Mundo Cordel
THIAGO DE MELLO – 90 ANOS

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Hoje, 30 de março de 2016, o poeta Thiago de Mello completa 90 anos de idade.

Já tem um tempo que escrevi esses versos em sua homenagem, incentivado por Flávio Martins, editor de alguns de meus livros.

A ideia inicial era publicá-los em um livro sobre o poeta, mas fixei a data de hoje como limite: se o livro não ficasse pronto, postaria o texto no Mundo Cordel. Na íntegra.

O texto é esse.

Thiago de Mello e “Os Estatutos do Homem” – Marcos Mairton

Thiago de Mello é,
da palavra um artesão,
transformando em poesia
o barro que sai do chão,
Colhendo da natureza
versos de grande beleza
que nos tocam o coração.

Natural de Barreirinha,
nessas terras brasileiras,
sua arte ganhou o mundo,
e, além de nossas fronteiras,
Os seus poemas são lidos,
muitos deles traduzidos
para línguas estrangeiras.

Pois a obra de Thiago,
Tem sabor universal
Sem perder o bom tempero
da cultura regional,
do lugar onde nasceu,
da floresta onde cresceu,
da planta e do animal.

“Eu sou filho da floresta”,
Thiago é quem anuncia,
“O meu coração é feito”
– disse ele, certo dia –
“todo de água e madeira.
Na correnteza ligeira
vou buscar minha energia”.

Amante da liberdade,
por ela tendo paixão,
Thiago não poderia
conviver com a repressão.
E em uma era obscura,
o poder da ditadura
o mandou para a prisão.

Após deixar a prisão,
o poeta se exilou
em países estrangeiros
onde abrigo encontrou.
Longe da terra natal,
Argentina e Portugal
são lugares onde andou.

Na Alemanha e na França
o poeta residiu,
num tempo em que não podia
retornar para o Brasil.
No Chile encontrou ajuda
E o grande Pablo Neruda
sua obra traduziu.

Com o fim da ditadura
Thiago retornaria
Ao Brasil, e na Amazônia,
É onde vive hoje em dia.
E assim segue criando,
No mundo vai semeando
O amor e a poesia.

Dentre os seus belos poemas,
Que encantam tanta gente,
“Os Estatutos do Homem”
Expressam magistralmente
O Direito Natural
Em “Ato Institucional
de caráter permanente”.

Thiago, grande poeta,
Peço a ti que me permitas
Dizer do meu jeito as coisas
Que por ti já foram ditas,
Pois em meus versos matutos,
As regras dos “Estatutos”
Podem ser assim escritas:

“Os Estatutos do Homem”, em Cordel

Artigo I

Uma regra inafastável
Fica estabelecida:
Que vale agora a verdade,
Que agora vale a vida.
De mãos dadas marcharemos,
Todos juntos seguiremos,
Numa marcha destemida.

Artigo II

Fica também decretado
Que é possível transformar
Qualquer dia da semana
Num domingo em frente ao mar.
E até nas terças-feiras
Haverá mil brincadeiras
E razões pra se alegrar.

Artigo III

Fica decretado que
Nas casas, em todas elas,
Existirão girassóis
Enfeitando as janelas.
Girassóis e outras flores,
Numa explosão de cores
Azuis, brancas, amarelas…

E, mesmo dentro das casas,
Onde o sol não os alcança,
Girassóis abrir-se-ão
Em misteriosa dança.
E, ao ver seu movimento,
Logo soprará o vento,
Mensageiro da esperança.

Artigo IV

Fica também decretado
Que o homem não terá
Que duvidar mais do homem
E nele confiará,
Tal qual a noite confia
Que lhe seguirá o dia
e o sol logo brilhará.

Parágrafo único:
Um homem confiará noutro
Como a palmeira confia
no vento, que vem do mar,
e a ela acaricia.
Ou meninos que, sem medo,
Compartilham um brinquedo
Com inocente alegria.

Artigo V

É decretado que os homens
já não são submetidos
ao domínio da mentira,
Nem lhe darão mais ouvidos.
Silêncios não servirão –
Como escudos de omissão –
a rancores escondidos.

Com o olhar calmo e limpo
O homem irá à mesa
e ao jantar partilhará
com os outros a certeza
que é parte da sua vida
a verdade vir servida
precedendo a sobremesa.

Artigo VI

A partir deste momento,
Fica também decretado
Que o profeta Isaías
terá seu sonho alcançado:
de ver lobos e cordeiros
como velhos companheiros,
caminhando lado a lado.

E juntos caminharão
viajando mundo afora,
Partilhando o alimento,
pois, a partir de agora,
um só prato os servirá
e sua comida terá
um doce sabor de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável
Fica estabelecido,
que a Justiça reinará
por um tempo indefinido.
E a bandeira da alegria
tremulará noite e dia
Com destaque garantido.

Artigo VIII

Fica decretado que,
de todas, a maior dor
sempre foi e será sempre
não se poder dar amor.
E, assim, sem poder amar,
ver e não se emocionar
com o desabrochar da flor.

Artigo IX

É permitido que o pão
a cada dia obtido
tenha a marca indelével
do suor nele vertido.
E que tenha o sabor quente
da ternura que se sente
pelo filho mais querido.

Artigo X

Fica decretado que
Será sempre permitida,
A cada um, a escolha
Da sua roupa preferida.
E o traje branco será
Veste que se adequará
A qualquer hora da vida.

Artigo XI

É decretado que o Homem
se define, em essência,
como um animal que ama,
é mais amor que ciência.
E esta sua natureza
É a causa da beleza,
De toda sua existência.

Artigo XII

Decreta-se: nada é
Obrigado ou proibido,
E, a partir de agora,
será tudo permitido:
brincar com rinocerontes
ou correr por sobre as pontes,
sem um rumo definido;

E caminhar pelas tardes
Ou sentar-se na janela
com uma imensa begônia
Enfeitando a lapela;
Caminhar pela cidade
Respirando a liberdade
Que também faz parte dela.

Parágrafo único:
Uma conduta será
Para sempre abolida,
E, por isso, ficará
Totalmente proibida:
é o amar sem amor,
pois seria como a dor
de se viver sem ter vida.

Artigo XIII

Decreta-se que o dinheiro
comprar não mais poderá
O sol das manhãs vindouras;
Sol que sempre brilhará
Sobre os campos mais formosos
E com raios generosos
A todos aquecerá.

E o dinheiro então será
Para sempre transformado
Em espada fraternal,
Somente sendo usado
Na defesa do direito
De cantar, a pleno peito,
Canções do amor musicado.

Artigo Final.

Fica proibido o uso
da palavra liberdade,
porque já não haverá
a menor necessidade
de ser dita ou ouvida,
pois será sempre sentida
como doce realidade.

A liberdade será
algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
com sua água corrente.
E terá sua morada
Para sempre alicerçada
bem no coração da gente.

* * *

Clique aqui para ler o texto original de “Os Estatutos do Homem”: 

Publicado também no Mundo Cordel. Clique na imagem abaixo para visitar o site:

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Mundo Cordel
ENTRE QUALQUERCOISISMOS E QUALQUERCOISISTAS

Faz tempo que tenho um pé atrás com os sufixos ISMO e ISTA. É que eles me causam a impressão de que, ao ingressar em um grupo que se reúne em torno de alguma coisa, e cujo nome termina em ISMO, acabo limitando o meu próprio modo de ver essas coisas. Assim, ao invés de defender ideias que acredito minhas, passaria a defender o modo de pensar acolhido pelo grupo ao qual estaria vinculado.

Em suma, evito participar de qualquer coisa que gere qualquercoisismo, porque me incomoda a possibilidade de ser um qualquercoisista.homem_com_bandeira

Talvez isto ocorra porque valorizo muito a liberdade, e, sendo um qualquercoisista, minha própria maneira de pensar já não seria livre. Certamente seria mais difícil mudar de ideia. Passariam a exigir de mim coerência com o qualquercoisismo. Elogiar pontos positivos de algum outracoisismo – antagônico ao qualquercoisismo – poderia ser considerado pelos outros qualquercoisistas uma heresia:

– Que tipo de qualquercoisista você é? – indagariam com ar de reprovação.

Acho que comecei a me reconhecer portador dessa resistência nos primeiros semestres da faculdade de Direito, nos idos de 1986, quando vi pessoas confrontando juspositivismo e jusnaturalismo. Notei certo desdém dos juspositivistas em relação aos jusnaturalistas (“são uns sonhadores…”); e certa repulsa dos jusnaturalistas em relação aos juspositivistas (“têm uma visão estreita…”).

Incapaz de escolher entre ser jusnaturalista ou juspositivista, segui meu caminho solitário. Sem dizer a ninguém da minha decisão, para não ser marginalizado por uns nem por outros. No fim das contas, eu queria só estudar o Direito, aprender o que pudesse sobre ele.

Mas nunca sonhei ser um jurista. Nem civilista, nem constitucionalista, nem penalista. Houve, sim, um tempo em que me encantei com o Direito Tributário, e quase almejei ser tributarista, mas foi um sentimento que passou logo.

Não, eu não estou desdenhando dos juristas. Eles são muito importantes. Apenas acho que o jurista emite opiniões apoiadas em uma visão jurídica do mundo, e prefiro ficar livre para ver o mundo a partir de outras visões (embora o Direito esteja profundamente enraizado em meu ser).

Reconheço que essa resistência ao qualquercoisismo tem desvantagens. Fica difícil participar de movimentos reivindicatórios, culturais ou mesmo beneficentes. Uma simples conversa de bar às vezes se complica:

– Afinal, você é esquerdista ou direitista?

– Nem uma coisa nem outra. E, por favor, não pense que sou centrista.

– Tá de gozação? Virou piadista?

Em um grupo de WhatsApp, um amigo disse algo que me fez encerrar imediatamente a conversa:

– Assim você está sendo diversionista!

Parei de responder. Não sei bem o que é isso, mas não quero para mim.

Se o tema é religião, a situação é um pouco mais favorável: sou cristão. Mas, por favor, não me peçam para pregar o cristianismo. Nem o catolicismo, nem o protestantismo. Tenho simpatia pelo que leio em alguns livros espíritas, mas não me vejo filiado ao espiritismo.

E sigo assim. Resistindo ao que me parece ser uma tendência (talvez natural) das pessoas para classificar tudo, inclusive as outras pessoas. Algumas demonstram verdadeira necessidade de classificar a si mesmas.

Não sei se há algum mal nisso. Apenas não gosto.

Fico feliz ao me aventurar como escritor, mas não tenho qualquer preocupação em ser modernista, naturalista, contista, romancista…

É bem verdade que muitas vezes me apresentam como cordelista. Se escrever Literatura de Cordel faz de mim cordelista, que seja. Mas sem ficar amarrado aos cordões de um eventual cordelismo. Livre para ser poeta, compositor e o que mais a inspiração trouxer.

De qualquer forma, nesse contato com a arte, me sinto mais um artesão que um artista.

A par de tudo isso, para que o leitor não imagine que nessa minha postura haja algum radicalismo, ou tendência fetichista, termino com uma frase que contém tanto ISMO quanto ISTA:

“Seja você mesmo. E ainda que na vida você pareça estar dentro de um abISMO, não desISTA”.


Mundo Cordel
OS EXTRATERRESTRES SÃO OS OUTROS

Lembro de ter lido no Jornal da Besta Fubana um texto de José de Oliveira Ramos, que terminava com a frase: “É. Com certeza eu não passo de um E.T.!”.

Não escrevi em meu comentário, mas pensei: “Eu também. Muitas vezes me sinto um ET”. Isso foi em setembro de 2015.

Veio o ano de 2016 e fui ver um filme no cinema: “A Quinta Onda”. E – veja o leitor que ironia – no tal filme, os extraterrestres invadem a Terra e são chamados por nós de “os outros”.

Mal começou o filme e as palavras de José Ramos voltaram à minha lembrança, junto com a pergunta: “Afinal, os extraterrestres somos nós? Ou são os outros?”.ovnis

Depois de vários dias de reflexão, cheguei a uma conclusão. Que me desculpe o amigo José Ramos, mas ele não é um ET. Nem eu, nem ninguém que eu conheça. Os ETs são os outros.

Cheguei a essa conclusão, não porque o filme assim tenha mostrado, mas porque não posso crer que tenhamos tanto desprezo pelas regras de convivência que nós mesmos criamos.

É evidente que quem faz a bagunça toda são os outros.

Exemplificando, se nós criamos as filas nos bancos, as regras de trânsito, o dever de não fazer barulho nos horários de descanso, por que nós mesmos sabotaríamos essas normas?

Hoje mesmo, quando saí do meu apartamento, percebi que alguém estava segurando o elevador em um dos andares do prédio, fazendo-o demorar excessivamente. Ora, se todos os moradores do edifício sabem que os outros vizinhos também usam o elevador, é óbvio que quem estava segurando o elevador eram os outros!

Logo que saí à rua, percebi um carro estacionado em frente ao prédio vizinho, onde uma placa indicava que é proibido estacionar naquele local. Ficou claro que aquele carro fora deixado ali pelos outros.

Mais adiante, parado no engarrafamento, vi uma moto passar rápido, usando o espaço da ciclovia. Evidentemente que era pilotada por um dos outros.

Os outros – tanto no filme quanto na vida real – são muito semelhantes a nós em aparência. Iguais talvez. Mas parece que aproveitam essa semelhança exatamente para criar problemas para nós.

Misturam-se ao povo na rua e praticam todo tipo de crime. Agressões, assaltos, tráfico de drogas. Infiltram-se em nossas organizações públicas e privadas e disseminam todo tipo de desvio, desmando e corrupção.

De tal forma está comprovada essa verdade, que quando converso com pessoas conhecidas e mostro minha insatisfação com todas essas coisas, sempre ouço frases como: “A gente tenta fazer tudo direito, mas vem os outros e estragam tudo”; “Nesse trânsito louco, a gente tem que dirigir se defendendo dos outros”; “De que adianta eu eliminar os focos do mosquito, se os outros não fazem o mesmo?”; “O cara pode até entrar bem intencionado na política, mas aprende a roubar com os outros”…

É incrível. Raramente encontro um ser humano que assuma qualquer parcela de culpa pelo caos que toma conta de nossa sociedade. A culpa é sempre dos outros.

Se assim é – e é – só pode ser porque esses extraterrestres fingem ser humanos, como nós. Mas está claro que eles não são nós. Eles são os outros.

E, para não deixar dúvida de que estou certo quanto essa conclusão, nas raras ocasiões em que um ser humano confessa sua má conduta, ele justifica:

– Errei. Mas não fiz nada diferente dos outros.


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O CIDADÃO, A BALANÇA E A ESPADA

BALANÇA-ESPADA-JUSTIÇA

É grande a revolta dos homens de bem ao ver bandidos escapando impunes.

Ainda mais se não precisam evadir-se ou ocultar-se.

Se contam com uma legislação mal elaborada, processos lentos e julgadores apegados a uma interpretação da lei que a torna praticamente inútil.

Se apostam em um sistema interminável de recursos, que franqueia ao criminoso a pose de inocente, às vezes com seu veredito já tendo sido dado e confirmado.

Por isso, não surpreende que, ao ver os que se acham acima da lei a ponto de sofrerem as consequências de seus atos criminosos, o verdadeiro cidadão celebre esperançoso:

– Vai, Justiça! Desce a tua espada sobre esses malfeitores, que a balança já mostrou claramente o quanto o merecem!


Mundo Cordel
LEÕES, VEADOS E GESTORES

Certa vez, em um curso sobre gestão de empresas, um professor contou na sala de aula a seguinte história:

Em África todas as manhãs o veado acorda sabendo que deverá conseguir correr mais do que o leão se quiser se manter vivo.

Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deverá correr mais que o veado se não quiser morrer de fome.

Conclusão:

“Não faz diferença se você é veado ou leão, quando o sol nascer você tem que começar a correr.“

Obviamente que a breve narrativa tinha como objetivo servir de introdução para que o professor falasse da necessidade de os colaboradores de uma empresa terem iniciativa, começando suas atividades profissionais o mais cedo possível, não importando sua função na organização.

Naquela ocasião, ouvi tudo e nada questionei. Concentrei-me em assimilar o que fosse possível. Mas a verdade é que nunca aceitei bem aquela história, que me pareceu ter a pretensão de transmitir a sabedoria das fábulas.leoes_cacando

Hoje, encontrei-me novamente com a história dos leões e dos veados, desta feita em um site de consultoria, e voltaram à minha mente reflexões que tive naquela ocasião.

Não me apegarei ao fato de os leões terem como presas mais frequentes zebras, gnus e búfalos, e não veados. Afinal, estando os leões no topo da cadeia alimentar, comem de tudo. De animais menores, como javalis, a gigantes, como elefantes e girafas. Então, eventualmente, devem comer algum veado também.

O que me incomodou mesmo foi o narrador dizer que o leão deve começar a correr, logo que o sol nascer. Porque qualquer pessoa que entenda um pouco de leões sabe que, na natureza, eles chegam a dormir até dezoito ou dezenove horas por dia. E muitas vezes preferem caçar à noite, quando a temperatura é mais baixa, e sua visão noturna privilegiada lhes proporciona uma vantagem sobre suas presas.

Já se vê, portanto, que quem criou a historinha não entende nada de leões. E, por ter tomado como paradigma um ser cujas características desconhecia, perdeu uma ótima oportunidade de colher os ensinamentos que esses animais bem podem dar às empresas e seus gestores.

Se era para tomar como exemplo os leões, melhor seria ter falado que, apesar da sua ferocidade, são animais sociais, que usam o poder da colaboração para alcançar seus objetivos. Que, nessa colaboração, cada membro do grupo desempenha uma função diferente – um cercando a presa para outro a abater, por exemplo – de forma organizada. Que usam táticas e estratégias diferentes, conforme o terreno, a vegetação, a presa a ser abatida ou a quantidade leões envolvidos na caçada.

Examinada a situação do ponto de vista das presas, bem se sabe que cada espécie tem também seus métodos próprios de sobrevivência. Formar grupos, associar-se a outras espécies, fazer tocas (o que não é o caso dos veados), são apenas alguns dos meios de defesa utilizados por animais que são caçados por outros.

Assunto de sobra para qualquer guru da gestão empresarial adaptar para o mundo dos negócios. E dar mil dicas de como melhorar os indicadores de desempenho da organização (esta última frase foi escrita com a deliberada intenção de usar uma linguagem compatível com o tema).

O fato é que, talvez por ter um apreço muito grande pela vida que nós (seres civilizados) chamamos de selvagem, sempre me incomodou a historinha contada pelo professor, falando de leões e veados que amanhecem o dia e saem correndo enlouquecidos, pois disso dependeria sua sobrevivência.

Não, professor. Sair correndo, logo que o dia amanhece, sem meta, sem organização, sem objetivo, não serve para leões, não serve para veados, nem serve para nós, humanos, seja no ambiente empresarial, seja em outras áreas da vida.

O que serve para cada um de nós é conhecer nossas potencialidades e exercê-las, da melhor forma possível. É por isso que é mais fácil encontrar leões caçando os perigosos búfalos que investindo contra as delicadas gazelas, prato preferido dos guepardos.

Sim, nós, humanos, podemos aprender muito com os animais. Mas, para isso, precisamos aprender a enxergar a inteligência que há nas coisas naturais. A compreensão dessa inteligência certamente ajudará o ser humano a viver em maior harmonia consigo mesmo, com os outros humanos e com o meio ambiente.

O desafio é grande. Mas não será com historinhas mal contadas que nos tornaremos melhores.


Mundo Cordel
NATAL PARA MUITA GENTE

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Gente é sempre gente. Em qualquer lugar, em qualquer época. Tem lá suas diferenças sociais e culturais, mas, se procurarmos direito, encontraremos mais semelhanças que diferenças.

Acontece que tem gente que adora classificar gente. Dividir o todo em grupos. E assim dividem a humanidade em cristãos, muçulmanos, judeus e tantas outras religiões. Negros, brancos, amarelos e tantas outras cores. Ou divisões mais simples: esquerda e direita. Não, essa não é tão simples assim. Ricos e pobres, talvez? Não. Que tal heterossexuais e homossexuais?…

Bem, sigamos em frente. São muitas as divisões criadas para classificar as pessoas. Claro que têm sua utilidade. Servem para a compreensão de fenômenos sociais, para organizar nossas ideias, dentre outras finalidades. No entanto, eventualmente tornam-se prejudiciais, porque tem gente que, ao se reconhecer como parte de um grupo, passa a se achar superior aos membros de outros grupos. Como se os outros não fossem gente também.

Assim surgem as guerras étnicas, as guerras santas e as brigas de torcidas por times de futebol. E até conflitos familiares, como o de pais que rejeitam o filho homossexual (também já soube de casos de filhos que rejeitaram o pai que se declarou homossexual).

Coincidência ou não, ontem, enquanto pensava em escrever sobre a igualdade das pessoas, li, em uma rede social, uma frase depreciativa quanto a “certo tipo de gente”. E isso me levou a pensar: A que tipo de gente essa pessoa se refere? Que tipo de gente essa pessoa é? E que tipo de gente eu sou? Devo acreditar que os que se assemelham a mim são “gente de bem”, enquanto os diferentes de mim são “esse tipo de gente”?

Não posso crer nisso. E talvez tenha sido por essa razão que comecei a escrever hoje com a frase “gente é sempre gente”.

E, como escrevo em um dia 24 de dezembro, sei que a noite de hoje é especial para muita gente. Pelo menos, para quem celebra o nascimento de um menino que se chamaria Jesus, e depois viria a ser reconhecido como o Cristo, o Redentor, o Salvador.

Na noite de hoje, os seguidores de Jesus Cristo – essa gente que se reconhece como “os cristãos” – fazem votos de união, de amor, de paz entres os homens, enquanto celebram a vinda de Jesus ao mundo.

E eu, cristão que sou, aproveito para manifestar o meu desejo para esta noite de Natal.

O desejo de que toda essa gente que há no mundo veja cada vez mais suas igualdades que suas diferenças.

Que continue existindo gente de várias religiões, de várias tonalidades de cor da pele, de várias convicções políticas ou ideológicas – a diversidade amplia nossas possibilidades! – mas que não percamos a noção de que somos muito mais semelhantes que diferentes.

Somos semelhantes em nossas necessidades físicas e emocionais. Precisamos todos de alimento e de proteção contra as intempéries, da mesma forma que necessitamos da colaboração ou da simples companhia uns dos outros. E precisamos, sobretudo, de algo difícil de definir, mas cuja presença é facilmente sentida, e a ausência é ainda mais facilmente percebida: o amor.

Precisamos de amor. Porque somos humanos, porque somos gente.


Mundo Cordel
UM ALERTA MUSICADO

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Em todo lugar que a gente anda é a mesma coisa: boa parte das pessoas está com a atenção totalmente consumida pelo celular, sem sequer se dar conta do mundo à sua volta.

Até em uma mesa de bar, onde amigos costumam se encontrar para conversar, hoje é comum esses mesmos amigos ficarem em silêncio, enquanto trocam mensagens com quem está distante. Mesmo quando há interação entre os presentes, a atenção é dividida com os amigos remotos, através do Iphone, smartphone, ou outro nome que se prefira.

Seu Mansueto, que não é muito chegado a essas coisas foi quem me perguntou: “Meu filho, o que é que esses jovens veem nesses aparelhos, que ficam o tempo todo olhando e passando o dedo neles?”.

– Papai, antes de lhe responder, deixa eu pegar o violão, que o senhor agora me deu uma ideia…

Foi assim que criei esse alerta musicado, dedicado a todas as pessoas que, conscientemente ou não, estão passando do ponto em matéria de se manter conectado com o mundo através do celular.

PASSANDO O DEDO

Até que eu gosto dessa tecnologia
De iPhone, smartphone, internet no celular.

Mas é preciso ter cuidado, pois vicia
E, se a gente exagera, pode se prejudicar.

Tenho um amigo que está se complicando,
A mulher já reclamando e ele sem se controlar.

Ela me disse que ele começa bem cedo,
Olhando pro telefone, enquanto vai passando o dedo.

Ela vai pra perto dele,
Ele tá passando dedo.
Ela dá um beijo nele,
Ele só passando o dedo.
Ela já disse que ama esse camarada,
Mas ele não faz mais nada, a não ser passar o dedo.

Ela chama ele pro quarto,
Ele vai passando o dedo.
Deita com ela na cama,
E fica só passando o dedo.
Ela se irrita, acha aquilo um horror,
Porque ela quer fazer amor, ele só quer passar o dedo.

Ele pega o telefone
E fica só passando o dedo.
A mulher toda carente
E ele só passando o dedo.
Ela implora e pede até por favor:
– Vem, me bem, fazer amor, não fique só passando o dedo!


Mundo Cordel
O FIM

RUÍNAS

Quando a terra começa a tremer,
E as paredes começam a ruir,
Quando não há lugar para fugir,
E não há mais aonde se esconder.

Quando espaço não há para correr,
E se vê que é inútil reagir,
Sem espada capaz de agredir,
Nem escudo que possa defender.

É preciso, talvez, ter humildade,
Ou, quem sabe, até serenidade,
Para ver que as coisas são assim:

Muitas vezes, buscando uma vitória,
Construímos nós mesmos uma história
Cujo epílogo é o nosso próprio fim.


Mundo Cordel
REFLEXÃO NO CINEMA (MAS NÃO FOI SOBRE O FILME)

cinema

Quinze de novembro de 2015. Feriado de Proclamação da República. Não vi muitos sinais de que se tratava de uma data comemorativa. Até porque o feriado caiu em um domingo, aí ninguém dá mesmo muita importância para isso.

Almocei com minha mulher em um shopping center, aproveitando o sossego das lojas fechadas em homenagem ao feriado republicano, e fomos ao cinema.

O filme não era lá essas maravilhas, mas servia como entretenimento. Até que as imagens sumiram da tela. A plateia fez um “Aaaaah!” tímido, mas logo silenciou. As pessoas esperaram, educada e pacientemente, que o problema fosse resolvido.

Acontece que a solução não chegou tão rapidamente como se esperava. Após uns longos minutos, as imagens voltaram à tela, só que em um ponto posterior àquele onde a exibição havia parado. Alguém gritou “Volta o filme! Volta o filme!”. E, depois de mais um tempo, o filme acabou voltando mesmo, mas logo parou novamente. Paralelamente a esses problemas na exibição, percebemos que o ar condicionado parara de funcionar.

Para nós, bastava. Levantamo-nos e fomos à gerência exigir nosso dinheiro de volta.

Apesar do aborrecimento dominical, o fato não mereceria de mim qualquer registro, a não ser por duas razões: 1) nenhum representante do cinema dirigiu a palavra aos espectadores, para explicar o problema ou se desculpar; 2) a maneira passiva (e não apenas pacífica) com que as pessoas se comportaram diante da situação.

Porque na minha – talvez muito particular – maneira de ver as coisas, a gerência do cinema tinha o dever de enviar alguém, logo na primeira falha, para dizer aos espectadores algo do tipo: “Senhoras e senhores, temos um problema técnico. Estamos tentando solucionar, mas os clientes que preferirem podem se dirigir à gerência agora, para receber seu dinheiro de volta”.

Como tal não ocorreu, nem qualquer outra variação que sinalizasse algum respeito da empresa pelas pessoas que ali estavam, a reação destas me pareceu mais estranha ainda.

Apesar de aquelas pessoas estarem pagando (caro) por um serviço que não estava sendo prestado adequadamente, e ainda, sendo tratadas sem um mínimo de respeito, elas não demonstravam nenhum sentimento de indignação. Ninguém ficava de pé, ninguém erguia a voz, ninguém protestava. Nada.

Depois que eu e minha mulher nos dirigimos à gerência, umas seis pessoas nos seguiram. Mas a grande maioria permaneceu lá, quieta.

Tudo isso me fez pensar no seguinte: como esperar que essas pessoas, que não têm iniciativa sequer para exigir um tratamento digno em um cinema, participem ativamente da vida política do país? Como esperar que ocupem as ruas e as praças, exigindo dos políticos, e das autoridades em geral, uma conduta compatível com seus cargos?

Mas, já ocorreram manifestações populares enormes este ano! – contestarão alguns.

É verdade – respondo – e foram fatos realmente extraordinários. Mas acontecidos episodicamente, em tardes de domingo, sem uma regularidade que viesse a manter alguma pressão mais efetiva.

Para a situação que o país vive, enfrentando crises econômica e política, é pouco. Para um país no qual ex-diretores de sua maior estatal, alguns dos maiores empresários do país e dezenas de políticos estão envolvidos em um esquema gigantesco de corrupção, é muito pouco. Para uma nação que vê o presidente da Câmara dos Deputados ameaçado de cassação, e a presidente da República ameaçada de impeachment, é quase nada.

A cada dia, novas raízes do baobá da corrupção são expostas pelas escavadeiras da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal. Nos Estados e nas prefeituras, inúmeros casos menores, mas não menos criminosos, são exibidos regularmente em reportagens de revistas e programas de televisão. Licitações fraudulentas, cartéis, escoamento do dinheiro público para empresários inescrupulosos e campanhas políticas são fatos corriqueiros.

E a economia se deteriora. E o desemprego cresce. E a inflação aumenta.

O descrédito da classe política é tão grande que, nas poucas vezes em que uma quantidade significativa de pessoas saiu à rua para protestar, foi marcante a rejeição à presença de símbolos, bandeiras e até pessoas ligadas a partidos políticos. Centrais sindicais e movimentos sociais também não eram bem vindos. Seja porque quem estava na rua não acreditava nessas entidades, seja porque essas próprias entidades tratam aquelas pessoas como se não fizessem parte do povo.

O certo é que a insatisfação das pessoas com a situação do país é percebida em qualquer conversa de bar. Insatisfação por fatos ocorridos em nível municipal, estadual e federal. No Poder Executivo, no Legislativo e no Judiciário.

Mas falta um mecanismo de canalização dessa insatisfação, para que ela gere um processo de transformação da realidade. Para que as pessoas se unam, e exijam respeito de seus representantes.

Talvez nos faltem lideranças, talvez nossa educação não tenha sido bem direcionada para a formação de cidadãos. Não seio que é. Sei apenas que nos falta algo.

Como naquela sala de cinema. Onde ninguém gostou do que estava acontecendo, mas faltava algo que fizesse as pessoas tomarem uma atitude. Não apenas para exigir o dinheiro de volta, como fizemos eu e minha mulher, mas para exigir, acima de tudo, respeito e dignidade.


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REFLEXÕES (PO)ÉTICAS EM 8 TUÍTES: EU TENTO

Man's Conscious

1
É utopia fazer sempre a coisa certa,
Mas eu tento.

2
Mesmo assim, às vezes causo nas pessoas
Sofrimento.

3
Esses males que provoco, eventualmente,
Eu lamento.

4
E, essas suas consequências negativas,
Eu aguento.

5
Mas, se em minha consciência, realizo
Julgamento,

6
Nunca hesito em usar a meu favor
O argumento

7
De que o mal por mim causado não seria
Meu intento.

8
Porque sei, nem sempre faço a coisa certa,
Mas eu tento.


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CANTORIA DE EXCELÊNCIA

peleja

Diz a lenda que, certa vez, em um lugar frequentado por muitas autoridades, uma dupla de cantadores foi contratada para se apresentar, mostrando um pouco da arte do repente.

Depois de apresentarem sextilhas e setilhas, e de glosarem vários motes, à escolha dos organizadores do evento, chegou a hora do desafio.

Nesse momento, um dos convidados, tendo conhecimento de que às vezes os combates dos repentistas são um tanto renhidos, advertiu os artistas que mantivessem o embate em um nível adequado à respeitabilidade das autoridades presentes.

– Se possível, – disse o excelentíssimo convidado – seria interessante até que os senhores tratassem um ao outro por “vossa excelência”, como costumamos fazer entres nós.

Ouviram-se alguns aplausos à intervenção feita.

Enquanto isso, os cantadores entreolharam-se e fizeram aparentemente um sinal de positivo, com a cabeça. Um deles respondeu:

– Pode deixar, excelência, que aqui quem manda é o freguês.

E começaram:

Olho pra vossa excelência
E me dá até gastura.
Porque não tem compostura,
Nem respeito, nem decência.
Verdadeira excrescência,
Não cumpre o que é prometido,
Volta e meia anda metido
Em tudo que é obscuro
Por isso estou bem seguro:
Vossa Excelência é bandido!

Vossa excelência devia
Ter cuidado com o que diz,
Pra não ser tão infeliz
Nas coisas que pronuncia.
Quem tem a vossa mania
De roubar essa nação,
Não tem qualquer condição
De me chamar de bandido,
Pois é fato conhecido,
Vossa Excelência é ladrão!

Vossa excelência não tente
Por em mim o seu defeito,
Pois já conheço o seu jeito
Quando rouba e quando mente.
É ladrão reincidente,
Tirando de quem trabalha
Pra dividir com a gentalha
Que compõe sua quadrilha:
O filho, o genro e a filha,
Vossa excelência é canalha!

É melhor deixar em paz
Minha família decente,
Porque nela não tem gente
Que faça o que a sua faz.
Vivem por aqui, atrás
De pegar um descuidado.
É mãe, é filho, é cunhado,
Um bando de vigaristas.
E o chefe desses golpistas,
Vossa excelência, um safado!

Vossa excelência extrapola
Toda minha paciência,
Mas assim vossa excelência,
Se compromete e se enrola.
Vou lhe pegar pela gola,
E jogar dentro do esgoto,
Fedorento, sujo e roto.
E será bem merecido,
Pois, além de ser bandido,
Vossa excelência é um escroto!

Não pense, vossa excelência,
Que me assusta ou me faz medo.
Levantando esse seu dedo,
Prometendo violência!
Conheço toda a sequência
Dessa sua encenação.
Quer bancar o valentão
Mas apanha da mulher
Digo aqui o que eu quiser:
Vossa excelência é um cagão!

Cabra safado, ladrão,
Sujeito de má conduta!
Sua mãe é prostituta,
O seu pai é cafetão!
Não vou lhe meter a mão
Porque sei que você gosta.
No lugar onde se encosta
Fica uma mancha fedendo,
Que todos fiquem sabendo:
Vossa excelência é um bosta!

A essa altura do desafio, tinha gente que aplaudia e dava risada, dizendo que os cantadores levaram muito a sério o pedido para que mantivessem o nível do desafio à altura dos convidados.

Coincidência ou não, o convidado que havia dado a sugestão de os cantadores se tratarem por excelência já havia saído, demonstrando certo constrangimento. Seguiu em direção ao estacionamento, acompanhado por uma fila de excelências menores, que lhe prestavam homenagem.

Os cantadores ainda tinham munição para levar longe a batalha, mas mestre de cerimônias interrompeu os cantadores e os parabenizou, dando por encerrada a peleja.


Mundo Cordel
SONETO PARA UM OBJETO HIPNOTIZANTE

olhos-hypnotized

Reconheço tua grande utilidade
Em fazer o mundo se comunicar.
E que, usando o indicador ou o polegar,
Cada dia, acho em ti uma novidade.

São funções que surpreendem, é verdade,
Ofertadas nesses teus aplicativos
Sempre fáceis de usar, sempre intuitivos,
Prometendo mais e mais facilidade.

No entanto, mostras face bem nefasta,
Quando a tua presença nos afasta,
Nos encontros e até nas refeições.

Pois em volta da mesa acomodados,
Tu manténs a todos hipnotizados
Concentrando só em ti as atenções.


Mundo Cordel
REFLEXÕES SOBRE A ATUAÇÃO DOS JUÍZES FEDERAIS NAS OPERAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL

Desde que a Operação LavaJato tornou-se pauta permanente nos noticiários, tenho observado os comentários feitos na Internet acerca das decisões judiciais tomadas no âmbito da operação.

Muitos elogiam o trabalho do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e, com especial frequência, do Juiz Federal Sérgio Moro. Mas, há também os que demonstram total descrença de que os culpados – ou, pelo menos, alguns deles – venham a ser punidos. Há os que acham que a persecução penal é muito lenta. E há os que sustentam que a Justiça tem agido de forma seletiva, direcionada a determinado grupo de pessoas, por razões políticas.

Reflito sobre essa última espécie de comentários e imagino a surpresa que seria para mim, se eles correspondessem à verdade.

Quem os faz talvez não compreenda que esse tipo de operação é resultado do trabalho de pelo menos três instituições independentes entre si, ou seja, sem relação de subordinação administrativa. Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal desempenham cada um o seu papel, determinado pela Constituição Federal e pelas leis do país, mas não há superioridade hierárquica de um órgão em relação ao outro.lava-jato

Não há nada de extraordinário nisso. É apenas o normal funcionamento das instituições no Estado Democrático de Direito.

Na prática, Policiais Federais levantam informações, baseadas nas quais Procuradores da República requerem ao Juiz Federal as medidas que entenderem cabíveis, podendo o juiz as deferir ou não. Deferindo, a Polícia Federal cumpre essas medidas – como prisões e apreensões de documentos – e o material obtido retroalimenta as investigações, podendo ensejar outras medidas, a serem novamente requeridas pelo Ministério Público e submetidas ao crivo do Juiz.

Destaque-se que as decisões proferidas pelo juiz estão submetidas ao duplo grau de jurisdição, sendo, portanto, sujeitas a revisão ou anulação pelos tribunais regionais ou superiores.

Imaginar, portanto, que um Juiz Federal possa direcionar toda uma operação – ainda mais uma megaoperação – para fins de perseguição político-partidária, requer certo grau de desconhecimento dos mecanismos de controle do sistema. Ou sua deliberada negação.

Mas, há outro aspecto da questão que pretendo abordar aqui.

Exercendo a magistratura federal há quase quinze anos, tenho convivido regularmente com juízes federais, seja em contatos ordinários da vida forense, seja em eventos regionais e nacionais, onde temos a oportunidade de trocar ideias com colegas de outras partes do país.

Nessa convivência, tenho testemunhado reiteradamente o quanto a maioria dos juízes federais é avessa a discussões político-partidárias. Pelo menos, a maioria dos juízes federais que conheço, já que não fiz (nem tive acesso a) qualquer pesquisa de opinião nesse sentido.

Mas, não tenho motivos para crer que os juízes que não conheço sejam muito diferentes daqueles que conheço.

Influências ideológicas sim, podem ser percebidas, na medida em que um juiz é mais rigoroso na aplicação da pena, enquanto outro se interessa mais pela reinserção social do apenado; um valoriza mais o interesse público, outro as liberdades individuais; um prioriza a liberdade de expressão, outro a intimidade. E assim por diante.

Em qualquer dos casos, é possível perceber – tanto nos debates teóricos, como nas fundamentações das decisões judiciais – que esses matizes ideológicos são sempre confrontados com as normas constitucionais em vigor, figurando estas como pontos cardeais da navegação jurídica.

Mesmo porque, qualquer juiz que venha exercendo a magistratura nos últimos vinte e sete anos, certamente sofreu a influência da Constituição de 1988, e das doutrinas jurídicas que ganharam espaço no Brasil desde então, com nítida valorização dos princípios constitucionais e dos Direitos e Garantias Fundamentais. Então, é razoável que, no sopesamento dos princípios, e na solução de conflitos envolvendo Direitos Fundamentais, visões de mundo diferentes conduzam a conclusões diferentes, sem que qualquer delas se choque frontalmente com a Constituição.

Minha percepção, portanto, é a de que grande parte dos juízes que conheço é capaz de passar horas debatendo sobre qual deve ser a postura do Estado perante os Direitos Fundamentais dos cidadãos. No entanto, esses mesmos juízes não demonstrariam o menor interesse em discutir qual dos partidos atualmente existentes no Brasil apresentaria melhores condições de, estando no poder, promover a efetivação desses Direitos Fundamentais.

Talvez isso ocorra porque juízes – pelo menos os de primeiro grau – são pessoas aprovadas em concurso público, cujo cargo goza de garantias como vitaliciedade e inamovibilidade, logo, tendentes a se desinteressar por debates eleitorais. Ou talvez seja o contrário: por não ter aptidão para o pleito de cargos eletivos, optaram pelo caminho do concurso público. Ou, ainda, talvez seja porque a Constituição Federal proíbe aos juízes a atividade político-partidária (CF, art. 95, parágrafo único, inciso III), e cada um evita expor a si e constranger os outros.

Talvez um pouco de cada coisa ou nada disso. Quem sabe?

Seja qual for o motivo da aversão dos meus colegas a esses temas, essas ponderações me levam a considerar baixíssima a possibilidade de um Juiz Federal ter convicções político-partidárias capazes de fazê-lo adotar a conduta ilícita de direcionar deliberadamente a persecução criminal contra alguém.

Mesmo, porém, que o juiz carregue em seu íntimo essas convicções, não seria minimamente provável que ele conseguisse, para tal desiderato, a colaboração de membros do Ministério Público e demais agentes públicos envolvidos. Nem tampouco que houvesse ratificação de suas decisões na instância superior, diante dos recursos que a defesa certamente ajuizará.

Por todas essas razões, seria para mim uma grande e decepcionante surpresa, que um Juiz Federal manipulasse uma operação da Polícia Federal, fazendo dela uma perseguição política.

Não creio nisso. Ao contrário, acredito que as operações federais de combate à corrupção, atualmente em curso, prestam um grande serviço ao país. Não rotulam qualquer partido como corrupto, mas têm como alvo corruptos de qualquer partido.

Se o Brasil elevará seu patamar ético, nos próximos anos, ainda não é possível saber. Mas, caso o eleve, não tenho dúvida que as ações hoje implementadas pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça Federal terão influenciado diretamente no resultado.

Publicado originalmente no site jurídico JusBrasil em 31/10/2015


Mundo Cordel
CANTANDO JUNTOS PELA ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS

Hoje, 27 de outubro de 2015, a Academia Quixadaense de Letras completa três anos de sua fundação.

Tenho muito orgulho de ser um dos fundadores da AQL. Não é fácil reunir pessoas dedicadas à literatura em nosso país, especialmente nas pequenas cidades do interior dos Estados do Nordeste.

Mas, em Quixadá, conseguimos dar esse passo. E já são três anos dedicados à causa, sob o lema “A leitura ilumina o ser humano”.

Hoje, tenho um motivo a mais para celebrar esta data. A AQL aprovou, por unanimidade, o hino que compus para a Academia.

Quando nos reunirmos, no próximo sábado, entoaremos o hino juntos, pela primeira vez.

HINO À ACADEMIA QUIXADAENSE DE LETRAS
Letra e melodia: Marcos Mairton

No sertão central do Ceará
Resplandece o amor pela cultura
Pois floresce a arte da literatura
No cenário cultural de Quixadá.

Nessa terra adotada por Raquel
Aderaldo tem seu memorial
E a leitura se faz fundamental
Seja em livros ou folhetos de cordel.

A leitura ilumina o ser humano
E afasta as trevas da ignorância
É preciso começar desde a infância
E seguir lendo mais a cada ano.

Foi pensando assim que um grupo de escritores
Reuniu-se em Assembleia certo dia.
Para dar a Quixadá a academia
Que é de letras, autores e leitores.

E hoje o povo se reúne a cantar
E seu nome enaltecer!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!

Salve, salve, Academia
Quixadaense de Letras!


Mundo Cordel
A BÍBLIA EM CEARÊS: MATEUS 8:5-13

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A passagem bíblica que traduzo hoje, para o idioma do povo cearense, é aquela em que um centurião romano pede a Jesus que cure um servo seu que havia caído doente.

A história sempre me chamou a atenção, porque imagino que um centurião era alguém que gozava de certa importância social. Tinha certo poder. Imaginar um homem desses, representante do poder dominante de Roma, pedindo a intervenção espiritual de um indivíduo do povo dominado, um peregrino, é algo que sempre me fascinou.

Relendo hoje, mais uma vez, esse trecho do Evangelho de Mateus, veio a vontade de reescrevê-lo em cearês.

Decidi não por glossário no final. O leitor que quiser esclarecer algum ponto pode pedir nos comentários.

Ficou assim:

JESUS CURA O SERVO DO CENTURIÃO ROMANO (Mateus 8:5-13)

Jesus ia tomano chegada em Cafarnaum, quando avistou um soldado romano, todo paramentado. E, pelo jeito da farda, num era soldadim fulerage não. Devia ser algum manda chuva, coisa de sargento pra cima. Veio no rumo de Jesus e foi logo puxan’assunto:

– Ei, macho, me dero o serviço que tu anda por aí fazeno milagre de todo tamãe. Aí eu queria que tu quebrasse um galho pra mim, ó?

– Vamuvê, né? Passa logo o bizú – respondeu Jesus.

– O seguinte é esse: tem um fí duma égua, que trabalha lá em casa, que tá todo guenzo e abirobadozim do juízo. O povo tão dizendo que é siviço do capeta. Aí eu queria saber se tu fazia um descarrego nele.

Jesus num contô pipoca:

– Na hora, machovéi. Dêxe comigo, que aqui só num tem jeito para morte. E as vêis inté isso eu desenrolo. Bora lá!
Mas o soldado parece que ficou veaco de levar Jesus em casa. É bem fácil ele num ter combinado com a patroa. Teve medo de chegar lá com um magote de marmanjo, e ela botar boneco. Aí ele jogou um queixo véi fraco, pra dar corda em Jesus:

– Tem precisão de ir lá não, patrão. Eu aposto que, se daqui mesmo, tu disser praquele fela da gaita se aprumar, ele dá um pinote da cama e fica igual um azôgue… Se eu mermo, que dô conta duma curriola de abestado, mando um praqui e outro prali, e eles vão vuado! Avalie tu, que tem moral que só a porra com os isprito!

Jesus deu o maior valor ao leruaite do soldado, e aproveitou pra esfregar a fé do caba na cara dos judeu. E disse:

– Machovéi, tu agora botô foi quente! Tem nenhum desses malaca que anda comigo que tenha fé desse tanto. Por isso que eu digo: tem gente lá da baixa da égua que vai pro céu. Mas tem uns sem futuro daqui tão é pebado; vão tudo se lascar no inferno!

Aí Jesus disse pro soldado:

– Pega o beco, macho. Quando tu chegar em casa o caba já vai tá novo de novo. Zerado!

Depois que Jesus disse aquilo, o soldado agradeceu e meteu o pé na carreira no rumo de casa. Quando chegou lá, o caba já tava bonzim. Tinha até almoçado um prato de baião de dois com pequi.


Mundo Cordel
LADRÕES

Um homem caminhava por uma estrada, quando percebeu que outro homem também vinha por ela, só que no sentido oposto. Ao chegarem a poucos metros de distância um do outro, o primeiro apontou para o segundo e disse:

– Você é um ladrão! Deve estar vindo me roubar!

O outro respondeu perguntando:

– E quem é você para me chamar de ladrão? Pensa que não sei que você é um dos maiores ladrões das redondezas?ladrao_k_rouba_ladrao

Mas o primeiro não deu atenção àquelas perguntas e continuou gritando:

– Um ladrão! Um ladrão! Um ladrão quer me roubar!

Logo o outro homem pôs-se a gritar também:

– Você é o ladrão aqui! Socorro! Um ladrão!

E tanto gritaram que alguns policiais que estavam por perto ouviram e correram para o local. Lá chegando, viram os dois homens gritando “Ladrão! Ladrão!”, e quiseram saber:

– Onde? Onde está o ladrão que os atacou?

Mas os dois homens não respondiam. Apenas continuavam a gritar “Ladrão! Ladrão!” deixando os policiais bem confusos. Até que um dos guardas suspeitou que o ladrão que causara toda aquela celeuma talvez estivesse escondido. Chamou os colegas, que entraram na mata e passaram a fazer buscas.

Minutos depois, os policiais voltaram para a estrada, trazendo preso um homem. Era um conhecido ladrão, que eles vinham investigando há meses, por vários roubos praticados ali mesmo, naquela estrada.

Ao ser arrastado da mata para a estrada, o ladrão preso viu os dois homens que ali estavam. Percebendo de quem se tratava, o preso revoltou-se com os policiais e indagou deles:

– Por que vocês não prendem aqueles homens também? Eles são tão ladrões quanto eu?

Mas os policiais nada responderam. Apenas o mandaram calar a boca, e o levaram para apresentar ao delegado.

Enquanto isso, os dois homens afastaram-se, cada um para seu lado, indignados com o fato de o preso os tentar incriminar.

Sugestão de moral da história, ficando o leitor inteiramente à vontade para escolher outra: Ladrões geralmente se conhecem. Podem colaborar entre si, quando lhes convém, mas, isso não significa que sejam amigos.


Mundo Cordel
PARA ONDE PENDE A BALANÇA DA JUSTIÇA

(Publicado no site JusBrasil em 5/Out/2015) 

Com o crescimento do interesse da sociedade e da imprensa brasileira por questões discutidas no Poder Judiciário, têm proliferado nos meios de comunicação as análises e os comentários sobre o assunto.

Isto é bom, porque aproxima da sociedade um Poder do Estado que sempre foi considerado muito fechado, de compreensão inacessível para o cidadão comum, que, no fim das contas, é quem sofre as consequências de seus atos.

O problema é que muitas dessas análises e comentários mais confundem que esclarecem. Alguns chegam a ser tendenciosos, tentando impor sua própria parcialidade aos órgãos jurisdicionais.balanca_justica

Basta ver o que aconteceu no julgamento do Mensalão, quando muitos artigos em jornais apontavam o STF como inclinado deliberadamente para um dos lados do litígio, enquanto outros diziam que a balança do Tribunal pendia exatamente para o lado oposto. A polêmica em torno de certos embargos infringentes foi ilustrativa a esse respeito.

Nesses tempos de Operação Lava Jato, o STF já foi apontado por alguns como perseguidor do PT, quando, por exemplo, manteve a prisão de Renato Duque, decretada pelo juiz federal Sérgio Moro. Dias depois, ao decidir que determinada investigação, relacionada à Operação Lava Jato, não seria da competência de Moro, outros disseram que a Corte estaria protegendo petistas.

Aliás, essa decisão, que determinou a remessa da investigação para outro juiz, foi amplamente divulgada como sendo uma derrota de Sérgio Moro. O que me fez refletir: e desde quando juiz conquista vitória ou sofre derrota em um processo judicial que preside?

Se o fato fosse apresentado como derrota do Ministério Público Federal, tudo bem, já que o MPF é parte no processo, ou seja, pleiteia, em nome da sociedade, a punição dos acusados. Mas, o juiz não pode e nem deve ter esse tipo de sentimento. Ao contrário, precisa se manter o quanto possível livre para decidir quem deve e quem não deve ser punido.

Diante disso, a impressão que tenho é que muitos dos jornalistas, analistas e comentaristas, que tratam atualmente desses movimentos do Judiciário, não estão se aprofundando na busca da compreensão dos mecanismos que movem os julgadores em suas decisões. Assim, avaliam a atuação de juízes – singulares ou membros de tribunais – a partir de critérios utilizados para explicar os movimentos de políticos e seus partidos.

Não, eu não estou dizendo que conheço os bastidores dos tribunais, sejam os de apelação ou os superiores, nem tampouco o perfil dos seus membros. Também não estou negando que existam juízes mais alinhados com essa ou aquela ideologia, ou mesmo simpáticos ou próximos a esse ou àquele partido político.

Estou apenas tentando dizer que, para entender o modo de ser do Poder Judiciário, ou, para compreender as razões que levam os juízes a decidir de ou de outro modo, é importante considerar fatores como: o fato de os juízes não serem eleitos; de serem vitalícios; de terem formação jurídica, ou seja, uma formação focada nas leis como balizadoras da conduta humana, etc.

São muitos os aspectos que condicionam ou influenciam o modo de atuar dos juízes em geral, além daqueles que os influenciam de modo particular. Por exemplo: diante de um mesmo fato, o membro de um tribunal que por muitos anos tenha sido juiz de vara criminal, possivelmente raciocinará de forma diferente de outro membro do mesmo tribunal, que tenha atuado mais em varas de família. E ambos provavelmente terão uma visão diferente de um colega que tenha atuado na advocacia, ingressando na Corte pelo quinto constitucional. Não tenho a menor dúvida que essa diversidade de visões de mundo enriquece as decisões dos tribunais.

Acredito que a ponderação desses elementos, agregada a algumas noções acerca dos institutos jurídicos, favoreceria análises menos superficiais das decisões judiciais. Minimizando-se, assim, o risco de conclusões equivocadas ou precipitadas, notadamente quando estão em jogo processos de grande repercussão nacional, capazes de acirrar ânimos e despertar paixões.


Mundo Cordel
SAUDADES DE MERCEDES

Nunca fui a um show de Mercedes Sosa. Nunca sequer a vi, a não ser pela TV, e, mais recentemente, em vídeos do YouTube. Mas me impressionei com ela desde que ouvi sua voz pela primeira vez. Foi no começo dos anos 1980, cantando, com Raimundo Fagner, a música “Años”.

A par disso, somente comprei um CD seu em janeiro de 2010, quatro meses depois da sua morte, quando estive em Buenos Aires. Fico até meio sem graça de admitir que foi ouvindo esse CD que conheci o tango “Los Mareados”, que me inspirou a escrever o conto com o mesmo título, que publiquei no Jornal da Besta Fubana em abril de 2011. Como posso ter conhecido tão tardiamente essa canção?

Mas, nos últimos dias, não sei se por causa da proximidade com o quatro de outubro, a canção que mais tenho ouvido, na voz de Mercedes, tem sido “Cuando ya me empiece a quedar solo”, de Charly García. É que a letra aparentemente descreve a situação de um artista, no final de sua carreira, vivendo lembranças dos tempos de sucesso e a saudade de um amor do passado.

De tanto ouvir, criei até uma versão dela para o português, cuja letra vai logo abaixo do vídeo.

A propósito, quem clicar no vídeo, por favor, não julgue o talento do cantor nem do músico. Não se trata de uma exibição, mas apenas de uma tentativa de homenagem.

QUANDO EU FINALMENTE ESTIVER SÓ

Terei os olhos distantes
E um sorriso na boca
No peito um grande vazio
E a voz um tanto rouca.

Um palco sem os artistas
Um livro que eu já não leia
Anotações esquecidas
E a caridade alheia.

Um televisor inútil
Servindo de companhia
Um rádio a todo volume
E essa casa tão vazia.

Envelhecer sem receio
De uma vida sossegada
Um jarro perto da escada
E essa cama que eu mal uso.

E alguns diários empilhados
E uma flor que traz do meu passado
Um rumor de vozes que me chamam
E um milhão de mãos que me aplaudem.

E a saudade tua, sobretudo,
Quando eu finalmente estiver só.


Mundo Cordel
MINISTÉRIOS

ministerios

Faz mais de uma semana que vejo, leio e ouço falar de mudanças que estão ocorrendo no Ministério da República. Na internet, na TV, não importa. Todos falam de uma disputa entre os membros do partido do governo e seus aliados, para definir quem será ministro de quê.

Tomando tais notícias como verdadeiras – e até agora não as vi serem contestadas – lamento, como cidadão que sou, que as coisas sejam decididas dessa maneira. Com partidos trocando apoio às decisões do governo por cargos em ministérios.

Não, eu não estou dizendo que isso é novidade na política! Estou dizendo apenas que lamento que seja assim. Porque, como cidadão, o que eu gostaria é que os ministérios fossem definidos conforme as necessidades do Estado, no cumprimento o seu papel. Oferecendo segurança, saúde, educação, essas coisas das quais tanto se fala nas campanhas eleitorais.

Definidos quais ministérios seriam necessários, o governante maior, respaldado na legitimidade que lhe conferem os votos recebidos na eleição, chamaria para os cargos de ministros as pessoas capacitadas a gerir as várias pastas do governo, conforme suas diretrizes. Porque, afinal, a pessoa escolhida pelo povo para exercer a Presidência da República não precisa conhecer a fundo todas as áreas da gestão pública, mas deve ter capacidade para comandar a equipe que lhe dará o respaldo técnico suficiente para governar.

O leitor mais enfronhado nos assuntos da política dirá, talvez, que sou ingênuo; que isso é uma utopia; que, em um governo de coalizão, sempre será necessário partilhar a máquina administrativa entre as lideranças dos partidos que apoiaram o candidato eleito.

Tudo bem. Aceito isso. Se vários partidos apoiam um candidato ao governo do país, entendo que esses partidos indiquem pessoas para determinados cargos do governo eleito. Minha ingenuidade talvez consista em imaginar que esses partidos deveriam escolher essas pessoas com base em sua formação (técnica e ideológica), e não em interesses pessoais ou políticos.

No entanto, até onde me chegam as notícias, o que tem prevalecido é o mais escancarado jogo do “toma lá, dá cá”. A troca aberta e explícita de cargos por apoio. Qualquer um pode ser ministro de qualquer coisa. Desde que sejam atendidos os interesses políticos da ocasião, é claro.

Não, eu não sei quando – nem como – isso começou. Também não sei quem governava nessa época. Sei apenas que é no mínimo frustrante, para o cidadão, ver os condutores das políticas públicas do governo serem escolhidos apenas por esse critério, ou sem critério algum.

Mas, há outra coisa ainda mais irritante nisso tudo: após as negociatas, vem um representante do governo dar entrevista coletiva na TV, dizendo que foram feitas as mudanças tais, tais e tais, buscando coisas como “enxugamento da máquina administrativa”, “redução de despesas”, “ganho de eficiência”, produtividade”…

Francamente. Podiam pelo menos nos poupar dessa parte.


Mundo Cordel
MICROCONTOS

MICROCONTOS

REGRESSO

Entrou na cidade. Ruas desconhecidas, estranhas. A tensão se fez alegria ao reconhecer a velha casa onde foi criança.

* * *

LUZ

Deitou, apagou a luz e viu tudo com absoluta clareza. Às vezes a escuridão externa é fundamental para a iluminação da mente.

* * *

CAFÉ

O boato era de que seria exonerado.
“Besteira. Melhor relaxar um pouco”, pensou.
Pelo interfone, pediu um café. Veio frio.


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