DE ÍNDIOS EXTERMINADOS

Um pouco de história

Antes do bicho homem branco se apaixonar por essas plagas, nossos antepassados dominavam os Sertões e eram indígenas.

Em nosso querido Seridó se movimentavam entre a caatinga, sobre esse solo pedregoso, os índios Cariris.

Índios que os historiadores descrevem como homens altos, fortes, adestrados para a peleja, ferozes no combate e de traços delgados. Tenho a satisfação, também, de trazer no sangue da minha prole a genética desse povo, herança pelo lado da minha mãe. Os Cariris eram conhecidos como Janduís aqui no Rio Grande do Norte.

Os novos habitantes, colonizadores portugueses, não traziam o conceito da fraternidade e, embriagados pelo orgulho das conquistas e das riquezas adquiridas, demonstravam apenas desprezo pelo nativo com ações de tirania escravizadora. Os índios Janduís, povo inteligente, percebendo tal coisa e não aceitando o jugo da escravidão, homens acostumados que eram à liberdade, começaram a desencadear sérias rixas com os fazendeiros. Em 1685 já era grave a revolta e, dois anos depois, em 1687 alastrou-se de vez o levante das tribos que desencadearam em ações violentas e rápidas nas ribeiras do Assu, Mossoró e Apodi.

Foi no vale denominado como sendo d’Acauã que no ano de 1688 travou-se a destruidora batalha em que tomaram parte cerca de dois mil Janduís (Cariris), contra uns quatrocentos soldados das tropas do Terço Paulista, todos homens de armas treinados pelo experimentado cabo de guerra Domingos Jorge Velho e ajuntadas às margens do São Francisco, prontos para as tocaias ao grande Zumbi e seu movimento, vindos sobre determinação para a guerra contra os índios.

Domingos pouco tempo passou no Rio Grande do Norte, pois foi enviado novamente ao combate do quilombo dos Palmares. Para substituí-lo, chegou com toda probabilidade Matias Cardoso de Almeida, quem de fato comandou os homens aqui em nosso estado.

Esse encontro do Terço Paulista com nossos antepassados, foi dos mais sanguinários da rebelião geral dos nativos. Muitos historiadores chamam de Confederação dos Cariris e outros de Guerra dos Bárbaros. Eu mesmo prefiro o segundo termo.

A Guerra dos Bárbaros durou dez anos, de 1687 a 1697. Já em sua fase final as hostes do Terço Paulista receberam mais reforços de soldados vindos da então bem sucedida ação contra o Quilombo dos Palmares em 1693.

Da guerra não escapou muita gente para contar a história. Mas que escapou, escapou! Prova disso é o cabra Jesus de Ritinha de Miúdo, todo ancho e recontando essa história tão fantástica quanto triste, ouvida tantas vezes nas rodas pelas calçadas e lida mais de uma vez nos livros de Cascudo, de onde, aliás, tirei as descrições dos janduís.

Histórias de índias capturadas a casco de cavalo – e domesticadas com paciência – depois daquela sanguinária empresa, nós temos algumas. De uma dessas sobreviventes descende parte da família Costa, gente de Caicó, conforme me contou pessoalmente o genealogista Sinval Costa, hoje o maior conhecedor das raízes e dos galhos familiares ora ocupando esses sertões de inúmeras barbáries.

BODEGA DE GABRIEL

Há dias, como hoje, que amanheço cheio de saudades. De qualquer coisa, ou de alguém. Já clamei até a Deus para esse meu saudosismo intemperado seja diminuído, pois quando estou neste estado plangente, sofro um pouquinho e de certa forma.

É que me dá uma vontade irreprimível de me encontrar com aquilo, e como quase sempre o objeto da minha saudade já se foi há tempos, isso é praticamente impossível. Essas lembranças não me chegam do nada. Vêm por uma figura que vi, uma frase que ouvi, ou até pelo cheiro de repente se apossando das minhas narinas, causando revolução lá dentro da minha cabeça. Mas hoje foi diferente. Minha saudade veio de um sonho, do qual acabo de acordar.

Difícil não dizer que ao perceber a realidade, os olhos se encheram de lágrimas e corri para o computador para atropelar alguns planos, escrever e gravar o que sonhei, logo depois de lavar o meu rosto e a minha molecada nem notar o pai chorando.

E o meu sonho se resumia num espaço e numa pessoa que, no sonho, sequer falou comigo. O espaço de dois compartimentos e quatro portas, onde três ficavam sempre abertas, duas dando para o Sul, outras duas para o Oeste, altas e azuladas, presas à parede amarela sem escrita alguma que pudesse lhe identificar, por dobradiças antigas de ferro e com ferrolhos enormes ainda lhes reforçavam na segurança, com traves de madeira, quando fechadas, postas por dentro do prédio de esquina cuja frente dava para a avenida estreita e a lateral direita para um beco lá no centro.

Os móveis quase todos azulados, eram poucos: Um balcão em ‘L’, duas prateleiras se encontrando num dos cantos da parede, duas cadeiras de pau, um birô e uma geladeira branca. Sobre o balcão várias coisas além da balança vermelha Filizolla bem aferida, de um prato só, inox e sempre muito asseado.

A lata pintada de azul era o utensílio das broas pretas temperadas ao cravo.

Uma vitrine em madeira envernizada, dividida internamente no meio em dois espaços, era o lugar onde repousavam os pães. Dois maços de papéis, cortados cuidadosamente bem iguais, ou que fossem páginas arrancadas inteiras de uma velha revista, tinham sobre si dois pedaços de madeira nobre, velhos e alisados pelo tempo, servindo-lhes de peso contra o vento; o queijo cuidadosamente coberto por um pano de prato branquinho, na bandeja de alumínio bem areado, assentava-se gordo e pronto para o consumo; e uma toalha de mão muito limpa, também dormia sobre o balcão.

Sob o mesmo móvel, a um canto, uma bacia cheia d’água servia para que fossem lavados os copos utilizados nas ‘chamadas’ de cachaças servidas, e também descansavam guardadas as quinquilharias, daquelas vendidas sem se expor, como as tiras de sandálias só encontradas ali, onde poderíamos comprar sem o chinelo, por exemplo, em unidade. A faca de dividir sabão, enferrujada e cheia de anos, como quem se envergonha da idade que já tem, se deixava ficar imperceptível sob o balcão, ao lado do rolo de fumo que também ela cortava; vizinha dos venenos escondidos.

Na parede da entrada pelo Sul, as bobinas de cordas de agave estavam penduradas, associando-se com cebolas e alhos num cordão de plástico, na primeira atenção de quem entrava, se essa não fosse logo absorvida pelo cartaz com o rosto de criança numa propaganda qualquer, anunciando um novo produto; ou pelo calendário do ano, com a figura do Frei Damião, pregado com brochas finas e reforçadas nas cabeças com pedaços pequenos de papel, na parede amarelada.

Suspendidos na prateleira, também pintada de azul, dividida por bem uns cinco andares, chapéus de palha, alpercatas e mortadelas, desligados cada um no seu cantinho.

Eu via copos de vidro, limpos e prontos para serem usados; aguardentes de diversas marcas e outros tipos de bebidas diferentes; margarinas agrupadas por marcas e cubagens, arranjadas de forma alinhadas, separadas dos óleos e das garrafas de manteigas que seguiam o mesmo teorema de arrumação. Os cigarros, que faziam essa separação, também postos em ordem com esmero, eram duas ou três marcas das mais baratas, vizinhos dos pacotes de fumo repicado e dos papelotes de aprontes para o boró.

Por outros cantos estojos de barbear e caixinhas de gilete, com aquele senhor sério e bigodudo estampando as caixas, se avolumavam ao lado dos sabonetes, desodorantes e perfumes; cremes dentais, pilhas, velas, fósforos, lãs de aço; e o pote cheinho de cocadas, bem pertinho das bandejas de ovos, há poucos centímetros do macarrão, adjacente aos saquinhos de chá e temperos em folhas secas. Tudo nas duas marcas mais conhecidas do mercado.

Tinha também alguns alumínios, pendurados no teto; poucas cartelas de garfos, colheres e facas de um inox barato; copos plásticos de muitas cores, lâmpadas elétricas, pregos e anzóis; quitutes e sardinhas enlatadas; nylon fino, linha de costurar, agulhas, alfinetes e óleo para máquinas. Tinha vassouras de palha soltando pó, querosene enlatado, candeeiros de vidro e lampiões de lata…

Mais acima, na mesma prateleira, potes de confeitos, chicletes, pirulitos, pipocas e amendoins em bolinhas, andavam ao lado do pacote de ki-suco em três sabores, ante as bolachas e biscoitos. Na geladeira os refrigerantes, din-dins, goma fresca e as cervejas mais geladas da cidade, separados cada um no seu lugar.

No centro desse espaço, vários potes com mantimentos. Era feijão, açúcar, farinha, milho seco, arroz e até cimento era vendido ali, a granel. Cada pote trazia uma mercadoria, cada um com um copo de zinco bem cuidado, para encher o saco na pesagem.

Subindo os dois batentes que davam para o segundo compartimento, se descobria um outro mercado paralelo, no quarto também servindo de depósito, vagens de algarobas, garrafas secas, cabos sem vassouras e outras compras.

No meu sonho eu vi tudo e muito mais. Outras coisas não vi e só lembrei depois. Difícil não dizer que, ao perceber a realidade enquanto vou acabando de escrever essas memórias e junto sonhando novamente, os olhos se enchem de lágrimas, lembrando de Gabriel com seus olhos azuis, mesma cor dos móveis de sua bodega, apenas sorrindo para mim, num sonho de ontem à noite, resumido num espaço e numa pessoa que, no sonho, sequer falou comigo.

GLOSAS

Mote:

Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

O rangido na abertura da porteira
O bezerro desmamado em seu mugido
O chocoalho num cabrito bem nutrido
São os sons da fazenda em meu terreiro
Chega o vento do poente tão ligeiro
Bem depois que no céu teve um clarão
Vem tangendo o belo som de um trovão
Anunciando o que Deus nos prometeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

Vejo um chifre adornando uma estaca
Uma cara de boi numa parede
Os remendos reforçando a velha rede
E um arreio enfeitado de pataca.
A ferrugem já comendo o aço da faca
Enfiada na cabeça de um mourão
Com o cabo já tão preto, um tição!
De um fogo que só o tempo acendeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

O vaqueiro na carreira ao seu gosto
Quebra galhos na caatinga acinzentada
Em cada espinho leva uma navalhada
Criando rios avermelhados em seu rosto.
Não desiste, entretanto, desse posto
Protegido pela mística do gibão
Faz do aboio sua linda oração
Pra agradecer pela rês que não perdeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

CORRER ACUADO

Essa semana me peguei divagando sobre o momento crítico no qual estamos vivendo, nós, a sociedade brasileira. E me vi fazendo uma analogia simples sobre o comportamento da nação.

O povo está correndo. Muito!

Mas está como correndo sobre uma esteira, e por mais veloz que possa correr nesse seu exercício, não tem saído do lugar.

A esteira por sua vez é composta, entre outras matérias abomináveis, pela borracha do cinismo. Cinismo dos políticos.

Cinismo de quem deveria trabalhar pelo povo, mas apenas se aproveita desse.

Voltando no tempo para quatro de junho de dois mil e cinco, também relembrei uma frase ouvida pessoalmente por mim naquela manhã, vinda do Deputado Arlindo Chinaglia em resposta ao Professor Luisinho (ambos do PT), quando o último falou que Roberto Jefferson não teria coragem de denunciar as manobras no congresso (as mesmas que receberiam um dia depois o nome de Mensalão). Chinaglia olhou fixo para Luizinho, sentado à minha direita, e explodiu:

“Aquele puto está acuado, Luizinho. Um cão acuado morde até o dono” (ipsis litteris).

A segunda parte da voz de Chinaglia martela em minha mente até hoje. De vez em quando a uso. “Um cão acuado morde até o dono”.

A Câmara em Brasília tem brincado com a paciência do povo. A prova disso foi a votação ocorrida ontem no Congresso na chamada Lei Anticorrupção. A prova disso foi a manobra (felizmente sem sucesso) usada por Renan ontem no Senado.

O povo está ficando acuado.

Correndo acuado e sem sair do lugar. Como se não pudesse se livrar da triste sina sendo imposta todos os dias. A de viver para ser usado de forma vil por quem foi eleito para lhe servir.

Não demorará muito e descerá da esteira. E descerá mordendo tudo. Tudo!

É assim que eu espero. O cabimento do cinismo e das falsidades dos políticos não cabe mais.

Está doendo sob os pés do povo.

RASTROS DE SERTÃO

Oswaldo Lamartine (*1919+2006), em seu livro “Em Alguns Alpendres d’Acauã – Conversa com Oswaldo Lamartine de Farias”, lembrou dos rastros do Sertão indo além do que vemos ou sentimos na pele, respondendo à pergunta da escritora – sua amiga – Natércia Campos. Ele defendia cada um tendo o seu Sertão particular.

De fato o Sertão é o que sentimos no coração. É um modo de vida. É possuir usos e costumes narrados por Dr. Paulo Balá (*1933) em suas preciosas missivas, carregando no lombo memória e de suas pesquisas um muito do nosso chão em cada frase, letra, ponto ou vírgula. Tudo isso posto na algibeira do altruísmo em repassar conhecimentos e nos urus de suas saudades transmitidas sob a pena lírica, quase sempre mais poesia que prosa.

É logo cedo se rasgar no espinho da caatinga, marcando-se com o ferro frio da natureza. É maravilhar-se com a lua surgindo por trás da serra, independente da idade que se tenha. É tomar a bênção antes de dormir e ao levantar, recebendo dos pais os melhores augúrios. É gritar “abença, padrinho” de longe, e ser abençoado no mesmo tom. É se alegrar no mugido da vaca com o bezerro nos peitos. É entender a risada da porteira velha, de tramela desgastada pelo tempo. É ouvir a sinfonia das rodas do carro-de-boi remoendo o eixo empoeirado. É extasiar-se na tristeza do aboio solitário de um vaqueiro, tangendo o gado e augurando chuva. É gostar do repente rimado e da viola afinada, ou parar ante uma embolada nas soalhas niqueladas de um pandeiro. É arrumar-se na vida com o pouco, equilibrando-se nas dificuldades, feito checho arrumado em cerca de pedra. É rir na cara da tristeza, do desalento, da poeira do ano seco… É calejar as mãos, os pés, enrugar o rosto e desbotar a íris olhando para o céu. É sorrir com o vento do poente assanhando o coração. É gostar de ver o relâmpago e ouvir o trovão. É ajoelhar-se para agradecer pela chuva. É namorar a precisão, noivar a vontade e casar-se com o confiança de dias melhores.

É trabalhar, é trabalhar, é trabalhar… e, por fim, trabalhar!

É ter a fé dos desvalidos e a esperança dos nunca vencidos, na certeza que o Sertão não se perde. Antes sempre se renova.

Porque afinal o Sertão é acima de tudo a saudade. De tudo aquilo que ficou para trás, sob a esperança de reencontrarmos um dia; quando voltarmos sobre aqueles nossos rastros que sequer o tempo consegue apagar.

GLOSA

Mote:

O Brasil está fudido
Empurraram um maranhão

Na surdina foi comido
Por ladrões sempre estuprado
Há anos sendo enrabado
O Brasil está fudido.
Quando se tira um bandido
Não acaba a felação
Pois, entra outro ladrão,
E o Brasil só se afunda
Tiraram o “Cunhão” da bunda
Empurraram um maranhão.

SEPARAÇÃO

Um grande amigo, há tempos tendo partido, e partido um coração com essa ida, conseguindo meu número me ligou dia desses.

Entre a emoção desse reencontro, mesmo tendo acontecido apenas via celular, as notícias foram sendo dadas de um para o outro, entre palavras atropeladas.

Felicidades por conquistas, de ambos; tristeza por algumas perdas, principalmente as humanas da família, de nós dois.

De repente ele pergunta “e ela?”, dando ao pronome aquele destaque com o qual só um coração receoso se dá ao uso ignorando a falta de coragem.
Respondi de supetão:

Desabafando a saudade
Às vezes soluça e chora
Lembrando do teu amor
De quando tu foste embora
De quando a abandonou
Do quanto que ela chorou
Quando tu lhe deste o fora.

Um silêncio entre nós dois depois desses versos meus…

Não sei se a ligação caiu, ou se ele desligou sem mais nada para chorar, e um tudo para arrepender-se.

Três dias depois foi ela quem me ligou. Elogiou a beleza da minha neta, relembrou quando sentávamos em turma – uns escorando outros – nos batentes da Rua da Matriz para jogarmos gargalhadas fora, com o tempo correndo por dentro, como se jamais fôssemos envelhecer e as conversas fossem sempre assuntos sem importância.

Relembramos carnavais, quando formávamos um grupo quase inseparável, fantasiados de eternos jovens, mascarados pela ilusão da alegria vitalícia e da felicidade sem fim. Para outras festas vestíamos os tecidos invisíveis da juventude, que jamais ficam rotos no coração. Roupas perpétuas da alma.

Enquanto relembrávamos momentos, eu esperava pela pergunta “e ele?”. Mas ela foi mais sutil.

– Vi tua postagem no Facebook. Sei de quem falava – disse cortando um riso meu, bem no meio, como se a sua voz fosse uma navalha afiada capaz de rasgar e separar o tempo em tempos. Houve o silêncio, não no fim, mas aqui. Até que ela ousou:

– E ele? – destacou o pronome com o ressentimento das lembranças sufocando um soluço.

Respondi de supetão:

Não esquece aquele dia
Depois de te haver ferido
Numa decisão tão torpe
Do amor tendo fugido
Hoje lembrando a paixão
Logo abraça o violão
Bebe e chora arrependido.

Ouvi uma expiração penosa, quase se tornando assobio e, depois, um “ah” de pura saudade, daquelas interjeições segurando lágrimas.

Ela se despediu com “beijos. Te cuida”.

GLOSA

Mote:

Lula quase foi ministro
Não faltou mais que um dedinho

Está o quadro sinistro
Foi armada a confusão
Com o povo dizendo não
Lula quase foi ministro.
Eu aqui faço o registro
Nesse meu simples versinho
Faltou pouco, bem pouquinho
Pro “cumpanhêro” assumir
Então, posso concluir:
Não faltou mais que um dedinho.

.

CONFABULAÇÕES

Quanto discurso retrógrado!

Os defensores da esquerda usam termos arcaicos e expressões quase centenárias, criadas a partir do movimento eleito no Outubro Vermelho e seus ideais quiméricos, que alimentavam uma utopia social cujo único marco na história terá sido: onde foi colocada em prática, se mostrou um tremendo fiasco.

Viva o começo do século XXI permitindo que no Brasil a Casa Grande fosse ocupada pelo proletariado.

Uma pena que os representantes mais tônicos do proletariado tupiniquim estivessem preparados apenas para as ciências sociais em suas teorias.

Na condução da vida na Casa Grande, se mostraram inaptos quando foram bem para o centro da sala – bem para o centro! – e se deram aos chás servidos em xícaras de cara porcelana inglesa, escorados em almofadas de delicado veludo, franjadas com fios de puro linho belga.

E enquanto faziam péssimos e envilecidos acordos, jogavam o lixo para o chão, na esperança de varrê-lo depois para baixo do tapete fechado em legítima seda javanesa e adornado por belas pérolas, como faziam os antigos ocupantes da Casa Grande.

Uma pena que a história tenha se repetido.

Uma lástima que os representantes do proletariado e seus defensores, digo, defensores dos que adentraram na Casa Grande, hoje não queiram sequer levantar um pouquinho o tapete e varrer para fora dessa cobiçada moradia a imundície do lixo criada por eles mesmos, quando se preocupavam – apenas! – em permanecer na sala com todas as mordomias outrora criticadas nos antigos ocupantes.

Percebo que muitos, ainda, são os costumes e anseios da senzala. Senzala coletiva. Vivem como se de lá não tivessem saído. Entretanto, no fundo, sabem que saíram.

Aliás, muitos desses querem que vivamos em uma quase prisão cognitiva. Um tronco de açoite medonho!

Mas, eu já sei. Há de aparecer alguém para dizer “nunca ocupamos de fato a Casa Grande”.

Nós, os trabalhadores assalariados com certeza não. Não!

Porém, eles, os líderes certamente sim. Sim!

Ocuparam. Ocuparam. No fundo todos nós sabemos disso. E eles também sabem.

PS. O que chamam de “golpe”, eu prefiro chamar de Amadurecimento Social e Democrático. Trata-se de um enredo para o fortalecimento da Democracia.

Ademais, não podemos continuar vivendo entre o paradoxo dos discursos dizendo “temos instituições sérias” num dia e, no outro, à guisa da conveniência espúria, se dizer “uma trama de perseguição para um golpe orquestrado”, quando são as mesmíssimas instituições requerendo explicações e cobrando por fatos questionáveis do ponto de vista ético e moral.

A charanga desafinada não pertence às tais instituições ditas sérias. É patrimônio capcioso daqueles tantos discursando contraditoriamente.

Mas… eu nada sou e nada tenho. E tudo isso acima não passa de confabulações de um doido leitor e observador, vendedor de biscoitos pelo simples hobby desafiador de bater metas.

E só.

Fui!

COMO NOSSOS PAIS

Quarenta anos e tudo continua exatamente do mesmo jeito

A qual tempo se referia Belchior quando escreveu versos tão pontiagudos?

Aos seus dias de jovem, quando a inspiração lhe brotava de sonhos e esperanças tão inventadas quanto reprimidas, ou teria sido possuído pelo dom da profecia descrevendo os dias atuais, nos quais ele se queixa com lábios franzidos e calados sob o mesmo bigode de quarenta anos?

Sobre quem falava Belchior quando compôs Como Nossos Pais?

Do governo “ditador e opressor” dos seus dias de jovem, ou dos governos “democráticos” donos da pseudo-liberdade nesses seus anos de aposentado?

Dependendo das visões, viver será sempre melhor que sonhar.

O que temos vivido fruto dos sonhos dos nossos pais? O que temos sentido de proveitoso, colhido dos nossos próprios sonhos?

Como naquelas semanas dos anos setenta nós temos vivido dias tenebrosos.

A guerra saiu do Araguaia e se instalou nos centros urbanos. Já não é mais uma guerrilha de conceitos, ideais, ponto de vista ou político-social.

É uma guerra bruta e da mais pura violência gerada pela falta de compromisso com a ideia de uma nova consciência e percepção de juventude em igualdade, coisas nos dita por aqueles em quem depositamos a nossa boa-fé; porém, nada fizeram fora do seu benefício próprio e hoje vivem em casa, não guardados por Deus, mas acuados pela pobreza de espírito, embora contem seus vis metais. Cada vez mais vis. Cada vez mais metais.

E essa guerra urbana é tétrica, nos deixa um medo maior pelo perigo real em cada esquina, com o sinal se fechando lenta e cartesianamente para todos, e não apenas para os jovens que já nem somos mais.

Nossos ídolos se perderam no caminho, quando voltavam do triunfo, e como dói sentir que suas aparências nos enganaram tanto. Como dói! Esse é o verdadeiro quadro que dói mais. Porque eles minaram nossos braços cansados e os nossos lábios racharam nos inúmeros gritos de lamentos pela sequidão moral desses nossos ídolos. Resta-nos, no entanto, a nossa voz teimosa, quase sufocada e esporadicamente cortada. Oxalá nunca calada!

Há uma utopia soberba se pensarmos numa simples reunião na rua, com o vento levando nossos risos e bagunçando os nossos cabelos. Afinal, apesar de tudo aquilo que fizemos, não vivemos hoje a liberdade segura tão sonhada ontem.

Nossa censura é outra, muito mais poderosa: censuram a nossa alma.

E os filhos dos nossos filhos, o que cantarão em quarenta anos, podendo ser produzido por gente como nós, de alma censurada?

Nossa geração, neta da geração dos pais de Belchior, traz no peito apertado um coração que já é todo ele uma imensa ferida.

O que virá de novo? Qual a boa novidade nos chegará?

Que profecia poderíamos escrever para nossa geração futura? Quais serão os versos cantados hoje, podendo ser o vaticínio de dias melhores e mais justos?

No entanto, embora ferido, meu peito ainda guarda uma tênue esperança. Afinal, eu “vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação”.

OURO DE TOLO

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Pra quê todo esse orgulho
Do que se é, do que se tem,
Se nada somos no mundo
E a vida é só nada além?
Porque não somos menor,
Tampouco somos maior
E nem melhor que ninguém.

Pra quê tratar com desdém
Se você subiu na vida?
Para Deus somos iguais
Todos na mesma medida.
Ademais, toda riqueza,
Sabedoria, ou beleza,
Lhe deixarão na partida.

“Da vida não levo nada / Do jeito que a vida vem / Depois de fechar os olhos ninguém é ninguém.”

UMA NAÇÃO DE CANALHAS

Eu cheguei à conclusão que somos, sim!, uma nação de canalhas.

Se não temos aristocracia, sobra-nos vivermos contados como cidadãos em castas menos nobres na divisão hierárquica da nossa sociedade.

Resta para alguns a separação e contagem como membros da burguesia, tida como ápice social.

Para outros, entre esses eu, sobra-nos andarmos por aí na faixa da massa de trabalhadores, elencada como ricos medianos, também conhecida como classe B.

Talvez sejamos contados entre os elementos de um conjunto da classe vivendo às margens das BR’s, sem classificação social de verdade, um tanto quanto visionária lutando iludidamente por uma reforma agrária, prometida desde sempre, não cumprida desde nunca.

E, por fim, se não estamos inseridos nas classes acima, quem sabe sejamos membros caindo mais de projeção e posição social, pertencendo àquela faixa esmolando nos sinais das grandes capitais, quando não deitados sobre a grama dos seus viadutos, mesmo assim contados como os saídos da pobreza?

Dentre a burguesia, a classe do proletariado, os sem terras e os sem tetos, pois bem, entre nós todos!, nenhum pode ser encontrado tão honesto quanto Lula.

Nenhum de nós!

Não obstante quem somos, como vivemos, o que pensamos, a quem servimos, qual a nossa crença, etc.

Quiçá seja ele o único aristocrata e, como único, não podendo ser contado como classe social, por sua invejável singularidade. Lula é Lula e só. Só ele é Lula. E só. Ninguém mais é Lula – O Rei!

Nosso Rei da Moralidade, da Honestidade e da Sabedoria. Tantas vezes orgulho para todo um país, pelos inúmeros títulos de Doutor Honoris Causa.

No entanto, assim como o rei Acabe de Israel, possuindo em sua rainha Jesabel o contrapeso da dignidade para o seu reino, parece-nos – pelos últimos sinais das investigações – que Dona Marisa tem levado aos castelos do nosso Rei Lula algumas reformas de ambientes e barcos para os lagos das propriedades rurais, nas quais o Nosso Rei descansa da árdua tarefa de politicar e nada fazer mais; uma vez que até as famosas palestras do “várias vezes doutor” não têm sido realizadas.

Essas ações da rainha denigrem a imagem ilibada do nosso aristocrata sênior, entre outras coisas realizadas sem o conhecimento do nosso Rei. Também Rei da Inocência (vejamos o PS abaixo), por nunca saber de nada.

O que será da nossa Rainha Marisa? Não sabemos.

Para ele, digno Rei, abnegado e altruísta Rei, dividindo com os amigos dos filhos os seus os bens – esses usados por todos da Casa Real -, pois bem, para ele um lugar alto na hierarquia dos grandes.

Afinal, nunca na história desse país tivemos alguém tão bom. Tão santo (não esqueçamos o PS abaixo).

Nunca!

Agora me chegando o senso real, eu imaginei: se o nosso Rei Honesto permite – com tal zelo pela omissão – aos chegados seus agirem da forma como agem, nós que não lhes somos páreos em virtude e moral o que somos?

Uma nação de canalhas!

PS.: Uma vez ouvi de um homem analisando a imagem sacra confeccionada por meu amigo Mestre Ambrósio Córdula: “há em todos os semblantes de santos um quê de inocência”.

SEVERINO DAS PORTEIRAS

Seu Severino das Porteiras – mestre nas passagens lhe emprestando o epíteto depois do nome próprio, substituindo inclusive o seu sobrenome de batismo – é cabra de pouca paciência, encarnando o melhor do tipo “paciência zero para perguntas bestas”.

Sertanejo alto, magro, amorenado, hoje um octagenário de olhos acastanhados, limitado no andar, mas voando nas lembranças, na inteligência e na lucidez. SP

Outrora morador nas terras do Cardeiro, então propriedade do Saudoso Dr. Bezerra, naqueles dias de poucas expectativas Severino acertou de ficar ordenhando também em um sítio vizinho, para tratar um gado pouco e ganhar mais uns trocados.

Daí, um dia o patrão soube da dupla jornada e foi ter com ele para conhecer melhor como era aquilo.

Foi se aproximando de Severino e tacou-lhe e a pergunta:

– Ô Severino, você ‘tá tirando leite em Zé Braz?

– Não, doutor – respondeu em cima da bucha o velho Severino. E completou sem olhar sequer para o patrão: – Nas vacas! Pois, Zé Braz é homem e eu não tiro leite de macho.

Respondeu certinho, foi não?

Já outro dia Severino estava sentado num tronco velho, a parede da frente de sua casa servindo-lhe de espaldar, quando um carrão parou quase sobre os seus pés. Ao volante estava Jurema Lamartine, cordialmente lhe cumprimentando com um sonoro bom dia, naquela voz de besouro que ela tinha; voz grossa, pausada, altamente burocrática pelos cargos que ocupara durante toda sua vida profissional.

Respondido o cumprimento, ela desceu do veículo e educadamente apertou-lhe a mão se apresentando pelo nome. Depois começou a falar de forma bem explicada, recheada da pompa que sempre lhe foi peculiar, o queixo em meneios apontando para cima e o rosto toda vida muito sério:

– Senhor Severino, eu fiquei muito tempo morando fora e agora voltei. Intenciono residir novamente por aqui e estou sabendo que o senhor é o melhor mestre em porteiras de Acary. Vim lhe encomendar uma para a minha propriedade.

– Pois não – limitou-se em responder Severino.

– Quero saber os preços – questionou Jurema.

– Diga aí as medidas, dona – quis saber o mestre, enquanto socava uma das bengalas no chão de terra batida, entre os dois pés.

– Três metros e meio de cumprimento, por um metro e sessenta de altura – respondeu Jurema franzindo a boca depois.

Severino olhou para o alto fazendo contas de cabeça. É cabra bom na Matemática mais simples. Quando encarou a possível cliente, trazia o valor na ponta da língua.

– Dá para fazer por mile e quinhentos cruzados.

Jurema pensou no valor, comparou com o salário mínimo e indagou:

– Com a madeira do senhor?

– Não! – respondeu Severino demonstrando impaciência. E completou: – Com a minha madeira de jeito nenhum, dona – disse de forma aborrecida. – Ela é pequena, fina, roliça e oca no meio. Não segura prego, nem parafuso – finalizou.

Daí que eu não sei se fecharam negócio. Esqueci de lhe perguntar.

Doutra feita Severino passava pela Praça do Coreto e ouviu o seguinte diálogo de “duas donas”, como ele costuma chamar senhoras de certa idade.

– Vai viajar, mulher? – perguntou a primeira.

– Vou – respondeu secamente a segunda.

– E vai só a passeio? – quis saber a outra.

– Não. Vou botar uma chapa em Natal.

Foi aí que Severino, parou, virou-se com a dificuldade imposta por seus joelhos e entrou na conversa.

– A senhora deve ser muito rica – ponderou com sua voz arrastada. – Vai colocar uma chapa em Natal. Em Natal! Fico só imaginando o tamanho desses dentes – finalizou.

E saiu se equilibrando sobre as duas madeiras lhe servindo de bengalas.

– Ô, seu Severino, esse ano dá chuva?

– Se não der das nuvens, de ano é que não dá, hum-rum!

“Ô Acary véi bom!”
Rui de Napim.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO CHOREI COM AS FLORES

Caminhando e chorando e aumentando a aflição
Somos todos iguais se votamos ou não
Somos feitos de otários, quanta decepção
Caminhando e chorando e aumentando a aflição.

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Quantos homens se uniram em associações
Vão roubando e escondendo em vermelhos porões
Ainda fazem da Ética seu mais tétrico refrão
Surrupiam e enganam a toda essa nação

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Militantes enganados, fãs do grande ladrão
Cartilhados, coitados, agem pela emoção
Sectários perdidos, aprendendo a lição
Defendendo o ParTido, de pires na mão.

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar já é sofrer,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Nas escolas erguidas em novas construções
O ensino ingerido por corrupção
Hospitais que não têm uma simples injeção
Fabricando defuntos e corpos sem caixões
A justiça na mente, medo no coração
Do revólver que o bandido segura na mão
Caminhando e chorando e aumentando a aflição
Militantes enganados, apoiam um ladrão.

Vem, vamos embora, que se alugue o Brasil
Há muito fomos mandados para a p… que pariu!
Vem, vamos embora, que se alugue o Brasil
Há muito fomos mandados para a p… que pariu!

A ARTE QUE IMITA A VIDA

Não assisto mais novelas. No entanto, tenho que dizer que a Rede Globo é f…!

Pega José de Abreu, o seu mais ferrenho e descarado defensor de alguns corruptos brasileiros, e põe o ator como líder de uma facção criminosa. De uma facção criminosa! Isso no horário nobre da emissora!

Ora, quanto reconhecimento, para a felicidade de Abreu, claro. Um verdadeiro prêmio!

Para completar o epíteto pelo qual o personagem é conhecido na trama é “O Pai”.

Não, não, não! Não me venham com as suas mentes maliciosas. Nada disso. Não é “O Filho” (lembram de alguma coisa “do Brasil”?). É “O Pai” mesmo.

E como a arte imita a vida, chegar nesse “O Pai” é difícil para caral…

Pois é, pois é. Alcançar o “Poderoso Chefão” não é fácil.

E, pasmem, a intenção do personagem de Abreu é chegar ao governo. Isso mesmo: go-ver-no!

Nada mais justo para Zé de Abreu que, aliás, deve estar se sentindo tão bem quanto dirigente de partido político.

O cabra deve estar se achando o próprio…

Deixemos isso de lado.

Porque, afinal, qualquer semelhança jamais terá sido mera coincidência.

(As informações acima foram retiradas da página Notícias da TV)

jose-de-abreu

O Pai e o Filho de Banânia

RETRATO INCOLOR

A minha indignação não tem cores que a representem.

A minha revolta não será simbolizada pelas cores de uma bandeira a meio-mastro hasteada; seja ela branca, tricolor, tampouco multicolorida em verde, amarelo, azul e branco, quer tenha estrelas ou apenas listas.

A minha tristeza é incolor.

Mas tem sabor. É salgada.

Tem o gosto das lágrimas dos familiares das vítimas.

Das vítimas da crise política fazendo combalir a economia e seus empregos perdidos.

Das vítimas dos corredores de hospitais, moribundos condenados à morte lenta e penosa, sob a negligência de príncipes mal intencionados.

Das vítimas do trânsito mal gerido, mortas no asfalto esburacado e quente, corpos cobertos com o plástico da displicência nacional.

Das vítimas da violência armada das ruas, agora adentrando os nossos lares, do sangue inocente derramado por brutos.

Quais são as cores do Nordeste?

Quero usá-las!

Pelos sacrificados do descaso histórico com o nosso povo, vítimas da seca secular e do desleixo dos mesmos príncipes mal intencionados.

Eu grito: Quero as cores da bandeira nordestina!

(No entanto, minha alma pergunta melancólica “em qual jardim ela foi arvorada?”)

Quero representar a indignação pelo descaso contra o meu semelhante.

Quais são as cores da genuína humilhação?

O meu retrato é incolor.

Porém, não menos envergonhado.

O meu retrato tem as cores das minhas lágrimas.

Natal, meio dia de um 23 de novembro de muitas notícias tristes

HERIBERTO

Heriberto Carlos era um dos mais inteligentes da nossa turma de escola. Conheci o cara numa tarde de 1980, ano em que fizemos juntos a 3ª Série primária. Ele vindo de uma escola do subúrbio da nossa pequena cidade, eu continuando no velho Grupo Escolar. Fomos “apresentados” sem formalidades, daquele jeito infantil de conhecer amigos, pelo seu primo Juninho de Maria Medeiros, também nosso colega de sala.

Filho de criação de Seu Vicente Noé, Heriberto sempre deu os melhores sentimentos e foi motivo de alegrias para os seus pais. Filho obediente, zeloso, educado, inteligente… honrando pai e mãe, conforme o mandamento da igreja à qual ele era tão fiel e prestativo enquanto menino.

A partir daquele ano até 1985, passando também pela 4ª, 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries, sempre sentando próximo, convivemos seis anos na sociedade escolar. Primeiramente no Grupo Tomás de Araújo, depois no Ginásio Dr. José Gonçalves. Os professores tinham muito carinho por ele, e são memoráveis as suas discussões com Dona Terezinha Dantas, professora por quem Heriberto sempre puxava mais, dado o seu gosto por História.

Não digo que éramos da mesma turminha interna da sala, ele tinha seus amigos mais chegados e eu tinha os meus. Mas nos dávamos muito bem e, é verdade, várias vezes estudamos juntos na velha mesa lá da sala de minha casa. Bastava eu me apertar mais um pouquinho e me socorria nos conhecimentos de Heriberto Carlos, um estudioso nato! Ele se destacava também em Geografia, minha pedra do sapato. Igualmente era bom em Inglês, mesmo tendo dificuldades com alguns fonemas. Heriberto não pronunciava os sons das letras C, G e Q quando acompanhadas das vogais A, O ou U. Ficava no lugar do som das consoantes ignoradas, um vazio em sua fala. Isso nos fez chamá-lo por algum tempo de “Gago”, embora o problema fosse outro. Sua voz rouca e bem grosa desde a sua infância era a sua marca principal, bem como a seriedade na qual levava tudo, desde menino.

Raras eram as horas de brincadeiras, sem gostar de jogar futebol ou de jogo de botão, ele orbitava mais, rodeando nosso campo de gravidade, sendo por inúmeras vezes a risada mais gostosa de todas aquelas que acompanhavam as artimanhas do “Santo” de Miúdo e sua turma. Não aspirou jogar no time quase imbatível formado na oitava série. Antes ficava assistindo os jogos e torcendo muito. Foi ele quem pôs o meu apelido de Galderisi, inspirando-se no artilheiro do Verona, time campeão italiano naquele último ano juntos numa mesma sala de aula. Parte da turma adotou o apelido e pelo menos um ex-colega ainda me chama por ele até hoje.

Heriberto era flamenguista, mas não se envolvia com polêmicas ligadas ao futebol. Preferia, e dizia isso, estudar para tornar-se Policial Federal, seu sonho de menino, como certa vez nos surpreendeu declarando em um daqueles “jogos da verdade” tão comuns nas idades da segunda década de vida de qualquer pessoa. Aliás, parece que gostava de pôr apelidos e a Polícia Federal era chamada apenas de “FBI Brasileiro”.

Para fazer o segundo grau ele prestou concurso ao Colégio Interno de Jundiaí, e foi, aí, que nos separamos. Eu escolhi o magistério da nossa cidadezinha. Fiquei por aqui, portanto.

Em suas vindas, naqueles dias das primeiras descobertas sociais e amorosas, quando nos encontrávamos pela pracinha ou no clube, eu cuidava em perguntar como ele estava, sobre os seus estudos… essas coisas. Ia bem, sempre, o meu amigo Heriberto.

Mas um dia, acordado no meio da noite de forma bruta, foi alvo de uma brincadeira de péssimo gosto e, de um enorme susto que lhe pregaram, ficou meio assim, falho das idéias, fraco de memória… precisou de uma espécie de tratamento psicológico. Sã novamente, ele passou com facilidade nos exames da Polícia Militar. Mais fácil ainda foi, dentro da entidade, galgar hierarquia mais alta e, não demorou, Heriberto recebia em sua manga os três “vês” em fita divisa. Tornou-se Sargento. Não satisfeito, vivia fazendo outros concursos e sempre conseguia a aprovação, apesar de não largar a farda. Parecia gostar de fazer testes aos seus limites de conhecimento.

Um dia, em uma de nossas rápidas conversas, depois de me parabenizar por meu casamento e pelos filhos que eu tinha – eram já dois naqueles dias, abaixou a cabeça e disse saber que jamais seria pai. Não casaria, me disse e confidenciou-me em palavras ditas mais ou menos assim:

– Jesus, sei que você não acredita, mas ando tendo uns sonhos, acho que são revelações, pois sempre eles acabam acontecendo. E esse dom, se é que posso chamá-lo desse jeito, foi justamente depois daquele susto. Acredite, Santo, algo mexeu com a minha mente.

Continuando com o papo, ele abaixou a cabeça e quando levantou novamente acrescentou que não teria tempo para realizar seus sonhos. Guardo aquele quadro e aquelas palavras num eco insistente em minha mente, sempre que a minha memória relembra Heriberto.

Fiquei calado naquele dia. Não tinha o que lhe responder, pois não esperava dele essas declarações, afinal ele sempre foi muito calado para certos assuntos e eu vivia os dias da minha primeira fase como ateu, dias de muitas perguntas. Dias superados, graças ao Deus que vive e zela por mim.

Nunca dei muita importância, apesar da lembrança, àquelas suas palavras. Por mais de uma vez me questionei sobre, entre tantos momentos vividos, aquele ser um tão marcante.

Essa semana, um sobrinho de Heriberto, Agente de Endemias em nossa terrinha, veio prestar serviço em minha casa. Eu estava ausente e ele contou uma história à minha esposa que só agora eu fiquei sabendo. Fiz o elo com aquele papo antigo.

Bem, num domingo de manhã, após tomar café, Heriberto combinou com alguns primos para irem se banhar nas águas do Gargalheira, nosso açude principal, lazer para muitos. Antes de sair, ele chamou uma prima sua, creio, irmã de criação, mais velha, sua vizinha de casa e lhe contou:

– Sonhei com a minha morte. Morro hoje! – enfatizou.

– Heriberto, pare com essas besteiras que assim você aperreia mamãe – pediu a irmã assustada.

Ele riu porque sempre ria. Era um tipo feliz.

– Calma – pediu sem pronunciar o “C” e continuou com sua falha de dicção. – Também sonhei chegando aqui em casa num carro branco, zero quilômetro – falou entre outros sorrisos.

Na tarde daquele mesmo dia Heriberto se esqueceria de passar o cinto de segurança e quando o Fiat 147 do seu primo capotou diversas vezes, numa delas seu corpo foi arremessado para fora do carro e esse virou sobre sua cabeça, esmagando-lhe o crânio. Contava vinte e poucos anos.

A ambulância de nossa cidade, comprada e recebida na quinta-feira anterior, entregou seu corpo aos seus pais, com a farda engomada de forma intocável, a cabeça envolvida por uma atadura diversas vezes passada, tirando-nos a visão do seu rosto. Essa é a última imagem que trago daquele meu colega tão especial.

Seu caixão deixava a sua casa quando o carteiro chegou com uma correspondência. Era o chamado da Polícia Federal.

Heriberto tinha passado no concurso.

UMA QUASE FICÇÃO

Não culpo a população de Angicos, aqui no Rio Grande do Norte, pelo apavoramento sofrido na última segunda-feira, quando puseram um drone sobrevoando a cidade, e o povo correu enlouquecido pensando tratar-se de um disco voador.

Tirando as fuleiragens rodando nas mídias sociais, tipo Facebook e WhatsApp, o fato é que marido pediu perdão por traição, esposa se confessou adúltera e mais o escambau troiano aconteceu em Angicos; o povo todo pensando que chegara a hora de um Armagedom entre mundos.

Esse rebuliço todinho… É que poucos têm a coragem de Seu Manoel de Zé Furiquinho, lá de Acary. Explico.

Carlinhos de Chiquita de Antõe Oião, menino inteligente, cursa Engenharia Eletrônica na UFRN, lá para as bandas de Natal.

Para realizar um trabalho em grupo, ele e uns colegas de faculdade, apoiados pela universidade, desenvolveram um drone. O objeto tinha cerca de metro e meio de diâmetro e parava no ar feito beija-flor com sede.

Rodeado de não-sei-quantas luzes em diferente tonalidades, era coisa moderna e bonita de se ver. A finalidade Carlinhos não contou. Porém, a verdade é que trouxe o bicho de Natal para Acary há cerca de um ano.

Bom, para ser mais exato, foi mesmo no feriado de Todos os Santos com Finados, comecinho de novembro.

Resolveu soltar a peripécia no ar bem na noite do dia dois. E o fez deixando o danado cheio de luzes bem paradinho sobre a Igreja Matriz. Ora! Do Cemitério Público se avista uma das torres do templo e, não demorou, Raimundinho Ciçôco, embora bêbado, apontou para cima e pelo canto esquerdo da boca gritou perguntando “que pôrra é aquilo?”.

Daí, começou o alvoroço medonho porque alguém, que não se sabe quem, respondeu que era um disco voador.

De cova pisoteada, cruz arrancada, flores despetaladas, a velas apagadas e ao que se imaginar, teve naquele cemitério. O medo era do suposto OVNI.

Alheio a tudo isso, Carlinhos de um canto lá fora do cemitério, dirigia o bicho rua acima, rua abaixo, parando aqui, acolá, dando um rasante, enquanto o povo assustado corria para casa abandonando seus finados.

Nisso Carlinhos percebeu e, matreiro, resolveu assustar ainda mais. Guiou o bicho bem para cima do cemitério e foi aquele Deus nos acuda.

Não achando pouco, o estudante resolveu levar o drone para a praça central, a “Do Coreto” comumente conhecida, coisa que para ser realizada teria que passar por cima da casa de Manoel de Zé Furiquim. E foi aí que ele se lascou.

É que Seu Manoel é sujeito valente, caçador, destemido, orgulhoso de não ter medo nem de gente desse mundo, tampouco de alma do outro.

Quando o objeto colorido passava piscando as luzes no oitão da casa de Seu Manoel, deu de Caridade, sua cadela de caça – afamada em toda redondeza por um faro espetacular – olhar para cima e começar a latir. E latiu, e latiu, e latiu, até que o dono saiu nu da cintura para cima para ver o que a cadela acuara.

Entrou como um raio em casa e já saiu com o rifle na mão.

Buf!

Foi só um tiro. Certeiro, obviamente.

O troço já se partiu em dois no ar e caiu despedaçado no chão, dividindo-se com o baque em várias outras partes. Um foguinho aqui, outro ali, saindo dos fios arrebentados do objeto.

– Seu Manoel, pelo amor de Deus! – exclamou choroso o estudante, com o controle do bicho na mão. – O senhor abateu o drone da UFRN! Um objeto de dez mil reais, rapaz!

– E eu com isso? – perguntou o velho caçador. – Aqui é assim: Caridade acuou, é caça!

E depois arrematou enquanto chutava com a ponta do pé direito, ainda desconfiado com os restos do bicho na mira, os plásticos e alumínios mortos no chão:

– Pensei que era uma caça avoadora.

POESIAS MUSICADAS

Pequena amostragem do que dizíamos, do que dizemos

“Dizem pra você obedecer! Dizem pra você responder! Dizem pra você cooperar! Dizem pra você respeitar! Polícia! Para quem precisa. Polícia! Para quem precisa de polícia.” (Titãs)

“Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder…” (Cazuza)

“… um rei mal coroado não queria o amor em seu reinado…” (Geraldo Azevedo)

“Apesar de você amanhã há de ser outro dia…” (Chico Buarque)

“Não se incomode o que a gente pode, pode, o que a gente não pode, explodirá. A força é bruta e a fonte da força é neutra, e de repente a gente poderá…” (Gilberto Gil)

“Sem haver solução, de que me serve um saco cheio de dinheiro pra comprar um quilo de feijão. Me diga, gente! (Beth Carvalho)

“Se o chão abriu sob os seus pés e a segurança, sumiu da faixa; se as peças estão todas soltas e nada mais encaixa. Ôh, crianças! Isso é só o fim.” (Camisa de Vênus)

“Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será, que será?Que será, que será? Será que esta minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?” (Caetano Veloso)

“Vem! Vamos embora que esperar não é saber…” (Geraldo Vandré)

“Morar nesse país é como ter a mãe na zona…” (Roger e Ultraje a Rigor)

“Se tudo piorar, não sei do que sou capaz!” (Biquini Cavadão)

“Quando o trabalhador cresce na sociedade e tem a oportunidade de ser protagonista da história, ele pratica o método do opressor. Porque foi o único método que aprendeu. Então, ele só sabe agir como o opressor.” (Tom Zé)

“O governo apresenta suas armas: discurso reticente, novidade inconsistente e a liberdade cai por terra aos pés de um filme de Godard (…) e o espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar” (Paralamas do Sucesso)

“E os meus sonhos eu procuro acordar e perseguir meus sonhos. Mas a realidade que vem depois não é bem aquela que planejei.” (Ira)

“Todo mundo me diz bom dia. Todo dia é sempre igual. Crianças pedem na janela do carro até nas noites de Natal. Ô, ô, ô, ô, nada mudou! (Léo Jaime)

“Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios tentando acertar o passo usando mil artifícios. Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!” (Lobão)

“E se virá será quando menos se esperar, da onde ninguém imagina. Demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra.” (Lulu Santos)

“… vida de gado, povo marcado, ê! Povo feliz!” (Zé Ramalho)

“Se gritar pega ladrão…” (Bezerra da Silva)

“… pois nesse país é o dinheiro quem manda.” (Paulo Ricardo e RPM)

“… a solução é alugar o Brasil!” (Raul “Rock” Seixas)

“Que país é esse?!” (Renato Russo, o maior realista de todos os profetas políticos!)

A poesia musical até os meados dos anos oitenta, continua atual. Não obstante os trinta anos passados.

Os ídolos da minha geração eram f…! Embora alguns tenham se perdido pelo caminho da volta.

BALAS TROCADAS

Cenas do cotidiano

Todos os dias Arnaldo se sente satisfeito por sua esposa não levantar-se tão cedo.

É que da varanda de seu apartamento no sexto andar de um luxuoso prédio na Zona Sul de Natal, fingindo estar lendo o jornal do dia, ele fica observando a vizinha do quinto andar do edifício ao lado enxugar-se demoradamente ante a janela de vidro, cujas cortinas ficam abertas num ângulo tal que somente Arnaldo pode observá-la naquele exercício.

A vizinha, inocentemente, nunca levantou a vista para descobrir-se assim, digo, observada.

Todos os dias Marília se sente satisfeita por seu esposo acordar cedo e sair do quarto para a varanda, do lado oposto, deixando-a só em fingimentos de sono.

É que ela fica observando o jardineiro do condomínio ao lado chegar religiosamente no mesmo horário e trocar de roupas em um cubículo sem teto; apenas um chuveiro servindo-lhe de cabide, seis andares abaixo da janela de seu luxuoso apartamento na Zona Sul de Natal.

O jardineiro, maliciosamente, sempre levanta a vista e troca sorrisos com Marília.

Todos os dias Arnaldo faz sexo monótomo antes do almoço com a estagiária magrela, em seu escritório de advocacia, sobre a mesa de tampo em vidro, entre papéis de causas baratas afastados sem critério, pensando que sente prazer com a vizinha de corpo impecável.

Todos os dias Marília goza desenfreadamente antes do almoço, nos braços do jardineiro, em sua cama larga, sobre lençóis caros arrumados esmeradamente, pensando que o esposo obeso está naquele corpo impecável.

Todas as noites a estagiária magrela vai ao bar onde o jardineiro também faz free lance como garçom.

Até flertam.

Mas, jamais trocaram uma só palavra além do óbvio.

Todas as noites a vizinha lê um romance qualquer dando cafunés em seu único companheiro. Um vira lata tirado das ruas.

ANA LÍGIA

À madrinha que perdi hoje

Padrinhos

Este colunista entre os seus padrinhos, Ana Lígia e José Arnóbio, o Zé do Bio

As mãos da minha madrinha
Tão finas, tão delicadas,
Me davam aquela paz
Em sendo por mim tocadas
Seguravam minha mão
Fomentando emoção
Eram mãos abençoadas.
Minhas faces, quando beijadas
Nos lábios de minha madrinha
Coravam de alegria
No repeito que eu lhe tinha
Quando ela se achegava
Meu espírito jubilava
Se alegrando a alma minha.
E quando ela me vinha
Com aquele olhar educado?
Com um sorriso no rosto
Sempre belo, tão rosado,
Eu era a felicidade
Em menino transformado
Sentindo o maior prazer
Quando lhe ouvia dizer
“Deus te abençoe, afilhado”.

Hoje tenho por verdade:
O coração de Madrinha
Era a mais pura bondade!

Mossoró, 5 de agosto de 2015

GLOSA

Com a aprovação da Lei do Casamento Homoafetivo lá nas terras do Tio Sam (de quem ele é tio eu não sei), o mundo da Internet entrou numa de colorir tudo.

Daí que a rede social denominada Facebook criou uma ferramenta que, em sendo utilizada, a foto do perfil do sujeito fica por trás de uma espécie de arco-íris.

O que tem de gente colorido. Alguns até sem saber o que representa ficar daquele jeito.

Nisso o Poeta Francisco de Sales, companheiro antigo de cavalgadas, grande declamador e especial Dom Juan, percebendo que eu ando calado para os lados da Glosa Fescenina, e para me insultar, acha de me sugerir uma glosa com o modismo virtual. E ainda me instiga: “Não vai colorir seu perfil, não?”

Claro que vou.

Com a foto abaixo, e a glosa que lhe acompanha, dei minha contribuição em apoio à lei aprovada nas terras de Tio Sam (de quem ele é tio, eu continuo sem saber).

Glosa 28

Em dias de colorido
Teu colorido me encanta

Merece ser aplaudido
Esse novo movimento
E eu não posso ser cinzento
Em dias de colorido.
Não vou ficar dividido
Nem me calar adianta
Minha empolgação é tanta
Que empunharei sua bandeira
E gritarei sem besteira:
Teu colorido me encanta.

VEM, Ó LUA. VAI, MAS VOLTA

A Lua quando não sai
A Noite chora calada
Emprestando à orvalhada
O seu mais tristonho «ai».
O Mar em seu vai-não-vai
Se declara à natureza
Mostrando sua fraqueza
Plangente com a noite, em par,
Mas, não cansa de esperar
A Lua em sua beleza.

Não saindo a Lua bonita
Chorando a Noite calada
Pranteia também o Mar
Em lágrima sempre salgada
E a Lua em algum lugar
Sem saber que faz chorar
Por ambos é esperada.

LM

Mas, ouvindo a Lua o pranto
Da Noite e também do Mar
Apareceu pra brilhar
Com todo o seu encanto.
O Mar vestindo o manto
Do conforto e da alegria,
Em êxtase, em euforia,
Deixou toda ansiedade,
Completo em felicidade
E a noite também sorria.
Porém…
Mal o dia amanheceu
Com o esplendor da aurora
A Lua se foi embora
E o Mar enterneceu.
A Noite se escondeu
Pra novamente esperar
A Lua, linda!, voltar
Com toda a sua beleza
Em sua luz – realeza!
Reanimando o Mar.

PS.: Em que pese os seguintes valores: a Lua é a minha inspiração, a Noite minha Poesia.
Eu apenas me vesti de Mar.

TIC-TAC

– E quando sair, não feche a porta. Quero ficar recebendo o vento – falou de cabeça baixa, sem olhar nos olhos dela. – Por favor – completou abaixando um pouco a voz, virando-se de lado na poltrona, denotando tristeza e aborrecimento.

Na verdade desejava mesmo era ficar vendo-a sumir pela rua estreita, com aquela mochila às costas, levando o futuro, carregando os seus sonhos de uma família, roubando-lhe o direito de sentir-se bem. Ah! Mas ela tinha seus direitos também e, entre eles, o de escolher se ficava ou se partia. Optara por ir. E ele, sem esconder sua resignação, aceitara de cara dura.

Ela nada respondeu. Abaixou-se para apanhar uma sacola deixada no chão, perto da televisão ligada com o som no módulo mudo.

Parou diante do aquário e se despediu em silêncio dos peixes. Um de cada vez. Eles nadavam alheios ao clima de angústias na sala, indiferentes ao adeus dela.

Ele acendeu um cigarro, tragou a fumaça apenas para a boca e ficou olhando pela janela. Coçou o topo da cabeça com as pontas dos dedos da outra mão. A que não segurava o cigarro. A mesma que descansou depois sobre o encosto da poltrona. Tinha uma perna dobrada com a coxa recostada no assento estofado. A outra, também dobrada, repousava sobre o mesmo móvel com a planta do pé apoiada. Um pé ao lado do outro. O joelho servindo-lhe de amparo para o cotovelo do braço direito estendido. Lá na frente a mão com o cigarro soltando a fumaça, subindo sem formas em câmera lenta, esvaindo-se pela sala ampla. As costelas do lado esquerdo apoiadas em duas almofadas, separando-as da poltrona. Soltou a fumaça da boca.

A camisa aberta deixava escapar a visão de parte do peito, onde uma tatuagem se sobressaía em três cores. Um escudo do time de sua predileção.

Ele desistiu do cigarro apagando-o no cinzeiro inox em forma de lua, repousado à frente, sobre o braço de um sofá. A vista se perdendo em um ponto fixo, mas observado sem atenção, lá fora, falsamente enxergado pela janela.

– Tenho que ir – ela falou parada a dois passos da porta, voltada para dentro de casa. Nas costas a mochila. Numa das mãos a sacola. A outra mão pendia na lateral do corpo, como um rosto sem expressão.

Metia-se em um vestido de malha azul, cuja barra estava um pouco acima dos joelhos, preso na cintura por um elástico fino, embutido na mesma peça. Levava nos pés uns tênis surrados de uma marca estrelada estadunidense, sem meias, sem cadarços, azul desbotado, cobrindo também os tornozelos. O cabelo arrumado em coque preso por um hashi não usado para o fim próprio, atrás, na nuca, deixando alguns fios soltos no rosto, escondendo o pequeno sinal de carne, avermelhado, “herdado de sua vó”, ao lado do olho. Duas pulseiras em couro fino, trançadas cada uma em três pernas, tingidas, uma verde e outra amarela, enfeitavam o seu pulso esquerdo em parceria com a singela tatuagem. Era o algarismo oito, deitado, simbolizando o infinito.

Ele abandonou o que olhava e não via pela janela. Voltou-se para ela. Ficou em silêncio.

Encararam-se.

Ela soltou um ar de riso. Franziu a testa depois, levantando as sobrancelhas. Ergueu a mão há pouco esquecida na lateral do corpo, gesticulando um “o que podemos fazer agora?” de palma estendida. A mesma mão que prendeu os fios soltos do cabelo, por trás da orelha esquerda, e voltou desprezada de ação à lateral do corpo.

– Talvez a gente pudesse…

– Não tem talvez algum – ele cortou a voz dela.

– … ficar se falando.

Ele voltou a olhar o nada pela janela. Também nada mais respondeu.

Ela ficou estática, vendo-o olhar pela janela.

Um silêncio dominou o ambiente. Quebrava-lhe apenas o tic-tac do relógio na parede, sob o zumbido constante do oxigenador na água do aquário.

– Ah! – exclamou enquanto livrava o ombro esquerdo da alça da mochila, trazendo-a presa no outro ombro à frente do corpo, pondo a sacola sobre o sofá vazio, perto do cinzeiro, de onde um filete de resto de fumaça subia contorcendo-se. Abriu um dos bolsos laterais, de onde tirou um molho. Fechou o zíper, endireitou a mochila nas costas. Pôs as chaves ao lado do aquário sem pronunciar outra palavra qualquer. Olhou o corredor da casa. Vários quadros pendurados em suas paredes, de um lado, de outro, indo até o fundo, dividindo os quartos de outros cômodos. Pegou a sacola de volta olhando a hora na parede.

Despediu-se da sala com um olhar rodeado em quase trezentos e sessenta graus.

Ela abriu a porta e prendeu-a no suporte do chão. Observou o portão escorado. O cadeado aberto, pendurado no ferrolho. Inspirou forte enchendo os pulmões de ar. Olhou o céu azul. Piscou os olhos duas vezes, sem reparar nesse toque. Saiu.

O rangido do velho portão de ferro, dando para a rua, fechou um ciclo. O estalo seco do cadeado encerrou uma história.

Ele continuou olhando para a rua. A mão sobre o encosto da poltrona tamborilava algo tão importante quanto o que olhava sem ver pela janela. Não ousou virar-se para a porta aberta.

A mente estava tão vazia, quanto os seus olhos de sonhos.

Na rua ela caminhava com passos rápidos e decididos.

Um tic-tac sob um zumbido enchia a sala de saudades e incertezas. De infinitos talvezes.

METÁFORA

Vejo o Brasil com a seguinte analogia:

Um homem (Brasil) rodeado de outros homens (Partidos Políticos). Cada homem em volta de Brasil tem uma corda presa a um enorme anzol, estes cravados nas carnes de Brasil; diversos deles, espalhados ao longo do corpo, puxados para todas as partes.

Cada um desses homens tenta recolher a corda em sua direção.

Brasil sente dores, mas apenas se contorce, sem poder ir para um ou outro lado, já que quando quer andar à frente, um anzol o puxa para trás.

E assim o é em todas as direções.

Afora esses homens, também há outros (Empresários Gananciosos), cada um com uma lança afiada e pressionada contra o corpo de Brasil.

Brasil sente dores com os furos constantes dessas lanças. Da mesma forma quando ele se livra de uma estocada, fura-se na que vem da direção contrária.

Em volta de todo esse quadro tétrico está uma senhora muito poderosa (chama-se Nação).

Mas, coitada, não sabe a força que tem e assiste a tudo dividida em seus sentimentos. Vezes torcendo por Brasil, para que ele saia daquela terrível situação, vezes torcendo para que determinado homem de anzol (a quem ela admira de tempos passados), consiga puxar Brasil para o seu lado com força tal, que se rompam as cordas dos demais.

Não sei se por inocência, ou por aquele sentimento de divisão, Nação augura isso sem importar-se com a carne a ser dilacerada pelos outros anzóis.

Nação às vezes até grita. Mas, solta seu lamento na hora e de forma errada. Nem percebe uma particularidade: quando ecoa seu grito de descontentamento, uns homens fingem afrouxar as cordas, os outros encenam guardar as lanças e Brasil, coitado, quando pensa em agradecer a Nação, a pobre já lhes virou as costas voltando-se toda em atenção para o seu clube de futebol campeão, ou até para a escola de samba desfilando noutra avenida. Muitas vezes na novela na qual atores encenam algo ainda mais angustiante. Porém, Nação não quer saber senão do final da trama, principalmente quando tem à mão um copo com refrigerante e um pão dormido.

As cordas são esticadas novamente. As lanças se renovam, às vezes, muito mais afiadas.

Há, porém, um paradoxo. No interior do corpo de Nação existe um coração lhe incomodando. Enquanto sua mente se ocupa com a diversão do futebol, o brilho das fantasias, ou com o último beijo do belo casal de artistas, seu coração pensa pelo cérebro e se ocupa com as dores de Brasil.

Como dois irmãos filhos de uma mesma mãe, são dois órgãos de um mesmo corpo. No entanto, trocando de funções.

O coração agindo pela razão. O cérebro atuando pela emoção.

O coração sendo contra os anzóis e lanças. Todas! O cérebro, à sua conveniência, ora apoiando, ora condenando-lhe. Até coloca apelidos no coração, muitas vezes sem aceitar as razões apresentadas. Quer apenas sentir-se em paz, bem acomodado.

Nisso tudo, segue Brasil. Puxado por anzóis, perfurado por lanças.

Eu sou parte do coração de Nação. Não me importo com a condenação do meu irmão cérebro ocupado apenas com sua diversão, satisfeito com o refrigerante e seu pão dormido.

Um dia eu ainda verei outro quadro. Nós que somos coração dominando as lanças e rompendo as cordas por um Brasil livre.

Caberá a todos nós, do coração de Nação, tratarmos das feridas e levarmos Brasil nos ombros.

Afinal, ele merece.

DE CARTA DESABAFO

Amigo Fahad Mohammed Aljarboua, tenho visto muita gente enricar nadando na mais gosmenta merda moral. E, pasme, ainda são tidos como heróis nacionais, embora as medalhas conquistadas mereçam as paredes internas das mais seguras cadeias.

E eu, reles trabalhador, tetraneto do escravo Feliciano da Rocha; que trabalho até dezesseis horas diárias (sim, dezesseis em certos dias do mês!); que atraso as contas todo mês, de água e de luz; que sou obrigado a cumprir o que não prometo; que sou filho de pai aposentado com um salário mínimo e mãe sem aposentadoria; que vivo como assalariado, sem casa própria, sem motorista particular e sequer um carro meu; sem direito na Justiça seja ela qual for; que esposei uma senhora simples e do lar; que sempre estudei em escola pública, eu; eu mesmo, por ter os olhos claros e a pele branca, quando vou às ruas reivindicar, sou eu!, eu criticado, que recebo a pecha de “elite branca”, de coxinha e sou mandado “à casa ‘dô’ caralho” nas redes sociais.

Mas eles… Ah, eles! Eles que recebem doações milionárias de quatro em quatro anos; que vivem sobre rodas de automóveis importados e luxuosos; que dormem sob um teto do décimo andar para cima e com vista para o mar, custeado em todas as suas contas, sabe lá Deus como; eles, eles sim!, que asseguram para si aposentadorias de sete dígitos; que nunca cumprem o prometido; que pisam em tapetes persas ou sobre granito italiano em suas salas bem arquitetadas, ricamente adornadas; que saboreiam escargot, caviar e vinho raro em viagens internacionais; eles, eles mesmos, que fingem importar-se com gente como eu, são eles os pobres coitados, vítimas de uma elite preconceituosa, branca e babaca, formada por gente como nós.

No entanto, bom amigo, não os invejo. Tampouco os respeito moralmente.

Apenas não caio mais naquele canto da sereia, tão bem orquestrado nas cartilhas escondidas ou escancaradas nas páginas virtuais. Não. Não caio mais.

Ademais, bom amigo, até quando me revolto e o sangue me encarna as têmporas, serei julgado, condenado, levado ao tronco, açoitado e sumariamente eliminado, esteja certo ou não em minha revolta ou simples indignação.

Não tenho outro direito, senão o de calar-me.

É como eu disse há alguns anos ao meu também amigo Willian Pinheiro: continuamos na senzala.

Só que alguém finoriamente dividiu essas prisões coletivas em presídios particulares. A diferença das antigas para as atuais é que hoje cada um tem os seus molambos de marca, o seu fogo, o seu feijão, a sua pinga, os seus restos de carnes e o seu chá de ervas para curar as dores da alma. Em nossas mãos, as chaves das portas dessas tais senzalas nos dão a falsa impressão que somos livres.

Coitados de nós. De mim!, contado como elite branca e preconceituosa.

Bah!

DAS MENTIRAS DESLAVADAS DO PARTIDO

Tenho evitado a muito custo falar sobre política, mormente nas redes sociais, onde se reproduzem as mentiras por todos os lados, sempre, à conveniência de quem as cria para grupos específicos, seja da situação ou oposição. Uma guerra tétrica, senão infame.

Mas, hoje eu quero trazer para o JBF parte de um esclarecimento julgado válido por mim.

Tem sido veiculada nos canais abertos de TV uma propaganda da Petrobras, na qual uma voz melosa e contagiante vem narrando as conquistas da empresa. Daí que, num certo ponto do comercial, podemos ouvir a seguinte informação:

“(…) e recentemente fizemos uma descoberta que surpreendeu, o pré-sal (…)”

O PT tem se mostrado um gênio na arte de apropriar-se de ideias e projetos prontos, de manipular a história e dados; de mentir descaradamente e de ludibriar o povo sem a vergonha de saber que enganam sistematicamente, em um crasso estelionato social. Seus militantes sectários espalham mentiras (algumas se tornam inclusive oficiais) por hábito. Se por falta de caráter, ou por simples inocência do fanatismo, eu não sei. O tempo dirá.

Trago abaixo um e-mail recebido por mim, em maio do ano passado, vindo da parte de um engenheiro aposentado da Petrobras. Um paulista que escolheu Natal para descansar na melhor idade, sujeito bom de bola, de caráter probo e que divide comigo o gramado do Clube da Caixa Econômica toda quinta-feira à noite.

Já aposentado por tempo de serviço, esse meu amigo continuou na empresa e era responsável por vários projetos importantes, estando à frente de algumas das principais decisões. Diante dele, na hierarquia da Petrobras, quando olhava para cima, só enxergava a partir de Nestor Cerveró, seu chefe direto.

A serviço da estatal, morou alguns anos entre Cuba e Bolívia, e muitas vezes se encontrava com Lula, então Presidente da República, em solo Venezuelano, com a presença da cúpula da estatal. Em conversas particulares, esse meu amigo, é capaz de narrar muito desses encontros que, creiam-me, não foram poucos. E vocês não têm ideia do conteúdo das conversas alongadas por vinhos e uísques caros, sob a penumbra “esfumacenta” dos charutos cubanos.

Mas, enfim, vamos ao e-mail dele, na íntegra:

“Amigo,

Atendendo tua solicitação escreverei umas breves linhas sobre fatos e dados reais da indústria do petróleo nacional. Evitarei me alongar muito e usar termos muito técnicos para que a mensagem seja acessível aos teus contatos/leitores. E também não descreverei tantos detalhes que julgo serem desnecessários. Mas tudo que escreverei são fatos e dados.

O que é de fato o Pré-Sal?

Trata-se de um conjunto de rochas depositadas (formadas) antes da abertura do Oceano Atlântico e, portanto, antes da individualização/separação dos continentes Sul-Americano e Africano, em um conjunto de lagos que se alinhavam ao longo do que viria a ser parte do atual litoral brasileiro.

Esses lagos pretéritos eram ricos em vida, principalmente micro-organismos que, ao morrerem, eram incorporados às tais rochas. E por serem compostos basicamente por carbono e Hidrogênio, quando submetidos a pressão e temperatura , ao longo da história da terra, se converteram em matéria prima para a geração de hidrocarbonetos (petróleo e gás natural).

A primeira descoberta importante de petróleo em rochas do Pré-Sal Brasileiro, ocorreu na porção terrestre da bacia Sedimentar Sergipe-Alagoas , em 1963. Trata-se do campo de Carmópolis, no estado de Sergipe. Este campo, o maior campo terrestre brasileiro por muitos anos, é produtor em rochas de uma formação geológica chamada Formação Muribeca/Membro Carmópolis, formada antes da primeira ingressão de águas marinhas que vieram a depositar os evaporitos (sais) naquela região.

Desde então se sabia do bom potencial gerador e acumulador de petróleo das rochas do Pré-Sal Brasileiro.

No final da década de 60 é descoberto o primeiro campo de petróleo na Plataforma Continental brasileira. Coincidentemente também em Sergipe, o Campo de Guaricema (1968). O petróleo estava acumulado em rochas do Pós-Sal, porém havia dificuldade em se identificar as suas fontes geradoras.

Na década de 70, ocorreram as primeiras grandes descobertas na plataforma Continental da bacia de Campos. Também em Rochas pós-sal. E nesta mesma década os Geocientistas da Petrobras estudando estes descobertas, concluíram que , embora acumulados em rochas do pós-sal, este petróleo, assim como aquele descoberto em Sergipe em 1968, eram de fato gerados em rochas do Pré-Sal.

Ocorre que nesta época, por falta de tecnologia que permitisse um bom imageamento das estruturas geológicas do Pré-Sal, e por falta de tecnologia para perfurar poços muito profundos e que atravessassem as camadas de sal, o processo de exploração petrolífera na Plataforma Continental brasileira continuaram concentrados no pós-sal.

No final da década de 90, com a evolução da tecnologia geofísica da Sísmica de Reflexão, uma espécie de ultrassonografia da terra, ficou confirmada a presença de estruturas geológicas promissoras em rochas do pré-sal das bacias sedimentares de Santos, Campos e Espírito Santo. Restava, então, o aprimoramento da tecnologia de perfuração para testar estas estruturas e confirmar o potencial do Pré-Sal.

A Petrobras , através do seu Centro de Pesquisas (CENPES), em colaboração com o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP), bem como as grandes companhias de Serviços petroleiros, se dedicaram intensamente ao aprimoramento das tecnologias de perfuração, para poderem acessar estes objetivos profundos.

Enquanto isso, ocorreram as primeiras licitações da Agência Nacional do Petróleo, em 2000, 2001, nas quais eram ofertados blocos exploratórios onde os técnicos da Petrobras haviam visualizado estas grandes estruturas geológicas do Pré-Sal.

Nestas licitações a Petrobras, através da sua Diretoria de Exploração, atuou agressivamente nas licitações da ANP, garantindo para si o direito de exploração destes blocos de alto potencial.

A tecnologia que permitiu a perfuração e avaliação de poços tão profundos, atravessando as espessas camadas de sal, alcançou alto grau de desenvolvimento a partir de 2003/2004.

Foi então que a Petrobras iniciou sua campanha de perfurações exploratórias com objetivo de confirmar o alto potencial do Pré-Sal brasileiro, tendo sido exitosa com a confirmação da presença de grandes quantidades de petróleo nas rochas de águas profundas do litoral brasileiro.

Num próximo e-mail vamos falar sobre a tecnologia de produção e a disponibilização de equipamentos que permitiram o anúncio da auto suficiência nacional em petróleo em 2005.

Um abraço e aguarde a continuação.”

Já desmente, por si, a fala no comercial de TV.

Semana vindoura eu trarei a outra parte, a fim de não ficar uma leitura enfadonha, desmentindo algumas coisas mais, e esclarecendo muito outros assuntos.

Aguardem.

DE CHUTES FORTES E BOMBAÇOS

emidiodoceu

Seu Emídio e Dona Docéu

Seu Emídio, sujeito dos mais bonachões que conheci, jeitão desprendido de tudo, sertanejo arretado, tipão de homem e de uma índole boa como poucos, gostava de jogar sinuca e contar causos para depois soltar a gargalhada. Numa dessas tardes de calor, ele sem camisa, cinto aberto sob uma barriga há muito lutando contra a lei da gravidade, descalço e absorto na bola branca, disputava as bolas coloridas sobre a mesa de pano verde com um vendedor desconhecido e vindo de outras terras, de passagem pela nossa.

Ninguém sabe como, mas entre uma tacada e outra, uma encaçapada e outra, começaram a falar nos chutes fortes dos jogadores de futebol. Certamente algum peru, desses que gostam de observar jogos de sinuca discutindo outros assuntos e, de vez em quando dando um pitaco, foi quem puxou a conversa. Também não sabemos se para impressionar o oponente, mas Seu Emídio ia contando caso atrás de caso dos seus poderosos bombaços, como chamava os seus indefensáveis chutões. Dizia que goleiro quando sabia dele entrando em campo se tremia todo.

– Vi muitos sair correndo, só em ouvir o nome Emídio Dantas. Mandei outros tantos direto pro hospital – gabava-se. – Certa vez, jogando em Carnaúba, eu emendei uma de primeira que só foram achar três dias depois dentro dum buraco lá na Mina Brejuí – contava ele.

– Olha que eu conheço a região, meu senhor. A distância é grande! – Advertiu o vendedor.

– Maizômi, ora se é – limitou-se em afirmar o velho Emídio.

E seguiu contando seus causos, com o vendedor aqui e acolá dando uma de desacreditado.

– Meu filho, você não é daqui, mas fique sabendo que tiro de meta, pra mim, era como se fosse pênalti. Fiz muitos gols direto do tiro de meta, rapaz!

Aí, se abaixou para mirar a carambola, e enquanto ensaiava a tacada, falou:

– Um dia, num jogo arrochado que só a gota serena, já terminando o segundo tempo e o resultado teimando em não sair do zero a zero, e era zero a zero, era zero a zero, era zero a zero… Tcham! Marcaram um pênalti ao nosso favor. Aí, a torcida comemorou logo, e muito!, com uma algazarra danada, porque eu fui lá e peguei a bola pra bater – abaixou um pouco a voz e encarou o vendedor. – O último goleiro que tinha agarrado um chute meu, hômi, rasgou a rede abraçado com a bola e caiu lá debaixo do pé de tamarina que tinha por trás do campo. Foi num sei quantos dias internado e uma mancha como tuberculose pegada dos peitos pros pulmões, assim, ó, pela frente. A marca da costura da bola tá lá nas costas dele até hoje – finalizou apontando para algum canto com a ponta grossa do taco.

– Oxente! E ele não agarrou foi de frente? – perguntou o vendedor. Como a marca ficou atrás?

– Pra você ver como foi com força, cabra – descartou Seu Emídio.

E foi marcar os pontos ouvindo o vendedor dizer “conte mais, que eu acredito”, desacreditando no tom de voz que usou e jogando em seguida. Depois, seu Emídio contornou a mesa, apanhou o giz, calibrou o taco, se agachou e voltou à sua narrativa.

– Peguei a bola e inventei de rir do goleiro. Ele me encarou e gritou pra mim: Emídio, bote tudo que tiver aí, que gol aqui hoje não passa” – continuou Seu Emídio.

– E aí? – perguntou o vendedor, fazendo um arzinho de riso.

Seu Emídio, ajeitou a calça, olhou analisando o jogo, observou para a diferença de pontos na lousa riscada com números feitos em giz, deu a volta na mesa, se agachou, levantou-se, voltou analisando o jogo, pegou no giz, calibrou a cabeça do taco novamente, franziu a testa e se encurvou para jogar.

– Rapaz, arrumei a bola na marca e corri até o meio de campo. Nisso a torcida já comemorava. Quando ouvi o apito do juiz corri feito louco pra chutar. Enquanto corria eu pensei: “Hoje eu arranco a cabeça desse fela da puta fora, ou lhe faço um buraco no meio dos peitos”. Levantei o pé e abaixei o bicho com força na bola. O chute saiu como um tiro seco: Pá! De Longe ouviram, hômi. Mas o infeliz do goleiro achou de voar e botar a mão na danada redonda. Imprensou quatro dedos da mão entre a bola e o travessão. Os dedos caíram na hora, e até hoje ninguém sabe nem se foi gol, porque o travessão ninguém encontrou e nem a bola se achou mais!

– Ah, essa não! – protestou o vendedor. – Mentira tem limite, e o senhor chegou nele. Tá querendo me fazer de besta, meu senhor?!

Nisso Severino Dedinho, pessoa estimada por todos da nossa terrinha, entrou na hora no ambiente da sinuca, para utilizar o banheiro. Seu Emídio, sem mudar o semblante, e na mesma calma da narrativa, perguntou-lhe escorando-se na parede, com o taco à sua frente sendo seguro pelas duas mãos:

– Foi ou não foi, cumpádi Biró?

Severino, conhecedor dos causos de Seu Emídio, mesmo sem saber ao quê se referia a pergunta do amigo, limitou-se a levantar a mão sem os quatro dedos, perdidos num acidente quando ele era ainda um jovem padeiro, deixando só o polegar estendido para cima sinalizando um positivo para o velho compadre, colega de padaria na juventude.

O vendedor arregalou os olhos, jogou o taco sobre a mesa e ainda mudo pagou o tempo sem se preocupar com o troco. Saiu quase correndo e se perdeu Rua da Matriz acima. Por certo, conta como certa até hoje a estória, quando se encontra numa roda falando de chutes fortes.

Êita, Seu Emídio véi de riso largo. Ô cabra bom que deixou saudade!

AS TERRAS DO MEU AVÔ

Jácio Mamede - O Pitoco

Inspirado nesta foto de Jácio Mamede Galvão, o “Pitoco”

Meu avô me deu caminho,
Bom sangue, bom coração,
O amor por este chão,
De caatinga e tanto espinho.
Vai longe o meu carinho
Por esse céu azulado,
Esse pago, chão rachado,
Por esse meu pé-de-serra
E por esta boa terra,
Onde vovô foi criado.

Aqui eu também nasci,
Aqui também fui criado.

De vovô, abençoado,
Herdei fé, herdei coragem,
Por isso em sua homenagem,
Cavalgo o sertão amado.
Às vezes fico calado
Dentro da vegetação
Ouvindo um tal coração
Como se vovô vivo estivesse
Pedindo a Deus, numa prece,
Chuva para o seu sertão.

“Pai nosso que estás nos céus…”
Mande chuva ao meu sertão.

Uma sublime oração
Eu ouço sem ver ninguém
Seguindo e dizendo amém
Quero chuva em meu torrão.
Me invade a emoção
Na serra, sobre o platô,
Sol baixando, céu bordô,
E eu feliz cavalgando
Enquanto sigo amando
As terras do meu avô.

A MESA DO MEU AVÓ

Ao birô velho de Seu Chico Ciano

Em madeira de lei confeccionada
Já contando quase um século de idade
Guarda ainda a sua originalidade
Dos primeiros dias de montada.
Mesa simples, muito pouco trabalhada,
Duas gavetas onde vovô guardou tostões,
Documentos, dinheiro, anotações,
Sua pena, o tinteiro e outros trecos,
E eu, menino, guardava alguns bonecos,
Meus cadernos e meus times de botões.

Sobre ela eu vivi mil emoções…
Do bê-a-bá aos meus primeiros poemas
Já vovô solucionava mil problemas
Quando a seca assolava os sertões…

Em seu tampo vovô se debruçava,
Para contas, conversas e escritas,
Sua mesa nunca foi das mais bonitas
Mas era nela que ele, humilde, trabalhava.
Eu menino sobre o tampo estudava,
E traçava meu futuro, tinha esperança,
Essa mesa só me traz boa lembrança
Até do avô que eu mesmo não conheci
Mas, me orgulho porque ontem eu recebi
Sua mesa, de mamãe, como herança.

Acary do Seridó, janeiro de 2015

DE MESA FARTA E SUJEITO SEM ESTILO

zebrazvelho

A fartura na mesa do seridoense é coisa conhecida aqui, ali e alhures. É próprio do nosso povo uma mesa cheia, com diferentes tipos de comidas, doce e salgados postos para uma mesma refeição. Não importa a hora do dia, a mesa do seridoense é feito exército em tempos de guerra, está sempre ali, pronta para ser usada.

Em recente viagem ao Rio de Janeiro, na casa de uma seridoense, aliás, em sua cozinha, fui praticamente obrigado a fazer duas refeições em menos de três horas. Ouvi da boca da dona da casa a afirmativa que “no Rio quando chega uma visita, eles fecham a porta da cozinha. O seridoense, não. Escancara a dispensa e parece, até, querer matar o visitante pela boca”. Sônia de Chico Velho foi quem me despertou para isso tudo, apesar de eu já saber há tempos da fama das nossas mesas.

Tal fato, das mesas fartas, vem de longe sendo apreciado. Não sei bem quem foi o autor – Chico de Seu Bilé me garante que foi o “doutor” Juvenal Lamartine, em seu Livro Velhos Costumes Do Meu Sertão -, mas ainda na primeira metade do século passado alguém escreveu que a mesa de José Braz do Talhado (foto), o primeiro do nome, era a mais farta do Seridó.

E era! Ainda segundo Chico de Seu Bilé, sobrinho do dono da casa, lá se costumava fazer quatro refeições diárias. O café servido antes das seis e meia, o almoço estava à mesa antes do meio dia, a janta vinha pouco depois das dezesseis horas e, por fim, a ceia por volta das dezenove horas no máximo.

Do mesmo Chico ouvi a história que passo a narrar agora.

Seu Bilé acordou cedo para ir às compras em Currais Novos, cidade onde também fecharia alguns negócios. Combinara com Antônio Marrada essa ida e, o sol ainda repousava frio quando pegaram a camionete e arribaram em busca da cidade vizinha.

No meio do caminho, Seu Bilé sabendo da mesa sempre posta na casa do cunhado, sem delongas ou falsa etiqueta, resolveu fazer uma visita de surpresa, a fim de realizar a primeira refeição ali.

Depois da alegria demonstrada dos donos da propriedade pela visita inesperada, dos cumprimentos e das bênçãos de Seu Zé Braz Velho e Dona Cantídia, sua esposa, ao afilhado Antônio Marrada, as perguntas tradicionais nesses tipos de chegadas foram feitas, respondidas e o grupo seguiu para se sentar no grande alpendre frontal, onde bancos de madeira maciça davam à parede da grande construção as vezes de espaldar.

A casa já se encontrava movimentada, com gente saindo e entrando e, na cozinha, as tapiocas e outras comidas sendo feitas. O cheiro das carnes e de queijo tomando conta do ar.

Uma boa conversa corria solta e os primeiros raios de sol chegavam ao alpendre, quando alguém anunciou na porta que o café estava pronto.

Os donos da casa, gentis, deram passagem para Seu Bilé e Antônio adentrarem pela sala espaçosa cheia de retratos dos velhos antepassados, passando por uma espécie de saleta e para irem todos até uma segunda sala grande, onde a mesa estava posta. Seu Bilé e Seu Zé Braz seguiram bem devagar na frente tratando de negócios, conversando sobre chuvas, sobre gado, sobre safra de algodão… assim chegaram e se sentaram à mesa.

Bolos, biscoitos, cuscuz, leite, coalhada, canjica, pamonha e milho, mais café, frutas, sucos, pães, tapiocas, broas, carnes, ovos… e queijos. Queijos de coalho e de manteiga, já fatiados, cada tipo em sua própria travessa.

Todos começaram a se servir. Numa espécie de ritual puseram o café nas xícaras, trouxeram as tapiocas aos pratos, e foram separando cada um a sua comida.

Antônio Marrada esticou-se até o meio da enorme mesa e pegou a travessa do queijo de manteiga. Trouxe para junto do peito e com um garfo foi depositando as fatias em seu prato. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… a metade!

Já se esticava novamente para devolver a travessa ao seu lugar de origem, quando Seu Zé Braz, vendo o exagero de queijo em seu prato, advertiu o afilhado:

– Antônio, lembre-se que os outros também gostam de queijo.

Nesse momento Antônio já tinha encostado a travessa de volta à mesa, embora não a tivesse largado de tudo. Mas, num impulso, recolheu-a de novo para junto do peito e, empurrando o restante do queijo para o prato, foi respondendo:

– Mais do que eu, eu duvido, padrinho.

Ô medo fila da mãe de ficar sem queijo!

MANHÃ DE DOMINGO

O dia amanhece com o sol já alto da sétima hora em ponto no relógio de pulso que marca a minha carne desejosa de outras marcas. A cama desarrumada em seus lençóis antigos, perfumados apenas pelo cheiro dela, deitada ao meu lado, virada contra a janela aberta por onde uma brisa entra jogando as cortinas para o centro do quarto e balançando o meu mundo.

A buzina de um carro e o grito de uma mulher me despertaram de vez.

Levanto ansioso, um gosto estranho na boca (será saudade do que não vivi na noite?), caminho trôpego pelo quarto, banheiro, espelho, cabelo em desalinho, rosto inchado. O elástico preso à seda do calção nem oferece mais tanta resistência…

Mãos molhadas, rosto lavado, cabelo umedecido servindo de pano para as mãos. Toalha cheirosa alisando o rosto mal barbeado onde ínfimas marcas já desenham o mapa do meu próprio tempo. Olhos verdes fitando do espelho para mim, sem sorrisos, sem apontar lugares. Os mesmos olhos que se fecham enquanto as mãos se abrem espalmadas sobre o mármore frio da pia e o coração, sem ter um porquê, dispara em par com um suspiro longo.

Quarto, corredor, sala, mesa… confidente. A tatuagem esperada ainda não me está presa à carne nesta manhã de domingo.

Um Bem-te-vi solitário canta lá fora caçoando de mim, por tudo aquilo que eu quis ver, e não pude.

Sinto inveja da dama – qualquer uma – esparramada por aí numa calçada fria de certo bairro nobre, trazendo no rosto as marcas da felicidade sobre a maquiagem ainda perfeita, emocionada pelo seu fidalgo desfilando garboso em risca de giz, ouvindo os miados de um cio nenhum pouco latente da felina criada na rua.

Da sétima hora, a metade já se foi.

VEM! VAMOS EMBORA!

E entre uma rejeição e outra, entre um escândalo caducando e outro dando os primeiros passos; digo assim, entre uma cara lavada e uma cara de pau bem untada com o óleo da safadeza; ou melhor, entre um colarinho branco de gravata com uma caneta na mão, e o jovem “noiado” de t-shirt com uma 4.5 não registrada e ainda escondida na cintura, o país acordou hoje como acorda todos os dias.

“Uma média”, pediu o operário ao rapaz do balcão lá no fundo do estabelecimento. Depois saiu com a barriga enganada para pegar aquele ônibus lotado, no qual o último cidadão que subiu segue pendurado, feito molambo de bolso rasgado.

Molambo humano.

Talvez na FM sintonizada pelo motorista, olhos assombrados e desconfiados pelos assaltos sofridos tanto por gente como o noiadinho da 4.5, quanto pelo homem de gravata e caneta cara na mão, seguindo ao seu lado no trânsito lento, sem ser notado como um “noiado social” pela maioria, refrescando-se no modelo luxuoso; pois bem, talvez no rádio do suado motorista esteja tocando uma antiga canção do Vandré.

Há um canteiro separando as duas vias da principal, a que vai e a que vem. Ambas têm os mesmos sonhos, paixões, decepções e dramas, dos que vão e dos que vêm.

Nem a velocidade é diferente. Os ânimos também não.

Apenas o canteiro com uma grama bem cuidada, para apreciação do turista, separa ambas além do sentido. Uma vai ao sul da cidade, outra vem de lá.

Aqui e alhures uma roseira solta o aroma anulado pela fumaça de alguns canos. Pobres rosas! Belas e desapercebidas. O que adianta nascer flor no meio de uma avenida?

Adianta. Adianta sim! Nem sempre apenas os turistas olham de lado.

O coroa ainda apaixonado aproveitou o sinal vermelho, sem reparar no rapaz com nariz de palhaço fazendo malabares logo à frente, desceu o vidro do modelo popular, esticou-se todo em ombro e braço para colher uma delas. Um jasmim branco.

Bendita flor escolhida.

Ofereceu à jovem senhora no banco ao lado. Eram casados há vinte anos. O sinal verde brilhou. Mais brilhantes ficaram os olhos dela.

Enfim… depois não digam que não falei de flores.

AMBRÓSIO CÓRDULA E SEUS SANTOS DE IMBURAMA

Ambrósio Córdula

Ambrósio Córdula em pleno trabalho

O meu amigo Ambrósio Córdula, pode-se dizer, comeu muita poeira Brasil afora antes de chegar ao nível de acabamento encontrado hoje em suas imagens sacras.

Filho de Fé Córdula, artista plástico reconhecido no Planalto Central; nascido em Cruzeta e crescido em Acari até certa idade, Ambrósio sempre se viu cercado pelo artesanato. Fosse pelas peças do pai, ou pelas costuras da mãe, andou ao lado da arte desde muito pequeno.

Já me contou mais de uma vez, entre uma taça de vinho e outra, que a primeira experiência em esculpir veio de uma “arte” (literalmente arte) talhada nas barras da cama de uma vizinha, quando morou na Cidade da Esperança, bairro da capital potiguar.

Grau de acabamento

O grau de acabamento

Depois vieram os cajus de madeira na adolescência, feitos por pura diversão.

Mais tarimbado e engrossando o pescoço, deixou Natal e foi em busca da Capital Federal, onde fabricou artesanato em couro, vendido na tradicional Feira da Torre de Televisão.

Por lá permaneceu três anos, quando retornou para o Rio Grande do Norte.

Seis meses depois descia o mapa em busca de Vitória do Espírito Santo. Ficou por aquelas bandas algum tempo, mas escolheu Goiânia para morar. Nessas ribeiras de Goiás se aproximou mais da arte feita em madeira, nas famosas talhas de parede, moda do final dos anos setenta.

No começo da década de oitenta voltou para Acari. Na cidade da sua infância arriscou-se na produção de móveis. Não prosperou como desejava.

A vida, ou melhor, o destino, lhe reservara a arte sacra.

Nos anos noventa começou a se dedicar com mais afinco. O talento se mostrou desde o princípio e eu, então seu vizinho na Rua Manuel Esteves, vi algumas de suas primeiras obras tomarem forma. A facilidade da produção era proporcionalmente contrária à dificuldade das vendas.

Mesmo assim, Ambrósio tornou-se santeiro. E o melhor: se aperfeiçoou. Não apenas em imagens de santos, mas, também, na confecção de oratórios. Sua obra cresceu.

Sempre de Imburama, árvore dada às chãs de serra do sertão e de fácil reprodução. Aliás, Ambrósio faz questão de ir ao ambiente, subindo e descendo serra com a permissão dos donos de terras, e ele próprio acaba escolhendo a madeira dos seus santos. Afinal, a experiência já lhe disse: nem toda Imburama serve para ser transformada em arte.

Hoje o título que lhe cabe é de Mestre Artesão, concedido pela Fundação José Augusto. Pois é, sou amigo de um Mestre!

E, sendo Mestre, Ambrósio tem em seu ateliê a companhia de outras seis pessoas, ajudantes, pintores, entalhadores e aprendizes-escultores dando forma primária às peças, antes de ele próprio lhes proporcionar o acabamento final.

Quando suas imagens são pintadas, a pintura é uma obra à parte. Feita também no ateliê, algumas imagens são esmeradamente acabadas com ouro.

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Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora do Carmo

Daí, que a necessidade de ganhar o pão – somada a satisfação de sua produção em imagens – lhe deu uma empresa e, muito mais importante, um trabalho social incrível. Afinal, seu ateliê é uma espécie de escola. Dele sairá outros “mestres”. Nisso eu aposto.

Com santos espalhados pelo mundo inteiro, o meu amigo Ambrósio Córdula hoje tem o seu nome escrito nas maiores e melhores galerias de Arte Sacra do Brasil. A prova é a sua presença no livro “Em Nome do Autor”, quiçá a maior e mais importante obra já editada sobre artesanato do Brasil.

Tudo partindo lá de Acari. Tudo sobejo da arte do moleque que talhou as barras da cama da vizinha.

No Natal, com certeza, dividiremos alguma garrafa de vinho, entre um causo contado por mim, e uma risada dele. A menina Maria, sua netinha arteira, perturbando nós dois, porque senão, nem tem graça.

Para conhecer melhor a sua obra, basta acessar o site Ambrósio Córdula clicando na imagem abaixo:

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AMANHÃ VAI SER OUTRO DIA!

PMDB, PRN, PSDB, PT… tudo farinha mofada caída do mesmo saco furado: MDB/1968.

Queriam mudar o Brasil e tinham um projeto espetacular para isso. Mudaram?

Não.

A ganância pela permanência no poder – aliada com a corrupção – fraturou o ideal democrático e de crescimento sustentável do Brasil. Vejam no que deu.

Nenhum desses sobejos do MDB desenvolveu algo justo e bom para a nação, com lucro social para todos os brasileiros. Nenhum!

O PMDB foi sustentado pela voz do povo no movimento Diretas Já, dentro do congresso, e derrotou Maluf no voto indireto.

Porém, o primeiro partido pós Ditadura Militar, caiu em um golpe impensável: chegou ao poder dizendo sim a Sarney, capacho da extinta ARENA, um dos criadores do PDS e, por conveniência, lacaio do antigo sistema inserido no novo (P)MDB. Alguns foram às ruas e gritaram “o povo não esquece, Sarney é PDS”. Não se esqueceu o personagem, porém, esqueceu a trama e ela se repetiu.

Mesmo assim o partido não acordou e apoiou – em busca da permanência no poder – a entrada de Fernando Collor em suas trincheiras.

Também parido nos corredores escuros e obtusos da antiga ARENA, jovem, bonito, elegante, bem casado e transferindo ao povo o ideal de herói “caçador de marajás”, Collor chegou ao Planalto Central com apoio da massa. A oposição lamentando apenas o fato dele ser o queridinho da mídia.

Rapidamente se foi essa escassez de argumentos. Em pouco tempo eles, os argumentos contra Collor, eram relacionados em dezenas.

Depois de sua saída a esperança ganhou novo rosto. Entretanto…

PSDB e PT juntos têm vinte anos de governo e vivem na pseudo briga para provar quem mais fez pelo Brasil. Fizeram, fizeram. Cada um aquilo que puderam fazer. Mas foi pouco. Muito pouco! Poderiam ter feito mais caso o par ganância/corrupção tivesse sido deixado de lado por eles e se, somente se, a base aliada não fosse uma alcateia faminta à espreita dos cordeiros gordos vindos pela venda de seus apoios.

Por fora disso tudo o DEM, filho do PDS, escancara a sua boca cheia de dentes letais e de saliva venenosa, fingindo bondade e vestindo-se de anjo, forçando o esquecimento dos dramas vividos nos porões sob a grande sala onde se regalava a sua avó ARENA.

O povo saiu às ruas e até exigiu Reforma Política urgente – agora o próprio governo diz ser urgente, ou seja, ludibria o povo mais uma vez; afinal todos sabem: não sairá do discurso – entre outras coisas. Foi e é a prova da falência do atual sistema repetindo o velho modus operandi.

A Ditadura Populista e o plano de governar o Brasil por trinta anos pensados por PT/PMDB é um ultraje à nação. O povo também está contra a privatização da política.

Os partidos políticos agindo fora dos ideais escritos em seus estatutos preliminares e presentes nas primeiras atas, cospem na cara de quem os apoiou no passado.

Ano passado o país perplexo virou o País do Protesto. De nada adiantou. Se elegeram todos.

Mudanças já! Mudanças, sim, assim mesmo no plural, para estarem alinhadas com a pluralidade de pensamentos políticos assomaram-se e saíram das ruas para as torres mais altas de Brasília.

E os nossos olhos brilhando auguraram um futuro melhor, como sempre foi. A esperança moribunda, no entanto, vivia! Ainda vive.

Amanhã vai ser outro dia.

A Ética, de uma vez por todas sendo o mastro inquebrável da nossa bandeira. “Ordem e Progresso” por lema absoluto!

E eu, que nada sou e nada tenho, vou cantando por aí que “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Quem ousará dizer que não canto algo moderno?

DE APOSENTADORIA MELHOR QUE MEGA SENA DA VIRADA

Com essa onda de Mega Sena acumulada, eu me lembrei do velho e bom Nílson de Dona Ana de Seu Nélson Dantas, e uma prosa que tivemos há alguns meses.

Nilsão, acariense de boa cepa, me contou que em um concurso de final de ano, Mega Sena prometendo pagar cento e tantos milhões na tal da virada, resolveu apostar depois de anos e anos sem fazer uma fezinha. Nem em jogo de bicho arriscara-se nesse tempo todo. No máximo um binguinho de bolo achocolatado na Festa da Padroeira.

Entrou numa casa lotérica, lembrou do aniversário da esposa, dos filhos, do dele próprio, do pai, da mãe, do dia do casamento, da data que assumiu o emprego no TCE… enfim, apostou alguns bilhetes.

Chegou em casa radiante, cheio de esperança, segurando os bilhetes na mão erguida sobre a cabeçona pelada e comentou com a esposa naquele seu vozeirão pausadamente pausado, mais parecendo um trovão preguiçoso:

– Mulher, apostei na Mega Sena. Deus querendo nós ficaremos ricos! – empolgou-se na pronúncia da última palavra da frase.

– Nossa, Nílson, e quanto ganhará o acertador? – perguntou a esposa.

– Estão prometendo cento e tantos milhões – respondeu Nílson olhando os bilhetes na mão. Nos olhos o brilho da esperança.

– Virgem Santa! E você, o que pretende fazer com tanto dinheiro, meu amor? – quis saber a mulher.

– Ainda nem sei. Porém, só digo uma coisa: não passarei nunca mais pela frente do tribunal.

– Você é doido, Nílson – retorquiu a esposa em tom de repreensão. – E sua aposentadoria, vai perdê-la, é?

Nílsão me confessou que rasgou os bilhetes na hora. Havia perdido o encanto e a fé.

Vai se aposentar pelo tribunal, mesmo.

DE PERGUNTA CAPCIOSA

E fui entrando naquela pequena cidade em busca de supermercados, mercadinhos, mercearias, padarias, conveniências e afins.

O carro em marcha lenta e o meu pescoço jogado, cadenciado de um lado para o outro, vasculhando o ambiente de casas muito simples, erguidas sem muita simetria no alinhamento da ruazinha apertada.

Logo na primeira esquina da rua da igreja, uma senhora – sob um guarda-sol florido – observou-me com aquele quê no olhar de quem fala com os olhos, sentenciando “esse aí não é daqui”.

E eu, que adoro o jeito e a fala do nosso povo mais simples, abaixei o vidro da minha porta e lhe cumprimentei com um “boa tarde”, ao que fui educada e cordialmente respondido com um sorriso de gengivas carecas.

– Boa tarde, ‘sinhorzim’ – respondeu-me a mulher toda feliz, talvez pelo contato inesperado.

Daí, para sentir mais a voz e o falar daquela simpática senhorinha, fiz uma pergunta um tanto quanto capciosa.

– A senhora sabe se aqui nesta cidade tem Supercoop*?

Ela parou olhando para cima, como quem busca na lembrança alguma coisa, ou o significado de uma palavra, e quando baixou o olhar se aproximou mais do carro dando dois passos à frente, se curvando um pouco ao meu encontro e respondeu com seu sorriso de gengivas lisas e bochechas escavacadas:

– Ainda ‘num’ tem, não, ‘sinhor’. Mas o prefeito já disse na ‘rádia’ que vai fazer um aqui, bem no meio da praça, pra todo mundo usar – falou acrescentando de uma vizinha já – até – costurando um vestido novo para a inauguração.

Agradeci pela informação com o máximo de efusão emprestada à minha fala.

– Obrigado, senhora. Deverá ser uma festa incrível e eu aposto que a senhora também estará muito bonita na comemoração – complementei.

Ela levantou o polegar da mão livre, pondo-o próximo do rosto, e riu apertando os olhos entre as rugas de sua face, entre as pálpebras arriadas pelo tempo, encolhendo a cabeça branca no meio dos ombros.

Depois fiquei pensando o que teria significado “Supercoop” para aquela humilde figura.

A simpatia do meu povo, bem como a sua simplicidade, pois bem, ambos me encantam!

*Supercoop – é uma associação de supermercados do RN, reunidos em um rede de compras.

PAULO “DE MÍLTON” GALVÃO

Ontem à tarde eu saí de casa em busca de uma resenha boa para conversar e trocar ideias, levando comigo a Minha Vigélia, ela procurando alguns artigos pelas lojas do centro de Acari. Chegamos pel’A Rua, como chamamos a parte mais antiga da cidade ainda cedo da tarde. Tempo esquisito, nem dublado nem sol aberto, com temperatura ali beirando os trinta e tantos, fui encontrar Toinho Medeiros em sua nova casa, deitado na varanda numa rede preguiçosa. Coisa de quem está de bem com a vida. Vigélia entrou no supermercado de Gílson e eu, atendendo um chamado de Toinho, fui ter com o mesmo em sua varanda, sobre o supermercado; que, aliás, fica naquela parte ao lado da casa de Seu Antônio Medeiros, onde antes foi um jardim. Pois bem, subi as escadas e fui sentir o vento vindo forte. Vinte e tantos minutos de conversa e descemos os dois para nos encontrarmos com Ambrósio de Chico do Padre, que aparecera na esquina dos Pires.paulooculos

Estávamos os três numa prosa boa, ali na pracinha ao lado da casa do saudoso Quinca Aprígio, relembrando uns fatos acontecidos há anos, quando um carro reluzente estacionou ao nosso lado. Era Paulo de Mílton Lopes. Já desceu reclamando da forma como estacionam em Acari, e olhando para o carro em que eu andava, despretensiosamente largado meio que no meio da rua, foi logo me perguntando se eu era Seu Zé Braz. Depois entrou na conversa com aquele seu jeitão único.

Paulo, a quem conheço desde quando a minha memória nem gravava fatos, de tão pequeno que eu era, é um desses cabras que eu admiro pela autenticidade, pela capacidade de ser sincero sempre, de não ter papas na língua e de tratar a todos com a mesma veia de humor. Motorista quase se aposentando no DNOCS, é uma dessas figuras que ilustram e honram a nossa terrinha, pelo seu espírito questionador, inquieto e por suas posições levadas ao conhecimento de todos de uma forma bem peculiar. Chegou vestido como gosta: camisa aberta no peito, mostrando uma corrente prateada com um grande “P”, relógio bem polido no braço, caneta no bolso e uns óculos escuros presos ao primeiro botão fechado na parte de cima da camisa. O bigode, sempre tão bem cuidado, cheio e agora recebendo uma tinta preta para contrastar com o cabelo branco que teima em rarear em sua cabeça a cada dia mais, porém sempre bem penteado. Bermudão jean’s e nos pés uma sandália em couro trabalhado.

Apesar de ter apenas apertado a sua mão, senti o cheiro do bom perfume. Pois é, Paulo é desses cabras de estilo anos sessenta. Só anda com uma boa colônia.

Conversa vai e conversa vem, num determinado ponto se falou em telefone. Paulo tomou a fala para si e contou um acontecido ontem mesmo, cedinho, lá pela feira livre de nossa terrinha.

Um conterrâneo seu, da vizinha Cruzeta, precisando fazer uma chamada telefônica, mas sem créditos suficientes para realizá-la para outra operadora, lhe perguntou:

– Paulo, seu telefone pega Claro? – perguntou se referindo à operadora.

Paulo de Mílton, que poderia facilmente ilustrar um livro inteiro de resposta boas para perguntas imbecis, lhe respondeu sem demora:

– Pega Claro, no escuro, de madrugada, à boca da noite, de meio dia…

Demos, Toinho, Ambrósio e eu, uma boa gargalhada pela forma como ele contou a história. Eu depois lhe falei:

– Ô Paulo, então você é dos cabras de respostas boas?

– Rapaz, minha paciência é bem curtinha pra certas coisas, viu? Você veja que ontem de manhãzinha Fernandão Bezerra me ligou. Quando eu atendi lá vem ele com a pergunta “ô, Paulinho, o que você está fazendo agora?” Eu respondi assim, desse jeitinho: “ô Fernandão, tou falando com você pelo telefone”.

Depois nos narrou de certa vez, sua irmã Titica ter lhe presenteado com uns óculos de marca, caros, da moda de então. Sua armação em aço inox revestido de ouro, trazia separado pela logomarca da grife um par de lentes marrons. Certo descuido dele, de Paulo, fez com que os óculos fossem de encontro ao chão e uma das lentes se partiu. Conserto só em Caicó, lhe disseram aqui por Acary.

Paulo prendeu os óculos no peito, como gosta de usar, uma lente no lugar e o buraco no outro lado, e esperava um ônibus para ir resolver o problema. Acontece que todo mundo que passava dava o seguinte pitaco: “ponha uma lente verde. É mais bonita”. É verdade que foi difícil convencer o rapaz da ótica em Caicó. Mas de tanto insistir, conseguiu pôr a tal lente na cor proposta. Quando saía na rua com os óculos, e alguém lhe perguntava o por quê de uma lente marrom e outra verde, retirava com cuidado o objeto do rosto e, apontando calmamente para uma lente e depois para a outra dizia:

– Essa lente é minha. É a feia. Essa outra, a bonita, é a dos pedidos do povo.

Outra vez foi a sua primogênita, Lizandra, pedindo-lhe para retirar o bigode. Bigode que ele tanta zela.

– Papai, queria ver como o rosto do senhor fica sem bigode.

– Minha filha – ele respondia, – você está com vergonha de mim, do meu bigode? Está me achando velho?

E a filha seguia com o pedido, que passou de uma semana à outra e ganhou alguns meses na mesma ladainha.

Certo dia quando Lizandra chegou em casa, vindo da escola, encontrou seu pai muito bem sentado no sofá assistindo Raul Gil, de quem é fã. O rosto estava diferente. Lizandra olhou, olhou novamente para ter a certeza…

– Papai, o que foi isso?! – perguntou com admiração. – O senhor tirou uma metade do bigode?! Por quê?

– Tirei a sua parte, pois você é filha e tem direito a herança do que é meu. Deixei a minha parte – respondeu tranquilo. – A sua está dentro de uma caixa de fósforos, sobre sua penteadeira.

– Mas eu só queria saber como o senhor fica sem bigode, e assim eu não saberei como é o seu rosto sem o bigode – aturdiu a filha espantada.

E Paulo, sem muito alvoroço, respondeu calmamente:

– Me olhe de perfil, pelo lado que lhe pertence o bigode.

Simples, não?

Paulo Galvão, ou Paulo de Mílton, Paulo do DNOCS, ou ainda Paulo de Taita (como chamo Maria do Carmo, minha tia por adoção) é ou não uma figuraça?

CABRAS DE RESPOSTAS BOAS

Tem gente que tem a tolerância zero para perguntas, digamos, imbecis. Que o diga o meu saudosíssimo amigo Everaldo, a quem eu chamava de Vevé, meu queridíssimo.

Lá pelos meados das eras de oitenta do século passado, Vevé inventou de criar um macaco. O bicho era da raça que por aqui conhecemos como “macaco prego”.

Ainda lembro bem do velho Vasconcellos. Pois é, contrariando a máxima que todo macaco é Chico, Vevé pôs no seu primata o nome de Vasconcellos e fazia questão de dizer que era escrito com dois “lês”. O por quê? Juro nunca haver perguntei. E se perguntei, não lembro a resposta.

Pois bem, vinha Vevé com Vasconcellos escanchado em seu ombro, subindo a Rua Major Hortêncio, indo trabalhar na marcenaria dos ‘meninos de Seu João de Edite’. O bicho, inquieto como todo macaco prego legítimo é – eu também já criei um – passava de um ombro para o outro do dono, subia na cabeça, descia para o chão, para subir novamente aos ombros de Vevé que, de vez em quando, reclamava num grito de “cuidado”, ou “olhe, Vasconcellos!”

Da janela de uma das casas, mais precisamente da janela de Margaridinha, Naninha sua filha, vendo aquele sobe e desce desgraçado e a agonia de Vevé em pôr ordem no animal, gritou perguntando:

– Everaldo, isso é um macaco?

– Não. É um velocípede – respondeu Vevé sem olhar nem de banda.

Uma intriga de quase dez anos.

* * *

De cabra de resposta boa 2.

Quem não conheceu Gordo, o marchante, perdeu uma ótima oportunidade de saber de um tipo único nesses sertões potiguares. Cabra arretado, sujeito quieto, de temperamento bom, mas às vezes explosivo. Tinha a paciência bem curtinha para determinadas coisas.

Quem o via, jurava tratar-se de um português de origem, dada a semelhança física com os quadros ilustrando os homens das terras de Camões.

Alto, forte, de pele branca e rosto avermelhado, cabelos lisos e bigode bem criado, barriga saliente desde que me lembro de sua figura. Um verdadeiro patrício do Minho!

Certa vez, inventou de cultivar o bigode, deixando maior que o tamanho usual. E o bicho começou a crescer e já encobria ambos os lábios, seguindo a lei da gravidade.

Estava Gordo conversando na bodega de Gabriel Severiano, quando entrou alguém que em muitos anos não via o velho e bom Gordo.

O caboclo, vendo aquele bigodão se esparramando para tudo quanto era lado do rosto vermelho do homem, inventou de perguntar:

– Gordo, isso é uma promessa?

– Não. É cabelo. Olhe – falou arrancando vários pelos do bigode, entregando-os ao cabra que lhe havia indagado, trazendo-os entre a metade do indicador e a ponta do polegar.

E quem vai dizer que não era cabelo?

* * *

De cabra de resposta boa 3

Seu Miguel Januário, tio do meu sogro Vicente de Tota, era cabra de temperamento curto. Agricultor amante do campo, vaqueiro alto, magro, branco, cabelos rareando na cabeça comprida… pernas bem tortas. Assim o vi pela primeira vez.

Aliás, as pernas tortas, depois da terceira idade foram lhe dando certa dificuldade em andar. Para tal, sempre contava com o apoio de um cabo de vassoura servindo-lhe de bengala.

Também não se separava de um chapéu de massa. Era vaidoso, muito vaidoso. Gostava de calças no estilo social, camisa ensacada, cinto combinando com a cor das sandálias, daquelas tipo “chinelão” amarradas por trás do calcanhar.

Nos últimos tempos só vinha à rua em dia de sábado, quando a nossa feira reúne as pessoas da zona rural no centro da cidade.

Se apeava, como gostava de dizer, logo na casa de Luiz, seu filho, que mora bem em frente da Escola Zé Gonçalves. Dali, descia a pé para o centro, com seu andar vacilante, meio cansado pelo peso dos anos, apoiado na bengala.

Certo sábado, descia com cuidado no andar, cabeça baixa olhando para o chão, quando Pão da Prefeitura, sujeito bonachão, humorista de primeira grandeza, cabra tirador de sarro e curtidor da cara alheia, querendo tirar-lhe um sarro, se aproximou numa bicicleta e quase em seu ouvido falou:

– Fecha as pernas, meu velho, senão os ovos caem.

– Se caírem, caem direto na buceta da tua mãe – respondeu em cima da bucha, sem tirar os olhos do chão, o velho Miguel Januário.

Seria um omelete interessante.

CABRA CORAJOSO

Quando eu me encontro com Zé Bola, filho do velho e inesquecível Muquêi, se é dia vira noite e se é noite vira dia.

Nós conversamos sobre as coisas da terrinha por horas e as risadas são a energia para a prosa se sustentar por si, tudo arrimado nas melhores lembranças do nosso maior patrimônio: as coisas e os fatos retirados do meio do nosso povo mais humilde em sua simplicidade mais genuína.

Outro dia tive a satisfação de encontrá-lo trocando uma lâmpada na casa de Marluce Nogueira, viúva do meu Tio Ema e sogra de Diana, essa a filha mais velha de Zé.

Nisso a prosa começou no quarto escuro, continuou com o mesmo iluminado, passou para a sala onde as mulheres conversavam, foi para a área, desceu para a calçada e subiu para terminar umas três horas depois no calçamento da Rua Cipriano Pereira.

Causo daqui, causo de lá, apresentei a obra de Jessier Quirino e lhe falei com orgulho da minha amizade apenas – mas, apenas por enquanto – virtual com Zelito Nunes (que no outro dia jogaria mais sementes de cultura, com o lançamento do quarto livro, no solo fértil das almas matutas), dois exímios contadores de estórias e histórias da gente sertaneja.

Pois bem, e de causo em causo fomos ficando ali no meio da rua, mesmo depois da impaciência das nossas mulheres ter levado ambas, cada uma para a sua casa.

Daí, que Zé Bola, também um bom contador de anedotas e um cabra de lembrança apurada, contou-me uma história pela qual desenvolvi especial carinho por se tratar de mais uma presepada de Brechió, de quem, aliás, já falei aqui em outra oportunidade.

Brechió, apenas para relembrar, sofria de certa fraqueza na cabeça, doença que lhe acometia vez em quando. Sentindo o tal “aperto no juízo”, de conta própria pedia ao delegado de Acari para passar uns dias na cadeia, de onde geralmente saía curado vinte e poucos dias depois. No entanto, algumas vezes o internamento em uma casa especializada se fazia necessário.

Em uma dessas vezes, Brechió ficou amigo do Doido da Lanterna. O sujeito era um mossoroense de boa família que, em sua loucura, virava caçador de OVNI’s apontando à noite para o céu escuro o facho de luz de uma potente lanterna.

Como era sujeito de temperamento calmo, assim como Brechió, lhe era dado o direito de ir ao pátio à noite, lugar onde pela manhã os internos tomavam banho de sol. E isso, digo, esse livre acesso, se dava até para poder acalmar a sua ansiedade em encontrar um OVNI e derrubá-lo com a luz da lanterna, da qual não se separava nunca!

Pois bem, contou-me Zé Bola de haver ouvido de Brechió a seguinte história.

Noite escura, luzes da unidade apagadas e no meio do pátio o mossoroense de lanterna em punho, porém desligada. Brechió foi se aproximando. Quando chegou ao lado do colega, o mesmo ligou a lanterna e apontou para o céu. O facho de luz se abrindo e se perdendo na imensidão.

– Tem coragem? – perguntou a Brechió.

– De quê? De matar um bicho de outro mundo? – inquiriu o outro.

– Não. De subir aí – respondeu o mossoroense, acompanhando com um movimento do dedo indicador da outra a mão a claridade feita numa reta quase perfeita se abrindo no espaço, apontando para o facho de luz saído da lanterna e se perdendo escuridão acima.

– Ter eu tenho – respondeu Brechió. – Mas você tá achando qu’eu sou doido, tá?

– Oxente! – Por quê?

– Eu subo, né?, e quando eu tiver lá em cima bem tranquilo, tu vai apaga e eu, ó – falou jogando os dois braços para frente – timbungo no chão e me lasco todinho – respondeu Brechió e acrescentou saindo para o quarto onde dormia: – Sou doido, não, mô fie.

Não era mesmo não. Mas, que tinha coragem de subir, isso tinha. E de sobra!


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