se comemorou o Memorial Day, saí às ruas na esperança de encontrar algum suspiro de tristeza pelas ruas, e nada me parecia um dia de glorificação. Tudo em perfeita normalidade, somente o bar onde parei não oferecia o cardápio convencional, afinal estávamos em um feriado. E um feriado de tradição, instituído logo depois da Guerra da Secessão para homenagear os mortos das batalhas.
 
Estrangeiro num país beligerante pensei encontrar a cidade aos prantos, com desfiles militares e patrióticos. Nada. Tudo transcorria como no mais comum dos dias. As lojas abertas, o metrô seguindo feliz, os museus com suas exposições, as pessoas deitadas nos gramados ou bebendo nos bares. Soldados do exército e marinheiros trocando as pernas no final de um dia de folga.
 
Hollywood me contou pela vida a fora que os Estados Unidos venceram todas as guerras que enfrentaram até mesmo a do Vietnã. O heroísmo é uma ordem na consciência de cada uma destas pessoas, afinal há sempre um inimigo a ser vencido e os poderes do Capitão América somente funcionam com o auxílio da força mortal dos soldados de verdade.
 
Os troques do cinema, cada vez mais intensos, são capazes de reforçar a crença na superioridade de um povo, mas diante do homem comum, sem emprego nem assistência social mendigando nas calçadas da Quinta Avenida e de Wall Street, fica difícil manter o orgulho.
 
Talvez por isso pouco gente se deu conta de que, com a chegada da noite, o Empire State Building se iluminou com as cores da bandeira. De fato um dia normal anunciava seu fim. The end.


CARTAS AMERICANAS (IX) – ATÉ PENSEI QUE FOSSE MINHA

mr4

Quando entrei no apartamento, depois de receber as instruções básicas e fundamentais da proprietária, fui à varanda. Precisava, antes de tudo, perceber a paisagem, apoderar-me dela.

Em cidade grande nada parece diferenciar. Os dias e os rostos se repetem no transitar permanente. E um cristão carece olhar bem cada parede, cada tijolo e paulatinamente ir descobrindo o que se esconde nas entranhas de cada canto. Este, para mim, o mais sábio prazer de uma viagem. E assim fui à varanda sem esperar grandes surpresas, afinal, poucos anos antes tinha palmilhado com olhos ávidos aquelas paragens. E a arquitetura construída para a necessidade dos homens me legou fascínios.

mr1

Muitos anos antes, em tempos mais ingênuos e curiosos, passeando a vista sobre velhas fotografias, despertei para as escadas de emergência expostas da cidade. Rosita, a viúva do fotógrafo Heinz Forthmann, explicava o incêndio havido ainda nos primórdios do século XX. As línguas de fogo engoliram vários quarteirões e as pessoas, muitas, morreram presas nos edifícios sem saídas de emergência. Um arquiteto criativo desenhou as escadas que ainda hoje dançam com elegância compondo as fachadas.

Assim são as cidades, nascem, crescem e morrem ao sabor do desejo humano.

mr2

E foi à cata desta cidade de paisagem surpreendente, e capaz de encantar as almas mais indiferentes que fui à varanda, afinal, em várias de suas entrevistas, Oscar Niemeyer disse-me que arquitetura é também espanto. E o espanto se deu.

Dali era possível enxergar duas imensas torres opulentamente douradas. Durantes vários dias, ao sol ou à lua, postava-me à varanda para admirar as belezas inalcançáveis. E daí começou minha busca, sobretudo porque, sentado à mesa do café da manhã, no canto oposto à varanda, outra torre serenamente olhava-se em sua exuberância. Daí apanhei um casaco capaz de suportar o frio da manhã e fui catar no emaranhado das ruas as histórias de meus desejos.

mr3

Três filhas de um tempo de prosperidades. A crença no individualismo e na força da imensa nação do Norte já brotava no orgulho de toda aquela gente quando, em 1909, surge numa rua da cidade a sede da Metropolitan Live Insurance. Intimamente até chamada de Met Live Tower, com sua torre dourada e seus 213 metros de altura era então o edifício mais alto do mundo, posto perdido em 1913.

A cidade não perdeu o gosto da ambição. Em 1928, depois de dois anos de construção, 25 mil telhas folheadas de ouro dão vida ao telhado piramidal dourado da sede da New York Life Insure Company. Já não era lá muito alta, apenas 187 metros, mas a imponente beleza desafia qualquer indiferença ainda hoje. Como também desafia o olhar distraído a terceira torre, a do Chrysler Buiding.

mr5

À noite, com as luzes ligadas e transpirando brilho por suas janelas é um imenso diamante no céu. Foi construído em 1930 para ser o mais alto prédio do mundo, 319 metros, e para ser sede da companhia de automóveis. Conta-se que diante do anúncio de um prédio maior, o arquiteto William van Allen criou uma antena com 56 metros para sustentar o posto. Pouco adiantou. No ano seguinte surgia o Empire State Building com seus 381 metros e uma estrutura capaz de suportar o peso de King Kong.   

Como estrangeiro não me toca o jogo das ambições, mas o espanto não cansa de sair de meus olhos. E volto à varanda prenhe de encantadora intimidade. Como numa antiga canção de Chico Buarque, de tão tolo, até penso que a paisagem é também minha.


CARTAS AMERICANAS (VIII) – MODAS, MODOS DE CADA UM

ca1

Tenho certeza que eles estavam vindo de Woodstock. Tomaram a última condução, a que saiu mais de quarenta anos depois do derradeiro toque de guitarra. Alguns estavam mortos, Jimmy Hendrix, Jane Joplin, outros, como eles, sobreviviam ainda de glórias e lembranças. E isso me deu a possibilidade de cruzar com eles num ruas qualquer sob o sol aberto do princípio da tarde de sábado.

A rebeldia entardecida ainda resvalava naqueles rostos. Talvez não entendessem os novos dias. Mudara o mundo, não restavam dúvidas sobre o fato, mas aquele casal ainda sonhava com uma liberdade que passou por todas as portas e já não se fazia como novidade. Joana Baez quando estivera no Brasil fora proibida de cantar e para não frustrar o público dançou ao som instrumental de suas canções. Assim acontecia naqueles idos tempos, mas o casal parecia não se dar conta sequer da idade que ostentavam.

Ele caminhava com imensa dificuldade, ela o amparava. As calças listadas em azul e branco dele, ao seu modo, combinavam com a larga camisa laranja e o colete aberto desenhado com bordados psicodélicos. Do pescoço pendia um medalhão prata imenso. Os longos e ralos cabelos estavam presos por uma faixa de pano colorido. A saia dela, de um vermelho bem vivo, voava sem amarras, sua bata branca, de inspiração indiana, também bordada com motivos da época paz e amor, escondia os peitos caídos e os longos cabelos brancos disfarçavam as rugas não precoces.

ca2

Envelheceram talvez em paz, mas certamente se amando bem ao sabor da juventude já distante. Caminhavam com a dificuldade natural da idade e demonstravam felicidades. Pareciam trazer as consciências serenas, e ninguém na cidade reparava em suas veste outrora escandalosas.

Aliás, ninguém repara ninguém nesta terra.

Os judeus com suas barbas longas e suas vestes enegrecidas. Os indianos com seus turbantes e suas barbas crescidas desfilam com suas mulheres de vestidos compridos e coloridos e sinais de rena pelo rosto. Homens com paletó de corte moderno, outros civis com roupas militarizadas, mulheres longilíneas com seus trajes de executivas caminham lado a lado com outras trajando o extremo da informalidade. E ninguém parece ditar nada.

 Vi numa loja da moda um vendedor magro, todo vestido com justíssimas roupas pretas, cabeça totalmente raspada, de onde pendia uma espécie de véu preto, brincos nas orelhas e pinces nos lábios. Parecia estar de bem consigo mesmo.

  ca3

Em verdade, vi quase tudo. Uma moça de pele clara, cabelos vermelhos, blusa listada e short jeans desfiado e desbotado que deixava ver as meias rasgadas. Um menino oriental com cabelo moicano e gueixas quase autênticas. Um casal de hippies estilizados, ela com tatuagem e cabelos vermelhos, tomando sol no parque. Noivos à caráter, smoking ele, vestido de mil babados ela, se beijando ao pé de uma fonte. Monges budistas com suas amplas batas alaranjadas.

Há espaço para todas as tendências ou para a falta delas nestas ruas. O importante é se portar como aos velhos recém-chegados de Woodstock. Em outras palavras, a vida somente vale quando vivida ao sabor da felicidade.


