A DESAPARECIDA

Décadas atrás, numa quarta-feira, o casal Nelson e Marina, residente em Natal, passou um grande susto. Ao voltar do trabalho no final da tarde, a casa estava às escuras e sem nada preparado para o jantar.

Como de costume, Marina tinha deixado com a empregada Josefa o dinheiro do pão, e recomendado o que deveria ser feito.

Como o dinheiro não estava mais no local onde sempre era posto, o casal entendeu que a empregada tinha ido à padaria e ainda não havia voltado.

A serviçal, muito eficiente, estava nesse emprego há sete meses, e dormia na casa dos patrões. Tinha folga nos fins de semana e retornava na segunda-feira, de manhã cedo. Muito calada no que se referia à sua vida pessoal, Josefa havia dito aos patrões, apenas, que era de Goianinha (RN), solteira e tinha 32 anos. Suas folgas semanais, passava na casa de uma amiga, no bairro das Quintas.

Nelson e Marina aguardaram alguns minutos e, preocupados, saíram à procura de Josefa. Foram até à padaria, andaram pelas ruas mais próximas e perguntaram às empregadas da vizinhança se a tinham visto sair de casa. Ninguém dava notícia da moça.

Com a demora de Josefa, o casal entrou em pânico, temendo que tivesse ocorrido alguma coisa séria com ela. Pensaram em atropelamento, ou coisa pior.

Já tarde da noite, o dono da casa telefonou para o pronto-socorro, para saber se tinha dado entrada ali uma moça de nome Josefa Gonzaga da Silva, mas foi informado de que na lista dos pacientes atendidos naquela tarde, esse nome não constava. O casal passou a noite em claro, ouvindo os noticiários das melhores rádios de Natal, na expectativa de alguma notícia trágica envolvendo Josefa.

Ao amanhecer o dia, Nelson ligou para o Instituto de Medicina Legal, e respirou um pouco aliviado, ao ouvir a resposta de que o nome de Josefa Gonzaga da Silva não constava na lista de cadáveres que ali deram entrada na noite anterior.

No sábado, após o almoço, exatamente três dias após o desaparecimento da empregada, Marina ouviu alguém abrir o portão do quintal. Rapidamente, fechou a porta da cozinha e, pela fechadura, viu Josefa entrar e se dirigir ao seu quarto.

Marina tomou uma garapa (água com açúcar), para acalmar o seu “sistema nervoso”. Respirou fundo e foi saber da empregada o que havia acontecido com ela, para que abandonasse a casa daquela forma. A moça olhou para a patroa e, ensaiando um choro forçado, falou:

– Eu estava no hospital, com o meu pai. Ele veio do interior muito doente e foi operado.

Irritada, a dona da casa respondeu:

– Você devia nos ter avisado, ainda que ele tivesse morrido! Devia ter telefonado ou mandado um recado. Ficamos numa aflição horrível, imaginando que tivesse ocorrido uma tragédia com você. Já comunicamos o seu desaparecimento à Polícia, e seu retrato vai sair amanhã nos jornais, “Tribuna do Norte” e “O Poti”, como pessoa desaparecida.

Depois de perguntar à empregada o nome do seu pai, em qual hospital estava e de que havia sido operado, a patroa ouviu a resposta:

– Pai está no Hospital das Clínicas, na Enfermaria 12, leito 3, no segundo andar. O nome dele é Antônio Gonzaga da Silva. Ele se operou de “ovário”.

Admitindo que a empregada estivesse confundindo ovário com próstata, Marina anotou esses dados e, sem dizer nada, foi ao referido hospital, verificar a veracidade do caso.

Pediu informação no setor de internamento e ficou sabendo que naquele hospital não existia enfermaria no segundo andar, como também não constava o nome de Antônio Gonzaga da Silva na lista de pacientes internados. Soube também que os pacientes de enfermaria não tinham direito a acompanhante.

Marina voltou fumaçando de raiva e foi tomar satisfação com a empregada:

– Como é que você não tem vergonha de mentir tanto, Josefa?!!! Seu pai nunca esteve internado no Hospital das Clinicas! Estou vindo de lá agora! E você ainda levantou falso ao seu pai, dizendo que ele se operou de ovário!!! Quem tem ovário é mulher, Josefa!!!!

A empregada, soluçando, resolveu abrir o jogo:

– Eu tive vergonha de dizer a verdade… Fiquei grávida e tomei uma garrafada pra abortar. Tive uma hemorragia e me deu uma dor muito grande no “pé da barriga”. Com medo de morrer, fui pra Maternidade, procurar atendimento. O doutor fez uma curetagem em mim e eu fiquei internada numa enfermaria, até hoje pela manhã.

Marina não acreditou mais em nenhuma palavra de Josefa. Pegou o carro novamente, e, dessa vez, dirigiu-se à Maternidade Escola Januário Cicco. No setor de informações, ficou sabendo que, realmente, Josefa Gonzaga da Silva havia dado entrada ali, na última quarta-feira, à tarde. Fora submetida a uma curetagem de urgência, ficando internada, até aquele sábado pela manhã.

Penalizada com a realidade dos fatos, Marina perdoou a ignorância de Josefa.

A DIRETORA

Esse caso aconteceu numa cidade do interior nordestino, há várias décadas.

Dona Malva, uma severa diretora de uma Escola particular, começou a ficar preocupada com a evasão de alunas adolescentes, durante o ano letivo. Quando a evasão atingiu o número de vinte alunas, a diretora enviou uma correspondência aos seus pais ou responsáveis, convidando-os para uma conversa. Queria se inteirar das razões que estavam levando as alunas a abandonarem a escola. Aos poucos, conseguiu conversar com todas as mães ou responsáveis. Para sua surpresa, tomou conhecimento de que aquelas alunas haviam sido “desonradas” e, entre elas, seis estavam grávidas. Os pais culpavam a Escola por não as ter vigiado, no retorno para casa. E por essa razão as proibiram de sair, até mesmo para irem à Escola.

Segundo algumas mães, havia muito cabra safado “abicorando” a saída das alunas, para assediá-las e seduzi-las. Quando o sino tocava, avisando o término das aulas, um grupo de rapazes, “conquistadores baratos”, estava nos arredores da Escola, à espera de paqueras. Entretanto, queriam apenas se aproveitar das alunas adolescentes, cujos hormônios estavam na fase de efervescência.

Eram namoros passageiros e paixões violentas, que se esvaíam como fogo de palha.

E nessa pisada, a maioria das alunas não era mais “moça” , sem falar nas que estavam “de barriga”. A Diretora entrou em pânico.

A Escola ficava próxima a um Quartel militar, e a Diretora tomou conhecimento de que os “defloradores degenerados” eram recrutas daquela Corporação. Dona Malva, então, solicitou ao Comandante uma audiência, para tratar de um “assunto do interesse da Escola “Antônio Severo”, no que foi atendida. Chegando ao Quartel, acompanhada da Secretária da Escola, as duas foram levadas à sala do Comandante Villion. A Diretora, então, expôs os motivos da sua visita. Contou ao Comandante a sua aflição diante da “tara” dos recrutas que serviam àquele Quartel.

Falou sobre o problema das alunas, todas menores de idade, que por eles tinham sido defloradas, chegando algumas a engravidar. O problema era seríssimo e a evasão da Escola era grande. Disse ao Comandante que os recrutas, constantemente, aguardavam o término das aulas, para seduzir as “meninas”, provocando problemas familiares e atingindo o bom nome da sua Escola, antiga e respeitada. Queriam somente se aproveitar das “inocentes”. “Mexiam” com elas e caíam fora, sem arcar com as consequências.

A Diretora, então, implorou ao Comandante, que tomasse providências enérgicas contra os soldados. Segundo ela, as alunas da Escola continuavam sendo desrespeitadas e “desonradas” por eles, a cada dia. Esse fato, além de provocar a evasão escolar, estava denegrindo o nome da Escola. Com o prejuízo moral e financeiro, esse estabelecimento de ensino, brevemente, sucumbiria e encerraria suas atividades. Isso iria contribuir para o atraso educacional da cidade, já tão carente de assistência por parte do poder público..

O Comandante, que tinha fama de austero e prepotente, ouviu as queixas da Diretora da Escola, e, pensativo, procurou uma solução para o caso. De repente, num arroubo de brutalidade, respondeu irritado:

– Olha, minha senhora: Aqui só tem cabra macho! Todos os dias, depois das quatro horas da tarde, solto todos os meus cavalos. E eles saem loucos atrás das éguas. Eu não tenho obrigação de correr atrás de cavalo nem de zelar pela virgindade de moça nenhuma. Quem tiver suas éguas, que segure!

A diretora da Escola sentiu-se mal e saiu indignada, “pipocando de raiva” do Comandante.

Muito católica, entregou o caso a Deus!!!

A DENTADURA

Gonçala e Matilde, duas irmãs solteironas, que moravam na mesma casa, em Natal, eram mal- humoradas e se agrediam muito. As duas já tinham dobrado o “cabo da boa esperança”, e estavam na casa dos setenta anos. À medida que o tempo ia passando e elas envelheciam, mais aumentava a mútua intolerância. Mas, no fundo do coração, zelavam uma pela outra, demonstrando assim que, apesar de tudo, as duas se gostavam como irmãs.

Gonçala, professora aposentada, era responsável pelas despesas e administração da casa.
Matilde, de prendas domésticas, sempre gostou de fazer crochê e fazia trabalhos belíssimos. Não lhe faltavam encomendas de toalhas de mesa e colchas de cama.

As duas irmãs usavam dentes postiços, que só tiravam para dormir. As respectivas “pererecas” pernoitavam em copos com água. Era o costume da época, quando não havia implante dentário nem próteses dentárias fixas. Somente os donos das próteses conseguiam olhar para esses copos, sem sentir asco.

Num dia de domingo, Gonçala acordou um pouco tarde e foi logo ao banheiro, à procura da dentadura. Não encontrou o seu copo no lugar de costume. Fez, então, uma vistoria inglória por toda a casa, na esperança de encontrá-lo. Após perguntar à empregada, ao irmão e à cunhada, que estavam passando na sua casa o fim de semana, se tinham visto o referido copo, voltou-se contra a irmã Matilde, que era o seu “saco de pancadas”. Acusou-a de ter-lhe “roubado” a dentadura, que era de luxo, pois tinha dois dentes de ouro, herdados da sua avó, Dona Xinu.

Numa crise histérica, Gonçala partiu para a irmã, tentando abrir-lhe a boca à força, à procura dos seus dentes postiços. Indignada, Matilde trincou os dentes e tapou a boca com as duas mãos, não se sujeitando à tamanha humilhação.

Nesse ínterim, a casa toda entrou em polvorosa. A empregada, o irmão casado e a esposa tentaram acalmar a idosa, mas não houve jeito. Gonçala continuou culpando a irmã pelo “roubo” da dita cuja. Chamou-a de “ladrona safada”, injuriando Matilde, que, revoltada diante da injusta acusação, sofreu uma grande crise de choro.

Depois da briga tirana, quando os ânimos se acalmaram, Matilde saiu e foi passar o dia na casa de uma sobrinha casada, para desparecer.

Gonçala, ainda muito contrariada, foi tomar banho. Para sua surpresa, encontrou, sobre um banquinho que mantinha dentro do box do banheiro, o copo, com as suas “pererecas”, superior e inferior.

Cuidou logo de lavá-las e colocá- las na boca. Saiu do banheiro com um sorriso sem graça e bastante desconfiada.

Envergonhada, jurou para si mesma que não diria a ninguém onde tinha encontrado a dentadura. Esse segredo levaria para o túmulo. Por orgulho, nunca pediu desculpa à irmã. Matilde, por sua vez, nunca esqueceu a injúria de que foi vítima. O seu ressentimento durou até o fim de seus dias.

SAUDAÇÃO JUNINA

Seu Francisco, dono de uma sortida venda em Nova-Cruz, era muito sério e não gostava de piadas. Muito religioso, em casa não admitia que os cinco filhos falassem palavras chulas nem arengassem, principalmente nas horas de refeições. A bem da verdade, gostava que todos comessem em silêncio. Para ele, a hora da refeição era sagrada. Era o momento de se agradecer a Deus o alimento recebido.

Também não admitia que as filhas falassem em namoro. O filho mais velho, já casado, fumava, mas não na sua frente, ou da mãe, pois, décadas atrás, isso era considerado falta de respeito aos pais.

Na venda de Seu Francisco se comercializava uma grande variedade de produtos, incluindo cigarros “Astória”, “Gaivota” e “Continental”, e produtos alimentícios como chocolates “Refeição” e “Torrão”, Pirulitos “Kibom” e chicletes “Adams”, açúcar, arroz, araruta e café em grãos. E ainda: Enxada, foice, ciscador, ferro de engomar “Estrela” e “Itacolomy”, querosene “Jacaré”, Cimento “Zebu”, e o indispensável penico.

Para quem não conhece, o penico ou urinol é um recipiente branco, arredondado e de fundo chato, que antigamente era mantido no quarto, sob a cama. Era usado como vaso sanitário, principalmente para urinar. Os penicos mais comuns eram os de ágata e ainda podem ser encontrados em lojas antigas.

Nessa época, em Nova-Cruz, as “casinhas”, ou aparelhos sanitários, ficavam do lado de fora das casas. Por isso, o uso do penico era comum, para atender às eventuais necessidades fisiológicas durante a noite.

Era véspera de São João e, logo cedo, chegaram uns matutos na venda de Seu Francisco, para comprar penicos e também outras mercadorias. Eram todos conhecidos do comerciante e fregueses habituais. Muito sisudo, o comerciante vendeu, além de alguns penicos, outras mercadorias costumeiras, como sabão, açúcar, arroz, óleo, manteiga e papel higiênico. Seu Francisco ficou muito satisfeito com a grande saída das mercadorias, e se mostrou até brincalhão.

A feira de milho para o São João estava muito movimentada. Os matutos saíram da venda, dizendo a Seu Francisco que iriam comprar milho para que suas patroas providenciassem as iguarias típicas para a noite de São João. Despediram-se do comerciante e ouviram dele uma simpática saudação:

– Feliz São João! Comam muita canjica, muita pamonha, muito milho assado e cozido e soltem muitos traques! Boa sorte com os penicos!!!

Sem qualquer pretensão de fazer gracejo, Seu Francisco provocou gargalhadas em quem ouviu sua saudação junina.

A DAMA

Há várias décadas, Marilu era dona de uma famosa casa “suspeita” em Natal. Apesar da discriminada profissão, era uma mulher de respeito, educada e discreta. Destacava-se pela beleza e fidalguia. Apresentava-se como empresária da noite. Mas, na realidade, era uma empresária do sexo.

Autodidata, Marilu gostava de ler e estava sempre atualizada com a situação política do País. Enquanto foi jovem, despertou grandes paixões nos senhores “respeitáveis” de Natal e de fazendeiros ricos do interior do Estado.

Não frequentava templos, mas no seu quarto mantinha sempre uma vela acesa, junto aos santos de sua devoção.

O seu estabelecimento comercial era frequentado, assiduamente, pelos homens mais ricos da cidade, incluindo conhecidos políticos, advogados, médicos etc.

Entre os principais frequentadores, estava o Sr. Vilton, um conhecido político de Natal. Apesar de ser “bem casado”, bom marido e excelente pai, esse homem era perdidamente apaixonado por Marilu.

Dona Conceição, sua esposa, de prendas domésticas, ia à missa constantemente, comungava e vivia longe da maldade do mundo. Não imaginava, nem de longe, que o marido frequentasse certos ambientes.

Entre os amores de Dona Conceição e das duas filhas ainda crianças, estava Popó, uma cadela da raça “Poodle”, que acabara de dar cria a quatro lindos filhotes.

O Sr. Vilton avisou à esposa que o filhote mais bonito seria dado de presente à Dona Marilu, uma empresária amiga sua, muito decente, que era louca por cachorros. Disse que essa amiga era uma grande dama e muito respeitada em Natal.

Passados alguns dias, Dona Conceição, arrumando o escritório do marido, encontrou um cartão de visitas de Marilu, a empresária, e anotou o telefone. Curiosa para conhecer essa amiga do marido, cantada por ele em verso e prosa, quis lhe fazer uma surpresa. Telefonou para a mulher, convidando-a para lanchar com ela em sua casa. Disse-lhe que queria ter o prazer de conhecer essa grande amiga do seu marido e também queria lhe entregar o cachorrinho que estava reservado para ela. Ficou combinado que, naquela tarde, à 17 horas, Marilu iria até a sua casa.

Na hora marcada, parou na casa do Sr. Vilton e Dona Conceição um luxuoso GALAXY azul, conduzido por um motorista fardado. Do carro desceu a empresária Marilu, muito bonita, impecavelmente vestida num “tailleur” bege, super discreto, usando sapatos pretos de salto alto e uma bolsa preta. A empresária trouxe para a dona da casa uma corbeille de rosas.

A mesa posta para o lanche tinha o requinte das pessoas nobres. Lá estavam deliciosas iguarias, incluindo bolos, biscoitos, queijos e doces, acompanhados de sucos, chá e café.

As duas damas se cumprimentaram, e Dona Conceição ficou admirada com a fineza, a beleza e a jovialidade da empresária. Certa de que seu marido ficaria muito feliz com aquela surpresa, Dona Conceição disse a Marilu que ele logo estaria em casa.

O Sr. Vilton quase teve um “passamento”, ou melhor, um infarto, ao encontrar estacionado na sua porta o conhecido Galaxy de Marilu, a famosa empresária do sexo, que todos os homens de Natal conheciam.

Ao ver a esposa em altos papos com a visitante, o homem empalideceu, ficou sem graça e quase perdeu a voz.

Considerava Dona Conceição uma santa e não admitia que ela fizesse amizade com uma profissional como Marilu.

Com esse susto, o Sr. Vilton se afastou completamente da “empresária do sexo”.

Dona Conceição nunca soube a verdade sobre aquela “dama”.

