QUATRO PERNAS PENDURADAS NO PREGO DA SEDUÇÃO

Botei na trouxa da mão
Um casá de aliança
Finalmentando a pidança
Do meu pedido de mão.

Se amarremo na saúde
Na doença e no viver
Botemo pra derreter
E tome sussurração.

Sussurro velorioso
Como manda o figurino
No derretês do mais fino
Falei denganças de amor:

Minha manteiguinha Turvo
Meu vidro de lambedor
Estátua de paciência
Meu alpendre ventador
Profundas das jardinagem
Mistéria das aromagem
Do perfumismo do amor.

Nós somo dois Shakespeare
Shakespearando a paixão
Com a toalha do luar
Luarando a imensidão
Duas vida emparreada
Quatro perna pendurada
No prego da sedução.

FARINHA DE AIPIM

Se o espírito não me engana
Acho que eu vi um espírito!
E era um espírito fême
De mansidão esquisito.

Dona de carícia branca
Qual farinha de aipim
E nascia e desnascia
A quatro dedo de mim.

Era um gozo de cabôca
O seu corpo era um roçado
Seu rosto um lerão viçoso
Adubadinho e manhoso
E eu era todo um arado!

Eu arava,  ela fofava
E agricultava  bonito
Me molecava nos braços
Que’u batia no infinito.

Entre o colchão e o arado
Que nem um papel carbono
De abano bem lavrado
Esse roçado espritado
Já era um poema escrito
Cujo verso mais bonito
Já tava todo orvalhado.

APEGO DE TANGEDOR

Vaqueiro que é bom vaqueiro
Cabôco trabalhador
Se apega pela boiada
Na vida de tangedor
Pulum boi, puluma vaca
Véve naquela fuzaca
Num causo grande de amor.

Com Nena de Zé de Shell
E com a vaquinha Amarela
Divide sua paixão
Chama na xinxa a donzela
Bem distante da cancela
Pra não se ver traição.

Adoece de avexo
Vendo o patrão sem amor
Negociar a boiada
Mode comprar um trator
Chora no pé da cancela
Vendo a vaquinha Amarela
Saindo pro matador.

O MATUTO E O CORONÉ

AGRURAS DA LATA D’ÁGUA

 

…E eu que fui enjeitada
Só porque era furada.
Me botaram um pau na boca,
Sabão grudaram no furo,
Me obrigaram a levar água
Muitas vezes pendurada,
Muitas vezes num jumento.

Era aquele sofrimento,
As juntas enferrujadas.
Fiquei com o fundo comido.
Quando pensei que tivesse
Minha batalha cumprido,
Um remendo me fizeram:
Tome madeira no fundo
E tome água e leva água,
E tome água e leva água.

Daí nasceu minha mágoa:
O pau da boca caía,
Os beiços não resistiam.
Me fizeram um troca-troca:
Lá vem o fundo pra boca,
Lá vai o pau para o fundo.
Que trocado mais sem graça
Na frente de todo mundo.
E tome água e leva água
E tome água e leva água.

Já quase toda enfadada,
Provei lavagem de porco,
Ai mexeram de novo:
Botaram o pau na beirada.
E assim desconchavada,
Medi areia e cimento,
Carreguei muito concreto
Molhado duro e friento,
Sofri de peitos abertos,
Levei baque dei peitada.

Me amassaram as beiradas,
Cortaram minhas entranhas.
Lá fui eu assar castanha,
Fui por fim escancarada.
Servi de cocho de porco
Servi também de latada.

Se a coisa não complica,
Talvez eu seja uma bica
Pela próxima invernada.
E inverno é chuva, é água,
E eu encherei outras latas
Cumprindo minha jornada.

CONTRA CACHIMBO DA PAZ

De morreres de amores tu fingiste
Meu juízo pacífico alopraste
Meu castelo de sonhos tu ruíste
Meu chuvisco sereno  trovoaste
Meus colchetes do peito tu abriste
E os passeios venosos, pressionaste
Se os meus doze por oito tu subiste
Minhas fibras cardíacas enfartaste.

O sofrer de minh`alma tu poliste
Contra teu próprio sangue guerreaste
Baionetas e adagas preferiste
Meu cachimbo da paz tu apagaste.

Nossos trilhos dormentes dividiste
Nossas camas sedosas encrespaste
Nossos vinhos e jantas consumiste
Teus caninos rangentes palitaste
Quietude e sossego sacudiste
No motim que tu mesma deflagraste
Uma estátua de ódio esculpiste
Na avenida, que, sem pudor, barraste.

A TABA DA SARVAÇÃO

Meu cumpade, o que eu escuto
Derna de pequininim
É que o Brasil brasileiro
Pra sair dos atoleiro
Tá faltando tanto assim.

Tá faltando tanto assim
E nós tudo se afogando
Os doutor de vez em quando
Corruto, dos bigodão
Corre pra televisão
Beija os pobre, dá risada
E anuncia a chegada
Da Taba da Sarvação.

E grita os povo na rua:
– Foi o fim dos militar!
Já podemo festejar
O fim da submissão!!!

É bandeira dos partido
Correndo de mão em mão:
– Bem que aquele home disse
Que a gente se assubisse
Na Taba da Sarvação!

Com pouco mais tá de novo
O povo desmiolado
Satisfeito isprivitado
Folgado nas alegria:

– Foi um tá de Anistia
Que sortou-se da prisão!
Vi dizer que o home é quente
E agora chegou pra gente
A Taba da Sarvação!!!

Mas nem demora de novo
Os povo torna a gritar
Um tá de “Direta Já”
E “Agora o Brasil Mudou”
“Já temo os Doutor
Nos destino da nação!
Vamo acabar com as greve
Que agora é Tancredo Neve
A Taba da Sarvação!”

Os povo batero in riba
Correram atrás dos bombeiro
Fizeram um tá choradeiro
Pra mode ver um caixão
Eu não sei pro que razão
Depois de tanto mistério
Levaram pro cemitério
A Taba da Sarvação.

Mas pelas força de Ulysses
Teve a Constituição
E a Taba da Sarvação
Voltava em forma de Lei.

Não sei pra que tanta Lei
Mas os povo acreditaram
Que aqueles papé letrado
Dava toda solução.
E dizia: “Meu cumpade,
Esses papé, na verdade,
É a Taba da Sarvação!”

Pra resumir a questão
Foram vindo os presidente
E os povo besta e contente
Confiaram nos gangão
Se não tivesse os dedão
Dos vivaldino de sempre
Nós até seria crente
Na Taba das Sarvação.

Agora mando um recado
Pros dotorzão federá
Arranjar outras mentira
Pra mode nos enganar
Pois as lorotas de sempre
Tamo canso de escutar:

–Vamo acabar cu`s bandido
Vamo acabar cu`s babão
Vamo acudir as escola
Reformar as eleição
Menos abocanhamento
Menos ônibus ferrugento
Mais trabalho pros cristão…

Fim das esculhambação!
Credo-cruz, Ave-Maria!!
Isso quase todo dia
Enche o saco, meu patrão
Já que a gente não tem vez
Empurre no de vocês
A Taba da Sarvação.

CONVERSADOR DE POTOCA

Biuzinha de Pêdo Crôa
É titulada em quenguice
O cumpade Zé Migué:
Punheteiro de alugué
Derna da Meninice.

Disnurtiando o assunto
Quiroca minha patroa
Ta com a língua maior
Do que rabo de pavoa:

Espalhou que Meia-foda
Era um cabra exigente
E que morreu de repente
De morte do coração.

Exigente ele não era.
E preste bem atenção:
Ele morreu de avexo
C`a braguilha dando um fecho
Bem nos couro dos cunhão.

E só queria magrinha
Mesmo que fosse carnuda.

Dos peito pequinininho
Mesmo que fosse peituda.

Da barriguinha celada
Mesmo que fosse buchuda.

Que a pele fosse macia
Mesmo que fosse cascuda.

Que fosse bem peladinha
Mesmo sendo cabeluda.

Mas fosse uma Virgem Santa
Ou mesmo um Deus noz acuda.

MEUS PECADOS PREDILETOS

A letra é minha e a música é do meu filho Vítor Quirino.

Com a participação especial do cumpade Xangai.

Está no livro Berro Novo, Editora Bagaço.

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RASGA RABO

Trupizupe oia tu num me assusta
com a fama da tua valentia
porque esta macheza é freguesia
e até nem me parece tão robusta
uma boa palmada não me custa
pois no fundo eu te acho delicado
se tu és um valente escolado
eu quebrei no cacete a tua escola
o teu mestre saiu de padiola
e teu supervisor invertebrado.

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No jardim de infância eu fui valente
e o nome da escola era bufete
no primário estudei no canivete
no ginásio no bote de serpente
como eu era um aluno inteligente
logo cedo já tinha me formado
Lampião tinha sido reprovado
por froxura e por falta de frieza
hoje, pós-graduado em malvadeza,
vendo pena de morte no mercado.

Eu sou topada de unha encravada
Sou gilete no mei do tobogã
Sou o flagra da foda no divã
Sou feiúra dum talho de inchada
Sou um choque no furo da tomada
Sou ferrugem na agulha de injeção
Sou judeu se vingando de alemão
Cata-vento voando num comício
Sou a falta de droga num hospício
Queimadura de larva de vulcão.

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COMO RAPAR UM CALDEIRÃO DE CANJICA NO DESMANCHADO DA TARDE DE UM 23 DE SÃO JOÃO

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 13 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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PREVISÃO DOS TEMPOS

A difusora – pau do fuxico – já se preparava pra espalhar o boato meteorológico da semana: “Tempo de muito pasto e pouco rasto. Domingo, dia 20, chuvinha esfarofada na região… Segunda, 21 de fevereiro, cerração-chuvosa e chuva virada na mulésta, acompanhada de relâmpago, ventania de entronxar prego, pipoco de trovão e o diabo a quatro em forma de tempestade…” O presidente da Câmara protestou:

- Logo segunda-feira que é a convenção do partido! Vou falar com o prefeito pra mandar botar sol nessa porcaria de previsão.

A matutada assuntava e palestrava em roda de calçada: “Tem chovido uns caroço d`água pros lado de Cumpade Jerome e sube que caiu uma liblina pra cumpade Dedé. Aqui, se preparou, escureceu, peidou, peidou, peidou, no final puffft!”

“Ehh… Mas eu sube que pescaram umas curimatã, ovadas dos dois lados da barriga; pegaram uma feme de tatu com quatro tatuzinho; eu vi uns aruá da serra  se trepando em mato alto; e hoje, bem cedo, vi um bode espirrando, uma acauã cantando e o gado dando os quarto pro nascente. Hoje, com certeza vai ter uma chuvona de inverneira.”

Segunda 21, Itabaiana amanheceu de espinhela caída, enfadada que só conversa de crente novo, e os ambulantes cozinhando seus milhos aleijados filho do chuvisco. O rio, apesar da água, mais parecia um bocejo entre dois cochilos.

De meio-dia pra tarde, meu cumpade!… O tempo foi ficando amuado feito um esquerdista no palanque e mais estranho do que o silêncio repentino das mulheres: Uma galinha comeu uma raposa, uma lebre matou um caçador, o prefeito teve um surto de honestidade, e, no umbigo da tarde, começou uma reviravolta de tempo meio esquisita. O vento parou, as folhas viraram pedras. Tome nuvem de chuva que mais parecia um cardume de poeira de carvão. Estas bichonas vieram pro lado da Rainha do Vale com um jeitão assombroso.  A parte de cima era alva feito vela de igreja. No meio, era roxa feito vela de enfeite e a parte de baixo era pretona  feito vela de macumba. Como se não bastasse, vinha acelerada feito galinha choca atrás de gato novo e soltando relâmpago fazedor de clarão causando sobrosso em mulher, menino, gato e cachorro. A molestada do tamanho duma fofoca grande parou sobre Itabaiana e soltou um toró de trás pra frente, feito mijada de bicho macho.

Foi girafa pedindo socorro, cururu pedindo boia, foi esgoto engoiando lixo…  A placa da prefeitura passou zunindo com destino à capital, que parecia papel celofane. Era chuva de pingo grosso feito cabo de formão e temperada com vento, trovão e relâmpago, dando chapoletada no espinhaço da cidade. As árvores, coitadas, balançavam mais do que cardan de mulher dama. Um trovão aparentado a um coice de dinossauro bateu no cucuruto do Banco do Brasil que foi funcionário escorregando na frouxura dum jeito, que passou dez dias emprestando dinheiro a xexeiro do PMDB.

Um matuto me disse: “Eu juro pelos bruguelo que nunca tive, que nunca vi uma chuva  amolestada como essa aqui em Itabaiana”. Foi água trazendo festa, pro resto da semana, e os políticos derrotados com o fim da seca em véspera de eleição, articulavam derrotar São Pedro, prometendo chuva de bacorim e toicim barato para cinco anos. Tomara!

COCO DO PÉ DE MANGA

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 15 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

Com a participação especial de Maciel Melo.

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PRU-QUI-PRU-LI, PRU CULÁ

Pru-qui-pru-li,  pru culá
Se via Zé  e Ditinha
Pru-qui-pru-li,  pru culá
Dando sombra  no luar
Tava o cumpade Chepinha.

E Zé foi bigodeado
Eu lhe digo seu doutor
A noiva que ele tinha
O Chepinha carregou
Na alfândega dos chamego
Paraibidade falsa
Disfarçada em pó de arroz
Foi-se embora e não voltou.

Num deserto de afeto
Zé sofria no varejo
Enchendo tonel sem fundo
Chorando a falta dum beijo.

Eu disse a ele: – cumpade!
Não se murche tanto assim!
És um pneu infurave
Pra toda rodagem ruim!
Eu quero te ver rodando…
Isso existe derna quando
King-Kong era sagüim…

…És um cara afuturado
Não vai te faltar amor
Tu sois forte e extremido
Engole esse comprimido
Que cura seja o que for!
E ele de voz pequena
Disse a minha Cibalena
- “Não quero tu nessa dor”…

“…Não existe um só remédio
Pra tapar minha ferida
Pru-qui-pru-li,  pru culá
Se danem a procurar
A minha amada querida
Vê se salva a honra dela
Pois mode eu morrer por ele
Só falta eu perder a vida.”

Pru-qui-pru-li,  pru culá
Revistemo pau-de-arara
Quarto, sala e camarinha
Surremo macho na cara
Prendemo pau perigoso
Porque buraco ocioso
Fareja ponta de vara.

Num areal sombreado
Junto dum pé de juá
Achemo um rasto esquisito
Pro-qui; pro-li;  pro-culá!

Da conclusão que tiremo
Do cumpade eu tive dó
Pru-qui-pru-li,  pro culá
Arrodeando o falar
Eu pigarrei o gogó…

E disse: – Cumpade velho!
Se prepare pro pior:
O Rasto que voz tá vendo
Digital não tem melhor:
São duas marcas de joelho
A bunda dum mulheraço
Um rego de espinhaço
E uma marca de cocó.

MANÉ CABELIM LTDA.

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 14 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOS

 ATENDENDO AO CHAMADO DE BENEDETTI

“…no sería hora, de que
iniciáramos una amplia
campaña internacional por
los izquierdos humanos?”

Mario Benedetti -  Poeta e escritor uruguaio

O cabôco pode ter todo defeito do mundo:
Ser assoprador de velas antes do parabéns
Aborteiro do amor
Cacundeiro de político
Pode ser desmancha-samba
Dizedor de palavrão.

Pode ter vício, desvio:
Ser tomador de cachaça
Putanheiro, maconheiro
Vivaldino, fanfarrão.

Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão.

E também ser diferente: um domador de serpente
Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro.

Apoucado de tamanho:
Metade de Nelson Ned
Ou mesmo um caga-baixinho.

Mulher pode ser:
Megera, concordante, oferecida
Moita-crespa ao deus-dará
Ser tabaco-militar, das que só pega soldado.

O cabôco ser machista, moralista, de direita…
Não interessa:

Têm todo o esquerdo do mundo
De ser tratado dentro do vão dos direitos.
Pois o lado direito de quem olha
É o lado perfeito e benfazejo
Do esquerdo e sensível coração.

ENXERIDA NO CONTEXTO

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 12 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

* * *

Interpretação de Túlio Borges

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PANO DO LEITE

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“- Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

HISTÓRIA PRA DOIS DORMIR

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 11 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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O BODEGUEIRO E O BÊBO

Tá lá o bodegueiro limpando o balcão da venda e chega o bêbo:

- Bota uma lapada de cana aí!

- Aqui não tem cachaça não.

- Oxen! Não tem cachaça?! Mas devia ter!

- Mas não tem.

- Mas devia ter, por que toda bodega tem cachaça!

- Mas aqui não tem, ora!!!!

- Pois fique com sua porqueira de bodega que eu vou-me embora.

- Vá com Deus, com Nossa Senhora e com a puta que o pariu!!!!!

SOU FÃ DO BILHETISMO DO AMOR

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 10 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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BAIXE AS ARMAS, COMEDOR

Oh morena, oh moreninha
Deixa de morenação
Larga dessas invenção
De nós dois sozim ficar
Mode evitar confusão
Larga dessas invenção
Pense da zabumbação
E se teu pai desconfiar?

E vai que tu pega enxaqueca
E vai que eu sou bom de curar
E vai que tu arrisca um verbo
E vai que eu saiba verbiar
Vai que eu vire flecha doida
E vai que tu quer se flechar
Vai que tu seja espoleta
E vai que eu seja um malagueta

Feito goela de dragão

E vai que tu vem toda bela
De laço e fita amarela
Vai que tu se passarela
Vai que eu seja o rés do chão
Vai que tu arriba a saia
Vai que eu veja o essenciá
Vai que tu pede embreagem
Vai que eu saiba debrear

Vai que tu venta pro norte
Vai que sou todim jangada
Vai que eu seja um taboleiro
E vai que eu seja cocada
Vai que tu se enrouxinó-las
Vai que eu seja passarinho
Vai que eu saia da gaiola
Vai que amostre o ninho

E vai que tu sois moça anja
Vai que eu seja um pecador
Vai que tu sois gozo eterno
Vai que eu sou rojão do amor
Vai que teu ?ui ui, meu bem?
Acorde o véi roncador
Vai que esse véi grite brabo
Com o revolver no meu rabo:

- Baixe as arma, comedor!

LEI SECA NO SERTÃO

Na última sexta feira, 21 de março, Itabaiana quente feito caminho de camelo, botei este Quirino no rumo do sertão da Paraíba. Fui, de poesia em punho, fazer um espetáculo pra Fundação Ernani Sátyro na cidade de Patos (que estava comemorando chuva) e voltei à noite. Na ida, passando por São José da Mata, distrito de Campina Grande, vi o mundão de uma vaquejada, dessas que o cabra só derruba o boi de Minas Gerais pra baixo. Mesmo sendo véspera da corrida, tinha vaqueiro solto e cachaça comendo no centro.

