O SONO

Durante a Segunda Guerra Mundial (1942 a 1945), Natal abrigou tropas norte-americanas. Para esse apoio, na capital potiguar foi instalada uma base militar dos Estados Unidos.

A escolha de Natal se deu em decorrência da sua posição geográfica privilegiada, facilitando deslocamentos para os continentes africano e europeu.

No auge da II Guerra, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do Brasil, com inúmeros pousos e decolagens diárias.

Criado para proteger o continente americano das investidas do Eixo – composto pela Alemanha, Itália e Japão -, o Parnamirim Field era, na década de 1940, a maior base aérea estadunidense em território estrangeiro. Ao fim da guerra, o fato rendeu à capital potiguar o apelido de “Trampolim da Vitória”.

Antes do conflito armado internacional, Natal tinha 55 mil habitantes e era uma cidade tranquila. Com a instalação da base norte-americana, houve um aumento populacional de mais de 10 mil novos habitantes.

A presença de soldados americanos modificou a vida social da cidade. Surgiram namoros, noivados e até casamentos de moças de famílias natalenses com os americanos. As jovens se libertaram do controle paterno, que até então ia muito além da maioridade. Aumentou o consumo de álcool e cigarro. Natal conheceu produtos como a Coca-cola e o Chiclete. As moças passaram a fumar e a beber, principalmente, “Cuba Libre”, bebida feita à base de rum, refrigerante coca-cola e limão.

Atribui-se a invenção dessa bebida aos soldados norte-americanos, que ajudaram nas guerras da independência cubana, em 1898. Seria a explicação do seu nome.

Também aumentou, em Natal, a prostituição.

O dólar tornou-se quase a moeda-corrente da capital. A economia cresceu bastante.

Logo que chegaram os primeiros norte-americanos a Natal, o Consulado criou os “Clubes 50”, visando a integração das tropas militares com as famílias norte-rio-grandenses. Surgiram associações recreativas, e tanto o Aero Clube como o Clube Hípico, alternadamente, foram alugados para a realização de bailes. Dizem os historiadores que, nesses bailes, a disputa de pares para dançar era na proporção de 200 americanos para 30 ou 40 moças. Entrava um par no salão e logo vinha um colega, batia nas costas do outro e tomava a “dama”, sem problemas. Esse gesto era chamado de “tag”, uma invenção americana, para que todos tivessem par para dançar.

Houve uma invasão de novos ritmos musicais, como o “jazz”, “conga”, “rumba” e outros.

Também havia bailes na Base Aérea de Parnamirim. No sábado, os bailes eram somente para os americanos. Mas no domingo, eram para todos (For Hall).

Há quem diga que vem daí a palavra “forró”, o famoso ritmo nordestino. Mas, segundo o historiador Luis da Câmara Cascudo, a palavra “forró” é derivada do termo africano “forrobodó”, festa transformada em gênero musical.

Os americanos disponibilizavam ônibus para levar e trazer as moças natalenses, para participar dos bailes. Entretanto, exigiam que estivessem sempre acompanhadas por um rapaz parente ou amigo, ou então por uma “chaperone” (acompanhante). A “chaperone” podia ser a mãe ou uma mulher mais velha. Depois, essa exigência foi abrandada, podendo as moças se fazerem acompanhar de irmãs.

A invasão da cidade por americanos despertou a ira dos rapazes natalenses, pois todas as moças só queriam namorar ou dançar com os gringos. Rejeitados, os rapazes da terra se uniram para se vingar do sexo feminino, passando a chamar os ônibus da Base Aérea, que levavam e traziam as moças que participavam dos bailes, pejorativamente, de “Marmita”. Vaiavam os ônibus, e diziam que eles estavam levando “comida” para os soldados americanos.

Esses ônibus saíam da Praça Augusto Severo, na Ribeira. Era lá que os rapazes se concentravam para fazer algazarra.

Minha saudosa tia Carmen Pimentel, sua irmã Gilka e diversas amigas, eram jovens nessa época, e participaram ativamente dos bailes oferecidos pelos americanos. Falavam Inglês fluentemente e eram muito disputadas.

Carmen e Gilka levavam como “chaperone” Dona Francisquinha, a 2ª esposa do Professor Celestino Pimentel, madrasta de Carmen e mãe de Gilka. Aliás, a mulher fazia questão de acompanhá-las, para que não ficassem faladas.

A filha Gilka, quando tinha um namorado, ficava na sala, à noite, sozinha com ele, até que o relógio da catedral tocasse nove badaladas. A partir de então, a mãe se sentava na sala, esperando que o namorado da filha se despedisse. Na cabeça de Dona Francisquinha, antes das nove horas da noite, não poderia acontecer nenhum agarrado.Mas depois das nove da noite, para ela, o cenário mudava.

Já beirando os 60 anos, Dona Francisquinha tinha o maior zelo pela virgindade da filha e da enteada, e fazia questão de acompanhá-las nos “ônibus/marmita”.

Pois bem. Numa dessas festas da Base Aérea, quando Dona Francisquinha servia de “chaperone” da filha, enteada e algumas amigas, mesmo cansada de um exaustivo dia de trabalho doméstico, foi dominada pelo sono. Para ver se despertava, foi ao toalete. A sua ausência foi notada com naturalidade pelas moças. Entretanto, depois da festa terminar, com os dois ônibus lotados de jovens para o retorno a Natal, Gilka, que ia em um ônibus com amigas, sentiu falta da mãe. Então, desceu do ônibus e foi ao outro onde estava Carmen com outras amigas e perguntou?

– Carmen, mamãe está aí com você?

A irmã respondeu:

– Não, Gilka! Francisquinha não está aqui!!!

Gilka pediu ao motorista para esperar um pouco, enquanto iria ao toalete, ver se a mãe estava lá.

Não deu outra. Dona Francisquinha estava dormindo profundamente, num sofá que havia no toalete. Se Gilka, sua filha, não tivesse sentido sua falta, a mulher teria amanhecido o dia dormindo no toalete, do salão de festa da Base Aérea.

O sono é uma coisa incontrolável!!!

Carmen Pimentel e as amigas, na idade madura e na velhice, quando conversavam, relembravam o tempo da Guerra, com saudade. Todas eram unânimes em dizer:

– A Guerra foi formidável!!

Gilka, depois da Guerra, foi para os Estados Unidos, trabalhar no Consulado Brasileiro. Casou-se com um americano, teve um casal de filhos, e lá viveu até o fim dos seus dias.

A TINTA

Seu João Bento vendia madeira (caibros e linhas) e residia no mesmo local onde trabalhava. Todos os dias, ia à bodega de Dona Luíza, vizinha à sua casa, e tomava algumas bicadas de cachaça.

Certo dia, comprou um galão de tinta, para pintar a frente da pequena casa onde morava. Quando começou a pintura, viu que a tinta não correspondia à cor escolhida na loja. Já tinha pintado a parede quase toda e não tinha mais como trocar a lata de tinta. Contrariado, ficou esbravejando, achando a cor da parede horrorosa. Realmente, o amarelo marfim que ele comprara tinha sido trocado, por um amarelo-ferrugem, avermelhado. Como já estava usando a tinta, estava sem jeito. Sua vontade era voltar à loja e quebrar a cara do vendedor irresponsável, que lhe entregou a tinta errada. Muito triste, ele começou a desabafar com todas as pessoas que por sua casa passavam. Elas foram unânimes em concordar com ele, dizendo que, de fato, a tinta era muito feia.

Seu João Bento, antes de começar a pintura da frente da casa, já tinha tomado a primeira chamada de cachaça do dia. Quando percebeu a troca da tinta, já tinha usado uma boa parte do galão. Ficou contrariado, até a medula óssea.

De repente, mudou o cenário. Pela frente da sua casa, vinha passando a professora Dona Elisa, que era incapaz de um comentário depreciativo, que contrariasse alguém. E a bondosa senhora cumprimentou o homem, delicadamente:

– Bom dia, Seu João Bento! Como está ficando linda sua casa! Que cor bonita e diferente! Está formidável!

Contrariado, Seu João Bento respondeu:

-Bom dia, Dona Elisa! Veja que moleza a minha: Comprei uma tinta amarela, linda, e me mandaram esta cor horrível! Estou com vontade de voltar na loja e quebrar a cara do vendedor!

Muito inteligente, Dona Elisa, vendo o estado de nervos do homem, procurou acalmá-lo:

-Seu João Bento, a cor da tinta está linda! Um amarelo diferente! Está formidável! Pode acreditar! Da próxima vez que eu mandar pintar minha casa, vai ser da cor da sua!

Seu João Bento ficou mais calmo e Dona Elisa seguiu para a escola onde lecionava.

O homem entrou novamente na bodega de dona Luíza e tomou mais três chamadas de cachaça, uma atrás da outra. Embriagado, fez um verdadeiro discurso. Mesmo revoltado com a cor da tinta, teceu grandes elogios à Dona Elisa:

-Dona Elisa é uma santa! Não faz mal a ninguém. Achou linda a tinta que veio trocada. Disse até que vai mandar pintar a casa dela da mesma cor da minha!

Também, mesmo que eu estivesse pintando a casa com tinta cor de “bosta” ela teria dito a mesma coisa:

“Está FORMIDÁVEL, Seu João Bento!”

A CASA E O BOTÃO

Matilde, 23 anos, vitalidade de 16 e juízo de um pinto com um dia de nascido, era alta, bonita, exuberante, seios e quadris avantajados. Depois de passar dois anos no Rio de Janeiro, voltou para Natal muito traquejada. Leviana e coquete, todo namorado que arranjava, só queria mesmo se aproveitar dos seus dotes físicos.

Estava no auge, a marchinha de carnaval que dizia:

“Ei, como é que é? É pra casar, ou pra que é?”
Matilde só arranjava namorados do tipo “pra que é”.

Conheceu Joanildo, contador, 23 anos, noivo da sua amiga Soninha. Na mesma hora, lançou sobre o rapaz um olhar “pidão”, e a atração foi mútua. Surgiu entre os dois uma paixão violenta. Nas “entrelinhas” do dia, Joanildo investiu em telefonemas e galanteios, marcando encontros para “bater papo” com a amiga de sua noiva. Como grande caçador que era, sua intenção era apenas levar a rês ao “matadouro”. Afinal, era noivo de Soninha e a data do casamento estava próxima.

Entretanto, conseguido o seu intento, Joanildo sentiu-se perdidamente apaixonado por Matilde, sendo por ela correspondido. Sem que a noiva suspeitasse, passaram a se encontrar diariamente, e os encontros eram cada vez mais quentes. A paixão entre os dois se tornou-se avassaladora e já não dava para controlar.

Joanildo e Soninha estavam noivos há mais de um ano e já de casamento marcado. A casa onde iriam residir já estava mobiliada. Diariamente, Soninha ia até lá, levando coisas do enxoval para guardar. Às vezes, a amiga Matilde a acompanhava e a ajudava a guardar peças do enxoval, na cômoda e no guarda-roupa. Sem escrúpulos, Matilde dava risadas, vendo a pureza de Soninha, preocupada com a noite de núpcias, que estava próxima.

O noivo passou a viver um dilema. Chegara à conclusão de que o amor de sua vida era Matilde. Entretanto, não tinha coragem de acabar o noivado com Soninha. Estava envolvido com os sogros, que lhe confiaram a mão de sua filha. A festa já estava organizada, convites distribuídos e a casa onde iriam morar estava pronta para recebê-los.

Na hora em que Joanildo trocava juras de amor com Matilde, confessava que não sabia o que fazer para acabar o noivado com Soninha. Seria uma grande desfeita, dar um fora na noiva, quase na porta da Igreja e sem motivo aparente.

Todos da família de Soninha acreditavam que ela e Joanildo eram perdidamente apaixonados. A virgem cheia de candura, inocente como um anjo, não imaginava a falsidade da “amiga”.

Soninha tinha o firme propósito de se conservar virgem, até a noite de núpcias. Essa lição de castidade temporária, havia recebido da avó paterna, Dona Luíza, que procurava lhe transmitir preceitos do “tempo do ronca.” Segundo ela, a virgindade, era um atributo moral que deveria ser levado até o leito conjugal. Soninha não admitia qualquer investida do noivo, antes do casamento.

À medida que a data do enlace de Joanildo e Soninha se aproximava, aumentava o envolvimento do noivo com Matilde. Ele entrou em “parafuso”. A paixão desenfreada e uma atração física, que nunca sentira por Soninha, deram-lhe coragem de tomar uma decisão brusca e inesperada. Os dois se sentiam como se fossem “a casa e o botão”. Não podiam mais recuar.

Na véspera do casamento com Soninha, Joanildo e Matilde fugiram. Foram viver seu grande amor bem longe de Natal.

Foi um escândalo.

O CARIDOSO

Dois mendigos pediram uma esmola a um empresário rico, que ia entrando na sua camionete “cabine dupla”.

O homem os surpreendeu, ao convidá-los para entrar no carro e ir com ele até sua casa. Lá, eles almoçariam e receberiam uma ajuda, inclusive com roupas usadas. Perguntou se os dois estavam com fome e eles responderam que, até aquela hora do dia, não tinha comido nada, por falta de dinheiro.

Um dos rapazes respondeu:

– Muito agradecido, senhor, mas não me sinto bem em ir me alimentar na sua casa, sabendo que minha esposa e nosso filho pequeno também estão com fome, naquela calçada, esperando por mim.

– O homem rico falou:

– Chame-os e eles irão também almoçar na minha casa.

Olhando para o outro rapaz, o empresário falou:

– Você também pode vir.

Encabulado, o rapaz se justificou:

– Senhor, eu também tenho esposa e dois filhos, com fome, esperando por mim!

O empresário respondeu:

– Pois podem vir todos. Vão ver o que é fartura e encher a barriga do bom e do melhor. Não irão se arrepender.

Os dois mendigos se emocionaram, com o gesto caridoso daquele homem, que, de repente, apareceu na vida deles para ajudá-los, sem qualquer interesse. Acharam que tinham recebido uma bênção do Céu!

Todos se acomodaram nas duas boleias da caminhonete, e um dos rapazes se acomodou na carroceria.

No caminho, o rapaz que ia ao lado do empresário falou, humildemente:

– Só Deus paga essa caridade que o senhor está fazendo com todos nós. Vai matar a nossa fome e isso é o que nós estamos precisando…

O homem rico respondeu:

“Não precisa me agradecer tanto. Estou fazendo isto de coração. Gosto muito de fazer caridade. Eu sou um homem muito bom… amo o meu próximo. Fico feliz, quando mato a fome de alguém necessitado. Minha casa é muito grande e tem um enorme quintal. Vocês vão gostar muito. “

Ao chegarem à mansão onde o empresário morava, os mendigos se assustaram, com as palavras austeras daquele homem rico:

– Depois que almoçarem, quero que vocês façam uma boa limpeza no quintal: Arranquem todo o mato, apanhem as folhas caídas das fruteiras, juntem tudo e toquem fogo. Tenho enxada, ciscador e pá.

Os dois rapazes passaram o resto do dia, limpando o mato do enorme quintal.

UM SANTO REMÉDIO

Rosilda, do lar, e Mário, funcionário público municipal, estavam vivendo a crise dos dez anos de casamento. Influenciada pelas novelas da televisão, a mulher se impressionou com a onda de adultério que reinava no mundo, e botou na cabeça que o marido lhe era infiel. Achava que os homens eram caçadores e viviam em busca de aventuras. Eram infiéis pela própria natureza.

Por isso, Rosilda tornou-se agressiva e desconfiada. Amanhecia o dia “dando coice no vento”, sentindo-se traída, sem razão aparente. Farejava chifres, não acreditava no que o marido dizia, e procurava motivos para demonstrar sua insatisfação na vida conjugal.

Na verdade, o maior defeito de Mário era, uma vez por outra, depois do trabalho, encontrar-se com alguns amigos e tomar uma cervejinha, no bar localizado nas imediações de sua casa. Esse papo ia somente, até se aproximar a hora do jantar.

Apesar de não ser santo, sua média, como chefe de família e pai, era dez. Entretanto, bastava entrar em casa, para que a esposa o “espinhasse” com mil perguntas maliciosas, à procura de indícios de sua infidelidade.

Rosilda, com sua voz gasguita e insinuações irritantes, foi tirando a paciência de Mário. Aos poucos, o inferno se instalou dentro de casa, sob o olhar aflito dos três filhos pequenos.

Católica por tradição, aos domingos à noite Rosilda ia à Missa com o marido e os filhos. Também mantinha o habito de comungar toda 1ª sexta-feira do mês.

Numa quinta-feira à tarde, Rosilda foi à Igreja se confessar e contou ao padre que estava prestes a se separar do marido. Disse-lhe que suspeitava de estar sendo traída; que o marido chegava tarde em casa e sempre com hálito de bebida; também não lhe dava mais o carinho e atenção dos primeiros meses de casamento. Falou das brigas constantes, provocadas por ela.

O padre lhe deu conselhos para que não agisse precipitadamente e pensasse na falta que o pai iria fazer aos filhos, se houvesse a separação.

Pensando em preservar a instituição da família, o vigário teve uma ideia “bem bolada”. Avisou, durante a Missa, que iria distribuir às mulheres com problemas conjugais, um remédio eficaz para a reconciliação. Na manhã seguinte, na Sacristia da Igreja, formou-se uma fila para a entrega do remédio. A primeira da fila era Rosilda.

O nome do “medicamento” era “Água Santa”, distribuído em garrafas de 500 ml, com rótulo.

Chegando em casa, Rosilda, sozinha no quarto, leu o prospecto, onde estava escrito: “Colocar na boca 5 colheres de “Água Santa” e se ajoelhar durante 30 minutos, de boca fechada, sem engolir. O procedimento deve ser feito à noite, na hora exata em que o marido entrar em casa. Com 15 dias de tratamento, o resultado será surpreendente. Caso seja necessário, o tratamento pode ser prorrogado, até que a paz volte a reinar, no ”lar, doce lar”.

E a água potável fez efeito…

A CACHAÇA

A cachaça, ou aguardente de cana de açúcar, está integrada à cultura brasileira, assim como o futebol, o samba, o café e o fumo.

Aparece em músicas, anedotas, textos literários e literatura de cordel.

No começo da colonização do Brasil, a partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o processo de plantio e processamento da cana de açúcar.

A cachaça originou-se da cultura do açúcar. Segundo alguns historiadores, os escravos, no Recôncavo baiano, aproveitavam as sobras da garapa da fabricação do açúcar, e guardavam em potes, até azedar. Era a bebida preferida deles.

O tráfico de escravos impôs a valorização do produto. A cachaça, ou aguardente da terra, era indispensável na compra do negro africano. Uma verdadeira moeda de circulação. Figurava como alimento complementar dos escravos, durante a travessia do Atlântico. Diariamente, eles eram forçados a ingerir doses de aguardente, para suportar a tristeza.

Devido à sua origem, a cachaça, durante anos, foi considerada bebida das camadas simples da sociedade. Não era servida em restaurantes ou bares requintados. Com o progresso tecnológico, surgiram cachaças finas e de alto custo, desaparecendo o tabu de que somente o pobre seria bebedor de cachaça.

A cachaça está para o Brasil, como o Rum está para Cuba.

Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso legitimou a cachaça como produto tipicamente brasileiro, estabelecendo critérios de fabricação e comercialização. Em 2012, uma lei transformou a cachaça em Patrimônio Histórico Cultural do estado do Rio de Janeiro.

Atualmente, essa bebida destilada é exportada para vários lugares do mundo.

A cachaça está presente em histórias e anedotas hilárias.

Antigamente, durante as serenatas ao luar, os seresteiros tomavam uma bebidinha. Um conhecido cantor, de uma cidade do interior, depois de interpretar músicas de Orlando Silva, acompanhado por um violão plangente, ingeriu muita cachaça e acabou adormecendo na calçada. Os amigos se sentaram ao seu lado, esperando que despertasse. Minutos depois, desorientado, o seresteiro chamou pelo pai:

– Pai, ô pai!!!

Um dos amigos perguntou:

– O que é, Adolfo?

E o cantor espondeu:

– A “bença” !!!

E os rapazes conseguiram acordá-lo, com a marchinha que diz: “Você pensa que cachaça é água…”

A CAIXA D’ÁGUA

Anos atrás, em Serrana, cidade do interior nordestino, o prefeito João Tanajura se celebrizou pelas gafes constantemente cometidas. O homem mal sabia ler e escrever. Os vereadores, conhecidos por apelidos como Zé do Toucinho, Antônio do Carvão, José da Telha e outros, não ficavam atrás. A situação era de fazer vergonha.

O prefeito, que era chamado de “Coronel”, costumava se reunir com o vice-prefeito, um pouco mais letrado, e assessores, para “redigir” mensagens, que seriam submetidas à apreciação da Câmara Municipal, tomando decisões políticas importantes. Quando algum companheiro duvidava do êxito das suas pretensões, ele insistia no seu ponto de vista e encerrava as reuniões assim:

– Vocês acham que não vai dar certo?

– Achamos, “Coronel”.

E ele respondia, em cima da bucha:

– Pois bem! Se não der certo, não tem “poblema”. Nós mesmo “faz”, nós mesmo “desmancha”.

Certa vez, chegou à Prefeitura, atendendo a um requerimento do Prefeito, uma comissão técnica especial, oriunda do órgão estadual competente, a fim de vistoriar a antiga caixa d’água, que armazenava água potável para abastecimento da população. Pessoas leigas haviam espalhado o boato de que a caixa d’água estava inclinando e iria desabar a qualquer momento. A população entrou em polvorosa.

Depois de rigorosa perícia técnica, o grupo se reuniu com o prefeito e assessores, apresentando um laudo e um relatório, onde estava registrada a total ausência de perigo de desabamento da referida caixa d’água. Segundo os peritos, a ligeira inclinação notada era efeito da clássica lei da gravidade ou gravitação universal, formulada pelo físico Isaac Newton, que diz:

“A força da gravidade é diretamente proporcional às massas dos corpos em interação e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles”.

Como é óbvio, o prefeito, que tinha pouco estudo, não entendeu patavina dessa explicação. Bastante irritado, levantou a voz e falou:

– Eu quero saber se essa lei é “federá”,”estaduá” ou “municipá”! Quero resolver isso logo!!!

Os engenheiros se controlaram para não sorrir. Tranquilizaram o “Coronel” de que o problema não tinha nada a ver com a legislação federal, estadual ou municipal. E O prefeito fez de conta que estava entendendo tudo.

Numa das visitas do Governador do Estado a essa mesma cidade, para inauguração de uma obra, houve um banquete em sua homenagem, no único clube social ali existente. Na hora do cafezinho, o prefeito pôs na sua xícara umas gotinhas de “Suíta”, o adoçante dietético da época. O Governador , sentado ao seu lado, delicadamente, perguntou:

– Prefeito, o senhor é diabético?

A resposta foi rápida:

– Não, Governador! Eu sou o Prefeito de Serrana!!!

O CAIXA

Josildo era escriturário do Banco do Brasil, em Natal, e exercia a atividade de caixa executivo. Década de 60/70. Nesse tempo, ainda não havia caixa eletrônico. Os caixas eram sobrecarregados, e o trabalho requeria muita atenção.

Ali, na “boca do caixa”, concentravam-se os serviços bancários mais comuns. Informavam-se saldos e extratos, recebiam-se depósitos, e pagamentos, faziam-se transferências, entregavam-se talões de cheques etc.

No final do expediente, se houvesse diferença de valores, o caixa seria obrigado a repor.

Num dia de grande movimento, enquanto Josildo atendia a uma fila interminável de clientes, um senhor, aparentando um pouco mais de 50 anos e de aparência simples, aguardava sua vez. Ao ser atendido, disse que morava no interior e era dono de uma pequena propriedade rural. Pediu o saldo, o extrato e um talão de cheques.

De posse dos comprovantes solicitados, o cliente preencheu um cheque, no valor total do dinheiro que havia em sua conta corrente, até o último centavo. Fez o saque e se afastou um pouco. Ali mesmo, contou todas as cédulas e moedas recebidas. Em seguida, sem entrar na fila, pediu ao caixa para depositar novamente todo o dinheiro sacado. Admirado e curioso diante desse fato inusitado, Josildo recebeu o depósito, contou o dinheiro, mas não se conteve e falou:

-Amigo, não entendi o que aconteceu. O senhor sacou todo o seu dinheiro que estava depositado no Banco. Contou tudo, e agora está depositando novamente. O que foi que houve?

O homem respondeu:

– Eu queria somente conferir se o dinheiro estava certo. Contei tudo e vi que esse Banco é bom mesmo. O dinheiro está completo. Por isso, estou depositando aqui novamente.

Josildo prendeu o riso. Mas em casa, riu demais, comentando a ocorrência com a esposa. Era caixa do Banco do Brasil há 18 anos e nunca havia se deparado com um cliente tão desconfiado dos serviços bancários.

A BEBEDEIRA

Há boêmios que só tomam cerveja e teimam em dizer que “não bebem nada”. Justificam seu gosto acentuado pelo álcool, dizendo-se apenas “cervejeiros”.

A cerveja, uma das bebidas alcoólicas mais consumidas no mundo, sempre foi homenageada em músicas, como nos seguintes casos: “Barril de Chopp” (Altamiro Carrilho) “Louras Geladas” (RPM), “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso), “Um Chopp pra distrair (Paulo Diniz), “Feijoada Completa” (Chico Buarque de Holanda) e outras.

Pois bem. Toninho, um boêmio, poeta e seresteiro de Natal, era frequentador assíduo do Bar da Brisa, cujo proprietário era seu amigo de longas datas. Orgulhoso por ser cervejeiro, não se considerava alcoólatra. Mesmo assim, seria capaz de tomar, sozinho, uma grade de cerveja num dia. Andava sempre com o seu violão debaixo do braço. Muito conhecido na cidade, onde chegava, encontrava amigos e bons papos. Bom de copo, voz e violão, alegrava qualquer ambiente.

Ponto de encontro de boêmios e seresteiros, no Bar da Brisa, aos sábados, podiam-se ouvir músicas da melhor qualidade, interpretadas por cantores amadores. O repertório abrangia composições gravadas por Evaldo Gouveia, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e outros, verdadeiras pérolas da MPB.

Num certo sábado, como sempre fazia, Toninho passou o dia de bar em bar. À tardinha, já melado, chegou ao Bar da Brisa. Continuou bebendo e participou da roda de seresta, soltando seu vozeirão e encantando a todos.

Cumprindo o horário de costume, à meia noite, o proprietário deu sinal de que o bar iria encerrar suas atividades e os fregueses foram saindo. O homem fechou o bar e foi para casa. Por volta das 4 horas da manhã, foi acordado pelo telefone, que chamava insistentemente. Era um vizinho do bar lhe avisando que alguma coisa estranha estava ali acontecendo. Dava para ouvir gritos e pedidos de socorro.

Acompanhado pela Polícia, o proprietário abriu o bar e tomou um susto. Toninho havia ficado ali trancado. Adormecera no banheiro, sem que ninguém percebesse. Quando despertou, o bar estava às escuras e fechado. Tomado pelo pânico, o boêmio deu um escândalo, gritando por socorro e quebrando o que encontrou pela frente. O estrago de garrafas e copos quebrados foi grande.

Ao ver o proprietário chegar, Toninho se insurgiu contra ele. Indignado, acusou-o de negligência, por tê-lo deixado ali trancado. Muito sentido, passou vários dias afastado do Bar da Brisa, revoltado com o que aconteceu. Não admitiu ter havido culpa concorrente.

O RETORNO

Nailde era servidora pública de nível médio, em um órgão estadual. Já com mais de vinte anos de serviço, ganhava o suficiente para se sustentar. Era solteira e morava só. Muito organizada, não contraía dívidas e juntava sempre algum dinheiro num mealheiro. Depois, abriu uma caderneta de poupança e passou a economizar mais um pouco, sem mexer nos rendimentos. Anualmente, ia ao dentista e certa vez precisou fazer uma coroa, tendo optado por um dente de ouro. Isso, na época, estava na moda.

Dois meses depois, foi passar o domingo na casa de uma irmã e, após o almoço, sentiu falta do dente de ouro. Procurou por toda a casa e nada do dente aparecer. Muito triste, Nailde teve uma intuição: Só podia ter engolido o dente, que tinha lhe custado tão caro! Era fruto de suas economias!

Não pensou duas vezes. Fez um chá de maná com sena e tomou um purgante. Rezou o resto do dia, pedindo a Deus para que tivesse de volta o seu dente de ouro, são e salvo.

Nessas alturas, as sobrinhas de 7, 9 e 11 anos, já estavam estranhando o nervosismo da tia, que, sentada em uma cadeira, no quarto, mantinha a postos, ao seu lado, um penico. Sem largar o terço, Nailde aguardava o resultado do purgante e a volta triunfante do dente.

Ao primeiro sinal de uma cólica intestinal, a moça pediu aos anjos e arcanjos, que também a ajudassem a recuperar sua joia de ouro, 18 quilates. As crianças torciam na porta do quarto, acompanhando os acontecimentos. De vez em quando, perguntavam:

– O dente já saiu, tia Nailde?

E, com voz de choro, a tia respondia:

– Ainda não!

E a alegria foi grande, quando ouviram a tia gritar:

– Graças a Deus!!! Meu dente de ouro está aqui!!!

Sob os protestos da irmã, do cunhado e das sobrinhas, Nailde, com a mão enfiada em um saco plástico, tirou o dente de ouro do penico, lavou muito bem lavado, com água e sabão, e também com álcool.

Passados alguns dias, estava ela novamente sorrindo de felicidade e exibindo o dente de ouro, que o dentista havia reposto.

Nailde pagou todas as promessas, que havia feito para que o dente retornasse às suas mãos. Entretanto, nunca mais as crianças lhe deram sossego. Quando ela se aproximava para falar com as sobrinhas, todas se afastavam, dizendo em tom de brincadeira:

– Vá pra lá, tia! Sua boca está podre!!!

ESQUINA DOS AMIGOS

Venâncio e Zélia começaram a vida de casados em Natal, abrindo uma pequena cantina, na parte inferior do sobrado de esquina, onde passaram a residir. A rua era calma e o bairro, um dos melhores da cidade. O casal teve dois filhos.

Na cantina, eram vendidos produtos simples, como manteiga, óleo, biscoitos, chocolates, refrigerante e cerveja. Os fregueses bebiam em pé.

Após algum tempo, um amigo de Venâncio, que morava perto e frequentava a cantina diariamente, deu-lhe de presente duas mesinhas de quatro cadeiras. Uma delas o amigo mesmo ocupava, logo pela manhã. Ali sentado, lia os jornais do dia e iniciava o bate-papo. Venâncio gostou do presente e com o tempo, comprou mais duas mesinhas iguais. Foi um “chama”, e os cervejeiros se tornaram frequentadores habituais. Quase todos eram seus colegas de juventude. O movimento aumentava nos finais de semana.

Dois anos depois, Venâncio se viu dono de um misto de cantina e bar. Ali, diariamente, os amigos se reuniam para molhar a palavra e bater papo.

Ele mesmo servia às mesas e tomava conta do caixa. Entre um atendimento e outro, também tomava sua cervejinha.

Os tira-gostos eram preparados por uma ajudante, e se resumiam a queijo de coalho assado e caldo de feijão ou peixe.

Na cantina, Venâncio era adepto da lei do silêncio. Detestava som, por melhor que fosse. Gostava de conversar e ouvir boas conversas. Tinha cultura geral e estava sempre atualizado com os acontecimentos locais, como também do País e do mundo.
Para não atrapalhar as conversas, Venâncio colocou na parede um aviso “sui generis”:

‘É PROIBIDO SOM DE QUALQUER TIPO, INCLUSIVE DE CARRO.”

Outro aviso que havia na parede:

“NÃO ATENDEMOS A PESSOAS JÁ EMBRIAGADAS.”

Venâncio mantinha, dentro da gaveta do balcão, um “cartão vermelho”, para expulsar quem procurasse fazer confusão.

Como de grão em grão, a galinha enche o papo, às vezes, por volta das 20 horas, ele estava “triscado” e, sob protestos dos frequentadores, avisava que ia fechar a cantina. Assobiando, descia as portas de ferro, forçando a saída de todos. E se justificava:

– É ordem da “federal”…

A “federal” a que Venâncio se referia era a esposa, com a qual entrava em choque, quando se embriagava. Os clientes saiam contrariados, mas no dia seguinte, estavam todos lá novamente.

Fora a expectativa do inesperado “toque de recolher”, dado pela “federal”, o bar de Venâncio era um reduto de antigas amizades, fortalecidas através do tempo. Era um ponto de encontro de homens inteligentes e cultos, boêmios ou não, que iam ali para bater papo e colocar os assuntos em dia.

A ASSOMBRAÇÃO

Anos atrás, Mariana, uma moça que fazia serviços domésticos na casa de Dona Lia, em Nova-Cruz, era muito medrosa. Cheia de pantim, tinha medo do escuro e de almas penadas.

Nessa época, na cidade não havia luz elétrica. A casa era iluminada com candeeiros e lamparinas, a querosene. Ainda não havia fogão a gás, e a comida era feita em fogões a carvão ou à lenha. O carvão também era utilizado para o engomado das roupas, com os tradicionais ferros à brasa, das marcas “Estrela” ou “Itacolomy”. Para atiçar o fogo e esquentar o ferro, eram utilizados os antigos abanos de palha, feitos artesanalmente.

Como o consumo de carvão era grande, dona Lia comprava o produto em saca, que era guardada em um quartinho, construído para esse fim.

Certa noite, ao apanhar uma roupa estendida no quintal, Mariana deu um grito de pavor e teve uma crise histérica, dizendo que tinha visto uma assombração. Jurou de mãos postas que vira uma senhora gorda e com um grande totó na cabeça, ao passar pelo “quarto do carvão.” No seu delírio, identificou a alma como sendo a imagem fiel de uma senhora que morara na mesma rua, e que havia falecido há alguns dias. O escândalo foi grande. A patroa, que não acreditava em alma e dizia sempre que os mortos estavam dormindo, à espera da ressurreição, tentou conversar com a moça, mas foi em vão. Deu-lhe um copo com água e açúcar para beber e em seguida, mandou que ela rezasse o “Credo” e a “Salve Rainha” na intenção daquela alma penada, para que ela fosse para longe.

Depois que Mariana se acalmou, a patroa, segurando uma lamparina acesa, foi até o tal “quarto do carvão”, para ver se ainda encontrava ali a alma da mulher gorda, de totó na cabeça. A empregada, tremendo de medo, atendeu à ordem da patroa e a acompanhou. No quarto, havia uma enorme trouxa de roupa, pronta para ser levada para lavar no rio “Curimataú”. Em cima da trouxa, dormindo “em berço esplêndido”, estava uma enorme galinha, que tinha fugido do galinheiro e se refugiado no “quarto do carvão.” Na penumbra, a trouxa de roupa, com a galinha fujona dormindo em cima, parecia mesmo uma mulher gorda, de totó na cabeça.

Dona Lia deu ótimas risadas, e a empregada perdeu o medo de assombração.

O GÁS

Historicamente, o querosene foi o primeiro derivado do petróleo de valor comercial, que substituiu o azeite e o óleo de baleia na iluminação. Os usos mais comuns do querosene são para iluminação, solvente e como combustível para aviões.

No interior nordestino, o querosene também é chamado de gás.

O imortal compositor Luiz Gonzaga compôs um coco com o título “Derramaro o Gai” (gás):

 

A água mineral é proveniente de fontes naturais, como rios e riachos, conhecidos como poços artesianos, ou de fontes artificialmente captadas. Possui composição química, ou propriedades físicas ou físico-químicas, distintas das águas comuns, com características que lhe conferem uma ação medicamentosa (Decreto-Lei Nº 7.841, de 08/08/1945).

Algumas águas minerais são captadas, também, de locais que já apresentaram alguma atividade vulcânica.

Existem diversos tipos de água mineral, definidas de acordo com a fonte em que são captadas, sua origem, composição química, temperatura e outras substâncias presentes. Os tipos de água mais conhecidos são a água mineral sem gás, a água mineral com gás e as águas denominadas terapêuticas.

Há exames especiais, que tem o objetivo de identificar se a água é própria para consumo humano, se não está contaminada, e se pode ser utilizada para tomar banho.

A grande maioria das marcas que encontramos à venda é gaseificada artificialmente, em um processo industrial idêntico ao dos refrigerantes: retira-se o oxigênio presente no líquido e injeta-se, em seu lugar, gás carbônico.

Já o processo natural de formação de água carbogasosa ou carbonatada – como é chamada pelos cientistas – surge do aquecimento subterrâneo. As fontes estão situadas em regiões onde ocorreram vulcões ou onde a camada de magma está mais próxima da superfície. O magma é uma massa natural fluida, incandescente, composta por diversos minerais, que é encontrada no interior do planeta Terra, na região conhecida como manto.

Pois bem. Severino nasceu e se criou na zona rural de uma cidade do interior nordestino, onde a energia elétrica demorou muito a chegar. Acostumou-se aos lampiões de gás, lamparinas e candeeiros, diariamente abastecidos de querosene.

Fugindo da seca, resolveu se mudar para Natal, à procura de um emprego. Hospedou-se na casa de uma prima, que era amiga do dono de uma “Galeteria”. Até então, Severino só tinha trabalhado na lavoura, precisamente no roçado do seu pai. Mal sabia ler e escrever.
O dono da “Galeteria”, ao conhecer o rapaz, resolveu admiti-lo como garçom, em caráter de experiência. O movimento da casa, nos fins de semana, era impressionante. Com música ao vivo e comida gostosa, a frequência era enorme e selecionada. Severino, apesar de não estar acostumado com esse tipo de trabalho, gostou da ideia de ser garçom, e se propôs a seguir os ensinamentos do patrão. Passou dois dias observando os garçons antigos e auxiliando-os no trabalho. O proprietário conversou algumas horas com ele, dando-lhe noção de como atender bem aos clientes. O rapaz aprendeu tudo facilmente, inclusive a posição dos pratos, copos e talheres, e a maneira como deveria servir as bebidas. Familiarizou-se com o cardápio de refeições e tira-gostos, e também com o de bebidas.

Severino, certo de que tinha aprendido todos os ensinamentos do patrão, iniciou seu trabalho de garçom na noite de uma sexta-feira, de bastante movimento. Ao se ver obrigado a atender a uma mesa com seis pessoas, ficou nervoso, temendo se atrapalhar em alguma coisa. Mas, mesmo assim, deu as boas-vindas aos clientes, distribuiu os cardápios de refeições e bebidas, e ficou aguardando os pedidos. Nesse ínterim, uma das senhoras presentes pediu-lhe uma garrafa de água mineral. O garçom, muito cuidadoso, perguntou:

– A senhora vai querer a água mineral com querosene ou sem querosene?

O cliente que estava de paletó e gravata, e parecia liderar o grupo, visivelmente irritado e em voz alta, perguntou ao garçom:

– Quer fazer graça, rapaz? Água com querosene ou sem querosene?

O garçom, humildemente, respondeu:

– Doutor, lá no mato de onde eu vim, tanto faz querosene como gás.

A risadaria foi grande e Severino caiu na simpatia da clientela.

O SONHO

Em toda cidade do interior nordestino, sempre houve pessoas engraçadas ou esquisitas, que, com o tempo, passavam a fazer parte do folclore local. Eram bêbados de cana dormida, homens e mulheres viciados no jogo do bicho, cornos mansos e convencidos, para os quais as esposas eram umas santas, “mulheres da vida”, que não aguentavam um desaforo e abriam o verbo no meio da rua, brigando com rivais, mendigos bem humorados, que quando recebiam uma esmola diziam: ” Deus te livre da praga do mau vizinho”, e até algum idoso irritado e irreverente, que a toda hora dizia palavrão.

Antigamente, em algumas cidades do interior, onde não havia água nem energia elétrica, a notícia mais esperada do dia era o resultado do jogo do bicho. Havia sempre os felizardos, que ganhavam constantemente e outros desprotegidos da sorte, que sempre perdiam.

O jogo do bicho, mesmo tido como contravenção penal no Art. 58 da Lei das Contravenções Penais – Decreto Lei 3688/41, sempre foi uma prática comum, na capital e no interior.

Na época em que não existiam loterias legalizadas, como as atuais Loteria Federal, Loteria Esportiva, Mega-Sena, Quina-Loteria, Lotomania, Lotofácil e outros jogos do mesmo gênero, era o jogo do bicho que proporcionava prêmios e alegrias aos jogadores, como também prejuízos financeiros e morais.

Considerado jogo de azar, como as demais loterias, o prêmio do jogo do bicho depende, unicamente, da sorte e não da capacidade do jogador, como acontece em jogos de cartas. Nesses, a vitória depende da habilidade do jogador, apesar da sorte também influir.

A história do jogo do bicho teve origem no Rio de Janeiro, quando o barão João Batista Vianna Drummond o idealizou, em 1892, para entreter e conquistar mais visitantes para o zoológico – conhecido hoje como Jardim Zoológico do Rio de Janeiro -, do qual era proprietário, e que se encontrava à beira da falência.

Os ingressos eram associados a uma das 25 espécies de animais, de acordo com seus dois últimos números, dentro de 100 opções de dezenas. Com estes números era realizado um sorteio e o vencedor tinha direito a uma parte do valor dos ingressos vendidos.

Pois bem. Zé de Valda, 38 anos, um homem humilde, de uma cidade do interior nordestino, era viciado no jogo do bicho. Sobrevivia, junto com a esposa Valda e um filho pequeno, fazendo biscates. Cortava lenha, limpava quintal, descarregava caminhões e fazia quaisquer outros serviços pesados. Entretanto, não deixava de fazer uma “fezinha” no jogo do bicho, diariamente. Jogava pouco, mas não desistia. Amanhecia o dia à procura de palpites, querendo saber quem havia sonhado com alguma coisa significativa, pois ele saberia decifrar, para jogar no bicho. E às vezes, dava certo. Se alguém sonhava com coco, era “batata”! Ele decifrava na hora:

– Ora, coco partido vira quenga. Quenga é mulher ruim; mulher ruim é galinha e quem gosta de galinha é o galo!!! Jogava no galo e sempre acertava!

Quando ganhava no bicho, a primeira coisa que Zé de Valda fazia era comprar uma garrafa de cachaça, para comemorar com os amigos. No dia seguinte, jogava novamente e o bicho comia tudo. Perdia o restante do prêmio.

Uma vez, a sorte lhe sorriu com vontade e Zé de Valda ganhou no grupo, centena e milhar. Para ele, foi muito dinheiro. Eufórico, separou o dinheiro da cachaça, para festejar com os amigos, e escondeu o restante, para as necessidades da família.

Curiosos, os companheiros de copo quiseram saber que palpite danado de bom tinha sido esse, que fez com que ele se garantisse, e pudesse tirar o “pé da lama” durante alguns meses.

Zé de Valda, que havia jurado para si mesmo, não contar a ninguém o sonho que tivera, depois da terceira bicada não se controlou e fez a revelação:

– Passei a noite toda sonhando com um caminhão, carregado de pão. Era tanto pão, que dava pra matar a fome da pobreza da cidade. No sonho, eu não parava de comer pão. Quando acordei, senti o bucho inchado, como se estivesse empanzinado. Corri para o banheiro, e lá fiquei até melhorar. Depois, cuidei de tirar vantagem desse sonho, que foi mais um pesadelo. Botei a cachola pra pensar e matei a charada:

Com que é que se faz pão? Não é com farinha de “tigre” (trigo)?

E joguei todo o dinheiro que eu tinha no “Tigre”! E o bicho me ajudou!!!

A REDE

Dr. Calvino, um conceituado dentista de uma cidade do interior nordestino, resolveu se mudar para Natal, com esposa e filho. Queria que o menino estudasse no Colégio Salesiano.

Feita a mudança, a família foi morar em uma excelente casa, num bairro nobre de Natal.

Para trabalhar, o dentista alugou duas salas conjugadas, no primeiro andar de um prédio comercial, no bairro do Alecrim.

Na primeira sala, instalou seu consultório odontológico. Na segunda, mandou colocar armadores, onde mantinha sempre armada uma bonita rede, com o seu nome bordado na varanda. Como bom nordestino, gostava muito de rede e não desprezava a sesta depois do almoço.

Muito gordo e brincalhão, certa vez, Dr. Calvino recebeu em seu consultório, Dona Dalva, uma senhora de 65 anos, de quem era contraparente. Após um exame minucioso dos seus dentes, falou para a mulher que ela precisava extrair os cacos de dentes que ainda restavam e depois colocar uma prótese dentária móvel. Em suma, Dona Dalva precisava de dentadura postiça completa (superior e inferior). A mulher concordou e o tratamento foi iniciado.

Depois de extraídos os cacos que restavam dos dentes, e a gengiva da paciente já haver cicatrizado, foi tirado o molde e encaminhado ao protético. Chegou o dia da prova da dentadura superior. Dr. Calvino pôs a peça na boca de Dona Dalva, tentando encaixar, mas não houve jeito. Alguma coisa estava errada. Depois de outras tentativas, o dentista disparou num riso incontrolável e falou para a mulher:

– Dalvinha, pelo amor de Deus, me desculpe! Essa peça não é a sua. É a dentadura nova de Seu Antônio Santos. Ele este aqui hoje pela manhã para provar. Dona Dalva ensaiou uma crise de vômito.

Dias depois, as próteses dentárias de Dona Dalva ficaram prontas, e impecáveis.

Numa tarde de sexta-feira, por volta das 14 horas, Dr. Calvino atendeu um antigo paciente, para uma extração dentária. Aplicou o anestésico e recomendou que ele ficasse de boca aberta. Aguardando o efeito da anestesia, deitou-se na sua inseparável rede. Ainda com o estômago pesado do almoço, o dentista ia começando um cochilo, quando o senso de responsabilidade o chamou. Lembrou-se do paciente que o aguardava na cadeira, com o dente anestesiado e de boca aberta. Quis se levantar da rede, mas não pôde. Tentou diversas vezes, até que o armador se quebrou e a rede despencou no chão. A situação piorou ainda mais.

Dr. Calvino, sentindo dores horríveis na coluna e sem conseguir se levantar, pediu socorro ao paciente, que ainda o aguardava na cadeira, de boca aberta. Pediu-lhe que telefonasse para seu filho, para acudi-lo com urgência. Rapidamente, o rapaz chegou e providenciou uma ambulância para transportar o pai ao Pronto-Socorro. A queda da rede, por um triz não o deixou paraplégico. Dr. Calvino sofreu uma séria fratura da coluna vertebral e passou vários meses afastado da suas atividades profissionais.

CASTANHINHA

Anos atrás, numa cidade do interior nordestino, Margarida, empregada doméstica na casa de Dona Zélia, apareceu grávida. A patroa, solteirona juramentada e muito católica, ao ver a moça enjoada e com o ventre ligeiramente crescido, perguntou e obteve a confissão da gravidez. O autor da faceta era o namorado Josimar, conhecido por Castanhinha.

Dona Zélia se sentia responsável pela empregada, que tinha apenas 17 anos. Sempre que a moça dizia que ia passear com uma amiga, ela fazia a mesma recomendação:

– Cuidado com a vida e volte cedo.

A mulher tinha o hábito de dar conselhos às suas empregadas, principalmente quando eram menores de idade e, supostamente, virgens.

Surpresa com a gravidez da moça, a primeira providência de Dona Zélia foi pedir ao seu irmão Damião, dono da gráfica onde o conquistador trabalhava, que falasse com ele e o “intimasse” a se casar com Margarida. Seu Damião, muito espirituoso, respondeu:

– Eu não sou Delegado de Polícia, pra fazer essa intimação ao rapaz. Eu não vou me meter nessa história. Se a moça deixou o namorado fazer “feiura” com ela e ficou calada, é porque gostou. Agora que está gravida, foi que abriu o bico pra dedurar o rapaz. Como não existe nenhum inocente nesse caso, eles que se entendam. Eu prometo ser padrinho do menino ou menina, quando nascer.

Dona Zélia se voltou contra o irmão e o tachou de desalmado. Disse-lhe que a empregada era muito nova e não tinha sabido se defender. Além do mais, sempre se ouviu dizer que “a carne é fraca…”

Não adiantou. Seu Damião continuou dizendo que não iria se meter nessa história. E a confusão virou por cima dele.

Os pais de Margarida moravam na zona rural. Por coincidência, no dia seguinte a essa descoberta, o pai, Seu Pedro, que tinha o apelido de “Pisa na Fulô”, foi à cidade comprar novos instrumentos agrícolas, para usar no roçado. Antes, foi ver a filha Margarida, ignorando o que estava se passando com ela. É claro que a moça não teve coragem de dizer que o namorado a tinha seduzido e que estava grávida.

Depois de tomar o café da manhã com a filha, na casa de sua patroa, Pisa na Fulô a abençoou e se dirigiu à Rua Grande, para comprar uma foice e uma enxada no armazém de Seu João Bento. Antes de voltar para casa, resolveu ir cumprimentar Seu Damião, na gráfica, levando consigo esses instrumentos agrícolas, também considerados armas brancas. Como consta nos anais da história da criminologia brasileira, entre outros objetos de trabalho, esses dois já foram usados em muitos crimes de morte.

Seu Damião, quando viu o pai de Margarida chegar, “armado” de enxada e foice, resolveu fazer um susto a Castanhinha. Chamou o rapaz e lhe cochichou que Pisa na Fulô era o pai de Margarida e era muito violento. Estava ali para tomar satisfação, pois soubera que ele havia mexido com sua filha e ela estava grávida. Se ele não casasse logo com ela, podia se considerar um homem morto.

Castanhinha, pálido e tremendo dos pés à cabeça, apresentou-se diante de Pisa na Fulô e lhe pediu a mão de Margarida em casamento. O agricultor, inocente na história, vendo que o rapaz trabalhava com Seu Damião, concordou na hora. Só podia ser um rapaz direito…

O VIZINHO

Anos atrás, em Natal (RN), Marisé, uma dona de casa exemplar, logo que acordou, falou para Zildo, seu marido, que não havia carne para o almoço. Na véspera, ele esquecera de comprar. Depois do café da manhã, Zildo se dirigiu ao mercado, já arrumado para entrar no trabalho às 8 horas. Disse à esposa que iria rapidamente comprar a carne, e depois iria para a repartição. Funcionário público federal, Zildo cumpria horário de trabalho das 8h às 12h e das 14 às 18h.

Era ótimo filho e irmão, mas como marido e pai, deixava muito a desejar. Era ausente na educação dos filhos, deixando os deveres de casa e reuniões de pais e mestres a cargo da esposa, e tudo o mais que se relacionasse com as crianças. Só parava em casa para comer e dormir. Nos fins de semana, sempre tinha uma desculpa, para fazer hora para o almoço em mesa de bar. Na verdade, Zildo era um boêmio inveterado, e tratava a esposa como uma escrava. A sorte dela era ter ótimas irmãs, que lhe davam total assistência. Muito conservadora e religiosa, Marisé nunca pensou em se separar. Nessa época, as mulheres eram totalmente submissas aos maridos.

Pois bem. Zildo saiu a pé para o mercado, que ficava perto de sua casa, e no caminho ouviu alguém o chamar. Era Hélio, um conhecido deputado estadual, candidato à reeleição, seu vizinho, amigo e companheiro de farra. Em sua caminhonete, o homem o chamou para ir com ele resolver uma bronca, e que logo os dois estariam de volta. Sem saber dar um não a um amigo, principalmente em se tratando de Hélio, Zildo entrou na caminhonete.

O deputado, boêmio igual a Zildo, não iniciava suas atividades diárias sem tomar um gole de conhaque ou outra bebida alcoólica.

Zildo, irresponsável até a medula óssea, sob a influência do vizinho, esqueceu de que o mundo existia e de que em sua casa estava sua esposa, à espera da carne para o almoço.
Hélio tomou a estrada para Ceará-Mirim, e foram os dois para a fazenda de um conhecido político, seu correligionário. Era uma sexta-feira, e haveria uma grande festa nessa fazenda, em comemoração ao aniversário do fazendeiro. À noite, haveria um grandioso comício, onde Hélio também exercitaria seu dom da oratória.

Marisé cozinhou feijão, arroz e legumes, e nada de Zildo chegar com a carne. Mesmo sabendo que o marido não era flor que se cheirasse, a mulher ficou aflita. Como sempre acontecia, telefonou para a casa da sogra e perguntou à cunhada se ele tinha aparecido por lá naquela manhã. Como a resposta foi negativa, tratou de providenciar ovos fritos para completar o almoço dos três filhos, que teriam que ir à Escola. Passou o resto do dia preocupada, temendo algum acidente com Zildo. Afinal, ele era o pai de seus filhos.

Tensa durante todo o dia, Marisé viu anoitecer sem que o marido entrasse em casa. Voltou, então, a ligar para a casa da sogra para comentar o desaparecimento de Zildo e as duas cunhadas ficaram em polvorosa. A sogra, muito idosa, foi poupada de mais essa preocupação provocada pelo filho caçula.

Zildo só chegou em casa dois dias depois. Marisé ouviu quando a caminhonete do vizinho estacionou na frente da casa e dela saíram os dois amigos.

Com a cara mais cínica do mundo, Zildo disse que tinha ido com Hélio participar de comícios em Ceará-Mirim e outras pequenas cidades da redondeza. Nem sequer falou da carne que tinha saído para comprar.

Aos trancos e barrancos, o casamento de Marisé e Zildo durou, ou se arrastou, até que a morte os separasse.

A DESAPARECIDA

Décadas atrás, numa quarta-feira, o casal Nelson e Marina, residente em Natal, passou um grande susto. Ao voltar do trabalho no final da tarde, a casa estava às escuras e sem nada preparado para o jantar.

Como de costume, Marina tinha deixado com a empregada Josefa o dinheiro do pão, e recomendado o que deveria ser feito.

Como o dinheiro não estava mais no local onde sempre era posto, o casal entendeu que a empregada tinha ido à padaria e ainda não havia voltado.

A serviçal, muito eficiente, estava nesse emprego há sete meses, e dormia na casa dos patrões. Tinha folga nos fins de semana e retornava na segunda-feira, de manhã cedo. Muito calada no que se referia à sua vida pessoal, Josefa havia dito aos patrões, apenas, que era de Goianinha (RN), solteira e tinha 32 anos. Suas folgas semanais, passava na casa de uma amiga, no bairro das Quintas.

Nelson e Marina aguardaram alguns minutos e, preocupados, saíram à procura de Josefa. Foram até à padaria, andaram pelas ruas mais próximas e perguntaram às empregadas da vizinhança se a tinham visto sair de casa. Ninguém dava notícia da moça.

Com a demora de Josefa, o casal entrou em pânico, temendo que tivesse ocorrido alguma coisa séria com ela. Pensaram em atropelamento, ou coisa pior.

Já tarde da noite, o dono da casa telefonou para o pronto-socorro, para saber se tinha dado entrada ali uma moça de nome Josefa Gonzaga da Silva, mas foi informado de que na lista dos pacientes atendidos naquela tarde, esse nome não constava. O casal passou a noite em claro, ouvindo os noticiários das melhores rádios de Natal, na expectativa de alguma notícia trágica envolvendo Josefa.

Ao amanhecer o dia, Nelson ligou para o Instituto de Medicina Legal, e respirou um pouco aliviado, ao ouvir a resposta de que o nome de Josefa Gonzaga da Silva não constava na lista de cadáveres que ali deram entrada na noite anterior.

No sábado, após o almoço, exatamente três dias após o desaparecimento da empregada, Marina ouviu alguém abrir o portão do quintal. Rapidamente, fechou a porta da cozinha e, pela fechadura, viu Josefa entrar e se dirigir ao seu quarto.

Marina tomou uma garapa (água com açúcar), para acalmar o seu “sistema nervoso”. Respirou fundo e foi saber da empregada o que havia acontecido com ela, para que abandonasse a casa daquela forma. A moça olhou para a patroa e, ensaiando um choro forçado, falou:

– Eu estava no hospital, com o meu pai. Ele veio do interior muito doente e foi operado.

Irritada, a dona da casa respondeu:

– Você devia nos ter avisado, ainda que ele tivesse morrido! Devia ter telefonado ou mandado um recado. Ficamos numa aflição horrível, imaginando que tivesse ocorrido uma tragédia com você. Já comunicamos o seu desaparecimento à Polícia, e seu retrato vai sair amanhã nos jornais, “Tribuna do Norte” e “O Poti”, como pessoa desaparecida.

Depois de perguntar à empregada o nome do seu pai, em qual hospital estava e de que havia sido operado, a patroa ouviu a resposta:

– Pai está no Hospital das Clínicas, na Enfermaria 12, leito 3, no segundo andar. O nome dele é Antônio Gonzaga da Silva. Ele se operou de “ovário”.

Admitindo que a empregada estivesse confundindo ovário com próstata, Marina anotou esses dados e, sem dizer nada, foi ao referido hospital, verificar a veracidade do caso.

Pediu informação no setor de internamento e ficou sabendo que naquele hospital não existia enfermaria no segundo andar, como também não constava o nome de Antônio Gonzaga da Silva na lista de pacientes internados. Soube também que os pacientes de enfermaria não tinham direito a acompanhante.

Marina voltou fumaçando de raiva e foi tomar satisfação com a empregada:

– Como é que você não tem vergonha de mentir tanto, Josefa?!!! Seu pai nunca esteve internado no Hospital das Clinicas! Estou vindo de lá agora! E você ainda levantou falso ao seu pai, dizendo que ele se operou de ovário!!! Quem tem ovário é mulher, Josefa!!!!

A empregada, soluçando, resolveu abrir o jogo:

– Eu tive vergonha de dizer a verdade… Fiquei grávida e tomei uma garrafada pra abortar. Tive uma hemorragia e me deu uma dor muito grande no “pé da barriga”. Com medo de morrer, fui pra Maternidade, procurar atendimento. O doutor fez uma curetagem em mim e eu fiquei internada numa enfermaria, até hoje pela manhã.

Marina não acreditou mais em nenhuma palavra de Josefa. Pegou o carro novamente, e, dessa vez, dirigiu-se à Maternidade Escola Januário Cicco. No setor de informações, ficou sabendo que, realmente, Josefa Gonzaga da Silva havia dado entrada ali, na última quarta-feira, à tarde. Fora submetida a uma curetagem de urgência, ficando internada, até aquele sábado pela manhã.

Penalizada com a realidade dos fatos, Marina perdoou a ignorância de Josefa.

A DIRETORA

Esse caso aconteceu numa cidade do interior nordestino, há várias décadas.

Dona Malva, uma severa diretora de uma Escola particular, começou a ficar preocupada com a evasão de alunas adolescentes, durante o ano letivo. Quando a evasão atingiu o número de vinte alunas, a diretora enviou uma correspondência aos seus pais ou responsáveis, convidando-os para uma conversa. Queria se inteirar das razões que estavam levando as alunas a abandonarem a escola. Aos poucos, conseguiu conversar com todas as mães ou responsáveis. Para sua surpresa, tomou conhecimento de que aquelas alunas haviam sido “desonradas” e, entre elas, seis estavam grávidas. Os pais culpavam a Escola por não as ter vigiado, no retorno para casa. E por essa razão as proibiram de sair, até mesmo para irem à Escola.

Segundo algumas mães, havia muito cabra safado “abicorando” a saída das alunas, para assediá-las e seduzi-las. Quando o sino tocava, avisando o término das aulas, um grupo de rapazes, “conquistadores baratos”, estava nos arredores da Escola, à espera de paqueras. Entretanto, queriam apenas se aproveitar das alunas adolescentes, cujos hormônios estavam na fase de efervescência.

Eram namoros passageiros e paixões violentas, que se esvaíam como fogo de palha.

E nessa pisada, a maioria das alunas não era mais “moça” , sem falar nas que estavam “de barriga”. A Diretora entrou em pânico.

A Escola ficava próxima a um Quartel militar, e a Diretora tomou conhecimento de que os “defloradores degenerados” eram recrutas daquela Corporação. Dona Malva, então, solicitou ao Comandante uma audiência, para tratar de um “assunto do interesse da Escola “Antônio Severo”, no que foi atendida. Chegando ao Quartel, acompanhada da Secretária da Escola, as duas foram levadas à sala do Comandante Villion. A Diretora, então, expôs os motivos da sua visita. Contou ao Comandante a sua aflição diante da “tara” dos recrutas que serviam àquele Quartel.

Falou sobre o problema das alunas, todas menores de idade, que por eles tinham sido defloradas, chegando algumas a engravidar. O problema era seríssimo e a evasão da Escola era grande. Disse ao Comandante que os recrutas, constantemente, aguardavam o término das aulas, para seduzir as “meninas”, provocando problemas familiares e atingindo o bom nome da sua Escola, antiga e respeitada. Queriam somente se aproveitar das “inocentes”. “Mexiam” com elas e caíam fora, sem arcar com as consequências.

A Diretora, então, implorou ao Comandante, que tomasse providências enérgicas contra os soldados. Segundo ela, as alunas da Escola continuavam sendo desrespeitadas e “desonradas” por eles, a cada dia. Esse fato, além de provocar a evasão escolar, estava denegrindo o nome da Escola. Com o prejuízo moral e financeiro, esse estabelecimento de ensino, brevemente, sucumbiria e encerraria suas atividades. Isso iria contribuir para o atraso educacional da cidade, já tão carente de assistência por parte do poder público..

O Comandante, que tinha fama de austero e prepotente, ouviu as queixas da Diretora da Escola, e, pensativo, procurou uma solução para o caso. De repente, num arroubo de brutalidade, respondeu irritado:

– Olha, minha senhora: Aqui só tem cabra macho! Todos os dias, depois das quatro horas da tarde, solto todos os meus cavalos. E eles saem loucos atrás das éguas. Eu não tenho obrigação de correr atrás de cavalo nem de zelar pela virgindade de moça nenhuma. Quem tiver suas éguas, que segure!

A diretora da Escola sentiu-se mal e saiu indignada, “pipocando de raiva” do Comandante.

Muito católica, entregou o caso a Deus!!!

A DENTADURA

Gonçala e Matilde, duas irmãs solteironas, que moravam na mesma casa, em Natal, eram mal- humoradas e se agrediam muito. As duas já tinham dobrado o “cabo da boa esperança”, e estavam na casa dos setenta anos. À medida que o tempo ia passando e elas envelheciam, mais aumentava a mútua intolerância. Mas, no fundo do coração, zelavam uma pela outra, demonstrando assim que, apesar de tudo, as duas se gostavam como irmãs.

Gonçala, professora aposentada, era responsável pelas despesas e administração da casa.
Matilde, de prendas domésticas, sempre gostou de fazer crochê e fazia trabalhos belíssimos. Não lhe faltavam encomendas de toalhas de mesa e colchas de cama.

As duas irmãs usavam dentes postiços, que só tiravam para dormir. As respectivas “pererecas” pernoitavam em copos com água. Era o costume da época, quando não havia implante dentário nem próteses dentárias fixas. Somente os donos das próteses conseguiam olhar para esses copos, sem sentir asco.

Num dia de domingo, Gonçala acordou um pouco tarde e foi logo ao banheiro, à procura da dentadura. Não encontrou o seu copo no lugar de costume. Fez, então, uma vistoria inglória por toda a casa, na esperança de encontrá-lo. Após perguntar à empregada, ao irmão e à cunhada, que estavam passando na sua casa o fim de semana, se tinham visto o referido copo, voltou-se contra a irmã Matilde, que era o seu “saco de pancadas”. Acusou-a de ter-lhe “roubado” a dentadura, que era de luxo, pois tinha dois dentes de ouro, herdados da sua avó, Dona Xinu.

Numa crise histérica, Gonçala partiu para a irmã, tentando abrir-lhe a boca à força, à procura dos seus dentes postiços. Indignada, Matilde trincou os dentes e tapou a boca com as duas mãos, não se sujeitando à tamanha humilhação.

Nesse ínterim, a casa toda entrou em polvorosa. A empregada, o irmão casado e a esposa tentaram acalmar a idosa, mas não houve jeito. Gonçala continuou culpando a irmã pelo “roubo” da dita cuja. Chamou-a de “ladrona safada”, injuriando Matilde, que, revoltada diante da injusta acusação, sofreu uma grande crise de choro.

Depois da briga tirana, quando os ânimos se acalmaram, Matilde saiu e foi passar o dia na casa de uma sobrinha casada, para desparecer.

Gonçala, ainda muito contrariada, foi tomar banho. Para sua surpresa, encontrou, sobre um banquinho que mantinha dentro do box do banheiro, o copo, com as suas “pererecas”, superior e inferior.

Cuidou logo de lavá-las e colocá- las na boca. Saiu do banheiro com um sorriso sem graça e bastante desconfiada.

Envergonhada, jurou para si mesma que não diria a ninguém onde tinha encontrado a dentadura. Esse segredo levaria para o túmulo. Por orgulho, nunca pediu desculpa à irmã. Matilde, por sua vez, nunca esqueceu a injúria de que foi vítima. O seu ressentimento durou até o fim de seus dias.


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