3 maio 2012 CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS - Marcos Mairton
Passageiros aguardando educadamente a sua vez de desembarcar
Já que não conseguimos resolver problemas mais sérios do nosso país, podemos gastar um pouco de energia pensando sobre coisas mais simples. Por exemplo: se o comissário de bordo sempre pede às pessoas para permanecerem sentadas até que se apaguem os avisos de apertar os cintos, por que quase todo mundo se levanta antes?
É algo que faz um tempo que me chama a atenção. O avião acaba de pousar e, quando ainda está taxiando em direção à plataforma onde será feito o desembarque, as pessoas já vão se agitando nas poltronas, desatando os cintos de segurança e ligando os seus celulares (o que, aliás, também deveria ser feito só depois que avião estivesse parado e com as portas abertas).
Ocorrido o pequeno solavanco indicativo de que a aeronave estacionou, praticamente todos se levantam ao mesmo tempo e precipitam-se em direção aos compartimentos onde estão suas bagagens de mão, como se o desembarque fosse sempre um procedimento de emergência.
O mais curioso é que toda essa pressa resulta absolutamente inútil, pois leva um tempo até que a plataforma de acesso seja acoplada à porta do avião e esta seja aberta para o desembarque. Sem contar que a grande maioria terá que esperar um pouco mais, quando chegar à esteira onde pegará a bagagem despachada.
Como sou meio neurótico em relação a esse tipo de comportamento, passei a cronometrar o tempo decorrido entre o momento em que a primeira pessoa se levanta e a saída do primeiro passageiro do avião. Já fiz isso em mais de vinte voos, e, até agora, tem sido de três minutos e quarenta e dois segundos a média desse intervalo, no qual quase todos os passageiros ficam de pé, amontoados no corredor da aeronave, muitos suportando o peso de suas bagagens de mão, quando podiam permanecer sentados em seus lugares, sem carregar peso algum.
Tudo bem que as poltronas dos nossos aviões não são as mais confortáveis do mundo. Tudo bem que o espaço entre as fileiras está cada vez menor. Mas não creio que alguém acredite que permanecer sentado nelas seja pior que ficar de pé em um corredor também estreito e lotado de gente.
Por que, então, tanta pressa em se levantar?
Alguém me disse que a explicação estaria na velha “Lei de Gerson”, mas, não me parece que o gosto do brasileiro por “levar vantagem em tudo” explique, por si só, esse comportamento. Afinal, como acabei de demonstrar, ele não tem trazido vantagem alguma aos seus praticantes.
Outra explicação fácil seria a de que o brasileiro é mal educado mesmo, ou que tem resistência ao cumprimento de normas, ainda que sejam para a sua própria segurança.
Parece-me, entretanto, que pensar assim seria simplificar demais as coisas, generalizando a pecha de mal-educado para todo o nosso povo, o que seria injusto com muita gente educada que habita nosso país. Sei de pessoas reconhecidamente bem-educadas em outras situações, mas que são das primeiras a se levantar. Além disso, não há prova de que o fato ocorra somente no Brasil. Já ouvi comentários de isso tem acontecido até em Londres.
Assim, sem me conformar com essas explicações, comecei a pensar sobre o assunto e imaginei que talvez esse comportamento esteja intimamente ligado ao aumento da quantidade de passageiros nos aviões (decorrente de poltronas menores e mais próximas) e ao uso das plataformas de embarque e desembarque, também conhecidas como “fingers”.
Avião acoplado a um “finger”
Explico. Antes dos “fingers”, o pessoal que ficava nas poltronas das últimas fileiras sempre tinha uma esperança – por mínima que fosse – de ouvir o seguinte: “O desembarque será efetuado pelas portas dianteira e traseira da aeronave”. Em seguida, abriam-se as referidas portas e concretizava-se a profecia cristã de que os últimos seriam os primeiros.
Com a chegada das modernas pontes de embarque e desembarque, acabou-se a esperança de o sujeito da última fila não ter que esperar todo mundo sair antes dele. Para piorar a situação, isto aconteceu exatamente quando as viagens aéreas popularizaram-se e as companhias aéreas diminuíram as poltronas e os espaços entre elas, aumentando a quantidade de passageiros e fazendo com que o desembarque se tornasse mais lento. Uma tortura para alguém que está com pressa e não tem bagagem despachada para pegar na esteira.
Talvez esse tenha sido o cenário ideal para tudo começar. Alguém que estava em uma das últimas fileiras deve ter imaginado que, se fosse bem rápido, poderia levantar, pegar a bagagem de mão e chegar à porta dianteira, antes que os outros, que estavam esperando o aviso de liberar o cinto, se levantassem. Talvez a estratégia tenha dado certo, deixando os outros passageiros divididos em dois grupos: os que se sentiram lesados, por terem perdido a prioridade no desembarque, e os que ficaram com inveja, por não terem pensado nisso antes. Alguns podem nem ter se incomodado, mas devem ter sido poucos. De um jeito ou de outro, muitos dos passageiros que estavam naquele voo ficaram em alerta para, no próximo, ganhar algum tempo com aquela manobra, ou evitar perdê-lo.
Pronto. Estava aberta a corrida pelas portas dianteiras dos aviões. O comportamento se espalhou, e cada vez mais pessoas passaram a agir assim, umas tentando ganhar posições, para desembarcar antes das outras; outras simplesmente tentando se defender das primeiras..
O fato é que, hoje, essa correria já não faz mais qualquer sentido, pois, como praticamente todos se levantam ao mesmo tempo, acaba ficando todo mundo empacado. Acho mesmo que as pessoas sequer reflletem sobre o motivo de estarem agindo assim, mas continuam com o mesmo comportamento, simplesmente porque se habituaram a ele.
O caso lembra aquela experiência dos macacos que eram atingidos por jatos d’água quando um deles tentava comer bananas.
A experiência com os macacos e o jato d’água
Para quem não conhece ou não se recorda da história, conta-se que um grupo de cientistas, pôs cinco macacos numa jaula, na qual havia uma escada com um cacho de bananas no topo. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Alguns jatos dágua depois, cada vez que um macaco tentava subir na escada, os outros o pegavam e davam-lhe uma surra. Logo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. Sem saber o que vinha se passando ali, o macaco novato tentou subir a escada, mas foi impedido pelos outros que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não tentou mais subir a escada. Os cientistas foram, então, substituindo os macacos, um a um. Cada vez que o novato aprendia a não subir na escada, nem deixar que os outros subissem, um dos macacos pioneiros na experiência era substituído. Restaram, assim, cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.
Acredito que se passa algo semelhante com os passageiros dos aviões. Já ninguém mais sabe por que tanta pressa em levantar e pegar a bagagem, mas, de alguma forma, as pessoas foram condicionadas a isso.
Claro que é um comportamento que envolve falta de educação, desrespeito pelas normas de segurança e vontade de levar vantagem sobre os outros. Mas parece-me algo generalizado demais para ser só isso, o que me leva a crer que há outros fatores, como a possibilidade que acabei de levantar.
E já que você chegou até aqui, fica o convite para refletir sobre o seguinte: “Você é dos que se levanta sem esperar que se apaguem os avisos de apertar os cintos? Por quê?”.





















































































