FILA DA PUTA

Até os anos 60 os padres, por andarem sempre de batina, portanto, facilmente identificáveis, por isso eram muito respeitados onde quer que estivessem.

Nos ônibus os jovens lhes cediam os lugares para sentar; beijava-se suas mãos; enfim o respeito era manifestado publicamente e não apenas nas igrejas.

Na década de 50, jogo de “Fla Flu pernambucano”. A cambada da Ilha do Retiro contra os meninos do Arruda. As bilheterias do campo do Santa Cruz para jogo decisivo começava a receber compradores de ingressos uma hora mais cedo.

Capiba, já às 12 horas, estava com a cara no primeiro daqueles buracos de vendas para garantir sua presença no jogão.

Tendo chegado muito cedo teve que esperar um bocado. Muito distraído, não notou que aquela bilheteria era exclusiva para sócios com Cadeiras Cativas e assim, teve que perder o primeiro lugar para colocar-se numa outra, que já contava com mais de 10 pessoas. Rápido e já arretado, deslocou-se para a próxima.

Outro fator inesperado: aquela bilheteria não abriria naquela tarde, coisa que só percebeu momentos depois de queimar o toitiço num sol de lascar.

Teve, então, que se transferir para uma outra fila, que estava enorme, com mais de 50 pessoas, todas reclamando o calor inclemente. Não percebeu quem estava atrás dele quando ouviu a pergunta que lhe foi dirigida:

– Meu amigo, que fila e esta?

E Capiba, num rasgo de irreverência, sem olhar para trás, fuzilou:

– A “fila da puta”!

Ao se voltar para ver quem era, deparou-se com um padre, de batina, que se mostrou horrorizado com a resposta do tão ilustre compositor. João Carrapateira, colega que estava com ele, “amarelou” e caiu fora.

MUITO RAPARIGUEIRO

O Recife e notadamente o Banco onde trabalhei até a aposentadoria, no ano de 1963, respirava progresso. Prédio recém-construído, muita modernidade, ar-condicionado em tudo quanto era sala, 12 pavimentos. Até elevador com “voz-fantasma” tinha.

Administração prestigiada por visitas importantes numa frequência impressionante. Era inspetor indo e vindo, crédito rural jorrando pelo ladrão, diretor pra lá e pra cá. Usineiros e coronéis de fandango se encontrando pelos corredores.

Numa dessas passagens importantes apareceu o Inspetor Martorelli, da CREAI, que viera do Rio. Desejou conhecer um campo para plantio de folhas de tabaco, exatamente em Arapiraca, Alagoas, por sinal, terra de sua esposa e cenário de sua juventude.

Percebeu-se depois que, na verdade, ele desejava rever a casa de uma sirigaita chamada Dulcinéa, conhecida como “Neinha Bundeira”, que morava na Rua 12, e fora hóspede de um puteiro local nos anos 50, época em que por lá raparigou, namorou e casou-se.

De fumo sabia tudo, mas precisava se atualizar. Rever as plantações era um falso pretexto.

Logo se formou uma pequena comitiva para lhe “puxar o saco”. Do Grande Hotel do Recife levaram o homem, aproveitando a “Rural Willys” e o motorista Menuelzinho, do setor de Crédito Agrícola, a fim de “oficializar a missão” . No “comboio”, mais uns três carros particulares para levar funcionários de alto coturno.

Era uma sexta-feira. O dia deu a entender que era “missão oficial”. Em lá chegando, após as apresentações de praxe às autoridades e funcionários da agência, soube-se que havia um funcionário do Quadro de Portaria, apelidado de “Coreano”, descendente de cigano, que sabia “ler mãos”.

O fato não ficou esquecido pelo ilustre visitante. Queria conhecer seu futuro.

Depois de percorrer a cidade e demorar-se mais do que no “campo de fumo”, pediu para dar uma circulada. Visitou parentes da esposa e outras saudosas damas da cidade, insistindo em descobrir uma certa “casa de prazeres” que se transformara em hotel, onde ele dera suas “pernadas”.

Ao despedir-se, o ilustre visitante pediu a presença do “Coreano” para ler sua mão, embora advertido que ele era meio desbocado. O cigano-improvisado se animou. Sairia do episódio com o “cartaz” aumentado.

Mas o Gerente deixou claro que ele evitasse indiscrições, embora tenha o Inspetor lhe autorizado a dizer tudo quanto estivesse naquelas linhas do seu destino.

Martorelli espalmou a mão direita, cheio de gás e o “Coreano”, recomendado por seu Supervisor, mandou soltar o verbo nos elogios, para puxar o saco do homem, na forma da lei.

No entanto, teve certa linha que ele se recusou a dizer. Mas o Inspetor insistiu. Deu-se a merda.

– Olhe, doutor Inspetor, o senhor é um homem digno, muito bem parecido, bom funcionário, alcançará cargos ainda mais elevados, pode até vir a ser diretor do Banco, mas tem uma falha de caráter que não posso aqui nem soletrar.

– Diga, meu caro; eu lhe autorizo! Disse o Inspetor.

Todos que estavam ao redor do ilustre visitante, inclusive o padre e o prefeito, “amarelaram” quando o “Coreano” soltou a língua:

– O senhor é muito raparigueiro!…

Quem estava por perto fez que não entendeu e foi “dando nos calos”.

Desta cena jamais esqueci porque dela fui testemunha.

SÓ ME CHAME DE “APIBA”

A vida tem passagens interessantes. Com o correr dos anos se tornam, históricas por sua significação posterior e pela graça que provocam ao serem recontadas e comparadas.

Embora trabalhando por muitos anos na mesma agência do Banco do Brasil só vim a me aproximar de Capiba quando iniciei sua biografia, em 1984, por motivo da comemoração dos seus 80 anos. Antes me referia ele com o respeito protocolar: Dr. Lourenço.

No início da década de 50, eu o tratava com tal cerimônia, pois era um dos chefões da Carteira Agrícola e eu um funcionário principiante lotado no setor de Câmbio.

Nos contatos ocasionais eu me referia a ele como “Dr. Lourenço”, visto que era formado em Direito e no Nordeste é praxe tal referência. Mas ele não apreciava essa distinção.

Tendo um defeito de nascença costumava “dispensar” o “k” em suas falas o que tornava a prosa interessantíssima e não havia quem não soltasse um sorriso, sobretudo porque era muito piadista e improvisava, criando as “paradas” mais indigestas e situações inusitadas.

Certa feita diante de um “Bom Dia Dr. Lourenço!”, que lhe dei no elevador, o qual vinha lotado, ele soltou um sorriso safado, bateu no meu ombro e disse escancaradamente, para causar graça nos demais passageiros:

Meu “amaradinha”, me chame doravante de “Apiba”. Vamos acabar com essa “fres-ura” de doutor, porque não sou médico de porra nenhuma; sou um cagão igual a você!!!

É MENTIRA, TERTA?

Quando corriam os anos 60 havia uma história muito mal contada de que uma parcela de militares tinha certo ranço com o funcionalismo do Banco do Brasil, em função dos salários. Dizia-se até que Ascensorista ganhava igual a um Sargento. Mera futricação.

Quando em 1965 assessorei o General Edmundo de Macedo Soares, e Silva, então Ministro da Indústria e Comércio, trabalhei durante alguns dias em que autoridades do Governo Militar se instalaram no Recife, a fim de implantar o GERAN – Grupo Executivo de Racionalização da Agro-indústria Açucareira do Nordeste.

Entre outras coisas aprendi duas “artimanhas burocráticas” com aquele ilustre militar, General de Exército, engenheiro formado na França, ex-Vice-presidente da Mercedes-Benz, Presidente da Federação das Indústrias de São Paulo. e membro da Confederação Nacional da Indústria. No breve convívio deixaríamos fixadas nele nossas qualidades funcionais.

Fui escalado para auxiliar o Grupo de Trabalho que formou um dos gabinetes. Muito gentil, organizado e detalhista, o Ministro deu as coordenadas de ação, uma delas sobre cadastro das empresas dos visitantes com os quais iria dialogar. Não tivera tempo de verificá-las antes.

Sua missão era receber altos empresários de Pernambuco, notadamente usineiros, a fim de avaliar as necessidades da indústria açucareira e como assisti-la.

Foi-me dito que quando ele acionasse um peso de papel duas vezes em cima da mesa eu deveria entregar o dossiê da empresa e colocá-lo diante dos seus olhos, para facilitar o visto. Sabendo-me jornalista pediu-me para apresentar um resumo escrito sobre cada industrial com quem tivesse de conversar.

Pela agenda, fui selecionando as Pastas de Cadastro e empilhando-as de acordo com a sequência de visitas, a fim de deixar tudo em posição de “combate” e com uma espécie de Prólogo , conforme solicitara.

Outra recomendação foi ficar sempre atento e quando ele tirasse os óculos era a deixa para que eu saísse da sala discretamente, porque o assunto seria confidencial. Mas havia outra artimanha que mais parecia um “tique nervoso”. Ele ficava prensando o cabelo na parte de detrás e isto me pareceu algo que ele se esquecera de me alertar.

No curto período do primeiro dia de trabalho teria mostra do que era a competência e solicitude dos funcionários do Banco do Brasil. Notando que comentara com o cliente João Pereira dos Santos que nem tivera tempo de cortar o cabelo a fim de viajar ao Recife, tomei providências. Mandei chamar um dos nossos colegas que era barbeiro.

Findo o expediente ele nos falou que teria que ir a um jantar em palácio, oportunidade em que apresentei, de imediato, o colega Rafael Maurício Vandevelde, que já estava “de prontidão rigorosa” com todo o instrumental, para o corte de cabelo do General, fato que lhe chamou a atenção:

– Isto aqui não é um Banco! Parece mais um quartel!

O barbeiro, conhecido como “Rapa-coco”, engatilhou:

– O Banco do Brasil é formado por um exército civil, sr. Ministro, pode crer.

Só faltou aquela atriz do Chico Anysio para ele completar:

– É mentira, Terta?!…

CUECA BOSTADA

Ao recordar fatos relativos à sua vida e deixar registrado um dos episódios pitorescos de seu tempo de acadêmico, Dr. Alcides Rodrigues de Sena, ilustre advogado, me relatou durante entrevista, um fato curioso com ele ocorrido na velha Faculdade de Direito do Recife, no inicio dos anos 40.

Pela relação de trabalho durante os últimos 10 anos, na qualidade de Editor de seus livros, posso muito bem dizer que o conhecido advogado e político representa uma estátua flamejante para a história de Goiana. Cabe aqui minha homenagem ao cidadão que se mantem lúcido e já ultrapassou os 90 anos.

Pelo muito que sabe e ensinou, tanto como, advogado, professor quanto político, cuja tendência nasceu no Diretório Acadêmico da faculdade, é na verdade um galhardete em todas as batalhas culturais, educacionais e políticas nos últimos 70 anos, notadamente na cidade onde vive.

Os professores da Faculdade de Direito do Recife eram amáveis e confiavam nos alunos. Mas, havia, entre eles, o Dr. J. J. de Almeida, que não era garapa. Tinha a fama de ser o Terror da Faculdade. Era respeitado e até temido pela estudantada. No início do curso, terminada a Aula de Apresentação, ele apressadamente escreveu no quadro-negro o seguinte lembrete:

AMANHÃ ÀS 8 HORAS TEREMOS A PRIMEIRA AULA INICIAL DA MATÉRIA INTRODUÇÃO À CIENCIA DO DIREITO.

Afoito, ainda sob a influência esculhambativa dos ginasianos da época, sem medo da fama daquele professor, o irrequieto jovem Alcides, deu-lhe , pelas costas, uma “lapada gramatical”. No mesmo quadro, logo abaixo, grafou o seguinte comentário:

SÓ A CULTURA CENACULAR DO DR. J.J. DE ALMEIDA SERIA CAPAZ DE ESCREVER COM TANTA AUTORIDADE UM PLEONASMO DESTA NATUREZA, PORQUE TODA PRIMEIRA É INICIAL.

Sairam todos da sala sem que alguém de bom senso tivesse o cuidado de apagar a afronta escrita, a qual viria a ser notada no dia seguinte. Quando o professor chegou deparou-se com tal espetáculo de falta de respeito ao que houvera escrito anteriormente. E com cara de porco mijando, indagou:

– Quem foi que escreveu isto?

– Eu – respondeu impávido, Alcides.

– Seu nome?

– Alcides Rodrigues de Sena.

– Pois prepare-se!…

Disse-me que só faltou se urinar por saber que viria chumbo grosso pela frente. Sendo ele O Terror, sentiu-se antecipadamente reprovado. Aquele professor tinha tamanha fama que certa feita ao ser examinado em prova oral o colega Carlos Fernando Malta chegou a desmaiar.

Alcides pregou a cara nos livros madrugadas a fio, como o fizera nos tempos de ginasiano do Colégio Salesiano. Na primeira prova tirou 10. Houve uma segunda que repetiu a nota e na prova oral, u’a Mesa formada por ilustres, estavam o Magnífico Reitor Dr. Joaquim Amazonas, o assistente do lente e o Dr. J.J. Almeida. Quando chegou e se sentou diante das autoridades ouviu o professor sarcasticamente se pronunciar:

– Sr. Sena, o senhor por aqui!… Quer falar ou prefere ser arguido? Fique à vontade!

– Professor, eu não quero ser desafiante. Mas se o senhor quiser, escolha o ponto. Quero provar que estudei sua matéria.

Quando acabou a exposição J.J. deu um murro na mesa e disse:

– Sr. Reitor, a apresentação deste aluno foi a coisa mais bonita que já vi nesta faculdade nos últimos 10 anos!

– Obrigado, Dr. Almeida – agradeceu Alcides.

Mesmo assim o jovem Alcides peidou-se ao ver, na Mesa, o Dr. J.J. e borrou levemente a cueca samba-canção. Fato que ele próprio me descreveu e finalizou:

– Peidei mas não me caguei!…

Dr. Alcides Rodrigues de Sena e este colunista; Goiana, 2017

PEREBAS – MEDALHAS DE BOM COMPORTAMENTO

Na década de 40 famílias de posses médias, podiam, com certa facilidade, ter Empregadas Domésticas. Era tempo em que muitas jovens de idades entre 14 e 16 anos eram transferidas de Palmares e Belo Jardim para trabalhar em Casas de Família na capital, tudo sob recomendação dos pais, sendo as futuras patroas suas responsáveis.

Todavia, por circunstâncias várias, muitas delas, como o tempo, deixavam a proteção familiar, seduzidas por “atrativos masculinos” caindo na gandaia” E na mudança constante de parceiros geralmente eram acometidas de sífilis e outras doenças “veneráveis”. Perdiam, portanto a donzelice.

Logo que chegavam do interior eram ‘donzelas todas’ e não precisavam fazer o “cadastro” lá em casa, passando pelo crivo de mamãe. Mas, quando se tratava de pessoas já aclimatadas com a vida urbana do Recife e vinham se oferecer para trabalhar era preciso D. Alice fazer algumas perguntas, para evitar dissabores, sobretudo quando cismava que elas tivessem mais de 20 anos.

Lembro-me bem de um desses “interrogatórios”:

Minha filha, você ainda é “moça” ? (querendo saber se era ‘virgem’).

Edith afirmou que era virgem. Porém, mamãe notou que numa de suas pernas havia várias perebas, aquelas lesões de mal aspecto, ainda com vestígios de mercúrio-cromo. Acima de tudo, pelo jeitão de falar, a gesticulação, a saia acima do joelho, o decote chamativo, logo deu na vista.

Sendo macaca velha, D. Alice não foi na conversa e acabou zoando a “camaradinha” para despachá-la:

Virgem? Mas não me diga!… E essas perebas são “Medalhas de bom Comportamento?!…”

ESGOTE SEU MARIDO!

O médico Sebastião Ferrão Castello Branco se notabilizou por ser um bom ginecologista e obstetra do Recife, nos anos 60. As consultas eram marcadas com grande antecedência. Sala de espera sempre cheia.

Ficou famoso pelas historinhas que costumava contar às pacientes para curá-las de “ciumeiras explícitas”. Só ele tinha o remédio: o aconselhamento.

A partir de 1963 pegou a fama de “psicólogo das madames”, fator que lhe proporcionara boa cartela de clientes cativas. Sabia de fato contornar certas situações conjugais através de histórias nem sempre verídicas mas de efeito letal em qualquer situação “fodológica”.

Orientava as senhoras no melhor estilo e exigia a presença dos maridos. Era uma espécie de marketing. U’a forma de propagação, de fidelização da clientela. E dava conselhos através da teatralização, com alguns gestos vulgares até, porém, precisos, a fim de obter boas risadas. Sabia manejar a psiquê das senhoras que assistia. E a fama corria.

Não raro aconselhava que elas fossem ao consultório com os maridos. Certa feita marquei com minha senhora para iniciar uma assistência pré-natal com ele. Era Gustavo Jorge quem estava embuchado.

Chegando mais cedo, a patroa andou conversando com D. Severina Ramos, a Atendente. Aproveitou para soltar, de leve, algumas confidências. Estava meio chateada porque se dizia que “mulher buchuda” ficava esquecida pelos maridos. Tudo em face às dificuldades na prática do ato sexual quando grávidas.

Deixou entender que lhe preocupava tal situação porque a barriga começara a crescer. “Você sabe, essa “melancia” pode atrapalhar um bocado!”

Era parte do cenário. Nos intervalos, D. Severina entrava no gabinete do médico oportunidade em que “dava o serviço”. Informava sobre as queixas elas. A prática se dizia ser usual, a fim de fazer funcionar o esquema de marketing. Na verdade um médico inteligente procurava agradar seu plantel de pacientes fidelizadas.

E logo que a paciente entrava Dr. Castello passava a enfocar teses sobre a “ciumeira das mulheres grávidas” e as “dificuldades da introdução do “negócio” na hora do amor”. Assemelhavam-se a teses de mestrado. E oferecia solução prática.

Minha senhora, como as demais, ficou encantada com a orientação recebida. Primeiramente ele as convencia ter elas a consciência de que eram amadas por seus maridos, e por causa de u’a “melanciazinha” de nada não iriam deixar de provocar e dar amor a eles.

Em nosso caso, mesmo não havendo uma reclamação direta, ele foi logo contando certa historieta. Uma cliente andava às turras com seu marido. Enfezava-se a coitada porque seu mimoso demorava dias para “furar o couro”, alegando que a “melancia” atrapalhava.
Dr. Castello deu o recado indireto, finalizando a história:

– Minha senhora – com todo o respeito lhe digo – dê uma “trepadinha” na madrugada, outra de manhã bem cedo, e antes de ele ir trabalhar exija mais “umazinha”, a “saideira”. Será o remédio infalível para confirmar que ele não terá condições físicas de “comer” mais ninguém. Não haverá mais ciumeira. O jeito é deixá-lo esgotado. Esgote seu marido, minha senhora!

O PENICO DA VÉIA PALMIRA

A história é verdadeira. Posso ter botado uma pitadinha de safadeza… Mas, o fato que, nos anos 70, Bóris Trindade e outro advogado criminalista de Pernambuco, foram contratados às pressas por um fazendeiro para defender um sacrista em júri popular numa pequena cidade do interior.

A gleba estava tumultuada. Em revolta, o público exigia justiça na base do cacete e do cipó de boi, que dói que só a gota E SEGUNDO Teócrito Guerreiro, não deixa marcas para o IML.

A maioria dos habitantes estava sob intensa perturbação. O comércio fechou com medo do que pudesse acontecer. Era a tarde fatídica em que se julgaria um latrocínio. Um cabra ordinário havia roubado um pobre agricultor e enfiara um pau no rabo dele até o último pingo de sangue jorrar. Um “misericídio”.

Por azar, os advogados foram contratados exatamente para a defesa do meliante. E ao chegar já notaram que a coisa tava braba. Mais parecia reunião das Ligas Camponesas de Francisco Juião ou comício de Arraes.

A cidade estava em preocupante agitação. Na frente do fórum, os matutos se acotovelavam, muitos sem saber porque. Ali se aglomeravam pra fazer número. Fisionomias fechadas. Chapéus atolados nas cabeças. Paus e foices na mão. Era voz geral que desejavam linchar o acusado e fazer o “mesminho” com ele. Pau no cu e fazer cabidela com o sangue pra dar aos morcegos.

Os advogados de defesa já desceram do carro, coitados, ouvindo alguns “elogios”: Filhos da puta! Esse safado não merece defesa! Que tá pagando vocês? Preparem os costados pra levar cacete.

Naquele lugar a Imprensa era a boca do povo. As pessoas da cidade e do campo vinham divulgando, há dias, tudo quanto era de boato e coisas ruins sobre o desgraçado que estaria no banco dos réus logo mais.

Bóris, mais afoito e dentro de seu “estilo maltratante”, ao se iniciar a sessão do juri começou logo “desvirginando a moral do morto”, dizendo que ele era veado consagrado. Estratégia para denunciar ao corpo de jurados que o falecido não era flor que se cheirasse. Pretendia com tal mote diminuir a pena do suposto culpado, o que agitou a massa interna e externa no decorrer do juri. O julgamento foi ficando ainda mais tumultuado. O Juiz batia com o martelo na mesa como se fosse um prego numa barra de sabão.

Concluída a ata, proferida a sentença e aliviado o apenado de cadeia em Regime Fechado, a Mesa ouviu ruidosa vaia da plateia. Não houve batida de martelo que silenciasse os presentes. A coisa degringolou. O jeito era sair da cena tão rápido quanto possível.

Os jurados começaram a ser “jurados de morte” pelos mais exaltados, enquanto as mulheres “rogavam praga” nos advogados de defesa. Em dado instante, quando Bóris ainda colocava na pasta alguns documentos, começou o “pega pra capar” e o corre-corre.

Aos empurrões, Juiz, Promotor e advogados foram sendo expulsos para a casa vizinha, que tinha uma entrada pelo oitão, sem que o Cabo Tino, do destacamento da PM local, conseguisse proteger os visitantes. Só se ouviu um grito do Guarda Napo:

– Corre todo mundo que os homi tão com a peste!

Em dado momento, veio voando um pedaço de cadeira que aterrissou bem no pé do cangote do advogado assistente, quase lhe extirpando a orelha, derramando o precioso sangue do galego pelo seu terno de linho branco. O fuzuê tava incontrolável.

Apavorado, Bóris Trindade, perdeu toda sua aristocracia. Invadiu a casa indicada para pedir proteção. De tal forma assombrado foi escondido rapidamente no quarto de D. Palmira, uma velha de 83 anos, “cagona” de primeira linha.

Precavido, enfiou-se debaixo da cama, ficando com a cara bem perto de um “capitão”, carregado com a merda da véia, que durante toda a noite havia ali depositado a desgraceira. Cada peido era um fim de mundo. Coitada de D. Palmira, tivera tremenda “diarreia de chicote”, motivada por u’a mão-de-vaca que comera no dia anterior. Tava com o velho cu em brasa.

O outro advogado recebeu tratamento com “Elixir Sanativo” e panos embebidos com pó de café, o que estancou o sangramento. E quando a coisa acalmou começou o “procura daqui procura dali” e tava difícil encontrar Bóris na casa, foram acha-lo bem escondido e tão apavorado que mal respirava. Estivera embaixo da cama com a venta perto do pinico da véia, por uns cinco minutos.

Depois de algum tempo cheirando bosta, o criminalista saiu feito um Jeca Tatu, amarelão, se arrastando de baixo da “Cama-patente”. Quando a coisa acalmou e puderam se preparar para entrar no “carro de aluguel” que os esperava na porta, bom de gatilho, e sempre bem humorado, o advogado, saiu-se com esta, citando o final da pilhéria do “Papagaio e a Freira”:

– A partir de hoje, prefiro a morte a cheiro forte!…

Nunca mais se esqueceu do “bosticídio”, a cena do pinico de D. Palmira e a “merdalhada” que havia dentro dele.

VAMPIRO DE VIRILHA

Não gosto de descer com frequência à zona da alta sacanagem. Mas inspiro-me em tema relevante comentado ontem pelo nosso sacanocrático Editor Luiz Berto.

Seu tema versou sobre tamanhos de pênis, crônica em que louva Antônio Pitanga, que dizem ter 25 cm de envergadura. É tão grande que não fica completamente duro e sim meio bambo, tema, aliás, referido na revista Isto é.

Volto à cambada do Banco do Brasil nos anos 50, quando as brincadeiras predominavam nos bastidores após os expedientes públicos. A começar pelos apelidos. Havia até uma Comissão instituída para tal fim, sendo Capiba o Presidente Perpétuo.

Três Pernas – Havia um certo grupo que se gabava pelo tamanho do seu “Prativai”. Dentre eles, Sílvio Duarte, apelidado por: “Três Pernas”, tal o agigantado membro, que segundo as mariposas da Zona do Bairro do Recife, mais parecia u’a mangueira de jardim.

Guia de INPS – Outro famoso, Manoel de Azevedo, conhecido por “Guia do INPS”, que infernizava as moças logo que arriava as calças. Reclamavam de que todas as vezes que cediam aos seus desejos amorosos no dia seguinte estavam com o útero virado. Era Posto de Saúde do INPS na certa.

Pé de Mesa – Maurílio Mendes, pela desenvoltura que alardeava e o provou certo dia uma empregada doméstica, tinha uma pajaraca tão agigantada que mais parecia um pé de mesa, segundo a infeliz amante.

Amostra Grátis – Já Eunício de Medeiros procurava ocultar seu membro, evitando comentários, porque dizia que o gigantismo de alguns espantava a moçada da Rua da Guia, “Centro Cultural do Meretrício”. Seu “negócio” era tão pequeno que recebeu o codinome de: “Amostra Grátis”.

Nitroglicerina – Paulinho de Helena, lá da agência e Limoeiro, tinha uma jabiraba tão desenvolvida que explodia o interior de qualquer dama que o recebesse, mesmo que com todo amor.

Vampiro de Virilha – Colega solteirão, já de meia idade, sempre assinalando suas peripécias junto ao mulheril, confidenciou que seu maior prazer, verdadeira tara, era cheirar tabacas e depois passar a língua. E dizia que praticava muito tais procedimentos. Como tinha a cara parecida com Zé do Caixão”, Capiba aplicou-lhe o apelido de “Vampiro de Virilha”.

MIJOU FORA DO CACO

Ditado fora de moda, mas exprime realidades atuais. Saiu da linha, burlou a lei, é peia no lombo da criatura.

Tia Laura mantinha pendurado na parece de um quarto um rebenque, peça ameaçadora para castigar sua moçada. Já minha mãe, só precisava apontar para o tamanco com o qual lavava a casa, para neguinho de mijar todo, só em planejar a trela do banho na maré.

Pequeno chicote de couro, usado para tocar a montaria

Aprecio mais o jornalismo pelos comentários dos arredores. Após os fatos ou durante eles. O modelo tão em moda na Globo e na Record News, é o máximo de audiência.

Aproveitando, trago aqui algumas lembranças de Presidentes da República que mijaram fora do caco e “cagaram fino”, com manchas graves nas suas biografias.

Goulart, ao apoiar a cambada do Cabo Anselmo; Jânio ao condecorar Che Guevara; Collor por ter um procurador como PC Farias e Temer por se entranhar no petismo e adotar seus métodos de conquista a qualquer preço.

Não pretende renunciar. Disse com a veemência de quem está arretado. Parecia haver levado a primeira lapada de rebenque na bunda. Quando repetiu: “Não vou renunciar!”, sabe que ou vai ou racha as pregas do orifício.

Mas sabe que não haverá plasma nos Centros de Hemoterapia para atender ao sangramento que se acentua a cada hora. Merece mais rebenque no lombo.

Não votei no Temer. Mesmo assim me entristeceu ver um homem alinhadíssimo, parlamentar de primeira, com falas que aplicam o linguajar escorreito; e até então tido como incorruptível aliar-se a uma chapa do PT.

Todavia é necessário entender que político é o homem que parlamenta, contorna, conquista votos pelo argumento. Entretanto, ver o Temer fazer os terríveis conchavos colocando ministros comprometidos com atos ilícitos para formar seu ministério, já foi imperdoável.

Pra mim, só tamanco na bundola.

Fiquei esperando ele sangrar, como vem sangrando. A Imprensa metendo-lhe o rebenque, caindo com a cara no chão. Jucá, Gedel, Moreira Franco e outros quadrilheiros. Uma desmoralização para o Presidente e péssimo para a imagem exterior da Nação.

Bem que já teria merecido boas lapadas da rebenque no pé do fiofó.

Lamentavelmente o Presidente foi mais além. Muito mais. Mijou fora do caco e cagou-se “de chicotinho” ao trocar votos por cargos; aliás vício que quase todos adotam para a conquista de Reformas. Isto não é parlamentar. É conchavar.

Mas, de fato houve um crime maior: pisou na merda cagada por ele mesmo quando recebeu na residência oficial da República, um indigente moral. Alguém não muito notável pelos méritos, enrolado num cipoal de problemas criminais graves, corruptor de nomeada e, em audiência privativa ouviu suas peraltices. Maculou o local histórico.

Acabou levando gravador no rabo. Só merece mesmo sangrar até cair inerte e de bunda pra cima, como o General Solano Lopes, herói da Guerra do Paraguai.

O PRESIDENTE QUE SE DANE

Corria o ano de 1953. Aproveitando a noite carioca com Fernando Lobo, Capiba, estando em férias no Rio de Janeiro, foi a um sarau em Ipanema, num daqueles apartamentos enormes construídos nos anos 40. Só “colunáveis” da altíssima sociedade. Gente de grana, usuários do Copacabana Pálace e das colunas de Ibrahim Sued.

Os anfitriões era os Marcondes Ferraz. Já viu. Logo à chegada de Fernando e seu amigo de juventude, ofereceram um banco a Capiba. A madame Julieta mostrou os dentes, deu uma de propagandista da “Colgate” e em largo sorriso se ouviu:

– Prefere sentar-se logo no banco do piano sr. Capiba?

– Prefiro o Banco do Brasil, madame! – Respondeu o compositor, gozando a “véia” e levando o primeiro beliscão de Fernando Lobo.

Era tão gozador que em vida virou boneco

Em seguida foi teclando suas valsas e frevos canções. Teclando e encantando. Começou por Maria Betânia. Palmas mil. Pediram mais. Nem precisava. Diante de um piano ele passaria a noite se acompanhado de bom whisky e belas mulheres. Continuou tocando. E ficaria até o amanhecer se não fosse o fiasco que veio a seguir.

No ponto alto da noitada, aí pela meia-noite, chega certo ilustre e se fez uma pausa no espetáculo musical formando-se uma roda para as apresentações. A velhota, Primeira Dama da casa, com ares de Mestra de Cerimônias, toda deslumbrada, anuncia um figurão e depois de citar outros, com sua voz pouco melodiosa disse:

– General Anápio, aquele ali é o Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa, conhecido compositor do Nordeste, Bacharel em Direito e também funcionário do Banco.

– Ah! Muito bem! Funcionário do Banco do Brasil?

– Infelizmente. – Disse Capiba.

Nesse instante trágico o “staff” do General Anápio Gomes para evitar outra mancada, cochichou que ele era Presidente do Banco do Brasil, e Fernando Lobo começou a “tirar o time de campo” procurando uma porta de emergência para escapar dali discretamente. Sabia que Capiba não deixaria sem resposta. E o compositor disparou:

– Ele é Presidente porque quer, eu sou funcionário porque preciso do Banco, por necessidade.

– Mas ele é seu Presidente! Disse o assessor!

– Presidente que se dane. Ele é provisório e eu sou efetivo.

MARCO MACIEL – APENAS UM VULTO

Ao ler uma reportagem sobre Marco Maciel, Governador de Pernambuco, senador e ex-Vice-presidente da República, ora acometido pelo Mal de Alzheimer, me emocionei com as palavras de Ana Maria, digníssima ex-Primeira Dama de Pernambuco.

– “Vivemos a ausência de alguém que está presente”.

Mas em seu silêncio absoluto que é o ocaso de um articulador discreto, ele guarda para si as glórias que viveu na cena política com tanta dignidade.

Devemos-lhe a realização de um sonho quase impossível que se realizou em Pernambuco e se ampliou pelo Brasil: a Lei 8830/85, que deu às famílias de ex-pacientes mutilados pela hanseníase uma Pensão Especial, vitalícia; beneficiando mais de 800 famílias, na época, fazendo justiça social sobretudo egressos do antigo Sanatório da Mirueira, em Paulista.

A referida lei beneficiou um grupo de pessoas deformadas por uma doença de pele, uma enfermidade simples e facilmente curável, cuja disseminação decorria apenas de um estigma cultural, tema sob o qual escrevi meu primeiro livro. O paciente se tornava indigno quando acometido do então chamado Mal de Hansen.

Em Brasília, no auge da Revolução de 31 de Março, ao entrevistar o Ministro Jarbas Passarinho, a fim de obter apoio para a Campanha de Integração da Hanseníase, da qual era eu era Presidente do Conselho Deliberativo, ouvi daquele militar a sugestão de encaminhar a Marco Antônio de Oliveira Maciel o pleito.

Ainda no aeroporto de Brasília, com a ajuda de Isabel Rocha, fiz-lhe a entrega do documento e meses depois a nova lei estava no Diário Oficial. No ano seguinte foi regulamentada pelo novo Governador, Dr. Roberto Magalhães.

Os benefícios foram surgindo, até que o Presidente, João Figueiredo criou um decreto materializando várias sugestões relativas ao meu pleito, dentre os quais evitar-se o uso da terminologia “lepra” em todos os documentos federais e veículos de mídia, sobretudo em papéis do Ministério e secretarias estaduais de Saúde.

Marco Maciel será para sempre um vulto da História do Brasil. Mas não se imaginava que fosse aquele vulto que hoje se apresenta. Um homem surdo, mudo e cujo olhar está alheio a todo e qualquer movimento ao seu redor. Sem reconhecer ao menos a própria família.

Sobretudo agora que o Brasil tanto precisa de políticos com sua estatura moral, infelizmente ele se tornou apenas um corpo ocupando uma cadeira no lar. Um vulto doméstico, como disse Ana Maria.

Mas para nós será sempre a personificação de um homem probo, político de incomparável honestidade, rara habilidade para resolver questões e consciente para fazer sucessores. Um Marco que deixará marcas de dignidade na História do Congresso brasileiro. Um vulto sim, porém, eminente e inesquecível.

SINUCA DE BICO

Em outubro de 1993 eu cobria, como jornalista do Country Club, uma das apresentações do “astro do bilhar”, José Rui de Mattos Amorim, mais conhecido como “Rui Chapéu”, que se apresentava a convite do Presidente Dr. Rostand Paraíso, tendo ao meu lado para as explicações à boca pequena, o taquista e artista plástico Halmiro – Almiro Antonio Barreto da Silva.

Halmiro (esq.), artista plástico, um dos granes taquistas do Recife, ao lado deste colunista

Iniciada a apresentação, um “distinto” se agarra ao microfone para a transmissão, postando-se como Mestre de Cerimônias.

Para cada jogada o locutor improvisado, com voz de Abílio de Castro, anunciava com entusiasmo, a modalidade, nem sempre inédita para Lulinha, Ivanildo, Dega, Almiro, Mário Celestino, e outros jogadores inveterados.

Em dado momento foi anunciado que “Rui Chapéu” resolveria uma situação difícil, e jamais vista em Pernambuco: uma “Sinuca de bico”. Aquela que iria finalizar sua apresentação.

Silêncio e expectativa. Ouve-se, então, a voz fanhosa de um espectador vindo lá dos cafundós de juras, que irrefletidamente indagou ao locutor desejoso de saber o que era aquele termo – “sinuca de bico”:

– Que diabo de jogada é essa?

Ao que, de pronto, mais depressa que mijada de bode, “Dega” – Edgar Campelo Cavalcanti – sócio-proprietário do Country, jornalista, dono da coluna “O Chute do Dega”, atento e oportunista como sempre, foi ao microfone e sem clemência disparou:

– Estou descontente com tua mulher, mas também não tenho nada melhor em vista!. É uma “Sinuca de bico”.

Fechou-se a cena.

INGRATIDÃO LITERÁRIA

Em 1987 eu entrevistava Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa, o “presepeiro” Capiba, em sua residência, no sobradinho situado na Rua Barão e Itamaracá, 369, no Espinheiro, onde ele morou, local que fervilhava de artistas. Ali conheci gente muito boa, presenciei fatos e ouvi histórias que valem publicação.

Todas as primeiras quartas-feiras de cada mês eu ia apanhá-lo para a gente fazer visitas aos seus velhos amigos. Orgulhava-me ser seu capanga e motorista. Foi numa dessas que fui indicado para a Academia de Artes e Letras de Pernambuco, ao ser apresentado ao Presidente Dr. Ferreyra dos Santos.

Certo dia falávamos sobre fatos dinossáuricos, trocávamos piadas picantes, tudo bem ao gosto do maestro, quando bate palmas no portão do jardim um cidadão desconhecido. Homem que parecia educado e de boas letras.

Apresentou-se como “Joca de Zefinha”, batizado em Bodocó como João Eleutério. Estava com um grosso livro debaixo do sovaco. “O Livro das Ocorrências”.

Calmo, bem vestido, “empacotado” em terno de linho branco “York Street” e chapéu. Um enorme broche com um “J” de ouro na lapela. Deixara lá fora um vistoso Ford Landau Azul Veneza, mais brilhoso do que espinhaço de pão doce, e com um motorista que de tão enfeitado com anéis nos dedos, canetas no paletó e sapatos de duas cores, parecia mais “penteadeira de puta”. Tudo talvez para impressionar os otários da Capital, pois ambos vieram das brenhas lá de Bodocó.

Desejava “Seu “J”, obter um autógrafo do primeiro trabalho de Capiba como escritor, exatamente O Livro das Ocorrências, volume que fora adquirido num sebo da Rua da Matriz.

Comprara para sua esposa Maria Betânia, que fora assim batizada porque sua sogra era fã daquela música, imortalizada por Nelson Gonçalves, conhecido nas coxias da vida carioca como “Boca de Chuveiro”.

Espantado e com ar de “desconsolo explícito”, mas, como sempre astuto e “pecaminoso”, Capiba resolveu “aplicar” mais uma das suas, ao ver que o livro fora realmente doado a um velho amigo de faculdade; e não vendido. E fora parar melancolicamente num sebo. Uma tristeza! Verdadeira “ingratidão literária”.

Alguns pensam que sebo é lugar de livros velhos. Mas nem sempre. Lá estão preciosidades. Nesses “especialistas” encontramos o que nas livrarias convencionais não se encontra.

Mas, voltemos à história. Anos passados Capiba autografara carinhosa dedicatória ao seu amigo, ainda vivo, Hermógenes Monteiro de Castro e ali voltava inglório o livro doado. Diante de seus grossos óculos de tartaruga, voltando humilhado à origem.

Subiu a escadinha e voltou com um livro novo, cabaço, ainda com algumas páginas unidas. Indagou o nome do ilustre desconhecido.

– Bote Joca de Zefinha. Sim, escreva assim mesmo, Seu Capiba.

Livro entregue, o visitante foi levado por nós dois, com todas as honras “civis e eclesiásticas”. Eclesiásticas porque o gato de Zezita acompanhou a gente e ele se chamava “Arcebispo”.

Arcebispo vem de outra história de um reverendíssimo do Espinheiro que era um “gato” e essa legenda foi cravada por Aldemar Paiva. Descemos até a calçada e chegamos ao Landau, onde “Jumento de Cigano”, apelido do motorista, abriu a porta para a entrada triunfal daquele “novo rico”, um matuto metido a besta. Parecia “otoridade”

Na despedida Joca segreda num dos ouvidos de Capiba que ele mesmo dedicaria à “marvada” sogra, a fim de fazer “média” com a veia. A cena termina com um agradecendo e afetuoso abraço entre as partes.

Mal o cidadão deu as costas, Capiba já voltou sorrindo. Imaginei: É alguma presepada que ele está preparando!

Sentou-se à mesa, escrevinhou nova dedicatória e tacou o jamegão. Ofereci-me, como bom presepeiro que sou, para entregar na casa do HMC, como chamava Hermógenes.
Mostrou-me, em desabada risada, a dedicatória escrita, após a antiga, com mordaz sublinhamento:

“Caro Hermógenes, receba e guarde para sempre esta lembrança do Capiba.”

Mas, o leitor há de notar que bibliotecas particulares sofrem quando o dono vai para o “diabo que o carregue”. Pra se livrar de todos os livros de uma só vez, é comum a família dar um telefonema para o sebo resolvendo tudo de um só golpe. Ainda sai com grana. Eles compram tudo e ainda fazem o transporte dos “destroços literários.”

Mas é de arrombar a “cibazeta” de Xolinha, como diz nosso “editor sacanocrático”, o Luiz Berto. Para quem comprou, leu tantas vezes, decorou, sublinhou e guardou por tantos anos, é mesmo uma foiçada no cangote. Seguir um destino tão inglório, ao ponto de ir parar nas prateleiras pecaminosas de um sebo, por mais alinhada que seja a loja de venda de antiguidades na Internet.

E ao chegar lá, tive uma triste surpresa. Notei que “Herminho” já não estava mais “com nada”. Era um morto vivo, com direito a baixa na Receita Federal.

Sentado numa cama-hospitalar, babava e tremia mais do que motorista de Toyota. Tinha os olhos mais arregalados do que uma garoupa do rio Amazonas. Mal balbuciava cuspindo algumas palavras na cara do ouvinte. Só ouvia no grito. Um bafo de boca do cão. Um ser em estado bem encaminhado para putrefação.

Não reconhecia quase ninguém. Mesmo assim segurou o livro com as duas mãos trêmulas, como se uma preciosidade fosse. E era mesmo.

Fiquei observando, entristecido pela situação do “marginal”, porque senti que ele já estava à margem da vida. Anteriormente aquele mesmo livro havia sido afetivamente entregue a ele por Capiba.

Haviam sido velhos colegas da Faculdade de Direito. “Faturaram” a lavadeira da Pensão de D. Berta, da Rua Gervásio Pires, 224, na mesma “Cama Patente – Faixa Azul” em que Maroquinha dormia.

Ela merece outras páginas na História, pois “recebia”, alegremente, como “elementos introdutórios”, os membros da estudantada, em cuja lista estavam os futurosos João e Saulo Suassuna, Ariano e Carnera. Herminho fora um amigão e merecia clemência.

Mas, de fato, ocorrera uma “ingratidão literária”. Depois de doente “entregue às baratas” um dos seus melhores livros foi negociado com centenas e outros pela “candidata a viúva”. Sirigaita 30 anos mais nova do que “Herminho”, bunda do tamanho e um bonde, sempre risonha, com os dentes no “quarador”, parecendo propaganda de Colgate, e cinicamente teve o desplante de mandar seu agradecimento, com um beijoqueensaiou em minha bochecha, para o remetente.

E como se eu fosse um perfeito otário, que nada soubesse da “presepada” de Capiba, ainda me disse quando fui saindo:

– “Herminho” é muito amigo dele. Foram estudantes e farristas juntos. Todas as vezes que Capiba lança um “disco” – como se Capiba fosse participante e alguma olimpíada – traz um aqui em casa, pra gente. Guardamos tudo com muito carinho.

Imagine se não guardassem!…

BICICLETAS CLANDESTINAS

Relembrar não é querer que o tempo volte, como disse o pai de Edu Lobo, meu saudoso amigo Fernando Lobo. É mais comparar os tempos de ontem e achar graça no contraste das comparações.

Esta crônica serve para abrir os olhos dos planejadores e administradores do Departamento de Trânsito de Pernambuco, quiçá do CONTRAN.

Não se vê razões, para nos dias atuais, as bicicletas transitarem sem emplacamento. Completamente clandestinas.

Livres de identificação servem para assaltos, cada dia mais frequentes e violentos, como um recente que matou com um tiro na cabeça meu amigo Jorge Tertuliano, em Pau Amarelo.

Uma ação simples, mas as autoridades do Planejamento não se detiveram a resolver o problema, que nos parece ser de âmbito nacional.

Até o início da década de 50 as bicicletas que circulavam pelo Recife eram devidamente emplacadas, como qualquer outro veículo circulante. Não serviam para “veículos de assalto” como se afiguram hoje, porque todas estavam identificadas.

Os proprietários eram obrigados a apresentar ao órgão especializado pelo emplacamento a Nota Fiscal da compra ou um recibo com firma reconhecida em cartório, no caso de revenda entre pessoas físicas, a fim de legitimar a propriedade.

A numeração do veículo vinha marcada pelo fabricante em baixo relevo no “quadro”, exatamente a parte que sustenta as rodas e a sela.

Nos períodos de renovação da matrícula todos os proprietários se preocupavam em levar suas bicicletas à “Delegacia de Trânsito”, situado num casarão em estilo manuelino, situado no Parque Treze de Maio, sob a chefia do lendário e “ volumoso” Tenente PM Abelardo Rijo, para pagar as matrículas e “selar” em chumbo as novas placas.

Uma coisa chamaria a atenção do amigo ciclista Serjão – Sérgio do Amaral Valença – eram dispensadas de emplacamento os modelos exclusivamente de corrida, as famosas “Flandria”, inglesas, com o “quadro” de alumínio e pneus sem câmara, além as suecas “Husqvarna” e as “Philips”, holandesas.

Mesmo assim todas eram registradas no CCR – Clube de Ciclistas do Recife, cujo Presidente era Leôncio Lopes de Albuquerque, uma lenda na época em corridas de bicicletas no Recife, promovidas com a colaboração do Atlético Clube de Amadoras, sediado em Afogados.

Naquele meu tempo, quando decorria dois meses de renovação da matrícula o Departamento de Trânsito montava várias blitz nos bairros e estacionava caminhões para serem utilizados, recolhendo as bicicletas com emplacamentos vencidos. Era o terror dos pequenos proprietários.

Está em tempo de rever o procedimento, emplacar as bicicletas e recolher aquelas que circulam clandestinas destinadas à bandidagem.

XERÔ CUMEU!

Nos idos de 1960 o funcionalismo do Banco do Brasil no Recife, era na sua intimidade, formado por colegas bastante esculhambativos. Éramos todos brincalhões. Imagine-se juntos: Capiba, Carnera, Carrapateira, Simplício, Jorge Xaruto, Mário da Galinha, Gilfredo Lessa, Jarbas Loureiro e muitos outros.

Agrupava-se entre os 532 trabalhadores, uma turma da Velha Guarda, já em fim de carreira, que ultrapassava limites para trabalhar sempre fazendo presepadas, embora sem perder a seriedade indispensável ao trato dos documentos e atendimento à clientela.

Jarbas Cesar Loureiro exercia alto posto na CACEX – Carteira de Comércio Exterior, que funcionava na Agência Centro, o atual Edf. Capiba, mas nunca deixou de ser um cabra descontraído, engraçado e presepeiro.

Todas as tardes, descia da lanchonete o moço conhecido como “Zeca do Café”. Criatura simples inocente e de poucas letras. Ele surgia com sua carrocinha de lanches anunciando as ofertas da tarde para àqueles que preferiam usar seus preciosos 15 minutos de folga no próprio departamento.

Não raro “Zeca” oferecia sanduiches variados: de presunto, carne ou queijo. Mário Santoiani, lotado no FUNCI – Setor do Funcionalismo, era acostumado a lhe importunar, para provocar risos.

Costumava amassar os pães, tirando-os do saquinho para cheirar e não comprava o primeiro que pegava, o que causavam grande aflição ao vendedor, porque ninguém mais desejava comprar os “cheirados”.

Certa feita o moço foi à CACEX para se lamentar a Jarbas, seu protetor, que sendo mais presepeiro do que Santoiani, criou um cartão e disse a “Zeca” que fixasse na carrocinha e anunciasse a “nova lei” assim que entrasse ao Setor do Funcionalismo.

Sem saber o que estava escrito, chega “Zeca” na porta e diante de todos faz seu “teatrinho” e brada, em alta voz, batendo palmas, para anunciar a exigência do novo comportamento para seus clientes:

– Pessoal, falei com “Seu Jarba” e ele disse que agora a carrocinha tem nova lei, criando esse cartaz.

Mal sabia ele que lá estava escrito algo que atingiria principalmente Mário Santoiani: “XERÔ, CUMEU!”.

A risadaria foi geral. Mas o bom “Zeca” fez sua parte, zelando ela qualidade dos alimentos. Todavia, sem entender porque todos riram.

Ele não tinha a maldade de observar que havia um duplo sentido na frase do cartaz, pois descendia de velha história que correra no Banco, sobre cena que envolveu um Senhor de Engenho e o noivo de sua filha, um tal de Mané, que andara enfiando o nariz na priquita de Zefinha, sua filha, e a coisa vazou. E segurando-o pelo braço com certa violência, berrou:

– Seu cabra safado, venha cá ouvir uma coisa. Se você “descabaçou” minha menina vai se ver com essa “lambedeira” aqui ou vai ter que se casar com ela.

– Cumi não, Seu Coroné, só dei uma cheiradinha no cabaço dela.

– Mas comigo é diferente! A intimidade já foi uma desonra pra moça. Pra mim cheirou, comeu!

ENFIA O DEDO E RODA

Luiz Berto, o sacanocrático editor e âncora deste jornal, comentou ao vídeo alguns nomes engraçados de blocos carnavalescos do Recife, verdadeiro registro sociológico que daria um dicionário, cujos títulos, todos, pela maldosa intensão motivam animação.

Lá vem a esculhambação histórica! Nos anos em que minhas pernas estavam menos pesadas do que hoje, lembro-me que fui folião do bloco do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco: o “Língua Ferina”.

A cambada saia saia da Boa Vista e terminava em apoteose na frente do Diário, sob o entusiasmo do saudoso Carlos Cavalcanti, que era o presidente, e Luiz Felipe Moura, seu sacripanta-mor.

Lembrei-me, então, de uma historinha contada por Dr. Basto Rodrigues, morador da Rua José Bonifácio, na Torre, cujo pai, já contando 82 anos, era um carnavalesco sem par. Duro no frevo.

Fechava as ruas do bairro com seus blocos de irreverência invulgar. Cada ano ele dava um nome diferente. Criava música, fazia paródias avacalhando políticos da época. Treinava os meninos para cantar com ele.

Nos idos de 70 resolveu o velho “Bastão”, dar um pulo, homenageando a turma da Telpe – Telecomunicações de Pernambuco, pois era amigo de Jeanbastiani, apresentando um bloco mais organizado, com placas insultando a prefeitura, evitando citar políticos, etc.

Disse-me, o filho, que o pai, dono do bloco, lhe havia garantido que o novo nome seria o mais inocente possível.

Mas foi de lascar, porque tinhoso como ninguém, aproveitaria u’a musiquinha bem conhecida: “Enfia o dedo e roda”, alusiva aos antigos telefones que funcionavam na base do dial.

No sábado danou-se a cantar treinando a meninada sob o som de metais e bateria:

Enfia o dedo
Enfia o dedo e roda
Não é isso que vocês estão pensando
É do telefone que estou falando.

Dado ao êxito, no ano seguinte “Bastão” chutou o pau da barraca com uma arrasante temática: “Quem for corno me acompanhe” fez mais sucesso do que o anterior. E de tão ansioso apresentou-se logo no sábado. Sucesso de público crescendo.

Todavia, os filhos – um médico e outro desembargador – acharam que ele foi longe, pegou pesado e a coisa poderia degringolar, porque se tratava de agremiação formada por famílias de fino trato, além da participação de crianças. Apelaram para que ele mudasse de nome.

Na mesma noite da “sensura”, “Bastão” foi às casas de alguns pilantras idosos como ele e combinou que o novo bloco sairia no domingo, só pra chatear, mas com outro formato e uma bandeira de papelão com o novo título.

Seu “Bastão” ficou arretado, mas deu um drible de corpo nos filhos, com a ajuda da vizinhança que não aceitava a “censura.” Inteligente preparou uma rasteira nos “meninos”. Fez uma vaquinha, contratou orquestra fuleira com dois pistões e um sax, engembrou fantasias e conseguiu juntar o dobro de pessoas para a apresentação-extra.

Para surpresa de todos o bloco: “Quem for corno me acompanhe” mudou para: “O mesmo de ontem”. Que rasteira!

TAVA CAGANDO!

Visitei esta semana meu querido cliente e amigo o advogado Alcides Rodrigues de Sena – que já emplacou 96 anos e vive com o mesmo entusiasmo e bom humor – no seio de família numerosa, com a esposa, D. Anunciada, e um monte de netos e bisnetos, em seu solar tipicamente espanhol, em Goiana.

Dr. Alcides

E como sempre, sob meu estímulo, soltou histórias incríveis provocadoras de boas risadas. Contou-me ele mais uma, que aliás, publiquei em seu livro: “Pedaços da Alma, Filigranas do Coração”.

O traficante e maconha não atendeu aos pedidos da Polícia para abrir a porta e teve a casa invadida. Procura inútil. Nada foi encontrado. Justificou depois, em juízo, a demora em abrir a porta porque estava no banheiro obrando, pelo que deu várias descargas.

O Processo correu e o Juiz arrolou a esposa como Informante.

– Minha senhora, o que seu marido estava fazendo naquela noite, no banheiro e dando descargas tão prolongadas?

Senhora simples, de hábitos rurais, vestido de chita, corpo bem coberto, humilde e tímida. Ela olhou para o Juiz com certo espanto face à pergunta que lhe foi dirigida e disse com a maior simplicidade:

– Seu Juiz, pelo que sei ele estava cagando!

E o Juiz, diante da risadaria na audiência, nem duvidou da seriedade da Informante, porém anunciou que arranjaria um sinônimo para aquela expressão xula: “Estava satisfazendo suas necessidades fisiológicas”, solicitando a concordância da esposa do suposto traficante, para a mudança, ao que ela concordou mas reafirmou:

– Doutor Juiz não sei mesmo o que o senhor quis dizer, mas que ele tava cagando, tava!

PACIENTE DE PIRIPAQUE

No Hospital Esperança, de Olinda, este colunista, sem foto shop, ‘meio Lá meio Cá’ 

Inerte, deitado e imóvel no “leito indesejado” de um hospital olindense que agora tem nome de Esperança, tremendo mais do que motorista de Toyota, fui fotografado em 29 de janeiro de 2017, logo após ser conduzido por Carlito, Socorrista e Bombeiro Civil.

Escapei pela “lateral da vida”, por sorte. Após vários exames negativos. Tipo Ficha de Serasa sem restrições. Deixei o nosocômio, mais furado do que uma “Tábua de Pirulitos”.

Diagnóstico: possuidor de uma das piores enfermidades. Aquela que não tem nome. Quando médicos e exames constatam que o “impaciente” não apresenta nenhum sintoma de alteração na “carcaça”.

Aí médicos denunciam, chutando, que é estresse, e recomendam usar chá de flor de laranja com uísque à moda caubói.

Por comentários à “boca pequena” nos bastidores da Enfermaria, ouvimos dizer que poderia se tratar de doença que tem atacado os pilotos da “Fórmula 1”. No meu caso, “Fórmula Zero”.

De fato, eu vinha “chutado”, de “pé dentro” mesmo. Quem não enfia o pé no acelerador ao ver aquela beleza de pavimento atapetado da Avenida Olinda, às 9h00 de um domingo tranquilão, sujeito à multa por velocidade além dos 60 km/h? O cenário estimulava.

O movimento da via estava igual a Autódromo de Interlagos. E assim, tomé “pé na tábua”. Quando, de repente, vi e senti “o mundo rodar” sem o carro sair da faixa.

Senti-me ligeiramente “defuntável”. Já pensou?! Pronto para retornar à zona santificada. Assustei-me bastante. Diminui a velocidade acionando apenas o freio-motor, com toda a calma.

Conscientizei-me que estava enfartando ou tendo um troço parecido. Apertei o botão de “Sinalização de Vagalume”, aproximei-me do meio-fio e rodei devagarinho procurando estacionamento. Vi a placa abençoada “Achaqui”. Era o Armazem Coral. Foi ali que parei.

Fiz a curva da ponte do “Varadouro das Galeotas”. Nome pomposo que os portugueses deram e que o povão ignorante de Olinda deixou de divulgar para os turistas acharem interessante.

Suando até pelas “tripas gaiteiras”, senti que era preciso estacionar para não me “debrear”, e acabar como Dr. Ariano Suassuna costumava dizer: “descomendo” o Café da Manhã, pois o esqueleto tremia mais do que vara verde em meses de seca.

Tomei meia garrafada da “agua benta” de Garanhuns e fiz alguns telefonemas anunciando à pré-viúva o acontecido.

Na Praça de Táxi do Mercado Eufrásio Barbosa me ajeitei com Cerezo, que conduziu meu “possante” até o lar, de onde fui levado pelo filho, que é Bombeiro-socorrista, até o multinacional Hospital Esperança.

Recomendei ao Serviço de Imprensa do “Esperança” que evitasse a divulgação, à pedido da pré-candidata à viuvez. Mas, prevenido, antes que o óbito pudesse ocorrer, ditei para o filho uma nota a fim de ser transmitida ao meu comparsa Geraldo Freire, caso a “perda-total do paciente” realmente ocorresse:

Por doença conhecida como “Praga de Mulher Prenha” deixou nosso convívio nesta manhã ensolarada de domingo o jornalista e escritor Carlos Eduardo Carvalho dos Santos, membro da Academia de Artes e Letras, do TAP – Teatro de Amadores e da AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco.

Estava aposentado pelo Banco do Brasil, mas não era “Inativo”, nem se considerava velho; apenas “antigo” e em bom estado de putrefação, pois desenvolvia plenamente suas atividades profissionais.

Nascido no século passado, contava 80 anos, 7 meses, 12 dias e 86.416 segundos, de acordo com a “pulseira” do hospital. Deixa, 26 livros publicados e uma porrada de jornais velhos bem conservados.

Além de poucos amigos – porque a maioria já se foi do Aquém para o Além – deixa também uma viúva em bom estado de conservação, 4 filhos de dois consórcios, 12 netos e 8 bisnetos.

Diante da “tragédia”, lembrei-me de um fato real envolvendo meu amigo Edson de Almeida, locutor do “Repórter Esso” do Rádio Jornal do Commercio, que num leito de hospital chamou o filho e gravou a notícia de sua própria morte, com sua voz inconfundível, como se uma edição do famoso noticioso dos anos 50.

E movido por aquela “sugestão”, talvez já enviada do Alto”, antes de receber o Bilhete de Ingresso para me colocarem, com honras e títulos numa das “gavetas de concreto” de “Amaro Bocão”, tive outra ideia acalentada ao longo dos anos para a nota fúnebre de meu esqueleto:

Obituário – A viúva, etc. etc. comunica e convida para o chororô de praxe, do seu ente, às 16 horas de hoje no Cemitério do Senhor Bom Jesus da Redenção, e não simplesmente “Cemitério de Santo Amaro”. E pedi para fazer constar em minha lápide, a seguinte mensagem:

“Fiz o que pude. Tentei tudo que quis. O que não se concretizou foi sonho e se evaporou. Perdi apenas o que nunca foi meu. Na vida fui um acelerado, por isso morri de Piripaque. Fui sem remorso. Espero rever os meus do Outro Lado da Vida. Mandarei recados, se possível.”

JUMENTO DE CIGANO

Antiga agência do BB, Av. Rio Branco, na década de 1950

Na década de 50, quando ingressei na instituição, o Banco do Brasil só contava com uma agência no Recife, a qual funcionava na Praça Rio Branco, tomando o nº 427 da Avenida Alfredo Lisboa, onde está atualmente o moderno prédio do Grupo Empresarial João Santos.

O prédio tinha estilo neoclássico e completava o conjunto do atual Marco Zero, conforme nos mostra a foto cedida por W.K. Okasaki.

Servia para encantar os turistas que chegavam à cidade em navios a vapor, pois ali se iniciava o cais. O cenário era idêntico a uma praça europeia face ao magnífico conjunto de edificações.

Não havendo Estação de Passageiros os que se dirigiam para embarque ou desembarque, eram obrigados a ficar misturados com os guindastes, as barulhentas carroças que conduziam as malas e pisando nos trilhos do trem fixados em pavimento à paralelepípedos.

Ao lado da pujança material do BB convivia um patrimônio humano realmente excepcional, que era seu quadro de funcionários. Além de sua inegável capacidade de trabalho, seu pessoal possuía nível intelectual aliado a uma forte emulação profissional tudo em ambiente de alegria.

Verdadeiro exército civil, selecionados através de criteriosos concursos de provas sempre estiveram empenhados na tarefa de contribuir para a grandeza nacional.

Porém, na intimidade de seu funcionamento, se ocultava o alegre conviver, predominando a camaradagem e a integração. As tiradas pitorescas eram coisa predominante no convívio que estimulava o trabalho. Ali se agrupavam figuras mais conhecidas pelos apelidos, como Capiba, Carnera, Biu da Lixeira, Macaco-seco, Saco de Coco Cu de Pato, etc.

O remanejo de seu quadro de funcionários era constante e não raro se via colegas novos chegando, vindo de agências distantes e outros se afastavam para cumprir tarefas mais elevadas pelo interior de vários estados.

O sanitário do prédio era composto de um salão onde havia muitas privadas, pias e até banheiros. Ambiente para breves encontros e algumas historietas rápidas sobre putaria.

Certa feita, chegando para o primeiro dia de trabalho, transferido de Garanhuns, de onde fora dispensado do cargo de Gerente, surgiu um a figura de fisionomia fechada, que fora urinar.

Não estava pra conversa, face às circunstância de ter retornado ao Posto Efetivo, como Escriturário, deixando pomposo gabinete de gerência na “Suíça Pernambucana”.

Surgia, diante de modesto serventuário da limpeza, um homem alto, bem afeiçoado, terno de linho branco “York Street”, sapatos de duas cores, pérola na gravata, bigode bem aparado, que mais adiante ficaria conhecido pelo apelido de “Jumento de Cigano”, tal os barangandãs que ostentava no vestuário dando-lhe certa imponência.

Era Eunício dos Santos Portela, que ficaria imortalizado por uma historieta sem par. Vendo aquele sujeito tão alinhado, um servente que estava por perto imaginou ser aquele o novo administrador e logo, olhou para ele, deu respeitoso Bom Dia e indagou:

– O senhor é o novo Gerente?

– Não. Sou um merda igual a você!


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