MENEZES E FILOMENO EM CONFRATERNIZAÇÃO
Nada foi feito na marra
No encontro desse povo
Pois quem nasce em Mundo novo
Não aprecia algazarra
Para uma tranquila farra
Foi Tuparetama, o chão
Da grande reunião
Desse meu povo moreno
Menezes e Filomeno
Em confraternização
Dos estados do nordest
Por lá, chegou muita gente
Do oeste do nascente
Do norte e até do sudeste
Todo clã nobre que investe
Na força da gratidão
Recebe em compensação
Paz e amor como aceno
Menezes e Filomeno
Em confraternização
Poetas de qualidade
Lá se fizeram presentes
Quem aprecia repentes
Sorriu de felicidade
Da tenra a terceira idade
Só se viu satisfação
Irmão abraçando irmão
Grande apoiando pequeno
Menezes e Filomeno
Em confraternização
Por poeirentos caminhos
Alguns tiveram que andar
Pra não deixarem de estar
Nessa troca de carinhos
Até antigos vizinhos
Demonstrando animação
Pediram na ocasião
A bênçao do nazareno
Menezes e Filomeno
Em confraternização
Tuparetama, 7/Abr/2012

A.B.C. DOS IMBECIS
É difícil acreditar
Que alguém de sã consciência
Pode no seu próprio lar
Permitir tanta indecência
Ligando um televisor
Pra ver tanto despudor
Acanalhando o Brasil
Mas, é o que a gente vê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Um antro de safadeza
Do pátio até a cozinha
Só quem adora vileza
Prega os olhos na telinha
Perde a hora de dormir
Deixa de se divertir
Com programa menos vil
Perde salário e cachê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Há idiota que se empolga
Com tal esculhambação
Tira até noite de folga
Pra votar num paredão
Fica até de madrugada
Assistindo a cachorrada
Que mais parece um canil
Mas cão de raça: cadê?
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Se fose briga de bode
Eu até assistiria
Mas me obrigar, ninguém pode
A ver essa porcaria
Gente assim de mau caráter
Que envergonha a Pátria Máter
Só tem jeito no fuzil
Inumado em massapê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Ao iniciar o dia
Começa o chove não molha
Mas no final da porfia
A macaxeira desfolha
Uma quenga melindrosa
Fingindo estar furiosa
Com o assédio varonil
Faz o maior fuzuê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Sem vergonha, sem aprumo
Do jeito que o diabo quis
Num Big Brother sem rumo
Transformou-se este país
Quando é trocado um ministro
Que causou grande sinistro
É por outro mais servil
Que os seus deveres não lê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Nas sarjetas da cidade
Qualquer cão calazarento
Possui mais dignidade
Que um ser humano nojento
Mesmo vagueando a esmo
Tem mais respeito a si mesmo
Que um político de covil
Que no respeito não crê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
Gente desmoralizada
A começar de Brasília
Adora uma marmelada
Mal-educando a família
Vive praticando insídia
Arrota intriga na mídia
Suja seu próprio perfil
E a desgraça não prevê
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil
A política brasileira
Anda muito parecida
Em termos de bandalheira
Com os bebebês da vida
Saúde ninguém alcança
Educação, segurança
Nem de maneira sutil
E ninguém nos diz porque
Quem assiste ao B.B.B.
Não passa de um imbecil

GLOSAS
Mote:
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro
Uma cena nunca vista
E além de tudo engraçada
Se deu numa vaquejada
Onde o boi era o artista
Que chegando ao fim da pista
Embocou no marmeleiro
Destampou num taboleiro
Tudo no maior embalo
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro
No jiquí tinha um capeta
Com uma vara de ferrão
O cavalo era do cão
O boi tinha a cara preta
O vaqueiro era zambeta
Mas teve que andar ligeiro
Era o maior desespero
Pra ninguém acompanha-lo
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro
Depois de aberta a porteira
O vaqueiro disparou
E o cavalo acompanhou
Em desmedida carreira
Cruzando uma capoeira
Destambocou num terreiro
Na passagem do poleiro
Inda atropelou um galo
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro
Foi a maior gritaria
Da platéia admirada
Com a cena inusitada
Que na hora acontecia
Cada um como podia
Se esquivava de um facheiro
Da semente do pereiro
Todos ouviam o estalo
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro
Foi num dia de domingo
Essa estúpida brincadeira
Um jegue batendo esteira
E o boi gritando, eu me vingo
Hoje eu desconheço ringo
Caubói do corpo maneiro
Ou eximio cavaleiro
Para nós não derruba-lo
Um boi montado a cavalo
Correndo atrás do vaqueiro

PECADO ELEITORAL
O candidato a prefeito
Que possui dignidade
Não emporcalha a cidade
Sujando o próprio conceito
Antes e depois do pleito
Respeita a regra vigente
Não faz barganha indecente
Para se locupletar
É um pecado votar
Em político inconsequente
Causa-me má impressão
Quando o político é daqueles
Que na propaganda deles
Aparece um coração
Quase sempre é um ladrão
Com instinto de mserpente
Travestido de inocente
Com intenção de enganar
É um pecado votar
Em político inconsequente
A política é um dança
Tocada de todo jeito
Quando um canalha é eleito
O medo toca a esperança
Por isso a desconfiança
Deve estar sempe presente
Pra que nunca, de repente
Um crápula possa ganhar
É um pecado votar
Em político inconsequente
Na prática do nepotismo
Qause todos que se elegem
A seus parentes protegem
Deixando à mostra o cinismo
Quem prega o socialismo
Deixa o povo descontente
Pois faz tudo diferente
Na hora de governar
É um pecado votar
Em político inconsequente
Há muitos que se dão bem
Tramando em qualquer sentido
Vários mudam de partido
E alguns nem partido têm
O lado que lhes convém
Não é mais partido, é frente
Para ser mais abrangente
E a sordidez triunfar
É um pecado votar
Em político inconsequente
Clique aqui e leia este artigo completo »