CARTAS AMERICANAS (VII) – OS DOIDOS MANSOS DE AGORA

Era cedo. O sol há pouco rebentara sobre as águas calmas, claras, do East River, descortinando-se por trás dos edifícios altos do Queens, revelando os mistérios da terra. Já pouco havia o que fotografar, pois os ponteiros do relógio corriam para informar a sétima hora do dia. Fechei a câmara e me pus a caminho.

Na manhã de domingo a cidade também não dorme como o comum das outras urbes. Carros buzinam nos sinais, ambulâncias passam com as sirenes abertas, veículos imensos carregam bombeiros e alardeiam uma emergência que ninguém sabe onde se dá. Caminho buscando ilhas de paz, mas antes preciso passar em algum lugar, não necessariamente uma padaria, para comprar algo parecido com pão.

m1

Atravessava a rua seguindo duas mulheres. Uma imensa, farta em gordura, sóbria e calada. Junto a ela, uma outra, magérrima, que, mesmo fumando, não parava de falar. Certamente eram amigas. Na calçada uma, a serena, segue pela esquerda sempre calada enquanto a outra, depois de jogar o resto do cigarro no chão, sempre falando, entra na loja de conveniências e se dirige ao balcão. Como se estivesse ali há horas, mantém acalorada conversa, um quase monólogo, com o atendente.
 
Somente então passei a compreender melhor a situação. Frequentemente vejo cenas semelhantes nestes meus dias modernos. Como ainda sou de espantos, olho com muito pouca intimidade as pessoas que passam falando sozinhas. Para meu curto entendimento, está em franco crescimento o número de doidos mansos no mundo.

m2

Lembro muito bem deles. Seguiam sempre solitários, conversando com um invisível interlocutor. Em Palmares Jipinho passeava em seu carro ora com um parceiro, ora com uma namorada. Respeitava todas as leis de trânsito e só parava de falar para imitar o som de seu carro que vencia com força as ladeiras da cidade. Em Catende, Pelengo tinha uma eterna discussão acalorada sobre os benefícios que a usina dava aos seus trabalhadores, enquanto o opositor que mais ninguém via insistia em relatar as maldades do usineiro. Em Matriz de Camaragibe Medalha rezava para o Padim Ciço, conversando intimamente com seu santo padrinho. Só parava suas preces quando os moleques o chamavam de Sete-Tuia, um apelido humilhante que qualquer dia contarei em outra crônica.

Estes meus malucos de eleição tinham sabedoria e delimitavam território. Certo dia apareceu na cidade de São Bento do Una um doido vindo das bandas de Agrestina, assim conta Alceu Valença. Zanzou pelas ruas até a noite cair, e pensou encontrar aconchego num banco de praça, mas aí o doido oficial do lugar foi tomar satisfação.
 
– Olhe aqui, moço, você já fez sua brincadeira, agora tome seu rumo, pois o doido oficial da cidade sou eu.

m3

Penso nestes queridos cidadãos enquanto caminho por aqui ouvindo espantado homens e mulheres falando sozinhos. Juro que ainda não me acostumei e somente com um olhar mais atento descubro que eles falam nos fones de ouvido ligados aos telefones celulares. Os tempos modernos não permitem os encontros, não deixam tempo para uma conversa mais descompromissada.

Assim procurei algo ligado ao ouvido da mulher falante que entrou junto comigo na loja de conveniências e nada encontrei. Ela falava mesmo para alguém que ali por perto quisesse ouvir uma voz. E aprendi que os homens de hoje têm algo em comum com os viventes de outrora: a infalível solidão.


CARTAS AMERICANAS (VI) – LIVROS ESQUECIDOS, LIVROS ROUBADOS

NY 1

Uma novaiorquina que, anacrônica como o colunista, ainda lê livros

Um sertanejo apaixonado, de nome Graciliano Ramos, escreveu numa carta de amor para uma ainda insegura pretendente:

“Examinando o decálogo, vejo com desgosto que das leis do velho Moisés apenas tenho respeitado uma ou duas. Nunca matei nem caluniei. E ainda assim não posso afirmar que não haja, indiretamente, contribuído para a morte de meu semelhante. Não sei. Furtar, propriamente, não furto; mas todos os meus livros do tempo de colegial foram comprados com dinheiro surrupiado a meu pai.”

Lembrava estas palavras, e me confortava, caminhando pelas ruas frias da cidade com um livro surrupiado escondido sob o casaco de couro que me protegia da frialdade orgânica desta terra (que Augusto dos Anjos perdoe este plagiário). Vamos lá, o caso eu conto como o caso foi: o ladrão é ladrão, o boi é boi.

Entrei na cafeteria com um único objetivo, fazer o que todos fazem num ambiente como este – tomar um café. Fiz meu pedido, paguei a conta regularmente, recebi o copo imenso e quente, apanhei açúcar e uma dessas míticas, plásticas e modernas colheres e fui sentar numa das mesas que ainda tinha espaço. Ali, sobre o móvel, folhas de um jornal espalhadas e ele, meu objeto de eterno desejo, o livro.

Dias antes, numa filial desta mesma cafeteria, a tentação me tomou. Sobre a bancada onde se expunham incontáveis saquinhos de açúcar e adoçante um tentador Philip Roth. Não consegui sequer ler o título do romance, e para fugir deste teatro de vícios e perdições, lentamente mexi o café, lentamente descartei aquela colher vagabunda, lentamente fugi do perigo. Confesso que não rezei, pois já esqueci todas as lições que me ensinaram padre Abílio e o bispo Dom Acácio.

Neste novo encontro, no entanto, as artimanhas do diabo eram bem melhores engendradas. Na mesa longa apenas um rapaz que mais cochilava e outro mergulhado nas informações que lhe mandava seu notebook. Cauteloso, perguntei ao sonolento companheiro se o livro lhe pertencia. Recebi o provocante não como resposta. Destarte apanhei distraído o volume que parecia mesmo ter sido esquecido por um leitor talvez enfadado. Li o título, How Fiction Works, e o nome do autor, James Wood, da linha de escritores do The New Yorker e professor visitante de Harvard.

NY 2

Cresciam minhas ambições. Tomei um largo gole de café para moderar meus apetites. Respirei fundo e continuei minhas pesquisas. E aí veio o tiro fatal. No índice onomástico encontro nome de Jorge Amado. Bom aí não havia mais prece ao santo Padre Cícero que segurasse este nordestino. Joguei o livro no bolso do casaco e deixei a cafeteria com o ar mais sério que encontrei.

Buscando todas as referências possíveis para justificar meu crime, depois de evocar Graciliano Ramos, recorri a João Cabral de Melo Neto. O poeta defendia a tese que nenhum livro deveria ficar isolado numa biblioteca qualquer. Depois de lido, deveria ser doado, esquecido em algum lugar, dado de presente, tudo menos o resguardo frio das estantes. Acho que a ideia tem tomado corpo por aqui, mesmo assim continuo crente ter sido esta a única vez que discordei do ídolo. Livro meu tem história e merece respeito. Se gosto, ou mesmo se não gosto, todos ficam guardados comigo. Vez em quando recorro a um deles. E ninguém, nem mesmo os computadores todos da NASA, traz em si a capacidade de mensurar o prazer que é rever uma velha anotação, um erro de avaliação, um reencontro de amor e paixões. Vocês têm toda razão, além de ladrão, sou egoísta.

Em casa, longe dos olhares indiscretos, fui saber o que o senhor James Wood pensava do meu querido Jorge Amado. E aí ruíram todas as cartas de meu castelo. O tal Jorge era Amador e ao invés da Bahia escolhera o México para viver. Também, ao que consta, nunca escreveu romances. Era um chefe de polícia que incentivava seus subordinados a ler.

Eu poderia até ter me arrependido de meu gesto vil, mas já de nada isso adiantaria. O crime perfeito estava definitivamente perpetrado. 


CARTAS AMERICANAS (V) – BONITO DE CHOVER

Uma temeridade essa necessidade de sair de casa nesta manhã. Para quem nasceu e viveu boa parte de seu tempo no molhado da Mata Pernambucana, com o amolengado do massapê criando frieira entre os dedos, qualquer sinal de chuva é sinal também de desânimo e medo. O caudal dos velhos rios invadia as casas com força e sem cerimônias. Arrebentava cadeiras e armários, jogava todos os segredos nas ruas. Céu nublado, bonito de chover, somente acalenta sonhos de sertanejos.

