ARTE E PORNOGRAFIA

Bancária aposentada, filiada a um partido de esquerda, viajando duas vezes por ano ao exterior, esposa do assessor de um vereador com pensamentos socialistas, dois carros na garagem, andando vestida em roupas de marcas, frequentadora de academia e bons restaurantes, algumas plásticas no rosto onde uns óculos “comprados em Miami” acentuam seu rosto redondo… enfim, todas as noites na pracinha do condomínio ela se exaltava defendendo as suas convicções políticas e pessoais.

Suas vizinhas toleravam a sua permanência ali discutindo com o grupo, e ficavam caladas, por pura educação. Afinal, ela tem a pretensão dos tolos querendo duas coisas. A primeira: ser dona da verdade. A segunda: sua verdade devendo prevalecer sobre todas as outras opiniões.

Uma coisa é certa. Ela não sabe lidar com divergências de pensamentos, muito embora em seu discurso haja sempre a advertência do respeito ao pensamento diferente.

Daí veio a polêmica Queermuseu do Santander, e ela chegou sentando-se bem no meio da conversa. Suas vizinhas estavam alarmadas com o conteúdo da tal exposição. Ela já foi logo tomando a palavra.

– Sociedade hipócrita! Qual o problema de nossas crianças frequentarem a exposição? Do que vi, vi apenas arte. Não vi nada de anormal. Eu levaria a minha neta tranquilamente, se a exposição andasse por Natal.

De onde estavam os homens ouviram e perceberam os ânimos se exaltando. Ela defendendo a livre expressão e a exposição Queermuseu como arte, e as suas quatro vizinhas, que naquela noite resolveram enfrentá-la, debatendo com afinco um juízo contrário.

A discussão chegou ao fim quando ela ficou de pé, quase ameaçadora, e gritou “todo nu é belo e natural, suas mentes sujas”, e saiu depois de um gesto ríspido de cabeça acrescentando “vocês tentem aprender a respeitar o direito e a liberdade dos outros. Retrógradas!”, e já entrava no prédio, virou-se para gritar:

– É arte!

O condomínio inteiro soube da querela.

Quando o vizinho de garagem deixou seu carro parado por cinco dias, coberto com fotos da G Magazine e de animais em coito explícito, o Síndico recebeu uma reclamação por escrito.

No documento se alegava “as fotos pregadas no veículo são uma afronta à inocência das nossas crianças, despertando-lhes curiosidades não próprias às suas idades, fato que gera uma série de perguntas constrangedoras aos pais e avós, iguais as da minha neta que nos visitou no domingo”.

Encerrava exigindo advertência e multa ao proprietário do veículo pela exposição pública de material pornográfico.

O Síndico gargalhava mostrando o documento assinado por ela. “Justamente por ela. Por ela!”

O vizinho retirou as fotos, trocando-as por uma cartolina cujo conteúdo escrito era “Já?”.

Há duas semanas ela não desce para debater na pracinha do condomínio.

RESPEITE MINHA CAMISA REMENDADA

Temos vivido dias estranhos para não dizê-los tétricos. Ao tempo pelos quais cobramos por mais Ética e Moral do mundo inteiro, vamos ficando cientes de como os políticos em quem mais acreditamos nos traíram de forma vil e leviana, apunhalando-nos pelas costas com atitudes desonrosas às confianças neles depositadas.

Parece até que no Brasil ninguém mais se salva.

Falo dos homens públicos, sejam eles servidores de quaisquer poderes nos regendo. Ou até daquele ídolo do futebol, podendo dar o exemplo, mas preferindo mentir em rede nacional e se dizer insensível ao toque daquela com quem mais ele convive: a bola.

Uma lástima!

Uma crise de identidade sem precedentes, onde ninguém mais acredita em ninguém.

Daí me veio à memória uma história contada pelo genealogista potiguar Antônio Luiz. Um monstro de conhecimento quando o assunto é “Famílias do RN”.

Pois, foi quando eu procurava pelos rastros do meu avô Chico Ciano, veio Antônio com a narrativa de um fato orgulhando e me levando a estufar o peito para contá-lo aqui. Logo eu cuja monografia (2009) falou de Ética e Corrupção.

O Professor Thomaz Sebastião, primo do meu avô, era escriturário do cartório, responsável por todos os assentamentos de Acary, naquele tempo envolvendo também a vizinha cidade de Cruzeta. E foi lá que o tal fato se deu.

Numa de suas tarefas deparou-se com alguém tentando corrompê-lo com dinheiro. O homem tentava e provocava Thomaz Sebastião, àquela altura um senhor de comprida barba branca como tão bem o conhecemos pelas fotografias nos deixadas, fizesse uma escritura fraudulenta.

O professor escriturário, sendo homem pobre de recursos, mas intensamente bem dotado de moral e ética, não concordava com a persistência do outro. E, como a proposta não terminava e a insistência era muita, quando não aguentou mais a pressão, olhou bem sério para o tal homem e pediu com veemência se pondo de pé:

– Homem, já que você não respeita os meus cabelos brancos, respeite pelo menos a minha camisa remendada.

E apontou para a própria roupa na altura das costelas.

DE CABRA QUE FOI PRESO

– Pereira, ô, Pereira – gritava Claudinho de Tantico, visivelmente embriagado na frente da Delegacia de Polícia, chamando por um dos soldados e tombando de um lado para o outro.

E como o policial não saía logo da cadeia, os gritos se refaziam cada vez mais altos. Até que outro militar acordou e resolveu investigar de onde vinha a gritaria.

– Que merda é essa, rapaz? – perguntou o guarda pela janela frontal do prédio, pondo um boné na cabeça e ajeitando o cinto.

– Quero ser preso – respondeu Claudinho com decisão.

– Que pôrra é, hômi? Por que você quer ser preso?

– Porque eu sei que serei mesmo, então já ‘tou me adiantando – argumentou Claudinho subindo os batentes da cadeia.

– Ei, pode ir parando por aí. Não vou lhe prender, não.

– Ora não! Vai que eu quero. Já ‘tou bebo, quero ser preso e abra logo essa porta.

– Hômi, vai curtir tua cachaça noutro canto, rapaz! – irritou-se o guarda fechando a janela.

Claudinho continuou insistindo, gritando, esmurrando a porta, promovendo uma arrelia enorme, reafirmando que queria ser preso.

O soldado abriu a porta, pegou-lhe pelo braço e foi deixá-lo no outro lado da rua, com puxões, empurrões e impaciência indisfarçada.

– Mas o cabra vê cada coisa mesmo. Vá pra casa e deixe de perturbação, ‘tá ouvindo? – ordenou soltando-lhe.

Claudinho aprumou-se, cambaleou mais um pouco e quando percebeu que o policial já entrava de volta na cadeia gritou com força:

– Meganha frouxo! Nem pra me prender serve. Mas eu vou ser preso de todo jeito!

Aí, foi demais! O soldado freou no salto do coturno chega riscou o chão de preto. Calado estava, calado ficou quando pegou Claudinho pela parte de trás da gola da camisa e calado continuou quando fechou o cadeado da cela, com “o elemento” jogado dentro.

Cerca de meia hora depois o delegado chegou e soube do episódio.

Cerca de uma hora depois uma mulher bateu palmas na frente da delegacia. Queria falar com o delegado. Foi introduzida na sala da autoridade e questionada sobre o que queria.

– Doutor Delegado, sabe Claudinho, aquele que o povo chama de Beto Barbosa? – perguntou ao delegado. Mas, sem dá tempo de resposta continuou: – Pois aquele bicho ruim bebeu e comeu desde ontem no meu bar e saiu sem pagar. Então, eu vim aqui pro senhor mandar pelo menos prender ele.

Neste instante se ouviu de dentro da cela:

– Ih, carecou sua “otára”. Eu cheguei primeiro.

“Coisas do Acary do meu Amor”, deste colunista

DE ENTENDER APENAS DA SAUDADE

Quando eu era mais jovem não me preocupava por entender de tudo. Vivia os auspiciosos momentos da juventude como quem espera por nada e descansa tranquilo sentado sob uma sombra qualquer se alimentando do vento, bebendo a água da esperança e respirando os ares da ilusão.

Meus amigos também não tinham pressa, a não ser a de sorrir. E como ríamos! De tudo, de todos, de nós… e deles, os mais velhos querendo levar a vida a sério e entender de tudo.

Um banco de praça, quente pelo sol do dia inteiro, forrado pelos cadernos mal cuidados servindo de assento, era um trono despretensioso na minha algazarra. A praça um teatro! O violão do meu amigo Pilpano, velho e afinado Silvano da Palhoça, tocando de tudo um pouco e formando não apenas em mim, mas em todos nós, os alicerces preciosos do que hoje ouvimos, sorria melodias sem malícias nos dando a impressão que o tempo parara, mesmo o poeta imitado nos advertindo “o tempo não para”.

O público daquelas apresentações passava alheio à nossa felicidade. Muitos deles estavam preocupados apenas em entender de tudo.

Um bloco de jovens se formava ao redor do violão escuro. As chinelas de borracha batiam no chão no compasso das cordas de ferro, mas não provocavam som algum. Não existiam aplausos, não existiam tapinhas nas costas.

Éramos tão sinceros uns com os outros que dizíamos tudo e nos entendíamos apenas pelo olhar. O mesmo olhar que hoje demora tanto em encontrar outro olhar, amigo antigo, daqueles dias onde a principal preocupação nem era entender de tudo.

Eu criava estórias em versos, compunha paródias em versos, contava piadas em versos e ouvia Roberta Fábia gargalhar em prosa. A liberdade do riso escancarado de Roberta era uma espécie de símbolo daquela juventude inocente, sem o glamour das grandes cidades, completa apenas da vontade de sentar sobre o caderno, rodear o violão de Pilpano, disputar o lugar mais próximo das cordas e cantar sorrindo desavergonhado por não entender de tudo.

Eu criava estórias do nada, compunha paródias de tudo, contava piadas sem graças e ouvia as reclamações na semi gagueira de Tatiara. A fala, às vezes cortada, de Tatiara era uma espécie de anúncio nos dizendo que há intervalos na vida e que ela, a vida, se passa dividida por tempos, momentos e segundos. Segundos muitas vezes eternos.

Não tínhamos a sabedoria das grandes academias, tampouco os conselhos dos sábios reconhecidos nos dando uma pausa forçada para compreender o mundo. Apenas parávamos enquanto Pilpano acendia um cigarro e combinava a próxima música, solando alheio ao que seus dedos soltavam nas cordas de ferro do seu violão escuro, dividindo a fumaça do seu Carlton com Rosa de Margarida e com a própria Roberta.

Aí, os canteiros bem cuidados dos versos de um outro poeta se sobrepunham aos abandonados daquela praça da nossa juventude, tempo que nos envergonhávamos em cantar ou dissertar sobre a beleza das flores e não tínhamos medo de não entendermos de tudo.

Os dias passaram ligeiro… Roberta Fábia gargalha em Paris, Tatiara se foi para Recife e já nem tem mais aqueles intervalos na voz, o violão escuro de Pilpano tem suas cordas agitadas noutra Praça, em Japi, e Rosa de Margarida se fez rosa divina nos jardins celestiais.

O tempo me pegou de surpresa! A advertência do poeta não foi suficiente em seu sábio alerta. Aquela juventude envelheceu em mim e se fez senhora de uma nova juventude de corpo cansado. A mente teima em não envelhecer, mas vive um dilema cobrado por muitos: agora deve entender de tudo.

Entretanto, de nada além do normal sabe e de tudo apenas a saudade.

EU E GERALDO AMÂNCIO

Geraldo Amâncio

Geraldo Amâncio Pereira, poeta cearense do Cedro, nos presenteou com uma décima elaborada com os verbos rimando no pretérito imperfeito do subjuntivo, sempre na terceira pessoa do singular, que se a memória não me trai e a lembrança não me deixa, foi cantada assim:

Ah, se a gente sempre amasse
A alguém que nos quisesse
E a distância não houvesse
Nem a saudade chegasse
E o tempo determinasse
Que essa paixão não morresse
E esse amor sempre crescesse
E nunca diminuísse
Ah, se Deus assim me ouvisse
E isso me acontecesse.

Inspirado nessa belezura de décima, resolvi brincar de rimar por aqui, e do meu quengo meio aperreado pelo final desse mês da Avó de Cristo saiu o seguinte:

Ah, se sempre que eu pedisse
Toda vez que eu rezasse
Deus às chuvas ordenasse
Que no meu Sertão caísse
O verde todo saísse
A caatinga florescesse
Sede desaparecesse
Fome de bicho sumisse
Ah, se Deus sempre me ouvisse
E isso tudo acontecesse.

Daí, gostando do som agradável aos ouvidos que a conjugação do verbo nos dá na rima, e para rimar um pouco mais a fim de aliviar a pressão das metas, emendei sem ter para quem:

Se um dia a gente se visse
E também se conversasse
Se a gente se combinasse
E um jantar dividisse?
Se você não desistisse
Depois que a gente jantasse
E o tempo nos ajudasse
Quem sabe a gente fugisse
E antes que a gente dormisse
Talvez a gente se amasse.

O SERTÃO ESTÁ DE LUTO

Alguém já disse que quando a natureza perde uma árvore o solo chora. Ontem o Sertão chorou copiosamente. Perdemos uma craibeira humana das mais fantásticas nascidas nesses sertões do Seridó.

Dr. Paulo Bezerra, um Balá por orgulho no apelido herdado do pai, médico, escritor de prosa e poesia, sertanejo autêntico, um matuto vaqueiro por opção e prazer, partiu deixando órfã uma legião de admiradores se perguntando “e agora, como saberemos das coisas do passado dos nossos pais?”

Ele poderia, por sua excelência e intelectualidade, ter tratado de quaisquer e vários assuntos. Porém, sertanejo nascido da liga barrenta do Seridó Acariense, firmou-se em fazer lirismo em sua prosa para nos dizer de sua terra, de sua gente e dos seus costumes de antigamente, levando o nome de Acary aos quatro cantos do país, tornando-o mais conhecido, honrado e acima de tudo dignificado.

Sendo médico usava o jaleco com a mesma elegância com que vestia a calça de couro, o guarda-peito, o gibão e o chapéu, as vestes do vaqueiro nunca abandonado em seu âmago.

Sendo escritor fez da caneta o bisturi mais afiado para abrir o passado e nos contar das coisas como foram, sempre fechando o corte assentado no papel com a linha dourada das melhores saudades, para uma cicatrização no prazer de quem o lia.

Ele se orgulhava de suas origens de tal forma, que despertava em seu leitor um amor maior por sua terra mãe, fosse ela qual fosse. O acordar desse amor às coisas simples do viver humilde é o seu maior legado.

Dr. Paulo Balá com as suas missivas bem escritas, carregou no lombo das suas memórias e pesquisas um muito do nosso chão em cada frase, letra, ponto ou vírgula. Tudo isso posto na algibeira do altruísmo em repassar conhecimentos e nos urus das suas saudades transmitidas sob a pena lírica, quase sempre mais poesia que prosa.

Como homem íntegro, probo e de lhaneza em poucos vistos, não usava de falsa modéstia, tampouco disfarçava a humildade singular no trato simples do seu vocabulário matuto no vozeirão de besouro de todo Balá genuíno.

Dr. Paulo Bezerra foi um daqueles homens que apertam uma mão como quem dá a vida ao amigo; pois, era leal a tudo no qual acreditava e pelo qual lutava.

Mas, e agora, como saberemos das coisas do passado dos nossos pais? Não sabemos responder. No entanto, sabemos de uma coisa. Assim como o solo chora a árvore perdida, choramos a sua partida.

E no futuro, quando a saudade apertar leiamos e releiamos a prosa lírica de Dr. Paulo Balá e, certamente, choraremos outras vezes.

Por ora todo o Sertão está de luto.

PS.: Dr. Paulo Bezerra (Paulo Balá) como gostava de ser chamado, era membro da Academia Norteriograndense de Letras, autor de quatro livros de missivas – enviadas ao jornalista Woden Madruga, colunista do jornal Tribuna do Norte – sendo todos intitulados Cartas dos Sertões do Seridó.

Dr. Paulo com este colunista

SEU JOÃO, O ZELADOR

Muitos – mas, muitos mesmo! – amigos meus dão garantias jurando de pés juntos e mãos postas aos céus, de suas certezas quanto a minha possessão de um imã para, digamos, gente com pouco juízo.

Apesar de Mamãe já me afirmar isso desde a minha infância, se é verdade, eu ainda não sei.

O que sei é que gosto de dar atenção a pessoas de simples trato. Isso eu sei. Principalmente, devo dizer pelo bem da verdade, se o caboclo for daqueles “inocentes” que para tudo tem uma resposta na ponta da língua ou, ainda, uma sentença não esperada por ninguém.

Por exemplo: Seu João.

Espécie de zelador do prédio onde fica o nosso escritório, Seu João é “o” cara.

Baixo, moreno claro, magro, um pouco corcunda, ocupando os dentes da frente uma dentadura postiça muito branca – e se fosse um calçado, eu diria uns dois números acima do ideal – alargando o sorriso no rosto cheio de marcas de expressão, só fala sorrindo, sempre muito bem barbeado e se vestindo na farda da empresa.

Os cabelos, ainda cheios, estão sendo pintados pelo tempo. Aos poucos, mas vão. E para disfarçá-los na nova coloração, deu de seguir o conselho de um colega: dá umas escovadas com graxa para sapatos.

Quarenta e poucos anos, separado da esposa, vive só numa casinha em Macaíba, mas gosta de verdade é de dormir “nos braços das meninas de Aninha”, em um “bar familiar” funcionando no final da Avenida Amintas Barros, com moças de alegria corporal, frequentado por Seu João nas noites de sexta-feira, ou de qualquer outra feira, como ele gosta de frisar, quando lhe dá vontade e o dinheiro sobra.

– Seu Jesus, Aninha gosta tanto de mim, que me liga toda vez que chega uma garçonete nova lá – revelou sem constrangimentos. – E ela só me cobra “duzentinho” para eu inaugurar a bichinha no bar.

– Isso é que é ter consideração pelo amigo, né, Seu João?

– Ô! Se é.

Não bebe! Nada! Em absoluto! Seu João mente nesse sentido e, ele mesmo, acredita em sua mentira.

Muitas vezes traz os olhos mais apertados no final da tarde, a dentadura quase querendo saltar, as marcas de expressão mais acentuadas, porém… bafo de qualquer bebida, nenhum! A testa brilhando mais que pão doce saído do forno, as palavras sopradas com dificuldades contra a dentadura frouxa… porém, bafo de qualquer bebida, nenhum!

No bolso da camisa um saquinho com cravos da índia é presença tão certa quanto o coração inocente por baixo do tecido barato.

Outro dia, por ordens de Adriano, o proprietário do prédio, Seu João pintava o chão separando as vagas da garagem. Aproveitou o embalo e fez “umas obras de arte amarelas na pintura de cada carro” estacionado.

– Mas, Seu João… – comentei meio triste vendo as marcas no veículo da nossa empresa.

– Rapaz, isso aí não fui eu não. Eu trabalho com um pincel – se defendeu me mostrando a ferramenta – e isso aí é traço de braço – finalizou sem reparar no seu membro superior esquerdo todo amarelado, que usara para se escorar nos carros.

