16 Janeiro 2018 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE GRANDES TRILHAS DE FILMES NACIONAIS – DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

Deus e o Diabo na Terra do Sol: obra-prima, mesmo que você não goste

“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filme brasileiro, dirigido por Glauber Rocha, é considerado um marco do Cinema Novo, e apontado por muitos como a maior película nacional de todos os tempos, incluido na lista da Abraccine – a Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

Músicas “Perseguição” – com falas de Antonio das Mortes (Mauricio do Valle) e Corisco (Othon Bastos) – e “O Sertão Vai Virar Mar”, do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Letras de Glauber e músicas de Sérgio Ricardo

Resumo

O sertanejo Manoel e sua mulher Rosa levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca.

Manoel, no entanto, tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra.

Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, enquanto o que chegara vivo era seu. Manoel se irrita, mata o coronel e foge para casa. Ele e sua esposa resolvem ir embora, deixando tudo para trás.

Manoel decide juntar-se a um grupo religioso liderado por um santo (Sebastião) que lutava contra os grandes latifundiários e em busca do paraíso após a morte. Os latifundiários decidem contratar Antônio das Mortes para perseguir e matar o grupo.

Música “Abertura”, do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Letras do diretor Glauber Rocha, música de Sérgio Ricardo. A música não foi à versão final do filme

O Impacto de Deus e o Diabo

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” foi realizado em meio à convulsão política do país, de 1963 e 1964, e estreou em três cinemas do Rio de Janeiro, há quase 54 anos, em 10 de junho de 1964.

Suas primeiras sessões privadas, realizadas nos meses anteriores, já haviam provocado assombro nos convidados do jovem diretor Glauber Rocha (então com 25 anos).

“É um grande filme, cruel, muitas vezes desconcertante, mas irresistivelmente envolvente”, escreveu Ely Azeredo, da Tribuna da Imprensa (em texto reproduzido no livro “Olhar Crítico”), editado pelo Instituto Moreira Salles, em 2010. O mesmo crítico afirma que, mesmo “sem ser como querem alguns exagerados, deixa muito para trás a quase obra-prima de Nelson Pereira dos Santos, citando “Vidas Secas” e mais “Os Fuzis” (Ruy Guerra, 1964), que comporiam a trilogia sertaneja que constitui a essência e a excelência do Cinema Novo Brasileiro”.

Yoná Magalhães em Deus e o Diabo na Terra do Sol

Exibido em Cannes na mesma edição para a qual foi selecionado “Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” levou seu diretor a estreitar os laços com a prestigiosa crítica francesa, além de apresentar o Cinema Novo ao circuito dos grandes festivais europeus (“O Cangaceiro”, em 1953, e o “Pagador de Promessas”, de 1962), ofereceram experiências diferentes da produção do país.

Música “Antonio das Mortes”, da trilha sonora do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Letras de Glauber Rocha, música de Sérgio Ricardo

Em que pese a grande repercussão de “Deus e o Diabo..”, foi com o “Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), que Glauber ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes. Mas foi com “Deus e o Diabo…” que ele efetivamente mudou a história do cinema nacional.

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9 Janeiro 2018 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE GRANDES TRILHAS DE FILMES NACIONAIS – QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Quando o Carnaval Chegar

Quando o Carnaval Chegar” é um filme brasileiro, de 1972, musical, dirigido por Cacá Diegues e com roteiro de Cacá, Hugo Carvana e Chico Buarque.

Lourival é o empresário de um grupo mambembe de cantores (Paulo, Mimi e Rosa), que viaja pelo país num antigo ônibus “Sheila”, dirigido por Cuíca.

Com a proximidade do Carnaval, Lourival consegue um contrato com um empresário para o grupo e também para Cuíca, para apresentações no evento “A Festa do Rei” (que depois se revela como Frank Sinatra numa suposta viagem ao Rio).

“Frevo”, de Tom e Vinícius, com Chico Buarque, Quando o Carnaval Chegar

Uma série de desavenças e discussões internações, porém, provocadas pelos romances inesperados de Paulo (com Virgínia) e Cuíca (com uma atriz francesa) põe em risco o cumprimento do contrato para o desespero de Lourival, que avisa que o contratante é o chefão do crime organizado (provavelmente bicheiro) “Anjo”, que os ameaçará de diversas formas.

Quando o Carnaval Chegar, com Nara Leão

A trilha sonora do filme é composta, em sua maior parte por Chico Buarque. Conta também com a participação de Maria Betânia, Nara Leão, entre outros.

“Baioque”, de Chico Buarque, com Chico e Betânia, 1972

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2 Janeiro 2018 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE GRANDES TRILHAS E MÚSICAS DE FILMES NACIONAIS – BYE-BYE BRASIL

“Bye Bye Brasil” é uma comédia nacional, de 1979, dirigida por Cacá Diegues, considerada por muitos como das mais importantes produções brasileiras da década de 1970.

Em 2015, o filme entrou na lista da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Salomé, Lorde Cigano e Andorinha são três artistas mambembes que cruzam o país com a Caravana Rolidei, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população brasileira, que não tem ainda acesso à televisão.

A eles se juntam o acordeonista Ciço e sua esposa, Dasdô, com os quais a caravana cruza a Amazônia pela rodovia Transamazônica, até chegar a Altarmira-PA.

José Wilker: Lorde Cigano

O filme teve ótimas repercussões: Inácio Araújo, da “Folha”, disse que “é um dos filmes mais marcantes do período final da Ditadura”.

Marcelo Muller, do “Papo de Cinema”, escreveu que o filme guarda significâncias densas, extraídas de suas paisagens geográfica, social e afetiva”.

Cassiano Terra Rodrigues, do “Correio Cidadania”, afirmou que “Bye Bye Brasil” é um filme de um país que está deixando de ser o que por muito tempo foi para se se tornar não se sabe o quê (….) É assim que o filme se distancia do Cinema Novo. Na verdade, o filme oscila o tempo todo, propositalmente ambíguo, entre o compromisso social e histórico cinema-novista e as novas possibilidades ainda incertas de sua própria época (indefinição = transição).

Ele deu o Rádio, Genival Lacerda

26 dezembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE GRANDES TRILHAS E MÚSICAS DE FILMES NACIONAIS – LISBELA E O PRISIONEIRO

Lisbela e o Prisisioneiro

“Lisbela e o Prisioneiro” é um divertida comédia romântica baseada na obra de Osman Lins e conta a história do malandro, aventureiro e conquistador (Selton Mello) e da mocinha sonhadora Lisbela (Débora Falabela), que adora filmes americanos e sonha com o heróis do cinema.

Lisbela está noiva e de casamento marcado, quando Leléu chegou à cidade. O casal se encanta e passa a viver uma história cheia de personagens tirados do cenário nordestino.

“Espumas ao Vento”, de Aciolly Neto (port mortem), por Elza Soares

Eles vão sofrer pressões do meio social e também de suas próprias dúvidas e hesitações.

Mas uma reviravolta final, cheia de bravura amor, eles seguem seus destinos. Como a própria Lisbela diz, a graça é não saber o que acontece’.

“Você não ensinou a te esquecer”, de Fernando Mendes, José Wilson e Lucas, com Caetano Veloso

Osman Lins foi escritos, autor de contos, romances, narrativas, livros de viagens e peças de teatro.

Pernambucano de Vitória de Santo Antão, nasceu em 5 de julho de 1924 e morreu em São Paulo, em 8 de julho de 1978.

O projeto literário de Osman Lins mescla-se com sua biografia e fatos que marcaram sua história pessoal aparecem de maneira recorrente em sua obra.

Um desses fatos, e talvez o mais importante, foi a perda da mãe logo após seu nascimento.

Seu romance Avalovara (1973) é uma obra de engenharia narrativa, construído a partir de palíndromo latino dentro de uma espiral, a partir do qual vão sendo desenvolvidos todos os capítulos do livro.

Lisbela e o Prisioneiro, texto para teatro de 1961, foi adaptado para televisão pela Globo (1994), com os atores Diogo Vilela E Giulia Gam, sendo depois adaptado por Guel Arraes para o Cinema, com Selton Mello e Débora Falabella (2003).

O arquivo pessoal de Osman Lins foi doado pela viúva do escritor, também escritora Julieta de Godoy Lacerda (1927-1997), a duas instituições brasileiras: Fundação Casa de Ruy Barbosa (Rio de Janeiro) e Instituto de Estudos Brasileiros, da USP.

“O Amor é Filme” Animação em estilo de cordel da música do filme Lisbela e o Prisioneiro, composta por Lirinha do Cordel do Fogo Encantado.

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19 dezembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


BAILE PERFUMADO

Depois de um bom tempo sendo instado, quase coercitivamente, a ter em casa o NetFlix, acabei me rendendo ao tal canal múltiplo e infinito, segundo seus defensores e entusiastas.

Não sou daqueles que vai à primeira sessão de Star Wars – os últimos Jedi, à meia noite do primeiro dia.

Não substituo celulares com a ansiedade de quem está ganhando o primeiro presente de Papai Noel. Esta norma vale para quase tudo.

Gosto de ver os aficionados descobrirem que o n° 8 e XX não são tão avançados assim. E que perderam dinheiro com a ansiedade. Adquiro um tempo depois e após muito convencimento.

Bem, falo destas facetas do consumo para dizer que depois de alguns anos de – “Macedo, você tem que ter um”, – “tem tudo”, é “quase de graça”, resisti enquanto pude.

Instalado, treinado e quase todo pronto para usar (faltam algumas conexões) o danado do Netflix, que tem tudo.

Fui direto ao ponto: aprendiz de cinéfilo como sou, puxei da memória 3 filmes, que, sem buscar eventuais curtas desconhecidos da Coréia do Norte, imaginei seriam clássicos de home-page no tal canal sabe tudo.

Busquei “M”, o vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang; “Blow-up”, de Michelângelo Antonioni; e Decamemon, de Pasolini. Para mim, o tal do canalzinho estaria reprovado no quesito filme clássico, cult e categoria óbvio.

Mas sou new Netflix e resolvi navegar pelas outras demandas que o dispositivo criou para nós preenchermos as horas vagas. É bonzinho, com ele e o Yoube, podemos ver filmes em ótima qualidade, músicas variadas, uma gama de opções de entreter…

Ainda xingando com minha mulher: “que é que esse Netflix” acrescenta em alguma coisa, ela uma das entusiastas e promotoras da aquisição da coisa.

Quando, na quarta tentativa, só para me desmentir, apareceu “O Sol É Para Todos” (To kill a Mokinbird), uma das obras-primas do cinema, com história de racismo, direitos das pessoas e costumes mediáveis, que teve seu livro, no qual baseou-se o filme, adotado em todas as escolas dos EUA. Hoje, já há uma grande discussão sob a permanência da obra nos colégios americanos.

Trata-se de um dos melhores, senão o melhor trabalho de Gregory Peck, como o advogado viúvo, dois filhos, referência de dignidade e coragem, numa cidadezinha cruel do Alabama.

Pois foi maravilhoso vê-lo pela terceira ou quarta vez. Para mim, uma película marcante, tanto quanto uma pintura de Rembrandt ou de Monet, uma escultura de Rodin ou Abelardo da Hora, o urbanismo e o paisagismo de Lucio Costa e Burle Marx e as letras dos grandes romancistas e pensadores.

Rever filme destes, a cada ciclo, é reapreciar uma obra de arte. Além de não fazer mal, é um exercício monumental de memória e emoção.

Faço uma introdução pouco alongada para despejar os ensinamentos revisados e incorporar a mudança que um fim de semana produz.

Netflix para lá, filme de TV para cá, um dvd/blue-ray no meio, contabilizei a assistência de três filmes muito bons: além de “O Sol é Para Todos”, “A Menina que Roubava Livros” e, o mais importante de todos para o momento: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de João Guimarães Rosa. Trata-se de um dos 12 contos/novelas tirados do livro Sagarana. Buscando histórias e conexões, li que Guimarães Rosa escreveu carta para João Condé, autor de Terra de Caruaru, para receber opiniões do pernambucano.

Luiz Carlos Vasconcelos e Zuleica Ferreira

Resolvi, a partir deste pacote, iniciar sequência de trilhas sonoras que ficam na cabeça, como grude, ou que se espaçam com o tempo. Não começarei com “A Hora e a Vez…”, mas com outra revisitação: o clássico “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

Sangue de Bairro – Chico Science e Nação Zumbi

Lançado em 1996 é considerado um marco da retomada do Cinema Pernambucano. Em novembro de 2015, o filme entrou na lista feita pela Abracine – Associação Brasileira de Críticos, dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A aludida retomada é consequência do chamado “Ciclo do Cinema do Recife – 1923-1932”, assunto a que voltarei noutra hora.

Conta a saga real do libanês Benjamin Abrahão, mascate responsável pelas únicas imagens de Virgulino Ferreira, o Lampião, quando viveu no sertão brasileiro.

Amigo íntimo de padre Cícero, Benjamin mascateava pelo sertão e exercitou seu espírito mercantilista, convivendo de perto com o bando de Lampeão. Infiltrou-se no grupo para colher imagens e vender os registros do famoso criminoso pelo mundo afora.

Baile Perfumado – Stela Campos

No elenco, Duda Mamberti, Luiz Carlos Vasconcelos, Aramis Trindade, Chico Dias, Jofre Soares, Claudio Manberti, Germano Haiut, Zuleica Ferreira.

A história é pontuada pelas imagens originais do protagonista, e apenas onze minutos do filme exibem um Lampião bem diferente do herói dos pobres: aburguesado, maravilhado com modernidades como a máquina fotográfica e a garrafa térmica, tomando uísque e banhando-se em perfume francês, além do bando que também ia aos bailes no meio do sertão, daí a origem do título do filme.

Para quem gosta de saber como foi feito o filme, aí vai um bônus imperdível:

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12 dezembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – NERIZE PAIVA

Nerize Paiva

A mesma dificuldade que o colega Luciano Hortêncio encontrou ao pesquisar uma biografia fechado ou mesmo textos soltos para falar e retratar Nerize Paiva, eu sinto agora ao concluir esta série que faço sobre “Cantoras e Compositoras de Pernambuco”.
Vou aqui beliscando textos, informações, dados e acervos destes colegas, o Luciano, o Bruno Negromonte, o Nirez, Abílio Neto, Samuel Machado Filho e assim por diante.

Eu Quero é me Virar, frevo-canção de Alvim

A única vantagem que tenho sobre os desconhecedores por completo de Nerize é que a ouvi inúmeras vezes no rádio e fui a shows de auditório, acompanhando minha mãe, Dagô.

Também esperava o momento de levantar as saias – danadinha – e gostava muito de ouvi-la cantar.

Os apresentadores a anunciavam como “A bomba atômica do Nordeste”. Viveu 82 anos (1932-2014). Sua morte, em 2014 foi assim sentida por Luciano Hortêncio “Nerize Paiva festejou esse Natal no céu. Foi chamada pelo menino Jesus, em 24 de dezembro. Havia sofrido muito, tanto de dores físicas, quanto pelo ostracismo a que foi relegada. A cantora pernambucana não fugiu à regra aplicada no Brasil, de se esquecer o artista tão logo deixe de atuar.

Paulo da Portela dizia: ‘O meu nome já caiu no esquecimento. O meu nome não interessa a mais ninguém’.

Como não havia praticamente nada na internet sobre Nerize – continuou Luciano -consegui fotos, fonogramas, informações e dados gerais com os amigos citados acima”.

Aruê, Aruá, de Catulo da Paixão Cearense, com Nerize Paiva

Com apenas 1,60 de altura, quando subia no palco da Rádio Jornal do Commercio levava o público, principalmente os homens – à loucura. O “Furacão do auditórios reinava entre as décadas de 1950 e 1970, época de ouro do rádio pernambucano.

Com a chegada da televisão, os castings das rádios tiveram uma baixa e aí começou o ocaso de Nerize Paiva. Quando sua mãe faleceu, Nerize foi morar no Rio de Janeiro e lá conheceu um gaúcho, descendente de alemão, o sargento da Marinha Gercy Rutz.

Foi amor à primeira vista. Em março de 1991, se casaram, em Manaus e foram morar no Recife, com Rutz até onde deu.

Na comemoração do seus aniversário de 2010, sua turma mais chegada foi até a Imbiribeira, no Recife-PE, levada por Carmem Tovar. Daquela Nerize, que era ovacionada no auditório da Jornal do Commercio não tinha quase nada – testemunha Luciano, um dos presentes.

Nerize – Foto Fernando Machado

No lugar de cantar “Sebastião, Meu Bem”, preferiu interpretar “Bom Dia, Tristeza”, Adoniran Barbosa.

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5 dezembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – NANAU NASCIMENTO

Nanau Nascimento

Começou a cantar aos quatro anos de idade. Durante a carreira, passou por diversos programas de shows de calouros, sendo revelada por seu bairro, a Várzea, no Recife-PE, pelo projeto “Rádio do Povo”, da Rádio Jornal, em 1995.

Com passagem pela Banda Mistura de Amor (cujo CD foi produzido pelo sanfoneiro Gennaro), Nanau participou também das bandas “Anjo Bom” e “Luminar”.

Com uma bela e expressiva voz, a cantora trabalhou com grandes nomes da cena pernambucana como Nonô Germano, Genival Lacerda e João Lacerda e fez turnê com Marinês, a rainha do xaxado.

Conversa, de Getúlio Cavalcanti, com Nanau Nascimento

A convite de Roberto Silva, defendeu seu frevo “Encanto do Poeta”, no Concurso de Músicas carnavalescas da prefeitura do Recife de 2005. Com arranjo do maestro Duda, conquistou em 2008, no mesmo concurso 1º lugar, interpretando o caboclinho “Aruanã”, de Roberto Silva.

Em 2010, gravou mais um CD Roda Viva com sambas de morro e frevos contagiantes, homenageando o carnaval do Recife.

Janaina, de Vania Veríssimo, com Nanau Nascimento

Embora tenha participado sempre dos grandes eventos carnavalescos, dentro e fora do Carnaval e seja uma cantora de todos os ritmos, posso afirmar que Nanau Nascimento é quem melhor canta o samba em Pernambuco…

Meu mundo é hoje, Wilson Batista, com Nanau Nascimento

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28 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – TECA CALAZANS

Teca Calazans

Nascida no Espírito Santo, neta de maestro, filha de uma bandolinista e irmã de pianistas, Teca Calazans conviveu com a música desde cedo.

