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MEMÓRIAS DE REISADO

Reportagem sobre reisado em Fortaleza:

Ponho-me diante do computador para escrever minha primeira crônica de 2014. Sinto-me um tanto saudosista, porque acordei lembrando do tempo em participava de reisados, no bairro do Pirambu, no subúrbio de Fortaleza.

No primeiro fim de semana do ano – sexta ou sábado à noite, depois que a maioria das casas estava fechada e no escuro – um grupo se formava e saía cantando pela rua. Meus pais, meu irmão e alguns tios sempre entravam na brincadeira. Outros vizinhos também participavam.

Fazia-se um pequeno ensaio e depois se seguia, de casa em casa, numa espécie de serenata sacro-profana, que misturava músicas religiosas, cachaça e farofa.

Ó, Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada!
Ó, Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada!
Aonde mora o cálix bento
E a hóstia consagrada.

Na segunda ou terceira música, os donos da casa abriam a porta e nos recebiam com alegria, oferecendo comida ou bebida. Alguns davam até dinheiro, mas o que importava mesmo era a festa. Muitos se integravam ao grupo. A brincadeira começava com umas cinco ou seis pessoas, mas a quantidade aumentava rapidamente.

Eu achava engraçado perceber que, apesar de as casas serem pequenas e próximas umas às outras, apenas naquela onde cantávamos abria-se a porta. Os moradores da casa vizinha ficavam quietos, esperando que fossemos cantar lá. E nós íamos. E eles entravam na brincadeira também. A cada nova adesão, a meninada se agitava, aplaudia, pulava e dava gritos estridentes.

Era desse jeito que atravessávamos a noite. Homens, mulheres e crianças, cada um se divertindo ao seu modo, mas todos juntos, aproveitando a alegria de morar perto de pessoas que se conheciam e se respeitavam.

Mas, como sei que, hoje, em janeiro de 2014, algum leitor pode querer saber se tínhamos medo ser assaltados, devo dizer que minhas lembranças são de quando eu tinha entre oito e onze anos, ou seja, em meados da década de 1970.

O Pirambu já era um lugar perigoso, porque sempre o foi. Mas era um perigo diferente. Havia homicídios, porque tinha uns caras valentões que achavam certo resolver suas diferenças na faca. Mas assaltos eram raros. Não havia essa história de bandidos equipados com armas de fogo, circulando por aí em carros e motocicletas roubados, fazendo “arrastões”.

Drogas? Sim, de vez em quando aparecia algum rapaz fazendo arruaças, e as pessoas diziam que estava “emaconhado”. Mas não se via jovens morrendo todos os dias, assassinados pelo credores do tráfico. Nem essas falanges de viciados que hoje se vê, matando para roubar um celular e trocar por pedras de crack.

Os perigos realmente eram outros. Aliás, alguns anos mais tarde, eu viria a saber que aquela também era uma época perigosa para quem se metia com política, criticava o governo ou simpatizava com ideias socialistas, mas, em minha inocência infantil, eu nem suspeitava que essas coisas existissem.

Para mim, aquele era apenas um tempo em que a gente podia cantar na rua, à noite, e acordar os vizinhos para cantar também. Tempo de verde dos quintais. Tempo em que o medo se chamou jamais.

Quem estiver sintonizado com minha saudade pode também clicar no vídeo abaixo e ouvir Fagner e Sivuca cantando “No tempo dos Quintais“.

 


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LEITORES E LEITORAS

leitores_e_leitoras

Chegando ao que deve a ser a última postagem de 2013 da minha coluna “Contos, Crônicas e Cordéis”, acho que é o caso de deixar algumas palavras de encerramento das atividades do ano.

Só há um problema: como participei de várias celebrações e solenidades nas últimas semanas, percebi que a palavra “todos” vem perdendo rapidamente o significado de totalidade dos elementos de um conjunto. O que se vê é que, se os elementos de determinado conjunto são dotados de gênero diversos, a palavra “todos” já não alcança mais os do gênero feminino, mas apenas os do gênero masculino. Decorre daí que muitos discursos passaram a começar com “Bom dia a todos e a todas!”, ou o contrário, “Boa noite a todas e a todos!”.

Depois de ouvir isso várias vezes, imaginei que, se ainda existisse a “carrocinha de cachorros” (na minha cidade, nunca mais vi), ela em breve se chamaria “carrocinha de cachorros e cachorras”. Ao final de um dia de trabalho da dita carrocinha, não se falaria da apreensão de determinado número de cães, mas de certa quantidade de cães e cadelas.

Na verdade, o que houve foi que estranhei essa forma de expressão, mas um amigo me explicou que se trata de um resgate do valor feminino, massacrado ao longo dos séculos por uma cultura machista, que tem oprimido as mulheres inclusive no uso do idioma. Importante passo em favor desse resgate, teria sido a entrada em vigor da Lei n° 12.605, de 3 de abril de 2012, cujo artigo 1º determina o seguinte: “As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido”.

Diante de tal argumento, e sendo eu um sujeito cumpridor das leis e que evita ficar parado no tempo, resolvi fazer o meu discurso de encerramento das atividades da Coluna nesse novo formato.

Admito que ainda soa estranho aos meus ouvidos, mas, se é para valorizar as mulheres por meio da flexão de gênero, vamos lá:

Queridos leitores e queridas leitoras,

É com imensa alegria que me dirijo a todos e a todas, para agradecer àqueles e àquelas que, no decorrer deste ano, se deram ao trabalho de ler, pelo menos em parte, os textos que aqui publico.

Sei que este periódico tem um público seleto, e, claro, uma pública seleta também, composto e composta por pessoas – e, por que não dizer, pessôos – bem informadas e bem informados, que estão sempre antenadas e antenados com tudo o que acontece no mundo.

Por aqui passam médicos e médicas, advogados e advogadas, dentistos e dentistas, e tantos outros e tantas outras profissionais e profissionalas liberais. Além de servidores públicos e servidoras públicas, comerciantes e comerciantas, estudantes e estudantas, aposentados e aposentadas, vale dizer, gentes e gentas das mais variadas ocupações e até desocupações, porque, afinal, este também é um lugar para aquele ou aquela que está com o tempo livre.

A mesma variedade se vê no campo ideológico, pois percebo que a Coluna é lida por socialistos e socialistas, capitalistos e capitalistas, sendo certo que, dentre os seguidores e as seguidoras dessas correntes econômicas, há democratos e democratas, mas há também aqueles e aquelas que têm mais simpatia por regimes autoritários.

Dos e das que se vinculam a partidos e partidas, a Coluna recebe petistos e petistas, peemedebistos e peemedebistas, peessedebistos e peessedebistas, e , bem assim, membros ou membras de qualquer agremiação político ou agremiaçã política.

Na verdade, não fiquei muito seguro com relação ao final do parágrafo anterior, porque “agremiação” é considerada tradicionalmente uma palavra feminina, apesar de terminada em “ão”. Se bem que talvez seja a hora de consertar isso também: deixar bem claro quais são as palavras femininas e, consequentemente, os palavros masculinos.

Mas, esse é um tema que pode ficar para o ano que vem. Agora, importa destacar que, aqui, todos os visitantes e todas as visitantas são, indistintamente, leitores e leitoras. Alguns e algumas vão além da leitura e manifestam a sua opinião sobre os textos, tornando-se assim comentaristos e comentaristas, o que me dá muita alegria, pois esses e essas colaboradores e colaboradoras sempre enriquecem a coluna.

É por ter merecido a atenção de cado um e de cada uma de vocês, no decorrer deste ano, que lhes e lhas agradeço, ao mesmo tempo em que os convido e as convido a voltar a este espaço muitas vezes mais, no ano que se inicia.

Em 2014, sejam todos e todas bem vindos e bem vindas a esta Coluna!


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O FUTEBOL E A IDEOLOGIA DA REJEIÇÃO

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Embora concorde com aqueles que apontam a impunidade como sendo uma das principais causas da violência nos estádios brasileiros de futebol, desconfio que haja algo mais profundo por trás disso, uma espécie de ideologia da rejeição, contrária à noção de que, em uma competição esportiva, o respeito pelo adversário é fundamental.

Bem se sabe que o esporte tem o poder de aproximar as pessoas, permitindo que os seres humanos exercitem o seu instinto de competição, ao mesmo tempo em que criam e fortalecem laços de amizade e respeito. Não é por outra razão que se vê, em muitas competições esportivas, vencedor e vencido confraternizarem-se ao final da disputa, cada um reconhecendo o valor do outro.

Recentemente, o mundo inteiro viu um exemplo disso, quando, após vencer o time do Atlético Mineiro, os jogadores do Raja Casablanca demonstraram o seu reconhecimento a Ronaldinho Gaúcho, pedindo-lhe peças de seu uniforme. Estava clara a mensagem: “Vencemos, mas o admiramos pelo grande atleta que é”.

Contrastando com a cena, a ideologia da rejeição inspirou manchetes do tipo “A vergonha do Atlético Mineiro no Marrocos” ou “Rivais tiram sarro de atleticanos por vexame no Marrocos”.

Mas, o que há de vergonhoso ou vexatório em ser derrotado, quando se enfrentam dois adversários que se respeitam?

Ao meu sentir, é nesse ponto que a ideologia da rejeição tem levado o futebol a se afastar muitas vezes da força agregadora que deve caracterizar qualquer modalidade esportiva. Pela supervalorização das chamadas rivalidades, fazendo com que a derrota do dito “rival” se torne mais importante que a vitória do “time do coração”. Pelo fortalecimento do sentimento de desprezo dos torcedores dos ditos times “grandes” em relação aos “pequenos”, difundindo a ideia de que cair de uma divisão para outra seja uma vergonha, e não a consequência normal do mau desempenho em uma temporada. E por tantas outras atitudes, que podem parecer pequenas, mas trazem em seu núcleo o desprezo pelos que parecem diferentes de nós. A ideologia da rejeição.

Como simples observador da vida, desconheço as causas da propagação dessa ideologia, mas percebo de que ela tem estado presente, não apenas no futebol, mas em inúmeras situações nas quais grupos de pessoas rejeitam outras que lhes parecem diferentes, seja pela cor da pele, religião, preferências sexuais e tantos outros motivos.

Da rejeição vem a violência, e, quando ela acontece em meio ao que deveria ser um espetáculo esportivo, seguem-se os discursos falando da necessidade de segurança nos estádios, do afastamento de determinadas pessoas dos eventos e da punição dos responsáveis.

Até agora nada tem funcionado. Talvez porque, além de resolver o problema da impunidade, estejamos precisando difundir uma Ideologia da Aceitação. Não apenas no futebol, mas em todos os aspectos da vida em sociedade.


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BISCOITO AMERICANO (O COOKIE)


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ZÉ BRASILEIRO FURTADO E A FAZENDA TROPICANA

fazenda-venda

Conheço um agroempresario
Que ficou acabrunhado
Porque seu agronegócio
Só prejuízo tem dado.
O nome desse empresário
Que anda assim, deficitário:
Zé Brasileiro Furtado.

Zé Brasileiro é o dono
Da fazenda Tropicana,
Onde a água é muito farta,
A terra é boa e é plana.
Lugar bom para criar
Gado de leite e plantar
Feijão, café e banana.

Por isso que Brasileiro
Variou a produção,
Querendo extrair da terra
Cenoura, milho e feijão.
Criar boi, criar ovelha,
Galinha branca e vermelha
E colher muito algodão.

E para cada cultura
Nomeou logo um gerente,
Depois disse a cada um:
“Seja esperto e diligente,
Faça o negócio render
Que depois vou escolher
Quem foi mais eficiente”.

E cada um prometeu
Com empenho dedicar
A força do seu trabalho
Em bem administrar,
Para que Zé Brasileiro
Ganhasse tanto dinheiro
Que nem pudesse contar.

Mas, passados alguns meses,
Brasileiro foi notando
Que os negócios da fazenda
Não estavam prosperando.
Plantação nunca vingava
E, dos bichos que criava,
Tinha sempre algum faltando.

Galinha botava os ovos,
Mas os pintos não nasciam,
E, quando tinha ninhada,
Muitos desapareciam.
No rebanho de bovinos
E na criação de ovinos
Muitos animais morriam.

A plantação de cenoura
Até se desenvolveu,
Mas, já perto da colheita,
O prejuízo ocorreu:
Deu uma chuva pesada
E a produção esperada
Quase toda se perdeu.

Perdeu-se também o milho
Já perto de ser colhido.
E teve ainda um besouro
Grande, do nariz comprido,
Que atacou o algodão
E, naquela plantação,
Quase tudo foi perdido.

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O ALBERGUE

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No albergue do Seu Pedro hospedam-se mais de duzentos estudantes de ambos os sexos. O lugar é bem movimentado, como seria de se esperar de qualquer lugar onde convivem muitos jovens. Tem música, tem festa, tem sexo e dizem até que tem quem use droga lá dentro, embora o Seu Pedro viva dizendo que, se descobrir, bota pra fora.

Também tem muito estudo e muito trabalho. Tem estudante de Engenharia, Medicina, Administração, Direito e outros cursos. Uns que trabalham para se manter e outros que são patrocinados pelos pais.

Tem namoros que começaram lá mesmo, no albergue, e outros que ali terminaram. Tem gente de pele mais clara e gente da pele mais escura. Gente de cabelo liso, encaracolado, curto, comprido, louro, preto e pintado.

Convivem ali em certa harmonia, mas tem uma época do ano na qual essa harmonia se abala. Acontece sempre no mês de novembro, quando os hóspedes escolhem a Comissão dos Albergados, um grupo de três estudantes encarregados de colaborar com o Seu Pedro na administração do albergue durante todo o ano seguinte.

A Comissão existe há décadas, desde quando o albergue ainda era do Seu João, pai do Seu Pedro. Depois de muita reclamação, por causa da má qualidade da comida e do serviço de limpeza, os estudantes fizeram um movimento exigindo participação na escolha do cardápio, fiscalização das despesas de manutenção, aquisição de bens de consumo e coisas assim.

Seu Pedro, conhecido naquele tempo como Pedro Cabeleira, era recém ingresso na faculdade de Sociologia e morava no albergue. Na época, discordou da forma de administrar do pai, ficou ao lado dos estudantes e tornou-se membro da primeira Comissão dos Albergados. Alguns meses depois, pai e filho fizeram as pazes.

Com o falecimento do pai, Pedro, que já havia terminado a faculdade e ficado careca, herdou o albergue e implementou o seu próprio jeito de administrar. Aproveitou a mudança para negociar com os estudantes algumas restrições na atuação da Comissão dos Albergados.

Hoje em dia, o principal motivo de discórdia entre os estudantes que disputam a participação na Comissão é a alimentação. Eles se dividem basicamente em dois grupos: os carnívoros e os vegetarianos, embora haja subgrupos mais ou menos radicais dessas correntes.

Por muitos anos a Comissão esteve em poder dos carnívoros. Os vegetarianos defendiam então que a dieta a base de vegetais era muito mais saudável. Diziam ainda que os carnívoros não estavam preocupados com a saúde de seus pares, e sim com os interesses de uns poucos que se beneficiavam de concessões feitas a eles pelo dono do albergue. Também se queixavam que os carnívoros eram autoritários e tomavam decisões ignorando a opinião dos demais hóspedes, principalmente dos vegetarianos, que ficavam privados de uma alimentação adequada a sua opção gastronômica.

Ano passado, após uma disputa apertada, os vegetarianos venceram a eleição. É bem verdade que, para conseguirem esse intento, flexibilizaram o discurso, a fim de conquistar os votos de estudantes insatisfeitos com a qualidade do rango, mas receosos de que uma vitória dos vegetarianos os privasse definitivamente de bifes, coxas de frango ou mesmo ovos fritos.

Na verdade, pouca coisa mudou com a nova composição da Comissão. A comida continua ruim e a carne permanece no cardápio do albergue. A par disso, os vegetarianos continuam afirmando em seus discursos as vantagens do vegetarianismo e propalando que a sua adoção no albergue vem melhorando a qualidade de vida dos hóspedes. O presidente da Comissão dos Albergados chega a afirmar que a inclusão de carne no cardápio não descaracteriza o caráter vegetariano da alimentação ali servida.

– Alguns fingem não entender que há uma grande diferença entre comer carne e incluir na dieta vegetariana uma porção de proteína animal adequada ao desenvolvimento fisiológico – diz o presidente. – Mas a verdade é que a cada dia o comportamento carnívoro neste albergue vai se tornando uma coisa do passado.

A estratégia parece estar dando certo. Tão certo que os carnívoros têm evitado expor publicamente suas convicções. É que dizer que alguém é carnívoro tornou-se equivalente a chamar tal pessoa de conservador, autoritário, violador dos direitos dos animais e outras coisas depreciativas.

Neste novembro de embates eleitorais, um grupo de carnívoros, querendo voltar à Comissão, declara-se neo-onívoro e alega que sempre comeram vegetais em quantidade e variedade superiores ao que hoje é servido aos moradores do albergue. Acusam os vegetarianos de não ter competência para escolher corretamente os alimentos, o que estaria levando a uma nutrição deficiente dos estudantes.

– Eles têm feito – diz um candidato neo-onívoro – um arremedo do programa alimentar que já vinha sendo implantado pela Comissão passada. Um programa, aliás, que, na sua essência, é bom, mas está sendo mal executado, precisa se aperfeiçoar e eles não têm competência para fazer isso!

Essa crítica, porém, é feita com muita cautela, porque os neo-onívoros pensam em conseguir o apoio dos vegetarianos radicais. Estes andam insatisfeitos com o fato de, quase um ano após a retirada dos carnívoros da Comissão, não ter sido atendida a sua pretensão de incluir no cardápio uma alimentação efetivamente vegetariana. No entanto, resistem à ideia de se unir aos neo-onívoros, porque, no fundo, sabem que eles nada mais são que carnívoros com um discurso mais ameno. Por outro lado, reconhecem que a Comissão atual, toda composta de vegetarianos, conta com o apoio expresso de estudantes antes conhecidos como carnívoros radicais.

Isto é fato: quem já foi carnívoro radical hoje pede votos para os vegetarianos membros da Comissão! Há quem diga que esses “vira-casaca” querem apenas se manter próximos aos que tomam as decisões para garantir o seu bife diário, ou melhor, que o seu bife seja de filé. Afinal, são os mesmos que eram acusados de receber ração especial no tempo em que a Comissão era controlada por carnívoros.

Em meio a essas mudanças, a verdade é que ali praticamente todo mundo consome carne, mas os poucos que defendem abertamente esse consumo são hostilizados pelos vegetarianos, radicais ou não, e não contam com a defesa dos neo-onívoros, já que estes, como visto, não querem ser reconhecidos como carnivoros.

É nesse clima que os debates devem prosseguir por todo este mês de novembro. Embora os que participam efetivamente deles sejam relativamente poucos, a agitação é suficiente para gerar alguns conflitos e escaramuças. Nada que não possa ser superado pelo espírito natalino das confraternizações de fim de ano.

No final das contas, quem se der ao trabalho de observar atentamente o que se passa no albergue, perceberá que carnívoros e vegetarianos continuam coexistindo ali, mas, na sua luta pelo controle da Comissão dos Albergados, comportam-se de maneira dissimulada.

Nesse jeito dissimulado de ser, uns imitam os outros naquilo que acreditam favorecer a busca dos votos dos demais estudantes ali acomodados. Estes, os acomodados, em sua imensa maioria, não entendem ou não se interessam por essas questões de ideologia gastronômica. Gostariam apenas que melhorasse a qualidade da comida servida no Albergue do Seu Pedro.

A propósito, o Seu Pedro também não está muito preocupado com esses embates. Para ele, tudo vai bem, desde que os estudantes continuem pagando regularmente pela hospedagem, e que o custo com a alimentação de seus hóspedes não diminua o seu lucro.


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GENTE QUE NÃO CASA: UMA QUESTÃO DE PRIVACIDADE

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De um grupo de cinco ou seis amigos que costumavam sair juntos para a “balada”, o Jáder era o que tinha mais sucesso com as mulheres. Era o que hoje se chama de “pegador”. Fosse na boate ou numa festa de formatura, rapidamente encontrava alguma beldade para lhe fazer companhia. Depois, sumia com ela sem que ninguém percebesse.

Os amigos o admiravam por isso, comentavam, ficavam com inveja. Nas rodadas de cerveja das tardes de sábado, perguntavam-se sobre o segredo que fazia o Jáder agradar tanto às mulheres. Ninguém chegava a nenhuma resposta convincente.

Mas o tempo foi passando e fazendo com que o motivo da admiração se fosse transformando em causa de preocupação. É que, sendo o mais velho daquela turma, o Jáder se encaminhava para os trinta e cinco anos de idade sem dar a menor pista de que se fixaria em algum relacionamento mais sério.

Alguns amigos já trocavam a agitação das boates por um calmo sushi bar no sábado à noite, em companhia da noiva. Outros falavam até em marcar a data do casamento, e o Jáder, nada. Nem namorada fixa tinha.

Começavam a surgir especulações, comentários. Ele não abria o jogo. Até que, certa vez, quando estávamos só nós dois, tomando cerveja na praia, aproveitei uma conversa sobre planos para o futuro e fiz uma provocação:

– E, afinal, Jáder, tu nunca pensas em parar com essa vida agitada e casar, não?

Ele demorou um pouco para responder. Normalmente, se esquivava desse tipo de pergunta com alguma brincadeira, mas, naquele dia, parece que algo o tocou de alguma forma. Quando falou, a voz saiu baixa, abafada:

– Penso – disse. Fez nova pausa e prosseguiu. – Mas… Eu vou te dizer uma coisa, que eu sempre tenho medo de falar e o pessoal levar na gozação… Mas é sério.

Foi estranho ver o Jáder daquele jeito. Pela primeira vez parecia inseguro. Ao mesmo tempo, parecia também ter uma necessidade incontrolável de compartilhar o que havia em seus pensamentos. Quando falou, disse tudo de uma vez:

– Eu já pensei várias vezes em levar um namoro a sério, ficar noivo, casar… Mas, sempre que eu penso nisso, vem uma imagem na minha cabeça: eu e minha mulher no quarto, deitados na cama, eu lendo alguma coisa, ela vendo televisão; de repente, eu começo a sentir umas contrações na barriga. Rapaz, quando eu me imagino levantando da cama e entrando no banheiro, fechando a porta, demorando lá dentro… Minha mulher deitada na cama, vendo televisão, percebendo que eu estou demorando…

Fez uma pausa grande. Quando voltou a falar foi com a voz alterada, nervosa.

– Porra! Quando eu me imagino dentro do banheiro do quarto e minha mulher na cama, sabendo que eu estou cagando!… Eu acho isso muito escroto, rapaz! Ou então o contrário: eu ali no quarto e minha mulher do outro lado da parede… Cagando!

– Qual o problema, Jáder? Todo mundo não caga?

– Caga, porra! Mas eu não quero ficar cagando a dois metros de distância de uma mulher, aliás, da minha mulher, da minha esposa. E também não quero ela cagando perto de mim! Não! É uma questão de privacidade, pô! Eu sei que pode ser besteira minha, mas eu fico constrangido…

Percebi que ele estava falando sério e procurei demonstrar que entendia a situação. Falei que, nesse caso, era melhor ele ficar solteiro mesmo, porque, para ele, privacidade era mais importante que companhia. A conversa seguiu por aí e ele acabou se acalmando.

Em respeito à privacidade desse amigo, nunca comentei essa conversa com ninguém e, se conto a história hoje, é atribuindo-lhe esse pseudônimo e alterando alguns detalhes que poderiam revelar sua identidade.

No mais, escrevo sobre essas coisas em outubro de 2013, quando o Jáder está prestes a completar sessenta anos de idade. Faz quase um ano que não me comunico com ele, mas, até onde sei, nunca casou. Não posso garantir que a razão de não ter casado foi a relatada naquele dia, mas, o certo é que não casou.


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PENSE NUMA NOITE INSPIRADA!

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Este colunista, no camarim de Geraldo Azevedo, com o cantor e o amigo Leo Carlos

Eu até tinha uma crônica pronta para a coluna desta semana. Mas na sexta à noite, antes que o Dia de Todos os Santos desse lugar ao dos Finados, inventei de ir com Natália e Natalie ao aniversário de 59 anos do BNB Clube de Fortaleza e, por causa disso, guardei para a semana que vem o texto antes escrito.

Pense numa noite inspirada!

Na chegada, já nos aguardava o meu amigo-irmão Leo Carlos, parceiro de tantas canções, companheiro de palco nos tempos de banda de rock. Estava todo feliz com Karine, esposa, musa e fã desse cara genial. Duas das três filhas dele chegaram depois, com os namorados.

Trinta e poucos anos antes, eu e Leo nos encontrávamos ali quase todo fim de semana. Futebol, violão e sanduíche de filé, não necessariamente nessa ordem. Naquele tempo, éramos apenas dois adolescentes descobrindo como é a vida quando a gente ganha o próprio salário. Se uma cigana houvesse aparecido e dito que um dia o Léo seria o presidente do clube, teríamos rido dela. Grande injustiça seria!

Como poderíamos imaginar? Tanto tempo depois, estávamos lá mais uma vez. Léo de presidente e eu de convidado. Ao invés de tentarmos aprender a tocar mais uma música do Geraldo Azevedo, era o próprio Geraldo quem cantava, acompanhado por seu violão. E como cantava! E como tocava! Emocionado com o carinho que recebia – umas duas mil pessoas cantando junto e aplaudindo de pé – voltou várias vezes para o bis. Umas duas horas e meia de show!

GAzevedo

Geraldo Azevedo fotografado pelo colunista durante o show

Mas, para mim, nem importava tanto que houvesse ali tanta gente. Bom mesmo era estar com meu velho amigo – e com nossas mulheres por perto, cuidando para a gente não beber sem se alimentar – recordando, através das canções de Geraldo Azevedo, momentos que sempre demonstraram nosso companheirismo e nossa ligação com a arte, especialmente a música.

Aliás (bazar da coisa azul, meu only you), para que nem eu nem Leo duvidássemos que aquele era um momento de celebração da nossa amizade um pelo outro e dos dois pela música, estava à mesa, conosco, outro amigo nosso e da música: Fausto Nilo.

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Este colunista, ladeado pelos amigos compositores Fausto Nilo e Leo Carlos

Como falar de Música Popular Brasileira sem citar o seu nome? Geraldinho citou, homenageou e seguiu com “Chorando e cantando”. A multidão explodiu em gritos e aplausos. Nós também.

Uma noite verdadeiramente rica de música, poesia e emoção!

Geraldo Azevedo canta “Chorando e Cantando! no Theatro Net Rio:


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GENTE QUE NÃO CASA: O TRAUMA

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Dagoberto tinha cinquenta e três anos de idade quando o conheci. Naquela época, eu estava assumindo um novo cargo em uma autarquia e ele era o chefe do setor. Um sujeito meio reservado que, aos poucos, com a convivência, se sentiu à vontade para falar sobre assuntos mais pessoais, como o problema de insônia que atormentava suas noites e a fragilidade do aparelho digestivo que o incomodava durante o dia.

Era o mais velho de três irmãos e o único solteiro. Morava sozinho, no mesmo prédio que a mãe, mas em outro apartamento, segundo ele, para que pudesse dar a ela uma melhor assistência, sem perder a própria privacidade.

Cheguei a pensar que o apego à figura materna era a razão para nunca haver casado, mas um dia ele me contou uma história que me fez mudar de ideia.

– Fui noivo quase dois anos – disse ele. – Eu já tinha me decidido a casar com ela. Uma moça bonita, de família, filha de um deputado federal aqui do nosso Estado.

– E o que houve? – interessei-me.

– Fiquei assustado.

Fez uma pausa. Continuei calado e ele prosseguiu:

– Você acredita que, no dia em que eu ia fazer o pedido de casamento, ela pegou uma briga com o pai? E foi ali, na minha frente, na sala da casa dela… Ela falava tão alto com o pai, gritando mesmo. O dedo apontado, quase encostando no nariz dele… Eu nem lembro mais o motivo, só lembro do homem tentando se explicar, pedindo calma, e ela gritando com ele…

Enquanto falava, Dagoberto mantinha a cabeça inclinada para a esquerda e os olhos voltados um pouco para cima. Olhava para um ponto imaginário, um pouco abaixo do teto da sala, como se a cena que descrevia estivesse acontecendo novamente ali, naquele mesmo instante, suspensa no ar.

Contou como foi se afastando silenciosamente, enquanto a noiva esbravejava com o pai, até sair pela porta da rua para nunca mais voltar. Não chegou a terminar oficialmente o namoro. A moça ainda telefonou algumas vezes, mas ele foi dando desculpas até ela desistir.

– Eu não sei se fiquei com medo de ir falar com ela pessoalmente e ser tratado daquele jeito… Ou se o meu medo era de não conseguir dizer que queria terminar tudo e acabar casando com ela… Sei que não queria ver nunca mais aquela mulher… Eu fugi… Na verdade, eu fugi… E, depois daquilo, nunca mais pensei em casar… Com ninguém.


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O DISCURSO DE MUJICA

Abro o espaço da coluna hoje para transcrever o discurso recentemente proferido na ONU por José Mujica, presidente do Uruguai. Mujica tem chamado a atenção de muitos pelo estilo de vida simples e por abrir mão de privilégios de Chefe de Estado. Também sofre críticas por algumas de suas ideias e até pelo seu jeito de vestir.

Polêmicas à parte, acho que vale a pena refletir sobre suas palavras.

Segue a íntegra do discurso.

Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz – porque, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos.

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SOCO NO FÍGADO

Esta semana vi uma matéria na Folha de São Paulo que falava de expressões do esporte, em inglês, largamente utilizadas no mundo dos negócios. Não precisei de muito esforço para encontrar expressões semelhantes em português, tanto nos negócios como em outros aspectos da vida.

É comum, por exemplo, alguém dizer que está “batendo escanteio e fazendo gol de cabeça”, para alegar que anda muito atarefado. Ou reclamar que algo não deu certo porque fulano “pisou na bola” e “embolou o meio de campo”.

Mas, não se deve pensar que o futebol é a única fonte de tais expressões no Brasil. Falando do que conheço mais de perto, o boxe é outro esporte que contribui muito para esse tipo de comunicação.

Por exemplo, não faz muito tempo, ouvi a apresentadora de um telejornal dizer que a economia de determinado país estava prestes a “ir à lona”. No caso, “ir à lona” significava algo como “entrar em colapso”, o que se adequa à ideia original do boxe, onde se diz que o lutador “vai à lona”, quando um golpe do adversário o leva ao chão. A lona é o material que reveste o piso do ringue, logo, “ir à lona” significa cair, possivelmente nocauteado, quer dizer, sem condições de prosseguir no combate, já que “nocaute” é a forma aportuguesada de knockout (ao pé da letra, bate-e-fora). No mesmo sentido, também se usa “beijar a lona”.

Outra expressão pugilística interessante é “jogar a toalha”. Pesquisei no Google e cheguei ao site “Bolsa de Mulher”, onde estava escrito o seguinte: Saber a hora exata de jogar a toalha num relacionamento não é nada fácil. Mas, com alguma perspicácia, é possível notar os indícios de que o amor anda mal das pernas. Só resta então a coragem para arremessar.

De fato. Da mesma forma que, nas relações amorosas, ocorre de alguém desistir de um relacionamento desgastado, antes de haver um mal maior, no boxe, às vezes acontece de o treinador ver que o seu atleta está sendo massacrado pelo oponente e decidir que é melhor parar a luta, antes que ele sofra algum dano mais sério em sua integridade física. Nesse caso, o treinador arremessa uma toalha para dentro do ringue (todo treinador de boxe tem uma toalha na hora da luta), gesto que simboliza a sua desistência no combate.

Também tem origem no boxe dizer-se que alguém muito pressionado está “nas cordas”. Uma referência à situação na qual um lutador é atacado pelo seu oponente e recua até ficar com as costas junto às cordas que servem de limite para o ringue. Sob a pressão dos golpes do adversário, o lutador que está nas cordas praticamente limita-se a se defender.

E há ainda outras expressões vindas do boxe, como estar “nos calcanhares” (abalado, prestes a cair) ou “baixar a guarda” (descuidar-se da defesa).

Mas, para concluir com uma frase muito comentada nos últimos dias, vejamos de onde vem a expressão “soco no fígado”, a qual, segundo o Blog do Josias, teria sido usada por Lula, ao saber que Marina havia se aliado a Eduardo Campos.

Longe de mim querer decifrar o que Lula quis dizer na ocasião (se é que usou mesmo essas palavras), até porque não tenho qualquer intenção de ingressar em questões político-partidárias. Mas, como a experiência faz crer que a expressão “soco no fígado” pode passar a ser largamente utilizada doravante, achei que deveria falar um pouco sobre ela, até para ajudar os interessados a usá-la corretamente.

Pensando assim, devo dizer que, no âmbito da nobre arte de usar os punhos, diz-se mais correntemente “golpe no fígado”. Isto é feito com um significado bem específico porque, diferentemente do golpe aplicado na cabeça, que faz o lutador perder o equilíbrio ou os sentidos, o impacto no fígado causa uma dor aguda no abdome e uma grande dificuldade para respirar. Assim, quem o recebe tende a dobrar o corpo e cair lentamente, consciente de tudo o que acontece ao seu redor, mas sem condições de reagir.

Acredito, porém, que o que fez a expressão “golpe no fígado” ganhar a conotação utilizada fora dos limites do esporte foi o curioso fato de que, entre o lutador receber o golpe e os seus efeitos se tornarem visíveis, decorre uma fração de tempo, um segundo, no máximo dois.

É pouco, mas suficiente para que se perceba a vítima sendo dominada pela dor e pela falta de ar. Nessa hora, só resta apoiar o joelho no chão e esperar que a dor passe antes que a contagem do árbitro chegue a dez. Quando não passa, o lutador vê a derrota chegar, sem nada poder fazer. Consciente, mas impotente.

Por causa disso, quando alguém que conhece bem a expressão diz que determinado fato funcionou como um “golpe no fígado”, não está apenas reconhecendo o poder destrutivo desse fato, mas indicando que se trata de algo cujos efeitos não serão sentidos imediatamente, e que decorrerá um intervalo, ainda que curto, até que eles apareçam em sua inteireza.

A propósito, um dos articulistas que vi recentemente abordar esse assunto, escreveu “direto no fígado”, o que demonstra pouca familiaridade com o tema.

É que há pouca probabilidade de se acertar o fígado de alguém com um direto, que é o golpe dado com o punho que está mais afastado do adversário, fazendo uma trajetória retilínea em direção à sua cabeça ou ao seu corpo. O golpe que costuma acertar o fígado é o gancho, no caso, desferido com o punho esquerdo, que, partindo em movimento diagonal, de baixo para cima, tem como alvo área um pouco abaixo da costela direita.

Quando pega no lugar certo, a dor vem em seguida, mesmo que aplicado sem tanta força. Muito candidato a campeão já ficou pelo caminho após receber um golpe assim.


Mundo Cordel
DECISÃO SOBRE O FURTO DAS GALINHAS

ladrao-de-galinhas

Semana passada, vi postado aqui no JBF um pedido de relaxamento de prisão, formulado pelo defensor Vicente Alencar Ribeiro, de Bonito de Santa Fé-PB, todo em versos.

Tudo o que desejei naquele momento foi ser o juiz responsável por aquele pedido de relaxamento de prisão. Mesmo não tendo essa felicidade, aproveitei o fim de semana para fazer o que seria a minha decisão diante de tal pedido.

Segue a decisão que eu gostaria de ter proferido:

Vicente Alencar Ribeiro
Protocolou petição
Por meio da qual requer
Que se relaxe a prisão
De um rapaz preso em flagrante,
Que, Vicente me garante,
Não merece punição.

“Nego Nona” é a alcunha
Pela qual é conhecido,
E da sua avó teria
Dois frangos subtraído
Mas a polícia o pegou,
Em uma cela o trancou
E lá está recolhido.

Mas, alega o defensor,
Que furto não ocorreu,
Pois, segundo “Nona”, os frangos
Foi sua avó quem lhe deu.
Mas, houve esse quiproquó
E os tais frangos da avó
Ele até já devolveu.

Dessa forma bem sucinta
Eis o caso relatado.
Passo então a apreciar
O pedido formulado,
Pelo ilustre defensor
Para o suposto infrator
De pronto ser libertado.

Preliminarmente, informo
Que dispenso o parecer
Do promotor de Justiça
Para a causa resolver,
Porque já neste momento
Firmei meu convencimento
Conforme passo a dizer.

Nesse sentido, advirto:
Não me sensibilizou
A versão de que os frangos
Da avó “Nona” ganhou.
Parece mais com desculpa,
Para encobrir sua culpa
Quando a polícia o flagrou.

Ao que parece, a avó,
O seu neto perdoou,
Já que em favor de “Nona”
Também se manifestou,
Entretanto, essa versão,
Da suposta doação,
Ela jamais confirmou.

Se houvesse acontecido,
A alegada doação,
A avó confirmaria
Certamente essa versão,
E talvez nem aceitasse
Quando o neto lhe falasse
Em fazer devolução.

Parto, assim, do pressuposto
Que o dito furto ocorreu.
E que, só depois de preso,
O “Nona” se arrependeu,
E então, cada galinha,
Que furtara da avozinha
Bem depressa devolveu.

Nessa linha, eu acredito
Que a questão fundamental
É mesmo saber se o “Nona”,
Pelo seu ato imoral,
Deve vir a ser punido,
Condenado, reprimido
Pelo Direito Penal.

Diz a defesa que o furto
Não deixou grande seqüela.
Só prejudicou a avó
Ou, na verdade, nem ela.
Nisso o defensor se apega
Quando em seu pedido alega
O crime de bagatela.

E parece que a defesa
Nesse ponto tem razão.
Pois o valor das galinhas
Teria mais projeção
Se as criaturas aladas
Já fossem consideradas
Animais de estimação.

Mas, no caso, ao que parece,
Eram galinhas normais,
Que viviam no quintal,
Junto aos outros animais,
Para um dia, na panela,
Cozidas “à cabidela”
Servirem aos comensais.

E a dona dessas galinhas,
Em sua avançada idade,
Disse que “Nona” a ajuda
Com muito boa vontade.
E se pudesse escolher
Queria mesmo era ver
O seu neto em liberdade.

Por isso, penso que, embora
Na esfera da moral,
A conduta desse “Nona”
Cause repulsa total,
Não existe fundamento
Para se dar seguimento
A uma ação criminal.

Ainda mais no Brasil,
Onde tem tanto ladrão
Que navega livremente
No mar da corrupção,
Parece coisa mesquinha
Manter ladrão de galinha
Trancado em uma prisão.

E já tem tanto processo
No Poder Judiciário,
Anda tão abarrotado
O sistema carcerário,
Será que compensaria
Gastar nossa energia
Com esse crime aviário?

Melhor acabarmos logo
Com esse co-ro-co-có,
Libertando o “Nego Nona”
E alegrando a sua avó,
Que sofreu forte emoção
Ao ver o neto ladrão
Recolhido ao xilindró.

Já que o fato em julgamento
Teve pouca gravidade,
Vamos dar ao “Nego Nona”
Nova oportunidade
De agir, daqui pra frente,
Como um cidadão decente
Sendo posto em liberdade.

Fundado nessas razões,
Decreto o relaxamento,
Do flagrante efetuado
Pelo policiamento
No Alvará de Soltura
Vai a minha assinatura,
E a ordem de cumprimento.

Publique-se a decisão,
E expeça-se mandado.
Intime-se o defensor
E também o delegado,
Depois, vista ao promotor
Que, nada tendo a opor,
Seja o processo arquivado.


Mundo Cordel
O HOMEM QUE PERDEU A FÉ

Businessman Reading a Newspaper --- Image by © moodboard/Corbis

Era um domingo. Na cozinha do apartamento, o casal acabava de tomar o café da manhã. Os filhos – uma jovem de dezesseis anos e um rapazinho de quatorze – ainda dormiam. Tinham ficado acordados até tarde da noite navegando na Internet em suas rotas adolescentes. Enquanto a mulher mordiscava um derradeiro pedaço de pão, o marido segurava o jornal aberto em uma página qualquer e corria os olhos pelas reportagens, sem se deter em nenhuma. De repente, parou, dobrou o jornal sobre as pernas e, sem olhar para a mulher, disse:

– Não acredito mais em nada.

– Como?

– Não acredito mais em nada do que leio no jornal ou vejo na TV. Não acredito no que vejo na Internet, nem no que ouço no rádio…

– Eu ouvi o que você falou, mas… Você acha que é tudo mentira?

– Não sei. Eu nem chego a pensar se o que está escrito no jornal é verdade ou mentira. Imagino que alguma coisa deva ser verdade.

Acontece que começo a ler uma reportagem e me pego pensando: “Por que esses caras do jornal botaram essa notícia aqui?”; “Por que não puseram outras?”; “Será que os fatos que merecem ser notícias são esses mesmos? Ou publicaram isso só para atrair minha atenção?”…

A mulher estava um tanto surpresa com aquela conversa, mas não muito. Sabia que o marido era dado a reflexões filosóficas sobre os mais variados assuntos, muitas vezes disposto a questionar os pontos de vista mais tradicionais sobre as coisas. O que chamava a atenção desta vez era a melancolia que ele deixava transparecer na fisionomia e na voz.

– Atrair a sua atenção?… – quis saber ela.

– É. Para que eu não pense nas coisas que realmente interessam. Enquanto isso, aproveitam para me empurrar todo tipo de inutilidade, me induzem a comprar coisas que não preciso… Na Internet fica mais fácil perceber isto. Ao redor de uma notícia sempre há banners piscando com anúncios publicitários… Você acha que quem faz isso está preocupado em me manter informado ou em me convencer a comprar alguma coisa?

– Entendi. Mas, isso é meio paranóico, não?

O marido olhou para o jornal, que estava sobre suas pernas, e demorou alguns segundos antes de prosseguir.

– Acho que sim, e admito que estou preocupado, mas não é só isso.

– Não?

– Não. Veja, por exemplo, o futebol. Hoje é domingo. Tem jogo transmitido pela televisão à tarde. Você já observou que, de uns tempos pra cá, depois de cada jogo tem sempre uma entrevista coletiva dos técnicos, geralmente acompanhados de um jogador de seu time?

– Amor, eu não fico vendo jogo de futebol. Muito menos as entrevistas dos jogadores. Mas, o que tem demais nisso?

– Tem que eles sempre dão a entrevista na frente de um painel com as marcas dos patrocinadores. Tá na cara que não estão ali para esclarecer nada, e sim para mostrar aquelas marcas das empresas. Então o que eles dizem não importa, o que importa é que a marca do patrocinador apareça. Logo, eu não consigo levar a sério nada do que eles digam.

– Credo! Isso parece grave?

– “Isso” o quê? Minha falta de fé ou a falta de credibilidade deles?

– Claro que estou preocupada com a sua desilusão com o mundo. Não me importa se estão mentindo o tempo todo na televisão…

– Esse é o ponto! Quem se importa? Tenho certeza que eles pesquisaram isso e concluíram que poderiam manipular todo mundo sem ninguém se importar!

– Eles quem? É uma teoria da conspiração?

– Talvez. Mas, não consigo pensar de outro jeito. Veja só. Antes de você acordar, liguei a TV e vi o que estava acontecendo em vários canais. Vi um padre vendendo o próprio livro, outro vendendo seus CDs, um pastor ensinando como os fiéis deveriam fazer para serem sócios de Deus, claro que mediante contribuições em dinheiro… Você deve estar pensando que deixei de acreditar neles por causa disso… Não. Nesses eu já não acreditava há muito tempo. A questão é que eles continuam mais preocupados com o vil metal do que com a fé, mas já não se preocupam em disfarçar. E sabe por quê? Porque sabem que ninguém se importa.

– Será?

– É o que eu penso. Principalmente de 2011 para cá, depois do terremoto no Japão, aquele com tsunami e desastre nuclear. Lembra? Na época, nossa filha disse que todas as amigas dela no MSN… Lembra do MSN? Pois bem. Todas estavam usando em seu perfil a frase “Praying for Japan”. No Twitter foi a mesma coisa. Rapidamente, “#prayforjapan” se tornou uma das mensagens mais replicadas do mundo. Agora, eu lhe pergunto: alguém estava mesmo rezando pelo Japão? Provavelmente não. Alguém acreditava que as outras pessoas rezavam? Claro que não! Mas qual a importância disso, se o que importa não é rezar, e sim dizer que se está rezando?

– É, faz sentido… Hoje se vive muito de aparência mesmo… Mas, será que é motivo para duvidar de tudo?

– Não sei. Talvez não. Mas estou cada vez mais intolerante com gente que usa adesivo “Preserve a Natureza” e joga lixo pela janela do carro…

– Meu Deus! Se é assim, imagino o que você pensa dos políticos!

– Não tenho mais pensado em políticos ou partidos políticos. Parei de pensar neles desde que percebi que os políticos e os não-políticos são as mesmas pessoas. Apenas uns se candidataram e outros não, uns se elegeram e outros não. Existem políticos honestos? Provavelmente. Da mesma forma que devem existir pessoas honestas morando em nosso bairro. Mas, quem são? Quantos, tendo a possibilidade de se apropriar de dinheiro público não o fariam? Não sei, mas estou certo de que uma minoria. Ou você prefere acreditar que os honestos são maioria, mas são incompetentes?…

– Você está mesmo desanimado… – disse ela, cada vez mais preocupada.

– É que tenho sempre a impressão de que, pelo menos em nosso país, se trocássemos todas as pessoas que ocupam cargos públicos hoje, continuaríamos tendo exatamente os mesmos problemas. Não tem sido assim cada vez que o poder mudou das mãos de um grupo político para outro? “Nada mais conservador que um liberal no poder…”, lembra?

– Lembro. Engraçado como essa frase continua atual! Mas agora estou mais preocupada com você. Tenho medo que fique com depressão…

– Pode ser que isso acabe acontecendo… Ou não! Quem sabe se esse não é um primeiro passo para minha iluminação? – disse ele sorrindo, mudando o semblante até então sombrio para uma expressão quase eufórica.

– Uau! O caso é sério mesmo! – emendou a mulher, já confusa, sem saber mais se até ali ele tinha sido sincero ou estava apenas de brincadeira. – Do niilismo ao budismo em segundos! Pelo menos me deu esperança que você ainda acredite em alguma coisa! No nirvana, talvez!

Ele continuou sorrindo, mas dava para perceber que o desânimo voltava. Olhou nos olhos da mulher e disparou:

– Acredito na obsolescência programada.

– Em quê?

– Obsolescência programada. Acredito que as empresas fabricam coisas com data marcada para pararem de funcionar. Um forno de microondas poderia durar dez, quinze anos, mas programam para durar menos de três. Dão garantia de um ano e oferecem garantia estendida por mais um. Claro que cobram por essa garantia estendida, cientes de que a possibilidade de o aparelho quebrar nesse período é praticamente zero. Depois que a garantia acaba você sabe o que acontece… Acho que lhe mostrei alguma coisa sobre isso na Internet…

– Eu vi, mas não levei muito a sério, não – replicou a mulher, forçando um sorriso, tentando evitar que o marido fosse tomado novamente pelo desânimo. – Se isso fosse verdade já teria um monte de gente brigando na Justiça!

– Ah, sim, a justiça! Que tantos dizem desejar, mesmo querendo coisas bem diferentes! Em uma cidade da Grécia Antiga, uma mulher foi ao magistrado responsável pelos litígios e disse: “Meu vizinho matou meu filho. Quero justiça!”. O magistrado chamou o vizinho, que contestou: “Minha vizinha anda a me difamar, dizendo que matei o seu filho. Quero justiça!”. Vou lhe dizer o que tenho pensado sobre a justiça…

– Filosofando, papai? Domingo de manhã?…

Era a filha, que havia acordado e acabava de entrar na cozinha. Abraçou o pai e fez a conversa mudar de rumo. Sorriram, brincaram, combinaram de almoçar fora. Enquanto mãe e filha punham a louça suja na máquina de lavar, o homem caminhou em silêncio até a sala, deitou no sofá e adormeceu.


Mundo Cordel
O INTELECTUAL

intelectual.

Discreto, sério, culto e educado,
Segue em visita a uma livraria.
Relê um conto, lê uma poesia.
“São tantos livros!” – pensa emocionado.

Até lamenta não ter dedicado
A vida inteira simplesmente a lê-los.
Mas, eis que surge um par de tornozelos,
No pé esquerdo, um trevo tatuado.

As panturrilhas e cada joelho,
Coxas que somem sob o tom vermelho
De um vestido fino e sensual.

E, sem esforço, aquela criatura
Logo desvia da literatura
Toda a atenção do intelectual.


Mundo Cordel
PEDIDO DE MÚSICA NO BAR DO MOURÃO(*)

som-antigo-cce.

Tadeu estava sozinho naquela manhã de sábado. Sem um companheiro com quem pudesse compartilhar uma cerveja e um pouco de conversa, chegou ao bar do Mourão por volta das onze e ocupou uma das mesas que ficavam junto à parede.

O bar estava vazio. Só o Mourão arrumava alguma coisa atrás do balcão. Antes de sentar, Tadeu o cumprimentara.

– E aí, Seu Mourão? Beleza?

– Tudo bem. Vai beber alguma coisa?

– Bote uma cervejinha aqui pra mim…

– Tem que ser pra você mesmo, que eu não tô bebendo…

Tadeu não respondeu. Não era a primeira vez que bebia no bar do Mourão e já sabia que polidez e delicadeza não eram seus pontos fortes. Acomodou-se em uma cadeira e ficou tomando sua cerveja em silêncio.

Esperava que algum amigo aparecesse logo, mas já estava na segunda cerveja e não aparecia ninguém. O cliente e o dono do bar calados, cada um com suas ocupações, embora não houvesse muito o que fazer para nenhum dos dois. O ambiente só não ficou mais monótono porque o Mourão havia ligado o som e posto para tocar um CD do Waldick Soriano.

Tadeu ficou apreciando a música. Gostou, sentiu vontade de puxar conversa de novo com o Mourão. Hesitou, com receio de ouvir outra resposta daquelas. Até que tocou “Torturas de Amor”: Hoje que a noite está calma, e que minh’alma esperava por ti…

No acordes finais, Tadeu não resistiu:

– Eita, Seu Mourão, essa música é bonita demais! Dá pro senhor botar ela de novo, dá?

O Mourão parou o que estava fazendo e olhou fixamente para o Tadeu. Passou os dedos indicador e polegar da mão direita pelo bigode e disse calmamente:

– Olhe, Tadeu, eu boto música pra tocar aqui pra me distrair, não é pra ficar atendendo pedido não – Fez uma pausa e, diante da paralisia do cliente, prosseguiu. – Quando tiver tocando o rádio, pode ligar pra lá e pedir o que quiser, que eu não incomodo. Mas… Quando eu tiver botando os meus discos… Não se meta não.

Tadeu desculpou-se sem questionar. Pensou em pedir a conta, mas, bem nessa hora, o Sérgio chegou todo animado. Sorrisos, abraços, mais um copo sobre a mesa… Em instantes, o episódio do pedido da música estava totalmente superado.

Enquanto cumprimentava Sérgio, Tadeu percebeu que o Mourão havia posto “Torturas de Amor” para tocar novamente. Mas não agradeceu.

(*) O Mourão é dono de um bar na periferia de Fortaleza. Tem um jeitão meio rude, mas o coração é bom. Segundo se comenta, Mourão não é nome de batismo, mas um apelido que estaria relacionado com um tipo de estaca mais grossa que as outras, geralmente fixada no canto de uma cerca.


Mundo Cordel
TANTAS VEZES

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Hoje, 15 de agosto, é aniversário do Álvaro, meu filho.

Certa vez, quando ele ainda era bem pequeno, fiquei com saudade dele e comecei a solfejar uns versos que tinham um jeitão meio bossa nova.

Passou o tempo. É da natureza do tempo passar.

Uns dias atrás, eu estava pensando nisso e lembrei que Álvaro já vai fazer treze anos e está quase terminando o ensino fundamental. Quando eu menos esperar, estará fazendo faculdade, trabalhando, seguindo seu próprio destino, como já vem acontecendo.

Sei que continuarei ficando feliz com as suas realizações, tendo saudade dele e desejando que a gente esteja sempre se encontrando para passar bons momentos juntos. Aliás, os momentos que passo na companhia do Álvaro são sempre muito bons.

Foi pensando nessas coisas que terminei recentemente a canção que havia começado há uns anos. O nome da canção é “Tantas Vezes”.

Meu mestre Wanderley Freitas deu uma ajuda fundamental na produção musical. Sérgio Medeiros e Antenor também ajudaram, no estúdio, cada um do seu jeito.

O resultado está nesse vídeo: uma canção que nasceu de um amor de pai para filho.

Mas o amor é universal e a saudade também. Quem conhece os dois – amor e saudade – vai ouvir a canção e lembrar de alguém que ama.

Se esse alguém estiver por perto, que coisa boa! Se não estiver, fica a expectativa pelo reencontro.


Mundo Cordel
CABEÇA DE JUIZ, RELAÇÕES HUMANAS E UM POUCO DE VIDA SELVAGEM

Antiga Sala de Audiências...

Em meados de 1995, eu estava começando minha carreira como advogado. Trabalhava no departamento jurídico de um banco, em Fortaleza, e fui designado para passar uma temporada no núcleo jurídico de Teresina, onde deveria substituir um colega que estava de férias.

Os advogados mais novatos sempre eram mandados para esse tipo de serviço, sob o argumento de que era uma ótima oportunidade para se adquirir experiência. E foi assim mesmo que encarei a missão de exercer a advocacia em outra cidade, capital de outro Estado, sem conhecer as pessoas ou os costumes do local.

Encontrei menos dificuldades do que imaginava, mas tremi quando o meu chefe em Teresina mandou que eu fosse para mais longe ainda:

– É uma audiência em Caxias – disse ele. – Você pode ir no seu carro. Dorme lá e no dia seguinte faz a audiência, às nove da manhã.

A cidade de Caxias fica no Maranhão, mas é muito longe da capital, São Luís – uns trezentos e cinquenta quilômetros – por isso era atendida pelos advogados de Teresina, distante apenas setenta quilômetros.

Recebidas as instruções, fiz cara de “deixe comigo” e, na véspera da audiência, peguei a estrada. O coração ia apertado, reconheço. Pela primeira vez, eu não teria um colega mais experiente por perto. Se algo desse errado, se surgisse alguma dúvida, eu não teria a quem recorrer. Telefone celular e Internet já existiam, mas não tinham a cobertura que têm hoje.

Pouco antes do sol se por, cheguei a Caxias. Acomodei-me em um hotel onde passaria a noite e, no dia seguinte, compareci ao fórum. Aguardava a chamada para a audiência, quando chegou o advogado da outra parte no processo, acompanhado de seu cliente.

Ali estava meu colega e meu adversário. Uns vinte anos mais velho (eu tinha vinte e nove), falava e se movimentava como se estivesse em seu próprio escritório. Demonstrava estar à vontade e conhecer a todos, desde o porteiro do fórum ao servidor mais graduado.

Senti que a situação me era desfavorável. Não bastasse a minha inexperiência, eu era apenas um estranho, vindo sabe-se lá de onde, defendendo o odiado sistema financeiro contra um empresário local, provavelmente dotado de influência econômica e política na cidade.

Mas, não tive tempo de pensar muito nessas coisas. Poucos minutos depois da hora marcada, foi feita a chamada e entramos na sala de audiência. Acomodei-me por ali, no lado da mesa indicado pelo servidor que auxiliava o juiz.

Meu colega-adversário, prosseguindo em sua demonstração de bons relacionamentos forenses, cumprimentou efusivamente o juiz, apertando-lhe a mão enquanto lhe dava tapinhas em um dos ombros.

Apesar do pouco entusiasmo do magistrado em corresponder ao cumprimento, o advogado falava com ele como se fossem velhos amigos e, antes que a audiência começasse, começou a comentar sobre outro processo, aparentemente, a cargo de outro juiz. Depois de falar alguma coisa quase sussurrando, disse sorridente ao juiz, elevando novamente a voz:

– Sabe como é, né, excelência? De cabeça de juiz e de bunda de menino, a gente não sabe o que é que vem…

O juiz não sorriu. Também não se mostrou irritado. Simplesmente, olhou para o advogado com total indiferença e disse, lenta e pausadamente:

– Desses dois aí, doutor, mais cedo ou mais tarde, acaba vindo sempre alguma merda…

O advogado ficou sem graça. Percebi que ele tentava dizer alguma coisa que afastasse o mal estar gerado pela situação, mas, nada lhe ocorria.

O juiz aproveitou o silêncio que se fez e iniciou a audiência. Eu, percebendo o desconforto que se instalou em meu colega-adversário, recuperei a auto-confiança e passei a defender os meus pontos de vista com tranquilidade e segurança. No final do ato, o caso não foi julgado, mas as provas ficaram bem favoráveis à tese do banco.

Mais tarde, quando estava na estrada, novamente sozinho, pensei sobre tudo aquilo e senti que não havia gostado da conduta do advogado. Apesar de o dito popular ser bem conhecido, não é o tipo de coisa que um juiz gosta de ouvir, ainda mais na hora em que se prepara para começar uma audiência.

Se bem que o juiz também não precisava ser tão seco na resposta. A audiência é um momento que, por si só, já é tenso, pelo fato de haver ali interesses contrários sendo discutidos. Não precisava aumentar mais ainda essa tensão, só porque o advogado foi infeliz ao tentar ser engraçado ou espirituoso.

A minha grande lição naquele dia foi me portar nas audiências de maneira afável, mas, mantendo sempre certa formalidade no tratamento. Se é inevitável algum tipo de animosidade, que esta se limite aos que têm o seu direito sendo decidido, sem envolver os profissionais que estão cuidando disso.

Mas, confesso que gostei de ver o meu experiente colega escorregar e perder a desenvoltura que exibia no começo. Isso é algo que me fascina até hoje na vida forense. No ambiente civilizado das demandas judiciais há algo da vida selvagem. Ali, um deslize do predador pode transformá-lo em presa.

Publicado no Informativo Jurídico Migalhas de 7/Ago/2013


Mundo Cordel
DA FALCATRUA À POESIA

piramide_dinheiro

Abri a minha caixa de e-mails e lá estava a mensagem de um desconhecido que começava assim:

Olá amigo(a)! recebi este e-mail, e achei este programa muito interessante. É uma ótima oportunidade para aumentar sua renda e quero muito que a prosperidade sorria pra você também. Verifique se vale a pena, não fique bravo ao receber este e-mail. Caso não queira participar, delete.

Os parágrafos seguintes explicavam como eu deveria proceder, depositando uma pequena quantia na conta de algumas pessoas desconhecidas, pondo o meu nome no final de uma lista e encaminhando a mensagem aos meus contatos, na esperança que muitos depositem alguma coisa em minha conta também. Dando tudo certo eu poderia ganhar até R$ 900.000,00 (era o que dizia o e-mail).

Não é preciso muito esforço para compreender que se tratava de uma dessas correntes financeiras com as quais um grupo de espertos tenta se locupletar às custas da boa fé de uns e da ganância de outros. Os primeiros entram no jogo por acreditar no discurso esdrúxulo da multiplicação do dinheiro, os segundos entram pela crença de que terão ganho uma boa quantia antes que a expansão da corrente se esgote ou a pirâmide desmorone.

Não me senti estimulado a aderir à corrente, mas o e-mail me despertou a inspiração para escrever em uma forma poética que ainda não havia experimentado: o soneto.

SONETO PARA QUEM ME ENVIOU UMA CORRENTE FINANCEIRA

Convidaste-me para ato suspeitoso
E pediste-me que eu não me apoquente
Por me teres enviado essa corrente
De caráter muito estranho e duvidoso.

Prometeste ganho fácil, generoso,
Lucros altos, garantidos, imediatos.
Bastaria eu enviar aos meus contatos
Esse teu mesmo convite criminoso.

Mas, eu sei que pensas algo diferente.
E, ao fazer-me essa proposta indecente,
Fica clara a ocorrência de um fato:

O que buscas nessa hora, realmente,
É apenas uma vítima inocente
Ou um cúmplice do teu estelionato.


Mundo Cordel
A VOZ DAS RUAS CHEGOU EM FORMA DE RAP

Sentei diante do computador para escrever um comentário sobre o que tem acontecido nas ruas do Brasil nesses dias tão recentes de festas juninas e Copa das Confederações. De repente, qualquer comentário, qualquer análise, qualquer raciocínio, tudo isso me pareceu inútil.

Eu simplesmente via os vídeos das pessoas nas ruas e ficava arrepiado, sentindo renascer em mim a esperança de ver o nosso povo fazer do nosso país um lugar melhor para se viver.

Senti orgulho do povo brasileiro. Então, ao invés de um texto analítico, racional, saiu o seguinte:

O GIGANTE ACORDOU
(MC MM e Expert2015)

Tudo começou nas redes sociais
E as pessoas diziam: “Não aguento mais.
É corrupção, enganação, é ladroagem.
E agora esse aumento na passagem!”

O povo foi pra rua, o povo protestou,
A polícia reprimiu, mas não adiantou.
As ruas se encheram de manifestações
Bem no tempo da Copa das Confederações.

A multidão na rua, que coisa mais linda,
Só bandeiras de partidos não eram bem vindas:
– Cansei dessas mentiras que essa gente inventa.
Ei, político corrupto… Você não me representa!

E foi assim que tudo começou,
Que o gigante que estava adormecido acordou
E o povo que andava acomodado decidiu
Que era hora de lutar mais uma vez pelo Brasil!

O povo foi pra rua, o povo protestou,
A polícia reprimiu, mas não adiantou.
As ruas se encheram de manifestações
Bem no tempo da Copa das Confederações.

A multidão na rua, que coisa mais linda,
Só bandeiras de partidos não eram bem vindas.
Cansei dessas mentiras que essa gente inventa,
Ei, político corrupto… Você não me representa!

O povo foi pra rua exigir mais respeito:
“Não é pelos vinte centavos, tia. É pelo nosso direito”.
“A gente quer transporte público de qualidade,
Quer saúde à vontade, educação de verdade.
A gente quer acabar com a impunidade”.

“A gente quer parar de ser assaltado,
seja pelo ladrão de rua ou pelo ladrão engravatado”.

“O que tá em jogo não é só a minha vida.
É a vida do meu filho, é a do seu, é a sua!
Por isso que a gente passa e chama:
– Vem pra rua, vem pra rua!
E se você se assustou com o que viu,
desculpe o transtorno, amigo, a gente tá mudando o Brasil”.


Mundo Cordel
DISCUTINDO A RELAÇÃO

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Descobri que não preciso de você para viver. Não foi uma descoberta instantânea, um insight. Na verdade, nem foi propriamente uma descoberta, mas o resultado de um processo lento e gradual – feito de momentos bons e situações desgastantes – que me conduziu a essa conclusão. Aliás, que fique bem claro: não é que eu tenha deixado de precisar de você, apenas percebi que nunca precisei, mas estava acostumado à sua participação em minha vida, a ponto de não mais imaginá-la sem você por perto.

Mas, isso mudou. E hoje eu olho para você e me surpreendo pela maneira como sua presença, antes aparentemente indispensável, tornou-se incômoda, desagradável até. Sei que é estranho dizer isso depois de anos de convivência, mas só eu sei quantas vezes você interferiu – às vezes sutilmente, outras nem tanto – na minha forma de agir, de me vestir, de comer e, o que mais me assusta, até de pensar.

Reconheço que você me ajudou em momentos importantes. Apresentou-me pessoas e lugares que, sem você, eu jamais teria conhecido. Até algumas músicas que gosto, foi através de você que ouvi pela primeira vez. Mas, isso não justifica o seu comportamento egocêntrico nas reuniões com amigos, monopolizando as atenções, sem parar de falar mesmo quando alguém tenta expor o próprio ponto de vista. Às vezes, durante as refeições, você parece fazer questão de tratar de coisas desagradáveis, capazes de fazer qualquer um perder o apetite.

Tenho assistido a tudo isso em silêncio, mas minha insatisfação veio crescendo, dia após dia, até que cheguei a este ponto. E sei que não estou me precipitando. Se estivesse, diria agora que estava me despedindo para sempre e que nunca mais sequer almoçaria em um restaurante onde você estivesse. Mas essa não seria uma decisão inteligente. Se eu agisse assim, sua presença se tornaria um incômodo ainda maior, cada vez que nossos destinos se cruzassem. E, para falar com sinceridade, não sei se estou em condições eliminar a sua presença da minha vida ou mesmo desta casa.

Assim, não quero fazer deste momento uma despedida, mas uma tomada de posição para que tenhamos uma convivência melhor. Para isso, é necessário que o controle da sua participação em meu dia-a-dia seja meu, não seu.

É por isso que, a partir de hoje, você não mais estará presente às minhas refeições, nem tampouco interferirá quando eu estiver conversando com amigos ou lendo um jornal. Você se manifestará quando eu determinar, nem mais, nem menos.

E para começar a por em prática essa decisão, apertarei agora este botão vermelho do controle remoto e deixarei você desligada por todo o restante do dia. À noite, ligarei você novamente, mas apenas pelo tempo necessário para que eu assista ao Jornal Nacional. Depois, desligarei você de novo e lerei um bom livro, até o sono chegar.

Pensando bem, televisão, até tirarei você do meu quarto. É isso, a partir de hoje, você ficará na sala.


Mundo Cordel
QUANDO O FUTURO CHEGOU

futuro

Quando eu era bem criança
Inocente, besta e puro,
Eu pensava no futuro
E me enchia de esperança.
Mas vejo que na mudança,
Depois que o tempo passou,
Pouca coisa melhorou
Nesse mundo bagunçado
E fiquei decepcionado
QUANDO O FUTURO CHEGOU.

Eu sonhava que viver
Seria mais sossegado,
Tudo bem facilitado,
E as pessoas sem sofrer.
Mas, pelo que posso ver,
O meu sonhou não vingou:
Complicação aumentou,
Espalhou-se a depressão,
E foi grande a frustração
QUANDO O FUTURO CHEGOU.

Sonhava que educação
E saúde no Brasil,
Depois do ano 2000,
Teriam mais atenção.
Mas, foi outra frustração
Que depois se apresentou:
Educação piorou,
A saúde adoeceu,
A violência cresceu
QUANDO O FUTURO CHEGOU.

Só na tecnologia
Foi que a coisa andou bem.
Com inventos que ninguém
No passado sonharia:
Toda uma livraria
Em um chip se encaixou,
Computador se espalhou
Em empresa e residência,
Avançou muito a ciência
QUANDO O FUTURO CHEGOU.

Entretanto, a natureza
Ficou muito maltratada,
Muita mata foi queimada
E a fogueira está acesa.
Vejo com muita tristeza
O mal que o Homem causou
Tudo quanto devastou
Com seu instinto nocivo.
Fiquei muito apreensivo
QUANDO O FUTURO CHEGOU.

Você, que agora está lendo,
Qual é a sua impressão?
Do que tem gostado ou não
No mundo que está vivendo?
Do que vem acontecendo,
muita coisa lhe agradou?
Ou apenas aceitou,
mas, podendo, mudaria,
Muita coisa de hoje em dia,
QUANDO O FUTURO CHEGOU?


Mundo Cordel
SOBRE AS VIRTUDES

equilibrio

Pode ser difícil conceituar o que são virtudes, mas, de certa forma, todo mundo sabe reconhecê-las. E, em geral, as pessoas não apenas as reconhecem, mas as desejam ter como atributos seus.

Quem não gosta de se reconhecer como determinado? Autoconfiante? Sincero, coerente, disciplinado? Conheço gente que até se acha tímido ou retraído, mas não esconde que gostaria de ser mais comunicativo, influente, quem sabe até divertido.

Não, não é difícil reconhecer as virtudes, principalmente quando as vemos em nós mesmos.

Difícil é saber quando a gente deixou de ser determinado e passou a ser teimoso. É perceber que exagerou na sinceridade e se tornou grosseiro. É aceitar que o que pensávamos ser autoconfiança há muito descambou para a arrogância ou a soberba, às vezes nos levando a subestimar obstáculos e adversários.

E, alguém que se crê uma pessoa comunicativa, perceberá que se tornou um tagarela? O influente reconhecerá quando estiver sendo manipulador? O divertido notará que fez graça na hora errada, ou pelo motivo errado, e acabou sendo inconveniente?

Você, leitor, é uma pessoa disciplinada? Ou é um bitolado, que não questiona as normas em vigor, logo, não ajuda a mudar as coisas? É coerente com as ideias que defende? Ou essa suposta coerência é na verdade uma intransigência crônica, que não lhe permite ser convencido a mudar de ideia?

A partir de qual ponto ou limite uma pessoa deixa de ser precavida e se torna desconfiada, incapaz de dar crédito a outra?
Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas.

Mas, a propósito de pessoas muito desconfiadas, vem à minha mente um pensamento sobre a honestidade. É uma virtude para a qual não achei exagero correspondente. O que pode haver de mal em ser honesto ao extremo? Acredito que nada.

Mesmo assim, penso que, por mais que alguém se ache honesto e bem intencionado, é preciso evitar pelo menos duas tentações.

A primeira é acreditar ser o único ser dotado de tal virtude, e, por causa disso, todos os que discordam de seu ponto de vista estão sob suspeita.

A segunda, seria o indivíduo crer que é tão honesto que estaria autorizado até a roubar, pois só o faria se fosse para tirar de um em favor de todos. Esse me parece um caminho dos mais perigosos, porque é apenas uma variação da velha máxima segundo a qual os fins justificam os meios.

E, se hoje se justifica a quebra de um princípio ético em nome de um fim nobre, amanhã outros princípios éticos poderão ser quebrados em nome de outros fins não tão nobres assim.


Mundo Cordel
GENTE DE BEM

culpado

Quando escrevi “O sujo e o mal lavado”, estava pensando em uns personagens que encontro por aí, que costumam apontar o dedo para os erros e defeitos dos outros, mas nunca olham para as suas próprias mazelas. Cobram punições rigorosas para os outros, mas não reconhecem seus próprios desvios de caráter. Bradam contra a impunidade, mas não fazem sequer uma declaração de imposto de renda sem maquiar os dados para sonegar – ou, como dizem, “se defender” – da tributação.

Recentemente, testemunhei caso explícito desse tipo de comportamento. Foi em um táxi no qual viajei ao sair do trabalho e me dirigir a um shopping center. Mal me acomodei no banco do passageiro, o motorista começou a reclamar:

– O trânsito nessa rua tá péssimo. Já era ruim e piorou por causa de uma obra que tão fazendo ali na frente.

– Tem mais de um mês que a obra começou, não?

– Tem quase um ano – continuou ele. – Os políticos desviam o dinheiro e a obra fica aí parada. Um bando de ladrões…

A fala do motorista foi interrompida pelo toque do meu telefone. Era minha mulher, que me esperava no shopping. Depois que terminei a ligação, ele puxou conversa novamente:

– Esse é o aifone, né?

– É.

– Veja o senhor como são as coisas – continuou ele. – Um aparelho desses na loja é mais de mil reais… Mas, na mão de um vagabundo, não vale duzentos…

– É mesmo? – perguntei, não por duvidar, mas curioso por saber como ele tinha obtido aquela infomação. Deu certo.

– Se é, doutor! A cidade tá cheia de vagabundo roubando todo tipo de coisa e vendendo só pra comprar crack. Semana passada eu comprei dois desses aí. O vagabundo pediu quatrocentos reais. Dei trezentos. Ele pegou na hora. Depois correu pra boca de fumo.

– Que coisa triste, hein? – resmunguei.

Ao falar em “coisa triste”, eu me referia à proliferação dessas figuras nocivas ao nosso país: desviadores de verbas públicas, traficantes, viciados, ladrões… e pessoas como ele, que não fez cerimônia em admitir que acumulava as atividades de taxista com as de receptador. Acho que ele nem percebeu que fora incluído em meu lamento, já que retomou o discurso da crítica aos políticos e aproveitou para defender a pena de morte para traficantes e viciados.

Mas a conversa não me interessou mais. Passei a responder com monossílabos. Minha vontade era dizer que ele não tinha moral para falar dos políticos que desviavam o dinheiro público, nem tampouco dos viciados que roubavam celulares ou dos traficantes. Ou talvez não dizer nada disso, pedir a ele que mostrasse os Iphones e, assim que ele o fizesse, dar-lhe voz de prisão em flagrante…

Acabei não fazendo uma coisa nem outra. Não achei seguro. Tive medo, admito. Ali eu era apenas o passageiro, o cliente. Sozinho e desarmado. O melhor que poderia me acontecer era chegar ao destino e desembarcar do veículo.

Depois, fiquei a me perguntar: será que estou sendo muito rigoroso? Será que o fato de aquele homem querer levar vantagem sobre o furto do viciado faz dele um fora da lei, um bandido? Não seria ele apenas um trabalhador, um pai de família, que aproveitou a ocasião? Não, eu não me acho rigoroso em nada disso. Estava viajando conduzido por um bandido, e não tenho dúvida quanto a isso.

Mas, fiquei com a firme impressão de que o tal taxista, apesar de ter plena consciência de que é crime comprar o produto de outro crime, acha, sim, que é um cidadão pacato, ordeiro e cumpridor dos seus deveres. Que errados são os outros, merecedores inclusive de pena de morte. Ele não. Ele apenas comprou dois aparelhos que já estavam roubados mesmo e, se não comprasse, terminariam trocados por crack na boca de fumo. Nada demais.

Ele, e muitos como ele – seja nos altos escalões da Administração Pública, seja no varejo da violência urbana – acreditam que todos os seus atos ilícitos são justificados pelas circunstâncias, pela necessidade, pela oportunidade. Extrapolam, e muito, o limite da esperteza, para adentrar no campo da criminalidade, mas, no seu próprio conceito, estão apenas fazendo o que qualquer um, no seu lugar, faria.

Também não são responsáveis pela situação caótica à qual chegou o Brasil. São gente de bem.


Mundo Cordel
A DESCOBERTA DO PRAZER

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Recebi de um amigo que mora na Inglaterra a notícia de que a conduta de uma mulher, em uma pequena cidade localizada alguns quilômetros ao norte de Londres, tem gerado intensos debates em torno de temas como fidelidade nas relações conjugais, prazer sexual e adultério.

Segundo a notícia, a mulher, com 36 anos de idade e casada há doze, incomodada com o fato de nunca ter tido um único orgasmo em toda a sua vida, passou a pesquisar o assunto na Internet. Acabou por encontrar a oferta de um tratamento chamado “A descoberta do prazer sexual”, uma espécie de treinamento, em sessões cujo número variaria de cinco a dez, nas quais o terapeuta prometia conduzir a cliente na identificação dos estímulos sexuais capazes de levá-la ao orgasmo.

O interesse da mulher foi imediato, ainda mais quando viu que o consultório do terapeuta ficava em Londres. Sem nada contar ao marido, agendou uma consulta de avaliação, na qual ficou acertado que cinco sessões semanais seriam suficientes para o seu caso.

Na semana seguinte, a mulher iniciou o treinamento e, já na terceira sessão, conseguiu o seu primeiro orgasmo. Na quarta, teve orgasmos múltiplos. Empolgada com os resultado da quarta sessão, foi para casa o mais rápido que pôde e, logo que encontrou o marido, contou a ele sobre as suas idas semanais a Londres. Convidou-o, inclusive, para comparecer com ela à última sessão do tratamento.

O problema é que o marido não ficou nada satisfeito com a novidade. Saiu de casa, acusou a mulher de adultério e pediu o divórcio.

Ela, porém, não aceitou a reação do marido e levou o caso a um programa de televisão local, desses nos quais se discutem conflitos de família. Perante as câmeras de TV, alegou que nunca foi adúltera. Que quer continuar com o marido e que tudo o que fez foi em favor do seu casamento. “Eu não me envolvi com outro homem. Apenas contratei um profissional para me ensinar a ter orgasmos. E deu certo. Meu marido ainda vai sair ganhando com isso”, afirma ela. Sobre o fato de não haver falado ao marido de suas intenções, antes de começar o tratamento, diz que pretendia fazer uma surpresa. “Ele não precisa me avisar quando quer me dar uma joia”, completa.

O terapeuta não chegou a participar do programa, mas mandou um comunicado, esclarecendo que o contato que mantém com suas clientes é estritamente profissional. Que o que faz com elas não é sexo, e sim manipulação de zonas erógenas em evolução orgástica, além de ajudá-las a quebrar tabus e libertarem-se de barreiras psicológicas. Disse ainda que já atendeu mais seiscentas mulheres e obteve sucesso em mais de noventa por cento delas. “O marido pode ser chamado a participar das sessões, para aprender algumas técnicas, mas essa é uma decisão que cabe à cliente”, diz o comunicado.

O debate está aberto. As opiniões já se dividem em pelo menos três grupos: os que dizem ter havido adultério; os que defendem que o adultério não aconteceu; e os que acham que isso não tem a menor importância, e o marido tem mais é que aproveitar o aprendizado da esposa e ser feliz com ela.

O terapeuta não confirma, mas comenta-se que a procura em seu consultório triplicou.


Mundo Cordel
APELIDOS

pirambu

Lendo o Jornal da Besta Fubana, no fim de semana passado, deparei-me com um texto de José de Oliveira Ramos, na coluna Enxugandogelo, que me fez viajar no tempo, precisamente para uns quarenta anos passados.

Dizia J. O. Ramos que “o cearense é um cabra sagaz para apelidar os outros. Cria apelidos com facilidade incrível e, via de regra, o apelido ‘pega’”. Depois explicou como Gutemberg virou Guto, Raimundo se tornou Biu e Walquírio virou Boré.

Isso me fez lembrar meus tempos de criança, na periferia de Fortaleza, onde se percebe que o costume de botar apelido nos outros realmente faz parte da cultura do lugar. Ali, bota-se apelido até em rua, tanto que já contei, em outra oportunidade, que nasci na Rua Pedro Artur, que é conhecida como Sete de Setembro, próximo da Rua Dom Hélio Campos, chamada de Rua da Felicidade. Mais adiante tem a Rua Mossoró, que se chama oficialmente Monsenhor Rosa, e, a mais conhecida, a Avenida Presidente Castelo Branco, chamada por todos de Leste-Oeste.

Se é assim com as ruas, imagine-se com as pessoas. Lembro de um menino chamado Milton, conhecido como Miltim. Um dia apareceu um rato na casa dele. O pai deu uma vassourada no bicho, que correu na direção de Miltim. O menino saiu pela porta de casa afora, como medo do roedor. Pronto, adquiriu a alcunha de Miltim Mata-Rato. Aos poucos o nome verdadeiro foi sendo esquecido, e, assim, enquanto morou por lá, virou mesmo Mata-Rato.

Outro que conheci de perto foi o Nogueira. Estávamos jogando futebol quando ele foi pegar a bola no mato, para bater um lateral. No caminho, pisou em um monte de fezes que alguém havia descarregado ali antes do jogo. No mesmo dia tornou-se Pé na Bosta, e já no dia seguinte todo mundo só o chamava Nabosta. Ficou nisso.

Certa vez, chegou para morar em minha rua uma dupla de irmãos cujos nomes eu nunca soube. Lembro apenas que o mais velho era o Tom, e o mais novo – por ser mais novo – era o Caçula. Um dia Caçula teve um desentendimento com outro menino e este o chamou de Brinquedo do Cão. Caçula ficou irado. Tão irado que o apelido pegou e ele passou a ser chamado apenas de Brinquedo.

Na minha família mesmo, minha mãe, que é Ivonete, é chamada apenas de Neta; uma irmã, de nome Ivanilda, é a Bibiu; a Ivanisa é Lolô; o Ivanildo é Fiuza, também chamado de Cury; e o Irandy, conhecido como Dico, tem um filho de nome Fábio, cujo apelido é Jiló. A minha Tia Ivone é uma das poucas que não tem apelido, mas o marido José Domingos é o Detim; a filha Márcia é a Branca; o filho Márcio é o Poréia ou Novo; e o filho Marcos já foi Pisquila, depois He-Man, e atualmente, embora não tenha Francisco no nome, é conhecido por Chicão.

Outro dia, eu e meu irmão – cujo nome oficial é Materson, mas em casa chamamos apenas de Bat – estávamos a lembrar dos apelidos mais interessantes das pessoas que conhecíamos, e saiu essa lista, em ordem alfabética: Cajá, Chico Bode, Chico Calça Preta, Chico Goleiro, Có, Cuequinha, Cumpade Cachorro, Dabá, Déa (irmão do Dabá), Geraldo Furão, Geraldo Virapão, João Bocão, Mané Mago, Manéu Raposa (também chamado de Manéu Môco), Melado, Melancia (que depois tornou-se apenas Melão), Merol, Nena, Papudo, Pé de Chumbo, Péu, Pião, Tapuru (que depois virou Tapura e Safura), Tarcísio Papudo, Xililico, Zé Borracha e Zé mei cu.

E esses são apenas apelidos pacificados, ou seja, aceitos por quem os recebeu. Existem muitos outros no bairro que há muitos anos recebeu o nome oficial de Bairro Nossa Senhora das Graças, mas todo Fortalezense conhece pelo carinhoso apelido de Pirambu.


Mundo Cordel
NEGATIVADO

NEGATIVADO

Observando as promessas de crédito fácil espalhadas pela cidade, percebo que a palavra “NEGATIVADO” tem sido amplamente usada no seguinte sentido: incluído em um cadastro de devedores inadimplentes, logo, não recomendável para receber crédito.

Sendo essa uma noção corrente hoje em dia, talvez o leitor mais jovem se surpreenda ao saber que, em sua origem, a informação negativa sobre alguém significava exatamente que tal pessoa estava apta a receber o crédito. Basicamente o contrário do que se diz hoje.

Pode parecer estranho, mas creio que posso provar o que acabo de dizer.

Tudo começa com um documento chamado “Certidão Negativa”. Existem várias por aí: “Certidão Negativa de Débitos Tributários”, para provar que alguém está quite com o Fisco; “Certidão Negativa de Protestos”, para quem não tem títulos protestados em cartório; “Certidão Negativa de Execuções”, para quem não está sendo executado em nenhum processo judicial, etc.

No caso dos débitos fiscais – aqueles que têm como credor um órgão federal, estadual ou municipal – é comum que um advogado entre com um pedido de liminar que garanta ao seu cliente uma Certidão Positiva com Efeitos de Negativa. Juridiquês à parte, uma certidão que indique que o interessado deve, mas a dívida está suspensa ou garantida por algum bem.

O certo é que, quando o cidadão pretendia tomar dinheiro emprestado em um banco, alugar um imóvel ou fazer qualquer outro negócio apoiado em seu crédito, eram esses os documentos exigidos pelo banco: certidões negativas das mais variadas espécies.

Parece, entretanto, que, em dado momento da história, alguém, que teve sua proposta de crédito recusada, por não ter conseguido uma dessas certidões negativas, comentou com um colega:

– Tava tudo se encaminhando, mas o gerente do banco disse que deu negativo por causa do SPC…

Não sei se a situação foi essa, mas deve ter sido algo parecido. O fato é que, com o tempo, foi se tornando cada vez mais comum as pessoas se queixarem de não haver conseguido crédito porque estavam “com o nome negativo” no SPC, no SERASA, no CADIN ou em outro banco de dados de inadimplentes.

Imagino – apenas imagino – que isso possa ter acontecido à medida que os avanços tecnológicos facilitaram a consulta aos bancos de dados de inadimplentes. Reduzida a importância das certidões negativas, as atenções se voltaram para a resposta dada a quem pedia o empréstimo. Se a  resposta era negativa, é porque o interessado estava negativado no cadastro.

Não demorou, surgiram os profissionais especializados em limpar o nome de quem estava “negativado”. E assim o particípio do verbo negativar foi adquirindo o sentido hoje tão difundido. Com a proliferação dos empréstimos consignados, veio uma expressão muito utilizada atualmente: “DINHEIRO VIVO! MESMO QUE VOCÊ ESTEJA NEGATIVADO!”.

Grande vantagem! Empréstimo consignado não é nada mais nada menos que aquele cujas prestações são descontadas do salário, da pensão ou da aposentadoria antes de o dinheiro chegar á conta bancária. O órgão ou empresa que faz o pagamento reserva logo a quantia destinada ao credor e encaminha só o restante para a conta do endividado. Retorno garantido, portanto.

Mas, isso é outro assunto. Por hora, queria apenas lembrar aos que sabem – e dizer aos que não sabem – que “negativado” é mais uma dessas palavras que tiveram o sentido invertido nos últimos anos.

Admito que, antes dessa transformação, a palavra pouco era utilizada. Nem lembro de a ter ouvido ou lido alguma vez no sentido original. Isto, entretanto, só reforça minha desconfiança de que essa inversão de sentido resulta do encontro do desconhecimento da língua pátria com a vontade de falar difícil, para dar a impressão de autoridade no assunto.

Mas, quem se importa com isso? Você, leitor, contrataria um escritório que promete negativar o seu nome em todos os cadastros de devedores?


Mundo Cordel
PARAR DE JOGAR LIXO NA RUA. QUEM SABE? TALVEZ

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Desde ontem vejo notícias sobre uma nova lei a entrar em vigor no Rio de Janeiro, baseada na qual a prefeitura pretende multar aqueles que jogam lixo na rua, sujando e enfeiando a Cidade Maravilhosa.

Se, por um lado, simpatizei instantaneamente com a iniciativa, a qual acho que deveria ser estendida ao país inteiro, por outro, as matérias que vi na TV logo me fizeram pensar se tal lei seria mesmo necessária.

É que, todas as vezes que vi um telejornal noticiar o fato, pessoas foram entrevistadas nas ruas do Rio de Janeiro, e todos os entrevistados se disseram favoráveis à rigorosa aplicação da lei. “Pode ser que assim as pessoas se conscientizem e deixem de jogar lixo no chão”, disse um, sintetizando tudo o que já haviam dito os outros.

Mas, se todos gostam tanto de ruas limpas e repudiam tanto o ato de jogar lixo no chão, quem são essas pessoas que precisam da ameaça de multa de uma lei para se conscientizar de algo tão básico? E, se a limpeza é mesmo tão venerada, de onde vêm as toneladas de lixo que se acumulam nas ruas de nossas cidades? Será que alienígenas assumiram a forma humana, infiltraram-se entre nós e andam pelas ruas a espalhar sujeira? Será que eles desaparecem quando há uma câmera de televisão por perto e desaparecerão quando houver (se houver) um fiscal da Prefeitura na área?

Talvez. Talvez sejam esses mesmos alienígenas que seguram o elevador do meu prédio em determinados andares, que levam cães para fazer cocô na calçada e deixam por lá a sujeira, que estacionam carros nas vagas de idosos e deficientes (seja numa praça ou em um shopping center). Essas pequenas coisas, que estão longe de fazer tanto mal quanto os desvios de dinheiro público e as fraudes em licitações, mas tem na origem o mesmo desprezo pelos direitos dos outros e da coletividade.

Talvez. Ou talvez não seja nada disso, e aconteça apenas que, diante das câmeras, os brasileiros em geral defendam uma postura ética, mas, na vida real, a maioria menospreze regras básicas de conduta, destinadas a viabilizar a boa convivência humana.

Sem respeito pelo que é do outro – e, menos ainda, pelo que é de todos – muitos dos que aparecem em público, cobrando rigor na aplicação das leis, não hesitam em deixar o seu lixo pelo caminho, avançar o sinal vermelho, maquiar a declaração do imposto de renda ou, se tiverem oportunidade, apropriar-se de algum dinheiro público.

Pensando bem, a lei é necessária, sim. Uma intensa fiscalização para o seu cumprimento também. Se ela fará do Rio de Janeiro uma cidade mais limpa?… Quem sabe? Talvez.

Já ia terminar, mas a última frase deu saudade dos Engenheiros do Hawaii: “As vozes oficiais dizem ‘quem sabe?’, dizem ‘talvez’, enquanto os vídeos e as revistas mostram imagens sem nitidez”. Você se espanta: ‘Há tanta coisa nos jornais!’, mas quem tem pressa não se interessa em andar rápido demais”.


Mundo Cordel
ENCONTRO COM FALCÃO NO “LERUAITE”

Mairton e Falcão

Foto: Portinho Guberev

E finalmente chegou o dia de ficar frente a frente com o grande Falcão.

Depois de muito tempo como seu admirador, e quase um ano depois de postar o vídeo com a música “Coração de Frango” (que compus imaginando como ficaria se fosse gravada por ele), fui convidado para participar do programa LERUAITE, que Falcão apresenta na TV Ceará.

O programa vai ao ar às quartas-feiras, 22 horas, e reprisa às quintas e domingos, às 23 horas, no canal 5 da TV aberta ou no canal 17 da NET.

Quem estiver fora do Ceará pode assistir pela Internet, seguindo o link da TVC.

Então, é isso: na próxima quarta-feira, 10 de abril, estarei diante do Falcão, no Leruaite, conversando sobre muitas coisas, sempre com bom humor e a cearensidade que caracteriza o programa.

Quem assistir certamente dará boas gargalhadas e ficará sabendo um pouco mais sobre a minha história e as minhas histórias.


Mundo Cordel
LIVROS, PAIXÃO DE CRISTO E UM ENCONTRO COM SHAYEUBAD(*) E UM PESCADOR

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Vinte e nove março de 2013. Sexta-feira da Paixão. Aproveito o feriado para arrumar meus livros. Já andavam meio bagunçados fazia um tempo e a bagunça havia aumentado desde que voltei a trabalhar em Fortaleza. Os livros que estavam comigo em Quixadá encontraram-se com os que já estavam por aqui e parecia que não caberiam todos juntos nas estantes e armários do escritório.

Pensei em organizar por assunto, separar Direito, Filosofia, Literatura, religiões, yoga, mas o espaço era tão restrito, e cada tema me pareceu tão ligado ao outro, que os primeiros quarenta minutos foram absolutamente improdutivos. Sem conseguir superar o impasse do critério para a classificação, resolvi por todos em ordem alfabética de título e acomodá-los nas estantes da esquerda para a direita.

Só a partir daí o trabalho passou a evoluir. Mais alguns minutos e a brincadeira começou a ficar interessante. Gosto de pegar em livros, de folheá-los, de senti-los em minhas mãos e olhar a capa.  Sentia orgulho ao manusear um que havia lido todo, cobrava-me pela continuação dos apenas começados ou deixados pela metade.

Fui separando os livros no chão, formando uma pilha para cada letra do alfabeto. “Arquipélago Gulag”, “O Budismo ao seu alcance”, “Crime e castigo”, “Don Quijote de La Mancha” (dois volumes em espanhol trazidos de Buenos Aires), e lá ia eu, de A a Z, em um método que talvez fizesse um bibliotecário de verdade se arrepiar.

Estava nisso, quando pus na pilha da letra jota “Jesus, a verdadeira história”, de Jacques Duquesme, e lembrei da razão do feriado naquela sexta-feira.

Pensando em reler a parte da crucificação, abri o livro, mas a página que se me apresentou primeiro era do capitulo que fala da escolha dos apóstolos: “Uma peregrinação o leva à margem do lago de Genesaré. Ali ele encontra pescadores, dois pares de irmãos: André e Simão, Tiago e João, filho de um sócio de Simão”.

A leitura me fez lembrar um dia em que eu caminhava pela praia de Ponta Negra, em Natal. Não exatamente em Ponta Negra, mas na parte que se estende à frente dos hotéis da Via Costeira. Estava hospedado em um daqueles hotéis e, tendo saído para caminhar pela praia, no meio da tarde, parti em direção ao Morro do Careca.

Depois de alguns minutos de caminhada, vi um homem que pescava e me aproximei para ver como estava se saindo. Ele punha dois ou três camarões em anzóis presos por um fio de náilon a uma vara longa e flexível, e depois, com habilidade, arremessava os anzóis com as iscas em direção às ondas. O peso de um pedaço de chumbo na ponta da linha de náilon ajudava-o a fazer com que a sua armadilha caísse depois de onde as ondas quebravam.

Entretido com essa atividade, custei a perceber que havia outro homem, sentado na areia, observando o pescador. Para minha surpresa, eu o conhecia. Era Shayeubad.

Sorrimos um para o outro, sentei ao seu lado e ficamos assistindo à pescaria. Imaginei que, como eu, ele também estivesse curioso para ver que tipo de peixe aquele homem pescaria.

Mas o tempo passava e o pescador não pegava nada. Depois de conversarmos um pouco sobre o mar, os peixes e as iscas, comentei com Shayeubad que admirava a fé dos pescadores, capazes de crer que, na imensidão do oceano, um peixe encontraria um daqueles pedaços de camarão em meio às ondas, e o morderia vorazmente, a ponto de ficar preso no anzol.

– É, meu amigo – disse ele. – Não foi à toa que Jesus escolheu pescadores para serem seus primeiros discípulos. Ele precisava de homens de muita fé para acreditar no que ele tinha a dizer. Ressurreição, vida depois da morte, oferecer a outra face…

– É verdade – concordei. – Se bem que, apesar de não verem os peixes, os pescadores têm lá suas razões para acreditar que estão lá e podem ser apanhados…

– E Deus? – emendou Shayeubad. – Será que temos razões para acreditar que ele existe? E vida depois da morte? Será que isso existe? Se existe, será  que nossa conduta nesta vida poderá determinar nossa condição nela?

Parei um pouco para pensar em uma resposta, mas, antes que eu formulasse algum raciocínio, a linha de pesca esticou, o pescador girou o molinete e um peixe começou a ser arrastado para fora da água. Foi o próprio Shayeubad quem chamou a minha atenção para isso:

– Olha lá! Parece que ele pegou alguma coisa!

– Pegou sim. Pra ele, valeu a pena acreditar no improvável.

– Talvez a fé seja isso: agir conforme o que se crê, ainda que o que se crê pareça improvável – completou Shayeubad.

Mais uma vez, como em tantas outras conversas com Shayeubad, tive que parar para pensar nas coisas que ele diz. Ficamos calados mais um tempo, olhando o homem tirar o peixe do anzol e guardar em um cesto. Quando voltamos a falar foi novamente sobre peixes e pescarias.

Pouco depois, me despedi e saí, mas, ao invés de prosseguir em direção à Praia de Ponta Negra, voltei para o hotel. No caminho, andava próximo da água o suficiente para sentir a areia molhada sob os meus pés. De vez em quando uma onda mais forte se chocava com minhas pernas.

Enquanto caminhava, imaginava quantas pessoas realmente agem conforme as próprias convicções e quantas têm um comportamento incompatível com as coisas nas quais dizem crer.

Já se passaram alguns anos desde que esse encontro aconteceu, mas lembrei de tudo muito claramente enquanto arrumava os livros. É curioso como as coisas ficam adormecidas em nossa mente por tanto tempo, depois voltam, às vezes trazidas repentinamente por um estímulo inesperado.

Como um peixe arrastado para fora d’água por um anzol.

(*) Shayeubad é um sujeito que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.


Mundo Cordel
ESCREVENDO SOBRE A SEMANA SANTA NO “DE UM TUDO”

DEUMTUDO3

Recebi por esses dias o almanaque “De um Tudo” de março, que, dentre outras coisas, fala de mártires, de heróis e da Semana Santa, como bem destaca Audifax Rios, no editorial.

Neste último tema – Semana Santa – tive oportunidade de colaborar, dizendo em versos um pouco da importância de Judas Iscariotes na minha formação de cordelista.

Os versos, que ora compartilho, estão na coluna “Repentinadas”, junto a essa bela ilustração de Ricardo Vieira:

 DEUMTUDO3_JUDAS

COMO JUDAS ME AJUDOU A CORDELIZAR

Para mim, Semana Santa,
bem mais que religião,
foi sempre como um costume,
uma grande tradição.
Ir à missa e à vigília
era encontro de família,
nunca foi obrigação.

Na quinta-feira maior,
tinha missa e romaria,
a minha avó jejuava
nesse dia não comia.
À noite era o “Lava-pés”.
Mais tarde, depois das dez,
a vigília se inicia.

Já a Sexta-Feira Santa,
era um dia de recato,
sem menino jogar bola
e sem mulher lavar prato.
Acredite quem quiser,
o marido e a mulher
não tinham qualquer contato.

À noite, perto da igreja,
na hora da encenação
da peça “Paixão de Cristo”,
se ajuntava a multidão.
Ali os jovens atores,
apesar de amadores,
nos enchiam de emoção.

Mas o Sábado de Aleluia
e
ra do que eu mais gostava,
e o testamento do Judas
com meus tios preparava.
Desde os  dez anos de idade
eu mostrava habilidade,
nos versos que elaborava.

O testamento era todo
rimado e metrificado,
e o patrimônio de Judas
assim era destinado
a todos ali presentes
que recebiam contentes
a herança do finado.

Para um ficava a corda,
para outro o dinheiro,
para alguém suas sandálias,
o manto para um terceiro.
O povo se divertia
enquanto se dividia
o seu patrimônio inteiro.

E a gente ainda usava
sempre aquela ocasião
para fazer com os vizinhos
uma grande gozação,
relembrando apelidos
e fatos acontecidos
com os amigos de então.

Para o homem preguiçoso,
o Judas deixava a rede.
Para a mocinha faceira
um espelho na parede.
Se o cabra era cachaceiro,
cachaça pro ano inteiro,
para não morrer de sede.

E foi nesses testamentos
de Judas que fui fazendo
que da métrica e da rima
mais e mais fui aprendendo
a popular poesia
dos cordéis que, hoje em dia,
sigo em frente escrevendo.


Mundo Cordel
A UMA MULHER

FOTO_1

Natália Guberev, destinatária desta homenagem dedicada a todas as mulheres do mundo

No Dia Internacional
Às mulheres dedicado
Meu verso é direcionado
A uma em especial.
Uma mulher genial,
Esposa e mãe dedicada,
Minha amiga e namorada
E fonte de inspiração.
Natália, esses versos são
Para ti, ó minha amada!

Tu, que sempre estás comigo
Me apoiando em minhas lutas.
Que, com paciência escutas,
As bobagens que eu te digo,
Me alertarás do perigo,
Quando algum perigo houver.
Mas, se a batalha vier,
Enfrentarás sem receio,
Eu hoje te homenageio
Pelo Dia da Mulher!

Pois contigo quero estar
Nos lugares onde estejas,
Em paisagens sertanejas,
Ou na praia, olhando o mar.
Se quiseres viajar,
Deixaremos Fortaleza,
Visitaremos Veneza,
Outras cidades da Itália,
Se vens comigo, Natália,
Vai ser bom, tenho certeza.

Mas, se não puderes vir,
Até Paris perde a graça,
Não há monumento ou praça
Capaz de me distrair.
Sem razão para sorrir,
Vou-me embora irritado,
No quarto fico trancado,
E espero passar o dia,
Desprovido de alegria,
Sem ter você ao meu lado.

Hoje em dia, felizmente,
Ficar longe é raridade.
Pra minha felicidade,
Ficar junto é mais frequente.
E, ficando junto, a gente
Tem mais tempo pra se amar
Assim, sigo a desejar
Que haja, se Deus quiser,
Muitos Dias da Mulher
Para te homenagear.

FOTO_2

O autor e sua musa


Mundo Cordel
MEMÓRIAS COMPARTILHADAS

No dia 13 de junho de 2012, publiquei nesta coluna a crônica “TRATORES, AVIÕES E UMA RUA COM DOIS NOMES”, na qual recordo momentos de minha infância no bairro do Pirambu, em Fortaleza.

As memórias ali expostas acompanham o período em que estava sendo construída a Avenida Presidente Castelo Branco, mais conhecida como Leste-Oeste, culminando com a queda de um avião Xavante, da Força Aérea Brasileira, durante a cerimônia de inauguração.

Alguns meses depois de publicar o texto aqui no JBF, encontrei-o replicado no site Fortaleza Nobre. Fiquei feliz ao ver minhas memórias em um site especializado em assuntos sobre a cidade de Fortaleza, sua história, seus monumentos, suas peculiaridades. Mas, o que me chamou a atenção mesmo, foi o comentário de um leitor, que se identificou como FME, para dizer o seguinte:

fme, 4 de setembro de 2012 17:11

Em 1973 eu tinha 16 anos e estudava no Colégio Estadual Liceu do Ceará.

Naquela fatídica manhã fomos convocados para prestigiar a inauguração da Av. Leste Oeste, onde haveria desfile de estudantes e de militares na presença de várias autoridades.

O Liceu era muito respeitado naquela época e compareceu com um grande número de alunos usando fardas de gala confeccionadas especialmente para o desfile de 7 de Setembro.

A cerimônia seguia seu curso normal tendo o palanque das autoridades sido montado ao lado do muro da Marinha.

Creio que se aproximava das 12 horas e o Liceu já havia desfilado, tendo os alunos se dispersados para acompanharem o final da solenidade.

Os caças faziam vôos rasantes e subiam quase na vertical.

Numa dessas subidas um dos caças começou a expelir uma fumaça negra e lá no alto perdeu o controle.

Por alguns instantes girou no ar como uma folha sêca para em seguida embicar no rumo do solo e cair inapelavelmente.

O piloto não teve tempo nem de tentar cair no oceano, tamanho o descontrole da aeronave.

A primeira impressão que tive é que o avião havia caído há poucos metros de onde se encontrava a multidão e corri na direção da coluna de fumaça, que subia do local do sinistro.

Ledo engano.

Corri por vários quarteirões driblando matos e areia fôfa seguindo a multidão de curiosos que teve a mesma idéia que eu.

Lembro de ter contornado o muro da Cibresme pelos fundos e entrado numa rua estreita.

O crepitar das chamas consumindo o avião e as casas já dava para escutar e de repente parei estupefato.

A cena que ví, ainda hoje, 39 anos depois continua nítida na minha memória.

Essa cena foi responsável por freiar minha curiosidade e a partir daquela visão procurei sair imediatamente daquele local de desolação em busca da Av. Francisco Sá, onde apanharia o ônibus para minha residência.

Naquele dia não almocei e passei uma semana sorumbático, tentando esquecer aquela cena.

Passados tantos anos, quando leio algo à respeito daquele acidente lembro com uma incrível riqueza de detalhes de tudo que ví.

A cena que nunca esquecí foi ver uma jovem, totalmente despida, deveria ter uns 12 anos considerando o tamanho dos pequenos seios, com a pele toda se soltando como se tivesse se descolando, sendo amparada por dois populares que a resgataram das chamas.

Do meu lado surgiu uma senhora com uma toalha de banho branca e a cobriu.

Em seguida alguém se ofereceu para levá-la ao hospital e ela embarcou numa camionete C-10.

Pela quantidade de pessoas que estava presente àquela solenidade, imagino que muita gente tenha recordações assim.

No fim das contas, percebi que encontrar alguém com quem se tem memórias compartilhadas acaba sendo um misto de terapia de grupo e reencontro com o próprio passado.


Mundo Cordel
TEOLOGIA MANSUETIANA: O BOM LADRÃO

Chamo Teologia Mansuetiana a interpretação dada à Bíblia por Mansueto Silva, autodidata em assuntos bíblicos e escritor que me deu a honra da co-autoria neste texto.

Deve haver mais gente no mundo que goste de receber em sua casa pessoas que tentam convencer os outros a entrar para a igreja deles. Mas eu só conheço um homem que realmente fica satisfeito quando essas pessoas aparecem: Seu Mansueto, meu pai.

E não é por que faltem a ele parceiros para uma boa prosa. Pelo contrário, sua casa é bem visitada por parentes e amigos. A questão é que ele realmente gosta de conversar sobre religião, seja com católicos, seja com protestantes, principalmente se o interlocutor demonstra conhecimento sobre a Bíblia, livro que ele lê todos os dias.

A coisa se torna ainda mais curiosa pelo fato de que até pouco tempo ele se considerava ateu. Hoje, por influência minha, já admite ser agnóstico.

– Eu acredito em uma força superior que criou tudo – diz ele. – Criou e depois deixou aí para que cada um se vire. O resto é conversa.

– Então o senhor é agnóstico, papai. Se fosse ateu não acreditaria nem nessa força superior que teria criado o mundo.

– Meu filho, se você está me dizendo que é assim, então eu sou… Como é o nome mesmo?

– Agnóstico.

– Pronto. Agnóstico. Quer dizer que, quem crê numa força que criou tudo, mas não acredita nesse deus que as religiões falam, é agnóstico?

– É.

– Então eu sou agnóstico. Taí. A partir de agora, quando me perguntarem qual a minha religião, eu vou dizer que sou agnóstico.

Isso não facilitou a vida dos missionários que por lá aparecem. As controvérsias podem surgir de várias passagens da Bíblia, deslocando-se do Livro do Gênesis para a crucifixação de Cristo numa fração de segundos, como presenciei certa vez.

– Mas, Seu Mansueto, como é que Deus pode ter deixado cada um “se virar”, como o senhor diz, se ele enviou o próprio filho para nos salvar? – estranhou o pregador.

– Você tá falando de Jesus?

– Claro. Jesus, nosso Salvador!

– Pois, se Jesus foi mesmo filho de Deus, taí uma prova de que o pai dele não tá preocupado com ninguém. Veja se tem cabimento. Deus manda o filho dele pra cá, para ensinar as pessoas a serem boas. Os “manda-chuvas” da época acham que aquelas pregações são uma coisa perigosa para eles. Mandam prender, espancar e matar Jesus. Aí, Deus vê o filho sofrer toda essa covardia e deixa o rapaz morrer inocente. Que pai é esse, meu amigo? Pois, se fosse um filho meu, primeiro, eu não botava ele numa boca quente dessas. Depois, mesmo sem eu ser Deus, se eu visse esse pessoal querendo matar covardemente meu filho, eu me lascava todinho, mas não aceitava uma coisa dessas. Pode ter certeza: prum cabra crucificar um filho meu, sem ele ter feito nada de errado, tem que acabar comigo primeiro. E, se eu tivesse o poder de fazer e desfazer, como você diz que Deus tem… Aí a “peia dobrava”, meu amigo! O “pau cantava” era sem pena!

– Mas, Seu Mansueto, tinha que ser como foi mesmo. Porque foi o sofrimento de Jesus que pagou os pecados dos homens. Por isso que basta aceitar Jesus como nosso Salvador para a gente se salvar também.

– Salvar, pra você, quer dizer ir pro céu? Ficar lá, com Jesus, os anjos… é isso?

– É.

– Então, eu não preciso me preocupar. Porque, se o céu existe, eu devo ir é pra lá mesmo. Depois que eu morrer, é claro.

– Então, o senhor já aceitou Jesus?

– Olhe, eu ainda não entendi bem o que é “aceitar Jesus”, mas eu acho que Deus, pra ser Deus, tem que ser justo.

– Isso é verdade. Deus é justo.

– Então, raciocine comigo. Pelo que tá escrito na Bíblia, quem foi uma pessoa que já morreu sabendo que ia pro céu?

– Como assim?

– Assim mesmo, como eu estou dizendo. Antes do camarada morrer, Jesus garantiu vaga pra ele no céu. Você sabe a história do ladrão que foi crucificado junto com Jesus? Um que chamam de “bom ladrão”?

– Sei.

– Então. Você lembra que Jesus, disse, ali mesmo, na cruz, que ele ia direto se encontrar com o pai dele? Se Jesus é Deus, como você diz, ele não ia mentir. Então aquele ladrão foi pro céu, que é onde dizem que Deus fica. Ora, se Jesus garantiu lugar no céu para um ladrão, então, eu, que nunca roubei, mereço ir pro céu também. Aliás, eu mereço até mais do que o tal do bom ladrão. Pra lhe ser bem sincero, até hoje eu não sei por que dizem que ele era bom. Pra mim, não existe ladrão bom.

– Seu Mansueto, é porque, quando estava na cruz, ele se arrependeu! Arrependeu-se de verdade, com sinceridade. Deus sabe se o arrependimento é sincero…

– Ah, mas aí é uma beleza! O cidadão faz as estrepolias que bem entende, e depois, quando está à beira da morte, crucificado, se arrepende! Pois pra mim, arrependimento só tem valor antes do erro ser descoberto. Arrependimento, depois de condenado? Pra mim não serve. E tem mais: se quem errou e se arrependeu merece ir pro céu, quem nem chegou a errar merece muito mais. Por isso é que eu digo que, se houver céu, Deus pode até não me deixar entrar, mas ele vai saber a injustiça que está cometendo.

– Mas, Seu Mansueto, são os mistérios de Deus…

– Rapaz, não venha com essa história de mistério, não… Você não é o missionário? Então o seu serviço é me explicar as coisas que eu não entendo, pra eu me convencer a entrar pra sua religião…

– Eu sei, Seu Mansueto, mas veja bem…

E a conversa prossegue em divergências sem fim, até o missionário se cansar e ir embora, geralmente com a promessa de voltar outro dia, acompanhado de outro mais experiente.

Até hoje, todos os que vi entregues a esse mister esbarraram nos argumentos de um homem de raciocínio extremamente lógico, que, apesar de agnóstico, conhece os textos bíblicos como poucos.

Há outra coisa que é justo reconhecer: Seu Mansueto é absolutamente autêntico no que diz. Defende os pontos de vista de sua teologia com uma honestidade intelectual que deixa transparecer facilmente o respeito que tem por essas questões.


Mundo Cordel
UM LUGAR ESTRANHO EM UMA NOITE ESTRANHA

Valdomiro acordou no meio da noite com a boca amargando e uma incômoda vontade de urinar. Abriu os olhos, mas não enxergou nada. O lugar estava um breu. Sentia apenas que estava deitado em uma cama e que a cama parecia estar girando.

A cabeça doía, latejava. Artérias pulsavam de cada um dos lados da fronte, como se ameaçassem estourar. Valdomiro ficou parado por alguns segundos, esperando que os olhos se acostumassem à escuridão, embora mal conseguisse mantê-los abertos, por causa da dor de cabeça.

Precisava reagir. A primeira coisa a fazer era levantar e encontrar um vaso sanitário. A vontade de urinar incomodava cada vez mais. Ainda deitado, começou a se mover e percebeu que não estava usando seu costumeiro pijama, mas calça jeans e uma camisa de mangas compridas. “Como assim?”, pensou. “Será que bebi tanto que adormeci sem trocar a roupa?”.

Sim, havia adormecido sem trocar de roupa. E tinha mesmo bebido. Agora começava a lembrar. Saíra do trabalho com o Flávio e o Gerson para tomar uns uísques no Skina Bar. Três amigas do Gerson apareceram por lá. Preferiram beber vinho. Valdomiro exibiu seus conhecimentos enológicos, que não eram lá grande coisa, mas suficientes para uma das moças ficar interessada na conversa. Valdomiro lembrou de ter bebido vinho com ela. Bonitinha a moça.

Mas as lembranças de Valdomiro foram rapidamente interrompidas. A vontade de urinar reclamava a sua atenção. Retomando sua intenção de procurar um banheiro, conseguiu sentar na beirada da cama. Já enxergava alguma coisa, mas, do pouco que via, nada reconhecia. E tudo continuava a se mover, como se ele estivesse dentro de um barco, em uma noite de tempestade. Um lugar estranho em uma noite estranha. “Como vim parar aqui?” – pensava.

Enquanto se preparava para ficar de pé, mais imagens vinham-lhe à mente. Na saída do bar, carros estacionados na rua, muitos. O de Valdomiro não estava lá. “Claro! Eu estava de carona com o Gerson!”. Mas, teria voltado com ele? Não lembrava, embora fosse o mais provável… A não ser que tivesse passado para o carro daquela amiga do Gerson… Como era mesmo o nome dela…?

Esses pensamentos passavam pela cabeça de Valdomiro em uma velocidade espantosa, enquanto ele, ainda sentado na beirada da cama, tentava firmar os pés no chão. As pernas tremiam, os braços também. Ao primeiro esforço para se erguer, a cabeça deu um giro tão rápido que o obrigou a permanecer sentado. Sentiu vontade de vomitar. Manteve o controle.

“Se foi mesmo ela quem me trouxe para cá, deve ter ficado decepcionada. Não tirei nem a roupa! Não deve ter acontecido nada aqui…”. Pensou nisso e voltou imediatamente o olhar para o outro lado da cama. Os olhos já habituados à falta de luz o permitiram vislumbrar a silhueta da mulher deitada, envolta no lençol, de costas para ele.

Valdomiro agora tinha certeza da comédia de mau gosto que protagonizara. Preparou-se para mais uma tentativa de se erguer e sentiu algo incomodando no bolso da calça. Era o telefone celular. Pegou o aparelho e olhou as horas. Três e vinte e sete da madrugada. “Meu Deus! Se a Marilda ligar agora, eu vou dizer o quê?”.

Sim, havia Marilda, a mulher de Valdomiro. Ela não se incomodava muito que ele saísse de vez em quando com os amigos e bebesse um pouco, mas ficar até tão tarde na rua era algo que ainda não havia acontecido nos seus quase seis anos de convivência. Valdomiro tentou imaginar o que poderia acontecer, mas a cabeça, latejando de dor, não permitia raciocínios complexos. O que ele sabia mesmo é que tinha que sair dali e que, antes, precisava de um banheiro. Já não estava mais suportando a vontade de urinar.

Teve uma ideia. Acendeu o painel do celular, pensando em usá-lo para iluminar o ambiente. Finalmente de pé, não resistiu à tentação de apontar sua lanterna improvisada para aquela mulher com quem acabara de compartilhar a cama, mas de quem sequer lembrava o nome.

A luz deve tê-la incomodado, porque ela virou-se em direção a Valdomiro e, protegendo os olhos com a palma da mão esquerda, perguntou mal-humorada:

– Que porra é essa Miro? Ainda tá bêbado?

Era a Marilda. Valdomiro até hoje não sabe dizer se levou um susto ou se sentiu um alívio ao reconhecer a esposa. Talvez os dois. O certo é que, um segundo depois, reconheceu também o abajur que ela acabava de acender, a cama, o quadro na parede…

Valdomiro agora tinha ciência de todas coisas ao seu redor. Sem pronunciar uma palavra, cambaleou em direção ao banheiro. As mãos tentando abrir o zíper da calça. Não conseguiu. Dominado por movimentos antiperistálticos, ajoelhou-se diante do vaso sanitário e sentiu como se as vísceras lhe quisessem escapar pela boca. Enquanto vomitava, a urina lhe descia pelas coxas e formava uma poça junto aos joelhos.

Debilitado, mas confortado por saber que estava na segurança de seu apartamento, Valdomiro agora se preocupava apenas com a reação de Marilda quando o dia amanhecesse. Mas foi ela mesma quem pôs fim a suas preocupações, ao dizer em tom compassivo tudo o que ele precisava ouvir:

– Porra, Miro. Que cachaça foi essa? Nunca te vi assim. O Flávio e o Gerson te trouxeram praticamente carregado nos braços. Veja se você consegue tomar um banho frio, que enquanto isso eu vou preparar um caldo com um resto de carne moída que tem na geladeira.


Mundo Cordel
O INCÊNDIO

Uma noite de festa e alegria
Transformada em dor e aflição,
Tantos corpos caídos pelo chão
Tantas vidas ceifadas num só dia.
A tragédia foi em Santa Maria
Onde uma boate incendiou,
Mas foi todo o Brasil que se abalou.
E jamais poderão ser esquecidas
Essas mais duzentas jovens vidas
Que o fogo inclemente apagou.


Mundo Cordel
NEURÓTICO?

– Acho que você está ficando meio neurótico.

Foi o que minha mulher disse enquanto eu empurrava as nossas malas para dentro do elevador. Não havia qualquer agressividade em sua voz. Ao contrário, até percebi que ela teve certo cuidado ao falar, como se tentasse evitar que eu tomasse aquilo como uma ofensa. Foi exatamente isso que me deixou preocupado.

Estivéssemos em meio a uma discussão, tudo bem. Diz-se muitas coisas nessas horas, às vezes sem pensar, às vezes de caso pensado, só para atingir o outro. Mas, daquela forma, e naquele momento, quando nos encaminhávamos ao aeroporto para uma viagem de férias?… Ela estava realmente me achando um tanto neurótico. E, se falou “meio”, é porque pensou “muito”.

Não respondi. Apenas apertei o botão que faria o elevador descer ao térreo do nosso prédio, onde o táxi aguardava para nos levar ao aeroporto.

Enquanto descíamos, olhei mais uma vez o relógio. Faltavam quatro horas para o voo. Teria sido esse o motivo para ela dizer que sou neurótico? Porque gosto de sair cedo de casa quando vamos viajar? “Calma” – pensei – “ela não disse que sou neurótico, disse que estou ficando neurótico. E não há nada de errado em sair de casa para o aeroporto com quatro horas de antecedência”.

Certo, o voo era nacional e eu havia feito o check-in pela Internet dois dias antes, mas é preciso despachar as malas, passar a bagagem de mão pelo raio X, nunca se sabe o quanto isso vai demorar. E tem o problema do trânsito até o aeroporto. Quem sabe os obstáculos que surgirão no caminho?

Não, não deve ter sido isso. É mais provável que ela tenha achado que exagerei no conteúdo da mala. De fato, minha mala estava meio grande. Não que eu leve muita roupa nessas ocasiões, mas tem umas coisas que gente não pode prescindir. Por exemplo, tripé para máquina fotográfica. Se viajamos só nós dois, é chato ficar pedindo a pessoas desconhecidas para nos fotografar. Melhor usar uma máquina automática em um tripé.

E tem outras coisas como lanterna, pilhas, fita adesiva, tesoura, canivete, GPS, barbante, luvas, adaptadores de tomadas e extensão para o fio da tomada, de preferência daquelas que transformam uma tomada em três. Objetos úteis, que talvez a gente não precise, mas é bom saber que eles estão ali, à disposição.

Uma coisa posso garantir: minha mala não estava fora do limite de peso. Pesei tudo com muito cuidado. E mais de uma vez. É, acho que pesei minha mala umas três vezes, talvez quatro. Aliás, outra coisa que eu sempre levo em viagens de férias é uma balança, porque os souvenirs sempre deixam a mala mais pesada na volta e não gosto de pagar excesso.

A vida é assim mesmo. A gente vai ficando mais velho, mais experiente, e passa a ter alguns cuidados. Por exemplo: desde que derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, nunca mais saí de casa sem uma garrafa d’água e umas barrinhas de cereal na mochila. Uma medida simples dessas pode ser a diferença entre sair vivo ou morto do desabamento de um prédio.

Lembrei disso já dentro do táxi e cheguei a pensar se não é pelo fato de eu ser um pouco prevenido que minha mulher possa achar que estou ficando neurótico.

Mas, logo reconsiderei. Não é para tanto. Resolvi não pensar mais nisso e aproveitar as férias. “Se um dia ela tocar novamente no assunto, voltarei a me preocupar. Agora não” – disse eu, em pensamento, para mim mesmo.

Acho que foi uma decisão acertada. Durante todo o restante das férias ela não falou mais de neurose. A viagem foi ótima. Diversão, descanso, uma verdadeira recarga das energias.

Só não aproveitei melhor as férias porque passei a viagem inteira com a impressão de haver esquecido de trancar a porta do apartamento. Na verdade, tive essa impressão antes de entrar no táxi para ir ao aeroporto. Voltei para verificar e estava tudo em ordem. O problema foi que, no dia seguinte, já no hotel, acordei com a nítida sensação de que, ao verificar a porta, havia me atrapalhado e aberto o que já estava trancado. Só me tranquilizei depois que voltamos para casa e vi que havia sido apenas impressão minha.

Mas, agora, isso já não importa. Depois dessas férias, sinto que estou pronto para mais um ano de trabalho. Com a vida estressante que se tem hoje, se a gente não faz um recesso desses de vez em quando, aí sim, acaba mesmo ficando neurótico. Deus me livre!


Mundo Cordel
O TRÂNSITO, OS TÁXIS E AS PELÍCULAS

Foto: Blog do Xexeo

Tenho andado mais de táxi nos últimos meses.

Convenhamos, está cada vez mais cansativo e arriscado dirigir nas grandes cidades brasileiras. São carros demais para ruas de menos, todo mundo se espremendo, tentando ganhar um metro ou um segundo. Motocicletas a toda hora desrespeitam os sinais vermelhos ou andam na contramão. Uma verdadeira corrida maluca, na qual há muito mais Dicks Vigaristas que Peters Perfeitos (quem tiver menos de quarenta anos talvez não saiba do que estou falando, mas uma pesquisa no Google resolverá isto).

O leitor poderá perguntar: “Mas, dentro do táxi, você não continua no mesmo trânsito caótico?”.

É verdade, mas, sentado no banco do passageiro, não estou dirigindo. Logo, posso ler, telefonar, ver alguma bobagem na Internet. Ou, simplesmente, contemplar a confusão ao meu redor, sem o risco de acertar a traseira do carro à minha frente.

E se o táxi no qual viajo se envolver em algum acidente leve, sem feridos, posso simplesmente tomar outro ou ir embora a pé, ao invés de perder o resto do dia tendo aborrecimentos com o Juizado Móvel e a seguradora.

Aliás, se o trânsito ficar totalmente parado, seguir a pé também pode ser uma boa opção, dependendo, é claro, do quanto falte para chegar ao destino. Não dá para pensar nisso quando estamos em nosso próprio carro, a não ser que estejamos dispostos a bancar o Michael Douglas em “Um dia de fúria”.

Também tenho levado em conta a necessidade de se estacionar. Nem sempre há um estacionamento perto do lugar para onde você vai. Se houver, é comum que esteja lotado. Desconsidero aqui a possibilidade de estacionar na rua, porque, além de inseguro, achar uma vaga está cada vez mais difícil. E o cidadão ainda fica sujeito a pagar algum valor à prefeitura, ao “flanelinha” ou aos dois. Refiro-me, portanto, aos estacionamentos privados, onde o preço pago pelo espaço ocupado aumenta a cada “hora ou fração”.

Finalmente, tem a questão da Lei Seca. Desde que entrou em vigor, tenho defendido que a tolerância deveria ser zero, e me comporto como se assim fosse. Respeito as opiniões em contrário, mas o leitor há de convir que, além de aumentar o risco de acidentes, quem bebe e dirige sabe que poderá ser multado, preso e exposto publicamente como um bêbado irresponsável, ainda que não o seja… Pra que se expor a tal risco? Prefiro fazer como Angélica nos anos oitenta.

Só uma coisa tem me incomodado nessa opção pelo táxi. São as películas escuras que têm sido instaladas em boa parte deles, impedindo o freguês de ver se há alguém lá dentro.

Reconheço que o vidro escuro protege dos raios solares, melhora o desempenho do ar-condicionado e até dá um pouco mais de privacidade para quem já está dentro do carro. Mas, se estou cá do lado de fora e pretendo embarcar, como é que eu vou saber se outra pessoa não está ocupando o espaço do passageiro? Sinto-me um idiota acenando na rua para um táxi ocupado, que obviamente não atenderá ao meu aceno.

Parece que não sou o único incomodado, porque no primeiro dia do ano li a notícia de que as tais películas serão proibidas no Rio Janeiro. Acho que nem precisava tanto. Bastava o pessoal usar uma peliculazinha mais clara e eu me daria por satisfeito. Será que seria pedir muito?

P.S.: Depois que estava com o texto pronto, procurei uma imagem na Internet, e achei a que está aí em cima no Blog do Xexeo, em uma postagem que trata exatamente do mesmo assunto. Achei justo fazer a referência e indicar o link da postagem do Xexeo.


Mundo Cordel
DE VOLTA A FORTALEZA

O ano de 2013 começa para mim com uma mudança muito especial: voltar a trabalhar em Fortaleza.

Estive fora desde março de 2005, quando ainda era juiz federal substituto e aceitei a missão de implantar a Justiça Federal em Juazeiro do Norte. Ali mesmo seria promovido a titular, tornando-me, assim, o primeiro juiz federal do Cariri Cearense.

Os mais de quinhentos quilômetros entre Juazeiro do Norte e Fortaleza fizeram com que eu permanecesse pouco tempo na Terra do Meu Padim. Seis meses depois de instalar ali a 16ª Vara Federal do Ceará, pedi remoção para Mossoró, que, apesar de ficar no Rio Grande do Norte, está a menos de duzentos e cinquenta quilômetros de Fortaleza.

Foram mais de três anos em Mossoró. O surgimento de uma vaga em Sobral me possibilitou voltar ao Ceará e continuar a duzentos e poucos quilômetros de Fortaleza. De Sobral, onde permaneci quase dois anos, segui para Quixadá. A distância até Fortaleza caíra então para 160 quilômetros. Mais dois anos e meio se passaram e agora estou de volta.

Neste dia 07.01.2012, olho para trás e vejo o quanto foi rica a experiência desses quase oito anos em que atuei fora da capital, ajudando a fazer o que se chamou de interiorização da Justiça Federal.

No interior, é possível ver tudo mais de perto. As instituições, as autoridades, as consequências das decisões judiciais. É possível conhecer os advogados pelo nome e perceber o estilo de cada um atuar. Também é possível se fazer mais próximo das pessoas que vão ao fórum em busca de Justiça.

Fui bem acolhido nos lugares por onde passei. Trago na bagagem títulos de cidadania de Mossoró e Quixadá. Dei palestras em faculdades, participei de programas de rádio e televisão, ora divulgando as atividades da Justiça Federal, ora falando simplesmente de livros e de cordéis. Fiz amigos, dentre eles muitos poetas, cantadores e apreciadores da cultura popular. Ajudei até a fundar a Academia Quixadaense de Letras.

Das situações vividas no dia-a-dia, foram inúmeras as que serviram de inspiração para meus contos, crônicas e cordéis. Algumas histórias já foram contadas, outras o serão oportunamente. Outras ainda permanecerão apenas na minha memória, como recordações de um período importante da minha vida.

Mas, hoje, não quero pensar nessas histórias. Quero apenas desfrutar o prazer de terminar um dia de expediente no fórum e voltar para minha casa, meu lar. Receber o abraço da minha mulher, beijá-la, jantar com a família.

É, sem dúvida, o começo de uma nova fase. Que Deus me dê engenho e arte para aproveitar o que ela tem de melhor.

Sem perder, é claro, o estímulo para continuar escrevendo e compartilhando os meus escritos. Afinal, uma das coisas boas dessa fase que se encerra em minha vida, foi ter tornado minha atividade literária regular e constante. Não pretendo abrir mão disso.

Quero continuar a escrever, pelo imenso prazer que tenho ao criar um novo texto; por atenção àqueles que me atrevo a chamar de “meus leitores”, e me cobram quando demoro a atualizar a coluna; e, sobretudo, pelos inúmeros personagens de histórias ainda não escritas, ou escritas pela metade, que me atormentam o sono, exigindo que eu as conclua e publique.

Então, vamos lá. Feliz por voltar a trabalhar em Fortaleza, seja como juiz federal, seja como escritor, só tenho a dizer: MÃOS À OBRA!


Mundo Cordel
FIM DE ANO, COMEÇO DE ANO

Eis que se aproxima mais um fim de ano e, consequentemente, o começo de um novo. Não há solução de continuidade. O “ano velho” se vai no exato instante em que o “ano novo” chega.

Claro que estamos diante de uma convenção. Escrevi certa vez que “o homem tenta medir/ o tempo que há no mundo,/ em anos, meses e dias,/ horas, minutos, segundos”. Nessa busca de medir o tempo…

Inventamos o relógio
e também o calendário.
Dividimos nossa vida
de um jeito arbitrário.
E, em frações de existência,
vivemos sob a regência
desse ser imaginário.

Continuo convicto disso. Um ano, um mês, um dia são apenas medidas de tempo. O suceder dos acontecimentos é constante, não importando se são 23:59 do dia 31 de dezembro ou 00:00 do dia primeiro de janeiro.

“Mas, a gente pára de trabalhar na tarde do dia 31, e só volta na manhã do dia dois!”, dirão alguns, cobertos de razão. A questão é que o horário de trabalho e os feriados também são convenções. Como o são igualmente as relações de poder – do patrão sobre o empregado, do Estado sobre o indivíduo, etc – e até o valor que atribuímos ao dinheiro.

Por mais que essas convenções estejam entranhadas em nossa mente, não é difícil perceber o quanto elas são diferentes das batidas de um coração, do movimento dos astros e do fluir das águas de um rio. Ou mesmo de uma paixão, capaz de sobreviver ao tempo e à distância, e de fazer do reencontro entre duas pessoas um momento de abraços, beijos, lágrimas e sorrisos.

Mas, hoje não quero aprofundar questões de filosofia ou paixão. Afinal, apesar de perceber a natureza convencional do tempo, reconheço que os últimos dias de um ano são sempre um bom momento para se refletir sobre o que aconteceu nele e o que pode vir a acontecer no próximo.

Penso que verificar se objetivos foram alcançados e fixar novas metas seja uma prática útil e saudável. Particularmente, tenho o hábito de fazer por escrito o meu planejamento anual. Ponho no papel desde metas ousadas, como “publicar um novo livro”, a outras aparentemente simples, como “não me irritar no trânsito mais que uma vez por mês”.

Digo “aparentemente simples” porque, após vários anos fixando por escrito minhas metas, tenho observado que as supostamente simples são exatamente as mais difíceis de serem alcançadas. Nos últimos sete anos, publiquei mais de um livro por ano, mas continuo me irritando no trânsito quase todo dia.

Pelo que observo dos avanços tecnológicos deste século e do caos que vejo nas ruas da minha cidade, concluo que não sou o único com esse problema. Em geral, as nossas maiores dificuldades estão nas coisas do dia-a-dia. Conseguimos realizar grandes projetos, mas tropeçamos nos pequenos obstáculos da convivência com o outro.

Se me fosse dado interferir no planejamento das outras pessoas, seria essa a meta que eu incluiria para todos: “Respeitar a vida e a dignidade das outras pessoas”. Como não posso, limito-me a fazer a anotação em meu próprio planejamento, embora ciente de que meu egoísmo continuará reivindicando seu espaço.

Creio que posso encerrar por aqui minhas reflexões de fim de ano, desejando a cada um dos leitores que suas metas pequenas e grandes para o próximo ano sejam alcançadas. E que o alcançar dessas metas conduza a uma vida mais feliz em um mundo melhor.


Mundo Cordel
PAZ E MÚSICA. PALAVRAS E MÚSICAS.

Balansoul

Em um dos primeiros dias de setembro de 2012, recebi um pedido que logo viria a reconhecer como sendo um dos meus maiores desafios na atividade de buscar a comunicação por meio da palavra escrita. Estava estacionando o carro, quando o celular tocou. Vi o nome que aparecia no monitor e atendi:

– Fala, meu mestre!

– Poeta, eu tô precisando de você.

– Se estiver ao meu alcance, amigo, bote OK aí na sua agenda. O que é?

– Eu acabei de gravar o meu CD e queria que você escrevesse alguma coisa pra botar no encarte.

Meu interlocutor era o músico Wanderley Freitas, capaz de tirar sons do baixo elétrico que a gente só acredita vendo, porque ouvindo parece efeito especial. Sei que faz milagres também com o baixo acústico, mas ainda não o vi tocando um. Chamo-o de “meu mestre” em referência às aulas de contrabaixo que me deu em 2009. Na época, ele já comentava que vinha compondo melodias para um disco autoral.

– Mas, eu escreveria o quê? – perguntei.

– Aí é com você. Sabe como é, né? CD de música instrumental não tem as letras das músicas. Eu pensei: podia ter algum texto que passasse um pouco do sentimento das minhas composições. Só que, para fazer isso, seria bom um poeta. Foi aí que lembrei de você!

Estava posto o desafio. Não sei se o leitor já pensou nisso, mas, a escrita pode ser vista como uma forma de representar a linguagem falada por meio de sinais gráficos. Sendo assim, uma das dificuldades de quem se expressa por escrito é compensar a perda do gestual, das expressões faciais, das entonações de voz de uma conversa. Além de outras sutilezas, às vezes conscientemente imperceptíveis. Naquele dia, a proposta que recebi incluía uma dificuldade a mais: as ideias e sentimentos que eu deveria expressar, através das palavras escritas, deveriam ser colhidas de outra forma de linguagem, sobre a qual tenho pouco domínio: a música instrumental.

Conversamos um pouco mais e ficou acertado que Wanderley me mandaria os MP3 com as músicas por e-mail. Eu ouviria cada uma delas e, até o final da semana, escreveria o texto. Não um texto analítico, falando da técnica ou do estilo da obra, mas, uma manifestação de sentimentos que aflorassem durante a audição do CD. Afinal, sou um poeta, não um crítico musical.

E foi o que fiz. Baixei as músicas, pus em um pendrive e conectei no som do carro. Durante aquela semana, para onde eu fosse, as músicas do Wanderley me acompanhariam.

As primeiras audições foram assim, sem compromisso, em meio a engarrafamentos ou na solidão da estrada que liga Fortaleza a Quixadá. Fui me familiarizando com as melodias, assimilando as variações, percebendo os instrumentos que faziam parte de cada uma das faixas. Tentando não pensar no que escreveria inspirado por elas.

Isto me trouxe o primeiro valioso momento dessa história. Logo na primeira música, meu carro encheu-se de sons de saxofone, piano, flauta, trombone… O contrabaixo marcante, como seria de se esperar do disco de um músico cujo instrumento preferido é o das notas graves. De repente, chamou-me a atenção um som de cavaquinho entre os metais…

– Tem um cavaquinho em Balansoul? – perguntaria eu, mais tarde, por telefone. (Se o leitor clicou no play, lá em cima, deverá estar ouvindo Balansoul neste momento, e talvez escute também o cavaquinho).

– Tem sim. E um banjo também – responderia ele.

Só consegui ouvir o banjo depois de escutar o disco em casa, concentrado, sem os barulhos do trânsito ao meu redor. Os fones de ouvido ajudaram. Foi esse, aliás, o segundo valioso momento dessa experiência. Fechar os olhos e ficar ouvindo, não mais de forma descomprometida, como fiz quando estava no carro, mas totalmente envolvido pela música. Às vezes, seguindo um único instrumento praticamente durante toda uma execução. Outras vezes, saltando de um som para outro, conforme a melodia avançava.

Então foi possível sentir o bom humor de Mister Bamba, a melancolia de Noite Cinza, a serenidade de Paz e Música. Em Clara, os harmônicos do baixo lembraram-me uma caixinha de música. Mais tarde, em outro telefonema, Wanderley me diria que a compusera para a filha recém-nascida, enquanto ela dormia.

Depois disso, escrever sobre as sensações durante a audição foi fácil. Pelas duas da madrugada, o texto estava pronto. Acho que o resultado ficou bom. Não cometeria a indelicadeza de revelar aqui o seu conteúdo, antes de o CD ser lançado, mas a frase com a qual o iniciei continua soando em minha mente: “Para quem se habituou à comunicação por meio das palavras parece mágica a expressão de sentimentos em frases musicais”.

Isso realmente me chamou a atenção. Nesses tempos de tantas canções com letras que nada dizem, as melodias de Wanderley Freitas, sem letra alguma, disseram-me muita coisa. A que dá nome ao disco tem como título exatamente o que ela é: Paz e Música.

 

Baixo a Lenha, ao vivo, com o baixista botando abaixo o mito de que um baixo sozinho não basta. Para ouvir as músicas citadas no texto, clique aqui.


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