Outro dia, finalzinho da tarde, bateu na porta do escritório e chamou por meu nome. Mandei que entrasse.

– Seu Jesus, quero lhe pedir um favor – falava enfiando a mão no bolso. – Guarde esse dinheiro para mim, que eu tou gastando tudo lá em Aninha e isso não está certo.

Argumentei apoiando a sua decisão e incentivando-o à economia.

Recebi uma nota de cinquenta reais e pus o dinheiro sob um maço de notas fiscais. Quando ele saiu eu comentei com um dos nossos colaboradores que não esperaríamos quarenta e oito horas completas para o saque do capital. Já havia acontecido outras vezes. Mas dessa vez a desculpa foi…

– Seu Jesus, vim buscar o dinheiro…

– Mas já, Seu João?!

– … por causa do sonho.

– Do sonho?! – perguntei sem entender.

– Sim, rapaz. Sonhei que a danada dessa onça virava de verdade e arranhava o senhor todinho – falou arregalando os olhos, como se estivesse assombrado. A mão já chamando o dinheiro na direção de onde observara ter sido depositado por mim.

– Pegue!

Nem bem tinham se passado quatorze horas.

Ontem, entrando numa das ruas nas adjacências do escritório, vi Seu João andando apressado na companhia de outro senhor. Fui me aproximando devagar, o motor do carro engatado na segunda marcha. Quando estava a pouco menos de dois metros dos dois, meti a mão na buzina.

Foi um grito prolongado: biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiite!

Seu João deu um salto fela da puta para o lado, os olhos quase saltavam das caixas, olhando sobre o ombro direito e só não caiu porque o outro sujeito lhe serviu de escora e, ainda assim, depressa cambalearam para a segurança de uma calçada. Os dois agarrados, um se firmando no outro.

Quando eu estacionava o carro, ele veio se aproximando. Ria como de costume.

– Seu Jesus, que medo da febre do rato! – comparou. – Olhe que eu vinha chupando uma manga e ainda bem que trazia a danada na mão – falou me mostrando o resto da fruta – porque se eu viesse com ela na boca, teria engolido com caroço e tudo. Faça isso mais não, Seu Jesus.

– Faço não, Seu João. Eu lhe garanto.

LÊ, SEU MIÚDO.

Vai, meu pai. Aprende mais. E depois me passa.

Preciso da sua sabedoria copiada em mim.

Porque os seus conselhos ainda são como a sua mão segurando a minha, eu menino, dando-me equilíbrio, evitando os meus joelhos ao chão desse caminho irregular chamado de vida.

Sinto-me protegido ao seu lado.

Ainda.

Mesmo o senhor tornando-se um “eu menino” por força dos dias.

Não se enfade, meu pai. Lê apenas.

E me conta, como em uma história de príncipes, princesas, feiticeiros, monstros e a vitória final do bem, o que os livros lhe ensinam.

Se o senhor se esquecer um pouco – ou mesmo o tudo – o que importa?

Minha mão segurará a sua e seremos novamente um amparando o outro.

Alguém sendo protegido.

E ainda serei eu.

Porque verei o conselho dos seus livros em seu olhar pleno de amor por mim.

Depois ri, meu pai, como o menino que esqueceu a piada.

Seremos um só sorriso.

Sobre a página de um livro lido em conjunto.

E não importará quem será mais “eu menino” de nós dois.

Porque no fundo os meus anos estão nos seus.

E os seus estão nos meus.

Abraçamos uma mesma história de amor, proteção e afeto.

Somos, meu pai, capa e orelha de um mesmo livro.

Aquele que lemos juntos, quando o senhor me aconselha.

Preciso da sua sabedoria copiada em mim.

Seu Miúdo, pai do colunista

DE ÍNDIOS EXTERMINADOS

Um pouco de história

Antes do bicho homem branco se apaixonar por essas plagas, nossos antepassados dominavam os Sertões e eram indígenas.

Em nosso querido Seridó se movimentavam entre a caatinga, sobre esse solo pedregoso, os índios Cariris.

Índios que os historiadores descrevem como homens altos, fortes, adestrados para a peleja, ferozes no combate e de traços delgados. Tenho a satisfação, também, de trazer no sangue da minha prole a genética desse povo, herança pelo lado da minha mãe. Os Cariris eram conhecidos como Janduís aqui no Rio Grande do Norte.

Os novos habitantes, colonizadores portugueses, não traziam o conceito da fraternidade e, embriagados pelo orgulho das conquistas e das riquezas adquiridas, demonstravam apenas desprezo pelo nativo com ações de tirania escravizadora. Os índios Janduís, povo inteligente, percebendo tal coisa e não aceitando o jugo da escravidão, homens acostumados que eram à liberdade, começaram a desencadear sérias rixas com os fazendeiros. Em 1685 já era grave a revolta e, dois anos depois, em 1687 alastrou-se de vez o levante das tribos que desencadearam em ações violentas e rápidas nas ribeiras do Assu, Mossoró e Apodi.

Foi no vale denominado como sendo d’Acauã que no ano de 1688 travou-se a destruidora batalha em que tomaram parte cerca de dois mil Janduís (Cariris), contra uns quatrocentos soldados das tropas do Terço Paulista, todos homens de armas treinados pelo experimentado cabo de guerra Domingos Jorge Velho e ajuntadas às margens do São Francisco, prontos para as tocaias ao grande Zumbi e seu movimento, vindos sobre determinação para a guerra contra os índios.

Domingos pouco tempo passou no Rio Grande do Norte, pois foi enviado novamente ao combate do quilombo dos Palmares. Para substituí-lo, chegou com toda probabilidade Matias Cardoso de Almeida, quem de fato comandou os homens aqui em nosso estado.

Esse encontro do Terço Paulista com nossos antepassados, foi dos mais sanguinários da rebelião geral dos nativos. Muitos historiadores chamam de Confederação dos Cariris e outros de Guerra dos Bárbaros. Eu mesmo prefiro o segundo termo.

A Guerra dos Bárbaros durou dez anos, de 1687 a 1697. Já em sua fase final as hostes do Terço Paulista receberam mais reforços de soldados vindos da então bem sucedida ação contra o Quilombo dos Palmares em 1693.

Da guerra não escapou muita gente para contar a história. Mas que escapou, escapou! Prova disso é o cabra Jesus de Ritinha de Miúdo, todo ancho e recontando essa história tão fantástica quanto triste, ouvida tantas vezes nas rodas pelas calçadas e lida mais de uma vez nos livros de Cascudo, de onde, aliás, tirei as descrições dos janduís.

Histórias de índias capturadas a casco de cavalo – e domesticadas com paciência – depois daquela sanguinária empresa, nós temos algumas. De uma dessas sobreviventes descende parte da família Costa, gente de Caicó, conforme me contou pessoalmente o genealogista Sinval Costa, hoje o maior conhecedor das raízes e dos galhos familiares ora ocupando esses sertões de inúmeras barbáries.

BODEGA DE GABRIEL

Há dias, como hoje, que amanheço cheio de saudades. De qualquer coisa, ou de alguém. Já clamei até a Deus para esse meu saudosismo intemperado seja diminuído, pois quando estou neste estado plangente, sofro um pouquinho e de certa forma.

É que me dá uma vontade irreprimível de me encontrar com aquilo, e como quase sempre o objeto da minha saudade já se foi há tempos, isso é praticamente impossível. Essas lembranças não me chegam do nada. Vêm por uma figura que vi, uma frase que ouvi, ou até pelo cheiro de repente se apossando das minhas narinas, causando revolução lá dentro da minha cabeça. Mas hoje foi diferente. Minha saudade veio de um sonho, do qual acabo de acordar.

Difícil não dizer que ao perceber a realidade, os olhos se encheram de lágrimas e corri para o computador para atropelar alguns planos, escrever e gravar o que sonhei, logo depois de lavar o meu rosto e a minha molecada nem notar o pai chorando.

E o meu sonho se resumia num espaço e numa pessoa que, no sonho, sequer falou comigo. O espaço de dois compartimentos e quatro portas, onde três ficavam sempre abertas, duas dando para o Sul, outras duas para o Oeste, altas e azuladas, presas à parede amarela sem escrita alguma que pudesse lhe identificar, por dobradiças antigas de ferro e com ferrolhos enormes ainda lhes reforçavam na segurança, com traves de madeira, quando fechadas, postas por dentro do prédio de esquina cuja frente dava para a avenida estreita e a lateral direita para um beco lá no centro.

Os móveis quase todos azulados, eram poucos: Um balcão em ‘L’, duas prateleiras se encontrando num dos cantos da parede, duas cadeiras de pau, um birô e uma geladeira branca. Sobre o balcão várias coisas além da balança vermelha Filizolla bem aferida, de um prato só, inox e sempre muito asseado.

A lata pintada de azul era o utensílio das broas pretas temperadas ao cravo.

Uma vitrine em madeira envernizada, dividida internamente no meio em dois espaços, era o lugar onde repousavam os pães. Dois maços de papéis, cortados cuidadosamente bem iguais, ou que fossem páginas arrancadas inteiras de uma velha revista, tinham sobre si dois pedaços de madeira nobre, velhos e alisados pelo tempo, servindo-lhes de peso contra o vento; o queijo cuidadosamente coberto por um pano de prato branquinho, na bandeja de alumínio bem areado, assentava-se gordo e pronto para o consumo; e uma toalha de mão muito limpa, também dormia sobre o balcão.

Sob o mesmo móvel, a um canto, uma bacia cheia d’água servia para que fossem lavados os copos utilizados nas ‘chamadas’ de cachaças servidas, e também descansavam guardadas as quinquilharias, daquelas vendidas sem se expor, como as tiras de sandálias só encontradas ali, onde poderíamos comprar sem o chinelo, por exemplo, em unidade. A faca de dividir sabão, enferrujada e cheia de anos, como quem se envergonha da idade que já tem, se deixava ficar imperceptível sob o balcão, ao lado do rolo de fumo que também ela cortava; vizinha dos venenos escondidos.

Na parede da entrada pelo Sul, as bobinas de cordas de agave estavam penduradas, associando-se com cebolas e alhos num cordão de plástico, na primeira atenção de quem entrava, se essa não fosse logo absorvida pelo cartaz com o rosto de criança numa propaganda qualquer, anunciando um novo produto; ou pelo calendário do ano, com a figura do Frei Damião, pregado com brochas finas e reforçadas nas cabeças com pedaços pequenos de papel, na parede amarelada.

Suspendidos na prateleira, também pintada de azul, dividida por bem uns cinco andares, chapéus de palha, alpercatas e mortadelas, desligados cada um no seu cantinho.

Eu via copos de vidro, limpos e prontos para serem usados; aguardentes de diversas marcas e outros tipos de bebidas diferentes; margarinas agrupadas por marcas e cubagens, arranjadas de forma alinhadas, separadas dos óleos e das garrafas de manteigas que seguiam o mesmo teorema de arrumação. Os cigarros, que faziam essa separação, também postos em ordem com esmero, eram duas ou três marcas das mais baratas, vizinhos dos pacotes de fumo repicado e dos papelotes de aprontes para o boró.

Por outros cantos estojos de barbear e caixinhas de gilete, com aquele senhor sério e bigodudo estampando as caixas, se avolumavam ao lado dos sabonetes, desodorantes e perfumes; cremes dentais, pilhas, velas, fósforos, lãs de aço; e o pote cheinho de cocadas, bem pertinho das bandejas de ovos, há poucos centímetros do macarrão, adjacente aos saquinhos de chá e temperos em folhas secas. Tudo nas duas marcas mais conhecidas do mercado.

Tinha também alguns alumínios, pendurados no teto; poucas cartelas de garfos, colheres e facas de um inox barato; copos plásticos de muitas cores, lâmpadas elétricas, pregos e anzóis; quitutes e sardinhas enlatadas; nylon fino, linha de costurar, agulhas, alfinetes e óleo para máquinas. Tinha vassouras de palha soltando pó, querosene enlatado, candeeiros de vidro e lampiões de lata…

Mais acima, na mesma prateleira, potes de confeitos, chicletes, pirulitos, pipocas e amendoins em bolinhas, andavam ao lado do pacote de ki-suco em três sabores, ante as bolachas e biscoitos. Na geladeira os refrigerantes, din-dins, goma fresca e as cervejas mais geladas da cidade, separados cada um no seu lugar.

No centro desse espaço, vários potes com mantimentos. Era feijão, açúcar, farinha, milho seco, arroz e até cimento era vendido ali, a granel. Cada pote trazia uma mercadoria, cada um com um copo de zinco bem cuidado, para encher o saco na pesagem.

Subindo os dois batentes que davam para o segundo compartimento, se descobria um outro mercado paralelo, no quarto também servindo de depósito, vagens de algarobas, garrafas secas, cabos sem vassouras e outras compras.

No meu sonho eu vi tudo e muito mais. Outras coisas não vi e só lembrei depois. Difícil não dizer que, ao perceber a realidade enquanto vou acabando de escrever essas memórias e junto sonhando novamente, os olhos se enchem de lágrimas, lembrando de Gabriel com seus olhos azuis, mesma cor dos móveis de sua bodega, apenas sorrindo para mim, num sonho de ontem à noite, resumido num espaço e numa pessoa que, no sonho, sequer falou comigo.

GLOSAS

Mote:

Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

O rangido na abertura da porteira
O bezerro desmamado em seu mugido
O chocoalho num cabrito bem nutrido
São os sons da fazenda em meu terreiro
Chega o vento do poente tão ligeiro
Bem depois que no céu teve um clarão
Vem tangendo o belo som de um trovão
Anunciando o que Deus nos prometeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

Vejo um chifre adornando uma estaca
Uma cara de boi numa parede
Os remendos reforçando a velha rede
E um arreio enfeitado de pataca.
A ferrugem já comendo o aço da faca
Enfiada na cabeça de um mourão
Com o cabo já tão preto, um tição!
De um fogo que só o tempo acendeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

O vaqueiro na carreira ao seu gosto
Quebra galhos na caatinga acinzentada
Em cada espinho leva uma navalhada
Criando rios avermelhados em seu rosto.
Não desiste, entretanto, desse posto
Protegido pela mística do gibão
Faz do aboio sua linda oração
Pra agradecer pela rês que não perdeu
Só conhece essas coisas quem viveu
No cenário poético do Sertão.

CORRER ACUADO

Essa semana me peguei divagando sobre o momento crítico no qual estamos vivendo, nós, a sociedade brasileira. E me vi fazendo uma analogia simples sobre o comportamento da nação.

O povo está correndo. Muito!

Mas está como correndo sobre uma esteira, e por mais veloz que possa correr nesse seu exercício, não tem saído do lugar.

A esteira por sua vez é composta, entre outras matérias abomináveis, pela borracha do cinismo. Cinismo dos políticos.

Cinismo de quem deveria trabalhar pelo povo, mas apenas se aproveita desse.

Voltando no tempo para quatro de junho de dois mil e cinco, também relembrei uma frase ouvida pessoalmente por mim naquela manhã, vinda do Deputado Arlindo Chinaglia em resposta ao Professor Luisinho (ambos do PT), quando o último falou que Roberto Jefferson não teria coragem de denunciar as manobras no congresso (as mesmas que receberiam um dia depois o nome de Mensalão). Chinaglia olhou fixo para Luizinho, sentado à minha direita, e explodiu:

“Aquele puto está acuado, Luizinho. Um cão acuado morde até o dono” (ipsis litteris).

A segunda parte da voz de Chinaglia martela em minha mente até hoje. De vez em quando a uso. “Um cão acuado morde até o dono”.

A Câmara em Brasília tem brincado com a paciência do povo. A prova disso foi a votação ocorrida ontem no Congresso na chamada Lei Anticorrupção. A prova disso foi a manobra (felizmente sem sucesso) usada por Renan ontem no Senado.

O povo está ficando acuado.

Correndo acuado e sem sair do lugar. Como se não pudesse se livrar da triste sina sendo imposta todos os dias. A de viver para ser usado de forma vil por quem foi eleito para lhe servir.

Não demorará muito e descerá da esteira. E descerá mordendo tudo. Tudo!

É assim que eu espero. O cabimento do cinismo e das falsidades dos políticos não cabe mais.

Está doendo sob os pés do povo.

RASTROS DE SERTÃO

Oswaldo Lamartine (*1919+2006), em seu livro “Em Alguns Alpendres d’Acauã – Conversa com Oswaldo Lamartine de Farias”, lembrou dos rastros do Sertão indo além do que vemos ou sentimos na pele, respondendo à pergunta da escritora – sua amiga – Natércia Campos. Ele defendia cada um tendo o seu Sertão particular.

De fato o Sertão é o que sentimos no coração. É um modo de vida. É possuir usos e costumes narrados por Dr. Paulo Balá (*1933) em suas preciosas missivas, carregando no lombo memória e de suas pesquisas um muito do nosso chão em cada frase, letra, ponto ou vírgula. Tudo isso posto na algibeira do altruísmo em repassar conhecimentos e nos urus de suas saudades transmitidas sob a pena lírica, quase sempre mais poesia que prosa.

É logo cedo se rasgar no espinho da caatinga, marcando-se com o ferro frio da natureza. É maravilhar-se com a lua surgindo por trás da serra, independente da idade que se tenha. É tomar a bênção antes de dormir e ao levantar, recebendo dos pais os melhores augúrios. É gritar “abença, padrinho” de longe, e ser abençoado no mesmo tom. É se alegrar no mugido da vaca com o bezerro nos peitos. É entender a risada da porteira velha, de tramela desgastada pelo tempo. É ouvir a sinfonia das rodas do carro-de-boi remoendo o eixo empoeirado. É extasiar-se na tristeza do aboio solitário de um vaqueiro, tangendo o gado e augurando chuva. É gostar do repente rimado e da viola afinada, ou parar ante uma embolada nas soalhas niqueladas de um pandeiro. É arrumar-se na vida com o pouco, equilibrando-se nas dificuldades, feito checho arrumado em cerca de pedra. É rir na cara da tristeza, do desalento, da poeira do ano seco… É calejar as mãos, os pés, enrugar o rosto e desbotar a íris olhando para o céu. É sorrir com o vento do poente assanhando o coração. É gostar de ver o relâmpago e ouvir o trovão. É ajoelhar-se para agradecer pela chuva. É namorar a precisão, noivar a vontade e casar-se com o confiança de dias melhores.

É trabalhar, é trabalhar, é trabalhar… e, por fim, trabalhar!

É ter a fé dos desvalidos e a esperança dos nunca vencidos, na certeza que o Sertão não se perde. Antes sempre se renova.

Porque afinal o Sertão é acima de tudo a saudade. De tudo aquilo que ficou para trás, sob a esperança de reencontrarmos um dia; quando voltarmos sobre aqueles nossos rastros que sequer o tempo consegue apagar.

GLOSA

Mote:

O Brasil está fudido
Empurraram um maranhão

Na surdina foi comido
Por ladrões sempre estuprado
Há anos sendo enrabado
O Brasil está fudido.
Quando se tira um bandido
Não acaba a felação
Pois, entra outro ladrão,
E o Brasil só se afunda
Tiraram o “Cunhão” da bunda
Empurraram um maranhão.

SEPARAÇÃO

Um grande amigo, há tempos tendo partido, e partido um coração com essa ida, conseguindo meu número me ligou dia desses.

Entre a emoção desse reencontro, mesmo tendo acontecido apenas via celular, as notícias foram sendo dadas de um para o outro, entre palavras atropeladas.

Felicidades por conquistas, de ambos; tristeza por algumas perdas, principalmente as humanas da família, de nós dois.

De repente ele pergunta “e ela?”, dando ao pronome aquele destaque com o qual só um coração receoso se dá ao uso ignorando a falta de coragem.
Respondi de supetão:

Desabafando a saudade
Às vezes soluça e chora
Lembrando do teu amor
De quando tu foste embora
De quando a abandonou
Do quanto que ela chorou
Quando tu lhe deste o fora.

Um silêncio entre nós dois depois desses versos meus…

Não sei se a ligação caiu, ou se ele desligou sem mais nada para chorar, e um tudo para arrepender-se.

Três dias depois foi ela quem me ligou. Elogiou a beleza da minha neta, relembrou quando sentávamos em turma – uns escorando outros – nos batentes da Rua da Matriz para jogarmos gargalhadas fora, com o tempo correndo por dentro, como se jamais fôssemos envelhecer e as conversas fossem sempre assuntos sem importância.

Relembramos carnavais, quando formávamos um grupo quase inseparável, fantasiados de eternos jovens, mascarados pela ilusão da alegria vitalícia e da felicidade sem fim. Para outras festas vestíamos os tecidos invisíveis da juventude, que jamais ficam rotos no coração. Roupas perpétuas da alma.

Enquanto relembrávamos momentos, eu esperava pela pergunta “e ele?”. Mas ela foi mais sutil.

– Vi tua postagem no Facebook. Sei de quem falava – disse cortando um riso meu, bem no meio, como se a sua voz fosse uma navalha afiada capaz de rasgar e separar o tempo em tempos. Houve o silêncio, não no fim, mas aqui. Até que ela ousou:

– E ele? – destacou o pronome com o ressentimento das lembranças sufocando um soluço.

Respondi de supetão:

Não esquece aquele dia
Depois de te haver ferido
Numa decisão tão torpe
Do amor tendo fugido
Hoje lembrando a paixão
Logo abraça o violão
Bebe e chora arrependido.

Ouvi uma expiração penosa, quase se tornando assobio e, depois, um “ah” de pura saudade, daquelas interjeições segurando lágrimas.

Ela se despediu com “beijos. Te cuida”.

GLOSA

Mote:

Lula quase foi ministro
Não faltou mais que um dedinho

Está o quadro sinistro
Foi armada a confusão
Com o povo dizendo não
Lula quase foi ministro.
Eu aqui faço o registro
Nesse meu simples versinho
Faltou pouco, bem pouquinho
Pro “cumpanhêro” assumir
Então, posso concluir:
Não faltou mais que um dedinho.

.

CONFABULAÇÕES

Quanto discurso retrógrado!

Os defensores da esquerda usam termos arcaicos e expressões quase centenárias, criadas a partir do movimento eleito no Outubro Vermelho e seus ideais quiméricos, que alimentavam uma utopia social cujo único marco na história terá sido: onde foi colocada em prática, se mostrou um tremendo fiasco.

Viva o começo do século XXI permitindo que no Brasil a Casa Grande fosse ocupada pelo proletariado.

Uma pena que os representantes mais tônicos do proletariado tupiniquim estivessem preparados apenas para as ciências sociais em suas teorias.

Na condução da vida na Casa Grande, se mostraram inaptos quando foram bem para o centro da sala – bem para o centro! – e se deram aos chás servidos em xícaras de cara porcelana inglesa, escorados em almofadas de delicado veludo, franjadas com fios de puro linho belga.

E enquanto faziam péssimos e envilecidos acordos, jogavam o lixo para o chão, na esperança de varrê-lo depois para baixo do tapete fechado em legítima seda javanesa e adornado por belas pérolas, como faziam os antigos ocupantes da Casa Grande.

Uma pena que a história tenha se repetido.

Uma lástima que os representantes do proletariado e seus defensores, digo, defensores dos que adentraram na Casa Grande, hoje não queiram sequer levantar um pouquinho o tapete e varrer para fora dessa cobiçada moradia a imundície do lixo criada por eles mesmos, quando se preocupavam – apenas! – em permanecer na sala com todas as mordomias outrora criticadas nos antigos ocupantes.

Percebo que muitos, ainda, são os costumes e anseios da senzala. Senzala coletiva. Vivem como se de lá não tivessem saído. Entretanto, no fundo, sabem que saíram.

Aliás, muitos desses querem que vivamos em uma quase prisão cognitiva. Um tronco de açoite medonho!

Mas, eu já sei. Há de aparecer alguém para dizer “nunca ocupamos de fato a Casa Grande”.

Nós, os trabalhadores assalariados com certeza não. Não!

Porém, eles, os líderes certamente sim. Sim!

Ocuparam. Ocuparam. No fundo todos nós sabemos disso. E eles também sabem.

PS. O que chamam de “golpe”, eu prefiro chamar de Amadurecimento Social e Democrático. Trata-se de um enredo para o fortalecimento da Democracia.

Ademais, não podemos continuar vivendo entre o paradoxo dos discursos dizendo “temos instituições sérias” num dia e, no outro, à guisa da conveniência espúria, se dizer “uma trama de perseguição para um golpe orquestrado”, quando são as mesmíssimas instituições requerendo explicações e cobrando por fatos questionáveis do ponto de vista ético e moral.

A charanga desafinada não pertence às tais instituições ditas sérias. É patrimônio capcioso daqueles tantos discursando contraditoriamente.

Mas… eu nada sou e nada tenho. E tudo isso acima não passa de confabulações de um doido leitor e observador, vendedor de biscoitos pelo simples hobby desafiador de bater metas.

E só.

Fui!

COMO NOSSOS PAIS

Quarenta anos e tudo continua exatamente do mesmo jeito

A qual tempo se referia Belchior quando escreveu versos tão pontiagudos?

Aos seus dias de jovem, quando a inspiração lhe brotava de sonhos e esperanças tão inventadas quanto reprimidas, ou teria sido possuído pelo dom da profecia descrevendo os dias atuais, nos quais ele se queixa com lábios franzidos e calados sob o mesmo bigode de quarenta anos?