Foi criada no Recife-PE, onde começou a estudar violão. Interessou-se pela música local, como as cirandas, cocos, xangôs e fez contatos importantes com a Banda de Pífaros de Caruaru.

Ao estudar arte dramática, fundou em 1964, com outros atores e artistas pernambucanos o “Grupo Construção”, que apresentava teatro e música, contando com figuras como Geraldo Azevedo e Naná Vasconcelos.

Em 1967, gravou seu primeiro disco, um compacto simples pela Rozenblit (Mocambo) com “Aquela Rosa” (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando) e “Cirandas”, pesquisa e adaptação de Teca -, canção que popularizou a figura de Lia de Itamaracá.

Em 1968 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como atriz no “Opinião” e na TV Globo.

Ano seguinte, viajou para a França, onde conheceu Ricardo Villas, formando a dupla Teca & Ricardo.

Gravaram cinco LPS na França, entre eles “Musiques et Chantes du Brésil”. A dupla voltou ao Brasil em 1979 e gravou dois LPs pela EMI, “Povo Daqui” (1980) e “Eu Não Sou Dois” (1981).

Desfeita a dupla, Teca retomou a carreira solo, tendo músicas gravadas por Milton Nascimento, Gal Costa e Nara Leão. Em 1982, gravou o LP “Teca Calazans” e, no ano seguinte participou do Projeto da Funarte, em memória aos 80 anos de Mário de Andrade, que resultou no LP “Mário, 300,350”, no qual interpreta repertório folclórico. Teca fez “Mina do Mar”, em 1984 e, em 1988, participou do projeto “100 anos de Heitor Villa-Lobos”, registrado no disco “Villa-Lobos – Serestas e Canções – Intérprete Teca Calazans”, lançado nos mercados europeu e norte-americano. No mesmo ano, fez “Intuição”, disco independente com direção musical de Maurício Carrilho, lançado na Europa em 1993.

“Caicó”, com Teca Calazans e participação de Dominguinhos

Teca voltou à França em 1989, onde passou a morar definitivamente. Lá, lançou os CDs “Pizindin” – 100 anos de Pixinguinha” (1990) e o “Samba dos Bambas”, com o “Trio”, apresentando obras de compositores clássicos do samba” e “Firoliu” (1996), predominantemente autoral.

Em 2002, lançou, ao lado de Elomar, Xangai, Pena Branca e Renato Teixeira, o disco “Cantoria Brasileira.

“Secretário do Diabo”, de Osvaldo Oliveira e Reinaldo Costa, com Teca Calazans e Heraldo do Monte

Suas mais recentes obra-prima foi o CDs “Teca & Heraldo do Monte, gravado em 2003, e “Impressões Sobre Maurício Carrilho e Meira”, de 2017.

Terezinha João Calazans – Teca Calazans nasceu em Vitória-ES, em outubro de 1940. Criadora, pesquisadora, parceira de grandes poetas e músicos, de apurado gosto musical, Teca cantou de tudo e de tudo o melhor que pode tirar: ouvir “Aquele Rosa” e “Se Você Jurar”, de Ismael Silva, mostra o ecletismo e inquietação desta grande cantora brasileira.

Se você Jurar, de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves

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21 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – DALVA TORRES

Dalva Torres

Pernambucana de Moreno, na Região Metropolitana do Recife, Dalva Torres é cantora, compositora e arranjadora.

Formada em Direito, pela Universidade Católica de Pernambuco, iniciou seus estudos de música, aprendendo a tocar piano com os pais, aos quatro anos.

Estudou harmonia jazzística, com o maestro Nenéu Liberalquino. Tem na bagagem também curso de harmonia avançada e arranjo musical com o professor Thales Silveira, pelo método da escora de Berklee.

Como intérprete, participou de vários festivais de música, obtendo sempre as primeiras colocações.

Com a Orquestra de Cordas Dedilhadas, participou da comemoração do 6º Centenário de Aldemar Paiva, participou de vários shows realizados nas cidades da região do Minho, Portugal, em 1990.

Em 1994, apresentou-se em 11 cidade de Portugal, pelo projeto “Cumplicidades”.

Foi premiada no “Recifrevo” com o caboclinho ”Senhora das Águas”, em parceria com João Araújo.

“O Amor e a Rosa”, de Antônio Maria

Profunda Admiradora de Antônio Maria, dedicou-se a realizar alguns trabalhos sobre a obra do grande artista pernambucano.

Em 1989, participou de um trabalho fonográfico sobre Antônio Maria, ao lado de Nora Ney, Luiz Bandeira e Claudionor Germano.

Com Renato Phaelante, Vanda Phaelante e Henrique Annes, gravou para TV Universitária, de Pernambuco, um documentário sobre Maria.

Em 2007, gravou CD somente com as composições de Antonio Maria. É fundadora do bloco lírico “Um Bloco em Poesia”, no qual foi diretora musical, arranjadora e regente da orquestra e coral da agremiação.

“Manhã de Carnaval”, Antônio Maria e Luiz Bonfá

Ainda no ano Passado, agosto de 2016, a cantora revisita repertório do recifense Antônio Maria, no qual Xico de Assis faz participação especial.

O poeta traduziu como poucos o amor e suas dores. Poeta de coração partido e dos sentimentos exacerbados, ganhou esta homenagem de Dalva Ferreira Torres, como já foi dito, grande admiradora de sua obra, no show “Ao Amor, Onde o Amor é Demais”, no Teatro Arraial Ariano Suassuna.

Na apresentação, que teve direção geral de Gonzaga Leal, Dalva fez um apanhado do legado de Maria, dando relevo tanto às músicas do cancioneiro, quanto ás joias pouco conhecidas do repertório.

Antônio Maria praticamente se autobiografava, tratava a noite com uma intimidade que só os amantes se permitem, noite essa que ele proclamava ser tão grande que nela caberíamos todos nós, sobretudo, aqueles que faziam da solidão um nobre companheira.

Sim, caberiam todas as canções que ele espalhou ao sete ventos por meio das vozes memoráveis de Aracy de Almeida, Elizeth Cardozo e Nora Ney. E agora Dalva Torres. Este Espetáculo é uma louvação/tributo a um Brasileiro profissão Esperança, a Um menino Grande que enganosamente escreveu que ninguém o amava, que ninguém o queria. Antônio Maria amava a noite e ela, com largueza, correspondeu a esse amor.

Mas Dalva teve outros parceiros e trabalhos como o que que fez com Jards Macalé, em preciosas interpretações de Ismael Silva, no disco “Peçam Bis”.

“Antonico”, de Ismael Silva, com Jards Macalé e Dalva Torres

O engraçado nisto tudo é que eu, bem pertinho dela, só consegui reconhecer essa grande cantora e intérprete quando Dalva Torres estava para defender música de meu irmão, compositor e violonista, Zeca Macêdo e o grande poeta amigo Eduardo Diógenes, a canção “De um Adeus”, em festival.

Finalista no “3º MusiSesc-TV Tribuna”, em 1997, com a música “De um Adeus”, não pode concorrer por problemas técnicos na hora da apresentação.

Finalista no “3º MusiSesc-TV Tribuna”, em 1997, com a música “De um Adeus”, não pode concorrer por problemas técnicos na hora da apresentação. Na fita demo, na voz de Dalva Torres, a música ficou assim: De um adeus

Sem mais, semana que vem tem mais.

14 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – AIRÔ BARROS

Airô Barros

Cantora, compositora, pintora e poeta, Airô Barros, aos 8 anos, já era responsável por aprender canções e ensinar para os alunos do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Palmares-PE, onde foi interna por 8 anos.

Antes de completar 15 anos, já cantava em casamentos e festas comemorativas, além de recitar poemas.

Pós-graduada em Artes pela UNESP, tem vários quadros selecionados em salões de arte. Tanto a capa do livro, quanto à capa do “CD – Terra em Transe” são de sua autoria.

“A Natureza das Coisas”, de Aciolly Neto, Arranjo de Fernando Merlino, com Airô Barros

Airô nasceu em 28 de agosto de 1962, no município de Capoeiras-PE. Fez violão no Conservatório Pernambucano de Música, além de ter estudado Teoria Musical na Ordem dos Músicos do Brasil. Costuma dizer que “como violonista, é uma boa cantora”.

Aluna de canto de Sonia Campos, Cecília Valentin, Maria Alvin e Paulo Menegon. Participou dos corais de PUC, CUCA, e do Coral da FESP. Tem pós-graduação em Artes pela UNESP-SP.

Iniciou a carreira profissional, em 1985, em show na Casa da Cultura do Recife.

Depois disso começou a cantar na noite. Mas para Airô, “cantar na noite é andar para trás. Os donos de bar, de um modo geral, querem sempre levar vantagem em cima do grupo musical. Uma vergonha. Agora só me apresento em locais, quando fechamos um valor antes e combinamos que o receberemos no final da apresentação”.

“Terra em Transe”, de Gladir Cabral, com Airô Barros

Natural de Pernambuco, é uma andarilha por vocação, levando sua arte Brasil afora. Além de São Paulo, Airô tem raízes também fincadas também no Paraná.

Artista múltipla, que passa pelo canto, composição, artes plásticas e poesia, torna-se um alento, em tempos barulhentos, ter sua voz mansa, clara e madura.

“De Volta pro meu Aconchego”, de Dominguinhos e Nando Cordel, com Airô Barros

Semana que vem, tem mais…

Fontes:

Cana Musical;
Ritmo Maelodia;
Wikipedia;
Youtube;
Acervo pessoal

7 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – TIA AMÉLIA BRANDÃO

Tia Amélia: a primeira mestra

Amélia Brandão Nery já esteve aqui em nossas páginas, brilhando noutra série dita assim “Os Quase Anônimos Grandes Nomes da Música Brasileira”, publicada em agosto de 2015.

Quando relembrarem do trabalho, carreira, vida e talento verão porque “Tia Amélia” está também – obrigatoriamente – aqui, como estaria em tantos outros títulos e tópicos que se viesse a escrever sobre música pernambucana e brasileira.

Ficou conhecida do grande público, por breve tempo, por meio da canção “Minha Tia”, de Roberto e Erasmo Carlos, gravada em 1976. No início da carreira, quando Roberto foi morar no Rio, ficou hospedado na casa de tia Amélia, lá na Vila da Tijuca, recebendo influência sua nos primeiros passos.

O apelido “Tia Amélia”, que alguns creditam a Roberto, na verdade foi consagrando em crônica escrita em 1953, por Vinícius de Moraes.

Quem “descobriu” Amélia Brandão para mim foi Zeca Macedo, irmão, músico e que guarda uma bela memória musical.

Pois bem, passei semanas lendo e ouvindo tudo o que tinha sobre Amélia.

Casa onde residiu Amélia Brandão, na Rua Duque de Caxias, em frente a Pça Santos Dumont, próximo aos Correios de Jaboatão-Centro

Nascida em Jaboatão-PE (hoje, Jaboatão dos Guararapes) em 25 de maio de 1897, morreu em Goiânia-GO, em 18 de outubro de 1983.

Pianista e compositora, começou a carreira como pianista erudita, mas passou a dedicar-se sobretudo à música brasileira, particularmente, ao choro, sendo muitas vezes comparada a Chiquinha Gonzaga (Rio, 1847-1935), de quem foi contemporânea.

Amélia nasceu em família de músicos. O pai era violonista, clarinetista e regente da banda da cidade, enquanto a mãe tocava piano. Aos 4 anos, Amélia já tocava piano de ouvido; aos 6, iniciou aulas de música; e aos 12 anos, compôs a valsa “Gratidão”.

Enquanto caminhamos em sua biografia, podemos começar a entender melhor “Tia Amélia”, com o belíssimo maxixe “Bordões ao Luar”, com André Mehmari (piano) e Marco Aurélio (bandolim) de 1959.

Bordões ao Luar, de Tia Amélia, Seu desejo era ser artista, mas o pai e, depois o marido, tentaram impedir que seguisse carreira. Mesmo assim, Amélia fazia pesquisas sobre o folclore brasileiro, que serviriam, mais tarde, de tema para suas composições.

Casou-se aos 17 anos com um rico fazendeiro, escolhido pelo pai. Deixou o engenho Jardim, em Moreno-PE, município vizinho a Jaboatão, onde foi morar, na fazenda do sogro, que morreu dois anos depois do casamento do filho. Atolado em dívidas, o engenho teve de ser vendido, bem como a fazenda.

Após a perda dos bens, o marido de Amélia não existiu e morreu, vítima de colapso, deixando-a viúva aos 25 anos, com quatro filhos para criar. Chegou a vender o próprio piano para ajudar nas despesas de casa.

Amélia Brandão – Maestríssimo Cipó

Certa vez, ao se apresentar em recital de caridade deixou entusiasmado com sua interpretação, o governador do estado, que lhe concedeu apoio para empreender uma turnê, durante a qual pode se realizar como pianista internacional.

Em 1929, foi ao Rio de Janeiro para esclarecer uma questão de direitos autorais relacionados com uma composição sua, gravada sem autorização pela Odeon. Na capital federal, contratada para se apresentar em um concerto no antigo Teatro Lírico, obteve enorme sucesso. Trabalhou em diversas emissoras de rádio e tocou piano com Ernesto Nazareth.

Na Odeon, além de recebido seus direitos autorais, foi convidada para a gravação de um disco.

Casa de Farinha, de Amélia Brandão Nery – com Stefana de Macedo, gravação de 1930

Em 1933, a convite do Itamaraty, Amélia fez uma excursão pelas Américas, com sua filha, a cantora Silene de Andrade. Em Washington, EUA, chegou a jantar com presidente Franklin Roosevelt e esteve com celebridades como Greta Garbo e Shirley Temple.

Representava o Brasil, a pedido de Getúlio Vargas. Sua última gravação em 1980, aos 83 anos, foi pelo selo Marcus Pereira.

Semana que vem tem mais…

Fontes:

1. Site ‘Famosos que Partiram’ – Tia Amélia;
2. DE MORAES, Vinícius. Samba Falado (crônicas musicais). Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008;
3. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira;
4.Amélia Brandão por Semira Adler Vainsencher;
5. Portal Luiz Nassif

31 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – MYRIAM BRINDEIRO

Myriam Brindeiro: dama da música e da poesia

A música é sua vida, começou cedo, ainda garota adorava ouvir a mãe ao piano e passaria a estudar o instrumento com a professora Núzia Nobre de Almeida.

Nosso personagem de hoje, Myriam Brindeiro, nascida no Recife em 26 de junho de 1937, é membro da Academia Pernambucana de Música e da União Brasileira de Escritores.

Poetisa, compositora, pesquisadora, fez parte da “Geração 65” e foi uma das lideranças nas atividades das “Edições Pirata” (1979/1983), fazendo de sua residência em Apipucos o local onde eram encadernados os livros desse movimento editorial, e no qual se reuniam seus participantes.

O movimento era liderado pelos poetas Jaci Bezerra, Alberto Cunha Melo, integrantes da “Geração 65” e a escritora Eugênia Menezes. Também estavam ali os escritores Maria do Carmo de Oliveira, Nilza Lisboa, Amarindo Martins de Oliveira, Andrea Mota, Vernaide Vanderley, Ednaldo Gomes e Celina de Holanda.

Os livros eram produzidos às escondidas, ou seja, pirateados, na gráfica da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Posteriormente, seus editores adquiriram uma impressora de segunda mão e alugaram um local para instalar o equipamento.

“Desencanto”, de Manuel Bandeira, com Myriam Brindeiro

Licenciada em Ciências Sociais pela FAFIRE – Faculdade de Filosofia do Recife -, em 1959, realizou cursos de aperfeiçoamento e especialização em planejamento educacional e em televisão educativa.

Diretora da Divisão de Estudos e Pesquisas Sociais do Centro Regional de Pesquisas Educacionais do Recife INEP/MEC, foi também pesquisadora assistente e diretora da Divisão do Departamento de Educação do antigo Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco.

Depois dos primeiros passos no violão, Myriam começou a aprender com afinco o instrumento com o professor Gerson Borges, no Recife.

Filha primogênita do médico Djair Falcão e de Judite Brindeiro, seu pai, conhecido pela competência profissional, era famoso entre as mulheres pela beleza.

Inesperadamente, entrou na política quando, na qualidade de suplente, teve de assumir a cadeira de Senador da República, na vaga de Etelvino Lins, que se afastou do Parlamento, para governar Pernambuco.

Myriam, aos quinze anos, passou a residir no Rio de Janeiro, onde trocou o Curso de Pedagogia pelo Científico, voltando ao Recife depois.

“Recife das Pontes”, letra e música de Myriam Brindeiro

Casou-se, ainda jovem, com o engenheiro agrônomo e advogado Alberto de Moraes Vasconcelos, que por muitos anos ocupou o cargo de delegado do Ministério da Agricultura, em Pernambuco.

O casamento com Alberto a levou para uma vida mais boêmia. Seu marido fazia acompanhá-lo em todos os recantos da vida noturna do Recife e de Olinda.

Dona de uma bela voz e de uma vocação natural, Myriam desabrochou e começou a se destacar na música e na poesia. Nessa época, conheceu e se tornou amiga de cordelistas, pintores, escritores, poetas, cantores e outros artistas dos idos dos anos 1960.

“Forró Ligeiro”, de Myriam Brindeiro, interpretada pela mesma

Possui mais de 200 composições, entre as quais se destacam “Ladeiras de Olinda”, de 1978; “Recife das Pontes”; “A Paz Acalanto para Gilberto”, homenagem ao sociólogo Gilberto Freire; e “Canto dos Emigrantes”. Musicou ou fez parceiras com Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes e Alberto da Cunha Lima.

Semana que vem, tem mais….

Fontes: MPB – “Compositores Pernambucanos/100 Anos de História – Renato Phaelante”; Arquivo Pessoal; Wikipedia; Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ.

24 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – NENA QUEIROGA

Nena Queiroga: carnaval na veia; música da cabeça aos pés

Quando iniciei esta série, pensava em reunir 10 grandes nomes de cantoras e compositoras de Pernambuco, mesmo que nascidas em outros estados.

Tal qual a mineira Irah Caldeira – ultima crônica – agora trago Nena Queiroga, que nasceu fora – no Rio -, mas é pernambucana por adoção e na formalidade do título de cidadã.

Também me trouxe grande satisfação as sugestões do público, que como se diz, teve participação interativa. Exemplo: Lia de Itamaracá, foi sugestão caseira, de minha revisora, E.Podolski. Agora trago Nena, por indicação de minha fiel leitora, a querida Rejane Ferreira.

O engraçado é que estes dois nomes estariam obrigatoriamente em qualquer lista com este tema, mas havia passado batido. Esta integração é a melhor resposta que se pode ter quando nos metemos a criar temáticas, como diria o amigo Bruno Negromonte.

Mas vamos a Nena: Maria Consuelo Gama de Queiroga nasceu no Rio de Janeiro, junho de 1967 e é considerada a “rainha do Carnaval de Pernambuco”.

Duda no Frevo, de Senô, com Nena, só no gogó

Criada no Recife, em 2011, recebeu o título de Cidadã Pernambucana. De família intensamente musical, Nena Queiroga é filha do radialista, compositor e humorista Luiz Queiroga e Mêves, cantora. Ambos renomados artistas da “Era de Ouro da Rádio Pernambucana”.

Aos 12 anos, já acompanhava sua mãe no trabalho e começou a gravar voz infantil. Na mesma época, fez parte do “Grupo Quarto Crescente”, liderado por seu irmão mais velho, o cantor e compositor Lula Queiroga.

Com 16 anos, começou a cantar em orquestras, animando bailes de carnaval nos clubes da cidade do Recife. Sua estreia como cantora foi com a orquestra do maestro Duda. Logo depois, assumiu o posto de “crooner” da orquestra do maestro Guedes Peixoto.

Ainda muito jovem, começou a cantar na então disputada casa de shows “Som das Águas”, onde conheceu entre tantos amigos que a influenciaram profissionalmente, como o Maestro Spok e o compositor André Rio.

Em 2005, começou oficialmente a puxar um dos trios do Galo da Madrugada, considerado pelo “Guiness Book” como o maior bloco do mundo.

Passou a ser conhecida como a Rainha do Carnaval de Pernambuco por ser a única mulher a ter seu próprio trio e a cantar o desfile inteiro sem parar, além do destaque nos shows do período carnavalesco.

Nena Queiroga – Por-pourri de Frevos de Bloco

Em fevereiro de 2014, gravou seu primeiro DVD “Pernambuco para o mundo”, evento que reuniu público de 60 mil pessoas no Cais da Alfândega, no Recife antigo.

O show contou com os convidados especiais: Ivete Sangalo, Maria Gadú, Lenine, Elba Ramalho, Luiza Possi, André Rio, Ed Carlos, Gustavo Travassos, Maestro Forró, Maestro Spok, Ylana Queiroga, coral Edgard Moraes e Orquestra dos Prazeres.

Além de músicas do Carnaval, Nena tem uma grande inserção na música interiorana, São João, xotes, forrós e baiões.

Seu primeiro CD, “Xotes e Forrós”, levou-a para a final do “Prêmio Tim de Música Brasileira 2006”, competindo com álbuns de Ivete Sangalo e Daniela Mercury.

Nena é mãe de Ylana Queiroga, cantora e compositora, e de Yuri Queiroga, músico guitarrista, arranjador e produtor musical premiado com trabalhos de álbuns de artistas como Elba Ramalho, Lula Queiroga e outros.

Desse fruto vieram os netos, Bento Queiroga, Tomé Queiroga filhos de Ylana e Flora, filha de Yuri.

Frevos do Galo da Madrugada, com Nena Queiroga

Segundo a própria cantora, sua maior realização de vida além de ser artista, mãe e vó, é poder ter parte de seu tempo dedicado a trabalhos sociais, além de participar com frequência de shows e eventos beneficentes.

Nena tem seus próprios projetos e, há bastante tempo, promove eventos que arrecada renda pras duas instituições que ela adotou e faz parte “Creche Manoel Quintão – Olinda/PE” e “Projeto Sertânia sem fome – Sertânia/PE”.

Em 2016, Nena foi convida pela amiga Ivete Sangalo para puxar seu trio no tradicional “Arrastão” na Quarta de Cinzas que encerra o carnaval de Salvador – BA. Foi um marco – rompendo assim, a questão de rivalidade nas cidades carnavalescas de uma vez por todas.

(Infelizmente neste dia, Ivete passou mal, e por motivos de doença não conseguiu cumprir o evento e Nena juntamente com outros artistas comandaram o trio da cantora por ela).

Este articulista lembra que, no sentindo inverso, Moraes Moreira também fez um link bem produtivo com o carnaval pernambucano.

Semana que vem, tem mais…

17 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – IRAH CALDEIRA

Irah Caldeira: o trajeto do São Francisco

Como o Velho Chico, Irah Caldeira começou seu trajeto, quando resolveu viajar pelo norte e nordeste do país, a fim de pesquisar e aprender ritmos musicais do Maranhão, Pará e Bahia. Finalmente, fixou residência em Pernambuco.

A caminhada de Irah refez em sentido histórico o mesmo percurso do rio São Francisco em sua trajetória em direção ao mar.

Nascida em Minas Gerais, iniciou sua carreira como cantora na década de 90, obtendo grande respeito da crítica especializada pela forma com que interpreta as canções, com espontaneidade, técnica e também pela qualidade com que seleciona as canções que compõem seu repertório.

Ao longo da carreira, gravou músicas de compositores como Zé Marcolino, Petrúcio Amorim, Accioly Neto, Maciel Melo e Anchieta Dali, entre outros.

Lançou seu primeiro CD em 1999, que recebeu o título de “Mistura Brasil”, no qual interpretou músicas “A natureza das coisas”, de Accioly Neto; “Canto do rouxinol”, de Caxiado; “Mentiras do vento” e “Cantar dor”, de Roberto José; “Eu fiz que não te vi”, de Totonho; “Siá Filiça”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino; “Ilusão”, de Roberto Lintz; “Ciência popular”, de Domingos Accioly e Jucéia Vilella, em faixa que contou com as participações especiais de Rogério Menezes e Raimundo Caetano; “A lata do lixo”, de Zé Marcolino; “Cidades gêmeas”, de Fabiano Otoni Vieira; “Reggae do sol”, de Paulo Long e Jucélio Vilella, e “Mais fundo que qualquer raiz”, de Ricardo Cardoso.

Irah Caldeira, Oração do Sanfoneiro, de Xico Bizerra – com mestre Camarão. Primeiro “DVD – GIRASSOL DE DESEJOS”, de 2009

Continuou realizando shows pelo estado de Pernambuco e, em 2001, lançou seu segundo CD, “Canto do rouxinol”, com produção sua e de Carlos Firmino, no qual cantou as músicas “A cartilha da canção”, de Fátima Marcolino e Mariua da Paz; “Tributo a Zé Marcolino”, de Maciel Melo; “Bole bole da sanfona”, de Abel Carvalho e Patrick Jr.; “Faz de conta”, de Maria da Paz e Jotta Moreno; “Festejos de beija-flor”, de Anchieta Dali; “Canto do rouxinol”, de Tita Caxiado; “Sina de baião”, de Diego Reis e Camarão; “Pra ganhar teu coração”, de Félix Porfírio e Noel Tavares; “Cidade grande”, de Petrúcio Amorim; “Noquinha da Lagoa”, de Manoel Santana e Reginaldo Moreira; “A cura”, de Ancieta Dali e Bia Marinho; “Cantador de coco”, de Valdir Santos; “Noite de festa” e “Forró mineiro”, de Edgar Mão Branca, e “Apreço ao meu lugar”, de Paulo Matricó.

Em 2004, lançou, com produção sua e Jorge Ribbas, o CD “Irah Caldeira canta Maciel Melo” no qual interpretou 15 composições de Maciel Mello: “Caia por cima de mim”; “Cheiro de terra molhada”; “Feira de sonhos”; “Jeito maroto”; “Tama de pedra”, faixa que contou com a participação do próprio Maciel Melo; “Que nem vem-vem”; “Não é brincadeira”; “Caboclo sonhador”; “Firirim fom fom” e “Um veio d’água”, todas composições solo de Maciel Melo, além de “Minha fala”, de Maciel Melo e Nico Batista; “A poeira e a estrada”, de Maciel Melo e Cláudio Almeida, que contou com a participação especial de Dominguinhos; “Pra ninar meu coração”, de Maciel Melo e Luiz Fidélis; “Coco peneruê”, de Maciel Melo e Jessier Quirino, e “Retinas” e “Nos tempos de menino”, de de Maciel Melo e Virgílio Siqueira.

Aperto o Nó – de Fred Monteiro, com Irah Caldeira

Em 2006, lançou o CD “Entre o calango e o baião”, que teve produção e direção musical suas e no qual cantou as músicas “Quero ter você”, de Pekin e Mourão Filho; “Aperta o nó”, de Fred Monteiro; “Oceano do querer”, de Maria da Paz e Xico Bizerra, com participação especial de Dominguinhos; “Me perguntaram, eu respondi”, de Herbet Lucena e Xande Raséc; “Faça isso não”, de Biguá; “Porteira da saudade”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino; “Sem chance”, de Rogério Rangel e Petrúcio Amorim; “Segura o forró”, de Félix Porfírio; “Avoante”, de Accioly Neto; “Ainda é tempo”, de Alexandre Leão e Manuca Almeida; “Nordestinês”, de Reginaldo Moreira; “Machado cortador”, de Zé Marcolino; “Sabiá alcoviteiro” e “Chama”, de Selma Santos; “Queimei seu travesseiro”, de J. Miciles, e “Grãos de sonho”, de Roberto José.

Em 2007, realizou uma longa temporada de shows que resultou no CD “Irah Caldeira e banda – ao vivo”, no qual interpretou 36 sucessos do cancioneiro popular nordestino. No ano seguinte, lançou o CD “Irah Caldeira e banda – ao vivo volume 2”.

Já em 2009, gravou no Teatro da UFPE o DVD “Girassol de Desejos” com direção musical de Sandro Maia e com as participações especiais de Bia Marinho, Mestre Camarão, Josildo Sá, Maciel Mello, Petrúcio Amorim e Santana, o Cantador, entre outros.

No mesmo ano lançou o CD “Marias… Das Dores… Daluz! Mulheres compositoras do Nordeste”, um projeto aprovado pelo Funcultura e no qual, acompanhada de sua banda, cantou obras de 17 compositoras nordestinas: Socorro Lira; Dona Maria do Horto; Flávia Wenceslau; Terezinha do Acordeon; Adryana BB; Bia Marinho; Joésia Ramos; Haidée Camelo; Anastácia; Liana Ferreira; Kelly Benevides; Rita de Cássia; Selma do Coco; Khrystal e Jussara Kouryh, além de composições de sua autoria. Em 2012, participou da coleção tripla de CDs “Pernambuco forrozando para o mundo – Viva Dominguinhos!!!”, produzida por Fábio Cabral, cantando, ao lado de Dominguinhos, a música “A poeira e a estrada”, de Claudio Almeida e Maciel Melo.

A coletânea trouxe forrós diversos interpretados por 48 artistas, e que fazem referência aos 50 anos de carreira do seu inspirador: Dominguinhos. Interpretando músicas de compositores em sua grande maioria pernambucanos, fizeram parte do projeto também artistas como Acioly Neto, Adelzon Viana, Dudu do Acordeon, Elba Ramalho, Jorge de Altinho, Petrúcio Amorim, Liv Moraes, Hebert Lucena, Geraldo Maia, Sandro Haick, Spok, Jefferson Gonçalves, Chambinho, Joquinha Gonzaga, Maciel Melo, Luizinho Calixto, Silvério Pessoa, Walmir Silva, entre outros, além do próprio Dominguinhos.

Agora Irah Caldeira, com a melhor intepretação dessa música que é meu xodó “Tareco e Mariola”…

Mineira, radicada no nordeste, Irah Caldeira canta o forró, e outros ritmos nordestinos, com a alegria e leveza de uma autêntica filha da terra.

Para Irah, a música regional não está limitada a um estado e sim a todo o povo brasileiro, entendendo que a cultura de qualquer ponto do país, é patrimônio de toda a nação.

Com uma carreira artística consolidada em Pernambuco, Irah segue a mesma estética musical que nos presenteou com o canto de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos e outros tantos que perpetuaram o autêntico canto sertanejo em forma de xote, baião, côco, xaxado, forró e toadas, espalhando para todo Brasil, poesia e beleza em forma de canção.

Semana que vem, tem mais…..

10 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – LIA DE ITAMARACÁ

Lia de Itamaracá

Quando surgiu a ideia de fazer Lia, na série “Cantoras e Compositoras de Pernambuco”, pensei: que baita responsabilidade.

Por quê? Ora, poderia atribuir esse cuidado a alguns títulos e elegias feitos a Lia mundo afora. Querem ver? O New York Times denominou-a “Diva da Música Negra”; Lia é “Patrimônio Vivo de Pernambuco”, título registrado pela FUNDARPE; pelo Ministério da Cultura, recebeu prêmio “Medallha do Mérito Cultural”.

Mas os títulos e formais e honorários são resultado de um trabalho artístico inédito, incomum e de beleza especial.

Lia de Itamaracá sintetiza o som da beira da praia, da areia, o ritmo sincopado de vai-e-vem das ondas do mar.

Porém, como tudo que é mito, ícone e encantado, já houve quem duvidasse da existência real de Lia.

Para muita gente, trata-se de uma personagem que vive apenas nos versos “Essa ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”, menção à música extraída do folclore, citada por Teca Calazans, em 1963.

Mas Lia é real e tem 73 anos. Maria Madalena Correia do Nascimento é dançarina, compositora e referência como cantora da ciranda brasileira. Nasceu em janeiro de 1944, na Ilha de Itamaracá, Pernambuco.

“Mamãe Oxum/Ciranda do Amor, 2011, no Circo Voador

Lia sempre morou na Ilha de Itamaracá e, ainda criança, começou a participar das rodas de ciranda. É considerada a mais famosa cirandeira do Brasil. Trabalhou como merendeira de uma escola pública da Ilha.

Gravou seu primeiro disco em 1977, pela Rozemblit, intitulado “A Rainha da Ciranda”. Em 1998, apresentou-se no “Abril Pro Rock”, o que a fez famosa nacionalmente. No início dos anos 2000, lançou “Eu Sou Lia”, distribuído também na França.

Moça Namoradeira, com Lia de Itamaracá

Participou do curta do cineasta pernambucano Kleber Mendonça (Aquarius) “Recife Frio”. No filme, aparece cantando sua famosa ciranda “Eu Sou Lia e Preta Cira”, vestida com roupas de frio na praia de Itamaracá.

Em 2003, a cineasta carioca Karen Akerman começou a registrar a vida da cirandeira, para um documentário sobre Lia.

O jornal francês Le Parisien comparou sua voz à da cabo-verdiana Cesária Évora
Enorme mulher de 1m80: surpreendeu-se Hermínio Bello de Carvalho ao conhecer Lia

Ciranda

É uma dança típica das praias que começou a aparecer no litoral norte de Pernambuco. Uma das cirandeiras mais conhecidas é a Lia de Itamaracá. Surgiu também, simultaneamente, em áreas do interior da Zona da Mata Norte do Estado.

É muito comum no Brasil definir ciranda como uma brincadeira de roda infantil, porém na região Nordeste e, principalmente, em Pernambuco ela é conhecida como uma dança de rodas de adultos. Os participantes podem ser de várias todas as faixas etárias.

Há várias interpretações para a origem da palavra ciranda, mas segundo o Padre Jaime Diniz, um dos pioneiros a estudarem o assunto, vem do vocábulo espanhol zaranda, que significa instrumento de peneirar farinha e que seria uma evolução da palavra árabe çarand.

A ciranda, assim como o coco em Pernambuco, era mais dançada nas pontas-de-rua e nos terreiros de casas de trabalhadores rurais, partindo depois para praças, avenidas, ruas, residências, clubes sociais, bares, restaurantes. Em alguns desses lugares passou a ser um produto de consumo para turistas.

É uma dança comunitária que não tem preconceito quanto ao sexo, cor, idade, condição social ou econômica dos participantes, assim como não há limite para o número de pessoas que dela podem participar. Começa com uma roda pequena que vai aumentando, a medida que as pessoas chegam para dançar, abrindo o círculo e segurando nas mãos dos que já estão dançando. Tanto na hora de entrar como na hora de sair, a pessoa pode fazê-lo sem o menor problema. Quando a roda atinge um tamanho que dificulta a movimentação, forma-se outra menor no interior da roda maior.

A homenagem de Capiba

Minha Ciranda, de Capiba, com o Coral Madeira de Lei

Os participantes são denominados cirandeiros, havendo também o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda.

Voltados para o centro da roda, os dançadores dão-se as mãos e balançam o corpo à medida que fazem o movimento de translação em sentido anti-horário. A coreografia é bastante simples: no compasso da música, são quatro passos para a direita, começando-se com o pé esquerdo, na batida forte do bombo, balançando os ombros de leve no sentido da direção da roda.

O bombo ou zabumba, mineiro ou ganzá, maracá, caracaxá (espécie de chocalho), a caixa ou tarol formam o instrumental mais comum de uma ciranda tradicional, podendo também ser utilizados a cuíca, o pandeiro, a sanfona ou algum instrumento de sopro.

O mestre cirandeiro é o integrante mais importante da ciranda, cabendo a ele “tirar as cantigas” (cirandas), improvisar versos, tocar o ganzá e presidir a brincadeira. Utiliza um apito pendurado no pescoço para ajudá-lo nas suas funções.

O contra-mestre pode tocar tanto o bombo quanto a caixa e substitui o mestre quando necessário. As músicas podem ser as já decoradas, improvisadas ou até canções comerciais de domínio público transformadas em ritmo de ciranda.

Pode-se destacar três passos mais conhecidos dos cirandeiros: a onda, o sacudidinho e o machucadinho. Alguns dançarinos criam passos e movimentos de corpo, mas sempre obedecendo a marcação que lhes impõe o bombo. Não há figurino próprio. Os participantes podem usar qualquer tipo de roupa e a ciranda é dançada durante todo o ano.

A partir da década de 70, as cirandas começaram a ser dançadas em locais turísticos do Recife, como o Pátio de São Pedro e a Casa da Cultura, modificando um pouco a dança que se tornou mais um espetáculo. O mestre, contra-mestre e músicos saíram do centro da roda para melhor se adaptarem aos microfones e aparelhos de som, passando também a haver limite de tempo para a brincadeira. Compositores pernambucanos como Chico Science e Lenine enriqueceram seus repertórios, utilizando a ciranda nos seus trabalhos.

Semana que vem tem mais…

Fontes: Wikipedia; Acervo Pessoal; Fundaj; Hermínio Bello de Carvalho.

3 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – SELMA DO COCO

Selma do Coco

Arrrrrá!!!! Dona Selma do Coco, nascida na Zona da Mata, conviveu com a música tradicional pernambucana, em especial o coco de roda, desde a infância, nas festas juninas que frequentava com seus pais.

Selma Ferreira da Silva nasceu em Vitória de Santo Antão-SP, em dezembro de 1935, falecendo em maio de 2015.

Aos 10 anos, mudou-se com a família para o Recife. Casou-se muito jovem, depois de ter dois filhos, ficou viúva. Selma criou ainda 14 sobrinhos. Morou 15 anos no bairro da Mustardinha, na capital pernambucana. De lá, foi morar em Olinda, onde vendia tapioca. Para atrair os turistas e aumentar o faturamento, cantava o coco enquanto trabalhava.

“Dá-lhe Manoel”, com Selma do Coco

Ganhou fama nos anos 90, quando foi descoberta pelo pessoal do Manguebeat, como Chico Science, que começaram a elogiar suas músicas. Passou a apresentar-se em festas populares, nas quais vendia fita cassete, gravadas artesanalmente com seus trabalhos.

Em 1996, apresentou pela primeira vez para um grande público, no Festival Abril Pro Rock. No ano seguinte, seu coco “A Rolinha” fez sucesso no carnaval do Recife e de Olinda. Gravou seu primeiro CD, em 1998, com músicas compostas em parceria com Zezinho. O trabalho lhe rendeu, no ano seguinte, o Prêmio Sharp.

Santo Antonio, com Selma do Coco

Em 2000, apresentou-se no Festival Lincoln Center, Nova York e no Festival de Jazz de Nova Orleans, além de fazer shows na Alemanha, Bélgica, Espanha, Suíça e Portugal.

Durante a excursão pela Europa, atendendo a um convite do Instituto Cultural de Berlim, gravou o disco “Heróis da Noite”, ao lado de cantores africanos.

Em vida, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

O Coco

É um ritmo típico da região Nordeste do Brasil. Sua origem é atribuída a três estados: Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O nome refere-se também à dança, ao som desse ritmo. Com influência indígena e africana, é uma dança de roda, acompanhada de cantoria e executada em pares, fileiras ou círculos durante festas populares do litoral e do sertão nordestino.

Recebe várias nomenclaturas como pagode, coco de usina, coco de roda, coco de embolada, coco de praia, coco do sertão, coco de umbigada e ainda denominações ligadas ao instrumento mais característico da região: coco de ganzá e coco de zambê.

O som característico do coco vem de quatro instrumentos (ganzá, surdo, pandeiro e triângulo), mas o que marca mesmo a cadência do ritmo é o repicar acelerado dos tamancos (que imitam o barulho do coco sendo quebrado).

A “sandália” de madeira é quase como um quinto instrumento, além disso, a sonoridade é completada com as palmas.

Existe também a hipótese de que a dança teria surgido nos engenhos ou nas comunidades de catadores/tiradores de coco. São figuras notáveis do coco: Amaro Branco, o grupo Raízes de Arcoverde; Jackson do Pandeiro; Jacinto Silva; e d. Glorinha do Coco.

Pot-Pourri com tributo a Jackson do Pandeiro, com Selma do Coco e Lenine,
em Especial da TV Globo

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26 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO

Marinês

A diferença de Marinês (e sua gente) para Almira e Anastácia – nossos personagens anteriores -, é que, embora também casada com músico – o paraibano de Taperoá, o excelente Abdias dos 8 Baixos -, é provável que tenha sido mais famosa que seu parceiro de grupo, ao menos na mídia nacional.

Inês Caetano de Oliveira era o nome de nascimento de Marinês, nascida em São Vicente Ferrer-PE, em novembro de 1935 e morta em maio de 2007, no Recife, aos 71 anos. Seu sepultamento se deu em Campina Grande, na Paraíba.

Marinês morou em Campina e fez sua carreira quase toda no sertão da Borborema.

Cantora, seu repertório incluía forró, xaxado, baião, entre outros ritmos. Filha de pai seresteiro, iniciou a carreira na banda “Patrulha de Choque” do Rei do Baião, que formou com o marido Abdias e o zabumbeiro Cacau, para se apresentar na abertura dos shows de Luiz Gonzaga.

“Peba na Pimenta”, de João do Vale, Adelino Rivera e José Batista

Foi em 1956 que gravou o primeiro disco à frente do grupo “Marinês e sua Gente”, com o qual se consagrou. A canção que marcou Marinês no início foi “Peba na Pimenta”, de João do Vale, José Batista e Adelino Rivera, causando polêmica na época que foi gravada, devido ao seu duplo sentido. Ela aparece cantando a música no filme “Rico ri à Toa”, de 1957.

Então, eu digo: “Imaginem de fosse hoje, com esse falso moralismo que nos assola”.

“Peba na Pimenta”, gravação de 1957, com João do Vale

Leia esse importante depoimento do pesquisado Ricardo Cravo Albin. Eis: “Marinês merece – e sempre mereceu – todas as homenagens que nossos ouvidos, às vezes por demais urbanizados, se negam a prestar ao nordeste e a seu povo. Ainda sobre essa coisa abominável, que é o preconceito contra o simples, o puro, o visceral, a raiz, assaltou-me inda agorinha uma conversa lapidar com o sábio Luiz da Câmara Cascudo.

Dele ouvi, numa das últimas visitas que lhe fiz em Natal, mais ou menos o seguinte:

“ – Mas, mestre, e esses críticos que ridicularizam a música de raiz, dizendo que raiz é mandioca crua, que só dá dor de barriga, se comida?”

“ – Não se avexe, não, meu filho. Esses pobres diabos não sabem nada de nada, ao propor frases idiotas para maus propósitos. E de mais a mais, comer macaxeira só faz bem e dá sustança, tanto quanto a música de raiz. Não esqueça que é ela que sustenta e molda o caráter nacional.

Negá-la é negarem-se os pilotis do Brasil, para ficar só com o forro. Muitas vezes de material tão ruim, que qualquer ventinho mais afoito leva lá pros cafundós.”

Na semana seguinte, já no Rio, visitei outro brasileiro monumental, Luiz Gonzaga. Contei-lhe da conversa com Cascudo, que de imediato o comoveu.

E enquanto Gonzaga desembaçava os óculos suados pela emoção incontida, fez-me um pedido surpreendente:“ – Pois o senhor saiba que eu preciso de seu apoio para uma macaxeira de lei, pura raiz, que se chama Marinês, a quem estou convidando para uma turnê comigo pelo país todo.”

“Pisa na Fulô”, de Ernesto Pires e João do Vale

Além de João do Vale, Gonzaga, Abdias dos 8 Baixos, Marinês gravou Antonio de Barros, Vicente Barreto, Alceu Valença, João Silva, Nando Cordel, Lenine, Geraldo Azevedo em 35 discos originais lançados em toda a carreira.

Semana que vem, tem mais.

19 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ANASTÁCIA

Anastácia

Tal qual Almira Castilho (com Jackson do Pandeiro), Anastácia foi casada e formou uma grande parceria musical com outro dos grandes nomes da música brasileira, mestre Dominguinhos.

Se Almira cantou, compôs e participou de dezenas de filmes, Anastácia teve uma carreira solo, antes e depois de seu casamento.

Anastácia (Lucinete Ferreira, cantora de compositora, nasceu no Recife-PE, em maio de 1941. Seu interesse pela música surgiu muito cedo, aos sete anos de idade.

Nesse tempo, acompanhava um cantador de cocos, na Macaxeira, bairro da capital pernambucana.

Iniciou a carreira em 1954, cantando na Rádio Jornal do Commercio, interpretando canções criadas e gravadas no Sudeste, principalmente os sucessos de Celly Campello.


Anastácia e Dominguinhos, em 1976, programa especial, de Fernando Faro

Em 1960, transferiu-se para São Paulo, onde passou a cantar gêneros nordestinos. Fez shows pelo interior, participando da “Caravana do Peru que Fala!, com Silvio Santos. Em seguida apresentou obras da dupla pernambucana Venâncio e Corumba.

Foi nessa época que recebeu o nome de Anastácia, dado pelo produtor, cantor e compositor Palmeira, então diretor da Chantecler.

Gravou seu primeiro disco em 1960, com as músicas “Noivado Longo”, de Max Nunes, além de “Chuleado”, “A Dica do Deco” e “Forró Fiá”, todas de Venâncio e Corumba.

Em meados da década de 1960, conheceu Dominguinhos, num programa de Luiz Gonzaga, na extinta TV Continental do Rio de Janeiro. Casou-se com Dominguinhos e participou de uma caravana artística com o “Rei do Baião!. Compôs com seu parceiro mais de 50 músicas, das cerca de 200 que escreveu.

Eu Só Quero um Xodo (Anastacia/Dominguinhos), com Anastacia

Em 1969, lançou pela RCA Victor o disco “Caminho da Roça!”, com a participação de Luiz Gonzaga nas faixas “Minha Gente”, “Eu Vou Me Embora”, de Antonio Barros, e Feira do Podre, de Onildo Almeida (o mesmo de “A Feira de Caruaru).