Na viagem de volta, às 23:30, próximo a Juazeirinho (atento aos carros dando sinal de luz), cruzamos com uma blitz da Lei Seca armada no pátio de um posto de gasolina, pegando, à laço, os bebinhos motorizados voltando da vaquejada.

A blitz, particularíssima, tinha o seguinte aspecto:

- Mil e quinhentos matutos assistindo a operação
– Cinco viaturas da polícia rodoviária
– Três ambulâncias do SAMU
– Duas vans a paisana
– Um estacionamento de cavalo
– E um cardume de motocicleta (com vaqueiro e sem vaqueiro).

Na periferia da blitz (na logística do ataque), menino vendendo: amendoim, castanha, rolete de cana, rede, DVD pirata, refrigerante, pipoca, carregador de celular, baldes de imbu e jabuticaba, uma barraca de carne guisada e um borracheiro trabalhando.

No acostamento: uma fila indiana de gente no rumo da operação, uma fila americana de carro no sentido do sertão, um rebanho de bicicleta e um ônibus apitombado de gente.

No mais, meu cumpade, era luar de serenata e gente sendo multada.

COMO RETRATAR A BONDADE DE UM JUMENTO

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 8 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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AVE-MARIA DAS MANGUEIRAS

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 7 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

* * *

Canta Marcela Quirino, filha do colunista Jessier

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UM CD ASSINADO AO PORTADOR

Vez por outra, de braço bem estendido e aperto de mão bem dado, eu recebo pessoas aqui em casa em formato de: turista, aluno, professor, dizedor de recado, entregador de encomenda, fã, repórter, cumpade e tudo mais.

Agora em janeiro chegou um rapaz passando com destino a Crateús no Ceará. Entrou em Itabaiana, segundo ele, incumbido de comprar um livro que faltava na coleção de Seu Luiz de Deus – freguês de caderneta e declamador de Jessier Quirino naquelas bandas do Ceará que fica na divisa com o Piauí.

Conversamos um pouco e fui pegar o material. Quando voltei, ele foi logo perguntando:

- Ô Doutor, o senhor se incomoda de falar com Seu Luiz de Deus aqui pelo celular?

Eu disse “claro que não meu cumpade”. Ele apertou os pitocos do telefone, esperou um pouquinho (de atenção bem prestada) e disse:

- Seu Luiz! Sou eu! Olhe, eu já cheguei em Itabaiana, agora, fale aqui com o proprietário da poesia.

Pelo rótulo de “proprietário da poesia” me abri feito romã no mormaço, falei um dedal de prosa com Seu Luiz e entreguei, de presente, um CD novinho e assinado ao portador.

TEMPO DA PEDRA LASCADA

Que a verdade seja brita:

Há de haver um dia
Que ninguém lasque mais pedra
No quengo de seu ninguém.

E o homem há de ter bondade
E há de almoçar beiju
E há de dizer rasgado:
Yabadabadu!!!

I LOVE YOU MATUTADO

PAPEL DE BODEGA

Faixa 5 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

* * *

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Meu cumpade, eu não lhe conto
O que foi que deu in nêu
Quando vi, da vez primeira
A fia do Arinêu
A cabôca mais bonita
Uma virgenzinha escrita
Que pra mim apareceu.

Foi me dando uma gastura
Me faltou suspiração
Fiquei todo escabriado
Sulerou o coração.

No juízo, um friviôco
Nos estrombo, um brubuim
Fui ficando avermelhado
Foi me dando um farnizim
Que eu lhe digo, meu cumpade
Se foi coisa dos amor
Perante Nosso Senhor
Os amor bateu em mim.

Tou agora apaixonado
Tá sem ela é um castigo
Dou de garra com o trabalho
Mas trabalhar não consigo.

Tou dengoso e alesado
Só pensando nos amar.
Ontem mesmo eu chiqueirando
As novilha no currá
Com pouco mais eu me vejo
Quase, quase dando um beijo
Nos beiço do boi fubá.

Vou me desfolhar pra ela
Vou dizer como é que eu tou
Que nem filme de novela
Vou cantar música de amor.

Vou fazer uma cantiga
Amostrando o que ela fez
Que amor é feito bexiga
Só dá na gente uma vez
Já que eu sou mei aprendiz
Me diga como se diz:
I love you em inglês.

FOTO DO QUIPROCÓ DE ASSENOITE

Um dos maiores cus de boi já registrados pela imprensa

Na parte de cima, aparece João desaparecendo em bufete e um cano de espingarda cuspindo grilo de ferro: Pá, pá, pá!

Dona Bia, dona do forró, feito galinha assustada, pipoca, repipoca e cambaleia, e se acocora no chão vasculhando por razão sem entender a razão.

Seu Biu-garçom leva um cascudo de punho fechado feito mão de pirangueiro, que fica sete minutos sentindo-se um autêntico Sub-Biu.

No palco, um músico tocando “fuga-de-uma nota-só” e o pobre do zabumbeiro de beiço inflado a tabefe, acudido por uma bisnaga de iodo e um pacote de algodão.

Um casal apaixonado (da fina flor do cangaço) despetalando um cinto de bala:

Malfeitor, benfeitor

Malfeitor, benfeitor.

Um bebê de aparência feroz mastigando um talo de urtiga, sentindo o primeiro ódio do mundo.

O surdo-mudo, jazigo de palavras, gritando: – Vala-me Padre Piu de Penicilina!

E, do lado de fora, o padre e a multidão a sós…

O padre de fone no ouvido rezando:

- Glorioso Santo Antônio, fazei com que São Pedro atenda esse celular…

A beata: – Calma, meus pessuá! Chega de tanta bala! O relâmpago também é tiro de Deus.

Napoleão, de raiva e arrancação, arranca um coqueiro com uma mão e dá uma coqueirada no jipe da polícia que só escapa mesmo capota porque é de nylon puro.

Na rua, a torcida desorganizada

A aplaudir o napolimento de Napoleão:

Bota o Napoleão na cacunda

E o bandido sai se rindo

Cacundido pelo povo.

PAPEL DE BODEGA

PAPEL DE BODEGA

Faixa 6 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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Papel de bodega do pé da balança
De cores tão cinza, tão verde e encarnado
Que fica do lado do papel de seda
Que até a manteiga embrulhava em retalhos.

Papel, eu te quero nos supermercados
Nas lojas de grife, em tudo afinal
Prefiro esse embrulho que a moda rejeita
Dizendo tratar-se de um embrulho banal.

Papel encorpado de açougues e frios
Melhores que os plásticos que vivem a voar
São plásticos da noite que sobram nas ruas
Que entopem bueiros e afogam o lugar.

Papel de bodega, tu não avalias
Tamanha alegria trarias porque
Aceito o teu jeito faceiro e fecundo
E aqui nesse mundo faz falta você.

MOVIMENTO DOS SEM-PÉ-NEM-CABEÇA

Eu sou do time dos sem mala e sem malemolência
Sem aparência aprisionada filha do botox
Sem prato inox, sem finesse e sem BMW
Sem um alfarrábio num caderno pra tirar xerox.

Sou Movimento dos Sem-Pé do pé 47
Sou canivete sem a lâmina que perdeu o cabo
Quase me acabo pra matar o mosquetão dum cano
E entrei no cano justamente pra fugir de um cabo.

De cabo a rabo estou no muro dessa honoris causa
Com a menopausa menstruada da rapaziada
Cravei zoada na memória de um pensamento
E o Movimento Sem Cabeça deu com o Pé na estrada.

Puxei a trança avermelhada de um sansão careca
Com a terereca da firmeza dessa nossa luta
Filhos da puta! Supliquei de voz aveludada
Pois sem veludo na cabeça um pé não se disputa.

E a caravana dos Sem-Pés seguiu de espora avante
Causa gigante dos anões dos fundos everestes
Marrom-celeste é o dolorido de nossa bandeira
A verdadeira bananeira que esse Adão me veste.

Se eu for eleito inelegível, serei coroado
Com os pés rachados pelas plumas dessa nossa sina
E a purpurina gente fina feito um baobá
Tibungará na vermelhura desse azul-piscina.

CURRICULUM VIXE!

PAPEL DE BODEGA

Faixa 4 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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* * *

SEVERINO ABUFELADO

Curriculum Vixe!

Sempre fui um manteiga derretida (fervilhando)
Um cabôco estabanado
Cascavélico, parrudo, malino e espalha-brasas.

Já fui:
Hércules de feira
Afrouxador de porca de Mercedes
Fui domador de onça
Carregador de piano
Trocador de alvo em estande de tiro (45 e bazuca)
Flanelinha de estacionamento de crocodilo
Degustador oficial da cachaça Lasca-tudo (daquela do rótulo azul)
Pretendente de guerra do lado de dentro
Lançador de rojão e marcador de quadrilha do São João de Bagdá
Nunca aprendi a voar, mas tenho um primo chamado Falcão.

Durante o capim da infância, comi pólvora com maisena
Purezinho de tutano com pó de osso e rapadura
Raspa de chaminé de navio e prega de cu de búfalo.

Já pintei muito sete em fama de delegado
Já acertei três tiros (pé de pinto) em alvo de vinte metros
Assisti muito filme de Maciste mastigando quebra-queixo
Fui arrancador de mourão e esmagador de quase-tudo.

Atualmente, por força da idade, ando domesticado:

Sou presidente da Academia Amolestada de Letras
E reco-requista festivo de zoológico:

Alegro as criancinhas arrastando uma vareta na jaulinha dos leões.

SONHOS DE UMA CIDADEZINHA MAIS OU MENOS

PAPEL DE BODEGA

Faixa 3 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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OBRA INACABADA DE UMA COLHER DE PEDREIRO

PAPEL DE BODEGA

Faixa 2 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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CARROSSEL NA CHUVA

PAPEL DE BODEGA

Faixa 1 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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BEM DIZER, ELA CANTOU

Cantou ou não cantou?

Da altura de um bocal
De atarraxar lua cheia
Era a paixão que eu sentia
Por Hermegilda Candeia.

Uma das tais Hermegildas
Que fez meu peito emergir…
Patativinha de igreja
Dessas que a voz estreleja
As noites do Cariri.

Tinha o cabelo comprido
Feito o vestido de Eva
Tinha a pele cor de unha
Antes de o esmalte iludir
Pra mode ser uma princesa
Stephanie ou Diana
Só lhe faltava a alfândega
Carimbar que era dali.

Eu, franciscano em dinheiro
Gravetozinho na vida
Já me sentindo garapa
Não me afoitava dizer-lhe
De fala, tantinho assim…

Criei braveza e audácia
Desembainhei toda a alma
Fechei os olhos e os pulsos
E disse pre`la me ouvir:
– Gildinha, canta pra mim !!!???

Ela disse:
– NÃO!! Pra não te pôr mau-olhado
E nem cair em pecado!

Bem dizer, ela cantou
Cantou ou não cantou?????

BANDEIRA NORDESTINA

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capa12

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro

É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.

Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:

O rijo e forte umbuzeiro.

CREDO E CRUZ DO SENADOR

Creio na teia da lei
Que prende as moscas faltosas
E se rompe melindrosa
Com o besouro roubador.

Assim pensava o doutor
Em ser intrancafiável
Como qualquer senador.
Trancou-se na coerência
Fez um discurso e morreu.

Politicamente morreu

Desceu, bem fundo aos infernos,
Ressuscitou ao terceiro dia
Subiu aos céus
Tentou falar com Deus Pai todo-poderoso
E vive pra lá e pra cá
Roubando os vivos e os mortos.

BOI DE FOGO NO VELÓRIO DO CANEIRO

Andava calmo o velório, do cumpade Caboré, uns rezavam outros choravam, outros tomavam café, outros se riam baixinho, sem muito qüé-ré-qüé-qüé, e num caixão enfeitado, o Caboré espichado olhando o dedão do pé.

A única coisa que perturbava, era um casal de mosca amorudo, que teimava em sentar praça no buraco da venta do falecido, numa fodança esvoejante, como se ali fosse um motel de zero estrela.

A viúva Michela de Zé Tambor – uma gordalhuda bonitota – soprava e abanava com um lenço, e as moscas nem… Voavam uma coisinha e voltavam a chamegar. As beatas rezadeiras, rezavam e abanavam com as mãos, e o casal de mosca ali na maior priapada de gozo, voando, pousando e chamegando.

Os veloristas ficaram meio constrangidos, assistindo aos voejos circulares, e a sodomia moscal, na venta defuntica do cumpade Caboré, que apesar de morto não era lá essas coisas todas: Em vida, nunca deu um prego numa barra de sabão, e era o maior conhecedor das bundas vadias da região. Brincalhista de plantão e cachacista, só tomava dois tipos de bebida: nacional e importada, se esta última passasse engarrafada em sua frente.

Como se não bastasse, vivia metido em fodistério ilegal, com tamanqueiras de baixa cotação, e também nunca enjeitou um brecha nos peitos de mulher mamalhuda, mesmo que fosse em velório lamentoso e bem chorado. Por isso, aquela se-mostrança do casal de mosca não era motivo pra tanta melindrez por parte dos veloristas.

Num dado momento, a viúva disse: “– Basta!” Foi lá dentro, armou-se de uma bomba de Detefon, e bradou um grito de guerra:

- Garanto que vai ser hoje
Que o defunto se sacode
Mas este casá de mosca
Na venta dele não fode!!!!

E tome fu… fu… fu… de arma química. Detefonou a cara do falecido que ameaçou espirrar, mas foi impedido pelo lenço vermelho do Bispo Dom Ricardo, que temia mais uma invencionice de beata com esses casos de milagre bem milagrado. O bispo já não agüentava os santos de carne que elas inventavam, quanto mais um possível São Detefon ou Santa Michela de Zé Tambor que fez o defunto espirrar.

Diante da arma química, o casal de mosca pensou que a terceira guerra havia começado e caiu num óbito de torar.

Uma velorista rezadeira e choradeira, que estava num ora-pro-nobis concentrado da gota-serena, achou a reza desimportante diante de tamanha heresia, chamou a viúva na grande, e disse-lhe:

- Quem sois tu mezenga? Quem sois tu pra detefonar a cara do falecido só mode o sassarimbar dum casá de mosca? Eu sei que sois viúva, que tais anecessitada de sentimento, que tais a beira de um esgoto-nervoso e destress, de tanto sofrer nas mão desse femeeiro e cachaceiro defuntento duma figa, que Deus o tenha! Mas arrepara que tu também não sois melhor do ele não! Tu sois é mulher fregona, freguesada pra macharia, e não tens nem um pinguim de moral pra essas moscas chameguentas, muito menos pro falecido Caboré!

A viúva, ferida na viuvez e na moral, partiu pra cima da velha que nem um leiloeiro raivoso pra cima da banqueta, e disse com voz metralhosa, com dentes trincados, com meia boca e entronchando os beiços:

- Dou-lhe uma! Dou-lhe duas! E dou-lhe três!

Fez da bomba de detefon um martelo, e acunhou por três vezes o tambor de lata na cara da rezadeira, que ficou com a marca de óleo salada do flandre estampada na fuça. A bomba se abriu, e a velha levou uma dedetizada tão da gota, que passou uns vinte anos sem piolho do tanto de veneno que se banhou. Foram três chapoletadas tão seguras, que a pedra dum anel da viúva zuniu e foi se enfiar num geremum caboclo que tinha em cima do petisqueiro.

Os veloristas tomaram partido, e a trincheira, era o caixão de defunto, com o falecido de mãos postas e um riso nos dentes. Do lado do contra, estava uma bruaca noitista, também viúva-rameira de Caboré. A bicha tirou o véu preto que disfarçava a cara, jogou pra trás do vestido também preto, atracou-se com uma vela do castiçal feito uma espada, e que nem um Zorro de cera ferido na viuvez de quenga, deu vaza a toda valentia, e gritou:

- Assassina de defunto!!! Viúva envenenista! Rapariga de soldado! Serás da SUCAN por acaso? Sua hipopota bixiguenta do istopor! Passe pro lado de cá e venha me detefonar que eu tou aqui vê-i-vi vê-a-vá e lhe cor-tê-o-tó de gilé-te-é-té!!!

Como capoeirista de bordel, e cheia de cachaça, a bruaca tentou desaplicar um rabo de arraia mal aplicado e findou acertando uma rasteira no tamborete de baixo do caixão, e o defunto, POFE!… danou-se no chão, com caixão, tamborete e tudo. Com o território sem trincheira, uma saraivada de bufete se seguiu, que se enrolou feito ninho de cancão. O boi de fogo era tão grande que tinha gente procurando por si mesmo. Michela de Zé Tambor que sempre foi dessas bichona nadeguda, deu uma sobrada de bufete, caiu sentada e afundou o mapa-munde da bunda na cara dum rezador de setenta anos, que por pouco não virou minuto de silêncio.

No meio dessa alegria de doido, Dom Ricardo, cheio de Ricardia, tentava sem êxito acalmar os ânimos, e jangadeava pra lá e pra cá no mar de tapa-olho, puxavante, bufete, rasteira e abusamento. Gritou uma hora de camaíííí!!! até a briga acabar.

O catacumbista chegou, fechou o caixão de segunda com tampa desadornada, escurecendo por dentro, a morada do cachacista Caboré. Enquanto isto, a viúva toda sentida e arranhada, atarraxava a rosca das trancas. De repente, ouviu-se de dentro do caixão, aquela fala abafosa e desamplificada:

- Michela meu bolofote
Teu veneno me amarga
Nem que tu feche esta rosca
Esse casá de mosca
De tua saia não larga!!!!

As moscas saíram de dentro do caixão, voando atrás da viúva que endoidou com medo até de mosquito. Caboré ficou ali verdadeiramente entregue às moscas, sem viúva e sem parente. Teve tudo que sonhou pra depois de morto: duas latas de sardinha que serviam de castiçal pra duas velas sisudas que insistiam em não chorar, e um lote de cachaceiro que veloriava uma garrafa de cana na tampa do caixão que virou mesa. Na hora do enterro o cortejo de terceira parou em cinco vendas, para reabastecimento, e nos dois quilômetros descampados da Reta do Valentão no prumo do cemitério, foram socorridos pelo último pedido de Caboré: duas garrafas de cana estrategicamente colocadas dentro do caixão para uma bicada no céu. Na hora de baixar sepultura, o cachacista orador pediu a palavra. Com pernas de compasso de um lado a outro nos dois beiços da cova, devidamente espinafrado, discursou:

- Caboré, cumpade véio de guerra!… Caboré, cumpade véio de guerra!…Caboré, cumpade véio de guerra!… tomaste nu cu, cumpade véi!

O MATUTO E O ENGENHEIRO


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