MANÉ CABELIM LTDA.

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 14 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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VÉSPERA DE FEIRA

São circos velhos quadrados, montados sem picadeiros
Pá,pá,pá e tome prego
Pá,pá,pá e tome prego
Puxa e repuxa arame; tome-lhe cunha e martelo.
Depois vem a empanada… assim, sem pano e sem nada.

Pi-bit! – Buzina os beiços
Avança um carro de mão, na mão e na contra-mão
Cachaça sem água tônica conduzindo a condução.

Óh o mei!…Óh o mei!….Óh o mei!!!
Passa um trem de chapeados
Um doido mamando gelo debocha dos desgraçados
É o pega-pa-ca-pá  que começa  incapetado.

Feirantes, galinhas e catrevagens
Se debulham da espiga duma velha lotação
Boléia deselegante de  alma chevrolezante
Travesti de caminhão.
Chega a discriminação discutir com dois pneus:
É um vira-lata rajado, magro, desqualificado
Que nem sabe onde nasceu.

Caçula sem caçulagem, fala com sua vidinha:
Eu não posso mais comigo… Filho de nada é nadinha!!
Ô calorzão aloprado! – Fala o pai, de mão inchada
Aterrando com farinha as tripas enfastiadas
E um lipigute de cana, duma garrafa à paisana
Aprumando a cusparada.

Cascas das primeiras frutas abrem escalas pelo chão
Causando ascensão e queda do primeiro escorregão.
Ah! Ah! Ah! Diz o sorriso… – Qualé a graça que há?
Todo cristão abusado tem queda pra escorregar!

Melancias: beiços verdes de sorridão encarnado
Jacas: peitinhos duros, abacates barrigudos do verde e do roxicado
As cabeleiras dos milhos, e carradas de cajus com castanhinhas no colo
E rabos de abacaxis  cheios de não-me-toques
Para tanta alegoria vão precisar de reboques!

É isso mesmo meu chapa! Todo feirante dá duro!
Encosta numa rudia, e é  noite em claro… no escuro.
No bate-asas dos galos, sacode toda preguiça feito cachorro molhado
Penteia a pessoa dele assim mei descangotado
Engole qualquer mastigo, diz que tá de sangue novo
E vai todo esprivitado
Caçar os últimos trocados da luta braba do povo.

O NÃO DO AMOR

Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.

Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.

Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.

Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.

Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.

MATUTO DOENTE DAS PARTES

No tronco do ser humano
Nos finá mais derradêro
Tem uma rosquinha enfezada
Que quando tá inflamada
Incomoda o corpo intêro.

Se tossir se faz presente
Se chorar se faz também
O cabra não pode nada
Com nada se entretém
Eu lhe digo meu cumpade
Não deseje essa maldade
Pra rosca de seu ninguém.

Não sei o nome da cuja
Desta cuja eu tiro o “ja”
O que resta é quase nada
Bote o “nada” na parada
Quero ver tu agüentar.

Eu lhe digo meu cumpade
Que é grande humilhação
Um cabra do meu quilate
Adoecido das parte
Fazer uma operação.

Não suportando mais dor
O meu ato derradeiro
Foi procurar um doutor
Do “Bocá do Arenguêro.”

Do Bocá do Arenguêro
Fejoêro, Fiofó
Bufante, Frescó e Lôrto
Apito, Brote e Bozó.

De Furico, Fedegoso
Piscante, Pelado e Bóga
Fosquete, Frinfra e Sedém
Zuêro, Ficha e Vintém
De Ás de Copa e de Fóba.

De Oití, Ôi de Porco
Ané de Couro e Caguêro
De Gira-Sol e Goiaba
Roseta, Rosa, Rabada
Bôto, Zero e Mialhêro.

De Nó dos Fundo e Buzéco
De Sonoro e Pregueado
Rabichol, Furo e Argola
Ané de Ouro e de Sola
Boca de Véia e Zangado.

Um doutô de Aro Treze
De Peidante e Zé de Bóga
Que não aperte o danado
Nem deixe com muita folga.

Um doutô piscialista
Em Bocá da Tarraqueta
Doutô de Quinca e Dentrol
Zebesquete e Carrapeta.

Doutô de Rosca, Rosquinha
Tareco, Frasco e Obrom
Ceguinho, Butico e Zero
Tripa Gaitêra e Fom-Fon.

Mialhêro e Mucumbuco
Buraco, Brôa e Boguêro
For Ever, Cruaca, Urna
Gritadô, Frande e Fuêro.

Cano-de-Escape e Pretinho
Rodinha, X.P.T.O.
Zerinho, Subiadô
Tripa Oca e Fiofó.

Um doutô de Helidório
Ou de Boca de Caçapa
Que não seja inimigo
Também não seja meu chapa.

