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FIM DE ANO, COMEÇO DE ANO

Eis que se aproxima mais um fim de ano e, consequentemente, o começo de um novo. Não há solução de continuidade. O “ano velho” se vai no exato instante em que o “ano novo” chega.

Claro que estamos diante de uma convenção. Escrevi certa vez que “o homem tenta medir/ o tempo que há no mundo,/ em anos, meses e dias,/ horas, minutos, segundos”. Nessa busca de medir o tempo…

Inventamos o relógio
e também o calendário.
Dividimos nossa vida
de um jeito arbitrário.
E, em frações de existência,
vivemos sob a regência
desse ser imaginário.

Continuo convicto disso. Um ano, um mês, um dia são apenas medidas de tempo. O suceder dos acontecimentos é constante, não importando se são 23:59 do dia 31 de dezembro ou 00:00 do dia primeiro de janeiro.

“Mas, a gente pára de trabalhar na tarde do dia 31, e só volta na manhã do dia dois!”, dirão alguns, cobertos de razão. A questão é que o horário de trabalho e os feriados também são convenções. Como o são igualmente as relações de poder – do patrão sobre o empregado, do Estado sobre o indivíduo, etc – e até o valor que atribuímos ao dinheiro.

Por mais que essas convenções estejam entranhadas em nossa mente, não é difícil perceber o quanto elas são diferentes das batidas de um coração, do movimento dos astros e do fluir das águas de um rio. Ou mesmo de uma paixão, capaz de sobreviver ao tempo e à distância, e de fazer do reencontro entre duas pessoas um momento de abraços, beijos, lágrimas e sorrisos.

Mas, hoje não quero aprofundar questões de filosofia ou paixão. Afinal, apesar de perceber a natureza convencional do tempo, reconheço que os últimos dias de um ano são sempre um bom momento para se refletir sobre o que aconteceu nele e o que pode vir a acontecer no próximo.

Penso que verificar se objetivos foram alcançados e fixar novas metas seja uma prática útil e saudável. Particularmente, tenho o hábito de fazer por escrito o meu planejamento anual. Ponho no papel desde metas ousadas, como “publicar um novo livro”, a outras aparentemente simples, como “não me irritar no trânsito mais que uma vez por mês”.

Digo “aparentemente simples” porque, após vários anos fixando por escrito minhas metas, tenho observado que as supostamente simples são exatamente as mais difíceis de serem alcançadas. Nos últimos sete anos, publiquei mais de um livro por ano, mas continuo me irritando no trânsito quase todo dia.

Pelo que observo dos avanços tecnológicos deste século e do caos que vejo nas ruas da minha cidade, concluo que não sou o único com esse problema. Em geral, as nossas maiores dificuldades estão nas coisas do dia-a-dia. Conseguimos realizar grandes projetos, mas tropeçamos nos pequenos obstáculos da convivência com o outro.

Se me fosse dado interferir no planejamento das outras pessoas, seria essa a meta que eu incluiria para todos: “Respeitar a vida e a dignidade das outras pessoas”. Como não posso, limito-me a fazer a anotação em meu próprio planejamento, embora ciente de que meu egoísmo continuará reivindicando seu espaço.

Creio que posso encerrar por aqui minhas reflexões de fim de ano, desejando a cada um dos leitores que suas metas pequenas e grandes para o próximo ano sejam alcançadas. E que o alcançar dessas metas conduza a uma vida mais feliz em um mundo melhor.


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PAZ E MÚSICA. PALAVRAS E MÚSICAS.

Balansoul

Em um dos primeiros dias de setembro de 2012, recebi um pedido que logo viria a reconhecer como sendo um dos meus maiores desafios na atividade de buscar a comunicação por meio da palavra escrita. Estava estacionando o carro, quando o celular tocou. Vi o nome que aparecia no monitor e atendi:

- Fala, meu mestre!

- Poeta, eu tô precisando de você.

- Se estiver ao meu alcance, amigo, bote OK aí na sua agenda. O que é?

- Eu acabei de gravar o meu CD e queria que você escrevesse alguma coisa pra botar no encarte.

Meu interlocutor era o músico Wanderley Freitas, capaz de tirar sons do baixo elétrico que a gente só acredita vendo, porque ouvindo parece efeito especial. Sei que faz milagres também com o baixo acústico, mas ainda não o vi tocando um. Chamo-o de “meu mestre” em referência às aulas de contrabaixo que me deu em 2009. Na época, ele já comentava que vinha compondo melodias para um disco autoral.

- Mas, eu escreveria o quê? – perguntei.

- Aí é com você. Sabe como é, né? CD de música instrumental não tem as letras das músicas. Eu pensei: podia ter algum texto que passasse um pouco do sentimento das minhas composições. Só que, para fazer isso, seria bom um poeta. Foi aí que lembrei de você!

Estava posto o desafio. Não sei se o leitor já pensou nisso, mas, a escrita pode ser vista como uma forma de representar a linguagem falada por meio de sinais gráficos. Sendo assim, uma das dificuldades de quem se expressa por escrito é compensar a perda do gestual, das expressões faciais, das entonações de voz de uma conversa. Além de outras sutilezas, às vezes conscientemente imperceptíveis. Naquele dia, a proposta que recebi incluía uma dificuldade a mais: as ideias e sentimentos que eu deveria expressar, através das palavras escritas, deveriam ser colhidas de outra forma de linguagem, sobre a qual tenho pouco domínio: a música instrumental.

Conversamos um pouco mais e ficou acertado que Wanderley me mandaria os MP3 com as músicas por e-mail. Eu ouviria cada uma delas e, até o final da semana, escreveria o texto. Não um texto analítico, falando da técnica ou do estilo da obra, mas, uma manifestação de sentimentos que aflorassem durante a audição do CD. Afinal, sou um poeta, não um crítico musical.

E foi o que fiz. Baixei as músicas, pus em um pendrive e conectei no som do carro. Durante aquela semana, para onde eu fosse, as músicas do Wanderley me acompanhariam.

As primeiras audições foram assim, sem compromisso, em meio a engarrafamentos ou na solidão da estrada que liga Fortaleza a Quixadá. Fui me familiarizando com as melodias, assimilando as variações, percebendo os instrumentos que faziam parte de cada uma das faixas. Tentando não pensar no que escreveria inspirado por elas.

Isto me trouxe o primeiro valioso momento dessa história. Logo na primeira música, meu carro encheu-se de sons de saxofone, piano, flauta, trombone… O contrabaixo marcante, como seria de se esperar do disco de um músico cujo instrumento preferido é o das notas graves. De repente, chamou-me a atenção um som de cavaquinho entre os metais…

- Tem um cavaquinho em Balansoul? – perguntaria eu, mais tarde, por telefone. (Se o leitor clicou no play, lá em cima, deverá estar ouvindo Balansoul neste momento, e talvez escute também o cavaquinho).

- Tem sim. E um banjo também – responderia ele.

Só consegui ouvir o banjo depois de escutar o disco em casa, concentrado, sem os barulhos do trânsito ao meu redor. Os fones de ouvido ajudaram. Foi esse, aliás, o segundo valioso momento dessa experiência. Fechar os olhos e ficar ouvindo, não mais de forma descomprometida, como fiz quando estava no carro, mas totalmente envolvido pela música. Às vezes, seguindo um único instrumento praticamente durante toda uma execução. Outras vezes, saltando de um som para outro, conforme a melodia avançava.

Então foi possível sentir o bom humor de Mister Bamba, a melancolia de Noite Cinza, a serenidade de Paz e Música. Em Clara, os harmônicos do baixo lembraram-me uma caixinha de música. Mais tarde, em outro telefonema, Wanderley me diria que a compusera para a filha recém-nascida, enquanto ela dormia.

Depois disso, escrever sobre as sensações durante a audição foi fácil. Pelas duas da madrugada, o texto estava pronto. Acho que o resultado ficou bom. Não cometeria a indelicadeza de revelar aqui o seu conteúdo, antes de o CD ser lançado, mas a frase com a qual o iniciei continua soando em minha mente: “Para quem se habituou à comunicação por meio das palavras parece mágica a expressão de sentimentos em frases musicais”.

Isso realmente me chamou a atenção. Nesses tempos de tantas canções com letras que nada dizem, as melodias de Wanderley Freitas, sem letra alguma, disseram-me muita coisa. A que dá nome ao disco tem como título exatamente o que ela é: Paz e Música.

 

Baixo a Lenha, ao vivo, com o baixista botando abaixo o mito de que um baixo sozinho não basta. Para ouvir as músicas citadas no texto, clique aqui.


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TEMORES GLOBALIZADOS (ou UM FURACÃO DENTRO DE CASA)

O furacão Sandy em foto de satélite

Segunda-feira, 29 de outubro de 2012. O furacão Sandy aproxima-se da costa leste dos Estados Unidos causando estragos e ameaçando vidas. Seu diâmetro é de mais de mil e seiscentos quilômetros, a velocidade dos ventos chega a 130 quilômetros por hora, cidades inteiras do litoral são evacuadas.

Acabo de assistir à reportagem no Jornal Nacional e vou ao supermercado. Lá, encontro uma senhora de uns setenta e poucos anos enchendo um carrinho com garrafas de água mineral e enlatados de todas as espécies. De sardinha a farinha láctea.

Compadeço-me ao ver o esforço da pobre mulher para empurrar o carrinho pesado. Ofereço ajuda. Ela aceita. Vamos caminhando lado a lado até os caixas.

- Comprou um bocado, não? – digo eu, puxando conversa.

- É por causa do furacão…

Estranhei a resposta. “Furacão no Ceará?”, pensei. Custei a crer que poderia ser o que eu estava pensando. Mas…

- A senhora não me leve a mal, mas o único furacão que eu tive notícia vai passar nos Estados Unidos… Lá em cima, perto de Nova Iorque…

- Eu não sei onde é isso não, meu filho. Mas, pela cara do Uílame e da Patrícia, esse bicho chega já aqui.

Sorri meio sem graça e segui adiante. Já estávamos chegando aos caixas. Despedi-me e fui terminar minhas compras, torcendo para não ventar muito durante a madrugada.

Felizmente, a possibilidade de chover no Ceará nessa época do ano é praticamente zero. Se cai qualquer chuvinha numa noite dessas, aquela pobre mulher nem conseguiria dormir.


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OS IMORTAIS DA TERRA DOS MONÓLITOS

Os novos imortais

Ontem, 27 de outubro de 2012, data na qual a cidade de Quixadá completou 142 anos, um grupo de apaixonados pelo conhecimento e pela cultura, especialmente pela literatura, participou de um ato solene que há de repercutir por muitos e muitos anos: foi fundada a Academia Quixadaense de Letras.

Foram vinte os acadêmicos fundadores que receberam o título de imortais.

Aliás, foram não, fomos, porque, após a alegria de ser acolhido por Quixadá – tendo sido agraciado com o título de cidadão quixadaense, em julho deste ano – participei dessa iniciativa tão importante em prol do enriquecimento cultural da Terra dos Monólitos,tornando-me também um imortal.

Este colunista fubânico com os paramentos da AQL

E foi uma bela festa, com a presença de representantes das academias de letras de Salvador-BA, Lavras da Mangabeira-CE e dos municípios do Estado do Ceará. Autoridades, empresários e muita gente interessada em cultura, lotando os mais de trezentos lugares do auditório da Cúria Diocesana.

O sucesso do evento é um sinal de que existem muitas pessoas interessadas em cultura no sertão central do Ceará. O que é preciso são iniciativas que rompam com a mesmice da massificação cultural, proporcionando às pessoas, especialmente aos jovens, oportunidade de manter contato com manifestações efetivamente artísticas, no campo da literatura, da música e de tantas formas de expressão.

Acredito que trabalhar para isso é um dos grandes desafios da Academia Quixadaense de Letras.

Mas, pensarei nisso a partir de amanhã. Hoje quero aproveitar a sensação prazerosa de ter ajudado a criá-la.

Não posso encerrar sem parabenizar e agradecer a três pessoas que foram fundamentais para que a Academia Quixadaense de Letras seja uma realidade: João Eudes Costa, nosso presidente; além de Ângela Costa e Wanderley Barbosa, que não são acadêmicos, mas tiveram participação decisiva desde o princípio. Esse detalhe, de não serem acadêmicos engrandece ainda mais a sua dedicação à causa. 


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ALIANÇAS ARGENTÁRIAS

Durante o julgamento de José Dirceu, José Genuíno e Delúbio Soares, por corrupção ativa, o Ministro Carlos Ayres Britto afirmou, em seu voto, ser “catastrófico e profanador” o estilo de fazer política, por meio de “alianças argentárias”.

Um amigo, avesso à temática jurídica, queixou-se comigo: “Com tanto juridiquês fica difícil!”.

De fato, a expressão é pouco usual, mas não me parece juridiquês. Afinal, argentário significa algo que tem como base o argento, ou seja, a prata. E a prata, no caso, simboliza o dinheiro. Assim, “alianças argentárias” não seriam mais que acordos políticos feitos em troca de dinheiro. Acordos, portanto, que não eram acordos, pois o parlamentar que age por dinheiro vende a si mesmo, vende o mandato recebido, vende a confiança recebida de seus eleitores.

Durante o julgamento desses atos, o que se viu foi o Britto poeta fornecendo as ferramentas da linguagem simbólica da poesia, para que o Ministro Britto pudesse expressar, mais que um entendimento jurídico, o seu sentimento de indignação. Porque, no mundo poético-literário, admira-se o herói, que age por altruísmo; aceita-se o aventureiro, que se arrisca em busca do ouro e da glória; mas, repudia-se o traidor, que entrega os seus companheiros em troca da prata.

Nessa linha simbólico-poética, até a escolha do metal que representa o dinheiro tem uma razão de ser. Porque, sendo o ouro o mais nobre dos metais, não serve para simbolizar o dinheiro ganho por meios espúrios. Daí se dizer que o traidor agiu pela prata. Ou, pior, que entregou o seu melhor amigo em troca de alguns cobres.

Ao falar de “alianças argentárias”, não creio que o Ministro Britto tenha agido movido pelo vício do juridiquês, e sim estimulado pelo Britto poeta. Como escrevi certa vez:

A poesia é presente
No olhar do acusado,
Seja quando ele é culpado
Seja quando é inocente.
Na testemunha que mente
E na que fala a verdade.
Na imparcialidade
Que todo juiz queria.
Veja quanta poesia
Em nossa realidade! 

 (Publicado no site jurídico Migalhas)


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DÁ CERTO COM MUITA GENTE, MAS NÃO DEU CERTO COMIGO

Dá certo com muita gente,
Mas não deu certo comigo.

Procuro aqui glosadores,
para um mote elaborado
para quem foi derrotado
onde há muitos vencedores.
No comércio ou nos amores
há sucesso e há perigo.
No poesia eu lhes digo
que cantoria e repente,
Dá certo com muita gente,
Mas não deu certo comigo.

Me saio bem em rimar
e de métrica eu entendo
os meus versos vou fazendo,
mas não sei improvisar.
Viola não sei tocar,
já tentei e não consigo.
Meu desejo é muito antigo,
mas, viola, infelizmente,
Dá certo com muita gente,
Mas não deu certo comigo.

O comércio eu já tentei,
mas compliquei minha vida,
muita dívida vencida
foi o que eu acumulei.
Ainda hoje não sei
a razão desse castigo.
Comentei com um amigo:
Comércio, por mais que eu tente,
Dá certo com muita gente,
Mas não deu certo comigo.

Futebol é um esporte
que é paixão do brasileiro.
Inventei de ser goleiro,
mas, não tive muita sorte.
Uma bola bateu forte
abaixo do meu umbigo.
Pra não correr mais perigo,
do futebol ando ausente.
Dá certo com muita gente,
Mas não deu certo comigo.


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TRAVA-LÍNGUA CANTADO

No dia 21 de setembro passado, participei do 1º Encontro de Escritores Cearenses, na Casa do Ceará, em Brasília.

Logo que anunciei o evento aqui no JBF, dizendo que declamaria alguns cordéis e apresentaria outros musicados, alguns amigos pediram para que eu filmasse tudo e postasse.

Bem, amigos, lamento informar que a filmagem não deu certo.

Mas, para não passar em branco, filmei em casa mesmo a versão musicada de “Um sapo dentro de um saco”, tal como apresentada em Brasília. Ela é feita de trechos do livro de minha autoria com o mesmo título, ilustrado por Eduardo Vieira e editado pela Demócrito Rocha, incluído no Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação, para 2013.

Acho interessante ter uma versão musicada para esses versos porque a obra é baseada em um trava-língua, devendo ser trabalhada com crianças no campo da oralidade. Claro que os professores poderão usar outras formas de apresentação, mas fica a minha sugestão.


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SOBRE AMIGOS LEAIS E SUAS TRAIÇÕES

 

- Tenho um assunto meio delicado pra falar contigo – disse o Pereira ao Roberto, no meio da tarde da sexta-feira. Estava calmo, mas o olhar deixava escapar certa preocupação.

- Precisa ser agora ou pode ser depois do expediente?

- Pode ser depois. Sem problema.

- Tem happy hour hoje no Panela Velha. Será que dá pra gente conversar lá?

- Melhor não. Vamos dar uma passada no Bar da Tia Noélia. Depois a gente segue pro Panela.

- Beleza! – concordou o Roberto sorrindo, mas percebendo o tom preocupado do amigo.

No final da tarde, saíram do trabalho juntos e foram ao local combinado. Apesar do jeito sério como o Pereira falara horas antes, não havia tensão. Conheciam-se há mais de cinco anos, desde que o Roberto começou a trabalhar na empresa onde o Pereira estava há dez. Tornaram-se amigos rapidamente e era comum beberem juntos após o expediente. Geralmente iam com outros colegas de trabalho a um lugar – meio bar, meio restaurante – chamado Panela Velha, próximo à empresa. Mas, às vezes, saíam só os dois, principalmente se queriam conversar sobre temas mais reservados, como problemas de família ou aventuras com mulheres. Se bem que, nesse segundo aspecto, quem sempre tinha alguma novidade para contar era o Roberto. Já havia passado por dois casamentos e agora vivia uma união quase estável, como ele mesmo definia, mas parecia sempre propenso a novas experiências. O Pereira, casado com a mesma mulher há quase vinte anos, também tinha suas escapadas, mas, em geral, limitava-se a ouvir e admirar a facilidade com que o amigo renovava as companhias femininas.

Depois de uns goles de cerveja e algumas amenidades, o Pereira introduziu o assunto:

- Beto, eu queria ouvir a tua opinião sobre uma situação que um amigo meu está passando. Só que ele me pediu que eu não contasse pra ninguém, então eu não vou poder dizer de quem se trata. Pode ser?

- Claro, Pereira. E nem se preocupe, que eu não vou insistir pra você dizer quem é. Segredo é segredo.

- Pois é o seguinte. Esse meu amigo acha que está sendo traído. E, pra falar a verdade, eu não disse pra ele a minha opinião, mas acho que está mesmo…

- Pereira, tem um detalhe aí – interrompeu o Roberto. – Tudo bem que você queira falar do milagre sem dizer o nome do santo. Entendo e respeito. Mas, se esse “amigo” for um de nós dois, é melhor abrir o jogo…

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OLIMPÍADAS, BOXE E MMA

Estava preparando um conto para enviar para a Coluna, quando vi que a última postagem tinha sido a “História incompleta de um lutador”, então achei melhor completar a história primeiro.

Como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, acho que o vídeo a seguir conta melhor como terminou a história do rapaz que queria ser campeão brasileiro de boxe:

No final de semana seguinte ao da luta, o Jornal O POVO, de Fortaleza, publicou o seguinte comentário meu em sua coluna Ponto de Vista:

O desempenho do Brasil em Londres deu aos aficcionados pelo boxe motivos a comemorar, com duas medalhas de bronze, com Adriana Araújo e Yamaguchi Falcão, e uma de prata, com Esquiva Falcão. A conquista chega num momento no qual o boxe brasileiro convive com um paradoxo: a grande procura nas academias contrasta com a pouca expressão dos eventos do esporte, tanto amadores como profissionais. Uma das principais explicações para isso é o crescimento do MMA.

Os atletas procuram o boxe não para se tornar boxeadores, mas para aprender a usar os golpes dele no MMA. Procura que recebeu um impulso a mais depois que Júnior Cigano conquistou o título dos pesados no UFC usando poderosos golpes de boxe.

Mas é preciso lembrar que o próprio MMA depende do desenvolvimento das outras lutas para crescer e se aperfeiçoar. Dificilmente um lutador iniciará a carreira diretamente pela mistura de artes marciais. Assim, é importante que cada modalidade de luta seja incentivada, para que não seja ameaçada pelo MMA, mas, ao contrário, se desenvolva e até forneça novas técnicas para quem vai ao octógono.

Voltando às Olimpíadas, o resultado do Brasil em Londres mostra que temos plenas condições de obter no boxe resultados ainda melhores. É uma questão de apoiar os atletas e investir neles.


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HISTÓRIA INCOMPLETA DE UM LUTADOR

 

Neste dia em que meu mestre Flávio Leal, também conhecido como “Vitor Cara de Águia, luta pelo título da campeão brasileiro de boxe, na categoria dos meio-médio-ligeiros, rendo-lhe esta homenagem. Qualquer que seja o resultado, esse guerreiro já é um vencedor:

Era uma vez um menino
que vivia em Salvador,
riqueza ele nunca teve
mas sempre teve valor.
E deu-se que esse menino
escolheu como destino
se tornar um lutador.

Começou a treinar boxe
na pequena academia
que havia em seu bairro
e aos poucos aprenderia,
jabs, diretos, cruzados,
e ganchos bem aplicados,
Era isso o que queria!

Esse menino cresceu
e, de fato, conseguiu
fazer do boxe o caminho
que em sua vida seguiu
para chegar à vitória,
e, assim, a sua história
ele mesmo construiu.

Mas, quando já era adulto,
quis trabalhar registrado,
e foi para Fortaleza,
onde fora contratado.
Trabalhou quase dois anos,
mas, mudaram os seus planos
ao ficar desempregado.

Então, longe da familia,
vivendo em outra cidade,
pensou: “Posso até chegar
a passar necessidade.
Mas, jamais desistirei,
e logo conseguirei
outra oportunidade”.

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A SENTENÇA: UM ATO DE FÉ

(*) Escrevi este texto para o site Migalhas, voltado para profissionais do Direito, tendo sido publicado lá no dia 06.09.2012. No mesmo dia li no JBF o artigo “A arte da Justiça”, de Glória Braga Horta e achei que deveria trazê-lo para a comunidade fubânica. Perdoem-me se não houver conseguido me expressar tão claramente como pretendia.

Nesses tempos em que muitas pessoas não dedicadas à Ciência do Direito se interessam por questões jurídicas, proponho-me a fazer uma reflexão sobre um tema jurídico em uma linguagem acessível a não juristas, razão pela qual reduzirei ao mínimo necessário o uso de termos técnicos.

Feito esse esclarecimento inicial, tomo como ponto de partida para a anunciada reflexão o ato pelo qual o juiz define quem é o dono de determinado bem, diz se alguém deve pagar determinada quantia, condena ou absolve o acusado de um crime, enfim, decide a questão central que lhe é apresentada em um processo. É a chamada sentença judicial de mérito, a qual passo a chamar simplesmente de “sentença”, em consonância com o anunciado no parágrafo anterior.

Os estudiosos do assunto têm uma infinidade de conceitos para a sentença. Uns destacam o seu aspecto formal, outros dão relevo ao seu aspecto material, todos de alguma forma incompletos, não por incapacidade dos cientistas do Direito, mas pelas limitações que a comunicação por meio de palavras nos impõe, notadamente quando essas palavras estão escritas, desprovidas, portanto, de entonações e gestos presentes na linguagem falada.

Nessa linha de pensamento, a idéia aqui não é formular uma nova definição ou conceito de sentença, mas reconhecer que, se, por um lado, ela é o resultado da atividade intelectual do juiz, que lança mão do seu raciocínio e do seu conhecimento, especialmente o jurídico, por outro, ela é um ato de fé.

Por que um ato de fé? É isso que ora tento explicar, compartilhando ideias que há alguns meses giram em minha mente.

Para isso, fixemos inicialmente o pressuposto de que, para que o juiz profira uma sentença, é necessário que alguém o peça. Simplificadamente, pode-se dizer que alguém se dirige à Justiça, pedindo o reconhecimento de determinado direito, o qual vem sendo ameaçado ou tolhido por outrem. Na esfera penal, o Ministério Publico, representante da sociedade que é, pede a aplicação de uma punição a alguém que é acusado de praticar um ato considerado crime pela lei do país.

Posto isto, não direi qualquer novidade se afirmar que, ao proferir uma sentença, o juiz tem como objetivo solucionar um conflito de interesses, e intenta fazê-lo por meio da aplicação de normas jurídicas à questão de fato que está no centro desse conflito.

Ocorre que, ao se dedicar a essa tarefa, o juiz se depara com a seguintes perguntas: Quais os fatos efetivamente ocorridos? Quais as normas adequadas para regular esses fatos?

A primeira noção que o juiz tem dos fatos a serem julgados, chega por meio da parte que leva o conflito à Justiça, o autor da ação. O autor descreve os fatos e pede a aplicação das normas que entende cabíveis a eles, sugerindo desde logo quais seriam essas normas. Isso é feito, em regra, por uma pessoa detentora de conhecimentos jurídicos, como um advogado, um promotor ou um procurador.

O juiz, entretanto, não pode aceitar de imediato esses fatos como verdadeiros, nem tampouco a adequação das normas jurídicas sugeridas, por um motivo muito simples: aquele que pede a manifestação da Justiça tem interesse no resultado do julgamento, ou seja, pretende que a sentença seja julgada em seu beneficio, logo, tende a narrar os fatos e escolher as normas em conformidade com os seus interesses.

Então, o juiz precisa saber a versão dos fatos, e a sua interpretação, do ponto de vista de quem deverá sofrer as consequências de uma eventual procedência do pedido do autor. Em linguagem corrente no mundo jurídico, o juiz precisa ouvir a outra parte no processo. Obviamente que também essa versão dos fatos e, bem assim, sua conformação jurídica, são influenciadas pelo interesse de quem as emite, logo também tendenciosas.

Vê-se, portanto, que o juiz tem diante de si pelo menos duas versões de um mesmo fato, em geral divergentes, embora eventualmente possam guardar similaridades.

O certo é que o fato mesmo existe somente no momento em que acontece. Tudo o que vem depois são versões, umas mais fiéis aos acontecimentos, outras menos. Das versões levadas pelas partes a juízo, o juiz não pode nem deve se vincular a qualquer delas, cabendo-lhe examinar as provas que lhes dão suporte, tais como depoimentos de testemunhas, documentos, perícias, etc.

Ao fim do processo, depois de examinar todas as provas, o juiz obterá a sua própria versão dos fatos, muito provavelmente uma terceira versão, diferente daquelas que lhes foram apresentadas por cada uma das partes interessadas.

Entretanto, terá o juiz certeza de que a versão por ele construída é a mais aproximada dos fatos como efetivamente ocorreram? Evidentemente que não. O que ele tem é convicção, convencimento, confiança em sua própria capacidade e discernimento. Numa palavra, o juiz tem fé. Fé, no sentido de crença de que os fatos aconteceram da maneira que ele imagina.

Mas a missão do julgador não acaba aí. Definida essa versão dos fatos em favor da qual emite a sua profissão de fé, passa o juiz a buscar as normas jurídicas aplicáveis a ela.

Também aqui sua tarefa não é fácil. São inúmeras as fontes que o juiz precisará buscar para encontrar as normas adequadas ao caso que precisa ser decidido: Constituição, leis, decretos, etc. Isto é assim, não porque a quantidade de leis do nosso país seja muito grande – embora isso piore a situação – mas porque é uma característica comum dos sistemas jurídicos que a norma adequada para um caso concreto seja obtida a partir da combinação de princípios e regras que estão dispersos no chamado ordenamento jurídico. A realidade é muito dinâmica, de forma que é praticamente impossível o texto de uma lei prever todas as possibilidades de um fato.

Por exemplo, em seu artigo 121, o Código Penal Brasileiro define como crime “matar alguém”. Em outro artigo, o mesmo Código Penal esclarece que matar em legitima defesa não é crime. Outro artigo dirá que também não será punido o doente mental que venha a matar se não tiver noção do que está fazendo. Para fixar a medida da pena, que poderá variar entre seis e vinte anos, a lei prevê que o juiz deverá levar em consideração uma série de fatores, tais como culpabilidade, antecedentes, conduta social do agente, e outros mais. Vê-se, portanto, que somente diante da descrição completa do fato é possível identificar a combinação de regras que servirá para julgá-lo, dizendo finalmente, neste exemplo, se o réu deve ser punido e em que medida.

Lançando mão de sua formação jurídica, o juiz manuseará esse emaranhado de regras e princípios para escolher as normas aplicáveis àquela versão dos fatos que ele adotou como verdadeira. Usará técnicas de interpretação, citará ensinamentos transmitidos por doutrinadores, consultará julgados de casos semelhantes e fará exercícios de lógica. Dependendo de sua formação filosófica, ponderará os efeitos sociais e econômicos da sua decisão e a confrontará com o próprio bom senso. Somente após todo esse processo, dirá, afinal, qual norma jurídica regula o fato em discussão.

Mas, terá ele certeza de que efetivamente escolheu a norma mais adequada ao fato? Por maior que seja o saber jurídico do julgador, a resposta é, inevitavelmente, não. Mais uma vez, o juiz terá convicção de seus argumentos, mas certeza é algo incompatível com essa atividade. E se não há certeza, o que prevalece é a fé.

Juntando-se, assim, os dois aspectos da sentença aqui abordados (os fatos e as normas que o regulam), conclui-se que, ao cumprir a sua missão de aplicar a norma jurídica ao caso concreto, o juiz, em verdade, aplica a norma que ele crê adequada aos fatos que crê tenham acontecido. Um ato de fé.

Não da fé em coisas sobrenaturais, mas da fé na razão humana, no conhecimento, no raciocínio. O mesmo tipo de fé que levou o ser humano a construir o primeiro avião e acreditar que ele voaria. Um dia voou mesmo. Hoje, milhares de pessoas embarcam diariamente nessas máquinas maravilhosas, certas de que voarão em segurança até o seu destino.

É empurrada por essa fé que a civilização avança e a humanidade encontra soluções para os obstáculos que encontra.

Voltando aos juízes e suas decisões, observa-se também que as relações sociais se pacificam na medida em que a maioria das pessoas compartilha dessa fé, acreditando que as sentenças judiciais são um instrumento eficaz de distribuição de justiça. Daí a necessidade de que, além de vasto conhecimento jurídico, os juízes tenham boa  formação humanística, para que não apliquem cegamente a lei, mas deem a ela a finalidade social mais adequada.

E, antes de tudo, que os juízes tenham uma sólida base moral. Porque a sentença só é um ato de fé quando o juiz está imbuído do propósito de fazer Justiça. Quando um juiz profere uma sentença movido por qualquer outro interesse, próprio ou de terceiros, já não pratica mais um ato de fé, e sim um ato de má-fé, não merecendo receber da sociedade essa missão tão importante que é a de dizer qual o direito de cada um e julgar a conduta dos outros homens.


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A MÁSCARA VENEZIANA (MADE IN ITALY)

 

Máscaras

Fazer encomendas a amigos que viajam ao exterior é uma prática que definitivamente não me atrai. Prefiro que cada um visite os lugares que puder e quiser, sem se preocupar com isso. Se desejar trazer-me algum souvenir, fico feliz por ter sido lembrado, independentemente do valor do presente.

A par disso, um casal amigo recentemente foi de férias à Europa e, de tanto insistirem para que eu escolhesse alguma coisa para me trazerem, abri uma exceção ao meu código de conduta pessoal. Sabendo que uma das cidades por onde passariam seria Veneza, lembrei que, quando lá estive, trouxe uma de suas famosas máscaras, mas ficou grande demais para por na minha estante de recordações, então achei que seria uma oportunidade para consertar isso:

- Uma máscara pequena, por favor, para caber na minha estante. Tem umas do tamanho da palma da minha mão que não custam mais que seis euros – expliquei.

- Meu amigo, o mundo seria melhor se todos fizessem encomendas como você! Pode deixar com a gente.

Apertamo-nos as mãos e, quando já se retiravam, lembrei um detalhe:

- Ah! Só uma coisa: cuidado para a máscara não ser “Made in China”. O mais importante para mim é que ela seja feita lá mesmo, em Veneza.

- Claro!

Despedimo-nos e eles se foram. Ontem, recebi do referido amigo um email com o seguinte conteúdo:

* * *

Meu caro amigo,

Compramos a sua máscara hoje. Só retornaremos ao Brasil na próxima semana, mas não resisti à tentação de lhe contar hoje mesmo a experiência que vivemos para atender ao seu pedido.

No começo pareceu que ia ser fácil. Praticamente em frente ao hotel havia um quiosque onde se vendia todo tipo de souvenir. Mas, quando nos aproximamos e fomos atendidos por um chinês, desconfiei logo que sua máscara “Made in Italy” não estaria ali. Depois de alguma dificuldade de comunicação – misturando inglês, italiano, português e alguma mímica – entendi que tudo naquele estabelecimento era “Made in China”, das camisetas e bonés às máscaras e miniaturas de gôndola.

Deixamos a busca da sua máscara para depois e fomos passear pela cidade. Rialto, San Marco, Palácio do Doge… Programação normal de turista. De vez em quando passávamos em frente a vitrines onde havia máscaras e procurávamos com os olhos alguma no tamanho que você havia falado. Chegamos a entrar em algumas lojas. Aprendi que essas máscaras podem ser feitas de papel maché, porcelana ou mesmo de plástico, que são as mais baratas. Mas, não encontramos nenhuma que se enquadrasse nos seus critérios: pequena e feita em Veneza.

No dia seguinte, nas proximidades da Igreja de São Jeremias, deparamo-nos casualmente com uma loja onde havia máscaras dos mais variados tamanhos e cores. Imaginei que talvez pudéssemos comprar ali o seu souvenir. Entramos e fomos atendidos por um indiano a quem perguntei o preço de uma das pequenas:

- Five euro – respondeu ele.

- “Made in China”?

- Yes.

- No, thanks. I want a mask made in Italy – esclareci.

- OK – disse ele. – Wait, wait… – e foi mais para o fundo da loja.
Instantes depois, voltou trazendo várias máscaras do tamanho que estávamos procurando, todas com uma pequena etiqueta onde estava escrito: “Certificato di Garanzia. Lavoro originale della regione del Veneto, Italia”. Esclareceu apenas que aquelas eram mais caras, na verdade, o dobro do preço das chinesas. Aceitei de imediato e até escolhemos uma para minha mãe e outra para minha sogra. Afinal, agora tínhamos nas mãos verdadeiras máscaras venezianas!

Mas foi exatamente nesse momento que me veio um pensamento desanimador: “Ora, se fazem máscaras de Veneza na China, por que não fariam também o certificado de garantia?”.

Questionei o vendedor sobre isso, mas acho que ele se ofendeu. Ficou nervoso e disse algumas coisas que não entendi, não sei em qual idioma. Desculpei-me, expliquei a razão da minha preocupação e ele acabou compreendendo. Para minha surpresa, perguntou se eu gostaria de ver os artesãos trabalhando na oficina. Claro! Era isso mesmo que eu queria. Seria a prova cabal de que a fabricação era autêntica!

Beco

Fui com o indiano. Enquanto minha mulher ficou esperando na loja, eu e ele saímos e seguimos por vielas cada vez mais estreitas. Afastamo-nos das rotas dos turistas, ele andando rápido e eu o seguindo como podia. Depois de alguns minutos de caminhada, chegamos a uma casa de dois andares, no fim de um beco sem saída.

Entramos. Logo no primeiro compartimento havia materiais variados, como tecidos, plástico bolha e papelão. Também havia pilhas de máscaras de diversos tamanhos, mas com a peculiaridade de serem todas brancas, sem as pinturas, brilhos ou plumas que as máscaras venezianas normalmente ostentam.

O indiano se dirigiu à porta que dava para o segundo compartimento. O calor era insuportável. Parou na entrada, olhou-me com ar de vencedor e, sorrindo, apontou para dentro do quarto, dizendo:

- Now, you can see. Made in Italy!

Agora era eu que me postava à porta do quarto e olhava para o seu interior. Lá dentro, quinze chineses estavam amontoados, suados, sem camisa, fazendo máscaras das mais diversas formas, das maiores às menores. Uns as pintavam, outros colavam enfeites. As mãos ágeis faziam tudo com rapidez e segurança. Ao me verem, um deles comentou alguma coisa – que eu obviamente não entendi – e todos os seus colegas sorriram. Aliás, quase todos, porque o único que estava vestido da cintura para cima, além de não sorrir, falou em um tom como se repreendesse os outros. Eles pararam de rir e continuaram trabalhando.

Fiquei meio chocado com aquela cena, mas tive que reconhecer: aquelas máscaras eram realmente feitas em Veneza. Apertei a mão do indiano em agradecimento à disponibilidade de me levar até ali e voltamos à loja onde concluímos a compra.

Espero que você goste da nossa escolha. Afinal, cabe na palma da mão e é uma legítima máscara veneziana. “Made in Italy”. :-)

 

Máscara pequena


Mundo Cordel
PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE MENSALÃO

Com o julgamento do processo do Mensalão, palavras até pouco tempo restritas ao mundo jurídico chegaram ao público em geral. Expressões como “prescrição”, “competência”, “impedimento” e “sustentação oral”, nem sempre de fácil apreensão por quem não respira o ar dos corredores forenses, são cada vez mais lidas e ouvidas.

E não foram só as expressões jurídicas que passaram a chamar a atenção. O mesmo tem acontecido com o método de trabalho dos juízes, o processo de escolha dos Ministros do Supremo, as estratégias do Ministério Público e dos advogados de defesa, e tantas outras juridicalidades (acho que essa é nova) que se tornaram tema de noticiários e de comentários de articulistas famosos.

Ocorre que, exatamente por não serem habituadas às expressões e aos mecanismos do mundo juridico, muitas pessoas alternam sentimentos que vão da apreensão à perplexidade e acabam desistindo de tentar entender os acontecimentos. O fato ocorre inclusive com pessoas cultas e bem informadas. Para algumas destas, dizer que o que está acontecendo no STF é apenas um jogo de faz de conta, e que tudo já estaria previamente decidido, pode parecer uma desculpa razoável para ficar distante das incômodas questões jurídicas.

Mas, será que deveria ser assim? Afinal, o Direito regula desde o modo como dirigimos um carro até o quanto se pode desmatar da mata nativa em uma propriedade rural. É por meio do Direito que se definem como os tributos são cobrados, quais condutas são definidas como crime e as regras para as eleições. Por que então a maioria das pessoas fica tão desconfortável diante de temas jurídicos?

Reconheço que nós, profissionais do Direito, contribuímos para esse afastamento, nos comunicando muitas vezes através do chamado “juridiquês”, mas, será que é essa a verdadeira causa da pouca difusão do conhecimento jurídico? É curioso ver como até jornalistas que cobrem julgamentos demonstram insegurança. Não que devessem ser especialistas no assunto, mas conhecer o essencial ajudaria a dar informações mais claras ao público.

Penso nisso e lembro de um trabalho que vi meu filho fazendo outro dia para a escola. Ele estudava a célula e falava de citoplasma, mitocôndrias e outras partes minúsculas do nosso corpo. Acho importante que ele estude essas coisas. Mas por que nossos jovens não estudam igualmente as células que compõem a estrutura orgânica do país?

Alguém poderia me dizer se nas escolas os jovens estão aprendendo algo sobre a função dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário? Se está sendo dito que a existência de Estados e Municípios no Brasil tem relação com o fato de o país ser uma República Federativa? Pois se nossos jovens tornam-se adultos sem saber as diferenças e semelhanças entre um Promotor de Justiça e um Procurador da República, como esperar que esses adultos entendam a existência de recursos das decisões judiciais?

Reflito sobre essas coisas e pergunto-me se não seria o caso de se levar à escola aulas sobre cidadania, instituições, direitos, deveres… Sim, deveres! Seria importante nossas crianças crescerem ouvindo falar sobre os deveres dos cidadãos, sobre as leis e a necessidade de respeito a elas.

Não defendo que ao concluir o ensino médio cada brasileiro fosse um bacharel em Direito, mas acredito que conhecimentos básicos de Direito e Ciência Política deveriam ser difundidos entre as pessoas desde a pré-adolescência. Acredito que, assim, quando houvesse um julgamento como o do Mensalão, muito mais gente poderia compreender os acontecimentos e ter uma postura crítica em relação a eles.

Aliás, permitindo-me certo otimismo, acredito que, se esses conhecimentos nos fossem transmitidos desde cedo, teríamos melhores chances de fiscalizar os nossos representantes, evitando que casos de corrupção e desvio de dinheiro público fossem tão recorrentes no Brasil.


Mundo Cordel
TRATORES, AVIÕES E UMA RUA COM DOIS NOMES

(Da série “Memórias”)

Avenida Presidente Castelo Branco, em Fortaleza, nos anos 1970

O bairro onde nasci e me criei, em Fortaleza, tem a curiosa peculiaridade de várias de suas ruas serem identificadas por dois nomes, um oficial e outro atribuído pela população local.
 
Por exemplo, a minha casa ficava em uma rua chamada oficialmente de Pedro Artur, que era – e ainda é – conhecida como Rua Sete de Setembro. O nome da rua dos fundos da casa é Monsenhor Rosa, mas todos a chamam de Rua Mossoró. Basta caminhar até a esquina para chegar à Dom Hélio Campos, apelidada de Rua da Felicidade.
 
Pode ser estranho, mas é um traço cultural tão forte do lugar, que o próprio bairro chama-se oficialmente Nossa Senhora das Graças, mas qualquer fortalezense que passa por ali sabe que está atravessando o Pirambu.
 
No começo dos anos 1970, a minha rua era uma das mais importantes do bairro, porque era a via por onde circulavam os ônibus que faziam a linha para o centro da cidade. Foi assim até 1973, quando foi aberta a Avenida Presidente Castelo Branco, apelidada imediatamente de Leste-Oeste, porque segue paralela à margem do Oceano Atlântico, ligando o Mucuripe (Leste) à Barra do Ceará (Oeste).
 
Para os meninos da minha idade, foi uma ótima mudança, já que, sem os ônibus circulando, ficou mais seguro brincar na rua, mas a melhor parte aconteceu mesmo antes da inauguração da avenida, no período de sua construção.
 
Primeiro foi brincar nos escombros das casas desapropriadas, que as pessoas foram abandonando, levando portas, janelas, telhas e outros de seus pedaços, para aproveitar na construção da nova moradia. O cenário de destruição era perfeito para brincar de guerra e esconde-esconde, numa época em que as crianças podiam usar armas de brinquedo, e os pais não morriam de medo quando passavam horas sem saber onde os filhos estavam.
 
Depois, veio o tempo de assistir ao espetáculo das máquinas trabalhando. Ficávamos maravilhados com a força dos tratores de esteira, derrubando as últimas paredes que restavam das casas, revirando tudo e fazendo grandes montanhas de entulho. Sim, montanhas, porque, para um menino de sete anos, eram enormes aqueles montes de terra e, quando os tratores paravam, sempre achávamos um jeito de brincar neles. Depois vinham as pás mecânicas e punham toda aquela terra em caminhões que a levavam não se sabia para onde.
 
Máquinas de terraplanagem, de compactação, de colocação do asfalto, conhecíamos cada uma delas, certamente que por nomes diferentes desses que uso hoje.
 
Até que chegou o dia da inauguração, acredito que em outubro de 1973. Meu pai estava trabalhando, mas eu e meu irmão fomos com minha mãe ver a festa. Havia muita gente, carros, banda de música, caminhões de bombeiros e militares com fardas de todos os tipos.

A festa de inauguração da Avenida Leste Oeste

Eu nunca tinha visto nada parecido. De repente, ouvimos um barulho estranho, vindo do céu, e quatro aviões Xavante passaram sobre nossas cabeças. Voavam baixo, fazendo o que depois me diriam que era um voo rasante. Seguiram assim por mais alguns instantes e, de repente, subiram, quase na vertical, diante dos nossos olhos atentos e atônitos.

Mas, no meio da subida, um dos aviões passou a se comportar de modo estranho. Não acompanhava mais os outros, girava, rodopiava… Apontou o bico para baixo e sumiu por trás das casas. Uma imensa coluna de fumaça negra ergueu-se no ar.
 
Foi como se, por alguns segundos, tudo houvesse ficado em silêncio. Como se o tempo houvesse parado um pouco para que as pessoas pudessem entender o que estava acontecendo. Acho que eu nem respirava.
 
- Caiu! – gritou alguém.
 
E o tempo voltou a funcionar. Houve gritos e correria. Verdadeiro pânico tomou conta da multidão. Lembro bem de um caminhão de bombeiros saindo, com a sirene ligada, um de seus soldados correndo e se pendurando nele.
 
Olhei de novo para a coluna de fumaça. Mesmo tendo apenas sete anos eu podia perceber que sua base ficava bem na direção da nossa rua. Acho que minha mãe também percebeu isso, porque não queria nos levar para casa. Entramos apressados em um táxi que não sei de onde surgiu e fomos para a casa de uma amiga da família, um pouco distante da nossa.
 
Dona Geralda prometeu cuidar de nós enquanto minha mãe ia ver como as coisas estavam. Ficamos ali o dia inteiro, esperando notícias. Se fosse hoje teríamos procurado alguma coisa na TV ou na Internet, mas, naquele tempo, tivemos que aguardar até nossa mãe chegar, já no final da tarde, e nos levar para casa. Nosso pai já nos esperava lá.
 
Sim, a nossa casa continuava de pé. O avião caíra a uma quadra e meia dela, uns duzentos e cinquenta metros ao leste, segundo posso ver hoje nos mapas do Google.

A = minha casa / Cruz vermelha = lugar onde o avião caiu

Fomos dormir tarde da noite, depois de ouvir as muitas histórias que foram sendo contadas por vizinhos que a toda hora apareciam para conversar com meu pai.

No dia seguinte, de manhã bem cedo, eu e meu irmão fomos com meu pai ver o local do acidente. A cratera era imensa. Não sei quantas casas foram destruídas. Lembro que saía fumaça de alguns pontos do chão. Em um dado momento, soltei a mão de meu pai e me aproximei de algo parecido com uma pedra:
 
- Papai, tem uma coisa aqui! Tá meio enterrado, mas…
 
Meu pai revirou a terra com um pedaço de madeira e pudemos ver que era o pé de uma das vítimas. Um pé grande, de homem adulto, com um pouco de pele da perna todo encolhido, parecendo carvão. Fiquei olhando para aquele pé, até que um homem fardado aproximou-se e o recolheu.
 
Minutos depois voltávamos para casa, conversando sobre o que vimos ali. Alguns dias mais tarde, fiquei sabendo que treze pessoas haviam morrido no local, incluindo o piloto do avião.
 
A rua onde o acidente aconteceu chama-se Gomes Parente, e naquele tempo não tinha um segundo nome. Não tinha, porque desde então passou a ser conhecida como Rua do Avião.


Mundo Cordel
O GIRASSOL

Em um terreno baldio, em meio a restos de material de construção e muito mato, nasceu um pé de girassol.

Não se sabe se a semente foi lançada ali deliberadamente por alguém, se chegou trazida pelo vento ou se veio junto com os restos da refeição de uma calopsita. O certo é que a semente brotou, a planta cresceu e, em uma ensolarada manhã, uma bela flor amarela desabrochou, erguendo-se bem acima do mato rasteiro.

Antes que a flor surgisse, ninguém havia percebido a planta crescer até quase um metro e meio de altura. Talvez por isso as pessoas se mostrassem admiradas e surpresas com a presença do girassol naquele lugar improvável.

A mulher que morava em frente ao terreno baldio foi a primeira a ver a novidade, e ficou mais tempo que o de costume debruçada na janela do quarto, no andar de cima de sua casa dúplex. Um homem que passeava com seu cachorro ficou alguns minutos parado, simplesmente olhando para o girassol. Outra mulher, que levava o filho à escola, quase se irritou com os puxões que garoto dava em seu braço, tentando chamar a sua atenção para a flor. Antes, ele somente havia visto outras daquela espécie na Internet e em um livro de ciências. Ao perceber do que se tratava, a mãe se acalmou.

E assim foi o começo do dia naquela rua, até que cada um foi cuidar dos seus afazeres e o belo girassol ficou sozinho em seu terreno baldio.

Somente mais tarde, em um momento no qual não havia ninguém na rua, apareceu uma jovem senhora. Estava vestida com roupas que normalmente se usam em academias de ginástica e tinha os cabelos presos por uma faixa de tecido. Ela também parecia atraída pelo girassol, mas, ao invés de ficar olhando de longe, como os outros, caminhou com dificuldade pelo piso acidentado do terreno baldio, aproximou-se da planta e, com uma tesourinha de cortar unhas, rompeu o talo e retirou a flor. Depois foi para casa sorrindo, segurando em uma das mãos o seu troféu.

Minutos depois, o menino que havia dado puxões no braço da mãe passou novamente por ali, voltando da escola, e percorreu com os olhos cada centímetro do terreno baldio. No entanto, viu apenas o mato e restos de material de construção.

P.S.: Após esse episódio, o menino acabou por convencer a mãe a plantar girassóis em seu próprio quintal, mas, durante meses, cada vez que nascia uma flor, ele ficava todo o tempo que podia vigiando-a. Dizia à mãe que essas flores misteriosas podem se soltar da planta e voar em direção ao sol quando ninguém está olhando.

Publicado originalmente no sítio Migalhas


Mundo Cordel
DIA DOS NAMOROS SECRETOS

Quero fazer hoje uma homenagem aos que namoram em segredo. Aos que amam clandestinamente e, por isso mesmo, talvez nem se encontrem no chamado “Dia dos Namorados”. Ou talvez até se encontrem, mas furtivamente, no meio da tarde, acobertados por álibis bem ou mal elaborados.

Com ou sem álibi, muitos farão suas celebrações na véspera mesmo. Ou no dia seguinte, mas aí se arriscarão pelos caminhos do depois, onde as coisas podem ficar com gosto de ontem…

Amores secretos não combinam com postergações. Suportam as intempéries e os perigos, como a planta que brota entre as pedras do penhasco, carente de terra onde possa fixar suas raízes. Mas alimentam-se de urgência. Postos em segundo plano, definham e morrem.

Seria essa combinação de ansiedade e tolerância o segredo para esses amores marginais inspirarem tantas poesias, novelas, romances? Ou estaria na própria clandestinidade o seu fascínio?

Se o amor é verdadeiro por que não assumi-lo? – perguntarão alguns. Pergunta que parece ingênua, mas carrega no ventre um julgamento moral.

Quem nunca teve segredos que atire a primeira pedra. Deixemos de lado os julgamentos e prestemos homenagem a esses obstinados, que teimam em trocar presentes que não podem ser levados para casa.

Quantos não desejariam hoje apenas ser fotografados juntos ou – quem sabe – até compartilhar a foto com os amigos na Internet?


Mundo Cordel
O HABEAS CORPUS DOS EXTRATERRESTRES(*)

 

(*) Este texto de minha autoria foi publicado quinta-feira (23) no site Migalhas, voltado para profissionais do Direito. Desde então, tem sido replicado em vários outros sites. No Espaço Vital, o editor até acrescentou a imagem acima. Então achei que devia trazê-lo também para a comunidade fubânica.

Os relatos de aparições de OVNIS em Quixadá não são poucos nem recentes. Só para dar um exemplo bem conhecido, no dia quatro de junho de 1960, a escritora Rachel de Queiroz narrou, na sua coluna em “O Cruzeiro”, um avistamento presenciado por ela mesma no dia 13 de maio daquele mesmo ano. Diz a escritora: “(…) aquela luz com o seu halo se deslocava horizontalmente, em sentido do leste, ora em incrível velocidade, ora mais devagar. Às vêzes mesmo se detinha; também o seu clarão variava, ora forte e alongado como essas estrêlas de Natal das gravuras, ora quase sumia, ficando reduzido apenas à grande bola fôsca, nevoenta. (…). Tinha percorrido um bom quarto do círculo total do horizonte, sempre na direção do nascente; e já estava francamente a nordeste, quando embicou para a frente, para o norte, e bruscamente sumiu, – assim como quem apaga um comutador elétrico“.

Às vezes o assunto fica meio esquecido, mas sempre volta. Ultimamente, com a exibição do filme “Área Q”, voltou com força total. No filme, um repórter americano é enviado a Quixadá, para fazer uma matéria sobre OVNIs e abduções. No decorrer da trama, ele mesmo vive experiências cercadas de mistério, as quais estão relacionadas com o desaparecimento do seu filho ocorrido meses antes.

Com esse retorno do assunto às telas dos cinemas – e sabendo que nos arredores de Quixadá encontram-se desde pessoas que simplesmente viram luzes no céu até gente que perdeu o juízo depois de ser abduzida – não será de admirar se qualquer hora dessas for ajuizado algum habeas corpus cuja petição seja redigida mais ou menos assim:

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ FEDERAL DA 23ª VARA DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO CEARÁ

JOSÉ DE TAL (qualificação), vem respeitosamente à presença de V.Exa. impetrar o presente HABEAS CORPUS PREVENTIVO, o que faz com fundamento no inciso LXVIII do Art. 5º da Constituição Federal, em favor de três pacientes cuja qualificação neste momento não é possível, identificando-se, atualmente, apenas como Sócrates, Platão e Aristóteles, nomes que adotaram neste Planeta Terra, apontando como autoridades coatoras o Superintendente da Polícia Federal no Ceará, o Delegado de Polícia Civil de Quixadá, o Comandante da Polícia Militar em Quixadá e o Comandante do Tiro de Guerra de Quixeramobim-CE.

I – DOS FATOS

Há aproximadamente um ano os Pacientes vêm mantendo contato regularmente com o Impetrante, mediante comunicação telepática, tendo eles se identificado como seres de outro planeta, interessados em trocar experiências com os habitantes deste Planeta Terra, notadamente os da espécie homo sapiens.

Durante esse período, o Impetrante e os Pacientes têm aperfeiçoado sua comunicação, possibilitando ao Impetrante aprender sobre eles e também ensinar-lhes coisas sobre o nosso planeta. Os Pacientes até já aprenderam um pouco do idioma português, pois têm interesse em conversar com outras pessoas que não o Impetrante, mas, segundo eles, nem todos oshomo sapiens estão aptos à comunicação telepática.

Ocorre que, por tudo o que os Pacientes já aprenderam sobre a Terra e seus habitantes, têm eles grande e justificado receio de, em se apresentando clara e abertamente para as pessoas, virem a sofrer cerceamento de sua liberdade, sendo arbitrariamente aprisionados, submetidos a experimentos ditos científicos e tratados como animais irracionais, especialmente porque sua aparência física não guarda muitas semelhanças com a dos homo sapiens.

Em razão disso, e considerando que dentro de no máximo um mês pretendem voltar à Terra e se apresentar de forma ostensiva para os habitantes deste Município de Quixadá, o presente habeas corpus é impetrado com a finalidade de garantir que os Pacientes possam cumprir pacificamente sua missão em nosso planeta, sem ter cerceado o seu direito de ir e vir, não sendo aprisionados, seja em delegacias ou presídios, nem tampouco em laboratórios ou zoológicos.

II – PRELIMINARMENTE: DA COMPETÊNCIA

A competência para processar e julgar o presente habeas corpus é da Justiça Federal, uma vez que, não tendo os pacientes cometido qualquer crime, a sua eventual prisão seria equiparada à do estrangeiro irregular, para fins de deportação.

Essa prisão está prevista no art. 61 da Lei 6.815/80, o qual dispõe que a mesma pode ser decretada pelo Ministro da Justiça. Entretanto, a jurisprudência está pacificada no sentido de que, desde o início da vigência da Constituição de 1988, a competência para expedir o decreto de prisão é da Justiça Federal, uma vez que deve emanar de autoridade judiciária, em face da garantia constitucional segundo a qual ninguém será preso senão em flagrante delito, por ordem judicial competente, ou nos casos de transgressão ou crime militar (art. 5º, LXI).

A contrario sensu, no caso de prisão da espécie sem ordem judicial, a competência para apreciar o habeas corpus contra ela impetrado é também da Justiça Federal.

III – DO CABIMENTO DO PRESENTE HABEAS CORPUS EM FAVOR DOS PACIENTES

Apesar de a literalidade do caput do art. 5º da Constituição Federal se referir a “brasileiros e estrangeiros residentes no país”, a doutrina já esclareceu que os Direitos Fundamentais reconhecidos em nosso ordenamento jurídico alcançam os estrangeiros que estejam no país apenas de forma transitória.

No presente caso, também estrangeiros são os Pacientes, logo, protegidos pelos mesmos direitos e garantias. Entretanto, é real o risco de as Autoridades Impetradas negarem essa condição aos pacientes, partindo da falsa premissa de que, tendo os Direitos Fundamentais como núcleo a dignidade da pessoa humana, somente os membros da espécie homo sapiens mereceriam sua proteção.

Essa noção, entretanto, é equivocada. O Direito não se submete a critérios meramente biológicos. Como destaca RADBRUCH, ninguém é “pessoa” por natureza, originariamente, e bastaria a experiência da escravidão para demonstrar isso.

De fato, as lições do passado – quando o Direito excluiu homens e mulheres da condição humana – ensinam que a redução do conceito de humanidade conduz ao cometimento de atrocidades. Da mesma forma, a ampliação desse conceito favorece a Justiça e a Democracia.

Importa, portanto, destacar a visão de JOHN LOKE, ao definir “pessoa” como “um ser pensante, inteligente, dotado de razão e reflexão, e que pode considerar-se a si mesmo como um eu, ou seja, como o mesmo ser pensante, em diferentes tempos e lugares“. Ou de PETER SINGER, quando cita JOSEPH FLETCHER para apontar os seguintes “indicadores de humanidade“: autoconsciência, autodomínio, sentido de futuro, sentido de passado, capacidade de se relacionar com os outros, preocupação com os outros, comunicação e curiosidade.

É evidente que um indivíduo da espécie homo sapiens que tenha perdido (ou não tenha adquirido) essas características continua sendo uma pessoa humana. Também não se pretende defender aqui que animais como chimpanzés ou golfinhos, por serem dotados dos indicadores acima, são seres humanos.

A questão que se impõe é o reconhecimento de que, se o indivíduo é membro de uma espécie que tem entre suas características esses indicadores de humanidade e, além disso, a capacidade de reconhecer um ordenamento jurídico e se guiar por ele, esse indivíduo deve, sem sombra de dúvida, ter sua dignidade respeitada, tanto quanto qualquer membro da espécie homo sapiens, independentemente do planeta de onde tenha vindo.

Forçoso reconhecer, portanto, que os Pacientes devem receber a proteção dos Direitos Fundamentais acolhidos pela Constituição Federal, notadamente o Direito à Liberdade, de modo que qualquer ato tendente à sua prisão, fora das hipóteses do art, 5º, LXI, seria contrário à Constituição.

No presente caso, nem mesmo a prisão do estrangeiro para fins de deportação (art. 61, Lei 6.815/80) seria cabível, uma vez que, segundo pacífica jurisprudência, tal prisão é ensejada por indícios de que, em liberdade, o deportando tentaria se furtar à ação das autoridades. Afinal, os próprios Pacientes tem interesse em agir em cooperação com as autoridades locais, a fim de melhor cumprir sua missão neste planeta.

A razão deste habeas corpus é apenas evitar que os Pacientes tenham os seus direitos mais básicos desrespeitados.

IV – DO JUSTO RECEIO

O receio dos pacientes se justifica pelo histórico de casos não esclarecidos de extraterrestres vindos à Terra que foram aprisionados e tratados desumanamente, como no caso ocorrido na cidade de Varginha-MG, em 1996.

No referido caso, somente em outubro de 2010 veio a público o resultado do Inquérito Policial Militar que investigou os fatos, apresentando a conclusão de que, segundo o Exército, o ET nunca existiu. As testemunhas teriam visto um homem agachado perto de um muro, sendo “mais provável a hipótese de que este cidadão, estando provavelmente sujo, em decorrência das chuvas, visto agachado junto a um muro, tenha sido confundido, por três meninas aterrorizadas, com uma ‘criatura do espaço’“.(Revista Isto É, Edição 2136, 15.10.2010).

Vossa Excelência não acha estranho que uma versão tão simples dos fatos tenha demorado quase quinze anos para ser apresentada ao público? Os Pacientes têm a sua própria versão para o caso. Embora não seja recomendável revolver os fatos em busca de provas na via estreita do habeas corpus, a nebulosidade das informações divulgadas é suficiente para os Pacientes terem receio quanto ao tratamento que receberão das autoridades brasileiras.

V – DO PEDIDO

Pelos fundamentos apresentados, requer o Impetrante:

- Sejam as Autoridades Impetradas, indicadas no preâmbulo deste, notificadas para apresentar suas informações.

- Seja intimado o Ilustre Representante do Ministério Público para que integre a presente lide.

- Seja concedida a ordem de habeas corpus requerida, com a conseqüente expedição de Salvo-Conduto, evitando a concretização da ameaça ao direito de locomoção dos pacientes.

Nestes termos,

Pede Deferimento.


Mundo Cordel
O SUJO E O MAL LAVADO

Que a política está cheia
De gente bem desonesta,
Hoje ninguém mais contesta,
Afirmar ninguém receia.
Mas o que mais me chateia:
É corrupto safado
Se dizendo revoltado
Por haver outros roubando.
É COMO O SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Olhando a televisão,
Volta e meia a gente assiste
Um fazer, com o dedo em riste,
Ao outro a acusação
De fraude e corrupção.
Mas, depois é revelado
Que é igual ao acusado,
Quem estava acusando,
TAL QUAL UM SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Há também outras figuras
Que não estão na política,
E chegam fazendo crítica,
Mas fecham com prefeituras
Licitações obscuras
Onde tudo é combinado.
Gente do empresariado
Dessa maneira atuando,
É TAMBÉM SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Sonegador lança mão
De todo tipo de embuste,
Para escapar do ajuste,
Das contas com o Leão.
Depois diz: “Todo ladrão
Tinha que ser enforcado”.
Faz cara de indignado,
Mas prossegue sonegando,
IGUAL AO SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

O pior de suportar
É quando um juiz se vende
E a sua balança pende
Para quem melhor pagar.
Que moral tem pra julgar
Um juiz que foi comprado?
Tinha que ser condenado,
Ao invés de estar julgando.
É SÓ UM SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Tem ainda um pessoal
Que diz que é gente de bem,
Mas, se uma chance tem,
Se enfia no lamaçal.
Paladino da moral,
Logo que se vê flagrado,
Alega que foi forçado
A participar do bando.
É MAIS UM SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Quase esqueço de falar
De alguns bispos e pastores
Que aos fiéis e seguidores
Têm prazer em enganar.
Mas, não deixam de apontar
O dedo pro outro lado
Dizendo: “Esse descarado
dos fiéis está roubando”.
É MUITO SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.

Então, para terminar,
Eu deixo uma sugestão:
Quem tiver a intenção
De a outros acusar,
É mister verificar
O que tem feito de errado.
Pra ficar assegurado,
Que não está se portando
COMO UM SUJO FALANDO
QUE O OUTRO ESTÁ MAL LAVADO.


Mundo Cordel
UMA CANÇÃO PARA O FALCÃO

Sou fã do Falcão desde que o vi em um festival no BNB Clube de Fortaleza, defendendo a música “Canto Bregoriano II”. Nem lembro quando foi isso, mas faz tempo…

Quando vi a coluna “Recanto do Falcão” aqui no JBF, pensei: “É agora que eu faço uma música para o Falcão cantar!”.

Chegou a hora.

Para toda a Comunidade Fubânica, especialmente o Falcão, seu futuro intérprete: CORAÇÃO DE FRANGO!


Mundo Cordel
PARA SUA PRÓPRIA SEGURANÇA, SOLICITAMOS QUE PERMANEÇAM SENTADOS…

Passageiros aguardando educadamente a sua vez de desembarcar

Já que não conseguimos resolver problemas mais sérios do nosso país, podemos gastar um pouco de energia pensando sobre coisas mais simples. Por exemplo: se o comissário de bordo sempre pede às pessoas para permanecerem sentadas até que se apaguem os avisos de apertar os cintos, por que quase todo mundo se levanta antes?

É algo que faz um tempo que me chama a atenção. O avião acaba de pousar e, quando ainda está taxiando em direção à plataforma onde será feito o desembarque, as pessoas já vão se agitando nas poltronas, desatando os cintos de segurança e ligando os seus celulares (o que, aliás, também deveria ser feito só depois que avião estivesse parado e com as portas abertas).

Ocorrido o pequeno solavanco indicativo de que a aeronave estacionou, praticamente todos se levantam ao mesmo tempo e precipitam-se em direção aos compartimentos onde estão suas bagagens de mão, como se o desembarque fosse sempre um procedimento de emergência.

O mais curioso é que toda essa pressa resulta absolutamente inútil, pois leva um tempo até que a plataforma de acesso seja acoplada à porta do avião e esta seja aberta para o desembarque. Sem contar que a grande maioria terá que esperar um pouco mais, quando chegar à esteira onde pegará a bagagem despachada.

Como sou meio neurótico em relação a esse tipo de comportamento, passei a cronometrar o tempo decorrido entre o momento em que a primeira pessoa se levanta e a saída do primeiro passageiro do avião. Já fiz isso em mais de vinte voos, e, até agora, tem sido de três minutos e quarenta e dois segundos a média desse intervalo, no qual quase todos os passageiros ficam de pé, amontoados no corredor da aeronave, muitos suportando o peso de suas bagagens de mão, quando podiam permanecer sentados em seus lugares, sem carregar peso algum.

Tudo bem que as poltronas dos nossos aviões não são as mais confortáveis do mundo. Tudo bem que o espaço entre as fileiras está cada vez menor. Mas não creio que alguém acredite que permanecer sentado nelas seja pior que ficar de pé em um corredor também estreito e lotado de gente.

Por que, então, tanta pressa em se levantar?

Alguém me disse que a explicação estaria na velha “Lei de Gerson”, mas, não me parece que o gosto do brasileiro por “levar vantagem em tudo” explique, por si só, esse comportamento. Afinal, como acabei de demonstrar, ele não tem trazido vantagem alguma aos seus praticantes.

Outra explicação fácil seria a de que o brasileiro é mal educado mesmo, ou que tem resistência ao cumprimento de normas, ainda que sejam para a sua própria segurança.

Parece-me, entretanto, que pensar assim seria simplificar demais as coisas, generalizando a pecha de mal-educado para todo o nosso povo, o que seria injusto com muita gente educada que habita nosso país. Sei de pessoas reconhecidamente bem-educadas em outras situações, mas que são das primeiras a se levantar. Além disso, não há prova de que o fato ocorra somente no Brasil. Já ouvi comentários de isso tem acontecido até em Londres.

Assim, sem me conformar com essas explicações, comecei a pensar sobre o assunto e imaginei que talvez esse comportamento esteja intimamente ligado ao aumento da quantidade de passageiros nos aviões (decorrente de poltronas menores e mais próximas) e ao uso das plataformas de embarque e desembarque, também conhecidas como “fingers”.

 

Avião acoplado a um “finger”

Explico. Antes dos “fingers”, o pessoal que ficava nas poltronas das últimas fileiras sempre tinha uma esperança – por mínima que fosse – de ouvir o seguinte: “O desembarque será efetuado pelas portas dianteira e traseira da aeronave”. Em seguida, abriam-se as referidas portas e concretizava-se a profecia cristã de que os últimos seriam os primeiros.

Com a chegada das modernas pontes de embarque e desembarque, acabou-se a esperança de o sujeito da última fila não ter que esperar todo mundo sair antes dele. Para piorar a situação, isto aconteceu exatamente quando as viagens aéreas popularizaram-se e as companhias aéreas diminuíram as poltronas e os espaços entre elas, aumentando a quantidade de passageiros e fazendo com que o desembarque se tornasse mais lento. Uma tortura para alguém que está com pressa e não tem bagagem despachada para pegar na esteira.

Talvez esse tenha sido o cenário ideal para tudo começar. Alguém que estava em uma das últimas fileiras deve ter imaginado que, se fosse bem rápido, poderia levantar, pegar a bagagem de mão e chegar à porta dianteira, antes que os outros, que estavam esperando o aviso de liberar o cinto, se levantassem. Talvez a estratégia tenha dado certo, deixando os outros passageiros divididos em dois grupos: os que se sentiram lesados, por terem perdido a prioridade no desembarque, e os que ficaram com inveja, por não terem pensado nisso antes. Alguns podem nem ter se incomodado, mas devem ter sido poucos. De um jeito ou de outro, muitos dos passageiros que estavam naquele voo ficaram em alerta para, no próximo, ganhar algum tempo com aquela manobra, ou evitar perdê-lo.

Pronto. Estava aberta a corrida pelas portas dianteiras dos aviões. O comportamento se espalhou, e cada vez mais pessoas passaram a agir assim, umas tentando ganhar posições, para desembarcar antes das outras; outras simplesmente tentando se defender das primeiras..

O fato é que, hoje, essa correria já não faz mais qualquer sentido, pois, como praticamente todos se levantam ao mesmo tempo, acaba ficando todo mundo empacado. Acho mesmo que as pessoas sequer reflletem sobre o motivo de estarem agindo assim, mas continuam com o mesmo comportamento, simplesmente porque se habituaram a ele.

O caso lembra aquela experiência dos macacos que eram atingidos por jatos d’água quando um deles tentava comer bananas.

 

A experiência com os macacos e o jato d’água

Para quem não conhece ou não se recorda da história, conta-se que um grupo de cientistas, pôs cinco macacos numa jaula, na qual havia uma escada com um cacho de bananas no topo. Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Alguns jatos dágua depois, cada vez que um macaco tentava subir na escada, os outros o pegavam e davam-lhe uma surra. Logo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. Sem saber o que vinha se passando ali, o macaco novato tentou subir a escada, mas foi impedido pelos outros que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não tentou mais subir a escada. Os cientistas foram, então, substituindo os macacos, um a um. Cada vez que o novato aprendia a não subir na escada, nem deixar que os outros subissem, um dos macacos pioneiros na experiência era substituído. Restaram, assim, cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.

Acredito que se passa algo semelhante com os passageiros dos aviões. Já ninguém mais sabe por que tanta pressa em levantar e pegar a bagagem, mas, de alguma forma, as pessoas foram condicionadas a isso.

Claro que é um comportamento que envolve falta de educação, desrespeito pelas normas de segurança e vontade de levar vantagem sobre os outros. Mas parece-me algo generalizado demais para ser só isso, o que me leva a crer que há outros fatores, como a possibilidade que acabei de levantar.

E já que você chegou até aqui, fica o convite para refletir sobre o seguinte: “Você é dos que se levanta sem esperar que se apaguem os avisos de apertar os cintos? Por quê?”.


Mundo Cordel
A CABEÇA DO ET

Li ontem, na coluna “A Mala da Cobra“, do poeta Arievaldo Viana, cordel falando sobre as aparições de extraterrestres em Quixadá, intitulado”A Caveira do ET Encontrada em Quixadá”, baseado em fatos reais.

Em que pese a explicação do biólogo, de se trataria do crânio de uma tartaruga marinha, acredito que a tal caveira seja só mais uma prova de que seres alienígenas habitaram aquela região do nosso planeta, há muito tempo atrás, conforme já expliquei em meu cordel “O Mistério dos Monólitos”. Aliás, a explicação não é minha, mas de um menino que lá apareceu, ele mesmo dizendo ser um ET, que teria assumido a forma de uma criança sertaneja apenas para não me assustar.

Voltando ao caso da tal caveira, digo que se trata apenas de mais uma prova, porque muitas outras podem ser encontradas ali. Recentemente, estive nos arredores da cidade, visitando uma pedra que seria o que restou de uma estátua erguida em homenagem a um desses antigos habitantes de Quixadá.

Como se vê na foto acima, o corpo da estátua foi destruído, mas a cabeça ainda está no local. Uma testemunha silenciosa de fatos antigos, ainda hoje envoltos em mistério.

E para que ninguém duvide que estive lá, segue a foto que tirei de mim mesmo em frente à pedra conhecida como “Cabeça do ET”.

 


Mundo Cordel
22 DE ABRIL, DIA DA TERRA. DA NOSSA “MÃE TERRA”

Chamar nosso Planeta de “Mãe Terra” pode ser uma adesão à Hipótese de Gaia, segundo a qual a Terra é um ser vivo.

Mas pode ser também uma metáfora. Uma forma de reconhecer o quanto ela é generosa e paciente com os filhos que gera, principalmente nós, os mais levados, cujas estrepolias põem em risco a nós mesmos e tantos outros seres vivos, nossos irmãos.

Isso mesmo: IRMÃOS. Porque reconhecer-se filho da “Mãe Terra” é permitir a si mesmo o sentimento da fraternidade não apenas por cada ser humano, mas também por cada animal, cada planta, cada fonte de água…

Em 1855, um índio disse ao presidente dos Estados Unidos: “Os gamos, os cavalos, a majestosa águia, todos são nossos irmãos…”. Mais de meio século antes, na cidade de Assis, um jovem chamado Francisco fazia louvores a Deus pela “nossa mãe, a Terra, que nos sustenta e nos governa, e dá tantos frutos e coloridas flores, e também as ervas”.

No “Dia da Terra”, é um prazer cantar para o Planeta maravilhoso, que, com verdadeiro amor de mãe, nos alimenta, abriga e acolhe carinhosamente…

Voar,
Cruzar teu céu e sobrevoar teu mar
De leve de tocar
E então mergulhar!
Correr,
Pelos teus campos à luz do alvorecer.
Quero te conhecer
E sentir o prazer…
De viver,
Ó, Mãe Terra,
A vida inteira assim.
Pois bem se que sou parte de ti
E tu és parte de mim!


Mundo Cordel
DIVAGAÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Este colunista na Times Square, em pleno processo criativo

Dedico este texto a Tibico Brasil e Aderbal Nogueira, amigos que dominam a arte de contar histórias por meio de imagens, sons e outros recursos cinematográficos que estão além do conhecimento de um aprendiz de escritor.

Após sair do Roosevelt Hotel New York, cruzo a Avenida Madison, sigo pela Rua 45 e entro à esquerda na Quinta Avenida. Vou em busca de um chocolate quente para aquecer os dois graus centígrados daquela manhã no centro de Manhattan. No percurso, pessoas andam apressadas enquanto se encolhem dentro de seus agasalhos. Muitas dão a impressão de falar sozinhas, por causa dos fones de ouvidos acoplados aos seus telefones celulares.

Entro em uma lanchonete e observo que o lugar é pequeno, com apenas três mesinhas redondas. A maioria dos clientes alimenta-se em pé mesmo, sem qualquer sinal de incômodo, ou põe a comida em um saco de papel e vai embora.

As três mesas estão ocupadas. Em uma, um homem usa um laptop enquanto suga alguma coisa de um copo grande. Em outra, uma mulher passa o dedo indicador sujo de pão na tela de um tablet. Em torno da terceira estão sentadas quatro moças. Ao mesmo tempo em que fazem o breakfast, mexem em seus telefones celulares, aparentemente vendo alguma coisa na Internet. Imagino que se conheçam, e confirmo isso quando uma mostra a tela do seu aparelho para a que estava à sua direita. Ambas sorriem. As outras duas estão concentradas em seus próprios equipamentos e não percebem ou não dão importância ao que as amigas estão fazendo.

Vendo o comportamento dessas pessoas – ainda em pé, mas já saboreando meu chocolate quente com um pãozinho de nome esquisito – vem à minha mente o roteiro de um filme que começa ali mesmo, em uma rua de Nova Iorque.

Trânsito pesado no centro de Nova Iorque

WEDOT: MANIPULAÇÃO SUBLIMINAR

É de manhã e o céu está nublado. Na rua movimentada, o trânsito flui devagar. A câmera faz uma tomada do alto e vai se aproximando de um carro. Um efeito especial dá a impressão de que o espectador entra pelo teto daquele automóvel. Close no mapa de uma espécie de GPS instalado no painel. O equipamento mostra a rota a ser seguida pelo motorista e indica o movimento do trânsito nas ruas. De repente, a rota se altera e uma voz diz ao motorista a manobra que ele deve fazer para pegar uma rota alternativa e evitar o engarrafamento à sua frente.

A câmera gira para a janela direita do carro e foca nas pessoas andando na calçada. Uma jovem caminha ouvindo música em fones de ouvidos. Um close no aparelho ao qual os fones estão conectados mostra que ele é muito parecido com o GPS que apareceu acoplado ao painel do carro na cena anterior. Um big close up no mesmo equipamento mostra a inscrição WEDOT. A música pára e uma voz diz à moça – em seus fones de ouvidos – que dentro de instantes ela passará em frente a uma loja de material esportivo onde o tênis que ela anda pensando em comprar está em promoção. A jovem olha para o WEDOT e vê na tela a imagem de um tênis, enquanto ouve a voz lhe dizer: “Você pode pedir pela WedotStore, mas dá tempo para ir até a loja sem se atrasar para o trabalho. Que tal uma compra tradicional desta vez?”. “Até que não é má ideia!” – responde a moça sorrindo. Caminha mais um pouco e entra na loja.

A câmera gira para o outro lado da rua. O foco sobe pela parede de um prédio e pára em uma janela. Corta para uma cena interna em um escritório. A transição da cena anterior para esta indica que é uma empresa dentro do prédio que acabou de ser mostrado. Um rapaz aparece com jeito apressado. Está atrasado. Conversa com os colegas elogiando o sistema que o guiou até ali. “Esse trânsito está cada vez mais insuportável! Não sei como teria chegado sem a orientação do WEDOT para me livrar dos congestionamentos”. “É, esse negócio funciona mesmo. Está ficando impossível sair de casa sem um desses” – concorda um colega.

Outro rapaz, quieto em seu cubículo de trabalho, ouve os outros dois com ar de quem não está levando aquela conversa a sério. É o personagem principal e chama-se Mark. Trabalha como programador, mas não é muito prestigiado na empresa. A aparência demonstra que é um funcionário subalterno. O cabelo é um pouco grande e desarrumado. Quando vai retomar o trabalho em seu computador, o colega que chegou atrasado o chama: “Mark! Venha à minha sala. Tive umas ideias ontem à noite e quero passar para você”. Mark deixa o seu cubículo e a cena termina com um close no seu celular sobre a mesa. Não é um modelo muito antigo, mas também não é um WEDOT.

* * *

A sequência das cenas seguintes vai mostrar que a história se passa em um futuro próximo. Nele, as pessoas estão totalmente dependentes de equipamentos eletrônicos para viver. Um aparelho tornou-se extremamente popular, principalmente entre as classes média e alta. Chama-se WEDOT e integra celular, agenda, despertador, Internet, GPS, etc. Até aí, tudo muito parecido com o que já existe hoje em dia. O diferencial dos WEDOTs é a integração dos sistemas. Esta chegou a tal ponto que, se você procurar algo na Internet e não comprar, o equipamento o lembrará disso regularmente. Feita a compra, o sistema do cartão de crédito avisará o seu WEDOT e ele cancelará o alerta.

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Mundo Cordel
UM COELHO DE CHOCOLATE

 

Era um Domingo de Páscoa. O Comandante Basílio almoçava com a esposa, uma filha, um genro e dois netos. Chegada a hora de abrir os ovos de páscoa, seus netos deram-lhe de presente um belo coelho de chocolate, ao invés do tradicional ovo. Mas, sua reação pegou todos de surpresa:

- Gente, vocês me desculpem, mas eu não posso aceitar o presente de vocês…

- Por que, papai? – quis saber a filha, que há mais de uma semana havia comprado o coelho, e aguardava ansiosa aquele momento.

- Minha filha, porque eu não vou matar um bichinho bonito desses, só pra comer chocolate. Fiquem com ele pra vocês, que eu pego um pedaço desse ovo aqui.

Disse isso e começou a comer um pedaço de um dos ovos de chocolate que já estava aberto. Não houve grosseria, nem desfeita pela recusa ao presente, nada disso. Ele simplesmente ficou com pena do coelho. Era fácil ver isso em seus olhos.

Assim era Basílio Guberev. Sério, cara de bravo, mas com um coração enorme, repleto de bondade. Foi fácil conquistar sua amizade. Mais fácil ainda foi sentir amizade por ele. Conversávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, o Império Romano, religiões, música, cinema… Foi por causa dele que assisti a “O mais longo dos dias”, “Tora! Tora! Tora!”,Spartacus” e tantos outros. “Io sono il capo di tutti capi!”, dizia brincando, referindo-se ao filme “O Poderoso Chefão”, um de seus preferidos. Eu respondia algo como “È vero, signore!”. Ele apenas ria.

Eu também gostava quando ele contava suas aventuras na Força Aérea Brasileira ou recordava a dureza de sua infância, vivida em meio à colônia italiana em São Paulo, embora ele mesmo tivesse sangue cem por cento russo. O pai e a mãe haviam nascido nas montanhas da Bessarábia e emigrado para o Brasil, ainda adolescentes, entre 1917 e 1918, fugindo, não se sabe bem se da revolução comunista, de uma invasão romena que aconteceu na época, ou dos dois. O certo é que somente se conheceram no Brasil, nas plantações de café de São Paulo.

Em meados de 2009, numa ocasião em que conversávamos sobre essas coisas, combinamos de viajar à Rússia. E não era um desses planos que a gente faz por empolgação e depois se esquece. A conversa foi séria. Marcamos a viagem para julho de 2011 –  com cerca de dois anos de antecedência – para que eu tivesse tempo de aprender um pouco de russo, e pensando em chegarmos a Moscou em um mês no qual o clima não fosse tão frio.

A partir de então, passamos a nos cumprimentar com “Priviet!” e nos despedir com “Da svidânia”. Cada vez que nos encontrávamos, ele me ensinava alguma palavra nova, feliz de voltar a usar o idioma que aprendera com os pais.

Mas, não foi possível fazer a viagem. No dia trinta de maio de 2010, o Comandante Basílio sofreu um acidente vascular cerebral que o deixou totalmente imóvel. Não falava nem dava sinais de estar entendendo o que se passava ao seu redor.

Depois de aceitar que as sequelas seriam irreversíveis, escrevi, em sua homenagem, o conto “Kamandir: o homem, a árvore e o símbolo”, em julho daquele ano. Na história, o grande guerreiro Kamandir (comandante, em russo) passa a viver sob a forma de uma pequena árvore, chamada Kamandiéreva. Em sua nova forma ele depende totalmente dos cuidados dos seus, mas continua sendo um símbolo de honestidade, dignidade e coragem para seu povo.

Assim viveu o Comandante Basílio por um ano, três meses e oito dias. Quieto em seu leito de hospital, como uma plantinha frágil, dependendo totalmente do cuidado das pessoas, mas sempre inspirando na família tudo o que tinha de bom. Até que partiu definitivamente desta existência, no dia oito de setembro de 2011.

Hoje, a imagem mais marcante que guardo desse amigo é a daquele Domingo de Páscoa, quando ele se recusou a “matar” o coelho de chocolate.

Leio o que acabo de escrever e vejo que não mencionei que era eu o genro do Comandante Basílio presente àquele almoço. É que, para mim, ele era muito mais amigo que sogro. A filha, que também ali estava, era obviamente a minha amada Natália, e isto me leva a concluir estas palavras com dois agradecimentos: um, a Natália, por ter me proporcionado conhecer e privar da amizade de seu pai, Basílio Guberev; o outro, ao Comandante Basílio, pela amizade, por tudo o que me ensinou, e pela filha Natália, que ele ajudou a por no mundo e a ensiná-la a viver nele, e que hoje é a grande companheira que tenho ao meu lado, que faz a minha vida mais bela, cheia de amor e feliz.


Mundo Cordel
“MEU TRABALHO PARA A ESCOLA É FAZER UM CORDEL”

Quase todo dia recebo em meu blog Mundo Cordel manifestações como essas:

“Ai eu tô presisando de um cordel para um trabalho da escola, eu ñ sei fazer e por isso pesso a ajuda de vcs por favor me manda um ainda hoje!!!!!!!”

“eu não sei fazer um cordel pois minha Professora de Lingua Portuguesa quer que eu e meus colegas de sala passem um cordel mais ninguem sabe tem como voçes mim ajudarem um pouco ou então da uma dica de como é um cordel ?”

“ahhhhhhh ate vc (…) a prof de poRTUGUES Passou esse mtrabalho!!!!!!!!!!!!!poiser gente nao tenho a minima como criar um cordel me ajudemm………..por favor”

“n sei fazer cordel presiso pra 2 trabalho de arte”

Longe de querer tripudiar sobre a dificuldade que essas pessoas demonstram para a comunicação por meio da Língua Portuguesa – até porque em geral são crianças, que dão seus primeiros passos na linguagem escrita – pretendo chamar a atenção para um fato que parece estar relacionado com a popularidade que a Literatura de Cordel vem reconquistando nos últimos anos.

Bem se sabe que atualmente, nas escolas brasileiras, é comum se falar de Cordel na sala de aula, seja para o estudo da Literatura de Cordel como manifestação artística, seja usando o Cordel para estudar outros temas, como ecologia, história e até matemática.

Para mim, que sou cordelista – e penso que, para os cordelistas em geral – é animador ver o Cordel ocupando esse espaço na educação, seja de crianças, seja de jovens e adultos. A linguagem simples e direta, associada ao ritmo da escrita rimada e metrificada, sem dúvida são fatores que ajudam no aprendizado, e, ao que tudo indica, os resultados já são sentidos pelos educadores que lançam mão do Cordel em seu trabalho.

A par disso, parece-me estranho que alguns professores estabeleçam a criação de um Cordel, tratando desse ou daquele assunto, como trabalho a ser desenvolvido pelos alunos, valendo nota. Quando recebo os pedidos de ajuda dos estudantes internautas, pergunto-me: “É razoável exigir de um estudante, especialmente uma criança, que aborde determinado tema em versos, observando as regras de rima e de métrica características da Literatura de Cordel?”.

Ainda não cheguei a uma posição definitiva, mas, até agora, o estabelecimento da criação de um Cordel como tarefa válida para obtenção de nota, tem me parecido um tanto forçado. Chego a pensar se os professores que agem assim vêem o Cordel com algo banal, que qualquer pessoa poderia criar. Por outro lado, não posso crer nisso, pois sei que os professores que utilizam o Cordel como ferramenta educativa são exatamente aqueles que o valorizam e admiram, e quem estuda a Literatura de Cordel sabe que não é fácil escrever rimando, metrificando e, ainda por cima, sintetizando o conteúdo para desenvolver ideias, às vezes complexas, em estrofes de seis, sete ou dez linhas.

Aliás, até se torna relativamente fácil para quem tem o dom, o que não depende de educação e cultura, pois muitos são os cordelistas de renome que praticamente não tiveram estudo, embora a maioria reconheça que a leitura enriquece o vocabulário e amplia as possibilidades para a abordagem de assuntos mais variados.

Sabendo disto, parece-me natural que, em um grupo de estudantes, um ou outro tenha condições para escrever em forma de Cordel, mas boa parte simplesmente não conseguirá. Afinal, é de arte que se está a tratar, e arte requer um mínimo de talento.

“Mas, crianças não desenvolvem atividades com tintas e pincéis, sem ser artistas plásticos?”, é a pergunta que me vêm à mente. E junto me vem uma resposta: “É verdade. Como é verdade também que crianças fazem pequenas dramatizações sem ser atores e atrizes, mas, não é comum que crianças componham canções ou executem peças musicais ao violino”. No final, salvo os casos de crianças-prodígio, nem o quadro será arte plástica, nem a dramatização será uma peça de teatro, mas alguma coisa será feita. Já a canção, pode ser que nunca fique pronta. Quanto ao violino, além de ser complicado até para músicos, o ruído que faz quando mal utilizado é simplesmente insuportável.

Talvez as coisas sejam assim mesmo. Algumas manifestações artísticas suportam bem que pessoas que não têm vocação para elas brinquem com suas ferramentas, outras nem tanto. Pelo que tenho visto nos pedidos de ajuda que chegam ao Mundo Cordel, parece-me que, tendo como ferramenta a palavra, e sendo necessário que o uso da palavra observe algumas regras rígidas, a Literatura de Cordel é muito divertida para ser lida, declamada, interpretada, mas a sua criação costuma deixar em pânico aqueles que não têm pelo menos um pouco de habilidade inata para fazê-lo.

Nessa linha de pensamento, creio que até faça sentido adotar como atividade escolar a tentativa de elaboração textos em forma de Cordel, como trabalho de grupo, mas sem o dever de se chegar a um resultado final muito elaborado. Isso daria oportunidade para que cada um desenvolvesse o seu talento e criatividade, mas sem gerar pressão sobre os que não conseguissem chegar a um resultado apresentável.

Claro que essa é a minha visão, como cordelista, sem qualquer garantia de que outros cordelistas pensem assim, e sem saber o que pensam os educadores sobre o assunto. Estes talvez tenham explicações que afastem totalmente essas minhas ponderações, e eu bem que gostaria de conhecê-las.


Mundo Cordel
SOBRE FUTEBOL, ADVERSÁRIOS E INIMIGOS(*)

Torcidas

Quando eu e meu irmão éramos crianças, meu pai nos levou muitas vezes para assistir a jogos de futebol. Naquele tempo, um pai podia levar os filhos pequenos a um “Ceará x Fortaleza”, sem maiores riscos de serem vítimas da violência das torcidas. Tendo herdado do nosso pai a condição de torcedores do Ceará, às vezes íamos ao Castelão compartilhando o mesmo carro com tios e amigos que torciam pelo Fortaleza. No caminho de volta, ficava clara a alegria dos vencedores e a tristeza dos perdedores, mas nunca houve falta de respeito de uns para com os outros.

Acho que foi por esse tempo que aprendi as primeiras noções sobre a diferença entre inimigos e adversários. Mesmo sendo uma criança, percebi que entre adversários há uma disputa por algo, mas sem que um deseje qualquer mal ao outro, a não ser a perda da coisa disputada. Inimigos não. Inimigos não precisam disputar nada, simplesmente se querem mal. O simples ver um ao outro, ou mesmo ouvir seu nome, já lhes causa sentimentos ruins. Acho que os torcedores do Ceará e do Fortaleza de então – pelo menos os que eu conhecia – não se viam como inimigos, mas como adversários.

Aliás, é próprio do esporte que assim seja: os adversários se enfrentam, depois vencedor e perdedor se cumprimentam e seguem seu caminho. Não deve haver ódio entre eles, mesmo porque deverão se encontrar novamente para outros confrontos. Os adversários precisam uns dos outros para que o jogo exista, e a coisa só tem graça porque ora se ganha, ora se perde. É assim que o esporte aproxima as pessoas.

Infelizmente, para o futebol brasileiro, parece que essa noção se perdeu com o tempo. Os grandes clubes passaram de adversários a rivais, e as torcidas entenderam rivalidade como sinônimo de inimizade, de ódio mesmo. Para os torcedores do Ceará, o Fortaleza e sua torcida são a “carniça”, e vice-versa. O respeito acabou. O desejo de violência espalhou-se pela arquibancada e chegou às ruas, a ponto de se falar em jogos com a presença de apenas uma torcida, ou tornar necessária a presença de grande aparato policial e até a modificação do trânsito para o acesso ao estádio, para evitar agressões mútuas.

E esse não é um problema restrito ao Estado do Ceará. Por todo o Brasil, a rivalidade no futebol tem gerado violência.

Não me arriscaria a apontar aqui os responsáveis por isso – embora tenha minha opinião sobre o assunto – mas penso ser urgente que organizadores e divulgadores trabalhem para revitalizar a noção de que o futebol é um esporte, e como tal, precisa do respeito mútuo entre atletas e torcedores das equipes.

Creio sinceramente que só o fortalecimento desse conceito poderá fazer com que os membros de uma torcida voltem a perceber os membros da outra como adversários, não como inimigos.

Acho que isso seria bom para o país que sediará a próxima Copa do Mundo de Futebol.

(*) Texto publicado no A TORTO & A DIREITO 184, de 24.02.2012, republicado hoje (com pequenas alterações) em vista dos acontecimentos do fim de semana.


Mundo Cordel
CONVERSA COM SHAYEUBAD(*) SOBRE VIDA E MORTE

Viajávamos de Quixadá para Fortaleza – eu e Shayeubad – quando vimos um jumento que acabara de ser atropelado por um caminhão. Parei o carro perto do animal e pudemos ver que ele ainda agonizava. Estirado ao chão, já não se debatia, apenas tremia e de vez em quando tinha espasmos. Permaneceu assim por alguns minutos, até que uma lufada de ar lhe saiu pelas narinas, levantando poeira do acostamento, e ele ficou imóvel. Estava morto.

Depois de retomarmos a jornada, Shayeubad abriu o debate sobre o ocorrido:

- Para onde você acha que foi a vida dele?

- Como assim? – perguntei, preparando-me para o que viria a seguir. Shayeubad sempre faz reflexões interessantes sobre situações como aquela.

Ele prosseguiu:

- Antes de aquele animal ser atropelado, havia algo nele que o fazia se mover, se alimentar, buscar uma parceira para se reproduzir… Ele tinha vida. Mesmo depois de ferido, dava para ver sua luta para continuar vivendo. Mas, foi se apagando aos poucos, até o suspiro final. Para onde vai a vida de um animal que morre?

- Sabe, Shay, a impressão que eu tenho é a de que cada ser vivo já nasce com uma carga de energia que o mantém funcionando por um tempo, até que essa energia vai acabando e ele envelhece, depois morre. Mas, em casos assim… quando a vida é interrompida… parece que, mesmo ainda tendo energia, o corpo não funciona… Como uma máquina que está com defeito…

Percebendo que eu estava hesitante em minha argumentação, Shayedubad fez mais uma pergunta, que já era o começo de sua própria análise para aquela questão:

- E se eu lhe disser que não era aquele animal que tinha vida, mas a Vida é que o tinha? Você já imaginou que a Vida pode ser uma energia que fica dispersa no universo e, quando encontra uma estrutura molecular adequada, instala-se ali e faz com que essa estrutura funcione com as características que identificamos nos seres vivos?

- É um ponto de vista interessante. Acho que ainda não havia pensado assim…

- Então, pensemos. Pensemos que a Vida já vinha rondando a Terra há muito tempo, atuando sobre os elementos, até que algumas moléculas se uniram e formaram um todo em condições de ser animado por ela. Pode ter surgido assim a primeira célula, o primeiro organismo unicelular. Impulsionado pela Vida, esse organismo dividiu-se, multiplicou-se, tornou-se mais complexo e passou a se reproduzir. Desse ponto para a multiplicidade das formas e a formação das espécies seria um pulo.

Já não estranho quando Shayeubad, diante de um fato qualquer da vida, começa a desenvolver raciocínios e dissertar sobre a origem do universo ou os grandes desafios da humanidade. Mesmo assim, achei engraçado que a morte de um jumento o levasse a filosofar daquele jeito. Meio sorrindo, desafiei:

- Boa, amigo! Mas dá para avançar um pouco no tempo e chegar à morte do jumento que vimos na estrada?

- Claro! – continuou ele, animado. – Mas é que, para chegar a esse ponto, é preciso considerar que a própria Vida, ao animar a matéria, passa a consumir a estrutura material que ocupa. Se quisesse ser dramático eu diria que a Vida já traz em si a semente da Morte. Pelo fato de estar se desgastando, o organismo animado precisa se alimentar, na tentativa da Vida de mantê-lo apto a sustentá-la. Ocorre que a alimentação nunca é suficiente para manter o organismo perpetuamente em condições de acolher a Vida, o que acarreta a necessidade de se gerarem outros organismos, pela reprodução, sexuada ou não. Ou seja, se a Vida está tendo sucesso em se manter em determinado organismo, ela, a Vida, fará com que ele se mantenha, como indivíduo, mas também que esse indivíduo se multiplique. Assim, à medida que esses organismos são usados e vão se esgotando, morrendo, a Vida vai se instalando nos novos que são criados. Cada vez que um corpo está muito danificado, pelo esgotamento ao qual chamamos velhice, por um trauma, ou por uma doença qualquer, a Vida o deixa e vai procurar outro…

- Espera aí! – interrompi. – Considerando que os microorganismos que causam as doenças são também seres vivos, não estaria havendo um confronto da Vida contra a Vida?

- Penso que não. Confrontos entre corpos fazem parte da lógica do sistema, até pela necessidade de um ser vivo de buscar em outro os nutrientes dos quais precisa para continuar abrigando a Vida. Veja bem: cada organismo funciona como uma unidade independente, mas a Vida é um todo único. Para a Vida, não há muita diferença entre um mosquito se alimentar do seu sangue ou um leão comer a sua carne.

- Bom, pra mim faz muita diferença ser comido mosquito ou por um leão. Mas, voltando ao jumento que estava morrendo na estrada, quer dizer então que não era o animal que lutava para se manter vivo, mas era a Vida que tentava manter aquele corpo funcionando, para continuar instalada nele?…

- Exatamente! Ela faz isso até com um homem que tente prender a respiração para morrer asfixiado. Antes que o homem morra, a Vida o obrigará a respirar. Você já ouviu falar de alguém que tenha cometido suicídio apertando o pescoço com as próprias mãos? Não. Porque mesmo corpos complexos como os nossos estão submetidos aos desígnios da Vida, e a finalidade da Vida é viver.

Tive que concordar com ele que todas as formas de eliminação da vida das quais já ouvira falar voltam-se contra o corpo, nunca contra a energia vital que o anima. Cogitamos de casos graves de depressão, quando a pessoa perde totalmente a vontade de viver, mas concordamos que, somente depois que o corpo se debilita e órgãos importantes param de funcionar, a Vida o deixa.

A essa altura, já havíamos entrado em Fortaleza e Shayeubad me avisou que desembarcaria em um shopping center em frente ao qual passaríamos dali a alguns minutos. Antes que nos despedíssemos, ainda intrigado com toda aquela conversa, levantei uma última questão:

- Shay… Você sempre me pareceu ser espiritualista. Essa teoria da Vida como algo disperso no universo, e que se apropria dos corpos, não seria um tanto materialista?

- Quem tem tendência para o materialismo sempre encontrará razões para ser materialista. Não será a ideia da Vida como algo vivo e independente dos corpos que irá mudar isso. Quanto a você, que tem formação cristã, não esqueça que, segundo a Bíblia, depois de fazer o homem do pó da terra Deus soprou em seus narizes o fôlego da vida. Veja lá em Gênesis, Capítulo dois, sete.

E desembarcou.

(*) Shayeubad é um amigo que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.


Mundo Cordel
O SONO DE UMA FLOR

 

Depois de minha participação no programa “Na Trilha da Vida”, na Rádio Justiça, recebi um bocado de emails pedindo a letra que eu havia feito para a música “Parati”, do grande violonista cearense Nonato Luiz.

É que o apresentador do programa, Walter Lima, mudou um pouco o roteiro e, ao invés de me pedir para falar de músicas que marcaram minha vida, passou a sugerir que eu cantasse minhas próprias canções, na capela.

Quando ele perguntou sobre algum momento em que a inspiração houvesse surgido durante minha atividade como juiz, lembrei da ocasião na qual passei o dia inspecionado os processos sob os meus cuidados e, enquanto os examinava, pus para tocar um CD do Nonato Luiz.

Deu-se então algo curioso: o CD tocou todas as faixas várias vezes e, sempre que chegava na música “Parati”, eu parava de trabalhar para ouvi-la. Depois de isso acontecer repetidamente – já era noite – afastei os processos para o lado, peguei um pedaço de papel e escrevi os versos que vinham à minha mente cada vez que a música tocava.

Muitos meses depois, perguntei a Nonato se a música já tinha letra e ele disse que sim. Guardei então meus versos para mostrar apenas às pessoas mais próximas, até que veio a entrevista e eu os entoei para tantas quantas fossem as pessoas que estivessem ouvindo o programa.

Fiquei meio preocupado de Nonato não gostar de ouvir a música dele sendo cantada assim, com uma letra não autorizada, mas, pensando bem…

- Nonato, estamos na semana do Dia Internacional da Mulher! Perdoe, por favor, minha ousadia, mas vou lançar mão de sua melodia para fazer essa homenagem às mulheres, na pessoa da mulher que tanto me apoia e incentiva, além de enfeitar e alegrar a minha vida. Minha amada Natália!

Para quem ouviu a entrevista e se interessou – e também para quem não a ouviu – seguem os versos, cantados e escritos. Perdoem-me a qualidade da gravação, pois apenas cantei sobre a bela execução de Nonato Luiz, sem qualquer tratamento da voz.

PARA TI

Letra: Marcos Mairton
(Feita sobre a melodia da música “Parati”, de Nonato Luiz)

Vou te acordar
E dizer como é bom te amar.
Vou te acordar
E dizer que vivo tão feliz assim contigo.

Mas, você a dormir
É uma flor que espera
A hora certa de se abrir
Nos dando seu perfume.

Melhor não te acordar
E esperar por ti,
Pra me alegrar com teu olhar,
Fazer o dia começar feliz.
Vou esperar você se abrir,
A minha flor pode dormir.


Mundo Cordel
ESTACIONAMENTO DE CARROÇA

Nas cidades é normal
Haver sinalização,
Para que o trânsito tenha
Alguma organização.
Assim, placas e sinais
Vão indicando os locais
Por onde se deve andar,
Dizendo o que é proibido
E até onde é permitido
Nosso carro estacionar.

Mesmo no estacionamento,
As regras estão presentes,
Como as vagas dos idosos
E as dos deficientes.
É bom para a sociedade
Ter essa prioridade
Sendo sempre respeitada,
E que, em placas ou no chão,
Toda sinalização
Seja bem observada.

Mas achei, em Quixadá,
Bem no centro da cidade,
Uma placa que atiçou
Minha curiosidade.
Aquela placa indica
Que o lugar onde ela fica,
É um estacionamento.
Mas é todo reservado
Ao veículo puxado
Por um burro ou um jumento.

Não se pode estacionar
Nem carro nem bicicleta,
Nem van e nem caminhão
Tampouco motocicleta.
Até transporte escolar
Que precise estacionar,
Por ali talvez não possa,
Pois está determinado
Que o lugar foi reservado
Para estacionar carroça.

Esses versos não pretendem
Dizer que isso está errado.
Simplesmente observei
E achei muito engraçado
Que, apesar de, hoje em dia,
Tanta tecnologia
Influir em nossa vida,
Um espaço ainda existe
Onde a carroça resiste
Com sua vaga garantida.


Mundo Cordel
TER E POSSUIR*

Não que eu seja um estudioso da gramática ou me dedique à filologia, mas, como costumo escrever e publicar os meus escritos, tenho também meus caprichos com o uso da língua portuguesa.

Um deles é não usar os verbos “ter” e “possuir” como sinônimos. Muitos leitores certamente perguntarão: “E não são sinônimos?”.  Os dicionários costumam dizer que sim (na Internet, ver DicionarioWeb, por exemplo), mas, particularmente, entendo que não. Pelo menos, nem sempre.

Essa opinião até poderia decorrer da minha formação jurídica, já que o Direito Brasileiro segue a linha doutrinária que separa a propriedade da posse, de forma que, enquanto o proprietário tem, o posseiro possui. O dono  de um apartamento o  tem, mas, se o imóvel estiver alugado, é o inquilino quem o  possui. Por isso, juridicamente, é possível dizer que “quem tem, nem sempre possui; e quem possui, nem sempre tem”.

Mas, não estou falando disso. Aceito com tranquilidade que, em um texto não jurídico, “ter um carro” diga a mesma coisa que “possuir um carro”. O que me faz pensar que “ter” e “possuir” nem sempre possam ser utilizadas como sinônimos é a sensação de que o verbo “ter” seria mais abrangente, alcançando, além das relações patrimoniais, as designações dos atributos do ser.

Vamos aos exemplos. Para mim, uma pessoa pode “ter os olhos azuis”, mas não “possuir olhos azuis”, já que a cor dos olhos é uma característica da pessoa, não havendo aí relação domínio. Pelo mesmo motivo, posso dizer que alguém “tem um grande senso de humor”, mas não que o possui. Aos meus ouvidos, soa estranho dizer que um colega de trabalho não consegue ter um bom desempenho porque “possui insônia à noite” e, por isso, “possui muito sono durante o dia”.

A par disso, vejo em minhas pesquisas internáuticas que o dicionário Michaelis aponta “ser dotado de”, como um dos sentidos do verbo “possuir”, e exemplifica com a frase “Poucas pessoas possuem essas qualidades”.

Mas, será que as pessoas realmente “possuem essas qualidades”, ou será que elas as têm? Será que alguém “possui título de mestrado”? Há quem “possua direito à indenização”? O Leitor conhece algum  jogador de futebol que “possua muita habilidade”?

Prefiro que o leitor responda para si mesmo essas questões. De minha parte, ainda tenho a impressão de que “ter” e “possuir” nem sempre dizem a mesma coisa… Engraçado, na frase anterior, eu não conseguiria dizer que “ainda possuo a impressão”. Você consegue?

* Publicado no “A Torto & a Direito” n° 174, de 03.12.2011


Mundo Cordel
DO FILOSÓFICO AO ROMÂNTICO

(Falando do Tempo e de Amor)

Quem já leu o meu poema “O TEMPO” sabe da briga que tenho com ele. Enquanto digo que o Tempo não existe, ele me empurra, fustiga, exige pressa e diz que leva minha vida aos poucos. Apesar da sua insistência em se fazer real, normalmente resisto. Foi assim quando ele disse que eu estava prestes a completar quarenta anos de idade.

- Nas minhas contas, estou completando Quarenta Voltas em Torno do Sol -  foi o que respondi.

Mas, quando chega dezembro, começam a vir à minha mente pensamentos sobre o que houve no ano que está terminando, sobre coisas que ficaram por fazer, e logo me vejo a traçar metas para o ano seguinte. Atraído pelos meus pensamento sobre o passado e o futuro, o Tempo se faz presente. E gira em volta de mim, com ar zombeteiro, como faz na canção interpretada por Nana Caymmi.

Estive a pensar nisso por esses dias. Certa tarde, pensando, dormi. E, adormecendo, sonhei. Sonhei que andava pelas estreitas vias de Veneza. Estava sozinho e procurava por Natália. “Eu, andando pela Itália, procurava por Natália…”, sugeriu o meu coração cordelista. Mas, eu não estava interessado em fazer cordéis. Queria encontrar a minha amada. O Tempo estava comigo e dizia que o dia estava terminando sem que eu a visse.

Na escadaria da Estação de Santa Lucia, alguém tocava violão e cantava um antigo sucesso de Roberto Carlos. “Fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você…”.

Acordei com Natália me chamando e fiquei feliz ao vê-la ali, sorrindo, tão perto de mim.

Mais tarde, lembrei do sonho e da versão italiana da música “Amor Perfeito”, que um dia compus para Natália. O Tempo apareceu e disse que ainda havia tempo para fazer uma coisa que eu havia previsto para 2011: postar a canção em um vídeo e compartilhar com os amigos internautas.

Dessa vez, concordamos. Convido os leitores a um breve passeio por Veneza, ao som da canção “Vieni”.

Feliz 2012!


Mundo Cordel
A PENSÃO DO CACHORRO

Foi o amigo Manuel Augusto Alves quem usou a Internet para puxar o assunto da amizade dos cães pelos homens, comprovadamente maior que a dos homens pelos cães. Giovanni Scandura compartilhou com sua rede de amigos internautas e foi assim que as frases sobre o tema chegaram à minha caixa de e-mails.

“Se você apanha um cachorro faminto e o alimenta, ele não o morderá; esta é a principal diferença entre um cachorro e um homem”, dizia uma frase atribuída a Mark Twain. “Cachorros não são eternos na nossa vida, mas eles fazem nossas vidas eternas”, eram as palavras de Roger Caras. E havia outras, sempre nessa linha do “mais vale um cachorro amigo que um amigo cachorro”, afirmação que, se não chega a ser um axioma, tem o prestígio de um postulado do qual pouca gente duvida.

Depois de ler as várias frases sobre os cães e sua devoção a seres humanos, veio-me à memória a história de um amigo que morava com a família em uma casa e tinha um cão de guarda, um belo rottweiler.

Um dia esse amigo me contou que havia se separado da mulher e estava morando em um flat. Não tendo como acomodar o animal na nova residência, precisou deixá-lo na companhia da ex-esposa, que havia permanecido na casa, onde, aliás, o cão seria mais útil, já que poderia continuar ajudando na segurança.

- O problema – queixou-se ele – é que minha ex disse que o cachorro era meu e, por isso, só aceitaria ficar com ele se eu pagasse todas as suas despesas, como ração, vacinas, acompanhamento do veterinário, essas coisas. Acabei aceitando. Agora, acho que sou a única pessoa do mundo que paga pensão para um cachorro.

- Que coisa! – surpreendi-me. – Mas, apesar da separação, vocês ainda se dão bem, não?

- Eu e o cachorro? Claro!


Mundo Cordel
UMA CAIXA DE MAIZENA

(Da série “Memórias”)

A mercearia dos meus pais era pequena – chamávamos de “bodega” – mas nela vendíamos um pouco de tudo, principalmente gêneros alimentícios.

Digo “vendíamos” porque a família toda participava, principalmente depois que meu pai recuperou o emprego e minha mãe ficou à frente dos negócios. Como de manhã eu ia à escola, ajudava no comércio à tarde, enquanto meu irmão fazia o contrário, estudava à tarde e trabalhava pela manhã.

Às vezes minha mãe saía para fazer compras ou pagar fornecedores e eu assumia a gerência do estabelecimento. Tinha uns dez anos de idade, mas fazia tudo direitinho: vendia, passava troco, empacotava as mercadorias e ainda prestava contas de tudo, quando minha mãe chegava.

Uma das poucas coisas que eu achava complicado era vender maisena, porque as caixas ficavam na prateleira mais alta e eu tinha um pouco de acrofobia, aliás, tenho até hoje. Naquela época, com menos de um metro e meio de altura, tudo me parecia mais alto.

Para minha desventura, havia uma senhora, chamada Dona Santana, que morava quase em frente à mercearia e toda tarde ia até lá comprar maisena para o jantar dos seus filhos. Eram doze, ao todo, mas acredito que só uns quatro ou cinco – ainda pequenos – tomavam mingau. Os maiores já podiam cuidar de si mesmos.

Quando ela entrava na mercearia, sempre por volta das quatro da tarde, eu sentia um frio na barriga. Sabia que logo precisaria subir no birô que havia perto do balcão, apoiar o pé em uma prateleira – como quem pisa no estribo de um cavalo – me segurar em outra, com a mão esquerda, e esticar o braço direito, até alcançar uma das caixas. Lá de cima, jogava a caixa de maisena dentro do saco do arroz ou da farinha, para ter as mãos livres novamente na descida.

Às vezes Dona Santana fazia um pouco de suspense, pedindo outras coisas: um ovo, duas colheres de manteiga, três colheres de colorau, meio pacote de café… Mas o pedido final era sempre o mesmo:

- Agora, me dê uma caixa de Maizena.

E lá ia eu, com o coração acelerado, prendendo a respiração e subindo pelas prateleiras, enfrentando o medo que tinha daquelas escaladas.

Mas, nunca deixei de atender Dona Santana por isso. Só ficava chateado quando, depois que eu descia com a mercadoria, ela olhava para a caixa amarela sobre o balcão e dizia:

- Meu filho, me dê logo duas.


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PAPO FURADO

Publicado originalmente em “A Torto e a Direito”, nº 161.

- Vou te dizer uma coisa: acho que dessa vez meti os pés pelas mãos.

- É. Talvez você tenha ido com muita sede ao pote…

- Talvez nada, fui sim. Parecia até que eu nunca tinha comido melado e me lambuzei todo. Carreguei muito nas tintas e acabei misturando alhos com bugalhos.

- De fato. Não separou o joio do trigo e acabou tratando Jesus como se fosse Genésio.

- E é porque meu pai sempre me dizia: “Se você encontrar uma tartaruga no galho de uma árvore, é porque alguém botou ela ali”. Agora, taí: cuspi pra cima e acertei na minha cara.

- Mas, será que a corda vai arrebentar mesmo do seu lado?

- Só arrebenta do lado mais fraco, né? Eu não posso é esperar que a linguiça vá engolir o cachorro.

- Tudo bem, mas o vento que sopra lá sopra cá…

- É, mas o rapaz lá tem as costas largas.

- Ouvi dizer. Mas, pelo que estou sabendo, você também tem alguma garrafa vazia pra vender, não?

- Ter eu tenho, mas seria atirar em elefante com espingarda de matar passarinho. A não ser que eu desse com a língua nos dentes e jogasse merda no ventilador, mas aí podia acabar sobrando despesa pra gente que não comeu nem bebeu…

- Não seria a primeira vez que os justos iriam pagar pelos pecadores…

- É, mas eu sou o tipo do cara que não gosta de puxar o tapete de ninguém. Sem contar que aí é que eu podia ficar mal na foto com todo mundo mesmo.

- Então, amigo, é melhor você se fingir de morto e esperar que a chuva passe.

- É o que eu vou fazer. Quem sabe se, depois que o mar pegar fogo, não sobra pra mim algum peixe assado?

- É isso aí. Nas maiores dificuldades é que surgem as melhores oportunidades.

- Então?… Pra fazer uma omelete, não tem que quebrar os ovos?

- É claro.

- Pois se é assim, assim é. Também, se nada der certo, não vou ficar chorando sobre o leite derramado. Eu perco os anéis, mas meus dedinhos tão aqui, ó, funcionando.

- Isso! Quem fala assim não é gago!

- É como eu sempre digo: cair, todo mundo cai; o importante é a gente ter coragem pra se levantar.

- Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!

- Boa, amigo! Disse pouco, mas disse tudo!

- É o mínimo que eu posso lhe oferecer: uma palavra amiga.

- O que não é muito, mas é o bastante. Às vezes, pela falta de um grito se perde uma boiada. Obrigado pela força.

- Não tem do que agradecer. Amigo é pra essas coisas mesmo.

- É, mas os amigos mais certos a gente descobre nas horas mais incertas…

- Pois, se precisar, ligue pra mim. Se eu não tiver o que dizer, pelo menos eu lhe escuto.

- E precisa mais que isso? Se falar fosse mais importante que ouvir, a gente nascia com um ouvido e duas bocas…

- É mesmo. Altas filosofias isso aí que você falou. Mas, agora tá na minha hora. Fui!

- Valeu. Vai pela sombra!


Mundo Cordel
O MISTÉRIO DOS MONÓLITOS DE QUIXADÁ

Pedra da Galinha Choca, Quixadá-CE (Foto: Galeria de Pedro Cavalcante)

(Encontro de um poeta aventureiro com um menino sertanejo  que falava sobre discos voadores)

Essa história aconteceu
No sertão do Ceará
No município que tem
O nome de Quixadá.
É um caso interessante,
Uma história intrigante
Que eu mesmo pude viver.
Fatos que nunca esqueci
E por isso resolvi
Esse cordel escrever.

Quixadá é uma cidade
Onde o povo hospitaleiro
Tem o coração aberto
Pra acolher o estrangeiro.
Mas, em volta da cidade,
Há, em grande quantidade,
Pedras enormes, gigantes.
Onde, em noites muito escuras,
Aparecem criaturas
E seres impressionantes.

Dizem também que acontecem
Fatos por demais insólitos,
Nessas pedras conhecidas
Pelo nome de monólitos.
Grandes blocos de granito
Fazem o lugar bonito
Atraindo as atenções,
E quem passa ali por perto
Chega a ficar boquiaberto
Com aquelas formações.

Tem a “Cabeça da Cobra”
E a “Pedra da Caveira”,
A pedra “Galinha Choca”,
E a “Pedra Gemedeira”.
Verdadeiros monumentos
Açoitados pelos ventos
E pelo sol do sertão,
Mas, quem chega muito perto
Daquele lugar deserto
Pode ter outra visão.

No meio daquelas pedras
Tem onça e tem siriema,
Muita cobra cascavel,
Mas isso não é problema.
O problema mesmo sério
Na verdade é um mistério
De difícil solução:
Muito “cabra” destemido
Que vai lá, volta corrido.
Não quer ir de novo não.

E quando o povo pergunta
O que foi que o “cabra” viu,
Ele não sabe explicar.
Diz apenas que sentiu
Um cheiro de cão queimado,
Ouviu um grito abafado
E um gemido de agonia.
Teve um rapaz de Arneiroz
Que voltou de lá sem voz,
Não fala até hoje em dia.

Pois eu também fui pra lá
Procurar a explicação
Para existir tanta história
De encanto e assombração.
Meu pensamento era entrar
Pela mata e me embrenhar,
E ver o que acontecia,
Que tanto cabra valente
Regressava tão demente
Do meio da pedraria.

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CORDEL SOBRE OS MONÓLITOS DE QUIXADÁ

Apesar de os leitores do JBF figurarem entre as pessoas mais bem informadas do Brasil, o fato haver fubânicos espalhados pelo mundo inteiro torna real a possibilidade de alguns desses leitores jamais ter ouvido falar desse lugar fantástico que é Quixadá, no meio do sertão do Ceará, a 166Km de Fortaleza. Também é razoável que essas pessoas não saibam que os MONÓLITOS DE QUIXADÁ são formações rochosas incríveis, que se aglomeram em volta da cidade, servindo de plataforma para vôos de asas delta e parapentes. Alguns dizem que também pousam OVNIs por lá, mas isso ainda não está comprovado.

Pois bem.

Acabei de escrever um cordel sobre o tema, cujo título provisório é O MISTÉRIO DOS MONÓLITOS DE QUIXADÁ. Até agora, o texto permanece inédito. Pretendo declamá-lo no estande CAUSOS E CORDÉIS BODEGA CULTURAL, na Bienal de Pernambuco, no sábado, 1º de outubro, às 16:00hs, por ocasião de “Bate Papo com Autor” organizado pelos poetas Felipe Júnior e Ismael Gaião.

Como espero contar com a presença de muitos fubânicos, achei que seria interessante antecipar aos leitores do JBF uma noção do que são os monólitos, porque assim quem comparecer já vai ter uma ideia melhor do que estou falando.

Esse é o motivo das imagens dos monólitos que se vêem aí em cima.

Quem quiser saber mais sobre os monólitos também pode dar uma olhada na Wikipedia.

Só pra dar um gostinho do cordel dos monólitos, ele começa assim:

Essa história aconteceu
No sertão do Ceará
No município que tem
O nome de Quixadá.
É um caso interessante,
Uma história intrigante
Que eu mesmo pude viver.
Fatos que nunca esqueci
E por isso resolvi
Esse cordel escrever.

Quixadá é uma cidade
Onde o povo hospitaleiro
Tem o coração aberto
Pra acolher o estrangeiro.
Mas, em volta da cidade,
Há, em grande quantidade,
Pedras enormes, gigantes.
Onde, em noites muito escuras,
Aparecem criaturas
E seres impressionantes.

Dizem também que acontecem
Fatos por demais insólitos,
Nessas pedras conhecidas
Pelo nome de monólitos.
Grandes blocos de granito
Fazem o lugar bonito
Atraindo as atenções,
E quem passa ali por perto
Chega a ficar boquiaberto
Com aquelas formações.

Tem a “Cabeça da Cobra”
E a “Pedra da Caveira”,
A pedra “Galinha Choca”,
E a “Caverna da Caldeira”.
Verdadeiros monumentos
Açoitados pelos ventos
E pelo sol do sertão,
Mas, quem chega muito perto
Daquele lugar deserto
Pode ter outra visão.


Mundo Cordel
A GARAGEM

chevette-branco

Zé do Burro costumava andar de carroça ou de bicicleta. A primeira, em suas atividades profissionais, no ramo de fretes; a segunda, para seus momentos de lazer. Mas o seu sonho sempre foi ter um carro para passear com a família.

Quando os bons ventos do aquecimento da economia sopraram a seu favor, Zé do Burro viu crescer a procura por seus serviços de transportes; aproveitou o aumento em sua renda e diversificou seus negócios, passando a atuar no mercado de resíduos sólidos recicláveis; até que conseguiu juntar dinheiro e realizar o seu sonho: comprar o seu primeiro carro, um chevette.

Um chevetinho branco, com alguns milhares de quilômetros rodados, mas relativamente bem conservado. Se já não suportava fazer longas viagens – pelo natural desgaste dos anos de uso – ao menos permitia alguns passeios pela cidade e facilitava o trajeto de Zé à missa dominical, na igrejinha que fica a dez quarteirões de sua casa. Integrado à família, o carro recebeu o carinhoso o nome de Chevinho.

O problema de Zé do Burro passou a ser então a necessidade de guardar o carro, pois ele não suportava a ideia de deixar Chevinho dormir na rua, e sua casa não tinha espaço suficiente para construir uma garagem que abrigasse confortavelmente o veículo de estimação. Sendo bem específico: para construir a garagem, Zé do Burro teria que abrir mão da sala e de parte do quarto.

Equação difícil de resolver. Foi aí que entrou em cena a criatividade de Zé do Burro, e ele usou o famoso “jeitinho brasileiro”. É bem verdade, que para isso o portão da garagem teve que avançar um pouco em direção à rua, mas, como Zé costuma dizer, “quase não passa ninguém ali… E a frente da casa da gente… é como uma coisa nossa”.

Agora, alguns vizinhos ficam dizendo que Zé está invadindo a rua, que a rua é pública, que isso, que aquilo.

- Pura inveja – defende-se Zé do Burro. – Esses que falam de mim fariam a mesma coisa se também tivessem carro.

De fato, nesse Brasil onde tantos tratam o que é público como se fosse propriedade particular, fica até complicado convencer Zé do Burro de que ele invadiu um espaço que é de todos, ou mesmo fazê-lo perceber que há algo de errado nisso.

- Não sei porque tanta confusão – diz ele. – Só por causa de um pedaço de calçada e um pouquinho da rua? Por mim, eles podem falar à vontade. O importante é que Chevinho ficou bem guardado.

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ÚLTIMAS PALAVRAS AO MEU PAI(*)

Natália Guberev

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No dia 08 deste mês de setembro de 2011, meu pai deve ter dito para si mesmo: “Hoje, eu já encerrei meu expediente!” Era o que ele costumava dizer ao final de todo dia. Mas desta vez, não só o expediente estava encerrado como a missão fora inteiramente cumprida!!

Papai, queria te dizer estas últimas palavras, compartilhando com os que aqui estão:

Antes do meu nascimento, o senhor pensava e torcia para que eu fosse um menino. É, pois já existia a Roberta, com dois anos de idade e o senhor esperava ansiosamente o “garoto do pai”. Até o nome já havia sido escolhido: Erick! Então, eu nasci… uma menina!! Entretanto, só tenho notícias e lembranças do orgulho que sempre teve de suas filhas e da felicidade da família que constituiu, juntamente com a mamãe. Ouvi por diversas vezes que o senhor seria capaz de dar sua vida por qualquer uma de nós!!

O tempo passou, tenho lembranças diversas de toda uma vida em família… Ainda não sei como será daqui pra frente, com essa nova realidade: você partiu para sempre!

Não fui seu filho, mas lhe dei seu primeiro neto, o Portinho, a quem o senhor carinhosamente o apelidou, desde muito pequenino, de Antonov; em virtude de nossa descendência russa, além da semelhança com o senhor e seus familiares.

Deus é tão generoso, que o Antonov, há muito tempo o havia “batizado” espontaneamente de “PAI” – jamais rejeitando sua verdadeira paternidade, mas em sinal de afinidade e amor ao senhor, que por sua vez, na maior felicidade, referia-se a ele de “MEU FILHÃO”!!

Sou muito feliz de ter lhe dado a Natalie – “a princesinha do vovô” e o Antonov – “seu filhão”; que tanto aprenderam com o senhor – valores íntegros e morais, dentre tantas outras coisas!

Acompanhei, muito de perto, desde 2009 sua saúde dando sinais do que eu sempre temi: perder meus pais! Um câncer na faringe se apresentou, mas o senhor foi imbatível como um autêntico vencedor, e de fato, venceu!! Foi uma das maiores alegrias da minha vida, saber que todo aquele sofrimento não havia sido em vão; aquele tratamento cruel, doloroso e prolongado surtiu o efeito desejado! O que para mim, parecia impossível, aconteceu: o tumor desaparecera!!!! Que felicidade!!!

Mas poucos meses depois, precisamente quatro, o senhor adoeceu. Um AVC localizado no tronco do seu cérebro calou para sempre a sua voz e lhe deixou cheio de seqüelas, que lhe impossibilitavam completamente de qualquer tipo de movimento e interação com o meio.

A cada vez que eu ia ao hospital papai, eu te via com menos vida, menos, menos e menos… “A pilha estava cada vez mais fraquinha…”

Não existia mais esperança de melhora, ao contrário, eu sabia que não podia esperar muito daquele quadro.

Sabe pai, eu fiquei doente junto com o senhor e cada vez que te via, eu adoecia mais…Tenho a mais absoluta certeza que o senhor passou por um período de purificação, antes de partir, ainda aqui na Terra, entre nós. Pois como o senhor costumava dizer: “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade”. E quando eu lhe via sofrendo mais e mais naquele leito de hospital, sempre lembrava destas suas palavras e às vezes me perguntava: Por que, meu Deus? Por que, minha Nossa Senhora? Por que meu pai não está aqui, mas também ainda não se foi? Por que tanto sofrimento? Por que tanta dor? Questionei-me, por muitas vezes. Mas com o tempo, percebi e acreditei que se tratava de sua purificação, enquanto ser humano! Então, entendi que o ciclo estava completo e não mais pela metade. O senhor tinha toda razão, papai, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não faz nada pela metade. Agora eu sei.

Eu não tenho dúvida que o senhor está num lugar lindo e cheio de luz, e nada mais em você está doendo, papai. Sei que agora o senhor fala, anda, sorri e está feliz!!

Tenho segurança de que ao partir, há sete dias atrás, um belo caminho já o esperava e que o senhor está muito melhor agora do que quando estava aqui. E em paz!

Sua alma é pura e iluminada, generosa, boa, justa, honesta e digna! Tenho muito orgulho de ter sido sua filha e sou muito grata a Deus por ter tido a oportunidade de tê-lo como meu pai.

Obrigada, Deus! Obrigada, papai!

Jamais, em toda a minha vida, conheci alguém de um coração tão grande, que só cabia bondade!!

Obrigada por tudo! Até um dia… Pode ser que daqui a algum tempo, a dor da partida se transforme em uma bela saudade!

Ah, pai! Não se preocupa, pois do jeito que eu adoeci contigo, vou ficar boa, sentindo você renascer na luz.

Tua filha que te ama…
                                                                               
Natália Guberev

(*) Faço uma pausa nas minhas histórias para ceder o espaço da Coluna às palavras proferidas por minha amada esposa Natália, em homenagem feita na missa de sétimo dia seu pai, realizada no dia 14 de setembro de 2011. (Marcos Mairton)


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O VIAJANTE E O SÁBIO

viajante_sabio

Desenho a carvão: Gilvan Lopes

Diz a lenda que um homem viajava
À procura de mais sabedoria,
Quando teve a notícia, certo dia,
De um sábio que as montanhas habitava.
Que a tudo que se lhe perguntava,
Respondia, sem sequer titubear,
Com lições que ele sempre ia buscar
Nos provérbios e adágios populares,
Destacando os princípios basilares
Da melhor sabedoria popular. 

Logo que do guru ouviu falar,
Lá se foi, bem depressa, o viajante.
Alguns dias depois, o caminhante
Encontrou o refúgio do avatar.
Mal chegou, pôs-se logo a lhe falar:
– Meu bom homem, disseram-me, outro dia,
Que é imensa a tua sabedoria,
E que vem de provérbios e ditados. 
E, os problemas que a ti são formulados,
Tu respondes com o que já se sabia.

– A verdade e o azeite na água fria
Vêm à tona, cada um na sua hora..
Respondeu logo o mestre, sem demora,
À pergunta que o homem lhe fazia.
E, pegando uma cadeira vazia, 
Ofertou para aquele visitante,
Disse: – Sente-se um pouco, viajante,
Quem tem pressa ou come cru ou quente.
O que eu sei não se aprende de repente,
Também não se fez Roma num instante.

Aceitando o convite, o caminhante
Descansou na cadeira oferecida.
Disse: – Mestre, uma coisa nessa vida,
Que eu acho curiosa e intrigante,
É ver gente que pensa que é importante
Esquecer como a vida é passageira.
Que a alegria de uma noite inteira
Talvez nem veja o sol se pôr de novo.
O que hoje é fortuna para o povo
Amanhã ele joga na lixeira.

– Comentaste uma coisa verdadeira – 
Disse o sábio com ele concordando.
E depois também foi se acomodando
E sentando-se ali noutra cadeira.
– Vaidade não é boa conselheira,
Saiba que tudo muda nesta vida.
Não existe colheita garantida.
De certeza na vida só a morte.
Leva o fraco e também arrasta o forte.
Essa história já é bem conhecida.

– Pois me ajude a encontrar uma saída,
Grande sábio que vive tão distante,
Para outra questão interessante
Que ainda não vi bem respondida:
Dizem que, muitas vezes repetida,
A mentira se iguala à verdade.
Haverá essa possibilidade?
Ou é coisa de gente mentirosa?
Que, contando uma história escabrosa,
Justifica assim sua falsidade?

– Mesmo sendo grande a velocidade
Da mentira, quando ela se espalha,
Sua vida é como o fogo de palha.
É raiz que não tem profundidade.
Eu lhe disse, há bem pouco, que a verdade,
Como azeite, uma hora à tona vem.
Diz o povo, e eu vou dizer também:
Passa o tempo e tudo se descobre,
E quem muito enganou o povo pobre
Hoje, já não engana mais ninguém.

(…)

Digo, ainda, com toda segurança:
Não guarde a luz acesa num armário;
Não se ensina “Pai Nosso” a vigário;
Prudência é irmã da desconfiança;
Desconfie do peso da balança.
Veja se o rezador merece fé;
Muita coisa parece, mas não é;
Muita coisa que é não se parece;
Sob as vistas do dono a planta cresce;
Um sapato não dá em qualquer pé.

(…)

– Grande Mestre, na vida, cruzei mares, 
Conheci muitos povos e nações.
Visitei monumentos e vulcões,
E andei por estradas seculares,
Conhecendo pessoas aos milhares 
Que acreditam que têm sabedoria. 
Mas, hoje eu acredito em quem dizia 
Que ninguém o supera em sapiência. 
Não pensei existir tanta ciência 
nos ditados que o povo pronuncia.

(Trecho do livro “O viajante e o sábio”, editado pela Ensinamento Editora, 2010)


Mundo Cordel
O QUEIJO DE DONA TEREZINHA

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Era uma tarde de domingo. Havíamos acabado de almoçar e estávamos saboreando um café na varanda da casa grande da Fazenda Perto Longe, a uns vinte quilômetros da cidade mais próxima, cujo nome não convém que se revele. Éramos quatro: eu, meu amigo Nilton, que me levou até lá, o dono da fazenda, chamado Amadeu, e seu irmão caçula, o Doutor Aprígio, que era dentista e morava na cidade.

A conversa seguia lenta, pausada, como se os corpos pedissem para ser deixados quietos, gastando as energias na digestão da farta refeição que há pouco havia sido ingerida.

Mas, ainda não era hora de ir embora. Seu Amadeu já havia avisado que logo mais seria servido um queijo de leite de búfala, verdadeiro ouro branco, produzido ali mesmo na fazenda, e ninguém lhe queria fazer uma desfeita. Fazia tempo que ele vinha ampliando a criação de búfalos e aprimorando a produção de queijo.

Quem conhecia o Seu Amadeu, sabia que ele seria bem sucedido nas duas coisas. Sempre fora muito determinado, alcançando cada um de seus objetivos. Sendo o mais velho de um grupo de seis irmãos, fora mandado para a capital ainda adolescente, para continuar os estudos, mas terminou entrando para o ramo de confecções. Começando com uma pequena indústria, cresceu rapidamente e logo estava produzindo até para exportação. No dia daquele encontro, estava com sessenta e cinco anos de idade e podia-se dizer que o menino que nascera em uma família “remediada” do interior virou um homem rico na capital. Apesar disso, nunca se afastou totalmente da vida no campo. Com o falecimento do pai, uns vinte anos antes da nossa visita, passou a dedicar-se ainda mais às atividades rurais. Alguns anos depois iniciou a criação de búfalos da qual tanto se orgulhava.

Os outros irmãos, ao contrário, à medida que foram sendo mandados para estudar fora, acabaram se voltando totalmente para a vida na cidade. Era o caso do Doutor Aprígio, ali presente, que, desde o começo da faculdade de odontologia, pouco andava na fazenda. Naquele dia, por exemplo, só estava presente ao almoço porque Seu Amadeu havia lhe telefonado pedindo que comparecesse. Tinha um assunto especial a tratar com o irmão.

- Aprígio, enquanto não chega a hora do queijo, deixe eu ir logo adiantando a conversa que eu preciso ter com você.

- É claro, meu irmão. Diga aí.

Amadeu tomou o derradeiro gole do café, pôs a xícara vazia na bandeja que aguardava sobre a mesinha e se ajeitou na cadeira. Dava para ver o assunto era sério.

- Meu irmão, eu não gosto mais de ficar me metendo na sua vida, nem lhe dando conselho, porque você é um homem de cinquenta e sete anos de idade, já é avô, de forma que deve ter responsabilidade com o que faz. Mas, eu soube de umas coisas aí, que eu acho que devo lhe dizer alguma coisa.

- E foi, mano? O que terá sido?

Eu tinha conhecido o Doutor Aprígio naquele mesmo dia, mas Nilton já havia comentado comigo que, dos seis irmãos, o caçula era o mais festeiro e galanteador. De vez em quando, era chamado à atenção pelo irmão mais velho, por causa de confusões envolvendo mulheres. Desconfiei que a conversa seguiria esse rumo. Seu Amadeu, continuou:

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