SONHOS DE UMA CIDADEZINHA MAIS OU MENOS

Faixa 3 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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LUA DE TAPIOCA

Quando a lua se faz de tapioca
Com a goma e o coco a me banhar
Sinto meu coração corcovear
Por estar no abandono abandonado
E sozinho que nem boi de arado
Me avermelho que é ver flor de quipá
E se algum alegreiro me jogar
Tanto assim de alegria, eu arrenego
Porque fico que nem olho de cego
Que só serve somente pra chorar.

É a lua acendendo a lamparina
E meu facho de luz a se apagar
Com as bochecha chorada a se chorar
Taliquá mamão verde catucado
Mas porém, sinto meu peito caiado
Quando vejo de longe o riso teu
Igualmente a um morrido que viveu
Peço que teu socorro não demore
E que só minha fala te sonore
E que dentro de ti só more eu.

Poema publicado no livro Prosa Morena

A CUMEEIRA DE AROEIRA LÁ DA CASA GRANDE

Letra e música deste colunista.
Participação especial de Maciel Melo

UM NERVOSO E O OUTRO SAI DO MEI

Um japonês entra num ônibus que vai de Campina Grande pra Recife e diz ao motorista:

– Olhe, seu motorista, eu tou indo pra Olinda, mas como eu tou muito cansado, vou dar um cochilo e temo não acordar e passar do ponto. Gostaria que, antes de chegar em Recife, o senhor me acordasse na passagem por Olinda, ta certo? Se eu acordar meio afobado, se, até mesmo eu xingar o senhor, não ligue, eu sou assim mesmo. Pode me botar pra fora na marra. Eu quero é descer em Olinda, ta legal?

– Ta legal! Pode deixar comigo, Seu Japa!

Só que, quando o japonês acorda, pra sua surpresa, dá de cara com o terminal de Recife, lá no Curado, pra lá da Caixa-Prego, e, de venta acesa, parte pra cima do motorista com cachos de fela-da-puta, corno e seu bosta irresponsável.

Um passageiro vendo a cena comenta com o passageiro do lado:

– Mas que japonêzinho nervoso da gota!!!!

E o passageiro retruca:

– Nervoso? Ora bom basta! Cê tinha que ver o outro japonês que o motorista botou pra fora lá em Olinda… Aquele sim…

ORAÇÃO DE SOSSEGAR MOTOCICLETA

Santo ferreiro dos deuses
Santo psiu! do dedinho
Deus pequenino e Deus Pai
Baixai (três vezes) baixai
Com o poderio dos profetas
O som das motocicletas
Que ninguém agüenta mais.

Se o cabra tira uma madorna
Num alpendre ventador
No nheco-nheco de rede
Somente o som do armador
Pouco mais escuta: RÓÓÓZZZ!!!!!
É vaqueiro em motocross
Cuspindo carburador.

Se a gente tá palestrando
Com dois cumpade na feira
No melhor da segredagem
Duma fofoca brejeira
Pouco mais lá vem: bruaá!!!!!!!!
Pi-bit !!! Bruaá!!! Bruaá!!!!
Das motos na zoadeira.

Se tiver na capitá
Degustando uma gelada
Com um roliúde-sem-frilto
Puxando a última tragada
Na segureza do trago:
Pei-bufo! Danou-se! Estrago:
Três motos numa trombada.

Se você tá matutando
De motivo apaixonado
Tirando o peso dos ombros
Fazendo versos rimados
Pouco mais um terremoto
Rá-tá-tá-tá!!!! Passa uma moto
De butico envenenado.

Se você corre pra praia
No mais deserto oceano
Faz cancha mode o retrato
A mulher fotografando
No clik! dessa casquinha
Lá vem uma cinqüentinha
Pra-lá-pra-cá derrapando.

Antigamente, cumpade
Muito apoucadamente
A gente apontava à dedo:
Fulano tem uma lambreta
Sicrano uma monareta
Ou bicicleta-motor.

Um motoqueiro? Doutor?
Só via, com muita sorte
Dentro dum “globo da morte”
Dum circo do exterior.

Agora, daqui pra frente:
O mundo vai ser das moto,
dize-tu-e-direi-eu!
Vai ser zoada e fadiga
Vai findar naquela intriga
Que o Apocalipse escreveu.

Pra quem ainda não leu
Tá lá o escrito o boato:
“Quadriciclo é candidato
Do Partido dos Pneu.”

Por isso eu peço aos senhores
Meu santo Jesus Cristim
Santo ferreiro dos deuses
Meu santinho Querubim
Moto! Conheça-te a ti mesma
E ande feito uma lesma
Calada perto de mim.

MEUS PECADOS PREDILETOS

A letra é minha e a música é do meu filho Vítor Quirino.

Com a participação especial do cumpade Xangai.

Está no livro Berro Novo, Editora Bagaço.

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xangai1

PENSAMENTO SERTANEJO

Tou pensando nos pássaros sertanejos
Quero-quero e anum carrapateiro
Tou pensando no canto boiadeiro
Êh êh êh…rê ! Malhada e Ventania !
Tou pensando no sapo, rã e jia
Orquestrando o amem da hora santa
Na insônia do grilo que me encanta
Na leveza dum fole bem tocado
No vergel que se espalha no roçado
No prazer de ver planta que se planta.

Trago no assoalho da garganta
O entalo de lindos pensamentos
Da tristeza amuada dos jumentos
Tais e quais um bruguelo desbriado
Do vexame bem dispranaviado
Do doidim que traz água na ancoreta
Do cachimbo de Dona Mariêta
Numa reza de limpa de quebranto
Do espelhinho, missal, de terço e santo
Na banquinha do lado da maleta.

Tou pensando na sala e na saleta
Com jarrinho de flor bem aguádo
Na fachada triângulo bem pintado
Rodeado de traços em relevo
Vira-lata mijão fazendo frevo
Quando avista seu dono despresente
Lavadeira batendo lentamente
Tricoline, fustão, bramante e linho
E um menino caçando passarinho
Badocando e pisando mansamente.

Tou pensando no homem paciente
Com direito de ali nunca ter nada
Do trabalho arrastado na enxada
Cavucando o terroso continente
E apesar de sofrido este valente
Solta um riso risido e clareado
Faz um verso na hora improvisado
Tão inédito que nunca é repetido
Quem não  presta atenção sai ressentido
De perder o que nunca é reprisado.

Tou pensando no cego ter falado
Que a idade não capa pensamento
Que fumaça não tapa firmamento
Que igreja não capa o vigário
Que cadeia não cura o salafrário
Que senado não pune o deputado
E o ceguinho fazendo o pontiado
E molhando a palavra numa cana
No balcão da bodega de Mãe Nana
Com cerquinha pros copos emborcados.

Tou pensando aqui com meus lembrados
No aconchego da casa praciana
No terraço se tira uma pestana
Depois dum almocim bem palitado
Essa casa tem jeito alpendrado
Tem o dom de não ter uma garagem
Tem um muro baixinho e arvoragem
E o ambulante gritando: Garrafeeiro!!!
Êh  jornal, êh  garrafa, êh litro e meio!
E os moleque juntando a miudagem.

AVE-MARIA DAS MANGUEIRAS

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 7 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

* * *

Canta Marcela Quirino, filha deste colunista

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BEIJO DO DESENLUTO

Quando meu ex-amor enviuvou
Do careca que pô-se em meu lugar
Todo ancho saí pra consolar
E de quebra lhe dar meu coração
Vendo seu prantear ante o caixão
Ao beijar a careca do marido
Me curvei e beijei o falecido
No mesminho lugar do seu beijar
Não queria ali me apiedar
Da sofrença de minha ex-donzela
Na verdade eu beijava o beijo dela
Com meu peito a se desenlutar.

(Do livro Prosa Morena)

UMA PAIXÃO PRA SANTINHA

Xanduca de Mané Gago
Tinha querença mais eu
Me vestia de abraço
Bucanhava os beiço meu
Era aquele tirinete
Parecia dois colchete
Eu in nela e ela in nêu.

No apolegar das tetas
Nos chamego penerado
Nas misturação das perna
Nos cafuné do molengado
Nos beijo mastigadinho
Nos açoite de carinho
Nós era bem escolado.

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SAFRA DE MARACUTAIA

Numa conversa de beiço de rua, dois matutos palestrando:

– Eita meu cumpade! Já tá começando a safra de maracutaia.

– Falar em maracutaia, Chico Mundé sairá pra vereador de novo?

– Acho que sai, mas não ganha. Aquilo é feito mamoeiro macho: quando muito dá, dá duas safras.

– E não é?? Agora, sai tudo feito motorista de lotação: se oferecendo sem ser chamado.

– Olhe, eu vou dizer uma coisa a vosmecê: o eleitorado desses fí duma égua, tem que ser assim feito eco, responde mais não vem.

– E apois!! Deus que me livre dessa raça!

– Olhe, política é feito relâmpago: de longe é bonito, mas de perto da é medo; e eu vou é cuidar do meu roçado, porque falar de política é mesmo que chupar pitomba: cansa os queixos, desbota os dentes, machuca a língua e não enche barriga.

NORDESTE DESAJUDADO

…E é nesse Nordeste tão desajudado
Que eu jangadeio com meu versejar

Vejo um violeiro no seu pontear
Musando uma musa que já deu nos calos
Enxergo um canteiro de crista de galo
Semelhantemente a do dito animá
De folha de sonho a pé sossego
De tudo se encontra por esses quintá
E embora a dureza castigue lá fora
Se encontra um matuto sem muita demora
Que empresta o cachimbo pra se maginar.

Empresta o cachimbo pra se maginar
Nos antigamentes daquele costado
Com a sonolênça dum bucho almoçado
Quebrando o palito da tal digestão
Se alembra da dona do seu coração
Que a lágrima era doce, que a voz era pura
A sua figura muda de figura
Pede licencinha a Nosso Senhor
E vuco-te-vuco, assanha o bigode

Se apruma nas bota, logo se sacode
Se embrenha no mato sofrido de amor.

Poema do livro Agruras da lata d’água/1988

SOU DOS BARES O MENOR

Sou buteco, sou latada
Pé-sujo, biongo, bar
Eu sou o gato e sapato
Dos bebos desse lugar.

Desencheiando as garrafas
Com apertamento de mão
Bebinhos bebos-da-silva
Me segredam o coração
A talagada eu arbitro:
Oito copos faz um litro
Dois litros uma discussão.

Antes do primeiro grogue
No balcão desse jirau
Os compadres Zé Fulô
Preto-Limão e Babau
Três cacos de torrar peido
De beber e passar mal
Olha a cana de pertinho,
Analisa o colarinho
Mode ver se tá no grau.

Toma uma, toma duas
Enche a bitola de pau
E depois de caneado
Enxergando engarrafado
Bebe até frasco pintado
Com as areias de Tibau.

Recebo nessa paragem
Quem vai de mal a pior
Mato quem morre na cana
Emburaco em quiprocó
Mesmo assim, analisando
Butecamente falando
Sou dos bares o menor.

(Poema publicado em 1998 no livro Agruras da Lata D´água)

SEGREDOS DE BORDEL

Tem segredos de Estado,
Que, até mesmo em bom estado,
São segredos de bordel.

Quer ver?
Eis os combinemos políticos de agora:

Tá com fome? Coma esse home!
Quer mais? Coma o rapaz!
É pouco? Coma esse cabôco!
Tá fraco? Coma um tabaco!
Não tá bom? Coma o garçom!
Quer de novo? Coma o povo!
É munto? Coma um defunto!
Tá com o cão? Coma um dragão!
Mais além? Come ninguém, pronto!

Ficou brabo? Dê o rabo!
Ficar nu? Taqui pra tu!!!

Isto, no âmbito Federal e Estadual.
No âmbito municipal não há registro
Por falta de âmbito e de decoro.

QUATRO AVE-MARIAS BEM CHEIA DE GRAÇA

Rezo quatro Ave Maria
Ao Glorioso São Gerome
Pra que nos livre da dor
Da agonia e da fome
Duma casa com goteira
Cacimba longe de casa
Dente de piranha preta
Dum teco-teco sem asa
Dum sem pensar no juízo
Dum teje-preso! ou cadeia
De sofrer uma cambrainha
Bem cedo de manhãzinha
Por ter pisado sem meia.

Da tercerez desse mundo
De passagem só de ida
Ferroada de lacrau
Coice de besta parida
Nos livre da companhia
Dum cabra chato e pidão
Dum sujeito bexigoso
Sem figo e sem coração
Duma tosse igrejeira
Dum trupicão de ladeira
Duma largada de mão.

Nos livre da punição
Da saúde canigada
Pois a enxada na mão
É melhor que mão inchada
Nos livre duma dentada
Dum vira-lata espritado
Picada de mangangá
Dum soldado má-criado
Dum baque de rede pensa
De briga de má-querença
Dum jogo má-radiado.

Nos livre dum nôro besta
Ou duma genra fregona
Que Zé meu abaixe o facho
Pro lado daquela dona
Nos livre duma visagem
De alma braba e defunto…
Puxando agora de banda
Disgaviando o assunto:
Nos livre daqui pra diante
Do roubo dos governantes
Coisa que duvido muito.

Poema publicado em 1998, no livro Agruras da Lata D`água

A QUAL, ERA DO BRASIL

Cortam coqueiros que dão côco
Alagam fontes murmurantes
Poluem rios e o mar
Fecham as cortinas do passado
Jogam a mãe preta do serrado
Nunca se cansam de roubar
Ah! Era um Brasil lindo e trigueiro
Riqueza, tanta riqueza…
Será que dá pra acabar?
No caminho que caminha,
Escreveria Caminha:
Em se roubando tudo, dá.

(Do livro Prosa Morena, Ed. Bagaço)

UM SONHADOR MAGINANDO

Música da autoria deste colunista, interpretada com o saudoso Dominguinhos.

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jessier-e-dominguinhos

NINGUÉM CONSEGUE MAIS SER HONESTO, NEM MESMO NO MICROFONE

Era o filho mais correto de Chico Porra-Nenhuma dos Porra-Nenhuma da capital, que até já assistiu o cavalo selado da mamata cruzar bem ali nas suas fuças, mas só arrumou na vida o maldito sobrenome.

Mesmo assim conseguiu uma boquinha vitalícia: ser nomeado presidente da Secretaria do Fenômeno Solitário. Não quis pra não sujar o nome. E ali mesmo, no Salão Banal da secretaria, fazia um discurso fecundo e honestizado dizendo o porquê da não aceitação:

– … E como diria o grande Camilo Cartola amigo meu: E pra quem já não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu…

De repente, o discurso de ganso virou silêncio de fundo de mar, e, sem mais um tique nem taque de fala, ouve um conselho doméstico de grande profundidade – Sua Senhora Dona Virtuosa Porra Nenhuma, sem dependência de honestidade régia, prescreve a toda garganta de mão direita arribada:

– Porra, meu amor! Vai-te embora, Porra! Larga de tanta asneira e corre pro Ministério do Pau Dento pra salvar teu casamento! Lá, vai ser tua posse, teu destino e teu mandato! Lá, tão ensinando o povo a comer o povo, a mamar e traquejar sem grei nem lei todo tipo de fraude e mamação.

Ele tartarugou a velocidade do discurso e disse sob a capa da probidade:

– Isso é uma coisa malufa. Ninguém consegue mais ser honesto nem mesmo no microfone.

(Do livro Papel de Bodega – 2015)

RASPANDO A IMORALIDADE

Monsenhor Luiz Ferreira da Cunha Mota (Mossoró 1897/1966), popularmente chamado de Padre Mota, foi prefeito de Mossoró por mais de 8 anos.

Conta-se que em 1937, uma pessoa foi enredar ao Padre Mota que alguém teria escrito um palavrão no muro da barragem, difamando uma adversária. Padre Mota, em formato de prefeito, logo cedo vai a barragem e lê bem devagarzinho: “A TABACA DE FULANINHA É BOA”

– Que horror, que miséria, isso é uma imoralidade!

Chegando a prefeitura dá uma baforada em seu charuto, chama o secretário Bodoca e diz ligeiro feito aumento de imposto:

– Bodoca, vá a barragem e raspe a tabaca de fulana.

FILÉ AO MOLHO DE QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ

Sabe aquelas roscas-sem-fim de quá-quá-quá que de vez em quando dá na gente? Pois um dia desses, num restaurante, almoçava um casal, a um sopro de vela de mim. Desses casais de conversa puxada na manteiga. Falava baixinho sobre alguma coisa ou sobre alguém e de olho no olho feito galo de briga – sem briga. De repente, no arremate dum detalhe, o rapaz, em sinal de reserva reservadíssima, requisitou o ouvido esquerdo da moça, se reclinou por sobre a mesa e cochichou alguma coisinha… um fiapozinho de cochicho refogado em risadagem. Pronto: foi o puxão do quá-quá-quá do almoço. Aí a mulher começou:

– Quá-quá-quá-quá-quá!

E o rapaz:

– Quáhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhh-quáhhhhhh!

E a moça:

– Quá-quá-quá-quá-quá!

E o rapaz:

– Quáhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhhh-quáhhhhh-quáhhhhhh!

E a moça:

– Quáhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh-quá-quá-quá-quá!

Eu tou dizendo só três porções de quá-quá-quás, mas é pra não gastar papel.

Aí, num respirar profundo, o cabra botou ri-ri na boca e deu um sério militar no assunto. A moça, sem freio e sem embreagem, fez do sério um tobogã e desceu de quá-quá-quá:

– Quá-quá-quá-quá-quá!

Numa fala puxativa de freio-de-mão, o rapaz disse:

– Isso é qué ser besta!

E a moça:

– Quá-quá-quá – e outras expressões quá-quá-quativas.

No moído do ataque e querendo se desculpar. Ele virou-se pra mim e disse:

– Isso é qué ser besta, nenão???

E eu de voz de peixe… Calado.

Daqui a pouco, a mulher começou a dizer “AI!!!”. Mas não era “AI” de dor, não. Era AI de cansaço; cansaço mesmo: estômago-gargalhativo com espasmos de quá-quá-quá. Deu de garra dum guardanapo, e fez dele pano-de-face, secando o córrego lacrimogêneo.

Não tendo mais quá-quá-quá para quá-quá-quar, pediram a conta e saíram quá-quá-quando aos solavancos… Felizes feito um cego brindado à visão perpétua.

(Crônica do livro Berro Novo. Se foi mentira eu estopore!)

LEI DE AMPARO AO PEQUENO E MÉDIO CORRUPTOR

– ARTIGO ÚNICO

Baseado no ditado popular:
“Um dia é da caça, o outro é da cueca”,
Todo pequeno ou médio corruptor
Afrontado com juiz ou promotor,
Deve receber da justiça:
Um pacote de chá de camomila
Uma fralda para adulto (da boa)
E tem todo direito de permanecer cagado.

LEI DO ESTRANGULAMENTO FISCAL (ou Lei do Basta)

Fica proibido desperdiçar, com o parlamentar
um-vintém-de-mel-coado além do dentifrício.

Portanto (por conta da muda) só será pago:

Desodorante
Sabonete
Escova de dente
e BASTA.

Emenda:
Itens obrigatórios de vestimenta e Ética parlamentar:

Terno, gravata até o talo
E vergonha na cara. *

* Tá bem! Tá bem! Aqueles que não pissuem
(dependendo da tramóia), pode continuar sem pissuir.

ASSUNTO DE NOVELA NO SERTÃO

Taliquá assunto de novela, vez por outra uma matuta virgem “facilita” prum cabra esperto e azeiteiro, e, na hora agá, joga a culpa no coitado do namorado em busca de casamento.

Isso aconteceu com uma moça do alto sertão da Paraíba, ou melhor, ia acontecendo, se não fosse a interferência do matuto Zé Pedro, pai do rapazote namorado, já denunciado de autor da “desgraça”.

No momento da denúncia, o delegado perguntou à moça:

– Como foi que aconteceu esse defloramento, menina?

– Eu não me alembro não seu delegado! Na hora eu tava dormindo!

Zé Pedro, com venta de bezerro, despejou um caminhão de batata de protesto:

– ÊPA!! Não pode, seu delegado! Tá camulesta! Não pode não!!!!

O delegado surpreendido questiona:

– E não pode por quê? Então o senhor acha que uma moça não pode ser deflorada durante o sono?

– Pode não sinhô! Porque se eu tiver dormindo nu abestalhado e alguém passar um fiapo de capim-mimoso no meu fundo, eu meto os pés, quanto mais um cepo de aroeira!!!

DOIS BRINCOS RECÉM-TIRADOS

Na cabeceira da cama
Dois brincos recém-tirados
Dois brilhos fundos nos olhos
E um xodó bem começado.

Duas pessoas sozinhas
Qual duas casas vizinhas
Com biqueiras encostadas.
São vidas parede-meia
E a bica correndo cheia
Nessa hora de invernada.

Artilharia pesada
Tum-tum-tum de coração
Emoção ali campeia
Abrem-se regos nas veias
Só pra sangue de paixão.

Ali não há pára-choque
Nem outro tipo de pára.
De forma quero-maisista
É tudo mar de conquista
Bonito e cor de arara.

Sem meias e a meia-luz
Meia tiragem de roupa
É gesto suficiente
Prum casal enrabichado.

Rendidos, de mãos ao alto
E pernas pra que me queres
É aquele cabritismo:
Eu quero o que tu quiseres
Aquele chamar na chincha
Aquele corruchiado.

Nu com nu e sós com sós
E o quarto tando fechado
Exploram terreno livre
E também campo minado.

Publicado no livro Bandeira Nordestina Ed. Bagaço – 2006

DOMINGO NA PRAIA

Saí de Campina montado num jegue
Rumando pra Ilha de Itamaracá
Dezoito semanas sem nem descansar
Cheguei numa praia cheinha de fême
Vestida somente de óleo e de creme
Na parte de baixo um fio-dentá
Olhei pra direita achei um casá
Roçando um no outro deitado na areia
Valei-me São Jorge que a coisa tá feia
Tou vendo um galope na beira do mar.

Galope era tanto que o mar se calava
O vento soprava pro lado de lá
A onda quebrava, mas bem devagar
O povo passava e não dava fé
Porque em carícia de homem e mulher
De tudo se faz pra não estragar
O sol se escondia pra não esquentar
Não vinha ninguém dizer que não pode
E o noivo e a noiva – a cabra e o bode
Fazendo galope na beira do mar.

Tem água de coco, laranja, sorvete
Cerveja gelada pra gente tomar
Cachaça da boa, din-din, guaraná
Esteira, toalha, sombrinha e chapéu
Pro raio de sol caindo do céu
Tem óleo de bronze pra pele queimar
Tem moça passando pra lá e pra cá
Tem nego morrendo de sol e de porre
Olhando pra moça levanta e não morre
Cantando galope na beira do mar.

Tem gente buchuda correndo na areia
Fazendo de tudo pro bucho baixar
Cachorro maluco querendo brincar
Matuto molhado tirando retrato
Tem véio caduco que vem de sapato
Se banha no raso pra não se afogar
A véia enxerida querendo nadar
Mergulha no fundo, levanta engasgada
O véio caduco solta uma risada
Cantando galope na beira do mar.

Tem barco de vela, tem lancha, jangada
Moleque brincando na câmara de ar
Menina na pedra querendo pescar
A mãe acenando pra hora do rango
Sacode, no prato, farofa de frango
Doce de goiaba, suco de cajá
O pai pega o rango e vai se deitar
Na sombra gostosa que vem do coqueiro
Reclama a falta de um paliteiro
Cantando galope na beira do mar.

Tem jogo de bola, de chute e raquete
Tem homem e mulher querendo jogar
Tem rede de arrasto pra gente puxar
Menino correndo pra cima e pra baixo
Perdi o meu óculo na areia e não acho
Dou cinco mil contos pra quem encontrar
Tou vendo embaçado não posso enxergar
A moça bonita de bunda de fora
Assim desse jeito prefiro ir-me embora
Cantando galope na beira do mar.

Do livro Paisagem de Interior – Ed. Bagaço 1996

O MATUTO E O CORONÉ

A DEPRAVAÇÃO DAS MÁQUINAS

Já tem caminhão macho
Se transformando em caçamba
E o jipe que era o bamba
Não segura a camionete.

Camionete adolescente
De farolzinho inocente
Mãe de camionetinha.

Motos rodando a bolsinha
Pro matuto aboiador
Deixando burro e jumento
Sem assunto, sem sustento
Sem futuro e sem valor.

A tal da Honda doutor
Véve pra riba e pra baixo!
Como não tem Honda-macho
Ninguém vai prostituí-la.

Se ela fosse uma Catepíla
Amarelada ou sem côr
Era a puta dos motor
De dia tava aplainando!…
De noite tava fungando
Agarrada com um trator!!!!

MOVIMENTO DOS SEM-PÉ-NEM-CABEÇA

Eu sou do time dos sem mala e sem malemolência
Sem aparência aprisionada filha do botox
Sem prato inox, sem finesse e sem BMW
Sem um alfarrábio num caderno pra tirar xerox.