Um de meus mestres eternos, o Barão de Itararé, certa feita escreveu que “a ocasião faz o furto, pois o ladrão já nasce feito.” Na fria manhã sem sol resta-me somente parafraseá-lo. A necessidade faz a coragem, pois o prudente nunca morre no peito de quem foi escaldado. Daí tomo as ruas prenhe de vontade de ficar esparramado num sofá, aconchegado com um útil lençol, na companhia de um bom livro.

O caminho que percorro já há alguns dias é o mesmo, e tudo parece novo. O frio é antigo, as nuvens de ameaça também. Já os encontrei em outras esquinas, em outros tempos. São quase amigos, e mais seriam não estivessem cercados daqueles mistérios da imprevisibilidade. São fenômenos que costumam revirar vidas e sentimentos. As árvores estão menos verdes, mais escuras. Deitam de suas folhas gotas implacáveis que respingam em nossas melhores esperanças. Como uma espécie de antissertanejo que não chego a ser, não consigo ver beleza nestas nuvens que pesam sobre minha cabeça. Caminho olhando o que de humano sobrevive neste estreito corredor de prédios altos.

A cidade não tem identidade, ou melhor, tem todas as faces do mundo. Suas digitais estão inscritas em todas as correntes migratórias deste sempre. E agora todas se congregam num caleidoscópio sombrio. Ninguém veste exuberância e parece que todos se padronizam no escuro do tempo determinado pela meteorologia. O judeu ortodoxo com capas e quipás pretos, barbas longas, tranças, tradicionalismo. O oriental ocidentalizado com ternos escuros e mil aparelhos tecnológicos nas mãos, caminha rápido como se seus milênios de história já não lhes descem paciência.

galega

Uma cangaceira nova-iorquina

Brancos ocidentais escudam-se em pesados casacos escuros para se protegerem do frio e se irmanarem com tudo que possa salientar diferenças. Negros marcados pelas injustiças exibem o orgulho dos vencedores com suas correntes de prata no pescoço, seus bonés, suas camisetas, jaquetas e calças pretas, seus fones de ouvido que tocam uma música de reafirmação. Latinos em geral, já em si homogeneizados pela miscigenação, também vestem preto, enfim há uma regra escondida nas entrelinhas da vida, e esta não espera por desrespeito.

A garoa cai e não molha, encobre o topo dos edifícios, mas deixa à mostra as bandeiras patrióticas que hoje tremulam mais do que nunca. A força do vento frio que corta a carne é capaz de acender o sonho de reconstrução do futuro. Esta nação se reergueu de muitas cinzas, mas por enquanto ainda deixa alguns de seus jovens – brancos, anglo-saxões, protestantes – parados, sentados nas ruas, com uma caneca, um pedido de socorro, um anúncio de desemprego. Em sua volta, o mundo do consumo segue suas horas. Em sua volta, a arquitetura se contradiz, cria uma tradição artificial, plástica, redesenha os primórdios do século XX, mesmo assim, seguram as  bandeiras da pátria.

O mundo é multicolorido e justo dentro de suas possibilidades. Isso faz a vida bela.

Vinte minutos se passaram em minha existência. Entro no edifício que me espera. São Pedro não cumpriu sua promessa.


CARTAS AMERICANAS (IV) – O BRASIL PERDIDO

Embalado pelas expectativas de sucesso financeiro, já na idade madura, começou a cumprir uma promessa de adolescente. Lembrava bem da ocasião. Sentado na porta de uma igreja que vivia fechada, com suas calças curtas de ainda menino, sentenciou: “O mundo é muito grande para se ficar parado. Quero viajar e viajar muito. Quero conhecer até Nova York.”
 
Entre as necessidades de estudar e ganhar a vida, esqueceu do fato. Não era, no entanto, um esquecimento completo e permanente. Ouvir a voz de Frank Sinatra, assistir aos filmes de Woody Allen, conhecer as loucas histórias de Andy Warhol, ler a geração de Jack Kerouac, tudo lhe trazia uma saudade do ainda por viver, mas a vida seguia em suas urgências e o sonho hibernava na gaveta das possibilidades.
 
Já quase perdendo as esperanças, num desses recitais que infestavam os bares da década de 1980, ouviu alguém proclamar: “Vou para Nova York em busca do meu Brasil perdido”. De pronto encontrou o motivo que lhe faltava, ir ao encontro do país que se fora. Quis saber o nome do poeta e o guardou para si: Cassiano Nunes. Depois chegou o tempo em que o verso foi esquecido – será que dizia isso mesmo? – e o nome do poeta posto na velha gaveta.
 
Sozinho, solitário, com outra gaveta recheada com as notas de dólares que a prosperidade lhe permitia, enfim, foi viajar. O país era outro e a piada do dia mandava comprar notas de um dólar nas lojas de 1,99. Foi o que fez. E daí partiu para o aeroporto.
 
Por precaução, mesmo seguro das lições que tomara de inglês, preferiu velejar por mares mais íntimos. Na Argentina assistiu a uma partida de futebol na Bombonera e não encontrou seu país. Nos seus sonhos a bola dançava nos pés dos jogadores, que não careciam de violências nem de força. Apenas a habilidade valia.
 
Foi em frente. Na Bolívia, Copacabana era uma cidadela mal cheirosa à beira de um lago imenso. Prenhe de casas feias, ganhava destaque num morro alto onde se rezava e bebia e no imenso santuário dedicado a Nossa Senhora onde a opulência barroca sufocava qualquer sentimento de fé. Também ali não estava a crença modesta e miúda que ouvia nas preces avoengas.
 
Em Portugal, buscou sua história pessoal. Pensou ter terminado sua busca ao caminhar pelas ruas estreitas e medievais de Óbidos, até que o ruído dos turistas com seus pedidos para serem fotografados desencantou a paz que parecia natural. E tudo, no entanto, era agressão aos seus ouvidos que não suportavam, em frente ao Mosteiro de Alcobaça, os gritos de Michel Teló num irritante aí se eu te pego. Seu país de sons delicados não estava ali a macular os ouvidos apaixonados de Inês de Castro e Pedro I.
 
O jeito era ir para Nova York. E foi. Havia incontáveis obras entre o aeroporto e o hotel. “Este é meu país”, pensou até que viu que nada impedia o trânsito e todos obedeciam a uma ordem pressentida. Em momentos outros voltou a vislumbrar a hinterlândia de seus desejos, mas tudo se desfazia no ar de maneira imediata. Os mendigos não usavam andrajos. Toda a população se jogava às compras de maneira desesperada, mas ninguém barganhava. É certo que se ouvia português em todas as lojas, onde solícitos vendedores esbanjavam a verve bem humorada na última flor do Lácio, mas era inútil se comunicar com a brandura de Camões fora daqueles espaços. E também no Carnegie Hall já não toca bossa-nova.
 
Na volta para casa colocou num canto especial da mala a frustração de ter para sempre perdido seu país.


CARTAS AMERICANAS (III) – A INVASÃO ORIENTAL

Confesso que o telefonema não me apanhou de surpresa.

– Maurício, é verdade que você ainda tem uma vitrola?

– Não somente a tenho, como gosto de escutar meus discos.

E minha amiga explicou a curiosidade.

– Meu filho não acredita que seja possível sair algum som destes meus velhos bolachões. Posso levá-lo aí?

Dias depois surge o menino com a cara de quem vai para um parque temático em busca de aventuras pré-históricas. Não me espantei. No tempo em que eu era moderno também já fiz várias vezes tal cara que se divide entre o deboche e o espanto. Minha inocência foi perdida com um walkman, um velho e até então pequeno aparelho capaz de tocar fita cassete. Era uma invenção japonesa e escutávamos o som através de um imenso fone de ouvido.

De certa forma já estávamos acostumado com aquela gente de rosto redondo e olhos puxados. Não que houvesse muitos na freguesia, mas a televisão nos mostrava um bando deles vencendo um monstro pré-histórico que, depois de hibernar por milênios, destruía as ruas de Tóquio.

Tudo nos parecia tão estranho que um primo meu tornou-se herói em Matriz de Camaragibe ao dizer que tinha dormido com uma oriental e, o mais surpreendente, garantia que o corte da perseguida da moça se dava na horizontal. Nós, os matutos, ficamos encantados e invejosos. Minha ilusão desceu pelas águas do Capibaribe quando, já no Recife, assisti ao ousadíssimo Império dos Sentidos.