Tratador de Canto Escuro
De Boréu ou de Cheiroso
De Formiróide e Alvado
De Parreco e de Manhoso.

De Chambica e Cibazol
Apolonio e Fobilário
Bilé, Briôco e Roxim
Fresado, Anílha e Cagário
Vazo Preto, Zé Careta
Olho Cego e Espoleta
Fuzil, Fiôto e Fuário.

Não é doutô de ovário
É doutô de Oriol
De Cá-pra-nós e Bostoque
De Futrico e de Ilhó.

De Culiseu e Caneco
Roscofe, Forno e Botão
De disco, de Farinheiro
De Jolí, Fundo e Fundão
De Quo-Vadis e Fichinha
Que não venha com gracinha
E que que não tenha dedão.

Um doutô de Zé de Quinca
Canal 2 e Cagadô
Buzina, Vesúvio e Cego
Federá e Sim-sinhô
Fagulhêro e Zé Zoada
Rosquete, Fim de Regada…
…Eu só queria um doutor.

O doutô se preparou-se
Parecia Galileu
Aprumou um telescópio
Quem viu estrela fui eu
Ele disse arribe as perna
– Tenha calma, sonho meu
A partir daquela hora
Perante Nossa Senhora
Não sei o que sucedeu.

C’as força da humildade
Já me sinto mais milhó
Me desejo um anus novo
Cheio de verso e forró
Pros cumpade, com franqueza
Desejo grande riqueza:
Saúde no fiofó.

PENSAMENTO SERTANEJO

Tou pensando nos pássaros sertanejos
Quero-quero e anum carrapateiro
Tou pensando no canto boiadeiro
Êh êh êh…rê ! Malhada e Ventania !
Tou pensando no sapo, rã e jia
Orquestrando o amem da hora santa
Na insônia do grilo que me encanta
Na leveza dum fole bem tocado
No vergel que se espalha no roçado
No prazer de ver planta que se planta.

Trago no assoalho da garganta
O entalo de lindos pensamentos
Da tristeza amuada dos jumentos
Tais e quais um bruguelo desbriado
Do vexame bem dispranaviado
Do doidim que traz água na ancoreta
Do cachimbo de Dona Mariêta
Numa reza de limpa de quebranto
Do espelhinho, missal, de terço e santo
Na banquinha do lado da maleta.

Tou pensando na sala e na saleta
Com jarrinho de flor bem aguádo
Na fachada triângulo bem pintado
Rodeado de traços em relevo
Vira-lata mijão fazendo frevo
Quando avista seu dono despresente
Lavadeira batendo lentamente
Tricoline, fustão, bramante e linho
E um menino caçando passarinho
Badocando e pisando mansamente.

Tou pensando no homem paciente
Com direito de ali nunca ter nada
Do trabalho arrastado na enxada
Cavucando o terroso continente
E apesar de sofrido este valente
Solta um riso risido e clareado
Faz um verso na hora improvisado
Tão inédito que nunca é repetido
Quem não  presta atenção sai ressentido
De perder o que nunca é reprisado.

Tou pensando no cego ter falado
Que a idade não capa pensamento
Que fumaça não tapa firmamento
Que igreja não capa o vigário
Que cadeia não cura o salafrário
Que senado não pune o deputado
E o ceguinho fazendo o pontiado
E molhando a palavra numa cana
No balcão da bodega de Mãe Nana
Com cerquinha pros copos emborcados.

Tou pensando aqui com meus lembrados
No aconchego da casa praciana
No terraço se tira uma pestana
Depois dum almocim bem palitado
Essa casa tem jeito alpendrado
Tem o dom de não ter uma garagem
Tem um muro baixinho e arvoragem
E o ambulante gritando: Garrafeeiro!!!
Êh  jornal, êh  garrafa, êh litro e meio!
E os moleque juntando a miudagem.

MATUTO BOM DE CAMA

O matuto, véio-madurão da casca grossa, casou-se com uma matutinha bem mais nova que ele. No primeiro parto da mulher, nasceram três bruguelinhos, desses de dar gosto de olhar.

O Doutor trouxe as crianças, uma a uma, e colocou dentro dum cesto grande, forrado de branco e sapecou a pergunta:

– O senhor é o marido dessa senhora que teve três crianças?

– Sô sinhô!

– Mas que velhinho danado é o senhor! Fazendo três filhos de uma só vez?!

– Ah Doutor, e é porque a cama lá na hora, pufo!!! se quebrou… Se não tivesse se quebrado a gente tinha enchido esse balaio!

.

UMA PAIXÃO PRA SANTINHA

Xanduca de Mané Gago
Tinha querença mais eu
Me vestia de abraço
Bucanhava os beiço meu
Era aquele tirinete
Parecia dois colchete
Eu in nela e ela in nêu.

No apolegar das tetas
Nos chamego penerado
Nas misturação das perna
Nos cafuné do molengado
Nos beijo mastigadinho
Nos açoite de carinho
Nós era bem escolado.

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UM SONHADOR MAGINANDO

Música da autoria deste colunista, interpretada com Dominguinhos.

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jessier-e-dominguinhos

PARAFUSO DE CABO DE SERROTE

Declamado pelo colunista, Jessier Quirino:

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Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço, armador
Enxadeco, fueiro e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco, alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega sortida cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom… tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá a justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho, cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum maço de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se puxa uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjembradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio com flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides com copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira-gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Uma rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado no sabão
E o bodegueiro despacha ao artesão
Um parafuso de cabo de serrote.

O CUSCUZ DO DIA-A-DIA

Em matéria de mei doido
Eu me sinto mais ou menos
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.

Usei palavras plebeias
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.

Palavras soltas, baldias
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.

Conversei com flamboaiãs
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras
No sertão do pensamento.

Senti, naquele momento
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.

Sem rodeio e sem pantins
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.

A VIDA É ASSIM MESMO, DE VEZ EM QUANDO ENGANCHA…

Aparentemente sim
Até certo ponto não

Mote de José de Souza (Rio Grande do Norte) que utilizei pra descrever a foto que me foi enviada pelo colunista fubânico Zelito Nunes, com a mensagem de final de ano: “A vida é assim mesmo, de vez em quando engancha…”

ng

Dois cadelos amorudos
Pós-cópula de mei de rua
Ele nu e ela nua
Feito um bailado de trança
Causam maior emboança
Na flor da população.

Mandam buscar no sertão
As câmaras de segurança
Um perito em putanhança
E tome perguntação:

– É chulice?

– É putaria?

– Cachorrada, sodomia?

– É o big-brode do fim?

– Aparentemente sim
  Até certo ponto não.

É O CHICOTE DO VERSO A LAPEAR

Cantador-repentista é quixabeira
Dando fruto num chão esturricado
Espaneja o sertão empoeirado
Canta o sulco da terra preciosa
Canta o branco do leite da Mimosa
Canta a água embaçada dos barreiros
Canta a forte cantiga dos cardeiros
Dez mil vezes mais forte que as rosas.

Vai-se embora cumpade cantador
Pega o espiche delgado dos gravetos
E faz dele um frondoso juazeiro.

Pega o vento que escasseia no terreiro
E faz dele um ventinho assanha-franja.

Canta os olhos cegantes de Maria
Canta o sol por detrás da morraria
Nodoando o infinito de laranja.

Não esqueça o versejo aperreado
Do matuto esbarrado por fadiga
Milharal entre a cruz e a espiga
Nem a mão suarenta na enxada.

Caveirame de rês encarniçada
Enlutando a couraça dos vaqueiros
Planta os versos nas fendas dos lajeiros
Que poemas campeiros vão florar.

Vai cantador dos carcarás
Vai cantador da jericada

Canta o mato, o monturo e a garranchada
Pois o mato taí pra se cantar
Dá-lhe cantador dos trapiás
Dos barreiros nas mãos das lavadeiras
Dá-lhe cantador das carpideiras
É o chicote do verso a lapear.

ALÉM DAS PRECES

A triste seca já voltou
E a asa-branca agourou e já bateu a asa
Plantação defunta no oitão de casa
O chão em brasa
A triste seca já voltou

Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que o verde do teu vestido se espalhe na plantação,
Que o amarelo seja puro e adocicado,
E que a brancura seja a cor da floração,
E que o vermelho sejam flores parecidas
Com os beicinhos das luzidas, “caboquinhas” do sertão

Que não se veja um sertanejo se ajoelhando
Pedindo chuva perante Cristo sonolentos
Que não se veja um solo rachado e sedento
Que sem sustento, às vezes se ajoelhando
Que não se veja baraúna jejuando,
Chorando folha numa paisagem cinzenta
Que não se veja fila de latas sedentas,
Salário d’água matando a sede matando

Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que a fita do teu vestido faça uma festa de cor
Eu quero ver resina de catingueira
Ser o chiclete na boca do meu amor
E que a sanfona toque um xote na colheita
Pra dança das borboletas enfeitadeiras de flor

(Quem vive pelo sertão já vive sertanejado
Pois a chuva não choveja, nem troveja no cerrado
E o sertanejo valente guarda sempre uma semente
Pro inverno abençoado)

ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

PAIXÃO DE ATLÂNTICO NA BEIRA DO MAR

No estilo de poesia galope à beira-mar, muitas vezes se descreve a cena litorânea na visão da terra pro mar. Vamos ver como seria uma voz de lá pra cá.

Não passo de um pobre e minúsculo Atlântico
Diante da moça que vem se banhar
Princesa dos raios de brilho solar
Que mostra pra gente que o ouro é ralé
Uma espuma finíssima me veste a maré
Qual nata de leite depois de amornar
E a Deusa se achega, de bem comparar
Descida das nuvens que rimam com sonho
E eu pobre Oceano, não tenho tamanho
De ser seu parceiro de beira de mar.

E a moça abeirando meus véus de espuma
Olhar de cupido a me recear
Aqui… bem aqui! O cabelo a voar
De cor, cor-de-cuia de louro brejeiro
Seus pés, de mansinho, me tocam primeiro
E a boca em suspiro aspira o meu ar
Recolhe os bracinhos a se arrupiar
E se carrapixam os poros e pelos
Os outros primores, eu nem pude vê-los
Morri de Atlântico na beira do mar.

De lenda e sereia a moça se agacha
E põe-se ditosa a me baldear
Um fogo de afago me faz fervilhar
Borbulhas de flauta perfume reseda
Uma pele macia – qual capa de seda
Dos amendoins no afã de torrar
No raso das águas se faz cobrejar
Em colcha de espuma de puro chenill
E o “A” de paixão se afoga no til
Na onda de Atlântico da beira do mar.

RESENHA MATUTO-ESPORTIVA

Quadrangular decisivo
Na Baixada da Graminha!
Aripuá de Besouros
E Atlético Cebolinha
Jogam nesta terça feira
Com Fodões da Gameleira
E Sport  Carreirinha.

Atlético Gancho do Galo
E Esportivo do Feijão
Empataram em  doze a doze
Na baixa do Miguelão
Esporte Severinim
Desempatou no finzim
Sai invicto e campeão.

Aviso pro Romeirão
De Capoeira do Milho:
Linguinha não vem jogar
Pois a mulher teve filho
Patativa e Polegada
Vão bater uma pelada
Na baixada dos Novilho.

Lista dos classificados
Pra jogar na capital:
Papangu da Barra Mansa
Criciúma do Mingau
Pelotas do Sítio Novo
Esportivo Varapau
Operários do Pau Grosso
Esporte Clube Caroço
Traíras e Capiau.

Tuna-Luso dos Doquinhas
Vence Esporte Mulungu
O Nacional de Barrancos
Perde para o Pajeú
Esporte Clube Cansaço
Levou catorze golaço
Do Açudense  do Sul

Calouros de Pau-a-Pique
Enfrenta Riacho Fundo
Arrochados do Lajeiro
Decide com Vagabundos
Caceteiros do Baixil
E Puteiros que Pariu
Vão desputar o segundo.

O escrete Alegrense
Lá de Lagoa do Choro
Enfrenta Sete Riachos
E Atlético Fura Couro
Pra decidir a rodada
Da Taça Vaca Malhada
No gramado Bebedouro.

Tampas de Capela Nova
E Bastiões do Trapiá
Disputam no Galegão
A Taça Mané Preá
Juiz é Chico Bandido
Bandeirinhas Zé Caído
E Mizinha do Tauá.

Escalação do Pelotas
Do Terreiro de Santinha
Ximbica, Kadú e Tula
Dê-Jango, Sapo e Xalá
Enxuga-Rato e Patola
Haja-Cu e Maricá
Zé Papelão contundido
Zé Bola tá dividido
Entre Cheiroso e Gambá.

OBRA INACABADA DE UMA COLHER DE PEDREIRO

Faixa 2 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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PAPEL-DE-BODEGA

A TABA DA SARVAÇÃO

Meu cumpade, o que eu escuto
Derna de pequininim
É que o Brasil brasileiro
Pra sair dos atoleiro
Tá faltando tanto assim.

Tá faltando tanto assim
E nós tudo se afogando
Os doutor de vez em quando
Corruto, dos bigodão
Corre pra televisão
Beija os pobre, dá risada
E anuncia a chegada
Da Taba da Sarvação.

E grita os povo na rua:
– Foi o fim dos militar!
Já podemo festejar
O fim da submissão!!!

É bandeira dos partido
Correndo de mão em mão:
– Bem que aquele home disse
Que a gente se assubisse
Na Taba da Sarvação!

Com pouco mais tá de novo
O povo desmiolado
Satisfeito isprivitado
Folgado nas alegria:

– Foi um tá de Anistia
Que sortou-se da prisão!
Vi dizer que o home é quente
E agora chegou pra gente
A Taba da Sarvação!!!

Mas nem demora de novo
Os povo torna a gritar
Um tá de “Direta Já”
E “Agora o Brasil Mudou”
“Já temo os Doutor
Nos destino da nação!
Vamo acabar com as greve
Que agora é Tancredo Neve
A Taba da Sarvação!”

Os povo batero in riba
Correram atrás dos bombeiro
Fizeram um tá choradeiro
Pra mode ver um caixão
Eu não sei pro que razão
Depois de tanto mistério
Levaram pro cemitério
A Taba da Sarvação.

Mas pelas força de Ulysses
Teve a Constituição
E a Taba da Sarvação
Voltava em forma de Lei.

Não sei pra que tanta Lei
Mas os povo acreditaram
Que aqueles papé letrado
Dava toda solução.
E dizia: “Meu cumpade,
Esses papé, na verdade,
É a Taba da Sarvação!”

Pra resumir a questão
Foram vindo os presidente
E os povo besta e contente
Confiaram nos gangão
Se não tivesse os dedão
Dos vivaldino de sempre
Nós até seria crente
Na Taba das Sarvação.

Agora mando um recado
Pros dotorzão federá
Arranjar outras mentira
Pra mode nos enganar
Pois as lorotas de sempre
Tamo canso de escutar:

– Vamo acabar cu`s bandido
Vamo acabar cu`s babão
Vamo acudir as escola
Reformar as eleição
Menos abocanhamento
Menos ônibus ferrugento
Mais trabalho pros cristão…

Fim das esculhambação!
Credo-cruz, Ave-Maria!!
Isso quase todo dia
Enche o saco, meu patrão
Já que a gente não tem vez
Empurre no de vocês
A Taba da Sarvação.

PAISAGEM DE INTERIOR

MODE O POVO FICAR ODARA

Em cima do oratório
Ou dentro da gavetinha
Tem um cartão de natal
Escrito com letra minha:

“Mode o povo ficar odara
Leve a vida cor-de-arara:

Esquecer as miadeiras
Arquivar pasta de briga
Crescer na vista as bondades
Arrancar pé de urtiga
Desenganchar lua cheia
Das antenas que há na rua
Só maginando: ODARA
Escrito no “o” da lua.”

Não viver de muito frege
Nem muito vaticanoso.

Frege é tá medonho, é fuzaca
E Vaticano é Veloso.

(no rabo de 2015 pro focinho de 2016)

MEU CORDIAL MEIA-NOITE

E na hora vinte e quatra
Da última data riscada
De um calendário pé-duro
Ajunte a companheirada
E peça duas rodadas
de um birinaite seguro:

Uma pro caju amigo
Outra pro imbu maduro
Converse qualquer brebôte:
– Tá medonho! Oxente! Vôte!
Com pouco mais é futuro.

CONSELHO DE ÉTICA E DE COURO PARLAMENTAR

Durante o debate, cada autoridade pode sacudir
1Kg. de má-criação nos peitos do conselheiro opositor.
(Tudo ao respiro da ética e da decência nacioná)

– De honra, decoro e ética
É composto este Conselho.
Não pode ter um grupelho
A fim de tagarelar.

– Êpa! Epíssima! Olhe lá!
Grupelho é Vossa Excelência!
E aviso: minha clemência
É couro em parlamentar.

– Couro bom de pezunhar
Do zóvo até o cangote
Vossa Excelência não bote
Capacho no meu cruzar.

– A mais ilógica… Ou quiçá
A mais “peba” da indecência
É Vossa felaputência
Querer nos moralizar.

– Dou-lhe um pega-pra-capar
E um grito de “teje-preso!”
Seu corno do chifre aceso
Bisturi de vegetá.

– Se for pra esculhambar
Escute Excelência Vossa:
Devolva a moral que é nossa
Que seu traquejo é roubar.

– Meu nível, eu não vou baixar
Ao chorume da carcaça
Sua Excelência não passa
De um ladrão de Bagdá.

– Tou cagando pro azar
Porque meu fundo é de ema
E trago um par de algemas
Pra Vossa Excelência usar.

– É melhor nós se acalmar…
Pouco mais tá dando um causo
Pois nós véve dos aplauso
Do povo desse lugar.

– Não é véve!
É convéve!
É por isso que eu me arreto!
Vossa Excelência é esperto
Mas não vale um grão de sá.

SOU FÃ DO BILHETISMO DO AMOR

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 10 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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O NÃO DO AMOR

Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.

Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.

Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.

Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.

Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.

É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO

Dez Altemares Dutras não me bastam
Num luar de cebola em serenata
Choro resmas de lágrimas nesta data
De algarismos do nunca-mais-voltar
Fico léguas, parado a ruminar
As palavras “se achegue” se achegando
A palavra “lindeza” se enfeitando
E a palavra “aliança” em sua mão
Lembro dela em tão doce comunhão
Que o açúcar é doado em caridade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

Num pensar de silêncio acabrunhante
No azedume de um riso amarelado
Imagino nós dois amadrinhados
Qual ponteiros no vão do meio-dia
Duas valsas dançando poesia
Cinderelo abrandando a Cinderela
Um desfecho choroso de novela
Sem o “livrai-nos do mal” da extrema-unção
E um papel despautado de colchão
Com nós dois em sinal de igualdade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

RASGA-RABO BAGUNÇADOR DE BAGUNÇA

MERENDA CORRIQUEIRA

Ah, se minh’aula retornasse
Pro giz da minha infância
Pro meu caderno encapado
E o meu nome escancarado:
EU, Primeiro Ano A.

Ah, Primeiro ano A!

A professora: “Bom-dia!!!”
A bolsa, a banca, a folia
A turma do dia-a-dia
A lei da Diretoria
A sineta, a correria
A hora de merendar…

Ah, se minh’aula retornasse
Pro meu recreio de infância:
Pro ritual da lancheira
Da merenda corriqueira:
O copo – irmão da garrafa
O bolo, o ponche, a toalha,
Goiaba, biscoito, pão…

Não há no mundo dos cheiros
Na mais antiga distância
Cheiro melhor que a fragrância
Dessa lancheira de infância.

Não há no reino das cores
Nos arco-íris, bandeiras
Nos frutos das romãzeiras
Amora, amor que avermelha,
Um rubro mais colorido
Que o tom da minha lancheira.

Enganam-se os poetas
Trovadores, seresteiros
Que celebram Chão de Estrelas
Versejando sem razão
Ao dizer, de vão em vão
Que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.
É não!!!
A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição.

O IMPOSTO DO CUPIDO

Nos braços da minha amada
Sou inventor de carinho
Tal qualmente um bem-te-vi
Mimando um bem-te-vizinho
Eu chega fico alesado
Feito um bacorim mamado
Pro riba dos bacorinho.

É aquele enganchamento
De perna de boca e mão
Aquele agrado de coxa
É aquela alisação
E se acaso ela der sopa
Descascadinha de roupa
Virge-Maria!… Sei não!

O falar da minha amada
É aquele meio-tom
Aquela vozinha fofa
Que nem um talco pom-pom
Na orelha desse ouvido
É aquele sustenido
Fazendo cochicho bom.

Meu peso sem gravidade
Me manera vento afora
Eu em formato de doido
Esqueço o dia e a hora
E se ela disser: – Menino!
Vambora fazer menino?
Menino, eu digo: – Vambora!

O imposto do cupido
Eu pago só o varejo
Aparecendo um fiscal
Declaro dois ou três beijos
E sonego o apurado:
Chamego luxurioso
Os fósco que acende a chama
Palavreado de cama
Os apelido dengoso
Os meus saldos de balanço
Curruxiado e gracejos
E aviso a fiscaiada
– Se multar a minha amada
Tá multando meus desejos.

DELITO CHUMBREGADOR

Vi uma feme pernosa
Do mocotó de bacia
No bafo do meio dia
Mais parecendo miragem
Apreciando a paisagem
Dessa fulanez-de-tal
Mulher nos prumo, nos grau
Sem falha, sem defeitura…
Dei por fé formosura
Da sujeitice humanal.

Da sujeitice humanal
Descobri o que é o amor:

É um coice nos incômodo
É um ligar de motor
É um avôo de condor
É injeção de fogueira
É gá-gá-gá de gagueira
É lua no meio dia
É verso, é poesia
É alegria, é frescor
É colapso intupidor
É dismái, é faniquito
É mei camim prum delito
Delito chumbregador.

CPI DO PREQUETÉ

Discurso pra ficha suja, ficha limpa, ficha mais-ou-menos e fichinha

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Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém mais pode entrar numa gandaia
Num esquema político de primeira
Ninguém pode fundar uma empreiteira
Pra ganhar concorrência viciada
Ninguém pode assinar uma papelada
No birô do oitão de um cabaré
Desviar: pão, feijão, milho e café
Nem tampouco uma grana apalavrada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém pode usurpar nenhum bregueço
Que a imprensa sacode a tirania
Tudo aquilo que antes se fazia
Construindo os arrimos do progresso,
Hoje em dia termina em processo
Nesse vão que se diz TRE
Um juiz todo chei de prequeté
Vem pro meio qual tripa atravessada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém pode afanar um cadeado
Dar um agá no dinheiro da saúde
Construir, de mentira, dez açudes
Desfalcar um lixão terceirizado
Tudo isso que nunca foi pecado
Hoje em dia é tratado por mundé
Alazão se transforma em pangaré
Na visão dessa lei mumificada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Rapinar, ninguém pode rapinar
Extorquir, ninguém pode extorquir
Se o cristão desejar subtrair
Tem ir pra justiça carimbar
É a lei que não sabe onde vai dar
É a busca que busca o busca-pé
É a raspa fajuta de um rapé
Sufocando uma venta honestizada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

TODOS: (Cabaré, busca-pé, pangaré, prequeté)

Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.

AGORA, FALANDO SÉRIO

Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:

Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…

Tá com a molesta!!!

Acabou milho, acabou pipoca!

Quer que o cabra faça o quê?

Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?

Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:

– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo

E priu.

Poema publicado em 2010 no livro Berro Novo

METEOROLOGIA

Nuvens engasga-azul no céu de Brasília
Céu coisado a parcialmente coisado no Nordeste
Joias de gelo na Região Sul
Zabumba de trovão no Triângulo Mineiro
Tempo úmido e intimidade do ar tirando a blusa no feriadão
Zonas voltam a foder no fim da tarde em todo litoral
Angústia de 4% na camada de ozônio faz o céu perder o colírio
Previsão de seca na língua do papagaio
86º no long-play de Saturno e crosta de Plutão propícia à aterrissagem

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

BRASIL DE CHEIRO

Cabral nos descobriu
E o Brasil virou colônia
Depois passou a extrato
Só depois virou água de cheiro
Do reino de Portugal

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

NINGUÉM CONSEGUE MAIS SER HONESTO, NEM MESMO NO MICROFONE

Era o filho mais correto de Chico Porra-Nenhuma dos Porra-Nenhuma da capital, que até já assistiu o cavalo selado da mamata cruzar bem ali nas suas fuças, mas só arrumou na vida o maldito sobrenome.

Mesmo assim conseguiu uma boquinha vitalícia: ser nomeado presidente da Secretaria do Fenômeno Solitário. Não quis pra não sujar o nome. E ali mesmo, no Salão Banal da secretaria, fazia um discurso fecundo e honestizado dizendo o porquê da não aceitação:

-… E como diria o grande Camilo Cartola amigo meu: E pra quem já não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu…

De repente, o discurso de ganso virou silêncio de fundo de mar, e, sem mais um tique nem taque de fala, ouve um conselho doméstico de grande profundidade – Sua Senhora Dona Virtuosa Porra Nenhuma, sem dependência de honestidade régia, prescreve a toda garganta de mão direita arribada:

– Porra, meu amor! Vai-te embora, Porra! Larga de tanta asneira e corre pro Ministério do Pau Dento pra salvar teu casamento! Lá, vai ser tua posse, teu destino e teu mandato! Lá, tão ensinando o povo a comer o povo, a mamar e traquejar sem grei nem lei todo tipo de fraude e mamação.

Ele tartarugou a velocidade do discurso e disse sob a capa da probidade:

– Isso é uma coisa malufa. Ninguém consegue mais ser honesto nem mesmo no microfone.

Publicado no livro Papel de Bodega – 2013

BRASILEIROS E BRASILEIRAS

Correndo dos tiros
Correndo da peia
Correndo da chuva
Sem capa de chuva
Correndo da cheia

Correndo dos gritos
Correndo da dor
Correndo do aluno
Que molecamente
Cala o professor

Correndo da dengue
Correndo da lida
Correndo do imposto
Tão caro e crescente
Cobrado da vida

Correndo de Eva
Correndo de Adão
Correndo dos cultos
Que cobram dinheiro
Pela salvação

Correndo do crack
Correndo do pó
Correndo das drogas
Que tocam nas rádios
De mal a pior

Correndo pro pódio
Correndo pra Glória
Correndo pros braços
Mofinos, suados
Da própria vitória.

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

ESCUTAÇÃO DE MEI DE FEIRA

Feira Nordestina – Militão dos Santos

– Olha o jerimum cabôco!
– Olha aí o abacaxííí !
– Brinco de menina fême!
– Traíra, coco e siri !
– É califon e caçola
que tá no risco da moda!
– Vamo abrindo aí a roda…
…afastaí brocoió!!!
– Cura muxicão de urêia
ferradura de abêia
mijadura de potó
remedia cuspe grosso
reumatismo no osso
quizumbice e catimbó!
– Dernantonte que’u não drumo!
– Taí um jumento bom!
– Uma rodada de cana!
– Só ta quebrado o guidon!
– Quedê Pêdo Pirangueiro?
– Te acocora e passa o grau!
– Dez mireis de mel coado!
– Só abastava ter dado
uma camada de pau.

– Oxente, taqui pra tu!
– Tocou Alcides Gerarde!
– Tem popeline estampado?
se tiver quero mais tarde
– Arrupinou a comida!
– Balinheira? É no mangaio!
– Ô ruge-ruge da gota!
– Tô liso, pra que balaio!
– Enxada só tramuntina!
– Embucharam Ambrosina
de viver de gaio em gaio.

– E os preço cuma tão?
– Tão pulas hora da morte!
– Visse os peito de Maria?
– E eu lá tenho essa sorte!
– Foi cinco junta de boi
três nuvía e um garrote.

– Cana grande foi sanoite…
quase que não se acabava:
lá no peba comi peba
lá na fava comi fava
lá em Bruxa comi Bruxa
e o dia não manheçava.

CAMINHÃO DE MUDANÇA

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.  

Poema desenvolvido a partir duma visão poética repassada pelo cumpade David Sento-Sé.

SE FOR MENTIRA EU ESTORE

Tronchura do garrafão

Zabé foi empregada da família de minha mulher por longas décadas. Hoje, aposentada, desfruta merecido descanso na sua casa de duas águas. Semana passada, comprou um garrafão de água mineral e o bicho, depois de retirada da tampa, no despejar para o filtro, deu uma torção no meio da garrafa de plástico, pelo deslocamento de ar interno e ficou lá, troncho, em estado de escoliose-aquática-mineral.

Zabé, rezadeira, com um pé no candomblé e batedeira-de-bombo de primeira, viu o nó do demônio no bucho do garrafão e sentiu a cozinha da casa contaminada do satanás das água-morta. Deu de garra duma vassoura e fez uma reza com passes de vassoura por riba do garrafão, que era ver um espadachim de senzala. A água do bicho foi avoada em esgoto distante a poder de credo-às-avessas e só depois de um segundo garrafão, benzido e glorificado, é que, segundo ela, a casa voltou ao normal.

Se for mentira eu estopore!!

ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

Empurra a cancela Zé
Abre o curral da verdade
Pra mostrar pra mocidade
Como é que vive um Zé
Sem um conforto sequer
Com sua latas furadas
E a cacimba tão distante
Um Zé arame farpante
Feito de gente e de fé.

O Zé que se aprisiona
Aos cacos velhos da enxada
Que nasce herdeiro do nada
E qualquer lado é seu caminho
Medalhas, são seus espinhos
Quedas de bois são batalhas
Seus braços, duas cangalhas
De taipa e barro é seu ninho.

O Zé metido em gibão
Numa besta atrás dum boi
Por entre as juremas pretas
Por onde o bicho se foi
A poder de grito e ois
Peitando graveto torto
Um dos três vai sair morto
Ou ele, a besta ou o boi.

É cabôco elefantado
Que não tem medo de cruz
Que fita o sol faiscando
Dez mil peixeiras de luz
O Zé que assim se conduz
Nas brenhas deste sertão
O Zé Ninguém, Zé Qualquer
Mas o Qualquer deste Zé
Não é qualquer qualquer não.

É um Qualquer niquelado
Acabestrado num Zé
Não é Zé pra qualquer nome
Nem Qualquer pra qualquer Zé
Diante desses apois
Eu vou dizer quem tu sois
Pode escrever se quiser:

Sois argumento de foice
Sois riacho correntoso
Tu sois o carquejo espinhoso
Sois calo de coronel
Sois cor de barro a granel
Sois couro bom que não mofa
Sois um doutor sem farofa
Sem soqueira de anel.

Sois umbuzeiro de estrada
Sois ninho de carcará
Sois folha seca, sois galho
Sois fulô de se cheirar
Sois fruto doce e azedo
Sois raiz que logo cedo
Quer terra pra se enfiar.

No inverno sois caçote
Espelho de céu no chão
Chorrochochó de biqueira
Espuma de cachoeira
Sois lodo, sois timbungão
Sois nuvem quebrando a barra
Violino de cigarra
Afinando a chiação.

Sois bafo de cuscuzeira
Sois caldo de milho quente
Sois a canjica do milho
Sois milho pessoalmente
Tu sois forte no batente
Tu sois como milho assado
Se não for bem mastigado
Sai inteirinho da gente.

Tu desarruma as tristezas
Caçando uma risadinha
Sois doido, doido tu sois
Tu sois um baião-de-dois
Tu sois pirão de farinha
Sois bruto que se ameiga
No amor tu sois manteiga
Numa creamecrackerzinha.

Sois um Zé Qualquer do mato
Provador de amargor
Tu sois urro, sois maciço
Devoto do padre Ciço
Sois matuto rezador
O Zé Qualquer em pessoa
Marido de Chica Boa
O teu verdadeiro amor.

É Francisca Caliméria
Feliciana Qualquer
Chica Boa é apelido
Pode chamar quem quiser
Mas digo as outras pessoas
Não digam que Chica “É” boa
O cabra que assim caçoa
Vê direitim quem é Zé.

BANDEIRA NORDESTINA

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capa12

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro

É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.

Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:

O rijo e forte umbuzeiro.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa