19 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ANASTÁCIA

Anastácia

Tal qual Almira Castilho (com Jackson do Pandeiro), Anastácia foi casada e formou uma grande parceria musical com outro dos grandes nomes da música brasileira, mestre Dominguinhos.

Se Almira cantou, compôs e participou de dezenas de filmes, Anastácia teve uma carreira solo, antes e depois de seu casamento.

Anastácia (Lucinete Ferreira, cantora de compositora, nasceu no Recife-PE, em maio de 1941. Seu interesse pela música surgiu muito cedo, aos sete anos de idade.

Nesse tempo, acompanhava um cantador de cocos, na Macaxeira, bairro da capital pernambucana.

Iniciou a carreira em 1954, cantando na Rádio Jornal do Commercio, interpretando canções criadas e gravadas no Sudeste, principalmente os sucessos de Celly Campello.


Anastácia e Dominguinhos, em 1976, programa especial, de Fernando Faro

Em 1960, transferiu-se para São Paulo, onde passou a cantar gêneros nordestinos. Fez shows pelo interior, participando da “Caravana do Peru que Fala!, com Silvio Santos. Em seguida apresentou obras da dupla pernambucana Venâncio e Corumba.

Foi nessa época que recebeu o nome de Anastácia, dado pelo produtor, cantor e compositor Palmeira, então diretor da Chantecler.

Gravou seu primeiro disco em 1960, com as músicas “Noivado Longo”, de Max Nunes, além de “Chuleado”, “A Dica do Deco” e “Forró Fiá”, todas de Venâncio e Corumba.

Em meados da década de 1960, conheceu Dominguinhos, num programa de Luiz Gonzaga, na extinta TV Continental do Rio de Janeiro. Casou-se com Dominguinhos e participou de uma caravana artística com o “Rei do Baião!. Compôs com seu parceiro mais de 50 músicas, das cerca de 200 que escreveu.

Eu Só Quero um Xodo (Anastacia/Dominguinhos), com Anastacia

Em 1969, lançou pela RCA Victor o disco “Caminho da Roça!”, com a participação de Luiz Gonzaga nas faixas “Minha Gente”, “Eu Vou Me Embora”, de Antonio Barros, e Feira do Podre, de Onildo Almeida (o mesmo de “A Feira de Caruaru).

Gilberto Gil gravou “Eu Só Quero um Xodó, parceria dela com Dominguinhos, numa clássica versão, em 1973. Essa música recebeu mais de 20 regravações. Gil também gravou o sucesso “Tenho Sede”, de Anastácia e Dominguinhos, regravando-o em 1994 no disco Unplugged.

“Tenho Sede” (Dominguinhos/Anastácia), com Arismar do Espírito Santo, Robertinho Silva, Heraldo do Monte, Dominguinhos e Gil

Anastácia lançou cerca de 30 discos, constituindo-se num dos maiores nomes do forró. Suas músicas foram gravadas por Nana Caymmi, Claudia Barroso, Jane Duboc, Dóris Monteiro, José Augusto, Ângela Maria, Gal Costa e outros.

Semana que vem tem mais.

12 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MULHERES CANTORAS E COMPOSITORAS DE PERNAMBUCO – ALMIRA CASTILHO

Almira Castilho

Lembrei-me das “mulheres de Tejucupapo”, que até hoje simbolizam a bravura das mulheres pernambucanas.

Aqui, mesmo tocando sempre no tema musical – em tese, aberto a todos os gêneros – pouco falo da participação feminina no cenário pernambucano.

Nesse plano, Chiquinha Gonzaga, está na posição de vanguarda. Podemos pleitear pioneirismo no choro, nas músicas do século XIX, inventados por João Pernambuco, de Sons Carrilhões, Luar do Sertão e Cabocla de Caxangá.

Mas, de parte das mulheres, talvez nossa grande desbravadora seja a magnífica Tia Amélia, a quem já dediquei uma coluna deste Megaphone e dedicarei mais.

Num rápido apanhado de nomes antigos e de gente nova – por favor, aguardo contribuição dos leitores – listei como mulheres cantoras e compositoras pernambucanas ou que fizeram carreira no solo na “Terra de Altos Coqueiros”, Almira Castilho, Anastácia, Marinês (e sua Gente), Tia Amélia, Clarice Falcão, Selma do Coco, Lia de Itamaracá, Teca Calazans (capixaba), Nena Queiroga (carioca, filha de Lula Queiroga), Ylana Queiroga, Glorinha do Coco, Isaar, Irmãs Acioman, Dalva Torres, Nanau Nascimento..

Começo com Almira Castilho, mulher de Jackson do Pandeiro por 12 anos, mas que, por certo, tem um lugar especial nesse universo, além do ultrapassado clichê “atrás de todo grande homem, há uma grande mulher”.

Num raciocínio rápido e superficial, posso pensar em Alma, esposa e mais que palpiteira, uma verdadeira parceira do marido, Alfred Hitchkock; Maria Bonita e Lampião. A conversão deste apotegma se estabelece com Bonnie and Clyde; d. Maria Tereza e Jango; Rita e Roberto de Carvalho, por exemplo.

Cantora. Compositora. Dançarina. De beleza brejeira e nordestina, era linda de se ver no palco, ao lado do exuberante pandeirista, cantando, dançando e arrebatando olhares e sorrisos de Jackson do Pandeiro, seu parceiro e marido.

Antes de seguir a carreira artística, atuou como professora. Dançava e cantava bem, também compunha e ficou famosa exatamente pela parceria com Jackson do Pandeiro, que ela conheceu em 1952, na rádio Jornal do Commercio, onde era rádio-atriz e cantora.


Chiques com chapéu de couro

Sua última aparição pública se deu 2009, quando, na cidade de Recife, recebeu homenagem em nome de Jackson do Pandeiro. Faleceu aos 87 anos, vítima de mal de Alzheimer.

“Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira (1958), com Jackson do Pandeiro

Na opinião deste escriba, “Chiclete com Banana” se insere no contexto do antes e depois do modernismo-psicodelismo e tropicalismo da música brasileira. É um grande manifesto, com uma linguagem panfletária de cordel…

Olindense, Almira Castilho nasceu em agosto de 1924, deixando-nos quando já morava no Recife, em fevereiro de 2011, foi cantora, compositora e dançarina brasileira.
Parceira de Jackson do Pandeiro, com quem foi casada, sua carreira pontuou em composições e apresentações no rádio e no cinema. O casal esteve junto por 12 anos, de 1955 a 1967.

Forró Quentinho, de Almira Castilho

Almira Castilho era professora. Iniciou sua carreira artística em 1954, participando do coro na apresentação de “Sebastiana” por Jackson do Pandeiro. Foi rumbeira e rádioatriz na Rádio Jornal do Commercio, além de ter participado de algumas dezenas de filmes nacionais.

“Chiclete com Banana”, com Marjorie Estiano e Gilberto Gil

Fez mais de 30 músicas na parceria de Jackson, Gordurinha e Paulo Gracindo. “Chiclete com Banana” é o ponto alto de sua carreira. Foi a primeira que se usou o termo samba-rock na terminologia musical brasileira. Como se costuma fazer até hoje, a mídia em geral não registra os nomes dos compositores, arranjadores e produtores musicais, ficando a visibilidade maior para quem aparece e canta no palco do rádio e das televisões, nos CDs, DVDs, Spotify e mídias afins.

Muitas capas com Almira

Por que comecei esta série com Almira? Por um motivo muito pessoal. Era (e continuo) vidrado em Jackson, o rei do ritmo. Para mim, sempre esteve no patamar de Gonzagão, Humberto Teixeira e Zé Dantas, no que diz respeito a música nordestina.

Certa ocasião, Dagô – minha mãe e primeira professora da história da música que tive -alertou: “Junior, você adora Jackson, mas não esqueça que, “por trás dele existe uma artista de primeira grandeza chamada Almira Castilho”.

Penso que d. Dagô chamava a atenção para duas injustiças: a compositora Almira, que ficava mais escondida; e uma boa dose de feminismo pleiteando o espaço da mulher no universo da música nordestina.

Semana que vem, tem mais das mulheres de Tejucupapo da música regional….

5 setembro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


QUEM NÃO CONHECE LUIZ DE FRANÇA!

Luiz de França

Existem músicas que não saem da cabeça nem que a vaca tussa. Falo das canções que ouvimos na infância e por toda uma vida. Muitas vezes, canções regionais como “Eu Vou Prá Lua”, do famosíssimo intérprete e compositor paraense Ary Lobo, em parceria com o pernambucano Luiz de França, Boquinha, têm esse dom.

Formaram aquela famosa linha de cocos, emboladas, rojões e baiões, lida e relida pelos fabulosos Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Rosil Cavalcanti, Jacinto Silva, entre outros.

Eu Vou Pra Lua, de Luiz de França e Ary Lobo, com Ary Lobo

A letra deste rojão me traz à lembrança o Recife antigo, do Campo do Jiquiá, onde pousavam os Zeppelin, na década de 1930. Ainda hoje o único atracadouro de dirigíveis daquele porte, de pé, em todo o mundo.

Da corrida espacial mais recente, os autores trouxeram o soviético Sputnik, verdadeira febre dos interessados em feitos espaciais daquele momento.

São criações, fantasias que juntam um improvável lançamento de um foguete-satélite num atracadouro de Zeppelin.

Eu Vou Pra Lua, com Zé Ramalho, Elba e Geraldo Azevedo

Tudo que se enrola e desenrola na letra é para fazer contraposição aos dias de dureza que se passava aqui na terra, Brasil. Em alguns momentos, parece que estamos em tempos atuais. A ideia de ir para o nosso satélite natural para fugir, expressada nos versos: “Já estou enjoado aqui da terra; Onde o povo a pulso faz regime; A indústria, roubo, a fome, o crime; Onde os preços aumentam todo dia; O progresso daqui a carestia; Não adianta mais se fazer crítica; Ninguém acredita na política; Onde o povo só vive em agonia”.

Perfis:

ARY LOBO (GABRIEL EUSEBIO DOS SANTOS LOBO)

Nascido em 14 de agosto de 1930, foi um músico de forró, natural de Belém, Pará. Ary Lobo foi daqueles gênios que não nascem mais nos dias de hoje, o maior compositor de forró da história, com mais de 700 músicas gravadas por ele e outros cantores, músicos e intérpretes. Um defensor solitário (ou quase) da música nordestina de raiz. Suas gravações são o retrato disso, a começar pelos instrumentos usados, ele não ousava muito, já tinha sua fórmula montada. De estilo semelhante ao de Jackson do Pandeiro, cantando derivativos do baião, entre cocos e rojões, Ary Lobo lançou vários sucessos nos anos 50 e 60 em seus nove LPs na RCA. Retratava a vida e os costumes nordestinos em diversas canções, como Cheiro da gasolina, Vendedor de Caranguejo, Eu vou pra Lua, Suplica Cearense, Evolução, Menino Prodígio, entre outros..

LUIZ DE FRANÇA – BOQUINHA

Compositor popular, Luiz de França nasceu em junho de 1911, no bairro do Torreão, no Recife, onde, ainda adolescente tornou-se ídolo, cantando suas músicas. Foi um dos grandes divulgadores do Coco, gênero musical preferido. Morreu em junho de 2008.

Também como conhecido como Luiz Boquinha, trabalhou durante 35 anos como carpinteiro na Aeronáutica e durante 16 anos participou de programas de auditório na Rádio Clube de Pernambuco, onde apresentava o programa “A Reportagem da Semana”, que interpretava os acontecimentos por meio de músicas.

Autor de vários folhetos de Cordel, sua canção de maior sucesso foi a parceria com Ary Lobo, “Eu Vou Prá Lua”.

Semana que vem, tem mais….

29 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICOS DE UMA CANÇÃO SÓ QUE FIZERAM ETERNO SUCESSO NACIONAL – OTÁVIO DE SOUZA

Otávio de Souza

O maior exemplo de compositor de uma música só é Otávio de Souza, co-autor de “Rosa” que se tornou hino lírico brasileiro. Em seu caso, a sorte o abençoou ao fazer poesia, puxada para o parnasiano, para o rebuscado e, que, casada com música de ninguém menos que Pixinguinha, tornou-se letra dessa obra-prima do cancioneiro nacional.

A peça, instrumental, foi feita 1917, segundo Alfredo da Rocha Viana Filho (Pixinguinha), que informou que seu título original foi “Evocação”.

Como manda a tradição do chorinho (gênero musical de Pixinguinha), a música foi composta em três partes.

Mais tarde, recebeu letra e ficou apenas com a primeira e a segunda partes. Muitas vezes foi gravada e regravada na versão original com três partes e sem letra, com Choro Carioca e Musica do Brasil, da Acari.

Nosso improvável célebre Otávio de Souza era um mecânico de profissão, que morreu jovem e nunca compôs nada parecido com Rosa.

Rosa – Instrumental (1917) – com Paulo Sérgio Santos, João Carlos de Assis Brasil e Henrique Cazes

Conta a lenda que Otávio se aproximou de Pixinguinha enquanto o mestre bebia em uma bar, do subúrbio carioca de Engenho de Dentro, para falar que havia uma letra que não saía de sua cabeça toda vez que ouvi a valsa. Pixinguinha ouviu e ficou maravilhado.

A gravação de Orlando Silva foi a responsável pela popularização de Rosa, com erro de concordância e tudo no trecho “sândalos dolente”.

Francisco Carlos e Carlos Galhardo deixaram de gravar Rosa por terem se recusado a gravar Carinhoso (coisas de gravadora).

“Rosa” era a música preferida da mãe de Orlando, dona Balbina. Após sua morte, em 1968, Orlando Silva jamais voltou a cantar a música.

Rosa, com Orlando Silva – 1937

Rosa, com Marisa Monte – 1990

Segundo estudiosos, “Rosa” é uma valsa de breque, de difícil interpretação vocal, especialmente para o uso de legatos (maneira de tocar uma frase musical), já que as pausas naturais são preenchidas por segmentos que restringem os espaços para o cantor tomar fôlego.

Quanto à letra, é também um exemplo do estilo poético rebuscado em moda na época. O desafio de regravar “Rosa” foi tentado por alguns intérpretes, sendo talvez o melhor resultado obtido por Marisa Monte, em 1990, com pequenas alterações melódicas.

Semana que vem tem mais.

Fontes: Site Poemas & Canções; Acervo Pessoal; Wikipedia; Dicionário Ricardo Cravo Albin

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor

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22 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICOS DE UMA CANÇÃO SÓ QUE FIZERAM ETERNO SUCESSO NACIONAL

André Filho/Cidade Maravilhosa

André Filho foi ator, violonista, bandolinista, banjoísta, violonista, pianista, compositor e cantor.

O múltiplo artista Antonio André de Sá Filho nasceu no Rio de Janeiro em 21 de março de 1906 e morreu na mesma cidade em 2 de julho de 1974, é o autor de “Cidade Maravilhosa”, escrito e com arranjo original de Silva Sobreira.

A marcha imortal de André Filho não tem uma origem consensual. São, pelo menos, duas versões para o nascimento da música.

Uma diz que a marcha foi lançada por ocasião da “Festa da Mocidade”, em outubro de 1934, não obtendo nenhum sucesso. Teria ganhado o segundo prêmio da prefeitura do então Distrito Federal, para o Carnaval de 1935.

De acordo com o “Dicionário Universal de Curiosidades”, foi o escritor Coelho Neto quem primeiramente denominou o Rio de Janeiro como “cidade maravilhosa”, num artigo publicado em 1908, no jornal “A Notícia”, onde enaltecia as belezas e os contornos da cidade. É possível que André Filho tenha se inspirado nessa crônica para criar a marcha que não só representou um dos grandes sucessos de 1935, mas se tornou o Hino Oficial da Guanabara (hoje Rio de Janeiro).

Aurora Miranda gravou a canção por sugestão de sua irmã, Carmen, que pretendia lançá-la no cenário artístico e no meio radiofônico. Carmen passou a incluir Aurora em todos os seus shows e no coro de suas gravações.

Quando o compositor André Filho mostrou-lhe a música “Cidade Maravilhosa”, Carmen também achou que aquela seria uma oportunidade de ouro para a irmã. André concordou imediatamente e gravou a marchinha, acompanhando Aurora.

Em outra versão de sua origem, o hino da cidade do Rio de Janeiro é chamado de “Cidade Maravilha”, o epíteto para a cidade usado pela escritora francesa Jane Catulle Mendès em seu livro de poemas “La Ville Merveilleuse”, publicado em Paris, em 1913, como uma homenagem às suas belezas naturais.

O título foi adotado num programa radiofônico de grande sucesso, apresentado por Cesar Ladeira, onde este lia as “Crônicas da Cidade Maravilhosa”, escritas pelo futuro imortal da Academia Brasileira de Letras, Genolino Amado.

No mais, tudo igual à primeira versão: André mostra a Carmen que sugere que a música seja interpretada por sua irmã, Aurora.

Polêmica pelo hino

O Rio esteve perto de perder seu hino em fins de 1967, quando o deputado Frederico Trotta apresentou um projeto, sugerindo à Assembleia a criação de um concurso para a escolha de um novo, em substituição a Cidade Maravilhosa.

O nobre deputado argumentava que a marcha tinha “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual de solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades e personalidades notórias.

Registre-se que, com a criação do estado da Guanabara, “Cidade Maravilhosa” foi oficializada como “marcha oficial da cidade do Rio de Janeiro”, por meio da Lei nº 5, de 05 de maio de 1960.

O povo carioca protestou contra a ideia do parlamentar. Quando começou a tramitar o projeto do Trotta, no início de 1968, diversos articulistas e artistas, como Aracy de Almeida, Fernando Lobo e Grande Otelo vieram a público manifestar sua indignação.

Finalmente, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei que restituía “Cidade Maravilhosa” à condição de hino oficial da cidade.

André Filho confessou depois, em 25 de setembro do mesmo ano que era também o autor de marchas que homenageavam outras duas cidades: Cambuquira (Cidade Morena, hino oficial); e Buenos Aires (Ciudad em Sueno). André Filho disse ainda que, por amor ao Rio, recusara-se a fazer uma marcha para Brasília.

O compositor foi autor de cerca de uma dúzia de músicas, algumas de relativo sucesso, mas nada que se comparasse à magistral “Cidade Maravilhosa”.

É pretensão da série apresentar os casos – não são poucos – de compositores, que ao longo da carreira fizeram dezenas de canções, mas apenas uma alcançou um sucesso arrebatador. Este é o caso de André Filho, por conta de Cidade Maravilhosa. É o caso do mecânico Otávio de Souza, com “Rosa’, em parceira com Pixinguinha. É, aliás, o contrário de Dorival Caymmi, que fez “poucas”, mas todas obras-de-arte. Por isso, embora não se comparem fama/sucesso, não posso deixar de reproduzir aqui “Filosofia”, de Noel Rosa, que tem, vejam bem, André Filho, como parceiro.

 Semana que vem, tem mais…

15 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


ASA BRANCA, HINO NACIONAL DO NORDESTE

Asa Branca: 70 anos

O pernambucano Luiz Gonzaga e o cearense Humberto Teixeira compuseram “Asa Branca”, há 70 anos. A história deste hino só se renova. A primeira gravação, de 03 de março de 1947, pela RCA, é impecável, na voz de Gonzagão.

Antes de iniciar o artigo de hoje, tive o cuidado de verificar nos arquivos de nosso “Besta Fubana” o que o portal-jornal já havia produzido neste ano especial sobre a matéria.

Sim, claro, como veículo que aborda de política a futebol, de economia a culinária, mas principalmente por ser a voz digital mais importante do país no que se refere a coisas da terra – Pernambuco, Nordeste -, registrando, descobrindo, compilando, traduzindo e explicando de onde vem tanta criatividade, inventividade e originalidade do artista nordestino, procurei não ser redundante.

O “Besta Fubana” tem mesmo o diferencial de trazer entre seus colaboradores, articulistas, caricaturistas, ensaístas colunistas, alguns grandes artistas que de punho próprio escrevem para o veículo, como Jessier, Xico Bizerra e outros da música, da poesia, do cordel, das artes plásticas, do repente, das danças e dos ritmos.

Entre os artigos que trataram já neste ano do septuagésimo aniversário do clássico está o do nosso pesquisador, estudioso e agitador cultural, o amigo Bruno Negromonte, que trouxe um delicioso compêndio de gravações de “Asa Branca”, cantadas em 7 línguas estrangeiras. Muito bom, Bruno….

Aqui, trago minha contribuição para essa efeméride, com três vídeos, que considero marcantes na trajetória da canção de Gonzaga e Teixeira.

A gravação original, de 1947; a versão com onomatopaicos de gemidos, do exílio de Caetano Veloso, em Londres, que imprimiu status internacional à obra de Gonzaga e Teixeira, em 1971; e a versão lapidada e completa da música, feita pelo Quinteto Violado, de 1972:

1 – Original

2 – Com Caetano

3 – E a do Quinteto Violado.

Eu também gosto muito de “A Volta de Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Noutro dia, a gente fala sobre isso.

Semana que vem, tem mais.

8 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MARLOS NOBRE, NOSSO ERUDITO, COM FREVOS, MARACATUS E CABOCLINHOS

Marlos Nobre, a erudição pernambucana

Em 2005, Marlos Nobre recebeu por unanimidade o importante Prêmio Tomáz Luís de Victoria, na Espanha. O consenso aconteceu pela primeira vez na história do prêmio.

Na entrega da distinção, foi lançado o livro “Marlos Nobre: El Sonido del Realismo Mágico”, de Tomás Marco, editado pela Fundação Autor de Madrid, 222 páginas.

Marlos Nobre de Almeida é pianista, maestro e compositor brasileiro, nasceu no Recife, em 18 de fevereiro de 1939. Foi o primeiro brasileiro a reger a Royal Phillarmonic de Londres, em 1990.

Entre outras orquestras conduziu a Orchesttre Philarmonique de l’ORTF, em Paris; a da Suisse Romande; a de Nice; a do Teatro Colon; a Sinfônica do México; a de La Habana, Cuba.

Ocupa, atualmente, a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música.

O Regente:

A Flauta Mágica (abertura), Mozart – Orquestra Sinfônica do Recife

Uma das maiores contribuições de Marlos à música brasileira são suas obras inspiradas, relidas ou recriadas, a partir do imenso universo da música popular brasileira, notadamente a nordestina e mais fortemente, a pernambucana.

O Frevo nº 2

Este Frevo nº 2 foi escrito em homenagem aos 80 anos do escritor Ariano Suassuna, grande amigo de Marlos Nobre. Este vídeo registra a 1ª Audição Mundial desta 1ª versão da obra pelo compositor ao piano no Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco, X Festival Internacional de Musica VIRTUOSI, Dezembro 2007. Ariano estava na plateia.

O catálogo completo de Marlos Nobre alcança, no presente, um total de 246 obras, todas editadas por sua própria editora, a Marlos Nobre Edition.

Ocupou a direção musical da Rédio MEC (1971) e do Instituto Nacional de Música da Funarte (1976).

Aqui o caboclinho, em sua erudição:

Caboclinhos Opus 43/1 – Nº 1 do IVº Ciclo Nordestino para piano, Opus 43 em cinco partes: Caboclinhos, Cantilena, Maracatu, Ponteado e Frevo. – Pianista: Victor Asunción- no Santa Isabel – Recife, PE.

Entre 1985 e 1987 esteve na presidência do Conselho Internacional de Música da UNESCO, em Paris Depois, passou a dirigir a Fundação Cultural de Brasília, em 1988. Dirigiu a Fundação Cultural do Distrito Federal entre 1986 e 1990.

Marlos Nobre recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Foi condecorado com a Medalha do Mérito Cultural de Pernambuco e a de Oficial da Ordre des Arts e des Lettres da França.

Semana que vem, tem mais…

1 agosto 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


LEVINO FERREIRA, UM DOS PRIMEIROS MESTRES

Levino Ferreira, um dos fundadores do frevo

Embora seja um dos fundadores do frevo, Levino Ferreira escreveu sua grande obra: “A Dança do Cavalo Marinho”, por volta de 1940, feita especialmente para a Orquestra Sinfônica do Recife. A obra tornou Levino famoso no mundo inteiro.

Considerada música erudita, de tema do folclore pernambucano, foi apresentada pela Grande Orquestra da P.R.A.- 8, dirigida por Felipe Caparrós, pela BBC de Londres e pela Orchestre Symphonique International, em Paris, 1958, sob a regência do maestro Mário Câncio.

A Dança do Cavalo Marinho, de Levino Ferreira, Orquestra Jovem da Universidade Federal da Paraíba, regência de Guedes Peixoto

O Maestro Levino nasceu no dia 2 de dezembro de 1890 (morreu em janeiro de 1970, no Recife), numa modesta casa da antiga rua da Lama, na cidade de Bom Jardim – terra dos Pau d’arcos, berço natal de grandes musicistas – em Pernambuco.

Aos oito anos de idade, Levino Ferreira da Silva começou a apresentar-se na banda do maestro Tadeu, tocando trompa. Mais tarde aprendeu a executar outros instrumentos de sopro e todos os instrumentos da banda, passando a substituir automaticamente qualquer componente que faltasse aos ensaios ou apresentações.

Em 1910, com 20 anos de idade e já reconhecido como exímio instrumentista, transferiu-se para a cidade de Queimados, atualmente Orobó, em Pernambuco, para assumir o cargo de mestre da banda da cidade. Atuou ainda na mesma década, como mestre da banda ‘Vinte e Dois de Setembro’, recebendo em decorrência disso diversos convites para organizar e dirigir bandas no interior de Pernambuco.

Nesse período começou a compor músicas para o carnaval, embora não apresentasse ainda as influências do frevo. Em 1919, fez sua primeira viagem a Recife. Durante toda a década de 1920 e até meados da década seguinte, apresentou-se em festas e dirigindo bandas, como a de Limoeiro. Já no começo da década de 1930, suas composições começaram a se tornar conhecidas em Recife, uma vez que eram editadas pela ‘Casa de Música Azevedo Júnior’.

Em 1935, aos 45 anos, a convite do maestro Zumba, mudou-se para Recife. No mesmo ano, teve seu frevo “Satanás na onda” escolhido como vencedor do Concurso de Frevos do Recife, sendo, em seguida, gravado pela Orquestra Odeon. Seus frevos passaram a ser cantados por quase todos os blocos e clubes carnavalescos da capital. Passou a ser conhecido como ‘Maestro Vivo’.

Em 1937, teve sua composição “Diabinho de saia” gravada para o carnaval pela Orquestra Diabos do Céu. Trabalhou em diversas rádios recifenses, fazendo parte da Orquestra da Rádio Clube de Pernambuco e da Orquestra Sinfônica do Recife. Integrou ainda o conjunto Ladário Teixeira, do maestro Felinho, como saxofonista e trompetista. Foi escolhido pelos fundadores do Centro da Música Carnavalesca de Pernambuco como patrono do Museu do Frevo que recebeu o seu nome. Em 2007, “Mexe com tudo” foi incluída no DVD “Passo de anjo ao Vivo”, gravado pela mesma orquestra, no Canecão (RJ).

Em janeiro de 2008, teve dois de seus frevos relançados pela ‘Spok Frevo Orquestra’, no CD “Passo de anjo ao vivo”, gravado ao vivo no Teatro Santa Isabel, na cidade de Recife: “Último dia”, que contou com a participação especial de Armandinho Baiano, e “Lágrima de folião”, que teve a participação de Léo Gandelman.

“Mexe com Tudo”, – Orquestra Spok em Montreux

Viveu e morreu pobre, deixando como única e inalienável riqueza toda sua obra composta de Valsas, Frevos, Maracatus, peças folclóricas e religiosas, que, para desgosto de todos, não conhecemos a sua totalidade.

Capa de disco de Levino

Concluo com relato de nosso companheiro fubânico Leonardo Dantas Silva.:

Último Dia, com maestro Duda

“Numa manhã de verão, levado por João Santiago, eu conheci o Mestre Vivo. Morara no Cordeiro e me pareceu uma figura simples, conversando com um tom de ironia em suas observações.

Era um tipo mulato baixo, mais para gordo, tinha a camisa por fora das calças, trazia no rosto as marcas da varíola e usava um chapéu de massa, mesmo dentro de casa, complementando assim o tipo comum do nosso homem da Zona da Mata.

Estava diante do Rei do Frevo! O lendário Mestre Vivo!

Ninguém foi maior do que Levino Ferreira da Silva, no gênero frevo de rua. Nisso, concordam outros nomes de nossa música, como Capiba, Luiz Bandeira, José Menezes, Edson Rodrigues, Mário Mateus, Mario Guedes Peixoto, Ademir Araújo, Duda e uma infinidade de outros monstros sagrados de nosso frevo instrumental.

Mestre Vivo – Levino Ferreira passa a ser conhecido pelo apelido, que na versão do próprio maestro surgiu assim: ‘Era mestre da banda de música de Limoeiro, quando sofreu um ataque de catalepsia. Tomado por morto, com respiração imperceptível, seu corpo foi colocado num ataúde, ao mesmo tempo em que a comoção tomava conta da cidade e das redondezas.

Tarde da noite, quando familiares e amigos pranteavam seu desparecimento, eis que o morto voltou a si e, sentando-se no caixão exclamou: – Minha gente querem me enterrar vivo!. Ao susto do início, seguiu-se a alegria, o velório transformou-se em Carnaval e um apelido marcou o episódio: ‘Mestre Vivo’”.

Semana que vem, tem mais.

Fontes: O Nordeste; Overmundo (Abílio Neto); Dicionário Ricardo Cravo Albin; Wikipedia.

25 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


RILDO HORA, MESTRE DA GAITA, COMPOSITOR, PRODUTOR

Rildo Hora, mestre da gaita ou do realejo, como dizemos no Recife

A gaita de boca (realejo) – não confundir com a gaita gaúcha – talvez tenha recebido mais atenção desde que Bob Dylan recebeu, ano passado, o Prêmio Nobel de Literatura. Afinal, o poeta americano, tocador de violão, auxiliado por uma gaita afixada acima do instrumento de cordas, fez a pequena harmônica tornar-se conhecida em todo o mundo, via country.

Rildo Hora é um dos maiores talentos brasileiros no instrumento. É apontado pelos colegas gaitistas (inclusive Toots Thielemans) como um dos principais instrumentistas em atividade.

Possui CDs lançados no Brasil e nos EUA. No show “Espraiado”, Rildo apresenta clássicos da MPB com arranjos que transitam entre o erudito e o popular. No repertório, canções próprias e de compositores como Milton Nascimento, Tom Jobim, Edu Lobo e Toots Thielemans.

“O Ovo” (Hermeto Pascoal), com Rildo Hora, gravado em 1987

Rildo Alexandre Barreto da Hora nasceu em Caruaru-PE, em 20 de abril de 1939 (78 anos). É gaitista, violonista, cantor, compositor, arranjador, maestro e produtor musical.

Seu pai, Misael Sérgio Pereira da Hora, alagoano, foi dentista, e a mãe, Cenira Barreto Hora, pernambucana, foi sua primeira professora de teoria musical e piano.

Em 1945, mudou-se com a família para a cidade do Rio de Janeiro, indo morar no subúrbio carioca de Madureira.

Aos seis anos de idade, interessou-se por harmônica de boca. Autodidata, passou a estudar o instrumento, mesmo sem mestre. Desenvolveu a sua técnica tocando frevos e choros que ouvia no rádio.

Estudou harmonia, contraponto e composição na Escola de Música Pró-Arte com o maestro Guerra Peixe, que escreveu especialmente para ele “Suite quatro coisas”. Teve aulas de violão com Meira e com Oswaldo Soares e freqüentou outros cursos no Centro de Estudos Musicais.

Ainda criança, frequentava o botequim do seu João Valentim e o bar do Nozinho, próximos à sua casa, em Madureira, apreciando o samba dos mestres Candeia, Waldir 59, Chico Santana, Alvaiade e Manacéa, entre outros da Portela.

Aos 11 anos, tocava em festas populares pelos subúrbios do Rio de Janeiro. Apresentou-se na Rádio Mayrink Veiga, no Programa Trem da Alegria, comandado pelo “Trio de Osso” (Lamartine Babo, Heber de Boscoli e Iara Sales). Nesta época, conheceu o violonista Mão de Vaca (Manoel da Conceição) e apresentou-se no programa “A Hora do Pato”, na Rádio Nacional, passando a frequentar a emissora.

Adulto, em 1961, quando trabalhava na Boate Carioca ‘Cangaceiro’, compôs com Clóvis Melo “Canção que nasceu do amor”, lançada por Cauby Peixoto e regravada mais tarde por Elizete Cardoso.

No ano seguinte Alaide Costa gravou, dele e Gracindo Junior, “Como eu gosto de você”, com arranjo de César Camargo Mariano. Acompanhou Elizete Cardoso, como violonista, em shows por todo o Brasil de 1965 a 1967.

A partir do ano de 1968 passou a trabalhar como produtor musical, a convite de Geraldo Santos, na gravadora RCA. Sua primeira produção foi o LP ‘Música Nossa’, seguida dos discos de Antonio Carlos e Jocafi, João Bosco, Martinho da Vila e Maria Creuza. A partir daí foi estudar harmonia, contra ponto e composição com o maestro Guerra Peixe.

“Visco de Jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral), com Céu

Em 1973, participou como gaitista, da gravação do LP “Pérola Negra”, de Luiz Melodia, na música “Estácio Holly Estácio”. No mesmo ano, foi produtor do LP “João Bosco”, disco de estreia do cantor e compositor mineiro.

Produziu em 1978 o disco “Tendinha” de Martinho da Vila, no qual se destacou o sucesso “Amor não é brinquedo” (Martinho da Vila e Candeia). Depois, fez Ataulfo Alves Júnior, “Velha-Guarda da Portela” e “Os Meninos da Mangueira”, estas últimas compostas com Sérgio Cabral (pai).

Último Desejo, de Noel Rosa – Maysa e Rildo Hora

Em 1987, executou na Sala Cecília Meireles, no Rio, o “Concerto para Harmônica e Orquestra”, de Villa-Lobos, sob a regência do maestro Davi Machado. Em 1988, interpretou a “Suíte quatro coisas” de Guerra Peixe, escrita e orquestrada especialmente para ele. Desde então, trabalhou com vários artistas brasileiros tais como: Martinho da Vila, Mariza Rossi, Luiz Gonzaga, Jair Rodrigues, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Clara Nunes, Maria Creuza, Chiquinho do Acordeom, entre outros.

Em 1992, lançou o CD “Espraiado”, pela gravadora “Caju Music”, no qual interpretou “Cabriola”, “Pipoca no fogo”, “Chorinho nervoso pro Hermeto Pascoal”, “Cóe, cóe”, todas de sua autoria, e ainda “A implosão da mentira ou o episódio do Riocentro”, “Canção que nasceu do amor”, além da faixa-título, “Espraiado”. O disco contou ainda com uma composição de seu filho Misael, “Baião de flor”.

Distribuído nos Estados Unidos pela etiqueta Milestone, foi incluído pela crítica americana entre os 10 melhores discos de jazz latino.

Em 1998, a gravadora “Visom” compilou dois CDs de sua autoria, pela série “Virtuoso”, a saber: “Rildo Hora e Cia. de Cordas” e “Rildo Hora e Romero Lubambo”. Fez a produção do primeiro disco solo de Walter Alfaiate, pela gravadora Alma.

Lançou no ano de 2000 o “Casa de samba volume 4”, com a Velha Guarda da Portela e Alcione, Dudu Nobre e João Bosco, Noite Ilustrada e Cássia Eller, entre outras duplas inusitadas.

Em 2001, fez a produção do disco “Chorinho” para a gravadora alemã Teldec. Deste disco participaram Altamiro Carrilho, Carlos Malta, Sivuca, Henrique Cazes, “Época de Ouro”, Pedro Amorim, Joel Nascimento, Maria Teresa Madeira e Ademilde Fonseca.

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18 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SEVERINO ARAÚJO – ORQUESTRA TABAJARA

Maestro Severino Araújo

A rigor, em país que guarda sua memória e zela por seus grandes valores, essa introdução seria desnecessária.

Por mim, reproduziria duas ou três grandes execuções da orquestra, regida por Severino Araújo, quem sabe lembrando “Espinha de Bacalhau”, “Nivaldo no Choro” e outros.

Desconfiando que muita gente desconheça sobre o que falo, vou descrever alguns dados para situar nossos leitores.

A Big Band (americana) ou Orquestra (Brasil) pode ser dividida em antes e depois de Severino Araújo e a Orquestra Tabajara.

Espinha de Bacalhau (Severino Araújo), com Orquestra Tabajara

Nascido em Limoeiro-PE, em 1917, morreu no Rio de Janeiro, em agosto de 2012 (95 anos). Foi músico, compositor, maestro e clarinetista.

Foi regente por cerca de 70 anos da Orquestra Tabajara, que assumiu aos 21 anos de idade. Eu disse 70 anos à frente da banda.

Um dos pioneiros na fusão de elementos do jazz e do choro na música brasileira, além de ter criado arranjos para Big Band de músicas dos mais variados ritmos, Severino começou a estudar com o pai, José Severino, conhecido como mestre “Cazuzinha”, que era mestre de banda militar e também dava aulas de música.

Em 1936, Severino Araújo foi para a Banda da Polícia Militar da Paraíba como primeiro clarinetista e a partir daí começou sua vida profissional. Um ano depois, compôs seu mais famoso choro: “Espinha de Bacalhau”, um dos mais executados no Brasil e no exterior e considerado peça de primeira linha. Agora, com o “Sujeito a Guincho”:

Substituiu o maestro Olegário de Luna Freire, com a morte deste, em 1938. Em agosto de 1944, foi para o Rio de Janeiro, a convite de Assis Chateaubriand.

Entre as suas mais de 50 composições, as mais conhecidas são: Espinha de Bacalhau, 1937; Gafanhoto Manco, 1937; Um Chorinho Modulante, 1937; Mumbaba, 1943; Um Chorinho Delicioso, 1947; Um Chorinho pra Você, 1947; Simplesmente, 1948; Mirando-te, 1950; Além do Horizonte, 1952; Pensando em Você, 1953; Um Chorinho em Montevidéu, 1955; Nivaldo no Choro, 1956.

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11 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


DUPLAS SERTANEJAS D’ANTANHO

Fábrica de músicas duvidosas

A coisa esquentou mesmo foi esse ano. A rinha vinha fervendo de outros são joões, mas em 2017 a pirotecnia foi maior.

A questão é muito mais antiga e profunda do que se apresenta hoje. Qualquer música regional pode e tem o direito de ser assimilada por outros rincões.

Os dois processos mais conhecidos são: o natural reconhecimento popular e a demanda espontânea por artistas que estão bombando; e a famosa máquina de criar duplas, ídolos, mitos, por meio do velho jabá e dos atuais centros de fabricação de sertanejos, que entram numa linha de montagem – geralmente no Centro-Oeste, Paraná e Interior de São Paulo – destinada a transformar porcaria em algo palatável.

O raciocínio vale para o sabão em pó, Bombril e a música romântica universitária sertaneja – ou como queiram rotulá-la. Por qualquer três ou quatro milhões (cash), dois irmãos bonitinhos, dupla com, no máximo uma voz afinada, o molde, o modelo, o empresariadismo, os acordos comerciais de presença em tudo que é canto ao mesmo tempo e a badalação. Nós, pobres cristãos, de tanto ouvir onipresentemente esses mantras nos flagramos a cantar “Fio de Cabelo” e até “É o amor”, exceções num cancioneiro insosso e padrão.

Neste último São João, a discussão voltou, de novo, à baila e Caruaru-PE e Campina Grande-PB, mecas das festas juninas do Nordeste, disputaram à ponta de faca quem traria mais atrações como “Mariulza e Marielza”, Marília Mendonça – nova musa – e os tradicionais e indigestos, que me permito aqui omitir.

Concorrência desleal, como sentar em cima do disco do outro para quebrar (como me ensinou o amigo Pelão), comprar o espaço do sucesso na mídia e implantar um chip de lavagem cerebral nos desatentos, já é prática de muito tempo. No fundo, a estrutura mental é a mesma: destruir a cultura alheia e assentar em cima os seus fakes, para angariar dividendos.

Esse assunto me dá náuseas, como diria o procurador. Apenas para não deixar batido, mostro aqui dois momentos mais originais e mais antigos desse gênero que até gostava de ouvir. Tire-se desse libelo, por favor, a linhagem representada por Inezita e tantos outros craques.

Venâncio e Corumba – “Chuleado da Vovó” – Bem Brasil – 1982

Venâncio e Corumba nasceram no Recife, em Pernambuco, sendo autores também, de, entre outros sucessos de “Último Pau de Arara”.

Milionário e Zé Rico

A Estrada da Vida – Milionário e Zé Rico

O mineiro Milionário e o pernambucano Zé Rico (já falecido) foram motivo de dois filmes, um dos quais “A Estrada da Vida”, de Nelson Pereira dos Santos.

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4 julho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


CAPIBA, PARA ALÉM DOS GRANDES FREVOS

Quem ler, de relance o nome de Capiba aí em cima no título, poderá dizer: “ah, esse eu já conheço, eu quero é novidade”…

Em primeiro lugar, não há dúvida que o maior compositor pernambucano é eterno e, portanto, será sempre uma novidade, com fundadas tradições.

O disco que Raphael Rabelo produziu e executou pouco tempo antes de morrer tão precocemente, é prova nacional do interesse pelo nome e pelo legado musical.

Aqui, entre nós, fubânicos, é bem possível, que essa frase soe repetitiva, porém muito além dos grandiosos frevos “Ó Bela”, “De Chapéu de Sol Aberto” ou “Madeira de Lei que Cupim não Rói”, mas entre os não tão fubânicos assim talvez poucos conheçam as belíssimas valsas, sambas-canção e boleros que ele fez.

Como aqui assumo a condição de também registrar os dados básicos de todos os homenageados, lá vai: Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) nasceu em Surubim, em 28 de outubro de 1904, encantando-se em 31 de dezembro de 1997, no Recife, aos 93 anos.

Maria Bethânia – Com Nelson Gonçalves e Caetano Veloso

“Cais do Porto”, com maestro Guerra Peixe e Orquestra e “Titulares do Ritmo”, nos vocais

Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba), 1904-1997

Capiba era aquele cara que, quando numa roda de bar, surgia o ranking dos maiores compositores do Brasil, sacava-se do Sul, Lupicínio Rodrigues, da Bahia, Dorival, do Rio, Noel ou Tom, de São Paulo, Adoniran e Geraldo Filme, entre os capixabas, Roberto Carlos, do Maranhão, Catulo da Paixão Cearense, do Piauí, Torquato Neto, do Ceará, o Pessoal, incluindo Belchior e assim por diante.

Capiba é patrimônio musical pernambucano e nacional, título outorgado por aquelas que apreciam a boa melodia, músicos, estudiosos e historiadores.

Apesar de seu ecletismo, ficou conhecido mesmo como o maior compositor de frevos do Brasil.

A Mesma Rosa Amarela (Capiba/Carlos Pena Filho), com Maysa

Capiba nasceu em uma família de músicos – seu pai, Severino Atanásio foi maestro da Banda Municipal de Surubim e, aos oito anos já tocava trompa. Ainda pequeno, mudou-se com a família para a Paraíba. Lá, ainda criança trabalhava como pianista em cinemas.

Chegou a jogar como zagueiro no Campinense, time de Campina Grande-PB, porém abandonou os gramados e aos 20 anos gravou seu primeiro disco, com a valsa “Meu Destino”. Era torcedor declarado do Santa Cruz, do Recife.

Com 26 anos, mudou-se para o Recife. Aprovado em concurso, tornou-se funcionário do Banco do Brasil, o que lhe rendeu sustento financeiro e permitiu tempo para aprimorar-se como músico.

Em 1938, concluiu o curso da Faculdade de Direito do Recife, mas nunca apanharia o diploma e nunca seguiu carreira.

Em 1950, funda a Jazz Band Acadêmica e, com Hermeto Pascoal e Sivuca e cria o trio “O Mundo Pegando Fogo”.

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27 junho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MOACIR SANTOS III

O maestro e sua big-band americana, Moacir Santos Band, na Califórnia, em 1970

Neste terceiro e último artigo sobre Moacir Santos, tomei a liberdade de reproduzir excelente material da Enciclopédia Itaú Cultural sobre o assunto. Diz o texto:

Assim como outros maestros do rádio, entre os quais Radamés Gnattali e Lyrio Panicalli, Moacir Santos produz uma obra na fronteira entre a música popular e a erudita. Obrigado a dominar os diferentes estilos orquestrais em voga nos anos 1940 e 1950, do jazz ao folclorismo sinfônico, passando por ritmos latinos como a rumba e o merengue e por gêneros brasileiros, como o samba, a marcha e o choro, ele desenvolve um estilo eclético.

Tamanha versatilidade transparece tanto em seus arranjos como em suas composições, áreas que se confundem em sua obra.

Após duas décadas de profícua atuação como orquestrador e maestro, Santos vê seu campo de trabalho diminuir sensivelmente na segunda metade dos anos 1960, quando o desaparecimento das orquestras de rádio e TV, somado à valorização da canção com letras de cunho político na cena musical brasileira pós-1964, reduz o espaço para a música instrumental no país.

Nesse contexto, ele integra o grupo de músicos que, ligados à Bossa Nova ou ao samba-jazz (gêneros considerados “alienantes” num meio musical fortemente politizado), seguem carreira na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, como Naná Vasconcelos, Baden Powell, Sérgio Mendes, João Donato, Airto Moreira e a cantora Flora Purim.

Gravado num momento em que o compositor já atingira a maturidade, o álbum Coisas (1965), considerado um marco na música instrumental brasileira, sintetiza as principais características da obra de Moacir Santos. A começar pela valorização da cultura negra, perceptível tanto na atenção dispensada pelo compositor à percussão, com a incorporação de instrumentos pouco usuais (como berimbau, kalimba, atabaque, agogô e afoxé), como na invenção de uma base rítmica original, ligada a matrizes africanas.

Sou Eu (Moacir Santos/Nei Lopes) cantaVirginia Rodrigues e Tiganá Santana

Nesse sentido, o uso de deslocamentos rítmicos e métricos, hemíolas e polirritmias constitui um gesto deliberado para que sua música “soe negra”, efeito igualmente obtido no plano melódico-harmônico por meio do emprego de escalas modais e da ambiguidade no uso das terças – ora maiores, ora menores.

Vale destacar que, ao “africanizar” a música brasileira, Santos age em sintonia com iniciativas semelhantes ocorridas na época: no mesmo ano do lançamento de Coisas, Elizeth Cardoso grava um disco só com sambas de morro (Elizeth sobe o morro), pondo em evidência a negritude da música brasileira; no ano anterior, são lançados Samba Esquema Novo, de Jorge Ben, e Tem “Algo Mais”, de Wilson Simonal, e Hermínio Bello de Carvalho revela Clementina de Jesus, com seu repertório repleto de cantos de escravos e pontos de macumba; no ano seguinte, Baden Powell e Vinícius de Moraes gravam seus Afro-sambas, inspirados no candomblé e na capoeira. Vinícius de Moraes, aliás, é um dos precursores da valorização musical da cultura afro-brasileira, ao conceber, em 1956, a “tragédia negra carioca” Orfeu da Conceição.

Além da valorização da cultura afro-brasileira, a obra de Moacir Santos se caracteriza ainda por certo hibridismo, em que ritmos regionais cariocas ou nordestinos (como o samba, o xaxado, o coco, o baião e o maracatu) são reelaborados de maneira singular, por meio de levadas oriundas do jazz, dos gêneros latino-americanos e da música de concerto brasileira ou internacional.

Embora “Coisas” seja comumente classificado como um álbum de samba-jazz, suas músicas dificilmente se enquadram nesse gênero, pois não seguem sua estrutura padrão, nem se atêm a seus cânones rítmicos (também chamados de “levadas”). Segundo Zuza Homem de Mello, o disco “não se encaixa em nenhum estilo da música popular brasileira de sua época”, dialogando com diferentes tradições.

Foi com este trecho da Enciclopédia Itaú que resolvemos encerrar nossa série-homenagem a Moacir Santos.

Ah, um bônus, coisa linda:

Aproveitem. Até a semana que vem.

20 junho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MOACIR SANTOS II – NOSSO GENIAL MAESTRO

Busto do compositor Moacir Santos, inaugurado em março de 2011, erguido em praça à margem do Rio Pajeú, em Flores, sertão de Pernambuco. A obra apresenta falta de manutenção, e vem se deteriorando.

Nascido em 26 de julho de 1926, em Flores, cidade lindeira ao rio Pajeú, em Pernambuco, Moacir José dos Santos ficou órfão de mãe, Julita, aos 3 anos. Morreu em 2006, aos 80 anos, na Califórnia.

Perder a mãe, ainda tão cedo, só agravou a sobrevivência dos quatro irmãos – três meninas e um menino. O pai de Moacir, José, abandonou o seio familiar para aderir a uma Força Volante que empreendia caçada ostensiva a Lampião.

Entregues à própria sorte, os irmãos foram adotados por famílias de Flores. A guarda de Moacir ficou sob a responsabilidade de sua madrinha Corina. Depois, foi tutelado pelas famílias Lúcio, aos cuidados da filha Ana, moça solteira que o colocou na escola e permitiu sua proximidade com a banda musical da cidade.

Autodidata, nos intervalos dos ensaios, Moacir aprendeu a tocar vários dos instrumentos usados pelos músicos. Aos 10 anos já lidava com trompa, saxofone, percussão, clarineta, violão, banjo e bandolim.

Aos 14 anos, sentindo-se uma espécie de escravo da família Lúcio, embora Ana Lúcio tenha lhe assegurado boa formação, Moacir já gozando de prestígio local em apresentações musicais como “Neguinho de Flores”, tomou a decisão de fugir de casa e peregrinar pelo sertão nordestino, em mais de uma dezena de cidades.

Coisa nº 5 – (Nanã), Moacir Santos e Mario Telles, canta Céu, 2007

Depois de um roteiro de incertezas e privações – ele chegou a passar fome e dormir na rua – resolveu ir para o Rio de Janeiro, no início de 1948, com a mulher Cleonice. Ali cessaram suas piores privações.

Este artigo conta com a imprescindível boa parte dos dados da biografia “Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro” (editora Folha Seca), da flautista e pesquisadora Andrea Ernest Dias.

O trabalho em que apoio esta coluna persegue a trajetória internacional de Moacir, mas também retrocede às suas décadas de formação, entre os anos 1930 e 1940. Mostra uma história de altivez e superação que beira o inverossímil, tamanhas as agruras enfrentadas pelo adolescente Moacir, dos 14 aos 18 anos.

Seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em 1992, ajudou bastante a refazer sua caminhada.

Sou Eu (Luanne), de Moacir Santos/Nei Lopes, canta Moacir Santos.
No
 trombone Frank Rosolino

Moacir consagrou-se como um dos maiores compositores e arranjadores populares da música instrumental mundial. Seus quatro álbuns americanos – três pela Blue Note (The Maestro, de 1972; Saudade, de 1974 e Carnival of Spirits, de 1976) e um pela Discovery Records (Opus 3, nº 1, de 1979), não deixam dúvidas do do legado grandiloquente deixado pelo maestro nascido em berço humilde em pequena cidade do interior de Pernambuco.

Semana que vem mais coisas para nós…

13 junho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MOACIR SANTO I – DO PAJEÚ PARA MÚSICA MUNDIAL

Moacir Santos: genial artista pernambucano, quase um desconhecido, ante a obra e talento monumentais

Quando João Bosco apresentou para amigos músicos, ali pela metade dos anos 1960, alguns trabalhos do maestro Moacir Santos, a reação foi uma só: “não nos perdoamos por não tê-lo conhecido antes”.

No meu caso pessoal, tive a mesma reação ao conhecê-lo somente há 15 anos. Se fosse mais atento não teria deixado passar a quase sutil citação de Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powel, no “Samba da Bênção”, de 1965. Ali, um verso já bradava alto e bom som: ”A bênção, maestro Moacir Santos, que não és um só, és tantos, tantos como meu Brasil de todos os santos”.

Embora já contasse com admiradores tão ilustres e um primeiro álbum arrebatador – “Coisas” – também lançado em 1965, Moacir Santos – pernambucano da região do Pajeú – não viu grandes perspectivas de trabalho em seu próprio país e migrou para os EUA, em 1967.

“Coisa nº 1”, do Álbum “Coisas”, Moacir Santos/Clovis Mello, lançado em 1965, pelo selo Forma e produzido por Roberto Quartin

As peças “Coisas” vão de 1 a 10, mas são dispostas em seu disco original fora de ordem. O LP foi eleito em uma lista da versão brasileira da revista Rolling Stones como o 23º melhor disco brasileiro de todos os tempos.

Nas três décadas seguintes, o maestro seguiu praticamente anônimo para a maioria dos brasileiros. Felizmente, desde a redescoberta de “Coisas”, em 2001, por meio do projeto “Ouro Negro”, Moacir tem sido cada vez mais absorvido pelos artistas jovens.

Idealizado pelo maestro Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira, o projeto resultou num CD Duplo, em 2001, e um DVD, de 2005, de que falei acima.

Tanto um como outro tiveram participação de amigos e admiradores, como João Bosco, Djavan e Ed Motta. Somem-se a eles, outras iniciativas como lançamento de uma biografia e de outro álbum em homenagem ao maestro.

Sem falar na valorização de seu repertório por iniciativa de jovens músicos. Vamos ouvir, então, já do álbum novo “Ouro Preto”, a canção Oduduá, em parceria com Ney Lopes, com João Bosco:

Para alguns historiadores, como Zuza Homem de Mello, o longo hiato de invisibilidade talvez de justifique pelo vanguardismo de Moacir do que por sua partida para os EUA. Em 2005, no artigo “Coisas Afro-Brasileiras”, Zuza defendeu a tese: “Coisas é o mais desconcertante disco instrumental dos anos 1960. É natural que suas consequências ficassem para muito depois. Na obra do maestro, o primitivo encontra o futuro. O ontem o amanhã”.

Aqui, faço um registro para aplacar a curiosidade de tantos, que quanto eu, se perguntaram por que a maioria de suas músicas era tituladas como “Coisa nº 1”, “Coisa nº 2”, “Coisa nº-8”, etc.

A terminologia “coisa”, para 10 de suas principais peças, nada mais era do que a substituição de opus, que significa número. O próprio Moacir Santos explica no “DVD Ouro Negro”, de 2005, que, até pensou em opus, mas sua modéstia o levou a não se apropriar de termo tão ligado ao erudito, embora não negasse seu desejo de chegar a este patamar.

PS: Nei Lopes

Nascido no Rio de Janeiro, em maio de 1942, Nei Braz Lopes é compositor, cantor, escritor e estudioso das culturas africanas no continente de origem e na diáspora africana.

Notabilizou-se como sambista, principalmente em parceria com Wilson Moreira. Ligado ao Salgueiro e à Vila Isabel, é compositor desde 1972. Vem, desde os anos 90, esforçando-se para romper a barreira que separa o samba da chamada MPB, em parcerias com Guinga, Zé Renato e Fátima Guedes.

Participou do projeto musical “Ouro Negro”, em homenagem ao ilustre maestro Moacir Santos, escrevendo letras para cinco temas do homenageado, em canções como “Nação do Amor”, “Navegação”, “Sou Eu”, “Oduduá” e “Orfeu”.

Semana que vem mais coisas de Moacir….

6 junho 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


BEZERRA DA SILVA – DOSE DUPLA

Bezerra da Silva: sambista, malandro, carioca típico, nascido no Recife-PE

Alguns dos maiores ícones artísticos, políticos, intelectuais e avulsos de vários países e regiões não são naturais do país ou local em que são ídolos.

O caso mais clássico que me vem à mente é de Carlos Gardel, o maior representante do tango e certamente o maior ícone da cultura popular argentina. Presume-se que nasceu em Paris; há quem garanta que é uruguaio de nascença, mas poucos se atrevem a negar-lhe a identidade nacional argentina.

Prefira-se, então, para evitar confusões, a formulação que ele mesmo fez para afastar-se dessa incômoda questão: “senhor Gardel, afinal, onde de fato o senhor nasceu”, perguntou o entrevistador. Rápido, como as nuances de um tango, disse “sou nascido na Argentina desde os 4 anos”.

Há o caso conhecido de Milton Nascimento, o mais mineiro das Alterosas. Nascido, porém no Rio de Janeiro.

Mas aquele que mais chamou a atenção foi Anthony Quinn, ator de mais de 150 filmes, entre os quais “As Sandálias do Pescador”, “Lawrence da Arábia” e “Zorba, o grego”, o belíssimo filme que colocou Quinn, ainda em 1964, no patamar dos grandes atores épicos.

À parte a ligação direta com o nome do filme, até bem pouco tempo tinha Quinn como grego mesmo, quem sabe, talvez, originário de algum dos países balcânicos, hoje Iugoslávia. Pois bem, Quinn é conterrâneo de Mario Moreno, o Cantinflas, portanto, um mexicano.

Mas essa coisa não chega a ser tão incomum assim, não. Quando quero zoar com os cariocas, afirmo que 3 (três) dos maiores sambistas do Rio são mineiros: Ataulfo Alves, João Bosco e Ary Barroso.

Nesta linha trago para a coluna de hoje um dos maiores e mais originais sambistas cariocas. Da linhagem de Moreira da Silva e Dicró, Bezerra da Silva compôs um álbum parodiando os três tenores – Pavarotti, Carreras e Placido Domingo.

Ok, Bezerra da Silva é mesmo patrimônio do samba de partido alto, do fundo de quintal e do bom pagode do Rio de Janeiro.

Pois bem, José Bezerra da Silva é sim um carioca da gema, nascido no Recife em 23 de fevereiro de 1927, falecendo no Rio, em janeiro de 2005.

Foi cantor, compositor, violonista, percussionista, oficialmente intérprete dos gêneros coco e samba em especial partido alto.

No princípio, dedicava-se a gêneros nordestinos, principalmente o coco, até se transformar num dos principais expoentes do samba.

Por meio do samba, cantou os problemas sociais encontrados dentro das comunidades, apresentando-se no limite da marginalidade e da indústria musical.

Bezerra da Silva estudou violão clássico por 8 (oito) anos e passou outros 8 (oito) anos tocando na orquestra da TV Globo, sendo um dos poucos partideiros que lia partituras.

Gravou seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro disco em 1975. Lançou 28 álbuns em toda a carreira, que venderam mais de 3 (três) milhões de cópias. Ganhou 11 Discos de Ouro, 3 (três) de platina e um de platina duplo (?).

Apesar de ser um dos artistas mais populares do Brasil, foi praticamente ignorado pelo “mainstream”.

– Aos 15 de idade, depois de ser expulso da Marinha Mercante, Bezerra viajou ao Rio, com o objetivo de encontrar o pai (separado de sua mãe) e fugir da pobreza. Teria encontrado o pai, mais a relação não foi boa e acabou ficando sozinho.

Passou a trabalhar na construção civil, como pintor de paredes e tinha como endereço a obra na zona central do Rio. Pelos idos de 1949, foi morar com uma dona no Morro do Cantagalo, na Zona Sul.

Parece que Bezerra da Silva seria, hoje, muito atual

Juntamente com o trabalho de pintor, começou a desenvolver a verve musical, a partir do coco de Jackson do Pandeiro e logo ingressou na bateria do bloco carnavalesco “Unidos do Cantagalo”, tocando tamborim.

Boêmio e malandro foi detido dezenas de vezes pela polícia e acabou desempregado, em 1954. Durante muitos anos, viveu como morador de rua em Copacabana, quando chegou a tentar o suicídio.

Ligou-se a um terreiro de Umbanda e lá descobriu sua mediunidade. Sua mãe-de-santo teria lhe confirmado que seu destino era a música.

O sambista pernambucano foi tema do livro “Bezerra da Silva – Produto do Morro”, de Letícia Viana, lançado em 1998.

O cantor Marcelo D2 prestou-lhe uma homenagem, 2010, com o Álbum “Marcelo D2 canta Bezerra da Silva”.

Em 2012, foi lançado o documentário “Onde a Coruja Dorme”, de Marcia Deraik e Simplício Neto, que destaca os compositores de suas músicas, trabalhadores anônimos, que abordavam em suas letras temas da realidade brasileira como o malandro, o otário, o alcaguete, a maconha.

Foi casado com Regina de Oliveira, também sua empresária e até mesmo uma de sua compositoras, sob o pseudônimo de Regina do Bezerra. Antes de se fixar como grande nome do partido alto, Bezerra fez cocos como este:

Semana que vem, tem mais…..

30 maio 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


ANTÔNIO MARIA II – FREVOS CLÁSSICOS COM DOSE DUPLA

Antonio Maria: em uma de suas moradas

Além de cronista, jornalista, caricaturista e produtor de rádio e tv, Antônio Maria também fez belíssimos frevos. Aqui, vou chamá-los de frevos de autoexílio, por entender que tais sentimentos descritos nas letras destas músicas só podem ser vividos por quem deixou o Recife para trás.

Vamos caminhar com Maria em seus primeiros passos, os grandes sucessos internacionais, a fama, e, o que me interessa hoje – mostrar aos leitores desta coluna, três frevos maravilhosos de Maria. Eis logo o primeiro:

Frevo nº 1, Antonio Maria, 1951, com Coral Madeira de Lei e Naná Vasconcelos

O nosso personagem passou a infância entre o engenho do avô e o velho sobrado da cidade. Estudou piano e francês, No final da adolescência, já era amigo de vários compositores, a exemplo de Fernando Lobo, Arlindo Gouveia e Hugo “Peixa”. Enveredou pela boemia, passando a buscar os prazeres noturnos no “Cabaré Imperial” e num pequeno bar chamado Gambrínus.

Tornou-se locutor e apresentador de programas musicais na Rádio Clube de Pernambuco. Seu nome passou a se destacar ao lado de profissionais da época, como Nelson Ferreira, Helio Peixoto e Aloísio Pimentel.

Em 1940, foi trabalhar no Rio, como locutor esportivo na Rádio Ipanema. Em 1944, uma reviravolta, voltou para o Nordeste, casou-se com Mariinha Gonçalves Ferreira, e foi morar em Fortaleza, passando a trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Além de Fortaleza, trabalhou em rádio na Bahia.

Em 1948, retornaria ao Rio, como diretor de produção da Rádio. Depois, com o mesmo cargo na TV Tupi, em 1951.

Antônio Maria não tocava instrumento algum. Costumava cantarolar as músicas e fazer as letras na medida em que criava as melodias. O seu primeiro frevo – intitulado Frevo nº 1 do Recife (trabalho integrante de uma série de cinco). Depois fez o número 2 o 3. Não consegui levantar a série de cinco a que se refere sua discografia. Vamos, então, ouvir o nº2:

Frevo nº 2, Antonio Maria, com Coral Madeira de Lei

Compôs em parceria com dezenas de compositores, sendo chamado de “O Rei do Samba-Canção, entre as décadas de 1940 e 1950. Entre seus parceiros, estão Manezinho Araújo, Vinicius de Morais, Evaldo Gouveia, Moacir Silva, Paulo Soledade, Zé da Zilda, João Pernambuco, João Roberto Kelly e Luís Bonfá. Escreveu trilhas para “O Auto do Frade”, “Orfeu do Carnaval” e “Brasileiro: Profissão: Esperança”.

Capa de coleção da Abril com os maiores compositores da MPB

Além dos frevos que hoje estamos realçando, fez sucesso nacional e internacional com “Ninguém me Ama”, “Suas Mãos” e “Manhã de Carnaval”. Entre os maiores intérpretes Ângela Maria, Nora Ney, Aracy de Almeida, Emilinha Borba, Eliseth Cardoso, Jamelão. Agostinho dos Santos, Claudionor Germano e Luiz Bandeira. Frank Sinatra, Stan Getz e Nat King Cole também gravavam Maria. Vamos ao maravilhoso Frevo nº 3.

Frevo nº 3, de Antonio Maria, com Geraldo Maia

Amigos leitores, importante lembrar que estes três frevos são bastante conhecidos, cantados em várias versões e com diversos arranjos, ora puxando para o frevo de bloco, ora puxando para o frevo rasgado.

O número 1, por exemplo, tem uma belíssima versão, tocada originalmente no filme “Saravá”, de Pierre Baroucch, que apresenta Maria Betânia cantando o nº 1. Há porém, uma série de erros na letra, que na minha maneira de ver, não chegam a estragar a peça de Antônio Maria.

Preferi, no entanto, mostrar os frevos o mais fidedignamente, vez que eles já vêm metidos em outras confusões. Os frevos nº 1 (Ô,ô saudade, saudade tão grande etc) é costumeiramente confundido com o de nº 2 de Antônio Maria, que diz (“Ai que saudades tenho do meu Recife, da minha gente que ficou por lá”).

Para fechar o assunto, o nº 3, talvez o mais lírico é que introduz com (“sou do Recife com orgulho e com saudade, sou do Recife com vontade de voltar”). Vejo até mesmo cantores profissionais da noite do Recife trocarem os nomes. Por favor, gente….

Até semana que vem…..

23 maio 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


ANTÔNIO MARIA – COM DOSE DUPLA

Antonio Maria: radialista, cronista, compositor

Confesso que Antônio Maria esteve mais presente na minha vida depois que me mudei para São Paulo.

As canções de autoexílio, representadas pelos frevos nº 1, 2 e 3 não me saíam da cabeça quando encarava os primeiros momentos – desafios – da grande metrópole paulistana.

No silêncio de casa, na solidão em multidões, embaixo do chuveiro ou fazendo trilha musical de instantes de alegria infinda ou, mais presentes, de saudades frequentes, o remédio eram os frevos de Maria. Quem de Pernambuco, estando fora, não cantou: “Sou do Recife, com orgulho e com saudades, sou do Recife com vontade de voltar”; ou “Ô, saudade, saudade tão grande, saudade que eu sinto do Clube das Pás, Vassouras, passistas traçando tesouras, nas ruas repletas de lá”.

Mas, Antônio Maria, que viveu apenas 43 anos (nascido em 1921, no Recife, e morto em 1964, no Rio), além dos belos frevos que deixou, foi considerado o “rei do Samba-Canção”, nas décadas de 1940 e 1950; era um boêmio inveterado; foi produtor, radialista, poeta, cronista, compositor e produtor e apresentador de TV.

Muito alto, grande, com alma de criança, Antônio Maria, era conhecido como “Menino Grande”. Embora não fosse um galã, era um grande conquistador. Tirou de Samuel Wainer a bela e inteligente Danuza Leão, que voltou para os braços do jornalista, responsável pelo Última Hora, algum tempo depois.

Antônio Maria compôs diversos sucessos populares, em parceira com vários amigos. Na sequencia, seu maior clássico, em parceria com Luiz Bonfá, “Manhã de Carnaval”, na voz de Nara Leão.

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás
Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Com Nora Ney, Antônio Maria tomou conta das paradas das rádios brasileiras que tocaram “Menino Grande” e “Ninguém me Ama”.

São também de Maria “Valsa da Cidade” e “Canção da Volta”. Fez parceria magistral com Luiz Bonfá que criaram os clássicos Manhã de Carnaval e Samba do Orfeu, para o filme “Orfeu do Carnaval”, de Marcel Camus, baseado na peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes.

Em seu vasto repertório, destacam-se ainda “As suas Mãos”, “O Amor e a Rosa” e “Se eu Morresse Amanhã”. Suas canções foram gravadas por Nat King Cole, Frank Sinatra e Stan Getz.

Entre seus outros parceiros – cerca de 60 músicas – estão Fernando Lobo, Moacir Silva, Vinícius de Moraes, Zé da Zilda.

Muitos gravaram suas músicas, além de Nora Ney, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Lucio Alves, Agostinho dos Santos, Jamelão, Ângela Maria, Luiz Bandeira e Claudionor Germano.

Ouça agora “Manhã de Carnaval” com Frank Sinatra:

Antônio Maria já era apresentador de programas musicais na Rádio Clube de Pernambuco. Em 1940, muda-se para o Rio de Janeiro no Ita “Almirante Jaceguai”. No Rio, tornou-se locutor esportivo da Rádio Ipanema.

Maria morou no Edifício Souza, na Cinelândia, onde era vizinho dos conterrâneos Abelardo Barbosa (Chacrinha) e Fernando Lobo (Chuvas de Verão). Também moravam ali Dorival Caymmi e o pintor Augusto Rodrigues.

Trabalhou ainda no Ceará e na Bahia, onde foi diretor das Emissoras dos Diários Associados, ocasião em que conheceu Di Cavalcanti e Jorge Amado.

Ao lado de Paulo Pontes e Dolores Duran, é o autor do grande espetáculo “Brasileiro: Profissão Esperança”.

Semana que vem os frevos de Antônio Maria…

16 maio 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


FERNANDO LOBO, JORNALISTA, RADIALISTA, COMPOSITOR, PAI DE EDU

Fernando Lobo, jornalista, radialista, compositor. Quem não conhece “Chuvas de Verão”?

Clássico da MPB, “Chuvas de Verão” é uma composição de Fernando Lobo, feita em 1949.
O pernambucano Fernando de Castro Lobo nasceu no Recife, em 1915, e faleceu no Rio, em dezembro de 1996.

Entre tantas canções, a primeira com Nelson Ferreira e outras que viraram grande sucesso de carnaval, Fernando Lobo costumava dizer que “não fora a versão gravada por Caetano Veloso, duas décadas depois, talvez “Chuvas de Verão” não se tornasse um clássico.

Fernando foi plural em parcerias: tem canções com os conterrâneos Antonio Maria, Manezinho Araújo, além de Dorival Caymmi, Joel de Almeida e Paulo Soledade. A primeira gravação de Chuvas de Verão foi de Francisco Alves (ouça abaixo). Entre o “Rei da Voz” e o mano Caetano, foi gravada por Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Silvio Caldas, entre outros.

Chuvas de Verão, de Fernando Lobo, 1949, na voz de Chico Alves

Na minha playlist de memória musical sentimental, “Chuvas de Verão” está na primeira fila, por sua simplicidade, beleza e por trazer um sentimento que todos temos ou tivemos em nossas vidas.

Fernando Lobo foi criado em Campina Grande-PB, onde iniciou seus estudos musicais. Sua mãe tocava bandolim.

De volta ao Recife, passou a estudar Direito. Nesse período, teve aulas de violino, atuando também como crooner e violinista da Orquestra Jazz Band Acadêmica de Pernambuco.

Trabalhou na imprensa pernambucana até 1939, ano em que se transferiu para o Rio de Janeiro, onde continuou a carreira jornalística. Atuou nas redações das revistas “Carioca”, “O Cruzeiro” e a “Cigarra”.

Foi diretor da rádio Tamoio e produtor de diversas emissoras de rádio, especialmente da Nacional. Em 1945, foi para os EUA, onde trabalhou nas cadeias de rádio e televisão CBS e NBC.

Fernando, ao lado do filho, Edu Lobo, e do neto Bena

Em 1957, já de volta ao Brasil, passou a trabalhar na televisão, além de continuar escrevendo na imprensa carioca. A partir da década de 1970, e durante os 80 e 90, produziu e apresentou inúmeros programas, na TVE do Rio, de resgate da memória musical brasileira, atuando até sua morte. Foi ainda entrevistador do projeto “O Som do Meio Dia”, no Teatro Cândido Mendes, no centro da cidade.

Chuvas de Verão, de Fernando Lobo, com Caetano Veloso

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, do presente
Repetem velhos temas tão banais
Ressentimentos passam como o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão
Trazer uma aflição dentro do peito.
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão
Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
Não te desejo mais
Podemos ser amigos simplesmente
Amigos, simplesmente, nada mais

Fontes: Dicionário Ricardo Cravo Albin; Wikipedia; e Blog Museu da Canção.


JAYME FLORENCE, O “MEIRA”, PERNAMBUCANO, PROFESSOR DE MÚSICA BRASILEIRA

Jayme Florence, professor de Baden Powell, Rafael Rabelo e Maurício Carrilho, entre outros

Violonista, compositor, professor, Jayme Florence, o “Meira”, iniciou-se no violão orientado por seu irmão Robson.

Em 1927, passou a integrar com o irmão o conjunto “Voz do Sertão”, organizado pelo bandolinista Luperce Miranda, do qual também faziam parte Minona Carneiro como cantor e José Ferreira no cavaquinho.

Em 1928, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Logo que chegou ao Rio, residiu por um período com João Pernambuco, seu conterrâneo. Tornou-se um apaixonado torcedor do São Cristóvão. Foi vizinho de Noel Rosa, no bairro de Vila Isabel, com quem participava de apresentações na Casa de Caboclo.

Molambo (Jayme Florence-Augusto Mesquita), com Nelson Gonçalves-1988

Aos dezoito anos, já residia em Recife. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1937, passou a integrar o regional de Benedito Lacerda, junto com Garoto e Dino.

Embora jamais tenha gravado um disco próprio, suas composições foram gravadas por diversos intérpretes como Elizeth Cardoso, Nana Caymmi, Orlando Silva, Luiz Gonzaga, Elza Soares, Nélson Gonçalves, Isaurinha Garcia, Zezé Gonzaga, Taiguara e Danilo Caymmi.

Seu choro “Primavera” – mais tarde renomeado “Arranca Toco” – foi gravado por Benedito Lacerda em 1934. Com Dilermando Reis gravou diversos discos de 78 rpm entre 1941 e 1949.

As comemorações do seu centenário de nascimento, em 2009, praticamente inexistiram. Em 26/9/2013, o violonista Mauricio Carrilho publicou, no Blog do IMS (Instituto Moreira Salles), um inédito e emocionante texto intitulado “Baden e Meira – O encontro do moderno violão brasileiro”.

Molambo (Jayme Florence/Augusto Mesquita), com Yamandu Costa e Dominguinhos-2013

Eu sei que vocês vão dizer
Que é tudo mentira, que não pode ser
Que depois de tudo o que ela me fez
Eu jamais poderia aceitá-la outra vez
Eu sei que assim procedendo
Me exponho ao desprezo de todos vocês
Lamento, mas fiquem sabendo
Que ela voltou e comigo ficou
Voltou pra matar a saudade
A tremenda saudade que não me deixou
Que não me deu sossego um momento sequer
Desde o dia em que ela me abandonou
Voltou pra impedir que a loucura
Fizesse de mim um molambo qualquer
Ficou dessa vez para sempre
Se Deus quiser

Regional do Canhoto: Luperce Miranda, Meira, Jorginho do Pandeiro, Canhoto e Dino

Semana que vem, tem mais.

Fontes: Laura Macedo (nossa colega colunista do MB); Dicionário Ricardo Cravo Albin; e Wikipedia.


DI MELO, APRESENTAÇÃO, SURPRESA E AMIZADE

Di Melo, o encontro

Descobrir o cantor e compositor Di Melo foi um presente de ouro da Marina, a filha que sabe que sou um caçador de pernambucanidades importantes, fatos, personalidades, efemérides, muitas vezes sem o reconhecimento nacional, quiçá local.

Numa dessas datas comerciais, me mandou o LP original do artista. Sou contra datas comerciais, mas adoro presentes bem escolhidos. Por sua vez, a Marina recebeu a dica do cineasta Pedro Severien, que costuma garimpar essas preciosidades.

Disco clássico, gravado em 1975

A partir daí, comecei a procurar os shows que Di Melo começava a fazer em São Paulo. Sesc-Pinheiros, Belenzinho, casas noturnas. Shows e mais shows e viagens agendadas pelo país.

Comecei a segui-lo nas redes sociais, acompanhar sua carreira, fazer minha parte. Justamente pela crença de que ali estava um artista especial.

É com esta convicção que me sinto impelido a falar do seu trabalho. É pluralizar a música de qualidade, que me faz bem.

Ainda que tivesse vindo “apenas” com o disco de 1975, os registros do uso de suas músicas por DJs internacionais, além da grande carreira de gravações no exterior – notadamente no Japão – tivesse vindo com esse conteúdo no matulão, já teria lugar no setlist das canções de qualidade da música brasileira.

Mas Di Melo continua fértil e sua obra ainda está em construção. Já depois de sua volta que o tornou “imorrível”.

Barulho de Fafá, “Di Melo Imorrível – 2016

Houve que formamos uma amizade boa e sadia, a partir de nossos referenciais, via redes sociais e, principalmente, pelos shows. Uma amizade despretensiosa e assaz afetuosa.

Quando do lançamento de “São Paulo, um estado de emoções”, meu primeiro livro, lá estava Di Melo, com toda a sua alegria, expansividade e energia, dando um brilho extra ao evento.

Agora, como bônus aos que passaram a se interessar pelo trabalho de nosso Di, vai o seu hit de apresentação “Kilariô”. Som, soul, suingue impossível de se ouvir, sem se mexer…

Kilariô, de Di Melo, pelo mesmo. Arranjos Hermeto Pascoal – 1975

 Espero que se divirtam. Até semana que vem.

25 abril 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


“DI MELO, O IMORRÍVEL”, O FILME, O GRANDE TALENTO

Quem ainda não conhece o som de Di Melo, o Imorrível, deveria conhecer. Melhor representante do Soul brasileiro, o cantor e compositor não se restringe ao suingue. Trafega, com naturalidade, pelo tango, a balada, a black music, o samba e os gêneros que são apenas suporte formal para suas canções criativas, balançadas, ritmos cativantes, de quem conviveu e ouviu muito Tim Maia, Jorge BenJor e Wilson Simonal, misturando parceria até com o sisudo e extraordinário Geraldo Vandré.

Sua obra-prima data de 1975, reeditado agora pela Odeon, “série 100 ANOS”. Depois de anos, desaparecido, mas vivo, Di Melo voltou a partir do ótimo documentário que mostra sua “toca”, com dona Jô e a linda filha Gabi. O filme mostra o homem comum, a intimidade do homem que já rodou muitas estradas – tem vários discos gravados no Japão e é um dos preferidos dos DJs europeus – e expõe os diversos momentos da carreira do resistente e novo-veterano grande artista.
Desta vez, deixo o filme para que conheçam melhor a figura. Depois sigo, nos próximos artigos, com a trajetória deste – dimelisticamente falando – grande moço da música internacional.

Documentário realizado em 2009, por Alan Oliveira e Rubens Pássaro

Confesso que, quando estou de lundu, ouço “A vida em seus métodos, diz calma” que, como diria o autor, é um bálsamo relaxante para todas as horas. Ei-la:

Semana que vem, tem mais.

18 abril 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÃO JOÃO DEL REI – PANAROMA IV

Ordem Terceira de São Francisco, em São João Del Rei

A espichada até São João Del Rei era para cumprir o roteiro completo que havíamos traçado para a visita às cidades históricas de Minas Gerais.

No fundo, também queria conferir onde estavam os restos mortais de Tancredo Neves. O presidente eleito do Brasil – ainda pelo colégio eleitoral – foi o principal personagem daquele momento em que o país começava o processo de saída da Ditadura Militar e passava para uma nova experiência democrática.

Como se sabe, Tancredo morreu antes de assumir e, parte de uma composição ainda com os representantes diretos do regime militar, assume José Sarney, figura tenebrosa que vinha a ser o vice-presidente.

A agonia e morte de Tancredo Neves foi o momento maior de boa parte dos jornalistas que participaram das grandes coberturas dos anos 1980.

Da peregrinação do esquife levando o corpo do presidente morto, que partiu de São Paulo, foi a Brasília e terminou em sua São João Del Rei.

Foi uma das maiores coberturas jornalísticas ocorridas no país. Era abril de 1985 e estavam aqui para acompanhar as exéquias do presidente eleito e morto centenas de representantes da mídia brasileira e mundial. Pela rádio que trabalhava – a Excelsior AM – ficamos eu e o repórter Hélvio Borelli, no teto da ala oficial do aeroporto de Congonhas. A Excelsior era puro jornalismo e a cobertura foi de grandes dimensões – cerca de 30 profissionais de todas as áreas, 24 h p/ dia.

As remoções de Tancredo morto só devem ter sido menos intensas e extensas que as de Eva Peron, a trágica heroína argentina.

Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco

Tenho o hábito de fazer turismo em necrópoles. Coisa tratada com desdém e até com preconceito por muitos. É estranho porque em cidades como Paris e Buenos Ayres, esse tipo de visita está incorporado nos roteiros de viagem. Quem já foi ao cemitério da Recoleta, onde está Eva Peron, ou ao Pére Lachaise, em Paris, sabe do que estou falando.

Em São Paulo mesmo, somente no cemitério da Consolação e dr. Arnaldo, além da visita de contrição e orações que são feitas naturalmente, o visitante comum pode apreciar obras de escultura de alto nível, de artistas como Vitor Brecheret.

Uma trilha mineira, latino-americana e bela…

San Vicente (Milton e Fernando Brandt), com Milton e Naná Vasconcelos

A cidade mineira de São João Del Rei fica na região do Campo das Vertentes e é uma das maiores setecentistas daquele estado. Levantada por bandeirantes paulistas, tem como fundador Tomé Portes del-Rei.

Dotada de uma vasta diversidade arquitetônica, São João não se restringe apenas ao Barroco. Mesmo no centro histórico, é possível observar diversas linhas arquitetônicas. São João é conhecida também por ser uma cidade universitária, com vários institutos e faculdades, abrigando grandes números de repúblicas estudantis.

Além de Tancredo Neves, nasceram em São João Del Rei, dom Lucas Moreira Neves, Otto Lara Resende, o padre José Maria Xavier, compositor sacro, Francisca de Paula de Jesus, que passa por processo de canonização pelo Vaticano.

11 abril 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MINAS – PANORAMA III

Museu da Loucura: Barbacena

Barbacena também é conhecida por “Cidade das Rosas”. Mas é certo que o município mineiro ficou, indelevelmente, marcado como a “Cidade dos Loucos”.

Embora já pudesse encerrar o circuito das cidades históricas de Minas Gerais, com o pouso em Tiradentes, não ficaria satisfeito se não visitasse nem que por algumas horas Barbacena. Com cerca de 130 mil habitantes, está a 169 km de Belo Horizonte e foi fundada em maio de 1791.

Nasceu na cabeceira do Rio das Mortes – premonição? – onde moravam os índios puris. Localizada na Serra da Mantiqueira, região Campo das Vertentes.

Seu clima, ameno com temperaturas médias abaixo das demais regiões do Brasil, foi motivo para que psiquiatras e médicos especialistas considerassem essa característica um ambiente melhor para o tratamento de loucos.

Máquinas de Eletrochoque; cartaz

No início do século XX, logo se instalaram ali vários hospitais e sanatórios. Os maus-tratos que foram marca dos hospitais dali – com destaque para o Hospital Colônia – arrancaram a vida de 60 mil pessoas, que ficou conhecido como “Holocausto Brasileiro”, livro e filme que mostraram a realidade dos manicômios. É importante ressaltar que, entre os 60 mil mortos, cerca de 70% dos pacientes do Colônia não possuíam diagnóstico de transtorno psicológico algum.

Balada do Louco, Arnaldo Baptista e Rita Lee, de 1972, gravado por Arnaldo em Tiradentes-MG, 1994

“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão!
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.
Eu juro que é melhor
Não ser o normal…
Se eu posso pensar que
Deus sou eu…
Se eles têm três carros, bem…
Eu posso voar!
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.”

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim, sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

Muitos dos internos eram apenas alcoólatras, andarilhos, amantes de políticos, crianças indesejadas, epiléticos, inimigos políticos da elite local, prostitutas, homossexuais, vítimas de estupro e pessoas que simplesmente não se adequavam aos padrões da sociedade. Boa parte da população era negra.

Entre os motivos que me impeliram a conhecer Barbacena foi o filme “Holocausto Brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil”, a retomada dos estudos sobre Nise da Silveira e o filme “Heleno”.

Botafoguense desde cedo e aficionado pelas histórias de grandes do futebol, o filme Heleno me fez reconhecer o lendário Heleno de Freitas, supercraque da estrela solitária, que jogou no Boca Juniors e Seleção Brasileira. Boêmio, boa pinta e rebelde, ele faleceu em 1959 em hospício de Barbacena, onde fora internado seis anos antes, com sífilis, em 1953, com o apoio da família.

Semana que vem tem mais..

4 abril 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MINAS – PANORAMA II

Estátua de Tiradentes na cidade com seu nome

Os textos oficiais informam que “ao ser proclamada a República, o governo precisava de símbolos que representassem o novo regime. Deste modo, a cidade que se chamava São José, em homenagem ao príncipe d. José I, de Portugal, passou a chamar-se Tiradentes, que combateu o governo monárquico”.

Tornou-se um dos centros históricos da arte barroca mais bem preservados do Brasil, criando uma demanda turística, a partir da metade do século XX. A cidade de Tiradentes é patrimônio histórico nacional.

Bom ressaltar que Tiradentes, o alferes, nasceu na Fazenda do Pombal, hoje município de Ritápolis. Na época, as terras eram disputadas por São João Del Rei e São José do Rio das Mortes. Ainda hoje, porém, existe uma disputa entre Ritápolis, São João Del Rei e Tiradentes sobre qual seria considerada a cidade natal do mártir.

Pousada D´Óleo de Guignard

Em Tiradentes, escolhemos ficar na Pousada D´Oleo de Guignard, verdadeira chácara-pomar com ar paradisíaco, clima do interior e uma infraestrutura, sofisticadamente simples, que nos deixou em estado de calma e contemplação por cinco dias. A escolha da pousada poderia ter sido pelo belo nome, indicando a conexão do grande pintor mineiro, nascido no estado do Rio, e a idealizadora do lugar. Mas também pode ter sido pela ótima relação custo/benefício oferecida, face à outra dezena de hotéis e hospedarias da cidade.

Fato é que, ao nos hospedarmos ali, convivemos com a memória da criadora do recanto, Karin Ellen Von Smigay, onde, a seu tempo, Guignard tirou das madeiras de árvores especiais das terras da pousada o óleo para uso em boa parte de sua pintura. Karin destacou-se com trabalhos em torno da violência de gênero, sendo doutora em psicologia social, da UFMG. Nasceu em 1948 e faleceu em 2011, em Belo Horizonte.

A ligação dessa militante do movimento feminista brasileiro, em Minas Gerais, em plena Ditadura Militar, e o pintor, nos trouxe de volta o registro do artista que melhor registrou as paisagens históricas de Minas, Alberto da Veiga Guignard, que havíamos conhecido mais amiúde em Ouro Preto, onde está o Museu Casa de Guignard e os Passos de Guignard – nove pontos da cidade donde retratava as entranhas, morros e arruados da antiga Vila Rica.

Paisagens de Ouro Preto-MG

Paisagem da Janela, de Lô Borges e Fernando Brant, com Flavio Venturini

Guignard

Alberto da Veiga Guignard nasceu em Nova Friburgo-RJ, em 1896 e faleceu em 1962. Foi o pintor brasileiro que ficou famoso por retratar as paisagens mineiras.

Guignard nasceu com uma abertura total entre as boca, o nariz e o palato (lábio leporino), causando horror e compaixão a seus pais. Ficou órfão de pai, ainda menino, e a mãe casou-se em seguida com um barão alemão arruinado, bem mais jovem que ela, com quem se mudaram para a Alemanha.

A formação de Guignard foi sedimentada na Europa, pois viveu ali dos 11 aos 33 anos. Frequentou as academias de Belas Artes de Munique e de Florença.

De volta ao Brasil, nos anos 20, tornou-se um nome representativo dessa década e da seguinte, juntamente com Cândido Portinari, Ismael Nery e Cícero Dias.

Foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura – de naturezas mortas, paisagens, retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos.

Sou grato a José Salles, que me apresentou Tiradentes, antes mesmo que pudesse conhecê-la.

Semana que vem, tem mais…

28 março 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


MINAS – PANORAMA I

Ouro Preto. Segunda capital de Minas. A cidade símbolo das Minas Gerais

Maior que a França, pouco menor que a Ucrânia, Minas Gerais é 4º estado em tamanho do Brasil, um continente.

Portanto, Minas possui o território de um país de boas proporções. E o que mais chama a atenção é que faz divisa com sete outros. Com isso, consegue, na minha percepção, acolher, abraçar e dar guarita a todos os vizinhos que vão de Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul.

A coisa é tão séria que Minas chega a fazer parte da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), por conta do Vale do Jequitinhonha, uma região muito pobre.

Engraçado, é ver os moradores de cidades próximas ao estado do Rio, sendo torcedores fanáticos de times fluminenses, esquecendo-se América, Atlético e Curitiba. Mais para baixo, o encontro é com a cultura de São Paulo e sua influência.

A simbiose é bonita. Enquanto Drummond, Guimarães Rosa, Ziraldo, JK, Fernando Sabino e tantos outros vêm de Minas, um dos maiores, senão o maior símbolo musical de Minas é o carioca Milton Nascimento.

Essas trocas fronteiriças fazem de Minas um estado especial, amalgamado pela influência dos territórios lindeiros, forte demais em cultura, história e características que podemos chamá-lo de uma maquete territorial do Brasil.

Vamos ver agora alguns flashes de grandes momentos vividos em Minas Gerais, por 18 dias, abrangendo cerca de 20 cidades e agregando informações e emoções só assimiladas, in loco, a olho nu. 

Oh, Minas Gerais, na voz de Renato Teixeira

– Escolhi para estes textos finais a música “Oh, Minas Gerais”, tão conhecido de todos e reconhecido como hino informal do estado.

– A canção é originária da valsa italiana “Viene Sur Mare, com letra adaptada por José Duduca de Moraes, cantor e autor de mais de 200 músicas. A obra italiana chegou ao Brasil por meio das companhias líricas que aqui se apresentavam no fim do século XIX e início do XX. Uma versão foi escrita por Eduardo das Neves, em homenagem ao ‘Couraçado Minas Gerais’.

Ouro Preto

Praça Tiradentes, Casa da Ópera e Vista do Mirante Hotel

Mariana

Camara de Mariana, a primeira capital mineira; trem Ouro-Preto; e mina da passagem, a maior do País, aberta mas sem atividade comercial

21 março 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “AS MINAS GERAIS” – COZINHA MINEIRA

Cozinha Mineira: café da manhã; chá da tarde

Aqui em São Paulo há algumas décadas, tinha convicção de que o ‘Tutu à Mineira’ era a matriz do meu habitual ‘Virado à Paulista’.

Vamos começar esta parte da viagem desfazendo essa máxima. Saibam todos que aqui me ouvem que os bandeirantes levaram o virado para Minas Gerais, onde o prato se converteu no tutu à mineira.

E a grande diferença é que o tutu mineiro é feito com feijão moído e o virado a paulista feito com grãos inteiros. (Está nos compêndios de gastronomia). O pior é que aprendi a versão errada justamente na capital bandeirante.

Pois bem, nesta passagem por um dos pontos mais importantes de Minas e do Brasil, as cidades históricas que compõem a Estrada Real e a dos Inconfidentes pensava em passear, conhecer os lugares, os museus-cidade, a prosódia, as alterosas, os pontos de atração, as obras do Aleijadinho, o moderníssimo acervo e saudável ambiente de Inhotim, mas não pontuei um dos quesitos mais característicos da terra, que é a gastronomia.

Sabor é memória, memória é cheiro, cheiro é sensualidade. Descobrimos a diferença gritante do tutu para o virado e um punhado de comidas, comidinhas, guloseimas e muita novidade.

Restaurante mineiro: mais um frango com quiabo

Para mim, a maior delas foi a dupla, presente em quase todos os restaurantes, self service, lanchonetes e botecos foi ‘frango com quiabo’. Sei que não há unanimidade quanto ao quiabo (longe disso), mas sou quiabo-maníaco, desde que morei na Bahia, nos 1970.

Cafezinho gostoso no CBBB, praça da Liberdade

Um panorama da comida mineira:

A carne de porco é muito presente, sendo famosos o ‘tutu com lombo de porco’, costelinha de e o ‘leitão à pururuca’. São apreciados a ‘vaca atolada’, o feijão tropeiro com torresmo, a ‘canjiquinha com carne (de boi ou de porco)’, linguiça e couve, o frango ao molho pardo com angu de fubá, o ‘franco com quiabo ensopado e arroz com pequi’.

São famosos os doces mineiros, especialmente o doce de leite (hum), a goiabada e a paçoca. O pão de queijo (vá no natural, fuja das franquias), os queijos (e o seu modo artesanal de preparo) e o café também estão entre as principais referências da cozinha mineira.

Muitos pratos têm origens indígenas, cuja culinária era predominantemente à base de mandioca e milho e teve incremento dos costumes europeus, com a introdução dos ovos, do vinho, dos quentes e dos doces.

Alguns dos melhores

É passeio, mas vale a pena dar nota e classificar pelos itens tradicionais de sabor, variedade, higiene geral, ambiente, físico e de receptividade, relação preço/consumo e assim por diante. Faço isso pelo prazer de ressaltar os que mais gostei e, quem sabe, indicar a algum amigo que por aquelas terras vá passar. Nem fiz freela pela 4Rodas.

01) ‘Sabor Rural’, tudo feito na hora, comida mais primitiva de Tiradentes – nota 10;

02) ‘Parada do Conde’, em Ouro Preto; foi um encontro de sabores, amizades e simpatias recém concebidas. O Ricardo e a Poliana fazem o casal perfeito no atendimento, graça e profissionalismo, sem perder o humor. Eu degluti ou degustei um prato de carne, mas fiquei encantada com a polenta, deliciosa e esparramada no prato. Foi mais que um grande almoço meus amigos. Trilha sonoro de primeira – nota? 10.;

03) “O Bar do Museu do Clube da Esquina’, do qual aqui já falei em outras colunas é imperdível. Falem com a Virginia, sabe tudo, amiga de todos os Borges – 10, claro;

04) Por fim, o ‘Tamboril’, principal restaurante do Instituto Inhotim. Primeiro, conhecer d. Naílde, uma figura simpaticíssima e disposta a tirar todas as dúvidas dos clientes sobre os cordeiros e demais iguarias. Afinal, ela é a Chief do Tamboril e de todos os locais de alimentação do Inhotim, inclusive do Helio Oiticica. Outro 10.

Semana que vem, tem mais…

14 março 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “AS MINAS GERAIS” – CONGONHAS

Os 12 profetas, de Aleijadinho, em Congonhas-MG

Ao deixar BH e seguir pelo segundo roteiro programado – uma parte mineira da Estrada Real. Ainda a partir da capital mineira, fizemos Sabara e descemos ate Brumadinho, onde conhecemos Inhotim.

Depois, cidade após cidade, pousamos em Ouro Preto, de que falaremos noutra hora. Ouro Preto foi escolhida para segunda sede por sua posição estratégica, ao lado de Mariana e perto de Congonhas.

Como o Elevador Lacerda, em Salvador, as pontes do Recife ou a Pampulha, em Belo Horizonte, o Santuário do Bom Jesus do Matosinhos e o cartão-postal de Congonhas e, praticamente, fixamos que a bela cidade resume-se a impecável obra de Aleijadinho e mestre Ataíde.

Ledo e surpreendente engano. Congonhas e muito mais que o Santuário (obra incomparável), pois possui ainda As Capelas dos Passos – obra de alto nível artístico de Aleijadinho e o moderno Museu de Congonhas.

Congonhas – Clube da Esquina – Milton Nascimento

Dois ângulos do Santuario do Bom Jesus do Matosinhos

Com cerca de 60 mil habitantes, e formada por três distritos – sede, Alto Maranhao e Lobo Leite.

A região é atravessada pelo rio Maranhão, que recebe as águas dos córregos Santo Antônio, Goiabeiras e Soledade. É do encontro do rio Maranhão com o córrego Santo Antônio que tem-se início o rio Paraopeba. O solo é rico em minério de ferro de alto teor, sendo que no passado também já foi expressiva a mineração em busca de ouro, metal encontrado até nos dias atuais, apesar de não ser em escala industrial.

Ha 70 km quilômetros de Belo Horizonte, Congonhas possui um expressivo conjunto de riqueza barroca do maior artista do gênero no Brasil: Antônio Francisco Lisboa, o apelido Aleijadinho.

No adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Aleijadinho esculpiu em pedra-sabão as famosas imagens de doze profetas em tamanho real que são visitadas anualmente por milhares de turistas do Brasil e de todo o mundo.

Os 12 profetas – Santuario do Bom Jesus do Matosinhos

A partir deste paragrafo, começo a falar de atrações imperdíveis que não estão no lindo porem estático símbolo da cidade.

O Jardim dos Passos em frente à basílica representam a via Sacra com belíssimas imagens esculpidas, em cedro por Aleijadinho.

Em 1985, todo este conjunto foi tombado pela UNESCO e transformado em patrimônio cultural da humanidade.

Jardim dos Passos – Uma ode escultural a via sacra – Aleijadinho

Antes de ser a “Cidade dos Profetas”, Congonhas foi e ainda é um grande centro de peregrinação. Todo ano, o município reúne milhares de fiéis em busca de cura das suas aflições. São, aproximadamente, cinco milhões de peregrinos que visitam Congonhas entre sete e catorze de setembro, período em que é comemorado no município o dia do Senhor Bom Jesus do Matozinhos.

Dentro das capelas

A terceira e expressiva visita que não se deve perder em Congonhas e o moderníssimo, tecnológico e interativo Museu de Congonhas, um equipamento novo e que enche os olhos do visitante.

O museu, comparável aos melhores que conhecemos nas capitais, condensa os principais dados e informes sobre as obras de Aleijadinho, as obras e os profetas, com grande interatividade e acesso aos usuários.

Museu de Congonhas – um espetáculo

Antes de deixar a bela Congonhas, tive oportunidade de participar de um agradável bate-papo com os colegas da Radio Congonhas AM-1020 e FM, OT 4775 khz.

Ali mesmo na praça do Santuário, a radio, muito bem organizada, possui instalações e equipamentos modernos e programação eclética – musica, programas, jornalismo e ate futebol. A radio pertence a Arquidiocese.

Na radio Congonhas, uma comunicação moderna e bucólica

Semana que vem, tem mais…

7 março 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “AS MINAS GERAIS” – INHOTIM-II


Inhotim, de John Ahearn, 2006

Na última coluna, deixei uma pergunta para nossos leitores: “que palavras formavam o termo ‘Inhotim’.

A maioria sabe que “nhô” substitui a palavra senhor, na linguagem do caipira e e até do sertanejo. Completando, a área onde hoje está o Instituto pertenceu a um certo senhor Timóteo. Daí, “Inhotim”.

Continuando o passeio pela vastidão do parque biológico e museu de arte contemporânea e mais algumas obras.

Luiz Zerbini, Sem Título (Bangu), 2006

Música do Uakti para acompanhar o passeio pela vastidão do parque biológico e museu de arte contemporânea.

Quando vi a obra abaixo, achei esquisita, entre o non sense e o rudimentar. Depois de ler a origem e a tradição, tive melhor compreensão.

Obra de Gui Tuo Bei, de Zhang Huan (2001)

Na cultura chinesa, monumentos monolíticos carregados por uma tartaruga são comuns em lugares sagrados e espaços públicos, servindo como fonte de contextualização histórica do local e simbolizando poder político ou religioso.

A tartaruga representa longevidade, resistência e solidez, daí sua presença em tais monumentos.

Na obra Gui Tuo Bei (2001), Zhang Huan parte dessa tradição, entretanto, ao libertá-la de um contexto histórico cultural pré-estabelecido, ele amplia seus significados. Situada num ponto de destaque em Inhotim, ao final da alameda que originalmente conduzia à sede da antiga fazenda, Gui Tuo Bei (2001) contrasta com as demais esculturas do parque. O estranhamento não se dá apenas pela escrita chinesa, mas também por algo de ancestral, de atemporal que a obra evoca. O texto gravado na pedra narra a história de um homem, que apesar da idade avançada, consegue com a ajuda de seus descendentes mover as montanhas que bloqueavam o caminho de sua casa.

Narcissus garden Inhotim (2009) é uma nova versão da escultura-chave de Yayoi Kusama originalmente apresentada em 1966 para uma participação extra-oficial da artista na 33a Bienal de Veneza.

Naquela ocasião, Kusama instalou, clandestinamente, sobre um gramado em meio aos pavilhões, 1.500 bolas espelhadas que eram vendidas aos passantes por US$ 2 cada. A placa alojada entre as esferas – “Seu narcisismo à venda” – revelava de forma irônica sua mensagem crítica ao sistema da arte e seus sistemas de repetição e mercantilização.
 intervenção levou à retirada de Kusama da Bienal, onde ela só retornou representando o Japão oficialmente em 1993.

Na versão de Inhotim, 500 esferas de aço inoxidável flutuam sobre o espelho d’água do Centro Educativo Burle Marx, criando formas que se diluem e se condensam de acordo com o vento e outros fatores externos e refletindo a paisagem de céu, água e vegetação, além do próprio espectador, criando, nas palavras da artista, “um tapete cinético”.

É uma das artistas mais importantes surgidas na Ásia no período pós-guerra e sua produção estabelece relação com movimentos como o minimalismo, a arte pop e o feminismo. Diferentes versões de Narcissus garden foram criadas para exposições em museus e espaços públicos nos últimos anos e, em Inhotim, a obra faz sua primeira aparição no Brasil. Evocando o mito de Narciso, que se encanta pela própria imagem projetada na superfície da água, a obra constrói um enorme espelho, composto por centenas de pequenos espelhos convexos, que distorcem, fragmentam e, sobretudo, multiplicam a imagem daquele que a contempla – contemplando, assim, necessariamente a si próprio.

Semana que vem Estrada Real e o Ciclo do Ouro….

28 fevereiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “AS MINAS GERAIS – INHOTIM

Inhotim, o maior museu a céu aberto do mundo: na entrada, obra “Abre a Porta”, de John Ahearn e Rigoberto Torres, 2006

Instado frequentemente por Marina, minha filha, rata de museus e galerias e atenta às artes em geral, que sempre me intimou a conhecer Inhotim, no município de Brumadinho-MG, sinto-me agora ”com o dever cumprido”. Faz alguns anos que cobra a viagem!

Deu-se o momento. Queria conhecer Minas, sua parte histórica e ver tudo o que a terra de Guimarães Rosa e Carlos Drummond tem para dar, lincando aí a ida a Brumadinho.

Então fomos, eu e minha navegadora, traçar os planos: deixamos BH como sede-principal e começamos os dois roteiros. Primeiro Sabará, parte importante das cidades histórias – que nenhum de nós sabia pertencer à grande Belo Horizonte e, – dia seguinte, viagem para o museu-floresta.

Chegamos muito cedo, antes mesmo de abrir. O clima já estava mais agradável que em BH, uns dois graus a menos.

No burburinho da entrada – por mais bem sinalizada que fosse a recepção e oferecidas instruções, sempre surgem as perguntas, como “quer dizer que aqui tem um pouco de tudo?’ – pergunta um brasileiro que nunca fora a Minas, como eu! – “Me disseram que junta Serra do Mar (Hum), Serra do Espinhaço, Mata Atlântica e Serra da Mantiqueira, respondeu um cidadão de óculos, aparentando meia idade, com cara de entomologista!” (Foi colega de Vanzolini).

Doutro lado, num barranco que dava acesso à entrada, ainda impedida pelo guarda da instituição, pois a hora certa para abrir era às 9h30 e nós chegamos às 9h10, portanto com tempo para jogar conversa fora. Mas do outro, como dizia, as senhoras, moças e juvenis procuravam logo se assegurar dos banheiros mais próximos, mapas de toaletes e indicações para lavabos, no caso de refazer a cútis ou lavar as mãos. Tão prudentes, quanto corretas, as nossas companheiras de aventura.

Nosso guarda, vai com sua maneirice mineira que Deus lhe deu, e avisa: pronto, tá aberto! Como quem diz: “ôh gente apressada essa que vem por aqui, ainda nem perceberam que tão no mato”. Certamente, penso eu, ainda nem se deram conta dos 140 hectares de terra e das obras de arte de 700 artistas de 200 países que estão ali para ver.

– Sempre que tenho a felicidade de conhecer um novo lugar, mágico, sinto a necessidade de alcançar, descobrir o som perfeito, correspondente, que aproximaria meu companheiro de leitura ao lugar, pela música, com sons da natureza, reproduzindo cheiro, cor, ventos, sensações. Achei Villa-Lobos apropriado, inda mais tocada por este fantástico grupo mineiro “Uakti”, que me ensinou o gosto brasileiro da flauta de pan. Reproduzo aqui, se quiser usar o fone de ouvido:

Ária 5, de Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos, interpretada pelo grupo mineiro Uakti (1978-2015)

A primeira intervenção que vimos foi a que mais deu o que falar desde que Inhotim foi inaugurado, há alguns anos. É o cartão-postal.

Troca Troca, Jarbas Lopes, 2002

De fato, ao ver apenas por foto, a gente sai com aquele tradicional “oxente, que diabo é isso – todo mundo não conhece o fusquinha?” – É meu camarada, mas fuscas assim, envelhecidos pelo tempo e todinho colorido, antes mesmo de Romero Britto se tornar um nome mundial, isso eu nunca tinha visto não. E não é que gostei!

Helio Oiticica, 1977, “A Invenção da Cor – Square Magic 5”

Helio Oiticica era da minha geração, tinha o maior respeito pelo trabalho dele, um dos pioneiros da Arte Contemporânea no Brasil. Pena que a foto esteja distante, mas esse trabalho é muito bonito.

Beam Drop Inhotim, de Chris Burden, 2008

Na medida em que a gente vai invadindo e se deixando tomar pela brisa e o ar incolor de Brumadinho, com um céu quase imaculado, percebe-se que dali em diante nunca mais Inhotim vai deixar você.

Nos 140 hectares, subimos de 725m a 970m. O Museu abre de terça a domingo das 9h30 às 16h30 ou 17h30. Às quartas, é totalmente gratuito. Os mapas e orientações para visitação indicam a necessidade de que as pessoas devem levar de 2 a 4 dias para visitar o museu o jardim botânico.

Importante informar que o Instituto oferece um serviço de transporte, bem ao gosto dos gramados e trilhas de lá, que pode levar os visitantes por todas as atrações. Claro que é indispensável para idosos, pessoas com dificuldades de locomoção e pacientes de DPOC, como esse amigo que vos fala. É uma mão na roda…

Carrinhos de golfe estão sempre à disposição para a locomoção dos visitantes (4 e 6 lugares)

Em Brumadinho, existem inúmeras pousadas e hotéis. Em breve, o Instituto terá dois hotéis dentro de suas instalações.

História

O Instituto Inhotim começou a ser idealizado pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. A propriedade tornou-se um lugar singular, com um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras e de todos os continentes.

Os acervos são mobilizados para o desenvolvimento de atividade educativas e sociais para públicos de faixas etárias distintas.

Brumadinho

Localizada no Vale do Paraobepa, Brumadinho possui belezas naturais, riquezas históricas e culturais. Com uma população de 35 mil habitantes, a cidade tem uma área de 634,4 km² e está situado no maciço do Espinhaço e início do Tabuleiro do Oeste. Começou a ser colonizado quando os “insubmissos” da Guerra dos Emboabas se dirigiram para lá, fugindo da repressão, a fim de garimpar ouro, livre dos elevados tributos da Coroa.

– Ah, deixo aqui um QUIZ (sem trema, né!) para a próxima coluna: Como se formou a palavra “Inhotim”. Até lá…

21 fevereiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “MINAS GERAIS”

Vi o Clube da Esquina, dentro do Som Imaginário e os batuques de Minas, olhando para a Serra do Curral, vivendo, imaginando..

Estávamos finalizando nosso primordial passeio ao conjunto arquitetônico da Pampulha, quando veio à mente procurar por resquícios do “Clube da Esquina”, movimento da música mineira que extrapolou, por qualidade, as fronteiras gerais, inclusive as brasileiras.

Eram 3h da tarde, conseguimos achar ali mesmo, pelo móbile, algo parecido com museu e bar do clube da esquina. A alegria foi tão grande que, mesmo sem a exigência, pedimos que reservasse uma mesa. Tudo no pacote: couvert, consumo, astral de clube noturno e uma expectativa enorme.

O sol de 30 e tantos graus, a curta caminhada de 4 quilômetros que fizemos às margens da Pampulha, o vislumbre da Igreja de São Francisco de Assis, de Niemeyer, Portinari e outros mestres, nos cansou. Quando disse curta caminhada é porque a lagoa da Pampulha tem humildes 18 quilômetros de corredores às margens. É grande mesmo. Mas, de Pampulha falarei mais tarde, pois trata-se de uma reserva biológica tão rica e diversa e de um depoimento arquitetônico-escultural tão singular, que só poderei fazê-lo em uma ou mais duas outras colunas.

Pois bem, diante da energia já consumida e da alegria antecipada de mim e minha parceira em ver o Clube da Esquina, restávamos voltar ao hotel – BH é quente! visse – e aguardar a hora para sair ao encontro da noite.

Sim, descansamos, mas não relaxamos. Na minha cabeça, eram cerca de 40 anos de intimidade, música a música, Som Imaginário, Clubes da Esquina, Milton, Lô e Brandt. Voltar ao passado? Que nada, viver o presente eterno e clássico som magistral de Minas, a marca feita por mineiros, mas que cabia gente de toda a parte desde o carioca Milton até o pernambucano Novelli.

Estávamos moderninhos – nem velho metido a guri, nem ex-hippie com cocó nos cabelos milagrosamente longos rs. Para nós era uma cerimônia. E foi.

Chegamos cedo demais – que agonia – umas 20h15. O show para começar as 21h e o burburinho às 23 horas.

Bem, como se diz por aí, relaxamos. Enxerido, fui me apresentando, primeiro identificando Neide, que nos atendeu ao telefone, depois garçons, logísticas e a Virgínia, proprietária da casa. Trocamos e-mails e lhe afirmei que aquele lugar era uma grande atração em Belô.

Numa das fotos aí de baixo (3) pode-se ver na parede cópia da capa do Clube da Esquina nº 2. Significava que, naquela noite, os músicos – ainda produzindo com Milton e outros craques – iriam tocar o disco inteiro de 1978 (nº2). Tão cedo chegamos que ainda flagramos os músicos ensaiando. Que culpa tenho eu!!!

Lá funciona assim, cada dia da semana, executa-se um dos discos do Clube da Esquina, do Som Imaginário, de algum dos músicos da turma em solo, MPB boa demais, até porque seria incompatível coisa menor.

O Bar do Museu do Clube da Esquina, imperdível: em Santa Teresa, perto da Serra do Curral, onde BH nasceu. Quando se sai do universo do ‘Clube da Esquina’, não se levante! Ali, naquele museu sagrado do som, só músicas de excelentes compositores são executadas por músicos de qualidade.

Petiscos, passa e passa, acústica boa para um bar, atendimento de primeira, clima da plateia 10 (ah, às 22 horas, lotou). Público de 8 a 80, diversidade de estilos e origens diferenciadas. Ah, preço honesto para o que se é oferecido!

Nas paredes, escadas, corredores referências a granel aos grandes fazedores do movimento mineiro.

No palco, numa conexão melódica e espiritual com os excelentes Pablo e Beto (violões e teclado). Mas, minha atenção era toda para o palco: melodias, movimentos, vozes, acordes e letras singulares e belas.

Tocaram “Ruas da Cidade”, que recolhi no Youtube.

Guiacurus Caetés Goitacazes
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
Guajajaras Tamoios Tapuias
Todos Timbiras Tupis
Todos no chão
A parede das ruas
Não devolveu
Os abismos que se rolou
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial
Passa bonde passa boiada
Passa trator, avião
Ruas e reis
Guajajaras Tamoios Tapuias
Tupinambás Aimorés
Todos no chão
A cidade plantou no coração
Tantos nomes de quem morreu
Horizonte perdido no meio da selva
Cresceu o arraial

Enfim, foi pura emoção! Se for a Belô, não perca!

14 fevereiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE “ESTRADA REAL” E “CIRCUITO DOS INCONFIDENTES”, MG

Impossível ir a Minas sem pensar em JK

Entre os anos 50 e 60, meu pai, em sua rixa pessoal com Belo Horizonte e Salvador, ficava fulo, quando se dizia que a capital mineira estava ultrapassando o Recife em população e, portanto, empurrando a capital nordestina para a quarta posição importância, além de São Paulo e Rio.

Nesses anos aí, Recife começou a receber uma leva de cento e tantos ônibus elétricos de BH, cidade que possuía uma topografia ruim para o uso dos silenciosos e bojudos veículos.

Eu não sei por que cargas d’água, nem quem era o marqueteiro da época. Tiveram a audácia de colocar uma faixa enorme na frente dos veículos: “PROCEDENTE DE BELO HORIZONTE”. Pronto, meu pai bufou; quis saber o que era aquilo, que diferença fazia o mesmo elétrico de Minas para os elétricos de Pernambuco etc. Fulo da vida, seu Joaquim nunca subiu os degraus de um desses ‘PROCEDENTES’. Vingou-se à sua maneira.

Passadas algumas décadas, as rivalidades já reduzidas, meu pai convivendo com os mineiros falecidos lá no céu, me pus eu, e minha eterna parceira, Eva, a visitar as Minas Gerais. Para mim, que gosta de ser viajar, era uma lacuna não conhecer Bel’ Horizonte e as Minas.

Deixarei para falar de culinária, futebol, hospitalidade, prosódia, cultura e tudo o mais no próximo “Megaphone”.

Desta vez, fico com o encanto anímico, atmosférico e astral que BH causa. Ao lado de nosso hotel, no bairro Savassi, ao lado da praça da Liberdade, ponteada pelo Palácio de mesmo nome e um verde sombreando ruas, travessas, avenidas e becos.

Agradável é palavra pouca para descrever o que senti em BH: um povo para lá de simpático, sô. Sem o contagio da megalópole, embora já seja.

A um quarteirão do hotel estava construído o que a nós nos parecia um réplica do Copan de São Paulo. Será que Niemeyer fez uma série de prédios tortuosos por aí? Vejam:

Edifício Niemeyer, em BH – Construído em 1954/55 para fim residencial

Edifício Copan, em SP – Construído por Niemeyer, a partir de 1951, concluído em 1966

O que mais me chamou a atenção no legado de JK como homem público foi a capacidade de congregar gente da mais alta qualidade em cada área de atuação.

Não vou ficar aqui apontando erros, equívocos que cometeu, por exemplo, ao dar prioridade às rodovias, em detrimento das ferrovias; na construção de Brasília, muitas lacunas orçamentárias a ser respondidas.

Permito-me, nesse momento, homenagear o médico, o militar, o homem público que foi prefeito biônico de Belo Horizonte, eleito de Minas Gerais e eleito presidente da República. Tantas outras mortes que estranhas que levaram outros personagens da história, sugaram também JK.

A mim, me parece correto dizer que estava sempre cercado dos melhores, Burle Marx, Portinari, Guignard, Niemeyer, Joquim Cardoso, Lucio Costa e muitos outros. A cultura era sua linguagem principal e com ela identificou um certo novo Brasil.

Bem, tem muito para contar. Fora dos guias e panfletos de turismo da cidade não havia a indicação do “Bar do Museu do Clube da Esquina”, no bairro, onde perto dali todas as turmas dos Clubes da Esquina, Minas, Gerais, Som Imaginário mantêm, com o empenho e a garra da Virgínia, um lugar especial onde quiser ouvir música de ótima qualidade, no clima e na linguagem da época e ficará alucinado como eu fiquei. E mais: os músicos, descendentes diretos dos ‘esquineiros’ estão lá todos os dias para tocar o que for bom, além da fabulosa música das Minas, é claro.

Semana que vem tem mais. Aí um gostinho para lembrar….

Girassol da Cor de Seu Cabelo, de Lô Borges e Milton Nascimento, 1972

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul é a cor de seu vestido?
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer morar comigo?
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol é a cor de seu cabelo?

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido?
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?

24 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – MANEZINHO ARAÚJO

Manezinho Araújo, muitos já ouviram falar, mas poucos sabem quem é: gênio da embolada e pintor de mão cheia

Manezinho Araújo é daqueles artistas que muitos já ouviram falar, mas poucos conhecem o homem de verdade.

Considerado o “Rei da Embolada”, nasceu em setembro de 1910, no Cabo de Santo Agostinho-PE e morreu em maio de 1993, em São Paulo.

Segundo o arquivo da Fundaj – Fundação Joaquim Nabuco – Manezinho, ainda adolescente, conheceu Minona Carneiro, um grande cantador de emboladas que foi seu professor e incentivador.

No início dos anos 1930, Manezinho foi para o Rio de Janeiro, onde chegou a passar fome e, para sobreviver, cantava em cabarés. Por sorte, conheceu alguns músicos e começou a se apresentar em programas de rádio, como cantador de emboladas.

Hospitaleiro, o compositor teve a ideia de montar um restaurante – o “Cabeça Chata” – cujos quitutes eram elaborados por sua esposa Alaíde – a dona Lalá.

Seu restaurante chegou a ser frequentado por inúmeras personalidades nacionais e internacionais, como Edit Piaf, Yul Brinner, Carmen Miranda, Villa-Lobos, Cacilda Becker e Raquel de Queiroz.

Dos anos 30 até a década de 1950, Manezinho gravou mais de 50 discos 78 rpms e 4 LPs. Suas canções foram gravadas por vários cantores brasileiros. Manezinho trabalhou nas rádios Tupi, Guanabara e Mayrink Veiga. Em São Paulo, na Record.

Ainda de acordo com a Fundaj, pode-se afirmar que o interesse dos sulistas pela música popular nordestina se deve a Manezinho Araújo, que participou de vários filmes nacionais, bem como de 22 cinejornais da Atlântida. Em 1945, gravou o calango “Dezessete e Setecentos”, de Luiz Gonzaga de Miguel Lima.

– A embolada é uma das formas mais originais das músicas do folclore do Nordeste. De maneira humorística, o embolador discorre sobre pessoas e fatos, contando vantagens, como se fosse um cronista. Alguns consideram que a embolada tem sua origem na literatura de Cordel.

Polivalente, Manezinho veio a se tornar um dos artistas mais conceitos do Brasil passando a se dedicar, no início dos anos 1960 à pintura. Começou com aquarela e guache, sem orientação alguma e culminou pintando com tinta a óleo.

Em estilo primitivo puro, Manezinho passava para as telas cenas da infância, da juventude e da maturidade, retratando as raízes do Nordeste.

Além de estar presente em museus brasileiros, tem duas telas expostas no Museu Calouste Gulberdian, em Lisboa, Portugal.

“Feira de Caruaru”, Manezinho Araújo, 1971

Escolhi para ilustrar o som de Manezinho Araújo a saborosa e trava-línguas embolada “Para Onde Vai Valente”, gravada pelo autor em 1938:

Pra onde vai, valente?
Vou pra linha de frente,

Tava na venda
C’a pistola e um cravinote
0 muleque deu um pinote
Me chamou mode brigá.

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17 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – “17.700”- II

‘Dezessete e Setecentos’ em produção estrangeira

Retorno a “Dezessete e Setecentos”, sucesso de Gonzaga e Miguel Lima, tão aclamada na coluna da semana passada por sua curiosidade aritmética, seu jogo de palavras e seu ritmo balançado e gostoso de ouvir.

Esta semana, conto um pouco mais da história da música, que chegou a ser reproduzida em filme estrangeiro.

Pecadora (1947) Poster

Em 1947, os Anjos do Inferno, participaram do filme mexicano “Pecadora”, do diretor José Diaz Morales, com roteiro de Pedro Calderon e do próprio diretor.

No elenco, Ramón Armengod, Emilia Guiú, e Ninon Sevilha. Na parte musical, Agustin Lara, Ana Maria Gonzales e o nosso grupo “Anjos do Inferno”.

Anjos do Inferno, Dezessete e Setecentos,
de Luiz Gonzaga e Miguel Lima (Pecadora, 1947)

A sinopse dizia: “Em Ciudad Juárez, uma prostituta decide deixar seu amante, quando ele, traficante, é preso. She marries a rich man, but a pimp from her past reappears unexpectedly. Ela casa com um homem rico, mas um cafetão do seu passado reaparece inesperadamente”.

Os Anjos do Inferno

Era o nome de um conjunto vocal e instrumental brasileiro de samba e marchinha de carnaval, formado em 1934.

Os “anjos” tiveram diversas formações ao longo de uns trinta anos, mas, mesmo assim conseguiu criar uma identidade sonora típica, caracterizada pelo piston. O nome veio como ironia à orquestra “Diabos do Céu”, dirigida por Pixinguinha e muito popular nos anos 30.

O auge da carreira dos “Anjos do Inferno” teria sido nos anos 40, na ‘época de ouro’ do rádio.

Foram contratados pelas principais emissoras de rádio do Brasil, tocaram em cassinos e gravaram diversos sucessos de carnaval. O conjunto excursionou pela América Latina e Estados Unidos, onde acompanhou Carmen Miranda. No total, os “Anjos do Inferno” gravaram 86 discos pelos selos Colúmbia, Continental, Copacabana e RCA.

Curiosamente a mesma música foi gravada no mesmo ano pelo conjunto “Quatro Ases e um Coringa”, rival de “Anjos do Inferno”.

Dezessete e Setecentos, com “Quatro Ases e um Coringa”, 1947

Quatro Ases e um Curinga

Os “Quatro Ases e Um Curinga” foram um conjunto vocal e instrumental brasileiro, formado no Rio de Janeiro. Ao lado dos “Anjos do Inferno”, foram o grupo de maior sucesso na dita “era do ouro” do rádio brasileiro, principalmente nos anos 40.

No começo, todos os seus integrantes eram de Fortaleza, Ceará: Evenor Pontes de Medeiros . violonista e compositor; José Pontes de Medeiros, violonista e cantor; Permínio Pontes de Medeiros, gaitista e cantor; André Batista Vieira, o curinga pandeirista; e Esdras Falcão Guimarães, o Pijuca.

Em 1939, os irmãos Pontes de Medeiros, que estudavam no Rio de Janeiro, decidiram formar um quarteto vocal e instrumental com o amigo André Vieira, chamado de “melé”.

Depois de se formar em Química, dois anos depois, Evenor e os outros três viajam para Fortaleza, onde se apresentam na Ceará Rádio Clube, com o nome de Bando Cearense.

Foi então que se juntou a eles o violonista Esdras Guimarães. Por sugestão de Demócrito Rocha, eles adotaram o nome de ‘Quatro Ases e um Melé’. De volta ao Rio, entraram em contato com César Ladeira, diretor da Rádio Mayrink Veiga, que mudou o nome do grupo para “Quatro Ases e um Curinga, vez que ‘melé era um termo desconhecido no Rio de Janeiro.

Semana que vem tem mais…

PS: Samba-Calango mineiro, lançado em 1945 por Manezinho Araújo e que mereceu, dois anos mais tarde, este registro dos Quatro Ases e um Coringa, feito na Odeon em 18 de abril de 1947 e lançado em julho seguinte, disco 12784-B, matriz 8213.

10 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – “17.700”

Dezessete e Setecentos: que conta difícil prá daná!

Essa é uma das melhores da série. O acontecido é rotina do cotidiano. Questão de troco, aritmética rápida, somar e diminuir em dois tons.

A gente, nossa, lá de cima, adora um presepada, um embaraço, um pergunta charada, para, ‘quebrar o gelo’. Por isso, o dialeto lá do meu Nordeste é recheado de cifras e segredos.

Dia desses, me vi numa enrascada: há quase 40 anos aqui em São Paulo, vez por outra vem um vocábulo que está na memória mais ancestral. Eu disse: “Oh, Eva, tu tens um birilo para eu tentar futucar um buraco aqui e encontrar um pitoco” – Minha mulher, Eva, virou-se e aparvalhada, pediu: “Dá para repetir a frase inteira?. Eu só entendi a palavra buraco”.

É verdade que Evinha tem pequena deficiência auditiva, mas já nos entendemos pelo olhar. Pois bem, parece que o problema não foi nem futucar e nem mesmo pitoco. A questão foi a palavra que biliro, que confesso, não me lembro de pronunciar desde a infância. Minha avó, Maria, usava muito para fazer o cocó no cabelo.

Rápida no gatilho, minha mulher, agora com mania de google para cá, google para acolá, ameaçadora, disse: “Vamos ver se existe essa palavra!”, resmungou.

Ainda fiz um embargo declaratório: “Vá direto ao dicionário, que é o lugar correto de ser aprender o significado das palavras, mesmo os regionalismos”. Ela insistiu no ‘gugo’ e veio o metal berilo, por aproximação.
Insisti no dicionário – Aurélio, Houaiss, até Jânio servia -. O Michaelis resolveu: “birilo – (reg PB-PE) espécie de grampo para amarrar cabelo”.

Se estivesse jogando “forca”, estaria a um pé do cadafalso. Minha amada, então, só se ria. Salvei-mei pela convicção. Questão de memória afetiva, vocês entendem não é! Morrendo de medo…..

Afinal, ela não tinha birilo, nem grampo, não pude futucar, nem achar o pitoco (vernáculo eternizado nacionalmente pelo genial Antônio Nóbrega, que tem entre seus músicos um rapaz com esse singelo apelido).

Hoje, estou aqui para reproduzir aos senhores uma das canções que mais me encantam na série “Dose Dupla” – Crônicas, o humor, o jocoso etc.

Esse introito foi conversa de beira de calçada, ou de mesa de bar, que o encadeamento de ideias me impeliu registrar no papel.

Perdão, pois, se me alonguei. Mas, como diria Chicó, “tudo que disse acima é a pura expressão da verdade, embora não saiba nem dizer o porquê” (Ariano Suassuna).

A história da música “Dezessete e Setecentos” é longa e ensejará a feitura de mais um “Megaphone” que explicará, amiúde, os caminhos, inusitados por onde está canção de Luiz Gonzaga e Miguel Lima fizeram nos anos 1940. Trata-se, como citei acima de uma conta trivial de somar e diminuir, atrapalhada pela semelhança fonética das possibilidades de troco, para quem deu 20 mil réis para pagar 3 mil e 300…O jogo de palavras, a ligeireza, o contraponto de melodia e aliteração chegam as nos “embananar”. Eu já me embanenei….Ouçam com Gonzaga:

Dezessete e Setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima,com Luiz Gonzaga –
Álbum “Chamego”, de 1958

Eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Dezessete e setecentos!
Dezesseis e setecentos!…

Mas se eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Porque dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Sou diplomado
Frequentei academia
Conheço geografia
Sei até multiplicar
Dei vinte mango
Prá pagar três e trezentos
Dezessete e setecentos
Você tem que me voltar…
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!

Mas se eu lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Eu acho bom
Você tirar os nove fora
Evitar que eu vá embora
E deixe a conta sem pagar
Eu já lhe disse
Que essa droga está errada
Vou buscar a tabuada
E volto aqui prá lhe provar…

Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
É dezessete e setecentos!
É dezesseis e setecentos!…

Mas se lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Porque dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Não, pera aí
Mas se lhe dei vinte mil réis
Prá pagar três e trezentos
Você tem que me voltar
Dezesseis e setecentos!
Mas porque
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Mas olha aqui rapá
Dezesseis e setecentos!
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Mas não é dezessete e setecentos?
Dezesseis e setecentos!
Dezesseis e setecentos?
Dezesseis e setecentos!…

Então deixa
É por isso que não gosto
De discutir com gente ignorante
Por isso é que o Brasil
Não “progrede” nisso…

Aqui uma versão do grande Jackson do Pandeiro, mestre do coco, das emboladas, sambas, dono de grandes sucessos nacionais:

Sobre Miguel Lima, sabe-se que foi o primeiro grande parceiro de Gonzagão, antes mesmo de Humberto Teixeira. Os dois fizeram dezenas de parcerias, entre elas “Chamego”, gravado em 1944, por Carmem Costa.

As informações sobre sua origem e biografia são limitadas. Nem mesmo o “Dicionário de Ricardo Cravo Albin” consegue iluminar seus dados artísticos e biográficos…

Poderia ter recorrido a Abílio Neto, Bruno Negromonte, Xico Bizerra, Pelão e alguns mestres-pesquisadores amigos. Mas não deu tempo….

Semana que vem, tem mais….

3 janeiro 2017 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS SÁTIRAS E LETRAS JOCOSAS – PAULO VANZOLINI

Paulo Vanzolini, nosso zoólogo e compositor

Entre os indvíduos da zoologia que receberam seu nome estão Alpaida vanzolinii; Alsodes vanzolinii; Amphisbaena vanzolinii e Anolis vanzolinii.

Paulo Emílio Vanzolini se encaixaria perfeitamente no dito popular que afirma “a ciência perdeu uma grande nome, mas a música ganhou um mestre”.

Qual nada, Paulo Vanzolini, embora sempre afirmasse ser um cientista em primeiro lugar e que fazia música, de vez em quando, pela vocação de boêmio, foi grandioso nas duas atividades.

Um compositor de observação aguda do cotidiano, cronista, que fez também músicas belíssimas e marcantes.

Um dos fundadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Vanzolini foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico; e premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque, em virtude de suas contribuições para o progresso da ciência.

Entre suas grandes contribuições, adaptou a ‘Teoria dos Refúgios’, a partir de estudos com o geógrafo Aziz Ab’Saber e o norte-americano Ernest Williams.

Feitas as devidas e necessárias referências ao cientista Vanzolini, passemos a parte que aqui queremos abordar. Paulistano de 1924 (faleceu em 2013) fez muito mais do que ‘Ronda’, ‘Volta Por Cima’ e ‘Praça Clovis’. É compositor, por exemplo, de ‘Samba Erudito’.
Aliás, como boa parte dos ouvintes comuns, eu não tinha a mínima ideia de que ‘Ronda’, com Bola Sete e Marcia e ‘Volta por Cima’, por Noite Ilustrada eram da autoria de um zoólogo.

Primeiro aprendi a cantar e memorizei a deliciosa “Samba Erudito”, na voz, vejam só, de Chico Buarque, que nem tinha tirado ainda a carteirinha de cantor..

Mas ouvi demais. Achava as informações históricas surpreendentes para uma canção popular. Ficava muito confuso quando se referia a um “tal” de velho Pickard?”. Eu sei lá quem é Picar, rapaz!

Fui à enciclopédia e aprendi. Ouçam como ouvi a primeira vez….

Samba Erudito, de Paulo Vanzolini, 1967, com Chico Buarque

Andei sobre as águas
Como São Pedro
Como Santos Dumont
Fui aos ares sem medo
Fui ao fundo do mar
Como o velho Piccard
Só pra me exibir
Só pra te impressionar

Fiz uma poesia
Como Olavo Bilac
Soltei filipeta
Pra ter dar um Cadillac
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza

E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos

Andei sobre as águas (…)

Samba Erudito, de Paulo Vanzolini, 1967, pelo autor

Ah, ia me esquecendo. Afinal quem foi o tal Piccard, a que Vanzonlini, entre tantos inventores, descobridores e personalidades da história, introduziu em seu samba?

Confesso que, além de desconhecer o Piccard referido, digo que a família do sujeito é enorme e todos com alguma história para contar.

Vamos, então a ela: Auguste Antoine Piccard (é assim que escreve). Nasceu na Basileia, na Suíça, em 1884, e morreu em Lausanne, em 1962. Foi físico, inventor e explorador suíço.
Entre suas principais invenções está o batiscafo, espécie de submarino, utilizado para pesquisas em grandes profundidades. Ele e seu irmão gêmeo (olha aí!) Jean Picard foram também balonistas.

Calma, tem mais: seu filho, Jacques Piccard, desceu ao fundo das ‘Fossas Marianas’, no Pacífico, além de ser conhecido como hidronauta e explorador. Sim, tem mais: Bertrand Piccard foi aeronauta e balonista; Jean-Felix Picard, químico orgânico, aeronauta e balconista; Jeanette Piccard (mulher de Jean Felix) aeronauta e balonista; e dom Piccard, balonista. Espero ter sido fiel à brilhante família!!!

Feliz ano novo! Semana que vem tem mais…

27 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICAS, HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

Noel e suas deliciosas cronicas e letras jocosas

Ói eu aqui de novo, me deliciando com as obras de Noel Rosa, que tão bem se encaixam na temática desta última série que resolvemos compilar – “Dose Dupla, com Crônicas, Humor, Sátira e o Jocoso na MPB”.

A permanência em três colunas sucessivas trazendo Noel é mais que justificada. Posso afirmar que ainda vou ficar devendo muita coisa.

No caso de “Gago Apaixonado” tenho a canção e principalmente a sugestiva letra de memória desde que o MPB-4 a gravou em 1970, no disco “Deixa Estar”.

Foi desse jeito que aprendi, mas existe uma dezena de outras versões.

Curiosamente, pesquisando o assunto, deparei-me com trabalho de Aquiles, um dos membros fundadores do MPB-4, que estava envolvido em projeto sobre o “Gago”.

Produziu um áudio-livro-pôster reunindo três experiências em uma plataforma: é ao mesmo tempo um pôster da letra “Gago apaixonado”, que Aquiles aponta como samba genial e inventivo composto por Noel Rosa em 1930, cuja concepção poética, repleta de repetições próprias da gagueira, leva a efeitos sonoros e gráficos que anteciparam em décadas o experimentalismo na poesia brasileira.

Não à toa – continua Aquiles – o escritor Mário de Andrade (1893-1945) autor da contemporânea obra Macunaíma (1928), era fascinado por Noel.

Inclui também dois textos inéditos escritos por Aquiles Rique Reis, desde sua fundação, em 1964: um tem função de apresentação biográfica; o outro vai ao humor para recriar ficcionalmente a rixa entre Noel e o também cantor e compositor Wilson Batista (1913-1968).

A terceira experiência, propiciada por “Gago apaixonado”, é auditiva: por meio do recurso QR Code, disponível em smartphones, é possível ouvir a gravação original de Noel Rosa, de 1931.

O flerte com a tecnologia também pode, quem diria, nos transportar ao passado. A arte do poema “Gago apaixonado” ocupa uma área de 62 x 43 cm e foi pensada como um pôster para, desdobrado – e aí está uma função táctil, que antecede à visual -, poder ser emoldurado. Custa R$ 10,00 e está à disposição na Banca Tatuí, São Paulo, capital.

A outra interpretação que trago para hoje é do excelente e sempre sincopado João Bosco, de humor, ritmo e riqueza de canções também de enorme valor:

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

Semana que vem, tem mais.

Feliz Ano Novo para todos os fubânicos, amigos e leitores…

20 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – CRÔNICA, HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

Noel Rosa – João Ninguém

Os queridos leitores podem até pensar: mas se for tudo de Noel, qualquer um faz. O que não falta no arsenal de grandes sucessos de Noel é grande quantidade e qualidade de sua obra. E mais, nela, é visível a predominância do humor, da crônica e da visão heterodoxa do mundo.

É isso mesmo e não nego. Noel é fonte eterna de inspiração de grandes histórias de amor correspondido ou não – Três Apitos – de crônica literária – Conversa de Botequim – e até marchinha de Carnaval – As Pastorinhas (esta com Braguinha).

Como diria Caetano, é uma pletora de canções, melodias e letras, que, por si só, compõem um segmento próprio da música brasileira.

Esta reprodução, que trago para os senhores, traz um brinde especial: é cantada pelo próprio poeta. Para quem não conhece sua voz…..

João Ninguém, de Noel Rosa, com Noel Rosa – 1935

Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar…
Num vão de escada
Fez a sua moradia
Sem pensar na gritaria
Que vem do primeiro andar

João Ninguém
Não trabalha e é dos tais
Mas joga sem ter vintém
E fuma Liberty Ovais
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

João Ninguém
Não tem ideal na vida
Além de casa e comida
Tem seus amores também
E muita gente que ostenta luxo e vaidade
Não goza a felicidade
Que goza João Ninguém!

João Ninguém não trabalha um só minuto
E vive sem ter vintém
E anda a fumar charuto
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

Fazendo a parelha do ‘Dose Dupla’ de hoje, um outro mestre da música brasileira, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que assim como os compositores em geral, não têm a voz como seu melhor instrumento. Mas vejam como está afinado e bonito…

João Ninguém, de Noel Rosa, com Tom Jobim

Aos leitores e amigos que enviaram sugestões, quero dizer que estou trabalhando em cima das músicas e incrementando suas conexões.

Até semana que vem. Como Noel faria aniversário no último dia 11, tenho a impressão que trarei mais um Noel em sua homenagem.

PS: Liberty Ovais (antigo cigarro da Souza Cruz).

13 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


SÉRIE DOSE DUPLA – HUMOR, SÁTIRA E O JOCOSO NA MPB

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Noel e suas deliciosas cronicas e letras jocosas

Estava com “Samba Erudito” na cabeça, do nosso querido zoólogo-compositor Paulo Vanzolini, muito mais conhecido por “Ronda” e “Volta por Cima”.

Dei conta de quanto aprecio as letras jocosas, engraçadas, com humor. Lembrei-me de “Pistão de Gafieira”, de Moreira da Silva, todo o universo de Genival Lacerda, que ultrapassa a tênue linha do jocoso para o safado, a dupla intenção, tão difundida no Nordeste.

O brequistas, Moreira e Bezerra, por exemplo, Jards Macalé, Mautner na sátira. Foi que me recordei de Noel, talvez o melhor de todos, na crônica do cotidiano, na auto-depreciação, no relato de situações engraçadas e satíricas.

Não me arriscarei em rever a biografia de Noel ou mesmo parte dela, para não incorrer numa repetição desnecessária. Afinal, quem não conhece Noel?

A única coincidência é que no último domingo, dia 11 de dezembro, foi aniversário da data de nascimento do poeta da Vila. Nasceu no Rio, em 1910 e morreu na mesma cidade, em janeiro de 1937, aos 26 anos.

Hoje, fui atrás de gravações mais antigas e o contraponto com uma versão diferente, além da que Djavan gravou no Songbook de Almir Chediak. Primeiro encontrei, na voz de Almirante: 

“Tarzan (Filho do Alfaiate)” – de Noel Rosa e Vadico, 1936 com Almirante

Quem foi que disse que eu era forte?
Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol…
O meu parceiro sempre foi o travesseiro
E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol
A minha força bruta reside
Em um clássico cabide, já cansado de sofrer
Minha armadura é de casimira dura
Que me dá musculatura, mas que pesa e faz doer

Eu poso pros fotógrafos, e distribuo autógrafos
A todas as pequenas lá da praia de manhã
Um argentino disse, me vendo em Copacabana:
‘No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan’

De lutas não entendo abacate
Pois o meu grande alfaiate não faz roupa pra brigar
Sou incapaz de machucar uma formiga
Não há homem que consiga nos meus músculos pegar
Cheguei até a ser contratado
Pra subir em um tablado, pra vencer um campeão
Mas a empresa, pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato quando me viu sem roupão

A gravação recente, que achei sintonizada com a intenção de Noel Rosa, na sua mais genuína produção, foi a de Zeca Pagodinho:

Certa vez, colhia um depoimento do grande amigo Pelão para uso numa publicação em que trabalhava para lançamento ainda em janeiro de 2016, “São Paulo, um estado de emoções”, para a qual dizia algumas palavras que usei no livro.

Porém não há encontro à toa, quando o interlocutor é Pelão. Claro que aproveitei o papo agradável e alto nível de informação para fazer algumas perguntas fora da pauta.

Lembro que falei sobre a feliz parceria de Noel, com o paulista Vadico, para mim uma curiosidade muito grande.

Pelão, com sua franqueza inegociável, falou: “Olha Macedo, o Vadico foi um ótimo artista, um grande pianista, aqui do Brás, mas Noel era Noel. Um homem que, em oito anos, deixou mais de 400 músicas de qualidade, morrendo aos 26 anos, é inigualável”.

Antes de concluir, quero registrar também a versão cantada por Djavan, que foi a que me formou em “Tarzan”. Lá vai.

O arsenal de canções incluídas nesses gêneros ou jeitos de compor é muito amplo.

Semana que vem, volto com o próprio Noel ou Vanzolini, os de breque, Aldir Blanc e tantos outros. Aliás, aceito sugestões.

6 dezembro 2016 MEGAPHONE DO QUINCAS


MÚSICAS INSTRUMENTAIS QUE RECEBERAM LETRA EM OUTRO TEMPO

gil

Dia 13 de dezembro: choro de 1953, letra de 1986

No sábado, me deliciava, aqui em casa, com o DVD Spock e Orquestra Forrobodó, mais um trabalho de qualidade do Spok, agora navegando pelo repertório do forró.

O trabalho reuniu alguns dos melhores clássicos do gênero. Quando chegou a faixa 08, “Treze de Dezembro”, com o grupo do maestro Spok e a participação do grande sanfoneiro Gennaro, eu me deti.

Curioso é que, em seu depoimento para o DVD, Gennaro, diz, quase espantando que, quando ouviu pela primeira vez a melodia afirmou: “fiquei sabendo que a música era de Gonzaga, aí eu disse para todo mundo ouvir, quem disse que Luiz Gonzaga não é um exímio instrumentista?”.

Dentro do tema que venho trazendo nesta coluna sobre as músicas instrumentais, que não são compostas simultaneamente com a letra e aquelas que só recebem os versos anos e até décadas depois, lembrei-me que “Treze de Dezembro” é um caso especial e, ao contrário do que sugeria quando comparava algumas obras de Pixinguinha, esta ganhou em conteúdo, não feriu e melodia e trouxe a obra, nem tão conhecida, embora bela, para o grande público.

O choro “Treze de Dezembro” foi composto por Luiz Gonzaga, no início dos anos 1950. No primeiro disco, no registro oficial, a composição vem como uma parceria com Zé Dantas, equívoco atribuído ao fato de que os dois estavam numa fase intensa de composição conjunta de músicas e letras.

Vamos ouvir inicialmente a melodia com a sanfona pura de Gonzagão, só instrumental:

“Treze de dezembro”, Luiz Gonzaga (e Zé Dantas) – 1953

Pois bem, Luiz Gonzaga, o “rei do Baião”, nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, em Exu, estado de Pernambuco.

A data foi tornada “Dia Nacional do Forró” e, em 1986 ganhou a letra de Gilberto Gil homenageando Gonzaga. A canção, portanto, foi completada cerca de 30 anos depois. E ficou assim:

“Treze de Dezembro”, de Luiz Gonzaga, letra de Gilberto Gil – 1994

Treze de dezembro

Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze de dezembro
Nasceu nosso rei
O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei jamais

Ao contrário do que considerei em músicas como “Rosa” e principalmente “1 a 0”, que, a meu ver, dispensariam letra pela beleza da composição original na forma instrumental, considero que “Treze de Dezembro” ficou uma obra mais completa e adequada com a letra-elegia de Gilberto Gil…


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