Gilberto Gil gravou “Eu Só Quero um Xodó, parceria dela com Dominguinhos, numa clássica versão, em 1973. Essa música recebeu mais de 20 regravações. Gil também gravou o sucesso “Tenho Sede”, de Anastácia e Dominguinhos, regravando-o em 1994 no disco Unplugged.

“Tenho Sede” (Dominguinhos/Anastácia), com Arismar do Espírito Santo, Robertinho Silva, Heraldo do Monte, Dominguinhos e Gil

Anastácia lançou cerca de 30 discos, constituindo-se num dos maiores nomes do forró. Suas músicas foram gravadas por Nana Caymmi, Claudia Barroso, Jane Duboc, Dóris Monteiro, José Augusto, Ângela Maria, Gal Costa e outros.

Semana que vem tem mais.

12 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ALMIRA CASTILHO

Almira Castilho

Lembrei-me das “mulheres de Tejucupapo”, que até hoje simbolizam a bravura das mulheres pernambucanas.

Aqui, mesmo tocando sempre no tema musical – em tese, aberto a todos os gêneros – pouco falo da participação feminina no cenário pernambucano.

Nesse plano, Chiquinha Gonzaga, está na posição de vanguarda. Podemos pleitear pioneirismo no choro, nas músicas do século XIX, inventados por João Pernambuco, de Sons Carrilhões, Luar do Sertão e Cabocla de Caxangá.

Mas, de parte das mulheres, talvez nossa grande desbravadora seja a magnífica Tia Amélia, a quem já dediquei uma coluna deste Megaphone e dedicarei mais.

Num rápido apanhado de nomes antigos e de gente nova – por favor, aguardo contribuição dos leitores – listei como mulheres cantoras e compositoras pernambucanas ou que fizeram carreira no solo na “Terra de Altos Coqueiros”, Almira Castilho, Anastácia, Marinês (e sua Gente), Tia Amélia, Clarice Falcão, Selma do Coco, Lia de Itamaracá, Teca Calazans (capixaba), Nena Queiroga (carioca, filha de Lula Queiroga), Ylana Queiroga, Glorinha do Coco, Isaar, Irmãs Acioman, Dalva Torres, Nanau Nascimento..

Começo com Almira Castilho, mulher de Jackson do Pandeiro por 12 anos, mas que, por certo, tem um lugar especial nesse universo, além do ultrapassado clichê “atrás de todo grande homem, há uma grande mulher”.

Num raciocínio rápido e superficial, posso pensar em Alma, esposa e mais que palpiteira, uma verdadeira parceira do marido, Alfred Hitchkock; Maria Bonita e Lampião. A conversão deste apotegma se estabelece com Bonnie and Clyde; d. Maria Tereza e Jango; Rita e Roberto de Carvalho, por exemplo.

Cantora. Compositora. Dançarina. De beleza brejeira e nordestina, era linda de se ver no palco, ao lado do exuberante pandeirista, cantando, dançando e arrebatando olhares e sorrisos de Jackson do Pandeiro, seu parceiro e marido.

Antes de seguir a carreira artística, atuou como professora. Dançava e cantava bem, também compunha e ficou famosa exatamente pela parceria com Jackson do Pandeiro, que ela conheceu em 1952, na rádio Jornal do Commercio, onde era rádio-atriz e cantora.


Chiques com chapéu de couro

Sua última aparição pública se deu 2009, quando, na cidade de Recife, recebeu homenagem em nome de Jackson do Pandeiro. Faleceu aos 87 anos, vítima de mal de Alzheimer.

“Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira (1958), com Jackson do Pandeiro

Na opinião deste escriba, “Chiclete com Banana” se insere no contexto do antes e depois do modernismo-psicodelismo e tropicalismo da música brasileira. É um grande manifesto, com uma linguagem panfletária de cordel…

Olindense, Almira Castilho nasceu em agosto de 1924, deixando-nos quando já morava no Recife, em fevereiro de 2011, foi cantora, compositora e dançarina brasileira.
Parceira de Jackson do Pandeiro, com quem foi casada, sua carreira pontuou em composições e apresentações no rádio e no cinema. O casal esteve junto por 12 anos, de 1955 a 1967.

Forró Quentinho, de Almira Castilho

Almira Castilho era professora. Iniciou sua carreira artística em 1954, participando do coro na apresentação de “Sebastiana” por Jackson do Pandeiro. Foi rumbeira e rádioatriz na Rádio Jornal do Commercio, além de ter participado de algumas dezenas de filmes nacionais.

“Chiclete com Banana”, com Marjorie Estiano e Gilberto Gil

Fez mais de 30 músicas na parceria de Jackson, Gordurinha e Paulo Gracindo. “Chiclete com Banana” é o ponto alto de sua carreira. Foi a primeira que se usou o termo samba-rock na terminologia musical brasileira. Como se costuma fazer até hoje, a mídia em geral não registra os nomes dos compositores, arranjadores e produtores musicais, ficando a visibilidade maior para quem aparece e canta no palco do rádio e das televisões, nos CDs, DVDs, Spotify e mídias afins.

Muitas capas com Almira

Por que comecei esta série com Almira? Por um motivo muito pessoal. Era (e continuo) vidrado em Jackson, o rei do ritmo. Para mim, sempre esteve no patamar de Gonzagão, Humberto Teixeira e Zé Dantas, no que diz respeito a música nordestina.

Certa ocasião, Dagô – minha mãe e primeira professora da história da música que tive -alertou: “Junior, você adora Jackson, mas não esqueça que, “por trás dele existe uma artista de primeira grandeza chamada Almira Castilho”.

Penso que d. Dagô chamava a atenção para duas injustiças: a compositora Almira, que ficava mais escondida; e uma boa dose de feminismo pleiteando o espaço da mulher no universo da música nordestina.

Semana que vem, tem mais das mulheres de Tejucupapo da música regional….

5 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


QUEM NÃO CONHECE LUIZ DE FRANÇA!

Luiz de França

Existem músicas que não saem da cabeça nem que a vaca tussa. Falo das canções que ouvimos na infância e por toda uma vida. Muitas vezes, canções regionais como “Eu Vou Prá Lua”, do famosíssimo intérprete e compositor paraense Ary Lobo, em parceria com o pernambucano Luiz de França, Boquinha, têm esse dom.

Formaram aquela famosa linha de cocos, emboladas, rojões e baiões, lida e relida pelos fabulosos Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Rosil Cavalcanti, Jacinto Silva, entre outros.

Eu Vou Pra Lua, de Luiz de França e Ary Lobo, com Ary Lobo

A letra deste rojão me traz à lembrança o Recife antigo, do Campo do Jiquiá, onde pousavam os Zeppelin, na década de 1930. Ainda hoje o único atracadouro de dirigíveis daquele porte, de pé, em todo o mundo.

Da corrida espacial mais recente, os autores trouxeram o soviético Sputnik, verdadeira febre dos interessados em feitos espaciais daquele momento.

São criações, fantasias que juntam um improvável lançamento de um foguete-satélite num atracadouro de Zeppelin.

Eu Vou Pra Lua, com Zé Ramalho, Elba e Geraldo Azevedo

Tudo que se enrola e desenrola na letra é para fazer contraposição aos dias de dureza que se passava aqui na terra, Brasil. Em alguns momentos, parece que estamos em tempos atuais. A ideia de ir para o nosso satélite natural para fugir, expressada nos versos: “Já estou enjoado aqui da terra; Onde o povo a pulso faz regime; A indústria, roubo, a fome, o crime; Onde os preços aumentam todo dia; O progresso daqui a carestia; Não adianta mais se fazer crítica; Ninguém acredita na política; Onde o povo só vive em agonia”.

Perfis:

ARY LOBO (GABRIEL EUSEBIO DOS SANTOS LOBO)

Nascido em 14 de agosto de 1930, foi um músico de forró, natural de Belém, Pará. Ary Lobo foi daqueles gênios que não nascem mais nos dias de hoje, o maior compositor de forró da história, com mais de 700 músicas gravadas por ele e outros cantores, músicos e intérpretes. Um defensor solitário (ou quase) da música nordestina de raiz. Suas gravações são o retrato disso, a começar pelos instrumentos usados, ele não ousava muito, já tinha sua fórmula montada. De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, cantando derivativos do baião, entre cocos e rojões, Ary Lobo lançou vários sucessos nos anos 50 e 60 em seus nove LPs na RCA. Retratava a vida e os costumes nordestinos em diversas canções, como Cheiro da gasolina, Vendedor de Caranguejo, Eu vou pra Lua, Suplica Cearense, Evolução, Menino Prodígio, entre outros..

LUIZ DE FRANÇA – BOQUINHA

Compositor popular, Luiz de França nasceu em junho de 1911, no bairro do Torreão, no Recife, onde, ainda adolescente tornou-se ídolo, cantando suas músicas. Foi um dos grandes divulgadores do Coco, gênero musical preferido. Morreu em junho de 2008.

Também como conhecido como Luiz Boquinha, trabalhou durante 35 anos como carpinteiro na Aeronáutica e durante 16 anos participou de programas de auditório na Rádio Clube de Pernambuco, onde apresentava o programa “A Reportagem da Semana”, que interpretava os acontecimentos por meio de músicas.

Autor de vários folhetos de Cordel, sua canção de maior sucesso foi a parceria com Ary Lobo, “Eu Vou Prá Lua”.

Semana que vem, tem mais….


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