AUSENTE DO MEU TORRÃO
Sem a casaca de couro
Trinando no seu ensaio
E o meu belo papagaio
Que eu só chamo de meu louro
O zuadento besouro
Mangangá do meu rincão
Sem o piar do cancão
E o atito do concriz
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrao
Muda-se constantemente
A ave de arribação
Mas na sua migração
É diferente da gente
Saudades ela não sente
E a nada tem afeição
Já no meu voo da ilusão
Nada saiu como eu quis
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
Não entendo como alguém
Que vive longe do lar
Consegue se conformar
Com migalha, com vintém
Até apito de trem
Mexe com minha emoção
Com zoada de avião
Me imagino em meu país
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
Na impossibilidade
De ver todo dia os meus
Apelo sempre pra Deus
Pela sua caridade
Com mentira, com verdade
Com razão ou sem razão
Mesmo ele me dando a mão
Pouco escuto o que ele diz
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
Desprovido de calor
É o sol que aqui aparece
O meu corpo não aquece
Nem esquenta o meu amor
Não dá mais brilho na flor
Não alveja o algodão
O sol desta região
Parece um astro aprendiz
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
Distante da minha terra
Por mais que receba agrado
Sinto-me como um soldado
Derrotado numa guerra
Minha inspiração emperra
Descompasso o coração
Fico da cor de açafrão
Sem adubo na raiz
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
Sem meus amigos presentes
Não consigo ter prazer
Quase não posso viver
Além dos queridos entes
Sinto as coisas diferentes
Das que existem no meu chão
Quando espio a vastidão
Vejo o mundo cor de giz
Não consigo ser feliz
Ausente do meu torrão
SONETO À ROSA BELA
ACRÓSTICO
Ela é perfeita como a rosa bela
Leda ventura deste sonhador
Indispensável como a flor singela
Ao colorido do jardim do amor
Nada me leva a ser feliz sem ela
Em tudo eu sinto a força dessa flor
Somente estrelas na celeste tela
Inspiram sonhos com tanto esplendor
Quando eu a ví pela primeira vez
Um frenesí que me atingiu me fez
Esperançoso dos carinhos dela
Indiferente ao que ela imaginava
Rapidamente eu descobrí que estava
Apaixonado pela rosa bela

DIREITO DE AMAR
Eu não quero ter riqueza
Para ser milionário
É bastante o necessário
Para suprir minha mesa
Não desejo fortaleza
Ou mansão para morar
Basta um rancho em meu lugar
Pra me servir de guarida
O que eu mais quero na vida
É ter direito de amar
Mesmo gostando demais
Dos afagos das mulheres
Se acaso não me quiseres
Grande mal não causarás
Mas muito bem me farás
Se resolveres me olhar
Nem que seja a acenar
Num gesto de despedida
O que eu mais quero na vida
É ter direito de amar
Eu não quero ter direito
A cargo de deputado
Nem também para o senado
Eu pretendo ser eleito
Em cadeira de prefeito
Não desejo me sentar
Pra não me contaminar
Quero andar de fronte erguida
O que eu mais quero na vida
É ter direito de amar
Há quem queira quase tudo
De tudo que o mundo tem
Seja por mal ou por bem
Continente e conteudo
O linho, a seda, o veludo
O céu, a terra e o mar
E eu só preciso de um lar
Junto da prole querida
O que eu mais quero na vida
É ter direito de amar
Clique aqui e leia este artigo completo »

COMPETÊNCIA
Em qualquer coisa que a gente
Na vida queira fazer
É necessário entender
Que não falta concorrente
Por isso é conveniente
Calcular com paciência
E usar toda inteligência
Que contiver na cachola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência)
Se acaso uma microempresa
Iniciar você vai
Uma consulta ao sebrae
Pode lhe dar mais firmeza
É preciso ter certeza
Se existe a conveniência
Pois não tendo consitência
O negócio não decola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência)
Para ser bom cantador
Não é só saber rimar
É preciso se tornar
Em tudo um conhecedor
Pra cantar versos de amor
E o que vier na sequência
Ter improviso e cadência
Tocar e afinar viola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência)
Estando necessitado
Nao se humilhe nem se iluda
Para conseguir ajuda
Se mostre sempre educado
O prefeito ou o deputado
Trate por vossa excelência
Não è com irreverência
Que o sujeito enche a sacola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência)
No gramado ou na poeira
Na luz elétrica ou do sol
Para jogar futebol
Não é só calçar chuteira
Há quem treine a vida inteira
Tenha técnica e resistência
Mas joga com violência
Finda pisando na bola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência)
Alguém que um negócio monta
E age como burro xucro
Pensa que apurado é lucro
E gasta acima da conta
Ao fornecedor afronta
Com o punhal da inadimplência
Daí até a falência
É o pulo de uma mola
(Até pra pedir esmola
È preciso competência)
Do grande pecuarista
Ao criador de leitão
É bom ouvir, de antemão
Um bom zootecnista
E nunca perder de vista
O rebanho e a gerência
Por falta de advertêcia
Uma manada se atola
(Até pra pedir esmola
É preciso competência.)

VIVER SOZINHO
Não há nada nesta vida
Que cause mais dissabor
Do que dedicar amor
À gente prostituida
Quando a alma é corrompida
O corpo é contaminado
Nunca dá bom resultado
Comprar ou vender carinho
É melhor viver sozinho
Do que mal acompanhado.
Para o Rio de Janeiro
São Paulo ou qualquer lugar
Se resolver viajar
Revise o carro primeiro
Pra levar um companheiro
Tem que escolher com cuidado
levando um mal-educado
Se arrepende no caminho
É melhor viver sozinho
Do que mal acompanhado.
Em qualquer lugar que for
Construir sua morada
Nunca a faça geminada
Com casa de malfeitor
Encomende ao corretor
Um terreno reservado
Ninguém mora sossegado
Onde existe um mau vizinho
É melhor viver sozinho
Do que mal acompanhado.
É tolo o homem que chora
Ou maldiz a própria sina
Quando a mulher desatina
Faz a trouxa e vai embora
Se ela se for porta afora
Não se sinta abandonado
Quem toma caminho errado
É quem se fere em espinho
É melhor viver sozinho
Do que mal acompanhado.
Clique aqui e leia este artigo completo »

