ODE A UMA SECRETÁRIA

A fim de me proteger
Na Sé, comprei uma imagem,
Num cantinho da bagagem
Guardei, depois de benzer.
Também não pude esquecer
De pôr na minha maleta
Um papel, uma caneta
Pra compor nossa canção,
Mas deixei meu coração
Preso na tua gaveta.

Há mais duma explicação
Para o que houve entre nós:
Primeira, foi tua voz
Que tocou meu coração;
Segunda, foi a visão
Mais bela deste Planeta.
Teu sorriso é a “proveta”
Pela qual eu renasci,
Mas devolva o que esqueci
Dentro da tua gaveta!!!

São Paulo-SP, 13 de abril de 2002

ACONSELHAMENTO

Não faça nada sabendo
Que está fazendo errado.

(Mote de autoria desconhecida enviado pelo Poeta Zé Ilton)

Não critique a atitude
De quem só quer ajudar
Pois se um dia precisar
Vai encontrar quem lhe ajude
Não prejudique a saúde
Com cigarro ou “baseado”
Não compre nada roubado
Nunca xingue o reverendo
Não faça nada sabendo
Que está fazendo errado.

Não dê asilo a ladrão
Não critique a vizinhança
Não tente puxar pra dança
Dama com anel na mão
Evite entrar em questão
Com alguém muito abastado
Não desacate soldado
Quem fez isso está sofrendo
Não faça nada sabendo
Que está fazendo errado.

Fale pouco e ouça mais
Aprenda com o erro alheio
Nunca queira está no meio
De conflitos conjugais
Honre o nome dos seus pais
Não se venda a deputado
Que um dia o cabra safado
Vai acabar lhe vendendo
Não faça nada sabendo
Que está fazendo errado.

Glosas: Wellington Vicente.
Porto Velho, 24/04/2010.

AQUARELA NORDESTINA

 

Imagens do Google.com

Eu nasci no Nordeste e sou feliz
Por contar as histórias do sertão.

 (Mote do poeta Antônio Alves)
 
Sou um fã de Antônio Conselheiro,
O primeiro comunista do Brasil,
Admiro Marinês, Gonzaga, Gil
E o suingue de Jackson do Pandeiro.
Sei da vida de Pinto do Monteiro,
O maior cantador desta Nação,
Mestre Zinho, Jacinto e Azulão
São os nomes da música de raiz.
Eu nasci no Nordeste e sou feliz
Por contar as histórias do sertão.

Sei da saga do grande Virgulino,
O reinado mais intenso do cangaço,
Sei que o barro depois dum leve traço
Ganha o sopro vital de Vitalino.
Sei que Cícero Romão teve o destino
De ser santo sem a canonização,
Que um ritmo conhecido por baião
Deu a fama a Humberto e “Seu” Luiz.
Eu nasci no Nordeste e sou feliz
Por contar as histórias do sertão. 

REALIDADES

No país verde e amarelo,
Tá preto pra muita gente.

(Mote de autoria desconhecida)

Se de um lado a seca mata,
Do outro a água destrói.
Oh!Meu Jesus como dói,
Ver o buraco na mata.
Casa sem teto e sapata,
Berços boiando na enchente.
O grito de um inocente,
Num lamento de flagelo.
No país verde e amarelo,
Tá preto pra muita gente.

Se você tem é roubado,
Se não tem é vagabundo.
Pra respirar um segundo,
Algum imposto é cobrado.
Sertanejo respeitado,
Vira um urbano indigente.
Se a polícia “passa o pente”,
Só prende o pé de chinelo.
No país verde e amarelo,
Tá preto pra muita gente.

CONFIDÊNCIA AOS PASSARINHOS

Quer ver a ave cantar
Dê-lhe notícia de dor.

(Mote de Aloísio Lopes)

Escravo da solidão
Tornei-me há dias atrás
São espetadas demais
Em meu velho coração
Até o meu azulão
Virou meu consolador
Sempre que ver meu clamor
Ele começa a trinar.
Quer ver a ave cantar
Dê-lhe notícia de dor.

É bem triste o meu cenário
Amei e não fui amado
Hoje só sou consolado
Quando escuto o meu canário
Que sabendo do fadário
Deste pobre sonhador
Fica imitando um tenor
Só para me consolar.
Quer ver a ave cantar
Dê-lhe notícia de dor.

A patativa golada
Canta que se arrepia
Ao notar tanta agonia
Dentro da minha morada
Seu canto na madrugada
Espanta todo o pavor
Mas a lembrança do amor
Ela não pode apagar.
Quer ver a ave cantar
Dê-lhe notícia de dor.

Glosas: Wellington Vicente.
Po rto Velho, 20/10/2009.

CAMINHADA

Vou aguando a estrada
Com gotas de poesia.

(Mote de Hélio Crisanto)

Sou meu próprio jardineiro,
Meu salário é meu prazer,
Sou muito feliz sem ter
Quantitativo em dinheiro.
Sou filho de violeiro,
Desconheço a regalia,
Porém a minha alegria
Vem da palavra rimada.
Vou aguando a estrada
Com gotas de poesia.

Como matuto que sou
Vivo muito humildemente
Agradeço a Deus, contente,
Pelo que me reservou.
Quando errei, me perdoou,
Quando chorei, Ele via
Que não era covardia,
Era da Graça alcançada.
Vou aguando a estrada
Com gotas de poesia.

Cada palavra que vem
Do livro do Firmamento
Penetra em meu pensamento
E eu repasso a alguém.
Sempre, sempre encontro quem
Enxerga nisso magia
Agradeço todo dia
A arte que me foi dada.
Vou aguando a estrada
Com gotas de poesia.

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 24/08/2007.

ROEDEIRA

Pego, à noite, o teu retrato
Dou um beijo e vou dormir.

Nesta vida passageira
De sonhos e fantasias
Procuro passar meus dias
Como alma aventureira
Guardo na minha carteira
A tua foto a sorrir
Agora vou te pedir:
- Guarde em segredo este fato!
Pego, à noite, o teu retrato
Dou um beijo e vou dormir.

Este é meu ritual
Sete dias da semana
Tua aparência cigana
Toca o emocional
Comovido, fico mal
Mas ninguém pode me ouvir
Dá vontade de sair
Mas me falta o aparato
Pego, à noite, o teu retrato
Dou um beijo e vou dormir.

Dormir é só expressão…
Porque a cada cochilo
A saudade como um grilo
Trila no meu coração
E o grito da solidão
Distante dá pra ouvir
Pareço até um faquir
Nunca mais peguei num prato
Pego, à noite, o teu retrato
Dou um beijo e vou dormir.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 15/09/2007.

CONSELHO POÉTICO

Só aceite esta disputa
Se entender do traçado.

Ao poeta Abel Araújo

Escuta aqui, bacharel!
Jogue no mato o canudo
E venha ter um estudo
Com um grande menestrel
O brilho do teu anel
Vai sair muito ofuscado
Por quem já é doutorado
Em poesia matuta
Só aceite esta disputa
Se entender do traçado.

As leis dos meus tribunais
Você não conhece bem
Mas vou ensinar a quem
Não folheou os anais
Da poesia que faz
O leitor ser transportado
Do aceiro do roçado
À selva bonita e bruta
Só aceite esta disputa
Se entender do traçado.

Por isso, preste atenção
Quando se disser Poeta
Precisa seguir a seta
Que eu lhe apontar com a mão
Depois que eu der a lição
Faça a tarefa, calado
Porque só sai diplomado
Se dedicar-se à labuta.
Só aceite esta disputa
Se entender do traçado.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 16/11/2007.

VAMOS SALVAR O JUMENTO

Foto: wikipedia.org

Não deixemos que o jumento
Vire um “Negócio da China”.

Uma Nação milenar
Duma cultura avançada
Hoje se acha tentada
Ao estranho paladar
De querer saborear
A nossa carne asinina
Peço a Nação Nordestina
Que engrosse o movimento:
Não deixemos que o jumento
Vire um “Negócio da China”.

Luiz Gonzaga cantou
“O jumento é nosso irmão”
Desbravador do sertão
Que tanto nos ajudou
Sua força demonstrou
Em serra, vale e colina
Com bastante disciplina
Sem exigir pagamento
Não deixemos que o jumento
Vire um “Negócio da China”.

Vamos lutar em defesa
Do nosso amado jerico.
Se a China é país rico
Coma “bife à milanesa”!
Compre para a sua mesa
A nossa carne bovina,
Pescada, anchova ou corvina
Para ter como alimento.
Não deixemos que o jumento
Vire um “Negócio da China”.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 15/03/2012.

UMA HOMENAGEM ATRASADA

HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES.

O Autor da Criação
Quando inventou a mulher
Sabia do seu mister
Na companhia de Adão
E pôs a compreensão
Como a sua Estrela Guia
O ser que nos contagia
Apenas com um sorriso
Por isso, parabenizo
As mulheres por seu Dia.

Pois Adão observando
Que todos os animais
Viviam com seus iguais
Dia a dia procriando
Um dia se lamentando
Por não ter a companhia
D e quem trouxesse alegria…
Disse: – Senhor eu preciso!
Por isso, parabenizo
As mulheres por seu Dia.

E desde aquele momento
Que a mulher foi criada
Duma costela tirada
Do parceiro sonolento
Foi gerado o sentimento
Da paixão que irradia
Quem não teve uma Maria
Pra atentar-lhe o juízo???
Por isso, parabenizo
As mulheres por seu Dia.

Dependemos desde cedo
Da proteção feminina
Que alimenta e ensina
E nos faz enfrentar o medo
Ninguém descobre o segredo
Desta porção de magia
Se eu pudesse teria
Duzentas no Paraíso.
Por isso, parabenizo
As mulheres por seu Dia.

Autor: Wellington Vicente.
Porto Velho, 08/03/2007.

ROGANDO PRAGAS

Você rir por me ver chorando tanto
Mas um dia você chora e me ver rir.

(Mote de Firmo Batista)

Os carinhos que um dia dediquei
Foram puros como a alma dum menino.
Meu querer? O querer mais cristalino
Das centenas que feliz eu lhe ofertei.
Mas nas suas ações só encontrei
As mentiras que chegaram a me ferir,
Até hoje perco o sono a refletir
Nas mazelas que contém o seu encanto.
Você rir por me ver chorando tanto
Mas um dia você chora e me ver rir.

O sorriso estampado no seu rosto
Como chuva de verão vai acabar,
O inverno dos prazeres vai passar
Dando vaga ao período do desgosto.
Você pode até pensar que é encosto
Que está atrapalhando o seu porvir,
Mas lembrando do que fez irá sentir
O remorso lhe atacando em todo canto.
Você rir por me ver chorando tanto
Mas um dia você chora e me ver rir.

Glosas: Wellington Vicente.
Porto Velho, 01/09/2008. 

DESAFIO

Negue tudo, mas não negue
Meu direito de amar.

(Asa Branca do Ceará)

Jure que quando me avista
Seu peito não acelera
Que nunca encarou de vera
Esse jogo de conquista
Diga pro seu analista
Que só quer me humilhar
Fale que ao me ligar
A ligação não prossegue
Negue tudo, mas não negue
Meu direito de amar.

Diga que seus sentimentos
Nunca passam de rompantes
Que os melhores instantes
São apenas fingimentos
Fale que nos aposentos
Nunca conseguiu entrar
Sustente que ao me beijar
Nunca se sentiu entregue
Negue tudo, mas não negue
Meu direito de amar.

Porto Velho, 23/03/2008.

SAUDOSISMO

“Isso d’uns tempos pra cá”.

Vontade de assistir
Um sábado de Zé Pereira
De um papangu na feira
Fazendo o povo sorrir
O sol quente refletir
Na copa do trapiá
De ver um anumará
Comer xerém no terreiro
Não prefiro outro roteiro
“Isso d’uns tempos pra cá”.

Ver um samba de latada
Uma sanfona gemendo
A benzedeira benzendo
A parte que tá inchada
Uma rede grande armada
Debaixo dum pé de ingá
Tira-gosto de preá
Com uma dose de Pitú:
Imagens do meu baú…
“Isso d’uns tempos pra cá”.

Tenho sentido saudade
Do meu tempo de menino
De um boi de Vitalino
Na minha propriedade
Do amor da mocidade
Que há muito deixei por lá
E aquele pé de juá
Se for vivo é testemunha
A lembrança me acabrunha
“Isso d’uns tempos pra cá”.

Mote: Trecho de uma música do mestre Chico César, comentado pelo poeta Brás Costa.
Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 19/02/2012.

FILOSOFANDO

Está com o fundo rasgado
O saco do querer mais.

(Final de sextilha de João Paraibano enviada por Josemar Rabelo)

O cruel Capitalismo
Com suas garras potentes
Transforma os bons ambientes
Em arenas de egoísmo
Enterra todo o civismo
E raízes culturais
Rasga todos os anais
Que retrataram o passado.
Está com o fundo rasgado
O saco do querer mais.

Nossos jovens brasileiros
Grande massa alienada
Esquecem a cultura herdada
E copiam os estrangeiros
Até mesmo os forrozeiros
Presentes nos arraiais
Perderam as credenciais
Do Baião e do Xaxado.
Está com o fundo rasgado
O saco do querer mais.

Na política, nem se fala
O poder do vil metal
Troca o antigo ideal
Pelo “miolo” da mala
Nas reuniões da sala
As câmeras mostram demais
Que os políticos rivais
Comem do mesmo bocado.
Está com o fundo rasgado
O saco do querer mais.

Autor: Wellington Vicente.
Porto Velho, 30.06.08.

SEQUELAS

Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu.

(Mote enviado pela amiga Fátima Marcolino).

Quando cruzaste a esquina
Da viela do meu peito
Senti o terrível efeito
Desta saudade ferina
Que transformou em ruína
Tudo o que se construiu.
Até a pressão caiu
Por causa da soledade.
Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu.

Até os nossos retratos
Dos momentos animados
Já estão amarelados,
Também sentiram os maltratos.
O CD de Os Nonatos,
Que você, sorrindo, ouviu,
Lá da estante sumiu
Em solidariedade.
Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu.

Ninguém calcula o penar
E a dor que estou sentindo
Forçosamente cumprindo
Prisão Domiciliar.
Já entrei com Liminar,
O juiz indeferiu
E o júri consentiu
Privar-me da liberdade.
Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 29/09/2008.

FADO

Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

(Mote de José Zilmar/PB) 

Dentre os seres naturais
Foi ele o requisitado
Para viver num reinado
De cores passionais
Gosta daquilo que faz
Sem pensar em pagamento
Todo relacionamento
Para ele é uma entrega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Seus amores do passado
Nunca deixam sua mente
Mesmo que sirvam somente
Para deixá-lo inspirado
Sofrer parece seu fado
O verso é seu alimento
A pena seu instrumento
A musa sua colega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Quando o poeta se inspira
Os anjos na amplidão
Capricham na afinação
Cada um na sua lira
A terra que tanto gira
Diminui o movimento
Até o mar violento
Fica bom pra quem navega
Todo poeta carrega
Um fardo de sentimento.

Glosas: Wellington Vicente
Altinho-PE, 07 de fevereiro de 2011.

SOBRE AS ASAS DO DESTINO

Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

Já vivi na bebedeira,
Fui sambista e mestre-sala,
Hoje só tenho a bengala
Como minha companheira.
Choro por qualquer besteira
A cada emoção vivida,
Quando penso em despedida
Sinto aumentar minha dor.
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

Hoje sou prisioneir o
Das lembranças do passado
Desprezei, fui desprezado,
Vivi como aventureiro,
Tracei um novo roteiro
Da meta a ser percorrida,
Mesmo tendo uma ferida
No coração sonhador.
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

A cada hino que canto
Diminui minha aflição
E sinto em cada oração
Um alívio, um ac alanto.
Quando recorro ao meu santo
E à Virgem Concebida
Uma voz vem e convida
A semear o amor.
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida.

Mote: Zé de Cazuza
Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 10/03/2008.

PRESEPADAS DE MOLEQUE

Quem “mulesta” é que se esquece
Da primeira “furunfada”?

Nunca mais tive notícia
De Rita de Zé Galego
Que no auge do chamego
Foi meu painel de carícia
E me adestrou na perícia
Da transa bem ritmada
Naquela fase arretada
Quase que a gente enlouquece
Quem “mulesta” é que se esquece
Da primeira “furunfada”?

Na fazenda Santo Antônio
Do velho Pedro Assunção
Eu fui a um mutirão
Com Rita, Zefa e Petrônio
Eu falando em matrimônio
Por cima da terra arada
Disse: – Vamos à latada!
Respondeu: – Bem, nem carece!
Quem “mulesta” é que se esquece
Da primeira “furunfada”?

Numa eleição em Altinho
Eu e Mecino Maurício
Fomos farrar num comício
Do grande Dr. Carrinho
Rita veio do Sobradinho
Já quase de madrugada
Aí dei-lhe uma cantada
Pra votar no PDS
Quem “mulesta” é que se esquece
Da primeira “furunfada”?

Eu no forró do Mercado,
Festa de São Sebastião
Agarrei na sua mão
E entrei meio avexado
Mas discuti com Bordado
Que pastorava a entrada
Quis dar uma revistada
Mas eu gritei: – Não me estresse!
Quem “mulesta” é que se esquece
Da primeira “furunfada”?

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RETROSPECTIVA

Vou viajando escanchado
No lombo da poesia.

No dia em que aportei
Na terra de Vitalino
Musas entoaram um hino
Avisando que cheguei
Lembro quando me banhei
Nas águas da santa pia
Com pingos de maestria
Saí de lá batizado
Vou viajando escanchado
No lombo da poesia.

Depois segui para Altinho
No agreste pernambucano
Onde Deus mandou-me o plano
De seguir no bom caminho
Tendo o apoio e o carinho
Da família, todo dia
E ouvindo a melodia
De um pinho bem afinado
Vou viajando escanchado
No lombo da poesia.

Hoje sou um retirante
Da minha terra adorada
Mas enfeito a minha estrada
Com inspiração constante
Que vem a qualquer instante
Ser a minha companhia
E espanto a agonia
Com verso metrificado
Vou viajando escanchado
No lombo da poesia.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 06/11/2007.

AMIGAÇÃO POÉTICA

Hoje vivo amancebado
Com a dona Poesia.

Depois de passar dez anos
Querendo um amor perfeito
Resolvi achar um jeito
De fugir dos desenganos
Revi conceitos e planos
Pra viver no dia-a-dia
O padre da freguesia
Garantiu: – Não é pecado!
Hoje vivo amancebado
Com a dona Poesia.

Tentei amar Salomé,
Lucinha, Dalva e Anália
Rosinha, Esther e Amália
Rita, Rose e Nazaré
Mas vi que não dava pé
Aquilo que eu pretendia
Pois cada uma queria
Que eu vivesse encarcerado
Hoje vivo amancebado
Com a dona Poesia.

Nos meus piores momentos
Dona Poesia chega
E o meu peito se aconchega
Nos melhores sentimentos
Espalho pros quatro ventos
A rima e a melodia
Numa rede de magia
Adormeço apaixonado
Hoje vivo amancebado
Com a dona Poesia.

Fiz um p acto de amor,
Ela assinou o contrato
Dizendo: – Jamais maltrato
Meu poeta sonhador!
Nunca mais eu senti dor,
Desprezo e melancolia.
O vírus da agonia
Pra sempre está deletado!
Hoje vivo amancebado
Com a dona Poesia.

Autor: Wellington Vicente.
Porto Velho-RO, 07/04/2007.

RUBENIANDO O CORDEL

Ô! Coisa desmantelada
Um cordel sem harmonia.

(Mote de Rubênio Marcelo)

Só porque nosso cordel
Tem raízes populares,
Alguns poetas vulgares
Já posam de menestrel
Danificando o painel
Sagrado da poesia,
Sem rima , sem simetria
E mensagem deturpada,
Ô! Coisa desmantelada
Um cordel sem harmonia.

Não precisa ter estudo
Para escrever um cordel,
Mas nem todo bacharel
Consegue erguer o escudo.
Pensa que sabe de tudo
Porém, da rima desvia,
Serve até de “anarquia”
Sua letra fabricada,
Ô! Coisa desmantelada
Um cordel sem harmonia.

Nosso Rubênio Marcelo,
Poeta que tem visão,
Levantou esta questão
E arrebentou o elo
Que segurava o castelo
Onde reina hipocrisia.
Poeta de academia,
Não siga por esta estrada!
Ô! C oisa desmantelada
Um cordel sem harmonia.

Tente escrever um artigo,
Uma crônica, um simples conto
Mas não queira ganhar ponto
Onde a rima tem abrigo.
Pois isso aí, meu amigo,
O poeta traz da pia.
Patativa já dizia
Naquela época passada:
Ô! Coisa desmatelada
Um cordel sem harmonia.

Rima “amor” com “afirmou”,
“Maracujá” com “amar”
E não consegue contar
As rimas que fabricou.
Quem no site navegou
Notou a pirataria,
Daí vem antipatia
Pela página visitada,
Ô! Coisa desmatelada
Um cordel sem harmonia.

Cordel desarmonioso
É igual sertão sem bode,
É favela sem pagode,
É como sexo sem gozo.
É igual fruto amargoso
Provocador de azia,
Frio igual bucho de gia,
Doído feito estrepada,
ô! Coisa desmantelada
Um cordel sem harmonia.

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 27/02/2004.

CENÁRIO DE INTERIOR

Foto: Alunos Eptevenses

“Apesar das belezas da cidade,
eu prefiro  as imagens do sertão”.

(Mote de autoria desconhecida)

Sou matuto, pois nasci no pé da serra
Como dizem: “Onde canta o sabiá!”
Pela ordem de destino vim de lá
E a saudade todo dia me faz guerra
Minha voz quando canto já emperra
Imprensada pela força da emoção
A lembrança me traz tanta pressão
Que afeta minha frágil sanidade
Apesar das belezas da cidade
Eu prefiro as imagens do sertão.

Sinto falta dum banho de açude,
Dum festejo, de uma pescaria,
De um leite bem puro todo dia,
Elixir natural para a saúde.
Esta vida na cidade não me ilude
Vivo aqui, mas não tenho vocação
Só desejo rever o meu torrão
Vendo tudo o que vi na mocidade
Apesar das belezas da cidade
Eu prefiro as imagens do sertão.

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 05/12/2011.

POESIA MATUTA

A MUIÉ QUI MAIS AMEI

Espere aí, seu Dotô!
Qui eu falo sem demora
E escute nessa hora
Uma históra de amô.
Eu sempre fui sonhadô,
Mai pru isso já paguei,
Pruquê nunca imaginei
Qui adispôis de aduto
Eu fosse levá um chuto
Da muié qui mais amei.

Viví toda a minha vida
De casa para o roçado,
Porém sempre interessado
Em tê a muié quirida
Pra torná-la a margarida
Desse jardim qui sonhei,
Inté qui um dia encrontei
Essa pessoa importante
Qui foi derna aquele instante
A muié qui mais amei.

Se chamava Mariá,
Tinha uns zói apaixonado
E coipo mais torniado
Qui móve coloniá.
Quando batí o oiá
Im riba dela, gostei,
Ligeirim me apaixonei
E ela pru eu gamô:
Daí ganhei o amô
Da muié qui mais amei.

Cum uns três mês de namôro
Nói maiquemo o casamento,
Sentí naquele momento
Dono do maió tesôro.
Drumino im beuço de ôro
Vivia iguamente um rei,
Mas cum o tempo notei
Qui a minha felicidade
Morria na farsidade
Da muié qui mais amei.

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OPERAÇÃO DE SALVAMENTO

Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

À leitora Eliana Berto, pelos contatos e incentivo.

Eu disposto a inovar
Para fugir da rotina
Conheci uma menina
Em uma mesa de bar
E querendo me mostrar
Passei a procuração
Ela me tendo na mão
Quase, quase me abate.
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

Igualmente um garimpeiro
Que encontra um diamante
Pensei que aquela amante
Fosse meu amor primeiro
E me entreguei por inteiro
Àquela nova paixão
Mas descobri que o filão
Não possuía quilate
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

E neste cárcere privado
Vivi por quase dois anos
Escravo dos desenganos
Pela paixão algemado
Meu irmão preocupado
Ligou para o Batalhão
Que deixou de prontidão
O efetivo do G.A.T .E
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

Na condição de refém
Daquele amor traiçoeiro
Sofri esse tempo inteiro
Nas mãos de um falso bem
Como não tinha ninguém
Que soubesse a direção
Daquela minha prisão
Acionaram a SWAT
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

Estava quase perdendo
Meu sonho de liberdade
Mas minha tenacidade
Acabou aparecendo
E já fui me desprendendo
Daquele horrível grilhão
Graças a Deus a razão
Deu-me a vitória no embate
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

Estou livre das paixões
Voltei a sorrir de novo
Venho agradecer ao povo
A força das orações
Falarei às multidões
O que tirei da lição
Passar anticorrosão
Neste meu peito de vate
Paguei um caro resgate
Pra salvar meu coração.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 18/04/2007.

CORRUPÇÃO EM RONDÔNIA

“O inquérito da Polícia Federal que apura o envolvimento do deputado Valter Araújo (PTB) e do ex-secretário-adjunto de Saúde , José Batista, num suposto esquema de corrupção que funcionaria em órgãos como o Detran, Secretaria de Justiça e Sesau, deve abranger muito mais pessoas do que as constantes da relação até agora divulgada pela PF na Operação Termópilas, desencadeada na sexta-feira, 18. O inquérito apura suposto esquema de loteamento de licitações entre empresas prestadoras de serviço do Governo do Estado em áreas como fornecimento de alimentação para presídios e hospitais e serviço de limpeza de órgãos e repartições públicas.

Entre os presos estão autoridades do Poder legislativo e Executivo, além de empresários e assessores governamentais que ocupavam cargos no Detran, na Governadoria, na Controladoria, Sesau e Sejus, entre outros. Valter é acusado pela PF de chefiar a suposta quadrilha.

Além de Batista e Valter Araújo, presidente da Assembléia Legislativa de Rondônia, foram presos mais 13 acusados, mas, segundo a Polícia Federal, pelo menos cinqüenta outras pessoas serão intimadas a partir da semana que se inicia para prestar esclarecimentos, algumas como já indiciadas.

Este é o caso de um grupo de parlamentares que inclui os deputados estaduais Jean Oliveira, Flávio Lemos, Zequinha Araújo, Ana da 8, Euclides Maciel, Saulo da Renascer e Epifânia Barbosa. Todos são acusados pela PF de receber mensalão para dar sustentação política a Valter Araújo, que, até a manhã deste sábado, estava na sede da Superintendência da Polícia Federal em Porto Velho, enquanto seus advogados preparavam um habeas corpus a ser impetrado junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).” (Fonte: Tudo Rondônia)

As glosas seguintes já foram publicadas nesta coluna há mais de um ano, infelizmente continuam atuais.

Após ouvir a música PEGA LADRÃO! Composição de Gabriel, O Pensador, Tiago Mocotó, Aninha Lima e Liminha, retirei da letra o seguinte mote:

“A miséria só existe
Porque tem corrupção.”

Seguem as glosas:

No País dos mensaleiros,
Das grandes negociatas,
Ouço acordes de chibatas
No lombo dos brasileiros.
Quem cuida dos galinheiros
São raposas que estão
Deixando a população
Mais desesperada e triste.
A miséria só existe
Porque tem corrupção.

Falou-se do Picaretas,
Da turma do Ali Babá,
Mas quem falou, vive lá
Mamando nas mesmas tetas.
Brasília mantém provetas
Gerando alienação
E o restante da Nação
Paciente, só assiste.
A miséria só existe
Porque tem corrupção.

Aquela enorme fazenda
Que o deputado comprou
Foi da verba que faltou
Para comprar a merenda.
Mas se fosse um Zé da Venda
Que fizesse tal ação,
Vinha um doutor valentão
Dizendo, com o dedo em riste:
- A miséria só existe
Porque tem corrupção!

Autor: Wellington Vicente.
Porto Velho, 11/04/2009.

MENSAGEIROS

Se não fosse o poeta violeiro
Quem cantava as belezas do sertão?

(Mote de Pedro Ernesto/CE)

Se não fosse o cantar de um Marinho,
Serrador, Aderaldo e Zé Faustino,
De um Louro, Otacílio e Vitorino,
Zé Vicente, Xudu e Passarinho,
Expedito, Pinto, Canhotinho,
Ivanildo com a sua inspiração,
Zé Cardoso, Os Nonatos, Sebastião
(O da Silva foi quem chegou primeiro)
Se não fosse o poeta violeiro
Quem cantava as belezas do sertão?

Se não fosse um João Paraibano
Desenhando os seus versos multicores
A beleza poética dos amores
Rabiscados por um Rogaciano
O embalo dum Martelo Alagoano
A estética contida num Mourão
As paixões tão presentes na Canção
Pondo lágrimas no rosto do roceiro
Se não fosse o poeta violeiro
Quem cantava as belezas do sertão?

Porto Velho-RO, 11/11/11.

PERGUNTAS

Digam a mim quem foi que disse
Que saudade não dói nada.

Quero saber no momento
Quem foi o ingênuo autor
Para dizer que a dor
Da saudade é fingimento
Pois esse mau elemento
Tem memória limitada
Ou nunca levou lapada
Da parceira da velhice
Digam a mim quem foi que disse
Que saudade não dói nada.

Quem não guarda na lembrança
Recordações imortais
Dos antigos matinais
Tão comuns quando criança
Do grupo escolar, da dança
Duma quadrilha ensaiada
Da primeira namorada
Cópia fiel duma miss
Digam a mim quem foi que disse
Que saudade não dói nada.

De uma canção bonita
No parque de diversão
Do cantar de Gonzagão
Entoando “Facilita”
Duma sanfona perita
Animando uma latada
Da mocinha comportada
Tão repleta de meiguice
Digam a mim quem foi que disse
Que saudade não dói nada.

Porto Velho, 05/11/2011.

O AUTOR DA NATUREZA

Devido aos pedidos de amigos e conhecidos do meu pai, Poeta Zé Vicente da Paraíba, segue a letra original que o imortalizou, em parceria com o Poeta  Passarinho do Norte.

Quanto é Grande O Autor da Natureza
(Zé Vicente da Paraíba – Passarinho do Norte)

O que prende demais minha atenção
É um touro raivoso na arena,
Uma pulga do jeito que é pequena
Dominar a bravura de um leão:
Na picada ele muda a posição
Pra coçar-se depressa, com certeza,
Não se serve da unha e nem da presa,
Se levanta da cama e fica em pé,
Tudo isto provando quanto é
Poderosa e suprema a Natureza.

Admiro demais o beija-flor
Que com medo da cobra inimiga
Só constrói o seu ninho na urtiga
Recebendo lição Do Criador.
Observo a coragem do condor
Tendo os montes rochosos como empresa,
Urubu empregado da limpeza,
Como é triste a vida do abutre…
Quando encontra um morto é que se nutre
Quanto é grande O Autor da Natureza.

A abelha por Deus foi amestrada
Sem haver um processo bioquímico,
Até hoje não houve nenhum químico
Pra fazer a ciência desvendada.
Um buraco pequeno na morada
Facilita a passagem, com franqueza,
Uma é sentinela de defesa
E as outras se espalham no vergel,
Sem turbina, sem tacho fazem mel.
Quanto é grande O Autor da Natureza.

Não há pedra igualmente a diamante
Nem metal tão querido como o ouro,
Não existe tristeza como o choro
Nem reflexo igual ao do brilhante
Nem comédia maior que a de Dante
Nem existe acusado sem defesa
Nem pecado maior que avareza
Nem altura igual ao firmamento
Nem veloz igualmente o pensamento
Nem há grande igualmente à Natureza.

Não há forte igualmente às vitaminas
Nem fraqueza igual debilidade
Não há tempo igualmente à mocidade
Nem soldados iguais aos caça-minas.
Não há fontes iguais às cristalinas
Nem cidades  mais lindas que Veneza,
Não há língua igualmente à Portuguesa
Nem pecado igualmente original
Nem amor igualmente ao maternal
Nem há grande igualmente à Natureza.

Não existe ladrão igual a rato,
Não existe leal como o cachorro,
Não existe liberto como o forro,
Não existe ligeiro como o gato,
Não existe tão bom como sensato,
Não existe cruel como tristeza,
Não existe emoção como surpresa
Nem um rei igualmente a Salomão
Nem há força igualmente a de Sansão.
Nem há grande igualmente à Natureza.

*LP Repentes e Repentistas
Discos Rozenblit – Recife-PE, 1973.

* * *

Uma interpretação de Ruy Mauryti para os versos de Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte.

CENÁRIO SERTANEJO

O amanhecer do sertão
É diferente demais.

(Mote de Wélio César)

O corneteiro de penas
Toca alegre a alvorada
O nambu pia saudoso
Numa moita na baixada
E o sol chega e expulsa
As sombras da madrugada.

Numa cerca de arame
Tiziu faz acrobacia,
Um cachorro desembesta
Farejando uma cotia
E a patativa canta
Louvando o raiar do dia.

Um canário cantador
Faz sua vez de artista
Canta pra outro canário
Que ali por perto avista
Parecendo um desafio
De poeta repentista.

Vê-se um galo de campina
Na copa do umbuzeiro 
Um bem-te-vi solta um grito
Imitando um mensageiro
E a sua roupa amarela
Nos faz lembrar o carteiro.

A ema grasna distante
O punaré sai da loca
A galinha chama os pintos
Pra comerem uma minhoca
E o roceiro assobia
Entretido na destoca.

No curral um bezerrinho
Apoja o peito da vaca
Um anum pula inquieto
Na cabeça duma estaca
E um moleque confere
O que tem na arataca.
 
As ovelhas se encostam
Numa cerca de aveloz
Comendo os brotos, nem sentem
O efeito do leite atroz
Na mata que ainda resta
Tem música de curiós.
 
Seguindo em fila indiana
Ovelhas seguem ligeiro
Para comerem o capim
Que cresce junto ao barreiro
No cume da serra ecoa
O aboio do vaqueiro.
 
Um cuscuz bem fumegante
Incensando o ambiente
Queijo de coalho na brasa
Um bule com café quente
São as coisas mais comuns
Naquela terra da gente.

Tantas imagens guardadas
Como se fossem postais
Que estão na minha mente
E nem o tempo desfaz
Digo a você, meu irmão:
- O amanhecer do sertão
É diferente demais!

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 23/10/2011. 

AOS PROFESSORES

Devo tudo ao Professor

Herói de muitas batalhas,
Muita luta pouco ganho
E por seu valor tamanho
Merece muitas medalhas
Convive com tantas falhas
De um sistema opressor
Mas mesmo assim seu valor
Jamais será abalado
E o que tenho galgado
Devo tudo ao Professor.

Estressante é sua lida
Em meio a tantas pressões
Exercícios, correções,
Uma noite mal dormida.
Mas é exemplo de vida
E o fruto do seu labor
Faz nascer cada doutor
Que às vezes o ignora…
O que aprendi outrora
Devo tudo ao Professor.

Nas diversas disciplinas
Da grade curricular
Tem o prazer de ensinar
Erguendo novas cortinas
Nas escolas campesinas
Ou qualquer outro setor
É o grande propulsor
Na vida de muita gente
E até o meu repente
Também devo ao Professor.

Porto Velho, 15 de outubro de 2011.

CISMAÇÃO

Não há amor que resista
À falta de confiança.

Justina de Zé de Neco
No dia que me encarou
Meu coração disparou
Que quase que eu tinha um treco
Ela me disse: – “Amoreco”,
Vou querer uma aliança!
Eu caí feito criança
No conto da vigarista.
Não há amor que resista
À falta de confiança.

Pois não é que inventei
De me casar com Justina
Porque na minha retina
Só sua imagem guardei.
Para o casório chamei
O tocador Zuza França
Mas vi Justina na dança
Piscando pra Zé Paulista.
Não há amor que resista
À falta de confiança.

Eu sei que passei um ano
Aguentando a presepada
Daquela desmiolada
Doida pelo “pé-de-pano”.
Ela fugiu com um cigano
Dizem que foi pra Bragança…
Meu coração já balança
Por Zita de Biu Coquista!
Não há amor que resista
À falta de confiança.

Porto Velho, 02/10/2009

DIA DA SECRETÁRIA (30 DE SETEMBRO)

ODE A UMA SECRETÁRIA

A fim de me proteger
Na Sé, comprei uma imagem,
Num cantinho da bagagem
Guardei, depois de benzer.
Também não pude esquecer
De pôr na minha maleta
Um papel, uma caneta
Pra compor nossa canção,
Mas deixei meu coração
Preso na tua gaveta.

Há mais duma explicação
Para o que houve entre nós:
Primeira, foi tua voz
Que tocou meu coração;
Segunda, foi a visão
Mais bela deste Planeta.
Teu sorriso é a “proveta”
Pela qual eu renasci,
Mas devolva o que esqueci
Dentro da tua gaveta!

Porto Velho, 10/01/2004.

CONVIVÊNCIA

Nos braços da minha amada
Quase morri de carinho.

(Mote de Josemar Rabelo)

Numa cena de cinema
Ela me fez seu ator
Sou meu próprio diretor
Roteiro não é problema
Até já fiz um poema
Para ela bem cedinho
Ela falou: – Meu neguinho
Sem teu amor não sou nada!
Nos braços da minha amada
Quase morri de carinho.
 
A morena do sertão
Atraiu-me de um jeito
Tomou posse do meu peito
Até nem faço questão
Quando sinto a sua mão
Me afagando de mansinho
Fico igual um passarinho
Sobre os ombros duma fada.
Nos braços da minha amada
Quase morri de carinho.

Eu não sei nem descrever
O quanto a gente se ama
Não é só amor de cama
É amor de bem viver
Quando ela quer dizer
Eu fico bem caladinho
Se falo é com um jeitinho
Para não vê-la zangada.
Nos braços da minha amada
Quase morri de carinho.

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 27/08/2009.

CENAS NOTURNAS

A Natureza em segredo
Mostra a sua perfeição.

Às amigas Fátima Marcolino e Taíza Maria.

A aranha faz rapel
Na cumeeira da casa,
A abelha não atrasa
A confecção do mel,
Sabiá bica um cordel
Para o ninho em construção,
Na chã o pássaro carão
Canta pra chover mais cedo.
A Natureza em segredo
Mostra a sua perfeição.

O galo é o corneteiro
Do quartel do Criador,
O magnífico condor
Faz a vez de Brigadeiro.
João-de-barro, o engenheiro
Do Autor da Criação
Faz sua edificação
Na copa do arvoredo.
A Natureza em segredo
Mostra a sua perfeição.

O pequeno uirapuru
Quando canta, a selva cala,
Papagaio imita a fala:
“Currupaco, caruru”.
O inquieto tatu,
Perito em escavação,
Sempre muda a direção
Pra desviar do lajedo.
A Natureza em segredo
Mostra a sua perfeição.

Mote: Clóris Andrade.
Glosas: Wellington Vicente.
Porto Velho, 13/10/2008.

VIVÊNCIA

Quanto mais canto o sertão
Mais tem sertão pra cantar!

(Mote de Domínio Público)

Quanto mais eu imagino
Mais diminui a distância
Imagens da minha infância
Aventuras de menino
De um bravo boi Torino
Num formigueiro a cavar
Chamando para brigar
Um vizinho barbatão
Quanto mais canto o sertão
Mais tem sertão pra cantar!

Da parelha de garrotes
Aos cuidados do carreiro
Aprendendo no terreiro
A dar os primeiros trotes
Dum cantador com seus dotes
Numa bodega a glosar
Fazendo o povo parar
Para prestar atenção
Quanto mais canto o sertão
Mais tem sertão pra cantar!

De uma festa junina
Debaixo duma latada
Da zabumba ritmada
No baião da concertina
Fumaça de lamparina
Cachaça para esquentar
Uma morena a dançar
Pelos cantos do salão
Quanto mais canto o sertão
Mais tem sertão pra cantar!

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 11 de setembro de 2011.

 

MEMÓRIAS

CAÇADA
 
Por ti eu chorei, fiz preces, jejum,
Troquei o meu pão por uma bebida
E puto da vida com a própria vida
Afoguei-me em copos de 51.

Tornaram-se rubros os meus olhos limpos,
Andei pelos cultos, varei  madrugadas,
Habitei as pontes, dormi nas calçadas,
Freqüentei  terreiros, vaguei nos garimpos.

A cada minuto fui teu caçador
Cujo prêmio era caçar teu amor
No rádio, jornal, floresta, no gueto…

Percebi que aquilo não ajudaria…
Folheando o livro da minha agonia
Vi teu endereço num simples soneto!

Porto Velho, 05/02/1993.


PONTO DE VISTA

Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

Nunca vou me permitir
A trilhar este caminho,
Por um motivo mesquinho
Sair ferido ou ferir.
Prefiro não discutir
A alheia opinião,
Pois se dá satisfação
Abençoado é seu fruto,
Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

Não discuto, nem arengo,
Também não puxo o lençol
Pra discutir futebol,
Pois tenho massa no quengo.
Não vou dizer que o Flamengo
É melhor que o Vascão,
Nem afirmar que o Timão
Tem plantel absoluto.
Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

“A Fé remove montanhas”
Alguém disse: – Está escrito!
Mesmo crendo, eu me conflito
Com certas coisas estranhas:
As grandes quantias ganhas
Usando a religião,
Padre e Pastor, já estão
Fazendo o próprio estatuto.
Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

E no mundo da política
Como há hipocrisia…
Quem foi inimigo, um dia,
Hoje partilha da crítica.
Minha visão analítica
É a mesma do cidadão:
A falta de punição
Favorecendo ao corruto.
Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

Três nomes que admiro:
Jesus, Maria e José.
Bondade, Irmandade e Fé
São três ações que sugiro.
Três coisas que não prefiro:
Fila, jiló, chimarrão.
Me causam admiração:
Sertão, Cordel e Matuto.
Três coisas que não discuto:
Bola, crença e eleição.

DEPENDÊNCIA

Minhas narinas ficaram
Dependentes do teu cheiro.

Essa química primitiva
Que possui o teu perfume
Além deste mau costume
Quase me deixa à deriva
A minha mente cativa
Do teu odor feiticeiro
Entrou em teu cativeiro
Depois as grades fecharam
Minhas narinas ficaram
Dependentes do teu cheiro.

Meu olfato te procura
Pelas ruas da cidade
Buscando a saciedade
No coquetel da loucura.
Tem a semelhança pura
Com cachorro perdigueiro
Farejando o dia inteiro
Por onde teus pés pisaram
Minhas narinas ficaram
Dependentes do teu cheiro.

Comprei um contraveneno
Num grande laboratório
Mas se tornou irrisório
Perante o grande veneno
Que tem teu corpo moreno
Esbelto, lindo, trigueiro,
Já devolveram o dinheiro
Pois nesta cura falharam
Minhas narinas ficaram
Dependentes do teu cheiro.

Autor: Wellington Vicente
Porto Velho, 01/07/2007.

REALIDADE

Depois dos setenta anos
É ela quem manda em mim.

(Mote de Asa Branca do Ceará)

Na soma das minhas eras
Eu já cheguei a setenta
A mente já não aguenta
Carregar tantas quimeras
Pois com tantas primaveras
Olho para o meu jardim
Em vez dum pé de alecrim
Só enxergo desenganos
Depois dos setenta anos
É ela quem manda em mim.

Mocidade, moça bela,
Com o tempo foi se afastando
E por querer desbotando
Cores da minha aquarela
A dentição amarela
(Já foi da cor de alfenim)
A mulher diz não ou sim
Na decisão dos meus planos
Depois dos setenta anos
É ela quem manda em mim.

Quando vou sair de casa
A mulher já recomenda:
- Volte logo pra merenda
Veja se não se atrasa!
Eu saio com o peito em brasa
Doido pra tomar um Gim
Mas vou tomar Buferin
Para evitar novos danos
Depois dos setenta anos
É ela quem manda em mim.

Glosas: Wellington Vicente
Porto Velho, 15/08/2011.

CONTRADIÇÕES

De ti fugirei pra te ter mais perto,
Rasgarei tua foto pra não te esquecer
Vou buscar a lua num alvorecer
Para ser a guia do meu rumo certo.

Vou fazer silêncio para acordares
Farei burburinho pra não perceberes
Ofertarei flores para me esqueceres
Pedirei perdão por me enganares.

Verei teu futuro pra saber se prestas
Gostarei das coisas que tu mais detestas
Buscarei teu todo em um pormenor

Rogarei aos céus para dar-te um fim
Porém se passares por perto de mim
Tirarei meus óculos pra te ver melhor.

Porto Velho, 16/05/1995.


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