Mundo Cordel
OS EXTRATERRESTRES SÃO OS OUTROS

Lembro de ter lido no Jornal da Besta Fubana um texto de José de Oliveira Ramos, que terminava com a frase: “É. Com certeza eu não passo de um E.T.!”.

Não escrevi em meu comentário, mas pensei: “Eu também. Muitas vezes me sinto um ET”. Isso foi em setembro de 2015.

Veio o ano de 2016 e fui ver um filme no cinema: “A Quinta Onda”. E – veja o leitor que ironia – no tal filme, os extraterrestres invadem a Terra e são chamados por nós de “os outros”.

Mal começou o filme e as palavras de José Ramos voltaram à minha lembrança, junto com a pergunta: “Afinal, os extraterrestres somos nós? Ou são os outros?”.ovnis

Depois de vários dias de reflexão, cheguei a uma conclusão. Que me desculpe o amigo José Ramos, mas ele não é um ET. Nem eu, nem ninguém que eu conheça. Os ETs são os outros.

Cheguei a essa conclusão, não porque o filme assim tenha mostrado, mas porque não posso crer que tenhamos tanto desprezo pelas regras de convivência que nós mesmos criamos.

É evidente que quem faz a bagunça toda são os outros.

Exemplificando, se nós criamos as filas nos bancos, as regras de trânsito, o dever de não fazer barulho nos horários de descanso, por que nós mesmos sabotaríamos essas normas?

Hoje mesmo, quando saí do meu apartamento, percebi que alguém estava segurando o elevador em um dos andares do prédio, fazendo-o demorar excessivamente. Ora, se todos os moradores do edifício sabem que os outros vizinhos também usam o elevador, é óbvio que quem estava segurando o elevador eram os outros!

Logo que saí à rua, percebi um carro estacionado em frente ao prédio vizinho, onde uma placa indicava que é proibido estacionar naquele local. Ficou claro que aquele carro fora deixado ali pelos outros.

Mais adiante, parado no engarrafamento, vi uma moto passar rápido, usando o espaço da ciclovia. Evidentemente que era pilotada por um dos outros.

Os outros – tanto no filme quanto na vida real – são muito semelhantes a nós em aparência. Iguais talvez. Mas parece que aproveitam essa semelhança exatamente para criar problemas para nós.

Misturam-se ao povo na rua e praticam todo tipo de crime. Agressões, assaltos, tráfico de drogas. Infiltram-se em nossas organizações públicas e privadas e disseminam todo tipo de desvio, desmando e corrupção.

De tal forma está comprovada essa verdade, que quando converso com pessoas conhecidas e mostro minha insatisfação com todas essas coisas, sempre ouço frases como: “A gente tenta fazer tudo direito, mas vem os outros e estragam tudo”; “Nesse trânsito louco, a gente tem que dirigir se defendendo dos outros”; “De que adianta eu eliminar os focos do mosquito, se os outros não fazem o mesmo?”; “O cara pode até entrar bem intencionado na política, mas aprende a roubar com os outros”…

É incrível. Raramente encontro um ser humano que assuma qualquer parcela de culpa pelo caos que toma conta de nossa sociedade. A culpa é sempre dos outros.

Se assim é – e é – só pode ser porque esses extraterrestres fingem ser humanos, como nós. Mas está claro que eles não são nós. Eles são os outros.

E, para não deixar dúvida de que estou certo quanto essa conclusão, nas raras ocasiões em que um ser humano confessa sua má conduta, ele justifica:

– Errei. Mas não fiz nada diferente dos outros.


Mundo Cordel
O CIDADÃO, A BALANÇA E A ESPADA

BALANÇA-ESPADA-JUSTIÇA

É grande a revolta dos homens de bem ao ver bandidos escapando impunes.

Ainda mais se não precisam evadir-se ou ocultar-se.

Se contam com uma legislação mal elaborada, processos lentos e julgadores apegados a uma interpretação da lei que a torna praticamente inútil.

Se apostam em um sistema interminável de recursos, que franqueia ao criminoso a pose de inocente, às vezes com seu veredito já tendo sido dado e confirmado.

Por isso, não surpreende que, ao ver os que se acham acima da lei a ponto de sofrerem as consequências de seus atos criminosos, o verdadeiro cidadão celebre esperançoso:

– Vai, Justiça! Desce a tua espada sobre esses malfeitores, que a balança já mostrou claramente o quanto o merecem!


Mundo Cordel
LEÕES, VEADOS E GESTORES

Certa vez, em um curso sobre gestão de empresas, um professor contou na sala de aula a seguinte história:

Em África todas as manhãs o veado acorda sabendo que deverá conseguir correr mais do que o leão se quiser se manter vivo.

Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deverá correr mais que o veado se não quiser morrer de fome.

Conclusão:

“Não faz diferença se você é veado ou leão, quando o sol nascer você tem que começar a correr.“

Obviamente que a breve narrativa tinha como objetivo servir de introdução para que o professor falasse da necessidade de os colaboradores de uma empresa terem iniciativa, começando suas atividades profissionais o mais cedo possível, não importando sua função na organização.

Naquela ocasião, ouvi tudo e nada questionei. Concentrei-me em assimilar o que fosse possível. Mas a verdade é que nunca aceitei bem aquela história, que me pareceu ter a pretensão de transmitir a sabedoria das fábulas.leoes_cacando

Hoje, encontrei-me novamente com a história dos leões e dos veados, desta feita em um site de consultoria, e voltaram à minha mente reflexões que tive naquela ocasião.

Não me apegarei ao fato de os leões terem como presas mais frequentes zebras, gnus e búfalos, e não veados. Afinal, estando os leões no topo da cadeia alimentar, comem de tudo. De animais menores, como javalis, a gigantes, como elefantes e girafas. Então, eventualmente, devem comer algum veado também.

O que me incomodou mesmo foi o narrador dizer que o leão deve começar a correr, logo que o sol nascer. Porque qualquer pessoa que entenda um pouco de leões sabe que, na natureza, eles chegam a dormir até dezoito ou dezenove horas por dia. E muitas vezes preferem caçar à noite, quando a temperatura é mais baixa, e sua visão noturna privilegiada lhes proporciona uma vantagem sobre suas presas.

Já se vê, portanto, que quem criou a historinha não entende nada de leões. E, por ter tomado como paradigma um ser cujas características desconhecia, perdeu uma ótima oportunidade de colher os ensinamentos que esses animais bem podem dar às empresas e seus gestores.

Se era para tomar como exemplo os leões, melhor seria ter falado que, apesar da sua ferocidade, são animais sociais, que usam o poder da colaboração para alcançar seus objetivos. Que, nessa colaboração, cada membro do grupo desempenha uma função diferente – um cercando a presa para outro a abater, por exemplo – de forma organizada. Que usam táticas e estratégias diferentes, conforme o terreno, a vegetação, a presa a ser abatida ou a quantidade leões envolvidos na caçada.

Examinada a situação do ponto de vista das presas, bem se sabe que cada espécie tem também seus métodos próprios de sobrevivência. Formar grupos, associar-se a outras espécies, fazer tocas (o que não é o caso dos veados), são apenas alguns dos meios de defesa utilizados por animais que são caçados por outros.

Assunto de sobra para qualquer guru da gestão empresarial adaptar para o mundo dos negócios. E dar mil dicas de como melhorar os indicadores de desempenho da organização (esta última frase foi escrita com a deliberada intenção de usar uma linguagem compatível com o tema).

O fato é que, talvez por ter um apreço muito grande pela vida que nós (seres civilizados) chamamos de selvagem, sempre me incomodou a historinha contada pelo professor, falando de leões e veados que amanhecem o dia e saem correndo enlouquecidos, pois disso dependeria sua sobrevivência.

Não, professor. Sair correndo, logo que o dia amanhece, sem meta, sem organização, sem objetivo, não serve para leões, não serve para veados, nem serve para nós, humanos, seja no ambiente empresarial, seja em outras áreas da vida.

O que serve para cada um de nós é conhecer nossas potencialidades e exercê-las, da melhor forma possível. É por isso que é mais fácil encontrar leões caçando os perigosos búfalos que investindo contra as delicadas gazelas, prato preferido dos guepardos.

Sim, nós, humanos, podemos aprender muito com os animais. Mas, para isso, precisamos aprender a enxergar a inteligência que há nas coisas naturais. A compreensão dessa inteligência certamente ajudará o ser humano a viver em maior harmonia consigo mesmo, com os outros humanos e com o meio ambiente.

O desafio é grande. Mas não será com historinhas mal contadas que nos tornaremos melhores.


Mundo Cordel
NATAL PARA MUITA GENTE

gente

Gente é sempre gente. Em qualquer lugar, em qualquer época. Tem lá suas diferenças sociais e culturais, mas, se procurarmos direito, encontraremos mais semelhanças que diferenças.

Acontece que tem gente que adora classificar gente. Dividir o todo em grupos. E assim dividem a humanidade em cristãos, muçulmanos, judeus e tantas outras religiões. Negros, brancos, amarelos e tantas outras cores. Ou divisões mais simples: esquerda e direita. Não, essa não é tão simples assim. Ricos e pobres, talvez? Não. Que tal heterossexuais e homossexuais?…

Bem, sigamos em frente. São muitas as divisões criadas para classificar as pessoas. Claro que têm sua utilidade. Servem para a compreensão de fenômenos sociais, para organizar nossas ideias, dentre outras finalidades. No entanto, eventualmente tornam-se prejudiciais, porque tem gente que, ao se reconhecer como parte de um grupo, passa a se achar superior aos membros de outros grupos. Como se os outros não fossem gente também.

Assim surgem as guerras étnicas, as guerras santas e as brigas de torcidas por times de futebol. E até conflitos familiares, como o de pais que rejeitam o filho homossexual (também já soube de casos de filhos que rejeitaram o pai que se declarou homossexual).

Coincidência ou não, ontem, enquanto pensava em escrever sobre a igualdade das pessoas, li, em uma rede social, uma frase depreciativa quanto a “certo tipo de gente”. E isso me levou a pensar: A que tipo de gente essa pessoa se refere? Que tipo de gente essa pessoa é? E que tipo de gente eu sou? Devo acreditar que os que se assemelham a mim são “gente de bem”, enquanto os diferentes de mim são “esse tipo de gente”?

Não posso crer nisso. E talvez tenha sido por essa razão que comecei a escrever hoje com a frase “gente é sempre gente”.

E, como escrevo em um dia 24 de dezembro, sei que a noite de hoje é especial para muita gente. Pelo menos, para quem celebra o nascimento de um menino que se chamaria Jesus, e depois viria a ser reconhecido como o Cristo, o Redentor, o Salvador.

Na noite de hoje, os seguidores de Jesus Cristo – essa gente que se reconhece como “os cristãos” – fazem votos de união, de amor, de paz entres os homens, enquanto celebram a vinda de Jesus ao mundo.

E eu, cristão que sou, aproveito para manifestar o meu desejo para esta noite de Natal.

O desejo de que toda essa gente que há no mundo veja cada vez mais suas igualdades que suas diferenças.

Que continue existindo gente de várias religiões, de várias tonalidades de cor da pele, de várias convicções políticas ou ideológicas – a diversidade amplia nossas possibilidades! – mas que não percamos a noção de que somos muito mais semelhantes que diferentes.

Somos semelhantes em nossas necessidades físicas e emocionais. Precisamos todos de alimento e de proteção contra as intempéries, da mesma forma que necessitamos da colaboração ou da simples companhia uns dos outros. E precisamos, sobretudo, de algo difícil de definir, mas cuja presença é facilmente sentida, e a ausência é ainda mais facilmente percebida: o amor.

Precisamos de amor. Porque somos humanos, porque somos gente.


Mundo Cordel
UM ALERTA MUSICADO

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Em todo lugar que a gente anda é a mesma coisa: boa parte das pessoas está com a atenção totalmente consumida pelo celular, sem sequer se dar conta do mundo à sua volta.

Até em uma mesa de bar, onde amigos costumam se encontrar para conversar, hoje é comum esses mesmos amigos ficarem em silêncio, enquanto trocam mensagens com quem está distante. Mesmo quando há interação entre os presentes, a atenção é dividida com os amigos remotos, através do Iphone, smartphone, ou outro nome que se prefira.

Seu Mansueto, que não é muito chegado a essas coisas foi quem me perguntou: “Meu filho, o que é que esses jovens veem nesses aparelhos, que ficam o tempo todo olhando e passando o dedo neles?”.

– Papai, antes de lhe responder, deixa eu pegar o violão, que o senhor agora me deu uma ideia…

Foi assim que criei esse alerta musicado, dedicado a todas as pessoas que, conscientemente ou não, estão passando do ponto em matéria de se manter conectado com o mundo através do celular.

PASSANDO O DEDO

Até que eu gosto dessa tecnologia
De iPhone, smartphone, internet no celular.

Mas é preciso ter cuidado, pois vicia
E, se a gente exagera, pode se prejudicar.

Tenho um amigo que está se complicando,
A mulher já reclamando e ele sem se controlar.

Ela me disse que ele começa bem cedo,
Olhando pro telefone, enquanto vai passando o dedo.

Ela vai pra perto dele,
Ele tá passando dedo.
Ela dá um beijo nele,
Ele só passando o dedo.
Ela já disse que ama esse camarada,
Mas ele não faz mais nada, a não ser passar o dedo.

Ela chama ele pro quarto,
Ele vai passando o dedo.
Deita com ela na cama,
E fica só passando o dedo.
Ela se irrita, acha aquilo um horror,
Porque ela quer fazer amor, ele só quer passar o dedo.

Ele pega o telefone
E fica só passando o dedo.
A mulher toda carente
E ele só passando o dedo.
Ela implora e pede até por favor:
– Vem, me bem, fazer amor, não fique só passando o dedo!


Mundo Cordel
O FIM

RUÍNAS

Quando a terra começa a tremer,
E as paredes começam a ruir,
Quando não há lugar para fugir,
E não há mais aonde se esconder.

Quando espaço não há para correr,
E se vê que é inútil reagir,
Sem espada capaz de agredir,
Nem escudo que possa defender.

É preciso, talvez, ter humildade,
Ou, quem sabe, até serenidade,
Para ver que as coisas são assim:

Muitas vezes, buscando uma vitória,
Construímos nós mesmos uma história
Cujo epílogo é o nosso próprio fim.


Mundo Cordel
REFLEXÃO NO CINEMA (MAS NÃO FOI SOBRE O FILME)

cinema

Quinze de novembro de 2015. Feriado de Proclamação da República. Não vi muitos sinais de que se tratava de uma data comemorativa. Até porque o feriado caiu em um domingo, aí ninguém dá mesmo muita importância para isso.

Almocei com minha mulher em um shopping center, aproveitando o sossego das lojas fechadas em homenagem ao feriado republicano, e fomos ao cinema.

O filme não era lá essas maravilhas, mas servia como entretenimento. Até que as imagens sumiram da tela. A plateia fez um “Aaaaah!” tímido, mas logo silenciou. As pessoas esperaram, educada e pacientemente, que o problema fosse resolvido.

Acontece que a solução não chegou tão rapidamente como se esperava. Após uns longos minutos, as imagens voltaram à tela, só que em um ponto posterior àquele onde a exibição havia parado. Alguém gritou “Volta o filme! Volta o filme!”. E, depois de mais um tempo, o filme acabou voltando mesmo, mas logo parou novamente. Paralelamente a esses problemas na exibição, percebemos que o ar condicionado parara de funcionar.

Para nós, bastava. Levantamo-nos e fomos à gerência exigir nosso dinheiro de volta.

Apesar do aborrecimento dominical, o fato não mereceria de mim qualquer registro, a não ser por duas razões: 1) nenhum representante do cinema dirigiu a palavra aos espectadores, para explicar o problema ou se desculpar; 2) a maneira passiva (e não apenas pacífica) com que as pessoas se comportaram diante da situação.

Porque na minha – talvez muito particular – maneira de ver as coisas, a gerência do cinema tinha o dever de enviar alguém, logo na primeira falha, para dizer aos espectadores algo do tipo: “Senhoras e senhores, temos um problema técnico. Estamos tentando solucionar, mas os clientes que preferirem podem se dirigir à gerência agora, para receber seu dinheiro de volta”.

Como tal não ocorreu, nem qualquer outra variação que sinalizasse algum respeito da empresa pelas pessoas que ali estavam, a reação destas me pareceu mais estranha ainda.

Apesar de aquelas pessoas estarem pagando (caro) por um serviço que não estava sendo prestado adequadamente, e ainda, sendo tratadas sem um mínimo de respeito, elas não demonstravam nenhum sentimento de indignação. Ninguém ficava de pé, ninguém erguia a voz, ninguém protestava. Nada.

Depois que eu e minha mulher nos dirigimos à gerência, umas seis pessoas nos seguiram. Mas a grande maioria permaneceu lá, quieta.

Tudo isso me fez pensar no seguinte: como esperar que essas pessoas, que não têm iniciativa sequer para exigir um tratamento digno em um cinema, participem ativamente da vida política do país? Como esperar que ocupem as ruas e as praças, exigindo dos políticos, e das autoridades em geral, uma conduta compatível com seus cargos?

Mas, já ocorreram manifestações populares enormes este ano! – contestarão alguns.

É verdade – respondo – e foram fatos realmente extraordinários. Mas acontecidos episodicamente, em tardes de domingo, sem uma regularidade que viesse a manter alguma pressão mais efetiva.

Para a situação que o país vive, enfrentando crises econômica e política, é pouco. Para um país no qual ex-diretores de sua maior estatal, alguns dos maiores empresários do país e dezenas de políticos estão envolvidos em um esquema gigantesco de corrupção, é muito pouco. Para uma nação que vê o presidente da Câmara dos Deputados ameaçado de cassação, e a presidente da República ameaçada de impeachment, é quase nada.

A cada dia, novas raízes do baobá da corrupção são expostas pelas escavadeiras da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal. Nos Estados e nas prefeituras, inúmeros casos menores, mas não menos criminosos, são exibidos regularmente em reportagens de revistas e programas de televisão. Licitações fraudulentas, cartéis, escoamento do dinheiro público para empresários inescrupulosos e campanhas políticas são fatos corriqueiros.

E a economia se deteriora. E o desemprego cresce. E a inflação aumenta.

O descrédito da classe política é tão grande que, nas poucas vezes em que uma quantidade significativa de pessoas saiu à rua para protestar, foi marcante a rejeição à presença de símbolos, bandeiras e até pessoas ligadas a partidos políticos. Centrais sindicais e movimentos sociais também não eram bem vindos. Seja porque quem estava na rua não acreditava nessas entidades, seja porque essas próprias entidades tratam aquelas pessoas como se não fizessem parte do povo.

O certo é que a insatisfação das pessoas com a situação do país é percebida em qualquer conversa de bar. Insatisfação por fatos ocorridos em nível municipal, estadual e federal. No Poder Executivo, no Legislativo e no Judiciário.

Mas falta um mecanismo de canalização dessa insatisfação, para que ela gere um processo de transformação da realidade. Para que as pessoas se unam, e exijam respeito de seus representantes.

Talvez nos faltem lideranças, talvez nossa educação não tenha sido bem direcionada para a formação de cidadãos. Não seio que é. Sei apenas que nos falta algo.

Como naquela sala de cinema. Onde ninguém gostou do que estava acontecendo, mas faltava algo que fizesse as pessoas tomarem uma atitude. Não apenas para exigir o dinheiro de volta, como fizemos eu e minha mulher, mas para exigir, acima de tudo, respeito e dignidade.


Mundo Cordel
REFLEXÕES (PO)ÉTICAS EM 8 TUÍTES: EU TENTO

Man's Conscious

1
É utopia fazer sempre a coisa certa,
Mas eu tento.

2
Mesmo assim, às vezes causo nas pessoas
Sofrimento.

3
Esses males que provoco, eventualmente,
Eu lamento.

4
E, essas suas consequências negativas,
Eu aguento.

5
Mas, se em minha consciência, realizo
Julgamento,

6
Nunca hesito em usar a meu favor
O argumento

7
De que o mal por mim causado não seria
Meu intento.

8
Porque sei, nem sempre faço a coisa certa,
Mas eu tento.


Mundo Cordel
CANTORIA DE EXCELÊNCIA

peleja

Diz a lenda que, certa vez, em um lugar frequentado por muitas autoridades, uma dupla de cantadores foi contratada para se apresentar, mostrando um pouco da arte do repente.

Depois de apresentarem sextilhas e setilhas, e de glosarem vários motes, à escolha dos organizadores do evento, chegou a hora do desafio.

Nesse momento, um dos convidados, tendo conhecimento de que às vezes os combates dos repentistas são um tanto renhidos, advertiu os artistas que mantivessem o embate em um nível adequado à respeitabilidade das autoridades presentes.

– Se possível, – disse o excelentíssimo convidado – seria interessante até que os senhores tratassem um ao outro por “vossa excelência”, como costumamos fazer entres nós.

Ouviram-se alguns aplausos à intervenção feita.

Enquanto isso, os cantadores entreolharam-se e fizeram aparentemente um sinal de positivo, com a cabeça. Um deles respondeu:

– Pode deixar, excelência, que aqui quem manda é o freguês.

E começaram:

Olho pra vossa excelência
E me dá até gastura.
Porque não tem compostura,
Nem respeito, nem decência.
Verdadeira excrescência,
Não cumpre o que é prometido,
Volta e meia anda metido
Em tudo que é obscuro
Por isso estou bem seguro:
Vossa Excelência é bandido!

Vossa excelência devia
Ter cuidado com o que diz,
Pra não ser tão infeliz
Nas coisas que pronuncia.
Quem tem a vossa mania
De roubar essa nação,
Não tem qualquer condição
De me chamar de bandido,
Pois é fato conhecido,
Vossa Excelência é ladrão!

Vossa excelência não tente
Por em mim o seu defeito,
Pois já conheço o seu jeito
Quando rouba e quando mente.
É ladrão reincidente,
Tirando de quem trabalha
Pra dividir com a gentalha
Que compõe sua quadrilha:
O filho, o genro e a filha,
Vossa excelência é canalha!

É melhor deixar em paz
Minha família decente,
Porque nela não tem gente
Que faça o que a sua faz.
Vivem por aqui, atrás
De pegar um descuidado.
É mãe, é filho, é cunhado,
Um bando de vigaristas.
E o chefe desses golpistas,
Vossa excelência, um safado!

Vossa excelência extrapola
Toda minha paciência,
Mas assim vossa excelência,
Se compromete e se enrola.
Vou lhe pegar pela gola,
E jogar dentro do esgoto,
Fedorento, sujo e roto.
E será bem merecido,
Pois, além de ser bandido,
Vossa excelência é um escroto!

Não pense, vossa excelência,
Que me assusta ou me faz medo.
Levantando esse seu dedo,
Prometendo violência!
Conheço toda a sequência
Dessa sua encenação.
Quer bancar o valentão
Mas apanha da mulher
Digo aqui o que eu quiser:
Vossa excelência é um cagão!

Cabra safado, ladrão,
Sujeito de má conduta!
Sua mãe é prostituta,
O seu pai é cafetão!
Não vou lhe meter a mão
Porque sei que você gosta.
No lugar onde se encosta
Fica uma mancha fedendo,
Que todos fiquem sabendo:
Vossa excelência é um bosta!

A essa altura do desafio, tinha gente que aplaudia e dava risada, dizendo que os cantadores levaram muito a sério o pedido para que mantivessem o nível do desafio à altura dos convidados.

Coincidência ou não, o convidado que havia dado a sugestão de os cantadores se tratarem por excelência já havia saído, demonstrando certo constrangimento. Seguiu em direção ao estacionamento, acompanhado por uma fila de excelências menores, que lhe prestavam homenagem.

Os cantadores ainda tinham munição para levar longe a batalha, mas mestre de cerimônias interrompeu os cantadores e os parabenizou, dando por encerrada a peleja.


Mundo Cordel
SONETO PARA UM OBJETO HIPNOTIZANTE

olhos-hypnotized

Reconheço tua grande utilidade
Em fazer o mundo se comunicar.
E que, usando o indicador ou o polegar,
Cada dia, acho em ti uma novidade.

São funções que surpreendem, é verdade,
Ofertadas nesses teus aplicativos
Sempre fáceis de usar, sempre intuitivos,
Prometendo mais e mais facilidade.

No entanto, mostras face bem nefasta,
Quando a tua presença nos afasta,
Nos encontros e até nas refeições.

Pois em volta da mesa acomodados,
Tu manténs a todos hipnotizados
Concentrando só em ti as atenções.


Mundo Cordel
REFLEXÕES SOBRE A ATUAÇÃO DOS JUÍZES FEDERAIS NAS OPERAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL

Desde que a Operação LavaJato tornou-se pauta permanente nos noticiários, tenho observado os comentários feitos na Internet acerca das decisões judiciais tomadas no âmbito da operação.

Muitos elogiam o trabalho do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e, com especial frequência, do Juiz Federal Sérgio Moro. Mas, há também os que demonstram total descrença de que os culpados – ou, pelo menos, alguns deles – venham a ser punidos. Há os que acham que a persecução penal é muito lenta. E há os que sustentam que a Justiça tem agido de forma seletiva, direcionada a determinado grupo de pessoas, por razões políticas.

Reflito sobre essa última espécie de comentários e imagino a surpresa que seria para mim, se eles correspondessem à verdade.

Quem os faz talvez não compreenda que esse tipo de operação é resultado do trabalho de pelo menos três instituições independentes entre si, ou seja, sem relação de subordinação administrativa. Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal desempenham cada um o seu papel, determinado pela Constituição Federal e pelas leis do país, mas não há superioridade hierárquica de um órgão em relação ao outro.lava-jato

Não há nada de extraordinário nisso. É apenas o normal funcionamento das instituições no Estado Democrático de Direito.

Na prática, Policiais Federais levantam informações, baseadas nas quais Procuradores da República requerem ao Juiz Federal as medidas que entenderem cabíveis, podendo o juiz as deferir ou não. Deferindo, a Polícia Federal cumpre essas medidas – como prisões e apreensões de documentos – e o material obtido retroalimenta as investigações, podendo ensejar outras medidas, a serem novamente requeridas pelo Ministério Público e submetidas ao crivo do Juiz.

Destaque-se que as decisões proferidas pelo juiz estão submetidas ao duplo grau de jurisdição, sendo, portanto, sujeitas a revisão ou anulação pelos tribunais regionais ou superiores.

Imaginar, portanto, que um Juiz Federal possa direcionar toda uma operação – ainda mais uma megaoperação – para fins de perseguição político-partidária, requer certo grau de desconhecimento dos mecanismos de controle do sistema. Ou sua deliberada negação.

Mas, há outro aspecto da questão que pretendo abordar aqui.

Exercendo a magistratura federal há quase quinze anos, tenho convivido regularmente com juízes federais, seja em contatos ordinários da vida forense, seja em eventos regionais e nacionais, onde temos a oportunidade de trocar ideias com colegas de outras partes do país.

Nessa convivência, tenho testemunhado reiteradamente o quanto a maioria dos juízes federais é avessa a discussões político-partidárias. Pelo menos, a maioria dos juízes federais que conheço, já que não fiz (nem tive acesso a) qualquer pesquisa de opinião nesse sentido.

Mas, não tenho motivos para crer que os juízes que não conheço sejam muito diferentes daqueles que conheço.

Influências ideológicas sim, podem ser percebidas, na medida em que um juiz é mais rigoroso na aplicação da pena, enquanto outro se interessa mais pela reinserção social do apenado; um valoriza mais o interesse público, outro as liberdades individuais; um prioriza a liberdade de expressão, outro a intimidade. E assim por diante.

Em qualquer dos casos, é possível perceber – tanto nos debates teóricos, como nas fundamentações das decisões judiciais – que esses matizes ideológicos são sempre confrontados com as normas constitucionais em vigor, figurando estas como pontos cardeais da navegação jurídica.

Mesmo porque, qualquer juiz que venha exercendo a magistratura nos últimos vinte e sete anos, certamente sofreu a influência da Constituição de 1988, e das doutrinas jurídicas que ganharam espaço no Brasil desde então, com nítida valorização dos princípios constitucionais e dos Direitos e Garantias Fundamentais. Então, é razoável que, no sopesamento dos princípios, e na solução de conflitos envolvendo Direitos Fundamentais, visões de mundo diferentes conduzam a conclusões diferentes, sem que qualquer delas se choque frontalmente com a Constituição.

Minha percepção, portanto, é a de que grande parte dos juízes que conheço é capaz de passar horas debatendo sobre qual deve ser a postura do Estado perante os Direitos Fundamentais dos cidadãos. No entanto, esses mesmos juízes não demonstrariam o menor interesse em discutir qual dos partidos atualmente existentes no Brasil apresentaria melhores condições de, estando no poder, promover a efetivação desses Direitos Fundamentais.

Talvez isso ocorra porque juízes – pelo menos os de primeiro grau – são pessoas aprovadas em concurso público, cujo cargo goza de garantias como vitaliciedade e inamovibilidade, logo, tendentes a se desinteressar por debates eleitorais. Ou talvez seja o contrário: por não ter aptidão para o pleito de cargos eletivos, optaram pelo caminho do concurso público. Ou, ainda, talvez seja porque a Constituição Federal proíbe aos juízes a atividade político-partidária (CF, art. 95, parágrafo único, inciso III), e cada um evita expor a si e constranger os outros.

Talvez um pouco de cada coisa ou nada disso. Quem sabe?

Seja qual for o motivo da aversão dos meus colegas a esses temas, essas ponderações me levam a considerar baixíssima a possibilidade de um Juiz Federal ter convicções político-partidárias capazes de fazê-lo adotar a conduta ilícita de direcionar deliberadamente a persecução criminal contra alguém.

Mesmo, porém, que o juiz carregue em seu íntimo essas convicções, não seria minimamente provável que ele conseguisse, para tal desiderato, a colaboração de membros do Ministério Público e demais agentes públicos envolvidos. Nem tampouco que houvesse ratificação de suas decisões na instância superior, diante dos recursos que a defesa certamente ajuizará.

Por todas essas razões, seria para mim uma grande e decepcionante surpresa, que um Juiz Federal manipulasse uma operação da Polícia Federal, fazendo dela uma perseguição política.

Não creio nisso. Ao contrário, acredito que as operações federais de combate à corrupção, atualmente em curso, prestam um grande serviço ao país. Não rotulam qualquer partido como corrupto, mas têm como alvo corruptos de qualquer partido.

Se o Brasil elevará seu patamar ético, nos próximos anos, ainda não é possível saber. Mas, caso o eleve, não tenho dúvida que as ações hoje implementadas pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal terão influenciado diretamente no resultado.

Publicado originalmente no site jurídico JusBrasil em 31/10/2015


Mundo Cordel
CANTANDO JUNTOS PELA ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS

Hoje, 27 de outubro de 2015, a Academia Quixadaense de Letras completa três anos de sua fundação.

Tenho muito orgulho de ser um dos fundadores da AQL. Não é fácil reunir pessoas dedicadas à literatura em nosso país, especialmente nas pequenas cidades do interior dos Estados do Nordeste.

Mas, em Quixadá, conseguimos dar esse passo. E já são três anos dedicados à causa, sob o lema “A leitura ilumina o ser humano”.

Hoje, tenho um motivo a mais para celebrar esta data. A AQL aprovou, por unanimidade, o hino que compus para a Academia.

Quando nos reunirmos, no próximo sábado, entoaremos o hino juntos, pela primeira vez.

HINO À ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS
Letra e melodia: Marcos Mairton

No sertão central do Ceará
Resplandece o amor pela cultura
Pois floresce a arte da literatura
No cenário cultural de Quixadá.

Nessa terra adotada por Raquel
Aderaldo tem seu memorial
E a leitura se faz fundamental
Seja em livros ou folhetos de cordel.

A leitura ilumina o ser humano
E afasta as trevas da ignorância
É preciso começar desde a infância
E seguir lendo mais a cada ano.

Foi pensando assim que um grupo de escritores
Reuniu-se em Assembleia certo dia.
Para dar a Quixadá a academia
Que é de letras, autores e leitores.

E hoje o povo se reúne a cantar
E seu nome enaltecer!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!


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A BÍBLIA EM CEARÊS: MATEUS 8:5-13

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A passagem bíblica que traduzo hoje, para o idioma do povo cearense, é aquela em que um centurião romano pede a Jesus que cure um servo seu que havia caído doente.

A história sempre me chamou a atenção, porque imagino que um centurião era alguém que gozava de certa importância social. Tinha certo poder. Imaginar um homem desses, representante do poder dominante de Roma, pedindo a intervenção espiritual de um indivíduo do povo dominado, um peregrino, é algo que sempre me fascinou.

Relendo hoje, mais uma vez, esse trecho do Evangelho de Mateus, veio a vontade de reescrevê-lo em cearês.

Decidi não por glossário no final. O leitor que quiser esclarecer algum ponto pode pedir nos comentários.

Ficou assim:

JESUS CURA O SERVO DO CENTURIÃO ROMANO (Mateus 8:5-13)

Jesus ia tomano chegada em Cafarnaum, quando avistou um soldado romano, todo paramentado. E, pelo jeito da farda, num era soldadim fulerage não. Devia ser algum manda chuva, coisa de sargento pra cima. Veio no rumo de Jesus e foi logo puxan’assunto:

– Ei, macho, me dero o serviço que tu anda por aí fazeno milagre de todo tamãe. Aí eu queria que tu quebrasse um galho pra mim, ó?

– Vamuvê, né? Passa logo o bizú – respondeu Jesus.

– O seguinte é esse: tem um fí duma égua, que trabalha lá em casa, que tá todo guenzo e abirobadozim do juízo. O povo tão dizendo que é siviço do capeta. Aí eu queria saber se tu fazia um descarrego nele.

Jesus num contô pipoca:

– Na hora, machovéi. Dêxe comigo, que aqui só num tem jeito para morte. E as vêis inté isso eu desenrolo. Bora lá!
Mas o soldado parece que ficou veaco de levar Jesus em casa. É bem fácil ele num ter combinado com a patroa. Teve medo de chegar lá com um magote de marmanjo, e ela botar boneco. Aí ele jogou um queixo véi fraco, pra dar corda em Jesus:

– Tem precisão de ir lá não, patrão. Eu aposto que, se daqui mesmo, tu disser praquele fela da gaita se aprumar, ele dá um pinote da cama e fica igual um azôgue… Se eu mermo, que dô conta duma curriola de abestado, mando um praqui e outro prali, e eles vão vuado! Avalie tu, que tem moral que só a porra com os isprito!

Jesus deu o maior valor ao leruaite do soldado, e aproveitou pra esfregar a fé do caba na cara dos judeu. E disse:

– Machovéi, tu agora botô foi quente! Tem nenhum desses malaca que anda comigo que tenha fé desse tanto. Por isso que eu digo: tem gente lá da baixa da égua que vai pro céu. Mas tem uns sem futuro daqui tão é pebado; vão tudo se lascar no inferno!

Aí Jesus disse pro soldado:

– Pega o beco, macho. Quando tu chegar em casa o caba já vai tá novo de novo. Zerado!

Depois que Jesus disse aquilo, o soldado agradeceu e meteu o pé na carreira no rumo de casa. Quando chegou lá, o caba já tava bonzim. Tinha até almoçado um prato de baião de dois com pequi.


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LADRÕES

Um homem caminhava por uma estrada, quando percebeu que outro homem também vinha por ela, só que no sentido oposto. Ao chegarem a poucos metros de distância um do outro, o primeiro apontou para o segundo e disse:

– Você é um ladrão! Deve estar vindo me roubar!

O outro respondeu perguntando:

– E quem é você para me chamar de ladrão? Pensa que não sei que você é um dos maiores ladrões das redondezas?ladrao_k_rouba_ladrao

Mas o primeiro não deu atenção àquelas perguntas e continuou gritando:

– Um ladrão! Um ladrão! Um ladrão quer me roubar!

Logo o outro homem pôs-se a gritar também:

– Você é o ladrão aqui! Socorro! Um ladrão!

E tanto gritaram que alguns policiais que estavam por perto ouviram e correram para o local. Lá chegando, viram os dois homens gritando “Ladrão! Ladrão!”, e quiseram saber:

– Onde? Onde está o ladrão que os atacou?

Mas os dois homens não respondiam. Apenas continuavam a gritar “Ladrão! Ladrão!” deixando os policiais bem confusos. Até que um dos guardas suspeitou que o ladrão que causara toda aquela celeuma talvez estivesse escondido. Chamou os colegas, que entraram na mata e passaram a fazer buscas.

Minutos depois, os policiais voltaram para a estrada, trazendo preso um homem. Era um conhecido ladrão, que eles vinham investigando há meses, por vários roubos praticados ali mesmo, naquela estrada.

Ao ser arrastado da mata para a estrada, o ladrão preso viu os dois homens que ali estavam. Percebendo de quem se tratava, o preso revoltou-se com os policiais e indagou deles:

– Por que vocês não prendem aqueles homens também? Eles são tão ladrões quanto eu?

Mas os policiais nada responderam. Apenas o mandaram calar a boca, e o levaram para apresentar ao delegado.

Enquanto isso, os dois homens afastaram-se, cada um para seu lado, indignados com o fato de o preso os tentar incriminar.

Sugestão de moral da história, ficando o leitor inteiramente à vontade para escolher outra: Ladrões geralmente se conhecem. Podem colaborar entre si, quando lhes convém, mas, isso não significa que sejam amigos.


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PARA ONDE PENDE A BALANÇA DA JUSTIÇA

(Publicado no site JusBrasil em 5/Out/2015) 

Com o crescimento do interesse da sociedade e da imprensa brasileira por questões discutidas no Poder Judiciário, têm proliferado nos meios de comunicação as análises e os comentários sobre o assunto.

Isto é bom, porque aproxima da sociedade um Poder do Estado que sempre foi considerado muito fechado, de compreensão inacessível para o cidadão comum, que, no fim das contas, é quem sofre as consequências de seus atos.

O problema é que muitas dessas análises e comentários mais confundem que esclarecem. Alguns chegam a ser tendenciosos, tentando impor sua própria parcialidade aos órgãos jurisdicionais.balanca_justica

Basta ver o que aconteceu no julgamento do Mensalão, quando muitos artigos em jornais apontavam o STF como inclinado deliberadamente para um dos lados do litígio, enquanto outros diziam que a balança do Tribunal pendia exatamente para o lado oposto. A polêmica em torno de certos embargos infringentes foi ilustrativa a esse respeito.

Nesses tempos de Operação Lava Jato, o STF já foi apontado por alguns como perseguidor do PT, quando, por exemplo, manteve a prisão de Renato Duque, decretada pelo juiz federal Sérgio Moro. Dias depois, ao decidir que determinada investigação, relacionada à Operação Lava Jato, não seria da competência de Moro, outros disseram que a Corte estaria protegendo petistas.

Aliás, essa decisão, que determinou a remessa da investigação para outro juiz, foi amplamente divulgada como sendo uma derrota de Sérgio Moro. O que me fez refletir: e desde quando juiz conquista vitória ou sofre derrota em um processo judicial que preside?

Se o fato fosse apresentado como derrota do Ministério Público Federal, tudo bem, já que o MPF é parte no processo, ou seja, pleiteia, em nome da sociedade, a punição dos acusados. Mas, o juiz não pode e nem deve ter esse tipo de sentimento. Ao contrário, precisa se manter o quanto possível livre para decidir quem deve e quem não deve ser punido.

Diante disso, a impressão que tenho é que muitos dos jornalistas, analistas e comentaristas, que tratam atualmente desses movimentos do Judiciário, não estão se aprofundando na busca da compreensão dos mecanismos que movem os julgadores em suas decisões. Assim, avaliam a atuação de juízes – singulares ou membros de tribunais – a partir de critérios utilizados para explicar os movimentos de políticos e seus partidos.

Não, eu não estou dizendo que conheço os bastidores dos tribunais, sejam os de apelação ou os superiores, nem tampouco o perfil dos seus membros. Também não estou negando que existam juízes mais alinhados com essa ou aquela ideologia, ou mesmo simpáticos ou próximos a esse ou àquele partido político.

Estou apenas tentando dizer que, para entender o modo de ser do Poder Judiciário, ou, para compreender as razões que levam os juízes a decidir de ou de outro modo, é importante considerar fatores como: o fato de os juízes não serem eleitos; de serem vitalícios; de terem formação jurídica, ou seja, uma formação focada nas leis como balizadoras da conduta humana, etc.

São muitos os aspectos que condicionam ou influenciam o modo de atuar dos juízes em geral, além daqueles que os influenciam de modo particular. Por exemplo: diante de um mesmo fato, o membro de um tribunal que por muitos anos tenha sido juiz de vara criminal, possivelmente raciocinará de forma diferente de outro membro do mesmo tribunal, que tenha atuado mais em varas de família. E ambos provavelmente terão uma visão diferente de um colega que tenha atuado na advocacia, ingressando na Corte pelo quinto constitucional. Não tenho a menor dúvida que essa diversidade de visões de mundo enriquece as decisões dos tribunais.

Acredito que a ponderação desses elementos, agregada a algumas noções acerca dos institutos jurídicos, favoreceria análises menos superficiais das decisões judiciais. Minimizando-se, assim, o risco de conclusões equivocadas ou precipitadas, notadamente quando estão em jogo processos de grande repercussão nacional, capazes de acirrar ânimos e despertar paixões.


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SAUDADES DE MERCEDES

Nunca fui a um show de Mercedes Sosa. Nunca sequer a vi, a não ser pela TV, e, mais recentemente, em vídeos do YouTube. Mas me impressionei com ela desde que ouvi sua voz pela primeira vez. Foi no começo dos anos 1980, cantando, com Raimundo Fagner, a música “Años”.

A par disso, somente comprei um CD seu em janeiro de 2010, quatro meses depois da sua morte, quando estive em Buenos Aires. Fico até meio sem graça de admitir que foi ouvindo esse CD que conheci o tango “Los Mareados”, que me inspirou a escrever o conto com o mesmo título, que publiquei no Jornal da Besta Fubana em abril de 2011. Como posso ter conhecido tão tardiamente essa canção?

Mas, nos últimos dias, não sei se por causa da proximidade com o quatro de outubro, a canção que mais tenho ouvido, na voz de Mercedes, tem sido “Cuando ya me empiece a quedar solo”, de Charly García. É que a letra aparentemente descreve a situação de um artista, no final de sua carreira, vivendo lembranças dos tempos de sucesso e a saudade de um amor do passado.

De tanto ouvir, criei até uma versão dela para o português, cuja letra vai logo abaixo do vídeo.

A propósito, quem clicar no vídeo, por favor, não julgue o talento do cantor nem do músico. Não se trata de uma exibição, mas apenas de uma tentativa de homenagem.

QUANDO EU FINALMENTE ESTIVER SÓ

Terei os olhos distantes
E um sorriso na boca
No peito um grande vazio
E a voz um tanto rouca.

Um palco sem os artistas
Um livro que eu já não leia
Anotações esquecidas
E a caridade alheia.

Um televisor inútil
Servindo de companhia
Um rádio a todo volume
E essa casa tão vazia.

Envelhecer sem receio
De uma vida sossegada
Um jarro perto da escada
E essa cama que eu mal uso.

E alguns diários empilhados
E uma flor que traz do meu passado
Um rumor de vozes que me chamam
E um milhão de mãos que me aplaudem.

E a saudade tua, sobretudo,
Quando eu finalmente estiver só.


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MINISTÉRIOS

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Faz mais de uma semana que vejo, leio e ouço falar de mudanças que estão ocorrendo no Ministério da República. Na internet, na TV, não importa. Todos falam de uma disputa entre os membros do partido do governo e seus aliados, para definir quem será ministro de quê.

Tomando tais notícias como verdadeiras – e até agora não as vi serem contestadas – lamento, como cidadão que sou, que as coisas sejam decididas dessa maneira. Com partidos trocando apoio às decisões do governo por cargos em ministérios.

Não, eu não estou dizendo que isso é novidade na política! Estou dizendo apenas que lamento que seja assim. Porque, como cidadão, o que eu gostaria é que os ministérios fossem definidos conforme as necessidades do Estado, no cumprimento o seu papel. Oferecendo segurança, saúde, educação, essas coisas das quais tanto se fala nas campanhas eleitorais.

Definidos quais ministérios seriam necessários, o governante maior, respaldado na legitimidade que lhe conferem os votos recebidos na eleição, chamaria para os cargos de ministros as pessoas capacitadas a gerir as várias pastas do governo, conforme suas diretrizes. Porque, afinal, a pessoa escolhida pelo povo para exercer a Presidência da República não precisa conhecer a fundo todas as áreas da gestão pública, mas deve ter capacidade para comandar a equipe que lhe dará o respaldo técnico suficiente para governar.

O leitor mais enfronhado nos assuntos da política dirá, talvez, que sou ingênuo; que isso é uma utopia; que, em um governo de coalizão, sempre será necessário partilhar a máquina administrativa entre as lideranças dos partidos que apoiaram o candidato eleito.

Tudo bem. Aceito isso. Se vários partidos apoiam um candidato ao governo do país, entendo que esses partidos indiquem pessoas para determinados cargos do governo eleito. Minha ingenuidade talvez consista em imaginar que esses partidos deveriam escolher essas pessoas com base em sua formação (técnica e ideológica), e não em interesses pessoais ou políticos.

No entanto, até onde me chegam as notícias, o que tem prevalecido é o mais escancarado jogo do “toma lá, dá cá”. A troca aberta e explícita de cargos por apoio. Qualquer um pode ser ministro de qualquer coisa. Desde que sejam atendidos os interesses políticos da ocasião, é claro.

Não, eu não sei quando – nem como – isso começou. Também não sei quem governava nessa época. Sei apenas que é no mínimo frustrante, para o cidadão, ver os condutores das políticas públicas do governo serem escolhidos apenas por esse critério, ou sem critério algum.

Mas, há outra coisa ainda mais irritante nisso tudo: após as negociatas, vem um representante do governo dar entrevista coletiva na TV, dizendo que foram feitas as mudanças tais, tais e tais, buscando coisas como “enxugamento da máquina administrativa”, “redução de despesas”, “ganho de eficiência”, produtividade”…

Francamente. Podiam pelo menos nos poupar dessa parte.


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MICROCONTOS

MICROCONTOS

REGRESSO

Entrou na cidade. Ruas desconhecidas, estranhas. A tensão se fez alegria ao reconhecer a velha casa onde foi criança.

* * *

LUZ

Deitou, apagou a luz e viu tudo com absoluta clareza. Às vezes a escuridão externa é fundamental para a iluminação da mente.

* * *

CAFÉ

O boato era de que seria exonerado.
“Besteira. Melhor relaxar um pouco”, pensou.
Pelo interfone, pediu um café. Veio frio.


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ALOIZIO E ALOYSIO

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O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o senador Aloysio Nunes – os dois serão investigados por suspeita de crime eleitoral (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress e Antonio Cruz/Agência Brasil)

Aloizio e Aloysio
São dois nomes parecidos.
Dois políticos famosos
De dois famosos partidos.
Um apoia a presidente,
Mas o outro é diferente,
Atua na oposição.
Detestam ser confundidos,
Mas restaram incluídos
Numa mesma delação.

Aloizio e Aloysio,
Após serem delatados,
Por decisão do Supremo,
Estão sendo investigados.
Se têm crimes a pagar,
A missão de revelar
Caberá aos Federais.
Que, sendo sábios, prudentes,
Dirão se são diferentes,
Ou dirão que são iguais.


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NOMES

Às vezes fico observando os nomes das pessoas. Nunca me interessei por numerologia, mas, de vez em quando me pergunto: será que Napoleão teria sido quem foi se se chamasse Alberto? Ou Amarildo? E os meninos que depois foram chamados Napoleão? Sofreram ou sofrem alguma influência da personalidade daquele que fez famoso o nome? Joaquim teria se tornado o Mártir da Independência se não usasse a alcunha de Tiradentes? Zico teria sido tão bom jogador se houvesse permanecido Artur?nomes

Em 1985, quando trabalhava no departamento de recursos humanos de um banco, participei da organização de um concurso para estagiários. Qual não foi a surpresa, minha e dos meus colegas de trabalho, quando percebemos que entre os inscritos havia dezenas de Robertos Rivelinos! Por quê? Porque o concurso era dirigido a jovens de quinze anos de idade, ou seja, nascidos em 1970. O que pretendiam os pais ao dar aos seus filhos o nome de um jogador da seleção brasileira tricampeã mundial? E, se o tricampeonato não houvesse sido conquistado, haveria tantos Robertos Rivelinos naquele ano?

São perguntas sem resposta. Mas, mesmo nomes que não nos remetem diretamente a pessoas de destaque acabam chamando a minha atenção. É que, apesar de os nomes próprios serem considerados pela gramática como substantivos, é fácil ver que há nomes que bem poderiam ser adjetivos ou verbos.

Por exemplo, Vilmar, Valdemar e Jair são nomes verbos. Verbos no infinitivo. Fernando, Orlando e Gumercindo também são verbos, mas são gerúndios. Maria é futuro do pretérito. Dirceu é pretérito perfeito. E Gilmara é pretérito mais que perfeito.

Alguns nomes adjetivos são fáceis de identificar. É assim com Prudente, Vicente e Amado, embora esse último possa ser um verbo no particípio. Outros nomes adjetivos são mais sutis, mas o leitor há de perceber como soa natural quando digo que meu vizinho “é um rapaz muito Sérgio”. Que “o ambiente estava um pouco Getúlio”. Ou que “meu professor de matemática é um rapaz Fábio”. E quem já não ouviu falar de uma mulher Amélia? Nomes adjetivos, sem dúvida.

Pode ser uma mania, pode ser apenas uma brincadeira, mas volta e meia me encontro refletindo sobre isso. Foi fazendo essas reflexões que percebi que meu nome não é adjetivo nem verbo. É substantivo mesmo.

Com o detalhe que, apesar de eu ser uma só pessoa, é um substantivo plural: Marcos.


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O VELEIRO BRASIL

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Há alguns meses atrás,
Um querido e velho amigo
Aborreceu-se comigo.
Disse que eu era incapaz
De reconhecer quem faz
O melhor para o país.
Que era um erro ouvir quem diz
Que a praga da inflação
Unida com a recessão
Faria o povo infeliz.

Eu tentei argumentar
Que, na verdade, a razão,
Dessa preocupação
Que estava a me incomodar,
Era o jeito de falar
De muitos economistas,
Que baseados em listas
De dados condicionantes,
Tornavam preocupantes
As previsões futuristas.

“É também muito inquietante”
– disse eu, na ocasião –
“Saber que a corrupção
No país, é alarmante.
Esse esquema tão gigante,
Envolvendo os empreiteiros,
As estatais, os doleiros
Partidos de várias cores,
Periga trazer mais dores
Aos corações brasileiros”.

Meu amigo debochou.
Me chamou de pessimista.
Disse que a mídia golpista
Há muito me dominou.
Que em minha mente implantou
Um ódio quase mortal
Da pobreza nacional,
Que mudou de condição.
E ver pobre em avião
É coisa que me faz mal.

Eu, meio ressabiado,
Achei melhor me calar,
Esperançoso de estar
Realmente equivocado.
Mas hoje vejo, assustado,
A coisa se complicando.
Vejo os preços aumentando,
A economia encolhendo,
O desemprego crescendo,
O país desmoronando.

E lembro do cidadão,
Que zombou do que eu falava
E dizia que eu estava
Torcendo contra a nação.
Será que já tem noção
Do que está acontecendo?
Será que está percebendo
O caos na Economia?
Que o governo, a cada dia,
O controle está perdendo?

Será que já reconhece
Que, além da economia,
A política, hoje em dia,
É uma fruta que apodrece?
Que todo dia aparece
Na imprensa um novo fato,
Um desvio em um contrato,
Uma entrega de propina,
Coisas que já são rotina
Na Operação LavaJato?

Caro amigo, bom seria
Que tu tivesses razão,
E aquela preocupação,
Que eu expus naquele dia,
Fosse apenas fantasia
Da mídia dita golpista.
Mas, sendo bem realista:
Brasil hoje é um veleiro,
Que segue sem timoneiro,
Nem sinal de terra à vista.


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MILAGRE EM CEARÊS

Li em um site, que a Bíblia já havia sido traduzida para 2.544 idiomas. É muita coisa. Pode-se não acreditar no que nela está escrito, pode-se duvidar que tenha sido escrita por inspiração divina, mas é preciso reconhecer a sua imensa influência na história da humanidade. E o seu valor para as religiões que fundamenta, é claro.

Impressionado com as informações que vi naquela postagem, lamentei apenas não haver qualquer referência à eventual existência de uma tradução da Bíblia para minha língua mãe: o Cearês.

Afinal de contas, o Ceará tem hoje mais de oito milhões de habitantes. É uma “ruma de gente” “bateno perna” aqui “por essas banda”. Sem contar que existe cearense em todo lugar do mundo. Ou “em todo canto”, como preferimos dizer. O que não faltam são histórias e piadas de cearenses que migraram para outras terras, como a do leão cearense, contada no vídeo a seguir pelo saudoso Espanta Jesus (que não era cearense, mas potiguar):

Foi pensando nessas coisas que passei a imaginar a tradução de pelo menos partes do Livro Sagrado para o Cearês. E o primeiro trecho bíblico que me veio à mente foi o das Bodas de Caná, quando Jesus teria feito o seu primeiro milagre, atendendo a um pedido de sua mãe.

O texto ficaria mais ou menos assim:

Jesus tava com a mãe dele num casamento, quando ela chegou pra ele e passou o bizú:

– Meu fí, esse povo daqui é muito penoso. O forró inda tá truano e já acabou o merol. Dê um jeito aí.

– Aí lascou, mãe. O ômi lá em cima disse que era pra fazer milagre só paruano.

– Seje suvino não, meu fí, quebre o gai desses liso…

Aí Jesus se invocô e disse:

– Enche os pote de água mermo, negada.

Os cabra arrocharo o nó. Botaro água nos pote como quem bota mí pra bode. Os papudim, doido pra tomar uma, ficaram só bilano.

Depois que os pote tava cheio, Jesus se benzeu três vez e recitou um budejado lá que ninguém entendia. Aí chamou um dos papudim que tava por ali, de mutuca ligada, e disse:

– Ei, macho. Arrudeia pra cá e toma uma lapada, só pra tu ver o dismantêlo.

O papudim correu dentro. Tomou uma lapada grande e depois saiu fazeno o maior enxame:

– Eita, negada, o ômi fez um goró aí que é só o pitéu!

E, como esse breve texto pode chegar a muita gente que desconhece o Cearês, segue um pequeno glossário, no intuito de esclarecer algumas sutilezas do nosso idioma:

Chegou pra ele = aproximou-se

Bizú = orientação, dica.

Fí = filho

Penoso = econômico

Truano = acontecendo (gerúndio do verbo “truar”; em

Cearês, os verbos no gerúndio são pronunciados sem a letra “d” da última sílaba).

Merol = bebida alcoólica

Dê um jeito aí = resolva esse problema

Aí lascou = agora temos um problema

Ômi lá de cima = Deus

Paruano = no próximo ano

Suvino = avaro; semelhante a penoso, mas com maior carga pejorativa

Quebre o gai = quebre o galho = ajude

Liso = sem recursos (variações: fulano é um liso = é pobre; fulano está liso = está momentaneamente sem dinheiro)

Se invocô = tomou uma decisão repentina; também tem o sentido de “irritou-se”, mas não neste caso

Negada = grupo de pessoas

Arrochar o nó = agir com disposição (como se vê, em Cearês, os verbos na primeira pessoa do plural terminam em “o” ao invés de “am”

Como quem bota mí pra bode = em abundância, com desperdício

Papudim = indivíduo que ingere frequentemente bebidas alcoólicas

Tomar uma = consumir bebida alcoólica

Bilano = observando (gerúndio do verbo bilar)

Se benzeu = fez o sinal da cruz (sim, Jesus ainda não havia sido crucificado, mas já fazia o sinal da cruz. Qual o problema?)

Recitou um budejado = pronunciou palavras incompreensíveis

De mutuca ligada = prestando atenção, atento

Macho = uma pessoa qualquer, seja homem ou mulher; atualmente é mais comum a pronúncia “má”, alongando um pouco o “á”

Arrudeia = contorna

Toma uma lapada = bebe uma dose

Dismantêlo = algo muito bom; também pode ter o sentido de “uma grande bagunça”, mas não neste caso

Correu dentro = fez alguma coisa imediatamente, como se estivesse ansioso para tal

Fazeno o maior enxame = “fazer enxame” significa chamar a atenção das pessoas; “fazer o maior enxame” é a mesma coisa, só que de forma exagerada

Goró = bebida alcoólica (sinônimo de merol)

Pitéu = coisa muito boa (a palavra é mais utilizada no sentido de “mulher bonita”, mas serve para outras maravilhas, como no caso)


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#MICROCONTOS

MICROCONTOS

CARDÍACO

De tanto que ele se recusou a ouvir o próprio coração, este um dia cansou e calou-se para sempre.

* * *

FOME

Reuniu os filhos e disse:

– Comeremos o pão q o diabo amassou.

E a meninada ficou feliz porque teria o q comer naquele dia.

* * *

O PERDEDOR

De manhã perdeu o trem.

À tarde perdeu o emprego.

À noite perdeu a namorada.

Sem mais nada a perder, perdeu o medo.


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SULEAR

Foi em um evento multidisciplinar sobre Direitos Humanos, em 2013, que ouvi pela primeira vez a palavra “sulear”. O cidadão que falava ao microfone advertiu:

– É preciso nortear, aliás, sulear, isso mesmo, sulear as políticas públicas para metas de inclusão social…

Entendi o contexto. Afinal, posta naquela frase no lugar de “nortear”, e perto da palavra “metas”, tudo indicava que a ação do verbo consistia em dirigir as políticas públicas em determinada direção, no caso a inclusão social.

Mas, fiquei intrigado com a palavra, para mim desconhecida. No intervalo para almoço, servido no restaurante do hotel onde se realizava o evento, dei um jeito de me aproximar do portador da novidade e o instiguei ao assunto:

– Gostei do “sulear” ao invés de “nortear” – disse eu.

A estratégia deu certo. Percebendo o meu interesse, o rapaz passou imediatamente a discorrer sobre a importância de os povos da América do Sul assumirem a sua identidade, os seus valores, e não adotar modelos importados da política de dominação dos poderosos do norte. Sulear-se seria, assim, um ato de rebeldia contra a imposição de olharmos para o norte como algo superior ao sul.SULEAR

– Veja os mapas dos livros – destacou. – O norte está sempre em cima e o sul embaixo! Ora, no espaço não há em cima nem embaixo. É pura ideologia de dominação!

Confesso que não levei aquela conversa muito a sério. Para mim, “nortear” decorria simplesmente do fato de as bússolas apontarem para o norte, e de o conhecimento de onde fica o norte ser suficiente para deduzirmos os outros pontos cardeais.

Mas, estava hoje relembrando o episódio e, com as facilidades que a Internet proporciona, não resisti à tentação de pesquisar a palavra “sulear” no Google.

Logo me deparei com uma resenha do Dicionário Paulo Freire, de Streck, Redin, e Zitkoski, que dizia o seguinte: “Com o emprego do termo sulear, Paulo Freire chama a atenção para o caráter ideológico do termo nortear. Sulear expressa a intenção de dar visibilidade à ótica do sul como uma forma de contrariar a lógica eurocêntrica dominante a partir da qual o norte é apresentado como referência universal”.

Também descobri o site Sulear, mantido pelo físico Marcio D’Olne Campos, onde há um texto dele (SULear vs. NORTEar) que, entre outras coisas, diz o seguinte: “O hemisfério norte que vê a Polar, não vê o Cruzeiro do Sul. Isso acontece também em Portugal, situado bem mais ao norte (no entorno de 40ºN) do Trópico do Câncer. No entanto, nota-se indistintamente nos dicionários portugueses e brasileiros a presença única do verbo nortear (NORTEar) como orientar-se para o Norte e também dirigir, orientar, guiar. Na noite do hemisfério sul, o encontro da direção Sul apoiado pelo Cruzeiro do Sul deveria enquadrar apenas na idéia de “SULear-se”, palavra que não consta dos dicionários brasileiros. As convenções norteadoras em nosso hemisfério, como vimos na discussão das antinomias do tipo Norte/Sul, sugerem a conotação ideológica de dominação já discutida”.

Senti que estava diante do referencial teórico do palestrante daquela manhã de 2013. Um referencial que, como todo respeito aos intelectuais citados, me parece útil para manter os povos da América do Sul exatamente onde estão há séculos: em condição de inferioridade em relação a Europa e América do Norte, seja de um ponto de vista econômico, tecnológico ou do desenvolvimento.

Porque me parece muito cômodo atribuir as nossas mazelas à tal ideologia de dominação que vem do norte. Houve relação de dominação em relação às colônias? Sim. Muitas riquezas foram extraídas? Sim. Mas, o tempo tem passado, as relações entre os povos do mundo inteiro têm mudado, e não é possível passar o resto da história atribuindo nossos fracassos aos outros. Já deu tempo para virarmos esse jogo!

Aliás, e, voltando à formação das palavras, se o termo “nortear” decorre mesmo de dominação ideológica vinda do norte, por que razão o seu sinônimo mais comum é “orientar”? Seria dominação ideológica dos povos do oriente? Devemos inventar a palavra “ocidentar” (que tomei o cuidado de ver que não consta do nosso dicionário)?

Ora, tenham paciência! A cada dia aumenta o meu convencimento de que precisamos mais de trabalho e seriedade que de teorias para explicar nossos fracassos.


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#MICROCONTOS

MICROCONTOS

BARIÁTRICA

Excessos à mesa de jantar o levaram à mesa de cirurgia.

Hoje não tem mais estômago para aventuras gastronômicas.

* * *

O BOXEADOR

Sentia-se forte, confiante.

Socava, esquivava, socava.

De repente, a escuridão. Uma voz contava 8, 9, 10!


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RESPOSTA À CARTA ABERTA DO GOIANO

Caríssimo Goiano,

Em outro texto teu, já me tinhas dado a honra de citar meu nome. Desta feita, foste além, dirigindo o texto todo à minha pessoa.

Grato, amigo, pela gentileza. Fico realmente honrado com o teu gesto. Pensei até em responder em comentário à tua carta aberta, mas achei que poderia soar indelicado, já que te deste ao trabalho de usar o espaço da tua coluna. Então cá estou usando o da minha.

Feito esse justo reconhecimento, lamento apenas dizer que nada tenho a acrescentar ou contra-argumentar em relação às razões que tens para não te sentires traído pelo PT. Afinal, sentir-se ou não traído diz respeito ao foro íntimo de cada um.

Discordo, é verdade, da tua teoria de que “uma parcela raivosa, insatisfeita com a política social do governo”, existente desde que Lula assumiu, teria se transformado em coxinhas raivosos, conquistando, depois, corações e mentes, por meio de recursos midiáticos, em um momento de fragilidade circunstancial do governo.

Sei, evidentemente, que não é apenas tu que pensas assim. Basta ler os articulistas de alguns sites e blogs favoráveis ao governo para ver isso. Mas não consigo acreditar na existência dessa parcela raivosa da nossa sociedade, nem muito menos que essa suposta raiva tenha como causa a política social do governo.

E tenho cá meus motivos para pensar assim, pois sei que o governo Lula teve uma aprovação altíssima. Mesmo tendo sofrido desgaste quando estourou o escândalo do mensalão, Lula encerrou o seu governo com a melhor avaliação da história, com 83% de aprovação (Clique aqui para ler). Não me parece possível que essa parcela raivosa tenha ficado quieta nos dois mandatos de Lula, para se multiplicar tão rapidamente em um único mandato de Dilma, apenas por manipulação da mídia.

Assim, para entender o crescimento da rejeição ao PT e à Presidente da República, parece-me necessário investigar causas outras, além das que apontaste em tua carta aberta.

De minha parte, prefiro não relacionar aqui nenhuma das causas que considero prováveis, por algumas razões, especialmente as seguintes: não tenho interesse em convencer nem a ti nem a ninguém de que essas causas fazem sentido; e não quero que ninguém interprete minhas considerações como contrárias ou favoráveis ao PT e seus membros.

Fico, portanto, por aqui. Vendo as coisas acontecerem e tentando me manter lúcido para entender o que está acontecendo. Às vezes emito uma opinião ou outra, se acho oportuno e relevante, mas tentando me manter fora de discussões mais acaloradas.

Mas, insisto, não acredito em um mundo dividido entre esquerda e direita; nem que o Brasil se divida entre petralhas e coxinhas.

Acho que a realidade é maior que as ideologias. E o que a maioria das pessoas quer apenas viver em paz, com segurança, Justiça e a perspectiva de buscar a realização de seus sonhos.

Um grande abraço, com recíproca admiração e amizade.


Mundo Cordel
NEM DEUS, NEM SUPER-HERÓI

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Final da tarde de domingo. Vou à casa de meus país, no bairro do Pirambu, periferia de Fortaleza. Depois de um bom pedaço de pizza, conversávamos na calçada – eu, meu pai e alguns amigos – quando começou o culto em uma igreja, dessas que se autointitulam evangélicas, do outro lado da rua.

A partir daí, a conversa ficou inviável. A música de má qualidade não era propriamente cantada, mas gritada pelos poucos e barulhentos fiéis. Um dos presentes protestou:

– Duvido que se fosse na frente da casa de um rico fizessem um barulho desses!

– Se fosse na frente da casa dum rico, ele comprava logo a igreja e mandava todo mundo embora! – disse outro.

O terceiro a falar me pôs no centro da discussão:

– Rapaz, bastava que o doutor juiz morasse aqui e ele mandava esse pessoal baixar o som!

Não ficou claro se a frase era um pedido de socorro ou uma provocação. Ouvi-a e fiquei quieto, refletindo sobre o que me parece ser uma característica comum entre nós, brasileiros: a tendência a esperar que alguém poderoso venha nos salvar das agressões aos nossos direitos. Pode ser o poder econômico, pode ser o poder político, não importa. O que importa é que o super-herói apareça e ponha as coisas no seu devido lugar.

Por que razão aquelas pessoas suportam todo aquele barulho e não tomam nenhuma iniciativa para eliminar ou reduzir o incômodo? Por que não formam um grupo e procuram o pastor, para exigir que ele baixe o volume dos seus autofalantes? Pertinho dali existe uma ONG dedicada quase exclusivamente a fazer mediação e arbitragem, na tentativa de resolver conflitos das pessoas da comunidade. Que tal chamar o pastor para uma conversa lá? E, se isso não resolver, podem-se fazer manifestações na frente da igreja, na hora do culto; pode-se procurar o Ministério Público, o Juizado Especial, tanta coisa… O pastor está interessado em novos fiéis, não em encrenca com os moradores do bairro.

A par disso, estou amplamente convencido de quem ninguém vai fazer nada. E o ataque dos membros da igreja aos tímpanos dos vizinhos vai continuar.

Eu também não fiz nada. Tive vontade de ir falar com o pastor, mas não fui. Dias antes, durante um telefonema, prejudicado pelo mesmo exagero evangélico-musical, minha mãe havia pedido:

– Meu filho, não faça nada. Se você for falar com o pastor, o pessoal da igreja vai dizer que você é um juiz querendo ser mais importante que Deus. E o pessoal aqui da rua vai concordar com o povo da igreja. E dizer que você mora lá na Aldeota e vem se meter nas coisas daqui. A vizinhança não é toda prejudicada? Então os vizinhos que devem fazer alguma coisa. Se me procurarem, eu apoio, mas não vou tomar a frente, pra não dizerem que a mãe do juiz quer ser importante. Não quero ver seu nome metido nessa história…

Raramente nego um pedido da minha mãe. E, quer saber, leitor? Acho que ela tem razão. De nada adiantaria eu dizer que estava ali como cidadão, preocupado com o bem estar dos meus pais. O pastor e seus fiéis enxergariam um juiz, provavelmente um juiz que pensa que é Deus. E, se o assunto fosse parar nas redes sociais, não faltaria quem declarasse ter certeza disso.

Nessas horas, sinto saudade de quando era estudante de Direito. Quando a disposição para defender direitos – meus e dos outros – era vista como sinal de que me tornaria um bom advogado. Hoje, começo a escrever sobre o barulho de uma igreja e termino o texto fazendo reflexões sobre uma divindade que todo mundo deveria saber que não existe.

Lamento não poder ajudar meus pais e seus vizinhos na reação contra o barulho da igreja, mas, para não expor o juiz ao cometimento de eventual abuso de poder (real ou imaginário), o cidadão precisará calar.

E assim, eu, que nunca pensei em ser Deus, constato mais uma vez que a capa que uso não me ajuda sequer a ser um super-herói. Às vezes até atrapalha.

P.S.: Se as pessoas não têm iniciativa para se organizar pela redução do barulho de uma igreja que abriga menos de cem fiéis, e que está ali, encostada nas suas casas, como esperar que pressionem políticos a agirem com seriedade, honestidade e coerência com os discursos de campanha?


Mundo Cordel
UMA PETIÇÃO EM VERSOS PARA UM POETA-JUIZ

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Não faz muitos dias, chegou ao meu conhecimento a notícia de que um advogado havia formulado uma petição em versos e o juiz havia respondido também na forma poética.

Que inveja senti! Inveja boa (se é que isso existe), já que limitada ao desejo de receber um dia uma petição que transforma em versos o drama do cotidiano forense.

Que prazer seria responder o poético petitório também em versos! Talvez em cordel, quem sabe em trovas… Um soneto! Será que comportaria, em seus quatorze versos, toda uma decisão judicial?

Não sei. Quem pode saber das poesias ainda não escritas? Como saber a forma que o poema assumirá, se sua fonte de inspiração ainda não apareceu encartada nos autos?

Fico à espera. Enquanto isso, manifesto aqui o sentimento que me acompanha nessa espera… Um soneto! Sim, um soneto.

ENTRE O POETA E O JUIZ

Quem dera eu venha a receber um dia
Petição feita por um advogado,
Cujo pedido seja formulado
Em meio aos versos de uma poesia.

Como poeta, ainda que togado,
Com sentimento, a lei aplicaria
E, em versos, a sentença escreveria,
Provavelmente um tanto emocionado.

Mas, desde já, que fique esclarecido:
O acatamento ou não de tal pedido
Dependerá da fundamentação.

Como juiz, ainda que poeta,
Ao decidir a situação concreta
Não posso ouvir somente o coração.

Publicado antes no site jurídico JusBrasil.


Mundo Cordel
A CASA DO POETA

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É uma casa. Olhando de fora, não há razão para se ter dúvidas quanto a isso.

Mas, do lado de dentro, já não se tem tanta certeza. Aquela casa bem poderia ser um barco. Pelas paredes, pelo piso, pelos objetos que estão dentro dela. E pelo mar, que se vê o tempo todo através das janelas.

Mas a casa não parece apenas um barco. Bastam alguns passos para que ela se assemelhe ao vagão de um trem. Longo, com suas paredes de madeira e seu teto côncavo.

Mas, que trem é esse, habitado por figuras mitológicas e divindades? Onde escorpiões e borboletas conviveriam com anjos e demônios? Ao invés de uma casa, um barco ou o vagão de um trem, não se estaria na cabana de um mago?

Nada disso. É uma casa. Estão lá a cama, a penteadeira, as cadeiras e outras coisas que há em uma casa.

É a casa de um poeta. Construída em um lugar que tem nome de ilha, mas que, a par disso, ilha não é. É uma parte do continente, de onde se ouvem os rugidos de um gigante azul que golpeia rochas até arrebentá-las.

Os moradores locais receiam que um dia o gigante avance sobre a cidade e destrua tudo. (Têm um plano de fuga, caso isso ocorra). Não obstante, ele se chama Pacífico. E o dono da casa – o Poeta – nunca o temeu. Ao contrário, decidiu viver ali, com sua esposa e musa, até o fim de seus dias neste mundo. Dizia que sua própria mesa de trabalho foi presente do gigante.

Decididamente, aquela é uma casa como jamais vi outra antes. Em um lugar absolutamente mágico. Onde as coisas não precisam ser o que parecem ser, mas aquilo que o Poeta imaginou que poderiam ser.

Por isso, aquela parte do continente pode se chamar Isla Negra; o temido gigante azul pode se chamar Pacífico; a casa pode ser barco, trem, cabana ou o que mais se possa imaginar. Nela, o fantasma de um pirata pode se apaixonar por uma jovem que só tem olhos para o mar. Um cavalo, sobrevivente de um incêndio, pode encontrar refúgio e ser feliz.

E o poeta, nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, pode ser, porque assim o quis, Pablo Neruda.

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O colunista em visita à casa de Pablo Neruda em Isla Negra, Chile

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Mundo Cordel
DESCULPA, GENTE, FOI MAL

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Escrevo para você
Que se esconde atrás do escudo
Da empáfia, da arrogância,
Da pose de sabe-tudo,
Mas, por trás dessa aparência,
A falta de inteligência
Se soma à falta de estudo.

Escrevo para dizer,
Se ninguém ainda lhe disse,
Que sua máscara caiu
– era normal que caísse –
E sua pose de desdém
Não engana mais ninguém,
Virou uma grande tolice.

Até mesmo os mais ingênuos
Que se deixavam levar
Pelo seu palavreado,
Hoje ficam a zombar
Das coisas que você diz,
Comentam: “Mas que infeliz!
Não era melhor calar?”

Claro que, na sua frente,
Muitos mantêm a postura.
Mas, se você não está,
A crítica é muito dura,
É comum alguém falar:
“É difícil de aturar
Essa pessoa obscura”.

Pode ser perda de tempo
Eu lhe fazer esse alerta,
Pois bem sei, você não tem
Uma mente muito aberta,
Mas, não quero ser omisso,
Nem quebrar meu compromisso
De fazer a coisa certa.

É por isso que apesar
Dessa possibilidade,
De o conselho que lhe dou
Restar sem utilidade,
Sigo no desiderato,
De ser claro, justo, exato,
E lhe dizer a verdade.

Meu conselho é muito simples,
Nada tem de especial:
É para você, urgente,
Descer desse pedestal
Aceitar a realidade,
E dizer, com humildade:
“Desculpa, gente, foi mal”.


Mundo Cordel
PEDIDO DE CASAMENTO JUNINO

Em uma festa de São João, casamos de novo. Casamento de quadrilha, abençoado pelos amigos. Só não valia roteiro de noivo que tenta fugir e obrigado a casar pelo pai da noiva.

– Não fujo do casamento com Natália nem em festa de quadrilha – disse eu. – Em nosso roteiro, o pai dela pode ser contra, mas nós queremos casar sim!

E assim foi.

Botei um paletó, Natália providenciou um vestido, e nos preparávamos para casar em segredo, quando o pai da noiva, interpretado por nosso querido amigo Roberto Machado, apareceu dizendo que a filha não casaria com um cabra sem futuro.

A saída foi mostrar para ele que meu passado não era dos melhores, mas o futuro prometia. Fiz o pedido de casamento em versos de cordel…

Casando

Doutor Roberto Machado,
Preste atenção, por favor,
No que eu tenho a lhe dizer,
No que venho lhe propor.
Espero a sua resposta
Pois a razão da proposta
É a filha do senhor.

A sua filha Natália,
Essa moça tão prendada,
Que, além de muito bonita,
É também muito educada,
Conquistou meu coração,
Me dando a satisfação
De ser minha namorada.

Já faz pra mais de seis mês,
Não sei se o senhor sabia,
Que gente se telefona
E se encontra todo dia.
Ela me manda mensagem
manda video, manda imagem,
E eu devolvo poesia.

E, sendo dessa maneira,
Muito grande o nosso amor,
Mesmo ela sendo a filha
De um desembargador,
Me meti a atrevido,
E faço aqui meu pedido,
Muito sincero ao doutor:

– Eu quero casar com sua filha, doutor Roberto!

Doutor Roberto Machado,
Sei da sua intenção
Que a sua filha se case
Com alguém de posição,
Alguém que seja formado,
Quem sabe, um advogado,
Que tenha um anel na mão!

E, eu não tiro sua razão.
Pois, como pai, está certo.
Não querer que a sua filha
Tenha um futuro incerto.
Mas, em nome do amor,
Eu insisto com o senhor,
Aceite, Doutor Roberto.

Confesso, fui um menino
Que não gostei de estudar,
E, que depois que cresci,
Nunca fui de trabalhar.
Dormia até meio-dia,
E é verdade que vivia
Na rua a vagabundar.

Roubar, eu nunca roubei,
Mas, comprava e não pagava,
Já bebi muita cachaça,
Até maconha eu fumava.
Em festa arranjava briga
E andar com rapariga
Era do que eu mais gostava.

Mas, depois que eu vi Natália,
Senti algo diferente,
Decidi me corrigir
Ser um cidadão decente
E falei para um amigo:
Se ela se casar comigo
Vou mudar daqui pra frente.

Por isso, se o meu pedido
A sua filha aceitar,
E, se o senhor permitir
Que a gente possa casar,
Fique logo prevenido:
Vou ser o melhor marido
Que o senhor ouviu falar.

Fique certo, o que eu digo
Não é conversa fajuta.
E prometo aqui três coisas,
Enquanto esse povo escuta:
Limpar meu nome na praça
Nunca mais beber cachaça
Nunca mais andar com puta!

Pai da noiva: – Cabra safado!

Noivo: – Calma desembargador. Eu andava nesses ambientes. Não ando mais. E sabe que um dia eu tava no cabaré da Pirrita e vi um cabra lá que era mesmo que tá vendo o senhor! Não era o senhor, era?…

Pai da noiva: – Ômi, vamos mudar de assunto e começar logo esse casamento. Se depender da minha autorização, tá autorizado!

Casados


Mundo Cordel
CONTO JURÍDICO(*): A MULHER DO RÉU

(*) Classifico como jurídicos os contos cujo núcleo da narrativa aborda questões relacionadas ao Direito e, além disso, apresentam ou explicam ao leitor não versado na Ciência Jurídica o significado de institutos, termos e expressões utilizados por juristas.

D

A audiência criminal é um evento bem definido, com praticamente todos os seus passos previstos na lei. Corre inclusive o risco de ser anulada, caso algo aconteça diferente do rito estabelecido na legislação processual, principalmente se a irregularidade prejudicar a defesa do réu.

Mas sua previsibilidade acaba aí. Depois que começa, ninguém sabe as perguntas que a acusação e a defesa farão, as respostas que serão dadas pelas testemunhas ou pelo réu, nem tampouco as decisões que o juiz tomará na ocasião. Além de outras surpresas, digamos, extraprocessuais, que fazem das audiências momentos especialmente interessantes.

Lembro isto a propósito do processo de um homem que respondia pelo crime de moeda falsa. É um delito comum nas varas federais criminais, principalmente nas modalidades de guardar e por em circulação o papel-moeda, previstas no parágrafo primeiro do artigo 289 do Código Penal.

Aquele caso, porém, tratava da conduta descrita no caput do artigo: “Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no estrangeiro”. Segundo a denúncia, o acusado mantinha, em um dos quartos da própria residência, uma verdadeira fábrica de cédulas falsas. De posse de um mandado de busca e apreensão, a Polícia Federal encontrou ali computador, impressora, máquina para cortar papel e muito material impresso, pronto para ser introduzido no mercado.

O homem – que já respondia a um processo por estelionato – foi preso em flagrante. Lembro até hoje de quando ele entrou na sala de audiências cabisbaixo, acompanhado pelos agentes federais. Dois passos atrás dos policiais, vinha uma mulher de uns quarenta e poucos anos, magra e relativamente alta. Os cabelos longos e o vestido comprido indicavam que provavelmente era adepta de alguma igreja protestante (ou evangélica, como preferem os seus membros). Apresentou-se como sendo esposa do acusado e pediu para assistir à audiência.

– Pode assistir, senhora. Peço apenas que não interfira – adverti-a, sabendo que esses momentos são sempre difíceis para familiares do acusado.

Concluídos os atos preparatórios, dei andamento aos trabalhos. As testemunhas da acusação – dois policiais federais que participaram da operação – confirmaram o que já haviam dito no inquérito policial. Não houve testemunhas da defesa. O réu confessou tudo, declarando-se arrependido pelo que havia feito. Disse que foi um momento de fraqueza. Queria dar uma condição de vida melhor para a família e acabou tentando fazer isso da forma errada. Estava disposto a pagar sua pena e mudar de vida. Só não explicou onde e como havia adquirido os equipamentos. Valeu-se do direito constitucional de ficar calado, acrescentando que sua vida correria risco se falasse alguma coisa. Normal. Nem todo mundo se dispõe a participar de colaborações, ainda que premiadas.

Com a instrução do processo concluída, teria início o prazo de alguns dias para que acusação e defesa fizessem suas alegações finais. Depois o caso iria a julgamento. Tudo transcorria em plena normalidade, até que a mulher do réu, percebendo que a audiência havia terminado, resolveu falar:

– Doutor, eu posso dar uma palavrinha com ele? – perguntou, enquanto apontava o indicador para o marido.

– Claro, senhora – disse eu.

E, dirigindo-me aos policiais encarregados de levar o homem de volta ao presídio, completei:

– Por favor, esperem uns dez minutos enquanto essa senhora…

– Não precisa tanto não, doutor – interrompeu ela. – O que eu tenho pra dizer a ele é pouca coisa.

Foi fácil perceber que algo havia mudado na fisionomia e na voz daquela mulher. Ela, que aparentara calma durante toda a audiência, passara a demonstrar algo entre a irritação e o desprezo, embora com cuidado para se manter respeitosa. Quando se dirigiu ao marido-réu, revelou-se o motivo dessa confusão de sentimentos:

– Olhe aqui, rapaz! – disse ela, de pé, apoiando na mesa uma das mãos e apontando-lhe o indicador da outra. – Eu já tinha lhe dito que, se você se metesse de novo com vagabundagem, com pilantragem, com falcatrua, eu lhe deixava! Eu lhe disse, daquela outra vez, que era a única chance que eu ia lhe dar… Pois agora você vai ver que eu tava falando sério!… Olhe, eu sou uma mulher cristã… Eu não aceito viver com bandido, não, e muito menos que você leve sua bandidagem pra dentro de casa… Por isso que tu não deixava ninguém entrar naquele quarto… Ficava dizendo que era coisa do escritório; que os meninos podiam mexer em algum documento… Era pra ninguém saber o que tu fazia lá dentro! Não era?… Tu não tem vergonha não, rapaz? De levar tua vagabundagem pra dentro da casa dos teus filhos? Pois, olhe… Da outra vez, eu lhe disse que você se corrigisse ou então procurasse seu rumo… Pois agora eu lhe digo… Procure seu rumo! Porque, perto de mim e dos meus filhos, a última coisa que eu quero é gente metida em safadeza e bandidagem! E, preste bem atenção, que eu só vou lhe dizer só essa vez… Se o doutor juiz mandar lhe soltar, você procure outra casa pra ir dormir, porque na minha você não entra nunca mais!

Girou nos calcanhares, disse-me um seco “muito obrigado, doutor” e saiu pela porta afora.

Claro que a mulher não usou exatamente essas palavras. Na verdade, a única frase que ficou literalmente gravada em minha memória foi a última: “Se o doutor juiz mandar lhe soltar, você procure outra casa pra ir dormir, porque na minha você não entra nunca mais!”. Deve ser muito duro ouvir isso da esposa.

Enquanto ela falava, o réu, que já havia marejado os olhos algumas vezes durante o interrogatório, não tentou interromper, não tentou argumentar, não teve forças sequer para pedir perdão. Apenas chorou, e continuou chorando depois que ela se foi. Um choro triste, dolorido, abundante em lágrimas e secreções nasais.

Ainda chorava quando um dos policiais deu-lhe alguns tapinhas nas costas, mas não pude decifrar se era um consolo ou o chamado para retornar à prisão.


Mundo Cordel
MICROCONTOS 2

Conforme prometido, continuo trazendo para o JBF os microcontos que venho publicando no Twitter.

Interessados em me seguir por lá devem procurar o usuário @MarcosMairton.

A história de hoje é a seguinte:

#MICROCONTO
TEORIAePRÁTICA
Dizia-se a favor do casamento gay, mas desde q seu pai deixou sua mãe por outro homem, nunca mais falou com ele.


Mundo Cordel
UM DIA SEM PRESSA

homem-correndo

Reconheço que há dias nos quais tenho desejos um pouco egoístas. Comer um bom leitão no restaurante do português; receber o pedido de um cantor famoso para gravar uma de minhas canções; ou até ganhar na loteria e ficar rico. Quem sabe?

Mas também há dias em que acordo desejando coisas que acredito boas para meu país, ou mesmo para a humanidade, como chuvas em uma região mais seca ou a descoberta de uma vacina.

Hoje, acordei com um desejo bem pessoal, mas também muito peculiar: o de ter um dia sem pressa.

Quero levantar da cama quando der vontade de levantar da cama, e não porque algum compromisso me espera. Tomar banho devagar, sentindo a água cair sobre minha cabeça e deslizar pelo meu corpo. Quem sabe, ouvindo música. Sem pressa.

Quero demorar no café da manhã, não para comer muito, mas para comer lentamente, saboreando o alimento.

Quero chamar o elevador e não me incomodar se ele demorar a vir. Talvez eu me irrite um pouco, se perceber que o vizinho de cima o está segurando de novo, mas que minha irritação seja por uma questão de cidadania, não de pressa. Tanto assim, que, ao sairmos do elevador, quero segurar a porta para que o meu vizinho saia primeiro. Talvez ele esteja com pressa, eu não.

Quero sair no meu carro e dirigir com calma, sem me incomodar por que o sinal ficou vermelho bem na hora em que eu me aproximava do cruzamento. Se encontrar uma avenida vazia à minha frente, posso até acelerar um pouco mais forte, mas apenas para sentir a potência do motor, não para chegar mais rápido ao destino.

Quero ir ao shopping center e rir da falta de vagas no estacionamento. Gastar tempo até encontrar uma, e, diante do impasse com o outro motorista, que se aproximou segundos depois, ceder aquela vaga para ele.

Quero por a gentileza à frente da pressa. Dizem que a pressa é inimiga da perfeição. Pode ser que ela seja mais inimiga da gentileza. Talvez, na correria do dia-a-dia, tenhamos estado apressados demais para ser gentis.

Mas hoje – pelo menos hoje – quero inverter isso. Quero que passem à minha frente. Quem quiser que se apresse. Quero ceder minha vez no restaurante lotado. “Senhora, por ficar com essa mesa. Chame sua família. Esperarei a próxima”. Posso até almoçar em um fast-food, mas o ritmo hoje haverá de ser slow-food.

Porque é apenas isso que quero: um dia sem pressa.

E, pensando bem, talvez não seja muito difícil realizar esse desejo hoje. É domingo. Não tenho nenhum compromisso marcado. A única razão para ter pressa seria o hábito já adquirido de andar apressado. Seria a pressa um hábito assim tão difícil de vencer? Não sei. É preciso tentar para descobrir.

Sei que bem mais complicado seria tentar isso amanhã, com todos os afazeres que a segunda-feira traz consigo.

Mas… Por que não tentar? De repente, pode valer a pena.

Pois bem. Está feito o desafio. Tentarei ter um dia sem pressa hoje. Conseguindo ou não, amanhã tentarei de novo.


Mundo Cordel
MICROCONTOS

MICROCONTOS

Sim, é verdade. Eu, que já tive receio de publicar meus contos na Internet, por acreditar que escrevia textos longos demais, ando experimentando postar microcontos no Twitter (siga-me em @MarcosMairton).

Para mim, é realmente um desafio contar uma história em 140 caracteres, sendo alguns para o título e a hashtag #MICROCONTO.

Hoje, incentivado pelo colunista fubânico FERNANDO PORTELA, começo a trazer algumas dessas experiências para esta coluna.

O primeiro microconto que postei fala exatamente desse pessoal que atravessa a noite rolando a timeline da rede social de mensagens curtas. Ficou assim:

#MICROCONTO
SOLIDÃO
Seguiu. Curtiu. Retuitou.
Tuitou.
Ninguém seguiu de volta, nem curtiu, nem retuitou.
Esperou o sono, mas nem ele veio.


Mundo Cordel
ASCENDER E ACENDER

100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS_CAPA

Quem conhece o livro 100 DÚVIDAS DE PORTUGUÊS, em cordel, que escrevi em parceria com Geraldo Amancio, sabe que mostramos ali várias palavras de sonoridade parecida, que têm escrita e significados distintos. Por exemplo:

INFLIGIR e INFRINGIR

Como parece esse par.
INFLIGIR é impor castigo,
Pegar pena e aplicar.
Enquanto isso, INFRINGIR
Com certeza é descumprir,
Transgredir, desrespeitar.

INCIPIENTE, com C,

É todo principiante.
INSIPIENTE, com S,
Do primeiro está distante.
Este último INSIPIENTE
Significa imprudente,
Insensato e ignorante.

Hoje, acordei com uma estrofe na cabeça, que poderia ter entrado no livro, mas terá que ficar para uma possível reedição, revisada e ampliada:

ASCENDER e ACENDER

Têm pronúncia similar.
Mas, na forma de escrever,
Vão se diferenciar,
E é preciso distinguir:
Com “sc” é subir,
Com “c” a luz vai brilhar.


Mundo Cordel
UMA VALOROSA OPINIÃO SOBRE A MAIORIDADE PENAL

Abro excepcionalmente o espaço da minha coluna para compartilhar texto do colega AGAPITO MACHADO, Juiz Federal no Ceará.

Mestre Agapito, como o trato no dia-a-dia de trabalho, é o juiz federal mais antigo da 5ª Região, que abrange os Estados do PI, CE, RN, PB, PE, AL e SE. Já podia ser Desembargador no Tribunal Regional Federal da 5ª Região desde o ano passado, promovido por antiguidade, mas por duas vezes recusou a promoção. Professor de Direito Penal e Processo Penal, com várias obras escritas nessas áreas, é um magistrado admirado e respeitado por colegas de trabalho e por alunos.

Não é à toa que o chamo de Mestre, pois se trata de alguém com quem muito já aprendi e continuo aprendendo, mesmo quando discordamos. No caso desse artigo, publicado no Jornal Diário do Nordeste deste domingo, 3 de maio, concordo com seus pontos de vista.

Segue o texto.

* * *

IDADE PENAL INFERIOR A 18 ANOS?

Discute-se, no meio jurídico, a redução da idade penal de 18 para 16 anos, em razão da PEC nº 171, que tramita no Congresso Nacional. Aqueles que são contra dizem que Governo e sociedade não cuidam dos menores; sendo menos de 1% os crimes por eles cometidos, conforme estatísticas “oficiais”; baixando para 16 anos a idade, depois se pretenderia para 14, 12, 10 e, por fim, que se trata de cláusula pétrea, imexível.

Os que são favoráveis afirmam que, em face do avanço tecnológico permitindo a fácil informação nesse mundo globalizado, a partir dos 16 anos de idade o adolescente já tem capacidade de casar, ter filhos, possuir renda própria, trabalhar, votar, dirigir veículos etc.

Com efeito, é o caso de se indagar: porque também à semelhança do rigor dos crimes gravíssimos, não possa o menor ficar internado além de três anos, eis que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao completar 21 anos de idade ganhará a liberdade, e em seguida, cometerá verdadeiros crimes gravíssimos já como maior de 18 anos e daí voltará como adulto para os presídios?.

Somos contra prisão/segregação mesmo para os maiores de 18 anos, nos crimes de mínimo e médio potencial ofensivo, porque os presídios são depósitos de presos ociosos que não são obrigados a trabalhar e não recuperam ninguém.

Todavia, concordamos com a prisão/segregação efetiva para os maiores de 18 anos, mas apenas nos casos de crimes gravíssimos, de verdadeiros animais indomáveis, porque o rigor para eles está determinado na nossa própria Constituição (art.5º XLIII e XLIV – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem; constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático).

Historicamente, no Brasil, a maioridade já foi abaixo de 18 anos: o Código Penal de 1890 (de 9 a 14 anos, o juiz examinava se o garoto agira com discernimento); O Código de 1927 trazia três limites de idade: com 14 anos o infrator era inimputável; de 14 até 16 anos ainda era inimputável, mas se instaurava processo para apurar o fato, com possibilidade de cerceamento de liberdade e, entre 16 e 18 anos de idade, o menor poderia ser considerado responsável, sofrendo pena.

A lei federal 6.69l/79 (antigo Código de Menores) juntamente com o atual Código Penal de l940 e a Constituição de 1988, consideraram a maioridade a partir do 1º minuto do dia em que o menor completa 18 anos.

Vejamos em outros Países, com qual idade existe a responsabilidade penal: com 7 anos (na Austrália, Egito, Kuwait, Suíça, Trindade e Tobago); 8 (Líbia); 9 (Iraque); 10 (Inglaterra e Malásia); 12 (Equador, Israel e Líbano); 13 (Espanha); 14 (Armênia, Áustria, China, Alemanha, Itália, Japão, Haiti e Coréia do Sul); 15 (Dinamarca, Finlândia, Noruega; Índia, Egito, Síria, Honduras, Guatemala, Paraguai, Líbano); 16 (Argentina, Chile, Cuba); 17 (Polônia).

Bem se vê, a criminalidade/prisão é um problema de política criminal de cada País, inclusive, as nações de primeiro mundo, onde há grandes juristas e médicos que sabem avaliar a personalidade dos delinquentes.

O que tem gerado uma sensação de impunidade quanto aos menores delinquentes é o fato de um menor 18 anos de idade cometer ato infracional gravíssimo (matar perversamente alguém, estuprar uma criança levando-a à morte, assaltar matando pessoas etc.) e o que de mais grave lhe ocorrerá será ficar internado (na prática, preso) no máximo por três anos e imediatamente liberado ao completar 21 anos de idade.

Sempre defendemos que não é necessário baixar de 18 para 16 anos a idade penal, bastando uma simples alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente, mera Lei Ordinária, para aumentar o prazo de internação de três para uns oito ou nove anos e, com isso, um menor de 18 anos condenado por ato infracional gravíssimo, possa ficar enclausurado e assim fora da sociedade, como verdadeiro animal, até seus 25 a 30 anos de idade, eis que ele já fica por até três após os 18 anos de idade, tese que vi agora também sustentada por Luiz Flávio Gomes, em recente publicação para quem “o nosso problema, portanto, reside na falta de certeza do castigo.

Essa seria a bandeira correta a ser levantada, fazendo-se um ajuste no ECA para, nos casos de menores assassinos, aumentar o tempo de internação, de três para seis ou oito anos (como acontece em vários países europeus).

Para além desse ajuste legal, a solução da criminalidade exige educação de qualidade em período integral, para todos, prevenção e certeza do castigo previsto na lei. Nada dessas coisas certas fazemos no Brasil.

Teimamos em fazer o errado. Por isso que é insanidade esperar resultados diferentes. Com 150 milhões de analfabetos funcionais ainda vamos demorar muito para alcançar a consciência crítica…”.

Agapito Machado
Juiz federal e professor


Mundo Cordel
AOS CAMPEÕES

Conforme o calendário esportivo do ano, estão definidos os campeões estaduais do futebol brasileiro. Muitos gols, muita festa, muita alegria para torcedores que há anos não viam o seu time ser campeão. E para outros que acumularam anos seguidos de vitórias.

Aqui no Ceará, uma das finais mais emocionantes entre alvinegros e tricolores, com um 2×2 definido nos acréscimos. Melhor para o Fortaleza, que se sagrou campeão estadual, interrompendo uma sequência de quatro anos vencidos pelo Ceará. Ao meu Vozão, restou comemorar o título de Campeão da Copa Nordeste, conquistado em cima do Bahia, na quarta-feira.

Mas, valeu a disputa. Os jogadores de ambos os times foram guerreiros, dignos de nossa admiração e aplauso!

De se lamentar, apenas a conduta de torcedores mal comportados e violentos após o jogo. Não aprenderam – ou esqueceram – a diferença entre adversários e inimigos, talvez insuflados por promotores do esporte, que insistem em estimular uma besteira chamada “rivalidade”, para aumentar o interesse do público.

Invasão do Castelão

A “rivalidade” é insana. No momento em que escrevo, chegam inúmeras mensagens em meus grupos de WhatsApp trocando provocações. Pessoas amigas, que normalmente se tratam com carinho, de repente passam a se tratar com desdém e arrogância. É gozação, eu sei, faz parte da brincadeira, mas fica fácil imaginar o que pode acontecer entre desconhecidos na rua, ainda mais se estiverem em grupo.

Brincadeiras à parte, continuo a ver a tal “rivalidade” sendo estimulada ao longo dos anos, umas vezes às claras, outras vezes de forma dissimulada, intercalada entre pedidos de paz nos estádios. E a violência vem crescendo junto.

Mas hoje, com tantos campeões a comemorar seus títulos, prefiro lhes dar os parabéns e sonhar. Sonhar com o dia em que vencedores e vencidos possam se cumprimentar com respeito, e que as notícias das festas dos campeões do futebol brasileiro não tragam junto manchetes sobre agressões e assassinatos.

Para isso, repito o que já disse outras vezes: é preciso propagar a tolerância; aliás, mais que a tolerância, a compreensão de que as diferenças não devem excluir, mas completar. A realidade não é completa sem a diversidade.

Que os campeões de hoje comemorem, mas reconheçam em seus adversários colaboradores imprescindíveis à sua conquista! É o que desejo. Uma utopia talvez, mas sonhar também faz parte da realidade.

Parabéns, campeões!

Gols de Fortaleza 2 x 2 Ceará

Glos de Ceará 2 x 1 Bahia


Mundo Cordel
EXCESSO DE ASSUNTO

Foi um piscar de olhos, um momento de descuido apenas. Quando fui ver, tinha passado um mês sem publicar nada na minha coluna no Jornal da Besta Fubana. É bem verdade que o Editor não fica me cobrando o envio de novos textos, mas isso acaba sendo pior, porque não sei se ele age assim por generosidade ou porque meus textos não estão fazendo falta.

Para não correr o risco de ouvir uma verdade inconveniente, não me darei ao trabalho de perguntar. Ao contrário, trarei aqui mesmo para a coluna, para compartilhar com meus leitores, a minha angústia por passar alguns dias sem escrever.

Porque, se, para alguns, ter que escrever uma simples carta é motivo de tensão, para mim, é o passar dos dias sem pôr no papel as coisas que passam pela minha mente que incomoda. E a cada dia que passa, mais pensamentos e sentimentos se acumulam e se misturam de tal forma, que começo a apresentar sintomas de irritação, impaciência e até mau humor.

Mas, se é assim – perguntaria o leitor – qual seria a razão de um período de duas, três semanas sem um conto, uma cronicazinha simples ou uma estrofe de sete versos?

Não sei responder. Cada vez que esse fenômeno acontece parece ter causas diferentes. Posso garantir apenas que nunca é por falta de assunto.

Desta vez, aliás, receio que a causa até possa ter sido assunto demais. Nas últimas semanas, li tantas notícias e comentários sobre redução da maioridade penal, Lavajato, impeachment, terceirização, escolha de ministros do STF, e tantas outras coisas, que talvez tenha ficado meio bloqueado.

Pensei em escrever sobre cada um desses temas, mas sempre parava para ler um novo artigo, uma opinião, e acabava não criando nada. Também pensei em trazer algum conto bem desconectado de tudo isso, mas, encontrando todos os dias pessoas com tantas preocupações do mundo real, a ficção também ficou travada.

Bem, acabou a moleza! Talvez eu ainda venha a expor minhas considerações sobre esses assuntos citados, talvez não. O que me importa agora é que acabo de romper esse bloqueio chato que me acometeu nas últimas semanas. Sinto novamente as ideias fluírem da minha mente, transformando-se nesses sinais que nós, humanos, aprendemos a desenhar para nos comunicar.

Palavras, frases, parágrafos! É bom sentir que continuam a se formar a partir dos meus toques no teclado do computador.

E, quer saber? Tenho certeza que, como eu, muita gente tem ficado travada pelo bombardeio de informações sobre esses assuntos do momento.

Então, se não escrevo hoje detalhadamente sobre nenhum deles, pelo menos darei aqui uma ideia do que penso sobre cada um. Quem sabe isso não me servirá de estímulo para os retomar depois?

Dito isto, vamos lá:

Redução da maioridade penal – Sou a favor. Não acho que vá reduzir a criminalidade, nem impedir que adolescentes sigam o caminho do crime. Também não acho que vá ter grande impacto em nossa população carcerária. Apenas entendo que, nos dias de hoje, um jovem de 16 anos tem plenas condições de responder pelos seus atos.

Lavajato – Espero que tenha sérias consequências negativas para muita gente importante, e positivas para o país, mas não acredito que elas ocorram no prazo que a maioria das pessoas gostaria.

Impeachment – Considero mais fácil de montar um fundamento jurídico a partir das pedaladas fiscais que das investigações da Lavajato.

Terceirização – Parece-me um processo irreversível, mas, receio que os trabalhadores saiam perdendo. Em trinta e cinco anos no serviço público, sempre vi os funcionários terceirizados em situação jurídica bem mais frágil que a dos concursados.

Escolha dos ministros do STF – Ótimo que esse assunto entre na pauta de discussão das pessoas. Não imagino que juízes, principalmente dos tribunais superiores, sejam pessoas ideologicamente neutras, mas o processo de escolha, como é feito hoje, expõe as instituições a influências e especulações que as enfraquecem.

Acho que, por hoje, era isso. Boa semana!


Mundo Cordel
SOBRE AMORES E SEMENTES

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Amores mal resolvidos
Nunca morrem totalmente,
Ficam só adormecidos
Dentro da alma da gente.

O seu sono se parece
Com o sono da semente,
Que, guardada, permanece
Em seu estado latente,

Mas basta cobrir de terra
E regar suavemente
Que a longa noite se encerra
E ela acorda novamente.


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