O ANJO

Décadas atrás, macho e “feme” era o nome dado a pessoas portadoras de distúrbios genéticos, que nasciam com forte tendência a ser do sexo oposto. Era assim que se chamava a pessoa afeminada (ou efeminada), na pequena cidade de Nova-Cruz (RN). Essa anomalia era vista como doença congênita e crônica, e por isso os seus portadores eram respeitados. Atingia mais crianças do sexo masculino.

Os pais percebiam o problema desde a 1ª infância do filho ou filha, e a repressão de nada adiantava.

Na cidade, eram pouquíssimos os casos conhecidos dessa “doença”.

Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das irmãs e desprezando carrinhos e bolas que os pais lhe davam para brincar. Cresceu assim, querendo brincar com bonecas, usar laços de fitas na cabeça e até vestir roupas das irmãs, cheias de rendas e babados. A mãe sofria para convencê-lo de que aquilo que ele queria não era para menino.

Dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas. Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.

Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões!

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar!

LOUVADO SEJA

Há décadas, Louvado Seja era o apelido de um antigo pedinte de Nova- Cruz, portador de um distúrbio neurológico, que o impulsionava a andar correndo. Era como se alguém invisível o estivesse empurrando. Dava pequenas e constantes carreiras, em curtos intervalos. Não ficava parado um só instante, nas horas em que era visto a esmolar. Seu apelido foi motivado pela louvação que dizia a toda hora, inclusive antes de pedir uma esmola. Quando ele apontava no começo da nossa rua, Barão do Rio Branco, a meninada que brincava nas calçadas corria para casa, com medo. Esse pavor era provocado por comentários maldosos, espalhados pela cidade, de que Louvado Seja incorporava um espírito maligno, que o empurrava, para que corresse até sofrer uma queda fatal. Era como se alguém estivesse querendo, com ele, um acerto de contas. Diziam que eram coisas do demônio, e muita gente acreditava piamente nessa versão. Ao pedir uma esmola, a voz forte de Louvado Seja podia ser ouvida de longe:

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Uma esmola pelo amor de Deus”!

Recebia a esmola, repetia a louvação e era impulsionado a correr novamente. As crianças tinham pavor a ele, inclusive eu. Minha avó paterna, dona Júlia, nunca deixou de lhe dar uma esmola, nem tinha medo dele. Eu, que vivia muito com ela, em sua casa, vizinha à nossa, quando o avistava tremia de medo e entrava correndo. Arrodeava pelo quintal e ia à procura de minha mãe. Agarrava-me à sua saia, apavorada. Ela me abraçava e tentava me explicar que Louvado Seja não fazia mal a ninguém e que o problema dele era uma doença.

Nova-Cruz, naquela época, era um atraso total. Morria-se à míngua, sem qualquer assistência médica.O deslocamento para Natal ou João Pessoa levava de cinco a seis horas. Isso, se o trem ou o ônibus não desse o “prego”. As estradas rodoviárias eram de barro e esburacadas, e no inverno, então, uma viagem dessa era um suplício. Uma verdadeira “odisseia”.

Nova-Cruz faz fronteira com a Paraíba. O progresso demorou muito a chegar até lá. A energia de Paulo Afonso só foi inaugurada em 1962, por esforço do então Governador Aluízio Alves. Água encanada, também demorou muito a chegar.

Minha saudosa mãe possuía um livro comprado em Natal, chamado “Medicina do Lar”, que, entre diversas doenças, fazia referência aos sintomas idênticos aos apresentados por Louvado Seja. Eram próprios da “doença de São Guido (ou Vito)”. Essa doença também é conhecida como Coreia de Huntington ou Mal de Huntington. É uma alteração hereditária do cérebro, que afeta pessoas de todas as populações em todo o mundo. O seu nome vem do médico George Huntington, que fez a primeira descrição do que ele chamou “Coreia Hereditária”. O termo “Coreia” tem origem na palavra latina choreus (que se refere a “dança”) devido aos movimentos involuntários, que são uns dos sintomas principais dessa doença rara.

Dona Lia se convenceu de que Louvado Seja era portador dessa enfermidade neurológica. Como não era médica, só comentava o assunto com o marido e familiares. O fato é que Louvado Seja padeceu desse mal a vida toda, sem nunca ter ido a um médico.

São Vito (?-303), também chamado por muitos de São Guido, foi um mártir italiano filho de pagãos, mas educado na fé cristã, por Santa Crescência e São Modesto.

As publicações católicas esclarecem que esse santo é considerado padroeiro dos epilépticos e foi um dos mais populares na Idade Média. Sua festa é comemorada no dia 15 de junho.

A associação existente entre São Guido ou Vito e a doença nervosa a que nos referimos, provavelmente, prende-se ao fato de que pessoas atacadas por esse mal começaram a procurar a sua Capela, erguida na Suábia, um antigo ducado alemão da Idade Média, para pedir sua proteção.

O nome “doença de São Guido (ou São Vito)” pegou, e, em algumas regiões, virou expressão popular, para denominar pessoas agitadas, com movimentos involuntários, provocados por contrações nervosas no rosto ou em outras partes do corpo. Estariam atacadas pela “doença de São Guido”.

Ainda hoje me lembro de Louvado Seja, e sinto medo. Suas carreiras curtas e constantes, seus tiques nervosos, além da voz grossa e assustadora, davam-lhe a aparência de um homem elétrico, um ser sobrenatural. Apesar das carreiras que dava, impulsionado pelos nervos doentes, Louvado Seja nunca fez mal a ninguém, durante os anos em que percorreu as ruas de Nova-Cruz, pedindo esmolas. Se algum espírito o empurrava, como muitas pessoas acreditavam, o poder de Deus sempre o protegeu e ele nunca caiu. Deixou de pedir esmolas de repente, e a notícia de sua morte se espalhou na cidade, provocando dó em todas as pessoas.

Ninguém sabia o seu verdadeiro nome, mas o seu apelido é impossível esquecer.

A VASSOURADA

Na campanha política para Presidente da República, em 1960, o então candidato Jânio da Silva Quadros tinha como símbolo da sua campanha uma vassoura. Nos comícios, subia ao palanque com uma vassoura na mão. Dizia que com a vassoura, seria varrida a bandalheira e a corrupção do País.

A vassoura, portanto, tornou-se a marca registrada da campanha de Jânio da Silva Quadro (UDN) contra o Marechal HenriqueLott (PSD).

No interior nordestino , os “janistas” tinham, cada qual a sua vassoura, usada nas passeatas e comícios, para insultar os adversários, partidários do Marechal Henrique Lott.

Em algumas cidades, durante a campanha a bagunça foi grande. Os eleitores que apenas assinavam o nome, não compreendiam o sentido da vassoura, nem os discursos de Jânio transmitidos pelo rádio. Então, começaram os insultos e, o que era pior, as vassouradas, durante as passeatas e comícios. A vassoura tornou-se uma arma perigosa nas mãos das pessoas ignorantes. Em Nova-Cruz (RN), o comércio de vassouras prosperou. A campanha tomou proporções alarmantes, e as vassouradas eram dadas indiscriminadamente, chegando a provocar ferimentos em algumas pessoas.

Lourdes, uma moradora da nossa rua, mulher ignorante e agressiva, resolveu ser “janista”, e passou a varrer a calçada de sua casa de manhã, de tarde e de noite, para insultar quem passava. Usando a vassoura como estandarte, agrediu o ex-marido com uma vassourada, e o acertou na fronte. Por um triz, o homem não morreu. Semianalfabeta, Lourdes não entendia de nada, principalmente de política. Mas tornou-se especialista em vassouradas. Não perdia passeatas e comícios, cantava todos os jingles e era uma entusiasta da campanha da vassoura.

Os carros de som, com seus incansáveis alto-falantes, invadiam as ruas das cidades com marchinhas (jingles), que o povão logo aprendeu a cantar.

Algumas delas:

“ Varre, varre, varre vassourinha, varre a corrupção”;

“Jânio vem aí / não demora não / ele vem aí / com uma vassoura na mão”;

“Varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! .Jânio Quadros é a esperança de um Brasil moralizado/ Alerta meu irmão, vassoura, conterrâneo/ Vamos vencer com Jânio!”

Jânio Quadros chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, havia exercido sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado. Tinha um estilo político excêntrico e um vocabulário exótico, que chegava a ser hilário. Para parecer popular, enchia os bolsos de sanduíches para comer nos comícios.

Foi eleito Presidente da República em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos – a maior votação até então obtida no Brasil. Venceu o Marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém, não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do partido da oposição.

Jânio Quadros assumiu a presidência em 31 de janeiro de 1961, em Brasília, que ,pela primeira vez, foi palco de uma posse presidencial.

O governo de Jânio Quadros perdeu sua base de apoio político e social, a partir do momento em que adotou uma política econômica austera. Adotou medidas drásticas, restringindo o crédito, congelando os salários e incentivando as exportações.

Mas foi na área da política externa que o presidente Jânio Quadros acirrou os ânimos da oposição ao seu governo. Jânio nomeou para o ministério das Relações Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar os rumos da política externa brasileira. O Brasil começou a se aproximar dos países socialistas. O governo brasileiro restabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética (URSS).

Num gesto considerado tresloucado, Jânio condecorou, no dia 19 de agosto de 1961, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro argentino que fora um dos líderes da revolução cubana, e era ministro daquele país. Entretanto, segundo conta a História, essa condecoração foi um agradecimento a Ernesto Che Guevara, por ter atendido a seu apelo e libertado mais de vinte sacerdotes presos em Cuba, que estavam condenados ao fuzilamento, exilando-os na Espanha. Jânio fez esse pedido de clemência a Guevara por solicitação de Dom Armando Lombardi, Núncio Apostólico no Brasil, que o solicitou em nome do Vaticano.

A outorga da condecoração foi aprovada no Conselho da Ordem por unanimidade, inclusive pelos três ministros militares.
A repercussão desse gesto foi a pior possível, sendo, ainda segundo a História, a causa principal da perda de mandato de Jânio. Os problemas começaram na véspera, com a insubordinação da oficialidade do Batalhão de Guarda. Amotinada, se recusava a acatar as ordens de formar as tropas defronte ao Palácio do Planalto, para a execução dos hinos nacionais dos dois países, e a revista. Só a poucas horas da cerimônia, já na manhã do dia 19, conseguiram os oficiais superiores convencer os comandantes da guarda a se enquadrar.

Na imprensa e no Congresso, começaram a surgir violentos protestos contra a condecoração de Che Guevara. Alguns militares ameaçaram devolver suas condecorações em sinal de protesto. Em represália ao que foi descrito como um apoio de Jânio ao regime ditatorial de Fidel, nesse mesmo dia, Carlos Lacerda entregou a chave do Estado da Guanabara ao líder anticastrista Manuel Verona, diretor da Frente Revolucionária Democrática Cubana, que se encontrava viajando pelo Brasil em busca de apoio à sua causa.

No dia 21 de agosto de 1961, Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares pressionaram Jânio Quadros a renunciar:
Diz o texto da renúncia:

“Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade……………………………………”

Brasília, 25-8-61.

a) J. Quadros

E assim terminou o mandato de Jânio Quadros, que só durou sete meses. 56 anos se passaram, e o País encontra-se hoje mergulhado na maior crise política da História.

Não há vassourada que dê jeito…

O CIMENTO

Marina, já cinquentona, donzela juramentada, aceitou a proposta de casamento de um viúvo “fresquinho”, intermediada por um casal de amigos seus.

Na realidade, o sonho de Marina era se casar. A vida toda organizou seu enxoval, com peças bordadas à mão, e de crochê, que ela, sua mãe e tias faziam com esmero.

O tempo passava e Marina sonhava com a chegada do seu príncipe encantado, montado num cavalo branco. Depois, tornou-se mais condescendente e já admitia que o príncipe encantado viesse montado num jegue mesmo.

Ao entrar na casa dos “enta” (quarenta, cinquenta…), Marina já não pensava em príncipe. Queria mesmo era um homem para ser seu marido e companheiro. Um homem para chamar de seu. Vivia bem, financeiramente, e não pensava em acumular riqueza. Seria até capaz de dar casa, comida e roupa lavada, e ainda uma boa mesada, ao marido. Mas ele teria que ser amante e companheiro fiel, e o principal: Não podia ser cachaceiro!!!

Muito católica, a única bebida que Marina não censurava quando via era o Vinho do Padre, durante a Santa Missa.

Pois bem: Apareceu essa proposta de casamento para Marina e, por influência dos amigos, foi aceita, depois de muita insistência.

O pretendente tinha enviuvado recentemente, e os filhos já estavam casados. Funcionário público estadual, o homem ganhava bem, tinha uma excelente casa numa cidade do interior e as informações a seu respeito eram as melhores possíveis. Era o marido ideal para Marina. Logo houve a apresentação dos dois “pombinhos” pelo casal de amigos, e foi “amor à primeira vista”. A carência afetiva em que Marina vivia mergulhada somou-se à recente solidão apavorante do viúvo, que procurou se fazer amado pela celibatária. Surgiu, assim, um casal “apaixonado”, por pura conveniência.

O casamento de Marina e Solano ocorreu em cerimônia simples, na terra da noiva, Nova-Cruz (RN), com a presença de familiares e dos amigos que os aproximaram.

O viúvo fez questão de continuar na mesma cidade e na mesma casa, onde residiu com a falecida esposa e os filhos.

Marina tinha estampada no rosto a imagem da felicidade. O marido vivia bem financeiramente, era católico praticante, e fora casado durante trinta anos, tendo fama de excelente chefe de família.

Num dia de domingo, um mês depois de haver casado com Marina, Solano avisou que iria fiscalizar a feira municipal de um lugarejo vizinho, e passou o dia fora. Só chegou à meia-noite, completamente embriagado. Marina se descontrolou e deu um escândalo com ele, chamando a atenção dos vizinhos. Gritou para ele que aquela seria a primeira e a última vez que ele saía para beber. Disse que não sabia que ele tinha esse vício miserável, e que casou enganada. E que ele teve a sorte de se casar com uma moça virgem!

Solano adormeceu em berço esplêndido, e as palavras agressivas da mulher entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Esse domingo, portanto, foi perdido para Marina. E foi também a primeira das várias decepções que viriam pela frente.

No dia seguinte, pela manhã, Marina soube por um companheiro de farra de Solano, que os dois tinham ido a uma vaquejada, um dos divertimentos preferidos dos homens daquela região.

Essa história de “fiscalização da feira” era conversa “pra boi dormir”! Pura mentira!

Marina “enlouqueceu” de raiva, e entrou no quarto onde o marido ainda dormia, aos gritos:

– Seu safado, você me enganou! Disse que ia fiscalizar uma feira , e foi farrear numa vaquejada. Chegou à meia-noite, e completamente bêbado! Você está pensando que eu sou o que? Você casou comigo, e eu era uma moça! Eu era virgem! Eu vou embora desta casa!!!

Solano despertou, com cana dormida, e pegou brabo, dizendo impropérios com a mulher:

– Quer ir embora? Pode ir!!! Mas não é mais moça!!! Não tem problema não! Vou dar um jeito nisso!

E chamou a empregada, aos gritos:

– Maria, traz aí um pacote de cimento que está na despensa! Vou, agora mesmo, tampar essa mulher com cimento e devolver a virgindade dela!!!

Ouvindo isso, Marina saiu do quarto.

O SÓSIA

Clodomiro, funcionário público federal, nível médio, era lotado na Junta de Recursos da Previdência Social/RN. Viúvo, vivia para os filhos, e durante muitos anos fez as vezes de pai e mãe. Não teve coragem de casar novamente, pois os filhos pré-adolescentes jamais aceitariam alguém no lugar da venerada mãe. Mas a viuvez e a grande responsabilidade que lhe pesavam aos ombros mexeram muito com o seu lado emocional e Clodomiro tornou-se alcoólatra.

Gostava muito de olhar pelo retrovisor do tempo e relembrar seus momentos de glória, durante a juventude. Trazia sempre consigo uma pequena pasta, contendo fotografias suas, de perfil ou de frente, em tamanho postal, e sempre fazendo pose de galã. Em algumas fotos, aparecia com um cigarro nos lábios ou na mão. Seu maior orgulho era dizer que quando era jovem, na época da Segunda Guerra Mundial, as mulheres o confundiam com o ator americano Clark Gable, “artista” principal, do inesquecível filme “E o Vento Levou.” Era convencido de que tinha sido um rapaz belíssimo e ainda fazia pose quando andava, colocando sempre as mãos nos bolsos, e andando compassadamente.

Mesmo beirando os sessenta anos, ainda se considerava bonito, e seu porte físico o ajudava a manter a postura de um homem bem mais jovem. Ainda caprichava na cabeleira. Andava com um pente “flamengo” no bolso, e um pequeno espelho redondo. Uma vez por outra, era flagrado se penteando e se olhando no espelho. Lógico que estava se achando bonito. Isso era alvo de brincadeira dos colegas, no ambiente de trabalho.

As namoradas que Clodomiro arranjou depois de viúvo, enquanto era mais moço, foram “amores passageiros” e “paixões sem amanhã”.

Com a ajuda de amigos e a sua força de vontade, frequentou a comunidade dos Alcoólicos Anônimos e conseguiu se curar da terrível doença do alcoolismo.

Gostava de contar que, no auge da sua beleza e das conquistas amorosas, mandara confeccionar uns cartões de apresentação, onde, no lugar do seu nome verdadeiro, constava apenas ” Seu C – Agente Americano”. Esse pseudônimo era uma homenagem ao seu ídolo e “sósia” Clark Gable. Ele botou na cabeça que era o próprio galã. Nessa época, frequentava a vida boêmia da cidade, e uma vez por outra se metia em confusões. Era nessas horas que ele puxava o cartão de apresentação e dizia com voz altiva:

– Vocês sabem com quem estão falando?

– Estão falando com Seu “C”, Agente Americano!

Era água na fervura. Os forasteiros logo se afastavam, temendo o tal “Agente”.

Na Repartição, Clodomiro não podia ver ninguém dar uma pausa no serviço, nem mesmo para tomar um café, que, imediatamente, abria sua inseparável pasta e tirava uma fotografia sua e outra de Clark Gable, para que os colegas vissem que ele não vivia mentindo e que realmente os dois eram muito parecidos. Gostava de dizer que, se fossem irmãos, talvez não se parecessem tanto. Para lhe agradar, todos os colegas, e até o Chefe, concordavam com ele. Afinal, não custava nada alimentar a vaidade de um homem tão sofrido, que parara no tempo para se dedicar aos filhos, e, com força de vontade, conseguira se curar da terrível doença do Alcoolismo.

Clodomiro, dentro da sua humildade, era um homem educado e atencioso, o que o tornava muito querido pelos colegas de trabalho. Adorava relembrar seu sucesso com as mulheres, no tempo da Segunda Guerra. Contava que, por causa do seu porte de galã e seus belos olhos verdes, era confundido com os soldados americanos, e que a Guerra, para ele, havia sido “formidável”. Natal concentrava um grande número de soldados americanos e ele tirava proveito disso. Conseguia frequentar os bailes dos americanos, e dançava Foxtrote melhor do que eles. Dançava com as moças mais bonitas, escolhidas a dedo. Contava que nunca havia levado um fora, e que falava com a língua enrolada, num “inglês sem mestre”, para impressionar. Essa foi a fase áurea da vida de Clodomiro.

E o Chefe da Repartição, de tanto ouvir Clodomiro contar suas estripulias no tempo da guerra, por brincadeira, uma vez por outra o chamava de “Seu C”. E ele ficava feliz da vida.

O ANTIDISTÔNICO

Perpétua, 50 anos, era servidora pública federal, de nível médio. Tornou-se solteirona juramentada, não por vontade própria, mas porque não encontrava mais nenhum homem para namorar. Sofria muito com isso, pois era quente, e foi acostumada a estar sempre em ação, não passando sem namorado. Vivendo sempre o presente e sem se apegar a ninguém, agora cinquentona passou a sentir solidão. A idade foi deixando Perpétua deprimida. Ultimamente, tinha a sensação de haver passado repelente no corpo, pois não atraía mais nenhum homem. Convenceu-se de que, com a idade que estava, não poderia mais concorrer com as garotas de “carne dura”, tudo no lugar, e com os hormônios fervendo. Tornou-se uma mulher amarga e desiludida, sem esperança de encontrar um companheiro. Das três irmãs, foi a única a ficar “pra titia”.

