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FADADO AO INSUCESSO

Existe uma anedota sobre Ruy Barbosa, segundo a qual um ladrão teria sido flagrado tentando furtar os patos de criação do grande jurista.

Segundo se conta, posto diante do larápio, Ruy lhe teria dito:

– Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência do que o vulgo denomina nada.

Ao que o ladrão, confuso, teria respondido com uma pergunta: “Dotô, eu levo ou deixo os pato?”.

Tal história sempre me faz lembrar situação que eu mesmo vivi, no começo dos anos 1990, quando ainda era programador de computadores e ministrei um curso de informática para os advogados do Banco do Nordeste, onde trabalhava.

No último dia do curso, o professor Raimundo Bezerra Falcão, que era o Superintendente Jurídico do banco, foi à sala de aula e quis saber as impressões daqueles profissionais do direito, recém introduzidos no mundo dos computadores.

Houve certa hesitação dos alunos, até que o advogado Hermano Pascoal pediu a palavra e fez o seguinte resumo a respeito da sua condição de neófito nos conhecimentos cibernéticos:

– Doutor Falcão, eu gostaria de dizer que o nosso mestre, aqui presente, levou a efeito o seu mister de maneira sobejamente profícua, sendo o seu desempenho digno dos maiores encômios. Não obstante isso, e, em que pese o hercúleo esforço por nós despendido, no intuito de apreender os conhecimentos transmitidos, devo reconhecer que, se este que vos fala submetido fosse a um procedimento avaliatório, estaria inexoravelmente fadado ao insucesso.

Imagino que, se o rapaz que furtara os patos de Ruy lá estivesse, teria dito: “Aprendeu a mexer no computador ou não, doutor?”.


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AMBOS OU OS DOIS?

Sempre que trato de assuntos relativos à língua portuguesa, registro que tenho domínio apenas razoável das regras gramaticais, razão pela qual me concentro menos nessas regras que na fidelidade à mensagem que pretendo transmitir. Talvez por isso, chama-me a atenção o uso de determinadas palavras ou expressões, aparentemente sinônimas que, inseridas em determinado contexto, mudam de sentido.

Digo isso a propósito de uma frase que li recentemente no jornal Folha de São Paulo, a respeito de supostos atritos entre o ex-Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e sua sucessora.

A frase é a seguinte: “Ambos são adversários dentro da Procuradoria.

Não tenho dúvida que “ambos” é sinônimo de “os dois”. Qualquer dicionário o confirma. Mas, será que “ambos são adversários” diz o mesmo que “os dois são adversários”?

Sendo a pergunta acima um recurso retórico, como de fato é, já explico que, ao meu sentir, “os dois são adversários” transmite a ideia de que se está a tratar de adversários entre si, um contra o outro. Diferentemente de “ambos são adversários”, expressão que estaria mais próxima da ideia de serem adversários de um mesmo oponente em comum.

É que a palavra “ambos” parece ir além da ideia de “os dois”, indicando também que “os dois” estariam reunidos em um mesmo grupo ou situação, como, por exemplo, em: “Ambos os carros são vermelhos”; ou “Ambas as frutas estavam maduras”.

Por falar em frutas, eis mais um exemplo colhido na internet, desta feita na área dos alimentos, em desacordo com o que acabei de afirmar: “Ambos apresentam patamares diferentes de equilíbrio nutricional.

Não afirmo que haja aí erro gramatical – não sei se há – mas, se duas coisas estão em patamares diferentes, não me parece que se deva referir a elas como ambas. É o mesmo caso dos adversários. Como podem ser ambos, se estiverem um contra o outro?

Talvez uma explicação para isso esteja na etimologia. Colhi do site Origem da Palavra , que “ambos” viria do latim ambo, que significaria, não apenas “os dois”, mas “os dois simultaneamente, os dois, um e outro”.

Em nome da honestidade intelectual, devo dizer que somente obtive essa informação depois que já havia começado a escrever este texto. O que não reduz em nada o valor do argumento, que me parece formidável.

Adotando essa noção – de “os dois juntos” – entendo melhor a importância da posição de “ambos” e “os dois” em frases como a seguinte: “Os dois meninos estavam nas margens opostas do mesmo rio. Ambos nadaram até o meio, onde se encontraram”.

Em resumo, entre “ambos” e “os dois”, creio que ambas as expressões tenham o mesmo significado. Mas, dependendo da situação, as duas também podem adquirir significados diferentes.


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SOBRE O FILME DA POLÍCIA FEDERAL

Ainda não vi o filme “Polícia Federal: A lei é para todos”. Mas, fiquei ainda com mais vontade de ver, depois de ler esses sóbrios comentários do meu amigo Nagibe Jorge Neto.

Nagibe é Juiz Federal no Ceará e Doutor em Direito pela UFC. Gosta de pensar sobre a realidade que nos cerca, dentro e fora do Judiciário, e é autor de várias obras, dentre elas o livro “Abrindo a Caixa Preta: por que a Justiça não funciona no Brasil?”.

Vamos às suas reflexões sobre o filme.

* * *

A LEI É PARA TODOS? – Nagibe de Melo Jorge Neto

Acabei de assistir ao filme “Polícia Federal: A Lei é para Todos”. Se você ainda não assistiu, assista. Excelente diversão. O filme é ficção, está claro. A realidade é muito mais complexa. Mas o filme nos ajuda a imaginar os momentos dramáticos da investigação, os dilemas por que passaram e passam os delegados, os procuradores e o juiz, as escolhas difíceis, o sacrifício pessoal etc.

Vemos na tela um país que quer mudar, ou melhor, brasileiros que acreditam que o país pode mudar. Não há heróis. Isso também está claro. E o filme não pretende ungir ninguém à posição de herói. Há pessoas de carne e osso enfrentando escolhas difíceis.

O que mais me chamou a atenção? O título do filme. É um exagero. No Brasil, a lei ainda não é para todos. Estamos pelejando, mas vamos ainda bem longe de chegar lá.

A operação Lava Jato é um marco, não há dúvidas. Todavia, ela apenas comprova que podemos escolher um caminho diferente. A Lava Jato não vai transformar o país, não vai salvar o país, não vai acabar com a corrupção. Até o seu legado ainda é incerto. Não sabemos se as condenações serão mantidas depois de todos os recursos, por exemplo.

Precisamos aperfeiçoar as leis. As 10 medidas contra a corrupção, propostas pelo Ministério Público Federal, e assinadas por mais de 2 milhões de brasileiros foram enterradas no Congresso Nacional. Quase ninguém fala mais disso. Silêncio total.

Como se isso não bastasse, o Congresso cogita aprovar uma lei de “abuso de autoridade” que tem por fim amedrontar e punir os juízes, procuradores e policiais responsáveis pelas investigações. Aqui, o segundo ponto que mais me chamou a atenção.

No Brasil, os policiais, procuradores e juízes são a parte fraca quando se trata de crimes praticados pelos poderosos. As provas podem ser anuladas por qualquer filigrana. Os processos não chegam ao fim devido ao elevado número de recursos, e a estrutura da investigação pode minguar de uma hora para outra.
Se fosse um filme americano, nós veríamos os policiais e procuradores jogando duro. Seus principais adversários seriam os bandidos. Aqui, o principal adversário é o sistema, a falta de informação, a passividade do povo e a ousadia dos políticos.

A gente rói as unhas, prende a respiração, fecha os olhos, não porque o bandido vai fugir ou eliminar as provas, mas porque o processo pode ser anulado, o bandido pode ser solto e a estrutura de investigação pode ser desmantelada.

Um pequeno exemplo. Na semana de estreia do filme, o principal assunto não foram todas essas dificuldades no combate à corrupção, não foram as 10 medidas contra a corrupção, não foi o projeto de lei de “abuso de autoridade”, não foi a possibilidade de o Supremo acabar com a prisão após a condenação de segundo grau, não foi a passividade do nosso povo.

O principal assunto foram os juízes Sergio Moro e Marcelo Bretas terem ido à pré-estreia do filme. Houve grita de alguns setores. “Absurdo! Como os juízes responsáveis pelos casos podem ir assistir ao filme!? Isso é um odioso culto à personalidade! Não está claro o abuso!? Não está clara a parcialidade!? Não está claro que esses processos são nulos!?”

Pobres de nós. É como se devêssemos reverência aos bandidos poderosos e ao sistema nefasto que os fabrica. Não nos interessa um sistema capaz de combater a corrupção. Nos interessa garrotear policiais, procuradores e juízes. Nos interessa submetê-los à crítica avassaladora. Nos interessa fazer que, em tudo, eles hesitem, pensem duas vezes, medrem.

Não que toda autoridade não deva prestar contas. Mas, para quem tem olhos de ver, está evidente a desproporção. No Brasil, a lei ainda não é para todos. E as críticas, as críticas são para poucos. E quando convém.


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JOELHO DE GALINHA

Quando o Glauber chegou acompanhado da Joana ao churrasco do Antero, os amigos pensaram que ela seria apenas mais uma namorada de fim de semana. Afinal, ninguém mais tinha esperança que ele ainda viesse a pensar em casamento. Aos quarenta e um anos, fugia de relacionamentos sérios e prolongados. Casar, então…

– Nem pensar, meu amigo! Gosto da minha vida de lobo solitário.

Só que, com a Joana, foi diferente. Não era a moça mais bonita que já tinha aparecido na companhia do Glauber, mas tinha uma simpatia que agradava a todos. Logo fez amizade com as esposas de alguns amigos dele, que passaram a apoiá-la e torcer por ela.

– Glauber, tá lembrado do meu aniversário sábado, né? – intimou, certa vez, o Geraldo. – Agora, tem o seguinte: a Lenira pediu que tu leve a Joana.

Lenira era a mulher do Geraldo. Uma das principais apoiadoras da Joana. Um pedido dela tinha peso dois, no mínimo. E, nesse caso, não era nenhum sacrifício atendê-la. Tanto que seis meses já haviam se passado sem que o Glauber trocasse de namorada.

Um dia, ele abriu o jogo para o Geraldo:

– Geraldo, eu tô começando a levar a sério essa ideia de casar com a Joana. Esse meu relacionamento com ela é mesmo diferente dos outros que eu tive.

Geraldo gostou da conversa e incentivou o amigo. Falou do lado bom de compartilhar alegrias e tristezas com uma companheira, de uma vida mais estável, de filhos, família e tudo mais que lembrou de dizer.

O Glauber acabou dando o resto do serviço:

– Pois é. Mas eu quero fazer tudo do jeito tradicional. Domingo vou almoçar com os pais dela, aí a gente marca a data pra oficializar o noivado.

E assim foi. No domingo seguinte, não se teve notícia do Glauber. Todo mundo sabia que ele estava dedicado à família da noiva. Ninguém queria atrapalhar.

Mas, veio a segunda-feira, a terça, a quarta, e nada de o Glauber comentar sobre o almoço com ninguém. No grupo de WhatsApp, nenhuma palavra. Alguns amigos telefonaram perguntando, mas ele foi monossilábico nas respostas: “Normal”, “Tudo bem”, “Tranquilo”. E mudava de assunto.

O mistério só seria esclarecido na quinta-feira, quando o Glauber chamou o Geraldo para tomar um chope. Parecia ansioso para desabafar. A primeira rodada nem havia sido servida e já entrava no assunto:

– Desisti do noivado. E do casamento também, é claro.

– Que é isso, cara? O que houve?

– O almoço. Tomei a decisão na hora do almoço.

– Tô besta. Foi a comida? – perguntou o Geraldo, tentando sorrir, mas espantado com a novidade.

– Foi.

– Sério?

– Sério, mas deixa eu explicar.

O garçom chegou com o chope. O Glauber bebeu de uma vez quase metade da caneca. Respirou fundo e retomou a conversa:

– Quando eu cheguei lá, a Joana disse que ela mesma tinha feito o almoço. Galinha ao molho pardo. Me animei todo. Tu sabe que eu gosto de galinha à cabidela. Na hora de servir, a mãe dela perguntou: “Qual o seu pedaço preferido?”. Respondi que a coxa.

– Até aí, normal. Porque tu sempre quer a coxa…

– Sim, mas aí é que tem o detalhe. Espera, que essa parte é importante – tomou outro gole de chope e prosseguiu. – A Dona Odília serviu a coxa da galinha pra mim. Mas o osso tava quebrado…

– Como assim?

– O osso da coxa, o fêmur, tava quebrado. Quer dizer, não era só quebrado. Era quebrado e faltando a parte que tem menos carne. Faltou o joelho da galinha. Pronto. Foi isso.

Fez-se uma pausa na conversa. Geraldo conhecia o Glauber há muitos anos. Sabia que ele gostava de galinha cozida, ainda mais ao molho pardo. Mesmo assim estava completamente surpreso. Como a falta do joelho da galinha poderia ter dissolvido aquele namoro tão promissor? Não precisou perguntar. Após mais um gole, o Glauber prosseguiu na narrativa.

– O problema, Geraldo, é que sou doido por joelho de galinha. Toda vez que eu peço a coxa, eu quero mesmo é o joelho. Sempre foi assim. Aí, quando eu vi aquele pedaço incompleto da galinha, perguntei, sem pensar: “Cadê o joelho?”. E foi aí e a Dona Odília me salvou de um casamento fracassado.

– Não consigo imaginar o que ela possa ter dito – comentou o Geraldo em total incredulidade.

– Ela disse: “Ah, meu filho, quando é a Joana que prepara a galinha, não tem perigo de vir joelho pra mesa! Ela come os dois lá mesmo na cozinha!”. Entendeu agora?

– Mais ou menos…

– Então, deixa eu explicar melhor. Geraldo, tu já imaginou eu casar com a Joana, e nunca comer os joelhos da galinha que ela prepara? E, mesmo quando a gente comesse a galinha num restaurante, eu ia ter que deixar os joelhos pra ela! Pra comer um joelho de galinha, eu teria que almoçar sozinho. Já pensou eu indo almoçar na maior clandestinidade, só pra poder comer um joelho de galinha?

– Mas, Glauber – atalhou o Geraldo. – Não daria pra negociar isso? Ficar cada um com um joelho talvez…

– Não! Não dá! Porque do jeito que a Joana é, se ela soubesse que eu tenho essa preferência, ela ia querer deixar os joelhos da galinha sempre pra mim. Talvez eu aceitasse, mas ia comer aqueles joelhos no maior remorso. Porque eu ia saber que ela também queria, mas estava deixando pra mim. Aí, depois de algum tempo, quando a gente tivesse alguma briga mais séria, arriscava ela jogar na minha cara: “Faz dez anos que não como um joelho de galinha por sua causa! E é isso que recebo de você!”. Não, amigo, pra mim, não dá.

Geraldo continuou achando esquisito, mas percebeu que a coisa era séria. Nem tentou convencer o amigo a desistir da ideia. Pôs à disposição o apoio que pudesse dar, embora não achasse uma boa ideia contar aquela história para Lenira. Nem para mais ninguém.

Glauber disse que não seria preciso. Que iria vazar uma foto sua com outra mulher no Facebook. Daria um jeito de Joana ficar sabendo. Depois confessaria a falsa traição. Assim, terminaria tudo de uma vez, sem chance de volta.

E, como dito, foi feito. Joana sofreu muito, mas acabou por se recuperar. Dois anos depois, casou com outro rapaz.

No dia do casamento, o Glauber tomou um porre homérico, ao som da música Garçom, do Reginaldo Rossi.


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A HOMOSSEXUALIDADE, A DECISÃO E A NOTÍCIA

Chegou ao meu conhecimento uma manchete que, de imediato, me chamou a atenção: “Juiz Federal do DF libera tratamento de homossexualidade como doença”.

A notícia não me pareceu verossímil, diante do senso comum, hoje predominante, de que cada um deve exercer sua sexualidade com liberdade, sem sofrer discriminação ou preconceito.

Não obstante, as manifestações de protesto contra a decisão logo proliferaram nas redes sociais.

Fui ao texto da notícia. Ali, vi que a questão é sobre uma Resolução do Conselho Federal de Psicologia que regula a conduta dos psicólogos no tratamento de questões envolvendo orientação sexual. Um trecho da decisão, transcrito na notícia, permitiu-me concluir que o juiz responsável pelo caso concedeu liminar, determinando que o Conselho Federal de Psicologia não interprete a Resolução 001/1990 “de modo a impedir os psicólogos de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica da matéria, sem qualquer censura ou licença prévia por parte do C.F.P.”.

Noutras palavras, conforme o trecho transcrito na notícia, a decisão judicial não anula, revoga ou suspende os efeitos da Resolução do Conselho Federal de Psicologia. Apenas determina que sua interpretação não deve impedir os psicólogos de prestarem atendimento, dentro da sua área de atuação, com plena liberdade científica da matéria.

Para que os não versados no Direito melhor compreendam o ocorrido, é preciso observar que toda decisão judicial tem três partes: relatório, fundamentação e dispositivo. Na primeira, o juiz expõe os fatos sobre os quais irá decidir; na segunda, explica as razões pelas quais decide; na terceira, diz o que foi decidido.

Curiosamente, no dispositivo da decisão à qual me refiro agora, transcrito naquela notícia, não estava escrita uma vez sequer a palavra “homossexualidade”. Nem a palavra “doença”.

Reli o texto jornalístico ainda duas vezes, mas não consegui identificar como o autor da matéria chegara à conclusão de que teria havido liberação para se tratar a homossexualidade como doença.

Não obstante, consultei outros veículos informativos, e lá estavam as manchetes: (clique para ler)

Justiça permite tratar homossexualidade como doença

Justiça permite que psicólogos tratem homossexualidade como doença

Diante da curiosa situação, fiz o que costumo fazer nesses casos: fui em busca do texto original. Talvez na fundamentação estivessem expostas as razões que demonstrariam eventual postura contrária à adotada pela Organização Mundial de Saúde, desde 1990, como faziam questão de destacar os jornais.

Encontrei a íntegra da decisão no site jurídico JOTA. Na fundamentação da decisão, vi que o Juiz Federal que a proferiu, após realizar audiência com os interessados, fixou as seguintes premissas para desenvolver suas razões de decidir:

1ª) que, segundo a Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica;

2ª) que, não sendo a homosexualidade uma doença, mas uma orientação sexual, o projeto de lei conhecido como “Cura Gay” merece críticas, e propaga ideia que não é a defendida pelos autores da ação;

3ª) que, sendo a Psicologia uma ciência da saúde, constitui dever do psicólogo aprimorar-se profissionalmente, envidando esforços na promoção da qualidade de vida das pessoas e das coletividades, baseando seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, buscando eliminar quaisquer formas de discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, nos termos de seu Código de Ética;

4ª) que a Constituição Brasileira elege, entre seus princípios, a promoção do bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, bem como a liberdade de expressão da atividade intelectual científica, dentre outras liberdades.

Foi a partir dessas premissas que o juiz concluiu que, ao proibir aos psicólogos “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”, a Resolução do CFP poderia, caso fosse mal interpretada, levar à conclusão de que os profissionais da Psicologia estariam proibidos de “realizar qualquer estudo ou atendimento relacionados à orientação ou reorientação sexual”. E assim, acrescentou:

“Digo isso porque a Constituição, por meio dos já citados princípios constitucionais, garante a liberdade científica bem como a plena realização da dignidade da pessoa humana, inclusive sob o aspecto de sua sexualidade, valores esses que não podem ser desrespeitados por um ato normativo infraconstitucional, no caso, uma resolução editada pelo C.F.P.”

Por razões éticas, não faço juízo de valor sobre decisões judiciais, seja para concordar com elas, seja para delas discordar. Aqui também não o farei. Logo, não emitirei opinião sobre a decisão estar certa ou errada, ou sobre ser justa ou injusta.

Posso, no entanto, dizer, sem entrar nesse mérito, que continuo sem encontrar, em nenhuma parte da referida decisão, qualquer sinal de autorização para o tratamento da homossexualidade como se fora doença, ou aprovação para a chamada “cura gay”.

Ao contrário disso, a decisão parte da premissa de que a homossexualidade não é doença, mas uma orientação sexual, e que a Psicologia deve abordar o assunto sopesando a dignidade da pessoa humana com a liberdade científica. Conclui, assim, que a resolução do CFP não pode ser interpretada de forma a inviabilizar “a investigação de aspecto importantíssimo da psicologia, qual seja, a sexualidade humana”.

Noutras palavras – e segundo meu entendimento – a conclusão à qual chegou o juiz em tal decisão, é a de que, se a pessoa, independentemente de sua orientação sexual, busca atendimento psicológico, em razão de sua sexualidade, o profissional da psicologia deve estar livre para prestar o atendimento. E deve fazê-lo sem adotar condutas preconceituosas ou discriminatórias, respeitando a dignidade da pessoa interessada, e lançando mão do conhecimento científico do qual dispõe.

Se tal conclusão é a mais acertada, adequada ou justa, não compete a mim dizer. Mas, quanto mais leio a decisão, mais me convenço de que as notícias que têm sido publicadas sobre ela – a exemplo das aqui citadas – estão amplamente equivocadas.


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A PALMEIRA DA PRAÇA

– As palmeiras, rapaz, não têm ofício!
E esta palmeira, aqui, não me apraz…
É preciso cortá-la, pois, rapaz,
Para que eu faça aqui o meu comício!

– Senhor, por que tão grande desperdício?!
Por que não deixas a palmeira em paz?
Por um comício, então, serás capaz
De à inocente impor tal sacrifício?

Ajoelhou-se, e disse, em rogativa:
«Poupe a palmeira, para que eu viva!».
Mas, viu seu tronco a tombar na praça.

Silenciada a criminosa serra,
Caía, morto, o jovem sobre a terra,
A completar a cena da desgraça.

(*) Paródia ao soneto “A Árvore da Serra”, de Augusto dos Anjos, inspirada na crônica “Minha terra tinha palmeiras“, de José Paulo Cavalcanti.


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AINDA O TEMPO

A verdade é que só depois de completar cinquenta anos de idade percebi que não tinha mais quarenta. Naquela época – quando fiz quarenta anos – escrevi a canção “40 voltas em torno do Sol”. Uma teimosia contra o tempo. Ou talvez vontade de viver fora dos seus limites. Quem sabe?

Não lembro de ter tido problemas com os limites impostos pelo espaço. Embora “Longe é um lugar que não existe”, de Richard Bach, tenha sido um livro importante na minha adolescência. Mas, o tempo… Esse sempre tive dificuldade para entender. E aceitar.

O tempo não existe – escrevi em outra canção, intitulada “A vida é agora” – só existe o presente, e o presente é agora.

Continuo pensando assim. Mas, devo admitir que o número 50 levou-me a perceber algumas diferenças em meu próprio comportamento.

Vi-me aceitando com mais serenidade certos contratempos, que, antes pareciam grandes transtornos. Evitando competições, mesmo quando o troféu é algo importante, como uma vaga para o carro no estacionamento do shopping center.

Sinto-me mais paciente para ouvir as opiniões alheias, e até a me deixar convencer por elas. Mas cada vez menos disposto a convencer alguém a seguir uma opinião minha. Se me indagam sobre como agir em determinada situação, respondo. Mas já advirto que a resposta só serve a mim. E não me responsabilizo por quem a ela aderir.

Começo a achar que a cada dia farão mais sentido os versos de Raul Seixas, em “Loteria Babilônia”:

Tudo o que tinha que ser chorado já foi chorado.
Você já cumpriu os doze trabalhos.
Reescreveu livros dos séculos passados,
Assinou duplicatas, Inventou baralhos…

Sim, os meus leitores alçados à casa dos sessenta, setenta, oitenta, dirão que ainda sou muito jovem para esse tipo de sentimento. E certamente terão razão.

Mas, não estou falando de velhice, e sim de serenidade. Talvez por ter chegado aos cinquenta anos cumprindo com sobra aquela parte do filho, do livro e da árvore. Serenidade que só se abala diante de uma espécie de urgência para viver. Da noção, cada vez mais clara, de que cada momento deve ser vivido da melhor maneira possível.

Ainda ontem, eu caminhava pela calçada de um prédio, quando ouvi vozes alteradas vindo da janela de um dos apartamentos. Era um casal que discutia. “Quanto desperdício de felicidade!”, pensei.

Aliás, a palavra “desperdício” me lembra outra canção: “Il tempo che verrà”, gravada pela italiana Rosalba Pippa, mais conhecida como Arisa: “Non so se c’è una fine, né quanto ne rimane. Quello che voglio è provare a non buttarlo via”. Traduzi livremente esses versos para “Não sei se tem um fim, nem quanto resta a mim. O que eu quero é apenas não desperdiçar”.

De fato. Desde que fiz cinquenta anos, fiquei mais preocupado em não desperdiçar tempo. Se é para gastá-lo, que seja com ocupações agradáveis, como escrever esta crônica.

Enquanto escrevia, nem percebi o relógio ultrapassar a hora zero. E, assim, já nem posso mais dizer que tenho cinquenta anos. Agora são cinquenta e um.

Seguem os vídeos da canção da Arisa e da versão que fiz dela para o português.

Arisa, “Il tempo che verrá”:

Minha versão, “O tempo que virá”:


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O MESTRE DO CEARÊS (OU CEARENSÊS, TANTO FAZ O CÃO COMO A MÃE DELE)

Tarcísio Mattos participando de programa de rádio

Quem cantou a pedra foi o leitor fubânico Cícero Tavares.

Eu tinha postado aqui a tradução de mais um trecho do Evangelho para o idioma cearês, quando o xará do Meu Padim comentou: “Existe um mestre dos mestres no cearensês que não pode passar despercebido de qualquer estudioso do assunto. O mestre dos mestres TARCÍSIO MATTOS, o Zé Dantas, o Humberto Teixeira das letras das músicas do mestre FALCÃO”. E completou: Não sendo o caso de lhe tomar muito o tempo, gostaria que o nobre magistrado nos escrevesse sobre esse gênio da cultura popular cearensês, TARCÍSIO MATTOS.

Está coberto de razão o Cícero Tavares. Pense num cabra que conhece do riscado em matéria de cultura cearense! É só dar uma bilada na coluna dele no Jornal O POVO, para ver o desmantelo: AOS VIVOS 

Nascido na minha querida Fortaleza, Tarcísio tornou-se um sexagenário no último dia primeiro de julho.

Consta que começou criar paródias aos doze anos de idade. E já naquele tempo se metia a cantor. Chegou a cantar em inglês numa banda de fundo de quintal. Cantou até em um clube chique de Fortaleza, o Náutico, em 1974: “One day in your life”, do finado Michael Jackson.

Também compôs músicas sérias, até 1976. Sozinho, ou em parceria com Davi Bezerra de Menezes.

Em 1977, ingressou no curso de Medicina, na Universidade Federal do Ceará. Foi aí que criou gosto pelas coisas da cultura cearense. As falas, os costumes, os traços da personalidade cearense, tudo isso foi sendo descoberto por Tarcísio Mattos a partir de viagens ao sertão, levado por colegas da Faculdade que iam passar férias em Tauá, Quixeramobim, Iguatu, Juazeiro, Sobral.

Mas o curso de medicina era uma coisa complicada para Tarcísio. Não podia ver sangue. Ficava com gastura, coisado, desmastruiado… Terminou abrindo dos paus. Nos idos de 1980, largou a Medicina e foi fazer Comunicação Social.

Nesse tempo, eu ainda não conhecia Tarcísio Mattos. Ouviria falar do seu nome pela primeira vez em 1988, quando aconteceu o Festival da Canção Bancária, promovido pelo BNB Clube de Fortaleza, do qual eu, na qualidade de funcionário do Banco do Nordeste, era sócio.

Tarcísio (que à época era funcionário do Banco do Brasil) botou quente naquele festival. Classificou duas músicas entre as finalistas: “Eugênia da noite”, em parceria com o poeta e artista plástico Val; e “Canto Bregoriano No 2”, em parceria com Falcão.

E a plateia vibrava com o refrão do Canto Bregoriano. Aprendi para nunca mais esquecer:

Aporrinharei o senhor (aporrinharei)
Perturbarei o senhor (perturbarei, perturbarei)
Emputarei o senhor (ôôôô)
Enquanto o senhor não me pagar!

Falcão interpreta Canto Bregoriano n. 2, ao vivo:

Até hoje, logo se forma um coro quando a canção é interpretada em algum barzinho de Fortaleza.

Desde então, foram inúmeras as parcerias entre Tarcísio Mattos e Falcão. Parceria que permanece até hoje, como em várias faixas do CD “Sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente sem cessar”, e no programa Leruaite, apresentado por Falcão e produzido por Tarcísio Mattos.

Além disso, Tarcísio Mattos já trabalhou com Tom Cavalcante, Bené Barbosa (O Papudim), a atriz Karla Karenina e mais uma ruma de gente boa. Criou e produziu o programa do Mução entre os anos de 1997 e 2007, um incrível sucesso do rádio brasileiro.

Há vinte anos escrevendo crônicas de humor para o Jornal O POVO, Tarcísio Mattos também participa semanalmente do quadro A LÍNGUA DO POVO, na rádio OPOVO/CBN, onde trata do dialeto cearensês. (Clique aqui para ouvir)

Só por essa palhinha aí já se tem uma ideia da vastidão do vocabulário cearensês de Tarcísio Mattos. Muita coisa está sendo reunida em seu livro, que está a caminho: “O Grande Dicionário da Fala Cearense (entre verbetes e expressões, 12 mil coisas)”.

Essa figura incrível, que eu já admirava desde os anos 1980, só tive oportunidade de conhecer pessoalmente em 2013, quando fui entrevistado pelo Falcão, no programa Leruaite.

Nascia ali uma amizade dessas de guardar do lado esquerdo do peito. A gente se encontra pouco, mas, depois que inventaram Internet, ninguém se avexa com distância. Como diria o próprio Tarcísio, o mundo ficou do tamanho dum caroço de pitomba. Ou dum canapum!

Aliás, acabou não dando tempo de a gente se encontrar e fazer uma foto juntos, para postar no topo desse texto. Mas, na hora que der certo eu posto a foto e escrevo mais alguma coisa. O anexo seguirá em separado.

Por aqui encerro, senão a conversa vai ficar mais comprida que um dia de fome.

Hora de pegar o beco!


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MEU SERVIÇO MILITAR

Aconteceu em uma manhã do ano de 1994. Esperávamos há algumas horas, quando um militar nos chamou e entramos – um grupo de uns trinta homens – em um salão. Ali, outro militar nos orientou sobre o que fazer:

– Todo mundo tira a roupa, põe no chão, e fica de cueca. De costas pra a parede!… Você aí! De camisa azul! DE COSTAS pra a parede! De frente pra mim!

A acústica do local que era boa, mas ele parecia empenhado em fazer com que todos o ouvissem bem.

Obedeci imediatamente, chegando a ficar sem camisa. Mas, antes que eu tirasse o segundo sapato, o mesmo militar postou-se à minha frente e perguntou:

– Qual a tua idade?

– Vinte e oito anos – respondi com calma, mas em volume um pouco acima da minha média, provavelmente influenciado pelo tom de voz dele.

– E só tá se apresentando agora?

– Só agora. Eu tive uns problemas…

Mas, na verdade, não foram problemas que me levaram àquela situação. Foi desleixo mesmo.

Dez anos antes, em 1984, o cumprimento dos deveres cívicos não constava da lista das minhas preocupações principais. Estava mais interessado em tocar rock e juntar dinheiro para comprar uma moto.

Mesmo assim, atendi ao chamado das Forças Armadas, transmitido pela TV – “Você, que completa dezoito anos…” – e compareci à Junta Militar, para me alistar no Exército.

Mas ficou nisso. Alistei-me e nunca mais pensei no assunto. Trabalhava, estudava e me divertia. A banda de rock nunca fez sucesso, mas consegui comprar a moto. Entrei na faculdade e toquei a vida adiante. Se chegou algum comunicado chamando para me apresentar ao Exército, ignorei.

Até que a conta da minha desídia chegou. Formado em Direito, e aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, recebi a lista de documentos necessários para a inscrição como advogado. Dentre eles, um me chamou especial atenção: carteira de reservista.

Obviamente que eu não a tinha. E, não a tendo, não poderia exercer a advocacia regularmente.

Achei em uma gaveta o já amarelado Certificado de Alistamento, e levei-o à Junta Militar. Paguei uma multa irrisória e marquei dia, local e horário para nova apresentação. Desta vez, premido pelas circunstâncias, cumpri o que fora previsto..

Só não pude narrar esses fatos para o militar que havia perguntado minha idade. Antes que eu concluísse a parte do “eu tive uns problemas…”, ele já me dava as instruções sobre o que eu deveria fazer a partir daquele momento:

– Vá pra aquele canto ali! Chegando lá, pode se vestir! – falou um pouco mais baixo desta vez.

Obediente, fui para o lado do salão onde havia um banco de madeira. Vesti a camisa e sentei-me para calçar o sapato.

Enquanto calçava, outros rapazes foram chegando e se acomodando por ali. Uns de estatura muito baixa, outros altos demais; uns muito magros, outros ainda muito gordos. Havia dois, bem magros, com o rosto marcado pela acne, que usavam os chamados óculos de fundo de garrafa. Pareciam gêmeos.

E meu serviço militar acabou ali, em uma espécie de pelotão dos fora do padrão. Ao lado dos inadequados para garantir a defesa da Pátria e proteger nossas fronteiras.

Não que eu me queixe disso. Não me queixo.

Primeiro, porque considero um tanto óbvio que a seleção dos que irão servir às forças armadas obedeça a um padrão físico. O corpo há de suportar o treinamento militar e a eventual participação em um combate real. A mente também, mas essa é mais difícil de avaliar.

Segundo, porque, mesmo que houvesse me apresentado na época devida, seria rejeitado, em função das sequelas de poliomielite que me limitam os movimentos. Sempre soube, portanto, que, se quisesse servir à Pátria, teria que fazer isso em outras instâncias, e não nas forças armadas. De certa forma, é o que venho fazendo no Poder Judiciário.

Mas, as memórias do momento em que fui considerado inapto ficaram guardadas. Foi o que me moveu a escrevê-las.

Ao sair, cada um de nós recebeu um sanduíche de presunto e queijo, e um copo de suco de caju. Gostei dessa parte. Estávamos ali desde as sete da manhã, e já era quase meio dia. Ficou claro que, apesar da maneira firme como nos era dirigida a palavra, o Exército Brasileiro preocupava-se com o nosso bem estar.

Dias depois, compareci a uma cerimônia chamada Juramento à Bandeira. Recebi meu Certificado de Dispensa de Incorporação, e pude, finalmente, fazer minha inscrição na OAB.


Mundo Cordel
AOS MEUS AMIGOS DIREITISTAS (E AOS ESQUERDISTAS TAMBÉM)

Apesar de já haver escrito em outras oportunidades sobre a dificuldade que tenho em entender os conceitos de direita e esquerda, é claro que percebo de que lado estão aqueles amigos que se permitem expor seus pensamentos políticos.

Hoje, escrevo pensando naqueles que demonstram ser “de direita”. Ou pelo menos contrários à esquerda, o “que no es lo mismo, pero es igual”, como diria o compositor cubano Silvio Rodríguez (que, aliás, parece ser de esquerda).

Mas, não vale a pena descer a maiores detalhes a esse respeito. Mesmo porque, assim como a expressão “esquerda” abriga inúmeras correntes de pensamento, a “direita” também tem suas subdivisões.

Tomando, então, meus amigos direitistas naquilo que têm em comum, vejo que sofrem com o fato de muitos jovens, notadamente nas universidades, mostrarem-se adeptos do esquerdismo.

Protestando nas redes sociais através de seus smartphones, esses jovens se apresentam aos direitistas como personificação da incoerência. “Criticam o capitalismo usando um equipamento que só o capitalismo foi capaz de criar”, resmungam os direitistas.

Manifestações contra o racismo, o sexismo e a criminalização da maconha são vistas pelos meus amigos direitistas como atos de gente alienada ou mal intencionada. Alguns dizem que é coisa de vagabundo mesmo.

Não que meus amigos direitistas sejam a favor do racismo ou do sexismo (da criminalização da maconha são a favor, sim). Embora haja direitistas racistas e sexistas, os que conheço mais de perto apenas entendem que os esquerdistas manipulam essas bandeiras para propagar sua ideologia contrária à propriedade privada e à livre iniciativa. Bandeiras essas que, no seu entender, conduzem à pobreza generalizada.

Longe de mim dizer quem está certo ou errado nesse embate.

O que me leva a escrever aos meus amigos direitistas é a impressão de que eles não entendem que, em um mundo dominado pelo capitalismo, com desigualdades sociais extremas, tanto entre os países como dentro de cada país, o discurso da esquerda “vende” bem.

Nesse mundo desigual – “ó, mundo tão desigual!”, diria Gilberto Gil – como não se deixar seduzir por protestos pela retirada de riqueza dos que a têm em excesso, para distribuir com os que não têm nada? Como não se aliar àqueles que prometem tratar melhor os oprimidos, aí incluídos não apenas os pobres, mas os negros, as mulheres, os homossexuais?

E meus amigos direitistas querem contrapor a esse discurso o da meritocracia? Será que a ideia de que os mais capacitados devem ocupar as melhores posições na sociedade não traz em si a mensagem de que se deve fortalecer o mais forte e subjugar o mais fraco? E, como falar em meritocracia – replicam os esquerdistas – se uns já nascem tendo tudo e outros apenas o instinto de sobrevivência?

Enquanto meus amigos da esquerda estão prontos a acolher refugiados, os da direita estão preocupados que entre eles venham terroristas infiltrados. Os da esquerda criticam a desumanização do sistema prisional; os da direita querem o direito de andar armados, para se defender daqueles a quem chamam de bandidos.

Haveria mais a dizer, mas esses poucos exemplos parecem-me suficientes para mostrar aos meus amigos da direita as razões pelas quais tantos jovens sentem-se atraídos pelas ideias da esquerda.

É que o discurso dos esquerdistas é altruísta, até heróico. Excelente combinação com o idealismo, comum aos jovens, sempre dispostos a mudar o mundo!

Houve um tempo em que a ideia da tomada do poder pelas armas também tinha esse glamour. A luta propriamente dita dos oprimidos, para destituir os seus opressores do poder, já encantou mais gente. Hoje, não se fala disso abertamente. Só em círculos mais fechados, de esquerdistas mais ortodoxos. Hoje, atrai mais adeptos falar de democracia.

No entanto, justamente agora, que praticamente todos – de direita ou de esquerda – querem democracia e liberdade, parte dos meus amigos direitistas fala em intervenção militar. E isso em um país que tem um histórico recente de ditadura militar. Prisões sem mandado, tortura e outras mazelas do totalitarismo.

Penso nessas coisas, e parecem-me óbvias as razões de os meus amigos direitistas terem dificuldade para convencer mais pessoas a também se reconhecerem direitistas. Apesar do fracasso econômico dos países que trilharam o caminho do socialismo. Esses mesmos países que, por muito tempo, serviram de inspiração para meus queridos esquerdistas.

Aliás, muitos dos meus amigos que hoje se apresentam como sendo “de esquerda”, afirmavam-se socialistas em um passado recente. Foi preciso que o Muro de Berlim caísse, e a União Soviética se dissolvesse, para passarem a se autoidentificar como “de esquerda”. Por isso a expressão “de esquerda” soa para mim como uma espécie de eufemismo.

E assim, meus amigos antes socialistas, hoje esquerdistas, já não falam em estatização dos meios de produção. Mas ficam nervosos quando ouvem a palavra “privatização”. O termo “empresário” é comumente usado por eles como sinônimo de “explorador dos trabalhadores”. Ultimamente, a palavra “terceirização” tem sido motivo de pavor.

Na verdade, meus amigos esquerdistas têm evitado falar do fracasso do socialismo. Preferem dizer que são progressistas. E, assim, qualquer proposta de mudança legislativa que os desagrade recebe a etiqueta de “retrocesso”. Embora eles mesmos muitas vezes me deem a impressão de ver o mundo como se ainda estivéssemos em meados do Século XIX.

Mas não posso negar a capacidade dos meus amigos esquerdistas de desqualificar tudo o que contraria os seus interesses. E ainda dar a impressão de que não são interesses, mas ideais.

Então, penso nos meus amigos direitistas – tão favoráveis ao livre comércio – e acho que deveriam refletir sobre a sua incapacidade de vender as próprias ideias.

Se querem conquistar corações e mentes, especialmente dos jovens, talvez devessem mostrar como pretendem construir uma sociedade na qual cada um possa enriquecer pelos seus próprios méritos, mas onde a distância entre o mais rico e o mais pobre não seja tão grande. Não, não creio que sirvam discursos sobre crescimento econômico e receitas de sucesso das grandes potências mundiais. Isso é muito distante das pessoas.

Talvez vocês, queridos direitistas, precisem chegar mais perto da vida das pessoas. E explicar como o progresso de cada indivíduo melhorará a vida de toda a sociedade. Porque, se pensassem o contrário vocês seriam esquerdistas.

Talvez vocês precisem dizer como serão dadas ao indivíduo que nasce pobre as condições necessárias à conquista de uma vida digna, com acesso às facilidades que os ricos têm. Observem que usei o verbo “conquistar”, porque distribuir essas benesses de graça é coisa de esquerdista.

Talvez vocês precisem explicar que a direita também quer a inclusão de negros, mulheres e homossexuais nos postos de comando de empresas e entes governamentais. Que os direitistas não são preconceituosos, e querem que cada indivíduo seja reconhecido e respeitado socialmente, independentemente dessas diferenças.

Vocês estão prontos para isso?

Se estão, que tal encontrar uma maneira de mostrar às pessoas – especialmente as mais jovens – que suas ideias levam a um caminho melhor para a humanidade, e não apenas para alguns privilegiados?

Essas são perguntas para as quais não tenho respostas. Mas não apenas isso. São também reflexões que entendo devam ser feitas pelos meus amigos direitistas (e pelos esquerdistas), nesse confronto de ideias que parece não ter fim.


Mundo Cordel
O EVANGELHO EM CEARÊS: JESUS ACALMA UMA TEMPESTADE (MATEUS, 8;23-27)

Jesus entrou numa jangada e os discípulos não contaram pipoca. Entraram também. Um dos apóstolos ainda cochichou um colega:

– Diabeisso, macho? Que foi que o ômi inventou agora?

– Sei não, macho. Sei que eu tô é dento!

Jesus armou logo uma tipoia lá atrás e deitou-se. Com todo mundo embarcado, o jangadeiro arrochou o nó pra dentro dágua.

Só que, mais na frente, deu o maior bode. Caiu um toró daqueles, de matar sapo afogado. E aí o mar ficou valente. As ondas lavando por cima da jangada, direto. De vez em quando vinha uma e assungava a jangada, que a bicha parecia que ia se desmantelar toda. Depois embiocava de novo num buraco de mar. Os discípulos se aperrearam:

– Vixe!

– Valei-me meu padim!

– Agora pronto! (1)

Enquanto isso, Jesus não dava nem as horas. Tirando o maior ronco, lá na rede.

Até que um dos discípulos, abriu dos pau e foi até Jesus, pedindo penico:

– Meste! Meste! Ó a boca quente que nós tamo, meste! A gente em tempo de se lascar aqui e o sinhô fica é dormino?

Jesus queimou ruim:

– Vocês são um magote de mamanaégua mesmo! Não aguentam uma lebrina!

Aí, olhou no rumo do céu e passou o maior carão:

– Vamo parar com esse chafurdo aí, que eu inda quero dormir até umas horas! Quer chover, vá chover lá na caxaprego!

E a chuva e a ventania se aquietaram que foi uma beleza. A nuvenzona preta, que estava em cima deles botou o rabo entre as pernas, chega saiu murcha.
Jesus foi dormir de novo e os discípulos ficaram naquele zum-zum-zum baixinho:

– Égua, macho, o ômi botô foi quente…

– O chefe aí é invocado mermo… Não abre nem prum trem carregado de pólvora…

– Com um doido em cima, fumano…

* * *

(1) Já escrevi no JBF, sobre a expressão “Agora pronto!”. Veja clicando aqui.


Mundo Cordel
DIAGÓSTICO PRECOCE

– Mas, senhor J*, há algum motivo especial para o senhor ter vindo aqui? – perguntou o psiquiatra ao paciente, após as perguntas de praxe em uma primeira consulta. – O senhor está sentindo alguma coisa diferente? Algo estranho?…

– Doutor, eu vim aqui, porque eu acho que um médico psiquiatra talvez seja a pessoa que possa me ajudar.

– E o senhor acha isso… por quê?

– Porque eu tenho um problema… Que, na verdade, é um poder. Mas é um poder que pode me trazer problemas, porque eu estou perdendo o controle sobre esse poder…

– E que poder é esse? – interessou-se o médico.

– É um poder que eu tenho, de matar uma pessoa só com o olhar. Basta eu ter uma raiva da pessoa. Se eu olhar com raiva para a pessoa, ela morre na hora.

– E o que é que faz o senhor acreditar que tem esse poder? Alguém já morreu assim?

– Desde pequeno eu sei que tenho esse poder. Só que eu controlo. Por isso nunca matei ninguém. Mas agora eu sinto que estou perdendo esse controle. Ele é que está me dominando. Aí eu tenho medo de ter uma raiva de uma pessoa, e matar a pessoa sem querer. Eu não quero matar ninguém, doutor. Mas, do jeito que eu estou sentindo esse poder tomar conta de mim, posso acabar matando alguém. Sem querer…

– Bem, senhor J*, nós precisamos investigar isso. Uma das linhas que nós podemos seguir, é a possibilidade de o senhor ter um transtorno psicótico. Talvez um transtorno psicótico crônico, já que o senhor relata que desde criança tem o mesmo tipo de… digamos… alucinação… Então, pode ser que agora o senhor esteja tendo uma crise, mais aguda, por isso sua preocupação…

– Como assim, alucinação, doutor?

– Bem… talvez esteja mais para delírio… precisamos averiguar… Mas, é mais ou menos tratar como se fosse realidade uma coisa que só existe na sua imaginação. Aí a pessoa acredita naquilo, e vive como aquilo fosse realidade…

– Então, quer dizer que esse meu poder de matar as pessoas pode ser só imaginação da minha cabeça?

– Pode… É bem provável que seja isso – e caiu morto.


Mundo Cordel
SETE ESTROFES SOBRE O SETE

Era uma sexta-feira, quando o jornalista Paulo Cunha me ligou perguntando se eu conhecia um cordel sobre o número sete.

– Conheço não, Paulo. Pra que é?

– É que eu vou fazer a apresentação do livro de uma amiga, e acho que ficaria bom se eu encaixasse no discurso uns versos sobre o número sete.

– Se é só isso, aguarde aí que eu faço umas estrofes e lhe mando.

Conforme prometido, fiz algumas estrofes em setilhas e enviei no dia seguinte pelo WhatsApp. Minutos depois, Paulo respondeu:

– Você percebeu que fez cinco estrofes? Por que não fez logo sete?

Ele tinha razão. Já que o assunto era o número sete, por que não fazer SETE ESTROFES, CADA ESTROFE COM SETE LINHAS, CADA LINHA COM SETE SÍLABAS?

E ficou assim:

A redondilha maior
Tem SETE linhas rimadas,
Cada qual com SETE sílabas,
Em estrofes agrupadas.
O SETE está na poesia,
Como a luz está no dia,
E o frio nas madrugadas.

Nas lendas, o SETE surge
Em insólitas versões:
Dragões de SETE cabeças,
Reinos com SETE dragões,
Ou, numa história mais leve,
Ao fugir, Branca de Neve
Encontrou os SETE anões.

Se alguém jurar SETE vezes,
É melhor desconfiar,
Pois quem SETE vezes jura,
Nas SETE pode falhar.
Há erros que são banais,
Mas, pecados capitais,
São SETE, a nos condenar.

O gato tem SETE vidas
O arco-íris SETE cores
É sempre um belo presente,
Um buquê com SETE flores.
Quem viaja os SETE mares
Conhece muitos lugares,
E vive muitos amores.

SETE são as maravilhas
SETE as notas musicais
SETE os dias da semana
E as virtudes divinais.
SETE também são os céus
Destacam-se os SETE véus
Entre as danças sensuais.

SETE reinos se uniram
E formaram a Inglaterra,
O SETE nos acompanha
Até se a vida se encerra,
E o finado, no caixão,
É posto embaixo do chão,
A SETE palmos de terra.

O porquê de tantos SETES
A ciência não responde.
Isso tudo começou
Não se sabe quando ou onde.
Estas SETE estrofes dão
Uma pequena noção
Do que o SETE nos esconde.


Mundo Cordel
ELEIÇÕES DIRETAS E EMENDA CONSTITUCIONAL

Após a divulgação de gravação de conversa entre o Presidente da República e um empresário investigado que acabara de se tornar colaborador premiado, o impeachment voltou a ser um assunto em pauta. E, junto com o assunto impeachment, vieram os pedidos de eleições diretas, ou, no bordão das manifestações de rua: DIRETAS JÁ.

O problema para a realização de eleições diretas agora é que a Constituição Federal prevê, no § 1º do seu artigo 81, que vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República “nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional”.

Diante de tal dispositivo constitucional, volta a ganhar a força proposta de emenda constitucional já em trâmite no Congresso Nacional, para que tal eleição passe a ser direta.

Antes, porém, de sair às ruas empunhando a bandeira das DIRETAS JÁ, penso que o cidadão deva lembrar que a Constituição é o instrumento jurídico que impõe limites ao poder político. E há de se ter cautela ao permitir que o poder político altere as normas que o controlam, especialmente quando essas alterações são propostas em momentos de instabilidade política.

No caso da proposta de emenda que tornaria direta a eleição hoje prevista para ser indireta, não se pode dizer que a Constituição impeça tal alteração. Não impede.

Ocorre que, alterar um dispositivo constitucional, quando se está diante da possibilidade real de aplicá-lo, gera, sem dúvida, mais instabilidade política. Ao contrário disso, a rigorosa aplicação da Constituição nesses momentos de crise favorece um valor muito caro às sociedades civilizadas: a segurança jurídica.

Porque ao buscar na Constituição a saída para a crise, tem-se um mínimo de previsibilidade. Com isso, as instituições se fortalecem. Ao revés, se, diante da crise, altera-se a Constituição, é como se Constituição não houvesse, e passa a prevalecer o (des)equilíbrio de forças do momento. Sem previsibilidade, sem segurança.

No momento, estão em andamento processos jurídico-políticos que podem levar a mudanças graves na distribuição de poder político, tais como: uma ação no Tribunal Superior Eleitoral, na iminência de ser julgada, que pode cassar o presidente da República; vários pedidos de impeachment protocolados, com potencial para serem aprovados; as investigações em curso, com a abertura de inquérito para que o presidente da República seja investigado, podendo inclusive provocar sua renúncia.

Pode ser que, apesar desses processos terem se iniciado, nenhum deles leve à vacância da Presidência da República. Mas, é certo que, caso a vacância aconteça, a Constituição já prevê o modo pelo qual será definida a próxima pessoa a exercer a presidência.

Emendar a Constituição nesse ponto, às pressas, com os processos acima referidos já em andamento, significa abrir mão da segurança jurídica, ampliando-se a instabilidade política que o país atravessa.

Nem entro aqui na discussão se a composição atual do Congresso Nacional teria legitimidade para tratar do assunto, pelo fato de haver vários parlamentares sob suspeita. Mesmo porque, seja para alterar a Constituição, seja para eleger, em eleição indireta, o Presidente da República, os parlamentares serão os mesmos.

Concluo, assim, que, embora seja sempre atraente a ideia de que o povo decida pelo voto direto os destinos do país, mudar a Constituição agora, seria uma medida casuística, danosa para a segurança jurídica, e, por via de consequência, para a já abalada estabilidade política do país.


Mundo Cordel
TEORIAS CONSPIRATÓRIAS: A TEORIA DO PERSEGUIDO

Teorias da conspiração são sempre muito interessantes. Embora o termo seja utilizado para designar teses infundadas, muitas delas são tão bem engendradas que até lamentamos não serem verdadeiras.

Lembro de uma que fala de um governo do mundo, que controla todos os países, escolhe os políticos que serão eleitos e define o que cada um deles fará em seu governo. Outra diz que muitos habitantes do planeta Terra são, na verdade, seres extraterrestres, infiltrados por estas bandas, não se sabendo bem com qual finalidade.

Quanto mais especulativas, mais chamam a atenção.

Essa introdução, no entanto, é apenas um nariz de cera, preparatório de uma paródia que me proponho a apresentar, a partir de uma crônica que li recentemente neste blog(*), segundo a qual a teoria da conspiração mais recente, e uma das mais expandidas no Brasil, seria “a que atribui ao ex-presidente Lula o comando de uma organização criminosa destinada a saquear os cofres do estado brasileiro”.

De fato, trata-se de teoria relativamente recente, mas não a mais nova delas.

Nova mesmo é a teoria que ora batizo de Teoria do Perseguido, e da qual passo a tratar, já iniciando a paródia prometida linhas acima.

A Teoria do Perseguido consiste na crença em que diversas instituições públicas brasileiras, como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário, partindo do convencimento de que o ex-presidente Lula é culpado de toda a corrupção levantada no país, nos anos recentes, passaram a trabalhar para provar isso a qualquer custo.

A Teoria não deixa claro o que levou a essa união de forças contra Lula. Uns dizem que fora o fato de Lula levar os pobres para viajar de avião, outros, que foi porque Lula matriculava jovens de baixa renda em universidades. Coisas assim. Mas não fica explicado como isso teria despertado a fúria das instituições de persecução criminal do país. De toda sorte, se é nisso que os seguidores da Teoria do Perseguido acreditam, não vale a pena discutir.

O que interessa, segundo os adeptos da Teoria do Perseguido, é que essas instituições iniciaram a perseguição a Lula, contrariando as evidências primárias de que o ex-presidente vem de uma longa jornada política de grandes realizações sem jamais ter-se levantado contra ele qualquer suspeita ou acusação.

Aparentemente, os teóricos da perseguição não lembram um episódio recente da história do Brasil chamado de Escândalo do Mensalão.

Revelado ainda no primeiro mandato de Lula, o esquema acarretou a condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, de pessoas muito próximas ao ex-presidente, inclusive José Dirceu, que fora seu Ministro Chefe da Casa Civil. Se os teóricos do perseguido lembrassem desse fato, talvez evitassem dizer que jamais se levantaram contra Lula qualquer suspeita ou acusação. Ou talvez lembrem, mas continuam dizendo. Quem sabe?

Prossigamos, então, para observar que, segundo a Teoria do Perseguido, a obstinação em condenar Lula não compreende apenas as instituições públicas já citadas, mas se estende à imprensa e a uma parte da população.

A razão do conluio entre as empresas de jornalismo que compõem a chamada grande mídia também não é esclarecida pela teoria. Se bem que seus seguidores queixam-se da mídia há tanto tempo que podem simplesmente pressupor que a mídia persegue Lula. Ponto. Nada precisa ser demonstrado.

Ainda segundo a Teoria do Perseguido, os Procuradores da República que compõem a chamada Operação Lavajato, por não encontrarem provas, mas terem convicção, submeteriam pessoas a todo tipo de tortura psicológica, para que elas firmem pactos de delações premiadas que incriminem o perseguido.

Não importa que os delatores estejam acompanhados de seus advogados em todas as reuniões, nem tampouco que essas reuniões sejam gravadas em vídeo. Não importa nem mesmo que esses vídeos sejam todos publicados na Internet, e que neles delatores apareçam sorrindo descontraidamente, enquanto revelam seus segredos aos procuradores. Nada disso importa para os seguidores da Teoria do Perseguido.

O fato de haverem sido delatados inúmeros políticos, dos mais diversos partidos, bem poderia alertar os adeptos da Teoria do Perseguido para a possibilidade de estarem equivocados. Afinal, se o objetivo das operações de combate à corrupção é perseguir o Lula, por que razão os delatados teriam cores tão diversificadas?

Aliás, os teóricos da perseguição, curiosamente, parecem acreditar nos delatores, quando eles delatam pessoas ligadas a outros partidos, que não o partido do perseguido. Aí sim! É tudo verdade, e o delatado deve ser condenado sumariamente. Mas se a delação se aproximar minimamente do perseguido, é perseguição.

Mas, os adeptos da Teoria do Perseguido acreditam mesmo, com todas as suas forças, é que o Juiz Federal Sérgio Moro está imbuído de um único propósito na vida: destruir o perseguido e o partido político por ele fundado.

Também quanto a este ponto, a Teoria não apresenta razões convincentes. Blogs defensores da Teoria falam de ligações com partidos políticos e governos estrangeiros, mas não conseguem ultrapassar o plano das especulações. Estar-se-ia diante de um caso de flagrante parcialidade, mas, quando a defesa do perseguido entrou com recursos, tentando afastar o Juiz do caso, o tribunal não se convenceu. Manteve-o à frente do processo.

Essa seria uma boa oportunidade para os teóricos da perseguição esclarecerem se acreditam que também os tribunais estariam mancomunados com o juiz perseguidor da primeira instância. Mas, não se dão a esse trabalho. Continuam acusando o Juiz, não importando se suas decisões são confirmadas pelas instâncias superiores.

Talvez seja assim porque, para os seguidores da Teoria do Perseguido, não importa que doleiros, executivos e empreiteiras tenham devolvido montanhas de dinheiro, inclusive de contas no exterior. Não importa nem mesmo que existam investigações em 26 países, envolvendo as mesmas empreiteiras, o mesmo método de praticar a corrupção e pessoas que fizeram parte do governo brasileiro no mesmo período.

Porque os seguidores da Teoria do Perseguido partem de um pressuposto que é quase um axioma: policiais federais, procuradores da República, membros do Poder Judiciário, servidores públicos, executivos de estatais, executivos de empreiteiras, jornalistas, ex-aliados, marqueteiros, todos se uniram em torno do objetivo de prender o Lula.

Se há alguma força superior que tem atuado na coordenação dessas pessoas e entidades, é algo que a Teoria do Perseguido também não explica. Seus adeptos limitam-se a fazer referências abstratas, dizendo que são “eles”, a “direita” ou as “forças conservadoras”.

Mas, teorias conspiratórias são assim mesmo. Especular é mais importante que desenvolver um raciocínio lógico.

Os que seguem a Teoria do Perseguido talvez estejam certos de que sequer existiu o Mensalão. E que Eduardo Cunha – hoje preso – foi o único responsável pelo impeachment de Dilma.

Talvez acreditem até que há um governo do mundo, cuja cúpula se reúne em uma caverna oculta no inóspito Deserto de Gobi.

O que essas pessoas parecem não conseguir acreditar é que Lula seja um ser humano, e, como tal, pode ter cometido atos reprováveis, antiéticos e até ilícitos. Inclusive os crimes dos quais é acusado.

E, como qualquer pessoa, pode ser investigado, processado e até condenado, se for o caso.

(*) A crônica à qual me refiro foi a publicada pelo colunista Goiano Braga Horta, sob o título LULA E A TERRA PLANA. Agradeço a Goiano a criativa ideia de tratar desse assunto do ponto de vista das teorias conspiratórias. Tudo o que fiz foi aproveitar sua brilhante ideia e desenvolver aqui um ponto de vista alternativo ao apresentado por ele, sem qualquer intenção de depreciar seus argumentos.


Mundo Cordel
PELO MENOS UM MICROCONTO

Os dias em Brasília têm sido intensos. A ponto de prejudicar a regularidade que tento manter nesta coluna. Devo ter umas oito crônicas começadas, que simplesmente não consegui terminar, porque tive que interromper e não consegui continuar depois.

Mas, uma hora essa tempestade há de passar. E poderei dar a atenção devida às minhas aventuras literárias.

Enquanto isso, antes que meus leitores me esqueçam, envio hoje à coluna pelo menos um microconto.

* * *

QUEDA

Tropeçou nas próprias mentiras.
Tentou se apoiar em desculpas esfarrapadas.
Terminou caindo no ridículo.


Mundo Cordel
AGORA PRONTO!

Quem já teve nas mãos o disco SUCESSÃO DE SUCESSOS QUE SE SUCEDEM SUCESSIVAMENTE SEM CESSAR, do multifacetado artista Falcão – também conhecido como Brega Falcão – pôde ver que há ali uma canção cujo título é o mesmo que encima este texto: AGORA PRONTO!.

Para muitos, tal título deve ter passado despercebido, ou soado como um simples jogo de palavras. Até porque a letra da canção brinca com eventos passados – mais ou menos importantes – para chegar a uma conclusão que não parece ter muita conexão com as premissas:

Agora que o Brasil foi descoberto
Agora que Roberto enviuvou
Agora que homem já pisou na lua
Agora que mamãe engravidou

Agora que Getúlio fez essa besteira
Agora que Pelé já fez mil gols
Agora que seu Raimundo pegou papeira
Agora que açude de Orós arrombou.

Agora tem catuaba
Agora tem penicilina
Agora qualquer um já pode sair
E frequentar as meninas.

Agora tem computador
Agora já tem vaselina
Agora que eu não quero mais
Te vejo em qualquer esquina

Mas quem é versado no idioma cearês sabe que não se está a tratar de um jogo de palavras. Para nós, “agora pronto!” é expressão dotada de conteúdo próprio, sendo largamente utilizada no cotidiano, tanto pelas pessoas menos instruídas como por letrados e graduados.

Não surpreende que a canção seja uma parceria de Falcão com Tarcísio Matos, outro gênio da arte de colher as expressões e os costumes do povo cearense para transformar em humor. Foi isso que fizeram mais uma vez: pegaram o “agora pronto!” na rua e puseram na canção. Aliás, o “agora pronto!” não está em nenhum de seus versos. Mostra-se no título para se ocultar nas entrelinhas. Talvez para ser percebido só por iniciados.

Mas o que significa “agora pronto!”?

Depende. Como tantas expressões do idioma cearês, “agora pronto!” tem vários significados, que podem ser agrupados em dois sentidos: um positivo e outro negativo. Um é mais próximo do significado que a junção das palavras “agora” e “pronto” tem em português. O outro é bem diferente.

Vamos lá.

No sentido positivo – e mais próximo da língua portuguesa – “agora pronto!” significa simplesmente que um obstáculo foi superado e, agora pronto, pode-se seguir adiante. Mesmo que o problema não tenha sido resolvido ainda, basta que se encontre a solução para se dizer:

– Agora pronto! É só você segurar aí que eu aperto o parafuso aqui e fica tudo certo.

Agora pronto! Podemos passar ao sentido negativo, o qual, aliás, é até mais interessante.

Começando com um exemplo, imagine-se um ônibus lotado de cearenses voltando do trabalho. Todo mundo se espremendo naquele lugar quente e abafado. O cheiro de suor acumulado de todo o dia empesteando o ambiente. O ônibus pára no semáforo fechado e o motor apaga. Ouve-se um coro dentro do coletivo:

– Agora pronto!

Obviamente que a entonação muda em relação ao primeiro sentido. Lá, o tom seria de otimismo. Aqui, a voz aqui exprime uma mistura de surpresa e irritação. “Agora pronto!” significaria, neste caso, algo como “isso não podia ter acontecido agora!” ou “que lástima!”. Com a diferença que “agora pronto!” é lamentação, como essas outras expressões citadas, mas também é protesto. Um italiano talvez dissesse “porca miséria!”.

Mas, em alguns casos, “agora pronto!” também pode expressar uma indignação temperada com ironia.

A cena se passa em frente a uma padaria. Um homem havia deixado o carro estacionado ali. Quando se prepara para sair, percebe que outro veículo o está impedindo. Ao se aproximar, percebe que o motorista do outro carro está ao volante. Pela conversa, percebe-se que são dois cearenses:

– Sai do mei aí, macho. Preu poder pegar o beco!

– Péra aí, mah, que minha mulher já tá vindo ali com o pão.

– Agora pronto! Tua mulher vai comprar pão pra ti e eu tenho que ficar eguando aqui?

– Arriégua, mah… Tu já queimou ruim?

A partir daí os ânimos podem se alterar. Ou – o que é mais provável – o interlocutor encerrar a discussão, dizendo apenas, enquanto se afasta:

– Aí dento!

Antes de concluir, voltemos ao título da canção ora comentada, para destacar um último detalhe: “Agora pronto!” é a última faixa do CD. Isso certamente não se deu por acaso. Depois de gravar todas as faixas anteriores, só restava mesmo uma coisa a ser dita pelo artista: AGORA PRONTO!


Mundo Cordel
DEPOIS DA FOLIA

Com o final da folia
Que animou o carnaval.
O Brasil, a cada dia,
Volta ao ritmo normal.

Volta ao ritmo normal
Que também é animado,
Embora mais concentrado
Em Brasília, a capital.
A Polícia Federal
Voltando a ter atenção,
Já que nova operação
Qualquer hora é deflagrada.
De delação premiada
Pode haver divulgação.

Pode haver divulgação,
Ou pode haver vazamento,
Pois houve depoimento
Sobre a última eleição.
Falou-se de doação,
De caixa dois e propina,
Assim toda essa faxina,
Continua em andamento,
E é difícil, no momento,
Saber como isso termina.

Saber como isso termina,
É coisa para adivinho.
Segue o Brasil seu caminho,
Cumprindo essa triste sina,
Entre protesto e chacina,
Corrupção, baixaria.
E, nas ruas onde havia
Animados foliões,
Voltarão os arrastões,
Com o final da folia.

Com o final da folia
Que animou o carnaval.
O Brasil, a cada dia,
Volta ao ritmo normal.


Mundo Cordel
AMIZADE SEM INTERESSE

No dia 23 de fevereiro de 2017, fui almoçar em um restaurante self-service, naquele horário que parece que todo mundo resolve comer: entre 12:30 e 13:30.

Feita a pesagem da comida, fiquei com prato e talheres na mão, procurando sem sucesso uma mesa vaga. Foi então que notei a presença de um conhecido meu, ocupando sozinho uma mesa.

– Doutor Genário! Tudo bem? Posso me acomodar por aqui? Ou tá esperando alguém?

– Não, não… Senta aí – respondeu ele sem muito entusiasmo.

Achei compreensível a reação. Como alertei já no princípio, não era um amigo que estava ali, mas apenas um conhecido. Desses que a gente encontra eventualmente em solenidades e lançamentos de livros. Talvez quisesse almoçar sozinho mesmo, planejando o que faria à tarde ou olhando as mensagens no celular. Ou outra razão qualquer para não querer ninguém compartilhando sua mesa. Ainda mais alguém como eu, com quem não tinha intimidade, mas sua boa educação recomendaria dar alguma atenção protocolar.

Foi nesse clima educado, mas protocolar, que o almoço prosseguiu por alguns minutos. Até que meu celular tocou.

Nem costumo atender a ligações enquanto estou almoçando, mas vi que se tratava de um amigo de longa data, Alexandre Monteiro, advogado em Fortaleza, que há semanas não dava notícias. Desde que passei a trabalhar em Brasília, ele, em tom de gozação, passou a me chamar de Ministro. E eu, devolvendo a brincadeira, trato-o por Ministro também. Atendi:

– Ministro Alexandre! Onde é que você anda, amigo?

Alexandre respondeu como de costume. Que andava muito ocupado, com muitos processos, viagens, etc. Na verdade, o que importa aqui não é o que conversamos, mas a reação do conhecido que compartilhava comigo a mesa do restaurante.

A partir do momento em que atendi o telefone, o Dr. Genário passou a olhar para mim com particular interesse. Como se quisesse participar da conversa telefônica. Sem entender seu comportamento, continuei a ligação, mas observando sua linguagem corporal.

A certa altura da conversa, Alexandre convidou-me para o aniversário da sua filha, e eu, no tom formalesco que costumamos brincar, perguntei:

– E quando é a solenidade, Ministro?

Ao ouvir aquela pergunta, Dr. Genário abriu um sorriso, inclinou-se em minha direção e perguntou num sussurro:

– É o Ministro Alexandre de Moraes?

Revelava-se o motivo do súbito interesse do Dr. Genário pelo meu telefonema. Acreditava ele que o Ministro Alexandre de Moraes – aprovado pelo Senado Federal no dia anterior, para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal – acabara de ligar para mim. E, pelo andar da conversa, deveria estar me convidando para a posse.

Diante de tamanho interesse do Dr. Genário, faltou-me coragem para lhe causar algum tipo de frustração. No mesmo instante em que confirmava presença no aniversário para o qual acabara de ser convidado, acenei afirmativamente com a cabeça, e levantei o polegar, em sinal de positivo.

Admito que a partir daí passei a induzir deliberadamente o Dr. Genário a erro, desejando a Alexandre sucesso nos desafios, e lembrando-lhe de não permitir que o trabalho nos impeça de tomar umas cervejas juntos, de vez em quando.

Mas, também observei que, depois que encerrei a ligação, Dr. Genário ficou mais sorridente, conversando mais e comendo menos. Antes de ir embora, fez questão de trocarmos cartões de visita, embora eu lembrasse de já havermos feito isso em ocasião anterior.

No dia seguinte, às 10:45 da manhã, Dr. Genário enviou uma mensagem para meu celular: “Caro amigo, almoçarei hoje naquele mesmo restaurante de ontem. Caso você também vá, seu lugar na mesa está reservado”.

Respondi a mensagem, agradecendo a gentileza, mas fui almoçar em outro lugar.


Mundo Cordel
A BALANÇA E O ESPELHO

PRIMEIRO ATO

– Você é um mentiroso compulsivo – acusou a balança.

– Minto apenas para quem não quer ver a verdade – respondeu o espelho.

SEGUNDO ATO

Cansada das mentiras do espelho, a jovem decidiu levar mais a sério as duras advertências da balança. Em poucos meses emagreceu dez quilos.

TERCEIRO ATO

Depois de meses seguindo as orientações da balança, a esbelta jovem estava convencida de que o espelho não a poderia mais enganar:

– Espelho, espelho meu. Reconheça que estou mais bonita assim, magra.

– Bonita sim. Magra não – respondeu ele, secamente.

Em um canto do quarto a balança praguejava: ‘Vingativo!”

EPÍLOGO

Deitada na cama, a jovem definhava. A vida consumida pela anorexia.

– Você sabe que a culpa é sua – disse a balança ao espelho.

Mas ele nada respondeu. Apenas refletia um misto de remorso e prazer.


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