Também foi aí que comecei a perceber, secundando a voz de Alceu Valença, “como crescia o Japão”.

Hoje caminho pelas ruas desta cidade espantado com as recorrências da vida e com o número de orientais que vejo por toda parte. E não é neurose. Os cartazes do cinema anunciam para estes dias a estreia de um Godzilla modernizado. Não sei se irei ao cinema, basta-me olhar os imensos fones de ouvidos que transitam por aí reproduzindo o som que nasce de aparelhos minúsculos.

Para não dizer que tudo é velho sob o sol, há uma moda que se espalha como praga daninha. É incontável o número de noivos que invadem os parques das cidades para se deixar fotografar ou até mesmo receber a bênção de um padre ou coisa parecida. Estão felizes, mesmo sem a certeza de que se realize de fato o casamento. Vale o espetáculo. E aí também a predominância fica com eles. Ontem contabilizei cinco casais nesta condição, quatro eram orientais. Também havia um músico de rua e um cidadão com a mesma cara de Psy, aquele estranho sul-coreano que usa um paletó azul, canta uma música chata e dança como se cavalgasse a éguinha pocotó.

A situação não é grave, apenas curiosa. No raio de minhas confissões, garanto que sinto simpatia pelos orientais. Em princípio são discretos, embora os mais jovens tenham a mania de berrar numa linguagem tão desgraçada que acho que até o diabo pediria perdão por seus incontáveis pecados se tivesse que aprender aquilo.
 
Preocupação mesmo se dá com o fato de eles já estarem se apropriando de nossas coisas mais caras, e não falo da tal empresa japonesa que tentou patentear o termo cupuaçu ou mesmo dos japas desfilando nas escolas de samba do Rio de Janeiro. O fato é que conheci uma simpática moça coreana que traz o nome de Lalada. Juro que até agora suspeito que seja tataraneta do Lalá, afinal foi este mesmo Lamartine Babo quem um diz escreveu: “É futurismo, menina, é futurismo, pois não é marcha nem aqui nem lá China”.


CARTAS AMERICANAS (II) – O MUNDO CAMINHA NAS RUAS

Vivo aberto às sugestões. Não chega a ser um problema sério, como o daquele psicólogo da piada que absorvia continuamente os problemas de seus pacientes e terminou engolido pelo jacaré imaginário que vivia sob uma cama. No meu caso, nada de grave, apenas escuto os conselhos de amigos “e juro que não beberei nunca mais”. Não mestre Cartola, meu drama não tem dimensão grega. Somente escuto com cuidado e reverência aqueles que têm coisas para me dizer.

Vamos aos fatos, caros ouvintes, como diria Heron Domingos.

Dia desses voltava de Pirenópolis, da sexta edição da Flipiri, trazendo de carona a companhia de meu amigo e mestre Ignácio de Loyola Brandão. Em pouco mais de uma hora e meia de viagem resolvemos vários problemas mundiais, apreciamos a paisagem ora verde do cerrado e, claro, falamos de livros, literaturas e autores. E de repente ele revelava seu segredo de cronista. “Todas as minhas crônicas nascem do vejo passar em minha frente”.

Nesta pisada contou-me da mulher que encontrou parada numa esquina de São Paulo. Dizia estar ali esperando passar a rua Hungria, e garantiu ao cronista que as ruas caminham ao encontro das pessoas. Depois do trabalho, passando pela mesma encruzilhada, Ignácio já não mais encontrou a mulher. Nascia ali uma nova crônica. Outra feita, num cinema, viu um homem, ao final da sessão, jogar algo no chão e ficar ao longe esperando a reação das pessoas. Querem o final da história? Paciência, procurem a crônica Calcinhas Secretas, aliás, duas crônicas brilhantes.

De mania própria eu já costumava olhar discretamente a vida em meu redor. Depois da conversa, a coisa se tornou vício. Agora caminho por estas ruas farejando histórias e manias. E o mundo se abre em sua diversidade como a sangria de um açude. Não há mais barragem capaz de suster.

Cruzo com uma invasão asiática. Chineses, japoneses e outras etnias, sorrisos abertos, carregam a felicidade no colo. Falam numa rapidez de locutor de jóquei sem desfazer o riso. Hiroshima e outras tragédias há muito se esconderam nos escombros do passado, e o futuro espera a todos na próxima esquina, e certamente já foi fotografado, já está no facebook. A vida segue até onde um judeu ortodoxo, com suas vestes pretas, seu chapéu preto, sua pasta preta tenta controlar o trânsito caótico onde indianos de turbantes coloridos dirigem táxi, buzinam e se impacientam.

A rua é de todos. Vi um negro com roupas brancas e colares dourados que muito lembrou os sambistas cariocas, mas ele falava um inglês tão incompreensível quanto a linguagem dos chineses do parágrafo acima. Tinha a pressa de um cidadão do mundo onde cada segundo vale uma vida, e assim cruzava atropelando com um pedido de desculpas latinos de todas as cores e gestos. Desde o italiano expansivo ao mexicano menos ágil.

Pela janela do bar consigo ver de tudo, até mesmo velhos americanos deselegantes que são compensados pela beleza sensual de loiras mocinhas descontraídas.

Tomo mais uma dose pensando que a vida se desenha pelas linhas da diferença. Que me perdoe Vinicius de Morais, mas, “se todos fossem iguais a você”, que tédio seria viver. Esta cidade pulsa a sensação de que o mundo está além das fronteiras da imaginação. E tudo é belo, até mesmo o pobre desempregado que, em silêncio, cuida de ganhar algum trocado sentado no chão de uma esquina.


CARTAS AMERICANAS (I) – DON’T CRY FOR YOU, AMÉRICA

Vivemos uma civilização de decadência. Ouvi a frase enfática por estes dias e já não lembro quem a disse nem as circunstâncias em que nasceu. São tantos os profetas do apocalipse hodiernos que fico quase sempre naquela condição de Benedito Valadares. Líder da situação no Senado, nos tempos áureos da ditadura militar, queixava-se aos amigos: “Já ando rouco de tanto ouvir a oposição.” Não há erro de digitação aí, ele dizia estar mesmo rouco.

De minha parte sinto-me rouco de tanto ouvir os profetas. Daí prefiro correr trecho, caminhar mundo a fora para conhecer os fatos com seus cheiros, suas cores, seus sabores. E mais uma vez viajei.

No aeroporto de Brasília, como não querem os irados adversários da Copa, tudo correu bem, com horários e confortos adequados, o diabo veio no voo. Sete horas sem turbulência e um jantar até decente, mas com dois meninos que resolveram testar seus pulmões e a paciência dos passageiros noite a dentro. Com pouco espaço para dormir, o jeito foi assistir a um filme onde os americanos mais uma vez humilham os alemães e os sonhos megalomaníacos de Hitler durante a Segunda Grande Guerra. Depois de alguns parcos cochilos, umas páginas lidas a ermo e um café da manhã apressado, chegamos à América para uma longa espera.

A previsão era ficar por cinco horas no aeroporto, mas, como toda boa previsão, esta também estava furada. Chegamos a montar num avião, logo, no entanto, tivemos que desembarcar motivados por uma pane. E ainda tivemos que agradecer às nossas crenças que tal pane não veio em pleno voo. Duas horas e algumas cervejas com empanadas de pollo depois, lá estávamos novamente a domar os céus. E o relógio, entre cochilos e suco de laranja, avançou mais duas horas e um tanto de minutos.

Com certo baque aterrador chegamos ao destino desejado. Ansiedade para desembarcar, corredores imensos a percorrer, escadas rolantes dignas de Babel, mais outros tantos corredores, certeza de estar perdido, depois a certeza de se encontrar achado, demora em frente a uma esteira onde as malas eram vomitadas regularmente para gáudio dos ex-passageiros. Pena me deu de um surrado estojo onde de certo se abrigava um violão, mas aí surgiu minha bagagem. Dei garro de meus pertences e fui viver já esquecido do solitário violão.

Na procura por um táxi, um solícito bom malandro ofereceu-me um transporte pela módica quantia de 97 dinheiros. Era animador diante da fila que se formava no ponto mais próximo. Optei pelo meio mais racional – quanto a esmola é grande, dizem os antigo – e morri em apenas 60.

Tenho visto que o mundo está mais igualitário, pelo menos em suas mazelas. O primeiro mundo já não ostenta o vigor de há dez anos. Mesmo assim, ainda se engalana em sua beleza e não perde de todo a majestade. Vi pelas ruas mendigos com uma dignidade que faria inveja à ceguinha Dedé, de Palmares. Todas as vezes que lhe negavam uma esmola com um célebre “perdoe”, ela não perdoava: “Soque seu perdoe no cu, pois perdoe não enche barriga”.

Também senti as ruas meio sujas e o pragmatismo fazendo reverências àqueles que caminham com crédito e disposição para o gasto. Isso pode desaguar em violência e insegurança? Não tenho vocação para profecia. Sinto no ar somente esta indiscutível capacidade de se reinventar na direção da grandeza. Assim como os mórmons realinharam suas crenças e os quakers queimaram seus navios em 1681, algo ficou do senso de oportunismo desta gente. E talvez o choro seja passageiro.

Além do mais vim mesmo para uma viagem etnográfica, bem ao gosto do velho Mário de Andrade, e vou me esforçar para desasnar de alguma maneira. Todo conhecimento tem alento em meus desejos. E depois desta modéstia odisseia sobre matas, mares e condados todos os desejos estão salivando pela cama à minha espera.


A FRASE DO ANO

Aprendi a conviver com uma agenda maluca. Muitas vezes, no sossego de meu lar, como diriam os antigos cronistas, surge a convocação para mais uma viagem, em geral para falar de literatura em algum lugar. Sempre que bate o convite, bate-me no coração a frase de Oswald de Andrade: “Já falei de literatura na Sorbonne e no Sindicato dos Padeiros.” Nunca fui à Sorbonne, mas, novamente recorrendo aos antigos parceiros, já fui de Seca a Meca (encontrei na internet uma Ceca com C, que seria a mesquita de Córdova, na Espanha, a mais importante do Ocidente, mas opto pelo popular, com S) para dizer de autores e livros.

Pois bem, foi numa dessas viagens, digamos, emergenciais que ouvi pela enésima vez a frase do ano.inc

Desembarcava no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Tudo tinha um sabor antigo ao descer a escada, pisar na pista de pouso e caminhar até o salão de desembarque. Ali, o tumulto. As bagagens demoram a chegar, o espaço das esteiras é mínimo, as pessoas se amontoam e uma senhora mais impaciente desabafa:

– Imagine na copa!!!

Saí sem dar respostas. Tomei um táxi e segui cidade a fora num trânsito emperrado. Procurava folhear uma revista para passar o tempo, quando não olhava para a beleza das montanhas decoradas com bondinhos e um Cristo de braços abertos, além do mar eterno e azul. Vivia este breve deslumbre, este alumbramento bem Manuel Bandeira, quando o estressado motorista desaba:

– Imagine na copa!!!

Por mais que meus delírios ficcionais sejam exercidos, não consigo imaginar como será na Copa. E isso por dois simples motivos. Primeiro tem o fato de a realidade estar sempre surpreende a nós, meros ficcionistas mortais. Depois, confesso, não penso muito em obras feitas exclusivamente para um evento, afinal, como diria minha amiga Tânia Rössing, evento é vento. Como bom otimista, creio que seremos um dia beneficiados com toda esta bagunça, três meses ou três séculos pós-Copa.

Vamos lá, vivemos uma realidade nova. Já não temos mais a possibilidade ágil que permitiu erguer uma cidade, Brasília, no meio do nada. Tudo aquilo foi um espanto. Contam mesmo que JK trouxe uma jornalista francesa para conhecer aquele universo de homens, máquinas, concretos e poeiras. E a moça, ainda no avião, espantada com tudo, perguntou:

– Presidente, não é um absurdo construir uma cidade no deserto?

– Absurdo é o deserto. – Respondeu o eterno presidente bossa nova.

Assim eram aqueles tempos. Juscelino era ousado e determinado. Queria que a cidade tivesse seu lago quando inaugurada. Contratou uma empresa americana para a empreitada. Dois anos depois viu que a coisa não andava. O pragmatismo dos gringos não se adequava às urgências e ao espírito improvisador brasiliense. Desfez o contrato e chamou os engenheiros locais para tocarem a obra.

– Presidente, só há uma solução. Represar as águas enquanto se ergue a barragem.

– Qual o risco que corremos?

– Chover além da medida nas cabeceiras dos rios e a enxurrada levar com ela todo trabalho.

– Vamos correr o risco.

Por milagre de São Pedro ou sorte de JK, o certo é que a barragem até hoje segura as águas plácidas do Paranoá.

Mas como já disse, os tempos eram outros. Hoje com tantos tribunais, fiscalizações e ibamas talvez Brasília ainda fosse uma borboleta pousada nos sonhos ousados de Lúcio Costa. Tempos outros, onde os administradores ousavam e por princípio eram de fato honestos. Juscelino mesmo teve que recorrer aos amigos para sobreviver em seu exílio parisiense. E Sandoval Caju, ex-prefeito de Maceió, deixou o poder cassado no princípio do golpe de 1964 sem sequer uma cachorrinha para puxar.

Sandoval também era ousado. Certa feita, durante uma solenidade oficial, recebeu uma alta patente da marinha. Este senhor fez um emocionado discurso sobre um desses patrimônios morais que têm todas as forças armadas. Sandoval, ainda sob a emoção do discurso militar, declarou que faria uma praça em Maceió homenageando a figura e mais, a inauguração seria na data seguinte em que se lembrava o dito patrono.

Neste ponto a autoridade pediu um aparte, e disse que isso seria impossível, pois a data em questão se daria dali a uma semana. Sandoval não se intimidou e pediu que seu interlocutor agendasse a volta a Maceió. O certo é que na semana seguinte a praça estava ali. Contava Sandoval que quando desafiou os engenheiros municipais para a empreitada, um deles questionou:

– Prefeito, e a licitação?

– Vamos fazer a obra. Depois a gente faz a licitação.

Deixou a prefeitura sem ter sequer uma cachorrinha a quem puxar.

Tomara que as obras atuais sejam complacentes com nossos impostos e nos deem alguma alegria futura. Do contrário teremos que rever a frase do ano.

Ô copazinha desgraçada, essa daí.


NAS ASAS DO PÂNICO

plane

“O avião, como o próprio mundo, se tornou banal e corriqueiro.”

O medo, por restaurar a prudência, torna-se um bom conselheiro. Mas, como o colesterol, há o bom e o mau pânico. Tento explicar-me. Reza a lenda que o bom e velho Machado de Assis, diante de um convite para conhecer Maceió, teria se desculpado. Para ele caminhar nas ruas da capital alagoana era tão perigoso quanto comprar remédios nas boticas do Rio de Janeiro. Sabendo ou não do que falava, o certo é que o Bruxo era também bom profeta, posto que hoje as duas cidades esmeram-se no quesito da insegurança.

Está aí um medo salutar. Isso, no entanto, são questões sociais, instrumentos para o deleite dos sociólogos, ou seja, outros quinhentos. Ao cronista vale mais voltar às nuances do medo.

Vamos lá.

Acho, embora sem razão, infundado o pânico das viagens aéreas. Confesso meu pavor de altura e meu contraditório conforto com os aviões. Muito cedo descobri o medo dos abismos, e foi perambulando pelos arredores de Catende, ainda na adolescência. Subíamos os morros pelos caminhos estreitos abertos nos canaviais para simular uma vida campestre, e chegando aos cumes dominava-me a insegurança.

Certa feita ousei me postar à beira do paredão de pedra que forma a serra da Prata. Aquele lajedo a desabar de uma altura improvável, recoberto pelo brilho eterno da malacaxeta assustou-me, deu-me tontura e uma tensão capaz de bloquear o previsível riso diante do comentário de João, um companheiro de jornada:

– Caso o sujeito caia daqui, será que rela a testa?

Diante disso, e embalado pela voz fanhosa de Belchior: “foi com medo de avião que eu segurei pela primeira veza tua mão”, criei o mito: Tenho medo de avião, embora nunca tivesse entrado na engenhoca de nosso querido Dumont.

Tinha minhas razões, é certo. Pelo menos dois de meus ídolos sofriam do mesmo mal. Ariano Suassuna, pressionado a tomar um avião com destino ao Rio de Janeiro para assistir a um concerto da Orquestra Armorial, contava-se em nossa roda de conversas, recusava-se a enfrentar o desafio. Um amigo tentou dissuadi-lo.

– Ariano, se você for de carro o perigo é ainda maior, afinal o automóvel pode cair em um buraco na estrada…

– O problema do avião é que o buraco vai o tempo tudo embaixo do bicho.