O peso dos anos tornou a moça depressiva. O mau-humor passou a ser sua característica, a ponto de afastar os amigos e colegas de trabalho. Passou a não suportar brincadeiras, mostrando-se sempre irritada. Em suma, tornou-se uma pessoa extremamente chata e de difícil convivência.

Quando chegava à repartição, dava um “bom dia” de cabeça baixa. Se já estava no birô e chegava alguém, respondia ao cumprimento resmungando. Se fosse o Chefe que chegasse, respondia ao cumprimento, e nas suas costas lhe estirava o clássico dedo médio. Os colegas ficavam com vontade de rir e ao mesmo tempo revoltados, pois o Chefe era uma excelente pessoa e não merecia esse desrespeito. Perpétua tornou-se uma pessoa intratável.

Dr. Pedro Corsino, um dos melhores Psiquiatras de Natal, era amigo de infância de Perpétua e por ela sentia grande apreço. Os dois mantinham uma amizade fraterna. Ao tomar conhecimento do estado depressivo da amiga, Dr. Pedro telefonou-lhe, pedindo que fosse ao seu consultório, para colocarem os assuntos em dia. Uma forma inteligente de forçar a amiga a lhe fazer uma consulta. No dia e hora marcados, Perpétua avisou na repartição que iria ao médico.

Vestiu-se com uma saia preta cobrindo os joelhos, uma blusa de cor sóbria, de mangas compridas e decote alto. Não usou qualquer adereço nem pintura, nem se preocupou em arrumar o cabelo. Perpétua foi muito bem recebida pelo amigo, que logo percebeu o estado depressivo em que se encontrava. Conversaram muito, relembrando pessoas e fatos da infância e da juventude dos dois. Num dado momento, a moça disparou num choro compulsivo, abrindo as torrentes de sua alma e extravasando suas angústias e o medo da velhice, que estava se aproximando.

Dr. Pedro deixou que a amiga chorasse até cansar. Deu-lhe um copo de água com açúcar, e lhe pediu para que retornasse ao seu consultório no dia seguinte, àquela mesma hora. Mas lhe fez as seguintes recomendações:

– Perpétua, quero que você venha aqui amanhã, a essa mesma hora, mas preste atenção:

– Quero ver você com um vestido bonito e decotado, esses peitos quase de fora, brinco e colar, batom vermelho e cabelo arrumado! Você é muito bonita, mulher! Reaja a essa tristeza! Você dá de dez a zero em certas mocinhas que só tem minhoca na cabeça! Você tem tudo para ser uma mulher feliz! Nem só de pão vive o homem! Há muitos casamentos que não dão certo! Olhe-se no espelho, e veja que você ainda está em forma, e “dá vários ponches”!!! Procure suas amigas e volte a frequentar a noite e a se divertir, viajar, enfim, viver!

Perpétua voltou no dia seguinte ao consultório, bonita como antes, e produzida conforme as recomendações do amigo psiquiatra.

A transformação de Perpétua na repartição logo foi percebida.

Esse foi o melhor antidistônico que lhe foi receitado…

A FORMATURA

Arnaldo, quarenta e cinco anos, funcionário público federal, era um homem muito estressado. Na repartição onde trabalhava, eram comuns suas respostas grosseiras aos subalternos e até aos seus colegas de cargo. Por diversas vezes, foi visto enraivecido, rebolando no chão pilhas de processos, numa demonstração de desprezo pelo serviço que fazia.

Os processos que recebia e nos quais tinha que colocar despachos de encaminhamento à chefia, viraram uma rotina que mexia com seus nervos. 

Ele e a esposa Célia sempre foram funcionários públicos federais, mas em repartições diferentes. Os dois filhos do casal estavam com dez e doze anos. Não tinham empregada doméstica, e comiam de marmita, há vários anos. Levavam uma vida metódica e pacata. Ele controlava as despesas da casa e organizava tudo na ponta do lápis. Não faziam gastos supérfluos. A esposa, para galgar um cargo melhor dentro do serviço público, resolveu fazer o curso de Direito. Em casa, Arnaldo era sobrecarregado de afazeres domésticos e assistência aos filhos.

Chegou o grande dia da formatura de Célia. Foram quatro anos de luta, sono atrasado, trabalhos em grupo e pouca assistência aos filhos. A formatura foi esperada com ansiedade por Célia, Arnaldo, filhos e familiares dos dois lados do casal. Arnaldo, eufórico, não cabia em si de contentamento, em ver “sua” Célia bacharela em Direito. Novos horizontes se abriam para o casal. Com certeza, Célia logo faria um concurso público para um cargo de nível superior, e sua aprovação seria certa, pois vivia para o trabalho, filhos, marido e para os estudos. Arnaldo sentia-se realizado. Dois filhos já crescidos, estudiosos e sadios, a esposa formada em Direito, e ele, funcionário do INPS. Formado em Ciências Contábeis, aguardava a ascensão funcional, que na época existia, para mudar do cargo de Agente Administrativo para Auditor Fiscal. E agora a perspectiva da “sua” Célia subir muito na vida. Cheio de vaidade, não se cansava de comentar com as pessoas amigas:

“A minha Célia vai ser uma grande Procuradora, Promotora ou Juíza”!

Dois meses depois da formatura de Célia, Arnaldo chegou à repartição visivelmente contrariado, vermelho de raiva. Mal cumprimentou os colegas, e sentou-se ao birô, resmungando impropérios. Os colegas notaram logo que ele havia voltado àqueles dias de antigamente, em que pegava no arranco, de cinco em cinco minutos. Todos os colegas perceberam que alguma coisa muito séria estava acontecendo com ele. Afinal, a recente formatura da esposa tinha dado outro ânimo à sua vida, e ele passara a ser sempre bem-humorado. Queriam ajudar, conversar com ele, mas não havia chance. Silêncio total na sala. Como se estivesse fechado em um casulo, Arnaldo se limitou a carimbar os processos de cabeça baixa, recusando até o cafezinho, que era o seu fraco.

Algumas horas depois, o chefe chegou, cumprimentou todos os funcionários e se dirigiu ao seu gabinete. Arnaldo não respondeu nem levantou a vista. Simplesmente, ignorou a entrada do Dr. Eduardo, um homem extremamente educado.

O Presidente do Órgão notou o comportamento estranho de Arnaldo, e pediu à Secretária que o chamasse até o Gabinete.

Imediatamente, Arnaldo se viu diante do chefe, que lhe perguntou se estava passando por algum problema.

A resposta veio rápida:

– Estou sim, Dr. Eduardo! Estou desesperado! Quando eu pensava que agora as coisas iriam melhorar, a mulher formada em Direito e os meninos já com 10 e 12 anos, recebi uma notícia que me tirou de tempo! Minha Célia me comunicou que está grávida! O caçula já com 10 anos!!! Não posso suportar uma irresponsabilidade dessa! Estou até sem falar com ela, de tanta indignação!

Ironicamente e com o bom humor que lhe era peculiar, o chefe perguntou:

– A doutora Célia disse quem é o pai?

Arnaldo gaguejou, e viu o papel ridículo que estava fazendo…

O CHOFER

Antigamente, não se falava em “motorista de táxi”. O que havia era “chofer de praça”. E na praça, concentravam-se os carros de aluguel.

O táxi, propriamente dito, apareceu historicamente quando foram aplicadas taxas à sua utilização, através do taxímetro, aparelho mecânico ou eletrônico, que mede o valor cobrado pelo serviço, com base em uma combinação entre a distância percorrida e a tarifa inicial. Foi inventado no século XIX, pelo alemão Wilhelm Bruhn.

Em Natal, o chofer de praça trajava sempre terno cáqui, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos.

Seu Josias era um conhecido chofer de praça de Natal, educado, conversador e simpático, beirando os 60 anos. Era um contador de histórias. Muito supersticioso, não trabalhava no dia em que tinha um sonho mau. Se sonhasse com gato preto, urubu, sapato ou arrancando dente, sabia que, naquele dia, nada para ele ia dar certo, e preferia ficar em casa. Gostava muito de relembrar episódios de sua vida.

Contava que, antes de ser chofer de praça, tinha sido chofer de um caminhão misto e havia feito muitas viagens pelo sertão nordestino, transportando passageiros. Gostava muito da profissão, até que, num certo dia, em plena viagem, um dos passageiros do misto foi acometido de uma tremenda dor-de-barriga e ele viu-se obrigado a parar o carro na estrada, diversas vezes. O passageiro entrava correndo de mato a dentro, para satisfazer suas necessidades e voltava pálido e envergonhado. A viagem, nesse dia, sofrera um atraso enorme, o que o deixou bastante contrariado. Numa das paradas solicitadas pelo passageiro, para ir ao mato, disse seu Josias que também desceu e se dirigiu a uma casinha que avistou ao longe, em busca de alguma “meizinha” que curasse essa infeliz dor-de-barriga. Foi recebido por uma velhinha, que lhe perguntou:

– O senhor já experimentou dar o olho da goiaba a ele (o chá)?

Disse seu Josias que não gostou da pergunta e respondeu grosseiramente:

– Se depender disso, esse passageiro pode se acabar pelo fundo, feito balaio!

– A senhora é doida, dona? Vôtes!

E o chofer contou que voltou muito contrariado, e meteu o pé no acelerador, enquanto, nessas alturas, a catinga do passageiro empestava a boleia do misto. Ao chegar a Natal, deixou o passageiro no pronto-socorro e foi direto tratar de mandar lavar o carro.

Foi a última vez que dirigiu o misto. Ficou traumatizado com o ocorrido. Afinal, teve de parar o carro umas dez vezes, para que o passageiro corresse para o mato. A partir de então, abominou a profissão de chofer de misto.

O ORADOR

Eurico não era advogado, mas tinha mania de fazer discurso. Protético, residia em Natal e gostava muito de aparecer. Estava sempre procurando, no Dicionário da Língua Portuguesa, palavras difíceis, para encaixá-las nos discursos que escrevia. Como todo orador que se preza, trazia discursos gravados na memória, prontos para diversas situações.

A cidade estava consternada com a morte de Dona Berenice, 85 anos, verdadeiro patrimônio moral da família Salvino. Solteirona juramentada, piedosa e pura, a respeitável mulher passou pela vida incólume às delícias do amor. Deixava o seu exemplo de mulher decente, íntegra e despojada de vaidade, como modelo para as futuras gerações da sua família. Todos choravam, copiosamente, a sua partida. Os sobrinhos a tinham como uma segunda mãe e se sentiam órfãos. Já estavam acostumados à sua doce presença em todas as festas que faziam.

Apesar de não haver se casado e constituído família, a pranteada era mais mãe e avó dos sobrinhos, do que suas três irmãs casadas. Servia até de babá aos menores, quando as irmãs necessitavam de uma “mãozinha”.

Eurico organizava numa pasta os discursos que iria fazer, em cada velório a que comparecesse no ano que se iniciava. Fazia também uma lista com os nomes das pessoas idosas, que possivelmente iriam bater as botas a cada novo ano, de acordo com o seu pressentimento. E no bar que frequentava, eram feitas apostas em cima desses nomes, com prêmios em cervejas para quem acertasse.

Ao velório de Dona Berenice, chegou embriagado, levado por um companheiro de copo. Não estava muito a par da vida da santa mulher, mas já sabia as frases de efeito que diria.

Após a celebração da Missa de corpo presente, o homem se aproximou e proferiu seu discurso:

– Estamos diante de uma esposa extremada e uma grande mãe de família, que teve uma vida dedicada aos seus!!! Dona Berenice já está no Céu! Foi levada pelos Anjos, deixando aqui na terra o seu amantíssimo esposo e os seus filhos e netos, todos inconsoláveis, e aqui presentes! A Natureza chora! Mas o Céu se ilumina, e os espíritos de luz se regozijam com a sua chegada à Morada Celestial! Vá com Deus, Dona Berenice!

O homem inconsolável a que se referiu o orador, era Josias, irmão da falecida. Os jovens a quem apontou como seus filhos e netos, eram, na verdade, filhos e netos de suas irmãs casadas.

A família ficou indignada com o discurso e o orador ouviu poucas e boas.

A DESPEDIDA

Há várias décadas, em uma conhecida capital nordestina, morreu um advogado criminalista, de renome, Dr. José Paz. O fato comoveu a cidade, por se tratar de uma pessoa muito querida, grande orador, e cuja atuação no tribunal do Júri tinha um público cativo. O velório ocorreu na sua própria residência, como era costume da época. Prolongou-se por toda a noite, tendo sido marcado o sepultamento para 16 horas. Após a cerimônia de encomendação do corpo, feita pelo Bispo da Diocese, veio o momento de maior emoção, quando começaram as despedidas da viúva e das três filhas, que, inconsoláveis, não paravam de beijar o morto.

O sepultamento ocorreu no principal Cemitério da cidade, com homenagens de vários oradores, amigos e colegas de profissão do falecido.

O advogado tinha um motorista de toda confiança, Gonçalo, há mais de dez anos, que era uma espécie de “faz-tudo”. Além de dirigir, fazia seus pagamentos, e era também seu “segurança”. Cria da casa e filho de uma antiga empregada da família, Gonçalo, quando estava de folga, gostava de tomar umas biritas. A morte repentina do patrão mexeu com os seus sentimentos e fez com que passasse o dia enchendo a cara. Sentia-se desolado, e não sabia como seria sua vida a partir daquele triste dia. E tomou um porre homérico.

Quase na hora marcada para a saída do enterro, entre os soluços da esposa e filhas do advogado, ouviu-se um choro alto, de alguém que se aproximava do caixão. Era o motorista, completamente embriagado, que queria se despedir do seu patrão, protetor e quase pai. O “pau d’água” beijou as mãos entrelaçadas do pranteado advogado, e, com voz pastosa, proferiu frases de gratidão e saudade. Não contendo a emoção, desabou num choro compulsivo e engasgou-se com saliva. Começou a tossir quase cuspindo no defunto, e terminou passando um vexame: Sua dentadura superior caiu entre as folhas e flores do caixão, e quanto mais ele tentava pegar, mais ela escorregava, até sumir completamente. Desesperado e de boca murcha, Gonçalo pedia ao patrão que o ajudasse, chamando a atenção das pessoas ali presentes.

Nesse ínterim, chegou o momento de ser fechado o caixão, para que fosse iniciado o cortejo fúnebre. Como o motorista não aceitava se afastar, foi retirado quase à força, sob protestos veementes. Ao se afastar do caixão, sem recuperar a dentadura, Gonçalo fez o último apelo ao patrão:

– Vá com Deus, patrão! Mas antes disso, devolva minha “chapa”, com o meu lindo sorriso!

TUPI

Tupi era o mais inteligente e o mais dócil dos cães. Brincava com as crianças da rua e disputava com elas todos os brinquedos. Era um companheiro incansável. Dava gosto vê-lo atirar-se à piscina e agarrar os brinquedos que os filhos do seu dono lhe atiravam, o mais longe que podiam. Repetia essa tarefa até que os meninos se cansassem. Segurava os brinquedos com a boca, e os trazia como se fossem troféus. As crianças vibravam, com a rapidez com que o cão resgatava os brinquedos atirados à água.

Essa brincadeira recomeçava vinte vezes, sem cansar nunca a paciência de Tupi. Depois, vinham as corridas, lanches, gargalhadas, saltos, até que o assobio de um empregado da fazenda chamava o fiel animal às suas obrigações. Corria, então, como um raio, para escoltar as vacas que eram levadas aos pastos, e impedi-las de entrar nas terras do vizinho.cao-de-guarda

Quando Pedro, o carroceiro, ia vender as batatas no mercado, Tupi era o guarda da carroça.

Triste de quem ousasse saltar o muro da fazenda para roubar. Uma vez, o cão deu prova de extraordinária sagacidade. Um desocupado pulou o muro, à noite, e tentou furtar uma saca de batatas. Tupi, como um exímio vigilante, esperou que ele procurasse o caminho da saída, levando a saca na cabeça, e o agarrou pela camisa, sem o largar.

Era como se dissesse: “Onde você pensa que vai, levando as batatas do meu dono?”

O homem quis pôr o saco no local de onde o tinha tirado, mas o cachorro não deixou, mantendo-o seguro pela camisa até de manhã, sem o ferir ou morder. O dono da fazenda, logo cedo, levantou-se e encontrou Tupi nessa difícil posição. Repreendeu o malfeitor, que tremia de medo, e ameaçou de mandar prendê-lo, em caso de reincidência.

O ladrão, porém, ficou com ódio do cão, e, alguns dias depois, voltou a pular o muro da fazenda. Aproveitando a ausência do fazendeiro e dos filhos, chamou Tupi, que correu para ele sem desconfiança. Sem que o caseiro visse, atou uma corda ao pescoço do cachorro e o arrastou até à margem do rio, num local sinalizado como perigoso. Atou à outra ponta da corda uma grande pedra, e, levantando o animal, jogou-o à água. Com o esforço e com o peso do cachorro, o homem se desequilibrou e também caiu no rio, no mesmo local onde acabara de jogá-lo. Como diz o ditado popular, o feitiço virou por cima do feiticeiro.

Como não sabia nadar, o covarde, apavorado, viu-se perdido. E teria morrido afogado, se não fosse o corajoso Tupi. Obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, o fiel cão de guarda mergulhou duas vezes, trazendo para terra o seu perigoso inimigo.

Esse ladrão, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, salvara-lhe a vida.

Envergonhou-se do ato miserável que praticara e, desde esse dia, deixou de praticar ações violentas.

O exemplo do cão corrigiu o homem.

A CAMINHONETE

Adamastor era um engraxate, que, na década de 60, atendia aos fregueses na Praça Padre João Maria, bairro da Cidade Alta, em Natal (RN). No final da tarde, guardava seus apetrechos no estabelecimento de um sapateiro “lambe-sola” (consertador de calçados), seu amigo Osvaldo, um homem fanático por Aluízio Alves, na época, governador do Estado. Convém salientar que Seu Osvaldo só usava camisa verde, símbolo do partido político do seu ídolo, e as paredes do seu minúsculo ponto comercial eram totalmente decoradas com fotos desse homem, que exerceu grande liderança política no Estado, durante muitos anos. Além disso, o sapateiro também mantinha na parede externa do seu estabelecimento de trabalho, onde também morava, uma grande bandeira verde. Era uma figura folclórica.

Adamastor, à noite, ganhava dinheiro pastorando carro. Sua freguesia era constituída de frequentadores do Cine Nordeste, localizado na Rua João Pessoa, por sinal, bem perto da Praça Padre João Maria.caminhonete

Antes disso, jantava um cachorro-quente “Sebosão”, enorme, que tinha tudo o que o diabo gosta: carne moída gordurosa, salsichão da pior qualidade, frango com muita graxa, vinagrete, e uma cobertura generosa de “ketchup” e maionese. Dentro de uma mochila, trazia sempre uma garrafa de pinga e um copo. Trazia também um depósito com água.

À noite, depois que se transformava em pastorador de carro, Adamastor aproveitava para tomar suas chamadas de cana, quando não havia ninguém olhando. Bebia moderadamente e nunca foi visto embriagado.

Adamastor já era uma figura conhecida na redondeza, e de muita confiança. Tinha seus fregueses cinéfilos, que deixavam seus carros estacionados perto do cinema, aos seus cuidados, e lhe pagavam bem. E ai dos malandros que se aproximassem dos carros que pastorava. Ele gritava, mandando-os “desarredar” imediatamente. Para demonstrar zelo, mantinha sempre nas mãos uma flanela molhada, com a qual tirava a poeira dos carros.

Certa noite, Dr. Mesquita, um advogado muito conhecido na cidade, confiou-lhe sua luxuosa e recém adquirida caminhonete, enquanto iria com a esposa ao “Cinema de Arte”, sessão das 21 horas, no Cine Nordeste.

Como o filme era de longa-metragem e só terminava à meia noite, Dr. Mesquita pediu ao pastorador que redobrasse o cuidado.

Nessa noite, Adamastor se excedeu na cachaça, e ficou ainda mais cuidadoso, principalmente com a caminhonete “zerinho” do doutor. Para se sentir mais seguro, resolveu providenciar um “cacete”, para usar contra qualquer malandro que tentasse bulir nos carros. Nesse tempo, ainda não havia assalto nem roubo de carro em Natal.

Depois que a sessão de cinema terminou, o advogado foi pegar seu veículo e notou que Adamastor estava muito nervoso, pois, quando o avistou, foi logo dizendo em voz alta:

– Graças a Deus, doutor, o senhor chegou!

E Dr. Mesquita perguntou:

– Está tudo bem, Adamastor? Aconteceu alguma coisa?

Então, o pastorador respondeu:

– Agora tá tudo bem, doutor. Mas passei um susto danado! Tava tudo calmo e de uma hora pra outra apareceu um moleque taludo, querendo mexer no trinco da caminhonete do senhor. Parece até que eu tava adivinhando, pois já tava com a arma na mão. Dei uma grande surra de cacete no safado, mas ele conseguiu fugir correndo. Fiquei o resto do tempo “cubando” se ele voltava, mas o ladrão desapareceu de vez.

O “cacete” a que Adamastor se referiu foi, nada mais, nada menos, do que a antena da caminhonete de luxo, novíssima, do advogado, que ele continuava segurando.

Como a causa foi justa, Dr. Mesquita guardou a antena, agradeceu e deu uma nota graúda ao pastorador.

O MILHAR

Zequinha era um sapateiro “lambe-sola”, bom no ofício, mas dominado pela bebida. O que ganhava gastava com cachaça. Bebia diariamente, e dizia que não parava de beber, com medo de ter ressaca e não poder mais trabalhar. Tinha certeza de que ficaria acamado, se deixasse a bebida. Todos os dias, tinha que tomar algumas chamadas de cana. Era um homem inofensivo, humilde e simpático.

Conformado com a sua vida solitária, Zequinha havia desistido de casar, pois nenhuma mulher quis se sujeitar à sua bebedeira e à sua vida desregrada.bebado-maltrapilho

Também era viciado em jogo de bicho, e diariamente fazia uma fezinha. Quando ganhava, era pouco dinheiro, no grupo.

Um certo dia, Zequinha jogou no bicho e, dessa vez, acertou no milhar. Ganhou um bom dinheiro, que lhe garantiria a sobrevivência por algum tempo, se não torrasse todo em cana. Foi logo receber o prêmio e guardou no bolso, com todo o cuidado.

Muito feliz com o dinheiro ganho no jogo do bicho, dirigiu-se logo à Loja “Guararapes”, e comprou uma muda completa de roupa. Noutra loja, comprou um par de sapato “Conga”. Dirigiu-se ao barraco precário onde morava e tomou um banho de cuia, para trocar os trapos com que andava vestido.

Depois que se aprontou, pôs de molho num tanque com água e sabão a roupa velha que usava, e que daria de esmola. Saiu, então, todo faceiro, para festejar sua sorte num bar de gente rica, que nunca pôde frequentar. Nesse bar, às vezes, ele ficava somente pitigorando os petiscos e bebidas caras que os ricos consumiam.

A notícia do prêmio de Zequinha, entretanto, já havia se espalhado. Entrou no Bar da Jia, de cabeça erguida, pediu logo whisky e uma refeição para matar a fome. Logo se embriagou, fez discurso, disse que agora estava rico, e que, . finalmente, a sorte tinha olhado para ele.

Já tarde da noite, pôs a mão no bolso para pagar a conta, coisa que nunca tinha podido fazer na vida, e o bolso estava vazio. Pensou logo que havia sido roubado. A confusão foi grande. Depois, adormeceu na mesa do bar e só acordou pela manhã. Veio-lhe, então, à memória, as roupas velhas que tinha posto de molho em água e sabão. Empalideceu e correu para casa. A sua decepção foi grande. O dinheiro que ganhara no milhar e que guardara no bolso da calça velha, estava de molho junto com toda a roupa. Todas as notas haviam perdido a cor e não houve jeito de recuperar.

Dizem que o “bicho” dá e o bicho “come”. Mas, nesse caso, quem comeu mesmo foi água e sabão.

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“DISQUE-AMIZADE”

Antes da era cibernética, a comunicação que servia de elo entre as pessoas distantes era a telefonia fixa.

A prestação do serviço telefônico, “145 – Disque-Amizade”, foi inaugurado em 1984.

Discávamos 145 e logo uma ou várias vozes atendiam ao telefone, estabelecendo-se uma conversa simpática, de pessoas geralmente solitárias, a fim de fazer amizades. Pela voz e pela qualidade da conversa, selecionávamos quem se mostrasse mais interessante, e os contatos eram constantes, com hora marcada para a conversa telefônica. Daí surgiam boas amizades, namoros e até casamentos. Havia também muita decepção, pois algumas pessoas trocavam os números dos seus telefones, e continuavam, na conversa reservada, mentindo da mesma forma.telefone-verde-fixo

Na conversa coletiva, os participantes costumavam usar pseudônimos, pois ali, inicialmente, todos eram desconhecidos. A “brincadeira” era divertida, e servia de lenitivo às pessoas solitárias, desiludidas, e esperançosas de encontrar ou reencontrar um amor.

Muitas viúvas solitárias, mulheres divorciadas ou separadas, atravessando fases de depressão, ligavam o 145 e tinham a sorte de encontrar alguma pessoa boa para conversar. Dessas conversas, às vezes, surgiam amizades sinceras, que com o tempo se solidificavam.

Os homens, cuja natureza é de caçador, estavam sempre à procura de novas caças.

Emanuel, um rapaz de 28 anos, bonito, bem empregado e bem-nascido, através do “145” se apaixonou pela voz de Nina, uma jovem que dizia ter 23 anos, era muito rica, e cujo pai era um verdadeiro carrasco. Trocaram os números dos respectivos telefones e passaram a conversar diariamente. Com o tempo, os dois estavam apaixonados e Nina lhe sugeriu um encontro, para que se conhecessem pessoalmente. Combinou, então, para se encontrar com ele na Av. Hermes da Fonseca, perto do Quartel do Exército. No dia e horário marcados, o rapaz chegou ao local combinado, vestindo a roupa também combinada. Esperou das 15 às 18 horas pela moça, que não apareceu.

Emanuel voltou para casa decepcionado e jurou que nunca mais entraria no “disque-amizade”. No dia seguinte, logo cedo, Nina lhe telefonou se desculpando, e jogando a culpa no pai por ter faltado ao encontro. Para compensar, convidou o rapaz para um encontro em Olinda (PE) no fim de semana vindouro, pois lá ela contaria com a cumplicidade de uma tia. Viajariam separados, mas ficariam no mesmo hotel, cujo nome ela sugeriu. Muito apaixonado, e curioso para conhecer pessoalmente a musa que povoava os seus sonhos, Emanuel aceitou o pedido de desculpa e também o convite para que os dois fossem se encontrar em Olinda. Reservou o hotel e aguardou, com ansiedade, o fim de semana. Nessas alturas, suas duas irmãs já estavam sabendo que ele estava apaixonado, e torciam para que o encontro desse certo.

A sexta-feira chegou, e Emanuel viajou no seu Fusca para Olinda, ansioso pelo grande encontro. Não se cansava de imaginar como seria o rosto e o corpo de Nina. Apaixonadíssimo, apostava no destino, e tinha certeza de que estava indo ao encontro da “mulher da sua vida”.

Chegando ao Hotel Santo Amaro, onde fizera reserva para um casal, Emanuel instalou-se no apartamento. Tomou banho, vestiu uma roupa da melhor qualidade, e ficou aguardando Nina, que, pelo combinado, deveria ter chegado pela manhã à casa da tia.

Anoiteceu, chegou a madrugada, e raiou um novo dia. Nina não chegou nem mandou notícia. Terminou o fim de semana e no domingo à tarde, Emanuel retornou a Natal, arrasado. Adeus às ilusões. Outra decepção, que, dessa vez, pôs fim, definitivamente, ao seu sonho de amor. Nina não passava de uma tratante, e estava zombando dos seus sentimentos. Nunca mais entraria no “disque-amizade”, nem queria mais ouvir a voz de Nina.

Com a decepção estampada no rosto, Emanuel entrou em casa cabisbaixo, e contou às irmãs o “bolo” que, mais uma vez, havia levado de Nina. As duas moças ficaram revoltadas e decidiram descobrir quem seria essa tal moça.

Nessa época, os Catálogos Telefônicos anuais traziam o número do telefone, o nome e o endereço do usuário. Com a paciência de Jó, as duas moças, tendo em mãos o número do telefone da suposta Nina, conseguiram descobrir o nome e o endereço do dono do telefone. Uma delas discou o tal número, o dono atendeu e se identificou. Ela também se identificou e pediu para lhe falar pessoalmente sobre um assunto muito desagradável. Gentilmente, o homem a recebeu no seu local de trabalho, uma conhecida rádio de Natal. Tratava-se de um comentarista esportivo muito atuante nesta capital.

Mara contou-lhe, então, o envolvimento do seu irmão Emanuel com uma jovem chamada Nina, que usava o telefone dele. Disse que o irmão tinha sofrido uma grande decepção com a jovem, que, aliás, ele só conhecia pelo “disque-amizade”. Ela tinha combinado um encontro com ele em Olinda (PE) no último fim de semana, induzindo-o a fazer reserva em hotel, e lá não apareceu nem lhe deu satisfação. Falou também que, antes disso, a jovem havia pedido para se encontrar com seu irmão, nas imediações do Quartel do Exército, indicando o local certo onde ele deveria ficar. Depois de esperar três horas pela moça, o irmão teria retornado à sua casa, disposto a não querer mais conversa com ela. Entretanto, no dia seguinte, a jovem lhe ligou, pedindo desculpa e atribuindo a impossibilidade de ir ao encontro ao pai, que era um carrasco. Então, ela sugeriu a ideia dos dois irem se encontrar em Olinda.

Para surpresa da irmã de Emanuel, o homem falou que morava com a mãe, dona Matilde, uma senhora de oitenta e seis anos, que sofria de obesidade mórbida, e passava o dia todo em casa, somente com uma empregada doméstica. Disse também que Dona Matilde era viciada no “disque-amizade”, coisa que ele não podia proibir, pois era o seu maior divertimento.

Pois bem: A jovem Nina, de voz bonita e sensual, por quem Emanuel se apaixonou perdidamente, na realidade, era Dona Matilde, de oitenta e seis anos, e que sofria de obesidade mórbida. A mulher entrava diariamente no “disque-amizade”, e usava a cada dia um pseudônimo diferente. Fazia uma voz estudada, e facilmente se fazia passar por uma mocinha. Nessa brincadeira, arranjava “namorados”, que sempre se apaixonavam pela sua voz.

Convém salientar que, no dia combinado para o primeiro encontro, da janela do seu apartamento, Dona Matilde reconheceu Emanuel e deu ótimas gargalhadas, ao vê-lo olhar constantemente para o relógio. As características que o rapaz lhe havia dado do seu tipo físico, e a cor da roupa com a qual disse que iria vestido, não davam margem a equívoco. Emanuel foi mais um dos apaixonados por Nina, Tereza, Fátima, Sílvia, ou outros pseudônimos usados por Dona Matilde.

Com o advento da internet, o “disque-amizade” caiu no desuso, perdendo a utilidade. Continua, apenas, na nossa memória, como uma lembrança boa, de um tempo em que ainda não existia a violência exacerbada de hoje. É coisa do passado.

Os homens, cuja natureza é de caçador, estavam sempre à procura de uma nova caça. As mulheres, de um modo geral, alimentavam a esperança de que naquela linha telefônica estaria traçado o seu destino. Acreditavam que a felicidade estava a caminho, e elas iriam encontrar um amor, ou um novo amor, para substituir o que haviam perdido.

Atualmente, o 145 perdeu a utilidade; e hoje o “Disk Amizade” é só uma lembrança em algum blog, na seção de antiguidades.

O PEDIDO

Malvino era um fazendeiro rico e avarento, que só se preocupava em juntar dinheiro.

Para isso, usava um antigo cofre que tinha em casa, cujo segredo a esposa Damiana sabia, mas nunca teve coragem de mexer.

Não gostava de luxo nem de vaidade. Não admitia que se gastasse dinheiro com coisas supérfluas. A esposa e as duas filhas não pegavam em dinheiro para alimentar a vaidade feminina. Cabelos escovados e unhas feitas, o fazendeiro somente permitia nas festas de Natal e Ano Novo.

A casa, onde a família morava, não era forrada e o piso era de tijolo.dinheiro

Aparentemente, Malvino trabalhou pesado a vida toda e não queria ver ninguém usufruir das suas conquistas, nem mesmo a esposa e filhas. Gostava de dizer que filho de pai rico, quando o pai morre, acaba com tudo; e que viúva rica só serve para atrair cabra safado e aproveitador. O plano dele era esse: levar tudo com ele no caixão.

Uma vez por outra, dizia para Damiana:

“Quando eu morrer, quero levar todo o meu dinheiro comigo no caixão. Quero ter toda a minha fortuna, após a morte”!

Claro que isso soava bastante rude e egoísta para toda a família, especialmente para a esposa.

Damiana chegou a conversar com o padre sobre o pedido do marido, e ele lhe disse que não levasse isso a sério.

Anos depois, Malvino adoeceu, passando a sofrer de hipertensão e diabetes. Depois, o quadro se agravou e ele foi a óbito.

A esposa, então, sentiu-se na obrigação de concretizar o seu desejo. Depois de pensar muito, encontrou uma forma genial de conciliar as coisas, sem se prejudicar.

Na hora em que o caixão seria fechado, gritou: “Esperem um minuto”!

Um dos familiares disse: “Espero que você não seja louca de colocar toda a fortuna no caixão”.

A mulher, chorando, respondeu:

“Eu prometi a ele. Sou cristã e irei cumprir o meu juramento”!

Os amigos e familiares ficaram indignados com a situação.

Damiana, então, tirou do sutiã um cheque e pôs sob a cabeça do defunto. E explicou, baixinho, aos familiares:

– Ele vai levando, no caixão, um cheque nominal, cruzado, assinado por mim, no valor de todo o dinheiro que ele deixou no cofre. Amanhã, irei depositar o dinheiro no banco.

A FIGA

Alcino e Dinalva eram casados há 20 anos e tinham três filhos, sendo uma moça e dois rapazes. Moravam em Natal (RN). Servidor público estadual, depois do expediente, Alcino costumava se encontrar com amigos, em um conhecido bar da cidade. Sua bebida predileta era cerveja. Bebia diariamente, e quando a esposa reclamava, ele dizia que cerveja não fazia mal a ninguém.figa

Uma vez por outra, a ressaca batia, acompanhada de uma tremenda disenteria. Quando melhorava, Alcino voltava a beber. Essas crises foram se amiudando e, por insistência da esposa, ele foi a um gastroenterologista. Após uma série de exames, o diagnóstico foi de uma cirrose hepática, já em estado avançado. Alcino foi internado às pressas, e o tratamento foi iniciado. A parada brusca do álcool provocou-lhe a síndrome da abstinência, e sua mente ficou muito perturbada. Por causa disso, chegou a ser internado em um hospital psiquiátrico.

Mas seu fígado não processava mais os psicotrópicos que lhe eram prescritos. Retornou ao hospital anterior, para continuar o tratamento da cirrose. Dinalva, que cansara de lhe implorar para que diminuísse a bebida, via agora acontecer o que mais temia. O fígado de Alcino não aguentou o exagero diário de bebida, e ele adoeceu. De repente, o quadro se agravou. Houve diversos internamentos e diversas altas hospitalares, até que viesse o desfecho do quadro.

Desesperada, Dinalva chorava a toda hora, diante do prognóstico dado pelo médico. Alcino se preocupava com o sofrimento da mulher, e procurava acalmá-la, dizendo que logo estaria curado. Com o seu bom humor, conseguia disfarçar seu sofrimento e sua preocupação. Mas, à medida que o quadro se agravava, sentia que estava chegando ao fim. Muito triste, prometia à esposa e aos filhos que, quando ficasse curado, jamais voltaria a beber. Dinalva se lembrava da frase, que se tornou ditado popular, “agora é tarde, Inês é morta”.

Mesmo debilitado, às vezes brincava com a mulher, dizendo-lhe que iria ficar bom e ainda lhe daria muito trabalho. Num dos seus últimos dias de vida, Alcino, ainda consciente, percebeu lágrimas nos olhos da esposa. Carinhosamente, procurou tranquiliza-la, dizendo:

– Não chore não, querida! Eu sei que vou morrer, mas não se desespere. Estou pedindo a Deus para morrer num dia e você no outro.

Dinalva arregalou os olhos assustada, botou os braços para trás, e fez duas figas com as mãos. Não disse nada ao moribundo, mas, revoltada, entrou no banheiro, xingando-o baixinho:

“Morra sozinho, infeliz, e se dane para o inferno”!

A BRIGA

Há várias décadas, Nicanor e Marcondes, amigos e companheiros de mesa de bar, eram duas almas num corpo só, como diz o ditado popular. Servidores públicos qualificados e bem-nascidos, eram assíduos frequentadores dos bares e cabarés de Natal. Conhecidos e respeitados pelo dinheiro que tinham, não pensavam duas vezes para armar uma confusão ou ridicularizar alguém, quando estavam embriagados. Os donos de bar tremiam nas bases, quando os viam chegar. Apesar do lucro que davam, com o consumo de bebidas e comidas caras, causavam, em contrapartida, o desassossego do dono do bar e dos clientes.briga-de-bar-ii

Certa noite, os dois boêmios chegaram ao bar que costumavam frequentar na Ribeira, e encontraram dois gringos, muito bem vestidos, sentados ao lado da mesa que eles costumavam ocupar. Imediatamente, surgiu uma antipatia mútua. Nicanor e Marcondes já haviam bebido em outro bar e chegaram meio triscados. Começaram a ridicularizar e soltar piadas para os galegos, que terminaram pedindo a conta, e se retirando, visivelmente aborrecidos.

Os dois boêmios de Natal sentiram-se os donos do mundo, e riram muito, às custas da saída dos desconhecidos. Meia hora depois, para surpresa deles, entraram novamente no bar os dois gringos, de roupa trocada, e encararam Nicanor e Marcondes. Ocuparam a mesma mesa em que estavam antes, e que continuava vazia. Os dois boêmios de Natal, embriagados e vibrando com o retorno dos “forasteiros” ao bar, ensaiaram recomeçar a sessão de deboche e piadas, tentando ridicularizá-los. Mas, dessa vez, os gringos estavam dispostos a reagir a qualquer insulto e a não levar desaforos para casa.

À primeira provocação, partiram para a luta. “Voaram” em cima dos dois boêmios e deram-lhes uma belíssima e fenomenal surra. A cada golpe que recebiam dos dois gringos, Nicanor e Marcondes rolavam no chão. Quando tentavam se levantar, recebiam novos golpes e sofriam novas quedas. Os dois perderam as forças e entregaram os pontos. O dono do bar, em pânico, deu graças a Deus quando os gringos se retiraram, sem, sequer, olhar para trás. Essa briga ficou registrada na história da boemia de Natal, e virou folclore. Foi tema para repentes e cordéis, pois os dois boêmios se julgavam ricos, corajosos e poderosos.

No dia seguinte, os jornais da cidade estamparam as fotografias dos dois heróis do bar da Ribeira, sem falar na briga. Nicanor e Marcondes gelaram, diante da manchete que leram. Os dois gringos eram campeões norte-americanos de luta de box, e estavam em trânsito, passando por Natal.

ATENÇÃO, LUAR!

Luar era uma mulher feliz. Casada, e esperando o primeiro filho, acreditava na fidelidade de Fernando, seu marido, e não o sufocava com ciúmes bestas. Não questionava suas andanças, nem duvidava do que ele dizia.

Numa certa tarde, Anatilde, irmã de Fernando, e a amiga Dorinha chegaram à sua casa para confidenciar-lhe um segredo. Uma dizia para a outra: “Conta, Dorinha!” “ Eu, não! Conta você, Anatilde!” Finalmente, a cunhada lhe disse que Fernando a estava traindo, com uma mulher casada, desavergonhada, que morava naquela mesma rua. As duas disseram-lhe que o caso era anterior ao casamento deles, e que nunca havia terminado.carta

Luar sentiu-se trêmula, levantou-se e disse às duas moças que não admitia que elas viessem à sua casa, falar mal de seu marido, e tentar infernizar o seu casamento. Mostrou-se indignada com a atitude das duas falsas amigas, principalmente Anatilde, sua própria cunhada. As duas saíram encabuladas e Luar bateu a porta nas costas delas.

