NAS ASAS DO PÂNICO

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“O avião, como o próprio mundo, se tornou banal e corriqueiro.”

O medo, por restaurar a prudência, torna-se um bom conselheiro. Mas, como o colesterol, há o bom e o mau pânico. Tento explicar-me. Reza a lenda que o bom e velho Machado de Assis, diante de um convite para conhecer Maceió, teria se desculpado. Para ele caminhar nas ruas da capital alagoana era tão perigoso quanto comprar remédios nas boticas do Rio de Janeiro. Sabendo ou não do que falava, o certo é que o Bruxo era também bom profeta, posto que hoje as duas cidades esmeram-se no quesito da insegurança.

Está aí um medo salutar. Isso, no entanto, são questões sociais, instrumentos para o deleite dos sociólogos, ou seja, outros quinhentos. Ao cronista vale mais voltar às nuances do medo.

Vamos lá.

Acho, embora sem razão, infundado o pânico das viagens aéreas. Confesso meu pavor de altura e meu contraditório conforto com os aviões. Muito cedo descobri o medo dos abismos, e foi perambulando pelos arredores de Catende, ainda na adolescência. Subíamos os morros pelos caminhos estreitos abertos nos canaviais para simular uma vida campestre, e chegando aos cumes dominava-me a insegurança.

Certa feita ousei me postar à beira do paredão de pedra que forma a serra da Prata. Aquele lajedo a desabar de uma altura improvável, recoberto pelo brilho eterno da malacaxeta assustou-me, deu-me tontura e uma tensão capaz de bloquear o previsível riso diante do comentário de João, um companheiro de jornada:

– Caso o sujeito caia daqui, será que rela a testa?

Diante disso, e embalado pela voz fanhosa de Belchior: “foi com medo de avião que eu segurei pela primeira veza tua mão”, criei o mito: Tenho medo de avião, embora nunca tivesse entrado na engenhoca de nosso querido Dumont.

Tinha minhas razões, é certo. Pelo menos dois de meus ídolos sofriam do mesmo mal. Ariano Suassuna, pressionado a tomar um avião com destino ao Rio de Janeiro para assistir a um concerto da Orquestra Armorial, contava-se em nossa roda de conversas, recusava-se a enfrentar o desafio. Um amigo tentou dissuadi-lo.

– Ariano, se você for de carro o perigo é ainda maior, afinal o automóvel pode cair em um buraco na estrada…

– O problema do avião é que o buraco vai o tempo tudo embaixo do bicho.

Tinha razão o mestre, como razão tinha outro mestre, Luiz Gonzaga, que certa feita tentou convencer o sanfoneiro Dominguinhos, outro apavorado diante de turbinas e instruções dos comissários de bordo.

– Dominguinhos, vamos embarcar nesse bicho. Veja bem essa ruma de político ruim que vive voando prá cima e prá baixo. Se o avião não cai com essa gente que não presta, vai lá cair com nós que somos homens de bem…

O certo é que perdi a inocência depois que entrei pela primeira vez num avião. Era uma viagem curtíssima, do Recife para Maceió, coisa de meia hora, quarenta minutos. Daí veio o conforto e peguei vício, mesmo tendo que enfrentar algumas situações, digamos, desconfortáveis.

Levantamos voo sob um intenso temporal, um pé d’água digno de se tornar merchandising do filme Noé. O avião tremia tanto que eu tinha a certeza de que ele iria se partir ao meio. Uma freira ao meu lado deu garra de um rosário e aí comecei a achar a situação preocupante. Batíamos nas nuvens como bólidos a querer furar muralhas. Tudo era barulho e aflição. Como as regras de então permitiam e eu ainda fumava, acendi um cigarro e tentei ler uma revista qualquer, mas as letras se embaraçavam num tremelicar dos infernos. De repente tudo parecia se acalmar. A aeronave vencera as nuvens e a freira guardou o rosário. Apaguei o cigarro e olhei pela janela minúscula. Bem ali do lado de fora uma lua imensa, cheia e linda parecia me dar as boas vindas. Voltou o conforto.

Hoje não sei dizer o quanto já voei nem posso contabilizar os desconfortos e os alívios sofridos. Não tenho o senso prático de meu amigo Terrinha, o pragmático. Desde a primeira vez em que entrou num avião, e por mais de quarenta anos, ele anotou todas as viagens que fez. Escrevia a data, o destino e as horas de voo. Mas um dia, trama do destino, no burburinho de uma mudança de residência, por engano, jogou no lixo as anotações. Ficou desolado com a memória perdida para sempre.

Hoje, quando as viagens aéreas perderam aquele glamour quase sexual, não sei também se meu amigo se animaria em seguir sua contabilidade. O avião, como o próprio mundo, se tornou banal e corriqueiro. Já nada na face da terra parece nos surpreender e assustar. Nem mesmo uma imensa turbulência ou a notícia de um homérico acidente.

Estamos cada vez mais vestidos da simplicidade dos mortais.

Desprovido de medo e prenhe de imprudência, desligo o computador a pedido da aeromoça, pois nos preparamos para mais um pouso nessa minha imensurável contabilidade.


SÓ TEM AQUILO

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“Um macacão daquele tamanho querendo comer uma mocinha? Isso é que é imoral.”

Era de nome Baixinha, assim mesmo no feminino, embora se tratasse de um homem. Caminhava nas ruas de Palmares com passos ligeiros e curtos. Pouco falava, mas ria sempre com uns dentes cavalares, proeminentes, um riso desabrido. Era baixo sim, a alcunha não deixa dúvidas, e magérrimo, digno daquela magreza famélica dos subnutridos nordestinos, mas não cheguei a vê-lo se queixar de fome. Morava para as bandas do Matadouro, e sei disso pelo tanto que o vi passar em minha porta da Praça Santo Amaro na direção daquele bairro. Nunca soube seu nome de batismo, mas isso não tem importância. A lembrança de sua figura humilde, sempre de bem com a vida me basta.

E tinha uma paixão irreprimível, o cinema. Todos os dias entrava sem bater à porta ou pagar ingresso em um dos dois cinemas da cidade, o São Luiz e o Apolo. Não teorizava sobre estética, novos ângulos, tomadas mais inovadoras, linguagens revolucionárias, todas estas picuinhas que já à época líamos nas páginas do Diário de Pernambuco. Para Baixinha cinema era o encanto das imagens, dos movimentos, das ações. Por isso adorava os filmes de faroeste, americanos ou espaguetes. Amava com o mesmo furor John Wayne e Giuliano Gemma.

Ao contrário do que acontecia com Baixinha, vez por outra, sobretudo quando se projetava as irresistíveis pornochanchadas, nossa entrada no cinema dependia do humor dos porteiros. Eles sabiam que nossas idades adolescentes não davam acesso aos nossos desejos também adolescentes, mas eram condescendentes quando estavam com o espírito cristão mais afinado. Do contrário nos barravam inapelavelmente. Nossa esperança então se voltava para Baixinha.

Explico. O moço tinha um imenso talento para contar os filmes que assistia. Interpretava com tanta precisão que nos dispensava de assistir ao original. Quando simulava uma cena de duelo, daquela que fecha qualquer faroeste com chave de ouro, nos levava ao delírio e certamente mataria de inveja qualquer John Weissmuller. Conta-se que o eterno Tarzan barrado em um clube de Los Angeles por ser ator teria protestado: “Tenho vários filmes para provar que não sou ator.”

Assim, impedidos de ver as coxas de Vera Fischer, os peitos de Matilde Mastrangi, a bunda de Nicole Puzzi, todas as partes de Adele Fátima, recorríamos ao nosso Baixinha e pedíamos que ele nos contasse o filme. Neste caso ele era peremptório: “Presta não. Só tem aquilo.” Para não perdermos a noite íamos tomar cerveja nos cabarés da Coréia, o famoso Alto do Lenhador, onde as moças nos esperavam vestidas com roupas que mais mostravam que escondiam seus predicados.

Dia desses, procurando nos jornais um filme para assistir, lembrei de Baixinha. Coitado, hoje já quase nada teria para contar, até porque pouco filme se vê hoje em Palmares. Pelo que me consta apenas o Apolo, centenário, resiste. O São Luiz virou igreja. Por outro lado, os filmes de hoje só têm aquilo. Aliás, isso não é de hoje. José Lins do Rego, numa crônica escrita em 1921, cita uma frase que atribui à Salomé de Oscar Wilde: “Os homens preferem os filmes que estão mais com seus cérebros ocos.” Então vamos lá, tome sexo e violência.

De minha parte, não consigo imaginar nosso personagem fazendo os malabarismos frenéticos de Tom Cruise, muito menos aquelas mungangas de Jean-Claude Van Damme. Já o resto, enfim, só tem aquilo. E escrevo isso com o espírito de um cinéfilo amador, pois, mesmo desprovido de qualquer puritanismo, não dá para esquecer o Conselheiro Acácio e uma de suas pérolas, “o que abunda não falta”. E hoje no cinema o aquilo do Baixinha literalmente abunda.

Reconheço que, quando há necessidade, dá para usar e abusar do que quer que seja sem perder o sentido da arte.

Deixe-me contar.

Fui assistir ao brilhante O Engenho de Zé Lins de Vladimir de Carvalho. Filme de coragem, capaz de cavoucar com arte e respeito temas delicados, como a miséria ceifadeira nordestina e as condições de miséria que sofreu o homem que escreveu clássicos. O cinema estava quase vazio naquela tarde. E esvaziou ainda mais quando Thiago de Mello contava em detalhes as dores escatológicas de Zé Lins que minguava ao sabor da esquistosomose que lhe comia a vida. Era o velho rio Paraíba a correr por dentro de seu corpo levando tudo em sua enxurrada maléfica. E Thiago falava em coçar os bagos e olhar a merda do amigo. Uma mulher em minha frente, certamente melindrada, deixou o cinema. Talvez para ela um escritor nunca precise sair de sua redoma criativa para se tornar um ser humano comum e banal.

Um documentário, aprendi com o mestre Vladimir de Carvalho, precisa mostrar a vida em sua inteireza, mas a ficção carece de magia e imaginação. Também isso aprendi ainda moço num diálogo que assisti no consultório de odontólogo de meu tio Paulo. Dona Laura, uma de suas clientes, enquanto esperava ser atendida sentada em um banco que ficava dentro do próprio consultório, e onde eu fazia praça, mostrava sua indignação.

– E este filme aí, Dona Flor e seus Dois Maridos? Uma indecência, uma imoralidade. Prefiro ver King Kong.

Tio Paulo não perdeu a deixa.

– Esse é muito pior. Em Dona Flor está tudo certo. Uma mulher, um homem e um morto ali em volta. Já King Kong é foda. Um macacão daquele tamanho querendo comer uma mocinha? Isso é que é imoral.

Dona Laura quase teve uma síncope, mas sobreviveu. Como hoje ainda tento sobreviver sonhando sentar numa sala escura e assistir a um filme com os olhos de Baixinha, vendo cinema pelo encanto do cinema. Mas aí começamos a pensar e a vida se perde.


SINA VIAJANTE

Foi de supetão mesmo. Quando me dei conta, todos os meus amigos tinham viajado. Parecia não restar mais ninguém na cidade e o aeroporto abarrotado, com seu vai-e-vem infindo, assemelhava-se a uma feira, à feira de Caruaru, mais especificamente. Tá certo, não tinha camelôs no pedaço, mas não faltavam gente vendendo de comer e moças distribuindo revistas como brinde. E no meio da multidão, centenas de amigos embarcavam para algum lugar, ou mesmo para lugar nenhum.

Como sou meio lento para perceber as coisas, somente agora estou me dando conta de como gostamos de viajar. E já me incluo no pacote, pois também vivo de malas prontas. Nada que se compare a um amigo meu, o Terrinha, viajante quase profissional, no entanto não deixo de embarcar seja lá pra onde for. Tanto que, outro dia, dentro de um avião com destino a Macapá, ruminando descobri que aquela era a última das capitais brasileiras onde ainda não havia dado com os costados. Ali fechava o círculo e patrioticamente poderia anunciar aos quatro ventos: já respirei todos os ares desta imensa e gloriosa pátria.

Meu amigo Terrinha, o metódico, humilhado teve que curvar-se. Até hoje não conhece Macapá nem Porto Velho. Ou seja, em termos de Brasil é um amador, mas no estrangeiro o homem é profissional. Já bateu pernas por Oropa, França e Bahia. E foi na França, mais especificamente em Paris, que pagou o maior mico da vida, um verdadeiro King Kong.

Passada a eleição presidencial de 1994, depois de votar em Fernando Henrique Cardoso, o moço embarcou para a Cidade Luz. Ainda trazia na memória o altruísmo do candidato diante de um prato de buchada de bode. O então futuro presidente fora categórico ao afirmar que não via estranheza nenhuma na iguaria nordestina, pois quando morara na França se deliciava com um prato muito semelhante, também feito a base de miúdos. E foi até com certo formalismo patriótico que, diante da alegria de encontrar o dito prato francês no cardápio de um restaurante, solenemente o pediu ao garçom. Esperou um pouco se deliciando com um vinho, claro, francês.

