14 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – AIRÔ BARROS

Airô Barros

Cantora, compositora, pintora e poeta, Airô Barros, aos 8 anos, já era responsável por aprender canções e ensinar para os alunos do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Palmares-PE, onde foi interna por 8 anos.

Antes de completar 15 anos, já cantava em casamentos e festas comemorativas, além de recitar poemas.

Pós-graduada em Artes pela UNESP, tem vários quadros selecionados em salões de arte. Tanto a capa do livro, quanto à capa do “CD – Terra em Transe” são de sua autoria.

“A Natureza das Coisas”, de Aciolly Neto, Arranjo de Fernando Merlino, com Airô Barros

Airô nasceu em 28 de agosto de 1962, no município de Capoeiras-PE. Fez violão no Conservatório Pernambucano de Música, além de ter estudado Teoria Musical na Ordem dos Músicos do Brasil. Costuma dizer que “como violonista, é uma boa cantora”.

Aluna de canto de Sonia Campos, Cecília Valentin, Maria Alvin e Paulo Menegon. Participou dos corais de PUC, CUCA, e do Coral da FESP. Tem pós-graduação em Artes pela UNESP-SP.

Iniciou a carreira profissional, em 1985, em show na Casa da Cultura do Recife.

Depois disso começou a cantar na noite. Mas para Airô, “cantar na noite é andar para trás. Os donos de bar, de um modo geral, querem sempre levar vantagem em cima do grupo musical. Uma vergonha. Agora só me apresento em locais, quando fechamos um valor antes e combinamos que o receberemos no final da apresentação”.

“Terra em Transe”, de Gladir Cabral, com Airô Barros

Natural de Pernambuco, é uma andarilha por vocação, levando sua arte Brasil afora. Além de São Paulo, Airô tem raízes também fincadas também no Paraná.

Artista múltipla, que passa pelo canto, composição, artes plásticas e poesia, torna-se um alento, em tempos barulhentos, ter sua voz mansa, clara e madura.

“De Volta pro meu Aconchego”, de Dominguinhos e Nando Cordel, com Airô Barros

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Fontes:

Cana Musical;
Ritmo Maelodia;
Wikipedia;
Youtube;
Acervo pessoal

7 novembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – TIA AMÉLIA BRANDÃO

Tia Amélia: a primeira mestra

Amélia Brandão Nery já esteve aqui em nossas páginas, brilhando noutra série dita assim “Os Quase Anônimos Grandes Nomes da Música Brasileira”, publicada em agosto de 2015.

Quando relembrarem do trabalho, carreira, vida e talento verão porque “Tia Amélia” está também – obrigatoriamente – aqui, como estaria em tantos outros títulos e tópicos que se viesse a escrever sobre música pernambucana e brasileira.

Ficou conhecida do grande público, por breve tempo, por meio da canção “Minha Tia”, de Roberto e Erasmo Carlos, gravada em 1976. No início da carreira, quando Roberto foi morar no Rio, ficou hospedado na casa de tia Amélia, lá na Vila da Tijuca, recebendo influência sua nos primeiros passos.

O apelido “Tia Amélia”, que alguns creditam a Roberto, na verdade foi consagrando em crônica escrita em 1953, por Vinícius de Moraes.

Quem “descobriu” Amélia Brandão para mim foi Zeca Macedo, irmão, músico e que guarda uma bela memória musical.

Pois bem, passei semanas lendo e ouvindo tudo o que tinha sobre Amélia.

Casa onde residiu Amélia Brandão, na Rua Duque de Caxias, em frente a Pça Santos Dumont, próximo aos Correios de Jaboatão-Centro

Nascida em Jaboatão-PE (hoje, Jaboatão dos Guararapes) em 25 de maio de 1897, morreu em Goiânia-GO, em 18 de outubro de 1983.

Pianista e compositora, começou a carreira como pianista erudita, mas passou a dedicar-se sobretudo à música brasileira, particularmente, ao choro, sendo muitas vezes comparada a Chiquinha Gonzaga (Rio, 1847-1935), de quem foi contemporânea.

Amélia nasceu em família de músicos. O pai era violonista, clarinetista e regente da banda da cidade, enquanto a mãe tocava piano. Aos 4 anos, Amélia já tocava piano de ouvido; aos 6, iniciou aulas de música; e aos 12 anos, compôs a valsa “Gratidão”.

Enquanto caminhamos em sua biografia, podemos começar a entender melhor “Tia Amélia”, com o belíssimo maxixe “Bordões ao Luar”, com André Mehmari (piano) e Marco Aurélio (bandolim) de 1959.

Bordões ao Luar, de Tia Amélia, Seu desejo era ser artista, mas o pai e, depois o marido, tentaram impedir que seguisse carreira. Mesmo assim, Amélia fazia pesquisas sobre o folclore brasileiro, que serviriam, mais tarde, de tema para suas composições.

Casou-se aos 17 anos com um rico fazendeiro, escolhido pelo pai. Deixou o engenho Jardim, em Moreno-PE, município vizinho a Jaboatão, onde foi morar, na fazenda do sogro, que morreu dois anos depois do casamento do filho. Atolado em dívidas, o engenho teve de ser vendido, bem como a fazenda.

Após a perda dos bens, o marido de Amélia não existiu e morreu, vítima de colapso, deixando-a viúva aos 25 anos, com quatro filhos para criar. Chegou a vender o próprio piano para ajudar nas despesas de casa.

Amélia Brandão – Maestríssimo Cipó

Certa vez, ao se apresentar em recital de caridade deixou entusiasmado com sua interpretação, o governador do estado, que lhe concedeu apoio para empreender uma turnê, durante a qual pode se realizar como pianista internacional.

Em 1929, foi ao Rio de Janeiro para esclarecer uma questão de direitos autorais relacionados com uma composição sua, gravada sem autorização pela Odeon. Na capital federal, contratada para se apresentar em um concerto no antigo Teatro Lírico, obteve enorme sucesso. Trabalhou em diversas emissoras de rádio e tocou piano com Ernesto Nazareth.

Na Odeon, além de recebido seus direitos autorais, foi convidada para a gravação de um disco.

Casa de Farinha, de Amélia Brandão Nery – com Stefana de Macedo, gravação de 1930

Em 1933, a convite do Itamaraty, Amélia fez uma excursão pelas Américas, com sua filha, a cantora Silene de Andrade. Em Washington, EUA, chegou a jantar com presidente Franklin Roosevelt e esteve com celebridades como Greta Garbo e Shirley Temple.

Representava o Brasil, a pedido de Getúlio Vargas. Sua última gravação em 1980, aos 83 anos, foi pelo selo Marcus Pereira.

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Fontes:

1. Site ‘Famosos que Partiram’ – Tia Amélia;
2. DE MORAES, Vinícius. Samba Falado (crônicas musicais). Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008;
3. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira;
4.Amélia Brandão por Semira Adler Vainsencher;
5. Portal Luiz Nassif

31 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – MYRIAM BRINDEIRO

Myriam Brindeiro: dama da música e da poesia

A música é sua vida, começou cedo, ainda garota adorava ouvir a mãe ao piano e passaria a estudar o instrumento com a professora Núzia Nobre de Almeida.

Nosso personagem de hoje, Myriam Brindeiro, nascida no Recife em 26 de junho de 1937, é membro da Academia Pernambucana de Música e da União Brasileira de Escritores.

Poetisa, compositora, pesquisadora, fez parte da “Geração 65” e foi uma das lideranças nas atividades das “Edições Pirata” (1979/1983), fazendo de sua residência em Apipucos o local onde eram encadernados os livros desse movimento editorial, e no qual se reuniam seus participantes.

O movimento era liderado pelos poetas Jaci Bezerra, Alberto Cunha Melo, integrantes da “Geração 65” e a escritora Eugênia Menezes. Também estavam ali os escritores Maria do Carmo de Oliveira, Nilza Lisboa, Amarindo Martins de Oliveira, Andrea Mota, Vernaide Vanderley, Ednaldo Gomes e Celina de Holanda.

Os livros eram produzidos às escondidas, ou seja, pirateados, na gráfica da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Posteriormente, seus editores adquiriram uma impressora de segunda mão e alugaram um local para instalar o equipamento.

“Desencanto”, de Manuel Bandeira, com Myriam Brindeiro

Licenciada em Ciências Sociais pela FAFIRE – Faculdade de Filosofia do Recife -, em 1959, realizou cursos de aperfeiçoamento e especialização em planejamento educacional e em televisão educativa.

Diretora da Divisão de Estudos e Pesquisas Sociais do Centro Regional de Pesquisas Educacionais do Recife INEP/MEC, foi também pesquisadora assistente e diretora da Divisão do Departamento de Educação do antigo Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco.

Depois dos primeiros passos no violão, Myriam começou a aprender com afinco o instrumento com o professor Gerson Borges, no Recife.

Filha primogênita do médico Djair Falcão e de Judite Brindeiro, seu pai, conhecido pela competência profissional, era famoso entre as mulheres pela beleza.

Inesperadamente, entrou na política quando, na qualidade de suplente, teve de assumir a cadeira de Senador da República, na vaga de Etelvino Lins, que se afastou do Parlamento, para governar Pernambuco.

Myriam, aos quinze anos, passou a residir no Rio de Janeiro, onde trocou o Curso de Pedagogia pelo Científico, voltando ao Recife depois.

“Recife das Pontes”, letra e música de Myriam Brindeiro

Casou-se, ainda jovem, com o engenheiro agrônomo e advogado Alberto de Moraes Vasconcelos, que por muitos anos ocupou o cargo de delegado do Ministério da Agricultura, em Pernambuco.

O casamento com Alberto a levou para uma vida mais boêmia. Seu marido fazia acompanhá-lo em todos os recantos da vida noturna do Recife e de Olinda.

Dona de uma bela voz e de uma vocação natural, Myriam desabrochou e começou a se destacar na música e na poesia. Nessa época, conheceu e se tornou amiga de cordelistas, pintores, escritores, poetas, cantores e outros artistas dos idos dos anos 1960.