EXALTAÇÃO À CABRA SERTANEJA
Quando é tempo de seca no nordeste
Fica o campo sem pasto, o chão sem vida
A lagoa rachada e ressequida
Esperando que o céu se manifeste
Camponês do sertão e do agreste
Transformado num retirante aflito
Animais com os ossos em atrito
De tão fracos se arrastam pelo chão
Eu já vi cabra magra no sertão
Dando leite escorada no cabrito.
Animal carrancudo, pequenino
Com o veado bastante parecido
O pescoço nem curto nem comprido
A cabeça pequena, o queixo fino
Mãe-de-leite do povo nordestino
Resistente ao verão como granito
Cada perna equipara-se a um cambito
Com que faz a escalada do grotão
Eu já vi cabra magra no sertão
Dando leite escorada no cabrito.
O nordeste é viável, com certeza
Irrigado, o sertão vira um jardim
Pra crescer a lavoura e o capim
É bastante ajudar a natureza
Adubar plantações, fazer represa
Como existe nas terras do Egito
Para o povo teria o pão bendito
Para o bruto animal água e ração
Eu já vi cabra magra no sertão
Dando leite escorada no cabrito.
Quando alguns animais não podem mais
Caminhar, combalidos pela fome
Uma cabra faminta ainda come
Folhas secas que caem dos vegetais
Come até aveloz e sassafrás
E apesar de viver neste conflito
Inda é digna de um ato tão bonito
Pros meninos da nossa região
Eu já vi cabra magra no sertão
Dando leite escorada no cabrito.
ANÉZIO LEÃO
Pseudônimo: Lixandre Liveira Lima
A FOME É MAIÓ DO QUE DEUS
Tá numa roda conversando
Vosmincê, o vigário, o professor,
Chega um pobe mendingando…
Desses que nem tem sacola.
Chega e lhe pede uma esmola,
Inté pula a chaga de cristo.
Vamicê tem, mais num dá,
Os ôto tem mais num dão.
Pruquê vamincê faz isto?
Negá o nome de Cristo,
O ninhô da criação?
Se ele falasse na fome…
Se falasse nesse nome
Que é maió qui Deus inté,
Vamincê perdeno a carma,
Abria logo su arma,
Tirava tudo de dennto
Pra dá ao pobe famento
Qui vince estender a mão.
Deus é grande,
Que inté nas arma impenetra.
Seu nome tem quatro letra
Qui nem o dá fome também.
Só são iguá nisso só,
No resto a fome é maió!
É maió arrepare bem!
Adispois que vamicê
Intendê o meu dizê,
Tarvez qui parma me bata:
Cás duas mão, cus dez dedo.
Deus mata sem fazê medo
A fome faz medo e mata!
ANÉZIO LEÃO
Pseudônimo: Lixandre Liveira Lima
SÃO JOÃO DE CABOCA
Caboca, tu se arrescorda
Daquele São João passado
In que tu tava a meu lado
Na fogueira de São João
Tu se arrescorda qui eu sei
Mais teu papé foi tão fei
Qui tu vai dizê qui não.
Pregunto pru preguntá
Mais sei qui tu se arrescorda
Te dei paõ doce, dei sorda,
Dei vinho branco cum mé
Cuntigo arrastei o pé
Na sala grande da casa
Discarço pisei nas brasa
Da fogueira de São João.
Mais num foi pra te amostrá
A fé qui eu tinha no santo,
Foi pra tu vê do teu canto
A minha disposição,
Qui um home qui in brasa pisa
Tem corage pra morrer
Pra se acabá, se perdê,
Com outo, seja quem fô,
Ligado pela camisa
Cumo os carro do vapô.
Clique aqui e leia este artigo completo »
ANÉZIO LEÃO
Pseudônimo: Lixandre Liveira Lima
A ESCOLA DO MESTRE MANÉ BAÚ
Eu já dixe duma feita
Para vaminceis pesente
Qui eu nunca assinava o nome
Porisso eu num era home,
Porisso eu num era gente.
Mais eu já tive na escola
Só dois mês, mais já tive.
Meu meste era um ourive
Chamado mané lixandr,
Ele era de Camamú,
Tinha o bucho um tanto grande
pur isso tinha o apelido
De meste Mané baú
Nós era uns vinte dicípro
Queje tudo do meu tope,
Sibíu de Seu Chico Lope,
Era o mais adientado:
Já soletrava cartia,
Somava, diminuia,
As vez certo as vez errado
Mais é muito naturá,
Que inté os própi meste
Se arrisque as vez a errá.
Clique aqui e leia este artigo completo »
QUERO MORRER AQUI
Anézio Leão
Quando eu cair para morrer (é breve)
Ainda que Bezerra de Carvalho
Diga que aqui não se me quebra um galho,
Não deixem que daqui ninguem me leve!
Para Campina alguma coisa valho,
Pois ela, como diz, muito me deve.
Se bulirem comigo – Anita, Neve
Nísia e Viví darão muito trabalho
Se for para Recife, estou maluco:
Além do calorão, há um vuco-vuco
De gente, de veículos, do diabo…
Quero morrer aquí, na minha rede
- Mostrando as muriçocas na parede
E olhando aquela víbora sem rabo.

PARAR, NÃO!
Anézio Leão
Fui a Bezerra de Carvalho – para
Saber como ia de saude, pois
Antes, sem quê nem mais, um dia ou dois
Caí na rua, e inda ralei a cara
Examinou-me até os pés… depois
Disse, sisudo e de maneira clara:
- “A tua vida, velho, nos é cara:
Eu vou te medicar. E não caçoes!”
E deu-me uma dieta desgraçada:
Não comer sal, abandonar o fumo
Andar miudo e não fazer mais nada
Deixo o cigarro e o sal, sem fazer bico
Ficar parado, não! Não me acostumo:
Levo os seiscentos diabos e não fico!…
* * *
Este Bezerra pôs-me em tal assédio
Que só podia ser pilhéria ou graça:
Impor que eu viva sem que nada faça
É condenar-me a sucumbir de tédio.
Vou devolver-lhe o diabo do remédio
Que ele me deu (para isto tenho raça)
Como se cura um mau por intermédio
De outro muito maior, de uma desgraça?
Deixe que eu siga como vou, amigo.
Se, todavia,se zangar comigo,
Risque o meu nome, então, do seu caderno.
Parado, mais depressa eu morreria
- Aperriado, e até possesso, e iria,
Irremediavelmente, para o inferno!
A CRASE
Anézio Leão
Urge, para lidar com dona crase,
Saber o que ela é, devidamente;
Sem isto, ao certo, nunca pode a gente
Sentir quando ela tem lugar na frase
É a fusão de dois “a”. Esta é a base
Se o termo anterior (antecedente)
Exigir o primeiro, e o conseqüente
Aceitar o segundo, dá-se a crase:
- João vai (eis um exemplo ). Ora, quem vai,
Vai de trem, vai de carro, de avião
E leva se quiser, a mãe e o pai.
Vai à Bahia. O acento no “a” se deita,
Pois há o casório do “a” preposição
Com o “a” artigo, que a Bahia aceita.
A ADVERTÊNCIA
Anézio Leão
Meu filho, em breve morrerei. Além
Do que a linha da vida me revela
Grande é a doença que me aflige e dela
Não escapou, que eu saiba, ainda ningúem
Do que a tua o século não tem
Inteligência mais robusta e bela.
Com um pouco de vontade unida a ela
Podes triunfar na vida e viver bem
Mas, a vontade, saberá usá-la?
É como certas armas, cuja bala,
Não raro, fere a mão, que a usa mal.
Não faças, pois, como eu que nada valho,
Eu que podia, e quase sem trabalho,
Ser, hoje, um bacharel, um general!
O ÉBRIO
Anézio Leão
Eu perguntei a um bêbado que ia,
Ontem, cambaleando pela praça,
Que tal prazer achava na cachaça,
Que não passava sem beber um dia!
Fitou-me, grave. nesse instante passa,
Pela alma do ambiente, uma agonia…
E respondeu, nesta pergunta fria:
- “Não haverá ventura na desgraça”?
Eu era noivo, disse, mas o Cristo
Mandou buscar a minha Elzinha, nisto,
Como se lhe cravassem mil punhais,
Solta um gemido e se desfaz em pranto;
E ,chamando por Elza, a quem quis tanto,
Entra na venda para beber mais!
VERSOS DE ANÉZIO LEÃO
“Petrolina e eu através do tempo“, é um ótimo livro publicado pelo saudoso amigo Aparício Lima.
Onde encontrei versos fantásticos do grande professor e poeta paraibano que aquí residiu por alguns anos.
Esta coluna terá o prazer de publicá-los.
* * *
RESPOSTA A JOÃO, MEU FILHO
Anézio Leão
Recebí tua carta, escrita a dois
Deste e chegada a minhas a vinte
Nela me dizes que no mes seguinte,
Terás um lar. Estás casado, pois..
Vendí do teu gadinho, trinta bois
Por seis contos de réis. Benjamim te
Entregará só três. Por conseguinte
Faltam os outros três,que irão depois
Segundo alcanço, a moça te consagra
Um grande e puro amor, é tudo João.
Mas não me dizes se ela é gorda ou magra.
Se é dessas secas, como pé de milho
Do mocotó de gume de facão
Casa com o diabo que é melhor, meu filho.
GOSTO DE MELANCIA
A cabocla do roçado
Quase nunca se engalana
Ganha a beleza que emana
Da rosa virgem do prado
Não usa creme importado
Pra ter a pele macia
Num meio rústico se cria
Mas tem requinte e recato
(Beijo de moça do mato
Tem gosto de melancia)
A jovem do litoral
Que freqüenta praia e duna
Como a água da laguna
Tem um cheiro especial
Beija com sabor de sal
Mas não cheira como Lia
Que no sertão todo dia
Toma banho no regato
(Beijo de moça do mato
Tem gosto de melancia)
Minha amada é camponesa
Usa vestido de chita
Mas nem uma mais bonita
Existe na redondeza
Além de toda a beleza
Que me traz tanta alegria
A fruta que ela aprecia
Impregnou meu palato
(Beijo de moça do mato
Tem gosto de melancia)
A sertaneja recusa
Qualquer cosmético viscoso
Com produto pegajoso
Ela nunca se lambuza
Os extratos que le usa
Não vêm da perfumaria
Exalam da mataria
Chegam de graça ao olfato
(Beijo de moça do mato
Tem gosto de melancia).

O CABOCLO RENOVADO
Versos sobre o trabalho de revitalização do povoado do Caboclo, Afrânio-PE
Acróstico
Coragem, desprendimento
Amor, abnegação
Boa idéia, entendimaento
Ordem, colaboração
Capacidade e talento
Levam ao desenvolvimento
O Caboclo e região
Amor à terra natal
Faz bem para o coração
Reforça o nosso ideal
Atenua a emoção
Não deixa o filho ablegado
Indiferente ao passado
Obrigado à solidão
Glosas:
A revitalização
Do Caboclo é um exemplo
Como verdadeiro templo
De cultura no sertão
Onde a arte e a profissão
Convivendo lado a lado
Ligam o ontem estagnado
Ao hoje ativo e fulgente
E assim se faz de repente
O CABOCLO RENOVADO
A mais simples criatura
Já vê tudo diferente
Com gente que entende gente
Valorizando a cultura
De um esboço de pinura
A um labirinto bordado
Está dimensionado
Um novo estilo de vida
Contendo entrada e saida
NO CABOCLO RENOVADO
Se a nossa história e bem vista
E a memória é conservada
Nossa gente antepassada
Volta em respeitosa lista
Quem dá apoio ao ao artista
E é bem intencionado
Também será respeitado
Pelo povo agradecido
E um novo ciclo é cumprido
NO CABOCLO RENOVADO
Com esmero e atenção
Ergueu-se o Memorial
Uma obra essencial
Idéia da comissão
Surgiu sua construção
Como um quadro eletrizado
Onde luzes do passado
Refulguram no presente
Tornando resplandecente
O CABOCLO RENOVADO
Clique aqui e leia este artigo completo »

O BODE DE ZÉ MARIA
Bode é um animal comum
Entre os bichos do sertão
Mas pode ser confusão
Bate-boca, zum-zum-zum
Aquí me refiro a um
Que gerou uma porfia
Conduzido certo dia
Para uma farra em Recife
Não se aproveitou um bife
(Do bode de Zé Maria)
O bicho foi retalhado
Em São José do Egito
Um açougueiro imperito
O deixou mal temperado
Apesar de moqueado
E posto na câmara fria
No terceiro ou quarto dia
Começou ficando azul
Fedia de norte a sul
(O bode de Zé Maria)
Alguém quis assar na brasa
uma parte do cabrito
Porém um cheiro esquisito
Exalou por toda a casa
Numa caçarola rasa
Outro pedaço fervia
Mas quanto mais aquuecia
Mais o miasma aumentava
E a discussão atiçava
(O bode de Zé Maria)
Isto é carne de cachorro
Fala um velhote à espsosa
Ela responde: é raposa
E grita a pedir socorro
Se isto feder mais, eu morro
Uma velhinha dizia
Uma moça se escondia
A bradar: isso naõ pode
Assim deu o maior bode
(O bode de Zé maria)
Uma grávida ficou tonta
Com o fedor penetrante
Se fosse num restaurante
Ninguém pagaria a conta
A dona da casa, pronta
Pra degustar a iguaria
No auge dessa arrelia
Para apolêmica encerrar
Disse: eu vou mandar matar
(Outro bode e Zé Maria)

DROGA QUE DESTRÓI A VIDA
Mote de um pai angustiado
Não quero aqui me portar
Como dono da razão
Nem tecer opinião
Sobre o que seja exemplar
Mas não posso me furtar
A uma coisa conhecida
Quase uma causa perdida
Pelo poder do estado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
Em enigmático gráfico
Sobre sutis pergaminhos
Vemos diversos caminhos
Virando rota de tráfico
Com o fator demográfico
Em progressão icontida
Está além da medida
O uso desenfreado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
Só não vê quem não quer ver
A desgraça que nos traz
A obra que satanás
Conseguiu desenvoler
Tudo de mal pode haver
Numa mente entorpecida
Pela droga corrompida
E o espírito derrotado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
Quando uma nobre família
Com dez ou quinze pessoas
Todas tidas como boas
Nao enfrenta uma quizília
Ninguém quebra uma mobília
Toda prole é sempre unida
Mas pode a paz ser rompida
Se aparecer um drogado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida0
Sem fazer apologia
A vinho, uisque ou cachaça
Sem remoque, sem chalaça
Vou levando o dia-a-dia
Mas não aprovo quem cria
Essa idéia desmedida
Que qualquer droga ou bebida
Dão o mesmo resultado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
Seja velho, seja moço
Do viril ou frágil sexo
Não consigo encontrar nexo
Em quem se afunda no poço
Ao mais extremo destroço
A cocaina convida
A heroina liquida
Até o mais bem dotado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
Quem faz diética metódica
Talvez do amargor reclame
Por ter que usar o aspartame
Ou a sacarina sódica
Se acaso toma uma vódka
Tem a glicose contida
Mas a droga proibida
Destrói até o passado
(Não é só do viciado
Que a droga destrói a vida)
SONETO AO TAMARINDEIRO
Nada é mais terno que o tamarindeiro
Planta mais bela do meu povoado
Em cuja sombra ficou meu passado
Impregnado do seu doce cheiro
Vila Caboclo, solo prazenteiro
Trata tua árvore com maior cuidado
Para que nunca algum desavisado
Toque seus galhos com um facão certeiro
Originado em terras africanas
De um semente vinda das savanas
Alcandorou-se esse gigante lindo
A nos provar o quão seria errado
O tamarindo sem o o povoado
Ou o povoado sem o tamarindo

DEBAIXO DO TAMARINDO
Estrofes referentes ao secular tamarindeiro situado no povoado de Caboclo, município de Afrânio-PE
Caboclo é um povoado
Do sertão pernambucano
Que mesmo um tanto isolado
Tem muito calor humano
Num rincão meio perdido
Seria mais esquecido
Não fosse o aspecto lindo
Da grande árvore que tem
Porque sempre existe alguém
(Debaixo do tamarindo)
Nos confins de Petrolina
Inda no século passado
Foi, por dona Mquelina
Um tamarindo plantado
Naquela terra cresceu
Copou, se desenvolveu
E para os céus foi subindo
Como um magestoso prédio
E hoje a gente espanta o tédio
(Debaixo do tamarindo)
A sua fronde altaneira
Exerce um grande fascínio
Na sombra meiga e fagueira
Há um imenso condomínio
Alí redes são armadas
Onde pessoas deitadas
Ficam prosando ou dormindo
E a vida passando calma
Unindo matéria e alma
(Debaixo dotamarindo)
No modesto povoado
A vida não estancou
Muito neto “encapetado”
Virou ídolo do avô
Até os que foram embora
Cresceram, estudaram fora
Estão voltando e se unindo
Engenheiros, arquitetos
Pra sonhar novos projetos
(Debaixo do tamarindo)
Até quem não foi feliz
Por ter deixado o lugar
Pôde voltar quando quis
Ao seu primitivo lar
E na mudança de planos
Com a passagem dos anos
Foi aos poucos descubrindo
Que a paz que buscara a esmo
Permanecera alí mesmo
(Debaixo do tamarindo)
Clique aqui e leia este artigo completo »

VERSOS AO MUSEU PAI-CHICO
Construido e conservado no histórico povoado do Caboclo,antigo distrito de Petrolina, hoje pertencente ao município de Afrânio, situado na divisa com o Piauí.
O Caboclo a cada dia
Torna-se mais importante
Em cada idéia brilhante
Mais uma obra se cria
Com muita sabedoria
Dá-se vida a tradição
Mostrando a dedicação
De antepasados audazes
(Museu Pai-Chico, um oasis
De cultura no sertão
Um engenho de madeira
De almanjarras e moendas
Diz tudo sobre as fazendas
Dessa gente pioneira
Que levou a vida inteira
Desbravando a região
Deixando em cada rincão
A marca de homens capazes
(Museu Pai-Chico, um oasis
De cultura no sertão)
Nem só os livros de história
Contam sagas comoventes
Objetos remanentes
Ativam nossa memória
Onde um passado de glória
Consta num simples bastão
Com melhor informação
Que uma centena de frases
(Museu Pai-Chico, um oasis
De cultura no sertão)
Na falta de equipamentos
Pra trabalhar vale e serra
Tirava-se o pão da terra
Com modestos instrumentos
Mas alguns rudes inventos
Melhoraram a condição
Era a civilização
Fixando novas bases
(Museu Pai-Chico,um oasis
De cultura no sertão)
Os carros-de-boi possantes
Hoje pouco trilham sendas
A conduzir encomendas
Para lugares distantes
Continuam interessantes
Como bens de estimação
Já que para produção
Não são mais tão eficazes
(Museu Pai-chico, um oasis
De cultura no sertão)
O poder de um fazendeiro
É representado em ouro
Enquanto um chapéu de couro
Conta a vida de um vaqueiro
A bigorna de um ferreiro
Que modelava o grilhão
Detalha a força de ação
De ferrenhos capatazes
(Museu Pai-Chico, um oasis
De cultura no sertão)
SONETO AO MUSEU PAI-CHICO
Na parte externa do Museu Pai-Chico
Um velho engenho feito de madeira
Dá logo a idéia de um acervo rico
Da rica história de uma gente ordeira
Um banco rústico feito só de angico
Um carro antigo todo de aroeira
Talvez mais velhos que a palavra ‘fico’
Que disse um príncipe à gente brasileira
Um bacamarte grosso, uma reiuna
Um pilão grande, feito em barauna
Uma chaleira que perdeu o bico
Mil utensílios como pote e jarro
Peças de ferro, porcelana e barro
Na parte interna do Museu Pai-Chico
Este soneto faz parte do poema anterior, “VERSOS AO MUSEU PAI-CHICO”
Virão mais sobre O CABOCLO.
CONTRAVENÇÃO
MOTE DE UM IMORTAL
Este assunto a gente grifa
pra ver o quanto é errado
Na mão de um advogado
UM JUIZ COMPRANDO RIFA
É quando a lei e espatifa
Pela falta de razão
Se existe a legislação
É para a gente acatar
Um juiz desrespeitar
É PURA CONTRAVENÇÃO
Éum caso que encafifa
A qualquer uma pessoa
Num ato atípico e a-toa
UM JUIZ COMPRANDO RIFA
Se acaso fosse um clifa
Um rajá ou um sultão
Seria ilícita a ação
Uma jogada infeliz
Sendo o erro de um juiz
É DUPLA CONTRAVENÇÃO
MOXOTÓ
Com a seca o moxotó
Padece grandes impactos
Só resistem bem os cactos
Macambira e mororó
Tomam forma de cipó
Quebra-faca e marmeleiro
É comum o ano inteiro
Faltar pasto para o gado
(Moxotó foi coroado
Com xique-xique e facheiro)
De todo o árido serão
É a mais áspera caatinga
A planta espinhosa vinga
Porém a lavoura, não
Para produzir ração
Sofre demais o vaqueiro
Que já anda com o cheiro
De mandacaru assado
(Moxotó foi coroado
Com xique-xique e facheiro)

CARNAVAL
Quando eu era molecote
Não praticava desordens
Memo se andasse em magote
Do meu pai, cumpria as ordens
Hoje na esculhambação
Quem manda nessa nação
Acha que o mal é normal
Daquí pra março chegar
O que é de ruim vão botar
A culpa no CARNAVAL
Nem beato nem carola
Nem carola nem beato
Quem ainda é bom da bola
Não chuta bola pro mato
passo o ano quase mudo
Mas chega chega o entrudo
Modifico o meu astral
Raspando os setenta anos
Desprezo meus desenganos
E emboco no CARNAVAL
Minhas pernas não saõ mais
Firmes como antigamente
Dos meus tempos de rapaz
Resta a vontade somente
Mas enquanto a mulherada
Agir de forma engraçada
Mostrando o essencIal
Adguiro entusiasmo
E atinjo até o orgasmo
Na farra do CARNAVAL
Das festa que eu menos gosto
Vaquejada, é uma delas
Em mulheres, eu me encosto
Não em vacas amarelas
Embora falte firmeza
Procuro mostrar destreza
Da forma mais natural
Pra que todo mundo pense
Que a idade não me vence
Quando chega o CARNAVAL
Nunca fugi duma festa
Feita por gente decente
Por isso só com quem presta
Me envolvo constantemente
Seja festa de São João
São Cosme, São Damião
Do advento ao natal
Gosto de bebericar
Se o “figueiredo” aguentar
Vou até o CARNAVAL
Lá pelos anos sessenta
Na minha idade de ouro
Só entrava em minha venta
Se fose lança rodouro
Em loló nem se falava
Tudo quanto a gente usava
Era certo, era legal
Hoje é tudo adulterado
E eu já fui aconselhado
A fugir do CARNAVAL
BOM CARNAVAL PARA TODOS!
SONETO AOS SESSENTA ANOS
Depois da sexta-feira treze, o dia
Em que tornei-me sexagenário
Enquanto espero pelo centenário
Vou dando força à minha fantasia
Mesmo não tendo mais muita euforia
A cada ano sempre em februário
Celebrarei o meu aniversário
Aureolado pela poesia
Se a sorte é efêmera, eterna é a esperança
Sempre apoiado na perseveraça
Tendo uma estrela divinal por guia
Não hei de ver qualquer caminho escuro
Marchando firme para o meu futuro
Hei de alcançar meu eldorado um dia
Petrolina, Sábado, 14 de fevereiro de 2004

A EXISTÊNCIA DE DEUS
Mote sugerido pelo Poeta Ismael Gaião
Não faz ninguém ficar triste
Nem sofrer decepção
Mas causa insatisfação
(Quém diz que Deus não existe)
É como negar alpiste
Para um pássaro comer
O crente para viver
Usa a fé como alimento
Quém nega este sentimento
(Só quer mesmo aparecer)
Toda esperança consiste
Em acreditar num Deus
Se coloca entre os ateus
(Qém diz que Deus não existe)
Quém por fé, muito persiste
Tem mais chances de vencer
Como é mais fácil perder
Quém não tem um Deus por guia
Mostrando falsa alegria
(Só quer mesmo aparecer)
Quém dum credo não desiste
Sempre aposta no futuro
Mas não se sente seguro
(Quém diz que Deus não existe)
Mesmo pondo o dedo em riste
Pra demonstrar seu poder
Contendo força e saber
Como uma eminência parda
Seja à paisana ou de farda
(Só quer mesmo aparecer)
Por mais bens que alguém conquiste
Não se julgue onipotente
Age de forma imprudente
(Quem diz que Deus não existe)
Quem na vaidade insiste
E é irônico por prazer
Pode desgostos sofrer
Por conta do pedantismo
Quem rir do mal por sadismo
(Só quer mesmo aperecer)
Sem Deuses tudo inexiste
De mono ao politeismo
Se pôe à beira do abismo
(Quem diz que Deus não existe)
É comum a quem assiste
O próprio filho crescer
N’alguma entidade crer
Como grande protetor
Quem denega um criador
(Só quer mesmo aparecer)

VIOLA VALENTE
O cantador de embolada
Usa o ganzá ou o pandeiro
O poeta e o seresteiro
Usam a viola afinada
Que deve ser bem zelada
Nas mãos do bom trovador
Tratada com desamor
Pode causar um fracaço
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
O braço do violão
Tem seis cordas desiguais
A viola tem bem mais
Da prima até o bordão
Quem tem boa inspiração
Dá seu devido valor
O mal improvisador
Perde a rima e o compasso
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
Um cantador valoroso
Acostumado a sucessos
Ganha diversos congressos
Depois se torna orgulhoso
Despresando o sonoroso
Instrumento animador
Mete-se a ser glosador
Pra terminar num fracasso
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
De madeira flexível
É feita a sua estruura
Para dar forma a cintura
Da melhor forma possível
Os trastos todos em nível
Contrastando pela cor
Onde a mão do tocador
Dedilha traço por traço
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
O poeta tarimbado
Que investe no repente
Conserva adequadamente
Seu instrumeno afinado
Numa sacola guardado
Protegido do calor
Sustento num armador
Pendurado por um laço
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
Comparada a uma mulher
Por ter certa formosura
Pode não ser casta e pura
Mas não é uma qualquer
Sempre atinge o seu mister
Na mão de um compositor
Não tem corpo abrangedor
Para ocupar pouco espasso
(Viola tem corda e braço
Para amarrar antador)
Um artesão ritmista
Junta um arame e um pau
Pra fazer um berimbáu
Que anima o capoeirista
Enquanto um bom pianista
Pode uma valsa,compor
Um violeiro amador
Pode entrar num erro crasso
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
Cantorias de primeira
Assistí no Pajeú
Entre Manoel Xudú
E Severino Ferreira
Onde a viola, parceira
Era usada com fervor
Com cada competidor
Vibrando as cordas aço
(Viola tem corda e braço
Para amarrar cantador)
OS INIMIGOS DE DEUS
Pregadores mercenários
Impregnados de astúcias
Formam verdadeiras súcias
Para engabelar otários
Usando vocabulários
Cheios de interpolações
Não passam, esses vilões
De hipócritas fariseus
(Os inimigos de Deus
Estão nas religiões)
Há falsos religiosos
Que estão abaixo da crítica
Assentados na política
Juntos com ladrões famosos
Bajulando poderosos
Para ganhar concessões
Rádios e televisões
São objetivos seus
(Os inimigos de Deus
Estão nas religiões)
Os teocratas cruéis
Que dominam meio mundo
Burlam a cada segundo
A boa fé dos fiéis
Fingidos nos seus papéis
Iludindo multidões
Os grandes espertalhões
Não estão entre os ateus
(Os inimigos de Deus
Estão nas religiões)
Terroristas suicidas
Em nome de guerras santas
Praticam maldades, tantas
Que exterminam tantas vidas
Em batalhas fratricidas
Por conta de tradiçoes
A discórdia entre as nações
Vem do tempo dos Hebreus
(Os inimigos de Deus
Estão nas religiões)

O AVARENTO
Há pessoas que fazem economia
Só depois de comprar o necessário
Diferentes porém, do usurário
Que nem víveres compra todo dia
A barriga a roncar, sempre vazia
Pela falta do simples alimento
Alimenta-se apenas com o vento
E a visão da fortuna e do poder
(Todo cofre é pequeno pra caber
O dinheiro ilegal do avarento)
A ganância é irmã da avareza
Inimiga da paz e do amor
Companheira do vil explorador
Que enriquece assaltando a natureza
Destruindo sem dó tanta beleza
Com antigo ou moderno equipamento
O que vale é o amontoamento
De madeira roubada pra vender
(Todo cofre é pequeno pra caber
O dinheiro ilegal do avarento)
Mesmo tendo montanhas de dinheiro
O avaro está sempre a querer mais
Nunca um pouco de ouro o satisfaz
Qalquer perda pra ele é desespero
Não lhe importa se um lucro é verdadeiro
Ou se vem de um negócio fraudulento
Só interessa que a lei do orçamento
Lhe reserve um direito a receber
(Todo cofre é pequeno pra caber
O dinheiro ilegal do avarento)
Um político corrupto e desleal
Pra chegar ao poder o povo ilude
Depois rouba o dinheiro da saude
Que devia servir a um hospital
Nisto, ao pobre doente a passar mal
Nunca chega um remédio por alento
A ganância do rico é o elemento
Causador do seu grande padecer
(Todo cofre é pequeno pra caber
O dinheiro ilegal do avarento)
Negocista de contas inexatas
Nas empresas que passa rouba os sócios
Pois em vez de cuidar de bons négócios
Se aprimora em fazer negociatas
Borderôs, promissórias, duplicatas
Nada passa sem seu envolvimento
Pra fazer com que cada documento
Dê um jeito para o favorecer
(Todo cofre é pequeno pra caber
O dinheiro ilegal do avarento)
Clique aqui e leia este artigo completo »

SEM LICENÇA E SEM PERDÃO
Mote de um apologista fanfarrão
Na festa de casamento
Da filha de um fazendeiro
Cujo noivo, um boiadeiro
Era estúpido e ciumento
Entrei, por atrevimento
Sem convite ou permissão
No auge da diversão
Mexí até na despença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Na vida de uma pessoa
Que não mais queria amar
Eu conseguí me enroscar
Prometendo vida boa
Foi uma aventura à-toa
Pra causar desilusão
Ferí mais um coração
Provoquei nova descrença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Um dia, em Serra Talhada
A terra de Virgulino
Guiado pelo destino
Entrei sem temer a nada
Fui mum forró de latada
Onde cantava Assisão
Risquei peixeira no chão
Fiz a maior desavença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Na Veneza brasileira
Por um acesso gripal
Fui levado ao hospital
Porém lá só fiz besteira
Destratei a enfermeira
Dei no médico de plantão
Não tomei uma injeção
Nem tratei minha doença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Nos palácios da Alvorada
Planalto e Itamaratí
A segurança iludí
E entrei sem crachá, sem nada
Fui bater na papelada
Dos mandarins da naçao
Descobrí, nessa incursão
Como é que o crime compensa
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
No pé de um grande serra
Me envolví numa contenda
Invadí uma fazenda
Com um grupo de sem-terra
Mesmo ganhando essa guerra
Foi perdida a invasão
Para a desocupação
Logo foi dada a sentença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Numa embarcação grã- fina
Sem nada me causar pânico
Todo mistério oceânico
Desvendei, virou rotina
Cruzei o mares da China
Fui às ilhas do Japão
Lá fiz como um tubarão
Em atividade intença
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão)
Entrei na delegacia
Pra delatar um bandido
Como fui mal recebido
Apelei pra grosseria
Troquei a diplomacia
Pelo cabo do facão
Dei sopapo e pescoção
Fui manchete em toda a imprensa
(Entrei sem pedir licença
Saí sem pedir perdão).

NORDESTE
O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão
Quando chove o sertão se enche de cores
Vira um grande painel de plantas belas
Canafístula de flores amarelas
Misturada aos arbustos multicores
Porém nesse jardim com tantas flores
Quando a seca se achega e seca o chão
Esmaece o verdor da região
Murcha a grama no solo ressequido
(O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão)
Só a árvore da margem do ribeiro
Que mantém a raiz em terra fresca
Oferece uma sombra pitoresca
Ao severo e astuto comboieiro
Que conduz sua tropa o ano inteiro
Sem mostrar desespero ou aflição
Comandando com resignação
Os trabalhos de um povo destemido
(O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão)
Quase tudo na flora sertaneja
Se desfolha no tempo da estiagem
Poucas coisas escapam na ramagem
Nesta terra de gente benfaseja
O sisal, a vavela e a carqueja
Se transformam como o camaleão
Mudam as cores conforme a estação
Mas com chuva sai tudo retingido
(O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão
Quando a gente viaja andando a pé
Nas veredas do sertão nordestino
Em missão de romeiro peregrino
Para ver São Francisco em Canindé
Nem o sol escaldante abala a fé
Nem as nossas promessas ficam em vão
Mas se a chuva molhar todo o sertão
Deixará nosso santo envaidecido
(O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão)
O frondoso e afável juazeiro
É o hotel do sofrido retirante
Que padece na seca cruciante
Viajando sem meta e sem roteiro
Sem poder escolher um paradeiro
Pra de novo sentir-se um cidadão
E afastar do magoado coração
As angústias que tanto tem sentido
(O Nordeste é um quadro colorico
Onde o verde desbota no verão)
Barauna apesar de resistente
Do outono pra frente se escarpela
Aroeira, árvore nobre forte e bela
Com a seca se mostra decadente
Avelós, uma planta ardosa e quente
Perde o viço por força do solão
Quixabeira da margem do grotão
Não sustenta um só ramo bem florido
(O Nordeste é um quadro colorido
Onde o verde desbota no verão)
VERSOS A ZÉ MARCOLINO
Mote do repentista Sebastião Dias logo após a última viagem terrena do grande poeta.
(Os que estão em maiúculos são titulos de músicas do poeta)
Não ví mais uma PEDRA DE AMOLAR
No oitão de uma SALA DE REBOCO
SEVERINA em Sumé dançando coco
Nem o PÁSSARO CARÃO adivinhar
O “VEM-VEM” não diz mais quem vai chegar
MARIMBONDO mudou-se da latada
SABIÁ inda arrisca uma toada
Mas a ROLINHA BRANCA emudeceu
(A estrada levou quem escreveu
O mais belo poema da estrada)
A “SAUDADE IMPRUDNTE” e roedeira
Maltratando o MATUTO APERREADO
RIO DA BARRA se sente angustiado
Sem o fogo de BOCA DE CAIEIRA
LUBISOMEM não sai mais sexta feira
NICODEMOS já é coisa passada
SOCORRINHA não socorreu em nada
E o PEDIDO A SÃO JOÃO nada valeu
(A estrada levou quem escrevu
O mais belo poema da estrada)

A SERVENTIA DA PORTA
Uma discussão entre os poetas: Zé Moura e Hilário Monteiro gerou esses versos.
Uma porta de aroeira
Cedro, imbúia ou umburana
Estilo veneziana
De segunda ou de primeira
Serve pra fechar fronteira
E abrir para outra naçao
Para dar ao cidadão
O direito de ir e vir
(Porta existe pra servir
Não é pra gerar questão)
A porta da prefeitura
Serve de amparo ao prefeito
Se foi pelo povo, eleito
Não precisa fechadura
Governo de ditadura
É que atravanca portão
Há porta em repartição
Pra gente entrar e sair
(Porta existe pra servir
Não é pra gerar questão)
Na casa sofisticada
Onde mora o presidente
Fica um guarda no batente
De baioneta escalada
Porém a porta fechada
Dá muito mais proteção
Quem mora num barracão
Fecha a porta pra dormir
(Porta existe pra servir
Não é pra gerar questão)
Pra que dizer impropério
Fazer maus gestos, xingar
Se todos vamos passar
Na porta do cemitério
Se o caso não é tão sério
Pra que tanta confusão?
Porta em biboca ou mansão
É para entrar e sair
(Porta existe pra servir
Não é pra gerar questão)
Clique aqui e leia este artigo completo »

RODAS DE GLOSAS
Estrofes em motes diversos, na maioria improvisadas em rodas de glosas.
Ah! se João Paulo Segundo
Ficasse aquí no Brasil
E o nosso João do fuzil
Fosse para o outro mundo
Para um buraco bem fundo
Com cavalo e com espora
Sem deixar nada de fora
E aquí nunca mais voltasse
(Ah! se João Paulo ficasse
E o outro João fosse embora)
*
A janela do oitão
Está sempre escancarada
E a quem passa na estrada
Aparece assombração
Até o velho fogão
Que cozinhava xerém
Dentro da chaminé tem
Um capuxú arranchado
(Na casa em que fui criado
Nunca mais morou ninguém)
*
Quando eu morrer, meu amigo
Por favor, não queime vela
Coloque um retrato dela
Na campa do meu jazigo
Não quero levar comigo
Mágoas de quem me fez mal
Na sombra de um vegetal
Contrua uma cova escura
(Tape a minha sepultura
Com terra, cimento e cal)
*
Nem na hora derradeira
Vou sentir medo da morte
Deus deu-me um espírito forte
Para cruzar tal fronteira
Não presisa choradeira
De amigo ou parentela
Basta a luz da última vela
Clareando a nova estrada
(A morte está enganada
Eu vou viver depois dela)
*
Eu gosto muito das duas
Elas juram que me adoram
Quando eu chamo, não demoram
Quando eu quero, ficam nuas
Como um sol com duas luas
Vivo este duplo himeneu
A vida me ofereceu
Eu não pude recusar
(Ninguém deve abdicar
Dos bens que a sorte lhe deu)
*
Da vida nada se leva
Depois da grande vertigem
Voltamos à nossa origem
O barro de Adão e Eva
Depois que a alma se eleva
A matéria é consumida
A cova só não liquida
O ouro da dentadura
(A lama da sepultura
Cobre os orgulhos da vida)
Clique aqui e leia este artigo completo »