Mundo Cordel
MICROCONTOS

MICROCONTOS

Sim, é verdade. Eu, que já tive receio de publicar meus contos na Internet, por acreditar que escrevia textos longos demais, ando experimentando postar microcontos no Twitter (siga-me em @MarcosMairton).

Para mim, é realmente um desafio contar uma história em 140 caracteres, sendo alguns para o título e a hashtag #MICROCONTO.

Hoje, incentivado pelo colunista fubânico FERNANDO PORTELA, começo a trazer algumas dessas experiências para esta coluna.

O primeiro microconto que postei fala exatamente desse pessoal que atravessa a noite rolando a timeline da rede social de mensagens curtas. Ficou assim:

#MICROCONTO
SOLIDÃO
Seguiu. Curtiu. Retuitou.
Tuitou.
Ninguém seguiu de volta, nem curtiu, nem retuitou.
Esperou o sono, mas nem ele veio.


Mundo Cordel
ASCENDER E ACENDER

100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS_CAPA

Quem conhece o livro 100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS, em cordel, que escrevi em parceria com Geraldo Amancio, sabe que mostramos ali várias palavras de sonoridade parecida, que têm escrita e significados distintos. Por exemplo:

INFLIGIR e INFRINGIR

Como parece esse par.
INFLIGIR é impor castigo,
Pegar pena e aplicar.
Enquanto isso, INFRINGIR
Com certeza é descumprir,
Transgredir, desrespeitar.

INCIPIENTE, com C,

É todo principiante.
INSIPIENTE, com S,
Do primeiro está distante.
Este último INSIPIENTE
Significa imprudente,
Insensato e ignorante.

Hoje, acordei com uma estrofe na cabeça, que poderia ter entrado no livro, mas terá que ficar para uma possível reedição, revisada e ampliada:

ASCENDER e ACENDER

Têm pronúncia similar.
Mas, na forma de escrever,
Vão se diferenciar,
E é preciso distinguir:
Com “sc” é subir,
Com “c” a luz vai brilhar.


Mundo Cordel
UMA VALOROSA OPINIÃO SOBRE A MAIORIDADE PENAL

Abro excepcionalmente o espaço da minha coluna para compartilhar texto do colega AGAPITO MACHADO, Juiz Federal no Ceará.

Mestre Agapito, como o trato no dia-a-dia de trabalho, é o juiz federal mais antigo da 5ª Região, que abrange os Estados do PI, CE, RN, PB, PE, AL e SE. Já podia ser Desembargador no Tribunal Regional Federal da 5ª Região desde o ano passado, promovido por antiguidade, mas por duas vezes recusou a promoção. Professor de Direito Penal e Processo Penal, com várias obras escritas nessas áreas, é um magistrado admirado e respeitado por colegas de trabalho e por alunos.

Não é à toa que o chamo de Mestre, pois se trata de alguém com quem muito já aprendi e continuo aprendendo, mesmo quando discordamos. No caso desse artigo, publicado no Jornal Diário do Nordeste deste domingo, 3 de maio, concordo com seus pontos de vista.

Segue o texto.

* * *

IDADE PENAL INFERIOR A 18 ANOS?

Discute-se, no meio jurídico, a redução da idade penal de 18 para 16 anos, em razão da PEC nº 171, que tramita no Congresso Nacional. Aqueles que são contra dizem que Governo e sociedade não cuidam dos menores; sendo menos de 1% os crimes por eles cometidos, conforme estatísticas “oficiais”; baixando para 16 anos a idade, depois se pretenderia para 14, 12, 10 e, por fim, que se trata de cláusula pétrea, imexível.

Os que são favoráveis afirmam que, em face do avanço tecnológico permitindo a fácil informação nesse mundo globalizado, a partir dos 16 anos de idade o adolescente já tem capacidade de casar, ter filhos, possuir renda própria, trabalhar, votar, dirigir veículos etc.

Com efeito, é o caso de se indagar: porque também à semelhança do rigor dos crimes gravíssimos, não possa o menor ficar internado além de três anos, eis que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao completar 21 anos de idade ganhará a liberdade, e em seguida, cometerá verdadeiros crimes gravíssimos já como maior de 18 anos e daí voltará como adulto para os presídios?.

Somos contra prisão/segregação mesmo para os maiores de 18 anos, nos crimes de mínimo e médio potencial ofensivo, porque os presídios são depósitos de presos ociosos que não são obrigados a trabalhar e não recuperam ninguém.

Todavia, concordamos com a prisão/segregação efetiva para os maiores de 18 anos, mas apenas nos casos de crimes gravíssimos, de verdadeiros animais indomáveis, porque o rigor para eles está determinado na nossa própria Constituição (art.5º XLIII e XLIV – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem; constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático).

Historicamente, no Brasil, a maioridade já foi abaixo de 18 anos: o Código Penal de 1890 (de 9 a 14 anos, o juiz examinava se o garoto agira com discernimento); O Código de 1927 trazia três limites de idade: com 14 anos o infrator era inimputável; de 14 até 16 anos ainda era inimputável, mas se instaurava processo para apurar o fato, com possibilidade de cerceamento de liberdade e, entre 16 e 18 anos de idade, o menor poderia ser considerado responsável, sofrendo pena.

A lei federal 6.69l/79 (antigo Código de Menores) juntamente com o atual Código Penal de l940 e a Constituição de 1988, consideraram a maioridade a partir do 1º minuto do dia em que o menor completa 18 anos.

Vejamos em outros Países, com qual idade existe a responsabilidade penal: com 7 anos (na Austrália, Egito, Kuwait, Suíça, Trindade e Tobago); 8 (Líbia); 9 (Iraque); 10 (Inglaterra e Malásia); 12 (Equador, Israel e Líbano); 13 (Espanha); 14 (Armênia, Áustria, China, Alemanha, Itália, Japão, Haiti e Coréia do Sul); 15 (Dinamarca, Finlândia, Noruega; Índia, Egito, Síria, Honduras, Guatemala, Paraguai, Líbano); 16 (Argentina, Chile, Cuba); 17 (Polônia).

Bem se vê, a criminalidade/prisão é um problema de política criminal de cada País, inclusive, as nações de primeiro mundo, onde há grandes juristas e médicos que sabem avaliar a personalidade dos delinquentes.

O que tem gerado uma sensação de impunidade quanto aos menores delinquentes é o fato de um menor 18 anos de idade cometer ato infracional gravíssimo (matar perversamente alguém, estuprar uma criança levando-a à morte, assaltar matando pessoas etc.) e o que de mais grave lhe ocorrerá será ficar internado (na prática, preso) no máximo por três anos e imediatamente liberado ao completar 21 anos de idade.

Sempre defendemos que não é necessário baixar de 18 para 16 anos a idade penal, bastando uma simples alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente, mera Lei Ordinária, para aumentar o prazo de internação de três para uns oito ou nove anos e, com isso, um menor de 18 anos condenado por ato infracional gravíssimo, possa ficar enclausurado e assim fora da sociedade, como verdadeiro animal, até seus 25 a 30 anos de idade, eis que ele já fica por até três após os 18 anos de idade, tese que vi agora também sustentada por Luiz Flávio Gomes, em recente publicação para quem “o nosso problema, portanto, reside na falta de certeza do castigo.

Essa seria a bandeira correta a ser levantada, fazendo-se um ajuste no ECA para, nos casos de menores assassinos, aumentar o tempo de internação, de três para seis ou oito anos (como acontece em vários países europeus).

Para além desse ajuste legal, a solução da criminalidade exige educação de qualidade em período integral, para todos, prevenção e certeza do castigo previsto na lei. Nada dessas coisas certas fazemos no Brasil.

Teimamos em fazer o errado. Por isso que é insanidade esperar resultados diferentes. Com 150 milhões de analfabetos funcionais ainda vamos demorar muito para alcançar a consciência crítica…”.

Agapito Machado
Juiz federal e professor


Mundo Cordel
AOS CAMPEÕES

Conforme o calendário esportivo do ano, estão definidos os campeões estaduais do futebol brasileiro. Muitos gols, muita festa, muita alegria para torcedores que há anos não viam o seu time ser campeão. E para outros que acumularam anos seguidos de vitórias.

Aqui no Ceará, uma das finais mais emocionantes entre alvinegros e tricolores, com um 2×2 definido nos acréscimos. Melhor para o Fortaleza, que se sagrou campeão estadual, interrompendo uma sequência de quatro anos vencidos pelo Ceará. Ao meu Vozão, restou comemorar o título de Campeão da Copa Nordeste, conquistado em cima do Bahia, na quarta-feira.

Mas, valeu a disputa. Os jogadores de ambos os times foram guerreiros, dignos de nossa admiração e aplauso!

De se lamentar, apenas a conduta de torcedores mal comportados e violentos após o jogo. Não aprenderam – ou esqueceram – a diferença entre adversários e inimigos, talvez insuflados por promotores do esporte, que insistem em estimular uma besteira chamada “rivalidade”, para aumentar o interesse do público.

Invasão do Castelão

A “rivalidade” é insana. No momento em que escrevo, chegam inúmeras mensagens em meus grupos de WhatsApp trocando provocações. Pessoas amigas, que normalmente se tratam com carinho, de repente passam a se tratar com desdém e arrogância. É gozação, eu sei, faz parte da brincadeira, mas fica fácil imaginar o que pode acontecer entre desconhecidos na rua, ainda mais se estiverem em grupo.

Brincadeiras à parte, continuo a ver a tal “rivalidade” sendo estimulada ao longo dos anos, umas vezes às claras, outras vezes de forma dissimulada, intercalada entre pedidos de paz nos estádios. E a violência vem crescendo junto.

Mas hoje, com tantos campeões a comemorar seus títulos, prefiro lhes dar os parabéns e sonhar. Sonhar com o dia em que vencedores e vencidos possam se cumprimentar com respeito, e que as notícias das festas dos campeões do futebol brasileiro não tragam junto manchetes sobre agressões e assassinatos.

Para isso, repito o que já disse outras vezes: é preciso propagar a tolerância; aliás, mais que a tolerância, a compreensão de que as diferenças não devem excluir, mas completar. A realidade não é completa sem a diversidade.

Que os campeões de hoje comemorem, mas reconheçam em seus adversários colaboradores imprescindíveis à sua conquista! É o que desejo. Uma utopia talvez, mas sonhar também faz parte da realidade.

Parabéns, campeões!

Gols de Fortaleza 2 x 2 Ceará

Glos de Ceará 2 x 1 Bahia


Mundo Cordel
EXCESSO DE ASSUNTO

Foi um piscar de olhos, um momento de descuido apenas. Quando fui ver, tinha passado um mês sem publicar nada na minha coluna no Jornal da Besta Fubana. É bem verdade que o Editor não fica me cobrando o envio de novos textos, mas isso acaba sendo pior, porque não sei se ele age assim por generosidade ou porque meus textos não estão fazendo falta.

Para não correr o risco de ouvir uma verdade inconveniente, não me darei ao trabalho de perguntar. Ao contrário, trarei aqui mesmo para a coluna, para compartilhar com meus leitores, a minha angústia por passar alguns dias sem escrever.

Porque, se, para alguns, ter que escrever uma simples carta é motivo de tensão, para mim, é o passar dos dias sem pôr no papel as coisas que passam pela minha mente que incomoda. E a cada dia que passa, mais pensamentos e sentimentos se acumulam e se misturam de tal forma, que começo a apresentar sintomas de irritação, impaciência e até mau humor.

Mas, se é assim – perguntaria o leitor – qual seria a razão de um período de duas, três semanas sem um conto, uma cronicazinha simples ou uma estrofe de sete versos?

Não sei responder. Cada vez que esse fenômeno acontece parece ter causas diferentes. Posso garantir apenas que nunca é por falta de assunto.

Desta vez, aliás, receio que a causa até possa ter sido assunto demais. Nas últimas semanas, li tantas notícias e comentários sobre redução da maioridade penal, Lavajato, impeachment, terceirização, escolha de ministros do STF, e tantas outras coisas, que talvez tenha ficado meio bloqueado.

Pensei em escrever sobre cada um desses temas, mas sempre parava para ler um novo artigo, uma opinião, e acabava não criando nada. Também pensei em trazer algum conto bem desconectado de tudo isso, mas, encontrando todos os dias pessoas com tantas preocupações do mundo real, a ficção também ficou travada.

Bem, acabou a moleza! Talvez eu ainda venha a expor minhas considerações sobre esses assuntos citados, talvez não. O que me importa agora é que acabo de romper esse bloqueio chato que me acometeu nas últimas semanas. Sinto novamente as ideias fluírem da minha mente, transformando-se nesses sinais que nós, humanos, aprendemos a desenhar para nos comunicar.

Palavras, frases, parágrafos! É bom sentir que continuam a se formar a partir dos meus toques no teclado do computador.

E, quer saber? Tenho certeza que, como eu, muita gente tem ficado travada pelo bombardeio de informações sobre esses assuntos do momento.

Então, se não escrevo hoje detalhadamente sobre nenhum deles, pelo menos darei aqui uma ideia do que penso sobre cada um. Quem sabe isso não me servirá de estímulo para os retomar depois?

Dito isto, vamos lá:

Redução da maioridade penal – Sou a favor. Não acho que vá reduzir a criminalidade, nem impedir que adolescentes sigam o caminho do crime. Também não acho que vá ter grande impacto em nossa população carcerária. Apenas entendo que, nos dias de hoje, um jovem de 16 anos tem plenas condições de responder pelos seus atos.

Lavajato – Espero que tenha sérias consequências negativas para muita gente importante, e positivas para o país, mas não acredito que elas ocorram no prazo que a maioria das pessoas gostaria.

Impeachment – Considero mais fácil de montar um fundamento jurídico a partir das pedaladas fiscais que das investigações da Lavajato.

Terceirização – Parece-me um processo irreversível, mas, receio que os trabalhadores saiam perdendo. Em trinta e cinco anos no serviço público, sempre vi os funcionários terceirizados em situação jurídica bem mais frágil que a dos concursados.

Escolha dos ministros do STF – Ótimo que esse assunto entre na pauta de discussão das pessoas. Não imagino que juízes, principalmente dos tribunais superiores, sejam pessoas ideologicamente neutras, mas o processo de escolha, como é feito hoje, expõe as instituições a influências e especulações que as enfraquecem.

Acho que, por hoje, era isso. Boa semana!


Mundo Cordel
SOBRE AMORES E SEMENTES

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Amores mal resolvidos
Nunca morrem totalmente,
Ficam só adormecidos
Dentro da alma da gente.

O seu sono se parece
Com o sono da semente,
Que, guardada, permanece
Em seu estado latente,

Mas basta cobrir de terra
E regar suavemente
Que a longa noite se encerra
E ela acorda novamente.


Mundo Cordel
UM CORDEL PARA O PROGRAMA DE PROTEÇÃO A VÍTIMAS E TESTEMUNHAS

No último dia seis, no evento “Diálogos pela Vida”, promovido pela Secretaria da Justiça e Cidadania do Ceará (SEJUS), em parceria com a Escola Superior do Ministério Público do Estado do Ceará (ESMP), apresentei “O PROVITA em Cordel”.

PROVITA, para quem não sabe, é o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, que funciona nos diversos Estados brasileiros, com apoio federal através da Secretaria de Direitos Humanos. É um programa importantíssimo para o combate à impunidade, porque possibilita a proteção de pessoas que têm importante contribuição a dar à Justiça brasileira. Ao mesmo tempo, beneficia essas pessoas e suas famílias, na medida em que evita que sofram a ação de indivíduos ligados ao crimes e as próprias organizações criminosas.

Acontece que pouca gente sabe sequer que ele existe. Mesmo entre os profissionais do Direito, poucos conhecem seu alcance, benefícios e regras.

Foi pensando nisso que os membros do Conselho Deliberativo do PROVITA no Ceará sugeriram a sua divulgação por meio da Literatura de Cordel, o qual fiquei encarregado de escrever.

Com o texto pronto, o apoio da SEJUS-CE, por meio do Secretário Hélio Leitão foi imediato. O folheto está sendo distribuído com delegados, promotores, entidades de defesa dos Direitos Humanos e outras pessoas interessadas.

Transcrevo aqui apenas os versos iniciais, mas versão eletrônica completa pode ser vista clicando na figura ao final da postagem.

Quando alguém comete um crime,
E por ele é processado,
É por meio do processo,
Que o crime será provado,
Através de documentos,
Perícias, depoimentos,
Para o réu ser condenado.

E, no processo, o juiz
Vai o caso examinar
Reunindo as provas todas,
Para no final julgar
Se esse réu é inocente
Ou se há suficiente
Prova para condenar.

Das provas de um processo
Na Justiça Criminal,
Tem uma considerada
De valor fundamental:
A palavra de quem viu,
Ao fato-crime assistiu,
A prova testemunhal.

Sendo assim, a testemunha,
Quando fala a verdade,
Passa a ter grande valor
Perante a sociedade.
É palavra que tem peso,
Por ela alguém vai ser preso
Ou ser posto em liberdade.

Por isso que a situação
Fica muito complicada,
Quando alguma testemunha
Está sendo ameaçada,
E pensa, nesse momento:
- Se der meu depoimento,
Posso ser assassinada.

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* * *

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Mundo Cordel
CONFIANÇA

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Outro dia estive refletindo sobre algo que talvez seja um dos principais fatores que têm levado a humanidade a avançar ao longo dos séculos: a confiança. Desde que um homem cercou um animal, para que outro o pudesse abater, ou que alguém ficou de sentinela para permitir que os outros membros do grupo dormissem, a confiança mostrou o seu papel fundamental na arte da colaboração, da cooperação.

É bem verdade que esse tipo de comportamento pode ser visto em outros animais sociais, como chimpanzés, leões ou lobos. Mas, entre nós, pela capacidade de raciocinar e de transmitir o conhecimento, não tenho a menor dúvida de que essa confiança mútua nos permitiu evoluir para o surgimento das trocas de bens, do comércio, das vendas a prazo e das sociedades que resultaram na realização de grandes empresas (empresa, aqui, tanto no sentido de algo a se realizar, como no sentido econômico mesmo).

Enquanto almoçava em um restaurante que costumo frequentar, lembrei que só almoço ali porque confio que o alimento é preparado com higiene, zelo e competência. Paguei com cartão de débito, o que significa que confiei previamente em um banco, que guarda meu dinheiro. O dono do restaurante confia em mim – porque permite que eu me alimente e pague só no final – e no banco, pois aceitou o cartão com sua marca. Aliás, é incrível como confiamos no sistema bancário, encarregado de transferir dinheiro de umas contas para outras através do uso de cartões magnéticos e maquinetas espalhadas pelo mundo!

Pensava sobre essas coisas apenas para consumo próprio, sem pensar em escrever, mas estava assistindo a alguma coisa na TV, quando ouvi a citação de uma frase de Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico, segundo a qual a confiança seria a chave para a prosperidade.

É bom saber que alguém importante pensa como nós. Não lembro em que contexto a frase foi dita, mas a menção a ela me levou a refletir sobre os efeitos nocivos da falta de confiança das pessoas nas instituições de um país.

O que se pode esperar de um país onde a população tem sérias razões para crer que os membros do Congresso Nacional decidem questões de interesse público movidos por negociações obscuras, que envolvem dinheiro, cargos e outras contrapartidas difíceis até de se imaginar? Ou cujos partidos políticos de maior representatividade no Congresso Nacional sejam apontados pela Polícia e pelo Ministério Público como destinatários de quantias milionárias (ou bilionárias, já não sei) desviadas de esquemas de corrupção?

Um país onde as páginas policiais noticiam diariamente o envolvimento ilícito entre grandes empresários, lavadores de dinheiros e políticos? E onde aqueles que se elegem para os mais altos cargos da República demonstram não ter qualquer compromisso com as ideias que defenderam durante a campanha?

O que esperar de um país onde um homem apontado como fenômeno empresarial rapidamente se torna réu em processos criminais por manipulação do mercado de ações? E até o juiz que manda apreender seus bens, para garantir o ressarcimento de prejuízos causados, é flagrado circulando pela cidade em um dos seus carros de luxo!

Qual será o futuro de um país cujo povo não confia, nem tem motivos para confiar, na polícia, na justiça, no governo, nos políticos, nas grandes empresas?

A cada dia, mais confiam em menos. Se a confiança é mesmo fundamental para a prosperidade (e estou convencido que é), o Brasil está no caminho do atraso. Ainda que tenhamos alguns progressos tecnológicos, o que é inevitável, diante dos avanços do planeta como um todo, estaremos sempre gastando nossos esforços no enfrentamento de problemas que poderiam e deveriam ter sido solucionados séculos antes.

Podemos mudar isso?

Acredito que sim, mas a mudança me parece estar muito além da prisão de bandidos disfarçados de empresários e políticos. É um passo importante, sim, mas no máximo um bom começo.

Creio que, para mudar de verdade, precisamos de uma transformação mais profunda, levada a efeito por todos aqueles que acreditam que vale a pena cumprir o que promete, manter a palavra, agir com seriedade. Somente a conduta ética de cada um, nas ações públicas e na vida particular, pode nos conduzir a um futuro mais próspero.

No cenário atual, com tantas denúncias de corrupção, é difícil crer que essa conduta pautada na ética, se difunda (ou viralize, para usar uma linguagem ao gosto dos internautas).

Mas, há que se considerar que os que agem de forma desonesta em geral tentam manter um discurso que os faça parecer éticos. Ou seja, sabem que sua conduta é nefasta. Desmascarados, podem ser neutralizados.

Por isso, se tivesse que apontar um primeiro passo para a superação da crise que assola o país, arriscaria o seguinte: “Restauremos a confiança que temos uns nos outros. Não apenas cobrando dos outros, mas, principalmente, sendo confiáveis. Tendo uma conduta ética perante nossos vizinhos, nossos filhos, nossos colegas de trabalho. E junto aos políticos que elegemos também, por exemplo, enviando emails e mensagens em redes sociais, dizendo como esperamos que se posicionem diante das questões que se apresentarem”.

Penso que as pessoas corretas desse país precisam perder a timidez. Ser mais explícitas, atuantes. Ousadas até.


Mundo Cordel
ENFIM

“Enfim, o carnaval passou!”

Não, eu não tenho nada contra a festa, embora não participe da folia. Queria apenas usar a palavra “enfim”, que está tão na moda e… Enfim, tem muita gente que trabalha na área da comunicação, como jornalistas, publicitários, enfim… Esse pessoal… Enfim… Tem usado a palavra “enfim” com uma frequência absurda e… Enfim, não quero ficar de fora da novidade.

Outro dia, no programa “Em Pauta”, da Globo News, o apresentador informou ter recebido e-mail de um telespectador, reclamando que eles falavam muito “enfim”. Uma das participantes disse, imediatamente, com cara de assustada: “Meu marido fala isso! Diz que eu uso enfim como vírgula!”. E deve ser mesmo. Pelo menos, enfim, durante o programa é.muleta_portugues

Agora, falando sério, o que observo é que o “enfim” tem ganho espaço na linguagem falada, e não na escrita, como uma espécie de apoio. Por um instante, o falante quer dizer alguma coisa, mas, aquela palavra que deveria ser usada foge, esconde-se nas dobras da memória. Para não deixar que um trecho de silêncio interrompa a fala, a pessoa interpõe um “enfim” no lugar da pausa. Os profissionais da oratória talvez classifiquem o vício como uma “muleta da comunicação”.

Claro que isso não traz maiores consequências para a vida diária. Só é chato. Mas, para quem tem atividades profissionais que incluem falar em público, como advogados, professores, radialistas, é algo que precisa ser evitado. É que esse tipo de vício ou muleta, no mínimo, desvia a atenção da mensagem que se está pretendendo transmitir.

E o que tenho a ver com isso? Na verdade, nada. Mas queria escrever uma crônica leve, aproveitando o gancho do carnaval para mudar de assunto, e estava meio que sem assunto.

Opa! “Meio que”? Essa também está em alta, e com o mesmo cheiro de muleta da comunicação. Mas, talvez eu fale disso depois. Por hoje já estou de boa. Fui!


Mundo Cordel
TRINTA E CINCO ANOS

MM E MAE DEZ1979

O colunista, em dezembro de 1979, acompanhado da mãe, dois meses antes de tomar posse em seu primeiro cargo público

Escrevo no dia oito de fevereiro de 2015, quando completo trinta e cinco anos de vida profissional, aí incluídos o tempo de carteira assinada como celetista e os períodos como servidor público e magistrado federal.

Já trabalhava antes, é verdade, ajudando meus pais no pequeno comércio que nos mantinha, mas isso é bem diferente de interagir com pessoas desconhecidas, cumprir horário, assinar ponto, essas coisas.

Além disso, tem o fato de o meu primeiro emprego formal ter sido em uma empresa estatal. Seis meses antes de completar quatorze anos de idade, eu assumia o cargo de “bancário aprendiz”, no Banco do Nordeste do Brasil S/A, aprovado em concurso público, com remuneração de aproximadamente um e meio salário mínimo, além de tíquetes alimentação e uma bolsa de estudos no Colégio Santo Inácio de Fortaleza.

Para mim, era muita coisa. Mesmo porque, a condição de bancário aprendiz era transitória. Depois de um curso de três anos de duração – o Curso de Habilitação Bancária – eu passaria automaticamente à carreira de Escriturário, com um aumento considerável de salário e toda uma carreira pela frente.

E, de fato, era um excelente emprego. Além da boa remuneração, plano de saúde e outras vantagens da época, adquiri ali conhecimentos que têm me servido por todos esses trinta e cinco anos, e sei que me acompanharão pelo resto da vida.

Ao todo, foram dezoito anos no Banco do Nordeste, onde entrei como bancário aprendiz e saí como advogado.

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Termo de posse do colunista no BNB

Aliás, foi o curso de Direito que me abriu o caminho para outras possibilidades. Em 1990, um presidente da República caçador de marajás me serviu de estímulo para terminar a faculdade; com o curso concluído, e já atuando como advogado do banco, um presidente da instituição, de uma gestão, digamos, muito inovadora, me estimulou a fazer concursos públicos para carreiras jurídicas de outros órgãos.

Foi assim que passei pelos cargos de Procurador do Banco Central, Advogado da União e, por fim, Juiz Federal, ofício que exerço desde abril de 2001. E lá se foram outros dezessete anos.

Mas, apesar de haver deixado o BNB em janeiro de 1998 (e passado por outros cargos depois disso), o que me vem a memória agora são fatos relacionados aos meus primeiros passos ali, no princípio de 1980. As salas com ar condicionado, as máquinas de escrever elétricas, as portas que se fechavam automaticamente… Lembro de cada um desses detalhes. E lembro, sobretudo, de vinte e nove amigos que fiz nos três anos que se seguiram.

O leitor pode pular esse parágrafo, se quiser, mas faço questão de registrar aqui nossos trinta nomes, em ordem alfabética. Faço-o de memória, sem esforço. Poderia citá-los pelo nome completo, com a mesma facilidade. Se não o faço, é apenas para economizar espaço: Airton, Alcino (Tibico), Ana Margareth, Antonio Maria, David, Éverton, Fernanda, Francisco Antonio (Tonico), Francisco Elson, Francisco Veronildo, Jacqueline, Jefferson, José Airton Pitombeira, José Wellington, Leovigildo, Luiza, Manzonny, Marcos Mairton, Marcos Tadeu, Maria Jacira, Pascale, Raimundo Nonato, Ricardo Augusto, Ricardo Silveira, Roberto, Tarcisio, Tereza Batista, Tereza Jucá, Viviane e Wladston.

São os meus colegas de concurso, com quem convivi intensamente durante os anos de 1980, 1981 e 1982. Estudávamos juntos no Colégio Santo Inácio de Fortaleza; fazíamos o Curso de Habilitação Bancária, no Centro de Treinamento do BNB; e trabalhávamos juntos, em uma agência ou departamento do banco. Como se isso fosse pouco, sempre nos encontrávamos nos fins de semana, de preferência no BNB Clube de Fortaleza, para jogar futebol e tomar banho de piscina.

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O colunista, em janeiro de 2015, com alguns de seus ex-colegas de BNB. Uma amizade de 35 anos

Havia, é claro, subgrupos, formados pelas afinidades que naturalmente se descobrem, mas era fácil para nós perceber que havia um vínculo forte entre cada uma dessas pessoas cujos nomes citei. Um vínculo tão forte que ainda hoje costumamos nos reunir, só pelo prazer do reencontro.

E é sempre uma grande alegria rever cada um desses amigos para sempre. Fiz grandes amizades depois disso, e, felizmente, continuo fazendo novos amigos até hoje. Mas, nada se compara à cumplicidade nascida naqueles tempos adolescentes, quando cada um de nós descobria a vida, compartilhando alegrias, tristezas, preocupações e tantas ideias e emoções.

Escrevo hoje, portanto, celebrando trinta e cinco anos de vida profissional, com a alegria de nunca ter passado um único dia desempregado, e o orgulho de ter ingressado pela via do concurso público em todos os cargos que ocupei.

Mas também celebro, com mais alegria ainda, trinta e cinco anos de algumas das amizades mais valiosas com as quais posso contar até hoje.


Mundo Cordel
RATOS

Cheguei ao prédio onde moro dirigindo meu carro. Desci à garagem no subsolo e estacionei, mas não saí imediatamente. Fiquei parado, sem iniciativa, como quem esquece momentaneamente o que está fazendo e precisa de um tempo para arrumar as ideias.

No rádio tocava uma uma música qualquer. Eu percebia a música, mas ela não significava nada de especial. Na verdade, nada em especial prendia minha atenção. Mas também não era o caso de estar distraído. Ao contrário, eu me sentia atento a tudo. Prestava atenção a tudo o que estivesse ao alcance da minha visão.garagem_subsolo2

Foi então que notei as coisas misturando-se umas às outras, embora não perdessem a nitidez. Os outros carros, as colunas do prédio, as tubulações percorrendo o teto, as lâmpadas – umas acesas, outras apagadas – o carrinho de supermercado junto ao elevador, tudo estava de alguma forma interligado. Tudo estava em tudo e todas as coisas faziam parte de um todo, embora conservassem sua individualidade. Era possível perceber cada uma delas, mas não havia um limite que separasse a parede ao fundo da garagem do painel do meu carro.

Comecei a sentir como se eu mesmo não fosse apenas um observador das coisas, mas parte delas. Pelo portão da garagem foi possível ver um cachorro vira-latas passar na calçada. E ele parecia tão perto, tão unido a mim, que eu sentia suas patas pisando na minha pele e a aspereza da calçada sob meus pés. Eu era o cachorro e era a calçada. E era eu mesmo.

Eu tinha consciência que não havia saído do meu carro, mas via toda a extensão da calçada, a rua, os carros que passavam lá fora, as nuvens no céu e os galhos das árvores agitados pelo vento. Não havia à frente, dos lados ou atrás. Nem acima, nem abaixo. Não era necessário girar a cabeça ou mover os olhos para ver em todas as direções.

Um ônibus passava na rua, e era curioso perceber que eu o via de frente, a se aproximar, e, enquanto isso, o via por trás, a se distanciar. É estranho escrever sobre isso agora, porque preciso dizer uma coisa de cada vez, em sequência. Na verdade, não era assim que elas aconteciam. Era tudo ao mesmo tempo. Acho que não havia o tempo.

Tento lembrar em que eu pensava naquele momento, mas não sei pensava. Minha mente parecia totalmente ocupada em perceber tudo aquilo, uma sensação que para mim era desconhecida.

Mas restava, sim, algum espaço na minha mente. Foi nele que surgiu uma vaga lembrança do motivo que me levou a ir para casa naquela ocasião: um boleto bancário. Eu havia saído para trabalhar e esquecera de levar aquele boleto para pagar. Por isso voltei. E bastou que essa memória surgisse, para que a imagem do boleto crescesse e trouxesse com ela os outros boletos ainda por serem pagos naquele mês. Surgiram imagens de páginas da minha agenda, com compromissos anotados, e dos emails por responder, na tela do meu computador.

À medida que minha mente era invadida por essas memórias, elas tomavam o lugar das coisas reais que há pouco estavam ao meu redor. O cachorro, as nuvens, o ônibus, tudo sumia. E essas coisas sumiam uma após a outra, em sequência. O tempo havia voltado.

E a avalanche de memórias prosseguiu, até preencher o espaço de tal forma que não vi mais nada. Instintivamente, fechei os olhos. Depois, os fui abrindo lentamente, e vi que continuava sentado ao volante do meu carro.

Tudo havia voltado ao normal. Ou quase tudo. Um rato enorme estava parado alguns metros à minha frente, e olhava na minha direção. Não apenas olhava na minha direção, olhava diretamente para os meus olhos. Encarava-me.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, até que ele deu meia volta e afastou-se calmamente, sumindo por entres as sombras dos outros carros.

Não sabia que havia ratos daquele tamanho na garagem do meu prédio.


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CONVERSA DE WHATSAPP

As novas tecnologias da comunicação podem até trazer algum prejuízo para o uso tradicional da linguagem. Mas, é preciso reconhecer que elas geram situações que só podem ser narradas através delas mesmas.

Por exemplo, a história a seguir. Não consegui imaginar maneira melhor de contá-la.

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JE SUIS CHARLIE

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AS METAS PARA O ANO QUE VEM

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Apesar de não dar muita importância a essas festividades de final de ano, reconheço o valor da organização da vida em períodos correspondentes ao ciclo da Terra ao redor do Sol. Dizem até que Drummond reconheceu a genialidade de quem dividiu o tempo nessas fatias chamadas anos.

Concordo com o poeta, embora não acredite que esse fatiamento tenha sido resultado da genialidade de um (acho que nem ele). Imagino ser mais provável que o ser humano aos poucos tenha percebido as mudanças do clima, as estações, o efeito delas sobre o comportamento das plantas e dos animais que serviam para o seu sustento. Logo passou a programar suas ações a partir desse conhecimento. Daí a esquematizar tudo isso e dar nomes às coisas foi um passo. Sempre fomos bons nisso.

De qualquer maneira, já que se convencionou que o ano termina em dezembro – e não em março ou agosto, por exemplo – esse é um bom momento para reavaliar as atitudes, reorganizar os projetos, eliminar alguns costumes prejudiciais e buscar outros que pareçam benéficos.

Algumas pessoas levam meio na brincadeira essa história de anotar as metas para o ano que começa, mas, se empresas e governos fazem isso, por que não cada um de nós? Acho que vale a pena, sim, fixar metas pessoais. Faço isso há anos e gosto do estímulo que essa prática me dá. Tenho percebido que algumas metas consigo atingir logo no primeiro ano. Outras se repetem, ano após ano, sem qualquer resultado digno de comemoração, até que a montanha começa a se mover.

Há outras metas ainda que simplesmente abandono, porque as deixo de considerar como interessantes de serem seguidas. Isso não é problema. Problema é tirar da lista uma meta, pela dificuldade de alcançá-la. Mesmo agora, enquanto escrevo, evito usar a expressão “desistir de uma meta por ser ela inatingível”.

Como é difícil aceitar as próprias limitações! E, no entanto, às vezes a sabedoria está em reconhecer isso! Escrevi certa vez que qualquer um gosta de se reconhecer como uma pessoa determinada (Sobre as virtudes). Difícil é a gente saber quando deixou de ser determinado e passou a ser teimoso .

No filme “Menina de Ouro”, o treinador Frankie – interpretado por Clint Eastwood – diz a certa altura que todo boxeador é teimoso; “se você conseguir tirar isso deles, é porque não são boxeadores”. Minha prática do boxe sempre foi meramente recreativa, mas acho que nesse quesito, da teimosia, tenho estado bem servido. Por isso, repetirei para 2015 todas as metas não alcançadas em 2014 e acrescentarei outras novas.

O conteúdo dessas metas é segredo. Compartilho aqui apenas uma, que é a de continuar escrevendo regularmente para esta coluna. Procurando variar tanto o conteúdo quanto a forma, de modo a justificar o título “Contos, Crônicas e Cordéis” e merecer a atenção dos leitores.

Agradeço-lhes pela participação em 2014 e desejo um 2015 com muita determinação e pouca teimosia!


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NÃO SEI E NÃO QUERO SABER

Admito que um brasileiro não tenha interesse em saber nada sobre Operação Lava Jato, corrupção na Petrobras e coisas assim. A pessoa pode estar totalmente voltada para questões espirituais, ter assuntos pessoais urgentes no momento ou simplesmente achar as notícias demasiado complexas ou monótonas. Quem sabe da vida de cada um?

O que me parece estranho é ver pessoas reconhecidamente interessadas nas atualidades políticas e econômicas do país demonstrando má vontade no esclarecimento dos fatos sobre aquela que até pouco tempo era a maior empresa do Brasil.nao-quero-ver

Ontem à noite, por exemplo, logo após a exibição da entrevista de Venina Velosa no Fantástico, na Rede Globo, muitas pessoas que sigo no Twitter apressaram-se em desqualificar as revelações feitas pela entrevistada.

Imagino que tal comportamento esteja relacionado com o fato de o caso incluir a suspeita de que os recursos desviados da empresa tenham ido parar nas contas de políticos e seus partidos. Nessa linha de raciocínio, a pessoa filiada ou simpatizante de algum partido envolvido estaria propensa a reagir negando os fatos ou o liame entre os fatos e o seu partido.

Seria uma reação razoável? Nem tanto. Pelo menos não me parece.

Primeiro, porque se chegou a um ponto no qual é muito difícil – para não dizer impossível – negar os fatos. Afinal, segundo amplamente noticiado, já existem ações penais em andamento, com acusações formuladas pelo Ministério Público Federal e aceitas pela Justiça Federal em relação a trinta e nove pessoas. Dentre as pessoas investigadas, que formam quantidade bem maior, pelo menos doze já fizeram acordos de delação premiada, sendo certo que, para fazer tal acordo, admitiram os fatos como verdadeiros e apontaram seus autores, ou pelo menos alguns deles. Além disso, há as investigações e até confissões no exterior, como o caso da empresa holandesa que admitiu ter pago propina.

Diante de tudo isso, pode-se dizer, em linguagem jurídico-criminal, que não há dúvida quanto à materialidade dos crimes que vêm sendo cometidos na gestão da Petrobras. Resta discutir a autoria desses crimes.

É por causa de tudo o que ainda se precisa apurar sobre a autoria que volto à pergunta antes feita: é razoável que um militante negue peremptoriamente a participação de membros do seu partido em atos criminosos? Acredito realmente que não. Segundo penso, o militante, o filiado, o simpatizante de um partido, deveriam ser as pessoas mais interessadas na identificação de membros da agremiação envolvidos em fatos delituosos.

Refiro-me, obviamente, ao militante, o filiado ou o simpatizante que acredita que o partido é um legítimo instrumento por meio do qual as pessoas se agrupam em torno de uma ideologia para participar democraticamente do poder político. Quem se filia a um partido político com essa noção certamente tem interesse em identificar e expulsar membros do partido envolvidos com corrupção.

Advirto o leitor de que não pretendo ser romântico, idealista ou utópico, mas apenas parto do pressuposto de que não se fundam partidos com o objetivo de praticar crimes, porque pensar de outra forma equivaleria a desistir da democracia, coisa que não pretendo fazer.

Prefiro crer que os partidos são criados com objetivos nobres e, se são contaminados pela corrupção, é porque, como já disse alguém ilustre, o poder tende a corromper os homens. Assim, digo eu, quanto mais poder, mais os sistemas anticorrupção precisam funcionar. E, se não funcionam preventivamente, evitando que o ato de corrupção aconteça, é necessário que funcionem corretivamente, por meio de punições.

Creio, portanto, que todo esse movimento gerado pela operação Lava Jato – e que tende a aumentar, à medida que as ações judiciais avancem – possa trazer consequências favoráveis, para a política, para as instituições brasileiras e até para a Petrobras, na medida em que velhas práticas escusas sejam substituídas por ações fundadas na ética.

Para isso, porém, é preciso que as pessoas de bem manifestem-se favoráveis às investigações e à punição dos culpados. Hoje, muitos se dizem a favor do aprofundamento das investigações, e consequentes punições, no entanto, não perdem uma oportunidade para tentar desqualificar o trabalho da Polícia Federal e dos procuradores, ou levantar suspeitas sobre o juiz que cuida do caso. Se aparece uma testemunha chave, como a funcionária da Petrobras entrevistada ontem, minimizam as informações reveladas e superestimam aspectos pessoais que diminuam o valor de seu depoimento, como vi acontecer ontem no Twitter.

Diante de tal constatação, volto a perguntar: para um simples simpatizante do partido A ou do partido B, eleitor do político X ou do político Y, sem qualquer envolvimento pessoal com o caso, qual a razão para fechar os olhos para as acusações feitas a esse partido ou a esse político?

Conheço pessoas que responderiam sem titubear: “Sou favorável à prisão e à expulsão de qualquer membro do meu partido que tenha praticado corrupção. Só não posso é levar a sério essa caça às bruxas, com as pessoas sendo condenadas sem qualquer direito de defesa”.

Tenho por hábito respeitar pontos de vista diversos, mas acho que, se é cedo para condenações nesse caso da Petrobras, é cedo também para absolvições sumárias. Para os que acreditam em um Brasil melhor, acho que interessa a busca da verdade e não a postura do “não sei e nem quero saber”.


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CLÁSSICOS CEARENSES RECONTADOS EM CORDEL

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Os autores no palco do auditório da Bienal

Terça-feira passada, 9 de dezembro, participei de uma festa bonita. Muito bonita. Aconteceu na XI Bienal Internacional do Livro do Ceará.

Foi o lançamento da Coleção Clássicos Cearenses recontados em Cordel, uma iniciativa da Associação do Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDM-CE), patrocinada pelo Governo do Estado do Ceará, através do IV Edital Mecenas do Ceará e com apoio cultural da COELCE. Segundo vi depois no Jornal O POVO, estiveram ali 1.500 estudantes, contemplados com dez clássicos da literatura cearense recontados através da Literatura de Cordel.

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“A divorciada”, de Francisca Clotilde, recontada por este colunista

As obras e autores foram: “Luzia Homem”, de Domingos Olímpio, recontado por Arievaldo Viana; “O caixeiro”, de Rodolfo Teófilo, recontado por Rouxinol do Rinaré; “A normalista”, de Adolfo Caminha, recontado por Stélio Torquato; “O cabeleira”, de Franklin Távora, recontado por Paiva Neves; “Dona Guidinha do poço”, de Oliveira Paiva, recontado por Serra Azul; “O Simas”, de Papi Júnior, recontado por Fernando Paixão; “Iracema”, de José de Alencar, recontado por Gadelha do Cordel; “Marialva, o sertanejo e o patuá”, de Gustavo Barroso, recontado por Evaristo de Castro; “Aves de arribação”, de Antonio Sales, recontado por Godofredo Solon; e “A divorciada”, de Francisca Clotilde, recontada por mim, Marcos Mairton.

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O colunista com seus leitores

A coordenadora do editorial do projeto foi a escritora e poeta Arlene Holanda que, aliás, foi quem ilustrou todas as obras.

Bonita a festa e bonita a iniciativa da APDM-CE, que, de uma só vez, amplia o alcance da Literatura de Cordel, dá oportunidade aos autores desse gênero literário e proporciona aos jovens o contato com grandes obras da literatura cearense. Cada livro contém uma apresentação do contexto histórico, político e social da obra, um convite à leitura, não apenas da obra recontada, mas também do original em prosa. Na apresentação, isto foi várias vezes destacado.

Para completar o sucesso do lançamento, atores e atrizes de teatro fizeram a leitura de trechos das obras para uma platéia atenta e ávida por um cultura que nem sempre está à disposição.

Os autores também compareceram ao palco e autografaram suas obras.


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A LUA ENCIUMADA

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GRANDE OTELO E O NÓ DA GRAVATA

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Escrever pela manhã é algo que raramente faço. Mas, foram exatamente alguns fatos fora da rotina, e uma coincidência, que me fizeram escrever este texto, nesta manhã do dia 26 de novembro de 2014.

Veja só, caro leitor. Em uma quarta-feira, normalmente acordo pelas seis e meia da manhã. Saio às sete, deixo os meninos no colégio, e, de lá, sigo para uma pracinha perto de casa ou para a Avenida Beira Mar, onde corro durante uns trinta a quarenta minutos. Depois, volto para casa, para começar o dia propriamente dito.

Hoje, não sei por qual razão, acordei um pouco mais cedo que o horário de costume, uns quinze minutos antes das seis. Acontece que as aulas deste ano letivo terminaram sexta-feira passada. Sem ter quem levar à escola, deixei-me vencer pela preguiça, e continuei deitado.

Voltar a dormir não me pareceu uma boa opção, então liguei a TV – afastando-me mais uma vez da minha rotina, já que nunca vejo televisão tão cedo – e observei que havia gravado, na noite anterior, o filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, exibido pelo Canal Brasil.

Comecei a ver o filme, e foi aí que apareceu Grande Otelo. Passados menos de dez minutos da trama, logo após uma cena na qual Lúcio Flávio e seus comparsas assaltam um banco, dois investigadores chegam a um bar, perguntando por ele. No dito bar, está o personagem interpretado por Grande Otelo, um pobre diabo que acaba sendo maltratado pelos policiais.

Interessante rever um filme assim, ambientado nos anos sessenta, e perceber como tanta coisa mudou nesses últimos quarenta anos. É tão pouco tempo e, no entanto, os carros, as roupas, o comportamento das pessoas, tudo é muito diferente. Os peitos da atriz que aparece na cama com Lúcio Flávio (Reginaldo Farias) não têm silicone, o banco que eles assaltam não tem porta giratória nem computadores…

Embora que, na verdade, essas reflexões só me vieram à mente depois, quando comecei a escrever. Na hora em que estava vendo o filme, a aparição de Grande Otelo me levou a outro ponto do passado, precisamente o ano de 1979, quando, pela primeira vez, dei um nó em uma gravata.

“Como assim?”, perguntará o leitor que tenha chegado a este ponto. Respondo. No ano de 1979, Grande Otelo fazia parte do elenco da novela “Feijão Maravilha”, na Rede Globo. Em um dos capítulos, houve uma cena na qual ele dava um nó na própria gravata, enquanto conversava com alguém. E, como ele falava e dava o nó ao mesmo tempo, acabava movendo as mãos muito lentamente, o que permitiu que eu observasse os movimentos que fazia para ajustar a gravata ao pescoço.

Terminada a cena, fui ao guarda-roupa onde meu pai guardava o único paletó e a única gravata que possuía. Peguei a gravata e, olhando-me no espelho, repeti os movimentos que Grande Otelo acabara de fazer. Tinha eu, então, treze anos de idade, e dei o primeiro nó de gravata da minha vida. Naquele dia, desfiz o nó e o refiz várias vezes, até ter certeza de que havia aprendido para não mais esquecer.

Não, eu não imaginava que, no futuro, o uso do paletó viesse a fazer parte da minha rotina diária. Nem tampouco que dar meus próprios nós nas minhas gravatas viesse a ter alguma utilidade. Eu simplesmente me interessei pelo que o ator estava fazendo e resolvi imitar.

Mas, o fato é que, hoje, mais de trinta anos depois, quase todos os dias ponho-me diante do espelho e repito aqueles mesmos movimentos, ajustando a gravata, antes de sair para o trabalho.

Ao ver Grande Otelo no filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, essas memórias voltaram, e me veio a curiosidade de consultar a Wikipédia, para ver há quanto tempo o ator faleceu. Descobri, surpreso, que sua morte aconteceu exatamente em um dia 26 de novembro, como hoje. Foi no ano de 1993, de forma que, como diria meu amigo Luiz Berto, completam hoje exatos vinte e um anos desde que Grande Otelo se encantou.

Diante de tal coincidência, só me restou escrever este texto, para registrar o fato, e, aproveitando a ocasião, fazer um justo agradecimento:

- Grande Otelo, muito obrigado por tudo o que fez pela dramaturgia no Brasil. Mas, muito obrigado, sobretudo, por haver me ensinado a dar nó em gravata!


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CEO

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Vi a sigla pela primeira vez em um site de relacionamentos profissionais, mas não dei muita importância. Até que assisti à entrevista de um rapaz em um telejornal, e, abaixo do seu nome, estava lá: CEO da ONG tal. Aí, as três letrinhas já me chamaram mais a atenção.

Naquele mesmo dia, procurava alguma novidade no Twitter, quando me deparei com a seguinte manchete, no Jornal O Globo: “Jovens americanos preferem empreender a virar CEOs, revela pesquisa“.

Não tive dúvida. Tratava-se de uma nova palavra (pelo menos para mim) ganhando espaço em nosso vocabulário. Pelo fato de a notícia do jornal se referir a jovens americanos, provavelmente uma palavra vinda do inglês. Não que eu seja contra neologismos ou estrangeirismos. Apenas me intriga a mania que temos de adaptar termos estrangeiros para dizer coisas que já dizíamos facilmente usando nossas próprias palavras.

Bem, talvez não fosse nada disso. Decidi procurar no Google o significado de CEO, antes de fazer qualquer juízo de valor.

Não tive dificuldade. A busca me levou ao site significados.com.br, onde está escrito o seguinte: “CEO é a sigla inglesa de Chief Executive Officer, que significa Diretor Executivo em Português. CEO é a pessoa com maior autoridade na hierarquia operacional de uma organização. É o responsável pelas estratégias e pela visão da empresa”.

Bingo! Minha suspeita se confirmava. CEO, o cara que comanda o operacional da empresa. O diretor executivo, diz a explicação. Dependendo do negócio, pode ser só um gerente, penso eu… É bem verdade que, ainda segundo o site Significados, nem toda empresa precisa de um CEO, sendo tal função “mais utilizada em grandes empresas multinacionais, onde é necessário uma pessoa com habilidade e competência para estar à frente da organização como um todo”.

Mas, por aqui, já sei que não será bem assim. Voltei ao site de relacionamentos profissionais que citei no começo, e vi dono de microempresa (com dois empregados) registrado como CEO da dita cuja. Não me surpreenderei se amanhã for reclamar de um sanduíche na lanchonete da esquina e o balconista disser: – O senhor aguarde que vou tá chamando o CEO.

Quer saber? Deixa pra lá. Se resolveram chamar diretor executivo, gerente e bodegueiro de CEO, vão chamar de qualquer jeito. Dizer que isso é uma bobagem não vai adiantar nada, até porque, não faltarão interessados em se apresentar como CEO disso, CEO daquilo. A palavrinha de três letras logo se juntará a outras expressões como “agregar valor”, “impactar” e “expertise”, enriquecendo (ou empobrecendo, depende do ponto de vista) um pouco mais nossa querida Língua Portuguesa.

Fico por aqui. Pelo menos me serviu para escrever essa crônica.


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NAS ONDAS DA LEITURA: UM LIVRO É UM FILHO

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Faz uma semana que estive em Mossoró, vivendo uma das grandes emoções da minha vida. Foi no dia 10.11.2014. A Editora IMEPH, que edita meu livro “Uma Aventura na Amazônia”, promoveu um encontro entre autores e leitores, apresentando cinco de seus escritores a algo em torno de 2.000 estudantes, que tiveram acesso aos seus livros por meio do Projeto Ondas da Leitura.

Junto comigo estavam Amélia Albuquerque, Antonio Francisco, Crispiniano Neto e João Collares.

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Autografamos, tiramos fotografias, respondemos a todo tipo de pergunta. Uma bela festa, no Teatro Dix-Huit Rosado, com muita música, declamação, teatro e dança.

Parabéns, Lucinda Marques, e toda equipe da IMEPH, pela grande festa!

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No palco, tive ainda um tempinho para apresentar cantando trechos do galope e do meio galope à beira mar que fiz certa vez para homenagear o meu primeiro livro, “Uma sentença, uma aventura e uma vergonha”.

Os versos são esses:

Um livro é um filho que a gente cria
Educa e prepara, com todo carinho,
Mas, quando ele cresce, é que nem passarinho
E voa pra longe como eu fia um dia.
Mas, sempre é motivo da nossa alegria
Saber que, distante, em outro lugar,
O sucesso dele vem nos orgulhar.
Assim, não podendo voar o seu voo,
Meu livro, meu filho, pra sempre abençoo,
Cantando galope na beira do mar.

Vai filho querido
Cumprir tua missão
Na educação
Tu foste nutrido.
Estou convencido
Que tu vais brilhar,
Tu vais a voar
Por ti fico orando,
E vou galopando
Na beira do mar.

* * *

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem para visitar o site:

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CONTO JURÍDICO(*): CARTA PRECATÓRIA, DESACATO, RESISTÊNCIA E A VERSÃO DO ACUSADO

(*) Classifico como jurídicos os contos cujo núcleo da narrativa aborda questões relacionadas ao Direito e, além disso, apresentam ou explicam ao leitor não versado na Ciência Jurídica o significado de institutos, termos e expressões utilizados por juristas.

Balança da Justiça

Em linhas gerais, carta precatória é uma ferramenta processual por meio da qual um juiz faz um pedido a outro. Por exemplo, ouvir uma testemunha que mora em outra comarca. O juiz (chamado deprecante) envia a carta ao outro juiz (chamado deprecado), pedindo que este tome o depoimento. Atendido o pedido, o termo ou a gravação das declarações do depoente é remetido ao juízo de origem, para ser anexado aos autos do processo.

Com o avanço da tecnologia, as cartas precatórias vêm caindo em desuso. No caso de depoimentos de testemunhas e interrogatórios de acusados, a ampla maioria dos juízes tem preferido o sistema de videoconferência, regulado no Código de Processo Penal, a partir de 2009, e incentivado pelo Conselho Nacional de Justiça, a partir de de 2010.

Apesar dessa modernização, as cartas precatórias ainda resistem. Foi em cumprimento a uma delas que, atendendo ao pedido do juiz de uma Vara Federal do interior do Paraná, realizei, em Fortaleza, o interrogatório de um homem processado criminalmente naquele Estado. Foi assim que tomei conhecimento do caso aqui tratado.

O acusado era cearense. Depois de haver morado em algumas cidades da região sul, tinha voltado recentemente ao Ceará. Na época dos fatos tinha cinquenta anos, mas no dia da audiência já estava com cinquenta e dois. A avançada calvície e a barriga um tanto saliente, davam a impressão de ser mais velho.

A vítima, um oficial de justiça, teria se deslocado à residência do acusado para o citar em uma ação de cobrança de tributos federais; uma execução fiscal, em linguagem jurídica. Mas a visita do servidor teria despertando no réu duas formas de agressividade. Moral, porque teria chamado o oficial de justiça de “cachorro” e de “filho de puta”. Física, porque teria proferido os impropérios no mesmo instante em que empunhava um facão, chegando a afirmar que iria matar o meirinho. O relato de um vizinho, noticiava que o homem teria saído portão afora com o instrumento perfuro-cortante em riste. Entretanto, não teria chegado a haver risco real para o oficial de justiça, que havia se evadido em desabalada carreira, antes que o acusado se desvencilhasse do portão da própria casa.

Fossem tais atos praticados contra uma pessoa do povo, seu enquadramento certamente seguiria os artigos 140 e 147 do Código Penal, ou seja, injúria e ameaça, mas, em se tratando de oficial de justiça, no cumprimento do seu dever, pareceu-me adequada a tipificação nos artigos 331 (Desacato: desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dele) e 329 (Resistência: opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio).

Iniciada a audiência, fiz pausadamente a leitura da denúncia, com o deliberado intuito de observar as reações que o réu teria ao ouvir as acusações que lhe eram imputadas. A linguagem corporal dos réus sempre me interessa.

À medida que a narrativa se desenvolvia, o acusado olhava fixamente para o centro da mesa de audiência, como se houvesse ali um monitor de vídeo, onde os acontecimentos eram exibidos. De vez em quando mexia um pouco a cabeça negativamente ou apoiava o queixo em uma das mãos.

Terminada a leitura, e cientificado o réu do seu direito constitucional de permanecer em silêncio, fiz a pergunta cujo peso só os réus conhecem:

- É verdadeira a acusação?

- Não, excelência. Não é verdade, não – respondeu ele com segurança e até serenidade.

- Então, o senhor não reconhece ter praticado esses crimes?

- Reconheço não, excelência.

- Se é assim, a qual razão o senhor atribui o fato de estar sendo acusado? Ou seja, se os fatos descritos na denúncia não aconteceram, o senhor está sendo acusado por qual motivo?

- Doutor, aconteceu… Mas foi diferente… Eu posso contar pro senhor como foi tudo?

- Claro!

O homem tomou fôlego, como quem se prepara para contar uma história longa, e começou falando pausado:

- Pois foi o seguinte, excelência. Eu tinha mesmo essa conta com a Receita Federal, e sabia que a qualquer hora ia ser executado. Isso eu não nego. Acontece que, no dia em que o oficial de justiça foi lá em casa, ele chegou bem na hora que eu tava podando umas plantas. Minha casa ficava em um terreno grande e tinha umas árvores lá. A casa era recuada, ficava quase uns trinta metros pra dentro do terreno. Eu tinha subido numa escada, de pés descalços, e tava com o facão na mão, cortando uns galhos, quando a moça que trabalhava pra mim me chamou, dizendo que o rapaz da Justiça queria que assinasse um papel do juiz. Eu desci e fui no rumo do portão, que era gradeado. Dava pra gente ver quem passava na rua. E da rua dava pra ver lá dentro também, isso é lógico… Eu não vou negar pro senhor, doutor, que eu não gostei quando ela me chamou, porque eu tava no meio do serviço, e a escada balançava muito pra subir ou pra descer. Mas, eu só tive raiva mesmo, doutor, foi quando eu pisei… Doutor, eu criava um cachorro lá, um cachorro grande, mas que não servia pra nada. Qualquer desconhecido que chegasse, ele ia logo balançando o rabo. O bicho só fazia muito era cavar buraco no chão. Cavava cada buraco, que cabia uma pessoa dentro… Pois, doutor, do jeito que eu tava indo, de pés decalços, já nervoso, por causa da escada mole e desse papel da Justiça pra assinar… Doutor, eu atolei o pé numa ruma de bosta desse cachorro, doutor… Desculpe a má palavra, doutor, mas aquilo é um exagero, um cachorro dar uma cagada daquelas, que o meu pé afundou todinho e o mau-cheiro subiu logo… Nessa hora, doutor, eu olhei lá pro portão, e o cachorro tava lá, com aquela cara de safado, como quem tivesse rindo de mim, porque eu pisei na bosta dele!… Foi aí, doutor, que eu gritei “Cachorro, fela da puta! Se eu te pegar, eu te mato!”. Eu lembro até que eu quis apressar o passo no rumo do cachorro, mas escorreguei na bosta. Quase que eu caio. Aí foi que eu tive raiva mesmo e ainda disse “Fica aí, fela da puta, pra ver se eu não te lasco em dois!”.

A essa altura, a fala mansa e pausada do começo já havia sido substituída por um timbre alto, porém, sem fôlego, com inspirações curtas e fora de ritmo.

- O senhor disse isso com o seu cachorro? – interrompi, forçando uma pausa, na tentativa de que ele voltasse a respirar entre as frases.

- Foi, excelência! Eu disse isso com o cachorro! E, eu digo pro senhor, que, nessa hora, eu até levantei o facão, como se eu fosse dar nele. Aí o rapaz, que tava do lado de fora do portão, o oficial de justiça, deve ter pensado que era com ele, e correu. Eu vi ele correr, e ainda tentei correr atrás, mas foi pra tentar explicar essa situação. Só que, eu não sei se o senhor sabe, correr com merda entre os dedos dos pés é um atraso danado. Quando eu consegui sair na rua, ele já ia longe…

- O medo, certamente, fez com ele corresse muito também, não?

- Eu acho que sim, né doutor? – concordou, voltando à voz baixa e pausada do começo – Porque, depois, pensando bem, eu entendi que o rapaz tinha razão de se assustar mesmo… Mas, eu sei, dentro do meu coração, que eu não disse aquilo com dele…

- E nem tinha intenção de agredir o rapaz com o facão?…

- Deus me livre, doutor…

E o interrogatório ficou mais ou menos nisso. Eu e o procurador da República ainda fizemos algumas perguntas, mas foram sobre detalhes que pouco ou nada acrescentam à história que hoje me volta à memória.

Se a versão do acusado era verdadeira ou falsa? Não sei. Acho que nunca saberei. Depois de tudo assinado e autuado, mandei remeter a carta precatória de volta para o colega do Paraná. Caberia a ele decidir se a vítima das agressões verbais e das ameaças do acusado era mesmo o oficial de justiça ou o cachorro.


Mundo Cordel
QUEM SOU? O QUE SOU?

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Se sinto raiva, o coração acelera, a saliva seca, os músculos se contraem. Mas não sou a raiva. Ela sequer faz parte de mim. Descoberta, recua.

Se sinto medo, o diafragma se contrai, a respiração encurta. Mas não sou o medo. Ele nem chega a fazer parte de mim. Surpreendido, foge.

A dor física incomoda. Dependendo da intensidade, paralisa. Mas não sou a dor. Ela sequer faz parte do meu corpo. Identificada, perde força.

A alegria descontrai, faz sorrir. Mas não sou a alegria. Ela é uma presença agradável, mas não é parte de mim. Percebida, perde a graça.

Não sou nada do que sinto ou percebo. Nem raiva, nem medo, nem dor, nem alegria. Todas essas coisas estão fora de mim.

Sigo sem saber o que sou, pois só vejo as coisas que estão fora de mim. A mim mesmo não vejo. Existo, mas não me conheço.

Publicado antes no Twitter, obviamente que em partes de até 140 caracteres, que tentam fazer algum sentido isoladamente.


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NADA ACONTECEU NAQUELA TARDE

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Naquela tarde de sábado, muitas coisas poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. A vida é assim mesmo. Há dias nos quais muitas coisas acontecem, enquanto em outros tudo permanece quieto. Pela manhã, uma grande movimentação; à tarde, nada acontece.

Ou melhor, até acontecem fatos rotineiros, mas nada que mude o estado das coisas. Na praça de alimentação daquele shopping, pode-se dizer que, do meio-dia às dezoito horas, nada aconteceu. Nada além do transitar normal das pessoas em seus afazeres típicos do local e do horário.

Alberto sabia o que poderia acontecer ali. Na verdade, não apenas sabia, mas tinha nas mãos a possibilidade de fazer as coisas acontecerem ou não. Havia preparado tudo nos últimos dias e em parte da manhã daquele sábado. Perto do meio-dia, quando Rita chegou à lanchonete onde trabalhava, ele já a esperava e, entre as primeiras frases da conversa, disse-lhe:

- Trate de sair logo desse emprego. Se você continuar, vai estragar a sua vida e a minha!

Rita não ficou propriamente surpresa com o ultimato. Desde que começara a trabalhar ali, o namorado a pressionava a deixar o emprego. Alberto era muito ciumento. Para ele, a lanchonete na qual ela estava trabalhando era uma ameaça constante. Frequentada por muitos jovens, era um ambiente mais que propício para o assédio.

A moça não cedia às pressões. Dizia que estavam em pleno século XXI e a mulher tinha, não apenas a liberdade, mas o dever de trabalhar. Não submeteria a escolha do seu emprego aos ciúmes do namorado. Depois de discutirem várias vezes, chegaram àquela manhã e ao ultimato de Alberto. Embora a situação fosse relativamente previsível, ela titubeou.

- Puxa, Alberto… Por que tudo isso? Desse jeito você me obriga a…

- Você tem até o fim da tarde de hoje! — interrompeu ele, bruscamente.

- Ou deixa esse emprego ou vou explodir essa lanchonete!

- Que é isso, Alberto? Tá louco?

- Estou pior que louco. Você tá pensando que é assim? Que vou aceitar minha namorada ficar aí se exibindo? Pois não é, não! Se você insistir nisso, eu acabo com tudo aqui!

À medida que a agressividade de Alberto aumentava, crescia também a decepção de Rita. Aquele não parecia o namorado que quase todos os dias a visitava em sua casa. Apesar de ciumento e até possessivo, Alberto sempre fora carinhoso, atencioso, apaixonado mesmo. Não combinava com ele aquela ameaça destrutiva.

- Vá embora daqui, Alberto. É melhor a gente conversar depois — foi o que ela conseguiu dizer, já chorando.

Ele atendeu ao seu pedido e saiu, mas repetindo a ameaça:

- Até as dezoito horas, Rita! É bom que você não esteja mais trabalhando aqui depois disso!

Era quase meio dia quando Rita enxugou as lágrimas e ficou vendo Alberto se afastar. O movimento aumentava na lanchonete e o expediente dela estava começando. A conversa com Aberto havia durado menos de meia hora. Rita sentiu que o namoro estava chegando ao fim. Por um instante, pensou no quanto era estranho que um relacionamento de quase dois anos pudesse acabar assim, em uma conversa de poucos minutos, no meio de um shopping.

“Talvez não acabe”, pensou ela. “Talvez ele esfrie a cabeça e mude de ideia. De repente, até volta me pedindo desculpas, dizendo que não vai mais reclamar do meu trabalho”.

Era uma possibilidade. Mas, como dito desde o princípio, entre meio dia e seis da tarde daquele sábado, nada aconteceu. Alberto poderia ter voltado – como Rita imaginava – dizendo-se arrependido, mas não voltou. Rita poderia ter ido atrás de Alberto, chorando e prometendo largar o emprego, mas não o fez. O gerente da lanchonete poderia ter visto a discussão do casal e demitido Rita, para evitar problemas, mas isto também não aconteceu. Ao contrário, fez-se uma aparente normalidade, com Rita cumprindo os seus afazeres de garçonete e a praça de alimentação se enchendo de gente, como se a cidade inteira houvesse chegado ao mesmo tempo para almoçar.

Alberto ficou por ali, ocupando uma mesa nas proximidades, mas não comeu nem bebeu. Apenas pensava. Pensava em muitas coisas, principalmente na ameaça que havia feito a Rita: “Eu devia ter deixado as coisas mais claras. Ela não tem noção do que sou capaz”.

De fato. Rita não imaginava o quanto Alberto estava falando sério quando ameaçou explodir a lanchonete. Ele nunca havia dado sinais de ser capaz de fazer algo assim. Mas era. Pensava nisso há dias, desde que encontrou na Internet um vídeo que ensinava a construir uma bomba acionada à distância, por meio de um telefone celular. Enquanto assistia ao vídeo, um pensamento destacou-se subitamente, fazendo-o dizer baixinho para si mesmo:

- Uma bomba dessas naquela lanchonetezinha faria um estrago…

No começo, Alberto riu disso. Aos poucos, porém, a imagem do equipamento pronto; do seu próprio dedo, apertando o botão; da destruição no local; tudo isso foi preenchendo cada parte da sua mente.

Daí em diante, foi como se uma força estranha houvesse dominado Alberto. Assistiu ao vídeo dezenas de vezes, observou detalhadamente determinados trechos, fez anotações, conferiu informações em outras fontes, até se convencer por completo: estava pronto para fabricar a sua própria bomba.

Reunir o material não chegou a ser uma tarefa complicada. Um telefone celular velho, mas funcionando, fios, pregos, parafusos, uma lata de leite em pó vazia, massa de modelar… O mais difícil poderia ter sido conseguir a pólvora, mas um amigo que trabalhava em uma fábrica de fogos de artifícios cuidou disso sem fazer muitas perguntas.

Após algumas noites de dedicação ao projeto, o artefato explosivo ficou pronto. Era chegada a hora de escolher um bom lugar e deixá-lo preparado para o uso.

Alberto sabia que a lanchonete onde Rita trabalhava tinha um pequeno banheiro, logo após o final do balcão. O lugar era minúsculo, mas tirava do aperto o cliente que não quisesse caminhar até os banheiros do shopping, localizados do outro lado da praça de alimentação. O problema era que, se a porta do banheiro estivesse fechada, poderia reduzir muito o impacto da explosão no restante da lanchonete. Talvez fosse melhor escolher outro lugar, mais exposto, ou se posicionar de tal forma que pudesse acionar a bomba bem na hora em que alguém abrisse a porta do banheiro.

Pensando nessas coisas, Alberto decidiu ir à lanchonete naquele sábado, antes que Rita chegasse para trabalhar. Quando o shopping abriu, às dez da manhã, ele foi um dos primeiros a entrar. Foi direto à praça de alimentação. Levava a bomba dentro de uma sacola de compras, dessas vendidas nos supermercados como ecologicamente corretas, a pretexto de se reduzir o consumo de sacos plásticos descartáveis.

Passou pela frente da lanchonete, observou de longe, aproximou-se, entrou, tomou um suco, foi ao banheiro e decidiu que o lugar não era adequado para o que queria.

Mas, do lado de fora do banheiro, ao lado da porta, viu uma pequena pia e, ao lado da pia, no canto da parede, um grande cesto de lixo onde se jogava o papel toalha usado.

Apesar de o cesto ter as paredes semelhantes a um alambrado, o saco de plástico preto que lhe servia de forro fazia dele uma ótima camuflagem para a sacola explosiva. Alberto a pôs no chão e fingiu que lavava as mãos. Enquanto isso, empurrou-a com o pé para trás do cesto de lixo. Este, bem mais largo em cima que na base, tornou-se um esconderijo perfeito.

Toda essa ação – de transportar a bomba, procurar um lugar para ela e colocá-la lá – deixou Alberto muito excitado e nervoso. O coração estava acelerado, gotas de suor formavam-se em sua fronte. O medo de ser prematuramente descoberto misturava-se a uma estranha sensação de poder. Do poder de mandar tudo pelos ares. Deve ter sido por isso que, ao encontrar Rita, Alberto mostrou-se tão impaciente e agressivo, fazendo-a estranhar o seu comportamento.

Um minuto depois do meio dia, porém, tudo isso já havia acontecido, e o que se via eram pessoas se alimentando, garçons e garçonetes – como Rita – servindo, pessoas que passavam de um lado para outro, cada uma seguindo o seu destino.

E havia Alberto, sentado em um lugar qualquer, olhando ora para o relógio de pulso, ora para o telefone celular que tinha nas mãos.

Uma e meia, duas da tarde, o movimento na lanchonete diminuindo, para voltar a crescer lá pelas quatro ou cinco. Alberto não entendia como as últimas horas podiam ter sido tão lentas quando estavam passando, e, no entanto, agora, que já haviam passado, pareciam ter durado apenas um piscar de olhos.

Dezessete horas e cinquenta e oito minutos. Alberto levanta-se e vai em direção à lanchonete. Rita está limpando uma mesa. Ela ergue a cabeça e seu olhar se encontra com o de Alberto. Mais uma vez, poderia acontecer alguma coisa, um sorriso, uma palavra, uma mão estendida, um gesto qualquer que libertasse o rapaz de suas ideias destrutivas. Mas, mais uma vez, não aconteceu nada. Rita simplesmente baixou o olhar e esperou que Alberto passasse por ela.

Frustrado com a indiferença de Rita, Alberto afastou-se uns cinquenta passos largos, parou e digitou, no teclado do celular, o número do aparelho que servia como acionador de sua bomba. Durante um segundo especialmente longo, olhou fixamente o visor, mais para se certificar que digitara o número correto que por hesitação. Em seguida, apertou a tecla verde e, involuntariamente, contraiu-se todo, esperando a explosão.

No entanto, não aconteceu absolutamente nada. Nem explosão, nem gritos, nem barulho de objetos sendo arremessados. Nada.

Alberto deu meia volta e olhou em direção à lanchonete. Procurou Rita, mas viu apenas uma criança, uma menina, de uns três anos de idade correndo entre as mesas. A mãe vinha logo atrás, tentando alcançá-la. A visão da criança correndo teve um efeito inesperado sobre Alberto. Uma imensa ternura o invadiu. Quis abraçar aquela criança, protegê-la. Sentia-se um monstro por ter pensado em causar uma explosão naquele lugar, pondo em risco a vida de seres inocentes como aquela menina e sua mãe. Que sorte o equipamento haver falhado!

Enquanto a mulher e a criança afastavam-se do local, Alberto caminhou até a lanchonete, lenta e decididamente. Rita, parada junto ao balcão, ficou olhando ele se aproximar e passar por ela como se não a visse. Tudo o que Alberto queria agora era pegar de volta a sacola com o explosivo.

Com a mão esquerda, afastou o cesto de lixo da parede, enquanto esticava o braço direito para pegar a sacola… Mas, não chegou a tocar nela. Um estrondo ecoou pelo shopping e um impacto brutal jogou Alberto para trás. O local encheu-se de fumaça, poeira e papel picado, como se as toalhas descartáveis usadas, que estavam no cesto, houvessem se transformado em uma chuva de confetes.

Do lado de fora, as pessoas olhavam perplexas para o cenário de destruição, sem entender direito o que estava acontecendo. Um rapaz, que trabalhava do lado de dentro do balcão, surgiu da fumaça pedindo socorro, o rosto sangrando, ferido por estilhaços.

Rita caíra ao chão, desacordada. Despertaria minutos depois, auxiliada por um segurança do shopping. Nada grave.

Alberto foi retirado ainda com vida do meio dos escombros, mas morreu a caminho do hospital.

A bomba havia explodido às dezoito horas e três minutos.


Mundo Cordel
O TAXISTA

TAXIS

Haveria uma solenidade. A posse de alguém em um novo cargo ou algo assim, não vem ao caso agora detalhar. O que importa é que achei melhor ir de táxi, para o caso de resolver tomar um uísque no coquetel comemorativo. Como costumo fazer nessas ocasiões, liguei para o Hélio, que além de bom motorista é amigo de longa data. Combinei com ele para me deixar no local e ficar por perto, esperando minha ligação para o retorno.

Tal como combinado foi feito e, às oito da noite, eu já estava no local. Hino nacional, discursos e aplausos depois, conversava eu amenidades com uns conhecidos que praticamente só vejo nessas ocasiões. Em meio à conversa, tomava o uísque previsto e saboreava uns salgadinhos, cheio de fricotes, mas pouco saborosos. Faltavam uns vinte minutos para as dez horas quando o celular vibrou no bolso do meu paletó. Era o Hélio:

- Amigão, o carro deu um problema aqui. Não sei se é bateria ou alguma pane elétrica, mas parou tudo. Não acende nem o painel.

Eu acabava de ficar sem meu transporte exclusivo. Sem problemas. Precisaria ligar para um serviço de tele táxi, que acabaria demorando um pouco mais, mas certamente me levaria para casa. Foi nessa hora que me lembrei do Menezes, outro taxista, não tão próximo quanto o Hélio, mas também conhecido meu há muitos anos, desde o tempo em que eu tinha um escritório no centro da cidade. Em frente ao prédio havia um ponto de táxis onde o Menezes costumava estacionar o dele. Coincidentemente, eu passara por ali no dia anterior e o vira encostado em um dos carros.

- E aí, doutor, tudo bem? – cumprimentou-me, com o sorriso de sempre.

- Menezes, rapaz! Como é que estão as coisas?…

Conversamos não mais que três minutos. Só o suficiente para perguntar pela saúde da família e indagar sobre o trabalho. Menezes pareceu-me um pouco abatido. Evitei fazer qualquer observação nesse sentido, mas ele comentou que vinha sentindo umas dores de cabeça. Nada que o impedisse de continuar trabalhando, disse-me. Pôs-se à disposição para quando eu precisasse e procurou um cartão de visitas no bolso. Não tinha. Anotei na agenda do meu celular o número que ele me disse ser o dele. Despedimo-nos com sinais de polegar para cima e votos de “tudo de bom” e “até a próxima”.

Enquanto recordava esse encontro com Menezes, procurei na agenda do telefone o número que ele me havia fornecido. Liguei. Fiquei ouvindo a chamada. Três, quatro toques. Já imaginava que talvez estivesse dormindo, quando finalmente alguém atendeu. Uma voz de mulher falou comigo:

- Alô.

- Boa noite… – disse eu, meio sem jeito. – Por favor, esse celular é do Menezes?

A mulher demorou um pouco a responder. Em seguida, a voz saiu trêmula:

- É… O senhor… é amigo dele? – perguntou-me.

- Sou cliente e amigo também. Por quê?

- Senhor… O Menezes morreu… Eu sou a esposa, quer dizer, a viúva dele…

- Morreu?… Mas, foi algum acidente?

- Não, senhor, foi um derrame. Um AVC, né?

Fiquei chocado. Como pode a vida de um ser humano ser assim, tão frágil? O que dizer àquela mulher, cujo sofrimento podia ser percebido através da sua voz ao telefone, embora eu nunca houvesse falado com ela antes? Tentei ao menos mostrar solidariedade.

- Puxa, senhora, eu não sabia… Meus pêsames… Tão de repente, né?… Pega todo mundo de surpresa…

- É… Quer dizer… Assim, né?… No dia mesmo do derrame ninguém esperava, mas até ele dar o último suspiro, ainda demorou um mês e dois dias em coma… Mas aí, na última semana, ele foi definhando e já ficou todo mundo só esperando a hora mesmo…

- Senhora, eu acho que não entendi direito… Quando foi mesmo que ele morreu?

- Dia dezessete vai fazer dois meses.

- E o Menezes que a senhora fala é o do táxi?

- Claro, moço? O senhor não ligou para o celular dele?

- É isso mesmo. Liguei. É que a notícia me pegou tão de surpresa, que é difícil de acreditar. Meus pêsames… – e desliguei.

Ainda pensei em questionar: “Senhora, acho que estou falando de outra pessoa, porque vi o Menezes ontem, no mesmo ponto de táxi de sempre”. Mas, de que isso adiantaria? Mesmo que estivéssemos falando de dois Menezes distintos, ambos taxistas, o marido dela era o que estava morto. Nada mudaria isso.

Mesmo assim, sentindo que a dúvida me incomodava, dias depois voltei ao ponto de táxi e perguntei a outros taxistas que encontrei ali se eles conheciam Menezes.

Não apenas conheciam como confirmaram: tinha morrido mesmo. Exatamente como descrito pela viúva.


Mundo Cordel
O JORNAL

No começo de 1980, eu estava com treze anos de idade e tinha acabado de mudar de colégio. Deixei a escola pública onde havia terminado o primeiro grau e passei a estudar em uma particular, graças a uma bolsa de estudos que ganhei em um concurso.

Valeu a pena, porque a estrutura da nova escola era bem melhor, mas a mudança foi traumática. Além de ser longe da minha casa, todos os meus amigos haviam ficado no outro colégio. Felizmente, os meus colegas de turma haviam chegado ali pelo mesmo caminho – o concurso – o que aumentava as minhas chances de me aproximar deles.

De fato, aos poucos novas amizades foram surgindo e tornei-me especialmente próximo de dois dos meus colegas: o Leovigildo, que todos chamavam só de Leo, e o Antonio Maria.

Mas, apesar de termos nos tornado bons companheiros, sentíamos necessidade de interagir mais com o restante da turma. Naquela época, ainda não se usava a expressão “popular” para designar alguém que está sempre rodeado pelos colegas e é convidado para os eventos mais importantes, mas eu, Leo e Antonio Maria sentíamos falta exatamente disso: de sermos um pouco mais “populares”.

Foi então que estourou a guerra Irã-Iraque e as coisas começaram a mudar.

Claro que a frase anterior foi posta aí de propósito, para levar o leitor a se perguntar: “E o que uma guerra do outro lado do planeta teria a ver com a popularidade de três garotos no Brasil?”. Pode parecer estranho, mas as coisas deste mundo estão mais interligadas do que se imagina.jornais27

Aconteceu que eu era um bom aluno de história, fascinado por guerras. Em minha casa havia um livro grande e ilustrado sobre a Segunda Guerra Mundial, que volta e meia eu pegava para ler ou simplesmente ficar vendo as fotografias e os mapas explicativos dos avanços e recuos das tropas.

Quando o Iraque invadiu o Irã, naquele setembro de 1980, passei a ter uma guerra atual, com notícias na TV, nos jornais e nas revistas semanais, que faziam sempre uma análise detalhada das possibilidades dos dois lados envolvidos no conflito. Num tempo em que não se tinha computador em casa – e sequer se falava em Internet – eu acompanhava esses noticiários com avidez por informações.

Nessa leitura frequente de jornais e revistas, acabei tomando contato com outros assuntos, aqui mesmo do Brasil, como o processo de abertura política e o crescimento da inflação. Passei a admirar as pessoas que nos traziam essas informações e sonhei ser jornalista.

Raul Seixas disse certa vez, parafraseando Dom Quixote, que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Eu não estava só em meu sonho de ser jornalista. Embora ainda não soubesse, meus amigos Leo e Antonio Maria também sonhavam, ou melhor, o Leo sonhava; o Antonio Maria foi arrastado por nós para dentro do sonho.

Isto ficaria claro durante uma semana de atividades esportivas e culturais que houve no colégio. Em meio a essas atividades, cada turma precisaria eleger um líder, que ficaria responsável por representar a turma em determinadas ocasiões do evento. Claro que outros alunos, mais “populares”, logo se apresentaram como candidatos naturais à liderança, mas da disputa deles surgiu a oportunidade para as coisas mudarem para nós.

Em certo dia, de muita movimentação, eu e Leo escrevemos uma espécie de crônica, falando dos possíveis líderes, comparando-os e comentando como as atividades mais recentes estavam influenciando o nosso comportamento. Chamamos Antonio Maria para participar do nosso embrião de jornal e confirmamos o que já era esperado: ele também escrevia, e bem.

Animados com a ideia, passamos praticamente a tarde toda reunidos, fazendo o que viria a ser o jornal da turma. Não tínhamos computador, nem câmera digital (naquele tempo, nem se falava nisso), mas, o Leo usava a máquina de escrever com uma habilidade incrível, datilografando os textos e deixando espaços para colarmos algumas fotos ou desenhos. Depois, foi só achar um lugar para fotocopiarmos tudo. Estava pronto o primeiro número do nosso jornal.

No dia seguinte, quando distribuímos as cópias com os colegas de classe, algo mudou em nossas vidas. Era hora do recreio, mas ninguém saía da sala, todos lendo o ABLADANTE (era esse o nome do periódico), rindo e comentando com quem estava ao lado. Os caras mais “populares” vinham falar com a gente, ora elogiando o resultado do trabalho, ora se queixando por terem sido criticados. Algumas meninas vieram nos dar parabéns. Um sucesso!

A partir daquele dia, tudo o que acontecia com qualquer colega da turma podia virar notícia. Um que faltou à aula porque estava com febre, outro que aprontou alguma estripulia e foi mandado para a coordenação, nada escapava aos nossos olhos e ouvidos atentos. Em pouco tempo, professores e coordenadores também viraram pauta para nossas matérias, nem sempre elogiosas, aliás, quase nunca.

E assim foi por todo o restante daquele ano e do seguinte, período no qual estudamos juntos. O jornal não tinha uma regularidade definida, saía a cada quinze ou vinte dias, conforme houvesse matéria. Mas o interesse dos colegas cresceu e outros acabaram se tornando articulistas eventuais. Alguns professores também entraram para a lista de leitores e incentivadores.

Descobrimos assim a força da palavra escrita, o poder da mídia, a influência que têm aqueles que decidem o que é e o que não é notícia. Claro que, às vezes, alguns colegas e professores ficaram chateados conosco. Outras vezes enfrentamos ameaças de punição na escola, por causa do que escrevíamos. Mas tudo valeu a pena.

No final, nenhum de nós se tornou jornalista de verdade, mas, ainda hoje, mais de trinta anos depois, quando encontro com meus ex-colegas de “jornalismo”, nos perguntamos do que teríamos sido capazes de realizar, se contássemos com os recursos de tecnologia da informação que se tem à disposição nos dias de hoje.

Não tenho dúvida que, do ponto de vista da qualidade do material produzido, tudo seria bem mais fácil. Computador, câmera digital, processadores de texto, acesso a informações sobre qualquer coisa…

Entretanto, com cada um podendo criar sua própria página em uma rede social, talvez fosse mais difícil atrair o interesse dos leitores, como fizemos naquela época. Até os grandes jornais têm enfrentado essa dificuldade.

Na realidade, não dá para imaginar como seria. Nem estou interessado nisso. Hoje, é mais gostoso relembrar o que vivemos, e foi um tempo muito bom.

P.S.: Alguns anos depois do encerramento das atividades do jornal, quando já estava na faculdade de Direito, recebi as primeiras noções jurídicas sobre algo chamado “liberdade de expressão”. Um direito que precisa ser conquistado a cada dia, pelo seu próprio exercício, o que requer coragem. Quem publica o que pensa sempre corre o risco de causar dano à imagem de alguém e, mesmo em uma democracia, pode entrar em rota de colisão com o poder, seja ele político, econômico, bélico ou de qualquer outra ordem.


Mundo Cordel
QUEM SORRI POR ÚLTIMO

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O técnico Joachim Löw no momento do gol contra a Argentina

Por toda a vitoriosa campanha da seleção alemã para a conquista do seu quarto título mundial, chamou-me a atenção a figura do seu treinador Joachim Löw.

A cada gol, a cada vitória, o homem não abria um sorriso sequer. Era como se, para ele, os gols do seu time, e mesmo as vitórias da equipe, fossem apenas o cumprimento de um dever, e não motivo de comemoração.

Alguns amigos com quem assisti aos jogos diziam que era frieza, mas nunca concordei. Parecia-me mais a concentração de alguém determinado a alcançar um objetivo, no caso, a conquista da copa de 2014.

Não sei se tinha razão em minha avaliação, mas gostei de ver a reação de Löw, ao final da partida contra a Argentina. Foi bom ver sua fisionomia sisuda se abrir em um sorriso. O sorriso de quem sorri por ultimo.

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O técnico Joachim Löw ao final da partida com a Argentina

EM TEMPO – Se eu fosse fazer uma paródia para homenagear os campeões, usaria a música “Mulheres de Atenas”, mudando a letra para “Rapazes Germanos”, e começaria assim:

Mirem-se no exemplo
Daqueles rapazes germanos
Eles que nos salvaram
Da gozação dos Hermanos!


Mundo Cordel
CORDEL PRA DEPOIS DA COPA

SELECAO_COSTAS

Sem o Brasil campeão,
Resta a nós reconhecer
Que isso pode acontecer
Em qualquer competição.
Passada a decepção,
Prestadas as homenagens,
Guardadas muitas imagens
No arquivo da nossa mente,
Olhemos, daqui pra frente,
Para outros personagens.

Pois, com a Copa terminada,
É chegada a ocasião
De ver na televisão
Muita conversa fiada
E promessa exagerada
De grandes transformações.
De dar novas soluções
Para problemas antigos
Muita atenção, meus amigos,
Vêm chegando as eleições.

É tempo de aparecer
Gente que estava sumida,
Que andou desaparecida
E que agora vem nos ver.
Que pergunta e quer saber
Do que estamos precisando,
Prometendo e explicando
Como tudo irá mudar
Mas, para realizar,
Com seu voto está contando.

Tempo bom para se ver
Gente beijando criança,
Dizendo que a esperança
No Brasil vai renascer.
Que as crianças devem ter
A maior prioridade
E que é gigante a vontade
De ajudar o mais carente,
Essa conversa que a gente
Já viu que não é verdade.

Tempo de a gente escutar
Achando ruim ou bom,
Nas ruas, carros de som,
Com seu som a ecoar.
As canções a ressaltar
O valor do candidato,
Embora não seja exato
Que elas digam a verdade.
Deus me dê boa vontade
Para crer nisso de fato!

Nas esquinas e avenidas,
Muitas moças e rapazes
Exibirão seus cartazes
E bandeiras coloridas.
Não estão bem definidas
As suas convicções,
Já que as manifestações
São em troca de uns trocados:
Militantes contratados
Nesse tempo de eleições.

Não são só os militantes
Ou cabos eleitorais
Que vendem seus ideais
Em condutas aviltantes.
Cenas mais repugnantes
Vêm do horário eleitoreiro:
Vende-se um partido inteiro,
Ali a coisa desanda,
E o tempo de propaganda
Vale mais do que dinheiro.

É bom estar preparados
Para o nível dos debates.
É provável que os embates
Venham todos recheados
Com segredos revelados
Sobre esquemas de bilhões,
Fraudes em licitações,
Desvios, corrupção,
Talvez todos com razão
Na troca de acusações.

Amigos, como eu queria
Não estar desiludido
E acreditar que um partido
É feito de ideologia!
Pois sei que a democracia,
Apesar de suas mazelas
É uma das coisas belas
Que o ser humano criou
E, das crises que enfrentou,
Transpôs cada uma delas!

O desânimo me alcança
Mas, teimo em não desistir,
E, assim, hei de prosseguir
Mantendo viva a esperança
De ver alguma mudança
Nesse quadro deprimente,
Que eu aqui, ligeiramente,
Descrevi, nesse cordel,
Cumprindo assim meu papel
De alertar a minha gente!

Deixo claro que, apesar
De toda desilusão,
Quando chegar a eleição
Vou à urna, vou votar.
Ali, vou exercitar
A minha cidadania,
Na esperança de algum dia,
Eleger representantes
Sérios, probos e atuantes.
E viva a DEMOCRACIA!

* * *

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Mundo Cordel
UM SONETO

Prefiro publicar apenas a poesia, sem considerações preliminares.

Estes, porém, parecem versos malditos.

Enviei-os a um grupo de amigos internautas, por e-mail, e dois me responderam de maneira inesperada. Um quis saber se havia me ofendido de alguma forma; o outro pediu (não muito delicadamente) que eu dissesse as coisas abertamente, sem me esconder atrás da minha poesia.

Declamei-os durante a comemoração do aniversário de um amigo, e um dos presentes, que eu nem conhecia direito, protestou, dizendo que eu lançava indiretas a ele.

É por isso que, ao publicar este soneto aqui, em minha coluna no JBF, advirto: os versos não se dirigem ao editor do blog ou a qualquer outro fubânico.

Ao contrário, convido aos leitores que por aqui transitam a ler esta poesia dedicando-a (só em seu pensamento) a alguém de seu próprio convívio. Tenho certeza que todos encontrarão alguém que mereça a dedicatória.

SONETO PARA UM ARROGANTE

Tu te comportas com tanta arrogância
Que me estimulas a fazer um alerta:
Se tua barriga fosse agora aberta,
Exalarias fétida fragrância.

Se nos salões exibes elegância,
Noutro ambiente, bem mais reservado,
Frequentemente fica demonstrado:
Não faz sentido a tua petulância.

É que, depois de algumas refeições,
Tu, como os outros, sentes contrações.
E a tua pequenez te é exposta,

Quando te ocultas e te pões sentado,
E te esforças, mas o resultado
Do teu esforço é simplesmente bosta.


Mundo Cordel
ELAS VENCERAM

Sabia que poderia acontecer. Previ isso no final da minha crônica da semana passada. “Vai que me emociono na hora do hino nacional…”, dizia eu. E acrescentei a tempo: “… e ela me pediu que fizesse um esforço extra para torcer pela seleção brasileira nesta Copa”.

Não deu outra. De um lado, minha mulher, toda vestida de verde e amarelo; do outro, a TV de não sei quantas polegadas, do BNB Clube de Fortaleza, mostrando a torcida a cantar o Hino Nacional Brasileiro na capela. Num instante, eu já era mais um torcedor da seleção.

Alguns diriam, depois, que não era o povo brasileiro que estava nas arquibancadas. Que o povo ficou do lado de fora, que os ingressos são caros e coisas assim. Mas, não acredito nisso. Os ingressos são caros, é verdade, mas, só por isso, quem os compra deixa de ser povo? Creio que não. Até os jogadores – que vivem na Europa e ganham em euros – são povo. Além do mais, tenho certeza que muita gente não tão abastada trabalhou, economizou e até se endividou para poder ver de perto a abertura da Copa. O som que se ouviu nas arquibancadas do Itaquerão era emitido pelo povo, sim!

O fato é que, na hora, nem pensei nisso. Apenas senti a voz estranha enquanto tentava cantar o hino também. À minha frente, do outro lado da mesa, meu irmão também tentava cantar. Vi que as lágrimas já corriam de seus olhos e desciam pela face. Somos uns chorões.

Lembrei-me de uma vez, quando viajamos para a Serra da Meruoca, lugar onde nosso pai nasceu. Eu devia ter uns seis anos de idade e ele dez. Por algum motivo que não lembro, nossa mãe não nos acompanhou. Lá pelo quarto dia longe de casa e da mãe, ele me disse que estava com saudade. Eu também estava.

- Dá até vontade de chorar – disse ele.

- E por que não chora?

- Por que você é menor e ainda não chorou, aí fico com vergonha de chorar primeiro…

Antes que ele terminasse a frase, eu já estava chorando. Ele aproveitou e chorou tudo o que estava acumulado. Somos assim mesmo, uns chorões. E choramos de emoção vendo e ouvindo nossa torcida cantar o Hino. Minha mulher sorria, vendo o choro daqueles dois marmanjos.

Foi assim que elas – minha mulher e a torcida brasileira – venceram o bloqueio que me impedia de torcer pela seleção brasileira nos últimos anos. Com o carinho da primeira por mim, e com a paixão da segunda por esse time de camisas amarelas que o mundo inteiro reconhece como aquele que faz o mais belo futebol do planeta!

Hoje tem jogo da seleção de novo, e será na minha cidade de Fortaleza. Foi aqui onde, ano passado, começou essa história de cantar o Hino até o fim da primeira parte, na capela. Verdadeiro ato de rebeldia, contra os noventa segundos do padrão FIFA. Mas, acima disso, verdadeiro ato de amor pela seleção brasileira e, por que não dizer, pelo Brasil.

Mesmo fazendo a distinção entre a seleção brasileira e o país, dá para perceber no olhar dos torcedores – e dos jogadores também – que há ali uma emoção que extrapola os limites do futebol.

Sim, certamente haverá Hino à capela no Castelão. O povo nas arquibancadas cantará e emocionará os jogadores, o país, o mundo.


Mundo Cordel
ANTES QUE A COPA COMECE

bandeira-torcida-brasileira

Antes que a Copa comece, resolvi deixar registradas algumas ponderações sobre o evento e, bem assim, sobre a seleção brasileira de futebol. Certamente, não são opiniões que virão a ter grande repercussão, mas me faz bem expressá-las.

A primeira delas – um tanto óbvia – é que acho tardias as manifestações “contra a Copa”, um evento cuja decisão pela realização no Brasil se deu há anos e, na época, não houve qualquer protesto que tenha merecido destaque.

Protestar contra a não entrega de obras prometidas, atrasos de outras e má qualidade de outras ainda, parece-me razoável, mas, contra a realização do evento no Brasil? Acho que não é o caso. Protestar por causa dos problemas com a saúde, a segurança e a educação? Perfeito. Mas contra o fato de a Copa ser no Brasil, não vejo motivo.

Aliás, se fosse para protestar contra a Copa, sentir-me-ia mais estimulado a fazê-lo contra o evento em si, independentemente do país onde se realize. Digo isso porque, embora apreciando muito o futebol, e acreditando nos esportes em geral como uma prática capaz de aproximar os povos, senti nascer em mim certa rejeição pela Copa do Mundo desde que ela passou a ser chamada de “Copa do Mundo da FIFA”.

Não sei quando isso começou, mas lembro que, até certa época, “Copa do Mundo” era “Copa do Mundo”, e só. Nem se dizia “Copa do Mundo de Futebol”, porque já estava subentendido. De uns tempos para cá, porém, observei que os órgãos de comunicação se referem ao evento sempre como “Copa do Mundo da FIFA” ou “Copa da FIFA”, como se a FIFA fosse a dona do evento e não sua organizadora. Imagino que as razões para essa mudança de postura envolvam questões contratuais, ou, em linguagem mais simples, dinheiro.

O certo é que, à medida em que a “Copa do Mundo” ficou com essa cara de “propriedade da FIFA”, ela foi se tornando algo estranho para mim. E isso fica cada vez mais nítido, quando vejo o controle exercido pela FIFA sobre todos os detalhes, especialmente pela preocupação da entidade com registros de marcas e a comercialização de produtos relacionados com o evento.

Nesta Copa, que está prestes a começar, estamos submetidos a uma Lei Geral da Copa repleta de previsões que, no mínimo, põem em dúvida a soberania nacional. Restrições ao direito de o cidadão chegar à própria residência, tratamento de área pública como se fosse privada e até tipificação de crimes que só se processam mediante representação da FIFA .

Isso realmente me incomoda, e o meu sentimento é o de que a Copa já não é mais do Mundo, é da FIFA. Em princípio, nada tenho contra a FIFA, mas sinto que ela se apropriou de algo que deveria ser patrimônio da humanidade, não de uma entidade ou das pessoas que estão por trás dela.

A par disso, pretendo assistir a muitos jogos da Copa pela televisão. Por quê? Porque gosto de bom futebol e de ver as seleções se enfrentando. Fascina-me especialmente ver a competição entre equipes de países de língua e cultura totalmente diferentes. É interessante ver que, naquele momento, as diferenças são superadas por um vínculo comum: o futebol.

Movido por esse interesse – e talvez seja isso a “paixão pelo futebol” – suporto as condições que me são impostas e me deixo levar pela emoção durante os jogos, algumas vezes escolhendo uma seleção para torcer, outras apenas apreciando o embate entre as equipes.

Assim, mesmo incomodado com o fato de a Copa ser da FIFA, não me sinto moralmente autorizado a me manifestar contra a Copa, porque participo dela (vendo os jogos pela TV) e não quero que ela deixe de existir. Queria apenas que fosse devolvida ao povo, mas acho que, por enquanto, essa é uma batalha perdida.

E a seleção brasileira? É a equipe que representa o Brasil nessa festa toda, logo, é natural que os brasileiros interessados por futebol deixem de lado a torcida pelo seus clubes e se unam uns aos outros na grande torcida verde e amarela. Outras pessoas, que nem se interessam tanto por futebol, também podem aderir a esse movimento.

Mas, que fique bem claro: a seleção não é o país. Isso parece óbvio, mas tem muita gente bem informada por aí dizendo que torcer contra a seleção é desejar que nosso país vá mal, é ser do time do “quanto pior, melhor”.

Claro que não é assim. Posso afirmar isso com toda segurança, porque eu mesmo, não apenas desejo, mas tenho feito o que está ao meu alcance para que o Brasil seja um país melhor. No entanto, há muito tempo não torço pela “Canarinha”.

Por que não torço? Não sei ao certo o motivo. Lembro apenas que torci muito pela seleção brasileira até a Copa de 1994. Em 1998, já não senti tanta empolgação. Desde então, desenvolvi certa antipatia pela seleção, daí evoluindo para a indiferença.

É possível que isso tenha relação com essas considerações que já teci a respeito da FIFA, ou com alguma percepção de que a seleção tenha se tornado apenas uma vitrine, na qual os jogadores despertam o interesse de clubes estrangeiros (se ainda não jogam em um deles) ou aumentam o valor do seu passe. Se faz sentido essa desconfiança, também imagino que os jogadores não fariam isso sozinhos, alguém mais poderoso se beneficiaria dessa valorização, mas isso não vem ao caso agora. Mas essas são apenas conjecturas, e não uma explicação definitiva das razões pelas quais deixei de torcer pela seleção.

Sei que torcer por uma determinada equipe requer identificação com ela. Um vínculo que leve o torcedor a se sentir próximo dos jogadores. Percebo isso muito claramente nos eventos internacionais de mistura de artes marciais, dos quais alguns brasileiros participam, mas não vejo em nenhum deles a incumbência de representar o Brasil. Por ter sido praticante de boxe, tenho inclinação para torcer pelos atletas oriundos de modalidades de luta em pé (boxe, muay thai, etc), independentemente de sua nacionalidade. Eventualmente também torço por representantes brasileiros do jiu-jitsu, mas a nacionalidade do lutador não é determinante quanto a torcer ou não por ele.

No caso da seleção brasileira de futebol, em algum momento da história perdi esse liame. Continuo vendo alguns de seus jogos, mas nem suas vitórias me alegram, nem tampouco suas derrotas me entristecem. E vice-versa. Paciência. O que posso fazer?

O que me parece um erro, é misturar isso com política, e achar que não torcer pela seleção é sinal de desamor pelo país. Ou pior, ver uma relação direta entre torcer pela seleção e apoiar o partido que está no governo do país.

Há poucos minutos vi um vídeo no YouTube onde um rapaz alerta que, ao invés de torcer pela seleção, devemos pensar em quem vamos votar em outubro. Achei aquilo completamente sem sentido. Parece-me evidente a possibilidade de torcer pela seleção brasileira na Copa e pensar na eleição depois.

Dá inclusive para pensar em política durante a Copa, assistindo aos jogos, sem confundir as coisas. Não vejo problema nisso. Porque acredito que as escolhas políticas se fazem com racionalidade, analisando o restrospecto e as propostas de partidos e candidatos, para tentar encontrar a melhor opção para o futuro do país e do povo que o compõe. E, se fazemos uma escolha que leva a um resultado insatisfatório, não há nada demais em mudar de ideia e tentar algo diferente mais adiante: outros candidatos, outros partidos, outras ideias…

Isso é o oposto do que acontece no futebol, onde predomina a empatia, a emoção e, por que não dizer, a paixão! Não dá nem para pensar em torcer por outro time, mesmo quando o nosso joga mal ou passa anos seguidos sem ganhar um campeonato.

Sem contar que, na política, faz parte do jogo que adversários eventualmente se unam em torno de um objetivo comum ou tentem convencer uns aos outros de seus pontos de vista, o que não tem o menor cabimento no futebol.

Sim, tem o argumento de que o “povão” não sabe fazer essa diferença, que é enganado com pão e circo, essas coisas. Discordo. Acho que dizer que o “povão” é ingênuo é tão preconceituoso quanto afirmar que a classe média é conservadora. Vejo pessoas, e vejo que há pessoas mais preocupadas com questões políticas que as outras, independentemente de faixa econômica ou social. Assim como há pessoas mais ou menos conservadoras e pessoas que se sentem ou não estimuladas a torcer pela seleção brasileira.

Por essas e outras é que pretendo assistir a vários jogos dessa Copa, provavelmente em casa, e acredito que será bem divertido. Em alguns jogos, talvez me encante com o futebol de uma das equipes e torça por ela. Acredito que continuarei sem torcer pela seleção brasileira, e, se assim for, não será por falta de amor ao meu país, por causa do partido A ou B, ou por estar infeliz com a realização da Copa no Brasil. Da mesma forma, se me der vontade de torcer por ela, não será por simpatia ao governo ou ao partido que atualmente o ocupa.

Aliás, faço questão de estar à vontade para mudar de ideia a qualquer momento. Vai que me emociono na hora do hino nacional, ouvindo o nosso povo cantar tão belamente como fez na Copa das Confederações… Quem sabe?

P.S.: Minutos depois que terminei de escrever esse texto, li-o para minha mulher e ela me pediu que fizesse um esforço extra para torcer pela seleção brasileira nesta Copa. Argumentou que será muito mais divertido torcermos juntos e comemorarmos as vitórias que a seleção certamente terá, pelo menos nas primeiras fases. Não duvido que até quinta-feira consiga me convencer. Afinal, ela nada sabia de futebol quando nos conhecemos, e hoje, por minha causa, é torcedora ardorosa do Ceará, o Vozão, atualmente líder isolado da Série B do Campeonato Brasileiro. Segui-la na torcida pela seleção brasileira seria uma espécie de caminho de volta. Sim, isso é possível. O amor tem esse poder transformador, capaz de jogar por terra séculos de filosofia.

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A esposa do colunista em campanha para convencê-lo a torcer pela seleção brasileira

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O DIA EM QUE CONHECI GONÇALO

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Hoje, domingo, oito de junho de 2014, completa uma semana que quitei uma velha dívida que tinha comigo mesmo:  visitar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, no Rio de Janeiro, um desejo que acalentava desde que publiquei o meu primeiro folheto de cordel, há quase dez anos.

Pelas duas da tarde saí do hotel onde estava hospedado em Copacabana e segui de táxi para Santa Teresa, onde encontraria Gonçalo Ferreira da Silva, com quem já havia conversado duas ou três vezes por telefone, mas não conhecia pessoalmente.

Recebeu-me com um largo sorriso e um abraço afetuoso, como quem reencontra um velho amigo:

- Seja bem vindo, poeta!

Eu, cauteloso como sempre, mesmo tendo avisado que iria, tratei de ir me apresentando. Mas, antes que dissesse meu próprio nome, Gonçalo interrompeu:

- Mas, claro que é você, poeta! Sua obra chegou antes! Aqui você está em casa!

De fato, daí em diante, foi uma conversa sobre poesia, literatura, filosofia e outras coisas mais, que quem por ali passasse teria certeza que éramos mesmo velhos amigos.

Aliás, enquanto conversávamos, chegou um casal à procura de cordéis adequados para crianças – parece que para um trabalho escolar do filho – e saiu com vários folhetos. Depois apareceu uma francesa que, apesar de não falar quase nada de português, queria cordéis que falassem de filósofos gregos. Conseguiu dizer que era professora e se interessava pelo assunto. Saiu de lá com trabalhos de Gonçalo sobre Aristóteles, Platão e outros mais. Fiquei admirado com aquilo: em plena tarde de domingo, uma professora estrangeira procurando cordéis sobre filosofia! E achou!!

Mais tarde, chegou por lá o cordelista William J. G. Pinto, também acadêmico da ABLC, e a conversa ficou ainda mais animada. Divertimo-nos declamando alguns versos. Até o ambulante, que passou vendendo empadas e brigadeiros, ficou à vontade para cantar um samba que havia feito para anunciar os seus produtos. Madrinha Mena também chegou depois e se demorou um pouco conosco.

Estava tão feliz que nem vi a noite chegar. Até porque chegou mais cedo, trazida por uma chuva que não estava prevista no boletim meteorológico daquele dia.

Despedimo-nos, mediante a minha promessa de fazer nova visita da próxima vez que for ao Rio de Janeiro, e tomei o táxi de volta para Copacabana. No caminho, lembrava admirado daquele homem tão importante para a cultura brasileira, e que demonstrara tanta gentileza ao me receber, chegando a dizer que conhecia minha obra como cordelista, quando, na verdade, era eu quem tinha o dever de conhecer o muito que ele já fez nesse campo da Literatura de Cordel.

Mas, uma última boa surpresa ainda me aguardava naquele dia. Ao chegar ao hotel, comecei a ler alguns livros que Gonçalo havia me presenteado e, ao folhear “Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel”, de sua autoria, deparei-me, na página 25, com um capítulo intitulado “O infundado temor dos intelectuais”, onde está escrito o seguinte: “Muitos dos nossos intelectuais acham que, com a escolaridade dos nossos atuais e principais poetas, a Literatura de Cordel corre o risco de descaracterizar-se. Puro engano. Pedro Bandeira é bacharel em Direito e, embora tenha feito fama cantando repente ao som da viola, é um dos mais autênticos cordelistas, tendo já publicado algumas centenas de folhetos. Marcos Mairton é juiz federal; Fernando Paixão é teólogo. Varneci Nascimento é historiador e Marco Haurélio é professor”.

Fiquei orgulhoso, não nego. Não esperava ver meu nome citado em uma obra de Gonçalo Ferreira da Siva, ainda mais assim, lembrado como um dos valores entre os poetas mais letrados.

Olhei o ano de publicação do livro – 2012 – e pude constatar que, ao dizer que minha obra chegara antes de mim, ele não havia apenas sido gentil. A gentileza estava acompanhada de um profundo interesse pela Literatura de Cordel, que o leva conhecer inúmeras obras de escritores mais tradicionais, mas se permitindo sempre estar atento ao que os mais novos produzem.

Sua benção, mestre Gonçalo Ferreira da Silva! Quando voltar ao Rio, hei de voltar a Santa Teresa para tomarmos um café e conversarmos novamente!

* * *

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MAIS UMA SENTENÇA EM VERSOS

julgamento

O poeta Vicente Alencar Ribeiro, de Bonito de Santa Fé-PB, me fez o honroso pedido de julgar um caso por ele apresentado aqui no JBF, em outubro de 2013. (Clique aqui para ler)

Descreveu os fatos em versos e pediu que eu os julgasse na mesma batida.

Acabei demorando mais do que imaginava para responder, mas hoje acordei bem cedo e consegui fazer a sentença em quadrinhas, tal como foram descritos os fatos por Vicente.

Ficou assim:

O FURTO DA POESIA

O caso que se apresenta
Não é dos mais complicados,
Como demonstram os fatos
Que já foram relatados.

É o caso de um furto
Como bem se pode ver,
E o réu é réu confesso,
Que nem quis se defender.

O que há de curioso
A nos chamar a atenção
É o objeto furtado,
Produto da inspiração.

“Levou minha poesia!” -
Narra o poeta sua dor -
“E a declama pelos bares
Como se fosse o autor”.

De fato, se declamasse,
Mas dissesse a autoria,
Estou certo que o poeta
Jamais se incomodaria.

Por isso é que considero
Oportuno esclarecer,
Não foi propriamente furto
O que veio a acontecer.

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POESIA NA UNIVERSIDADE

Em agosto de 1999, comecei a lecionar na Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Duas disciplinas bem diferentes, dentro da gama de matérias que se estuda no Curso de Direito: Direito Comercial e Teoria Geral do Estado.

Eu, que tinha atuado por mais de quatro anos como advogado do Banco do Nordeste e Procurador do Banco Central, trazia na bagagem o conhecimento prático do Direito Comercial, mas achava mais divertidos os debates teóricos da Teoria do Estado, matéria que havia estudado recentemente no Mestrado em Direito Público, na Universidade Federal do Ceará.

Assim, marcada a primeira prova do semestre, resolvi fazer uma revisão da matéria com os alunos. Foi aí que vieram os versos que acabaram privilegiando os alunos de Teoria do Estado. Com eles, a aula ficou bem mais divertida. A gente ia declamando cada estrofe e discutindo as dúvidas que surgiam a partir de cada uma delas.

Hoje, remexendo nas gavetas, encontrei-os impressos em um papel já amarelado.

Os versos eram esses:

HOMENAGEM À MINHA PRIMEIRA AULA DE TEORIA GERAL DO ESTADO NA UNIFOR

Fortaleza, 17 de setembro de 1999

Começamos o semestre
Falando de sociedade.
Por que os homens se uniram
Formando a sociedade?
Registra nossa memória
Em que ponto da história
Foi inventada a cidade?

Na Grécia, de tantos sábios,
Aristóteles dizia:
“Homem: animal político”,
E lançava a teoria
Da origem natural
Do organismo social
Que desde sempre existia.

Também na Idade Média,
A tese prevaleceu,
E o grande Tomás de Aquino
Habilmente defendeu
Que, a não ser por acidente,
Só um um gênio ou um demente
Vive afastado dos seus.

Mas, há outra explicação
Para esse mesmo fato:
Pensadores de alto nível,
De saber, bom senso e tato,
Concluíram que as pessoas
Sendo más ou sendo boas,
Uniram-se por contrato.

Surgia, assim, a doutrina
Do Contrato Social,
Com Russeau, Hobbes e Locke
Mostrando o seu cabedal,
Apesar da divergência
Destes homens de ciência
Se o Homem é bom ou mau.

Hobbes dizia que o Homem,
No estado de natureza,
É o lobo do outro homem,
Rouba o que ele tem à mesa.
E, se existe a união,
Não é por bondade, não,
Mas para a própria defesa.

Russeau, contrargumentando,
Diz que o Homem não é mau.
Que prevalece a bondade
No estado natural.
Se depois embruteceu,
Saibam, quem o corrompeu
Foi a vida social.

O fato é que muita gente
Tem pensado sobre o tema.
Não há conclusão final
Para incluir nesse esquema.
Quanto a nós, cabe estudar,
Sem também se estressar
Pra resolver o problema.

* * *

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COM “M” MAIÚSCULO

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Eu havia acabado de sair de casa. Caminhava até um restaurante self-service que fica a duas quadras dali, quando fui abordado por uma mulher que perguntou onde seria o ponto de ônibus mais próximo.

Indiquei a direção e fiquei observando ela se afastar. Devia ter pouco mais de trinta anos e levava uma criança nos braços. O menino me pareceu muito grande para ser carregado daquele jeito. Provavelmente tinha mais de dois anos de idade, o que me levou a pensar que talvez estivesse doente. As roupas, tanto dela como dele, não pareciam as comuns de ficar em casa. “É isso mesmo” – pensei – “a mãe deve ter levado o filho ao médico cedo da manhã e agora estão voltando para casa”. Trabalho pesado carregar o peso daquele menino sob o sol de quase meio dia.

Enquanto fazia essas conjecturas, lembrei de outra mulher, que conheci há muitos anos. Tinha dois filhos. Em 1968, quando o mais velho estava com pouco mais que cinco anos de idade, o mais novo, que tinha menos de dois, teve paralisia infantil.

Começava para ela verdadeira peregrinação por postos de saúde e hospitais públicos em busca de tratamento para o menino. Depois de inúmeras idas e vindas, consultas, exames e madrugadas na porta de hospitais, em busca de atendimento, conseguiu marcar uma cirurgia. Mas o método que seria adotado pelo cirurgião ainda não era totalmente aceito pela literatura médica, então ela teria que assinar um termo de responsabilidade, para o caso de alguma coisa dar errado.

A mulher assinou. Acreditou na medicina. Mas, talvez por acreditar mais em Deus que nos homens, recorreu também à novena de Santa Teresinha do Menino Jesus. Fez as orações, ganhou uma rosa no oitavo dia e encheu-se de esperança.

Hospitais, cirurgias, sessões de fisioterapia e meses de expectativa passaram a fazer parte da vida daquela mulher. Ao final de um período que não se sabe ao certo quanto tempo durou, a recompensa pelo esforço: o menino voltou a andar. Aos oito anos de idade – seis depois de contrair a doença – corria com os colegas da escola na hora do recreio. Não era tão rápido quanto eles, mas corria. Claudicava um pouco, mas seguia em frente. Andar já era uma grande vitória; correr, um luxo.

Mas há outros detalhes nessa história que tornam ainda mais oportuno falar dessa mulher em um Dia das Mães. Um deles é que, durante todo o período em que ela lutava pela saúde do filho caçula, nem ele e nem o irmão perderam muitas aulas. Para ela, não havia obstáculo que justificasse uma criança deixar de ir à escola.

E parece que os meninos compreenderam o valor que a mãe dava aos estudos. Foram ótimos alunos a vida inteira. Chegaram à faculdade. O mais velho formou-se em odontologia, fez mestrado e doutorado e hoje é professor da Universidade Federal do Ceará, um profissional respeitado no país inteiro. O outro formou-se em Direito e se tornou juiz federal e escritor.

O marido dela ajudou nessas conquistas, é verdade. Sempre foi um amigo e um exemplo para os filhos. Mas, neste dia das mães, é dessa mulher que pretendo falar. Essa mulher que, depois de dedicar uma vida inteira à família, achou espaço para ela mesma e, já na chamada terceira idade, realizou dois desejos com os quais sonhara a vida inteira: fez faculdade de Teologia e aprendeu a andar de bicicleta. Vem tentando aprender a nadar, mas está difícil.

Essa mulher, que nunca levantou a voz para repreender os filhos, nunca os pôs de castigo, nem muito menos bateu neles, ao invés de dizer “não faça isso”, sempre preferiu perguntar “você acha certo fazer?”. Onde muitos diriam “isso não é possível”, ela afirmava “você só vai saber se tentar”.

Neste Dia das Mães do ano de 2014, é a essa mulher que pretendo homenagear. Chama-se Francisca Ivonete da Silva, ou simplesmente Neta, como preferem seus irmãos, suas irmãs e seu marido.

Eu e meu irmão temos nosso próprio jeito de chamá-la. Chamamos de Mamãe. E, na hora de escrever, é assim mesmo que o fazemos: com M maiúsculo.


Mundo Cordel
FORTALEZA, 288 ANOS!

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Fortaleza hoje faz aniversário
E a cidade quero homenagear
Mas não posso deixar de lamentar
Ao ver o seu estado tão precário.
É tão triste ver no noticiário
Tantos crimes que estão acontecendo,
Tanto assalto que anda ocorrendo,
Tanta gente morrendo assassinada,
Com a população apavorada
Fortaleza inteira vai sofrendo.

São duzentos e oitenta e oito anos
Que a cidade completa neste dia
De presente dou minha poesia
Apesar desses muitos desenganos.
Já cheguei até mesmo a fazer planos:
Residir em outra localidade,
Apesar que, ir embora, na verdade,
Não seria talvez a solução,
No Brasil de Mãe Preta e Pai João
Violência tem em qualquer cidade.

Vejo que vinte versos já gastei,
Mas, não pude dizer com alegria:
“Fortaleza, parabéns por este dia!”
E garanto, leitor, eu bem tentei.
Mas confesso, parece que não sei
Expressar o que o coração não sente.
E termino dizendo, simplesmente,
Que desejo a Fortaleza um porvir
Onde o nosso direito de ir e vir
Possa ser exercido livremente.


Mundo Cordel
LÁ DENTRO!

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Praça do Ferreira, centro de Fortaleza

Na Fortaleza dos anos oitenta havia várias lojas de departamento, umas maiores, como Mesbla e Casas Pernambucanas, outras menores, como a Camelo Modas e as Lojas Vesil. Nas de menor porte, era comum haver alguém na entrada, empunhando um microfone, anunciando os produtos disponíveis à venda.

Lembro que, certa vez, passava eu diante uma dessas lojas, enquanto o locutor convidava os clientes…

- Vamos entrando freguesia! Venham conhecer o nosso amplo e variado estoque! No lado esquerdo da loja temos blusas, saias, shorts…

Nisso, aproximou-se de uma das gôndolas posicionadas na entrada da loja uma jovem usando um short que, de tão curto e apertado, chegava a ingressar ousadamente entre as nádegas da moça.

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A moça não era essa, mas era parecida…

Ao se deparar com tal visão, o locutor engasgou um pouco, mas logo recuperou a presença de espírito – que todo locutor deve ter – e prosseguiu anunciando:

- Temos blusas, saias, shorts… E tem calcinha lá dentro! Estão lá dentro as calcinhas, freguesia! Lá no fundo mesmo…

Interessante como um fato assim pode permanecer armazenado em nossa memória por tantos anos e voltar repentinamente e tão nítido em seus detalhes.

No caso, acho que memória veio à tona depois que recebi, pelo WhatsApp, a foto abaixo, aparentemente da vitrine de uma loja…

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Mundo Cordel
EU, O ATOR E O PRESIDENTE

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Em março de 2006, estive em Brasília, para participar de um programa de televisão. Ao chegar ao hotel onde iria ser gravada a entrevista, encontrei o ator cearense José Wilker, que estava na Capital Federal gravando a minissérie “JK”, na qual ele interpretava Presidente Juscelino.

Fiquei impressionado com a maneira como ele encarnou o personagem, fazendo parecer até que havia entre eles uma semelhança física, na verdade inexistente.

Após gravar a entrevista, escrevi alguns versos e pedi ao rapaz de recepção que entregasse a José Wilker, quando ele voltasse das gravações.

Acho que José Wilker recebeu os versos a seguir:

Eu estava em Brasília, outro dia,
Divulgando a poesia de cordel,
Quando, na recepção de um grande hotel,
Percebi que um artista ali havia,
Cuja arte não é bem a poesia,
Mas nos toca igualmente a emoção.
No teatro ou na televisão,
Era um grande ator que ali estava,
Sendo que, pelo seu jeito, aguardava
A equipe que faria a gravação.

Mas o fato que fez a situação
Se tornar ainda mais interessante
Foi sentir que, naquele mesmo instante,
Ocorreu-me a seguinte impressão:
Que, olhando para aquele cidadão,
Ao invés de ver apenas o artista,
Era como se eu pousasse a minha vista
Na pessoa desse grande personagem
Que o ator representa na filmagem
Para que, na TV, a gente assista.

De quem falo, já foi capa de revista,
Só novela já fez bem umas cinqüenta.
Hoje, numa minissérie, representa
Um mineiro que foi grande estadista;
Que na sua trajetória progressista
Nos mostrou como um homem competente
Fez o nosso Brasil andar pra frente,
Dirigiu o país com muito amor.
Olhei para José Wilker, o ator,
E enxerguei JK, o presidente.

Alguém tinha me falado, antigamente,
Que um grande ator é desse jeito.
Atuando de um modo assim perfeito,
Faz confusa dessa forma nossa mente.
Mesmo quando o ator, fisicamente,
Não parece tanto assim com o personagem,
Ele adota a postura e a linguagem
E mergulha na história com fervor.
Foi assim que José Wilker, o ator,
Se tornou de Juscelino a imagem.

Para ir finalizando essa homenagem
A Zé Wilker e também a Juscelino,
Eu aplaudo o sorriso de menino,
O sucesso, o trabalho e a coragem.
Quando eu iniciei essa viagem
Não pensei que estaria reservado
Um encontro assim, tão inusitado
Entre eu, o ator e o presidente.
José Wilker, parabéns pelo presente.
Juscelino, parabéns pelo passado.


Mundo Cordel
OS VERSOS QUE NÃO DECLAMEI

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O colunista fubânico no TRF da 5ª REgião (4º, da esquerda para a direita)

De oito de janeiro a seis de fevereiro de 2014, tive a honra de compor o Tribunal Regional da 5ª Região, na condição de desembargador federal convocado, cobrindo período de férias do desembargador federal José Maria Lucena.

Alguns amigos, principalmente dentre os convocados como eu, perguntaram-me se eu exercitaria minha arte cordelística no Plenário do Tribunal.

Deu vontade, mas fiquei receoso. Era a minha primeira convocação e nem sei se haverá outras. Decidi que nada apresentaria na primeira sessão. À medida que me sentisse mais vontade, avaliaria se seria o caso de declamar alguns versos.

No dia cinco de fevereiro, quando me preparava para a última sessão daquele período, os versos me vieram à mente. Anotei-os imediatamente e levei ao plenário.

Mas, confesso, hesitei. E, antes que me desse conta, a sessão havia acabado. Não tive presença de espírito para quebrar o protocolo. E esses foram os versos que não declamei…

No dia que aqui cheguei,
No meio de um papo ameno,
Amigos me perguntaram:
“Teremos cordel no Pleno?”
Respondi, quase sorrindo,
“Cordel é sempre bem-vindo,
Mas hoje está complicado.
Além de estar bem nervoso,
Fico um pouco receoso
De ser mal interpretado”.

“Mesmo aqui, neste ambiente
De pessoas de leitura,
Que enaltecem o saber
E dão valor à cultura,
Chegar fazendo poesia,
Logo no primeiro dia,
Talvez não seja adequado.
Acho melhor esperar
Para me manifestar
Já melhor ambientado”.

Hoje, como é despedida,
E estou bem mais à vontade,
Permitirei que meus versos
Transitem com liberdade
No espaço deste plenário,
Que ao Poder Judiciário
Tanto honra e enaltece.
Justiça aqui se tem feito,
Ao entregar o Direito
A quem direito merece.

Dessa forma, me despeço,
Certo do dever cumprido.
E, depois que desta Corte
Já houver me despedido,
Voltarei ao Ceará,
E, quando chegar por lá,
Direi para toda gente
Da emoção que sentia,
Cada vez que aqui dizia:
“É o meu voto, presidente”.

MM_PLENO3.

Publicado no Mundo Cordel em 15/Mar/2014

MUNDO CORDEL_NOVALOGO


Mundo Cordel
AOS HOMENS, NO DIA DA MULHER

olhos de mulher

Escrevo na noite do dia sete de março, para publicação na manhã seguinte. Mas, o que tenho a dizer nessa data dedicada ao Dia Internacional da Mulher não se dirige a elas, mulheres, e sim aos homens que com elas convivem. Mais precisamente àqueles que fizeram a opção de compartilhar com uma mulher as benesses e dificuldades de uma vida em comum, dividindo com ela o mesmo teto, a economia doméstica, os pequenos problemas do cotidiano.

Nós, homens, bem sabemos os desentendimentos que surgem dessa convivência. As divergências de ponto de vista, a diferença de valor que atribuímos às coisas. Um gesto, para nós insignificante, muitas vezes é motivo para elas se sentirem desvalorizadas, ofendidas até. Enquanto isso, passamos horas nos dedicando a ocupações que aos olhos delas não fazem o menor sentido.

Somos diferentes mesmo, e, por mais que a convivência se prolongue, não nos acostumamos a essas diferenças. A par disso, a natureza continua anos atrair, e há milhares de anos insistimos nessa aventura de viver juntos.

Foi pensando nisso que, neste Dia Internacional da Mulher, decidi fazer uma provocação aos homens casados, juntos, amigados, amasiados ou outro nome que se queira dar a esses heróis: proponho que durante todo este mês de março, cada um dê à sua mulher, sua esposa, sua companheira, tratamento semelhante ao que daria a uma mulher que acabou de conhecer.

É isso mesmo, caro leitor. Que sua mulher receba de você a mesma atenção que você daria a uma com quem você estivesse falando hoje pela primeira vez, de quem você nem sabe direito o nome e desconhece totalmente a história.

Para evitar mal-entendidos – inclusive de alguma leitora que, apesar da advertência inicial, tenha se aventurado até aqui – explico melhor, por meio de alguns casos práticos que podem servir de exemplo. Sugiro que, ao analisá-los, o leitor abstraia qualquer compromisso de fidelidade que tenha assumido, ou seja, que se imagine um homem totalmente disponível, e considere cada situação obedecendo às suas reações mais espontâneas, talvez instintivas.

Primeiro caso. Você está em um resort, aproveitando uma semana de férias em uma das belas praias do Ceará, e conhece uma mulher na piscina. Ficam conversando mais ou menos uma hora, até que ela diz que precisa ir ao centro de Fortaleza, a trinta quilômetros dali, para resolver um problema no banco. Você chega a pensar que ela perdeu o interesse pela sua companhia e está apenas inventando uma desculpa para se afastar, mas ela diz: “Eu queria te pedir uma coisa, mas estou com vergonha de te convidar para uma programação tão chata… Você iria até o banco comigo? ”.

Diante de tal situação, a pergunta é: você concordaria imediatamente em ir com ela? Faria o percurso sorridente, sem reclamar? Esperaria pacientemente que ela resolvesse o problema, mesmo sabendo que estava gastando o restante do seu dia dentro de uma agência bancária?

Se você respondeu “sim” a todas essas perguntas, a proposta é que você tenha o mesmo comportamento em relação a sua mulher, quando estiver em casa, vendo futebol na TV, e ela lhe convidar para ir ao banco ou ao supermercado. No final do mês, você faz um comentário a este texto, dizendo se ela gostou.

Segundo caso. Você reservou o sábado para tratar de alguns assuntos pessoais. Pela manhã ir ao oculista, para fazer seu exame anual; à tarde levar o carro para a troca de todos os óleos, limpeza geral e polimento, em um posto de lavagem super concorrido. Acontece que, na sala de espera do oculista, você fica conversando com uma mulher que nunca havia visto antes. Na conversa, vocês descobrem afinidades, ficam sabendo inclusive que frequentam a mesma academia de musculação, mas nunca se encontraram por lá. Você sabe que, se não chegar ao posto de lavagem na hora marcada (uma da tarde) todo o serviço do carro ficará para a próxima semana. Mas, na hora da despedida, ela diz que o papo está ótimo e gostaria muito se, depois de ser atendida, pudesse almoçar com você para continuar a conversa. Você aceita o convite para o almoço?

A proposta aqui é similar à do primeiro caso: se você respondeu “Sim!”, “Claro!” ou “É óbvio!”, sugiro que tenha o mesmo comportamento em relação à sua mulher, quando vocês deixarem os filhos na escola e ela disser que gostaria de almoçar com você naquele dia. Melhor ainda se estiverem em meio a um engarrafamento e você estiver atrasado para o trabalho. Depois de agir assim por todo o restante do mês, é a hora de fazer um comentário a este texto, dizendo se ela gostou. O amigo leitor aceita o desafio?

Vejamos o terceiro e último caso desta lista de exemplos. Você está no escritório no meio da tarde, cheio de trabalho, e o telefone toca. É a mulher que você conheceu hoje, depois de ter feito sua caminhada ou corrida matinal, naquele quiosque onde costuma tomar água de coco. Ela diz que ligou porque está tocando no rádio do carro dela a mesma música que vocês ouviram durante o encontro do começo do dia. “Aí, me deu uma vontade de falar com você de novo… Não estou incomodando, estou?”.

E você: “Claro que não!”, “Imagina!”, “De jeito nenhum…”, ou, quem sabe, “Vou te falar uma coisa: essa sua ligação, no meio do expediente, era tudo o que eu precisava para lembrar que a vida vale a pena…”

Se você admite que sua resposta seria parecida com qualquer das citadas acima, mais uma vez proponho que você aja da mesma forma ao receber uma ligação da sua mulher no meio do expediente, bem na hora que estiver indo a uma reunião na sala do seu chefe. Depois, registre aqui a sua experiência. Não seria interessante?

Admito, caro leitor, que talvez você esteja pensando que sua mulher poderia tornar esse desafio bem mais fácil de aceitar. Se ela lhe telefonasse só para ouvir a sua voz, e não para pedir que depois do trabalho você passasse no supermercado para comprar pão; se ela lhe convidasse para almoçar apenas para estar em sua companhia, e não para vocês tratarem de algum problema doméstico; ou mesmo se o convite para você ir com ela ao banco ou ao supermercado, no meio de suas férias, fosse apenas um pretexto para vocês saírem sozinhos, deixando as crianças em casa.

Também acho que seria mais fácil. Mas, em nome da celebração pelo Dia Internacional da Mulher, minha proposta é que, durante todo este mês, os homens tomem a iniciativa de quebrar esse ciclo vicioso que os problemas do cotidiano impõem aos casais.

E o caminho para tal gesto heroico seria esse: dar à sua mulher um tratamento próximo ao que provavelmente daria a uma ilustre desconhecida.


Mundo Cordel
SOBRE CRÍTICAS AO JUDICIÁRIO E AOS JUÍZES

A manchete era a seguinte: “Juiz que ironizou por receber sem trabalhar vira herói no Facebook“.

Não fui conferir. Na verdade, nem tenho perfil no Facebook. Mas, admitindo como verdadeira a notícia que gerou a referida manchete, constato mais uma vez o quanto a opinião dos brasileiros – pelo menos daqueles que põem comentários na Internet – muitas vezes é estranha.

Porque, para mim, é estranho que tanta gente aplauda tão imediatamente a atitude de um juiz que, afastado do exercício da jurisdição, em razão de distúrbios psiquiátricos, trate com ironia e desdém a instituição da qual faz parte – o Poder Judiciário – dizendo que está ganhando sem trabalhar.

Longe de mim julgar se o colega em questão recuperou ou não as condições psíquicas para retornar ao exercício da magistratura – que o órgão competente para fazer esse julgamento o faça – mas, se foi afastado por questões de saúde, tinha mesmo que ficar recebendo seu salário, como qualquer trabalhador que esteja em licença médica.

O que me preocupa, no caso, é perceber que basta alguém levantar a voz contra uma instituição brasileira da importância do Poder Judiciário, ou contra os seus membros, e logo aparece uma multidão para aplaudir e fazer coro, lançando críticas generalizantes, sem ter o menor cuidado em verificar se as razões dessas críticas são pertinentes.

Ora, que o Poder Judiciário tem seus defeitos, é fato de conhecimento geral. Da existência de maus juízes também ninguém duvida. Nem por isso, entretanto, se vai negar a importância da instituição, nem tampouco diminuir o valor daqueles que agem de forma a dignificá-la.

Coincidentemente, por esta mesma época em que foi publicada a manchete à qual me refiro, está em curso o Programa de Valorização dos Juízes, promovido pelo CNJ, destacando-se do site do Conselho o seguinte parágrafo: Sabe-se que a atuação dos juízes é fundamental para a garantia do pleno exercício da cidadania, e a relevância desse papel pode ser verificada no simples fato de que são proferidos cerca de 22 milhões de sentenças por ano, em que pessoas são absolvidas de falsas acusações, criminosos são presos, consumidores são ressarcidos, devedores são condenados, maus políticos são cassados, direitos dos trabalhadores são respeitados, interesses familiares são preservados, vidas são salvas.

Não há nenhuma novidade no que está escrito no site do CNJ. No final das contas, qualquer pessoa minimamente informada tem consciência do quanto é importante para o país como um todo – e para cada cidadão em particular – que o Poder Judiciário seja composto de juízes sérios, competentes, comprometidos com a Justiça, independentes, imparciais, vocacionados para a difícil função de julgar.

O Código de Ética da Magistratura, publicado pelo CNJ em 2008, sintetiza bem os princípios que devem nortear a conduta do magistrado: independência, imparcialidade, conhecimento e capacitação, cortesia, transparência, segredo profissional, prudência, diligência, integridade profissional e pessoal, dignidade, honra e decoro.

Se assim é, parece-me que os juízes que merecem algum reconhecimento da sociedade são aqueles que cumprem o seu dever diariamente, sem estardalhaço, aplicando a lei com responsabilidade e rigor, ainda que tal postura ponha em risco sua própria vida, como acontece com tantos que proferem decisões contrárias aos interesses do crime organizado, cada vez mais organizado em nosso país.

Não defendo que se levantem monumentos ou que se criem páginas na Internet para homenagear esses homens e mulheres que anonimamente realizam a importante missão de dizer o Direito. Espero apenas que sejam – sejamos, já que também sou juiz – tratados com dignidade e respeito.

É justo que a sociedade cobre do Judiciário transparência, democracia, celeridade e efetividade no cumprimento de suas decisões. É legítimo que as pessoas exijam dedicação, seriedade e imparcialidade dos juízes. Não posso dizer o mesmo a respeito das críticas generalizadas, que atingem a todos, quando só alguns a mereceriam.

Que se democratize o Judiciário; que se implantem programas de aproximação do Judiciário com a sociedade; que se identifiquem e punam os maus juízes. Mas que se valorizem aqueles que cumprem o seu dever e são efetivamente comprometidos com a realização do ideal de Justiça.

As pessoas de bem só têm a ganhar com um Judiciário melhor.


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