De repente, não mais que de repente, o garçom põe em sua frente o embutido. Era uma espécie de linguiça cheia de água com outra linguiça dentro, esta segunda prenhe de miúdos, talvez de bode. Circundando tudo aquilo uma generosíssima porção de batatas fritas. Salivando nosso herói empunhou um garfo e uma faca e ritualisticamente partiu as citadas linguiças. Aí se deu o desastre. Um fedor desgraçado empesteou todo ambiente. E os vetustos presentes o olharam com raios recriminadores. Certamente o viam como um insolente peidão.

Sem alternativas o nobre Terrinha cobriu tudo aquilo com as batatas fritas, pediu a conta e saiu o mais depressa que pôde do restaurante. E Fernando Henrique só não perdeu em definitivo aquele voto porque o moço até hoje se recusa terminantemente em votar em petista, mesmo que seja para síndico do prédio onde mora.

Mas é mesmo para isso que viajamos, para aprendemos levando no lombo.

Certa feita, em Portugal, tomando num vinho num café chega um cidadão com aquelas famigeradas três cumbuquinhas onde se esconde uma moeda. “Brasileiro, quer ganhar um dinheiro?” “Quero não, mestre. Eu vim do Brasil foi prá gastar”, respondi como bom cristão que já foi roubado desta maneira na feira de Palmares. E o portuga foi embora em busca de outra vítima.

No entanto tem momentos em que não há escapatória.

Estava em Cuscu, fazendo inveja a Manuel Bandeira. Lembram o poema?

“Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco

. . .

Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.”

Pois bem, estava em Cuscu tomando um pisco num bar da praça das Armas. Estava despreocupado da vida, talvez pensando numa velha piada local. Diante de uma rua estreita onde de um lado está uma parede com pedras perfeitamente agrupadas pelos incas e do outro outra com pedras postas de qualquer maneira pelos espanhóis, os nativos costumam anunciar: “Esta foi feita pelos incas e aquela pelos incapazes.”

Neste devaneio aparece um menino, um menino de Olinda versão cusquenha. “Donde és?” (quem souber como se coloca aquele ponto de interrogação invertido no início da sentença que se habilite), atirou-me à queima roupa. Sabia que vinha malandragem dali, mas me fiz de besta. “Sou do Brasil.” E ele desembestou: “Presidente Lula, ex-presidente Cardoso, capital Brasília, descoberto em 1500 por Pedro Álvares Cabral…” e seguiu num ritmo alucinante. E antes mesmo de tomar fôlego novo sentenciou: “Una propina.” Dei-lhe sem pestanejar a propina solicitada.

Não se passaram cinco minutos e já outro menino se postava em frente à minha taça de pisco: “Donde és?” Jogar uma vez, tudo bem, mas ser duplamente enrolado já é demais. “Sou de Catende”, lasquei. Espantado o menino saiu correndo, mas juro que lhe daria uma larga propina se ele me dissesse pelo menos o nome do prefeito de Catende.

Viajamos talvez para reunir histórias e conhecimentos. O Terrinha mesmo não deixa de desembarcar onde quer que seja sem já ter comprado um city-tour. Garante que sempre aprende alguma coisa. Não adianta, já várias vezes lhe disse que as informações passadas pelos guias são tão seguras quanto um passeio sob o luar do Complexo do Alemão. Até contei que um guia me mostrou a cela onde Graciliano Ramos teria ficado preso em Fernando de Noronha. E ouvi quando outro guia informou a um grupo de turistas que foram os índios guaranis que destruíram os edifícios das missões jesuíticas do Rio Grande do Sul.

E assim seguimos a sina viajeira ouvindo Caetano Veloso: “Eu não estou indo embora / tô só preparando a hora / de voltar”, pois voltar é também um dos prazeres da viagem.


DESCUIDOS COM UMA OBRA DILETANTE

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Este colunista entrevistando o poeta Lêdo Ivo pra o programa Leituras da TV Senado

Por várias vezes Lêdo Ivo me contou essa história.

Final da década de 1940. O então jovem poeta circulava com desenvoltura pelos meios literários da Capital do país e já gozava de relativa fama. Devido a isso recebeu um convite irrecusável e caminhava por uma rua do centro da cidade eufórico. Mas aí encontrou o implacável Agripino Grieco.

– Agripino, estou indo ao Globo. O Roberto Marinho convidou-me para ser o novo crítico literário do jornal. Vou levando meu primeiro texto.

– Lêdo, não se meta com esta canalha. Você é um poeta, não fique falando dos outro e vá cuidar sua obra.

Ali mesmo morreu o sonho do crítico cotidiano. Durante a vida Lêdo muito escreveu sobre literatura, mas ensaios consistentes e longos.

Eu, que sempre sonhei ser de fato escritor, terminei enveredando pelos enredos das resenhas literárias constantes desde que aceitei um convite de Luiz Berto para escrever num jornal classista, isso lá pelo final da década de 1980. E por várias vezes encontrei quem tentou me trazer de volta ao bom caminho. Um dos primeiros foi Fernando Sabino.

– Maurício, o importante é dizer aquilo que a gente acredita, o importante é criar. E para isso basta escrever duas horas por dia, depois é só sair para tomar um uísque.

– Mestre, eu estou no meio do caminho, pois já estou tomando o uísque.

Lembro disso tudo lendo o brilhante Ray Bradbury: “Se você não escrever diariamente, os venenos se acumularão e você começará a morrer, ou a enlouquecer, ou ambos.”

Como nenhuma Academia de Letras está me homenageando, embora tenha recebido convite para me filiar a algumas delas, acho que não comecei a morrer, mas devo estar enlouquecendo, pois o cuidar do que chamaria minha obra tem me preocupado por muitas horas.

Tudo bem, não tenho muito o que cuidar, como João Ubaldo Ribeiro. Diante do sucesso de Sargento Getúlio, o baiano entrou em parafuso e planejou um livro desfazendo o militar. Quem o salvou foi Jorge Amado que passou um carão no moço: “Você não tem o direito de matar sua obra. Crie juízo e cuide bem dela”.

A verdade é que a gente sempre precisa de amigos para nos salvar. No meu caso conto com Arnaldo Ferreira, da Bagaço, que vive a me instigar a escrever meus livros que, bem ou mal, caminham com certo vagar pelas livrarias e os olhos de alguns leitores. Mas eu deveria mesmo era criar vergonha e escrever os romances e textos teatrais que venho planejando há anos. E olhe que eu já tive meu Agripino Grieco.

Isso se deu lá pelos inícios dos anos 1990.

Naquele tempo escrevia resenhas para o Correio Braziliense. Durante dez anos fiquei cuidando dos livros alheios e passando alguns constrangimentos. Conto.

Quando começaram a organizar o jornal, a primeira providência foi construir uma portaria e botar ali um sisudo vigilante encarregado de reprimir o acesso dos eternos malas que nos angustiavam. E um dia fui eu a vítima. Entrava no prédio com uma pilha de livros sob o braço quando o rigoroso moço me segurou com um alerta: “É proibido vender livros no recinto.” Fui salvo pelo crachá.

Voltando ao início dos anos 90, perambulava pelo Rio de Janeiro fazendo uma cobertura qualquer para o Correio Braziliense. Tinha combinado almoçar com o poeta Bernardo de Mendonça e quando cheguei ao restaurante, com quase uma hora de atraso, justifiquei-me:

– Tive antes que passar na Rocco para falar com a assessora de imprensa. Eles estão relançando Entrevista com o Vampiro, da Anne Rice, numa tradução da Clarice Lispector…

– Meu amigo, esqueça essa história de escrever resenhas e vá cuidar de sua obra. Eu lhe conheço e sei que você tem todo um universo para botar no papel.

Eu era muito jovem para ouvir conselhos e continuei escrevendo para jornais. Mas juro que, anos depois, até tentei mudar de vida e me tornar um jornalista sério. Estudei. Fiz duas pós-graduações, uma em ciência política e outra em economia. Vesti-me de maneira formal e fui trabalhar na TV Senado. Ali com certeza trataria dos grandes temas nacionais e esqueceria de vez este ilusório mundo de ficções e poesias. Vez por outra, no conforto do meu lar, poderia apanhar um livro antigo e dedilhar as canções de um Carlos Pena Filho ou os devaneios realistas de um Hermilo Borba Filho. Caso a saudade fosse mesmo imensa, bem poderia escrever um conto besta, botá-lo na gaveta e ir tomar mais um uísque.

A vida tem suas razões, fui aprendendo. E aí me pautaram, já na TV Senado, para cobrir uma Bienal do Livro no Rio de Janeiro. E tudo voltou à normalidade. Entrevistei uma penca de escritores, criei um programa de literatura, dirigi documentários sobre outros autores…

Sigo lendo Ray Bradbury: “Nunca planejei muito meu caminho pela vida e, sim, fiz coisas e descobri o que elas eram e o que eu era depois de tê-las feito.”

Seguir em frente. Esta é a lei. Saúde e mais uma dose de uísque.


DAS BRUXARIAS COTIDIANAS

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Cine Teatro Apolo, Palmares: centenário em 2014

Começo pelas desculpas, pois em verdade sou um escriba recorrente. Como diria o poeta Zé Limeira, “sou um caboclo moderno, foi não foi eu tô pensando”. O problema é que fico sempre a pensar sobre os mesmos temas, numa recorrência dos diabos. Vejam só, já se passaram dez dias e até agora continuo envolvido pelo clima de otimismo que envolve a gente toda da terra neste instantes de mudança de ano.

Agora mesmo, quando caminhava pensando no que escrever para este espaço, lembrei-me de uma tradição que se dava em Palmares em tempos idos, e já me vêm três outras recorrências: Palmares, tradição e antanho. Pois bem, no burgo canavieiro, à meia-noite de 31 de dezembro, apagavam-se todas as luzes, a Usina Treze de Maio apitava com força e os ônibus da viação Rio Una, enfileirados em frente à Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Montes, acionavam suas buzinas.

Saudávamos o Ano Bom com muito barulho e alegria, como também com muito barulho, alegria e fogueiras brincávamos o São João. Isso num tempo em que acreditávamos que Santa Isabel, prima de Maria e mãe de São João Batista, fazia o filho dormir profundamente durante todo dia 24 de junho para que não assistisse orgulhoso e todo pabo os festejos que o povo da terra lhe dedicava. Assim explodíamos foguetes na esperança de acordá-lo.

A esperança, sobretudo nos dias que correm, é um combustível inesgotável no nosso caminhar diário.

Com este espírito abri minha caixa de e-mail no segundo dia do ano. Passei a maior parte do tempo apagando mensagens que tentavam me vender absolutamente tudo, desde lanternas ecologicamente corretas até carros e melhores momentos para minha vida sexual. Fiquei por ali encantado com a petulância dos insistentes vendedores que imaginam que careço de lanterna, que preciso trocar de carro e que não tenho uma vida sexual satisfatória. Preferi não brigar com ninguém, afinal, estamos no Ano Bom.

Segui em frente até me encontrar com uma mensagem inventiva. A imagem mostrava um desses jogos de caça-palavras e anunciava que as três primeiras palavras encontradas naquele embaralho guiariam meus dias no ano que iniciava. Não acredito em bruxas, mas, por via das dúvidas, mirei os olhos.

A primeira sentença que me apareceu foi sucesso. Bom, isso parece ser um desejo universal, sobretudo agora, quando os tais quinze minutos de fama preconizados por Andy Warhol estão cada vez mais efêmeros.

No meu caso não desejo ser nenhum Reginaldo Rossi. Basta-me a popularidade minguada que desfruto e que me constrange. Como apresento um programa de literatura na TV, vez em quando sou reconhecido na rua. Ouvi até alguns garçons falando que me conhecem da telinha. Até aí tudo bem. O problema é quando me pedem para tirar uma foto comigo. Fico encabulado que só menino cagado. Mesmo assim consigo vencer o constrangimento e me presto ao desejo alheio. Então que este sucesso tenha outro sentido semântico e fale da concretização de tudo que planejo fazer ao longo dos próximos 365 dias.

Depois encontrei a palavra dinheiro. Isso me animou. Há anos minha conta bancária era filiada ao PT, só vivia no vermelho. Aí se deu o mensalão e tive esperanças de melhorar minha situação, com boa rima e tudo. Rebelde sem nenhuma causa, minha conta migrou para o PSol e continuei às voltas com meus eternos desajustes.

Ainda não sei de onde virão estes recursos profetizados por minha bruxa pessoal e anônima, mas se vierem prometo ser mais organizado, gastar menos e melhor, investir em caderneta de poupança e botar todas as minhas dívidas em dia. Promessa de Ano Novo.

Atendendo às instruções desta espécie de gênio da lâmpada, catei mais uma palavra, a que seria a última, e encontrei: trabalho. Como meu entendimento é curto, fiquei a imaginar livros a escrever, roteiros a finalizar, mais um documentário para dirigir. Este ano será bom em efemérides. Há cem anos Monteiro Lobato escrevia um artigo que mudou o rumo de sua vida. Falava de uma praga da lavoura, a queimada. Como esta praga persiste, falava de coisas bem atuais. A repercussão do texto foi tanta que Lobato vendeu a fazenda que tocava e foi para São Paulo viver do que escrevia. Também tem o centenário de fundação do Cine Teatro Apolo lá de Palmares, caso eu queira ficar nas minhas recorrências. Enfim, trabalho não me faltará mesmo, minha cara bruxa.

