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O MISTÉRIO DOS MONÓLITOS DE QUIXADÁ

Pedra da Galinha Choca, Quixadá-CE (Foto: Galeria de Pedro Cavalcante)

(Encontro de um poeta aventureiro com um menino sertanejo  que falava sobre discos voadores)

Essa história aconteceu
No sertão do Ceará
No município que tem
O nome de Quixadá.
É um caso interessante,
Uma história intrigante
Que eu mesmo pude viver.
Fatos que nunca esqueci
E por isso resolvi
Esse cordel escrever.

Quixadá é uma cidade
Onde o povo hospitaleiro
Tem o coração aberto
Pra acolher o estrangeiro.
Mas, em volta da cidade,
Há, em grande quantidade,
Pedras enormes, gigantes.
Onde, em noites muito escuras,
Aparecem criaturas
E seres impressionantes.

Dizem também que acontecem
Fatos por demais insólitos,
Nessas pedras conhecidas
Pelo nome de monólitos.
Grandes blocos de granito
Fazem o lugar bonito
Atraindo as atenções,
E quem passa ali por perto
Chega a ficar boquiaberto
Com aquelas formações.

Tem a “Cabeça da Cobra”
E a “Pedra da Caveira”,
A pedra “Galinha Choca”,
E a “Pedra Gemedeira”.
Verdadeiros monumentos
Açoitados pelos ventos
E pelo sol do sertão,
Mas, quem chega muito perto
Daquele lugar deserto
Pode ter outra visão.

No meio daquelas pedras
Tem onça e tem siriema,
Muita cobra cascavel,
Mas isso não é problema.
O problema mesmo sério
Na verdade é um mistério
De difícil solução:
Muito “cabra” destemido
Que vai lá, volta corrido.
Não quer ir de novo não.

E quando o povo pergunta
O que foi que o “cabra” viu,
Ele não sabe explicar.
Diz apenas que sentiu
Um cheiro de cão queimado,
Ouviu um grito abafado
E um gemido de agonia.
Teve um rapaz de Arneiroz
Que voltou de lá sem voz,
Não fala até hoje em dia.

Pois eu também fui pra lá
Procurar a explicação
Para existir tanta história
De encanto e assombração.
Meu pensamento era entrar
Pela mata e me embrenhar,
E ver o que acontecia,
Que tanto cabra valente
Regressava tão demente
Do meio da pedraria.

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CORDEL SOBRE OS MONÓLITOS DE QUIXADÁ

Apesar de os leitores do JBF figurarem entre as pessoas mais bem informadas do Brasil, o fato haver fubânicos espalhados pelo mundo inteiro torna real a possibilidade de alguns desses leitores jamais ter ouvido falar desse lugar fantástico que é Quixadá, no meio do sertão do Ceará, a 166Km de Fortaleza. Também é razoável que essas pessoas não saibam que os MONÓLITOS DE QUIXADÁ são formações rochosas incríveis, que se aglomeram em volta da cidade, servindo de plataforma para vôos de asas delta e parapentes. Alguns dizem que também pousam OVNIs por lá, mas isso ainda não está comprovado.

Pois bem.

Acabei de escrever um cordel sobre o tema, cujo título provisório é O MISTÉRIO DOS MONÓLITOS DE QUIXADÁ. Até agora, o texto permanece inédito. Pretendo declamá-lo no estande CAUSOS E CORDÉIS BODEGA CULTURAL, na Bienal de Pernambuco, no sábado, 1º de outubro, às 16:00hs, por ocasião de “Bate Papo com Autor” organizado pelos poetas Felipe Júnior e Ismael Gaião.

Como espero contar com a presença de muitos fubânicos, achei que seria interessante antecipar aos leitores do JBF uma noção do que são os monólitos, porque assim quem comparecer já vai ter uma ideia melhor do que estou falando.

Esse é o motivo das imagens dos monólitos que se vêem aí em cima.

Quem quiser saber mais sobre os monólitos também pode dar uma olhada na Wikipedia.

Só pra dar um gostinho do cordel dos monólitos, ele começa assim:

Essa história aconteceu
No sertão do Ceará
No município que tem
O nome de Quixadá.
É um caso interessante,
Uma história intrigante
Que eu mesmo pude viver.
Fatos que nunca esqueci
E por isso resolvi
Esse cordel escrever.

Quixadá é uma cidade
Onde o povo hospitaleiro
Tem o coração aberto
Pra acolher o estrangeiro.
Mas, em volta da cidade,
Há, em grande quantidade,
Pedras enormes, gigantes.
Onde, em noites muito escuras,
Aparecem criaturas
E seres impressionantes.

Dizem também que acontecem
Fatos por demais insólitos,
Nessas pedras conhecidas
Pelo nome de monólitos.
Grandes blocos de granito
Fazem o lugar bonito
Atraindo as atenções,
E quem passa ali por perto
Chega a ficar boquiaberto
Com aquelas formações.

Tem a “Cabeça da Cobra”
E a “Pedra da Caveira”,
A pedra “Galinha Choca”,
E a “Caverna da Caldeira”.
Verdadeiros monumentos
Açoitados pelos ventos
E pelo sol do sertão,
Mas, quem chega muito perto
Daquele lugar deserto
Pode ter outra visão.


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A GARAGEM

chevette-branco

Zé do Burro costumava andar de carroça ou de bicicleta. A primeira, em suas atividades profissionais, no ramo de fretes; a segunda, para seus momentos de lazer. Mas o seu sonho sempre foi ter um carro para passear com a família.

Quando os bons ventos do aquecimento da economia sopraram a seu favor, Zé do Burro viu crescer a procura por seus serviços de transportes; aproveitou o aumento em sua renda e diversificou seus negócios, passando a atuar no mercado de resíduos sólidos recicláveis; até que conseguiu juntar dinheiro e realizar o seu sonho: comprar o seu primeiro carro, um chevette.

Um chevetinho branco, com alguns milhares de quilômetros rodados, mas relativamente bem conservado. Se já não suportava fazer longas viagens – pelo natural desgaste dos anos de uso – ao menos permitia alguns passeios pela cidade e facilitava o trajeto de Zé à missa dominical, na igrejinha que fica a dez quarteirões de sua casa. Integrado à família, o carro recebeu o carinhoso o nome de Chevinho.

O problema de Zé do Burro passou a ser então a necessidade de guardar o carro, pois ele não suportava a ideia de deixar Chevinho dormir na rua, e sua casa não tinha espaço suficiente para construir uma garagem que abrigasse confortavelmente o veículo de estimação. Sendo bem específico: para construir a garagem, Zé do Burro teria que abrir mão da sala e de parte do quarto.

Equação difícil de resolver. Foi aí que entrou em cena a criatividade de Zé do Burro, e ele usou o famoso “jeitinho brasileiro”. É bem verdade, que para isso o portão da garagem teve que avançar um pouco em direção à rua, mas, como Zé costuma dizer, “quase não passa ninguém ali… E a frente da casa da gente… é como uma coisa nossa”.

Agora, alguns vizinhos ficam dizendo que Zé está invadindo a rua, que a rua é pública, que isso, que aquilo.

- Pura inveja – defende-se Zé do Burro. – Esses que falam de mim fariam a mesma coisa se também tivessem carro.

De fato, nesse Brasil onde tantos tratam o que é público como se fosse propriedade particular, fica até complicado convencer Zé do Burro de que ele invadiu um espaço que é de todos, ou mesmo fazê-lo perceber que há algo de errado nisso.

- Não sei porque tanta confusão – diz ele. – Só por causa de um pedaço de calçada e um pouquinho da rua? Por mim, eles podem falar à vontade. O importante é que Chevinho ficou bem guardado.

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ÚLTIMAS PALAVRAS AO MEU PAI(*)

Natália Guberev

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No dia 08 deste mês de setembro de 2011, meu pai deve ter dito para si mesmo: “Hoje, eu já encerrei meu expediente!” Era o que ele costumava dizer ao final de todo dia. Mas desta vez, não só o expediente estava encerrado como a missão fora inteiramente cumprida!!

Papai, queria te dizer estas últimas palavras, compartilhando com os que aqui estão:

Antes do meu nascimento, o senhor pensava e torcia para que eu fosse um menino. É, pois já existia a Roberta, com dois anos de idade e o senhor esperava ansiosamente o “garoto do pai”. Até o nome já havia sido escolhido: Erick! Então, eu nasci… uma menina!! Entretanto, só tenho notícias e lembranças do orgulho que sempre teve de suas filhas e da felicidade da família que constituiu, juntamente com a mamãe. Ouvi por diversas vezes que o senhor seria capaz de dar sua vida por qualquer uma de nós!!

O tempo passou, tenho lembranças diversas de toda uma vida em família… Ainda não sei como será daqui pra frente, com essa nova realidade: você partiu para sempre!

Não fui seu filho, mas lhe dei seu primeiro neto, o Portinho, a quem o senhor carinhosamente o apelidou, desde muito pequenino, de Antonov; em virtude de nossa descendência russa, além da semelhança com o senhor e seus familiares.

Deus é tão generoso, que o Antonov, há muito tempo o havia “batizado” espontaneamente de “PAI” – jamais rejeitando sua verdadeira paternidade, mas em sinal de afinidade e amor ao senhor, que por sua vez, na maior felicidade, referia-se a ele de “MEU FILHÃO”!!

Sou muito feliz de ter lhe dado a Natalie – “a princesinha do vovô” e o Antonov – “seu filhão”; que tanto aprenderam com o senhor – valores íntegros e morais, dentre tantas outras coisas!

Acompanhei, muito de perto, desde 2009 sua saúde dando sinais do que eu sempre temi: perder meus pais! Um câncer na faringe se apresentou, mas o senhor foi imbatível como um autêntico vencedor, e de fato, venceu!! Foi uma das maiores alegrias da minha vida, saber que todo aquele sofrimento não havia sido em vão; aquele tratamento cruel, doloroso e prolongado surtiu o efeito desejado! O que para mim, parecia impossível, aconteceu: o tumor desaparecera!!!! Que felicidade!!!

Mas poucos meses depois, precisamente quatro, o senhor adoeceu. Um AVC localizado no tronco do seu cérebro calou para sempre a sua voz e lhe deixou cheio de seqüelas, que lhe impossibilitavam completamente de qualquer tipo de movimento e interação com o meio.

A cada vez que eu ia ao hospital papai, eu te via com menos vida, menos, menos e menos… “A pilha estava cada vez mais fraquinha…”

Não existia mais esperança de melhora, ao contrário, eu sabia que não podia esperar muito daquele quadro.

Sabe pai, eu fiquei doente junto com o senhor e cada vez que te via, eu adoecia mais…Tenho a mais absoluta certeza que o senhor passou por um período de purificação, antes de partir, ainda aqui na Terra, entre nós. Pois como o senhor costumava dizer: “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade”. E quando eu lhe via sofrendo mais e mais naquele leito de hospital, sempre lembrava destas suas palavras e às vezes me perguntava: Por que, meu Deus? Por que, minha Nossa Senhora? Por que meu pai não está aqui, mas também ainda não se foi? Por que tanto sofrimento? Por que tanta dor? Questionei-me, por muitas vezes. Mas com o tempo, percebi e acreditei que se tratava de sua purificação, enquanto ser humano! Então, entendi que o ciclo estava completo e não mais pela metade. O senhor tinha toda razão, papai, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade. Agora eu sei.

Eu não tenho dúvida que o senhor está num lugar lindo e cheio de luz, e nada mais em você está doendo, papai. Sei que agora o senhor fala, anda, sorri e está feliz!!

Tenho segurança de que ao partir, há sete dias atrás, um belo caminho já o esperava e que o senhor está muito melhor agora do que quando estava aqui. E em paz!

Sua alma é pura e iluminada, generosa, boa, justa, honesta e digna! Tenho muito orgulho de ter sido sua filha e sou muito grata a Deus por ter tido a oportunidade de tê-lo como meu pai.

Obrigada, Deus! Obrigada, papai!

Jamais, em toda a minha vida, conheci alguém de um coração tão grande, que só cabia bondade!!

Obrigada por tudo! Até um dia… Pode ser que daqui a algum tempo, a dor da partida se transforme em uma bela saudade!

Ah, pai! Não se preocupa, pois do jeito que eu adoeci contigo, vou ficar boa, sentindo você renascer na luz.

Tua filha que te ama…
                                                                               
Natália Guberev

(*) Faço uma pausa nas minhas histórias para ceder o espaço da Coluna às palavras proferidas por minha amada esposa Natália, em homenagem feita na missa de sétimo dia seu pai, realizada no dia 14 de setembro de 2011. (Marcos Mairton)


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O VIAJANTE E O SÁBIO

viajante_sabio

Desenho a carvão: Gilvan Lopes

Diz a lenda que um homem viajava
À procura de mais sabedoria,
Quando teve a notícia, certo dia,
De um sábio que as montanhas habitava.
Que a tudo que se lhe perguntava,
Respondia, sem sequer titubear,
Com lições que ele sempre ia buscar
Nos provérbios e adágios populares,
Destacando os princípios basilares
Da melhor sabedoria popular. 

Logo que do guru ouviu falar,
Lá se foi, bem depressa, o viajante.
Alguns dias depois, o caminhante
Encontrou o refúgio do avatar.
Mal chegou, pôs-se logo a lhe falar:
– Meu bom homem, disseram-me, outro dia,
Que é imensa a tua sabedoria,
E que vem de provérbios e ditados. 
E, os problemas que a ti são formulados,
Tu respondes com o que já se sabia.

– A verdade e o azeite na água fria
Vêm à tona, cada um na sua hora..
Respondeu logo o mestre, sem demora,
À pergunta que o homem lhe fazia.
E, pegando uma cadeira vazia, 
Ofertou para aquele visitante,
Disse: – Sente-se um pouco, viajante,
Quem tem pressa ou come cru ou quente.
O que eu sei não se aprende de repente,
Também não se fez Roma num instante.

Aceitando o convite, o caminhante
Descansou na cadeira oferecida.
Disse: – Mestre, uma coisa nessa vida,
Que eu acho curiosa e intrigante,
É ver gente que pensa que é importante
Esquecer como a vida é passageira.
Que a alegria de uma noite inteira
Talvez nem veja o sol se pôr de novo.
O que hoje é fortuna para o povo
Amanhã ele joga na lixeira.

– Comentaste uma coisa verdadeira – 
Disse o sábio com ele concordando.
E depois também foi se acomodando
E sentando-se ali noutra cadeira.
– Vaidade não é boa conselheira,
Saiba que tudo muda nesta vida.
Não existe colheita garantida.
De certeza na vida só a morte.
Leva o fraco e também arrasta o forte.
Essa história já é bem conhecida.

– Pois me ajude a encontrar uma saída,
Grande sábio que vive tão distante,
Para outra questão interessante
Que ainda não vi bem respondida:
Dizem que, muitas vezes repetida,
A mentira se iguala à verdade.
Haverá essa possibilidade?
Ou é coisa de gente mentirosa?
Que, contando uma história escabrosa,
Justifica assim sua falsidade?

– Mesmo sendo grande a velocidade
Da mentira, quando ela se espalha,
Sua vida é como o fogo de palha.
É raiz que não tem profundidade.
Eu lhe disse, há bem pouco, que a verdade,
Como azeite, uma hora à tona vem.
Diz o povo, e eu vou dizer também:
Passa o tempo e tudo se descobre,
E quem muito enganou o povo pobre
Hoje, já não engana mais ninguém.

(…)

Digo, ainda, com toda segurança:
Não guarde a luz acesa num armário;
Não se ensina “Pai Nosso” a vigário;
Prudência é irmã da desconfiança;
Desconfie do peso da balança.
Veja se o rezador merece fé;
Muita coisa parece, mas não é;
Muita coisa que é não se parece;
Sob as vistas do dono a planta cresce;
Um sapato não dá em qualquer pé.

(…)

– Grande Mestre, na vida, cruzei mares, 
Conheci muitos povos e nações.
Visitei monumentos e vulcões,
E andei por estradas seculares,
Conhecendo pessoas aos milhares 
Que acreditam que têm sabedoria. 
Mas, hoje eu acredito em quem dizia 
Que ninguém o supera em sapiência. 
Não pensei existir tanta ciência 
nos ditados que o povo pronuncia.

(Trecho do livro “O viajante e o sábio”, editado pela Ensinamento Editora, 2010)


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O QUEIJO DE DONA TEREZINHA

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Era uma tarde de domingo. Havíamos acabado de almoçar e estávamos saboreando um café na varanda da casa grande da Fazenda Perto Longe, a uns vinte quilômetros da cidade mais próxima, cujo nome não convém que se revele. Éramos quatro: eu, meu amigo Nilton, que me levou até lá, o dono da fazenda, chamado Amadeu, e seu irmão caçula, o Doutor Aprígio, que era dentista e morava na cidade.

A conversa seguia lenta, pausada, como se os corpos pedissem para ser deixados quietos, gastando as energias na digestão da farta refeição que há pouco havia sido ingerida.

Mas, ainda não era hora de ir embora. Seu Amadeu já havia avisado que logo mais seria servido um queijo de leite de búfala, verdadeiro ouro branco, produzido ali mesmo na fazenda, e ninguém lhe queria fazer uma desfeita. Fazia tempo que ele vinha ampliando a criação de búfalos e aprimorando a produção de queijo.

Quem conhecia o Seu Amadeu, sabia que ele seria bem sucedido nas duas coisas. Sempre fora muito determinado, alcançando cada um de seus objetivos. Sendo o mais velho de um grupo de seis irmãos, fora mandado para a capital ainda adolescente, para continuar os estudos, mas terminou entrando para o ramo de confecções. Começando com uma pequena indústria, cresceu rapidamente e logo estava produzindo até para exportação. No dia daquele encontro, estava com sessenta e cinco anos de idade e podia-se dizer que o menino que nascera em uma família “remediada” do interior virou um homem rico na capital. Apesar disso, nunca se afastou totalmente da vida no campo. Com o falecimento do pai, uns vinte anos antes da nossa visita, passou a dedicar-se ainda mais às atividades rurais. Alguns anos depois iniciou a criação de búfalos da qual tanto se orgulhava.

Os outros irmãos, ao contrário, à medida que foram sendo mandados para estudar fora, acabaram se voltando totalmente para a vida na cidade. Era o caso do Doutor Aprígio, ali presente, que, desde o começo da faculdade de odontologia, pouco andava na fazenda. Naquele dia, por exemplo, só estava presente ao almoço porque Seu Amadeu havia lhe telefonado pedindo que comparecesse. Tinha um assunto especial a tratar com o irmão.

- Aprígio, enquanto não chega a hora do queijo, deixe eu ir logo adiantando a conversa que eu preciso ter com você.

- É claro, meu irmão. Diga aí.

Amadeu tomou o derradeiro gole do café, pôs a xícara vazia na bandeja que aguardava sobre a mesinha e se ajeitou na cadeira. Dava para ver o assunto era sério.

- Meu irmão, eu não gosto mais de ficar me metendo na sua vida, nem lhe dando conselho, porque você é um homem de cinquenta e sete anos de idade, já é avô, de forma que deve ter responsabilidade com o que faz. Mas, eu soube de umas coisas aí, que eu acho que devo lhe dizer alguma coisa.

- E foi, mano? O que terá sido?

Eu tinha conhecido o Doutor Aprígio naquele mesmo dia, mas Nilton já havia comentado comigo que, dos seis irmãos, o caçula era o mais festeiro e galanteador. De vez em quando, era chamado à atenção pelo irmão mais velho, por causa de confusões envolvendo mulheres. Desconfiei que a conversa seguiria esse rumo. Seu Amadeu, continuou:

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CARA DE PEIXE

cara_de_peixe

Dedico esta história aos amigos Aristófanes Coutinho Jr. e Ricardo Morais, que, talvez não lembrem, mas me narraram fatos da vida real imprescindíveis à construção desta ficção.

O nome de batismo de “Cara de Peixe” era João Amistrônio dos Santos Silva. João porque nascera na madrugada de 23 para 24 de junho; Amistrônio porque aquele era o ano de 1969 e o menino somente viria a ser batizado mais de um mês após o seu nascimento, depois que a Apolo XI já havia pousado na Lua e o nome Neil Armstrong tinha ficado conhecido no mundo inteiro, inclusive no pequeno povoado do interior do Ceará onde “Cara de Peixe” havia nascido.

- “João Amistrõe dos Santos Silva” – disse o pai ao rapaz encarregado de anotar os nomes dos meninos que seriam batizados naquele dia.

- João o quê?

- A-MIS-TRÕE – repetiu pausadamente o pai. – O cabra que andou na Lua…

- Ah, sei… O senhor desculpe, mas esse nome o povo fala assim, “Amistrõe”, mas a gente escreve de outro jeito – advertiu o rapaz, com uma vozinha fina e um jeito delicado, pouco comuns naquela época e lugar.

Depois pegou um pedaço de papel que havia por ali e escreveu, enquanto explicava:

- Olhe: A-MIS-TRÔ-NIO. É igual “Antônio”, que o povo aqui só chama de “Antõe”.

- Seu Minino, eu não sei ler não. O senhor, que tem estudo, bote o nome aí do jeito que for o certo, que pra mim é “Amistrõe” e pronto.

E assim foi escrito no batistério da criança o nome que depois seria transcrito para os livros do Cartório do Registro Civil da sede do Município: João Amistrônio dos Santos Silva.

Mas, o certo é que, tirando o pai, ninguém na cidade chamava Amistrônio por esse nome. Não se sabe quando nem como o apelido de João surgiu, mas, desde pequeno, todo mundo o chamava de “Cara de Peixe”.

Uns diziam que ele estava ainda nos braços da mãe, quando um tio olhou para ele e disse: “O bichinho tem uma carinha de peixe, né?”. Pronto. Num lugar onde havia muitos Joãos, e ninguém aprendia o seu segundo nome, isso teria sido mais do que suficiente para o menino passar a ser chamado somente de “Cara de Peixe”. A história nunca foi confirmada, mas o apelido pegou de tal forma que nem na escola, na hora da chamada, a professora chegava a ler o seu nome completo:

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VIVA SÃO JOÃO! VIVA SEU MANSUETO!

livro_pote

Ontem, 23 de junho, véspera de São João, foi aniversário de Mansueto Silva, autor de “Minha Mala era um Pote” e, para meu orgulho e alegria, meu pai.

Quando lancei meu primeiro livro, em 2006, perguntaram-me se eu havia herdado o dom de escrever de alguém da família. Respondi que não, pois em minha família não havia escritores.

Meses depois, quando estava perto de fazer 70 anos de idade, meu pai me entregou os manuscritos de “Minha Mala era um Pote“, que na época ainda nem tinha título. Foi então que fiquei sabendo de quem eu tinha herdado o dom de escrever.

Hoje, Seu Mansueto, que nunca freqüentou uma escola, já deu até palestra em faculdade, falando de seu livro e das coisas que são tratadas nele, como êxodo rural, ética e desigualdades sociais.

Mas, outro dia falarei dessa sua aventura na faculdade. Hoje, quero apenas parabenizar o Velho Mansú por mais um ano de vida e sucesso. Acho que posso fazer isso em nome de toda a família e dos amigos, que são incontáveis.

Parabéns, Seu Mansueto!

* * *

LANTERNAS DE BARRO – Mansueto Silva

(Do livro “Minha Mala era um Pote”)

As primeiras recordações que me vêm sobre a minha infância são de uma vida dura no interior. Meus pais eram muito pobres, tinham muitos filhos e, naquela época, não havia serviço público de saúde para os pobres do interior. Não havia escolas, auxílio natalidade, nem tampouco abono familiar para os filhos dos trabalhadores. Assim, muitas necessidades, que hoje chamam de básicas, não eram atendidas.

Mas posso dizer que minha infância teve um começo parecido com a de outras crianças do lugar onde nasci: brincar o dia todo, todos os dias, até que chegasse a hora oportuna de ir ajudar meu pai na roça. Cheguei aos cinco anos de idade, e a única coisa que fazia era brincar e comparecer ao catecismo aos domingos. Quem ensinava era o seminarista Ademir, filho do Senhor Henrique Cesário, que era o dono da terra onde nós morávamos.

Foi a partir daí, dos cinco anos de idade, que a infância começou a terminar para mim. Meu pai acordava muito cedo e também acordava meu irmão, que era mais velho que eu, e nos levava para ajudar no trabalho da roça. Nessa hora, meu pai já havia feito aquele café grosso, adoçado com rapadura, e nós o tomávamos com um pedaço de “beiju xotão”, que a gente chamava de “beiju entala cachorro”. Depois dessa bela refeição, seguíamos para a roça, que ficava a uns quinhentos metros dali. Subíamos a aba da serra com todo o cuidado e íamos para o trabalho.

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PEQUENA TRAGÉDIA NARRADA DO FINAL PARA O COMEÇO

Publicado no Jornal da Besta Fubana, em 16.06.2009

atropelado

E tudo acabou ali.

O corpo de um homem caído ao chão, morto, estendido ao longo do meio-fio de uma movimentada rua da cidade. Chamava-se Jorge. Fora atropelado. O carro que o atingiu havia se afastado rapidamente, em fuga. As pessoas que se aglomeravam em volta do corpo comentavam como tudo tinha acontecido.

 – Foi muito rápido. Acho que o carro nem freou…

– Alguém anotou a placa?

– Parece que era 2501… Ou 2510, não sei…

Alguém observou que Jorge teria tentado atravessar a rua, mas estava olhando para o lado contrário àquele de onde vinham os carros. Andava depressa, quase correndo, como se perseguisse alguém, quando o acidente aconteceu.

De fato. As pessoas que estavam ali não sabiam, mas Jorge tentava alcançar Sonia. Seguia-a desde o estacionamento de um shopping próximo dali. Ela havia chegado em um carro preto, com vidros escuros que impediam a identificação do homem que estava à direção. Quando o carro se afastou, ela olhou para trás e deu de cara com Jorge, que a observava à distância.

Foi um choque. Jorge havia estacionado seu próprio carro e se dirigia para os elevadores do shopping, quando viu Sonia desembarcar. Antes de fechar a porta e se afastar, ela inclinou-se para dentro do carro. Mesmo de longe, Jorge pôde ver que se tratava de um beijo de despedida.

Mas, na verdade, aquela cena não havia sido totalmente uma surpresa para Jorge. Nos últimos dias, ele tinha estado nervoso, acompanhando cada vez mais de perto os passos de Sonia. Ficava atento às ligações que ela recebia no celular, para ver se percebia algo de suspeito. Mesmo quando as conversas dela ao telefone eram sobre os preparativos do casamento, ele disfarçava e ficava ouvindo, tentando identificar alguma linguagem em código. Jorge tinha ciúme de Sonia, e esse ciúme havia evoluído para a desconfiança. Certa vez havia dito para ela, em tom de brincadeira, mas segurando fortemente o seu braço:

– Se um dia vir você com outro, mato os dois. Primeiro você, depois ele.

– Que é isso, Jorge? Você está louco? – dissera ela sorrindo, mas sentindo que havia algo de verdadeiro na advertência que lhe fora feita.

Sonia sabia que Jorge andava desconfiado. Também sabia que havia motivo para isso. Era uma situação que já se arrastava há algum tempo. Estavam noivos há mais de um ano, mas, nos últimos dois ou três meses, Jorge notara comportamentos estranhos em Sonia. Já não mostrava tanta empolgação quando falava do casamento, diminuíra a quantidade de vezes que ia ao futuro apartamento do casal e – o mais sintomático – comumente deixava de atender as ligações de Jorge para seu celular, retornando apenas horas depois, sempre explicando que deixara o aparelho na bolsa ou estava em alguma situação que não podia atender.

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DOIS TORCEDORES

estadio_futebol

Este conto obteve o segundo lugar no I Concurso de Contos da Associação dos Juízes Federais do Brasil – AJUFE, realizado em 2010. Uma das normas do concurso era o texto versar sobre Justiça ou juízes.

Moreira e Rogério torciam pelo mesmo time, o Estrela Futebol Clube. Estavam na casa dos quarenta anos de idade e viviam na mesma cidade, mas as suas semelhanças terminavam por aí. Tendo crescido em bairros distantes um do outro, seguiram caminhos bem diferentes, sem saber que o destino daria um jeito de suas histórias se cruzarem mais de uma vez.

Um desses encontros aconteceu quando o Estrela enfrentou o seu principal rival, o Águia Azul, na primeira partida das finais do campeonato estadual de 2007. Quem vencesse precisaria apenas de um empate para ser campeão. Naquele domingo, faltava pouco mais de uma hora para o início do jogo, quando Moreira tomou o táxi para o estádio, onde era aguardado por um grupo de amigos. Mas, ao chegar às arquibancadas, logo percebeu que não valeria a pena procurá-los. O estádio estava praticamente lotado e a partida começaria dentro de instantes, então achou melhor se acomodar em um dos poucos lugares que ainda havia ao seu redor. Enquanto isso, Rogério tinha chegado ao estádio bem mais cedo, acompanhado apenas de seus dois seguranças, como de costume. Mas era como se estivesse sozinho, pois sempre os orientava a serem discretos e se manterem à distância. Quando Moreira perguntou se o lugar ao seu lado estava vago, Rogério sorriu com simpatia e disse:

– Está vago, sim. Pode sentar. Vamos sair daqui hoje com uma mão na taça!

Quem já foi a um jogo de futebol sabe que, torcendo pelo mesmo time, homens que nem se conhecem comportam-se como se fossem velhos amigos. Não era de admirar que, antes dos vinte minutos do primeiro tempo, Moreira e Rogério parecessem ter o hábito de ir juntos ao estádio desde que eram crianças. Reclamavam da arbitragem, discordavam da escalação do time e, à medida que o tempo passava, sofriam, sofriam muito, vendo o placar permanecer em zero a zero, numa tarde em que o Estrela dominava totalmente o jogo. Somente aos trinta e dois minutos do segundo tempo veio o alívio do gol. A torcida do Estrela explodiu em alegria. Moreira e Rogério nada tinham conversado sobre assuntos pessoais ou profissionais, mas pulavam abraçados, como se aquele gol fosse o que havia de mais importante em suas vidas.

Cinco minutos depois, o Estrela marcou o segundo gol e o clima de festa permaneceu até o final da partida, mas, nem tudo foi alegria naquele domingo. Na saída do estádio, os dois amigos despediam-se, quando começou uma briga entre membros das torcidas organizadas dos dois clubes. Assustado, Moreira buscou refúgio em meio aos carros, no estacionamento. Rogério também procurou abrigo. Seus seguranças, que vinham logo atrás, posicionaram-se de forma a protegê-lo e guiá-lo até onde estava estacionado o seu carro. Foi aí que ele segurou o braço de Moreira e o chamou:

– Por aqui, doutor!

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PAPELÃO

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Era uma casinha tão pequena que ficava difícil imaginar alguém morando nela. Colada a outra um pouco maior, como se tivesse brotado daquela parede, tinha uma só porta e nenhuma janela. Os tijolos ficavam expostos, devido à ausência de reboco. Na calçada estreita amontoavam-se pedaços de madeira, alguns fios de arame farpado cobertos de ferrugem e latas de refrigerante vazias e amassadas. Era a última casa do quarteirão, mas entre ela e a esquina havia um terreno baldio. Dali, do terreno, dava para ver a sua extensão e calcular que somente da parede da frente para a dos fundos seria possível armar uma rede. Se a rede fosse armada de uma parede lateral para a outra, uma pessoa adulta ficaria toda dobrada dentro dela.

Naquela época, quase todo dia eu passava por ali. Era meu caminho, tanto para ir ao trabalho como para voltar dele. Dependendo do horário, havia um homem do lado de dentro da casa, à porta, olhando para a rua. A porta, aliás, era feita de duas partes, então o homem mantinha a parte de cima aberta e apoiava os braços na de baixo, que permanecia fechada, de forma que seu corpo aparecia apenas da cintura para cima. 

Calculei que ele teria uns sessenta e poucos anos. Muitas vezes ele estava sem camisa, com os cabelos e a longa barba molhados, como se tivesse acabado de tomar banho, mas não houvesse se enxugado. Em uma das mãos segurava um trapo que parecia ser uma camisa velha.

Um dia – uma sexta-feira na qual eu pretendia viajar logo após sair do trabalho – um dos pneus do meu carro amanheceu quase vazio e precisei verificar se estava furado. Eram umas nove e meia da manhã quando parei na borracharia que ficava bem em frente àquela casa. Enquanto o borracheiro trabalhava no pneu, fui ao boteco vizinho e pedi um café. Olhei para a casinha e lá estava o homem, sem camisa, apoiado na parte de baixo da porta e olhando para a rua. Os cabelos totalmente despenteados; a barba grisalha escondendo o pescoço. “O dono do boteco deve saber alguma coisa sobre ele”, pensei.

- Amigo, esse senhor vive aí sozinho? – perguntei, apontando para o outro lado da rua.

- É, ele é largado da família, vive aí de qualquer jeito, como Deus quer. Esse quartinho foram os vizinhos que fizeram pra ele não dormir na rua…

- Mas que coisa… Um homem dessa idade viver assim… E ele trabalha?

- Ele junta coisas na rua pra vender. É cobre, é alumínio, essas latas de refrigerante… Mas, o ganho é muito pouco… Às vezes, eu é que dou alguma merenda pra ele, pro miserável não passar fome…

Não me surpreendiam as palavras do homem do boteco. A imagem da casa minúscula com aquele homem envelhecido dentro deixavam transparecer aquilo mesmo. Enquanto eu refletia sobre a situação, o comerciante retomou a conversa:

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O ÚLTIMO CORDEL

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Ilustração: Licenciatura Física

Já havia alguns meses que o velho poeta estava prostrado naquela cama de hospital. Muitas foram as vezes em que as enfermeiras comentaram que daquele dia ele não passaria. Mas o dia terminava e ele continuava firme. Quando dava a impressão de que não veria o amanhecer, acordava melhor.

E o mais incrível era que, apesar da saúde tão debilitada, todo dia o velho poeta aparecia com versos novos. Às vezes uma simples quadrinha, falando da luz do sol que entrava pela janela; outras vezes um romance inteiro de cordel, em sextilhas, septilhas ou décimas; outras ainda, decassílabos elogiando os dotes físicos de alguma das enfermeiras ou reclamando da comida.

Ele escrevia os versos em um caderno e depois os declamava, geralmente depois do jantar. Quando estava muito abatido e não conseguia ler em voz alta, pedia a alguma enfermeira que fizesse a leitura. As pessoas que trabalhavam ali, e até os outros doentes daquela enfermaria, divertiam-se com aquilo e afeiçoavam-se ao velho poeta.

Com o tempo, a doença foi se agravando e ele não pôde mais escrever. Pediu então, a um de seus filhos, um gravador, para que pudesse continuar criando seus versos sabendo que depois alguém os passaria para o papel. Isto fez com que o velho poeta se tornasse uma atração ainda mais especial daquele lugar. Gente que trabalhava nas outras enfermarias – e até em outros andares do prédio – passava por lá e se demorava perto do seu leito para ouvi-lo gravando as declamações de seus versos.

Um dia ele recebeu a visita de um repórter. O jovem jornalista queria saber da sua vida, das suas obras, mas, principalmente, da sua capacidade criativa, estando tão doente. Afinal de contas, a história de seus dias fazendo versos no hospital havia se espalhado e agora ele estava bem mais famoso do que fora em toda a sua vida.

O velho poeta respondia com boa vontade – e até com alegria – cada uma das perguntas. A certa altura, o repórter perguntou, como quem encaminhava a entrevista para o final:

- Depois de tantos cordéis, tantos poemas, tantas histórias de heróis, fadas e amores proibidos, ainda ficou faltando algum assunto que você gostaria de tratar em seus versos?

O velho olhou para a porta da enfermaria por alguns segundos, pensativo. Os olhos fixos no vazio, como se observasse imagens que só ele via. Depois, ligou o gravador e pediu ao repórter que também ligasse o dele, pois tinha mais uma história para contar. E começou.

O velho poeta estava
Na cama de um hospital
Dando uma entrevista
Ao repórter de um jornal,
Mas, no meio dessa prosa,
Uma mulher bem formosa
Chegou naquele local.

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O TERRORISTA E O PRESIDENTE

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Numa certa manhã de terça-feira
Na TV as pessoas assistiam:
Duas torres imensas que caíam,
Nova Iorque coberta de poeira.
Mas aquela atitude traiçoeira
Não seria esquecida facilmente.
O autor se escondeu no oriente,
Os ianques seguiram sua pista
E MATARAM OSAMA, O TERRORISTA.
QUEM FALOU FOI OBAMA, O PRESIDENTE.
 
Entre o dia em que houve o atentado
Levando as Torres Gêmeas para o chão
E o dia em que houve a ação
Que acabou com Bin Laden derrotado,
De dez anos foi o tempo passado.
Nesse tempo houve guerra, morreu gente,
Quem ainda esperava, realmente,
Encontrá-lo era muito otimista.
MAS MATARAM OSAMA, O TERRORISTA.
QUEM FALOU FOI OBAMA, O PRESIDENTE.
 
Nesses dez anos de perseguição
Que partiu desde os Estados Unidos
Muitos homens caíram abatidos
Nos desertos do Afeganistão.
Mas a busca seguiu no Paquistão
E aí foi que a coisa ficou quente.
Contra o grande país do ocidente
É difícil inimigo que resista.
JÁ MATARAM OSAMA, O TERRORISTA.
QUEM FALOU FOI OBAMA, O PRESIDENTE.

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TRANSPARÊNCIA

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Imagem: Olhares Fotografia on-line

(Inspirada na postagem “AGREGO BUFETES A NÍVEL DE EMPUTECIMENTO”, do Jornal da Besta Fubana)

Palavra também entra na e sai de moda. É por isso que quase ninguém diz hoje em dia que vai dar um “amplexo” em “outrem”. Já “com certeza”, “impactar” e “agregar valor” são termos que a gente escuta várias vezes em um mesmo dia.

Dessas palavras que estão na moda, uma que me chama particularmente a atenção é “transparência”.

Raramente passo um dia sem ouvir alguém importante dizer que vai “tratar a questão de forma séria e transparente”. Entretanto, para mim, transparente sempre foi algo que não se vê ou pouco se vê. Talvez isso seja porque, em meus tempos de colégio, aprendi nas aulas de Física que os objetos podem ser classificados em:

a) opacos – que não permitem a passagem da luz, como uma porta de madeira;

b) translúcidos – que permitem a passagem da luz de maneira irregular, como determinados tipos de vidro fosco ou papel vegetal;

c) transparentes – que permitem a passagem da luz de maneira regular, como o ar, a água em pequenas quantidades e determinados tipos de vidro, como o usado nos mostradores dos relógios.

Seria exatamente essa passagem da luz de maneira regular, sem mudança importante na direção dos raios, que enganaria o olho humano, fazendo com que ele não captasse a presença do objeto, ou seja, não o visse, pelo fato de ser transparente.

Mas, o tempo passa e surgem novas formas de ver as coisas e de usar as mesmas palavras. Em meados dos anos 1980, tornei-me programador de computadores e aprendi que determinadas operações feitas pelos computadores são “transparentes para o usuário”. E por quê? Porque elas acontecem sem que o usuário nem perceba. Por exemplo: você digita o seu CPF e o sistema apresenta seu nome, endereço, etc. Para isso ser possível, acontece todo um processo de abertura de arquivos, verificação de códigos, transferência de dados entre sistemas, etc, mas quem está usando o sistema nem nota. Por quê? Porque isso é “transparente para o usuário”.

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“LOS MAREADOS”

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De tantas belas canções interpretadas por Mercedes Sosa, o tango “Los Mareados”, de Juan Carlos Cobián e Enrique Cadícamo, está certamente entre as mais belas, tendo uma de suas mais emocionantes apresentações ocorrido em fevereiro de 1982, no Teatro Ópera de Buenos Aires. Esta história é inspirada nesse tango, mas bem poderia ser o contrário.

Quem chegasse àquele recinto à luz do dia talvez não imaginasse o glamour que o envolvia à noite. As poltronas vermelhas meio desbotadas; o carpete já maltratado pelos saltos pontiagudos dos sapatos femininos e pelos passos de tango; as cortinas esgarçando-se… Essas coisas, que já de há muito traziam um ar de decadência, adquiriam um brilho totalmente diferente quando o ambiente era iluminado pela fraca luz artificial que o preenchia, refletindo-se nos globos de espelhos que pendiam do teto. Era então que a visão dos homens era obnubilada pelo álcool, pela fumaça dos cigarros e pela beleza vulgar das prostitutas.

Ernesto era um dos poucos homens que conhecia as duas faces daquele lugar. Pelas mãos de Maria Soledad tornara-se “de casa” e já não precisava esperar a noite para ir ter com ela. Muitas foram as vezes em que Maria, ao acordar, lá pelas duas da tarde, teve como primeira visão uma rosa vermelha e a mão direita de Ernesto, que a segurava e oferecia. E ali mesmo passavam o que restava do dia, em um dos pequenos dormitórios que havia nos fundos daquela casa de ilusões.

Mas isso durou apenas alguns meses. Aos poucos, parece que a mesma força que levou Ernesto a querer estar com Maria todos os dias se encarregou de fazer germinar nele uma terrível resistência à ideia de compartilhar o corpo dela com outros homens. Foi assim que, sem outra causa aparente, Ernesto passou a alternar momentos de carinho e ternura com acessos de agressividade e repulsa.

Maria não entendia, ou antes, entendia, mas não aceitava:

- Então, não foi aqui mesmo que me conheceste? Não sabias tu da minha vida desde o princípio?

- Sabia – admitia ele, cabisbaixo. – Mas era como se algo dentro de mim dissesse que se tu te apaixonasses por mim, como eu por ti, mudarias…

- E achas que não mudei? Achas que não me apaixonei também por ti? Que sabes tu de uma mulher que se deita com um homem por amor e com outros por dinheiro?…

- Não fales assim! – esbravejava Ernesto. – Não suporto mais nem pensar nisso!

- E o que queres que eu faça, meu amor? – indagava ela suavizando a voz, enquanto se encolhia um pouco e girava para cima as palmas das mãos, praticamente humilhando-se. – Tu, para me teres, podes continuar com o teu trabalho, teus estudos e teus amigos, por mais que eles te digam que estás a fazer loucuras e que precisas urgentemente se afastar de mim. Faças o que fizeres, continuarás com o teu lugar na casa de teus pais. E eu? Poderia eu ter só a ti e ser só tua, sem trocar a vida à qual estou acostumada por outra que não conheço? Sem deixar o único lugar que tenho para morar e sem me afastar das poucas amigas que tenho? E, ainda que eu largue tudo por tua causa, e consiga o que tu agora chamas de “um trabalho honesto”, tu estarás disposto a me apresentar como tua mulher às pessoas com quem convives, e ir comigo aos lugares que hoje frequentas?

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ALIMENTO PARA O CORPO E PARA A ALMA

(ou “Scandura, Luiz Berto e Shayeubad*”)

No dia 31.03.2011 estive no Recife visitando dois amigos que eu conhecia apenas pela Internet e estava cada vez mais curioso para saber como eram pessoalmente: Giovanni Scandura, publicitário, e Luiz Berto Filho, editor do Jornal da Besta Fubana e Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja.

Depois de me mostrar a casa, o escritório e o pomar, Giovanni e sua esposa Nilva enfrentaram uma série de engarrafamentos de final de tarde para me levar ao Palácio Pontifício da ICAS, onde me aguardavam Papa Berto e a Papisa Aline (o Papinha estava dormindo). Momentos agradáveis, sem dúvida, com cada um desses amigos.

Mais tarde, de volta ao hotel em Boa Viagem, lembrei de uma vez em que Shayeubad comentou que a alma humana não apenas existe, mas, assim como o corpo, se alimenta.

Dizia-me Shayeubad que, da mesma forma que cada um de nós obtém energia para o corpo, a partir da substância dos alimentos físicos, a alma extrai a sua própria energia de alimentos mais etéreos, como a amizade, a busca de um objetivo e tantas coisas que nos fazem ter vontade de continuar vivendo.

Claro que, assim como há substâncias que alimentam o corpo mas fazem mal à saúde, há alimentos da alma que são para ela verdadeiros venenos a longo prazo. O desejo de vingança, por exemplo, pode deixar a alma determinada e ativa por um bom tempo, mas costuma fazer grandes estragos, principalmente quando o ato vingativo chega a ser consumado…

Mas, naquela noite no Recife, eu não precisava me preocupar com a qualidade dos alimentos que ingeri. Depois de almoçar e jantar com aqueles amigos, era-me fácil perceber que o corpo estava bem alimentado, mas quem havia participado de um verdadeiro banquete era a alma. Experiência de vida, entusiasmo, respeito e amor foram apenas alguns dos ingredientes daquelas mesas fartas. Ficou fácil entender o que Shayeubad havia dito tanto tempo antes.

Ao chegar a este ponto, é possível que Giovanni cogite: “E o vinho?”. E eu, que nada perguntei a Shayeubad sobre o assunto, arrisco uma resposta:

- O vinho, Don Giovanni, é uma dessas substâncias misteriosas, que através do corpo chega à alma, e a ambos pode favorecer ou maltratar. Saúde!

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* Shayeubad é um sujeito que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.


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UM PAÍS DESENVOLVIDO

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Ouvi na Rádio Senado
Um político dizer
Que meu Brasil pode ser
Agora considerado
Um país classificado
Como tendo conseguido,
Afinal, ser promovido
A outra categoria.
O Brasil hoje seria
UM PAÍS DESENVOLVIDO.

Eu ouvi o que foi dito
Naquele pronunciamento,
Mas, já naquele momento,
Pensei: “Eu não acredito”.
E, mesmo agora, reflito
E novamente duvido
Que tenhamos atingido
Essa meta, finalmente,
De o Brasil ser, realmente,
UM PAÍS DESENVOLVIDO.

Pois, enquanto eu encontrar,
Nas ruas por onde ando,
Crianças perambulando,
Nos sinais a mendigar,
A cheirar cola e roubar,
Não posso ser convencido
Que tenhamos conseguido
Um salto de qualidade
Que nos faça, de verdade,
UM PAÍS DESENVOLVIDO.

Enquanto eu, ao parar
Em frente ao sinal fechado,
Me sentir preocupado
Que alguém venha me assaltar,
E, mesmo em casa, no lar,
Me sentir desprotegido,
Não vejo qualquer sentido
Na conversa que se ouviu:
Que seja o nosso Brasil
UM PAÍS DESENVOLVIDO.

Enquanto o pobre tiver
Que sair de madrugada
Para poder ter marcada
Uma consulta qualquer,
E ainda assim puder
Voltar sem ser atendido,
Eu fico até constrangido
De afirmar e dar fé
Que o Brasil agora é
UM PAÍS DE DESENVOLVIDO.

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RESGATE NA NEVE

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Nesses dias que antecedem a chegada do presidente Barack Obama ao Brasil – escrevo no dia 16 de março de 2011 – lembrei-me de uma história acontecida com um amigo, que ilustra um pouco as diferenças e semelhanças entre o estilo de vida americano e o brasileiro.

Trata-se de um caso real, razão pela qual esta narração pretende ser a mais fiel possível ao que de fato ocorreu, ou, pelo menos, à versão que me foi transmitida pelo seu principal personagem, o americano Roberto Rodrigues, que, apesar do nome familiar aos nossos ouvidos brasileiros, nasceu naquele país do norte e mora em uma pequena cidade do Estado de Connecticut. Nossa amizade decorre do fato de ele ser casado com a brasileira Paula, que tem vínculos parentais com minha esposa.

Pois se deu que, em uma fria tarde de inverno, meu amigo Roberto estava voltando do trabalho quando precisou parar e fazer algumas compras. Como estava nevando, pensava em demorar o mínimo possível na loja e seguir imediatamente para casa, mas ficou ali o suficiente para, ao sair, encontrar o carro coberto de neve.

Até aí, tudo bem. Um pouco de neve não seria um grande incômodo. Os problemas de Roberto começaram quando ele, antes de entrar no carro, passou a mão no pára-brisa, tentando limpar a parte por onde pretendia enxergar. Nesse movimento, a aliança de casamento, que estava um pouco folgada, escorregou do dedo, quicou sobre o capô do veículo e foi mergulhar na camada de neve que cobria o chão do estacionamento.

É claro que a pequena auréola de ouro afundou imediatamente no solo branco e frio. É claro também que, seja no Brasil ou em Connecticut, perder a aliança de casamento é algo bem mais complicado que perder uma caneta ou um anel de formatura. No caso, Roberto sabia que Paula dificilmente acreditaria em histórias absurdas, sobre anéis que fogem dos dedos e se escondem na neve. Então, sem pensar duas vezes, ele ajoelhou-se no local onde presumivelmente a aliança havia caído e pôs-se a revirar a neve em busca do valioso objeto.

Passados alguns minutos de busca infrutífera, tudo o que Roberto conseguiu foi chamar a atenção de um policial que passava pelo local em sua viatura e achou sua atitude suspeita.

- Hey, guy! O que você está fazendo com a cara enfiada na neve desse jeito? – interrogou o policial.

Roberto tentou manter a calma e explicar com cuidado. Temia que o guarda não o levasse a sério ou achasse que ele estava escondendo algo. Para sua surpresa, ao terminar de ouvir sua história, o policial pôs as duas mãos atrás da cabeça e exclamou:

- Oh, my God! Se sua mulher for ciumenta como a minha, you’re fucked!

Roberto nada respondeu. Apenas acenou positivamente com a cabeça. Foi o suficiente para o policial pegar o walk-talk que carregava preso ao uniforme e pedir reforços.

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Alguns minutos depois, toda a área em um raio de cinco metros em torno do carro estava isolada por fitas amarelas, daquelas que se vêem nos filmes de Hollywood. Um policial revolvia a neve com uma espécie de ancinho – ou ciscador, como preferimos chamar no Ceará – e outro chegou munido de um detector de metais. Por causa do frio, poucas pessoas tentavam se aproximar do teatro de operações, mas as que o faziam eram imediatamente orientadas a manter distância por outros dois homens da lei. Ao cabo de vinte e dois minutos de busca, a aliança foi encontrada e posta novamente no dedo do seu proprietário.

A expressão de alívio de Roberto e a comemoração dos policiais era a demonstração de que, apesar de haver grandes diferenças entre lá e cá – como o clima e o trabalho da polícia – há também enormes semelhanças, como ciúme das esposas e o medo que os homens têm de despertar sua fúria.


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UM MOMENTO DE LUZ

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Imagem: Celi Aurora

Foi um momento de luz,
De muita iluminação,
O que aconteceu comigo
Numa certa ocasião,
Quando o dia terminava
E eu sozinho viajava
Pela estrada no sertão.

Estacionei na estrada
Para trocar um pneu
Que furou quando o meu carro
Em um buraco bateu,
Mas, logo que estacionei,
E as ferramentas peguei,
Algo estranho aconteceu.

Eu olhei à minha volta,
Para ver se via alguém.
Mas, naquele lugar ermo,
Não apareceu ninguém.
Só algumas avoantes
Sobrevoaram, rasantes,
E pousaram mais além.

Mas na hora em que olhei
Para onde o bando pousou
Algo na minha visão
De repente se alterou,
Pois vi cada passarinho
Tão de perto, tão pertinho,
Que isso até me assustou.

Foi como se em cada olho
Uma lente de aumento
Houvesse sido instalada
Naquele exato momento.
E tudo o que eu olhava
Depressa se aproximava
Num estranho movimento.

Como um “zoom” de filmadora
Minha vista funcionava
Aumentando qualquer coisa
Que minha vista alcançava.
Bastava eu me concentrar
Em algum ponto e olhar
E tudo se aproximava.

Estranhei aquilo tudo,
E era mesmo intrigante,
Pois olhei fixamente
Para uma avoante,
E, naquele campo aberto,
Vi a ave tão de perto
Que parecia um gigante.

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A FILHA DA CARTOMANTE

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A casa de Dona Júlia ficava em um dos vários subúrbios da cidade, em uma rua relativamente larga, mas de calçamento muito mal feito. Uma casa humilde – como o eram todas as outras casas da rua – mas não miserável. Até que era bem arrumadinha, com um pequeno jardim, que dava para ver por entre os premoldados do muro ou pelas grades do portão de ferro. Não havia nenhuma placa ou qualquer outro tipo de anúncio indicando que ali se punham cartas, mas a vizinhança inteira sabia que aquela era a casa da cartomante.

Todos os dias o local era freqüentado por várias pessoas interessadas em saber o que lhes reservava o destino. Muitas não moravam nas proximidades e chegavam de carro. Os meninos que brincavam na rua, já acostumados à presença de estranhos pedindo informação, colocavam-se a postos cada vez que um veículo que se aproximava em baixa velocidade.

Quem não gostava nem um pouco de todo esse movimento era a filha de Dona Júlia. Desde a infância, Amanda sempre convivera com o fluxo de pessoas desconhecidas em sua casa, mas à medida que foi entrando na adolescência começou a se incomodar com aquilo:

– Mamãe, você tem mesmo que receber essas pessoas todos os dias em nossa casa? Às vezes eu me sinto sem privacidade, sem sossego para estudar…

– Eu preciso, minha filha.

– Como precisa, mamãe? Essas pessoas lhe pagam tão pouco! Aliás, tem gente que nem paga nada…

– Não é por dinheiro que eu faço isso, filha. Um dia ainda vou lhe explicar tudo.

E não parecia mesmo ser por dinheiro que Dona Júlia revelava o destino das pessoas nas cartas. A pensão deixada pelo marido – falecido há quase dez anos – já seria suficiente para que ela e Amanda levassem uma vida digna, embora sem luxo. Além disso, mãe e filha também levantavam algum dinheiro fazendo bijouterias que eram vendidas no armarinho de uma amiga. De forma que o pouco que Dona Júlia ganhava com as suas cartas não tinha qualquer efeito prático sobre seu orçamento, mesmo porque, sempre que alguém a presenteava com alguma quantia mais significativa, a cartomante comprava alimentos não perecíveis e doava para um asilo de idosos que havia no bairro.

Amanda nunca entendeu aquilo e aos poucos foi aumentando a sua aversão pela cartomancia praticada pela mãe. Não gostava que os amigos falassem sobre o assunto e, quando arranjava um namorado, fazia de tudo para que ele não frequentasse sua casa. Tinha vergonha do entra e sai de pessoas estranhas e, principalmente, de ser conhecida como “a filha da cartomante”. Nunca chegou a ter discussões sérias com a mãe sobre isso, mas seu relacionamento com ela foi ficando estranho, às vezes tenso, às vezes distante, como se a cumplicidade que um dia ligou mãe e filha houvesse deixado de existir junto com a infância desta.

Talvez tenha sido esse o motivo que levou Amanda a ir morar com uma amiga logo que conseguiu o seu primeiro emprego, em um hospital. Fez vestibular para enfermagem, passou, depois convenceu a mãe de que seria melhor se morasse perto da faculdade. Dona Júlia não ofereceu muita resistência. Parecia já estar esperando que isso fosse acontecer.

Mas o fato de Amanda deixar de morar com a mãe não significou um rompimento. Pelo menos por telefone, as duas sempre estavam em contato. Certa vez, Amanda telefonou preocupada:

- Mamãe, você está bem?

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O CAVALEIRO

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Imagem: Denker

De trás do casebre erguido à beira da estrada, surgiu o cavaleiro. Brandindo a espada, galopava, montado em seu corcel, levantando da terra seca uma poeira amarelenta.

Puxando a rédea para a esquerda, fez o animal dar um giro em torno de si mesmo e erguer as patas dianteiras, empinando. Via-se que estava pronto para viver as aventuras que surgissem e enfrentar os gigantes que o desafiassem.

Não, não era Dom Quixote. O Cavaleiro da Triste Figura, bem se sabe, era um homem magro e alto, já velho, que viveu os seus sucessos há muito tempo atrás, nas terras de La Mancha, onde, armado de lança e espada, e protegido por elmo e armadura, cavalgava seu bucéfalo Rocinante.

O cavaleiro de quem falo era bem mais jovem. Tinha, talvez, uns oito ou nove anos de idade. Sua espada não era mais que um galho de jurema-preta, do qual foram raspados os espinhos, e seu cavalo era uma vara.

Em sua montaria ápode, era com os próprios pés que o jovem cavaleiro galopava. Pés descalços, sujos de terra, ainda pequenos, mas já acostumados ao contato com o chão duro da caatinga.

Também não usava elmo nem armadura. Na verdade, corria nu, na sua inocência de menino sertanejo, ainda não contaminada pelos medos e preconceitos impostos desde muito cedo às crianças da cidade.

E estava bem distante das terras espanholas. Precisamente, à beira da estrada que liga Canindé a Sobral, no sertão do Ceará.


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A HISTÓRIA DE ZÉ LUANDO, O HOMEM QUE VIROU MULHER

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Esta obra foi escrita originariamente em Cordel, convertido em livro pela Ensinamento Editora, com ilustrações de Rafael C. Lima, no Projeto Cesta Básica da Cultura e do Conhecimento. A imagem acima é a ilustração da capa.

Era uma vez Zé Luando, que um dia nasceu menino, cresceu, casou, fez família, mas, por obra do destino, não ficava à vontade, nem tinha felicidade, no seu corpo masculino. No sertão do Ceará dizem que ele nasceu. Numa pequena cidade, estudou, brincou, cresceu. Todo mundo o conhecia, mas ninguém esperaria ocorrer o que ocorreu.

Esse nome “Zé Luando” veio de um combinado do nome de sua mãe com o de seu pai ligado. Luana a mãe se chamando, e o pai, José Fernando, o nome assim foi formado.

Desde que era pequenino, muita gente já notava que brinquedo de menino a ele não agradava. Soltar pião, jogar bola, brincar de luta na escola, nada disso ele gostava. Mas logo se alegrava se chegava à sua mão um batom ou um espelho que achasse pelo chão. Com a boca toda pintada, deixava a mãe intrigada com a sua animação. O pai não tinha noção do que estava acontecendo. Ou estava trabalhando, ou em algum bar, bebendo. O menino delicado, e o pai, sempre ocupado, nada ia percebendo.

Assim ele foi crescendo com seu jeito diferente. De menino em rapaz tornou-se rapidamente. Mas, arranjar namorada era coisa complicada, que lhe deixava doente. Quando ia a uma festa, bem que ele até tentava. Aproximava-se das moças, conversava, conversava, mas, só de imaginar a sua boca beijar, seu estômago embrulhava. Na verdade, nessas horas, quando estava perto delas, olhava era para as roupas usadas então por elas. Ficava a imaginar, algum dia desfilar, usando uma daquelas.

Na cidade, àquela altura, todo mundo comentava, pois chamava a atenção Zé Luando onde passava. Fosse na volta da missa ou no bar da Dona Ciça, assunto é o que não faltava.

Assim, foi grande a surpresa quando chegou a notícia:

– Zé Luando vai casar com a filha de Dona Eunícia! E não pode ser boato, pois quem me contou o fato foi um cabo da polícia!

Segundo o cabo, ele esteve na Igreja Transversal, conversou com o pastor, explicou o principal e perguntou:

– Terá cura para uma criatura que nasce homossexual?

O pastor disse:

– É claro! O milagre é dos pequenos! Basta só você ter fé, e os resultados são plenos. Mas, pra mostrar devoção, faça uma doação de cem reais, pelo menos.

Zé Luando acreditou e fechou logo o negócio. Entregou os cem reais ao chefe do sacerdócio, que lhe disse:

– Tenha fé, pois Jesus agora é, além de amigo, seu sócio.

A partir daquele dia, Luando ficou mudado. Só vivia na igreja rezando, ajoelhado. Um dia o pastor falou:

– A maldição acabou. O irmão está curado. Você agora é homem para o que der e vier. Vai casar e ser feliz, ter os filhos que quiser. Espere que, amanhã, apresento-lhe a irmã que vai ser sua mulher.

Zé Luando, emocionado, quase não acreditava no milagre que o pastor então lhe comunicava. Por ele, no mesmo dia, a noiva conheceria e com ela se casava.

É aí que entra na história a Maria Salomé, filha de Dona Eunícia com Seu João Buscapé. Uma mocinha faceira que trabalhava de obreira na mesma igreja de Zé. Era ela a dita noiva que o pastor lhe arranjou, e depois disse que ela por José se apaixonou. Entre Luando e Maria, na noite do mesmo dia o noivado começou.

A notícia do noivado foi uma grande surpresa. Lá no bar da Dona Ciça, era assunto em toda mesa, porque, mesmo namorando, ninguém via em Zé Luando qualquer sinal de macheza. Ficava até esquisito, quando o casal passava. Saía gente na porta, todo mundo olhava, olhava… Luando até parecia mais mulher do que Maria, e ela nem se incomodava.

E assim foi o namoro e o tempo do noivado. O dia do casamento também foi logo marcado. Quando esse dia chegou, o povo se ajuntou pra ver Luando casado. No casório, o pastor sorria todo contente. O milagre de Luando encheu a igreja de gente. E a arrecadação de dízimo e doação aumentava de repente.

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TRAIÇÃO, RESPEITO E SAUDADE

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Foto: Mundo of World

Eram quatro amigos em volta da mesa do bar, naquele final de tarde de sexta-feira. As várias garrafas vazias de cerveja, amontoadas sob a mesa, davam o testemunho do quanto haviam bebido. Apesar de a conversa fluir animada, não eram amigos de muito tempo. Ao contrário, tinham se conhecido na segunda-feira, na abertura de um treinamento para os gerentes das filiais da empresa onde trabalhavam. Passaram a semana falando de planejamento estratégico, gestão por processos e outras maravilhas da administração moderna. Ao fim da jornada, tudo o que eles queriam era beber um pouco e jogar conversa fora.

Foi assim que o destino levou até ali aqueles quatro homens, cuja afinidade ficou aparente logo nos primeiros contatos. A idade entre quarenta  e cinquenta anos, o fato de já terem casado e se separado, pelo menos uma vez, e o hábito de beber cerveja depois do expediente da sexta-feira, eram apenas alguns dos muitos pontos que os aproximavam.

Depois de falar sobre todo tipo de amenidades e contar algumas anedotas, aos poucos eles foram se sentindo cada vez mais à vontade para confessar experiências pessoais, especialmente com as mulheres. Tadeu, o mais jovem, tomou a dianteira:

- Olha, eu vou confidenciar uma coisa para vocês: faz uns três meses que estou tendo um caso com uma mulher casada. Rapaz, eu fico impressionado com as desculpas que ela dá, quando estamos juntos e o marido liga para o celular dela. Eu não sei como o cara não percebe!

- Ela deve conhecer bem o marido. Sabe que o cara não é muito atento, aí escolhe uma desculpa qualquer. Pode ficar certo que, se ele começar a demonstrar algum cuidado, ela passa a caprichar mais no álibi. Ê, meu amigo, mulher, quando resolve trair, sabe fazer tudo muito melhor que nós! – comentou João, com ar de quem tinha experiência no assunto.

- É, o cara deve ser meio desligado mesmo – continuou Tadeu – porque, quando ela desliga o telefone, começa a rir. Depois fala que ele acredita em qualquer coisa que ela diga.

- Tá vendo!? – retomou João. – Ela está é zombando dele!

- É por isso que digo: quando a mulher trai o marido é porque já perdeu o respeito por ele! – sentenciou Ronaldo, fazendo questão de demonstrar que também não era nenhum leigo na matéria.

- Isso é verdade – concordou Tadeu. – Respeito, ali, eu acho que já acabou, faz tempo.

- É mesmo – aderiu João.

Enquanto os outros três concordavam nesse ponto, apenas Mariano permanecia em silêncio, pensativo, com os olhos fixos nas bolhinhas que se moviam em seu copo de cerveja. Era o mais velho dentre eles e já apresentava uma quantidade considerável de cabelos grisalhos. Esperou os amigos fazerem uma pausa um pouco mais longa e se manifestou:

– Pois eu vou dizer uma coisa pra vocês. Eu pensava exatamente assim, até passar por uma situação que me deixou totalmente desnorteado.

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O TEMPO

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O tempo é um bicho teimoso
Que nunca obedece a gente.
Se a gente quer que ele corra,
Ele avança lentamente.
Mas, se quer que ele vá lento,
É ligeiro como o vento
Ou uma estrela cadente.

Bem o sabe aquela jovem
Que espera o namorado,
Olhando para o relógio
Que parece estar parado.
Mas, quando está com o rapaz,
O tempo parece mais
Um cavalo disparado.

No jogo de futebol
É a mesma situação:
Se seu time está vencendo
O tempo é só lentidão.
Mas, se o time está perdendo,
Lá vai o tempo correndo
Sem olhar nossa aflição.

O tempo passa depressa
Pra quem acordou agora,
Quer dormir mais um pouquinho,
Mas do trabalho é a hora.
Passa o tempo devagar
Para quem tem que esperar
Que um chato vá embora.

O homem tenta medir
O tempo que há no mundo,
Em anos, meses e dias
Horas, minutos, segundos.
Mas, também nessa medida
Pelo homem escolhida
O mistério é dos profundos.

Pois, se em mais de mil pedaços
Um dia for dividido,
Um pedaço é um minuto
Desse tempo repartido.
Nessas partes desiguais,
Tem dia curto demais
E minuto que é comprido.

Falo todas essas coisas
Mas eu sei que, na verdade,
O tempo é apenas fruto
Da nossa engenhosidade.
Fomos nós que o criamos
E agora nos sujeitamos
A toda essa má vontade.

Inventamos o relógio
E também o calendário,
Dividimos nossa vida,
De um jeito arbitrário,
E, em frações de existência,
Vivemos sob a regência
Desse ser imaginário.


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SHAYEUBAD(*) E O RIO

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Estava eu na margem do rio, admirando a paisagem, quando Shayeubad aproximou-se, sentou em uma pedra e disse:

– A vida é como um rio. Passa constantemente e segue adiante. Quem a quiser conhecer melhor tem que se afastar da margem e nadar, mesmo sabendo que pode ser levado por uma corrente mais forte e chegar a lugares onde nunca pensou em estar.

Surpreso com sua chegada, permaneci em silêncio enquanto ele prosseguiu, dizendo:

– Mas é possível viver na margem, vendo o rio passar. Tem muita gente que é feliz assim. Faz uma casa, planta uma horta, aprende a pescar e vai vivendo na margem do rio. Não se pode nem dizer que é uma vida monótona, pois o rio sempre traz algumas coisas novas e leva outras embora. Houve um filósofo grego que já disse algo parecido, sobre um mesmo homem nunca tomar banho no mesmo rio, pois o homem muda e o rio também muda. Sem contar que o rio também traz pessoas. Assim como existem pessoas que preferem viver em algum ponto da margem, também tem gente que é feliz seguindo a correnteza, sendo levado pelo rio, sem se preocupar em chegar a lugar algum. Essas pessoas vão mudando junto com o rio e vendo a paisagem mudar também. Acabam conhecendo mais coisas que as que ficam na margem, mas para isso é preciso abrir mão da segurança da terra firme.

– Nessa hora, um bom barco pode ajudar – interrompi.

– É verdade. Na maior parte das situações o barco dá mesmo uma sensação de segurança para quem navega. O problema é que para ter um barco é preciso fazê-lo ou comprá-lo, o que requer esforço, dedicação e algum tempo parado em um ponto da margem, trabalhando duro. Assim, muita gente que gostaria de seguir o rio parou para fazer um barco e terminou construindo uma casa. Hoje não é feliz na casa e não tem mais coragem para se jogar no rio. Por isso, acho que seguir o rio a bordo de um barco deve ser muito bom para as pessoas que gostam de fazer barcos e viajar neles, mas não serve para quem é feliz na margem, nem para quem quer simplesmente ser levado pela corrente.

Por um instante, pensei em como eu gostaria de estar em relação ao rio, mas, desconfiando que Shayeubad não permaneceria ali muito tempo, resolvi primeiro perguntar sobre ele:

– E você, Shayeubad? Como tem estado em seu rio?

Ele olhou para algum ponto imaginário bem distante e falou lentamente:

– Eu tento ser como um salmão. Quero descer pela correnteza conhecendo as águas do rio em toda a sua profundidade, até chegar ao oceano. Depois, fazer todo o caminho de volta, contra a correnteza, dando saltos nas corredeiras. De vez em quando, em meio a esses saltos, poder ver um pouco das margens e sentir o vento deslizar em minhas barbatanas. Se conseguir ser como um salmão, não me importarei se vier a morrer de exaustão pelo caminho ou cair na boca de um urso ao tentar subir uma cascata. Mas o que me anima mesmo é a sensação de poder um dia chegar à cabeceira do rio, à fonte de tudo. E ao chegar ali, saberei que a viagem não foi em vão, pois graças à minha jornada, outros salmões poderão viver sua própria aventura no rio. Então sentirei minhas forças se esvaírem e a morte chegar. Mas a morte não parecerá um fim e sim um novo começo, em um novo rio.

Shayeubad dizia essas coisas com tanta intensidade, que era como se eu mesmo fosse um salmão e fizesse todo o percurso do rio. Cheguei a fechar os olhos, tentando visualizar melhor as imagens que ele ia descrevendo com sua voz mansa e pausada.

Então, quando ele acabou de falar, abri lentamente os olhos, como se relutasse em voltar ao ponto da margem do rio onde estávamos. Olhei para a pedra onde ele havia sentado minutos antes, mas ele não estava mais lá. Como sempre, havia ido embora tão silenciosamente como quando chegara.

(*) Shayeubad é um sujeito que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.


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O MENINO QUE NÃO TINHA MEDO

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Era aparentemente um menino como qualquer outro. Brincava, corria, jogava futebol… Na verdade, nem corria mais que os outros e nem era assim tão bom de bola. O que fazia de Júlio uma criança diferente era apenas uma coisa: não tinha medo de nada.

Quando nos conhecemos, eu tinha apenas dez anos e lembro que ele era menos de um ano mais velho, mas logo me impressionou a autoconfiança com que Júlio enfrentava qualquer situação na qual fosse preciso demonstrar coragem. Se a brincadeira era subir em uma árvore, ele sempre chegava aos galhos mais altos. Se o desafio era cortar caminho atravessando o cemitério, quando voltávamos da escola, ele era o primeiro a entrar pelo portão macabro. Subia nos túmulos e corria entre eles sem a menor cerimônia, enquanto os outros caminhávamos tensos, temendo que, a qualquer momento, um fantasma viesse em nossa direção. No final, quando chegava a hora de transpor o muro dos fundos, para alcançar a rua do outro lado, ele era sempre o último a sair dali.

Às vezes, jogávamos futebol na rua e a bola caía dentro do jardim da Dona Letícia, uma vizinha que odiava quando isso acontecia, porque a bola quebrava suas roseiras. Um dia, ela nos viu jogando em frente à sua casa, e deixou o cachorro solto no jardim, para que, caso a bola caísse lá dentro, não pudéssemos pular o muro para pegá-la de volta. Mas a estratégia da vizinha malvada acabou não funcionando. Quando a bola passou por sobre o muro e foi se acomodar entre as roseiras, Júlio nos chamou e disse baixinho:

– Fiquem perto do portão, chamando a atenção do cachorro, enquanto eu pulo o muro pelo outro lado.

Fizemos o que Júlio pediu e ele pulou mesmo o muro. Pegou a bola, arremessou de volta para a rua e, no instante seguinte, já estávamos reiniciando o jogo. O cão de guarda nem notou que ele havia entrado e saído do jardim. Para mim, que até hoje tenho medo de cachorro, aquele foi um gesto assustador, embora Júlio houvesse feito tudo sorrindo, como se fosse apenas uma brincadeira qualquer.

Assim o tempo passou e eu e meus amigos crescemos respeitando aquele menino que nunca tinha medo. Já éramos adolescentes quando seu pai arranjou um emprego no Rio de Janeiro e levou toda a família, fazendo com que perdêssemos o contato.

Alguns anos depois, eu estava assistindo a um programa de televisão e vi um grupo de alpinistas que se preparava para escalar um vulcão em um lugar chamado Cinturão de Fogo, no México, se não me engano. Logo reconheci Júlio entre os outros alpinistas, estampando no rosto o mesmo sorriso do menino que um dia desafiou o cão de guarda da Dona Letícia. Comentei o fato com alguns de meus amigos de infância e, a partir daí, sempre que um de nós encontrava alguma notícia das aventuras de Júlio pelo mundo, mostrava para os outros.

Foi assim que, em 2008, quando todos nós já havíamos atravessado a barreira dos quarenta anos, aconteceu em Fortaleza uma etapa do Campeonato Mundial de Motocross Freestyle, e alguém trouxe a notícia de que Júlio estava vindo para participar do evento. Ele já havia deixado de competir nessa modalidade, mas estava trabalhando na produção. Reunimos vários amigos da época, descobrimos o hotel onde os organizadores da competição estavam hospedados e fizemos uma visita surpresa a Júlio.

Foi uma festa! Uns casados, outros descasados, outros ainda recasados, alguns com filhos adolescentes, outros segurando bebês, o fato é que, mesmo sendo ele o aventureiro da turma, cada um tinha alguma coisa para contar. Como a competição aconteceria no sábado à noite, marcamos de ir à praia com as famílias no dia seguinte.

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O JUIZ, O MENINO E OS COLEGAS DA ESCOLA

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(Da serie “Contos e crônicas do Poder Judiciário”)

A história narrada por mim na crônica “Um trabalho como o do senhor…é apenas uma demonstração do quanto as pessoas tidas como portadoras de retardo mental muitas vezes demonstram uma percepção da realidade bem maior do que imaginamos. Elas ficam por ali, aparentemente desconectadas do mundo à sua volta, mas na verdade estão compreendendo coisas que a gente não imagina.

Pois aquele não foi um caso isolado. Em outra audiência que realizei – lá mesmo em Mossoró – a pessoa supostamente portadora de retardo mental era um menino de dez anos, chamado Wesley. Desde os sete freqüentava a primeira série do primeiro grau e não passava disso. A mãe dizia que levava o menino para o colégio só para ele não ficar “virando bicho” em casa, mas sabia que ele não aprendia nada.

– Ele não presta atenção em nada não, doutor. O juízo dele é como de uma criança de dois anos. Só quer brincar o tempo todo e não pára um instante – explicava ela.

De fato, ao entrar na sala de audiências, percebi que ela mantinha o filho no colo – apesar de ser quase da mesma altura que ela – segurando-o fortemente pela cintura. O menino se contorcia todo, tentando escapar. Incomodado com aquela inquietação, pedi à mãe que soltasse o garoto:

– Pode deixar ele à vontade, Dona Assunção. Ele não vai sair da sala, vai?

– Doutor, eu acho que sair, ele não sai, mas ninguém vai mais ter sossego aqui – advertiu-me.

– Faça assim: deixe ele solto; se ele atrapalhar alguma coisa eu peço à senhora para segurá-lo de novo.

E assim foi feito. Não diria que me arrependi de insistir para que a mãe soltasse o menino, mas ela tinha toda razão ao dizer que não se teria mais sossego a partir daquele instante. Wesley corria em volta da mesa em torno da qual estávamos reunidos, passava por debaixo dela e algumas vezes tentou passar por cima, no que foi impedido pela mãe. De vez em quando, pegava uma cadeira giratória, dessas de rodinhas, que havia em um canto da sala, e usava como se fosse um patinete, segurando-se no espaldar da cadeira, apoiando-se no assento com o joelho e tomando velocidade por meio de empurrões com o outro pé.

Enquanto isso, eu tentava dar prosseguimento à audiência. Frustrada a primeira tentativa de acordo, tomei os depoimentos das testemunhas e passei a palavra para o Ministério Público dar o seu parecer. O Procurador da República posicionou-se pela concessão do benefício assistencial para o garoto. Estava claro que aquela criança não tinha a menor condição de exercer as atividades intelectuais próprias da sua idade e dificilmente teria essa capacidade no futuro. A família, formada apenas pela mãe, que vivia de lavar roupas para as vizinhas, e outros três filhos menores, além de Wesley, estava dentro do critério de pobreza exigido pela lei.

Pensei a mesma coisa, mas, como de costume, antes de proferir a sentença propus mais uma vez que as partes fizessem um acordo. O Procurador Federal que representava o INSS, reconhecendo que o benefício era devido, propôs sua implantação imediata, com pagamento de atrasados a partir do ajuizamento da ação. Dona Assunção aceitou feliz. Ditei os termos do acordo para o servidor que me auxiliava na audiência, declarei homologado o acordo e dei o caso por encerrado.

Tudo estava resolvido. Pelo menos, quase tudo, pois Wesley, que, em um raro momento de calmaria, brincava embaixo da mesa, ainda tinha algo a tratar. Ao ser chamado pela mãe para ir para casa, engatinhou até chegar próximo aos meus pés. Depois, saiu de seu esconderijo, ergueu-se bem ao meu lado e perguntou:

– Eu posso falar uma coisa com o senhor?

Apesar de surpreso com aquela atitude, acho que consegui manter a aparência de tranqüilidade:

– Claro, meu amigo. O que é?

Ele aproximou a boca de meu ouvido, pôs uma das mãos perto do rosto, como quem conta um segredo, e disse baixinho:

– Tem uns meninos lá na escola que gostam de esconder minhas coisas e ficar rindo de mim. Eu queria pedir ao senhor que mandasse eles pararem com essas brincadeiras.

Comovi-me ao imaginar o sofrimento daquele menino, sendo costumeiramente incomodado pelos outros. Mas, ao mesmo tempo, fiquei feliz ao ver que, apesar de toda a sua dificuldade para manter a atenção em alguma coisa, ele havia observado suficientemente o desenrolar da audiência, a ponto de saber quem tinha o poder de decisão naquele momento.

Pensei um ou pouco e disse para a mãe, que já estava de pé, perto da porta de saída:

– Dona Assunção, a senhora vai falar com a diretora do colégio para ela chamar esses meninos e dizer que eles não façam mais isso com o Wesley. Se não resolver, a senhora volta aqui e fala com o mesmo funcionário que lhe atendeu da outra vez, que ele vai lhe orientar sobre o que fazer.

Depois olhei para o menino e perguntei:

– Está bom assim, Wesley?

Mas ele não respondeu. Pulou por cima da mesa de audiência e deslizou mais uma vez pela sala em sua cadeira-patinete, em direção à porta que dava acesso ao corredor. Antes de sair, olhou para mim e deu um sorriso que me pareceu ser de agradecimento.

Não sei se o problema na escola foi resolvido ou se Wesley simplesmente deixou de ir às aulas, mas, até onde sei, Dona Assunção nunca voltou para se queixar de nada.


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NOTÍCIAS DA ARGENTINA

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Como a vida muitas vezes imita a arte, pode ser que exista alguma anedota semelhante ao caso do qual trato neste texto. Se tal ocorreu, porém, garanto que terá sido mera coincidência, pois este é um caso real, de forma que os fatos que passo a narrar apenas correspondem à verdade. Uma verdade um pouco melhorada talvez, mas verdade.

Deu-se que um amigo meu – que se gaba de transitar bem pelo idioma espanhol – estava recentemente passando férias no Rio Grande do Sul e resolveu dar uma esticada até Buenos Aires. Ficou dois dias lá. Chegou elogiando o bife de chorizo e criticando a quantidade de trombadinhas nas ruas do centro:

– Está pior do que aqui. No pouco tempo que passei na Rua Florida vi duas turistas brasileiras serem roubadas.

Perguntei se esse problema da insegurança era algo localizado ou efeito da crise econômica. Ele deu seu parecer:

– Rapaz, eu acho que é a crise. Só para você ter uma idéia de como a situação na Argentina está difícil, escute o seguinte. Eu estava no quarto do hotel em Buenos Aires e deixei a televisão ligada. Parece que estava passando o Jornal Nacional de lá. Apesar de eu me comunicar bem em espanhol, não dava para entender tudo o que os jornalistas diziam, porque eles falavam muito rápido, mas o que me chamou mais a atenção foi que, toda vez que terminava uma parte do jornal, eles anunciavam logo que viriam outras notícias ruins no próximo bloco…

– Espere aí – interrompi. – Se você não estava entendendo bem o que o apresentador do jornal falava, como sabia que as notícias do próximo bloco seriam ruins?

– Porque aparecia escrito na tela, e o espanhol é muito mais fácil de ler do que de entender! Pois eu lhe digo que, mal os apresentadores se calavam, aparecia logo escrito na tela que agora é que viriam as desgraças.

– Que é isso, meu amigo? Há uma crise lá, mas não deve ser tão grave assim. Você deve ter se enganado – duvidei eu.

E ele, como se já esperasse a minha reação, mostrou a prova do que dizia:

– Ah, me enganei? Pois eu sabia tanto que iam duvidar de mim que filmei a tela da TV com o meu celular. Olha aí! – e me entregou o celular.

De fato, no celular dele havia um pequeno vídeo no qual aparecia um televisor ligado. Na tela da TV, a imagem de um homem e uma mulher parecendo ser mesmo uma dupla de apresentadores de telejornal. Então, a imagem era sobreposta com uma frase, em letras grandes, dizendo o seguinte:

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Devolvi o celular sem dizer nada e mudei de assunto. Para não acontecer de algum praticante de portunhol ler este texto ficar com a mesma impressão que meu amigo teve da Argentina, lembro apenas que “más”, em espanhol, significa “mais” em português.


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UMA VERDADE MELHORADA (ou O CASO DO MACACO QUE RAPTOU O GATO)

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Aprendi com Jessier Quirino uma expressão que achei genial: “melhorar uma verdade”. Em um vídeo postado pelo Papa Berto no Jornal da Besta Fubana, mestre Jessier diz que todos nós podemos melhorar uma verdade, fazendo nascer dela uma boa história.

Eu diria que, não apenas podemos, mas devemos melhorar uma verdade, sempre que tivermos oportunidade. Afinal, está mais do que provado que não há história cem por cento verdadeira. Por melhor que seja a intenção do narrador, de tudo o que a gente presencia, a gente só vê uma parte; dessa parte que a gente vê, nem tudo a gente lembra; e dessa parte que a gente lembra, nem tudo a gente pode ou deve dizer. Então, para não perder a história, o jeito é completar o que sobrou da verdade com a própria imaginação.

Ora, se é pra completar a verdade, que seja para melhorá-la. Um exagerozinho aqui, um detalhe a mais ali, e a história, que não ia mesmo ser um retrato fiel do que houve, pelo menos fica mais interessante. Uma verdade melhorada.

Se bem que tem verdade que já é tão fantástica que nem é preciso acrescentar nada. É o caso, por exemplo, de um fato narrado certa vez por meu tio Tarcísio – aliás, para ser bem fiel à verdade, tio por afinidade, pois é casado com uma irmã de minha mãe, chamada Iranilda, mas conhecida na família como Rebeca.

Pois bem. Cheguei à casa de meus pais e Tarcísio estava lá, contando coisas do tempo em que era sargento da ativa do Exército Brasileiro e servia em Manaus. Depois que nos cumprimentamos ele prosseguiu de onde havia parado:

- Eu dizia aqui para o Padrinho – meus pais são seus padrinhos de casamento – do quanto o pessoal em Manaus tinha consideração por mim. No dia que nós completamos cinco anos morando lá, a Rebeca fez uma feijoada em nossa casa, e teve mais gente que no aniversário do comandante do quartel. Estavam lá desde recrutas a oficiais graduados, umas trinta pessoas ao todo. Rapaz, foi uma festa! Aliás, foi nessa feijoada que aconteceu aquele caso do macaco que sequestrou o gato. Eu já lhe contei essa história, padrinho?

- Não, Tarcísio. Contou essa não – respondeu meu pai.

- Ah, pois então eu conto agora. Foi nesse dia, quando estava esse pessoal todo reunido no quintal lá de casa, que um macaco desceu do galho dele e veio sequestrar um gatinho que a gente criava. Vocês sabem que do outro lado do muro do quintal da minha casa em Manaus já começava a selva, né? A gente morava num loteamento meio afastado e nossa rua era a última. Quando terminava o nosso quintal começava a selva, então era comum aparecer algum macaco por lá. Naquele dia, tava todo mundo distraído, quando um macaco-prego passou da ponta de um galho para o muro do quintal. Eu percebi, mas pensei que o bicho queria pegar uma das laranjas que eu tinha deixado descascadas para o pessoal comer depois da feijoada. Pois não é que o macaco desceu para o quintal, passou pela mesa das laranjas e pegou um dos gatinhos que a gata lá de casa tinha parido!? O gatinho já era até grandinho, mas o macaco pegou o bichinho pelo pescoço e arrastou por trás, como quem puxa uma pessoa que tá se afogando. Depois, pulou pra cima da mesa, da mesa para o muro e do muro para o galho de novo. Isso foi numa velocidade tão grande, que não deu tempo de ninguém fazer nada. Num instante ele já estava em outro galho, a uns dez metros de altura.

Eu e meu pai ouvíamos atentos à narração. Tarcísio continuou:

- Pois, quando o macaco chegou lá em cima, sabe o que foi que ele fez? Alinhou o gatinho no mesmo sentido do galho, passou pra trás do bichinho e começou a tentar enrabar o coitado.

- O macaco queria “comer” o gato? – estranhou meu pai.

- E não? Queria porque queria, desse jeito que eu estou lhe dizendo, padrinho – confirmou Tarcísio. – Mas, espere aí, deixe eu lhe contar o resto, porque, a essa altura, os soldados também já tinham visto o macaco com o gato e estavam na maior bagunça, por causa do sequestro. Aí eu disse: “Calma, pessoal. Deixem comigo. Vocês tão esquecendo que eu sou o campeão de tiro de arma curta do quartel?”. E eu tinha sido campeão mesmo, atirando de pistola, e vice-campeão, atirando de fuzil. Um soldado ainda perguntou: “O senhor vai atirar nele de nove milímetros, sargento?”. Mas eu nem respondi. Fui até o meu quarto e trouxe uma baladeira e um saco de bilas que eu guardo em uma gaveta na cabeceira da cama. Uma coisa que eu não deixo faltar lá em casa é uma baladeira e umas bilas, pra servir de munição. Quando eles me viram voltar para o quintal com a baladeira em uma mão e o saco de bilas na outra, caíram na risada. Um disse logo: “Olha aí, o sargento vai derrubar o macaco é na pedrada!”…

- E o macaco sequestrador ainda estava no mesmo galho? – foi a minha vez de perguntar.

- Estava – respondeu Tarcísio, dando continuidade à narração. – O gatinho se contorcendo, se defendendo, e o macaco segurando o coitado pelas orelhas, pelo pescoço, de todo jeito, querendo sodomizar o coitado. Foi aí que eu botei uma bila no couro da baladeira, estiquei a borracha, fiz pontaria e atirei…

Enquanto descrevia o tiro, Tarcísio se posicionava como se estivesse mesmo esticando a borracha do estilingue. Quando disse que tinha atirado, fez uma pausa e ficou olhando para um ponto imaginário, como se esperasse a bola de gude percorrer os dez metros que separavam o atirador do seu alvo. Eu e meu pai ficamos calados, esperando o resultado.

- Padrinho, – prosseguiu – o tiro foi tão certeiro que passou raspando pela cabeça do gato e pegou bem na testa do macaco. Bateu com tanta força que sacudiu a cabeça dele pra trás e o bicho despencou de onde estava. Depois deu um trabalho danado para um soldado subir na árvore e resgatar o gato, que tinha ficado agarrado no galho.

- E o macaco? Morreu? – preocupei-me.

- Não, ficou só desmaiado. Os soldados socorreram o bicho e levaram pro zoológico do CIGS.

Nessa hora, meu pai viu que minha mãe ia entrando na cozinha e disse:

- Ivonete, traga aqui uma aguazinha pra gente! Essa história do Tarcísio deu foi sede…

- Mas foi verdade, Padrinho – protestou Tarcísio. – Aliás, se o senhor for a Manaus, pode ir ao CIGS e procurar a jaula dos macacos-prego, e vai ver que tem um que no meio da testa dele é pelado. Fui justamente o lugar onde a bila bateu. Não chegou a cortar, porque bila não tem canto, mas inchou tanto que o pelo caiu todinho e depois não nasceu mais.

- Não, Tarcísio, eu não tô duvidando não, que eu sei que você não é de inventar história. Eu tô admirado é de o macaco não ter morrido da queda.

Tarcísio aceitou a explicação de meu pai, mas ainda afirmou umas duas vezes que tudo que acabara de contar era a mais fiel expressão da verdade. Mas, convenhamos, se ele tivesse enfeitado um pouco a história, que mal haveria nisso? Teria sido apenas para melhor uma verdade.

É bem possível que agora mesmo, sem querer, eu também tenha melhorado alguma coisa.

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Mundo Cordel
A MODELO E O TEMPO

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Quando olhei para os olhos da jovem modelo, logo percebi que era a última vez que os via. O sorriso, que vinha se apagando aos poucos, havia sumido totalmente. Os cabelos, antes dourados, agora oscilavam entre castanho-claros e cinza, mas sem qualquer brilho. A pele havia perdido a cor e a vitalidade. Cores vibrantes foram substituídas por tons esmaecidos.

O tempo havia feito seu trabalho e a beleza exuberante havia dado lugar a uma imagem apagada e sem graça.  O tempo é assim mesmo. Como diz Quintana, “Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal…”. Então, o que era apenas uma semente agora é uma planta completa, dando frutos; e o que era uma roseira, com todos os seus aromas e cores, não passa de um feixe de galhos secos.

Foi assim que a imagem da modelo foi ficando sem brilho e sem cor, e já não servia mais para vender roupas nem sapatos. Sua história chegara ao fim.

Amanhã, certamente, haveria outra modelo em seu lugar, com outra beleza, vendendo os mesmos produtos. E ninguém se lembraria mais daquela que nos últimos meses havia permanecido ali, emprestando sua beleza ao comércio.

A vida é assim mesmo. O sinal abriu e tive que seguir o meu caminho. Mas antes ainda foi possível ver o nariz da modelo desaparecer embaixo de mais uma das enormes folhas de papel branco que os homens estavam colando no out-door.

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Mundo Cordel
O MATEMÁTICO

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Eufrásio era um matemático que vivia sozinho em seu apartamento. Tinha cinquenta e oito anos de idade e desde os vinte e cinco era professor de cálculo em uma universidade pública.
 
Apesar de já ter reunido condições para se aposentar, continuava tão apaixonado pelos números que nem pensava nisso. Mesmo quando não estava trabalhando vivia fazendo operações matemáticas com coisas do cotidiano. Se ia a uma partida de futebol, só prestava alguma atenção ao jogo depois de calcular quantas pessoas havia nas arquibancadas. No restaurante, calculava quantas mesas havia no recinto, quantas pessoas poderiam se acomodar nelas e quantos garçons seriam necessários para manter a qualidade no atendimento. Até em um engarrafamento no trânsito, fazia uma estimativa de quantos carros havia à sua frente, observava a velocidade na qual os veículos estavam se movimentando e calculava quanto tempo levaria para chegar a determinado ponto, como o próximo semáforo, por exemplo.

Outro exercício que o atraía era o estudo das probabilidades. Volta e meia se percebia identificando as variáveis que permitiriam calcular coisas como a probabilidade de o elevador de seu prédio estar no térreo na hora que chegasse a casa.

– Quinze andares; dois elevadores; uma média de três pessoas por apartamento, embora seja preciso considerar que, dependendo do horário, mais da metade dessas pessoas estará fora…

E ia por aí. O fato é que essa fixação pelos números fez com que ele se tornasse um verdadeiro mestre no assunto e fosse reconhecido como um dos maiores especialistas do país em cálculos complexos. Depois de alguns anos como professor universitário, ganhou notoriedade e passou a ser requisitado para participar de projetos de grandes empresas, o que lhe garantia uma vida confortável, embora não fosse rico.

Mas, como era de se esperar, isto também fez dele um homem muito solitário, pois frequentemente se desligava do que as pessoas à sua volta estavam conversando e, quando tentava voltar ao assunto, não conseguia mais acompanhar a conversa. As pessoas não gostam de quem não presta atenção ao que elas estão dizendo. Esse foi certamente um dos principais motivos que o levaram a viver sozinho em seu apartamento. Apesar de ter sido casado por quase vinte anos, a mulher vivia reclamando que ele era excessivamente distraído e ausente, até que não aguentou mais e foi embora. Os dois filhos adolescentes a acompanharam e Eufrásio ficou definitivamente só.

Um dia, depois de passar horas no escritório de seu apartamento fazendo cálculos complicadíssimos, ele foi à cozinha procurar algo para comer. Sabia que não haveria muitas opções, pois costumava comprar a comida pronta, então foi direto para o armário que havia ao lado da geladeira, onde guardava biscoitos. Ainda com o cérebro agitado pelos cálculos que acabara de fazer, abriu o armário e fez um movimento automático para retirar o pote de vidro.

Mas, naquele dia, o recipiente escorregou de suas mãos. Instintivamente, Eufrásio tentou agarrá-lo. Entre pegar o pote, deixá-lo escapar e interceptá-lo no ar, fez um movimento quase acrobático, evitando que o frágil recipiente se espatifasse no piso da cozinha. Ao final da manobra, surpreendeu-se com a própria agilidade e percebeu que estava sentado no chão, abraçado ao pote de biscoitos e com as costas apoiadas na porta da geladeira.

Ficou parado ali. Sorriu um pouco e pensou em quantas vezes já havia retirado aquele pote de biscoitos daquele mesmo armário e tornado a colocá-lo no lugar. Lembrou que a cada vez que fazia aquele movimento aumentava a probabilidade de deixá-lo cair.

– É razoável que isto tenha ocorrido hoje. Afinal, já são tantos anos fazendo isso quase todos os dias…

Disse isso em voz alta e percebeu que não recordava há quantos anos aquele pote de vidro estava em seu armário. Lembrava, sim, que ele estava lá desde o tempo em que ainda era casado. Já naquela época tinha o hábito de ir à cozinha comer biscoitos quando fazia intervalos em seus cálculos. A esposa tinha o cuidado de deixar o recipiente sempre abastecido com seus biscoitos favoritos. No dia que ela avisou que estava indo embora, ele olhou para o calendário e calculou o tempo que haviam passado casados: 7.265 dias. Mais quarenta dias e teriam completado vinte anos juntos.

Essa era mais uma de suas manias. Calcular o tempo em dias. Bastava que alguém dissesse duas datas e ele calculava a quantidade de dias do intervalo. Sem caneta, sem papel, sem calculadora. Sua velocidade e precisão impressionavam. A capacidade de memorizar datas também. Podia esquecer o nome de uma pessoa, mas não a data de seu nascimento. Era comum parabenizar os amigos dizendo quantos dias eles já haviam vivido. Alguns se divertiam com isso, outros achavam chato.

Ainda sentado no chão da cozinha, Eufrásio lembrou-se do processo de separação e da partilha de bens. Apoiou o pote de vidro nas pernas e falou como se o objeto pudesse ouvir:

– É, meu amigo… Você e eu fomos das poucas coisas que ela não quis levar… Agora já estamos aqui há… – pensou um pouco – 3.543 dias fazendo companhia um ao outro, embora eu deva reconhecer que você cuida mais de mim que eu de você…

Após dizer isso, pôs o recipiente ao seu lado e tentou se levantar, mas não conseguiu. Faltaram-lhe as forças. O corpo parecia entorpecido, dormente, apesar de as idéias estarem extremamente claras. Decidiu aguardar um pouco antes de tentar se levantar novamente. Pôs o pote de biscoitos outra vez no colo e prosseguiu a conversa:

– Como eu lhe dizia: nesses 3.543 dias, servi-me de seus biscoitos aproximadamente duas vezes a cada dia; se considerarmos que tenho comido em média quatro biscoitos por vez, você já me serviu mais ou menos… 28.344 biscoitos… Não é pouca coisa, amigo. Muito obrigado.

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A QUASE TROCA DA BURRA “BONECA” PELA ÉGUA “RAPADURA”

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Imagem obtida em http://sites.google.com/site/salenguesaraiva/aguaeopotro.jpg

Certa vez meu amigo Samuel Facó me disse que o tempo do interior é diferente do da cidade. Não o tempo do relógio, mas o das coisas acontecerem. Apesar de todas as transformações causadas pela televisão, pelas antenas parabólicas e pela Internet, o ritmo é outro.

Por exemplo, quando Luiz de Pedro Gordo botou na cabeça a ideia de adquirir a égua “Rapadura”, a bichinha ainda estava amojada. Agora o potrinho já ia fazer três meses e nada de as negociações com Zé d’Albertina chegarem a bom termo.

Da última vez que haviam conversado sobre o assunto, Luiz propôs dar em troca de “Rapadura” e seu filhote a burra “Boneca”, uma cabra, e mais uma parte do milho que havia colhido na última safra. O negócio deixou de ser fechado por causa de uma saca e meia de milho.

Mas eu só soube disso quase dois meses depois, no dia em que encontrei Luiz de Pedro Gordo conversando com Samuel, no centro de Guaramiranga, uma cidade de clima muito agradável, no alto do Maciço do Baturité, no interior do Ceará.

Era um final de tarde de sexta-feira, em um feriado de Tiradentes, e os dois estavam combinando uma cavalgada para o dia seguinte. Parei para cumprimentá-los e fiquei prestando atenção à conversa:

– A gente podia passar lá na propriedade do Zé Bicudo. – sugeriu Luiz – Eu tava querendo ver se dessa vez dá certo o negócio da “Rapadura”…

– Aquela alazãzinha que tá com cria? – perguntou Samuel, demonstrando que já conhecia o animal e o interesse do amigo por ele.

– É. Acho que dessa vez eu trago ela.

– Então vamos lá! – concordou Samuel, animado com o passeio. E dirigindo-se a mim – Vamos também! Você pode montar o “Topete” ou a “Gal”. O “Topete” é mais disposto, só que é muito genioso. Já a “Gal”, não tem o preparo físico dele, mas é uma lady…

Samuel é uma dessas pessoas nascidas e criadas na cidade, mas que adora o interior. Certa vez me contou que, quando criança, costumava passar férias na fazenda de uns tios, em pleno sertão cearense, e reclamava muito quando tinha que voltar para a capital. Depois de adulto, afastou-se do campo e fez faculdade de Direito, mas, logo que conseguiu ganhar algum dinheiro como advogado, comprou o sítio Santa Clara e há mais de dez anos dividia a semana em duas partes: de segunda a quinta, entre o fórum e o escritório; de sexta a domingo em seu refúgio, no alto da serra. É fácil ver como se sente à vontade ali, entre cavalos e carneiros; como conhece o tempo de plantar e o de colher e até adivinha se alguma chuva se aproxima.

Naquela tarde de sexta-feira, não havia como recusar o convite que me fez para a cavalgada. Ficou combinado que partiríamos do Sítio Santa Clara no dia seguinte, às seis da manhã, descendo a serra e seguindo pelo sertão, em direção ao Município de Caridade. Descansaríamos um pouco na propriedade de Zé Bicudo – que era o mesmo Zé d’Albertina – e voltaríamos à tarde. Antes de anoitecer já deveríamos estar de volta a Guaramiranga.

Mas, depois que Luiz de Pedro Gordo foi embora, Samuel me advertiu:

– A cavalgada tem tudo pra ser boa. Difícil é acreditar que eles vão fechar esse negócio da égua.

– Será? – estranhei – O Luiz parecia tão interessado…

Samuel explicou:

– Interessado ele está, mas o tempo para eles decidirem as coisas é diferente do que a gente está acostumado.

– Como assim?

Samuel explicou tudo. Foi nessa ocasião que me contou a história da negociação a respeito da égua “Rapadura” e de como cada um ficava cercando o outro, sem querer demonstrar interesse demais em fazer a troca, mas sem eliminar as possibilidades de fazê-la. Depois avaliou:

– Eu acho que, de certa forma, é um jeito de eles se manterem preocupados com alguma coisa, porque a vida no interior é boa, mas é meio monótona. Tu vais ver amanhã.

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KAMANDIR: O HOMEM, A ÁRVORE E O SÍMBOLO

(Командир: Мужчина, Дерево и Символ)

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Muitos anos antes da chegada dos primeiros batedores romanos à região, a Bessarábia era ocupada por vários povos, dentre eles os Mírnyis, que viviam da agricultura e da pecuária nas encostas e vales dos Montes Cárpatos.

Apesar de evitarem expedições de conquista de territórios e povos vizinhos, os Mírnyis eram guerreiros valorosos quando precisavam defender sua terra e suas famílias. Eles mostraram isso quando foram atacados pelos temidos Zavatskis, que vinham dos Bálcãs saqueando aldeias e dizimando as tribos que tentavam enfrentá-los.

Liderados pelo grande Kamandir, os Mírnyis demonstraram impressionante tenacidade ao fazer os Zavatskis recuarem cada metro que haviam penetrado em seu território. Os invasores, percebendo que não tinham condições de dominar os valentes habitantes dos Montes Cárpatos, desistiram e retornaram por onde tinham vindo. Vencidos, foram perseguidos pelos Mírnyis até estes se sentirem seguros de que estavam livres daquela ameaça.

O que os Mírnyis não sabiam era que os Zavatskis tinham como aliado o bruxo Niekarov, que havia vivido muitos anos em território Mírnyi, mas tinha sido expulso dali depois que Kamandir descobriu que o feiticeiro estava usando seus poderes para implantar a discórdia entre as tribos de seu povo, lançando-as umas contra as outras.

Kamandir não era um feiticeiro, mas sabia usar o poder de sua mente para neutralizar ataques de magia. Assim, sabendo que nada podia fazer contra o líder dos Mírnyis, Niekarov teve que aceitar o banimento. Encontrou asilo bem longe dali, passando a viver entre os Zavatskis e chegando a se tornar conselheiro de seu rei, o influenciável Bedutsko.

Foi a partir de quando conquistou a condição de conselheiro de Bedutsko que Niekarov, pensando em se vingar de Kamandir, convenceu o rei dos Zavatskis de que ele estava predestinado a dominar toda a Bessarábia.

O projeto de conquista da Bessarábia pelos Zavatskis fracassou, mas Niekarov tinha seus próprios planos. Durante o tempo em que viveu nos Bálcãs, havia estudado novas técnicas de magia e ficou aguardando uma oportunidade para usá-las na execução de sua vingança.  Assim, enquanto os Mírnyis combatiam os Zavatskis, Niekarov escondeu-se atrás de algumas rochas e lançou suas vibrações maléficas contra Kamandir.

Naquele momento, aparentemente, nada aconteceu. A luta continuou e os Zavatskis foram expulsos dos Montes Cárpatos. O próprio Niekarov acreditou que mais uma vez seus poderes tinham falhado contra as defesas mentais de Kamandir, mas a verdade é que o líder dos Mírnyis sentiu que fora atingido por uma força estranha. As consequências do ataque surgiriam algum tempo depois.

Após a batalha, os guerreiros Mírnyis voltaram para seus lares e foram recebidos com grande festa pelo povo. Kamandir foi carregado pela multidão e todos o reconheciam como o grande herói que os liderou naquele confronto. Alguns dias mais tarde, os mesmo homens que haviam lutado contra os Zavatskis retomaram suas atividades em suas plantações e na criação de seus rebanhos.

Aos poucos a vida voltava ao normal para todos, menos para Kamandir, que passou a sentir suas forças se esvaírem. No começo, perdeu o ânimo para fazer os trabalhos mais pesados, depois, foi ficando sem disposição até para as tarefas mais simples. Não tinha mais apetite, emagreceu, dormia quase o dia todo. Quando estava desperto, sentia dores por todo o corpo.

A esposa de Kamandir, chamada Jenítsa, e suas filhas, Maladótskia e Staradótskia, desdobravam-se em cuidados, mas nada lhe devolvia a saúde nem tampouco a vitalidade. Chamaram o curandeiro da aldeia, mas mesmo ele não soube o que fazer.

Um dia, a jovem Maladótskia foi servir uma sopa ao pai enfermo e ele simplesmente não acordou. Vendo que ele ainda respirava, ela o chamou insistentemente. Jenítsa e Staradótskia ouviram e correram para ajudar, mas nada tirava Kamandir daquele sono profundo.

Desesperada, Maladótskia correu para fora de casa pedindo ajuda. Um homem que passava entrou na casa para ajudá-las e percebendo que nada poderia fazer, disse:

– Conheço um homem que pode ajudar: o mago Pamagat.

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OS CINCO SENTIDOS

 

 (para Natália Guberev)

Com os meus cinco sentidos
Percebo a natureza
Boca, olhos e ouvidos
Pele e nariz na certeza
De captar o sabor
A beleza, o odor
A textura, a melodia
Das coisas que a cada dia
Eu encontro em minha vida,
E da mulher tão querida,
Que me enche de alegria.

O PALADAR

Existem muitos sabores
Pra agradar o paladar
Bebidas finas, licores,
Vinho tinto e caviar.
Mas nada tem o sabor
Dos beijos do meu amor
Quando vem e me abraça.
Com os braços me enlaça
Encosta seu corpo ao meu
E eu pergunto: quem sou eu
Pra merecer essa graça? 

A VISÃO

Fazendo a comparação
De onde há mais beleza
Na água, no ar, no chão,
Em toda a natureza
Nunca vi coisa tão bela
Como o sorriso dela
Da minha doce amada.
Ela vem tão delicada
E fala ao meu ouvido:
És meu príncipe querido
Eu quero ser tua fada.

A AUDIÇÃO

A música nos alcança
Por meio da audição
Pelos ouvidos avança
Pra chegar ao coração.
Mas o som que mais me agrada
É a voz da minha amada
Quando fala ao meu ouvido.
Cada sussurro ou gemido,
Cada agudo e cada grave
É uma nota suave
Me deixando embevecido.

O TATO

O tato é que nos revela
Na escuridão mais escura
Do veludo e da flanela
A maciez e a textura.
Mas não há tecido ou fio
Que possa ser mais macio
Que a pele da minha amada.
Fica comigo abraçada
Se transforma em cobertor
E o frio vira calor
No meio da madrugada.

O OLFATO

Num jardim com muitas flores
É grande a diversidade
De essências e odores
De toda variedade
Mas não existe uma flor
Com o cheiro do meu amor
Quando vem pra minha cama.
Vem falando que me ama
E me diz suavemente:
Tu és a centelha quente
Que acende a minha chama.


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A MANICURE

manicure

Em uma coisa todos os que faziam parte daquele grupo de amigos concordavam: se havia alguém dentre eles que podia ser considerado um bom marido, essa pessoa era o Armando.

Perto de fazer cinquenta anos de idade e com quase vinte de casamento, todos o reconheciam como um exemplo de dedicação à família. Tomava lá suas cervejas com os amigos, assistia seu futebol aos domingos, mas evitava qualquer excesso que incomodasse Sofia, a esposa. Mesmo no sábado à tarde, quando costumava encontrar os amigos em um bar próximo a sua casa, era comedido. Bastava ter algum compromisso social agendado para a noite que nem tocava na loura gelada.

– Vai uma cervejinha hoje não, Armando? – perguntava um amigo.

– Não, rapaz. Hoje vou a um aniversário com a Sofia, e ela não gosta que eu já chegue à festa com cheiro de álcool. Talvez eu até beba alguma coisa lá, mas agora não…

E não adiantava insistir. Todos sabiam que ele não faria nada que a desagradasse. Não que Sofia fosse o tipo de mulher mandona ou briguenta. De jeito nenhum. A esposa do Armando era uma pessoa tranquila, educada, com o sorriso sempre à disposição de todos. Seu semblante sereno deixava transparecer sua satisfação com a vida que levava ao lado do marido e da filha de dezoito anos.

Os amigos admiravam o casal. Frequentemente comentavam entre si o quanto gostariam que seu casamento tivesse aquela harmonia, embora reconhecessem que lhes faltava dedicação para tanto.

– Também, amigo, o Armando sabe até o dia do aniversário da sogra! Aí a mulher tem que agradecer mesmo a Deus por um marido desses – brincava um.

– Não apenas sabe o dia do aniversário da sogra, como telefona para a velha todo ano, parabenizando, sem a Sofia pedir! – completava outro.

Mas Armando tinha um segredo que, se viesse a ser descoberto, certamente faria ruir toda essa imagem de bom marido, construída ao longo de quase duas décadas. O fato era conhecido apenas por dois ou três de seus amigos mais íntimos, mas a verdade é que ele apreciava, e muito, encontros com garotas de programa.

Isso mesmo: Armando era assíduo contratante dos serviços prestados por prostitutas. Não tinha amante, não dava em cima de outras mulheres, nem permitia que elas se aproximassem dele com segundas intenções, mas não conseguia completar sequer um mês sem uma aventura com uma profissional do sexo. E não era porque houvesse perdido o interesse sexual por Sofia, que, aliás, era uma bela mulher, aparentando bem menos que os quarenta e dois anos de idade que tinha.

A questão era que Armando sempre fora – como se diz no Ceará – um “raparigueiro fino”. Mesmo tendo as melhores intenções na época em que casou, não conseguiu largar o vício. No começo do casamento, até tentou, mas logo viu que não seria possível. Aos poucos foi ficando nervoso, impaciente, grosseiro até. Um dia, viajou a trabalho e não resistiu à tentação de chamar uma jovem para atendê-lo no hotel. Naquela mesma noite recuperou o bom humor e o antigo hábito.

De certa forma, esse foi o principal motivo que o levou a se tornar um marido extremamente dedicado. Incapaz de abandonar suas experiências extraconjugais, tentava ser perfeito em todos os outros quesitos pelos quais pudesse ser avaliado pela esposa. Passou, assim, a memorizar todas as datas importantes, a prestar atenção quando a esposa mudava alguma coisa no cabelo e a lhe dar presentes fora de qualquer data comemorativa. Só não conseguia ficar muito tempo sem um programinha com alguma jovem previamente contratada.

Se no começo do casamento essa conduta lhe acarretou algum drama de consciência, à medida que o tempo foi passando, Armando foi se adaptando a esse estilo de vida. Com quase vinte anos de prática em dar suas escapadas, sentia-se realmente feliz e acreditava que suas aventuras não ameaçariam o bem de estar de sua família. Para tanto, era extremamente cuidadoso em manter o sigilo de seus encontros. A lista de contatos com as agências de acompanhantes era guardada a sete chaves em seu escritório, mesmo assim, todas as anotações eram codificadas, misturadas a números de telefones de mecânicos de automóveis, técnicos de ar-condicionado e outros profissionais. O sistema de álibis utilizados para encobrir seus sumiços periódicos era praticamente perfeito.

Foi assim que, durante anos, Armando foi tocando a vida, até o dia em que cometeu um pequeno deslize e viu a situação escapar ao seu controle.

-*-

Era uma tarde de sexta-feira quando Armando simulou uma visita a um cliente e foi para mais um de seus encontros secretos. A jovem com quem se encontrou naquele dia era uma garota de programa bonita e simpática, que usava o codinome Sheila. Era muito esperta e ambicionava montar o próprio negócio no ramo em que trabalhava.

Depois de se lambuzarem bastante – como diria Chico Buarque de Holanda – os dois estavam deitados, conversando, quando ela iniciou a investida para atraí-lo para sua incipiente agência de acompanhantes:

 

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O PORTAL

 

 (Em homenagem a Dante Alighieri, que daqui a mais ou menos um mês faria 745 anos)

Esta é uma obra de ficção. Apenas os autores e obras nela citados são verdadeiros, assim como os textos transcritos são fiéis. Mas, se fosse verdade, quem acreditaria?

*

A melhor explicação que encontrei foi ter sido tudo um sonho. Não que seja uma explicação razoável – na verdade, acho que não é – mas me falta outra que não leve o caso mais ainda para o campo do fantástico ou do maravilhoso.

Aconteceu quando eu voltava do trabalho em um dia no qual não acontecera nada de especial. No caminho para casa, enquanto dirigia, ouvia a FM Universitária. Lembro que tocava uma música do Belchior:

“Estava mais angustiado
que um goleiro na hora do gol…”.

Quando faltavam apenas algumas quadras para chegar ao edifício onde moro, percebi o semáforo mudando do amarelo para o vermelho. Mas senti como se aquilo acontecesse em uma velocidade diferente da normal, mais lenta, como se não fosse uma lâmpada apagando e outra acendendo, e sim um líquido oleoso passando de um farol para outro, fazendo com que a luz mudasse de lugar e de cor. A música continuava:

“Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito eu não vou ser feliz direito…”.

Foi naquele momento que olhei para frente e percebi que já não estava na rua da minha casa. Esperei o sinal abrir e vi novamente a luz escorregar de um farol para o outro, agora ficando verde. Engatei a primeira marcha e segui adiante, mas já percebendo que eu nunca havia estado naquele lugar antes.

Onde deveriam estar os edifícios vizinhos àquele onde moro, havia árvores enormes. No lugar do asfalto velho e carcomido da minha rua, uma pavimentação azul escuro, macia como um tapete, fazendo parecer que o carro flutuava. Tudo era belo, tudo era suave. Eu me sentia como se entrasse em uma paisagem retratada por algum pintor famoso. Só a música do Belchior que tocava no rádio era a mesma:

“Quero morar no teu céu,
Pode ser no teu inferno.
Viver a divina comédia humana
Onde nada é eterno”.

Segui adiante e vi que me aproximava de uma cidade. Não uma cidade como aquelas às quais estou acostumado, com poluição, barulho e engarrafamentos, mas um lugar tranquilo, onde casas, carros e pessoas estavam em tal harmonia que, só de estar ali, meu coração se enchia de paz e serenidade.

 

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UMA MULHER, UM NOCAUTE!

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http://www.awesomehq.com/sports/james-buster-douglas/.

No dia 11 de fevereiro de 1990, James “Buster” Douglas, um boxeador até então praticamente desconhecido, surpreendeu o mundo: venceu o aparentemente imbatível Mike Tyson, detentor dos títulos mundiais de pesos pesados dos três principais organismos internacionais do boxe.

Tyson era um fenômeno. Destruía os adversários que encontrava pela frente. Suas lutas eram garantia de estádios lotados e picos de audiência na TV.

Mas, como a luta com Douglas aconteceu no Japão, muita gente no Brasil ficou sem assistir, por causa do fuso horário. Foi o que ocorreu comigo: fui a uma festa naquela noite de sábado e só no domingo pela manhã fiquei sabendo do resultado. Apaixonado que sempre fui pelo boxe, lamentei não ter visto o combate.

Calhou, porém, de acontecer que, no dia seguinte, eu passava pelo calçadão da Rua Liberato Barroso, no centro de Fortaleza, quando vi a luta sendo exibida em um televisor, na vitrine de uma loja de eletrodomésticos. A venda de videocassetes no Brasil estava em plena expansão, então o gerente havia gravado a luta e a estava exibindo como forma de atrair clientes.

Naquele tempo, eu era bancário e trabalhava das doze às dezoito horas, com quinze minutos de intervalo para o lanche. Havia saído para fazer uso dessa pausa, quando me deparei com a chance de ver a luta que havia perdido no fim de semana. Fiz um rápido cálculo da relação custo-benefício de me demorar por ali e decidi: ficaria sem meu repasto e ainda voltaria atrasado para o trabalho, mas veria a queda de Tyson. Afinal, em um tempo em que não tínhamos acesso a facilidades como TV a cabo e YouTube, quando é que eu teria oportunidade de ver aquela luta de novo?

Havia mais gente interessada em ver os dois lutadores trocando jabs, ganchos e cruzados. Logo se formou um grupo de espectadores na frente da vitrine. Embora naquele ponto do calçadão houvesse apenas um banco de praça, que não comportava mais que três pessoas, cada um ia se acomodando como podia. Dois jovens sentaram-se no chão, à frente do dito banco, enquanto outros três encostaram-se a um cesto de lixo. A maioria contava apenas com o apoio das próprias pernas. Com muito jeito, consegui um lugar escorado ao tal banco de praça, de três lugares, no qual, àquela altura, já estavam sentados cinco rapazes.

À medida que a luta continuava, muitas pessoas paravam para ver o que estava acontecendo, mas logo seguiam adiante. Apenas alguns homens, principalmente os mais jovens, é que acabavam ficando para ver o final. De qualquer modo, a cada round, o grupo de telespectadores aumentava.

Perto do final do oitavo assalto, já éramos mais de vinte. Um office-boy desatento cometeu o erro de passar entre nós e a vitrine, bem na hora em que Douglas pressionava Tyson contra as cordas. O protesto foi geral:

 

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GALOPES

belezanegra
Imagem obtida em http://www.imotion.com.br/imagens/details.php?image_id=432

Esta é de quando lancei meu primeiro livro: “Uma sentença, uma aventura e uma vergonha”.

Todos os cordéis estavam reunidos e ordenados, mas senti que faltava um para fechar, então escrevi a

DESPEDIDA EM GALOPE E QUINTOS GALOPADOS À BEIRA-MAR

Cheguei finalmente
Ao que pretendia.
A minha poesia
Agora é decente.
Eu fico contente,
Pois vou publicar
Esse meu cantar,
Um livro formando.
E vou galopando
Na beira do mar.

Um livro é um filho que a gente cria,
Educa e prepara, com todo carinho,
Mas quando ele cresce, é que nem passarinho,
E voa pra longe, como eu fiz um dia.
Mas, sempre é motivo pra nossa alegria,
Saber que distante, em outro lugar,
O sucesso dele vem nos orgulhar.
Assim, não podendo voar o seu vôo,
Meu livro, meu filho, pra sempre abençôo,
Cantando galope na beira do mar.

Vai, filho querido,
Cumprir tua missão.
O meu coração
Não está ferido.
Estou convencido
Que tu vais brilhar.
Tu vais a voar,
Por ti fico orando,
E vou galopando
Na beira do mar.

 

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OS DOIS SOLDADOS

soldados

(Este cordel é dedicado ao meu filho Álvaro, que aos sete anos de idade disse a frase que me inspiraria a escrever toda essa história e, atualmente com nove, já é para mim um grande companheiro quando tenho que enfrentar nas batalhas da vida)

Foi William Shakespeare
Quem escreveu certo dia
Que existem bem mais mistérios
Entre o céu e a pradaria
Do que possa explicar
Ou ao menos suspeitar
Nossa vã filosofia.

Lembrei desse pensamento
Em outro cordel que fiz,
Quando adaptei um conto
De Machado de Assis,
E o caso que eu vou contar
Vem de novo confirmar
Essa frase que se diz.

Ocorreu que numa tarde
De um domingo ensolarado,
Fui a um grande hospital,
No qual estava internado
Um antigo amigo meu
Que um acidente sofreu
E tinha sido operado.

Da moto que pilotava
O rapaz tinha caído.
Ficou todo arranhado,
Bem machucado e ferido,
Quase que não escapava
Mas já se recuperava
Desse acidente sofrido.

Quando entrei na enfermaria
Percebi, que do seu lado,
Havia uma outra cama
E nela um homem deitado.
Chamou a minha atenção
Ver que aquele cidadão
Estava todo enfaixado.

Prossegui minha visita,
Fiquei ali conversando,
A história do acidente
Meu amigo foi contando.
Enquanto ele conversava,
O seu vizinho ficava
Sempre nos observando.

Percebendo aquele homem
Querendo participar
Da conversa, resolvi
Com ele também falar.
Perguntei: “E tu, amigo?
O que aconteceu contigo?
Como foi se machucar?”

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UM TRABALHO COMO O DO SENHOR…

(Da série “Contos e Crônicas do Poder Judiciário”)

Em 2006 eu era juiz titular da única vara federal de Mossoró. Na época, havia ali mais de quinze mil processos em andamento, cuja responsabilidade compartilhava com o juiz substituto da vara, que de substituto tinha só o nome, pois na Justiça Federal os processos são divididos meio a meio entre os dois juízes.

Nossa jurisdição abrangia sessenta municípios circunvizinhos e, por causa disso, centenas de novos processos começavam a cada mês, a maioria relativa a questões enquadradas como sendo de competência do Juizado Especial Federal, aquelas cujo valor da causa não ultrapassa sessenta salários mínimos.

Não sei se nos Juizados Especiais dos Estados do Sul-Sudeste do Brasil é assim, mas em uma cidade do interior do Nordeste, como é o caso de Mossoró, no extremo oeste do Rio Grande do Norte, é espantoso como para ali acorrem, diariamente, miseráveis de todos os níveis abaixo da linha da pobreza. Vão em busca de uma aposentadoria rural, um auxílio doença, uma pensão por morte ou um benefício assistencial, também chamado de LOAS. Gente que chega cedo, trazida em ambulâncias cedidas pelos prefeitos das cidades vizinhas, estampando no rosto uma fome que parece não se conter em seus estômagos. Arrumam-se por ali e ficam aguardando sua vez de serem chamados para entrar na sala onde será decidida sua sorte. Ao final da tarde, dez audiências se realizaram. A maioria delas termina com uma sentença ou um acordo. Antes disso, as perguntas e as respostas são quase sempre as mesmas:

- A senhora trabalha em quê?

- Agricultura.

- Planta o quê?

- Milho, feijão…

- Desde quando?

- Dêrna deu minina.

E por aí vai. Algumas vezes é verdade, outras não. Dos documentos apresentados, em geral, pouco se aproveita. São declarações de vizinhos de quem não se sabe o paradeiro, recibos sem identificação, papéis que, se não atrapalham, também não ajudam a esclarecer muita coisa. Contratos de parceria rural fabricados às vésperas do pedido do benefício, freqüentemente comparecem aos autos, com firma reconhecida e tudo o mais. Com o contrato nas mãos, o juiz pergunta:

- A senhora trabalha nas terras de quem?

 

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