Tinha razão o mestre, como razão tinha outro mestre, Luiz Gonzaga, que certa feita tentou convencer o sanfoneiro Dominguinhos, outro apavorado diante de turbinas e instruções dos comissários de bordo.

– Dominguinhos, vamos embarcar nesse bicho. Veja bem essa ruma de político ruim que vive voando prá cima e prá baixo. Se o avião não cai com essa gente que não presta, vai lá cair com nós que somos homens de bem…

O certo é que perdi a inocência depois que entrei pela primeira vez num avião. Era uma viagem curtíssima, do Recife para Maceió, coisa de meia hora, quarenta minutos. Daí veio o conforto e peguei vício, mesmo tendo que enfrentar algumas situações, digamos, desconfortáveis.

Levantamos voo sob um intenso temporal, um pé d’água digno de se tornar merchandising do filme Noé. O avião tremia tanto que eu tinha a certeza de que ele iria se partir ao meio. Uma freira ao meu lado deu garra de um rosário e aí comecei a achar a situação preocupante. Batíamos nas nuvens como bólidos a querer furar muralhas. Tudo era barulho e aflição. Como as regras de então permitiam e eu ainda fumava, acendi um cigarro e tentei ler uma revista qualquer, mas as letras se embaraçavam num tremelicar dos infernos. De repente tudo parecia se acalmar. A aeronave vencera as nuvens e a freira guardou o rosário. Apaguei o cigarro e olhei pela janela minúscula. Bem ali do lado de fora uma lua imensa, cheia e linda parecia me dar as boas vindas. Voltou o conforto.

Hoje não sei dizer o quanto já voei nem posso contabilizar os desconfortos e os alívios sofridos. Não tenho o senso prático de meu amigo Terrinha, o pragmático. Desde a primeira vez em que entrou num avião, e por mais de quarenta anos, ele anotou todas as viagens que fez. Escrevia a data, o destino e as horas de voo. Mas um dia, trama do destino, no burburinho de uma mudança de residência, por engano, jogou no lixo as anotações. Ficou desolado com a memória perdida para sempre.

Hoje, quando as viagens aéreas perderam aquele glamour quase sexual, não sei também se meu amigo se animaria em seguir sua contabilidade. O avião, como o próprio mundo, se tornou banal e corriqueiro. Já nada na face da terra parece nos surpreender e assustar. Nem mesmo uma imensa turbulência ou a notícia de um homérico acidente.

Estamos cada vez mais vestidos da simplicidade dos mortais.

Desprovido de medo e prenhe de imprudência, desligo o computador a pedido da aeromoça, pois nos preparamos para mais um pouso nessa minha imensurável contabilidade.


SÓ TEM AQUILO

kingkong

“Um macacão daquele tamanho querendo comer uma mocinha? Isso é que é imoral.”

Era de nome Baixinha, assim mesmo no feminino, embora se tratasse de um homem. Caminhava nas ruas de Palmares com passos ligeiros e curtos. Pouco falava, mas ria sempre com uns dentes cavalares, proeminentes, um riso desabrido. Era baixo sim, a alcunha não deixa dúvidas, e magérrimo, digno daquela magreza famélica dos subnutridos nordestinos, mas não cheguei a vê-lo se queixar de fome. Morava para as bandas do Matadouro, e sei disso pelo tanto que o vi passar em minha porta da Praça Santo Amaro na direção daquele bairro. Nunca soube seu nome de batismo, mas isso não tem importância. A lembrança de sua figura humilde, sempre de bem com a vida me basta.

E tinha uma paixão irreprimível, o cinema. Todos os dias entrava sem bater à porta ou pagar ingresso em um dos dois cinemas da cidade, o São Luiz e o Apolo. Não teorizava sobre estética, novos ângulos, tomadas mais inovadoras, linguagens revolucionárias, todas estas picuinhas que já à época líamos nas páginas do Diário de Pernambuco. Para Baixinha cinema era o encanto das imagens, dos movimentos, das ações. Por isso adorava os filmes de faroeste, americanos ou espaguetes. Amava com o mesmo furor John Wayne e Giuliano Gemma.

Ao contrário do que acontecia com Baixinha, vez por outra, sobretudo quando se projetava as irresistíveis pornochanchadas, nossa entrada no cinema dependia do humor dos porteiros. Eles sabiam que nossas idades adolescentes não davam acesso aos nossos desejos também adolescentes, mas eram condescendentes quando estavam com o espírito cristão mais afinado. Do contrário nos barravam inapelavelmente. Nossa esperança então se voltava para Baixinha.

Explico. O moço tinha um imenso talento para contar os filmes que assistia. Interpretava com tanta precisão que nos dispensava de assistir ao original. Quando simulava uma cena de duelo, daquela que fecha qualquer faroeste com chave de ouro, nos levava ao delírio e certamente mataria de inveja qualquer John Weissmuller. Conta-se que o eterno Tarzan barrado em um clube de Los Angeles por ser ator teria protestado: “Tenho vários filmes para provar que não sou ator.”

Assim, impedidos de ver as coxas de Vera Fischer, os peitos de Matilde Mastrangi, a bunda de Nicole Puzzi, todas as partes de Adele Fátima, recorríamos ao nosso Baixinha e pedíamos que ele nos contasse o filme. Neste caso ele era peremptório: “Presta não. Só tem aquilo.” Para não perdermos a noite íamos tomar cerveja nos cabarés da Coréia, o famoso Alto do Lenhador, onde as moças nos esperavam vestidas com roupas que mais mostravam que escondiam seus predicados.

Dia desses, procurando nos jornais um filme para assistir, lembrei de Baixinha. Coitado, hoje já quase nada teria para contar, até porque pouco filme se vê hoje em Palmares. Pelo que me consta apenas o Apolo, centenário, resiste. O São Luiz virou igreja. Por outro lado, os filmes de hoje só têm aquilo. Aliás, isso não é de hoje. José Lins do Rego, numa crônica escrita em 1921, cita uma frase que atribui à Salomé de Oscar Wilde: “Os homens preferem os filmes que estão mais com seus cérebros ocos.” Então vamos lá, tome sexo e violência.

De minha parte, não consigo imaginar nosso personagem fazendo os malabarismos frenéticos de Tom Cruise, muito menos aquelas mungangas de Jean-Claude Van Damme. Já o resto, enfim, só tem aquilo. E escrevo isso com o espírito de um cinéfilo amador, pois, mesmo desprovido de qualquer puritanismo, não dá para esquecer o Conselheiro Acácio e uma de suas pérolas, “o que abunda não falta”. E hoje no cinema o aquilo do Baixinha literalmente abunda.

Reconheço que, quando há necessidade, dá para usar e abusar do que quer que seja sem perder o sentido da arte.

Deixe-me contar.

Fui assistir ao brilhante O Engenho de Zé Lins de Vladimir de Carvalho. Filme de coragem, capaz de cavoucar com arte e respeito temas delicados, como a miséria ceifadeira nordestina e as condições de miséria que sofreu o homem que escreveu clássicos. O cinema estava quase vazio naquela tarde. E esvaziou ainda mais quando Thiago de Mello contava em detalhes as dores escatológicas de Zé Lins que minguava ao sabor da esquistosomose que lhe comia a vida. Era o velho rio Paraíba a correr por dentro de seu corpo levando tudo em sua enxurrada maléfica. E Thiago falava em coçar os bagos e olhar a merda do amigo. Uma mulher em minha frente, certamente melindrada, deixou o cinema. Talvez para ela um escritor nunca precise sair de sua redoma criativa para se tornar um ser humano comum e banal.

Um documentário, aprendi com o mestre Vladimir de Carvalho, precisa mostrar a vida em sua inteireza, mas a ficção carece de magia e imaginação. Também isso aprendi ainda moço num diálogo que assisti no consultório de odontólogo de meu tio Paulo. Dona Laura, uma de suas clientes, enquanto esperava ser atendida sentada em um banco que ficava dentro do próprio consultório, e onde eu fazia praça, mostrava sua indignação.

– E este filme aí, Dona Flor e seus Dois Maridos? Uma indecência, uma imoralidade. Prefiro ver King Kong.

Tio Paulo não perdeu a deixa.

– Esse é muito pior. Em Dona Flor está tudo certo. Uma mulher, um homem e um morto ali em volta. Já King Kong é foda. Um macacão daquele tamanho querendo comer uma mocinha? Isso é que é imoral.

Dona Laura quase teve uma síncope, mas sobreviveu. Como hoje ainda tento sobreviver sonhando sentar numa sala escura e assistir a um filme com os olhos de Baixinha, vendo cinema pelo encanto do cinema. Mas aí começamos a pensar e a vida se perde.


SINA VIAJANTE

Foi de supetão mesmo. Quando me dei conta, todos os meus amigos tinham viajado. Parecia não restar mais ninguém na cidade e o aeroporto abarrotado, com seu vai-e-vem infindo, assemelhava-se a uma feira, à feira de Caruaru, mais especificamente. Tá certo, não tinha camelôs no pedaço, mas não faltavam gente vendendo de comer e moças distribuindo revistas como brinde. E no meio da multidão, centenas de amigos embarcavam para algum lugar, ou mesmo para lugar nenhum.

Como sou meio lento para perceber as coisas, somente agora estou me dando conta de como gostamos de viajar. E já me incluo no pacote, pois também vivo de malas prontas. Nada que se compare a um amigo meu, o Terrinha, viajante quase profissional, no entanto não deixo de embarcar seja lá pra onde for. Tanto que, outro dia, dentro de um avião com destino a Macapá, ruminando descobri que aquela era a última das capitais brasileiras onde ainda não havia dado com os costados. Ali fechava o círculo e patrioticamente poderia anunciar aos quatro ventos: já respirei todos os ares desta imensa e gloriosa pátria.

Meu amigo Terrinha, o metódico, humilhado teve que curvar-se. Até hoje não conhece Macapá nem Porto Velho. Ou seja, em termos de Brasil é um amador, mas no estrangeiro o homem é profissional. Já bateu pernas por Oropa, França e Bahia. E foi na França, mais especificamente em Paris, que pagou o maior mico da vida, um verdadeiro King Kong.

Passada a eleição presidencial de 1994, depois de votar em Fernando Henrique Cardoso, o moço embarcou para a Cidade Luz. Ainda trazia na memória o altruísmo do candidato diante de um prato de buchada de bode. O então futuro presidente fora categórico ao afirmar que não via estranheza nenhuma na iguaria nordestina, pois quando morara na França se deliciava com um prato muito semelhante, também feito a base de miúdos. E foi até com certo formalismo patriótico que, diante da alegria de encontrar o dito prato francês no cardápio de um restaurante, solenemente o pediu ao garçom. Esperou um pouco se deliciando com um vinho, claro, francês.

De repente, não mais que de repente, o garçom põe em sua frente o embutido. Era uma espécie de linguiça cheia de água com outra linguiça dentro, esta segunda prenhe de miúdos, talvez de bode. Circundando tudo aquilo uma generosíssima porção de batatas fritas. Salivando nosso herói empunhou um garfo e uma faca e ritualisticamente partiu as citadas linguiças. Aí se deu o desastre. Um fedor desgraçado empesteou todo ambiente. E os vetustos presentes o olharam com raios recriminadores. Certamente o viam como um insolente peidão.

Sem alternativas o nobre Terrinha cobriu tudo aquilo com as batatas fritas, pediu a conta e saiu o mais depressa que pôde do restaurante. E Fernando Henrique só não perdeu em definitivo aquele voto porque o moço até hoje se recusa terminantemente em votar em petista, mesmo que seja para síndico do prédio onde mora.

Mas é mesmo para isso que viajamos, para aprendemos levando no lombo.

Certa feita, em Portugal, tomando num vinho num café chega um cidadão com aquelas famigeradas três cumbuquinhas onde se esconde uma moeda. “Brasileiro, quer ganhar um dinheiro?” “Quero não, mestre. Eu vim do Brasil foi prá gastar”, respondi como bom cristão que já foi roubado desta maneira na feira de Palmares. E o portuga foi embora em busca de outra vítima.

No entanto tem momentos em que não há escapatória.

Estava em Cuscu, fazendo inveja a Manuel Bandeira. Lembram o poema?

“Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco

. . .

Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.”

Pois bem, estava em Cuscu tomando um pisco num bar da praça das Armas. Estava despreocupado da vida, talvez pensando numa velha piada local. Diante de uma rua estreita onde de um lado está uma parede com pedras perfeitamente agrupadas pelos incas e do outro outra com pedras postas de qualquer maneira pelos espanhóis, os nativos costumam anunciar: “Esta foi feita pelos incas e aquela pelos incapazes.”

Neste devaneio aparece um menino, um menino de Olinda versão cusquenha. “Donde és?” (quem souber como se coloca aquele ponto de interrogação invertido no início da sentença que se habilite), atirou-me à queima roupa. Sabia que vinha malandragem dali, mas me fiz de besta. “Sou do Brasil.” E ele desembestou: “Presidente Lula, ex-presidente Cardoso, capital Brasília, descoberto em 1500 por Pedro Álvares Cabral…” e seguiu num ritmo alucinante. E antes mesmo de tomar fôlego novo sentenciou: “Una propina.” Dei-lhe sem pestanejar a propina solicitada.

Não se passaram cinco minutos e já outro menino se postava em frente à minha taça de pisco: “Donde és?” Jogar uma vez, tudo bem, mas ser duplamente enrolado já é demais. “Sou de Catende”, lasquei. Espantado o menino saiu correndo, mas juro que lhe daria uma larga propina se ele me dissesse pelo menos o nome do prefeito de Catende.

Viajamos talvez para reunir histórias e conhecimentos. O Terrinha mesmo não deixa de desembarcar onde quer que seja sem já ter comprado um city-tour. Garante que sempre aprende alguma coisa. Não adianta, já várias vezes lhe disse que as informações passadas pelos guias são tão seguras quanto um passeio sob o luar do Complexo do Alemão. Até contei que um guia me mostrou a cela onde Graciliano Ramos teria ficado preso em Fernando de Noronha. E ouvi quando outro guia informou a um grupo de turistas que foram os índios guaranis que destruíram os edifícios das missões jesuíticas do Rio Grande do Sul.

E assim seguimos a sina viajeira ouvindo Caetano Veloso: “Eu não estou indo embora / tô só preparando a hora / de voltar”, pois voltar é também um dos prazeres da viagem.


DESCUIDOS COM UMA OBRA DILETANTE

entrevista ledo ivo-

Este colunista entrevistando o poeta Lêdo Ivo pra o programa Leituras da TV Senado

Por várias vezes Lêdo Ivo me contou essa história.

Final da década de 1940. O então jovem poeta circulava com desenvoltura pelos meios literários da Capital do país e já gozava de relativa fama. Devido a isso recebeu um convite irrecusável e caminhava por uma rua do centro da cidade eufórico. Mas aí encontrou o implacável Agripino Grieco.

– Agripino, estou indo ao Globo. O Roberto Marinho convidou-me para ser o novo crítico literário do jornal. Vou levando meu primeiro texto.

– Lêdo, não se meta com esta canalha. Você é um poeta, não fique falando dos outro e vá cuidar sua obra.

Ali mesmo morreu o sonho do crítico cotidiano. Durante a vida Lêdo muito escreveu sobre literatura, mas ensaios consistentes e longos.

Eu, que sempre sonhei ser de fato escritor, terminei enveredando pelos enredos das resenhas literárias constantes desde que aceitei um convite de Luiz Berto para escrever num jornal classista, isso lá pelo final da década de 1980. E por várias vezes encontrei quem tentou me trazer de volta ao bom caminho. Um dos primeiros foi Fernando Sabino.

– Maurício, o importante é dizer aquilo que a gente acredita, o importante é criar. E para isso basta escrever duas horas por dia, depois é só sair para tomar um uísque.

– Mestre, eu estou no meio do caminho, pois já estou tomando o uísque.

Lembro disso tudo lendo o brilhante Ray Bradbury: “Se você não escrever diariamente, os venenos se acumularão e você começará a morrer, ou a enlouquecer, ou ambos.”

Como nenhuma Academia de Letras está me homenageando, embora tenha recebido convite para me filiar a algumas delas, acho que não comecei a morrer, mas devo estar enlouquecendo, pois o cuidar do que chamaria minha obra tem me preocupado por muitas horas.

Tudo bem, não tenho muito o que cuidar, como João Ubaldo Ribeiro. Diante do sucesso de Sargento Getúlio, o baiano entrou em parafuso e planejou um livro desfazendo o militar. Quem o salvou foi Jorge Amado que passou um carão no moço: “Você não tem o direito de matar sua obra. Crie juízo e cuide bem dela”.