Sou Movimento dos Sem-Pé do pé 47
Sou canivete sem a lâmina que perdeu o cabo
Quase me acabo pra matar o mosquetão dum cano
E entrei no cano justamente pra fugir de um cabo.

De cabo a rabo estou no muro dessa honoris causa
Com a menopausa menstruada da rapaziada
Cravei zoada na memória de um pensamento
E o Movimento Sem Cabeça deu com o Pé na estrada.

Puxei a trança avermelhada de um sansão careca
Com a terereca da firmeza dessa nossa luta
Filhos da puta! Supliquei de voz aveludada
Pois sem veludo na cabeça um pé não se disputa.

E a caravana dos Sem-Pés seguiu de espora avante
Causa gigante dos anões dos fundos everestes
Marrom-celeste é o dolorido de nossa bandeira
A verdadeira bananeira que esse Adão me veste.

Se eu for eleito inelegível, serei coroado
Com os pés rachados pelas plumas dessa nossa sina
E a purpurina gente fina feito um baobá
Tibungará na vermelhura desse azul-piscina.

PAISAGEM DE INTERIOR

UM VARAL EMPESTADO DE CALCINHA

Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão

Quando ela me faz uma cosquinha
Dou risada que afrouxo a suspensão
Amolengo o espinhaço e o coração
E navego num beijo apaixonado
Faço um verso jeitoso e afinado
Mais bonito que letra de baião
Vendo a roupa estendida num cordão
Silhueta de minha malandrinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

Aviventa o respiro e o doidejo
Catuaba pra alma estimular
Mandacaru eclipsando o luar
Nas barrancas profundas do desejo
Estradando nas molas do molejo
Baticum ritimando o coração
E as bandeiras que voam em branquidão
São enxágües  que  brilham na festinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

É uma peça rendosa e refinada
Modelada pros traços da viola
Não é calça, calção e nem caçola
Camisola, anágua ou “baby-dó”
Este traje é dos trajes o menor
Provoqueiro, faceiro e brincalhão
Cobre o ímã-do-mundo com razão
Mas com ela é melhor do que nuinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

PAPAI NOEL FUNERÁRIO

Agora, agorinhazinha, de guidom bem segurado e ciclista magricela, passou aqui em frente de casa, em Itabaiana, uma bicicleta-de-som, dessas de vender disco-pirata, propagandando a promoção de Fim de Ano da Funerária Rosa Master.

Acredita???

Promoção: Uma moto zero quilômetro que será sorteada no Natal.

Levando-se em conta que os motos-taxista são quem mais comem mulher casada na região – sujeito a um tei-bei no zuvido e que, defuntamento de indivíduo por se lascança de moto no asfalto é o termômetro de morte mais agirafado da cidade, a promoção é justa, legítima e camumbembada.

Pra asseverar a conversa, pedi ao meu assistente que desse um pulinho lá e ele conferiu: a moto está ao lado do birô de atendimento, cheia de bolas brancas de aniversário e caixão em posição de sentido por todo lado. Se for mentira eu estopre!!

PS. Melhor do que isto, só o nome de uma funerária lá de Itamaracá: TOU DE OLHO EM VOCÊ!

CONSELHO DE ÉTICA E DE COURO PARLAMENTAR

Durante o debate, cada autoridade pode sacudir
1Kg. de má-criação nos peitos do conselheiro opositor.
(Tudo ao respiro da ética e da decência nacioná)

– De honra, decoro e ética
É composto este Conselho.
Não pode ter um grupelho
A fim de tagarelar.

– Êpa! Epíssima! Olhe lá!
Grupelho é Vossa Excelência!
E aviso: minha clemência
É couro em parlamentar.

– Couro bom de pezunhar
Do zóvo até o cangote
Vossa Excelência não bote
Capacho no meu cruzar.

– A mais ilógica… Ou quiçá
A mais “peba” da indecência
É Vossa felaputência
Querer nos moralizar.

– Dou-lhe um pega-pra-capar
E um grito de “teje-preso!”
Seu corno do chifre aceso
Bisturi de vegetá.

– Se for pra esculhambar
Escute Excelência Vossa:
Devolva a moral que é nossa
Que seu traquejo é roubar.

– Meu nível, eu não vou baixar
Ao chorume da carcaça
Sua Excelência não passa
De um ladrão de Bagdá.

– Tou cagando pro azar
Porque meu fundo é de ema
E trago um par de algemas
Pra Vossa Excelência usar.

– É melhor nós se acalmar…
Pouco mais tá dando um causo
Pois nós véve dos aplauso
Do povo desse lugar.

– Não é véve!
É convéve!
É por isso que eu me arreto!
Vossa Excelência é esperto
Mas não vale um grão de sá.

PAISAGEM DE INTERIOR

MISS FEIURA NENHUMA

É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO

Dez Altemares Dutras não me bastam
Num luar de cebola em serenata
Choro resmas de lágrimas nesta data
De algarismos do nunca-mais-voltar
Fico léguas, parado a ruminar
As palavras “se achegue” se achegando
A palavra “lindeza” se enfeitando
E a palavra “aliança” em sua mão
Lembro dela em tão doce comunhão
Que o açúcar é doado em caridade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

Num pensar de silêncio acabrunhante
No azedume de um riso amarelado
Imagino nós dois amadrinhados
Qual ponteiros no vão do meio-dia
Duas valsas dançando poesia
Cinderelo abrandando a Cinderela
Um desfecho choroso de novela
Sem o “livrai-nos do mal” da extrema-unção
E um papel despautado de colchão
Com nós dois em sinal de igualdade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

O MATUTO E O ENGENHEIRO

RASGA-RABO BAGUNÇADOR DE BAGUNÇA

CAMINHÃO DE MUDANÇA

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.  

Poema desenvolvido a partir duma visão poética repassada pelo cumpade David Sento-Sé.

MALANDRO NA ELEIÇÃO

* * *

Historinha de um pleito eleitoral – BÊ-Á-BÁ para as crianças sem partido.

Era uma vez um malandro
Que fugiu da detenção
Em tempos longes, mofados
De roubo e depravação
De malandragem finória
Daria até outra história
Não fosse a convocatória
Duma bendita eleição:

É que o malandro Moleza
Como era conhecido
Se escondeu num caminhão
Pra mode não ser detido.

E deu-se então uma fuga
De grande sabedoria
Pois tinha sido traçada
Com toda geometria:
Fugia ali de carona
Por debaixo duma lona
Por sobre a carroceria.

E já no fim da viagem
Quando o caminhão parava
Moleza foi espiar
Mais ou meno onde é que tava.

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AGORA, FALANDO SÉRIO

Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:

Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…

Tá com a molesta!!!

Acabou milho, acabou pipoca!

Quer que o cabra faça o quê?

Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?

Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:

– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo

E priu.

Poema publicado em 2010 no livro Berro Novo

COISAS PRA SE DIZER BENZÓ-DEUS

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No lugar que caxete é comprimido
Tem coisa de se dizer benzó-Deus!
Da sabença de tantos Zebedeus
Ao rinchar dum jumento intumescido
Cangapé dum moleque mal-ouvido
Ou história dos que não têm história
Um Jesus bem cristoso e chei de glória
Protegendo nações de deserdados
Sanfoneiros com seus tarrabufados
Cantadores com suas trajetórias.

Sá-Zefinha ser mãe de tantos filhos
Bem dizer sendo uma zefinharia
Boiadeiro aboiando em sintonia
Com o blém-blém do chocalho que chocalha
Juremas com escoliose nas galhas
Respirando num solo ressequido
Um café bem torrado e bem fervido
Que agrada monarcas e plebeus
São coisas que se diga benzó-Deus!
No lugar que caxete é comprimido.

Benzó-Deus pra horta Chica Roxa
Verdezinha, pinicada de azulão
Pra bravura da mula em bestidão
Trabalhando sem nunca se enfarar
Benzó-Deus pra coalhada do luar
Despejando um manjar resplandecido
Pro matuto feliz e divertido
A despeito de ser tão maltratado
Cavucando uma roça no roçado
Esperando um inverno prometido.

Benzó-Deus quando o cochicho do vento
Despenteia e penteia o capinzal
Quando a loja serena de um  varal
Se alvoroça e sacode  a estamparia
Benzó-Deus pro carro-de-boi que chia
Imprimindo seu nome em chão-batido
Pro silêncio mais alto que o ruído
Feito um tempo amuado e mal-com-Deus
Benzó-Deus  pro marrom dos olhos teus
Faiscando um olhar enternecido.


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