“Forró Ligeiro”, de Myriam Brindeiro, interpretada pela mesma

Possui mais de 200 composições, entre as quais se destacam “Ladeiras de Olinda”, de 1978; “Recife das Pontes”; “A Paz Acalanto para Gilberto”, homenagem ao sociólogo Gilberto Freire; e “Canto dos Emigrantes”. Musicou ou fez parceiras com Carlos Pena Filho, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes e Alberto da Cunha Lima.

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Fontes: MPB – “Compositores Pernambucanos/100 Anos de História – Renato Phaelante”; Arquivo Pessoal; Wikipedia; Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ.

24 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – NENA QUEIROGA

Nena Queiroga: carnaval na veia; música da cabeça aos pés

Quando iniciei esta série, pensava em reunir 10 grandes nomes de cantoras e compositoras de Pernambuco, mesmo que nascidas em outros estados.

Tal qual a mineira Irah Caldeira – ultima crônica – agora trago Nena Queiroga, que nasceu fora – no Rio -, mas é pernambucana por adoção e na formalidade do título de cidadã.

Também me trouxe grande satisfação as sugestões do público, que como se diz, teve participação interativa. Exemplo: Lia de Itamaracá, foi sugestão caseira, de minha revisora, E.Podolski. Agora trago Nena, por indicação de minha fiel leitora, a querida Rejane Ferreira.

O engraçado é que estes dois nomes estariam obrigatoriamente em qualquer lista com este tema, mas havia passado batido. Esta integração é a melhor resposta que se pode ter quando nos metemos a criar temáticas, como diria o amigo Bruno Negromonte.

Mas vamos a Nena: Maria Consuelo Gama de Queiroga nasceu no Rio de Janeiro, junho de 1967 e é considerada a “rainha do Carnaval de Pernambuco”.

Duda no Frevo, de Senô, com Nena, só no gogó

Criada no Recife, em 2011, recebeu o título de Cidadã Pernambucana. De família intensamente musical, Nena Queiroga é filha do radialista, compositor e humorista Luiz Queiroga e Mêves, cantora. Ambos renomados artistas da “Era de Ouro da Rádio Pernambucana”.

Aos 12 anos, já acompanhava sua mãe no trabalho e começou a gravar voz infantil. Na mesma época, fez parte do “Grupo Quarto Crescente”, liderado por seu irmão mais velho, o cantor e compositor Lula Queiroga.

Com 16 anos, começou a cantar em orquestras, animando bailes de carnaval nos clubes da cidade do Recife. Sua estreia como cantora foi com a orquestra do maestro Duda. Logo depois, assumiu o posto de “crooner” da orquestra do maestro Guedes Peixoto.

Ainda muito jovem, começou a cantar na então disputada casa de shows “Som das Águas”, onde conheceu entre tantos amigos que a influenciaram profissionalmente, como o Maestro Spok e o compositor André Rio.

Em 2005, começou oficialmente a puxar um dos trios do Galo da Madrugada, considerado pelo “Guiness Book” como o maior bloco do mundo.

Passou a ser conhecida como a Rainha do Carnaval de Pernambuco por ser a única mulher a ter seu próprio trio e a cantar o desfile inteiro sem parar, além do destaque nos shows do período carnavalesco.

Nena Queiroga – Por-pourri de Frevos de Bloco

Em fevereiro de 2014, gravou seu primeiro DVD “Pernambuco para o mundo”, evento que reuniu público de 60 mil pessoas no Cais da Alfândega, no Recife antigo.

O show contou com os convidados especiais: Ivete Sangalo, Maria Gadú, Lenine, Elba Ramalho, Luiza Possi, André Rio, Ed Carlos, Gustavo Travassos, Maestro Forró, Maestro Spok, Ylana Queiroga, coral Edgard Moraes e Orquestra dos Prazeres.

Além de músicas do Carnaval, Nena tem uma grande inserção na música interiorana, São João, xotes, forrós e baiões.

Seu primeiro CD, “Xotes e Forrós”, levou-a para a final do “Prêmio Tim de Música Brasileira 2006”, competindo com álbuns de Ivete Sangalo e Daniela Mercury.

Nena é mãe de Ylana Queiroga, cantora e compositora, e de Yuri Queiroga, músico guitarrista, arranjador e produtor musical premiado com trabalhos de álbuns de artistas como Elba Ramalho, Lula Queiroga e outros.

Desse fruto vieram os netos, Bento Queiroga, Tomé Queiroga filhos de Ylana e Flora, filha de Yuri.

Frevos do Galo da Madrugada, com Nena Queiroga

Segundo a própria cantora, sua maior realização de vida além de ser artista, mãe e vó, é poder ter parte de seu tempo dedicado a trabalhos sociais, além de participar com frequência de shows e eventos beneficentes.

Nena tem seus próprios projetos e, há bastante tempo, promove eventos que arrecada renda pras duas instituições que ela adotou e faz parte “Creche Manoel Quintão – Olinda/PE” e “Projeto Sertânia sem fome – Sertânia/PE”.

Em 2016, Nena foi convida pela amiga Ivete Sangalo para puxar seu trio no tradicional “Arrastão” na Quarta de Cinzas que encerra o carnaval de Salvador – BA. Foi um marco – rompendo assim, a questão de rivalidade nas cidades carnavalescas de uma vez por todas.

(Infelizmente neste dia, Ivete passou mal, e por motivos de doença não conseguiu cumprir o evento e Nena juntamente com outros artistas comandaram o trio da cantora por ela).

Este articulista lembra que, no sentindo inverso, Moraes Moreira também fez um link bem produtivo com o carnaval pernambucano.

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17 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – IRAH CALDEIRA

Irah Caldeira: o trajeto do São Francisco

Como o Velho Chico, Irah Caldeira começou seu trajeto, quando resolveu viajar pelo norte e nordeste do país, a fim de pesquisar e aprender ritmos musicais do Maranhão, Pará e Bahia. Finalmente, fixou residência em Pernambuco.

A caminhada de Irah refez em sentido histórico o mesmo percurso do rio São Francisco em sua trajetória em direção ao mar.

Nascida em Minas Gerais, iniciou sua carreira como cantora na década de 90, obtendo grande respeito da crítica especializada pela forma com que interpreta as canções, com espontaneidade, técnica e também pela qualidade com que seleciona as canções que compõem seu repertório.

Ao longo da carreira, gravou músicas de compositores como Zé Marcolino, Petrúcio Amorim, Accioly Neto, Maciel Melo e Anchieta Dali, entre outros.

Lançou seu primeiro CD em 1999, que recebeu o título de “Mistura Brasil”, no qual interpretou músicas “A natureza das coisas”, de Accioly Neto; “Canto do rouxinol”, de Caxiado; “Mentiras do vento” e “Cantar dor”, de Roberto José; “Eu fiz que não te vi”, de Totonho; “Siá Filiça”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino; “Ilusão”, de Roberto Lintz; “Ciência popular”, de Domingos Accioly e Jucéia Vilella, em faixa que contou com as participações especiais de Rogério Menezes e Raimundo Caetano; “A lata do lixo”, de Zé Marcolino; “Cidades gêmeas”, de Fabiano Otoni Vieira; “Reggae do sol”, de Paulo Long e Jucélio Vilella, e “Mais fundo que qualquer raiz”, de Ricardo Cardoso.

Irah Caldeira, Oração do Sanfoneiro, de Xico Bizerra – com mestre Camarão. Primeiro “DVD – GIRASSOL DE DESEJOS”, de 2009

Continuou realizando shows pelo estado de Pernambuco e, em 2001, lançou seu segundo CD, “Canto do rouxinol”, com produção sua e de Carlos Firmino, no qual cantou as músicas “A cartilha da canção”, de Fátima Marcolino e Mariua da Paz; “Tributo a Zé Marcolino”, de Maciel Melo; “Bole bole da sanfona”, de Abel Carvalho e Patrick Jr.; “Faz de conta”, de Maria da Paz e Jotta Moreno; “Festejos de beija-flor”, de Anchieta Dali; “Canto do rouxinol”, de Tita Caxiado; “Sina de baião”, de Diego Reis e Camarão; “Pra ganhar teu coração”, de Félix Porfírio e Noel Tavares; “Cidade grande”, de Petrúcio Amorim; “Noquinha da Lagoa”, de Manoel Santana e Reginaldo Moreira; “A cura”, de Ancieta Dali e Bia Marinho; “Cantador de coco”, de Valdir Santos; “Noite de festa” e “Forró mineiro”, de Edgar Mão Branca, e “Apreço ao meu lugar”, de Paulo Matricó.

Em 2004, lançou, com produção sua e Jorge Ribbas, o CD “Irah Caldeira canta Maciel Melo” no qual interpretou 15 composições de Maciel Mello: “Caia por cima de mim”; “Cheiro de terra molhada”; “Feira de sonhos”; “Jeito maroto”; “Tama de pedra”, faixa que contou com a participação do próprio Maciel Melo; “Que nem vem-vem”; “Não é brincadeira”; “Caboclo sonhador”; “Firirim fom fom” e “Um veio d’água”, todas composições solo de Maciel Melo, além de “Minha fala”, de Maciel Melo e Nico Batista; “A poeira e a estrada”, de Maciel Melo e Cláudio Almeida, que contou com a participação especial de Dominguinhos; “Pra ninar meu coração”, de Maciel Melo e Luiz Fidélis; “Coco peneruê”, de Maciel Melo e Jessier Quirino, e “Retinas” e “Nos tempos de menino”, de de Maciel Melo e Virgílio Siqueira.

Aperto o Nó – de Fred Monteiro, com Irah Caldeira

Em 2006, lançou o CD “Entre o calango e o baião”, que teve produção e direção musical suas e no qual cantou as músicas “Quero ter você”, de Pekin e Mourão Filho; “Aperta o nó”, de Fred Monteiro; “Oceano do querer”, de Maria da Paz e Xico Bizerra, com participação especial de Dominguinhos; “Me perguntaram, eu respondi”, de Herbet Lucena e Xande Raséc; “Faça isso não”, de Biguá; “Porteira da saudade”, de Bira Marcolino e Fátima Marcolino; “Sem chance”, de Rogério Rangel e Petrúcio Amorim; “Segura o forró”, de Félix Porfírio; “Avoante”, de Accioly Neto; “Ainda é tempo”, de Alexandre Leão e Manuca Almeida; “Nordestinês”, de Reginaldo Moreira; “Machado cortador”, de Zé Marcolino; “Sabiá alcoviteiro” e “Chama”, de Selma Santos; “Queimei seu travesseiro”, de J. Miciles, e “Grãos de sonho”, de Roberto José.

Em 2007, realizou uma longa temporada de shows que resultou no CD “Irah Caldeira e banda – ao vivo”, no qual interpretou 36 sucessos do cancioneiro popular nordestino. No ano seguinte, lançou o CD “Irah Caldeira e banda – ao vivo volume 2”.

Já em 2009, gravou no Teatro da UFPE o DVD “Girassol de Desejos” com direção musical de Sandro Maia e com as participações especiais de Bia Marinho, Mestre Camarão, Josildo Sá, Maciel Mello, Petrúcio Amorim e Santana, o Cantador, entre outros.

No mesmo ano lançou o CD “Marias… Das Dores… Daluz! Mulheres compositoras do Nordeste”, um projeto aprovado pelo Funcultura e no qual, acompanhada de sua banda, cantou obras de 17 compositoras nordestinas: Socorro Lira; Dona Maria do Horto; Flávia Wenceslau; Terezinha do Acordeon; Adryana BB; Bia Marinho; Joésia Ramos; Haidée Camelo; Anastácia; Liana Ferreira; Kelly Benevides; Rita de Cássia; Selma do Coco; Khrystal e Jussara Kouryh, além de composições de sua autoria. Em 2012, participou da coleção tripla de CDs “Pernambuco forrozando para o mundo – Viva Dominguinhos!!!”, produzida por Fábio Cabral, cantando, ao lado de Dominguinhos, a música “A poeira e a estrada”, de Claudio Almeida e Maciel Melo.

A coletânea trouxe forrós diversos interpretados por 48 artistas, e que fazem referência aos 50 anos de carreira do seu inspirador: Dominguinhos. Interpretando músicas de compositores em sua grande maioria pernambucanos, fizeram parte do projeto também artistas como Acioly Neto, Adelzon Viana, Dudu do Acordeon, Elba Ramalho, Jorge de Altinho, Petrúcio Amorim, Liv Moraes, Hebert Lucena, Geraldo Maia, Sandro Haick, Spok, Jefferson Gonçalves, Chambinho, Joquinha Gonzaga, Maciel Melo, Luizinho Calixto, Silvério Pessoa, Walmir Silva, entre outros, além do próprio Dominguinhos.

Agora Irah Caldeira, com a melhor intepretação dessa música que é meu xodó “Tareco e Mariola”…

Mineira, radicada no nordeste, Irah Caldeira canta o forró, e outros ritmos nordestinos, com a alegria e leveza de uma autêntica filha da terra.

Para Irah, a música regional não está limitada a um estado e sim a todo o povo brasileiro, entendendo que a cultura de qualquer ponto do país, é patrimônio de toda a nação.

Com uma carreira artística consolidada em Pernambuco, Irah segue a mesma estética musical que nos presenteou com o canto de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos e outros tantos que perpetuaram o autêntico canto sertanejo em forma de xote, baião, côco, xaxado, forró e toadas, espalhando para todo Brasil, poesia e beleza em forma de canção.

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10 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – LIA DE ITAMARACÁ

Lia de Itamaracá

Quando surgiu a ideia de fazer Lia, na série “Cantoras e Compositoras de Pernambuco”, pensei: que baita responsabilidade.

Por quê? Ora, poderia atribuir esse cuidado a alguns títulos e elegias feitos a Lia mundo afora. Querem ver? O New York Times denominou-a “Diva da Música Negra”; Lia é “Patrimônio Vivo de Pernambuco”, título registrado pela FUNDARPE; pelo Ministério da Cultura, recebeu prêmio “Medallha do Mérito Cultural”.

Mas os títulos e formais e honorários são resultado de um trabalho artístico inédito, incomum e de beleza especial.

Lia de Itamaracá sintetiza o som da beira da praia, da areia, o ritmo sincopado de vai-e-vem das ondas do mar.

Porém, como tudo que é mito, ícone e encantado, já houve quem duvidasse da existência real de Lia.

Para muita gente, trata-se de uma personagem que vive apenas nos versos “Essa ciranda quem me deu foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá”, menção à música extraída do folclore, citada por Teca Calazans, em 1963.

Mas Lia é real e tem 73 anos. Maria Madalena Correia do Nascimento é dançarina, compositora e referência como cantora da ciranda brasileira. Nasceu em janeiro de 1944, na Ilha de Itamaracá, Pernambuco.

“Mamãe Oxum/Ciranda do Amor, 2011, no Circo Voador

Lia sempre morou na Ilha de Itamaracá e, ainda criança, começou a participar das rodas de ciranda. É considerada a mais famosa cirandeira do Brasil. Trabalhou como merendeira de uma escola pública da Ilha.

Gravou seu primeiro disco em 1977, pela Rozemblit, intitulado “A Rainha da Ciranda”. Em 1998, apresentou-se no “Abril Pro Rock”, o que a fez famosa nacionalmente. No início dos anos 2000, lançou “Eu Sou Lia”, distribuído também na França.

Moça Namoradeira, com Lia de Itamaracá

Participou do curta do cineasta pernambucano Kleber Mendonça (Aquarius) “Recife Frio”. No filme, aparece cantando sua famosa ciranda “Eu Sou Lia e Preta Cira”, vestida com roupas de frio na praia de Itamaracá.

Em 2003, a cineasta carioca Karen Akerman começou a registrar a vida da cirandeira, para um documentário sobre Lia.

O jornal francês Le Parisien comparou sua voz à da cabo-verdiana Cesária Évora
Enorme mulher de 1m80: surpreendeu-se Hermínio Bello de Carvalho ao conhecer Lia

Ciranda

É uma dança típica das praias que começou a aparecer no litoral norte de Pernambuco. Uma das cirandeiras mais conhecidas é a Lia de Itamaracá. Surgiu também, simultaneamente, em áreas do interior da Zona da Mata Norte do Estado.

É muito comum no Brasil definir ciranda como uma brincadeira de roda infantil, porém na região Nordeste e, principalmente, em Pernambuco ela é conhecida como uma dança de rodas de adultos. Os participantes podem ser de várias todas as faixas etárias.

Há várias interpretações para a origem da palavra ciranda, mas segundo o Padre Jaime Diniz, um dos pioneiros a estudarem o assunto, vem do vocábulo espanhol zaranda, que significa instrumento de peneirar farinha e que seria uma evolução da palavra árabe çarand.

A ciranda, assim como o coco em Pernambuco, era mais dançada nas pontas-de-rua e nos terreiros de casas de trabalhadores rurais, partindo depois para praças, avenidas, ruas, residências, clubes sociais, bares, restaurantes. Em alguns desses lugares passou a ser um produto de consumo para turistas.

É uma dança comunitária que não tem preconceito quanto ao sexo, cor, idade, condição social ou econômica dos participantes, assim como não há limite para o número de pessoas que dela podem participar. Começa com uma roda pequena que vai aumentando, a medida que as pessoas chegam para dançar, abrindo o círculo e segurando nas mãos dos que já estão dançando. Tanto na hora de entrar como na hora de sair, a pessoa pode fazê-lo sem o menor problema. Quando a roda atinge um tamanho que dificulta a movimentação, forma-se outra menor no interior da roda maior.

A homenagem de Capiba

Minha Ciranda, de Capiba, com o Coral Madeira de Lei

Os participantes são denominados cirandeiros, havendo também o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda.

Voltados para o centro da roda, os dançadores dão-se as mãos e balançam o corpo à medida que fazem o movimento de translação em sentido anti-horário. A coreografia é bastante simples: no compasso da música, são quatro passos para a direita, começando-se com o pé esquerdo, na batida forte do bombo, balançando os ombros de leve no sentido da direção da roda.

O bombo ou zabumba, mineiro ou ganzá, maracá, caracaxá (espécie de chocalho), a caixa ou tarol formam o instrumental mais comum de uma ciranda tradicional, podendo também ser utilizados a cuíca, o pandeiro, a sanfona ou algum instrumento de sopro.

O mestre cirandeiro é o integrante mais importante da ciranda, cabendo a ele “tirar as cantigas” (cirandas), improvisar versos, tocar o ganzá e presidir a brincadeira. Utiliza um apito pendurado no pescoço para ajudá-lo nas suas funções.

O contra-mestre pode tocar tanto o bombo quanto a caixa e substitui o mestre quando necessário. As músicas podem ser as já decoradas, improvisadas ou até canções comerciais de domínio público transformadas em ritmo de ciranda.

Pode-se destacar três passos mais conhecidos dos cirandeiros: a onda, o sacudidinho e o machucadinho. Alguns dançarinos criam passos e movimentos de corpo, mas sempre obedecendo a marcação que lhes impõe o bombo. Não há figurino próprio. Os participantes podem usar qualquer tipo de roupa e a ciranda é dançada durante todo o ano.

A partir da década de 70, as cirandas começaram a ser dançadas em locais turísticos do Recife, como o Pátio de São Pedro e a Casa da Cultura, modificando um pouco a dança que se tornou mais um espetáculo. O mestre, contra-mestre e músicos saíram do centro da roda para melhor se adaptarem aos microfones e aparelhos de som, passando também a haver limite de tempo para a brincadeira. Compositores pernambucanos como Chico Science e Lenine enriqueceram seus repertórios, utilizando a ciranda nos seus trabalhos.

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Fontes: Wikipedia; Acervo Pessoal; Fundaj; Hermínio Bello de Carvalho.

3 outubro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – SELMA DO COCO

Selma do Coco

Arrrrrá!!!! Dona Selma do Coco, nascida na Zona da Mata, conviveu com a música tradicional pernambucana, em especial o coco de roda, desde a infância, nas festas juninas que frequentava com seus pais.

Selma Ferreira da Silva nasceu em Vitória de Santo Antão-SP, em dezembro de 1935, falecendo em maio de 2015.

Aos 10 anos, mudou-se com a família para o Recife. Casou-se muito jovem, depois de ter dois filhos, ficou viúva. Selma criou ainda 14 sobrinhos. Morou 15 anos no bairro da Mustardinha, na capital pernambucana. De lá, foi morar em Olinda, onde vendia tapioca. Para atrair os turistas e aumentar o faturamento, cantava o coco enquanto trabalhava.

“Dá-lhe Manoel”, com Selma do Coco

Ganhou fama nos anos 90, quando foi descoberta pelo pessoal do Manguebeat, como Chico Science, que começaram a elogiar suas músicas. Passou a apresentar-se em festas populares, nas quais vendia fita cassete, gravadas artesanalmente com seus trabalhos.

Em 1996, apresentou pela primeira vez para um grande público, no Festival Abril Pro Rock. No ano seguinte, seu coco “A Rolinha” fez sucesso no carnaval do Recife e de Olinda. Gravou seu primeiro CD, em 1998, com músicas compostas em parceria com Zezinho. O trabalho lhe rendeu, no ano seguinte, o Prêmio Sharp.

Santo Antonio, com Selma do Coco

Em 2000, apresentou-se no Festival Lincoln Center, Nova York e no Festival de Jazz de Nova Orleans, além de fazer shows na Alemanha, Bélgica, Espanha, Suíça e Portugal.

Durante a excursão pela Europa, atendendo a um convite do Instituto Cultural de Berlim, gravou o disco “Heróis da Noite”, ao lado de cantores africanos.

Em vida, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

O Coco

É um ritmo típico da região Nordeste do Brasil. Sua origem é atribuída a três estados: Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O nome refere-se também à dança, ao som desse ritmo. Com influência indígena e africana, é uma dança de roda, acompanhada de cantoria e executada em pares, fileiras ou círculos durante festas populares do litoral e do sertão nordestino.

Recebe várias nomenclaturas como pagode, coco de usina, coco de roda, coco de embolada, coco de praia, coco do sertão, coco de umbigada e ainda denominações ligadas ao instrumento mais característico da região: coco de ganzá e coco de zambê.

O som característico do coco vem de quatro instrumentos (ganzá, surdo, pandeiro e triângulo), mas o que marca mesmo a cadência do ritmo é o repicar acelerado dos tamancos (que imitam o barulho do coco sendo quebrado).

A “sandália” de madeira é quase como um quinto instrumento, além disso, a sonoridade é completada com as palmas.

Existe também a hipótese de que a dança teria surgido nos engenhos ou nas comunidades de catadores/tiradores de coco. São figuras notáveis do coco: Amaro Branco, o grupo Raízes de Arcoverde; Jackson do Pandeiro; Jacinto Silva; e d. Glorinha do Coco.

Pot-Pourri com tributo a Jackson do Pandeiro, com Selma do Coco e Lenine,
em Especial da TV Globo

Semana que vem, tem mais.

26 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO

Marinês

A diferença de Marinês (e sua gente) para Almira e Anastácia – nossos personagens anteriores -, é que, embora também casada com músico – o paraibano de Taperoá, o excelente Abdias dos 8 Baixos -, é provável que tenha sido mais famosa que seu parceiro de grupo, ao menos na mídia nacional.

Inês Caetano de Oliveira era o nome de nascimento de Marinês, nascida em São Vicente Ferrer-PE, em novembro de 1935 e morta em maio de 2007, no Recife, aos 71 anos. Seu sepultamento se deu em Campina Grande, na Paraíba.

Marinês morou em Campina e fez sua carreira quase toda no sertão da Borborema.

Cantora, seu repertório incluía forró, xaxado, baião, entre outros ritmos. Filha de pai seresteiro, iniciou a carreira na banda “Patrulha de Choque” do Rei do Baião, que formou com o marido Abdias e o zabumbeiro Cacau, para se apresentar na abertura dos shows de Luiz Gonzaga.

“Peba na Pimenta”, de João do Vale, Adelino Rivera e José Batista

Foi em 1956 que gravou o primeiro disco à frente do grupo “Marinês e sua Gente”, com o qual se consagrou. A canção que marcou Marinês no início foi “Peba na Pimenta”, de João do Vale, José Batista e Adelino Rivera, causando polêmica na época que foi gravada, devido ao seu duplo sentido. Ela aparece cantando a música no filme “Rico ri à Toa”, de 1957.

Então, eu digo: “Imaginem de fosse hoje, com esse falso moralismo que nos assola”.

“Peba na Pimenta”, gravação de 1957, com João do Vale

Leia esse importante depoimento do pesquisado Ricardo Cravo Albin. Eis: “Marinês merece – e sempre mereceu – todas as homenagens que nossos ouvidos, às vezes por demais urbanizados, se negam a prestar ao nordeste e a seu povo. Ainda sobre essa coisa abominável, que é o preconceito contra o simples, o puro, o visceral, a raiz, assaltou-me inda agorinha uma conversa lapidar com o sábio Luiz da Câmara Cascudo.

Dele ouvi, numa das últimas visitas que lhe fiz em Natal, mais ou menos o seguinte:

“ – Mas, mestre, e esses críticos que ridicularizam a música de raiz, dizendo que raiz é mandioca crua, que só dá dor de barriga, se comida?”

“ – Não se avexe, não, meu filho. Esses pobres diabos não sabem nada de nada, ao propor frases idiotas para maus propósitos. E de mais a mais, comer macaxeira só faz bem e dá sustança, tanto quanto a música de raiz. Não esqueça que é ela que sustenta e molda o caráter nacional.

Negá-la é negarem-se os pilotis do Brasil, para ficar só com o forro. Muitas vezes de material tão ruim, que qualquer ventinho mais afoito leva lá pros cafundós.”

Na semana seguinte, já no Rio, visitei outro brasileiro monumental, Luiz Gonzaga. Contei-lhe da conversa com Cascudo, que de imediato o comoveu.

E enquanto Gonzaga desembaçava os óculos suados pela emoção incontida, fez-me um pedido surpreendente:“ – Pois o senhor saiba que eu preciso de seu apoio para uma macaxeira de lei, pura raiz, que se chama Marinês, a quem estou convidando para uma turnê comigo pelo país todo.”

“Pisa na Fulô”, de Ernesto Pires e João do Vale

Além de João do Vale, Gonzaga, Abdias dos 8 Baixos, Marinês gravou Antonio de Barros, Vicente Barreto, Alceu Valença, João Silva, Nando Cordel, Lenine, Geraldo Azevedo em 35 discos originais lançados em toda a carreira.

Semana que vem, tem mais.

19 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ANASTÁCIA

Anastácia

Tal qual Almira Castilho (com Jackson do Pandeiro), Anastácia foi casada e formou uma grande parceria musical com outro dos grandes nomes da música brasileira, mestre Dominguinhos.

Se Almira cantou, compôs e participou de dezenas de filmes, Anastácia teve uma carreira solo, antes e depois de seu casamento.

Anastácia (Lucinete Ferreira, cantora de compositora, nasceu no Recife-PE, em maio de 1941. Seu interesse pela música surgiu muito cedo, aos sete anos de idade.

Nesse tempo, acompanhava um cantador de cocos, na Macaxeira, bairro da capital pernambucana.

Iniciou a carreira em 1954, cantando na Rádio Jornal do Commercio, interpretando canções criadas e gravadas no Sudeste, principalmente os sucessos de Celly Campello.


Anastácia e Dominguinhos, em 1976, programa especial, de Fernando Faro

Em 1960, transferiu-se para São Paulo, onde passou a cantar gêneros nordestinos. Fez shows pelo interior, participando da “Caravana do Peru que Fala!, com Silvio Santos. Em seguida apresentou obras da dupla pernambucana Venâncio e Corumba.

Foi nessa época que recebeu o nome de Anastácia, dado pelo produtor, cantor e compositor Palmeira, então diretor da Chantecler.

Gravou seu primeiro disco em 1960, com as músicas “Noivado Longo”, de Max Nunes, além de “Chuleado”, “A Dica do Deco” e “Forró Fiá”, todas de Venâncio e Corumba.

Em meados da década de 1960, conheceu Dominguinhos, num programa de Luiz Gonzaga, na extinta TV Continental do Rio de Janeiro. Casou-se com Dominguinhos e participou de uma caravana artística com o “Rei do Baião!. Compôs com seu parceiro mais de 50 músicas, das cerca de 200 que escreveu.

Eu Só Quero um Xodo (Anastacia/Dominguinhos), com Anastacia

Em 1969, lançou pela RCA Victor o disco “Caminho da Roça!”, com a participação de Luiz Gonzaga nas faixas “Minha Gente”, “Eu Vou Me Embora”, de Antonio Barros, e Feira do Podre, de Onildo Almeida (o mesmo de “A Feira de Caruaru).

Gilberto Gil gravou “Eu Só Quero um Xodó, parceria dela com Dominguinhos, numa clássica versão, em 1973. Essa música recebeu mais de 20 regravações. Gil também gravou o sucesso “Tenho Sede”, de Anastácia e Dominguinhos, regravando-o em 1994 no disco Unplugged.

“Tenho Sede” (Dominguinhos/Anastácia), com Arismar do Espírito Santo, Robertinho Silva, Heraldo do Monte, Dominguinhos e Gil

Anastácia lançou cerca de 30 discos, constituindo-se num dos maiores nomes do forró. Suas músicas foram gravadas por Nana Caymmi, Claudia Barroso, Jane Duboc, Dóris Monteiro, José Augusto, Ângela Maria, Gal Costa e outros.

Semana que vem tem mais.

12 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ALMIRA CASTILHO

Almira Castilho

Lembrei-me das “mulheres de Tejucupapo”, que até hoje simbolizam a bravura das mulheres pernambucanas.

Aqui, mesmo tocando sempre no tema musical – em tese, aberto a todos os gêneros – pouco falo da participação feminina no cenário pernambucano.

Nesse plano, Chiquinha Gonzaga, está na posição de vanguarda. Podemos pleitear pioneirismo no choro, nas músicas do século XIX, inventados por João Pernambuco, de Sons Carrilhões, Luar do Sertão e Cabocla de Caxangá.

Mas, de parte das mulheres, talvez nossa grande desbravadora seja a magnífica Tia Amélia, a quem já dediquei uma coluna deste Megaphone e dedicarei mais.

Num rápido apanhado de nomes antigos e de gente nova – por favor, aguardo contribuição dos leitores – listei como mulheres cantoras e compositoras pernambucanas ou que fizeram carreira no solo na “Terra de Altos Coqueiros”, Almira Castilho, Anastácia, Marinês (e sua Gente), Tia Amélia, Clarice Falcão, Selma do Coco, Lia de Itamaracá, Teca Calazans (capixaba), Nena Queiroga (carioca, filha de Lula Queiroga), Ylana Queiroga, Glorinha do Coco, Isaar, Irmãs Acioman, Dalva Torres, Nanau Nascimento..

Começo com Almira Castilho, mulher de Jackson do Pandeiro por 12 anos, mas que, por certo, tem um lugar especial nesse universo, além do ultrapassado clichê “atrás de todo grande homem, há uma grande mulher”.

Num raciocínio rápido e superficial, posso pensar em Alma, esposa e mais que palpiteira, uma verdadeira parceira do marido, Alfred Hitchkock; Maria Bonita e Lampião. A conversão deste apotegma se estabelece com Bonnie and Clyde; d. Maria Tereza e Jango; Rita e Roberto de Carvalho, por exemplo.

Cantora. Compositora. Dançarina. De beleza brejeira e nordestina, era linda de se ver no palco, ao lado do exuberante pandeirista, cantando, dançando e arrebatando olhares e sorrisos de Jackson do Pandeiro, seu parceiro e marido.

Antes de seguir a carreira artística, atuou como professora. Dançava e cantava bem, também compunha e ficou famosa exatamente pela parceria com Jackson do Pandeiro, que ela conheceu em 1952, na rádio Jornal do Commercio, onde era rádio-atriz e cantora.


Chiques com chapéu de couro

Sua última aparição pública se deu 2009, quando, na cidade de Recife, recebeu homenagem em nome de Jackson do Pandeiro. Faleceu aos 87 anos, vítima de mal de Alzheimer.

“Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira (1958), com Jackson do Pandeiro

Na opinião deste escriba, “Chiclete com Banana” se insere no contexto do antes e depois do modernismo-psicodelismo e tropicalismo da música brasileira. É um grande manifesto, com uma linguagem panfletária de cordel…

Olindense, Almira Castilho nasceu em agosto de 1924, deixando-nos quando já morava no Recife, em fevereiro de 2011, foi cantora, compositora e dançarina brasileira.
Parceira de Jackson do Pandeiro, com quem foi casada, sua carreira pontuou em composições e apresentações no rádio e no cinema. O casal esteve junto por 12 anos, de 1955 a 1967.

Forró Quentinho, de Almira Castilho

Almira Castilho era professora. Iniciou sua carreira artística em 1954, participando do coro na apresentação de “Sebastiana” por Jackson do Pandeiro. Foi rumbeira e rádioatriz na Rádio Jornal do Commercio, além de ter participado de algumas dezenas de filmes nacionais.

“Chiclete com Banana”, com Marjorie Estiano e Gilberto Gil

Fez mais de 30 músicas na parceria de Jackson, Gordurinha e Paulo Gracindo. “Chiclete com Banana” é o ponto alto de sua carreira. Foi a primeira que se usou o termo samba-rock na terminologia musical brasileira. Como se costuma fazer até hoje, a mídia em geral não registra os nomes dos compositores, arranjadores e produtores musicais, ficando a visibilidade maior para quem aparece e canta no palco do rádio e das televisões, nos CDs, DVDs, Spotify e mídias afins.

Muitas capas com Almira

Por que comecei esta série com Almira? Por um motivo muito pessoal. Era (e continuo) vidrado em Jackson, o rei do ritmo. Para mim, sempre esteve no patamar de Gonzagão, Humberto Teixeira e Zé Dantas, no que diz respeito a música nordestina.

Certa ocasião, Dagô – minha mãe e primeira professora da história da música que tive -alertou: “Junior, você adora Jackson, mas não esqueça que, “por trás dele existe uma artista de primeira grandeza chamada Almira Castilho”.

Penso que d. Dagô chamava a atenção para duas injustiças: a compositora Almira, que ficava mais escondida; e uma boa dose de feminismo pleiteando o espaço da mulher no universo da música nordestina.

Semana que vem, tem mais das mulheres de Tejucupapo da música regional….

5 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


QUEM NÃO CONHECE LUIZ DE FRANÇA!

Luiz de França

Existem músicas que não saem da cabeça nem que a vaca tussa. Falo das canções que ouvimos na infância e por toda uma vida. Muitas vezes, canções regionais como “Eu Vou Prá Lua”, do famosíssimo intérprete e compositor paraense Ary Lobo, em parceria com o pernambucano Luiz de França, Boquinha, têm esse dom.

Formaram aquela famosa linha de cocos, emboladas, rojões e baiões, lida e relida pelos fabulosos Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Rosil Cavalcanti, Jacinto Silva, entre outros.

Eu Vou Pra Lua, de Luiz de França e Ary Lobo, com Ary Lobo

A letra deste rojão me traz à lembrança o Recife antigo, do Campo do Jiquiá, onde pousavam os Zeppelin, na década de 1930. Ainda hoje o único atracadouro de dirigíveis daquele porte, de pé, em todo o mundo.

Da corrida espacial mais recente, os autores trouxeram o soviético Sputnik, verdadeira febre dos interessados em feitos espaciais daquele momento.

São criações, fantasias que juntam um improvável lançamento de um foguete-satélite num atracadouro de Zeppelin.

Eu Vou Pra Lua, com Zé Ramalho, Elba e Geraldo Azevedo

Tudo que se enrola e desenrola na letra é para fazer contraposição aos dias de dureza que se passava aqui na terra, Brasil. Em alguns momentos, parece que estamos em tempos atuais. A ideia de ir para o nosso satélite natural para fugir, expressada nos versos: “Já estou enjoado aqui da terra; Onde o povo a pulso faz regime; A indústria, roubo, a fome, o crime; Onde os preços aumentam todo dia; O progresso daqui a carestia; Não adianta mais se fazer crítica; Ninguém acredita na política; Onde o povo só vive em agonia”.

Perfis:

ARY LOBO (GABRIEL EUSEBIO DOS SANTOS LOBO)

Nascido em 14 de agosto de 1930, foi um músico de forró, natural de Belém, Pará. Ary Lobo foi daqueles gênios que não nascem mais nos dias de hoje, o maior compositor de forró da história, com mais de 700 músicas gravadas por ele e outros cantores, músicos e intérpretes. Um defensor solitário (ou quase) da música nordestina de raiz. Suas gravações são o retrato disso, a começar pelos instrumentos usados, ele não ousava muito, já tinha sua fórmula montada. De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, cantando derivativos do baião, entre cocos e rojões, Ary Lobo lançou vários sucessos nos anos 50 e 60 em seus nove LPs na RCA. Retratava a vida e os costumes nordestinos em diversas canções, como Cheiro da gasolina, Vendedor de Caranguejo, Eu vou pra Lua, Suplica Cearense, Evolução, Menino Prodígio, entre outros..

LUIZ DE FRANÇA – BOQUINHA

Compositor popular, Luiz de França nasceu em junho de 1911, no bairro do Torreão, no Recife, onde, ainda adolescente tornou-se ídolo, cantando suas músicas. Foi um dos grandes divulgadores do Coco, gênero musical preferido. Morreu em junho de 2008.

Também como conhecido como Luiz Boquinha, trabalhou durante 35 anos como carpinteiro na Aeronáutica e durante 16 anos participou de programas de auditório na Rádio Clube de Pernambuco, onde apresentava o programa “A Reportagem da Semana”, que interpretava os acontecimentos por meio de músicas.

Autor de vários folhetos de Cordel, sua canção de maior sucesso foi a parceria com Ary Lobo, “Eu Vou Prá Lua”.

Semana que vem, tem mais….

29 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICOS DE UMA CANÇÃO SÓ QUE FIZERAM ETERNO SUCESSO NACIONAL – OTÁVIO DE SOUZA

Otávio de Souza

O maior exemplo de compositor de uma música só é Otávio de Souza, co-autor de “Rosa” que se tornou hino lírico brasileiro. Em seu caso, a sorte o abençoou ao fazer poesia, puxada para o parnasiano, para o rebuscado e, que, casada com música de ninguém menos que Pixinguinha, tornou-se letra dessa obra-prima do cancioneiro nacional.

A peça, instrumental, foi feita 1917, segundo Alfredo da Rocha Viana Filho (Pixinguinha), que informou que seu título original foi “Evocação”.

Como manda a tradição do chorinho (gênero musical de Pixinguinha), a música foi composta em três partes.

Mais tarde, recebeu letra e ficou apenas com a primeira e a segunda partes. Muitas vezes foi gravada e regravada na versão original com três partes e sem letra, com Choro Carioca e Musica do Brasil, da Acari.

Nosso improvável célebre Otávio de Souza era um mecânico de profissão, que morreu jovem e nunca compôs nada parecido com Rosa.

Rosa – Instrumental (1917) – com Paulo Sérgio Santos, João Carlos de Assis Brasil e Henrique Cazes

Conta a lenda que Otávio se aproximou de Pixinguinha enquanto o mestre bebia em uma bar, do subúrbio carioca de Engenho de Dentro, para falar que havia uma letra que não saía de sua cabeça toda vez que ouvi a valsa. Pixinguinha ouviu e ficou maravilhado.

A gravação de Orlando Silva foi a responsável pela popularização de Rosa, com erro de concordância e tudo no trecho “sândalos dolente”.

Francisco Carlos e Carlos Galhardo deixaram de gravar Rosa por terem se recusado a gravar Carinhoso (coisas de gravadora).

“Rosa” era a música preferida da mãe de Orlando, dona Balbina. Após sua morte, em 1968, Orlando Silva jamais voltou a cantar a música.

Rosa, com Orlando Silva – 1937

Rosa, com Marisa Monte – 1990

Segundo estudiosos, “Rosa” é uma valsa de breque, de difícil interpretação vocal, especialmente para o uso de legatos (maneira de tocar uma frase musical), já que as pausas naturais são preenchidas por segmentos que restringem os espaços para o cantor tomar fôlego.

Quanto à letra, é também um exemplo do estilo poético rebuscado em moda na época. O desafio de regravar “Rosa” foi tentado por alguns intérpretes, sendo talvez o melhor resultado obtido por Marisa Monte, em 1990, com pequenas alterações melódicas.

Semana que vem tem mais.

Fontes: Site Poemas & Canções; Acervo Pessoal; Wikipedia; Dicionário Ricardo Cravo Albin

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor

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22 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICOS DE UMA CANÇÃO SÓ QUE FIZERAM ETERNO SUCESSO NACIONAL

André Filho/Cidade Maravilhosa

André Filho foi ator, violonista, bandolinista, banjoísta, violonista, pianista, compositor e cantor.

O múltiplo artista Antonio André de Sá Filho nasceu no Rio de Janeiro em 21 de março de 1906 e morreu na mesma cidade em 2 de julho de 1974, é o autor de “Cidade Maravilhosa”, escrito e com arranjo original de Silva Sobreira.

A marcha imortal de André Filho não tem uma origem consensual. São, pelo menos, duas versões para o nascimento da música.

Uma diz que a marcha foi lançada por ocasião da “Festa da Mocidade”, em outubro de 1934, não obtendo nenhum sucesso. Teria ganhado o segundo prêmio da prefeitura do então Distrito Federal, para o Carnaval de 1935.

De acordo com o “Dicionário Universal de Curiosidades”, foi o escritor Coelho Neto quem primeiramente denominou o Rio de Janeiro como “cidade maravilhosa”, num artigo publicado em 1908, no jornal “A Notícia”, onde enaltecia as belezas e os contornos da cidade. É possível que André Filho tenha se inspirado nessa crônica para criar a marcha que não só representou um dos grandes sucessos de 1935, mas se tornou o Hino Oficial da Guanabara (hoje Rio de Janeiro).

Aurora Miranda gravou a canção por sugestão de sua irmã, Carmen, que pretendia lançá-la no cenário artístico e no meio radiofônico. Carmen passou a incluir Aurora em todos os seus shows e no coro de suas gravações.

Quando o compositor André Filho mostrou-lhe a música “Cidade Maravilhosa”, Carmen também achou que aquela seria uma oportunidade de ouro para a irmã. André concordou imediatamente e gravou a marchinha, acompanhando Aurora.

Em outra versão de sua origem, o hino da cidade do Rio de Janeiro é chamado de “Cidade Maravilha”, o epíteto para a cidade usado pela escritora francesa Jane Catulle Mendès em seu livro de poemas “La Ville Merveilleuse”, publicado em Paris, em 1913, como uma homenagem às suas belezas naturais.

O título foi adotado num programa radiofônico de grande sucesso, apresentado por Cesar Ladeira, onde este lia as “Crônicas da Cidade Maravilhosa”, escritas pelo futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, Genolino Amado.

No mais, tudo igual à primeira versão: André mostra a Carmen que sugere que a música seja interpretada por sua irmã, Aurora.

Polêmica pelo hino

O Rio esteve perto de perder seu hino em fins de 1967, quando o deputado Frederico Trotta apresentou um projeto, sugerindo à Assembleia a criação de um concurso para a escolha de um novo, em substituição a Cidade Maravilhosa.

O nobre deputado argumentava que a marcha tinha “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual de solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades e personalidades notórias.

Registre-se que, com a criação do estado da Guanabara, “Cidade Maravilhosa” foi oficializada como “marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro”, por meio da Lei nº 5, de 05 de maio de 1960.

O povo carioca protestou contra a ideia do parlamentar. Quando começou a tramitar o projeto do Trotta, no início de 1968, diversos articulistas e artistas, como Aracy de Almeida, Fernando Lobo e Grande Otelo vieram a público manifestar sua indignação.

Finalmente, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei que restituía “Cidade Maravilhosa” à condição de hino oficial da cidade.

André Filho confessou depois, em 25 de setembro do mesmo ano que era também o autor de marchas que homenageavam outras duas cidades: Cambuquira (Cidade Morena, hino oficial); e Buenos Aires (Ciudad em Sueno). André Filho disse ainda que, por amor ao Rio, recusara-se a fazer uma marcha para Brasília.

O compositor foi autor de cerca de uma dúzia de músicas, algumas de relativo sucesso, mas nada que se comparasse à magistral “Cidade Maravilhosa”.

É pretensão da série apresentar os casos – não são poucos – de compositores, que ao longo da carreira fizeram dezenas de canções, mas apenas uma alcançou um sucesso arrebatador. Este é o caso de André Filho, por conta de Cidade Maravilhosa. É o caso do mecânico Otávio de Souza, com “Rosa’, em parceira com Pixinguinha. É, aliás, o contrário de Dorival Caymmi, que fez “poucas”, mas todas obras-de-arte. Por isso, embora não se comparem fama/sucesso, não posso deixar de reproduzir aqui “Filosofia”, de Noel Rosa, que tem, vejam bem, André Filho, como parceiro.

 Semana que vem, tem mais…

15 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


ASA BRANCA, HINO NACIONAL DO NORDESTE

Asa Branca: 70 anos

O pernambucano Luiz Gonzaga e o cearense Humberto Teixeira compuseram “Asa Branca”, há 70 anos. A história deste hino só se renova. A primeira gravação, de 03 de março de 1947, pela RCA, é impecável, na voz de Gonzagão.

Antes de iniciar o artigo de hoje, tive o cuidado de verificar nos arquivos de nosso “Besta Fubana” o que o portal-jornal já havia produzido neste ano especial sobre a matéria.

Sim, claro, como veículo que aborda de política a futebol, de economia a culinária, mas principalmente por ser a voz digital mais importante do país no que se refere a coisas da terra – Pernambuco, Nordeste -, registrando, descobrindo, compilando, traduzindo e explicando de onde vem tanta criatividade, inventividade e originalidade do artista nordestino, procurei não ser redundante.

O “Besta Fubana” tem mesmo o diferencial de trazer entre seus colaboradores, articulistas, caricaturistas, ensaístas colunistas, alguns grandes artistas que de punho próprio escrevem para o veículo, como Jessier, Xico Bizerra e outros da música, da poesia, do cordel, das artes plásticas, do repente, das danças e dos ritmos.

Entre os artigos que trataram já neste ano do septuagésimo aniversário do clássico está o do nosso pesquisador, estudioso e agitador cultural, o amigo Bruno Negromonte, que trouxe um delicioso compêndio de gravações de “Asa Branca”, cantadas em 7 línguas estrangeiras. Muito bom, Bruno….

Aqui, trago minha contribuição para essa efeméride, com três vídeos, que considero marcantes na trajetória da canção de Gonzaga e Teixeira.

A gravação original, de 1947; a versão com onomatopaicos de gemidos, do exílio de Caetano Veloso, em Londres, que imprimiu status internacional à obra de Gonzaga e Teixeira, em 1971; e a versão lapidada e completa da música, feita pelo Quinteto Violado, de 1972:

1 – Original

2 – Com Caetano

3 – E a do Quinteto Violado.

Eu também gosto muito de “A Volta de Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Noutro dia, a gente fala sobre isso.

Semana que vem, tem mais.

8 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MARLOS NOBRE, NOSSO ERUDITO, COM FREVOS, MARACATUS E CABOCLINHOS

Marlos Nobre, a erudição pernambucana

Em 2005, Marlos Nobre recebeu por unanimidade o importante Prêmio Tomáz Luís de Victoria, na Espanha. O consenso aconteceu pela primeira vez na história do prêmio.

Na entrega da distinção, foi lançado o livro “Marlos Nobre: El Sonido del Realismo Mágico”, de Tomás Marco, editado pela Fundação Autor de Madrid, 222 páginas.

Marlos Nobre de Almeida é pianista, maestro e compositor brasileiro, nasceu no Recife, em 18 de fevereiro de 1939. Foi o primeiro brasileiro a reger a Royal Phillarmonic de Londres, em 1990.

Entre outras orquestras conduziu a Orchesttre Philarmonique de l’ORTF, em Paris; a da Suisse Romande; a de Nice; a do Teatro Colon; a Sinfônica do México; a de La Habana, Cuba.

Ocupa, atualmente, a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música.

O Regente:

A Flauta Mágica (abertura), Mozart – Orquestra Sinfônica do Recife

Uma das maiores contribuições de Marlos à música brasileira são suas obras inspiradas, relidas ou recriadas, a partir do imenso universo da música popular brasileira, notadamente a nordestina e mais fortemente, a pernambucana.

O Frevo nº 2

Este Frevo nº 2 foi escrito em homenagem aos 80 anos do escritor Ariano Suassuna, grande amigo de Marlos Nobre. Este vídeo registra a 1ª Audição Mundial desta 1ª versão da obra pelo compositor ao piano no Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco, X Festival Internacional de Musica VIRTUOSI, Dezembro 2007. Ariano estava na plateia.

O catálogo completo de Marlos Nobre alcança, no presente, um total de 246 obras, todas editadas por sua própria editora, a Marlos Nobre Edition.

Ocupou a direção musical da Rédio MEC (1971) e do Instituto Nacional de Música da Funarte (1976).

Aqui o caboclinho, em sua erudição:

Caboclinhos Opus 43/1 – Nº 1 do IVº Ciclo Nordestino para piano, Opus 43 em cinco partes: Caboclinhos, Cantilena, Maracatu, Ponteado e Frevo. – Pianista: Victor Asunción- no Santa Isabel – Recife, PE.

Entre 1985 e 1987 esteve na presidência do Conselho Internacional de Música da UNESCO, em Paris Depois, passou a dirigir a Fundação Cultural de Brasília, em 1988. Dirigiu a Fundação Cultural do Distrito Federal entre 1986 e 1990.

Marlos Nobre recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi condecorado com a Medalha do Mérito Cultural de Pernambuco e a de Oficial da Ordre des Arts e des Lettres da França.

Semana que vem, tem mais…

1 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


LEVINO FERREIRA, UM DOS PRIMEIROS MESTRES

Levino Ferreira, um dos fundadores do frevo

Embora seja um dos fundadores do frevo, Levino Ferreira escreveu sua grande obra: “A Dança do Cavalo Marinho”, por volta de 1940, feita especialmente para a Orquestra Sinfônica do Recife. A obra tornou Levino famoso no mundo inteiro.

Considerada música erudita, de tema do folclore pernambucano, foi apresentada pela Grande Orquestra da P.R.A.- 8, dirigida por Felipe Caparrós, pela BBC de Londres e pela Orchestre Symphonique International, em Paris, 1958, sob a regência do maestro Mário Câncio.

A Dança do Cavalo Marinho, de Levino Ferreira, Orquestra Jovem da Universidade Federal da Paraíba, regência de Guedes Peixoto

O Maestro Levino nasceu no dia 2 de dezembro de 1890 (morreu em janeiro de 1970, no Recife), numa modesta casa da antiga rua da Lama, na cidade de Bom Jardim – terra dos Pau d’arcos, berço natal de grandes musicistas – em Pernambuco.

Aos oito anos de idade, Levino Ferreira da Silva começou a apresentar-se na banda do maestro Tadeu, tocando trompa. Mais tarde aprendeu a executar outros instrumentos de sopro e todos os instrumentos da banda, passando a substituir automaticamente qualquer componente que faltasse aos ensaios ou apresentações.

Em 1910, com 20 anos de idade e já reconhecido como exímio instrumentista, transferiu-se para a cidade de Queimados, atualmente Orobó, em Pernambuco, para assumir o cargo de mestre da banda da cidade. Atuou ainda na mesma década, como mestre da banda ‘Vinte e Dois de Setembro’, recebendo em decorrência disso diversos convites para organizar e dirigir bandas no interior de Pernambuco.

Nesse período começou a compor músicas para o carnaval, embora não apresentasse ainda as influências do frevo. Em 1919, fez sua primeira viagem a Recife. Durante toda a década de 1920 e até meados da década seguinte, apresentou-se em festas e dirigindo bandas, como a de Limoeiro. Já no começo da década de 1930, suas composições começaram a se tornar conhecidas em Recife, uma vez que eram editadas pela ‘Casa de Música Azevedo Júnior’.

Em 1935, aos 45 anos, a convite do maestro Zumba, mudou-se para Recife. No mesmo ano, teve seu frevo “Satanás na onda” escolhido como vencedor do Concurso de Frevos do Recife, sendo, em seguida, gravado pela Orquestra Odeon. Seus frevos passaram a ser cantados por quase todos os blocos e clubes carnavalescos da capital. Passou a ser conhecido como ‘Maestro Vivo’.

Em 1937, teve sua composição “Diabinho de saia” gravada para o carnaval pela Orquestra Diabos do Céu. Trabalhou em diversas rádios recifenses, fazendo parte da Orquestra da Rádio Clube de Pernambuco e da Orquestra Sinfônica do Recife. Integrou ainda o conjunto Ladário Teixeira, do maestro Felinho, como saxofonista e trompetista. Foi escolhido pelos fundadores do Centro da Música Carnavalesca de Pernambuco como patrono do Museu do Frevo que recebeu o seu nome. Em 2007, “Mexe com tudo” foi incluída no DVD “Passo de anjo ao Vivo”, gravado pela mesma orquestra, no Canecão (RJ).

Em janeiro de 2008, teve dois de seus frevos relançados pela ‘Spok Frevo Orquestra’, no CD “Passo de anjo ao vivo”, gravado ao vivo no Teatro Santa Isabel, na cidade de Recife: “Último dia”, que contou com a participação especial de Armandinho Baiano, e “Lágrima de folião”, que teve a participação de Léo Gandelman.

“Mexe com Tudo”, – Orquestra Spok em Montreux

Viveu e morreu pobre, deixando como única e inalienável riqueza toda sua obra composta de Valsas, Frevos, Maracatus, peças folclóricas e religiosas, que, para desgosto de todos, não conhecemos a sua totalidade.

Capa de disco de Levino

Concluo com relato de nosso companheiro fubânico Leonardo Dantas Silva.:

Último Dia, com maestro Duda

“Numa manhã de verão, levado por João Santiago, eu conheci o Mestre Vivo. Morara no Cordeiro e me pareceu uma figura simples, conversando com um tom de ironia em suas observações.

Era um tipo mulato baixo, mais para gordo, tinha a camisa por fora das calças, trazia no rosto as marcas da varíola e usava um chapéu de massa, mesmo dentro de casa, complementando assim o tipo comum do nosso homem da Zona da Mata.

Estava diante do Rei do Frevo! O lendário Mestre Vivo!

Ninguém foi maior do que Levino Ferreira da Silva, no gênero frevo de rua. Nisso, concordam outros nomes de nossa música, como Capiba, Luiz Bandeira, José Menezes, Edson Rodrigues, Mário Mateus, Mario Guedes Peixoto, Ademir Araújo, Duda e uma infinidade de outros monstros sagrados de nosso frevo instrumental.

Mestre Vivo – Levino Ferreira passa a ser conhecido pelo apelido, que na versão do próprio maestro surgiu assim: ‘Era mestre da banda de música de Limoeiro, quando sofreu um ataque de catalepsia. Tomado por morto, com respiração imperceptível, seu corpo foi colocado num ataúde, ao mesmo tempo em que a comoção tomava conta da cidade e das redondezas.

Tarde da noite, quando familiares e amigos pranteavam seu desparecimento, eis que o morto voltou a si e, sentando-se no caixão exclamou: – Minha gente querem me enterrar vivo!. Ao susto do início, seguiu-se a alegria, o velório transformou-se em Carnaval e um apelido marcou o episódio: ‘Mestre Vivo’”.

Semana que vem, tem mais.

Fontes: O Nordeste; Overmundo (Abílio Neto); Dicionário Ricardo Cravo Albin; Wikipedia.

25 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


RILDO HORA, MESTRE DA GAITA, COMPOSITOR, PRODUTOR

Rildo Hora, mestre da gaita ou do realejo, como dizemos no Recife

A gaita de boca (realejo) – não confundir com a gaita gaúcha – talvez tenha recebido mais atenção desde que Bob Dylan recebeu, ano passado, o Prêmio Nobel de Literatura. Afinal, o poeta americano, tocador de violão, auxiliado por uma gaita afixada acima do instrumento de cordas, fez a pequena harmônica tornar-se conhecida em todo o mundo, via country.

Rildo Hora é um dos maiores talentos brasileiros no instrumento. É apontado pelos colegas gaitistas (inclusive Toots Thielemans) como um dos principais instrumentistas em atividade.

Possui CDs lançados no Brasil e nos EUA. No show “Espraiado”, Rildo apresenta clássicos da MPB com arranjos que transitam entre o erudito e o popular. No repertório, canções próprias e de compositores como Milton Nascimento, Tom Jobim, Edu Lobo e Toots Thielemans.

“O Ovo” (Hermeto Pascoal), com Rildo Hora, gravado em 1987

Rildo Alexandre Barreto da Hora nasceu em Caruaru-PE, em 20 de abril de 1939 (78 anos). É gaitista, violonista, cantor, compositor, arranjador, maestro e produtor musical.

Seu pai, Misael Sérgio Pereira da Hora, alagoano, foi dentista, e a mãe, Cenira Barreto Hora, pernambucana, foi sua primeira professora de teoria musical e piano.

Em 1945, mudou-se com a família para a cidade do Rio de Janeiro, indo morar no subúrbio carioca de Madureira.

Aos seis anos de idade, interessou-se por harmônica de boca. Autodidata, passou a estudar o instrumento, mesmo sem mestre. Desenvolveu a sua técnica tocando frevos e choros que ouvia no rádio.

Estudou harmonia, contraponto e composição na Escola de Música Pró-Arte com o maestro Guerra Peixe, que escreveu especialmente para ele “Suite quatro coisas”. Teve aulas de violão com Meira e com Oswaldo Soares e freqüentou outros cursos no Centro de Estudos Musicais.

Ainda criança, frequentava o botequim do seu João Valentim e o bar do Nozinho, próximos à sua casa, em Madureira, apreciando o samba dos mestres Candeia, Waldir 59, Chico Santana, Alvaiade e Manacéa, entre outros da Portela.

Aos 11 anos, tocava em festas populares pelos subúrbios do Rio de Janeiro. Apresentou-se na Rádio Mayrink Veiga, no Programa Trem da Alegria, comandado pelo “Trio de Osso” (Lamartine Babo, Heber de Boscoli e Iara Sales). Nesta época, conheceu o violonista Mão de Vaca (Manoel da Conceição) e apresentou-se no programa “A Hora do Pato”, na Rádio Nacional, passando a frequentar a emissora.

Adulto, em 1961, quando trabalhava na Boate Carioca ‘Cangaceiro’, compôs com Clóvis Melo “Canção que nasceu do amor”, lançada por Cauby Peixoto e regravada mais tarde por Elizete Cardoso.

No ano seguinte Alaide Costa gravou, dele e Gracindo Junior, “Como eu gosto de você”, com arranjo de César Camargo Mariano. Acompanhou Elizete Cardoso, como violonista, em shows por todo o Brasil de 1965 a 1967.

A partir do ano de 1968 passou a trabalhar como produtor musical, a convite de Geraldo Santos, na gravadora RCA. Sua primeira produção foi o LP ‘Música Nossa’, seguida dos discos de Antonio Carlos e Jocafi, João Bosco, Martinho da Vila e Maria Creuza. A partir daí foi estudar harmonia, contra ponto e composição com o maestro Guerra Peixe.

“Visco de Jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral), com Céu

Em 1973, participou como gaitista, da gravação do LP “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, na música “Estácio Holly Estácio”. No mesmo ano, foi produtor do LP “João Bosco”, disco de estreia do cantor e compositor mineiro.

Produziu em 1978 o disco “Tendinha” de Martinho da Vila, no qual se destacou o sucesso “Amor não é brinquedo” (Martinho da Vila e Candeia). Depois, fez Ataulfo Alves Júnior, “Velha-Guarda da Portela” e “Os Meninos da Mangueira”, estas últimas compostas com Sérgio Cabral (pai).

Último Desejo, de Noel Rosa – Maysa e Rildo Hora

Em 1987, executou na Sala Cecília Meireles, no Rio, o “Concerto para Harmônica e Orquestra”, de Villa-Lobos, sob a regência do maestro Davi Machado. Em 1988, interpretou a “Suíte quatro coisas” de Guerra Peixe, escrita e orquestrada especialmente para ele. Desde então, trabalhou com vários artistas brasileiros tais como: Martinho da Vila, Mariza Rossi, Luiz Gonzaga, Jair Rodrigues, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Clara Nunes, Maria Creuza, Chiquinho do Acordeom, entre outros.

Em 1992, lançou o CD “Espraiado”, pela gravadora “Caju Music”, no qual interpretou “Cabriola”, “Pipoca no fogo”, “Chorinho nervoso pro Hermeto Pascoal”, “Cóe, cóe”, todas de sua autoria, e ainda “A implosão da mentira ou o episódio do Riocentro”, “Canção que nasceu do amor”, além da faixa-título, “Espraiado”. O disco contou ainda com uma composição de seu filho Misael, “Baião de flor”.

Distribuído nos Estados Unidos pela etiqueta Milestone, foi incluído pela crítica americana entre os 10 melhores discos de jazz latino.

Em 1998, a gravadora “Visom” compilou dois CDs de sua autoria, pela série “Virtuoso”, a saber: “Rildo Hora e Cia. de Cordas” e “Rildo Hora e Romero Lubambo”. Fez a produção do primeiro disco solo de Walter Alfaiate, pela gravadora Alma.

Lançou no ano de 2000 o “Casa de samba volume 4”, com a Velha Guarda da Portela e Alcione, Dudu Nobre e João Bosco, Noite Ilustrada e Cássia Eller, entre outras duplas inusitadas.

Em 2001, fez a produção do disco “Chorinho” para a gravadora alemã Teldec. Deste disco participaram Altamiro Carrilho, Carlos Malta, Sivuca, Henrique Cazes, “Época de Ouro”, Pedro Amorim, Joel Nascimento, Maria Teresa Madeira e Ademilde Fonseca.

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18 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SEVERINO ARAÚJO – ORQUESTRA TABAJARA

Maestro Severino Araújo

A rigor, em país que guarda sua memória e zela por seus grandes valores, essa introdução seria desnecessária.

Por mim, reproduziria duas ou três grandes execuções da orquestra, regida por Severino Araújo, quem sabe lembrando “Espinha de Bacalhau”, “Nivaldo no Choro” e outros.

Desconfiando que muita gente desconheça sobre o que falo, vou descrever alguns dados para situar nossos leitores.

A Big Band (americana) ou Orquestra (Brasil) pode ser dividida em antes e depois de Severino Araújo e a Orquestra Tabajara.

Espinha de Bacalhau (Severino Araújo), com Orquestra Tabajara

Nascido em Limoeiro-PE, em 1917, morreu no Rio de Janeiro, em agosto de 2012 (95 anos). Foi músico, compositor, maestro e clarinetista.

Foi regente por cerca de 70 anos da Orquestra Tabajara, que assumiu aos 21 anos de idade. Eu disse 70 anos à frente da banda.

Um dos pioneiros na fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira, além de ter criado arranjos para Big Band de músicas dos mais variados ritmos, Severino começou a estudar com o pai, José Severino, conhecido como mestre “Cazuzinha”, que era mestre de banda militar e também dava aulas de música.

Em 1936, Severino Araújo foi para a Banda da Polícia Militar da Paraíba como primeiro clarinetista e a partir daí começou sua vida profissional. Um ano depois, compôs seu mais famoso choro: “Espinha de Bacalhau”, um dos mais executados no Brasil e no exterior e considerado peça de primeira linha. Agora, com o “Sujeito a Guincho”:

Substituiu o maestro Olegário de Luna Freire, com a morte deste, em 1938. Em agosto de 1944, foi para o Rio de Janeiro, a convite de Assis Chateaubriand.

Entre as suas mais de 50 composições, as mais conhecidas são: Espinha de Bacalhau, 1937; Gafanhoto Manco, 1937; Um Chorinho Modulante, 1937; Mumbaba, 1943; Um Chorinho Delicioso, 1947; Um Chorinho pra Você, 1947; Simplesmente, 1948; Mirando-te, 1950; Além do Horizonte, 1952; Pensando em Você, 1953; Um Chorinho em Montevidéu, 1955; Nivaldo no Choro, 1956.

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11 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


DUPLAS SERTANEJAS D’ANTANHO

Fábrica de músicas duvidosas

A coisa esquentou mesmo foi esse ano. A rinha vinha fervendo de outros são joões, mas em 2017 a pirotecnia foi maior.

A questão é muito mais antiga e profunda do que se apresenta hoje. Qualquer música regional pode e tem o direito de ser assimilada por outros rincões.

Os dois processos mais conhecidos são: o natural reconhecimento popular e a demanda espontânea por artistas que estão bombando; e a famosa máquina de criar duplas, ídolos, mitos, por meio do velho jabá e dos atuais centros de fabricação de sertanejos, que entram numa linha de montagem – geralmente no Centro-Oeste, Paraná e Interior de São Paulo – destinada a transformar porcaria em algo palatável.

O raciocínio vale para o sabão em pó, Bombril e a música romântica universitária sertaneja – ou como queiram rotulá-la. Por qualquer três ou quatro milhões (cash), dois irmãos bonitinhos, dupla com, no máximo uma voz afinada, o molde, o modelo, o empresariadismo, os acordos comerciais de presença em tudo que é canto ao mesmo tempo e a badalação. Nós, pobres cristãos, de tanto ouvir onipresentemente esses mantras nos flagramos a cantar “Fio de Cabelo” e até “É o amor”, exceções num cancioneiro insosso e padrão.

Neste último São João, a discussão voltou, de novo, à baila e Caruaru-PE e Campina Grande-PB, mecas das festas juninas do Nordeste, disputaram à ponta de faca quem traria mais atrações como “Mariulza e Marielza”, Marília Mendonça – nova musa – e os tradicionais e indigestos, que me permito aqui omitir.

Concorrência desleal, como sentar em cima do disco do outro para quebrar (como me ensinou o amigo Pelão), comprar o espaço do sucesso na mídia e implantar um chip de lavagem cerebral nos desatentos, já é prática de muito tempo. No fundo, a estrutura mental é a mesma: destruir a cultura alheia e assentar em cima os seus fakes, para angariar dividendos.

Esse assunto me dá náuseas, como diria o procurador. Apenas para não deixar batido, mostro aqui dois momentos mais originais e mais antigos desse gênero que até gostava de ouvir. Tire-se desse libelo, por favor, a linhagem representada por Inezita e tantos outros craques.

Venâncio e Corumba – “Chuleado da Vovó” – Bem Brasil – 1982

Venâncio e Corumba nasceram no Recife, em Pernambuco, sendo autores também, de, entre outros sucessos de “Último Pau de Arara”.

Milionário e Zé Rico

A Estrada da Vida – Milionário e Zé Rico

O mineiro Milionário e o pernambucano Zé Rico (já falecido) foram motivo de dois filmes, um dos quais “A Estrada da Vida”, de Nelson Pereira dos Santos.

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4 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


CAPIBA, PARA ALÉM DOS GRANDES FREVOS

Quem ler, de relance o nome de Capiba aí em cima no título, poderá dizer: “ah, esse eu já conheço, eu quero é novidade”…

Em primeiro lugar, não há dúvida que o maior compositor pernambucano é eterno e, portanto, será sempre uma novidade, com fundadas tradições.

O disco que Raphael Rabelo produziu e executou pouco tempo antes de morrer tão precocemente, é prova nacional do interesse pelo nome e pelo legado musical.

Aqui, entre nós, fubânicos, é bem possível, que essa frase soe repetitiva, porém muito além dos grandiosos frevos “Ó Bela”, “De Chapéu de Sol Aberto” ou “Madeira de Lei que Cupim não Rói”, mas entre os não tão fubânicos assim talvez poucos conheçam as belíssimas valsas, sambas-canção e boleros que ele fez.

Como aqui assumo a condição de também registrar os dados básicos de todos os homenageados, lá vai: Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) nasceu em Surubim, em 28 de outubro de 1904, encantando-se em 31 de dezembro de 1997, no Recife, aos 93 anos.

Maria Bethânia – Com Nelson Gonçalves e Caetano Veloso

“Cais do Porto”, com maestro Guerra Peixe e Orquestra e “Titulares do Ritmo”, nos vocais

Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba), 1904-1997

Capiba era aquele cara que, quando numa roda de bar, surgia o ranking dos maiores compositores do Brasil, sacava-se do Sul, Lupicínio Rodrigues, da Bahia, Dorival, do Rio, Noel ou Tom, de São Paulo, Adoniran e Geraldo Filme, entre os capixabas, Roberto Carlos, do Maranhão, Catulo da Paixão Cearense, do Piauí, Torquato Neto, do Ceará, o Pessoal, incluindo Belchior e assim por diante.

Capiba é patrimônio musical pernambucano e nacional, título outorgado por aquelas que apreciam a boa melodia, músicos, estudiosos e historiadores.

Apesar de seu ecletismo, ficou conhecido mesmo como o maior compositor de frevos do Brasil.

A Mesma Rosa Amarela (Capiba/Carlos Pena Filho), com Maysa

Capiba nasceu em uma família de músicos – seu pai, Severino Atanásio foi maestro da Banda Municipal de Surubim e, aos oito anos já tocava trompa. Ainda pequeno, mudou-se com a família para a Paraíba. Lá, ainda criança trabalhava como pianista em cinemas.

Chegou a jogar como zagueiro no Campinense, time de Campina Grande-PB, porém abandonou os gramados e aos 20 anos gravou seu primeiro disco, com a valsa “Meu Destino”. Era torcedor declarado do Santa Cruz, do Recife.

Com 26 anos, mudou-se para o Recife. Aprovado em concurso, tornou-se funcionário do Banco do Brasil, o que lhe rendeu sustento financeiro e permitiu tempo para aprimorar-se como músico.

Em 1938, concluiu o curso da Faculdade de Direito do Recife, mas nunca apanharia o diploma e nunca seguiu carreira.

Em 1950, funda a Jazz Band Acadêmica e, com Hermeto Pascoal e Sivuca e cria o trio “O Mundo Pegando Fogo”.

Semana que vem tem mais.


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