E foi fazendo o agradecimento que me dei conta do óbvio. Sucesso e dinheiro são decorrências de um trabalho honesto e sincero. Meu diabo plantonista está gritando em meu ouvido que conhece muita gente que venceu e se deu bem usando da malandragem. Também conheço, meu bom. Sem o desgastado lugar-comum que diz que o crime não compensa, as tensões que tais práticas envolvem, pelo menos prá mim, não pagam a riqueza daí advinda. Malandragem é bonita na música, na ficção. Prefiro o trabalho, esta bruxaria cotidiana que sempre traz um sabor de bem-estar indizível. Em suma, o que minha bruxinha querida estava a dizer era isso mesmo. Trabalhe malandro que daí virá seu sucesso e sua fortuna.

Já me dava por satisfeito quando não resisti em olhar mais uma vez o caça-palavras. E brilhante surgiu em minha frente a palavra, o conselho: cachaça. Bom, por aí comecei a festejar minhas esperanças de um ótimo ano novo com sucesso, dinheiro, trabalho e, claro, cachaça, afinal de contas, ninguém é de ferro.


SONHOS DE UMA NOITE

De repente, não mais que de repente, acordamos e o mundo continua o mesmo. E estamos em primeiro de janeiro. Nós nos alimentamos de sonhos e esperanças, esses acepipes tão fortalecedores quanto etéreos. Quando chega dezembro, então, comemos à tripa forra. Vamos nos nutrindo pelos dias a fora até encostarmos em 31, e esperamos a noite contabilizando nossas promessas: ajustar as contas, perder peso, arranjar novo emprego, novo amor… Até o mais cético dos homens pula sete ondas ou recheia a carteira com sementes de romã.

Somos assim, desprovidos de supertições, mas, por via das dúvidas, não passamos debaixo de escada, nos benzemos diante de um gato preto, pedimos licença para despacho de umbanda, lamentamos a quebra de um espelho. As bruxas existem, aprendemos muito cedo.

Daí quando o ano se renova juntos renovamos a crença em dias melhores. O diabo é que quando, depois da ressaca, abrimos o jornal o mundo continua o mesmo. Aumento dos impostos, expectativa de inflação, guerras e atentados terroristas mundo a fora, crescimento no número de acidentes nas estradas.

Os noticiários trazem também os fogos de Copacabana, o ano raiando mais cedo no oriente do mundo, as oferendas para Iemanjá em todas as praias, a confraternização de homens e mulheres vestidos de branco, os imensos espetáculos pirotécnicos e musicais. Tudo tão novo, tudo tão velho, tudo tão previsível.

Na verdade ficou para trás uma era antiga e nossa carência afetiva nos mandar apostar na renovação.

Surfando neste espírito, paramos diante de búzios que anunciam um tempo de prosperidade. Ou de cartas que falam de momentos de incertezas, mas que o trabalho de todos ajudará na superação. Tem também os mapas astrológicos avisando que a conjunção de vários astros alimentará algumas guerras, mas a força de outros tantos trará a paz e a serenidade para os homens. A visão de uma mulher extraordinária diz que a nação lamentará a morte de um grande ídolo, mas novos talentos surgirão e vida continuará bela e alegre.

Os homens práticos preferem consultar os especialistas. Analistas políticos preveem momentos de tensão. A ruptura dos partidos tradicionais pode favorecer uma terceira força até então desacreditada. Diante deste quadro, as incertezas podem afetar o cenário internacional e fuga de capital e de investidores estrangeiros ameaçará nossa expectativa de crescimento.

Os economistas, por sua vez, não veem um cenário tão trágico, afinal os novos investimentos decorrentes da abertura dos mercados apontam para um panorama favorável. Ninguém pode desprezar a oitava economia mundial, esta é a verdade. Por outro lado, os tigres asiáticos estão reduzindo sua voracidade, enquanto se recupera a passos largos a maior economia do planeta. Toda esta conjuntura irá neutralizar o pessimismo do mercado e o comportamento da população, mais consciente diante de seus gastos, fará o país crescer independente dos resultados eleitorais.

Os sociólogos são menos otimistas. A violência pode afetar as esperanças de investimentos que vieram no bojo da Copa do Mundo de Futebol. Ainda se respira muito medo nas ruas das cidades-sede. Também a forte presença das redes sociais no contexto social do momento é motivo de preocupação. Os jovens, sobretudo os jovens, estão se mobilizando com mais rapidez e eficiências e a polícia não está preparada para este conflito anunciado. Daí o descontrole das manifestações que, inicialmente pacíficas, degeneram sempre em vandalismo e quebra-quebra. É preciso primeiro entender o cardápio de reivindicações dessa gente para só então montar uma estratégia de combate que necessariamente deve passar pelo diálogo e o entendimento mútuo. Somente assim teremos dias tranquilos e o país pode se orgulhar da eficiência na organização de eventos de grande porte.

Morra Marta, mas morra farta. Assim se dizia nos tempos de antanho. Câmara Cascudo nos explica o adágio. Enquanto Maria acalentava e escutava Jesus, Marta, sua irmã, cuidava da alimentação de todos. “Em linguagem contemporânea e técnica, Maria era recepcionista e Marta, cozinheira. Qual morrerá farta, das duas?” A resposta ao mestre potiguar parece óbvia, e assim ele quis. De minha parte, assumo uma postura mineira. Se tem poeira vou na frente, se tem lama vou atrás, se tem porteira vou no meio. Assim começo o ano apostando na mesmice, ou seja, continuar a ser feliz já me basta. O resto que vier, se vier, será contabilizado como lucro.

Ferreira Gullar, numa das edições de Flip, foi categórico em sua analogia. Contou que se o sujeito conversar com um árabe vai ver que ele tem razão. Como estão prenhes de razão os judeus se acaso os ouvimos. E sentenciou: “Eu não quero ter razão. Eu quero é ser feliz.”

Nestes tempos de mudança no calendário é fundamental ouvirmos atentamente tarólogos, gurus, líderes religiosos, astrólogos, cientistas políticos, sociólogos, economistas, enfim, profetas de todas as correntes. Todos terão razão, embora o fundamental seja mesmo apostar na felicidade, afinal é para isso que sonhamos todas as noites de dezembro.


TEMPO ROUBADO, TEMPO VIVIDO

Quando acordei já era sábado, e percebi que não tinha escrito minha crônica para o Jornal da Besta Fubana, uma doce obrigação de todas as sextas-feiras. Isso se deu na semana passada. Somente então, diante de minha clássica vagareza para entender o que me cerca, passei a refletir sobre o tempo, esse objeto tão etéreo quanto necessário.

Os dias passam e quando nos damos conta estamos com a idade dos nossos avós. E a vida segue implacável, o que é bem melhor do que ela parar de repente e todos a nossa volta fiquem sentindo a obrigação de chorar, mesmo protocolarmente. Com todas as suas urgências, a existência ainda tem seus sentidos e vale muito ser degustada, de preferência com vagar, até para buscar culpados para nossas faltas, para nossas ausências, por não cumprirmos nossos compromissos.

O diabo é que o tempo está indo muito depressa. E isso não é de agora. Noel Rosa, o brilhante poeta, nos idos da década de 1930, já estranhava que

chegou alguém apressado
naquele samba animado
que cantando assim dizia:
No século do progresso
o revólver teve ingresso
pra acabar com a valentia.

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É isso. O tempo corre além de nossas pernas. Não adiante se queixar ao bispo. O melhor é catar e descartar os nossos empecilhos de vida, os ladrões de nosso tempo, tempo que melhor deve ser empregado em atividades nobres, como a leitura e o vagar vadio.

Assim passei a buscar aqueles que me fizeram não escrever na semana passada a crônica necessária para este espaço. E claro que o primeiro suspeito, como o mordomo dos filmes policiais que via no Cine Theatro Apolo, é o final do ano, ou melhor, as confraternizações de final de ano. Sou índio de muitas tribos, e como a cada novo ano aumenta o número de caciques, tenho sempre um amigo a me convidar para um jantar, um almoço e logo jogo no mato todos os preceitos que as nutricionistas passam horas a me explicar e aconselhar.

Evoé Baco, vamos em frente.

Voltando a justificar a ausência do texto da semana passada, lembro agora que fui a uma dessas comemorações na quinta-feira. Era uma festa com regras, e por pouco não ganhei à entrada um manual de instruções. Ou melhor, fui contemplado com uma espécie de normas de comportamento oral. Explico. O convite chegou por telefone e já com algumas determinações. Chegue as 19:30, traga sua bebida e um presente que custe até trinta reais para fazermos um amigo oculto. Cheguei às 19:30 com uma garrafa de cachaça sob o braço e um livro embrulhado em papel de presente. E vieram as recomendações finais: escreva seu nome neste papel, dobre e ponha nesta bota de Papai Noel. O sorteio será pouco antes do jantar e a festa irá até às onze horas.

Cumpri as regras. Bebia a cachaça, sorteei o presente, jantei e deixei a confraternização às onze horas ainda sem sono e interrompendo as discussões pela metade. Fui para casa assistir um filme, O Amante, baseado no romance homônimo de Marguerite Duras, e arrematar a noite com mais umas doses da “branquinha, branquinha, suco de cana, pouquinho rainha, muitão tirana”, como ensinava Ascenso Ferreira. E aí não tem jeito, entre uma cena e outra do filme, terminava por refletir sobre o tempo para chegar a uma conclusão óbvia: O mundo, além de muito formal, anda recorrente.

Aliás, essa questão de recorrência, que me socorra Gilberto Freyre, é uma conversa também muito antiga. Outro dia, lendo sobre o Recife da década de 1920, fiquei surpreso ao ler um cronista da época se queixar daquilo que estava voltando a ser moda, e arrematava: “só faltam voltar as calças boca-sino”. Parei. As tais calças voltaram sim à moda, mas nos idos da década de 1970 com o movimento hippie. Razão tem o credo, não há nada de novo sob o sol.

Pois bem, ainda nesta semana, lendo num jornal as dicas de um chefe de cozinha para as festas de final de ano, vi o tal moço recomendar a combinação de espumante com feijoada, e proclamava que a novidade era verdadeiramente revolucionária, mas funcionava muito bem, afinal o frescor das borbulhas… e por aí seguia.

O diabo de ter memória. Eu ainda adolescente (acreditem: já fui adolescente), meu pai me carregou para uma festa que se dava num terreiro de macumba que havia em Palmares, o terreiro de Maria do Pilão. Era dia de um santo qualquer e meu pai, embora católico, não se negava a atender nenhum convite que lhe fizessem. E lá fomos nós. Houve todo um ritual e depois a festa propriamente dita. O cardápio não poderia ser mais inovador. Para atender aos desejos do santo homenageado serviram cidra com sarapatel.

E o chefe de cozinha de Brasília achando que inventou a roda.

Enfim, o tempo não passa, se repete. E o melhor é viver a vida. Evoé Baco.


UM BOÊMIO ABSTÊMIO

Ainda um tanto da encruzilhada das escolhas.

No documentário que dirigi, O Homem que Viu Zé Limeira, e que estreia amanhã na TV Senado, se tive do que me lamentar, foi das histórias que não pude contar no filme. Algumas até explicam porque Orlando Tejo nunca voltou a beber, depois de ter sido um intenso alcoólatra.

Sua relação com a bebida foi realmente um problema, mas um problema também irreverente, como tudo em sua vida.

Ele mesmo contava que conseguiu do dono da aguardente Caranguejo, fabricada em Campina Grande, uma autorização especial. Podia beber ali o quanto quisesse ou aguentasse. Até que um dia teve tal licença cassada, e não por exagero no consumo.

Tejo costumava reunir uns amigos para, no final da tarde, conversar e bebericar ao lado de uma bucólica e imensa pipa no depósito da Caranguejo. Certa feita, cansado de abrir a torneira para encher os copos, convidou os amigos a mergulhar no recipiente. Com a cachaça na altura do queixo, os insaciáveis apenas curvavam levemente os joelhos para degustar tanta delícia. Saíram dali expulsos e com os paletós todos encolhidos.

Era um tempo de muitas aventuras, correndo muito em busca de farras e cantorias.

Com o poeta Manuel Xudu bebia num ambiente não muito afeito à higiene. Discutiam sobre a coragem do homem nordestino, e para provar tal atributo, conseguiram capturar duas baratas, as puseram em dois copos, preencheram com aguardente e cada um bebeu sua dose com o inusitado tira-gosto.

Até que um dia vieram os delírios.

Num deles um soldadinho de chumbo que um colega de pensão conservava pregado à porta do guarda-roupa começou a acenar para ele. Tejo acho que aquilo era demais. Arrancou o insolente boneco da porta e atirou o bicho nas águas plácidas do Capibaribe.

E aí resolveu parar de vez com a bebida, mas não com a farra.

Durante dois anos se trancou na casa da mãe, dona Nevinha, em Campina Grande, segurando a vontade da primeira dose. Vez em quando sonhava que o próprio Cristo vinha buscá-lo. Mas se o próprio Cristo não conseguiu carregá-lo, o diabo também não. E deixou mesmo de beber.

Quando convivi mais constante com ele, por noites e noites ficamos em bares, todos tomando cervejas e cachaças, e Tejo, cachimbo sempre a postos, a tomar café e a contar as aventuras, suas e da cantoria.

Bráulio Tavares também conta que, quando morava em Salvador, isso nos anos 1970, recebeu uma ligação de Tejo. Andava pela capital da Bahia carregando uma dupla de violeiros. Uma noite, depois de uma cantoria, caíram os quatro numa homérica farra. E Tejo ali, só no cachimbo e no café. No início da manhã Bráulio procurou saber o segredo do amigo.

– Tejo, como é que você aguenta passar a noite na farra sem beber nenhum copo de cerveja?

– Mestre, eu descobri que o bom da farra é o papo, não a bebida. E isso já me basta.

Eu, de minha parte, não cheguei a este estágio. Tanto que amanhã estarei de copo em punho para assistir a estreia do documentário O Homem que Viu Zé Limeira e saudar meu grande amigo.


NA ENCRUZILHADA DAS ESCOLHAS

Orlando Tejo, o tocador de sanfona que não era arrimo

A questão é bíblica. Desde que nos presentearam com o livre arbítrio, vivemos nesta sinuca de pico. Que caminho tomar? Creio que esta é a pergunta mais constante na vida de cada um. E quando o cidadão se mete a fazer cinema, a trabalhar com os limites do tempo e do gênero narrativo, aí a encrenca é ainda maior.

Numa conversa, já antiga, com Nelson Pereira dos Santos aprendi o pulo do gato. Ele nos contava da difícil missão de filmar os sonhos de Guimarães Rosa, isso em 1994, quando lançou A Terceira Margem do Rio. Havia uma intensa polêmica sobre os resultados do filme, e toda assistência divida entre ódios e amores pela película. Indiferente ao zum-zum-zum Nelson nos contava das encruzilhadas que enfrentou. Às vezes uma belíssima cena não cabia no enredo, às vezes uma imagem intensa não se encaixava no contexto geral da narrativa, e aí não tinha outro jeito, o negócio era fechar os olhos e mandar a tesoura.

Penso nisso depois que finalizei o documentário O Homem que Viu Zé Limeira, sobre o heroico Orlando Tejo, que estreia no próximo sábado na TV Senado. Durante cerca de um ano fui juntando e lembrando as histórias vividas por ele. Eram tantas genialidades que se pusesse tudo na fita, precisaria do espaço, no mínimo, de uma minissérie. Enquanto isso a direção da TV buzinava em meu ouvido, “cuidado com o tempo, cuidado com o tempo”.

Foi cuidando do tempo que não pude contar uma conversa que tive com Ronaldo Cunha Lima. Voltávamos de uma Feira do Livro em Porto Alegre quando nos lembramos de Tejo. E Ronaldo contou que no tempo em que era líder estudantil em Campina Grande costumava ir ao Recife e se hospedar sempre numa mesma pensão da Rua da Aurora. Nunca deixou de pagar sua despesa, mas um dia, ao entrar no recinto familiar, encontrou a senhoria constrangida. “Seu Ronaldo, na última vez que o senhor esteve aqui, eu tinha viajado para o sertão, e o senhor esqueceu de pagar a conta.” Ronaldo, que não lembrava da situação, pediu para ver a nota onde certamente estaria sua assinatura, e estava sim, seu nome, Ronaldo Cunha Lima, escrito com a inconfundível letra de Orlando Tejo. O líder estudantil se desculpou pelo equívoco e pagou a despesa, mas não consta que Tejo lhe tenha ressarcido.

Era assim que Orlando lidava com o dinheiro e a vida.

A famosa Variant com que venceu o chão que liga Recife a Brasília vivia caindo aos pedaços. Para completar o quadro, alguém, numa manobra brusca, quebrara o farol do intrépido automóvel regularmente estacionado. Foi quando Josimar, sua esposa, resolveu acabar com a agonia e obrigou Tejo a troca de carro. Ele comprou uma Caravan bege e estacionou a Variant no pátio da casa onde morava no Park Way, em Brasília. E foi lá que apareceu um comprador. Tudo já quase acertado, quando foram olhar a viatura. E súbito Tejo desiste da venda. “Como? Já tínhamos quase fechado o negócio?”, “Mas aconteceu um fato novo. Olhe pr’ali e veja seu eu posso vender a Variant.” Um pássaro tinha feito um ninho exatamente no farol quebrado do carro. O poeta tinha razão, não dava para negociar o bicho naquela hora.

E a poesia sempre ditou sua vida.

Isso desde sempre. Mesmo quando chegou o tempo de servir à pátria amada e se alistar no glorioso Exército Brasileiro ele deu um jeito de fugir do barulho de tiros e gritos declarando-se arrimo de família. Foi dispensado, mas um soldado, às onze horas de uma ensolarada manhã de Campina Grande, bate à sua porta. Quem atende é seu irmão mais novo, Marcos Tejo. “O senhor Orlando Tejo está?” “Tá dormindo.” “A esta hora? Mas ele não é arrimo de família?” “Não sei se ele é isso aí não, agora toca uma sanfona que é uma beleza.” E o poeta teve que buscar outras vias para fugir do quartel.

Na encruzilhada das escolhas, Orlando Tejo sempre optou pela vida e a poesia.


NASCE UM DOCUMENTARISTA

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

A estrofe de Carlos Pena Filho martelava em minha cabeça naquela clara manhã de domingo. Caminhava à toa pelas ladeiras infindas fotografando o casario antigo e respirando o ar da eternidade. Olhando o mar e o horizonte perdido no fim das águas, vi Olinda mergulhada na luz ampla dos trópicos, naquela luminosidade sensível a todos os registros da poesia.

Seguia sem rumo, ao sabor dos passos, me desviando dos incontáveis guias turísticos que viam em mim mais um estrangeiro a quem deveriam tirar da miserável ignorância da história, contando estórias lendárias, uma mitologia particular e individual. Neste rumo encontrei, sentado numa calçada próxima à prefeitura, o cineasta Vladimir de Carvalho. O encontro não estava cercado pelos adornos da surpresa. No dia anterior nos encontramos numa tenda da Fliporto, onde fui falar de José Lins do Rego com sua filha Maria Christina, sua neta Valéria e seu bisneto Pedro.

Ali ficamos, na calçada, gozando de uma sombra generosa e conversando enquanto Vladimir esperava o povo que o auxiliaria numa entrevista com Edson Nery da Fonseca. Logo chegou outro cineasta paraibano, Umbelino Brasil, carregando também a missão de entrevistar Edson para outra produção em que estava envolvido. E Vladimir nos apresentou: “Maurício mora em Brasília. É jornalista, escritor e documentarista, acaba de concluir um trabalho sobre Orlando Tejo.”

Ali foi que me dei conta, também posso ser visto como um documentarista, e muito mais agora, depois de assim ser chancelado por um dos meus mestres, Vladimir de Carvalho.

Tenho esta insegurança em assumir de pronto meus ofícios. Só me vi jornalista depois que recebi um diploma na secretaria de uma faculdade, embora já militasse na imprensa há muitos anos. Só me senti escritor depois que publiquei meu quinto livro, As Mangas de Jasmim (isso sem contar com um romance publicado e renegado). Mas não foi a publicação em si que me chamou a atenção, foi um telefone.

Conto melhor.

“Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava, /…/ E já quase adormecia”, como no Corvo de Poe, traduzido por Alexei Bueno, toca o telefone. Atendi atônito, como se deve atender ao telefone que toca à meia-noite. “Maurício?” “Sim.” “Acabei de ler seu último livro. Você é um escritor.” “Muito obrigado, professor.” “Boa noite.” “Boa noite.” Logo reconheci que do outro lado da linha falava um outro mestre, Edson Nery da Fonseca, e aquilo me fez ir dormir como um escritor de fato.

A lida como documentarista também teve seu inusitado princípio movido pelo acaso. Corria o ano 2000 e eu estava chegando à TV Senado. Como jornalista estava vencendo meu prazo de validade, quando a gente começa a não mais aturar a eterna correria de uma redação, daí fiz o concurso público. Naquele mesmo ano, completando setenta anos, o poeta Ferreira Gullar andou por Brasília. Fiz uma entrevista com ele que durou quase uma hora e queria aproveitar ao máximo todo aquele material. Pensei num documentário. Juntei outros depoimentos, pedi a Ângela Brandão para ler os poemas, até mesmo um do primeiro e renegado livro do poeta, e tudo devidamente editado resultou no Vidas e Mortes do Poeta Ferreira Gullar, uma alusão ao seu sempre renovar-se em cada novo livro.

Também por acaso fiz uma série sobre a tríade que faz a nobreza das artes plásticas em Pernambuco: Francisco Brennand, Abelardo da Hora e Darel Valença. Estava desembarcando no Recife para uma série de entrevistas para o Leituras quando Márcia Torres, a produtora, me disse que tinha marcado uma entrevista com Ricardo Brennand. Eu a convenci que Ricardo pouco tinha a dizer, que o melhor mesmo era Francisco. E aí mudamos de rumo e de pauta. Os outros dois trabalhos vieram em decorrência deste primeiro.

O acaso voltou a agir em Natal, onde tentávamos encontrar pauta para trabalhar num feira de livros bem modesta. Como não dava para operar milagres, reuni três especialistas na obra do mestre Câmara Cascudo, sua neta Daliana Cascudo, o professor e biógrafo de Cascudo Diógenes da Cunha Lima e o escritor Tarcísio Gurgel. Entrevistas feitas, ali estava a base de um novo documentário, Dr. Cascudinho – Um Provinciano Universal.

Teve ainda um outro de maior fôlego, com várias viagens e muitas entrevistas, Relatos da Sequidão – O Poder e a Quase Vida de Graciliano Ramos, onde busquei responder uma única pergunta: O homem público Graciliano Ramos minorou as misérias que matavam os desgraçados de seus livros? Bom, aí vocês terão que ver o filme para saber a resposta.

Nesta pisada vieram outros. Um sobre José Mindlin, outro sobre Hermínio Bello de Carvalho e uma série com nove filmes sobre vários membros da Academia Brasileira de Letras, ainda com um décimo, sobre Ariano Suassuna, em produção.

E agora no próximo sábado, dia 7, as 21:30, no horário de Brasília, estreia na TV Senado O Homem Viu Zé Limeira, onde conto a vida e as estripulias de Orlando Tejo. Jornalista e escritor, o mestre foi sábio ao falar da cantoria de viola. Quem ver este trabalho saberá a grandeza deste imenso amigo.

E também poderá saber se Vladimir mentiu ou não ao me chamar de documentarista.


NOS CONTRAFORTES DO ABSURDO

A palavrinha me pegou de jeito.

Por prazer renovado e dever de ofício relia pela não-sei-quantésima vez Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, do amigo Orlando Tejo.

Preciso fazer uma pausa para me explicar. Desculpe caro leitor, mas somente sei escrever arrodeando, feito peru bêbado. E aí entram em ação as confluências do acaso. Retomo as fatais explicações.

Estava num daqueles dias em que o cidadão não consegue ficar quieto em sua mesa de trabalho e precisa zanzar pelos corredores da repartição. Grava uma entrevista aqui, arranja um roteiro acolá, buscar uns dados de pesquisa noutra banda. Neste caminhar terminei por passar em frente a uma sala onde o diretor da TV discutia com um colega e ouvi que falavam em meu nome. Pressenti a chegada de problemas.

– Você já ouviu falar em Orlando Tejo? – Recebeu-me o senhor diretor com um tiro à queima roupa.

– Claro. Foi meu padrinho de casamento.

– Então o problema é mesmo com você. Entra aqui. Vamos conversar.

Eu que à época vivia às voltas com uma série de documentários sobre o povo da Academia Brasileira de Letras, comecei a me fiar nesta franquia que Orlando propalava. E na sala estava a corja toda: Esmeraldo Braga, que a polícia teima em não prender, Nonato Freitas, com a cabeça cheia de cantorias, e Irapuan Sobral, um zen-budista que vez em quando se veste de advogado. Na mesa uma proposta que se perdia no limiar entre o encanto e o desafio – fazer um documentário sobre Orlando Tejo. Até o nome do trabalho estava delineado – Um Absurdo de Poeta.

Como a bomba caíra em meu colo, fui logo dando as ordens e um novo título ao projeto – O Homem que Viu Zé Limeira. Na semana passada, coisa de um ano e meio depois de começar a peleja, deixei a ilha de edição com o bicho domado e com cabresto. Foi uma aventura, um mergulho no universo surreal.

Com a cabeça virada pelas imagens mais absurdas – Getúlio Vargas delegado de Campina Grande, Napoleão Bonaparte comandante de navio, Jesus Cristo sentando praça na polícia, Pedro Álvares Cabral montado numa cachorra, Lourival Bandeira enterrando numa bananeira – resolvi espairecer no mundo clássico.