A verdade é que a gente sempre precisa de amigos para nos salvar. No meu caso conto com Arnaldo Ferreira, da Bagaço, que vive a me instigar a escrever meus livros que, bem ou mal, caminham com certo vagar pelas livrarias e os olhos de alguns leitores. Mas eu deveria mesmo era criar vergonha e escrever os romances e textos teatrais que venho planejando há anos. E olhe que eu já tive meu Agripino Grieco.

Isso se deu lá pelos inícios dos anos 1990.

Naquele tempo escrevia resenhas para o Correio Braziliense. Durante dez anos fiquei cuidando dos livros alheios e passando alguns constrangimentos. Conto.

Quando começaram a organizar o jornal, a primeira providência foi construir uma portaria e botar ali um sisudo vigilante encarregado de reprimir o acesso dos eternos malas que nos angustiavam. E um dia fui eu a vítima. Entrava no prédio com uma pilha de livros sob o braço quando o rigoroso moço me segurou com um alerta: “É proibido vender livros no recinto.” Fui salvo pelo crachá.

Voltando ao início dos anos 90, perambulava pelo Rio de Janeiro fazendo uma cobertura qualquer para o Correio Braziliense. Tinha combinado almoçar com o poeta Bernardo de Mendonça e quando cheguei ao restaurante, com quase uma hora de atraso, justifiquei-me:

– Tive antes que passar na Rocco para falar com a assessora de imprensa. Eles estão relançando Entrevista com o Vampiro, da Anne Rice, numa tradução da Clarice Lispector…

– Meu amigo, esqueça essa história de escrever resenhas e vá cuidar de sua obra. Eu lhe conheço e sei que você tem todo um universo para botar no papel.

Eu era muito jovem para ouvir conselhos e continuei escrevendo para jornais. Mas juro que, anos depois, até tentei mudar de vida e me tornar um jornalista sério. Estudei. Fiz duas pós-graduações, uma em ciência política e outra em economia. Vesti-me de maneira formal e fui trabalhar na TV Senado. Ali com certeza trataria dos grandes temas nacionais e esqueceria de vez este ilusório mundo de ficções e poesias. Vez por outra, no conforto do meu lar, poderia apanhar um livro antigo e dedilhar as canções de um Carlos Pena Filho ou os devaneios realistas de um Hermilo Borba Filho. Caso a saudade fosse mesmo imensa, bem poderia escrever um conto besta, botá-lo na gaveta e ir tomar mais um uísque.

A vida tem suas razões, fui aprendendo. E aí me pautaram, já na TV Senado, para cobrir uma Bienal do Livro no Rio de Janeiro. E tudo voltou à normalidade. Entrevistei uma penca de escritores, criei um programa de literatura, dirigi documentários sobre outros autores…

Sigo lendo Ray Bradbury: “Nunca planejei muito meu caminho pela vida e, sim, fiz coisas e descobri o que elas eram e o que eu era depois de tê-las feito.”

Seguir em frente. Esta é a lei. Saúde e mais uma dose de uísque.


DAS BRUXARIAS COTIDIANAS

teatro-apolo5960680

Cine Teatro Apolo, Palmares: centenário em 2014

Começo pelas desculpas, pois em verdade sou um escriba recorrente. Como diria o poeta Zé Limeira, “sou um caboclo moderno, foi não foi eu tô pensando”. O problema é que fico sempre a pensar sobre os mesmos temas, numa recorrência dos diabos. Vejam só, já se passaram dez dias e até agora continuo envolvido pelo clima de otimismo que envolve a gente toda da terra neste instantes de mudança de ano.

Agora mesmo, quando caminhava pensando no que escrever para este espaço, lembrei-me de uma tradição que se dava em Palmares em tempos idos, e já me vêm três outras recorrências: Palmares, tradição e antanho. Pois bem, no burgo canavieiro, à meia-noite de 31 de dezembro, apagavam-se todas as luzes, a Usina Treze de Maio apitava com força e os ônibus da viação Rio Una, enfileirados em frente à Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Montes, acionavam suas buzinas.

Saudávamos o Ano Bom com muito barulho e alegria, como também com muito barulho, alegria e fogueiras brincávamos o São João. Isso num tempo em que acreditávamos que Santa Isabel, prima de Maria e mãe de São João Batista, fazia o filho dormir profundamente durante todo dia 24 de junho para que não assistisse orgulhoso e todo pabo os festejos que o povo da terra lhe dedicava. Assim explodíamos foguetes na esperança de acordá-lo.

A esperança, sobretudo nos dias que correm, é um combustível inesgotável no nosso caminhar diário.

Com este espírito abri minha caixa de e-mail no segundo dia do ano. Passei a maior parte do tempo apagando mensagens que tentavam me vender absolutamente tudo, desde lanternas ecologicamente corretas até carros e melhores momentos para minha vida sexual. Fiquei por ali encantado com a petulância dos insistentes vendedores que imaginam que careço de lanterna, que preciso trocar de carro e que não tenho uma vida sexual satisfatória. Preferi não brigar com ninguém, afinal, estamos no Ano Bom.

Segui em frente até me encontrar com uma mensagem inventiva. A imagem mostrava um desses jogos de caça-palavras e anunciava que as três primeiras palavras encontradas naquele embaralho guiariam meus dias no ano que iniciava. Não acredito em bruxas, mas, por via das dúvidas, mirei os olhos.

A primeira sentença que me apareceu foi sucesso. Bom, isso parece ser um desejo universal, sobretudo agora, quando os tais quinze minutos de fama preconizados por Andy Warhol estão cada vez mais efêmeros.

No meu caso não desejo ser nenhum Reginaldo Rossi. Basta-me a popularidade minguada que desfruto e que me constrange. Como apresento um programa de literatura na TV, vez em quando sou reconhecido na rua. Ouvi até alguns garçons falando que me conhecem da telinha. Até aí tudo bem. O problema é quando me pedem para tirar uma foto comigo. Fico encabulado que só menino cagado. Mesmo assim consigo vencer o constrangimento e me presto ao desejo alheio. Então que este sucesso tenha outro sentido semântico e fale da concretização de tudo que planejo fazer ao longo dos próximos 365 dias.

Depois encontrei a palavra dinheiro. Isso me animou. Há anos minha conta bancária era filiada ao PT, só vivia no vermelho. Aí se deu o mensalão e tive esperanças de melhorar minha situação, com boa rima e tudo. Rebelde sem nenhuma causa, minha conta migrou para o PSol e continuei às voltas com meus eternos desajustes.

Ainda não sei de onde virão estes recursos profetizados por minha bruxa pessoal e anônima, mas se vierem prometo ser mais organizado, gastar menos e melhor, investir em caderneta de poupança e botar todas as minhas dívidas em dia. Promessa de Ano Novo.

Atendendo às instruções desta espécie de gênio da lâmpada, catei mais uma palavra, a que seria a última, e encontrei: trabalho. Como meu entendimento é curto, fiquei a imaginar livros a escrever, roteiros a finalizar, mais um documentário para dirigir. Este ano será bom em efemérides. Há cem anos Monteiro Lobato escrevia um artigo que mudou o rumo de sua vida. Falava de uma praga da lavoura, a queimada. Como esta praga persiste, falava de coisas bem atuais. A repercussão do texto foi tanta que Lobato vendeu a fazenda que tocava e foi para São Paulo viver do que escrevia. Também tem o centenário de fundação do Cine Teatro Apolo lá de Palmares, caso eu queira ficar nas minhas recorrências. Enfim, trabalho não me faltará mesmo, minha cara bruxa.

E foi fazendo o agradecimento que me dei conta do óbvio. Sucesso e dinheiro são decorrências de um trabalho honesto e sincero. Meu diabo plantonista está gritando em meu ouvido que conhece muita gente que venceu e se deu bem usando da malandragem. Também conheço, meu bom. Sem o desgastado lugar-comum que diz que o crime não compensa, as tensões que tais práticas envolvem, pelo menos prá mim, não pagam a riqueza daí advinda. Malandragem é bonita na música, na ficção. Prefiro o trabalho, esta bruxaria cotidiana que sempre traz um sabor de bem-estar indizível. Em suma, o que minha bruxinha querida estava a dizer era isso mesmo. Trabalhe malandro que daí virá seu sucesso e sua fortuna.

Já me dava por satisfeito quando não resisti em olhar mais uma vez o caça-palavras. E brilhante surgiu em minha frente a palavra, o conselho: cachaça. Bom, por aí comecei a festejar minhas esperanças de um ótimo ano novo com sucesso, dinheiro, trabalho e, claro, cachaça, afinal de contas, ninguém é de ferro.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa