Mundo Cordel
FUTEBOL, TRAGÉDIA E SOLIDARIEDADE

Não costumo comentar tragédias. Não sei a razão. Simplesmente guardo para mim as minhas impressões.

Mas, quando a tragédia desperta nas pessoas o sentimento de superação, transformando em esperança o que parecia apenas dor, entendo que isso deve ser destacado. Foi o que aconteceu nesse caso do acidente aéreo ocorrido na Colômbia esta semana.atletico_chape

A homenagem feita pela torcida do Atlético Nacional, e pelo povo colombiano em geral, aos atletas da Chapecoense – extensiva, obviamente, a todos os que estavam com eles no mesmo voo – foi daqueles gestos que nos fazem continuar a ter esperança na humanidade.

A solidariedade e a gentileza demonstradas pelas pessoas presentes ao estádio onde aconteceria a primeira partida da disputa pelo título sulamericano foi um exemplo para o mundo inteiro.

Penso que traria um grande conforto para todos os amantes do futebol se as torcidas dos times chamados “rivais” aprendessem, com esse exemplo, que o futebol tem um imenso potencial aproximar as pessoas.

A torcida do Atlético Nacional mostrou ao mundo a grande diferença que há entre inimigos e adversários.

Que bom seria se as torcidas dos clubes brasileiros pudessem extrair dessa tragédia a compreensão de que a disputa aguerrida no campo de jogo não precisa e nem deve gerar violência dentro ou fora dos estádios.

A solidariedade de clubes e suas torcidas com a Chapecoense, ao redor do mundo inteiro, é a prova de que a competição esportiva é mais emocionante quando proporciona a PAZ e a UNIÃO entre as pessoas.

Força Chape!


Mundo Cordel
PALAVRAS DA MODA

Speech Maker --- Image by © Images.com/Corbis

Se a moda também chega às palavras,
Sei de uma que é o sucesso do momento,
Pois não passa um só dia sem alguém
Me falar sobre um tal EMPODERAMENTO.

Há palavras em total esquecimento
Mas há outras que estou sempre a ouvir.
É o caso de falar mal de alguém
E dizer que apenas vai DESCONSTRUIR.

Não que eu queira contra isso me insurgir,
Mas às vezes é preciso paciência,
Para ouvir, sem saber bem do que se trata,
Que alguém ou algo tem RESILIÊNCIA.

Tais palavras, que escuto com frequência,
Em discursos da ESQUERDA e da DIREITA,
Para alguns podem ser bem IMPACTANTES,
Para mim, têm sempre o tom de frase feita.


Mundo Cordel
SOBRE OFENSAS A JUÍZES E ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Quem de alguma forma atua nas lides forenses sabe que um juiz pode facilmente desagradar duas partes que litigam em um processo. Mas é praticamente impossível que agrade a ambas.

Por isso, quem exerce a função de juiz deve estar sempre disposto a desagradar. E, consequentemente, a ouvir muitas críticas e poucos elogios.

Afinal de contas, por trás de vozes que clamam por Justiça, sempre há interesses pessoais em jogo. De tal forma que, para quem litiga em juízo, sentença justa costuma ser sinônimo de sentença favorável. Assim como uma decisão adversa facilmente é vista como uma afronta ao seu direito.

Na jurisdição criminal, é praticamente impossível imaginar uma decisão que seja bem aceita pela vítima, a sociedade, o acusado e sua família.

O certo é que, para a parte que se satisfaz com a decisão, o juiz apenas cumpriu o seu dever. Para quem foi contrariado, fica a desconfiança de ter prevalecido algum interesse escuso, relação de amizade, influência política ou qualquer outra forma de se perpetuar uma injustiça.

No Brasil dos tempos atuais, esses sentimentos andam exacerbados. Como o país atravessa um momento histórico no qual o Poder Judiciário tem assumido forte protagonismo, muitos processos judiciais atraem a atenção do público em geral e ganham espaço nos noticiários (não necessariamente nessa ordem). Isso acaba criando espécies de “torcidas”, que, movidas pela paixão, são incapazes de compreender – ou, pelo menos, tentar compreender – as razões do convencimento do juiz.

Além, é claro, de muita gente poderosa estar sendo chamada a prestar contas com a Justiça em processos criminais. Não deve ser fácil, para alguém que se considera política ou economicamente superior aos que exercem a função de julgadores, ter que se submeter – como qualquer pessoa – a um processo criminal.

Prisões, interceptações telefônicas e buscas devem deixar com os nervos à flor da pele quem nunca imaginou ser destinatário dessas ações, decorrentes do Poder do Estado, e hoje as vê alcançar parentes, amigos ou aliados políticos.

Daí as reações de algumas dessas pessoas, tidas como poderosas, tentando desqualificar os juízes responsáveis pela condução dos processos criminais.

Quando o presidente do Senado refere-se a um Juiz Federal como “juizeco”, é possível perceber que, por trás da ofensa, há o incômodo causado por uma decisão judicial que põe uma investigação criminal dentro do Senado.

Mas também há o sentimento de impotência, diante da independência do magistrado. Independência que é vista como petulância por quem não sabe, não aceita ou ainda não entendeu que, em uma República, o Poder é repartido na Constituição, em forma de competências, e não em razão de conveniências pessoais. Daí não se poder falar de juízes maiores ou menores. Todos têm sua competência definida na Constituição, e merecem igual respeito.

Nessa linha de pensamento, importa observar que a decisão judicial causadora do incômodo no Senado foi suspensa, mas por outro membro do Poder Judiciário, dentro das possibilidades de recursos previstas no sistema processual. E não por qualquer interferência externa. Aliás, a suspensão foi determinada por um Ministro do Supremo Tribunal Federal, atendendo a um recurso, não do presidente do Senado, mas de um dos servidores públicos presos na operação autorizada pelo Juiz Federal. E nada impede que o próprio pleno do STF venha a restabelecer a primeira decisão, proferida pelo juiz de primeiro grau.

Porque o Judiciário funciona assim mesmo. Um juiz sempre pode ter a sua decisão suspensa, anulada, reformada ou confirmada por um tribunal, até chegar à instância máxima para o caso (que nem sempre é o STF).

O que não pode – e felizmente não tem acontecido – é que outro Poder interfira nas decisões judiciais. Nem tampouco um juiz ser punido (ou sofrer reprimenda) por haver decidido conforme sua percepção das leis em vigor e das provas contidas nos autos.

Reclamações até já foram protocoladas com esse objetivo, junto ao Conselho Nacional de Justiça, mas o STF tem decidido que o CNJ não tem competência para “fiscalizar, reexaminar e suspender os efeitos decorrentes de atos de conteúdo jurisdicional emanados de magistrados e Tribunais em geral” (MS 28.598-MC-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Pleno).

Esse é um dos pilares do Estado Democrático de Direito: que os juízes de qualquer instância decidam com independência, tendo suas decisões respeitadas e sendo revistas apenas dentro do sistema regular de recursos.

Enquanto esse princípio for preservado, ofensas lançadas contra juízes, por quem se sente prejudicado ou ameaçado por suas decisões, são reações sem maiores efeitos práticos que não o de revelar nuances do caráter de quem as emite.

É evidente que, se a ofensa parte de alguém que seja detentor de alguma parcela do poder político, a repercussão é maior. Seja pela expectativa de que tais pessoas se comportem de maneira mais respeitosa diante das instituições, seja porque as declarações de tais pessoas, por razões óbvias, têm maior espaço na mídia.

Nada, no entanto, que surpreenda ou intimide quem se dedica ao ofício de julgar, e, consequentemente, contrariar interesses. Inclusive dos poderosos, da imprensa e mesmo da opinião pública.


Mundo Cordel
COMIDA DE POBRE E COMIDA DE RICO

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Aconteceu sexta-feira passada. O Correia me ligou chamando para ir almoçar com ele e mais alguns amigos.

– Vamos! Que horas? – prontifiquei-me.

– Passo pra te buscar pelas doze e meia. Pode ser?

– Pode. Fico lhe aguardando.

Como combinado foi feito. Uma da tarde já éramos quatro, sentados em torno da mesa do restaurante, em uma quadra comercial da Asa Sul.

Enquanto tomávamos uma cerveja Colombina – marca que eu nunca havia experimentado, mas gostei – fomos fazendo os pedidos do almoço. Foi nessa hora que o Correia me mostrou um item do cardápio e disse:

– Olha aí. Nova moda aqui em Brasília. Todo restaurante fino agora tem. É já que tu faz um verso falando da comida da pobre que virou comida de rico.

De fato, o mote era bom. Peguei um guardanapo e escrevi:

Comida de gente rica
É uma coisa refinada.
Com temperos estrangeiros
É sempre bem preparada.
É difícil a gente ver
O povo rico comer
Mocotó ou panelada.

Rico prefere escargot
E um tal de caviar,
E até sushi, que é o peixe,
Sem fritar nem cozinhar.
E o pobre, pensando fica:
“Comida de gente rica,
Ô coisa pra não prestar!”

Mas, hoje eu fiquei sabendo,
Que chegou uma novidade,
Nos bares e restaurantes,
Refinados da cidade:
Era comida de pobre
Mas agora o povo nobre
Descobriu sua qualidade.

É carne que vem com osso,
E é um tanto gordurosa,
Mas, sendo bem preparada,
É coisa muito gostosa.
Cozida é melhor que assada.
Pois eu falo da RABADA,
Que está ficando famosa.

A rabada dá sustança,
A rabada tem sabor,
E o povo rico também
Descobriu o seu valor.
Mas, antes que o preço aumente:
– Garçom, sirva aqui pra gente
Mais rabada, por favor.

O item que o Correia havia me mostrado era “Rabada Gourmet”. Veio meio falta de gordura. Não era como a rabada que minha avó fazia. Mas estava boa.


Mundo Cordel
POR UM INSTANTE

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Ele já estava lá, quando ela chegou e postou-se ao seu lado.

Não falou nada, sequer o cumprimentou.

Ele também permaneceu em silêncio. Olhou-a, mas evitou que seus olhares se cruzassem.

Ela pareceu ter feito o mesmo.

Permaneceram assim, lado a lado, mas sem se olharem. Calados.

Tão próximos que um não poderia abrir os braços sem tocar o outro.

E, no entanto, parecia haver uma barreira invisível entre os dois.

Os corpos praticamente imóveis. Os dois pares de olhos fixos em algum ponto imaginário à sua frente.

Ficaram assim ainda por um tempo.

Pouco tempo. Mas o suficiente para que o perfume dela chegasse às narinas dele.

Gostou. Inalou uma vez mais. Lenta e profundamente.

Mas com suavidade. Como temendo deixar transparecer que o cheiro dela o agradava.

Movendo a cabeça o mínimo possível, ele olhou-a uma vez mais. E sentiu-se invadido por uma vontade irresistível de quebrar aquele silêncio.

Romper a barreira que os separava.

Imaginou que uma palavra sua poderia mudar o destino dos dois, a partir daquele instante. Talvez para sempre.

Precisaria apenas dizer a coisa certa. Do jeito certo.

Em sua mente, formulou uma frase. Descartou. Formulou outra. Pareceu-lhe melhor.

Preparava-se para soltar a voz, quando fez-se ali um leve solavanco. A porta à sua frente abriu-se.

E ela saiu, como havia entrado. Em absoluto silêncio. Enquanto saía, ainda olhou timidamente para trás. E seus olhares finalmente se cruzaram.

Mas, só por um instante.

A porta fechou-se novamente. O elevador voltou a subir.

E os dois nunca mais se encontraram.


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

COLHEITA

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Ali tem mais. Sobe e balança o galho.

– Espera. Caiu mais um.

* * *

VENTO

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Vc vai subir no galho?

– Tá ventando muito. Vou esperar cair mais.

* * *

SAFRA

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Parece que aquele vai cair também.

– Pega o cesto.


Mundo Cordel
PERNAMBUCANO DE MELLO BEBEU NA FONTE DO CORDEL

Esta semana vi uma postagem do nosso editor Luiz Berto referindo-se a Frederico Pernambucano de Mello e ao livro “Guerreiros do Sol”.

Imediatamente lembrei de um texto que publiquei no Mundo Cordel, em abril de 2008, no qual fiz alguns comentários sobre “Guerreiros do Sol” e sua relação com a Literatura de Cordel.

Não custa relembrar o que escrevi na época.

* * *

O CORDEL COMO FONTE DE PESQUISA

guerreiros-do-sol

É comum se encontrar textos dizendo que o cordel desenvolveu-se no Nordeste Brasileiro como veículo condutor de notícias, informações, as quais eram passadas em sessões informais de leitura dos folhetos ou nos encontros de violeiros.

Outro dia, vi até na revista “BRASIL: almanaque de cultura popular”, que é distribuída nos vôos da TAM, uma matéria assinada por Mariana Albanese, na qual autora referia-se ao cordel como “uma literatura popular, com características genuinamente brasileiras”, e prosseguia: “Meio de comunicação de massa, o ‘jornal do sertão’ faz a crônica de sua época e ainda hoje se destaca em feiras e mercados de cidades como Juazeiro do Norte, Recife e Campina Grande”.(Nº 89, agosto de 2006).

Hoje, porém, quero destacar o cordel, não apenas como meio de comunicação, mas como fonte de pesquisa histórica e sociológica.

Terminei de ler o livro “GUERREIROS DO SOL: violência e banditismo no Nordeste do Brasil”, de Frederico Pernambucano de Mello, e chamou-me a atenção o quanto o cordel é utilizado pelo autor no desenvolvimento do seu trabalho, aliás, um belo trabalho.

Cada capítulo tem como epígrafe uma estrofe do tipo:

Rio Preto foi quem disse
E, como disse, não nega,
Leva faca, leva chumbo,
Morre solto e não se entrega.

(verso de pabulagem bradado em combate pelo famoso cangaceiro da segunda metade do século XIX, cf. Luís da Câmara Cascudo, Flor de romances trágicos, 1966.)

Como ninguém ignora
Na minha pátria natal
Ser cangaceiro é coisa
Mais comum e natural;
Por isso herdei de meu pai
Esse costume brutal…

(Francisco das Chagas Batista, A história de Antonio Silvino, s.d.).

Mas a obra não se limita a usar a poesia popular nas epígrafes. Um exemplo bom disso encontrei nas páginas 65 a 67, nas quais a obra trata da figura do valentão, homem que não era tido como fora da lei, mas que, segundo o autor, “enganchava a granadeira e, viajando léguas e mais léguas, ia desafrontar um amigo, parente ou mesmo um estranho que tivesse sofrido algum constrangimento ou humilhação”.

Para dar uma ideia do sentimento do povo sertanejo em relação aos valentões Frederico Pernambucano De Mello lança mão dos versos do poeta Manuel Clementino Leite, antigo versejador do sertão paraibano, do século XIX. O trecho do livro é o seguinte:

Clementino aponta a origem histórica do valentão através de uma ilustre ascendência bíblica; estrema-a do cangaceiro, a seu ver, uma figura moralmente menor; sustenta que a probidade não se mostrava nele incompatível com a vida de questões; caindo finalmente num justificável casuísmo, em que aponta os grandes do seu tempo e, por certo, da sua admiração de sertanejo e de poeta:

Desde o princípio do mundo
Que há homem valentão
Um Golias, um Davi,
Carlos Magno, um Roldão
Um Oliveira, um Joab,
Um Josué, um Sansão.

Eu não chamo valentão
A cangaceiro vagabundo
Que quer ser um Deus na terra
Um primeiro sem segundo
Que vive a cometer crimes
E ofender todo mundo.

Tenho visto valentão
Ter sossego e viver quieto
Morando dentro da rua
Comprando e pagando reto
Trabalhar, juntar fazenda
Deixar herança pr’os neto.

Só se esconde o valentão
Que vive com o pé na lama
José Antonio do Fechado
Morreu em cima da cama
Brigou, matou muita gente,
Morreu mas ficou a fama.

Eu três homens valentões
No Pajeí conheci:
Quidute, Joaquim Ferreira,
E José Félix Mari
Mora dentro de Afogados
Tem grande negócio ali.

Mais adiante, nas páginas 178 a 180, o autor, já dissertando sobre os cangaceiros, fala do grupo dos Guabiraba, e mais uma vez busca apoio na poesia popular:

Ainda no meado do século [XIX], passaram a atuar os Guabiraba, sob a chefia dos irmãos Cirino, Jovino e joão, e do cuhado destes, Manuel Rodrigues. “Naturais da vila de Afogados da Ingazeira, ao pé da serra da Baixa Verde, no sertão pernambucano, fizeram-se bandidos nas escolas do Pajeú de Flores, onde praticaram tantos crimes que foram obrigados a fugir para Teixeira, na Paraíba”, eis o retrato que nos fornece Gustavo Barroso […]. Em sua faina de poeta a seu modo historiador, Leandro Gomes de Barros pinta o gupo de Cirino com traços bem carregados;

Os Guabiraba eram um grupo
De três irmãos e um cunhado,
Todos assassinos por índole,
Cada qual o mais malvado
Aquele sertão inculto
Tinha essas feras criado.

A audácia do bando transparece clara nestes versos, pedaços de um antigo ABC de autor tão inculto quanto inteligente, com que se obtém uma reconstituição bem mais precisa da situação descrita, particularmente do clima épico em que se feriam as disputas que envolviam cangaceiros:

Agora estou me lembrando
Do tempo dos Guabiraba…
O capitão Zé Augusto
Cercou a serra e as aba,
Encontrou os cangaceiros
Quase Fagunde se acaba!

Cercou a serra e as aba
Com trinta soldado junto,
Falou para os cangaceiros:
São pouco! Apareça muito!
Tomou a boca da furna
Trouxe carga de defunto.

Deram fogo duas horas,
Bala na serra zoando,
Com a distância de três léguas
Todo o povo apreciando
E o povo todo dizendo:
Fagunde tá se acabando!

Enéas foi dos primeiro
Como o mais influído…
O capitão disse a ele:
Cabra, não seja atrevido,
Receba beijo de bala
No mole do pé do ouvido!

Foi um beijo envenenado
Como besouro estrangeiro
A bala beijou na fonte
Já se viu tiro certeiro
E isso serviu de exemplo
Pro resto dos cangaceiro…

Guerreava o capitão
Com dezoito cangaceiro!
Passando bala por bala,
Como troco de dinheiro,
Matou dois, baleou três,
O resto depois correro…

Homes bem afazendado
Viu toda sua riqueza
Descer de águas abaixo,
Contra a sua natureza,
Por causa do cangaceiro
Foi reduzido à pobreza.

Mandou o chefe da turba
Retirar os baleado,
Que o sague regava o chão
Como em matança de gado
E disse, devagarinho:
Os macaco tão danado!

Nada se pode fazer!
Guardemos para o futuro…
A noite está que nem breu,
Ninguém enxerga no escuro,
Pode ser que em outro “baile”
A gente atire seguro.

É isso. Dá gosto ver o cordel registrando os fatos, comentando os movimentos políticos, descrevendo os fatos pitorescos da nossa história.

Parabéns a Frederico Pernambucano de Mello, que soube ir buscar nessa fonte matéria prima para o seu trabalho.

E o melhor é que, basta ir a uma feira de muitas cidades do Nordeste, para ver que o cordel continua lá fazendo esse mesmo trabalho, e com temas atuais.

Na Internet também tem aparecido muita coisa. Mundo Cordel é um espaço que está sempre à disposição para colaborar.


Mundo Cordel
UM CORDEL DE ANIVERSÁRIO

Aniversario

O colunista, acompanhado de personagens da história: Seu Mansueto, Dona Ivonete e o irmão Materson

Neste ano em que completo 50 de idade, resolvi registrar a data contando, em cordel, passagem verdadeira da minha vida e da minha família, relacionada a festas de aniversário.

Claro que melhorando um ponto ou outro da história, pois não existe Cordel sem fantasia, nem fantasia que não caiba em um Cordel.

* * *

ANIVERSÁRIO SEM FESTA

Aos dezessete de agosto,
Registro no calendário
O dia em que comecei,
Na vida, o itinerário.
Mas, não trago na lembrança
De em meus tempos de criança
Festejar aniversário.

Fiz quarenta e nove anos
Sem nunca ter perguntado
Ao meu pai ou minha mãe
Por que não tenho guardado
No arquivo da minha mente
Um aniversário somente
Na infância celebrado.

Eu vejo que, hoje em dia,
A família é reunida
Sempre que um de nós completa
Mais um ano nessa vida.
Seja de adulto ou criança
Tem sempre alguma festança
E animação garantida.

Por isso que eu me pergunto:
“E naqueles tempos idos?
Quando menino eu sonhava
Com brinquedos coloridos?
Festejar meu nascimento
Não seria fundamento
Para estarmos reunidos?”

Mas, antes dos meus cinquenta,
Aos meus pais eu perguntei:
“Por que é que, até hoje,
Eu jamais me recordei
De alguma celebração,
Festa ou comemoração
Do dia em que aqui cheguei?”

O que eu perguntei a eles
Não causou muita surpresa.
O meu pai me respondeu,
Com a habitual franqueza,
E puxou pela memória
Para explicar a história
Com detalhes e clareza.

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Mundo Cordel
DÚVIDAS

Admito que não sou muito frequente em atos de caridade. Mas, de vez em quando, pratico meus gestos de altruísmo e dedicação gratuita a seres humanos que parecem estar precisando mais da ajuda que os outros que em condições de oferecê-la.

Em uma dessas iniciativas, visitei um hospital onde recebem tratamento pessoas com problemas mentais, vícios e coisas assim.

Ali, chamou-me a atenção um rapaz franzino, que ficava sozinho em um canto. Quieto, não demonstrava qualquer intenção de interagir com os outros. Nem com visitantes, como eu, nem com seus colegas de internação.dv

Mesmo assim, aproximei-me e tentei me comunicar. E qual não foi a minha surpresa quando ele acabou por me revelar muita coisa sobre a história de como fora parar naquele lugar!

Não falando, porque ele simplesmente ignorou todas as minhas tentativas de iniciar uma conversa. Mas, quando eu já me preparava para ir embora, ele me olhou de um jeito um tanto enigmático, entregou-me um papel e afastou-se rapidamente.

***

Talvez me reste uma única certeza: a de que foram as dúvidas que me trouxeram para cá.

Se você pensar bem, são muitas as dúvidas na vida. As pessoas não se incomodam porque não pensam nelas.

Você pega seu carro e vai para o trabalho todos os dias, sem pensar que poderá ou não chegar até lá. Mas, é tão fácil as coisas saírem diferentes do que você previa… Um acidente no caminho, um defeito no carro, obras nas vias que servem de itinerário, engarrafamentos…

E, se, ao chegar ao lugar onde trabalha, o prédio houver sido destruído? Por uma explosão, por exemplo. Pode, não pode?

E, se os escombros que você vê não forem os restos do prédio onde você trabalhava? Sim, trabalhava, porque agora não há mais como ninguém transitar por ali.

Mas… você realmente trabalhava ali? Será que você estava mesmo empregado? Será que não saiu de casa exatamente para procurar emprego?

Talvez, nessa hora, você pense em falar com alguém. Alguém em que você confie. Existe alguém em quem você confie? Você não está seguro disso, mas certamente pegará o seu telefone celular – se não o tiver esquecido em casa, ou perdido – e ligará para alguém.

Fará isso acreditando que o aparelho vai emitir um sinal, que será recebido por uma antena e retransmitido para outra antena. E você acredita que, com seu sinal passando de antena em antena, a pessoa com quem você quer falar vai responder. De algum lugar, que você não sabe qual é.

“Alô”, alguém diz. E você acredita que é mesmo a pessoa com quem você queria falar!

Acredita? E, se não for? E se você houver digitado o número errado? E se os milhões de sinais de celulares, que circulam pelos milhares de antenas, houverem se misturado? E, se você estiver apenas sonhando que está telefonando, e ouvindo uma voz imaginária? De alguém que só existe no seu sonho?

Certa vez, abri os olhos e percebi que o quarto estava escuro. Talvez tivesse acordado cedo demais. Ou talvez ainda fosse noite e eu nem houvesse começado a dormir. Mas, como estava escuro, eu tinha dúvida de que aquele fosse o meu quarto e aquela a minha cama.

Pensei em ficar deitado, esperando o dia clarear. Mas, o dia iria clarear? Haveria janelas, naquele lugar estranho, por onde a luz do sol pudesse entrar? Pensei em me levantar, sair dali, mesmo no escuro, mas sair para onde? E, se eu não estivesse dentro de nada, mas fora, no espaço?

Ora, bolas! – pensei – Como poderia minha cama estar solta no espaço? E logo respondi para mim mesmo: se dizem um planeta inteiro flutua no espaço, por que não uma simples cama? Flutuaria eu também, ao lado da cama, ou cairia em um buraco sem fim?

Enquanto pensava, a escuridão diminuía. Já podia ver as sombras tomarem a forma de coisas. Coisas que aparentemente me eram familiares. Uma estante, um violão, livros… Objetos que lembravam meu quarto. Mas seria mesmo meu quarto? Tenho um quarto?

Pude ver um quadro na parede. No quadro, a foto de um casal com uma criança. Desejei fortemente me reconhecer naquela foto. Ser aquela criança, com meus pais. Mas como ter certeza disso? Como saber se fui aquela criança um dia? Como saber se recordo ou apenas imagino ter sido? Como separar memórias de fantasias, se em minha mente ambos tomam a forma de pensamentos?

Quanto mais pensava nessas coisas, mais ficava paralisado. Agora, minha impressão era de estar deitado na cama, olhando para o teto, mas já não tinha certeza se sob meu corpo havia uma cama, e, diante dos meus olhos, um teto.

Vi um rosto de mulher. Fisicamente, era semelhante à mulher que eu vira na foto, só que mais velha. Parecia preocupada. Falava comigo como se me conhecesse. Será que eu a conhecia também?

Talvez porque eu não respondesse, ela saiu dali. Fiquei sozinho novamente, ou, pelo menos, parecia que eu estava sozinho ali.

Algum tempo depois – não sei ao certo quanto – ela voltou, com dois homens vestidos de branco. Lançaram-se sobre mim. Não sei se queriam me imobilizar ou me arrancar de onde estava. Talvez uma coisa e depois a outra. Acho que entrei em pânico!

Alguma coisa me picou no braço. Depois disso, lembro apenas de estar aqui.

Mas, não estou muito seguro quanto a estar aqui. Afinal, o que é aqui? É apenas uma referência de lugar, que também poderia ser ali ou acolá. Mas, onde? Onde estou, se é que estou em algum lugar?

Acho que estou, porque vejo pessoas, e parece que elas me veem também. Mas fico em dúvida se elas são de verdade. Ou fruto da minha imaginação.

Hoje – talvez ontem, talvez outro dia – fiz essas anotações. Penso em entregá-las a uma dessas pessoas que vejo, ou imagino ver. Se for uma pessoa de verdade, talvez receba. Talvez não.

***

Era isso que estava escrito no papel.

É bem verdade que, hoje, já não lembro se realmente recebi o papel daquele rapaz, ou se apenas imaginei que ele me entregou. Pode ser que eu nunca tenha ido àquele lugar.

Talvez tenha escrito tudo após sonhar que essa história aconteceu.

Ou talvez eu tenha mesmo recebido o papel, e sonhado que escrevi essa história… Quem sabe?


Mundo Cordel
ARRITMIA

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O piripaque que Berto teve nos privou temporariamente desse convívio diário no Jornal da Besta Fubana. Não apenas do convívio com ele, mas com toda essa constelação de talentos que forma a comunidade fubânica,

Logo que Berto foi para o estaleiro, escrevi e enviei-lhe esses versos:

Meu amigo Luiz Berto,
Ora vejam! Quem diria!
Que faz a Besta Fubana
Espalhar sua fubania,
Andou tendo um piripaque,
E acabou sentindo o baque
De uma tal de arritmia!

Eu pensei que a ritmia
Fosse aquela marcação
Que a gente faz no zabumba
Tocando xote e baião.
Mas Aline me falou
Que a de Berto atrapalhou
O bater do coração.

Diz que o coração de Berto,
Batucou descompassado,
Para o frevo estava lento,
Para o bolero, apressado.
Sem seu compasso normal,
Foi parar no hospital,
Terminou sendo internado.

Mas, isso é coisa que passa.
Já, já ele acerta o passo.
E o coração vai bater
Marcando certo o compasso.
Berto, não posso ir aí,
Então vai, mesmo daqui,
Em versos o meu abraço!

Hoje, com muita alegria, complemento:

Essa tal de arritmia
Deu foi um susto na gente.
Fez rezar quem é devoto
E até quem nunca foi crente.
Mas, graças a Deus, o certo
É que a Besta e Papa Berto
Estão no ar novamente.


Mundo Cordel
TRÊS PODERES

– Quais seriam as três forças
Que hoje interferem mais
Tanto em temas importantes
Como nas coisas banais?

– Do que tenho observado,
São a mídia, o mercado
E as tais redes sociais.

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Mundo Cordel
ESCRAVOS DO SISTEMA

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O deserto de Gobi

Era uma tarde ensolarada de sábado, quando fui ao atendimento eletrônico do banco, para fazer uma operação qualquer.

Depois de inserir o cartão magnético na máquina, bastou digitar a senha para surgir na tela a mensagem “SUA SENHA MUDOU”. Seguiu-se a impressão de um papel, com algumas letras e números. Havia ainda a sugestão para memorizar tudo e destruir o papel.

Mas, como assim, minha senha mudou? Tudo bem que a anterior também havia sido fornecida pelo sistema, mas eu já havia me afeiçoado a ela. Tinha criado com suas letras um mnemônico que, mais que facilitar a memorização, lembrava uma palavra cuja sonoridade me agrada. A nova senha era uma combinação de letras e números que me pegou totalmente de surpresa.

O fato me remeteu a meados dos anos 1980, quando o socialismo já balançava, mas o Muro de Berlim ainda não havia caído.

Ainda um adolescente, agitava-se em meu espírito o receio de que o mundo inteiro estivesse submetido ao controle de um grande sistema. Socialismo ou capitalismo, samba ou rock’n roll, Coca-Cola ou Pepsi, qualquer escolha que fizéssemos estaria sendo, de alguma forma, dirigida por esse super sistema mundial.

Na época, dizia eu em uma canção…
Nós não temos o direito
De pensar, nem de querer,
Nem escolher nosso prazer.
Nós não podemos exercer nossa vontade
Nós não temos nem vontade pra exercer…

Um amigo afirmava ter informações seguras de que a Cúpula Mundial se reunia em uma caverna, em algum ponto entre a China e a Mongólia, protegida pela amplidão inóspita do deserto de Gobi, mas isso é assunto para outra crônica.

O que me leva a escrever agora é a percepção de que, embora a maturidade tenha reduzido a minha preocupação com o Grande Sistema, os afazeres do cotidiano me confrontam a toda hora com pequenos sistemas que nos controlam a vida.

De um jeito ou de outro, ouço meus versos adolescentes, tanto anos depois, e sorrio diante de sua atualidade, ainda que a perspectiva seja outra…

Somos robôs, sujeitos alienados,
Animais domesticados, os escravos do sistema,
Representantes de uma classe em expansão,
Que vê, na televisão, a solução dos seus problemas!

É. Mais de trinta e cinco anos depois, continuo sentindo que não somos mais que escravos do sistema.

Aos que tiverem a curiosidade de conhecer a canção, o vídeo, com legendas, está a seguir. Por favor, não reclamem do barulho.


Mundo Cordel
E O ÓDIO?

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Nos últimos dois ou três anos, e mais ainda nos últimos meses, tenho ouvido com frequência a palavra “ódio”, relacionada às convicções políticas dos brasileiros. Uns dizem que as elites odeiam os pobres, e, por tabela, o governo que os ajuda e protege. Outros dizem que são os governistas e seus apoiadores que fomentam o ódio na sociedade, em um jogo chamado “nós contra eles”. Ou “eles contra nós”, expressão talvez mais adequada para quem se pretende vítima.

Toda essa conversa sobre ódio acabou por gerar apreensão, ou mesmo temor, à medida que manifestações de rua voltaram a acontecer no país. Manifestações contra os que ocupam o governo federal, manifestações a favor.

O auge do receio de que o ódio descambasse para a violência física chegou com a sessão da Câmara dos Deputados, do dia 17 de abril deste ano, na qual os parlamentares votariam pela autorização ou não para que o Senado abrisse o processo de impeachment.

No país inteiro, em várias cidades, haveria manifestações simultâneas de grupos pró e contra o impeachment. Em Brasília, símbolo maior dessa divergência, ergueu-se um muro, na verdade, três cercas, que dividiriam a Esplanada dos Ministérios ao meio, entregando o lado sul aos apoiadores do impeachment e o lado norte aos contrários à abertura do processo.

Apesar desse cenário, e de toda a tensão provocada por uma longa e agitada sessão da Câmara dos Deputados, o que se viu foi um domingo de muita paz!

Enquanto os parlamentares faziam as mais diversas – e, às vezes, esquisitas – homenagens, antes de proferir o voto SIM, ou os mais acalorados protestos, antes de emitir o voto NÃO, a grande maioria dos brasileiros estava em casa, assistindo a tudo pela TV. Ou nas ruas, também acompanhando, através de telões, animados por movimentos já conhecidos, tanto por um lado como pelo outro.

Mas, o que havia de comum – entre um grupo e outro, e entre os que estavam em casa e os que estavam nas ruas – era que todos aguardavam a soberana decisão dos que votavam. Parecia prevalecer o consenso de que, de acordo com a Constituição Brasileira, aqueles homens e mulheres, apesar da flexibilidade ideológica e das dificuldades no uso do vernáculo, estavam legitimados para o ato que praticavam.

Ecoava, é fato, o bordão “não vai ter golpe”, dentro e fora do parlamento. A presidente, candidata a ré no processo de impeachment, havia declarado reiteradas vezes que se tratava de um golpe de Estado. Não obstante, ela havia apresentado sua defesa, inclusive recorrendo ao Supremo Tribunal Federal nesse sentido. Os deputados que a apoiavam participaram ativamente da votação e dos debates que a antecederam.

Imagino que, se acreditassem mesmo na existência de um golpe em curso, nem a presidente teria se dado ao trabalho de apresentar defesa, nem tampouco os parlamentares se ocupariam de participar do processo. Isto seria legitimar uma farsa.

Assim, a referência a um suposto golpe acabou tomando o aspecto de recurso retórico. A votação prosseguiu, e, à medida que o resultado se definia, o grupo “derrotado” foi se retirando, deixando transparecer decepção, tristeza e algumas lágrimas. O grupo “vencedor” também se retirou aos poucos, demonstrando contentamento, mas sem exageros eufóricos.

No fim das contas, talvez cada um carregasse, no seu íntimo, a razão das aspas postas nas palavras “vencedor” e “perdedor” aqui escritas: a possibilidade de todos terem ganho, ou todos terem perdido, com o resultado proclamado; e a esperança de que o futuro traga a resposta a essa dúvida o mais rapidamente possível.

E o ódio?

O ódio deve estar por aí, no coração de algumas pessoas infelizes, que precisam dele para alimentar o próprio espírito. Gente que não sabe conviver com as diferenças, e vê inimigos em tudo que não é espelho.

Porque o ódio não é como uma raiva passageira, ainda que a raiva às vezes leve pessoas comuns a se agredirem por uma vaga em um estacionamento. O ódio é mais que isso. Ele é, como diz um dicionário, um rancor profundo e duradouro.

O ódio é cruel, destruidor. Pode ter como alvo uma pessoa, um grupo ou um povo inteiro, como registra a história. Talvez haja ódio no coração de gente que usa o pretexto do esporte para formar grupos uniformizados e atacar quem prefere torcer pela equipe adversária.

Não era o caso daquelas pessoas, exibindo suas cores verde-amarelo ou vermelho, naquela tarde do dia 17 de abril de 2016, pelas ruas do Brasil.

Outros momentos tensos virão. Uma ou duas votações no Senado estão previstas.

Se a tensão servirá para alimentar o ódio, fazendo-o crescer e se generalizar, depende de como se comportarão as lideranças políticas, as autoridades públicas, os controladores dos meios de comunicação… E cada um de nós, cidadãos, brasileiros e, sobretudo, seres humanos.


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

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RESIGNAÇÃO

Sozinho, no carro, reconheceu que havia perdido o controle.

Agora, restava-lhe chamar o porteiro para abrir o portão.

* * *

DESPEDIDA

Da janela do trem, gritou o soldado:

– Quanto tempo vais esperar por mim?

– O tempo q durar a minha vida… Ou a tua.

* * *

PROTESTO

Advogado: Sim, podemos executar o título, mas antes é preciso protestar.

Cliente: Contra o governo ou a favor?


Mundo Cordel
THIAGO DE MELLO – 90 ANOS

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Hoje, 30 de março de 2016, o poeta Thiago de Mello completa 90 anos de idade.

Já tem um tempo que escrevi esses versos em sua homenagem, incentivado por Flávio Martins, editor de alguns de meus livros.

A ideia inicial era publicá-los em um livro sobre o poeta, mas fixei a data de hoje como limite: se o livro não ficasse pronto, postaria o texto no Mundo Cordel. Na íntegra.

O texto é esse.

Thiago de Mello e “Os Estatutos do Homem” – Marcos Mairton

Thiago de Mello é,
da palavra um artesão,
transformando em poesia
o barro que sai do chão,
Colhendo da natureza
versos de grande beleza
que nos tocam o coração.

Natural de Barreirinha,
nessas terras brasileiras,
sua arte ganhou o mundo,
e, além de nossas fronteiras,
Os seus poemas são lidos,
muitos deles traduzidos
para línguas estrangeiras.

Pois a obra de Thiago,
Tem sabor universal
Sem perder o bom tempero
da cultura regional,
do lugar onde nasceu,
da floresta onde cresceu,
da planta e do animal.

“Eu sou filho da floresta”,
Thiago é quem anuncia,
“O meu coração é feito”
– disse ele, certo dia –
“todo de água e madeira.
Na correnteza ligeira
vou buscar minha energia”.

Amante da liberdade,
por ela tendo paixão,
Thiago não poderia
conviver com a repressão.
E em uma era obscura,
o poder da ditadura
o mandou para a prisão.

Após deixar a prisão,
o poeta se exilou
em países estrangeiros
onde abrigo encontrou.
Longe da terra natal,
Argentina e Portugal
são lugares onde andou.

Na Alemanha e na França
o poeta residiu,
num tempo em que não podia
retornar para o Brasil.
No Chile encontrou ajuda
E o grande Pablo Neruda
sua obra traduziu.

Com o fim da ditadura
Thiago retornaria
Ao Brasil, e na Amazônia,
É onde vive hoje em dia.
E assim segue criando,
No mundo vai semeando
O amor e a poesia.

Dentre os seus belos poemas,
Que encantam tanta gente,
“Os Estatutos do Homem”
Expressam magistralmente
O Direito Natural
Em “Ato Institucional
de caráter permanente”.

Thiago, grande poeta,
Peço a ti que me permitas
Dizer do meu jeito as coisas
Que por ti já foram ditas,
Pois em meus versos matutos,
As regras dos “Estatutos”
Podem ser assim escritas:

“Os Estatutos do Homem”, em Cordel

Artigo I

Uma regra inafastável
Fica estabelecida:
Que vale agora a verdade,
Que agora vale a vida.
De mãos dadas marcharemos,
Todos juntos seguiremos,
Numa marcha destemida.

Artigo II

Fica também decretado
Que é possível transformar
Qualquer dia da semana
Num domingo em frente ao mar.
E até nas terças-feiras
Haverá mil brincadeiras
E razões pra se alegrar.

Artigo III

Fica decretado que
Nas casas, em todas elas,
Existirão girassóis
Enfeitando as janelas.
Girassóis e outras flores,
Numa explosão de cores
Azuis, brancas, amarelas…

E, mesmo dentro das casas,
Onde o sol não os alcança,
Girassóis abrir-se-ão
Em misteriosa dança.
E, ao ver seu movimento,
Logo soprará o vento,
Mensageiro da esperança.

Artigo IV

Fica também decretado
Que o homem não terá
Que duvidar mais do homem
E nele confiará,
Tal qual a noite confia
Que lhe seguirá o dia
e o sol logo brilhará.

Parágrafo único:
Um homem confiará noutro
Como a palmeira confia
no vento, que vem do mar,
e a ela acaricia.
Ou meninos que, sem medo,
Compartilham um brinquedo
Com inocente alegria.

Artigo V

É decretado que os homens
já não são submetidos
ao domínio da mentira,
Nem lhe darão mais ouvidos.
Silêncios não servirão –
Como escudos de omissão –
a rancores escondidos.

Com o olhar calmo e limpo
O homem irá à mesa
e ao jantar partilhará
com os outros a certeza
que é parte da sua vida
a verdade vir servida
precedendo a sobremesa.

Artigo VI

A partir deste momento,
Fica também decretado
Que o profeta Isaías
terá seu sonho alcançado:
de ver lobos e cordeiros
como velhos companheiros,
caminhando lado a lado.

E juntos caminharão
viajando mundo afora,
Partilhando o alimento,
pois, a partir de agora,
um só prato os servirá
e sua comida terá
um doce sabor de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável
Fica estabelecido,
que a Justiça reinará
por um tempo indefinido.
E a bandeira da alegria
tremulará noite e dia
Com destaque garantido.

Artigo VIII

Fica decretado que,
de todas, a maior dor
sempre foi e será sempre
não se poder dar amor.
E, assim, sem poder amar,
ver e não se emocionar
com o desabrochar da flor.

Artigo IX

É permitido que o pão
a cada dia obtido
tenha a marca indelével
do suor nele vertido.
E que tenha o sabor quente
da ternura que se sente
pelo filho mais querido.

Artigo X

Fica decretado que
Será sempre permitida,
A cada um, a escolha
Da sua roupa preferida.
E o traje branco será
Veste que se adequará
A qualquer hora da vida.

Artigo XI

É decretado que o Homem
se define, em essência,
como um animal que ama,
é mais amor que ciência.
E esta sua natureza
É a causa da beleza,
De toda sua existência.

Artigo XII

Decreta-se: nada é
Obrigado ou proibido,
E, a partir de agora,
será tudo permitido:
brincar com rinocerontes
ou correr por sobre as pontes,
sem um rumo definido;

E caminhar pelas tardes
Ou sentar-se na janela
com uma imensa begônia
Enfeitando a lapela;
Caminhar pela cidade
Respirando a liberdade
Que também faz parte dela.

Parágrafo único:
Uma conduta será
Para sempre abolida,
E, por isso, ficará
Totalmente proibida:
é o amar sem amor,
pois seria como a dor
de se viver sem ter vida.

Artigo XIII

Decreta-se que o dinheiro
comprar não mais poderá
O sol das manhãs vindouras;
Sol que sempre brilhará
Sobre os campos mais formosos
E com raios generosos
A todos aquecerá.

E o dinheiro então será
Para sempre transformado
Em espada fraternal,
Somente sendo usado
Na defesa do direito
De cantar, a pleno peito,
Canções do amor musicado.

Artigo Final.

Fica proibido o uso
da palavra liberdade,
porque já não haverá
a menor necessidade
de ser dita ou ouvida,
pois será sempre sentida
como doce realidade.

A liberdade será
algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
com sua água corrente.
E terá sua morada
Para sempre alicerçada
bem no coração da gente.

* * *

Clique aqui para ler o texto original de “Os Estatutos do Homem”: 

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem abaixo para visitar o site:

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Mundo Cordel
ENTRE QUALQUERCOISISMOS E QUALQUERCOISISTAS

Faz tempo que tenho um pé atrás com os sufixos ISMO e ISTA. É que eles me causam a impressão de que, ao ingressar em um grupo que se reúne em torno de alguma coisa, e cujo nome termina em ISMO, acabo limitando o meu próprio modo de ver essas coisas. Assim, ao invés de defender ideias que acredito minhas, passaria a defender o modo de pensar acolhido pelo grupo ao qual estaria vinculado.

Em suma, evito participar de qualquer coisa que gere qualquercoisismo, porque me incomoda a possibilidade de ser um qualquercoisista.homem_com_bandeira

Talvez isto ocorra porque valorizo muito a liberdade, e, sendo um qualquercoisista, minha própria maneira de pensar já não seria livre. Certamente seria mais difícil mudar de ideia. Passariam a exigir de mim coerência com o qualquercoisismo. Elogiar pontos positivos de algum outracoisismo – antagônico ao qualquercoisismo – poderia ser considerado pelos outros qualquercoisistas uma heresia:

– Que tipo de qualquercoisista você é? – indagariam com ar de reprovação.

Acho que comecei a me reconhecer portador dessa resistência nos primeiros semestres da faculdade de Direito, nos idos de 1986, quando vi pessoas confrontando juspositivismo e jusnaturalismo. Notei certo desdém dos juspositivistas em relação aos jusnaturalistas (“são uns sonhadores…”); e certa repulsa dos jusnaturalistas em relação aos juspositivistas (“têm uma visão estreita…”).

Incapaz de escolher entre ser jusnaturalista ou juspositivista, segui meu caminho solitário. Sem dizer a ninguém da minha decisão, para não ser marginalizado por uns nem por outros. No fim das contas, eu queria só estudar o Direito, aprender o que pudesse sobre ele.

Mas nunca sonhei ser um jurista. Nem civilista, nem constitucionalista, nem penalista. Houve, sim, um tempo em que me encantei com o Direito Tributário, e quase almejei ser tributarista, mas foi um sentimento que passou logo.

Não, eu não estou desdenhando dos juristas. Eles são muito importantes. Apenas acho que o jurista emite opiniões apoiadas em uma visão jurídica do mundo, e prefiro ficar livre para ver o mundo a partir de outras visões (embora o Direito esteja profundamente enraizado em meu ser).

Reconheço que essa resistência ao qualquercoisismo tem desvantagens. Fica difícil participar de movimentos reivindicatórios, culturais ou mesmo beneficentes. Uma simples conversa de bar às vezes se complica:

– Afinal, você é esquerdista ou direitista?

– Nem uma coisa nem outra. E, por favor, não pense que sou centrista.

– Tá de gozação? Virou piadista?

Em um grupo de WhatsApp, um amigo disse algo que me fez encerrar imediatamente a conversa:

– Assim você está sendo diversionista!

Parei de responder. Não sei bem o que é isso, mas não quero para mim.

Se o tema é religião, a situação é um pouco mais favorável: sou cristão. Mas, por favor, não me peçam para pregar o cristianismo. Nem o catolicismo, nem o protestantismo. Tenho simpatia pelo que leio em alguns livros espíritas, mas não me vejo filiado ao espiritismo.

E sigo assim. Resistindo ao que me parece ser uma tendência (talvez natural) das pessoas para classificar tudo, inclusive as outras pessoas. Algumas demonstram verdadeira necessidade de classificar a si mesmas.

Não sei se há algum mal nisso. Apenas não gosto.

Fico feliz ao me aventurar como escritor, mas não tenho qualquer preocupação em ser modernista, naturalista, contista, romancista…

É bem verdade que muitas vezes me apresentam como cordelista. Se escrever Literatura de Cordel faz de mim cordelista, que seja. Mas sem ficar amarrado aos cordões de um eventual cordelismo. Livre para ser poeta, compositor e o que mais a inspiração trouxer.

De qualquer forma, nesse contato com a arte, me sinto mais um artesão que um artista.

A par de tudo isso, para que o leitor não imagine que nessa minha postura haja algum radicalismo, ou tendência fetichista, termino com uma frase que contém tanto ISMO quanto ISTA:

“Seja você mesmo. E ainda que na vida você pareça estar dentro de um abISMO, não desISTA”.


Mundo Cordel
OS EXTRATERRESTRES SÃO OS OUTROS

Lembro de ter lido no Jornal da Besta Fubana um texto de José de Oliveira Ramos, que terminava com a frase: “É. Com certeza eu não passo de um E.T.!”.

Não escrevi em meu comentário, mas pensei: “Eu também. Muitas vezes me sinto um ET”. Isso foi em setembro de 2015.

Veio o ano de 2016 e fui ver um filme no cinema: “A Quinta Onda”. E – veja o leitor que ironia – no tal filme, os extraterrestres invadem a Terra e são chamados por nós de “os outros”.

Mal começou o filme e as palavras de José Ramos voltaram à minha lembrança, junto com a pergunta: “Afinal, os extraterrestres somos nós? Ou são os outros?”.ovnis

Depois de vários dias de reflexão, cheguei a uma conclusão. Que me desculpe o amigo José Ramos, mas ele não é um ET. Nem eu, nem ninguém que eu conheça. Os ETs são os outros.

Cheguei a essa conclusão, não porque o filme assim tenha mostrado, mas porque não posso crer que tenhamos tanto desprezo pelas regras de convivência que nós mesmos criamos.

É evidente que quem faz a bagunça toda são os outros.

Exemplificando, se nós criamos as filas nos bancos, as regras de trânsito, o dever de não fazer barulho nos horários de descanso, por que nós mesmos sabotaríamos essas normas?

Hoje mesmo, quando saí do meu apartamento, percebi que alguém estava segurando o elevador em um dos andares do prédio, fazendo-o demorar excessivamente. Ora, se todos os moradores do edifício sabem que os outros vizinhos também usam o elevador, é óbvio que quem estava segurando o elevador eram os outros!

Logo que saí à rua, percebi um carro estacionado em frente ao prédio vizinho, onde uma placa indicava que é proibido estacionar naquele local. Ficou claro que aquele carro fora deixado ali pelos outros.

Mais adiante, parado no engarrafamento, vi uma moto passar rápido, usando o espaço da ciclovia. Evidentemente que era pilotada por um dos outros.

Os outros – tanto no filme quanto na vida real – são muito semelhantes a nós em aparência. Iguais talvez. Mas parece que aproveitam essa semelhança exatamente para criar problemas para nós.

Misturam-se ao povo na rua e praticam todo tipo de crime. Agressões, assaltos, tráfico de drogas. Infiltram-se em nossas organizações públicas e privadas e disseminam todo tipo de desvio, desmando e corrupção.

De tal forma está comprovada essa verdade, que quando converso com pessoas conhecidas e mostro minha insatisfação com todas essas coisas, sempre ouço frases como: “A gente tenta fazer tudo direito, mas vem os outros e estragam tudo”; “Nesse trânsito louco, a gente tem que dirigir se defendendo dos outros”; “De que adianta eu eliminar os focos do mosquito, se os outros não fazem o mesmo?”; “O cara pode até entrar bem intencionado na política, mas aprende a roubar com os outros”…

É incrível. Raramente encontro um ser humano que assuma qualquer parcela de culpa pelo caos que toma conta de nossa sociedade. A culpa é sempre dos outros.

Se assim é – e é – só pode ser porque esses extraterrestres fingem ser humanos, como nós. Mas está claro que eles não são nós. Eles são os outros.

E, para não deixar dúvida de que estou certo quanto essa conclusão, nas raras ocasiões em que um ser humano confessa sua má conduta, ele justifica:

– Errei. Mas não fiz nada diferente dos outros.


Mundo Cordel
O CIDADÃO, A BALANÇA E A ESPADA

BALANÇA-ESPADA-JUSTIÇA

É grande a revolta dos homens de bem ao ver bandidos escapando impunes.

Ainda mais se não precisam evadir-se ou ocultar-se.

Se contam com uma legislação mal elaborada, processos lentos e julgadores apegados a uma interpretação da lei que a torna praticamente inútil.

Se apostam em um sistema interminável de recursos, que franqueia ao criminoso a pose de inocente, às vezes com seu veredito já tendo sido dado e confirmado.

Por isso, não surpreende que, ao ver os que se acham acima da lei a ponto de sofrerem as consequências de seus atos criminosos, o verdadeiro cidadão celebre esperançoso:

– Vai, Justiça! Desce a tua espada sobre esses malfeitores, que a balança já mostrou claramente o quanto o merecem!


Mundo Cordel
LEÕES, VEADOS E GESTORES

Certa vez, em um curso sobre gestão de empresas, um professor contou na sala de aula a seguinte história:

Em África todas as manhãs o veado acorda sabendo que deverá conseguir correr mais do que o leão se quiser se manter vivo.

Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deverá correr mais que o veado se não quiser morrer de fome.

Conclusão:

“Não faz diferença se você é veado ou leão, quando o sol nascer você tem que começar a correr.“

Obviamente que a breve narrativa tinha como objetivo servir de introdução para que o professor falasse da necessidade de os colaboradores de uma empresa terem iniciativa, começando suas atividades profissionais o mais cedo possível, não importando sua função na organização.

Naquela ocasião, ouvi tudo e nada questionei. Concentrei-me em assimilar o que fosse possível. Mas a verdade é que nunca aceitei bem aquela história, que me pareceu ter a pretensão de transmitir a sabedoria das fábulas.leoes_cacando

Hoje, encontrei-me novamente com a história dos leões e dos veados, desta feita em um site de consultoria, e voltaram à minha mente reflexões que tive naquela ocasião.

Não me apegarei ao fato de os leões terem como presas mais frequentes zebras, gnus e búfalos, e não veados. Afinal, estando os leões no topo da cadeia alimentar, comem de tudo. De animais menores, como javalis, a gigantes, como elefantes e girafas. Então, eventualmente, devem comer algum veado também.

O que me incomodou mesmo foi o narrador dizer que o leão deve começar a correr, logo que o sol nascer. Porque qualquer pessoa que entenda um pouco de leões sabe que, na natureza, eles chegam a dormir até dezoito ou dezenove horas por dia. E muitas vezes preferem caçar à noite, quando a temperatura é mais baixa, e sua visão noturna privilegiada lhes proporciona uma vantagem sobre suas presas.

Já se vê, portanto, que quem criou a historinha não entende nada de leões. E, por ter tomado como paradigma um ser cujas características desconhecia, perdeu uma ótima oportunidade de colher os ensinamentos que esses animais bem podem dar às empresas e seus gestores.

Se era para tomar como exemplo os leões, melhor seria ter falado que, apesar da sua ferocidade, são animais sociais, que usam o poder da colaboração para alcançar seus objetivos. Que, nessa colaboração, cada membro do grupo desempenha uma função diferente – um cercando a presa para outro a abater, por exemplo – de forma organizada. Que usam táticas e estratégias diferentes, conforme o terreno, a vegetação, a presa a ser abatida ou a quantidade leões envolvidos na caçada.

Examinada a situação do ponto de vista das presas, bem se sabe que cada espécie tem também seus métodos próprios de sobrevivência. Formar grupos, associar-se a outras espécies, fazer tocas (o que não é o caso dos veados), são apenas alguns dos meios de defesa utilizados por animais que são caçados por outros.

Assunto de sobra para qualquer guru da gestão empresarial adaptar para o mundo dos negócios. E dar mil dicas de como melhorar os indicadores de desempenho da organização (esta última frase foi escrita com a deliberada intenção de usar uma linguagem compatível com o tema).

O fato é que, talvez por ter um apreço muito grande pela vida que nós (seres civilizados) chamamos de selvagem, sempre me incomodou a historinha contada pelo professor, falando de leões e veados que amanhecem o dia e saem correndo enlouquecidos, pois disso dependeria sua sobrevivência.

Não, professor. Sair correndo, logo que o dia amanhece, sem meta, sem organização, sem objetivo, não serve para leões, não serve para veados, nem serve para nós, humanos, seja no ambiente empresarial, seja em outras áreas da vida.

O que serve para cada um de nós é conhecer nossas potencialidades e exercê-las, da melhor forma possível. É por isso que é mais fácil encontrar leões caçando os perigosos búfalos que investindo contra as delicadas gazelas, prato preferido dos guepardos.

Sim, nós, humanos, podemos aprender muito com os animais. Mas, para isso, precisamos aprender a enxergar a inteligência que há nas coisas naturais. A compreensão dessa inteligência certamente ajudará o ser humano a viver em maior harmonia consigo mesmo, com os outros humanos e com o meio ambiente.

O desafio é grande. Mas não será com historinhas mal contadas que nos tornaremos melhores.


Mundo Cordel
NATAL PARA MUITA GENTE

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Gente é sempre gente. Em qualquer lugar, em qualquer época. Tem lá suas diferenças sociais e culturais, mas, se procurarmos direito, encontraremos mais semelhanças que diferenças.

Acontece que tem gente que adora classificar gente. Dividir o todo em grupos. E assim dividem a humanidade em cristãos, muçulmanos, judeus e tantas outras religiões. Negros, brancos, amarelos e tantas outras cores. Ou divisões mais simples: esquerda e direita. Não, essa não é tão simples assim. Ricos e pobres, talvez? Não. Que tal heterossexuais e homossexuais?…

Bem, sigamos em frente. São muitas as divisões criadas para classificar as pessoas. Claro que têm sua utilidade. Servem para a compreensão de fenômenos sociais, para organizar nossas ideias, dentre outras finalidades. No entanto, eventualmente tornam-se prejudiciais, porque tem gente que, ao se reconhecer como parte de um grupo, passa a se achar superior aos membros de outros grupos. Como se os outros não fossem gente também.

Assim surgem as guerras étnicas, as guerras santas e as brigas de torcidas por times de futebol. E até conflitos familiares, como o de pais que rejeitam o filho homossexual (também já soube de casos de filhos que rejeitaram o pai que se declarou homossexual).

Coincidência ou não, ontem, enquanto pensava em escrever sobre a igualdade das pessoas, li, em uma rede social, uma frase depreciativa quanto a “certo tipo de gente”. E isso me levou a pensar: A que tipo de gente essa pessoa se refere? Que tipo de gente essa pessoa é? E que tipo de gente eu sou? Devo acreditar que os que se assemelham a mim são “gente de bem”, enquanto os diferentes de mim são “esse tipo de gente”?

Não posso crer nisso. E talvez tenha sido por essa razão que comecei a escrever hoje com a frase “gente é sempre gente”.

E, como escrevo em um dia 24 de dezembro, sei que a noite de hoje é especial para muita gente. Pelo menos, para quem celebra o nascimento de um menino que se chamaria Jesus, e depois viria a ser reconhecido como o Cristo, o Redentor, o Salvador.

Na noite de hoje, os seguidores de Jesus Cristo – essa gente que se reconhece como “os cristãos” – fazem votos de união, de amor, de paz entres os homens, enquanto celebram a vinda de Jesus ao mundo.

E eu, cristão que sou, aproveito para manifestar o meu desejo para esta noite de Natal.

O desejo de que toda essa gente que há no mundo veja cada vez mais suas igualdades que suas diferenças.

Que continue existindo gente de várias religiões, de várias tonalidades de cor da pele, de várias convicções políticas ou ideológicas – a diversidade amplia nossas possibilidades! – mas que não percamos a noção de que somos muito mais semelhantes que diferentes.

Somos semelhantes em nossas necessidades físicas e emocionais. Precisamos todos de alimento e de proteção contra as intempéries, da mesma forma que necessitamos da colaboração ou da simples companhia uns dos outros. E precisamos, sobretudo, de algo difícil de definir, mas cuja presença é facilmente sentida, e a ausência é ainda mais facilmente percebida: o amor.

Precisamos de amor. Porque somos humanos, porque somos gente.


Mundo Cordel
UM ALERTA MUSICADO

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Em todo lugar que a gente anda é a mesma coisa: boa parte das pessoas está com a atenção totalmente consumida pelo celular, sem sequer se dar conta do mundo à sua volta.

Até em uma mesa de bar, onde amigos costumam se encontrar para conversar, hoje é comum esses mesmos amigos ficarem em silêncio, enquanto trocam mensagens com quem está distante. Mesmo quando há interação entre os presentes, a atenção é dividida com os amigos remotos, através do Iphone, smartphone, ou outro nome que se prefira.

Seu Mansueto, que não é muito chegado a essas coisas foi quem me perguntou: “Meu filho, o que é que esses jovens veem nesses aparelhos, que ficam o tempo todo olhando e passando o dedo neles?”.

– Papai, antes de lhe responder, deixa eu pegar o violão, que o senhor agora me deu uma ideia…

Foi assim que criei esse alerta musicado, dedicado a todas as pessoas que, conscientemente ou não, estão passando do ponto em matéria de se manter conectado com o mundo através do celular.

PASSANDO O DEDO

Até que eu gosto dessa tecnologia
De iPhone, smartphone, internet no celular.

Mas é preciso ter cuidado, pois vicia
E, se a gente exagera, pode se prejudicar.

Tenho um amigo que está se complicando,
A mulher já reclamando e ele sem se controlar.

Ela me disse que ele começa bem cedo,
Olhando pro telefone, enquanto vai passando o dedo.

Ela vai pra perto dele,
Ele tá passando dedo.
Ela dá um beijo nele,
Ele só passando o dedo.
Ela já disse que ama esse camarada,
Mas ele não faz mais nada, a não ser passar o dedo.

Ela chama ele pro quarto,
Ele vai passando o dedo.
Deita com ela na cama,
E fica só passando o dedo.
Ela se irrita, acha aquilo um horror,
Porque ela quer fazer amor, ele só quer passar o dedo.

Ele pega o telefone
E fica só passando o dedo.
A mulher toda carente
E ele só passando o dedo.
Ela implora e pede até por favor:
– Vem, me bem, fazer amor, não fique só passando o dedo!


Mundo Cordel
O FIM

RUÍNAS

Quando a terra começa a tremer,
E as paredes começam a ruir,
Quando não há lugar para fugir,
E não há mais aonde se esconder.

Quando espaço não há para correr,
E se vê que é inútil reagir,
Sem espada capaz de agredir,
Nem escudo que possa defender.

É preciso, talvez, ter humildade,
Ou, quem sabe, até serenidade,
Para ver que as coisas são assim:

Muitas vezes, buscando uma vitória,
Construímos nós mesmos uma história
Cujo epílogo é o nosso próprio fim.


Mundo Cordel
REFLEXÃO NO CINEMA (MAS NÃO FOI SOBRE O FILME)

cinema

Quinze de novembro de 2015. Feriado de Proclamação da República. Não vi muitos sinais de que se tratava de uma data comemorativa. Até porque o feriado caiu em um domingo, aí ninguém dá mesmo muita importância para isso.

Almocei com minha mulher em um shopping center, aproveitando o sossego das lojas fechadas em homenagem ao feriado republicano, e fomos ao cinema.

O filme não era lá essas maravilhas, mas servia como entretenimento. Até que as imagens sumiram da tela. A plateia fez um “Aaaaah!” tímido, mas logo silenciou. As pessoas esperaram, educada e pacientemente, que o problema fosse resolvido.

Acontece que a solução não chegou tão rapidamente como se esperava. Após uns longos minutos, as imagens voltaram à tela, só que em um ponto posterior àquele onde a exibição havia parado. Alguém gritou “Volta o filme! Volta o filme!”. E, depois de mais um tempo, o filme acabou voltando mesmo, mas logo parou novamente. Paralelamente a esses problemas na exibição, percebemos que o ar condicionado parara de funcionar.

Para nós, bastava. Levantamo-nos e fomos à gerência exigir nosso dinheiro de volta.

Apesar do aborrecimento dominical, o fato não mereceria de mim qualquer registro, a não ser por duas razões: 1) nenhum representante do cinema dirigiu a palavra aos espectadores, para explicar o problema ou se desculpar; 2) a maneira passiva (e não apenas pacífica) com que as pessoas se comportaram diante da situação.

Porque na minha – talvez muito particular – maneira de ver as coisas, a gerência do cinema tinha o dever de enviar alguém, logo na primeira falha, para dizer aos espectadores algo do tipo: “Senhoras e senhores, temos um problema técnico. Estamos tentando solucionar, mas os clientes que preferirem podem se dirigir à gerência agora, para receber seu dinheiro de volta”.

Como tal não ocorreu, nem qualquer outra variação que sinalizasse algum respeito da empresa pelas pessoas que ali estavam, a reação destas me pareceu mais estranha ainda.

Apesar de aquelas pessoas estarem pagando (caro) por um serviço que não estava sendo prestado adequadamente, e ainda, sendo tratadas sem um mínimo de respeito, elas não demonstravam nenhum sentimento de indignação. Ninguém ficava de pé, ninguém erguia a voz, ninguém protestava. Nada.

Depois que eu e minha mulher nos dirigimos à gerência, umas seis pessoas nos seguiram. Mas a grande maioria permaneceu lá, quieta.

Tudo isso me fez pensar no seguinte: como esperar que essas pessoas, que não têm iniciativa sequer para exigir um tratamento digno em um cinema, participem ativamente da vida política do país? Como esperar que ocupem as ruas e as praças, exigindo dos políticos, e das autoridades em geral, uma conduta compatível com seus cargos?

Mas, já ocorreram manifestações populares enormes este ano! – contestarão alguns.

É verdade – respondo – e foram fatos realmente extraordinários. Mas acontecidos episodicamente, em tardes de domingo, sem uma regularidade que viesse a manter alguma pressão mais efetiva.

Para a situação que o país vive, enfrentando crises econômica e política, é pouco. Para um país no qual ex-diretores de sua maior estatal, alguns dos maiores empresários do país e dezenas de políticos estão envolvidos em um esquema gigantesco de corrupção, é muito pouco. Para uma nação que vê o presidente da Câmara dos Deputados ameaçado de cassação, e a presidente da República ameaçada de impeachment, é quase nada.

A cada dia, novas raízes do baobá da corrupção são expostas pelas escavadeiras da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal. Nos Estados e nas prefeituras, inúmeros casos menores, mas não menos criminosos, são exibidos regularmente em reportagens de revistas e programas de televisão. Licitações fraudulentas, cartéis, escoamento do dinheiro público para empresários inescrupulosos e campanhas políticas são fatos corriqueiros.

E a economia se deteriora. E o desemprego cresce. E a inflação aumenta.

O descrédito da classe política é tão grande que, nas poucas vezes em que uma quantidade significativa de pessoas saiu à rua para protestar, foi marcante a rejeição à presença de símbolos, bandeiras e até pessoas ligadas a partidos políticos. Centrais sindicais e movimentos sociais também não eram bem vindos. Seja porque quem estava na rua não acreditava nessas entidades, seja porque essas próprias entidades tratam aquelas pessoas como se não fizessem parte do povo.

O certo é que a insatisfação das pessoas com a situação do país é percebida em qualquer conversa de bar. Insatisfação por fatos ocorridos em nível municipal, estadual e federal. No Poder Executivo, no Legislativo e no Judiciário.

Mas falta um mecanismo de canalização dessa insatisfação, para que ela gere um processo de transformação da realidade. Para que as pessoas se unam, e exijam respeito de seus representantes.

Talvez nos faltem lideranças, talvez nossa educação não tenha sido bem direcionada para a formação de cidadãos. Não seio que é. Sei apenas que nos falta algo.

Como naquela sala de cinema. Onde ninguém gostou do que estava acontecendo, mas faltava algo que fizesse as pessoas tomarem uma atitude. Não apenas para exigir o dinheiro de volta, como fizemos eu e minha mulher, mas para exigir, acima de tudo, respeito e dignidade.


Mundo Cordel
REFLEXÕES (PO)ÉTICAS EM 8 TUÍTES: EU TENTO

Man's Conscious

1
É utopia fazer sempre a coisa certa,
Mas eu tento.

2
Mesmo assim, às vezes causo nas pessoas
Sofrimento.

3
Esses males que provoco, eventualmente,
Eu lamento.

4
E, essas suas consequências negativas,
Eu aguento.

5
Mas, se em minha consciência, realizo
Julgamento,

6
Nunca hesito em usar a meu favor
O argumento

7
De que o mal por mim causado não seria
Meu intento.

8
Porque sei, nem sempre faço a coisa certa,
Mas eu tento.


Mundo Cordel
CANTORIA DE EXCELÊNCIA

peleja

Diz a lenda que, certa vez, em um lugar frequentado por muitas autoridades, uma dupla de cantadores foi contratada para se apresentar, mostrando um pouco da arte do repente.

Depois de apresentarem sextilhas e setilhas, e de glosarem vários motes, à escolha dos organizadores do evento, chegou a hora do desafio.

Nesse momento, um dos convidados, tendo conhecimento de que às vezes os combates dos repentistas são um tanto renhidos, advertiu os artistas que mantivessem o embate em um nível adequado à respeitabilidade das autoridades presentes.

– Se possível, – disse o excelentíssimo convidado – seria interessante até que os senhores tratassem um ao outro por “vossa excelência”, como costumamos fazer entres nós.

Ouviram-se alguns aplausos à intervenção feita.

Enquanto isso, os cantadores entreolharam-se e fizeram aparentemente um sinal de positivo, com a cabeça. Um deles respondeu:

– Pode deixar, excelência, que aqui quem manda é o freguês.

E começaram:

Olho pra vossa excelência
E me dá até gastura.
Porque não tem compostura,
Nem respeito, nem decência.
Verdadeira excrescência,
Não cumpre o que é prometido,
Volta e meia anda metido
Em tudo que é obscuro
Por isso estou bem seguro:
Vossa Excelência é bandido!

Vossa excelência devia
Ter cuidado com o que diz,
Pra não ser tão infeliz
Nas coisas que pronuncia.
Quem tem a vossa mania
De roubar essa nação,
Não tem qualquer condição
De me chamar de bandido,
Pois é fato conhecido,
Vossa Excelência é ladrão!

Vossa excelência não tente
Por em mim o seu defeito,
Pois já conheço o seu jeito
Quando rouba e quando mente.
É ladrão reincidente,
Tirando de quem trabalha
Pra dividir com a gentalha
Que compõe sua quadrilha:
O filho, o genro e a filha,
Vossa excelência é canalha!

É melhor deixar em paz
Minha família decente,
Porque nela não tem gente
Que faça o que a sua faz.
Vivem por aqui, atrás
De pegar um descuidado.
É mãe, é filho, é cunhado,
Um bando de vigaristas.
E o chefe desses golpistas,
Vossa excelência, um safado!

Vossa excelência extrapola
Toda minha paciência,
Mas assim vossa excelência,
Se compromete e se enrola.
Vou lhe pegar pela gola,
E jogar dentro do esgoto,
Fedorento, sujo e roto.
E será bem merecido,
Pois, além de ser bandido,
Vossa excelência é um escroto!

Não pense, vossa excelência,
Que me assusta ou me faz medo.
Levantando esse seu dedo,
Prometendo violência!
Conheço toda a sequência
Dessa sua encenação.
Quer bancar o valentão
Mas apanha da mulher
Digo aqui o que eu quiser:
Vossa excelência é um cagão!

Cabra safado, ladrão,
Sujeito de má conduta!
Sua mãe é prostituta,
O seu pai é cafetão!
Não vou lhe meter a mão
Porque sei que você gosta.
No lugar onde se encosta
Fica uma mancha fedendo,
Que todos fiquem sabendo:
Vossa excelência é um bosta!

A essa altura do desafio, tinha gente que aplaudia e dava risada, dizendo que os cantadores levaram muito a sério o pedido para que mantivessem o nível do desafio à altura dos convidados.

Coincidência ou não, o convidado que havia dado a sugestão de os cantadores se tratarem por excelência já havia saído, demonstrando certo constrangimento. Seguiu em direção ao estacionamento, acompanhado por uma fila de excelências menores, que lhe prestavam homenagem.

Os cantadores ainda tinham munição para levar longe a batalha, mas mestre de cerimônias interrompeu os cantadores e os parabenizou, dando por encerrada a peleja.


Mundo Cordel
SONETO PARA UM OBJETO HIPNOTIZANTE

olhos-hypnotized

Reconheço tua grande utilidade
Em fazer o mundo se comunicar.
E que, usando o indicador ou o polegar,
Cada dia, acho em ti uma novidade.

São funções que surpreendem, é verdade,
Ofertadas nesses teus aplicativos
Sempre fáceis de usar, sempre intuitivos,
Prometendo mais e mais facilidade.

No entanto, mostras face bem nefasta,
Quando a tua presença nos afasta,
Nos encontros e até nas refeições.

Pois em volta da mesa acomodados,
Tu manténs a todos hipnotizados
Concentrando só em ti as atenções.


Mundo Cordel
REFLEXÕES SOBRE A ATUAÇÃO DOS JUÍZES FEDERAIS NAS OPERAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL

Desde que a Operação LavaJato tornou-se pauta permanente nos noticiários, tenho observado os comentários feitos na Internet acerca das decisões judiciais tomadas no âmbito da operação.

Muitos elogiam o trabalho do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e, com especial frequência, do Juiz Federal Sérgio Moro. Mas, há também os que demonstram total descrença de que os culpados – ou, pelo menos, alguns deles – venham a ser punidos. Há os que acham que a persecução penal é muito lenta. E há os que sustentam que a Justiça tem agido de forma seletiva, direcionada a determinado grupo de pessoas, por razões políticas.

Reflito sobre essa última espécie de comentários e imagino a surpresa que seria para mim, se eles correspondessem à verdade.

Quem os faz talvez não compreenda que esse tipo de operação é resultado do trabalho de pelo menos três instituições independentes entre si, ou seja, sem relação de subordinação administrativa. Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal desempenham cada um o seu papel, determinado pela Constituição Federal e pelas leis do país, mas não há superioridade hierárquica de um órgão em relação ao outro.lava-jato

Não há nada de extraordinário nisso. É apenas o normal funcionamento das instituições no Estado Democrático de Direito.

Na prática, Policiais Federais levantam informações, baseadas nas quais Procuradores da República requerem ao Juiz Federal as medidas que entenderem cabíveis, podendo o juiz as deferir ou não. Deferindo, a Polícia Federal cumpre essas medidas – como prisões e apreensões de documentos – e o material obtido retroalimenta as investigações, podendo ensejar outras medidas, a serem novamente requeridas pelo Ministério Público e submetidas ao crivo do Juiz.

Destaque-se que as decisões proferidas pelo juiz estão submetidas ao duplo grau de jurisdição, sendo, portanto, sujeitas a revisão ou anulação pelos tribunais regionais ou superiores.

Imaginar, portanto, que um Juiz Federal possa direcionar toda uma operação – ainda mais uma megaoperação – para fins de perseguição político-partidária, requer certo grau de desconhecimento dos mecanismos de controle do sistema. Ou sua deliberada negação.

Mas, há outro aspecto da questão que pretendo abordar aqui.

Exercendo a magistratura federal há quase quinze anos, tenho convivido regularmente com juízes federais, seja em contatos ordinários da vida forense, seja em eventos regionais e nacionais, onde temos a oportunidade de trocar ideias com colegas de outras partes do país.

Nessa convivência, tenho testemunhado reiteradamente o quanto a maioria dos juízes federais é avessa a discussões político-partidárias. Pelo menos, a maioria dos juízes federais que conheço, já que não fiz (nem tive acesso a) qualquer pesquisa de opinião nesse sentido.

Mas, não tenho motivos para crer que os juízes que não conheço sejam muito diferentes daqueles que conheço.

Influências ideológicas sim, podem ser percebidas, na medida em que um juiz é mais rigoroso na aplicação da pena, enquanto outro se interessa mais pela reinserção social do apenado; um valoriza mais o interesse público, outro as liberdades individuais; um prioriza a liberdade de expressão, outro a intimidade. E assim por diante.

Em qualquer dos casos, é possível perceber – tanto nos debates teóricos, como nas fundamentações das decisões judiciais – que esses matizes ideológicos são sempre confrontados com as normas constitucionais em vigor, figurando estas como pontos cardeais da navegação jurídica.

Mesmo porque, qualquer juiz que venha exercendo a magistratura nos últimos vinte e sete anos, certamente sofreu a influência da Constituição de 1988, e das doutrinas jurídicas que ganharam espaço no Brasil desde então, com nítida valorização dos princípios constitucionais e dos Direitos e Garantias Fundamentais. Então, é razoável que, no sopesamento dos princípios, e na solução de conflitos envolvendo Direitos Fundamentais, visões de mundo diferentes conduzam a conclusões diferentes, sem que qualquer delas se choque frontalmente com a Constituição.

Minha percepção, portanto, é a de que grande parte dos juízes que conheço é capaz de passar horas debatendo sobre qual deve ser a postura do Estado perante os Direitos Fundamentais dos cidadãos. No entanto, esses mesmos juízes não demonstrariam o menor interesse em discutir qual dos partidos atualmente existentes no Brasil apresentaria melhores condições de, estando no poder, promover a efetivação desses Direitos Fundamentais.

Talvez isso ocorra porque juízes – pelo menos os de primeiro grau – são pessoas aprovadas em concurso público, cujo cargo goza de garantias como vitaliciedade e inamovibilidade, logo, tendentes a se desinteressar por debates eleitorais. Ou talvez seja o contrário: por não ter aptidão para o pleito de cargos eletivos, optaram pelo caminho do concurso público. Ou, ainda, talvez seja porque a Constituição Federal proíbe aos juízes a atividade político-partidária (CF, art. 95, parágrafo único, inciso III), e cada um evita expor a si e constranger os outros.

Talvez um pouco de cada coisa ou nada disso. Quem sabe?

Seja qual for o motivo da aversão dos meus colegas a esses temas, essas ponderações me levam a considerar baixíssima a possibilidade de um Juiz Federal ter convicções político-partidárias capazes de fazê-lo adotar a conduta ilícita de direcionar deliberadamente a persecução criminal contra alguém.

Mesmo, porém, que o juiz carregue em seu íntimo essas convicções, não seria minimamente provável que ele conseguisse, para tal desiderato, a colaboração de membros do Ministério Público e demais agentes públicos envolvidos. Nem tampouco que houvesse ratificação de suas decisões na instância superior, diante dos recursos que a defesa certamente ajuizará.

Por todas essas razões, seria para mim uma grande e decepcionante surpresa, que um Juiz Federal manipulasse uma operação da Polícia Federal, fazendo dela uma perseguição política.

Não creio nisso. Ao contrário, acredito que as operações federais de combate à corrupção, atualmente em curso, prestam um grande serviço ao país. Não rotulam qualquer partido como corrupto, mas têm como alvo corruptos de qualquer partido.

Se o Brasil elevará seu patamar ético, nos próximos anos, ainda não é possível saber. Mas, caso o eleve, não tenho dúvida que as ações hoje implementadas pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal terão influenciado diretamente no resultado.

Publicado originalmente no site jurídico JusBrasil em 31/10/2015


Mundo Cordel
CANTANDO JUNTOS PELA ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS

Hoje, 27 de outubro de 2015, a Academia Quixadaense de Letras completa três anos de sua fundação.

Tenho muito orgulho de ser um dos fundadores da AQL. Não é fácil reunir pessoas dedicadas à literatura em nosso país, especialmente nas pequenas cidades do interior dos Estados do Nordeste.

Mas, em Quixadá, conseguimos dar esse passo. E já são três anos dedicados à causa, sob o lema “A leitura ilumina o ser humano”.

Hoje, tenho um motivo a mais para celebrar esta data. A AQL aprovou, por unanimidade, o hino que compus para a Academia.

Quando nos reunirmos, no próximo sábado, entoaremos o hino juntos, pela primeira vez.

HINO À ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS
Letra e melodia: Marcos Mairton

No sertão central do Ceará
Resplandece o amor pela cultura
Pois floresce a arte da literatura
No cenário cultural de Quixadá.

Nessa terra adotada por Raquel
Aderaldo tem seu memorial
E a leitura se faz fundamental
Seja em livros ou folhetos de cordel.

A leitura ilumina o ser humano
E afasta as trevas da ignorância
É preciso começar desde a infância
E seguir lendo mais a cada ano.

Foi pensando assim que um grupo de escritores
Reuniu-se em Assembleia certo dia.
Para dar a Quixadá a academia
Que é de letras, autores e leitores.

E hoje o povo se reúne a cantar
E seu nome enaltecer!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!


Mundo Cordel
A BÍBLIA EM CEARÊS: MATEUS 8:5-13

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A passagem bíblica que traduzo hoje, para o idioma do povo cearense, é aquela em que um centurião romano pede a Jesus que cure um servo seu que havia caído doente.

A história sempre me chamou a atenção, porque imagino que um centurião era alguém que gozava de certa importância social. Tinha certo poder. Imaginar um homem desses, representante do poder dominante de Roma, pedindo a intervenção espiritual de um indivíduo do povo dominado, um peregrino, é algo que sempre me fascinou.

Relendo hoje, mais uma vez, esse trecho do Evangelho de Mateus, veio a vontade de reescrevê-lo em cearês.

Decidi não por glossário no final. O leitor que quiser esclarecer algum ponto pode pedir nos comentários.

Ficou assim:

JESUS CURA O SERVO DO CENTURIÃO ROMANO (Mateus 8:5-13)

Jesus ia tomano chegada em Cafarnaum, quando avistou um soldado romano, todo paramentado. E, pelo jeito da farda, num era soldadim fulerage não. Devia ser algum manda chuva, coisa de sargento pra cima. Veio no rumo de Jesus e foi logo puxan’assunto:

– Ei, macho, me dero o serviço que tu anda por aí fazeno milagre de todo tamãe. Aí eu queria que tu quebrasse um galho pra mim, ó?

– Vamuvê, né? Passa logo o bizú – respondeu Jesus.

– O seguinte é esse: tem um fí duma égua, que trabalha lá em casa, que tá todo guenzo e abirobadozim do juízo. O povo tão dizendo que é siviço do capeta. Aí eu queria saber se tu fazia um descarrego nele.

Jesus num contô pipoca:

– Na hora, machovéi. Dêxe comigo, que aqui só num tem jeito para morte. E as vêis inté isso eu desenrolo. Bora lá!
Mas o soldado parece que ficou veaco de levar Jesus em casa. É bem fácil ele num ter combinado com a patroa. Teve medo de chegar lá com um magote de marmanjo, e ela botar boneco. Aí ele jogou um queixo véi fraco, pra dar corda em Jesus:

– Tem precisão de ir lá não, patrão. Eu aposto que, se daqui mesmo, tu disser praquele fela da gaita se aprumar, ele dá um pinote da cama e fica igual um azôgue… Se eu mermo, que dô conta duma curriola de abestado, mando um praqui e outro prali, e eles vão vuado! Avalie tu, que tem moral que só a porra com os isprito!

Jesus deu o maior valor ao leruaite do soldado, e aproveitou pra esfregar a fé do caba na cara dos judeu. E disse:

– Machovéi, tu agora botô foi quente! Tem nenhum desses malaca que anda comigo que tenha fé desse tanto. Por isso que eu digo: tem gente lá da baixa da égua que vai pro céu. Mas tem uns sem futuro daqui tão é pebado; vão tudo se lascar no inferno!

Aí Jesus disse pro soldado:

– Pega o beco, macho. Quando tu chegar em casa o caba já vai tá novo de novo. Zerado!

Depois que Jesus disse aquilo, o soldado agradeceu e meteu o pé na carreira no rumo de casa. Quando chegou lá, o caba já tava bonzim. Tinha até almoçado um prato de baião de dois com pequi.


Mundo Cordel
LADRÕES

Um homem caminhava por uma estrada, quando percebeu que outro homem também vinha por ela, só que no sentido oposto. Ao chegarem a poucos metros de distância um do outro, o primeiro apontou para o segundo e disse:

– Você é um ladrão! Deve estar vindo me roubar!

O outro respondeu perguntando:

– E quem é você para me chamar de ladrão? Pensa que não sei que você é um dos maiores ladrões das redondezas?ladrao_k_rouba_ladrao

Mas o primeiro não deu atenção àquelas perguntas e continuou gritando:

– Um ladrão! Um ladrão! Um ladrão quer me roubar!

Logo o outro homem pôs-se a gritar também:

– Você é o ladrão aqui! Socorro! Um ladrão!

E tanto gritaram que alguns policiais que estavam por perto ouviram e correram para o local. Lá chegando, viram os dois homens gritando “Ladrão! Ladrão!”, e quiseram saber:

– Onde? Onde está o ladrão que os atacou?

Mas os dois homens não respondiam. Apenas continuavam a gritar “Ladrão! Ladrão!” deixando os policiais bem confusos. Até que um dos guardas suspeitou que o ladrão que causara toda aquela celeuma talvez estivesse escondido. Chamou os colegas, que entraram na mata e passaram a fazer buscas.

Minutos depois, os policiais voltaram para a estrada, trazendo preso um homem. Era um conhecido ladrão, que eles vinham investigando há meses, por vários roubos praticados ali mesmo, naquela estrada.

Ao ser arrastado da mata para a estrada, o ladrão preso viu os dois homens que ali estavam. Percebendo de quem se tratava, o preso revoltou-se com os policiais e indagou deles:

– Por que vocês não prendem aqueles homens também? Eles são tão ladrões quanto eu?

Mas os policiais nada responderam. Apenas o mandaram calar a boca, e o levaram para apresentar ao delegado.

Enquanto isso, os dois homens afastaram-se, cada um para seu lado, indignados com o fato de o preso os tentar incriminar.

Sugestão de moral da história, ficando o leitor inteiramente à vontade para escolher outra: Ladrões geralmente se conhecem. Podem colaborar entre si, quando lhes convém, mas, isso não significa que sejam amigos.


Mundo Cordel
PARA ONDE PENDE A BALANÇA DA JUSTIÇA

(Publicado no site JusBrasil em 5/Out/2015) 

Com o crescimento do interesse da sociedade e da imprensa brasileira por questões discutidas no Poder Judiciário, têm proliferado nos meios de comunicação as análises e os comentários sobre o assunto.

Isto é bom, porque aproxima da sociedade um Poder do Estado que sempre foi considerado muito fechado, de compreensão inacessível para o cidadão comum, que, no fim das contas, é quem sofre as consequências de seus atos.

O problema é que muitas dessas análises e comentários mais confundem que esclarecem. Alguns chegam a ser tendenciosos, tentando impor sua própria parcialidade aos órgãos jurisdicionais.balanca_justica

Basta ver o que aconteceu no julgamento do Mensalão, quando muitos artigos em jornais apontavam o STF como inclinado deliberadamente para um dos lados do litígio, enquanto outros diziam que a balança do Tribunal pendia exatamente para o lado oposto. A polêmica em torno de certos embargos infringentes foi ilustrativa a esse respeito.

Nesses tempos de Operação Lava Jato, o STF já foi apontado por alguns como perseguidor do PT, quando, por exemplo, manteve a prisão de Renato Duque, decretada pelo juiz federal Sérgio Moro. Dias depois, ao decidir que determinada investigação, relacionada à Operação Lava Jato, não seria da competência de Moro, outros disseram que a Corte estaria protegendo petistas.

Aliás, essa decisão, que determinou a remessa da investigação para outro juiz, foi amplamente divulgada como sendo uma derrota de Sérgio Moro. O que me fez refletir: e desde quando juiz conquista vitória ou sofre derrota em um processo judicial que preside?

Se o fato fosse apresentado como derrota do Ministério Público Federal, tudo bem, já que o MPF é parte no processo, ou seja, pleiteia, em nome da sociedade, a punição dos acusados. Mas, o juiz não pode e nem deve ter esse tipo de sentimento. Ao contrário, precisa se manter o quanto possível livre para decidir quem deve e quem não deve ser punido.

Diante disso, a impressão que tenho é que muitos dos jornalistas, analistas e comentaristas, que tratam atualmente desses movimentos do Judiciário, não estão se aprofundando na busca da compreensão dos mecanismos que movem os julgadores em suas decisões. Assim, avaliam a atuação de juízes – singulares ou membros de tribunais – a partir de critérios utilizados para explicar os movimentos de políticos e seus partidos.

Não, eu não estou dizendo que conheço os bastidores dos tribunais, sejam os de apelação ou os superiores, nem tampouco o perfil dos seus membros. Também não estou negando que existam juízes mais alinhados com essa ou aquela ideologia, ou mesmo simpáticos ou próximos a esse ou àquele partido político.

Estou apenas tentando dizer que, para entender o modo de ser do Poder Judiciário, ou, para compreender as razões que levam os juízes a decidir de ou de outro modo, é importante considerar fatores como: o fato de os juízes não serem eleitos; de serem vitalícios; de terem formação jurídica, ou seja, uma formação focada nas leis como balizadoras da conduta humana, etc.

São muitos os aspectos que condicionam ou influenciam o modo de atuar dos juízes em geral, além daqueles que os influenciam de modo particular. Por exemplo: diante de um mesmo fato, o membro de um tribunal que por muitos anos tenha sido juiz de vara criminal, possivelmente raciocinará de forma diferente de outro membro do mesmo tribunal, que tenha atuado mais em varas de família. E ambos provavelmente terão uma visão diferente de um colega que tenha atuado na advocacia, ingressando na Corte pelo quinto constitucional. Não tenho a menor dúvida que essa diversidade de visões de mundo enriquece as decisões dos tribunais.

Acredito que a ponderação desses elementos, agregada a algumas noções acerca dos institutos jurídicos, favoreceria análises menos superficiais das decisões judiciais. Minimizando-se, assim, o risco de conclusões equivocadas ou precipitadas, notadamente quando estão em jogo processos de grande repercussão nacional, capazes de acirrar ânimos e despertar paixões.


Mundo Cordel
SAUDADES DE MERCEDES

Nunca fui a um show de Mercedes Sosa. Nunca sequer a vi, a não ser pela TV, e, mais recentemente, em vídeos do YouTube. Mas me impressionei com ela desde que ouvi sua voz pela primeira vez. Foi no começo dos anos 1980, cantando, com Raimundo Fagner, a música “Años”.

A par disso, somente comprei um CD seu em janeiro de 2010, quatro meses depois da sua morte, quando estive em Buenos Aires. Fico até meio sem graça de admitir que foi ouvindo esse CD que conheci o tango “Los Mareados”, que me inspirou a escrever o conto com o mesmo título, que publiquei no Jornal da Besta Fubana em abril de 2011. Como posso ter conhecido tão tardiamente essa canção?

Mas, nos últimos dias, não sei se por causa da proximidade com o quatro de outubro, a canção que mais tenho ouvido, na voz de Mercedes, tem sido “Cuando ya me empiece a quedar solo”, de Charly García. É que a letra aparentemente descreve a situação de um artista, no final de sua carreira, vivendo lembranças dos tempos de sucesso e a saudade de um amor do passado.

De tanto ouvir, criei até uma versão dela para o português, cuja letra vai logo abaixo do vídeo.

A propósito, quem clicar no vídeo, por favor, não julgue o talento do cantor nem do músico. Não se trata de uma exibição, mas apenas de uma tentativa de homenagem.

QUANDO EU FINALMENTE ESTIVER SÓ

Terei os olhos distantes
E um sorriso na boca
No peito um grande vazio
E a voz um tanto rouca.

Um palco sem os artistas
Um livro que eu já não leia
Anotações esquecidas
E a caridade alheia.

Um televisor inútil
Servindo de companhia
Um rádio a todo volume
E essa casa tão vazia.

Envelhecer sem receio
De uma vida sossegada
Um jarro perto da escada
E essa cama que eu mal uso.

E alguns diários empilhados
E uma flor que traz do meu passado
Um rumor de vozes que me chamam
E um milhão de mãos que me aplaudem.

E a saudade tua, sobretudo,
Quando eu finalmente estiver só.


Mundo Cordel
MINISTÉRIOS

ministerios

Faz mais de uma semana que vejo, leio e ouço falar de mudanças que estão ocorrendo no Ministério da República. Na internet, na TV, não importa. Todos falam de uma disputa entre os membros do partido do governo e seus aliados, para definir quem será ministro de quê.

Tomando tais notícias como verdadeiras – e até agora não as vi serem contestadas – lamento, como cidadão que sou, que as coisas sejam decididas dessa maneira. Com partidos trocando apoio às decisões do governo por cargos em ministérios.

Não, eu não estou dizendo que isso é novidade na política! Estou dizendo apenas que lamento que seja assim. Porque, como cidadão, o que eu gostaria é que os ministérios fossem definidos conforme as necessidades do Estado, no cumprimento o seu papel. Oferecendo segurança, saúde, educação, essas coisas das quais tanto se fala nas campanhas eleitorais.

Definidos quais ministérios seriam necessários, o governante maior, respaldado na legitimidade que lhe conferem os votos recebidos na eleição, chamaria para os cargos de ministros as pessoas capacitadas a gerir as várias pastas do governo, conforme suas diretrizes. Porque, afinal, a pessoa escolhida pelo povo para exercer a Presidência da República não precisa conhecer a fundo todas as áreas da gestão pública, mas deve ter capacidade para comandar a equipe que lhe dará o respaldo técnico suficiente para governar.

O leitor mais enfronhado nos assuntos da política dirá, talvez, que sou ingênuo; que isso é uma utopia; que, em um governo de coalizão, sempre será necessário partilhar a máquina administrativa entre as lideranças dos partidos que apoiaram o candidato eleito.

Tudo bem. Aceito isso. Se vários partidos apoiam um candidato ao governo do país, entendo que esses partidos indiquem pessoas para determinados cargos do governo eleito. Minha ingenuidade talvez consista em imaginar que esses partidos deveriam escolher essas pessoas com base em sua formação (técnica e ideológica), e não em interesses pessoais ou políticos.

No entanto, até onde me chegam as notícias, o que tem prevalecido é o mais escancarado jogo do “toma lá, dá cá”. A troca aberta e explícita de cargos por apoio. Qualquer um pode ser ministro de qualquer coisa. Desde que sejam atendidos os interesses políticos da ocasião, é claro.

Não, eu não sei quando – nem como – isso começou. Também não sei quem governava nessa época. Sei apenas que é no mínimo frustrante, para o cidadão, ver os condutores das políticas públicas do governo serem escolhidos apenas por esse critério, ou sem critério algum.

Mas, há outra coisa ainda mais irritante nisso tudo: após as negociatas, vem um representante do governo dar entrevista coletiva na TV, dizendo que foram feitas as mudanças tais, tais e tais, buscando coisas como “enxugamento da máquina administrativa”, “redução de despesas”, “ganho de eficiência”, produtividade”…

Francamente. Podiam pelo menos nos poupar dessa parte.


Mundo Cordel
MICROCONTOS

MICROCONTOS

REGRESSO

Entrou na cidade. Ruas desconhecidas, estranhas. A tensão se fez alegria ao reconhecer a velha casa onde foi criança.

* * *

LUZ

Deitou, apagou a luz e viu tudo com absoluta clareza. Às vezes a escuridão externa é fundamental para a iluminação da mente.

* * *

CAFÉ

O boato era de que seria exonerado.
“Besteira. Melhor relaxar um pouco”, pensou.
Pelo interfone, pediu um café. Veio frio.


Mundo Cordel
ALOIZIO E ALOYSIO

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O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o senador Aloysio Nunes – os dois serão investigados por suspeita de crime eleitoral (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress e Antonio Cruz/Agência Brasil)

Aloizio e Aloysio
São dois nomes parecidos.
Dois políticos famosos
De dois famosos partidos.
Um apoia a presidente,
Mas o outro é diferente,
Atua na oposição.
Detestam ser confundidos,
Mas restaram incluídos
Numa mesma delação.

Aloizio e Aloysio,
Após serem delatados,
Por decisão do Supremo,
Estão sendo investigados.
Se têm crimes a pagar,
A missão de revelar
Caberá aos Federais.
Que, sendo sábios, prudentes,
Dirão se são diferentes,
Ou dirão que são iguais.


Mundo Cordel
NOMES

Às vezes fico observando os nomes das pessoas. Nunca me interessei por numerologia, mas, de vez em quando me pergunto: será que Napoleão teria sido quem foi se se chamasse Alberto? Ou Amarildo? E os meninos que depois foram chamados Napoleão? Sofreram ou sofrem alguma influência da personalidade daquele que fez famoso o nome? Joaquim teria se tornado o Mártir da Independência se não usasse a alcunha de Tiradentes? Zico teria sido tão bom jogador se houvesse permanecido Artur?nomes

Em 1985, quando trabalhava no departamento de recursos humanos de um banco, participei da organização de um concurso para estagiários. Qual não foi a surpresa, minha e dos meus colegas de trabalho, quando percebemos que entre os inscritos havia dezenas de Robertos Rivelinos! Por quê? Porque o concurso era dirigido a jovens de quinze anos de idade, ou seja, nascidos em 1970. O que pretendiam os pais ao dar aos seus filhos o nome de um jogador da seleção brasileira tricampeã mundial? E, se o tricampeonato não houvesse sido conquistado, haveria tantos Robertos Rivelinos naquele ano?

São perguntas sem resposta. Mas, mesmo nomes que não nos remetem diretamente a pessoas de destaque acabam chamando a minha atenção. É que, apesar de os nomes próprios serem considerados pela gramática como substantivos, é fácil ver que há nomes que bem poderiam ser adjetivos ou verbos.

Por exemplo, Vilmar, Valdemar e Jair são nomes verbos. Verbos no infinitivo. Fernando, Orlando e Gumercindo também são verbos, mas são gerúndios. Maria é futuro do pretérito. Dirceu é pretérito perfeito. E Gilmara é pretérito mais que perfeito.

Alguns nomes adjetivos são fáceis de identificar. É assim com Prudente, Vicente e Amado, embora esse último possa ser um verbo no particípio. Outros nomes adjetivos são mais sutis, mas o leitor há de perceber como soa natural quando digo que meu vizinho “é um rapaz muito Sérgio”. Que “o ambiente estava um pouco Getúlio”. Ou que “meu professor de matemática é um rapaz Fábio”. E quem já não ouviu falar de uma mulher Amélia? Nomes adjetivos, sem dúvida.

Pode ser uma mania, pode ser apenas uma brincadeira, mas volta e meia me encontro refletindo sobre isso. Foi fazendo essas reflexões que percebi que meu nome não é adjetivo nem verbo. É substantivo mesmo.

Com o detalhe que, apesar de eu ser uma só pessoa, é um substantivo plural: Marcos.


Mundo Cordel
O VELEIRO BRASIL

veleiro_na_tempestade

Há alguns meses atrás,
Um querido e velho amigo
Aborreceu-se comigo.
Disse que eu era incapaz
De reconhecer quem faz
O melhor para o país.
Que era um erro ouvir quem diz
Que a praga da inflação
Unida com a recessão
Faria o povo infeliz.

Eu tentei argumentar
Que, na verdade, a razão,
Dessa preocupação
Que estava a me incomodar,
Era o jeito de falar
De muitos economistas,
Que baseados em listas
De dados condicionantes,
Tornavam preocupantes
As previsões futuristas.

“É também muito inquietante”
– disse eu, na ocasião –
“Saber que a corrupção
No país, é alarmante.
Esse esquema tão gigante,
Envolvendo os empreiteiros,
As estatais, os doleiros
Partidos de várias cores,
Periga trazer mais dores
Aos corações brasileiros”.

Meu amigo debochou.
Me chamou de pessimista.
Disse que a mídia golpista
Há muito me dominou.
Que em minha mente implantou
Um ódio quase mortal
Da pobreza nacional,
Que mudou de condição.
E ver pobre em avião
É coisa que me faz mal.

Eu, meio ressabiado,
Achei melhor me calar,
Esperançoso de estar
Realmente equivocado.
Mas hoje vejo, assustado,
A coisa se complicando.
Vejo os preços aumentando,
A economia encolhendo,
O desemprego crescendo,
O país desmoronando.

E lembro do cidadão,
Que zombou do que eu falava
E dizia que eu estava
Torcendo contra a nação.
Será que já tem noção
Do que está acontecendo?
Será que está percebendo
O caos na Economia?
Que o governo, a cada dia,
O controle está perdendo?

Será que já reconhece
Que, além da economia,
A política, hoje em dia,
É uma fruta que apodrece?
Que todo dia aparece
Na imprensa um novo fato,
Um desvio em um contrato,
Uma entrega de propina,
Coisas que já são rotina
Na Operação LavaJato?

Caro amigo, bom seria
Que tu tivesses razão,
E aquela preocupação,
Que eu expus naquele dia,
Fosse apenas fantasia
Da mídia dita golpista.
Mas, sendo bem realista:
Brasil hoje é um veleiro,
Que segue sem timoneiro,
Nem sinal de terra à vista.


Mundo Cordel
MILAGRE EM CEARÊS

Li em um site, que a Bíblia já havia sido traduzida para 2.544 idiomas. É muita coisa. Pode-se não acreditar no que nela está escrito, pode-se duvidar que tenha sido escrita por inspiração divina, mas é preciso reconhecer a sua imensa influência na história da humanidade. E o seu valor para as religiões que fundamenta, é claro.

Impressionado com as informações que vi naquela postagem, lamentei apenas não haver qualquer referência à eventual existência de uma tradução da Bíblia para minha língua mãe: o Cearês.

Afinal de contas, o Ceará tem hoje mais de oito milhões de habitantes. É uma “ruma de gente” “bateno perna” aqui “por essas banda”. Sem contar que existe cearense em todo lugar do mundo. Ou “em todo canto”, como preferimos dizer. O que não faltam são histórias e piadas de cearenses que migraram para outras terras, como a do leão cearense, contada no vídeo a seguir pelo saudoso Espanta Jesus (que não era cearense, mas potiguar):

Foi pensando nessas coisas que passei a imaginar a tradução de pelo menos partes do Livro Sagrado para o Cearês. E o primeiro trecho bíblico que me veio à mente foi o das Bodas de Caná, quando Jesus teria feito o seu primeiro milagre, atendendo a um pedido de sua mãe.

O texto ficaria mais ou menos assim:

Jesus tava com a mãe dele num casamento, quando ela chegou pra ele e passou o bizú:

– Meu fí, esse povo daqui é muito penoso. O forró inda tá truano e já acabou o merol. Dê um jeito aí.

– Aí lascou, mãe. O ômi lá em cima disse que era pra fazer milagre só paruano.

– Seje suvino não, meu fí, quebre o gai desses liso…

Aí Jesus se invocô e disse:

– Enche os pote de água mermo, negada.

Os cabra arrocharo o nó. Botaro água nos pote como quem bota mí pra bode. Os papudim, doido pra tomar uma, ficaram só bilano.

Depois que os pote tava cheio, Jesus se benzeu três vez e recitou um budejado lá que ninguém entendia. Aí chamou um dos papudim que tava por ali, de mutuca ligada, e disse:

– Ei, macho. Arrudeia pra cá e toma uma lapada, só pra tu ver o dismantêlo.

O papudim correu dentro. Tomou uma lapada grande e depois saiu fazeno o maior enxame:

– Eita, negada, o ômi fez um goró aí que é só o pitéu!

E, como esse breve texto pode chegar a muita gente que desconhece o Cearês, segue um pequeno glossário, no intuito de esclarecer algumas sutilezas do nosso idioma:

Chegou pra ele = aproximou-se

Bizú = orientação, dica.

Fí = filho

Penoso = econômico

Truano = acontecendo (gerúndio do verbo “truar”; em

Cearês, os verbos no gerúndio são pronunciados sem a letra “d” da última sílaba).

Merol = bebida alcoólica

Dê um jeito aí = resolva esse problema

Aí lascou = agora temos um problema

Ômi lá de cima = Deus

Paruano = no próximo ano

Suvino = avaro; semelhante a penoso, mas com maior carga pejorativa

Quebre o gai = quebre o galho = ajude

Liso = sem recursos (variações: fulano é um liso = é pobre; fulano está liso = está momentaneamente sem dinheiro)

Se invocô = tomou uma decisão repentina; também tem o sentido de “irritou-se”, mas não neste caso

Negada = grupo de pessoas

Arrochar o nó = agir com disposição (como se vê, em Cearês, os verbos na primeira pessoa do plural terminam em “o” ao invés de “am”

Como quem bota mí pra bode = em abundância, com desperdício

Papudim = indivíduo que ingere frequentemente bebidas alcoólicas

Tomar uma = consumir bebida alcoólica

Bilano = observando (gerúndio do verbo bilar)

Se benzeu = fez o sinal da cruz (sim, Jesus ainda não havia sido crucificado, mas já fazia o sinal da cruz. Qual o problema?)

Recitou um budejado = pronunciou palavras incompreensíveis

De mutuca ligada = prestando atenção, atento

Macho = uma pessoa qualquer, seja homem ou mulher; atualmente é mais comum a pronúncia “má”, alongando um pouco o “á”

Arrudeia = contorna

Toma uma lapada = bebe uma dose

Dismantêlo = algo muito bom; também pode ter o sentido de “uma grande bagunça”, mas não neste caso

Correu dentro = fez alguma coisa imediatamente, como se estivesse ansioso para tal

Fazeno o maior enxame = “fazer enxame” significa chamar a atenção das pessoas; “fazer o maior enxame” é a mesma coisa, só que de forma exagerada

Goró = bebida alcoólica (sinônimo de merol)

Pitéu = coisa muito boa (a palavra é mais utilizada no sentido de “mulher bonita”, mas serve para outras maravilhas, como no caso)


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

MICROCONTOS

CARDÍACO

De tanto que ele se recusou a ouvir o próprio coração, este um dia cansou e calou-se para sempre.

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FOME

Reuniu os filhos e disse:

– Comeremos o pão q o diabo amassou.

E a meninada ficou feliz porque teria o q comer naquele dia.

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O PERDEDOR

De manhã perdeu o trem.

À tarde perdeu o emprego.

À noite perdeu a namorada.

Sem mais nada a perder, perdeu o medo.


Mundo Cordel
SULEAR

Foi em um evento multidisciplinar sobre Direitos Humanos, em 2013, que ouvi pela primeira vez a palavra “sulear”. O cidadão que falava ao microfone advertiu:

– É preciso nortear, aliás, sulear, isso mesmo, sulear as políticas públicas para metas de inclusão social…

Entendi o contexto. Afinal, posta naquela frase no lugar de “nortear”, e perto da palavra “metas”, tudo indicava que a ação do verbo consistia em dirigir as políticas públicas em determinada direção, no caso a inclusão social.

Mas, fiquei intrigado com a palavra, para mim desconhecida. No intervalo para almoço, servido no restaurante do hotel onde se realizava o evento, dei um jeito de me aproximar do portador da novidade e o instiguei ao assunto:

– Gostei do “sulear” ao invés de “nortear” – disse eu.

A estratégia deu certo. Percebendo o meu interesse, o rapaz passou imediatamente a discorrer sobre a importância de os povos da América do Sul assumirem a sua identidade, os seus valores, e não adotar modelos importados da política de dominação dos poderosos do norte. Sulear-se seria, assim, um ato de rebeldia contra a imposição de olharmos para o norte como algo superior ao sul.SULEAR

– Veja os mapas dos livros – destacou. – O norte está sempre em cima e o sul embaixo! Ora, no espaço não há em cima nem embaixo. É pura ideologia de dominação!

Confesso que não levei aquela conversa muito a sério. Para mim, “nortear” decorria simplesmente do fato de as bússolas apontarem para o norte, e de o conhecimento de onde fica o norte ser suficiente para deduzirmos os outros pontos cardeais.

Mas, estava hoje relembrando o episódio e, com as facilidades que a Internet proporciona, não resisti à tentação de pesquisar a palavra “sulear” no Google.

Logo me deparei com uma resenha do Dicionário Paulo Freire, de Streck, Redin, e Zitkoski, que dizia o seguinte: “Com o emprego do termo sulear, Paulo Freire chama a atenção para o caráter ideológico do termo nortear. Sulear expressa a intenção de dar visibilidade à ótica do sul como uma forma de contrariar a lógica eurocêntrica dominante a partir da qual o norte é apresentado como referência universal”.

Também descobri o site Sulear, mantido pelo físico Marcio D’Olne Campos, onde há um texto dele (SULear vs. NORTEar) que, entre outras coisas, diz o seguinte: “O hemisfério norte que vê a Polar, não vê o Cruzeiro do Sul. Isso acontece também em Portugal, situado bem mais ao norte (no entorno de 40ºN) do Trópico do Câncer. No entanto, nota-se indistintamente nos dicionários portugueses e brasileiros a presença única do verbo nortear (NORTEar) como orientar-se para o Norte e também dirigir, orientar, guiar. Na noite do hemisfério sul, o encontro da direção Sul apoiado pelo Cruzeiro do Sul deveria enquadrar apenas na idéia de “SULear-se”, palavra que não consta dos dicionários brasileiros. As convenções norteadoras em nosso hemisfério, como vimos na discussão das antinomias do tipo Norte/Sul, sugerem a conotação ideológica de dominação já discutida”.

Senti que estava diante do referencial teórico do palestrante daquela manhã de 2013. Um referencial que, como todo respeito aos intelectuais citados, me parece útil para manter os povos da América do Sul exatamente onde estão há séculos: em condição de inferioridade em relação a Europa e América do Norte, seja de um ponto de vista econômico, tecnológico ou do desenvolvimento.

Porque me parece muito cômodo atribuir as nossas mazelas à tal ideologia de dominação que vem do norte. Houve relação de dominação em relação às colônias? Sim. Muitas riquezas foram extraídas? Sim. Mas, o tempo tem passado, as relações entre os povos do mundo inteiro têm mudado, e não é possível passar o resto da história atribuindo nossos fracassos aos outros. Já deu tempo para virarmos esse jogo!

Aliás, e, voltando à formação das palavras, se o termo “nortear” decorre mesmo de dominação ideológica vinda do norte, por que razão o seu sinônimo mais comum é “orientar”? Seria dominação ideológica dos povos do oriente? Devemos inventar a palavra “ocidentar” (que tomei o cuidado de ver que não consta do nosso dicionário)?

Ora, tenham paciência! A cada dia aumenta o meu convencimento de que precisamos mais de trabalho e seriedade que de teorias para explicar nossos fracassos.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa