21 fevereiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “MINAS GERAIS”

Vi o Clube da Esquina, dentro do Som Imaginário e os batuques de Minas, olhando para a Serra do Curral, vivendo, imaginando..

Estávamos finalizando nosso primordial passeio ao conjunto arquitetônico da Pampulha, quando veio à mente procurar por resquícios do “Clube da Esquina”, movimento da música mineira que extrapolou, por qualidade, as fronteiras gerais, inclusive as brasileiras.

Eram 3h da tarde, conseguimos achar ali mesmo, pelo móbile, algo parecido com museu e bar do clube da esquina. A alegria foi tão grande que, mesmo sem a exigência, pedimos que reservasse uma mesa. Tudo no pacote: couvert, consumo, astral de clube noturno e uma expectativa enorme.

O sol de 30 e tantos graus, a curta caminhada de 4 quilômetros que fizemos às margens da Pampulha, o vislumbre da Igreja de São Francisco de Assis, de Niemeyer, Portinari e outros mestres, nos cansou. Quando disse curta caminhada é porque a lagoa da Pampulha tem humildes 18 quilômetros de corredores às margens. É grande mesmo. Mas, de Pampulha falarei mais tarde, pois trata-se de uma reserva biológica tão rica e diversa e de um depoimento arquitetônico-escultural tão singular, que só poderei fazê-lo em uma ou mais duas outras colunas.

Pois bem, diante da energia já consumida e da alegria antecipada de mim e minha parceira em ver o Clube da Esquina, restávamos voltar ao hotel – BH é quente! visse – e aguardar a hora para sair ao encontro da noite.

Sim, descansamos, mas não relaxamos. Na minha cabeça, eram cerca de 40 anos de intimidade, música a música, Som Imaginário, Clubes da Esquina, Milton, Lô e Brandt. Voltar ao passado? Que nada, viver o presente eterno e clássico som magistral de Minas, a marca feita por mineiros, mas que cabia gente de toda a parte desde o carioca Milton até o pernambucano Novelli.

Estávamos moderninhos – nem velho metido a guri, nem ex-hippie com cocó nos cabelos milagrosamente longos rs. Para nós era uma cerimônia. E foi.

Chegamos cedo demais – que agonia – umas 20h15. O show para começar as 21h e o burburinho às 23 horas.

Bem, como se diz por aí, relaxamos. Enxerido, fui me apresentando, primeiro identificando Neide, que nos atendeu ao telefone, depois garçons, logísticas e a Virgínia, proprietária da casa. Trocamos e-mails e lhe afirmei que aquele lugar era uma grande atração em Belô.

Numa das fotos aí de baixo (3) pode-se ver na parede cópia da capa do Clube da Esquina nº 2. Significava que, naquela noite, os músicos – ainda produzindo com Milton e outros craques – iriam tocar o disco inteiro de 1978 (nº2). Tão cedo chegamos que ainda flagramos os músicos ensaiando. Que culpa tenho eu!!!

Lá funciona assim, cada dia da semana, executa-se um dos discos do Clube da Esquina, do Som Imaginário, de algum dos músicos da turma em solo, MPB boa demais, até porque seria incompatível coisa menor.

O Bar do Museu do Clube da Esquina, imperdível: em Santa Teresa, perto da Serra do Curral, onde BH nasceu. Quando se sai do universo do ‘Clube da Esquina’, não se levante! Ali, naquele museu sagrado do som, só músicas de excelentes compositores são executadas por músicos de qualidade.

Petiscos, passa e passa, acústica boa para um bar, atendimento de primeira, clima da plateia 10 (ah, às 22 horas, lotou). Público de 8 a 80, diversidade de estilos e origens diferenciadas. Ah, preço honesto para o que se é oferecido!

Nas paredes, escadas, corredores referências a granel aos grandes fazedores do movimento mineiro.

No palco, numa conexão melódica e espiritual com os excelentes Pablo e Beto (violões e teclado). Mas, minha atenção era toda para o palco: melodias, movimentos, vozes, acordes e letras singulares e belas.

Tocaram “Ruas da Cidade”, que recolhi no Youtube.

Guiacurus Caetés Goitacazes
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
Guajajaras Tamoios Tapuias
Todos Timbiras Tupis
Todos no chão
A parede das ruas
Não devolveu
Os abismos que se rolou
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial
Passa bonde passa boiada
Passa trator, avião
Ruas e reis
Guajajaras Tamoios Tapuias
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
A cidade plantou no coração
Tantos nomes de quem morreu
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial

Enfim, foi pura emoção! Se for a Belô, não perca!

14 fevereiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “ESTRADA REAL” E “CIRCUITO DOS INCONFIDENTES”, MG

Impossível ir a Minas sem pensar em JK

Entre os anos 50 e 60, meu pai, em sua rixa pessoal com Belo Horizonte e Salvador, ficava fulo, quando se dizia que a capital mineira estava ultrapassando o Recife em população e, portanto, empurrando a capital nordestina para a quarta posição importância, além de São Paulo e Rio.

Nesses anos aí, Recife começou a receber uma leva de cento e tantos ônibus elétricos de BH, cidade que possuía uma topografia ruim para o uso dos silenciosos e bojudos veículos.

Eu não sei por que cargas d’água, nem quem era o marqueteiro da época. Tiveram a audácia de colocar uma faixa enorme na frente dos veículos: “PROCEDENTE DE BELO HORIZONTE”. Pronto, meu pai bufou; quis saber o que era aquilo, que diferença fazia o mesmo elétrico de Minas para os elétricos de Pernambuco etc. Fulo da vida, seu Joaquim nunca subiu os degraus de um desses ‘PROCEDENTES’. Vingou-se à sua maneira.

Passadas algumas décadas, as rivalidades já reduzidas, meu pai convivendo com os mineiros falecidos lá no céu, me pus eu, e minha eterna parceira, Eva, a visitar as Minas Gerais. Para mim, que gosta de ser viajar, era uma lacuna não conhecer Bel’ Horizonte e as Minas.

Deixarei para falar de culinária, futebol, hospitalidade, prosódia, cultura e tudo o mais no próximo “Megaphone”.

Desta vez, fico com o encanto anímico, atmosférico e astral que BH causa. Ao lado de nosso hotel, no bairro Savassi, ao lado da praça da Liberdade, ponteada pelo Palácio de mesmo nome e um verde sombreando ruas, travessas, avenidas e becos.

Agradável é palavra pouca para descrever o que senti em BH: um povo para lá de simpático, sô. Sem o contagio da megalópole, embora já seja.

A um quarteirão do hotel estava construído o que a nós nos parecia um réplica do Copan de São Paulo. Será que Niemeyer fez uma série de prédios tortuosos por aí? Vejam:

Edifício Niemeyer, em BH – Construído em 1954/55 para fim residencial

Edifício Copan, em SP – Construído por Niemeyer, a partir de 1951, concluído em 1966

O que mais me chamou a atenção no legado de JK como homem público foi a capacidade de congregar gente da mais alta qualidade em cada área de atuação.

Não vou ficar aqui apontando erros, equívocos que cometeu, por exemplo, ao dar prioridade às rodovias, em detrimento das ferrovias; na construção de Brasília, muitas lacunas orçamentárias a ser respondidas.

Permito-me, nesse momento, homenagear o médico, o militar, o homem público que foi prefeito biônico de Belo Horizonte, eleito de Minas Gerais e eleito presidente da República. Tantas outras mortes que estranhas que levaram outros personagens da história, sugaram também JK.

A mim, me parece correto dizer que estava sempre cercado dos melhores, Burle Marx, Portinari, Guignard, Niemeyer, Joquim Cardoso, Lucio Costa e muitos outros. A cultura era sua linguagem principal e com ela identificou um certo novo Brasil.

Bem, tem muito para contar. Fora dos guias e panfletos de turismo da cidade não havia a indicação do “Bar do Museu do Clube da Esquina”, no bairro, onde perto dali todas as turmas dos Clubes da Esquina, Minas, Gerais, Som Imaginário mantêm, com o empenho e a garra da Virgínia, um lugar especial onde quiser ouvir música de ótima qualidade, no clima e na linguagem da época e ficará alucinado como eu fiquei. E mais: os músicos, descendentes diretos dos ‘esquineiros’ estão lá todos os dias para tocar o que for bom, além da fabulosa música das Minas, é claro.

Semana que vem tem mais. Aí um gostinho para lembrar….

Girassol da Cor de Seu Cabelo, de Lô Borges e Milton Nascimento, 1972

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul é a cor de seu vestido?
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol é a cor de seu cabelo?

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido?
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?

24 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – MANEZINHO ARAÚJO

Manezinho Araújo, muitos já ouviram falar, mas poucos sabem quem é: gênio da embolada e pintor de mão cheia

Manezinho Araújo é daqueles artistas que muitos já ouviram falar, mas poucos conhecem o homem de verdade.

Considerado o “Rei da Embolada”, nasceu em setembro de 1910, no Cabo de Santo Agostinho-PE e morreu em maio de 1993, em São Paulo.

Segundo o arquivo da Fundaj – Fundação Joaquim Nabuco – Manezinho, ainda adolescente, conheceu Minona Carneiro, um grande cantador de emboladas que foi seu professor e incentivador.

No início dos anos 1930, Manezinho foi para o Rio de Janeiro, onde chegou a passar fome e, para sobreviver, cantava em cabarés. Por sorte, conheceu alguns músicos e começou a se apresentar em programas de rádio, como cantador de emboladas.

Hospitaleiro, o compositor teve a ideia de montar um restaurante – o “Cabeça Chata” – cujos quitutes eram elaborados por sua esposa Alaíde – a dona Lalá.

Seu restaurante chegou a ser frequentado por inúmeras personalidades nacionais e internacionais, como Edit Piaf, Yul Brinner, Carmen Miranda, Villa-Lobos, Cacilda Becker e Raquel de Queiroz.

Dos anos 30 até a década de 1950, Manezinho gravou mais de 50 discos 78 rpms e 4 LPs. Suas canções foram gravadas por vários cantores brasileiros. Manezinho trabalhou nas rádios Tupi, Guanabara e Mayrink Veiga. Em São Paulo, na Record.

Ainda de acordo com a Fundaj, pode-se afirmar que o interesse dos sulistas pela música popular nordestina se deve a Manezinho Araújo, que participou de vários filmes nacionais, bem como de 22 cinejornais da Atlântida. Em 1945, gravou o calango “Dezessete e Setecentos”, de Luiz Gonzaga de Miguel Lima.

– A embolada é uma das formas mais originais das músicas do folclore do Nordeste. De maneira humorística, o embolador discorre sobre pessoas e fatos, contando vantagens, como se fosse um cronista. Alguns consideram que a embolada tem sua origem na literatura de Cordel.

Polivalente, Manezinho veio a se tornar um dos artistas mais conceitos do Brasil passando a se dedicar, no início dos anos 1960 à pintura. Começou com aquarela e guache, sem orientação alguma e culminou pintando com tinta a óleo.

Em estilo primitivo puro, Manezinho passava para as telas cenas da infância, da juventude e da maturidade, retratando as raízes do Nordeste.

Além de estar presente em museus brasileiros, tem duas telas expostas no Museu Calouste Gulberdian, em Lisboa, Portugal.

“Feira de Caruaru”, Manezinho Araújo, 1971

Escolhi para ilustrar o som de Manezinho Araújo a saborosa e trava-línguas embolada “Para Onde Vai Valente”, gravada pelo autor em 1938:

Pra onde vai, valente?
Vou pra linha de frente,

Tava na venda
C’a pistola e um cravinote
0 muleque deu um pinote
Me chamou mode brigá.

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17 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – “17.700”- II

‘Dezessete e Setecentos’ em produção estrangeira

Retorno a “Dezessete e Setecentos”, sucesso de Gonzaga e Miguel Lima, tão aclamada na coluna da semana passada por sua curiosidade aritmética, seu jogo de palavras e seu ritmo balançado e gostoso de ouvir.

Esta semana, conto um pouco mais da história da música, que chegou a ser reproduzida em filme estrangeiro.

Pecadora (1947) Poster

Em 1947, os Anjos do Inferno, participaram do filme mexicano “Pecadora”, do diretor José Diaz Morales, com roteiro de Pedro Calderon e do próprio diretor.

No elenco, Ramón Armengod, Emilia Guiú, e Ninon Sevilha. Na parte musical, Agustin Lara, Ana Maria Gonzales e o nosso grupo “Anjos do Inferno”.

Anjos do Inferno, Dezessete e Setecentos,
de Luiz Gonzaga e Miguel Lima (Pecadora, 1947)

A sinopse dizia: “Em Ciudad Juárez, uma prostituta decide deixar seu amante, quando ele, traficante, é preso. She marries a rich man, but a pimp from her past reappears unexpectedly. Ela casa com um homem rico, mas um cafetão do seu passado reaparece inesperadamente”.

Os Anjos do Inferno

Era o nome de um conjunto vocal e instrumental brasileiro de samba e marchinha de carnaval, formado em 1934.

Os “anjos” tiveram diversas formações ao longo de uns trinta anos, mas, mesmo assim conseguiu criar uma identidade sonora típica, caracterizada pelo piston. O nome veio como ironia à orquestra “Diabos do Céu”, dirigida por Pixinguinha e muito popular nos anos 30.

O auge da carreira dos “Anjos do Inferno” teria sido nos anos 40, na ‘época de ouro’ do rádio.

Foram contratados pelas principais emissoras de rádio do Brasil, tocaram em cassinos e gravaram diversos sucessos de carnaval. O conjunto excursionou pela América Latina e Estados Unidos, onde acompanhou Carmen Miranda. No total, os “Anjos do Inferno” gravaram 86 discos pelos selos Colúmbia, Continental, Copacabana e RCA.

Curiosamente a mesma música foi gravada no mesmo ano pelo conjunto “Quatro Ases e um Coringa”, rival de “Anjos do Inferno”.

Dezessete e Setecentos, com “Quatro Ases e um Coringa”, 1947

Quatro Ases e um Curinga

Os “Quatro Ases e Um Curinga” foram um conjunto vocal e instrumental brasileiro, formado no Rio de Janeiro. Ao lado dos “Anjos do Inferno”, foram o grupo de maior sucesso na dita “era do ouro” do rádio brasileiro, principalmente nos anos 40.

No começo, todos os seus integrantes eram de Fortaleza, Ceará: Evenor Pontes de Medeiros . violonista e compositor; José Pontes de Medeiros, violonista e cantor; Permínio Pontes de Medeiros, gaitista e cantor; André Batista Vieira, o curinga pandeirista; e Esdras Falcão Guimarães, o Pijuca.

Em 1939, os irmãos Pontes de Medeiros, que estudavam no Rio de Janeiro, decidiram formar um quarteto vocal e instrumental com o amigo André Vieira, chamado de “melé”.

Depois de se formar em Química, dois anos depois, Evenor e os outros três viajam para Fortaleza, onde se apresentam na Ceará Rádio Clube, com o nome de Bando Cearense.

Foi então que se juntou a eles o violonista Esdras Guimarães. Por sugestão de Demócrito Rocha, eles adotaram o nome de ‘Quatro Ases e um Melé’. De volta ao Rio, entraram em contato com César Ladeira, diretor da Rádio Mayrink Veiga, que mudou o nome do grupo para “Quatro Ases e um Curinga, vez que ‘melé era um termo desconhecido no Rio de Janeiro.

Semana que vem tem mais…

PS: Samba-Calango mineiro, lançado em 1945 por Manezinho Araújo e que mereceu, dois anos mais tarde, este registro dos Quatro Ases e um Coringa, feito na Odeon em 18 de abril de 1947 e lançado em julho seguinte, disco 12784-B, matriz 8213.

10 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – “17.700”

Dezessete e Setecentos: que conta difícil prá daná!

Essa é uma das melhores da série. O acontecido é rotina do cotidiano. Questão de troco, aritmética rápida, somar e diminuir em dois tons.

A gente, nossa, lá de cima, adora um presepada, um embaraço, um pergunta charada, para, ‘quebrar o gelo’. Por isso, o dialeto lá do meu Nordeste é recheado de cifras e segredos.

Dia desses, me vi numa enrascada: há quase 40 anos aqui em São Paulo, vez por outra vem um vocábulo que está na memória mais ancestral. Eu disse: “Oh, Eva, tu tens um birilo para eu tentar futucar um buraco aqui e encontrar um pitoco” – Minha mulher, Eva, virou-se e aparvalhada, pediu: “Dá para repetir a frase inteira?. Eu só entendi a palavra buraco”.

É verdade que Evinha tem pequena deficiência auditiva, mas já nos entendemos pelo olhar. Pois bem, parece que o problema não foi nem futucar e nem mesmo pitoco. A questão foi a palavra que biliro, que confesso, não me lembro de pronunciar desde a infância. Minha avó, Maria, usava muito para fazer o cocó no cabelo.

Rápida no gatilho, minha mulher, agora com mania de google para cá, google para acolá, ameaçadora, disse: “Vamos ver se existe essa palavra!”, resmungou.

Ainda fiz um embargo declaratório: “Vá direto ao dicionário, que é o lugar correto de ser aprender o significado das palavras, mesmo os regionalismos”. Ela insistiu no ‘gugo’ e veio o metal berilo, por aproximação.
Insisti no dicionário – Aurélio, Houaiss, até Jânio servia -. O Michaelis resolveu: “birilo – (reg PB-PE) espécie de grampo para amarrar cabelo”.

Se estivesse jogando “forca”, estaria a um pé do cadafalso. Minha amada, então, só se ria. Salvei-mei pela convicção. Questão de memória afetiva, vocês entendem não é! Morrendo de medo…..

Afinal, ela não tinha birilo, nem grampo, não pude futucar, nem achar o pitoco (vernáculo eternizado nacionalmente pelo genial Antônio Nóbrega, que tem entre seus músicos um rapaz com esse singelo apelido).

Hoje, estou aqui para reproduzir aos senhores uma das canções que mais me encantam na série “Dose Dupla” – Crônicas, o humor, o jocoso etc.

Esse introito foi conversa de beira de calçada, ou de mesa de bar, que o encadeamento de ideias me impeliu registrar no papel.

Perdão, pois, se me alonguei. Mas, como diria Chicó, “tudo que disse acima é a pura expressão da verdade, embora não saiba nem dizer o porquê” (Ariano Suassuna).

A história da música “Dezessete e Setecentos” é longa e ensejará a feitura de mais um “Megaphone” que explicará, amiúde, os caminhos, inusitados por onde está canção de Luiz Gonzaga e Miguel Lima fizeram nos anos 1940. Trata-se, como citei acima de uma conta trivial de somar e diminuir, atrapalhada pela semelhança fonética das possibilidades de troco, para quem deu 20 mil réis para pagar 3 mil e 300…O jogo de palavras, a ligeireza, o contraponto de melodia e aliteração chegam as nos “embananar”. Eu já me embanenei….Ouçam com Gonzaga:

Dezessete e Setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima,com Luiz Gonzaga –
Álbum “Chamego”, de 1958

Eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Dezessete e setecentos!
Dezesseis e setecentos!…

Mas se eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Porque dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Sou diplomado
Frequentei academia
Conheço geografia
Sei até multiplicar
Dei vinte mango
Prá pagar três e trezentos
Dezessete e setecentos
Você tem que me voltar…
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!

Mas se eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Eu acho bom
Você tirar os nove fora
Evitar que eu vá embora
E deixe a conta sem pagar
Eu já lhe disse
Que essa droga está errada
Vou buscar a tabuada
E volto aqui prá lhe provar…

Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!…

Mas se lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Porque dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Não, pera aí
Mas se lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas porque
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Mas olha aqui rapá
Dezesseis e setecentos!
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Mas não é dezessete e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Então deixa
É por isso que não gosto
De discutir com gente ignorante
Por isso é que o Brasil
Não “progrede” nisso…

Aqui uma versão do grande Jackson do Pandeiro, mestre do coco, das emboladas, sambas, dono de grandes sucessos nacionais:

Sobre Miguel Lima, sabe-se que foi o primeiro grande parceiro de Gonzagão, antes mesmo de Humberto Teixeira. Os dois fizeram dezenas de parcerias, entre elas “Chamego”, gravado em 1944, por Carmem Costa.

As informações sobre sua origem e biografia são limitadas. Nem mesmo o “Dicionário de Ricardo Cravo Albin” consegue iluminar seus dados artísticos e biográficos…

Poderia ter recorrido a Abílio Neto, Bruno Negromonte, Xico Bizerra, Pelão e alguns mestres-pesquisadores amigos. Mas não deu tempo….

Semana que vem, tem mais….

3 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – PAULO VANZOLINI

Paulo Vanzolini, nosso zoólogo e compositor

Entre os indvíduos da zoologia que receberam seu nome estão Alpaida vanzolinii; Alsodes vanzolinii; Amphisbaena vanzolinii e Anolis vanzolinii.

Paulo Emílio Vanzolini se encaixaria perfeitamente no dito popular que afirma “a ciência perdeu uma grande nome, mas a música ganhou um mestre”.

Qual nada, Paulo Vanzolini, embora sempre afirmasse ser um cientista em primeiro lugar e que fazia música, de vez em quando, pela vocação de boêmio, foi grandioso nas duas atividades.

Um compositor de observação aguda do cotidiano, cronista, que fez também músicas belíssimas e marcantes.

Um dos fundadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Vanzolini foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico; e premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque, em virtude de suas contribuições para o progresso da ciência.

Entre suas grandes contribuições, adaptou a ‘Teoria dos Refúgios’, a partir de estudos com o geógrafo Aziz Ab’Saber e o norte-americano Ernest Williams.

Feitas as devidas e necessárias referências ao cientista Vanzolini, passemos a parte que aqui queremos abordar. Paulistano de 1924 (faleceu em 2013) fez muito mais do que ‘Ronda’, ‘Volta Por Cima’ e ‘Praça Clovis’. É compositor, por exemplo, de ‘Samba Erudito’.
Aliás, como boa parte dos ouvintes comuns, eu não tinha a mínima ideia de que ‘Ronda’, com Bola Sete e Marcia e ‘Volta por Cima’, por Noite Ilustrada eram da autoria de um zoólogo.

Primeiro aprendi a cantar e memorizei a deliciosa “Samba Erudito”, na voz, vejam só, de Chico Buarque, que nem tinha tirado ainda a carteirinha de cantor..

Mas ouvi demais. Achava as informações históricas surpreendentes para uma canção popular. Ficava muito confuso quando se referia a um “tal” de velho Pickard?”. Eu sei lá quem é Picar, rapaz!

Fui à enciclopédia e aprendi. Ouçam como ouvi a primeira vez….

Samba Erudito, de Paulo Vanzolini, 1967, com Chico Buarque

Andei sobre as águas
Como São Pedro
Como Santos Dumont
Fui aos ares sem medo
Fui ao fundo do mar
Como o velho Piccard
Só pra me exibir
Só pra te impressionar

Fiz uma poesia
Como Olavo Bilac
Soltei filipeta
Pra ter dar um Cadillac
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza

E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos

Andei sobre as águas (…)

Samba Erudito, de Paulo Vanzolini, 1967, pelo autor

Ah, ia me esquecendo. Afinal quem foi o tal Piccard, a que Vanzonlini, entre tantos inventores, descobridores e personalidades da história, introduziu em seu samba?

Confesso que, além de desconhecer o Piccard referido, digo que a família do sujeito é enorme e todos com alguma história para contar.

Vamos, então a ela: Auguste Antoine Piccard (é assim que escreve). Nasceu na Basileia, na Suíça, em 1884, e morreu em Lausanne, em 1962. Foi físico, inventor e explorador suíço.
Entre suas principais invenções está o batiscafo, espécie de submarino, utilizado para pesquisas em grandes profundidades. Ele e seu irmão gêmeo (olha aí!) Jean Picard foram também balonistas.

Calma, tem mais: seu filho, Jacques Piccard, desceu ao fundo das ‘Fossas Marianas’, no Pacífico, além de ser conhecido como hidronauta e explorador. Sim, tem mais: Bertrand Piccard foi aeronauta e balonista; Jean-Felix Picard, químico orgânico, aeronauta e balconista; Jeanette Piccard (mulher de Jean Felix) aeronauta e balonista; e dom Piccard, balonista. Espero ter sido fiel à brilhante família!!!

Feliz ano novo! Semana que vem tem mais…

27 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS, HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

Noel e suas deliciosas cronicas e letras jocosas

Ói eu aqui de novo, me deliciando com as obras de Noel Rosa, que tão bem se encaixam na temática desta última série que resolvemos compilar – “Dose Dupla, com Crônicas, Humor, Sátira e o Jocoso na MPB”.

A permanência em três colunas sucessivas trazendo Noel é mais que justificada. Posso afirmar que ainda vou ficar devendo muita coisa.

No caso de “Gago Apaixonado” tenho a canção e principalmente a sugestiva letra de memória desde que o MPB-4 a gravou em 1970, no disco “Deixa Estar”.

Foi desse jeito que aprendi, mas existe uma dezena de outras versões.

Curiosamente, pesquisando o assunto, deparei-me com trabalho de Aquiles, um dos membros fundadores do MPB-4, que estava envolvido em projeto sobre o “Gago”.

Produziu um áudio-livro-pôster reunindo três experiências em uma plataforma: é ao mesmo tempo um pôster da letra “Gago apaixonado”, que Aquiles aponta como samba genial e inventivo composto por Noel Rosa em 1930, cuja concepção poética, repleta de repetições próprias da gagueira, leva a efeitos sonoros e gráficos que anteciparam em décadas o experimentalismo na poesia brasileira.

Não à toa – continua Aquiles – o escritor Mário de Andrade (1893-1945) autor da contemporânea obra Macunaíma (1928), era fascinado por Noel.

Inclui também dois textos inéditos escritos por Aquiles Rique Reis, desde sua fundação, em 1964: um tem função de apresentação biográfica; o outro vai ao humor para recriar ficcionalmente a rixa entre Noel e o também cantor e compositor Wilson Batista (1913-1968).

A terceira experiência, propiciada por “Gago apaixonado”, é auditiva: por meio do recurso QR Code, disponível em smartphones, é possível ouvir a gravação original de Noel Rosa, de 1931.

O flerte com a tecnologia também pode, quem diria, nos transportar ao passado. A arte do poema “Gago apaixonado” ocupa uma área de 62 x 43 cm e foi pensada como um pôster para, desdobrado – e aí está uma função táctil, que antecede à visual -, poder ser emoldurado. Custa R$ 10,00 e está à disposição na Banca Tatuí, São Paulo, capital.

A outra interpretação que trago para hoje é do excelente e sempre sincopado João Bosco, de humor, ritmo e riqueza de canções também de enorme valor:

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

Semana que vem, tem mais.

Feliz Ano Novo para todos os fubânicos, amigos e leitores…

20 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICA, HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

Noel Rosa – João Ninguém

Os queridos leitores podem até pensar: mas se for tudo de Noel, qualquer um faz. O que não falta no arsenal de grandes sucessos de Noel é grande quantidade e qualidade de sua obra. E mais, nela, é visível a predominância do humor, da crônica e da visão heterodoxa do mundo.

É isso mesmo e não nego. Noel é fonte eterna de inspiração de grandes histórias de amor correspondido ou não – Três Apitos – de crônica literária – Conversa de Botequim – e até marchinha de Carnaval – As Pastorinhas (esta com Braguinha).

Como diria Caetano, é uma pletora de canções, melodias e letras, que, por si só, compõem um segmento próprio da música brasileira.

Esta reprodução, que trago para os senhores, traz um brinde especial: é cantada pelo próprio poeta. Para quem não conhece sua voz…..

João Ninguém, de Noel Rosa, com Noel Rosa – 1935

Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar…
Num vão de escada
Fez a sua moradia
Sem pensar na gritaria
Que vem do primeiro andar

João Ninguém
Não trabalha e é dos tais
Mas joga sem ter vintém
E fuma Liberty Ovais
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

João Ninguém
Não tem ideal na vida
Além de casa e comida
Tem seus amores também
E muita gente que ostenta luxo e vaidade
Não goza a felicidade
Que goza João Ninguém!

João Ninguém não trabalha um só minuto
E vive sem ter vintém
E anda a fumar charuto
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

Fazendo a parelha do ‘Dose Dupla’ de hoje, um outro mestre da música brasileira, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que assim como os compositores em geral, não têm a voz como seu melhor instrumento. Mas vejam como está afinado e bonito…

João Ninguém, de Noel Rosa, com Tom Jobim

Aos leitores e amigos que enviaram sugestões, quero dizer que estou trabalhando em cima das músicas e incrementando suas conexões.

Até semana que vem. Como Noel faria aniversário no último dia 11, tenho a impressão que trarei mais um Noel em sua homenagem.

PS: Liberty Ovais (antigo cigarro da Souza Cruz).

13 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

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Noel e suas deliciosas cronicas e letras jocosas

Estava com “Samba Erudito” na cabeça, do nosso querido zoólogo-compositor Paulo Vanzolini, muito mais conhecido por “Ronda” e “Volta por Cima”.

Dei conta de quanto aprecio as letras jocosas, engraçadas, com humor. Lembrei-me de “Pistão de Gafieira”, de Moreira da Silva, todo o universo de Genival Lacerda, que ultrapassa a tênue linha do jocoso para o safado, a dupla intenção, tão difundida no Nordeste.

O brequistas, Moreira e Bezerra, por exemplo, Jards Macalé, Mautner na sátira. Foi que me recordei de Noel, talvez o melhor de todos, na crônica do cotidiano, na auto-depreciação, no relato de situações engraçadas e satíricas.

Não me arriscarei em rever a biografia de Noel ou mesmo parte dela, para não incorrer numa repetição desnecessária. Afinal, quem não conhece Noel?

A única coincidência é que no último domingo, dia 11 de dezembro, foi aniversário da data de nascimento do poeta da Vila. Nasceu no Rio, em 1910 e morreu na mesma cidade, em janeiro de 1937, aos 26 anos.

Hoje, fui atrás de gravações mais antigas e o contraponto com uma versão diferente, além da que Djavan gravou no Songbook de Almir Chediak. Primeiro encontrei, na voz de Almirante: 

“Tarzan (Filho do Alfaiate)” – de Noel Rosa e Vadico, 1936 com Almirante

Quem foi que disse que eu era forte?
Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol…
O meu parceiro sempre foi o travesseiro
E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol
A minha força bruta reside
Em um clássico cabide, já cansado de sofrer
Minha armadura é de casimira dura
Que me dá musculatura, mas que pesa e faz doer

Eu poso pros fotógrafos, e distribuo autógrafos
A todas as pequenas lá da praia de manhã
Um argentino disse, me vendo em Copacabana:
‘No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan’

De lutas não entendo abacate
Pois o meu grande alfaiate não faz roupa pra brigar
Sou incapaz de machucar uma formiga
Não há homem que consiga nos meus músculos pegar
Cheguei até a ser contratado
Pra subir em um tablado, pra vencer um campeão
Mas a empresa, pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato quando me viu sem roupão

A gravação recente, que achei sintonizada com a intenção de Noel Rosa, na sua mais genuína produção, foi a de Zeca Pagodinho:

Certa vez, colhia um depoimento do grande amigo Pelão para uso numa publicação em que trabalhava para lançamento ainda em janeiro de 2016, “São Paulo, um estado de emoções”, para a qual dizia algumas palavras que usei no livro.

Porém não há encontro à toa, quando o interlocutor é Pelão. Claro que aproveitei o papo agradável e alto nível de informação para fazer algumas perguntas fora da pauta.

Lembro que falei sobre a feliz parceria de Noel, com o paulista Vadico, para mim uma curiosidade muito grande.

Pelão, com sua franqueza inegociável, falou: “Olha Macedo, o Vadico foi um ótimo artista, um grande pianista, aqui do Brás, mas Noel era Noel. Um homem que, em oito anos, deixou mais de 400 músicas de qualidade, morrendo aos 26 anos, é inigualável”.

Antes de concluir, quero registrar também a versão cantada por Djavan, que foi a que me formou em “Tarzan”. Lá vai.

O arsenal de canções incluídas nesses gêneros ou jeitos de compor é muito amplo.

Semana que vem, volto com o próprio Noel ou Vanzolini, os de breque, Aldir Blanc e tantos outros. Aliás, aceito sugestões.

6 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICAS INSTRUMENTAIS QUE RECEBERAM LETRA EM OUTRO TEMPO

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Dia 13 de dezembro: choro de 1953, letra de 1986

No sábado, me deliciava, aqui em casa, com o DVD Spock e Orquestra Forrobodó, mais um trabalho de qualidade do Spok, agora navegando pelo repertório do forró.

O trabalho reuniu alguns dos melhores clássicos do gênero. Quando chegou a faixa 08, “Treze de Dezembro”, com o grupo do maestro Spok e a participação do grande sanfoneiro Gennaro, eu me deti.

Curioso é que, em seu depoimento para o DVD, Gennaro, diz, quase espantando que, quando ouviu pela primeira vez a melodia afirmou: “fiquei sabendo que a música era de Gonzaga, aí eu disse para todo mundo ouvir, quem disse que Luiz Gonzaga não é um exímio instrumentista?”.

Dentro do tema que venho trazendo nesta coluna sobre as músicas instrumentais, que não são compostas simultaneamente com a letra e aquelas que só recebem os versos anos e até décadas depois, lembrei-me que “Treze de Dezembro” é um caso especial e, ao contrário do que sugeria quando comparava algumas obras de Pixinguinha, esta ganhou em conteúdo, não feriu e melodia e trouxe a obra, nem tão conhecida, embora bela, para o grande público.

O choro “Treze de Dezembro” foi composto por Luiz Gonzaga, no início dos anos 1950. No primeiro disco, no registro oficial, a composição vem como uma parceria com Zé Dantas, equívoco atribuído ao fato de que os dois estavam numa fase intensa de composição conjunta de músicas e letras.

Vamos ouvir inicialmente a melodia com a sanfona pura de Gonzagão, só instrumental:

“Treze de dezembro”, Luiz Gonzaga (e Zé Dantas) – 1953

Pois bem, Luiz Gonzaga, o “rei do Baião”, nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, em Exu, estado de Pernambuco.

A data foi tornada “Dia Nacional do Forró” e, em 1986 ganhou a letra de Gilberto Gil homenageando Gonzaga. A canção, portanto, foi completada cerca de 30 anos depois. E ficou assim:

“Treze de Dezembro”, de Luiz Gonzaga, letra de Gilberto Gil – 1994

Treze de dezembro

Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze de dezembro
Nasceu nosso rei
O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei jamais

Ao contrário do que considerei em músicas como “Rosa” e principalmente “1 a 0”, que, a meu ver, dispensariam letra pela beleza da composição original na forma instrumental, considero que “Treze de Dezembro” ficou uma obra mais completa e adequada com a letra-elegia de Gilberto Gil…

29 novembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


AS MÚSICAS DE PIXINGUINHA COM LETRA (II)

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Pixinguinha: um dos fundadores da música brasileira

Ainda na temática da música instrumental, que depois recebe letra – e tratando de Pixinguinha – trago para esta coluna a discussão de qual das duas versões se dá mais ao ouvido: a versão instrumental, do mestre Pixinguinha e Benedito Lacerda, ou a música dos dois, acrescida de uma letra. Tenho opinião formada sobre o assunto, que direi ao final do texto. Espero que façam suas apostas!

O choro “Um a Zero”, de dois dos maiores mestres da música brasileira – Pixinguinha e Benedito Lacerda – foi composto em 1919, para comemorar uma vitória do Brasil sobre o Uruguai, na histórica decisão do Campeonato Sul-americano de Futebol, em 29 de maio do mesmo ano.

A partida, das mais difíceis, só foi decidida no segundo tempo da prorrogação, com um gol do lendário Arthur Friedenreich, que naquele jogo ganha o apelido de “o Tigre”. A peleja, no estádio das Laranjeiras, praticamente parou o Rio de Janeiro.

Há quem diga que “1 X 0” foi a primeira música brasileira dedicada ao futebol. O choro ganharia letra, muito tempo depois, feita pelo compositor Nelson Ângelo, um velho conhecido do ‘Clube da Esquina’.

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22 novembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


AS MÚSICAS DE PIXINGUINHA COM LETRA (I)

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Pixinguinha

A música instrumental sempre foi menos apreciada e ouvida no Brasil. Já levantaram muitas teses, pesquisas até foram feitas para tentar detectar o fenômeno.

Poderia voltar ao fim do século 19 em busca de João Pernambuco, Antônio Callado e mesmo Chiquinha Gonzaga, com a criação do violão e do choro brasileiros, num dedilhado nativo, criativo e definitivo para o arcabouço da música nacional.

Escutando o nosso som instrumental apenas por Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, poderíamos pensar na possibilidade de até os dias de hoje ouvirmos mais música tocada que apoiada ou enfeitada por uma letra.

Quando visito Pixinguinha, às vezes diariamente, costumo refletir o seguinte: e se “Carinhoso” e “Rosa” não tivessem letra, como, por exemplo, ‘Urubu”.

Gostaria de contar com os queridos leitores para fazer também essa reflexão: se a música instrumental, nua e crua, prescinde de uma letra, que lhe dê a audição literária; ou, como na maioria dos casos, é certo mesmo que a música venha entranhada na letra e vice-versa.

Penso muito naqueles que, habitantes da Europa, da Idade Média, Renascimento e depois, se satisfaziam com os trovadores.

A minha prosaica peleja não intenta competição, por isso mesmo, sem vencedores, nem vencidos.

A primeira instrumental que aqui reproduzo é a exuberante valsa, logo tocada em choro, “Rosa”! Ah, com o exímio e saudoso Paulinho Nogueira.

Além de ser um dos clássicos da música nacional, Rosa tem uma peculiaridade. Quem relata é o próprio autor: “a valsa foi composta em 1917 e somente anos depois recebeu a letra de Otávio de Souza”.

Pixinguinha continua: “seu título original era “Evocação”, só recebendo letra muito mais tarde. Como manda a regra e a tradição do chorinho, a música foi composta em três partes. Mais tarde, recebe letra apenas para a primeira e a segunda partes e foi gravada e regravada muitas vezes dessa forma”.

Anos antes, a versão original, em três partes e sem letra, foi gravada para o boxe “Choro Carioca, Música do Brasil”, lançado pela Acari.

Bem, e Otávio de Souza, de quem pouco ou quase nada se sabe. Segundo Pixinguinha, Otávio era um mecânico do Engenho de Dentro, bairro carioca, muito inteligente e que morreu novo”.

Ouçam agora Rosa, já com a letra de Otávio de Souza, na voz de Orlando Silva.

A letra de Rosa é um capítulo à parte. Rebuscada, parnasiana e lindíssima, foi composta, como já dissemos, por Otávio de Souza, que nunca mais comporia nada parecido. Um compositor de uma única música, uma obra prima.

Diz a lenda que Otávio se aproximou enquanto o mestre bebia num bar do subúrbio do Rio para falar que havia uma letra que não saía de sua cabeça toda vez que ouvia a valsa. Pixinguinha ouviu e ficou maravilhado.

A gravação feita por Orlando Silva foi a responsável pela popularização de Rosa, com erro de concordância e tudo, no trecho “sândalos dolente”.

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu.

Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos dolentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza.

Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

* * *

ERRAMOS – Na penúltima coluna (08/11) que aqui publicamos, informamos erroneamente que Lenine “ocupava a cadeira 38 da Academia Pernambucana de Letras”. Este colunista pede desculpas a seus leitores, pois nosso grande cantor, compositor e artista múltiplo, jamais pertenceu àquela instituição. Cometi o equívoco que tanto combato: consultar a Internet diretamente, sem confirmar em outras fontes

15 novembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


NANDO CORDEL – FAZEDOR DE GRANDES HITS, NEM TANTO CONHECIDO ASSIM

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Nando Cordel, um senhor compositor

Diz o ditado: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Caí direitinho nele, quando comentei com meu mano Zeca (compositor e instrumentista) “que música linda, linda e de acalanto essa canção de Dominguinhos. No que Zeca, de imediato completou: “de Dominguinhos e de Nando Cordel”, aquele de “Gostoso Demais”.

Faz muito tempo, claro que conhecia esta e tantas outras deste compositor pernambucano, nascido, em 13 de dezembro de 1953, na cidade de Ipojuca. (a coincidência com a data de nascimento de Luiz Gonzaga deve lhe causar orgulho).

Nando é filho de um comerciante que também era poeta e repentista, Seu Manoel do Posto, e de uma dona de casa, Dona Nata,

Nando é o mais velho de 14 irmãos. O sobrenome Cordel surgiu a partir do momento em que iniciou a carreira profissional e a gravadora disse que seu nome não venderia discos, fazendo com que ele usasse o nome artístico “Nando (apelido de Fernando) e Cordel (junção do início de seus sobrenomes Correia e Manoel).

Prefiro a versão que remete à homenagem à literatura de cordel, arte que veio da Europa, se instalou rapidamente e é patrimônio cultural do nordeste brasileiro.

“Gostoso Demais”, de Nando Cordel e Dominguinhos – com Lucy Alves,
gravado em Guarabira-PB

Tem suas canções gravadas por grandes figuras da música popular brasileira com Elba Ramalho, que transformou em sucesso sua primeira parceria com Dominguinhos, “De Volta pro Aconchego”:

Correspondendo ao que sugeria, sua fama como compositor é bem maior que a como intérprete. Já teve músicas gravadas por Chico Buarque, Zizi Possi, Fagner, Maria Betânia, Fabio Jr, Martinho da Vila, Fafá de Belém e Ivete Sangalo, entre outros.

Como intérprete, já lançou cerca de 25 discos e um coleção de 12 CDs dedicados a músicas para meditação e relaxamento.

Nessa fase, produz discos, cujos títulos definem muito bem o que se vai ouvir, a coleção para meditação é composta por músicas instrumentais: Doces Canções, Doce Harmonia, Doce Paz, Doce Luz, Doce Natureza, Dedicado às Flores, Dedicado a Vida, Dedicado à Beleza, Dedicado à Voz e Iluminando a Alma.

Com trabalhos focados na cultura musical pernambucana e nordestina, como forrós e xotes, Nando sofreu influência de outros ritmos como a salsa e o reggae, o artista compõe para diferentes estilos e gerações de intérpretes.

Por isso, suas composições são bem diversificadas, românticas, dançantes e até infantis.
O primeiro violão, aos 15 anos, foi o pontapé inicial para a carreira artística. Nando ganhou o instrumento do pai e aprendeu a tocar sozinho. Com 17 anos, já fazia parte de uma banda de baile. Aí começaram as apresentações profissionais.

Foi aí que sentiu vontade de criar um estilo próprio e passou a compor. Desde então, assinou centenas de canções e teve mais de 500 músicas gravadas por grandes artistas.

O sucesso nacional de Nando Cordel, chegou com as trilhas para novelas da Rede Globo de Televisão em Roque Santeiro, Tieta, Pedra sobre Pedra, Sexo dos Anjos, além de ter sido tema de abertura de “Tropicaliente” e “A Indomada”.

Também com olhar voltado aos problemas sociais do país, Nando Cordel criou a “Fundação Lar do Amanhã”. Nando ainda participa de outros projetos sociais, como os shows pela paz, que reúnem milhares de pessoas.

8 novembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


LENINE, MAIS UM ESPETÁCULO ESPECIAL – AGORA COM MARTIN FONDSE

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Lenine e seus encontros especiais, desta vez com o ótimo Martin Fondse

Tenho tanta afeição ao trabalho de Lenine e a sua própria pessoa que vou abrir esta coluna – sobre o trabalho “The Bridge” – com o que há de mais formal e sisudo entre as apresentações de nosso grande artista. Sei que é uma vã tentativa de distanciar-me da confusão inevitável: colunista-fã! Mas farei assim.

Bem, Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, mais conhecido como Lenine, nasceu no Recife em 2 de fevereiro de 1959. É cantor, compositor, arranjador, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista. Ah, criador de orquídeas também.

Possui cinco troféus “Grammy” latino, dois prêmios da APCA e ganhou por nove vezes o Prêmio da Música Brasileira.

Estima-se que Lenine tenha composto, gravado e produzido mais de quinhentas canções, algumas registradas nas vozes de Elba, Milton e Gil, entre outros. Atualmente, ocupa a 38ª cadeira da Academia Pernambucana de Letras.

O disco vem com o seguinte repertório (*)

01. Abertura – Maurício de Nassau Bridge (Martin Fondse)
02. A ponte (Lenine e Lula Queiroga)
03. A rede (Lenine e Lula Queiroga) / Eendracht Bridge (Martin Fondse)
04. Chão (Lenine e Lula Queiroga) / Loopbrug Bridge (Martin Fondse)
05. O universo na cabeça do alfinete (Lenine e Lula Queiroga)
06. O dia em que faremos contato (Lenine e Bráulio Tavares) / Ravelin Bridge (Martin Fondse)
07. Paciência (Lenine e Dudu Falcão) / Rio-Niterói Bridge (Martin Fondse)
08. Hoje eu quero sair só (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão) / Iran Foot Bridge (Martin Fondse)
09. Miragem do porto (Lenine e Bráulio Tavares)
10. Relampiano (Lenine e Paulinho Moska) / Tyne Bridge (Martin Fondse)
11. A causa e o pó (Lenine e João Cavalcanti)
12. Martelo bigorna (Lenine) / Golden Gate Bridge (Martin Fondse)
13. Rosebud (O verbo e a verba) (Lenine e Lula Queiroga)
14. Leão do Norte (Lenine e Paulo César Pinheiro)
15. O silêncio das estrelas (Lenine e Dudu Falcão) / Stargate Bridge (Martin Fondse)
16. Jack soul brasileiro (Lenine) / Vecchio Bridge (Martin Fondse)
17. Do it (Lenine e Ivan Santos) / Rock Bridge (Martin Fondse)

(*) Importante registrar que a escolha das músicas que aqui reproduzo foi absolutamente aleatória. Ao escolher duas, terei deixado 15 lindas outras de lado.

Semana passada, foi a vez de Lenine no Recife: fez show, dia 04/11, no Teatro Guararapes, com a turnê “Carbono” e participou de noite de autógrafos na Passa Disco, onde lançou o CD e DVD “The Bridge”.

Habituado a adquirir tudo de bom que a Passa Disco comercializa já havia me antecipado ao pedido do novo trabalho de Lenine – atualmente ESGOTADO – e o recebi na sexta-feira. Foi ligação à primeira vista. É simplesmente imperdível, magnânimo, a se ouvir sem fim. Ah, Martin Fondse e demais músicos solistas virtuosos.

The Bridge:

“A ponte” arquitetada pelo ‘cantautor’ Lenine com os arranjos do premiado maestro holandês Martin Fondse e sua orquestra.

A Martin Fondse Orchestra é formada por um prestigiado conjunto de músicos europeus como Dirk-Peter Kölsch (Alemanha) na bateria, Eric van der Westen (Holanda) no baixo, Mete Erker (Holanda) no saxofone e clarone, Irma Kort (Holanda) no oboé, Søren Siegumfeldt (Dinamarca) como tenor saxofone, Annie Tangberg (Noruega) no violoncelo e Vera van der Bie e Herman van Haaren (Holanda) no violino. Martin dirige e toca piano e vibrandoneon.

Trata-se de uma sinfonia de instrumentos de cordas e sopros que, desde 2013, acompanha Lenine na jornada de suas “comemórias” por atravessar três décadas no exercício da música. Após apresentações de sucesso na Alemanha, Áustria, Holanda, Portugal, Estados Unidos e Brasil entre 2013 e 2014, The Bridge está sendo visto novamente no Brasil.

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Martin Fondse e sua orquestra

Sejam pontes conotativas ou as denominadas sobre o Rio Capibaribe, em Recife, ou o Amstel, em Amsterdã, a música “A Ponte” – uma parceria dos conterrâneos Lenine e Lula Queiroga – dá título ao show The Brigde: um belo cruzamento musical transatlântico da arte dos dois insulares de nascimento.

Traz um conceito novo da obra de Lenine, definido em arranjos de Martin Fondse, numa combinação de instrumentos e sons que transitam pelo jazz, pela música clássica e outros gêneros. O repertório inclui o mais recente trabalho do compositor, “Carbono”.

– Minha opção de abrir esta coluna da maneira mais formal possível foi mesmo para fugir a qualquer possibilidade de excessos e elogios hiperbólicos.

É fácil entender: ainda quando no Recife, por sorte, tive alguns poucos contatos com o “Oswaldo Lenine” na sua casa de Boa Viagem. Era coisa de quem conhecia amigo do amigo.

O fato me foi marcante e já estava claro, ali, que tínhamos um novo grande talento da música brasileira.

Pois, então, desde “Baque Solto” e “Olho de Peixe”, conheço cada evento musical de Lenine, desde a magnífica apresentação no “Cité de La Musique”, passando pelo ‘Quanta Ladeira’, que ajudou a fundar, até a participação em programas de TV, com a saudosa d. Selma do Coco.

O que mais me impressiona nele é a extrema qualidade em todos os discos, gravações e produções, além de uma uniformidade poucas vezes vista em nossos compositores populares. Que não se confunda uniformidade com repetição ou monocórdia, por favor.

A mim, me emociona, a capacidade de agregação desse grande artista. Estando com maiores (por idade, tempo, fama etc) ou menores (por critérios semelhantes), Lenine é sempre o mesmo: vai até a boca do gargarejo e volta para se esconder na “cozinha” e ser mais um músico em prol de um grande show ou uma performance melhor.

Lenine é um cara que me passa extrema sinceridade, firmeza de posições e uma paz e uma suavidade pouco vistas nesse ambienta competitivo.

Salve Lenine, que continue fazendo pontes!!

Parabéns.

1 novembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


DOSE DUPLA – ISMAEL SILVA

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Ismael Silva, um dos nossos craques

A confusão que se faz entre autor, o compositor de uma música e seu intérprete é uma das maiores injustiças cometidas àqueles que dedicaram sua vida fazendo letras e músicas para expressar sua arte, despertar nosso coração e adocicar nossa alma.

Essa temática não é nova aqui em nossa coluna, mas mesmo que não venha a contribuir para modificar um milímetro esse método fácil, preguiçoso e desleal de se omitir o nome dos compositores, eu continuarei batendo na mesma tecla.

Em prol do intérprete, que fez a gravação primeira ou a mais famosa, não se pode deixar de lado os autores e até arranjadores das musicas reproduzidas em público.

Antonico, de Ismael Silva, com Gal Costa

Passei tanto tempo ouvindo o locutor do rádio anunciando “Atonico”, de Gal Costa, que mesmo sabendo que essa obra tinha autor certo e determinado e que Maria da Graça não a compôs, em alguns momentos “aceitei” que a canção não tinha autor.

Essa moda, que deveria ser motivo de projeto de lei para que se obrigasse a citação dos nomes dos autores (até para efeito do ECAD – Escritório Central de Arrecadação), é perniciosa aos compositores populares brasileiros. Não sei como funciona lá fora.

Antonico – Ismael Silva, com interpretação do próprio

Ao desconhecer ou até esquecer que Ismael é autor de Antonico, deixo-o de lado e passo a me esquecer ou nunca descobrir que o mesmo artista é o fundador do bloco que tornou-se a Escola de Samba Estácio de Sá e que nos deixou tantos outros clássicos que ouvimos por aí.

“Se Você Jurar, de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, com Beth Carvalho

Como, por exemplo, este que é considerado um dos maiores sambas da história da música popular brasileira.

25 outubro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


LUPERCE MIRANDA, O MESTRE PERNAMBUCANO DO CHORO

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Luperce Miranda, o mestre do choro pernambucano, um baluarte do gênero no Brasil

Fiz recentemente um trabalho abrangente, custoso e recompensador sobre o choro brasileiro. Foi material para curso de pós-graduação, com boa repercussão na faculdade e nesse nosso querido site, o JBF.

A partir do livro de Henrique Cazes, pude passear por inúmeras biografias dos pais do choro brasileiro, como Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Jabob, Altamiro, Valdir, Ernesto e outros.

Foi à pesquisa, ao estudo que reafirmei a tese que defendia de que o choro ainda é música instrumental brasileira mais tocada pelo país afora.

Também descobri que, em que pese seus mais famosos criadores estivessem ou nascessem no Rio de Janeiro, ele se espalhara, de forma quase autônoma, por todos os cantos do Brasil. E, se querem saber, até de fora, com outras denominações.

Descobri um fortíssimo núcleo de “chorões”, do Recife, de origem simultânea a de outros estados.

Às vezes corro o risco de me repetir, mas, mais uma vez, a minha grande professora desta área também, foi Dagô, minha mãe. Não custa dizer que nossa “faculdade” – minha e de meu irmão, músico, compositor e multi-instrumentista Zeca Macedo – foi Dagô. Tinha grandes vantagens sobre média das pessoas com boa cultura e frequentadora de academias, concertos e eventos artísticos: a absoluta ausência de preconceito. Discorria sobre Debussy, como falava com muita intimidade sobre Jackson do Pandeiro e sua parceira Almira.

Estudou cinco anos de Conservatório, à época dirigido pelo maestro Cussy de Almeida, seu conterrâneo, embrenhando-se no aprendizado de Bach, Beethoven, Mozart e outros.

Mas, ao deixar as salas de piano, as partituras e os ensaios, compartilhava nas ruas, no Sítio da Trindade, nas rádios Clube e Jornal do Comércio, no rádio de casa e depois na televisão, e se deixava permear pelos sons populares e nem sempre aceitos por certa elite, ouvindo com afinco e decorando letras e músicas e interpretações de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, Miltinho, Zimbo Trio, Humberto Teixeira, Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha. Depois, Elis, Gil e Chico.

Foi numa destas conversas sobre música – gênero, geografia e qualidade – que Dagô, respondendo a uma demanda minha sobre o choro em Pernambuco, que ela, quase repreendendo, disse: “Oh, meu filho! Você não conhece o grande Luperce Miranda”. Bem o resto, eu já contei.

Luperce Miranda nasceu no Recife, em 28 de julho de 1904 e faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de abril de 1977. Compositor, bandolinista e bamba no choro, começou a carreira quando seu pai montou uma orquestra infantil com os 11 filhos – um time de futebol.

Desde cedo, portanto, aprendeu a tocar bandolim, tendo composto sua primeira música aos 15 anos de idade.

Também tocava piano e foi o músico contratado de uma confeitaria do Recife, ainda na juventude.

Na década de 1920, integrou os Turunas da Mauriceia, que foi para o Rio de Janeiro em 1927, provocando a primeira “onda nordestina” que chegou à então capital do país. Sua chegada ganhou grande repercussão no cenário musical local. Voltou ao Recife e montou outro conjunto, “Voz do Sertão”. Depois, foi definitivamente para o Rio, até formar o “Regional Luperce Miranda”, em 1929, Na década de 30 acompanhou Mário Reis, Carmen Miranda e Francisco Alves.

Voltou para o Recife em 1937 e retornou à capital federal nos anos 1950, quando gravou mais discos e excursionou pela Europa.

Considerado um dos maiores bandolinistas do país, criou uma escola de música especializada em instrumentos de corda.

Em 1994, o bandolinista Pedro Amorim lançou o CD “Pedro Amorim toca Luperce Miranda”, dedicado à obra do compositor.

18 outubro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


ANDRÉ FILHO, O HOMEM DE “CIDADE MARAVILHOSA”

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André Filho, autor de inúmeras marchinhas de carnaval e até samba com Noel. Poucos o identificam como o compositor de “Cidade Maravilhosa”

Até certo momento da juventude pensava mesmo que “Cidade Maravilhosa” era um hino feito para a cidade do Rio de Janeiro, na época capital do estado da Guanabara.

Os hinos escritos, de forma geral, em louvor à pátria, como o feito à Bandeira, à Independência e ao Brasil, eram conhecidos por quase todos. Mas poucos sabiam quem os tinha composto. No máximo aparecia um Osório e um d. Pedro.

Quase da mesma forma, “Cidade Maravilhosa”, escrito em 1934 por André Filho e arranjo de Silva Sobreira, era cantado por todo mundo, no carnaval e nos grandes bailes da então capital federal e pelo país. Assim como os hinos oficiais, de loas às instituições e aos bravos que viram estátuas, a melodia de André Filho pegou de vez e se tornou hino oficial do Rio de Janeiro de 1960.

De forma semelhante, também pouquíssima gente conhecia seu autor. Antônio André de Sá Filho nasceu em 1906 e morreu em 1974, na cidade do Rio de Janeiro.

De carreira artística eclética, André Filho foi ator, violonista, bandolinista, violinista, pianista, compositor e cantor brasileiro.

Portanto, não foi por falta de talento e habilidades que André Filho não foi definitivamente colocado no panteão dos grandes artistas nacionais. A primeira gravação de “Cidade Maravilhosa” é de 1934 e André canta acompanhado de Aurora Miranda, irmã menos famosa de Carmen Miranda. André já havia feito canções para Carmen. Desta vez, foi Carmen quem pediu para que Aurora gravasse a marchinha. Na época, a iniciativa foi tomada como uma abertura de portas para que as mulheres cantassem mais músicas de carnaval, segmento hegemônico dos cantores.

Cidade Maravilhosa, de André Filho, com arranjo original de Silva Sobreira, com Autora Miranda (irmã de Carmen) e André Filho – 1934

O hino da cidade do Rio de Janeiro é chamado “Cidade Maravilhosa”, a partir de epíteto usado pela escritora francesa Catulle Mendès em seu livro de poemas ‘La Ville Marveilleuse’, publicado em Paris, em 1913, como homenagem às belezas naturais do Rio.

Há ainda outra versão que sugere que o título foi inspirado num programa jornalístico de grande sucesso, apresentado por César Ladeira, onde o radialista lia as “Crônicas da Cidade Maravilhosa”, escritas pelo futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, Genolino Amado.

O disco foi originalmente gravado na Odeon em 1934 e lançado em 78 rpm. Aurora começou a cantar a nova melodia em todos os shows e no coro de suas gravações. A canção foi gravada por mais de 40 grupos e cantores até esta data.

Para não ficar apenas com seu grande hit, mostro a seguir a belíssima “Filosofia”, que André Fillho fez em parceria com Noel Rosa.

Filosofia, com Martinho da Vila – de Noel Rosa e André Filho – 1933

André Filho teve entre seus intérpretes Vicente Celestino, que gravou a valsa “Cinzas no Coração”, pela RCA Victor, obtendo enorme sucesso.

No final da década de 1960, André gravou depoimento para o MIS – Museu da Imagem e do Som -, tendo sido considerado com o estado mental ainda bastante razoável. Devido a uma grande crise no sistema nervoso, passou mais de 20 anos internado no Hospital da Ordem do Carma, afastando-se prematuramente da vida artística, o que obscureceu a avaliação de sua obra, fazendo com que seu trabalho fosse lembrado basicamente apenas por “Cidade Maravilhosa”.

11 outubro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


PAULINHO DA VIOLA, O VICE-REI DA MÚSICA BRASILEIRA

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Paulinho da Viola, a Música Popular Brasileira por um compositor clássico

Tenho para mim que o melhor remédio para banzo, mau humor, espinhela caída, enxaqueca, apatia e lundu é ouvir Paulinho da Viola, o príncipe dos sambistas brasileiros.

Desta vez, com esse show que vi sábado, resolvi elevá-lo à categoria de vice-rei. De ‘Sinal Fechado’ ao ‘Pagode do Vavá’, de ‘Coração Leviano’ a ‘Foi um Rio…’, Paulinho é, na minha modesta opinião, o mais clássico dos compositores populares brasileiros, com os dois pés no samba de Partido Alto, Sambas-Canção, quase boleros, Sambas-Enredo, melodias sem fim, harmonias de um mestre que é o próprio instrumento musical, mas também de uma grandiosidade melódica e complexidade harmônica, geralmente guardada aos eruditos.

Com letras belíssimas, líricas e graves, harmonias incomuns, instrumentação impecável e arranjos soberbos, Paulinho, a completar 74 anos agora em 12 de novembro, é um artista completo: exímio compositor, afinadíssimo cantor e – colher de chá – instrumentista formado na melhor escola do samba.

O filho de seu Paulo César Faria (Época de Ouro) aprendeu o ofício com monstros sagrados como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Nelson Cavaquinho, sem falar no seu mais dileto parceiro Elton Medeiros.

“Jogando com o Capeta”, de Moreira da Silva – 1958, com Paulinho da Viola

Esse escorpião, de gestos leves e a elegância de lorde na sua lhaneza e forma de se relacionar, é quase tímido. Às vezes para (do verbo parar) uma história que estava contando para a plateia e desiste do final porque acha (?) que é melhor mostrar do que dizer.

No exemplo da homenagem que fez a Moreira da Silva, contava que o que lhe chamara a atenção nesse breque eram os versos “Deus me defenda do senhor, falei em Deus, mas sem má intenção”.

Para Paulinho, perfeccionista com a palavra, tanto quanto com a melodia, soava-lhe estranho uma letra de que constasse “Deus, mas sem má intenção”.

Antes que a plateia completasse a gargalhada, Paulinho já iniciara a música, que cantou de pé, só ele e o cavaquinho.

4 outubro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


DOSE DUPLA – JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC

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João Bosco e Aldir Blanc: um das parcerias mais virtuosas da música brasileira

Gosto muito de brincar com os cariocas, e fluminenses, afirmando que os “melhores compositores do Rio são mineiros”. Ilustrava minha bazófia com os craques Ary Barroso, Ataulfo Alves e João Bosco. Naturais de Ubá, Ponte Nova e Miraí, respectivamente, os mineiros citados são de fato três dos maiores compositores brasileiros, mas certamente o Rio sempre concentrou e continuará pontuando na área do samba e de outros ritmos, alimentados na Lapa, na Tijuca ou em Vila Isabel.

Lembrei-me da brincadeira que faço com os queridos cariocas, ao escolher o estupendo e original João Bosco para a série “Dose Dupla” de hoje.

Assim como temos parcerias que são verdadeiros casamentos musicais, eternos até se encerrarem, João Bosco e Aldir Blanc – este carioquíssimo – são exemplo semelhante a Paulinho da Viola e Elton Medeiros, Tom e Vinícius ou Noel Rosa e Vadico.

Só para relembrar alguns dos clássicos emplacados pela dupla, destaco: “Bala com Bala”; “Kid Cavaquinho”, “Caça à Raposa”, “O Rancho da Goiabada”, “Falso Brilhante” e o clássico, que virou hino aos exilados “O Bêbado e a Equilibrista”.

Faço, porém, hoje nesta coluna, o registro de outra canção, igualmente linda, no nível poético-musical das melhores da dupla, que é o boleraço “Dois prá Lá, Dois Prá Cá”.

A dobradinha que trago é com o próprio João Bosco, uma interpretação magistral, e a outra versão, definitiva, de Elis Regina. Aliás, Bosco e Blanc foram dois dos maiores provedores de sucessos de Elis.

Bom que se aponte aqui que o bolero praticamente é revivido e, de certa forma, reintroduzido na música brasileira, digamos mais requintada, a partir da canção de João Bosco e Aldir Blanc.

Digo isto, sem me inserir naquele grupo de críticos ou consumidores de MPB que não ouviam Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Altemar Dutra, Maysa, Carlos Galhardo. Deste gênero nunca tive falta, pois aprendi a gostar dele desde cedo na radiola da casa de meu avô.

Letra e música de “Dois prá lá….” são tão modernas e sincronizadamente lindas que, mesmo quem não gostava ou não sabia o que é bolero, passou a entender o quão bonito é o gênero. Logo depois, Maria Betânia saía dos “Carcarás” e recheava seu repertório de grandes boleros.

27 setembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


DIA DO RÁDIO

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“Dia do Rádio”, quanta memória, quantas histórias

No último domingo, dia 25 de setembro, comemorou-se o “Dia do Rádio”. A data corresponde ao nascimento de Roquete Pinto, considerado o ‘pai do rádio’ brasileiro.

Em 1923, Roquete Pinto fundou a primeira emissora do país, a “Rádio Sociedade, do Rio de Janeiro”. Era uma fase experimental do veículo, sem grandes avanços tecnológicos.

– Quero dizer que essa data está consagrada, mas não custa colocar outras versões em que o rádio brasileiro teria nascido antes. Para Pernambuco foi a Rádio Clube – no final do artigo mencionarei a questão.

Quem trabalha com a matéria-prima memória tende a ser interpretado como nostálgico, preso ao passado.

O memorialista há que ter muito cuidado ao tratar do tênue limite entre a lembrança que resgata momentos carregados de sentimentos – alegria ou de tristeza – e a simples vontade de voltar ou reviver o passado.

Ele procura trazer imagens, sons, particularidades de época, prosódia de um grupo, geografia de um conto, a literatura em que se torna uma história vivida ou contada. Agora recontada pelo articulista.

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No domingo que passou, eu ouvi muito rádio – nada a ver com a data que só vim a tomar conhecimento pelas menções dos colegas. Ouvi, porque sempre ouço.

Como sou da fase de transição da máquina de escrever para o computador, fico à vontade para ouvir minha programação pelo aplicativo do celular ou pelo radinho de pilha, que ainda não ouso carregar.

Vieram à memória grandes nomes do rádio, de tempos passados – gente que já se tornara mito nos anos 1980 – e gente que está ou esteve nos microfones de 35 anos para cá.

Passei a listar nomes importantes de profissionais para quem escrevi noticiários, notas, flashes e produzi programas ou seções. Revelo que tive a honra de ter textos lidos diariamente por Ferreira Martins – voz grave, uma pluma, Lourival Pacheco – dicção e gravidade – Luiz Lopes Correa – um dos mais completos, aplicados, estudiosos locutores – e que técnica!

Citarei mais, porém sem descrever as características de cada um, senão, como diz o conterrâneo Fernando Portela, a gente gasta o dicionário inteiro e fica faltando adjetivo.

Como produtor e redator fiz muitas laudas para Humberto Maçal, Zancopé Simões, Eduardo Neto, Juca Amaral, Dimas Aguiar, Dedé Gomes, José Nelo Marques, Gioconda Bordon, Madeleine, Antônio Carvalho (voz e alma), Isidro Barioni, Gualberto Curado, Nivaldo Prieto, Wellington de Oliveira, Alfredão; além de Cledi Oliveira, Osmar Santos, Oscar Ulisses, Osvaldo Maciel, Paulo Soares (turma do esporte).

Não há sensação de maior recompensa, para quem redige, ouvir seu texto interpretado por uma bela voz, a inflexão correta, a dicção perfeita, o altear e baixar do tom no ritmo certo. Que felicidade! Ás vezes, o redator tem o azar de ter suas laudas lidas por alguém ruim no metier. O lado bom é que você começa a distinguir os craques. Talvez tenha tido sorte.

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Jornais de 1 hora, com 40 minutos líquidos (fora publicidade) na voz de Flavio Guimarães, sozinho ou ladeado por Ferreira Martins é, para quem gosta do assunto, um momento de plenitude. Vozes menos impostadas, mas igualmente bonitas como as de Caio Carmargo, Geraldo Nunes. Ou impostadas como a do Luciano Dorin. Na transição dos anos 1980 para adiante, não tive texto lido por Helio Ribeiro ou Fiori Gigliotti, mas ainda absorvi seus ensinamentos em forma de palavras e notícias de Hélio como correspondente da Globo/Excelsior nos EUA e de Fiori no esporte.

Sei que, muito certamente, estarei esquecendo nomes importantes, vozes inconfundíveis e até de amigos chegados. Quis arriscar e apontar alguns nomes que me emocionaram no tempo bom do rádio, onde aprendi quase tudo que sei. Os outros se sintam igualmente homenageados.

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Trabalhei nas cinco rádios de que trouxe os escudos, de 1981 a 1997 (Algumas por mais de uma vez)

Polêmica

Sempre ouvi, desde pequeno, no meu Pernambuco remoto, que a primeira emissora de rádio do país era a Rádio Clube do Recife. Depois vieram as hipérboles que até hoje acompanham qualquer menção ao meu Recife e ao meu estado, tais como “Pernambuco falando para o Mundo” (Rádio Jornal do Comércio); a maior avenida em linha reta do Brasil fica lá – é a Caxangá; que os rios Capibaribe e Beberibe se unem para formar o mar; e assim por diante.

Se a rádio Jornal falava para o mundo ou se a Caxangá era a maior avenida, ainda havia discussão. Mas quanto ao pioneirismo da Rádio Clube jamais duvidamos.

Para não ficar apenas na especulação e na tradição de que Pernambuco detém a hegemonia do pioneirismo e a capacidade de ser maior e melhor em quase tudo, informo que esta informação vem do site catarinense “Caros Amigos – Instituto de Estudos de Mídia”.

20 setembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SEÇÃO “ERRAMOS”, NECESSÁRIA, MAS PERIGOSA

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A folha de São Paulo criou a coluna “Erramos”, publicada desde 1991.

Depois de quatro décadas de exercício da profissão – às vezes aposentado, por vezes trabalhando como autônomo, o jornalista torna-se cada vez mais rigoroso com seu texto ou produção e principalmente em relação ao trabalho dos colegas de ofício.

Hoje em dia, vou primeiro à seção “Erramos”, criada na Folha de São Paulo, em 1991, antes mesmo de selecionar e esmiuçar as manchetes e matérias chamadas na primeira capa.

É uma questão de justiça. Posso ter deixado de ver algum assunto do dia anterior e preciso imediatamente conciliar-me com a verdade. Seja o “Erramos” decorrente de erro de digitação, falta de zelo, ou consequência de desinformação e/ou preguiça.

Times’ é obrigado a publicar correção na primeira página”

Para quem pensa que estou brincando com o assunto, saiba que em junho de 2015, o “Observatório de Imprensa” publicou texto informando em manchete que “Times é primeiro jornal obrigado a publicar correção na primeira página”.

Continuando, o “Observatório” anotou que ‘o novo órgão regulador da imprensa no Reino Unido decidiu que um artigo publicado duas semanas antes das eleições gerais, sob o título “O imposto de mil libras do Partido Trabalhista para as famílias” trazia uma manchete enganosa.

A Folha e sua Antologia

Quando pensei em trazer o assunto para debate, claro que pensei primeiramente na Folha de São Paulo.

Pioneira em muitas iniciativas, a Folha instigou a categoria a fazer um exame de consciência e perceber que o erro – derivado de qualquer natureza – deve ter como sagrada uma seção dedicada só à sua correção. Assim, estaríamos minimamente defendidos de falsas informações que, ao passar o dia seguinte, tornavam-se verdades absolutas.

Por outro lado, uma medida necessária, positiva e tomada na tentativa de restabelecer a lealdade com o leitor e outros consumidores de notícias em variadas plataformas, pode tornar-se uma defesa preventiva à disposição dos descuidados ou profissionais pressionados com o dead-line de suas redações, consciente de que tudo pode ser sanado – e perdoado – pela coluna “Erramos”.

A quantidade de erros tem aumentado

O que tenho visto e assistido – naquela ótica daquele que procura pelo em casa de ovo – é uma série interminável de erros de gramática, de pronúncia, de digitação de apresentação visual e por aí vai.

Ouço: “Ator foi encontrado morto nas águas do rio São Francisco, na fronteira entre os estados de Alagoas e Amazonas”. Correção após a sonora…

Pronúncia de lugar, cidade, pessoa é vítima corriqueira da falta de atenção de locutores e repórteres.

Lembro tanto do Alfredão – voz forte, dicção perfeita, suavemente musical – no tempo de RTV Cultura. Fazia apresentação e desapresentação de músicas eruditas, peças clássicas. Não era raro flagrá-lo ao telefone, perguntando: “por favor, aqui é da Cultura. Vou apresentar um programa de músicas assim, assado. Tem alguém que possa me ajudar a aprender a pronúncia correta de tal melodia de Liszt?”. Do outro lado, um representante do consulado da Hungria, o ajudava prontamente e com orgulho, claro.

A Folha se auto-imola

Não queria terminar essa abordagem sem dar um ponto para a Folha. Já que introduziu ou reinventou o departamento do “Erramos”, destaquemos ao menos o bom humor.

A empresa jornalista resolveu produzir a “Antologia do Erramos”, uma seleção de notas embaraçosas e sugestões para evitá-las. As notas, publicadas desde 1991, são organizadas em capítulos, de acordo com o tipo de erro.

Eis algumas delícias:

01) “Deus criou a mulher, de quem tirou uma costela, e dessa costela fez o homem;

02) A releitura da Bíblia faria sucesso entre os coletivos feministas de 2016, mas teria o mesmo destino no ano 2000, quando foi publicada.

03) Jesus foi enforcado e continua sepultado;

04) Moisés recebeu de Deus a Torá (em vez dos Mandamentos); e

05) Sete pragas do Egito viraram dez.

A própria Folha justifica: “o objetivo deste trabalho é que o jornalista fique familiarizado com falhas usuais da Redação e procedimentos que podem evita-las.

13 setembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


BOGOTÁ II

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Entrada da Catedral do Sal

Depois da aventura dos três mil e tantos metros, acima do nível do mar, alçando a igreja do Mont Serrat, de onde se vê a maior panorâmica de Bogotá, no dia seguinte, domingo, fui para debaixo da terra.

Não posso reclamar de falta de aventura e emoção, por consequência um ótimo teste para as minhas condições atléticas.

Lá em cima, recorri a um copo de chá de folha de coca. Na Catedral, embaixo da terra, senti-me seguro pelos cuidados de segurança e pela presença dos bombeiros e paramédicos – ingeri água, muita água.

A Catedral de Sal é um monumento construído no interior das minas de sal de Zipaquirá, Savana de Bogotá, na Colômbia.

O santuário católico, que conta com a Via Crucis de Jesus Cristo, é um dos mais célebres do país. A Catedral é muito importante por seu valor como patrimônio cultural, religioso e ambiental. Faz parte do complexo cultural “Parque do Sal”, espaço temático, dedicado à mineração, à geologia e os recursos naturais.

Está situada na cidade de Zipaquirá, povoação do Departamento de Cundinamarca, a 49 km a Norte do Distrito da Capital de Bogotá.

A vila é conhecida pela exploração de sal, mas também pelo achado de restos humanos mais antigos da Colômbia, no Sítio Arqueológico de El Abra.

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Uma galeria da qual de vê o altar mor: tudo em sal

O Parque do Sal

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Entrada das galerias subterrâneas do Santuário

O Parque Temático, com escultura acima, é feita por um alto relevo que homenageia os mineiros do sal, os responsáveis por fazer da velha mina um espaço religioso cultural.

As principais atrações

Os locais mais importantes do Parque:

– Praça da cruz (de 4,2 m de altura, que se denomina “El Eje Sacro” (o eixo sacro);
– Domo Salino;
– A Mina;
– O Museu da Salmoura, construído nos tanques já em desuso. Ali é possível o visitante aprender sobre o processo de exploração do sal, os estudos geológicos e a história, construção e engenharia da Catedral;
– A barragem; A área das florestas; e o Auditório, na Catedral.

A catedral inicial tinha três naves grandes com colunas improvisadas por uma grande cruz iluminada. Com o passar dos anos, essa primeira catedral tornou-se insegura e foi fechada em 1990. Em dezembro de 1995, inaugurou-se a atual.

A construção da antiga igreja começou em 1950 e foi inaugurada em agosto de 1954, nas antigas galerias cavadas pelos muíscas (antigo povo colombiano) dois séculos antes.

Ainda em 1932, Luiz Angel Arango teve a ideia de construir uma capela subterrânea levado pela devoção religiosa que os operários demonstravam antes de iniciar a jornada de trabalho.

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Considerada a 1ª Maravilha da Colômbia

Os depósitos de sal das Montanhas de Zipaquirá datam de 200 milhões de anos. Faz 30 milhões de anos que estão concentrados no mesmo lugar.

Em decorrência da pressão e do calor, o sal desloca-se de maneira similar aos glaciares pelo qual se perde a estratificação e cria uma massa homogênea de sal.

Quem for a primeira vez a Bogotá, este é um passeio que o viajante ou turista não deve perder.

6 setembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


BOGOTÁ – COLÔMBIA

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Bogotá: uma imensa metrópole espalhada entre os Andes

Dois foram os pretextos para irmos nestas férias de meio de ano à Colômbia. A primeira intenção foi conhecer Cartagena das Índias, no litoral caribenho do país, cidade histórica e sempre muito indicada por aqueles amigos e conhecidos que gostam de viajar.

Sua cidade amuralhada, a preservação de sua arquitetura colonial, o turismo, os passeios para ilhas e praias paradisíacas no provaram ser um destino excelente.

Dela, já falei (e mostrei) no artigo da semana passada.

A ideia de parar em Santa Fé de Bogotá foi da minha ‘navegadora’, Eva, que sempre arredonda os roteiros para maior facilidade, interesse e custos.

De fato, ir direto a Cartagena, contando 7 horas e meia de avião, com conexão na capital colombiana era uma jornada.

Foto 3 - Praca Simon Bolivar

Praça Simon Bolívar: espaço para todo mundo; lindos monumentos

Tem razão: hoje em dia é um desconforto andar de avião. Aeronaves com super utilização da cabina e os passageiros praticamente viajando um em cima do outro. Às vezes, sinto falta dos Samurais, Electras e Avros, mesmo sendo turbo-hélices. Nem gosto de imaginar o Nenê, o Varejão e a chinesa do vôlei, ou mesmo a Fabiana Carla voando nessas sardinhas em lata aéreas.

Bem, a solução dada foi fazer uma escala mesmo em Bogotá – não uma troca de avião – e passar alguns dias na capital. A viagem ficou assim: 6 horas de São Paulo a Bogotá e mais 1 hora e meia para Cartagena, 5 dias depois.

Pensando bem incorreria numa certa ignorância se não parasse nessa que tem sido uma das mais elogiadas metrópoles da América do Sul, apresentando soluções de habitabilidade importantes para outras grandes cidades do mundo – notadamente nas áreas de transporte e de segurança.

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Vista de Bogotá do alto do Mont Serrat, aonde se tem acesso por Funicular e Teleférico: turismo em todos os sentidos

Pois bem, todos sabem que Bogotá é a terceira capital em altitude da América do Sul, com 2,64 mil acima do nível do mar. Fica atrás apenas de La Paz e Quito.

Foto 5 - Estacao de entrada

Estação de entrada para Funicular e Teleférico a Mont Serrat: atração para bogotanos e turísticos.

Esse para mim – que sofro de dificuldades de respiração – foi o primeiro desafio a encarar. Verdade que não iria morrer disto agora, mas para todos os efeitos me lembrei da história do goleiro do São Paulo que ‘confessou’ ter tomado chá de folha de coca para compensar a rarefação do ar. Não sei se foi Zetti ou o simpático Rogério Ceni.

Foto 6 - Placa de altitude

Os 3,127 metros são a soma dos 2,64 mil de Bogotá mais cerca de 500 metros para se chegar ao Mont Serrat

Nesse caso, pensei – terei uma experiência a mais: tomarei o tal chá. Bogotá surpreendeu a mim e a minha navegadora. Cidade larga, espaçosa, um sem fim panoramas; Bogotá parece que não se acaba naquele platô. É muito grande mesmo. Fácil de notar pois possui 7,2 milhões de habitantes e não se percebe uma densidade carro, pedestres, empecilhos como em centros como o Rio de Janeiro, por exemplo.

Noves fora tirando as altitudes de vôos em cruzeiro – cerca de 10 mil metros ou 33 mil pés, em média – foi a vez que mais perto do céu estive.

Nesse caso, menos pela esperança de falar com Deus e mais pelo exaustivo percurso para chegar a Mont Serrat, incluindo 150 metros a pé, me rendi ao chá de folha de coca.

Se não dá nenhuma alucinação ou “barato” como querem alguns contadores de história, o chazinho até que deu uma boa aliviada no meu parco fôlego. E, olhem, é gostosinho. Não gosto de chá medicinal, não!

Foto 7 - tomando cha de folha de coca

Um copo de chá de coca

O distrito da capital de Bogotá possui uma área de 1,5 km², sendo que a cidade ocupa 384,4 km². A Região Metropolitana que abrange, além do distrito federal, 17 municípios do Departamento de Cundinamarca (no início, esse semelhança com o país nórdico fez uma confusão danada), ocupa uma área de 3,642 km². O local onde a cidade foi construída antigamente era um lago.

Semana que vem mais Bogotá, a igreja de sal, em Zipaquirá, os imensos parques e praças e as peculiaridades dos bogotanos.

30 agosto 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


CARTAGENA II

Foto 1 - Cartagena - Danca de rua

Cartagena das Índias: uma dança de rua como as nossas

Em Cartagena, não faltaram imagens coloridas, coloniais, alegres e recheadas de figuras transbordando simpatia.

A “baiana” colombiana:

Foto 2 - Baiana colombiana

Tal qual uma baiana, as vendedoras de frutas de Cartagena, se vestem coloridas (cores da Colômbia) e negociam enorme quantidade de frutas

Os passeios:

Foto 3 - Chivas-horz

Chivas, o ônibus típico para os melhores passeios na Colômbia: o lotação dos anos 50/60 desvenda os principais pontos de Cartagena. Duro, desconfortável e instável, o veículo provoca grandes emoções!

Moderno terminal de barcos:

Foto 5 - Terminal Cartagena

Terminal de barcos de Cartagena

23 agosto 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


CARTAGENA, UM MUSEU A CÉU ABERTO

Foto 1 - Torre do Relogio - Cidade Amuralhada
Cartagena das Índias – a Cidade Amuralhada

A vontade de conhecer Cartagena das Índias, no litoral da Colômbia, fora despertada há algum tempo. Os depoimentos sobre a beleza da histórica cidade e as conveniências de uma viagem internacional rápida e razoavelmente econômica pesaram na decisão.

Cartagena da Índias, Capital do Departamento de Bolívar, é banhada pelo Mar do Caribe.

Na primeira panorâmica, disse para Eva, minha companheira de viagens e de cotidiano: “É uma Olinda espanhola”. A cidade brasileira é dois anos, apenas, mais nova que Cartagena, que foi fundada em 1 de junho de 1533.

Museu a céu aberto, Cartagena foi um dos portos mais importantes da América. É desse período que vem a maior parte do seu patrimônio artístico e cultural.

A partir de su fundación en el siglo XVI y durante toda la época colonial española , Cartagena de Indias fue uno de los puertos más importantes de América. [ 9 ] De esta época procede la mayor parte de su patrimonio artístico y cultural.Tal qual Olinda, Cartagena (a Cidade Amuralhada) é Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

A Cidade Velha ou Amuralhada é totalmente cercada por uma larga muralha, cheia de baluartes, que lhe serviu de proteção por séculos.

Dividida em quatro bairros: Centro, San Diego, La Matuna e Getsêmani tem as construções mais bonitas, que nos carregam para a época colonial, o casario e suas sacadas, a lojas típicas de alimentação, roupas e de venda de esmeraldas, assim como os restaurantes situadas no centro. San Diego, onde ficamos, é mais residencial.

Foto 2 - Comida trivial colombiana

Comida trivial de primeira: em tudo tem abacate, ovos e galinha

Na rua estreita onde estava nosso hotel, o Abril II, ficava a residência que Gabriel Garcia Marques tinha na cidade, um casarão na esquina, já nas proximidades da Baía de Cartagena.

Boa parte das fortificações e muralhas que foi construídas para proteger a cidade dos constantes ataques de piratas contra a Coroa Espanhola está de pé na cidade amuralhada.

Foto 3 - Ruas estreitas de Barranquila

Ruas estreitas, becos, casario colonial: beleza e relaxamento

Um balneário moderno

Fora da parte histórica, Cartagena é um belíssimo balneário com áreas residenciais luxuosas, prédios modernos, shoppings, com ar de cidade do século 21, oferecendo o que de mais confortável e sofisticado há nos grandes centros balneários do Caribe e outras partes do mundo.

Quinta cidade do país, atrás de Bogotá, Cali, Medellin e Barranquilla, Cartagena tem hoje mais de 1 milhão de habitantes.

Suas praias urbanas não são boas e, como Olinda, recebem toneladas de pedras que formam diques para a proteção das praias.

Os grandes mergulhos, praias de boa balneabilidade e a beleza da natureza estão entre as centenas de ilhas em volta da cidade, com acesso por barcos, lanchas e pequenas embarcações.

Foto 4 - praia urbana de Cartagena

Praia urbana de Cartagena

Semana que vem, mais Colômbia, outras cenas e cenários de Cartagena.

16 agosto 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA V – “A VIOLEIRA”

Elba violeira

Elba – a violeira

Inspirado no musical “Pobre Menina Rica”, de Vinícius de Moraes, Miguel Faria Jr dirigiu o filme, comédia musical, “Prá Viver um Grande Amor”, protagonizado por Patrícia Pilar, Djavan e grande elenco.

O filme, de 1984, me veio à mente exclusivamente por contar em sua trilha com uma canção – “A Violeira” -, de Tom Jobim e Chico Buarque – que adoro cantar, cantarolar quando esqueço a letra e, quando dá na telha, botar na vitrola para ouvir com Elba, Mônica Salmaso e Chico Buarque, entre outros que a gravaram.

“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Monica Salmaso

Desde menina
Caprichosa e nordestina
Que eu sabia, a minha sina
Era no Rio vir morar
Em Araripe
Topei como chofer dum jipe
Que descia pra Sergipe
Pro Serviço Militar
Esse maluco
Me largou em Pernambuco
Quando um cara de trabuco
Me pediu pra namorar
Mais adiante
Num estado interessante
Um caixeiro viajante
Me levou pra Macapá
Uma cigana revelou que a minha sorte
Era ficar naquele Norte
E eu não queria acreditar
Juntei os trapos com um velho marinheiro
Viajei no seu cargueiro
Que encalhou no Ceará
Voltei pro Crato
E fui fazer artesanato
De barro bom e barato
Pra mó de economizar
Eu era um broto
E também fiz muito garoto
Um mais bem feito que o outro
Eles só faltam falar
Juntei a prole e me atirei no São Francisco
Enfrentei raio, corisco
Correnteza e coisa-má
Inda arrumei com um artista em Pirapora
Mais um filho e vim-me embora
Cá no Rio vim parar
Ver Ipanema
Foi que nem beber jurema
Que cenário de cinema
Que poema à beira-mar
E não tem tira
Nem doutor, nem ziguizira
Quero ver que é que tira
Nós aqui desse lugar
Será verdade
Que eu cheguei nessa cidade
Pra primeira autoridade
Resolver me escorraçar
Com tralha inteira
Remontar a Mantiqueira
Até chegar na corredeira
O São Francisco me levar
Me distrair
Nos braços de um barqueiro sonso
Despencar na Paulo Afonso
No oceano me afogar
Perder os filhos
Em Fernando de Noronha
E voltar morta de vergonha
Pro sertão de Quixadá
Tem cabimento
Depois de tanto tormento
Me casar com algum sargento
E todo sonho desmanchar
Não tem carranca
Nem trator, nem alavanca
Quero ver que é que arranca
Nós aqui desse lugar

“A Violeira”, de Chico Buarque e Tom Jobim, com Elba Ramalho

Além da letra típica, o xote gostoso, com sotaque da região, a saga contada na letra leva-me a muitos cantos e me relembra o Nordeste inteiro. Vou escutar de novo.

Se ainda assim, quiserem ouvir pelo letrista, que continuo a considerar um bom intérprete, apesar de tudo, ei-lo:

Quebrando o modelo do ‘Dose Dupla’, dessa vez não me contive e reproduzo três versões do mesmo mote.

O que acham?

9 agosto 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA (ESPECIAL) – PAULO DINIZ

Foto 1 - Paulo Diniz. 76 anos...

Paulo Diniz tem 76 anos

Há quem já o tenha esquecido. Até mesmo quem já o admitisse em outra encarnação.

Mas ele está ai, indo para os 80 anos, como se a vida tivesse passado sem conceder-lhe grandes espetáculos.

Paulo Diniz é desses caras que flutuam na carreira artística, leva grandes tombos, retoma, renova e faz lembrar que é e sempre foi grande artista popular, mesmo quando esse adjetivo quis pender para o lado preconceituoso.

Pingos de Amor, de Paulo Diniz, com Paulo Diniz

Encontrei e cantarolei alguns hits de Paulo Diniz recentemente. Seu maior sucesso, “Quero voltar para a Bahia”, foi composto em 1970, com o amigo Odibar. Tornou-se um hino de protesto, cujos versos prestavam homenagem a Caetano Veloso, exilado em Londres, na ocasião.

A música alcançou os primeiros lugares das paradas em todo o país e se tornou uma espécie de hino, símbolo de uma época conturbada da história política e social do Brasil.

Houve um período, em que Paulo Diniz dedicou-se à tarefa de musicalizar poemas de autores como Drumonnd (E Agora, José?), Gregório de Matos (Definição de Amor), Augusto dos Anjos (Versos Íntimos), Jorge de Lima (Essa Nega Fulô) e Manuel Bandeira (Vou-me embora para Pasárgada).

Tenho certeza de muita gente se familiarizou com o clássico de Carlos Drummond de Andrade – E Agora José – pela musicalização do iletrado Paulo Diniz, que, sem favor algum, é um trabalho muito bem feito.

Desta vez, a canção que me conectou a este filho de Pesqueira-PE foi “Pingos de Amor”, regravada por muita gente. Escolhi ouvir com o próprio Paulo Diniz e depois com a Paula Toller:

A vida passa, telefono
E você já não atende mais
Será que já não temos tempo
Nem coragem de dialogar…

Ainda ontem pela praia
Alguma coisa me lembrou você
E veio a noite
Namorados se beijando
E eu estava só…

Vamos ser
Outra vez nós dois
Vai chover
Pingos de amor
Oh! Oh! Oh!
De amor
Pingos de amor
Pin Pin Pin…

Hoje, Paulo Diniz ainda canta em cidades do Nordeste, de cadeira de rodas, para ganhar e levar a vida.

Penso que tivesse seguido a linha de “I wanna to go back do Bahia” ou “Ponha um arco-íris na sua Moringa” teria chegado a um estilo criativo e diferenciado em sua carreira. Mas, tanto quanto na vida, o se não existe numa carreira music

2 agosto 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


YANE MARQUES, NOSSA PORTA-BANDEIRA, SÍMBOLO NORDESTINO, SIGNO BRASIL

Yane Marques, ouro

Yane Marques: nossa porta-estandarte

Quem acompanha esta coluna, sabe de meu apreço e profunda admiração por Yane Marques. São inúmeros artigos, textos, crônicas sobre essa moça obstinada, determinada, inquebrantável. De uma beleza quase áspera, tem feições que exalam energia, alegria e vibração, em poucas vista.

Sabem os que folheiam o “Megaphone” que tenho um elo de contemplação por Yane, para além dos seus grandes feitos esportivos.

A Olimpíada do Rio-2016 começou para mim ontem quando do anúncio de que a Yane foi a escolhida para ser a abre-alas da delegação brasileira, empunhando um símbolo tão intangível, quanto magnânimo, pois, ufanismos às parte, mesmo os que circunstancialmente torcem contra ou são indiferentes, por vezes choram de emoção ao ver aquele pedaço de pano erguido em nome de uma nação. E dei meu primeiro grito de alegria. Confesso que também votei!

Yane Marques tem uma noção de regionalidade, de aldeia global, donde nascem as universalidades e os valores mais plenos de humanismo e de respeito às diferenças étnicas, de gênero, ideológicas, dos valores primordiais da tão almejada boa convivência entre os povos.

“Quem foge a terra natal em outros cantos não para” é o mote dessa galega de cabelos encaracolados, aplicada, atenta às palavras e um sorriso de flor de mandacaru, somente originado ali no Pajeú. O mote, trecho de clássico da música brasileira, de autoria dos conterrâneos Venâncio e Corumba, leva à ideia de que só se sai do lugar que lhe pariu quando não houver mais alternativa, mas ainda assim leva ele com você. Assim, será um cidadão universal, como Yane…

Não se vê, pela dignidade de sua postura, Yane esquivar-se com generalizações, como “sou do Nordeste, nordestina, lá de cima, do interior e outros – no caso – eufemismos”.

Yane Marques é de Afogados da Ingazeira, Yane é de Pernambuco, a atleta é nordestina, é do Pajeú, a esportista é desabrida em confessar-se do Náutico Capibaribe. Nossa pentatleta é brasileiríssima, ao lado de lituanas, alemãs, britânicas, húngaras..

Todas as características que lhe são atribuídas como inatas não cogita descolá-las de sua condição de sertaneja: o trato com cavalos desconhecidos; a correria – que domesticada vira corrida – o nadar nos rios da região – que pode ser fonte da natação aprimorada no pentatlo. Mesmo os exóticos tiro e esgrima não teriam vindo dos cavaleiros andantes dos povos que aqui chegaram de Europa? Ou dos índios, certeiros com suas armas de sopro e de flecha? Poderiam ser ainda fruto de lidas belicistas dos antigos coronéis?

Ficaria aqui momentos infindos sem contar o tempo, só falando de Yane Marques. Como recomendação de fã, digo apenas uma coisa: conhecedora dos porta-estandartes dos clubes de frevo e troças de nosso carnaval pernambucano e dos flabelos, que anunciam nossos frevos de bloco, coloque todo o seu gingado, alegria e carisma para ser uma grande porta-bandeira.

Do desempenho esportivo, temos certeza que nos representará com o seu melhor…

Perfil

Modalidade: Pentatlo moderno

Nascimento: 7 de janeiro de 1984 (32 anos)
Afogados da Ingazeira, Brasil

Nacionalidade: brasileira

Compleição Peso: 51 kg Altura: 1,66m

Medalhas – Jogos Olímpicos

Bronze Londres 2012 – individual

Campeonato Mundial

Prata Kaohsiung 2013 – individual
Bronze Berlim 2015 – individual

Jogos Pan-Americanos

Ouro Toronto 2015 – individual
Ouro Rio 2007 – individual
Prata Guadalajara 2011 – individual

Jogos Mundiais Militares

Ouro Rio 2011 – equipe
Prata Rio 2011 – individual
Prata Rio 2011 – equipe mista

A seguir, matéria do jornalista Pedro Bassan (clique aqui), um dos melhores textos da TV brasileira.

Primeira do ranking brasileiro e no Top-10 das melhores do mundo, Yane Marques encara sua terceira Olimpíada. Ela que já foi a 2º do mundo, em 2013. No masculino, as fichas também se voltam para outro conterrâneo, Felipe Nascimento.

26 julho 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE ‘DOSE DUPLA’ IV – DUAS VERSÕES DA MESMA MÚSICA – NELSON FERREIRA

Foto n 1 - Nelson Ferreira, o mestre
Mestre Nelson Ferreira

Esta série Dose Dupla tem me dado muito prazer e um ótimo retorno do público leitor, que se sente identificado com uma ou mesmo as duas versões que apresento de uma mesma canção.

Hoje é dia de falarmos de música símbolo do cancioneiro Pernambuco e também sucesso nacional. Evocação nº 1, frevo de bloco de Nelson Ferreira, foi cantado e tocado (em ritmo de marcha) o tempo todo no carnaval do Rio de Janeiro, de 1957.

Garimpando as regravações encontrei, há mais de 20 anos, essa preciosidade na voz de Beth Carvalho, em início de carreira. Ouçam, que bela interpretação.

De acordo com a obra “Do Frevo ao Manguebeat”, excelente trabalho do jornalista José Teles, do Jornal do Comércio, do Recife, a coisa se deu assim:

“A música fez tanto sucesso que o carioca chegou a aprender a letra e a cantá-la, embora confundisse os nomes de dois homenageados de carnavais passados do Recife, Felinto e Pedro Salgado, com Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas e Plínio Salgado, fundador do AIB – Ação Integralista Nacional -, partido brasileiro de ultra-direita”.

Evocação nº 1, de Nelson Ferreira, com Beth Carvalho, no disco “Canto Por um Novo Dia”, de 1973

A Letra

Felinto, Pedro salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos
Bloco das flores, andaluzas, pirilampos, apôs-fum
Dos carnavais saudosos

Na alta madrugada
O coro entoava

Do bloco a marcha-regresso
E era o sucesso dos tempos ideais
Do velho raul moraes
Adeus adeus minha gente
Que já cantamos bastante
E recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia

Agora, Evocação nº 1 em sua versão original com o coro de Batutas de São José:

Coral Feminino do Bloco Carnavalesco Batutas de São José – 1957

Registro do vídeo: Samuel Machado Filho – Lançado pela Mocambo em janeiro de 1957 nesse 78 rpm de número 15142-B, matriz R-791, e no LP coletivo de 10 polegadas “Viva o frevo!”, como faixa de abertura, este frevo-de-bloco, primeiro de uma série de sete “Evocações”, foi sem dúvida o maior sucesso de Nélson Ferreira como autor. Foi hit até mesmo no Rio e em São Paulo, em ritmo de marchinha, e aproveitado no filme “Uma certa Lucrécia”, de Fernando de Barros, co-produção Serrador/Cinedistri, estrelada por Dercy Gonçalves. No lado A saiu o maracatu “Nação nagô”, de Capiba, com o grupo Os Cancioneiros.

Breve Perfil

Pode parecer uma obviedade, mas sinto que falamos muito de Nelson Ferreira, mas será que o conhecemos tão bem assim? Pelo sim, pelo não, resolvi deixar registrado aqui um pequeno perfil deste que foi, ao lado de Capiba, um dos fundadores da autêntica música pernambucana.

Nelson Heráclito Alves Ferreira nasceu em Bonito, em 9 de dezembro de 1902, foi um grande compositor brasileiro, falecido no Recife, em 21 de dezembro de 1976.

Tendo de sua autoria composições de vários ritmos e estilos, como foxtrote, tango, canção, especializou-se e foi conhecido no Brasil como compositor de frevos.

Nelson Ferreira nasceu em Pernambuco, filho de um violonista vendedor de jóias e de uma professora primária. Aprendeu a tocar violão, violino e piano. Fez sua primeira composição aos catorze anos, a valsa Vitória, sob encomenda.

Tocou em pensões, cafés e saraus e nos cinemas Royal e Moderno, no Recife, sendo considerado o pianista mais ouvido na época do cinema mudo.

Foi diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, convidado por Oscar Moreira Pinto. Também Diretor artístico da Fábrica de Discos Rozenblit, selo Mocambo, única gravadora de discos instalada nos anos 1950 fora do eixo Rio/São Paulo. Estudou no Grupo Escolar João Barbalho – Recife/PE. Maestro, formou uma orquestra de frevos cuja fama percorreu todo o Brasil.

Nelson Ferreira é um dos nordestinos com maior número de músicas gravadas na discografia brasileira. Grande parte delas, no entanto, restringiu-se a Pernambuco e ao Nordeste.

Sua primeira composição gravada foi Borboleta não é ave, em parceria com J. Borges pela gravadora Odeon, em 1924 pelo Grupo do Pimentel, como samba, e pelo cantor Baiano, como marcha.

A composição mais famosa, um frevo de bloco, foi Evocação número 1, a primeira das 7 evocações compostas por ele, e que foi sucesso no carnaval de 1957 no Rio de Janeiro, cantada em ritmo de marcha.

Outras composições de sua autoria, famosas na época: ‘Não puxa, Maroca’; ‘Dedé’; ‘O dia vem raiando’; ‘Quarta-feira ingrata’; ‘Frevo da saudade’; ‘Chora, palhaço’; ‘Boca de forno’; ‘Sabe lá o que é isso?’ ; ‘Pernambuco, você é meu’; ‘Cabelos brancos’; ‘Bem-te-vi’; ‘Arlequim; Veneza Americana’; ‘Bloco da vitória’.

O compositor fez o hino do Bloco ‘Timbu Coroado’, que sai pelas ruas do bairro dos Aflitos, no Recife, no domingo de Carnaval e pertence ao Clube Náutico Capibaribe. Para este clube, também fez o frevo Come & Dorme, talvez a música que mais esteja associada ao futebol alvirrubro pernambucano.

Também é o autor do frevo-canção Cazá Cazá Cazá (1955), após o pedido na época do jovem Eunitônio Edir Pereira, que anos depois iria compor o Hino Oficial do Sport Club do Recife.

Nelson Ferreira teve como parceiros musicais, entre outros, com Sebastião Lopes; Ziul Matos; Aldemar Paiva; Oswaldo Santiago; Eustórgio Wanderley.

Além de Claudionor Germano, um de seus maiores intérpretes, cantor de frevos de outros compositores, principalmente Capiba, também gravaram composições de Nelson Ferreira os cantores: Francisco Alves; Almirante; Carlos Galhardo.

10 maio 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA III – DUAS VERSÕES DA MESMA MÚSICA

Foto 1 - Assis Valente

Brasil Pandeiro

“Brasil Pandeiro”, de Assis Valente, é uma das canções-hino do Brasil, no nível de ‘Aquarela do Brasil’, ‘Cidade Maravilhosa’, ‘Samba da Minha Terra’…

Foi escrita em 1940, por este baiano genial, que tem uma biografia recheada de fatos duros, difíceis e pesados viveu menos de 50 anos. Depressivo, suicidou-se em 1958, no Rio de Janeiro (*).

A música, de 1940, feita especialmente para Carmen Miranda, acabou sendo gravada pelos “Anjos do Inferno”, justamente o conjunto que acompanhava a ‘pequena notável’ em muitas excursões.

Assis Valente apresentou a famosa canção e outra chamada “Recenseamento”. Pois Carmen -eventualmente preocupada com os versos que falam de Tio Sam -, não quis gravar “Brasil Pandeiro”, vez que a grande estrela estava no auge do sucesso nos EUA. Gravou a outra.

É importante lembrar que Carmen Miranda gravou 25 sambas e marchas de Valente. A seguir, “Brasil Pandeiro”, com o conjunto “Anjos do Inferno”, que contava com Miltinho como um dos componentes:

A canção foi regravada inúmeras vezes por grandes intérpretes e cantores como Maria Betânia, Chico Buarque, Nara Leão, entre outros.

A Letra

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar!

Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente
Num batuque de matar
Batucada, reunir nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressão que não tem par, ó meu Brasil

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar!

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar!

Ô, ô, sambar.
Ô, ô, sambar…

Foto 2 - Carmem Miranda e Assis Valente

Carmen Miranda

Porém a mais importante e revolucionária versão de “Brasil Pandeiro” é obra dos extraordinários “Novos Baianos”, que além de trazerem músicas belas e inovadoras de sua própria lavra, resgatou para a juventude de então e para os mais recentes interessantes na boa música brasileira uma versão moderníssima e definitiva. Fez isso com “Brasil Pandeiro”, fez isso com “Samba da Minha Terra’’.

Os que acompanham esta coluna sabem do apreço que seu autor tem pela boa música brasileira e do estímulo que dispõe àqueles grupos, cantores e cantoras que novos, modernos, inovadores misturam seu repertório próprio com grandes momentos do cancioneiro nacional, como fazem e fizeram “Os Novos Baianos”, Marisa Monte e o excelente “Casuarina”.

Esse era o ‘Dose Dupla’ que mais esperava publicar.

Semana que vem tem mais..

(*) Breve perfil de Assis Valente.

Os dados estão fundamentados nas seguintes fontes: Dicionário Ricardo Cravo Albim; wikipedia, Vagalume, Emanoel Araújo (curador do museu Afro-Brasil, natural de Santo Amaro da Purificação-BA)

O nascimento de Assis Valente sempre foi cercado de lendas. Até a data de seu nascimento é incerta. Algumas fontes citam 19 de março de 1908; outras, 19 de março de 1911. Consoante seu próprio relato, ele teria nascido quando sua mãe fazia uma viagem de Bom Jardim à cidade de Patioba (Bahia), no Sul da Bahia, “em plena areia quente”. Só que ele também dizia ser natural de Campo da Pólvora, em Salvador, filho de José de Assis Valente e de Maria Esteves Valente, pais que ele efetivamente pouco conheceu, pois, aos seis anos de idade, teria sido sequestrado por um tal de Laurindo e entregue para ser criado por uma família residente na cidade de Alagoinhas, a família Canna Brasil.

A maioria de biografias e perfis, no entanto, informa que Assis Valente era de Santo Amaro da Purificação-BA, portanto conterrâneo de Caetano e Betânia.

Alguns artigos sobre a vida do artista consideram que “talvez ele tenha tido uma das mais trágicas vidas da história da música brasileira.

Assis Valente sofria de profunda depressão quando tentou suicídio pulando do Corcovado, de uma altura de 800 metros, em 12 de maio de 1941. Felizmente ficou preso na copa de uma árvore brotada da pedra, 70 metros abaixo”.

O autor de “O mundo não se acabou” foi resgatado com vida, mas não desistiu de acabar com a vida. Tentaria mais cinco vezes até conseguir, em 1958, ao beber um refrigerante batizado com veneno para ratos”.

José de Assis Valente era filho de uma empregada com um homem casado. Mudou-se para o Rio em 1927, com 19 anos. Montou um laboratório de próteses dentárias. Compôs 155 músicas, a maioria sambas e marchas.

A data mais constante para seu nascimento é 19 de março de 1911. Morreu no Rio de Janeiro em 6 de março de 1958.


SÉRIE DOSE DUPLA II – DUAS VERSÕES DA MESMA MÚSICA

Silvio Caldas-horz

Chão de Estrelas, obra-prima de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa

Semana passada, trouxe Maracatu Atômico, canção que considero a versão original, de Mautner e Jacobina, mais atrevida que as sucessivas releituras que vieram, à frente a excelente e definitiva com a marca de Gilberto Gil.

No “Dose Dupla” de hoje, trataremos de um dos maiores clássicos da MPB em todos os tempos e uma versão, no mínimo, muito polêmica.

Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, que considero um dos três pilares de nosso cancioneiro, ladeado por “Rosa”, de Pixinguinha e Otávio de Souza, e “Carinhoso”, de Pixinguinha e letra temporã de João de Barro.

Maysa interpreta “Chão de Estrelas”, em 1969, no Canecão, Rio

Embora seja arroz de festa em toda roda de seresta, de samba e de cantoria pelo Brasil afora, é importante oferecer algumas informações factuais que muitos desconhecem. Para confirmar esses dados, auxiliei-me do site musical “Chão de Estrelas”.

Chão de Estrelas chamava-se incialmente “Sonoridade Que Acabou”. Foi escrita por Orestes Barbosa (1893 – 1966) e musicada por Silvio Caldas (1908-1998) em 1935. Seu lançamento em disco aconteceu em 1937.

Ainda ancorando-me no site especializado, “a música despertou fascínio de diversos poetas, dos quais o destaque para Guilherme de Almeida, a quem Silvio Caldas mostrou a canção. O poeta deu o nome definitivo de “Chão de Estrelas”.

Guilherme escreveu, em 1965, uma crônica em que revela: “Nem de nome eu conhecia o autor. Mas o que então dele pensei e disse, hoje o repito: uma só dessas duas imagens – o varal das roupas coloridas e as estrelas no chão (…) – é quanto basta para que ainda haja um poeta sobre a terra”.
Na mesma época, Manuel Bandeira disse:

Se se fizesse aqui um concurso, como fizeram na França, para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes em que ele diz: “Tu pisavas nos astros distraída…”. (Manuel Bandeira, Jornal do Brasil, 18 de janeiro de 1956).

A letra

Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voo

Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros, distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão

Chão de Estrelas, pelos Mutantes – 1970

Porém, além de procurar o tanto quanto possível conhecer, ao menos, os grandes clássicos da MPB, já me ligava no cotidiano do tropicalismo, muito da bossa nova, sambas-canção e o que aparecesse de novo, além das múltiplas referências internacionais que aqui consumíamos.

Até que, em 1970, 20 anos depois de sua última gravação, “Chão de Estrelas” voltou numa versão acentuadamente psicodélica e chegando as raias da paródia, com alteração de letra e tudo o mais. Foi no álbum “Divina Comédia” (Ando Meio Desligado).

Confesso que fiquei incomodado com aquela versão. À época, foi muito criticada pelos ‘puristas’ da música convencional.

Pois eu me incluo no grupo destes puristas, nunca a versão dos Mutantes me convenceu como releitura da obra de Silvio e Orestes. Purismo sim, preconceito não. A primeira parte é apenas uma versão, com voz de cantor de rádio, satirizando o modelo, mas respeitando a melodia e a letra. Na segunda parte, é uma esculhambação, barulhos, sons distorcidos e uma parodia de mau gosto.

Bom destacar que tenho todos os discos dos Mutantes, com e sem Rita Lee, seus belíssimos acompanhamentos em festivais, a sua qualidade melódica e o talento de seus músicos – com destaque para Sérgio e Arnaldo. É para mim, até o hoje, a melhor banda musical brasileira de todos os tempos. Mas “Chão de Estrelas” foi um “assassinato”….

26 abril 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – DUAS VERSÕES DA MESMA MÚSICA

Gil e Mautner

Confusão danada

Não sei se já falei! Mas aprecio uma celeuma, uma querela, um quiz, uma disputa, uma porrinha, um palitinho, qualquer jogo de agilidade, que envolva informação básica com o qual você pode brincar com meia dúzia de amigos, sem gastar um tostão e tudo na mais alta paz. Quem nunca brincou de stop, de mimica ou de War levante a mão!

Pois de vez em quando, gosto de fazer umas perguntas e deixar solta no ar para ver quem se apresenta a responder. O próprio inesperado da questão deixa muita gente nervosa e se apressando em buscar na memória a resposta.

Hoje, com o ‘google’ e outros achadores, nós “jogadores profissionais” achamos por bem eliminar a ferramenta para não desequilibrar o jogo. Talvez até, tirar a graça.

Vou seguir com esta série “Dose dupla”, sempre relacionada à música, seu verdadeiro autor e quem, muitas vezes, tornou-a conhecida, um hit.

Uma dessas clássicas ‘pegadinhas’ é o balançado e estonteante “Maracatu Atômico”. Primeiro que o título vem com o nome de uma manifestação popular tocada em Pernambuco, mas o autor quis atomizá-lo tanto que deixou de ser a música original.

Segundo, porque produzida na primeira metade dos anos 1970, só veio ganhar fama, depois que Gilberto Gil arranjou-lhe um sacolejo nacional.

Bom mesmo foi num dia de festa aqui em casa quando um camarada, boa praça, gente fina, marido de uma amiga minha, apreciando a canção, fez uma descoberta “esse Gilberto Gil é um monstro”. Eu de cá., metido no assunto, perguntei, “como é que é meu compadre”. E emendei: “pois é Gil faz cada arranjo sem igual”. O homem – valente de todo, replicou: “como assim:?. Essa música e letra são do Gil”.

E deu-se a confusão. Palpites não faltavam: Nação Zumbi, Chico Science, Marisa Monte, Cássia Eller, é de Gil mesmo. Não seria de Nelson Jacobina, cutuquei eu. Bem vamos ao desfecho:

Maracatu Atômico – Jorge Mautner e Nelson Jacobina (1974)

Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas negras e tão afiadas se esqueceu de por

No fundo do pára-raio tem o raio, tem o raio
Que caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro-negro é todo negro, é todo negro
E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstra o meu apego

O bico do beija-flor beija a flor, beija a flor
E toda a fauna aflora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

Gilberto Gil, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina

A gravação que deu fama nacional e um hit para todos os lugares foi esta feita por Gilberto Gil, mas que ela foi composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, ah isto foi!

Semana que vem tem mais…

19 abril 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


QUANDO VEM O CALUNDU, SÓ RESTA O MARACATU

Foto 1 - Dona Santa do Maracatu Elefante

Dona Santa, do Maracatu Elefante

Hoje, acordei com gosto de pano de chão usado na boca. Quando vem esse sentimento-sensação o único pedaço de madeira que me adia o naufrágio é pensar no útero que me deu a luz: o Recife.

Abri os olhos, despertei depois de vários pensamentos ruins, preguiçosos e traiçoeiros como espantalho, cuja alma lhe foi tirada antes da figura do andrajoso fantástico. No âmago, um eco vazio de uma ‘vitória de Pirro’.

Foi um acordar embezerrado, melancólico, dengoso, amuado. Sinto-me sorumbático, estou de lundu, com calundu, macambúzio, arriado, arrufado.

As palavras, segundo o dicionário:

embezerrado adj (part de embezerrar) Amuado, zangado, macambúzio, emburrado.

melancólico adj (gr melagkholikós) 1 Que sofre de melancolia. 2 Abatido, desconsolado, triste. 3 Que infunde melancolia. Antôn: alegre, expansivo.

arriado adj (part de arriar) Diz-se do galo que, na ocasião da rinha, por ferido ou cansado, não mais podendo manter-se de pé, sustenta-se com a cabeça no solo.

Dengoso ô/adjetivo – 1.que age de forma sedutora e insinuante (diz-se esp. da mulher). 2. que pretende atrair as atenções por meio de gestos, roupas etc.

Lundu sm Folc 1 Espécie de batuque de origem africana. 2 Canto ou música dessa dança. 3 Canção solista, em geral de caráter cômico. 4 Reg (Norte) Zanga, amuo; calundu. Var: lundum.

macambúzio adj pop Carrancudo, embezerrado, sorumbático, tristonho. Antôn: alegre, prazenteiro.

amuado – adj (part de amuar) 1 Que tem amuo. 2 Guardado, entesourado (falando-se de dinheiro e riquezas). 3 Atrasado no produzir.

arrufado – adj (part de arrufar) 1 Arrugado, encrespado, eriçado. 2 Agastado, enfadado. sm Náut Embarcação que tem a proa muito elevada.

Não, não é a primeira vez que isso acontece e, tenho a impressão – pelo que a vida tem ensinado – que não será a última.

Peço que não me perguntem muitos detalhes desse estado de coisas. Estou há vários dias pensando na vida. Sempre que se pensa na vida, um dos lados traz um gosto amargo de fel na boca. É o que chamam por aí de ponderação.

Quando a ponderação se esgota, sobra a energia da sobrevivência de uma dor imensa dentro do peito, que há de ser vivenciada, sob a pena do cometimento de pecado capital: a covardia.

Quando assim estou, penso no útero que me pariu: o Recife. No seu terrível belo e no seu incrível pavor.

É nas referências mais profundas de lá que compadeço de meus lundus e calundus. Não há nenhuma objetividade. Não há escolha. Todas as imagens vêm de lá. Dos homens-lama e dos guabirus debaixo das pontes, respirando embaixo das entranhas nas alças de suas, dos manguezais – berço da natureza – escangalhados pela especulação imobiliária, e – que duro isso – de nossa arrogante superioridade vil, uma dicotomia histórica vista a olhos nus no Complexo de Salgadinho, na divisa do Recife, com Olinda, minha avó.

Então apelo para todos os santos e orixás, me redimo subindo o morro da Conceição, sublimo meus fedores com as ruas da Guia, baforadas de cheiro de mijo.

Busco o monte dos Guararapes (amanhã, 19 de abril – data de fundação das tropas nacionais), em Jaboatão (a “Moscou brasileira”), para sentir uma pátria que nunca se consolidou; visito Tejucupapo, para relembrar as guerreiras que, de forma quase non-sense, expulsaram algumas centenas de flamengos a golpes de paus e pedras e panelas com água fervente.

Procuro arrecifes em Boa Viagem para ficar aquém dos tubarões que, pela sanha gananciosa dos homens, deslocaram-se para ali.

Há uma resiliência ‘mulesta dos cachorros’ que só ali encontro – talvez por desconhecimento de outros mundos.

Quando estou macambúzio, melancólico e de calundu, procuro meu útero, quentinho, nem sei de qual procedência, nem estirpe, mas é quente e me serve.

É minha última reserva de energia.

Na ponderação, os carnavais; os são joãos; as semanas ‘santas’; a maresia, a prosódia, a música, as coisas do povo, a manifestação popular: o frevo, o coco, a marcha de bloco, os maracatus.

Não sei por que cargas d’água o maracatu é minha sublimação. Vem de longe, vem de África, canta a dor, canta a humilhação e se vinga dos seus antigos senhores, vestidos e reis e rainhas, como dona Santa.

Depois de meu banho de sal, a consulta ao tarô, outro banho de sol, o sal da praia e o pé no chão, só me recupero – se é que recuperação há – ouvindo o mais profundo som brasileiro-africano, “o meu maracatu é da coroa imperial, é de Pernambuco ele é, da casa real”

Foi cantando esse maracatu de Capiba – o primeiro que aprendi – que limpei meus pensamentos mais doídos de hoje. Só por hoje!

12 abril 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


DI MELO IMORRÍVEL, NOME QUE ALGUNS CONTERRÂNEOS AINDA NÃO CONHECEM – II

Foto 1 Otto e Di Melo - Pernambuco se encontra no Sudeste

Di Melo e Otto: Pernambuco se encontra no Sudeste

Esta semana, conversei com meu primo Sérgio Viana de Macedo, a quem, além de grande afeto e amizade, tenho também como o cara que me deu e me dá as melhores e mais novas indicações da cena cultural pernambucana. Sim, cena em geral, porque falamos de cena cinematográfica, cena urbana e cena musical, para não falar nas cenas dos manguezais

Me introduziu ao Mundo Livre S.A., Nação Zumbi (para além de Chico Science) Devotos, Spock, Forró, Selma, Mestre Ambrósio, Lirinha e outros.

Procurei devolver com os grandes tesouros musicais, que hoje está no meu baú, como Tamarineira Village/Ave Sangria, Lula Cortez, Flaviola e os outros ‘malditos’ maravilhosos do Recife, nos anos anteriores aos 80/90.

Essa salutar troca de informações e descobertas, faz com que eu e Sérgio fiquemos antenados em qualquer novidade.

De lá e de cá. Na conversa recente, perguntei-lhe se conhecia Di Melo Imorrível. Disse que não! Contei-lhe um pouco da história, que está em parte contida no nome e prometi mandar mais materiais.

Aí vão, Sérgio Viana de Macedo, alguns dados a mais, neste segundo texto (o primeiro, semana passada) que produzo por este excepcional músico e showman Di Melo. Enjoy it:

– No final da década de 1970, Di Melo abandonou os palcos. Seu trabalho foi redescoberto por DJs no início dos anos 1990. Em poucos anos, o disco, que entrou para a história da música nacional, ficou escasso nas lojas, virou raridade.

Suas músicas tocaram da Holanda ao Japão (onde tem discos gravados e público cativo), e o vinil era vendido por até $ 700 euros. Como o cantor havia se retirado da vida pública e sofrera um grave acidente de moto, espalhou-se o boato de que havia morrido.

A vida em seus Métodos diz Calma – Disco de 1975

Di Melo “renasceu” em 2009 ao ser convidado para participar do 19º Festival de Inverno de Garanhuns-PE. A história de sua falsa morte resultou em documentário dos cineastas Alan Oliveira e Rubens Pássaro, lançado em 2011 e apropriadamente chamado de “Di Melo, o Imorrível”.

O filme conta com depoimentos de Charles Gavin, Léo Maia, Simoninha e Max de Castro, entre outros, e foi mais um incentivo para o retorno do artista (ou ‘arteiro’, segundo o próprio) à vida pública.

Di Melo - um nome que renasce forte na cena nacional

A Capa do novo disco “Ele Voltou”: um belo trabalho da terra

Milton Leal Pessoa, o “Ganja”, é o autor do pontilhismo sobrenatural da nova capa de Di Melo.

Recifense, trabalha com papéis, telas, barro, gesso, paredes e peles. Um de seus trabalhos mais recentes é a capa do álbum do cantor e compositor Di Melo, lançado agora em fevereiro/2016.

Barulho de Fafá – faixa do novo disco de Di Melo Imorrível

Ganja tem o pontilhismo como foco da sua técnica, mas não se limita a esta modalidade. As cores e traços concretos também ganham espaço, compondo um cenário misto, místico e transcendental, que combina com a inspiração do artista. Ganja afirma que “sempre uso o que a arte me exige, o que sinto que ela precisa. Busco respostas nos meus sonhos, mirações, nos mergulhos que dou no meu subconsciente que é onde recebo as imagens. A arte me diz o que fazer, sou apenas um servo”, explica.

A fonte inesgotável do talento pernambucano

Para “kilariar” o assunto para quem não é do ramo, mas gosta da coisa, o pessoal que tem vindo de Olinda, do Recife e até do interior (Arcoverde, Petrolina, Caruaru, Carpina, Macaparana, Bonito) chega em Sampa e alhures para fazer sucesso fora de casa – como fizeram Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Manezinho Araújo, Antônio Maria, Severino Araújo e sua orquestra Tabajara, Fernando Lobo, Novelli, Naná Vasconcelos, Lenine, no Rio de Janeiro, e outros doutra época – se estabelece e bota banca para o mundo (“Pernambuco Falando para o Mundo”, diz o slogan universal que caracteriza a rádio Jornal do Comércio).

Não é um quadro completo, mas cito alguns casos. Podemos fazer um corte a partir dos anos 1980, com a chegada do multiartista Antônio Nobrega e todo o seu manancial da cultura popular, envolvendo música, teatro, dança, performances e fincando ali na Vila Madalena o ‘Instituto Brincante’, hoje um dos principais centros de arte e cultura de São Paulo.

Da mesma época e de logo depois são Mestre Ambrósio, grupo conduzido por Siba, hoje em carreira solo; Otto, baterista do Mundo Livre S.A. e hoje um dos mais requisitados artistas nacionais; Antúlio Madureira; Lirinha, ex-comandante do Cordel do Fogo Encantado; Os Mamelungos, Vitor Araújo, pianista precoce, com DVD gravado, experimentando nova relação para o concerto erudito-popular; Vinícius Sarmento, craque do 7 Cordas, que foi direto para a França se misturar; a Spok Frevo Orquestra, que tem vindo muito ao Sudeste, mas já é há muito aclamada no exterior, em encontros sonoros trocando notas de seu frevo clássico e contemporâneo com o jazz norte-americano.

5 abril 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


DI MELO IMORRÍVEL UM NOME QUE RENASCE FORTE MPB – I

Di Melo - um nome que renasce forte na cena nacional

O novo disco de Di Melo, lançado 40 anos depois do primeiro, de 1975

Saí de casa com o pé atrás. O cara é uma endemia, está virando epidemia e nada indica que, com mais um tempinho, não venha a se tornar uma pandemia.

Embora já tivesse sapeado o cd antecipadamente, estava com muita curiosidade para o lançamento do novo disco do “Di Melo Imorrível”, em show ao vivo, no último dia 27 de fevereiro último, quarenta anos depois da produção de seu primeiro trabalho, em 1975.

A expectativa da crítica especializada e do fã clube “dimelista” era enorme, mas continuava uma dúvida danada: será capaz de repetir o excelente disco da EMI, comemorando seu centenário, que reproduziu o primeiro trabalho?

Eu vinha acompanhando, como frila, a nova cena musical paulistana, com olhar especial para a turma que vem de Pernambuco, aparentemente uma fonte inesgotável de talentos e de grandes sopros de qualidade na nem sempre fértil atual música brasileira.

Pois bem, o álbum de 12 faixas (uma delas bônus) tem participações especiais de B. Negão, Larissa Luz e Olmir Stocker, além de uma antiga parceria com Geraldo Vandré, “Canta Maltina/Chacacalaiô”.

Participaram do show, em noite única, a cantora Larissa Luz, o cantor e compositor pernambucano Otto e o DJ Dexter. Larissa tinha compromisso marcado no mesmo Sesc-Belezinho para breve.

Gravado e produzido com jovens músicos conterrâneos da cena do Recife, o álbum é dançante, de alto astral e reflexivo, na mesma onda do momento original – quando se tornou referência para alguns dos grandes nomes do funk e do soul internacional – que revelou o artista nos anos 70/80.

Novo Disco “Ele Voltou, O Imorrível”

“Imorrível” reflete um encontro de gerações, tanto entre os músicos – a equipe que acompanha Di Melo é da geração “pós-manguebeat” – quanto nos arranjos, com variações baseadas na mesma instrumentação de décadas atrás, aliada a novas ambientações e suingues..

O álbum foi finalizado em minucioso trabalho de mixagem de Gustavo Lenza, que já fez trabalhos com Zeca Baleiro, Céu e Curumim. A direção artística e os arranjos de sopro tiveram a chancela de Pedro Diniz, que lança seu primeiro trabalho como produtor musical ao lado de Ricardo Fraga e Diogo Nicoloff. A produção do LP tem parceria da ‘Ócio Cultura Brasil’.

O Show

Antes de falar do espetáculo, digno de nota é o magnífico equipamento de primeiro mundo, o Sesc-Belenzinho, uma obra-prima de arquitetura, design, divisão de espaços, singeleza, acessibilidade, conforto e tudo o mais que o sistema S (SESC, SENAC, SESI. SENAI etc) oferece. Ah, se o Brasil tivesse o padrão S de qualidade!

Di Melo Imorrível é, além de ótimo cantor e showman, uma figura sensível e com bom humor permanente, fruto de sua língua aguçada, raciocínio rápido e uma bagagem que o faz um mestre do palco. Conversa o tempo todo com a plateia, conta das músicas, suas histórias, como surgiram e não se furta, mesmo em seu dialeto “dimelístico”, a comentar com franqueza e destemor o momento político carrancudo de nossos dias.

O show – como sempre acontece em relação a discos – tem a energia e o fervor do espetáculo ao vivo. A faixa 1, que apresenta o título do disco “Ele Voltou, o Imorrível” é uma ótima abertura.

A música “Basta Bem Pensar” é, para mim, um dos pontos altos. Nesta faixa, especial é a participação de Henrique Albino, numa linda introdução com sax tenor. Coro, balanço e suingue marcam a melodia. “Distando como estava”, a minha preferida.

Claro que não se deve passar em branco a que Di Melo fez com Geraldo Vandré, “Canta Maltina”, até pela improvável parceria. Ah! agucem suas oitivas para a faixa 10, a surpreendente “Multicheiro”.

Nesta, o cantor e compositor deita e rola no seu “dimelês”, com frases e invencionices como “lhe cangotiei”, “linguentrelacei”, “voar, revoir”. Siga até o contemporâneo neologismo “Disquerer” – outra linda canção-, a 12ª faixa.

No lançamento, contou com a participação de Otto, Dexter e de Larissa Luiz. Estes artistas, confesso, – conhecidos de outros shows solo – não trouxeram grande contribuição à apresentação.

Talvez o tenham ajudado, e muito, em segurar a sua voz e mesmo mantê-lo aceso. É que, como informou sua mulher e produtora, Jô Abade, Di Melo passou aquela semana com uma virose e no dia do show se entupiu de chás e medicamentos para poder comparecer ao seu lançamento.

Evitaria clichês, se isso não facilitasse imensamente a minha vida para os mais curiosos que se prendem exclusivamente às peculiaridades e mensagens cifradas do nome de Di Melo e não optam por saber direito o que esperar do autor. Para delinear o rol de sons e influências do autor me valho dos estereótipos de Jorge Ben Jor, com quem de fato Di Melo teve contato musical, Tim Maia, Sérgio Mendes e, ouso dizer, sincrônica e espiritualmente, dizer: também com o som de Chico Scince e o manguebeat.

29 março 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


POLÍTICA: PRONTO, FALEI

DD

Não estou pedindo silêncio, estou pensando!

Em geral, ocupo esse valoroso espaço, denominado “Megaphone do Quincas”, no Jornal da Besta Fubana, com crônicas de variados assuntos – cidades, momentos, lições de vida, casos, reportagens que fiz e vivi, acontecimentos que emocionam, um pouco do que vejo que me tira lágrimas ou sorrisos. Os estilos são líricos, intimistas, desabridos, com humor, certa dose de ironia e muita, muita informação. Recortes da vida que quero divido com os eleitores.

Mesmo entendendo que nem uma palavra, no mais despretensioso texto, rascunho, está infensa a posições políticas e filosóficas, tenho procurado fugir de forma sistemática do tema política, política-partidária, crise institucional e outros momentos de abalo administrativo, político, de confiabilidade, de choque entre instituições, que muitas vezes nos deixam temerosos de que, a qualquer momento, podemos voltar no tempo e tornar a viver tempos tenebrosos da ditadura civil-militar, que nos apanhou a partir de 1964.

Desta feita, muito menos com a intenção de me ombrear com os intelectuais de grande envergadura, jornalistas de alto coturno, blogueiros que conhecem os bastidores do poder e até de teóricos, cidadãos cultos, lidos, que passaram boa parte de sua vida acadêmica e profissional a tratar do assunto, me atrevo aqui e agora, somente emitir minha opinião, como cidadão, jornalista, agora escritor de primeira viagem. A única peculiaridade que me talvez me dê sustentação para falar de política, sem nenhuma fundamentação clássico-teórica, é o fato de ter sempre trabalhado em instituições de poder: Câmara paulistana; Assembleia Legislativa paulista; e no Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo de São Paulo. Além disso, na condição de repórter de rádio por 15 anos – em editoria de geral – tive a oportunidade de acompanhar muitos importantes momentos políticos e me aproximar bastante de políticos, de maior ou menor bagagem, que eram minhas fontes.

Esta semana, escrevi um desabafo na rede social e quero dividi-lo com os leitores da “Besta Fubana”. Aqui com alguns importantes acréscimos factuais, mas guardando a originalidade da indignação dos primeiros parágrafos:

“Lembro-me, nos primeiros momentos de revelação de que o PT não era diferente dos demais partidos e facções – vamos ser justos muito mais aprimorados, dissimulados, cínicos e mais fisiológicos que qualquer um – alguns amigos e até parentes, afirmaram continuar a votar no partido do poder por conta da atuação autônoma do MP e da PF, com se fossem diretamente ligados à política do partido do Governo!

O argumento foi usado inclusive na primeira eleição do poste búlgaro Roussef. Mesmo assim, é melhor do que termos um “engavetador geral da República”, era o que diziam de peito estufado.

No segundo mandato, todas as máscaras haviam caído, inclusive no momento mesmo da eleição – uma fraude rodriguiana – com mentiras deslavadas, promessas inexequíveis e um cheiro de golpe eleitoral (ainda sendo investigado).

Mas, aos vencedores às batatas. Continuou o blefe, incluindo blagues de fiiguras brabas e deletérias como Miguel Rosseto, Rui Falcao e Stédile (esse sim um tarado esqjuerdopata incediário), estafetas ou alinhados de instituições,

Não bastaram que as negociatas do Mensalão – com a prisão de capos de alto coturno como José Dirceu – fossem julgadas e condenadas no Mensalaão.

O Petrolão veio e apresentou à nação o maior esquema de arrecadação de propina e dinheiro não contabilizado de que se tinha notícia – mais prisões e tornozeleiras -. Mas, a coisa não parou: acostumados com a “velha impunidade”, continuaram fazendo tenebrosas transações até hoje.

O motivo que fez meus grandes amigos e até parentes permanecerem com o PT, “apesar de tudo”, caiu por terra com o terror disseminado pelo novo ministro da Justiça, que,de forma republicana, disse que “a qualquer cheiro de vazamento ou irregularidade trocaria toda a turma da eficiente Operação Lava-Jato”.

Ontem, o ‘quase qualquer coisa do Planalto’, ex-presidente Lula, disse para plateia (combinada com os russos) que a Operação Lava Jato era a responsável pelos problemas da economia brasileira. Como dizem que ele é um gênio popular, recebeu então o espírito de Kafka, Mollière ou Beckett. Brilhante, mente melhor do que Paulo Autran

Em outras frentes, o Itamaraty distribui nota alertando escritórios, representações, consulados e embaixadas no exterior que havia um golpe de direita em marcha do Brasil (hein). Sim desmentiram logo. Foi um aloprado que fez isso de vontade própria (como sempre). Já foi admoestado. E só!

Quem mandou soltar essa nota????? Como sempre ninguém…não sei de nada!!!!!

Mas a coisa é de fácil dedução, a poste búlgara convida os principais veículos de comunicação do mundo inteiro – EUA, França e Inglaterra – e joga, reforçando o ato falho do Itamaraty, que há um golpe em marcha…..Os gringos não engoliram fácil, mas é sempre bom defender-se atacando, como dizem no futebol.

Não vou falar de fitas que fariam enrubescer a minha mãe, nem da corrupção, que se nunca foi tão eloquente como agora, sempre existiu.

A lista da Odebrecht, um fiasco. Pensei que viesse um Hitchcock e saiu um Quentin Tarantino, muito sangue e pouca sutiizeza..

Ah, para quem não segue a cartilha desse partido que afunda o Brasil, os correligionários devem ser defendidos em qualquer circunstância, mesmo condenados, com trânsito em julgado.

Os que sabem de política há mais tempo, conhecem que não se põe a mão no fogo por muita gente….Não há uma parcimônia na doutrina patológica de quem se sente dono de verdade absoluta.
Não vou aguardar um gesto de estadista de Dilma – uma renúncia, que, por si só, melhoraria o clima político-institucional e principalmente econômico no país.

Quem já passou pelo que a presidente passou tem esse orgulho e é justo. Embora pededtistas de origem e outros petistas se arvorem em se autodenominar os responsáveis pelo restabelecimento da Democracia.

Não é bem assim. Se dependesse do PT, tanto fazia Paulo Maluf ou Tancredo Neves conduzindo o país….

Desejo, de todo o coração, que seja percebido como crime de responsabilidade as criminosas populices que desequilibraram a economia brasileira, com reflexos em ‘pedaladas’ e sacanagens financeiras.

Como respeito a Constituição e não desejo a ruptura, nem praticar o jogo sujo do PT, estou me acostumando a ficar com a sra Roussef mentindo e o quase-qualquer-coisa ex-Lula, apelando para que uma de suas fações façam barulho para amedrontar o Juiz Sérgio Moro, até 2018.

Não sei se temos um povo cordial, como disse o pai do Chico, mas resistente ele é, se não não aguentaria 13 anos de amadorismo e demagogia…

Enquanto isso – um eclipse – o Brasil real paralisado, hibernando, perdendo, caindo, despencando na confiança subjetiva e naquela que é objetiva, que humilha os mais pobres.

PIB negativo, inflação alta, cortes em programas sociais importantes, desinvestimentos (cogita-se usar a reserva em divisas, meu Deus); desemprego recorde; juros altos etc. E pensar que o país teve período de bonança e muitas divisas, com céu de brigadeiro. Por dez anos consecutivos, as comodities deram ao Brasil a condição de país forte, que estava alcançando o “futuro” do qual sempre se falou o paraíso reservado para o gigante desadormecido.

Hoje, depois de toda a orgia financeira e econômica, quando não se teve um átimo de prudência e de carrear recursos para poupança, investimento e estabilidade monetária. Não, como pândegos lambuzados, chafurdaram na lama do dinheiro fácil, na farra dos neófitos…

Afora, até a hiena do Nelson Barbosa, sempre riso rasgado, está macambúzio.

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22 março 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


“ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO ELE MORREU?” – JOHN LENNON – III

John Lennon autografo

John Lennon, sua última foto e o último autógrafo para seu algoz, Mark Chapma; Lennon, era meu manual de fraternidade, sempre debaixo do braço

Alguns ídolos, ícones, personalidades que escolhemos como referência para um momento, uma época ou para a vida inteira, são como livros e fitas, cds que você carrega debaixo braço para consultas de informação fortuitas ou momentos de solidão íntima.

São nossos companheiros para horas tristes e boas. Como se fossem bíblias, talmudes e alcorões para nós, que um dia fomos hippies, depois descobrimos que vivíamos como nossos pais e aí nos veio a revisão de quase 80% dos conceitos pétreos – não princípios – estes companheiros nos mantiveram vivos, acesos, alegres ou sustentando uma coragem estoica, perante medos enormes.

Nos primeiros tempos, Herman Hesse, depois Proust, Kant, Simone de Beauvoir e Sartre. Na música, Hendrix, Janis Joplin, Gonzaga e os Mutantes.

Em 8 de dezembro de 1980, menos de cinco meses de desembarcados em São Paulo, eu e Cristina, mãe de minha filha, Marina, sofremos um choque porrada – vivíamos com poucos recursos, início de vida na cidade mais grande e todos os sentidos voltados para a esperança, um som legal, uma vida simples, o cuidado extremado com a recém-nascida filha e muita vontade de ser livre – isso incluía uma panaceia de valores espirituais, morais e materiais.

Era ainda tênue a nossa relação com São Paulo: nossa vizinha, dona Dolores, colombiana de Barranquilla, fazia as vezes de tia de todas as horas; eu suando para manter um ganha-pão que me dava um enorme desprazer executar; Cristina cuidando da casa, da Marina e ajudando no provimento dando aulas de alemão.

Morávamos na rua Comendador Elias Zarzur, em Santo Amaro. Lugar bacana, de classe média alta. Nosso truque é que o casarão pertencia a um professor da Waldorf (escola antroposofica, fundada por Rudolf Steiner, onde Marina viria estudar), que solidariamente nos alugou o imóvel por preço simbólico.

Neste momento, tanto eu quanto a Cristina havíamos abandonado hábitos e vivências que nos afastaram do Recife, como auto repulsa terapêutica. Trouxemos debaixo do braço o Ave-Sangria, os sons dos frevos e maracatus, o velho Faceta, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Os Novos Baianos, Lula Cortez, os desenhos alucino-teratológicos de Rodolfo Mesquita, o traço de Laílson, as poesias de Walter e Eduardo, o violão de Zeca e Tuca, o sopro de Zé da Flauta, o Teatro de Marcus, Luiz Maurício e João Batista Dantas, a pintura naïf de Bajado, João Câmara, Ariano e outros tantos discos e livros debaixo do braço. Era nossa segurança espiritual, para qualquer sofreguidão ou dúvida.

Marina bebe na pracinha da Comendador Elias Zarzur

Nosso espaço era circunscrito a quatro, cinco quarteirões. Ali na pracinha, Marina fazia seu passeio matinal, com a babá Edileusa. Eu procurava passar todos os dias na praça para dar-lhe um beijo, antes de ir para o trabalho

Voltando ao fatídico dia 8 de dezembro de 1980 recebemos a primeira grande notícia de forte impacto – que nos deixou tristes e sem uma daquelas referências de que falei acima.

Já era noite, havia chegado em casa e procurava a Marina, que soube, estava com a mãe na casa do Luiz Watson, grande amigo da família. Antes de sair, porém, ouvi a notícia do assassinato de John Lennon. Não tinha ainda muitos detalhes. Até para me reencontrar saí a passos curtos em direção à casa do Luiz – no meio do caminho, a reflexão, o contar das datas e a conclusão ensurdecedora de que Lennon tinha apenas 40 anos -, completados no outubro recente.

Não cheguei a terminar o percurso até a casa do Luíz, a Cyra, sua mulher e suas filhas, gêmeas exímias desenhistas, hoje profissionais de proa na arte do desenho animado e correlatos.

A pouco menos de 50 metros, encontrei a Cristina, com a Marina no colo e com um ar de profunda tristeza. Ali, no meio do caminho, nos abraçamos e choramos muito a morte de John Lennon, naquele instante, época e hoje, digo, para sempre grande pensador da paz e da fraternidade, militante ativista de todas as causas boas ao ser humano, que cumpriu trajetória curta, porém densa como a de poucos. Resolvi reproduzir “Imagine”, por óbvio o hino mundial da paz e da derrubada de muros, num momento em que Brasil e mundos estão tão necessitados de serenidade (com letra):

A morte de John Lennon, sua forma trágica, abrupta, imbecil e absolutamente non-sense nos deixou perplexos e por alguns dias ficávamos prostrados tentando entender o ininteligível.

Dos que levávamos debaixo do braço, ele era o maior, o que dizia mais coisas importantes na filosofia do cotidiano e na arte imortal que deixou impressa nos trabalhos musicais com os Beatles, na sua carreira solo – brilhante – e nas controversas performances na cama e nos brancos da escuridão com Yoko Ono.

A morte prematura costuma dar um bônus de complacência aos que se foram mais cedo. Porém, no caso de Lennon não havia o que conceder e certamente se vivo estivesse conosco, continuaria produzindo e distribuindo a mais bela e generosa arte musical e posturas que nos deixou como legado.

Mark Chapman, o homem que resolveu tirar a vida de Lennon, tinha debaixo do braço o livro “O Apanhador no Campo de Centeio” de J.D. Salinger. Não sei bem o que isso pode representar!

Até semana que vem, tem mais.

15 março 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


“ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO ELE MORREU?” – II

Nana-na-Assembleia

Naná, a lenda, desencarna; o gênio criador fica com mil sons

A partida de Naná, por mais que tem sido anunciada – a doença grave já se instalara e havia poucas esperanças de recuperação -, não é menos dolorida.

Mesmo quando há essa anunciação, a morte de alguém tão importante, de um mago, de um gênio, de um dos maiores de seu tempo aparece como premeditada surpresa.

Algo que poderíamos imaginar, mas nos negamos a enxergar, por instinto, defesa e a iminência do vácuo.

Na quarta-feira, Pernambuco e o mundo perderam um homem que inventou, reinventou a percussão, executando-a com o corpo, em batuques carnais, com a voz, em solfejos melódicos e, claro, em berimbau, atabaques, bongôs, alfaias e bacias de água, panelas, pratos e baterias convencionais.

Rodou o mundo e, como disse Lirinha, “foi o maior de todos e cosmopolita”. Eu sempre estive ouvindo Naná, em dias claros e noites escuras. Sua percussão me acompanha desde cedo. Quando cheguei a São Paulo, o primeiro show que vi foi com ele e Geraldo Azevedo, no início dos anos 80, ali no campus de Matemática da PUC-SP. A última vez que o acompanhei foi em 2012, no ensaio dos maracatus, na rua da Moeda, Recife, preparando a abertura do Carnaval.

Batuque nas Águas – do LP “Sinfonia e Batuques” (2010)

Fecho minha homenagem, com o depoimento de Antonio Nobrega, sobre o parceiro e ídolo: “Vai-se Naná Vasconcelos e com ele se apaga ainda mais um país que se esvai, que se contorce, que sangra…. e que não consegue se repor”..

8 março 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


“ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO ELE MORREU?” – I

garrincha

Garrincha, sem o uniforme do Botafogo, no seu palco principal, vazio!

Inicio com Mané Garrincha um conjunto de artigos/crônicas em que proponho uma pequena gincana de memória e emoções. É provocação, mas é antes de tudo o resgatar de momentos únicos que alguns de nós viveram, mas que a importância dos fatos subsequentes – com suas misteriosas razões – apagou.

A ideia apareceu porque há muito não me lembrava de uma comoção nacional, por conta da morte de uma grande personalidade – que consternasse o país e levasse centenas de milhares de pessoas às ruas, como as que vêm imediatamente à memória, tal qual cortejo de Getúlio Vargas, Tancredo Neves, Ayrton Senna, Luiz Gonzaga, de Eduardo Campos e do jovem cantor sertanejo Cristiano Araújo, em meados do ano passado.

Uns chamando a atenção pela grandiosidade do evento fúnebre; outros, pela mesma grandiosidade, somada à elevada estima, admiração, respeito, identificação e às vezes, uma verdadeira simbiose entre ídolo ou figura pública (aqui sem entrar no mérito de sua trajetória, seu verdadeiro valor pessoal e público e, muito menos, seu matiz ideológico).

A levar em conta tais critérios, estaríamos julgando como donos da História, o papel de cada um em seu segmento de atuação social, humana e política.

Não é um arrazoado tanatológico – embora tenha eu em Augusto dos Anjos um de poetas preferidos – o que não seria, por si, um demérito. Há quem cuide das partes mais burocráticas no momento da morte física e seus tratos para as solenidades e exéquias. Estes são os tanatopraxistas, um trabalho digno com outro qualquer.

O registro é para que se faça distinguir com clareza a minha escolha ou as minhas mais fortes emoções e sofrimentos dos signos teratológicos da morte e o fim da vida, como destino irrecorrível dos que estão aqui.

Nessa abordagem, quero me expressar como se perdesse algum parente próximo, quando aquele que morre é um cidadão que você mais ouviu falar de suas façanhas, de suas proezas, que de tê-lo visto, de perto, a exercer a sua arte primária, primeira, e a maior de todas, seu grande ofício.

Em 20 de janeiro de 1983, estava na rua Manoel Gonçalves Foz, defronte de casa, a uma quadra da PUC-SP, quando ouvi a movimentação da vizinhança que, por rádio ou televisão, ouvira a informação da morte de Garrincha. Minha mulher estava em casa e a filha, com menos de três aninhos pelos cantos.

Sim, sabia que ele estava numa sequência de vida autodestrutiva. O álcool tinha lhe corroído o fígado (cirrose) e a alma (apatia). As ajudas, os confortos, os gestos de solidariedade já estavam no limite da disposição e solidariedade de seus melhores amigos, como o compadre Nilton Santos. Mané já era encontrado descaído andrajoso e desarrumado nos bancos das praças de jardins. Era levado para o hospital ou para casa, dependendo do estado.

Já não era vida para se viver. De alguma maneira, eu fazia uma catarse interior, ao medonhamente acompanhar o sofrimento de alguém que já oferecera tanta alegria coletiva ao país e não sabia mais se por em pé. A catarse advinha pela identidade de vício. Os dois alcoólatras, com leve diferença: ele Garrincha, que merecia todos os louros da vitória, e eu um perna-de-pau da vida, cuja única glória era ter a semelhança do vício do ídolo…

A notícia foi um choque para mim. Nada parecido, em matéria de dor, sofrimento, angústia havia sentido até ali. Nem com perdas pessoais importantes.

Garricha havia deixado os campos, oficialmente, há 11 anos daquele janeiro de 1983. Nilton Santos, amigo perene, esteve sempre presente. Vez por outra aparecia nos gramados para receber homenagens ou acompanhar partidas beneficentes. Sim, tenho grande intimidade com o mito, pois vi Joaquim Pedro de Andrade, em seu brilhante “Garrincha, Alegria do Povo”, de 1962, todos os jogos ainda preservados, flashs, fragmentos de jogos pela Seleção e pelo Botafogo e até o ocaso constrangedor no Corinthians. Depois ainda passou por Flamengo, Olaria e outros…

Não cabe aqui contar a genialidade de Manoel Francisco dos Santos no futebol, nem mesmo lembrar algumas das divertidas histórias que protagonizou ou se tornaram críveis lendas porque o personagem, tal qual Carlitos, absorvia toda a sorte de sovinice e de escárnio, embora só fosse bobo porque nesse país ser simples e generoso é contrário de ser esperto. Santo não era, vítima se tornou da vida. Já ficara claro nas suas múltiplas relações amorosas, o descompromisso com o primeiro lar, a vida badalada e apaixonada com Elza, a perda, o filho no gelo, as perdas. A maior de todas: não se ter preparado para o fim da carreira gloriosa.

Copa de 1958, Garrincha e os 3 minutos mais belos do futebol

A morte de Garrincha me fez perder um bilhão de esperanças. Mané encarnava todas as coisas boas do que sonhávamos para o imaginário vitorioso e progressista do “brasileiro de todos os truques”, combinado com o ser humano eloquente em seu sincericídio. Todos os pecados que cometeu foram passíveis de sanções, como a qualquer outro cristão.

Mas Deus, e as alegrias acumuladas no Botafogo? Na Seleção Brasileira?

E as infiltrações e as dores no joelho e a Copa de 1962? Quando não dispôs do parceiro em qualidade, Pelé, e carregou o velho esquadrão nas costas, não diminuiriam sua pena? Uma delaçãozinha premiada? Um acordo de leniência?”.

Toda vez que penso na morte de Garrincha, penso noutro paciente terminal, no meu imaginário, o Brasil.

Este, como instituição, poderá ficar em coma anos afio e não morrerá, vai se reciclar, até se refundar, como propõe o Genro.

Mané não! Era de carne e osso. Embora mito, não teve tempo de institucionalizar sua imagem. Não havia marqueteiro.

Puxa vida, Mané, toda vez que me lembro de ti, me vem à memória as duas jogadas milimetricamente iguais que resultaram em gols de Vavá, contra a Suécia, numa sequência infernal.

E pensar que tu eras o dionisíaco e Pelé o apolíneo!

Deixa para lá. Vou continuar contanto a sua história enquanto estiver por aqui…..

1 março 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


MOMENTOS MÁGICOS – PERUÍBE – VOO PANORÂMICO SOBRE A JUREIA – III

Foto 1 Praia do Costao-horz

O Costão: praia onde termina Peruíbe, que recomeça da Jureia
Homenagem a Brother – (in memorian)

Bem, a noite foi até mais tarde. Uns ficaram pela madrugada. Outros aguardaram o sol nascer.

A farra e as emoções do casório de Peruíbe foram uma overdose de alegria e curtição. A felicidade estampada em todos. Uns por casar, outros por participar, ainda alguns pelo privilégio de ter visto aquilo pela primeira vez.

A Ruth Eppinger Henrique, nossa colega de rede social, mora atualmente em Peruíbe e afirma que lembra-se daquele casório na praia e que, de fato, depois dali muita apareceu querendo casar-se em cerimônia na beira da praia, pois ouvira falar etc. Diz a Ruth que o hábito se mantém, em menor intensidade, até hoje.

É bom uma testemunha ocular depois de um tempo passado, pois o contador de história costuma aumentar um ponto, mesmo que não esteja contando um conto.

Fato é que o casamento, com as águas espumantes batendo nos descalços, a brisa forte do mar, o balouçar dos coqueiros, e a música constante, mas não estridente, fizeram que esticássemos o tempo até a linha do horizonte.

Quem precisasse de um tira-ressaca instantâneo que fosse ao Costão (foto acima), praia desnuda, protegida pelos primeiros barrancos da Jureia e disposta ao massageio e as destemperanças estomacais dos que mais se excederam no álcool. Quem não ia para o Costão, uma caminhada terapêutica, tomava o banho de mar ali mesmo no trecho da barraca 34.

Num casamentão como este, embora de rito alternativo, também pedia uma bela feijoada – ninguém melhor que tia Silvia para fazê-la, quitutes, sobremesas, música e brincadeiras de felicidade – como jogar água no outro com mangueira (esguicho) só para zonar. Ah naquela época ainda não estávamos com a crise hídrica manifestada. Possivelmente, também contribuímos para a escassez atual.

Foto 3 - Caravan aterrado no Aeroclube de Itanhem

Caravan(*) prefixo OGE (Oscar, Golf, Eco), equipamento ave de trabalho de Rick, amigo de longa data, e comandante de linhas aéreas

Era domingo 26 de janeiro de 1995. Nós ainda tínhamos quase uma semana para o término das férias.

No casamento, para cumprir com alguns procedimentos de praxe, chamamos, dedo, nossos padrinhos de casamento: era um casal super importante para a gente, por amizade, afinidade, carinho e outras identidades. Juntamos Rick, Ricardo de Carvalho Ferreira Junior – comandante de linhas aéreas – e Fathia Gouveia, prima da Eva, pessoa com quem me identifiquei imediatamente e que sempre foi uma figura diferenciada pelo desprendimento, bom-humor e a praticidade judaica.

Formaram um casal de padrinhos perfeito. A curiosidade é que Rick, esse meu amigo piloto fora para o casamento pilotando um avião. Se fôssemos de classes abastadas, com poder ou conexões em altos escalões, poderíamos entender o veículo de deslocamento de Rick como normal. Mas, não. Éramos todos classe média, remediada. Ele, excelente profissional, vocacionado para aquilo e tendo voltado sua vida toda para a arte de voar, naquele momento ainda estava em frilas e trabalhos avulsos, antes de se tornar comandante da TAM.

Pois bem. Aquela chegada em grande estilo de nosso amigo comandante foi motivo de badalação, mas logo depois tomou forma de fato consumado, quando todos começaram a pensar na ideia de que ele fora pelos ares de São Paulo a Itanhaém não para se “amostrar”, como dizemos no Recife, mas para nos oferecer de presente de casamento um sobrevoo na região.

Foto 4 - Presente de casamento do comandante Rick - sobrevoo da Jureia

Os escolhidos (sim, porque houve até sorteio): Rick – sem o qual não sairíamos do chão-; eu, que sentei no lugar do copiloto; Lulo, Silvia, Marcio, Marta, Eva, Macedo, Jorge, Elen e Dani Levy.

Sim, havia alguma coisa no ar, além das nuvens e passarinhos. Rick realmente fizera aquele voo para nos agraciar com uma das mais belas viagens aéreas, sobrevoando o santuário da Jureia. Fora premeditado. Melhor assim, pois aqueles que ainda tinham viajado pelos ares não viveriam enjoos antes do tempo. Só em velocidade de cruzeiro (não vou dedar). Ah, a única intercorrência foi que o comandante descobriu que estava com pouco combustível para executarmos o voo desejado. Por isso, foi necessário voltar a Congonhas para reabastecer. Foi todo mundo, pois de lá seguiríamos para a Jureia. Na sala de espera de passageiros de aviões executivos, alguns engravatados e senhoras de elegância casual se entreolhavam perguntando de onde vem essa tribo. Afinal, a última coisa que estávamos preocupados era com a aparência. Tinha neguinho de bermuda, sem camiseta, descalços e até exóticos com flores no cabelo, resultado das festas do dia anterior. Ficaram horrorizados os vips…

Foto 5 - Final de Congonhas

Final de Congonhas: foto tirada das costas do co-piloto

Não é uma distância do outro mundo, esta que fizemos. Poucos sabemos que, na verdade, os municípios de São Paulo, capital, e Itanhaém, na Baixada Santista, fazem fronteira.

Foto 6 - Mapa da Grande Sao Paulo - mostra divisa entre a capital e Itanhaem

Vejam o Sul da capital e o município de Itannhaém são contíguos

Foto 7 Rick - comandante amigo e padrinho-horz

Comandante Rick e passageiros: à frente Leon; atrás, de óculos Eva.

Experimentado piloto, brevetado no Aeroclube do Recife, no Encanta Moça. Ricardo Ferreira Junior, fez todos os cursos – incluindo o do EAPAC – na profissão até atingir a condição de comandante da TAM. Aperfeiçoou-se ne Focker, na Holanda, e na Airbus, na França.

Seu estilo de voar é extremamente suave, garantindo tranquilidade e conforto aos passageiros, embora faça curvas leves para inclinar a aeronave de acordo com as melhores possibilidades visuais. Arrojado, não se nega a fazer ‘looping’, ‘reversement’, quando está sozinho ou com amigos de profissão. Sua fonia internacional é considerada perfeita.

Foto 9 - Sobrevoo da Jureia

Vista da Jureia: uma das duas principais
Unidades de Conservação do estado de São Paulo 
Jureia

A Estação Ecológica de Jureia-Itatins é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral à natureza, localizada no litoral Sul paulista, com o território distribuído pelos municípios de Iguape, Miracatu, Itariri, Pedro de Toledo e Peruíbe. Na linguagem tupi-guarani, Jureia significa ‘ponto saliente’ (promontório) e Itatins, ‘nariz de pedra’ (rochosa)

Foto 9 - Sobrevoo da Jureia

Vista da parte baixa da Cachoeira do Perequê, dentro
da 
Estação Ecológica de Juréia-Itatins – Peruíbe/SP.

(*) Na década de 1980 o fabricante norte-americano Cessna passou a disponibilizar a versão alongada da mesma linha de aviões, chamada Cessna 208B Grand Caravan, um derivado com espaço interno aumentado e melhorado para transportar até nove passageiros em viagens interestaduais e intermunicipais.

O Cessna 208B Grand Caravan, com fuselagem alongada, e o seu irmão menor Cessna 208A Caravan, podem ser equipados com bagageiro externo fixado na parte de baixo da fuselagem da aeronave, solução adotada também em outros modelos de aeronaves com motorização turboélice de outros fabricantes, como, por exemplo, os bimotores Jetstream 31 e Jetstream Super 31 da British Aerospace.

O resultado final foi satisfatório para os clientes na década de 1980, com reflexos imediatos no volume de vendas, com mais de 1.400 unidades de Caravan e Grand Caravan negociadas até hoje, um grande sucesso de vendas que é a prova definitiva de uma nova tendência no mercado mundial de aeronaves, muito favorável aos monomotores turboélice.


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