Mundo Cordel
MILAGRE EM CEARÊS

Li em um site, que a Bíblia já havia sido traduzida para 2.544 idiomas. É muita coisa. Pode-se não acreditar no que nela está escrito, pode-se duvidar que tenha sido escrita por inspiração divina, mas é preciso reconhecer a sua imensa influência na história da humanidade. E o seu valor para as religiões que fundamenta, é claro.

Impressionado com as informações que vi naquela postagem, lamentei apenas não haver qualquer referência à eventual existência de uma tradução da Bíblia para minha língua mãe: o Cearês.

Afinal de contas, o Ceará tem hoje mais de oito milhões de habitantes. É uma “ruma de gente” “bateno perna” aqui “por essas banda”. Sem contar que existe cearense em todo lugar do mundo. Ou “em todo canto”, como preferimos dizer. O que não faltam são histórias e piadas de cearenses que migraram para outras terras, como a do leão cearense, contada no vídeo a seguir pelo saudoso Espanta Jesus (que não era cearense, mas potiguar):

Foi pensando nessas coisas que passei a imaginar a tradução de pelo menos partes do Livro Sagrado para o Cearês. E o primeiro trecho bíblico que me veio à mente foi o das Bodas de Caná, quando Jesus teria feito o seu primeiro milagre, atendendo a um pedido de sua mãe.

O texto ficaria mais ou menos assim:

Jesus tava com a mãe dele num casamento, quando ela chegou pra ele e passou o bizú:

– Meu fí, esse povo daqui é muito penoso. O forró inda tá truano e já acabou o merol. Dê um jeito aí.

– Aí lascou, mãe. O ômi lá em cima disse que era pra fazer milagre só paruano.

– Seje suvino não, meu fí, quebre o gai desses liso…

Aí Jesus se invocô e disse:

– Enche os pote de água mermo, negada.

Os cabra arrocharo o nó. Botaro água nos pote como quem bota mí pra bode. Os papudim, doido pra tomar uma, ficaram só bilano.

Depois que os pote tava cheio, Jesus se benzeu três vez e recitou um budejado lá que ninguém entendia. Aí chamou um dos papudim que tava por ali, de mutuca ligada, e disse:

– Ei, macho. Arrudeia pra cá e toma uma lapada, só pra tu ver o dismantêlo.

O papudim correu dentro. Tomou uma lapada grande e depois saiu fazeno o maior enxame:

– Eita, negada, o ômi fez um goró aí que é só o pitéu!

E, como esse breve texto pode chegar a muita gente que desconhece o Cearês, segue um pequeno glossário, no intuito de esclarecer algumas sutilezas do nosso idioma:

Chegou pra ele = aproximou-se

Bizú = orientação, dica.

Fí = filho

Penoso = econômico

Truano = acontecendo (gerúndio do verbo “truar”; em

Cearês, os verbos no gerúndio são pronunciados sem a letra “d” da última sílaba).

Merol = bebida alcoólica

Dê um jeito aí = resolva esse problema

Aí lascou = agora temos um problema

Ômi lá de cima = Deus

Paruano = no próximo ano

Suvino = avaro; semelhante a penoso, mas com maior carga pejorativa

Quebre o gai = quebre o galho = ajude

Liso = sem recursos (variações: fulano é um liso = é pobre; fulano está liso = está momentaneamente sem dinheiro)

Se invocô = tomou uma decisão repentina; também tem o sentido de “irritou-se”, mas não neste caso

Negada = grupo de pessoas

Arrochar o nó = agir com disposição (como se vê, em Cearês, os verbos na primeira pessoa do plural terminam em “o” ao invés de “am”

Como quem bota mí pra bode = em abundância, com desperdício

Papudim = indivíduo que ingere frequentemente bebidas alcoólicas

Tomar uma = consumir bebida alcoólica

Bilano = observando (gerúndio do verbo bilar)

Se benzeu = fez o sinal da cruz (sim, Jesus ainda não havia sido crucificado, mas já fazia o sinal da cruz. Qual o problema?)

Recitou um budejado = pronunciou palavras incompreensíveis

De mutuca ligada = prestando atenção, atento

Macho = uma pessoa qualquer, seja homem ou mulher; atualmente é mais comum a pronúncia “má”, alongando um pouco o “á”

Arrudeia = contorna

Toma uma lapada = bebe uma dose

Dismantêlo = algo muito bom; também pode ter o sentido de “uma grande bagunça”, mas não neste caso

Correu dentro = fez alguma coisa imediatamente, como se estivesse ansioso para tal

Fazeno o maior enxame = “fazer enxame” significa chamar a atenção das pessoas; “fazer o maior enxame” é a mesma coisa, só que de forma exagerada

Goró = bebida alcoólica (sinônimo de merol)

Pitéu = coisa muito boa (a palavra é mais utilizada no sentido de “mulher bonita”, mas serve para outras maravilhas, como no caso)


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#MICROCONTOS

MICROCONTOS

CARDÍACO

De tanto que ele se recusou a ouvir o próprio coração, este um dia cansou e calou-se para sempre.

* * *

FOME

Reuniu os filhos e disse:

– Comeremos o pão q o diabo amassou.

E a meninada ficou feliz porque teria o q comer naquele dia.

* * *

O PERDEDOR

De manhã perdeu o trem.

À tarde perdeu o emprego.

À noite perdeu a namorada.

Sem mais nada a perder, perdeu o medo.


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SULEAR

Foi em um evento multidisciplinar sobre Direitos Humanos, em 2013, que ouvi pela primeira vez a palavra “sulear”. O cidadão que falava ao microfone advertiu:

– É preciso nortear, aliás, sulear, isso mesmo, sulear as políticas públicas para metas de inclusão social…

Entendi o contexto. Afinal, posta naquela frase no lugar de “nortear”, e perto da palavra “metas”, tudo indicava que a ação do verbo consistia em dirigir as políticas públicas em determinada direção, no caso a inclusão social.

Mas, fiquei intrigado com a palavra, para mim desconhecida. No intervalo para almoço, servido no restaurante do hotel onde se realizava o evento, dei um jeito de me aproximar do portador da novidade e o instiguei ao assunto:

– Gostei do “sulear” ao invés de “nortear” – disse eu.

A estratégia deu certo. Percebendo o meu interesse, o rapaz passou imediatamente a discorrer sobre a importância de os povos da América do Sul assumirem a sua identidade, os seus valores, e não adotar modelos importados da política de dominação dos poderosos do norte. Sulear-se seria, assim, um ato de rebeldia contra a imposição de olharmos para o norte como algo superior ao sul.SULEAR

– Veja os mapas dos livros – destacou. – O norte está sempre em cima e o sul embaixo! Ora, no espaço não há em cima nem embaixo. É pura ideologia de dominação!

Confesso que não levei aquela conversa muito a sério. Para mim, “nortear” decorria simplesmente do fato de as bússolas apontarem para o norte, e de o conhecimento de onde fica o norte ser suficiente para deduzirmos os outros pontos cardeais.

Mas, estava hoje relembrando o episódio e, com as facilidades que a Internet proporciona, não resisti à tentação de pesquisar a palavra “sulear” no Google.

Logo me deparei com uma resenha do Dicionário Paulo Freire, de Streck, Redin, e Zitkoski, que dizia o seguinte: “Com o emprego do termo sulear, Paulo Freire chama a atenção para o caráter ideológico do termo nortear. Sulear expressa a intenção de dar visibilidade à ótica do sul como uma forma de contrariar a lógica eurocêntrica dominante a partir da qual o norte é apresentado como referência universal”.

Também descobri o site Sulear, mantido pelo físico Marcio D’Olne Campos, onde há um texto dele (SULear vs. NORTEar) que, entre outras coisas, diz o seguinte: “O hemisfério norte que vê a Polar, não vê o Cruzeiro do Sul. Isso acontece também em Portugal, situado bem mais ao norte (no entorno de 40ºN) do Trópico do Câncer. No entanto, nota-se indistintamente nos dicionários portugueses e brasileiros a presença única do verbo nortear (NORTEar) como orientar-se para o Norte e também dirigir, orientar, guiar. Na noite do hemisfério sul, o encontro da direção Sul apoiado pelo Cruzeiro do Sul deveria enquadrar apenas na idéia de “SULear-se”, palavra que não consta dos dicionários brasileiros. As convenções norteadoras em nosso hemisfério, como vimos na discussão das antinomias do tipo Norte/Sul, sugerem a conotação ideológica de dominação já discutida”.

Senti que estava diante do referencial teórico do palestrante daquela manhã de 2013. Um referencial que, como todo respeito aos intelectuais citados, me parece útil para manter os povos da América do Sul exatamente onde estão há séculos: em condição de inferioridade em relação a Europa e América do Norte, seja de um ponto de vista econômico, tecnológico ou do desenvolvimento.

Porque me parece muito cômodo atribuir as nossas mazelas à tal ideologia de dominação que vem do norte. Houve relação de dominação em relação às colônias? Sim. Muitas riquezas foram extraídas? Sim. Mas, o tempo tem passado, as relações entre os povos do mundo inteiro têm mudado, e não é possível passar o resto da história atribuindo nossos fracassos aos outros. Já deu tempo para virarmos esse jogo!

Aliás, e, voltando à formação das palavras, se o termo “nortear” decorre mesmo de dominação ideológica vinda do norte, por que razão o seu sinônimo mais comum é “orientar”? Seria dominação ideológica dos povos do oriente? Devemos inventar a palavra “ocidentar” (que tomei o cuidado de ver que não consta do nosso dicionário)?

Ora, tenham paciência! A cada dia aumenta o meu convencimento de que precisamos mais de trabalho e seriedade que de teorias para explicar nossos fracassos.


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

MICROCONTOS

BARIÁTRICA

Excessos à mesa de jantar o levaram à mesa de cirurgia.

Hoje não tem mais estômago para aventuras gastronômicas.

* * *

O BOXEADOR

Sentia-se forte, confiante.

Socava, esquivava, socava.

De repente, a escuridão. Uma voz contava 8, 9, 10!


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RESPOSTA À CARTA ABERTA DO GOIANO

Caríssimo Goiano,

Em outro texto teu, já me tinhas dado a honra de citar meu nome. Desta feita, foste além, dirigindo o texto todo à minha pessoa.

Grato, amigo, pela gentileza. Fico realmente honrado com o teu gesto. Pensei até em responder em comentário à tua carta aberta, mas achei que poderia soar indelicado, já que te deste ao trabalho de usar o espaço da tua coluna. Então cá estou usando o da minha.

Feito esse justo reconhecimento, lamento apenas dizer que nada tenho a acrescentar ou contra-argumentar em relação às razões que tens para não te sentires traído pelo PT. Afinal, sentir-se ou não traído diz respeito ao foro íntimo de cada um.

Discordo, é verdade, da tua teoria de que “uma parcela raivosa, insatisfeita com a política social do governo”, existente desde que Lula assumiu, teria se transformado em coxinhas raivosos, conquistando, depois, corações e mentes, por meio de recursos midiáticos, em um momento de fragilidade circunstancial do governo.

Sei, evidentemente, que não é apenas tu que pensas assim. Basta ler os articulistas de alguns sites e blogs favoráveis ao governo para ver isso. Mas não consigo acreditar na existência dessa parcela raivosa da nossa sociedade, nem muito menos que essa suposta raiva tenha como causa a política social do governo.

E tenho cá meus motivos para pensar assim, pois sei que o governo Lula teve uma aprovação altíssima. Mesmo tendo sofrido desgaste quando estourou o escândalo do mensalão, Lula encerrou o seu governo com a melhor avaliação da história, com 83% de aprovação (Clique aqui para ler). Não me parece possível que essa parcela raivosa tenha ficado quieta nos dois mandatos de Lula, para se multiplicar tão rapidamente em um único mandato de Dilma, apenas por manipulação da mídia.

Assim, para entender o crescimento da rejeição ao PT e à Presidente da República, parece-me necessário investigar causas outras, além das que apontaste em tua carta aberta.

De minha parte, prefiro não relacionar aqui nenhuma das causas que considero prováveis, por algumas razões, especialmente as seguintes: não tenho interesse em convencer nem a ti nem a ninguém de que essas causas fazem sentido; e não quero que ninguém interprete minhas considerações como contrárias ou favoráveis ao PT e seus membros.

Fico, portanto, por aqui. Vendo as coisas acontecerem e tentando me manter lúcido para entender o que está acontecendo. Às vezes emito uma opinião ou outra, se acho oportuno e relevante, mas tentando me manter fora de discussões mais acaloradas.

Mas, insisto, não acredito em um mundo dividido entre esquerda e direita; nem que o Brasil se divida entre petralhas e coxinhas.

Acho que a realidade é maior que as ideologias. E o que a maioria das pessoas quer apenas viver em paz, com segurança, Justiça e a perspectiva de buscar a realização de seus sonhos.

Um grande abraço, com recíproca admiração e amizade.


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NEM DEUS, NEM SUPER-HERÓI

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Final da tarde de domingo. Vou à casa de meus país, no bairro do Pirambu, periferia de Fortaleza. Depois de um bom pedaço de pizza, conversávamos na calçada – eu, meu pai e alguns amigos – quando começou o culto em uma igreja, dessas que se autointitulam evangélicas, do outro lado da rua.

A partir daí, a conversa ficou inviável. A música de má qualidade não era propriamente cantada, mas gritada pelos poucos e barulhentos fiéis. Um dos presentes protestou:

– Duvido que se fosse na frente da casa de um rico fizessem um barulho desses!

– Se fosse na frente da casa dum rico, ele comprava logo a igreja e mandava todo mundo embora! – disse outro.

O terceiro a falar me pôs no centro da discussão:

– Rapaz, bastava que o doutor juiz morasse aqui e ele mandava esse pessoal baixar o som!

Não ficou claro se a frase era um pedido de socorro ou uma provocação. Ouvi-a e fiquei quieto, refletindo sobre o que me parece ser uma característica comum entre nós, brasileiros: a tendência a esperar que alguém poderoso venha nos salvar das agressões aos nossos direitos. Pode ser o poder econômico, pode ser o poder político, não importa. O que importa é que o super-herói apareça e ponha as coisas no seu devido lugar.

Por que razão aquelas pessoas suportam todo aquele barulho e não tomam nenhuma iniciativa para eliminar ou reduzir o incômodo? Por que não formam um grupo e procuram o pastor, para exigir que ele baixe o volume dos seus autofalantes? Pertinho dali existe uma ONG dedicada quase exclusivamente a fazer mediação e arbitragem, na tentativa de resolver conflitos das pessoas da comunidade. Que tal chamar o pastor para uma conversa lá? E, se isso não resolver, podem-se fazer manifestações na frente da igreja, na hora do culto; pode-se procurar o Ministério Público, o Juizado Especial, tanta coisa… O pastor está interessado em novos fiéis, não em encrenca com os moradores do bairro.

A par disso, estou amplamente convencido de quem ninguém vai fazer nada. E o ataque dos membros da igreja aos tímpanos dos vizinhos vai continuar.

Eu também não fiz nada. Tive vontade de ir falar com o pastor, mas não fui. Dias antes, durante um telefonema, prejudicado pelo mesmo exagero evangélico-musical, minha mãe havia pedido:

– Meu filho, não faça nada. Se você for falar com o pastor, o pessoal da igreja vai dizer que você é um juiz querendo ser mais importante que Deus. E o pessoal aqui da rua vai concordar com o povo da igreja. E dizer que você mora lá na Aldeota e vem se meter nas coisas daqui. A vizinhança não é toda prejudicada? Então os vizinhos que devem fazer alguma coisa. Se me procurarem, eu apoio, mas não vou tomar a frente, pra não dizerem que a mãe do juiz quer ser importante. Não quero ver seu nome metido nessa história…

Raramente nego um pedido da minha mãe. E, quer saber, leitor? Acho que ela tem razão. De nada adiantaria eu dizer que estava ali como cidadão, preocupado com o bem estar dos meus pais. O pastor e seus fiéis enxergariam um juiz, provavelmente um juiz que pensa que é Deus. E, se o assunto fosse parar nas redes sociais, não faltaria quem declarasse ter certeza disso.

Nessas horas, sinto saudade de quando era estudante de Direito. Quando a disposição para defender direitos – meus e dos outros – era vista como sinal de que me tornaria um bom advogado. Hoje, começo a escrever sobre o barulho de uma igreja e termino o texto fazendo reflexões sobre uma divindade que todo mundo deveria saber que não existe.

Lamento não poder ajudar meus pais e seus vizinhos na reação contra o barulho da igreja, mas, para não expor o juiz ao cometimento de eventual abuso de poder (real ou imaginário), o cidadão precisará calar.

E assim, eu, que nunca pensei em ser Deus, constato mais uma vez que a capa que uso não me ajuda sequer a ser um super-herói. Às vezes até atrapalha.

P.S.: Se as pessoas não têm iniciativa para se organizar pela redução do barulho de uma igreja que abriga menos de cem fiéis, e que está ali, encostada nas suas casas, como esperar que pressionem políticos a agirem com seriedade, honestidade e coerência com os discursos de campanha?


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UMA PETIÇÃO EM VERSOS PARA UM POETA-JUIZ

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Não faz muitos dias, chegou ao meu conhecimento a notícia de que um advogado havia formulado uma petição em versos e o juiz havia respondido também na forma poética.

Que inveja senti! Inveja boa (se é que isso existe), já que limitada ao desejo de receber um dia uma petição que transforma em versos o drama do cotidiano forense.

Que prazer seria responder o poético petitório também em versos! Talvez em cordel, quem sabe em trovas… Um soneto! Será que comportaria, em seus quatorze versos, toda uma decisão judicial?

Não sei. Quem pode saber das poesias ainda não escritas? Como saber a forma que o poema assumirá, se sua fonte de inspiração ainda não apareceu encartada nos autos?

Fico à espera. Enquanto isso, manifesto aqui o sentimento que me acompanha nessa espera… Um soneto! Sim, um soneto.

ENTRE O POETA E O JUIZ

Quem dera eu venha a receber um dia
Petição feita por um advogado,
Cujo pedido seja formulado
Em meio aos versos de uma poesia.

Como poeta, ainda que togado,
Com sentimento, a lei aplicaria
E, em versos, a sentença escreveria,
Provavelmente um tanto emocionado.

Mas, desde já, que fique esclarecido:
O acatamento ou não de tal pedido
Dependerá da fundamentação.

Como juiz, ainda que poeta,
Ao decidir a situação concreta
Não posso ouvir somente o coração.

Publicado antes no site jurídico JusBrasil.


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A CASA DO POETA

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É uma casa. Olhando de fora, não há razão para se ter dúvidas quanto a isso.

Mas, do lado de dentro, já não se tem tanta certeza. Aquela casa bem poderia ser um barco. Pelas paredes, pelo piso, pelos objetos que estão dentro dela. E pelo mar, que se vê o tempo todo através das janelas.

Mas a casa não parece apenas um barco. Bastam alguns passos para que ela se assemelhe ao vagão de um trem. Longo, com suas paredes de madeira e seu teto côncavo.

Mas, que trem é esse, habitado por figuras mitológicas e divindades? Onde escorpiões e borboletas conviveriam com anjos e demônios? Ao invés de uma casa, um barco ou o vagão de um trem, não se estaria na cabana de um mago?

Nada disso. É uma casa. Estão lá a cama, a penteadeira, as cadeiras e outras coisas que há em uma casa.

É a casa de um poeta. Construída em um lugar que tem nome de ilha, mas que, a par disso, ilha não é. É uma parte do continente, de onde se ouvem os rugidos de um gigante azul que golpeia rochas até arrebentá-las.

Os moradores locais receiam que um dia o gigante avance sobre a cidade e destrua tudo. (Têm um plano de fuga, caso isso ocorra). Não obstante, ele se chama Pacífico. E o dono da casa – o Poeta – nunca o temeu. Ao contrário, decidiu viver ali, com sua esposa e musa, até o fim de seus dias neste mundo. Dizia que sua própria mesa de trabalho foi presente do gigante.

Decididamente, aquela é uma casa como jamais vi outra antes. Em um lugar absolutamente mágico. Onde as coisas não precisam ser o que parecem ser, mas aquilo que o Poeta imaginou que poderiam ser.

Por isso, aquela parte do continente pode se chamar Isla Negra; o temido gigante azul pode se chamar Pacífico; a casa pode ser barco, trem, cabana ou o que mais se possa imaginar. Nela, o fantasma de um pirata pode se apaixonar por uma jovem que só tem olhos para o mar. Um cavalo, sobrevivente de um incêndio, pode encontrar refúgio e ser feliz.

E o poeta, nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, pode ser, porque assim o quis, Pablo Neruda.

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O colunista em visita à casa de Pablo Neruda em Isla Negra, Chile

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Mundo Cordel
DESCULPA, GENTE, FOI MAL

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Escrevo para você
Que se esconde atrás do escudo
Da empáfia, da arrogância,
Da pose de sabe-tudo,
Mas, por trás dessa aparência,
A falta de inteligência
Se soma à falta de estudo.

Escrevo para dizer,
Se ninguém ainda lhe disse,
Que sua máscara caiu
– era normal que caísse –
E sua pose de desdém
Não engana mais ninguém,
Virou uma grande tolice.

Até mesmo os mais ingênuos
Que se deixavam levar
Pelo seu palavreado,
Hoje ficam a zombar
Das coisas que você diz,
Comentam: “Mas que infeliz!
Não era melhor calar?”

Claro que, na sua frente,
Muitos mantêm a postura.
Mas, se você não está,
A crítica é muito dura,
É comum alguém falar:
“É difícil de aturar
Essa pessoa obscura”.

Pode ser perda de tempo
Eu lhe fazer esse alerta,
Pois bem sei, você não tem
Uma mente muito aberta,
Mas, não quero ser omisso,
Nem quebrar meu compromisso
De fazer a coisa certa.

É por isso que apesar
Dessa possibilidade,
De o conselho que lhe dou
Restar sem utilidade,
Sigo no desiderato,
De ser claro, justo, exato,
E lhe dizer a verdade.

Meu conselho é muito simples,
Nada tem de especial:
É para você, urgente,
Descer desse pedestal
Aceitar a realidade,
E dizer, com humildade:
“Desculpa, gente, foi mal”.


Mundo Cordel
PEDIDO DE CASAMENTO JUNINO

Em uma festa de São João, casamos de novo. Casamento de quadrilha, abençoado pelos amigos. Só não valia roteiro de noivo que tenta fugir e obrigado a casar pelo pai da noiva.

– Não fujo do casamento com Natália nem em festa de quadrilha – disse eu. – Em nosso roteiro, o pai dela pode ser contra, mas nós queremos casar sim!

E assim foi.

Botei um paletó, Natália providenciou um vestido, e nos preparávamos para casar em segredo, quando o pai da noiva, interpretado por nosso querido amigo Roberto Machado, apareceu dizendo que a filha não casaria com um cabra sem futuro.

A saída foi mostrar para ele que meu passado não era dos melhores, mas o futuro prometia. Fiz o pedido de casamento em versos de cordel…

Casando

Doutor Roberto Machado,
Preste atenção, por favor,
No que eu tenho a lhe dizer,
No que venho lhe propor.
Espero a sua resposta
Pois a razão da proposta
É a filha do senhor.

A sua filha Natália,
Essa moça tão prendada,
Que, além de muito bonita,
É também muito educada,
Conquistou meu coração,
Me dando a satisfação
De ser minha namorada.

Já faz pra mais de seis mês,
Não sei se o senhor sabia,
Que gente se telefona
E se encontra todo dia.
Ela me manda mensagem
manda video, manda imagem,
E eu devolvo poesia.

E, sendo dessa maneira,
Muito grande o nosso amor,
Mesmo ela sendo a filha
De um desembargador,
Me meti a atrevido,
E faço aqui meu pedido,
Muito sincero ao doutor:

– Eu quero casar com sua filha, doutor Roberto!

Doutor Roberto Machado,
Sei da sua intenção
Que a sua filha se case
Com alguém de posição,
Alguém que seja formado,
Quem sabe, um advogado,
Que tenha um anel na mão!

E, eu não tiro sua razão.
Pois, como pai, está certo.
Não querer que a sua filha
Tenha um futuro incerto.
Mas, em nome do amor,
Eu insisto com o senhor,
Aceite, Doutor Roberto.

Confesso, fui um menino
Que não gostei de estudar,
E, que depois que cresci,
Nunca fui de trabalhar.
Dormia até meio-dia,
E é verdade que vivia
Na rua a vagabundar.

Roubar, eu nunca roubei,
Mas, comprava e não pagava,
Já bebi muita cachaça,
Até maconha eu fumava.
Em festa arranjava briga
E andar com rapariga
Era do que eu mais gostava.

Mas, depois que eu vi Natália,
Senti algo diferente,
Decidi me corrigir
Ser um cidadão decente
E falei para um amigo:
Se ela se casar comigo
Vou mudar daqui pra frente.

Por isso, se o meu pedido
A sua filha aceitar,
E, se o senhor permitir
Que a gente possa casar,
Fique logo prevenido:
Vou ser o melhor marido
Que o senhor ouviu falar.

Fique certo, o que eu digo
Não é conversa fajuta.
E prometo aqui três coisas,
Enquanto esse povo escuta:
Limpar meu nome na praça
Nunca mais beber cachaça
Nunca mais andar com puta!

Pai da noiva: – Cabra safado!

Noivo: – Calma desembargador. Eu andava nesses ambientes. Não ando mais. E sabe que um dia eu tava no cabaré da Pirrita e vi um cabra lá que era mesmo que tá vendo o senhor! Não era o senhor, era?…

Pai da noiva: – Ômi, vamos mudar de assunto e começar logo esse casamento. Se depender da minha autorização, tá autorizado!

Casados


Mundo Cordel
CONTO JURÍDICO(*): A MULHER DO RÉU

(*) Classifico como jurídicos os contos cujo núcleo da narrativa aborda questões relacionadas ao Direito e, além disso, apresentam ou explicam ao leitor não versado na Ciência Jurídica o significado de institutos, termos e expressões utilizados por juristas.

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A audiência criminal é um evento bem definido, com praticamente todos os seus passos previstos na lei. Corre inclusive o risco de ser anulada, caso algo aconteça diferente do rito estabelecido na legislação processual, principalmente se a irregularidade prejudicar a defesa do réu.

Mas sua previsibilidade acaba aí. Depois que começa, ninguém sabe as perguntas que a acusação e a defesa farão, as respostas que serão dadas pelas testemunhas ou pelo réu, nem tampouco as decisões que o juiz tomará na ocasião. Além de outras surpresas, digamos, extraprocessuais, que fazem das audiências momentos especialmente interessantes.

Lembro isto a propósito do processo de um homem que respondia pelo crime de moeda falsa. É um delito comum nas varas federais criminais, principalmente nas modalidades de guardar e por em circulação o papel-moeda, previstas no parágrafo primeiro do artigo 289 do Código Penal.

Aquele caso, porém, tratava da conduta descrita no caput do artigo: “Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no estrangeiro”. Segundo a denúncia, o acusado mantinha, em um dos quartos da própria residência, uma verdadeira fábrica de cédulas falsas. De posse de um mandado de busca e apreensão, a Polícia Federal encontrou ali computador, impressora, máquina para cortar papel e muito material impresso, pronto para ser introduzido no mercado.

O homem – que já respondia a um processo por estelionato – foi preso em flagrante. Lembro até hoje de quando ele entrou na sala de audiências cabisbaixo, acompanhado pelos agentes federais. Dois passos atrás dos policiais, vinha uma mulher de uns quarenta e poucos anos, magra e relativamente alta. Os cabelos longos e o vestido comprido indicavam que provavelmente era adepta de alguma igreja protestante (ou evangélica, como preferem os seus membros). Apresentou-se como sendo esposa do acusado e pediu para assistir à audiência.

– Pode assistir, senhora. Peço apenas que não interfira – adverti-a, sabendo que esses momentos são sempre difíceis para familiares do acusado.

Concluídos os atos preparatórios, dei andamento aos trabalhos. As testemunhas da acusação – dois policiais federais que participaram da operação – confirmaram o que já haviam dito no inquérito policial. Não houve testemunhas da defesa. O réu confessou tudo, declarando-se arrependido pelo que havia feito. Disse que foi um momento de fraqueza. Queria dar uma condição de vida melhor para a família e acabou tentando fazer isso da forma errada. Estava disposto a pagar sua pena e mudar de vida. Só não explicou onde e como havia adquirido os equipamentos. Valeu-se do direito constitucional de ficar calado, acrescentando que sua vida correria risco se falasse alguma coisa. Normal. Nem todo mundo se dispõe a participar de colaborações, ainda que premiadas.

Com a instrução do processo concluída, teria início o prazo de alguns dias para que acusação e defesa fizessem suas alegações finais. Depois o caso iria a julgamento. Tudo transcorria em plena normalidade, até que a mulher do réu, percebendo que a audiência havia terminado, resolveu falar:

– Doutor, eu posso dar uma palavrinha com ele? – perguntou, enquanto apontava o indicador para o marido.

– Claro, senhora – disse eu.

E, dirigindo-me aos policiais encarregados de levar o homem de volta ao presídio, completei:

– Por favor, esperem uns dez minutos enquanto essa senhora…

– Não precisa tanto não, doutor – interrompeu ela. – O que eu tenho pra dizer a ele é pouca coisa.

Foi fácil perceber que algo havia mudado na fisionomia e na voz daquela mulher. Ela, que aparentara calma durante toda a audiência, passara a demonstrar algo entre a irritação e o desprezo, embora com cuidado para se manter respeitosa. Quando se dirigiu ao marido-réu, revelou-se o motivo dessa confusão de sentimentos:

– Olhe aqui, rapaz! – disse ela, de pé, apoiando na mesa uma das mãos e apontando-lhe o indicador da outra. – Eu já tinha lhe dito que, se você se metesse de novo com vagabundagem, com pilantragem, com falcatrua, eu lhe deixava! Eu lhe disse, daquela outra vez, que era a única chance que eu ia lhe dar… Pois agora você vai ver que eu tava falando sério!… Olhe, eu sou uma mulher cristã… Eu não aceito viver com bandido, não, e muito menos que você leve sua bandidagem pra dentro de casa… Por isso que tu não deixava ninguém entrar naquele quarto… Ficava dizendo que era coisa do escritório; que os meninos podiam mexer em algum documento… Era pra ninguém saber o que tu fazia lá dentro! Não era?… Tu não tem vergonha não, rapaz? De levar tua vagabundagem pra dentro da casa dos teus filhos? Pois, olhe… Da outra vez, eu lhe disse que você se corrigisse ou então procurasse seu rumo… Pois agora eu lhe digo… Procure seu rumo! Porque, perto de mim e dos meus filhos, a última coisa que eu quero é gente metida em safadeza e bandidagem! E, preste bem atenção, que eu só vou lhe dizer só essa vez… Se o doutor juiz mandar lhe soltar, você procure outra casa pra ir dormir, porque na minha você não entra nunca mais!

Girou nos calcanhares, disse-me um seco “muito obrigado, doutor” e saiu pela porta afora.

Claro que a mulher não usou exatamente essas palavras. Na verdade, a única frase que ficou literalmente gravada em minha memória foi a última: “Se o doutor juiz mandar lhe soltar, você procure outra casa pra ir dormir, porque na minha você não entra nunca mais!”. Deve ser muito duro ouvir isso da esposa.

Enquanto ela falava, o réu, que já havia marejado os olhos algumas vezes durante o interrogatório, não tentou interromper, não tentou argumentar, não teve forças sequer para pedir perdão. Apenas chorou, e continuou chorando depois que ela se foi. Um choro triste, dolorido, abundante em lágrimas e secreções nasais.

Ainda chorava quando um dos policiais deu-lhe alguns tapinhas nas costas, mas não pude decifrar se era um consolo ou o chamado para retornar à prisão.


Mundo Cordel
MICROCONTOS 2

Conforme prometido, continuo trazendo para o JBF os microcontos que venho publicando no Twitter.

Interessados em me seguir por lá devem procurar o usuário @MarcosMairton.

A história de hoje é a seguinte:

#MICROCONTO
TEORIAePRÁTICA
Dizia-se a favor do casamento gay, mas desde q seu pai deixou sua mãe por outro homem, nunca mais falou com ele.


Mundo Cordel
UM DIA SEM PRESSA

homem-correndo

Reconheço que há dias nos quais tenho desejos um pouco egoístas. Comer um bom leitão no restaurante do português; receber o pedido de um cantor famoso para gravar uma de minhas canções; ou até ganhar na loteria e ficar rico. Quem sabe?

Mas também há dias em que acordo desejando coisas que acredito boas para meu país, ou mesmo para a humanidade, como chuvas em uma região mais seca ou a descoberta de uma vacina.

Hoje, acordei com um desejo bem pessoal, mas também muito peculiar: o de ter um dia sem pressa.

Quero levantar da cama quando der vontade de levantar da cama, e não porque algum compromisso me espera. Tomar banho devagar, sentindo a água cair sobre minha cabeça e deslizar pelo meu corpo. Quem sabe, ouvindo música. Sem pressa.

Quero demorar no café da manhã, não para comer muito, mas para comer lentamente, saboreando o alimento.

Quero chamar o elevador e não me incomodar se ele demorar a vir. Talvez eu me irrite um pouco, se perceber que o vizinho de cima o está segurando de novo, mas que minha irritação seja por uma questão de cidadania, não de pressa. Tanto assim, que, ao sairmos do elevador, quero segurar a porta para que o meu vizinho saia primeiro. Talvez ele esteja com pressa, eu não.

Quero sair no meu carro e dirigir com calma, sem me incomodar por que o sinal ficou vermelho bem na hora em que eu me aproximava do cruzamento. Se encontrar uma avenida vazia à minha frente, posso até acelerar um pouco mais forte, mas apenas para sentir a potência do motor, não para chegar mais rápido ao destino.

Quero ir ao shopping center e rir da falta de vagas no estacionamento. Gastar tempo até encontrar uma, e, diante do impasse com o outro motorista, que se aproximou segundos depois, ceder aquela vaga para ele.

Quero por a gentileza à frente da pressa. Dizem que a pressa é inimiga da perfeição. Pode ser que ela seja mais inimiga da gentileza. Talvez, na correria do dia-a-dia, tenhamos estado apressados demais para ser gentis.

Mas hoje – pelo menos hoje – quero inverter isso. Quero que passem à minha frente. Quem quiser que se apresse. Quero ceder minha vez no restaurante lotado. “Senhora, por ficar com essa mesa. Chame sua família. Esperarei a próxima”. Posso até almoçar em um fast-food, mas o ritmo hoje haverá de ser slow-food.

Porque é apenas isso que quero: um dia sem pressa.

E, pensando bem, talvez não seja muito difícil realizar esse desejo hoje. É domingo. Não tenho nenhum compromisso marcado. A única razão para ter pressa seria o hábito já adquirido de andar apressado. Seria a pressa um hábito assim tão difícil de vencer? Não sei. É preciso tentar para descobrir.

Sei que bem mais complicado seria tentar isso amanhã, com todos os afazeres que a segunda-feira traz consigo.

Mas… Por que não tentar? De repente, pode valer a pena.

Pois bem. Está feito o desafio. Tentarei ter um dia sem pressa hoje. Conseguindo ou não, amanhã tentarei de novo.


Mundo Cordel
MICROCONTOS

MICROCONTOS

Sim, é verdade. Eu, que já tive receio de publicar meus contos na Internet, por acreditar que escrevia textos longos demais, ando experimentando postar microcontos no Twitter (siga-me em @MarcosMairton).

Para mim, é realmente um desafio contar uma história em 140 caracteres, sendo alguns para o título e a hashtag #MICROCONTO.

Hoje, incentivado pelo colunista fubânico FERNANDO PORTELA, começo a trazer algumas dessas experiências para esta coluna.

O primeiro microconto que postei fala exatamente desse pessoal que atravessa a noite rolando a timeline da rede social de mensagens curtas. Ficou assim:

#MICROCONTO
SOLIDÃO
Seguiu. Curtiu. Retuitou.
Tuitou.
Ninguém seguiu de volta, nem curtiu, nem retuitou.
Esperou o sono, mas nem ele veio.


Mundo Cordel
ASCENDER E ACENDER

100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS_CAPA

Quem conhece o livro 100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS, em cordel, que escrevi em parceria com Geraldo Amancio, sabe que mostramos ali várias palavras de sonoridade parecida, que têm escrita e significados distintos. Por exemplo:

INFLIGIR e INFRINGIR

Como parece esse par.
INFLIGIR é impor castigo,
Pegar pena e aplicar.
Enquanto isso, INFRINGIR
Com certeza é descumprir,
Transgredir, desrespeitar.

INCIPIENTE, com C,

É todo principiante.
INSIPIENTE, com S,
Do primeiro está distante.
Este último INSIPIENTE
Significa imprudente,
Insensato e ignorante.

Hoje, acordei com uma estrofe na cabeça, que poderia ter entrado no livro, mas terá que ficar para uma possível reedição, revisada e ampliada:

ASCENDER e ACENDER

Têm pronúncia similar.
Mas, na forma de escrever,
Vão se diferenciar,
E é preciso distinguir:
Com “sc” é subir,
Com “c” a luz vai brilhar.


Mundo Cordel
UMA VALOROSA OPINIÃO SOBRE A MAIORIDADE PENAL

Abro excepcionalmente o espaço da minha coluna para compartilhar texto do colega AGAPITO MACHADO, Juiz Federal no Ceará.

Mestre Agapito, como o trato no dia-a-dia de trabalho, é o juiz federal mais antigo da 5ª Região, que abrange os Estados do PI, CE, RN, PB, PE, AL e SE. Já podia ser Desembargador no Tribunal Regional Federal da 5ª Região desde o ano passado, promovido por antiguidade, mas por duas vezes recusou a promoção. Professor de Direito Penal e Processo Penal, com várias obras escritas nessas áreas, é um magistrado admirado e respeitado por colegas de trabalho e por alunos.

Não é à toa que o chamo de Mestre, pois se trata de alguém com quem muito já aprendi e continuo aprendendo, mesmo quando discordamos. No caso desse artigo, publicado no Jornal Diário do Nordeste deste domingo, 3 de maio, concordo com seus pontos de vista.

Segue o texto.

* * *

IDADE PENAL INFERIOR A 18 ANOS?

Discute-se, no meio jurídico, a redução da idade penal de 18 para 16 anos, em razão da PEC nº 171, que tramita no Congresso Nacional. Aqueles que são contra dizem que Governo e sociedade não cuidam dos menores; sendo menos de 1% os crimes por eles cometidos, conforme estatísticas “oficiais”; baixando para 16 anos a idade, depois se pretenderia para 14, 12, 10 e, por fim, que se trata de cláusula pétrea, imexível.

Os que são favoráveis afirmam que, em face do avanço tecnológico permitindo a fácil informação nesse mundo globalizado, a partir dos 16 anos de idade o adolescente já tem capacidade de casar, ter filhos, possuir renda própria, trabalhar, votar, dirigir veículos etc.

Com efeito, é o caso de se indagar: porque também à semelhança do rigor dos crimes gravíssimos, não possa o menor ficar internado além de três anos, eis que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao completar 21 anos de idade ganhará a liberdade, e em seguida, cometerá verdadeiros crimes gravíssimos já como maior de 18 anos e daí voltará como adulto para os presídios?.

Somos contra prisão/segregação mesmo para os maiores de 18 anos, nos crimes de mínimo e médio potencial ofensivo, porque os presídios são depósitos de presos ociosos que não são obrigados a trabalhar e não recuperam ninguém.

Todavia, concordamos com a prisão/segregação efetiva para os maiores de 18 anos, mas apenas nos casos de crimes gravíssimos, de verdadeiros animais indomáveis, porque o rigor para eles está determinado na nossa própria Constituição (art.5º XLIII e XLIV – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem; constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático).

Historicamente, no Brasil, a maioridade já foi abaixo de 18 anos: o Código Penal de 1890 (de 9 a 14 anos, o juiz examinava se o garoto agira com discernimento); O Código de 1927 trazia três limites de idade: com 14 anos o infrator era inimputável; de 14 até 16 anos ainda era inimputável, mas se instaurava processo para apurar o fato, com possibilidade de cerceamento de liberdade e, entre 16 e 18 anos de idade, o menor poderia ser considerado responsável, sofrendo pena.

A lei federal 6.69l/79 (antigo Código de Menores) juntamente com o atual Código Penal de l940 e a Constituição de 1988, consideraram a maioridade a partir do 1º minuto do dia em que o menor completa 18 anos.

Vejamos em outros Países, com qual idade existe a responsabilidade penal: com 7 anos (na Austrália, Egito, Kuwait, Suíça, Trindade e Tobago); 8 (Líbia); 9 (Iraque); 10 (Inglaterra e Malásia); 12 (Equador, Israel e Líbano); 13 (Espanha); 14 (Armênia, Áustria, China, Alemanha, Itália, Japão, Haiti e Coréia do Sul); 15 (Dinamarca, Finlândia, Noruega; Índia, Egito, Síria, Honduras, Guatemala, Paraguai, Líbano); 16 (Argentina, Chile, Cuba); 17 (Polônia).

Bem se vê, a criminalidade/prisão é um problema de política criminal de cada País, inclusive, as nações de primeiro mundo, onde há grandes juristas e médicos que sabem avaliar a personalidade dos delinquentes.

O que tem gerado uma sensação de impunidade quanto aos menores delinquentes é o fato de um menor 18 anos de idade cometer ato infracional gravíssimo (matar perversamente alguém, estuprar uma criança levando-a à morte, assaltar matando pessoas etc.) e o que de mais grave lhe ocorrerá será ficar internado (na prática, preso) no máximo por três anos e imediatamente liberado ao completar 21 anos de idade.

Sempre defendemos que não é necessário baixar de 18 para 16 anos a idade penal, bastando uma simples alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente, mera Lei Ordinária, para aumentar o prazo de internação de três para uns oito ou nove anos e, com isso, um menor de 18 anos condenado por ato infracional gravíssimo, possa ficar enclausurado e assim fora da sociedade, como verdadeiro animal, até seus 25 a 30 anos de idade, eis que ele já fica por até três após os 18 anos de idade, tese que vi agora também sustentada por Luiz Flávio Gomes, em recente publicação para quem “o nosso problema, portanto, reside na falta de certeza do castigo.

Essa seria a bandeira correta a ser levantada, fazendo-se um ajuste no ECA para, nos casos de menores assassinos, aumentar o tempo de internação, de três para seis ou oito anos (como acontece em vários países europeus).

Para além desse ajuste legal, a solução da criminalidade exige educação de qualidade em período integral, para todos, prevenção e certeza do castigo previsto na lei. Nada dessas coisas certas fazemos no Brasil.

Teimamos em fazer o errado. Por isso que é insanidade esperar resultados diferentes. Com 150 milhões de analfabetos funcionais ainda vamos demorar muito para alcançar a consciência crítica…”.

Agapito Machado
Juiz federal e professor


Mundo Cordel
AOS CAMPEÕES

Conforme o calendário esportivo do ano, estão definidos os campeões estaduais do futebol brasileiro. Muitos gols, muita festa, muita alegria para torcedores que há anos não viam o seu time ser campeão. E para outros que acumularam anos seguidos de vitórias.

Aqui no Ceará, uma das finais mais emocionantes entre alvinegros e tricolores, com um 2×2 definido nos acréscimos. Melhor para o Fortaleza, que se sagrou campeão estadual, interrompendo uma sequência de quatro anos vencidos pelo Ceará. Ao meu Vozão, restou comemorar o título de Campeão da Copa Nordeste, conquistado em cima do Bahia, na quarta-feira.

Mas, valeu a disputa. Os jogadores de ambos os times foram guerreiros, dignos de nossa admiração e aplauso!

De se lamentar, apenas a conduta de torcedores mal comportados e violentos após o jogo. Não aprenderam – ou esqueceram – a diferença entre adversários e inimigos, talvez insuflados por promotores do esporte, que insistem em estimular uma besteira chamada “rivalidade”, para aumentar o interesse do público.

Invasão do Castelão

A “rivalidade” é insana. No momento em que escrevo, chegam inúmeras mensagens em meus grupos de WhatsApp trocando provocações. Pessoas amigas, que normalmente se tratam com carinho, de repente passam a se tratar com desdém e arrogância. É gozação, eu sei, faz parte da brincadeira, mas fica fácil imaginar o que pode acontecer entre desconhecidos na rua, ainda mais se estiverem em grupo.

Brincadeiras à parte, continuo a ver a tal “rivalidade” sendo estimulada ao longo dos anos, umas vezes às claras, outras vezes de forma dissimulada, intercalada entre pedidos de paz nos estádios. E a violência vem crescendo junto.

Mas hoje, com tantos campeões a comemorar seus títulos, prefiro lhes dar os parabéns e sonhar. Sonhar com o dia em que vencedores e vencidos possam se cumprimentar com respeito, e que as notícias das festas dos campeões do futebol brasileiro não tragam junto manchetes sobre agressões e assassinatos.

Para isso, repito o que já disse outras vezes: é preciso propagar a tolerância; aliás, mais que a tolerância, a compreensão de que as diferenças não devem excluir, mas completar. A realidade não é completa sem a diversidade.

Que os campeões de hoje comemorem, mas reconheçam em seus adversários colaboradores imprescindíveis à sua conquista! É o que desejo. Uma utopia talvez, mas sonhar também faz parte da realidade.

Parabéns, campeões!

Gols de Fortaleza 2 x 2 Ceará

Glos de Ceará 2 x 1 Bahia


Mundo Cordel
EXCESSO DE ASSUNTO

Foi um piscar de olhos, um momento de descuido apenas. Quando fui ver, tinha passado um mês sem publicar nada na minha coluna no Jornal da Besta Fubana. É bem verdade que o Editor não fica me cobrando o envio de novos textos, mas isso acaba sendo pior, porque não sei se ele age assim por generosidade ou porque meus textos não estão fazendo falta.

Para não correr o risco de ouvir uma verdade inconveniente, não me darei ao trabalho de perguntar. Ao contrário, trarei aqui mesmo para a coluna, para compartilhar com meus leitores, a minha angústia por passar alguns dias sem escrever.

Porque, se, para alguns, ter que escrever uma simples carta é motivo de tensão, para mim, é o passar dos dias sem pôr no papel as coisas que passam pela minha mente que incomoda. E a cada dia que passa, mais pensamentos e sentimentos se acumulam e se misturam de tal forma, que começo a apresentar sintomas de irritação, impaciência e até mau humor.

Mas, se é assim – perguntaria o leitor – qual seria a razão de um período de duas, três semanas sem um conto, uma cronicazinha simples ou uma estrofe de sete versos?

Não sei responder. Cada vez que esse fenômeno acontece parece ter causas diferentes. Posso garantir apenas que nunca é por falta de assunto.

Desta vez, aliás, receio que a causa até possa ter sido assunto demais. Nas últimas semanas, li tantas notícias e comentários sobre redução da maioridade penal, Lavajato, impeachment, terceirização, escolha de ministros do STF, e tantas outras coisas, que talvez tenha ficado meio bloqueado.

Pensei em escrever sobre cada um desses temas, mas sempre parava para ler um novo artigo, uma opinião, e acabava não criando nada. Também pensei em trazer algum conto bem desconectado de tudo isso, mas, encontrando todos os dias pessoas com tantas preocupações do mundo real, a ficção também ficou travada.

Bem, acabou a moleza! Talvez eu ainda venha a expor minhas considerações sobre esses assuntos citados, talvez não. O que me importa agora é que acabo de romper esse bloqueio chato que me acometeu nas últimas semanas. Sinto novamente as ideias fluírem da minha mente, transformando-se nesses sinais que nós, humanos, aprendemos a desenhar para nos comunicar.

Palavras, frases, parágrafos! É bom sentir que continuam a se formar a partir dos meus toques no teclado do computador.

E, quer saber? Tenho certeza que, como eu, muita gente tem ficado travada pelo bombardeio de informações sobre esses assuntos do momento.

Então, se não escrevo hoje detalhadamente sobre nenhum deles, pelo menos darei aqui uma ideia do que penso sobre cada um. Quem sabe isso não me servirá de estímulo para os retomar depois?

Dito isto, vamos lá:

Redução da maioridade penal – Sou a favor. Não acho que vá reduzir a criminalidade, nem impedir que adolescentes sigam o caminho do crime. Também não acho que vá ter grande impacto em nossa população carcerária. Apenas entendo que, nos dias de hoje, um jovem de 16 anos tem plenas condições de responder pelos seus atos.

Lavajato – Espero que tenha sérias consequências negativas para muita gente importante, e positivas para o país, mas não acredito que elas ocorram no prazo que a maioria das pessoas gostaria.

Impeachment – Considero mais fácil de montar um fundamento jurídico a partir das pedaladas fiscais que das investigações da Lavajato.

Terceirização – Parece-me um processo irreversível, mas, receio que os trabalhadores saiam perdendo. Em trinta e cinco anos no serviço público, sempre vi os funcionários terceirizados em situação jurídica bem mais frágil que a dos concursados.

Escolha dos ministros do STF – Ótimo que esse assunto entre na pauta de discussão das pessoas. Não imagino que juízes, principalmente dos tribunais superiores, sejam pessoas ideologicamente neutras, mas o processo de escolha, como é feito hoje, expõe as instituições a influências e especulações que as enfraquecem.

Acho que, por hoje, era isso. Boa semana!


Mundo Cordel
SOBRE AMORES E SEMENTES

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Amores mal resolvidos
Nunca morrem totalmente,
Ficam só adormecidos
Dentro da alma da gente.

O seu sono se parece
Com o sono da semente,
Que, guardada, permanece
Em seu estado latente,

Mas basta cobrir de terra
E regar suavemente
Que a longa noite se encerra
E ela acorda novamente.


Mundo Cordel
UM CORDEL PARA O PROGRAMA DE PROTEÇÃO A VÍTIMAS E TESTEMUNHAS

No último dia seis, no evento “Diálogos pela Vida”, promovido pela Secretaria da Justiça e Cidadania do Ceará (SEJUS), em parceria com a Escola Superior do Ministério Público do Estado do Ceará (ESMP), apresentei “O PROVITA em Cordel”.

PROVITA, para quem não sabe, é o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, que funciona nos diversos Estados brasileiros, com apoio federal através da Secretaria de Direitos Humanos. É um programa importantíssimo para o combate à impunidade, porque possibilita a proteção de pessoas que têm importante contribuição a dar à Justiça brasileira. Ao mesmo tempo, beneficia essas pessoas e suas famílias, na medida em que evita que sofram a ação de indivíduos ligados ao crimes e as próprias organizações criminosas.

Acontece que pouca gente sabe sequer que ele existe. Mesmo entre os profissionais do Direito, poucos conhecem seu alcance, benefícios e regras.

Foi pensando nisso que os membros do Conselho Deliberativo do PROVITA no Ceará sugeriram a sua divulgação por meio da Literatura de Cordel, o qual fiquei encarregado de escrever.

Com o texto pronto, o apoio da SEJUS-CE, por meio do Secretário Hélio Leitão foi imediato. O folheto está sendo distribuído com delegados, promotores, entidades de defesa dos Direitos Humanos e outras pessoas interessadas.

Transcrevo aqui apenas os versos iniciais, mas versão eletrônica completa pode ser vista clicando na figura ao final da postagem.

Quando alguém comete um crime,
E por ele é processado,
É por meio do processo,
Que o crime será provado,
Através de documentos,
Perícias, depoimentos,
Para o réu ser condenado.

E, no processo, o juiz
Vai o caso examinar
Reunindo as provas todas,
Para no final julgar
Se esse réu é inocente
Ou se há suficiente
Prova para condenar.

Das provas de um processo
Na Justiça Criminal,
Tem uma considerada
De valor fundamental:
A palavra de quem viu,
Ao fato-crime assistiu,
A prova testemunhal.

Sendo assim, a testemunha,
Quando fala a verdade,
Passa a ter grande valor
Perante a sociedade.
É palavra que tem peso,
Por ela alguém vai ser preso
Ou ser posto em liberdade.

Por isso que a situação
Fica muito complicada,
Quando alguma testemunha
Está sendo ameaçada,
E pensa, nesse momento:
– Se der meu depoimento,
Posso ser assassinada.

CORDEL_PROVITA_CAPA_E_CONTRACAPA

* * *

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem para visitar o site:

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Mundo Cordel
CONFIANÇA

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Outro dia estive refletindo sobre algo que talvez seja um dos principais fatores que têm levado a humanidade a avançar ao longo dos séculos: a confiança. Desde que um homem cercou um animal, para que outro o pudesse abater, ou que alguém ficou de sentinela para permitir que os outros membros do grupo dormissem, a confiança mostrou o seu papel fundamental na arte da colaboração, da cooperação.

É bem verdade que esse tipo de comportamento pode ser visto em outros animais sociais, como chimpanzés, leões ou lobos. Mas, entre nós, pela capacidade de raciocinar e de transmitir o conhecimento, não tenho a menor dúvida de que essa confiança mútua nos permitiu evoluir para o surgimento das trocas de bens, do comércio, das vendas a prazo e das sociedades que resultaram na realização de grandes empresas (empresa, aqui, tanto no sentido de algo a se realizar, como no sentido econômico mesmo).

Enquanto almoçava em um restaurante que costumo frequentar, lembrei que só almoço ali porque confio que o alimento é preparado com higiene, zelo e competência. Paguei com cartão de débito, o que significa que confiei previamente em um banco, que guarda meu dinheiro. O dono do restaurante confia em mim – porque permite que eu me alimente e pague só no final – e no banco, pois aceitou o cartão com sua marca. Aliás, é incrível como confiamos no sistema bancário, encarregado de transferir dinheiro de umas contas para outras através do uso de cartões magnéticos e maquinetas espalhadas pelo mundo!

Pensava sobre essas coisas apenas para consumo próprio, sem pensar em escrever, mas estava assistindo a alguma coisa na TV, quando ouvi a citação de uma frase de Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico, segundo a qual a confiança seria a chave para a prosperidade.

É bom saber que alguém importante pensa como nós. Não lembro em que contexto a frase foi dita, mas a menção a ela me levou a refletir sobre os efeitos nocivos da falta de confiança das pessoas nas instituições de um país.

O que se pode esperar de um país onde a população tem sérias razões para crer que os membros do Congresso Nacional decidem questões de interesse público movidos por negociações obscuras, que envolvem dinheiro, cargos e outras contrapartidas difíceis até de se imaginar? Ou cujos partidos políticos de maior representatividade no Congresso Nacional sejam apontados pela Polícia e pelo Ministério Público como destinatários de quantias milionárias (ou bilionárias, já não sei) desviadas de esquemas de corrupção?

Um país onde as páginas policiais noticiam diariamente o envolvimento ilícito entre grandes empresários, lavadores de dinheiros e políticos? E onde aqueles que se elegem para os mais altos cargos da República demonstram não ter qualquer compromisso com as ideias que defenderam durante a campanha?

O que esperar de um país onde um homem apontado como fenômeno empresarial rapidamente se torna réu em processos criminais por manipulação do mercado de ações? E até o juiz que manda apreender seus bens, para garantir o ressarcimento de prejuízos causados, é flagrado circulando pela cidade em um dos seus carros de luxo!

Qual será o futuro de um país cujo povo não confia, nem tem motivos para confiar, na polícia, na justiça, no governo, nos políticos, nas grandes empresas?

A cada dia, mais confiam em menos. Se a confiança é mesmo fundamental para a prosperidade (e estou convencido que é), o Brasil está no caminho do atraso. Ainda que tenhamos alguns progressos tecnológicos, o que é inevitável, diante dos avanços do planeta como um todo, estaremos sempre gastando nossos esforços no enfrentamento de problemas que poderiam e deveriam ter sido solucionados séculos antes.

Podemos mudar isso?

Acredito que sim, mas a mudança me parece estar muito além da prisão de bandidos disfarçados de empresários e políticos. É um passo importante, sim, mas no máximo um bom começo.

Creio que, para mudar de verdade, precisamos de uma transformação mais profunda, levada a efeito por todos aqueles que acreditam que vale a pena cumprir o que promete, manter a palavra, agir com seriedade. Somente a conduta ética de cada um, nas ações públicas e na vida particular, pode nos conduzir a um futuro mais próspero.

No cenário atual, com tantas denúncias de corrupção, é difícil crer que essa conduta pautada na ética, se difunda (ou viralize, para usar uma linguagem ao gosto dos internautas).

Mas, há que se considerar que os que agem de forma desonesta em geral tentam manter um discurso que os faça parecer éticos. Ou seja, sabem que sua conduta é nefasta. Desmascarados, podem ser neutralizados.

Por isso, se tivesse que apontar um primeiro passo para a superação da crise que assola o país, arriscaria o seguinte: “Restauremos a confiança que temos uns nos outros. Não apenas cobrando dos outros, mas, principalmente, sendo confiáveis. Tendo uma conduta ética perante nossos vizinhos, nossos filhos, nossos colegas de trabalho. E junto aos políticos que elegemos também, por exemplo, enviando emails e mensagens em redes sociais, dizendo como esperamos que se posicionem diante das questões que se apresentarem”.

Penso que as pessoas corretas desse país precisam perder a timidez. Ser mais explícitas, atuantes. Ousadas até.


Mundo Cordel
ENFIM

“Enfim, o carnaval passou!”

Não, eu não tenho nada contra a festa, embora não participe da folia. Queria apenas usar a palavra “enfim”, que está tão na moda e… Enfim, tem muita gente que trabalha na área da comunicação, como jornalistas, publicitários, enfim… Esse pessoal… Enfim… Tem usado a palavra “enfim” com uma frequência absurda e… Enfim, não quero ficar de fora da novidade.

Outro dia, no programa “Em Pauta”, da Globo News, o apresentador informou ter recebido e-mail de um telespectador, reclamando que eles falavam muito “enfim”. Uma das participantes disse, imediatamente, com cara de assustada: “Meu marido fala isso! Diz que eu uso enfim como vírgula!”. E deve ser mesmo. Pelo menos, enfim, durante o programa é.muleta_portugues

Agora, falando sério, o que observo é que o “enfim” tem ganho espaço na linguagem falada, e não na escrita, como uma espécie de apoio. Por um instante, o falante quer dizer alguma coisa, mas, aquela palavra que deveria ser usada foge, esconde-se nas dobras da memória. Para não deixar que um trecho de silêncio interrompa a fala, a pessoa interpõe um “enfim” no lugar da pausa. Os profissionais da oratória talvez classifiquem o vício como uma “muleta da comunicação”.

Claro que isso não traz maiores consequências para a vida diária. Só é chato. Mas, para quem tem atividades profissionais que incluem falar em público, como advogados, professores, radialistas, é algo que precisa ser evitado. É que esse tipo de vício ou muleta, no mínimo, desvia a atenção da mensagem que se está pretendendo transmitir.

E o que tenho a ver com isso? Na verdade, nada. Mas queria escrever uma crônica leve, aproveitando o gancho do carnaval para mudar de assunto, e estava meio que sem assunto.

Opa! “Meio que”? Essa também está em alta, e com o mesmo cheiro de muleta da comunicação. Mas, talvez eu fale disso depois. Por hoje já estou de boa. Fui!


Mundo Cordel
TRINTA E CINCO ANOS

MM E MAE DEZ1979

O colunista, em dezembro de 1979, acompanhado da mãe, dois meses antes de tomar posse em seu primeiro cargo público

Escrevo no dia oito de fevereiro de 2015, quando completo trinta e cinco anos de vida profissional, aí incluídos o tempo de carteira assinada como celetista e os períodos como servidor público e magistrado federal.

Já trabalhava antes, é verdade, ajudando meus pais no pequeno comércio que nos mantinha, mas isso é bem diferente de interagir com pessoas desconhecidas, cumprir horário, assinar ponto, essas coisas.

Além disso, tem o fato de o meu primeiro emprego formal ter sido em uma empresa estatal. Seis meses antes de completar quatorze anos de idade, eu assumia o cargo de “bancário aprendiz”, no Banco do Nordeste do Brasil S/A, aprovado em concurso público, com remuneração de aproximadamente um e meio salário mínimo, além de tíquetes alimentação e uma bolsa de estudos no Colégio Santo Inácio de Fortaleza.

Para mim, era muita coisa. Mesmo porque, a condição de bancário aprendiz era transitória. Depois de um curso de três anos de duração – o Curso de Habilitação Bancária – eu passaria automaticamente à carreira de Escriturário, com um aumento considerável de salário e toda uma carreira pela frente.

E, de fato, era um excelente emprego. Além da boa remuneração, plano de saúde e outras vantagens da época, adquiri ali conhecimentos que têm me servido por todos esses trinta e cinco anos, e sei que me acompanharão pelo resto da vida.

Ao todo, foram dezoito anos no Banco do Nordeste, onde entrei como bancário aprendiz e saí como advogado.

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Termo de posse do colunista no BNB

Aliás, foi o curso de Direito que me abriu o caminho para outras possibilidades. Em 1990, um presidente da República caçador de marajás me serviu de estímulo para terminar a faculdade; com o curso concluído, e já atuando como advogado do banco, um presidente da instituição, de uma gestão, digamos, muito inovadora, me estimulou a fazer concursos públicos para carreiras jurídicas de outros órgãos.

Foi assim que passei pelos cargos de Procurador do Banco Central, Advogado da União e, por fim, Juiz Federal, ofício que exerço desde abril de 2001. E lá se foram outros dezessete anos.

Mas, apesar de haver deixado o BNB em janeiro de 1998 (e passado por outros cargos depois disso), o que me vem a memória agora são fatos relacionados aos meus primeiros passos ali, no princípio de 1980. As salas com ar condicionado, as máquinas de escrever elétricas, as portas que se fechavam automaticamente… Lembro de cada um desses detalhes. E lembro, sobretudo, de vinte e nove amigos que fiz nos três anos que se seguiram.

O leitor pode pular esse parágrafo, se quiser, mas faço questão de registrar aqui nossos trinta nomes, em ordem alfabética. Faço-o de memória, sem esforço. Poderia citá-los pelo nome completo, com a mesma facilidade. Se não o faço, é apenas para economizar espaço: Airton, Alcino (Tibico), Ana Margareth, Antonio Maria, David, Éverton, Fernanda, Francisco Antonio (Tonico), Francisco Elson, Francisco Veronildo, Jacqueline, Jefferson, José Airton Pitombeira, José Wellington, Leovigildo, Luiza, Manzonny, Marcos Mairton, Marcos Tadeu, Maria Jacira, Pascale, Raimundo Nonato, Ricardo Augusto, Ricardo Silveira, Roberto, Tarcisio, Tereza Batista, Tereza Jucá, Viviane e Wladston.

São os meus colegas de concurso, com quem convivi intensamente durante os anos de 1980, 1981 e 1982. Estudávamos juntos no Colégio Santo Inácio de Fortaleza; fazíamos o Curso de Habilitação Bancária, no Centro de Treinamento do BNB; e trabalhávamos juntos, em uma agência ou departamento do banco. Como se isso fosse pouco, sempre nos encontrávamos nos fins de semana, de preferência no BNB Clube de Fortaleza, para jogar futebol e tomar banho de piscina.

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O colunista, em janeiro de 2015, com alguns de seus ex-colegas de BNB. Uma amizade de 35 anos

Havia, é claro, subgrupos, formados pelas afinidades que naturalmente se descobrem, mas era fácil para nós perceber que havia um vínculo forte entre cada uma dessas pessoas cujos nomes citei. Um vínculo tão forte que ainda hoje costumamos nos reunir, só pelo prazer do reencontro.

E é sempre uma grande alegria rever cada um desses amigos para sempre. Fiz grandes amizades depois disso, e, felizmente, continuo fazendo novos amigos até hoje. Mas, nada se compara à cumplicidade nascida naqueles tempos adolescentes, quando cada um de nós descobria a vida, compartilhando alegrias, tristezas, preocupações e tantas ideias e emoções.

Escrevo hoje, portanto, celebrando trinta e cinco anos de vida profissional, com a alegria de nunca ter passado um único dia desempregado, e o orgulho de ter ingressado pela via do concurso público em todos os cargos que ocupei.

Mas também celebro, com mais alegria ainda, trinta e cinco anos de algumas das amizades mais valiosas com as quais posso contar até hoje.


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RATOS

Cheguei ao prédio onde moro dirigindo meu carro. Desci à garagem no subsolo e estacionei, mas não saí imediatamente. Fiquei parado, sem iniciativa, como quem esquece momentaneamente o que está fazendo e precisa de um tempo para arrumar as ideias.

No rádio tocava uma uma música qualquer. Eu percebia a música, mas ela não significava nada de especial. Na verdade, nada em especial prendia minha atenção. Mas também não era o caso de estar distraído. Ao contrário, eu me sentia atento a tudo. Prestava atenção a tudo o que estivesse ao alcance da minha visão.garagem_subsolo2

Foi então que notei as coisas misturando-se umas às outras, embora não perdessem a nitidez. Os outros carros, as colunas do prédio, as tubulações percorrendo o teto, as lâmpadas – umas acesas, outras apagadas – o carrinho de supermercado junto ao elevador, tudo estava de alguma forma interligado. Tudo estava em tudo e todas as coisas faziam parte de um todo, embora conservassem sua individualidade. Era possível perceber cada uma delas, mas não havia um limite que separasse a parede ao fundo da garagem do painel do meu carro.

Comecei a sentir como se eu mesmo não fosse apenas um observador das coisas, mas parte delas. Pelo portão da garagem foi possível ver um cachorro vira-latas passar na calçada. E ele parecia tão perto, tão unido a mim, que eu sentia suas patas pisando na minha pele e a aspereza da calçada sob meus pés. Eu era o cachorro e era a calçada. E era eu mesmo.

Eu tinha consciência que não havia saído do meu carro, mas via toda a extensão da calçada, a rua, os carros que passavam lá fora, as nuvens no céu e os galhos das árvores agitados pelo vento. Não havia à frente, dos lados ou atrás. Nem acima, nem abaixo. Não era necessário girar a cabeça ou mover os olhos para ver em todas as direções.

Um ônibus passava na rua, e era curioso perceber que eu o via de frente, a se aproximar, e, enquanto isso, o via por trás, a se distanciar. É estranho escrever sobre isso agora, porque preciso dizer uma coisa de cada vez, em sequência. Na verdade, não era assim que elas aconteciam. Era tudo ao mesmo tempo. Acho que não havia o tempo.

Tento lembrar em que eu pensava naquele momento, mas não sei pensava. Minha mente parecia totalmente ocupada em perceber tudo aquilo, uma sensação que para mim era desconhecida.

Mas restava, sim, algum espaço na minha mente. Foi nele que surgiu uma vaga lembrança do motivo que me levou a ir para casa naquela ocasião: um boleto bancário. Eu havia saído para trabalhar e esquecera de levar aquele boleto para pagar. Por isso voltei. E bastou que essa memória surgisse, para que a imagem do boleto crescesse e trouxesse com ela os outros boletos ainda por serem pagos naquele mês. Surgiram imagens de páginas da minha agenda, com compromissos anotados, e dos emails por responder, na tela do meu computador.

À medida que minha mente era invadida por essas memórias, elas tomavam o lugar das coisas reais que há pouco estavam ao meu redor. O cachorro, as nuvens, o ônibus, tudo sumia. E essas coisas sumiam uma após a outra, em sequência. O tempo havia voltado.

E a avalanche de memórias prosseguiu, até preencher o espaço de tal forma que não vi mais nada. Instintivamente, fechei os olhos. Depois, os fui abrindo lentamente, e vi que continuava sentado ao volante do meu carro.

Tudo havia voltado ao normal. Ou quase tudo. Um rato enorme estava parado alguns metros à minha frente, e olhava na minha direção. Não apenas olhava na minha direção, olhava diretamente para os meus olhos. Encarava-me.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ele deu meia volta e afastou-se calmamente, sumindo por entres as sombras dos outros carros.

Não sabia que havia ratos daquele tamanho na garagem do meu prédio.


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CONVERSA DE WHATSAPP

As novas tecnologias da comunicação podem até trazer algum prejuízo para o uso tradicional da linguagem. Mas, é preciso reconhecer que elas geram situações que só podem ser narradas através delas mesmas.

Por exemplo, a história a seguir. Não consegui imaginar maneira melhor de contá-la.

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JE SUIS CHARLIE

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AS METAS PARA O ANO QUE VEM

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Apesar de não dar muita importância a essas festividades de final de ano, reconheço o valor da organização da vida em períodos correspondentes ao ciclo da Terra ao redor do Sol. Dizem até que Drummond reconheceu a genialidade de quem dividiu o tempo nessas fatias chamadas anos.

Concordo com o poeta, embora não acredite que esse fatiamento tenha sido resultado da genialidade de um (acho que nem ele). Imagino ser mais provável que o ser humano aos poucos tenha percebido as mudanças do clima, as estações, o efeito delas sobre o comportamento das plantas e dos animais que serviam para o seu sustento. Logo passou a programar suas ações a partir desse conhecimento. Daí a esquematizar tudo isso e dar nomes às coisas foi um passo. Sempre fomos bons nisso.

De qualquer maneira, já que se convencionou que o ano termina em dezembro – e não em março ou agosto, por exemplo – esse é um bom momento para reavaliar as atitudes, reorganizar os projetos, eliminar alguns costumes prejudiciais e buscar outros que pareçam benéficos.

Algumas pessoas levam meio na brincadeira essa história de anotar as metas para o ano que começa, mas, se empresas e governos fazem isso, por que não cada um de nós? Acho que vale a pena, sim, fixar metas pessoais. Faço isso há anos e gosto do estímulo que essa prática me dá. Tenho percebido que algumas metas consigo atingir logo no primeiro ano. Outras se repetem, ano após ano, sem qualquer resultado digno de comemoração, até que a montanha começa a se mover.

Há outras metas ainda que simplesmente abandono, porque as deixo de considerar como interessantes de serem seguidas. Isso não é problema. Problema é tirar da lista uma meta, pela dificuldade de alcançá-la. Mesmo agora, enquanto escrevo, evito usar a expressão “desistir de uma meta por ser ela inatingível”.

Como é difícil aceitar as próprias limitações! E, no entanto, às vezes a sabedoria está em reconhecer isso! Escrevi certa vez que qualquer um gosta de se reconhecer como uma pessoa determinada (Sobre as virtudes). Difícil é a gente saber quando deixou de ser determinado e passou a ser teimoso .

No filme “Menina de Ouro”, o treinador Frankie – interpretado por Clint Eastwood – diz a certa altura que todo boxeador é teimoso; “se você conseguir tirar isso deles, é porque não são boxeadores”. Minha prática do boxe sempre foi meramente recreativa, mas acho que nesse quesito, da teimosia, tenho estado bem servido. Por isso, repetirei para 2015 todas as metas não alcançadas em 2014 e acrescentarei outras novas.

O conteúdo dessas metas é segredo. Compartilho aqui apenas uma, que é a de continuar escrevendo regularmente para esta coluna. Procurando variar tanto o conteúdo quanto a forma, de modo a justificar o título “Contos, Crônicas e Cordéis” e merecer a atenção dos leitores.

Agradeço-lhes pela participação em 2014 e desejo um 2015 com muita determinação e pouca teimosia!


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NÃO SEI E NÃO QUERO SABER

Admito que um brasileiro não tenha interesse em saber nada sobre Operação Lava Jato, corrupção na Petrobras e coisas assim. A pessoa pode estar totalmente voltada para questões espirituais, ter assuntos pessoais urgentes no momento ou simplesmente achar as notícias demasiado complexas ou monótonas. Quem sabe da vida de cada um?

O que me parece estranho é ver pessoas reconhecidamente interessadas nas atualidades políticas e econômicas do país demonstrando má vontade no esclarecimento dos fatos sobre aquela que até pouco tempo era a maior empresa do Brasil.nao-quero-ver

Ontem à noite, por exemplo, logo após a exibição da entrevista de Venina Velosa no Fantástico, na Rede Globo, muitas pessoas que sigo no Twitter apressaram-se em desqualificar as revelações feitas pela entrevistada.

Imagino que tal comportamento esteja relacionado com o fato de o caso incluir a suspeita de que os recursos desviados da empresa tenham ido parar nas contas de políticos e seus partidos. Nessa linha de raciocínio, a pessoa filiada ou simpatizante de algum partido envolvido estaria propensa a reagir negando os fatos ou o liame entre os fatos e o seu partido.

Seria uma reação razoável? Nem tanto. Pelo menos não me parece.

Primeiro, porque se chegou a um ponto no qual é muito difícil – para não dizer impossível – negar os fatos. Afinal, segundo amplamente noticiado, já existem ações penais em andamento, com acusações formuladas pelo Ministério Público Federal e aceitas pela Justiça Federal em relação a trinta e nove pessoas. Dentre as pessoas investigadas, que formam quantidade bem maior, pelo menos doze já fizeram acordos de delação premiada, sendo certo que, para fazer tal acordo, admitiram os fatos como verdadeiros e apontaram seus autores, ou pelo menos alguns deles. Além disso, há as investigações e até confissões no exterior, como o caso da empresa holandesa que admitiu ter pago propina.

Diante de tudo isso, pode-se dizer, em linguagem jurídico-criminal, que não há dúvida quanto à materialidade dos crimes que vêm sendo cometidos na gestão da Petrobras. Resta discutir a autoria desses crimes.

É por causa de tudo o que ainda se precisa apurar sobre a autoria que volto à pergunta antes feita: é razoável que um militante negue peremptoriamente a participação de membros do seu partido em atos criminosos? Acredito realmente que não. Segundo penso, o militante, o filiado, o simpatizante de um partido, deveriam ser as pessoas mais interessadas na identificação de membros da agremiação envolvidos em fatos delituosos.

Refiro-me, obviamente, ao militante, o filiado ou o simpatizante que acredita que o partido é um legítimo instrumento por meio do qual as pessoas se agrupam em torno de uma ideologia para participar democraticamente do poder político. Quem se filia a um partido político com essa noção certamente tem interesse em identificar e expulsar membros do partido envolvidos com corrupção.

Advirto o leitor de que não pretendo ser romântico, idealista ou utópico, mas apenas parto do pressuposto de que não se fundam partidos com o objetivo de praticar crimes, porque pensar de outra forma equivaleria a desistir da democracia, coisa que não pretendo fazer.

Prefiro crer que os partidos são criados com objetivos nobres e, se são contaminados pela corrupção, é porque, como já disse alguém ilustre, o poder tende a corromper os homens. Assim, digo eu, quanto mais poder, mais os sistemas anticorrupção precisam funcionar. E, se não funcionam preventivamente, evitando que o ato de corrupção aconteça, é necessário que funcionem corretivamente, por meio de punições.

Creio, portanto, que todo esse movimento gerado pela operação Lava Jato – e que tende a aumentar, à medida que as ações judiciais avancem – possa trazer consequências favoráveis, para a política, para as instituições brasileiras e até para a Petrobras, na medida em que velhas práticas escusas sejam substituídas por ações fundadas na ética.

Para isso, porém, é preciso que as pessoas de bem manifestem-se favoráveis às investigações e à punição dos culpados. Hoje, muitos se dizem a favor do aprofundamento das investigações, e consequentes punições, no entanto, não perdem uma oportunidade para tentar desqualificar o trabalho da Polícia Federal e dos procuradores, ou levantar suspeitas sobre o juiz que cuida do caso. Se aparece uma testemunha chave, como a funcionária da Petrobras entrevistada ontem, minimizam as informações reveladas e superestimam aspectos pessoais que diminuam o valor de seu depoimento, como vi acontecer ontem no Twitter.

Diante de tal constatação, volto a perguntar: para um simples simpatizante do partido A ou do partido B, eleitor do político X ou do político Y, sem qualquer envolvimento pessoal com o caso, qual a razão para fechar os olhos para as acusações feitas a esse partido ou a esse político?

Conheço pessoas que responderiam sem titubear: “Sou favorável à prisão e à expulsão de qualquer membro do meu partido que tenha praticado corrupção. Só não posso é levar a sério essa caça às bruxas, com as pessoas sendo condenadas sem qualquer direito de defesa”.

Tenho por hábito respeitar pontos de vista diversos, mas acho que, se é cedo para condenações nesse caso da Petrobras, é cedo também para absolvições sumárias. Para os que acreditam em um Brasil melhor, acho que interessa a busca da verdade e não a postura do “não sei e nem quero saber”.


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CLÁSSICOS CEARENSES RECONTADOS EM CORDEL

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Os autores no palco do auditório da Bienal

Terça-feira passada, 9 de dezembro, participei de uma festa bonita. Muito bonita. Aconteceu na XI Bienal Internacional do Livro do Ceará.

Foi o lançamento da Coleção Clássicos Cearenses recontados em Cordel, uma iniciativa da Associação do Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDM-CE), patrocinada pelo Governo do Estado do Ceará, através do IV Edital Mecenas do Ceará e com apoio cultural da COELCE. Segundo vi depois no Jornal O POVO, estiveram ali 1.500 estudantes, contemplados com dez clássicos da literatura cearense recontados através da Literatura de Cordel.

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“A divorciada”, de Francisca Clotilde, recontada por este colunista

As obras e autores foram: “Luzia Homem”, de Domingos Olímpio, recontado por Arievaldo Viana; “O caixeiro”, de Rodolfo Teófilo, recontado por Rouxinol do Rinaré; “A normalista”, de Adolfo Caminha, recontado por Stélio Torquato; “O cabeleira”, de Franklin Távora, recontado por Paiva Neves; “Dona Guidinha do poço”, de Oliveira Paiva, recontado por Serra Azul; “O Simas”, de Papi Júnior, recontado por Fernando Paixão; “Iracema”, de José de Alencar, recontado por Gadelha do Cordel; “Marialva, o sertanejo e o patuá”, de Gustavo Barroso, recontado por Evaristo de Castro; “Aves de arribação”, de Antonio Sales, recontado por Godofredo Solon; e “A divorciada”, de Francisca Clotilde, recontada por mim, Marcos Mairton.

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O colunista com seus leitores

A coordenadora do editorial do projeto foi a escritora e poeta Arlene Holanda que, aliás, foi quem ilustrou todas as obras.

Bonita a festa e bonita a iniciativa da APDM-CE, que, de uma só vez, amplia o alcance da Literatura de Cordel, dá oportunidade aos autores desse gênero literário e proporciona aos jovens o contato com grandes obras da literatura cearense. Cada livro contém uma apresentação do contexto histórico, político e social da obra, um convite à leitura, não apenas da obra recontada, mas também do original em prosa. Na apresentação, isto foi várias vezes destacado.

Para completar o sucesso do lançamento, atores e atrizes de teatro fizeram a leitura de trechos das obras para uma platéia atenta e ávida por um cultura que nem sempre está à disposição.

Os autores também compareceram ao palco e autografaram suas obras.


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A LUA ENCIUMADA

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GRANDE OTELO E O NÓ DA GRAVATA

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Escrever pela manhã é algo que raramente faço. Mas, foram exatamente alguns fatos fora da rotina, e uma coincidência, que me fizeram escrever este texto, nesta manhã do dia 26 de novembro de 2014.

Veja só, caro leitor. Em uma quarta-feira, normalmente acordo pelas seis e meia da manhã. Saio às sete, deixo os meninos no colégio, e, de lá, sigo para uma pracinha perto de casa ou para a Avenida Beira Mar, onde corro durante uns trinta a quarenta minutos. Depois, volto para casa, para começar o dia propriamente dito.

Hoje, não sei por qual razão, acordei um pouco mais cedo que o horário de costume, uns quinze minutos antes das seis. Acontece que as aulas deste ano letivo terminaram sexta-feira passada. Sem ter quem levar à escola, deixei-me vencer pela preguiça, e continuei deitado.

Voltar a dormir não me pareceu uma boa opção, então liguei a TV – afastando-me mais uma vez da minha rotina, já que nunca vejo televisão tão cedo – e observei que havia gravado, na noite anterior, o filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, exibido pelo Canal Brasil.

Comecei a ver o filme, e foi aí que apareceu Grande Otelo. Passados menos de dez minutos da trama, logo após uma cena na qual Lúcio Flávio e seus comparsas assaltam um banco, dois investigadores chegam a um bar, perguntando por ele. No dito bar, está o personagem interpretado por Grande Otelo, um pobre diabo que acaba sendo maltratado pelos policiais.

Interessante rever um filme assim, ambientado nos anos sessenta, e perceber como tanta coisa mudou nesses últimos quarenta anos. É tão pouco tempo e, no entanto, os carros, as roupas, o comportamento das pessoas, tudo é muito diferente. Os peitos da atriz que aparece na cama com Lúcio Flávio (Reginaldo Farias) não têm silicone, o banco que eles assaltam não tem porta giratória nem computadores…

Embora que, na verdade, essas reflexões só me vieram à mente depois, quando comecei a escrever. Na hora em que estava vendo o filme, a aparição de Grande Otelo me levou a outro ponto do passado, precisamente o ano de 1979, quando, pela primeira vez, dei um nó em uma gravata.

“Como assim?”, perguntará o leitor que tenha chegado a este ponto. Respondo. No ano de 1979, Grande Otelo fazia parte do elenco da novela “Feijão Maravilha”, na Rede Globo. Em um dos capítulos, houve uma cena na qual ele dava um nó na própria gravata, enquanto conversava com alguém. E, como ele falava e dava o nó ao mesmo tempo, acabava movendo as mãos muito lentamente, o que permitiu que eu observasse os movimentos que fazia para ajustar a gravata ao pescoço.

Terminada a cena, fui ao guarda-roupa onde meu pai guardava o único paletó e a única gravata que possuía. Peguei a gravata e, olhando-me no espelho, repeti os movimentos que Grande Otelo acabara de fazer. Tinha eu, então, treze anos de idade, e dei o primeiro nó de gravata da minha vida. Naquele dia, desfiz o nó e o refiz várias vezes, até ter certeza de que havia aprendido para não mais esquecer.

Não, eu não imaginava que, no futuro, o uso do paletó viesse a fazer parte da minha rotina diária. Nem tampouco que dar meus próprios nós nas minhas gravatas viesse a ter alguma utilidade. Eu simplesmente me interessei pelo que o ator estava fazendo e resolvi imitar.

Mas, o fato é que, hoje, mais de trinta anos depois, quase todos os dias ponho-me diante do espelho e repito aqueles mesmos movimentos, ajustando a gravata, antes de sair para o trabalho.

Ao ver Grande Otelo no filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, essas memórias voltaram, e me veio a curiosidade de consultar a Wikipédia, para ver há quanto tempo o ator faleceu. Descobri, surpreso, que sua morte aconteceu exatamente em um dia 26 de novembro, como hoje. Foi no ano de 1993, de forma que, como diria meu amigo Luiz Berto, completam hoje exatos vinte e um anos desde que Grande Otelo se encantou.

Diante de tal coincidência, só me restou escrever este texto, para registrar o fato, e, aproveitando a ocasião, fazer um justo agradecimento:

– Grande Otelo, muito obrigado por tudo o que fez pela dramaturgia no Brasil. Mas, muito obrigado, sobretudo, por haver me ensinado a dar nó em gravata!


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CEO

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Vi a sigla pela primeira vez em um site de relacionamentos profissionais, mas não dei muita importância. Até que assisti à entrevista de um rapaz em um telejornal, e, abaixo do seu nome, estava lá: CEO da ONG tal. Aí, as três letrinhas já me chamaram mais a atenção.

Naquele mesmo dia, procurava alguma novidade no Twitter, quando me deparei com a seguinte manchete, no Jornal O Globo: “Jovens americanos preferem empreender a virar CEOs, revela pesquisa“.

Não tive dúvida. Tratava-se de uma nova palavra (pelo menos para mim) ganhando espaço em nosso vocabulário. Pelo fato de a notícia do jornal se referir a jovens americanos, provavelmente uma palavra vinda do inglês. Não que eu seja contra neologismos ou estrangeirismos. Apenas me intriga a mania que temos de adaptar termos estrangeiros para dizer coisas que já dizíamos facilmente usando nossas próprias palavras.

Bem, talvez não fosse nada disso. Decidi procurar no Google o significado de CEO, antes de fazer qualquer juízo de valor.

Não tive dificuldade. A busca me levou ao site significados.com.br, onde está escrito o seguinte: “CEO é a sigla inglesa de Chief Executive Officer, que significa Diretor Executivo em Português. CEO é a pessoa com maior autoridade na hierarquia operacional de uma organização. É o responsável pelas estratégias e pela visão da empresa”.

Bingo! Minha suspeita se confirmava. CEO, o cara que comanda o operacional da empresa. O diretor executivo, diz a explicação. Dependendo do negócio, pode ser só um gerente, penso eu… É bem verdade que, ainda segundo o site Significados, nem toda empresa precisa de um CEO, sendo tal função “mais utilizada em grandes empresas multinacionais, onde é necessário uma pessoa com habilidade e competência para estar à frente da organização como um todo”.

Mas, por aqui, já sei que não será bem assim. Voltei ao site de relacionamentos profissionais que citei no começo, e vi dono de microempresa (com dois empregados) registrado como CEO da dita cuja. Não me surpreenderei se amanhã for reclamar de um sanduíche na lanchonete da esquina e o balconista disser: – O senhor aguarde que vou tá chamando o CEO.

Quer saber? Deixa pra lá. Se resolveram chamar diretor executivo, gerente e bodegueiro de CEO, vão chamar de qualquer jeito. Dizer que isso é uma bobagem não vai adiantar nada, até porque, não faltarão interessados em se apresentar como CEO disso, CEO daquilo. A palavrinha de três letras logo se juntará a outras expressões como “agregar valor”, “impactar” e “expertise”, enriquecendo (ou empobrecendo, depende do ponto de vista) um pouco mais nossa querida Língua Portuguesa.

Fico por aqui. Pelo menos me serviu para escrever essa crônica.


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NAS ONDAS DA LEITURA: UM LIVRO É UM FILHO

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Faz uma semana que estive em Mossoró, vivendo uma das grandes emoções da minha vida. Foi no dia 10.11.2014. A Editora IMEPH, que edita meu livro “Uma Aventura na Amazônia”, promoveu um encontro entre autores e leitores, apresentando cinco de seus escritores a algo em torno de 2.000 estudantes, que tiveram acesso aos seus livros por meio do Projeto Ondas da Leitura.

Junto comigo estavam Amélia Albuquerque, Antonio Francisco, Crispiniano Neto e João Collares.

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Autografamos, tiramos fotografias, respondemos a todo tipo de pergunta. Uma bela festa, no Teatro Dix-Huit Rosado, com muita música, declamação, teatro e dança.

Parabéns, Lucinda Marques, e toda equipe da IMEPH, pela grande festa!

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No palco, tive ainda um tempinho para apresentar cantando trechos do galope e do meio galope à beira mar que fiz certa vez para homenagear o meu primeiro livro, “Uma sentença, uma aventura e uma vergonha”.

Os versos são esses:

Um livro é um filho que a gente cria
Educa e prepara, com todo carinho,
Mas, quando ele cresce, é que nem passarinho
E voa pra longe como eu fia um dia.
Mas, sempre é motivo da nossa alegria
Saber que, distante, em outro lugar,
O sucesso dele vem nos orgulhar.
Assim, não podendo voar o seu voo,
Meu livro, meu filho, pra sempre abençoo,
Cantando galope na beira do mar.

Vai filho querido
Cumprir tua missão
Na educação
Tu foste nutrido.
Estou convencido
Que tu vais brilhar,
Tu vais a voar
Por ti fico orando,
E vou galopando
Na beira do mar.

* * *

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem para visitar o site:

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CONTO JURÍDICO(*): CARTA PRECATÓRIA, DESACATO, RESISTÊNCIA E A VERSÃO DO ACUSADO

(*) Classifico como jurídicos os contos cujo núcleo da narrativa aborda questões relacionadas ao Direito e, além disso, apresentam ou explicam ao leitor não versado na Ciência Jurídica o significado de institutos, termos e expressões utilizados por juristas.

Balança da Justiça

Em linhas gerais, carta precatória é uma ferramenta processual por meio da qual um juiz faz um pedido a outro. Por exemplo, ouvir uma testemunha que mora em outra comarca. O juiz (chamado deprecante) envia a carta ao outro juiz (chamado deprecado), pedindo que este tome o depoimento. Atendido o pedido, o termo ou a gravação das declarações do depoente é remetido ao juízo de origem, para ser anexado aos autos do processo.

Com o avanço da tecnologia, as cartas precatórias vêm caindo em desuso. No caso de depoimentos de testemunhas e interrogatórios de acusados, a ampla maioria dos juízes tem preferido o sistema de videoconferência, regulado no Código de Processo Penal, a partir de 2009, e incentivado pelo Conselho Nacional de Justiça, a partir de de 2010.

Apesar dessa modernização, as cartas precatórias ainda resistem. Foi em cumprimento a uma delas que, atendendo ao pedido do juiz de uma Vara Federal do interior do Paraná, realizei, em Fortaleza, o interrogatório de um homem processado criminalmente naquele Estado. Foi assim que tomei conhecimento do caso aqui tratado.

O acusado era cearense. Depois de haver morado em algumas cidades da região sul, tinha voltado recentemente ao Ceará. Na época dos fatos tinha cinquenta anos, mas no dia da audiência já estava com cinquenta e dois. A avançada calvície e a barriga um tanto saliente, davam a impressão de ser mais velho.

A vítima, um oficial de justiça, teria se deslocado à residência do acusado para o citar em uma ação de cobrança de tributos federais; uma execução fiscal, em linguagem jurídica. Mas a visita do servidor teria despertando no réu duas formas de agressividade. Moral, porque teria chamado o oficial de justiça de “cachorro” e de “filho de puta”. Física, porque teria proferido os impropérios no mesmo instante em que empunhava um facão, chegando a afirmar que iria matar o meirinho. O relato de um vizinho, noticiava que o homem teria saído portão afora com o instrumento perfuro-cortante em riste. Entretanto, não teria chegado a haver risco real para o oficial de justiça, que havia se evadido em desabalada carreira, antes que o acusado se desvencilhasse do portão da própria casa.

Fossem tais atos praticados contra uma pessoa do povo, seu enquadramento certamente seguiria os artigos 140 e 147 do Código Penal, ou seja, injúria e ameaça, mas, em se tratando de oficial de justiça, no cumprimento do seu dever, pareceu-me adequada a tipificação nos artigos 331 (Desacato: desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dele) e 329 (Resistência: opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio).

Iniciada a audiência, fiz pausadamente a leitura da denúncia, com o deliberado intuito de observar as reações que o réu teria ao ouvir as acusações que lhe eram imputadas. A linguagem corporal dos réus sempre me interessa.

À medida que a narrativa se desenvolvia, o acusado olhava fixamente para o centro da mesa de audiência, como se houvesse ali um monitor de vídeo, onde os acontecimentos eram exibidos. De vez em quando mexia um pouco a cabeça negativamente ou apoiava o queixo em uma das mãos.

Terminada a leitura, e cientificado o réu do seu direito constitucional de permanecer em silêncio, fiz a pergunta cujo peso só os réus conhecem:

– É verdadeira a acusação?

– Não, excelência. Não é verdade, não – respondeu ele com segurança e até serenidade.

– Então, o senhor não reconhece ter praticado esses crimes?

– Reconheço não, excelência.

– Se é assim, a qual razão o senhor atribui o fato de estar sendo acusado? Ou seja, se os fatos descritos na denúncia não aconteceram, o senhor está sendo acusado por qual motivo?

– Doutor, aconteceu… Mas foi diferente… Eu posso contar pro senhor como foi tudo?

– Claro!

O homem tomou fôlego, como quem se prepara para contar uma história longa, e começou falando pausado:

– Pois foi o seguinte, excelência. Eu tinha mesmo essa conta com a Receita Federal, e sabia que a qualquer hora ia ser executado. Isso eu não nego. Acontece que, no dia em que o oficial de justiça foi lá em casa, ele chegou bem na hora que eu tava podando umas plantas. Minha casa ficava em um terreno grande e tinha umas árvores lá. A casa era recuada, ficava quase uns trinta metros pra dentro do terreno. Eu tinha subido numa escada, de pés descalços, e tava com o facão na mão, cortando uns galhos, quando a moça que trabalhava pra mim me chamou, dizendo que o rapaz da Justiça queria que assinasse um papel do juiz. Eu desci e fui no rumo do portão, que era gradeado. Dava pra gente ver quem passava na rua. E da rua dava pra ver lá dentro também, isso é lógico… Eu não vou negar pro senhor, doutor, que eu não gostei quando ela me chamou, porque eu tava no meio do serviço, e a escada balançava muito pra subir ou pra descer. Mas, eu só tive raiva mesmo, doutor, foi quando eu pisei… Doutor, eu criava um cachorro lá, um cachorro grande, mas que não servia pra nada. Qualquer desconhecido que chegasse, ele ia logo balançando o rabo. O bicho só fazia muito era cavar buraco no chão. Cavava cada buraco, que cabia uma pessoa dentro… Pois, doutor, do jeito que eu tava indo, de pés decalços, já nervoso, por causa da escada mole e desse papel da Justiça pra assinar… Doutor, eu atolei o pé numa ruma de bosta desse cachorro, doutor… Desculpe a má palavra, doutor, mas aquilo é um exagero, um cachorro dar uma cagada daquelas, que o meu pé afundou todinho e o mau-cheiro subiu logo… Nessa hora, doutor, eu olhei lá pro portão, e o cachorro tava lá, com aquela cara de safado, como quem tivesse rindo de mim, porque eu pisei na bosta dele!… Foi aí, doutor, que eu gritei “Cachorro, fela da puta! Se eu te pegar, eu te mato!”. Eu lembro até que eu quis apressar o passo no rumo do cachorro, mas escorreguei na bosta. Quase que eu caio. Aí foi que eu tive raiva mesmo e ainda disse “Fica aí, fela da puta, pra ver se eu não te lasco em dois!”.

A essa altura, a fala mansa e pausada do começo já havia sido substituída por um timbre alto, porém, sem fôlego, com inspirações curtas e fora de ritmo.

– O senhor disse isso com o seu cachorro? – interrompi, forçando uma pausa, na tentativa de que ele voltasse a respirar entre as frases.

– Foi, excelência! Eu disse isso com o cachorro! E, eu digo pro senhor, que, nessa hora, eu até levantei o facão, como se eu fosse dar nele. Aí o rapaz, que tava do lado de fora do portão, o oficial de justiça, deve ter pensado que era com ele, e correu. Eu vi ele correr, e ainda tentei correr atrás, mas foi pra tentar explicar essa situação. Só que, eu não sei se o senhor sabe, correr com merda entre os dedos dos pés é um atraso danado. Quando eu consegui sair na rua, ele já ia longe…

– O medo, certamente, fez com ele corresse muito também, não?

– Eu acho que sim, né doutor? – concordou, voltando à voz baixa e pausada do começo – Porque, depois, pensando bem, eu entendi que o rapaz tinha razão de se assustar mesmo… Mas, eu sei, dentro do meu coração, que eu não disse aquilo com dele…

– E nem tinha intenção de agredir o rapaz com o facão?…

– Deus me livre, doutor…

E o interrogatório ficou mais ou menos nisso. Eu e o procurador da República ainda fizemos algumas perguntas, mas foram sobre detalhes que pouco ou nada acrescentam à história que hoje me volta à memória.

Se a versão do acusado era verdadeira ou falsa? Não sei. Acho que nunca saberei. Depois de tudo assinado e autuado, mandei remeter a carta precatória de volta para o colega do Paraná. Caberia a ele decidir se a vítima das agressões verbais e das ameaças do acusado era mesmo o oficial de justiça ou o cachorro.


Mundo Cordel
QUEM SOU? O QUE SOU?

MM_SOL

Se sinto raiva, o coração acelera, a saliva seca, os músculos se contraem. Mas não sou a raiva. Ela sequer faz parte de mim. Descoberta, recua.

Se sinto medo, o diafragma se contrai, a respiração encurta. Mas não sou o medo. Ele nem chega a fazer parte de mim. Surpreendido, foge.

A dor física incomoda. Dependendo da intensidade, paralisa. Mas não sou a dor. Ela sequer faz parte do meu corpo. Identificada, perde força.

A alegria descontrai, faz sorrir. Mas não sou a alegria. Ela é uma presença agradável, mas não é parte de mim. Percebida, perde a graça.

Não sou nada do que sinto ou percebo. Nem raiva, nem medo, nem dor, nem alegria. Todas essas coisas estão fora de mim.

Sigo sem saber o que sou, pois só vejo as coisas que estão fora de mim. A mim mesmo não vejo. Existo, mas não me conheço.

Publicado antes no Twitter, obviamente que em partes de até 140 caracteres, que tentam fazer algum sentido isoladamente.


Mundo Cordel
NADA ACONTECEU NAQUELA TARDE

PRACA_ALIMENTACAO

Naquela tarde de sábado, muitas coisas poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. A vida é assim mesmo. Há dias nos quais muitas coisas acontecem, enquanto em outros tudo permanece quieto. Pela manhã, uma grande movimentação; à tarde, nada acontece.

Ou melhor, até acontecem fatos rotineiros, mas nada que mude o estado das coisas. Na praça de alimentação daquele shopping, pode-se dizer que, do meio-dia às dezoito horas, nada aconteceu. Nada além do transitar normal das pessoas em seus afazeres típicos do local e do horário.

Alberto sabia o que poderia acontecer ali. Na verdade, não apenas sabia, mas tinha nas mãos a possibilidade de fazer as coisas acontecerem ou não. Havia preparado tudo nos últimos dias e em parte da manhã daquele sábado. Perto do meio-dia, quando Rita chegou à lanchonete onde trabalhava, ele já a esperava e, entre as primeiras frases da conversa, disse-lhe:

– Trate de sair logo desse emprego. Se você continuar, vai estragar a sua vida e a minha!

Rita não ficou propriamente surpresa com o ultimato. Desde que começara a trabalhar ali, o namorado a pressionava a deixar o emprego. Alberto era muito ciumento. Para ele, a lanchonete na qual ela estava trabalhando era uma ameaça constante. Frequentada por muitos jovens, era um ambiente mais que propício para o assédio.

A moça não cedia às pressões. Dizia que estavam em pleno século XXI e a mulher tinha, não apenas a liberdade, mas o dever de trabalhar. Não submeteria a escolha do seu emprego aos ciúmes do namorado. Depois de discutirem várias vezes, chegaram àquela manhã e ao ultimato de Alberto. Embora a situação fosse relativamente previsível, ela titubeou.

– Puxa, Alberto… Por que tudo isso? Desse jeito você me obriga a…

– Você tem até o fim da tarde de hoje! — interrompeu ele, bruscamente.

– Ou deixa esse emprego ou vou explodir essa lanchonete!

– Que é isso, Alberto? Tá louco?

– Estou pior que louco. Você tá pensando que é assim? Que vou aceitar minha namorada ficar aí se exibindo? Pois não é, não! Se você insistir nisso, eu acabo com tudo aqui!

À medida que a agressividade de Alberto aumentava, crescia também a decepção de Rita. Aquele não parecia o namorado que quase todos os dias a visitava em sua casa. Apesar de ciumento e até possessivo, Alberto sempre fora carinhoso, atencioso, apaixonado mesmo. Não combinava com ele aquela ameaça destrutiva.

– Vá embora daqui, Alberto. É melhor a gente conversar depois — foi o que ela conseguiu dizer, já chorando.

Ele atendeu ao seu pedido e saiu, mas repetindo a ameaça:

– Até as dezoito horas, Rita! É bom que você não esteja mais trabalhando aqui depois disso!

Era quase meio dia quando Rita enxugou as lágrimas e ficou vendo Alberto se afastar. O movimento aumentava na lanchonete e o expediente dela estava começando. A conversa com Aberto havia durado menos de meia hora. Rita sentiu que o namoro estava chegando ao fim. Por um instante, pensou no quanto era estranho que um relacionamento de quase dois anos pudesse acabar assim, em uma conversa de poucos minutos, no meio de um shopping.

“Talvez não acabe”, pensou ela. “Talvez ele esfrie a cabeça e mude de ideia. De repente, até volta me pedindo desculpas, dizendo que não vai mais reclamar do meu trabalho”.

Era uma possibilidade. Mas, como dito desde o princípio, entre meio dia e seis da tarde daquele sábado, nada aconteceu. Alberto poderia ter voltado – como Rita imaginava – dizendo-se arrependido, mas não voltou. Rita poderia ter ido atrás de Alberto, chorando e prometendo largar o emprego, mas não o fez. O gerente da lanchonete poderia ter visto a discussão do casal e demitido Rita, para evitar problemas, mas isto também não aconteceu. Ao contrário, fez-se uma aparente normalidade, com Rita cumprindo os seus afazeres de garçonete e a praça de alimentação se enchendo de gente, como se a cidade inteira houvesse chegado ao mesmo tempo para almoçar.

Alberto ficou por ali, ocupando uma mesa nas proximidades, mas não comeu nem bebeu. Apenas pensava. Pensava em muitas coisas, principalmente na ameaça que havia feito a Rita: “Eu devia ter deixado as coisas mais claras. Ela não tem noção do que sou capaz”.

De fato. Rita não imaginava o quanto Alberto estava falando sério quando ameaçou explodir a lanchonete. Ele nunca havia dado sinais de ser capaz de fazer algo assim. Mas era. Pensava nisso há dias, desde que encontrou na Internet um vídeo que ensinava a construir uma bomba acionada à distância, por meio de um telefone celular. Enquanto assistia ao vídeo, um pensamento destacou-se subitamente, fazendo-o dizer baixinho para si mesmo:

– Uma bomba dessas naquela lanchonetezinha faria um estrago…

No começo, Alberto riu disso. Aos poucos, porém, a imagem do equipamento pronto; do seu próprio dedo, apertando o botão; da destruição no local; tudo isso foi preenchendo cada parte da sua mente.

Daí em diante, foi como se uma força estranha houvesse dominado Alberto. Assistiu ao vídeo dezenas de vezes, observou detalhadamente determinados trechos, fez anotações, conferiu informações em outras fontes, até se convencer por completo: estava pronto para fabricar a sua própria bomba.

Reunir o material não chegou a ser uma tarefa complicada. Um telefone celular velho, mas funcionando, fios, pregos, parafusos, uma lata de leite em pó vazia, massa de modelar… O mais difícil poderia ter sido conseguir a pólvora, mas um amigo que trabalhava em uma fábrica de fogos de artifícios cuidou disso sem fazer muitas perguntas.

Após algumas noites de dedicação ao projeto, o artefato explosivo ficou pronto. Era chegada a hora de escolher um bom lugar e deixá-lo preparado para o uso.

Alberto sabia que a lanchonete onde Rita trabalhava tinha um pequeno banheiro, logo após o final do balcão. O lugar era minúsculo, mas tirava do aperto o cliente que não quisesse caminhar até os banheiros do shopping, localizados do outro lado da praça de alimentação. O problema era que, se a porta do banheiro estivesse fechada, poderia reduzir muito o impacto da explosão no restante da lanchonete. Talvez fosse melhor escolher outro lugar, mais exposto, ou se posicionar de tal forma que pudesse acionar a bomba bem na hora em que alguém abrisse a porta do banheiro.

Pensando nessas coisas, Alberto decidiu ir à lanchonete naquele sábado, antes que Rita chegasse para trabalhar. Quando o shopping abriu, às dez da manhã, ele foi um dos primeiros a entrar. Foi direto à praça de alimentação. Levava a bomba dentro de uma sacola de compras, dessas vendidas nos supermercados como ecologicamente corretas, a pretexto de se reduzir o consumo de sacos plásticos descartáveis.

Passou pela frente da lanchonete, observou de longe, aproximou-se, entrou, tomou um suco, foi ao banheiro e decidiu que o lugar não era adequado para o que queria.

Mas, do lado de fora do banheiro, ao lado da porta, viu uma pequena pia e, ao lado da pia, no canto da parede, um grande cesto de lixo onde se jogava o papel toalha usado.

Apesar de o cesto ter as paredes semelhantes a um alambrado, o saco de plástico preto que lhe servia de forro fazia dele uma ótima camuflagem para a sacola explosiva. Alberto a pôs no chão e fingiu que lavava as mãos. Enquanto isso, empurrou-a com o pé para trás do cesto de lixo. Este, bem mais largo em cima que na base, tornou-se um esconderijo perfeito.

Toda essa ação – de transportar a bomba, procurar um lugar para ela e colocá-la lá – deixou Alberto muito excitado e nervoso. O coração estava acelerado, gotas de suor formavam-se em sua fronte. O medo de ser prematuramente descoberto misturava-se a uma estranha sensação de poder. Do poder de mandar tudo pelos ares. Deve ter sido por isso que, ao encontrar Rita, Alberto mostrou-se tão impaciente e agressivo, fazendo-a estranhar o seu comportamento.

Um minuto depois do meio dia, porém, tudo isso já havia acontecido, e o que se via eram pessoas se alimentando, garçons e garçonetes – como Rita – servindo, pessoas que passavam de um lado para outro, cada uma seguindo o seu destino.

E havia Alberto, sentado em um lugar qualquer, olhando ora para o relógio de pulso, ora para o telefone celular que tinha nas mãos.

Uma e meia, duas da tarde, o movimento na lanchonete diminuindo, para voltar a crescer lá pelas quatro ou cinco. Alberto não entendia como as últimas horas podiam ter sido tão lentas quando estavam passando, e, no entanto, agora, que já haviam passado, pareciam ter durado apenas um piscar de olhos.

Dezessete horas e cinquenta e oito minutos. Alberto levanta-se e vai em direção à lanchonete. Rita está limpando uma mesa. Ela ergue a cabeça e seu olhar se encontra com o de Alberto. Mais uma vez, poderia acontecer alguma coisa, um sorriso, uma palavra, uma mão estendida, um gesto qualquer que libertasse o rapaz de suas ideias destrutivas. Mas, mais uma vez, não aconteceu nada. Rita simplesmente baixou o olhar e esperou que Alberto passasse por ela.

Frustrado com a indiferença de Rita, Alberto afastou-se uns cinquenta passos largos, parou e digitou, no teclado do celular, o número do aparelho que servia como acionador de sua bomba. Durante um segundo especialmente longo, olhou fixamente o visor, mais para se certificar que digitara o número correto que por hesitação. Em seguida, apertou a tecla verde e, involuntariamente, contraiu-se todo, esperando a explosão.

No entanto, não aconteceu absolutamente nada. Nem explosão, nem gritos, nem barulho de objetos sendo arremessados. Nada.

Alberto deu meia volta e olhou em direção à lanchonete. Procurou Rita, mas viu apenas uma criança, uma menina, de uns três anos de idade correndo entre as mesas. A mãe vinha logo atrás, tentando alcançá-la. A visão da criança correndo teve um efeito inesperado sobre Alberto. Uma imensa ternura o invadiu. Quis abraçar aquela criança, protegê-la. Sentia-se um monstro por ter pensado em causar uma explosão naquele lugar, pondo em risco a vida de seres inocentes como aquela menina e sua mãe. Que sorte o equipamento haver falhado!

Enquanto a mulher e a criança afastavam-se do local, Alberto caminhou até a lanchonete, lenta e decididamente. Rita, parada junto ao balcão, ficou olhando ele se aproximar e passar por ela como se não a visse. Tudo o que Alberto queria agora era pegar de volta a sacola com o explosivo.

Com a mão esquerda, afastou o cesto de lixo da parede, enquanto esticava o braço direito para pegar a sacola… Mas, não chegou a tocar nela. Um estrondo ecoou pelo shopping e um impacto brutal jogou Alberto para trás. O local encheu-se de fumaça, poeira e papel picado, como se as toalhas descartáveis usadas, que estavam no cesto, houvessem se transformado em uma chuva de confetes.

Do lado de fora, as pessoas olhavam perplexas para o cenário de destruição, sem entender direito o que estava acontecendo. Um rapaz, que trabalhava do lado de dentro do balcão, surgiu da fumaça pedindo socorro, o rosto sangrando, ferido por estilhaços.

Rita caíra ao chão, desacordada. Despertaria minutos depois, auxiliada por um segurança do shopping. Nada grave.

Alberto foi retirado ainda com vida do meio dos escombros, mas morreu a caminho do hospital.

A bomba havia explodido às dezoito horas e três minutos.


Mundo Cordel
O TAXISTA

TAXIS

Haveria uma solenidade. A posse de alguém em um novo cargo ou algo assim, não vem ao caso agora detalhar. O que importa é que achei melhor ir de táxi, para o caso de resolver tomar um uísque no coquetel comemorativo. Como costumo fazer nessas ocasiões, liguei para o Hélio, que além de bom motorista é amigo de longa data. Combinei com ele para me deixar no local e ficar por perto, esperando minha ligação para o retorno.

Tal como combinado foi feito e, às oito da noite, eu já estava no local. Hino nacional, discursos e aplausos depois, conversava eu amenidades com uns conhecidos que praticamente só vejo nessas ocasiões. Em meio à conversa, tomava o uísque previsto e saboreava uns salgadinhos, cheio de fricotes, mas pouco saborosos. Faltavam uns vinte minutos para as dez horas quando o celular vibrou no bolso do meu paletó. Era o Hélio:

– Amigão, o carro deu um problema aqui. Não sei se é bateria ou alguma pane elétrica, mas parou tudo. Não acende nem o painel.

Eu acabava de ficar sem meu transporte exclusivo. Sem problemas. Precisaria ligar para um serviço de tele táxi, que acabaria demorando um pouco mais, mas certamente me levaria para casa. Foi nessa hora que me lembrei do Menezes, outro taxista, não tão próximo quanto o Hélio, mas também conhecido meu há muitos anos, desde o tempo em que eu tinha um escritório no centro da cidade. Em frente ao prédio havia um ponto de táxis onde o Menezes costumava estacionar o dele. Coincidentemente, eu passara por ali no dia anterior e o vira encostado em um dos carros.

– E aí, doutor, tudo bem? – cumprimentou-me, com o sorriso de sempre.

– Menezes, rapaz! Como é que estão as coisas?…

Conversamos não mais que três minutos. Só o suficiente para perguntar pela saúde da família e indagar sobre o trabalho. Menezes pareceu-me um pouco abatido. Evitei fazer qualquer observação nesse sentido, mas ele comentou que vinha sentindo umas dores de cabeça. Nada que o impedisse de continuar trabalhando, disse-me. Pôs-se à disposição para quando eu precisasse e procurou um cartão de visitas no bolso. Não tinha. Anotei na agenda do meu celular o número que ele me disse ser o dele. Despedimo-nos com sinais de polegar para cima e votos de “tudo de bom” e “até a próxima”.

Enquanto recordava esse encontro com Menezes, procurei na agenda do telefone o número que ele me havia fornecido. Liguei. Fiquei ouvindo a chamada. Três, quatro toques. Já imaginava que talvez estivesse dormindo, quando finalmente alguém atendeu. Uma voz de mulher falou comigo:

– Alô.

– Boa noite… – disse eu, meio sem jeito. – Por favor, esse celular é do Menezes?

A mulher demorou um pouco a responder. Em seguida, a voz saiu trêmula:

– É… O senhor… é amigo dele? – perguntou-me.

– Sou cliente e amigo também. Por quê?

– Senhor… O Menezes morreu… Eu sou a esposa, quer dizer, a viúva dele…

– Morreu?… Mas, foi algum acidente?

– Não, senhor, foi um derrame. Um AVC, né?

Fiquei chocado. Como pode a vida de um ser humano ser assim, tão frágil? O que dizer àquela mulher, cujo sofrimento podia ser percebido através da sua voz ao telefone, embora eu nunca houvesse falado com ela antes? Tentei ao menos mostrar solidariedade.

– Puxa, senhora, eu não sabia… Meus pêsames… Tão de repente, né?… Pega todo mundo de surpresa…

– É… Quer dizer… Assim, né?… No dia mesmo do derrame ninguém esperava, mas até ele dar o último suspiro, ainda demorou um mês e dois dias em coma… Mas aí, na última semana, ele foi definhando e já ficou todo mundo só esperando a hora mesmo…

– Senhora, eu acho que não entendi direito… Quando foi mesmo que ele morreu?

– Dia dezessete vai fazer dois meses.

– E o Menezes que a senhora fala é o do táxi?

– Claro, moço? O senhor não ligou para o celular dele?

– É isso mesmo. Liguei. É que a notícia me pegou tão de surpresa, que é difícil de acreditar. Meus pêsames… – e desliguei.

Ainda pensei em questionar: “Senhora, acho que estou falando de outra pessoa, porque vi o Menezes ontem, no mesmo ponto de táxi de sempre”. Mas, de que isso adiantaria? Mesmo que estivéssemos falando de dois Menezes distintos, ambos taxistas, o marido dela era o que estava morto. Nada mudaria isso.

Mesmo assim, sentindo que a dúvida me incomodava, dias depois voltei ao ponto de táxi e perguntei a outros taxistas que encontrei ali se eles conheciam Menezes.

Não apenas conheciam como confirmaram: tinha morrido mesmo. Exatamente como descrito pela viúva.


Mundo Cordel
O JORNAL

No começo de 1980, eu estava com treze anos de idade e tinha acabado de mudar de colégio. Deixei a escola pública onde havia terminado o primeiro grau e passei a estudar em uma particular, graças a uma bolsa de estudos que ganhei em um concurso.

Valeu a pena, porque a estrutura da nova escola era bem melhor, mas a mudança foi traumática. Além de ser longe da minha casa, todos os meus amigos haviam ficado no outro colégio. Felizmente, os meus colegas de turma haviam chegado ali pelo mesmo caminho – o concurso – o que aumentava as minhas chances de me aproximar deles.

De fato, aos poucos novas amizades foram surgindo e tornei-me especialmente próximo de dois dos meus colegas: o Leovigildo, que todos chamavam só de Leo, e o Antonio Maria.

Mas, apesar de termos nos tornado bons companheiros, sentíamos necessidade de interagir mais com o restante da turma. Naquela época, ainda não se usava a expressão “popular” para designar alguém que está sempre rodeado pelos colegas e é convidado para os eventos mais importantes, mas eu, Leo e Antonio Maria sentíamos falta exatamente disso: de sermos um pouco mais “populares”.

Foi então que estourou a guerra Irã-Iraque e as coisas começaram a mudar.

Claro que a frase anterior foi posta aí de propósito, para levar o leitor a se perguntar: “E o que uma guerra do outro lado do planeta teria a ver com a popularidade de três garotos no Brasil?”. Pode parecer estranho, mas as coisas deste mundo estão mais interligadas do que se imagina.jornais27

Aconteceu que eu era um bom aluno de história, fascinado por guerras. Em minha casa havia um livro grande e ilustrado sobre a Segunda Guerra Mundial, que volta e meia eu pegava para ler ou simplesmente ficar vendo as fotografias e os mapas explicativos dos avanços e recuos das tropas.

Quando o Iraque invadiu o Irã, naquele setembro de 1980, passei a ter uma guerra atual, com notícias na TV, nos jornais e nas revistas semanais, que faziam sempre uma análise detalhada das possibilidades dos dois lados envolvidos no conflito. Num tempo em que não se tinha computador em casa – e sequer se falava em Internet – eu acompanhava esses noticiários com avidez por informações.

Nessa leitura frequente de jornais e revistas, acabei tomando contato com outros assuntos, aqui mesmo do Brasil, como o processo de abertura política e o crescimento da inflação. Passei a admirar as pessoas que nos traziam essas informações e sonhei ser jornalista.

Raul Seixas disse certa vez, parafraseando Dom Quixote, que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Eu não estava só em meu sonho de ser jornalista. Embora ainda não soubesse, meus amigos Leo e Antonio Maria também sonhavam, ou melhor, o Leo sonhava; o Antonio Maria foi arrastado por nós para dentro do sonho.

Isto ficaria claro durante uma semana de atividades esportivas e culturais que houve no colégio. Em meio a essas atividades, cada turma precisaria eleger um líder, que ficaria responsável por representar a turma em determinadas ocasiões do evento. Claro que outros alunos, mais “populares”, logo se apresentaram como candidatos naturais à liderança, mas da disputa deles surgiu a oportunidade para as coisas mudarem para nós.

Em certo dia, de muita movimentação, eu e Leo escrevemos uma espécie de crônica, falando dos possíveis líderes, comparando-os e comentando como as atividades mais recentes estavam influenciando o nosso comportamento. Chamamos Antonio Maria para participar do nosso embrião de jornal e confirmamos o que já era esperado: ele também escrevia, e bem.

Animados com a ideia, passamos praticamente a tarde toda reunidos, fazendo o que viria a ser o jornal da turma. Não tínhamos computador, nem câmera digital (naquele tempo, nem se falava nisso), mas, o Leo usava a máquina de escrever com uma habilidade incrível, datilografando os textos e deixando espaços para colarmos algumas fotos ou desenhos. Depois, foi só achar um lugar para fotocopiarmos tudo. Estava pronto o primeiro número do nosso jornal.

No dia seguinte, quando distribuímos as cópias com os colegas de classe, algo mudou em nossas vidas. Era hora do recreio, mas ninguém saía da sala, todos lendo o ABLADANTE (era esse o nome do periódico), rindo e comentando com quem estava ao lado. Os caras mais “populares” vinham falar com a gente, ora elogiando o resultado do trabalho, ora se queixando por terem sido criticados. Algumas meninas vieram nos dar parabéns. Um sucesso!

A partir daquele dia, tudo o que acontecia com qualquer colega da turma podia virar notícia. Um que faltou à aula porque estava com febre, outro que aprontou alguma estripulia e foi mandado para a coordenação, nada escapava aos nossos olhos e ouvidos atentos. Em pouco tempo, professores e coordenadores também viraram pauta para nossas matérias, nem sempre elogiosas, aliás, quase nunca.

E assim foi por todo o restante daquele ano e do seguinte, período no qual estudamos juntos. O jornal não tinha uma regularidade definida, saía a cada quinze ou vinte dias, conforme houvesse matéria. Mas o interesse dos colegas cresceu e outros acabaram se tornando articulistas eventuais. Alguns professores também entraram para a lista de leitores e incentivadores.

Descobrimos assim a força da palavra escrita, o poder da mídia, a influência que têm aqueles que decidem o que é e o que não é notícia. Claro que, às vezes, alguns colegas e professores ficaram chateados conosco. Outras vezes enfrentamos ameaças de punição na escola, por causa do que escrevíamos. Mas tudo valeu a pena.

No final, nenhum de nós se tornou jornalista de verdade, mas, ainda hoje, mais de trinta anos depois, quando encontro com meus ex-colegas de “jornalismo”, nos perguntamos do que teríamos sido capazes de realizar, se contássemos com os recursos de tecnologia da informação que se tem à disposição nos dias de hoje.

Não tenho dúvida que, do ponto de vista da qualidade do material produzido, tudo seria bem mais fácil. Computador, câmera digital, processadores de texto, acesso a informações sobre qualquer coisa…

Entretanto, com cada um podendo criar sua própria página em uma rede social, talvez fosse mais difícil atrair o interesse dos leitores, como fizemos naquela época. Até os grandes jornais têm enfrentado essa dificuldade.

Na realidade, não dá para imaginar como seria. Nem estou interessado nisso. Hoje, é mais gostoso relembrar o que vivemos, e foi um tempo muito bom.

P.S.: Alguns anos depois do encerramento das atividades do jornal, quando já estava na faculdade de Direito, recebi as primeiras noções jurídicas sobre algo chamado “liberdade de expressão”. Um direito que precisa ser conquistado a cada dia, pelo seu próprio exercício, o que requer coragem. Quem publica o que pensa sempre corre o risco de causar dano à imagem de alguém e, mesmo em uma democracia, pode entrar em rota de colisão com o poder, seja ele político, econômico, bélico ou de qualquer outra ordem.


Mundo Cordel
QUEM SORRI POR ÚLTIMO

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O técnico Joachim Löw no momento do gol contra a Argentina

Por toda a vitoriosa campanha da seleção alemã para a conquista do seu quarto título mundial, chamou-me a atenção a figura do seu treinador Joachim Löw.

A cada gol, a cada vitória, o homem não abria um sorriso sequer. Era como se, para ele, os gols do seu time, e mesmo as vitórias da equipe, fossem apenas o cumprimento de um dever, e não motivo de comemoração.

Alguns amigos com quem assisti aos jogos diziam que era frieza, mas nunca concordei. Parecia-me mais a concentração de alguém determinado a alcançar um objetivo, no caso, a conquista da copa de 2014.

Não sei se tinha razão em minha avaliação, mas gostei de ver a reação de Löw, ao final da partida contra a Argentina. Foi bom ver sua fisionomia sisuda se abrir em um sorriso. O sorriso de quem sorri por ultimo.

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O técnico Joachim Löw ao final da partida com a Argentina

EM TEMPO – Se eu fosse fazer uma paródia para homenagear os campeões, usaria a música “Mulheres de Atenas”, mudando a letra para “Rapazes Germanos”, e começaria assim:

Mirem-se no exemplo
Daqueles rapazes germanos
Eles que nos salvaram
Da gozação dos Hermanos!


Mundo Cordel
CORDEL PRA DEPOIS DA COPA

SELECAO_COSTAS

Sem o Brasil campeão,
Resta a nós reconhecer
Que isso pode acontecer
Em qualquer competição.
Passada a decepção,
Prestadas as homenagens,
Guardadas muitas imagens
No arquivo da nossa mente,
Olhemos, daqui pra frente,
Para outros personagens.

Pois, com a Copa terminada,
É chegada a ocasião
De ver na televisão
Muita conversa fiada
E promessa exagerada
De grandes transformações.
De dar novas soluções
Para problemas antigos
Muita atenção, meus amigos,
Vêm chegando as eleições.

É tempo de aparecer
Gente que estava sumida,
Que andou desaparecida
E que agora vem nos ver.
Que pergunta e quer saber
Do que estamos precisando,
Prometendo e explicando
Como tudo irá mudar
Mas, para realizar,
Com seu voto está contando.

Tempo bom para se ver
Gente beijando criança,
Dizendo que a esperança
No Brasil vai renascer.
Que as crianças devem ter
A maior prioridade
E que é gigante a vontade
De ajudar o mais carente,
Essa conversa que a gente
Já viu que não é verdade.

Tempo de a gente escutar
Achando ruim ou bom,
Nas ruas, carros de som,
Com seu som a ecoar.
As canções a ressaltar
O valor do candidato,
Embora não seja exato
Que elas digam a verdade.
Deus me dê boa vontade
Para crer nisso de fato!

Nas esquinas e avenidas,
Muitas moças e rapazes
Exibirão seus cartazes
E bandeiras coloridas.
Não estão bem definidas
As suas convicções,
Já que as manifestações
São em troca de uns trocados:
Militantes contratados
Nesse tempo de eleições.

Não são só os militantes
Ou cabos eleitorais
Que vendem seus ideais
Em condutas aviltantes.
Cenas mais repugnantes
Vêm do horário eleitoreiro:
Vende-se um partido inteiro,
Ali a coisa desanda,
E o tempo de propaganda
Vale mais do que dinheiro.

É bom estar preparados
Para o nível dos debates.
É provável que os embates
Venham todos recheados
Com segredos revelados
Sobre esquemas de bilhões,
Fraudes em licitações,
Desvios, corrupção,
Talvez todos com razão
Na troca de acusações.

Amigos, como eu queria
Não estar desiludido
E acreditar que um partido
É feito de ideologia!
Pois sei que a democracia,
Apesar de suas mazelas
É uma das coisas belas
Que o ser humano criou
E, das crises que enfrentou,
Transpôs cada uma delas!

O desânimo me alcança
Mas, teimo em não desistir,
E, assim, hei de prosseguir
Mantendo viva a esperança
De ver alguma mudança
Nesse quadro deprimente,
Que eu aqui, ligeiramente,
Descrevi, nesse cordel,
Cumprindo assim meu papel
De alertar a minha gente!

Deixo claro que, apesar
De toda desilusão,
Quando chegar a eleição
Vou à urna, vou votar.
Ali, vou exercitar
A minha cidadania,
Na esperança de algum dia,
Eleger representantes
Sérios, probos e atuantes.
E viva a DEMOCRACIA!

* * *

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