ELOGIO À PREGUIÇA

O evento foi armado para incentivar investimentos econômicos na Bahia. O centro de convenções abriu seu salão de exposição e ali era possível desvendar todas as oportunidades, todas as potencialidades agrícolas, industriais, turísticas. Das belezas naturais de Abrolhos, às pedras da Chapada Diamantina, à fronteira produtiva do Oeste, às praias, aos sertões, às infindáveis modalidades de carnaval, tudo reunido e exposto para encantar os olhos e afrouxar os bolsos abastados de empresários paulistas.

Homens pragmáticos e objetivos, eles, os paulistas, chegaram à caráter. Com ternos bem cortados, celulares modernos, faros refinados, desconfianças na ponta dos dedos. Na companhia do então Secretário da Indústria e Comércio, Benito Gama, e com o auxílio luxuoso de belas baianas vestidas à rigor, os empresários e investidores em potencial cortaram a fita e invadiram o recinto com todas as pompas necessárias.

Foi aí que o secretário entrou em pânico. O primeiro estande brindava o turismo local e, bem deitado em sua rede, num retrato colossal, Dorival Caymmi, sorriso aberto, e sua legendária preguiça recebiam os visitantes. Benito quase chora ao ouvir o menos ousado dos convidados lhe perguntar ao ouvido: “Este é o trabalhador que vamos encontrar?”

Todo esforço começava a ir Subaé abaixo.

Os detratores da Bahia podem dar razão aos paulistas, um povo trabalhador, que em bem menos de um século transformou uma vilazinha chinfrim na maior metrópole da América Latina. De minha parte, fico com Caymmi. Tenho certeza que foi a preguiça de andar e carregar peso que fez nossos ancestrais inventarem a roda. E neste ritmo dolente nosso Dorival construiu belezas infindas. Noves anos foram necessários para fechar a saga de João Valentão, e valeu à pena esperar.

O repórter que foi entrevistá-lo em seu apartamento no Rio de Janeiro o encontrou sentado em uma cadeira de balanço de frente para um ventilador. “Mestre, por que não liga o ar-condicionado?”, quis saber o curioso. “Prefiro o vento, meu filho. Veja que foi neste balanço aqui que compus, por exemplo, Milagre – Maurino, Dadá e Zeca…”, cantarolou. E a conversa seguiu. No final da tarde tomou o elevador para levar o repórter até a porta do edifício.

Desceu junto com eles uma menina com sua babá. “Como está na escola, minha mocinha?”, quis saber o poeta. “Tudo bem, tio. Hoje a gente aprendeu música.” “E que música vocês aprenderam?” “Meus companheiros.” “É mesmo? Como é esta música?” “Minha jangada vai sair pro mar / vou trabalhar / meu bem querer. / Se Deus quiser quando eu voltar do mar / um peixe bom / eu vou trazer. / Meu companheiros…”, a menina cantava e os olhos do compositor marejavam de emoção.

Por tudo isso, mais vale sua preguiça, mestre Caymmi, que todos os dias de trabalho do senhor secretário e seus convidados.  

Preguiça é bom remédio, há anos sabe bem outro poeta, Orlando Tejo. Com preguiça e criatividade ele fugiu do serviço militar obrigatório. Alegou às autoridades constituídas que não podia servir à pátria por ser arrimo de família. Desconfiados os milicos foram tirar a prova. Numa manhã radiosa de Campina Grande bateram à porta do poeta. Atendeu um irmão do mestre Orlando. “O senhor Orlando Tejo se encontra?” “Tá sim, mas dormindo.” “Mas ele não é arrimo de família?” “Isso eu não sei. O que sei é que ele toca uma sanfona arretada.”

Os defensores da pátria entregaram os pontos. Não havia espaço para sanfonas e redes no quartel, com certeza.  

Todas estas histórias são de tempos passados. Há cerca de quinze anos vivemos outros ventos, desde que virou moda ler os ensinamentos de um italiano de nome Domenico de Masi. O ócio criativo tornou-se febre e aquilo que Caymmi e Tejo apregoavam com esplendor ganhou fórum científico. Hoje até mesmo os trabalhadores, os ferrenhos sindicalistas defendem uma jornada de trabalho mais condizente, com espaços para o ócio e o lazer. Quarenta horas já, gritam nas assembléias e pelos corredores legislativos. Precisam de tempo para melhor cuidar da família, da saúde, da vida. E, maus leitores de nossos intelectuais, entronizam o velho Masi italiano.

Na preguiça de minha rede antiga redobro o fôlego criativo relendo meu Gilberto Freyre de sempre. Pois bem, lá pelos idos dos anos quarenta, quando o mundo saía de mais uma insana guerra, o lobo de Apipucos escrevia dizendo que os homens precisam de mais lazer e vagar para se tornarem mais humanos. E já chamava isso de, pasmem!, ócio criativo. Quase ninguém ouviu.

Gilberto tinha tutano, conhecia a rede, indiscutivelmente uma das mais fantásticas invenções da humanidade. Lugar de parto e descanso, de amores e deleites, serve também à reflexão. Eu mesmo conheci um advogado e escritor de Belém do Pará, Benedicto Monteiro, que escreveu toda sua obra na rede. Até mesmo os vetustos pareceres sobre direito agrário, sua especialidade, nasceram no remar daquele balanço.

Conhecedor de mundos e universos vastos, Câmara Cascudo nos ensina que “toda ou quase toda aquela gente que arrancou o Acre para o Brasil nasceu e morreu dentro de uma rede balouçante”. E olhe que não foi fácil ganhar aquelas paragens. Houve tiros e revolução, matança e correrias, essas gestas cruéis para expulsar os índios de suas terras. E no fim da luta aqueles homens e aquelas mulheres, gente tão do Brasil, voltavam para as redes e seguiam fazendo a nação.

De minha parte faço o mesmo. Nesta tarde ensolarada, paro aqui o ofício de cronista e vou para a rede dar alento ao meu criativo ócio.


VISITA AO ONTEM

A provocação foi feita por Luiz Octávio Cavalcanti. Disse o cronista que gostaria de ir a Palmares e me ter como guia. A viagem pode ser um excelente programa, já minha orientação é um equívoco. Não conheço mais as intimidades do velho burgo perdido entre canaviais. Como os homens as cidades mudam de cara e cabelo, ganham novas rugas, transformam-se. E há anos não piso o chão com pés de quem arrua, caminha sem compromisso maior senão o do viver. E com isso perdi muito de minha substância.

A Palmares que carrego tatuada na alma com certeza não está em outro lugar senão nesta tatuagem íntima. Foi sobre ela que escrevi em um texto já agora antigo.

Conto essa história.

Isso deu nos primórdios das Edições Bagaço. Precisávamos comprar uma máquina para os serviços gráficos e surgiu uma oportunidade. Era o ano de 1988 e Luiz Portela, prefeito de Palmares, precisava fazer uma revista com um balanço de sua gestão. Arnaldo me escalou para ir à cidade cuidar de tudo. Fui e pensei numa edição que desse espaço para a cultura local. E saí à cata desses textos.

A Luiz Berto pedi uma crônica e a dona Jessiva Sabino, bibliotecária e historiadora, um texto que contasse os rastros do passado. Berto se prestou ao serviço, dona Jessiva, delicadamente, não. Com o que restava de rebeldia juvenil, fui para casa remoendo a recusa. E me joguei no teclado da máquina de escrever para redigir Retalhos de Ontem – Roteiro Sentimental da Cidade dos Palmares, um texto escrito com amor e indignação, e que transcrevo.

O passeio começa pelo Alto do Inglês onde o casarão retorna a memória aos tempos em que iniciou a modernidade dos Palmares. Os ingleses transitaram com desenvoltura pelos salões hoje solitários e vazios. Dali maestros regiam a orquestra de cassacos e pioneiros ferroviários, concretizando o sonho do Imperador. Dali se enxergavam os trilhos, estranhas serpentes, serpentes dóceis, se derramando pelos verdes infindos de canaviais imensos.

Em outro alto, este lá por trás do mundo, do outro lado do rio, se vê a casa-grande do Engenho Paul. Seus arcos sustentando tantos sonhos, tantos amores, tantas mortes e vidas e esperanças e certezas; um coração pulsando eternamente, desafiante perene das lembranças dos homens. Sobre estes arcos foram plantados sólidos alicerces, os alicerces que estruturaram e definiram toda a vocação agrária desses campos. Dali a cana-de-açúcar cresceu para além de todos os horizontes, para além do alcance da vista. Ali está a certeza plena da temporalidade dos homens, da eternização dos seus sonhos.

Descendo uma ladeira de nada, seguindo o caminho dos trilhos seculares, dá para se achar a arquitetura modestamente bela da Estação Ferroviária. O certo é que todas as estações são iguais, mas em Palmares ela guarda a glória de ser marco do princípio de tudo. Por ela chegaram os pais de seus filhos, dos filhos que por ela ganharam o mundo e se foram decantar a terra em versos, prosas, discursos ou em sólidos concretos espalhados pela pátria afora, concretos que somente a bondade dos corações e a fortaleza dos braços podem construir.

Logo ali, no princípio da ladeira do Menino Jesus, a casa avarandada e amarela reina de forma recatada, deixando que as folhas e flores do seu jardim ofusquem sua bela solidão.

Beirando o rio, logo depois do Bairro Modelo, está o arruado da Usina 13 de Maio como a dizer que o tempo foi erguido pelo braço de humildes senhores, doces senhoras e magérrimas crianças que à noite, alquebrados do árduo cotidiano, botavam para fora de suas casas cadeiras e esperanças de dias melhores.

De passagem pela Rua Nova, encontram-se fachadas ternas e leves. Pequenos arcos, graciosos volteios, quebrando a dura retilinidade dos concretos.

Talvez seja na Praça Maurity e adjacências que encontramos o maior sítio histórico dos Palmares, um casario do tempo em que os senhores de engenhos faziam a vida desta terra. Ali está o Sobrado dos Griz, berço e lembrança viva da intelectualidade pulsante, irmão de outros casarões que ostentam suas fachadas para a eternidade. O Fórum Velho, o Clube Literário, hoje Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, a Casa dos Agrelli e mais uns tantos outros prédios que se espalham ao longo da Rua do Maurity denunciam a eternidade desta terra.

A Igreja Presbiteriana se ergue aos céus frente à Igreja Matriz, e se irmanam pela imponência, se respeitam de frente, como a dizer que Deus é único e supremo.  

O Cine Theatro Apolo, hoje patrimônio da Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, abrigo indissolúvel de tantos e tantos espetáculos, por força da ação consciente dos homens, permanecerá para sempre como arrimo e colo de inúmeros sonhadores que se lançarão no mundo das artes.

Todavia, ali do lado, fronteiro à parede lateral direita da Igreja Matriz, o vazio, o ermo silencioso como a abrigar todas as solidões do mundo. Solidões que resvalam nas platibandas das casas comerciais que derrubaram paredes e fachadas, dando modernidade a tudo.

Mas Palmares sobrevive com seus retalhos de ontem, se modernizando, entrando de peito aberto no futuro, cultuando seus monumentos e símbolos.

Hoje leio o texto antigo com amor e indignação. Creio que esta cidade de que falo já não esteja viva, como esperava a crônica tão crente na eternidade. A ação dos homens e da natureza muito carregou em suas fúrias. Mesmo assim, amigo Octávio, guardo a breve certeza que a alma antiga, poética e feliz, ainda paira sobre as casas modernas e os resíduos da destruição, e assim sendo, vale a pena arruar por Palmares.   


ONDE VOCÊ ESTAVA, ONDE ESTAMOS?

Edu Lobo, o cantor e compositor requintado, costuma brincar com quem encontra. Onde você estava quando ouviu pela primeira vez Chega de Saudade? A partir dessa pergunta consegue desenvolver toda uma conversa com qualquer cidadão, garante. Fatos históricos, histórias pessoais, sentimentos íntimos, tudo vai grudando na canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, cantada por João Gilberto, com uma cola de emoções que torna o mais prosaico assunto em diálogo consistente.
 
De minha parte, não lembro quando ouvi pela primeira vez Chega de Saudade. Talvez tenha sido em Palmares, na década de 1970, ou num instante anterior, numa outra situação. Minha memória tem vagas terríveis que preencho, quando necessário, com a imaginação. Entre verdades e mentiras, todos construímos nossas mitologias pessoais. Mesmo assim não me excluo da brincadeira eduana e fico a imaginar o que fazia quando se deram outros fatos, estes históricos.
 
Seguia para o Detran, onde cuidaria do licenciamento de um carro, quando ouvi no rádio a notícia trágica. Tom Jobim acabara de morrer em Nova York durante um processo operatório. Fiquei chocado e quando, enfim, estacionei o carro, procurei falar com a primeira pessoa que encontrei, um senhor de boa aparência. “Acabei de ouvir no rádio que Tom Jobim morreu.” “É, esse pessoal da Jovem Guarda também bebia demais.” Prudentemente, calei minha indignação. Saí dali direto para casa onde, tomando uísque, fumando charuto e escutando todos os CDs de Tom disponíveis, assisti na televisão a todo o noticiário de sua morte. Foi a maneira mais jobiniana que encontrei para homenageá-lo naquele momento.
 
E, é certo, não foi uma homenagem inédita.
 
18 de janeiro de 1982. Uma terça-feira. O fato se deu logo pela manhã, mas a notícia somente me apanhou no anoitecer. Envolvido com outras prioridades vadias de então, fui apanhado pelo Jornal Nacional para ouvir Cid Moreira anunciar: Elis Regina está morta. Um choque, e eu estava numa noite quente em uma praça de Matriz de Camaragibe. Assisti a todo jornal assustado e triste. A voz calara isolada em um quarto, encharcada de cocaína, angústia e outras dores.
 
Findos o jornal e minha paralisia de perplexidade, ganhei a rua.
 
Catei nas casas de umas tias o que havia de disco de Elis. Voltei para casa, acompanhado de uns três ou quatro amigos, estudantes cariocas que ali zanzavam na euforia do Projeto Rondon, e fizemos a festa. Horas a fio a tomar cerveja, a comer petiscos, a escutar Elis. Cada um tinha uma lembrança. Ela se irritava quando diziam que não cantava, mas nadava no palco. Foi menina prodígio em Porto Alegre. Sua maior influência foi Ângela Maria. E o mito, que vinha de um processo distante, começou a moldar sua teia de contradições, verdades e sonhos.
 
Eu mesmo guardava no bolso algumas pedras dessa infinda construção.
 
Um dia, fui ao Recife assistir a um show de Elis, Falso Brilhante. O Teatro Santa Izabel, lotado. Havia algo de circense em tudo. Cenários, bailado, a música dominada por César Camargo Mariano. E a magia envolvia a todos num profissionalismo imenso. Nunca mais parei de amar aquela cantora que sabia dosar com precisão emoção e técnica. A voz clara amplificada para além dos limites de nossas almas, uma comoção que sobrepujava qualquer sentido de realidade. E ela ali, segurando todas as barras, fortalecendo nossa crença na humanidade.
 
Houve um momento em que o universo todo careceu de um repouso para a correção de seus vértices. Elis cantava, quase à capela, Gracias a La Vida. Violeta Parra revivia. E ninguém nunca mais foi capaz de entrar nesse cântico sem antes pedir-lhe licença. Eu mesmo, anos depois, ouvi Nana Caymmi, num palco intimista, jorrando sensibilidade, terminar a canção aos prantos. E quando foi possível, dizer: “Desculpe, Elis, mas desta vez eu arrasei”. E era verdade.
 
Mas eu falava de um show de Elis, e eram tempos sombrios. A ditadura militar se desmilinguia. O governo Figueiredo mostrava sua face ridícula, mesmo assim a ponta do terror era viva, ainda. Um secretário de Dom Hélder Câmara, Cajá, estava preso, e pela cidade corriam manifestações e protestos, todos pediam sua libertação, mas os gorilas resistiam e enodoavam a claridade do dia.
 
No dia seguinte ao show, uma segunda-feira, fiquei no Recife para assistir a outro show, já não lembro de quem, no Projeto Pixinguinha, uma das geniais invenções do mágico Hermínio Bello de Carvalho. Antes fui à igreja para uma missa pela libertação de Cajá. Lá estavam Elis e toda sua banda. E eu sentado no banco logo atrás deles. Há uma hora em que todos se cumprimentam, e foi ali que abracei Elis.
 
Voltei para casa mais confiante e seguro de que a vida poderia ser feliz.
 
Um tempo depois veio a morte, e os tempos sombrios foram além do que poderíamos imaginar nos nossos sonhos. Mesmo assim, talvez prenhe de ingenuidade, segui em frente, acreditando na vida.
 
Isso faz trinta anos. Soube esta semana pelos noticiários. Trinta anos sem Elis, mas ainda com a esperança que renasce todas as vezes em que volto a ouvir sua voz.                                            


DA FILOSOFIA DO MATEUS

“Tinha jurado à minha mãe por toda vida / não me meter em mais em mais nenhuma trapalhada.” Assim começa um dos brilhantes sambas-de-breque de Miguel Gustavo cantado por Moreira da Silva. De minha parte também fiz tal jura no dia em que arribei. Minha mãe se deu por satisfeita e segui em frente vez por outra resvalando na jura e me metendo em alguma trapalhada, pois, como diria o poeta Juarez Correia “a vida é pra ser vivida de porrada em porrada”.

Pois bem, desde que começou esta lenga-lenga de que Pernambuco vem recebendo mais recursos do Ministério da Integração Nacional do que qualquer outro ente federativo que resolvi fazer ouvidos de mercador e deixar o barco correr. No entanto sempre chega um tempo em que é impossível conter a indignação.

Jornalista já de longo curso sei o quanto meus coleguinhas gostam de transitar pela superficialidade e de prejulgar toda aquele que surge em seu caminho. E agora vestiram de vez a capa de super-herói do Quarto Poder e insistem em nomear e demitir ministros ao bel-prazer. Minha preocupação vem sempre acompanhada da triste memória do caso Alcenir Guerra. Envolvido numa desses tantos escândalos republicanos caiu na vala comum dos politicamente leprosos e, mesmo várias vezes inocentado até pela própria imprensa, nunca mais saiu do limbo.

Cidadão de Petrolina e trazendo nos ombros a tradição familiar dos Coelhos, o ministro Fernando Bezerra pode muito bem ser um leitor regular da nossa cartilha folclórica: “Mateus, primeiro os teus”. No entanto, há alguns exageros nos alertas da imprensa. O irmão foi nomeado interinamente para presidir a Codevasf por ser o mais antigo funcionário de carreira do órgão participante da direção. Estava ali esquentando cadeira enquanto não se nomeava um presidente de fato. Quanto à liberação dos recursos, existe todo um trâmite que independe da vontade única e soberana de um ministro. Inclusive prescinde de projetos previamente aprovados, o que parece ser o caso de Pernambuco.

Até aí estamos correndo pela máxima do Mateus, dirão os críticos sem se permitirem lembrar que esta história é muito antiga.

Ainda no tempo da República do Maranhão, numa das vacâncias deixadas pelo Sarney, o vice-soberano Ulysses Guimarães sentou na cadeira presidencial. Era janeiro, e como em todo janeiro, choveu esses mesmos temporais que arrastam vidas e esperanças das encostas do Rio de Janeiro às barrancas do Acre. Ulysses abriu a burra federal e despejou tempestades pecuniárias nos dois estados extremos. A imprensa aplaudiu, o prefeito de Rio Branco, Flaviano Melo, usou o dinheiro na construção de um teatro e várias praças e o governador do Rio, Moreira Franco, certamente não tinha entre suas prioridades segurar barreiras. Resultado, já ninguém lembra mais disso e somos um país de felizes críticos.

Em Pernambuco, mostra a televisão, pelo menos as barragens estão sendo feitas. Mesmo assim, como um eterno Morto-Carregando-o-Vivo da federação, pois sempre arrecadamos mais imposto do que recebemos em recursos federais, vamos continuar levando no lombo.

Essa é outra história mais antiga ainda. Li no livro Crônicas da Juventude, de Barbosa Lima Sobrinho, lançado pela Bagaço em 1998, um surpreendente texto publicado pelo jornalista num jornal do Recife em 7 de março de 1920. “Pois Pernambuco é, na federação, a pobre gata borralheira. Tem uma população regular, uma história magnífica e concorre para a grandeza do país com esplêndido contingente de esforços. Apesar disso, desde muito, vive com o focinho grudado às panelas, com o sabão e a vassoura nas mãos, limpando e varrendo como nobre criado a quem não se auxilia nem para uma libré. As suas nobres lavouras definham na miséria sem termo e no abandono. As irmãs da gata borralheira quando não lhe chegam o pau às costelas do pobre, é porque lhe fazem pior. A situação do Estado era uma lastimável pobreza. Um dia, porém, as coisas tomaram um rumo imprevisto. Veio a riqueza apesar de tudo, com a Guerra Mundial que valorizou o produto do trabalho pernambucano. O Estado ajuntou o seu pecúlio, comprou os seus objetos, procurou seu bem-estar. As irmãs da borralheira saltaram-lhe na mala, tomaram-lhe o que foi então possível. Todos estão lembrados do imposto do álcool, no tempo do Sr. Wenceslau.”

E não apenas isso. No tempo do senhor Epitácio Pessoa, paraibano conhecedor de Pernambuco e ex-aluno da Faculdade de Direito do Recife, para favorecer os falidos barões do café paulistas, criou-se uma lei. O açúcar nordestino seria vendido apenas no então incipiente mercado interno. As gordas compras internacionais seriam abastecidas pelo também incipiente setor canavieiro paulista.

Conseguiram até mesmo esculhambar o projeto da Sudene, criada pelo gênio de Celso Furtado. Tudo ia bem até que veio a quartelada de primeiro de abril. Foi neste tempo que se anunciou com pompas que o governo iria incentivar a criação de vinte fábricas para o Nordeste para cada nova indústria construída em São Paulo. De fato fizera. Vinte fábricas de sabão prá cá enquanto lá se erguia uma montadora de automóvel.

Houve algumas mudanças no rumo desta conversa, mas a relação ainda é muito desigual. Vejam só. O incentivo fiscal que o Rio Grande do Sul daria para a Ford se instalar em seu território foi bloqueado pelo governo estadual. A Bahia comemorou e trouxe a empresa para suas terras, claro, oferecendo aquilo que os gaúchos negaram. Nos pampas o dinheiro foi investido para favorecer cinco mil famílias do programa de agricultura familiar, enquanto a montadora empregou apenas quinhentos baianos.

Assim caminham as verdades que a imprensa teima em esquecer. Destarte, senhor ministro, como todos os governantes deste triste trópico ainda sem senso federativo, se sustente na filosofia do Mateus.       


BILHETE PARA IRAH CALDEIRA

 

Amiga, há dias recebi pelos Correios seu pacote de carinhos. E desde então escuto o acalanto de seu cantar apascentando meus sonhos. É estranho falar em coisas calmas diante de seu vigor, mas assim é que você toca e acarinha minha sensibilidade. E aí me ataca a saudade.

Quando ainda pisava sem compromisso o chão de Palmares, a Rádio Cultura era um serviço de alto-falante a marcar nossas horas cotidianas. Às oito horas da manhã abriam-se os trabalhos da rádio e as portas do comércio. Menino mal-ouvido e presepeiro, corria pelas ruas escutando as notícias vindas pelo Diário de Pernambuco. Depois, entre anúncios da aguardente Serra Grande e do fumo Du Bom, tome música. Isso até o meio-dia, quando o comércio e a rádio fechavam para o almoço e os meninos já estavam em casa de banho tomado e com fome suficiente para enfrentar toda família sentada à mesa.

Mortos de inveja e raiva deixávamos os adultos em casa, na sesta, enquanto rumávamos em silêncio para a escola. Quando a rádio voltava a cantar, às duas da tarde, estávamos envolvidos com fórmulas matemáticas e análises sintáticas, com pouco ouvido para escutar sua sonoridade. Quando enfim nos libertávamos, isso lá pelas cinco e meia da tarde, brincávamos ainda até ouvir a Ave Maria de Gounod, às seis da tarde, fechando os trabalhos da rádio e as portas do comércio. Os meninos já sabiam que era  hora de entrar em casa para esperar o jantar. No mais era a noite.

Veja, amiga, como você xaxou no meu coração. É que seu disco traz toda essa magia musical que faz o clássico se amigar com o popular para parir alegria e festa em nossos sentidos.     

Mas primeiro deixe eu discordar de Xico Bizerra. Ele escreveu e você cantou uma mentira: “Saudade boa nunca vi só no verso do poeta”. Não é verdade. Eu, que não sou poeta, conheço as lições que ela, a saudade, nos deixa pela vida a fora. Tá certo, é preciso ter cuidado com as grandes saudades, como ensina Antonio Pereira que, se a memória não me atraiçoa, assim cantou: “Se quiser plantar saudade, / escalde primeira a semente. / Plante num terreno seco / debaixo de um sol bem quente. / Pois se plantar no molhado / quando nascer mata gente.”

A minha saudade é daquelas miúdas, daquelas que pegou Gonzaga e Humberto, das miudinhas, das que não amargam que nem jiló. E ela me sacode nos braços da Rádio Cultura porque sua programação era didática. Escutei pouco rock e muito baião naqueles alto-falantes. E quando morria alguém importante, além da terrível imposição paterna de termos que ir ao velório, não podíamos ligar a vitrola nem brincar na rua e a rádio passava o dia tocando música clássica. Um inferno para um menino, mas uma bênção para o homem em que ele se transformou. Posso estar errado, mas carrego a crença de que foi assim que eduquei o ouvido para aceitar a mágica diversidade da música.

E um menino que, sem saber jogar bola, passava o dia escutando na vitrola Gonzaga, Caymmi e Noel Rosa, ficava emocionado ouvindo na rádio a voz de Marinês e do Trio Nordestino. E foi este mundo que seu disco me trouxe de volta. Você traz em seu canto uma poesia rica por estar escudada na mais doce simplicidade dos sertões. Só que o “sertão está em toda parte”, ensinou seu conterrâneo Riobaldo Tartarana. E este sertão se transporta pro meu peito sempre que escuto sua voz e eu, menino da Mata, venço a sede e mergulho mais forte pelos cangaços todos da vida. Se não me engano, isso se traduz como o prazer de viver.

E este timbre, menina? Se fecho os olhos logo escuto Marinês e volto a abri-lo para enxergar a exuberância de sua beleza e a personalidade de seu canto emprenhado de tantas referência. Além de Marinês, por ele me chegam Almira, Carmélia e todas essas águas que você usou para saciar sua sede de paixão. Estas fontes são tão profícuas e inesgotáveis que em suas beiras se debruçou muita gente, como Elba Ramalho. Daí, injustamente, tem quem a confunda com a paraibana. Mais atriz que cantora, Elba vai aos extremos do agudo para representar a canção, enquanto você mantém a serenidade e usa a técnica apurada para de fato cantar. Esta malícia acaricia com mais jeito meu prazer.

Aí vou deixando o disco tocar, sem segredo. Na gafieira o forró é solidário e não trava a língua de quem o sabe dançar, ao contrário, beija a flor em verso e canto e em Limoeiro se atraca com Minas num calango decente. Até lhe vejo perdendo o sono, mas nunca borocochô, pois seu universo é passarinho, casinha de pé de serra com todas as alegrias acumuladas, onda que traz a vida plenamente tocada em cordas e poesia, e tudo se apega à safadeza de Tiana e Maria no forró. São culturas de ontem, cheiros de saudades, novas misturas, choro antigo do sertão que se abriu como riso de flor, promessa que santo cumpriu, pescaria farta e gostosa. Por todo este caldo de cultura que seu canto privilegia o nortista de respeito, se embala no colo de Santana e Lindu, arriba para o Sul e conquista o mundo. 

Menina, você me faz chorar todas as minhas comoções.

Dê um abraço em seus parceiros: Xico, Alcimar, Gilvan, Aracílio, Silvério, Ernano, Flávia, Flávio, Nanado, Ilmar, Roberto, Tenison, Paulo, Socorro, Miguel, Luís, Bráulio, Maciel. 

Siga em frente, amiga. Seu canto é água que banha nossa fome de paixão. Seu talento é fortaleza a abrigar todos os nossos ímpetos. E aceite, com todo respeito, um xêro no cangote.         

P.S.: Desculpe, querida amiga, eu queria mesmo era falar da alegria que você me presenteou despertando minhas saudades e terminei falando de esperanças e culturas. Definitivamente não sei aprumar a conversa.           


PROFECIAS PARA O FIM DO MUNDO

Torna-se cada vez mais difícil acreditar em ano novo. Depois que os telejornais mostram, começando pelo Japão e a Austrália, os fogos de artíficios espolcando pelos céus do mundo, voltamos às ocorrências de sempre. Chuvas derrubam barreiras no Rio de Janeiro e enchem as ruas de Belo Horizonte. Cresceu o número de acidentes nas estradas durante os feriados de dezembro. O comércio bateu recorde de vendas no Natal.  Turistas brasileiros invadiram Nova Iorque.

É a vida voltando à sua normalidade urgente. E viver nesta era de velocidades e alucinações tem se tornado tão previsível que vem precocimente aposentando os profetas. Já quase ninguém ousa prever o futuro, pois quando menos esperam, estão mesmo é falando do ontem. Mesmo assim insistimos em acreditar nos magos de plantão que todos os finais de ano invadem nossas casas com desgraças e bonanças vistas em búzios, mapas astrais, visões oníricas.

Ainda na manhã de hoje, assisti pela televisão duas pitonisas modernas falando de suas antevisões. Uma delas disse de intensas felicidades a deitar sobre Brasília. A outra, menos otimista, enxergou bonanças, mas também nuvens negras de escândalos e desilusões na política.

Mesmo sem conhecer os caminhos dos búzios e dos astros, também posso ver isso, afinal a vida se repete ano a ano e numa leitura cotidiana de revistas e jornais dá para enxergar esperanças no avanço da economia que continuará redesenhando a geopolítica do mundo. Também os escândalos políticos serão mais visíveis diante do implacável processo de liberdade de imprensa. E ficar livre disso tudo é simples, basta mudar para Argentina. Não que lá não haja uma política também rasteira, mas com o controle da imprensa cada vez mais intenso, nossos hermanos terminam por não saber de nada e, acredito, chegam a viver mais felizes votando nos peronistas, como há mais de setenta anos, mesmo sendo a legenda uma enamorada perpétua das crises econômicas.

Para ser sincero, de tudo que já li sobre profecias para o ano novo, deste que se aproxima como de outros tantos anteriores, apenas uma vez confirmei todas as previsões. Foram aquelas publicadas no Papa-Figo de 31 de dezembro de 1986. Consultando a coleção do hebdomadário recifense que guardo em minha estante confirmo o alto índice de acerto das revisões do “Pai Dudu, o único que não dá xabu,” para o ano de 1987. Em louvor aos descrentes transcrevo algumas pérolas. Um político muito conhecido do PFL vai para o PMDB. Gustavo Krise vai iniciar o ano de ressaca. Um artista famoso vai morrer. A Polícia Federal vai continuar queimando fumo. Um poeta marginal lançará um livro. Um vendedor de sanduíche natural da praia vai desistir da profissão. O importante em 87 não será o dinheiro, mas o verdadeiro amor e a salvação da alma.

Quem tiver boa memória, ou paciência para consultar os arquivos de jornais, poderá confirmar que Pai Dudu realmente não deu xabu.

E esse negócio de profecias não é mesmo para amadores. Vejam os Maias, a civilização que dominou o México em priscas eras. Como o cinema sacanamente nos lembrou, pelo calendário maia o mundo vai acabar em dezembro de 2012. De cara não acredito. Muitos outros se frustraram com esta mesma ladainha. A começar por um maluco de Campina Grande, fundador de uma seita, os Borboletas Azuis, que lá na década de 1980 anteviu um novo dilúvio universal. No dia previsto brilhava sobre a Borborema o mais intenso e inclemente sol.

Também foi naquela década, mais exatamente em 1985, que comprei nas bancas de revistas um volume sobre as grandes profecias da humanidade. Nomes herméticos – Nostradamus, Merlim, Malaquias, Paracelso, Rasputin – tornaram-se íntimos de minha curiosidade e durante dias, anos talvez, fiquei impressionado com tudo que ali estava escrito, inclusive várias visões apocalípcas do mundo explodindo em chamas.

Num dos capítulos do livro Malaquias enumerava com precisão absoluta todos os papas da história, desde Celestino II, feito papa em 1143, até João Paulo II, papa em 1978. Depois teríamos mais dois, De Gloria Olivae e Petrus Secundus. Segundo os intérpretes de Malaquias, o penúltimo papa, ou seja Bento XVI, seria um italiano “mensageiro da paz” e que o último, Pedro Segundo, encerraria o ciclo da igreja católica sendo crucificado. Isso se daria em 2013. Bem, ao que parece, o atual papa, além de não ser italiano, não parece muito empenhado na destruição dos conflitos. E o catolicismo, apesar de alguns pesares, não parece à beira do colapso. Mas ainda temos dois anos para, sem desprezar a velocidade de nossos dias, ver o que acontece.

Profecia não é coisa para amadores, repito. E também a vida não me parece tão óbvia, apesar de sua previsibilidade, para se desnudar tão intensamente aos olhos míticos.

Creio que o homem tem uma marcha inadiável rumo ao bem estar. Para isso, ao longo da história, destruiu muitas verdades e alegrias, mas também debelou outras tantas dores profundas. Posto tudo na balança, o saldo me parece positivo. E neste manjar, anualmente realimento meu otimismo. A gripe, como a tuberculose, já foi um mal incurável. A crucificação e o apedrejamento, sistemas aceitáveis de justiça. E a humanidade evoluio ao ponto de susperar todas estas marcas de desumanidade.

Apesar dos profetas anunciadores de desgraça, seguimos o rumo da esperança. Sempre.     

Posso não crer num ano realmente novo, mas nada me custa sonhá-lo. Também não creio em profecias, porém posso arriscar ao menos uma: No Natal do próximo ano haverá especial de Roberto Carlos na televisão e fartura de peru na mesa dos brasileiros.


JULGAMENTOS LITERÁRIOS

Há como julgar o comportamento de Capitu? Emaranhar-se no enredo e buscar saber se a moça traiu ou não traiu o amargurado Bentinho? Melhor mesmo é sequer debater as questões éticas envolvendo as ações do Dr. Jekyll e ficar com o princípio básico, milenar da literatura: Nos divertir com uma boa história. Tanto Machado de Assis quanto Robert Louis Stevenson contaram um conto, como diz o matuto. E alimentaram nosso imaginário e nos legaram horas e horas de enleio. E viva a literatura por isso e muito mais.

Deixando de lado o julgamento dos clássicos, caminhemos outro caminho.

Dona Heloísa Ramos não acreditava em concurso literário, mas talvez a culpa disso se esconda nas travessuras de seu marido.  Ela garantia que ele teria favorecido algumas moças com beleza bem maior que a qualidade dos escritos que exibiam. Graciliano afiançava que tudo não passava de ciúme da mulher, aliás, chegou mesmo a denunciar tal ciúme já no início de Memórias do Cárcere.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Vamos pela prudência.

Participar de um júri literário é sempre uma enrascada dos diabos, e o diabo maior é que de vez em quando me vejo envolvido neste labirinto borgeano, neste volteio mais perigoso que o aceso à biblioteca do mosteiro de O Nome da Rosa. O negócio é tão sério que já quase levei desaforo prá casa. Salvou-me minha fama de pistoleiro nordestino.

Foi assim.

Convocado por um cabra dito amigo, não tive como fugir e me dispus a ser júri num concurso promovido por uma rádio. Concordei e esqueci o fato. Na véspera de uma viagem de férias desembarca em minha casa um vasto envelope com mais de quinhentos poemas. Não tive alternativa senão espremer o bicho em uma das malas. E lá fui para São José da Coroa Grande. Todo final de tarde sentava-me num bar, pedia uma cerveja e seguia o sacrifício de ler versos quebrados, rimas pobres, modernismos capengas, muito plágio de letras de música de sucesso e por aí seguia o martírio. A missão era escolher cinquenta daqueles, vamos lá, poemas que deveriam figurar numa antologia.

Terminada a missão, salvou-se apenas um poema verdadeiramente bom, uma leitura telúrica de um boi num campo nordestino. Toda a carga dramática e social da região respingando no lombo dolorido do animal. Um primor. Não tivemos dúvida, eu e meus parceiros de martírio, em premiar o autor do drama bovino. Infelizmente tivemos que enfeixar ao seu lado quarenta e nove outras obras nem sempre dignas de tal predicado. Pronto, estávamos livres de mais um peso.

Enganava-me. Dias depois encontro um indignado poeta a me cobrar sua ausência na tal antologia. “Meu poema é melhor que todos aqueles publicados”, garantia. Pedi que dissesse sua obra prima, e ele: “Se amor custa caro pago o preço, pago e não esmoreço.” Peraí meu branco, fui eu mesmo quem desclassificou seu poema. Isso é plágio do poeta Sidrônio Muralha, um português que viveu perdido pelos cafundós do Paraná e que escreveu “Se caráter custa caro pago o preço, pago e não esmoreço”. Mesmo assim o jovem poeta não jogou a toalha e passou a alardear que eu o perseguia. Talvez no juízo final, sei lá, esta injustiça estará engordando a balança a que faço jus.

Eu devia ter aprendido a lição, mas como tenho inteligência curta, tempo depois, lá estava em outra banca. Nesta fui reincidente, pois participei de três certames. Vá gostar de sofrer assim na casa da peste, grita meu alter ego. Pois bem, na primeira vez um dos poetas apontados entre os três finalistas nos mandou uma carta desaforada dizendo que sua poesia não era matéria de julgamento e que tirassem o nome dele daquilo. Atendemos ao pedido. Na segunda vez, o ganhador na categoria de prosa era o governador Cristóvam Buarque, mas o promotor do evento, Luis Estevão, era o líder da oposição, um constrangimento.

Como não houve incidente em minha terceira participação, abri a guarda e, transcorrida outra par de anos, lá estava eu novamente enredado em novo julgamento. Desta vez tinha um motivo a mais: o patrono do concurso era um grande escritor, um grande amigo. Fiquei até sensibilizado pelo convite. Quando vejo bate em minha porta uma caixa com mais de mil e quinhentos contos e eu já não podia repetir Manuel Bandeira, “perguntam-me qual o melhor conto brasileiro, para o mim é o de réis”, pois a inflação comeu várias de nossas moedas.

Bom, preparei a mesa e sob ela botei duas caixas. Quando o pretenso escritor começava a falar de lindas manhãs de domingo destinava o calhamaço ao lixo. Do contrário, quando um bom começa me animava, seguia a leitura e ia estabelecendo valores. No final, juro, estava mais extenuado que Hércules depois dos doze trabalhos. Mesmo assim foi compensador. Os textos selecionados por mim e por outro jurado, já que o terceiro não conseguiu vencer a montanha de contos, resultou num livro de boa qualidade.

 Descansei até o dia que me surgiu novo convite, também para julgar contos. Como me afiançaram que seriam poucos textos, topei. Enganei-me mais uma vez. Todos os candidatos a escritor eram funcionários de um banco e aí a coisa era feia. A maioria não sabia em que terreno estava pisando. Um carnaval dos diabos. Um verdadeiro concurso do criolo-doido. Parecia bisaco de pedinte, tinha feijão de todo cor. Fui adiante e dei os trâmites por findos reforçando a jura de não mais me meter em esparrela.

Como não consigo cumprir minhas promessas, acho que não saberei recursar um novo convite, se por ventura houver. E me meto nisso por achar importante este recurso para descobrir novos talentos. O diabo é que não sei até que ponto não vivo mesmo de destruir talentos emergentes, como o daquele poeta plagiário. Mas isso só vou resolver no Dia do Juízo.                                      


UM FANTASMA EM MINHA BIBLIOTECA

Assusta-me, quando não me deprime, uma frase: Pernambuco não tem romancistas. Alguns são menos enfáticos e dizem que não há uma tradição de romances no estado.  E logo o cidadão, geralmente um leitor de boa cepa, vai completando: o Ceará tem Rachel de Queirós, a Paraíba Zé Américo de Almeida e Zé Lins do Rego, a Bahia Jorge Amado, Alagoas Graciliano e Jorge de Lima. E eu vou ficando aqui com minha inveja, meu orgulho ferido, tendo que concordar com o opositor e guardando meus prazeres de leitor de toda essa gente.  

A culpa seria de Gilberto Freyre. Lá pelos anos de 1920 e alguma coisa, ele desembarcou no Recife com todas as pompas universitárias que podia carregar um jovem de seu tempo. Vinha do estrangeiro, das terras da América do Norte e da Inglaterra falando de sociologia, antropologia e da necessidade de vasculhar os diárias e livros de receitas e de contabilidade de sinhás e sinhozinhos. Daí desandou a encantar outros moços que se enfurnaram em arquivos de jornais e desvendaram todo um Brasil que vivia escondido nas dobras de papéis antigos.

Aí o caminho não teve mais volta. Pernambuco tornou-se berço de grandes interpretes sociais. Da verve de Gilberto veio Antonio Gonsalves de Mello com seus holandeses que contaminou o potiguar Câmara Cascudo com seu de-um-tudo que instigou o alagoano Manuel Diégues Júnior com seus banguês que, voltando pro Norte, deu fôlego a Orlando Parahym com seus índios e Josué de Castro com sua fome que atinge Leonardo Dantas Silva, outro caçador de holandês, e por aí vai até desaguar no imenso cangaceiro Frederico Pernambucano de Mello.

E nenhum escreveu ficção, afora Câmara com um romancinho miúdo, mas belíssimo, Canto de Muro, e o próprio Gilberto que na novela Dona Sinhá e seu Filho Padre bota o vetusto Joaquim Nabuco a tomar banho nu em um rio, um desaforo.

Bom, recuperado parte de meu orgulho pernambucano, peço arrego às minhas estantes. E as percorro com parcimônia. Sem querer ir muito longe, me encosto no início do Século XX. Tenho, em dois volumes, todos os romances de Mário Sette, uma espécie de parnasiano da prosa. Seu realismo namorava com as injustiças sociais, mas tudo era tímido, e sempre prevalecia o maniqueísmo estranho onde os senhores de engenho ou de sobrado, no final, eram justos e magnânimos. Seu best-seller, A Senhora de Engenho, percorreu até terras portuguesas e quando foi para o teatro ganhou uma belíssima canção, Maria Betânia, de Capiba. Depois o enredo virou até novela de televisão.

Daquela turma de 1930, temos até um representante tardio, Luís Jardim. Também desenhista, escreveu pouco, mas publicou, em 1949, o romance As Confissões de Meu Tio Gonzaga. Antes, em 1938, seu livro de contos Maria Perigosa ganhou o prêmio Humberto de Campos da editora José Olympio. Em segundo lugar ficou um mineiro que tinha escrito um livro de nome estranho, Sagarana, e se assinava por Viator. Com certo trabalho a comissão julgadora, que contava com Graciliano Ramos, descobriu que o rapaz era diplomata e se chamava mesmo João Guimarães Rosa.

Um pouco mais jovem que Luís Jardim, mas bem afinado com o povo de 1930, um moço de Caruaru, José Condé, escreveu romances e contos irmanados na sentimentalidade social, embora brincantes de todas as verves. Terra de Caruaru é uma retomada das intrigas miúdas e universais de uma cidade do interior, Vento do Amanhecer em Macambira é a intensidade lírica de uma saudade, Pensão Riso da Noite a alegria brejeira do agreste. 

Num tempo de renovações, denunciam minhas estantes, 1957, aparece um romance de peso, Os Caminhos da Solidão, escrito por um homem de teatro, Hermilo Borba Filho. Aquela aventura realista, além de revelar uma outra face – esta mais cruel – do universo do açúcar, conta ao autor que sua arte é mesmo a do romance. E ele desembesta com livros fundamentais, romances como O Sol das Almas e o experimental Agá, além da tetralogia Um Cavaleiro da Segunda Decadência, indiscutivelmente um dos mais lúcidos depoimentos sobre a primeira metade do século XX.

Hermilo, de volta ao Recife, no início dos anos de 1960, conhece um rapaz, funcionário do Banco do Brasil, que já publicara dois romances, O Visitante e O Fiel e a Pedra, além de um livro de contos, Os Gestos. Ficaram amigos e cúmplices na arte, e esse Osman Lins foi crescendo. Um dia legou à literatura brasileira dois de seus mais modernos e inquietos monumentos, o romance Avalovara e as narrativas de Nove, Novena.

Esse Osman, no romance Rainha dos Cárceres da Grécia, fez sua protagonista ir ao INPS falar com um funcionário de nome Gilvan Lemos. Pois bem, na vida real, além de atender pensionistas, esse Gilvan escreveu romances definitivos. A Lenda dos Cem, Os Pardais Estão Voltando, Espaço Terrestre. Foi escrevendo sobre o seu Emissários do Diabo que me meti neste ofício de opinar sobre a escrita alheia.

Gilvan não se meteu na fuzarca do Movimento Armorial, mas desse novo grupo leio nas lombadas expostas de minhas estantes dois nomes imensos: Maximiniano Campos e Raimundo Carrero. De Maximiniano vejo chegar o sertão brabo pelas venturas do Capitão Façanha. De Raimundo, o diálogo intenso entre a religião e o mundo profano que leio em seu Minha Alma é Irmã de Deus.

Minhas estantes são banguelas, faltam muitos dentes úteis, daí meus esquecimentos de outros tantos romancistas, mesmo assim, pelo menos por hoje, deu para exorcizar o fantasma. 


O NOME DE UM BARCO

Antonio de Campos, o poeta recifense tradutor de William Brake, deitado numa rede em São José da Coroa Grande apenas lia. E não queria saber do mundo. Alguém o chamou para ir à praia. “Vou não. Lá é só um bocado de água indo prá frente e prá traz. Não tem novidade nenhuma.”

Tem razão o poeta. O mar parece não trazer novidades a não ser no bojo dos navios, dos barcos que saem para a pesca e voltam pejados de farturas. Fui menino de temporadas na mesma São José e nos finais de tarde ia olhar as jangadas despejando peixes que, mesmo mortos, brilhavam com o resto do sol que já se perdia por traz das casas de veraneio, mas aí vinha a hora de correr para outra vela que se aproximava da areia, para próximo de outro samburá, outros peixes, outros pescadores.

Esta rotina meio infantil, meio adolescente vivida na margem de rios, na beira de mares me deu intimidade com a água e a capacidade de encontrar algo de novo em cada grão de areia. Meu olhar é sempre inaugural quando se posta sobre as amplidões oceânicas, mesmo quando elas se espelham em veios miúdos. Mergulhei no riacho dos Cachorros com o mesmo alumbramento que, diante do Amazonas infindo, no porto de Manaus, espichei a vista para buscar a outra margem que se escondia para além das águas.

A brisa que respirei na praia da Raposa, ali bem perto de São Luís do Maranhão, tem o mesmo cheiro que outra qualquer brisa praieira, mas há nela um sabor novo, talvez reflexo da paisagem, dos barcos, das palafitas, do mangue, coisas que se desenham noutros quadros de sal, sim, e até as dunas, ali chamadas de Fronhas Maranhenses, ou seja, retalhos dos Lençóis, já encontrei noutras brenhas. Mesmo assim consigo enxergar a novidade com estes meus olhos viajeiros.

Tudo é uma questão de querer o novo que ele se projeta.

A rua Principal corta Araçagy. Nos vagos erguidos entre as casas equilibradas nas bases de madeiras, homens trazem seus barcos pelos estreitos canais que se abrem no mangue. Conversam enquanto trabalham, retocam pinturas, remendam redes, tapam com piche e arte as brechas abertas pelo martelar das águas, e os cascos logo se engalanam para a faina cotidiana, repetitiva, novidadeira.

No asfalto quente de verão espremem-se ônibus, motos, bicicletas, pés e outros transportes. Tudo se move com velocidade e perigo, mas ninguém parece se comover com as possibilidades de tragédia. Homens e mulheres apenas passam, seguem naquela precária urbanidade de periferia surgida da necessidade das gentes e do esquecimento dos governos. E ainda encontra-se espaço para uma feira onde a banana se expõe ao lado aparelhos eletrônicos, coisas iguais a tantas outras coisas.

À esquerda de quem segue o caminho do mar, as rendeiras. Praticamente todas as salas foram transformadas em breves lojas de artesanatos de criatividade repetida. Redes, camisas, vestidos, saídas-de-banho, tudo isso e mais saem das mãos hábeis que dedilham os bilros e fabricam as rendas. A exposição ao ar livre, ou à sombra de varandas miúdas que não tapam o sol, é uma exuberância de cores, um arco-íris que baila no vento. E a mesma sensação de déjà vu.

Seguimos no caminho que vai dar na praia, neste caminho qualquer, enfim, cercado pela sombra magra dos coqueiros. E chegamos à praia, às suas ruas descalças, forradas pelo barro amarelo batido por incontáveis pés, incontáveis rodas. O esgoto, desurbanizado, corre livre e as casas de madeira, como suas irmãs da rua Principal, se protegem dos alagamentos com o equilíbrio saltimbanco das palafitas.

O cais de pedra está seco, as águas da maré baixa não encobrem seu piso e podemos chegar ao barco. Navegamos o salobro nascido com a chegada do Sarambi ao mar e bebemos o cheiro marinho e esquecemos o barulho monótono e regular do motor que impulsiona nossa montaria. Circulamos um banco de areia e numa enseada estreita as palafitas voltam a agredir nossa sensibilidade turística e indiferente. Voltamos a embarcação para o horizonte, para as fronhas onde os pássaros fazem ninho e algazarra. E o Sarambi ali perto, formando o mangue onde um velho pescador escora sua canoa e fuma tranquilo como se o tempo não tivesse poder de passar, ir embora, pois assim é que corre a vida do lugar, na velha repetição monótona de tantas outras praias.  

E vamos embora, vamos deixar o mar que, como dizia o poeta, não tem novidade nenhuma, mas quem vive sobre ele, ou quem, como eu, sabe de seu cheiro desde datas tão longínquas, pega manias. A minha é ler e anotar nomes de barcos. O que me levava era de nome Ana Luiza, posto que seu dono, além de capitão, era namorado, já um que cruzou por nós parecia mais desafiador: Movendo as Águas, um nome que se assemelha a título de poema épico ou livro de auto ajuda.

Quando pousamos para o almoço, no salão do restaurante uma mulher de seios fartos amamentava o filho. E aí explode o novo na banalidade da cena, explode a vida que sabe se reinventar nos breves gestos e nos aguça os olhos da novidade, as inaugurações necessárias para a ampliação de nossos sonhos e esperanças, necessária à movimentação contínua de nossas águas.

Ali bem perto fica o igarapé Nunca Mais. Olho para ele e enxergo a solidão do mar que na sua mesmice é sempre uma novidade, uma emoção que não se repete. E o Nunca Mais nos leva para outras vivências, pois o mar, meu amigo poeta, é um renovar-se perpétuo. 


ENTRE LUMINOSIDADES E ALGUMAS SOMBRAS

Chovia a cântaros. Taí um belo lugar-comum.

Não sei quem primeiro disse ou escreveu a frase, ou mesmo se tem algum autor. Creio que não e manterei minha ignorância na recusa em recorrer à internet, se é que ela poderá dar-me alguma luz. Chovia a cântaros basta por se mesmo e creio que tem um efeito mais poético e dramático que a irrealidade do chovia cães e gatos grafada pelos americanos.

O lugar-comum tem este mistério de nos ensinar o óbvio. Iniciando na burocracia estatal, com todas as pompas da ocasião, respondi um memorando com a carga ruy-barbosiana que meus ombros suportavam: Venho mui respeitosamente… Meu chefe de então se encarregou de corrigir o absurdo, pois os lugares-comuns também têm prazo de validade.

Há tempos não encontro no trânsito alguém com paciência de Jó, pois a virtude da tolerância perdeu sentido, anda sem ombros onde escorar suas necessidades.

Essa minha mania danada de sair escrevendo sem roteiro e terminar por me perder na floresta das palavras vãs. Vamos lá, preciso voltar ao centro de minhas inquietações.

Chovia a cântaros e com paciência de Jó olhava a tarde que corria como um rio ao mar. Quando despertei para o lusco-fusco da noite, já a vida fugira pela janela e o futuro batia à porta.

Pronto, consegui escrever o parágrafo parnaso-convencional com que gostaria de começar esta crônica, e isso porque ontem à tarde choveu a cântaro sobre Brasília. Durante meses o sol, com toda sua luminosidade, nos castigou a pele. Não o sol sertanejo, de claridade incandescente, como um poema de João Cabral, mas aquele que seca sem máculas aparentes e  se disfarça por trás de uma brisa morna, sem mormaço e com a beleza incendiária, de brasa viva, redesenhando todo final de tarde.

Quando o sol se foi, em meados de setembro, eu não estava na cidade. Andava mitigando o destino viajante por outros caminhos e não assisti ao festival de imprudências do trânsito. Por aqui todos sabem de uma verdade inconteste, as primeiras chuvas não lavam de todo o asfalto e este fica escorregadio, deslizante, mesmo assim quase ninguém cuida de aumentar os cuidados ao dirigir e daí o caos.

Mas a chuva chega e se instala, e logo voltamos a nos acostumar com suas bonanças de gramados imensamente verdes, cheiro de terra molhada, gosto da água deslizando pelo rosto, o cerrado revitalizado na caliandra que brota sobre a pouca cinza que insiste em macular a paisagem.

Ruas alagam, desmoronam raros barrancos, o asfalto construído sob o signo da irresponsabilidade governamental é arrancado pela fúria das águas, instalam-se dramas previsíveis nas moradas precárias e pobres. A lama invade todas as entranhas da cidade, a terra vermelha diluída nas enxurradas penetra laboratórios de pesquisas, garagens subterrâneas, lojas de conveniências, jorra dos esgotos que não a comportam e democraticamente atinge a todos.

Pluviosa a noite em que um peru com farofa domina a ceia da família, quando abrem-se garrafas de champanhe e vinho para celebrar a natividade. Também sob a chuva nasce um novo ano carregado de esperanças e renovações, e a manhã pode surgir com ausência de sombras, luminosa em sonhos e realidades.

Durante seis meses o aguaceiro cai das nuvens como dádiva e castigo.

Mas aí chega a estação da seca. Nada vem de súbito, no entanto. As nuvens se afastam suavemente, o sol se torna mais constante e logo as plantas começam a secar, o amarelado da falta de umidade ganha os gramados. A caliandra esconde sua beleza. Pelas ruas homens de terno e gravata derramam litros de suor. As mulheres não se despem da elegância obrigatória e sofrem sob as roupas bem recortadas, sobre os sapatos altos. A poeira vadeia livre pelas vilas sem asfalto nem atenção do poder público, um redemoinho se alevanta com o vento, revira a sujeira do chão, cresce como cone na direção do céu. A cidade tem a burocracia injetada na veia.    

Quando chega o domingo as piscinas e o lago recebem pessoas saudosas da chuva, queixosas da secura que tira sangue dos narizes mais sensíveis, resseca a pele, traz ardência para os olhos. Essa gente chora o fogo que come o cerrado e mata animais silvestres. À noite desenham-se ao longe arcos de incêndios no horizonte, e quando amanhece o dia as cinzas das queimadas invadem a mesa do café da manhã na tela das televisões.

No dia em que o calor vai embora, mas a água não chega, procuramos agasalhos novos e distribuímos as sobras do guarda-roupa com quem faz do relento teto. Assim consolamos o espírito solidário e saímos nas ruas queimando com claridade intensa e calor nenhum o saldo da consciência tranquila. Humanamente somos filhos do casamento entre o bem e o mal.

As fogueiras se acendem na celebração da colheita do milho, quando cultuamos santos casamenteiros e pirotécnicos. Dançamos sob um frio seco, bebendo quentões indigestos, vestindo nossos filhos com roupas supostamente rasgadas, mas felizes, sabemos que logo cairá a primeira gota e o ciclo recomeçará.

Durante seis meses a solaridade desce do céu como dádiva e castigo, enfim. 

Aqui aprendemos a conviver com os adventos do clima. Um lugar-comum, esta espera pela seca e pela umidade somente para consolidar a certeza de que viver é também saber se postar sob a chuva ou sob o sol.  


UM DIA FUI A BONITO

As viagens, com seus mistérios insondáveis, ficam nos redemoinhos da lembrança até pela desimportância, pela falta de sentido, pelo acaso que as motiva. Vamos pelo simples fato de seguir e quando nos damos conta, já o caminhar deixou suas marcas, o ferro em brasa a queimar um passo definitivo de nossa história.

Assim se deu, fui a Bonito pelo simples fato de ir. E diante de uma crônica todos os retalhos que restaram invadiram minhas lembranças. Assim se deu, enfim.

Procurando saber como vivia o Recife dos idos de 1920 catei pelos sebos e por minhas estantes depoimentos e textos que me levassem à intimidade daqueles tempos. Eram dias de grandes prélios, pelejas imensas sobre o sentido da modernidade. De um lado Joaquim Inojosa despejava na cidade todo ideário da Semana de Arte Moderna, todas as inovações nascidas no além-mar, na Europa, e do outro Gilberto Freyre afiançava que nenhuma modernidade se construía sem os alicerces da tradição, sem percorrer o chão mais rasteiro do Brasil e dali tirar os tijolos necessários à obra futura.

Pelos cafés e bondes os jovens escudados pela fartura das usinas praticavam versos livres e vasculhavam as lembranças vivas das casas senhoriais dos engenhos. Estudavam direito, medicina ou engenharia e protestavam contra o governo federal, contra o paraibano Epitácio Pessoa que proibira a exportação do açúcar nordestino pois este deveria servir para abastecer apenas o mercado interno. Para o estrangeiro somente a doçura dos canaviais paulistas, onde o café vinha perdendo força e pujança.

E a poesia ainda conseguia sentido com Joaquim Cardoso timidamente falando de sua obra para poucos, raros amigos, enquanto Ascenso Ferreira e Austro-Costa, o cronista da rua Nova, escrevia epitáfios no mármore das mesas do Café Lafaiete: “Aqui jaz Austro-Costa, / Um poeta sem segundo, / Morreu afogado em bosta, / Na pior bosta do mundo.” “Na pior bosta do mundo / Não morri, fiquei suspenso, / Pois, antes de ir ao fundo, / Peguei nos chifres de Ascenso.”   

Mas aí veio o ano da graça de 1929 e a bolsa de Nova Iorque quebrou levando os sonhos de todo o mundo à bancarrota.

E eu que somente quero falar de uma viagem a Bonito. Vamos lá, reaprumar a conversa.

Falava de livros e sebos. Pois bem, nesta busca encontrei um belíssimo volume, Crônicas da Juventude, de Barbosa Lima Sobrinho, lançado pela Bagaço em 1998. Os textos escritos entre 1919 e 1921 e originalmente publicados no Jornal do Recife, são primorosos. Falam de um tempo lúdico, mas também trazem tragédias atualíssimas: desacertos políticos, mocambos, exploração do trabalhador rural, precariedade dos transportes que levam as pessoas até Olinda. Barbosa Lima era cronista de sensibilidade e percepção agudas.

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POEMAS PARA ALAGOAS

Impossível lembrar o dia, impossível lembrar as emoções, se é que as tive. Uma certeza? Vinha nos braços de minha mãe e trazia apenas a leveza despreocupada de meus poucos meses. Foi a primeira vez que vi Alagoas e por ali fiquei na deslembrança de minha primeira infância. Coisa de três anos depois voltei para Pernambuco, mas a terra de massapê coberto de cana e o rio Camaragibe formando barrancos miúdos já me eram íntimos, tinham-se feitos como partes da argamassa que me criou.

Como a vida precisa ser vivida nos espaços que oferece aos homens, fui caminhando, tocando os dias. Vez que outra, sobretudo nos finais de ano, voltava, percorria na procissão do Bom Jesus as ruas de Matriz de Camargibe e de maneira involuntária absorvia todos os ensinamentos daquela gente marcada pelo melaço da cana e os gritos da usina. Fiz tudo que me outorgava a idade. Andei a cavalo, brinquei de finca e quando a idade permitiu conheci matadores e cantei pelos bares: “Matriz é terra boa / é meu natural. / O amor que tenho a ela / É grande e sem igual.”

A cidade tinha seus poetas, como o parnasiano Fabrício Braga, meu tio, que escrevia sonetos contando seus amores pela terra. Outros vinham da vizinhança, do Passo, como seu Nelson, um poeta de verve popular. Sempre chegava proclamando seu bordão: “Se o Passo não fosse o Passo eu não passava pelo Passo, mas como o Passo é o Passo, eu passo pelo Passo”. E nas horas de desamores por sua terra recitava: “Eita Passo do Camaragibe / Cidade triste e atrasada / Tem meia dúzia de gente / O resto não vale nada.”

Os poetas nem sempre são muito justos, pois o Passo fomentou uma das maiores culturas deste país. Foi no balcão da loja que o pai mantinha na cidade que Aurélio Buarque de Holanda ouviu pela primeira vez o termo ôxente, e saiu à cata de saber do que se tratava. Descobriu ser uma corruptela da expressão “ô gente”, e nunca mais parou de estrudar a língua portuguesa. E deu no que deu.

Posso dizer que conheço Alagoas e o quanto me dói ler o noticiário que gera. Isso já atingia o poeta Jorge de Lima. Sempre que vinham falar com ele sobre a violência de seu estado, ele, que também foi vítima de tal violência, retrucava: “As minhas Alagoas são outras”. Esta mesma frase usei muito quando há poucos anos alguns amigos falavam da corrupção que se espalhou pelo país no bojo de um governo que se dizia inovador e progressista, mas que nacionalizava práticas doentias. E pensei voltar à carga diante da recente notícia do IBGE apontando o estado como o campeão brasileiro em analfabetismo.

Verdadeiramente as minhas Alagoas são outras, como também são outras as Alagoas dos alagoanos reais. Como o Brasil definido por Machado de Assis, existe sim uma Alagoas real e uma outra oficial. E, tenham certeza, a primeira é mais vítima que responsável pela segunda. O açúcar que fundou a província, também a afundou, pois no bojo de suas ambições foram criadas todas as desigualdades que hoje maculam a terra de um dos maiores juristas brasileiros, Pontes de Miranda.

Outro dia ouvi alguém confessar o estranhamento de não conhecer nenhum benefício feito por luminares, como a doutora Nise da Silveira, às Alagoas. Isso é argumento de quem não conhece os fatos. Graciliano Ramos no relatório que enviou como prefeito de Palmeira dos Índios ao governador Álvaro Paes, em 11 de janeiro de 1930, fala desolado da instrução pública da época. “Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelam, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras. Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros.”

Mestre Graça fez mais. Depois que se tornou Diretor da Instrução Pública, uma espécie de Secretário de Educação da época, mandava as professoras estudarem novos métodos de ensino no Recife, comprava fardamento para os alunos e, uma revolução, pioneiramente instituíu a merenda escolar. Mas os roceiros não podiam se dedicar às discussões políticas e à leitura de sonetos, como logo descobriu o escritor ao ser demitido do cargo, preso e deportado para o Rio de Janeiro.

Esta prática espalhou-se pelo país. No dia 2 de abril de 1963, diante de todos os governadores do Nordeste, do presidente João Goulart e do general Castelo Branco, na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, o aluno mais velho da primeira turma formada pelo método Paulo Freire escreveu no quadro: “Há trinta anos, o dr. Getúlio veio aqui matar a nossa fome de barriga. Agora o senhor veio matar a nossa fome de cabeça”. Acabada a festa, quando todos iam embora, o general falou para o Secretário Estadual de Educação, Calazans Fernandes: “Meu jovem, você está engordando cascavéis nesses sertões”.

O resta da história já se sabe. Um ano depois, liderando um golpe militar, Castelo Branco se fez presidente e começou a esmagar as cascavéis, experiência seguida por seus sucessores. 

Assim caminha a educação deste país. Felizmente muitas experiências procuram quebrar esta desgraça, como os sarais poéticos que acontecem nas periferias de São Paulo e Brasília, onde se lê sonetos e se fala de política pública, mas a mediocridade que ainda domina Alagoas, segundo nos informa o IBGE, insiste em expulsar Graciliano Ramos de sua terra.      

Tenho esperanças e mesmo não sendo poeta, acalento o sonho de escrever versos que possam ser lidos por todos os alagoanos, por todos os alagoanos de fato.


POR QUEM GRITAM OS JOVENS?

Era jovem e estudava na vetusta Faculdade de Direito do Recife, uma das primeiras do país, nascida no mesmo ventre e hora que outra, sua irmã gêmea, esta de São Paulo, do Largo de São Francisco, mas sob o calor nordestino, que à época ainda chamava Norte, o moço absorvia lições do vernáculo germânico, com Tobias Barreto a lhe ensinar muito além do direito, a lhe tecer sobre outras tantas inquietudes humanas.
 
Era uma escola de filosofia, enfim, ou quase isso.

Como aparentemente, já naqueles idos, era impossível filosofar em português, Tobias se esmerava em carinhos por Goethe e publicava um jornal no mais perfeito alemão entre os canaviais de Escada. Não posso afiançar se havia leitores para tamanha ousadia, mas de fato tínhamos uma escola filosófica incrustada na vetusta Faculdade.
 
Hoje as enciclopédias falam de uma Geração de 1871, e ele estava lá, vendo brotar daqueles bancos toscos revolucionários que o século seguinte se encarregou de institucionalizar em placas pregadas pelas ruas do país: Silvio Romero, Clóvis Beviláqua, Joaquim Nabuco, Capistrano de Abreu, Graça Aranha. Todos foram jovens e dividiram com ele a mesma sala, se rebelaram contra os mesmos mestre e fomentaram outros saberes, sobrepujaram as meras lições dos compêndios jurídicos. Desobedeciam, a ordem natural para falar de novidades: sociologia, antropologia, literatura, estética, socialismo, halos de marxismos.

O homem brasileiro era o melhor da humanidade, carregava em si todas as vertentes possíveis do humanismo, a mestiçagem vingaria, gritavam contestando o arianismo do embaixador Oliveira Lima, que nasceu sim naquele período, em 1867, sob aquele mesmo céu, mas que negava também com arte a mania de misturar todos os sentimentos num único homem, isso já nos tempos em que conseguiu estofo para se dar voz própria e correr outras terras e ver outros mundos. 

No meio da ebulição, o estudante viu os amigos partirem para outros futuros nos antigos navios que aportaram no cais e se fizeram breves como qualquer outra embarcação. Fechava um ciclo, vinte anos transcorridos entre os longes de 1860 e 1880. Logo viria a abolição da escravatura, uma república pautada no positivismo e no evolucionismo pescados nas aulas de antanho e os amigos a construírem a história.
 
Ele ficou alisando os mesmos bancos.

Não chegou a receber como calouro um moço de nome Gilberto Freyre, que foi estudar no estrangeiro, mas nas leituras cotidianas do Diário de Pernambuco percebeu matreiro de onde vinha toda força de um pensamento novo rebentado no ano de 1933, Casa-Grande e Senzala a consagrar o pensamento moderno. E ele não saía da escola e seguia para São Paulo, no ano anterior ao feito do conterrâneo, para gritar por uma nova república, de metralha na mão a exigir uma nova Constituição.
 
São Paulo não venceu, ao contrário do que acreditou e escreveu um alagoano de pouco poder de análise, o jornalista Arnon de Mello, mesmo assim floresceu um novo sonho de liberdade. E ele estava lá, ainda estudante, a consagrar os pracinhas que voltavam da Itália trazendo na bagagem as dores da guerra e o espírito da liberdade.
 
O ditador abriu os cárceres e se refugiou nos pampas imensos. Até voltou à cena, mas o mundo tinha mudado com a força da juventude que nunca deixou as ruas. Ele estava lá, poucos anos antes, a marchar aberto ao novo, elegendo representantes na Assembléia Nacional Constituinte – Jorge Amado, Gilberto Freyre, Gregório Bezerra –, reverenciando todas as horas do passado.
 
Há um tempo em que parece se fechar todas as portas da bonança e a tempestade se arma como sede a devorar os sonhos.
Assim se deu.
 
A década de 1960 começou como continuação do novo. Ele, lápis e caderno na mão, defendeu uma onda renovadora a varrer toda a sujeira do país. Venceu, mas não ganhou a prenda. Não foi preciso sequer nove meses para que a escuridão voltasse na forma de reviravoltas incontáveis.
 
Novamente estava nas ruas, a enfrentar cavalos e tropas. Quando tudo parecia se encaminhar para a legalidade, golpes e rebeliões ditaram as normas do dia e novamente o caos, o terror, o fim de todos os diálogos. Estudante que aprendeu a maturar seus desejos, voltou para as ruas, mas estas já não ofereciam a resposta necessária aquelas dores. Esgueirou-se nas sombras.
 
Durante dias infindos caminhou pelas matas, instigou um povo bronco que não correspondeu às pregações que gritava aos ventos. E ele lá, escrevendo outras páginas, aprendendo outras lições. A vida não se constrói sobre escombros. Foi preso e torturado. Exilou-se onde pôde, bebeu águas de rios longínquos, mas voltou para pedir democracia e o direito de escolher seu presidente, afinal nunca deixou de ser um estudante do Brasil. E quando lhe deram o direito da escolha, a maioria fez a opção quer lhe coube. E diante do erro pintou a cara e novamente foi estudar na alma comum das ruas.
 
Os anos seguiram.

Um dia entrou na Universidade de Brasília, sua nova casa, e já não viu entrar pela janela aquelas falas do saber. A indolência e a passividade o macularam. Um grupo partia para a luta na defesa de índio neófitos sem tradição nem respeito. Esta já não era sua luta. Em São Paulo outros jovens como ele invadiram uma reitoria para uma luta sem grandezas. Não buscam mudar o mundo nem a vida, nem mesmo o próprio quintal. Queriam o direito de nada aprender e tudo ter sob a chancela do perdão.

Desiludido sentiu o mundo mudado, não necessariamente para melhor.      
 
Guardou livros e cadernos.

Não concluiu curso nenhum. Estava cansado de uma luta que já não lhe dizia sentidos. Aprendeu de tudo na longa vida que lhe permitiram viver. Desiludido, descansou, enfim. 


NÉVOA POÉTICA SOBRE A ACADEMIA

Os do Norte chegaram arrastando seus sonhos. E o Norte era longe, improvável. Traziam também na bagagem vastas emoções, culturas. Pela estrada cumprida – no mar ou na terra – corriam tantas vidas, tantas paisagens, tantas cores que preenchiam as retinas mais amplas e abertas. E com suas cargas entranhadas na pele, os do Norte espalharam-se por todas as partes.

Um deles, de nome Nabuco, Joaquim Nabuco, falava de noites escurecidas pela opressão onde a resistência fazia nascer desejos libertários. Pelas pregações que fazia, o negro Tobias que esfaqueara de morte o patrão num engenho de Pernambuco não matara um homem, mas séculos de humilhação e dor. Foi contra os incontáveis lanhos abertos nas costas de seus pares que investiu o pobre escravo. Depois da abolição, ainda prenhe de ideário renovador, o agora maduro jurista sofreu por não ver realizado o projeto de inclusão social que sonhou para os deserdados da sorte e se voltou para seus escritos e sistematizou uma academia para abrigar as letras do Brasil. Hoje perpetua-se, com gingado de dândi, na calçada da instituição.

Ao seu lado, sentado numa escrivaninha, tentando arrancar alguma poesia da rigidez do bronze que lhe segura sempre na mesma posição, outro do Norte, Manuel, de sobrenome Bandeira. Este nunca conseguiu chegar em Pasárgada, no entanto escreveu passos líricos em quilômetros incontáveis de terras espalhadas por todos os continentes. Semeou versos em cada palmo desse chão, seduziu a todos com as belezas de sua criação. Sua voz de tísico, de homem com pulmões capazes de tocar tangos argentinos se ouviu alta, em palavras fortes e indissolúveis. Se fez herói trabalhando somento verbos e sentimentos: “Não faço versos de guerra, não faço porque não sei, mas num torpedo suicida darei de bom grado a vida na luta que não lutei.”

Por tudo isso está ali, na calçada de um edifício alto, de muitos andares, com incrição no pilar principal: Palácio Austregésilo de Athayde. Este também era nortista. Foi numa conversa com Rachel de Queiroz, também filha da terrinha, que o assunto surgiu: “Você precisa ouvir o Athayde. Ele tem mais de 90 anos e uma lucidez invejável. É da raça cearense.” “Dona Rachel, ele estudou no seminário de Fortaleza, mas é pernambucano de Caruaru…” “Meu filho, quando o menino é bonito todo mundo quer ser o pai.”  Athayde não era necessariamente um homem bonito, portava mesmo uma feiúra danada, mas as palavras saiam com facilidade e explendor de sua imaginação. Em essência foi cronista, homem de jornal, conhecedor dos rigores da linguagem e sua necessidade na defesa dos direitos naturais do bicho humano.    

Hoje se caminha pelos espaços desses edifícios – o palácio propriamente dito e o menor, o mais clássico, o dito Petit Trianon – respirando os prazeres da cultura. Quem preferir pode subir outros andares, onde se cuida de negócias que sustentam numerários, de minha parte vadio olhando livros, reedições bem cuidadas de obras raras e fundamentais – João do Rio no cinema, cartas de Machado de Assis. A língua portuguesa, essa nossa pátria tão judiada, ouvidada, precisa de defesas, imunidades que mantenham suas particularidades, suas características seminais. Penso nisso ao cumprimentar o gramático Bechara, outro do Norte. E sigo sem saber bem o que fazer.  

Como peixe-agulha encantado com a luz de lanternas, pulo em outro barco chamado por um cartaz imenso – Presença Poética do Recife / Exposição Sobre o Centenário de Mauro Mota. Desculpe a fraqueza desta memória, meu poeta, mas seu nome estava escondido numa prateleira mais alta de minha cabeça e há muito que não esticava o braço até lá. É também que este país, esta máquina de moer talentos é tão eficiente em sua faina cruel que as vezes nos entregamos ao sentimento ruim e em tempos mais eufóricos esquecemos os primores de ontem. Coisas do bicho humano, você sabe.  

O certo é que passei por um passado que me parecia distante, imemorial, sem lembrar que era parte primordial de meu âmago. O Recife, os canaviais, os engenhos. Tudo isso que foi seu desfilava sob meus olhos de saudade. Livros, poemas, análises de sabor sociológico, o fabrico de uma cabeça inquieta que ousou pensar Pernambuco como pedaço do Nordeste, mas também por isso, síntese do vasto mundo. Daí o carinho pelas tecelãs, pelas moças assustadas com os tiros da guerra e encantadas com a beleza nova de homens vindos de outros Nortes. E a vida em família, entre filhos e amigos. A beleza de Hermantine, a que tinha mãos feitas para construir destinos. O primitivismo artístico brotado das telas de Marly, a de mãos feitas para expressar o belo. Um cochicho com Gilberto Freyre. Um abraço em  Chacrinha, o bonachão nortista Abelardo que veio saber de sua glória chegando à Academia. Muitas lembranças, meu velho.

Tudo se transmuta, quando preciso, em poesia. As estantes centenárias da biblioteca me mostram Ferreira Gullar, também do Norte, pedindo a Bandeira que leia seu livro de estréia, Um Pouco Acima do Chão. No mesmo patamar, um volume magro com poemas de Ascenço Ferreira traz dedicatória fraterna ao mesmo Bandeira. É tanta vida a se olhar, moço, que sigo carregando o orgulho de também ter vindo do Norte e puder juntar as forças de um talento miúdo para falar de esferas infindas.  

Penso no tanto que Pernambuco, bicho atrevido que gosta de falar para o mundo, plantou neste solo fértil. E sento para ouvir Carlos Fuentes falar de outros mundos. O México rebelado, Pedro Páramo, gente que conversa com fantasmas, as possibilidades infindas da literatura.

O mundo é grande e não tem porteiras. E as academias quando querem sabem encontrar os caminhos da atividade, do saber e da grandeza.                      


LIÇÕES DA ARQUITETURA

Parece estranho, mas quando cheguei em São Luís do Maranhão a sensação era a mesma de quando entrei no Juazeiro do Norte. As duas cidades se mostram quase como reflexos de um mesmo espelho: os prédios imensos em desenhos modernos, geométricos, a ausência das casas modestas, os terrenos vazios de habitações tomados pelo capim, os muros claros que escondem moradas retilíneas, as avenidas largas na aparência apinhadas de automóveis, o barulho, a sujeira.

Eu já vira esta mesma cidade em outros lugares e não posso falar de espanto, apenas de tédio.

Em Caldas Novas, uma urbezinha de banhos terapêuticos fincada no interior de Goiás, ela está nos bairros circulares e que aos poucos estão invadindo o centro antes histórico. No Recife o espelho é Boa Viagem que na década de 1920 foi mostrada ao mundo como símbolo de progresso pelo governador SérgioLoreto. Ele abriu a avenida e fez o bonde correr até onde havia umas casinhas de pescadores cobertas de palha e erguidas com barro, mas logo vieram as casas-de-banho e na seqüência os veranistas e suas moradas de pouco pouso e logo as residências fixas e os edifícios e as avenidas aparentemente largas.

Em Salvador vejo que não é mais possível enxergar Clarice nas águas de Amaralina, como um dia viu o poeta Caetano Veloso. A inocência da moça que nunca mostrou-se a ninguém, que vivia entre os meninos e os peixes foi violado pelo barulho urgente das avenidas, dos edifícios. Eles, os edifícios, logo de saída encantam, desafiam a imaginação: que visão do mundo oferecem? Que conforto proporcionam? Como se mora em seus espaços?  A curiosidade, no entanto, se esvai nas brumas do cansaço e “eu olho com olhos lassos, há nos meus olhos ironias e cansaços e cruzo os braços e nunca vou por aí”, como o poeta José Régio.

Assim fiz em Rio Branco, a mítica capital do estado amazônico, o Acre de tantas lendas, tantos temores, onde se ia para enfrentar o mais inóspito dos mundos, aquele marcado por índios e malárias, cobras, onças e puraquês, tudo na busca do ouro que escorria das seringueiras. Quando a conheci a cidade já estava domesticada, mas ainda era feia, escura, com uma lama rala, e para mim eterna, a entranhar-se sob nossos calçados. Era ainda possível encontrar as casas de varandas generosas erguidas com madeiras da região e alicerçada sobre garrafas cheias de barro. Isso mesmo, todo mundo sabe que no Acre não tem pedra e para suprir esta carência o governador Galvez ordenou que nas garrafas esvaziadas nas farras se pusessem barro e ali estava uma base sólida para as construções, um princípio da indústria da reciclagem. Mas logo logo chegaram os edifícios, as avenidas derrubando o madeirame, soterrando em definitivo as garrafas.         

Minha ingenuidade não traz a capacidade de ignorar a inevitabilidade do progresso, do desenvolvimento, mas meu medo se instala quando o vejo matar as tradições, as belezas de outros tempos. Em Salvador, depois de Amaralina, é possível chegar ao Pelourinho que, embora agredido, é quase o mesmo espaço onde vadiou Vadinho e Pedro Arcanjo nos romances de Jorge Amado. Para além de Boa Viagem está o Recife Antigo com seus sobrados estreitos, com a Torre Malakoff reverberando os medos de Ascenso Ferreira que em tempos idos cantava de seu caminhar  “sozinho de noite nas ruas desertas do velho Recife que atrás do arruado moderno ficou.” Assim, o desenvolvimento pode preservar o arruado, às meiáguas do Juazeiro, os azulejos portugueses que estão despencando junto com os sobrados de São Luís, as casas assobradadas de madeira de Rio Branco.

Acho que tudo começou em meados da década de 1950. Num comício de abertura da campanha presidencial numa cidadezinha de Goiás o candidato Juscelino assumiu o compromisso de construir Brasília e se elegeu e reuniu os amigos e se danou a trabalhar. Criou-se o conceito de arquitetura moderna que invadiu a ainda provinciana Goiânia, que foi ganhando corpo pelo país, que abriu avenidas supostamente largas e ergueu edifícios imensos em todos os cantos.

O arquiteto Oscar, o criador, ou pelo menos o instigador de tudo isso fala da necessidade que tem a arquitetura de espantar, surpreender quem a enxerga, e daí a monumentalidade de suas criações. Alguns geniais: a catedral de Brasília, o Museu de Niterói. Há inclusive uma histórica discussão entre ele e o ministro do Exército que exigiu para o quartel de Brasília uma arquitetura nos moldes tradicionais. O arquiteto foi peremptório: “General, quando o senhor vai à guerra prefere armas tradicionais ou modernas?” No entanto a residência que construiu para si na nova cidade foi toda inspirada nas antigas casas de engenho, na estética das cidades mineiras do ciclo do ouro.

A arquitetura é para surpreender sobretudo quem espera o óbvio, aliás como deve ser a vida. 

É pensando na vida que penso as cidades como organismos vivos. Elas se movem, arqueam, modulam-se às novas estéticas e às necessidades dos homens, principal motivo para a existênbcia de uma urbe, de uma civilização. E neste jogo o passado e todos os seus predicados trazem o sentido de pertencimento.

Sou o que sou porque soube olhar o caminho natural do rio Una que ainda passa na aldeia de minha infância. Na adolescência palmilhei as ruas decadentes da Boa Vista, a solidão da Ilha do Leite, o barulho intenso do Pátio de São Pedro. Quando pensei em amadurecer me acolheu a aridez do Planalto Central, suas avenidas largas, os edifício retilíneos que se postam como guardiões de toda beleza singela do colonial que lhe cerca, a arquitetura erguida por antigos bandeirantes, homens que corriam pela precisão do ouro.

Pertenço a todos estes caminhos e por isso sou  contraditório e humano, como as cidades. 


PANOS PODRES

Uma prática muito antiga. Pero Vaz de Caminha, primeiro cronista das terras do Brasil, e seus companheiros presentearam os índios da costa da Bahia, quando ainda não existia a Bahia, com carapuças e panos capazes de cobrir-lhes as vergonhas. E os aborígenes em festa descobriram novas estéticas e ambições.

Quando o Brasil estava já com mais de quatrocentos anos, nos idos de 1943, o médico Noel Nutels juntou-se aos irmãos Villas-Boas, e rasgaram os sertões centrais na expedição Roncador-Xingu. Em Goiás encontraram a expansão do mundo. Aquele universo conquistado na ambição do ouro, durante mais de um século, depois que secaram os veios, viveu ao vento, na solidão da pata do gado. O novo, que em todas as épocas nos espreita na esquina, chegou encoberto pelo discurso da fronteira agrícola. Matas inóspitas de cerrado vieram abaixo na rapidez dos tratores e dos arados mecânicos.

E eles estavam lá, os índios, sob as matas que se derrubavam. Eram muitos e impediam o desmatamento, atravancando o que seus opositores chamavam de desenvolvimento, progresso. Todas aquelas máquinas poderosas eram símbolos do futuro de fartura e não tinham tempo para discutir questões menores, como a preservação de culturas arcaicas. Mesmo assim, generosos, os brancos se dispuseram ao diálogo.

Antes, no entanto, se fazia necessária uma aproximação. E mandaram vir do Rio de Janeiro roupas capazes de encobrir as vergonhas daquela gente que em quase quinhentos anos de convívio com a civilização ainda não aprendera a se vestir. As vestes foram distribuídas e subitamente levas de índios danaram-se a morrer. Uma peste, talvez mandada por deuses etéreos, dizimava aqueles povos e abria caminho para largas plantações.

Noel Nutels, na sabedoria de sua ciência médica, alertou que os índios, na verdade, estavam sendo assassinados. As roupas generosamente distribuídas vinham do lixo de hospitais cariocas e estavam infestadas com vírus de varíola. E sem imunidades nem vacinas, os aborígenes se tornaram vítimas fáceis e doentes fatais.

Anos depois, num auditório repleto de estudantes, numa universidade dos Estados Unidos, Moacyr Scliar, lançando a tradução de seu romance A Majestade no Xingu, inspirado na vida de Nutels, contou essa mesma história. Súbito percebeu que uma moça da platéia chorava copiosamente. Pensou que ela tinha se penalizado com o drama brasileiro e, terminada a palestra, foi cumprimentá-la. E chocado recebeu a informação: “Foi desta mesma maneira que, no século passado, os brancos dizimaram a aldeia de minha gente, aqui mesmo nos Estado Unidos.”

A maldade humana, braços dados com a ambição, cria recorrências terríveis.

Agora mesmo, descobriu-se, o lixo hospitalar americano desembarca no porto de Suape. Vai para o pólo de confecções do Agreste, infesta Toritama, Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe e ganha ares de roupas e lençóis. Tudo traficado por uma empresa que se autodenomina Rei dos Bolsos.

Entregue à irracionalidade, o desgraçado que se diz empresário tem as mesmas culpas que os brancos americanos e brasileiros. Todos eles ofertaram, e ainda ofertam, esperanças e sonhos empacotados por riscos fatais, e, pelo pouco que sei de justiça, isso é mais que um crime, posto que circula na esfera da crueldade, da sordidez.

Há um genocídio econômico em curso, tomando as terras do Agreste de Pernambuco. O polo de confecções redesenhou a planta da região. O gado fundador que vinha dos engenhos continua enfeitando a paisagem, mas sua onipresença se divide com as tecelagens, os galpões de costura, as lavanderias. Aliás, ingênuo que sou, sempre pensei que tais lavanderias tinham funções nobres. Somente agora sei que, possivelmente, elas estejam envolvidas numa desgraçada cadeia que ameaça matar vidas e esperanças.

É catastrófico pensar na morte do projeto que baixou a zero o índice de desemprego em todas as cidades da região. As roupas fabricadas por lá espalhavam-se pelo mundo na caçamba de caminhões que antes serviam de pau-de-arara. Os matutos em festa descobriram novas estéticas e ambições. E, como preconizou Luiz Gonzaga Júnior, na voz do pai, “calça de couro, alvorada e brim deram seu lugar pra tal de calça Lee.”

Ainda é impossível calcular o prejuízo provocado pela irresponsabilidade de um maluco, mas ele com certeza virá, ou melhor, já veio. Vi pela televisão um senhor dizer que estava jogando fora a calça nova que trazia no bolso marcas de hospitais americanos.      

Talvez seja preciso apelar para aquele ancestral do poeta Ascenso Ferreira que, no Brejo da Madre de Deus, depois que tomava da branquinha, erguia para o céu uma espada de muitos metros e gritava para os vivos e para os bois: “Quem não acreditar em Nosso Senhor Jesus Cristo que apareça.”

E nem mesmo original este certo Rei dos Bolsos é, pois rei dos bolsos mesmo era o Mestre Biu, alfaiate com banca em Palmares e pai do poeta Juarez Correia. Um dia ele levou para meu tio Paulo, dentista da cidade, um terno que tinha confeccionado. Tio Paulo provou e aprovou a roupa, mas quando enfiou a mão no bolso da calça tocou no joelho.

- Biu, que pôrra de bolso fundo é esse.

- Doutor, o senhor tem muito dinheiro e precisa de muito bolso para carregar. 

Mestre Biu sabia das coisas da vida e torço para que esteja rezando na intenção de que a justiça, pelo menos desta vez, nos chegue ampla e urgente.                       


AINDA NO MUNDO DAS IMAGENS, DAS IMAGINAÇÕES

Volto ao assunto perplexo com a cena que, pela televisão, invadiu minha manhã de quinta-feira. E desculpem se ainda guardo a capacidade do espanto, de ser tomado por surpresas.

Na praça Tiradentes, Rio de Janeiro, antigo celeiro dos teatros de revista, nas proximidades de todo sonho mourisco do Real Gabinete Português de Leitura, explode o restaurante Filé Carioca. Durante o feriado do dia anterior vazou o gás de cozinha do estabelecimento e uma faísca qualquer promoveu a tragédia registrada pelas câmeras de monitoramento de trânsito da prefeitura. As imagens mostram dois homens conversando na calçada, o chef de cozinha Severino Antonio e o sushiman Josimar. Um outro, o bancário Matheus, de 19 anos, caminha. Foram as três vítimas fatais da explosão repentina. Numa trágica repetição dos roteiros dos filmes de Hollywood, dois dos corpos caíram a setenta metros do local, o outro ficou a cinquenta metros.

E todo aquele barulho de entulhos, de poeira crescendo, de dores gestadas na placidez de uma manhã que poderia ser normal, somente engordou nosso repertório de fatalidades cotidianas.     

Somos hoje testemunhas oculares de todas as tragédias do mundo. Diariamente entram em nossas casas os famintos da Etiópia, os mutilados do Oriente Médio, as vítimas das balas perdidas cariocas, as vítimas dos seqüestros relâmpagos de Brasília, os agredidos da avenida Paulista, e nada nos comove. Endurecemos na prática de ligarmos a televisão para ver as notícias enquanto jantamos. Mas logo chegam as novelas e continuamos inertes diante de uma galeria de maldades, de apologia ao mau-caratismos, de exaltação a regras modais que maculam nossa cultura mais íntima.

Se no sertão, meu caro Riobaldo, “viver é arriscoso”, como será que sobrevivemos nas cidades?

Há muito já não temos ilusões. Eu mesmo era adolescente quando, de minha janela, assisti a minha primeira imagem impactante. Um barulho de explosão e uma bola de fogo a tomar o céu de Palmares. Creio que já vira no cinema imagens de Hiroshima sendo arrasada, mas para mim  aquilo era muito pior, pois se desenhava na minha frente. Pouco depois do pino do meio-dia, barracas de fogos de artíficios explodiam pela irresponsabilidade de alguém que resolveu fumar por perto. Àquela hora, por sorte, o comércio local todo estava fechado e houve apenas uma vítima fatal, Maurício, um rapaz que morava na mesma praça que eu. Contava-se que ele conseguiu resgatar uma menina que estava próxima às barracas, mas ainda voltou para buscar a boneca que, na correria, ela deixou cair. Não teve tempo para se salvar.

O fato serviu de assunto para as conversas da cidade durante meses.

Eu, que me preparava para ir ao colégio, ingenuamente, achando que vivia ainda na normalidade, segui a rotina. Vesti a farda e fui em frente. Tudo na cidade era perplexidade, susto, choro. Cristina, uma colega de colégio, ainda pediu para que eu voltasse para casa. Munido de heroísmo infantil, não obedeci. Também não percebi que todas as contabilidades eram de perdas. Além da vida de Maurício, a maior delas, incontáveis vidraças estilhaçadas, vários prédios atingidos, pessoas machucadas e todo o mercadinho Itamarati consumido pelo fogo. Uma comoção municipal, que mereceu destaque nos jornais nacionais.

Olho sobre minha mesa o folheto Os Prejuízos: Em Palmares Causados por Explosão de 5 Baracas de Fogos, por Incêndio, Causando Distúrbios e Acidentes escrito pelo nosso poeta-cordelista Antonio Caetano de Souza. O tempo felizmente não me carregou parte das obras de seu Caetano, como me levou a classificação da literatura de cordel feita pelo competente Liêdo Maranhão que o aponta como único representante dos cordelista de “fatos das eras”, que em livre tradução pode ser lido como cordeis milenaristas.

O leitor que me perdoe, mas não posso continuar a crônica. É impossível resistir ao apelo de um folheto que pede para ser lido.

Pronto, feita minha leitura, volto ao ofício.

Em seu linguajar tosco e livre, seu Caetano descreve aquele horror miúdo diante dos horrores de agora como a ressurreição de uma guerra: “Por que a 7 de maio / num dia 2a feira / as 12 horas, do mesmo / foi horrível a bagaceira / com os fogos, se queimando / gente caia, de esteira. // Quando começou os tiros / eu pensava que era guerra / porque era cada tiro / que estremecia a terra / gente dizia: u’a a outra / tudo agora se suterra.” E ainda credita tudo ao castigo de Deus pelos “fatos das eras”: “Castigo só vem assim / quando ninguém não espera / mas, vamos implorar a Deus / que é de castigo esta era.”

Não me considero tão versado nas escrituras sagradas para formar opinião classificando a loucura de nossos tempos como obra de um Deus impiedoso e justo. Incêndios, desastres, tragédias estão narrados ao longo de toda história da humanidade e talvez Deus já tivesse compreendido que não é o castigo que corrige os homens. Todo mal parece vir mesmo deles, dos homens, de suas ações norteadas por ambições, medos e preconceitos.

O problema é que a dimensão de tudo isso chega cada vez mais rápido e em abundância em nossa casa. E talvez aí a gente comece a compreender que o conserto do mundo está ao alcance de nossos atos.  

Sim, tenho esperança, embora as vezes até mesmo ela peça trégua. É que a tragédia de Palmares teve um prejuízo de ordem gramatical. Meses de depois, amparado pelo seguro, o mercadinho Itamarati voltou a funcional. E a exibir um luminoso: O Itamarati é Fôgo Meu Chapa. Assim mesmo, com acento e desvirgulado. Errinhos desgraçados que ainda teimamos em cometer.                        


O MUNDO DAS IMAGENS, DA IMAGINAÇÃO

Chamava-se Macaxeira. Era um preto retinto de muita idade, com os cabelos embranquecendo. De profissão, engraxate, e tinha banca estabelecida na calçada da farmácia de meu avô, em Catende, isso no tempo em que eu ainda conhecia a cidade e chamava as pessoas pelo próprio nome.

Há muito não vou ao burgo açucareiro, como diziam os bardos de antanho, e já não sei as cores de suas ruas, nem os sonhos de seus habitantes. Também não sei de Macaxeira, embora acredite que sua vida não seja sequer uma lembrança no pátio da feira, na calçada da antiga farmácia. Esvaneceu-se, com certeza, mas sua imagem é viva em minha memória. Lembro até de sua risada e suas descrenças.

Uma de suas incredulidades o fazia contestar a chegada do mundo à lua. Por mais que se argumentasse, Macaxeira sempre tinha um conta-argumento infalível, coroado com sua risada honesta e liberta. Minha avó tomou para si a missão de convencê-lo do feito dos astronautas americanos.

- Macaxeira, como pode você não acreditar na ida do homem à lua? Você não viu as imagens na televisão?

- Muito me admira a senhora, dona Bibi, tão instruída que é e não conhecer os truques do cinema americano.

Tinha razão o velho engraxate. Os truques do cinema americano não são para amadores. Ali na cadeira relativamente confortável do Cine-Teatro Diamante assistíamos proezas inomináveis, revólveres que nunca descarregavam, chapéus que nunca saíam da cabeça dos heróis, índios que saltavam dos prédios, caíam sobre os cavalos e íam galopando tranquilamente sem sequer machucar os ovos. Talvez por ter vivido sempre em Catende, sob a sombra generosa da usina – quando ela ainda podia dar sombra a seus funcionários –, Macaxeira não entendesse que a realidade estivesse reservada de surpresas.

Assisti muitos dramas catastróficos com torres se tornando verdadeiros infernos, tubarões invadindo as areias de praias cálidas e ratos tramando vinganças contra seus opressores, os homens, mas nenhum roteirista de Hollywood conseguiu imaginar dois aviões de carreira destruindo edifícios em Nova Iorque. O 11 de Setembro foi a verdade histórica superando a imaginação mais catastrófica possível.

O fato mudou o curso natural dos acontecimentos e redirecionou o mundo geopolítico. De repente, agredido em sua própria face, os Estados Unidos se tornaram vítima do arcaísmo. Eram os bárbaros hodiernos invadindo o império da democracia, quando uma semana antes o vilão se escondia sob a mesa de trabalho de George W. Bush e maquinava intervenções imperiais.

Ingenuamente, na passagem de um ano-novo, comemorei, talvez solitário, uma vitória. O planeta estava livre do pesadelo preconizado por George Orwell. Chegávamos ao ano da Graça do Senhor de 1985 e todo aquele clima de terror, com câmeras escondidas em cada residência que aprendi a temer desde quando, adolescente ainda, li o romance 1984 não chegara a se concretizar. Podíamos respirar felizes e tranqüilos.

O escritor inglês somente errou de data, aliás, ele não teve qualquer compromisso com isso. Nomeou seu romance de 1984 apenas porque o escreveu em 1948 e somente inverteu os últimos números da data. Também não foi culpa dele ter o nome de seu grande vilão, Big Brother, usado como denominação de uma desses programas indigestos de televisão. Responsabilidade mesmo teve em deixar todos seus leitores apreensivos com a possibilidade de dois países opressores dominarem o cotidiano e a história. E, resguardadas as proporções, este tempo é hoje.

Vivemos um maniqueísta mundo de imagens e as câmeras nos encontram nos lugares mais inusitados. Aliás, não foi em nenhum filme americano com seus inimagináveis truques que tomei conhecimento do fato. No Rio de Janeiro um homem foi morto por uma bala perdida. Estava em um circo acompanhado por uma namorada que logo fugiu. A mulher foi localizada por uma foto tirada por um desses fotógrafos clica tudo quanto é membro do respeitável público. E a história real surgiu. O homem era casado e há mais de vinte anos mantinha um caso com a mulher, também casada. Uma bomba tragicamente risível.

Diariamente, desafiando nossa parca imaginação, a realidade flagrada por câmeras escondidas nos assombra. O próprio 11 de Setembro não seria hoje tão simbólico não fossem as imagens de todos os ângulos possíveis que se repetiram, e ainda se repetem, incansavelmente em todas as televisões. Aquilo fomentou nossas indignações. E agora, quando se reconstroem novas torres no local, milhões de turistas passeiam comovidos e admirados pelo sítio. Entram na igreja de São Paulo, circulam pelo cemitério secular e exaltam a força e a perseverança da grande nação americana.

O império está em crise, mas o que isso importa? Nossos heróis ainda são os vaqueiros indômitos que vimos nas telas, os galantes cantores-dançarinos que, acompanhados de louras fabulosas, circulavam por metrópoles impecavelmente assépticas, soldados que venciam todas as batalhas. Aliás, sempre me intrigou um fato. Os livros de história e as reportagens da imprensa me garantiram que os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, mas o cinema com seus truques me diz exatamente o contrário. Em quem acreditar? No mundo das imagens ou no mundo da imaginação?             

Volto a pensar em Macaxeira. Onde estaria ele na manhã de 11 de setembro de 2001? O que pensaria diante das Torres-Gêmeas desabando? Certamente votaria a desafiar minha avó: “Dona Bibi, eu não lhe falei? Esses americanos não são brinquedo não.” E teria todo direito de rir honestamente livre.
                    


UM YUPPIE NO JUAZEIRO

O tempo traz em si a capacidade de reviver-se, redesenhar-se em recorrências. Os homens e as mulheres mudam as roupas, as modas, mas guardam os mesmos sentimentos de ambição e sucesso. Desta maneira uma crônica escrita no início do século XX falaria de outras modernidades, ousaria outros termos, embora se recheasse com as mesmas surpresas.

Um dândi e uma melindrosa elegantemente trajados em terno, colete, relógio de bolso, charuto e monóculo, ele; cabelo a la garçon, vestido de seda com generoso decote e pequeno chapéu de feltro, colar de pérolas, cigarro com piteira, ela. Conversam sobre os encantos da França. Não falam de negócios, das perspectivas das indústrias se instalando num prenúncio de metrópole, nem sequer sabem da labuta fabril dos quintais. Tudo naqueles tempos tinha o senso da frivolidade. Uma vida passada na ponta do charuto, no enleio do licor.

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguravam cruzes enquanto rezavam pela salvação do mundo. Pediam aos santos que acabassem o martírio da quinze.

Sessenta anos depois tudo seria bossa nova, terno Clube Um, tergal imune ao amassado, um vestido tubinho, um misto de descontração e sobriedade, e as falas a dizer de Carnegie Hall, as luzes de Nova York, um jazz na vitrola, um cigarro com filtro, um uísque com gelo. Negócios se resolviam pelos homens práticos, os que estavam por fora e deixavam que a vida passasse pelas quatro paredes de um escritório de uma avenida paulista.

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguravam cruzes enquanto rezavam pela salvação do mundo. Pediam aos santos que dessem paz aos homens do país, evolvidos que estavam numa luta fratricida.

O calendário corre mais cinqüenta anos e estamos no século XXI. Num café da manhã de um hotel o casal ignora o cuscuz com leite e carne de sol e se apega ao queijo diet com presunto de peru, torradas e café com leite desnatado. O paletó azul escuro cobre a camisa de discretas listas, posta por dentro da calça bege. Ela veste terninho preto descontraidamente jogado sobre o vestido creme que deixa mostrar as coxas grossas, os pés vestidos num sapato de couro sintético de cobra. No decote amplo se destaca a gargantilha discreta. Falam de Orlando e compras em Miami, contam de negócios mirabolantes fechados em reuniões desprovidas de tensões, construções de barragens em terras que desconhecem. Não bebem nem fuma, são apenas lindos e estão vivos. 

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguram cruzes enquanto rezam pela salvação do mundo. Pedem aos santos que dêem serenidade aos homens.
O mundo nasce nos contrastes, nas afrontas, nos confrontos. E a civilização se pauta como um aterro que encobre o ontem sem, no entanto, conseguir matá-lo. É este ontem que nos apressa os passos e, quanto mais marchamos, mais nossos pés recuam numa necessidade infinda de visitarmos nossa natureza íntima.

Estranha é a vida, amigo. Erguer o futuro é construção somente possível com o uso da argamassa de antanho, pois vestidos de ternos bem cortados somos o espelho do homem de fraque, um espelho dos que vestiram peles de animais abatidos com paus e pedras.    

Todas as épocas conduzem em seu âmago o censo da renovação e nem sempre o mais novo é o melhor para o presente. O glamour se reinventa em cada esquina do tempo, promove modas e modos, mas se veste freqüentemente com velhos cheiros, velhas cores. Seu sentido é conceituar novos enfeites, outros perfumes, mas em tudo carrega o peso do passado.     

Descendo as ruas de Juazeiro do Norte uma multidão caminha carregando o peso de suas crenças e verdades. Teme ir além do arco, onde se desenha um novo cenário com a monumentalidade do moderno. Do lado de lá os edifícios se agigantam, os centros de compras se alevantam, a vida se pauta pelo refinamento. Do lado de cá, as casas modestas preservam um oratório em cada sala de visitas e o trabalho e a fé ainda são a dualidade necessária à vida.

Esta cidade sempre moderna foi feita com idéias avançadas. Seu patriarca, o padre Cícero Romão Batista, era um homem de preceitos rígidos, mas de conceitos inovadores. Herdou um povoado modesto, com uma capela e poucas casas, está na história do lugar, formado pelo sonho de outro padre que libertou seus escravos e doou suas terras à Nossa Senhora das Dores. O patriarca não permitiu que ali se fizesse novos escravos e entregou as terras para quem nela pudesse plantar. Cada casa deveria ter um oratório na sala e uma oficina no quintal.

Acabados os desmandos do povoado, o padre se volta para o campo, ensina aos matutos a cuidarem da terra. Plante um pé de pau a cada novo dia, represe os riachos com pedras soltas, faça uma cisterna no oitão de casa para guardar a água da chuva, não mate os bichos do mato, cuide das nascentes, crie seus animais presos, pois desta forma em pouco tempo o sertão será uma riqueza, ou do contrário ficará um deserto miserável.

Hoje discutimos um código florestal que desconhece os ensinamentos de Cícero.  E no meio de todo este cenário o beato e a beata que com cruz e cordão de São Francisca rezando no Horto são o moderno real diante do anacronismo yuppie que se farta no café da manhã de um hotel bem confortável.          



ANDAR COM FÉ

Bebíamos cerveja e falávamos de poesia, dois belos exercício para quem mora na aridez do cerrado, sob a sombra imensa dos edifícios feitos de concreto armado e modernidade. Naqueles idos o poeta Cassiano Nunes ainda se dava ao direito de degustar seu campari sem máculas. E ali estávamos entre goles e versos.

Um moço, desses que se equilibram nas desigualdades sociais de uma cidade qualquer, como quem nasce das sombras entra no bar e nos brinda com pequenos panfletos ordinários. Cassiano foi quem deu atenção ao papelzinho, a propaganda de uma brilhante cartomante capaz de desvendar todos os mistérios de nosso futuro e nos guiar para infalíveis dias melhores. “Não posso acreditar numa coisa dessas”, sentenciou o poeta, e nos contou o porquê.

Ele morava ao lado da casa de uma dessas videntes. A moça vivia à tripa forra, com carro de luxo e alto bem-estar social. Lendo na varanda, deitado em sua rede, o poeta, já aposentado como professor universitário, podia ver a romaria cotidiana à casa da vizinha. Isso de segunda a sexta, posto que, nos finais de semana, funcionária metódica, ela se dedicava às lidas domésticas e ao descanso. E foi num desses dias que ela pôs para secar nas grades de sua casa um imenso tapete. Fim de tarde, finda a faxina percebeu que alguém mais experto levara seu tapete. E Cassiano nos lembrava: “Se ela é capaz de adivinhar o futuro, como não previu que um ladrão passaria em sua porta?”

Verdade. Talvez o ofício destas moças seja mesmo o de se valer da ilusão alheia, da fé que transporta tanta gente, como Nazaré, uma doméstica que arrumava a bagunça de nosso tempo de estudante no Recife. Morávamos em Afogados em uma casa de muro baixo, como então era comum. Voltando do colégio, com relógio batendo quase uma da tarde, encontrei a moça conversando com alguém no portão. Atarantado com o excesso de livros que carregava, sempre uma cota bem além do que me exigia os professores, entrei formulando os cumprimentos de praxe. Fui tomar banho e sai do banheiro com os gritos escandalosos de minha irmã: “Como você fez uma besteira dessa?” Nazaré dera todo seu salário à mulher que prometia tirar dela um encosto que a estava levando a se envolver com um homem casado, o que desgraçaria de vez a sua vida.

Os pressupostos da fé sempre a dominar a esperança.

Outros encontros tive com estes mistérios.

Jornalista de ofício, cobria a movimentação de uma feira de livro em Brasília. Num almoço com os autores convidados, a poeta Hilda Hilst confessou-me que justo naquele dia da semana ela, como de praxe, precisava consultar um desses oráculos. E, claro, queria minha ajuda, já que não conhecia nenhum mago da cidade, a mesma situação em que me encontrava. Apelei para uma amiga que escrevia uma coluna esotérica no jornal e que me passou o telefone de uma certa Tia. Liguei do restaurante mesmo e deixei tudo acertado para o encontro. E Hilda me faz mais um apelo: “Você vai comigo?” Fui.

Pelo caminho a poeta contou-me de sua pouca intimidade com a fortuna. Nascera numa família de posses, mas o tempo se encarregou de levar tudo, inclusive sua intensa beleza física. Foi uma moça longilínea, elegante, de riso largo e olhar marcante, vivo. Belíssima, recebeu incontáveis propostas de casamento, mas dedicou-se aos namorados, como Vinícius de Moraes e o ator Dean Martin. E em Paris, solitária em um bar, foi assediada por um senhor de modos determinantes. Convencido do insucesso de suas investidas, o homem quebrou o copo em que bebia uísque, pagou a conta e se foi para sempre. Era Howard Hughes, então o homem mais rico do mundo.      

Minha amiga não tinha intimidades com a fortuna, e por isso estávamos ali, na morada da Tia, um apartamento pequeno e recheado de coisas, uma atmosfera pesada, opressiva. Fiquei na sala enquanto Hilda foi se consultar no quarto. Saiu impressionada. E aí a vidente se volta para mim: “Preciso lhe dar um passe.” Desconversei, mas novamente não resisti aos apelos da poetisa. E então fui banhado com um perfume fortíssimo e de cheiro terrível. No final recebi a sentença: “Você está destinado a um futuro brilhante, mas há um problema em sua vida. Sua mulher. Você precisa se separar para cumprir seu destino de sucesso.” Mas naquele instante meu único interesse era chegar em casa e tomar um bom banho.

Impressiona-me a capacidade de manipulação de vidas dessas videntes, dessas pessoas que simplesmente brincam de dados com o cabedal de crenças de cada um.

Há toda uma indústria de vendas de esperanças, sobretudo nestes espaços milenaristas em que vivemos. Depois de um século tecnológico, onde as máquinas ditaram o ritmo das vidas, ficamos carentes de mistérios. E daí a enxurrada de magos e videntes.

É certo que a fé ajuda a sustentar os homens nos seus princípios éticos. “A fé não costuma faiá”, nos diz Gilberto Gil. Pena que todos os seus benefícios sejam esquecidos e sua força seja usada para manipular vidas e rechear bolsos espertos.    

Como não creio que qualquer homem possa saber do futuro de outro e também tenho por princípio cuidar de minha própria vida, não me separei até hoje, contrariando a sugestão da Tia. Não sei se fiz certo ou errado, certeza mesmo é que me sinto muito feliz com minha escolha. Não foi desta vez que me roubaram o tapete. E assim prossigo, com fé na vida.  

 


ROSÁRIO DE LEMBRANÇAS

Histórias de Catende

Os operários que deixavam a usina no final do último turno do dia, por volta da meia-noite, conheciam as surpresas escondidas nas ruas de poucas luzes. Carregavam o cansaço da faina, venciam a ponte de madeira sobre o rio Panelas e se aninhavam nas casas do Pavão, o arruado. Outros cruzavam o trilho do trem, passando a estação e ganhavam a imensidão da Praça da Prefeitura. Logo estavam nos becos modestos, nas ladeiras inclementes, nas ruas miudamente iluminadas pelo motor-de-luz da usina. Mesmo quando chegou a luz de Paulo Afonso, o ambiente não perdeu suas cores, a lúgubre chama vinda dos paralelepípedos escurecia as horas noturnas. Ainda assim era possível ver a moça bela que caminhava serena e batia no chão com uma sombrinha, marcando o ritmo de seus passos. Encantava a todos e nenhum daqueles homens rudes formados na acidez do açúcar se negava a acompanhá-la até a porta do cemitério, onde ela docemente anunciava: “É aqui que moro”. E aos poucos se transformava em tenebrosa e horrenda caveira, e seu pretendente corria em desespero.    

Nem mesmo esta paixão da Mulher da Sombrinha conseguia ter Mané Bacalhau, o gari. Chamava minha vó de Madrinha Bibi e todas as noites passava na casa dela para tomar sopa. Esta casa generosa ficava numa esquina que descambava numa ladeira. Daquele alto era possível enxergar o engenho Monte Alegre, e do alto, olhando o engenho, todos os meses, com seu salário de gari na mão, Mané desfiava seu discurso: “Bando de moças feias de Monte Alegre que deixa de casar comigo que sou rico para viver amigada com um cortador-de-cana miserável. Vão todas morrer de fome.” E seguia caminho mitigando sua dor de solteirão. 

Nasci nesta terra por onde circulei muitos medos e alegrias sentindo na pele a fuligem e o cheiro de mel que vinham da usina e se misturavam ao olor irresistível do pão-doce assando na padaria da esquina. Ela, a usina, soberana, ditava suas regras e definia as vidas amalgamadas em largas doses de cachaça, posto que tudo – as dores e as felicidades – carecia vir da cana. 

E as felicidades, como os sonhos, eram pequenas, magras como Zig-Zig, o baleiro que comercializava na porta do Cine Diamante. Alimentava um desejo de arte e um dia se encheu de coragem e desafiou as montanhas de empecilhos. Alugou o Catende Club e promoveu seu show de calouros. Um sucesso. Suas filhas eram as bailarinas, os Ideais, um conjunto de bailes, acompanhava os pretensos cantores, a platéia ganhava brindes amealhados com patrocinadores no comércio local. E a gente se divertia involuntariamente assistindo a uma lição de crença no próprio punho.  

Diversão outra, esta menos ingênua, era a Filopança, um bloco que invadia as ruas da cidade todas as quintas-feiras pré-carnavescas. Esse estranho nome é um neologismo catendense formado pelas palavras filhós e pança, ou seja, filhós na pança, ou comedores de filhós. Uma festa. Todos vestiam mortalhas e carregavam placas com críticas aos políticos e aos simples mortais. Nunca me esquecerei da cara emburrada das janeleiras de uma rua tradicional diante de um cartaz que carreguei com gosto: Rua Quinze, a Língua do Mundo.     

Curiosamente Pelópidas Soares, o contista membro da Academia Pernambucana de Letras, foi um dos fundadores do bloco. Era também comerciante, este primeiro escritor que conheci pessoalmente. Magro, sempre com um cigarro a altura da mão, conversava placidamente, no mesmo ritmo de sua literatura profundamente influenciada pela denúncia social dos prosadores do Romance de Trinta, mas com suaves toques picarescos que lhe davam grandeza e diversidade.

Foi ele quem me contou de uma certa seresta. Todos bebiam animados enquanto esperavam o violonista e cantor, cujo nome esvaneceu de minhas lembranças. E o moço retardava, retardava. Tarde da noite, revoltados com o atraso e a ausência de música, planejaram uma vingança. Encheram uma garrafa de cerveja com mijo e puseram na geladeira, a espera do boêmio. Ele enfim chegou e logo cantou a primeira canção. Sob o som dos primeiros aplausos, lhe ofereceram a indigesta beberragem.  O coitado provou um único gole. Cuspi e decretando: “Traíram o boêmio”. E se foi para sempre.

As noites cercam-se de mistérios, naquela cidade. A Bica do Padre, uma antiga caixa d’água que constantemente vazava do alto, servia de refrigério nas tardes calorentas, mas ninguém, senão alguns bêbados, se arriscava a banhar-se ali sob o luar. Contava-se que todas as noites a água parava seu movimento para dar de beber a um lobisomem que fazia pouso nas imediações da bica.   

O melhor mesmo era vadiar sob o sol, na claridade que nos fazia encontrar com João Beltrão, sempre de paletó e gravata e com os cabelos desgrenhados e compridos. Nunca soube direito o que fazia da vida, mas era muito amigo de meu tio Paulo Rogério. Um dia desembarcou na cidade um cineasta e suas lidas. O filme se chamou O Palavrão e teve nosso João Beltrão entre seus principais artistas. Até Felinho, um dos mais assíduos boêmios da cidade fez o papel de Cristo na película. E João, num truque de cinema, corre, entra na esquina do cine Diamante e reaparece já numa rua de Garanhuns. Virou uma estrela municipal.

Como estrela era o sapateiro, trabalhador regular, mas que tomava suas carraspanas e seguia para casa docilmente. Era surdo e, diante das queixas da mulher, tirava o aparelho do ouvido e dormia o sono dos justos sem ouvi-la desesperada a gritar: “Bote esta merda no ouvido, bote esta merda no ouvido.”

Todas estas prosas se desenham como um longo rosário em minhas lembranças, e creio que elas são tijolos de minha formação íntima.


UM ENCONTRO DE LEMBRANÇAS

Há pessoas que se dispõem a entrar na vida alheia para demover barreiras e criar planícies. Tenho um amigo que é assim e o reencontrei numa dessas tardes de acasos.

Fui ao teatro para assistir uma homenagem a outro amigo e lá estava o livreiro Ivan Silva, também na platéia de admiradores de B. de Paiva, o homenageado, um homem que respira todas as entranhas do teatro. A peça que vimos, um monólogo, , escrito e interpretado pelo ator Ricardo Guilherme, uma biografia alegórica de Waldemar Garcia, um mágico do teatro que formou gerações de artistas cearenses, era sobretudo um tributo à amizade. Guilherme foi aluno e amigo de Waldemar que foi professor, amigo, desafeto e novamente amigo de B. Ou seja, no palco se vivia estas veredas de vidas por onde transitam apenas os imponderáveis da amizade.

É na verdade um sentimento estranho, este da amizade. Nos perdemos e nos reencontramos sem deixar secar o veio do lirismo que sobrevive entre os amigos reais. Também há distanciamentos definitivos e irreconciliáveis, como quase aconteceu entre B. e Waldemar. Eles tiveram a sabedoria de retomarem, na maturidade, a cumplicidade dos sonhos vividos desde sempre e há pouco vi duas fotografias de Waldemar pregadas na parede de B., porque este é o sentido da vida.

Há outra forte amizade na vida de B. Ele escreveu, junto com Hermilo Borba Filho, um livro, Cartilhas de Teatro, na verdade uma minuciosa e muito bem escrita história universal do teatro. B. garante que apenas corrigiu o texto todo escrito por Hermilo, mas não acredito, afinal, ele também é um erudito. E a amizade dos dois descia ao âmago de cada um. Quando Hermilo resolveu se separar da primeira esposa pediu ao amigo B. para comunicar o fato ela, e ele cumpriu a designação com todos os constrangimentos envolvidos. Por saber de tudo isso, compreendi quando B. se emocionou diante de um livro de crônicas de Hermilo com que o presenteei em um de nossos encontros.     

Mas eu falava mesmo é do reencontro com um amigo, o Ivan.

Livreiro de profissão, Ivan Silva se fez amigo de escritores de todas as vertentes. Abria as portas de sua livraria, a Presença, em Brasília, com o mesmo carinho, para Fernando Sabino como para qualquer cordelista dos cafundós do Judas que quisesse lançar seus livrinhos na capital. Patrocinava todas as manifestações que envolvessem o livro. E isso criou uma planície meio acidentada em minha frente.

O caso eu conto, como o caso foi: O ladrão é ladrão, o boi é boi, ensinam os sertanejos. Pois lá vai.

Luiz Berto, depois de tomar uma grande cachaça, se comprometeu em editar um jornal classista, ligado à Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados, em Brasília. Na ressaca foi que viu o tamanho da encrenca em que se metera, mesmo assim seguiu em frente, e saiu em busca dos amigos. Um deles foi o Ivan, com quem acertou publicar uma coluna dedicada à literatura. Para escrever os textos convocou Natanael Guedes, paraibano de Ingá do Bacamarte e danado para fugir de uma briga. Desta vez não foi diferente. O escriba produziu o primeiro texto e depois sumiu. Berto desesperado para fechar o segundo número do jornal e não tinha na terra quem soubesse o paradeiro do Natan.

No desespero pegou o telefone e me ligou com uma conversa breve e direta. “Qual foi o último livro que você leu?” “Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos.” “Pois escreva sobre o bicho que o filho da puta do Natan sumiu.”

Obediente, escrevi.

Coluna publicada, Ivan, o poderoso patrocinador da página literária, que pagava o salário do resenhista com livros, bateu o martelo. Demitiu Natan e me nomeou crítico literário oficial do periódico, creio que mais pelo senso de responsabilidade que pela qualidade do texto. O fato é que desde então – e isso vai prá mais de vinte anos – tenho me equilibrado escrevendo sobre livros e autores.

Ivan tem a capacidade de farejar novos talentos. Embora não tenha sido este o meu caso, constantemente encontro ele falando com entusiasmo de um novo escritor, ou mesmo promovendo encontros felizes entre autores e editores. E tudo pelo prazer de ter uma futura boa história para contar.

No teatro, antes de começar o monólogo, contou-me com intensa alegria a saga de um professor universitário, Jorge de Souza. Ensinava os caminhos intricados da estatística e tinha que lidar com grossos volumes estrangeiros já que não havia qualquer livro brasileiro sobre o assunto. O livreiro entrou no circuito e conseguiu uma editora para um livro escrito pelo professor que botou no texto as peculiaridades tupiniquins de se olhar aquele estranho mundo. Virou best-seller.

A alegria de Ivan era maior ainda ao contar que Jorge de Souza, exímio tocador de violão, é pernambucano. Em Brasília promoveu incontáveis e antológicas serenatas. Não cheguei a conhecê-lo, mas, conta-me Ivan, violão em punho, Jorge transmutava-se e deixava de lado toda a postura de seriedade de um professor. Aposentado, voltou para o Norte, como faziam os antigos e saudosos retirantes. No Recife produziu um longo poema exaltando quase todas as grandezas pernambucanas. Gravou tudo em um DVD que merece ser visto, revisto e novamente visto. Nele Pernambuco se desenha em frevos e maracatus, em mar e sertão. Vaqueiros são caboclos de pena, jangadeiros dançam ciranda enquanto as mesas fervem em peixadas, pituzadas, carne de sol, caranguejos, farinha e cuscuz. E tudo ponteado pela viola de Antônio Nóbrega, os versos de Ascenso Ferreira, a prosa Hermilo Borba Filho, os mamulengos de Ariano Suassuna.

Meu amigo Ivan Silva preserva o prazer de presentear os amigos com as belezas culturais que cobrem o país. E também sabe abrir as planícies da arte, e deixar caminhos para que cada um trilhe livre, com a própria força, com a própria determinação.                                      

 


DESVIOS PROFÉTICOS DA POLÍTICA

Políticos em geral sãos maus profetas. Prevêem futuros promissores e o que nos chegam são misérias e tragédias. Garantem que tais e quais obras serão seguras e no final estamos todos a bordo do Titanic.

Caso a lenda tenha razão, acho que até conheço um patrono para esta gente. Conta-se que um filho do imenso Nostradamus, encantado com a grandeza paterna, quis seguir seu caminho. Fez algumas previsões que não deram em nada, mesmo assim apostou que certa cidade iria ser destruída pelo fogo. Na madrugada do dia programado uma patrulha o apanhou tentando incendiar a comunidade. Ou seja, estes policiais estavam no lugar errado, na hora errada.

Voltando às profecias políticas, contou-me o escritor e sociólogo Leandro Tocantins que na década de 1950 lançou a primeira edição de seu livro, hoje clássico, O Rio Comanda a Vida. Um texto brilhante, onde disseca a vida do homem amazônico e de suas íntimas relações com a floresta e os rios. Tudo ali gira em torno do curso das águas, de suas vazantes, de suas alagações. Um universo muito próprio, com fúrias e acalantos peculiares. Quem o olha de cima, voando sobre as copas das árvores, não consegue enxergar todas as suas dimensões, todos os seus mistérios. Os textos de Leandro são um competente guia para quem se arrisca neste fascinante labirinto.

Pois bem, lançando seu livro mais conhecido, Leandro foi ao Palácio do Catete levando um exemplar para o então presidente Getúlio Vargas. O gaúcho apanhou o volume, leu o título e sentenciou: “Chegará o tempo em que a vida comandará o rio”.

Pouco antes de morrer, em 2004, meu amigo ainda garantia que o rio, pelo menos na Amazônia, continuava comandando a vida. E estava certo, pois até seu lugar de nascimento foi escolhido pelo rio. Em 1928, seu pai era seringalista em Tarauacá, no Acre. A mulher, grávida de muitos meses, resolveu ir a Belém, comprar o enxoval para o menino e não conseguiu voltar a tempo. O rio Tarauacá tinha baixado tanto que a navegação não seria possível. E o menino Leandro nasceu mesmo no Pará e só chegou ao seringal do pai alguns meses depois. Isso ele mesmo me contava às gargalhadas.

E eu lembrava a primeira vez que estive em Rio Branco. Era um tempo de cinzas, com as queimadas assassinas maculando a floresta, com a seca ainda ditando suas regras. O aeroporto ficava dentro da cidade que se desenhava em ruas calçadas com tijolos, o que fazia o cristão concordar com o músico carioca Laurindo de Almeida. Olhando a cidade de cima ele sentenciou: “Rio Branco é uma cidade barroca. Tem barro para todos os lados”.

Depois do desembarque, numa final de tarde, segui para a empresa onde deveria escrever uma revista institucional. Passando sobre a ponte que cruza o rio Acre olhei para baixo e vi o curso lá em baixo, numa distância tamanha que logo pensei que tinha ali alguma maracutaia, alguma ação política duvidosa. Não tinha sentido uma ponte naquela altura para cruzar um rio tão modesto.

Quebrei a cara quando voltei à cidade num fevereiro qualquer e o rio lambia a ponte. Todo aquele barranco profundo estava tomado pelas águas que haviam engolido as escadarias por onde antes se chegavam aos barcos, estes agora bem perto da gente. E juro que vi alguns botos nadando no caudal que comandava a vida do lugar.

Dei razão a Leandro. Recolhi-me à minha condição de homem de outras plagas onde os homens de ação dominam os rios. Eles desviam os cursos para proteger suas cidades, como foi feito em tempos passados com o Rio Una, em Palmares. Se bem que este todos os anos se rebela e invade a cidade com todas as suas fúrias. É rio modesto, mas brabo, como rio que se preza, como o imenso Paraná. Comeram suas Sete Quedas construindo uma hidroelétrica, mas ele às vezes chega com tanta força que os técnicos se vêem obrigados a aumentar a vazante, a deixar a água rolar, caso contrário ela rola a usina.

A mesma sorte não tem tido o São Francisco, várias vezes cortado por barragens, maltratado ao longo de todo seu longo curso. Contavam seus descobridores, os parceiros do navegante Américo Vespúcio, que a água doce invadia o mar por vários quilômetros. Hoje a água salobra e o assoreamento chegam à cidade de Penedo, onde a pesca e a cultura do arroz foram embora com as ambições de Xingó.

É a vida comandando os rios, meu caro Leandro.  E isso já começa a tomar conta das vazantes amazônicas.

Há pouco li nos jornais a polêmica sobre o desvio do rio Xingu. Querem ali uma nova hidroelétrica e nenhuma importância têm as vidas e as culturas seculares que se consolidaram naqueles campos.

Esta é a mesma sina do rio Madeira. Ele conseguiu vencer a teimosia dos ingleses e ajudou a mata a engolir os trilhos de uma estrada de ferro.  Represado se tornou mais dócil, domesticado. E são suas águas que correm, ou deverá correr, por sobre o balneário do Abunã, lugar onde era possível manter o sagrado costume do banho de rio.

Todas estas coisas são menores, na visão dos homens práticos, diante do eterno discurso do progresso, do curso natural da vida a moldar outros sonhos, outras esperanças.

Mais fortes são os poderes dos homens, Glauber Rocha, e os políticos são maus profetas, mas têm poder, e às vezes usam isso para fazer valer suas previsões.  
                              


A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

O folclore político mineiro está repleto de historinhas do genial José Maria Alkmin. Político de longo curso, mais estrada tinha nas tiradas sempre bem humoradas. É dele um lema que constantemente adoto: “Reunião não resolve nada. A gente primeira decide depois se reúne”. No entanto sua frase talvez mais famosa, por conta dos ares filosofais, diz que “não importa os fatos, mas a versão dos fatos”.

Conta-se que um dia Gustavo Capanema teria cobrado de Alkmin a autoria da frase. E ele implacável: “Você pode ter dito lá nas grotas, no interior, mas aqui na capital fui eu quem disse primeiro, o que só confirma a verdade de nossa frase.” Tá explicado.

Esse negócio de autoria é sempre um complicador. Que o diga Gustavo Krause. Denunciado pelo seriíssimo hebdomadário Papa-Figo, do Recife, como proprietário de um certo Bank Krause sediado na Alemanha, o ex-ministro não perdeu a pose. Telefonou para Bione, proprietário, redator e office-boy do tal jornal, para oferecer empréstimos e outras vantagens financeiras. O repórter negou-se a receber qualquer propina do suposto banqueiro. E voltou a denunciá-lo no jornal, como qualquer jornalista probo, impoluto, cônscio de seu ofício.

Gustavo, boêmio assumido, sem nada de banqueiro, tem alma de poeta. Por isso acreditei ser de sua autoria uma frase belíssima. Depois de passar pelo Ministério do Meio Ambiente no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, foi convidado para continuar na equipe de ministros que estava se armando para o segundo mandato do sociólogo. Recusou o convite e provocado por um jornalista foi taxativo em dizer que não gostaria de morar em Brasília, pois “na terra em que o mar não bate, não bate meu coração”. Uma maravilha de frase.

Passei a repetir a frase citando o suposto autor.

Tempos depois, ouvindo o primeiro LP de Gilberto Gil, Louvação, lançado em 1967, remasterizado em CD, estava lá uma impecável canção, Beira-Mar, com música de Gil sobre poema de Caetano Veloso, e logo no primeiro verso “na terra em que o mar…”

Engoli em seco. Sem qualquer autorização de Gustavo, creditava a ele um verso de Caetano. Essa minha mania de falar pelos cotovelos criava-me mais uma complicação, enfim.

Esta não foi minha única, nem certamente será a última confusão em creditar autorias. Às vezes confundo autores, digo de um histórias acontecidas com outro, uma confusão danada, um inesgotável repertório de equívocos, mas tudo em nome de uma boa conversa, tudo por conta de confiar numa memória que não é lá tão generosa. Por conta disso, desconfiado de mim mesmo, também escondo algumas descobertas e evito o constrangimento de passar por mentiroso.

Deu-se um fato desses quando, profundamente impactado pela leitura do Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, isso lá pelo início da década de 1980. Durante semanas, eu, já um monotemático empedernido, só falava do livro. O sujeito contava de futebol e eu inventava como seria um partida com Quaderna, um outro dizia de política e eu salientava que o pior tinha se dado no sertão de Pernambuco. A obsessão era tanta que até Orlando Tejo perdeu a paciência e me encarou: “Maurício vou pedir ao Ariano para escrever outro romance, pois só assim você muda de assunto.”

Mudei, mas fiquei ruminando calado um erro desgraçado que tinha no livro. Domando meus impulsos, guardei segredo por anos. 

O diabo quando não vem manda o secretário, ensina o povo. Pois bem, o poeta Marcus Accioly fazia uma visita à casa de minha rapariga. Explico. Eu alugava uma sala onde guardava meus livros e dizia ser ali a casa de minha amante, pois somente me dava prazer e grandes baixas na conta bancária, como, aliás, acontece até hoje.

Voltando à visita, Marcus aponta o romance de Ariano e pergunta se eu tinha percebido o erro das mãos postas. Percebera sim.

Tiro o trecho da página 79 da quinta edição: “Em seguida, José Viera pega um filho de dez anos, coloca-o na Pedra dos Sacrifícios e decepa-lhe o braço do primeiro golpe. A vítima, ajoelhando-se, bradava-lhe, de mãos postas: ‘Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?’”. Essa história do filho, com o braço decepado, rogar de mãos postas incomodava-me e eu não tinha coragem de falar do assunto até que apareceu o poeta, mas logo voltei ao meu silêncio.

O alívio só veio quando li Folk-Lore Pernambucano, de Pereira da Costa. Está lá a crônica de um autor anônimo sobre a Pedra do Reino com o famigerado trecho do braço decepado e das mãos postas.

Agora danou-se, seria Ariano um plagiário? Voltei ao romance. Antes de contar toda a saga, pela voz do narrador Quaderna, o mestre conta que para falar do episódio sangrento recorrerá a outros autores inclusive Pereira da Costa. Ou seja, tudo não passou de uma desatenção deste mau leitor que vos escreve.

Cada dia que passa convenço-me mais ainda que devo voltar urgentemente a reler a Bíblia. Moacyr Scliar dizia que ali que pescou muitas das histórias que contou, mas esta não seria minha motivação. Também não me estimula seus conceitos religiosos. Buscaria no livro o fantástico ensinamento de vida que encerra cada uma de suas páginas.

E também é lá que a gente aprende, enfim, a dar a César o que é de César.


O BOM DO ANACRONISMO

Há muito que decidi desistir. E com isso perdi o hábito de cotidianamente sair de casa e, no carro, ligar o rádio.

Inicialmente a decisão teve motivo meramente profissional. Jornalista de ofício, já sintonizava numa rádio que me desse todas as notícias do dia. Chegava ao trabalho comentando novidades, analisando novas determinantes políticas, agarrando-me os jornais para saber o que diziam os coleguinhas, um inferno ter que trabalhar, involuntariamente, vinte e quatro horas por dias. Pois em casa era a televisão ligada em todos os telejornais.

Assumi minha incapacidade de absorver todas as notícias mundanas e mudei de estação. Agora queria música. E aí começou um novo inferno.

Sintonizava o rádio e logo vinha algo que desconhecia. Muitas vezes uma barulheira danada, sem qualquer musicalidade que o locutor insistia em me convencer que se tratava da última tendência estrangeira. Apertava um botão do aparelho e ele buscava nova estação. Aí os gritos agudos de uma dupla dita sertaneja doíam nos tímpanos. E o diabo do locutor a falar de música de raiz. Mais um toque e caía no balançar monotemático de axés e outras gingas, com letras escritas nas paredes do banheiro da rodoviária. E nosso velho amigo a dizer de festas e alegrias. Novo toque e o som agora é um falsete, um arremedo de samba, digo pagode, onde solidão rima com ingratidão e marrom com bombom, e o infeliz a falar de criatividade.

Nova desistência.      

Hoje acredito que o primeiro sinal de maturidade é quando as músicas que gostamos e conhecemos não tocam mais no rádio.

No carro optei por tocar CD. E aí pude retomar velhas sensações.

Morávamos numa casa assobradada, que não tinha a grandeza daquela do samba de Adorinan Barbosa, mas que servia como abrigo confortável. Fazia alguma coisa no andar de cima quando, no andar de baixo, a vitrola começou a tocar um disco com som verdadeiramente novo. Naqueles idos, como qualquer brasileiro, ouvia umas coisas estranhas, ecos de Woodstock, Alice Cooper, Hendrix, coisas assim, e para desespero de minha irmã que cultiva rosas e dizia que as guitarras prejudicavam suas belezas.

E a música que ouvia naquele momento contrastava com toda minha formação estética. Tinha um refinamento ponteado na viola, uma flauta que mesmo transversal era de fato doce, suave, bela. A percussão se harmonizava na reunião de vários ritmos simultâneos. Uma explosão de beleza.

- O que é isso? – Quis saber.

- Quinteto Violado tocando Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. – Informou minha irmã, a dona do disco.

Escutei o disco por horas e curei-me para sempre.

É certo que esta cura já começara alguns dias antes.

Estava de férias na casa de minha avó e tinha carregado alguns de meus discos de rock. Um dia ela me abordou. “Meu filho, escutei seus discos, mas estão todos arranhados.” Comecei aí a distinguir música de ruído. E seguindo no processo de cura, vó Vasti me deu um presente, o disco Foi um Rio que Passou em Minha Vida, de Paulinho da Viola, que até hoje guardo com carinho e ciúme.

E diante da musicalidade de Quinteto Violado não tive mais retornou. Doei meus discos de rock e refiz minha coleção. Cheguei mesmo a comprar um violão que até hoje não consegui dedilhar com qualidade. Era um instrumento vagabundo, com som horrível, mas que atendia minhas ânsias e pretensões artísticas. E como o carregava para cima e para baixo, vivia o bicho arranhado.

Levei-o a um artífice, mais marceneiro que lutier, para alguns reparos necessários. Descobri então que o senhor fabricava e tocava rabeca. Levei um disco do Quinteto Armorial e ele, emocionado, marejava os olhos e apanhava a rabeca e tentava imitar no instrumento rústico a suavidade do violino de Antônio Nóbrega. Uma mágica se processou naquela sala prenhe de pó, poeira, restos de madeira, forte cheiro de cola.

Anos depois, por dever de ofício, entrei na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, para assistir a um concerto de música clássica. Um caminhão abriu a carroceria, armou um palco onde se ostentava um piano de calda. Arthur Moreira Lima tocava e as pessoas, esquecidas das balas perdidas e de outras misérias, choravam ouvindo Bach e Mozart. E gritaram e aplaudiram quando do piano saiu os acordes da rica melodia de As Rosas Não Falam, escrita por um certo Agenor, morador de uma favela e mais conhecido pelo alcunha de Cartola.

E já sem surpresa assisti ao mesmo show de Arthur Moreira Lima em Penedo, em Alagoas, à beira do São Francisco. Eram outro público, outros sentimentos, outras motivações. De igual, a emoção e o envolvimento com a música refinada e bela. Aliás, minto quando falo em falta de novidade. Arthur trazia no bojo do repertório, com roupagem clássica, minha velha amiga Asa Branca. Chorei com nos penedenses.

Enquanto isso as rádios tocavam baladas ditas sertanejas, axés irritantes, pagodes melosos. E o locutor, em sua cegueira irritante, a gritar: “É disso que o povo gosta, é isso que o povo quer”.

Na qualidade de anacrônico, escutando o que me emociona, constato a insensatez cometida em nome deste povo sem acesso aos reais bens de cultura. E repito o poeta Ferreira Gullar: “Povo é uma palavra gasta”.


PRAGMÁTICO NA MORTE

As cenas vivas que restam em minha memória têm força dramática, embora no tempo de sua ação, de tão cotidianas, pouco impacto causavam. Foi, enfim, a lembrança delas que, paulatinamente, as coloriu com verdades e incompreensões; dúvidas, pelo menos.

Várias vezes assisti levas e levas de pessoas vestidas com hábitos franciscanos, cordão a guisa de cinto, terços nas mãos, sentadas em tábuas inseguras e desconfortáveis arrumadas na carroceria de um caminhão. Seguiam felizes para uma viagem que se contava em muitas horas. E cantavam. Cantavam com mais força ainda na volta, quando deixavam o Juazeiro e vinham com o peito carregado de novas esperanças.

Vi outras tantas procissões também prenhes de força e fé. E o mistério da fé há muito me inquieta. Toda esta gente acredita em algo etéreo, vago, nada têm de Tomé e sua necessidade de ver para crer. O escritor Ariano Suassuna é mais pragmático. Diz acreditar em Deus por um motivo muito simples: “Se ele não existir eu não estou perdendo nada, mas se ele existir na certa estou ganhando alguns pontos no céu.” Pragmatismo é isso aí.

E toda questão da fé está intrinsecamente ligada às determinações da morte, da “indesejada das gentes”, diria Manuel Bandeira. De certeza ninguém sabe o que vem depois, mas por via das dúvidas livrai-me meu Deus de todo mal, sobretudo daqueles vindos do inferno, mesmo com a cada vez mais verdadeira versão de que o inferno é mesmo aqui.

Diante da necessidade de comprar apartamento, fui ver uma unidade que um amigo tinha disponível. Emprestara o imóvel a uma velha tia, mas com a morte dela ele sequer teve ânimo para voltar ali. Queria se desfazer de toda lembrança. Encontrei o apartamento já esvaziado por outros parentes da senhora. A solidão era profunda. Apenas um aparador, talvez onde antes repousassem alguns santos, restava encostado na parede.

Não fechei o negócio. Ficou-me a imagem. Talvez o fim da morte seja este, um apartamento profundamente vazio. Resta-nos o medo do desconhecido, enfim. E por isso rezamos. Ou outros cuidam disso para nós.

O conheci muito de perto. Era realmente meu amigo de horas e horas de proseado sobre literatura e política. Chamava-se Valter e foi comunista por toda a vida. Tinha uns hábitos inusitados. Constantemente se embrenhava pelo cerrado em caçadas que duravam dias e rendiam pouco mais que alguns pássaros, uma ou outra caça miúda. E escrevia romances.

A literatura o levou a sonhar com uma cadeira na Academia Alagoana de Letras, mas a crença o afastou do sonho.

Era comunista, materialista empedernido. Por várias vezes o ouvir bradar: “Depois da morte vem o nada. Deus é uma ilusão”. Mas como ele tinha pretensões à imortalidade, resolvi ajudá-lo como podia. Convenci meu único amigo membro daquela associação à época, um poeta, a votar no Valter, que, de sua parte, conseguiu cabalar os outros votos necessários à glória. O problema é que resolveu dar uma entrevista na véspera do pleito: “Chegarei na Academia como cidadão e comunista”. Teve apenas o voto do poeta. Perdeu a eleição quase certa por desafiar o conservadorismo ideológico.

Foi ainda como materialista que sofreu outro baque.

Pelos tantos ditames da vida, perdi o contato com Valter. Um sábado, lendo o jornal, estava o lúgubre convite para uma missa de sétimo dia em favor de sua alma. Acho que morreu sem acreditar em Deus e, quem sabe, pelas preces de sua família talvez tenha tido o encontro revelador.

Os crentes fervorosos apostam que nunca é tarde para o arrependimento. Neste caminho pisou outro amigo meu.

Era de nome Aurino, mas se conhecia por Tira-Teima – A Serpente da Palmeira. Alagoano de Palmeira dos Índios, foi poeta improvisador. Certa vez quis saber o que causara a cicatriz redonda que tinha na testa. Respondeu de pronto. “O buraco que tenho na testa / foi feita para tirar ciência, / para dar a um irmão meu / que nasceu sem consciência. / E hoje tira tanto coco / que me rouba a paciência.” Era poeta.

Quando o conheci era aposentado pela Câmara dos Deputados, segundo atestava, por ser débil mental. Tenho minhas dúvidas se de fato era doido, mas ateu isso bem que era. Vivia a profanar todos os santos possíveis. E tinha uma irmã que era freira, o que lhe dava o direito de chamar Jesus de cunhado. Sua visão do Novo Testamento era bem própria. Costumava começar suas conversas com uma pérola: “No tempo que meu cunhado andava na Palestina..” E aí ninguém segurava os desmandos.

Sua sogra não se conformava e em seu protestantismo orava pela salvação daquela alma perdida. Tira-Teima, por seu turno, não baixava a guarda. Muitas vezes, fazendo churrasco em sua casa, quando a sogra chegava do culto, ele anunciava: “Passou a vida toda dando o rabo, agora que não tem mais ninguém prá lhe comer foi ser crente.”

Tive notícias de que na hora da morte se arrependeu de todos os pecados e pediu um padre para lhe dar a extrema unção. Foi, ao que parece, pragmático na morte.

Por via das dúvidas, o melhor é rezar um pouco. Se Deus não existir não se perde nada. E também não se fica como um defunto a dar trabalho aos vivos.            


RENUNCIAR PALAVRAS, FRASES INTEIRAS

Nas mãos repousavam os originais de um clássico. Um papel amarelado pelo tempo, descolorido pela ação de tantos dias, iluminado pelo olhar atento de incontáveis leitores. Um clássico. Na página agora frágil e preciosa, num tempo de muito ontem, o autor, determinado e conciso, riscou o título já impresso com a força da máquina tipográfica: O Mundo Coberto de Penas. Sobre a frase riscada, a nomeação definitiva: Vidas Seccas. Assim mesmo, com dois cês, como exigia a gramática da época. 1938.
 
Alguma mensagem ainda oculta naquele caminho tantas vezes percorrido? Segui em frente debatendo-me com outras tantos riscos, outras tantas correções, outras várias necessidades de se apurar a linguagem, secá-la, enxugá-la, extrair de cada palavra o máximo de suco e delícia. Um ofício danado de incertezas e revisões este de botar no papel as vidas imaginadas.
 
No mesmo dia me deitei sobre outro emaranhado de palavras escritas numa letra miúda, maldita, ilegível. Um caderno escolar pautado e ocupado da primeira à última página em todos os espaços possíveis. O autor devia ser muito pobre, posto ter economizado cada milímetro do papel, como se temesse faltar brancura onde pontear suas idéias. Branco mesmo, de fato, somente parte da primeira página onde se podia ler com alguma clareza uma única frase: Memórias de um Menino de Engenho, com um risco forte cortando as três primeiras palavras.
 
Como daquele mato não me pareceu possível retirar algum coelho, parti para outro encanto. Um volume massudo, gordo, farto, coronelístico. A primeira palavra do texto datilografado com esmero foi preservada: Nonada. Também o título, desenhado com caneta colorida, em letra de forma, com certa simetria sobre o papel – Grande Sertão: Veredas.

O que se seguia depois do Nonada era um desembestar de riscos feitos com a precisão de uma régua. Cada uma daquelas frases renunciadas era encoberta pela fúria de muitos riscos, inviabilizando em definitivo sua leitura. Sobrevivia apenas aquilo que era do desejo do autor. Nada além disso deveria prosperar, entrar para eternidade. Nonada, senhor, apenas não se deve correr o risco de macular uma obra com os erros possíveis de serem corrigidos, encobertos.
 
Num outro caderno, este preenchido na solidão de uma fazenda sertaneja por uma mocinha que tentava se livrar da ameaça de uma tuberculose, a letra de professora bem aplicada foi me dando lições de humanismo e brasilidade. A tal moça, na verdade, de bem comportada tinha apenas a letra e carinha inocente. Era uma danada. Primeiro burlava a vigilância paterna que a queria muito cedo na cama. Quando todos dormiam, ela, sorrateira, acendia uma lamparina e deitada no chão da sala viajava com sua criação.

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SOU BRASILEIRO

Acredito no poder da indignação. Quem não se indigna com nada, fatalmente é acomodado em tudo, aprendi. Diariamente tomo doses de revolta apenas para não ficar de todo sustentado pelo desejo da estabilidade. Sacudir, levantar, dar a volta por cima, canta Paulo Vanzolini, é fundamental. Por outro lado carrego o senso da cordialidade. Sou brasileiro, enfim.

E mal começo a escrever esta crônica e já um verso de Carlos Drummond de Andrade vem martelar em minha cabeça. “Eu também já fui brasileiro / moreno como vocês. / Ponteei viola, guiei forde / e aprendi na mesa de bares / que o nacionalismo é uma virtude. / Mas há uma hora em que os bares se fecham / e todas as virtudes se negam.”

O poema está no primeiro livro lançado pelo poeta, Alguma Poesia, de 1930, coisa de mais de oitenta anos. Enfim, vem de longe minha brasilidade, que não se traduz em nacionalismo. Adolescente e estudante rebelde acabei expulso do colégio a bem da disciplina. Recusava-me a cantar os hinos patrióticos que um professor escrevia com ardor e emoção, suponho. Claro que não lembro as letras, mas sei que falavam de mentiras como céu anil, grandezas inabaláveis e igualdade entre os homens.

Bom, mas eu estava falando de indignação e lembro como ela nos assalta cotidianamente.

Recebi, certa feita, convite para um churrasco onde estariam vários estudantes do dito colégio que me pediu para sair. Em princípio recusei com a alegação óbvia de que nossos orixás não se cruzavam, mas, por fim, terminei cedendo diante da insistência do amigo. A diretora que me formulou o velho convite de afastamento escolar estava presente, e sabendo que naquele tempo eu exercia um cargo no Ministério da Justiça desfilou comigo – mico de circo – a tiracolo: “Olha aqui nosso ex-aluno que hoje é assessor do ministro da Justiça.”

Na memória só me chegavam Gérson e sua famosa lei: “Eu gosto de tirar vantagem em tudo, certo?”

Minha brasilidade passa longe daí, mas a cordialidade me faz manter a calma. Sou brasileiro, enfim, e tenho imensas heranças do homem cordial defendido por Sérgio Buarque, este incompreendido. Muita se fala ter ele enxergado no brasileiro um homem passivo, capaz de concordar com tudo e nunca assumir uma postura revoltada, quando o que ele falou foi exatamente o contrário. Seu homem cordial vem de cor, coração, ou seja, tratasse daquele que põe a paixão sobre todas as coisas. E com este eu caminho. E daí minha constante indignação.

Ainda estes dias, dando vazão a um de meus vícios, assistir diariamente aos telejornais, vi uma reportagem sobre trânsito feita em Vitória, no Espírito Santo. Um festival de absurdos, como era de se esperar. Chamou-me a atenção, no entanto, uma certa senhora. Ela parou o carro em fila dupla, atrapalhou todo a tráfego e tranquilamente desembarcou para levar a filha à escola. Por aí já é possível deduzir que educação ela dá à pobre criança. A coisa ficou ainda mais grave quando o repórter a abordou e ela simplesmente declarou: “Fazer o quê? Eu sou brasileira. Precisa dizer mais alguma coisa?”

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MEU CARDÁPIO DE FRUSTRAÇÕES

Alimento-me de esperanças. E quando as vejo dando adeus numa estrada, rebelo-me. Ao contrário de Zenão de Cício, não carrego qualquer estoicismo. Sou teimoso e disfarço minhas frustrações.

Na verdade persevero nos erros por não ter a fé inquebrantável dos primeiros cristãos. Nos circos romanos, diante do leão faminto, eles acreditavam na salvação.

No Japão do Século XVII sofriam com torturas de um requinte doentio. Eram banhados com a água quente e sulfurosa de vulcões ou pendurados de cabeça para baixo, com breves incisões na testa e por trás das orelhas, na boca de poços fétidos. Em imensas estacas eram postos no mar, de pé e em altura conveniente. À noite, quando subia a maré, a água ficava rente ao queixo, atingiam os olhos com algumas ondulações, mas não chegava a afogar. Pela manhã o mar baixava até o joelho e permitia que o sol inclemente calcinasse a pele.

Havia três saídas. Apostatar, suicidar-se ou esperar a morte. Muitos persistiam em não negar o cristianismo, outros se recusavam a matar-se com medo de não encontrar as portas do céu, e quase todos esperavam a morte lenta, paulatina, vindo com o cansaço, o esgotamento físico.

Definitivamente não tenho vocação para o martírio, mas carrego esperanças de uma vida melhor para todos. E aí iniciei minha coleção frustrações. Muitas de pequeno porte, reconheço, como o disco de Carequinha que nunca ganhei de minha avó. Alimentei o sonho durante dias. Todas as vezes que ela vinha nos visitar, trazia alguns LPs na bagagem e distribuía com os netos. Daquela vez me presenteou com o que havia de mais instigante na época: canções da dupla Os Vips. Agradeci como um bom neto, mas chorei por não poder ouvir os sucessos do velho palhaço.

Caro leitor, o assunto é sério. Recentemente desembalei-me de Brasília até o Juazeiro do Norte. Na bagagem a missão de dirigir um documentário contando a história da cidade centenária. Tudo ali gira em torno do Pare Cícero, isso já sabia desde criança. A religião está em todos os lugares, o que se vê pelos nomes das ruas. Explico. Adolescente, fui à cidade tentando comprar um botijão de gás. Perguntamos ao primeiro cristão que encontramos onde ficava a distribuidora e ele gentilmente nos explicou: “Fica na rua São Pedro. Você entra na São Paulo, dobra à esquerda na Santa Bárbara e vai até a Santa Filomena…” “Desculpe moço, nós queremos comprar gás, não morar no céu”. Perdemos o informante, ficamos sem gás e seguimos frustrados.

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O REINO DO INVISÍVEL

Foi assim. Um auditório repleto, coisa de difícil enfrentamento. Neste caso, no entanto, estamos num estágio ainda pior. Um auditório repleto de crianças, quase adolescentes ávidos para trucidar o coitado de um escritor desguarnecido de imaginação e esperanças. Uma horda de canibais modernos vazando curiosidade por todos os poros. O desespero aumentou quando percebi que era eu a vítima do delírio famélico daquela gente miúda, liliputianos a transpirarem sangue pelos olhos. Meu desespero aumentou quando descobri que não transitava no espaço do onírico. Na mais cruel das verdades percebi que não havia saída de emergência. Juro que invejei Hans Staden.

Como um herói despido, pisei o primeiro degrau da escada. Entrei no palco e, ateu convicto, apelei para o Senhor das Esferas – Seja o Deus quiser. E Ele foi generoso com este seu filho desgarrado. As crianças e adolescentes ansiavam que eu falasse de literatura, criação literária, essas coisas que edulcoram nossas vidas tão insossas.

Por que o senhor escreve?

Diante da primeira pergunta não temi, ao contrário desandei um rosário. Escrevo por um motivo muito simples: sou, em verdade, um grande mentiroso, e isso pode ser uma imensa mentira, afinal quem em sã consciência acredita em um embromador? Fato mesmo, buscando os cânones da veracidade, é que a fama de escritor é mais salutar que a de simulador, daí escrevo todas as minhas inexatidões e atendo convites para parolar com pubescentes hodiernos.            

O diálogo não se deu desta maneira, afinal muitas das palavras aqui empregadas apanhei agora no dicionário, esse companheiro de horas infindas, mas o tom foi este mesmo. Além do mais quem falar daquela maneira, num arremedo danado do velho Camões, merece bons safanões, imensos apupos.

Esgotadas todas as agressões possíveis aos dicionários, voltemos à frieza dos fatos. Nós escritores – tenho a pretensão de ser um deles – somos vendedores de mentiras. Durantes horas, dias, meses, anos convivemos com pessoas que não existem. Mesmo assim conversamos com elas, compartilhamos todas as suas angústias, todas as suas esperanças. Choramos suas dores, rimos suas felicidades. E se por ventura algum desavisado aventureiro desdizer a mais vil e canalha destas criaturas nos tomamos de mágoas maternais e defendemos estes seres imateriais como quem se bate em favor de um filho.

Somos estranhos, reconheço.

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A INVASÃO DA TERRA

Somente agora consegui entender um filme de Mel Gibson, Sinais, já meio antigo. A inteligência é fraca, reconheço, pois o enredo é bem besta. Um fazendeiro americano, viúvo, cria sozinho os filhos menores até que encontra o milharal esmagado em imensos círculos. Daí decorrem os suspenses e as emoções até que se descobre o motivo de toda confusão: extraterrestres invadiram a Terra. Mais um bocado de suspense, mais outro tanto de emoção e o fazendeiro galã percebe que os alienígenas, como os franceses, não simpatizavam com banhos e passa a matá-los com altas doses de água. Pronto a Terra está salva.

Até aí entendi tudo direitinho, o que me incomodava era uma determinada cena. Como a invasão era mundial o Brasil não poderia ficar de fora e, vendo televisão, Mel Gibson é informado que um extraterrestre passeia pelas ruas de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Por que essa escolha já que tudo por aqui acontece no Rio ou em São Paulo? Conheço a cidade e quase fui expulso de lá por conta de minhas limitações culturais. Declarei num artigo que a comunidade está implantada no pampa gaúcho. Levei um puxão de orelhas: “Ficamos no Planalto Médio. Até Teixeirinha diz isso numa música.” Quem mandou não escutar o bardo gaúcho nem estudar geografia?

Fora este deslize, e apesar do frio, me dou muito bem por lá. Freqüentemente sou convidado para ciscar naquele terreiro e fiz muito boas amizades ali. Apesar do frio. Acostumado com o clima ameno de Garanhuns e congelando aos quinze graus, suportei com garbo e elegância os nove graus que costumeiramente baixa na cidade. Num dessas noites geladas, torcendo moderadamente, assisti o Sport vencer o Grêmio. E tudo sem fazer um inimigo, afinal estava cercado por solidários torcedores do Internacional.          

Claro que não foi o futebol, muito menos o frio, que me levou a Passo Fundo. Sob um circo armado no campus da universidade, na companhia de cinco mil pessoas, por toda uma semana passei todo o dia e parte da noite a escutar outros mortais falarem de suas obras e suas criações. Perdemos a noção do tempo e embevecidos gastamos nossas horas enquanto lá fora o mundo corria com seus encantos. Manhãs de sol, crianças nas ruas, velhos nas praças, carneiros pastando, bovinos e muares sob as serras. E nós enfurnados em tendas, protegidos do vento e da vida, a discutir palavras.

Somos uma estranha trupe e nos encontramos em todos os lugares que nos permitem a falta de lucidez. Anualmente invadimos Paraty. O mar está próximo, mas também ali somos fustigados pelo frio. Ele nos avisa que aquela não é a nossa praia, que a cidade carece de belas moças semi-nuas a quarar sob o sol tropical. Teimosamente, no entanto, vestimos pesados casacos de couro, nos cobrimos de lã e pisamos as pedras seculares que nos dá um eterno andar de bêbado. Novamente buscamos o abrigo de tendas e, aborígenes modernos, voltamos aos nossos debates, ao exercício perdulário de gastar palavras, palavras, palavras.

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VIVER É ARRISCOSO

Riobaldo Tartarana, o brilhante jagunço maquinado por João Rosa, tinha medo da vida, mesmo assim trocou tiros com Hermógenes, amou loucamente e sobreviveu por muitos anos, um tempo suficiente para contar suas venturas a um ouvinte desconhecido. Sobreviveu agarrado em suas crenças e no desespero de não poder concretizar os desejos do peito. Quando pensava em religião, variava, bebia água de todos os rios, quando devotava seu amor via Diadorim como uma neblina.

Um homem sábio temente a Deus e ao diabo.

Contra esta corda bamba permanente que é a vida, não há muito remédio senão viver, e viver intensamente, como fez Riobaldo.

Um tio meu bem criativo, maquinando uma vida segura, projetou uma casa onde seria possível morar livre de todos os riscos. Desenhou quadrados, estabeleceu espaços, pensou soluções para todos os problemas, previu todas as brechas possíveis para a insegurança e, enfim, fechou o projeto de seus sonhos: um imóvel sem portas ou janelas. “Ninguém vai conseguir entrar nesta casa”, constatavam os céticos. “Nem mesmos ladrões ou homicidas”, rebatia meu engenhoso tio que, infelizmente, não encontrou pedreiros ou mestre-de-obras capazes de concretizar seus sonhos de segurança. Hoje vive no décimo segundo andar de um edifício comum. Aparentemente livre de perigos.

Isso enquanto fica em casa, pois nas saídas há sempre um trânsito cada dia mais difícil. Embora não morando na mesma cidade que este meu tio, vejo o quanto tem se tornado ariscado andar nas ruas das grandes e pequenas cidades. Vai longe o tempo em que uma modesta batida de carros sem vítimas, fatais ou não, era assunto por toda uma semana em Palmares ou Matriz de Camaragibe. Discutíamos o prejuízo dos infelizes proprietários e os possíveis lucros dos mecânicos escolhidos para reparar os estragos. E isso tomava dias de nossas vidas até que nova batida ou, mais comum, as notícias de um novo adultério aumentavam nosso repertório de prosa boêmia.

Os tempos mudam e a vida se torna cada vez mais ariscada, parece uma bolsa de valores onde apenas se negociam ações de massas falidas.

Freqüentemente escuto notícias de seqüestros relâmpagos, novos golpes na praça, balas perdidas, agressões no trânsito e busco encontrar um outro lado da vida. Nunca consigo chegar ao excessivo grau de otimismo daquele personagem do Roberto Benigni, o Guido de A Vida é Bela, mas acredito que estamos num tempo de bonança. Talvez isso se deva ao fato de vir de outros tempos, não tão remotos, é certo.

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O QUE SE APRENDE NOS JORNAIS

Todos os dias abro os jornais para enfrentar as mesmas manchetes. Quando não tem mortes, têm-se faltas homéricas: de educação, de saúde, de recursos financeiros. E logo chega à lembrança uma frase da escritora austríaca Elfriede Jelinek, ganhadora do Nobel de Literatura de 2004: “Dê uma olhada nos jornais: eles são ainda mais bárbaros do que as barbaridades que relatam.”

Jornalista de longo curso, às portas da aposentadoria, às vezes ainda me surpreendo com excesso de crueldades e desgraças descritas pelos coleguinhas. Onde apanhamos todas estas notícias? Na vida, meus caros, que sempre se faz cada vez mais surpreendente. Eu mesmo caí na profissão pelos imponderáveis da existência. Quando menino tinha uma professora que freqüentemente expunha imensas imagens de cena diversas: meninos brincando, adultos dialogando, cavalos nos prados. Nossa missão era descrever a cena o mais imaginativamente possível. Ali eu podia mentir à vontade. Gostei tanto do jogo que decidi ser escritor, mas como somente, àquela época, Jorge Amado e Érico Veríssimo viviam de literatura, fui ser jornalista.

Vi coisas tão surpreendentes que me caía na dúvida: é para rir ou chorar?

Num desses dias onde nada acontece e você precisa fechar um telejornal de maneira no mínimo interessante, ouvi a conversa indignada de um motorista da redação. O cunhado, dono de um fusquinha, havia sido multado ao passar num radar do Detran. O aparelho garantia que o moço estava a cento e quarenta quilômetros por hora. Aí tem notícia, pensei. E levamos o fusquinha ao autódromo, junto com um piloto profissional. Por mais esforço que se fizesse o carro não conseguia chegar aos oitenta quilômetros por hora. Salvei meu plantão criando uma polêmica. E como era sábado, não encontramos nenhuma autoridade para defender os utilíssimos aparelhos de controle de velocidade.

Na segunda-feira retomamos o assunto. Em linguagem jornalística, fizemos uma suíte. Voltamos ao autódromo, desta vez com o diretor do Detran. Ele mesmo dirigiu o fusquinha e constatou seu sofrível desempenho. E ali mesmo lavrou a sentença. “Realmente deve ter havido algum erro do aparelho, mas isso nós resolvemos de maneira simples. O cidadão paga a multa e imediatamente solicita a abertura de um processo administrativo. Daí vamos fazer novas vistorias no veículo e no radar e, dada as conclusões, nós o reembolsamos. Acredito que este processo não demore mais que três meses”

Como vimos, tudo muito simples, com todos os direitos do cidadão plenamente assegurados.

São por estas e outras que defendo a verve do cangaceiro: “Ô uma peixeira amolada no toitiço…”

Ou mesmo um outro senhor que, premido por uma injustiça qualquer, procurou um grande paladino da imprensa pernambucana, o repórter Jota Ferreira.

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O POETA E A FLORESTA

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“Quantas lutas lutou este homem? A voluntariedade da coragem e da insubmissão não se mensura pela matemática.”

Mais que o sonho, comovem-me os sonhadores, sobretudo os pragmáticos, aqueles donos de afiadas peixeiras usadas para desmilinguir as dores do mundo, para tecer novas manhãs.
 
Pernambucano, ao contrário de Manuel Bandeira, não detesto a peixeira. Sei que antes da violência, a peixeira reverencia a vida, serve para tratar o peixe, colher o feijão, fazer o alimento. Transmutada em palavra, também se presta como ferramenta metafórica para ferir a consciência doentia dos torturadores, é lâmina ardente na mão dos sonhadores utópicos e pragmáticos, os verdadeiros arquitetos do novo tempo.

Conheço vários desses construtores, mas um em especial me comove sempre. Munido de poesia, este amigo nasceu na floresta e, ainda menino, aprendeu a respeitar as fúrias e os acalantos das árvores e dos animais. Seu sentimento de preservação, assim, vem de longe, é sangue que corre nas veias.

A poesia, sua arte de eleição, aprendeu diante de uma tragédia infantil que se desenhou para seus olhos. Era menino, ainda, e brincava num barranco beira-rio com um companheiro também infante. De repente – este tempo necessário às máculas – as águas sugaram o camarada do poeta e o envolveu com o manto do fim. Um prélio inútil, o do ser buscando a sobrevivência contra a natureza do rio, o elemento que faz nascer a vida, mas que, ambicioso, guarda em seu leito todas as oferendas que recebe.

O rio pensou o corpo menino como oferta e o engoliu. O outro menino, o que ficou na segurança margem, absorveu a tragédia com fome lírica. Digeriu aquela primeira perda para tirar dali o húmus necessário à construção da arte e da beleza. Fez-se poeta, enfim.

Quando chegou na idade de prover a vida e escolher uma profissão, foi estudar medicina, mas a poesia, amante ciumenta, se agarrou às suas pernas e não admitiu ser abandonada. Homem de um só coração, cedeu aos apelos da noiva, casou e se jogou numa união indissolúvel. Lidando com verbos, frases, figuras de linguagem tantas, acarinhando as palavras, nunca traiu sua paixão.

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COLECIONANDO PALAVRAS

Para se chegar às aventuras desmedidas de Riobaldo Tartarana carece antes passar por nonada. E só depois vem o tiro e o resto – Diadorim e Demóstenes, o bem e o mal, o inventar de uma linguagem nova e arcaica, moldada no ontem e no daqui pra diante. Nonada. A corruptela de não é nada vem a ser o todo, o tudo. E sempre penso nisso todas as vezes que desembesto por minha luta cotidiana, a escrita, a luta vã no dizer de Drummond. Pois bem, penso sempre no princípio de tudo, neste nonada que vai conduzir o leitor ao ponto final.

Lembram o velho dizer do velho Mao, “toda longa jornada começa com um primeiro passo”? Vivo a pensar neste primeiro passo que desencadeia o processo criativo do escritor, essa magia. O leitor carece de um choque inicial, de ser agarrado pela goela, do contrário, foge, vai em busca de outros encantos. Leitor é bicho volúvel, mas quando se apaixona de fato mantém fidelidade eterna.

Eu era um adolescente metido a sabido que andava sempre com um livro debaixo do braço. E, quanto maior fosse o volume, melhor. Parecia que aqueles livros miúdos, como os de Hermann Hesse, não tinham lá o que me dizer. E apregoava, crente que sabia de tudo, literatura tem que ter sustança. A tese chinfrim foi pro beleléu quando li O Estrangeiro, de Albert Camus. Um choque tão da gota serena que voltei imediatamente ao início do livro e comecei toda leitura novamente.

Não se incomodem em pensar: toda minha família sabe que tenho uns quatro parafusos de menos.

Bem, dizia de livros parrudos. Um que me encantou pela lombada foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Era uma tradução de Eliane Zagury, uma edição da Record, de capa bonita, onde predominava o branco e uns desenhos coloridos. Já fui pra ele com aquele sentido de “este tem o que dizer”. E tinha, o que vi logo na partida: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Amarrado por nó de marinheiro, extasiado, fui até o ponto final. Perdi aquela edição, comprei outras. Fato é que vez em quando volto ao romance e ainda me surpreendo com todas as suas magias. É impossível parar depois de ler, ainda na primeira página, ou na segunda, “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome”. E até hoje vivo a nomear as coisas como se o mundo fosse recente.

Vivo a colecionar palavras, acho que vocês perceberam. Também sei que esse é um ofício de desmiolado, mas que posso fazer? Cada qual que se sustente com o vício que melhor lhe apetece. Vamos lá, pois tenho a gravidade do traficante, do aliciador que aconselha: Colecione as palavras pela doçura com que elas se desprendem dos lábios. Não caiam no mal-humor de João Cabral de Melo Neto, pois mesmo naquele idioma pedra, onde as palavras ulceram na boca, no falar arrastado do sertanejo, há malemolência melíflua. Vejam o desasnar, o arribar, o malacacheta, o favela, todos termos bailarinos, belos ainda quando conspurcados.

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O SEQÜESTRO DE DOM HELDER CÂMARA

Parei de rezar há muito tempo. Hoje minha memória não alcança nada além de uma Ave Maria ou um Pai Nosso. Nada mais. A decisão foi voluntária, mas inconsistente. Tenho uma irmã carola de batizar e casar. Se o padre cochila, ela diz até missa. Ou seja, na família já tem reza de sobra, de forma que pude ir cuidar de outras coisas.
 
E fiz isso com um grande aval.
 
Numa conversa de mesa de bar ouvi o velho senador Teotônio Vilela contar: “Meu irmão, o cardeal Dom Avelar, era o diabo quando menino. Depois resolveu seguir vida religiosa, de forma que pude continuar endiabrado, e fui cuidar de política.”

Os meus pecados são menores: cuido de literatura.

Bom, voltando à carolice da família, minha irmã segue o exemplo de uma tia, também afeita às práticas do catolicismo. Ouvir a conversa das duas faz de qualquer pecador um homem pio. Eu é que, ouvindo várias dessas conversas, não tomei jeito. Fazer o quê? Como elas mesmas asseveram, são os desígnios de Deus.

Numa dessas conversas minha tia contou, um tanto em êxtase, que encontrou Dom Hélder Câmara, por acaso, no centro do Recife. Naqueles dias, finais dos anos de 1970, o arcebispo circulava sozinho, na companhia de suas crenças, cumprimento e dando atenção a todos que lhe procuravam. Nunca lhe faltou uma palavra de carinho para deixar com quem quer que fosse, uma solidariedade cotidiana.

De minha parte, na cabeceira, deixava um exemplar de O Deserto é Fértil, uma reunião de crônicas que lia por prazer e desejo de conhecimento. Impressionava-me o texto corretor, seguro, prenhe de referências religiosas, mas sem imposições. Os exemplos, Dom Helder arrancava da vida, e ela, a vida, na sua conceituação de injustiças e contradições, era que devia ser mudada. Não interessava aquele homem frágil apenas o paraíso celeste, a terra também podia ser transformada num novo Jardim do Éden, um lugar de bonança, felicidade e harmonia para todos.

Minha tia não cansava de falar da tarde em que caminhou ombreada pelo sacerdote, o interrogando e ele, pacientemente, a lhe falar de Deus e dos homens. E eu ouvia seu relato apanhando os ensinamentos possíveis. Até ganhei fôlego para discutir com um amigo, dias depois, numa ocasião qualquer. Num tempo maniqueísta, onde a isenção se fazia impossível, o amigo, um tanto emprenhado pelo cântico do este-é-um-país-que-vai-prá-frente, disparou: “Dom Hélder foi integralista”.

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ELOGIO AO VELHO CAPONE

Conta a lenda que, caminhando pelo deserto da Palestina, sem comer nem beber há quarenta dias, Jesus Cristo avistou um canavial. E não me perguntem como este canavial foi aparecer no deserto; estamos no terreno da lenda. Pois bem, o filho de Deus descansou sob a sombra modesta, sim, mas generosa e saciou a sede e a fome com o caldo doce da cana. Ao sair abençoou a planta e decretou: “Daqui o homem irá tirar algo doce para seu alimento”. Assim surgiu o açúcar, o melaço, a rapadura.
 
Seguindo na mesma trilha, para atanazar Cristo, Satanás entrou no mesmo canavial do mesmo deserto. A palha da cana o deixou todo lanhado, não consegui uma sombra que fosse e quando tentou se encostar encheu as costas com aquele pelinho que dói prá lascar. Para aliviar a sede quebrou uma cana e a bicha tava mais azeda que jiló. Arretado com aquilo amaldiçoou o partido: “Daqui o homem irá tirar um produto que vai lhe queimar a goela, vai lhe deixar embriagado e vai lhe desgraçar a vida”. Assim surgiu a cachaça.
 
A lenda tem suas injustiças. Açúcar é doce, mas engorda. Cachaça desgraça, mas pode ser degustada com moderação e prazer. Tudo é uma questão de dosagem. No mais é secundar Ascenso Ferreira: “Suco de cana-caiana tirada do alambique / pode ser prejudique / mas bebo toda sumana…” Daí é apreciar sem culpas as qualidades de uma boa cachaça.
 
A lenda não fala, mas com certeza na maldição do diabo constava um item falando que a descoberta se daria num país onde o governo tem mais sede que nós, os bravos consumidores. Falo aqui de uma sede metafórica, pois é mais fácil sustentar a gula de um caminhão Ford com gasolina que o governo com imposto.

Esses dias, conversando com um produtor, o cabra foi categórico. Envolvendo todos os custos – plantio, colheita, destilação, armazenagem, embalagem, transporte, salários, direitos trabalhistas, lucros, etc –, ele consegue botar na prateleira uma garrafa de cachaça por 20 reais. Quando entram os impostos federal, estadual e municipal o custo pula prá 50 reais, o preço de um uísque de qualidade. Daí ele se complica com a concorrência.
 
Como para todo bebedor a persistência é uma norma, apelei para a Internet. Descobri uma página maravilhosamente bem surtida e com preços atraentes. Esperançoso, iniciei as negociações. E fui até a pergunta fatal: Onde devo entregar o produto? Em Brasília, respondi. Não dá, quando chegamos aí o governo local nos morde com tanta força que não há como compensar o prejuízo. Frustrado, fiquei na sede, ruminando prá onde vai tanto imposto.
 
De onde ele vem, eu sei. Uma pesquisa recente informou que até o dia 25 de maio todos os brasileiros, inclusive os aposentados, trabalharam apenas para pagar impostos. E isso se repete todos os santos anos. Ou seja, a coisa é bem mais séria do que simplesmente taxar a cachaça e seus sagrados consumidores.
 
Constantemente leio nos jornais que os governos comem 50% da conta de luz. Outro dia caminhei uns três quilômetros acompanhando uma imensa fila de carros para descobrir que todos esperavam pacientemente para abastecer sem pagar impostos. O preço da gasolina estava por menos da metade. E até o cândido açúcar, mesmo abençoado pelo Cristo, carrega 30% de seu preço em impostos.   
 
E tudo piora quando, voltando aos jornais, lemos sobre estradas sem asfalto, hospitais sem médicos ou remédios, escolas sem merenda, sem professores, sem motivação. E o que se faz com todo dinheiro arrecadado? Será? Bom, pode ser uma explicação. Vamos lá.
 
Marcos Freire era presidente da Caixa Econômica Federal e recebeu a visita de Luís Portela de Carvalho, ex-prefeito de Palmares. Junto entrou no gabinete uma comissão de cinco prefeitos gaúchos que buscava dinheiro para comprar um patrol. Vendo aquilo, Portela desdenhou: “Comprei uma esta semana com recursos próprios.” “Como, tchê?” “Eu não roubo”, respondeu na lata, para constrangimento de todos.
 
Tudo uma questão de formação moral. Luís Portela sabia o sentido pleno da palavra república, coisa pública, e hoje é quase uma lenda urbana em Palmares onde há um verdadeiro culto à sua atuação na prefeitura.
 
O velho descontrole na fiscalização e as notícias que assolam os jornais explicam por que não pude comprar minha cachaça com entrega em domicílio. Um amigo chegou a se exaltar e defendeu o Chile como exemplo de política de impostos e de soluções. “Lá o vinho é considerado alimento e tem uma taxação justa.” Bom, como não dá para considerar cachaça alimento, a menos que se queira ser excomungado pelos patrulheiros de plantão, e sabendo que a economia chilena é igual a do estado de São Paulo, o melhor é apelar para nosso sagrado jeitinho.  
 
É preciso ciência até para tomar cachaça. E neste caso a solução foi inspirar-me no velho Al Capone. Pois bem, procurei uma amiga que trabalha em Luziânia, uma cidade goiana nas imediações do Distrito Federal. De comum acordo passei ao fornecedor o endereço de trabalho da moça. Os cabras, livres da mordida distrital, deixaram ali a preciosa encomenda e eu a apanhei aqui, do outro lado da fronteira com ela, numa ação digna de um bom e nobre sacoleiro. Tudo muito prático.
 
Meu gesto faria ri o velho Capone, pois não passo de um reles amador, mas também nossa Lei Seca não chega aos rigores americanos de antanho, e no mais não consigo correr do governo quando compro açúcar, abasteço o carro, pago a conta de luz. Acho que preciso estudar melhor a vida do velho gangster, afinal a taxação da cachaça ainda dá para agüentar, mas bem que gostaria de saber em que árvore nascem os impostos. Com certeza conseguiria um bom exorcista para tirar dali a praga do cramunhão.                           


UMA PÁTRIA ENVERGONHADA

Carregava nas mãos um livro raro, pelo menos para os meus conceitos de raridade. Nada extraordinário, somente um volume miúdo prenhe de sentimentalidades e simbolismos. Brasília, Cidade que Inventei – Relatório do Plano Piloto de Brasília, de Lúcio Costa. Livrinho modesto, de edição pobre engrandecida pelo depoimento e a intensa poesia do urbanista.

Solenemente passei o volume ao meu filho mais velho, nascido na cidade inventada por Lúcio.

- Aqui está a gênese de sua terra.

O menino folheou a esmo o volume.

- Pois é, você vive reclamando da minha letra, mas veja como esse cara escreve. Alguém entende isso? E ele planejou Brasília.

Engoli em seco. Não se carece de letra bonita, bem desenhada para se concretizar sonhos, reconheci, e Lúcio Costa tinha outro predicado: a profundidade cultural. Seu texto escorre num português correto, preciso, mesmo quando trabalha enfrentando a urgência de solidificar o desejo de uma cidade em tudo nova, e a bordo de um navio, no balanço do Atlântico, vindo do exterior.

Desembarcado no Rio de Janeiro, Lúcio procurou o poeta Carlos Drummond de Andrade para revisar o texto. Drummond reconheceu que nenhum trabalho teve. Fora uma ou outra vírgula em lugar inadequado, nada teve que mexer.

O drama da letra ilegível me persegue. Até hoje minha pobre letra sofre de profundas incompreensões, mas aprendi com uma professora a driblar o problema. “Escreva com letra de forma”, aconselhou-me. “O importante é manter a correção gramatical e a compreensão do texto”, completou a boa mestra que não cansava de dar luz a este cego gramatical. Um dia me chamou num canto da sala para explicar que o “mas” é uma conjunção que serve para ligar orações e deve ser precedida de vírgula, nunca abrir uma frase como estava numa de minhas dissertações.   

Fiquei tão impregnado destas boas regras que por segundos cheguei a desprezar um de meus grandes ídolos. Num sebo, eufórico, encontrei um exemplar do livro Problemas Inculturais Brasileiros, de Osman Lins. Comprei o volume e corri para ler. Já na primeira frase, a decepção, o susto. “Me ocuparei, aqui, de aspectos ligados…” O alivio chegou na frase seguinte. “E se inicio o trabalho com um pronome oblíquo, é para significar que sou – ou pretendo ser – um escritor, não um gramático, conhecendo as regras básicas do meu idioma, tendo porém o direito de rompê-las, não gratuitamente, é certo, mas quando certas razões, subjetivas ou não, induzem-me a optar por esse rompimento, então significativo, como é o caso presente.”

Meti a viola no saco e computei mais uma dívida com Osman.  

Numa crônica já antológica, Luis Fernando Veríssimo explica com propriedade essa relação do escritor com a linguagem. “Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas.” E fecha o texto com chave de ouro: “A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.”

Bater na Gramática, que Luis Fernando escreve com letra maiúscula, como o viver, é ofício perigoso. Que o diga Guimarães Rosa, monumental criador de neologismos. Ouvi do iconoclasta Joel Silveira a sentença: “Guimarães era uma besta. O matuto mineiro não fala do jeito que ele escreveu.” Movido pela bravata juvenil e algumas doses de uísque, tomei as dores do velho Rosa. “E não fala mesmo, pois Guimarães não se preocupou em transcrever o matuto, ele criou uma nova linguagem, fez um trabalho de sociolingüística.” Meu protesto se perdeu no meio da conversa de bar.   

Conheci esta vertente da Gramática lendo Antônio Houaiss. E aprendi que ela estuda a evolução popular da língua, e não serve para justificar os erros e aberrações da atual literatura marginal nem do falso regionalismo de sempre.

Agora vem a autora dessa aberração distribuída pelo MEC e chamada Por uma Vida Melhor evocar a sociolingüística. Paciência. Nem mesmo o mais inculto tabaréu de Coité do Nóia fala “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O diabo é que a praga já pegou. Em seu site na Internet o jornal Correio Braziliense veiculou a seguinte pérola: “Livros com erros de português cria polêmica nos meios acadêmicos.” E põe polêmica nisso.

Fui ingênuo acreditando que macular a Gramática era coisa antiga. Digo isso por preservar em minha estante um velho exemplar de Avalovara, belo romance de Osman Lins, com uma dedicatória primorosa: “Ary, ofereço-lhe esta obra cujo altor é professor da faculdade de filosofia de Marília. Espero que goste. Feliz Natal. 25/12/73.” A assinatura é ilegível e o autor está mesmo escrito com L. De boa, acho que este cabra é parente próximo da autora do tal Por Uma Vida Melhor

“Minha pátria é minha língua”, repito Fernando Pessoa, enquanto o Ministério da Educação deles teima em criar uma pátria lôbrega, setemesinha, indigente, desgraçada.


CÃES, GATOS E OUTRAS ESTIMAS

Final de tarde, da janela da sala onde acumulo livros e outras quinquilharias, contemplo a vizinha que passeia com seus cachorros, três bichos pequenos e brancos que se arvoram donos do condomínio. Invadem todos os quintais, agarram-se às pernas de quem passa, latem em coro. Pacientemente a moça os acompanha e também late para chamar um ou outro que se desgarra do modesto bando.

Admiro a dedicação quase sacerdotal de quem se faz propriedade de bichos de estimação. Falo com autoridade posto que também os tenho.

Denunciei-os numa reunião de condomínio. Era a primeira que se realizava entre os felizes proprietários de um novo imóvel, e talvez por isso o quórum fosse tão expressivo. Na pauta, as primeiras regras a serem cumpridas. E daí a pergunta inevitável: Quem tem bicho de estimação? Coloquei-me entre o grupo e, enquanto meus colegas falavam de cães, pássaros e gatos, apontei meus ácaros, cerca de dez milhões que vivem numa comunidade harmônica entre meus livros.

Os ácaros, senhores, não mordem nem arranham seus donos, não latem, não miam nas madrugadas, também não descomem em público. São um primor de educação. Discretos e intelectualizados, só são prejudiciais nas matérias sensacionalistas do Fantástico. Ali se fala até do horrendo porte dos bichinhos, mas a beleza é um estado de espírito, quem viu fotografias de Ruy Barbosa e de Jean-Paul Sartre sabe disso. E eu, padrinho de casamento e batismo de vários ácaros, sei o quanto é doce sua convivência.

Já cães e gatos…

Minha prima Cristina era dona de um gato que, acredito, nasceu na família real inglesa. Sua comida era especial, somente dormia sobre almofadas postas aos pés da cama de sua dona e com o quarto completamente escuro. Qualquer minúsculo barulho na casa, o bicho acordava e reclamava em miados dolentes. Durante o dia, magistral, ficava horas deitado numa poltrona da sala como um lorde em ascensão.

Numa curta viagem de sua dona, ficou conosco aquele trambolho que nada fazia, que nada podia. Magnanimamente recusava toda e qualquer ração que oferecíamos. Preocupados com uma possível inanição, partimos para um tratamento de choque. Em uma seringa sem agulha botamos uma bem servida dose de cachaça que injetamos pela guela do bicho. Um santo remédio. O gato deu uma breve corrida, cambaleou um pouco e dormiu o resto do dia. Ao acordar estava curado. Comeu tudo que lhe foi servido, inclusive restos de pão dormido.

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A MENTALIDADE DA DESCONSTRUÇÃO

A televisão ensaiava algumas cores. Era um borrão onde o vermelho agredia nossa visão espantada, encantada, perplexa. E o programa de entretenimento, entre muitos escuros e poucos claros, mostrava um israelita que entortava garfos e facas, o paranormal Uri Geller. Era um fenômeno. Com o poder da mente era capaz de quase tudo, contava.

Servindo ao Exército de Israel precisou saltar de paraquedas carregando uma bazuca. Para fazer um pouso perfeito, tirou todo miolo da arma. Já no avião lembrou que precisava atirar, e como faria com o equipamento desmontado? Usou a mente. Pousou com elegância, atirou e – pasmem – o disparo mereceu elogios e, certamente, tapinhas nas costas. Ao chegar ao alojamento as peças da bazuca desmontada estavam quentes como se realmente tivessem sido usadas.

Diante disso ficava fácil acreditar no depoimento de vários telespectadores que garantiam, atendendo ao pedido do paranormal, terem visto o liquidificador posto sobre a televisão ser ativado mesmo estando desligado da tomada. Minha descrença é que nunca me permitiu acreditar nas proezas desse herói destruidor de faqueiros e muito menos botar qualquer aparelho elétrico sobre a TV.

Talvez tenha perdido uma grande oportunidade de renovar meus valores, não sei.

Fato é que vinha eu de um tempo de descrenças, “um tempo onde o tempo não se esquece e os trovões eram roucos de se ouvir”, como cantava Zé Ramalho. Tempo de destruições homéricas. No Recife o prefeito Augusto Lucena, para abrir a Avenida Dantas Barreto, como um Pereira Passos moderno, destruiu casarões antigos e até a igreja dos Martírios. Diante da grita dos preservacionistas, declarou: “Se eu fosse prefeito de Roma demolia o Coliseu, um trambolho sem qualquer utilidade.” 

O senso da destruição cantava em todos os recantos. E sempre com o mote monocórdio. Destruir para construir. No Rio de Janeiro a vítima desta estranha batalha foi o Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal. Um prédio belíssimo em sua exuberância arquitetônica. Caiu por determinação do presidente Emilio Garrastazu Médici para se construir o metrô carioca que, indiferente, caminha sob o vazio da antiga praça, do velho abrigo do palácio cujos lustres e colunas góticas decoram churrasqueiras em Brasília.

O sentido de um tempo. O Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, construiu uma reforma educacional que desconstruiu todo sistema de educação pública. Priorizou a formação universitária que, de inicio, abrigou estudantes das excelentes escolas públicas, mas bastaram poucos anos para que essas escolas, minguadas, não mais conseguissem fazer seus alunos vencerem o monstro do vestibular. E nos pátios paupérrimos cantava-se: “Este é um país que vai prá frente…”

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