Sobre quem falava Belchior quando compôs Como Nossos Pais?

Do governo “ditador e opressor” dos seus dias de jovem, ou dos governos “democráticos” donos da pseudo-liberdade nesses seus anos de aposentado?

Dependendo das visões, viver será sempre melhor que sonhar.

O que temos vivido fruto dos sonhos dos nossos pais? O que temos sentido de proveitoso, colhido dos nossos próprios sonhos?

Como naquelas semanas dos anos setenta nós temos vivido dias tenebrosos.

A guerra saiu do Araguaia e se instalou nos centros urbanos. Já não é mais uma guerrilha de conceitos, ideais, ponto de vista ou político-social.

É uma guerra bruta e da mais pura violência gerada pela falta de compromisso com a ideia de uma nova consciência e percepção de juventude em igualdade, coisas nos dita por aqueles em quem depositamos a nossa boa-fé; porém, nada fizeram fora do seu benefício próprio e hoje vivem em casa, não guardados por Deus, mas acuados pela pobreza de espírito, embora contem seus vis metais. Cada vez mais vis. Cada vez mais metais.

E essa guerra urbana é tétrica, nos deixa um medo maior pelo perigo real em cada esquina, com o sinal se fechando lenta e cartesianamente para todos, e não apenas para os jovens que já nem somos mais.

Nossos ídolos se perderam no caminho, quando voltavam do triunfo, e como dói sentir que suas aparências nos enganaram tanto. Como dói! Esse é o verdadeiro quadro que dói mais. Porque eles minaram nossos braços cansados e os nossos lábios racharam nos inúmeros gritos de lamentos pela sequidão moral desses nossos ídolos. Resta-nos, no entanto, a nossa voz teimosa, quase sufocada e esporadicamente cortada. Oxalá nunca calada!

Há uma utopia soberba se pensarmos numa simples reunião na rua, com o vento levando nossos risos e bagunçando os nossos cabelos. Afinal, apesar de tudo aquilo que fizemos, não vivemos hoje a liberdade segura tão sonhada ontem.

Nossa censura é outra, muito mais poderosa: censuram a nossa alma.

E os filhos dos nossos filhos, o que cantarão em quarenta anos, podendo ser produzido por gente como nós, de alma censurada?

Nossa geração, neta da geração dos pais de Belchior, traz no peito apertado um coração que já é todo ele uma imensa ferida.

O que virá de novo? Qual a boa novidade nos chegará?

Que profecia poderíamos escrever para nossa geração futura? Quais serão os versos cantados hoje, podendo ser o vaticínio de dias melhores e mais justos?

No entanto, embora ferido, meu peito ainda guarda uma tênue esperança. Afinal, eu “vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação”.

OURO DE TOLO

cm

Pra quê todo esse orgulho
Do que se é, do que se tem,
Se nada somos no mundo
E a vida é só nada além?
Porque não somos menor,
Tampouco somos maior
E nem melhor que ninguém.

Pra quê tratar com desdém
Se você subiu na vida?
Para Deus somos iguais
Todos na mesma medida.
Ademais, toda riqueza,
Sabedoria, ou beleza,
Lhe deixarão na partida.

“Da vida não levo nada / Do jeito que a vida vem / Depois de fechar os olhos ninguém é ninguém.”

UMA NAÇÃO DE CANALHAS

Eu cheguei à conclusão que somos, sim!, uma nação de canalhas.

Se não temos aristocracia, sobra-nos vivermos contados como cidadãos em castas menos nobres na divisão hierárquica da nossa sociedade.

Resta para alguns a separação e contagem como membros da burguesia, tida como ápice social.

Para outros, entre esses eu, sobra-nos andarmos por aí na faixa da massa de trabalhadores, elencada como ricos medianos, também conhecida como classe B.

Talvez sejamos contados entre os elementos de um conjunto da classe vivendo às margens das BR’s, sem classificação social de verdade, um tanto quanto visionária lutando iludidamente por uma reforma agrária, prometida desde sempre, não cumprida desde nunca.

E, por fim, se não estamos inseridos nas classes acima, quem sabe sejamos membros caindo mais de projeção e posição social, pertencendo àquela faixa esmolando nos sinais das grandes capitais, quando não deitados sobre a grama dos seus viadutos, mesmo assim contados como os saídos da pobreza?

Dentre a burguesia, a classe do proletariado, os sem terras e os sem tetos, pois bem, entre nós todos!, nenhum pode ser encontrado tão honesto quanto Lula.

Nenhum de nós!

Não obstante quem somos, como vivemos, o que pensamos, a quem servimos, qual a nossa crença, etc.

Quiçá seja ele o único aristocrata e, como único, não podendo ser contado como classe social, por sua invejável singularidade. Lula é Lula e só. Só ele é Lula. E só. Ninguém mais é Lula – O Rei!

Nosso Rei da Moralidade, da Honestidade e da Sabedoria. Tantas vezes orgulho para todo um país, pelos inúmeros títulos de Doutor Honoris Causa.

No entanto, assim como o rei Acabe de Israel, possuindo em sua rainha Jesabel o contrapeso da dignidade para o seu reino, parece-nos – pelos últimos sinais das investigações – que Dona Marisa tem levado aos castelos do nosso Rei Lula algumas reformas de ambientes e barcos para os lagos das propriedades rurais, nas quais o Nosso Rei descansa da árdua tarefa de politicar e nada fazer mais; uma vez que até as famosas palestras do “várias vezes doutor” não têm sido realizadas.

Essas ações da rainha denigrem a imagem ilibada do nosso aristocrata sênior, entre outras coisas realizadas sem o conhecimento do nosso Rei. Também Rei da Inocência (vejamos o PS abaixo), por nunca saber de nada.

O que será da nossa Rainha Marisa? Não sabemos.

Para ele, digno Rei, abnegado e altruísta Rei, dividindo com os amigos dos filhos os seus os bens – esses usados por todos da Casa Real -, pois bem, para ele um lugar alto na hierarquia dos grandes.

Afinal, nunca na história desse país tivemos alguém tão bom. Tão santo (não esqueçamos o PS abaixo).

Nunca!

Agora me chegando o senso real, eu imaginei: se o nosso Rei Honesto permite – com tal zelo pela omissão – aos chegados seus agirem da forma como agem, nós que não lhes somos páreos em virtude e moral o que somos?

Uma nação de canalhas!

PS.: Uma vez ouvi de um homem analisando a imagem sacra confeccionada por meu amigo Mestre Ambrósio Córdula: “há em todos os semblantes de santos um quê de inocência”.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa