VERSOS DO LÁ FORA

Foto do colunista – Em Riachão do Bacamarte-PB

A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.

As portas eram caducas,
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“– Nessa casa aqui tem gente!”

Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh! Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!

Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!

Poema do livro Berro Novo

ALTO NÍVEL DO DEBATE POLÍTICO NACIONÁ

Cada candidato dirige um desaforo ao adversário com direito a uma réplica de dois segundos:

– …Saiba Vossa Excelência que na minha cabeça ninguém caga.

– Pois fique sabendo que comigo a parada é dobrada, escreveu não leu o pau comeu.

– Comigo não tem pescoço, tudo é gógó.

– Comigo ninguém tira leite com espuma.

– Pois vamos emendar as camisas pra ver a tapa voar?

– Eu emendo sim as camisas, pois quando me abufelo madeira sobe de preço.

– Pois fique sabendo que eu sou uma pessoa que nunca morreu e não tem inveja de quem morre.

– E eu sou uma pessoa que nunca morreu e nem tem inveja de quem Deus já matou.

– Pois pise no meu pé e diga quantos murros quer.

– Pise no meu e veja quem se fodeu.

– Retire essa palavra do debate.

– Minha palavra é feito peido, não tem retorno; pronto.

GRAMÁTICA NO INTERIOR

A professora explica ser a língua portuguesa muito curiosa. Nela havendo expressões que, embora contendo termo negativo, indica afirmação. Exemplo: “Pois não”.

O aluno, beradeiro da roça, bota beiço caído no assunto, discorda e diz o porquê:

– Pfessora!!! Isso é na cidade que só tem apartamento. Lá no sítio a expressão “pois não” é negativa mesmo.

E justifica:

– Se mãe perguntar: “Ohhh Biuzinho!!! A galinha pôs ovo?” Eu respondo “pôs não!!!!!”. Esse “pôs não” é negativo ou não é???

PAISAGEM DE INTERIOR

RODAI POR NÓS, LAVRADORES

Vagem Tambor

Senhores caminhoneiros,
Rodai por nós
Kombeiros, taxistas, carroceiros,
Rodai por nós
Ônibus e trens estradeiros,
Rodai por nós.

Cocão do carro-de-boi,
Cantai e rodai por nós lavradores
Sem bora e vambora
Amém.

Poema publicado no livro Berro Novo

PANO DO LEITE

Ninho de casaca-de-couro. Estrada de barro – Cariatá, distrito de Itabaiana-PB.

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“- Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

Publicado no livro Berro Novo, 2010

CERCAS & FRONTAIS

Há cerca nas redondezas
Há cerca pelos currais
Há cerca nos condomínios
Há cerca nos milharais
E, há cerca de infindos anos
Não há cerca nos frontais
Planetas, sóis e relâmpagos
Vagueiam de pirilampos
Nas curvas celestiais.

Do livro Papel de Bodega

ÔHH DE CASA!!

Saletazinha de estar – Casa de Dona Otávia. Mogeiro de Baixo-PB (Foto do colunista)

A porta dura fechada
Com a chave que fecha a dura
A rede pensa armada
Bordada na curvatura
Uma poltrona sentada
Retrato dando risada
Do tempo da formatura.

O guarda-roupa de pé
Cama patente deitada
Uma mesinha de quatro
Com as cadeiras cansadas
Um fogãozim Jacaré
E a geladeira gelada
Uma lixeira nos fundos
Com a pá de lixo enfiada

Um abanador de palha
Um fogareiro sem brasa
E gente batendo palma
Dizendo assim:
Ôhh de casa!!

Do livro Prosa Morena

MATUTO NO CINEMA

TREM DA GREAT WEST

TRÊS AÇÕES AVACALHATIVAS

Meu cumpade e Papa Berto I

É de perplexidade o assunto.

Numa única semana, vi, nas redes sociais e no noticiário de TV, pelo menos três ações avacalhativas, que me deixaram perplexo e até pensar estar sofrendo da bola.

Uma foi a do Deputado Fufuca. A primeira vez que viçou, cruzou logo com o touro da presidência da Câmara.

Êita pau!

Outra foi a intenção esbaforida do governo, de rever leis ambientais em reservas de floresta, área indígena e de mineração, tudo ao sabor dum vexame, como diz o matuto, que não tinha vexame. Esta, (por enquanto), questionada pela justiça e pelo povo.

Como diria Reinivaldo “o Crente”: tem ciênça nesse pé de pau!!

A terceira, uma de derrubar o queixo, e, brilhantemente relatada por José Paulo Cavalcanti, na crônica: “Minha terra tem palmeiras”; foi de quando a motosserra roncou, bem dizer, na mão de um partido que se diz ético, esquartejando uma palmeira adulta, pra passar com um trio elétrico que Deus o livre.

Tenho um poema chamado “Coco do pé de manga”, do livro Papel de Bodega que diz:

As mangueiras tão de luto
E as mangas de sentimento
Derrubaram um pé de manga
Pra fazer um apartamento.

Pergunto, por que não:

As palmeiras tão de luto
E as árvores de sentimento?

Confiram uma versão pedagógica da garotinha Heloísa, de 10 anos da cidade de Areia-PB, cantando de pandeiro na mão.

Recebi este vídeo do cumpade e cantador Vital Farias.

MISS FEIURA NENHUMA

PAPEL DE BODEGA

“COCO DO PÉ DE MANGA” POR JESSIER QUIRINO

NO PROGRAMA DE BOLDRIN

QUENGAS EM GREVE REPERCUTE NO PLANALTO

Foto do colunista

O Conselho Deliberativo da Quenguetu, associação que representa as Quengas, decreta Greve Geral de 7 dias em Brasília, e cobra, da classe política, a devolução imediata da palavra Cabaré.

Segundo a porta-voz Josefa Pragatão, a reivindicação visa, principalmente, o direito de posse e do Patrimônio Imaterial do vocábulo: “Cabaré”.

Faremos uma grande quengada (pacífica), disse Pragatão, para denunciar também, o uso pejorativo e adulterado de expressões afins, tipo: ‘quengas do Niemeyer’; ‘verdadeira zona’; ou mesmo: ‘virou um beréu’; usadas nas Casas Legislativas de Brasília.

Tal procedimento, além de faltar com o decoro, incita conduta semelhante em estados e municípios.”

Estão confirmando apoio, as seguintes agremiações parceiras da Quenguetu:

Estreito da Galheira
Beco do Gravatão
Buraco de Dona Otília
Do Pau-torto & Sovacão
Bar da Taiáda da Jega
Esquina do Lasca-e-trinca
Sovaco do Cururu
Atolado da Frieira
Rua Velha e Beira Seca
E do Beco do Tejú
Bar do Apertado da Hora
E Pinguela do Tauá
Beco do Quebra Pote
Estreito do Quixelau
Rua do Grude e da Merda
Escorrega Lá Vai Um
E, Beco do Eita Pau.

Na categoria Frotista, já confirmam apoio:

Quo Vadis sex shop; Rongó Meretriz; Roscofe Carrocerias; Shopping Mulatinha; 69naCorrente; Monoquíni; Tribuna Nupcial; Momento Supremo; Patchuca Locações; Estaca10; Pau-patriota; Remcá Mulé Rendeira; Libruína e Pecado.

Em caso de divergência a Quenguetu promete, como retaliação, denominar suas ruas e entornos com o sugestivo nome de: Praça dos Três Foderes.

SONHOS DE UMA CIDADEZINHA MAIS OU MENOS

Faixa 3 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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LUA DE TAPIOCA

Quando a lua se faz de tapioca
Com a goma e o coco a me banhar
Sinto meu coração corcovear
Por estar no abandono abandonado
E sozinho que nem boi de arado
Me avermelho que é ver flor de quipá
E se algum alegreiro me jogar
Tanto assim de alegria, eu arrenego
Porque fico que nem olho de cego
Que só serve somente pra chorar.

É a lua acendendo a lamparina
E meu facho de luz a se apagar
Com as bochecha chorada a se chorar
Taliquá mamão verde catucado
Mas porém, sinto meu peito caiado
Quando vejo de longe o riso teu
Igualmente a um morrido que viveu
Peço que teu socorro não demore
E que só minha fala te sonore
E que dentro de ti só more eu.

Poema publicado no livro Prosa Morena

A CUMEEIRA DE AROEIRA LÁ DA CASA GRANDE

Letra e música deste colunista.
Participação especial de Maciel Melo

UM NERVOSO E O OUTRO SAI DO MEI

Um japonês entra num ônibus que vai de Campina Grande pra Recife e diz ao motorista:

– Olhe, seu motorista, eu tou indo pra Olinda, mas como eu tou muito cansado, vou dar um cochilo e temo não acordar e passar do ponto. Gostaria que, antes de chegar em Recife, o senhor me acordasse na passagem por Olinda, ta certo? Se eu acordar meio afobado, se, até mesmo eu xingar o senhor, não ligue, eu sou assim mesmo. Pode me botar pra fora na marra. Eu quero é descer em Olinda, ta legal?

– Ta legal! Pode deixar comigo, Seu Japa!

Só que, quando o japonês acorda, pra sua surpresa, dá de cara com o terminal de Recife, lá no Curado, pra lá da Caixa-Prego, e, de venta acesa, parte pra cima do motorista com cachos de fela-da-puta, corno e seu bosta irresponsável.

Um passageiro vendo a cena comenta com o passageiro do lado:

– Mas que japonêzinho nervoso da gota!!!!

E o passageiro retruca:

– Nervoso? Ora bom basta! Cê tinha que ver o outro japonês que o motorista botou pra fora lá em Olinda… Aquele sim…


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