ENFIA O DEDO E RODA

Luiz Berto, o sacanocrático editor e âncora deste jornal, comentou ao vídeo alguns nomes engraçados de blocos carnavalescos do Recife, verdadeiro registro sociológico que daria um dicionário, cujos títulos, todos, pela maldosa intensão motivam animação.

Lá vem a esculhambação histórica! Nos anos em que minhas pernas estavam menos pesadas do que hoje, lembro-me que fui folião do bloco do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco: o “Língua Ferina”.

A cambada saia saia da Boa Vista e terminava em apoteose na frente do Diário, sob o entusiasmo do saudoso Carlos Cavalcanti, que era o presidente, e Luiz Felipe Moura, seu sacripanta-mor.

Lembrei-me, então, de uma historinha contada por Dr. Basto Rodrigues, morador da Rua José Bonifácio, na Torre, cujo pai, já contando 82 anos, era um carnavalesco sem par. Duro no frevo.

Fechava as ruas do bairro com seus blocos de irreverência invulgar. Cada ano ele dava um nome diferente. Criava música, fazia paródias avacalhando políticos da época. Treinava os meninos para cantar com ele.

Nos idos de 70 resolveu o velho “Bastão”, dar um pulo, homenageando a turma da Telpe – Telecomunicações de Pernambuco, pois era amigo de Jeanbastiani, apresentando um bloco mais organizado, com placas insultando a prefeitura, evitando citar políticos, etc.

Disse-me, o filho, que o pai, dono do bloco, lhe havia garantido que o novo nome seria o mais inocente possível.

Mas foi de lascar, porque tinhoso como ninguém, aproveitaria u’a musiquinha bem conhecida: “Enfia o dedo e roda”, alusiva aos antigos telefones que funcionavam na base do dial.

No sábado danou-se a cantar treinando a meninada sob o som de metais e bateria:

Enfia o dedo
Enfia o dedo e roda
Não é isso que vocês estão pensando
É do telefone que estou falando.

Dado ao êxito, no ano seguinte “Bastão” chutou o pau da barraca com uma arrasante temática: “Quem for corno me acompanhe” fez mais sucesso do que o anterior. E de tão ansioso apresentou-se logo no sábado. Sucesso de público crescendo.

Todavia, os filhos – um médico e outro desembargador – acharam que ele foi longe, pegou pesado e a coisa poderia degringolar, porque se tratava de agremiação formada por famílias de fino trato, além da participação de crianças. Apelaram para que ele mudasse de nome.

Na mesma noite da “sensura”, “Bastão” foi às casas de alguns pilantras idosos como ele e combinou que o novo bloco sairia no domingo, só pra chatear, mas com outro formato e uma bandeira de papelão com o novo título.

Seu “Bastão” ficou arretado, mas deu um drible de corpo nos filhos, com a ajuda da vizinhança que não aceitava a “censura.” Inteligente preparou uma rasteira nos “meninos”. Fez uma vaquinha, contratou orquestra fuleira com dois pistões e um sax, engembrou fantasias e conseguiu juntar o dobro de pessoas para a apresentação-extra.

Para surpresa de todos o bloco: “Quem for corno me acompanhe” mudou para: “O mesmo de ontem”. Que rasteira!

TAVA CAGANDO!

Visitei esta semana meu querido cliente e amigo o advogado Alcides Rodrigues de Sena – que já emplacou 96 anos e vive com o mesmo entusiasmo e bom humor – no seio de família numerosa, com a esposa, D. Anunciada, e um monte de netos e bisnetos, em seu solar tipicamente espanhol, em Goiana.

Dr. Alcides

E como sempre, sob meu estímulo, soltou histórias incríveis provocadoras de boas risadas. Contou-me ele mais uma, que aliás, publiquei em seu livro: “Pedaços da Alma, Filigranas do Coração”.

O traficante e maconha não atendeu aos pedidos da Polícia para abrir a porta e teve a casa invadida. Procura inútil. Nada foi encontrado. Justificou depois, em juízo, a demora em abrir a porta porque estava no banheiro obrando, pelo que deu várias descargas.

O Processo correu e o Juiz arrolou a esposa como Informante.

– Minha senhora, o que seu marido estava fazendo naquela noite, no banheiro e dando descargas tão prolongadas?

Senhora simples, de hábitos rurais, vestido de chita, corpo bem coberto, humilde e tímida. Ela olhou para o Juiz com certo espanto face à pergunta que lhe foi dirigida e disse com a maior simplicidade:

– Seu Juiz, pelo que sei ele estava cagando!

E o Juiz, diante da risadaria na audiência, nem duvidou da seriedade da Informante, porém anunciou que arranjaria um sinônimo para aquela expressão xula: “Estava satisfazendo suas necessidades fisiológicas”, solicitando a concordância da esposa do suposto traficante, para a mudança, ao que ela concordou mas reafirmou:

– Doutor Juiz não sei mesmo o que o senhor quis dizer, mas que ele tava cagando, tava!

PACIENTE DE PIRIPAQUE

No Hospital Esperança, de Olinda, este colunista, sem foto shop, ‘meio Lá meio Cá’ 

Inerte, deitado e imóvel no “leito indesejado” de um hospital olindense que agora tem nome de Esperança, tremendo mais do que motorista de Toyota, fui fotografado em 29 de janeiro de 2017, logo após ser conduzido por Carlito, Socorrista e Bombeiro Civil.

Escapei pela “lateral da vida”, por sorte. Após vários exames negativos. Tipo Ficha de Serasa sem restrições. Deixei o nosocômio, mais furado do que uma “Tábua de Pirulitos”.

Diagnóstico: possuidor de uma das piores enfermidades. Aquela que não tem nome. Quando médicos e exames constatam que o “impaciente” não apresenta nenhum sintoma de alteração na “carcaça”.

Aí médicos denunciam, chutando, que é estresse, e recomendam usar chá de flor de laranja com uísque à moda caubói.

Por comentários à “boca pequena” nos bastidores da Enfermaria, ouvimos dizer que poderia se tratar de doença que tem atacado os pilotos da “Fórmula 1”. No meu caso, “Fórmula Zero”.

De fato, eu vinha “chutado”, de “pé dentro” mesmo. Quem não enfia o pé no acelerador ao ver aquela beleza de pavimento atapetado da Avenida Olinda, às 9h00 de um domingo tranquilão, sujeito à multa por velocidade além dos 60 km/h? O cenário estimulava.

O movimento da via estava igual a Autódromo de Interlagos. E assim, tomé “pé na tábua”. Quando, de repente, vi e senti “o mundo rodar” sem o carro sair da faixa.

Senti-me ligeiramente “defuntável”. Já pensou?! Pronto para retornar à zona santificada. Assustei-me bastante. Diminui a velocidade acionando apenas o freio-motor, com toda a calma.

Conscientizei-me que estava enfartando ou tendo um troço parecido. Apertei o botão de “Sinalização de Vagalume”, aproximei-me do meio-fio e rodei devagarinho procurando estacionamento. Vi a placa abençoada “Achaqui”. Era o Armazem Coral. Foi ali que parei.

Fiz a curva da ponte do “Varadouro das Galeotas”. Nome pomposo que os portugueses deram e que o povão ignorante de Olinda deixou de divulgar para os turistas acharem interessante.

Suando até pelas “tripas gaiteiras”, senti que era preciso estacionar para não me “debrear”, e acabar como Dr. Ariano Suassuna costumava dizer: “descomendo” o Café da Manhã, pois o esqueleto tremia mais do que vara verde em meses de seca.

Tomei meia garrafada da “agua benta” de Garanhuns e fiz alguns telefonemas anunciando à pré-viúva o acontecido.

Na Praça de Táxi do Mercado Eufrásio Barbosa me ajeitei com Cerezo, que conduziu meu “possante” até o lar, de onde fui levado pelo filho, que é Bombeiro-socorrista, até o multinacional Hospital Esperança.

Recomendei ao Serviço de Imprensa do “Esperança” que evitasse a divulgação, à pedido da pré-candidata à viuvez. Mas, prevenido, antes que o óbito pudesse ocorrer, ditei para o filho uma nota a fim de ser transmitida ao meu comparsa Geraldo Freire, caso a “perda-total do paciente” realmente ocorresse:

Por doença conhecida como “Praga de Mulher Prenha” deixou nosso convívio nesta manhã ensolarada de domingo o jornalista e escritor Carlos Eduardo Carvalho dos Santos, membro da Academia de Artes e Letras, do TAP – Teatro de Amadores e da AIP – Associação da Imprensa de Pernambuco.

Estava aposentado pelo Banco do Brasil, mas não era “Inativo”, nem se considerava velho; apenas “antigo” e em bom estado de putrefação, pois desenvolvia plenamente suas atividades profissionais.

Nascido no século passado, contava 80 anos, 7 meses, 12 dias e 86.416 segundos, de acordo com a “pulseira” do hospital. Deixa, 26 livros publicados e uma porrada de jornais velhos bem conservados.

Além de poucos amigos – porque a maioria já se foi do Aquém para o Além – deixa também uma viúva em bom estado de conservação, 4 filhos de dois consórcios, 12 netos e 8 bisnetos.

Diante da “tragédia”, lembrei-me de um fato real envolvendo meu amigo Edson de Almeida, locutor do “Repórter Esso” do Rádio Jornal do Commercio, que num leito de hospital chamou o filho e gravou a notícia de sua própria morte, com sua voz inconfundível, como se uma edição do famoso noticioso dos anos 50.

E movido por aquela “sugestão”, talvez já enviada do Alto”, antes de receber o Bilhete de Ingresso para me colocarem, com honras e títulos numa das “gavetas de concreto” de “Amaro Bocão”, tive outra ideia acalentada ao longo dos anos para a nota fúnebre de meu esqueleto:

Obituário – A viúva, etc. etc. comunica e convida para o chororô de praxe, do seu ente, às 16 horas de hoje no Cemitério do Senhor Bom Jesus da Redenção, e não simplesmente “Cemitério de Santo Amaro”. E pedi para fazer constar em minha lápide, a seguinte mensagem:

“Fiz o que pude. Tentei tudo que quis. O que não se concretizou foi sonho e se evaporou. Perdi apenas o que nunca foi meu. Na vida fui um acelerado, por isso morri de Piripaque. Fui sem remorso. Espero rever os meus do Outro Lado da Vida. Mandarei recados, se possível.”

JUMENTO DE CIGANO

Antiga agência do BB, Av. Rio Branco, na década de 1950

Na década de 50, quando ingressei na instituição, o Banco do Brasil só contava com uma agência no Recife, a qual funcionava na Praça Rio Branco, tomando o nº 427 da Avenida Alfredo Lisboa, onde está atualmente o moderno prédio do Grupo Empresarial João Santos.

O prédio tinha estilo neoclássico e completava o conjunto do atual Marco Zero, conforme nos mostra a foto cedida por W.K. Okasaki.

Servia para encantar os turistas que chegavam à cidade em navios a vapor, pois ali se iniciava o cais. O cenário era idêntico a uma praça europeia face ao magnífico conjunto de edificações.

Não havendo Estação de Passageiros os que se dirigiam para embarque ou desembarque, eram obrigados a ficar misturados com os guindastes, as barulhentas carroças que conduziam as malas e pisando nos trilhos do trem fixados em pavimento à paralelepípedos.

Ao lado da pujança material do BB convivia um patrimônio humano realmente excepcional, que era seu quadro de funcionários. Além de sua inegável capacidade de trabalho, seu pessoal possuía nível intelectual aliado a uma forte emulação profissional tudo em ambiente de alegria.

Verdadeiro exército civil, selecionados através de criteriosos concursos de provas sempre estiveram empenhados na tarefa de contribuir para a grandeza nacional.

Porém, na intimidade de seu funcionamento, se ocultava o alegre conviver, predominando a camaradagem e a integração. As tiradas pitorescas eram coisa predominante no convívio que estimulava o trabalho. Ali se agrupavam figuras mais conhecidas pelos apelidos, como Capiba, Carnera, Biu da Lixeira, Macaco-seco, Saco de Coco Cu de Pato, etc.

O remanejo de seu quadro de funcionários era constante e não raro se via colegas novos chegando, vindo de agências distantes e outros se afastavam para cumprir tarefas mais elevadas pelo interior de vários estados.

O sanitário do prédio era composto de um salão onde havia muitas privadas, pias e até banheiros. Ambiente para breves encontros e algumas historietas rápidas sobre putaria.

Certa feita, chegando para o primeiro dia de trabalho, transferido de Garanhuns, de onde fora dispensado do cargo de Gerente, surgiu um a figura de fisionomia fechada, que fora urinar.

Não estava pra conversa, face às circunstância de ter retornado ao Posto Efetivo, como Escriturário, deixando pomposo gabinete de gerência na “Suíça Pernambucana”.

Surgia, diante de modesto serventuário da limpeza, um homem alto, bem afeiçoado, terno de linho branco “York Street”, sapatos de duas cores, pérola na gravata, bigode bem aparado, que mais adiante ficaria conhecido pelo apelido de “Jumento de Cigano”, tal os barangandãs que ostentava no vestuário dando-lhe certa imponência.

Era Eunício dos Santos Portela, que ficaria imortalizado por uma historieta sem par. Vendo aquele sujeito tão alinhado, um servente que estava por perto imaginou ser aquele o novo administrador e logo, olhou para ele, deu respeitoso Bom Dia e indagou:

– O senhor é o novo Gerente?

– Não. Sou um merda igual a você!

O INFERNO MELHORADO

De João de Belli, saudoso colega do Banco do Brasil, publico partes de sua obra cheia de graça, que editei nos anos 80. Peças marcadamente interessantes por sua capacidade de permanência e espírito alegre. Foi escritor no tempo de Osman Lins, Hermógenes Viana, Gastão de Holanda e Everaldo Moreira Veras.

Primeiramente sobressaio, em alguns pingos, a figura do escritor. Gabava-se de ser paraibano e costumava dizer que havia nascido “em cima de João”… João Pessoa. Piadista insuperável, todos os dias inventava uma história engraçada para distribuir com os colegas de trabalho.

Muito sério, vivia de cara sempre fechada, assemelhava-se a Buster Keaton, que no tempo do cinema mudo desopilava o fígado de seus fãs sem mover os músculos da face. Seus escritos eram de humor fino. Ao me entregar um retrato 3 x 4 para o livro, escreveu ele mesmo a legenda: “Vista parcial do autor”.

Qualificava-se como “cronista do 3º Milênio”, ao escrever “O Inferno Melhorado” e “O Corpo Humano Modificado”, de onde captei algumas passagens, notas que através dos anos não perderam o valor:

No ano 2874 a casa funerária “Sorriso de Caveira” está remarcando seu estoque oferecendo serviço completo a preço de cova rasa.

Em festa de inauguração de moderno cemitério astral do Recife apresentou-se aos convidados o conjunto “Caveiras Solitárias” executando o “Frevo dos Finados” e “Viúva Alegre”, ambos em ritmo de choro.

O Legislativo decretou inovações: as estradas, que doravante, somente poderão ser aéreas; todos os mendigos serão sindicalizados. Outras notícias: Crianças estão nascendo com o corpo modificado: um olho na frente e outros atrás; as batatas-da-perna ficam na frente e o osso da canela atrás. O sexo dos machos é embutido, moralizando assim o ambiente das praias. As mulheres não possuem seios porque as crianças já nascem com dentadura completa.

Era um sujeito tão cheio de doenças que nunca se perguntava como ele ia de saúde e sim “Como vai de doenças?” Aquele senhor andava de binóculos porque seu psiquiatra lhe recomendou que se aproximasse das pessoas. Era tão grosso que nem tinha o “intestino delgado”. Era um tipo tão chato que até seu vago-simpático era antipático. Foi cantor tão compenetrado na profissão que morreu sofrendo de hérnia de disco.

Glutão, até na hora da morte ficou em estado de “Coma”. Tudo nele era indolência, tanto assim que foi atacado de “vesícula preguiçosa”. Suicida não é um sujeito cheio de vida, mas “cheio da vida”. Chama-se União Conjugal a convivência entre dois seres desunidos. Bom filho não é aquele que retorna à casa dos pais, mas sim os pais que o recebem e arcam com as despesas.

O inferno está realmente melhorado. Para comemorar os 100 anos da Criança-diabinho o Capeta-mor inaugurou parque infantil cujos escorregos têm pontas de prego e as piscinas são de água fervente cuja limpeza será feita com ácido muriático. As mulheres frias estão sendo submetidas a tratamento fisioterápico com chumbo derretido. O mais novo decreto disciplina que somente os Diabos casados terão chifres.

É FERRO COMO O DIABO!…

Em fins de 1948 Capiba havia comprado um automóvel Studbaker o arraso da época. Por isso estava todo prosa embora sem conhecer as inovações eletromecânicas do carro. Por isso, já saíra de casa para uma noitada, escoltado por seu colega Leovile Cavalcante.

Dias antes, na loja de Ibrahim Nejaim, quando foi receber o “possante”, o recepcionista gentilmente lhe entregou o manual e desejou dar uma orientação mais detalhada sobre certos recursos revolucionários que o carro apresentava.

Conhecido como cidadão muito engraçado havia se tornado renomado piadista. De tudo inventava uma graça. Ainda mais, por ser tato – certa disfunção na pronúncia de algumas palavras, – foi logo disparando contra o lojista e causando gargalhadas dos que estavam por perto.

– Eu “ero” “arro” pra andar e não pra “onsertar”!

Estávamos no auge dos espetáculos de auditório do Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto, onde funcionava a PRA-8. Foi-lhe sugerido dar um giro noturno para mostrar às artistas que nos visitavam, as belezas de Olinda. E lá se foram Emilinha Borba e Linda Batista para aproveitar a noite.

Na Ladeira da Misericórdia, logo no começo, u’a manobra de mal jeito fez o possante estancar. Aperreado, Capiba meteu o pé várias vezes no acelerador e encharcou o carburador. Deu ré na base da gravidade e estacionou junto ao meio fio.

Nada entendendo de mecânica tomou iniciativa para a solução, querendo evitar o vexame. Com ares de cão do “II Livro” de Felisberto de Carvalho, desceu, abriu o capô, deu uma olhadela e retornou com jeito de vencido pois não vira nada de anormal no motor:

– É ferro como o diabo!…

Leovile compreendera que era caso de encharcamento por excesso de combustível. Questão de dar um tempo e a “pane” se resolveria por si só.

Levaram tudo na brincadeira e ficaram passeando por onde as pernas suportaram. As duas cantoras, ruins de ladeira, voltaram descalças e exaustas pela subida em algumas ruas menos inclinadas.

Depois de uns bebericos retornaram ao carro, que foi ligado por Leovile e funcionou plenamente. Ao lhe ser perguntado o que ele vira ao abrir o capô do Studebaker, momentos antes, ele disse:

– As “velas” estavam todas “apa-adas!…Era ferro como o diabo!…

A PRAIA DA MARÉ

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Capibaribe, parte denominada: Rio dos Afogados. Foto de Carlito Santos

Um retrato descrito da década de 1940. Para memorialistas de plantão. Um pouco mais de sete décadas traçam vias paralelas separando os períodos da minha infância e a velhice.

Cheguei com meus pais para residir no bairro dos Afogados, no Recife, quando contava cinco anos. Meu primeiro alumbramento foi o rio Capibaribe. Aquela “piscina”… pois a correnteza era dolente.

Ali vislumbrei a “minha praia”. E por causa dela levaria muitos castigos severos. Das privação de liberdade às consideráveis lapadas de “palmatória. Com endiabrados amiguinhos, nadávamos, atravessando o rio, com destino ao Sítio do Coque e vice-versa, como se estivéssemos em competição.

Foi um dos períodos importantes da vida de meu pai, pois na Vila dos Remédios solidificou o patrimônio, comprando uma daquelas casas, pagando R$ 153,20 em parcelas mensais durante 30 anos, sob juros, hoje inimagináveis, pois era pela Tabela Price.

O rio era limpo. Tudo era atração. Jogávamos futebol na Salina e depois, “tibungo” na água. Dava-se o nome de “maré”. Era a praia dos meninos da Vila. Naquelas águas aprendi a nadar. Na salina, exercitei o futebol.

Naqueles anos era muito difícil se levar uma família à praia mais próxima. Teria que se tomar o bonde de “Largo da Paz”, saltar na Cabanga e pegar precários botes, para se atravessar o Rio Tejipió para chegar às terras do Sargento Pina.

Corria-se o risco de proximidades com os hidroaviões em voo, que poderiam vir descendo para amerissar na Bacia do Pina. Mas, utilizar aquela praia, nem pensar! O cheiro de bosta era terrível face aos despejos do “Cano do Pina”, emissário submarino do esgoto do Recife.

A Ponte do Pina, não dava passagem a carros nem pessoas. Só permitia acesso aos bondes. Como papai não possuía carro, para alugar um, na Praça da Paz, era um “destempero”.

No final dos anos 40, a atual Avenida Marechal Mascarenhas de Morais era uma espécie de trilha. Fora asfaltada pelos militares norte-americanos durante a II Guerra Mundial, cujos reflexos aqui vivemos, tanto em termos de progresso, modos de quanto e em preocupações das famílias.

Para se chegar à praia de Boa Viagem os choferes eram obrigados a seguir pela Estrada da Imbiribeira até o Aeroporto Militar do Ibura e de lá seguir até a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, onde a praia era um encanto; coisa para poucos. Só o cheiro do mar era inebriante.

Portanto, diante dessas dificuldades, era justo driblar nossos pais e pinotar na “maré” mesmo, que estava ali, todos os dias à nossa disposição. O mais incrível, porém, era o desafio de saltar da “Ponte de Gaiola”. Embora, depois, a “lapada” cantasse no lombo.

Esse rio, poético para alguns, generoso para os meninos da minha infância, foi um malvado na minha maturidade, quando avançou na casa de meus pais, inutilizando a biblioteca de meu velho, levando os livros escritos à mão por meu avô, Pacífico dos Santos. Maré desgraçada!

DECORRIDOS 60 ANOS…

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O bode “Cheiroso”, vereador eleito em Jaboatão, PE

Folheio exemplares de 1956, de minha preciosa coleção do vespertino “Diário da Noite”, o irmão travesso do Jornal do Commercio. Nesse jornal conheci os famosos jornalistas da época, escutei histórias incríveis e me exercitei na reportagem. A pesquisa serve para levantar notícias interessantes para os leitores fazerem suas comparações com nossos dias.

BODE CHEIROSO – Jorge Abrantes, que foi meu professor de jornalismo no Ginásio Pernambucano, me alertava como obter de um assunto simples o que poderia se transformar em uma boa reportagem. Sacou uma história verídica, que tem certa ligação com os assuntos da ladroagem na política brasileira em nossos dias.

VEREADOR ANIMAL – No Jaboatão Velho, em 1956, havia um bode chamado “Cheiroso” que era o maior ladrão de bananas da feira local. Por isto, na primeira eleição foi eleito vereador. Resposta do povo à gatunagem que já proliferava naqueles anos, em Pernambuco.

BODE COM COCO – Aliás, o Jornal da Besta Fubana comentou com detalhes históricos, através de interessante texto de Hamilton Florentino. O bode ganhou até a gravação de um coco, de autoria de Alventino Cavalcante.

COLUNAS FESTEJADAS – As famosas da época eram: “Olha à direita, de Sócrates Times de Carvalho”. “Para o Diário da Noite Escreve:´ de Isnar de Moura. “Os dias da cidade”, de Altamiro Cunha. “Roteiro Mundano”, de Robert Randal. “Carrocel”, de Bernard. “Política é isso mesmo”, de vários redatores. “Boa Tarde”, de Jorge Abrantes, figura notável na classe, pessoa que criou um curso particular gratuito para orientar os principiantes..

NOVO AEROPORTO – Na edição de julho de 1957: O primeiro porto aéreo do Atlântico em terras brasileiras. – Será em outubro a inauguração do novo aeroporto do Recife, Novo serviço de Constellation Porto Alegre, São Paulo, Rio, Salvador e Recife. Use o Credi-Panair.

CONDE ALEXANDRE – Na primeira página apareço entrevistando o “Conde Alexandre”, figura que logo se tornou popular, muito requisitado para conferências, teve algum relevo na cidade. Apresentava-se como conferencista, mestre nas Ciências Ocultas, adivinhador e membro da Fraternidade Cigana Universalista. O cão. Mas, na verdade, porém, um pulha. Logo deu uns golpes na praça, foi em cana e quase perco meu prestígio como repórter.

PÁGINAS ESPORTIVAS – O Santa foi senhor absoluto. O América baixou o sarrafo. Nesse dia o Santa Cruz inaugura as dependências de sua nova Concentração. – O Internacional homenageia o comerciante Oscar Amorim, seu sócio mais antigo, Presidente da Associação Comercial de Pernambuco.

MERENDA ELEITORAL – Dos assuntos políticos recortei esta curiosa notícia: Merenda Eleitoral. Foi assinado um acordo com o Prefeito Pelópidas Silveira e os vereadores oposicionistas. O acordo se refere a dinheiro e a eleitor. O Prefeito dá dinheiro aos vereadores e estes providenciam o alistamento, instalando postos eleitorais em suas zonas de influência.

JOSUÉ ATUANTE – E continua a nota: A esse acordo não é estranho o Prof. Josué de Castro que aqui se encontra cuidando de alimentar o povo. Quem quiser almoçar ou jantar vá, munido de título de eleitor, esperá-lo no Grande Hotel, à hora conveniente, a fim de usufruir da Merenda Eleitoral, ao que parece, linguiça com ovos.

ANÚNCIOS DA ÉPOCA – A “Sodima”, loja exclusiva em distribuição da fábrica, anuncia uma nova concorrente da “Sínger”: as máquinas e costura “Crosley” – Sem indicar a loja, “Tropical Maracanã”, tecido especial para a elegância marcante em cada momento de sua vida. – “Casas Ferreira”, sempre as primeiras no comércio de calçados da cidade. – “Rozenblit Magazine”, a loja do bom gosto. Aberta até às 22h. – Depois do jantar vá escolher seu long-play em Lyra & Queiroz, Edf. dos Bancários na Av. Guararapes.

Parece que foi ontem! E já se foram 60 anos…

MANCHETES PARA JORNAL

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Francisco José, jornalista que iniciou carreira no “Diário da Noite”

Quando trabalhando perto de Nilo Pereira e Jorge Abrantes, na Empresa Jornal do Commércio S.A., no Recife, aprendi muitas coisas sobre jornalismo. Estávamos nos primórdios de 1950. Ouvi de ambos que o capítulo mais importante para um bom repórter era saber aplicar manchetes atraentes.

Exemplificando, chamo a atenção para a genialidade do jornalista que fez manchete recente. O fato: Laboratório de Análises do Rio de Janeiro foi descredenciado pela Coordenação Internacional da Olimpíada para fazer exames de doping.

A manchete: LABORATÓRIO TOPADO. O jornalista aí foi gênio.

Lembro-me de cena curiosa de minha trajetória, ocorrida em 1957, quando Luiz Teixeira, era Chefe de Redação do “Diário da Noite“. Dessa safra saíram grandes nomes, dentre eles a cronista Isnar de Moura.

Iniciava-se na parte esportiva nosso querido Francisco José, astro dos maiores da TV Globo, diplomado em Direito e Jornalismo. Excelente redator de grandes manchetes, bom narrador, sendo inclusive escritor, figura que muito admiro e a quem presto meu respeito.