Olhando o jornal lembrei a exposição Mestres do Renascimento – Obras-primas Italianas, e rumei prá lá. Um mar de belezas e encantamentos. Impressiona como aqueles mestres manejavam os pincéis e as tintas. Dizem por aí que o diabo se esconde nos detalhes, mas também é neste cantinho que ganham força estes artistas, os renascentistas. Retratam anatomias como quem esculpe em carne viva, pintam tecidos que esvoaçam leve mesmo na rigidez inquebrantável da tinta secular.

Diante dos quadros, a maioria de cunho religioso, mesmo quem tem crença fraca, como eu, sente a presença de algo divino. Estamos domados pela arte e nisto reside um tanto de esperança na bondade humana. Tomados de espanto diante da vida que explode de cada uma daquelas pinceladas celebramos com Michelangelo que, em 1504, frente à perfeição do David que acabara de esculpir, pediu: Fala.

Caminhos entre beleza. Vejo Cristo de todas as maneiras. Menino robusto e magro. Ora ávido mama nos seis de Maria, ora rejeita o manjar sagrado. Crucificado, ora barbado, ora glabro. Sobressai sempre o sacrifício de seu gesto. Em alguns momentos está na mais diversa das companhias. Pietro de Cosino põe São João Batista menino, ao lado da Virgem, a brincar com o Menino Deus, mas Giorgione prefere retratar São João já moço a contemplar o menino Jesus. Il Francia nos mostra como São Francisco viu nascer o Cristo e Giorgione volta para nos mostrar como São Jerônimo contemplou este mesmo nascimento. E o imenso Leonardo da Vinci põe Leda ao lado de cisne imenso, da altura mesmo da moça.

Se a gente pensar que São Francisco viveu na Itália entre 1182 e 1226 e que São Jerônimo se mexia no meio de livros e orações lá pelos confins da Dalmácia e de Belém nos de 300 e 398, começamos a crer na visão surreal dos nossos renascentistas.

Daí, prenhe de tanta beleza e querendo voltar ao mundo dos vivos, fui ao teatro ver meu compadre Jessier Quirino cantar para seus Vizinhos de Grito. Beleza de espetáculo. Ali todas as linguagens se confraternizam. O mestre conta seus causos, recita sua verve poética e canta suas melodias com um palavreado que aprendeu no dicionário lúdico que está na cachola de todos os matutos. E ainda assim, diante de uma plateia que certamente não tem muita intimidade com o universo do sertão real, o riso da alegria e as lágrimas da emoção explodiam.

Tudo parecia irreal, tudo se desenhava nos contrafortes do absurdo, tudo nos dava imensas doses de felicidade, de certeza que a vida merece ser vivida. Diante de três genialidades – Tejo, Renascimento, Jessier – contempla-se a presença do universo infindo.

E me dou conta que acabei de usar a tal palavrinha – contraforte – que estava logo no início do livro de Orlando. “Caboclo de estatura avantajada, desinibido e desabusado, um misto de menestrel e jagunço, Zé Limeira baixou à Terra em 1886, nos contrafortes da Borborema.” Não bastava ser jagunço e menestrel, tinha que chegar nos contrafortes da Borborema? Fui ao dicionário. Contraforte, cadeia de montanhas que se destaca de um maciço principal.

Um caboclo que nasce num contraforte tem sempre razão. O mundo é absurdo e feliz é a mesa que tem costela de guaiamum.


A PARIS DE CADA UM

nsc

Segundo Valmir, a Catedral Notre Dame de Paris não chega nem perto da Catedral de Nossa Senhora da Conceição dos Palmares…

Lembro-me de Valmir, um sapateiro de Palmares. Nas longas noites de cerveja gelada e conversas ao vento, onde se conhecia a vida íntima de todos os munícipes, ele sempre arrematava cada intervalo, após um novo causo e as risadas subsequentes, com uma constatação incontestável: Melhor do que Palmares nem Paris à noite.

O velho burgo canavieiro estava além do além dos parcos horizontes parisienses. Nada de prostitutas esbranquiçadas e de pernas finas. Para ele o melhor estava nas carnes fartas, mesmo sifilíticas, das moças do Alto do Lenhador, da Coréia. Nada dos queijos sofisticados, pois seu paladar só enxergava as fartas panelas da casa de Leu. Nada dos vinhos personalizados, sua sede só absorvia cachaça de cabeça e cerveja gelada, estupidamente gelada, da casa de Irene.

É certo que não conhecia o mundo. De viagem mesmo, que eu tenha conhecimento, somente fez uma, e dessas epopeicas. Foi de Palmares a Brasília a pé, isso nos idos de 1960, nos primórdios da Capital da Esperança. Na partida iam seis intrépidos aventureiros, mas somente dois, Valmir e Emanuel, o idealizador da aventura, chegaram ao ponto idealizado. Emanuel se tornou médico, Valmir, sapateiro, um bate-sola a preencher os ares de Palmares com sua alegre boemia.

Que eu me lembre, nunca se negou a uma farra. E depois de uma dessas noitadas, ao voltar para casa já com o sol querendo dar as caras no horizonte, ouviu os reclamos da mulher:

– Onde o senhor estava a noite toda?

– Na igreja, rezando com Dom Acácio. – E se deitou para o sonho dos justos.

Valmir tem toda razão do mundo. Melhor do que Palmares, nem Paris à noite.

E isso não é privilégio dele. Há no Nordeste uma antipatia mítica com esses franceses. Para nós eles continuam sendo os piratas que vinham aqui apenas roubar pau-brasil, isso nos idos de 1500. Até que Duarte Coelho tomou conta do pedaço e botou ordem nesta parte tão cara do Brasil. E assim seguimos ao longo dos séculos. Esta terra deu de tudo. Príncipe holandês, mercenário italiano, comerciantes judeus, fotógrafo libanês, mas francês que seja de meu conhecimento só mesmo um arquiteto que andou por aqui construindo mercados e casas-grandes de engenhos. Dizem as boas e entendidas línguas do assunto que na verdade vivia a replicar mundo a fora um modelo de armazém pré-moldado em ferro. E nesta peleja não me meto.

Sei somente de poesia e de Carlos Pena Filho a nos ensinar a psicologia profunda da poesia brasileira.

“Roubaste o verde aos impossíveis mares
e o roxo das incautas caravelas.
Por isso, és governada por aquelas
gravíssimas perturbações lunares.

(…)

Também, tu nada sabes de esquivanças
e assistes, frágil e indefesa embora,
dentro de ti saltarem novas Franças.”

E neste aspecto da literatura tiramos o chapéu e reverenciamos valores inegáveis, mas mesmo aí temos o olhar arguto de Graciliano Ramos.

O matuto de Quebrangulo teve a visão sagaz de perceber o talento e a força de um jovem escritor, um certo rapaz que escreveu A Peste, que Graciliano traduziu acreditando, com razão, que ninguém deveria ignorar aquele beleza. O moço se chamava Albert Camus e com justiça ganhou o prêmio Nobel de Literatura.

Mas não dá para fugir das implicâncias do velho Graça.

Contava-me Lêdo Ivo que certa feita resolveu desafiar o mestre.

– Graciliano, você precisa ler Proust…

– Lêdo, eu não leio veado.

Assim, curto e incisivo.

A França é mesmo um de nossos mistérios, misto de paixão e ódio.

Há muitos anos fui chamado para assistir a um debate com um cineasta francês na Embaixada da França, em Brasília. E tive que ouvir o moço falar da barbárie brasileira, das favelas sendo invadidas por policiais que atiravam e torturavam inocentes, da fome em cada esquina.

Mesmo reconhecendo o óbvio não pude calar.

– Como o senhor pode vir falar de barbárie? A França promoveu um massacre inominável na Argélia da década de 1960, usou a guilhotina até 1974 e até hoje hostiliza e humilha os imigrantes estrangeiros.

Nunca mais recebi nenhum convite para volta à Embaixada.

Tudo bem. Fico ao lado da irmã de um amigo meu.

Esse amigo, paraibano de Monte Horebe, tem uma filha que mora em Paris. Outro dia foi visitar a irmã que mora em Cajazeiras. Depois dos cumprimentos e das euforias de praxe, a senhora anfitriã quis matar uma justa curiosidade:

– Ô Puanzinho, como é que tu deixas tua filha morar naquele fim de mundo?

Paris é isso: Um fim de mundo. Melhor ficar perdido por Palmares.


COMO VOLTAR DA SERRA DA PRATA

Catende: a cidade e a usina

Sou fadado à imprudência. Esta sina tem me levado aos lugares mais improváveis, se não da terra, pelo menos do Brasil. Quando ainda pré-adolescente subi a Serra da Prata, em Catende, achando que tinha atingido o topo da terra, que chegara ao ápice do Himalaia.

Não sabia que as friezas gélidas da vida estavam bem além de minha visão miúda.

Como não se deve menosprezar nenhuma experiência oferecida pela vida, tomei minhas lições pelos caminhos quase agreste da mata devastada. Era uma vastidão de cana que só enxergamos de fato depois que sol raiou, pois que deixamos as ruas catendenses ainda no apagar da noite. Tivemos até a irresponsabilidade de acordarmos na madrugada um comerciante, senhor sério e responsável, para comprarmos pólvora e chumbo. Tínhamos uma espingarda um-tiro-e-uma-carreira e pensávamos que dali viria a segurança necessária para enfrentarmos os leões e dinossauros de nosso safári amador.

O comerciante nos mandou à puta que nos pariu e, seguindo o conselho, seguimos em frente, desembestamos estrada a fora.

Lembro bem. Levávamos, além da espingarda e o que tínhamos providenciado de pólvora e chumbo no dia anterior, água, cachaça, carne de lata, sardinha, farinha e Maro Gaia, um desses faz-tudo que se encontra com facilidade em qualquer cidade do interior. Vez por outra parávamos e atirávamos espantando passarinhos e silêncios. Maro, desde o início da odisseia, insistia em fazer uso de nosso equipamento de defesa, privilégio que lhe era negado peremptoriamente.

Seguimos.

Na Serra da Prata, lá de cima, não há muito o que se ver, pelo menos naqueles idos. A linha do horizonte se quebrava além de nossas expectativas de rapazes interioranos. E chegávamos à beira do paredão de pedra coberto pela malacacheta que brilhava ao longe, e daí o nome da serra, somente para sentir medo da altura. Lembro de João e seu comentário: “O cabra que cair daqui vai relar a testa.” Tinha razão.

Poderíamos nos jogar dali. Éramos ainda senhores do livre arbítrio que minha avó insistia em dizer que Deus nos dera. Precisei de muito tempo e estrada para saber que esta liberdade primária nos fora roubada no berço, quando não tínhamos tino para conhecer a vida. E por isso, por esta carga de inocência, olhávamos o horizonte aberto e pensávamos que o mundo estava ali para ser conquistado. Pena que não tínhamos asas.

Tínhamos sim o riso franco da idade. Tudo se resumia à alegria nascida na piada seguinte. Olhávamos com desdém para os dias catendenses sem nos darmos conta de que éramos também parte dele. Na calçada do Cine Teatro Diamante, sob a sombra generosa da tarde, não sabíamos de futuro, muito menos que ali estava sendo moldado nosso caráter, estava sendo desenhado nosso futuro.

Não sei de João. Osvaldinho se tornou burocrata industrial. Paulinho mora em Caruaru. Carlos Alberto foi assassinado. Fernando é economista. Beré vive de agenciar conjuntos musicais para bailes municipais. Quico toca a loja que foi do pai. Seu irmão casou com Isabel. Leleca vive em Salvador. Tenório ainda se vira dando pequenos golpes na praça. Jadson se tornou dono de cartório. Dila vive do que a vida lhe oferece. Eu vivo do que escrevo e penso. E assim a vida segue.

Talvez esta não seja a expectativa que tínhamos diante do horizonte que nos oferecia a vista do topo da Serra da Prata, mas foi o legado que recebemos. E aqui estamos.

No entanto na tarde em que voltávamos da Serra da Prata nada disso nos interessava. Tínhamos a alma leve, lembro bem. O canavial que nos cercava não denunciava qualquer mazela da vida. Tudo era plenitude e esperança. Eu sabia que Francisco Julião palmilhara aquele chão em busca de justiça social, que Gregório Bezerra fora preso e torturado tentando dar vida digna às pessoas que moravam nos casebres modestos e indecentes que cruzavam nosso caminho. No entanto, isso nada nos dizia naquele momento. Éramos festa e inocência.

O engenho Monte Alegre estava próximo. Seu dono sobrevivia como fornecedor de cana. Seus agregados cultivavam a terra, plantavam a cana, cortavam a cana, chupavam a cana, tomavam cana, iam em cana. Um ciclo determinado pela planta imperial, a apontar suas palhas para os céus.

A Usina Catende nos contava de um apogeu já quase distante. Ainda havia o cinema, a policlínica, o colégio, mas a ferrugem já comia a ferrovia e a hidrelétrica moía suas engrenagens enquanto seu prédio pequeno servia de trampolim para os moleques saltarem na barragem.

Esta dimensão entre a opulência e a carência hoje me assusta. No meio do canavial, cercada por muro alto, havia uma piscina, e nas madrugadas, depois da farra, sob o olhar complacente do vigia, pulávamos o muro e nus mergulhávamos naquelas águas. Tudo nos era permitido.

Até mesmo cedermos a Maro Gaia o privilégio de um tiro. E ele foi caprichoso. Pelo cano da espingarda botou chumbo e pólvora. Bucha para segurar tudo aqui, e socou com a vareta apropriada. Depois de mirar o nada por alguns segundos, atirou, mas o tiro saiu pela culatra. Conduzimos sua cara queimada até o socorro da cidade.

Acho que depois da aventura sentamos em algum bar para conversarmos sobre o desafio vencido.

E até hoje não fazemos outra coisa.


UMA TELA, UMA SALA ESCURA

Giuliano Gemma (Set/1938 – Out/2013), o homem do dólar furado

Um dia meu pai saiu de casa às dez horas da noite. Foi à minha procura. Naqueles idos de Palmares, dez hora era tarde da noite e os pais ainda se preocupavam com um menino de seus onze, doze anos. Eu tinha já então um ritual. Sempre que havia um filme interessante no Cine Apolo ou no São Luiz eu economizava o dinheiro do lanche na escola para ir ao cinema, à noite.

A fita, invariavelmente, começava às sete da noite. Duas horas e meia depois saía com a alma mais leve e abastecido de assunto para vários dias. Os socos e as paixões vistos na tela encantavam a roda que se formava todas as noites na calçada da igreja de Santo Amaro. Quase sempre tinha sido eu o único vivente a ver de fato as aventuras e me encarregava de contar, sem contar com a crença da plateia, a saga daqueles heróis.

No dia que papai saiu de casa o filme se prolongara além das nove e meia, daí sua preocupação. E hoje não entendo bem por que. Passei um longo tempo acreditando que o filme tinha mais de três horas de duração. Agora, sapeando a internet, descubro que Os Canhões de Navarone tem 158 minutos de duração, pouco mais que duas horas e meia. Fato é que vi todo o filme sentado na ponta da cadeira, torcendo pelo sucesso de cada avança da tropa aliada contra a fortaleza alemã.

Estes lembranças me levam a uma contestação, a primeira metade da década de 1970 não foi um tempo de normalidades em Palmares. Havia em todo país uma cesura rígida, mas ali um menino entrando na adolescência podia ver um filme de guerra sem ser barrado pelo porteiro, mesmo que tal filme tenha sido lançado, pelo menos, dez anos antes. Os tais canhões da Alemanha começaram a soar, informam-me a internet, em 1961.

A programação do cinema era assim eclética e liberada. Também éramos bem ousados, tanto que no dia em que o porteiro do Cine Diamante, em Catende, me barrou por não ter idade para ver a fita, eu o convenci a permitir meu ingresso na sala escura ameaçando jogar uma pedra na vidraça que tomava toda fachada do prédio. Tá certo que depois o dedo-duro contou o ocorrido para minha avó e isso me custou um bom e sonoro carão, mas essa é outra história e outra cidade. Em Palmares a permissividade grassava.

Ali assisti tudo de bom e de ruim. Desde clássicos da novelle vague até às deliciosas pornochanchadas da Boca do Lixo. Vi Teixeirinha chorar pela morte da mãe, se aventurar a saltar de uma ponte para as águas do Guaíba ou cantar suas mágoas quando Mary Terezinha decidiu se tornar freira. Um documentário horrivelmente chato chamado Eram os Deuses Astronautas. As comédias de Jerry Lewis que o locutor da Rádio Cultura anunciava como Jérri Lévis. Um épico gaúcho palmilhado pelas botas de um certo Capitão Rodrigo. O Homem de La Mancha a adorar Dulcinéia e a vencer moinhos com toda plasticidade operística desempenhada por Peter O’Toole e Sophia Loren. Woodstock numa sessão invadida por um grupo hippie que fumou maconha durante a projeção e escandalizou a cidade, tanto que na saída a polícia o esperava para as gentilezas de praxe.

Confesso que, naquele tempo e àquela época, meus encantos se voltavam bem mais para as coxas e peitos de Vera Fischer e Matilde Mastrangi. E, acreditem, os filmes não mostram muito além de coxas e peitos, um de cada vez como mandavam os bons costumes, e hoje, frente ao que se exibe na televisão, seriam projetados na sacristia.

A coisa era tão séria que durante dias e dias meus sonhos eróticos foram povoados por uma calcinha verde limão. O caso eu conto como o caso foi: O ladrão é ladrão, o boi é boi, ensina o matuto. Fui ao cinema Apolo ver o filme com um dos meus ídolos de então, o ator italiano Giuliano Gemma. Era uma fita moderna, de ação. Giuliano, o mocinho, enfrentava uma máfia da pesada. Lá pras tantos, preso pelos bandidos, é obrigado a assistir imobilizado ao estupro da namorada, da mulher amada. E neste momento, aos poucos, quase em câmara lenta, o bandido despe a calcinha verde limão da moçinha. E mais não vimos e por dias ficamos a imaginar o que guardava aquela modesta peça.

Lembrei todas estas aventuras cinematográficas depois de ler nos jornais que, aos 75 anos, Giuliano Gemma morreu em um acidente automobilístico nos arredores de Roma. A vida e suas fragilidades. Meu herói de adolescência era versátil como ator. Ganhou destaque no chamado western spaghetti, uma série de filmes realizados na Itália com temática do velho Oeste americano. Foi Ringo em várias destas fitas recentemente relembradas por Quentin Tarantino em seu Django Livre.

O velho Giuliano tornou-se célebre em um clássico, O Dólar Furado. Embora filmada em 1965 a película ainda fazia sucesso em Palmares nos anos 1970. Vi várias vezes e acreditei piamente que a moeda de um dólar fora capaz de salvar o mocinho. O bandido atira, mas a bala atinge a moeda que estava no bolso de Giuliano. Tempos depois, ele exibe a tal moeda furada ao bandido enquanto o mata.

Hoje minha curiosidade me leva a perguntar: Se a bala furou a moeda, porque não atingiu o coração do mocinho? Coisas do cinema, como aquela comédia grotesca também estrelada por Gemma Quando as Mulheres Tinham Rabo. Mas as comédias exigem outra crônica.

P.S.: Há dias em que acordo tomado por certo saudosismo e o bom senso me manda não redigir nenhuma crônica, mas as obrigações do ofício sempre me levam à imprudência.


DESSA CAPACIDADE DE TRANSFORMAR

O telefone toca. E o telefone é uma dessas modernidades que têm em seu bojo a dualidade – tanto pode ser de tristeza quanto de alegria, como aquela antiga carta cantada por Isaurinha Garcia. Desta vez, no entanto, tratava-se apenas de um convite, desses que eu já me acostumara a receber, e atender sempre que possível.

Conceição Sales, uma caríssima amiga, dessas a quem nunca se deseja contrariar, convidava-me para parceiro em uma de suas tantas aventuras quixotescas. Conto melhor. Um dia, num evento qualquer, conheceu um senhor sisudo, circunspecto como manda o figurino de sua profissão. Era diretor de um presídio. Minha amiga manifestou o desejo de conhecer a instituição, e foi.

Lá encontrou o panorama recorrente em todas as casas do gênero. Celas lotadas, homens e mulheres entregues à ociosidade, pessoas premidas pela falta de perspectiva, depósitos de parcas esperanças. E já ali tomou a iniciativa.

– O que fazem essas pessoas?

– Quase nada. Temos poucas oficinas.

– E uma biblioteca? Pelo menos eles poderiam se ocupar com uma boa leitura.

– Nunca pensamos nisso.

Mas Conceição pensou e agiu. E aí chego, enfim, ao telefonema que recebi. E escuto de minha amiga uma história capaz de amornar todos os corações empedernidos.

Ela conheceu, entre os detentos, um rapaz, preso por ter roubado carros, que, num desses caminhos transversos que permeiam todas as prisões, tinha alguns livros ensebados na cela. Nunca fora de leitura, mas ali, naquele universo de ócios – e “o ócio é a oficina do diabo”, nos ensinou Frei Vicente do Salvador -, resolveu gastar o tempo passeando os olhos por aqueles parcos volumes. Andava prenhe de encantamentos. Sonhava mesmo com o mergulho nas veredas de Guimarães Rosa, no sertão das Gerais, no galope de vaqueiros e jagunços.

Eufórica, Conceição me contava que encontrara um campo arado. Agora era jogar as sementes necessárias e esperar pelas safras e as colheitas. Entrei na euforia, me comprometia em doar alguns livros e contei que poderia mesmo mandar, mas com destino certo, um volume de capa dura, uma bela edição do Grande Sertão: Veredas. E logo comecei a separar os volumes e logo corri com o carro cheio até a biblioteca onde trabalhava minha amiga.

Aquilo foi tiro certo. Tempo depois soube por Conceição que o ex-puxador de carro agora organizava a biblioteca do presídio, lera o romance do velho Rosa e, empolgado, estudava para o vestibular de Letras. Queria também fazer Biblioteconomia.

Minha amiga Conceição morreu no ano passado nos deixando com muitas saudades, e um vazio imenso pela falta de sua alegria e sua disposição em sempre ajudar às outras pessoas. Era daquelas pessoas com o peito acima da razão. Era daquelas pessoas felizes.

Do rapaz nunca mais tive notícias, mas creio que seguiu em frente. Os sonhos, sobretudo quando escudados pelos livros, têm alma indomável.

Outra coisa que alimenta esta minha certeza, e que sei que está fazendo minha amiga ainda feliz, foi uma matéria que assisti há pouco pela televisão. Era uma série de reportagens sobre o presídio da Papuda. Depois de falar das misérias e das celebridades ali trancafiadas, a equipe de jornalistas se deteve nas possibilidades de recuperação dos internos, eufemismo hodierno para presidiários.

E aí surge a biblioteca fundada por Conceição com a ajuda de amigos. Agora ela, que começou numa salinha improvisada, está melhor estruturada, até com alguns livros novos comprados pela direção do presídio.

Como personagem da notícia a reportagem mostrou um certo Francisvaldo. Entrou na Papuda semianalfabeto para cumprir uma pena de 70 anos pela módica façanha de ter cometido várias assaltos à mão armada. Também passou a ir à biblioteca por falta de algo mais fascinante. Foi outro inoculado pelo vírus da leitura. Estudou. Já está cursando o equivalente ao segundo grau e tem um sonho, fazer uma faculdade de direito e montar um escritório que dê uma atenção maior aos presidiários carentes.

– Tem muita gente aqui dentro que não saiu ainda por falta de um advogado que olhe o processo com atenção. – Assevera.

Acredito que ele consiga. Eu mesmo conheci uma moça que, depois de assistir a um júri popular, resolver ser advogada. O problema era que tinha apenas o primeiro grau e sobrevivia como doméstica. Foi à luta. Chegou à faculdade e pagava a mensalidade fazendo faxina para os colegas de turma. Formou-se e hoje mantêm um inusitado escritório numa área carente de Brasília. Quem pode paga, quem não tem recebe também assistência. E assim, simples e feliz, leva a vida.

Acredito que Francisvaldo também chegue por lá, enfim, quando perguntado se tinha algum desejo, foi enfático:

– Dar orgulho à minha mãe.

Os livros, além de palavras, transbordam esperanças.


TODAS ESSAS CANÇÕES

Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Montes, em Palmares, onde Everaldo costuma brilhar cantando nas cerimônias de casamento

A noiva descia de um Galaxie à porta da Matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Montes. Vinha toda de branco com uma aia segurando a longa calda do vestido. No altar, como em todas essas ocasiões, o noivo, o padre, os padrinhos. E a emoção se derramava sobre o templo, agora preenchido, além das rosas, pela voz potente de Everaldo Souza.

Vale o parêntese. Everaldo, além de outras habilidades, era cantor de baile e nunca deixava de ser requisitado para os casamentos. Cantava no velho estilo de uma época em que se exigia dos cantores uma voz de fato, tempos onde reinavam Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves e similares. Aliás, num programa de auditório no Recife, quando Cauby cantava sua eterna Conceição, Everaldo entrou em cena secundando o artista célebre que simplesmente parou de cantar para ouvi-lo e aplaudi-lo.

Voltemos ao casamento. No instante em que a noiva entrava na catedral, o espetáculo ficava por conta de Everaldo. Invariavelmente soltava um bolerão, A Noiva, composto por Joaquim Prieto e Antonio Prieto, numa versão de Fred Jorge.

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“Branca e radiante vai a noiva,
Logo a seguir o noivo amado.
Quando se unirem os corações,
Vão destruir ilusões…”

Assim se davam os casamentos em Palmares, pelo menos no tempo em que eu vivia por lá.

De princípio não entedia bem estas ilusões destruídas frente à união dos corações. Certamente era coisa de adulto. O fato é que quando fiquei mais taludinho e comecei a me dar conta das coisas, já ouvindo Agnaldo Timóteo cantar a tal Noiva pelos alto-falantes da Rádio Cultura, passei a entender o dilema da moça.

“Aos pés do altar está chorando,
Todos dirão que é de alegria.
Dentro sua alma está gritando,
Ave Maria…”

Essa Ave Maria aí era o ápice da emoção e já todos na igreja se debulhavam em lágrimas enquanto seguia a canção.

“Chorará também, ao dizer o sim,
E ao beijar a Cruz, pedirá perdão.
E eu sei que esquecer não poderia,
Que era outro amor a quem queria…”

Aí minha cabeça que se enchia de malícia encontrava o ponto do absurdo. Quer dizer que todas as noivas de Palmares tinham Everaldo como confidente e que ele sabia que todas elas amavam outro e não o noivo? Danou-se. E como ele revelava isso assim em público, sob a emoção geral?

O certo é que estes compositores têm a arte de nos engabelar.

Lembro-me de vários amigos cantando Minha Namorada, de Vinicius e Carlinhos Lyra, para suas respectivas. Nunca me arrisquei a tanto. Primeiro pela desafinação crônica, segundo porque sempre achei a letra uma apologia à submissão feminina. Não que tenha sido feminista na vida, mas o fato é que minha misoginia tem pouca dosagem. E estranhava todas aquelas exigências feitas pelo amado. A mulher teria que ceder em todos os instantes para ser sua namorada.

“Você tem, que fazer um juramento
De só ter um pensamento.
Ser só minha até morrer.”

E logo depois:

“Você tem que vir comigo em meu caminho,
E talvez o meu caminho,
Seja triste prá você.”

Fiquei com a alma lavada durante um show de Carlinhos Lyra. Lá pras tantas ele pediu licença às mulheres presentes para cantar Minha Namorada, que refletia o espírito da época em que foi composta, início dos anos 1960. Tá certo, minha alma manteve um pouco de sujeira, pois também aí havia exagero. Discurso politicamente correto durante um show de Bossa Nova já é demais. Precisamos respeitar os sentimentos alheios.

Confesso que, de minha parte, respeito até o compositor que fez uma música, clássico da radiola de ficha do Progresso, clássico bar das antigas boêmias de Palmares. Todas as vezes que íamos lá abríamos a noite com a voz, creio, de Maurício Reis cantando os atributos de uma certa mulher: “Tem sangue de barata, coração de plástico e não sabe amar..” Quer dizer, com estas qualidades, qual mulher saberia amar?

Fico pensando o que diriam os chatos de plantão diante de tamanha aberração da natureza amorosa. E tenho minhas razões, afinal, há muito tempo, quase houve passeata em todo Brasil contra Martinho da Vila. O sambista apenas cantava numa música: “Você não passa de uma mulher…”

A música popular já foi bem mais independente, embora bem mais misógina.

Já ouvi protestos contra a Nega do Cabelo Duro, do David Nasser e Rubens Soares. Ainda bem que tais manifestantes não se deram ao trabalho de escutar nossa música, do contrário o pobre Noel Rosa teria boa parte de sua obra simplesmente defenestrada.

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Quando, por absoluta falta de recursos, Lindaura, sua mulher, se ofereceu para trabalhar fora, o Poeta da Vila respondeu com um samba:

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“Você vai se quiser,
Pois a mulher,
Não se deve obrigar a trabalhar.
Mas não vá dizer depois,
Que você não tem vestido,
Que o jantar não dá dois.

Todo cargo masculino,
Desde o grande ao pequenino,
Hoje em dia é prá mulher.
E por causa dos palhaços,
Ela esquece que tem braços,
Nem cozinhar ela quer.”

E se ouvissem os versos que Noel fez para uma namorada de poucas qualidades? Vejamos:

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“Oh, que mulher indigesta,
Indigesta,
Merece um tijolo na testa.

E quando se manifesta,
O que merece é entrar no açoite.
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite.”

Felizes os dias em que os casamentos eram cafonas, a música livre e os chatos mudos.


ESSE FALAR DA GENTE

Quando mudei para Brasília, vindo do Recife, acreditava piamente que o mundo se limitava pelas margens do Capibaribe, margeava o oceano Atlântico, mas começava a parar ali nas barrancas do São Francisco. Hoje, mesmo guardando comigo todos os cheiros e sabores do Nordeste velho de guerra, sei que esta velha amplidão espichou um bocado. Mesmo assim não me desfaço do sotaque e do palavreado que sempre me denuncia.

E isso vem de longe.

Logo que arribei fui trabalhar na Câmara dos Deputados com um primo que ganhava a vida falando mal da ditadura militar e incomodando os donos do poder em Alagoas. Ele nascera em Minas Gerais, mas era brigão como bom filho de alagoano que era. Pouco antes de me convidar para tomar o rumo do Planalto Central virou manchete nacional por dar um tapa em outro deputado dentro do plenário da Câmara. Foi um rebuliço. Houve até um amigo que me aconselhou não seguir viagem, afinal estaria me metendo em briga de cachorro grande.

Não dei ouvidos ao cauteloso e segui meu caminho.

Um dia Mendonça, aquele meu primo deputado, me pede para resolver um problema, já não lembro qual, num dos tantos departamentos da casa. Liguei para o lugar para saber se precisava de alguma providência prévia, coisa comum no serviço público, e descobri decepcionado que o prazo para tal requerimento já havia passado.

– Ô cá peste! O que danado eu faço agora?

Diante de minha exclamação a moça do outro lado da linha apenas riu, enquanto eu começava a descobrir os diferentes falares do Brasil.

Por essa mesma época terminei sendo enganado pelo clima da cidade. O sábio jesuíta Antônio Vieira nos informa em um de seus sermões que “no Maranhão até o clima mente”. Brasília segue quase o mesmo rumo. Tanto que um dia saí do apartamento onde morava com mais três amigos esquecendo a janela aberta. Quando me dei conta, olhei o céu, que estava límpido, livre de qualquer vestígio de nuvens, e apostei que não haveria nenhum problema, pois era impossível chover nas horas próximas. Fui embora.

Quando voltei, já à noite, o desastre tinha acontecido. Um toró inundara a sala. De imediato tentei acalmar os amigos.

– O culpado fui eu, que deixei a janela aberta, mas já convoquei a faxineira para dar um jeito na alcatifa.

Meus amigos, um mineiro, um paranaense e um gaúcho, quiseram logo saber que era essa mulher, a tal alcatifa, de quem eu falava. E daí tive que explicar que no Nordeste isso que eles chamavam de carpete se conhece pelo nome de alcatifa desde 1500, pois está lá na carta de Pero Vaz de Caminha que, levado à bordo da caravela, um índio deitou e adormeceu sobre a alcatifa.

Assim, assim fui me acostumando a descobrir a linguagem particular de cada recanto da “imensa pátria”, como chamou Vinicius de Moraes. E até já me divertia quando, no plenário da Câmara, o deputado alagoano Murilo Mendes acusou um colega mineiro de estar pegando um bigu no PMDB, posto que ele vinha da Arena. Foi um desmantelo até o nobre representante das Gerais entender que bigu era carona.

Bigu, alcatifa, tudo bem, são vocábulos pouco usados, mas mesmo naqueles idos da década de 1980, quando as regiões se aconchegavam em doce quase isolamento e a gente convivia em paz com nossos pantins, ainda tinha gente que estranhava palavras bem corriqueiras. Nesta pisada foi que me tomei de espanto quando um goiano me perguntou o que era cacimba.

Foi assim.

Naqueles idos eu me arriscava a dedilhar um violão de baixa qualidade e a soltar uma voz de duvidosa afinação. Mas como sempre corria este risco pelos bares e pelas farras, raramente encontrava um ouvido mais apurado e sóbrio para me escalpelar. Numa dessas cantava uma música de Clodo e Petrúcio Maia, Cebola Cortada, que Fagner tornara em sucesso nacional.

“Teu amor é cebola cortada, meu bem,
que logo me faz chorar.
Teu amor é espinho de mandacaru
que gosta de me arranhar.
Teu olhar é cacimba barrenta, meu bem,
que eu gosto de espiá…”

Depois que terminei, a única manifestação popular foi do moço querendo saber que diabo era cacimba.

E como a gente nunca sabe de tudo e ainda se mete a correr mundo a fora, lá estava eu em Rio Branco, no Acre, metido numa produtora que cuidava de uma campanha política. Numa reunião, logo no início dos trabalhos, chegou alguém alertando para o escândalo do adversário, o governo estadual, que comprara milhares de bocas de lobo por um preço exorbitante. “No comércio este troço custa coisa de 20 reais e eles pagaram quase cem por cada uma”, alardeava.

Fiquei quieto no meu canto, somente matutando como era comprar no comércio por tamanha mixaria uma boca de lobo, que para mim ainda se tratava da tampa de um bueiro. Fui me informar e descobri que para o acriano boca de lobo é uma cavadeira, aquele instrumento que os matutos de minha terra usam para cavar buraco onde assentam as estacas de mulungu.

Realmente era um escândalo.

Mas escândalo maior é que este país de bigu, alcatifa, pantins, cacimba, boca de lobo, minuano, desgramado, malungo, garoba, terçado, refrescoreira esteja indo pro beleleu, esteja batendo a caçoleta.


SAUDADES DO BRASIL

Aeroporto de Brasília, quinta-feira, quatro horas da tarde. Em frente ao portão de desembarque internacional, a confusão de sempre. Famílias inteiras e ansiosas esperam quem vem da Europa. Curiosamente os primeiros passageiros chegam desorientados, como se descessem em outro planeta, olhando para os lados em busca de um rosto amigo. A multidão permanece indiferente e aflita como se a porta automática fosse o portão da caverna de Ali-Babá.

Surgem novos viajantes e as primeiras emoções. Beijos, abraços, choros. Um grupo que carrega balões vermelhos, por algum motivo que certamente conhece, abre uma faixa saudando um certo Bené, mas esse custa a vir. Quem vem é um pai carregando imensas malas, duas meninas e um cachorro. Deve ser algum desses heróis de história em quadrinho que desconheço. O que sei mesmo é que saguão se enche de alegrias e choros. Todos se confraternizam na saudade – pai, mãe, avó, a tia Paty, o tio alguma coisa. De repente uma das meninas questiona a avó:

– Você fez meu pão-de-queijo? – Sem dúvida morria de saudades do Brasil e do cheiro de um pãozinho recém-saído do forno.

Viajamos para isso, para sentirmos saudades de casa. E quem não quer se arriscar faz como o poeta Mendonça Júnior, um amigo meu que partiu de vez para o infinito. No tempo de sua vivência, nunca deixou o Brasil, nem mesmo quando um de seus filhos morava na Espanha, e logo na Espanha de todas as suas paixões. Nem assim quis cruzar o Atlântico.

– Mas você nunca sentiu vontade de ir ao exterior? – Perguntei-lhe um dia.

– Não, mas já saí do Brasil, uma única vez. Morava nos confins do Rio Grande do Sul e atravessei a fronteira para passar uma tarde no Uruguai. Senti saudades do Brasil e voltei.

Os adventos da saudade. Não se pode precisar um tempo exato para ela acontecer. Comigo é imediato. Mesmo morrendo de encanto por outras paisagens, sinto falta de nossa cordialidade. E isso pode se dar ainda no avião, quando aeromoças argentinas teimam em se fazerem de desentendidas diante de nosso mais perfeito portunhol. Um desaforo. Como de tudo na vida se deve tirar uma lição, já aí começo a entender porque aquela gente vota em Cristina Kirchner. Bom, deixemos os hermanos e seus problemas.

O importante é que viajamos para nos sentirmos melhores, embora conscientemente cansados e enganados. Explico. Depois de caminhar horas a fio por ruínas incas, sentei num bar da Praça das Armas, em Cuzco, para mais um pisco sour, um drinque com direito a quase tudo, até clara de ovos. De repente, vindo ninguém sabe de onde, me aparece um menino e sua pergunta:

– Donde és? (Desculpem-me por não saber digitar aquele ponto de interrogação invertido que eles usam no inicio da frase.)

– Do Brasil. – Respondi já esperando a facada.

– Presidente Lula, ex-presidente Cardoso, descoberto por Pedro Álvares Cabra, capital Brasília… – E seguiu num rosário de informações óbvias para finalmente encerrar com uma intimação. – Una propina.

Dei-lhe a propina solicitada e voltei ao meu querido prisco sour crente que recuperara o sossego. Doce ilusão, pois logo surgiu outro fantasma mirim e sua indefectível pergunta – Donde és?

– De Catende.

O coitado me olhou com espanto e correu calado, mas juro que lhe daria uma gorda propina se ele me dissesse o nome do prefeito de minha saudosa Catende.

Em Lisboa fui tomar um vinho na calçada do café A Brasileira, mas juro que não tirei uma foto ao lado da estátua de Fernando Pessoa. E lá estava solitário a olhar as pessoas caminhando pelo Rossio quando me aparece um malandro com cartas de baralho na mão.

– Brasileiro, está disposto a ganhar um bom dinheiro?

– Não, mestre. Desta vez vinha para Lisboa só para gastar.

Creio que não gostou da resposta, pois foi embora com a cara mais séria do mundo. Voltei ao vinho.

Na verdade, as viagens valem bem mais pelas histórias que geram. Nova Iorque mesmo eu conheci pelos bares. Explico. Fui com um casal amigo que estava disposto a comprar a cidade. E todas as vezes que eles entrevam numa loja, eu procurava o bar mais próximo.

Numa das vezes o amigo resolveu me acompanhar ao bar enquanto a minha esposa, junto com a dele, seguiram para uma loja. Ele apanhou o cardápio e sentenciou:

– Quero essa linguiça daqui. – E apontou no cardápio o termo linguini.

Tentei evitar o desastre avisando que se tratava de um macarrão, mas o moço não me deu atenção e logo ficou decepcionado quando o garçom botou em sua frente uma massa tão insípida quanto a culinário americana.

Viajamos para isso, para nos aventurarmos em nossas diferenças. Afinal vivemos sob uma sentença decretada por Tom Jobim: “Os Estados Unidos são bons, mas é um merda. O Brasil é uma merda, mas é bom.” Daí vêm todas as nossas saudades.


AOS VENCEDORES, O INFERNO

pinto

Pinto de Monteiro: genial e, em consequencia, politicamente incorreto

Estava num bar do Recife. A televisão ligada, não recebia muitas atenções apesar da cena mostrar o Papa Francisco em um de seus tantos compromissos no Brasil. Confesso que, bebericando uísque na quase tarde de quinta-feira, olhava para o aparelho encantado pelo carisma do pontifício, mas também pela falta de outra opção. Nenhum amigo chegava para puxar prosa. Foi assim que ouvi uma declaração surpreendente. Francisco disse que gostaria de entrar na casa de cada brasileiro, apertar a mão de todos, tomar um cafezinho, mas não um copo de cachaça.

Gostei do humor do Papa, embora não concorde com a referência à cachaça. A bebida costuma ser gentil com quem a trata com carinho e respeito. Ou, como diria Ascenso Ferreira, “branquinha, branquinha é suco de cana, pouquinho – é rainha, muitão – é tirana…” Por isso comentei o fato com o garçom. “O senhor diz isso porque bebe socialmente, mas tem muita gente sem controle. O Papa está certo”, me respondeu o rapaz.

Estamos em tempos estranhos. Hoje até garçom de boteco tem na ponta da língua discurso protoevangélico. É a praga do politicamente correto cercando todos os lares, todos os bares, todos os lugares. E, ao que parece, eles venceram e já reivindicam os louros. Parafraseando Machado de Assis, aos vencedores, o inferno.

É uma história que vem de longe.

Em uma de minhas estantes repousa um volume que comprei num sebo há alguns anos. Li o imenso volume, quase quinhentas páginas, num desses momentos de curiosidade extrema. De Tupam a Cristo – Jubileu de Ouro – Missões Salesianas do Amazonas – 1915 / 1965. O título, com este Tupã sem til, mas com m no final, já denuncia do que se trata. Durante cinquenta anos os padres salesianos, como os antigos jesuítas, congregação do Papa Francisco, empreenderam ações de catequese que, de sorte, paulatinamente mataram a alma ancestral dos indígenas. Ou o que restava dela. A edição é pródiga na reprodução de fotos com as cunhãzinhas vestidas de normalistas e os coruminzinhos ajoelhados na celebração do ofício da missa.

A última edição da revista Bravo, que morre diante da falta de viabilidade econômica, e do fato de não ter a Editora Abril qualquer dose do espírito de Robin Hood, traz uma notícia sintomática. O artista plástico mineiro Paulo Nazareth levou para a 55ª. Bienal de Arte de Veneza o cacique e o rezador de uma aldeia guarani kaiowá, descendentes de um do tantos grupos catequizados pelos velhos jesuítas. Os índios chegaram à Itália como parte de uma obra chamada Veneza Guarani. Reconheço minha falta de intimidade com os meandros da arte moderna (existe alguém com esse predicado?), e destarte não tenho como imaginar o que seja esta obra feita com viventes sofridos e tão dilapidados em suas verdades. E isso se mostra tão latente que o cacique e o rezador, diante de uma primeira entrevista, declararam a felicidade por estarem na “terra do Papa”.

É isso, eles venceram. Não existe mais Tupã no céu dos guaranis. Também os orixás do candomblé estão cada vez menos presentes na vida de seus seguidores. Como não acredito em nenhuma dessas manifestações celestiais, posso tranquilamente sentir saudades do antropólogo Franz Boas, mestre de Gilberto Freyre e que explicava a mente do homem primitivo a partir de suas crenças. Mas a ciência exagerada e a religiosidade proselitista estão apagando as crenças lúdicas.

Os kaxinauás viviam bem nos cafundós do Acre quando sequer o Acre existia. Acreditavam que os homens descendiam dos animais e que os peixes subiam os rios durante a piracema apenas para apanharem adornos.

Uma tribo tupi contava que, após casar com a filha da Cobra Grande, um índio ficou impedido de dormir com a moça. Ela insistia em dizer que somente deitaria com ele durante a noite, mas não havia a noite. A própria índia deu a solução dizendo que o pai dela conhecia a noite. O marido infeliz e desejoso mandou dois comparsas até a aldeia de Cobra Grande. Este entregou a eles duas sementes de tucumã onde se guardava a noite recomendando que só sua filha poderia parti-las. Os teimosos desobedeceram e quebraram as sementes no meio do caminho. A noite fugiu. E até hoje os índios correm atrás da noite para novamente aprisioná-la, mas nunca conseguem alcançá-la.

Sei da ingenuidade dessas crenças, como sei que aí reside o espírito de um povo. Também trago a certeza de que nenhuma cultura é superior à outra, e que esta dita superior tenha o direito de exterminar com as chamadas inferiores. E foi isso o que se deu no processo de catequese dos índios, uma operação feita a ferro e fogo.

Um jesuíta que prestava serviços nas missões guaraníticas conta que foi obrigado a castigar um casal de índios. Dera a eles um boi e um arado para lavrarem a terra. Eles trabalharam durante toda a manhã. Na hora da fome, fizeram uma fogueira com o arado e assaram o boi.

O casal tinha razão. Não havia em sua cultura o conceito de guardar para o amanhã. A fruta que eles colhiam e comiam, logo era substituída por outra igualmente gostosa e madura. O bicho que caçavam deixava filhos que também ganhavam corpo e robustez capaz de alimentar uma tribo.

Nestes gestos consistia o espírito ancestral do índio. E por mais paradoxal que isso possa parecer, este espírito há muito morreu, foi assassinado por outras crenças.

Da mesma maneira estamos perdendo o senso de humor.

Outro dia, numa conversa de boteco, sempre num boteco, contei um verso de Pinto do Monteiro que fala mal de futebol e de Pelé. O chato de plantão me acusou de estar exaltando o preconceito racial, além de difamar uma das mais lindas expressões de nossa cultura, o futebol. Relevei e contei mais uma de Pinto. Numa cantoria, com a missão de defender a Bahia e falar mal de Sergipe, se saiu com essa pérola:

O progresso do Brasil
Jamais passou em Sergipe.
Transporte lá é jumento,
Não tem nem rastro de jipe.
Nunca chove e quando chove
O povo morre de gripe.

O chato retrucou: “Vocês pernambucanos sempre se sentiram melhores que o resto do Nordeste. E nutrem esse desprezo que, no fundo, não passa de preconceito.” Fui calado, meu espírito ancestral se move também pela preguiça de se envolver em discussões vadias. Somente pensei no paraibano Pinto. Coitado, tivesse nascido hoje não teria mais como pontear a viola e sua língua ferina.

Que o nosso bem humorado papa argentino nos salve, pois, sob o guante do politicamente correto, o mundo tem ficado cada vez mais chato.


NO PRINCÍPIO ERA O PAPA-FIGO

João Cabral de Melo Neto se divertindo com o susto das pessoas…

Lembro do Papa-Figo, o jornal com que Bione e Teles incomodavam o Recife. Lembro do princípio de noite de sexta-feira, quando a gente ficava pelos bares da rua Sete de Setembro esperando a primeira, e única, fornada do hebdomadário para ver quem era a vítima da vez. Ninguém ficava imune às manchetes. Collor, o candidato que cheira bem. Congresso dá cinco anos a Sarney – Médicos dois a Ulysses. Paulo Francis não gosta de nordestino, mas adora macaxeira. E por aí seguia o diapasão que sobrevive até hoje graças à teimosia de Bione.  

E lembro do Papa-Figo porque estive esta semana no Recife.

Fui levado por Cida Pedrosa que anda a coordenar, para o Sesc, o Laboratório de Autoria Literária Ascenso Ferreira, uma justa homenagem a este imenso poeta que tanto se deixou cair de amores pelo Recife. “Sozinho de noite / Nas ruas desertas / Do velho Recife / Que atrás do arruado / Moderno ficou / Criança de novo / Eu sinto que sou.” Mas Ascenso era também um pândego.

Contam que, baixado golpe militar de 64, passou a circular na cidade uma lista apócrifa nomeando os poetas que seriam veados. E algum maledicente de plantão, encontrando o bardo palmarense na rua foi logo lhe apontando o dedo: “Eu soube que você está na lista!” “Mas eu não posso. Eu tenho hemorroida”, descartou logo sua inclusão na hipócrita deduragem oficial.

De outra feita, vindo de trem para o Recife, sentou-se num dos bancos estreitos do comboio, abriu as vastas pernas e o jornal do dia sem muito se importar com a coitada de uma senhora que tivera a infelicidade de sentar ao seu lado. Lá para o meio da viagem, incomodada por vir sendo espremida há horas, a mulher não se conteve e, educadamente, pediu: “O senhor podia fechar um pouco as pernas?” E o vozeirão do poeta soou mundo afora: “Feche as pernas a senhora, que não tem o que machucar.”

Bom, eu dizia que lembrei do Papa-Figo, e fiz isso exatamente por ter, nestes dias, caminhado pelo calçadão de Boa Viagem. E de repente lá seguia eu, com bermuda, camisa e tênis apropriados, rindo com cara de abestado. É que num determinado ponto da caminhada vinha em sentido contrário uma daquelas típicas figuras de nossa orla. Óculos escuros, barba por fazer, cabelo branco e comprido amarrado num rabo-de-cavalo e vestindo tênis e sunga. A memória bateu logo num certo IRB – Índice Recifense de Boiolagem aferido pelos bravos redatores do Papa. E lá estava: “Se você caminha no calçadão de Boa Viagem tem 10% de chance de ser veado. Se corre, seu índice sobe para 50%. E se corre de sunguinha, vai para 90%.” São aferições de Bione e Teles, saliento para dizer que nada tenho que ver com isso.

Mas eu fui ao Recife cuidar de literatura e não me meter nas brigas intestinas da cidade. E foi isso que fiz. Participei com Raimundo Carrero e Sidney Rocha de um debate sobre a literatura contemporânea brasileira. O problema é que o evento aconteceu no Recife, e não seria no Recife se não tivesse suas graças.

Vamos lá.

Fomos antecedidos por Marina Colassanti. Brilhantemente a escritora recitou seus contos e poemas para uma plateia atenta e compenetrada, até que tocou o telefone celular de Carrero. E ele atendeu para informar a quem estava do outro lado da linha e a todos os presentes que não podia atender por estar numa palestra.

Foi ainda Carrero quem dominou a noite ao apontar a ignorância crescente de poetas, escritores e críticos. “Tem um crítico idiota aí que andou dizendo que meu novo romance, que se passa num dia de carnaval, é incoerente porque é trágico e carnaval não combina com tragédia. Esse merece uma estátua pela burrice.”

Estávamos no Recife.

Aliás, a cidade está cheia de contradições e risíveis tragédias. Fizeram, por exemplo, um circuito dos poetas. São estátuas dos bardos marcando vários pontos da cidade. Manuel Bandeira, Carlos Pena Filho e vários outros. Mas aí a belíssima homenagem tem lá suas pontadas de gracejos. Ascenso, que está em frente ao Paço Alfândega, foi feito magrinho e miudinho. Nada lembra o gigante de mais de dois metros e centro e trinta e tantos quilos. Talvez isso tenha se dado por estar o poeta sentado sobre livros, e este não é lá um instrumento capaz de suportar grandes pesos…

Contaram-me que, no circuito, João Cabral está tranquilamente sentado num banco próximo a uma das pontes que cortam o Capibaribe. Ainda me valendo do relato, são incontáveis os incautos transeuntes que, descendo da ponte, se deparam com o poeta calmamente a olhar o rio e se tomam de susto. Se eu bem conheci o velho João e se existe mesmo alma, ele deve estar se divertindo muito com o fato. Apesar da dor de cabeça e dos versos tão tensos, João, acima de tudo, era do Recife, uma cidade onde se vive da alegria do prazer.

Tá certo, o trânsito anda engarrafado, as calçadas são irregulares, as ruas estão tomadas por mendigos, Augusto Lucena derrubou uma igreja para construir uma avenida, mas estes são assuntos para outras crônicas. O certo é que nem bem cheguei em casa e já ando transbordando de saudades do Recife, este velho amigo que não cansa de rir de si mesmo.


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