Mundo Cordel
JOELHO DE GALINHA

Quando o Glauber chegou acompanhado da Joana ao churrasco do Antero, os amigos pensaram que ela seria apenas mais uma namorada de fim de semana. Afinal, ninguém mais tinha esperança que ele ainda viesse a pensar em casamento. Aos quarenta e um anos, fugia de relacionamentos sérios e prolongados. Casar, então…

– Nem pensar, meu amigo! Gosto da minha vida de lobo solitário.

Só que, com a Joana, foi diferente. Não era a moça mais bonita que já tinha aparecido na companhia do Glauber, mas tinha uma simpatia que agradava a todos. Logo fez amizade com as esposas de alguns amigos dele, que passaram a apoiá-la e torcer por ela.

– Glauber, tá lembrado do meu aniversário sábado, né? – intimou, certa vez, o Geraldo. – Agora, tem o seguinte: a Lenira pediu que tu leve a Joana.

Lenira era a mulher do Geraldo. Uma das principais apoiadoras da Joana. Um pedido dela tinha peso dois, no mínimo. E, nesse caso, não era nenhum sacrifício atendê-la. Tanto que seis meses já haviam se passado sem que o Glauber trocasse de namorada.

Um dia, ele abriu o jogo para o Geraldo:

– Geraldo, eu tô começando a levar a sério essa ideia de casar com a Joana. Esse meu relacionamento com ela é mesmo diferente dos outros que eu tive.

Geraldo gostou da conversa e incentivou o amigo. Falou do lado bom de compartilhar alegrias e tristezas com uma companheira, de uma vida mais estável, de filhos, família e tudo mais que lembrou de dizer.

O Glauber acabou dando o resto do serviço:

– Pois é. Mas eu quero fazer tudo do jeito tradicional. Domingo vou almoçar com os pais dela, aí a gente marca a data pra oficializar o noivado.

E assim foi. No domingo seguinte, não se teve notícia do Glauber. Todo mundo sabia que ele estava dedicado à família da noiva. Ninguém queria atrapalhar.

Mas, veio a segunda-feira, a terça, a quarta, e nada de o Glauber comentar sobre o almoço com ninguém. No grupo de WhatsApp, nenhuma palavra. Alguns amigos telefonaram perguntando, mas ele foi monossilábico nas respostas: “Normal”, “Tudo bem”, “Tranquilo”. E mudava de assunto.

O mistério só seria esclarecido na quinta-feira, quando o Glauber chamou o Geraldo para tomar um chope. Parecia ansioso para desabafar. A primeira rodada nem havia sido servida e já entrava no assunto:

– Desisti do noivado. E do casamento também, é claro.

– Que é isso, cara? O que houve?

– O almoço. Tomei a decisão na hora do almoço.

– Tô besta. Foi a comida? – perguntou o Geraldo, tentando sorrir, mas espantado com a novidade.

– Foi.

– Sério?

– Sério, mas deixa eu explicar.

O garçom chegou com o chope. O Glauber bebeu de uma vez quase metade da caneca. Respirou fundo e retomou a conversa:

– Quando eu cheguei lá, a Joana disse que ela mesma tinha feito o almoço. Galinha ao molho pardo. Me animei todo. Tu sabe que eu gosto de galinha à cabidela. Na hora de servir, a mãe dela perguntou: “Qual o seu pedaço preferido?”. Respondi que a coxa.

– Até aí, normal. Porque tu sempre quer a coxa…

– Sim, mas aí é que tem o detalhe. Espera, que essa parte é importante – tomou outro gole de chope e prosseguiu. – A Dona Odília serviu a coxa da galinha pra mim. Mas o osso tava quebrado…

– Como assim?

– O osso da coxa, o fêmur, tava quebrado. Quer dizer, não era só quebrado. Era quebrado e faltando a parte que tem menos carne. Faltou o joelho da galinha. Pronto. Foi isso.

Fez-se uma pausa na conversa. Geraldo conhecia o Glauber há muitos anos. Sabia que ele gostava de galinha cozida, ainda mais ao molho pardo. Mesmo assim estava completamente surpreso. Como a falta do joelho da galinha poderia ter dissolvido aquele namoro tão promissor? Não precisou perguntar. Após mais um gole, o Glauber prosseguiu na narrativa.

– O problema, Geraldo, é que sou doido por joelho de galinha. Toda vez que eu peço a coxa, eu quero mesmo é o joelho. Sempre foi assim. Aí, quando eu vi aquele pedaço incompleto da galinha, perguntei, sem pensar: “Cadê o joelho?”. E foi aí e a Dona Odília me salvou de um casamento fracassado.

– Não consigo imaginar o que ela possa ter dito – comentou o Geraldo em total incredulidade.

– Ela disse: “Ah, meu filho, quando é a Joana que prepara a galinha, não tem perigo de vir joelho pra mesa! Ela come os dois lá mesmo na cozinha!”. Entendeu agora?

– Mais ou menos…

– Então, deixa eu explicar melhor. Geraldo, tu já imaginou eu casar com a Joana, e nunca comer os joelhos da galinha que ela prepara? E, mesmo quando a gente comesse a galinha num restaurante, eu ia ter que deixar os joelhos pra ela! Pra comer um joelho de galinha, eu teria que almoçar sozinho. Já pensou eu indo almoçar na maior clandestinidade, só pra poder comer um joelho de galinha?

– Mas, Glauber – atalhou o Geraldo. – Não daria pra negociar isso? Ficar cada um com um joelho talvez…

– Não! Não dá! Porque do jeito que a Joana é, se ela soubesse que eu tenho essa preferência, ela ia querer deixar os joelhos da galinha sempre pra mim. Talvez eu aceitasse, mas ia comer aqueles joelhos no maior remorso. Porque eu ia saber que ela também queria, mas estava deixando pra mim. Aí, depois de algum tempo, quando a gente tivesse alguma briga mais séria, arriscava ela jogar na minha cara: “Faz dez anos que não como um joelho de galinha por sua causa! E é isso que recebo de você!”. Não, amigo, pra mim, não dá.

Geraldo continuou achando esquisito, mas percebeu que a coisa era séria. Nem tentou convencer o amigo a desistir da ideia. Pôs à disposição o apoio que pudesse dar, embora não achasse uma boa ideia contar aquela história para Lenira. Nem para mais ninguém.

Glauber disse que não seria preciso. Que iria vazar uma foto sua com outra mulher no Facebook. Daria um jeito de Joana ficar sabendo. Depois confessaria a falsa traição. Assim, terminaria tudo de uma vez, sem chance de volta.

E, como dito, foi feito. Joana sofreu muito, mas acabou por se recuperar. Dois anos depois, casou com outro rapaz.

No dia do casamento, o Glauber tomou um porre homérico, ao som da música Garçom, do Reginaldo Rossi.


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A HOMOSSEXUALIDADE, A DECISÃO E A NOTÍCIA

Chegou ao meu conhecimento uma manchete que, de imediato, me chamou a atenção: “Juiz Federal do DF libera tratamento de homossexualidade como doença”.

A notícia não me pareceu verossímil, diante do senso comum, hoje predominante, de que cada um deve exercer sua sexualidade com liberdade, sem sofrer discriminação ou preconceito.

Não obstante, as manifestações de protesto contra a decisão logo proliferaram nas redes sociais.

Fui ao texto da notícia. Ali, vi que a questão é sobre uma Resolução do Conselho Federal de Psicologia que regula a conduta dos psicólogos no tratamento de questões envolvendo orientação sexual. Um trecho da decisão, transcrito na notícia, permitiu-me concluir que o juiz responsável pelo caso concedeu liminar, determinando que o Conselho Federal de Psicologia não interprete a Resolução 001/1990 “de modo a impedir os psicólogos de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade científica da matéria, sem qualquer censura ou licença prévia por parte do C.F.P.”.

Noutras palavras, conforme o trecho transcrito na notícia, a decisão judicial não anula, revoga ou suspende os efeitos da Resolução do Conselho Federal de Psicologia. Apenas determina que sua interpretação não deve impedir os psicólogos de prestarem atendimento, dentro da sua área de atuação, com plena liberdade científica da matéria.

Para que os não versados no Direito melhor compreendam o ocorrido, é preciso observar que toda decisão judicial tem três partes: relatório, fundamentação e dispositivo. Na primeira, o juiz expõe os fatos sobre os quais irá decidir; na segunda, explica as razões pelas quais decide; na terceira, diz o que foi decidido.

Curiosamente, no dispositivo da decisão à qual me refiro agora, transcrito naquela notícia, não estava escrita uma vez sequer a palavra “homossexualidade”. Nem a palavra “doença”.

Reli o texto jornalístico ainda duas vezes, mas não consegui identificar como o autor da matéria chegara à conclusão de que teria havido liberação para se tratar a homossexualidade como doença.

Não obstante, consultei outros veículos informativos, e lá estavam as manchetes: (clique para ler)

Justiça permite tratar homossexualidade como doença

Justiça permite que psicólogos tratem homossexualidade como doença

Diante da curiosa situação, fiz o que costumo fazer nesses casos: fui em busca do texto original. Talvez na fundamentação estivessem expostas as razões que demonstrariam eventual postura contrária à adotada pela Organização Mundial de Saúde, desde 1990, como faziam questão de destacar os jornais.

Encontrei a íntegra da decisão no site jurídico JOTA. Na fundamentação da decisão, vi que o Juiz Federal que a proferiu, após realizar audiência com os interessados, fixou as seguintes premissas para desenvolver suas razões de decidir:

1ª) que, segundo a Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade constitui uma variação natural da sexualidade humana, não podendo ser, portanto, considerada como condição patológica;

2ª) que, não sendo a homosexualidade uma doença, mas uma orientação sexual, o projeto de lei conhecido como “Cura Gay” merece críticas, e propaga ideia que não é a defendida pelos autores da ação;

3ª) que, sendo a Psicologia uma ciência da saúde, constitui dever do psicólogo aprimorar-se profissionalmente, envidando esforços na promoção da qualidade de vida das pessoas e das coletividades, baseando seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, buscando eliminar quaisquer formas de discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, nos termos de seu Código de Ética;

4ª) que a Constituição Brasileira elege, entre seus princípios, a promoção do bem estar de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, bem como a liberdade de expressão da atividade intelectual científica, dentre outras liberdades.

Foi a partir dessas premissas que o juiz concluiu que, ao proibir aos psicólogos “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas”, a Resolução do CFP poderia, caso fosse mal interpretada, levar à conclusão de que os profissionais da Psicologia estariam proibidos de “realizar qualquer estudo ou atendimento relacionados à orientação ou reorientação sexual”. E assim, acrescentou:

“Digo isso porque a Constituição, por meio dos já citados princípios constitucionais, garante a liberdade científica bem como a plena realização da dignidade da pessoa humana, inclusive sob o aspecto de sua sexualidade, valores esses que não podem ser desrespeitados por um ato normativo infraconstitucional, no caso, uma resolução editada pelo C.F.P.”

Por razões éticas, não faço juízo de valor sobre decisões judiciais, seja para concordar com elas, seja para delas discordar. Aqui também não o farei. Logo, não emitirei opinião sobre a decisão estar certa ou errada, ou sobre ser justa ou injusta.

Posso, no entanto, dizer, sem entrar nesse mérito, que continuo sem encontrar, em nenhuma parte da referida decisão, qualquer sinal de autorização para o tratamento da homossexualidade como se fora doença, ou aprovação para a chamada “cura gay”.

Ao contrário disso, a decisão parte da premissa de que a homossexualidade não é doença, mas uma orientação sexual, e que a Psicologia deve abordar o assunto sopesando a dignidade da pessoa humana com a liberdade científica. Conclui, assim, que a resolução do CFP não pode ser interpretada de forma a inviabilizar “a investigação de aspecto importantíssimo da psicologia, qual seja, a sexualidade humana”.

Noutras palavras – e segundo meu entendimento – a conclusão à qual chegou o juiz em tal decisão, é a de que, se a pessoa, independentemente de sua orientação sexual, busca atendimento psicológico, em razão de sua sexualidade, o profissional da psicologia deve estar livre para prestar o atendimento. E deve fazê-lo sem adotar condutas preconceituosas ou discriminatórias, respeitando a dignidade da pessoa interessada, e lançando mão do conhecimento científico do qual dispõe.

Se tal conclusão é a mais acertada, adequada ou justa, não compete a mim dizer. Mas, quanto mais leio a decisão, mais me convenço de que as notícias que têm sido publicadas sobre ela – a exemplo das aqui citadas – estão amplamente equivocadas.


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A PALMEIRA DA PRAÇA

– As palmeiras, rapaz, não têm ofício!
E esta palmeira, aqui, não me apraz…
É preciso cortá-la, pois, rapaz,
Para que eu faça aqui o meu comício!

– Senhor, por que tão grande desperdício?!
Por que não deixas a palmeira em paz?
Por um comício, então, serás capaz
De à inocente impor tal sacrifício?

Ajoelhou-se, e disse, em rogativa:
«Poupe a palmeira, para que eu viva!».
Mas, viu seu tronco a tombar na praça.

Silenciada a criminosa serra,
Caía, morto, o jovem sobre a terra,
A completar a cena da desgraça.

(*) Paródia ao soneto “A Árvore da Serra”, de Augusto dos Anjos, inspirada na crônica “Minha terra tinha palmeiras“, de José Paulo Cavalcanti.


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AINDA O TEMPO

A verdade é que só depois de completar cinquenta anos de idade percebi que não tinha mais quarenta. Naquela época – quando fiz quarenta anos – escrevi a canção “40 voltas em torno do Sol”. Uma teimosia contra o tempo. Ou talvez vontade de viver fora dos seus limites. Quem sabe?

Não lembro de ter tido problemas com os limites impostos pelo espaço. Embora “Longe é um lugar que não existe”, de Richard Bach, tenha sido um livro importante na minha adolescência. Mas, o tempo… Esse sempre tive dificuldade para entender. E aceitar.

O tempo não existe – escrevi em outra canção, intitulada “A vida é agora” – só existe o presente, e o presente é agora.

Continuo pensando assim. Mas, devo admitir que o número 50 levou-me a perceber algumas diferenças em meu próprio comportamento.

Vi-me aceitando com mais serenidade certos contratempos, que, antes pareciam grandes transtornos. Evitando competições, mesmo quando o troféu é algo importante, como uma vaga para o carro no estacionamento do shopping center.

Sinto-me mais paciente para ouvir as opiniões alheias, e até a me deixar convencer por elas. Mas cada vez menos disposto a convencer alguém a seguir uma opinião minha. Se me indagam sobre como agir em determinada situação, respondo. Mas já advirto que a resposta só serve a mim. E não me responsabilizo por quem a ela aderir.

Começo a achar que a cada dia farão mais sentido os versos de Raul Seixas, em “Loteria Babilônia”:

Tudo o que tinha que ser chorado já foi chorado.
Você já cumpriu os doze trabalhos.
Reescreveu livros dos séculos passados,
Assinou duplicatas, Inventou baralhos…

Sim, os meus leitores alçados à casa dos sessenta, setenta, oitenta, dirão que ainda sou muito jovem para esse tipo de sentimento. E certamente terão razão.

Mas, não estou falando de velhice, e sim de serenidade. Talvez por ter chegado aos cinquenta anos cumprindo com sobra aquela parte do filho, do livro e da árvore. Serenidade que só se abala diante de uma espécie de urgência para viver. Da noção, cada vez mais clara, de que cada momento deve ser vivido da melhor maneira possível.

Ainda ontem, eu caminhava pela calçada de um prédio, quando ouvi vozes alteradas vindo da janela de um dos apartamentos. Era um casal que discutia. “Quanto desperdício de felicidade!”, pensei.

Aliás, a palavra “desperdício” me lembra outra canção: “Il tempo che verrà”, gravada pela italiana Rosalba Pippa, mais conhecida como Arisa: “Non so se c’è una fine, né quanto ne rimane. Quello che voglio è provare a non buttarlo via”. Traduzi livremente esses versos para “Não sei se tem um fim, nem quanto resta a mim. O que eu quero é apenas não desperdiçar”.