Aos 19 anos andei por lá como jornalista-aprendiz. Numa das aulas de treinamento, contou um fato e pediu a manchete. Éramos quatro jovens, numa saleta da Redação do jornal. Tivemos 30 minutos para fazer a manchete.

Este foi um dos grandes momentos que vivi no aprendizado do jornalismo, num tempo em que não havia faculdades e muitos desse tempo tornaram-se “Provisionados”.

A história foi a seguinte:

Uma senhora fora à missa, como o fazia todos os domingos, deixando em casa o marido – que era ateu – e a empregada doméstica.

Havendo esquecido o véu, depois de algum tempo, volta a senhora para buscá-lo. Notou que a porta da frente estava aberta e tudo calmo. Calmo até demais. Foi entrando de mansinho, pisando de leve. Desejava assustar o marido porque deixara a porta da frente aberta.

Ao passar pelo quarto do casal notou cena pouco comum. O maridão estava “furunfando” com a empregada, na maior sem-vergonhice.

Enraivecida, passou direto para a cozinha, pegou uma faca-lambedeira que usava para cortar ossos, e partiu pra cima do safado, sem pena. Para causar impacto, bateu com o cabo da faca na porta, a fim de quebrar o silêncio da cena. Assustado o garanhão retirou rapidamente o membro-viril das entranhas da criatura, olhou para traz com rapidez de relâmpago e pulou da cama, ainda de pênis ereto.

Ela partiu para o ataque fulminante. Num só golpe, decepou o “instrumento do pecado” do “fudelhão.”

Essa foi a história contada aos “focas” do Diário da Noite. Não me lembro o que foi escrito pelos outros colegas Só sei que sugeri a manchete: “Surpresa Maldita”. Mas não fui o melhor.

Nunca, porém me esquecerei daquela que foi a preferida do professor Teixeira. U’a moça que depois se tornou grande escritora – Isnar de Moura, criou a manchete eleita: CORTOU O MAL PELA RAIZ.

“JORNÁ VÉIO E GARRAFA!”

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Seu Néco vendia bananas e comprava jornais velhos e garrafas

A década de 40 não está tão distante. Mas, é bom relembrar. Em algumas oportunidades gosto de escrever as palavras que me foram ditadas por Fernando Lobo, quando o entrevistei para a biografia de Capiba. Disse-me ele:

Recordar não é querer que o tempo volte, é mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações.

Naquele tempo do Recife vivíamos sob modos bem diferentes de hoje. Contávamos apenas com uma emissora. A Rádio Clube de Pernambuco, começou a funcionar de fato, como um clube de “radiófilos”, cujo estatuto data de 1919.

A confraria congregava aficionados sobre técnicas de radiofonia, sendo um associados o nosso tão saudoso Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba. Somente anos depois se tornou “Rádio Broadcasting”. Ou seja, uma espécie de Centro Cultural.

A PRA-8 tinha um noticiário que se assemelhava ao “Jornal Nacional” atual. Era o “Reporter Esso”. Para seu estúdio e auditório convergiam apreciadores do entretenimento, da educação e da cultura. O “Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto”, sede da Rádio, na Av. Cruz Cabugá, era o point.

No setor de esportes já predominavam o futebol e as aulas de Educação Física. A religião católica imperava. Às 18 horas mamãe se concentrava para ouvir a “A Ave Maria” escrita por Mário Libânio, na palavra de Abílio de Castro.

Durante a Corrida Luiz Clericuzzi, o destaque era a da primeira “unidade móvel de rádio”. Uma caminhonete “Studebaker” – onde o radialista Tavares Maciel, na carroceria, fazia a locução. Era emocionante.

Todas as manhãs, às 6h,, sob acompanhamento do pianista Antonio Paurílio, havia a “Aula de Educação Física”. Tudo ao vivo. Papai era ouvinte e aluno desse curso. Fazia os exercícios de ginástica criados pela Marinha canadense. Por isso ele tinha boa saúde.

Na porta das casas, eram oferecidos os serviços de amoladores de tesoura, verdureiro, leiteiro, consertadores de panelas de alumínio e outros profissionais.
Os programas cômicos eram inocentes e sem palavrões. Ria-se ao ouvir as vozes dos artistas durante as apresentações do programa: “Dona Pinóia e seus Brotinhos”, one se apresentavam Chico Anísio, Bombinha, Aldemar Paiva e outros.

Mas, de tudo ficou-me forte lembrança. Um certo cidadão com uma carroça cheia de bagulhos, que saia anunciando, aos gritos, pelas ruas da Vila dos Remédios.
Seu Néco, com sua carroça cheia de bagulhos, desempenhando a função atual de “Catador”, era um “Comprador” de cacos de vidro, garrafas e jornais velhos, serviço que era anunciado no grito:

– Jorná véio e garrafa!!!… Jorná véio e garrafa!!!…

PEDRO MOURA – O HOMEM DAS BATERIAS

Ao observar atos enérgicos recentes do Ministro da Educação, José Mendonça Bezerra Filho – o querido Mendoncinha – ao repelir afoiteza sem precedentes de um cafajeste que pretendeu tumultuar uma de suas conferências, lembrei-me de algumas histórias de seu avô.

Pedro Moura Jr., personagem que biografei, foi Representante Comercial, industrial e político, elegendo-se Prefeito de Belo Jardim em 1929, e pessoa que deu nome às famosas Baterias Moura.

Vale compartilhar atos ligados à sua vida pessoal, pois alguns pitorescos. Pra começar, casou-se no papel com a cunhada, mas a lua de mel foi com a noiva, D. Mocinha.

Voltemos ao tempo dos seus 19 anos. Pedro José de Souza Moura Jr. se tornara Agente-correspondente da multinacional Singer Sewing Machine Company, que fabricava máquinas de costura quando ainda eram manuais. Para desenvolver bem seu ofício junto às donzelas de cidades do interior de Pernambuco a bordar e costurar.pm

Em Belo Jardim fixara residência. O tempo era de fartura. A riqueza proporcionada pelo café fazia circular tantas cédulas de 500 mil réis que a praça favorecia qualquer tipo de comercio.

Jovem, literato e bom declamador se fez notado por participar nas tertúlias nas casas das famílias mais aristocráticas da cidade. Se enamorara da jovem Josefa Augusta, conhecida como Mocinha.

Na Região corria uma crença que toda criança que nascesse com o cordão umbilical laçando o pescoço deveria chamar-se Josefa. Havia na família três irmãs com o mesmo nome. Ocorre que na Certidão de Casamento, constou que Pedro Moura Jr. se casara com Josefa Batista de Lima (Dudu) e não com Josefa Augusta de Lima (Mocinha).

Durante muitos anos o documento cartorial deles ficou sem ser percebido tal erro, somente corrigidos quando já tinham família e ocorreu acréscimo do patrimônio.

Homem de trabalho e ideias, autodidata, apreciador de Física e Matemática, já casado e sólido, foi convidado pelo cunhado Jorge Aleixo da Silva, para ser sócio da Fábrica Mariola, onde modernizou formas de produção do “Doces Cecy”, embalagem evouida da s populares Mariolas, embrulhadas em papel e pequenas caixas de madeira.

Abriu pequena indústria metalúrgica e adquiriu máquinas, melhorando o rendimento da produção, a segurança dos funcionários e a expansão de vendas para vários estados e o Rio de Janeiro, através de uma rede de Agentes-correspondentes.

Em 1929 a política toma conta de sua vida. Torna-se um dos expoentes de Aliança Liberal, em Belo Jardim. Elege-se Prefeito. Em 1930 teve seu mandato extinto, com vários outros membros da Aliança Liberal, pelo Interventor Agamenon Magahães, durante a Ditadura de Vargas. Para se recuperar foi vendedor de rapadura, fotógrafo e carreteiro.

Anos depois, sólido, ocupava-se nas horas vagas recuperando baterias dos amigos caminhoneiros, dentre os quais Horácio Campelo seu velho companheiro de estrada. E tanto deu certo que, seu filho Edson Mororó Moura, diplomado em Química, deixa o Banco do Nordeste do Brasil para fundar uma empresa que teria o sobrenome do pai e em sua homenagem: Acumuladores Moura S.A.

Fora da política inscreveu-se como Benemérito de Belo Jardim quando organizou uma Comissão formada por membros de várias cidades e patrocinou o projeto da Barragem da Gameleira. Depois contribuiu com valores retirados de seu patrimônio para a construção da Barragem do Bitury, a primeira documentada pelo ofício nº 197/53, de 12.12.1953, assinado pelo Prefeito Arnaldo Maciel. E note-se, sem nenhuma pretensão política em ambos os casos.

Já na década de 1980, seu genro, o então Deputado Federal José Mendonça Bezerra havia conseguido a instalação de uma agência do Banco do Brasil naquela cidade, mas havia grande dificuldade de localização. Para resolver a questão Pedro Moura fez a cessão de um dos seus terrenos para que a Prefeitura o doasse ao Banco, beneficiando seus concidadãos.

Quem teve um avô dessa qualidade não poderia ser outra coisa senão um Ministro como Mendoncinha, que se tem mostrado excelente administrador da Educação.

CABEÇA PARA SANITÁRIO

Era um dia de sábado na então bucólica Goiana. Ilustre advogado, professor, político e famoso historiador, estava finalizando comigo a edição de um dos seus livros: “Um Pouco de mim e muito dos Outros”, quando chega em seu escritório uma Comissão de ilustres, todos sorridentes diante da missão a executar.

Traziam a notícia de que desejavam erigir seu busto, em vida, na praça em frente à sua casa, como homenagem aos seus feitos em favor do município. Já estava em curso até o “Livro de Ouro” com parte da grana rapidamente depositada.

Delicadamente, após ouvir as razões, o mestre ponderou, declinando da homenagem, com argumento filosófico irrefutável:

– Amigos, já me sinto homenageado só pela iniciativa tão carinhosa desta visita. Mas, devo dizer, primeiramente, que sempre fui contra esse tipo de memorizar vultos ilustres através de estátuas ou semelhantes.

Ainda mais sob o inusitado modelo de homenagem em vida. Já me sinto realizado com alguns canudos, visitas, abraços, beijos e outras tantas manifestações de respeito e reconhecimento. Afinal, cumpri apenas as tarefas que me foram impostas pelo Destino.

Mas, no caso – e sobretudo porque – o que tenho visto são estátuas e bustos, que abandonadas pela Limpeza Pública das cidades, cujos ombros e cabeças só servem mesmo para “sanitário” de pombos e outros voadores.

Por isso, declino. Não desejo que minha cabeça venha a servir de sanitário, sobremodo enquanto eu estiver vivo e aos 90 anos ainda trabalhando para registrar a História desta terra.

O pano da cena se fechou com risadaria de quem se encontrava na sala. Um das tiradas monumentais do grande amigo, Dr. Alcides Rodrigues de Sena.

CIRCUITO DE BOA VIAGEM

Leitores amigos, perguntem aos seus avós, notadamente aos oitentões, o que representavam as corridas denominadas “Circuito de Boa Viagem” para o desporto pernambucano daqueles anos.

Quem viveu a juventude no início dos anos 50, no Recife, deve ter presenciado algumas edições dessas corridas de carros envenenados, promovidas pelo Automóvel Clube de Pernambuco.

Os jornais registraram que a partir de 1935 o Brasil começou a realizar as chamadas Corridas de Rua e o Recife foi uma das cidades mais ativa nesse tipo de realização. Contando com a ajuda do Diário de Pernambuco realizava verdadeiras festas desse esporte. Os concorrentes partiam da Praça da Independência e saiam em carreata até o local da partida, em Piedade.a-citroen

Durante vários anos nosso bairro mais elegante passou a ser o ponto de convergência de participantes de vários estados, com carros “envenenados” para as competições, onde víamos os Chevrolet, Ford V-8, Hudson Hornet, Oldsmobile, Pintiac. e inclusive um carro que veio diretamente de São Paulo, de propriedade do famoso Chico Landi, (Francisco Sacco Landi).

Ele se apresentava, todos os anos como campeão absoluto do “Circuito da Gávea”, corrida que acontecia no Rio de Janeiro. Em 1952 sua “máquina” chegou ao Recife por via marítima. Era um carro realmente de corrida, u’a Masseratti completamente enlouquecida, que ficou conhecida como “o charuto voador”. Era um arraso.

A pista da corrida era delimitada por um quadrilátero formado pelas artérias: Av. Barão de Souza Leão, Estrada da Imbiribeira, Avenida Armindo Moura e Avenida Boa Viagem.

Cantavam ali os pneus de carros sem os paralamas, todos pintados com mensagens de seus patrocinadores, tendo ao volante os famosos pilotos pernambucanos: Itagibe Chaves, Mário Abrunhosa, Gegê Bandeira, Baby Costa, entre outros.

As esquinas eram os pontos preferidos da meninada pois se via de perto os carros derrapando para fazer as curvas. Nesses tempos estavam sendo lançados pela SAEL os notáveis carros franceses Citroén 1947, imbatíveis nas curvas, considerados ímpares por sua estabilidade e força.

Por uma série de fatores as corridas de Boa Viagem foram transferidas e passaram a ser “Circuito do Derby”, já sem o entusiasmo de serem na praia e, sobretudo, porque os veículos não tinham espaço para acelerar ao máximo.

Posteriormente tentaram manter o entusiasmo instituindo-se o “I Quilômetro de Arranque”, realizado na Av. Mascarenhas de Morais, promoção que também não vingou. O público exigia velocidade e a emoção das curvas. Muitos anos depois foram realizadas algumas corridas na Cidade Universitária, com êxito de público e considerável público.

Quantas saudades nos chegam daquelas manhãs de sol maravilhosas, com tantas moças bonitas desfilando pelas calçadas. E, o melhor, depois de assistir às corridas caíamos no banho-salgado. Bons tempos!

OS CULHÕES DO DR. PEDRO CORREIA

O espírito esculhambativo que se entranhou na alma de Luiz Berto me parece ter origem desde o tempo em que se afinou com Orlando Tejo, em Brasília e andaram promovendo “misérias lítero-etílicas por aquele meio de unodo.

Em tudo Berto vê um objeto para provocar risos e dar boas alfinetadas nos guabirus de nossa política. No mais inocente fato, diante de sua mente perversa, e rigores vernaculares, descobre uma senvergonhice e são tantas que seria difícil enumerar.

Leio e vejo, hoje, uma foto de Lula, Zé Dirceu e Pedro Correia, em mesa dourada, apresentando-se durante entrevista, nos anos dourados em que os dois últimos estavam em plena liberdade.

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Chamou-me a atenção seu comentário sobre o tamanho dos culhões do Dr. Pedro Correia, publicado no Jornal da Besta Fubana, fato que me faz retornar a dias de 1958, quando eu era repórter do Diário de Pernambuco e trabalhava fazendo coberturas e buscando furos, com os competentes fotógrafos Diógenes Montenegro e Francisco Silva.

Fomos cobrir a solenidade de fundação do CODENO – Conselho de Desenvolvimento do Nordeste, que aconteceria no Teatro de Santa Isabel.

As autoridades entraram pelos fundos. De repente o palco se encheu de gente ilustre, inclusive Dr. Celso Furtado, que traçara a política para o progresso regional. Empertigado como sempre, acompanhava o Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Juscelino Kubistchek, como se estivesse chagando um batalhão, com pisadas estrondosas no palco de madeira.

Após os primeiros discursos vieram aquelas “charopadas” dos governadores. Vistos de baixo, no primeiro plano, estavam as ilustres pernas das excelências.

Diógenes, ágil nos clics, danou o dedo e cochichou comigo: “O Presidente está sem os sapatos!”. E clicou nos pés em repouso, embora saídos de um belo par de sapatos em “cromo alemão”.

Chegando à Redação, Diógenes e Chico subiram para o laboratório a fim de revelar as fotos e serem selecionadas pelo Redator-Chefe, que era Camelo.

Enquanto fui fazer o texto numa velha “Remington”, da Redação. Antônio Camelo da Costa, professor de nós todos, com seus olhos de águia, e mente apimentada como a de Luiz Berto, logo que viu Juscelino estava sem os sapatos e preparou um press-realise, em separado, escrito por ele mesmo, mais por safadeza do que espirito jornalístico. E plantou na página de Política.

A foto correu meio mundo e Diógenes Montenegro “pegou gás”. Anos depois ficou constatado que nosso saudoso presidente tinha o hábito de descansar os pés, tirando-os dos sapatos, notadamente durante reuniões formais. Uma inocente notícia, que agora me lembrei e que nada tem a ver com os culhões do político focado pelo nosso editor. Pois uma era questão de hábito e a outra é meramente escrotífera.

O BANCO DO BRASIL NO RECIFE

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Foto de Fritz Simons tomada da Praça da República, vendo-se ao fundo o Edifício Capiba, onde funciona a principal agência do Banco do Brasil no Recife

BAR VIRA BANCO – Poderia parecer piada, mas o Banco do Brasil materializou os primeiros atos legais para iniciar sua atividade em Pernambuco, no ano de 1913, no Bar Shipchandler, que até os anos 70 funcionou na Avenida Alfredo Lisboa, na frente de uma Bomba de Gasolina, porque nesse tempo não havia Postos de Combustível.

EDIFÍCIO APELIDADO – Decorridos 100 anos de sua instalação no Recife o Banco comemoraria o centenário, identificando oficialmente seu majestoso edifício-sede da Agência Centro com o apelido de uma pessoa, o que seria incrível se não fosse seu mais ilustre funcionário: Capiba.

ALTAS BEBERICAGENS – No bar, em meio às “lapadas” de whisky e “canipilina de cabeça”, entornadas pelos educados ingleses e distintos brasileiros, o Gerente-instalador, Joaquim Correia de Oliveira Andrade teve que se acomodar improvisando um escritório. Usando chapéu e vestindo terno de linho branco completo instalou o Banco e trabalhou na incômoda confraria sem perder a classe e impondo respeito.

CANETAS DE VIDRO – O primeiro equipamento a ser desembarcado foi um pesado cofre. Numa das enormes mesas redondas, por não haver máquinas datilográficas, contabilizava à mão, escrevendo com canetas espiraladas, de vidro, em papel-pautado, todos os atos dos primeiros registros legais. As somas eram feitas de memória porque não havia calculadoras.

MEMORÁVEL BUROCRACIA – Escreveu e enviou cartas que seguiram para a sede, no Rio de Janeiro, por via marítima. Nesses anos não havia facilidade de transporte aéreo. Ali também registrou funcionários e contratou o aluguel do prédio. nº 123, da Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, que serviria como sede local.

A REPÚBLICA – Para breve nota sociológica poderemos acrescentar que o jornal “A República”, cujo preço da edição custava 100 réis, noticiou: Com a presença do Barão da Casa Forte, Antônio João d’Amorim, Presidente da Associação Comercial de Pernambuco além de outras ilustres pessoas, inaugurou-se ontem a agência do Banco do Brasil nesta cidade.

CÉDULAS DUVIDOSAS – Outro fato singular que merece registro é que na página policial do mesmo jornal, já naqueles tempos, se registrava um derrame de cédulas falsas no município pernambucano de Canhotinho. Isto há mais de 100 anos. Pode?

DOUTOR CAPIBA – Outro fato da mais alta significação histórica foi ter seu edifício-sede atual, na Avenida Rio Branco, 240, a identificação por apelido de uma das pessoas mais conhecidas do Recife – Capiba – na verdade, Dr. Lourenço da Fonseca Barbosa, Bacharel em Direito, Mestre de Banda e grande piadista de nossa província. Um imortal.

CHAVEIRO “BOCA DE SINO”

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O moderno prédio do Citibank no “Recife Antigo

Em 1952 eu tinha 15 anos e estava iniciando minha carreira bancária, onde permaneci até a aposentadoria. Era “Office-boy” do The First National City Bank of New York, simplesmente conhecido como City Bank, o Banco americano, o qual funcionava num pardieiro na Av. Marques de Olinda, 114, no Bairro do Recife, atualmente “Recife Antigo”.

A região era conhecida como a “Wall Street” pernambucana, pois se concentravam ali várias instituições bancárias, casas de câmbio e firmas comerciais estrangeiras, dentre as quais o Royal Bank of Canadá, o Banco Nacional Ultramarino, o Banco Francês e Italiano para a América do Sul, o London Bank and South America Ltd. e o City Bank.

Entre os brasileiros: a Casa Bancária Magalhães Franco, o Banco Mineiro do Oeste, o Banco da Lavoura de Minas Gerais, o Banco Mercantil de São Paulo, o Banco Industrial de Pernambuco, o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, a Caixa Econômica Federal de Pernambuco, o Banco Irmãos Guimarães, o Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, o Banco Comércio e Indústria de Pernambuco, o Banco Nacional do Norte e a Caixa de Crédito Mobiliário de Pernambuco.

“Seu” Leão – Affonso Arthur de Souza Leão – um dos mais idosos, era o Contador. Homem de uns 60 anos, muito ativo, dominava bem a língua dos gringos, bom datilógrafo, criatura de letra impecável, tinha conhecimento, nos mínimos detalhes, de todos os setores.

Detinha o cargo que representava de fato o “gerente brasileiro”, já que Mr. Carl Leonard Hagen, sendo americano, era o “Manda chuva de enfeite”, tal qual seu apelido circulante à boca-pequena..

Certa manhã de sábado cheguei para trabalhar bem cedo, como costumava faze-lo, a fim de treinar datilografia aproveitando as máquinas do Banco. Notei “Seu” Leão muito inquieto. Havia perdido seu chaveiro.

Era um acessório semelhante a uma boca e sino, um tipo muito apreciado naqueles tempos em que se acondicionava as chaves penduradas no cinturão, presas por um grampo ficando assim ocultas por uma luva de couro que se assemelhava a uma boca de sino.

Precisava das chaves para abrir a “Casa Forte”. O episódio da perda para ele era dramático. Somente três pessoas que tinham as chaves e os “segredos” que permitiam a filial funcionar. Sem cofre aberto nada poderia ser feito, pois ali eram guardadas as cédulas e moedas, além dos principais livros contábeis.

Achando que poderia ter deixado o chaveiro em casa, no bairro das Graças, pediu-me para ir até lá. Naqueles anos poucos tinham automóvel e telefone. E mesmo sendo um Executivo de grande prestígio no Banco “Seu” Leão não possuía nenhum desses dois bens tão úteis e abundantes no atual momento brasileiro, sobretudo porque sustentava uma família numerosa.

Peguei um auto-lotação e logo estava na porta de sua casa, na Rua Sérgio Magalhães, 49, nos Aflitos, onde bati palmas e logo surgiu uma menininha de uns seis anos, que de pronto gritou lá de dentro:

– É esmola é? Tem não!…

Insisti até ser atendido pela esposa do meu chefe, que aflita vasculhou a casa toda e não encontrou nem as cópias das chaves. Nesse intervalo “Seu” Meira – José Vicente Meira de Vasconcelos – o Subgerente, já providenciara a cópia da chave que faltava, indo em seu carrinho “Prefect” à casa de Mr. Hagen, que era o guardador de todas as chaves e senhas do Banco

Meninão disposto, cheio de gás, reconhecendo o drama de seu chefe, tive a ideia e desviei-me da rota de retorno. Passei no escritório em que meu pai trabalhava, pedi-lhe certo valor e me mandei para o Mercado de São José. Lá comprei um chaveiro boca de sino. Cheguei ao Banco esbaforido, mas sentindo-me um herói.

Meu intento era diminuir a aflição do chefe, mas, tão criança ainda, em pleno vigor dos meus 15 anos, nem pude perceber que ele preferia ter recebido as chaves ao chaveiro.

– Taqui “Seu” Leão, seu novo chaveiro boca de sino!

De pronto vi seu sorriso e ao abrir o pacotinho para presente sua fisionomia entristeceu. Abraçou-me sensibilizado e disse:

– Valeu, meu filho! Agora resta esperar que a sorte me ajude e alguém encontre minhas chaves.

MANÉ PREGUIÇA – UM PASTOR ALEMÃO

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Edfício Capiba, Av. Rio Branco, 240 – Foto de Fritz Simons

A título de breve análise sociológica, poderíamos dizer que o Banco do Brasil registrou outra História além da contabilização de suas ações financeiras, durante estes mais de 100 anos de funcionamento em Pernambuco: aqueles atos de bastidores que o publico não percebe. Ao lado de sua punjança material sempre conviveu um patrimônio humano realmente excepcional e sobretudo bem humorado.

É atributo do seu funcionalismo, ser alegre e comunicativo. A camaradagem e integração é um fenômeno que assinalei no livro: O Banco do Brasil na História de Pernambuco, cuja foto de capa ora publico.

Os apelidos predominavam nos tempos em que participei daquela equipe, como bancário, por mais de 30 anos, onde cada funcionário tinha uma alcunha que melhor identificava seu biótipo, no meu caso fui alcunhado por Zé Peninha.

Entre os tantos ali citados pubiquei alguns muito conhecidos: Carnera: Felinto Nunes de Castro Alencar; (um dos grandes compositores de frevo de Pernambuco); Capiba: Lourenço da Fonseca Barbosa (compositor cujo nome representa a identificação do mais alto prédio do bairro); Chico Brahma: Francisco Brás Martins; Boca de Boceta: Mário de Morais Afonso; Pedro Limão: Pedro Lima; Solaranjas: Solimões Franco; Caga Raiva: José Luiz Ribeiro; Cu de Pato: José de Melo Aragão; Chuvisco: Dr. Ramos Leal; Defunto Lavado: Mauro Rosa Borges; Doutor Goteira: Henrique Vieira.

Todavia, daqueles tão saudosos companheiros de trabalho nenhum mais conhecido por suas histórietas superou Mané Preguiça.

Manuel dos Santos Malheiros, cidadão sério, dava expediente em horário sacrificante: das 10 da noite às 6 da manhã. Isto lhe custava sacrifícios. Para atender à diminuição da fadiga, ao concluir suas tarefas, ele tirava boas sonecas, em cima do balcão, onde colocava um colchonete e travesseiro. Certo dia foi fotografado por Ernesto Viriato de Medeiros.

Com a foto no “Quadro de Avisos” o apelido pegou. Tal identificação muito o incomodava, mormente quando começou a se projetar na sociedade, inclusive no meio evangélico.

Anos passados, progrediu na vida particular graças as seus esforços nos estudos, não chegando a diplomar-se como doutor, mas conseguiu galgar a posição de Pastor Presbiteriano, o que lhe dava certo status. Sentindo-se por isso “importante e autoridade”, desejou aniquilar aquela alcunha que o perseguira há tantos anos.

Foi ao Gerente e fez o pedido para que se desse um paradeiro. Fez quase uma apelação. Sabendo quem participava de uma famigerada Comissão dos Apelidos, o gestor José Augusto de Melo, consciente da propriedade do pleito, informalmente pediu aos colegas Simplício Menezes e Izaldo Vasconcelos, que evitassem o apelido tão desmoralizante para a sua condição atual.

Seria atendido, mas Manuel dera verdadeiro “tiro no pé”. Na semana seguinte, no “Quadro de Avisos Internos” apareceu:

“Comunicamos aos colegas que devido a uma solicitação do Gerente o apelido de Mané Preguiça passa a ser Pastor Alemão.”

Foi um desastre. Logo a agência ficara cheia de motivação para o novo apelido. A reclamação ao Gerente funcionou como a historinha do soneto: a emenda foi muito pior. Um tiro no pé.

BARQUINHOS DE PAPEL

Quando meus pais se mudaram para o bairro de Afogados, no Recife, nos idos de 1940, fomos residir nas proximidades do Rio Capibaribe. Falava-se em pavimentar as ruas da Vila dos Jornalistas.

A própria Estrada dos Remédios ainda era de barro e não estava ligada à Madalena, senão por precária ponte de madeira que dava acesso apenas a pedestres, local que sendo ermo se prestava para mictório público, tornando-a conhecida como: “Ponte do Mijo”.paper ship in children hand

Viria a Vila a ter calçamento à paralelepípedo em 1952, por iniciativa do Vereador Antonio Batista de Souza, conhecido como “Toinho Metralhadora”, um dos fundadores – juntamente com meu pai – do Atlético Clube de Amadores.

Eu contava pouco mais de seis anos e lembro-me que com meus amiguinhos, quando chovia, tínhamos motivo para uma brincadeira a mais. Ao aparecimento de vários pequeninos rios podíamos fazer corridas de barquinhos de papel, aproveitando a água que descia para a maré.

Hoje, decorridos mais de 70 anos fico imaginando em que pensávamos – naquela época – quando impulsionávamos à sopro, nossos minúsculos barquinhos a fim de aproveitar a correnteza e o vento.

Certa feita, já pai-de-família, fui ao Mercado de São José para comprar uma jangadinha. Com meu primogênito dias depois fomos colocá-la no mar de Boa Viagem, onde lhe ensinei como um barco podia navegar com ventos contrários.

Naqueles instantes, com ele, vi-me criança de novo. Não era mais um barquinho de papel que eu colocava na água, e sim uma embarcação de madeira e vela de pano, miniatura de uma jangada de verdade. Muitos anos depois, com ele também adulto, cortávamos o Rio da Prata num navio de verdade, viajando do Uruguai para a Argentina.

Naquele instante meditei no convés, vendo o grande barco de ferro singrando águas de um rio-oceano e assim realizei uma viagem talvez imaginada quando criança.

Agora não preciso mais de comparações e sim me lembrar que estou singrando há 80 anos a grande viagem da vida, onde os portos nem sempre são seguros e poucos deixam saudades. Mas nunca esquecerei da Ponte do Mijo, da maré de Afogados e dos barquinhos de papel.

DR. KAGALHOSTOF DE BOSTOLEFLAX

Meu velho – Arthur Guaraciaba Lins dos Santos – sempre foi cheio de presepadas. Gostava de botar apelido nas pessoas. Tinha vigor de expressão tanto na palavra quanto na escrita. Herdou, certamente, ao meu avô – Pacífico dos Santos – que vivia “aprontando”, saindo um pouco da seriedade do ofício de Juiz de Direito, só para ouvir boas gargalhadas.

Mamãe era injicada com uma empregada que tínhamos, Nina, pois a moça só tomava banho de dois em dois dias. Até mais… E gostara de defender-se dizendo que naquela casa somente Seu Arthur a compreendia. E na defesa da “empregada” papai partir pra cima das críticas de mamãe, como defensor da “porca”, na maior gaiatice:

– Alice, você já viu em algum Atestado de Óbito, na parte da causa-mortis, constar: sujeira?

– Não.

– Então, sujeira não mata ninguém!…

Na questão dos apelidos era um mestre. Ninguém escapava. O homem da venda, por exemplo, tinha um lábio leporino e, por isso, era fanho. Botou-lhe o apelido de “Vicente Fon-fon”. Como havia na Vila dos Remédios dois vizinhos com o mesmo nome, logo os identificou o que gostava de falar muito, como “Abelardo Falabarato” e o outro, sendo Investigador de Polícia, ganhou a alcunha de “Abelardo Metralhadora”.

Vivi menino nos anos 40 e usava uns sapatos russos chamados “Bostok”; e circulava nas lojas do Recife os relógios “Roskof”. Numa conversa sobre o meu futuro lhe respondi que algum dia eu seria uma pessoa ilustre, como meu avô, e que ele se orgulharia de mim. De imediato ganhei o título de “Dr. Kagalhostof de Bostoleflax.

O apelido pegou de tal forma que a alguns curiosos tive de explicar o motivo e quem criou aquela denominação. Como a onda de produtos russos era moda em nossa cidade, papai resolveu juntar “cagalhão de bosta” e criar um nome tipicamente russo: “Kagalhostof de Bostoleflax”. Ainda hoje sou identificado por amigos que se foram para terras distantes, sob o infame e curioso apelido, que bem sei, é inédito..

HISTÓRIA DO DR. BÓRIS TRINDADE

Sei que o advogado Bóris Trindade, meu querido amigo, não se incomodará de saber que no JBF estou publicando uma de suas historietas que li no saudoso Diário da Noite.

Donzela matutona, de trinta e poucos anos, nunca vira um homem nu nem provara o sabor de um pênis em função, casara-se com um português endinheirado, fato que marcou a cidade de Tabira com uma grande festa e após o cerimonial levou a noiva para viver as delícias da Lua de Mel num quarto no 1º andar da Pensão de D. Chica.

Um encanto de ambiente. Parecia mais as mil e uma noites, Ele então sugere que ela troque de roupa, tome um banho e se perfume para viver as delícias do amor. Enquanto isso, como bom português, deixou seu banho para depois. Despiu-se e ficou à espera da esposa, pronto para instrumentalizar o amor.

Ao sair do banheiro e ver o maridão deitado nu, com as partes escrotais expostas, salientando-se a manjirioba de cabeça avermelhada, já em adiantado estado de excitação, dá um grito e pula a janela apavorada, evadindo-se da cena nupcial.

Dias depois ocorre o processo de cancelamento do casório e diante do Juiz ela se faz ouvir:

– Minha senhora, depois de tão bela cerimônia e ao lhe oferecer um ambiente tão significativo para a primeira intimidade, como é que a senhora se vai feito uma louca de janela abaixo, sem dar ao marido ao menos um adeus? Pode nos explicar por que deseja cancelar o casamento?

– Olhe seu Juiz, quando saí do banheiro e vi aquele homem cabeludo, deitado e de pernas abertas, com a manjirioba dura já espirrando mel, me assustei. Ainda mais quando ele disse:

– Venha, minha filha, venha todinha!…

– O senhor iria, seu Juiz?

– Não moça, Deus me livre. Cancelarei seu casamento sem mais delongas.

História de Bóris Trindade, no Diário da Noite, em 12/Mai/1958

ALMIRO BARRETO – UM GEOMETRISTA

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“Um pintor do Recife domina, com arte, as formas geométricas tanto na pintura quanto no desenho”. Assim o jornalista Carlos Eduardo Carvalho dos Santos, define o trabalho artístico de Almiro Antônio Barreto da Silva.

Nascido na cidade paraibana de Campina Grande, o participante – que usa o nome artístico Halmiro – vive hoje na capital pernambucana. No Banco do Brasil (BB) trabalhou no Recife, no Rio de Janeiro (RJ), em Teresópolis (RJ), em Salvador (BA) e novamente no Recife, antes da aposentadoria, em 1991, depois de 28 anos na ativa.

A carreira artística começou bem cedo: aos 12 anos de idade Almiro já pintava. De lá para cá, participou de diversos cursos de pintura. Passou pela Escola Técnica do Recife e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) no Rio de Janeiro, entre outras instituições, para apurar a técnica de pintura.

“Estou dedicado à pintura. Minha técnica é tinta plástica sobre tela no estilo op-art”, explica o participante. Esse estilo de pintura trabalha com as ilusões de óptica (daí vem o nome). “Levo seriamente a arte e pinto profissionalmente. Crio obras nos estilos abstrato geométrico e abstrato informal”, complementa.

O trabalho já foi reconhecido em exposições individuais e coletivas em várias partes do Brasil – a AABB do Recife, por exemplo, já recebeu duas mostras do trabalho do participante. Ele também já foi premiado em duas edições do Salão Nacional de Pintura da Federação Nacional de Associações Atléticas Banco do Brasil (Fenabb).

“A pintura sempre foi importante em minha vida. Já pintei infinitos quadros, não dá para saber quantos, são mais de 60 anos de trabalho. Só nos últimos quatro meses, pintei 35 obras”, complementou.

Seu trabalho tem inspirações em outros artistas?

Todo artista plástico se inspira em algo ou alguém. Sou seguidor do fundador da escola op-arte, o húngaro Vitor Vassarely e também do colombiano Omar Rayo.

Quem quiser conhecer melhor o trabalho de Almiro Barreto e adquirir suas obras pode entrar em contato por e-mail: abiro69@live.com.

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As fotos que ilustram a matéria são de autoria de Beto Silva

VITRINAS DE CAIXÕES DE DEFUNTO

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Ariano Suassuna e Capiba viveram os melhores tempos de suas vidas juntos. Eram estudantes de Direito, ambos muito engraçados e cheios de presepadas. Moravam na Pensão de D. Berta Nutles, na Rua Gervásio Pires, 224, na Boa Vista. Ali residiam outros rapazes que se tornaram famosos: o cientista Noel Nutles, os Suassuna: Ariano, Saulo e João, os dois últimos, médicos famosos.

Capiba já trabalhava no Banco do Brasil, cuja agência situava-se no Cais do Porto, para onde ele se deslocava a pé, a fim de economizar o dinheiro do bonde.

Nos anos de 1940 apreciar vitrinas na Rua Nova e Imperatriz era o atrativo das famílias, notadamente aos domingos. Tudo era preparado com o maior esmero. O profissional especialista era conhecido como “vitrinista”.

Nessa época não havia televisão e a propaganda ao vivo eram as exposições dos produtos na frente das lojas Clark, A Girafa, Sloper, O Regulador da Marinha, Sapataria Inglesa, Zé Araújo, Lojas Brasileiras, Viana Leal, Camisaria Aliança e outras, tornando-se estas ruas o ambiente para alguns discretos namoriscos.

Capiba, em dias úteis, só saia da Pensão em cima da hora. Mas dizia que confiava em seus cambitos porque jogava futebol. Certa feita, Ariano entendeu de ir com ele para aproveitar boa prosa pelo caminho. Às 12:30h a Folha de Ponto do BB era encerrada e chegar atrasado nem pensar…

Saíram os dois à todo gás, porque estavam em cima da hora. Ao seguir em linha reta, passando pela Rua da Conceição, iam às gargalhadas, zoando com os que iam passando, e soltando incríveis risadas pelas piadas que um contava ao outro.

Ali havia duas casas funerárias, que não tinham vitrinas, propriamente, mas colocavam seus caixões de defunto bem à porta, a fim de atrair a atenção, como ainda hoje ocorre em lojas do gênero.

Ariano gostava de afirmar: Quem não é visto não é lembrado! E evitava passar na frente da Casa Funerária Agra, preferindo transitar pela outra calçada. Nesse dia esqueceu sua própria “máxima” pois não notou por onde estava passando.

Antes de chegarem em frente à uma das funerárias, ambos notaram que vinha, lá na frente frente, um compositor que era muito amigo de ambos, mas costumava conversar muito. O encontro resultaria em terrível atraso. Tentaram escapar.

Pensando rápido, Capiba puxou Ariano pelo braço, a fim de se esconderem, a fim de desviarem-se do “conversador”. E entraram na funerária. Ocorre que Armindo Góes notou, e apressando o passo entrou também, para saber qual dos dois estava contratando serviços fúnebres. Trava-se um diálogo:

Capiba, o que é que vocês dois estão fazendo aqui?

– Estamos vendo as vitrinas!…

Nesse momento houve a perda de tempo para explicar a “estratégia de emergência”. Ambos perderam seus horários. O feitiço virou contra os feiticeiros. Afinal, ver vitrinas de “caixões de defunto” é muita força de expressão. Só mesmo uma presepada daqueles dois safados, que se encontram lá no Céu fazendo mil presepadas.

PASSOS COM ABELARDO DA HORA

Aos 27 setembro de 2013 eu estava sentado num salão de festas quando um senhor de 90 anos, que estava comigo e outro personagem ilustre, pegou-me pela mão e me chamou para cair no frevo.ah

Surpreso, atendi e ficamos alguns minutos frevando feito dois rapazolas. Ele, demonstrando pernambucanidade à toda prova, praticava vários rebolados. Surgiram palmas. Naturalmente, para ele, que se sobressaiu mais nos passos.

A frevança foi, de certo modo, longa porque éramos dois idosos, mesmo cheios de gás. Mas, ao cabo de uns dez minutos, houve o “recolhimento estratégico” à mesa. Quando os corações serenaram, lhe perguntei:

– Dr. Abelardo, qual é o “preventivo” que o amigo toma para ter tanto entusiasmo e força nos cambitos?

– Bem, amigo Carlos Eduardo, além de música ser vida e o frevo ser fascinante, a atividade física constante é uma forma de alongar os dias que ainda tenho. Quando o de “Lá de Cima” me chamar, já irei frevando…

Desse momento obtive uma foto e emoldurei, por tratar-se, ele e o outro, de serem os famosos irmãos: Abelardo e Claudionor Germano da Hora, meus fraternos amigos de muitos anos.

Naquele instante aprendi que, mesmo “usados pelo tempo”, nós, antigos, não devemos ter acanhamento de fazer o que gostamos, em momento e lugar próprios. Se der vontade caiamos na dança. Só não deveremos querer mostrar o que não somos. Porque aí se entra de cabeça no ridículo.

Ele me chamou para frevar não para mostrar sua vitalidade, mas para se satisfazer durante alguns minutos de boa música. Desejava lembrar-se de um desejo juvenil – comentou depois.

Abelardo da Hora tinha 92 anos. Era nome internacional da escultura e várias outras atividades. Nos deixou exatamente em 23 de setembro do ano seguinte. Parece que estava adivinhando que deveria aproveitar aquele momento alegre a fim de fazer o passo com alguns amigos.

Aprendi a lição. Agora que estou no portal da velhice, beirando os 80, e ainda com vigor, se der vontade de fazer, faço e refaço. Não posso perder oportunidades. Não há mais tempo. Dr. Abelardo sabia disso e aproveitou.

NOQUINHA – UM CANTANTE DO RECIFE

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Noquinha? Isso é lá nome de gente! Mas se eu disser: Claudionor Germano, meio mundo já ouviu sua voz e o conhece das frevanças da vida. Será sempre para mim “O Cantante do Recife”. Em 1988 publiquei: “Canta se Queres Viver”, lançado no Salão Nobre do Clube Internacional do Recife.

Com ajuda de Fernando Castelão e Mário Gil Rodrigues Neto criamos um programa de Rádio, revivendo a memória dos anos 50. Esrevi o script, Paulo Malta fez os acertos e Castelão tomou conta do resto.

Subiram ao palco para cantar: Onilda Figueiredo, Creusa de Barros, Dea Soares, Jakson do Pandeiro, Mimi Castilho, Neide Maria, Francisco Barbosa, José Auriz, Antonio Laborda, José Barreto, Expedito Baracho e Capiba, que numa das raras vezes que em público cantou.

Contamos a história artística de Claudionor. Na sequência ele próprio entrava em cena para ilustrar. Começamos por “Um dia no Brasil”, que fora apresentado no Teatro Santa Isabel, em 1940, onde cantou duas músicas. e “pegou ar”, como se diz.

Noquinha é o apelido familiar. Eram cinco filhos. Cinco horas. D. Lilia e D. Diná passaram a apadrinha-lo, levando-o para cantar em shows para os soldados da II Guerra Mundial que se encontravam internados no Hospital do Exército. Cantava de graça. Tinha apenas 12 anos, quando seu brilho se fez notar. Fez dupla até com Orlando Silva.

Em 1946, vivendo-se a época dos conjuntos musicais – Demônios da Garoa”, “Quatro Azes e um Coringa”, “O Band da Lua” – a moçada que frequentava o Jet Clube se juntou e surgiu “Os Diabos Verdes”, depois alterado para “Trio Albano”, dele participando Aldo, Barreto e Noquinha. Ainda participou de “Os Ases do Ritmo”, No ano seguinte “deu a mulesta”. Foi contratado pela Rádio Jornal do Commercio.

Disparou sozinho quando conheceu Capiba e Nelson Ferreira. Aí botou o frevo na alma. Foi-se, agarrado ao sucesso pra nunca mais largar. Seu nome artístico corre o Brasil.

Incontáveis bolachões foram produzidos na Fábrica de Discos Rozenblit. Seu canto encantava também nos sambas-canções. De quando em vez anuncia que vai deixar os palcos carnavalescos e não resiste aos reclamos do público. Já botou o filho como sucessor: Nonô Germano.

Sinto-me realizado em haver escrito sobre ele algumas notas no “Canta se Queres Viver”, em 1988. Com muito gosto lhe proporcionei a primeira viagem aos Estados Unidos, quando fui Assessor de Imprensa do Clube Internacional do Recife.

Homem fino, de comportamento impecável e meu amigo de muitos anos. É um dos patrimônios musicais do Recife. Falei com ele ontem e soube que será lançada sua nova biografia em maio próximo, escrita por José Teles. Já estava em tempo. Viva o Cantante do Recife!

DONA PINÓIA E SEUS BROTINHOS

Chico Anísio e Aldemar Paiva devem estar fazendo graça lá no céu. Dois beneméritos da humanidade. Não conheci Chico pessoalmente. Mas, Aldemar Paiva, alagoano que se tornou pernambucano por adoção, foi uma de minhas grandes amizades. Infelizmente o perdemos em 4 de novembro de 2014. Era poeta, cordelista, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico, ator e publicitário. Nossa aproximação foi para sempre e teve como padrinho Capiba. Fez até um verso em minha homenagem. Éramos fraternos amigos.

Na antiga PRA-8, nos idos de 50, os dois inventaram o programa “Dona Pinóia e seus Brotinhos”, apresentado ao vivo, no auditório do “Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto”.

Mais adiante viria a ser imortalizado como: ”A Escolinha do Professor Raimundo”, quando Chico foi tangido, por seu valor, para o Rio de Janeiro, fixando-se na Rede Globo. Mas nunca negou a Adelmar essa parceria. Isso é um fato histórico que andava engavetado na memória de muitos.

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Um dos últimos encontros de dois gênios do humor: Chico Anysio e Aldemar Paiva, no Recife. Ao centro, Angelita, esposa de Aldemar

Vi, menino ainda, uma apresentação desse teatrinho, onde o inocente humor predominava lotando o auditório da Rádio com famílias inteiras, nas manhãs de domingo. Dava gosto ver os atores Chico, Aldemar, Bombinha, Mercedez del Prado e outros, todos já marmanjos, com as canelas cabeludas de fora, “aprontando” junto à professora, coitada.

O exercício do jornalismo me proporcionou grandes realizações face à conquista de amizades com pessoas de variadas qualificações, sobremodo os que cultivam a intelectualidade através das artes. E ainda por estar em lugares onde ocorreram fatos que se tornaram história; como este.

Voaram os anos. Estando eu na casa de Aldemar, acertando para lhe fazer uma homenagem pelos 80 anos de vida, quando surge um telefonema de Chico Anysio. Por educação Aelmar comunicou que estava comigo e iria colocar o aparelho no “viva voz”:

– Aldemar, tô querendo fazer uma homenagem a você na “Escolinha” e me lembrei de citar os velhos quadros que fizemos no Recife, na Rádio Clube. Você pode me mandar aqueles seus primeiros textos escritos para o “Dona Pinóia e seus Brotinhos”?

– Ah, meu camarada, você não sabe do pior!… Não podendo guardar toda a minha troçada aqui em nosso apartamento de Boa Viagem resolvi, há alguns anos, entulhar tudo em nossa garagem, na casa de Gravatá. Há poucos dias fui lá e me senti golpeado pelas traças. Aquelas infelizes devoraram principalmente os meus textos daqueles nossos anos juntos na Rádio Clube, e outras coisas que guardei com tanto cuidado por mais de cinquenta anos.

Aí dispara Chico Anysio com toda a sua irreverência, admitindo que as roedoras comeram todos os textos de bom humor:

– Aldemar, vejo que serão as traças mais “cheias de graça” que teremos visto!…

* * *

Dados colhidos na coluna “Megaphone do Quincas“:

Nascido em Maceió-AL, em julho de 1925, Aldemar Buarque de Paiva foi poeta, cordelista, ator, radialista, jornalista, compositor, produtor artístico e publicitário (hoje, seria um multimídia). Em 1948, fundou a Rádio Difusora de Alagoas, transferindo-se em 1951 para o Recife. Trabalhou com Chico Anísio no cast da PRA-8 Rádio Clube de Pernambuco. Ocupou os cargos de diretor artístico e diretor-geral da emissora, e da Rádio Tamandaré (ambas dos Diários Associados). Assinou colunas de humor nos jornais Diário de Pernambuco, Diário da Noite e Jornal do Commercio. Durante um quarto de século comandou o “Pernambuco, Você É Meu”, líder nacional de audiência. Participou como produtor e ator dos programas ‘Som Brasil’, ‘Praça da Alegria’ e ‘Chico City’, na rede Globo. Como compositor tornou clássicos “Pajussara” e “Boneca”, frevo em parceria com o maestro José Menezes.

MAMAVA DEPOIS DE VÉIO

Hoje vou me apresentar com três historietas bastante inocentes.

Companheiro de trabalho no Banco do Brasil José Barbosa Tavares era incorrigível no sentido de “aprontar”. Pior do que Capiba. Não perdia oportunidade. Certa feita surge no balcão senhora de fino trato, procurando Mário Santoiani. Logo, alguns cavalheiros partiram para o balcão a fim de atender à bela suposta cliente que procurava seu filho.

Mário da Galinha, como era seu apelido bancário, foi localizado, atendeu à mãe e logo, como cortesia, desejou apresentá-la a alguns colegas. Foi chamando um a um para evitar tumulto. Senhora esbelta, possuidora considerável “air bag”, altura de polaca, olhos azulados, raça italiana, aquela estaca de fêmea, um tipão. Para ir ao balcão fizemos fila.

Num rasgo de infantilidade, mesmo sabendo que no setor trabalhavam as piores peças da agência, Mário da Galinha provocou Tavares, homem de meia idade, solteirão inveterado, admirador de tudo quanto era quenga da Rua da Guia, desbocado e até inconveniente. Inocentemente aquele filho orgulhoso das qualidades físicas da genitora perguntou o que ele achava de sua mãe, logo recebendo a resposta fulminante:

– Se eu tivesse u’a mãe dessa eu mamava até depois de véio!…

* * *

INSPETOR TARECO

O Inspetor Maurílio Dourado, conhecido pela cambada como “Inspetor Prateado”, visto ser detentor de pomposa cabeleira cor de algodão, era um senhor de uns 50 anos e muito cioso de suas responsabilidades, sobremodo pelo cargo que desempenhava. Suas chegadas às agências que ia inspecionar tinham que ser sob surpresa, para surtir o efeito de logo selar os caixas e tudo quanto era arquivo. Aquele desembesto.

Para manter-se sob o controle da Direção Geral, no Rio de Janeiro, como era praxe, certa feita, dois dias antes de viajar, passou um telegrama nacional para a Inspetoria Geral, com um texto codificado: “Inger para Mílton Neves – Seguirei amanhã Nice Garden.” Deixou os cariocas da Inspetoria Geral, localizada no Rio de Janeiro, às escuras porque ninguém entendeu que diabo de cidade pernambucana era aquela. Houve risadaria geral. Meses depois vieram a saber que era Belo Jardim, em Pernambuco.

Contando a história, o popular Carnera – funcionário e nossa agência e grande compositor de frevos – também muito espirituoso, conversando com outro inspetor que nos visitava conseguiu decifrar o código e ambos ficaram rindo da besteira do Inspetor Dourado que a partir daquela cena, por sua inusitada invenção grafológica e codificante, foi alcunhado pelo musicista como “Inspetor Tareco”.

* * *

O MARIDO DA GIRAFA

Numa sexta-feira de rojão infame de serviços, fim de mês, todos ocupadíssimos, listões dando diferenças na boca de caixa, chega ao balcão da Cobrança o colega Gerente de Palmares, que viera ao Recife para umas compras e marcara com a esposa naquele local o reencontro. Sendo nosso ex-colega haja a puxar conversa. Chateou todo mundo.

Momentos depois chega a esposa. Ele já era conhecido como “Comprimido” porque era baixo e torado no grosso, mas desconhecia tal alcunha, registrada nos tempos em que trabalhara naquela agência. Aparecendo a patroa ele interrompeu a prosa para apresenta-la.

Seu minino, que casal diferente! Ela altíssima, estampada, gaseificada, e ele aquela coisa miúda. Quem avia de dentro do balcão tinha a impressão e se tratar de filme do “Gordo e o Magro”. Tavares mais uma vez, inoportuno, para provocar a saideira saiu-se com essa:

– Severino, sendo você assim tão baixo e sua senhora com essa altura toda nos vamos trocar seu apelido para “Marido da Girafa”.

Severino perdeu a estribeira e mandou Tavares à merda.

ELIZA DA BUNDA LISA

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Dr. Pacífico dos Santos

Na intimidade familiar ou diante de pessoas com quem tinha relação próxima, meu avô paterno, João Pacífico, era um cabra muito safado. Piadista, pornofonista e versejador aproveitando tudo quanto era possível esculhambar.

Um precursor da escola de onde saiu Luiz Berto Filho. Por coincidência, adotou Palmares como se o torrão de nascimento fosse. Era mote e glosa. Tiro e queda. Qualquer pretexto lhe servia para um improviso escrito ou falado, sempre escancarando sua verve fubanística.

Personagem que está na História do Recife, com nome de rua no bairro do Paissandu, Pacífico dos Santos, como se tornou conhecido, formou-se na Faculdade de Direito do Recife, foi jornalista de batente, e com, seu irmão, Claudino dos Santos e o grande Joaquim Nabuco, dedicou-se à causa da abolição da escravatura.

Na política sofreu um atentado recebendo um tiro de raspão no pé da orelha, quando discursava num palanque em favor da candidatura do General Emídio Dantas Barreto. Aproveitou para permanecer em casa durante uma semana, para o que tirou férias, recebendo correligionários, que se penalizavam em vê-lo com uma tira de gazes enrolando a cabeça. Aquela presepada.

Decorridos cinco dias da “maluquice” do “atentado” que só lhe provocara pequeno arranhão, mesmo vendo que ele recebia muitas visitas, levou um esbregue de minha avó, ao que respondeu:

– Santinha esse balaço tem que dar rendimento político!

Certa feita foi à barbearia e lá notou que o cabeleireiro fora substituído. Como precisava aparar a barba ficou logo de “cara fechada” porque o novo rapaz não conhecia seus hábitos. Logo que se sentou e abriu o jornal para ler, o novato perguntou:

– Como quer coroné?

– Quero calado! E não sou “coroné”. Sou Juiz de Direito!

Sabia que conversa de barbeiro tendo à mão uma lâmina afiada, era um perigo pra ser degolado, por isso não queria conversa. E barbeiro conversa, viu!…

Num dia sofrido pela asma que lhe fustigava, depois de medicar-se, atendeu uma visita daquelas que são totalmente inoportunas. Era Eliza, donzela já na idade do caritó, beirando os 40, que gostava de “passar o tempo” conversando com D. Santinha, minha avó. Não teve como puxar conversa e alfinetou o velho, que estava lendo o jornal.

– Dr. Pacífico, o senhor nunca fez um verso com meu nome! Já nos conhecemos há tanto tempo, as famílias são amigas…, mas nunca mereci ser musa de um dos seus versos. Mas eu lhe esculpo. Meu nome é ruim de ser rimado…

– Nada disso minha filha. Para seu nome eu tenho mil rimas… É que tenho andado sofrido com esta falta de ar e não estou com muita inspiração. Mas se você insistir eu posso pensar. Como é mesmo seu nome?

– Eliza.

Torceu o bigode, deu uma alisada na barba. Demorou-se por instantes e avaliou as consequências. Naquele ano de 1910 a Rua da Concórdia era o chic do Recife. A aristocracia estava em todas as casas. As famílias mais distintas da cidade ali moravam. Falavam português castiço. Algumas até francês. Nunca se ouvia uma palavra indecorosa nem indelicada. Jamais.

Porém Eliza Cardoso Mendes Caldeira estava ali, de olhos atentos, fisionomia desafiadora. A malícia do poeta aflorou como um raio. Perderia a amizade de sua família, mas a afoiteza da moça merecia boa resposta. Há que se entender que naquele tempo as saias também eram conhecidas como camisas. Cuspiu o verso infame:

Eliza bela moça
que a brisa passa e alisa
levanta a fina camisa
para eu dar um cheiro
na bunda liza.

Pano rápido. A moça horrorizada, embora transformada em musa, botou as duas mãos no rosto e procurou a porta e saída para nunca mais retornar. Minha avó disparou todos os impropérios que conhecia; sendo o menos ofensivo: “Velho safado!”

TOMEI NO PREGUEADO

O assunto é cu. Hoje cheguei violento. Personagem: cidadão reto, aprumado de vida, cheio de moral. Insultado por Luiz Berto oferece às páginas da gazeta mais escrota do mundo a tragédia vivida pelo seu respeitabilíssimo” “pregueado, para enquadrar o “fulano” numa linguagem mais palatável.

O tema é eticamente inapropriado para senhoras e senhoritas. Fica o alerta. Envolve o cu e cercanias. Trabalhador que precisava chegar cedo ao Banco, logo ao amanhecer, como de costume, exerce seu “instante de rei”. Ocupa o “trono” para fazer o primeiro “depósito” do dia. Aliviar as tripas gaiteiras.
O que era líquido desceu de primeira, comprovando sua liquidez. Todavia, o pastoso, que estava quase sólido, ficou renitente, como se indeciso para a descida vertical. Contração, descontração. Vai não vai. Aplicando a 1ª., que é marcha de força, o cagão tomou atitude quase letal, correndo o risco de estourar as coronárias de cima até em baixo, a fim de expulsar o “meritíssimo” lote produzido pelos intestinos, conhecido socialmente como “bolo fecal”, que no linguajar de “Zona Meretriciana”: lote de merda. Ou melhor atualizando: o PT descendo…

Aí, como se diz no popular, “deu-se a merda”. Surpresa indecorosa demais para ser contada por um cavalheiro de fisionomia séria. Junto com o toletão, desceu emparelhado o “rubro veio”. Desceu aquela menstruação.

Precavido, a exemplo do que fazem os prevenidos defecantes que já levaram dedo no rabo, olhou para aquele pequeno lago que se forma no fundo da privada, e notou que havia sangue. A princípio ficou até indignado porque surgiria a dúvida inaceitável: estaria porventura menstruando pelo fiofó?
Mas, logo veio a pior conclusão. A passagem espremida do “produto” endurecido via cano retal rasgou o “pregueado” de tal maneira que a hemorragia jorrou. Apavorado, este que vos relata essa tragédia gregoriana, gritou:

– Mulé, traz qualquer coisa aí pra tampar meu “rabo” que tá menstruado!

Quando a esposa viu o pequeno lago avermelhado, se apavorou. Marido menstruando era foda. Mil suposições. A primeira, se acaso ele andara facilitando o “canal” para a degustação de algum “namorado”. Aquele reboliço. Um desastre conjugal. Tudo por causa de um simples ataque de hemorroida. Mas não é tão simples assim. Agora vem o pior, a desgraceira.

Educadamente eu deveria escrever aqui o diagnóstico como o faz o vocabulário empolado dos médicos: “dilatação das veias varicosas do anus”. Mas pra que tanta formalidade se estou em território fubânico? Era um ataque de hemorroida, da braba. Menstruação retal. Cu jorrando sangue adoidado.

Em palavreado da Zona do Pina: orifício em estado de putrefação. O “pregueado” já indicava petição de miséria. Vem o segundo drama. O socorro médico. Aí é que foi de lascar. Meti um “absorvente para menstruação” entre as pernas e fui morrer no dedão de Dr. Antônio Booz já estava de luvas enfiadas, esperando-me com o miseravi firme para um tenebroso exame “lá por baixo”.

Sabe-se que alguns pacientes até se anunciam como sendo machos. Mas não podem nem ouvir falar num exame de próstata por via retal, que logo se esquivam, diante da besteira de não querer levar um “dedinho de nada” de oito ou dez centímetros, no fiofó. O perigo é gostar do “atrativo”.

Acreditam eles que a honra do homem está nessa “enfiada de dedo”, reafirmando que o “canal pregueado” é só um túnel de saída. Orgulho de macho desinformado e preconceituoso! Vão logo anunciando ao médico que só precisam do exame de PSA, aquele que se faz através do sangue.

Com olhos arregalados e suor descendo pela testa pálida, desci do táxi e entre o pequeno espaço da calçada até a fila do elevador, mantendo as pernas bem juntas, quase morri de vergonha. Desejava dar a entender que minhas pernas prendiam uma caganeira iminente. Veio o pior. Surge um amigo, aquele infeliz que estava no lugar errado naquele momento, pra me “denunciar” diante dos demais enfileirados. E preocupado, coitado, investe em fulminante e inoportuna curiosidade com voz de trovão:

– Carlinhos, que diabo foi isso?

– Rapaz… foi futebol. Um chute nos ovos. Tô indo pro médico. Tô acabado! Derrubado mesmo.

Durante o breve percurso de vez em quando imaginava com aflição um corrimento que não existia porque, em que pese a suposta “menstruação”, a “rodela retentora” que garante o abre-e-fecha do “pregueado” estava ainda como se fosse de fábrica, intacta. Chega afinal à sala de espera. A placa já dava para suar frio: “Proctologista”. Vige Maria. Já senti a dor.

Os espectadores, todos vítimas da mesma tragédia, desconfiados, se entreolhavam discretamente. Acho que é a única sala de espera de consultório que não se quer puxar o assunto “da tal doença”. Nem olharam para o novo paciente, que com sorriso amarelo deu Bom Dia a todos.

Duas senhoras e três senhores. Um deles, uma lapa de afro-brasileiro que era um “guarda-roupas” do mesmo tamanho de Gregório Fortunato, guarda-costas de Getúlio. Sentei-me junto do escurão. Todo mundo calado. Atmosfera de pós-tragédia. Se alguém puxasse conversa as respostas eram brevíssimas. Só silêncio.
Nunca me esquecerei, porém, de uma velhinha de uns 70, que me vendo em estado de “palidez cadavérica”, se declarou:

– Tenha medo não meu fio. Olhe já estou no 3º exame e nem ligo mais!…

Minha tragédia se ampliou. Ela me fez entender que depois da cirurgia ainda teríamos que “levar dedada” outras tantas vezes…

A atendente foi chamando um a um. Entravam temerosos e saiam sem nada falar. Seríssims. Os homens, aparentemente desmoralizados. Talvez não quisessem comentar aquela trágica “primeira vez”. Chega o momento do vizinho de sala. Ofereceu a vez, mas agadeci a generosidade. Queria ser o último mesmo. O “impaciente” demorou uns 15 minutos lá no “inferno” e ao sair, por safadeza, metralhei:

– Então, doeu?

– É preciso ser macho pra tomar no “pregueado!”.

Chega finalmente a minha vez. Perdera a graça, pois até rira em silêncio com a resposta revoltada do afro-brasileiro.

A porta do “inferno” se abriu. Dr. Booz, todo sorridente, tinha nas mãos ainda um frasquinho de Nitrato de Prata, um cauterizador conhecido como “Pedra Infernal”, que havia usado no orifício do paciente anterior.

Eu estava entrando no inferno. Não havia dúvidas. Só olhava para a mão direita do médico como se procurando medir o tamanho e a largura do dedo do infeliz que lhe iria “desvirginar”. Meu velho cu, tão honrado, que funcionara tão bem durante mais de 50 anos sem dar vexames era o “corpo de delito” do desgosto.

Começava o martírio de fato. Fui solicitado a despir-se. Justifiquei, meio acanhado, ao tirar o “pano de boi”, como se conhecia anos passados o “aparador de menstruação”, produto corrente nas terras e Belo Jardim, onde nasceu minha mãe, que mais adiante os americanos identificaram como “Modess”. O atendente mostrou-lhe uma coisa que até parecia uma bicicleta pra quem está descendo uma ladeira.

Um troço aterrador Instrumento de tortura psicológica. Sservia para a exposição total do furico aos olhos do médico. Eu, na qualidade de “sofrente” vi um maquinismo que formava um “V” de cabeça para baixo. Seguraria uma espécie de guidon, quase encostando no chão e ficava de cu pra cima. Só a posição era desmoralizante.

A dose final da vergonha chega: o médico mandou que eu abrisse as pernas. Mais essa. Sem choro nem vela. Segue-se o complemento do martírio: a colocação das luvas para finalizar a desmoralização. Ver a luva entrando na mão, coisa infame. E o médico nem aí. Tava faturando nas costas da CIASSI, meu plano… Fora uma tortura ver a cara safada de Dr. Antonio Booz colocando as luvas. Eu me senti um judeu na Alemanha Nazista. E como eu suava frio… Fala o médico em tom muito sério:

– O senhor diga “A longo”, por favor.

– Doutor, por Nossa Senhora, que diabo é “A longo”?

– É como quem está num grupo de canto gregoriano lá na Igreja de São Bento: Aaaaaaaaa!…

Já desmoralizado conclui que fora um “golpe psicológico”. Preocupado com o tal do “A longo” senti tocar na minha goela o dedo do médico. Foi fundo literalmente. Mas, nem tanta dor assim. Logo o dedão foi retirado e o homem trocou de dedo. Pensei sem mais botões: “será que vai enfiar todos os dedos? Um de cada vez? Tô lascado!”

Botou pequena luva num único dedo e mandou ver. Aí senti u’a queimação pelo cano retal e gritei. O grito da revolta pela desonra. Foi quando ele queimou-me o cu com a aplicação do tal “Nitrato de Prata”. Pior do que delação de Delcídio. Pimenta pura baiana legítima. O grito desmoralizante era para anunciar que eu havia perdido o “cabaço do cu”. Decretada a cirurgia, na mesma noite foi para o Hospital Português saber o que era bom pra fiofó ameaçado.

Recomendei à patroa para não espalhar junto aos seus camaradas do Banco senão a desmoralização seria mortal. Mas, o Gerente deu por minha falta, pois era seu Secretário de Imprensa, e sabendo do “desastre” foi o primeiro a visitar-me. Conversou pouco, ofereceu-se para o que fosse necessário, mas ao sair segredou com um sorriso safado:

– Carlos Eduardo sei que sua “dor moral” é maior do que a dor física.

– É Seu Zé Augusto! Depois de levar dedo no cu nunca mais serei o mesmo! Terá sempre algum safado do Banco do Brasil pra dizer que eu “Tomei no pregueado”!

ESPINHELA CAÍDA

O exercício do jornalismo, notadamente o cargo de repórter, nos leva a oportunidades maravilhosas para conhecer lugares, pessoas, modos de vida e maneiras de falar de cada povo.

Arijaldo Carvalho, que chefia uma das equipes encarregadas de fazer os “Cadernos Especiais” que são encartados no Diário de Pernambuco, tem a seu cargo a responsabilidade da contratação de veteranos jornalistas para fazerem coberturas de eventos em cidades do interland pernambucano. Um desses o besta fubânico aqui.

Radialista, vozeirão de fazer gosto e contador e histórias incríveis, viajar com ele é um divertimento. Aonde chega tem portas abertas. Conhece um bocado de gente pelo sertão pernambucano afora.

Certa feita fomos cobrir o centenário de Petrolândia, com Sanelvo Cabral e o fotógrafo Chico Miranda. Sol de arrombar, chão como o diabo ainda pela frente e já havendo percorrido uns 300 km, paramos para almoçar num desses restaurantes de beira de estrada. Biboca, mas bem limpinho.

Arijaldo, que já conhecia o “Buteco de Maroca”, entrou e foi logo procurando a proprietária:

Dona Maroquinha, minha querida, eu e minha turma novamente por aqui. Bote naquela mesa carne de bode pra todo mundo. Daquela que é melhor do que filé de borboleta.

E a bondosa octogenária, com a cara mais lambida do mundo mandou-lhe uma tremenda exclamação envolvendo-o num fraterno abraço:

Mas Seu Arijaldo, bode de novo? Aqui tem uma carne de sol que botei em promoção que até marciano tá dando preferência. Mas por que o senhor só gosta de bode? Parece até que vive com “Espinhela Caída”!

Bicho presepeiro, sempre com resposta engatilhada, fuzilou a velhinha:

Tô com “Espinhela Caída” não Dona Maroca! Não sei nem que diabo de vício é esse. É vício ou é doença? Só lhe digo que na outra “encadernação” eu já fui cabra. Por isso gosto tanto de bode.

A véia quase se mija de tanto rir. E nós também.

ARTEMANHA CONTRA OS MOSQUITOS

Um sonho com Zé Limeira e Orlando Tejo não pode ser boa coisa, mas poderia se tornar um plano viável para ajudar no extermínio da mosquitagem, antes que a Lava Jato o faça com a politicada instalada em todos os buracos do País.

Amigo da velha guarda, Ze do Bode, considerado o “Dr. Sabugosa” no Brejo da Madre de Deus, nos apresentou sua “fórmula brejeira” para liquidação do tal mosquito. Desejava minha “cunha prestigial” para agendar-se com os diplomados da Fiocruz do Recife e impulsionar suas ideias fedorentas. Sim, porque um sonho com tal dupla só pode sair muita merda. Disse o veterano da farmascopia brejense que o sonho lhe chegou cifrado, em verso, e ele teve que traduzir:

Mosquito não se combate
Com militar nem tanque de guerra.

Informou haver sonhado com Zé Limeira e Orlando Tejo, que lhe passaram os dados “científicos”, com base na “farmacêutica interiorana do século passado”. Desejava, como bom brasileiro, promover economia, evitando que tanques de guerra do exército estraguem ainda mais nossas tão esburacadas estradas, face à pressão de suas esteiras de aço-carbono.z

Alegava que não serão pequenos os custos do treinamento para adequação àquele tipo de inimigo, nunca combatido por forças armadas. Os da Reserva sabem que para cada tiro de canhão há um acerto cronometrado. Tais armas não se movimentam com a velocidade de uma carabina ou metralhadora. Mosquito não se coloca como alvo. O Aedes, sobretudo, já demonstrou ser ladino. É um inimigo móvel. Com grande habilidade de manobras, inclusive o espírito de ocultação.

Antes de qualquer iniciativa fiquei temeroso com o lance. Soldados são treinados para matar sem prevenir. Não são como políticos que vão matando a população aos pouquinhos. Com os exércitos o negócio é tiro e queda. Depois, estaria ele meio chateado porque aqueles praças que temos visto na tv bem gostariam de estar de fato em guerra. Um exercício de combate cara a cara, de verdade. Mas, guerra a mosquito não dá samba. Nem marchinha de carnaval. Só dá charge.

E continuou Zé do Brejo sua explicação, recebida do “Além e do Aquém onde véve os morto”, como diria Bento Carneiro, personagem de Chico Anísio. Para os cientistas do ramo dos Mosquiteiros e Mosquiteiras da Fiocruz o produto para a matança seria inigualável. Só haveria reclamação das indústrias de repelente, que estão superfaturando adoidadas, e as farmácias que estão corrigindo preços.

Mas, expliquemos os finalmente. De início seriam recrutados bons repentistas para se fazer uma “Roda de Viola” e atrair a mosquitaiada. No centro u’a mesa de cachaça com um balde de pó de Pitu, para ir embebedando os voadores. Seria cheirar e cair. Não haveria mosquiticídio.

Em posição de dança-de-guerra, uns 150 bacamarteiros de Caruaru, divididos em 4 Colunas, a fim de desmantelar a mosquitarada que sobrasse da bebedeira. Logo viria a 5ª. Coluna – a coluna dos “baitolas” – para promover a solução letal: “introdução manual” do produto recém industrializado: SPM – Supositório de Pimenta Malagueta, cuja composição genérica indica conter também o poderoso “Neocitran” e pingos de óleo de rícino, a fim de desobstruir as tripas.

Assim se provocaria caganeira geral em todos os membros diretos da família aedesianas e mais descendentes até a 10ª. geração. Isto tudo baseado na máxima de Orlando Tejo: “Quem tem cu tem medo”. Adeus Aedes.

MATO SÓ PRA CAGAR

Capiba, por índole, era um sujeito sério, trabalhador e bom funcionário. Fora do trabalho, muito piadista e brincalhão. Era impossível conversar com ele sem rir. Sobretudo porque tendo linguajar deficiente não pronunciava o “K”. E se identificava como “Apiba”. Já provocava sorrisos.

Formou-se em Direito, mas nunca advogou. Só queria saber de música. Foi nomeado por Nilo Coelho Presidente do BANDEPE – Banco do Estado de Pernambuco e recusou-se a tomar posse por considerar-se “inapetente”. Não queria nada com burocracia. Ficava puto quando lhe cumprimentavam pelo título que lhe outorgara o governador Marco Maciel: Comendador. Era inimigo de formalidades.

No Banco do Brasil, onde trabalhou 30 anos, chegou, por tempo de serviço, ao posto máximo da carreira. Dizia que havia trabalhado por “serviços forçados”, uma espécie de pena sem culpa. Durante poucas vezes concorreu a cargos de comissão. Já com 25 anos de atividade se queixava. Mas terminou bem.

Todas as vezes em que havia eventos ou a presença de autoridades do Banco no Recife ele era convidado para “animar a festa” ou “fazer sala” a diretores que nos visitavam. Certa feita, manteve um papo com certo Gerente e lhe cnfienciou de sua insatisfação.

“Uuando” tem festa, é um tal de chama “Apiba”! É “Apiba” pra aqui é “Apiba” pra lá… Mas na hora de dar a “Apiba” um cargo em Comissão, “Apiba” é chutado, porque só sabe contar anedotas.

A confidência calou na alma do Gerente que meses depois, mandou chama-lo para anunciar a boa nova. Conseguira com a Direção Geral uma Gerência em Petrolina-PE, cidade que dista da Capital uma porrada de horas de viagem. Compareceu ao gabinete, entretanto, meio cabreiro. Viu a boca do Gerente se escancarar de um sorriso e logo recebeu o aperto vigoroso do abraço de felicitações. De pronto, engatilhou:

Meu “erido” Gerente. Sou-lhe grato, todavia não quero mais sair do Recife, pois já estou “om” “uase” 25 anos de Ban-o. E lembro-lhe com a força de minha sinceridade e agradecimento, um versinho de minha juventude:

O adágio filosófico
É fato mesmo exemplar
Interior só de mulher
e mato só pra cagar.

CABELO DO PERIQUITO

Ditas sem o devido cuidado certas frases podem criar sérias complicações, se vulgar for o vocabulário. Periquito não é apenas uma ave. Significa também o órgão sexual feminino. Aliás, no linguajar dos safados por natureza, a pronúncia usual é “priquita” ou mesmo “priquito”.

Todavia, parecendo ser apelido no caso a que me refiro, era nome de gente. Daí o fato histórico que ora comento. Aluízio de Oliveira Periquito era seu nome de família. Foi um dos maiores atletas de Pernambuco, Vice-presidente do Náutico, Presidente da AABB e terminou a carreira como Gerente-adjunto do Banco do Brasil.

Periquito, por safadeza, gostava de ser reconhecido através do nome que soava como apelido e provocava riso nos desavisados. E como ele era muito brincalhão, já viu. Sendo amigo do barbeiro Rafael Maurício Vandevelde, que além de trabalhar no Banco do Brasil, “fazia cabelos” numa barbearia da Rua 1º de Março, contava com sua gentileza para ir cortar cabelos dos seus filhos em casa.

Periquito morava numa casa moderna, muros altos, com telefone interno no portão, mas num local ainda pouco habitado, em Parnamirim. Todos os meses, aos sábados, ele ia à casa daquele colega, cortava seu “resto de cabelo” e deixava a cabeça dos meninos uma beleza. Gostava porque ganhava uma gratificação pelo serviço à domicílio.

Certo dia a campainha da casa de Periquito estava com defeito e Rafael havia se esquecido de confirmar que iria fazer o cabelo dos meninos. Ao chegar, não conseguindo se apresentar pelo telefone interno que estava com defeito, bateu no portão depois de apertar o dedo várias vezes no botão do intercomunicador. A empregada era nova no serviço, mas já velha, muito desaforada e desbocada. Ao atendê-lo, indagou, sem abrir o portão, por motivo e segurança:

Diga quem é e o que deseja.

– Sou Rafael e vim cortar o cabelo de Seu Periquito.

Vá cortar o cabelo da puta que o pariu!

CAPIBA E MARIA BETÂNIA

capiba

Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (Out/1904 – Dez/1997)

Ônibus são um teatro de gaiatices. Notadamente aquelas cadeiras que são reservadas aos idosos. É um local onde surgem as histórias mais engraçadas. Durante palavras trocadas entre os passageiros ouvem-se cada coisa de lascar.

Algumas sérias e que merecem correções. Via de regra, alguns contam histórias de vida. E assim se refazerem os mais velhs através da narrativa de episódios pitorescos de suas passagens. Coisas que o cronista não deixa escapar.

Costumo usar esses espaços para minhas observações, às vezes até participando com algum assentamento histórico, alguma peruada oportuna, de forma a dar mais conteúdo aos temas ali ouvidos e fazer os devidos acertos ou complementos.

Outro dia ouvi de um senhor elegante, cabeleira vistosa, avançado nos anos, cheio de goga, falando com certa desenvoltura, mas soltou um contrassenso daqueles. Já não bastava o besteirol tão desenfreado, que houve necessidade de interferência a bem da História.

Dizia ele – a propósito da cantora Maria Betânia – recentemente homenageada pela Mangueira – que Capiba nela havia se inspirado para compor a famosa música que se tornou clássica na voz de Nelson Gonçalves. Um disparate! A música foi composta em 1944, no Recife e editada em São Paulo no ano seguinte. Maria Betânia, a cantora, nem era, ainda, esperma…

Descemos juntos e eu lhe fiz ver, discretamente, que ele estava muito enganado. E, como notei que se interessou na corrigenda de sua bobagem, dei-lhe a seguinte explicação.

Jornalista há mais de 60 anos convivi próximo de Capiba, porque fui seu biógrafo, e trabalhei com escritor Hermógenes Viana, que no Banco tinha o carinhoso apelido de “Sábio Lusitano”, porque se ufanava de haver sido graduado na Universidade de Coimbra e fora contemporâneo do Cardeal Cerejeira. Portanto, dado à intimidade com os personagens dos fatos eu conhecia bem a história daquela música.

Mário Sette, escritor pernambucano, se tornou famoso inclusive em Portugal por reedições várias de seu notável romance: SENHORA DE ENGENHO, que por iniciativa de funcionários do Banco do Brasil – José Hermógenes de Araújo Viana e Mílton Persivo Rios Cunha – se transformou em peça teatral cujos ensaios e produção se realizaram sob o patrocínio do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, em dias memoráveis quando os sindicatos promoviam a cultura.

A produção foi esmerada e o próprio Mário Sette fez as adaptações. O inusitado, a ideia genial de Persivo, foi compensar o espaço entre os intervalos com uma trilha sonora de piano e voz. Coube a Lourenço da Fonseca Barbosa – o Capiba, a criação de letra e música, ele que era também funcionário do Banco do Brasil. Fez a canção em menos de uma semana.

A peça estreou num espetáculo inesquecível no Teatro Santa Isabel. Um fato interessante cabe divulgar. A canção nasceu no Banco do Brasil. Capiba sempre trabalhava assobiando. Não era incomum ver-se uma gaveta aberta e uma partitura com anotações. Era o funcionário compondo, como o fez certo dia de 1944, completando a música solicitada para a peça, considerada pelo próprio Nelson Gonçalves aquela que ele mais gostava de cantar. Exatamente MARIA BETÂNIA.

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Finalizando, devo informar que nos encontramos no Shopping Center Recife, em dias de 1984 – eu, Capiba, Zezita, a cantora e sua mãe, D. Canô – e esta nos disse que realmente solicitara ao seu marido colocar o nome de Maria Betânia em sua filha, porque ela sempre apreciou a música de Capiba. E para fugir do comum, acrescentou um “h”, registrando-se a menina como Maria Bethânia Vianna Telles Velloso, nascida aos 18 de junho de 1946, dois anos depois do lançamento da canção.

PRIVATIVA DO GERENTE

A cambada de descarados que trabalhava no Banco do Brasil de antigamente – década de 50 – procurava na ampla camaradagem e nas brincadeiras entre si relaxar, diante da atmosfera de seriedade que a Administração impunha, por tradição.

Havendo uma “Comissão dos Apelidos”, todos ao tomar posse eram rebatizados. Ninguém escapava. Era: “Bico Doce”, “Cu de Pato”, “Manequim pra roupa de criança”, “Marido da Jirafa”, “Visconde de Albacora”, “Jumento de Cigano”, “Biuoléu”, “Xinxa”, “Meu Lindo”, “Wilson da Boneca” e centenas de outros. Até o gerente Dr. Pedro Lima, por sua constante austeridade, fora “batizado” de “Pedro Limão”.

Parecíamos meninos grandes, tal a quantidade de presepadas que iam surgindo e ficaram historiadas num dos meus livros, causos que aqui pretendo contar oportunamente explicando as razões de cada apelido, se o Editor do JBF me der chance.

Os mais espirituosos eram Capiba, Jarbas Loureiro, Dirceu Rabelo, Moisés Braia, Gastão de Holanda, João Carrapateira, Simplício Menezes, Jorge Charuto, Clóvis Barbicha, Dumuriê Vasconcelos e outros tantos.

Trabalhávamos no Edf. São Paulo, situado na Praça Ascenso Ferreira, em Rio Branco, um pequeno prédio que não tendo sido construído para ser um Banco apresentava várias deficiências, inclusive a escassez de sanitários. Em cada pavimento espremiam-se cerca de 40 pessoas que só contavam com três unidades em cada andar.

Por necessidade os serviços de Limpeza, no 6º andar, ocupava um dos três sanitários, para a guarda de material, que, pelo motivo, permanecia fechado, tornando críticas certas situações vexatórias; ou seja, os casos de caganeira.

Por iniciativa infeliz o gerente “Pedro Limão”, a fim de facilitar a clientela, achou de interditar mais um, colocando uma placa de metal com os seguintes dizeres: “Privativo do Gerente”. Seu gabinete e a sala de espera ocupavam todo o espaço do lado oposto aos funcionários, havendo como divisória a caixa de corrida do elevador e nos fundos as três privadas. Do outro a rapaziada irreverente, que já havia reclamado aquela reserva infame para material e limpeza.

Diante da falta de providência e a interdição tão inoportuna, Clóvis Barbicha mandou fazer uma outra placa e afixou na única privada disponível, fato que causou grande reboliço administrativo e quase deu Comissão de Inquérito, somente vindo a saber-se quem fora seu autor depois de sua aposentadoria. Eis a placa:

Pra trinta e tantos rapazes
duas privadas somente,
mas uma toda cativa
“Privativa do Gerente”.


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