Dias depois, Luar recebeu uma carta anônima, que dizia:

ATENÇÃO, LUAR: Você que atende pelo nome de Luar, igual a uma cachorra, fique sabendo que seu marido é amante de Jandira, e não é de hoje não…É coisa antiga. Chovendo ou fazendo sol, os dois se encontram todo dia, e passam um tempão juntos. O corno, marido dela, faz de conta que não sabe de nada. Mas toda a cidade sabe disso! Acorda, Luar! Tenho pena de você! Assinado: UMA AMIGA

Luar leu a carta, chorou muito e resolveu escondê-la do marido. Se fosse verdade, outras provas iriam aparecer. Muito amadurecida e apaixonada por Fernando, Luar não quis que o seu casamento fosse de água abaixo. Preferiu acreditar que tudo aquilo fosse maldade e inveja daquelas moças do interior, candidatas ao caritó. Ela tinha vindo da capital, tivera uma boa educação e uma formação moral rígida. O marido mostrava-se apaixonado por ela e a tratava como uma rainha. Não via motivos para duvidar dele. Viviam na maior felicidade, que iria aumentar ainda mais, com o nascimento do primeiro filho.

Os dias se passaram e Luar não tocou no assunto a Fernando nem a ninguém. Procurou disfarçar sua contrariedade com a visita da irmã dele e da amiga, como também não lhe falou sobre a carta anônima.

Um mês depois, duas outras conhecidas foram à sua casa, oferecer peças para o enxoval do bebê que iria nascer. As “bordadeiras” mostraram –se muito curiosas, querendo saber detalhes da vida do casal. Luar mudou de assunto, não comprou nada e mostrou-se incomodada com a visita. Deusa, a mais falante, antes de se despedir, perguntou:

– Luar, é verdade que, um dia desses, você recebeu uma carta anônima?!!!

Luar respondeu:

– Que conversa é essa? De onde você tirou essa história???

Gaguejando e mostrando-se nervosa, Deusa continuou:

– Pois todo mundo na cidade sabe! Eu sei até quem escreveu!!!

Luar respondeu com austeridade:

– Nunca recebi carta nenhuma! E com licença! Tenho o que fazer!

Luar tirou suas próprias conclusões…O marido nunca soube disso…

A INVEJA

A bela composição musical do imortal Luiz Gonzaga, “Apologia ao Jumento”, ou “O Jumento é Nosso Irmão”, diz: ” É verdade, meu senhor/essa história do Sertão/ Padre Vieira falou/ que o jumento é nosso irmão”.

Essa letra é uma justa homenagem ao Jumento, o maior colaborador do homem pobre do sertão nordestino, e que, nos anos de seca, mais compartilhou a sua fome.

Também chamado de asno ou jegue, o jumento pertence à espécie Equus asinus. Dizem os pesquisadores que a palavra “jegue” é derivada de “Jack”, denominação de asno em inglês. Dizem ainda que, durante a segunda guerra mundial, os oficiais das bases americanas instaladas no Nordeste, inclusive em Natal (RN), chamavam o jumento de “Jack”, tendo os brasileiros aportuguesado o termo para “jegue”.jumento-foto

Desde que o mundo é mundo, esse animal tem sido de grande utilidade para a raça humana. Sempre explorado, e levando chicotadas e pauladas, se pudesse falar, o jumento, certamente, diria: “Não quero elogios! Quero caridade”!

Na religião católica, o jumento é considerado um animal sagrado. Foi ele que São José usou para fugir com Nossa Senhora e o filho Jesus, para o Egito, após determinação contida na mensagem de um anjo.

Fugiram da fúria de Herodes, que pretendia exterminar todos os recém-nascidos da região, imaginando que Jesus, o Salvador, estivesse entre elas. Herodes temia que o “Rei dos Judeus” um dia lhe tomasse o trono.

Coincidência ou não, o jumento tem uma Cruz desenhada nas costas.

Dizem os pesquisadores, que o jumento é originário da África, tendo sido domesticado, nos primeiros tempos da civilização egípcia. Hoje, existe jumento em todo o mundo, exceto nas regiões muito frias. Qualquer vegetação serve à sua alimentação, inclusive plantas espinhentas, como os cactos. Esse animal é capaz de ficar sem beber água durante muito tempo, continuando, mesmo assim, resistente à fadiga. Por essas razões, ainda é muito utilizado para cargas, nas regiões subdesenvolvidas.

Na era mais remota, o jumento serviu como meio de transporte. Ajudou ao homem do campo no trabalho diário, carregando depósitos com água para abastecimento da população, feixes de lenha, madeira, cargas de material de construção, além de frutas, verduras, e todos os tipos de alimentos vendidos nas feiras livres. Quando o cansaço fazia com que o jumento empacasse e se jogasse ao chão, o costume do dono era pôr fogo perto da sua cauda, para estimulá-lo a andar.

Euclides da Cunha, em sua imortal obra “Os Sertões”, diz que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

E Deus premiou esse homem forte, pondo à sua disposição, como colaborador, um animal também forte e resistente às agruras da vida.

Por isso, o jumento merece ser louvado. É o mais significativo símbolo da luta pela sobrevivência do homem sertanejo.

O leite da jumenta é o que possui composição mais próxima do leite humano, em nível de lactose, proteínas, gorduras totais, minerais e ômega 3. Por isso, é o melhor substituto do leite materno. Segundo as pesquisas, esse leite pode, inclusive, servir de tratamento para doenças imunológicas. Esse leite, também, pode ser utilizado por crianças com alergia à proteína do leite bovino.

A natureza dotou o jumento com um órgão sexual exageradamente avantajado. O pênis desse animal tem, em média, 50 centímetros de comprimento. Por isso, o jumento ocupa um lugar de destaque na cultura popular e no folclore nordestino, sendo fonte de inspiração para piadas e versos fesceninos. São comuns nas conversas masculinas descontraídas e nas anedotas, as referências a essa peculiaridade do jumento.

Numa conhecida cidade do interior nordestino, um servidor público foi repreendido pelo chefe, em virtude do seu pequeno desempenho no trabalho. Já conhecido pela sua irreverência, o antigo servidor respondeu:

– Eu trabalho como posso, Chefe! Não sou jumento pra levar cargas nas costas. Aliás, do jumento, eu só tenho inveja mesmo é do tamanho do P…(pênis)!!!

A PROVA

Sofia e Macrino, casados há doze anos, tinham como seus melhores amigos Marli e Jerson, casados há cinco anos. Os dois casais costumavam sair juntos nos finais de semana, para boates, teatros e restaurantes. Há alguns meses, Sofia passara a desconfiar de que estava havendo um romance entre o seu marido e sua amiga Marli. Os galanteios, elogios, olhares penetrantes e atenção exagerada entre os dois denunciavam a existência de uma grande atração física, diferente de uma simples amizade.

Decepcionada com o marido e com a falsa amiga, Sofia resolveu investigar o suposto caso, por conta própria, e arquitetou um plano para desmascará-los. Chegou o sábado e eles, mais uma vez, combinaram sair para jantar. Como sempre, foram ao melhor restaurante da capital. A amiga de Sofia, elegantemente vestida, usava uma calça preta colada ao corpo, com uma blusa azul “royal” muito decotada, e deixava à mostra a exuberância dos seios. Sofia, apesar de bonita, não tinha a vaidade da amiga.cj

No restaurante, os dois casais sentaram-se, ficando a mulher de um de frente para o marido da outra, como “linhas cruzadas.” Pediram logo um vinho francês e o “couvert”. Depois da primeira taça, Macrino, discretamente, começou a fazer o que sempre fazia. Tirou um pé do sapato e começou a esfregá-lo, delicadamente, nas pernas da mulher do amigo. Sofia, “macaca velha” e matreira, pelos olhos da falsa amiga, adivinhou o que estava ocorrendo. Mas disfarçou muito bem, pois queria ver até onde iria aquela safadeza. Naquela noite, estava disposta a acabar com a humilhação por que vinha passando. Sua intuição de mulher lhe dizia que entre seu marido e Marli, havia uma ligação muito forte.

Os dois casais tomaram bastante vinho e petiscaram muito, antes de pedirem o jantar.

Num dado momento, a falsa amiga levantou-se, dizendo que iria ao “toillete”, retocar a maquilagem. Sofia, ironicamente, disse que ainda não estava com vontade de ir até lá.

A vingança de Sofia aconteceu naquela hora. A coquete Marli, ao levantar-se da cadeira para ir ao toillete, chamou a atenção de todos que estavam na mesa e também nas mesas vizinhas. Sua provocante calça comprida preta, totalmente colada ao corpo, estava toda manchada de branco!!! A mulher empalideceu, tentando tirar as manchas com as mãos, sem conseguir. Sofia não se conteve e disparou uma histérica gargalhada. Diante do olhar estupefato dos dois homens, gritou para quem quisesse ouvir, dirigindo-se à falsa amiga:

– Essas manchas brancas nas pernas da sua calça, queridinha, são a prova da sua falta de vergonha! Desde que chegamos aqui, que este safado, meu marido, alisa suas pernas com o pé!. Eu já tinha descoberto essa baixaria, mas queria ter uma prova nas mãos. Agora eu tenho. E você estava gostando muito!!! Acontece que hoje, por vingança, enchi os sapatos dele de talco, e ele, por causa das meias, não notou. Vocês se merecem!

E Sofia retirou-se do restaurante sozinha, deixando Macrino na mesa, ao lado de Jerson,o cornudo.

Os dois casamentos foram de água abaixo…

“BREJEIRA”

Diz o folclore norte-rio-grandense, que a palavra “brejeira”, caracterizando fraude eleitoral, surgiu numa eleição no município de São José de Campestre (RN). O saudoso Deputado Djalma Marinho fora chamado, para orientar o delegado do Partido, numa ocorrência, durante a contagem de votos. Ao subir os batentes do prédio da prefeitura, onde se realizava a apuração, cumprimentou um matuto que se encontrava sentado na entrada, fumando um cigarro de palha, e perguntou:

– O que está acontecendo aqui?

O matuto respondeu:

– “Doutô”, estão dizendo que fizeram “brejeira”…

A expressão nativa, “brejeira”, agradou ao Deputado Djalma Marinho e ficou sendo usada por ele, por brincadeira, como sinônimo de fraude eleitoral. Logo caiu na boca do povo e tornou-se conhecida. “Brejeira”, portanto, no folclore da política norte-rio-grandense, significa fraude eleitoral.

Há várias décadas, nas antigas eleições do Rio Grande do Norte, era comum o desaparecimento de urnas, após o encerramento da votação. Pessoas de alto gabarito intelectual eram conhecidas como useiras e vezeiras, nesse tipo de fraude, principalmente nas cidades do interior.urna-eleitoral-antiga

Nessa época, o sistema eleitoral era precário e facilmente manipulado. Os fazendeiros ricos e cabos eleitorais compravam votos abertamente, ou os negociavam em troca de bens materiais, como dentaduras, óculos, pares de sapatos, cortes de tecidos, ou alimentos. Os “coronéis” alteravam votos, e falsificavam títulos de eleitor, para que seus eleitores pudessem votar várias vezes, em várias seções, até mesmo com títulos de pessoas falecidas.

Um conhecido político, e grande latifundiário de Natal, era apontado como o mentor de fraudes eleitorais homéricas. Semianalfabeto, o homem era dono de um raciocínio rápido e maquiavélico. Dominava seu reduto eleitoral e seu apoio garantia a vitória de qualquer candidato. Seus adversários o acusavam de fazer fraudes nas votações e nos mapas eleitorais, conseguindo falsificar o resultado das urnas. Mas isso não resultava em nada. Esse político tinha prestígio no Estado e também no âmbito federal. Liderava um grupo sem escrúpulo, acostumado a fazer campanha política, eleição e apuração. Nessa época, não se falava em institutos de pesquisa, nem em marqueteiros.

O medo das “brejeiras” se espalhava entre as lideranças políticas da capital e do interior, tanto no partido da situação, como da oposição.

Entretanto, o advento das urnas eletrônicas tornou as fraudes eleitorais, aparentemente, impraticáveis.

A partir de 1996, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) iniciou a implantação do voto eletrônico no país, utilizando a urna eletrônica, integrada a um sistema informatizado. Desde então, o TSE vem aprimorando essa tecnologia, e em 2008 implantou a urna eletrônica, com reconhecimento biométrico das digitais do eleitor.

A implantação do voto eletrônico veio dificultar as antigas fraudes eleitorais. Também, pôs fim aos votos de protesto, com desaforos e palavrões, ou ainda em favor de conhecidos animais, como foi o caso do Macaco Tião e do Rinoceronte Cacareco.

Inúmeras fraudes eleitorais foram cometidas no Rio Grande do Norte, nas antigas eleições. Um dos casos mais gritantes e hilários ocorreu com um candidato a deputado estadual, que aguardou com ansiedade a apuração, e constatou que a urna em que ele depositara seu voto não fora apurada. Simplesmente, a urna “sumiu”. Ele não teve nem o seu próprio voto, na seção em que votou.

Decepcionado, o candidato derrotado encheu a cara de cachaça e chorou copiosamente numa mesa de bar, depois da apuração. Sua lamentação causava pena:

– Que meu sogro e minha sogra não tenham votado em mim, eu aceito;

– Que meus irmãos e cunhados não tenham votado em mim, eu aceito;

– Que minha mulher não tenha votado em mim, é duro, mas eu também aceito……

– Mas, EU?!!! Eu mesmo não ter votado em mim?!!! Isso, eu morro e não aceito!!!

PERU

A campanha política para eleições municipais, no interior nordestino, é a que mais envolve e engana os eleitores humildes, fanáticos ou não. Os candidatos se transformam em verdadeiros santos (do pau oco), e conseguem angariar votos, fazendo promessas, às vezes impossíveis de cumprir. Prometem Deus e o mundo aos eleitores. Os mais ingênuos acreditam piamente nessas promessas. O folclore da política brasileira conta casos hilários. Há casos em que o candidato distribui um pé de sapato aos eleitores, prometendo entregar o outro pé depois das eleições, se for eleito…

Nos comícios, se ouve de tudo. Candidatos semianalfabetos prometem a “madeira”, para que as viúvas e mulheres abandonadas pelos maridos possam levantar “seus quartos”. Candidatos a prefeito, sem escrúpulo, prometem construções subterrâneas, que empolgam os eleitores mais crédulos. Não obstante, nessa época, a pobreza se beneficia com doação de óculos e com tratamento dentário. Há distribuição de óculos de “grau”, sem consulta médica, retirados de uma mala, cabendo ao eleitor apenas prová-los e escolher aquele que lhe permita ler melhor. Já para a colocação de próteses dentárias, conhecidas como dentaduras, chapas ou “pererecas”, há exigência de consulta prévia ao dentista pago pelo partido.peru-i

Pois bem! Por causa de uma perereca, o casamento de Bento e Bartira virou um inferno!…

Mais uma vez, havia chegado a época das eleições para prefeito e vereadores de Sítio Verde, cidade onde eles moravam. Era o tempo certo para a pobreza conseguir benesses. Os pretensos beneficiários teriam que apresentar ao secretário do candidato a prefeito ou a vereador os respectivos Títulos de Eleitor, para que fossem anotados o número, Zona e Seção de votação. Bento e Bartira, que, há anos, sofriam com dor de dente e precisavam de tratamento dentário, foram os primeiros a se cadastrar, para obtenção das dentaduras.

Bento era operário de uma usina beneficiadora de algodão, ganhava muito pouco e não tinha como melhorar de vida. Dois filhos pequenos e a mulher para sustentar, a família não tinha a mínima condição de pagar um tratamento dentário. Ele e a esposa teriam de aproveitar a campanha eleitoral, para embelezar as respectivas bocas. Entretanto, a decepção dos dois foi grande, quando Bento ouviu o candidato a vereador dizer que somente ele colocaria a prótese naquela ocasião. A de Bartira ficaria para depois das eleições, se o prefeito Tambor e o Vereador Zé do Feijão fossem reeleitos.

Terminada a extração dos seus últimos cacos de dentes estragados, Bento colocou as próteses móveis, superior e inferior, e ficou se sentindo mais jeitoso e bonito. Bartira, ao invés de ficar feliz com a melhora do visual do marido, sentiu-se frustrada, pois continuaria banguela, até depois das eleições, isso se aqueles candidatos fossem reeleitos.

Enciumada, Bartira começou a tentar controlar o horário de chegada do marido em casa. Quis proibir que ele tomasse sua costumeira cachacinha com os colegas, depois do trabalho.

Num sábado pela manhã, sem dizer nada à mulher, Bento aprontou-se, vestiu calça e camisa mais arrumadas, calçou sapato e meia, e saiu. Chegou a hora do almoço, e nada de Bento. Bartira se desesperou, deu o almoço das crianças e ficou “reinando”, remoendo sua ira. Mentalmente, planejava o “batido” que iria dar no marido, na hora que ele chegasse. Bento teria que contar onde estava, com os amigos safados, ou com alguma “dona”.

Às 10 horas da noite, chega Bento em casa, tropeçando nas próprias pernas. A rua deve ter-lhe parecido estreita demais para andar. Deve ter vindo no “piloto automático”, pois estava completamente embriagado e cambaleando. Entrou em casa sem encarar a mulher e se acomodou na rede armada na sala. Bartira ainda ensaiou puxar uma briga, mas não conseguiu. Ficou falando sozinha. Bento mergulhou no sono “dos justos”, próprio dos embriagados. Bartira, sozinha no quarto, não conseguiu pregar os olhos. Logo que o dia clareou, a mulher foi fazer café para ela mesma tomar. Em cima da mesa, estavam as duas “chapas” do marido, completamente sujas de comida. Num ímpeto de raiva e curiosidade, Bartira não se conteve e colocou uma das dentaduras na boca, chupou e imediatamente lavrou o “veredicto”: Ah, cabra safado, você comeu PERU!!! Quando Bento acordou, a briga estava preparada:

– Seu infeliz, você comeu peru!!! A gente aqui comendo tripa seca, e você comendo peru!!!

Bento tinha passado o dia num sítio, na festa de casamento de um colega de trabalho, e tinha se empanturrado de peru.

A FLAUTA

Há várias décadas, era coisa comum retirantes nordestinos se deslocarem para o Rio de Janeiro, fugindo da seca e da miséria. Iam à procura de qualquer trabalho, cuja remuneração lhes garantisse o sustento da mulher e dos filhos pequenos, no mínimo três ou quatro. Meses depois, quando já haviam conseguido um trabalho certo, providenciavam a ida da família. Assim acontecia sempre com os nordestinos miseráveis, sem estudo, mas com braços e pernas fortalecidos e abençoados por Deus. Era a luta pela sobrevivência, a que eles se entregavam de corpo e alma.pau-de-arara

Na Cidade Maravilhosa, só conseguiam subempregos. O máximo que conseguiam era trabalhar em construção, como serventes de pedreiro, ou como empregados de edifícios, vigias, jardineiros, cuidadores de cachorros, varredores e lavadores de pratos, em restaurantes e bares.

O “paraíba”, como era chamado o retirante nordestino, chegava ao Rio de Janeiro, como quem estava pedindo socorro para sobreviver. A não ser que fosse levado por alguém, com lugar já certo para trabalhar.

Não foi o caso de Severino dos Ramos. Esse retirante viajou para o Rio de Janeiro num caminhão Pau-de-Arara, superlotado de pessoas na mesma situação, em busca do sonho de uma vida melhor. A mulher e os quatro filhos iriam depois, caso conseguisse trabalho. Instalou-se em um barraco de um amigo conterrâneo, que passara pela mesma experiência e hoje trabalhava como ajudante de pedreiro.

Tentando aprender a andar sozinho na Cidade Maravilhosa, numa certa manhã, Severino dos Ramos, com informações do amigo que o hospedava, saiu para conhecer a Feira de São Cristóvão.

Convém destacar que a Feira de São Cristovão, também chamada de “Feira de Tradições Nordestinas”, “Feira dos Paraíbas” ou “Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas”, fica perto da rodoviária. É um local com decoração nordestina, quase 700 barracas e lojas, onde há vários restaurantes especializado em cozinha nordestina e norte, e 2 palcos, onde são apresentadas bandas de forró, maxixe, xote, baião, xaxado, repente, embolada, martelo, arrasta-pé, maracatu, boleros, reggae, funk, pagode, brega, tecno e outras do gênero. Também há duelos de repentistas, que brincam com os visitantes, leitura de cordéis, shows de marionetes, e de gaiteiros vestidos de cangaceiros. Enfim, para quem é nordestino, é um verdadeiro deslumbramento.

Pois bem, Severino dos Ramos, ao chegar às imediações da Feira de São Cristóvão, teve sua atenção atraída por um aglomerado de pessoas, em volta de alguém, que, pelo som bonito de uma flauta, deveria estar demonstrando sua arte, com a esperança de receber algum dinheiro. O caipira nordestino não controlou a curiosidade e se infiltrou na plateia, até conseguir ver de perto o show que o flautista estava dando. A música tocada era o belíssimo choro Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, um dos maiores sucessos da década de 1940. Fez parte da trilha sonora de cinco filmes americanos: “Alô Amigos“, “A Filha do Comandante“, “Escola de Sereias“, “Kansas City Kity” e “Copacabana“, quando o choro, com letra de Eurico Barreiros, foi cantado por Carmen Miranda.

Severino dos Ramos, antes de apreciar o show do flautista, olhou para o chão e gritou:

– Ah, meu Deus, aqui tem é barata!

Em segundos, pisoteou três enormes baratas, que se encontravam à frente do flautista…

O caipira quase morreu de apanhar, pois o humilde músico, na sua flauta feita de bambu, tocava o choro Tico-Tico no Fubá, para que as três enormes baratas dançassem!!!

Essa “arte” era o seu ganha-pão. Enquanto as baratas se alvoroçavam como se estivessem dançando, seu ajudante passava o chapéu, pedindo qualquer trocado.

“JE NE SAIS PAS”

Damião, ex-prefeito de uma cidade do interior nordestino, e a esposa Marlete entraram num grupo, para uma excursão a alguns países da Europa. Na companhia de quatro casais amigos, compraram um pacote turístico, onde o roteiro já estava esquematizado. Passaram vinte e quatro dias numa verdadeira maratona. Todos ficaram deslumbrados com a beleza das coisas que viram em Portugal, Inglaterra, Alemanha, Suiça, França e Itália.

Após uma semana de excursão, o ex-prefeito e a esposa, que tinham mais de cinquenta anos, sentiam-se cansados. Marinheiros de primeira viagem, já estavam com saudade da comida brasileira, da cama e dos seus travesseiros. Exaustos do corre-corre, com a obrigação de acordar muito cedo, e de passar várias horas viajando de ônibus, não viam a hora de voltar para o Brasil. Cumprindo o roteiro organizado pela companhia de turismo, visitaram tudo o que havia de museus, igrejas, palácios e monumentos históricos.torre-eiffel

Acostumados a uma alimentação substanciosa, os turistas, praticamente, passaram fome na Europa, pois a alimentação era muito leve, e quase sem tempero. Nunca imaginaram que iriam sentir tanta falta da comida brasileira, principalmente da feijoada, do arroz e da carne de sol. Comiam quase por obrigação, apenas para saciar o vazio do estômago, sem gostar nem um pouco da comida. Afinal, diz o ditado popular que o melhor tempero da comida é a fome.

Em Paris, num momento de folga da excursão, o ex-prefeito Damião afastou-se do hotel, com a esposa, para dar uma volta no quarteirão. Convém salientar que o casal mal sabia ler e escrever. Em palanque político, Damião era um excelente orador. Decorava com facilidade discursos elaborados por um assessor, e sempre se dava bem. Entretanto, quando abria a boca para falar, sem discurso escrito por outrem, era um desastre.

Durante esse pequeno passeio, nas imediações do hotel onde estavam hospedados, o casal teve oportunidade de ver um cortejo fúnebre que passava. Os dois nunca tinham visto um enterro tão cheio de aparatos e luxo. Isso denotava tratar-se de alguém muito importante naquele país. Damião e Marlete, semi-analfabetos, não sabiam português e muito menos o idioma francês. Ansioso para saber de quem era aquele enterro tão luxuoso, o ex-prefeito perguntou a um homem que estava parado, assistindo a passagem do cortejo fúnebre:

– Amigo, de quem é este enterro?

– “Je ne sais pas” – respondeu o desconhecido.

Para confirmar o que ouvira, Damião afastou-se e perguntou a uma senhora:

– Senhora, de quem é este enterro?

A resposta da mulher foi a mesma do homem:

– “Je ne sais pas”.

As pessoas, que assistiam a passagem do funeral, não sabiam dizer quem havia morrido.

O casal voltou para o hotel, impressionado com a pompa daquele enterro, e comentando:

– Esse tal de “Jenecepá” (Je ne sais pas) devia ser uma pessoa muito importante aqui em Paris!!!

Uma semana depois, a excursão terminou e os turistas retornaram ao Brasil.

Quando já se encontravam na sua cidade, o ex-prefeito e a esposa fizeram questão de receber seus parentes e alguns amigos para jantar, a fim de lhes contar como foi a excursão e mostrar os retratos que haviam tirado na máquina fotográfica KODAK.

Muito conversadores, Damião e Marlete contaram todos os detalhes do passeio maravilhoso que haviam feito, o que para eles foi um verdadeiro conto de fadas. Para não dar gosto a ninguém, omitiram a parte chata da excursão, que foi a cansativa correria, uma verdadeira maratona, e o fato de terem achado a comida péssima. Só contaram coisas boas, de dar inveja a quem nunca foi à Europa. Um compadre, que estava presente, perguntou a Damião:

– Mas me diga, compadre, o que foi que você viu de mais bonito nesse passeio à Europa?

Damião respondeu:

– O enterro de um homem muito importante em Paris, chamado “Jenecepá” (Je ne sais pas). Foi a coisa mais bonita que eu vi!!!

O JANTAR

Genildo e Salete moravam na zona rural do interior do Estado, e viajaram para a capital, para uma comemoração íntima dos seus dez anos de casados. Planejaram jantar em um dos melhores restaurantes da cidade, e depois iriam passar a noite em um motel.

Chegando ao restaurante, o garçom apresentou o cardápio ao casal, que demonstrou desconhecer todos os pratos que ali constavam. Por mais que os dois olhassem para o que estava escrito, não conseguiam identificar nenhuma comida conhecida. Todos os pratos tinham nomes sofisticados, para eles totalmente estranhos. O garçom percebeu que eram pessoas muito simples e matutas, e procurou ajudá-los. Como se tratava de uma data importante, Salete desejava comer um arroz de festa, galinha caipira e farofa, ou um escondidinho de carne de sol. Também seriam bem-vindos um peixe no coco, pirão e arroz.Bacalhau-da-Noruega-à-Gomes-de-Sá_large

Perguntaram ao garçom, a composição de quase todos os pratos. Salete ficou decepcionada quando viu que galinha caipira não constava do cardápio, nem peixe com pirão. Mas haviam outros pratos finos, com nomes sofisticados, entre eles “Bacalhau a Gomes de Sá”.

A fome estava aumentando e Salete escolheu o bacalhau. O garçom disse que, dependendo da fome, um prato daria para os dois. Perguntou ao casal se eles queriam uma entrada. Genildo entendeu que teriam que pagar entrada e reclamou. Mas o garçom disse que se tratava de uma comidinha leve, enquanto chegava o prato principal. Havia como entrada pasteizinhos de Belém e bolinhos de bacalhau. O casal fez o pedido. O prato principal demoraria de 30 a 40 minutos. O garçom trouxe a Carta de Vinho e convenceu o cliente a escolher um vinho branco, chileno, dez vezes mais caro do que o Sangue de Boi que ele estava acostumado a tomar. A entrada chegou logo e em menos de 10 minutos, os pasteizinhos de Belém e os bolinhos de bacalhau foram consumidos.

Quarenta minutos depois, chegou o jantar. O bacalhau desfiado, misturado com batatinhas cozidas e cortadas em pedacinhos, cebola branca em rodelas, ovos cozidos, azeitonas pretas e alcaparras. Tudo nadava no azeite de oliva. O acompanhamento era arroz branco. O vinho havia chegado à mesa antes, e o casal o sorvia, como se fosse suco. A decepção do casal podia ser percebida. O ambiente requintado deixava os dois encabulados. A comida decepcionou em quantidade e em qualidade. O bacalhau, que para eles era comida da Semana Santa, quase não se via. Na bonita travessa, havia muito mais cebola branca e batatinha, do que bacalhau.

Se arrependimento desse febre, Genildo e Salete teriam tido febre de 40 graus. A saudade da carne de sol com cuscuz ou macaxeira era grande. A insatisfação aumentou mais ainda, quando veio a conta!!! Um verdadeiro “assalto à mão armada”.

O casal sentiu-se frustrado com o jantar e saiu do fino restaurante para um dos melhores motéis da cidade. Foram somente para, para dormir…O vinho provocou dor de cabeça nos dois, e o excesso de azeite de oliva resultou num sério desarranjo intestinal.

O PREGADOR

Em uma Igreja localizada numa capital nordestina, um antigo padre, desses que tem a “língua solta”, deixou os fieis chocados, durante a Missa do domingo. O fato ocorreu na primeira semana em que o noticiário da televisão focalizou a operação Lava Jato, e seus protagonistas. O Padre Bento estava revoltado com o assalto dos políticos ao erário público, armazenando fortunas e zombando da pobreza. Enquanto as obras assistenciais da Igreja dependiam das esmolas do povo da cidade, os ladrões de colarinho branco, políticos safados, acumulavam bens e pirâmides de dinheiro. Isso não saía da cabeça do Padre Bento. E o pior é que esses ladrões apareciam na televisão, usando a mentira como denominador comum, mostrando-se com ataques de amnésia e rindo cinicamente.celebrando missa -padre

Na hora da pregação, o padre, praticamente, surtou, extravasando sua revolta:

– Meus prezados irmãos, estamos aqui reunidos, para agradecer a Deus o dom da vida e por estarmos vivendo heroicamente, com pequenos salários, que, como uma menstruação, duram no máximo cinco dias. Enquanto isso, os Fariseus, esses desgraçados, vagabundos, mentirosos, corruptos e ladrões, iguais a muitos que estão aqui, estão aí soltos, rindo das nossas caras e fingindo um alto grau de amnésia. Por outro lado, a Justiça empurra os processos “de barriga”, protegendo os poderosos e procurando ocultar os seus crimes. Quero falar também de uma figura da Bíblia: Maria Madalena, a prostituta que quis provocar Jesus! Igual a estas mulheres que aqui estão, esperando a comunhão! São todas umas desgraçadas, vagabundas, adúlteras, mentirosas e ladras! Para compensar, quero relembrar, agora, o momento mais importante da vida de Jesus Cristo, a Santa Ceia! Jesus, naquele momento, falou aos apóstolos:

– Esta noite, um de vocês me trairá!…

Então, o apóstolo Tiago perguntou:

– Mestre, serei eu?

E Jesus respondeu:

– Não, Tiago, não será você.

Então, o apóstolo Simão perguntou:

– Mestre, serei eu?

E Jesus respondeu:

– Não, Simão, não será você.

E então, Judas, aquele desgraçado, vagabundo, mentiroso, corrupto e ladrão, que estava vestindo uma túnica toda vermelha, perguntou:

– Cumpanhêro, é eu?

O tumulto na Igreja foi grande. A pancadaria comeu solta. O Padre Bento quase foi linchado. Muitas gargalhadas foram ouvidas, vindas de um grupo de políticos.

Também foram ouvidos muitos impropérios contra o padre, inclusive palavrões impublicáveis. O prefeito quase infartou de raiva.

Na mesma noite, comunicou-se com o Bispo da Diocese, narrando-lhe o ocorrido e pedindo a imediata transferência do Padre Bento.

DR. BOSTOF

Em Nova Cruz (RN), há várias décadas entrando pelo século passado, caberia como uma luva a musiquinha de carnaval que dizia: ”Rio de Janeiro, cidade que nos seduz…de dia falta água e de noite falta luz”. Essa marchinha, que era pura ironia, se fosse cantada para homenagear Nova Cruz, estaria sendo fiel à sua realidade. Nova Cruz era assim mesmo. Não tinha água encanada, nem energia elétrica. Durante a semana, só tinha mesmo água salgada ou salobra, trazida de algum cacimbão. Aos domingos, a estação ferroviária era uma verdadeira festa. Um trem trazia “água doce”, do Rio Piquiri, em Canguaretama (RN).” Em casa, essa água era coada num pano branco, amarrado na boca de uma enorme jarra, servindo para cozinhar. Para ser bebida, a água era fervida e filtrada em filtros de barro. O trabalho de carregar galões de água, da estação ferroviária para as residências, tornou-se “profissão” e ajudava na sobrevivência de muitas famílias pobres.

Sem saneamento, toda a cidade possuía esgotos a céu aberto. Isso provocava focos de muriçocas, moscas, ratos e baratas. Todas as casas tinham sua fossa, como ainda hoje acontece. Um problema terrível acontecia, quando uma fossa entupia. Teria que ser esgotada, de forma primitiva, com ameaças à saúde, pois os limpadores ficavam em contato direto com os dejetos, sem qualquer proteção. Ficavam com fezes até a cintura. Nessa época, nem se sonhava com as técnicas atuais de esgotamento de fossas.barbeiro antigo

Em Nova Cruz, durante muitos anos, esse serviço era feito pelo “Doutor Zaqueu Bostof”, ou “Doutor Zaqueu da Bosta”. Aos trinta e cinco anos, Zaqueu vivia disso. Trabalhava por conta própria, e era desse serviço que tirava o sustento da família. Gostava de ser chamado de doutor. A gozação da rapaziada, com relação a esse apelido, era grande. Mas, na sua humildade, ele levava na brincadeira.

Na nossa casa, o desentupimento da fossa era feito à noite. Como não havia luz elétrica na cidade, o serviço era feito à luz de várias lamparinas. Zaqueu sempre levava um ajudante. Os dois usavam máscaras, cobrindo o nariz e a boca.Eram utilizados vários litros de querozene, para neutralizar o mau cheiro, e também pás e baldes para o esgotamento da sujeira. Além do pagamento do serviço, Zaqueu exigia duas ou três garrafas de cachaça, para aliviar o estresse. Era um serviço necessário, mas muito seboso, constrangedor e altamente insalubre. O serviço varava a madrugada e só terminava pela manhã.

Doutor Zaqueu da Bosta tornou-se uma figura folclórica na cidade, e seu bom humor fazia com que suportasse, sem irritação, as brincadeiras que diziam com ele..

Em frente ao armazém do Sr. Francisco Bezerra Souto, meu saudoso pai, ficava localizada a Barbearia do Sr. José Passo. Num sábado pela manhã, o novo promotor da cidade levou os quatro filhos, com menos de 12 anos, para cortar o cabelo. A autoridade ficou de ir apanhá-los duas horas depois. Muito buliçosos e irrequietos, os meninos quase puseram a barbearia de cabeça para baixo. Mexeram em tudo, destamparam loção pós-barba, jogaram talco em quem estava por perto, e queriam cortar o cabelo um do outro. O Sr. José Passo quase desistiu de ganhar esse dinheiro. De repente, o cabeceiro Chico Bacurau entrou na barbearia. Quando viu o rebuliço que os quatro meninos estavam fazendo, perguntou baixinho ao barbeiro:

– Quem são esses meninos tão endiabrados?

Discretamente, o Sr. José Passo lhe confidenciou: -São filhos de Dr. Zaqueu…

Imediatamente, o cabeceiro falou em voz alta:

– Logo vi! Só sendo filhos de dr. Zaqueu da Bosta…kkkkkkkk

O barbeiro empalideceu e cochichou ao ouvido do cabeceiro:

– Esse Doutor Zaqueu é o novo promotor de justiça da cidade!!!

O cabeceiro se retirou imediatamente, quando viu a besteira que tinha dito.

A GARRAFADA

Na parede da frente de uma antiga casa, num bairro pobre de Natal, podia-se ler um anúncio escrito em um papelão, com letras garrafais, que dizia:

“VENDEMOS GARRAFADA – PAI BUJARI CURA TODAS AS DOENÇAS, E AINDA: QUEBRANTO, OLHO GRANDE, MAU OLHADO, ESPINHELA CAÍDA, PUXADO, BRONQUITE, CARUARA (FEITIÇO), COBREIRO, MACACOA (MOLEZA), CURUBA (SARNA), ESTALICÍDIO (RESFRIADO), CONSTIPAÇÃO (PRISÃO DE VENTRE), MOFINEZ (DESÂNIMO) E ENCOSTO.”

Vininha, um homem de 45 anos, bonitão e envolvente, eternamente desempregado, leu o anúncio e seu rosto se iluminou. Acostumado a tirar proveito de tudo, imediatamente, pensou: “Vou ficar rico!”GARRAFA

Bateu palmas na porta da casa, e pediu para falar com o dono da garrafada. De repente, apareceu na sua frente um homem baixo e magro, sarará, usando óculos do tipo fundo de garrafa, aparentando pouco mais de 50 anos, que logo perguntou:

– O ilustre deseja se consultar?”

– Não. Eu quero falar com o doutor, responsável pela garrafada!

– O dono é este seu criado. Sou o doutor Bujari.

Astucioso, Vininha falou:

– Sou o doutor Vinício Figueiroa, médico. Prazer em conhecê-lo! Achei muito interessante o anúncio que li na parede. Quero saber se essa garrafada cura mesmo e se o senhor possui a fórmula.

– Possuo, sim, senhor. Foi herdada do meu tataravô, que curava doença com as plantas. Essa fórmula tem mais de cinquenta anos.

Depois de muito arrodeio, o visitante foi direto ao que lhe interessava:

– O senhor sabe que é ilegal a venda dessa garrafada? Mas podemos ser sócios. Sou muito conhecido aqui em Natal e tenho amizade com as autoridades. Posso “tirar”, na Saúde Pública, a licença para venda do “medicamento”, pago os impostos e anuncio nos jornais. Vamos ficar ricos. Mas vamos mudar o nome da garrafada para “Elixir da Boa Vida”!

Desconfiado como todo matuto, e sem levantar os olhos, o dono da garrafada disse que iria pensar na proposta. O visitante insistiu, lembrando ao “doutor” que as consultas ali anunciadas eram ilegais, como também a venda da garrafada. Lembrou que aquilo é charlatanismo, crime previsto no Código Penal Brasileiro, e dá cadeia.

O dono da garrafada, sentindo-se chantageado, concordou com a proposta do outro falso médico.

Três dias depois, o anúncio do “Elixir da Boa Vida” saiu nos dois principais jornais da cidade.

A primeira paciente que os dois “médicos” atenderam foi uma mulher histérica, de 26 anos, traída pelo marido, querendo um remédio para fazê-lo voltar para ela. A garrafada seria colocada aos poucos no café, para que o marido tomasse sem perceber. A mulher pagou a consulta, a garrafada, e saiu de lá com a certeza de que o marido deixaria a tal “maruagem” e que cairia novamente nos seus braços.

Vininha, sentado num birô, anotava os nomes dos pacientes, recebia o pagamento, e fazia a contabilidade.

Das 7 da manhã às 8 da noite, não faltava “paciente”. Chegava a se formar uma fila para atendimento no “consultório” dos dois “doutores.” Era um verdadeiro desfile da miséria humana. Toda qualidade de doença ali aparecia, merecendo destaque o número de pessoas tuberculosas, à procura do milagroso “remédio”.

Vendiam cartões de consulta e garrafas do “Elixir da Boa Vida”. Também vendiam doses do “remédio”, quando havia tratamento de urgência, com pacientes em crise. Vininha ficava sozinho no atendimento, após o almoço, durante o período da sesta do doutor Bujari. Por mais de duas horas, ele recebia o dinheiro das consultas, não anotava nada e colocava no próprio bolso.

Certa vez, chegou um casal acompanhando uma filha de 25 anos, toda entrevada, que há dias não falava com ninguém. Tinham ido a um curandeiro, que garantiu tratar-se de um encosto. Como os pais não viram progresso no tratamento, o casal resolveu levar a jovem para se consultar na capital. Chegaram, exatamente, à hora em que o doutor Bujari descansava do almoço. Vininha foi quem fez o atendimento. Viu logo que era histerismo, junto com o desgosto sofrido pelo rompimento de um namoro. Vininha fez com que a jovem bebesse um copo da garrafada lá mesmo, e garantiu que o efeito seria imediato, pois aquele remédio curava até defunto. A jovem, impressionada, tomou a gororoba e, como por milagre, destravou-se, relaxou e disse para os pais:

– Fiquei boa! Posso andar sozinha!!!

O matuto também comprou uma garrafada, para a moça ficar tomando em casa, conforme prescrição do “doutor Vinício Figueiroa”. Perguntou, então, quanto devia ao “doutor”, e o charlatão cobrou dez vezes mais do que o valor da consulta. Não anotou nada e embolsou o dinheiro.

Doutor Bujari começou a estranhar a diminuição dos apurados. Quando iam dividir os lucros, Vininha já havia embolsado muito mais do que lhe caberia. O plano do golpista era se apossar da fórmula da garrafada, trancada “a sete chaves”, pelo doutor Bujari.

Por mais que Vininha insistisse, o “doutor” disfarçava e não o atendia. Não tendo mais como apelar, Vininha escreveu uma carta anônima, ameaçando a ele mesmo e ao doutor Bujari de prisão, por estarem exercendo o charlatanismo. Nessa ocasião, exigiu que o doutor Bujari lhe desse uma cópia da fórmula, pois também iria precisar para se defender, no caso de uma possível intimação policial. Vendo-se sem saída, “doutor” Bujari deu uma cópia da fórmula ao “doutor” Vinício, mas ficou visivelmente contrariado. Feliz da vida, por estar com a fórmula da garrafada, o vigarista aprontou-se para ir embora dali, dizendo, apenas, que iria ao banco.

Enquanto isso, doutor Bujari abriu uma garrafa de bebida e ofereceu ao sócio. Disse que era uma bebida que havia recebido de presente.

Vininha perguntou:

– Que bebida é essa, Bujari?

– Uma bebida muito gostosa, que vem de um engenho. É a melhor cachaça do mundo. É ela que eu uso na garrafada, pra dar gosto.

Vininha, para agradar ao sócio, aceitou beber. Achou a bebida repugnante e fez um grande esforço para tomar. Com a língua grossa e tonto, caiu ao chão e adormeceu profundamente.

Quando acordou, já era noite. Vininha se viu sozinho e desorientado. Na casa, não havia mais nem rastro do doutor Bujari. A fórmula da garrafada também havia sumido, junto com o dinheiro que guardava no bolso.

De besta, o “doutor da garrafada” não tinha nada…

OS CORNOS

Há várias décadas, os fazendeiros ricos e senhores de engenho do Rio Grande do Norte costumavam resolver seus negócios comerciais e bancários na capital do Estado. Hospedavam-se no melhor hotel da cidade, o Grande Hotel. Era uma maneira de juntar o útil ao agradável. Resolviam todos os assuntos importantes e, em seguida, deslocavam-se para o mais famoso cabaré de Natal, “Casa de Maria Boa”.chifres cruzados

À noite, voltavam para o Grande Hotel, construção histórica, que data de 1932, instalado no bairro da Ribeira. Ali, entregavam-se à uma famosa jogatina, que varava a madrugada, regada pelo mais legítimo whisky escocês. Estouravam dinheiro à vontade, perdendo ou ganhando. Esse hotel, que há muitos anos encerrou suas atividades, em seus tempos áureos, hospedou soldados americanos, que participavam da Segunda Guerra Mundial, e políticos famosos, além dos ricos fazendeiros e senhores de engenho, hóspedes habituais. Essas viagens a Natal também serviam para que os maridos pudessem respirar melhor, longe das esposas, por quem já não nutriam qualquer atração física.

Enciumadas com essas repetidas viagens, as mulheres desses fazendeiros e senhores de engenho passaram a desconfiar dos verdadeiros motivos dessas escapadas semanais. Por isso, as brigas conjugais começaram, e elas passaram a exigir que os maridos as levassem também. Para acabar com as sucessivas brigas, os fazendeiros e senhores de engenho concordaram em levá-las consigo, semanalmente, à capital do Estado. Incentivavam que elas fossem fazer compras no comércio, passeassem nas praias, vissem coisas novas, contanto que, à noite, estivessem nos seus respectivos apartamentos, no Grande Hotel. Dentro de pouco tempo, todas as mulheres ficaram amigas e aprenderam a beber, gostando da relativa liberdade que os maridos resolveram lhes dar.

À noite, enquanto os maridos jogavam dentro do hotel, as esposas ficavam recolhidas nos apartamentos. O jogo durava até amanhecer o dia. Quando já estavam exaustos, de beber e jogar, e queriam encerrar o jogo, os homens anunciavam a última aposta da noite. Todos eles jogavam na mesa de jogo a chave do apartamento onde estavam hospedados e embaralhavam. Em seguida, cada qual tirava uma chave qualquer, e todos saíam em busca do quarto correspondente, cuja porta aquela chave abrisse. Nessas alturas, as mulheres já haviam se revelado fogosas e desavergonhadas, já aceitavam o troca-troca de homens, e já tinham sido iniciadas, pelos próprios maridos, na arte da infidelidade. Faziam isso, como uma forma de vingança contra eles, que já não as respeitavam.

Certa vez, um conhecido fazendeiro que fazia parte da jogatina, por acaso, no final do jogo, pegou a chave do seu próprio apartamento. A esposa, sedenta por sexo, estava preparada para receber outro jogador em sua cama. Ao perceber que era o próprio marido que adentrara ao quarto e se dirigia para ela, a mulher, embriagada, deu um verdadeiro escândalo, e seus gritos ecoaram em todo o hotel:

– Além de não saber jogar baralho, também não sabe, ao menos, embaralhar as chaves!!! Só merece mesmo é ser corno!! Ah, corno, filho da puta!!!

Uma das inúmeras cidades, do interior do Rio Grande do Norte, ficou conhecida como terra de corno e de mulher chifreira. Mas a culpa foi dos próprios maridos!!!

AS CADEIRAS

Há algumas décadas, Antídia, solteirona juramentada, um ser humano da melhor qualidade, era o braço forte da família. Funcionária pública federal, morava com a mãe viúva e duas irmãs, também solteiras. Era a proprietária da casa onde moravam e, como arrimo de família, responsável pela manutenção de todos. Muito zelosa e econômica, não gastava seu dinheiro com coisas supérfluas. Não tinha vaidade, e costurava para todas as pessoas da casa. Procurava fazer economia e sempre aplicava algum dinheiro na poupança, precavendo-se contra qualquer eventualidade.

Tinha mania de pechinchar e comprava sempre o que fosse mais barato, sem levar em conta a qualidade da marca do produto. Muitas vezes se arrependia, quando via que tinha comprado gato por lebre.JOGO DE CADEIRAS PARA TERRAÇO

No terraço de entrada da casa, que também servia de garagem, havia um antigo conjunto de cadeiras de ferro, com uma mesinha de centro redonda, sendo cada peça de uma cor. Apesar do muro baixo, tudo permanecia ali, durante as vinte e quatro horas do dia. Nessa época, em Natal, ainda não havia necessidade de muros altos e cercas elétricas, como hoje.

Antídia gostava muito dessas cadeiras e costumava, ela própria, pintá-las anualmente. Realizava essa tarefa com muito prazer, e isso lhe servia até de terapia.

Para sua tristeza, ao amanhecer de um certo dia, Antídia percebeu que as cadeiras do terraço haviam sumido. Estava claro que haviam sido furtadas. Como é natural, ela comentou o assunto com pessoas amigas, além de familiares. Dois dias depois, uma amiga que soubera da ocorrência do furto telefonou-lhe, para dizer que tinha visto suas cadeiras à venda em uma lojinha de objetos usados, no chamado “vuco-vuco”, no comércio do popular bairro do Alecrim. Furiosa, Antídia foi até lá, acompanhada por um policial, que obrigou o dono da loja a devolver as cadeiras à proprietária, sob pena de tê-lo que acompanhar até à Delegacia de Polícia. Muito nervoso e aparentando ser uma pessoa honesta, o homem chegou a chorar, jurando que tinha comprado as cadeiras a um casal que iria se mudar de Natal. Não adiantou a justificativa. Antídia ainda deu um “batido” no dono do “vuco-vuco”, chamando-o de ladrão, pois tinha exposto à venda um jogo de cadeiras furtado.

Um mês depois, Antídia resolveu pintar as cadeiras. Por curiosidade, procurou a marca secreta que havia posto embaixo de todas elas, no dia em que as comprara. As marcas haviam sumido. A mulher empalideceu, e quase entrou em pânico, ao se certificar de que aquelas cadeiras não eram as suas, embora fossem iguais. Sentiu-se a verdadeira ladra, e se encheu de remorso pelo ato precipitado que cometera, ao gritar, na frente do dono do “vuco-vuco”, que as cadeiras pertenciam a ela, e que ele era um ladrão. Desesperada, confidenciou a indesejável descoberta às irmãs e a outras pessoas da família.Todos opinaram no sentido de que ela deveria devolver as cadeiras ao dono da loja de objetos usados,e lhe pedir perdão. Afinal, por sua causa, o homem ficara, injustamente, com fama de ladrão ou, no mínimo, receptador.

Antídia, mesmo querendo devolver as cadeiras, sentiu-se sem coragem, para encarar o homem a quem causara tamanho constrangimento, maculando sua honra. Passou três noites em claro, chorando e pedindo perdão a Deus, pela precipitação que tivera, ao chamá-lo de ladrão, e exigir o resgate das cadeiras. No quarto dia, decidiu contratar um fretista, dono de uma camionete, e foi devolver o que não lhe pertencia ao seu verdadeiro dono, na loja de objetos usados. Entregou-lhe as cadeiras, confessou o seu equívoco e lhe pediu perdão. O homem ouviu tudo calado, de olhos baixos, abafando a sua mágoa, diante da injusta acusação de que fora vítima.

Pedir perdão é fácil. Mas juntar todas as penas, espalhadas ao vento, sobre alguém, é impossível…

As verdadeiras cadeiras de Antídia nunca apareceram. Mas o remorso por aquela acusação precipitada esteve presente em sua vida, até o fim dos seus dias…

A GRANDE INVENÇÃO

Há vários anos, o americano inventou um objeto de higiene pessoal, vendendo ao povo brasileiro a ideia de que aquilo era importante e decisivo para o destino da humanidade. Um grupo oriundo dos Estados Unidos instalou, então, uma fábrica do novo produto em São Paulo, e convenceu o povo de que o cerume dos ouvidos era responsável por problemas conjugais e pela tristeza dos apreciadores de Beethoven e Bach, quando não podiam ouvir, nitidamente, suas composições.

Antes do lançamento do misterioso produto no mercado, os donos da fábrica publicaram artigos nos mais importantes jornais do País, destacando a necessidade da higiene dos ouvidos. Diziam que tirar cerume dos ouvidos todos os dias era tão importante quanto o hábito de escovar os dentes e tomar banho. Propagaram, também, que a surdez era consequência do acúmulo de cerume.

tira-cera

Publicaram propagandas curiosas nos jornais, em letras garrafais, que intrigavam os leitores:

”O QUE CERÁ QUE CERÁ?” “CERÁ QUE VOCÊ ESCUTA O MEU CORAÇÃO?”

Os leitores acreditavam que estavam diante de grosseiros erros de Português. Depois dessa motivação, estourou na imprensa, no rádio e na televisão a campanha, cuidadosamente preparada, cujo lema era:

“TENHA MAIS VIDA, COM MENOS CERA!”

As propagandas diziam que o mais insignificante depósito de cerume nos ouvidos seria suficiente para provocar problemas de surdez. Diziam também que o cerume impedia a propagação das ondas sonoras no canal auditivo, prejudicando o prazer de se ouvir melhor uma bela música ou uma boa conversa. Também era o responsável por muitas separações de casais, pois atrapalhava o diálogo nítido. Um não ouvia direito o que o outro dizia, surgindo, então, as brigas.

Isso tudo, segundo o americano, havia sido provado cientificamente nos Estados Unidos. A recomendação, agora, era manter os condutos auditivos completamente livres do cerume. Somente assim se poderia aproveitar as delícias da natureza e da música. A companhia americana, então, lançou, no mercado brasileiro, o seu tira-cera, hoje chamado de cotonete.

Na época, num conhecido estádio de futebol, foi lançado um campeonato de tira-cera, disputado por uma centena de homens e mulheres, que faziam em público a limpeza dos seus ouvidos. Quem melhor utilizasse o milagroso objeto, tirando mais sujeira das “oiças”, ganharia um carro popular, zerinho.

Estourou no rádio um bonito chorinho, com o nome de “O tira-cera”, gravado por um conjunto de choro que, na época, fazia sucesso.

As madames passaram a ter sempre tira-cera em suas bolsas, ficando instituído o costume de se limpar os ouvidos em público.

Alguns colunistas sociais fizeram críticas ao novo hábito, mas logo foram calados por valiosos presentes, dados pela companhia americana. As opiniões ficaram divididas.

Limpar os ouvidos em público tinha sido, até então, coisa deselegante, como outros hábitos de higiene pessoal, que devem ser praticados reservadamente.

No entanto, desde que o mundo é mundo, sempre existiu o costume de se limpar os ouvidos. Só não havia o sofisticado objeto, inventado pelo americano.

Mas as críticas cessaram completamente, após o lançamento de um livro de etiquetas, de autoria de um badalado colunista social. Ele considerava a limpeza dos ouvidos em público, com o tira-cera, uma das práticas mais elegantes do momento. O autor dizia que esse habito pertencia à nobreza britânica. Agora, caberia ao Brasil adotá-lo nos eventos sociais. Uns aceitavam e outros não. Surgiram os prosélitos, com as mãos amaciadas pelos donos da fábrica. Um famoso advogado se deixou fotografar pela reportagem social, limpando os ouvidos durante um almoço com amigos, em um fino restaurante de São Paulo. Um deputado declarou que devia sua vitória, principalmente, ao uso diário do tira-cera, pois com ouvidos limpos podia ouvir melhor as reivindicações do povo.

O tira-cera ou cotonete, que antes era de madeira, atualmente é uma haste flexível, de plástico, com algodão nas duas pontas. Convém salientar que a sua utilização nos ouvidos não é recomendada pelos médicos, pois consideram que o objeto empurra a cera para uma região mais profunda, podendo provocar dor, perda da audição, e até mesmo perfuração de tímpano. Os médicos defendem a tese de que a cera protege o aparelho auditivo.

Ao desembarcar no Brasil, Mr. Taylor, presidente da companhia americana, disse, em entrevista à imprensa, que estava vindo produzir aqui, para evitar a saída das nossas divisas. E houve quem acreditasse…

O CAMELO

Quatro amigos caminhavam em silêncio por uma estrada, amargando a dor do desemprego. Todos tinham sido mandados embora, por terem contrariado o soberano a quem, há anos, serviam. Estavam completamente decepcionados, sem saber o rumo que iriam tomar na vida. Aproximou-se deles um homem muito aflito, que perguntou:

– Os senhores viram um camelo, perdido pela estrada? Esse animal me pertence, e desapareceu de repente, sem eu saber o caminho por onde seguiu.

Um dos desempregados perguntou:CAMELO

– O camelo que o senhor procura enxerga direito ou é cego de um olho?

– Ele é cego de um olho. – respondeu o dono.

– Ele é manco? É aleijado? – perguntou o segundo desempregado.

– É manco, sim! Vocês o viram?

-Ele tem a cauda curta? – perguntou o terceiro.

– Sim, ele tem a cauda curta! Vocês o viram?

– Seu animal sofre do estômago? – perguntou o quarto desempregado.

O dono do animal respondeu:

– Sim. O meu camelo sofre do estômago! Então, com toda certeza, os senhores o viram!

– Não! Nós não o vimos! – protestaram os quatro homens.

Em seguida, todos se calaram e continuaram a caminhada.

Irritado, o dono do animal perguntava a si mesmo:

– Como é que esses homens conhecem os defeitos do meu camelo? Tenho certeza de que eles são ladrões e o esconderam.

E foi prestar queixa ao delegado que, imediatamente, mandou prendê-los.

Muito nervosos, os quatro homens foram interrogados, na frente do dono do animal:

“Este homem acusa vocês de terem roubado o seu camelo.” Disse o delegado.

Os quatro negaram o fato, mostrando-se indignados com a injusta acusação.

O delegado, então, perguntou:

– Como é que vocês dizem que nunca viram esse animal e ao mesmo tempo sabem que ele é cego de um olho, manco, tem a cauda curta e é doente do estômago?

Então, um deles respondeu:

– Como somente as folhas de um lado da estrada estão comidas, tenho certeza de que o animal é cego de um olho.

Disse o segundo homem:

– Pelas pegadas na estrada, vi logo que se trata de um animal manco.

Disse o terceiro:

– Como há algumas manchas de sangue na estrada, entendi que o animal tem a cauda tão curta, que não pode espantar os mosquitos.

Finalmente, o quarto desempregado falou:

– Eu vi que as marcas das patas dianteiras do animal são bem mais fundas do que as marcas das patas traseiras. Isso quer dizer que ele anda inclinado para a frente, como andam os animais doentes do estômago.

O delegado ficou impressionado com as respostas dos interrogados e viu que estava diante de homens decentes, cheios de sabedoria. E os quatro foram liberados.

No caminho, encontraram um emissário do rei, que os mandava chamar de voltar ao reinado, para que continuassem a lhe dar seus conselhos.

No mesmo dia, o animal perdido foi encontrado pelo dono.

O CUSPE

Belmiro retornou à cidade do interior nordestino onde nascera, após passar alguns anos no Rio de Janeiro. Voltou mais bonito e traquejado. Dono de uma voz encantadora, e com trinta e cinco anos de idade, logo conseguiu um emprego de locutor da Rádio Mandacaru, a única rádio da cidade. Emocionava as pessoas com sua prece diária, às dezoito horas, “A Hora do Ângelus”, ou a hora da “Ave-Maria”. Facilmente, as moças se apaixonavam pela sua voz e também pela sua beleza. Tempos depois, Belmiro resolveu se candidatar a vereador, filiando-se ao partido do prefeito. Empenhou-se na campanha política, com o intuito de ser eleito, a qualquer preço. Procurou se aproximar de pessoas influentes, e, muito simpático, conseguiu fazer novas amizades.LOCUTOR - CARICATURA

Uma tarde, no início da campanha política, Belmiro resolveu fazer uma visita a um fazendeiro rico da redondeza, com a intenção de lhe pedir votos. Com ótima aparência e muito educado, o candidato foi recebido pelo “Coronel Mandurico” com muita gentileza. Sua boa conversa, sua eloquência e seus planos de campanha conquistaram o fazendeiro, que mal sabia ler. O poderoso “Coronel” sentiu-se lisonjeado com a visita, e terminou convidando o candidato para jantar. À mesa, sentaram-se, também, a esposa Dona Vera e a filha Tina, uma jovem de 17 anos, bonita e insinuante. A moça grudou os olhos no candidato, que ficou perturbado com o seu olhar penetrante.

Após o jantar, a conversa continuou no terraço, e, de repente, caiu um temporal, que se prolongou pela madrugada. Como a chuva não passava, e o relógio já marcava meia noite, o “Coronel” insistiu para que o visitante dormisse na fazenda, num dos quartos de hóspedes. Pela manhã, foi-lhe oferecido um café supimpa, tipicamente nordestino, com uma mesa repleta de frutas, coalhada, leite, café, queijo fresco, cuscuz, tapioca, macaxeira, carne de sol, bolos variados e outras iguarias. Durante o café, o “Coronel” garantiu ao candidato que o seu voto e os votos dos seus familiares e moradores da fazenda seriam para ele. Pouco tempo depois do café, Belmiro agradeceu ao “Coronel” o modo fidalgo como foi acolhido em sua casa, e se despediu, dando-lhe um forte abraço. Aparentemente, tinha surgido uma grande amizade entre os dois.

Após a saída do visitante, a filha do “Coronel” lhe fez queixas gravíssimas sobre ele. Contou ao pai que, durante a madrugada, o hóspede havia entrado em seu quarto e “mexido” com ela, que se sentiu literalmente estuprada, sem chance de se defender.

Indignado com a revelação da filha, e sentindo-se ultrajado dentro de sua própria casa, o “Coronel” enrubesceu, e seu sangue esquentou. Enganara-se com a boa aparência e com a boa conversa do candidato, que não passava mesmo de um canalha. Imediatamente, o fazendeiro chamou os três capangas que lhe prestavam serviço na fazenda, dando-lhes ordens para que, por um atalho, interceptassem a saida do fusquinha daquele homem desprezível, que não soube respeitar uma casa de família.

Os capangas, cada qual mais parrudo e mais mal encarado do que o outro, receberam ordem severa para aplicar ao garanhão tarado a merecida punição, de acordo com a lei do “Coronel” e os costumes da região. E os três sairam a cavalo, no encalço do candidato.

Logo adiante, os capangas conseguiram interceptar a saída da fazenda, obrigando Belmiro a parar o carro. Assustado, ele perguntou o que estava acontecendo, e um deles respondeu:

– O “Coroné” deu ordem pra “nóis” só deixar o doutor sair daqui, depois que pagar a conta!

– Mas eu fui convidado pra dormir na fazenda, pelo próprio “Coronel Mandurico” – respondeu Belmiro.

– Pra fazer mal à ”fia” dele, o doutor não foi convidado não!!! A lei aqui é pagar a conta dos malfeitos na hora, e com a mesma moeda!!!

E os capangas tiraram a roupa do pretenso futuro vereador, que foi “currado” ali mesmo, servindo de “mulherzinha” para eles. De longe, ouviam-se os gritos de dor do candidato e os apelos desesperados:

– Ai, meu Deus! Não aguento mais! Quero um remédio! Quero cuspe!!!

E o capanga da vez respondia:

– Isso é pra sofrer, cabra safado, e sem direito a cuspe!!!

A FESTA DE CASAMENTO

O grande acontecimento do ano seria o casamento de Rosa, a terceira filha do prefeito de uma cidade do interior. O noivo era Sérgio, filho de um fazendeiro. Casamento à moda antiga, na época em que não havia bufê nem cerimonial. Seria celebrado na fazenda dos pais da noiva, para onde se deslocariam o Padre e o Juiz, às 10 horas de um sábado.bolo de casamento - cenas do caminho

Logo cedo, Dona Niná, a mãe da noiva, estava no meio da casa, orientando aos serviçais. A mulher tinha convidado a cidade inteira. O marido, Antônio Santos, muito preocupado com o sucesso da festa, não parava de perguntar à esposa sobre os preparativos. Não queria que faltasse nada. Gostava de fartura, e precisava agradar ao eleitorado e correligionários.

Dona Niná, que mal sabia ler e escrever, não tinha qualquer compromisso com a gramática, e por isso tinha sua linguagem própria, e até hilária.

A toda hora, o prefeito perguntava à mulher:

– Niná, o que foi que você mandou preparar, de comida e bebida, pra esse povo todo que foi convidado?”

E a mulher respondia:

– Isso tudo que você está vendo! Muito peru assado, galinha torrada, carneiro, buchada, picado de bode, churrasco, carne de porco, fora os acompanhamentos. Tudo em grande quantidade! E ainda tem as sobremesas! Além do bolo confeitado, tem os doces de todas as qualidades, e o queijo de manteiga que está sendo feito agora. Garanto que comida não vai faltar…

O marido, nervoso, retrucava:

– Pois eu acho pouca comida!!! Era pra ter muito mais!

E os dois começaram a discutir. Dona Niná insistia em dizer que havia comida demais. Em tom de censura, o prefeito, discordava, e dizia que a mulher deveria ter mandado preparar ainda mais. Sem graça com a teimosia do marido, Dona Niná deixou que ele falasse sozinho. Irritada, fechou a cara e não deu mais um pio. E o homem continuava:

– Não vai dar! Você convidou toda a cidade!!! Vai faltar comida e bebida!!!”

Dona Niná ficou pensativa, pois não dava tempo de tomar mais qualquer providência. Além do mais, estava tranquila com relação à quantidade de comida e bebida que havia providenciado para a festa. Já tinha muita experiência, e sabia calcular muito bem a proporção em relação ao número de convidados. Não aguentando mais ouvir o marido reclamar, a mulher explodiu:

– Olha, Antônio, deixe de besteira! “Nós faz o que nós pode”! Tem comida demais, e tudo de “premeira”. Se faltar comida, nós “intera” com a pose!!!

A festa foi um sucesso…

A COPEIRA

Nos fundos de um determinado hospital de São Paulo, um casal de funcionários se atracava, trocando beijos e suspiros.

Suzete, a nova copeira, despertara o interesse do enfermeiro Roberto, um grande conquistador, ou “pegador”, na linguagem moderna. Sempre que havia chance, os dois eram vistos em rápido colóquio amoroso, longe dos olhos dos funcionários e pacientes. Suzete era uma jovem bonita, morena-jambo, estatura média, seios pequenos, cabelos ondulados, e um corpo escultural. Muito simpática e atraente, a moça se destacava entre as funcionárias do hospital. Os funcionários do sexo masculino eram todos empolgados com aquele belo colírio, que circulava pelos corredores, oferecendo cafezinho e servindo refeições aos pacientes.

Roberto, enfermeiro da sala de sutura e curativos, já trabalhava há algum tempo naquela unidade hospitalar, e era famoso por ser muito mulherengo e garanhão. Nenhuma mulher escapava ao seu assédio. Jogava as cantadas mais “poderosas” para sair com as meninas. Ele usava as regras “se colar, colou…” e “se cair na rede, não é peixe, é sereia”. E aquela copeira nova era a bola da vez. Estava deixando Roberto doido, e enquanto ele não a tivesse nos braços, em um “lugar sossegado”, não descansaria.copeira caricatura

Suzete, solteira e jovem, sentindo-se lisonjeada com as cantadas do enfermeiro, logo lhe deu esperanças de passar um fim de semana com ele. E o fogo de Roberto a contagiou. Entretanto, a moça ia adiando essa saída, alegando não ter com quem deixar a mãe inválida, num final de semana. E para se justificar ainda mais, dizia que ainda estava muito cedo para isso, além do fato dele ser casado.

Os dias foram passando, e Roberto não desistia de Suzete. Seu desejo por ela aumentava cada vez mais. E ela, muito “coquete”, sentia-se feliz por estar sendo tão cortejada por um enfermeiro bonitão. O homem não perdia oportunidade de tentar seduzí-la. Quando tinha oportunidade, sussurrava ao seu ouvido que queria lhe mostrar “a beleza da rosa”. Queria que ela visse “com quantos paus se faz uma jangada”. Esquivando-se, Suzete respondia sorrindo, que quebraria o pau e a jangada em dois minutos.

Um certo dia, pela manhã, ouviu-se no hospital um grito de dor, vindo dos fundos da cozinha. Foi um corre-corre. A nutricionista chamou o médico correndo, porque uma das copeiras sofrera uma séria queimadura com água fervendo, enquanto preparava o café. Para surpresa de todos, o acidente ocorreu com Suzete. A água do café estava fervendo e a chaleira virou por cima da moça, atingindo completamente suas coxas. Um dos médicos do plantão diurno, imediatamente, deu uma olhada e identificou ter havido queimadura de segundo grau. Prescreveu uma medicação para Suzete, e determinou que a moça fosse levada à sala de sutura, pois seria necessário fazer um curativo. Ela iria precisar, também, que fosse feito um boletim médico, e de um atestado, para que se afastasse do trabalho por alguns dias.

Suzete, muito aflita e cheia de dor, encaminhou-se ao setor de curativos, e ficou aguardando sua vez de ser atendida. O enfermeiro Roberto, seu “Romeu” apaixonado, até então não sabia do ocorrido. Da sala de sutura, chamava, um por um, os nomes dos pacientes que aguardavam atendimento. Suzete ouviu sua voz chamando: “Jorge Jacinto Pinto”! Depois ouviu Roberto chamar: “Próximo”! Depois, ouviu novamente: “Próximo!” “Próximo!!!” Ele veio até à porta e a avistou, sentada num banco, ao lado de outros pacientes, aguardando sua vez. Roberto foi ao encontro dela, e, ao saber da queimadura, mandou que entrasse na sala imediatamente.

Cheia de dor, Suzete contou o ocorrido. Suas coxas estavam totalmente queimadas. Compadecido da situação da sua amada, Roberto a ajudou a se deitar na cama para fazer o curativo. Cheia de pudor, a copeira tentava cobrir as coxas com a saia. Temia que o enfermeiro visse suas “partes pudendas”. Com muito carinho, e também curiosidade, Roberto levantou a saia da copeira e viu o estrago da queimadura, que atingira até as suas virilhas. Suzete fechou as pernas, dificultando o trabalho do enfermeiro. Pela extensão da queimadura, o enfermeiro pediu que Suzete tirasse a calcinha, para facilitar o curativo.

A moça, encabulada, fez-se de surda. Com um gesto malicioso, Roberto levantou completamente a saia de Suzete, e teve a maior decepção de sua vida: A calcinha da moça escondia uma genitália volumosa, própria dos homens. Impulsivamente, o enfermeiro puxou a calcinha da copeira, olhou, estarrecido, aqueles “documentos” descomunais, e perguntou: “O que diabo é isso???” Suzete, apavorada, gritou: “Calma! Calma! Eu ia lhe contar! Meu nome não é Suzete! E engrossando a voz, disse: Meu nome é Jorge Jacinto Pinto.

O enfermeiro Roberto nunca mais apareceu no hospital. A morena cor de jambo, que seria a sua “próxima vítima”, não passava de um tremendo traveco.

GUERRA AO SEXO

Mariana e Josias resolveram comemorar o aniversário de 40 anos de casados na Praia de Pipa (RN). Ainda muito fogosa, a mulher comprou lingerie nova e sensual, pensando na lua de mel que os dois iriam ter naquela praia, tão convidativa ao amor. Já com filhos e netos, o casal se achava merecedor dessa comemoração. Afinal, eram quarenta anos de muita tolerância, respeito e companheirismo. O amor apaixonado já havia se diluído no tempo e no espaço.

O casamento se arrastava aos trancos e barrancos. Com cinquenta e nove anos, Mariana frequentava academia de ginástica e também praticava hidroginástica. Ainda se sentia em forma, e receptiva ao amor. Josias, entretanto, com sessenta e cinco anos, há muito tempo tinha diminuído a libido, e dava mais atenção ao futebol, filmes, revistas, telejornais, do que ao sexo. Na realidade, sua virilidade tinha sumido.

O casal jantou num excelente restaurante, acompanhado de um vinho francês da melhor qualidade, e depois de algum tempo, voltou ao hotel. O vinho provocou sono em Josias e, enquanto Mariana se preparava para ir para a cama, ele adormeceu. A frustração da mulher foi grande. A lua de mel terminou aí. No dia seguinte, após o café da manhã, o casal voltou para a cama. Mariana fez tudo para excitar o marido, mas não conseguiu, o que aumentou, ainda mais, a sua decepção.

Natal-RN-Praia-da-pipa

Com a frustração estampada no rosto, no fim da tarde, a mulher propôs que voltassem para Natal.

Já em casa, Josias se desculpou à esposa e confessou-lhe que estava impotente. Disse-lhe que, brevemente, iria procurar um médico, para resolver o seu problema. Mariana, que já sabia disso há muito tempo, não fez qualquer comentário. Chateada, sentiu uma certa revolta, porque, afinal, ainda gostava de sexo. Lamentou a sua falta de sorte, por não ter podido comemorar seu aniversário de casamento, conforme planejara. A mulher sentia-se humilhada com a indiferença sexual do marido. Convenceu-se de que o seu casamento se arrastava, apenas, por causa dos filhos. Transformara-se num fracasso total.

De repente, uma luz surgiu no fim do túnel. Lendo um jornal diário, Mariana deparou-se com uma notícia que levantou seu ânimo. Havia sido lançado no mercado um medicamento, de nome Viagra, que acabava definitivamente com a impotência sexual. O homem, agora, só seria impotente se quisesse. A medicação era um verdadeiro milagre.

No dia seguinte, sem dizer nada ao marido, e entusiasmada com o que leu, Mariana se dirigiu a uma farmácia e adquiriu algumas caixas do medicamento, bastante caro, pagando com suas próprias economias. O interesse maior era seu.

Josias, há mais de um ano, tomava antidepressivo . Mariana planejou, então, substituir essa medicação pelo milagroso Viagra, na esperança de que o marido voltasse a sentir desejo sexual por ela.

Sua ideia foi providencial! Uma benção dos céus! Josias voltou a ter virilidade. Parecia um milagre!!!

Feliz da vida, Mariana sentiu-se, novamente, jovem e desejada. Sua autoestima melhorou e ela passou a ver a vida com outros olhos. A toda hora, estava rindo e dizendo: A vida é bela!!! A vida é maravilhosa!

O dinheiro que havia gasto com o Viagra compensara! Nunca mais deixaria de comprar! Ela mesma se encarregava de dar os remédios ao marido, e ele não percebia que havia deixado de tomar o antidepressivo.

Após uma semana tomando Viagra diariamente, Josias não dava sossego à mulher. Sua frequência sexual era impressionante. No começo, Mariana sentiu-se feliz da vida! Sentia-se rejuvenescida, cheia de vigor, e com os feromônios fervendo. Depois de quinze dias, a mulher começou a ficar cansada. Sentia necessidade de dar uma pausa nessa maratona sexual, e não via como. O marido estava de vento em popa!!! Queria sexo a toda hora. Não dava chance para que a mulher se refizesse do cansaço. De repente, Mariana começou a se impressionar, achando que Josias estava exagerando na dose do Viagra. Mas, se ela mesma é quem lhe dava o comprimido, o efeito devia ser normal.

A mulher começou a sentir ardor nas partes baixas, sentindo-se, literalmente, “assada.”

Não tinha mais tempo para nada, a não ser satisfazer ao marido na cama. Era de manhã, de tarde e de noite. Nem na sua lua de mel, há quarenta anos, a atividade sexual dos dois tinha sido tão intensa. Mariana sentia-se ameaçada. A qualquer momento, Josias a queria na cama! E a mulher começou a se esconder dentro de casa. Já não aguentava mais aquele rojão. E pensava: “Tudo demais é muito”. Dizia para os seus botões: “Não há mulher que aguente esse exagero de sexo!!! Estou me sentindo esfolada!!!”

Por precaução, e para dificultar as coisas, Mariana passou a dormir com duas calças Jeans.

Mas teve que tirá-las, a pedido do marido. Ávido para dar vazão ao seu desejo sexual compulsivo, Josias não queria empecilho na sua frente. A mulher, na cama, tinha que estar nua, livre e solta!!! Do jeito que o diabo gosta.

Exausta da maratona sexual que estava vivendo, Mariana passou a detestar aquela vida, e achar que estava sendo castigada, por não haver se conformado com a impotência do marido. Seu maior desejo, agora, era que Josias fosse veado. Preferia, mil vezes, o caritó!

Mariana já não conseguia conciliar o sono, depois das peripécias sexuais a que o marido a submetia. Mil pensamentos de frustração perturbavam sua mente. Mariana resolveu apelar. Passou a relaxar os hábitos de higiene. Deixou de tomar vários banhos por dia, como de costume; deixou de se perfumar e se pintar, e até de escovar os dentes antes de ir para a cama. Deixou, também, de usar roupas sensuais, dando preferência, agora, às roupas mais sérias, usadas por senhoras de idade mais avançada. De nada adiantou! O marido passou a ter ainda mais tesão por ela, querendo sexo a toda hora. A mulher estava sentindo tanto ardor nas partes baixas, que mal podia se sentar.

Mariana passou a detestar o marido. Sentia desejo de matá-lo, em legítima defesa de suas “partes baixas”. Mil pensamentos lhe enchiam a mente:

“Vou terminar matando este velho intolerável! As dores que estou sentindo quando me sento estão insuportáveis! Meu marido é um tarado sexual!!! Ele quer que eu “abra o jogo” o tempo todo. Se eu me emborco, pior ainda! Quer me atacar por todos os lados!!!”

Desesperada, implorava:

– Jesus, dai um jeito nisso, e me perdoe! Onde eu estava com a cabeça, quando fui atrás desse tal de Viagra! Isso é um remédio infeliz!!! Coisa do diabo!!! Sem falar no dinheirão que eu gastei!!! Na cabeça do meu marido, agora, só existe sexo!!! Ele deveria usar cuecas na cabeça!!! Acho que fui castigada, pois vivia muito bem, tinha tempo para tudo, e não tinha mais precisão de desejar sexo, com a idade que estou! Agora, nem televisão posso assistir mais!!!

Mariana jurou que iria voltar a dar ao marido o antigo antidepressivo e suspenderia, definitivamente, esse diabólico Viagra!

Usando o direito da legítima defesa de suas partes baixas, Mariana recolheu, em caráter irrevogável, os comprimidos de Viagra guardados na caixa do antidepressivo. Bastante revoltada, , resmungou:

“Ah, peste bubônica!!! Vou empanturrá-lo de PROSAC!!! Viagra, nunca mais!!!

Mariana deu logo três comprimidos de antidepressivo ao marido, diluídos no suco de laranja, sem ele saber. Aleluia! Aleluia! Agora vai fazer efeito!!! Josias dormiu o dia todo. À noite, também.

Muito feliz por, finalmente, poder voltar a ver suas novelas, e todos os seus programas de TV preferidos, Mariana passou a odiar sexo, Viagra, e até o próprio marido.

Josias agora passa o dia inteiro sentado em frente à televisão, com o controle remoto na mão. O trabalho de Mariana é somente lhe dar os remédios e os lanchinhos, além das refeições!!! Ele adora dormir!!! Mas continua gostando de futebol, filmes e telejornais…

Na vida, há tempo para tudo…

BONEQUINHAS DE CROCHÊ

Lara se casou muito cedo. Aos dezoito anos, apaixonou-se, perdidamente, por Quintino, que foi o seu grande amor. De família tradicional, foi educada com rigoroso primor e aprendeu com a sua mãe a cozinhar, costurar e a fazer crochê. No dia do seu casamento, antes de viajar para a lua de mel, sua mãe lhe deu de presente uma sacola, contendo uma caixa de costuras, embrulhada num lindo papel dourado e prateado. Nesse momento, abraçou a filha demoradamente e sussurrou-lhe algumas palavras, que a deixaram pensativa. O noivo assistiu a essa cena e ficou desconfiado, imaginando o que poderia ter sido aquela conversa entre mãe e filha. O que teria a sogra “cochichado” no ouvido da sua esposa?

Após a lua de mel, o casal retornou e a nova vida começou. Como todo casamento, no início os dois viviam num mar de rosas. Está provado que, no começo, “tudo são flores”. Depois, passa a cerimônia, e vem o choque de temperamento, de educação doméstica, e de desnível intelectual, se por acaso houver. Há quase um “estágio probatório”. Quando a média das diferenças entre o casal é muito alta, o que parecia ser um grande amor tende a se desgastar.bonequinhas - adriane

Quintino era servidor público, e gostava de beber. Às vezes se demorava em mesa de bar, na companhia de amigos, o que desagradava bastante a esposa. Muito implicante, a mulher tirava a paciência do marido, com ciúmes infundados, até que ele reagia grosseiramente. Para não continuar brigando, Lara pegava a sacola que a mãe lhe dera de presente e ia para os fundos da casa, isolando-se durante horas, até que os ânimos se acalmassem. Depois de algum tempo, ela pegava a sacola, guardava numa gaveta e passava a chave. Quintino nunca soube o que havia naquela sacola. Quando perguntava o que era, a esposa respondia que, como se tratava de um presente muito pessoal, dado pela sua mãe, somente a ela interessava. E Quintino, desconfiado, respondia que ainda descobriria esse segredo. E assim passaram-se os anos.

Entre as desavenças, também houve bons momentos. Viajaram muito, tiveram filhos e netos, e também aborrecimentos. Todas as vezes que discutiam, Lara se isolava num quarto, levando com ela a velha sacola. Chorava, pensando na mãe, que já não existia. Um certo dia, Quintino resolveu descobrir o segredo da esposa. Quando abriu o guarda-roupa e ia meter a mão na sacola, Lara entrou no quarto.

– Quintino!!! Eu não acredito que você vai mexer na minha sacola!!! Eu já lhe disse que você pode mexer em tudo o que é meu, menos nessa sacola! Um presente de casamento que minha mãe me deu!!!

Quintino, já mais velho e homem maduro, mesmo aborrecido e cheio de curiosidade, envergonhou-se e prometeu que nunca mais faria isso. O tempo foi passando e eles chegaram aos quarenta anos de casados. Lara adoeceu, com problemas cardíacos, hipertensão arterial, e diabetes. Um certo dia, com medo de morrer levando consigo o tal segredo, chamou o marido e lhe deu permissão para que pegasse a cobiçada sacola. Rapidamente, Quintino atendeu ao seu pedido. Pegou a sacola com muito cuidado, estranhando, entretanto, a sua leveza. Dentro da sacola, estava a caixa de costuras. O homem sentou-se na cadeira, em frente à cama da esposa, ansioso diante do segredo que lhe seria revelado. Lara abriu a caixa de costuras e Quintino viu que ela continha, apenas, agulhas, meadas de linha, e uma linda bonequinha de crochê. E Lara explicou:

– Quintino, esse foi o presente que minha mãe me deu no dia em que nos casamos.

Quintino ficou surpreso. Então esse era o grande segredo que a mulher lhe escondera durante tantos anos? Agulhas, meadas de linha e uma bonequinha de crochê?

E a esposa continuou falando:

– Minha mãe me aconselhou que toda vez que nós brigássemos, e eu sentisse raiva de você, fosse para um canto isolado, chorasse muito, e transformasse toda a minha raiva numa bonequinha de crochê. E assim, foi o que fiz durante todos esses anos, para manter o nosso casamento.

Emocionado, Quintino falou para a esposa:

– Mas Lara, uma bonequinha só? Durante todos esses anos de casados, nós brigamos tanto! Devo tê-la magoado muito, com palavras e atitudes grosseiras! Essas brigas todas, ao longo de quarenta anos de casados, só lhe serviram para fazer, apenas, uma bonequinha? Estou muito feliz, por você haver me perdoado tantas vezes! Apenas uma bonequinha de crochê!!!

Quintino olhou para a bonequinha, dentro da caixa de costuras, e viu ao seu lado um pequeno embrulho. E Lara falou:

– Pode abrir!

Quintino abriu o embrulho e viu uma boa quantidade de dinheiro. Admirado, perguntou à esposa:

– Mulher, que dinheiro é este?

E Lara respondeu, com os olhos cheios de lágrimas:

– Esse dinheiro, ganhei vendendo bonequinhas de crochê. É fruto do trabalho que minha mãe me ensinou. Ela me aconselhou a fazê-las, quando estivesse contrariada. E assim, consegui superar as crises do nosso casamento. Aprendi com a minha mãe que o trabalho é uma grande terapia.

DIA DE SÃO NUNCA

Maria do Carmo e Manoel formavam um casal perfeito, apesar da grande lacuna provocada pela falta de filhos. Vinte anos de casados, e, de repente, não mais que de repente, a mulher se viu sozinha, com a incumbência de se equilibrar em uma perna só. Essa é a sensação que tem uma viúva jovem, dependente emocionalmente do marido, para tudo, quando a desdita dela se apodera. Ela se vê mutilada, e jogada às feras. Até então superprotegida, é a partir daí que a jovem viúva passa a conhecer a maldade do mundo.

Inconsolável diante do acidente automobilístico que o vitimou, Maria do Carmo sentia a falta de Manoel, marido, amigo e companheiro, quase um pai para ela.

Manoel absorvia para si todos os problemas domésticos e Maria do Carmo sentia-se segura em sua companhia.

Decorridos dois anos da sua morte, a viúva ainda não tinha conseguido se acostumar com a permanente ausência do marido, a quem aprendera a amar e respeitar cada vez mais.

Quando surgia um problema doméstico, Maria do Carmo tentava rememorar a forma como Manoel consertava tudo dentro de casa. Se o ferro de engomar falhava, se o ventilador emperrava, se a torneira vasava, ou se a caixa de gordura entupia, era Manoel o “salvador da Pátria”. Muito econômico, por ter vindo de uma família paupérrima, e por saber o quanto é difícil para o pobre ganhar dinheiro honestamente, ele adotava a teoria: “Conserta teu pano, que te dura um ano; conserta outra vez, que te dura um mês; vai consertando, que vai te durando…”DIA DE SÃO NUNCA

Mesmo sem ter frequentado bancos acadêmicos, sem saber, Manoel era adepto do axioma do Químico e Filósofo francês, LAVOISIER, que diz: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Maria do Carmo, com a vaidade que é peculiar a todas as mulheres, ansiava por ter uma casa arrumada, com móveis novos, utensílios domésticos também novos, e eletrodomésticos em perfeito funcionamento. E chegava a discutir com Manoel sobre isso, mostrando-se injustiçada, por se achar merecedora de um certo conforto dentro do lar.

A cozinha da casa de Maria do Carmo, de repente, começou a exalar um horrível mau cheiro, vindo da caixa de gordura, de onde começou a jorrar água fétida. A viúva, que vivia com os nervos em pandarecos, invocava a memória do falecido, pedindo-lhe orientação para solucionar esse problema hidráulico. Um problema desse na caixa de gordura, para Manoel, era “fichinha”. Convém salientar que Maria do Carmo, recebendo uma irrisória pensão por morte do marido, do INSS, vivia com muita dificuldade financeira. .

Sentada no chão alagado de água pútrida, com os olhos inchados de chorar, num quadro depressivo de fazer pena, a viúva não acreditava que aquilo estivesse acontecendo

E voltou-se contra o falecido: “Manoel, você foi um ingrato, irresponsável, partiu sem aviso prévio, deixando-me na rua da amargura! Minha casa é cheia de gambiarra! Você devia ter me levado com você!!!

O rancor contra Manoel foi aumentando, e, descontrolada, estava à beira de um colapso nervoso. Tudo isso aliado à uma desastrosa situação financeira. Maria do Carmo olhou para o Céu, pedindo clemência ao Todo Poderoso!

Apesar de ser muito seco e austero, Manoel era um homem íntegro e fiel.

Seu grande defeito era ser muito “econômico”. Mas era muito trabalhador, um ótimo pedreiro, excelente bombeiro hidráulico e eletricista de mão cheia. Maria do Carmo não se conformava com a pobreza em que viviam. Tinham casa própria, boa mobília, e tudo que se quebrava, Manoel sabia consertar. Em tudo, ele dava um jeito. E isso era o grande impasse do casal. Quando quebrava o ferro de engomar, em vez de comprar um novo, como a mulher queria, Manoel mesmo consertava, mudava a resistência, e nada de gastar dinheiro com coisa nova. Emendava o cabo do ferro velho, se fosse o caso, consertava o ventilador, e até os azulejos dos banheiro eram cheios de emendas, em cores diferentes, por causa dos reparos.. A mulher ficada contrariada, mas tinha de aceitar, afinal de contas, ela não dispunha de um centavo para nada. Maria do Carmo sempre pedia ao marido alguma coisa nova. Mas entrava por um ouvido e saia pelo outro. O marido não dava bolas para os seus apelos. E a resposta de Maria do Carmo era sempre esta:

– Sabe quando é que eu vou ganhar uma batedeira de bolo? Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde!!! Sabe quando vou ganhar um ventilador novo? Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde!!!

Essa era sempre a resposta revoltada que Maria do Carmo usava. E foi não foi a discussão chegava a proporções dramáticas:

– Já pedi para trocar nosso carrinho por um com ar condicionado, e você não me ouve. Aqui faz muito calor e para sair de carro é insuportável!

Manoel, na sua calma e com um leve sorriso, respondia:

– Calma, mulher… você reclama demais. Tem gente aí que nem carro tem. Tem que fazer as compras e trazer na mão. Calma, que um dia você vai ter o seu carrinho, um dia o banheiro vai ser arrumado, tudo novo em folha! Calma, calma calma!!!

Agressivamente, Maria do Carmo gritava:

– Só se for no dia de São Nunca, do meio dia pra tarde!!! “.

Agora, viúva, e com uma irrisória pensão do INSS, Maria do Carmo lamentava o tempo perdido, por nunca ter procurado trabalhar, pois obedecia às ordens do marido.

O problema surgido na caixa de gordura da cozinha deixou Maria do Carmo muito nervosa. Em pânico, “arregaçou as mangas” e foi à luta. Criou coragem, colocou as luvas do “de cujus“, pôs uma máscara, e pegou a peneira que Manoel usava para fazer esse serviço. Com muito esforço, lembrando-se das lições do falecido, levantou a tampa da caixa de gordura e viu aquela coisa nojenta e fedida, mas não poderia recuar diante do que estava vendo. Ajoelhou-se diante da caixa de gordura e começou a limpá-la.

De repente, a peneira bateu num objeto redondo e comprido, tipo um cilindro. Maria do Carmo estranhou aquilo, mas a curiosidade foi mais forte. A mulher meteu a mão no fundo do esgoto e pegou num pote plástico, igual ao do achocolatado Toddy. E pensou consigo: “Que diabo é isso, Manoel?” Ainda ajoelhada, limpou o pote plástico e com alguma dificuldade o abriu. Para sua surpresa, dentro do pote havia um saco plástico bem amarrado, guardando pequenos tubinhos. Ela abriu o saco e desenrolou um dos tubinhos. Para sua grande alegria, eram notas de 100 reais, enroladas em um bilhetinho, que dizia: “Aniversário de 23 anos de casamento“. Aí havia 20 notas de 100 reais. Abriu outro tubinho e encontrou outro bilhete: “24 anos de casados“. Mais 20 notas de 100 reais. Outro tubinho: “Bodas de Prata – 25 anos de casados.” Mais 20 notas de 100 reais. Outro tubinho: “Feliz Natal” – mais 20 notas de 100 reais. Outro tubinho: “Feliz aniversário!” – mais 20 notas de 100 reais.

E eram tubinhos e mais tubinhos com notas de cem reais, uns com 10, outros com 20, e Maria do Carmo pensou que estivesse sonhando!!! No fundo do pote, estava uma carta, que dizia:

“Querida Carminha: Se você está lendo esta carta é porque, com certeza, eu estou doente ou já estou morto. Aí estão os presentes que eu fiquei lhe devendo: Compre seu carro, reforme o banheiro, troque todos os móveis. E compre tudo o mais com que você sempre sonhou, ao longo de todos esses anos de dedicação a mim. Você foi e sempre será o grande amor de minha vida. Fique com Deus!

Manoel, seu eterno amor.

Note bem, Carminha: O problema da caixa de gordura era esse pote. Nunca mais, você terá problemas!!!”

OS FEIJÕES

Dona Francisca chegara aos setenta anos, gozando de boa saúde, até que nos seus exames de rotina foi descoberto que ela estava com insuficiência no pâncreas e com um quadro de diabetes do tipo 2.

Querida por todos, viúva, morava sozinha na sua casa em Parnamirim, RN. Como tinha cinco filhos e vários netos, a casa de Dona Francisca vivia cheia de gente, principalmente nas horas de refeições. Não tinha como não ser! Seu arroz bem temperado, e seu saboroso feijãozinho, eram imperdíveis. No jantar, era prato certo a gostosíssima sopa de feijão.

Aliás, a viúva tinha fixação em feijão. Para ela, era um alimento sagrado, e era o que dava sustança. Era a alma da alimentação. Sem feijão na mesa, o almoço perdia a graça. Por isso, o feijão era presença diária em sua mesa.

A mulher gostava de todas as espécies de feijão: Feijão verde, feijão azuki, feijão carioquinha, macássar, feijão preto, feijão branco, feijão vermelho, feijão, mulatinho, enxofre, cavalo branco, marrom, azul, e também fava, inclusive a “gloriosa fava rajada”, de Pernambuco.

Quando fazia feira, Dona Francisca, antes de tudo, colocava no carrinho de compras, todos os tipos de feijão que ela gostava.

A idosa era muito organizada e tudo dela tinha etiqueta. Fazia questão de marcar todos os potes do freezer e pôr a data. Sua distração em casa era cozinhar feijão e congelar, usando para isso, potes vazios de sorvete Kibon.

Os demais potes que ela colecionava eram todos identificados: Café, arroz, açúcar, farinha de trigo, farinha de rosca, farinha de mandioca, maizena, farinha de linhaça, tudo bonitinho e arrumadinho no seu armário de cozinha. A mulher era mais organizada do que o partido comunista de antigamente.

Com a vinda do diabetes, ela imediatamente cortou o açúcar e passou a tomar adoçante em gotas. O açúcar de cana refinado era usado pelos filhos e netos.

Muito regrada, Dona Francisca aboliu da sua vida o consumo de açúcar, doce, bolo e refrigerante. Quando ia às festinhas de aniversário, comia um negocinho, uma besteirinha, acompanhado de refrigerante “diet”, e pronto. Não aceitava docinhos e bolos, alegando que era diabética e que precisava dar bom exemplo aos filhos e aos netos.

Mesmo assim, uma vez por outra, Dona Francisca passava mal e ligava para um dos filhos, que a levava ao Pronto-Socorro.

O que ninguém entendia era por que a glicose de Dona Francisca estava sempre muito alta. Fazia o teste de glicemia capilar e sempre dava acima de 280 mg/dl (o normal é de 80 a 120 mg/dl).

Os filhos da viúva sempre explicavam aos médicos:

– Doutor, não é possível! Minha mãe não come muito, é regrada, usa adoçante, não come doces, e procura se alimentar direito. Não faz extravagância nenhuma!

E Dona Francisca retrucava também:

– É verdade, sim! Esses remédios são umas porcarias! Tudo feito de farinha de trigo!!! Eu tomava somente um. Agora, tomo três remédios! Não adianta nada. Esses laboratórios não prestam!

E assim, Dona Francisca ligava sempre para os filhos ou para os netos, e corriam todos para o hospital, levando a idosa, que passava mal.

Quando tudo se restabelecia, voltavam para casa. Era a hora de servir aquela deliciosa sopa de feijão, que Dona Francisca havia feito com muito carinho.

Num certo dia, para tristeza de toda a família, Dona Francisca foi encontrada caída na sala, ofegante e desacordada. Foi um alvoroço só.

A faxineira, que acabara de chegar, entrou em parafuso!!! Gritou, ligou para os filhos da patroa, correu, saculejou a velha, jogou água no seu rosto, pôs um algodão com álcool no seu nariz para que ela aspirasse, e, por fim, chamou o SAMU.

A ambulância do Samu chegou e levou Dona Francisca para o hospita. Infelizmente, Dona Francisca chegou em coma, indo direto para a CTI, onde foi entubada. De acordo com os resultados dos exames, a glicose de Dona Francisca estava bastante alta.

Após alguns dias, Dona Francisca foi a óbito, tendo coma causa mortis “falência dos rins, em consequência do coma diabético”.

No dia do enterro, era uma tristeza só. Filhos e netos desolados, lamentavam a perda daquela pessoa querida. Tão boa, tão atenciosa, cozinhava tão bem! Ninguém jamais iria esquecer das suas deliciosas sopas de feijão e das saborosas feijoadas, saladas e tudo o mais.

Estavam todos sem entender, como é que a avó, que tomava a medicação própria para diabetes, não comia doces, usava adoçante, e era moderada para comer, terminara morrendo de um coma diabético.

Após o enterro, decidiram que, por enquanto, nada seria mexido na casa da falecida.

Passadas algumas semanas, as três filhas de Dona Francisca resolveram arrumar as coisas e também se desfazer das suas roupas pessoais, e outros objetos.

Após a arrumação do quarto da pranteada, as duas filhas de Dona Francisca passaram a arrumar a cozinha. Chegaram até o freezer e lá encontraram os potes etiquetados, impecavelmente distribuídos. Estranharam a variedade de feijões ali congelados, com os respectivos nomes registrados. Estranharam também nomes de feijão, totalmente desconhecidos para elas. Era tudo “lançamento”!!! Ali estavam os potes de feijão, assim distribuídos:

Na frente, estavam os potes com os feijões tradicionais, que elas conheciam:

Feijão branco, feijão preto, feijão carioquinha, feijão vermelho, fava, fava rajada “dos deuses”, feijão enxofre, feijão cavalo branco, feijão macassar.

Mais atrás, estavam outros potes, com “lançamentos de feijões”:

-1- Feijão de GRAVIOLA; 2-Feijão NAPOLITANO; 3-Feijão de FLOCOS; 4-Feijão de CHOCOLATE; 5- Feijão de CREME; 6- Feijão de PASSAS AO RUM; 7- feijão de ABACAXI; 8- Feijão de MORANGO; 9- feijão de CUPUAÇU; 10- feijão de BAUNILHA; 11 – feijão de COCO; 12 – feijão de CREME COM NOZES, ;13 – feijão de MILHO VERDE e outros.

E as três filhas de Dona Francisca foram abrindo, pote por pote, até que constataram que ali somente havia sorvete, e nada de feijão!!! .

Estava claro o motivo do descontrole glicêmico de Dona Francisca, e o coma diabético que a vitimou. A causa mortis de Dona Francisca, na realidade, foi provocada por excesso de sorvete, disfarçado de feijão. A mulher entrou em coma diabético, porque diariamente, tomava potes e mais potes de sorvete!!!

A família não sabia se sorrisse ou se chorasse!!! Afinal, a matriarca tinha sido muito feliz, comendo seu feijão diariamente e o tomando o seu sorvete, o que, para ela, era sagrado!!!

Não é para rir, gente! Isso é coisa séria!!!

feijão-capa (1)OS FEIJÕES PARA CENAS DO CAMINHO

NOÉ

Noé, rapaz de vinte e nove anos, muito tímido, procurava trabalhar numa empresa como analista de sistemas e programador. Desde cedo, lutou muito para poder estudar e seu sonho era conseguir um diploma de técnico em informática. Depois de vários currículos distribuídos, foi chamado para uma entrevista em uma das melhores empresas.

Compareceu à entrevista muito nervoso, e disposto a falar pouco, com medo de se atrapalhar.

Seu Waldemiro, o chefe da empresa, examinou-o dos pés à cabeça, como quem estava diante de um objeto. Finalmente, o homem falou:

– Muito bem, Noé, este nome que você tem é bíblico, não é?

– É, sim, senhor! Meu pai gostava muito de nomes bíblicos. Ele foi pastor de uma igreja evangélica em Canguaretama, por muito anos. Depois que faleceu, eu me mudei para Natal com a minha esposa, para estudar informática.noé no computador

O chefe continuou:

– Não foi Noé que construiu aquela arca enorme e se safou do dilúvio, quando Deus fez uma limpa no mundo…?

– Foi, sim, senhor!

– Pois, muito bem, Noé, a vaga é sua. Preciso de um técnico competente, igual ao Noé da Bíblia, que saiba usar a arca para salvar o sistema, se houver um dilúvio. Amanhã pela manhã, às oito horas, esteja aqui no setor. Seu trabalho consiste em fazer as planilhas e todos os back-ups das entradas de dados. E quando eu chamar, venha imediatamente. Quando eu chamo, é porque a coisa está pegando e está dando pau no sistema todo, entendeu?

Muito sério, Noé respondeu:

– Entendi, sim, senhor! Eu agradeço muito, e prometo fazer o possível para desempenhar bem o meu trabalho. Este é o emprego que sempre desejei.

Noé não acreditava no que estava ouvindo. Seu currículo tinha sido aprovado e iria ganhar um bom salário, com refeição, transporte e todos os direitos sociais. Faria tudo para dar o melhor de si, e se manter nesse emprego.

O rapaz foi para casa feliz da vida. Contou à esposa o resultado da entrevista e a sua grande conquista.

No dia seguinte, logo cedo, já estava na empresa.

Trabalhou muito para colocar tudo em dia, e todas as vezes que o chefe o chamava, atendia prontamente, dando assistência completa aos computadores.

Passados alguns meses, a firma estava totalmente estabilizada, e tudo corria maravilhosamente. Cada vez mais, Noé demonstrava sua competência na área de informática, deixando o chefe bastante satisfeito. Era um técnico de “mão cheia”. Diariamente, eram atualizadas as variações do mercado de ações. Todos os dados que entravam eram imediatamente compilados.

Um dia, inesperadamente, o mercado financeiro começou a cair e o excesso de dados provocou uma pane no sistema, com risco de ser travado e apagado. O chefe entrou em pânico.

Da sua sala, Noé ouviu os gritos de Seu Waldemiro:

– Noé!!!! Noéééé!!!!!!! Socorro!!!!!!”

– Pronto, senhor!! Estou aqui – respondeu Noé.

E aos gritos, completamente histérico, o chefe continuou:

– Quem está falando aqui é Deus, Noé! Pegue sua arca e salve tudo do dilúvio! Obedeça, Noé! Faz um back-up, que eu vou formatar!!!!!!

Depois de solucionado o problema, Seu Waldemiro foi levado ao pronto-socorro, com pico hipertensivo.


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