De fato. Desde que fiz cinquenta anos, fiquei mais preocupado em não desperdiçar tempo. Se é para gastá-lo, que seja com ocupações agradáveis, como escrever esta crônica.

Enquanto escrevia, nem percebi o relógio ultrapassar a hora zero. E, assim, já nem posso mais dizer que tenho cinquenta anos. Agora são cinquenta e um.

Seguem os vídeos da canção da Arisa e da versão que fiz dela para o português.

Arisa, “Il tempo che verrá”:

Minha versão, “O tempo que virá”:


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O MESTRE DO CEARÊS (OU CEARENSÊS, TANTO FAZ O CÃO COMO A MÃE DELE)

Tarcísio Mattos participando de programa de rádio

Quem cantou a pedra foi o leitor fubânico Cícero Tavares.

Eu tinha postado aqui a tradução de mais um trecho do Evangelho para o idioma cearês, quando o xará do Meu Padim comentou: “Existe um mestre dos mestres no cearensês que não pode passar despercebido de qualquer estudioso do assunto. O mestre dos mestres TARCÍSIO MATTOS, o Zé Dantas, o Humberto Teixeira das letras das músicas do mestre FALCÃO”. E completou: Não sendo o caso de lhe tomar muito o tempo, gostaria que o nobre magistrado nos escrevesse sobre esse gênio da cultura popular cearensês, TARCÍSIO MATTOS.

Está coberto de razão o Cícero Tavares. Pense num cabra que conhece do riscado em matéria de cultura cearense! É só dar uma bilada na coluna dele no Jornal O POVO, para ver o desmantelo: AOS VIVOS 

Nascido na minha querida Fortaleza, Tarcísio tornou-se um sexagenário no último dia primeiro de julho.

Consta que começou criar paródias aos doze anos de idade. E já naquele tempo se metia a cantor. Chegou a cantar em inglês numa banda de fundo de quintal. Cantou até em um clube chique de Fortaleza, o Náutico, em 1974: “One day in your life”, do finado Michael Jackson.

Também compôs músicas sérias, até 1976. Sozinho, ou em parceria com Davi Bezerra de Menezes.

Em 1977, ingressou no curso de Medicina, na Universidade Federal do Ceará. Foi aí que criou gosto pelas coisas da cultura cearense. As falas, os costumes, os traços da personalidade cearense, tudo isso foi sendo descoberto por Tarcísio Mattos a partir de viagens ao sertão, levado por colegas da Faculdade que iam passar férias em Tauá, Quixeramobim, Iguatu, Juazeiro, Sobral.

Mas o curso de medicina era uma coisa complicada para Tarcísio. Não podia ver sangue. Ficava com gastura, coisado, desmastruiado… Terminou abrindo dos paus. Nos idos de 1980, largou a Medicina e foi fazer Comunicação Social.

Nesse tempo, eu ainda não conhecia Tarcísio Mattos. Ouviria falar do seu nome pela primeira vez em 1988, quando aconteceu o Festival da Canção Bancária, promovido pelo BNB Clube de Fortaleza, do qual eu, na qualidade de funcionário do Banco do Nordeste, era sócio.

Tarcísio (que à época era funcionário do Banco do Brasil) botou quente naquele festival. Classificou duas músicas entre as finalistas: “Eugênia da noite”, em parceria com o poeta e artista plástico Val; e “Canto Bregoriano No 2”, em parceria com Falcão.

E a plateia vibrava com o refrão do Canto Bregoriano. Aprendi para nunca mais esquecer:

Aporrinharei o senhor (aporrinharei)
Perturbarei o senhor (perturbarei, perturbarei)
Emputarei o senhor (ôôôô)
Enquanto o senhor não me pagar!

Falcão interpreta Canto Bregoriano n. 2, ao vivo:

Até hoje, logo se forma um coro quando a canção é interpretada em algum barzinho de Fortaleza.

Desde então, foram inúmeras as parcerias entre Tarcísio Mattos e Falcão. Parceria que permanece até hoje, como em várias faixas do CD “Sucessão de sucessos que se sucedem sucessivamente sem cessar”, e no programa Leruaite, apresentado por Falcão e produzido por Tarcísio Mattos.

Além disso, Tarcísio Mattos já trabalhou com Tom Cavalcante, Bené Barbosa (O Papudim), a atriz Karla Karenina e mais uma ruma de gente boa. Criou e produziu o programa do Mução entre os anos de 1997 e 2007, um incrível sucesso do rádio brasileiro.

Há vinte anos escrevendo crônicas de humor para o Jornal O POVO, Tarcísio Mattos também participa semanalmente do quadro A LÍNGUA DO POVO, na rádio OPOVO/CBN, onde trata do dialeto cearensês. (Clique aqui para ouvir)

Só por essa palhinha aí já se tem uma ideia da vastidão do vocabulário cearensês de Tarcísio Mattos. Muita coisa está sendo reunida em seu livro, que está a caminho: “O Grande Dicionário da Fala Cearense (entre verbetes e expressões, 12 mil coisas)”.

Essa figura incrível, que eu já admirava desde os anos 1980, só tive oportunidade de conhecer pessoalmente em 2013, quando fui entrevistado pelo Falcão, no programa Leruaite.

Nascia ali uma amizade dessas de guardar do lado esquerdo do peito. A gente se encontra pouco, mas, depois que inventaram Internet, ninguém se avexa com distância. Como diria o próprio Tarcísio, o mundo ficou do tamanho dum caroço de pitomba. Ou dum canapum!

Aliás, acabou não dando tempo de a gente se encontrar e fazer uma foto juntos, para postar no topo desse texto. Mas, na hora que der certo eu posto a foto e escrevo mais alguma coisa. O anexo seguirá em separado.

Por aqui encerro, senão a conversa vai ficar mais comprida que um dia de fome.

Hora de pegar o beco!


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MEU SERVIÇO MILITAR

Aconteceu em uma manhã do ano de 1994. Esperávamos há algumas horas, quando um militar nos chamou e entramos – um grupo de uns trinta homens – em um salão. Ali, outro militar nos orientou sobre o que fazer:

– Todo mundo tira a roupa, põe no chão, e fica de cueca. De costas pra a parede!… Você aí! De camisa azul! DE COSTAS pra a parede! De frente pra mim!

A acústica do local que era boa, mas ele parecia empenhado em fazer com que todos o ouvissem bem.

Obedeci imediatamente, chegando a ficar sem camisa. Mas, antes que eu tirasse o segundo sapato, o mesmo militar postou-se à minha frente e perguntou:

– Qual a tua idade?

– Vinte e oito anos – respondi com calma, mas em volume um pouco acima da minha média, provavelmente influenciado pelo tom de voz dele.

– E só tá se apresentando agora?

– Só agora. Eu tive uns problemas…

Mas, na verdade, não foram problemas que me levaram àquela situação. Foi desleixo mesmo.

Dez anos antes, em 1984, o cumprimento dos deveres cívicos não constava da lista das minhas preocupações principais. Estava mais interessado em tocar rock e juntar dinheiro para comprar uma moto.

Mesmo assim, atendi ao chamado das Forças Armadas, transmitido pela TV – “Você, que completa dezoito anos…” – e compareci à Junta Militar, para me alistar no Exército.

Mas ficou nisso. Alistei-me e nunca mais pensei no assunto. Trabalhava, estudava e me divertia. A banda de rock nunca fez sucesso, mas consegui comprar a moto. Entrei na faculdade e toquei a vida adiante. Se chegou algum comunicado chamando para me apresentar ao Exército, ignorei.

Até que a conta da minha desídia chegou. Formado em Direito, e aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, recebi a lista de documentos necessários para a inscrição como advogado. Dentre eles, um me chamou especial atenção: carteira de reservista.

Obviamente que eu não a tinha. E, não a tendo, não poderia exercer a advocacia regularmente.

Achei em uma gaveta o já amarelado Certificado de Alistamento, e levei-o à Junta Militar. Paguei uma multa irrisória e marquei dia, local e horário para nova apresentação. Desta vez, premido pelas circunstâncias, cumpri o que fora previsto..

Só não pude narrar esses fatos para o militar que havia perguntado minha idade. Antes que eu concluísse a parte do “eu tive uns problemas…”, ele já me dava as instruções sobre o que eu deveria fazer a partir daquele momento:

– Vá pra aquele canto ali! Chegando lá, pode se vestir! – falou um pouco mais baixo desta vez.

Obediente, fui para o lado do salão onde havia um banco de madeira. Vesti a camisa e sentei-me para calçar o sapato.

Enquanto calçava, outros rapazes foram chegando e se acomodando por ali. Uns de estatura muito baixa, outros altos demais; uns muito magros, outros ainda muito gordos. Havia dois, bem magros, com o rosto marcado pela acne, que usavam os chamados óculos de fundo de garrafa. Pareciam gêmeos.

E meu serviço militar acabou ali, em uma espécie de pelotão dos fora do padrão. Ao lado dos inadequados para garantir a defesa da Pátria e proteger nossas fronteiras.

Não que eu me queixe disso. Não me queixo.

Primeiro, porque considero um tanto óbvio que a seleção dos que irão servir às forças armadas obedeça a um padrão físico. O corpo há de suportar o treinamento militar e a eventual participação em um combate real. A mente também, mas essa é mais difícil de avaliar.

Segundo, porque, mesmo que houvesse me apresentado na época devida, seria rejeitado, em função das sequelas de poliomielite que me limitam os movimentos. Sempre soube, portanto, que, se quisesse servir à Pátria, teria que fazer isso em outras instâncias, e não nas forças armadas. De certa forma, é o que venho fazendo no Poder Judiciário.

Mas, as memórias do momento em que fui considerado inapto ficaram guardadas. Foi o que me moveu a escrevê-las.

Ao sair, cada um de nós recebeu um sanduíche de presunto e queijo, e um copo de suco de caju. Gostei dessa parte. Estávamos ali desde as sete da manhã, e já era quase meio dia. Ficou claro que, apesar da maneira firme como nos era dirigida a palavra, o Exército Brasileiro preocupava-se com o nosso bem estar.

Dias depois, compareci a uma cerimônia chamada Juramento à Bandeira. Recebi meu Certificado de Dispensa de Incorporação, e pude, finalmente, fazer minha inscrição na OAB.


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AOS MEUS AMIGOS DIREITISTAS (E AOS ESQUERDISTAS TAMBÉM)

Apesar de já haver escrito em outras oportunidades sobre a dificuldade que tenho em entender os conceitos de direita e esquerda, é claro que percebo de que lado estão aqueles amigos que se permitem expor seus pensamentos políticos.

Hoje, escrevo pensando naqueles que demonstram ser “de direita”. Ou pelo menos contrários à esquerda, o “que no es lo mismo, pero es igual”, como diria o compositor cubano Silvio Rodríguez (que, aliás, parece ser de esquerda).

Mas, não vale a pena descer a maiores detalhes a esse respeito. Mesmo porque, assim como a expressão “esquerda” abriga inúmeras correntes de pensamento, a “direita” também tem suas subdivisões.

Tomando, então, meus amigos direitistas naquilo que têm em comum, vejo que sofrem com o fato de muitos jovens, notadamente nas universidades, mostrarem-se adeptos do esquerdismo.

Protestando nas redes sociais através de seus smartphones, esses jovens se apresentam aos direitistas como personificação da incoerência. “Criticam o capitalismo usando um equipamento que só o capitalismo foi capaz de criar”, resmungam os direitistas.

Manifestações contra o racismo, o sexismo e a criminalização da maconha são vistas pelos meus amigos direitistas como atos de gente alienada ou mal intencionada. Alguns dizem que é coisa de vagabundo mesmo.

Não que meus amigos direitistas sejam a favor do racismo ou do sexismo (da criminalização da maconha são a favor, sim). Embora haja direitistas racistas e sexistas, os que conheço mais de perto apenas entendem que os esquerdistas manipulam essas bandeiras para propagar sua ideologia contrária à propriedade privada e à livre iniciativa. Bandeiras essas que, no seu entender, conduzem à pobreza generalizada.

Longe de mim dizer quem está certo ou errado nesse embate.

O que me leva a escrever aos meus amigos direitistas é a impressão de que eles não entendem que, em um mundo dominado pelo capitalismo, com desigualdades sociais extremas, tanto entre os países como dentro de cada país, o discurso da esquerda “vende” bem.

Nesse mundo desigual – “ó, mundo tão desigual!”, diria Gilberto Gil – como não se deixar seduzir por protestos pela retirada de riqueza dos que a têm em excesso, para distribuir com os que não têm nada? Como não se aliar àqueles que prometem tratar melhor os oprimidos, aí incluídos não apenas os pobres, mas os negros, as mulheres, os homossexuais?

E meus amigos direitistas querem contrapor a esse discurso o da meritocracia? Será que a ideia de que os mais capacitados devem ocupar as melhores posições na sociedade não traz em si a mensagem de que se deve fortalecer o mais forte e subjugar o mais fraco? E, como falar em meritocracia – replicam os esquerdistas – se uns já nascem tendo tudo e outros apenas o instinto de sobrevivência?

Enquanto meus amigos da esquerda estão prontos a acolher refugiados, os da direita estão preocupados que entre eles venham terroristas infiltrados. Os da esquerda criticam a desumanização do sistema prisional; os da direita querem o direito de andar armados, para se defender daqueles a quem chamam de bandidos.

Haveria mais a dizer, mas esses poucos exemplos parecem-me suficientes para mostrar aos meus amigos da direita as razões pelas quais tantos jovens sentem-se atraídos pelas ideias da esquerda.

É que o discurso dos esquerdistas é altruísta, até heróico. Excelente combinação com o idealismo, comum aos jovens, sempre dispostos a mudar o mundo!

Houve um tempo em que a ideia da tomada do poder pelas armas também tinha esse glamour. A luta propriamente dita dos oprimidos, para destituir os seus opressores do poder, já encantou mais gente. Hoje, não se fala disso abertamente. Só em círculos mais fechados, de esquerdistas mais ortodoxos. Hoje, atrai mais adeptos falar de democracia.

No entanto, justamente agora, que praticamente todos – de direita ou de esquerda – querem democracia e liberdade, parte dos meus amigos direitistas fala em intervenção militar. E isso em um país que tem um histórico recente de ditadura militar. Prisões sem mandado, tortura e outras mazelas do totalitarismo.

Penso nessas coisas, e parecem-me óbvias as razões de os meus amigos direitistas terem dificuldade para convencer mais pessoas a também se reconhecerem direitistas. Apesar do fracasso econômico dos países que trilharam o caminho do socialismo. Esses mesmos países que, por muito tempo, serviram de inspiração para meus queridos esquerdistas.

Aliás, muitos dos meus amigos que hoje se apresentam como sendo “de esquerda”, afirmavam-se socialistas em um passado recente. Foi preciso que o Muro de Berlim caísse, e a União Soviética se dissolvesse, para passarem a se autoidentificar como “de esquerda”. Por isso a expressão “de esquerda” soa para mim como uma espécie de eufemismo.

E assim, meus amigos antes socialistas, hoje esquerdistas, já não falam em estatização dos meios de produção. Mas ficam nervosos quando ouvem a palavra “privatização”. O termo “empresário” é comumente usado por eles como sinônimo de “explorador dos trabalhadores”. Ultimamente, a palavra “terceirização” tem sido motivo de pavor.

Na verdade, meus amigos esquerdistas têm evitado falar do fracasso do socialismo. Preferem dizer que são progressistas. E, assim, qualquer proposta de mudança legislativa que os desagrade recebe a etiqueta de “retrocesso”. Embora eles mesmos muitas vezes me deem a impressão de ver o mundo como se ainda estivéssemos em meados do Século XIX.

Mas não posso negar a capacidade dos meus amigos esquerdistas de desqualificar tudo o que contraria os seus interesses. E ainda dar a impressão de que não são interesses, mas ideais.

Então, penso nos meus amigos direitistas – tão favoráveis ao livre comércio – e acho que deveriam refletir sobre a sua incapacidade de vender as próprias ideias.

Se querem conquistar corações e mentes, especialmente dos jovens, talvez devessem mostrar como pretendem construir uma sociedade na qual cada um possa enriquecer pelos seus próprios méritos, mas onde a distância entre o mais rico e o mais pobre não seja tão grande. Não, não creio que sirvam discursos sobre crescimento econômico e receitas de sucesso das grandes potências mundiais. Isso é muito distante das pessoas.

Talvez vocês, queridos direitistas, precisem chegar mais perto da vida das pessoas. E explicar como o progresso de cada indivíduo melhorará a vida de toda a sociedade. Porque, se pensassem o contrário vocês seriam esquerdistas.

Talvez vocês precisem dizer como serão dadas ao indivíduo que nasce pobre as condições necessárias à conquista de uma vida digna, com acesso às facilidades que os ricos têm. Observem que usei o verbo “conquistar”, porque distribuir essas benesses de graça é coisa de esquerdista.

Talvez vocês precisem explicar que a direita também quer a inclusão de negros, mulheres e homossexuais nos postos de comando de empresas e entes governamentais. Que os direitistas não são preconceituosos, e querem que cada indivíduo seja reconhecido e respeitado socialmente, independentemente dessas diferenças.

Vocês estão prontos para isso?

Se estão, que tal encontrar uma maneira de mostrar às pessoas – especialmente as mais jovens – que suas ideias levam a um caminho melhor para a humanidade, e não apenas para alguns privilegiados?

Essas são perguntas para as quais não tenho respostas. Mas não apenas isso. São também reflexões que entendo devam ser feitas pelos meus amigos direitistas (e pelos esquerdistas), nesse confronto de ideias que parece não ter fim.


Mundo Cordel
O EVANGELHO EM CEARÊS: JESUS ACALMA UMA TEMPESTADE (MATEUS, 8;23-27)

Jesus entrou numa jangada e os discípulos não contaram pipoca. Entraram também. Um dos apóstolos ainda cochichou um colega:

– Diabeisso, macho? Que foi que o ômi inventou agora?

– Sei não, macho. Sei que eu tô é dento!

Jesus armou logo uma tipoia lá atrás e deitou-se. Com todo mundo embarcado, o jangadeiro arrochou o nó pra dentro dágua.

Só que, mais na frente, deu o maior bode. Caiu um toró daqueles, de matar sapo afogado. E aí o mar ficou valente. As ondas lavando por cima da jangada, direto. De vez em quando vinha uma e assungava a jangada, que a bicha parecia que ia se desmantelar toda. Depois embiocava de novo num buraco de mar. Os discípulos se aperrearam:

– Vixe!

– Valei-me meu padim!

– Agora pronto! (1)

Enquanto isso, Jesus não dava nem as horas. Tirando o maior ronco, lá na rede.

Até que um dos discípulos, abriu dos pau e foi até Jesus, pedindo penico:

– Meste! Meste! Ó a boca quente que nós tamo, meste! A gente em tempo de se lascar aqui e o sinhô fica é dormino?

Jesus queimou ruim:

– Vocês são um magote de mamanaégua mesmo! Não aguentam uma lebrina!

Aí, olhou no rumo do céu e passou o maior carão:

– Vamo parar com esse chafurdo aí, que eu inda quero dormir até umas horas! Quer chover, vá chover lá na caxaprego!

E a chuva e a ventania se aquietaram que foi uma beleza. A nuvenzona preta, que estava em cima deles botou o rabo entre as pernas, chega saiu murcha.
Jesus foi dormir de novo e os discípulos ficaram naquele zum-zum-zum baixinho:

– Égua, macho, o ômi botô foi quente…

– O chefe aí é invocado mermo… Não abre nem prum trem carregado de pólvora…

– Com um doido em cima, fumano…

* * *

(1) Já escrevi no JBF, sobre a expressão “Agora pronto!”. Veja clicando aqui.


Mundo Cordel
DIAGÓSTICO PRECOCE

– Mas, senhor J*, há algum motivo especial para o senhor ter vindo aqui? – perguntou o psiquiatra ao paciente, após as perguntas de praxe em uma primeira consulta. – O senhor está sentindo alguma coisa diferente? Algo estranho?…

– Doutor, eu vim aqui, porque eu acho que um médico psiquiatra talvez seja a pessoa que possa me ajudar.

– E o senhor acha isso… por quê?

– Porque eu tenho um problema… Que, na verdade, é um poder. Mas é um poder que pode me trazer problemas, porque eu estou perdendo o controle sobre esse poder…

– E que poder é esse? – interessou-se o médico.

– É um poder que eu tenho, de matar uma pessoa só com o olhar. Basta eu ter uma raiva da pessoa. Se eu olhar com raiva para a pessoa, ela morre na hora.

– E o que é que faz o senhor acreditar que tem esse poder? Alguém já morreu assim?

– Desde pequeno eu sei que tenho esse poder. Só que eu controlo. Por isso nunca matei ninguém. Mas agora eu sinto que estou perdendo esse controle. Ele é que está me dominando. Aí eu tenho medo de ter uma raiva de uma pessoa, e matar a pessoa sem querer. Eu não quero matar ninguém, doutor. Mas, do jeito que eu estou sentindo esse poder tomar conta de mim, posso acabar matando alguém. Sem querer…

– Bem, senhor J*, nós precisamos investigar isso. Uma das linhas que nós podemos seguir, é a possibilidade de o senhor ter um transtorno psicótico. Talvez um transtorno psicótico crônico, já que o senhor relata que desde criança tem o mesmo tipo de… digamos… alucinação… Então, pode ser que agora o senhor esteja tendo uma crise, mais aguda, por isso sua preocupação…

– Como assim, alucinação, doutor?

– Bem… talvez esteja mais para delírio… precisamos averiguar… Mas, é mais ou menos tratar como se fosse realidade uma coisa que só existe na sua imaginação. Aí a pessoa acredita naquilo, e vive como aquilo fosse realidade…

– Então, quer dizer que esse meu poder de matar as pessoas pode ser só imaginação da minha cabeça?

– Pode… É bem provável que seja isso – e caiu morto.


Mundo Cordel
SETE ESTROFES SOBRE O SETE

Era uma sexta-feira, quando o jornalista Paulo Cunha me ligou perguntando se eu conhecia um cordel sobre o número sete.

– Conheço não, Paulo. Pra que é?

– É que eu vou fazer a apresentação do livro de uma amiga, e acho que ficaria bom se eu encaixasse no discurso uns versos sobre o número sete.

– Se é só isso, aguarde aí que eu faço umas estrofes e lhe mando.

Conforme prometido, fiz algumas estrofes em setilhas e enviei no dia seguinte pelo WhatsApp. Minutos depois, Paulo respondeu:

– Você percebeu que fez cinco estrofes? Por que não fez logo sete?

Ele tinha razão. Já que o assunto era o número sete, por que não fazer SETE ESTROFES, CADA ESTROFE COM SETE LINHAS, CADA LINHA COM SETE SÍLABAS?

E ficou assim:

A redondilha maior
Tem SETE linhas rimadas,
Cada qual com SETE sílabas,
Em estrofes agrupadas.
O SETE está na poesia,
Como a luz está no dia,
E o frio nas madrugadas.

Nas lendas, o SETE surge
Em insólitas versões:
Dragões de SETE cabeças,
Reinos com SETE dragões,
Ou, numa história mais leve,
Ao fugir, Branca de Neve
Encontrou os SETE anões.

Se alguém jurar SETE vezes,
É melhor desconfiar,
Pois quem SETE vezes jura,
Nas SETE pode falhar.
Há erros que são banais,
Mas, pecados capitais,
São SETE, a nos condenar.

O gato tem SETE vidas
O arco-íris SETE cores
É sempre um belo presente,
Um buquê com SETE flores.
Quem viaja os SETE mares
Conhece muitos lugares,
E vive muitos amores.

SETE são as maravilhas
SETE as notas musicais
SETE os dias da semana
E as virtudes divinais.
SETE também são os céus
Destacam-se os SETE véus
Entre as danças sensuais.

SETE reinos se uniram
E formaram a Inglaterra,
O SETE nos acompanha
Até se a vida se encerra,
E o finado, no caixão,
É posto embaixo do chão,
A SETE palmos de terra.

O porquê de tantos SETES
A ciência não responde.
Isso tudo começou
Não se sabe quando ou onde.
Estas SETE estrofes dão
Uma pequena noção
Do que o SETE nos esconde.


Mundo Cordel
ELEIÇÕES DIRETAS E EMENDA CONSTITUCIONAL

Após a divulgação de gravação de conversa entre o Presidente da República e um empresário investigado que acabara de se tornar colaborador premiado, o impeachment voltou a ser um assunto em pauta. E, junto com o assunto impeachment, vieram os pedidos de eleições diretas, ou, no bordão das manifestações de rua: DIRETAS JÁ.

O problema para a realização de eleições diretas agora é que a Constituição Federal prevê, no § 1º do seu artigo 81, que vagando os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República “nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita trinta dias depois da última vaga, pelo Congresso Nacional”.

Diante de tal dispositivo constitucional, volta a ganhar a força proposta de emenda constitucional já em trâmite no Congresso Nacional, para que tal eleição passe a ser direta.

Antes, porém, de sair às ruas empunhando a bandeira das DIRETAS JÁ, penso que o cidadão deva lembrar que a Constituição é o instrumento jurídico que impõe limites ao poder político. E há de se ter cautela ao permitir que o poder político altere as normas que o controlam, especialmente quando essas alterações são propostas em momentos de instabilidade política.

No caso da proposta de emenda que tornaria direta a eleição hoje prevista para ser indireta, não se pode dizer que a Constituição impeça tal alteração. Não impede.

Ocorre que, alterar um dispositivo constitucional, quando se está diante da possibilidade real de aplicá-lo, gera, sem dúvida, mais instabilidade política. Ao contrário disso, a rigorosa aplicação da Constituição nesses momentos de crise favorece um valor muito caro às sociedades civilizadas: a segurança jurídica.

Porque ao buscar na Constituição a saída para a crise, tem-se um mínimo de previsibilidade. Com isso, as instituições se fortalecem. Ao revés, se, diante da crise, altera-se a Constituição, é como se Constituição não houvesse, e passa a prevalecer o (des)equilíbrio de forças do momento. Sem previsibilidade, sem segurança.

No momento, estão em andamento processos jurídico-políticos que podem levar a mudanças graves na distribuição de poder político, tais como: uma ação no Tribunal Superior Eleitoral, na iminência de ser julgada, que pode cassar o presidente da República; vários pedidos de impeachment protocolados, com potencial para serem aprovados; as investigações em curso, com a abertura de inquérito para que o presidente da República seja investigado, podendo inclusive provocar sua renúncia.

Pode ser que, apesar desses processos terem se iniciado, nenhum deles leve à vacância da Presidência da República. Mas, é certo que, caso a vacância aconteça, a Constituição já prevê o modo pelo qual será definida a próxima pessoa a exercer a presidência.

Emendar a Constituição nesse ponto, às pressas, com os processos acima referidos já em andamento, significa abrir mão da segurança jurídica, ampliando-se a instabilidade política que o país atravessa.

Nem entro aqui na discussão se a composição atual do Congresso Nacional teria legitimidade para tratar do assunto, pelo fato de haver vários parlamentares sob suspeita. Mesmo porque, seja para alterar a Constituição, seja para eleger, em eleição indireta, o Presidente da República, os parlamentares serão os mesmos.

Concluo, assim, que, embora seja sempre atraente a ideia de que o povo decida pelo voto direto os destinos do país, mudar a Constituição agora, seria uma medida casuística, danosa para a segurança jurídica, e, por via de consequência, para a já abalada estabilidade política do país.


Mundo Cordel
TEORIAS CONSPIRATÓRIAS: A TEORIA DO PERSEGUIDO

Teorias da conspiração são sempre muito interessantes. Embora o termo seja utilizado para designar teses infundadas, muitas delas são tão bem engendradas que até lamentamos não serem verdadeiras.

Lembro de uma que fala de um governo do mundo, que controla todos os países, escolhe os políticos que serão eleitos e define o que cada um deles fará em seu governo. Outra diz que muitos habitantes do planeta Terra são, na verdade, seres extraterrestres, infiltrados por estas bandas, não se sabendo bem com qual finalidade.

Quanto mais especulativas, mais chamam a atenção.

Essa introdução, no entanto, é apenas um nariz de cera, preparatório de uma paródia que me proponho a apresentar, a partir de uma crônica que li recentemente neste blog(*), segundo a qual a teoria da conspiração mais recente, e uma das mais expandidas no Brasil, seria “a que atribui ao ex-presidente Lula o comando de uma organização criminosa destinada a saquear os cofres do estado brasileiro”.

De fato, trata-se de teoria relativamente recente, mas não a mais nova delas.

Nova mesmo é a teoria que ora batizo de Teoria do Perseguido, e da qual passo a tratar, já iniciando a paródia prometida linhas acima.

A Teoria do Perseguido consiste na crença em que diversas instituições públicas brasileiras, como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário, partindo do convencimento de que o ex-presidente Lula é culpado de toda a corrupção levantada no país, nos anos recentes, passaram a trabalhar para provar isso a qualquer custo.

A Teoria não deixa claro o que levou a essa união de forças contra Lula. Uns dizem que fora o fato de Lula levar os pobres para viajar de avião, outros, que foi porque Lula matriculava jovens de baixa renda em universidades. Coisas assim. Mas não fica explicado como isso teria despertado a fúria das instituições de persecução criminal do país. De toda sorte, se é nisso que os seguidores da Teoria do Perseguido acreditam, não vale a pena discutir.

O que interessa, segundo os adeptos da Teoria do Perseguido, é que essas instituições iniciaram a perseguição a Lula, contrariando as evidências primárias de que o ex-presidente vem de uma longa jornada política de grandes realizações sem jamais ter-se levantado contra ele qualquer suspeita ou acusação.

Aparentemente, os teóricos da perseguição não lembram um episódio recente da história do Brasil chamado de Escândalo do Mensalão.

Revelado ainda no primeiro mandato de Lula, o esquema acarretou a condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, de pessoas muito próximas ao ex-presidente, inclusive José Dirceu, que fora seu Ministro Chefe da Casa Civil. Se os teóricos do perseguido lembrassem desse fato, talvez evitassem dizer que jamais se levantaram contra Lula qualquer suspeita ou acusação. Ou talvez lembrem, mas continuam dizendo. Quem sabe?

Prossigamos, então, para observar que, segundo a Teoria do Perseguido, a obstinação em condenar Lula não compreende apenas as instituições públicas já citadas, mas se estende à imprensa e a uma parte da população.

A razão do conluio entre as empresas de jornalismo que compõem a chamada grande mídia também não é esclarecida pela teoria. Se bem que seus seguidores queixam-se da mídia há tanto tempo que podem simplesmente pressupor que a mídia persegue Lula. Ponto. Nada precisa ser demonstrado.

Ainda segundo a Teoria do Perseguido, os Procuradores da República que compõem a chamada Operação Lavajato, por não encontrarem provas, mas terem convicção, submeteriam pessoas a todo tipo de tortura psicológica, para que elas firmem pactos de delações premiadas que incriminem o perseguido.

Não importa que os delatores estejam acompanhados de seus advogados em todas as reuniões, nem tampouco que essas reuniões sejam gravadas em vídeo. Não importa nem mesmo que esses vídeos sejam todos publicados na Internet, e que neles delatores apareçam sorrindo descontraidamente, enquanto revelam seus segredos aos procuradores. Nada disso importa para os seguidores da Teoria do Perseguido.

O fato de haverem sido delatados inúmeros políticos, dos mais diversos partidos, bem poderia alertar os adeptos da Teoria do Perseguido para a possibilidade de estarem equivocados. Afinal, se o objetivo das operações de combate à corrupção é perseguir o Lula, por que razão os delatados teriam cores tão diversificadas?

Aliás, os teóricos da perseguição, curiosamente, parecem acreditar nos delatores, quando eles delatam pessoas ligadas a outros partidos, que não o partido do perseguido. Aí sim! É tudo verdade, e o delatado deve ser condenado sumariamente. Mas se a delação se aproximar minimamente do perseguido, é perseguição.

Mas, os adeptos da Teoria do Perseguido acreditam mesmo, com todas as suas forças, é que o Juiz Federal Sérgio Moro está imbuído de um único propósito na vida: destruir o perseguido e o partido político por ele fundado.

Também quanto a este ponto, a Teoria não apresenta razões convincentes. Blogs defensores da Teoria falam de ligações com partidos políticos e governos estrangeiros, mas não conseguem ultrapassar o plano das especulações. Estar-se-ia diante de um caso de flagrante parcialidade, mas, quando a defesa do perseguido entrou com recursos, tentando afastar o Juiz do caso, o tribunal não se convenceu. Manteve-o à frente do processo.

Essa seria uma boa oportunidade para os teóricos da perseguição esclarecerem se acreditam que também os tribunais estariam mancomunados com o juiz perseguidor da primeira instância. Mas, não se dão a esse trabalho. Continuam acusando o Juiz, não importando se suas decisões são confirmadas pelas instâncias superiores.

Talvez seja assim porque, para os seguidores da Teoria do Perseguido, não importa que doleiros, executivos e empreiteiras tenham devolvido montanhas de dinheiro, inclusive de contas no exterior. Não importa nem mesmo que existam investigações em 26 países, envolvendo as mesmas empreiteiras, o mesmo método de praticar a corrupção e pessoas que fizeram parte do governo brasileiro no mesmo período.

Porque os seguidores da Teoria do Perseguido partem de um pressuposto que é quase um axioma: policiais federais, procuradores da República, membros do Poder Judiciário, servidores públicos, executivos de estatais, executivos de empreiteiras, jornalistas, ex-aliados, marqueteiros, todos se uniram em torno do objetivo de prender o Lula.

Se há alguma força superior que tem atuado na coordenação dessas pessoas e entidades, é algo que a Teoria do Perseguido também não explica. Seus adeptos limitam-se a fazer referências abstratas, dizendo que são “eles”, a “direita” ou as “forças conservadoras”.

Mas, teorias conspiratórias são assim mesmo. Especular é mais importante que desenvolver um raciocínio lógico.

Os que seguem a Teoria do Perseguido talvez estejam certos de que sequer existiu o Mensalão. E que Eduardo Cunha – hoje preso – foi o único responsável pelo impeachment de Dilma.

Talvez acreditem até que há um governo do mundo, cuja cúpula se reúne em uma caverna oculta no inóspito Deserto de Gobi.

O que essas pessoas parecem não conseguir acreditar é que Lula seja um ser humano, e, como tal, pode ter cometido atos reprováveis, antiéticos e até ilícitos. Inclusive os crimes dos quais é acusado.

E, como qualquer pessoa, pode ser investigado, processado e até condenado, se for o caso.

(*) A crônica à qual me refiro foi a publicada pelo colunista Goiano Braga Horta, sob o título LULA E A TERRA PLANA. Agradeço a Goiano a criativa ideia de tratar desse assunto do ponto de vista das teorias conspiratórias. Tudo o que fiz foi aproveitar sua brilhante ideia e desenvolver aqui um ponto de vista alternativo ao apresentado por ele, sem qualquer intenção de depreciar seus argumentos.


Mundo Cordel
PELO MENOS UM MICROCONTO

Os dias em Brasília têm sido intensos. A ponto de prejudicar a regularidade que tento manter nesta coluna. Devo ter umas oito crônicas começadas, que simplesmente não consegui terminar, porque tive que interromper e não consegui continuar depois.

Mas, uma hora essa tempestade há de passar. E poderei dar a atenção devida às minhas aventuras literárias.

Enquanto isso, antes que meus leitores me esqueçam, envio hoje à coluna pelo menos um microconto.

* * *

QUEDA

Tropeçou nas próprias mentiras.
Tentou se apoiar em desculpas esfarrapadas.
Terminou caindo no ridículo.


Mundo Cordel
AGORA PRONTO!

Quem já teve nas mãos o disco SUCESSÃO DE SUCESSOS QUE SE SUCEDEM SUCESSIVAMENTE SEM CESSAR, do multifacetado artista Falcão – também conhecido como Brega Falcão – pôde ver que há ali uma canção cujo título é o mesmo que encima este texto: AGORA PRONTO!.

Para muitos, tal título deve ter passado despercebido, ou soado como um simples jogo de palavras. Até porque a letra da canção brinca com eventos passados – mais ou menos importantes – para chegar a uma conclusão que não parece ter muita conexão com as premissas:

Agora que o Brasil foi descoberto
Agora que Roberto enviuvou
Agora que homem já pisou na lua
Agora que mamãe engravidou

Agora que Getúlio fez essa besteira
Agora que Pelé já fez mil gols
Agora que seu Raimundo pegou papeira
Agora que açude de Orós arrombou.

Agora tem catuaba
Agora tem penicilina
Agora qualquer um já pode sair
E frequentar as meninas.

Agora tem computador
Agora já tem vaselina
Agora que eu não quero mais
Te vejo em qualquer esquina

Mas quem é versado no idioma cearês sabe que não se está a tratar de um jogo de palavras. Para nós, “agora pronto!” é expressão dotada de conteúdo próprio, sendo largamente utilizada no cotidiano, tanto pelas pessoas menos instruídas como por letrados e graduados.

Não surpreende que a canção seja uma parceria de Falcão com Tarcísio Matos, outro gênio da arte de colher as expressões e os costumes do povo cearense para transformar em humor. Foi isso que fizeram mais uma vez: pegaram o “agora pronto!” na rua e puseram na canção. Aliás, o “agora pronto!” não está em nenhum de seus versos. Mostra-se no título para se ocultar nas entrelinhas. Talvez para ser percebido só por iniciados.

Mas o que significa “agora pronto!”?

Depende. Como tantas expressões do idioma cearês, “agora pronto!” tem vários significados, que podem ser agrupados em dois sentidos: um positivo e outro negativo. Um é mais próximo do significado que a junção das palavras “agora” e “pronto” tem em português. O outro é bem diferente.

Vamos lá.

No sentido positivo – e mais próximo da língua portuguesa – “agora pronto!” significa simplesmente que um obstáculo foi superado e, agora pronto, pode-se seguir adiante. Mesmo que o problema não tenha sido resolvido ainda, basta que se encontre a solução para se dizer:

– Agora pronto! É só você segurar aí que eu aperto o parafuso aqui e fica tudo certo.

Agora pronto! Podemos passar ao sentido negativo, o qual, aliás, é até mais interessante.

Começando com um exemplo, imagine-se um ônibus lotado de cearenses voltando do trabalho. Todo mundo se espremendo naquele lugar quente e abafado. O cheiro de suor acumulado de todo o dia empesteando o ambiente. O ônibus pára no semáforo fechado e o motor apaga. Ouve-se um coro dentro do coletivo:

– Agora pronto!

Obviamente que a entonação muda em relação ao primeiro sentido. Lá, o tom seria de otimismo. Aqui, a voz aqui exprime uma mistura de surpresa e irritação. “Agora pronto!” significaria, neste caso, algo como “isso não podia ter acontecido agora!” ou “que lástima!”. Com a diferença que “agora pronto!” é lamentação, como essas outras expressões citadas, mas também é protesto. Um italiano talvez dissesse “porca miséria!”.

Mas, em alguns casos, “agora pronto!” também pode expressar uma indignação temperada com ironia.

A cena se passa em frente a uma padaria. Um homem havia deixado o carro estacionado ali. Quando se prepara para sair, percebe que outro veículo o está impedindo. Ao se aproximar, percebe que o motorista do outro carro está ao volante. Pela conversa, percebe-se que são dois cearenses:

– Sai do mei aí, macho. Preu poder pegar o beco!

– Péra aí, mah, que minha mulher já tá vindo ali com o pão.

– Agora pronto! Tua mulher vai comprar pão pra ti e eu tenho que ficar eguando aqui?

– Arriégua, mah… Tu já queimou ruim?

A partir daí os ânimos podem se alterar. Ou – o que é mais provável – o interlocutor encerrar a discussão, dizendo apenas, enquanto se afasta:

– Aí dento!

Antes de concluir, voltemos ao título da canção ora comentada, para destacar um último detalhe: “Agora pronto!” é a última faixa do CD. Isso certamente não se deu por acaso. Depois de gravar todas as faixas anteriores, só restava mesmo uma coisa a ser dita pelo artista: AGORA PRONTO!


Mundo Cordel
DEPOIS DA FOLIA

Com o final da folia
Que animou o carnaval.
O Brasil, a cada dia,
Volta ao ritmo normal.

Volta ao ritmo normal
Que também é animado,
Embora mais concentrado
Em Brasília, a capital.
A Polícia Federal
Voltando a ter atenção,
Já que nova operação
Qualquer hora é deflagrada.
De delação premiada
Pode haver divulgação.

Pode haver divulgação,
Ou pode haver vazamento,
Pois houve depoimento
Sobre a última eleição.
Falou-se de doação,
De caixa dois e propina,
Assim toda essa faxina,
Continua em andamento,
E é difícil, no momento,
Saber como isso termina.

Saber como isso termina,
É coisa para adivinho.
Segue o Brasil seu caminho,
Cumprindo essa triste sina,
Entre protesto e chacina,
Corrupção, baixaria.
E, nas ruas onde havia
Animados foliões,
Voltarão os arrastões,
Com o final da folia.

Com o final da folia
Que animou o carnaval.
O Brasil, a cada dia,
Volta ao ritmo normal.


Mundo Cordel
AMIZADE SEM INTERESSE

No dia 23 de fevereiro de 2017, fui almoçar em um restaurante self-service, naquele horário que parece que todo mundo resolve comer: entre 12:30 e 13:30.

Feita a pesagem da comida, fiquei com prato e talheres na mão, procurando sem sucesso uma mesa vaga. Foi então que notei a presença de um conhecido meu, ocupando sozinho uma mesa.

– Doutor Genário! Tudo bem? Posso me acomodar por aqui? Ou tá esperando alguém?

– Não, não… Senta aí – respondeu ele sem muito entusiasmo.

Achei compreensível a reação. Como alertei já no princípio, não era um amigo que estava ali, mas apenas um conhecido. Desses que a gente encontra eventualmente em solenidades e lançamentos de livros. Talvez quisesse almoçar sozinho mesmo, planejando o que faria à tarde ou olhando as mensagens no celular. Ou outra razão qualquer para não querer ninguém compartilhando sua mesa. Ainda mais alguém como eu, com quem não tinha intimidade, mas sua boa educação recomendaria dar alguma atenção protocolar.

Foi nesse clima educado, mas protocolar, que o almoço prosseguiu por alguns minutos. Até que meu celular tocou.

Nem costumo atender a ligações enquanto estou almoçando, mas vi que se tratava de um amigo de longa data, Alexandre Monteiro, advogado em Fortaleza, que há semanas não dava notícias. Desde que passei a trabalhar em Brasília, ele, em tom de gozação, passou a me chamar de Ministro. E eu, devolvendo a brincadeira, trato-o por Ministro também. Atendi:

– Ministro Alexandre! Onde é que você anda, amigo?

Alexandre respondeu como de costume. Que andava muito ocupado, com muitos processos, viagens, etc. Na verdade, o que importa aqui não é o que conversamos, mas a reação do conhecido que compartilhava comigo a mesa do restaurante.

A partir do momento em que atendi o telefone, o Dr. Genário passou a olhar para mim com particular interesse. Como se quisesse participar da conversa telefônica. Sem entender seu comportamento, continuei a ligação, mas observando sua linguagem corporal.

A certa altura da conversa, Alexandre convidou-me para o aniversário da sua filha, e eu, no tom formalesco que costumamos brincar, perguntei:

– E quando é a solenidade, Ministro?

Ao ouvir aquela pergunta, Dr. Genário abriu um sorriso, inclinou-se em minha direção e perguntou num sussurro:

– É o Ministro Alexandre de Moraes?

Revelava-se o motivo do súbito interesse do Dr. Genário pelo meu telefonema. Acreditava ele que o Ministro Alexandre de Moraes – aprovado pelo Senado Federal no dia anterior, para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal – acabara de ligar para mim. E, pelo andar da conversa, deveria estar me convidando para a posse.

Diante de tamanho interesse do Dr. Genário, faltou-me coragem para lhe causar algum tipo de frustração. No mesmo instante em que confirmava presença no aniversário para o qual acabara de ser convidado, acenei afirmativamente com a cabeça, e levantei o polegar, em sinal de positivo.

Admito que a partir daí passei a induzir deliberadamente o Dr. Genário a erro, desejando a Alexandre sucesso nos desafios, e lembrando-lhe de não permitir que o trabalho nos impeça de tomar umas cervejas juntos, de vez em quando.

Mas, também observei que, depois que encerrei a ligação, Dr. Genário ficou mais sorridente, conversando mais e comendo menos. Antes de ir embora, fez questão de trocarmos cartões de visita, embora eu lembrasse de já havermos feito isso em ocasião anterior.

No dia seguinte, às 10:45 da manhã, Dr. Genário enviou uma mensagem para meu celular: “Caro amigo, almoçarei hoje naquele mesmo restaurante de ontem. Caso você também vá, seu lugar na mesa está reservado”.

Respondi a mensagem, agradecendo a gentileza, mas fui almoçar em outro lugar.


Mundo Cordel
A BALANÇA E O ESPELHO

PRIMEIRO ATO

– Você é um mentiroso compulsivo – acusou a balança.

– Minto apenas para quem não quer ver a verdade – respondeu o espelho.

SEGUNDO ATO

Cansada das mentiras do espelho, a jovem decidiu levar mais a sério as duras advertências da balança. Em poucos meses emagreceu dez quilos.

TERCEIRO ATO

Depois de meses seguindo as orientações da balança, a esbelta jovem estava convencida de que o espelho não a poderia mais enganar:

– Espelho, espelho meu. Reconheça que estou mais bonita assim, magra.

– Bonita sim. Magra não – respondeu ele, secamente.

Em um canto do quarto a balança praguejava: ‘Vingativo!”

EPÍLOGO

Deitada na cama, a jovem definhava. A vida consumida pela anorexia.

– Você sabe que a culpa é sua – disse a balança ao espelho.

Mas ele nada respondeu. Apenas refletia um misto de remorso e prazer.


Mundo Cordel
POESIA JURÍDICA

No dia 14 de outubro de 2013, nosso editor postou aqui correspondência na qual o fubânico VICENTE ALENCAR RIBEIRO narrava a curiosa história de um certo Zé Maria de Dão, que havia furtado um poesia. Ao final, pedia a este poeta togado que julgasse o caso.

Demorei uns meses estudando o assunto. Somente no dia 22 de maio de 2014 postei nesta coluna a resposta.

Pois vejam o tamanho do alcance do Jornal da Besta Fubana. Passados mais de dois anos das postagens, o FURTO DA POESIA foi parar nas páginas de um revista especializada em assuntos jurídicos. No caso, a Revista Eletrônica Inovações em Direito Penal e Processual, editada pela Escola Superior da Magistratura do Estado do Pará.

Juntar Direito com Poesia é coisa que estamos sempre fazendo. Mas, ter o reconhecimento de uma publicação oficial é coisa que nos enche de orgulho.

Em celebração ao acontecimento, publico a seguir as duas partes de O FURTO DA POESIA, o primeira escrita por VICENTE ALENCAR RIBEIRO, e a segunda por mim.

Amigo Vicente, uma vez mais lhe parabenizo pela imensa criatividade ao criar O FURTO DA POESIA. E mais uma vez lhe agradeço por me ter permitido escrever a parte que me coube na obra.

O FURTO DA POESIA – PRIMEIRA PARTE – VICENTE ALENCAR RIBEIRO

Certo poeta um dia.
Procurou o delegado,
E com olhar mui sinistro,
Disse ter sido lesado.

E aquela autoridade,
Muito frio perguntou:
– O que fora que o ladrão,
– Do vate surrupiou?

O poeta respondeu,
Do fundo do coração:
– O marginal desalmado,
– Levou minha inspiração.

O delegado sorriu,
E de novo interrogou:
– Como é que algo abstrato,
– O tal larápio levou?

Ao que respondeu o vate,
Submerso em sentimento:
– Caro doutor não percebe,
– Minha dor, meu sofrimento?

– Ledo engano delegado,
– Permita-me autoridade,
– Muitas vezes o reencontro,
– Rouba de nós a saudade.

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Mundo Cordel
TROVAS DELATÓRIAS

Tem alguns dias que o assunto DELAÇÃO voltou a atrair o interesse da chamada opinião pública brasileira. Principalmente depois do inesperado falecimento do Ministro Teori Zavaski, do STF, toda hora se vê na TV alguém falando de uma tal superdelação, delação do fim do mundo, etc.

E não adianta nada constar na lei a expressão COLABORAÇÃO PREMIADA. Na boca do povo o instituto é mesmo o da DELAÇÃO. Já não se usa sequer o adjetivo PREMIADA. Não interessa. O que importa é saber quem delatou quem.

O certo é que, com a homologação das delações do pessoal da Odebrecht, feita pela Ministra Carmen Lúcia, cresceu a expectativa em relação a quem seriam, desta feita, os delatados. É que a Ministra homologou as delações, mas manteve o seu sigilo, frustrando a curiosidade de muitos.

Em relação a essa questão, do sigilo, é bom lembrar que a lei que (dentre outras coisas) regula as colaborações premiadas não obriga à retirada imediata do sigilo após a sua homologação. Ao invés disso, prevê que “o acordo de colaboração premiada deixa de ser sigiloso assim que recebida a denúncia” (art. 7, § 3º, Lei 12.850/2013).

Ou seja, se o juiz que homologa o acordo de colaboração entender que a retirada do sigilo pode prejudicar as investigações, o seu dever é manter o sigilo. Pelo menos até que os atos de investigação dependentes do sigilo sejam executados. Por outro lado, se não há risco de prejuízo para as investigações, o princípio da publicidade dos atos processuais recomenda que o sigilo seja encerrado.

Diante disso, a Ministra poderia levantar ou manter o sigilo das colaborações odebrechtianas, conforme o seu juízo a respeito dessas questões. Decidiu manter.

Por razões éticas e legais, evito criticar ou elogiar decisões judiciais. Mesmo, porém, que não fosse contido por tais freios, nada teria eu a dizer quanto ao mérito da decisão, pois não haveria como avaliar o caso prático à luz dos critérios que acabei de expor.

Assim, para finalizar, afasto-me dessas nuances jurídicas e deixo duas trovas dedicadas àqueles que estão ansiosos por ver o conteúdo de tais delações. Especialmente aos que acreditam mais em umas delações e menos em outras, dependendo de quem sejam o delatados:

Se você não acredita em delação,
Deve ter seu pensamento respeitado.
Peço apenas que não mude a opinião
Quando muda a facção do delatado.

E também, quem acredita em delação,
Não merece ser por isso criticado.
Só não deve perder a convicção,
Se surgir na lista um nome inesperado.


Mundo Cordel
PEIXINHO

– Mamãe, – disse o menino de oito anos – eu queria fazer algo bom para o povo da nossa cidade.

– Quer ser vereador, como seu pai?

– Isso é quando eu crescer. Mas, por enquanto, eu já posso ajudar no racionamento de água. Você deixa eu ir dormir sem tomar banho?


Mundo Cordel
AS PRISÕES BRASILEIRAS VOLTAM À PAUTA

O ano de 2017 começou com um tema bem conhecido dos brasileiros na pauta: as prisões. Mais especificamente, a violência que ocorre dentro delas.

Não que a situação seja melhor do lado de fora dos muros dos presídios. Só no Rio de Janeiro, foram mortos seis policiais nos primeiros cinco dias do ano. Os cidadãos comuns são assassinados às dezenas, todos os dias, nas ruas das principais cidades.

Mas foi a chacina em um presídio do Estado do Amazonas que tomou as manchetes nesta primeira semana de 2017, trazendo à baila caloroso debate sobre o sistema prisional.

Um sistema que, já se sabe, não pune, não ressocializa, não protege a sociedade. Os presídios tornaram-se um espaço cujo domínio é disputado por facções criminosas, que continuam desenvolvendo ali suas atividades ilícitas.

Não há aí nenhuma novidade. Em 2007, escrevi:

Traficantes poderosos
Também dão continuidade
À sua atividade,
Seus negócios criminosos.
Auxiliares ciosos
Vão cumprindo as missões
Que recebem dos chefões
Que estão dentro dos presídios
Sequestros e homicídios
São suas ocupações.

Desde então, quase dez anos se passaram, e a chacina em Manaus mostra que o problema continua o mesmo. Ou piorou. O Brasil falhou (dentre tantas coisas) no vigiar e no punir.

Agora, os homens e mulheres a quem está entregue o comando do país correm de um lado para outro, em busca de dar respostas aos que pagam os impostos. Prometerão alguma medida de urgência; anunciarão a aplicação de recursos nessa ou naquela iniciativa… E ninguém acredita que se vá além disso.

Logo estaremos em fevereiro, e as batalhas políticas pelas presidências das casas legislativas ocuparão o espaço dos noticiários. Os políticos dividirão a atenção entre essas batalhas e o pesadelo chamado Lavajato. Afinal, o caminho entre a saída do mandato eletivo e o ingresso no sistema prisional pode ser curto.

Seguimos assim, nesse país grande, rico em recursos naturais e com mão-de-obra disponível, inclusive qualificada, para explorar esses recursos. Favorecidos pela natureza, com amplos territórios cultiváveis e clima favorável, mas com problemas no que há de mais básico para qualquer forma organizada de sociedade: segurança, saúde, educação.

Com as prisões não é diferente. O tempo passa e os problemas se acumulam.

A par disso, não se pode deixar de prender. Nem de condenar. A superlotação dos presídios não pode ser justificativa para impunidade. Ainda mais em um país no qual muitos acreditam (talvez com razão) que o crime aqui compensa.

Vendo isso acontecer
Reflito sobre o problema:
Por que o nosso sistema,
De punir e de prender
Não consegue resolver
A questão da violência?
Será só incompetência
Dos governos da nação?
Ou existe outra razão
E nós não temos ciência?

Eu sei que essa questão
Envolve outros fatores
Que também são causadores
Do problema em discussão.
Desemprego, educação,
Ou melhor, a falta dela,
Abandono da favela
Ao poder dos traficantes,
São fatores importantes
Para por em nossa tela.

Embora reconhecendo que ações emergenciais – como construção de novos presídios e reforma dos existentes – são necessárias, continuo achando que a questão é bem mais ampla. Envolve o controle das fronteiras, por onde entram armas e drogas; a ação das polícias, tanto na prevenção como na investigação dos crimes; a atuação do Poder Judiciário, julgando os crimes rapidamente, para reduzir o número de presos provisórios; e a própria execução penal, que vai da aplicação de penas alternativas ao sistema prisional. Este não poderá ser considerado eficaz, enquanto organizações criminosas estiverem em funcionamento dentro de seus muros.

Esta semana postei no Twitter: “Temos um sistema prisional que degrada o indivíduo sem passar a noção de punição”. Noutras palavras: ao invés de ser afastado do crime, pelo Poder do Estado, o indivíduo preso passa a viver em condições degradantes, sob o império das organizações criminosas. Assim, nem se sente punido, nem vê razão para ser ressocializado.

Antes de concluir, uma palavra aos que acham que, enquanto presos continuarem matando-se entre si, o problema é deles. E nós, que estamos cá fora, nada temos com isso.

É um erro pensar assim. Não apenas por ser dever do Estado manter a ordem dentro dos presídios e proteger a vida dos custodiados. Afinal o Estado tem esse mesmo dever em relação aos que estão em liberdade, e não o vem cumprindo a contento.

Mas, é preciso considerar que as facções que se digladiam nas prisões são as mesmas que disputam o comando do crime do lado de fora. A violência que explode lá dentro repercute aqui fora. E pessoas que lá estão, praticando e sendo vítima de atos violentos, poderiam ter sido ensinadas a trabalhar honestamente aqui fora.

Esses, que hoje matam e morrem nos presídios, já o perdemos há alguns anos. Para o tráfico, para o crime, para a violência. Como falar de ressocialização de adultos, se não conseguimos socializar as crianças? Como esperar que presídios recuperem homens e mulheres condenados por seus crimes, se famílias e escolas não evitam que crianças continuem a se transformar em homens e mulheres que cometem crimes?

Ninguém há de duvidar que, hoje, outras crianças estão trocando os livros pelas armas; a escola pelo ponto de venda de drogas.

Não é uma questão de achar que essas pessoas são vítimas da sociedade, mas apenas de reconhecer que continua atual a célebre frase de Pitágoras: “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”.


Mundo Cordel
REENCONTRANDO O NATAL

Lembro de uma vez em que ganhei um presente do Papai Noel. Não um presente deixado secretamente em meu quarto, sob a minha cama, durante a noite de Natal. Recebi o presente diretamente das mãos do velho, em uma festa na empresa onde meu pai trabalhava. Com direito a pose para foto.

Muitos anos depois, na empresa onde eu trabalhava, também havia crianças tirando fotos com o Papai Noel. Nós, funcionários, arrecadávamos o dinheiro para que os filhos das pessoas que trabalhavam na limpeza não ficassem sem presentes de Natal.

Isso me fazia lembrar daquele tempo, quando eu era uma das crianças que recebiam presentes. Acho que então os presentes eram comprados pela própria empresa. Mas talvez a iniciativa fosse mesmo dos funcionários que ganhavam melhor.

De qualquer forma, tanto em um caso como no outro, havia certa nobreza no gesto de quem usava a figura do Papai Noel para dar a alegria do presente às crianças, sem atrair para si o mérito da generosidade.

Talvez esteja aí o elo entre o Natal sagrado, da celebração do nascimento de Jesus, e o Natal profano, da tradição de dar presentes. Um gesto inspirado nos magos (ditos reis) que levaram presentes para o menino nascido na estrebaria.

Como o Papai Noel entrou nessa história, no lugar dos magos, é coisa sobre a qual não faço ideia. Mas não deixa de ser uma figura mágica. Isso não importa muito agora.

O que parece importar, neste momento, no qual reflito sobre o Natal, é que, apesar de todo o consumismo estimulado pelas indústrias, o comércio e os meios de comunicação, talvez o ato de dar um presente a alguém no Natal tenha sim um fundamento cristão, ainda que esquecido. Porque quem dá o presente pode estar imitando os magos do Oriente. E, se assim for, dar um presente é uma forma de declarar que vê a presença de Jesus na pessoa a quem o presente é oferecido.

Acho curioso que essas reflexões venham à minha mente depois de muito tempo dando pouca ou nenhuma importância à celebração do Natal.

Nos últimos anos, vinha experimentando até uma sensação de liberdade, por não ter necessidade de fazer compras ou comparecer a confraternizações nesta época do ano. Liberdade que gerou indiferença em relação às festas, às luzes piscantes, à decoração das ruas. Ao ponto de não mais ver sentido em escrever uma mensagem em um cartão e enviar a um amigo.

Mas, hoje, acordei pensando nessas coisas. E resolvi escrever o que pensava. E, enquanto escrevia, percebi que mais sentia que pensava. E o que sentia era que estava só.

E, estando só, lembrei do menino que fui, quando ganhei o presente do Papai Noel. E lembrei do menino que nasceu e ganhou presentes dos magos. E das pessoas que dão presentes e enviam mensagens de Natal umas às outras.

Só não lembrei em que ponto da estrada da vida perdi o contato com o Natal.

Nem pretendo procurar. Agora, que o reencontrei, tem muita gente para quem preciso escrever e dizer: FELIZ NATAL!


Mundo Cordel
DELAÇÕES EM TROVAS

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Nosso povo anda chocado,
De ouvir, com tanta frequência,
Político ser delatado
E negar com veemência.

A primeira providência,
Quando vazam delações:
Mostrar calma na aparência,
Negando as acusações.

Alegar que as doações
Que recebeu, no passado,
Foram para as eleições
E está tudo declarado.

Que tudo foi aprovado,
Pela Corte Eleitoral,
E o dinheiro arrecadado
Foi limpo, justo e legal.

Nessa reação igual,
Sem importar o partido,
Há um argumento final:
“Estou sendo perseguido”.

Mas, ninguém mais dá ouvido
Para essa embromação.
Vendo o país consumido
Por tanta corrupção.

E, ao povo dessa nação,
Resta uma dura certeza:
É chocante a situação,
Mas não nos causa surpresa.


Mundo Cordel
FUTEBOL, TRAGÉDIA E SOLIDARIEDADE

Não costumo comentar tragédias. Não sei a razão. Simplesmente guardo para mim as minhas impressões.

Mas, quando a tragédia desperta nas pessoas o sentimento de superação, transformando em esperança o que parecia apenas dor, entendo que isso deve ser destacado. Foi o que aconteceu nesse caso do acidente aéreo ocorrido na Colômbia esta semana.atletico_chape

A homenagem feita pela torcida do Atlético Nacional, e pelo povo colombiano em geral, aos atletas da Chapecoense – extensiva, obviamente, a todos os que estavam com eles no mesmo voo – foi daqueles gestos que nos fazem continuar a ter esperança na humanidade.

A solidariedade e a gentileza demonstradas pelas pessoas presentes ao estádio onde aconteceria a primeira partida da disputa pelo título sulamericano foi um exemplo para o mundo inteiro.

Penso que traria um grande conforto para todos os amantes do futebol se as torcidas dos times chamados “rivais” aprendessem, com esse exemplo, que o futebol tem um imenso potencial aproximar as pessoas.

A torcida do Atlético Nacional mostrou ao mundo a grande diferença que há entre inimigos e adversários.

Que bom seria se as torcidas dos clubes brasileiros pudessem extrair dessa tragédia a compreensão de que a disputa aguerrida no campo de jogo não precisa e nem deve gerar violência dentro ou fora dos estádios.

A solidariedade de clubes e suas torcidas com a Chapecoense, ao redor do mundo inteiro, é a prova de que a competição esportiva é mais emocionante quando proporciona a PAZ e a UNIÃO entre as pessoas.

Força Chape!


Mundo Cordel
PALAVRAS DA MODA

Speech Maker --- Image by © Images.com/Corbis

Se a moda também chega às palavras,
Sei de uma que é o sucesso do momento,
Pois não passa um só dia sem alguém
Me falar sobre um tal EMPODERAMENTO.

Há palavras em total esquecimento
Mas há outras que estou sempre a ouvir.
É o caso de falar mal de alguém
E dizer que apenas vai DESCONSTRUIR.

Não que eu queira contra isso me insurgir,
Mas às vezes é preciso paciência,
Para ouvir, sem saber bem do que se trata,
Que alguém ou algo tem RESILIÊNCIA.

Tais palavras, que escuto com frequência,
Em discursos da ESQUERDA e da DIREITA,
Para alguns podem ser bem IMPACTANTES,
Para mim, têm sempre o tom de frase feita.


Mundo Cordel
SOBRE OFENSAS A JUÍZES E ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

Quem de alguma forma atua nas lides forenses sabe que um juiz pode facilmente desagradar duas partes que litigam em um processo. Mas é praticamente impossível que agrade a ambas.

Por isso, quem exerce a função de juiz deve estar sempre disposto a desagradar. E, consequentemente, a ouvir muitas críticas e poucos elogios.

Afinal de contas, por trás de vozes que clamam por Justiça, sempre há interesses pessoais em jogo. De tal forma que, para quem litiga em juízo, sentença justa costuma ser sinônimo de sentença favorável. Assim como uma decisão adversa facilmente é vista como uma afronta ao seu direito.

Na jurisdição criminal, é praticamente impossível imaginar uma decisão que seja bem aceita pela vítima, a sociedade, o acusado e sua família.

O certo é que, para a parte que se satisfaz com a decisão, o juiz apenas cumpriu o seu dever. Para quem foi contrariado, fica a desconfiança de ter prevalecido algum interesse escuso, relação de amizade, influência política ou qualquer outra forma de se perpetuar uma injustiça.

No Brasil dos tempos atuais, esses sentimentos andam exacerbados. Como o país atravessa um momento histórico no qual o Poder Judiciário tem assumido forte protagonismo, muitos processos judiciais atraem a atenção do público em geral e ganham espaço nos noticiários (não necessariamente nessa ordem). Isso acaba criando espécies de “torcidas”, que, movidas pela paixão, são incapazes de compreender – ou, pelo menos, tentar compreender – as razões do convencimento do juiz.

Além, é claro, de muita gente poderosa estar sendo chamada a prestar contas com a Justiça em processos criminais. Não deve ser fácil, para alguém que se considera política ou economicamente superior aos que exercem a função de julgadores, ter que se submeter – como qualquer pessoa – a um processo criminal.

Prisões, interceptações telefônicas e buscas devem deixar com os nervos à flor da pele quem nunca imaginou ser destinatário dessas ações, decorrentes do Poder do Estado, e hoje as vê alcançar parentes, amigos ou aliados políticos.

Daí as reações de algumas dessas pessoas, tidas como poderosas, tentando desqualificar os juízes responsáveis pela condução dos processos criminais.

Quando o presidente do Senado refere-se a um Juiz Federal como “juizeco”, é possível perceber que, por trás da ofensa, há o incômodo causado por uma decisão judicial que põe uma investigação criminal dentro do Senado.

Mas também há o sentimento de impotência, diante da independência do magistrado. Independência que é vista como petulância por quem não sabe, não aceita ou ainda não entendeu que, em uma República, o Poder é repartido na Constituição, em forma de competências, e não em razão de conveniências pessoais. Daí não se poder falar de juízes maiores ou menores. Todos têm sua competência definida na Constituição, e merecem igual respeito.

Nessa linha de pensamento, importa observar que a decisão judicial causadora do incômodo no Senado foi suspensa, mas por outro membro do Poder Judiciário, dentro das possibilidades de recursos previstas no sistema processual. E não por qualquer interferência externa. Aliás, a suspensão foi determinada por um Ministro do Supremo Tribunal Federal, atendendo a um recurso, não do presidente do Senado, mas de um dos servidores públicos presos na operação autorizada pelo Juiz Federal. E nada impede que o próprio pleno do STF venha a restabelecer a primeira decisão, proferida pelo juiz de primeiro grau.

Porque o Judiciário funciona assim mesmo. Um juiz sempre pode ter a sua decisão suspensa, anulada, reformada ou confirmada por um tribunal, até chegar à instância máxima para o caso (que nem sempre é o STF).

O que não pode – e felizmente não tem acontecido – é que outro Poder interfira nas decisões judiciais. Nem tampouco um juiz ser punido (ou sofrer reprimenda) por haver decidido conforme sua percepção das leis em vigor e das provas contidas nos autos.

Reclamações até já foram protocoladas com esse objetivo, junto ao Conselho Nacional de Justiça, mas o STF tem decidido que o CNJ não tem competência para “fiscalizar, reexaminar e suspender os efeitos decorrentes de atos de conteúdo jurisdicional emanados de magistrados e Tribunais em geral” (MS 28.598-MC-AgR/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Pleno).

Esse é um dos pilares do Estado Democrático de Direito: que os juízes de qualquer instância decidam com independência, tendo suas decisões respeitadas e sendo revistas apenas dentro do sistema regular de recursos.

Enquanto esse princípio for preservado, ofensas lançadas contra juízes, por quem se sente prejudicado ou ameaçado por suas decisões, são reações sem maiores efeitos práticos que não o de revelar nuances do caráter de quem as emite.

É evidente que, se a ofensa parte de alguém que seja detentor de alguma parcela do poder político, a repercussão é maior. Seja pela expectativa de que tais pessoas se comportem de maneira mais respeitosa diante das instituições, seja porque as declarações de tais pessoas, por razões óbvias, têm maior espaço na mídia.

Nada, no entanto, que surpreenda ou intimide quem se dedica ao ofício de julgar, e, consequentemente, contrariar interesses. Inclusive dos poderosos, da imprensa e mesmo da opinião pública.


Mundo Cordel
COMIDA DE POBRE E COMIDA DE RICO

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Aconteceu sexta-feira passada. O Correia me ligou chamando para ir almoçar com ele e mais alguns amigos.

– Vamos! Que horas? – prontifiquei-me.

– Passo pra te buscar pelas doze e meia. Pode ser?

– Pode. Fico lhe aguardando.

Como combinado foi feito. Uma da tarde já éramos quatro, sentados em torno da mesa do restaurante, em uma quadra comercial da Asa Sul.

Enquanto tomávamos uma cerveja Colombina – marca que eu nunca havia experimentado, mas gostei – fomos fazendo os pedidos do almoço. Foi nessa hora que o Correia me mostrou um item do cardápio e disse:

– Olha aí. Nova moda aqui em Brasília. Todo restaurante fino agora tem. É já que tu faz um verso falando da comida da pobre que virou comida de rico.

De fato, o mote era bom. Peguei um guardanapo e escrevi:

Comida de gente rica
É uma coisa refinada.
Com temperos estrangeiros
É sempre bem preparada.
É difícil a gente ver
O povo rico comer
Mocotó ou panelada.

Rico prefere escargot
E um tal de caviar,
E até sushi, que é o peixe,
Sem fritar nem cozinhar.
E o pobre, pensando fica:
“Comida de gente rica,
Ô coisa pra não prestar!”

Mas, hoje eu fiquei sabendo,
Que chegou uma novidade,
Nos bares e restaurantes,
Refinados da cidade:
Era comida de pobre
Mas agora o povo nobre
Descobriu sua qualidade.

É carne que vem com osso,
E é um tanto gordurosa,
Mas, sendo bem preparada,
É coisa muito gostosa.
Cozida é melhor que assada.
Pois eu falo da RABADA,
Que está ficando famosa.

A rabada dá sustança,
A rabada tem sabor,
E o povo rico também
Descobriu o seu valor.
Mas, antes que o preço aumente:
– Garçom, sirva aqui pra gente
Mais rabada, por favor.

O item que o Correia havia me mostrado era “Rabada Gourmet”. Veio meio falta de gordura. Não era como a rabada que minha avó fazia. Mas estava boa.


Mundo Cordel
POR UM INSTANTE

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Ele já estava lá, quando ela chegou e postou-se ao seu lado.

Não falou nada, sequer o cumprimentou.

Ele também permaneceu em silêncio. Olhou-a, mas evitou que seus olhares se cruzassem.

Ela pareceu ter feito o mesmo.

Permaneceram assim, lado a lado, mas sem se olharem. Calados.

Tão próximos que um não poderia abrir os braços sem tocar o outro.

E, no entanto, parecia haver uma barreira invisível entre os dois.

Os corpos praticamente imóveis. Os dois pares de olhos fixos em algum ponto imaginário à sua frente.

Ficaram assim ainda por um tempo.

Pouco tempo. Mas o suficiente para que o perfume dela chegasse às narinas dele.

Gostou. Inalou uma vez mais. Lenta e profundamente.

Mas com suavidade. Como temendo deixar transparecer que o cheiro dela o agradava.

Movendo a cabeça o mínimo possível, ele olhou-a uma vez mais. E sentiu-se invadido por uma vontade irresistível de quebrar aquele silêncio.

Romper a barreira que os separava.

Imaginou que uma palavra sua poderia mudar o destino dos dois, a partir daquele instante. Talvez para sempre.

Precisaria apenas dizer a coisa certa. Do jeito certo.

Em sua mente, formulou uma frase. Descartou. Formulou outra. Pareceu-lhe melhor.

Preparava-se para soltar a voz, quando fez-se ali um leve solavanco. A porta à sua frente abriu-se.

E ela saiu, como havia entrado. Em absoluto silêncio. Enquanto saía, ainda olhou timidamente para trás. E seus olhares finalmente se cruzaram.

Mas, só por um instante.

A porta fechou-se novamente. O elevador voltou a subir.

E os dois nunca mais se encontraram.


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

COLHEITA

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Ali tem mais. Sobe e balança o galho.

– Espera. Caiu mais um.

* * *

VENTO

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Vc vai subir no galho?

– Tá ventando muito. Vou esperar cair mais.

* * *

SAFRA

Dois meninos sob um cajueiro repleto de frutos maduros.

– Parece que aquele vai cair também.

– Pega o cesto.


Mundo Cordel
PERNAMBUCANO DE MELLO BEBEU NA FONTE DO CORDEL

Esta semana vi uma postagem do nosso editor Luiz Berto referindo-se a Frederico Pernambucano de Mello e ao livro “Guerreiros do Sol”.

Imediatamente lembrei de um texto que publiquei no Mundo Cordel, em abril de 2008, no qual fiz alguns comentários sobre “Guerreiros do Sol” e sua relação com a Literatura de Cordel.

Não custa relembrar o que escrevi na época.

* * *

O CORDEL COMO FONTE DE PESQUISA

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É comum se encontrar textos dizendo que o cordel desenvolveu-se no Nordeste Brasileiro como veículo condutor de notícias, informações, as quais eram passadas em sessões informais de leitura dos folhetos ou nos encontros de violeiros.

Outro dia, vi até na revista “BRASIL: almanaque de cultura popular”, que é distribuída nos vôos da TAM, uma matéria assinada por Mariana Albanese, na qual autora referia-se ao cordel como “uma literatura popular, com características genuinamente brasileiras”, e prosseguia: “Meio de comunicação de massa, o ‘jornal do sertão’ faz a crônica de sua época e ainda hoje se destaca em feiras e mercados de cidades como Juazeiro do Norte, Recife e Campina Grande”.(Nº 89, agosto de 2006).

Hoje, porém, quero destacar o cordel, não apenas como meio de comunicação, mas como fonte de pesquisa histórica e sociológica.

Terminei de ler o livro “GUERREIROS DO SOL: violência e banditismo no Nordeste do Brasil”, de Frederico Pernambucano de Mello, e chamou-me a atenção o quanto o cordel é utilizado pelo autor no desenvolvimento do seu trabalho, aliás, um belo trabalho.

Cada capítulo tem como epígrafe uma estrofe do tipo:

Rio Preto foi quem disse
E, como disse, não nega,
Leva faca, leva chumbo,
Morre solto e não se entrega.

(verso de pabulagem bradado em combate pelo famoso cangaceiro da segunda metade do século XIX, cf. Luís da Câmara Cascudo, Flor de romances trágicos, 1966.)

Como ninguém ignora
Na minha pátria natal
Ser cangaceiro é coisa
Mais comum e natural;
Por isso herdei de meu pai
Esse costume brutal…

(Francisco das Chagas Batista, A história de Antonio Silvino, s.d.).

Mas a obra não se limita a usar a poesia popular nas epígrafes. Um exemplo bom disso encontrei nas páginas 65 a 67, nas quais a obra trata da figura do valentão, homem que não era tido como fora da lei, mas que, segundo o autor, “enganchava a granadeira e, viajando léguas e mais léguas, ia desafrontar um amigo, parente ou mesmo um estranho que tivesse sofrido algum constrangimento ou humilhação”.

Para dar uma ideia do sentimento do povo sertanejo em relação aos valentões Frederico Pernambucano De Mello lança mão dos versos do poeta Manuel Clementino Leite, antigo versejador do sertão paraibano, do século XIX. O trecho do livro é o seguinte:

Clementino aponta a origem histórica do valentão através de uma ilustre ascendência bíblica; estrema-a do cangaceiro, a seu ver, uma figura moralmente menor; sustenta que a probidade não se mostrava nele incompatível com a vida de questões; caindo finalmente num justificável casuísmo, em que aponta os grandes do seu tempo e, por certo, da sua admiração de sertanejo e de poeta:

Desde o princípio do mundo
Que há homem valentão
Um Golias, um Davi,
Carlos Magno, um Roldão
Um Oliveira, um Joab,
Um Josué, um Sansão.

Eu não chamo valentão
A cangaceiro vagabundo
Que quer ser um Deus na terra
Um primeiro sem segundo
Que vive a cometer crimes
E ofender todo mundo.

Tenho visto valentão
Ter sossego e viver quieto
Morando dentro da rua
Comprando e pagando reto
Trabalhar, juntar fazenda
Deixar herança pr’os neto.

Só se esconde o valentão
Que vive com o pé na lama
José Antonio do Fechado
Morreu em cima da cama
Brigou, matou muita gente,
Morreu mas ficou a fama.

Eu três homens valentões
No Pajeí conheci:
Quidute, Joaquim Ferreira,
E José Félix Mari
Mora dentro de Afogados
Tem grande negócio ali.

Mais adiante, nas páginas 178 a 180, o autor, já dissertando sobre os cangaceiros, fala do grupo dos Guabiraba, e mais uma vez busca apoio na poesia popular:

Ainda no meado do século [XIX], passaram a atuar os Guabiraba, sob a chefia dos irmãos Cirino, Jovino e joão, e do cuhado destes, Manuel Rodrigues. “Naturais da vila de Afogados da Ingazeira, ao pé da serra da Baixa Verde, no sertão pernambucano, fizeram-se bandidos nas escolas do Pajeú de Flores, onde praticaram tantos crimes que foram obrigados a fugir para Teixeira, na Paraíba”, eis o retrato que nos fornece Gustavo Barroso […]. Em sua faina de poeta a seu modo historiador, Leandro Gomes de Barros pinta o gupo de Cirino com traços bem carregados;

Os Guabiraba eram um grupo
De três irmãos e um cunhado,
Todos assassinos por índole,
Cada qual o mais malvado
Aquele sertão inculto
Tinha essas feras criado.

A audácia do bando transparece clara nestes versos, pedaços de um antigo ABC de autor tão inculto quanto inteligente, com que se obtém uma reconstituição bem mais precisa da situação descrita, particularmente do clima épico em que se feriam as disputas que envolviam cangaceiros:

Agora estou me lembrando
Do tempo dos Guabiraba…
O capitão Zé Augusto
Cercou a serra e as aba,
Encontrou os cangaceiros
Quase Fagunde se acaba!

Cercou a serra e as aba
Com trinta soldado junto,
Falou para os cangaceiros:
São pouco! Apareça muito!
Tomou a boca da furna
Trouxe carga de defunto.

Deram fogo duas horas,
Bala na serra zoando,
Com a distância de três léguas
Todo o povo apreciando
E o povo todo dizendo:
Fagunde tá se acabando!

Enéas foi dos primeiro
Como o mais influído…
O capitão disse a ele:
Cabra, não seja atrevido,
Receba beijo de bala
No mole do pé do ouvido!

Foi um beijo envenenado
Como besouro estrangeiro
A bala beijou na fonte
Já se viu tiro certeiro
E isso serviu de exemplo
Pro resto dos cangaceiro…

Guerreava o capitão
Com dezoito cangaceiro!
Passando bala por bala,
Como troco de dinheiro,
Matou dois, baleou três,
O resto depois correro…

Homes bem afazendado
Viu toda sua riqueza
Descer de águas abaixo,
Contra a sua natureza,
Por causa do cangaceiro
Foi reduzido à pobreza.

Mandou o chefe da turba
Retirar os baleado,
Que o sague regava o chão
Como em matança de gado
E disse, devagarinho:
Os macaco tão danado!

Nada se pode fazer!
Guardemos para o futuro…
A noite está que nem breu,
Ninguém enxerga no escuro,
Pode ser que em outro “baile”
A gente atire seguro.

É isso. Dá gosto ver o cordel registrando os fatos, comentando os movimentos políticos, descrevendo os fatos pitorescos da nossa história.

Parabéns a Frederico Pernambucano de Mello, que soube ir buscar nessa fonte matéria prima para o seu trabalho.

E o melhor é que, basta ir a uma feira de muitas cidades do Nordeste, para ver que o cordel continua lá fazendo esse mesmo trabalho, e com temas atuais.

Na Internet também tem aparecido muita coisa. Mundo Cordel é um espaço que está sempre à disposição para colaborar.


Mundo Cordel
UM CORDEL DE ANIVERSÁRIO

Aniversario

O colunista, acompanhado de personagens da história: Seu Mansueto, Dona Ivonete e o irmão Materson

Neste ano em que completo 50 de idade, resolvi registrar a data contando, em cordel, passagem verdadeira da minha vida e da minha família, relacionada a festas de aniversário.

Claro que melhorando um ponto ou outro da história, pois não existe Cordel sem fantasia, nem fantasia que não caiba em um Cordel.

* * *

ANIVERSÁRIO SEM FESTA

Aos dezessete de agosto,
Registro no calendário
O dia em que comecei,
Na vida, o itinerário.
Mas, não trago na lembrança
De em meus tempos de criança
Festejar aniversário.

Fiz quarenta e nove anos
Sem nunca ter perguntado
Ao meu pai ou minha mãe
Por que não tenho guardado
No arquivo da minha mente
Um aniversário somente
Na infância celebrado.

Eu vejo que, hoje em dia,
A família é reunida
Sempre que um de nós completa
Mais um ano nessa vida.
Seja de adulto ou criança
Tem sempre alguma festança
E animação garantida.

Por isso que eu me pergunto:
“E naqueles tempos idos?
Quando menino eu sonhava
Com brinquedos coloridos?
Festejar meu nascimento
Não seria fundamento
Para estarmos reunidos?”

Mas, antes dos meus cinquenta,
Aos meus pais eu perguntei:
“Por que é que, até hoje,
Eu jamais me recordei
De alguma celebração,
Festa ou comemoração
Do dia em que aqui cheguei?”

O que eu perguntei a eles
Não causou muita surpresa.
O meu pai me respondeu,
Com a habitual franqueza,
E puxou pela memória
Para explicar a história
Com detalhes e clareza.

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Mundo Cordel
DÚVIDAS

Admito que não sou muito frequente em atos de caridade. Mas, de vez em quando, pratico meus gestos de altruísmo e dedicação gratuita a seres humanos que parecem estar precisando mais da ajuda que os outros que em condições de oferecê-la.

Em uma dessas iniciativas, visitei um hospital onde recebem tratamento pessoas com problemas mentais, vícios e coisas assim.

Ali, chamou-me a atenção um rapaz franzino, que ficava sozinho em um canto. Quieto, não demonstrava qualquer intenção de interagir com os outros. Nem com visitantes, como eu, nem com seus colegas de internação.dv

Mesmo assim, aproximei-me e tentei me comunicar. E qual não foi a minha surpresa quando ele acabou por me revelar muita coisa sobre a história de como fora parar naquele lugar!

Não falando, porque ele simplesmente ignorou todas as minhas tentativas de iniciar uma conversa. Mas, quando eu já me preparava para ir embora, ele me olhou de um jeito um tanto enigmático, entregou-me um papel e afastou-se rapidamente.

***

Talvez me reste uma única certeza: a de que foram as dúvidas que me trouxeram para cá.

Se você pensar bem, são muitas as dúvidas na vida. As pessoas não se incomodam porque não pensam nelas.

Você pega seu carro e vai para o trabalho todos os dias, sem pensar que poderá ou não chegar até lá. Mas, é tão fácil as coisas saírem diferentes do que você previa… Um acidente no caminho, um defeito no carro, obras nas vias que servem de itinerário, engarrafamentos…

E, se, ao chegar ao lugar onde trabalha, o prédio houver sido destruído? Por uma explosão, por exemplo. Pode, não pode?

E, se os escombros que você vê não forem os restos do prédio onde você trabalhava? Sim, trabalhava, porque agora não há mais como ninguém transitar por ali.

Mas… você realmente trabalhava ali? Será que você estava mesmo empregado? Será que não saiu de casa exatamente para procurar emprego?

Talvez, nessa hora, você pense em falar com alguém. Alguém em que você confie. Existe alguém em quem você confie? Você não está seguro disso, mas certamente pegará o seu telefone celular – se não o tiver esquecido em casa, ou perdido – e ligará para alguém.

Fará isso acreditando que o aparelho vai emitir um sinal, que será recebido por uma antena e retransmitido para outra antena. E você acredita que, com seu sinal passando de antena em antena, a pessoa com quem você quer falar vai responder. De algum lugar, que você não sabe qual é.

“Alô”, alguém diz. E você acredita que é mesmo a pessoa com quem você queria falar!

Acredita? E, se não for? E se você houver digitado o número errado? E se os milhões de sinais de celulares, que circulam pelos milhares de antenas, houverem se misturado? E, se você estiver apenas sonhando que está telefonando, e ouvindo uma voz imaginária? De alguém que só existe no seu sonho?

Certa vez, abri os olhos e percebi que o quarto estava escuro. Talvez tivesse acordado cedo demais. Ou talvez ainda fosse noite e eu nem houvesse começado a dormir. Mas, como estava escuro, eu tinha dúvida de que aquele fosse o meu quarto e aquela a minha cama.

Pensei em ficar deitado, esperando o dia clarear. Mas, o dia iria clarear? Haveria janelas, naquele lugar estranho, por onde a luz do sol pudesse entrar? Pensei em me levantar, sair dali, mesmo no escuro, mas sair para onde? E, se eu não estivesse dentro de nada, mas fora, no espaço?

Ora, bolas! – pensei – Como poderia minha cama estar solta no espaço? E logo respondi para mim mesmo: se dizem um planeta inteiro flutua no espaço, por que não uma simples cama? Flutuaria eu também, ao lado da cama, ou cairia em um buraco sem fim?

Enquanto pensava, a escuridão diminuía. Já podia ver as sombras tomarem a forma de coisas. Coisas que aparentemente me eram familiares. Uma estante, um violão, livros… Objetos que lembravam meu quarto. Mas seria mesmo meu quarto? Tenho um quarto?

Pude ver um quadro na parede. No quadro, a foto de um casal com uma criança. Desejei fortemente me reconhecer naquela foto. Ser aquela criança, com meus pais. Mas como ter certeza disso? Como saber se fui aquela criança um dia? Como saber se recordo ou apenas imagino ter sido? Como separar memórias de fantasias, se em minha mente ambos tomam a forma de pensamentos?

Quanto mais pensava nessas coisas, mais ficava paralisado. Agora, minha impressão era de estar deitado na cama, olhando para o teto, mas já não tinha certeza se sob meu corpo havia uma cama, e, diante dos meus olhos, um teto.

Vi um rosto de mulher. Fisicamente, era semelhante à mulher que eu vira na foto, só que mais velha. Parecia preocupada. Falava comigo como se me conhecesse. Será que eu a conhecia também?

Talvez porque eu não respondesse, ela saiu dali. Fiquei sozinho novamente, ou, pelo menos, parecia que eu estava sozinho ali.

Algum tempo depois – não sei ao certo quanto – ela voltou, com dois homens vestidos de branco. Lançaram-se sobre mim. Não sei se queriam me imobilizar ou me arrancar de onde estava. Talvez uma coisa e depois a outra. Acho que entrei em pânico!

Alguma coisa me picou no braço. Depois disso, lembro apenas de estar aqui.

Mas, não estou muito seguro quanto a estar aqui. Afinal, o que é aqui? É apenas uma referência de lugar, que também poderia ser ali ou acolá. Mas, onde? Onde estou, se é que estou em algum lugar?

Acho que estou, porque vejo pessoas, e parece que elas me veem também. Mas fico em dúvida se elas são de verdade. Ou fruto da minha imaginação.

Hoje – talvez ontem, talvez outro dia – fiz essas anotações. Penso em entregá-las a uma dessas pessoas que vejo, ou imagino ver. Se for uma pessoa de verdade, talvez receba. Talvez não.

***

Era isso que estava escrito no papel.

É bem verdade que, hoje, já não lembro se realmente recebi o papel daquele rapaz, ou se apenas imaginei que ele me entregou. Pode ser que eu nunca tenha ido àquele lugar.

Talvez tenha escrito tudo após sonhar que essa história aconteceu.

Ou talvez eu tenha mesmo recebido o papel, e sonhado que escrevi essa história… Quem sabe?


Mundo Cordel
ARRITMIA

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O piripaque que Berto teve nos privou temporariamente desse convívio diário no Jornal da Besta Fubana. Não apenas do convívio com ele, mas com toda essa constelação de talentos que forma a comunidade fubânica,

Logo que Berto foi para o estaleiro, escrevi e enviei-lhe esses versos:

Meu amigo Luiz Berto,
Ora vejam! Quem diria!
Que faz a Besta Fubana
Espalhar sua fubania,
Andou tendo um piripaque,
E acabou sentindo o baque
De uma tal de arritmia!

Eu pensei que a ritmia
Fosse aquela marcação
Que a gente faz no zabumba
Tocando xote e baião.
Mas Aline me falou
Que a de Berto atrapalhou
O bater do coração.

Diz que o coração de Berto,
Batucou descompassado,
Para o frevo estava lento,
Para o bolero, apressado.
Sem seu compasso normal,
Foi parar no hospital,
Terminou sendo internado.

Mas, isso é coisa que passa.
Já, já ele acerta o passo.
E o coração vai bater
Marcando certo o compasso.
Berto, não posso ir aí,
Então vai, mesmo daqui,
Em versos o meu abraço!

Hoje, com muita alegria, complemento:

Essa tal de arritmia
Deu foi um susto na gente.
Fez rezar quem é devoto
E até quem nunca foi crente.
Mas, graças a Deus, o certo
É que a Besta e Papa Berto
Estão no ar novamente.


Mundo Cordel
TRÊS PODERES

– Quais seriam as três forças
Que hoje interferem mais
Tanto em temas importantes
Como nas coisas banais?

– Do que tenho observado,
São a mídia, o mercado
E as tais redes sociais.

rs


Mundo Cordel
ESCRAVOS DO SISTEMA

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O deserto de Gobi

Era uma tarde ensolarada de sábado, quando fui ao atendimento eletrônico do banco, para fazer uma operação qualquer.

Depois de inserir o cartão magnético na máquina, bastou digitar a senha para surgir na tela a mensagem “SUA SENHA MUDOU”. Seguiu-se a impressão de um papel, com algumas letras e números. Havia ainda a sugestão para memorizar tudo e destruir o papel.

Mas, como assim, minha senha mudou? Tudo bem que a anterior também havia sido fornecida pelo sistema, mas eu já havia me afeiçoado a ela. Tinha criado com suas letras um mnemônico que, mais que facilitar a memorização, lembrava uma palavra cuja sonoridade me agrada. A nova senha era uma combinação de letras e números que me pegou totalmente de surpresa.

O fato me remeteu a meados dos anos 1980, quando o socialismo já balançava, mas o Muro de Berlim ainda não havia caído.

Ainda um adolescente, agitava-se em meu espírito o receio de que o mundo inteiro estivesse submetido ao controle de um grande sistema. Socialismo ou capitalismo, samba ou rock’n roll, Coca-Cola ou Pepsi, qualquer escolha que fizéssemos estaria sendo, de alguma forma, dirigida por esse super sistema mundial.

Na época, dizia eu em uma canção…
Nós não temos o direito
De pensar, nem de querer,
Nem escolher nosso prazer.
Nós não podemos exercer nossa vontade
Nós não temos nem vontade pra exercer…

Um amigo afirmava ter informações seguras de que a Cúpula Mundial se reunia em uma caverna, em algum ponto entre a China e a Mongólia, protegida pela amplidão inóspita do deserto de Gobi, mas isso é assunto para outra crônica.

O que me leva a escrever agora é a percepção de que, embora a maturidade tenha reduzido a minha preocupação com o Grande Sistema, os afazeres do cotidiano me confrontam a toda hora com pequenos sistemas que nos controlam a vida.

De um jeito ou de outro, ouço meus versos adolescentes, tanto anos depois, e sorrio diante de sua atualidade, ainda que a perspectiva seja outra…

Somos robôs, sujeitos alienados,
Animais domesticados, os escravos do sistema,
Representantes de uma classe em expansão,
Que vê, na televisão, a solução dos seus problemas!

É. Mais de trinta e cinco anos depois, continuo sentindo que não somos mais que escravos do sistema.

Aos que tiverem a curiosidade de conhecer a canção, o vídeo, com legendas, está a seguir. Por favor, não reclamem do barulho.


Mundo Cordel
E O ÓDIO?

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Nos últimos dois ou três anos, e mais ainda nos últimos meses, tenho ouvido com frequência a palavra “ódio”, relacionada às convicções políticas dos brasileiros. Uns dizem que as elites odeiam os pobres, e, por tabela, o governo que os ajuda e protege. Outros dizem que são os governistas e seus apoiadores que fomentam o ódio na sociedade, em um jogo chamado “nós contra eles”. Ou “eles contra nós”, expressão talvez mais adequada para quem se pretende vítima.

Toda essa conversa sobre ódio acabou por gerar apreensão, ou mesmo temor, à medida que manifestações de rua voltaram a acontecer no país. Manifestações contra os que ocupam o governo federal, manifestações a favor.

O auge do receio de que o ódio descambasse para a violência física chegou com a sessão da Câmara dos Deputados, do dia 17 de abril deste ano, na qual os parlamentares votariam pela autorização ou não para que o Senado abrisse o processo de impeachment.

No país inteiro, em várias cidades, haveria manifestações simultâneas de grupos pró e contra o impeachment. Em Brasília, símbolo maior dessa divergência, ergueu-se um muro, na verdade, três cercas, que dividiriam a Esplanada dos Ministérios ao meio, entregando o lado sul aos apoiadores do impeachment e o lado norte aos contrários à abertura do processo.

Apesar desse cenário, e de toda a tensão provocada por uma longa e agitada sessão da Câmara dos Deputados, o que se viu foi um domingo de muita paz!

Enquanto os parlamentares faziam as mais diversas – e, às vezes, esquisitas – homenagens, antes de proferir o voto SIM, ou os mais acalorados protestos, antes de emitir o voto NÃO, a grande maioria dos brasileiros estava em casa, assistindo a tudo pela TV. Ou nas ruas, também acompanhando, através de telões, animados por movimentos já conhecidos, tanto por um lado como pelo outro.

Mas, o que havia de comum – entre um grupo e outro, e entre os que estavam em casa e os que estavam nas ruas – era que todos aguardavam a soberana decisão dos que votavam. Parecia prevalecer o consenso de que, de acordo com a Constituição Brasileira, aqueles homens e mulheres, apesar da flexibilidade ideológica e das dificuldades no uso do vernáculo, estavam legitimados para o ato que praticavam.

Ecoava, é fato, o bordão “não vai ter golpe”, dentro e fora do parlamento. A presidente, candidata a ré no processo de impeachment, havia declarado reiteradas vezes que se tratava de um golpe de Estado. Não obstante, ela havia apresentado sua defesa, inclusive recorrendo ao Supremo Tribunal Federal nesse sentido. Os deputados que a apoiavam participaram ativamente da votação e dos debates que a antecederam.

Imagino que, se acreditassem mesmo na existência de um golpe em curso, nem a presidente teria se dado ao trabalho de apresentar defesa, nem tampouco os parlamentares se ocupariam de participar do processo. Isto seria legitimar uma farsa.

Assim, a referência a um suposto golpe acabou tomando o aspecto de recurso retórico. A votação prosseguiu, e, à medida que o resultado se definia, o grupo “derrotado” foi se retirando, deixando transparecer decepção, tristeza e algumas lágrimas. O grupo “vencedor” também se retirou aos poucos, demonstrando contentamento, mas sem exageros eufóricos.

No fim das contas, talvez cada um carregasse, no seu íntimo, a razão das aspas postas nas palavras “vencedor” e “perdedor” aqui escritas: a possibilidade de todos terem ganho, ou todos terem perdido, com o resultado proclamado; e a esperança de que o futuro traga a resposta a essa dúvida o mais rapidamente possível.

E o ódio?

O ódio deve estar por aí, no coração de algumas pessoas infelizes, que precisam dele para alimentar o próprio espírito. Gente que não sabe conviver com as diferenças, e vê inimigos em tudo que não é espelho.

Porque o ódio não é como uma raiva passageira, ainda que a raiva às vezes leve pessoas comuns a se agredirem por uma vaga em um estacionamento. O ódio é mais que isso. Ele é, como diz um dicionário, um rancor profundo e duradouro.

O ódio é cruel, destruidor. Pode ter como alvo uma pessoa, um grupo ou um povo inteiro, como registra a história. Talvez haja ódio no coração de gente que usa o pretexto do esporte para formar grupos uniformizados e atacar quem prefere torcer pela equipe adversária.

Não era o caso daquelas pessoas, exibindo suas cores verde-amarelo ou vermelho, naquela tarde do dia 17 de abril de 2016, pelas ruas do Brasil.

Outros momentos tensos virão. Uma ou duas votações no Senado estão previstas.

Se a tensão servirá para alimentar o ódio, fazendo-o crescer e se generalizar, depende de como se comportarão as lideranças políticas, as autoridades públicas, os controladores dos meios de comunicação… E cada um de nós, cidadãos, brasileiros e, sobretudo, seres humanos.


Mundo Cordel
#MICROCONTOS

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RESIGNAÇÃO

Sozinho, no carro, reconheceu que havia perdido o controle.

Agora, restava-lhe chamar o porteiro para abrir o portão.

* * *

DESPEDIDA

Da janela do trem, gritou o soldado:

– Quanto tempo vais esperar por mim?

– O tempo q durar a minha vida… Ou a tua.

* * *

PROTESTO

Advogado: Sim, podemos executar o título, mas antes é preciso protestar.

Cliente: Contra o governo ou a favor?


Mundo Cordel
THIAGO DE MELLO – 90 ANOS

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Hoje, 30 de março de 2016, o poeta Thiago de Mello completa 90 anos de idade.

Já tem um tempo que escrevi esses versos em sua homenagem, incentivado por Flávio Martins, editor de alguns de meus livros.

A ideia inicial era publicá-los em um livro sobre o poeta, mas fixei a data de hoje como limite: se o livro não ficasse pronto, postaria o texto no Mundo Cordel. Na íntegra.

O texto é esse.

Thiago de Mello e “Os Estatutos do Homem” – Marcos Mairton

Thiago de Mello é,
da palavra um artesão,
transformando em poesia
o barro que sai do chão,
Colhendo da natureza
versos de grande beleza
que nos tocam o coração.

Natural de Barreirinha,
nessas terras brasileiras,
sua arte ganhou o mundo,
e, além de nossas fronteiras,
Os seus poemas são lidos,
muitos deles traduzidos
para línguas estrangeiras.

Pois a obra de Thiago,
Tem sabor universal
Sem perder o bom tempero
da cultura regional,
do lugar onde nasceu,
da floresta onde cresceu,
da planta e do animal.

“Eu sou filho da floresta”,
Thiago é quem anuncia,
“O meu coração é feito”
– disse ele, certo dia –
“todo de água e madeira.
Na correnteza ligeira
vou buscar minha energia”.

Amante da liberdade,
por ela tendo paixão,
Thiago não poderia
conviver com a repressão.
E em uma era obscura,
o poder da ditadura
o mandou para a prisão.

Após deixar a prisão,
o poeta se exilou
em países estrangeiros
onde abrigo encontrou.
Longe da terra natal,
Argentina e Portugal
são lugares onde andou.

Na Alemanha e na França
o poeta residiu,
num tempo em que não podia
retornar para o Brasil.
No Chile encontrou ajuda
E o grande Pablo Neruda
sua obra traduziu.

Com o fim da ditadura
Thiago retornaria
Ao Brasil, e na Amazônia,
É onde vive hoje em dia.
E assim segue criando,
No mundo vai semeando
O amor e a poesia.

Dentre os seus belos poemas,
Que encantam tanta gente,
“Os Estatutos do Homem”
Expressam magistralmente
O Direito Natural
Em “Ato Institucional
de caráter permanente”.

Thiago, grande poeta,
Peço a ti que me permitas
Dizer do meu jeito as coisas
Que por ti já foram ditas,
Pois em meus versos matutos,
As regras dos “Estatutos”
Podem ser assim escritas:

“Os Estatutos do Homem”, em Cordel

Artigo I

Uma regra inafastável
Fica estabelecida:
Que vale agora a verdade,
Que agora vale a vida.
De mãos dadas marcharemos,
Todos juntos seguiremos,
Numa marcha destemida.

Artigo II

Fica também decretado
Que é possível transformar
Qualquer dia da semana
Num domingo em frente ao mar.
E até nas terças-feiras
Haverá mil brincadeiras
E razões pra se alegrar.

Artigo III

Fica decretado que
Nas casas, em todas elas,
Existirão girassóis
Enfeitando as janelas.
Girassóis e outras flores,
Numa explosão de cores
Azuis, brancas, amarelas…

E, mesmo dentro das casas,
Onde o sol não os alcança,
Girassóis abrir-se-ão
Em misteriosa dança.
E, ao ver seu movimento,
Logo soprará o vento,
Mensageiro da esperança.

Artigo IV

Fica também decretado
Que o homem não terá
Que duvidar mais do homem
E nele confiará,
Tal qual a noite confia
Que lhe seguirá o dia
e o sol logo brilhará.

Parágrafo único:
Um homem confiará noutro
Como a palmeira confia
no vento, que vem do mar,
e a ela acaricia.
Ou meninos que, sem medo,
Compartilham um brinquedo
Com inocente alegria.

Artigo V

É decretado que os homens
já não são submetidos
ao domínio da mentira,
Nem lhe darão mais ouvidos.
Silêncios não servirão –
Como escudos de omissão –
a rancores escondidos.

Com o olhar calmo e limpo
O homem irá à mesa
e ao jantar partilhará
com os outros a certeza
que é parte da sua vida
a verdade vir servida
precedendo a sobremesa.

Artigo VI

A partir deste momento,
Fica também decretado
Que o profeta Isaías
terá seu sonho alcançado:
de ver lobos e cordeiros
como velhos companheiros,
caminhando lado a lado.

E juntos caminharão
viajando mundo afora,
Partilhando o alimento,
pois, a partir de agora,
um só prato os servirá
e sua comida terá
um doce sabor de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável
Fica estabelecido,
que a Justiça reinará
por um tempo indefinido.
E a bandeira da alegria
tremulará noite e dia
Com destaque garantido.

Artigo VIII

Fica decretado que,
de todas, a maior dor
sempre foi e será sempre
não se poder dar amor.
E, assim, sem poder amar,
ver e não se emocionar
com o desabrochar da flor.

Artigo IX

É permitido que o pão
a cada dia obtido
tenha a marca indelével
do suor nele vertido.
E que tenha o sabor quente
da ternura que se sente
pelo filho mais querido.

Artigo X

Fica decretado que
Será sempre permitida,
A cada um, a escolha
Da sua roupa preferida.
E o traje branco será
Veste que se adequará
A qualquer hora da vida.

Artigo XI

É decretado que o Homem
se define, em essência,
como um animal que ama,
é mais amor que ciência.
E esta sua natureza
É a causa da beleza,
De toda sua existência.

Artigo XII

Decreta-se: nada é
Obrigado ou proibido,
E, a partir de agora,
será tudo permitido:
brincar com rinocerontes
ou correr por sobre as pontes,
sem um rumo definido;

E caminhar pelas tardes
Ou sentar-se na janela
com uma imensa begônia
Enfeitando a lapela;
Caminhar pela cidade
Respirando a liberdade
Que também faz parte dela.

Parágrafo único:
Uma conduta será
Para sempre abolida,
E, por isso, ficará
Totalmente proibida:
é o amar sem amor,
pois seria como a dor
de se viver sem ter vida.

Artigo XIII

Decreta-se que o dinheiro
comprar não mais poderá
O sol das manhãs vindouras;
Sol que sempre brilhará
Sobre os campos mais formosos
E com raios generosos
A todos aquecerá.

E o dinheiro então será
Para sempre transformado
Em espada fraternal,
Somente sendo usado
Na defesa do direito
De cantar, a pleno peito,
Canções do amor musicado.

Artigo Final.

Fica proibido o uso
da palavra liberdade,
porque já não haverá
a menor necessidade
de ser dita ou ouvida,
pois será sempre sentida
como doce realidade.

A liberdade será
algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
com sua água corrente.
E terá sua morada
Para sempre alicerçada
bem no coração da gente.

* * *

Clique aqui para ler o texto original de “Os Estatutos do Homem”: 

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem abaixo para visitar o site:

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Mundo Cordel
ENTRE QUALQUERCOISISMOS E QUALQUERCOISISTAS

Faz tempo que tenho um pé atrás com os sufixos ISMO e ISTA. É que eles me causam a impressão de que, ao ingressar em um grupo que se reúne em torno de alguma coisa, e cujo nome termina em ISMO, acabo limitando o meu próprio modo de ver essas coisas. Assim, ao invés de defender ideias que acredito minhas, passaria a defender o modo de pensar acolhido pelo grupo ao qual estaria vinculado.

Em suma, evito participar de qualquer coisa que gere qualquercoisismo, porque me incomoda a possibilidade de ser um qualquercoisista.homem_com_bandeira

Talvez isto ocorra porque valorizo muito a liberdade, e, sendo um qualquercoisista, minha própria maneira de pensar já não seria livre. Certamente seria mais difícil mudar de ideia. Passariam a exigir de mim coerência com o qualquercoisismo. Elogiar pontos positivos de algum outracoisismo – antagônico ao qualquercoisismo – poderia ser considerado pelos outros qualquercoisistas uma heresia:

– Que tipo de qualquercoisista você é? – indagariam com ar de reprovação.

Acho que comecei a me reconhecer portador dessa resistência nos primeiros semestres da faculdade de Direito, nos idos de 1986, quando vi pessoas confrontando juspositivismo e jusnaturalismo. Notei certo desdém dos juspositivistas em relação aos jusnaturalistas (“são uns sonhadores…”); e certa repulsa dos jusnaturalistas em relação aos juspositivistas (“têm uma visão estreita…”).

Incapaz de escolher entre ser jusnaturalista ou juspositivista, segui meu caminho solitário. Sem dizer a ninguém da minha decisão, para não ser marginalizado por uns nem por outros. No fim das contas, eu queria só estudar o Direito, aprender o que pudesse sobre ele.

Mas nunca sonhei ser um jurista. Nem civilista, nem constitucionalista, nem penalista. Houve, sim, um tempo em que me encantei com o Direito Tributário, e quase almejei ser tributarista, mas foi um sentimento que passou logo.

Não, eu não estou desdenhando dos juristas. Eles são muito importantes. Apenas acho que o jurista emite opiniões apoiadas em uma visão jurídica do mundo, e prefiro ficar livre para ver o mundo a partir de outras visões (embora o Direito esteja profundamente enraizado em meu ser).

Reconheço que essa resistência ao qualquercoisismo tem desvantagens. Fica difícil participar de movimentos reivindicatórios, culturais ou mesmo beneficentes. Uma simples conversa de bar às vezes se complica:

– Afinal, você é esquerdista ou direitista?

– Nem uma coisa nem outra. E, por favor, não pense que sou centrista.

– Tá de gozação? Virou piadista?

Em um grupo de WhatsApp, um amigo disse algo que me fez encerrar imediatamente a conversa:

– Assim você está sendo diversionista!

Parei de responder. Não sei bem o que é isso, mas não quero para mim.

Se o tema é religião, a situação é um pouco mais favorável: sou cristão. Mas, por favor, não me peçam para pregar o cristianismo. Nem o catolicismo, nem o protestantismo. Tenho simpatia pelo que leio em alguns livros espíritas, mas não me vejo filiado ao espiritismo.

E sigo assim. Resistindo ao que me parece ser uma tendência (talvez natural) das pessoas para classificar tudo, inclusive as outras pessoas. Algumas demonstram verdadeira necessidade de classificar a si mesmas.

Não sei se há algum mal nisso. Apenas não gosto.

Fico feliz ao me aventurar como escritor, mas não tenho qualquer preocupação em ser modernista, naturalista, contista, romancista…

É bem verdade que muitas vezes me apresentam como cordelista. Se escrever Literatura de Cordel faz de mim cordelista, que seja. Mas sem ficar amarrado aos cordões de um eventual cordelismo. Livre para ser poeta, compositor e o que mais a inspiração trouxer.

De qualquer forma, nesse contato com a arte, me sinto mais um artesão que um artista.

A par de tudo isso, para que o leitor não imagine que nessa minha postura haja algum radicalismo, ou tendência fetichista, termino com uma frase que contém tanto ISMO quanto ISTA:

“Seja você mesmo. E ainda que na vida você pareça estar dentro de um abISMO, não desISTA”.


Mundo Cordel
OS EXTRATERRESTRES SÃO OS OUTROS

Lembro de ter lido no Jornal da Besta Fubana um texto de José de Oliveira Ramos, que terminava com a frase: “É. Com certeza eu não passo de um E.T.!”.

Não escrevi em meu comentário, mas pensei: “Eu também. Muitas vezes me sinto um ET”. Isso foi em setembro de 2015.

Veio o ano de 2016 e fui ver um filme no cinema: “A Quinta Onda”. E – veja o leitor que ironia – no tal filme, os extraterrestres invadem a Terra e são chamados por nós de “os outros”.

Mal começou o filme e as palavras de José Ramos voltaram à minha lembrança, junto com a pergunta: “Afinal, os extraterrestres somos nós? Ou são os outros?”.ovnis

Depois de vários dias de reflexão, cheguei a uma conclusão. Que me desculpe o amigo José Ramos, mas ele não é um ET. Nem eu, nem ninguém que eu conheça. Os ETs são os outros.

Cheguei a essa conclusão, não porque o filme assim tenha mostrado, mas porque não posso crer que tenhamos tanto desprezo pelas regras de convivência que nós mesmos criamos.

É evidente que quem faz a bagunça toda são os outros.

Exemplificando, se nós criamos as filas nos bancos, as regras de trânsito, o dever de não fazer barulho nos horários de descanso, por que nós mesmos sabotaríamos essas normas?

Hoje mesmo, quando saí do meu apartamento, percebi que alguém estava segurando o elevador em um dos andares do prédio, fazendo-o demorar excessivamente. Ora, se todos os moradores do edifício sabem que os outros vizinhos também usam o elevador, é óbvio que quem estava segurando o elevador eram os outros!

Logo que saí à rua, percebi um carro estacionado em frente ao prédio vizinho, onde uma placa indicava que é proibido estacionar naquele local. Ficou claro que aquele carro fora deixado ali pelos outros.

Mais adiante, parado no engarrafamento, vi uma moto passar rápido, usando o espaço da ciclovia. Evidentemente que era pilotada por um dos outros.

Os outros – tanto no filme quanto na vida real – são muito semelhantes a nós em aparência. Iguais talvez. Mas parece que aproveitam essa semelhança exatamente para criar problemas para nós.

Misturam-se ao povo na rua e praticam todo tipo de crime. Agressões, assaltos, tráfico de drogas. Infiltram-se em nossas organizações públicas e privadas e disseminam todo tipo de desvio, desmando e corrupção.

De tal forma está comprovada essa verdade, que quando converso com pessoas conhecidas e mostro minha insatisfação com todas essas coisas, sempre ouço frases como: “A gente tenta fazer tudo direito, mas vem os outros e estragam tudo”; “Nesse trânsito louco, a gente tem que dirigir se defendendo dos outros”; “De que adianta eu eliminar os focos do mosquito, se os outros não fazem o mesmo?”; “O cara pode até entrar bem intencionado na política, mas aprende a roubar com os outros”…

É incrível. Raramente encontro um ser humano que assuma qualquer parcela de culpa pelo caos que toma conta de nossa sociedade. A culpa é sempre dos outros.

Se assim é – e é – só pode ser porque esses extraterrestres fingem ser humanos, como nós. Mas está claro que eles não são nós. Eles são os outros.

E, para não deixar dúvida de que estou certo quanto essa conclusão, nas raras ocasiões em que um ser humano confessa sua má conduta, ele justifica:

– Errei. Mas não fiz nada diferente dos outros.


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