LIÇÕES DA ARQUITETURA

Parece estranho, mas quando cheguei em São Luís do Maranhão a sensação era a mesma de quando entrei no Juazeiro do Norte. As duas cidades se mostram quase como reflexos de um mesmo espelho: os prédios imensos em desenhos modernos, geométricos, a ausência das casas modestas, os terrenos vazios de habitações tomados pelo capim, os muros claros que escondem moradas retilíneas, as avenidas largas na aparência apinhadas de automóveis, o barulho, a sujeira.

Eu já vira esta mesma cidade em outros lugares e não posso falar de espanto, apenas de tédio.

Em Caldas Novas, uma urbezinha de banhos terapêuticos fincada no interior de Goiás, ela está nos bairros circulares e que aos poucos estão invadindo o centro antes histórico. No Recife o espelho é Boa Viagem que na década de 1920 foi mostrada ao mundo como símbolo de progresso pelo governador SérgioLoreto. Ele abriu a avenida e fez o bonde correr até onde havia umas casinhas de pescadores cobertas de palha e erguidas com barro, mas logo vieram as casas-de-banho e na seqüência os veranistas e suas moradas de pouco pouso e logo as residências fixas e os edifícios e as avenidas aparentemente largas.

Em Salvador vejo que não é mais possível enxergar Clarice nas águas de Amaralina, como um dia viu o poeta Caetano Veloso. A inocência da moça que nunca mostrou-se a ninguém, que vivia entre os meninos e os peixes foi violado pelo barulho urgente das avenidas, dos edifícios. Eles, os edifícios, logo de saída encantam, desafiam a imaginação: que visão do mundo oferecem? Que conforto proporcionam? Como se mora em seus espaços?  A curiosidade, no entanto, se esvai nas brumas do cansaço e “eu olho com olhos lassos, há nos meus olhos ironias e cansaços e cruzo os braços e nunca vou por aí”, como o poeta José Régio.

Assim fiz em Rio Branco, a mítica capital do estado amazônico, o Acre de tantas lendas, tantos temores, onde se ia para enfrentar o mais inóspito dos mundos, aquele marcado por índios e malárias, cobras, onças e puraquês, tudo na busca do ouro que escorria das seringueiras. Quando a conheci a cidade já estava domesticada, mas ainda era feia, escura, com uma lama rala, e para mim eterna, a entranhar-se sob nossos calçados. Era ainda possível encontrar as casas de varandas generosas erguidas com madeiras da região e alicerçada sobre garrafas cheias de barro. Isso mesmo, todo mundo sabe que no Acre não tem pedra e para suprir esta carência o governador Galvez ordenou que nas garrafas esvaziadas nas farras se pusessem barro e ali estava uma base sólida para as construções, um princípio da indústria da reciclagem. Mas logo logo chegaram os edifícios, as avenidas derrubando o madeirame, soterrando em definitivo as garrafas.         

Minha ingenuidade não traz a capacidade de ignorar a inevitabilidade do progresso, do desenvolvimento, mas meu medo se instala quando o vejo matar as tradições, as belezas de outros tempos. Em Salvador, depois de Amaralina, é possível chegar ao Pelourinho que, embora agredido, é quase o mesmo espaço onde vadiou Vadinho e Pedro Arcanjo nos romances de Jorge Amado. Para além de Boa Viagem está o Recife Antigo com seus sobrados estreitos, com a Torre Malakoff reverberando os medos de Ascenso Ferreira que em tempos idos cantava de seu caminhar  “sozinho de noite nas ruas desertas do velho Recife que atrás do arruado moderno ficou.” Assim, o desenvolvimento pode preservar o arruado, às meiáguas do Juazeiro, os azulejos portugueses que estão despencando junto com os sobrados de São Luís, as casas assobradadas de madeira de Rio Branco.

Acho que tudo começou em meados da década de 1950. Num comício de abertura da campanha presidencial numa cidadezinha de Goiás o candidato Juscelino assumiu o compromisso de construir Brasília e se elegeu e reuniu os amigos e se danou a trabalhar. Criou-se o conceito de arquitetura moderna que invadiu a ainda provinciana Goiânia, que foi ganhando corpo pelo país, que abriu avenidas supostamente largas e ergueu edifícios imensos em todos os cantos.

O arquiteto Oscar, o criador, ou pelo menos o instigador de tudo isso fala da necessidade que tem a arquitetura de espantar, surpreender quem a enxerga, e daí a monumentalidade de suas criações. Alguns geniais: a catedral de Brasília, o Museu de Niterói. Há inclusive uma histórica discussão entre ele e o ministro do Exército que exigiu para o quartel de Brasília uma arquitetura nos moldes tradicionais. O arquiteto foi peremptório: “General, quando o senhor vai à guerra prefere armas tradicionais ou modernas?” No entanto a residência que construiu para si na nova cidade foi toda inspirada nas antigas casas de engenho, na estética das cidades mineiras do ciclo do ouro.

A arquitetura é para surpreender sobretudo quem espera o óbvio, aliás como deve ser a vida. 

É pensando na vida que penso as cidades como organismos vivos. Elas se movem, arqueam, modulam-se às novas estéticas e às necessidades dos homens, principal motivo para a existênbcia de uma urbe, de uma civilização. E neste jogo o passado e todos os seus predicados trazem o sentido de pertencimento.

Sou o que sou porque soube olhar o caminho natural do rio Una que ainda passa na aldeia de minha infância. Na adolescência palmilhei as ruas decadentes da Boa Vista, a solidão da Ilha do Leite, o barulho intenso do Pátio de São Pedro. Quando pensei em amadurecer me acolheu a aridez do Planalto Central, suas avenidas largas, os edifício retilíneos que se postam como guardiões de toda beleza singela do colonial que lhe cerca, a arquitetura erguida por antigos bandeirantes, homens que corriam pela precisão do ouro.

Pertenço a todos estes caminhos e por isso sou  contraditório e humano, como as cidades. 


PANOS PODRES

Uma prática muito antiga. Pero Vaz de Caminha, primeiro cronista das terras do Brasil, e seus companheiros presentearam os índios da costa da Bahia, quando ainda não existia a Bahia, com carapuças e panos capazes de cobrir-lhes as vergonhas. E os aborígenes em festa descobriram novas estéticas e ambições.

Quando o Brasil estava já com mais de quatrocentos anos, nos idos de 1943, o médico Noel Nutels juntou-se aos irmãos Villas-Boas, e rasgaram os sertões centrais na expedição Roncador-Xingu. Em Goiás encontraram a expansão do mundo. Aquele universo conquistado na ambição do ouro, durante mais de um século, depois que secaram os veios, viveu ao vento, na solidão da pata do gado. O novo, que em todas as épocas nos espreita na esquina, chegou encoberto pelo discurso da fronteira agrícola. Matas inóspitas de cerrado vieram abaixo na rapidez dos tratores e dos arados mecânicos.

E eles estavam lá, os índios, sob as matas que se derrubavam. Eram muitos e impediam o desmatamento, atravancando o que seus opositores chamavam de desenvolvimento, progresso. Todas aquelas máquinas poderosas eram símbolos do futuro de fartura e não tinham tempo para discutir questões menores, como a preservação de culturas arcaicas. Mesmo assim, generosos, os brancos se dispuseram ao diálogo.

Antes, no entanto, se fazia necessária uma aproximação. E mandaram vir do Rio de Janeiro roupas capazes de encobrir as vergonhas daquela gente que em quase quinhentos anos de convívio com a civilização ainda não aprendera a se vestir. As vestes foram distribuídas e subitamente levas de índios danaram-se a morrer. Uma peste, talvez mandada por deuses etéreos, dizimava aqueles povos e abria caminho para largas plantações.

Noel Nutels, na sabedoria de sua ciência médica, alertou que os índios, na verdade, estavam sendo assassinados. As roupas generosamente distribuídas vinham do lixo de hospitais cariocas e estavam infestadas com vírus de varíola. E sem imunidades nem vacinas, os aborígenes se tornaram vítimas fáceis e doentes fatais.

Anos depois, num auditório repleto de estudantes, numa universidade dos Estados Unidos, Moacyr Scliar, lançando a tradução de seu romance A Majestade no Xingu, inspirado na vida de Nutels, contou essa mesma história. Súbito percebeu que uma moça da platéia chorava copiosamente. Pensou que ela tinha se penalizado com o drama brasileiro e, terminada a palestra, foi cumprimentá-la. E chocado recebeu a informação: “Foi desta mesma maneira que, no século passado, os brancos dizimaram a aldeia de minha gente, aqui mesmo nos Estado Unidos.”

A maldade humana, braços dados com a ambição, cria recorrências terríveis.

Agora mesmo, descobriu-se, o lixo hospitalar americano desembarca no porto de Suape. Vai para o pólo de confecções do Agreste, infesta Toritama, Caruaru e Santa Cruz do Capibaribe e ganha ares de roupas e lençóis. Tudo traficado por uma empresa que se autodenomina Rei dos Bolsos.

Entregue à irracionalidade, o desgraçado que se diz empresário tem as mesmas culpas que os brancos americanos e brasileiros. Todos eles ofertaram, e ainda ofertam, esperanças e sonhos empacotados por riscos fatais, e, pelo pouco que sei de justiça, isso é mais que um crime, posto que circula na esfera da crueldade, da sordidez.

Há um genocídio econômico em curso, tomando as terras do Agreste de Pernambuco. O polo de confecções redesenhou a planta da região. O gado fundador que vinha dos engenhos continua enfeitando a paisagem, mas sua onipresença se divide com as tecelagens, os galpões de costura, as lavanderias. Aliás, ingênuo que sou, sempre pensei que tais lavanderias tinham funções nobres. Somente agora sei que, possivelmente, elas estejam envolvidas numa desgraçada cadeia que ameaça matar vidas e esperanças.

É catastrófico pensar na morte do projeto que baixou a zero o índice de desemprego em todas as cidades da região. As roupas fabricadas por lá espalhavam-se pelo mundo na caçamba de caminhões que antes serviam de pau-de-arara. Os matutos em festa descobriram novas estéticas e ambições. E, como preconizou Luiz Gonzaga Júnior, na voz do pai, “calça de couro, alvorada e brim deram seu lugar pra tal de calça Lee.”

Ainda é impossível calcular o prejuízo provocado pela irresponsabilidade de um maluco, mas ele com certeza virá, ou melhor, já veio. Vi pela televisão um senhor dizer que estava jogando fora a calça nova que trazia no bolso marcas de hospitais americanos.      

Talvez seja preciso apelar para aquele ancestral do poeta Ascenso Ferreira que, no Brejo da Madre de Deus, depois que tomava da branquinha, erguia para o céu uma espada de muitos metros e gritava para os vivos e para os bois: “Quem não acreditar em Nosso Senhor Jesus Cristo que apareça.”

E nem mesmo original este certo Rei dos Bolsos é, pois rei dos bolsos mesmo era o Mestre Biu, alfaiate com banca em Palmares e pai do poeta Juarez Correia. Um dia ele levou para meu tio Paulo, dentista da cidade, um terno que tinha confeccionado. Tio Paulo provou e aprovou a roupa, mas quando enfiou a mão no bolso da calça tocou no joelho.

- Biu, que pôrra de bolso fundo é esse.

- Doutor, o senhor tem muito dinheiro e precisa de muito bolso para carregar. 

Mestre Biu sabia das coisas da vida e torço para que esteja rezando na intenção de que a justiça, pelo menos desta vez, nos chegue ampla e urgente.                       


AINDA NO MUNDO DAS IMAGENS, DAS IMAGINAÇÕES

Volto ao assunto perplexo com a cena que, pela televisão, invadiu minha manhã de quinta-feira. E desculpem se ainda guardo a capacidade do espanto, de ser tomado por surpresas.

Na praça Tiradentes, Rio de Janeiro, antigo celeiro dos teatros de revista, nas proximidades de todo sonho mourisco do Real Gabinete Português de Leitura, explode o restaurante Filé Carioca. Durante o feriado do dia anterior vazou o gás de cozinha do estabelecimento e uma faísca qualquer promoveu a tragédia registrada pelas câmeras de monitoramento de trânsito da prefeitura. As imagens mostram dois homens conversando na calçada, o chef de cozinha Severino Antonio e o sushiman Josimar. Um outro, o bancário Matheus, de 19 anos, caminha. Foram as três vítimas fatais da explosão repentina. Numa trágica repetição dos roteiros dos filmes de Hollywood, dois dos corpos caíram a setenta metros do local, o outro ficou a cinquenta metros.

E todo aquele barulho de entulhos, de poeira crescendo, de dores gestadas na placidez de uma manhã que poderia ser normal, somente engordou nosso repertório de fatalidades cotidianas.     

Somos hoje testemunhas oculares de todas as tragédias do mundo. Diariamente entram em nossas casas os famintos da Etiópia, os mutilados do Oriente Médio, as vítimas das balas perdidas cariocas, as vítimas dos seqüestros relâmpagos de Brasília, os agredidos da avenida Paulista, e nada nos comove. Endurecemos na prática de ligarmos a televisão para ver as notícias enquanto jantamos. Mas logo chegam as novelas e continuamos inertes diante de uma galeria de maldades, de apologia ao mau-caratismos, de exaltação a regras modais que maculam nossa cultura mais íntima.

Se no sertão, meu caro Riobaldo, “viver é arriscoso”, como será que sobrevivemos nas cidades?

Há muito já não temos ilusões. Eu mesmo era adolescente quando, de minha janela, assisti a minha primeira imagem impactante. Um barulho de explosão e uma bola de fogo a tomar o céu de Palmares. Creio que já vira no cinema imagens de Hiroshima sendo arrasada, mas para mim  aquilo era muito pior, pois se desenhava na minha frente. Pouco depois do pino do meio-dia, barracas de fogos de artíficios explodiam pela irresponsabilidade de alguém que resolveu fumar por perto. Àquela hora, por sorte, o comércio local todo estava fechado e houve apenas uma vítima fatal, Maurício, um rapaz que morava na mesma praça que eu. Contava-se que ele conseguiu resgatar uma menina que estava próxima às barracas, mas ainda voltou para buscar a boneca que, na correria, ela deixou cair. Não teve tempo para se salvar.

O fato serviu de assunto para as conversas da cidade durante meses.

Eu, que me preparava para ir ao colégio, ingenuamente, achando que vivia ainda na normalidade, segui a rotina. Vesti a farda e fui em frente. Tudo na cidade era perplexidade, susto, choro. Cristina, uma colega de colégio, ainda pediu para que eu voltasse para casa. Munido de heroísmo infantil, não obedeci. Também não percebi que todas as contabilidades eram de perdas. Além da vida de Maurício, a maior delas, incontáveis vidraças estilhaçadas, vários prédios atingidos, pessoas machucadas e todo o mercadinho Itamarati consumido pelo fogo. Uma comoção municipal, que mereceu destaque nos jornais nacionais.

Olho sobre minha mesa o folheto Os Prejuízos: Em Palmares Causados por Explosão de 5 Baracas de Fogos, por Incêndio, Causando Distúrbios e Acidentes escrito pelo nosso poeta-cordelista Antonio Caetano de Souza. O tempo felizmente não me carregou parte das obras de seu Caetano, como me levou a classificação da literatura de cordel feita pelo competente Liêdo Maranhão que o aponta como único representante dos cordelista de “fatos das eras”, que em livre tradução pode ser lido como cordeis milenaristas.

O leitor que me perdoe, mas não posso continuar a crônica. É impossível resistir ao apelo de um folheto que pede para ser lido.

Pronto, feita minha leitura, volto ao ofício.

Em seu linguajar tosco e livre, seu Caetano descreve aquele horror miúdo diante dos horrores de agora como a ressurreição de uma guerra: “Por que a 7 de maio / num dia 2a feira / as 12 horas, do mesmo / foi horrível a bagaceira / com os fogos, se queimando / gente caia, de esteira. // Quando começou os tiros / eu pensava que era guerra / porque era cada tiro / que estremecia a terra / gente dizia: u’a a outra / tudo agora se suterra.” E ainda credita tudo ao castigo de Deus pelos “fatos das eras”: “Castigo só vem assim / quando ninguém não espera / mas, vamos implorar a Deus / que é de castigo esta era.”

Não me considero tão versado nas escrituras sagradas para formar opinião classificando a loucura de nossos tempos como obra de um Deus impiedoso e justo. Incêndios, desastres, tragédias estão narrados ao longo de toda história da humanidade e talvez Deus já tivesse compreendido que não é o castigo que corrige os homens. Todo mal parece vir mesmo deles, dos homens, de suas ações norteadas por ambições, medos e preconceitos.

O problema é que a dimensão de tudo isso chega cada vez mais rápido e em abundância em nossa casa. E talvez aí a gente comece a compreender que o conserto do mundo está ao alcance de nossos atos.  

Sim, tenho esperança, embora as vezes até mesmo ela peça trégua. É que a tragédia de Palmares teve um prejuízo de ordem gramatical. Meses de depois, amparado pelo seguro, o mercadinho Itamarati voltou a funcional. E a exibir um luminoso: O Itamarati é Fôgo Meu Chapa. Assim mesmo, com acento e desvirgulado. Errinhos desgraçados que ainda teimamos em cometer.                        


O MUNDO DAS IMAGENS, DA IMAGINAÇÃO

Chamava-se Macaxeira. Era um preto retinto de muita idade, com os cabelos embranquecendo. De profissão, engraxate, e tinha banca estabelecida na calçada da farmácia de meu avô, em Catende, isso no tempo em que eu ainda conhecia a cidade e chamava as pessoas pelo próprio nome.

Há muito não vou ao burgo açucareiro, como diziam os bardos de antanho, e já não sei as cores de suas ruas, nem os sonhos de seus habitantes. Também não sei de Macaxeira, embora acredite que sua vida não seja sequer uma lembrança no pátio da feira, na calçada da antiga farmácia. Esvaneceu-se, com certeza, mas sua imagem é viva em minha memória. Lembro até de sua risada e suas descrenças.

Uma de suas incredulidades o fazia contestar a chegada do mundo à lua. Por mais que se argumentasse, Macaxeira sempre tinha um conta-argumento infalível, coroado com sua risada honesta e liberta. Minha avó tomou para si a missão de convencê-lo do feito dos astronautas americanos.

- Macaxeira, como pode você não acreditar na ida do homem à lua? Você não viu as imagens na televisão?

- Muito me admira a senhora, dona Bibi, tão instruída que é e não conhecer os truques do cinema americano.

Tinha razão o velho engraxate. Os truques do cinema americano não são para amadores. Ali na cadeira relativamente confortável do Cine-Teatro Diamante assistíamos proezas inomináveis, revólveres que nunca descarregavam, chapéus que nunca saíam da cabeça dos heróis, índios que saltavam dos prédios, caíam sobre os cavalos e íam galopando tranquilamente sem sequer machucar os ovos. Talvez por ter vivido sempre em Catende, sob a sombra generosa da usina – quando ela ainda podia dar sombra a seus funcionários –, Macaxeira não entendesse que a realidade estivesse reservada de surpresas.

Assisti muitos dramas catastróficos com torres se tornando verdadeiros infernos, tubarões invadindo as areias de praias cálidas e ratos tramando vinganças contra seus opressores, os homens, mas nenhum roteirista de Hollywood conseguiu imaginar dois aviões de carreira destruindo edifícios em Nova Iorque. O 11 de Setembro foi a verdade histórica superando a imaginação mais catastrófica possível.

O fato mudou o curso natural dos acontecimentos e redirecionou o mundo geopolítico. De repente, agredido em sua própria face, os Estados Unidos se tornaram vítima do arcaísmo. Eram os bárbaros hodiernos invadindo o império da democracia, quando uma semana antes o vilão se escondia sob a mesa de trabalho de George W. Bush e maquinava intervenções imperiais.

Ingenuamente, na passagem de um ano-novo, comemorei, talvez solitário, uma vitória. O planeta estava livre do pesadelo preconizado por George Orwell. Chegávamos ao ano da Graça do Senhor de 1985 e todo aquele clima de terror, com câmeras escondidas em cada residência que aprendi a temer desde quando, adolescente ainda, li o romance 1984 não chegara a se concretizar. Podíamos respirar felizes e tranqüilos.

O escritor inglês somente errou de data, aliás, ele não teve qualquer compromisso com isso. Nomeou seu romance de 1984 apenas porque o escreveu em 1948 e somente inverteu os últimos números da data. Também não foi culpa dele ter o nome de seu grande vilão, Big Brother, usado como denominação de uma desses programas indigestos de televisão. Responsabilidade mesmo teve em deixar todos seus leitores apreensivos com a possibilidade de dois países opressores dominarem o cotidiano e a história. E, resguardadas as proporções, este tempo é hoje.

Vivemos um maniqueísta mundo de imagens e as câmeras nos encontram nos lugares mais inusitados. Aliás, não foi em nenhum filme americano com seus inimagináveis truques que tomei conhecimento do fato. No Rio de Janeiro um homem foi morto por uma bala perdida. Estava em um circo acompanhado por uma namorada que logo fugiu. A mulher foi localizada por uma foto tirada por um desses fotógrafos clica tudo quanto é membro do respeitável público. E a história real surgiu. O homem era casado e há mais de vinte anos mantinha um caso com a mulher, também casada. Uma bomba tragicamente risível.

Diariamente, desafiando nossa parca imaginação, a realidade flagrada por câmeras escondidas nos assombra. O próprio 11 de Setembro não seria hoje tão simbólico não fossem as imagens de todos os ângulos possíveis que se repetiram, e ainda se repetem, incansavelmente em todas as televisões. Aquilo fomentou nossas indignações. E agora, quando se reconstroem novas torres no local, milhões de turistas passeiam comovidos e admirados pelo sítio. Entram na igreja de São Paulo, circulam pelo cemitério secular e exaltam a força e a perseverança da grande nação americana.

O império está em crise, mas o que isso importa? Nossos heróis ainda são os vaqueiros indômitos que vimos nas telas, os galantes cantores-dançarinos que, acompanhados de louras fabulosas, circulavam por metrópoles impecavelmente assépticas, soldados que venciam todas as batalhas. Aliás, sempre me intrigou um fato. Os livros de história e as reportagens da imprensa me garantiram que os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, mas o cinema com seus truques me diz exatamente o contrário. Em quem acreditar? No mundo das imagens ou no mundo da imaginação?             

Volto a pensar em Macaxeira. Onde estaria ele na manhã de 11 de setembro de 2001? O que pensaria diante das Torres-Gêmeas desabando? Certamente votaria a desafiar minha avó: “Dona Bibi, eu não lhe falei? Esses americanos não são brinquedo não.” E teria todo direito de rir honestamente livre.
                    


UM YUPPIE NO JUAZEIRO

O tempo traz em si a capacidade de reviver-se, redesenhar-se em recorrências. Os homens e as mulheres mudam as roupas, as modas, mas guardam os mesmos sentimentos de ambição e sucesso. Desta maneira uma crônica escrita no início do século XX falaria de outras modernidades, ousaria outros termos, embora se recheasse com as mesmas surpresas.

Um dândi e uma melindrosa elegantemente trajados em terno, colete, relógio de bolso, charuto e monóculo, ele; cabelo a la garçon, vestido de seda com generoso decote e pequeno chapéu de feltro, colar de pérolas, cigarro com piteira, ela. Conversam sobre os encantos da França. Não falam de negócios, das perspectivas das indústrias se instalando num prenúncio de metrópole, nem sequer sabem da labuta fabril dos quintais. Tudo naqueles tempos tinha o senso da frivolidade. Uma vida passada na ponta do charuto, no enleio do licor.

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguravam cruzes enquanto rezavam pela salvação do mundo. Pediam aos santos que acabassem o martírio da quinze.

Sessenta anos depois tudo seria bossa nova, terno Clube Um, tergal imune ao amassado, um vestido tubinho, um misto de descontração e sobriedade, e as falas a dizer de Carnegie Hall, as luzes de Nova York, um jazz na vitrola, um cigarro com filtro, um uísque com gelo. Negócios se resolviam pelos homens práticos, os que estavam por fora e deixavam que a vida passasse pelas quatro paredes de um escritório de uma avenida paulista.

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguravam cruzes enquanto rezavam pela salvação do mundo. Pediam aos santos que dessem paz aos homens do país, evolvidos que estavam numa luta fratricida.

O calendário corre mais cinqüenta anos e estamos no século XXI. Num café da manhã de um hotel o casal ignora o cuscuz com leite e carne de sol e se apega ao queijo diet com presunto de peru, torradas e café com leite desnatado. O paletó azul escuro cobre a camisa de discretas listas, posta por dentro da calça bege. Ela veste terninho preto descontraidamente jogado sobre o vestido creme que deixa mostrar as coxas grossas, os pés vestidos num sapato de couro sintético de cobra. No decote amplo se destaca a gargantilha discreta. Falam de Orlando e compras em Miami, contam de negócios mirabolantes fechados em reuniões desprovidas de tensões, construções de barragens em terras que desconhecem. Não bebem nem fuma, são apenas lindos e estão vivos. 

E no Horto, beatos e beatas com hábitos marrons e cordão de São Francisco na cintura, seguram cruzes enquanto rezam pela salvação do mundo. Pedem aos santos que dêem serenidade aos homens.
O mundo nasce nos contrastes, nas afrontas, nos confrontos. E a civilização se pauta como um aterro que encobre o ontem sem, no entanto, conseguir matá-lo. É este ontem que nos apressa os passos e, quanto mais marchamos, mais nossos pés recuam numa necessidade infinda de visitarmos nossa natureza íntima.

Estranha é a vida, amigo. Erguer o futuro é construção somente possível com o uso da argamassa de antanho, pois vestidos de ternos bem cortados somos o espelho do homem de fraque, um espelho dos que vestiram peles de animais abatidos com paus e pedras.    

Todas as épocas conduzem em seu âmago o censo da renovação e nem sempre o mais novo é o melhor para o presente. O glamour se reinventa em cada esquina do tempo, promove modas e modos, mas se veste freqüentemente com velhos cheiros, velhas cores. Seu sentido é conceituar novos enfeites, outros perfumes, mas em tudo carrega o peso do passado.     

Descendo as ruas de Juazeiro do Norte uma multidão caminha carregando o peso de suas crenças e verdades. Teme ir além do arco, onde se desenha um novo cenário com a monumentalidade do moderno. Do lado de lá os edifícios se agigantam, os centros de compras se alevantam, a vida se pauta pelo refinamento. Do lado de cá, as casas modestas preservam um oratório em cada sala de visitas e o trabalho e a fé ainda são a dualidade necessária à vida.

Esta cidade sempre moderna foi feita com idéias avançadas. Seu patriarca, o padre Cícero Romão Batista, era um homem de preceitos rígidos, mas de conceitos inovadores. Herdou um povoado modesto, com uma capela e poucas casas, está na história do lugar, formado pelo sonho de outro padre que libertou seus escravos e doou suas terras à Nossa Senhora das Dores. O patriarca não permitiu que ali se fizesse novos escravos e entregou as terras para quem nela pudesse plantar. Cada casa deveria ter um oratório na sala e uma oficina no quintal.

Acabados os desmandos do povoado, o padre se volta para o campo, ensina aos matutos a cuidarem da terra. Plante um pé de pau a cada novo dia, represe os riachos com pedras soltas, faça uma cisterna no oitão de casa para guardar a água da chuva, não mate os bichos do mato, cuide das nascentes, crie seus animais presos, pois desta forma em pouco tempo o sertão será uma riqueza, ou do contrário ficará um deserto miserável.

Hoje discutimos um código florestal que desconhece os ensinamentos de Cícero.  E no meio de todo este cenário o beato e a beata que com cruz e cordão de São Francisca rezando no Horto são o moderno real diante do anacronismo yuppie que se farta no café da manhã de um hotel bem confortável.          



ANDAR COM FÉ

Bebíamos cerveja e falávamos de poesia, dois belos exercício para quem mora na aridez do cerrado, sob a sombra imensa dos edifícios feitos de concreto armado e modernidade. Naqueles idos o poeta Cassiano Nunes ainda se dava ao direito de degustar seu campari sem máculas. E ali estávamos entre goles e versos.

Um moço, desses que se equilibram nas desigualdades sociais de uma cidade qualquer, como quem nasce das sombras entra no bar e nos brinda com pequenos panfletos ordinários. Cassiano foi quem deu atenção ao papelzinho, a propaganda de uma brilhante cartomante capaz de desvendar todos os mistérios de nosso futuro e nos guiar para infalíveis dias melhores. “Não posso acreditar numa coisa dessas”, sentenciou o poeta, e nos contou o porquê.

Ele morava ao lado da casa de uma dessas videntes. A moça vivia à tripa forra, com carro de luxo e alto bem-estar social. Lendo na varanda, deitado em sua rede, o poeta, já aposentado como professor universitário, podia ver a romaria cotidiana à casa da vizinha. Isso de segunda a sexta, posto que, nos finais de semana, funcionária metódica, ela se dedicava às lidas domésticas e ao descanso. E foi num desses dias que ela pôs para secar nas grades de sua casa um imenso tapete. Fim de tarde, finda a faxina percebeu que alguém mais experto levara seu tapete. E Cassiano nos lembrava: “Se ela é capaz de adivinhar o futuro, como não previu que um ladrão passaria em sua porta?”

Verdade. Talvez o ofício destas moças seja mesmo o de se valer da ilusão alheia, da fé que transporta tanta gente, como Nazaré, uma doméstica que arrumava a bagunça de nosso tempo de estudante no Recife. Morávamos em Afogados em uma casa de muro baixo, como então era comum. Voltando do colégio, com relógio batendo quase uma da tarde, encontrei a moça conversando com alguém no portão. Atarantado com o excesso de livros que carregava, sempre uma cota bem além do que me exigia os professores, entrei formulando os cumprimentos de praxe. Fui tomar banho e sai do banheiro com os gritos escandalosos de minha irmã: “Como você fez uma besteira dessa?” Nazaré dera todo seu salário à mulher que prometia tirar dela um encosto que a estava levando a se envolver com um homem casado, o que desgraçaria de vez a sua vida.

Os pressupostos da fé sempre a dominar a esperança.

Outros encontros tive com estes mistérios.

Jornalista de ofício, cobria a movimentação de uma feira de livro em Brasília. Num almoço com os autores convidados, a poeta Hilda Hilst confessou-me que justo naquele dia da semana ela, como de praxe, precisava consultar um desses oráculos. E, claro, queria minha ajuda, já que não conhecia nenhum mago da cidade, a mesma situação em que me encontrava. Apelei para uma amiga que escrevia uma coluna esotérica no jornal e que me passou o telefone de uma certa Tia. Liguei do restaurante mesmo e deixei tudo acertado para o encontro. E Hilda me faz mais um apelo: “Você vai comigo?” Fui.

Pelo caminho a poeta contou-me de sua pouca intimidade com a fortuna. Nascera numa família de posses, mas o tempo se encarregou de levar tudo, inclusive sua intensa beleza física. Foi uma moça longilínea, elegante, de riso largo e olhar marcante, vivo. Belíssima, recebeu incontáveis propostas de casamento, mas dedicou-se aos namorados, como Vinícius de Moraes e o ator Dean Martin. E em Paris, solitária em um bar, foi assediada por um senhor de modos determinantes. Convencido do insucesso de suas investidas, o homem quebrou o copo em que bebia uísque, pagou a conta e se foi para sempre. Era Howard Hughes, então o homem mais rico do mundo.      

Minha amiga não tinha intimidades com a fortuna, e por isso estávamos ali, na morada da Tia, um apartamento pequeno e recheado de coisas, uma atmosfera pesada, opressiva. Fiquei na sala enquanto Hilda foi se consultar no quarto. Saiu impressionada. E aí a vidente se volta para mim: “Preciso lhe dar um passe.” Desconversei, mas novamente não resisti aos apelos da poetisa. E então fui banhado com um perfume fortíssimo e de cheiro terrível. No final recebi a sentença: “Você está destinado a um futuro brilhante, mas há um problema em sua vida. Sua mulher. Você precisa se separar para cumprir seu destino de sucesso.” Mas naquele instante meu único interesse era chegar em casa e tomar um bom banho.

Impressiona-me a capacidade de manipulação de vidas dessas videntes, dessas pessoas que simplesmente brincam de dados com o cabedal de crenças de cada um.

Há toda uma indústria de vendas de esperanças, sobretudo nestes espaços milenaristas em que vivemos. Depois de um século tecnológico, onde as máquinas ditaram o ritmo das vidas, ficamos carentes de mistérios. E daí a enxurrada de magos e videntes.

É certo que a fé ajuda a sustentar os homens nos seus princípios éticos. “A fé não costuma faiá”, nos diz Gilberto Gil. Pena que todos os seus benefícios sejam esquecidos e sua força seja usada para manipular vidas e rechear bolsos espertos.    

Como não creio que qualquer homem possa saber do futuro de outro e também tenho por princípio cuidar de minha própria vida, não me separei até hoje, contrariando a sugestão da Tia. Não sei se fiz certo ou errado, certeza mesmo é que me sinto muito feliz com minha escolha. Não foi desta vez que me roubaram o tapete. E assim prossigo, com fé na vida.  

 


ROSÁRIO DE LEMBRANÇAS

Histórias de Catende

Os operários que deixavam a usina no final do último turno do dia, por volta da meia-noite, conheciam as surpresas escondidas nas ruas de poucas luzes. Carregavam o cansaço da faina, venciam a ponte de madeira sobre o rio Panelas e se aninhavam nas casas do Pavão, o arruado. Outros cruzavam o trilho do trem, passando a estação e ganhavam a imensidão da Praça da Prefeitura. Logo estavam nos becos modestos, nas ladeiras inclementes, nas ruas miudamente iluminadas pelo motor-de-luz da usina. Mesmo quando chegou a luz de Paulo Afonso, o ambiente não perdeu suas cores, a lúgubre chama vinda dos paralelepípedos escurecia as horas noturnas. Ainda assim era possível ver a moça bela que caminhava serena e batia no chão com uma sombrinha, marcando o ritmo de seus passos. Encantava a todos e nenhum daqueles homens rudes formados na acidez do açúcar se negava a acompanhá-la até a porta do cemitério, onde ela docemente anunciava: “É aqui que moro”. E aos poucos se transformava em tenebrosa e horrenda caveira, e seu pretendente corria em desespero.    

Nem mesmo esta paixão da Mulher da Sombrinha conseguia ter Mané Bacalhau, o gari. Chamava minha vó de Madrinha Bibi e todas as noites passava na casa dela para tomar sopa. Esta casa generosa ficava numa esquina que descambava numa ladeira. Daquele alto era possível enxergar o engenho Monte Alegre, e do alto, olhando o engenho, todos os meses, com seu salário de gari na mão, Mané desfiava seu discurso: “Bando de moças feias de Monte Alegre que deixa de casar comigo que sou rico para viver amigada com um cortador-de-cana miserável. Vão todas morrer de fome.” E seguia caminho mitigando sua dor de solteirão. 

Nasci nesta terra por onde circulei muitos medos e alegrias sentindo na pele a fuligem e o cheiro de mel que vinham da usina e se misturavam ao olor irresistível do pão-doce assando na padaria da esquina. Ela, a usina, soberana, ditava suas regras e definia as vidas amalgamadas em largas doses de cachaça, posto que tudo – as dores e as felicidades – carecia vir da cana. 

E as felicidades, como os sonhos, eram pequenas, magras como Zig-Zig, o baleiro que comercializava na porta do Cine Diamante. Alimentava um desejo de arte e um dia se encheu de coragem e desafiou as montanhas de empecilhos. Alugou o Catende Club e promoveu seu show de calouros. Um sucesso. Suas filhas eram as bailarinas, os Ideais, um conjunto de bailes, acompanhava os pretensos cantores, a platéia ganhava brindes amealhados com patrocinadores no comércio local. E a gente se divertia involuntariamente assistindo a uma lição de crença no próprio punho.  

Diversão outra, esta menos ingênua, era a Filopança, um bloco que invadia as ruas da cidade todas as quintas-feiras pré-carnavescas. Esse estranho nome é um neologismo catendense formado pelas palavras filhós e pança, ou seja, filhós na pança, ou comedores de filhós. Uma festa. Todos vestiam mortalhas e carregavam placas com críticas aos políticos e aos simples mortais. Nunca me esquecerei da cara emburrada das janeleiras de uma rua tradicional diante de um cartaz que carreguei com gosto: Rua Quinze, a Língua do Mundo.     

Curiosamente Pelópidas Soares, o contista membro da Academia Pernambucana de Letras, foi um dos fundadores do bloco. Era também comerciante, este primeiro escritor que conheci pessoalmente. Magro, sempre com um cigarro a altura da mão, conversava placidamente, no mesmo ritmo de sua literatura profundamente influenciada pela denúncia social dos prosadores do Romance de Trinta, mas com suaves toques picarescos que lhe davam grandeza e diversidade.

Foi ele quem me contou de uma certa seresta. Todos bebiam animados enquanto esperavam o violonista e cantor, cujo nome esvaneceu de minhas lembranças. E o moço retardava, retardava. Tarde da noite, revoltados com o atraso e a ausência de música, planejaram uma vingança. Encheram uma garrafa de cerveja com mijo e puseram na geladeira, a espera do boêmio. Ele enfim chegou e logo cantou a primeira canção. Sob o som dos primeiros aplausos, lhe ofereceram a indigesta beberragem.  O coitado provou um único gole. Cuspi e decretando: “Traíram o boêmio”. E se foi para sempre.

As noites cercam-se de mistérios, naquela cidade. A Bica do Padre, uma antiga caixa d’água que constantemente vazava do alto, servia de refrigério nas tardes calorentas, mas ninguém, senão alguns bêbados, se arriscava a banhar-se ali sob o luar. Contava-se que todas as noites a água parava seu movimento para dar de beber a um lobisomem que fazia pouso nas imediações da bica.   

O melhor mesmo era vadiar sob o sol, na claridade que nos fazia encontrar com João Beltrão, sempre de paletó e gravata e com os cabelos desgrenhados e compridos. Nunca soube direito o que fazia da vida, mas era muito amigo de meu tio Paulo Rogério. Um dia desembarcou na cidade um cineasta e suas lidas. O filme se chamou O Palavrão e teve nosso João Beltrão entre seus principais artistas. Até Felinho, um dos mais assíduos boêmios da cidade fez o papel de Cristo na película. E João, num truque de cinema, corre, entra na esquina do cine Diamante e reaparece já numa rua de Garanhuns. Virou uma estrela municipal.

Como estrela era o sapateiro, trabalhador regular, mas que tomava suas carraspanas e seguia para casa docilmente. Era surdo e, diante das queixas da mulher, tirava o aparelho do ouvido e dormia o sono dos justos sem ouvi-la desesperada a gritar: “Bote esta merda no ouvido, bote esta merda no ouvido.”

Todas estas prosas se desenham como um longo rosário em minhas lembranças, e creio que elas são tijolos de minha formação íntima.


UM ENCONTRO DE LEMBRANÇAS

Há pessoas que se dispõem a entrar na vida alheia para demover barreiras e criar planícies. Tenho um amigo que é assim e o reencontrei numa dessas tardes de acasos.

Fui ao teatro para assistir uma homenagem a outro amigo e lá estava o livreiro Ivan Silva, também na platéia de admiradores de B. de Paiva, o homenageado, um homem que respira todas as entranhas do teatro. A peça que vimos, um monólogo, , escrito e interpretado pelo ator Ricardo Guilherme, uma biografia alegórica de Waldemar Garcia, um mágico do teatro que formou gerações de artistas cearenses, era sobretudo um tributo à amizade. Guilherme foi aluno e amigo de Waldemar que foi professor, amigo, desafeto e novamente amigo de B. Ou seja, no palco se vivia estas veredas de vidas por onde transitam apenas os imponderáveis da amizade.

É na verdade um sentimento estranho, este da amizade. Nos perdemos e nos reencontramos sem deixar secar o veio do lirismo que sobrevive entre os amigos reais. Também há distanciamentos definitivos e irreconciliáveis, como quase aconteceu entre B. e Waldemar. Eles tiveram a sabedoria de retomarem, na maturidade, a cumplicidade dos sonhos vividos desde sempre e há pouco vi duas fotografias de Waldemar pregadas na parede de B., porque este é o sentido da vida.

Há outra forte amizade na vida de B. Ele escreveu, junto com Hermilo Borba Filho, um livro, Cartilhas de Teatro, na verdade uma minuciosa e muito bem escrita história universal do teatro. B. garante que apenas corrigiu o texto todo escrito por Hermilo, mas não acredito, afinal, ele também é um erudito. E a amizade dos dois descia ao âmago de cada um. Quando Hermilo resolveu se separar da primeira esposa pediu ao amigo B. para comunicar o fato ela, e ele cumpriu a designação com todos os constrangimentos envolvidos. Por saber de tudo isso, compreendi quando B. se emocionou diante de um livro de crônicas de Hermilo com que o presenteei em um de nossos encontros.     

Mas eu falava mesmo é do reencontro com um amigo, o Ivan.

Livreiro de profissão, Ivan Silva se fez amigo de escritores de todas as vertentes. Abria as portas de sua livraria, a Presença, em Brasília, com o mesmo carinho, para Fernando Sabino como para qualquer cordelista dos cafundós do Judas que quisesse lançar seus livrinhos na capital. Patrocinava todas as manifestações que envolvessem o livro. E isso criou uma planície meio acidentada em minha frente.

O caso eu conto, como o caso foi: O ladrão é ladrão, o boi é boi, ensinam os sertanejos. Pois lá vai.

Luiz Berto, depois de tomar uma grande cachaça, se comprometeu em editar um jornal classista, ligado à Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados, em Brasília. Na ressaca foi que viu o tamanho da encrenca em que se metera, mesmo assim seguiu em frente, e saiu em busca dos amigos. Um deles foi o Ivan, com quem acertou publicar uma coluna dedicada à literatura. Para escrever os textos convocou Natanael Guedes, paraibano de Ingá do Bacamarte e danado para fugir de uma briga. Desta vez não foi diferente. O escriba produziu o primeiro texto e depois sumiu. Berto desesperado para fechar o segundo número do jornal e não tinha na terra quem soubesse o paradeiro do Natan.

No desespero pegou o telefone e me ligou com uma conversa breve e direta. “Qual foi o último livro que você leu?” “Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos.” “Pois escreva sobre o bicho que o filho da puta do Natan sumiu.”

Obediente, escrevi.

Coluna publicada, Ivan, o poderoso patrocinador da página literária, que pagava o salário do resenhista com livros, bateu o martelo. Demitiu Natan e me nomeou crítico literário oficial do periódico, creio que mais pelo senso de responsabilidade que pela qualidade do texto. O fato é que desde então – e isso vai prá mais de vinte anos – tenho me equilibrado escrevendo sobre livros e autores.

Ivan tem a capacidade de farejar novos talentos. Embora não tenha sido este o meu caso, constantemente encontro ele falando com entusiasmo de um novo escritor, ou mesmo promovendo encontros felizes entre autores e editores. E tudo pelo prazer de ter uma futura boa história para contar.

No teatro, antes de começar o monólogo, contou-me com intensa alegria a saga de um professor universitário, Jorge de Souza. Ensinava os caminhos intricados da estatística e tinha que lidar com grossos volumes estrangeiros já que não havia qualquer livro brasileiro sobre o assunto. O livreiro entrou no circuito e conseguiu uma editora para um livro escrito pelo professor que botou no texto as peculiaridades tupiniquins de se olhar aquele estranho mundo. Virou best-seller.

A alegria de Ivan era maior ainda ao contar que Jorge de Souza, exímio tocador de violão, é pernambucano. Em Brasília promoveu incontáveis e antológicas serenatas. Não cheguei a conhecê-lo, mas, conta-me Ivan, violão em punho, Jorge transmutava-se e deixava de lado toda a postura de seriedade de um professor. Aposentado, voltou para o Norte, como faziam os antigos e saudosos retirantes. No Recife produziu um longo poema exaltando quase todas as grandezas pernambucanas. Gravou tudo em um DVD que merece ser visto, revisto e novamente visto. Nele Pernambuco se desenha em frevos e maracatus, em mar e sertão. Vaqueiros são caboclos de pena, jangadeiros dançam ciranda enquanto as mesas fervem em peixadas, pituzadas, carne de sol, caranguejos, farinha e cuscuz. E tudo ponteado pela viola de Antônio Nóbrega, os versos de Ascenso Ferreira, a prosa Hermilo Borba Filho, os mamulengos de Ariano Suassuna.

Meu amigo Ivan Silva preserva o prazer de presentear os amigos com as belezas culturais que cobrem o país. E também sabe abrir as planícies da arte, e deixar caminhos para que cada um trilhe livre, com a própria força, com a própria determinação.                                      

 


DESVIOS PROFÉTICOS DA POLÍTICA

Políticos em geral sãos maus profetas. Prevêem futuros promissores e o que nos chegam são misérias e tragédias. Garantem que tais e quais obras serão seguras e no final estamos todos a bordo do Titanic.

Caso a lenda tenha razão, acho que até conheço um patrono para esta gente. Conta-se que um filho do imenso Nostradamus, encantado com a grandeza paterna, quis seguir seu caminho. Fez algumas previsões que não deram em nada, mesmo assim apostou que certa cidade iria ser destruída pelo fogo. Na madrugada do dia programado uma patrulha o apanhou tentando incendiar a comunidade. Ou seja, estes policiais estavam no lugar errado, na hora errada.

Voltando às profecias políticas, contou-me o escritor e sociólogo Leandro Tocantins que na década de 1950 lançou a primeira edição de seu livro, hoje clássico, O Rio Comanda a Vida. Um texto brilhante, onde disseca a vida do homem amazônico e de suas íntimas relações com a floresta e os rios. Tudo ali gira em torno do curso das águas, de suas vazantes, de suas alagações. Um universo muito próprio, com fúrias e acalantos peculiares. Quem o olha de cima, voando sobre as copas das árvores, não consegue enxergar todas as suas dimensões, todos os seus mistérios. Os textos de Leandro são um competente guia para quem se arrisca neste fascinante labirinto.

Pois bem, lançando seu livro mais conhecido, Leandro foi ao Palácio do Catete levando um exemplar para o então presidente Getúlio Vargas. O gaúcho apanhou o volume, leu o título e sentenciou: “Chegará o tempo em que a vida comandará o rio”.

Pouco antes de morrer, em 2004, meu amigo ainda garantia que o rio, pelo menos na Amazônia, continuava comandando a vida. E estava certo, pois até seu lugar de nascimento foi escolhido pelo rio. Em 1928, seu pai era seringalista em Tarauacá, no Acre. A mulher, grávida de muitos meses, resolveu ir a Belém, comprar o enxoval para o menino e não conseguiu voltar a tempo. O rio Tarauacá tinha baixado tanto que a navegação não seria possível. E o menino Leandro nasceu mesmo no Pará e só chegou ao seringal do pai alguns meses depois. Isso ele mesmo me contava às gargalhadas.

E eu lembrava a primeira vez que estive em Rio Branco. Era um tempo de cinzas, com as queimadas assassinas maculando a floresta, com a seca ainda ditando suas regras. O aeroporto ficava dentro da cidade que se desenhava em ruas calçadas com tijolos, o que fazia o cristão concordar com o músico carioca Laurindo de Almeida. Olhando a cidade de cima ele sentenciou: “Rio Branco é uma cidade barroca. Tem barro para todos os lados”.

Depois do desembarque, numa final de tarde, segui para a empresa onde deveria escrever uma revista institucional. Passando sobre a ponte que cruza o rio Acre olhei para baixo e vi o curso lá em baixo, numa distância tamanha que logo pensei que tinha ali alguma maracutaia, alguma ação política duvidosa. Não tinha sentido uma ponte naquela altura para cruzar um rio tão modesto.

Quebrei a cara quando voltei à cidade num fevereiro qualquer e o rio lambia a ponte. Todo aquele barranco profundo estava tomado pelas águas que haviam engolido as escadarias por onde antes se chegavam aos barcos, estes agora bem perto da gente. E juro que vi alguns botos nadando no caudal que comandava a vida do lugar.

Dei razão a Leandro. Recolhi-me à minha condição de homem de outras plagas onde os homens de ação dominam os rios. Eles desviam os cursos para proteger suas cidades, como foi feito em tempos passados com o Rio Una, em Palmares. Se bem que este todos os anos se rebela e invade a cidade com todas as suas fúrias. É rio modesto, mas brabo, como rio que se preza, como o imenso Paraná. Comeram suas Sete Quedas construindo uma hidroelétrica, mas ele às vezes chega com tanta força que os técnicos se vêem obrigados a aumentar a vazante, a deixar a água rolar, caso contrário ela rola a usina.

A mesma sorte não tem tido o São Francisco, várias vezes cortado por barragens, maltratado ao longo de todo seu longo curso. Contavam seus descobridores, os parceiros do navegante Américo Vespúcio, que a água doce invadia o mar por vários quilômetros. Hoje a água salobra e o assoreamento chegam à cidade de Penedo, onde a pesca e a cultura do arroz foram embora com as ambições de Xingó.

É a vida comandando os rios, meu caro Leandro.  E isso já começa a tomar conta das vazantes amazônicas.

Há pouco li nos jornais a polêmica sobre o desvio do rio Xingu. Querem ali uma nova hidroelétrica e nenhuma importância têm as vidas e as culturas seculares que se consolidaram naqueles campos.

Esta é a mesma sina do rio Madeira. Ele conseguiu vencer a teimosia dos ingleses e ajudou a mata a engolir os trilhos de uma estrada de ferro.  Represado se tornou mais dócil, domesticado. E são suas águas que correm, ou deverá correr, por sobre o balneário do Abunã, lugar onde era possível manter o sagrado costume do banho de rio.

Todas estas coisas são menores, na visão dos homens práticos, diante do eterno discurso do progresso, do curso natural da vida a moldar outros sonhos, outras esperanças.

Mais fortes são os poderes dos homens, Glauber Rocha, e os políticos são maus profetas, mas têm poder, e às vezes usam isso para fazer valer suas previsões.  
                              


A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

O folclore político mineiro está repleto de historinhas do genial José Maria Alkmin. Político de longo curso, mais estrada tinha nas tiradas sempre bem humoradas. É dele um lema que constantemente adoto: “Reunião não resolve nada. A gente primeira decide depois se reúne”. No entanto sua frase talvez mais famosa, por conta dos ares filosofais, diz que “não importa os fatos, mas a versão dos fatos”.

Conta-se que um dia Gustavo Capanema teria cobrado de Alkmin a autoria da frase. E ele implacável: “Você pode ter dito lá nas grotas, no interior, mas aqui na capital fui eu quem disse primeiro, o que só confirma a verdade de nossa frase.” Tá explicado.

Esse negócio de autoria é sempre um complicador. Que o diga Gustavo Krause. Denunciado pelo seriíssimo hebdomadário Papa-Figo, do Recife, como proprietário de um certo Bank Krause sediado na Alemanha, o ex-ministro não perdeu a pose. Telefonou para Bione, proprietário, redator e office-boy do tal jornal, para oferecer empréstimos e outras vantagens financeiras. O repórter negou-se a receber qualquer propina do suposto banqueiro. E voltou a denunciá-lo no jornal, como qualquer jornalista probo, impoluto, cônscio de seu ofício.

Gustavo, boêmio assumido, sem nada de banqueiro, tem alma de poeta. Por isso acreditei ser de sua autoria uma frase belíssima. Depois de passar pelo Ministério do Meio Ambiente no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, foi convidado para continuar na equipe de ministros que estava se armando para o segundo mandato do sociólogo. Recusou o convite e provocado por um jornalista foi taxativo em dizer que não gostaria de morar em Brasília, pois “na terra em que o mar não bate, não bate meu coração”. Uma maravilha de frase.

Passei a repetir a frase citando o suposto autor.

Tempos depois, ouvindo o primeiro LP de Gilberto Gil, Louvação, lançado em 1967, remasterizado em CD, estava lá uma impecável canção, Beira-Mar, com música de Gil sobre poema de Caetano Veloso, e logo no primeiro verso “na terra em que o mar…”

Engoli em seco. Sem qualquer autorização de Gustavo, creditava a ele um verso de Caetano. Essa minha mania de falar pelos cotovelos criava-me mais uma complicação, enfim.

Esta não foi minha única, nem certamente será a última confusão em creditar autorias. Às vezes confundo autores, digo de um histórias acontecidas com outro, uma confusão danada, um inesgotável repertório de equívocos, mas tudo em nome de uma boa conversa, tudo por conta de confiar numa memória que não é lá tão generosa. Por conta disso, desconfiado de mim mesmo, também escondo algumas descobertas e evito o constrangimento de passar por mentiroso.

Deu-se um fato desses quando, profundamente impactado pela leitura do Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, isso lá pelo início da década de 1980. Durante semanas, eu, já um monotemático empedernido, só falava do livro. O sujeito contava de futebol e eu inventava como seria um partida com Quaderna, um outro dizia de política e eu salientava que o pior tinha se dado no sertão de Pernambuco. A obsessão era tanta que até Orlando Tejo perdeu a paciência e me encarou: “Maurício vou pedir ao Ariano para escrever outro romance, pois só assim você muda de assunto.”

Mudei, mas fiquei ruminando calado um erro desgraçado que tinha no livro. Domando meus impulsos, guardei segredo por anos. 

O diabo quando não vem manda o secretário, ensina o povo. Pois bem, o poeta Marcus Accioly fazia uma visita à casa de minha rapariga. Explico. Eu alugava uma sala onde guardava meus livros e dizia ser ali a casa de minha amante, pois somente me dava prazer e grandes baixas na conta bancária, como, aliás, acontece até hoje.

Voltando à visita, Marcus aponta o romance de Ariano e pergunta se eu tinha percebido o erro das mãos postas. Percebera sim.

Tiro o trecho da página 79 da quinta edição: “Em seguida, José Viera pega um filho de dez anos, coloca-o na Pedra dos Sacrifícios e decepa-lhe o braço do primeiro golpe. A vítima, ajoelhando-se, bradava-lhe, de mãos postas: ‘Meu Pai, você não dizia que me queria tanto bem?’”. Essa história do filho, com o braço decepado, rogar de mãos postas incomodava-me e eu não tinha coragem de falar do assunto até que apareceu o poeta, mas logo voltei ao meu silêncio.

O alívio só veio quando li Folk-Lore Pernambucano, de Pereira da Costa. Está lá a crônica de um autor anônimo sobre a Pedra do Reino com o famigerado trecho do braço decepado e das mãos postas.

Agora danou-se, seria Ariano um plagiário? Voltei ao romance. Antes de contar toda a saga, pela voz do narrador Quaderna, o mestre conta que para falar do episódio sangrento recorrerá a outros autores inclusive Pereira da Costa. Ou seja, tudo não passou de uma desatenção deste mau leitor que vos escreve.

Cada dia que passa convenço-me mais ainda que devo voltar urgentemente a reler a Bíblia. Moacyr Scliar dizia que ali que pescou muitas das histórias que contou, mas esta não seria minha motivação. Também não me estimula seus conceitos religiosos. Buscaria no livro o fantástico ensinamento de vida que encerra cada uma de suas páginas.

E também é lá que a gente aprende, enfim, a dar a César o que é de César.


O BOM DO ANACRONISMO

Há muito que decidi desistir. E com isso perdi o hábito de cotidianamente sair de casa e, no carro, ligar o rádio.

Inicialmente a decisão teve motivo meramente profissional. Jornalista de ofício, já sintonizava numa rádio que me desse todas as notícias do dia. Chegava ao trabalho comentando novidades, analisando novas determinantes políticas, agarrando-me os jornais para saber o que diziam os coleguinhas, um inferno ter que trabalhar, involuntariamente, vinte e quatro horas por dias. Pois em casa era a televisão ligada em todos os telejornais.

Assumi minha incapacidade de absorver todas as notícias mundanas e mudei de estação. Agora queria música. E aí começou um novo inferno.

Sintonizava o rádio e logo vinha algo que desconhecia. Muitas vezes uma barulheira danada, sem qualquer musicalidade que o locutor insistia em me convencer que se tratava da última tendência estrangeira. Apertava um botão do aparelho e ele buscava nova estação. Aí os gritos agudos de uma dupla dita sertaneja doíam nos tímpanos. E o diabo do locutor a falar de música de raiz. Mais um toque e caía no balançar monotemático de axés e outras gingas, com letras escritas nas paredes do banheiro da rodoviária. E nosso velho amigo a dizer de festas e alegrias. Novo toque e o som agora é um falsete, um arremedo de samba, digo pagode, onde solidão rima com ingratidão e marrom com bombom, e o infeliz a falar de criatividade.

Nova desistência.      

Hoje acredito que o primeiro sinal de maturidade é quando as músicas que gostamos e conhecemos não tocam mais no rádio.

No carro optei por tocar CD. E aí pude retomar velhas sensações.

Morávamos numa casa assobradada, que não tinha a grandeza daquela do samba de Adorinan Barbosa, mas que servia como abrigo confortável. Fazia alguma coisa no andar de cima quando, no andar de baixo, a vitrola começou a tocar um disco com som verdadeiramente novo. Naqueles idos, como qualquer brasileiro, ouvia umas coisas estranhas, ecos de Woodstock, Alice Cooper, Hendrix, coisas assim, e para desespero de minha irmã que cultiva rosas e dizia que as guitarras prejudicavam suas belezas.

E a música que ouvia naquele momento contrastava com toda minha formação estética. Tinha um refinamento ponteado na viola, uma flauta que mesmo transversal era de fato doce, suave, bela. A percussão se harmonizava na reunião de vários ritmos simultâneos. Uma explosão de beleza.

- O que é isso? – Quis saber.

- Quinteto Violado tocando Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. – Informou minha irmã, a dona do disco.

Escutei o disco por horas e curei-me para sempre.

É certo que esta cura já começara alguns dias antes.

Estava de férias na casa de minha avó e tinha carregado alguns de meus discos de rock. Um dia ela me abordou. “Meu filho, escutei seus discos, mas estão todos arranhados.” Comecei aí a distinguir música de ruído. E seguindo no processo de cura, vó Vasti me deu um presente, o disco Foi um Rio que Passou em Minha Vida, de Paulinho da Viola, que até hoje guardo com carinho e ciúme.

E diante da musicalidade de Quinteto Violado não tive mais retornou. Doei meus discos de rock e refiz minha coleção. Cheguei mesmo a comprar um violão que até hoje não consegui dedilhar com qualidade. Era um instrumento vagabundo, com som horrível, mas que atendia minhas ânsias e pretensões artísticas. E como o carregava para cima e para baixo, vivia o bicho arranhado.

Levei-o a um artífice, mais marceneiro que lutier, para alguns reparos necessários. Descobri então que o senhor fabricava e tocava rabeca. Levei um disco do Quinteto Armorial e ele, emocionado, marejava os olhos e apanhava a rabeca e tentava imitar no instrumento rústico a suavidade do violino de Antônio Nóbrega. Uma mágica se processou naquela sala prenhe de pó, poeira, restos de madeira, forte cheiro de cola.

Anos depois, por dever de ofício, entrei na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, para assistir a um concerto de música clássica. Um caminhão abriu a carroceria, armou um palco onde se ostentava um piano de calda. Arthur Moreira Lima tocava e as pessoas, esquecidas das balas perdidas e de outras misérias, choravam ouvindo Bach e Mozart. E gritaram e aplaudiram quando do piano saiu os acordes da rica melodia de As Rosas Não Falam, escrita por um certo Agenor, morador de uma favela e mais conhecido pelo alcunha de Cartola.

E já sem surpresa assisti ao mesmo show de Arthur Moreira Lima em Penedo, em Alagoas, à beira do São Francisco. Eram outro público, outros sentimentos, outras motivações. De igual, a emoção e o envolvimento com a música refinada e bela. Aliás, minto quando falo em falta de novidade. Arthur trazia no bojo do repertório, com roupagem clássica, minha velha amiga Asa Branca. Chorei com nos penedenses.

Enquanto isso as rádios tocavam baladas ditas sertanejas, axés irritantes, pagodes melosos. E o locutor, em sua cegueira irritante, a gritar: “É disso que o povo gosta, é isso que o povo quer”.

Na qualidade de anacrônico, escutando o que me emociona, constato a insensatez cometida em nome deste povo sem acesso aos reais bens de cultura. E repito o poeta Ferreira Gullar: “Povo é uma palavra gasta”.


PRAGMÁTICO NA MORTE

As cenas vivas que restam em minha memória têm força dramática, embora no tempo de sua ação, de tão cotidianas, pouco impacto causavam. Foi, enfim, a lembrança delas que, paulatinamente, as coloriu com verdades e incompreensões; dúvidas, pelo menos.

Várias vezes assisti levas e levas de pessoas vestidas com hábitos franciscanos, cordão a guisa de cinto, terços nas mãos, sentadas em tábuas inseguras e desconfortáveis arrumadas na carroceria de um caminhão. Seguiam felizes para uma viagem que se contava em muitas horas. E cantavam. Cantavam com mais força ainda na volta, quando deixavam o Juazeiro e vinham com o peito carregado de novas esperanças.

Vi outras tantas procissões também prenhes de força e fé. E o mistério da fé há muito me inquieta. Toda esta gente acredita em algo etéreo, vago, nada têm de Tomé e sua necessidade de ver para crer. O escritor Ariano Suassuna é mais pragmático. Diz acreditar em Deus por um motivo muito simples: “Se ele não existir eu não estou perdendo nada, mas se ele existir na certa estou ganhando alguns pontos no céu.” Pragmatismo é isso aí.

E toda questão da fé está intrinsecamente ligada às determinações da morte, da “indesejada das gentes”, diria Manuel Bandeira. De certeza ninguém sabe o que vem depois, mas por via das dúvidas livrai-me meu Deus de todo mal, sobretudo daqueles vindos do inferno, mesmo com a cada vez mais verdadeira versão de que o inferno é mesmo aqui.

Diante da necessidade de comprar apartamento, fui ver uma unidade que um amigo tinha disponível. Emprestara o imóvel a uma velha tia, mas com a morte dela ele sequer teve ânimo para voltar ali. Queria se desfazer de toda lembrança. Encontrei o apartamento já esvaziado por outros parentes da senhora. A solidão era profunda. Apenas um aparador, talvez onde antes repousassem alguns santos, restava encostado na parede.

Não fechei o negócio. Ficou-me a imagem. Talvez o fim da morte seja este, um apartamento profundamente vazio. Resta-nos o medo do desconhecido, enfim. E por isso rezamos. Ou outros cuidam disso para nós.

O conheci muito de perto. Era realmente meu amigo de horas e horas de proseado sobre literatura e política. Chamava-se Valter e foi comunista por toda a vida. Tinha uns hábitos inusitados. Constantemente se embrenhava pelo cerrado em caçadas que duravam dias e rendiam pouco mais que alguns pássaros, uma ou outra caça miúda. E escrevia romances.

A literatura o levou a sonhar com uma cadeira na Academia Alagoana de Letras, mas a crença o afastou do sonho.

Era comunista, materialista empedernido. Por várias vezes o ouvir bradar: “Depois da morte vem o nada. Deus é uma ilusão”. Mas como ele tinha pretensões à imortalidade, resolvi ajudá-lo como podia. Convenci meu único amigo membro daquela associação à época, um poeta, a votar no Valter, que, de sua parte, conseguiu cabalar os outros votos necessários à glória. O problema é que resolveu dar uma entrevista na véspera do pleito: “Chegarei na Academia como cidadão e comunista”. Teve apenas o voto do poeta. Perdeu a eleição quase certa por desafiar o conservadorismo ideológico.

Foi ainda como materialista que sofreu outro baque.

Pelos tantos ditames da vida, perdi o contato com Valter. Um sábado, lendo o jornal, estava o lúgubre convite para uma missa de sétimo dia em favor de sua alma. Acho que morreu sem acreditar em Deus e, quem sabe, pelas preces de sua família talvez tenha tido o encontro revelador.

Os crentes fervorosos apostam que nunca é tarde para o arrependimento. Neste caminho pisou outro amigo meu.

Era de nome Aurino, mas se conhecia por Tira-Teima – A Serpente da Palmeira. Alagoano de Palmeira dos Índios, foi poeta improvisador. Certa vez quis saber o que causara a cicatriz redonda que tinha na testa. Respondeu de pronto. “O buraco que tenho na testa / foi feita para tirar ciência, / para dar a um irmão meu / que nasceu sem consciência. / E hoje tira tanto coco / que me rouba a paciência.” Era poeta.

Quando o conheci era aposentado pela Câmara dos Deputados, segundo atestava, por ser débil mental. Tenho minhas dúvidas se de fato era doido, mas ateu isso bem que era. Vivia a profanar todos os santos possíveis. E tinha uma irmã que era freira, o que lhe dava o direito de chamar Jesus de cunhado. Sua visão do Novo Testamento era bem própria. Costumava começar suas conversas com uma pérola: “No tempo que meu cunhado andava na Palestina..” E aí ninguém segurava os desmandos.

Sua sogra não se conformava e em seu protestantismo orava pela salvação daquela alma perdida. Tira-Teima, por seu turno, não baixava a guarda. Muitas vezes, fazendo churrasco em sua casa, quando a sogra chegava do culto, ele anunciava: “Passou a vida toda dando o rabo, agora que não tem mais ninguém prá lhe comer foi ser crente.”

Tive notícias de que na hora da morte se arrependeu de todos os pecados e pediu um padre para lhe dar a extrema unção. Foi, ao que parece, pragmático na morte.

Por via das dúvidas, o melhor é rezar um pouco. Se Deus não existir não se perde nada. E também não se fica como um defunto a dar trabalho aos vivos.            


RENUNCIAR PALAVRAS, FRASES INTEIRAS

Nas mãos repousavam os originais de um clássico. Um papel amarelado pelo tempo, descolorido pela ação de tantos dias, iluminado pelo olhar atento de incontáveis leitores. Um clássico. Na página agora frágil e preciosa, num tempo de muito ontem, o autor, determinado e conciso, riscou o título já impresso com a força da máquina tipográfica: O Mundo Coberto de Penas. Sobre a frase riscada, a nomeação definitiva: Vidas Seccas. Assim mesmo, com dois cês, como exigia a gramática da época. 1938.
 
Alguma mensagem ainda oculta naquele caminho tantas vezes percorrido? Segui em frente debatendo-me com outras tantos riscos, outras tantas correções, outras várias necessidades de se apurar a linguagem, secá-la, enxugá-la, extrair de cada palavra o máximo de suco e delícia. Um ofício danado de incertezas e revisões este de botar no papel as vidas imaginadas.
 
No mesmo dia me deitei sobre outro emaranhado de palavras escritas numa letra miúda, maldita, ilegível. Um caderno escolar pautado e ocupado da primeira à última página em todos os espaços possíveis. O autor devia ser muito pobre, posto ter economizado cada milímetro do papel, como se temesse faltar brancura onde pontear suas idéias. Branco mesmo, de fato, somente parte da primeira página onde se podia ler com alguma clareza uma única frase: Memórias de um Menino de Engenho, com um risco forte cortando as três primeiras palavras.
 
Como daquele mato não me pareceu possível retirar algum coelho, parti para outro encanto. Um volume massudo, gordo, farto, coronelístico. A primeira palavra do texto datilografado com esmero foi preservada: Nonada. Também o título, desenhado com caneta colorida, em letra de forma, com certa simetria sobre o papel – Grande Sertão: Veredas.

O que se seguia depois do Nonada era um desembestar de riscos feitos com a precisão de uma régua. Cada uma daquelas frases renunciadas era encoberta pela fúria de muitos riscos, inviabilizando em definitivo sua leitura. Sobrevivia apenas aquilo que era do desejo do autor. Nada além disso deveria prosperar, entrar para eternidade. Nonada, senhor, apenas não se deve correr o risco de macular uma obra com os erros possíveis de serem corrigidos, encobertos.
 
Num outro caderno, este preenchido na solidão de uma fazenda sertaneja por uma mocinha que tentava se livrar da ameaça de uma tuberculose, a letra de professora bem aplicada foi me dando lições de humanismo e brasilidade. A tal moça, na verdade, de bem comportada tinha apenas a letra e carinha inocente. Era uma danada. Primeiro burlava a vigilância paterna que a queria muito cedo na cama. Quando todos dormiam, ela, sorrateira, acendia uma lamparina e deitada no chão da sala viajava com sua criação.

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SOU BRASILEIRO

Acredito no poder da indignação. Quem não se indigna com nada, fatalmente é acomodado em tudo, aprendi. Diariamente tomo doses de revolta apenas para não ficar de todo sustentado pelo desejo da estabilidade. Sacudir, levantar, dar a volta por cima, canta Paulo Vanzolini, é fundamental. Por outro lado carrego o senso da cordialidade. Sou brasileiro, enfim.

E mal começo a escrever esta crônica e já um verso de Carlos Drummond de Andrade vem martelar em minha cabeça. “Eu também já fui brasileiro / moreno como vocês. / Ponteei viola, guiei forde / e aprendi na mesa de bares / que o nacionalismo é uma virtude. / Mas há uma hora em que os bares se fecham / e todas as virtudes se negam.”

O poema está no primeiro livro lançado pelo poeta, Alguma Poesia, de 1930, coisa de mais de oitenta anos. Enfim, vem de longe minha brasilidade, que não se traduz em nacionalismo. Adolescente e estudante rebelde acabei expulso do colégio a bem da disciplina. Recusava-me a cantar os hinos patrióticos que um professor escrevia com ardor e emoção, suponho. Claro que não lembro as letras, mas sei que falavam de mentiras como céu anil, grandezas inabaláveis e igualdade entre os homens.

Bom, mas eu estava falando de indignação e lembro como ela nos assalta cotidianamente.

Recebi, certa feita, convite para um churrasco onde estariam vários estudantes do dito colégio que me pediu para sair. Em princípio recusei com a alegação óbvia de que nossos orixás não se cruzavam, mas, por fim, terminei cedendo diante da insistência do amigo. A diretora que me formulou o velho convite de afastamento escolar estava presente, e sabendo que naquele tempo eu exercia um cargo no Ministério da Justiça desfilou comigo – mico de circo – a tiracolo: “Olha aqui nosso ex-aluno que hoje é assessor do ministro da Justiça.”

Na memória só me chegavam Gérson e sua famosa lei: “Eu gosto de tirar vantagem em tudo, certo?”

Minha brasilidade passa longe daí, mas a cordialidade me faz manter a calma. Sou brasileiro, enfim, e tenho imensas heranças do homem cordial defendido por Sérgio Buarque, este incompreendido. Muita se fala ter ele enxergado no brasileiro um homem passivo, capaz de concordar com tudo e nunca assumir uma postura revoltada, quando o que ele falou foi exatamente o contrário. Seu homem cordial vem de cor, coração, ou seja, tratasse daquele que põe a paixão sobre todas as coisas. E com este eu caminho. E daí minha constante indignação.

Ainda estes dias, dando vazão a um de meus vícios, assistir diariamente aos telejornais, vi uma reportagem sobre trânsito feita em Vitória, no Espírito Santo. Um festival de absurdos, como era de se esperar. Chamou-me a atenção, no entanto, uma certa senhora. Ela parou o carro em fila dupla, atrapalhou todo a tráfego e tranquilamente desembarcou para levar a filha à escola. Por aí já é possível deduzir que educação ela dá à pobre criança. A coisa ficou ainda mais grave quando o repórter a abordou e ela simplesmente declarou: “Fazer o quê? Eu sou brasileira. Precisa dizer mais alguma coisa?”

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MEU CARDÁPIO DE FRUSTRAÇÕES

Alimento-me de esperanças. E quando as vejo dando adeus numa estrada, rebelo-me. Ao contrário de Zenão de Cício, não carrego qualquer estoicismo. Sou teimoso e disfarço minhas frustrações.

Na verdade persevero nos erros por não ter a fé inquebrantável dos primeiros cristãos. Nos circos romanos, diante do leão faminto, eles acreditavam na salvação.

No Japão do Século XVII sofriam com torturas de um requinte doentio. Eram banhados com a água quente e sulfurosa de vulcões ou pendurados de cabeça para baixo, com breves incisões na testa e por trás das orelhas, na boca de poços fétidos. Em imensas estacas eram postos no mar, de pé e em altura conveniente. À noite, quando subia a maré, a água ficava rente ao queixo, atingiam os olhos com algumas ondulações, mas não chegava a afogar. Pela manhã o mar baixava até o joelho e permitia que o sol inclemente calcinasse a pele.

Havia três saídas. Apostatar, suicidar-se ou esperar a morte. Muitos persistiam em não negar o cristianismo, outros se recusavam a matar-se com medo de não encontrar as portas do céu, e quase todos esperavam a morte lenta, paulatina, vindo com o cansaço, o esgotamento físico.

Definitivamente não tenho vocação para o martírio, mas carrego esperanças de uma vida melhor para todos. E aí iniciei minha coleção frustrações. Muitas de pequeno porte, reconheço, como o disco de Carequinha que nunca ganhei de minha avó. Alimentei o sonho durante dias. Todas as vezes que ela vinha nos visitar, trazia alguns LPs na bagagem e distribuía com os netos. Daquela vez me presenteou com o que havia de mais instigante na época: canções da dupla Os Vips. Agradeci como um bom neto, mas chorei por não poder ouvir os sucessos do velho palhaço.

Caro leitor, o assunto é sério. Recentemente desembalei-me de Brasília até o Juazeiro do Norte. Na bagagem a missão de dirigir um documentário contando a história da cidade centenária. Tudo ali gira em torno do Pare Cícero, isso já sabia desde criança. A religião está em todos os lugares, o que se vê pelos nomes das ruas. Explico. Adolescente, fui à cidade tentando comprar um botijão de gás. Perguntamos ao primeiro cristão que encontramos onde ficava a distribuidora e ele gentilmente nos explicou: “Fica na rua São Pedro. Você entra na São Paulo, dobra à esquerda na Santa Bárbara e vai até a Santa Filomena…” “Desculpe moço, nós queremos comprar gás, não morar no céu”. Perdemos o informante, ficamos sem gás e seguimos frustrados.

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O REINO DO INVISÍVEL

Foi assim. Um auditório repleto, coisa de difícil enfrentamento. Neste caso, no entanto, estamos num estágio ainda pior. Um auditório repleto de crianças, quase adolescentes ávidos para trucidar o coitado de um escritor desguarnecido de imaginação e esperanças. Uma horda de canibais modernos vazando curiosidade por todos os poros. O desespero aumentou quando percebi que era eu a vítima do delírio famélico daquela gente miúda, liliputianos a transpirarem sangue pelos olhos. Meu desespero aumentou quando descobri que não transitava no espaço do onírico. Na mais cruel das verdades percebi que não havia saída de emergência. Juro que invejei Hans Staden.

Como um herói despido, pisei o primeiro degrau da escada. Entrei no palco e, ateu convicto, apelei para o Senhor das Esferas – Seja o Deus quiser. E Ele foi generoso com este seu filho desgarrado. As crianças e adolescentes ansiavam que eu falasse de literatura, criação literária, essas coisas que edulcoram nossas vidas tão insossas.

Por que o senhor escreve?

Diante da primeira pergunta não temi, ao contrário desandei um rosário. Escrevo por um motivo muito simples: sou, em verdade, um grande mentiroso, e isso pode ser uma imensa mentira, afinal quem em sã consciência acredita em um embromador? Fato mesmo, buscando os cânones da veracidade, é que a fama de escritor é mais salutar que a de simulador, daí escrevo todas as minhas inexatidões e atendo convites para parolar com pubescentes hodiernos.            

O diálogo não se deu desta maneira, afinal muitas das palavras aqui empregadas apanhei agora no dicionário, esse companheiro de horas infindas, mas o tom foi este mesmo. Além do mais quem falar daquela maneira, num arremedo danado do velho Camões, merece bons safanões, imensos apupos.

Esgotadas todas as agressões possíveis aos dicionários, voltemos à frieza dos fatos. Nós escritores – tenho a pretensão de ser um deles – somos vendedores de mentiras. Durantes horas, dias, meses, anos convivemos com pessoas que não existem. Mesmo assim conversamos com elas, compartilhamos todas as suas angústias, todas as suas esperanças. Choramos suas dores, rimos suas felicidades. E se por ventura algum desavisado aventureiro desdizer a mais vil e canalha destas criaturas nos tomamos de mágoas maternais e defendemos estes seres imateriais como quem se bate em favor de um filho.

Somos estranhos, reconheço.

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A INVASÃO DA TERRA

Somente agora consegui entender um filme de Mel Gibson, Sinais, já meio antigo. A inteligência é fraca, reconheço, pois o enredo é bem besta. Um fazendeiro americano, viúvo, cria sozinho os filhos menores até que encontra o milharal esmagado em imensos círculos. Daí decorrem os suspenses e as emoções até que se descobre o motivo de toda confusão: extraterrestres invadiram a Terra. Mais um bocado de suspense, mais outro tanto de emoção e o fazendeiro galã percebe que os alienígenas, como os franceses, não simpatizavam com banhos e passa a matá-los com altas doses de água. Pronto a Terra está salva.

Até aí entendi tudo direitinho, o que me incomodava era uma determinada cena. Como a invasão era mundial o Brasil não poderia ficar de fora e, vendo televisão, Mel Gibson é informado que um extraterrestre passeia pelas ruas de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Por que essa escolha já que tudo por aqui acontece no Rio ou em São Paulo? Conheço a cidade e quase fui expulso de lá por conta de minhas limitações culturais. Declarei num artigo que a comunidade está implantada no pampa gaúcho. Levei um puxão de orelhas: “Ficamos no Planalto Médio. Até Teixeirinha diz isso numa música.” Quem mandou não escutar o bardo gaúcho nem estudar geografia?

Fora este deslize, e apesar do frio, me dou muito bem por lá. Freqüentemente sou convidado para ciscar naquele terreiro e fiz muito boas amizades ali. Apesar do frio. Acostumado com o clima ameno de Garanhuns e congelando aos quinze graus, suportei com garbo e elegância os nove graus que costumeiramente baixa na cidade. Num dessas noites geladas, torcendo moderadamente, assisti o Sport vencer o Grêmio. E tudo sem fazer um inimigo, afinal estava cercado por solidários torcedores do Internacional.          

Claro que não foi o futebol, muito menos o frio, que me levou a Passo Fundo. Sob um circo armado no campus da universidade, na companhia de cinco mil pessoas, por toda uma semana passei todo o dia e parte da noite a escutar outros mortais falarem de suas obras e suas criações. Perdemos a noção do tempo e embevecidos gastamos nossas horas enquanto lá fora o mundo corria com seus encantos. Manhãs de sol, crianças nas ruas, velhos nas praças, carneiros pastando, bovinos e muares sob as serras. E nós enfurnados em tendas, protegidos do vento e da vida, a discutir palavras.

Somos uma estranha trupe e nos encontramos em todos os lugares que nos permitem a falta de lucidez. Anualmente invadimos Paraty. O mar está próximo, mas também ali somos fustigados pelo frio. Ele nos avisa que aquela não é a nossa praia, que a cidade carece de belas moças semi-nuas a quarar sob o sol tropical. Teimosamente, no entanto, vestimos pesados casacos de couro, nos cobrimos de lã e pisamos as pedras seculares que nos dá um eterno andar de bêbado. Novamente buscamos o abrigo de tendas e, aborígenes modernos, voltamos aos nossos debates, ao exercício perdulário de gastar palavras, palavras, palavras.

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VIVER É ARRISCOSO

Riobaldo Tartarana, o brilhante jagunço maquinado por João Rosa, tinha medo da vida, mesmo assim trocou tiros com Hermógenes, amou loucamente e sobreviveu por muitos anos, um tempo suficiente para contar suas venturas a um ouvinte desconhecido. Sobreviveu agarrado em suas crenças e no desespero de não poder concretizar os desejos do peito. Quando pensava em religião, variava, bebia água de todos os rios, quando devotava seu amor via Diadorim como uma neblina.

Um homem sábio temente a Deus e ao diabo.

Contra esta corda bamba permanente que é a vida, não há muito remédio senão viver, e viver intensamente, como fez Riobaldo.

Um tio meu bem criativo, maquinando uma vida segura, projetou uma casa onde seria possível morar livre de todos os riscos. Desenhou quadrados, estabeleceu espaços, pensou soluções para todos os problemas, previu todas as brechas possíveis para a insegurança e, enfim, fechou o projeto de seus sonhos: um imóvel sem portas ou janelas. “Ninguém vai conseguir entrar nesta casa”, constatavam os céticos. “Nem mesmos ladrões ou homicidas”, rebatia meu engenhoso tio que, infelizmente, não encontrou pedreiros ou mestre-de-obras capazes de concretizar seus sonhos de segurança. Hoje vive no décimo segundo andar de um edifício comum. Aparentemente livre de perigos.

Isso enquanto fica em casa, pois nas saídas há sempre um trânsito cada dia mais difícil. Embora não morando na mesma cidade que este meu tio, vejo o quanto tem se tornado ariscado andar nas ruas das grandes e pequenas cidades. Vai longe o tempo em que uma modesta batida de carros sem vítimas, fatais ou não, era assunto por toda uma semana em Palmares ou Matriz de Camaragibe. Discutíamos o prejuízo dos infelizes proprietários e os possíveis lucros dos mecânicos escolhidos para reparar os estragos. E isso tomava dias de nossas vidas até que nova batida ou, mais comum, as notícias de um novo adultério aumentavam nosso repertório de prosa boêmia.

Os tempos mudam e a vida se torna cada vez mais ariscada, parece uma bolsa de valores onde apenas se negociam ações de massas falidas.

Freqüentemente escuto notícias de seqüestros relâmpagos, novos golpes na praça, balas perdidas, agressões no trânsito e busco encontrar um outro lado da vida. Nunca consigo chegar ao excessivo grau de otimismo daquele personagem do Roberto Benigni, o Guido de A Vida é Bela, mas acredito que estamos num tempo de bonança. Talvez isso se deva ao fato de vir de outros tempos, não tão remotos, é certo.

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O QUE SE APRENDE NOS JORNAIS

Todos os dias abro os jornais para enfrentar as mesmas manchetes. Quando não tem mortes, têm-se faltas homéricas: de educação, de saúde, de recursos financeiros. E logo chega à lembrança uma frase da escritora austríaca Elfriede Jelinek, ganhadora do Nobel de Literatura de 2004: “Dê uma olhada nos jornais: eles são ainda mais bárbaros do que as barbaridades que relatam.”

Jornalista de longo curso, às portas da aposentadoria, às vezes ainda me surpreendo com excesso de crueldades e desgraças descritas pelos coleguinhas. Onde apanhamos todas estas notícias? Na vida, meus caros, que sempre se faz cada vez mais surpreendente. Eu mesmo caí na profissão pelos imponderáveis da existência. Quando menino tinha uma professora que freqüentemente expunha imensas imagens de cena diversas: meninos brincando, adultos dialogando, cavalos nos prados. Nossa missão era descrever a cena o mais imaginativamente possível. Ali eu podia mentir à vontade. Gostei tanto do jogo que decidi ser escritor, mas como somente, àquela época, Jorge Amado e Érico Veríssimo viviam de literatura, fui ser jornalista.

Vi coisas tão surpreendentes que me caía na dúvida: é para rir ou chorar?

Num desses dias onde nada acontece e você precisa fechar um telejornal de maneira no mínimo interessante, ouvi a conversa indignada de um motorista da redação. O cunhado, dono de um fusquinha, havia sido multado ao passar num radar do Detran. O aparelho garantia que o moço estava a cento e quarenta quilômetros por hora. Aí tem notícia, pensei. E levamos o fusquinha ao autódromo, junto com um piloto profissional. Por mais esforço que se fizesse o carro não conseguia chegar aos oitenta quilômetros por hora. Salvei meu plantão criando uma polêmica. E como era sábado, não encontramos nenhuma autoridade para defender os utilíssimos aparelhos de controle de velocidade.

Na segunda-feira retomamos o assunto. Em linguagem jornalística, fizemos uma suíte. Voltamos ao autódromo, desta vez com o diretor do Detran. Ele mesmo dirigiu o fusquinha e constatou seu sofrível desempenho. E ali mesmo lavrou a sentença. “Realmente deve ter havido algum erro do aparelho, mas isso nós resolvemos de maneira simples. O cidadão paga a multa e imediatamente solicita a abertura de um processo administrativo. Daí vamos fazer novas vistorias no veículo e no radar e, dada as conclusões, nós o reembolsamos. Acredito que este processo não demore mais que três meses”

Como vimos, tudo muito simples, com todos os direitos do cidadão plenamente assegurados.

São por estas e outras que defendo a verve do cangaceiro: “Ô uma peixeira amolada no toitiço…”

Ou mesmo um outro senhor que, premido por uma injustiça qualquer, procurou um grande paladino da imprensa pernambucana, o repórter Jota Ferreira.

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O POETA E A FLORESTA

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“Quantas lutas lutou este homem? A voluntariedade da coragem e da insubmissão não se mensura pela matemática.”

Mais que o sonho, comovem-me os sonhadores, sobretudo os pragmáticos, aqueles donos de afiadas peixeiras usadas para desmilinguir as dores do mundo, para tecer novas manhãs.
 
Pernambucano, ao contrário de Manuel Bandeira, não detesto a peixeira. Sei que antes da violência, a peixeira reverencia a vida, serve para tratar o peixe, colher o feijão, fazer o alimento. Transmutada em palavra, também se presta como ferramenta metafórica para ferir a consciência doentia dos torturadores, é lâmina ardente na mão dos sonhadores utópicos e pragmáticos, os verdadeiros arquitetos do novo tempo.

Conheço vários desses construtores, mas um em especial me comove sempre. Munido de poesia, este amigo nasceu na floresta e, ainda menino, aprendeu a respeitar as fúrias e os acalantos das árvores e dos animais. Seu sentimento de preservação, assim, vem de longe, é sangue que corre nas veias.

A poesia, sua arte de eleição, aprendeu diante de uma tragédia infantil que se desenhou para seus olhos. Era menino, ainda, e brincava num barranco beira-rio com um companheiro também infante. De repente – este tempo necessário às máculas – as águas sugaram o camarada do poeta e o envolveu com o manto do fim. Um prélio inútil, o do ser buscando a sobrevivência contra a natureza do rio, o elemento que faz nascer a vida, mas que, ambicioso, guarda em seu leito todas as oferendas que recebe.

O rio pensou o corpo menino como oferta e o engoliu. O outro menino, o que ficou na segurança margem, absorveu a tragédia com fome lírica. Digeriu aquela primeira perda para tirar dali o húmus necessário à construção da arte e da beleza. Fez-se poeta, enfim.

Quando chegou na idade de prover a vida e escolher uma profissão, foi estudar medicina, mas a poesia, amante ciumenta, se agarrou às suas pernas e não admitiu ser abandonada. Homem de um só coração, cedeu aos apelos da noiva, casou e se jogou numa união indissolúvel. Lidando com verbos, frases, figuras de linguagem tantas, acarinhando as palavras, nunca traiu sua paixão.

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COLECIONANDO PALAVRAS

Para se chegar às aventuras desmedidas de Riobaldo Tartarana carece antes passar por nonada. E só depois vem o tiro e o resto – Diadorim e Demóstenes, o bem e o mal, o inventar de uma linguagem nova e arcaica, moldada no ontem e no daqui pra diante. Nonada. A corruptela de não é nada vem a ser o todo, o tudo. E sempre penso nisso todas as vezes que desembesto por minha luta cotidiana, a escrita, a luta vã no dizer de Drummond. Pois bem, penso sempre no princípio de tudo, neste nonada que vai conduzir o leitor ao ponto final.

Lembram o velho dizer do velho Mao, “toda longa jornada começa com um primeiro passo”? Vivo a pensar neste primeiro passo que desencadeia o processo criativo do escritor, essa magia. O leitor carece de um choque inicial, de ser agarrado pela goela, do contrário, foge, vai em busca de outros encantos. Leitor é bicho volúvel, mas quando se apaixona de fato mantém fidelidade eterna.

Eu era um adolescente metido a sabido que andava sempre com um livro debaixo do braço. E, quanto maior fosse o volume, melhor. Parecia que aqueles livros miúdos, como os de Hermann Hesse, não tinham lá o que me dizer. E apregoava, crente que sabia de tudo, literatura tem que ter sustança. A tese chinfrim foi pro beleléu quando li O Estrangeiro, de Albert Camus. Um choque tão da gota serena que voltei imediatamente ao início do livro e comecei toda leitura novamente.

Não se incomodem em pensar: toda minha família sabe que tenho uns quatro parafusos de menos.

Bem, dizia de livros parrudos. Um que me encantou pela lombada foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Era uma tradução de Eliane Zagury, uma edição da Record, de capa bonita, onde predominava o branco e uns desenhos coloridos. Já fui pra ele com aquele sentido de “este tem o que dizer”. E tinha, o que vi logo na partida: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Amarrado por nó de marinheiro, extasiado, fui até o ponto final. Perdi aquela edição, comprei outras. Fato é que vez em quando volto ao romance e ainda me surpreendo com todas as suas magias. É impossível parar depois de ler, ainda na primeira página, ou na segunda, “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome”. E até hoje vivo a nomear as coisas como se o mundo fosse recente.

Vivo a colecionar palavras, acho que vocês perceberam. Também sei que esse é um ofício de desmiolado, mas que posso fazer? Cada qual que se sustente com o vício que melhor lhe apetece. Vamos lá, pois tenho a gravidade do traficante, do aliciador que aconselha: Colecione as palavras pela doçura com que elas se desprendem dos lábios. Não caiam no mal-humor de João Cabral de Melo Neto, pois mesmo naquele idioma pedra, onde as palavras ulceram na boca, no falar arrastado do sertanejo, há malemolência melíflua. Vejam o desasnar, o arribar, o malacacheta, o favela, todos termos bailarinos, belos ainda quando conspurcados.

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O SEQÜESTRO DE DOM HELDER CÂMARA

Parei de rezar há muito tempo. Hoje minha memória não alcança nada além de uma Ave Maria ou um Pai Nosso. Nada mais. A decisão foi voluntária, mas inconsistente. Tenho uma irmã carola de batizar e casar. Se o padre cochila, ela diz até missa. Ou seja, na família já tem reza de sobra, de forma que pude ir cuidar de outras coisas.
 
E fiz isso com um grande aval.
 
Numa conversa de mesa de bar ouvi o velho senador Teotônio Vilela contar: “Meu irmão, o cardeal Dom Avelar, era o diabo quando menino. Depois resolveu seguir vida religiosa, de forma que pude continuar endiabrado, e fui cuidar de política.”

Os meus pecados são menores: cuido de literatura.

Bom, voltando à carolice da família, minha irmã segue o exemplo de uma tia, também afeita às práticas do catolicismo. Ouvir a conversa das duas faz de qualquer pecador um homem pio. Eu é que, ouvindo várias dessas conversas, não tomei jeito. Fazer o quê? Como elas mesmas asseveram, são os desígnios de Deus.

Numa dessas conversas minha tia contou, um tanto em êxtase, que encontrou Dom Hélder Câmara, por acaso, no centro do Recife. Naqueles dias, finais dos anos de 1970, o arcebispo circulava sozinho, na companhia de suas crenças, cumprimento e dando atenção a todos que lhe procuravam. Nunca lhe faltou uma palavra de carinho para deixar com quem quer que fosse, uma solidariedade cotidiana.

De minha parte, na cabeceira, deixava um exemplar de O Deserto é Fértil, uma reunião de crônicas que lia por prazer e desejo de conhecimento. Impressionava-me o texto corretor, seguro, prenhe de referências religiosas, mas sem imposições. Os exemplos, Dom Helder arrancava da vida, e ela, a vida, na sua conceituação de injustiças e contradições, era que devia ser mudada. Não interessava aquele homem frágil apenas o paraíso celeste, a terra também podia ser transformada num novo Jardim do Éden, um lugar de bonança, felicidade e harmonia para todos.

Minha tia não cansava de falar da tarde em que caminhou ombreada pelo sacerdote, o interrogando e ele, pacientemente, a lhe falar de Deus e dos homens. E eu ouvia seu relato apanhando os ensinamentos possíveis. Até ganhei fôlego para discutir com um amigo, dias depois, numa ocasião qualquer. Num tempo maniqueísta, onde a isenção se fazia impossível, o amigo, um tanto emprenhado pelo cântico do este-é-um-país-que-vai-prá-frente, disparou: “Dom Hélder foi integralista”.

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ELOGIO AO VELHO CAPONE

Conta a lenda que, caminhando pelo deserto da Palestina, sem comer nem beber há quarenta dias, Jesus Cristo avistou um canavial. E não me perguntem como este canavial foi aparecer no deserto; estamos no terreno da lenda. Pois bem, o filho de Deus descansou sob a sombra modesta, sim, mas generosa e saciou a sede e a fome com o caldo doce da cana. Ao sair abençoou a planta e decretou: “Daqui o homem irá tirar algo doce para seu alimento”. Assim surgiu o açúcar, o melaço, a rapadura.
 
Seguindo na mesma trilha, para atanazar Cristo, Satanás entrou no mesmo canavial do mesmo deserto. A palha da cana o deixou todo lanhado, não consegui uma sombra que fosse e quando tentou se encostar encheu as costas com aquele pelinho que dói prá lascar. Para aliviar a sede quebrou uma cana e a bicha tava mais azeda que jiló. Arretado com aquilo amaldiçoou o partido: “Daqui o homem irá tirar um produto que vai lhe queimar a goela, vai lhe deixar embriagado e vai lhe desgraçar a vida”. Assim surgiu a cachaça.
 
A lenda tem suas injustiças. Açúcar é doce, mas engorda. Cachaça desgraça, mas pode ser degustada com moderação e prazer. Tudo é uma questão de dosagem. No mais é secundar Ascenso Ferreira: “Suco de cana-caiana tirada do alambique / pode ser prejudique / mas bebo toda sumana…” Daí é apreciar sem culpas as qualidades de uma boa cachaça.
 
A lenda não fala, mas com certeza na maldição do diabo constava um item falando que a descoberta se daria num país onde o governo tem mais sede que nós, os bravos consumidores. Falo aqui de uma sede metafórica, pois é mais fácil sustentar a gula de um caminhão Ford com gasolina que o governo com imposto.

Esses dias, conversando com um produtor, o cabra foi categórico. Envolvendo todos os custos – plantio, colheita, destilação, armazenagem, embalagem, transporte, salários, direitos trabalhistas, lucros, etc –, ele consegue botar na prateleira uma garrafa de cachaça por 20 reais. Quando entram os impostos federal, estadual e municipal o custo pula prá 50 reais, o preço de um uísque de qualidade. Daí ele se complica com a concorrência.
 
Como para todo bebedor a persistência é uma norma, apelei para a Internet. Descobri uma página maravilhosamente bem surtida e com preços atraentes. Esperançoso, iniciei as negociações. E fui até a pergunta fatal: Onde devo entregar o produto? Em Brasília, respondi. Não dá, quando chegamos aí o governo local nos morde com tanta força que não há como compensar o prejuízo. Frustrado, fiquei na sede, ruminando prá onde vai tanto imposto.
 
De onde ele vem, eu sei. Uma pesquisa recente informou que até o dia 25 de maio todos os brasileiros, inclusive os aposentados, trabalharam apenas para pagar impostos. E isso se repete todos os santos anos. Ou seja, a coisa é bem mais séria do que simplesmente taxar a cachaça e seus sagrados consumidores.
 
Constantemente leio nos jornais que os governos comem 50% da conta de luz. Outro dia caminhei uns três quilômetros acompanhando uma imensa fila de carros para descobrir que todos esperavam pacientemente para abastecer sem pagar impostos. O preço da gasolina estava por menos da metade. E até o cândido açúcar, mesmo abençoado pelo Cristo, carrega 30% de seu preço em impostos.   
 
E tudo piora quando, voltando aos jornais, lemos sobre estradas sem asfalto, hospitais sem médicos ou remédios, escolas sem merenda, sem professores, sem motivação. E o que se faz com todo dinheiro arrecadado? Será? Bom, pode ser uma explicação. Vamos lá.
 
Marcos Freire era presidente da Caixa Econômica Federal e recebeu a visita de Luís Portela de Carvalho, ex-prefeito de Palmares. Junto entrou no gabinete uma comissão de cinco prefeitos gaúchos que buscava dinheiro para comprar um patrol. Vendo aquilo, Portela desdenhou: “Comprei uma esta semana com recursos próprios.” “Como, tchê?” “Eu não roubo”, respondeu na lata, para constrangimento de todos.
 
Tudo uma questão de formação moral. Luís Portela sabia o sentido pleno da palavra república, coisa pública, e hoje é quase uma lenda urbana em Palmares onde há um verdadeiro culto à sua atuação na prefeitura.
 
O velho descontrole na fiscalização e as notícias que assolam os jornais explicam por que não pude comprar minha cachaça com entrega em domicílio. Um amigo chegou a se exaltar e defendeu o Chile como exemplo de política de impostos e de soluções. “Lá o vinho é considerado alimento e tem uma taxação justa.” Bom, como não dá para considerar cachaça alimento, a menos que se queira ser excomungado pelos patrulheiros de plantão, e sabendo que a economia chilena é igual a do estado de São Paulo, o melhor é apelar para nosso sagrado jeitinho.  
 
É preciso ciência até para tomar cachaça. E neste caso a solução foi inspirar-me no velho Al Capone. Pois bem, procurei uma amiga que trabalha em Luziânia, uma cidade goiana nas imediações do Distrito Federal. De comum acordo passei ao fornecedor o endereço de trabalho da moça. Os cabras, livres da mordida distrital, deixaram ali a preciosa encomenda e eu a apanhei aqui, do outro lado da fronteira com ela, numa ação digna de um bom e nobre sacoleiro. Tudo muito prático.
 
Meu gesto faria ri o velho Capone, pois não passo de um reles amador, mas também nossa Lei Seca não chega aos rigores americanos de antanho, e no mais não consigo correr do governo quando compro açúcar, abasteço o carro, pago a conta de luz. Acho que preciso estudar melhor a vida do velho gangster, afinal a taxação da cachaça ainda dá para agüentar, mas bem que gostaria de saber em que árvore nascem os impostos. Com certeza conseguiria um bom exorcista para tirar dali a praga do cramunhão.                           


UMA PÁTRIA ENVERGONHADA

Carregava nas mãos um livro raro, pelo menos para os meus conceitos de raridade. Nada extraordinário, somente um volume miúdo prenhe de sentimentalidades e simbolismos. Brasília, Cidade que Inventei – Relatório do Plano Piloto de Brasília, de Lúcio Costa. Livrinho modesto, de edição pobre engrandecida pelo depoimento e a intensa poesia do urbanista.

Solenemente passei o volume ao meu filho mais velho, nascido na cidade inventada por Lúcio.

- Aqui está a gênese de sua terra.

O menino folheou a esmo o volume.

- Pois é, você vive reclamando da minha letra, mas veja como esse cara escreve. Alguém entende isso? E ele planejou Brasília.

Engoli em seco. Não se carece de letra bonita, bem desenhada para se concretizar sonhos, reconheci, e Lúcio Costa tinha outro predicado: a profundidade cultural. Seu texto escorre num português correto, preciso, mesmo quando trabalha enfrentando a urgência de solidificar o desejo de uma cidade em tudo nova, e a bordo de um navio, no balanço do Atlântico, vindo do exterior.

Desembarcado no Rio de Janeiro, Lúcio procurou o poeta Carlos Drummond de Andrade para revisar o texto. Drummond reconheceu que nenhum trabalho teve. Fora uma ou outra vírgula em lugar inadequado, nada teve que mexer.

O drama da letra ilegível me persegue. Até hoje minha pobre letra sofre de profundas incompreensões, mas aprendi com uma professora a driblar o problema. “Escreva com letra de forma”, aconselhou-me. “O importante é manter a correção gramatical e a compreensão do texto”, completou a boa mestra que não cansava de dar luz a este cego gramatical. Um dia me chamou num canto da sala para explicar que o “mas” é uma conjunção que serve para ligar orações e deve ser precedida de vírgula, nunca abrir uma frase como estava numa de minhas dissertações.   

Fiquei tão impregnado destas boas regras que por segundos cheguei a desprezar um de meus grandes ídolos. Num sebo, eufórico, encontrei um exemplar do livro Problemas Inculturais Brasileiros, de Osman Lins. Comprei o volume e corri para ler. Já na primeira frase, a decepção, o susto. “Me ocuparei, aqui, de aspectos ligados…” O alivio chegou na frase seguinte. “E se inicio o trabalho com um pronome oblíquo, é para significar que sou – ou pretendo ser – um escritor, não um gramático, conhecendo as regras básicas do meu idioma, tendo porém o direito de rompê-las, não gratuitamente, é certo, mas quando certas razões, subjetivas ou não, induzem-me a optar por esse rompimento, então significativo, como é o caso presente.”

Meti a viola no saco e computei mais uma dívida com Osman.  

Numa crônica já antológica, Luis Fernando Veríssimo explica com propriedade essa relação do escritor com a linguagem. “Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas.” E fecha o texto com chave de ouro: “A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.”

Bater na Gramática, que Luis Fernando escreve com letra maiúscula, como o viver, é ofício perigoso. Que o diga Guimarães Rosa, monumental criador de neologismos. Ouvi do iconoclasta Joel Silveira a sentença: “Guimarães era uma besta. O matuto mineiro não fala do jeito que ele escreveu.” Movido pela bravata juvenil e algumas doses de uísque, tomei as dores do velho Rosa. “E não fala mesmo, pois Guimarães não se preocupou em transcrever o matuto, ele criou uma nova linguagem, fez um trabalho de sociolingüística.” Meu protesto se perdeu no meio da conversa de bar.   

Conheci esta vertente da Gramática lendo Antônio Houaiss. E aprendi que ela estuda a evolução popular da língua, e não serve para justificar os erros e aberrações da atual literatura marginal nem do falso regionalismo de sempre.

Agora vem a autora dessa aberração distribuída pelo MEC e chamada Por uma Vida Melhor evocar a sociolingüística. Paciência. Nem mesmo o mais inculto tabaréu de Coité do Nóia fala “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O diabo é que a praga já pegou. Em seu site na Internet o jornal Correio Braziliense veiculou a seguinte pérola: “Livros com erros de português cria polêmica nos meios acadêmicos.” E põe polêmica nisso.

Fui ingênuo acreditando que macular a Gramática era coisa antiga. Digo isso por preservar em minha estante um velho exemplar de Avalovara, belo romance de Osman Lins, com uma dedicatória primorosa: “Ary, ofereço-lhe esta obra cujo altor é professor da faculdade de filosofia de Marília. Espero que goste. Feliz Natal. 25/12/73.” A assinatura é ilegível e o autor está mesmo escrito com L. De boa, acho que este cabra é parente próximo da autora do tal Por Uma Vida Melhor

“Minha pátria é minha língua”, repito Fernando Pessoa, enquanto o Ministério da Educação deles teima em criar uma pátria lôbrega, setemesinha, indigente, desgraçada.


CÃES, GATOS E OUTRAS ESTIMAS

Final de tarde, da janela da sala onde acumulo livros e outras quinquilharias, contemplo a vizinha que passeia com seus cachorros, três bichos pequenos e brancos que se arvoram donos do condomínio. Invadem todos os quintais, agarram-se às pernas de quem passa, latem em coro. Pacientemente a moça os acompanha e também late para chamar um ou outro que se desgarra do modesto bando.

Admiro a dedicação quase sacerdotal de quem se faz propriedade de bichos de estimação. Falo com autoridade posto que também os tenho.

Denunciei-os numa reunião de condomínio. Era a primeira que se realizava entre os felizes proprietários de um novo imóvel, e talvez por isso o quórum fosse tão expressivo. Na pauta, as primeiras regras a serem cumpridas. E daí a pergunta inevitável: Quem tem bicho de estimação? Coloquei-me entre o grupo e, enquanto meus colegas falavam de cães, pássaros e gatos, apontei meus ácaros, cerca de dez milhões que vivem numa comunidade harmônica entre meus livros.

Os ácaros, senhores, não mordem nem arranham seus donos, não latem, não miam nas madrugadas, também não descomem em público. São um primor de educação. Discretos e intelectualizados, só são prejudiciais nas matérias sensacionalistas do Fantástico. Ali se fala até do horrendo porte dos bichinhos, mas a beleza é um estado de espírito, quem viu fotografias de Ruy Barbosa e de Jean-Paul Sartre sabe disso. E eu, padrinho de casamento e batismo de vários ácaros, sei o quanto é doce sua convivência.

Já cães e gatos…

Minha prima Cristina era dona de um gato que, acredito, nasceu na família real inglesa. Sua comida era especial, somente dormia sobre almofadas postas aos pés da cama de sua dona e com o quarto completamente escuro. Qualquer minúsculo barulho na casa, o bicho acordava e reclamava em miados dolentes. Durante o dia, magistral, ficava horas deitado numa poltrona da sala como um lorde em ascensão.

Numa curta viagem de sua dona, ficou conosco aquele trambolho que nada fazia, que nada podia. Magnanimamente recusava toda e qualquer ração que oferecíamos. Preocupados com uma possível inanição, partimos para um tratamento de choque. Em uma seringa sem agulha botamos uma bem servida dose de cachaça que injetamos pela guela do bicho. Um santo remédio. O gato deu uma breve corrida, cambaleou um pouco e dormiu o resto do dia. Ao acordar estava curado. Comeu tudo que lhe foi servido, inclusive restos de pão dormido.

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A MENTALIDADE DA DESCONSTRUÇÃO

A televisão ensaiava algumas cores. Era um borrão onde o vermelho agredia nossa visão espantada, encantada, perplexa. E o programa de entretenimento, entre muitos escuros e poucos claros, mostrava um israelita que entortava garfos e facas, o paranormal Uri Geller. Era um fenômeno. Com o poder da mente era capaz de quase tudo, contava.

Servindo ao Exército de Israel precisou saltar de paraquedas carregando uma bazuca. Para fazer um pouso perfeito, tirou todo miolo da arma. Já no avião lembrou que precisava atirar, e como faria com o equipamento desmontado? Usou a mente. Pousou com elegância, atirou e – pasmem – o disparo mereceu elogios e, certamente, tapinhas nas costas. Ao chegar ao alojamento as peças da bazuca desmontada estavam quentes como se realmente tivessem sido usadas.

Diante disso ficava fácil acreditar no depoimento de vários telespectadores que garantiam, atendendo ao pedido do paranormal, terem visto o liquidificador posto sobre a televisão ser ativado mesmo estando desligado da tomada. Minha descrença é que nunca me permitiu acreditar nas proezas desse herói destruidor de faqueiros e muito menos botar qualquer aparelho elétrico sobre a TV.

Talvez tenha perdido uma grande oportunidade de renovar meus valores, não sei.

Fato é que vinha eu de um tempo de descrenças, “um tempo onde o tempo não se esquece e os trovões eram roucos de se ouvir”, como cantava Zé Ramalho. Tempo de destruições homéricas. No Recife o prefeito Augusto Lucena, para abrir a Avenida Dantas Barreto, como um Pereira Passos moderno, destruiu casarões antigos e até a igreja dos Martírios. Diante da grita dos preservacionistas, declarou: “Se eu fosse prefeito de Roma demolia o Coliseu, um trambolho sem qualquer utilidade.” 

O senso da destruição cantava em todos os recantos. E sempre com o mote monocórdio. Destruir para construir. No Rio de Janeiro a vítima desta estranha batalha foi o Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal. Um prédio belíssimo em sua exuberância arquitetônica. Caiu por determinação do presidente Emilio Garrastazu Médici para se construir o metrô carioca que, indiferente, caminha sob o vazio da antiga praça, do velho abrigo do palácio cujos lustres e colunas góticas decoram churrasqueiras em Brasília.

O sentido de um tempo. O Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, construiu uma reforma educacional que desconstruiu todo sistema de educação pública. Priorizou a formação universitária que, de inicio, abrigou estudantes das excelentes escolas públicas, mas bastaram poucos anos para que essas escolas, minguadas, não mais conseguissem fazer seus alunos vencerem o monstro do vestibular. E nos pátios paupérrimos cantava-se: “Este é um país que vai prá frente…”

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DE CORONÉIS, REPÓRTERES E ELEITORES

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Confesso meus pecados. Sou apaixonado por política. Estudei várias de suas teorias, acompanho noticiários desde sempre, vivo enfurnado nos corredores do Congresso Nacional, mas, reconhecendo minhas limitações, custo a entender certos coronéis do presente.
 
Penso nisso diante da truculência do senador Roberto Requião tomando o gravador de um repórter por sentir-se incomodado por uma singela pergunta. Depois, tentando emendar o soneto, fez gracinha no facebook, mandou um filho travestido de porta-voz justificar a atitude (isso não é nepotismo?) e por enfim discursou dizendo-se vítima de bulling e culpando a imprensa de perseguição aos políticos.

Reconheço que a imprensa comete exageros, mas houve um tempo em que tudo se resolvia de maneira mais bem humorada.

Adhemar de Barros, donatário de São Paulo em priscas eras, ouviu à queima roupa de um repórter:

- É verdade que o senhor é ladrão?

- Meu filho, no Brasil todo político é chamado de corno, veado ou ladrão. Ainda bem que só me chamam de ladrão.

Era um homem sério. Preocupado com as finanças do estado, mantinha o cofre na casa de uma amante de codinome Dr. Rui. Não importava a relevância da reunião, o governador jamais se recusava a atender Dr. Rui. E certa feita, para constrangimento de seus secretários, terminou uma ligação com um sonoro: “Um beijo, Dr. Rui.”

Um homem exemplar… já a esquerda… Vamos aos fatos. Um bando de irresponsáveis guerrilheiros descobriu a localização o endereço de Dr. Rui, invadiu a casa e carregou o cofre. Uns moleques, esses assaltantes. 

Enquanto isso os coronéis transpiravam honestidade e se entendiam com a imprensa.

O implacável David Nasser quis saber do impagável Silvestre Péricles de Góis Monteiro, senhor de baraço e cutelo em Alagoas, por que tinha mandado acabar à bala o comício do próprio irmão, Pedro de Góis Monteiro, que lhe fazia oposição.

- Não é verdade, apenas mandei dar um tiro na bunda do indivíduo para que ele não fosse prestar queixa à polícia.

Estava certo, mas Nasser era teimoso.

- E quanto ao deputado Oséas Cardoso que o senhor prendeu sem formular qualquer processo?

- Quem lhe disse que aquilo é deputado? Aquilo é um cachorro raivoso.  Mandei a carrocinha prendê-lo por uma questão de saúde pública.

Silvestre, que chegou a dar uns tiros em Arnon de Mello dentro do plenário do Senado – errou o alvo e acertou outro senador, um acreano que não tinha nada a ver com a história – era um primor de criatura. Sonetista publicou um livro afrancesado, No Tempo das Rimas, que, poeta morto, podemos arriscar uma crítica: é muito ruim.

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PERDA DO LIVRO QUE QUASE TIVE. ESTA PERDA FOI A VITÓRIA DO REENCONTRO

A história começa com Orlando Tejo entrando em minha casa, um apartamento quarto-e-sala precariamente montado sobre uma padaria, ao lado de um boteco. Trazia na mão um livro de 130 páginas.

- Você precisa ler isso aqui. É genial. – Desafiou-me.

Olhei para o magro volume de capa laranja ostentando a foto do autor – mãos na cintura, gravata vistosa, olhar desafiador, paletó sobre o braço –, o intrigante nome do escrevinhador – José Américo II – e um título mais instigante ainda: Uma Vitória Dentro de Uma Derrota Que Não Tive. Esta Derrota Foi a Vitória do Meu Livro (Agora vocês sabem onde fui buscar estranho título desta crônica).

- Ele assevera que na Paraíba existem dois Zé-Américos; um falado e o outro falador. – Garantiu Tejo. 

Não desacreditando no amigo, busquei a quarta capa. Talvez ela me desse mais alguma luz. Ali apenas uma foto do autor, terno branco, jornal esvoaçante na mão esquerda e na direita a corda com que segurava um cachorro mais negro que a depressão de Winston Churchill. Sob a foto a legenda: “O de preto sou eu e o de branco é o cachorro.”

- Realmente genial. Vou ler o bicho. – Sentenciei.

E voltamos, eu e Tejo, às conversas amenas onde ponteavam repentes e o Nordeste todo com suas graças e misérias.

Na tarde do dia seguinte abri o volume. A primeira visão, depois da repetição do título, é de uma nova foto. Outra vez o terno branco, o jornal e o cachorro com sua coleira. Sim, e uma legenda: “Se você leu o meu livro e gostou, diga a todo mundo que compre, mas se leu e não gostou, diga a todo mundo que não compre.” Um autor confiante, pensei.

Àquela época Paulo Coelho era apenas um parceiro de Raul Seixas. Se ele tivesse usado a mesma estratégia… Bem, como na história, em literatura não se pode viver de condicionantes.

Segui a leitura que começa, claro, pelo começo. “Nasci, no dia 13 de agosto de 1908, na vila chamada Boi Velho, município de Monteiro, hoje é uma cidade por nome de Ouro Velho.” E seguia uma escrita barroca, proustiana, com parágrafos imensos – um deles ocupa nada menos que seis páginas, ou seja, parágrafos de tirar o fôlego de qualquer cristão, de fazer inveja a qualquer José Saramago.

“O meu trabalho era tangendo os bois que puxavam a manjarra do engenho eram trabalhadores chegando, com canas e a moenda quebrando a cana e os trabalhadores cantando, cajueiro, canarinho e lavadeira que eram os nomes dos bois e a garapa da cana descendo pela moenda e o caldo caindo num tacho e dali produziam o mel e o fogo alimentando a quentura, para o tacho, o homem que fazia a rapadura esperava o ponto do mel.”

Desculpe caro leitor. O parágrafo anterior, como tudo que vier entre aspas, é uma transcrição fiel do nosso José Américo II. E sua prosa é esta. A oralidade levada ao extremo, com todas as suas manias, corruptelas e pecadilhos.

Em determinado momento ele trabalha no Hospital Dom Pedro II, no Recife, onde têm “13 salões de gente, 6 de mulheres e 7 de homens, sendo que o oculista chefe da casa Santa Clara, das mulheres doentes dos olhos era Dr. Fraga Rocha, e o Dr. Souto Maior, era o chefe da sala São Tomáz, que é a sala dos meninos, sendo que ele é filho de Bom Jardim perto de Limoeiro de Chiqueráqui.”

E daí segue numa aventura danada. Pelo Nordeste vai desenhando uma vida que não se prende a nada. Consegue emprego com uma determinação espantosa. Chega à casa comercial perguntando o nome do proprietário e oferecendo seus serviços. Auxiliar de enfermagem, vendedor de lança perfume nos cabarés, carregador de pedras, apontador de trabalhador da estrada ferro, cabo de frentes de trabalho contra a seca, chofer de caminhão, locutor de serviço de alto-falante. “Eu fui o fundador de autofalante volante em Campina Grande, à partir de 1948”, informa este homem que fez de um tudo.

E eu já estava prá lá da centésima página e não aparecia a história da derrota que foi uma vitória. Tomei fôlego, talvez alguma lapada de cachaça, e segui célere. Vi que no Recife nosso Zé Américo falador viu o Zepelim e o Jahú, primeiro avião a cruzar o Atlântico. Um repertório de modernidade. Conheceu Zé Piolho e Biu Puta Preta, jogador do Treze de Campina Grande. Fugiu da sanha vingativa de Chico Heráclio (para ele Chiqueráqui) por conta de um cunhado que se meteu a falar mal do coronel. E a derrota nada.

“Quando chegou o carnaval no corso na Maciel Pinheiro à partir do sábado, a rua estava lotada de gente fazendo passe, e eu vendendo lança no meio dessa multidão com uma calça velha de gazimira com barguilha para trás, por cima da outra calça, que quando eu vendi uma lança, recebi o dinheiro, arreava a calça de gazimira e botava o dinheiro, e o ladrão me cubando para saber como tirava o dinheiro, então aquelas mulheres que me compravam lança lá no baixo meretrício me compravam sem pagar, fiado, e a noite eu ia para lá e elas mandavam os homens do algodão pagar, os homens que pagavam mandavam que eu dançasse com aquelas mulheres, então uma me tirava para dançar e eu ia balançar o esqueleto, dançando e namorando, que era bom demais, mas era proibido cochilar no cangote das damas, devido o corruchiado no pé do ouvido.”

Neste trupé José Américo II conta suas vitória e derrotas, inclusive a que á título ao livro.

De minha parte, terminei a leitura encantado e convencido de que papel realmente aceita tudo. E devolvi o volume para seu legítimo dono, o poeta Orlando Tejo, logo ele que, diabo velho, nunca me devolveu o disco de Gilvan Chaves que lhe emprestei.

Contei para Luiz Berto as venturas daquela publicação. Curioso, Berto tentou um empréstimo veementemente negado por Tejo. Por muitas vezes percorremos as estantes do vate campinense e nada do livro.                                

Anos depois, saudoso do modesto volume, recorri à Estante Virtual. Encontrei um único exemplar do bicho. Comprei sem pestanejar e o reli. Hoje o admiro empoleirado na modéstia de minhas estantes reais.

Sei que a inveja, um dos sete pecados capitais, não é sentimento que macule um papa, mas que Luiz Berto tá morrendo de inveja, isso lá está.
    
 


UM ITALIANO EM REALENGO

Éramos adolescentes e à noite saímos para farrear pelas ruas da cidadezinha do interior. Não trazíamos maldades no peito e, àquela época, era possível vadiar, violão às costas, pelas madrugadas de música e literatura. Tínhamos pretensões que se frustraram com o passar dos anos, sonhos amalgamados no barro do real e discutíamos sobre as culturas que nos chegavam pelos livros, os jornais, as televisões.
 
Certa feita um de nós trouxe à tiracolo um novo amigo. Alto e magro, não falava uma palavra em português. Era italiano, sobrinho de um dos padres da cidade. Nunca soubemos ao certo o motivo de sua visita. Especulávamos uma possível fuga da Máfia, uma desilusão amorosa, mas, pelo que afiançava o moço, queria somente conhecer o mundo e o tio pagou sua passagem para o Brasil. Era um dos nossos. Também queríamos o mundo que estava além da estrada que nos levava ao Recife, que nos trazia outras expressões da vida.
 
Com português e italiano canhestros, nos entendíamos. E banhamos as noites com canções napolitanas. E haja cerveja para alentar as quentes horas noturnas. Na volta de uma farra o italiano – acho que se chamava Marcelo ou tinha cara de Marcelo – resolveu nos mostrar como se divertiam os civilizados europeus. Desembalou na carreira e pulou com os dois pés sobre o capô de um carro. Corremos horrorizados e medrosos deixando o carro bem amassado. Na praça mais próxima, ofegantes, passamos a julgar o amigo. Ali na ingênua cidadezinha não havia espaço para o barbarismo.
 
Vivíamos em um outro clima, onde a violência estava para além das fronteiras, para além das ruas. O crime mais bárbaro que presenciamos, um assassinato à sangue frio em plena rua, ao bater do meio-dia, nos era tão distante quanto Cabrobó, a cidade onde o criminoso resolveu se homiziar. E hoje, não sem certo horror, assistimos a violência em nossa porta. E, como faria Aldir Blanc, não conseguimos fechar nossa janela. Tudo nos chega com cores de espetáculo, com timbre de glamour. Nós que cantávamos: alô, alô Realengo.
 
Agora basta ligar a televisão e Realengo nos dói e a demolição do Japão nos fere. Já não há isolamento possível. Escutamos os tiros disparados nas escolas. Sentimos o cheiro do sangue de cada um dos doze meninos mortos. E esquecemos de secundar Gilberto Gil: Alô, alô Realengo, aquele abraço, alô torcida do Flamengo, aquele abraço. Alô, alô seu Chacrinha, velho palhaço, alô, alô Terezinha, aquele abraço…

Chacrinha já não balança a pança, não buzina a moça, não comanda a massa. O mundo, que era amplo, estreitou. E os telejornais insistem no bárbaro. Uma estranha comunicação da barbárie toma lugar daquilo que os perplexos comunicólogos – sou jornalista, nunca serei comunicólogo – diante das graças do Velho Guerreiro chamaram de comunicação do grotesco. Nos tempos quando vadiávamos na madrugada, grotesco era mostrar belas dançarinas, oferecer bacalhau para a platéia, ri do calouro desafinado.

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AVENTURAS DE UM QUASE SACERDOTE INVOLUNTÁRIO

Tudo aconteceu pelas decorrências do acaso. Sem perceber, estou prestes a me tornar um sacerdote.

A história é antiga, data de coisa de trinta e tantos anos, daqueles instantes onde a vida não corria com tanta pressa e em Palmares inaugurava-se o primeiro edifício residencial. Ainda hoje está lá, na rua Coronel Izácio, por trás do Colégio Diocesano. Do meu pátio de recreio olhava o colosso de poucos andares, uns seis, não sei ao certo, mas para mim uma obra imensa. Um dia entrei ali, acompanhado de meu pai, para visitar uns amigos dele. As salas e os quartos me pareceram infindos. Daí nasceu o sonho.

Eu deveria cometer um crime, mas um crime tão medonho que meu pai seria obrigado a trancar-me em um daqueles apartamentos. Durante anos ali viveria cercado de livros e discos. As paredes seriam cobertas de prateleiras e eu, o criminoso ermitão, não falaria com ninguém, não teria amigos e me corresponderia apenas com páginas e páginas impressas que me chegariam pelo Correio ou pela piedade de minhas irmãs. Estava criado meu paraíso particular.

Ao correr dos dias fui maturando o desejo e maquinando o crime. A imaginação – que é fraca – não me permitiu atingir o hediondo ato capaz de imputar-me tamanha pena. Desembestava o tempo e meu pai, sem vocação para sustentar vagabundo, tirava-me das leituras e jogava-me à vida. Quando dei conta, desmentindo Milton Nascimento, meu sonho tinha envelhecido e eu havia lido vários dos volumes da Biblioteca Municipal e toda estante do pai de meu amigo Gulu.

Arribei pro Recife com alguma roupa e muitos livros na sacola. Derna de então carrego essa maleta, como um Sísifo, a mitigar seu castigo.

No Recife, num colégio que ficava na Boa Vista, desafiei um professor recitando poemas de Drummond e Bandeira. Foi a primeira glória deste matuto que terminou medindo a vida pelos livros.

Como passava os dias deitado numa rede, cercado de livros numa varanda de Afogados, papai aperreou-se. Convenceu um deputado de que eu tinha futuro. A autoridade quis conhecer-me. O encontro se deu em Maceió e recebi sua primeira pergunta com certa tranqüilidade: “Você já leu Machado de Assis?” “Já”. E passamos o resta da tarde e entramos na noite falando do Bruxo do Cosme Velho e de política. Saí de lá com um emprego e uma passagem para Brasília. Assim tá fácil, pensei.

Pela vida conheci um bando de gente. Uns dez por cento se animavam com minha monocórdia e monotemática conversa. Os outros corriam do chato que só falava de livros. Como andava pela idade onde não se tem nenhuma noção da inconveniência, marchei célere. Enfrentei fronteiras e épocas várias. Naveguei tantos mares, tantos bares, tantos lares, tantos lugares que já não sei contar. Convivi com loucos e gênios. Fui do bando de Lampião e atirei com o rifle de ouro de Antonio Silvino. Amei loucamente e desprezei mulheres belas. Conheci Oropa, França e Bahia. E tudo deitado na velha e puída rede, agarrado ao velho e puído hábito.

Uma noite, num bar, discorri animado sobre Gabriel Garcia Márquez. Sai dali bêbado e feliz para somente voltar cerca de um mês depois. Foi quando um amigo anunciou-me a boa nova: “Sabe aquela morena que estava ao seu lado na mesa?” “Não.” “Pois ela está apaixonada por você.” “E eu por ela.”

Por esta época conheci Luiz Berto, que ainda não era Papa – vejam como essa história é antiga. A verdade é que desandamos a falar de literatura e até hoje este é o nosso assunto. Ele, junto com um bando de outros irresponsáveis (Orlando Tejo entre eles), apadrinhou meu casamento com a morena que ficou encantada com a minha conversa sobre o colombiano. Até hoje a moça atura minha horas de leituras, minhas estantes abarrotadas, meus ensaios de eremita na solidão de um cômodo transformado na maquete do sonho adolescente, pois, por preguiça e paixão, continuo um leitor empedernido.

Ao longo da vida outros tantos empregos e ocupações vieram pelas leituras. Já até obrei o milagre de salvar o Papa Berto de uma encrenca. No meio de uma cachaçada ele se comprometeu em editar um jornal classista e inventou uma página literária que entregou a Natanael. O paraibano escreveu o primeiro e único texto e sumiu, como era de seu costume. Berto me liga desesperado: “Que último livro você leu?” “Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos.” “Então me mande um texto sobre o bicho.” Mandei e o patrocinador da coluna, o livreiro Ivan Silva, demitiu o velho Natan. Tornei-me crítico literário, ofício que pagou minhas contas durante dez longos e agradáveis anos. 

Bem ou mal até hoje vivo do que me dá a literatura. Até quando tentei correr dela e fiz um concurso público para jornalista, entregaram-me um programa dedicado à literatura brasileira. Ou seja, preciso me conformar com a sina ou a maldição.

E penso nisso diante das notícias trazidas por um grande amigo, o escritor Luiz Ruffato que está criando a Igreja do Livro Salvador. Ele também foi um dos tantos a serem salvos pelas leituras. Filho do segundo pipoqueiro de Cataguases, em Minas Gerais, e de uma lavadeira, foi um dia apresentado à literatura por uma professora. Contaminou-se. Foi torneiro mecânico, balconista de lanchonete e outras tantas coisas vivendo numa pindaíba danada. De livro na mão, chegou a viver por mais de um mês numa rodoviária em São Paulo. Jantava o sopão distribuído por senhoras beneméritas. Quando se deu conta de sua sina, estudou jornalismo, tornou-se um dos mais importantes romancistas de nossa literatura contemporânea e líder absoluto da futura Igreja do Livro Salvador.

Vou apresentar meu currículo e reivindicar um posto de sacerdote nessa nova igreja. Caso não atinja meu objetivo, solicitarei ao Papa Berto um cargo de sacristão na Igreja Sertaneja. E passarei a recolher óbolos nos mega-eventos desta imensa ação cristã e etílica. Certamente terei oportunidade de surrupiar algum para comprar mais um livro.

Amém.          
               


A INFÂNCIA INVISÍVEL

Foi Jorge Amado quem primeiro me deu notícia deles.

Era um romance meio proibido, apesar de sua longa idade. Beirava os quarenta anos quando a década de 1970 estava pelo meio, ainda era lido com olhos de escândalo e seu texto somente falava de uma tensa questão social. Pelo sim pelo não foram as palavras que eu podia ler sem medos ou restrições – não lembro de meus pais terem me proibido nenhum leitura; eu que cheguei, por influência de Tim Maia, a ler O Universo em Desencanto, bíblia de uma seita meio hippie de então –, pelo sim pelo não, dizia, foi Jorge Amado e seu romance que levaram meus olhos a enxergar a infância invisível que circundava minha quase adolescência.

Eram meninos afoitos e libertos, mas não tinham o heroísmo vadio dos personagens jorgeanos e moravam em Palmares. O líder do grupo chamava-se Calango, um homossexual ingênuo, com voz de comando e uma indizível capacidade de revestir todas as atitudes com uma capa lúdica. Gostava de nos mostrar como batia a carteira dos matutos e roubava o relógio dos cidadãos.

A rigor não temia nada, só Luiz Guarda, um policial arbitrário que costumava matar todos os ladrões que encontrava. E enquanto não se deparava com seu destino fatal, Calango se divertia correndo e brincando nas ruas da cidade. Poderia ter presença no romance de Jorge, mas seu tempo era outro, e os capitães da areia me parecem mais reais que a realidade vista de minha janela adolescente.

Não sei o fim de Calango. Acho que quando sai de Palmares ele já não andava pelas ruas. Foi pro Recife? Morreu? Ajustou-se? Impossível saber. Sua invisibilidade ganhou densidade e ele não pertencia ao grupo de meninos que tentava nos arrancar algum trocado enquanto bebíamos pelos bares da Boa Vista. E sempre duvidávamos de seus apelos.

Certa feita um deles se achegou à mesa pedindo dinheiro para comprar comida. Desconfiando de seu pedido, oferecemos sanduiche. E o menino devorou. Agradeceu olhando com olhos súplices para nosso petisco. Oferecemos outro sanduíche. Devorou três ao todo.

Em sua invisibilidade tinha fome e nenhum futuro.

Seus pares espalhavam-se por todos os cantos.

Conheci um deles em Matriz de Camaragibe. Era prestativo, carregava as compras de quem se dispunha a dar-lhe algumas moedas na feira da cidade. Como o morador do cais da Bahia, Perna-Seca, tinha um perna comida pela poliomielite, mancava e chamava-se Pé-de-Bombo. Mais do que viver, brincava pelas ruas escaldantes da cidade, pela praça Bom Jesus, um descampado onde nas festas de Ano-Novo se armavam barracas de madeira para as funções da pândega, os jogos e as bebidas.
 
Dia dois de janeiro, passada a procissão e fechadas as barracas, sobravam as armações de madeira. Liderando um bando de cangaceiros lúdicos, Pé-de-Bombo se encarregava de derrubar os restos. Aquelas estranhas ruínas que ainda recendiam a madeira nova caiam, uma a uma, na força lúdica do lazer dos meninos que logo sumiam, iam brincar noutros terreiros, deixando aos garis a necessidade de recolher os novos restos.        

Eu que os aprendi a olhar nas páginas da literatura, sem cheiros desagradáveis e com o futuro trágico ou glorioso descrito no final do volume, ainda me surpreendo.

Ceio que o precursor de todos eles, pelo menos nos livros, foi Leonardo, o herói de Manuel Antônio de Almeida, das Memórias de um Sargento de Milícia. Era no tempo do rei Dom João VI que ele reinava no Rio de Janeiro. Abandonado por pai e mãe, vivia entre a liberdade das ruas e o pouco rigor da casa do padrinho, o barbeiro que “arranjou-se”. O mundo era tão outro que das ruas Leonardo também “arranjou-se”.

De outras leituras – dos jornais, das revistas – vejo crescer a invisibilidade dessa gente e os alertas vêm de longe, muito longe.

“E o garoto de doze anos, raquítico e cínico, encostado num poste, escolhe entre os passantes precisamente aquele que sabe ingênuo e facilmente enganável. É um psicólogo instintivo, no excesso de pó que cobre o rosto de certa senhora descobre a infalível beata, a dona da bolsa cheia de níqueis destinados aos mendigos que possa encontrar no caminho…”

Eu ainda encontro esse garoto de doze anos, não cresceu, embora José Carlos Oliveira o tenha visto nas ruas do Rio de Janeiro e era novembro de 1953. O tempo teima em não passar para essa gente invisível. Continuam vagando na vastidão, Carlinhos, pois “sobre os desmandos e a insensatez dos adultos paira a inocência infantil”.

Enquanto isso fazemos literatura, enquanto isso o real escarra em nossos rostos escanhoados todas as manhãs.

Pouco antes das seis da madrugada, no Núcleo Bandeirante, cidade-satélite de Brasília, um menino brincava com uma cadeira de rodas. Descia na disparada possível a rua de baixo declive. Estava feliz. Disse um galanteio chulo para duas senhoras que passavam de roupa justa com destino à academia. Elas não deram bola. “Coitado, deve estar varado de crak”, diagnosticaram. E o menino, nem-aí-seu-souza. Corria com a cadeira que tomara emprestado a outro miserável. Já estava invisível.

Os olhos bem formados somente costumam enxergá-los nos noticiários, na narrativa de tragédias que nenhum Sófocles escreveu.

Todos perderam a ingenuidade, já não se assinam Pedro Bala, Calango, Leonardo, Pé-de-Bombo, não esperam a senhora maquiada nas esquinas, não pedem sanduíches. Cresceram suas necessidades e suas encruzilhadas são bem mais cruéis e doloridas.

Cresceu também nosso distanciamento.

Pela televisão, impotentes, ou indiferentes, assistimos o balé macabro. Vestidos de trapos, andrajos, jogaram fora as latas de cola que já nos chocou e fumam crak com o prazer danado de quem caminha para a indesejada. A certeza de que não chegam a lugar nenhum nos transmite a segurança de que não carece enxergá-los. Até a lei os apaga da vida. São inimputáveis, não são responsáveis, e nesta condição, são canteiros férteis para a criminalidade de outros tantos.

E no meio do desalento, na calçada de um edifício em Maceió, por esses dias, esperando um amigo, vi a polícia acossando essa infância invisível. Um deles, idade indefinida, talvez doze anos, levantava com seus trapos. Dormia sob uma árvore. Caminhou até a árvore mais próxima. Voltou a dormir. Seu amigo, um pouco mais velho, ensaiou um discurso. Deus está vendo. Chamou a polícia para nos expulsar daqui. Nós não roubamos, queremos só viver. E porque estão na rua? Minha mãe morreu. Não tenho pai nem para onde ir. E essa corda aí na árvore? Só um balanço; a gente precisa se distrair, né? É.

A ausência do espaço lúdico, da solidariedade, da esperança.  
   
E aí fechamos a porta e abrimos um livro. A legião de excluídos, espectros vivos, ganha a rua na solidão da madrugada fria.

O mundo pode dormir em paz.
                        


A ANCESTRALIDADE NORDESTINA

O primeiro milagre se deu em 1872. Francisca Belmira era prostituta numa currutela perdida no sertão, nos pés da Chapada do Araripe, um pouso de tropeiros, povoado sem eira, com cinco casas de telha, trinta choupanas e uma capela. O padre veio para celebrar a Missa do Galo no ano anterior e sonhou com o próprio Cristo ordenando que ele se entregasse à tarefa de pastorear aquele rebanho de pouca crença e muita iniqüidade. Ficou. Aceitou a peleja. Num dia de céu claro e luz intensa deu-se o encontro. A mulher, enlouquecida, corria praguejando contra Deus e o mundo. Desafiava valente, desacatava a todos. Até ver o padre que pôs as mãos em sua cabeça abençoando-a.

Ela caiu em choro convulsivo pedindo perdão pelos tantos pecados. Nunca mais bebeu, nunca mais se prostituiu. Morreu como matrona, venerada e respeitada por todo Juazeiro. O padre seguiu obrando seus milagres, livrando flagelados da seca, construindo uma civilização no coração do Cariri. Vinha de uma tradição de fé intensa. Isolado de tudo, sem lei nem rei, os primeiro colonizados daquelas brenhas se entregavam à proteção de Deus e só com ele contavam.

Na ausência de padres regulares, se valiam dos beatos, dos andarilhos que falavam em bonanças e anunciavam apocalipses. Essa tradição de tão forte, norteou o Padre Ibiapina, um advogado que abandonou as leis dos homens e se dedicou à lei de Deus. Fez-se padre no Seminário de Olinda e saiu a pregar pelos sertões. Tinha um discurso tão afinado e belo que encantou o menino Cícero que se fez padre e milagreiro, um santo nordestino, no dizer do povo.         
 
Ninguém sabe quando se deu o primeiro tiro. O fato está perdido nos esteios do tempo. E depois dele viram muitos, tantos que nenhuma tabuada é capaz de contar, mas tem um desses tiros que se fez definitivo. Era um rapaz de 17 anos, conta-se, e já estava, junto com outros dois irmãos, metido com bando de cangaceiros e era um atirador de respeito. Um estrategista, embora nunca tivesse pensado no ofício da guerra. Era tropeiro e artífice do couro, tocador de sanfona também.

Na volta de uma viagem encontra o pai em desespero: tinham lhe roubado umas cabras. Descobriu o ladrão, mas este era protegido do coronel do lugar. Mesmo assim buscou a única justiça possível nos sertões: a lei do próprio braço. Para colonizar aquelas brenhas os homens traziam um pouco de gado e muito de coragem. Não podiam contar com ninguém. E se desavença houvesse, essa teria que ser resolvida no disparo da própria bala. Assim fez o moço, mas precisou viajar e na volta o sítio da família era cinza e os pais, cadáveres. Caiu no cangaço. Numa noite de breu intenso, num combate de grande monta seu tiro clareou o mundo. Isso não é tiro, é lampião, alguém gritou e Lampião ficou sendo desde então; é o que se conta. Certeza mesmo são sua coragem e sua disposição de justiçar o mundo. Mais que homem de carne e osso, Virgulino fez-se lenda.
 
A música estava no embalo do berço. A mãe era conhecida cantadeira de novenas e incelenças. O pai consertava sanfona e animava forró tocando pé-de-bode. Fazia miséria nos oito baixos. E levava pelo braço, escondido da mulher, o filho, um menino de calças curtas. Nesta transgressão aprendeu a passear os dedos pelo teclado daquele instrumento mágico. Inventada nas brenhas da Europa, a sanfona desembarcou no sertão na bagagem dos judeus errantes, os fugitivos das fúrias governamentais, os cristão-novos.

Para se livrar da melancolia, o homem do sertão puxava o fole nos sambas de latada que o bispo de Olinda proibiu dizendo ser aquela uma festa imoral, isso nos idos de 1735. Tornou-se o instrumento tão íntimo do sertanejo que o menino, crescido, soldado do Exército, tentou dedilhar violão. Faltou jeito, ou foi a sanfona quem falou mais alta, sabe-se lá. O certo é que tirou a farda, botou paletó e gravata e foi tocar valsas e mazurcas nas rádios do Rio de Janeiro. Um dia, livrando uns trocados num cabaré da zona do Mangue, o sanfoneiro ouviu um bando de estudantes pedir para ele tocar alguma coisa do Norte.

Tocou e o sucesso foi imenso. Pelejou com os poderosos da rádio. Pelejou, pelejou. Até que se botou diante do imenso Ary Barroso. “O que o senhor vai tocar?” “Vira e Mexe, uma música do Norte.” “É cada uma que me aparece. Então toque logo essa besteira.” Tocou e o auditório, eufórico, pediu bis. Foi contratado e nunca mais parou de tocar e cantar as coisas do Norte. Criou toda uma estética musical, influenciou uma imensa legião de novos músicos, tocou nas praças nordestinas e nos auditórios do exterior, se fez rei. Distribuiu muitas sanfonas. Honrou um home: Luiz, por que nasceu em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia; Gonzaga, por que a mãe, Santana, era devota de São Luiz Gonzaga; do Nascimento, por que dezembro é o mês do nascimento de Jesus.
 
A ancestralidade nordestina e sertaneja tem base no triângulo fé, resistência e musicalidade. Ela nasce da solidão, do trabalho com o gado, da necessidade de se construir sozinho, de ser forte em tudo. Cícero, Virgulino e Luiz.
 
Um dia os sociólogos entrarão pela história e descobrirão que esta fé não é fanática. Ela nasce do apega à crença ancestral que reza: mais que a justiça dos homens, o sertanejo em sua solidão carece da força divina para aplacar suas revoltas e privilegiar a labutar, o martelar cotidiano sobre a pedra áspera do chão. Também a violência não é gratuita. Ela é colheita que se faz na precisão de defender a honra e a posse. Sozinho, sem lei nem rei, o homem do sertão tinha Deus no céu e o bacamarte na terra. E para aplacar as fúrias do chão pedregoso e dos homens injustos, nas noites de fogueira e lua tocava viola, dedilhava sanfona, cantava suas mágoas e alegria. E nos dias de sol inclemente, tocava o gado, domava a terra, entoava o aboio. Cícero, Virgulino, Luiz.
 
O Nordeste mudou. O jumento deu lugar às motos. A polícia e a justiça se espalham por todos os cantos. As igrejas milenaristas e protestantes se desenham em todas as paisagens. A sanfona hoje tem a companhia de guitarras e a zabumba é uma bateria completa. O homem é que é o mesmo em sua ancestralidade. Se não é possível aboiar sobre uma moto, canta pelas porteiras e latadas; se a missa abriu espaço para o culto evangélico, no quarto dos santos tem uma imagem do Padre Cícero; se as rádios empesteiam os ouvidos com gritos breganejos e baladas americanizadas, repinicam uma viola, puxam uma sanfona e cantam para a lua. E como essa gente sabe sorrir com honesta sinceridade.
 
Não se enganem: Em sua ancestralidade o Nordeste continua sendo Cícero, Virgulino e Luiz.   


SONHOS POÉTICOS, PESADELOS POLÍTICOS

Profissão tinha duas, radialista e advogado, mas teimava em ser poeta e político. E aí sofreu, no entanto foi feliz. Conheci muito poucos com tamanha verve e presença de espírito.

Chegou a ser prefeito de Maceió, eleito em 1960, e já na campanha mostrava sua condição humana. Tinha um único cartaz, exibido sobre o único carro da batalha: Ele, imponente, em pé, vestido de branco, pisando um revólver. Também um único slogan: Não à violência. Era no tempo dos brutais embates entre Arnon de Mello e Silvestre Péricles. Meu amigo passou ao largo, inclusive dos boatos que anunciavam diariamente sua renúncia à candidatura.

Um dia resolveu por fim ao tal diz-que-diz. Na Praça Marechal Deodoro, diante de uma multidão imensa, liquidou a fatura.

- Fala-se de minha renúncia, mas só há uma pessoa que me fará renunciar. Vou interrogá-lo agora. – E virando para a impoluta estátua do Proclamador da República, indagou: – Marechal Deodoro, o senhor permite minha eleição à prefeitura de Maceió? – E diante do silêncio tumular, proclamou: – Quem cala consente.

E assim ganhou a eleição e fez uma administração revolucionária construindo praças, abrindo avenidas e exercendo seu humor. No dia da posse recebeu o pedido de audiência de uma freira que vinha solicitar auxílio para suas obras sociais. Recusou-se a receber a religiosa e assim permaneceu por coisa de três meses até que um dia a secretária entra em seu gabinete.

- Prefeito, a freira…

O alcaide virou a cadeira para a janela, olhou a paisagem e decretou: – Mande entrar a vigarista. – E quando se virou para a secretária deu de cara com a freira. Não perdeu a pose. Levantou e cumprimentou sua visitante:

- Como vai, irmã?

- Nada bem. Entro aqui com o senhor me chamando de vigarista…

- Mas irmã, qual é o feminina de vigário?

Não terminou o mandado. Veio o golpe de 64 e o cassou. Tinha o governador como inimigo e, o pior, como vice o genro do tal governador. Nunca mais conseguiu voltar de fato para a vida pública. Nem para o rádio. Homem de poucas posses e honesto – diziam os amigos que entrou na prefeitura puxando uma cachorrinha e saiu sem cachorrinha, sem coleira, sem nada –, faz-se advogado. Paraibano, tinha adotado Alagoas como pátria e não se desfez da terra de adoção. Perseguido pelos mandatários em Maceió, foi trabalhar no Recife e semanalmente vencia, dirigindo o próprio carro, a distância entre as duas capitais. E assim se especializou em defender vítimas de acidentes rodoviários.

Enquanto isso se dedicou à sua paixão literária, não propriamente uma vocação. Era um leitor compulsivo, foi apaixonado por Euclides da Cunha. Leu Os Sertões mais de trinta vezes, mas, ressalta-se, apenas a terceira parte, A Guerra. Tinha pavor pelas duas anteriores, A Terra e O Homem. E escrevia e conversava. Ninguém melhor que ele para animar uma roda de conversa. Ia madrugada a dentro, sem beber, fumando e contando histórias fantásticas. Chegou a escrevê-las num livro de memórias, O Conversador, que guardo em minha estante. E lembro sua indignação.

Quando mandou o livro para a gráfica, foi entrevistado por um jornal local. E lá vinha a informação que terminara de escrever um volume memorialístico chamado O Conservador. E o amigo bradava:

- Logo eu, um conservador. Conservador é a puta da mãe desse jornalista analfabeto…

Também publicou um livro de poesia, Sonhos & Pesadelos, com este “&” comercial, como informa o exemplar de minha estante. Os versos são sofridos, reconheço. Um exemplo? “Sonhei morrendo de frio, / À míngua do teu calor, / A bordo desse navio!… // Calcula a minha agonia, / Se o sonho fosse real: / – Mas tudo não passaria / De um pesadelo BANAL…” Já as orelhas são uma preciosidade pelo inusitado.

Assinadas por um certo J. Romero, afirmam as tais orelhas: “Eu tenho em mãos cópias xerográficas dos originais do livro de poesias Sonhos & Pesadelos, (…) e, confesso, sinceramente: trata-se de uma ‘obra poética’ inteiramente destituída de méritos. Quer na parte dos Sonhos, quer na de Pesadelos, não há um só verso – lírico ou dramático – que enleve ou comova a alma mais sensível. (…) É pois, a negatividade global de todos os princípios que regem a criação da poesia e da literatura. (…) Tudo é lugar-comum, trivialidade. (…) Insulso livro, cuja autoria atesta o estado patológico de um poeta desprestimoso, incapaz de criar imagens ou figuras expressivas. (…) Concluindo: em que pese a observação feita nos comentários acima, não se deixe de ler tal livro: ao contrário, aconselha-se que o leia, para que constate in loco, com os próprios olhos, o que foi dito sobre Sonhos & Pesadelos, nestas duas orelhas que hão de arder na cabeça vazia do autor.”

Diante do desaforo procurei o amigo.

- Este filho da puta elogiou muito outro livro meu, A Imperatriz da Simpatia, sobre a visita da Rainha da Inglaterra ao Brasil. Quando ele me entregou o texto desta nova orelha, o livro já estava no prelo. Mandei para a gráfica sem ler. Deu nisso.

Fatos à parte, não tinha vocação para a política nem para a literatura.

Anistiado em 1979 enfrentou outras candidaturas, sempre sem votos, sempre com humor e esperanças. Ouvimos, pelo rádio de um restaurante, uma dessas apurações. Quando o locutor anunciou os milhares de votos de outros tantos candidatos e apenas um mísero sufrágio no amigo, ele não se entregou: – Já estou na suplência.   
 
Grande amigo. Conduzia sempre alta carga de solidariedade e gentileza que distribuía com próximos e desconhecidos. Um dia, vindo ele e meu irmão do Recife, pararam em Palmares. De repente o amigo sumiu. Também de súbito ressurgiu com um pacote de pão sob o braço. “Caso o carro venha a quebrar, não passaremos fome.” O carro não enguiçou e logo que entraram em Maceió obrigou meu irmão, o motorista, a parar num ponto de ônibus. Perguntou para uma mulher solitária e assustada que ali estava: “A senhora já comprou pão hoje?” “Não.” “Então não precisa mais comprar”. E passou o pacote à mulher.

Hoje caminho em Maceió e não encontro rastros do amigo. Sua obra – imensa – como prefeito foi se esvaindo nas modernizações da cidade e agora o apontam apenas como o prefeito que demoliu o Hotel Central, construção antiga que já se esmigalhava com o descaso e o tempo. Não importa, o mundo pragmático da atualidade não comporta o doce populismo de Sandoval Caju. Mesmo assim seus amigos, como eu, não pisam em Maceió sem deixar de lembrá-lo em sua grandeza, de reverenciá-lo.      
                           


AS DIMENSÕES DA SOLIDÃO

Solitário entrou no elevador e sozinho seguiu até a garagem do prédio residencial. O horário de sempre, a solidão de sempre. No carro, sem ninguém ao lado, se conduz até o trabalho. Mais um dia comum em sua vida de cidadão e trabalhador, apenas a notícia que o telejornal da noite anterior lhe dera ainda martela na cabeça: Um homem morreu em São Paulo.
 
Isso não seria notícia, mais uma morte em São Paulo, não fosse o inusitado do fato ter acontecido três antes e ninguém tomou conhecimento durante todo este tempo. “Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia, mas se um homem morde um cachorro..”, lembrou a frase dita por um amigo jornalista e atribuída ao também jornalista Carlos Lacerda.
 
E novamente a imagem terrível da notícia. Um homem morreu em São Paulo, na maior cidade da América do Sul e durante três anos ninguém o procurou, ninguém sentiu sua falta. “Vivemos na maior cidade da América do Sul…” Cantarolou e complementou: também morremos na maior cidade… E morremos sozinhos.
 
A história quem lhe contou foi um amigo. Estava no aeroporto esperando a esposa que vinha de viagem quando um senhor se aproximou e se pôs a falar de aviões, capacidade de passageiros e de repente estava falando da própria vida. Voltava de Fortaleza, onde um filho sempre quis morar, mas sequer teve como contar para o rapaz que mora distante, como os outros dois irmãos. O homem, viúvo e aposentado, vivendo à beira mar, em Florianópolis, pouco recebe a visita dos filhos, sempre ocupados, gastava o tempo que lhe restava passeando pelo país. Um solitário, se via.
 
“A solidão é fera, a solidão devora…” outra canção lembrada enquanto estacionava o carro e seguia até sua sala. Deu bom-dia aos amigos, discutiram as novidades alheias e próprias, trabalharam em silêncio. Almoçou sozinho no restaurante do ministério.
 
E a história do homem de São Paulo rememorada.
Era feirante, comercializava na Ceasa. Um dia foi para casa e nunca mais voltou. Sua banca, solitária, foi ocupada por outro necessitado que certamente o substituiu com o mesmo fervor comercial. Aos poucos o homem foi esquecido, para sempre ausentado das lembranças.
 
Depois que voltou do almoço, nosso outro personagem, procurou não esquecer o assunto e mergulhou no trabalho. Tinha mais o que fazer que pensar na solidão alheia, mas os fatos chegam à memória com a força da precisão.
 
Carcará viveu em sua infância. Não tinha amigos e passou toda vida cantando pelas ruas da cidade onde ainda moram os pais do homem que hoje, na capital do país, tenta se concentrar no trabalho burocrático, ministerial. Carcará. Estava sempre roto, sempre miserável, sempre feliz em sua solidão irremediável. Não falava com ninguém, dormia pelas calçadas, comia o que sobrava das feiras, o que chegava às suas mãos e era solitariamente feliz no seu mundo interior. Quem tinha o direito de o resgatar? Ninguém. A solidão, o isolamento também, pode ser opção ao tumulto das horas.
 
Quando tomou o carro para voltar ao apartamento, depois que se despediu dos amigo, percebeu que também esta fora sua opção. Não quis filhos, não quis casamento, os namoros todos como uma necessidade da boêmia, do prazer, mas o tempo caminha e já não oferece oportunidades para outros encontros. Pensa na aposentadoria próxima e ainda não atinou o que fazer. Viver na praia? Conseguir companhia? Talvez ainda não seja tarde demais, talvez ainda disponha de algumas horas.
 
Súbito lhe veio o medo de se findar como o paulista. Durante três anos ninguém o procurou. As companhias de luz e de água cortaram o fornecimento de seus serviços. O mato e a ferrugem tomaram conta da Kombi com que transportava seus produtos para a Ceasa e ninguém bateu à sua porta. Seu corpo deitado, se degradando, deixando fugir todas as forças. Um dia a polícia, instigada pelos vizinhos que sequer perceberam o fedor do corpo em decomposição e provocada por uma campanha de combate à dengue, resolveu arrombar a porta. Ali encontro o esqueleto sobre o sofá da sala. Uma garrafa de coca-cola ao lado, uma TV à frente. E nada mais. Nem passado nem futuro.
 
A vida se ressume ao espaço entre o nascimento e a morte. Os vizinhos e os antigos companheiros da Ceasa tentaram recompor com a polícia uma trajetória. Os documentos dizem que nasceu no Ceará. Alguém lembrou que chegou na Ceasa há mais de trinta anos. A carteira de identidade diz que tinha sessenta e dois anos quando morreu. A causa da morte era impossível de ser descoberta. Deve ter sido parada cardíaca, alguém especulou. E assim, de especulação em especulação, a vida passou sem certezas.
 
O burocrata entra no elevador. Está sozinho. “Solidão é larva…” Cantarola.
 
Um dia, voltando de uma farra, quatro horas da manhã, encontrou na solidão da quadra comercial deserta, o maestro. Tocava sax caminhando pela calçada vazia, em frente às portas trancadas. Insone e solitário não podia incomodar os vizinhos. Morava em um prédio que respeitava a lei do silêncio e não tinha outra coisa a fazer nas noites de nenhum sono, nenhum amigo. As ruas lhe ofereciam a segurança de uma cidade ainda tranqüila. Mudou a cidade. O que fazia agora o maestro? Talvez ligasse a TV, talvez lesse, talvez dedilhasse sozinho e em silêncio seu instrumento.
 
O burocrata fecha a porta do apartamento. Ninguém por perto. Nem um cachorro, nem um peixe. Deixa a pasta no sofá e volta para a rua. Na esquina há um bar. Senta, pede cerveja, algo para beliscar, e não encontra amigos.
 
A cidade não oferece companhia. E a vida passa agarrada ao imã da solidão. Ainda se movendo, o burocrata já também se decompõe.                               


CARNAVAL DO RECIFE E DE OUTROS CANTOS

(Crônica Sobre Poema de Ascenso Ferreira)

Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!

Ausentaram-se assim do carnaval do Recife, na voz de Ascenso e na solução nordestina, as alegorias de outras plagas, mas, como dizia-se em Catende, mal-assombro é bicho que não deixa o pé de vivente. E aí voltaram os alienígenas.
 
Sou folião e, apesar da barriga cevada à cerveja, ainda ensaio alguns passos de frevo. Dependendo da cachaça, até corto tesoura no ar. E repito sempre que, no carnaval, ou vou para Olinda ou para um retiro espiritual. Ano passado fiquei no retiro, ainda bem, pois não tive o desprazer de assistir Joelma e Ximbinha cantando e rebolando em pleno Galo da Madrugada.

Não sou xiita, mas acho bem estranha esta invasão de artistas sem qualquer identificação com nossos ritmos saírem fazendo média em nosso festejo. Carece certa magia que somente o berço pode dar, acredito, para cantar determinadas canções. E aí não importa o lugar do berço. Irah Caldeira é mineira, mas pense numa cantora de forró. E eram duas da madrugada, em pleno Marco Zero, em pleno carnaval, quando emocionado escutei Maria Bethânia, essa moça que recebeu de batismo o nome de uma canção de Capiba, cantar os frevos de Antônio Maria.
 
Voltando a Joelma, meu amigo Arnaldo Ferreira, que estava no gargarejo da imbuança (desculpem, mas assim é bem melhor que a formal emboança), tentou justificar: “Ela arrasou e abriu cantando Voltei Recife.” É danado, como ela pode cantar voltei se não saiu daqui? Aliás, bem poderia não voltar. Ô Ascenso vivo.

E somente ficaram os máscaras da terra:
Parafusos, Mateus e Papangus…
E as Bestas-Feras impertinentes,
Os Cabeções e as Burras-Calus…
realizando, contentes, o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo…
    

E onde estão os máscaras da terra? No Recife tem, mas estão mesmo em Bezerros.

Num domingo de carnaval desci prá lá e encantado assisti o desfile dos Papangus com suas fantasias de incrível criatividade e beleza. Um casal se vestia à Luís XV, mas desenhava toda fantasia com bandeiras pernambucanas e folhetos de cordel. A tartaruga pedia a salvação da Amazônia levando na cabeça um chapéu de cangaceiro.

Como é bonito ver esta antropofagia de qualidade e requinte.
 
Hoje vi os Papangus de Bezerros e os Caretas de Triunfo na televisão. E ouvi uma professora falar que os Caretas, com seus relhos, nasceram quando um Mateus de Cavalo-Marinho, depois de uma bebedeira, foi expulso do folguedo e passou a desfilar sozinho. E ainda um sub-secretário de turismo dizer que o Papangu veio de um grupo de rapazes que se mascararam para fugir das esposas no carnaval e que, um deles, devorando angu, provocou um menino a dizer: “Ele é um papa angu”.
 
Havia pelo Brasil, isso até o final do século XIX, patrocinada pela igreja, a Procissão das Cinzas, com carros alegóricos representando passagens bíblicas e homens fantasiados de anjos, de morte, de diabo. Acontecia na quarta-feira de cinzas e na frente de todos seguia uma figura, já então chamada de Papangu, com relho na mão, a espantar os meninos mais atrevidos. Um dia a igreja proibiu a procissão e seus personagens migraram para o carnaval.

- Mulata danada, lá vem Quitandeira,
lá vem Quitandeira que tá de matá!
- Olha o passo do siricongado!
- Olha o passo da siriema!
- Olha o passo do jaburu!
- E a Nação-de-Cambinda-Velha!
- E a Nação-de-Cambinanda-Nova!
- E a Nação–de-Leão-Coroado!
- Danou-se, mulata, que o queima é danado!
- Eu quero virá arcanfô!

O jornalista e escritor Luís Gutemberg foi menino e adolescente em Maceió. Passava as tardes na casa da atriz Linda Mascarenhas a estudar peças de teatro e no inicio da noite assistia da janela de casa passar o circunspecto professor Edson Nery da Fonseca seguindo para a missa. Apesar de já ateu, Gutembergt tinha imenso respeito pelo intelectual Edson que cuidava de bibliotecas nas Alagoas.
 
Não foi sem espanto que o moço, num dia de folia, viu passar um bloco de sujos e no meio do povo, destacado com seus dois metros de altura, Edson Nery a fazer o passo. O intelectual, apesar do porte britânico, nasceu pernambucano.
 
E a magia do frevo ainda hoje une extremos.

Que imensa poesia nos blocos cantando:
“Todo mundo emprega
Grande catatau,
Pra ver se me pega
O teu olho mau!”
- Viva o Bloco das Flores! – Os Batutas! – Apois-fum!
(Como é brasileira a verve desse nome: Apois-fum!)
E o clube do Pão Duro!
(É mesmo duro de roer o pão do pobre!)
- Lá vem o homem dos três cabaços na vara!
“Quem tirar a polícia prende!”

Nem tudo está perdido, mestre Ascenso. Ouvi Naná Vasconcelos reger quatrocentos batuqueiros tocando o trenzinho de Villa-Lobos e até o hino nacional. Vi lanceiros de maracatu e blocos de pau e corda. Antônio Nóbrega cantando Capiba. Lenine cantando Raul Moraes. Um menino de poucos anos com gola de maracatu. Jomar Muniz de Brito, o eterno anarquista, e seu Bloco do Nada. A Mulher na Vara em Olinda, os bonecos gigantes, a venda de véio, Salustiano deixando Marçal tocar rabeca. Nem tudo está perdido. Há esperanças na resistência e ainda nos encantamos no carnaval mulato, no carnaval melhor do mundo.  
 
Quem tirar os cabaços do Recife, a polícia deve prender.

- Eh, garajuba!
“Carnavá, meu carnavá,
tua alegria me consome…
Chegô o tempo das muié largá os home!
Chegô o tempo das muié largá os home!”
Chegou lá nada…
Chegou foi o tempo d’elas pegarem, os homens,
Porque chegou o carnaval do Recife,
O carnaval mulato do Recife,
O carnaval melhor do mundo!

E resgatando nossos sentimentos, nos sentimos maiores e mais plenos. Abraçando louras, morenas e mulatas vivemos um carnaval de fato pernambucano, com passos de frevo e o embalo mágico do maracatu.

- Pega o pirão, esmorecido!                 


NOTÍCIAS DE UM AMIGO

 

Moacyr Scliar (março/1937 – fevereiro/2011)

Nos conhecemos na necessidade de um interesse comum, a literatura. Ele lançava mais um romance, e eu, repórter de cultura, buscava informações que estavam além das páginas do livro. Conversamos num quarto de hotel, num ambiente neutro, despido de qualquer emoção. Durante mais de uma hora falamos de injustiça social e desprendimento pessoal.

Corria o ano de 1992.

A partir de então sempre nos encontrávamos com renovada alegria. E ele esmiuçava seus segredos e descobertas.

Disse-me da necessidade de contar infindas histórias. E quando não tinha o que narrar, lia, lia, lia. “Sei que isso é um bordão idiota, mas todo escritor é antes de tudo um bom leitor.” Li vários de seus comentários sobre livros de outros autores. Era um analista sereno, às vezes generoso em excesso, mas sempre honesto. Uma vez discorremos sobre Jorge Amado e ele me ensinou uma boa malandragem do velho baiano. “Ele pinta seus personagens de maneira chapada, sem muito aprofundamento psicológico, e diverte o leitor enquanto nas entrelinhas destila suas crenças, protesta contra as injustiças sociais, debate o progresso insano.”

Se um dia escrevesse um manual de literatura… Aliás, escreveu. Não analisando a obra alheia, mas a própria produção. Desde um dos primeiros textos que publicou em uma revista da comunidade judaica de Porto Alegre quando ainda tinha 12 anos, isso em 1949, até uns contos escritos às véspera da organização do livro, em 2007. Cinqüenta e oito anos de uma trajetória incansável. Generoso ponteava cada milímetro da carreira. Ensinava que devíamos buscar o íntimo oculto do leitor para encantá-lo e prendê-lo. Deixava entender que o escritor é uma cobra. Não só muda de pele ao longo da vida, como olha o âmago do leitor e o prende com todas as amarras. E para tanto deve usar os arquétipos culturais. “Mitos ou histórias proporcionam explicações que, mesmo fantasiosas (ou exatamente por serem fantasiosas), acalmam nossa ansiedade diante da vida e do universo” escreveu no livro, O Texto, ou: A Vida.

Hoje percorro os olhos sobre uma página da internet e lá está a notícia de sua morte, amigo, mas nenhuma referência há sobre este que considero um de seus mais seguros livros, entre os mais de setenta que você escreveu. Aliás, os livros e suas edições são sempre um mistério que nunca consegui alcançar. Muitas vezes cobrei a reedição de um romance seu, Cenas da Vida Minúscula, que foi lançado de maneira quase clandestina e ainda sobrevive com existência discreta.

Mas, enfim, voltando aos nossos encontros, uma vez em Porto Alegre conversamos longamente sobre os índios e você queria saber onde ficava Laje do Canhoto, em Alagoas. “Ali morou Noel Nutels”, dizia. Laje do Canhoto hoje se chama São José da Laje e fica na zona canavieira alagoana. Noel era uma de suas paixões. “Não chegou a ser um médico de excelência, mas seu idealismo na defesa dos índios o faz um herói”, me ensinou.

Era sério, mas tinha um humor sutil e ferino. Certa feita, num debate em São Paulo, numa sociedade judaica, um chato, depois de fazer uma “colocação” de longos minutos, interrogou meu amigo: “Quando você se sente verdadeiramente judeu?” “Quando mijo”, respondeu incisivo.

A última vez que nos encontramos foi em Olinda. Entre uma e outra discussão sobre literatura, ele se queixava. Acabara de perder a liderança do movimento dos sem-neto para Luís Fernando Veríssimo. Não recuperou a liderança, não chegou a ter netos, a morte o encontrou numa esquina, mas antes nos legou um universo de sabedorias que nunca poderemos pagar.

Entre as milhões de palavras que escreveu, pesco apenas duas para definir meu amigo: coerência e generosidade. Ateu, era um leitor atento e constante da Bíblia. Comunista na juventude, entendeu que a vida oferece outras soluções menos opressoras. E não resisto em contar os primórdios dessa conversão. Em Londres, levou o filho para conhecer o túmulo de Karl Marx. “Aqui está sepultado um grande homem”, sentenciou. “Ah, tá, mas será que tem um McDonalds aqui por perto? Estou com uma fome.” E na lanchonete, diante do sanduiche, o filho pergunta: “Quem é mesmo o cara que está enterrado ali?” Mais uma vez a necessidade vencia a ideologia.

Coerência e generosidade.

Hoje acordei com a notícia da morte de Moacyr Scliar. E levarei alguns dias para dissipar a tristeza.     
             


LIÇÕES DA ECONOMIA E DA POLÍTICA

- O que é dez real? O que é dez real?
 
Viajando, caminhando à beira mar, em meu horário de padeiro – cinco e meia da manhã – , assistindo ao nascer do sol escuto a sentença proferida por um boêmio tardio a um seu companheiro de ofício.
 
- O que é dez real? O que é dez real? A gente toma uma cachaça, fuma um cigarro e acabou dez real. Agora fica esses bóizinho aí brigando por dez real…
 
Passei, a frase não.

O que são dez reais? O que são quinze reais? Congresso e Governo Federal por meses debateram o valor para o novo salário mínimo e a quebra de braço se deu em torno de quinze reais. O que são quinze reais? Uma diária de cinqüenta centavos?

Péssimo aluno de matemática sempre enxerguei os princípios da economia como algo interplanetário, inalcançável.  No campo pessoal, minha conta bancária sempre se afinou com o PT, mas com o mensalão radicalizou, se filiou ao PSol e permaneceu no vermelho. Mesmo diante deste quadro deprimente tomei coragem e me matriculei numa pós-graduação em economia.  Um ano e meio depois, monografia aprovada, diploma na parede segui meu caminho natural de pouca intimidade com a ciência de Ricardo, que li com tanta fluência quanto leio um texto em sânscrito.

Num último e definitivo esforço para enfronhar-me nesta seara, por estes meses, postei-me frente a jornais e televisões para entender os caminhos para a fixação do novo salário mínimo. Economicamente o tema permanecia árido para mim, mas, viciado nos trâmites políticos, talvez por aí ganhasse alguma simpatia. A velha história de se chegar à bodega pelo atalho. Assim li análises, comentários, previsões, negociações.

A retórica nasceu na Grécia, mas, suspeito, ganhou maioridade em terras lusitanas. Impressiona nossa herança bacharelesca e sua capacidade de usar a palavra para defender tudo e coisa nenhuma. Um exemplo? Escutei um especialista – aliás especialista tem parte com o Deus ou com o diabo, pois tudo que diz transforma-se em lei. Bem, um especialista qualquer garantiu que, como reza a Constituição, é possível um pai de família sustentar sua prole com dignidade mesmo ganhando um salário de 545 reais. Palavras do moço: “Basta ele adequar suas necessidades aos limites de sua renda”. 

Admiro, sinceramente, a genialidade dos economistas. Eles conseguem até reinventar o homem, e as necessidades humanas com equações simples e objetivas. Como não tenho inteligência suficiente para tanto, consolei-me com a parte política do festejo. E aí vi o gabo e esplendor do embate final no Congresso.

Mudando a ponta da corda onde se agarraram outrora, os governistas formados no sindicalismo fincavam o pé no preço que os economistas estavam dispostos a pagar, 545. Os oposicionistas de passado patronal defenderam 560 e até 600 reais. E todos tinham razão. O governo conhece agora o tamanho do cobertor e a oposição aprendeu com certo atraso a fórmula de espichar indefinidamente o pano, acredito.

Com este espírito todos se reuniram no plenário da Câmara para o debate. Há anos acompanho estes debates e sei que tudo se dá como num jogo do Íbis, a gente sabe qual será o resultado, só desconhece o placar. E começa a partida com o senador Eunício Oliveira contando piadas no tapete verde enquanto o deputado Sandro Mabel, fabricante de biscoitos em Goiás, distribuía rosquinhas de coco aos pares. Romário, sempre ágil, votou cedo e correu para o gabinete; tinha um compromisso inadiável com a televisão que transmitia um jogo do campeonato italiano de futebol. Tiririca, que de besta não tem nada, errou o voto, marcou nos 600 reais e depois faturou: “Não errei, votei com o povo”. O moço aprende rápido.

O certo é que, liquidada a fatura na Câmara, o debate foi para o Senado e, como a famosa Batalha de Itararé, não houve discussão. Os senadores, mesmo Lindberg Farias, o moço que um dia foi cara-pintada, têm espírito pacifista, e por lá transitam muitos bombeiros e quase nenhum incendiário. Há exceções. Itamar Franco, um senhor provecto, não perde a embocadura juvenil. Citou João Figueiredo (o que daria um tiro no coco se ganhasse salário mínimo), assumiu a paternidade do real e se rebelou. Mas foi só. O resultado é que depois de meses de discursos em torno de quinze reais, ganhou sua ausência no salário.

E o que são quinze reais. Uma cachaça? Um cigarro? Acho que um cadinho mais de dignidade para quem carece de tudo.

E ficam esses bóizinhos…   


O UNIVERSO EM UMA ALDEIA

Inquietava-me umas idéias.

Incomodava-me o desespero de um homem, preso durante anos, tentando dá normalidade a sua nova condição. Ele, que fora assassino profissional, mas que sempre matara escudado numa estranha honra pessoal, assiste seu parco mundo recém-construído desmoronar. O que faz este homem diante do novo desespero?

A outra inquietação nasceu da leitura de uma nota publica num jornal de Penedo de 1824. Dizia o texto que fora preso na cidade alagoana um escravo fugido de Diamantina, comunidade mineira que à época preservava o nome de Tijuco. Vinha o sujeito em busca do Quilombo dos Palmares, desaparecido 170 anos antes. Como sobrevivera no inconsciente deste homem o mito libertador de Zumbi?

Só tinha uma maneira de sanar esta loucura mansa. Debrucei-me sobre folhas em branco e escrevi duas breves novelas, Volta à Seca e Caminho Só de Ida, reunido num único volume que batizei de Andarilhos. Originais prontos, pedi o aval de um amigo, o escritor Antônio Torres, a quem dedicava o breve volume. O amigo, empolgado talvez mais pela amizade que propriamente pelo texto, mandou o bicho para sua editora, a Record. Depois de meses de espera, recebo de um editor um e-mail animador: ele também tinha gostado daquelas linhas. Mas a coisa empacou numa análise econômica. O texto, por ser muito regional, não tinha mercado e aí saía dos interesses da editora.

Lembro o editor me confortando: Seu texto é como calça de veludo, qualquer dia volta à moda. Como não escrevo por moda, guardei o modesto calhamaço na gaveta até o dia em que, por pressão de um evento literário, desencavei o texto e entreguei ao editor Arnaldo Afonso, da Bagaço, já alertando: será prejuízo na certa. Minha profecia não se deu. O livro até que vendeu a primeira edição e ainda ganhou uma edição extra a pedido do Governo de Pernambuco.

Conto aqui esta história pressionado por outra inquietação: o que é regionalismo?

Recentemente o escritor Márcio Souza, autor de Galvez, o Imperador do Acre, Mad Maria e mais outros romances, escreveu um artigo afirmando que não há uma literatura amazônica, mas uma literatura brasileira que está sendo produzida na Amazônia. Sempre vi desta forma a literatura que se faz no Nordeste. Há uma universalidade inerente a esses textos que não é levado em conta por críticos e analistas editoriais.

A miséria que mata os retirantes de Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz é a mesma que castiga os siberianos, os mineiros ingleses, os operários americanos. A desgraça da fome é uma condição humana que, contam os cronistas espanhóis, somente no Império Inca não deu o ar de sua graça.

Não é o fato de descrever uma sociedade, uma região que faz regionalista um escritor. Nem mesmo quando ele adota a linguagem de seu mundo. Em O Apanhador no Campo de Centeio, Salinger adota toda a gíria de sua juventude, nem por isso os estudos o chamam de regional. Marcel Proust centrou sua obra no fechado universo da alta sociedade francesa, que era católica e conservadora, e nem assim se fez regionalista. Estendendo a discussão, nem mesmo a linguagem dos textos de Guimarães Rosa pode ganhar o predicado nominal, posto que é uma reconstrução. E até mesmo quando a língua nacional que José Américo de Almeida defende na abertura de seu A Bagaceira pode ser traduzida como a busca de uma região.

O homem é o mesmo onde quer que esteja. Seus medos, seus preconceitos, suas manias podem mudar de forma, mas no fundo tudo vem de arquétipos que se conta em milênios. Patativa do Assaré canta na Triste Partida que seu sertanejo “perdeu toda crença nas pedras de sal”. Pois bem, este hábito do nordestino saber os meses chuvosos do ano pelas pedras de sal que dispõem na porta de casa está na cultura celta, povo que abrigou as terras onde hoje está a Inglaterra.

Ao centrar estes dramas humanos no Nordeste brasileiro, os escritores apenas trabalham o barro que têm nas mãos. E estão criando uma literatura mais que brasileira, universal, pois fala do homem em seus limites. Isto é tão certo que o Romance de 30, também conhecido como Romance Nordestino, berço do tal regionalista, aconteceu no Rio Grande do Sul com Érico Veríssimo, no Rio de Janeiro com Lúcio Cardoso, no Pará com Dalcídio Jurandir, e paro com os exemplos que se espalham por todo Brasil.

No presente o drama religioso, a fé vacilante dos personagens de Raimundo Carrero é uma condição do homem moderno, influenciado pelo milenarismo. As inseguranças promovidas pela morte e a ambição, marcas das figuras descritas por Ronaldo Corrêa de Brito, povoam a terra, e não apenas no Nordeste, cenário dos escritores.

Já está mais que no tempo de se olhar a literatura feita fora do eixo Rio-São Paulo como o retrato de um tempo, e não o espelho de um único povo, pois essas “calças de veludo” nunca saem de moda.                    


A ENCANTADORA PROFISSÃO DO LIRISMO

Era sapateiro de profissão, morava ao lado da casa de minha avó, em Catende, mas não lembro seu nome. Não importa. De certeza um cidadão correto, às vezes circunspecto. Oficial de responsabilidade certamente pagava seus impostos e trabalhava religiosamente quase todos os dias, de sexta a quarta batendo sola, lixando couro, pregando brocha, martelando, colando. Um lambe sola, no dizer do povo. E era surdo.
 
Diariamente passava pela calçada da casa de minha avó, próximo ao meio-dia, e entrava na esquina da ladeira onde morava.  Almoçava e quase duas da tarde, caminhava de volta com um rústico aparelho de surdez na orelha.

Essa ladeira tinha algo de mítico para o meu universo infantil, quase adolescente. Do alto dela se avistava o engenho Monte Alegre, e todo final de mês, quando recebia seu soldo de gari, Mané Bacalhau, um dos doidos oficiais da cidade e, dizia-se, donzelo praticante, garbosamente ali se postava com a mão cheia de notas a gritar: “Bando de moças feias de Monte Alegre, deixa de casar com Mané Bacalhau que é rico prá se juntar com esses cambiteiros sem futuro.” E nem assim conseguia uma noiva.    

Mas falávamos do sapateiro. Quinta-feira, quando todo comércio catendense fechava as portas e a cidade caía em seu merecido descanso semanal, o sapateiro – como era seu nome? – caía na pândega. Bebia todas e, pontualmente ao meio-dia, couro curtido de cachaça, descia as ladeiras de Catende a cantar e discursar.

Lembro o debate que travou com um cachorro que teimava em andar nu e o sapateiro, homem honrado, insistindo para que o cão vestisse uma calça e não ficasse ali a mostrar a bunda e os cachos, a desmoralizar as famílias.

Nesses dias também ouvíamos os gritos de sua mulher, uma santa: “Bote essa merda no ouvido, bote essa merda no ouvido”. E ele, teimoso como um cão e surdo como uma porta, segurava na mão o aparelho rústico e caía na cama para dormir o sono dos justos.

Mestre Alcides era lanterneiro e tinha oficina montada em Palmares. Era conhecido por suas habilidades em desempenar a lataria de qualquer automóvel, isso enquanto não se encostava no balcão de uma bodega e tirava o dia para si. Bebia com gosto e vontade. E cantava boleros imemoriais no mais perfeito espanhol palmarense. Berrava a plenos pulmões como um Vicente Celestino redivivo. Sentava-se nas calçadas, nos meios-fios e cantava, cantava, cantava.
 
Um dia abancou-se numa pequena escada que havia na entrada de minha casa. Quando cheguei, com minhas calças curtas e um tambor que ganhei de presente, lá estava o cantor, delicadamente a pedir-me que o acompanhasse. E desandou a cantar um bolerão que devia ser bonito. Por medo ou fascínio, acompanhei o virtuoso cantor. Ao final do espetáculo, nosso cantante agradeceu a mim e à platéia e seguiu seu caminho artístico. Fiquei com a glória de ter sido, por uma breve música, o zambumbeiro oficial de Mestre Alcides. 
    
Violão quem tocava era Milton Pintor, também residente em Palmares. Como o nome denuncia, era pintor, mas isso só depois de tomar uma lapada de cana e equilibrar a mão sempre trêmula. Assim conseguia trabalhar. E, findo o espaço do ofício, seguia no cosmo infindo da boemia. Entornava litros de cachaça com prazer e delícia. E tocava violão. E contava em detalhes, cuspindo na platéia, a origem da música e a vida de seu compositor. Era um poço de cultura. Fora projetista do Cine Apolo e narrava em detalhe todos os clássicos da época de ouro de Hollywood. Cuspindo a platéia, tocava a música tema cantando em vários idiomas que, em minha ignorância intrínseca, nunca consegui decifrar.

Biu do Tacho, o Paradinha, era engraxate e um eterno contestador político. Dava expediente regular em sua cadeira fixada na calçada da Padaria Brasil, em Palmares. Sempre pelas manhãs vinha circunspecto, cabisbaixo, sequer cumprimentava as pessoas, muito sério, muito concentrado em seu ofício. Isso até bater a vontade irresistível. Passava no quiosque mais próximo e tomava a primeira, a segunda, a terceira e depois já estava vendendo a cadeira de engraxate e discursando para os vivos e para os bois – “Quem é Roberto Magalhães? Quem é Roberto Magalhães? Um lalau! Que é Marcos Freire? Quem é Marcos Freire? Um bandido!”

Não tinha ideologia ou amarras políticas, nosso Biu do Tacho, mas não lhe faltava senso estético.  Meu irmão Gilberto andava distraído entre as toldas da feira quando ouviu um grito em suas costas. – “Roberto Carlos!!!” Depois de pular de susto, se virou e deu de cara com Biu completando sua frase: “Não canta nada. Cantar é aqui…” E desandou uma canção qualquer.

Como eram encantadores e líricos os bêbados profissionais de minha infância, minha quase adolescência.


DE SABEDORIA, FUTEBOL E POLÍTICA

“Que ventre produziu tão feio parto?”, perguntaria o vate Augusto dos Anjos diante do casamento entre futebol e política. Sábio, então, era Pinto do Monteiro, cantador de viola que detestava futebol e fez uma glosa magistral falando de sua aversão. Sábio era Patativa do Assaré que desacreditava dos políticos e glosou tal descrença.
 
Nós aqui, os bestas, os simples mortais é que ainda perdemos tempo e paciência vendo e sofrendo com estas desgraças. Devo logo de saída qualificar os motivos de minhas desilusões. Tenho dupla nacionalidade. Nasci em Catende, mas até os seis anos vivi em Matriz de Camaragibe, de modos que há aqueles que me taxam de pernambucano e outra banda que me acusa de alagoano. Por prudência adota a dupla nacionalidade. E, sem querer humilhar ninguém, por influencia de meu pai, pernambucano, torço pelo Sport Club Recife, o glorioso Leão da Ilha, mas para não decepcionar minha mãe, alagoana, não deixo de torcer pelo Bom Jesus Futebol Clube, o ínclito Bonja da Matriz.   
 
O diabo é que o Bonja, coitado, sequer está na tabela do campeonato alagoano e o Sport anda perdendo até pro Araripina. Ô Pinto vivo para dizer umas verdades, mas o paraibano resolveu morrer e nós ficamos por aqui, órfãos de sua sapiência politicamente incorreta como o tal verso sobre o futebol.
 
Pinto estava certo em desancar o esporte bretão. E não fica só nessa peleja. Graciliano Ramos e Lima Barreto jogavam no time dos desgostosos do futebol. Hoje há quem credite ao velho Graça a sentença de ter sido péssimo profeta, pois em uma crônica o escritor disse não acreditar que o jogo de bola ganhasse sustança em nossa terra.
 
Errou feio, mas é preciso ver o futebol lá na década de 1920, quando Graciliano escreveu a crônica. Um esporte de elite jogado por jovens brancos, abastados e bem nutridos, mais ou menos como essa turma que hoje joga golfe e conversa fora. Prá se ter uma idéia o primeiro goleiro da seleção brasileira, Marcos Carneiro de Mendonça, que jogava no Fluminense, é autor de uma belíssima análise histórica da correspondência do governador e capitão-general do Grã-Pará e Maranhão Francisco Xavier de Mendonça Furtado entre 1751 e 1759, A Amazônia na Era Pombalina. Engana-se quem pensa que aqueles estados sempre foram capitanias de Jader Barbalho e José Sarney. Aquele povo tem história como mostra Marcos Carneiro cuja esposa, a poetisa Anna Amélia de Queiroz era tradutora de Shakespeare, ofício seguido por sua filha Barbara Heliodora.
 
Que me perdoe meu amigo Carlito Lima, um tricolor tão desgraçado que transformou a bandeira do Fluminense em lábaro oficial da bucólica Barra de São Miguel. Pois bem, que me perdoa Carlito, mas tenho que falar. Esse mesmo Fluminense, lá nos tempos que Graciliano se ocupava com futebol, não aceitava que negro vestisse sua camisa, esporte seguidos por todos os outros times, para raiva do nosso Lima Barreto.
 
Sábio era Pinto cujos versos sobre futebol, segundo o abalizado Orlando Tejo, são a mais perfeita síntese já feita sobre o esporte.
 
Os versos têm toques de preconceito e os politicamente corretos não perdoarão Pinto embora perdoem o enfronhamento de políticos no futebol. Veja o caso do glorioso Bonja. Depois de sagrar-se campeão, na década de 1980, do Primeiro Campeonato de Futebol Matuto de Alagoas, andou meio em baixa, e tudo por conta do preconceito. Não esqueço a tarde em que,  Trapichão lotado, diante de um leve tombo do zagueiro do Bonja o locutor berrou: “Levanta matuto que futebol é em pé”. Um desaforo.

Agora, no novo milênio, o Bonja voltou a caminhar em direção à glória, mas foi atropelado por Renan Calheiros. O senador arranjou um patrocínio para o Asa, de Arapiraca, que, primeira providência, contratou o técnico do Bonja e se fez campeão alagoano. Renan aprendeu o caminho. No ano seguinte botou o patrocínio para seu querido Murici que tornou-se campeão e lascou o Asa. Hoje dá gosto ver a tabela do Alagoano. O Bonja tá fora, mas o Asa e Murici estão lá embaixo.

Ô Pinto vivo, ô Patativa para lascar esses políticos.   

Quanto ao Sport até conseguiu uma brilhante recuperação diante do Vitória. A partida teve lances dramáticos e o heroísmo de Carlinhos Bala, que era Traque quando jogava pelo Náutico. E manteve o ritmo vencendo o Central e seu Danilo Pit-Bull, que pelo nome já diz bem quem é. Ainda assim suspeito de que Severino Cavalcanti anda dirigindo o Leão da Ilha.

Penso nisso tudo diante da posse de Romário como deputado federal. O Baixinho que foi um poeta jogando pode perder a rima e a métrica. Não que seja burro, apesar de ter feito seu milésimo gol contra o Sport, mas a Câmara Federal não é brinquedo, mesmo tendo Tirica em seu plantel. José Múcio já a definiu: “Aqui tem um Vivaldo (Barbosa) que não leva nada e um Inocêncio (Oliveira) que ganha todas.”

Sábio foi Patativa em sua descrença: “Sou o sertanejo que cansa / De votá, com esperança / do Brasi ficá mió. / Mas o Brasi continua / Na cantiga da perua / Que é: – pió, pió, pió.” 

E o verso de Pinto? Ora, quem se melindrar que processe Pinto ou se entenda com o departamento jurídico do JBF. De minha parte, sou apenas um cronista. E vamos lá.

Sábio foi Pinto que numa cantoria com Lourival Batista, depois de ouvir um bonito elogio à seleção que acabara de ganhar a Copa de 70, foi implacável na resposta: “Não gosto de futebol, / Que é uma coisa sem fé. / Não acredito em Tostão, / Nem em Garricha, nem em Pelé. /  Pois coisa que negro é rei / Já tá dizendo o que é.”


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