LOURINHO

Padre Honório gostava muito de animais. Dizia sempre que eles, quando bem tratados, eram mais dóceis do que os humanos. Só atacavam para se defender. Para ele, era difícil aturar pessoas inconvenientes, ignorantes e tagarelas.

O sacristão da Igreja, da qual era o vigário, tinha sido dispensado por contrariar suas ordens, ter o raciocínio lento e ser desorganizado. O Padre estava cansado de gente burra.

De uns tempos para cá, muito ranzinza, levou a capricho e permaneceu sem sacristão. Preparava o altar, as galhetas com água e vinho para serem misturados e consagrados em Sangue de Cristo, organizava a Missa e selecionava hinos e orações. Vestia os paramentos sozinho e aguardava, no altar, a chegada dos fiéis.

Padre Honório morava com os pais e uma empregada doméstica, o que era comum em paróquias do interior nordestino. Sua residência ficava ao lado da Igreja, havendo entre elas uma porta de comunicação.

Há quinze anos, Dona Gabi, sua mãe, recebera de presente um papagaio, ainda empenando. Lourinho, era a alegria da casa. Interagia com o vigário, cantava os benditos que ouvia nas missas e nos terços de maio, e não deixava de atender quando alguém conhecido lhe pedia: “Dá cá o pé, meu louro.”

No mês de maio, depois do Terço noturno, o padre e os fiéis cantavam a belíssima Ladainha de Nossa Senhora, em Latim. Enquanto todos cantavam, o padre distinguia, um pouco distante, uma vozinha afinada e aguda, que acompanhava o coro: “O-O-RA PRO NOBIS!” Padre Honório descobriu que a voz tímida que ele ouvia era a de Lourinho.

Anos depois, o Padre Honório faleceu e, muito triste, na mesma semana Lourinho fugiu.

Passados cinco meses da morte do Padre Honório, um grupo de caçadores ouviu, dentro da mata, uma cantoria religiosa, que parecia vir de algum mosteiro. Os homens adentraram à mata, à procura do suposto mosteiro, mas nada encontraram. De repente, um bando de papagaios pousou numa grande árvore, diante dos caçadores. Todos entoavam, compassadamente, e com voz afinada, a Ladainha de Nossa Senhora:“Sancta Maria, oora pro noooobis/ Sancta Dei Genitrix/ oora pro noobis/ Sancta Virgo Virginum, oooraa pro noobis. Mater Christi, oora pro noooobis/ Mater divinae gratiae, oora pro noobis/ Mater purissima, oooraa pro noobis……………………………..”

Zé Bento, um dos caçadores que frequentava a Igreja e tinha amizade com o vigário, reconheceu Lourinho, puxando a cantoria, e se emocionou. Sabia do carinho que o finado Padre Honório tinha por ele.

Para tirar a dúvida, o caçador perguntou:

– Lourinho, cadê Padre Honório?

E Lourinho respondeu:

– “Padre Honório “tá” dormindo…….Padre Honório “tá” dormindo”…”

E os papagaios, cantando a Ladainha, voaram em bando e desapareceram dali.

Lourinho havia ensinado aos “companheiros” a cantar a Ladainha de Nossa Senhora.

O FORRÓ

Na etimologia popular, a origem da palavra “forró” está associada à expressão da língua inglesa “for all” (para todos). Para essa versão, conta-se que no início do século XX, os engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco, para construir a ferrovia Great Western, sempre promoviam bailes abertos ao público, ou seja “para todos”. O termo passou a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos.

Outra versão da mesma história substitui os ingleses pelos americanos fixados em Natal, no período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar foi instalada em Parnamirim (RN). As festas na base aérea eram constantes e os americanos disponibilizavam ônibus para levar as moças da sociedade natalense para os bailes que promoviam. Daí surgiram namoros e muitos casamentos de jovens potiguares com soldados americanos.

Atualmente, o forró é a dança mais popular do Nordeste brasileiro e a que provoca maior animação entre as pessoas jovens. As tradicionais festas juninas só são autênticas, quando abrilhantadas por conjunto de forró pé-de´serra, com sanfona, triângulo e zabumba.

Pois bem. Adelino era comerciante, casado com Adélia, e o casal tinha três filhos. Os dois se queriam muito e se tratavam carinhosamente por Fio e Fia. Estudo, tinham pouco, mas o comércio prosperava cada vez mais, e o “vil metal” dá brilho e estudo a quem não tem. Tinham uma loja de sapatos invejável, residência chique, automóvel do ano, conta bancária gorda e mesa farta. Os meninos estudavam em colégio particular e o casal dispunha de empregadas domésticas.

Adelino (Fio) e Adélia (Fia) gostavam muito de festas, religiosas ou profanas, e eram excelentes colaboradores das obras assistenciais. Frequentavam os bailes, realizadas no clube social da cidade e gostavam muito de dançar. O casal era o que se chamava, na época, “pé de valsa”.

Era o mês de junho, o mais festeiro do ano. O autêntico forró pé-de-serra dominava as festas, pois nessa época ainda não havia o desconcertante forró eletrizado. Na véspera de São João, o casal recebeu parentes em sua casa e a bebedeira rolou o dia todo. Na hora da festa propriamente dita, 21 horas, Adelino já estava triscado e puxando o fogo.

Foram todos ao Clube Comercial, para a festa de São João, onde o Conjunto “Peba na Pimenta”, estaria tocando o legítimo forró pé- de- serra, com um sanfoneiro que se dizia discípulo de Luiz Gonzaga. O som do forró contagiou os presentes e logo o salão ficou lotado.

Adelino (Fio) e Adélia (Fia) dançavam como duas carrapetas, rodando sem parar. Numa das rodadas, Fio se desequilibrou e caiu no meio do salão, arrastando a mulher.
Com o pé torcido, Fia, chorando, reclamava:

– Tá vendo Fio? Eu já disse que não gosto dessas “cuivas.”

“BURRA COM QUATRO ERRES”

O cuscuz de milho, iguaria que faz parte da mesa nordestina, inclusive, no café da manhã dos melhores hotéis, foi trazido para o Brasil, durante a colonização dos portugueses, no século XV.

Inicialmente, era uma comida destinada às famílias pobres e aos escravos.

A produção do fubá de milho, era feita de forma artesanal. Depois que o milho secava, era debulhado e triturado no pilão, ou passado em moinho.

Apesar de existir cuscuz de mandioca, de arroz ou de macaxeira, o verdadeiro cuscuz brasileiro é feito com milho seco, moído ou pilado.

A fase artesanal da preparação do milho, para cuscuz e outras iguarias, foi substituída pela industrialização do produto. Inúmeras fábricas passaram a oferecer ao consumidor o milho já pronto, para os diversos usos.

Há décadas, quando ainda não havia cuscuzeira em Nova-Cruz (RN), o cuscuz cozinhava na boca da chaleira (RN). A massa do cuscuz era preparada e posta em um pires, modelada e coberta com um pano fino, dando-se um nó por baixo. No lugar da tampa da chaleira, era posto esse pires, emborcado, com a massa do cuscuz, para cozinhar. Não tinha “errada”. A água fervia e em quinze minutos, o cuscuz estava cheirando. Era o tempo de cozimento. Em seguida, era posto em um prato, retirando-se o pano que o cobria. Imediatamente, era molhado com leite de coco natural. Estava pronto um cuscuz bonito e saboroso.

Certo dia, Dona Lia recebeu uma moça do sítio, chamada Carmita, para trabalhar em serviços domésticos. A primeira providência foi ensiná-la a fazer o cuscuz, para o café da manhã. A moça disse que já sabia e que estava entendendo tudo muito bem. Mas não entendeu nada! Colocou a massa do cuscuz diretamente dentro da chaleira, pondo tudo a perder! Foi uma decepção, e Dona Lia ficou muito contrariada.

Com o tempo, Carmita aprendeu a fazer cuscuz, com perfeição.

Dona Lia esforçava-se para alfabetizar as empregadas que vinham do sítio, para trabalhar em sua casa. Comprava-lhes a Carta de ABC, cartilha, caderno, lápis e borracha, e separava um horário, à tarde, para lhes dar aula. Raramente, conseguia o seu intento. Está provado que a subnutrição prejudica o raciocínio e a inteligência.

Uma certa tarde, Dona Lia, tomando a lição de Carmita, pela décima vez, desiludiu-se completamente, e lembrou-se da cena do cuscuz! Todo o seu empenho em ensinar a moça a ler fora perdido. A página aberta da Cartilha mostrava uma bola, um dado e uma borboleta. Abaixo de cada desenho, estavam as sílabas correspondentes ao respectivo nome. Dona Lia tomava a lição da aluna:

– Carmita, leia:

B-O-BO, L-A LA?

– Bola. – a moça respondeu.

Empolgada, Dona Lia prosseguiu:

– Carmita, leia: D-A DA, D-O DO?

E Carmita respondeu:

– BOZÓ!!!

– Dona Lia se irritou e mostrou que o que estava escrito era “DADO”, apesar de ser sinônimo de BOZÓ.

E continuou:

– Carmita, e agora?

– B-O-R BOR, B-O BO, L-E LE, T-A TA?

E a moça respondeu:

– BRABULETA!

Com relação a Carmita, Dona Lia desistiu. 

Desanimada, sem que a “aluna” ouvisse, resmungou:

– Essa moça é BURRA, COM QUATRO ERRES!!!

A INTERNA

Dona Seráfica, antiga professora de Inglês de um Colégio de freiras, em uma cidade do interior nordestino, era muito querida pelas alunas, inclusive as internas. Nessa época, o internato era visto como uma espécie de castigo, a que os pais ricos submetiam as filhas insubordinadas. Geralmente, a história de cada aluna interna estava relacionada a um namoro precoce, ou uma paixão, que os pais queriam interromper a qualquer preço.

Dona Seráfica lecionou nesse Colégio nos idos de 56/70. Pelo seu modo maternal de tratar as alunas, era sempre procurada por elas, quando queriam conversar sobre algum problema pessoal. Isso acontecia durante o recreio e no intervalo das aulas. Com o tempo, a professora tornou-se uma espécie de confidente e orientadora das alunas, especialmente as internas.

Como mãe de cinco filhos, e de natureza boníssima, a professora sabia compreender a alma das alunas e tinha prazer em conversar com elas.

Por outro lado, as religiosas eram austeras e tratavam as alunas com muito rigor. Não havia entre elas conexão de amizade. Eram respeitadas e temidas por todas, em virtude dos castigos que costumavam aplicar.

Rosa, uma das filhas de Dona Seráfica, era colega de classe de Zuíla, a aluna interna, vinda da capital. Certa vez, ao terminar a aula, Rosa já se dirigia à saída do Colégio, quando, correndo, Zuíla a alcançou e pediu-lhe para entregar a Dona Seráfica uma carta, em um envelope fechado. Em seguida, a interna voltou ao interior do Colégio. Imediatamente, Irmã Florinda, uma religiosa alta e carrancuda, temida pelas alunas por seu modo grosseiro de tratá-las, gritou o nome de Rosa no portão do Colégio, ordenando que lhe devolvesse a carta de Zuíla:

– Devolva essa carta, Rosa! Você não vai levar carta de Zuíla pra ninguém! Você vai ser suspensa!!!

Ao ouvir a voz da detestável freira, Rosa, no vigor de seus 13 anos, de um fôlego só, desembestou em uma carreira, da porta do Colégio até a casa de sua mãe, a professora Dona Seráfica. Os gritos escandalosos da Irmã Florinda foram uma verdadeira convocação para que quase todas as freiras saíssem em disparada, correndo atrás de Rosa, para tomar-lhe a carta à força.

Dona Seráfica, que estava deitada e febril, assustou-se com a chegada brusca de Rosa, que lhe entregou a carta de Zuíla e lhe avisou que as freiras vinham correndo em seu encalço para tomá-la. Cinco minutos depois, a maratona das freiras esbarrou no portão, num verdadeiro escarcéu. Cada qual que gritasse mais alto, pedindo a carta de volta.

Quando Dona Seráfica ouviu o barulho, apareceu ao portão com a carta na mão, ao lado da filha Rosa e lançou o desafio:

– A carta da minha aluna está aqui, e eu quero ver qual de vocês terá o atrevimento de tomá-la da minha mão! Amanhã vou levar ao conhecimento da Madre Superiora esse ato ignóbil! Vocês não são dignas de vestir esse hábito de freira!

E as franciscanas, lideradas pela Irmã Florinda e completamente murchas, voltaram ao Colégio.

A IDADE CAPRICHOSA

Nada mais chocante para uma mulher do que a realidade inexorável do tempo. É quando ela se olha no espelho e tem que aceitar que “já não tem 35 anos”. Não existe maior desilusão do que essa. Umas tentam “amarrar” a idade, querendo competir com as jovens, na maneira de se vestir. Outras travam uma luta permanente contra o envelhecimento, apelando para cirurgias plásticas. Mas não adianta tentar esconder o sol com a peneira.

Está provado que 90% do sexo feminino tem pavor à velhice. A autoestima tende a baixar e, às vezes, isso provoca até depressão. Mas cada idade tem sua beleza e seu charme. O importante é que mulheres e homens nunca renunciem aos seus sonhos, colocando o amor acima de tudo.

A reação contra o envelhecimento não é marca registrada das mulheres. Geralmente, os homens, também, tem pavor a essa realidade. Tem medo de perder a virilidade, um fato difícil de esconder. Alguns pintam os cabelos e o bigode, achando que ficarão mais jovens. Entretanto, com isso, às vezes se tornam menos bonitos, pois renunciam ao charme de um cabelo grisalho, o que somente neles fica bem.

Certos cuidados para com uma pessoa “madura”, apesar de lhe serem dispensados como cortesia, são recebidos, também, como uma forma de discriminação.

“Pois não, senhor!” “ Senhora, por favor, sente aqui nesta cadeira!” “O (a) senhor (a) é preferencial! “ “Qual é o segredo da senhora(o) estar tão jovem?” “Tomou o elixir da juventude?” “Quando é que se aposenta?”

Essas frases soam aos ouvidos das pessoas maduras, como um aviso reiterado de que o tempo áureo de suas vidas já passou.

Em Natal (RN), havia um senhor idoso, Seu Amadeus, que negava tanto a idade, que esquecia de que seus três filhos também estavam envelhecendo. Nenhum deles sabia, ao certo, a idade do pai.

Certa vez, em uma roda de amigos, no Bar do Caranguejo, um dos presentes perguntou a Seu Amadeus a sua idade. Em cima da bucha, ele respondeu:

– Tenho 65 anos… – na realidade, ele contava 78.

O filho de Seu Amadeus, que tinha tomado umas cervejas e estava “puxando fogo”, rindo muito, interferiu na resposta:

-Eita, pai! Estou quase pegando o senhor!!!

A gargalhada dos amigos de Seu Amadeus foi grande. Isso deixou o idoso irritado, o que fez com que se retirasse dali imediatamente.

Ficou “de mal” com o filho durante vários dias, e também se afastou do bar por algum tempo.

UM CONTO DE FADAS

Na década de 60, Ronaldo e Zélia se casaram, em Natal (RN), e seguiram de carro para Garanhuns PE), para passar a lua de mel. Estava na moda, para as pessoas endinheiradas, passar a noite de núpcias em um tradicional hotel “5 estrelas”, que havia naquela bonita cidade.

Ronaldo havia reservado a hospedagem pelo telefone, por sugestão de um casal amigo, que já conhecia o hotel, inclusive tendo passado lá, também, a noite de núpcias.

Em lá chegando, os recém-casados ficaram encantados com a beleza do hotel e o clima frio de Garanhuns. Estilo colonial, o hotel, além de bonito, era muito agradável.

Os quartos eram enormes e conjugados, porém isolados por uma pesada porta de madeira maciça, com trinco em estilo colonial. Esse tipo de quarto era ideal para a hospedagem de casais com filhos e babás.

Os dois jovens, muito apaixonados, ocuparam o apartamento reservado e se surpreenderam com a sua belíssima e requintada decoração. A roupa de cama e banho, cheia de bicos e bordados, de tão bonita, lembrava um cenário de um conto de fadas. Sobre uma mesinha redonda, forrada com uma toalha de renda branca, havia um balde com champanhe no gelo, duas taças de cristal e um vaso com flores naturais. Havia também um cartão da direção do hotel, saudando os nubentes. Tudo preparado divinamente, o que tornava o ambiente ainda mais aconchegante para o casal.

Nessa época, a noite de núpcias era esperada com muita ansiedade, e a virgindade da mulher era sagrada. A lua-de-mel era a realização de um belo sonho. O sonho das “mil e uma noites”.

Os recém-casados, cansados da viagem, não saíram do quarto para nada. Tomaram banho e se jogaram nos braços um do outro, embalados pela magia da noite de núpcias. O casamento foi consumado em um clima de muito amor, até que os dois adormeceram.

Acordaram pela manhã, assustados com uma voz rouca dentro do apartamento. Era um homem idoso, de bigode farto e chapéu, que, indignado, falava alto perto da cama:

-Oxente!!! Que enxerimento é esse na minha cama??!!!

Ronaldo respondeu, gritando indignado:

-O senhor invadiu nosso quarto!!!

O casal se vestiu rapidamente e Ronaldo chamou a gerência, no que foi, prontamente, atendido. O gerente, então, constatou um descuido imperdoável da administração, em se tratando de um hotel daquele nível, conhecido nacionalmente. Simplesmente, a chave da porta, que interligava os dois apartamentos conjugados, não havia sido retirada da fechadura, antes da chegada dos hóspedes. Continuava no lado da porta, que dava para o apartamento vizinho ao dos noivos. Ali estava hospedado o “invasor”, na companhia da esposa e de uma filha.

Inadvertidamente, esse hóspede abrira a tal porta, pensando que era a saída. Queria tomar logo o café da manhã, enquanto as duas hóspedes ainda dormiam. Tratava-se de um fazendeiro muito decente, de Campina Grande (PB), que ficou muito contrariado com o ocorrido.

Segundo Ronaldo, o susto que ele e a esposa passaram foi tão forte, que prejudicou o clima da lua de mel. Somente após o retorno a Natal, o interesse sexual dos dois voltou ao normal.

O Hotel dispensou o pagamento da hospedagem e pediu mil desculpas ao casal.

A COMPREENSÃO

Um antigo médico de Natal, certa noite, estava de plantão em um hospital público e, casualmente, passou pelo corredor. Deparou-se, então, com um paciente, que tinha saído da enfermaria e estava sentado em um batente, falando sozinho.

O simpático médico perguntou ao interno:

– Perdeu o sono, amigo? Por que não está em seu leito, dentro da enfermaria?

Ao ver o médico, o homem ficou encabulado e quis justificar o motivo da sua insônia:

-Boa noite, doutor! “Tou” aqui pensando na vida. Pra viver bem, todo homem tem que ter compreensão! É a coisa coisa mais importante desse mundo!.

O Médico, curioso, indagou:

– O que foi que houve, para o senhor estar pensando nisso agora?

O paciente respondeu::

– Escute minha história, doutor! No mês passado me dirigi à Rodoviária, à tarde. Ia viajar para Caruaru, onde compro mercadoria para revender. Houve um engarrafamento no trânsito e eu perdi o ônibus. A viagem ficou para o dia seguinte. Aproveitei para resolver umas coisas no Alecrim e só cheguei em casa à noite, sem minha mulher esperar. Abri a porta com a minha chave e ouvi conversa no nosso quarto. Entrei sem fazer zoada e quis fazer um susto a Zefinha. Mas quem teve o susto fui eu! Encontrei minha mulher abraçada e se beijando com uma lapa de moreno, até bonito. Gritei com muita raiva: 

– OXENTE! Que marmota é essa, Zefinha? Perdi o ônibus e quando chego em casa encontro você me chifrando desse jeito?!!!

Muito nervosa, minha mulher respondeu:

-“Ômi”, você não saiu dizendo que só voltava amanhã?!!!Mas não é nada disso que você está pensando!!!Deixa eu explicar, Manoel! Este rapaz é meu primo e chegou ontem do Rio de Janeiro, onde mora. Veio hoje aqui me visitar,.de surpresa. Pediu pra descansar um pouco e eu ofereci a nossa cama. A gente estava só conversando sobre problemas de família. Ele estava contando as novidades da família lá no Rio. Ele é muito delicado e sempre gostou muito de mim. Sou a prima preferida dele. Estava me abraçando e beijando com muito respeito!

E o paciente continuou sua história::

– Olhe, doutor: Sou um homem muito compreensivo e entendi logo aquilo que eu estava vendo na minha frente. Minha mulher e o primo dela estavam só conversando sobre assuntos de família! E em assuntos da família dela, eu não me meto. Então, eu disse pra ela:

– Minha filha, como se trata de problemas de família, eu vou ali na rua e vou deixar vocês à vontade. Mais tarde, eu volto. Fique aí conversando com seu primo e botando os assuntos de família em dia! Como é mesmo a graça dele?
– Carcará! – respondeu Zefinha.

– Só voltei de madrugada, doutor, e dormi no sofá. Minha cama continuava ocupada. O primo de Zefinha devia estar muito cansado, pra dormir daquele jeito!!! Eu vou lá me meter em assunto de família!!!

Por isso é que eu digo: Nessa vida, todo mundo tem que ter COMPREENSÃO!!!

O FREGUÊS

Tributino, 40 anos, era um tipo bonitão, bem parecido e com uma lábia impressionante. Namorava muito, mas não se ligava a nenhuma mulher. Muito falante e educado, não perdia oportunidade de aplicar golpes em pessoas conhecidas e desconhecidas. Vivia de biscates, e de bajular políticos.

Em Nova-Cruz, anos atrás, enganava a Deus e ao mundo. Filho da terra, ninguém acreditava mais em suas enroladas. Se pedisse 100 cruzeiros emprestados a alguém, não conseguia. Era capaz de receber, dados, ao menos 10 cruzeiros, para que não ficasse enchendo o saco de ninguém. Quanto mais o tempo passava, mais caloteiro se tornava. Não roubava, mas sabia pedir, que dava gosto. E não pagava nem promessa a santo.

Certa vez, pegou o trem das dez horas em Nova-Cruz e viajou até Guarabira (Pb), para voltar à noite.

Nova-Cruz, “capital” do Agreste do Rio Grande do Norte, faz fronteira com a Paraíba, e nessa época trafegava por lá, diariamente, o trem da Rede Ferroviária Federal, de Natal para Recife e de Recife para Natal.

Em Guarabira, Tributino se dirigiu ao armazém de secos e molhados de Seu João Batista e disse que queria pagar uma conta sua, que há um mês tinha deixado ali “pendurada.” O dono não se lembrava desse freguês e depois de procurar o nome de Tributino da Silva no caderno de Fiados, convenceu-se de que se tratava de um equívoco. Entretanto, Tributino insistiu muito, e disse que o valor da compra tinha sido de 80 cruzeiros, e que fazia questão de pagar. Disse que detestava dever. Herdara do pai o dom da honestidade.

O dono do armazém foi obrigado a pensar na possibilidade dessa compra ter sido feita ao seu filho Juninho, num momento em que não se encontrava no estabelecimento comercial. Certamente, o rapaz esquecera de anotar. Para dar a conversa por encerrada, Seu João Batista recebeu os 80 cruzeiros e o freguês se mandou.

No final do horário comercial, perto das 17 horas, Tributino voltou ao armazém de Seu João Batista, trazendo nas mãos dois sacos vazios enormes, e uma relação de mercadorias para comprar. O velho comerciante o atendeu, feliz por estar diante de um freguês daquele quilate. Fez a conta com um lápis no caderno próprio, e o valor total da compra somou 480 cruzeiros. Tributino, então, que já tinha comprovado sua honestidade, ao pagar 80 cruzeiros, referentes a uma compra que o credor desconhecia, pediu-lhe que anotasse o valor da compra atual, prometendo-lhe voltar na próxima semana, para efetuar o pagamento.

Satisfeito com a excelente venda, o comerciante não hesitou em concordar com o pedido do freguês, mesmo diante da entrega imediata da mercadoria. Afinal, esse freguês era nota dez, e já tinha dado provas de que era um cabra de moral, decente e honesto. Portanto, essa dívida, agora registrada no caderno de Fiados, era dinheiro certo.

Tributino se despediu do dono do armazém cordialmente, agradecendo-lhe a confiança. Garantiu-lhe que, na próxima semana, pagar-lhe-ia essa conta. Retornou a Nova-Cruz no trem das 19:00 h.

A despedida foi pra valer. Nunca mais Tributino voltou ao armazém de Seu João Batista. A conta ficou no tinteiro!!! A página do caderno de Fiados amarelou e o “honesto” freguês nunca mais apareceu.

COISAS DO DESTINO

 

Tiana sofreu muito com a morte repentina de Patrocínio, seu marido durante dez anos. Os dois já casaram maduros, ela com 42 anos e ele com quase 60. Ele era aposentado da Rede Ferroviária Federal e o casal morava em João Pessoa (Pb). Tiana tinha familiares em Nova-Cruz (RN) e, em datas festivas, ela e o marido estavam sempre lá. Viviam bem financeiramente e sempre em harmonia. Com a morte do marido, e sem filhos, Tiana ficou muito depressiva e sozinha. Era alta e bonitona, com tendência a ser gorda. Depois de viúva, começou a engordar mesmo e tornou-se obesa. Tinha 1.70 m, e passou a pesar quase 100 quilos. Tornou-se o que se diz no interior, “um mulherão”.

Um ano depois, Arlinda, sua melhor amiga, residente em João Pessoa (Pb) e casada com um funcionário público estadual da Paraíba, também enviuvou. Suas duas filhas já eram casadas, e ela também se viu mergulhada na mesma solidão de Tiana. As duas amigas, viúvas ainda “casáveis”, meses depois, começaram a sair juntas para a Igreja, depois para teatros, shoppings, restaurantes e cinemas. Logo resolveram fazer excursões ao Sul do Brasil. Gostaram tanto que se programaram para uma viagem ao exterior. Isso serviu para que as duas saíssem da rotina e se convencessem de que a vida continua. Ambas cumpriram suas respectivas missões de esposas dedicadas, e agora estavam prontas para usufruir a liberdade e a boa situação financeira de que dispunham. Aos poucos, foram recuperando a autoestima e tornaram-se vaidosas, na esperança de superar a fria solidão da viuvez. De repente, os olhos das duas voltaram a brilhar, apesar das boas lembranças e da saudade que sentiam dos falecidos maridos.

Arlinda era mais atirada, mais bonita e mais jovem do que Tiana. Por obra do destino, reencontrou um ex-namorado do seu tempo de juventude, agora divorciado, e os dois começaram a namorar.

Tiana era conservadora e se policiava muito. Jurava que jamais se casaria novamente. Apesar de muito simpática, não era atraente, e sua obesidade a prejudicava. Era ruim de dieta e por isso não conseguia perder peso.

Ao ver Arlinda se aprumar com um ex-namorado do tempo da sua juventude, Tiana sentiu inveja, apesar de não demonstrar. Compensava essa frustração, dizendo sempre que a coisa melhor do mundo era a liberdade. Nessas alturas, por brincadeira, dizia que se Patrocínio, seu falecido marido, quisesse voltar lá do Céu onde estava, ela seria a primeira a dizer:

-Homem, pela caridade, não invente de voltar não! Fique aí mesmo!!!

Sentindo-se em segundo plano, por ter praticamente perdido a companhia da amiga Arlinda, agora em um relacionamento sério, Tiana foi passar uns dias em Nova-Cruz. Quem sabe, se sua felicidade não estaria ali!!!

A ocupação de Tiana, em Nova-Cruz, era bater papo à tarde toda com duas ou três amigas, embaixo de um Ficus Benjamina, que há em frente à casa de sua irmã. O assunto era homem e tudo o que com ele se relacionasse. Ávida por arranjar um namorado com quem pudesse refazer sua vida conjugal, Tiana estava disposta a investir nessa ideia.

Pensando em solucionar sua carência afetiva, tinha na cabeça sua proposta amorosa já estabelecida e não escondia das amigas. Queria um homem até 60 anos, que soubesse ler e escrever, fosse sadio, com tudo funcionando nos conformes, para lhe fazer companhia e para ela amar e querer bem! Não fazia questão de dote. Não precisava trazer nem a mala. Podia vir somente com a roupa do corpo, que ela fazia questão de comprar tudo novo! Estava disposta a dar casa, carro, comida, plano de saúde e roupa lavada, e ainda uma boa mesada.

Foi nesse estado de ansiedade, que, em Nova-Cruz, Tiana foi apresentada a um viúvo de 68 anos, cuja mulher tinha morrido há poucos meses. As informações que lhe deram sobre ele foram as melhores possíveis. Aposentado do serviço público estadual, tinha duas filhas já casadas, que moravam na capital. Bebia “socialmente” e gostava “um pouquinho” de jogo de cartas. Tinha sido um bom marido.

O primeiro encontro de Tiana com Epaminondas foi uma decepção. Ele era baixinho, magrinho e usava óculos com lentes do tipo fundo de garrafa. O homem demonstrou ser galanteador e inconveniente, pois disse logo que tinha adorado o seu físico. Gostava de mulheres carnudas e corpulentas. As mulheres assim tinham mais personalidade e eram determinadas. Achava que mulher tinha que ter carne, pois quem gosta de osso é cachorro e arqueólogo.

Tiana ficou sem jeito e não gostou do modo debochado e grosseiro como o suposto futuro pretendente falou. Também não se sentiu, nem de longe, atraída por ele. Não houve entre os dois o brilho do olhar. Não simpatizou com o viúvo e preferiu descartá-lo.

Para completar, de outra fonte, havia chegado aos seus ouvidos a informação de que ele era um jogador contumaz e um alcoólatra inveterado. Dessa forma, Tiana escapou de fazer uma besteira. Por um triz, não caiu nas garras desse viciado em jogo e em bebida. Depois desse susto, pensou muito e decidiu encarar a solidão desoladora da viuvez, e não mais insistir em “procurar sarna para se coçar”. Lembrou-se das palavras bíblicas, que sua saudosa mãe gostava de repetir:

“Nem só de pão vive o homem.”

UMA EXCELENTE MEMÓRIA

Marleide, uma senhora cinquentona e muito gorda, esperava, fora do provador de uma das melhores lojas de Natal, que sua mãe se definisse sobre as peças do vestuário feminino que queria comprar. O período era de promoção e a loja estava lotada. A filha já estava impaciente com a indecisão da mãe, e resolveu deixá-la sozinha no provador, para fazer suas escolhas, sem sua interferência. Enquanto a aguardava, puxou conversa comigo, que também estava esperando que minha filha saísse de um dos provadores.

Muito conversadeira, a mulher me disse que sua mãe, com 87 anos, ainda era cheia de vida, muito vaidosa e saudável. Tinha uma saúde de ferro. Frequentava academia de hidroginástica, aula de dança de salão, e fazia parte do Clube da Terceira Idade. Não perdia uma excursão organizada por essa associação nem os bailes semanais, onde se destacava como “pé-de-valsa”. Além de tudo isso, ainda tinha uma excelente memória.

Fiquei até com inveja da disposição dessa idosa, cantada em verso e prosa por essa filha apaixonada. Confesso que, mesmo tendo idade para também ser sua filha, não aguento mais rojão e quando danço me canso rapidamente.

Depois de ficar sabendo de toda a performance da idosa, fui a ela apresentada pela filha, fora do provador da loja. Tomei um susto com o graveto que vi na minha frente. A senhora tinha traços de quem fora bonita, quando era jovem. Lembrei-me dos versos da poetisa Anna Lima, minha avó materna, ao responder um questionário que, antigamente, era usado entre amigas mocinhas. À pergunta “o que mais temes na vida ?”, ela respondeu: “A velhice caprichosa, que faz da moça bonita, uma megera maldita, uma carcaça horrorosa”.

Magrinha, trêmula, mas muito simpática e bem vestida, a senhora entregou as peças escolhidas à filha, para que as levasse ao caixa. Fiquei curiosa para saber o segredo daquela vitalidade propagada pela filha. E puxei conversa:

– Estou encantada em saber como a senhora é cheia de vida e gosta de se divertir! Sua filha lhe fez muitos elogios! Qual o segredo dessa eterna juventude?

A senhor idosa respondeu:

– Ah, minha filha, eu não entrego os pontos nunca! Adoro passear, dançar, viajar, e o melhor é que eu tenho um namorado, trinta anos mais novo do que eu! Todo dia eu me encontro com ele. Adoro beijar e ser beijada!

Com malícia, indaguei:

– E rola mais alguma coisa, além dos beijos?

A idosa deu uma gargalhada e disse:

– É claro, querida! Se não rolasse, não teria graça!

E ainda perguntei:

– Como é o nome do seu namorado?

A mulher ficou pensativa, procurando o nome do amado no teto e nada de encontrar.

Para “salvar a Pátria”, sua filha se aproximou com as compras já pagas, para chamá-la para ir embora.

Mostrando-se aflita, a senhora perguntou:

Ô, Marleide, como é mesmo o nome do meu namorado?!!!

PICANHA DO MAR

Evaristo era um fazendeiro rico do interior do Estado, conhecido pela avareza, com relação às pessoas pobres que lhe pediam ajuda. Além de “amarrado”, tratava mal aos empregados e a quem dele precisasse. Era incapaz de dar alguma recompensa a um portador que lhe levasse uma encomenda. Também, não gostava de presentear ninguém, usando como desculpa o esquecimento ou a falta de tempo. A esposa e as duas filhas sofriam com isso, e tomavam a frente, na compra de qualquer presente. Essa sua avareza fazia com que os subalternos o detestassem. Quando o viam, cortavam caminho, evitando prestar-lhe qualquer serviço.

Um certo dia, na Semana Santa, um deputado seu amigo, e que lhe devia favores em campanhas eleitorais, mandou-lhe de presente uma enorme Meca, peixe conhecido no Nordeste como “Picanha do Mar”, e muito usado para churrasco. É um dos pratos principais, encontrados no excelente “Restaurante Solimar”, localizado na Barra do Cunhaú (Canguaretama-RN).

O portador do presente era um criado do político, que já tinha ido várias vezes à casa do fazendeiro, levando encomendas. Mas esse homem nunca lhe dera qualquer agrado.

O rapaz chegou de cara feia e mal olhou para o fazendeiro, destinatário da encomenda. Só Deus sabe a má vontade com que chegou ali, levando ao ombro o enorme peixe, devidamente embrulhado. Visivelmente irritado, e sem cumprimentar o austero fazendeiro, o portador colocou o peixe no chão do terraço, e se limitou a dizer:

– Meu patrão mandou entregar esta encomenda ao senhor!

Contrariado com a forma nada simpática, com que o portador a ele se dirigiu, o fazendeiro o repreendeu, dizendo:

– Rapaz, você precisa apreender que não é assim que se faz entrega de um presente desse! Venha cá! Vou ensinar a você como é que a gente faz! Vamos imaginar que o dono da casa é você e eu sou o empregado que trouxe a encomenda. Sente aqui nesta cadeira! Eu entro com o presente na mão e, com muita delicadeza, digo:

– Bom dia, Senhor! O meu patrão, Deputado Aparício, mandou lhe entregar este presente, acompanhado dos votos de uma Feliz Páscoa, para o senhor e sua família! Espera que o senhor goste e com isso ele ficará muito feliz.

O criado aproveitou o momento para provocar o fazendeiro, na esperança de receber algum trocado. Sorriu e respondeu:

– Muito bem…Transmita ao seu patrão os meus agradecimentos, e receba esta recompensa, pelo trabalho que teve, em trazer até aqui este peixe tão pesado!

E o rapaz meteu a mão no bolso, com o gesto de quem vai tirar dinheiro.

Seu Evaristo não gostou da resposta. Ficou vermelho e confuso. Lembrou-se de que nunca tinha dado uma gorjeta àquele rapaz, ou a qualquer outro portador que lhe trouxesse uma encomenda. Quis lhe dar uma lição de boas maneiras, mas terminou recebendo uma lição ainda maior, de uma pessoa tão simples.

E não teve outro jeito. O avarento tirou algumas moedas do bolso e deu ao esperto criado, agradecendo-lhe por ter trazido o presente. Em seguida se despediu dele com muita amabilidade.

A partir de então, passou a dar sempre um agrado, a quem lhe trouxesse uma encomenda.

COMO CONVIVER COM UM IDIOTA

Lígia, professora do ensino médio estadual, enviuvou aos trinta anos, ficando com dois filhos pequenos, de cinco e sete anos, para criar. O marido, Auditor Fiscal dos Tributos Estaduais, morreu num acidente de carro, e ela demorou muito tempo para se conformar.

Muito bem casada, ao se ver sozinha com os filhos, Lígia jurou que jamais se casaria novamente. Vivia bem financeiramente, pois recebia os vencimentos de professora e a pensão por morte do marido. Tinha casa própria e um bom carro. Por isso, mesmo sendo ainda jovem, não fazia questão de se casar outra vez, passando a se dedicar, exclusivamente, aos filhos e ao seu trabalho.

O tempo se encarregou de colocar tudo no seu devido lugar, e, quatro anos depois, Lígia conheceu Adalberto, o que resultou em um segundo casamento. Era um homem muito bonito, simples e educado, mas sem dinheiro e sem estudo. Trabalhava como corretor de Imóveis e por isso sua situação financeira variava muito, dependendo das raras comissões que recebia. A realidade é que a viúva se apaixonou por um homem bonito, mas “sem eira nem beira”. Mesmo assim, Lígia dizia que não precisava de “dote”, pois vivia muito bem financeiramente e desejava apenas ser feliz, como foi no seu primeiro casamento. Casaram-se somente no religioso, para que ela não perdesse a pensão por morte do primeiro marido.

Poucos meses depois do casamento, Lígia viu a besteira que havia feito em se casar novamente. Constatou que Adalberto não era o homem que parecia ser. De repente, ele passou a chegar embriagado, procurando motivos para reclamar dela e dos seus filhos. Ela passou a ser alvo de um ciúme doentio, acrescido de frases ferinas e indecentes. Dizia, sem que nem mais, que nenhuma mulher era confiável, principalmente as viúvas. Cortou todas as amizades de Lígia, incluindo os familiares.

Quando a mulher recebia uma visita, ele se dirigia ao quarto e não aparecia mais. Isso, repetidamente, até que todas as amigas de Lígia se afastaram. Ensaiou dar castigo aos enteados, mas Lígia não admitiu.

A decepção da mulher foi grande! O seu casamento se transformou num martírio. O segundo marido era um saco de recalques, extremamente ciumento e, ainda por cima, alcoólatra. Era revoltado porque não era formado. Na verdade, não conseguira concluir nem o Curso Ginasial. Simplesmente, não gostava de estudar.

Gostava de exibir Lígia, como se fosse um troféu. Afinal, casara com uma professora “formada” em Letras e pensionista de um Auditor Fiscal dos Tributos Estaduais. Além do mais, a mulher tinha casa própria e carro bom para ele dirigir. Lígia ainda era jovem e bonita, e ele achava que isso causava inveja aos seus companheiros de mesa de bar. Mas, o fato de Lígia ser viúva e ter dois filhos que precisavam muito da sua atenção era mais um motivo para que Adalberto tivesse do que reclamar. As discussões foram amiudando e se tornaram diárias. Adalberto não vinha mais almoçar em casa e só chegava à noitinha, embriagado e reclamando de tudo, até do café. Lígia não sabia como salvar seu casamento, e o sentimento que nutria por Adalberto foi ficando desgastado. Quando ele estava em casa, a toda hora ela e os filhos eram agredidos com insultos e reclamações desnecessárias. O ciúme doentio de Adalberto abrangia colegas de trabalho de Lígia e até os familiares. A presença de Adalberto em casa, bêbado e procurando brigas, tornou-se nefasta. Não respeitava dia nem hora para brigar.

Para sua felicidade e dos filhos, Lígia só via um caminho: A Separação.

Sentindo-se fracassada, decidiu que na mesma semana iria procurar um advogado para resolver esse problema.

Nesse ínterim, Ligia precisou ir a uma livraria e, casualmente, foi atraída pelo título de um livro ali exposto:

“COMO CONVIVER COM UM IDIOTA”.

O autor é John Hoover, psicólogo especializado em relações humanas.

Imediatamente, Lígia se identificou com o título, e o adquiriu, por mera curiosidade.

A obra mostra que em qualquer situação é fundamental tentarmos compreender o idiota em questão, encontrando dentro de nós as chaves para assumir uma atitude de empatia e tolerância com a pessoa difícil, com a qual temos de conviver. Recorrendo a exemplos de casos reais e sempre com humor devastador, Hoover dá conselhos e dicas preciosas, apresentando sua reveladora classificação dos vários tipos de idiota e ensinando como evitar e superar conflitos nos relacionamentos. Entretanto, embora a idiotice alheia pareça sempre evitável, ninguém consegue mudar o outro.

Chegando em casa e aproveitando a ausência do marido, Lígia leu algumas páginas do livro, e depois o escondeu em local que julgava, para ele, inacessível.

À noite, Adalberto chegou embriagado e com insultos na ponta da língua para agredir a mulher. Lígia manteve-se calada e deixou que ele brigasse sozinho. Mas não havia jeito dele se calar. Olhou para Lígia e provocou:

-O que foi? Está olhando pra minha cara, por que? Está com raiva porque cheguei a esta hora? Mulher não manda em mim!!! Você devia mandar muito no imbecil que morreu. Mas em mim, nunca!!!

Apavorada, Lígia só disse que não havia dito nada para que ele a tratasse assim. Mas ele respondeu que, só pela sua cara, sabia o que ela queria dizer. E empurrou cadeira no chão, deu murro na mesa, cuspiu o apartamento todo, e saiu fiscalizando tudo o que tinha dentro de casa.

Nessa noite, o universo conspirou contra Lígia. De tanto desarrumar o apartamento, procurando só Deus sabe o que, Adalberto deu de cara, por trás de todos os livros de uma estante, com o tal livro “COMO CONVIVER COM UM IDIOTA”.

A carapuça coube-lhe como uma luva, e o mundo desabou. Empurrou Lígia violentamente, que se desequilibrou e bateu com a cabeça na quina de uma prateleira. Ao ver o sangue da mulher, covardemente, trancou-se no quarto. Lígia, acompanhada pelos dois filhos, que, apavorados, choravam copiosamente, dirigiu-se ao Pronto-Socorro mais próximo, onde levou cinco pontos na cabeça. Daí, foram todos para a casa do seu irmão, que lhes deu abrigo. E tudo terminou aí…

Lígia se convenceu, uma vez por todas, de que é impossível alguém conviver com um idiota, perverso e complexado.

FRACO AQUI, SÓ EU

A cirurgia para retirada de varizes é realizada desde o início do século passado, e ao longo dos anos a técnica foi aprimorada. Atualmente, a cirurgia tradicional, chamada safenectomia, foi, praticamente, substituída por cirurgias mais simples, onde a Safena é preservada. As técnicas usadas também se modernizaram, com o aparecimento do laser e da radiofrequência.

Há várias décadas, Dona Lia, minha saudosa mãe, sofreu muito com problema de varizes, tendo surgido em sua perna esquerda uma úlcera varicosa, difícil de cicatrizar. Como em Nova-Cruz não havia angiologista, ela foi aconselhada a procurar tratamento de varizes em Natal. Orientada por Dr. Hellen Costa, seu cardiologista, tornou-se paciente do grande Angiologista e Cirurgião Vascular, Dr. Jamil Varela Cardoso.

Depois de vários exames, o médico lhe disse que o tratamento indicado para o seu caso seria uma cirurgia, para retirada da Safena. Como não havia outra opção, a paciente concordou e se preparou para o procedimento cirúrgico, que deveria ser realizado em caráter de urgência, em virtude da gravidade do problema.

Feito o pré-operatório, Dr. Jamil marcou a data da cirurgia, na Casa de Saúde São Lucas, numa terça-feira, às 14 horas.

Dona Lia, muito nervosa diante dessa expectativa, manifestou à sua irmã Carmen Pimentel, de quem era hóspede, o seu desejo de que o procedimento fosse assistido pelos médicos, Dr.Hellen Costa (cardiologista), Dr. José Tavares (cirurgião) e Dr. José Valério Cavalcanti (cirurgião).

A amizade desses médicos com a tia Carmen era grande, e facilmente eles concordaram em assistir a cirurgia de sua irmã, que seria realizada pelo famoso Angiologista e Cirurgião Vascular, Dr. Jamil, de indiscutível competência.

No dia e hora marcados, estavam todos na Casa de Saúde São Lucas. Depois dos preparativos de praxe, vimos nossa mãe ser levada na maca para o centro cirúrgico. Em seguida, passaram por nós, devidamente paramentados com suas batas e complementos, Dr. José Tavares, Dr. Hellen Costa, Dr. José Valério Cavalcanti e, por fim, o grande Cirurgião Vascular, Dr. Jamil, na realidade, o maior responsável pelo procedimento cirúrgico a ser realizado. O anestesista já se encontrava no centro cirúrgico.

Dr. Jamil cumprimentou a família de Dona Lia, balançou a cabeça e sorriu, dizendo:

– Fraco aqui, só eu…

Essa frase provocou riso em quem a ouviu, pois partira do mais importante membro da equipe médica, e de cuja competência dependeria o êxito do procedimento cirúrgico. Por outro lado, a humildade com que foi pronunciada demonstrou a grandeza de espírito desse médico extraordinário, que honra o Juramento de Hipócrates e humaniza a Medicina, salvando vidas, através de suas mãos abençoadas.

A cirurgia durou mais de três horas, e foi um sucesso!

O êxito do procedimento e a grande competência do nobre Cirurgião Vascular, Dr. Jamil Varela Cardoso, foram alvo de elogios, por parte do Dr. José Tavares, Dr. Hellen Costa e Dr. José Valério Cavalcanti, que às sextas-feiras à noite se reuniam, na residência da amiga Carmen Pimentel, para boas conversas, regadas a vinho.

O estimado Dr. Jamil continua atendendo na sua mesma clínica, em Natal, agora enriquecida pela presença de duas profissionais, da sua especialidade e do seu sangue, sua filha e sua neta! Além da Dra. Salete, sua esposa, bióloga, que sempre esteve ao seu lado.

A PIMENTA

Há décadas, o fogão de nossa casa, em Nova-Cruz, era “inglês” e à lenha. Fogão a gás era utopia. Dona Lia, minha saudosa mãe, comprava um caminhão de lenha seca, quando precisava, e aguardava que Mendonça, o lenhador, viesse cortá-la em pequenos toros. Era um dia inteiro de um trabalho braçal, muito árduo, com almoço e um pequeno intervalo.

Mendonça era um homem alto e corpulento. Uma vez por outra, ouvia-se um baque enorme, e íamos todos ver o que tinha acontecido. Encontrávamos Mendonça caído no quintal, perto da lenha, e se debatendo, com a boca espumando, num ataque de “epilepsia”. Era uma cena chocante. e minha mãe não permitia que ele continuasse o trabalho nesse dia. Às vezes, ele insistia, dizendo que estava bem, e depois de algumas horas, continuava o trabalho, sem qualquer complicação. Era um homem forte e tinha a força de um animal. Era calado e quando falava, demonstrava ser um homem que tinha muita fé em Deus.

Certo dia, Dona Lia pediu-lhe para substituir umas telhas quebradas, no telhado da nossa casa. Mendonça providenciou uma escada e foi fazer o serviço, levando as telhas novas. Depois de alguns minutos, desceu a escada, chamando alto pela patroa.

O homem tremia mais do que vara verde! Quase não podia falar, de tão nervoso. Dona Lia, que era muito destemida, perguntou:

– O que aconteceu, Mendonça? Porque você está tremendo deste jeito?

Gaguejando e muito trêmulo, Mendonça falou:

– Dona Lia, pela caridade!!! -Em cima da casa da senhora, tem um “CATIMBÓ”!!! Virgem Maria! Não gosto nem de falar nisso!!!

Minha mãe, que não acreditava em “CATIMBÓ” nem FEITIÇARIA, deu uma risada e procurou acalmar o lenhador:

– Mendonça, o poder de Deus é maior do que tudo isso! “CATIMBÓ” não existe! Quer saber de uma coisa? Vá buscar o “CATIMBÓ”, que eu quero ver!

O homem, desesperado, quase chorando, implorou a Dona Lia que não quisesse, nem ao menos, ver o “CATIMBÓ”. Mas ela insistiu e ele subiu a escada novamente, para pegar o “trabalho feito”, que estava em cima da casa.

A nossa expectativa foi grande, até que Mendonça desceu novamente a escada, trazendo o “CATIMBÓ”. Era uma pequena trouxa, amarrada com um terço velho.

Minha mãe ordenou que ele desmanchasse o nó e abrisse o “CATIMBÓ”. Trêmulo, o homem sentou-se num batente do quintal e obedeceu à patroa. Desamarrou a trouxinha, que continha areia, pimenta malagueta e três terços quebrados. Mendonça, quase sem poder falar, garantiu que aquela areia era do cemitério. Propôs a Dona Lia jogar querosene no “CATIMBÓ” e tocar fogo.

A patroa, que era muito corajosa e espirituosa, mandou que Mendonça retirasse de dentro da trouxinha as pimentas malaguetas e as lavasse muito bem lavadas, pois iria usá-las para fazer um molho. O resto da trouxinha, ele podia jogar no lixo.

Mendonça, contrariado, lavou as pimentas com água da cisterna e pôs em uma vasilha que lhe foi entregue por Dona Lia. Minha mãe tornou a lavá-las, agora com água e sabão. Depois de tudo, colocou as pimentas em um vidro, com vinagre e azeite de oliva.

Estava feito um molho, para quem tivesse coragem de usar…

Dona Lia detestava molho de pimenta…

PACIÊNCIA DE JÓ

Há vários anos, quando o melhor cardiologista de Natal, Dr. Hellen Costa, ainda clinicava, o seu consultório no Edifício 21 de Março, na Cidade Alta, era lotado. Eu sempre levava minha saudosa mãe a ele, para tratar do seu coração. As consultas eram muito demoradas, pois o Dr. Hellen se dava ao trabalho de fazer, ele mesmo, o eletrocardiograma do paciente, e de ouvir todas as queixas e problemas existenciais que lhe eram contados. Tive oportunidade de presenciar cenas hilárias de pacientes hipocondríacas, que tomavam o tempo todo do médico e quando já iam saindo do consultório, voltavam para tirar alguma dúvida.

Certa vez, uma senhora idosa, depois de uma hora de consulta, já na porta, perguntou ao Dr. Hellen, em voz estridente:

– Dr. “Reles”, eu posso tomar água de coco? Eu soube que está havendo uma epidemia de cólera aqui em Natal. `Será que água de coco provoca cólera?

Muito paciente, o médico respondeu:

– Dona Severa, se alguém tiver feito uso indevido do coco, antes do coco criar água, com certeza a senhora vai contrair cólera! Caso contrário, não tem perigo da senhora pegar essa doença!!! Mas para a senhora ficar mais tranquila, não beba água de coco!!!

A paciente saiu satisfeita e decidida a não tomar mais água de coco. Meia hora depois, voltou muito nervosa, insistindo com a atendente para falar novamente com Dr. Hellen, pois tinha esquecido de lhe fazer uma pergunta. A moça avisou ao médico, e ele mandou que dona Severa entrasse. A porta ficou aberta e as pessoas que esperavam sua vez ouviram a voz estridente da mulher:

– Dr. “Reles” (ela não acertava dizer o nome do médico), eu como muito tomate. Será que comendo muito tomate, eu vou ter cólera?!!!

E Dr. Hellen, com a paciência de Jó, perguntou:

– Dona Severa, a senhora gosta muito de tomate?

A mulher respondeu:

– Gosto demais, Dr. “Reles”!

E o cardiologista falou:

– Pois a senhora pode continuar comendo tomate, dona Severa! Tomate não provoca cólera!

A paciente saiu muito satisfeita.

Em outra ocasião, presenciei a chegada de outra paciente de Dr. Hellen Costa, com consulta marcada pela primeira vez, visivelmente nervosa. Depois de preencher sua ficha e dizer à atendente que seu nome era Zulmira da Silva, sentou-se para aguardar o atendimento. Imediatamente, puxou conversa comigo, e dentro de dez minutos me contou sua vida. Fiquei sabendo que ela tinha sido casada com um alto funcionário público estadual, mas, ainda jovem, tinha se apaixonado pelo Chefe da Banda de Música da Marinha, que também se apaixonou por ela. O marido descobriu e a abandonou, sem processo de desquite ou divórcio. O cornudo, com desgosto dos chifres que levou, enfiou a cara na cachaça e, dois anos depois, morreu de cirrose hepática. Depois de vários anos de vida em comum, o Chefe da Banda de Música arranjara, recentemente, uma namorada bem mais moça do que ela. Essa era a causa do seu nervosismo.

Chegou a vez de Dona Zulmira, e ela entrou na sala do grande cardiologista, para se consultar. Muito perturbada, abriu as torrentes da alma e lhe contou todos os conflitos existenciais por que estava passando. Repetiu para o médico a história que tinha me contado na sala de espera. Falou do seu casamento, da sua infidelidade, da sua paixão pelo Chefe da Banda de Música, e da morte do marido, de quem nunca havia se separado legalmente. Sua conversa com voz alterada pôde ser ouvida por todos os pacientes que aguardavam atendimento.

Disse que o cornudo morreu e ela ficou recebendo uma polpuda pensão. Mas agora estava sendo castigada, e pagando com juros e correção monetária o que fez com ele. Mesmo ela sendo cheia do dinheiro, o Chefe da Banda de Música da Marinha arranjara outra mulher, bonita e jovem. Sua vida, atualmente, estava um inferno. E haja depressão e pressão alta. Confessou ao médico que havia se arrependido do que fez, mas não podia mais dar jeito.

Como diz o ditado popular: “Agora é tarde; a Inês é morta!”

No consultório, contando sua história, a mulher falava tão alto, que da sala de espera se ouvia tudo. Essa consulta durou mais de uma hora. Dr. Hellen Costa prescreveu a medicação necessária e, finalmente, abriu a porta para que a paciente saísse. Exibindo o contra-cheque na mão, a mulher perguntou em voz alta:

– Diga, Dr. “Reles”, se eu, com um contra-cheque alto desse, mereço ser traída?!!!

Calmamente, Dr. Hellen respondeu:

– Claro que não, Dona Zulmira! Esse Chefe da Banda de Música é um salafrário! A senhora não merece ser traída!!! Vá com Deus e a Virgem Maria!!!

O querido Dr. Hellen Costa, atualmente com 90 anos, além de um grande cardiologista, é um ser humano maravilhoso, dono de um grande coração e de uma paciência de Jó.

ORANGO

Alice era empregada doméstica da casa do Sr. José Gadelha e esposa dona Lúcia. O casal nos vendeu a casa e logo nos mudamos para lá. Três dias depois, ouvi palmas no portão de manhã cedo, e dei de cara com uma moça se oferecendo para serviços domésticos. Ela se identificou, dizendo que, há um ano, era empregada do casal que nos vendeu a casa e que não estava gostando da nova morada. Queria voltar a trabalhar ali naquela casa, pois já estava acostumada com a localização. Coincidiu que eu estava precisando de alguém para trabalhar, e, por ter simpatizado com a moça, dei-lhe um crédito de confiança, admitindo-a sem qualquer informação. Décadas atrás, isso era normal. Ela demonstrou ser cozinheira de mão cheia e logo se adaptou à nossa rotina.

Nos primeiros dias, notei que era muito nervosa e gostava de falar sozinha, olhando para um pequeno retrato. Antes que eu perguntasse de quem era a foto, ela me contou que havia tido um filho, sem ser casada, e que para poder trabalhar, deixava a criança na casa de uma irmã, no Morro de Mãe Luíza. Um certo dia, ao voltar do trabalho, procurou o filho, já com nove meses, e a irmã respondeu que tinha dado a criança a um casal rico, ele, um “doutor engenheiro”, que tinha viajado para fora de Natal.

Antigamente, um caso desse ficava por isso mesmo, principalmente quando a vítima era pobre. Era o retrato da miséria humana. Desde esse dia, Alice passou a “sofrer dos nervos” e, sem saber o que fazer, teve que aceitar o ato criminoso da irmã, que deu o seu filho traiçoeiramente, coisa que ela, a mãe, jamais faria. No desespero de Alice, o único consolo que lhe restava era saber que seu filho iria ter conforto e estudo, o que jamais ela lhe poderia dar.

A tristeza que se apoderava dessa moça, de vez em quando, evoluiu para um quadro depressivo crônico. Tinha mania de doença. Ia ao INPS se consultar quase todos os dias. Uma hora, era uma dor no braço (bursite), outra hora na coluna; outra hora era gastrite, mas do que mais se queixava era de uma “agonia na cumeeira da cabeça”.

Entre os médicos com quem Alice se consultava, estava o Dr. Hélio Barbosa, que era Psiquiatra. Ele lhe receitava antidistônicos, para que essa “agonia na cumeeira da cabeça melhorasse”. Alice era totalmente hipocondríaca.

Pensando em dispor de mais tempo para suas idas ao INPS, passou a me pressionar, para que eu contratasse outra empregada para lhe ajudar. Depois de muita insistência, terminei admitindo uma colega sua. Só deu certo uma semana. Ela queria ser chamada de Dona Alice e que a moça a tratasse de “senhora”. As duas pegaram uma briga e se engalfinharam pelo chão, aos gritos, atraindo a atenção dos vizinhos. Quando cheguei do trabalho, a novata estava de malas prontas para ir embora. Achei ótimo, pois na nossa casa uma empregada era suficiente. Quinze dias depois, Alice me propôs novamente admitir outra empregada. Ameacei de despedi-la. Na mesma semana, por brincadeira, disse-lhe que tinha encomendado um orangotango adestrado, que fazia trabalhos domésticos, para lhe ajudar. Ela se entusiasmou e perguntou logo:

– Posso chamar esse macaco de Orango? Será que ele atende telefone? Só tomara que ele não seja arengueiro!!!

No dia seguinte, a rua toda ficou sabendo que iria chegar na nossa casa um orangotango para trabalhar com Alice. E os vizinhos me perguntaram se era verdade. A calçada se encheu de meninos da rua para perguntar quando o macaco iria chegar.

Eros, meu marido, brincando com Alice, disse-lhe que se preparasse para dar banho no orangotango uma vez por semana. Aí ela endoideceu!!! E assustada, disse:

– Seu Eros, macaco é um bicho enxerido! Meu irmão disse que um macaco do Amazonas “adeflorou” uma moça!!! Para dar banho nele, eu não tenho coragem!!!

Alice levou tão a sério a “compra” do orangotango, que eu fiquei assustada e resolvi dizer que tinha desistido do negócio. Ela já estava tão empolgada com a perspectiva de trabalhar com “Orango, que implorou para que eu o deixasse vir. Disse que não iria arengar com ele e já estava lhe querendo bem. E fez um último apelo:

– Dona Violante, pelo menos, vamos “expromentar”!!!

CARNAVAL DO “PEGA NA CHALEIRA”

“Iaiá me deixa subir esta ladeira…eu sou do bloco do pega na chaleira”…

Essa marchinha, do começo do século passado, ainda hoje faz sucesso e o tema é sempre atual. Os “chaleiras” ou “puxa-sacos” estão sempre presentes em todos os segmentos da sociedade, até mesmo nas Igrejas. No interior, antigamente, havia carolas que chaleiravam o Padre, tornando-se quase governantas da Casa Paroquial. Tomavam conta das batinas, calças, camisas e até das cuecas do vigário, além de manterem o controle de horários das missas e arrumação do Altar da celebração. Elas se apossavam da privacidade do Padre, e ficavam por dentro de todos os seus passos. Eram intoleráveis e dificultavam o seu entrosamento com o povo da cidade.

Em escolas e outras repartições públicas, a figura do (da) chaleira também sempre esteve presente. Dedurava os colegas, fazia fofocas e babava o chefe, querendo fazer dele um amigo íntimo. Mas a falsidade era logo percebida, quando o chefe era uma pessoa decente.

O termo chaleirar tem sua história registrada no folclore político brasileiro.

Dizem os memorialistas literários que o termo surgiu motivado pelo chimarrão, tomado todas as tardes pelo ex-Senador gaúcho, José Gomes Pinheiro Machado, nascido em 1852 e assassinado no Rio de Janeiro em 1915.

Esse homem fora a grande força política brasileira, no começo do século passado. Morava na Ladeira da Graça, no Rio de Janeiro, de difícil acesso. Mesmo assim, isso não impedia que os políticos bajuladores fossem todas as tardes visitá-lo e lhe beijar a mão.

O ex-Senador sentava-se em volta de uma pequena fogueira, sobre a qual era posta uma belíssima chaleira de prata, onde a água para o chimarrão era mantida em ebulição. De cuia na mão e canudo no bico, o ex-Senador puxava o seu chimarrão, paparicado pelos bajuladores. Essa chaleira era disputada por eles, que queriam, todos ao mesmo tempo, servir o chimarrão ao “todo-poderoso”. Uma vez por outra, algum deles, na ânsia de pegar primeiro na alça da chaleira, pegava no bico, recebendo todo o bafo quente que dali saía. A história se espalhou e esses políticos bajuladores, que viviam com os dedos queimados, passaram a ser chamados de chaleiras. Esse vocábulo passou a ser sinônimo de puxa-saco e bajulador.

Daí, surgiu a marchinha de carnaval, Pega na Chaleira, de autor desconhecido, com arranjo do Maestro Costa Júnior, que se assinava “Juca Storoni”, sucesso no carnaval de 1909.

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Depois, surgiu “Cordão de Puxa-Saco”, marchinha de Frazão e Roberto Martins, gravada pelos Anjos do Inferno. Essa marchinha foi grande sucesso no carnaval de 1946, ficando definitivamente conhecido o tema do chaleirismo ou puxa-saquismo.

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Na época atual, os (as) chaleiras ainda continuam inspirando os compositores de plantão, que, como Juca Chaves, não perdem tempo em compor sátiras e paródias, ridicularizando esses políticos sem escrúpulos, que vivem chaleirando os poderosos, tentando conseguir vantagens e favores.

O ANJO

Décadas atrás, macho e “feme” era o nome dado a pessoas portadoras de distúrbios genéticos, que nasciam com forte tendência a ser do sexo oposto. Era assim que se chamava a pessoa afeminada (ou efeminada), na pequena cidade de Nova-Cruz (RN). Essa anomalia era vista como doença congênita e crônica, e por isso os seus portadores eram respeitados. Atingia mais crianças do sexo masculino.

Os pais percebiam o problema desde a 1ª infância do filho ou filha, e a repressão de nada adiantava.

Na cidade, eram pouquíssimos os casos conhecidos dessa “doença”.

Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das irmãs e desprezando carrinhos e bolas que os pais lhe davam para brincar. Cresceu assim, querendo brincar com bonecas, usar laços de fitas na cabeça e até vestir roupas das irmãs, cheias de rendas e babados. A mãe sofria para convencê-lo de que aquilo que ele queria não era para menino.

Dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas. Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.

Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões!

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, abre alas, que eu quero passar!

LOUVADO SEJA

Há décadas, Louvado Seja era o apelido de um antigo pedinte de Nova- Cruz, portador de um distúrbio neurológico, que o impulsionava a andar correndo. Era como se alguém invisível o estivesse empurrando. Dava pequenas e constantes carreiras, em curtos intervalos. Não ficava parado um só instante, nas horas em que era visto a esmolar. Seu apelido foi motivado pela louvação que dizia a toda hora, inclusive antes de pedir uma esmola. Quando ele apontava no começo da nossa rua, Barão do Rio Branco, a meninada que brincava nas calçadas corria para casa, com medo. Esse pavor era provocado por comentários maldosos, espalhados pela cidade, de que Louvado Seja incorporava um espírito maligno, que o empurrava, para que corresse até sofrer uma queda fatal. Era como se alguém estivesse querendo, com ele, um acerto de contas. Diziam que eram coisas do demônio, e muita gente acreditava piamente nessa versão. Ao pedir uma esmola, a voz forte de Louvado Seja podia ser ouvida de longe:

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Uma esmola pelo amor de Deus”!

Recebia a esmola, repetia a louvação e era impulsionado a correr novamente. As crianças tinham pavor a ele, inclusive eu. Minha avó paterna, dona Júlia, nunca deixou de lhe dar uma esmola, nem tinha medo dele. Eu, que vivia muito com ela, em sua casa, vizinha à nossa, quando o avistava tremia de medo e entrava correndo. Arrodeava pelo quintal e ia à procura de minha mãe. Agarrava-me à sua saia, apavorada. Ela me abraçava e tentava me explicar que Louvado Seja não fazia mal a ninguém e que o problema dele era uma doença.

Nova-Cruz, naquela época, era um atraso total. Morria-se à míngua, sem qualquer assistência médica.O deslocamento para Natal ou João Pessoa levava de cinco a seis horas. Isso, se o trem ou o ônibus não desse o “prego”. As estradas rodoviárias eram de barro e esburacadas, e no inverno, então, uma viagem dessa era um suplício. Uma verdadeira “odisseia”.

Nova-Cruz faz fronteira com a Paraíba. O progresso demorou muito a chegar até lá. A energia de Paulo Afonso só foi inaugurada em 1962, por esforço do então Governador Aluízio Alves. Água encanada, também demorou muito a chegar.

Minha saudosa mãe possuía um livro comprado em Natal, chamado “Medicina do Lar”, que, entre diversas doenças, fazia referência aos sintomas idênticos aos apresentados por Louvado Seja. Eram próprios da “doença de São Guido (ou Vito)”. Essa doença também é conhecida como Coreia de Huntington ou Mal de Huntington. É uma alteração hereditária do cérebro, que afeta pessoas de todas as populações em todo o mundo. O seu nome vem do médico George Huntington, que fez a primeira descrição do que ele chamou “Coreia Hereditária”. O termo “Coreia” tem origem na palavra latina choreus (que se refere a “dança”) devido aos movimentos involuntários, que são uns dos sintomas principais dessa doença rara.

Dona Lia se convenceu de que Louvado Seja era portador dessa enfermidade neurológica. Como não era médica, só comentava o assunto com o marido e familiares. O fato é que Louvado Seja padeceu desse mal a vida toda, sem nunca ter ido a um médico.

São Vito (?-303), também chamado por muitos de São Guido, foi um mártir italiano filho de pagãos, mas educado na fé cristã, por Santa Crescência e São Modesto.

As publicações católicas esclarecem que esse santo é considerado padroeiro dos epilépticos e foi um dos mais populares na Idade Média. Sua festa é comemorada no dia 15 de junho.

A associação existente entre São Guido ou Vito e a doença nervosa a que nos referimos, provavelmente, prende-se ao fato de que pessoas atacadas por esse mal começaram a procurar a sua Capela, erguida na Suábia, um antigo ducado alemão da Idade Média, para pedir sua proteção.

O nome “doença de São Guido (ou São Vito)” pegou, e, em algumas regiões, virou expressão popular, para denominar pessoas agitadas, com movimentos involuntários, provocados por contrações nervosas no rosto ou em outras partes do corpo. Estariam atacadas pela “doença de São Guido”.

Ainda hoje me lembro de Louvado Seja, e sinto medo. Suas carreiras curtas e constantes, seus tiques nervosos, além da voz grossa e assustadora, davam-lhe a aparência de um homem elétrico, um ser sobrenatural. Apesar das carreiras que dava, impulsionado pelos nervos doentes, Louvado Seja nunca fez mal a ninguém, durante os anos em que percorreu as ruas de Nova-Cruz, pedindo esmolas. Se algum espírito o empurrava, como muitas pessoas acreditavam, o poder de Deus sempre o protegeu e ele nunca caiu. Deixou de pedir esmolas de repente, e a notícia de sua morte se espalhou na cidade, provocando dó em todas as pessoas.

Ninguém sabia o seu verdadeiro nome, mas o seu apelido é impossível esquecer.

A VASSOURADA

Na campanha política para Presidente da República, em 1960, o então candidato Jânio da Silva Quadros tinha como símbolo da sua campanha uma vassoura. Nos comícios, subia ao palanque com uma vassoura na mão. Dizia que com a vassoura, seria varrida a bandalheira e a corrupção do País.

A vassoura, portanto, tornou-se a marca registrada da campanha de Jânio da Silva Quadro (UDN) contra o Marechal HenriqueLott (PSD).

No interior nordestino , os “janistas” tinham, cada qual a sua vassoura, usada nas passeatas e comícios, para insultar os adversários, partidários do Marechal Henrique Lott.

Em algumas cidades, durante a campanha a bagunça foi grande. Os eleitores que apenas assinavam o nome, não compreendiam o sentido da vassoura, nem os discursos de Jânio transmitidos pelo rádio. Então, começaram os insultos e, o que era pior, as vassouradas, durante as passeatas e comícios. A vassoura tornou-se uma arma perigosa nas mãos das pessoas ignorantes. Em Nova-Cruz (RN), o comércio de vassouras prosperou. A campanha tomou proporções alarmantes, e as vassouradas eram dadas indiscriminadamente, chegando a provocar ferimentos em algumas pessoas.

Lourdes, uma moradora da nossa rua, mulher ignorante e agressiva, resolveu ser “janista”, e passou a varrer a calçada de sua casa de manhã, de tarde e de noite, para insultar quem passava. Usando a vassoura como estandarte, agrediu o ex-marido com uma vassourada, e o acertou na fronte. Por um triz, o homem não morreu. Semianalfabeta, Lourdes não entendia de nada, principalmente de política. Mas tornou-se especialista em vassouradas. Não perdia passeatas e comícios, cantava todos os jingles e era uma entusiasta da campanha da vassoura.

Os carros de som, com seus incansáveis alto-falantes, invadiam as ruas das cidades com marchinhas (jingles), que o povão logo aprendeu a cantar.

Algumas delas:

“ Varre, varre, varre vassourinha, varre a corrupção”;

“Jânio vem aí / não demora não / ele vem aí / com uma vassoura na mão”;

“Varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! .Jânio Quadros é a esperança de um Brasil moralizado/ Alerta meu irmão, vassoura, conterrâneo/ Vamos vencer com Jânio!”

Jânio Quadros chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, havia exercido sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado. Tinha um estilo político excêntrico e um vocabulário exótico, que chegava a ser hilário. Para parecer popular, enchia os bolsos de sanduíches para comer nos comícios.

Foi eleito Presidente da República em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos – a maior votação até então obtida no Brasil. Venceu o Marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém, não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do partido da oposição.

Jânio Quadros assumiu a presidência em 31 de janeiro de 1961, em Brasília, que ,pela primeira vez, foi palco de uma posse presidencial.

O governo de Jânio Quadros perdeu sua base de apoio político e social, a partir do momento em que adotou uma política econômica austera. Adotou medidas drásticas, restringindo o crédito, congelando os salários e incentivando as exportações.

Mas foi na área da política externa que o presidente Jânio Quadros acirrou os ânimos da oposição ao seu governo. Jânio nomeou para o ministério das Relações Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar os rumos da política externa brasileira. O Brasil começou a se aproximar dos países socialistas. O governo brasileiro restabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética (URSS).

Num gesto considerado tresloucado, Jânio condecorou, no dia 19 de agosto de 1961, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro argentino que fora um dos líderes da revolução cubana, e era ministro daquele país. Entretanto, segundo conta a História, essa condecoração foi um agradecimento a Ernesto Che Guevara, por ter atendido a seu apelo e libertado mais de vinte sacerdotes presos em Cuba, que estavam condenados ao fuzilamento, exilando-os na Espanha. Jânio fez esse pedido de clemência a Guevara por solicitação de Dom Armando Lombardi, Núncio Apostólico no Brasil, que o solicitou em nome do Vaticano.

A outorga da condecoração foi aprovada no Conselho da Ordem por unanimidade, inclusive pelos três ministros militares.
A repercussão desse gesto foi a pior possível, sendo, ainda segundo a História, a causa principal da perda de mandato de Jânio. Os problemas começaram na véspera, com a insubordinação da oficialidade do Batalhão de Guarda. Amotinada, se recusava a acatar as ordens de formar as tropas defronte ao Palácio do Planalto, para a execução dos hinos nacionais dos dois países, e a revista. Só a poucas horas da cerimônia, já na manhã do dia 19, conseguiram os oficiais superiores convencer os comandantes da guarda a se enquadrar.

Na imprensa e no Congresso, começaram a surgir violentos protestos contra a condecoração de Che Guevara. Alguns militares ameaçaram devolver suas condecorações em sinal de protesto. Em represália ao que foi descrito como um apoio de Jânio ao regime ditatorial de Fidel, nesse mesmo dia, Carlos Lacerda entregou a chave do Estado da Guanabara ao líder anticastrista Manuel Verona, diretor da Frente Revolucionária Democrática Cubana, que se encontrava viajando pelo Brasil em busca de apoio à sua causa.

No dia 21 de agosto de 1961, Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares pressionaram Jânio Quadros a renunciar:
Diz o texto da renúncia:

“Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade……………………………………”

Brasília, 25-8-61.

a) J. Quadros

E assim terminou o mandato de Jânio Quadros, que só durou sete meses. 56 anos se passaram, e o País encontra-se hoje mergulhado na maior crise política da História.

Não há vassourada que dê jeito…

O CIMENTO

Marina, já cinquentona, donzela juramentada, aceitou a proposta de casamento de um viúvo “fresquinho”, intermediada por um casal de amigos seus.

Na realidade, o sonho de Marina era se casar. A vida toda organizou seu enxoval, com peças bordadas à mão, e de crochê, que ela, sua mãe e tias faziam com esmero.

O tempo passava e Marina sonhava com a chegada do seu príncipe encantado, montado num cavalo branco. Depois, tornou-se mais condescendente e já admitia que o príncipe encantado viesse montado num jegue mesmo.

Ao entrar na casa dos “enta” (quarenta, cinquenta…), Marina já não pensava em príncipe. Queria mesmo era um homem para ser seu marido e companheiro. Um homem para chamar de seu. Vivia bem, financeiramente, e não pensava em acumular riqueza. Seria até capaz de dar casa, comida e roupa lavada, e ainda uma boa mesada, ao marido. Mas ele teria que ser amante e companheiro fiel, e o principal: Não podia ser cachaceiro!!!

Muito católica, a única bebida que Marina não censurava quando via era o Vinho do Padre, durante a Santa Missa.

Pois bem: Apareceu essa proposta de casamento para Marina e, por influência dos amigos, foi aceita, depois de muita insistência.

O pretendente tinha enviuvado recentemente, e os filhos já estavam casados. Funcionário público estadual, o homem ganhava bem, tinha uma excelente casa numa cidade do interior e as informações a seu respeito eram as melhores possíveis. Era o marido ideal para Marina. Logo houve a apresentação dos dois “pombinhos” pelo casal de amigos, e foi “amor à primeira vista”. A carência afetiva em que Marina vivia mergulhada somou-se à recente solidão apavorante do viúvo, que procurou se fazer amado pela celibatária. Surgiu, assim, um casal “apaixonado”, por pura conveniência.

O casamento de Marina e Solano ocorreu em cerimônia simples, na terra da noiva, Nova-Cruz (RN), com a presença de familiares e dos amigos que os aproximaram.

O viúvo fez questão de continuar na mesma cidade e na mesma casa, onde residiu com a falecida esposa e os filhos.

Marina tinha estampada no rosto a imagem da felicidade. O marido vivia bem financeiramente, era católico praticante, e fora casado durante trinta anos, tendo fama de excelente chefe de família.

Num dia de domingo, um mês depois de haver casado com Marina, Solano avisou que iria fiscalizar a feira municipal de um lugarejo vizinho, e passou o dia fora. Só chegou à meia-noite, completamente embriagado. Marina se descontrolou e deu um escândalo com ele, chamando a atenção dos vizinhos. Gritou para ele que aquela seria a primeira e a última vez que ele saía para beber. Disse que não sabia que ele tinha esse vício miserável, e que casou enganada. E que ele teve a sorte de se casar com uma moça virgem!

Solano adormeceu em berço esplêndido, e as palavras agressivas da mulher entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Esse domingo, portanto, foi perdido para Marina. E foi também a primeira das várias decepções que viriam pela frente.

No dia seguinte, pela manhã, Marina soube por um companheiro de farra de Solano, que os dois tinham ido a uma vaquejada, um dos divertimentos preferidos dos homens daquela região.

Essa história de “fiscalização da feira” era conversa “pra boi dormir”! Pura mentira!

Marina “enlouqueceu” de raiva, e entrou no quarto onde o marido ainda dormia, aos gritos:

– Seu safado, você me enganou! Disse que ia fiscalizar uma feira , e foi farrear numa vaquejada. Chegou à meia-noite, e completamente bêbado! Você está pensando que eu sou o que? Você casou comigo, e eu era uma moça! Eu era virgem! Eu vou embora desta casa!!!

Solano despertou, com cana dormida, e pegou brabo, dizendo impropérios com a mulher:

– Quer ir embora? Pode ir!!! Mas não é mais moça!!! Não tem problema não! Vou dar um jeito nisso!

E chamou a empregada, aos gritos:

– Maria, traz aí um pacote de cimento que está na despensa! Vou, agora mesmo, tampar essa mulher com cimento e devolver a virgindade dela!!!

Ouvindo isso, Marina saiu do quarto.

O SÓSIA

Clodomiro, funcionário público federal, nível médio, era lotado na Junta de Recursos da Previdência Social/RN. Viúvo, vivia para os filhos, e durante muitos anos fez as vezes de pai e mãe. Não teve coragem de casar novamente, pois os filhos pré-adolescentes jamais aceitariam alguém no lugar da venerada mãe. Mas a viuvez e a grande responsabilidade que lhe pesavam aos ombros mexeram muito com o seu lado emocional e Clodomiro tornou-se alcoólatra.

Gostava muito de olhar pelo retrovisor do tempo e relembrar seus momentos de glória, durante a juventude. Trazia sempre consigo uma pequena pasta, contendo fotografias suas, de perfil ou de frente, em tamanho postal, e sempre fazendo pose de galã. Em algumas fotos, aparecia com um cigarro nos lábios ou na mão. Seu maior orgulho era dizer que quando era jovem, na época da Segunda Guerra Mundial, as mulheres o confundiam com o ator americano Clark Gable, “artista” principal, do inesquecível filme “E o Vento Levou.” Era convencido de que tinha sido um rapaz belíssimo e ainda fazia pose quando andava, colocando sempre as mãos nos bolsos, e andando compassadamente.

Mesmo beirando os sessenta anos, ainda se considerava bonito, e seu porte físico o ajudava a manter a postura de um homem bem mais jovem. Ainda caprichava na cabeleira. Andava com um pente “flamengo” no bolso, e um pequeno espelho redondo. Uma vez por outra, era flagrado se penteando e se olhando no espelho. Lógico que estava se achando bonito. Isso era alvo de brincadeira dos colegas, no ambiente de trabalho.

As namoradas que Clodomiro arranjou depois de viúvo, enquanto era mais moço, foram “amores passageiros” e “paixões sem amanhã”.

Com a ajuda de amigos e a sua força de vontade, frequentou a comunidade dos Alcoólicos Anônimos e conseguiu se curar da terrível doença do alcoolismo.

Gostava de contar que, no auge da sua beleza e das conquistas amorosas, mandara confeccionar uns cartões de apresentação, onde, no lugar do seu nome verdadeiro, constava apenas ” Seu C – Agente Americano”. Esse pseudônimo era uma homenagem ao seu ídolo e “sósia” Clark Gable. Ele botou na cabeça que era o próprio galã. Nessa época, frequentava a vida boêmia da cidade, e uma vez por outra se metia em confusões. Era nessas horas que ele puxava o cartão de apresentação e dizia com voz altiva:

– Vocês sabem com quem estão falando?

– Estão falando com Seu “C”, Agente Americano!

Era água na fervura. Os forasteiros logo se afastavam, temendo o tal “Agente”.

Na Repartição, Clodomiro não podia ver ninguém dar uma pausa no serviço, nem mesmo para tomar um café, que, imediatamente, abria sua inseparável pasta e tirava uma fotografia sua e outra de Clark Gable, para que os colegas vissem que ele não vivia mentindo e que realmente os dois eram muito parecidos. Gostava de dizer que, se fossem irmãos, talvez não se parecessem tanto. Para lhe agradar, todos os colegas, e até o Chefe, concordavam com ele. Afinal, não custava nada alimentar a vaidade de um homem tão sofrido, que parara no tempo para se dedicar aos filhos, e, com força de vontade, conseguira se curar da terrível doença do Alcoolismo.

Clodomiro, dentro da sua humildade, era um homem educado e atencioso, o que o tornava muito querido pelos colegas de trabalho. Adorava relembrar seu sucesso com as mulheres, no tempo da Segunda Guerra. Contava que, por causa do seu porte de galã e seus belos olhos verdes, era confundido com os soldados americanos, e que a Guerra, para ele, havia sido “formidável”. Natal concentrava um grande número de soldados americanos e ele tirava proveito disso. Conseguia frequentar os bailes dos americanos, e dançava Foxtrote melhor do que eles. Dançava com as moças mais bonitas, escolhidas a dedo. Contava que nunca havia levado um fora, e que falava com a língua enrolada, num “inglês sem mestre”, para impressionar. Essa foi a fase áurea da vida de Clodomiro.

E o Chefe da Repartição, de tanto ouvir Clodomiro contar suas estripulias no tempo da guerra, por brincadeira, uma vez por outra o chamava de “Seu C”. E ele ficava feliz da vida.

O ANTIDISTÔNICO

Perpétua, 50 anos, era servidora pública federal, de nível médio. Tornou-se solteirona juramentada, não por vontade própria, mas porque não encontrava mais nenhum homem para namorar. Sofria muito com isso, pois era quente, e foi acostumada a estar sempre em ação, não passando sem namorado. Vivendo sempre o presente e sem se apegar a ninguém, agora cinquentona passou a sentir solidão. A idade foi deixando Perpétua deprimida. Ultimamente, tinha a sensação de haver passado repelente no corpo, pois não atraía mais nenhum homem. Convenceu-se de que, com a idade que estava, não poderia mais concorrer com as garotas de “carne dura”, tudo no lugar, e com os hormônios fervendo. Tornou-se uma mulher amarga e desiludida, sem esperança de encontrar um companheiro. Das três irmãs, foi a única a ficar “pra titia”.

O peso dos anos tornou a moça depressiva. O mau-humor passou a ser sua característica, a ponto de afastar os amigos e colegas de trabalho. Passou a não suportar brincadeiras, mostrando-se sempre irritada. Em suma, tornou-se uma pessoa extremamente chata e de difícil convivência.

Quando chegava à repartição, dava um “bom dia” de cabeça baixa. Se já estava no birô e chegava alguém, respondia ao cumprimento resmungando. Se fosse o Chefe que chegasse, respondia ao cumprimento, e nas suas costas lhe estirava o clássico dedo médio. Os colegas ficavam com vontade de rir e ao mesmo tempo revoltados, pois o Chefe era uma excelente pessoa e não merecia esse desrespeito. Perpétua tornou-se uma pessoa intratável.

Dr. Pedro Corsino, um dos melhores Psiquiatras de Natal, era amigo de infância de Perpétua e por ela sentia grande apreço. Os dois mantinham uma amizade fraterna. Ao tomar conhecimento do estado depressivo da amiga, Dr. Pedro telefonou-lhe, pedindo que fosse ao seu consultório, para colocarem os assuntos em dia. Uma forma inteligente de forçar a amiga a lhe fazer uma consulta. No dia e hora marcados, Perpétua avisou na repartição que iria ao médico.

Vestiu-se com uma saia preta cobrindo os joelhos, uma blusa de cor sóbria, de mangas compridas e decote alto. Não usou qualquer adereço nem pintura, nem se preocupou em arrumar o cabelo. Perpétua foi muito bem recebida pelo amigo, que logo percebeu o estado depressivo em que se encontrava. Conversaram muito, relembrando pessoas e fatos da infância e da juventude dos dois. Num dado momento, a moça disparou num choro compulsivo, abrindo as torrentes de sua alma e extravasando suas angústias e o medo da velhice, que estava se aproximando.

Dr. Pedro deixou que a amiga chorasse até cansar. Deu-lhe um copo de água com açúcar, e lhe pediu para que retornasse ao seu consultório no dia seguinte, àquela mesma hora. Mas lhe fez as seguintes recomendações:

– Perpétua, quero que você venha aqui amanhã, a essa mesma hora, mas preste atenção:

– Quero ver você com um vestido bonito e decotado, esses peitos quase de fora, brinco e colar, batom vermelho e cabelo arrumado! Você é muito bonita, mulher! Reaja a essa tristeza! Você dá de dez a zero em certas mocinhas que só tem minhoca na cabeça! Você tem tudo para ser uma mulher feliz! Nem só de pão vive o homem! Há muitos casamentos que não dão certo! Olhe-se no espelho, e veja que você ainda está em forma, e “dá vários ponches”!!! Procure suas amigas e volte a frequentar a noite e a se divertir, viajar, enfim, viver!

Perpétua voltou no dia seguinte ao consultório, bonita como antes, e produzida conforme as recomendações do amigo psiquiatra.

A transformação de Perpétua na repartição logo foi percebida.

Esse foi o melhor antidistônico que lhe foi receitado…

A FORMATURA

Arnaldo, quarenta e cinco anos, funcionário público federal, era um homem muito estressado. Na repartição onde trabalhava, eram comuns suas respostas grosseiras aos subalternos e até aos seus colegas de cargo. Por diversas vezes, foi visto enraivecido, rebolando no chão pilhas de processos, numa demonstração de desprezo pelo serviço que fazia.

Os processos que recebia e nos quais tinha que colocar despachos de encaminhamento à chefia, viraram uma rotina que mexia com seus nervos. 

Ele e a esposa Célia sempre foram funcionários públicos federais, mas em repartições diferentes. Os dois filhos do casal estavam com dez e doze anos. Não tinham empregada doméstica, e comiam de marmita, há vários anos. Levavam uma vida metódica e pacata. Ele controlava as despesas da casa e organizava tudo na ponta do lápis. Não faziam gastos supérfluos. A esposa, para galgar um cargo melhor dentro do serviço público, resolveu fazer o curso de Direito. Em casa, Arnaldo era sobrecarregado de afazeres domésticos e assistência aos filhos.

Chegou o grande dia da formatura de Célia. Foram quatro anos de luta, sono atrasado, trabalhos em grupo e pouca assistência aos filhos. A formatura foi esperada com ansiedade por Célia, Arnaldo, filhos e familiares dos dois lados do casal. Arnaldo, eufórico, não cabia em si de contentamento, em ver “sua” Célia bacharela em Direito. Novos horizontes se abriam para o casal. Com certeza, Célia logo faria um concurso público para um cargo de nível superior, e sua aprovação seria certa, pois vivia para o trabalho, filhos, marido e para os estudos. Arnaldo sentia-se realizado. Dois filhos já crescidos, estudiosos e sadios, a esposa formada em Direito, e ele, funcionário do INPS. Formado em Ciências Contábeis, aguardava a ascensão funcional, que na época existia, para mudar do cargo de Agente Administrativo para Auditor Fiscal. E agora a perspectiva da “sua” Célia subir muito na vida. Cheio de vaidade, não se cansava de comentar com as pessoas amigas:

“A minha Célia vai ser uma grande Procuradora, Promotora ou Juíza”!

Dois meses depois da formatura de Célia, Arnaldo chegou à repartição visivelmente contrariado, vermelho de raiva. Mal cumprimentou os colegas, e sentou-se ao birô, resmungando impropérios. Os colegas notaram logo que ele havia voltado àqueles dias de antigamente, em que pegava no arranco, de cinco em cinco minutos. Todos os colegas perceberam que alguma coisa muito séria estava acontecendo com ele. Afinal, a recente formatura da esposa tinha dado outro ânimo à sua vida, e ele passara a ser sempre bem-humorado. Queriam ajudar, conversar com ele, mas não havia chance. Silêncio total na sala. Como se estivesse fechado em um casulo, Arnaldo se limitou a carimbar os processos de cabeça baixa, recusando até o cafezinho, que era o seu fraco.

Algumas horas depois, o chefe chegou, cumprimentou todos os funcionários e se dirigiu ao seu gabinete. Arnaldo não respondeu nem levantou a vista. Simplesmente, ignorou a entrada do Dr. Eduardo, um homem extremamente educado.

O Presidente do Órgão notou o comportamento estranho de Arnaldo, e pediu à Secretária que o chamasse até o Gabinete.

Imediatamente, Arnaldo se viu diante do chefe, que lhe perguntou se estava passando por algum problema.

A resposta veio rápida:

– Estou sim, Dr. Eduardo! Estou desesperado! Quando eu pensava que agora as coisas iriam melhorar, a mulher formada em Direito e os meninos já com 10 e 12 anos, recebi uma notícia que me tirou de tempo! Minha Célia me comunicou que está grávida! O caçula já com 10 anos!!! Não posso suportar uma irresponsabilidade dessa! Estou até sem falar com ela, de tanta indignação!

Ironicamente e com o bom humor que lhe era peculiar, o chefe perguntou:

– A doutora Célia disse quem é o pai?

Arnaldo gaguejou, e viu o papel ridículo que estava fazendo…

O CHOFER

Antigamente, não se falava em “motorista de táxi”. O que havia era “chofer de praça”. E na praça, concentravam-se os carros de aluguel.

O táxi, propriamente dito, apareceu historicamente quando foram aplicadas taxas à sua utilização, através do taxímetro, aparelho mecânico ou eletrônico, que mede o valor cobrado pelo serviço, com base em uma combinação entre a distância percorrida e a tarifa inicial. Foi inventado no século XIX, pelo alemão Wilhelm Bruhn.

Em Natal, o chofer de praça trajava sempre terno cáqui, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos.

Seu Josias era um conhecido chofer de praça de Natal, educado, conversador e simpático, beirando os 60 anos. Era um contador de histórias. Muito supersticioso, não trabalhava no dia em que tinha um sonho mau. Se sonhasse com gato preto, urubu, sapato ou arrancando dente, sabia que, naquele dia, nada para ele ia dar certo, e preferia ficar em casa. Gostava muito de relembrar episódios de sua vida.

Contava que, antes de ser chofer de praça, tinha sido chofer de um caminhão misto e havia feito muitas viagens pelo sertão nordestino, transportando passageiros. Gostava muito da profissão, até que, num certo dia, em plena viagem, um dos passageiros do misto foi acometido de uma tremenda dor-de-barriga e ele viu-se obrigado a parar o carro na estrada, diversas vezes. O passageiro entrava correndo de mato a dentro, para satisfazer suas necessidades e voltava pálido e envergonhado. A viagem, nesse dia, sofrera um atraso enorme, o que o deixou bastante contrariado. Numa das paradas solicitadas pelo passageiro, para ir ao mato, disse seu Josias que também desceu e se dirigiu a uma casinha que avistou ao longe, em busca de alguma “meizinha” que curasse essa infeliz dor-de-barriga. Foi recebido por uma velhinha, que lhe perguntou:

– O senhor já experimentou dar o olho da goiaba a ele (o chá)?

Disse seu Josias que não gostou da pergunta e respondeu grosseiramente:

– Se depender disso, esse passageiro pode se acabar pelo fundo, feito balaio!

– A senhora é doida, dona? Vôtes!

E o chofer contou que voltou muito contrariado, e meteu o pé no acelerador, enquanto, nessas alturas, a catinga do passageiro empestava a boleia do misto. Ao chegar a Natal, deixou o passageiro no pronto-socorro e foi direto tratar de mandar lavar o carro.

Foi a última vez que dirigiu o misto. Ficou traumatizado com o ocorrido. Afinal, teve de parar o carro umas dez vezes, para que o passageiro corresse para o mato. A partir de então, abominou a profissão de chofer de misto.

O ORADOR

Eurico não era advogado, mas tinha mania de fazer discurso. Protético, residia em Natal e gostava muito de aparecer. Estava sempre procurando, no Dicionário da Língua Portuguesa, palavras difíceis, para encaixá-las nos discursos que escrevia. Como todo orador que se preza, trazia discursos gravados na memória, prontos para diversas situações.

A cidade estava consternada com a morte de Dona Berenice, 85 anos, verdadeiro patrimônio moral da família Salvino. Solteirona juramentada, piedosa e pura, a respeitável mulher passou pela vida incólume às delícias do amor. Deixava o seu exemplo de mulher decente, íntegra e despojada de vaidade, como modelo para as futuras gerações da sua família. Todos choravam, copiosamente, a sua partida. Os sobrinhos a tinham como uma segunda mãe e se sentiam órfãos. Já estavam acostumados à sua doce presença em todas as festas que faziam.

Apesar de não haver se casado e constituído família, a pranteada era mais mãe e avó dos sobrinhos, do que suas três irmãs casadas. Servia até de babá aos menores, quando as irmãs necessitavam de uma “mãozinha”.

Eurico organizava numa pasta os discursos que iria fazer, em cada velório a que comparecesse no ano que se iniciava. Fazia também uma lista com os nomes das pessoas idosas, que possivelmente iriam bater as botas a cada novo ano, de acordo com o seu pressentimento. E no bar que frequentava, eram feitas apostas em cima desses nomes, com prêmios em cervejas para quem acertasse.

Ao velório de Dona Berenice, chegou embriagado, levado por um companheiro de copo. Não estava muito a par da vida da santa mulher, mas já sabia as frases de efeito que diria.

Após a celebração da Missa de corpo presente, o homem se aproximou e proferiu seu discurso:

– Estamos diante de uma esposa extremada e uma grande mãe de família, que teve uma vida dedicada aos seus!!! Dona Berenice já está no Céu! Foi levada pelos Anjos, deixando aqui na terra o seu amantíssimo esposo e os seus filhos e netos, todos inconsoláveis, e aqui presentes! A Natureza chora! Mas o Céu se ilumina, e os espíritos de luz se regozijam com a sua chegada à Morada Celestial! Vá com Deus, Dona Berenice!

O homem inconsolável a que se referiu o orador, era Josias, irmão da falecida. Os jovens a quem apontou como seus filhos e netos, eram, na verdade, filhos e netos de suas irmãs casadas.

A família ficou indignada com o discurso e o orador ouviu poucas e boas.

A DESPEDIDA

Há várias décadas, em uma conhecida capital nordestina, morreu um advogado criminalista, de renome, Dr. José Paz. O fato comoveu a cidade, por se tratar de uma pessoa muito querida, grande orador, e cuja atuação no tribunal do Júri tinha um público cativo. O velório ocorreu na sua própria residência, como era costume da época. Prolongou-se por toda a noite, tendo sido marcado o sepultamento para 16 horas. Após a cerimônia de encomendação do corpo, feita pelo Bispo da Diocese, veio o momento de maior emoção, quando começaram as despedidas da viúva e das três filhas, que, inconsoláveis, não paravam de beijar o morto.

O sepultamento ocorreu no principal Cemitério da cidade, com homenagens de vários oradores, amigos e colegas de profissão do falecido.

O advogado tinha um motorista de toda confiança, Gonçalo, há mais de dez anos, que era uma espécie de “faz-tudo”. Além de dirigir, fazia seus pagamentos, e era também seu “segurança”. Cria da casa e filho de uma antiga empregada da família, Gonçalo, quando estava de folga, gostava de tomar umas biritas. A morte repentina do patrão mexeu com os seus sentimentos e fez com que passasse o dia enchendo a cara. Sentia-se desolado, e não sabia como seria sua vida a partir daquele triste dia. E tomou um porre homérico.

Quase na hora marcada para a saída do enterro, entre os soluços da esposa e filhas do advogado, ouviu-se um choro alto, de alguém que se aproximava do caixão. Era o motorista, completamente embriagado, que queria se despedir do seu patrão, protetor e quase pai. O “pau d’água” beijou as mãos entrelaçadas do pranteado advogado, e, com voz pastosa, proferiu frases de gratidão e saudade. Não contendo a emoção, desabou num choro compulsivo e engasgou-se com saliva. Começou a tossir quase cuspindo no defunto, e terminou passando um vexame: Sua dentadura superior caiu entre as folhas e flores do caixão, e quanto mais ele tentava pegar, mais ela escorregava, até sumir completamente. Desesperado e de boca murcha, Gonçalo pedia ao patrão que o ajudasse, chamando a atenção das pessoas ali presentes.

Nesse ínterim, chegou o momento de ser fechado o caixão, para que fosse iniciado o cortejo fúnebre. Como o motorista não aceitava se afastar, foi retirado quase à força, sob protestos veementes. Ao se afastar do caixão, sem recuperar a dentadura, Gonçalo fez o último apelo ao patrão:

– Vá com Deus, patrão! Mas antes disso, devolva minha “chapa”, com o meu lindo sorriso!

TUPI

Tupi era o mais inteligente e o mais dócil dos cães. Brincava com as crianças da rua e disputava com elas todos os brinquedos. Era um companheiro incansável. Dava gosto vê-lo atirar-se à piscina e agarrar os brinquedos que os filhos do seu dono lhe atiravam, o mais longe que podiam. Repetia essa tarefa até que os meninos se cansassem. Segurava os brinquedos com a boca, e os trazia como se fossem troféus. As crianças vibravam, com a rapidez com que o cão resgatava os brinquedos atirados à água.

Essa brincadeira recomeçava vinte vezes, sem cansar nunca a paciência de Tupi. Depois, vinham as corridas, lanches, gargalhadas, saltos, até que o assobio de um empregado da fazenda chamava o fiel animal às suas obrigações. Corria, então, como um raio, para escoltar as vacas que eram levadas aos pastos, e impedi-las de entrar nas terras do vizinho.cao-de-guarda

Quando Pedro, o carroceiro, ia vender as batatas no mercado, Tupi era o guarda da carroça.

Triste de quem ousasse saltar o muro da fazenda para roubar. Uma vez, o cão deu prova de extraordinária sagacidade. Um desocupado pulou o muro, à noite, e tentou furtar uma saca de batatas. Tupi, como um exímio vigilante, esperou que ele procurasse o caminho da saída, levando a saca na cabeça, e o agarrou pela camisa, sem o largar.

Era como se dissesse: “Onde você pensa que vai, levando as batatas do meu dono?”

O homem quis pôr o saco no local de onde o tinha tirado, mas o cachorro não deixou, mantendo-o seguro pela camisa até de manhã, sem o ferir ou morder. O dono da fazenda, logo cedo, levantou-se e encontrou Tupi nessa difícil posição. Repreendeu o malfeitor, que tremia de medo, e ameaçou de mandar prendê-lo, em caso de reincidência.

O ladrão, porém, ficou com ódio do cão, e, alguns dias depois, voltou a pular o muro da fazenda. Aproveitando a ausência do fazendeiro e dos filhos, chamou Tupi, que correu para ele sem desconfiança. Sem que o caseiro visse, atou uma corda ao pescoço do cachorro e o arrastou até à margem do rio, num local sinalizado como perigoso. Atou à outra ponta da corda uma grande pedra, e, levantando o animal, jogou-o à água. Com o esforço e com o peso do cachorro, o homem se desequilibrou e também caiu no rio, no mesmo local onde acabara de jogá-lo. Como diz o ditado popular, o feitiço virou por cima do feiticeiro.

Como não sabia nadar, o covarde, apavorado, viu-se perdido. E teria morrido afogado, se não fosse o corajoso Tupi. Obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, o fiel cão de guarda mergulhou duas vezes, trazendo para terra o seu perigoso inimigo.

Esse ladrão, que já estava quase desmaiado, compreendeu, quando voltou a si, que o cão, que ele tinha querido afogar, salvara-lhe a vida.

Envergonhou-se do ato miserável que praticara e, desde esse dia, deixou de praticar ações violentas.

O exemplo do cão corrigiu o homem.

A CAMINHONETE

Adamastor era um engraxate, que, na década de 60, atendia aos fregueses na Praça Padre João Maria, bairro da Cidade Alta, em Natal (RN). No final da tarde, guardava seus apetrechos no estabelecimento de um sapateiro “lambe-sola” (consertador de calçados), seu amigo Osvaldo, um homem fanático por Aluízio Alves, na época, governador do Estado. Convém salientar que Seu Osvaldo só usava camisa verde, símbolo do partido político do seu ídolo, e as paredes do seu minúsculo ponto comercial eram totalmente decoradas com fotos desse homem, que exerceu grande liderança política no Estado, durante muitos anos. Além disso, o sapateiro também mantinha na parede externa do seu estabelecimento de trabalho, onde também morava, uma grande bandeira verde. Era uma figura folclórica.

Adamastor, à noite, ganhava dinheiro pastorando carro. Sua freguesia era constituída de frequentadores do Cine Nordeste, localizado na Rua João Pessoa, por sinal, bem perto da Praça Padre João Maria.caminhonete

Antes disso, jantava um cachorro-quente “Sebosão”, enorme, que tinha tudo o que o diabo gosta: carne moída gordurosa, salsichão da pior qualidade, frango com muita graxa, vinagrete, e uma cobertura generosa de “ketchup” e maionese. Dentro de uma mochila, trazia sempre uma garrafa de pinga e um copo. Trazia também um depósito com água.

À noite, depois que se transformava em pastorador de carro, Adamastor aproveitava para tomar suas chamadas de cana, quando não havia ninguém olhando. Bebia moderadamente e nunca foi visto embriagado.

Adamastor já era uma figura conhecida na redondeza, e de muita confiança. Tinha seus fregueses cinéfilos, que deixavam seus carros estacionados perto do cinema, aos seus cuidados, e lhe pagavam bem. E ai dos malandros que se aproximassem dos carros que pastorava. Ele gritava, mandando-os “desarredar” imediatamente. Para demonstrar zelo, mantinha sempre nas mãos uma flanela molhada, com a qual tirava a poeira dos carros.

Certa noite, Dr. Mesquita, um advogado muito conhecido na cidade, confiou-lhe sua luxuosa e recém adquirida caminhonete, enquanto iria com a esposa ao “Cinema de Arte”, sessão das 21 horas, no Cine Nordeste.

Como o filme era de longa-metragem e só terminava à meia noite, Dr. Mesquita pediu ao pastorador que redobrasse o cuidado.

Nessa noite, Adamastor se excedeu na cachaça, e ficou ainda mais cuidadoso, principalmente com a caminhonete “zerinho” do doutor. Para se sentir mais seguro, resolveu providenciar um “cacete”, para usar contra qualquer malandro que tentasse bulir nos carros. Nesse tempo, ainda não havia assalto nem roubo de carro em Natal.

Depois que a sessão de cinema terminou, o advogado foi pegar seu veículo e notou que Adamastor estava muito nervoso, pois, quando o avistou, foi logo dizendo em voz alta:

– Graças a Deus, doutor, o senhor chegou!

E Dr. Mesquita perguntou:

– Está tudo bem, Adamastor? Aconteceu alguma coisa?

Então, o pastorador respondeu:

– Agora tá tudo bem, doutor. Mas passei um susto danado! Tava tudo calmo e de uma hora pra outra apareceu um moleque taludo, querendo mexer no trinco da caminhonete do senhor. Parece até que eu tava adivinhando, pois já tava com a arma na mão. Dei uma grande surra de cacete no safado, mas ele conseguiu fugir correndo. Fiquei o resto do tempo “cubando” se ele voltava, mas o ladrão desapareceu de vez.

O “cacete” a que Adamastor se referiu foi, nada mais, nada menos, do que a antena da caminhonete de luxo, novíssima, do advogado, que ele continuava segurando.

Como a causa foi justa, Dr. Mesquita guardou a antena, agradeceu e deu uma nota graúda ao pastorador.

O MILHAR

Zequinha era um sapateiro “lambe-sola”, bom no ofício, mas dominado pela bebida. O que ganhava gastava com cachaça. Bebia diariamente, e dizia que não parava de beber, com medo de ter ressaca e não poder mais trabalhar. Tinha certeza de que ficaria acamado, se deixasse a bebida. Todos os dias, tinha que tomar algumas chamadas de cana. Era um homem inofensivo, humilde e simpático.

Conformado com a sua vida solitária, Zequinha havia desistido de casar, pois nenhuma mulher quis se sujeitar à sua bebedeira e à sua vida desregrada.bebado-maltrapilho

Também era viciado em jogo de bicho, e diariamente fazia uma fezinha. Quando ganhava, era pouco dinheiro, no grupo.

Um certo dia, Zequinha jogou no bicho e, dessa vez, acertou no milhar. Ganhou um bom dinheiro, que lhe garantiria a sobrevivência por algum tempo, se não torrasse todo em cana. Foi logo receber o prêmio e guardou no bolso, com todo o cuidado.

Muito feliz com o dinheiro ganho no jogo do bicho, dirigiu-se logo à Loja “Guararapes”, e comprou uma muda completa de roupa. Noutra loja, comprou um par de sapato “Conga”. Dirigiu-se ao barraco precário onde morava e tomou um banho de cuia, para trocar os trapos com que andava vestido.

Depois que se aprontou, pôs de molho num tanque com água e sabão a roupa velha que usava, e que daria de esmola. Saiu, então, todo faceiro, para festejar sua sorte num bar de gente rica, que nunca pôde frequentar. Nesse bar, às vezes, ele ficava somente pitigorando os petiscos e bebidas caras que os ricos consumiam.

A notícia do prêmio de Zequinha, entretanto, já havia se espalhado. Entrou no Bar da Jia, de cabeça erguida, pediu logo whisky e uma refeição para matar a fome. Logo se embriagou, fez discurso, disse que agora estava rico, e que, . finalmente, a sorte tinha olhado para ele.

Já tarde da noite, pôs a mão no bolso para pagar a conta, coisa que nunca tinha podido fazer na vida, e o bolso estava vazio. Pensou logo que havia sido roubado. A confusão foi grande. Depois, adormeceu na mesa do bar e só acordou pela manhã. Veio-lhe, então, à memória, as roupas velhas que tinha posto de molho em água e sabão. Empalideceu e correu para casa. A sua decepção foi grande. O dinheiro que ganhara no milhar e que guardara no bolso da calça velha, estava de molho junto com toda a roupa. Todas as notas haviam perdido a cor e não houve jeito de recuperar.

Dizem que o “bicho” dá e o bicho “come”. Mas, nesse caso, quem comeu mesmo foi água e sabão.

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“DISQUE-AMIZADE”

Antes da era cibernética, a comunicação que servia de elo entre as pessoas distantes era a telefonia fixa.

A prestação do serviço telefônico, “145 – Disque-Amizade”, foi inaugurado em 1984.

Discávamos 145 e logo uma ou várias vozes atendiam ao telefone, estabelecendo-se uma conversa simpática, de pessoas geralmente solitárias, a fim de fazer amizades. Pela voz e pela qualidade da conversa, selecionávamos quem se mostrasse mais interessante, e os contatos eram constantes, com hora marcada para a conversa telefônica. Daí surgiam boas amizades, namoros e até casamentos. Havia também muita decepção, pois algumas pessoas trocavam os números dos seus telefones, e continuavam, na conversa reservada, mentindo da mesma forma.telefone-verde-fixo

Na conversa coletiva, os participantes costumavam usar pseudônimos, pois ali, inicialmente, todos eram desconhecidos. A “brincadeira” era divertida, e servia de lenitivo às pessoas solitárias, desiludidas, e esperançosas de encontrar ou reencontrar um amor.

Muitas viúvas solitárias, mulheres divorciadas ou separadas, atravessando fases de depressão, ligavam o 145 e tinham a sorte de encontrar alguma pessoa boa para conversar. Dessas conversas, às vezes, surgiam amizades sinceras, que com o tempo se solidificavam.

Os homens, cuja natureza é de caçador, estavam sempre à procura de novas caças.

Emanuel, um rapaz de 28 anos, bonito, bem empregado e bem-nascido, através do “145” se apaixonou pela voz de Nina, uma jovem que dizia ter 23 anos, era muito rica, e cujo pai era um verdadeiro carrasco. Trocaram os números dos respectivos telefones e passaram a conversar diariamente. Com o tempo, os dois estavam apaixonados e Nina lhe sugeriu um encontro, para que se conhecessem pessoalmente. Combinou, então, para se encontrar com ele na Av. Hermes da Fonseca, perto do Quartel do Exército. No dia e horário marcados, o rapaz chegou ao local combinado, vestindo a roupa também combinada. Esperou das 15 às 18 horas pela moça, que não apareceu.

Emanuel voltou para casa decepcionado e jurou que nunca mais entraria no “disque-amizade”. No dia seguinte, logo cedo, Nina lhe telefonou se desculpando, e jogando a culpa no pai por ter faltado ao encontro. Para compensar, convidou o rapaz para um encontro em Olinda (PE) no fim de semana vindouro, pois lá ela contaria com a cumplicidade de uma tia. Viajariam separados, mas ficariam no mesmo hotel, cujo nome ela sugeriu. Muito apaixonado, e curioso para conhecer pessoalmente a musa que povoava os seus sonhos, Emanuel aceitou o pedido de desculpa e também o convite para que os dois fossem se encontrar em Olinda. Reservou o hotel e aguardou, com ansiedade, o fim de semana. Nessas alturas, suas duas irmãs já estavam sabendo que ele estava apaixonado, e torciam para que o encontro desse certo.

A sexta-feira chegou, e Emanuel viajou no seu Fusca para Olinda, ansioso pelo grande encontro. Não se cansava de imaginar como seria o rosto e o corpo de Nina. Apaixonadíssimo, apostava no destino, e tinha certeza de que estava indo ao encontro da “mulher da sua vida”.

Chegando ao Hotel Santo Amaro, onde fizera reserva para um casal, Emanuel instalou-se no apartamento. Tomou banho, vestiu uma roupa da melhor qualidade, e ficou aguardando Nina, que, pelo combinado, deveria ter chegado pela manhã à casa da tia.

Anoiteceu, chegou a madrugada, e raiou um novo dia. Nina não chegou nem mandou notícia. Terminou o fim de semana e no domingo à tarde, Emanuel retornou a Natal, arrasado. Adeus às ilusões. Outra decepção, que, dessa vez, pôs fim, definitivamente, ao seu sonho de amor. Nina não passava de uma tratante, e estava zombando dos seus sentimentos. Nunca mais entraria no “disque-amizade”, nem queria mais ouvir a voz de Nina.

Com a decepção estampada no rosto, Emanuel entrou em casa cabisbaixo, e contou às irmãs o “bolo” que, mais uma vez, havia levado de Nina. As duas moças ficaram revoltadas e decidiram descobrir quem seria essa tal moça.

Nessa época, os Catálogos Telefônicos anuais traziam o número do telefone, o nome e o endereço do usuário. Com a paciência de Jó, as duas moças, tendo em mãos o número do telefone da suposta Nina, conseguiram descobrir o nome e o endereço do dono do telefone. Uma delas discou o tal número, o dono atendeu e se identificou. Ela também se identificou e pediu para lhe falar pessoalmente sobre um assunto muito desagradável. Gentilmente, o homem a recebeu no seu local de trabalho, uma conhecida rádio de Natal. Tratava-se de um comentarista esportivo muito atuante nesta capital.

Mara contou-lhe, então, o envolvimento do seu irmão Emanuel com uma jovem chamada Nina, que usava o telefone dele. Disse que o irmão tinha sofrido uma grande decepção com a jovem, que, aliás, ele só conhecia pelo “disque-amizade”. Ela tinha combinado um encontro com ele em Olinda (PE) no último fim de semana, induzindo-o a fazer reserva em hotel, e lá não apareceu nem lhe deu satisfação. Falou também que, antes disso, a jovem havia pedido para se encontrar com seu irmão, nas imediações do Quartel do Exército, indicando o local certo onde ele deveria ficar. Depois de esperar três horas pela moça, o irmão teria retornado à sua casa, disposto a não querer mais conversa com ela. Entretanto, no dia seguinte, a jovem lhe ligou, pedindo desculpa e atribuindo a impossibilidade de ir ao encontro ao pai, que era um carrasco. Então, ela sugeriu a ideia dos dois irem se encontrar em Olinda.

Para surpresa da irmã de Emanuel, o homem falou que morava com a mãe, dona Matilde, uma senhora de oitenta e seis anos, que sofria de obesidade mórbida, e passava o dia todo em casa, somente com uma empregada doméstica. Disse também que Dona Matilde era viciada no “disque-amizade”, coisa que ele não podia proibir, pois era o seu maior divertimento.

Pois bem: A jovem Nina, de voz bonita e sensual, por quem Emanuel se apaixonou perdidamente, na realidade, era Dona Matilde, de oitenta e seis anos, e que sofria de obesidade mórbida. A mulher entrava diariamente no “disque-amizade”, e usava a cada dia um pseudônimo diferente. Fazia uma voz estudada, e facilmente se fazia passar por uma mocinha. Nessa brincadeira, arranjava “namorados”, que sempre se apaixonavam pela sua voz.

Convém salientar que, no dia combinado para o primeiro encontro, da janela do seu apartamento, Dona Matilde reconheceu Emanuel e deu ótimas gargalhadas, ao vê-lo olhar constantemente para o relógio. As características que o rapaz lhe havia dado do seu tipo físico, e a cor da roupa com a qual disse que iria vestido, não davam margem a equívoco. Emanuel foi mais um dos apaixonados por Nina, Tereza, Fátima, Sílvia, ou outros pseudônimos usados por Dona Matilde.

Com o advento da internet, o “disque-amizade” caiu no desuso, perdendo a utilidade. Continua, apenas, na nossa memória, como uma lembrança boa, de um tempo em que ainda não existia a violência exacerbada de hoje. É coisa do passado.

Os homens, cuja natureza é de caçador, estavam sempre à procura de uma nova caça. As mulheres, de um modo geral, alimentavam a esperança de que naquela linha telefônica estaria traçado o seu destino. Acreditavam que a felicidade estava a caminho, e elas iriam encontrar um amor, ou um novo amor, para substituir o que haviam perdido.

Atualmente, o 145 perdeu a utilidade; e hoje o “Disk Amizade” é só uma lembrança em algum blog, na seção de antiguidades.

O PEDIDO

Malvino era um fazendeiro rico e avarento, que só se preocupava em juntar dinheiro.

Para isso, usava um antigo cofre que tinha em casa, cujo segredo a esposa Damiana sabia, mas nunca teve coragem de mexer.

Não gostava de luxo nem de vaidade. Não admitia que se gastasse dinheiro com coisas supérfluas. A esposa e as duas filhas não pegavam em dinheiro para alimentar a vaidade feminina. Cabelos escovados e unhas feitas, o fazendeiro somente permitia nas festas de Natal e Ano Novo.

A casa, onde a família morava, não era forrada e o piso era de tijolo.dinheiro

Aparentemente, Malvino trabalhou pesado a vida toda e não queria ver ninguém usufruir das suas conquistas, nem mesmo a esposa e filhas. Gostava de dizer que filho de pai rico, quando o pai morre, acaba com tudo; e que viúva rica só serve para atrair cabra safado e aproveitador. O plano dele era esse: levar tudo com ele no caixão.

Uma vez por outra, dizia para Damiana:

“Quando eu morrer, quero levar todo o meu dinheiro comigo no caixão. Quero ter toda a minha fortuna, após a morte”!

Claro que isso soava bastante rude e egoísta para toda a família, especialmente para a esposa.

Damiana chegou a conversar com o padre sobre o pedido do marido, e ele lhe disse que não levasse isso a sério.

Anos depois, Malvino adoeceu, passando a sofrer de hipertensão e diabetes. Depois, o quadro se agravou e ele foi a óbito.

A esposa, então, sentiu-se na obrigação de concretizar o seu desejo. Depois de pensar muito, encontrou uma forma genial de conciliar as coisas, sem se prejudicar.

Na hora em que o caixão seria fechado, gritou: “Esperem um minuto”!

Um dos familiares disse: “Espero que você não seja louca de colocar toda a fortuna no caixão”.

A mulher, chorando, respondeu:

“Eu prometi a ele. Sou cristã e irei cumprir o meu juramento”!

Os amigos e familiares ficaram indignados com a situação.

Damiana, então, tirou do sutiã um cheque e pôs sob a cabeça do defunto. E explicou, baixinho, aos familiares:

– Ele vai levando, no caixão, um cheque nominal, cruzado, assinado por mim, no valor de todo o dinheiro que ele deixou no cofre. Amanhã, irei depositar o dinheiro no banco.

A FIGA

Alcino e Dinalva eram casados há 20 anos e tinham três filhos, sendo uma moça e dois rapazes. Moravam em Natal (RN). Servidor público estadual, depois do expediente, Alcino costumava se encontrar com amigos, em um conhecido bar da cidade. Sua bebida predileta era cerveja. Bebia diariamente, e quando a esposa reclamava, ele dizia que cerveja não fazia mal a ninguém.figa

Uma vez por outra, a ressaca batia, acompanhada de uma tremenda disenteria. Quando melhorava, Alcino voltava a beber. Essas crises foram se amiudando e, por insistência da esposa, ele foi a um gastroenterologista. Após uma série de exames, o diagnóstico foi de uma cirrose hepática, já em estado avançado. Alcino foi internado às pressas, e o tratamento foi iniciado. A parada brusca do álcool provocou-lhe a síndrome da abstinência, e sua mente ficou muito perturbada. Por causa disso, chegou a ser internado em um hospital psiquiátrico.

Mas seu fígado não processava mais os psicotrópicos que lhe eram prescritos. Retornou ao hospital anterior, para continuar o tratamento da cirrose. Dinalva, que cansara de lhe implorar para que diminuísse a bebida, via agora acontecer o que mais temia. O fígado de Alcino não aguentou o exagero diário de bebida, e ele adoeceu. De repente, o quadro se agravou. Houve diversos internamentos e diversas altas hospitalares, até que viesse o desfecho do quadro.

Desesperada, Dinalva chorava a toda hora, diante do prognóstico dado pelo médico. Alcino se preocupava com o sofrimento da mulher, e procurava acalmá-la, dizendo que logo estaria curado. Com o seu bom humor, conseguia disfarçar seu sofrimento e sua preocupação. Mas, à medida que o quadro se agravava, sentia que estava chegando ao fim. Muito triste, prometia à esposa e aos filhos que, quando ficasse curado, jamais voltaria a beber. Dinalva se lembrava da frase, que se tornou ditado popular, “agora é tarde, Inês é morta”.

Mesmo debilitado, às vezes brincava com a mulher, dizendo-lhe que iria ficar bom e ainda lhe daria muito trabalho. Num dos seus últimos dias de vida, Alcino, ainda consciente, percebeu lágrimas nos olhos da esposa. Carinhosamente, procurou tranquiliza-la, dizendo:

– Não chore não, querida! Eu sei que vou morrer, mas não se desespere. Estou pedindo a Deus para morrer num dia e você no outro.

Dinalva arregalou os olhos assustada, botou os braços para trás, e fez duas figas com as mãos. Não disse nada ao moribundo, mas, revoltada, entrou no banheiro, xingando-o baixinho:

“Morra sozinho, infeliz, e se dane para o inferno”!

A BRIGA

Há várias décadas, Nicanor e Marcondes, amigos e companheiros de mesa de bar, eram duas almas num corpo só, como diz o ditado popular. Servidores públicos qualificados e bem-nascidos, eram assíduos frequentadores dos bares e cabarés de Natal. Conhecidos e respeitados pelo dinheiro que tinham, não pensavam duas vezes para armar uma confusão ou ridicularizar alguém, quando estavam embriagados. Os donos de bar tremiam nas bases, quando os viam chegar. Apesar do lucro que davam, com o consumo de bebidas e comidas caras, causavam, em contrapartida, o desassossego do dono do bar e dos clientes.briga-de-bar-ii

Certa noite, os dois boêmios chegaram ao bar que costumavam frequentar na Ribeira, e encontraram dois gringos, muito bem vestidos, sentados ao lado da mesa que eles costumavam ocupar. Imediatamente, surgiu uma antipatia mútua. Nicanor e Marcondes já haviam bebido em outro bar e chegaram meio triscados. Começaram a ridicularizar e soltar piadas para os galegos, que terminaram pedindo a conta, e se retirando, visivelmente aborrecidos.

Os dois boêmios de Natal sentiram-se os donos do mundo, e riram muito, às custas da saída dos desconhecidos. Meia hora depois, para surpresa deles, entraram novamente no bar os dois gringos, de roupa trocada, e encararam Nicanor e Marcondes. Ocuparam a mesma mesa em que estavam antes, e que continuava vazia. Os dois boêmios de Natal, embriagados e vibrando com o retorno dos “forasteiros” ao bar, ensaiaram recomeçar a sessão de deboche e piadas, tentando ridicularizá-los. Mas, dessa vez, os gringos estavam dispostos a reagir a qualquer insulto e a não levar desaforos para casa.

À primeira provocação, partiram para a luta. “Voaram” em cima dos dois boêmios e deram-lhes uma belíssima e fenomenal surra. A cada golpe que recebiam dos dois gringos, Nicanor e Marcondes rolavam no chão. Quando tentavam se levantar, recebiam novos golpes e sofriam novas quedas. Os dois perderam as forças e entregaram os pontos. O dono do bar, em pânico, deu graças a Deus quando os gringos se retiraram, sem, sequer, olhar para trás. Essa briga ficou registrada na história da boemia de Natal, e virou folclore. Foi tema para repentes e cordéis, pois os dois boêmios se julgavam ricos, corajosos e poderosos.

No dia seguinte, os jornais da cidade estamparam as fotografias dos dois heróis do bar da Ribeira, sem falar na briga. Nicanor e Marcondes gelaram, diante da manchete que leram. Os dois gringos eram campeões norte-americanos de luta de box, e estavam em trânsito, passando por Natal.

ATENÇÃO, LUAR!

Luar era uma mulher feliz. Casada, e esperando o primeiro filho, acreditava na fidelidade de Fernando, seu marido, e não o sufocava com ciúmes bestas. Não questionava suas andanças, nem duvidava do que ele dizia.

Numa certa tarde, Anatilde, irmã de Fernando, e a amiga Dorinha chegaram à sua casa para confidenciar-lhe um segredo. Uma dizia para a outra: “Conta, Dorinha!” “ Eu, não! Conta você, Anatilde!” Finalmente, a cunhada lhe disse que Fernando a estava traindo, com uma mulher casada, desavergonhada, que morava naquela mesma rua. As duas disseram-lhe que o caso era anterior ao casamento deles, e que nunca havia terminado.carta

Luar sentiu-se trêmula, levantou-se e disse às duas moças que não admitia que elas viessem à sua casa, falar mal de seu marido, e tentar infernizar o seu casamento. Mostrou-se indignada com a atitude das duas falsas amigas, principalmente Anatilde, sua própria cunhada. As duas saíram encabuladas e Luar bateu a porta nas costas delas.

Dias depois, Luar recebeu uma carta anônima, que dizia:

ATENÇÃO, LUAR: Você que atende pelo nome de Luar, igual a uma cachorra, fique sabendo que seu marido é amante de Jandira, e não é de hoje não…É coisa antiga. Chovendo ou fazendo sol, os dois se encontram todo dia, e passam um tempão juntos. O corno, marido dela, faz de conta que não sabe de nada. Mas toda a cidade sabe disso! Acorda, Luar! Tenho pena de você! Assinado: UMA AMIGA

Luar leu a carta, chorou muito e resolveu escondê-la do marido. Se fosse verdade, outras provas iriam aparecer. Muito amadurecida e apaixonada por Fernando, Luar não quis que o seu casamento fosse de água abaixo. Preferiu acreditar que tudo aquilo fosse maldade e inveja daquelas moças do interior, candidatas ao caritó. Ela tinha vindo da capital, tivera uma boa educação e uma formação moral rígida. O marido mostrava-se apaixonado por ela e a tratava como uma rainha. Não via motivos para duvidar dele. Viviam na maior felicidade, que iria aumentar ainda mais, com o nascimento do primeiro filho.

Os dias se passaram e Luar não tocou no assunto a Fernando nem a ninguém. Procurou disfarçar sua contrariedade com a visita da irmã dele e da amiga, como também não lhe falou sobre a carta anônima.

Um mês depois, duas outras conhecidas foram à sua casa, oferecer peças para o enxoval do bebê que iria nascer. As “bordadeiras” mostraram –se muito curiosas, querendo saber detalhes da vida do casal. Luar mudou de assunto, não comprou nada e mostrou-se incomodada com a visita. Deusa, a mais falante, antes de se despedir, perguntou:

– Luar, é verdade que, um dia desses, você recebeu uma carta anônima?!!!

Luar respondeu:

– Que conversa é essa? De onde você tirou essa história???

Gaguejando e mostrando-se nervosa, Deusa continuou:

– Pois todo mundo na cidade sabe! Eu sei até quem escreveu!!!

Luar respondeu com austeridade:

– Nunca recebi carta nenhuma! E com licença! Tenho o que fazer!

Luar tirou suas próprias conclusões…O marido nunca soube disso…


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