CONFISSÃO

Antes do advento da televisão e da Internet, era comum , nas cidades do interior nordestino, o preenchimento da noite, até chegar o sono, com conversas nas calçadas ou nas praças.

A vida calma de antigamente proporcionava às pessoas maior calor humano, amizades consistentes e conversas cheias de humor, que amenizavam as tensões do dia. As rodas nas calçadas ou nas praças serviam de palco para se ouvir histórias engraçadas, verdadeiras ou fictícias, piadas e anedotas. Essa relativa tranquilidade durou até o início da década de 60, quando a televisão chegou ao Nordeste do Brasil.

O progresso tecnológico pôs fim a essas reuniões, que todas as noites aconteciam nas calçadas ou nos bancos de praças.

A televisão, desde o início, interferiu nas relações humanas, passando a influenciar as pessoas, que passaram a dar prioridade às novelas e outros programas. As antigas rodas onde as pessoas amigas conversavam todas as noites foram se dispersando e sendo substituídas pelos programas de televisão. Nas casas, as conversas passaram a se limitar aos intervalos desses programas. As relações humanas ficaram em segundo plano.

Para acabar de vez com o tempo dedicado às conversas “olho no olho”, surgiram o telefone celular e depois a Internet, com suas redes sociais, disponibilizando aos usuários amizades virtuais, com imagens fantasiosas, que diferem das amizades verdadeiras, que tem raízes consolidadas.

O relacionamento humano perdeu sua prioridade. Acabaram-se os flertes, a alegria das cartas recebidas pelo correio e as fotografias com oferecimento. Em suma, o romantismo de antigamente foi substituído por relacionamentos, às vezes iniciados através da Internet, que, dificilmente, correspondem à realidade. Os personagens reais do cotidiano tornaram-se virtuais e passageiros.

A televisão e a informática puseram fim às conversas pessoais, “ao vivo e a cores”. A criatividade das pessoas foi mutilada, pois a televisão já entrega o “prato feito”, castrando o raciocínio.

Os costumes mudaram com o progresso tecnológico, o romantismo acabou e o amor tornou-se “genitalizado”.

Até as cartas anônimas, meio de agressão muito usado antigamente, no interior nordestino, desapareceram. Na época em que eram usadas, essas cartas tornavam-se folclóricas e, através delas, muitos “pecados” eram descobertos.

Certa vez, numa cidade do interior, um conhecido cidadão, cuja mulher não era confiável, recebeu uma carta anônima, avisando-lhe que ele estava levando chifres. Isso, a cidade toda sabia. Mas, muito apaixonado, o homem preferiu acreditar que se tratava de uma infâmia. Guardou a carta e fez de conta que não a tinha recebido. Não comentou nada com ninguém, principalmente com a mulher. Dias depois, o autor da carta, que era alcoólatra, encheu a cara de cachaça e, ao se encontrar com o destinatário, não se conteve e perguntou, na frente de várias pessoas da cidade:

-E aí, Seu Jordão! É verdade que o senhor recebeu uma carta anônima, dizendo que o senhor é corno?

Indignado com o atrevimento do conhecido, o homem respondeu:

– Você me respeite, canalha! Não recebi carta anônima nenhuma!!!

Inconformado, o bêbado insistiu:

-Deixe de mentira, homem! Eu sei que o senhor recebeu, mas não quer dizer! Pois, fique sabendo que quem lhe mandou aquela carta fui eu!!!

Com essa confissão, foi inevitável que o corno reagisse, trocando murros com o autor da carta anônima e prestando queixa contra ele à Polícia.

AVE DE RAPINA

Os urubus fazem parte do grupo de aves de rapina, que a mãe natureza criou para manter a limpeza da terra. São aves que se alimentam da carcaça de animais mortos.

Existem muitas espécies de urubus. No Brasil, podemos encontrar o urubu-rei, o urubu-da-mata, o urubu-preto, o urubu-de-cabeça-vermelha e o urubu-de-cabeça-amarela.

Um cavalo morto estava sendo devorado por urubus, quando passou o mendigo Josias e notou que uma das aves estava com uma das asas quebradas. O homem se apiedou do urubu mutilado e o levou consigo, estrada afora. Depois de algum tempo, a fome chegou e Josias bateu palmas numa casa, cujo cheiro de comida de longe se sentia. Uma senhora abriu a porta e disse que não iria dar comida a um vagabundo, com um urubu nas costas. Deu tempo do pedinte ver um leitão assado, em cima do fogão e ficar com a boca cheia de saliva. Viu também a mesa repleta de bolos, doces e outras iguarias.

A mulher, praticamente, bateu a porta na cara do mendigo. Mas, pelas frestas, Josias a viu guardar no forno o leitão assado.

Muito desanimado e com fome, o mendigo sentou-se numa pedra ao lado da casa, para refazer as forças, com o seu amigo urubu. 

De repente, o dono da casa chegou e avistou Josias ali sentado. Aproximou-se e lhe perguntou o que desejava, com aquele urubu nas costas. O bom homem se compadeceu do mendigo, que lhe confessou estar com muita fome dormida.

A dona da casa abriu a porta para o marido entrar, reclamando por ele ter antecipado sua volta. Disse que não tinha preparado nada para o jantar. Iriam comer feijão de corda com jabá e mandioca.

Seu Josué, o dono da casa, convidou o maltrapilho para matar a fome à sua mesa. Mesmo temeroso, Josias entrou e sentou-se, tendo o cuidado de acomodar o urubu doente aos seus pés, com as pernas amarradas com um pedaço de corda. Indignada com a presença do maltrapilho, a mulher fechou a cara.

Os dois homens estavam conversando, quando, de repente, o urubu começou a gritar. O dono da casa se assustou, mas o mendigo lhe disse que a ave estava se comunicando com ele. Estava dizendo que a dona da casa tinha preparado uma grande surpresa para o marido. No forno havia um leitão assado e na cozinha uma variedade de iguarias, como doces, bolos e bebidas.

O marido, então, exigiu que a esposa trouxesse tudo para a mesa. O homem estranhou que ela houvesse escondido dele aquele banquete.

O destinatário, entretanto, não era o marido e sim um amante da infiel mulher. Questionada, a dona da casa, falsamente, respondeu:

-Quis lhe fazer uma surpresa no fim do jantar, senhor meu marido!

A resposta da mulher não convenceu.

Acreditando na magia daquela ave de rapina, o dono da casa propôs a Josias, o mendigo, pagar um bom preço por aquele urubu. Afinal, nunca tivera notícia de que um urubu fosse capaz de falar com alguém. E aquele banquete que sua mulher preparara e lhe escondera, só lhe tinha sido servido porque o urubu avisara. Aquele urubu era um gênio!

Mas a proposta foi recusada e o mendigo seguiu sua caminhada, levando às costas o seu mais novo amigo, o urubu.

O BICHO-HOMEM

“Não tem bicho mais valente do que o bicho-homem. Ele, sim, é o rei dos animais.”

Essa foi uma conversa ouvida entre uma onça e um lobo. A onça estava descansando, quando recebeu a visita do lobo, para lhe contar a novidade. Maldoso e falso, chegou com o intuito de perturbar a onça. Começou dizendo que ela e o leão só tinham fama de ferozes, mas o verdadeiro rei dos animais era o bicho- homem. Com uns espirros de fogo, ele matava qualquer animal feroz, que aparecesse em sua frente.

A onça ficou furiosa e quis conhecer esse tal “bicho-homem”, para acabar com a sua raça. Os animais da floresta não podiam ser desmoralizados por espirros de fogo. Mereciam respeito, e o leão jamais deixaria de ser o rei dos animais.

Ao ver a onça furiosa, o lobo quis se desculpar:

– Comadre, eu lhe peço perdão. Já estou arrependido de ter dito essa asneira. Eu quis apenas lhe prevenir da maldade do bicho-homem. Vi de longe esse bicho matar um leão, com dois espirros de fogo. Sem fazer qualquer força.

O lobo e a onça fizeram uma parceria, para destruir o bicho- homem. Como o lobo era mais veloz do que a onça, amarrou uma ponta de um cipó muito forte no pescoço da comadre e a outra ponta na sua cintura, para irem à luta. Se precisassem correr, a onça seria puxada por ele.

Feito o acordo, os parceiros saíram à procura do perigo ameaçador. A onça, inicialmente, acompanhou o lobo na sua velocidade, com muita resistência.

Ao avistar os dois animais, o bicho-homem tirou da cintura sua arma de fogo e disparou vários tiros na direção deles, sem conseguir atingi-los. Assustado, o lobo desabou numa corrida desenfreada, arrastando a onça pelo cipó atado aos dois. De repente, começou a sentir dificuldade de correr, pois o peso da onça havia aumentado. Com esforço, correu até se sentir seguro. Então, parou e viu que a onça estava sem respirar e mostrando todos os dentes. Sem entender que a comadre estava morta, o lobo a repreendeu:

– Comadre onça, não ria desse jeito! Estou cansado de puxar a senhora!

O lobo foi, literalmente, “amigo da Onça.” Agiu com leviandade, provocando a morte da comadre.

A expressão amigo da onça, usada como sinônimo de amigo falso ou pessoa em quem não se deve confiar, teve origem na década de 40.

Inspirado em uma piada que fazia muito sucesso na época, o cartunista Péricles de Andrade Maranhão batizou seu novo personagem como Amigo da Onça, que foi publicado em uma charge, pela primeira vez, na revista O Cruzeiro, em 23 de outubro de 1943. A página de Péricles foi a mais lida da revista de 1943 até 1961, ano de sua morte.

A FELICIDADE

Josimar, um marceneiro pobre, de uma cidade do interior nordestino, trabalhava o dia todo, para sustentar a mulher e os seis filhos. Conformado com a pobreza em que vivia, o casal era muito feliz e a família harmoniosa.

À noite, todos se sentavam na calçada, e Josimar dedilhava a viola, herdada do pai, cantando repentes e improvisos. Exaltava a mulher e os filhos e lamentava a pobreza em que viviam. Mas, agradecia a Deus por ter filhos saudáveis e bonitos e uma mulher dedicada à família. 

Na rua principal, morava Seu Santino, um fazendeiro muito rico, casado e pai de dois filhos, que sempre chamava Josimar para consertar e envernizar os móveis antigos de sua suntuosa casa. Com o tempo, o velho passou a admirar a honestidade do marceneiro e a observar a pobreza em que ele e sua família viviam. Josimar nunca o explorara e nunca lhe pedira dinheiro emprestado.

Era a época do Natal e Seu Santino resolveu dar um bom presente em dinheiro a Josimar, para ajudá-lo na educação dos filhos. Costumava fazer isso, esporadicamente, quando encontrava na sua frente uma pessoa honesta e trabalhadora. Na semana do Natal, mandou seu motorista entregar a Josimar uma maleta, embrulhada com papel de presente. Ao abrir a encomenda, o marceneiro ficou assustado com a quantidade de dinheiro que viu na sua frente. Esperava que fossem roupas usadas. Chamou a mulher para ver e ela ficou ainda mais assustada. Os dois se entreolharam, sem coragem de tocar no dinheiro. Puseram a maleta debaixo da cama, para depois resolver o que iriam fazer com aquele dinheiro fácil, para eles sem qualquer sabor.

Anoiteceu e a casa continuou em profundo silêncio. Naquela noite, as crianças sentiram falta do pai na calçada, tocando viola e fazendo repentes. Ninguém riu nem conversou. Josimar e Luzia estavam calados, sem assunto. No dia seguinte, a casa continuou em silêncio. As crianças foram brincar no terreiro, mas quando começaram a falar alto e correr, levaram gritos do pai que ameaçou lhes bater, se continuassem fazendo barulho. Nunca tinha acontecido isso antes. O filho mais velho, de 9 anos, percebeu a cara de choro da mãe e os olhos inchados. Houve um silêncio sepulcral e a família se entreolhou com olhos de pavor.

O marceneiro não teve coragem de contar o dinheiro. Sentiu dor de cabeça e medo de ser acusado de roubo. Também teve medo que um ladrão invadisse sua casa e levasse a maleta. Não sentiu mais vontade de admirar o céu, a lua e as estrelas, como sempre fazia. Não dedilhou mais a viola, nem versejou, como costumava fazer todas as noites.

Josimar estava vivendo as noites mais tristes da sua vida. Ele, a mulher e os filhos formavam um ninho de amor, e nada perturbava a paz que reinava naquela simples casa. Josimar ficou nervoso e ameaçou de bater nos filhos, porque estavam rindo alto e brincando. A mulher se voltou contra ele. O choro das crianças encheu a casa de tristeza.

Os pensamentos confusos do marceneiro, sobre o que poderia fazer com aquele dinheiro, não combinavam com os pensamentos da mulher. Os ânimos se acirraram e houve uma grande briga entre o casal, provocando grande choradeira entre os filhos.

Depois da terceira noite em claro, Josimar disse à mulher:

– O dinheiro tirou a alegria que havia aqui na nossa casa! Tirou a nossa paz! A melhor coisa que eu posso fazer é devolver esse presente. Vamos continuar com a nossa pobreza, mas com a nossa alegria!

Prefiro continuar caminhando com as minhas próprias pernas! Deus proverá!

A mulher foi com o marido devolver o presente ao fazendeiro, com mil pedidos de desculpas e agradecimentos. O casal voltou para casa, e a alegria da família voltou a reinar.

O MISTÉRIO

Na noite de Natal, os pobres se sentem mais pobres e mais tristes, do que em qualquer outra data. Aqueles que não tem um teto para morar ou um pão para comer, esperam sempre um milagre. Sonham com mesa farta e moradia, onde possam se abrigar contra a chuva, o sol e o sereno.

Josué e Mariana, sem teto, tinham certeza de que a melhor coisa do mundo era a pessoa ter quatro paredes para morar. Sem moradia, as pessoas não passam de animais errantes.

Chegou a noite de Natal. O casal ia caminhando na escuridão da noite, amargando a miséria e a falta de esperança. De repente, Mariana tropeçou em um pequeno cachorro, que dormia numa calçada. Muito magro, o animal se assustou olhando para o casal, como quem pedia proteção. Parecia ser um cachorro tão pobre quanto eles próprios, pois não tinha mais do que a pele em cima dos ossos, e quase não tinha pelo.

Os pobres são bons para os pobres. O espírito de solidariedade reina entre eles. Por isso, ajudam-se mutuamente.

Os dois pobres se compadeceram do cachorro. Apesar de ainda não terem comido nada, deram ao animal um pouco do pão com manteiga que haviam recebido de esmola, quando vagavam pela cidade. O cachorro comeu e saiu andando à frente deles, sempre olhando para trás, como se os estivesse chamando para acompanhá-lo. Eles seguiram o animal até um casebre abandonado. Com o clarão da lua, viram dentro dele dois bancos e um fogão apagado. Um raio de luz aparecia e desaparecia, iluminando o ambiente. Fazia muito frio e os mendigos desejaram que aquele fogão fosse uma lareira. De repente, viram nele duas brasas acesas, brilhando como ouro.

Contente e esfregando as mãos, o homem aconchegou a companheira ao seu corpo, para que, deitados no chão e abraçados, pudessem desfrutar melhor daquele calor. O casal já não se sentiu tão pobre e triste. As brasas arderam, misteriosamente, aquecendo o casebre.

Os mendigos sentiram-se abençoados, pois, naquela noite de Natal, puderam se aquecer até amanhecer o dia. O Menino Jesus lhes dera aquele presente. Pela manhã, viram os olhos amarelos do cachorro os observando, do outro lado do fogão apagado.

Tudo não passara de um delírio. Talvez, o delírio provocado pela fome e pelo desalento. O reflexo dos olhos do cachorro parecia duas brasas vivas. Essa ilusão fez com que os pobres adormecessem, sentindo-se abrigados. Ao amanhecer o dia, voltaram à triste realidade: Não tinham teto para morar, nem comida para comer.

Saíram caminhando, seguidos pelo cachorro, que a eles se apegou, completando a família.

Na realidade, o que se passou com os mendigos, naquela Noite de Natal, foi um mistério. E mistério não tem explicação.

A “ARMA”

Seu Lúcio, trabalhador rural, era aposentado pelo INSS e residia num bairro simples de uma pequena cidade do interior nordestino. Todo começo de mês, ia à agência bancária pagadora, receber o dinheiro do seu “aposento”, como ele costumava chamar. Mal sabia ler e escrever, mas acompanhava os noticiários da televisão. Por isso, estava sempre por dentro da onda de violência que assola o País e dos escândalos praticados pela banda podre dos nossos políticos. Era revoltado com a insegurança que vitimava pessoas inocentes, todos os dias, nas grandes cidades. Entretanto, sentia-se seguro na localidade onde morava, pois ali a violência ainda não havia chegado.

Por via das dúvidas, tinha em casa uma espingarda pendurada na parede da sala, sempre carregada de chumbo, que usava para caçar. Essa arma, em caso de necessidade, seria usada por ele, na defesa da sua vida e da sua família. Mas, com fé em Deus, isso nunca iria ser preciso.

Seu Lúcio morava numa rua muito calma, onde ainda se usava colocar cadeiras nas calçadas para se prosear, até o sono chegar.

Certo dia, como fazia todo mês, foi à Agência bancária, enfrentar uma grande fila, para receber seus proventos. Recebeu o dinheiro, contou e guardou no bolso da calça, voltando para casa, em seguida.

Logo que chegou, pegou a vassoura e começou a varrer a calçada, para apanhar as folhas de um pé de Castanhola, que ali havia. Mal começou o serviço, viu parar uma moto, de onde desceram dois malandros, usando boné, um deles com um revólver na mão. Anunciaram que era um assalto e exigiram o dinheiro da aposentadoria, que o homem recebera há poucos minutos, na Agência bancária. Disfarçadamente, eles haviam acompanhado a entrada do idoso no banco e viram quando ele guardou no bolso da calça o dinheiro recebido.

Na mira do revólver, Seu Lúcio ficou paralisado e lhe faltou a voz. Mas, de repente, uma força superior o dominou, e ele usou a vassoura para se defender. Inesperadamente, com uma vassourada, derrubou o revólver de um dos assaltantes e distribuiu outras grandes vassouradas, atingindo os dois.

A força de sertanejo se apossou de Seu Lúcio, e os malandros, sumiram na moto, em disparada.

Um vizinho telefonou para a Polícia, que compareceu ao local do frustrado assalto. Foi constatado que o revólver usado pelos assaltantes, e que estava jogado ao pé da calçada, era de brinquedo.

Seu Lúcio foi levado à Delegacia de Polícia, para registrar a queixa, empunhando sua extraordinária arma: A “bassoura”, como ele chamava.

O dinheiro da aposentadoria continuava no bolso de sua calça.

OS GATOS

José Alpiniano, professor aposentado e escritor, era viúvo e tinha como companhia dois gatos de estimação, a quem muito mimava. Um deles era da raça Angorá, preto retinto, porte elegante e pelo longo e sedoso. Chamava-se Koruga. Tinha ares de soberano e passeava por todos os lugares da casa, dormindo nas poltronas ou nos melhores tapetes.

O outro, chamado Kontik, era um gatinho “vira-lata”, ainda “bichano”, bonitinho e brincalhão, Os dois gatos pulavam sobre o birô do seu dono e por cima dos seus escritos, revirando tudo.

José Alpiniano era muito intolerante com as pessoas, mas se divertia com as peripécias dos dois gatos. Tinha prazer de alimentá-los com boa comida.

A companhia dos dois gatos supria a sua solidão. Eram considerados filhos, uma vez que seus dois filhos verdadeiros moravam em outro Estado.

Os gatos eram dóceis, amigos entre si e obedientes às ordens do seu dono. Tinham o lugar certo para satisfazer suas necessidades fisiológicas.

Maria, a antiga criada, cuidava da casa, e também da roupa e alimentação do patrão.

José Alpiniano gostava que os dois gatos estivessem sempre ao seu lado. Isso, para ele, era uma terapia. Entretanto, às vezes, fechava-se no escritório, para se concentrar melhor nos seus escritos. Os dois gatos, quando notavam que a porta estava fechada, miavam desesperadamente. Arranhavam a porta com as unhas, até que fosse aberta.

Desejando evitar estresse nos queridos gatinhos, José Alpiniano mandou chamar um conhecido marceneiro e lhe deu a seguinte ordem:

– Jocildo, quero que abra duas passagens, na parte inferior desta porta. Uma, grande, para o gato maior, e outra, pequena, para o gato menor. Quero que os dois possam entrar e sair livremente do meu escritório.

O marceneiro, admirado, respondeu:

-Mas, Seu Alpiniano, basta fazer uma passagem grande! Servirá para os dois gatos! Não há necessidade de duas.

Contrariado, o homem retrucou, grosseiramente:

-Não precisa? E por onde o gatinho pequeno passará? Faça o que eu estou mandando! Quero duas passagens!

O marceneiro nunca tinha se deparado com uma pessoa tão opiniosa.

E obedeceu à ordem recebida.

ZÉ BESTA

Jonas era um homem muito bom, que residia numa cidade do interior nordestino. Ele e Nalva, sua esposa, mal sabiam ler e escrever. Entretanto, faziam questão de que os três filhos estudassem no melhor colégio da cidade.Tinham uma pequena propriedade rural, onde cultivavam, entre outros produtos, feijão, milho, mandioca, macaxeira, inhame e bata-doce. A família era religiosa e tinha o sentimento da caridade inserido no coração. Mesmo não sendo ricos, não negavam um prato de comida a ninguém. Jonas gostava de dizer que a porta da sua casa estava sempre aberta para os amigos e para os necessitados. Era comum, ao amanhecer o dia, encontrar à sua porta pessoas famintas, pedindo para tomar o café da manhã. Sua esposa oferecia aos pedintes café com pão, cuscuz e batata doce. O fogão à lenha estava sempre aceso, com alguma coisa cozinhando.

Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na sua calçada, à espera de comida. Não lhes faltava o prato de feijão com farinha e um pedaço de mistura. Era comida simples, mas que saciava a fome dos mais pobres.Com a hospitalidade típica do nordestino, no tempo das “vacas gordas”, o casal também tinha o maior prazer em receber pessoas amigas e parentes em sua casa, hospedar e compartilhar as refeições. Jonas fazia isso gratuitamente, sem qualquer interesse. Não era político nem cabo eleitoral, o que justificaria a receptividade.

A casa de Jonas e Nalva parecia um albergue. Com o passar do tempo, forasteiros e oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Certo dia, ele caminhava pela cidade e, casualmente, ouviu três malandros conversando à sua frente e fazendo planos de não gastar um centavo naquele dia. Iriam fazer as refeições na casa de Zé Besta. Curioso, ele perguntou a alguém que também ouvira a conversa, quem era esse tal de Zé Besta, a quem eles se referiam. E o homem respondeu:

-Zé besta é um velho muito caridoso, chamado Jonas, que dá comida e abrigo aos necessitados. Mas, as pessoas que costumam comer na casa dele saem de lá fazendo chacota, e lhe apelidaram de Zé Besta. O povo é mal agradecido. Ninguém reconhece a bondade de ninguém.

Decepcionado com a humanidade, Jonas limitou-se a ajudar, apenas, às pessoas muito pobres, que já conhecia. O apelido de Zé Besta lhe serviu de lição. Para ele, a partir de então, qualquer estranho passou a ser um inimigo em potencial.

A FAMA

Jerson sempre foi uma criança tímida. Apanhava dos coleguinhas e, mesmo instigado pelos pais, não tinha coragem de reagir. Não levava jeito para esportes, que exigissem esforço físico. Gostava de futebol, mas se fosse jogo de botão ou totó.

Os pais eram católicos e o acostumaram a frequentar a Igreja aos domingos.

No colégio, seus colegas o disputavam nos trabalhos de grupo, por ser bastante inteligente e um aluno exemplar.

Tornou-se adolescente, com a mesma timidez. Não paquerava, não namorava nem gostava de dançar. Já rapaz, beirando os 18 anos, era sempre assediado por amigas, mas não se envolvia com nenhuma.

Os colegas achavam estranho o seu comportamento e a rejeição que demonstrava pelas moças. Começaram a achar que ele tinha outras preferências. Entretanto, nunca o viram investir em rapazes, como também não apresentava trejeitos efeminados.

Todos os seus amigos eram pegadores e não podiam ver um rabo de saia. Todos tinham namorada fixa e pensavam em casar.

Os rapazes combinavam com as amigas, para se insinuarem para Jerson, mas as tentativas eram em vão. Jerson fugia de namoro, como o diabo foge da cruz.

Certo dia, Josué, seu melhor amigo, criou coragem e conversou com ele sobre o seu estranho comportamento. Disse-lhe que ele estava dando margens a comentários maldosos no que se referia à sua masculinidade. Indignado, Jerson reagiu e disse que era um homem normal. Era romântico e sonhador. Apenas, ainda não havia encontrado a parceira ideal. Ainda não tinha sentido atração sexual por nenhuma moça. Mas tinha certeza de que a sua alma gêmea estava a caminho. Lembrava as palavras da sua avó materna:

“Casamento e mortalha, no céu se talha”.

Pretendia se casar, futuramente, em vez de ficar de galho em galho, como a maioria dos rapazes.

Disse ao amigo que, em todas as moças que se insinuavam para ele, faltava o brilho no olhar, que ele tanto procurava. Antes de qualquer atributo físico, admirava nas pessoas a beleza interior.

Afinal, como já disse o poeta, os olhos são o espelho da alma.

Certo dia, os amigos convidaram Jerson para o aniversário de 19 anos de um deles. Por influência, ele também tomou algumas cervejas. De repente, chegaram ao restaurante algumas moças conhecidas, acompanhadas de amigas bastante atraentes. Uma delas passou a se insinuar para Jerson e, no final, amanheceu o dia com ele num motel. Foi a primeira experiência sexual de Jerson. Rápida e sem graça.

Logo depois, Jerson alegou estar com dor de cabeça e os dois foram para suas respectivas casas, sem trocar uma só palavra.

Jerson se sentiu um babaca, por ter cedido às pressões dos amigos, ainda mais com uma moça de programa. Isso lhe provocou uma certa revolta. Resolveu que, pelo menos por uns tempos, iria se afastar de todos e se dedicar apenas aos estudos.

Os amigos estavam curiosos, para saber como tinha sido a noitada de Jerson com a garota. Também estavam certos de que, depois daquele encontro, o querido amigo despertaria para as alegrias do sexo e passaria a se interessar pelas mulheres.

Depois de dois dias sem se encontrar com a turma, nem atender telefone, Jerson resolveu procurá-los. Todos queriam saber, ao mesmo tempo, como tinha sido aquela famosa noite. E a pergunta era a mesma:

– E então, Jerson, valeu a pena? Mulher é bicho bom ou não é?

Demonstrando muita irritação, o rapaz respondeu:

– Querem saber a verdade?

Cheguei à seguinte conclusão:

– “XIRANHA” só tem mesmo é FAMA!!!

O SONO

Durante a Segunda Guerra Mundial (1942 a 1945), Natal abrigou tropas norte-americanas. Para esse apoio, na capital potiguar foi instalada uma base militar dos Estados Unidos.

A escolha de Natal se deu em decorrência da sua posição geográfica privilegiada, facilitando deslocamentos para os continentes africano e europeu.

No auge da II Guerra, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do Brasil, com inúmeros pousos e decolagens diárias.

Criado para proteger o continente americano das investidas do Eixo – composto pela Alemanha, Itália e Japão -, o Parnamirim Field era, na década de 1940, a maior base aérea estadunidense em território estrangeiro. Ao fim da guerra, o fato rendeu à capital potiguar o apelido de “Trampolim da Vitória”.

Antes do conflito armado internacional, Natal tinha 55 mil habitantes e era uma cidade tranquila. Com a instalação da base norte-americana, houve um aumento populacional de mais de 10 mil novos habitantes.

A presença de soldados americanos modificou a vida social da cidade. Surgiram namoros, noivados e até casamentos de moças de famílias natalenses com os americanos. As jovens se libertaram do controle paterno, que até então ia muito além da maioridade. Aumentou o consumo de álcool e cigarro. Natal conheceu produtos como a Coca-cola e o Chiclete. As moças passaram a fumar e a beber, principalmente, “Cuba Libre”, bebida feita à base de rum, refrigerante coca-cola e limão.

Atribui-se a invenção dessa bebida aos soldados norte-americanos, que ajudaram nas guerras da independência cubana, em 1898. Seria a explicação do seu nome.

Também aumentou, em Natal, a prostituição.

O dólar tornou-se quase a moeda-corrente da capital. A economia cresceu bastante.

Logo que chegaram os primeiros norte-americanos a Natal, o Consulado criou os “Clubes 50”, visando a integração das tropas militares com as famílias norte-rio-grandenses. Surgiram associações recreativas, e tanto o Aero Clube como o Clube Hípico, alternadamente, foram alugados para a realização de bailes. Dizem os historiadores que, nesses bailes, a disputa de pares para dançar era na proporção de 200 americanos para 30 ou 40 moças. Entrava um par no salão e logo vinha um colega, batia nas costas do outro e tomava a “dama”, sem problemas. Esse gesto era chamado de “tag”, uma invenção americana, para que todos tivessem par para dançar.

Houve uma invasão de novos ritmos musicais, como o “jazz”, “conga”, “rumba” e outros.

Também havia bailes na Base Aérea de Parnamirim. No sábado, os bailes eram somente para os americanos. Mas no domingo, eram para todos (For Hall).

Há quem diga que vem daí a palavra “forró”, o famoso ritmo nordestino. Mas, segundo o historiador Luis da Câmara Cascudo, a palavra “forró” é derivada do termo africano “forrobodó”, festa transformada em gênero musical.

Os americanos disponibilizavam ônibus para levar e trazer as moças natalenses, para participar dos bailes. Entretanto, exigiam que estivessem sempre acompanhadas por um rapaz parente ou amigo, ou então por uma “chaperone” (acompanhante). A “chaperone” podia ser a mãe ou uma mulher mais velha. Depois, essa exigência foi abrandada, podendo as moças se fazerem acompanhar de irmãs.

A invasão da cidade por americanos despertou a ira dos rapazes natalenses, pois todas as moças só queriam namorar ou dançar com os gringos. Rejeitados, os rapazes da terra se uniram para se vingar do sexo feminino, passando a chamar os ônibus da Base Aérea, que levavam e traziam as moças que participavam dos bailes, pejorativamente, de “Marmita”. Vaiavam os ônibus, e diziam que eles estavam levando “comida” para os soldados americanos.

Esses ônibus saíam da Praça Augusto Severo, na Ribeira. Era lá que os rapazes se concentravam para fazer algazarra.

Minha saudosa tia Carmen Pimentel, sua irmã Gilka e diversas amigas, eram jovens nessa época, e participaram ativamente dos bailes oferecidos pelos americanos. Falavam Inglês fluentemente e eram muito disputadas.

Carmen e Gilka levavam como “chaperone” Dona Francisquinha, a 2ª esposa do Professor Celestino Pimentel, madrasta de Carmen e mãe de Gilka. Aliás, a mulher fazia questão de acompanhá-las, para que não ficassem faladas.

A filha Gilka, quando tinha um namorado, ficava na sala, à noite, sozinha com ele, até que o relógio da catedral tocasse nove badaladas. A partir de então, a mãe se sentava na sala, esperando que o namorado da filha se despedisse. Na cabeça de Dona Francisquinha, antes das nove horas da noite, não poderia acontecer nenhum agarrado.Mas depois das nove da noite, para ela, o cenário mudava.

Já beirando os 60 anos, Dona Francisquinha tinha o maior zelo pela virgindade da filha e da enteada, e fazia questão de acompanhá-las nos “ônibus/marmita”.

Pois bem. Numa dessas festas da Base Aérea, quando Dona Francisquinha servia de “chaperone” da filha, enteada e algumas amigas, mesmo cansada de um exaustivo dia de trabalho doméstico, foi dominada pelo sono. Para ver se despertava, foi ao toalete. A sua ausência foi notada com naturalidade pelas moças. Entretanto, depois da festa terminar, com os dois ônibus lotados de jovens para o retorno a Natal, Gilka, que ia em um ônibus com amigas, sentiu falta da mãe. Então, desceu do ônibus e foi ao outro onde estava Carmen com outras amigas e perguntou?

– Carmen, mamãe está aí com você?

A irmã respondeu:

– Não, Gilka! Francisquinha não está aqui!!!

Gilka pediu ao motorista para esperar um pouco, enquanto iria ao toalete, ver se a mãe estava lá.

Não deu outra. Dona Francisquinha estava dormindo profundamente, num sofá que havia no toalete. Se Gilka, sua filha, não tivesse sentido sua falta, a mulher teria amanhecido o dia dormindo no toalete, do salão de festa da Base Aérea.

O sono é uma coisa incontrolável!!!

Carmen Pimentel e as amigas, na idade madura e na velhice, quando conversavam, relembravam o tempo da Guerra, com saudade. Todas eram unânimes em dizer:

– A Guerra foi formidável!!

Gilka, depois da Guerra, foi para os Estados Unidos, trabalhar no Consulado Brasileiro. Casou-se com um americano, teve um casal de filhos, e lá viveu até o fim dos seus dias.

A TINTA

Seu João Bento vendia madeira (caibros e linhas) e residia no mesmo local onde trabalhava. Todos os dias, ia à bodega de Dona Luíza, vizinha à sua casa, e tomava algumas bicadas de cachaça.

Certo dia, comprou um galão de tinta, para pintar a frente da pequena casa onde morava. Quando começou a pintura, viu que a tinta não correspondia à cor escolhida na loja. Já tinha pintado a parede quase toda e não tinha mais como trocar a lata de tinta. Contrariado, ficou esbravejando, achando a cor da parede horrorosa. Realmente, o amarelo marfim que ele comprara tinha sido trocado, por um amarelo-ferrugem, avermelhado. Como já estava usando a tinta, estava sem jeito. Sua vontade era voltar à loja e quebrar a cara do vendedor irresponsável, que lhe entregou a tinta errada. Muito triste, ele começou a desabafar com todas as pessoas que por sua casa passavam. Elas foram unânimes em concordar com ele, dizendo que, de fato, a tinta era muito feia.

Seu João Bento, antes de começar a pintura da frente da casa, já tinha tomado a primeira chamada de cachaça do dia. Quando percebeu a troca da tinta, já tinha usado uma boa parte do galão. Ficou contrariado, até a medula óssea.

De repente, mudou o cenário. Pela frente da sua casa, vinha passando a professora Dona Elisa, que era incapaz de um comentário depreciativo, que contrariasse alguém. E a bondosa senhora cumprimentou o homem, delicadamente:

– Bom dia, Seu João Bento! Como está ficando linda sua casa! Que cor bonita e diferente! Está formidável!

Contrariado, Seu João Bento respondeu:

-Bom dia, Dona Elisa! Veja que moleza a minha: Comprei uma tinta amarela, linda, e me mandaram esta cor horrível! Estou com vontade de voltar na loja e quebrar a cara do vendedor!

Muito inteligente, Dona Elisa, vendo o estado de nervos do homem, procurou acalmá-lo:

-Seu João Bento, a cor da tinta está linda! Um amarelo diferente! Está formidável! Pode acreditar! Da próxima vez que eu mandar pintar minha casa, vai ser da cor da sua!

Seu João Bento ficou mais calmo e Dona Elisa seguiu para a escola onde lecionava.

O homem entrou novamente na bodega de dona Luíza e tomou mais três chamadas de cachaça, uma atrás da outra. Embriagado, fez um verdadeiro discurso. Mesmo revoltado com a cor da tinta, teceu grandes elogios à Dona Elisa:

-Dona Elisa é uma santa! Não faz mal a ninguém. Achou linda a tinta que veio trocada. Disse até que vai mandar pintar a casa dela da mesma cor da minha!

Também, mesmo que eu estivesse pintando a casa com tinta cor de “bosta” ela teria dito a mesma coisa:

“Está FORMIDÁVEL, Seu João Bento!”

A CASA E O BOTÃO

Matilde, 23 anos, vitalidade de 16 e juízo de um pinto com um dia de nascido, era alta, bonita, exuberante, seios e quadris avantajados. Depois de passar dois anos no Rio de Janeiro, voltou para Natal muito traquejada. Leviana e coquete, todo namorado que arranjava, só queria mesmo se aproveitar dos seus dotes físicos.

Estava no auge, a marchinha de carnaval que dizia:

“Ei, como é que é? É pra casar, ou pra que é?”
Matilde só arranjava namorados do tipo “pra que é”.

Conheceu Joanildo, contador, 23 anos, noivo da sua amiga Soninha. Na mesma hora, lançou sobre o rapaz um olhar “pidão”, e a atração foi mútua. Surgiu entre os dois uma paixão violenta. Nas “entrelinhas” do dia, Joanildo investiu em telefonemas e galanteios, marcando encontros para “bater papo” com a amiga de sua noiva. Como grande caçador que era, sua intenção era apenas levar a rês ao “matadouro”. Afinal, era noivo de Soninha e a data do casamento estava próxima.

Entretanto, conseguido o seu intento, Joanildo sentiu-se perdidamente apaixonado por Matilde, sendo por ela correspondido. Sem que a noiva suspeitasse, passaram a se encontrar diariamente, e os encontros eram cada vez mais quentes. A paixão entre os dois se tornou-se avassaladora e já não dava para controlar.

Joanildo e Soninha estavam noivos há mais de um ano e já de casamento marcado. A casa onde iriam residir já estava mobiliada. Diariamente, Soninha ia até lá, levando coisas do enxoval para guardar. Às vezes, a amiga Matilde a acompanhava e a ajudava a guardar peças do enxoval, na cômoda e no guarda-roupa. Sem escrúpulos, Matilde dava risadas, vendo a pureza de Soninha, preocupada com a noite de núpcias, que estava próxima.

O noivo passou a viver um dilema. Chegara à conclusão de que o amor de sua vida era Matilde. Entretanto, não tinha coragem de acabar o noivado com Soninha. Estava envolvido com os sogros, que lhe confiaram a mão de sua filha. A festa já estava organizada, convites distribuídos e a casa onde iriam morar estava pronta para recebê-los.

Na hora em que Joanildo trocava juras de amor com Matilde, confessava que não sabia o que fazer para acabar o noivado com Soninha. Seria uma grande desfeita, dar um fora na noiva, quase na porta da Igreja e sem motivo aparente.

Todos da família de Soninha acreditavam que ela e Joanildo eram perdidamente apaixonados. A virgem cheia de candura, inocente como um anjo, não imaginava a falsidade da “amiga”.

Soninha tinha o firme propósito de se conservar virgem, até a noite de núpcias. Essa lição de castidade temporária, havia recebido da avó paterna, Dona Luíza, que procurava lhe transmitir preceitos do “tempo do ronca.” Segundo ela, a virgindade, era um atributo moral que deveria ser levado até o leito conjugal. Soninha não admitia qualquer investida do noivo, antes do casamento.

À medida que a data do enlace de Joanildo e Soninha se aproximava, aumentava o envolvimento do noivo com Matilde. Ele entrou em “parafuso”. A paixão desenfreada e uma atração física, que nunca sentira por Soninha, deram-lhe coragem de tomar uma decisão brusca e inesperada. Os dois se sentiam como se fossem “a casa e o botão”. Não podiam mais recuar.

Na véspera do casamento com Soninha, Joanildo e Matilde fugiram. Foram viver seu grande amor bem longe de Natal.

Foi um escândalo.

O CARIDOSO

Dois mendigos pediram uma esmola a um empresário rico, que ia entrando na sua camionete “cabine dupla”.

O homem os surpreendeu, ao convidá-los para entrar no carro e ir com ele até sua casa. Lá, eles almoçariam e receberiam uma ajuda, inclusive com roupas usadas. Perguntou se os dois estavam com fome e eles responderam que, até aquela hora do dia, não tinha comido nada, por falta de dinheiro.

Um dos rapazes respondeu:

– Muito agradecido, senhor, mas não me sinto bem em ir me alimentar na sua casa, sabendo que minha esposa e nosso filho pequeno também estão com fome, naquela calçada, esperando por mim.

– O homem rico falou:

– Chame-os e eles irão também almoçar na minha casa.

Olhando para o outro rapaz, o empresário falou:

– Você também pode vir.

Encabulado, o rapaz se justificou:

– Senhor, eu também tenho esposa e dois filhos, com fome, esperando por mim!

O empresário respondeu:

– Pois podem vir todos. Vão ver o que é fartura e encher a barriga do bom e do melhor. Não irão se arrepender.

Os dois mendigos se emocionaram, com o gesto caridoso daquele homem, que, de repente, apareceu na vida deles para ajudá-los, sem qualquer interesse. Acharam que tinham recebido uma bênção do Céu!

Todos se acomodaram nas duas boleias da caminhonete, e um dos rapazes se acomodou na carroceria.

No caminho, o rapaz que ia ao lado do empresário falou, humildemente:

– Só Deus paga essa caridade que o senhor está fazendo com todos nós. Vai matar a nossa fome e isso é o que nós estamos precisando…

O homem rico respondeu:

“Não precisa me agradecer tanto. Estou fazendo isto de coração. Gosto muito de fazer caridade. Eu sou um homem muito bom… amo o meu próximo. Fico feliz, quando mato a fome de alguém necessitado. Minha casa é muito grande e tem um enorme quintal. Vocês vão gostar muito. “

Ao chegarem à mansão onde o empresário morava, os mendigos se assustaram, com as palavras austeras daquele homem rico:

– Depois que almoçarem, quero que vocês façam uma boa limpeza no quintal: Arranquem todo o mato, apanhem as folhas caídas das fruteiras, juntem tudo e toquem fogo. Tenho enxada, ciscador e pá.

Os dois rapazes passaram o resto do dia, limpando o mato do enorme quintal.

UM SANTO REMÉDIO

Rosilda, do lar, e Mário, funcionário público municipal, estavam vivendo a crise dos dez anos de casamento. Influenciada pelas novelas da televisão, a mulher se impressionou com a onda de adultério que reinava no mundo, e botou na cabeça que o marido lhe era infiel. Achava que os homens eram caçadores e viviam em busca de aventuras. Eram infiéis pela própria natureza.

Por isso, Rosilda tornou-se agressiva e desconfiada. Amanhecia o dia “dando coice no vento”, sentindo-se traída, sem razão aparente. Farejava chifres, não acreditava no que o marido dizia, e procurava motivos para demonstrar sua insatisfação na vida conjugal.

Na verdade, o maior defeito de Mário era, uma vez por outra, depois do trabalho, encontrar-se com alguns amigos e tomar uma cervejinha, no bar localizado nas imediações de sua casa. Esse papo ia somente, até se aproximar a hora do jantar.

Apesar de não ser santo, sua média, como chefe de família e pai, era dez. Entretanto, bastava entrar em casa, para que a esposa o “espinhasse” com mil perguntas maliciosas, à procura de indícios de sua infidelidade.

Rosilda, com sua voz gasguita e insinuações irritantes, foi tirando a paciência de Mário. Aos poucos, o inferno se instalou dentro de casa, sob o olhar aflito dos três filhos pequenos.

Católica por tradição, aos domingos à noite Rosilda ia à Missa com o marido e os filhos. Também mantinha o habito de comungar toda 1ª sexta-feira do mês.

Numa quinta-feira à tarde, Rosilda foi à Igreja se confessar e contou ao padre que estava prestes a se separar do marido. Disse-lhe que suspeitava de estar sendo traída; que o marido chegava tarde em casa e sempre com hálito de bebida; também não lhe dava mais o carinho e atenção dos primeiros meses de casamento. Falou das brigas constantes, provocadas por ela.

O padre lhe deu conselhos para que não agisse precipitadamente e pensasse na falta que o pai iria fazer aos filhos, se houvesse a separação.

Pensando em preservar a instituição da família, o vigário teve uma ideia “bem bolada”. Avisou, durante a Missa, que iria distribuir às mulheres com problemas conjugais, um remédio eficaz para a reconciliação. Na manhã seguinte, na Sacristia da Igreja, formou-se uma fila para a entrega do remédio. A primeira da fila era Rosilda.

O nome do “medicamento” era “Água Santa”, distribuído em garrafas de 500 ml, com rótulo.

Chegando em casa, Rosilda, sozinha no quarto, leu o prospecto, onde estava escrito: “Colocar na boca 5 colheres de “Água Santa” e se ajoelhar durante 30 minutos, de boca fechada, sem engolir. O procedimento deve ser feito à noite, na hora exata em que o marido entrar em casa. Com 15 dias de tratamento, o resultado será surpreendente. Caso seja necessário, o tratamento pode ser prorrogado, até que a paz volte a reinar, no ”lar, doce lar”.

E a água potável fez efeito…

A CACHAÇA

A cachaça, ou aguardente de cana de açúcar, está integrada à cultura brasileira, assim como o futebol, o samba, o café e o fumo.

Aparece em músicas, anedotas, textos literários e literatura de cordel.

No começo da colonização do Brasil, a partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o processo de plantio e processamento da cana de açúcar.

A cachaça originou-se da cultura do açúcar. Segundo alguns historiadores, os escravos, no Recôncavo baiano, aproveitavam as sobras da garapa da fabricação do açúcar, e guardavam em potes, até azedar. Era a bebida preferida deles.

O tráfico de escravos impôs a valorização do produto. A cachaça, ou aguardente da terra, era indispensável na compra do negro africano. Uma verdadeira moeda de circulação. Figurava como alimento complementar dos escravos, durante a travessia do Atlântico. Diariamente, eles eram forçados a ingerir doses de aguardente, para suportar a tristeza.

Devido à sua origem, a cachaça, durante anos, foi considerada bebida das camadas simples da sociedade. Não era servida em restaurantes ou bares requintados. Com o progresso tecnológico, surgiram cachaças finas e de alto custo, desaparecendo o tabu de que somente o pobre seria bebedor de cachaça.

A cachaça está para o Brasil, como o Rum está para Cuba.

Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso legitimou a cachaça como produto tipicamente brasileiro, estabelecendo critérios de fabricação e comercialização. Em 2012, uma lei transformou a cachaça em Patrimônio Histórico Cultural do estado do Rio de Janeiro.

Atualmente, essa bebida destilada é exportada para vários lugares do mundo.

A cachaça está presente em histórias e anedotas hilárias.

Antigamente, durante as serenatas ao luar, os seresteiros tomavam uma bebidinha. Um conhecido cantor, de uma cidade do interior, depois de interpretar músicas de Orlando Silva, acompanhado por um violão plangente, ingeriu muita cachaça e acabou adormecendo na calçada. Os amigos se sentaram ao seu lado, esperando que despertasse. Minutos depois, desorientado, o seresteiro chamou pelo pai:

– Pai, ô pai!!!

Um dos amigos perguntou:

– O que é, Adolfo?

E o cantor espondeu:

– A “bença” !!!

E os rapazes conseguiram acordá-lo, com a marchinha que diz: “Você pensa que cachaça é água…”

A CAIXA D’ÁGUA

Anos atrás, em Serrana, cidade do interior nordestino, o prefeito João Tanajura se celebrizou pelas gafes constantemente cometidas. O homem mal sabia ler e escrever. Os vereadores, conhecidos por apelidos como Zé do Toucinho, Antônio do Carvão, José da Telha e outros, não ficavam atrás. A situação era de fazer vergonha.

O prefeito, que era chamado de “Coronel”, costumava se reunir com o vice-prefeito, um pouco mais letrado, e assessores, para “redigir” mensagens, que seriam submetidas à apreciação da Câmara Municipal, tomando decisões políticas importantes. Quando algum companheiro duvidava do êxito das suas pretensões, ele insistia no seu ponto de vista e encerrava as reuniões assim:

– Vocês acham que não vai dar certo?

– Achamos, “Coronel”.

E ele respondia, em cima da bucha:

– Pois bem! Se não der certo, não tem “poblema”. Nós mesmo “faz”, nós mesmo “desmancha”.

Certa vez, chegou à Prefeitura, atendendo a um requerimento do Prefeito, uma comissão técnica especial, oriunda do órgão estadual competente, a fim de vistoriar a antiga caixa d’água, que armazenava água potável para abastecimento da população. Pessoas leigas haviam espalhado o boato de que a caixa d’água estava inclinando e iria desabar a qualquer momento. A população entrou em polvorosa.

Depois de rigorosa perícia técnica, o grupo se reuniu com o prefeito e assessores, apresentando um laudo e um relatório, onde estava registrada a total ausência de perigo de desabamento da referida caixa d’água. Segundo os peritos, a ligeira inclinação notada era efeito da clássica lei da gravidade ou gravitação universal, formulada pelo físico Isaac Newton, que diz:

“A força da gravidade é diretamente proporcional às massas dos corpos em interação e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles”.

Como é óbvio, o prefeito, que tinha pouco estudo, não entendeu patavina dessa explicação. Bastante irritado, levantou a voz e falou:

– Eu quero saber se essa lei é “federá”,”estaduá” ou “municipá”! Quero resolver isso logo!!!

Os engenheiros se controlaram para não sorrir. Tranquilizaram o “Coronel” de que o problema não tinha nada a ver com a legislação federal, estadual ou municipal. E O prefeito fez de conta que estava entendendo tudo.

Numa das visitas do Governador do Estado a essa mesma cidade, para inauguração de uma obra, houve um banquete em sua homenagem, no único clube social ali existente. Na hora do cafezinho, o prefeito pôs na sua xícara umas gotinhas de “Suíta”, o adoçante dietético da época. O Governador , sentado ao seu lado, delicadamente, perguntou:

– Prefeito, o senhor é diabético?

A resposta foi rápida:

– Não, Governador! Eu sou o Prefeito de Serrana!!!

O CAIXA

Josildo era escriturário do Banco do Brasil, em Natal, e exercia a atividade de caixa executivo. Década de 60/70. Nesse tempo, ainda não havia caixa eletrônico. Os caixas eram sobrecarregados, e o trabalho requeria muita atenção.

Ali, na “boca do caixa”, concentravam-se os serviços bancários mais comuns. Informavam-se saldos e extratos, recebiam-se depósitos, e pagamentos, faziam-se transferências, entregavam-se talões de cheques etc.

No final do expediente, se houvesse diferença de valores, o caixa seria obrigado a repor.

Num dia de grande movimento, enquanto Josildo atendia a uma fila interminável de clientes, um senhor, aparentando um pouco mais de 50 anos e de aparência simples, aguardava sua vez. Ao ser atendido, disse que morava no interior e era dono de uma pequena propriedade rural. Pediu o saldo, o extrato e um talão de cheques.

De posse dos comprovantes solicitados, o cliente preencheu um cheque, no valor total do dinheiro que havia em sua conta corrente, até o último centavo. Fez o saque e se afastou um pouco. Ali mesmo, contou todas as cédulas e moedas recebidas. Em seguida, sem entrar na fila, pediu ao caixa para depositar novamente todo o dinheiro sacado. Admirado e curioso diante desse fato inusitado, Josildo recebeu o depósito, contou o dinheiro, mas não se conteve e falou:

-Amigo, não entendi o que aconteceu. O senhor sacou todo o seu dinheiro que estava depositado no Banco. Contou tudo, e agora está depositando novamente. O que foi que houve?

O homem respondeu:

– Eu queria somente conferir se o dinheiro estava certo. Contei tudo e vi que esse Banco é bom mesmo. O dinheiro está completo. Por isso, estou depositando aqui novamente.

Josildo prendeu o riso. Mas em casa, riu demais, comentando a ocorrência com a esposa. Era caixa do Banco do Brasil há 18 anos e nunca havia se deparado com um cliente tão desconfiado dos serviços bancários.

A BEBEDEIRA

Há boêmios que só tomam cerveja e teimam em dizer que “não bebem nada”. Justificam seu gosto acentuado pelo álcool, dizendo-se apenas “cervejeiros”.

A cerveja, uma das bebidas alcoólicas mais consumidas no mundo, sempre foi homenageada em músicas, como nos seguintes casos: “Barril de Chopp” (Altamiro Carrilho) “Louras Geladas” (RPM), “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso), “Um Chopp pra distrair (Paulo Diniz), “Feijoada Completa” (Chico Buarque de Holanda) e outras.

Pois bem. Toninho, um boêmio, poeta e seresteiro de Natal, era frequentador assíduo do Bar da Brisa, cujo proprietário era seu amigo de longas datas. Orgulhoso por ser cervejeiro, não se considerava alcoólatra. Mesmo assim, seria capaz de tomar, sozinho, uma grade de cerveja num dia. Andava sempre com o seu violão debaixo do braço. Muito conhecido na cidade, onde chegava, encontrava amigos e bons papos. Bom de copo, voz e violão, alegrava qualquer ambiente.

Ponto de encontro de boêmios e seresteiros, no Bar da Brisa, aos sábados, podiam-se ouvir músicas da melhor qualidade, interpretadas por cantores amadores. O repertório abrangia composições gravadas por Evaldo Gouveia, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e outros, verdadeiras pérolas da MPB.

Num certo sábado, como sempre fazia, Toninho passou o dia de bar em bar. À tardinha, já melado, chegou ao Bar da Brisa. Continuou bebendo e participou da roda de seresta, soltando seu vozeirão e encantando a todos.

Cumprindo o horário de costume, à meia noite, o proprietário deu sinal de que o bar iria encerrar suas atividades e os fregueses foram saindo. O homem fechou o bar e foi para casa. Por volta das 4 horas da manhã, foi acordado pelo telefone, que chamava insistentemente. Era um vizinho do bar lhe avisando que alguma coisa estranha estava ali acontecendo. Dava para ouvir gritos e pedidos de socorro.

Acompanhado pela Polícia, o proprietário abriu o bar e tomou um susto. Toninho havia ficado ali trancado. Adormecera no banheiro, sem que ninguém percebesse. Quando despertou, o bar estava às escuras e fechado. Tomado pelo pânico, o boêmio deu um escândalo, gritando por socorro e quebrando o que encontrou pela frente. O estrago de garrafas e copos quebrados foi grande.

Ao ver o proprietário chegar, Toninho se insurgiu contra ele. Indignado, acusou-o de negligência, por tê-lo deixado ali trancado. Muito sentido, passou vários dias afastado do Bar da Brisa, revoltado com o que aconteceu. Não admitiu ter havido culpa concorrente.

O RETORNO

Nailde era servidora pública de nível médio, em um órgão estadual. Já com mais de vinte anos de serviço, ganhava o suficiente para se sustentar. Era solteira e morava só. Muito organizada, não contraía dívidas e juntava sempre algum dinheiro num mealheiro. Depois, abriu uma caderneta de poupança e passou a economizar mais um pouco, sem mexer nos rendimentos. Anualmente, ia ao dentista e certa vez precisou fazer uma coroa, tendo optado por um dente de ouro. Isso, na época, estava na moda.

Dois meses depois, foi passar o domingo na casa de uma irmã e, após o almoço, sentiu falta do dente de ouro. Procurou por toda a casa e nada do dente aparecer. Muito triste, Nailde teve uma intuição: Só podia ter engolido o dente, que tinha lhe custado tão caro! Era fruto de suas economias!

Não pensou duas vezes. Fez um chá de maná com sena e tomou um purgante. Rezou o resto do dia, pedindo a Deus para que tivesse de volta o seu dente de ouro, são e salvo.

Nessas alturas, as sobrinhas de 7, 9 e 11 anos, já estavam estranhando o nervosismo da tia, que, sentada em uma cadeira, no quarto, mantinha a postos, ao seu lado, um penico. Sem largar o terço, Nailde aguardava o resultado do purgante e a volta triunfante do dente.

Ao primeiro sinal de uma cólica intestinal, a moça pediu aos anjos e arcanjos, que também a ajudassem a recuperar sua joia de ouro, 18 quilates. As crianças torciam na porta do quarto, acompanhando os acontecimentos. De vez em quando, perguntavam:

– O dente já saiu, tia Nailde?

E, com voz de choro, a tia respondia:

– Ainda não!

E a alegria foi grande, quando ouviram a tia gritar:

– Graças a Deus!!! Meu dente de ouro está aqui!!!

Sob os protestos da irmã, do cunhado e das sobrinhas, Nailde, com a mão enfiada em um saco plástico, tirou o dente de ouro do penico, lavou muito bem lavado, com água e sabão, e também com álcool.

Passados alguns dias, estava ela novamente sorrindo de felicidade e exibindo o dente de ouro, que o dentista havia reposto.

Nailde pagou todas as promessas, que havia feito para que o dente retornasse às suas mãos. Entretanto, nunca mais as crianças lhe deram sossego. Quando ela se aproximava para falar com as sobrinhas, todas se afastavam, dizendo em tom de brincadeira:

– Vá pra lá, tia! Sua boca está podre!!!

ESQUINA DOS AMIGOS

Venâncio e Zélia começaram a vida de casados em Natal, abrindo uma pequena cantina, na parte inferior do sobrado de esquina, onde passaram a residir. A rua era calma e o bairro, um dos melhores da cidade. O casal teve dois filhos.

Na cantina, eram vendidos produtos simples, como manteiga, óleo, biscoitos, chocolates, refrigerante e cerveja. Os fregueses bebiam em pé.

Após algum tempo, um amigo de Venâncio, que morava perto e frequentava a cantina diariamente, deu-lhe de presente duas mesinhas de quatro cadeiras. Uma delas o amigo mesmo ocupava, logo pela manhã. Ali sentado, lia os jornais do dia e iniciava o bate-papo. Venâncio gostou do presente e com o tempo, comprou mais duas mesinhas iguais. Foi um “chama”, e os cervejeiros se tornaram frequentadores habituais. Quase todos eram seus colegas de juventude. O movimento aumentava nos finais de semana.

Dois anos depois, Venâncio se viu dono de um misto de cantina e bar. Ali, diariamente, os amigos se reuniam para molhar a palavra e bater papo.

Ele mesmo servia às mesas e tomava conta do caixa. Entre um atendimento e outro, também tomava sua cervejinha.

Os tira-gostos eram preparados por uma ajudante, e se resumiam a queijo de coalho assado e caldo de feijão ou peixe.

Na cantina, Venâncio era adepto da lei do silêncio. Detestava som, por melhor que fosse. Gostava de conversar e ouvir boas conversas. Tinha cultura geral e estava sempre atualizado com os acontecimentos locais, como também do País e do mundo.
Para não atrapalhar as conversas, Venâncio colocou na parede um aviso “sui generis”:

‘É PROIBIDO SOM DE QUALQUER TIPO, INCLUSIVE DE CARRO.”

Outro aviso que havia na parede:

“NÃO ATENDEMOS A PESSOAS JÁ EMBRIAGADAS.”

Venâncio mantinha, dentro da gaveta do balcão, um “cartão vermelho”, para expulsar quem procurasse fazer confusão.

Como de grão em grão, a galinha enche o papo, às vezes, por volta das 20 horas, ele estava “triscado” e, sob protestos dos frequentadores, avisava que ia fechar a cantina. Assobiando, descia as portas de ferro, forçando a saída de todos. E se justificava:

– É ordem da “federal”…

A “federal” a que Venâncio se referia era a esposa, com a qual entrava em choque, quando se embriagava. Os clientes saiam contrariados, mas no dia seguinte, estavam todos lá novamente.

Fora a expectativa do inesperado “toque de recolher”, dado pela “federal”, o bar de Venâncio era um reduto de antigas amizades, fortalecidas através do tempo. Era um ponto de encontro de homens inteligentes e cultos, boêmios ou não, que iam ali para bater papo e colocar os assuntos em dia.


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