Mundo Cordel
QUEM SOU? O QUE SOU?

MM_SOL

Se sinto raiva, o coração acelera, a saliva seca, os músculos se contraem. Mas não sou a raiva. Ela sequer faz parte de mim. Descoberta, recua.

Se sinto medo, o diafragma se contrai, a respiração encurta. Mas não sou o medo. Ele nem chega a fazer parte de mim. Surpreendido, foge.

A dor física incomoda. Dependendo da intensidade, paralisa. Mas não sou a dor. Ela sequer faz parte do meu corpo. Identificada, perde força.

A alegria descontrai, faz sorrir. Mas não sou a alegria. Ela é uma presença agradável, mas não é parte de mim. Percebida, perde a graça.

Não sou nada do que sinto ou percebo. Nem raiva, nem medo, nem dor, nem alegria. Todas essas coisas estão fora de mim.

Sigo sem saber o que sou, pois só vejo as coisas que estão fora de mim. A mim mesmo não vejo. Existo, mas não me conheço.

Publicado antes no Twitter, obviamente que em partes de até 140 caracteres, que tentam fazer algum sentido isoladamente.


Mundo Cordel
NADA ACONTECEU NAQUELA TARDE

PRACA_ALIMENTACAO

Naquela tarde de sábado, muitas coisas poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. A vida é assim mesmo. Há dias nos quais muitas coisas acontecem, enquanto em outros tudo permanece quieto. Pela manhã, uma grande movimentação; à tarde, nada acontece.

Ou melhor, até acontecem fatos rotineiros, mas nada que mude o estado das coisas. Na praça de alimentação daquele shopping, pode-se dizer que, do meio-dia às dezoito horas, nada aconteceu. Nada além do transitar normal das pessoas em seus afazeres típicos do local e do horário.

Alberto sabia o que poderia acontecer ali. Na verdade, não apenas sabia, mas tinha nas mãos a possibilidade de fazer as coisas acontecerem ou não. Havia preparado tudo nos últimos dias e em parte da manhã daquele sábado. Perto do meio-dia, quando Rita chegou à lanchonete onde trabalhava, ele já a esperava e, entre as primeiras frases da conversa, disse-lhe:

- Trate de sair logo desse emprego. Se você continuar, vai estragar a sua vida e a minha!

Rita não ficou propriamente surpresa com o ultimato. Desde que começara a trabalhar ali, o namorado a pressionava a deixar o emprego. Alberto era muito ciumento. Para ele, a lanchonete na qual ela estava trabalhando era uma ameaça constante. Frequentada por muitos jovens, era um ambiente mais que propício para o assédio.

A moça não cedia às pressões. Dizia que estavam em pleno século XXI e a mulher tinha, não apenas a liberdade, mas o dever de trabalhar. Não submeteria a escolha do seu emprego aos ciúmes do namorado. Depois de discutirem várias vezes, chegaram àquela manhã e ao ultimato de Alberto. Embora a situação fosse relativamente previsível, ela titubeou.

- Puxa, Alberto… Por que tudo isso? Desse jeito você me obriga a…

- Você tem até o fim da tarde de hoje! — interrompeu ele, bruscamente.

- Ou deixa esse emprego ou vou explodir essa lanchonete!

- Que é isso, Alberto? Tá louco?

- Estou pior que louco. Você tá pensando que é assim? Que vou aceitar minha namorada ficar aí se exibindo? Pois não é, não! Se você insistir nisso, eu acabo com tudo aqui!

À medida que a agressividade de Alberto aumentava, crescia também a decepção de Rita. Aquele não parecia o namorado que quase todos os dias a visitava em sua casa. Apesar de ciumento e até possessivo, Alberto sempre fora carinhoso, atencioso, apaixonado mesmo. Não combinava com ele aquela ameaça destrutiva.

- Vá embora daqui, Alberto. É melhor a gente conversar depois — foi o que ela conseguiu dizer, já chorando.

Ele atendeu ao seu pedido e saiu, mas repetindo a ameaça:

- Até as dezoito horas, Rita! É bom que você não esteja mais trabalhando aqui depois disso!

Era quase meio dia quando Rita enxugou as lágrimas e ficou vendo Alberto se afastar. O movimento aumentava na lanchonete e o expediente dela estava começando. A conversa com Aberto havia durado menos de meia hora. Rita sentiu que o namoro estava chegando ao fim. Por um instante, pensou no quanto era estranho que um relacionamento de quase dois anos pudesse acabar assim, em uma conversa de poucos minutos, no meio de um shopping.

“Talvez não acabe”, pensou ela. “Talvez ele esfrie a cabeça e mude de ideia. De repente, até volta me pedindo desculpas, dizendo que não vai mais reclamar do meu trabalho”.

Era uma possibilidade. Mas, como dito desde o princípio, entre meio dia e seis da tarde daquele sábado, nada aconteceu. Alberto poderia ter voltado – como Rita imaginava – dizendo-se arrependido, mas não voltou. Rita poderia ter ido atrás de Alberto, chorando e prometendo largar o emprego, mas não o fez. O gerente da lanchonete poderia ter visto a discussão do casal e demitido Rita, para evitar problemas, mas isto também não aconteceu. Ao contrário, fez-se uma aparente normalidade, com Rita cumprindo os seus afazeres de garçonete e a praça de alimentação se enchendo de gente, como se a cidade inteira houvesse chegado ao mesmo tempo para almoçar.

Alberto ficou por ali, ocupando uma mesa nas proximidades, mas não comeu nem bebeu. Apenas pensava. Pensava em muitas coisas, principalmente na ameaça que havia feito a Rita: “Eu devia ter deixado as coisas mais claras. Ela não tem noção do que sou capaz”.

De fato. Rita não imaginava o quanto Alberto estava falando sério quando ameaçou explodir a lanchonete. Ele nunca havia dado sinais de ser capaz de fazer algo assim. Mas era. Pensava nisso há dias, desde que encontrou na Internet um vídeo que ensinava a construir uma bomba acionada à distância, por meio de um telefone celular. Enquanto assistia ao vídeo, um pensamento destacou-se subitamente, fazendo-o dizer baixinho para si mesmo:

- Uma bomba dessas naquela lanchonetezinha faria um estrago…

No começo, Alberto riu disso. Aos poucos, porém, a imagem do equipamento pronto; do seu próprio dedo, apertando o botão; da destruição no local; tudo isso foi preenchendo cada parte da sua mente.

Daí em diante, foi como se uma força estranha houvesse dominado Alberto. Assistiu ao vídeo dezenas de vezes, observou detalhadamente determinados trechos, fez anotações, conferiu informações em outras fontes, até se convencer por completo: estava pronto para fabricar a sua própria bomba.

Reunir o material não chegou a ser uma tarefa complicada. Um telefone celular velho, mas funcionando, fios, pregos, parafusos, uma lata de leite em pó vazia, massa de modelar… O mais difícil poderia ter sido conseguir a pólvora, mas um amigo que trabalhava em uma fábrica de fogos de artifícios cuidou disso sem fazer muitas perguntas.

Após algumas noites de dedicação ao projeto, o artefato explosivo ficou pronto. Era chegada a hora de escolher um bom lugar e deixá-lo preparado para o uso.

Alberto sabia que a lanchonete onde Rita trabalhava tinha um pequeno banheiro, logo após o final do balcão. O lugar era minúsculo, mas tirava do aperto o cliente que não quisesse caminhar até os banheiros do shopping, localizados do outro lado da praça de alimentação. O problema era que, se a porta do banheiro estivesse fechada, poderia reduzir muito o impacto da explosão no restante da lanchonete. Talvez fosse melhor escolher outro lugar, mais exposto, ou se posicionar de tal forma que pudesse acionar a bomba bem na hora em que alguém abrisse a porta do banheiro.

Pensando nessas coisas, Alberto decidiu ir à lanchonete naquele sábado, antes que Rita chegasse para trabalhar. Quando o shopping abriu, às dez da manhã, ele foi um dos primeiros a entrar. Foi direto à praça de alimentação. Levava a bomba dentro de uma sacola de compras, dessas vendidas nos supermercados como ecologicamente corretas, a pretexto de se reduzir o consumo de sacos plásticos descartáveis.

Passou pela frente da lanchonete, observou de longe, aproximou-se, entrou, tomou um suco, foi ao banheiro e decidiu que o lugar não era adequado para o que queria.

Mas, do lado de fora do banheiro, ao lado da porta, viu uma pequena pia e, ao lado da pia, no canto da parede, um grande cesto de lixo onde se jogava o papel toalha usado.

Apesar de o cesto ter as paredes semelhantes a um alambrado, o saco de plástico preto que lhe servia de forro fazia dele uma ótima camuflagem para a sacola explosiva. Alberto a pôs no chão e fingiu que lavava as mãos. Enquanto isso, empurrou-a com o pé para trás do cesto de lixo. Este, bem mais largo em cima que na base, tornou-se um esconderijo perfeito.

Toda essa ação – de transportar a bomba, procurar um lugar para ela e colocá-la lá – deixou Alberto muito excitado e nervoso. O coração estava acelerado, gotas de suor formavam-se em sua fronte. O medo de ser prematuramente descoberto misturava-se a uma estranha sensação de poder. Do poder de mandar tudo pelos ares. Deve ter sido por isso que, ao encontrar Rita, Alberto mostrou-se tão impaciente e agressivo, fazendo-a estranhar o seu comportamento.

Um minuto depois do meio dia, porém, tudo isso já havia acontecido, e o que se via eram pessoas se alimentando, garçons e garçonetes – como Rita – servindo, pessoas que passavam de um lado para outro, cada uma seguindo o seu destino.

E havia Alberto, sentado em um lugar qualquer, olhando ora para o relógio de pulso, ora para o telefone celular que tinha nas mãos.

Uma e meia, duas da tarde, o movimento na lanchonete diminuindo, para voltar a crescer lá pelas quatro ou cinco. Alberto não entendia como as últimas horas podiam ter sido tão lentas quando estavam passando, e, no entanto, agora, que já haviam passado, pareciam ter durado apenas um piscar de olhos.

Dezessete horas e cinquenta e oito minutos. Alberto levanta-se e vai em direção à lanchonete. Rita está limpando uma mesa. Ela ergue a cabeça e seu olhar se encontra com o de Alberto. Mais uma vez, poderia acontecer alguma coisa, um sorriso, uma palavra, uma mão estendida, um gesto qualquer que libertasse o rapaz de suas ideias destrutivas. Mas, mais uma vez, não aconteceu nada. Rita simplesmente baixou o olhar e esperou que Alberto passasse por ela.

Frustrado com a indiferença de Rita, Alberto afastou-se uns cinquenta passos largos, parou e digitou, no teclado do celular, o número do aparelho que servia como acionador de sua bomba. Durante um segundo especialmente longo, olhou fixamente o visor, mais para se certificar que digitara o número correto que por hesitação. Em seguida, apertou a tecla verde e, involuntariamente, contraiu-se todo, esperando a explosão.

No entanto, não aconteceu absolutamente nada. Nem explosão, nem gritos, nem barulho de objetos sendo arremessados. Nada.

Alberto deu meia volta e olhou em direção à lanchonete. Procurou Rita, mas viu apenas uma criança, uma menina, de uns três anos de idade correndo entre as mesas. A mãe vinha logo atrás, tentando alcançá-la. A visão da criança correndo teve um efeito inesperado sobre Alberto. Uma imensa ternura o invadiu. Quis abraçar aquela criança, protegê-la. Sentia-se um monstro por ter pensado em causar uma explosão naquele lugar, pondo em risco a vida de seres inocentes como aquela menina e sua mãe. Que sorte o equipamento haver falhado!

Enquanto a mulher e a criança afastavam-se do local, Alberto caminhou até a lanchonete, lenta e decididamente. Rita, parada junto ao balcão, ficou olhando ele se aproximar e passar por ela como se não a visse. Tudo o que Alberto queria agora era pegar de volta a sacola com o explosivo.

Com a mão esquerda, afastou o cesto de lixo da parede, enquanto esticava o braço direito para pegar a sacola… Mas, não chegou a tocar nela. Um estrondo ecoou pelo shopping e um impacto brutal jogou Alberto para trás. O local encheu-se de fumaça, poeira e papel picado, como se as toalhas descartáveis usadas, que estavam no cesto, houvessem se transformado em uma chuva de confetes.

Do lado de fora, as pessoas olhavam perplexas para o cenário de destruição, sem entender direito o que estava acontecendo. Um rapaz, que trabalhava do lado de dentro do balcão, surgiu da fumaça pedindo socorro, o rosto sangrando, ferido por estilhaços.

Rita caíra ao chão, desacordada. Despertaria minutos depois, auxiliada por um segurança do shopping. Nada grave.

Alberto foi retirado ainda com vida do meio dos escombros, mas morreu a caminho do hospital.

A bomba havia explodido às dezoito horas e três minutos.


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O TAXISTA

TAXIS

Haveria uma solenidade. A posse de alguém em um novo cargo ou algo assim, não vem ao caso agora detalhar. O que importa é que achei melhor ir de táxi, para o caso de resolver tomar um uísque no coquetel comemorativo. Como costumo fazer nessas ocasiões, liguei para o Hélio, que além de bom motorista é amigo de longa data. Combinei com ele para me deixar no local e ficar por perto, esperando minha ligação para o retorno.

Tal como combinado foi feito e, às oito da noite, eu já estava no local. Hino nacional, discursos e aplausos depois, conversava eu amenidades com uns conhecidos que praticamente só vejo nessas ocasiões. Em meio à conversa, tomava o uísque previsto e saboreava uns salgadinhos, cheio de fricotes, mas pouco saborosos. Faltavam uns vinte minutos para as dez horas quando o celular vibrou no bolso do meu paletó. Era o Hélio:

- Amigão, o carro deu um problema aqui. Não sei se é bateria ou alguma pane elétrica, mas parou tudo. Não acende nem o painel.

Eu acabava de ficar sem meu transporte exclusivo. Sem problemas. Precisaria ligar para um serviço de tele táxi, que acabaria demorando um pouco mais, mas certamente me levaria para casa. Foi nessa hora que me lembrei do Menezes, outro taxista, não tão próximo quanto o Hélio, mas também conhecido meu há muitos anos, desde o tempo em que eu tinha um escritório no centro da cidade. Em frente ao prédio havia um ponto de táxis onde o Menezes costumava estacionar o dele. Coincidentemente, eu passara por ali no dia anterior e o vira encostado em um dos carros.

- E aí, doutor, tudo bem? – cumprimentou-me, com o sorriso de sempre.

- Menezes, rapaz! Como é que estão as coisas?…

Conversamos não mais que três minutos. Só o suficiente para perguntar pela saúde da família e indagar sobre o trabalho. Menezes pareceu-me um pouco abatido. Evitei fazer qualquer observação nesse sentido, mas ele comentou que vinha sentindo umas dores de cabeça. Nada que o impedisse de continuar trabalhando, disse-me. Pôs-se à disposição para quando eu precisasse e procurou um cartão de visitas no bolso. Não tinha. Anotei na agenda do meu celular o número que ele me disse ser o dele. Despedimo-nos com sinais de polegar para cima e votos de “tudo de bom” e “até a próxima”.

Enquanto recordava esse encontro com Menezes, procurei na agenda do telefone o número que ele me havia fornecido. Liguei. Fiquei ouvindo a chamada. Três, quatro toques. Já imaginava que talvez estivesse dormindo, quando finalmente alguém atendeu. Uma voz de mulher falou comigo:

- Alô.

- Boa noite… – disse eu, meio sem jeito. – Por favor, esse celular é do Menezes?

A mulher demorou um pouco a responder. Em seguida, a voz saiu trêmula:

- É… O senhor… é amigo dele? – perguntou-me.

- Sou cliente e amigo também. Por quê?

- Senhor… O Menezes morreu… Eu sou a esposa, quer dizer, a viúva dele…

- Morreu?… Mas, foi algum acidente?

- Não, senhor, foi um derrame. Um AVC, né?

Fiquei chocado. Como pode a vida de um ser humano ser assim, tão frágil? O que dizer àquela mulher, cujo sofrimento podia ser percebido através da sua voz ao telefone, embora eu nunca houvesse falado com ela antes? Tentei ao menos mostrar solidariedade.

- Puxa, senhora, eu não sabia… Meus pêsames… Tão de repente, né?… Pega todo mundo de surpresa…

- É… Quer dizer… Assim, né?… No dia mesmo do derrame ninguém esperava, mas até ele dar o último suspiro, ainda demorou um mês e dois dias em coma… Mas aí, na última semana, ele foi definhando e já ficou todo mundo só esperando a hora mesmo…

- Senhora, eu acho que não entendi direito… Quando foi mesmo que ele morreu?

- Dia dezessete vai fazer dois meses.

- E o Menezes que a senhora fala é o do táxi?

- Claro, moço? O senhor não ligou para o celular dele?

- É isso mesmo. Liguei. É que a notícia me pegou tão de surpresa, que é difícil de acreditar. Meus pêsames… – e desliguei.

Ainda pensei em questionar: “Senhora, acho que estou falando de outra pessoa, porque vi o Menezes ontem, no mesmo ponto de táxi de sempre”. Mas, de que isso adiantaria? Mesmo que estivéssemos falando de dois Menezes distintos, ambos taxistas, o marido dela era o que estava morto. Nada mudaria isso.

Mesmo assim, sentindo que a dúvida me incomodava, dias depois voltei ao ponto de táxi e perguntei a outros taxistas que encontrei ali se eles conheciam Menezes.

Não apenas conheciam como confirmaram: tinha morrido mesmo. Exatamente como descrito pela viúva.


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O JORNAL

No começo de 1980, eu estava com treze anos de idade e tinha acabado de mudar de colégio. Deixei a escola pública onde havia terminado o primeiro grau e passei a estudar em uma particular, graças a uma bolsa de estudos que ganhei em um concurso.

Valeu a pena, porque a estrutura da nova escola era bem melhor, mas a mudança foi traumática. Além de ser longe da minha casa, todos os meus amigos haviam ficado no outro colégio. Felizmente, os meus colegas de turma haviam chegado ali pelo mesmo caminho – o concurso – o que aumentava as minhas chances de me aproximar deles.

De fato, aos poucos novas amizades foram surgindo e tornei-me especialmente próximo de dois dos meus colegas: o Leovigildo, que todos chamavam só de Leo, e o Antonio Maria.

Mas, apesar de termos nos tornado bons companheiros, sentíamos necessidade de interagir mais com o restante da turma. Naquela época, ainda não se usava a expressão “popular” para designar alguém que está sempre rodeado pelos colegas e é convidado para os eventos mais importantes, mas eu, Leo e Antonio Maria sentíamos falta exatamente disso: de sermos um pouco mais “populares”.

Foi então que estourou a guerra Irã-Iraque e as coisas começaram a mudar.

Claro que a frase anterior foi posta aí de propósito, para levar o leitor a se perguntar: “E o que uma guerra do outro lado do planeta teria a ver com a popularidade de três garotos no Brasil?”. Pode parecer estranho, mas as coisas deste mundo estão mais interligadas do que se imagina.jornais27

Aconteceu que eu era um bom aluno de história, fascinado por guerras. Em minha casa havia um livro grande e ilustrado sobre a Segunda Guerra Mundial, que volta e meia eu pegava para ler ou simplesmente ficar vendo as fotografias e os mapas explicativos dos avanços e recuos das tropas.

Quando o Iraque invadiu o Irã, naquele setembro de 1980, passei a ter uma guerra atual, com notícias na TV, nos jornais e nas revistas semanais, que faziam sempre uma análise detalhada das possibilidades dos dois lados envolvidos no conflito. Num tempo em que não se tinha computador em casa – e sequer se falava em Internet – eu acompanhava esses noticiários com avidez por informações.

Nessa leitura frequente de jornais e revistas, acabei tomando contato com outros assuntos, aqui mesmo do Brasil, como o processo de abertura política e o crescimento da inflação. Passei a admirar as pessoas que nos traziam essas informações e sonhei ser jornalista.

Raul Seixas disse certa vez, parafraseando Dom Quixote, que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Eu não estava só em meu sonho de ser jornalista. Embora ainda não soubesse, meus amigos Leo e Antonio Maria também sonhavam, ou melhor, o Leo sonhava; o Antonio Maria foi arrastado por nós para dentro do sonho.

Isto ficaria claro durante uma semana de atividades esportivas e culturais que houve no colégio. Em meio a essas atividades, cada turma precisaria eleger um líder, que ficaria responsável por representar a turma em determinadas ocasiões do evento. Claro que outros alunos, mais “populares”, logo se apresentaram como candidatos naturais à liderança, mas da disputa deles surgiu a oportunidade para as coisas mudarem para nós.

Em certo dia, de muita movimentação, eu e Leo escrevemos uma espécie de crônica, falando dos possíveis líderes, comparando-os e comentando como as atividades mais recentes estavam influenciando o nosso comportamento. Chamamos Antonio Maria para participar do nosso embrião de jornal e confirmamos o que já era esperado: ele também escrevia, e bem.

Animados com a ideia, passamos praticamente a tarde toda reunidos, fazendo o que viria a ser o jornal da turma. Não tínhamos computador, nem câmera digital (naquele tempo, nem se falava nisso), mas, o Leo usava a máquina de escrever com uma habilidade incrível, datilografando os textos e deixando espaços para colarmos algumas fotos ou desenhos. Depois, foi só achar um lugar para fotocopiarmos tudo. Estava pronto o primeiro número do nosso jornal.

No dia seguinte, quando distribuímos as cópias com os colegas de classe, algo mudou em nossas vidas. Era hora do recreio, mas ninguém saía da sala, todos lendo o ABLADANTE (era esse o nome do periódico), rindo e comentando com quem estava ao lado. Os caras mais “populares” vinham falar com a gente, ora elogiando o resultado do trabalho, ora se queixando por terem sido criticados. Algumas meninas vieram nos dar parabéns. Um sucesso!

A partir daquele dia, tudo o que acontecia com qualquer colega da turma podia virar notícia. Um que faltou à aula porque estava com febre, outro que aprontou alguma estripulia e foi mandado para a coordenação, nada escapava aos nossos olhos e ouvidos atentos. Em pouco tempo, professores e coordenadores também viraram pauta para nossas matérias, nem sempre elogiosas, aliás, quase nunca.

E assim foi por todo o restante daquele ano e do seguinte, período no qual estudamos juntos. O jornal não tinha uma regularidade definida, saía a cada quinze ou vinte dias, conforme houvesse matéria. Mas o interesse dos colegas cresceu e outros acabaram se tornando articulistas eventuais. Alguns professores também entraram para a lista de leitores e incentivadores.

Descobrimos assim a força da palavra escrita, o poder da mídia, a influência que têm aqueles que decidem o que é e o que não é notícia. Claro que, às vezes, alguns colegas e professores ficaram chateados conosco. Outras vezes enfrentamos ameaças de punição na escola, por causa do que escrevíamos. Mas tudo valeu a pena.

No final, nenhum de nós se tornou jornalista de verdade, mas, ainda hoje, mais de trinta anos depois, quando encontro com meus ex-colegas de “jornalismo”, nos perguntamos do que teríamos sido capazes de realizar, se contássemos com os recursos de tecnologia da informação que se tem à disposição nos dias de hoje.

Não tenho dúvida que, do ponto de vista da qualidade do material produzido, tudo seria bem mais fácil. Computador, câmera digital, processadores de texto, acesso a informações sobre qualquer coisa…

Entretanto, com cada um podendo criar sua própria página em uma rede social, talvez fosse mais difícil atrair o interesse dos leitores, como fizemos naquela época. Até os grandes jornais têm enfrentado essa dificuldade.

Na realidade, não dá para imaginar como seria. Nem estou interessado nisso. Hoje, é mais gostoso relembrar o que vivemos, e foi um tempo muito bom.

P.S.: Alguns anos depois do encerramento das atividades do jornal, quando já estava na faculdade de Direito, recebi as primeiras noções jurídicas sobre algo chamado “liberdade de expressão”. Um direito que precisa ser conquistado a cada dia, pelo seu próprio exercício, o que requer coragem. Quem publica o que pensa sempre corre o risco de causar dano à imagem de alguém e, mesmo em uma democracia, pode entrar em rota de colisão com o poder, seja ele político, econômico, bélico ou de qualquer outra ordem.


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QUEM SORRI POR ÚLTIMO

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O técnico Joachim Löw no momento do gol contra a Argentina

Por toda a vitoriosa campanha da seleção alemã para a conquista do seu quarto título mundial, chamou-me a atenção a figura do seu treinador Joachim Löw.

A cada gol, a cada vitória, o homem não abria um sorriso sequer. Era como se, para ele, os gols do seu time, e mesmo as vitórias da equipe, fossem apenas o cumprimento de um dever, e não motivo de comemoração.

Alguns amigos com quem assisti aos jogos diziam que era frieza, mas nunca concordei. Parecia-me mais a concentração de alguém determinado a alcançar um objetivo, no caso, a conquista da copa de 2014.

Não sei se tinha razão em minha avaliação, mas gostei de ver a reação de Löw, ao final da partida contra a Argentina. Foi bom ver sua fisionomia sisuda se abrir em um sorriso. O sorriso de quem sorri por ultimo.

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O técnico Joachim Löw ao final da partida com a Argentina

EM TEMPO – Se eu fosse fazer uma paródia para homenagear os campeões, usaria a música “Mulheres de Atenas”, mudando a letra para “Rapazes Germanos”, e começaria assim:

Mirem-se no exemplo
Daqueles rapazes germanos
Eles que nos salvaram
Da gozação dos Hermanos!


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CORDEL PRA DEPOIS DA COPA

SELECAO_COSTAS

Sem o Brasil campeão,
Resta a nós reconhecer
Que isso pode acontecer
Em qualquer competição.
Passada a decepção,
Prestadas as homenagens,
Guardadas muitas imagens
No arquivo da nossa mente,
Olhemos, daqui pra frente,
Para outros personagens.

Pois, com a Copa terminada,
É chegada a ocasião
De ver na televisão
Muita conversa fiada
E promessa exagerada
De grandes transformações.
De dar novas soluções
Para problemas antigos
Muita atenção, meus amigos,
Vêm chegando as eleições.

É tempo de aparecer
Gente que estava sumida,
Que andou desaparecida
E que agora vem nos ver.
Que pergunta e quer saber
Do que estamos precisando,
Prometendo e explicando
Como tudo irá mudar
Mas, para realizar,
Com seu voto está contando.

Tempo bom para se ver
Gente beijando criança,
Dizendo que a esperança
No Brasil vai renascer.
Que as crianças devem ter
A maior prioridade
E que é gigante a vontade
De ajudar o mais carente,
Essa conversa que a gente
Já viu que não é verdade.

Tempo de a gente escutar
Achando ruim ou bom,
Nas ruas, carros de som,
Com seu som a ecoar.
As canções a ressaltar
O valor do candidato,
Embora não seja exato
Que elas digam a verdade.
Deus me dê boa vontade
Para crer nisso de fato!

Nas esquinas e avenidas,
Muitas moças e rapazes
Exibirão seus cartazes
E bandeiras coloridas.
Não estão bem definidas
As suas convicções,
Já que as manifestações
São em troca de uns trocados:
Militantes contratados
Nesse tempo de eleições.

Não são só os militantes
Ou cabos eleitorais
Que vendem seus ideais
Em condutas aviltantes.
Cenas mais repugnantes
Vêm do horário eleitoreiro:
Vende-se um partido inteiro,
Ali a coisa desanda,
E o tempo de propaganda
Vale mais do que dinheiro.

É bom estar preparados
Para o nível dos debates.
É provável que os embates
Venham todos recheados
Com segredos revelados
Sobre esquemas de bilhões,
Fraudes em licitações,
Desvios, corrupção,
Talvez todos com razão
Na troca de acusações.

Amigos, como eu queria
Não estar desiludido
E acreditar que um partido
É feito de ideologia!
Pois sei que a democracia,
Apesar de suas mazelas
É uma das coisas belas
Que o ser humano criou
E, das crises que enfrentou,
Transpôs cada uma delas!

O desânimo me alcança
Mas, teimo em não desistir,
E, assim, hei de prosseguir
Mantendo viva a esperança
De ver alguma mudança
Nesse quadro deprimente,
Que eu aqui, ligeiramente,
Descrevi, nesse cordel,
Cumprindo assim meu papel
De alertar a minha gente!

Deixo claro que, apesar
De toda desilusão,
Quando chegar a eleição
Vou à urna, vou votar.
Ali, vou exercitar
A minha cidadania,
Na esperança de algum dia,
Eleger representantes
Sérios, probos e atuantes.
E viva a DEMOCRACIA!

* * *

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UM SONETO

Prefiro publicar apenas a poesia, sem considerações preliminares.

Estes, porém, parecem versos malditos.

Enviei-os a um grupo de amigos internautas, por e-mail, e dois me responderam de maneira inesperada. Um quis saber se havia me ofendido de alguma forma; o outro pediu (não muito delicadamente) que eu dissesse as coisas abertamente, sem me esconder atrás da minha poesia.

Declamei-os durante a comemoração do aniversário de um amigo, e um dos presentes, que eu nem conhecia direito, protestou, dizendo que eu lançava indiretas a ele.

É por isso que, ao publicar este soneto aqui, em minha coluna no JBF, advirto: os versos não se dirigem ao editor do blog ou a qualquer outro fubânico.

Ao contrário, convido aos leitores que por aqui transitam a ler esta poesia dedicando-a (só em seu pensamento) a alguém de seu próprio convívio. Tenho certeza que todos encontrarão alguém que mereça a dedicatória.

SONETO PARA UM ARROGANTE

Tu te comportas com tanta arrogância
Que me estimulas a fazer um alerta:
Se tua barriga fosse agora aberta,
Exalarias fétida fragrância.

Se nos salões exibes elegância,
Noutro ambiente, bem mais reservado,
Frequentemente fica demonstrado:
Não faz sentido a tua petulância.

É que, depois de algumas refeições,
Tu, como os outros, sentes contrações.
E a tua pequenez te é exposta,

Quando te ocultas e te pões sentado,
E te esforças, mas o resultado
Do teu esforço é simplesmente bosta.


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ELAS VENCERAM

Sabia que poderia acontecer. Previ isso no final da minha crônica da semana passada. “Vai que me emociono na hora do hino nacional…”, dizia eu. E acrescentei a tempo: “… e ela me pediu que fizesse um esforço extra para torcer pela seleção brasileira nesta Copa”.

Não deu outra. De um lado, minha mulher, toda vestida de verde e amarelo; do outro, a TV de não sei quantas polegadas, do BNB Clube de Fortaleza, mostrando a torcida a cantar o Hino Nacional Brasileiro na capela. Num instante, eu já era mais um torcedor da seleção.

Alguns diriam, depois, que não era o povo brasileiro que estava nas arquibancadas. Que o povo ficou do lado de fora, que os ingressos são caros e coisas assim. Mas, não acredito nisso. Os ingressos são caros, é verdade, mas, só por isso, quem os compra deixa de ser povo? Creio que não. Até os jogadores – que vivem na Europa e ganham em euros – são povo. Além do mais, tenho certeza que muita gente não tão abastada trabalhou, economizou e até se endividou para poder ver de perto a abertura da Copa. O som que se ouviu nas arquibancadas do Itaquerão era emitido pelo povo, sim!

O fato é que, na hora, nem pensei nisso. Apenas senti a voz estranha enquanto tentava cantar o hino também. À minha frente, do outro lado da mesa, meu irmão também tentava cantar. Vi que as lágrimas já corriam de seus olhos e desciam pela face. Somos uns chorões.

Lembrei-me de uma vez, quando viajamos para a Serra da Meruoca, lugar onde nosso pai nasceu. Eu devia ter uns seis anos de idade e ele dez. Por algum motivo que não lembro, nossa mãe não nos acompanhou. Lá pelo quarto dia longe de casa e da mãe, ele me disse que estava com saudade. Eu também estava.

- Dá até vontade de chorar – disse ele.

- E por que não chora?

- Por que você é menor e ainda não chorou, aí fico com vergonha de chorar primeiro…

Antes que ele terminasse a frase, eu já estava chorando. Ele aproveitou e chorou tudo o que estava acumulado. Somos assim mesmo, uns chorões. E choramos de emoção vendo e ouvindo nossa torcida cantar o Hino. Minha mulher sorria, vendo o choro daqueles dois marmanjos.

Foi assim que elas – minha mulher e a torcida brasileira – venceram o bloqueio que me impedia de torcer pela seleção brasileira nos últimos anos. Com o carinho da primeira por mim, e com a paixão da segunda por esse time de camisas amarelas que o mundo inteiro reconhece como aquele que faz o mais belo futebol do planeta!

Hoje tem jogo da seleção de novo, e será na minha cidade de Fortaleza. Foi aqui onde, ano passado, começou essa história de cantar o Hino até o fim da primeira parte, na capela. Verdadeiro ato de rebeldia, contra os noventa segundos do padrão FIFA. Mas, acima disso, verdadeiro ato de amor pela seleção brasileira e, por que não dizer, pelo Brasil.

Mesmo fazendo a distinção entre a seleção brasileira e o país, dá para perceber no olhar dos torcedores – e dos jogadores também – que há ali uma emoção que extrapola os limites do futebol.

Sim, certamente haverá Hino à capela no Castelão. O povo nas arquibancadas cantará e emocionará os jogadores, o país, o mundo.


Mundo Cordel
ANTES QUE A COPA COMECE

bandeira-torcida-brasileira

Antes que a Copa comece, resolvi deixar registradas algumas ponderações sobre o evento e, bem assim, sobre a seleção brasileira de futebol. Certamente, não são opiniões que virão a ter grande repercussão, mas me faz bem expressá-las.

A primeira delas – um tanto óbvia – é que acho tardias as manifestações “contra a Copa”, um evento cuja decisão pela realização no Brasil se deu há anos e, na época, não houve qualquer protesto que tenha merecido destaque.

Protestar contra a não entrega de obras prometidas, atrasos de outras e má qualidade de outras ainda, parece-me razoável, mas, contra a realização do evento no Brasil? Acho que não é o caso. Protestar por causa dos problemas com a saúde, a segurança e a educação? Perfeito. Mas contra o fato de a Copa ser no Brasil, não vejo motivo.

Aliás, se fosse para protestar contra a Copa, sentir-me-ia mais estimulado a fazê-lo contra o evento em si, independentemente do país onde se realize. Digo isso porque, embora apreciando muito o futebol, e acreditando nos esportes em geral como uma prática capaz de aproximar os povos, senti nascer em mim certa rejeição pela Copa do Mundo desde que ela passou a ser chamada de “Copa do Mundo da FIFA”.

Não sei quando isso começou, mas lembro que, até certa época, “Copa do Mundo” era “Copa do Mundo”, e só. Nem se dizia “Copa do Mundo de Futebol”, porque já estava subentendido. De uns tempos para cá, porém, observei que os órgãos de comunicação se referem ao evento sempre como “Copa do Mundo da FIFA” ou “Copa da FIFA”, como se a FIFA fosse a dona do evento e não sua organizadora. Imagino que as razões para essa mudança de postura envolvam questões contratuais, ou, em linguagem mais simples, dinheiro.

O certo é que, à medida em que a “Copa do Mundo” ficou com essa cara de “propriedade da FIFA”, ela foi se tornando algo estranho para mim. E isso fica cada vez mais nítido, quando vejo o controle exercido pela FIFA sobre todos os detalhes, especialmente pela preocupação da entidade com registros de marcas e a comercialização de produtos relacionados com o evento.

Nesta Copa, que está prestes a começar, estamos submetidos a uma Lei Geral da Copa repleta de previsões que, no mínimo, põem em dúvida a soberania nacional. Restrições ao direito de o cidadão chegar à própria residência, tratamento de área pública como se fosse privada e até tipificação de crimes que só se processam mediante representação da FIFA .

Isso realmente me incomoda, e o meu sentimento é o de que a Copa já não é mais do Mundo, é da FIFA. Em princípio, nada tenho contra a FIFA, mas sinto que ela se apropriou de algo que deveria ser patrimônio da humanidade, não de uma entidade ou das pessoas que estão por trás dela.

A par disso, pretendo assistir a muitos jogos da Copa pela televisão. Por quê? Porque gosto de bom futebol e de ver as seleções se enfrentando. Fascina-me especialmente ver a competição entre equipes de países de língua e cultura totalmente diferentes. É interessante ver que, naquele momento, as diferenças são superadas por um vínculo comum: o futebol.

Movido por esse interesse – e talvez seja isso a “paixão pelo futebol” – suporto as condições que me são impostas e me deixo levar pela emoção durante os jogos, algumas vezes escolhendo uma seleção para torcer, outras apenas apreciando o embate entre as equipes.

Assim, mesmo incomodado com o fato de a Copa ser da FIFA, não me sinto moralmente autorizado a me manifestar contra a Copa, porque participo dela (vendo os jogos pela TV) e não quero que ela deixe de existir. Queria apenas que fosse devolvida ao povo, mas acho que, por enquanto, essa é uma batalha perdida.

E a seleção brasileira? É a equipe que representa o Brasil nessa festa toda, logo, é natural que os brasileiros interessados por futebol deixem de lado a torcida pelo seus clubes e se unam uns aos outros na grande torcida verde e amarela. Outras pessoas, que nem se interessam tanto por futebol, também podem aderir a esse movimento.

Mas, que fique bem claro: a seleção não é o país. Isso parece óbvio, mas tem muita gente bem informada por aí dizendo que torcer contra a seleção é desejar que nosso país vá mal, é ser do time do “quanto pior, melhor”.

Claro que não é assim. Posso afirmar isso com toda segurança, porque eu mesmo, não apenas desejo, mas tenho feito o que está ao meu alcance para que o Brasil seja um país melhor. No entanto, há muito tempo não torço pela “Canarinha”.

Por que não torço? Não sei ao certo o motivo. Lembro apenas que torci muito pela seleção brasileira até a Copa de 1994. Em 1998, já não senti tanta empolgação. Desde então, desenvolvi certa antipatia pela seleção, daí evoluindo para a indiferença.

É possível que isso tenha relação com essas considerações que já teci a respeito da FIFA, ou com alguma percepção de que a seleção tenha se tornado apenas uma vitrine, na qual os jogadores despertam o interesse de clubes estrangeiros (se ainda não jogam em um deles) ou aumentam o valor do seu passe. Se faz sentido essa desconfiança, também imagino que os jogadores não fariam isso sozinhos, alguém mais poderoso se beneficiaria dessa valorização, mas isso não vem ao caso agora. Mas essas são apenas conjecturas, e não uma explicação definitiva das razões pelas quais deixei de torcer pela seleção.

Sei que torcer por uma determinada equipe requer identificação com ela. Um vínculo que leve o torcedor a se sentir próximo dos jogadores. Percebo isso muito claramente nos eventos internacionais de mistura de artes marciais, dos quais alguns brasileiros participam, mas não vejo em nenhum deles a incumbência de representar o Brasil. Por ter sido praticante de boxe, tenho inclinação para torcer pelos atletas oriundos de modalidades de luta em pé (boxe, muay thai, etc), independentemente de sua nacionalidade. Eventualmente também torço por representantes brasileiros do jiu-jitsu, mas a nacionalidade do lutador não é determinante quanto a torcer ou não por ele.

No caso da seleção brasileira de futebol, em algum momento da história perdi esse liame. Continuo vendo alguns de seus jogos, mas nem suas vitórias me alegram, nem tampouco suas derrotas me entristecem. E vice-versa. Paciência. O que posso fazer?

O que me parece um erro, é misturar isso com política, e achar que não torcer pela seleção é sinal de desamor pelo país. Ou pior, ver uma relação direta entre torcer pela seleção e apoiar o partido que está no governo do país.

Há poucos minutos vi um vídeo no YouTube onde um rapaz alerta que, ao invés de torcer pela seleção, devemos pensar em quem vamos votar em outubro. Achei aquilo completamente sem sentido. Parece-me evidente a possibilidade de torcer pela seleção brasileira na Copa e pensar na eleição depois.

Dá inclusive para pensar em política durante a Copa, assistindo aos jogos, sem confundir as coisas. Não vejo problema nisso. Porque acredito que as escolhas políticas se fazem com racionalidade, analisando o restrospecto e as propostas de partidos e candidatos, para tentar encontrar a melhor opção para o futuro do país e do povo que o compõe. E, se fazemos uma escolha que leva a um resultado insatisfatório, não há nada demais em mudar de ideia e tentar algo diferente mais adiante: outros candidatos, outros partidos, outras ideias…

Isso é o oposto do que acontece no futebol, onde predomina a empatia, a emoção e, por que não dizer, a paixão! Não dá nem para pensar em torcer por outro time, mesmo quando o nosso joga mal ou passa anos seguidos sem ganhar um campeonato.

Sem contar que, na política, faz parte do jogo que adversários eventualmente se unam em torno de um objetivo comum ou tentem convencer uns aos outros de seus pontos de vista, o que não tem o menor cabimento no futebol.

Sim, tem o argumento de que o “povão” não sabe fazer essa diferença, que é enganado com pão e circo, essas coisas. Discordo. Acho que dizer que o “povão” é ingênuo é tão preconceituoso quanto afirmar que a classe média é conservadora. Vejo pessoas, e vejo que há pessoas mais preocupadas com questões políticas que as outras, independentemente de faixa econômica ou social. Assim como há pessoas mais ou menos conservadoras e pessoas que se sentem ou não estimuladas a torcer pela seleção brasileira.

Por essas e outras é que pretendo assistir a vários jogos dessa Copa, provavelmente em casa, e acredito que será bem divertido. Em alguns jogos, talvez me encante com o futebol de uma das equipes e torça por ela. Acredito que continuarei sem torcer pela seleção brasileira, e, se assim for, não será por falta de amor ao meu país, por causa do partido A ou B, ou por estar infeliz com a realização da Copa no Brasil. Da mesma forma, se me der vontade de torcer por ela, não será por simpatia ao governo ou ao partido que atualmente o ocupa.

Aliás, faço questão de estar à vontade para mudar de ideia a qualquer momento. Vai que me emociono na hora do hino nacional, ouvindo o nosso povo cantar tão belamente como fez na Copa das Confederações… Quem sabe?

P.S.: Minutos depois que terminei de escrever esse texto, li-o para minha mulher e ela me pediu que fizesse um esforço extra para torcer pela seleção brasileira nesta Copa. Argumentou que será muito mais divertido torcermos juntos e comemorarmos as vitórias que a seleção certamente terá, pelo menos nas primeiras fases. Não duvido que até quinta-feira consiga me convencer. Afinal, ela nada sabia de futebol quando nos conhecemos, e hoje, por minha causa, é torcedora ardorosa do Ceará, o Vozão, atualmente líder isolado da Série B do Campeonato Brasileiro. Segui-la na torcida pela seleção brasileira seria uma espécie de caminho de volta. Sim, isso é possível. O amor tem esse poder transformador, capaz de jogar por terra séculos de filosofia.

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A esposa do colunista em campanha para convencê-lo a torcer pela seleção brasileira

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O DIA EM QUE CONHECI GONÇALO

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Hoje, domingo, oito de junho de 2014, completa uma semana que quitei uma velha dívida que tinha comigo mesmo:  visitar a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, no Rio de Janeiro, um desejo que acalentava desde que publiquei o meu primeiro folheto de cordel, há quase dez anos.

Pelas duas da tarde saí do hotel onde estava hospedado em Copacabana e segui de táxi para Santa Teresa, onde encontraria Gonçalo Ferreira da Silva, com quem já havia conversado duas ou três vezes por telefone, mas não conhecia pessoalmente.

Recebeu-me com um largo sorriso e um abraço afetuoso, como quem reencontra um velho amigo:

- Seja bem vindo, poeta!

Eu, cauteloso como sempre, mesmo tendo avisado que iria, tratei de ir me apresentando. Mas, antes que dissesse meu próprio nome, Gonçalo interrompeu:

- Mas, claro que é você, poeta! Sua obra chegou antes! Aqui você está em casa!

De fato, daí em diante, foi uma conversa sobre poesia, literatura, filosofia e outras coisas mais, que quem por ali passasse teria certeza que éramos mesmo velhos amigos.

Aliás, enquanto conversávamos, chegou um casal à procura de cordéis adequados para crianças – parece que para um trabalho escolar do filho – e saiu com vários folhetos. Depois apareceu uma francesa que, apesar de não falar quase nada de português, queria cordéis que falassem de filósofos gregos. Conseguiu dizer que era professora e se interessava pelo assunto. Saiu de lá com trabalhos de Gonçalo sobre Aristóteles, Platão e outros mais. Fiquei admirado com aquilo: em plena tarde de domingo, uma professora estrangeira procurando cordéis sobre filosofia! E achou!!

Mais tarde, chegou por lá o cordelista William J. G. Pinto, também acadêmico da ABLC, e a conversa ficou ainda mais animada. Divertimo-nos declamando alguns versos. Até o ambulante, que passou vendendo empadas e brigadeiros, ficou à vontade para cantar um samba que havia feito para anunciar os seus produtos. Madrinha Mena também chegou depois e se demorou um pouco conosco.

Estava tão feliz que nem vi a noite chegar. Até porque chegou mais cedo, trazida por uma chuva que não estava prevista no boletim meteorológico daquele dia.

Despedimo-nos, mediante a minha promessa de fazer nova visita da próxima vez que for ao Rio de Janeiro, e tomei o táxi de volta para Copacabana. No caminho, lembrava admirado daquele homem tão importante para a cultura brasileira, e que demonstrara tanta gentileza ao me receber, chegando a dizer que conhecia minha obra como cordelista, quando, na verdade, era eu quem tinha o dever de conhecer o muito que ele já fez nesse campo da Literatura de Cordel.

Mas, uma última boa surpresa ainda me aguardava naquele dia. Ao chegar ao hotel, comecei a ler alguns livros que Gonçalo havia me presenteado e, ao folhear “Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel”, de sua autoria, deparei-me, na página 25, com um capítulo intitulado “O infundado temor dos intelectuais”, onde está escrito o seguinte: “Muitos dos nossos intelectuais acham que, com a escolaridade dos nossos atuais e principais poetas, a Literatura de Cordel corre o risco de descaracterizar-se. Puro engano. Pedro Bandeira é bacharel em Direito e, embora tenha feito fama cantando repente ao som da viola, é um dos mais autênticos cordelistas, tendo já publicado algumas centenas de folhetos. Marcos Mairton é juiz federal; Fernando Paixão é teólogo. Varneci Nascimento é historiador e Marco Haurélio é professor”.

Fiquei orgulhoso, não nego. Não esperava ver meu nome citado em uma obra de Gonçalo Ferreira da Siva, ainda mais assim, lembrado como um dos valores entre os poetas mais letrados.

Olhei o ano de publicação do livro – 2012 – e pude constatar que, ao dizer que minha obra chegara antes de mim, ele não havia apenas sido gentil. A gentileza estava acompanhada de um profundo interesse pela Literatura de Cordel, que o leva conhecer inúmeras obras de escritores mais tradicionais, mas se permitindo sempre estar atento ao que os mais novos produzem.

Sua benção, mestre Gonçalo Ferreira da Silva! Quando voltar ao Rio, hei de voltar a Santa Teresa para tomarmos um café e conversarmos novamente!

* * *

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MAIS UMA SENTENÇA EM VERSOS

julgamento

O poeta Vicente Alencar Ribeiro, de Bonito de Santa Fé-PB, me fez o honroso pedido de julgar um caso por ele apresentado aqui no JBF, em outubro de 2013. (Clique aqui para ler)

Descreveu os fatos em versos e pediu que eu os julgasse na mesma batida.

Acabei demorando mais do que imaginava para responder, mas hoje acordei bem cedo e consegui fazer a sentença em quadrinhas, tal como foram descritos os fatos por Vicente.

Ficou assim:

O FURTO DA POESIA

O caso que se apresenta
Não é dos mais complicados,
Como demonstram os fatos
Que já foram relatados.

É o caso de um furto
Como bem se pode ver,
E o réu é réu confesso,
Que nem quis se defender.

O que há de curioso
A nos chamar a atenção
É o objeto furtado,
Produto da inspiração.

“Levou minha poesia!” -
Narra o poeta sua dor -
“E a declama pelos bares
Como se fosse o autor”.

De fato, se declamasse,
Mas dissesse a autoria,
Estou certo que o poeta
Jamais se incomodaria.

Por isso é que considero
Oportuno esclarecer,
Não foi propriamente furto
O que veio a acontecer.

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Mundo Cordel
POESIA NA UNIVERSIDADE

Em agosto de 1999, comecei a lecionar na Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Duas disciplinas bem diferentes, dentro da gama de matérias que se estuda no Curso de Direito: Direito Comercial e Teoria Geral do Estado.

Eu, que tinha atuado por mais de quatro anos como advogado do Banco do Nordeste e Procurador do Banco Central, trazia na bagagem o conhecimento prático do Direito Comercial, mas achava mais divertidos os debates teóricos da Teoria do Estado, matéria que havia estudado recentemente no Mestrado em Direito Público, na Universidade Federal do Ceará.

Assim, marcada a primeira prova do semestre, resolvi fazer uma revisão da matéria com os alunos. Foi aí que vieram os versos que acabaram privilegiando os alunos de Teoria do Estado. Com eles, a aula ficou bem mais divertida. A gente ia declamando cada estrofe e discutindo as dúvidas que surgiam a partir de cada uma delas.

Hoje, remexendo nas gavetas, encontrei-os impressos em um papel já amarelado.

Os versos eram esses:

HOMENAGEM À MINHA PRIMEIRA AULA DE TEORIA GERAL DO ESTADO NA UNIFOR

Fortaleza, 17 de setembro de 1999

Começamos o semestre
Falando de sociedade.
Por que os homens se uniram
Formando a sociedade?
Registra nossa memória
Em que ponto da história
Foi inventada a cidade?

Na Grécia, de tantos sábios,
Aristóteles dizia:
“Homem: animal político”,
E lançava a teoria
Da origem natural
Do organismo social
Que desde sempre existia.

Também na Idade Média,
A tese prevaleceu,
E o grande Tomás de Aquino
Habilmente defendeu
Que, a não ser por acidente,
Só um um gênio ou um demente
Vive afastado dos seus.

Mas, há outra explicação
Para esse mesmo fato:
Pensadores de alto nível,
De saber, bom senso e tato,
Concluíram que as pessoas
Sendo más ou sendo boas,
Uniram-se por contrato.

Surgia, assim, a doutrina
Do Contrato Social,
Com Russeau, Hobbes e Locke
Mostrando o seu cabedal,
Apesar da divergência
Destes homens de ciência
Se o Homem é bom ou mau.

Hobbes dizia que o Homem,
No estado de natureza,
É o lobo do outro homem,
Rouba o que ele tem à mesa.
E, se existe a união,
Não é por bondade, não,
Mas para a própria defesa.

Russeau, contrargumentando,
Diz que o Homem não é mau.
Que prevalece a bondade
No estado natural.
Se depois embruteceu,
Saibam, quem o corrompeu
Foi a vida social.

O fato é que muita gente
Tem pensado sobre o tema.
Não há conclusão final
Para incluir nesse esquema.
Quanto a nós, cabe estudar,
Sem também se estressar
Pra resolver o problema.

* * *

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Mundo Cordel
COM “M” MAIÚSCULO

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Eu havia acabado de sair de casa. Caminhava até um restaurante self-service que fica a duas quadras dali, quando fui abordado por uma mulher que perguntou onde seria o ponto de ônibus mais próximo.

Indiquei a direção e fiquei observando ela se afastar. Devia ter pouco mais de trinta anos e levava uma criança nos braços. O menino me pareceu muito grande para ser carregado daquele jeito. Provavelmente tinha mais de dois anos de idade, o que me levou a pensar que talvez estivesse doente. As roupas, tanto dela como dele, não pareciam as comuns de ficar em casa. “É isso mesmo” – pensei – “a mãe deve ter levado o filho ao médico cedo da manhã e agora estão voltando para casa”. Trabalho pesado carregar o peso daquele menino sob o sol de quase meio dia.

Enquanto fazia essas conjecturas, lembrei de outra mulher, que conheci há muitos anos. Tinha dois filhos. Em 1968, quando o mais velho estava com pouco mais que cinco anos de idade, o mais novo, que tinha menos de dois, teve paralisia infantil.

Começava para ela verdadeira peregrinação por postos de saúde e hospitais públicos em busca de tratamento para o menino. Depois de inúmeras idas e vindas, consultas, exames e madrugadas na porta de hospitais, em busca de atendimento, conseguiu marcar uma cirurgia. Mas o método que seria adotado pelo cirurgião ainda não era totalmente aceito pela literatura médica, então ela teria que assinar um termo de responsabilidade, para o caso de alguma coisa dar errado.

A mulher assinou. Acreditou na medicina. Mas, talvez por acreditar mais em Deus que nos homens, recorreu também à novena de Santa Teresinha do Menino Jesus. Fez as orações, ganhou uma rosa no oitavo dia e encheu-se de esperança.

Hospitais, cirurgias, sessões de fisioterapia e meses de expectativa passaram a fazer parte da vida daquela mulher. Ao final de um período que não se sabe ao certo quanto tempo durou, a recompensa pelo esforço: o menino voltou a andar. Aos oito anos de idade – seis depois de contrair a doença – corria com os colegas da escola na hora do recreio. Não era tão rápido quanto eles, mas corria. Claudicava um pouco, mas seguia em frente. Andar já era uma grande vitória; correr, um luxo.

Mas há outros detalhes nessa história que tornam ainda mais oportuno falar dessa mulher em um Dia das Mães. Um deles é que, durante todo o período em que ela lutava pela saúde do filho caçula, nem ele e nem o irmão perderam muitas aulas. Para ela, não havia obstáculo que justificasse uma criança deixar de ir à escola.

E parece que os meninos compreenderam o valor que a mãe dava aos estudos. Foram ótimos alunos a vida inteira. Chegaram à faculdade. O mais velho formou-se em odontologia, fez mestrado e doutorado e hoje é professor da Universidade Federal do Ceará, um profissional respeitado no país inteiro. O outro formou-se em Direito e se tornou juiz federal e escritor.

O marido dela ajudou nessas conquistas, é verdade. Sempre foi um amigo e um exemplo para os filhos. Mas, neste dia das mães, é dessa mulher que pretendo falar. Essa mulher que, depois de dedicar uma vida inteira à família, achou espaço para ela mesma e, já na chamada terceira idade, realizou dois desejos com os quais sonhara a vida inteira: fez faculdade de Teologia e aprendeu a andar de bicicleta. Vem tentando aprender a nadar, mas está difícil.

Essa mulher, que nunca levantou a voz para repreender os filhos, nunca os pôs de castigo, nem muito menos bateu neles, ao invés de dizer “não faça isso”, sempre preferiu perguntar “você acha certo fazer?”. Onde muitos diriam “isso não é possível”, ela afirmava “você só vai saber se tentar”.

Neste Dia das Mães do ano de 2014, é a essa mulher que pretendo homenagear. Chama-se Francisca Ivonete da Silva, ou simplesmente Neta, como preferem seus irmãos, suas irmãs e seu marido.

Eu e meu irmão temos nosso próprio jeito de chamá-la. Chamamos de Mamãe. E, na hora de escrever, é assim mesmo que o fazemos: com M maiúsculo.


Mundo Cordel
FORTALEZA, 288 ANOS!

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Fortaleza hoje faz aniversário
E a cidade quero homenagear
Mas não posso deixar de lamentar
Ao ver o seu estado tão precário.
É tão triste ver no noticiário
Tantos crimes que estão acontecendo,
Tanto assalto que anda ocorrendo,
Tanta gente morrendo assassinada,
Com a população apavorada
Fortaleza inteira vai sofrendo.

São duzentos e oitenta e oito anos
Que a cidade completa neste dia
De presente dou minha poesia
Apesar desses muitos desenganos.
Já cheguei até mesmo a fazer planos:
Residir em outra localidade,
Apesar que, ir embora, na verdade,
Não seria talvez a solução,
No Brasil de Mãe Preta e Pai João
Violência tem em qualquer cidade.

Vejo que vinte versos já gastei,
Mas, não pude dizer com alegria:
“Fortaleza, parabéns por este dia!”
E garanto, leitor, eu bem tentei.
Mas confesso, parece que não sei
Expressar o que o coração não sente.
E termino dizendo, simplesmente,
Que desejo a Fortaleza um porvir
Onde o nosso direito de ir e vir
Possa ser exercido livremente.


Mundo Cordel
LÁ DENTRO!

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Praça do Ferreira, centro de Fortaleza

Na Fortaleza dos anos oitenta havia várias lojas de departamento, umas maiores, como Mesbla e Casas Pernambucanas, outras menores, como a Camelo Modas e as Lojas Vesil. Nas de menor porte, era comum haver alguém na entrada, empunhando um microfone, anunciando os produtos disponíveis à venda.

Lembro que, certa vez, passava eu diante uma dessas lojas, enquanto o locutor convidava os clientes…

- Vamos entrando freguesia! Venham conhecer o nosso amplo e variado estoque! No lado esquerdo da loja temos blusas, saias, shorts…

Nisso, aproximou-se de uma das gôndolas posicionadas na entrada da loja uma jovem usando um short que, de tão curto e apertado, chegava a ingressar ousadamente entre as nádegas da moça.

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A moça não era essa, mas era parecida…

Ao se deparar com tal visão, o locutor engasgou um pouco, mas logo recuperou a presença de espírito – que todo locutor deve ter – e prosseguiu anunciando:

- Temos blusas, saias, shorts… E tem calcinha lá dentro! Estão lá dentro as calcinhas, freguesia! Lá no fundo mesmo…

Interessante como um fato assim pode permanecer armazenado em nossa memória por tantos anos e voltar repentinamente e tão nítido em seus detalhes.

No caso, acho que memória veio à tona depois que recebi, pelo WhatsApp, a foto abaixo, aparentemente da vitrine de uma loja…

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Mundo Cordel
EU, O ATOR E O PRESIDENTE

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Em março de 2006, estive em Brasília, para participar de um programa de televisão. Ao chegar ao hotel onde iria ser gravada a entrevista, encontrei o ator cearense José Wilker, que estava na Capital Federal gravando a minissérie “JK”, na qual ele interpretava Presidente Juscelino.

Fiquei impressionado com a maneira como ele encarnou o personagem, fazendo parecer até que havia entre eles uma semelhança física, na verdade inexistente.

Após gravar a entrevista, escrevi alguns versos e pedi ao rapaz de recepção que entregasse a José Wilker, quando ele voltasse das gravações.

Acho que José Wilker recebeu os versos a seguir:

Eu estava em Brasília, outro dia,
Divulgando a poesia de cordel,
Quando, na recepção de um grande hotel,
Percebi que um artista ali havia,
Cuja arte não é bem a poesia,
Mas nos toca igualmente a emoção.
No teatro ou na televisão,
Era um grande ator que ali estava,
Sendo que, pelo seu jeito, aguardava
A equipe que faria a gravação.

Mas o fato que fez a situação
Se tornar ainda mais interessante
Foi sentir que, naquele mesmo instante,
Ocorreu-me a seguinte impressão:
Que, olhando para aquele cidadão,
Ao invés de ver apenas o artista,
Era como se eu pousasse a minha vista
Na pessoa desse grande personagem
Que o ator representa na filmagem
Para que, na TV, a gente assista.

De quem falo, já foi capa de revista,
Só novela já fez bem umas cinqüenta.
Hoje, numa minissérie, representa
Um mineiro que foi grande estadista;
Que na sua trajetória progressista
Nos mostrou como um homem competente
Fez o nosso Brasil andar pra frente,
Dirigiu o país com muito amor.
Olhei para José Wilker, o ator,
E enxerguei JK, o presidente.

Alguém tinha me falado, antigamente,
Que um grande ator é desse jeito.
Atuando de um modo assim perfeito,
Faz confusa dessa forma nossa mente.
Mesmo quando o ator, fisicamente,
Não parece tanto assim com o personagem,
Ele adota a postura e a linguagem
E mergulha na história com fervor.
Foi assim que José Wilker, o ator,
Se tornou de Juscelino a imagem.

Para ir finalizando essa homenagem
A Zé Wilker e também a Juscelino,
Eu aplaudo o sorriso de menino,
O sucesso, o trabalho e a coragem.
Quando eu iniciei essa viagem
Não pensei que estaria reservado
Um encontro assim, tão inusitado
Entre eu, o ator e o presidente.
José Wilker, parabéns pelo presente.
Juscelino, parabéns pelo passado.


Mundo Cordel
OS VERSOS QUE NÃO DECLAMEI

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O colunista fubânico no TRF da 5ª REgião (4º, da esquerda para a direita)

De oito de janeiro a seis de fevereiro de 2014, tive a honra de compor o Tribunal Regional da 5ª Região, na condição de desembargador federal convocado, cobrindo período de férias do desembargador federal José Maria Lucena.

Alguns amigos, principalmente dentre os convocados como eu, perguntaram-me se eu exercitaria minha arte cordelística no Plenário do Tribunal.

Deu vontade, mas fiquei receoso. Era a minha primeira convocação e nem sei se haverá outras. Decidi que nada apresentaria na primeira sessão. À medida que me sentisse mais vontade, avaliaria se seria o caso de declamar alguns versos.

No dia cinco de fevereiro, quando me preparava para a última sessão daquele período, os versos me vieram à mente. Anotei-os imediatamente e levei ao plenário.

Mas, confesso, hesitei. E, antes que me desse conta, a sessão havia acabado. Não tive presença de espírito para quebrar o protocolo. E esses foram os versos que não declamei…

No dia que aqui cheguei,
No meio de um papo ameno,
Amigos me perguntaram:
“Teremos cordel no Pleno?”
Respondi, quase sorrindo,
“Cordel é sempre bem-vindo,
Mas hoje está complicado.
Além de estar bem nervoso,
Fico um pouco receoso
De ser mal interpretado”.

“Mesmo aqui, neste ambiente
De pessoas de leitura,
Que enaltecem o saber
E dão valor à cultura,
Chegar fazendo poesia,
Logo no primeiro dia,
Talvez não seja adequado.
Acho melhor esperar
Para me manifestar
Já melhor ambientado”.

Hoje, como é despedida,
E estou bem mais à vontade,
Permitirei que meus versos
Transitem com liberdade
No espaço deste plenário,
Que ao Poder Judiciário
Tanto honra e enaltece.
Justiça aqui se tem feito,
Ao entregar o Direito
A quem direito merece.

Dessa forma, me despeço,
Certo do dever cumprido.
E, depois que desta Corte
Já houver me despedido,
Voltarei ao Ceará,
E, quando chegar por lá,
Direi para toda gente
Da emoção que sentia,
Cada vez que aqui dizia:
“É o meu voto, presidente”.

MM_PLENO3.

Publicado no Mundo Cordel em 15/Mar/2014

MUNDO CORDEL_NOVALOGO


Mundo Cordel
AOS HOMENS, NO DIA DA MULHER

olhos de mulher

Escrevo na noite do dia sete de março, para publicação na manhã seguinte. Mas, o que tenho a dizer nessa data dedicada ao Dia Internacional da Mulher não se dirige a elas, mulheres, e sim aos homens que com elas convivem. Mais precisamente àqueles que fizeram a opção de compartilhar com uma mulher as benesses e dificuldades de uma vida em comum, dividindo com ela o mesmo teto, a economia doméstica, os pequenos problemas do cotidiano.

Nós, homens, bem sabemos os desentendimentos que surgem dessa convivência. As divergências de ponto de vista, a diferença de valor que atribuímos às coisas. Um gesto, para nós insignificante, muitas vezes é motivo para elas se sentirem desvalorizadas, ofendidas até. Enquanto isso, passamos horas nos dedicando a ocupações que aos olhos delas não fazem o menor sentido.

Somos diferentes mesmo, e, por mais que a convivência se prolongue, não nos acostumamos a essas diferenças. A par disso, a natureza continua anos atrair, e há milhares de anos insistimos nessa aventura de viver juntos.

Foi pensando nisso que, neste Dia Internacional da Mulher, decidi fazer uma provocação aos homens casados, juntos, amigados, amasiados ou outro nome que se queira dar a esses heróis: proponho que durante todo este mês de março, cada um dê à sua mulher, sua esposa, sua companheira, tratamento semelhante ao que daria a uma mulher que acabou de conhecer.

É isso mesmo, caro leitor. Que sua mulher receba de você a mesma atenção que você daria a uma com quem você estivesse falando hoje pela primeira vez, de quem você nem sabe direito o nome e desconhece totalmente a história.

Para evitar mal-entendidos – inclusive de alguma leitora que, apesar da advertência inicial, tenha se aventurado até aqui – explico melhor, por meio de alguns casos práticos que podem servir de exemplo. Sugiro que, ao analisá-los, o leitor abstraia qualquer compromisso de fidelidade que tenha assumido, ou seja, que se imagine um homem totalmente disponível, e considere cada situação obedecendo às suas reações mais espontâneas, talvez instintivas.

Primeiro caso. Você está em um resort, aproveitando uma semana de férias em uma das belas praias do Ceará, e conhece uma mulher na piscina. Ficam conversando mais ou menos uma hora, até que ela diz que precisa ir ao centro de Fortaleza, a trinta quilômetros dali, para resolver um problema no banco. Você chega a pensar que ela perdeu o interesse pela sua companhia e está apenas inventando uma desculpa para se afastar, mas ela diz: “Eu queria te pedir uma coisa, mas estou com vergonha de te convidar para uma programação tão chata… Você iria até o banco comigo? ”.

Diante de tal situação, a pergunta é: você concordaria imediatamente em ir com ela? Faria o percurso sorridente, sem reclamar? Esperaria pacientemente que ela resolvesse o problema, mesmo sabendo que estava gastando o restante do seu dia dentro de uma agência bancária?

Se você respondeu “sim” a todas essas perguntas, a proposta é que você tenha o mesmo comportamento em relação a sua mulher, quando estiver em casa, vendo futebol na TV, e ela lhe convidar para ir ao banco ou ao supermercado. No final do mês, você faz um comentário a este texto, dizendo se ela gostou.

Segundo caso. Você reservou o sábado para tratar de alguns assuntos pessoais. Pela manhã ir ao oculista, para fazer seu exame anual; à tarde levar o carro para a troca de todos os óleos, limpeza geral e polimento, em um posto de lavagem super concorrido. Acontece que, na sala de espera do oculista, você fica conversando com uma mulher que nunca havia visto antes. Na conversa, vocês descobrem afinidades, ficam sabendo inclusive que frequentam a mesma academia de musculação, mas nunca se encontraram por lá. Você sabe que, se não chegar ao posto de lavagem na hora marcada (uma da tarde) todo o serviço do carro ficará para a próxima semana. Mas, na hora da despedida, ela diz que o papo está ótimo e gostaria muito se, depois de ser atendida, pudesse almoçar com você para continuar a conversa. Você aceita o convite para o almoço?

A proposta aqui é similar à do primeiro caso: se você respondeu “Sim!”, “Claro!” ou “É óbvio!”, sugiro que tenha o mesmo comportamento em relação à sua mulher, quando vocês deixarem os filhos na escola e ela disser que gostaria de almoçar com você naquele dia. Melhor ainda se estiverem em meio a um engarrafamento e você estiver atrasado para o trabalho. Depois de agir assim por todo o restante do mês, é a hora de fazer um comentário a este texto, dizendo se ela gostou. O amigo leitor aceita o desafio?

Vejamos o terceiro e último caso desta lista de exemplos. Você está no escritório no meio da tarde, cheio de trabalho, e o telefone toca. É a mulher que você conheceu hoje, depois de ter feito sua caminhada ou corrida matinal, naquele quiosque onde costuma tomar água de coco. Ela diz que ligou porque está tocando no rádio do carro dela a mesma música que vocês ouviram durante o encontro do começo do dia. “Aí, me deu uma vontade de falar com você de novo… Não estou incomodando, estou?”.

E você: “Claro que não!”, “Imagina!”, “De jeito nenhum…”, ou, quem sabe, “Vou te falar uma coisa: essa sua ligação, no meio do expediente, era tudo o que eu precisava para lembrar que a vida vale a pena…”

Se você admite que sua resposta seria parecida com qualquer das citadas acima, mais uma vez proponho que você aja da mesma forma ao receber uma ligação da sua mulher no meio do expediente, bem na hora que estiver indo a uma reunião na sala do seu chefe. Depois, registre aqui a sua experiência. Não seria interessante?

Admito, caro leitor, que talvez você esteja pensando que sua mulher poderia tornar esse desafio bem mais fácil de aceitar. Se ela lhe telefonasse só para ouvir a sua voz, e não para pedir que depois do trabalho você passasse no supermercado para comprar pão; se ela lhe convidasse para almoçar apenas para estar em sua companhia, e não para vocês tratarem de algum problema doméstico; ou mesmo se o convite para você ir com ela ao banco ou ao supermercado, no meio de suas férias, fosse apenas um pretexto para vocês saírem sozinhos, deixando as crianças em casa.

Também acho que seria mais fácil. Mas, em nome da celebração pelo Dia Internacional da Mulher, minha proposta é que, durante todo este mês, os homens tomem a iniciativa de quebrar esse ciclo vicioso que os problemas do cotidiano impõem aos casais.

E o caminho para tal gesto heroico seria esse: dar à sua mulher um tratamento próximo ao que provavelmente daria a uma ilustre desconhecida.


Mundo Cordel
SOBRE CRÍTICAS AO JUDICIÁRIO E AOS JUÍZES

A manchete era a seguinte: “Juiz que ironizou por receber sem trabalhar vira herói no Facebook“.

Não fui conferir. Na verdade, nem tenho perfil no Facebook. Mas, admitindo como verdadeira a notícia que gerou a referida manchete, constato mais uma vez o quanto a opinião dos brasileiros – pelo menos daqueles que põem comentários na Internet – muitas vezes é estranha.

Porque, para mim, é estranho que tanta gente aplauda tão imediatamente a atitude de um juiz que, afastado do exercício da jurisdição, em razão de distúrbios psiquiátricos, trate com ironia e desdém a instituição da qual faz parte – o Poder Judiciário – dizendo que está ganhando sem trabalhar.

Longe de mim julgar se o colega em questão recuperou ou não as condições psíquicas para retornar ao exercício da magistratura – que o órgão competente para fazer esse julgamento o faça – mas, se foi afastado por questões de saúde, tinha mesmo que ficar recebendo seu salário, como qualquer trabalhador que esteja em licença médica.

O que me preocupa, no caso, é perceber que basta alguém levantar a voz contra uma instituição brasileira da importância do Poder Judiciário, ou contra os seus membros, e logo aparece uma multidão para aplaudir e fazer coro, lançando críticas generalizantes, sem ter o menor cuidado em verificar se as razões dessas críticas são pertinentes.

Ora, que o Poder Judiciário tem seus defeitos, é fato de conhecimento geral. Da existência de maus juízes também ninguém duvida. Nem por isso, entretanto, se vai negar a importância da instituição, nem tampouco diminuir o valor daqueles que agem de forma a dignificá-la.

Coincidentemente, por esta mesma época em que foi publicada a manchete à qual me refiro, está em curso o Programa de Valorização dos Juízes, promovido pelo CNJ, destacando-se do site do Conselho o seguinte parágrafo: Sabe-se que a atuação dos juízes é fundamental para a garantia do pleno exercício da cidadania, e a relevância desse papel pode ser verificada no simples fato de que são proferidos cerca de 22 milhões de sentenças por ano, em que pessoas são absolvidas de falsas acusações, criminosos são presos, consumidores são ressarcidos, devedores são condenados, maus políticos são cassados, direitos dos trabalhadores são respeitados, interesses familiares são preservados, vidas são salvas.

Não há nenhuma novidade no que está escrito no site do CNJ. No final das contas, qualquer pessoa minimamente informada tem consciência do quanto é importante para o país como um todo – e para cada cidadão em particular – que o Poder Judiciário seja composto de juízes sérios, competentes, comprometidos com a Justiça, independentes, imparciais, vocacionados para a difícil função de julgar.

O Código de Ética da Magistratura, publicado pelo CNJ em 2008, sintetiza bem os princípios que devem nortear a conduta do magistrado: independência, imparcialidade, conhecimento e capacitação, cortesia, transparência, segredo profissional, prudência, diligência, integridade profissional e pessoal, dignidade, honra e decoro.

Se assim é, parece-me que os juízes que merecem algum reconhecimento da sociedade são aqueles que cumprem o seu dever diariamente, sem estardalhaço, aplicando a lei com responsabilidade e rigor, ainda que tal postura ponha em risco sua própria vida, como acontece com tantos que proferem decisões contrárias aos interesses do crime organizado, cada vez mais organizado em nosso país.

Não defendo que se levantem monumentos ou que se criem páginas na Internet para homenagear esses homens e mulheres que anonimamente realizam a importante missão de dizer o Direito. Espero apenas que sejam – sejamos, já que também sou juiz – tratados com dignidade e respeito.

É justo que a sociedade cobre do Judiciário transparência, democracia, celeridade e efetividade no cumprimento de suas decisões. É legítimo que as pessoas exijam dedicação, seriedade e imparcialidade dos juízes. Não posso dizer o mesmo a respeito das críticas generalizadas, que atingem a todos, quando só alguns a mereceriam.

Que se democratize o Judiciário; que se implantem programas de aproximação do Judiciário com a sociedade; que se identifiquem e punam os maus juízes. Mas que se valorizem aqueles que cumprem o seu dever e são efetivamente comprometidos com a realização do ideal de Justiça.

As pessoas de bem só têm a ganhar com um Judiciário melhor.


Mundo Cordel
NO MUNDO DO 2020

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Incluí em minha programação de fim de semana procurar informações sobre um filme que muito me impressionou tempos atrás. Não estava bem certo se o título era “No ano do 2020” ou “No mundo do 2020”, mas lembrava que o filme falava sobre superpopulação e escassez de alimentos no mundo.

Eu havia visto esse filme no final dos anos 1970, quando tinha pouco mais de dez anos de idade e, não sei porque, mesmo tão jovem, preocupavam-me coisas como superpopulação, devastação de florestas, guerra nuclear… O cenário do filme, uma projeção do que poderia acontecer no ano de 2020, tratava exatamente disso.

Em uma cena que nunca saiu da minha memória, havia uma multidão tentando comprar umas bolachas grandes – a principal fonte de alimento das pessoas – mas mesmo estas estavam em falta. De repente, apareciam uns veículos, meio caminhão, meio trator, que tiravam as pessoas das ruas com suas pás imensas.

Pois bem. Pesquisando na Internet descobri que o título original do filme é “Soylent Green”, gravado em 1972 e lançado no Brasil como “No Mundo de 2020”. O personagem principal, interpretado por Charlton Heston, é o detetive policial Robert Thorn, que investiga o assassinato de um rico empresário, sócio das indústrias Soylent Corporation, a fábrica das bolachas que tanto me impressionaram, e que guardam um segredo a ser revelado no final do filme.

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Charlton Heston, interpretando o detetive policial Robert Thorn

Continuei a pesquisa e acabei achando várias partes do filme postadas no YouTube. A cena das máquinas recolhendo a multidão deve ter sido marcante para outras pessoas, porque alguém postou um trecho só com ela:

Em outro site, achei o filme inteiro, legendado, postado em duas partes (links no final). Enquanto revia aquela ficção, na qual se tenta retratar uma época que ainda não chegou, mas já está bem próxima, observei que não havia ali qualquer referência à telefonia celular, aos laptops, tablets, Internet ou um simples fax, hoje praticamente uma peça de museu.

Em determinada cena, aparece o que seria um computador – ou computadores – uma imagem estranha para os dias de hoje:

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Também há um esboço do que parece ser um videogame, isso não ficou claro para mim:

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Mais adiante, aparece uma TV. Mas, comparada com os televisores de hoje, dá vontade até de rir:

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O fato é que o autor errou feio. Na forma e no conteúdo. Apesar de a superpopulação humana no planeta continuar sendo uma preocupação, Nova Iorque, que no filme estaria com quarenta milhões de habitantes, ainda não chegou a dez. Embora em algumas partes do mundo haja escassez de alimentos, nos países desenvolvidos a epidemia é de obesidade. E, convenhamos, pelo menos nesses países, as praças de alimentação dos shopping centers estão cheias de gente faminta, mas as pessoas não estão se acotovelando para adquirir os bolachões esquisitos da Soylent Corporation. O fast food pode não ser muito saudável, mas não se pode dizer que o sabor é ruim.

Refletir sobre tudo isso me devolveu alguma esperança em relação à humanidade. O mundo em 2014 parece bem melhor do que o autor do filme, em 1972, imaginava que seria.

A tecnologia avançou rápido, a medicina evoluiu muito, a produção de alimentos se reinventou para produzir mais com menos recursos naturais. Com isso, a profetizada escassez de alimentos não ocorreu, doenças foram extintas ou controladas e os seres humanos chegaram ao século XXI com uma vida mais longa. Não no planeta inteiro, é verdade, mas dá para perceber que o problema não é de falta de recursos, e sim da má distribuição deles.

Também é verdade que temos outras preocupações, como o superaquecimento global e o esgotamento de fontes de água e de energia. Mas, pelo menos neste momento, quando mal acabei de ver o filme, tenho esperança de que nos próximos cinquenta anos essas preocupações sejam superadas, ainda que sejam substituídas por outras.

Tem sido assim ao longo dos séculos. Problemas antigos são solucionados, enquanto problemas novos surgem para desafiar a nossa capacidade de adaptação.

É assim que nós, seres humanos, temos evoluído. Indivíduos frágeis, espécie poderosa. Capazes de atos abomináveis em relação aos nossos semelhantes, despreparados para viver sem a colaboração uns dos outros.

Em “Soylent Green” – ou “No Mundo do 2020” – mesmo o cenário caótico de um planeta degradado não foi capaz de impedir o florescimento do amor, tanto o sexual quanto o fraternal.

Nisso o autor acertou. Chegamos ao século XXI com muitas transformações tecnológicas, socioeconômicas, políticas e comportamentais, mas o amor continua a nos caracterizar como seres humanos. No melhor sentido que se possa dar à palavra humanidade.

Aos que ficaram estimulados a (re)ver Soylent Green, seguem os links:

- Soylent Green – Parte 1

- Soylent Green - Parte 2


Mundo Cordel
UM TEMA RECORRENTE

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Com a volta do tema “sistema prisional” às discussões, vieram-me à memória versos que publiquei no livro “Contos, Crônicas e Cordéis”, mas ainda não havia postado aqui, na coluna que deu origem ao livro.

Algo que muito me chama a atenção a respeito destes versos é o fato de eles terem sido compostos há mais de sete anos, tanto que foram apresentados pela primeira vez em meu Blog Mundo Cordel, no dia 12.11.2007.

Pelo jeito, continuam atuais.

AS PRISÕES BRASILEIRAS

No jornal vi a notícia
Que não chega a ser surpresa:
“Muita gente que está presa
Não dá sossego à polícia”.
Com engenho e com malícia
E com muita ousadia
Os bandidos, quem diria,
Dão golpe por telefone.
Acho que nem Al Capone
Esperava isso um dia.

Traficantes poderosos
Também dão continuidade
À sua atividade,
Seus negócios criminosos.
Auxiliares ciosos
Vão cumprindo as missões
Que recebem dos chefões
Que estão dentro dos presídios
Sequestros e homicídios
São suas ocupações.

Já o cidadão de bem
Esse vive assustado,
Na sua casa trancado,
E até no carro, quem tem,
Ali se tranca também,
Levanta o vidro e então
Segue com o coração
Batendo muito ligeiro,
É assim o carcereiro
Da sua própria prisão.

Cercas eletrificadas
Se estendem sobre os muros
Que já não deixam seguros
Seus lares, suas moradas.
Janelas bem gradeadas,
Também não dão segurança.
Vai morrendo a esperança
De em nossa sociedade,
Reinar a tranquilidade
De quando eu era criança.

Vendo isso acontecer
Reflito sobre o problema:
Por que o nosso sistema,
De punir e de prender
Não consegue resolver
A questão da violência?
Será só incompetência
Dos governos da nação?
Ou existe outra razão
E nós não temos ciência?

Eu sei que essa questão
Envolve outros fatores
Que também são causadores
Do problema em discussão.
Desemprego, educação,
Ou melhor, a falta dela,
Abandono da favela
Ao poder dos traficantes,
São fatores importantes
Para por em nossa tela.

Compondo esse cenário
Se destacam as prisões.
Lotadas, sem condições,
Seu estado é bem precário.
Nelas o presidiário,
Em vez de se arrepender,
E nunca mais cometer
O ato que o condenou,
Sai pior do que entrou
Do crime passa a viver.

Não precisa ser doutor
Pra saber dessa verdade,
Quem diz, na realidade,
É o próprio infrator.
O Pedrinho Matador,
Que já matou mais de cem
Certa vez disse a alguém,
Com muita convicção:
“A cadeia, meu irmão,
não recupera ninguém”.


Mundo Cordel
MEMÓRIAS DE REISADO

Reportagem sobre reisado em Fortaleza:

Ponho-me diante do computador para escrever minha primeira crônica de 2014. Sinto-me um tanto saudosista, porque acordei lembrando do tempo em participava de reisados, no bairro do Pirambu, no subúrbio de Fortaleza.

No primeiro fim de semana do ano – sexta ou sábado à noite, depois que a maioria das casas estava fechada e no escuro – um grupo se formava e saía cantando pela rua. Meus pais, meu irmão e alguns tios sempre entravam na brincadeira. Outros vizinhos também participavam.

Fazia-se um pequeno ensaio e depois se seguia, de casa em casa, numa espécie de serenata sacro-profana, que misturava músicas religiosas, cachaça e farofa.

Ó, Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada!
Ó, Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada!
Aonde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada.

Na segunda ou terceira música, os donos da casa abriam a porta e nos recebiam com alegria, oferecendo comida ou bebida. Alguns davam até dinheiro, mas o que importava mesmo era a festa. Muitos se integravam ao grupo. A brincadeira começava com umas cinco ou seis pessoas, mas a quantidade aumentava rapidamente.

Eu achava engraçado perceber que, apesar de as casas serem pequenas e próximas umas às outras, apenas naquela onde cantávamos abria-se a porta. Os moradores da casa vizinha ficavam quietos, esperando que fossemos cantar lá. E nós íamos. E eles entravam na brincadeira também. A cada nova adesão, a meninada se agitava, aplaudia, pulava e dava gritos estridentes.

Era desse jeito que atravessávamos a noite. Homens, mulheres e crianças, cada um se divertindo ao seu modo, mas todos juntos, aproveitando a alegria de morar perto de pessoas que se conheciam e se respeitavam.

Mas, como sei que, hoje, em janeiro de 2014, algum leitor pode querer saber se tínhamos medo ser assaltados, devo dizer que minhas lembranças são de quando eu tinha entre oito e onze anos, ou seja, em meados da década de 1970.

O Pirambu já era um lugar perigoso, porque sempre o foi. Mas era um perigo diferente. Havia homicídios, porque tinha uns caras valentões que achavam certo resolver suas diferenças na faca. Mas assaltos eram raros. Não havia essa história de bandidos equipados com armas de fogo, circulando por aí em carros e motocicletas roubados, fazendo “arrastões”.

Drogas? Sim, de vez em quando aparecia algum rapaz fazendo arruaças, e as pessoas diziam que estava “emaconhado”. Mas não se via jovens morrendo todos os dias, assassinados pelo credores do tráfico. Nem essas falanges de viciados que hoje se vê, matando para roubar um celular e trocar por pedras de crack.

Os perigos realmente eram outros. Aliás, alguns anos mais tarde, eu viria a saber que aquela também era uma época perigosa para quem se metia com política, criticava o governo ou simpatizava com ideias socialistas, mas, em minha inocência infantil, eu nem suspeitava que essas coisas existissem.

Para mim, aquele era apenas um tempo em que a gente podia cantar na rua, à noite, e acordar os vizinhos para cantar também. Tempo de verde dos quintais. Tempo em que o medo se chamou jamais.

Quem estiver sintonizado com minha saudade pode também clicar no vídeo abaixo e ouvir Fagner e Sivuca cantando “No tempo dos Quintais“.

 


Mundo Cordel
LEITORES E LEITORAS

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Chegando ao que deve a ser a última postagem de 2013 da minha coluna “Contos, Crônicas e Cordéis”, acho que é o caso de deixar algumas palavras de encerramento das atividades do ano.

Só há um problema: como participei de várias celebrações e solenidades nas últimas semanas, percebi que a palavra “todos” vem perdendo rapidamente o significado de totalidade dos elementos de um conjunto. O que se vê é que, se os elementos de determinado conjunto são dotados de gênero diversos, a palavra “todos” já não alcança mais os do gênero feminino, mas apenas os do gênero masculino. Decorre daí que muitos discursos passaram a começar com “Bom dia a todos e a todas!”, ou o contrário, “Boa noite a todas e a todos!”.

Depois de ouvir isso várias vezes, imaginei que, se ainda existisse a “carrocinha de cachorros” (na minha cidade, nunca mais vi), ela em breve se chamaria “carrocinha de cachorros e cachorras”. Ao final de um dia de trabalho da dita carrocinha, não se falaria da apreensão de determinado número de cães, mas de certa quantidade de cães e cadelas.

Na verdade, o que houve foi que estranhei essa forma de expressão, mas um amigo me explicou que se trata de um resgate do valor feminino, massacrado ao longo dos séculos por uma cultura machista, que tem oprimido as mulheres inclusive no uso do idioma. Importante passo em favor desse resgate, teria sido a entrada em vigor da Lei n° 12.605, de 3 de abril de 2012, cujo artigo 1º determina o seguinte: “As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido”.

Diante de tal argumento, e sendo eu um sujeito cumpridor das leis e que evita ficar parado no tempo, resolvi fazer o meu discurso de encerramento das atividades da Coluna nesse novo formato.

Admito que ainda soa estranho aos meus ouvidos, mas, se é para valorizar as mulheres por meio da flexão de gênero, vamos lá:

Queridos leitores e queridas leitoras,

É com imensa alegria que me dirijo a todos e a todas, para agradecer àqueles e àquelas que, no decorrer deste ano, se deram ao trabalho de ler, pelo menos em parte, os textos que aqui publico.

Sei que este periódico tem um público seleto, e, claro, uma pública seleta também, composto e composta por pessoas – e, por que não dizer, pessôos – bem informadas e bem informados, que estão sempre antenadas e antenados com tudo o que acontece no mundo.

Por aqui passam médicos e médicas, advogados e advogadas, dentistos e dentistas, e tantos outros e tantas outras profissionais e profissionalas liberais. Além de servidores públicos e servidoras públicas, comerciantes e comerciantas, estudantes e estudantas, aposentados e aposentadas, vale dizer, gentes e gentas das mais variadas ocupações e até desocupações, porque, afinal, este também é um lugar para aquele ou aquela que está com o tempo livre.

A mesma variedade se vê no campo ideológico, pois percebo que a Coluna é lida por socialistos e socialistas, capitalistos e capitalistas, sendo certo que, dentre os seguidores e as seguidoras dessas correntes econômicas, há democratos e democratas, mas há também aqueles e aquelas que têm mais simpatia por regimes autoritários.

Dos e das que se vinculam a partidos e partidas, a Coluna recebe petistos e petistas, peemedebistos e peemedebistas, peessedebistos e peessedebistas, e , bem assim, membros ou membras de qualquer agremiação político ou agremiaçã política.

Na verdade, não fiquei muito seguro com relação ao final do parágrafo anterior, porque “agremiação” é considerada tradicionalmente uma palavra feminina, apesar de terminada em “ão”. Se bem que talvez seja a hora de consertar isso também: deixar bem claro quais são as palavras femininas e, consequentemente, os palavros masculinos.

Mas, esse é um tema que pode ficar para o ano que vem. Agora, importa destacar que, aqui, todos os visitantes e todas as visitantas são, indistintamente, leitores e leitoras. Alguns e algumas vão além da leitura e manifestam a sua opinião sobre os textos, tornando-se assim comentaristos e comentaristas, o que me dá muita alegria, pois esses e essas colaboradores e colaboradoras sempre enriquecem a coluna.

É por ter merecido a atenção de cado um e de cada uma de vocês, no decorrer deste ano, que lhes e lhas agradeço, ao mesmo tempo em que os convido e as convido a voltar a este espaço muitas vezes mais, no ano que se inicia.

Em 2014, sejam todos e todas bem vindos e bem vindas a esta Coluna!


Mundo Cordel
O FUTEBOL E A IDEOLOGIA DA REJEIÇÃO

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Embora concorde com aqueles que apontam a impunidade como sendo uma das principais causas da violência nos estádios brasileiros de futebol, desconfio que haja algo mais profundo por trás disso, uma espécie de ideologia da rejeição, contrária à noção de que, em uma competição esportiva, o respeito pelo adversário é fundamental.

Bem se sabe que o esporte tem o poder de aproximar as pessoas, permitindo que os seres humanos exercitem o seu instinto de competição, ao mesmo tempo em que criam e fortalecem laços de amizade e respeito. Não é por outra razão que se vê, em muitas competições esportivas, vencedor e vencido confraternizarem-se ao final da disputa, cada um reconhecendo o valor do outro.

Recentemente, o mundo inteiro viu um exemplo disso, quando, após vencer o time do Atlético Mineiro, os jogadores do Raja Casablanca demonstraram o seu reconhecimento a Ronaldinho Gaúcho, pedindo-lhe peças de seu uniforme. Estava clara a mensagem: “Vencemos, mas o admiramos pelo grande atleta que é”.

Contrastando com a cena, a ideologia da rejeição inspirou manchetes do tipo “A vergonha do Atlético Mineiro no Marrocos” ou “Rivais tiram sarro de atleticanos por vexame no Marrocos”.

Mas, o que há de vergonhoso ou vexatório em ser derrotado, quando se enfrentam dois adversários que se respeitam?

Ao meu sentir, é nesse ponto que a ideologia da rejeição tem levado o futebol a se afastar muitas vezes da força agregadora que deve caracterizar qualquer modalidade esportiva. Pela supervalorização das chamadas rivalidades, fazendo com que a derrota do dito “rival” se torne mais importante que a vitória do “time do coração”. Pelo fortalecimento do sentimento de desprezo dos torcedores dos ditos times “grandes” em relação aos “pequenos”, difundindo a ideia de que cair de uma divisão para outra seja uma vergonha, e não a consequência normal do mau desempenho em uma temporada. E por tantas outras atitudes, que podem parecer pequenas, mas trazem em seu núcleo o desprezo pelos que parecem diferentes de nós. A ideologia da rejeição.

Como simples observador da vida, desconheço as causas da propagação dessa ideologia, mas percebo de que ela tem estado presente, não apenas no futebol, mas em inúmeras situações nas quais grupos de pessoas rejeitam outras que lhes parecem diferentes, seja pela cor da pele, religião, preferências sexuais e tantos outros motivos.

Da rejeição vem a violência, e, quando ela acontece em meio ao que deveria ser um espetáculo esportivo, seguem-se os discursos falando da necessidade de segurança nos estádios, do afastamento de determinadas pessoas dos eventos e da punição dos responsáveis.

Até agora nada tem funcionado. Talvez porque, além de resolver o problema da impunidade, estejamos precisando difundir uma Ideologia da Aceitação. Não apenas no futebol, mas em todos os aspectos da vida em sociedade.


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BISCOITO AMERICANO (O COOKIE)


Mundo Cordel
ZÉ BRASILEIRO FURTADO E A FAZENDA TROPICANA

fazenda-venda

Conheço um agroempresario
Que ficou acabrunhado
Porque seu agronegócio
Só prejuízo tem dado.
O nome desse empresário
Que anda assim, deficitário:
Zé Brasileiro Furtado.

Zé Brasileiro é o dono
Da fazenda Tropicana,
Onde a água é muito farta,
A terra é boa e é plana.
Lugar bom para criar
Gado de leite e plantar
Feijão, café e banana.

Por isso que Brasileiro
Variou a produção,
Querendo extrair da terra
Cenoura, milho e feijão.
Criar boi, criar ovelha,
Galinha branca e vermelha
E colher muito algodão.

E para cada cultura
Nomeou logo um gerente,
Depois disse a cada um:
“Seja esperto e diligente,
Faça o negócio render
Que depois vou escolher
Quem foi mais eficiente”.

E cada um prometeu
Com empenho dedicar
A força do seu trabalho
Em bem administrar,
Para que Zé Brasileiro
Ganhasse tanto dinheiro
Que nem pudesse contar.

Mas, passados alguns meses,
Brasileiro foi notando
Que os negócios da fazenda
Não estavam prosperando.
Plantação nunca vingava
E, dos bichos que criava,
Tinha sempre algum faltando.

Galinha botava os ovos,
Mas os pintos não nasciam,
E, quando tinha ninhada,
Muitos desapareciam.
No rebanho de bovinos
E na criação de ovinos
Muitos animais morriam.

A plantação de cenoura
Até se desenvolveu,
Mas, já perto da colheita,
O prejuízo ocorreu:
Deu uma chuva pesada
E a produção esperada
Quase toda se perdeu.

Perdeu-se também o milho
Já perto de ser colhido.
E teve ainda um besouro
Grande, do nariz comprido,
Que atacou o algodão
E, naquela plantação,
Quase tudo foi perdido.

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O ALBERGUE

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No albergue do Seu Pedro hospedam-se mais de duzentos estudantes de ambos os sexos. O lugar é bem movimentado, como seria de se esperar de qualquer lugar onde convivem muitos jovens. Tem música, tem festa, tem sexo e dizem até que tem quem use droga lá dentro, embora o Seu Pedro viva dizendo que, se descobrir, bota pra fora.

Também tem muito estudo e muito trabalho. Tem estudante de Engenharia, Medicina, Administração, Direito e outros cursos. Uns que trabalham para se manter e outros que são patrocinados pelos pais.

Tem namoros que começaram lá mesmo, no albergue, e outros que ali terminaram. Tem gente de pele mais clara e gente da pele mais escura. Gente de cabelo liso, encaracolado, curto, comprido, louro, preto e pintado.

Convivem ali em certa harmonia, mas tem uma época do ano na qual essa harmonia se abala. Acontece sempre no mês de novembro, quando os hóspedes escolhem a Comissão dos Albergados, um grupo de três estudantes encarregados de colaborar com o Seu Pedro na administração do albergue durante todo o ano seguinte.

A Comissão existe há décadas, desde quando o albergue ainda era do Seu João, pai do Seu Pedro. Depois de muita reclamação, por causa da má qualidade da comida e do serviço de limpeza, os estudantes fizeram um movimento exigindo participação na escolha do cardápio, fiscalização das despesas de manutenção, aquisição de bens de consumo e coisas assim.

Seu Pedro, conhecido naquele tempo como Pedro Cabeleira, era recém ingresso na faculdade de Sociologia e morava no albergue. Na época, discordou da forma de administrar do pai, ficou ao lado dos estudantes e tornou-se membro da primeira Comissão dos Albergados. Alguns meses depois, pai e filho fizeram as pazes.

Com o falecimento do pai, Pedro, que já havia terminado a faculdade e ficado careca, herdou o albergue e implementou o seu próprio jeito de administrar. Aproveitou a mudança para negociar com os estudantes algumas restrições na atuação da Comissão dos Albergados.

Hoje em dia, o principal motivo de discórdia entre os estudantes que disputam a participação na Comissão é a alimentação. Eles se dividem basicamente em dois grupos: os carnívoros e os vegetarianos, embora haja subgrupos mais ou menos radicais dessas correntes.

Por muitos anos a Comissão esteve em poder dos carnívoros. Os vegetarianos defendiam então que a dieta a base de vegetais era muito mais saudável. Diziam ainda que os carnívoros não estavam preocupados com a saúde de seus pares, e sim com os interesses de uns poucos que se beneficiavam de concessões feitas a eles pelo dono do albergue. Também se queixavam que os carnívoros eram autoritários e tomavam decisões ignorando a opinião dos demais hóspedes, principalmente dos vegetarianos, que ficavam privados de uma alimentação adequada a sua opção gastronômica.

Ano passado, após uma disputa apertada, os vegetarianos venceram a eleição. É bem verdade que, para conseguirem esse intento, flexibilizaram o discurso, a fim de conquistar os votos de estudantes insatisfeitos com a qualidade do rango, mas receosos de que uma vitória dos vegetarianos os privasse definitivamente de bifes, coxas de frango ou mesmo ovos fritos.

Na verdade, pouca coisa mudou com a nova composição da Comissão. A comida continua ruim e a carne permanece no cardápio do albergue. A par disso, os vegetarianos continuam afirmando em seus discursos as vantagens do vegetarianismo e propalando que a sua adoção no albergue vem melhorando a qualidade de vida dos hóspedes. O presidente da Comissão dos Albergados chega a afirmar que a inclusão de carne no cardápio não descaracteriza o caráter vegetariano da alimentação ali servida.

- Alguns fingem não entender que há uma grande diferença entre comer carne e incluir na dieta vegetariana uma porção de proteína animal adequada ao desenvolvimento fisiológico – diz o presidente. – Mas a verdade é que a cada dia o comportamento carnívoro neste albergue vai se tornando uma coisa do passado.

A estratégia parece estar dando certo. Tão certo que os carnívoros têm evitado expor publicamente suas convicções. É que dizer que alguém é carnívoro tornou-se equivalente a chamar tal pessoa de conservador, autoritário, violador dos direitos dos animais e outras coisas depreciativas.

Neste novembro de embates eleitorais, um grupo de carnívoros, querendo voltar à Comissão, declara-se neo-onívoro e alega que sempre comeram vegetais em quantidade e variedade superiores ao que hoje é servido aos moradores do albergue. Acusam os vegetarianos de não ter competência para escolher corretamente os alimentos, o que estaria levando a uma nutrição deficiente dos estudantes.

- Eles têm feito – diz um candidato neo-onívoro – um arremedo do programa alimentar que já vinha sendo implantado pela Comissão passada. Um programa, aliás, que, na sua essência, é bom, mas está sendo mal executado, precisa se aperfeiçoar e eles não têm competência para fazer isso!

Essa crítica, porém, é feita com muita cautela, porque os neo-onívoros pensam em conseguir o apoio dos vegetarianos radicais. Estes andam insatisfeitos com o fato de, quase um ano após a retirada dos carnívoros da Comissão, não ter sido atendida a sua pretensão de incluir no cardápio uma alimentação efetivamente vegetariana. No entanto, resistem à ideia de se unir aos neo-onívoros, porque, no fundo, sabem que eles nada mais são que carnívoros com um discurso mais ameno. Por outro lado, reconhecem que a Comissão atual, toda composta de vegetarianos, conta com o apoio expresso de estudantes antes conhecidos como carnívoros radicais.

Isto é fato: quem já foi carnívoro radical hoje pede votos para os vegetarianos membros da Comissão! Há quem diga que esses “vira-casaca” querem apenas se manter próximos aos que tomam as decisões para garantir o seu bife diário, ou melhor, que o seu bife seja de filé. Afinal, são os mesmos que eram acusados de receber ração especial no tempo em que a Comissão era controlada por carnívoros.

Em meio a essas mudanças, a verdade é que ali praticamente todo mundo consome carne, mas os poucos que defendem abertamente esse consumo são hostilizados pelos vegetarianos, radicais ou não, e não contam com a defesa dos neo-onívoros, já que estes, como visto, não querem ser reconhecidos como carnivoros.

É nesse clima que os debates devem prosseguir por todo este mês de novembro. Embora os que participam efetivamente deles sejam relativamente poucos, a agitação é suficiente para gerar alguns conflitos e escaramuças. Nada que não possa ser superado pelo espírito natalino das confraternizações de fim de ano.

No final das contas, quem se der ao trabalho de observar atentamente o que se passa no albergue, perceberá que carnívoros e vegetarianos continuam coexistindo ali, mas, na sua luta pelo controle da Comissão dos Albergados, comportam-se de maneira dissimulada.

Nesse jeito dissimulado de ser, uns imitam os outros naquilo que acreditam favorecer a busca dos votos dos demais estudantes ali acomodados. Estes, os acomodados, em sua imensa maioria, não entendem ou não se interessam por essas questões de ideologia gastronômica. Gostariam apenas que melhorasse a qualidade da comida servida no Albergue do Seu Pedro.

A propósito, o Seu Pedro também não está muito preocupado com esses embates. Para ele, tudo vai bem, desde que os estudantes continuem pagando regularmente pela hospedagem, e que o custo com a alimentação de seus hóspedes não diminua o seu lucro.


Mundo Cordel
GENTE QUE NÃO CASA: UMA QUESTÃO DE PRIVACIDADE

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De um grupo de cinco ou seis amigos que costumavam sair juntos para a “balada”, o Jáder era o que tinha mais sucesso com as mulheres. Era o que hoje se chama de “pegador”. Fosse na boate ou numa festa de formatura, rapidamente encontrava alguma beldade para lhe fazer companhia. Depois, sumia com ela sem que ninguém percebesse.

Os amigos o admiravam por isso, comentavam, ficavam com inveja. Nas rodadas de cerveja das tardes de sábado, perguntavam-se sobre o segredo que fazia o Jáder agradar tanto às mulheres. Ninguém chegava a nenhuma resposta convincente.

Mas o tempo foi passando e fazendo com que o motivo da admiração se fosse transformando em causa de preocupação. É que, sendo o mais velho daquela turma, o Jáder se encaminhava para os trinta e cinco anos de idade sem dar a menor pista de que se fixaria em algum relacionamento mais sério.

Alguns amigos já trocavam a agitação das boates por um calmo sushi bar no sábado à noite, em companhia da noiva. Outros falavam até em marcar a data do casamento, e o Jáder, nada. Nem namorada fixa tinha.

Começavam a surgir especulações, comentários. Ele não abria o jogo. Até que, certa vez, quando estávamos só nós dois, tomando cerveja na praia, aproveitei uma conversa sobre planos para o futuro e fiz uma provocação:

- E, afinal, Jáder, tu nunca pensas em parar com essa vida agitada e casar, não?

Ele demorou um pouco para responder. Normalmente, se esquivava desse tipo de pergunta com alguma brincadeira, mas, naquele dia, parece que algo o tocou de alguma forma. Quando falou, a voz saiu baixa, abafada:

- Penso – disse. Fez nova pausa e prosseguiu. – Mas… Eu vou te dizer uma coisa, que eu sempre tenho medo de falar e o pessoal levar na gozação… Mas é sério.

Foi estranho ver o Jáder daquele jeito. Pela primeira vez parecia inseguro. Ao mesmo tempo, parecia também ter uma necessidade incontrolável de compartilhar o que havia em seus pensamentos. Quando falou, disse tudo de uma vez:

- Eu já pensei várias vezes em levar um namoro a sério, ficar noivo, casar… Mas, sempre que eu penso nisso, vem uma imagem na minha cabeça: eu e minha mulher no quarto, deitados na cama, eu lendo alguma coisa, ela vendo televisão; de repente, eu começo a sentir umas contrações na barriga. Rapaz, quando eu me imagino levantando da cama e entrando no banheiro, fechando a porta, demorando lá dentro… Minha mulher deitada na cama, vendo televisão, percebendo que eu estou demorando…

Fez uma pausa grande. Quando voltou a falar foi com a voz alterada, nervosa.

- Porra! Quando eu me imagino dentro do banheiro do quarto e minha mulher na cama, sabendo que eu estou cagando!… Eu acho isso muito escroto, rapaz! Ou então o contrário: eu ali no quarto e minha mulher do outro lado da parede… Cagando!

- Qual o problema, Jáder? Todo mundo não caga?

- Caga, porra! Mas eu não quero ficar cagando a dois metros de distância de uma mulher, aliás, da minha mulher, da minha esposa. E também não quero ela cagando perto de mim! Não! É uma questão de privacidade, pô! Eu sei que pode ser besteira minha, mas eu fico constrangido…

Percebi que ele estava falando sério e procurei demonstrar que entendia a situação. Falei que, nesse caso, era melhor ele ficar solteiro mesmo, porque, para ele, privacidade era mais importante que companhia. A conversa seguiu por aí e ele acabou se acalmando.

Em respeito à privacidade desse amigo, nunca comentei essa conversa com ninguém e, se conto a história hoje, é atribuindo-lhe esse pseudônimo e alterando alguns detalhes que poderiam revelar sua identidade.

No mais, escrevo sobre essas coisas em outubro de 2013, quando o Jáder está prestes a completar sessenta anos de idade. Faz quase um ano que não me comunico com ele, mas, até onde sei, nunca casou. Não posso garantir que a razão de não ter casado foi a relatada naquele dia, mas, o certo é que não casou.


Mundo Cordel
PENSE NUMA NOITE INSPIRADA!

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Este colunista, no camarim de Geraldo Azevedo, com o cantor e o amigo Leo Carlos

Eu até tinha uma crônica pronta para a coluna desta semana. Mas na sexta à noite, antes que o Dia de Todos os Santos desse lugar ao dos Finados, inventei de ir com Natália e Natalie ao aniversário de 59 anos do BNB Clube de Fortaleza e, por causa disso, guardei para a semana que vem o texto antes escrito.

Pense numa noite inspirada!

Na chegada, já nos aguardava o meu amigo-irmão Leo Carlos, parceiro de tantas canções, companheiro de palco nos tempos de banda de rock. Estava todo feliz com Karine, esposa, musa e fã desse cara genial. Duas das três filhas dele chegaram depois, com os namorados.

Trinta e poucos anos antes, eu e Leo nos encontrávamos ali quase todo fim de semana. Futebol, violão e sanduíche de filé, não necessariamente nessa ordem. Naquele tempo, éramos apenas dois adolescentes descobrindo como é a vida quando a gente ganha o próprio salário. Se uma cigana houvesse aparecido e dito que um dia o Léo seria o presidente do clube, teríamos rido dela. Grande injustiça seria!

Como poderíamos imaginar? Tanto tempo depois, estávamos lá mais uma vez. Léo de presidente e eu de convidado. Ao invés de tentarmos aprender a tocar mais uma música do Geraldo Azevedo, era o próprio Geraldo quem cantava, acompanhado por seu violão. E como cantava! E como tocava! Emocionado com o carinho que recebia – umas duas mil pessoas cantando junto e aplaudindo de pé – voltou várias vezes para o bis. Umas duas horas e meia de show!

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Geraldo Azevedo fotografado pelo colunista durante o show

Mas, para mim, nem importava tanto que houvesse ali tanta gente. Bom mesmo era estar com meu velho amigo – e com nossas mulheres por perto, cuidando para a gente não beber sem se alimentar – recordando, através das canções de Geraldo Azevedo, momentos que sempre demonstraram nosso companheirismo e nossa ligação com a arte, especialmente a música.

Aliás (bazar da coisa azul, meu only you), para que nem eu nem Leo duvidássemos que aquele era um momento de celebração da nossa amizade um pelo outro e dos dois pela música, estava à mesa, conosco, outro amigo nosso e da música: Fausto Nilo.

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Este colunista, ladeado pelos amigos compositores Fausto Nilo e Leo Carlos

Como falar de Música Popular Brasileira sem citar o seu nome? Geraldinho citou, homenageou e seguiu com “Chorando e cantando”. A multidão explodiu em gritos e aplausos. Nós também.

Uma noite verdadeiramente rica de música, poesia e emoção!

Geraldo Azevedo canta “Chorando e Cantando! no Theatro Net Rio:


Mundo Cordel
GENTE QUE NÃO CASA: O TRAUMA

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Dagoberto tinha cinquenta e três anos de idade quando o conheci. Naquela época, eu estava assumindo um novo cargo em uma autarquia e ele era o chefe do setor. Um sujeito meio reservado que, aos poucos, com a convivência, se sentiu à vontade para falar sobre assuntos mais pessoais, como o problema de insônia que atormentava suas noites e a fragilidade do aparelho digestivo que o incomodava durante o dia.

Era o mais velho de três irmãos e o único solteiro. Morava sozinho, no mesmo prédio que a mãe, mas em outro apartamento, segundo ele, para que pudesse dar a ela uma melhor assistência, sem perder a própria privacidade.

Cheguei a pensar que o apego à figura materna era a razão para nunca haver casado, mas um dia ele me contou uma história que me fez mudar de ideia.

- Fui noivo quase dois anos – disse ele. – Eu já tinha me decidido a casar com ela. Uma moça bonita, de família, filha de um deputado federal aqui do nosso Estado.

- E o que houve? – interessei-me.

- Fiquei assustado.

Fez uma pausa. Continuei calado e ele prosseguiu:

- Você acredita que, no dia em que eu ia fazer o pedido de casamento, ela pegou uma briga com o pai? E foi ali, na minha frente, na sala da casa dela… Ela falava tão alto com o pai, gritando mesmo. O dedo apontado, quase encostando no nariz dele… Eu nem lembro mais o motivo, só lembro do homem tentando se explicar, pedindo calma, e ela gritando com ele…

Enquanto falava, Dagoberto mantinha a cabeça inclinada para a esquerda e os olhos voltados um pouco para cima. Olhava para um ponto imaginário, um pouco abaixo do teto da sala, como se a cena que descrevia estivesse acontecendo novamente ali, naquele mesmo instante, suspensa no ar.

Contou como foi se afastando silenciosamente, enquanto a noiva esbravejava com o pai, até sair pela porta da rua para nunca mais voltar. Não chegou a terminar oficialmente o namoro. A moça ainda telefonou algumas vezes, mas ele foi dando desculpas até ela desistir.

- Eu não sei se fiquei com medo de ir falar com ela pessoalmente e ser tratado daquele jeito… Ou se o meu medo era de não conseguir dizer que queria terminar tudo e acabar casando com ela… Sei que não queria ver nunca mais aquela mulher… Eu fugi… Na verdade, eu fugi… E, depois daquilo, nunca mais pensei em casar… Com ninguém.


Mundo Cordel
O DISCURSO DE MUJICA

Abro o espaço da coluna hoje para transcrever o discurso recentemente proferido na ONU por José Mujica, presidente do Uruguai. Mujica tem chamado a atenção de muitos pelo estilo de vida simples e por abrir mão de privilégios de Chefe de Estado. Também sofre críticas por algumas de suas ideias e até pelo seu jeito de vestir.

Polêmicas à parte, acho que vale a pena refletir sobre suas palavras.

Segue a íntegra do discurso.

Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz – porque, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos.

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Mundo Cordel
SOCO NO FÍGADO

Esta semana vi uma matéria na Folha de São Paulo que falava de expressões do esporte, em inglês, largamente utilizadas no mundo dos negócios. Não precisei de muito esforço para encontrar expressões semelhantes em português, tanto nos negócios como em outros aspectos da vida.

É comum, por exemplo, alguém dizer que está “batendo escanteio e fazendo gol de cabeça”, para alegar que anda muito atarefado. Ou reclamar que algo não deu certo porque fulano “pisou na bola” e “embolou o meio de campo”.

Mas, não se deve pensar que o futebol é a única fonte de tais expressões no Brasil. Falando do que conheço mais de perto, o boxe é outro esporte que contribui muito para esse tipo de comunicação.

Por exemplo, não faz muito tempo, ouvi a apresentadora de um telejornal dizer que a economia de determinado país estava prestes a “ir à lona”. No caso, “ir à lona” significava algo como “entrar em colapso”, o que se adequa à ideia original do boxe, onde se diz que o lutador “vai à lona”, quando um golpe do adversário o leva ao chão. A lona é o material que reveste o piso do ringue, logo, “ir à lona” significa cair, possivelmente nocauteado, quer dizer, sem condições de prosseguir no combate, já que “nocaute” é a forma aportuguesada de knockout (ao pé da letra, bate-e-fora). No mesmo sentido, também se usa “beijar a lona”.

Outra expressão pugilística interessante é “jogar a toalha”. Pesquisei no Google e cheguei ao site “Bolsa de Mulher”, onde estava escrito o seguinte: Saber a hora exata de jogar a toalha num relacionamento não é nada fácil. Mas, com alguma perspicácia, é possível notar os indícios de que o amor anda mal das pernas. Só resta então a coragem para arremessar.

De fato. Da mesma forma que, nas relações amorosas, ocorre de alguém desistir de um relacionamento desgastado, antes de haver um mal maior, no boxe, às vezes acontece de o treinador ver que o seu atleta está sendo massacrado pelo oponente e decidir que é melhor parar a luta, antes que ele sofra algum dano mais sério em sua integridade física. Nesse caso, o treinador arremessa uma toalha para dentro do ringue (todo treinador de boxe tem uma toalha na hora da luta), gesto que simboliza a sua desistência no combate.

Também tem origem no boxe dizer-se que alguém muito pressionado está “nas cordas”. Uma referência à situação na qual um lutador é atacado pelo seu oponente e recua até ficar com as costas junto às cordas que servem de limite para o ringue. Sob a pressão dos golpes do adversário, o lutador que está nas cordas praticamente limita-se a se defender.

E há ainda outras expressões vindas do boxe, como estar “nos calcanhares” (abalado, prestes a cair) ou “baixar a guarda” (descuidar-se da defesa).

Mas, para concluir com uma frase muito comentada nos últimos dias, vejamos de onde vem a expressão “soco no fígado”, a qual, segundo o Blog do Josias, teria sido usada por Lula, ao saber que Marina havia se aliado a Eduardo Campos.

Longe de mim querer decifrar o que Lula quis dizer na ocasião (se é que usou mesmo essas palavras), até porque não tenho qualquer intenção de ingressar em questões político-partidárias. Mas, como a experiência faz crer que a expressão “soco no fígado” pode passar a ser largamente utilizada doravante, achei que deveria falar um pouco sobre ela, até para ajudar os interessados a usá-la corretamente.

Pensando assim, devo dizer que, no âmbito da nobre arte de usar os punhos, diz-se mais correntemente “golpe no fígado”. Isto é feito com um significado bem específico porque, diferentemente do golpe aplicado na cabeça, que faz o lutador perder o equilíbrio ou os sentidos, o impacto no fígado causa uma dor aguda no abdome e uma grande dificuldade para respirar. Assim, quem o recebe tende a dobrar o corpo e cair lentamente, consciente de tudo o que acontece ao seu redor, mas sem condições de reagir.

Acredito, porém, que o que fez a expressão “golpe no fígado” ganhar a conotação utilizada fora dos limites do esporte foi o curioso fato de que, entre o lutador receber o golpe e os seus efeitos se tornarem visíveis, decorre uma fração de tempo, um segundo, no máximo dois.

É pouco, mas suficiente para que se perceba a vítima sendo dominada pela dor e pela falta de ar. Nessa hora, só resta apoiar o joelho no chão e esperar que a dor passe antes que a contagem do árbitro chegue a dez. Quando não passa, o lutador vê a derrota chegar, sem nada poder fazer. Consciente, mas impotente.

Por causa disso, quando alguém que conhece bem a expressão diz que determinado fato funcionou como um “golpe no fígado”, não está apenas reconhecendo o poder destrutivo desse fato, mas indicando que se trata de algo cujos efeitos não serão sentidos imediatamente, e que decorrerá um intervalo, ainda que curto, até que eles apareçam em sua inteireza.

A propósito, um dos articulistas que vi recentemente abordar esse assunto, escreveu “direto no fígado”, o que demonstra pouca familiaridade com o tema.

É que há pouca probabilidade de se acertar o fígado de alguém com um direto, que é o golpe dado com o punho que está mais afastado do adversário, fazendo uma trajetória retilínea em direção à sua cabeça ou ao seu corpo. O golpe que costuma acertar o fígado é o gancho, no caso, desferido com o punho esquerdo, que, partindo em movimento diagonal, de baixo para cima, tem como alvo área um pouco abaixo da costela direita.

Quando pega no lugar certo, a dor vem em seguida, mesmo que aplicado sem tanta força. Muito candidato a campeão já ficou pelo caminho após receber um golpe assim.


Mundo Cordel
DECISÃO SOBRE O FURTO DAS GALINHAS

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Semana passada, vi postado aqui no JBF um pedido de relaxamento de prisão, formulado pelo defensor Vicente Alencar Ribeiro, de Bonito de Santa Fé-PB, todo em versos.

Tudo o que desejei naquele momento foi ser o juiz responsável por aquele pedido de relaxamento de prisão. Mesmo não tendo essa felicidade, aproveitei o fim de semana para fazer o que seria a minha decisão diante de tal pedido.

Segue a decisão que eu gostaria de ter proferido:

Vicente Alencar Ribeiro
Protocolou petição
Por meio da qual requer
Que se relaxe a prisão
De um rapaz preso em flagrante,
Que, Vicente me garante,
Não merece punição.

“Nego Nona” é a alcunha
Pela qual é conhecido,
E da sua avó teria
Dois frangos subtraído
Mas a polícia o pegou,
Em uma cela o trancou
E lá está recolhido.

Mas, alega o defensor,
Que furto não ocorreu,
Pois, segundo “Nona”, os frangos
Foi sua avó quem lhe deu.
Mas, houve esse quiproquó
E os tais frangos da avó
Ele até já devolveu.

Dessa forma bem sucinta
Eis o caso relatado.
Passo então a apreciar
O pedido formulado,
Pelo ilustre defensor
Para o suposto infrator
De pronto ser libertado.

Preliminarmente, informo
Que dispenso o parecer
Do promotor de Justiça
Para a causa resolver,
Porque já neste momento
Firmei meu convencimento
Conforme passo a dizer.

Nesse sentido, advirto:
Não me sensibilizou
A versão de que os frangos
Da avó “Nona” ganhou.
Parece mais com desculpa,
Para encobrir sua culpa
Quando a polícia o flagrou.

Ao que parece, a avó,
O seu neto perdoou,
Já que em favor de “Nona”
Também se manifestou,
Entretanto, essa versão,
Da suposta doação,
Ela jamais confirmou.

Se houvesse acontecido,
A alegada doação,
A avó confirmaria
Certamente essa versão,
E talvez nem aceitasse
Quando o neto lhe falasse
Em fazer devolução.

Parto, assim, do pressuposto
Que o dito furto ocorreu.
E que, só depois de preso,
O “Nona” se arrependeu,
E então, cada galinha,
Que furtara da avozinha
Bem depressa devolveu.

Nessa linha, eu acredito
Que a questão fundamental
É mesmo saber se o “Nona”,
Pelo seu ato imoral,
Deve vir a ser punido,
Condenado, reprimido
Pelo Direito Penal.

Diz a defesa que o furto
Não deixou grande seqüela.
Só prejudicou a avó
Ou, na verdade, nem ela.
Nisso o defensor se apega
Quando em seu pedido alega
O crime de bagatela.

E parece que a defesa
Nesse ponto tem razão.
Pois o valor das galinhas
Teria mais projeção
Se as criaturas aladas
Já fossem consideradas
Animais de estimação.

Mas, no caso, ao que parece,
Eram galinhas normais,
Que viviam no quintal,
Junto aos outros animais,
Para um dia, na panela,
Cozidas “à cabidela”
Servirem aos comensais.

E a dona dessas galinhas,
Em sua avançada idade,
Disse que “Nona” a ajuda
Com muito boa vontade.
E se pudesse escolher
Queria mesmo era ver
O seu neto em liberdade.

Por isso, penso que, embora
Na esfera da moral,
A conduta desse “Nona”
Cause repulsa total,
Não existe fundamento
Para se dar seguimento
A uma ação criminal.

Ainda mais no Brasil,
Onde tem tanto ladrão
Que navega livremente
No mar da corrupção,
Parece coisa mesquinha
Manter ladrão de galinha
Trancado em uma prisão.

E já tem tanto processo
No Poder Judiciário,
Anda tão abarrotado
O sistema carcerário,
Será que compensaria
Gastar nossa energia
Com esse crime aviário?

Melhor acabarmos logo
Com esse co-ro-co-có,
Libertando o “Nego Nona”
E alegrando a sua avó,
Que sofreu forte emoção
Ao ver o neto ladrão
Recolhido ao xilindró.

Já que o fato em julgamento
Teve pouca gravidade,
Vamos dar ao “Nego Nona”
Nova oportunidade
De agir, daqui pra frente,
Como um cidadão decente
Sendo posto em liberdade.

Fundado nessas razões,
Decreto o relaxamento,
Do flagrante efetuado
Pelo policiamento
No Alvará de Soltura
Vai a minha assinatura,
E a ordem de cumprimento.

Publique-se a decisão,
E expeça-se mandado.
Intime-se o defensor
E também o delegado,
Depois, vista ao promotor
Que, nada tendo a opor,
Seja o processo arquivado.


Mundo Cordel
O HOMEM QUE PERDEU A FÉ

Businessman Reading a Newspaper --- Image by © moodboard/Corbis

Era um domingo. Na cozinha do apartamento, o casal acabava de tomar o café da manhã. Os filhos – uma jovem de dezesseis anos e um rapazinho de quatorze – ainda dormiam. Tinham ficado acordados até tarde da noite navegando na Internet em suas rotas adolescentes. Enquanto a mulher mordiscava um derradeiro pedaço de pão, o marido segurava o jornal aberto em uma página qualquer e corria os olhos pelas reportagens, sem se deter em nenhuma. De repente, parou, dobrou o jornal sobre as pernas e, sem olhar para a mulher, disse:

- Não acredito mais em nada.

- Como?

- Não acredito mais em nada do que leio no jornal ou vejo na TV. Não acredito no que vejo na Internet, nem no que ouço no rádio…

- Eu ouvi o que você falou, mas… Você acha que é tudo mentira?

- Não sei. Eu nem chego a pensar se o que está escrito no jornal é verdade ou mentira. Imagino que alguma coisa deva ser verdade.

Acontece que começo a ler uma reportagem e me pego pensando: “Por que esses caras do jornal botaram essa notícia aqui?”; “Por que não puseram outras?”; “Será que os fatos que merecem ser notícias são esses mesmos? Ou publicaram isso só para atrair minha atenção?”…

A mulher estava um tanto surpresa com aquela conversa, mas não muito. Sabia que o marido era dado a reflexões filosóficas sobre os mais variados assuntos, muitas vezes disposto a questionar os pontos de vista mais tradicionais sobre as coisas. O que chamava a atenção desta vez era a melancolia que ele deixava transparecer na fisionomia e na voz.

- Atrair a sua atenção?… – quis saber ela.

- É. Para que eu não pense nas coisas que realmente interessam. Enquanto isso, aproveitam para me empurrar todo tipo de inutilidade, me induzem a comprar coisas que não preciso… Na Internet fica mais fácil perceber isto. Ao redor de uma notícia sempre há banners piscando com anúncios publicitários… Você acha que quem faz isso está preocupado em me manter informado ou em me convencer a comprar alguma coisa?

- Entendi. Mas, isso é meio paranóico, não?

O marido olhou para o jornal, que estava sobre suas pernas, e demorou alguns segundos antes de prosseguir.

- Acho que sim, e admito que estou preocupado, mas não é só isso.

- Não?

- Não. Veja, por exemplo, o futebol. Hoje é domingo. Tem jogo transmitido pela televisão à tarde. Você já observou que, de uns tempos pra cá, depois de cada jogo tem sempre uma entrevista coletiva dos técnicos, geralmente acompanhados de um jogador de seu time?

- Amor, eu não fico vendo jogo de futebol. Muito menos as entrevistas dos jogadores. Mas, o que tem demais nisso?

- Tem que eles sempre dão a entrevista na frente de um painel com as marcas dos patrocinadores. Tá na cara que não estão ali para esclarecer nada, e sim para mostrar aquelas marcas das empresas. Então o que eles dizem não importa, o que importa é que a marca do patrocinador apareça. Logo, eu não consigo levar a sério nada do que eles digam.

- Credo! Isso parece grave?

- “Isso” o quê? Minha falta de fé ou a falta de credibilidade deles?

- Claro que estou preocupada com a sua desilusão com o mundo. Não me importa se estão mentindo o tempo todo na televisão…

- Esse é o ponto! Quem se importa? Tenho certeza que eles pesquisaram isso e concluíram que poderiam manipular todo mundo sem ninguém se importar!

- Eles quem? É uma teoria da conspiração?

- Talvez. Mas, não consigo pensar de outro jeito. Veja só. Antes de você acordar, liguei a TV e vi o que estava acontecendo em vários canais. Vi um padre vendendo o próprio livro, outro vendendo seus CDs, um pastor ensinando como os fiéis deveriam fazer para serem sócios de Deus, claro que mediante contribuições em dinheiro… Você deve estar pensando que deixei de acreditar neles por causa disso… Não. Nesses eu já não acreditava há muito tempo. A questão é que eles continuam mais preocupados com o vil metal do que com a fé, mas já não se preocupam em disfarçar. E sabe por quê? Porque sabem que ninguém se importa.

- Será?

- É o que eu penso. Principalmente de 2011 para cá, depois do terremoto no Japão, aquele com tsunami e desastre nuclear. Lembra? Na época, nossa filha disse que todas as amigas dela no MSN… Lembra do MSN? Pois bem. Todas estavam usando em seu perfil a frase “Praying for Japan”. No Twitter foi a mesma coisa. Rapidamente, “#prayforjapan” se tornou uma das mensagens mais replicadas do mundo. Agora, eu lhe pergunto: alguém estava mesmo rezando pelo Japão? Provavelmente não. Alguém acreditava que as outras pessoas rezavam? Claro que não! Mas qual a importância disso, se o que importa não é rezar, e sim dizer que se está rezando?

- É, faz sentido… Hoje se vive muito de aparência mesmo… Mas, será que é motivo para duvidar de tudo?

- Não sei. Talvez não. Mas estou cada vez mais intolerante com gente que usa adesivo “Preserve a Natureza” e joga lixo pela janela do carro…

- Meu Deus! Se é assim, imagino o que você pensa dos políticos!

- Não tenho mais pensado em políticos ou partidos políticos. Parei de pensar neles desde que percebi que os políticos e os não-políticos são as mesmas pessoas. Apenas uns se candidataram e outros não, uns se elegeram e outros não. Existem políticos honestos? Provavelmente. Da mesma forma que devem existir pessoas honestas morando em nosso bairro. Mas, quem são? Quantos, tendo a possibilidade de se apropriar de dinheiro público não o fariam? Não sei, mas estou certo de que uma minoria. Ou você prefere acreditar que os honestos são maioria, mas são incompetentes?…

- Você está mesmo desanimado… – disse ela, cada vez mais preocupada.

- É que tenho sempre a impressão de que, pelo menos em nosso país, se trocássemos todas as pessoas que ocupam cargos públicos hoje, continuaríamos tendo exatamente os mesmos problemas. Não tem sido assim cada vez que o poder mudou das mãos de um grupo político para outro? “Nada mais conservador que um liberal no poder…”, lembra?

- Lembro. Engraçado como essa frase continua atual! Mas agora estou mais preocupada com você. Tenho medo que fique com depressão…

- Pode ser que isso acabe acontecendo… Ou não! Quem sabe se esse não é um primeiro passo para minha iluminação? – disse ele sorrindo, mudando o semblante até então sombrio para uma expressão quase eufórica.

- Uau! O caso é sério mesmo! – emendou a mulher, já confusa, sem saber mais se até ali ele tinha sido sincero ou estava apenas de brincadeira. – Do niilismo ao budismo em segundos! Pelo menos me deu esperança que você ainda acredite em alguma coisa! No nirvana, talvez!

Ele continuou sorrindo, mas dava para perceber que o desânimo voltava. Olhou nos olhos da mulher e disparou:

- Acredito na obsolescência programada.

- Em quê?

- Obsolescência programada. Acredito que as empresas fabricam coisas com data marcada para pararem de funcionar. Um forno de microondas poderia durar dez, quinze anos, mas programam para durar menos de três. Dão garantia de um ano e oferecem garantia estendida por mais um. Claro que cobram por essa garantia estendida, cientes de que a possibilidade de o aparelho quebrar nesse período é praticamente zero. Depois que a garantia acaba você sabe o que acontece… Acho que lhe mostrei alguma coisa sobre isso na Internet…

- Eu vi, mas não levei muito a sério, não – replicou a mulher, forçando um sorriso, tentando evitar que o marido fosse tomado novamente pelo desânimo. – Se isso fosse verdade já teria um monte de gente brigando na Justiça!

- Ah, sim, a justiça! Que tantos dizem desejar, mesmo querendo coisas bem diferentes! Em uma cidade da Grécia Antiga, uma mulher foi ao magistrado responsável pelos litígios e disse: “Meu vizinho matou meu filho. Quero justiça!”. O magistrado chamou o vizinho, que contestou: “Minha vizinha anda a me difamar, dizendo que matei o seu filho. Quero justiça!”. Vou lhe dizer o que tenho pensado sobre a justiça…

- Filosofando, papai? Domingo de manhã?…

Era a filha, que havia acordado e acabava de entrar na cozinha. Abraçou o pai e fez a conversa mudar de rumo. Sorriram, brincaram, combinaram de almoçar fora. Enquanto mãe e filha punham a louça suja na máquina de lavar, o homem caminhou em silêncio até a sala, deitou no sofá e adormeceu.


Mundo Cordel
O INTELECTUAL

intelectual.

Discreto, sério, culto e educado,
Segue em visita a uma livraria.
Relê um conto, lê uma poesia.
“São tantos livros!” – pensa emocionado.

Até lamenta não ter dedicado
A vida inteira simplesmente a lê-los.
Mas, eis que surge um par de tornozelos,
No pé esquerdo, um trevo tatuado.

As panturrilhas e cada joelho,
Coxas que somem sob o tom vermelho
De um vestido fino e sensual.

E, sem esforço, aquela criatura
Logo desvia da literatura
Toda a atenção do intelectual.


Mundo Cordel
PEDIDO DE MÚSICA NO BAR DO MOURÃO(*)

som-antigo-cce.

Tadeu estava sozinho naquela manhã de sábado. Sem um companheiro com quem pudesse compartilhar uma cerveja e um pouco de conversa, chegou ao bar do Mourão por volta das onze e ocupou uma das mesas que ficavam junto à parede.

O bar estava vazio. Só o Mourão arrumava alguma coisa atrás do balcão. Antes de sentar, Tadeu o cumprimentara.

- E aí, Seu Mourão? Beleza?

- Tudo bem. Vai beber alguma coisa?

- Bote uma cervejinha aqui pra mim…

- Tem que ser pra você mesmo, que eu não tô bebendo…

Tadeu não respondeu. Não era a primeira vez que bebia no bar do Mourão e já sabia que polidez e delicadeza não eram seus pontos fortes. Acomodou-se em uma cadeira e ficou tomando sua cerveja em silêncio.

Esperava que algum amigo aparecesse logo, mas já estava na segunda cerveja e não aparecia ninguém. O cliente e o dono do bar calados, cada um com suas ocupações, embora não houvesse muito o que fazer para nenhum dos dois. O ambiente só não ficou mais monótono porque o Mourão havia ligado o som e posto para tocar um CD do Waldick Soriano.

Tadeu ficou apreciando a música. Gostou, sentiu vontade de puxar conversa de novo com o Mourão. Hesitou, com receio de ouvir outra resposta daquelas. Até que tocou “Torturas de Amor”: Hoje que a noite está calma, e que minh’alma esperava por ti…

No acordes finais, Tadeu não resistiu:

- Eita, Seu Mourão, essa música é bonita demais! Dá pro senhor botar ela de novo, dá?

O Mourão parou o que estava fazendo e olhou fixamente para o Tadeu. Passou os dedos indicador e polegar da mão direita pelo bigode e disse calmamente:

- Olhe, Tadeu, eu boto música pra tocar aqui pra me distrair, não é pra ficar atendendo pedido não – Fez uma pausa e, diante da paralisia do cliente, prosseguiu. – Quando tiver tocando o rádio, pode ligar pra lá e pedir o que quiser, que eu não incomodo. Mas… Quando eu tiver botando os meus discos… Não se meta não.

Tadeu desculpou-se sem questionar. Pensou em pedir a conta, mas, bem nessa hora, o Sérgio chegou todo animado. Sorrisos, abraços, mais um copo sobre a mesa… Em instantes, o episódio do pedido da música estava totalmente superado.

Enquanto cumprimentava Sérgio, Tadeu percebeu que o Mourão havia posto “Torturas de Amor” para tocar novamente. Mas não agradeceu.

(*) O Mourão é dono de um bar na periferia de Fortaleza. Tem um jeitão meio rude, mas o coração é bom. Segundo se comenta, Mourão não é nome de batismo, mas um apelido que estaria relacionado com um tipo de estaca mais grossa que as outras, geralmente fixada no canto de uma cerca.


Mundo Cordel
TANTAS VEZES

MM_Alvaro_perto

Hoje, 15 de agosto, é aniversário do Álvaro, meu filho.

Certa vez, quando ele ainda era bem pequeno, fiquei com saudade dele e comecei a solfejar uns versos que tinham um jeitão meio bossa nova.

Passou o tempo. É da natureza do tempo passar.

Uns dias atrás, eu estava pensando nisso e lembrei que Álvaro já vai fazer treze anos e está quase terminando o ensino fundamental. Quando eu menos esperar, estará fazendo faculdade, trabalhando, seguindo seu próprio destino, como já vem acontecendo.

Sei que continuarei ficando feliz com as suas realizações, tendo saudade dele e desejando que a gente esteja sempre se encontrando para passar bons momentos juntos. Aliás, os momentos que passo na companhia do Álvaro são sempre muito bons.

Foi pensando nessas coisas que terminei recentemente a canção que havia começado há uns anos. O nome da canção é “Tantas Vezes”.

Meu mestre Wanderley Freitas deu uma ajuda fundamental na produção musical. Sérgio Medeiros e Antenor também ajudaram, no estúdio, cada um do seu jeito.

O resultado está nesse vídeo: uma canção que nasceu de um amor de pai para filho.

Mas o amor é universal e a saudade também. Quem conhece os dois – amor e saudade – vai ouvir a canção e lembrar de alguém que ama.

Se esse alguém estiver por perto, que coisa boa! Se não estiver, fica a expectativa pelo reencontro.


Mundo Cordel
CABEÇA DE JUIZ, RELAÇÕES HUMANAS E UM POUCO DE VIDA SELVAGEM

Antiga Sala de Audiências...

Em meados de 1995, eu estava começando minha carreira como advogado. Trabalhava no departamento jurídico de um banco, em Fortaleza, e fui designado para passar uma temporada no núcleo jurídico de Teresina, onde deveria substituir um colega que estava de férias.

Os advogados mais novatos sempre eram mandados para esse tipo de serviço, sob o argumento de que era uma ótima oportunidade para se adquirir experiência. E foi assim mesmo que encarei a missão de exercer a advocacia em outra cidade, capital de outro Estado, sem conhecer as pessoas ou os costumes do local.

Encontrei menos dificuldades do que imaginava, mas tremi quando o meu chefe em Teresina mandou que eu fosse para mais longe ainda:

- É uma audiência em Caxias – disse ele. – Você pode ir no seu carro. Dorme lá e no dia seguinte faz a audiência, às nove da manhã.

A cidade de Caxias fica no Maranhão, mas é muito longe da capital, São Luís – uns trezentos e cinquenta quilômetros – por isso era atendida pelos advogados de Teresina, distante apenas setenta quilômetros.

Recebidas as instruções, fiz cara de “deixe comigo” e, na véspera da audiência, peguei a estrada. O coração ia apertado, reconheço. Pela primeira vez, eu não teria um colega mais experiente por perto. Se algo desse errado, se surgisse alguma dúvida, eu não teria a quem recorrer. Telefone celular e Internet já existiam, mas não tinham a cobertura que têm hoje.

Pouco antes do sol se por, cheguei a Caxias. Acomodei-me em um hotel onde passaria a noite e, no dia seguinte, compareci ao fórum. Aguardava a chamada para a audiência, quando chegou o advogado da outra parte no processo, acompanhado de seu cliente.

Ali estava meu colega e meu adversário. Uns vinte anos mais velho (eu tinha vinte e nove), falava e se movimentava como se estivesse em seu próprio escritório. Demonstrava estar à vontade e conhecer a todos, desde o porteiro do fórum ao servidor mais graduado.

Senti que a situação me era desfavorável. Não bastasse a minha inexperiência, eu era apenas um estranho, vindo sabe-se lá de onde, defendendo o odiado sistema financeiro contra um empresário local, provavelmente dotado de influência econômica e política na cidade.

Mas, não tive tempo de pensar muito nessas coisas. Poucos minutos depois da hora marcada, foi feita a chamada e entramos na sala de audiência. Acomodei-me por ali, no lado da mesa indicado pelo servidor que auxiliava o juiz.

Meu colega-adversário, prosseguindo em sua demonstração de bons relacionamentos forenses, cumprimentou efusivamente o juiz, apertando-lhe a mão enquanto lhe dava tapinhas em um dos ombros.

Apesar do pouco entusiasmo do magistrado em corresponder ao cumprimento, o advogado falava com ele como se fossem velhos amigos e, antes que a audiência começasse, começou a comentar sobre outro processo, aparentemente, a cargo de outro juiz. Depois de falar alguma coisa quase sussurrando, disse sorridente ao juiz, elevando novamente a voz:

- Sabe como é, né, excelência? De cabeça de juiz e de bunda de menino, a gente não sabe o que é que vem…

O juiz não sorriu. Também não se mostrou irritado. Simplesmente, olhou para o advogado com total indiferença e disse, lenta e pausadamente:

- Desses dois aí, doutor, mais cedo ou mais tarde, acaba vindo sempre alguma merda…

O advogado ficou sem graça. Percebi que ele tentava dizer alguma coisa que afastasse o mal estar gerado pela situação, mas, nada lhe ocorria.

O juiz aproveitou o silêncio que se fez e iniciou a audiência. Eu, percebendo o desconforto que se instalou em meu colega-adversário, recuperei a auto-confiança e passei a defender os meus pontos de vista com tranquilidade e segurança. No final do ato, o caso não foi julgado, mas as provas ficaram bem favoráveis à tese do banco.

Mais tarde, quando estava na estrada, novamente sozinho, pensei sobre tudo aquilo e senti que não havia gostado da conduta do advogado. Apesar de o dito popular ser bem conhecido, não é o tipo de coisa que um juiz gosta de ouvir, ainda mais na hora em que se prepara para começar uma audiência.

Se bem que o juiz também não precisava ser tão seco na resposta. A audiência é um momento que, por si só, já é tenso, pelo fato de haver ali interesses contrários sendo discutidos. Não precisava aumentar mais ainda essa tensão, só porque o advogado foi infeliz ao tentar ser engraçado ou espirituoso.

A minha grande lição naquele dia foi me portar nas audiências de maneira afável, mas, mantendo sempre certa formalidade no tratamento. Se é inevitável algum tipo de animosidade, que esta se limite aos que têm o seu direito sendo decidido, sem envolver os profissionais que estão cuidando disso.

Mas, confesso que gostei de ver o meu experiente colega escorregar e perder a desenvoltura que exibia no começo. Isso é algo que me fascina até hoje na vida forense. No ambiente civilizado das demandas judiciais há algo da vida selvagem. Ali, um deslize do predador pode transformá-lo em presa.

Publicado no Informativo Jurídico Migalhas de 7/Ago/2013


Mundo Cordel
DA FALCATRUA À POESIA

piramide_dinheiro

Abri a minha caixa de e-mails e lá estava a mensagem de um desconhecido que começava assim:

Olá amigo(a)! recebi este e-mail, e achei este programa muito interessante. É uma ótima oportunidade para aumentar sua renda e quero muito que a prosperidade sorria pra você também. Verifique se vale a pena, não fique bravo ao receber este e-mail. Caso não queira participar, delete.

Os parágrafos seguintes explicavam como eu deveria proceder, depositando uma pequena quantia na conta de algumas pessoas desconhecidas, pondo o meu nome no final de uma lista e encaminhando a mensagem aos meus contatos, na esperança que muitos depositem alguma coisa em minha conta também. Dando tudo certo eu poderia ganhar até R$ 900.000,00 (era o que dizia o e-mail).

Não é preciso muito esforço para compreender que se tratava de uma dessas correntes financeiras com as quais um grupo de espertos tenta se locupletar às custas da boa fé de uns e da ganância de outros. Os primeiros entram no jogo por acreditar no discurso esdrúxulo da multiplicação do dinheiro, os segundos entram pela crença de que terão ganho uma boa quantia antes que a expansão da corrente se esgote ou a pirâmide desmorone.

Não me senti estimulado a aderir à corrente, mas o e-mail me despertou a inspiração para escrever em uma forma poética que ainda não havia experimentado: o soneto.

SONETO PARA QUEM ME ENVIOU UMA CORRENTE FINANCEIRA

Convidaste-me para ato suspeitoso
E pediste-me que eu não me apoquente
Por me teres enviado essa corrente
De caráter muito estranho e duvidoso.

Prometeste ganho fácil, generoso,
Lucros altos, garantidos, imediatos.
Bastaria eu enviar aos meus contatos
Esse teu mesmo convite criminoso.

Mas, eu sei que pensas algo diferente.
E, ao fazer-me essa proposta indecente,
Fica clara a ocorrência de um fato:

O que buscas nessa hora, realmente,
É apenas uma vítima inocente
Ou um cúmplice do teu estelionato.


Mundo Cordel
A VOZ DAS RUAS CHEGOU EM FORMA DE RAP

Sentei diante do computador para escrever um comentário sobre o que tem acontecido nas ruas do Brasil nesses dias tão recentes de festas juninas e Copa das Confederações. De repente, qualquer comentário, qualquer análise, qualquer raciocínio, tudo isso me pareceu inútil.

Eu simplesmente via os vídeos das pessoas nas ruas e ficava arrepiado, sentindo renascer em mim a esperança de ver o nosso povo fazer do nosso país um lugar melhor para se viver.

Senti orgulho do povo brasileiro. Então, ao invés de um texto analítico, racional, saiu o seguinte:

O GIGANTE ACORDOU
(MC MM e Expert2015)

Tudo começou nas redes sociais
E as pessoas diziam: “Não aguento mais.
É corrupção, enganação, é ladroagem.
E agora esse aumento na passagem!”

O povo foi pra rua, o povo protestou,
A polícia reprimiu, mas não adiantou.
As ruas se encheram de manifestações
Bem no tempo da Copa das Confederações.

A multidão na rua, que coisa mais linda,
Só bandeiras de partidos não eram bem vindas:
– Cansei dessas mentiras que essa gente inventa.
Ei, político corrupto… Você não me representa!

E foi assim que tudo começou,
Que o gigante que estava adormecido acordou
E o povo que andava acomodado decidiu
Que era hora de lutar mais uma vez pelo Brasil!

O povo foi pra rua, o povo protestou,
A polícia reprimiu, mas não adiantou.
As ruas se encheram de manifestações
Bem no tempo da Copa das Confederações.

A multidão na rua, que coisa mais linda,
Só bandeiras de partidos não eram bem vindas.
Cansei dessas mentiras que essa gente inventa,
Ei, político corrupto… Você não me representa!

O povo foi pra rua exigir mais respeito:
“Não é pelos vinte centavos, tia. É pelo nosso direito”.
“A gente quer transporte público de qualidade,
Quer saúde à vontade, educação de verdade.
A gente quer acabar com a impunidade”.

“A gente quer parar de ser assaltado,
seja pelo ladrão de rua ou pelo ladrão engravatado”.

“O que tá em jogo não é só a minha vida.
É a vida do meu filho, é a do seu, é a sua!
Por isso que a gente passa e chama:
– Vem pra rua, vem pra rua!
E se você se assustou com o que viu,
desculpe o transtorno, amigo, a gente tá mudando o Brasil”.


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