DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOS

 ATENDENDO AO CHAMADO DE BENEDETTI
       
“…no sería hora, de que
iniciáramos una amplia
campaña internacional por
los izquierdos humanos?”

 
      Mario Benedetti
      Poeta e escritor uruguaio

O cabôco pode ter todo defeito do mundo:
Ser assoprador de velas antes do parabéns
Aborteiro do amor
Cacundeiro de político
Pode ser desmancha-samba
Dizedor de palavrão.

Pode ter vício, desvio:
Ser tomador de cachaça
Putanheiro, maconheiro
Vivaldino, fanfarrão.

Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão.

E também ser diferente: um domador de serpente
Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro.

Apoucado de tamanho:
Metade de Nelson Ned
Ou mesmo um caga-baixinho.

Mulher pode ser:
Megera, concordante, oferecida
Moita-crespa ao deus-dará
Ser tabaco-militar, das que só pega soldado.

O cabôco ser machista, moralista, de direita…
Não interessa:

Têm todo o esquerdo do mundo
De ser tratado dentro do vão dos direitos.
Pois o lado direito de quem olha
É o lado perfeito e benfazejo
Do esquerdo e sensível coração.

PREVISÃO DOS TEMPOS

A difusora – pau do fuxico – já se preparava pra espalhar o boato meteorológico da semana: “Tempo de muito pasto e pouco rasto. Domingo, dia 20, chuvinha esfarofada na região… Segunda, 21 de fevereiro, cerração-chuvosa e chuva virada na mulésta, acompanhada de relâmpago, ventania de entronxar prego, pipoco de trovão e o diabo a quatro em forma de tempestade…” O presidente da Câmara protestou:

– Logo segunda-feira que é a convenção do partido! Vou falar com o prefeito pra mandar botar sol nessa porcaria de previsão.

A matutada assuntava e palestrava em roda de calçada: “Tem chovido uns caroço d`água pros lado de Cumpade Jerome e sube que caiu uma liblina pra cumpade Dedé. Aqui, se preparou, escureceu, peidou, peidou, peidou, no final puffft!”

“Ehh… Mas eu sube que pescaram umas curimatã, ovadas dos dois lados da barriga; pegaram uma feme de tatu com quatro tatuzinho; eu vi uns aruá da serra  se trepando em mato alto; e hoje, bem cedo, vi um bode espirrando, uma acauã cantando e o gado dando os quarto pro nascente. Hoje, com certeza vai ter uma chuvona de inverneira.”

Segunda 21, Itabaiana amanheceu de espinhela caída, enfadada que só conversa de crente novo, e os ambulantes cozinhando seus milhos aleijados filho do chuvisco. O rio, apesar da água, mais parecia um bocejo entre dois cochilos.

De meio-dia pra tarde, meu cumpade!… O tempo foi ficando amuado feito um esquerdista no palanque e mais estranho do que o silêncio repentino das mulheres: Uma galinha comeu uma raposa, uma lebre matou um caçador, o prefeito teve um surto de honestidade, e, no umbigo da tarde, começou uma reviravolta de tempo meio esquisita. O vento parou, as folhas viraram pedras. Tome nuvem de chuva que mais parecia um cardume de poeira de carvão. Estas bichonas vieram pro lado da Rainha do Vale com um jeitão assombroso.  A parte de cima era alva feito vela de igreja. No meio, era roxa feito vela de enfeite e a parte de baixo era pretona  feito vela de macumba. Como se não bastasse, vinha acelerada feito galinha choca atrás de gato novo e soltando relâmpago fazedor de clarão causando sobrosso em mulher, menino, gato e cachorro. A molestada do tamanho duma fofoca grande parou sobre Itabaiana e soltou um toró de trás pra frente, feito mijada de bicho macho.

Foi girafa pedindo socorro, cururu pedindo boia, foi esgoto engoiando lixo…  A placa da prefeitura passou zunindo com destino à capital, que parecia papel celofane. Era chuva de pingo grosso feito cabo de formão e temperada com vento, trovão e relâmpago, dando chapoletada no espinhaço da cidade. As árvores, coitadas, balançavam mais do que cardan de mulher dama. Um trovão aparentado a um coice de dinossauro bateu no cucuruto do Banco do Brasil que foi funcionário escorregando na frouxura dum jeito, que passou dez dias emprestando dinheiro a xexeiro do PMDB.

Um matuto me disse: “Eu juro pelos bruguelo que nunca tive, que nunca vi uma chuva  amolestada como essa aqui em Itabaiana”. Foi água trazendo festa, pro resto da semana, e os políticos derrotados com o fim da seca em véspera de eleição, articulavam derrotar São Pedro, prometendo chuva de bacorim e toicim barato para cinco anos. Tomara!

PAIXÃO DE ATLÂNTICO NA BEIRA DO MAR

No estilo de poesia galope à beira-mar, muitas vezes se descreve a cena litorânea na visão da terra pro mar. Vamos ver como seria uma voz de lá pra cá.

Não passo de um pobre e minúsculo Atlântico
Diante da moça que vem se banhar
Princesa dos raios de brilho solar
Que mostra pra gente que o ouro é ralé
Uma espuma finíssima me veste a maré
Qual nata de leite depois de amornar
E a Deusa se achega, de bem comparar
Descida das nuvens que rimam com sonho
E eu pobre Oceano, não tenho tamanho
De ser seu parceiro de beira de mar.
 
E a moça abeirando meus véus de espuma
Olhar de cupido a me recear
Aqui… bem aqui! O cabelo a voar
De cor, cor-de-cuia de louro brejeiro
Seus pés, de mansinho, me tocam primeiro
E a boca em suspiro aspira o meu ar
Recolhe os bracinhos a se arrupiar
E se carrapixam os poros e pelos
Os outros primores, eu nem pude vê-los
Morri de Atlântico na beira do mar.

De lenda e sereia a moça se agacha
E põe-se ditosa a me baldear           
Um fogo de afago me faz fervilhar
Borbulhas de flauta perfume reseda
Uma pele macia – qual capa de seda
Dos amendoins no afã de torrar
No raso das águas se faz cobrejar
Em colcha de espuma de puro chenill
E o “A” de paixão se afoga no til                      
Na onda de Atlântico da beira do mar.

A MORRENÇA DOS MEUS CUMPADE

Mas como é que pode, dois caba tá vivo
Forgoso, gaboso, da vida se rir
Os coro da testa sem nunca franzir
Disposto na luta, lutando contente
Sem mesmo tá canso de ser um vivente,
Um corre pro sul mode podregir
O outro pogrede mesmo por aqui
A morte carrega os dois indivíduo
Dá uma descurpa: morreu por ter ido
O outro, coitado, morreu de não ir.

Cumpade Coitim bateu a biela
Sem frei nas estrada, em riba dum fó
Pedim defuntou-se no mei dum forró
Honório pifou com a mão na bainha
Quem enviuvou Gorete e Ritinha
Foi João Cascavé e Bento Cotó
Bié de Zé Tôta fechou o paletó
Mudou-se pro céu cumpade Biliu
Cumpade Zé Danta ninguém nunca viu
Mas dizem que foi-se daqui pra mió.

Quem bateu as bota foi Zé Bacamarte,
Findou-se de vez cumpade Zulu,
Quem empacotou-se com tanta pitu
Foi Pinga, Meloso, Meota e Topada
Ginura já tava na última morada
Quando pediu baixa o vaqueiro Zebu
Foi pro beleléu nas bandas do sul
Veúca, Moreno, Ponez e Zezim
Mimosa se foi que nem passarim
Baixou sete palmos, Luiz do Exu.

Deu uma roleta lá no mei da feira
Juntou-se um bocado com seu criador
Deu adeus ao mundo Mané Vendedor
Foi chegada a hora de Biu das Jumenta
Foi pro rol dos bom, cumpade Pimenta
Biu Pêdo Firmino por fim descansou
Disseram que Nino também botoou
Sargento já foi promovido a defunto
Tiraram Cirila de lá de pé junto.

Perdi meus cumpade
Não sei quando eu vou.

UMA PAIXÃO DE GURI

Quando a gente era criança
Que tu brincava mais eu
Tu pra mim foi Juliêta
E eu nunca fui teu Romeu…
No cowboy, tu me pegou
Derrubou e amarrou
Me matou, mas não valeu.
 
Nem valeu o meu querer
Um brinquedo de verdade
Tive febre de amor
Quarenta grau de saudade.
 
Nem valeu nós dois dançando
Que tu até parecia
Dum carrão Studbaker
A embreagem macia.

Puxando pelo juízo
Não valeu nós se casar
Na primeira comunhão
Que`u não paro de lembrar
Era como se tu fosse
Um prato de arroz doce
Seguindo para o altar.

Não valeu a alegria
Que eu tive por te beijar
Em que eu passei sete dia
Sem querer assobiar
Pra não gastar o sobejo
Daquele primeiro beijo
Não valeu eu te amar.

Não valeu eu te amar
Porque nada tu sentia
Sentir também não podia
Não tem sentido sentir:
Guria naquela altura
Compreender a doidura
Duma paixão de gurí.

VÉSPERA DE FEIRA

São circos velhos quadrados, montados sem picadeiros
Pá,pá,pá e tome prego
Pá,pá,pá e tome prego
Puxa e repuxa arame; tome-lhe cunha e martelo.
Depois vem a empanada… assim, sem pano e sem nada.

Pi-bit! – Buzina os beiços
Avança um carro de mão, na mão e na contra-mão
Cachaça sem água tônica conduzindo a condução.

Óh o mei!…Óh o mei!….Óh o mei!!!
Passa um trem de chapeados
Um doido mamando gelo debocha dos desgraçados
É o pega-pa-ca-pá  que começa  incapetado.

Feirantes, galinhas e catrevagens
Se debulham da espiga duma velha lotação
Boléia deselegante de  alma chevrolezante
Travesti de caminhão.
Chega a discriminação discutir com dois pneus:
É um vira-lata rajado, magro, desqualificado
Que nem sabe onde nasceu.

Caçula sem caçulagem, fala com sua vidinha:
– Eu não posso mais comigo… Filho de nada é nadinha!!
– Ô calorzão aloprado! – Fala o pai, de mão inchada
Aterrando com farinha as tripas enfastiadas
E um lipigute de cana, duma garrafa à paisana
Aprumando a cusparada.

Cascas das primeiras frutas abrem escalas pelo chão
Causando ascensão e queda do primeiro escorregão.
Ah! Ah! Ah! Diz o sorriso…– Qualé a graça que há?
– Todo cristão abusado tem queda pra escorregar!

Melancias: beiços verdes de sorridão encarnado
Jacas: peitinhos duros, abacates barrigudos do verde e do roxicado
As cabeleiras dos milhos, e carradas de cajus com castanhinhas no colo
E rabos de abacaxis  cheios de não-me-toques
Para tanta alegoria vão precisar de reboques!

É isso mesmo meu chapa! Todo feirante dá duro!
Encosta numa rudia, e é  noite em claro… no escuro.
No bate-asas dos galos, sacode toda preguiça feito cachorro molhado
Penteia a pessoa dele assim mei descangotado
Engole qualquer mastigo, diz que tá de sangue novo
E vai todo esprivitado
Caçar os últimos trocados da luta braba do povo.

SECAS DE MARÇO

(Versos sem os TONS JOBINIANOS)

É pau é pedra é o fim do caminho
É um metro é uma légua é um pobre burrinho
É um caco de vida é a vida é o sol
É a dor é a morte vindo com o arrebol
É galho de jurema é um pé de poeira
Cai já, bambeia é do boi a caveira
É pé de macambira invadindo a cocheira
É vaqueiro morrendo é a reza brejeira
É angíco é facheiro é  aquela canseira
É farelo é um cisco é um resto de feira
É a fome na porta é um queira ou não queira
Na seca de março é a fuga estradeira
É  o pé é o chão é a terra assadeira
É menino na mão e mais dez na traseira
É um Deus lá no céu Padre Cíço no chão
É romeiro rezando dentro dum caminhão
É o filho disposto partindo  sozinho
No sul a esperança, é um novo caminho
É o pai fatigado é a mãe a lutar
É a caçimba distante é a lata a pingar
É carcaça de bicho é um mandacaru
É mau cheiro chegando é o vôo do urubu
É barriga de vento é um corpo na rede
É anjinho morrendo é a sede é a sede
É o canto agourento daquela acauã
É o vôo da asa branca no sol da manhã
É a seca de março torrando o sertão
É promessa de vida, é a nova eleição
É doutor diplomado é doutor coroné
É um pão uma feira um remédio no pé
É um poço uma pipa um cantor uma fã
É a troca e o troco depois de amanhã
É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição
……………………………………………………..
É pau é pedra é o fim do caminho.

O CUSCUZ DO DIA-A-DIA

Em matéria de mei doido
Eu me sinto mais ou menos
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.

Usei palavras plebeias
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.

Palavras soltas, baldias
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.

Conversei com flamboaiãs
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras 
No sertão do pensamento.

Senti, naquele momento
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.

Sem rodeio e sem pantins
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.

BUQUÊ DO MATO

Buquê do mato tem cravo
Tem fulô de manacá
Tem talo de marmeleiro
Açucena e jatobá
E basta o vento assoprar
Uns dois dedinhos de vento
Que todo enxerimento
Quer nele se enfiar.

Vê-se farelo de beijo
Que esborra dos  beijar
Lindosos brincos que brincam
De ser moça e namorar
Sagradice de desejo
Dexovê de qual o tipo…
Do tipo de nenhum tipo
Que se pode imaginar.

Tem um céu azul-profundo
Um pó de arroz a voar
Goodbye de mentirinha
Mode o orgulho quebrar
Blusa de xita no pelo
E três tufos de cabelo
Que loirejam qualquer mar.

Um bordado de caçola
Que ameiga o coração
O gráfico de um olhar
Num preto e branco em retrato
Se ver num buquê do mato
Do mato do meu sertão.

UM NERVOSO E O OUTRO SAI DO MEI

Um japonês entra num ônibus que vai de Campina Grande pra Recife e diz ao motorista:

- Olhe, seu motorista, eu tou indo pra Olinda, mas como eu tou muito cansado, vou dar um cochilo e temo não acordar e passar do ponto. Gostaria que, antes de chegar em Recife, o senhor me acordasse na passagem por Olinda, ta certo? Se eu acordar meio afobado, se, até mesmo eu xingar o senhor, não ligue, eu sou assim mesmo. Pode me botar pra fora na marra. Eu quero é descer em Olinda, ta legal?

- Ta legal! Pode deixar comigo, Seu Japa!

Só que, quando o japonês acorda, pra sua surpresa, dá de cara com o terminal de Recife, lá no Curado, pra lá da Caixa-Prego, e, de venta acesa, parte pra cima do motorista com cachos de fela-da-puta, corno e seu bosta irresponsável.

Um passageiro vendo a cena comenta com o passageiro do lado:

- Mas que japonêzinho nervoso da gota!!!!

E o passageiro retruca:

- Nervoso? Ora bom basta! Cê tinha que ver o outro japonês que o motorista botou pra fora lá em Olinda… Aquele sim…

APEGO DE TANGEDOR

Vaqueiro que é bom vaqueiro
Cabôco trabalhador
Se apega pela boiada
Na vida de tangedor
Pulum boi, puluma vaca
Véve naquela fuzaca
Num causo grande de amor.

Com Nena de Zé de Shell
E com a vaquinha Amarela
Divide sua paixão
Chama na xinxa a donzela
Bem distante da cancela
Pra não se ver traição.

Adoece de avexo
Vendo o patrão sem amor
Negociar a boiada
Mode comprar um trator
Chora no pé da cancela
Vendo a vaquinha Amarela
Saindo pro matador.

ME COMPRE ESTE RÁDIO

Cumpade me faça essa caridade
Me compre este rádio por quanto valer
Mode eu não ter raiva e não ficar roxo
Depois ficar chocho, mode eu não morrer
Me diga cumpade pelas caridade
Que quer esse rádio pra sua família
Eu dou de agrado uma dúzia de pilha
Que junto com ele mandaram eu comprar
Andava comigo pra todo lugar:
Pra feira, novena, açude e roçado
Inté um retrato com o peste do lado
Todo abestaiado me pus a tirar.

Mas tive um desgosto depois do Repórter
Mode uma notícia que o peste me deu
Falou que mataram cumpade Nenêu
Pertou o meu peito, me deu um sobroço
Os povo correram foi um alvoroço
E o rádio danado a falar e dizer:
Dizer que foi tiro. Seis tiro de doze
Pro riba dum coice dum tal caratê
Falou que os povo pagaram pra ver
Que foi briga boa, bem afuleimada
No bom da notícia, fez uma zoada
Não deu quem matou e nem disse o porquê.

COMÍCIO DE BECO ESTREITO

Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com a flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma gambiarra véia
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um tarol
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessas por minuto.

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ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

Empurra a cancela Zé
Abre o curral da verdade
Pra mostrar pra mocidade
Como é que vive um Zé
Sem um conforto sequer
Com sua latas furadas
E a cacimba tão distante
Um Zé arame farpante
Feito de gente e de fé.

O Zé que se aprisiona
Aos cacos velhos da enxada
Que nasce herdeiro do nada
E qualquer lado é seu caminho
Medalhas, são seus espinhos
Quedas de bois são batalhas
Seus braços, duas cangalhas
De taipa e barro é seu ninho.

O Zé metido em gibão
Numa besta atrás dum boi
Por entre as juremas pretas
Por onde o bicho se foi
A poder de grito e ois
Peitando graveto torto
Um dos três vai sair morto
Ou ele, a besta ou o boi.

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PADRE CIÇO CONTRA 007

…Meu nome é BOND, eu sou James Bond
Falou o agente sacando a mão.
Meu nome é CIÇO, eu sou Padre Ciço
Falou meu Padrim Padre Ciço Romão.
O mundo calou-se prestando atenção
Encontro danado que nunca se viu
Vi gente gritando – Puta que pariu!
Essas duas alma, são alma da boa
Caiu no momento chuvosa garoa
E tome mentira milagre e questão.

Vi Bond mostrando buraco de bala
Tinha mais de vinte no mei do pulmão
Faltavam três veias no seu coração
Mas ele guardava lá dentro da mala
O meu Padrim Ciço pegou a bengala
Meteu num buraco que logo fechou
Todo ferimento se cicatrizou
Surgiu um jumento da cor de ambulância
Puxando uma maca e naquela distancia
Com o tal detetive dali disparou.

A velha beata se estatelou
Com o baita milagre em pleno sertão
E meu Padrim Ciço ou Ciço Romão
Agora babando se abestalhou
Quando James Bond da maca pulou
Puxou um canhão de dentro do terno
Prendeu uma seca roubando um inverno
Jogou uma corda e a nuvem laçou
A seca covarde dali se pirou
Livrando a gente daquela inferno.

O meu Padrim Ciço se vendo por baixo
Daquela mentira que Bond aprontou
Pensou nos milagres que já milagrou
Pegou a bengala e foi pro riacho
Numa pescaria contando por baixo
Pescou três baleias e um tubarão
Um fole tocando xaxado e baião
Segundo o primeiro já foi de gonzaga
Uma vela acesa que nunca se apaga
Duzentas sardinhas e um pé de limão.

O agente secreto ficou assustado
Vendo uma baleia no mar do sertão
Puxou a fivela do seu cinturão
E feito um foguete pra cima e pro lado
Saiu flutuando no mei do roçado
Deu mais de mil tiros com seu mosquetão
Prendeu a volante salvou lampião
Matou coronel, feriu deputado
E um mar de corruto, correndo pro lado
Parou a roubança, salvou-se a nação.

Ai Padre Ciço botou um queixão
- Assim ta ca gota de tanta mentira !
Ai James Bond fez padre de mira
Ai Padre Ciço tacou-lhe um bufete
Pegou de surpresa zero zero sete
Os dois se atracaram zero zero oito
O padre tinhoso, mordido e afoito
Falou: – com mentira ninguém me ilude
Foi fazer milagre lá em Hollywood
Milagre pesado maior de dezoito.

CARTOMANTE

A cartomante fala para a mulher:

- Vejo nas cartas que seu marido tem uma amante, mas o pior é que… ele vai morrer ainda hoje!

- Continue… Continue… Veja aí se vou ser absolvida…

CINEMINHA PORNÔ

Durante a exibição de um filme pornô, a garota não se conteve: deu de garra dos possuídos do namorado e tome sexo oral. O namorado, de chapéu na cabeça, assistiu ao filme todinho de goso-segurado.

Terminada a sessão, as luzes foram acesas, e ele rapidamente colocou o chapéu no colo, enquanto ela, meio sem graça, abaixou a cabeça fingindo procurar alguma coisa, dizendo:

- …Cadê, cadê?

Uma velhinha, que tinha presenciado toda a cena, respondeu:

- Ahh minha fia, se você não engoliu, deve tá durinha do mesmo jeito, debaixo do chapéu!

ALÉM DAS PRECES

A triste seca já voltou
E a asa-branca agourou e já bateu a asa
Plantação defunta no oitão de casa
O chão em brasa
A triste seca já voltou

Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que o verde do teu vestido se espalhe na plantação,
Que o amarelo seja puro e adocicado,
E que a brancura seja a cor da floração,
E que o vermelho sejam flores parecidas
Com os beicinhos das luzidas, “caboquinhas” do sertão

Que não se veja um sertanejo se ajoelhando
Pedindo chuva perante Cristo sonolentos
Que não se veja um solo rachado e sedento
Que sem sustento, às vezes se ajoelhando
Que não se veja baraúna jejuando,
Chorando folha numa paisagem cinzenta
Que não se veja fila de latas sedentas,
Salário d’água matando a sede matando

Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que a fita do teu vestido faça uma festa de cor
Eu quero ver resina de catingueira
Ser o chiclete na boca do meu amor
E que a sanfona toque um xote na colheita
Pra dança das borboletas enfeitadeiras de flor

(Quem vive pelo sertão já vive sertanejado
Pois a chuva não choveja, nem troveja no cerrado
E o sertanejo valente guarda sempre uma semente
Pro inverno abençoado)

SE FOR MENTIRA EU ESTORE

TRONCHURA DO GARRAFÃO

Zabé foi empregada da família de minha mulher por longas décadas. Hoje, aposentada, desfruta merecido descanso na sua casa de duas águas. Semana passada, comprou um garrafão de água mineral e o bicho, depois de retirada da tampa, no despejar para o filtro, deu uma torção no meio da garrafa de plástico, pelo deslocamento de ar interno e ficou lá, troncho, em estado de escoliose-aquática-mineral.

Zabé, rezadeira, com um pé no candomblé e batedeira-de-bombo de primeira, viu o nó do demônio no bucho do garrafão e sentiu a cozinha da casa contaminada do satanás das água-morta. Deu de garra duma vassoura e fez uma reza com passes de vassoura por riba do garrafão, que era ver um espadachim de senzala. A água do bicho foi avoada em esgoto distante a poder de credo-às-avessas e só depois de um segundo garrafão, benzido e glorificado, é que, segundo ela, a casa voltou ao normal.

Se for mentira eu estopore!!

BOLERO DE ISABEL

Autoria: Jessier Quirino

Interpretação: Xangai

VERSOS DO LÁ FORA

 A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.
As portas eram caducas
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“– Nessa casa aqui tem gente!”

Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh!  Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!

Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!

 

PARAFUSO DE CABO DE SERROTE

Declamado pelo autor, Jessier Quirino:

Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço, armador
Enxadeco, fueiro e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco, alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega sortida cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom… tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá a justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho, cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum maço de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se puxa uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjembradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio com flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides com copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira-gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Uma rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado no sabão
E o bodegueiro despacha ao artesão
Um parafuso de cabo de serrote.

PAPAI NOEL FUNERÁRIO

Agora, agorinhazinha, de guidom bem segurado e ciclista magricela, passou aqui em frente de casa, em Itabaiana, uma bicicleta-de-som, dessas de vender disco-pirata, propagandando a promoção de Fim de Ano da Funerária Rosa Master.

Acredita???

Promoção: Uma moto zero quilômetro que será sorteada no Natal.

Levando-se em conta que os motos-taxista são quem mais comem mulher casada na região – sujeito a um tei-bei no zuvido e que, defuntamento de indivíduo por se lascança de moto no asfalto é o termômetro de morte mais agirafado da cidade, a promoção é justa, legítima e camumbembada.

Pra asseverar a conversa, pedi ao meu assistente que desse um pulinho lá e ele conferiu: a moto está ao lado do birô de atendimento, cheia de bolas brancas de aniversário e caixão em posição de sentido por todo lado. Se for mentira eu estopre!!

PS. Melhor do que isto, só o nome de uma funerária lá de Itamaracá: TOU DE OLHO EM VOCÊ!

CONVERSA DE SERTANEJO

Tu sabes que onde se encontram dois sertanejos, os três tão falando de chuva, de inverno.

Isso foi lá no céu, onde um magote de desocupados ficava, boquinha da noite, todo dia, falando de inverno e de chuva.

- Inverno bom foi em 1935…

- Foi nada, chuva mesmo foi em 42…

Só faltava sair tapa.

Todo dia, já no fim da conversa, passava um velhinho baixinho, magro, de barba branca e comprida, quase arrastando no chão .

Interrompia a discussão só pra dizer:

- Vocês nunca viram chuva!

Dizia isso e ia simbora.Todo dia a mesma coisa, até que um dos camaradas se arretou:

- Me diz uma coisa, quem danado é esse velho abusado que fica dizendo “vocês nunca viram chuva…vocês nunca viram inverno”?

Um caba repondeu:

- Sei quem é não. Dizem que é um tal de Noé…

AGORA, FALANDO SÉRIO

Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:

Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…

Tá com a molesta!!!

Acabou milho, acabou pipoca!

Quer que o cabra faça o quê?

Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?

Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:

– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo

E priu.

PANO DO LEITE

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“– Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

PENSAMENTO SERTANEJO

Tou pensando nos pássaros sertanejos
Quero-quero e anum carrapateiro
Tou pensando no canto boiadeiro
Êh êh êh…rê ! Malhada e Ventania !
Tou pensando no sapo, rã e jia
Orquestrando o amem da hora santa
Na insônia do grilo que me encanta
Na leveza dum fole bem tocado
No vergel que se espalha no roçado
No prazer de ver planta que se planta.

Trago no assoalho da garganta
O entalo de lindos pensamentos
Da tristeza amuada dos jumentos
Tais e quais um bruguelo desbriado
Do vexame bem dispranaviado
Do doidim que traz água na ancoreta
Do cachimbo de Dona Mariêta
Numa reza de limpa de quebranto
Do espelhinho, missal, de terço e santo
Na banquinha do lado da maleta.

Tou pensando na sala e na saleta
Com jarrinho de flor bem aguádo
Na fachada triângulo bem pintado
Rodeado de traços em relevo
Vira-lata mijão fazendo frevo
Quando avista seu dono despresente
Lavadeira batendo lentamente
Tricoline, fustão, bramante e linho
E um menino caçando passarinho
Badocando e pisando mansamente.

Tou pensando no homem paciente
Com direito de ali nunca ter nada
Do trabalho arrastado na enxada
Cavucando o terroso continente
E apesar de sofrido este valente
Solta um riso risido e clareado
Faz um verso na hora improvisado
Tão inédito que nunca é repetido
Quem não  presta atenção sai ressentido
De perder o que nunca é reprisado.

Tou pensando no cego ter falado
Que a idade não capa pensamento
Que fumaça não tapa firmamento
Que igreja não capa o vigário
Que cadeia não cura o salafrário
Que senado não pune o deputado
E o ceguinho fazendo o pontiado
E molhando a palavra numa cana
No balcão da bodega de Mãe Nana
Com cerquinha pros copos emborcados.

Tou pensando aqui com meus lembrados
No aconchego da casa praciana
No terraço se tira uma pestana
Depois dum almocim bem palitado
Essa casa tem jeito alpendrado
Tem o dom de não ter uma garagem
Tem um muro baixinho e arvoragem
E o ambulante gritando: Garrafeeiro!!!
Êh  jornal, êh  garrafa, êh litro e meio!
E os moleque juntando a miudagem.

É O CHICOTE DO VERSO A LAPEAR

Cantador-repentista é quixabeira      
Dando fruto num chão esturricado
Espaneja o sertão empoeirado
Canta o sulco da terra preciosa
Canta o branco do leite da Mimosa
Canta a água embaçada dos barreiros
Canta a forte cantiga dos cardeiros
Dez mil vezes mais forte que as rosas.

Vai-se embora cumpade cantador       
Pega o espiche delgado dos gravetos
E faz dele um frondoso juazeiro.

Pega o vento que escasseia no terreiro
E faz dele um ventinho assanha-franja.

Canta os olhos cegantes de Maria
Canta o sol por detrás da morraria
Nodoando o infinito de laranja.

Não esqueça o versejo aperreado
Do matuto esbarrado por fadiga
Milharal entre a cruz e a espiga
Nem a mão suarenta na enxada.

Caveirame de rês encarniçada
Enlutando a couraça dos vaqueiros
Planta os versos nas fendas dos lajeiros 
Que poemas campeiros vão florar.

Vai cantador dos carcarás
Vai cantador da jericada

Canta o mato, o monturo e a garranchada
Pois o mato taí pra se cantar
Dá-lhe cantador dos trapiás
Dos barreiros nas mãos das lavadeiras
Dá-lhe cantador das carpideiras
É o chicote do verso a lapear.

COISAS PRA SE DIZER BENZÓ-DEUS

No lugar que caxete é comprimido
Tem coisa de se dizer benzó-Deus!
Da sabença de tantos Zebedeus
Ao rinchar dum jumento intumescido
Cangapé dum moleque mal-ouvido
Ou história dos que não têm história
Um Jesus bem cristoso e chei de glória
Protegendo nações de deserdados
Sanfoneiros com seus tarrabufados
Cantadores com suas trajetórias.

Sá-Zefinha ser mãe de tantos filhos
Bem dizer sendo uma zefinharia
Boiadeiro aboiando em sintonia
Com o blém-blém do chocalho que chocalha
Juremas com escoliose nas galhas
Respirando num solo ressequido
Um café bem torrado e bem fervido
Que agrada monarcas e plebeus
São coisas que se diga benzó-Deus!
No lugar que caxete é comprimido.

Benzó-Deus pra horta Chica Roxa
Verdezinha, pinicada de azulão
Pra bravura da mula em bestidão
Trabalhando sem nunca se enfarar
Benzó-Deus pra coalhada do luar
Despejando um manjar resplandecido
Pro matuto feliz e divertido
A despeito de ser tão maltratado
Cavucando uma roça no roçado
Esperando um inverno prometido.

Benzó-Deus quando o cochicho do vento
Despenteia e penteia o capinzal
Quando a loja serena de um varal
Se alvoroça e sacode a estamparia
Benzó-Deus pro carro-de-boi que chia
Imprimindo seu nome em chão-batido
Pro silêncio mais alto que o ruído
Feito um tempo amuado e mal-com-Deus
Benzó-Deus pro marrom dos olhos teus
Faiscando um olhar enternecido.

UMA CARTA DE PERAÍ

O amor, quando é maduro e bem-gostado, é feito bambu de lagoa: pode envergar, mas não tomba.

Ouvi dizer que paixão
É um salto duplo e mortal
De um amor aventurado
Pulando em riba um do outro
Às cegas e embriagado.

Paixão blu-blu-amoreco
Paixão pom-pom vermelhado
Paixão bolinho-com-Fanta
Paixão xaxim-aguado
Paixão arranca-porteira
Paixão do quengo-virado
Paixão ninho-de-vexame
Paixão demônia, vulcânica
De brasa, de gamação
Contramãozinha-em-paixão
Paixão de baú guardado.

A nossa era pura e alva
Feito delírio de lírio
De fuloreio nevado:

Um letreirão luminoso
De branco sebo-lavado
Com graça, luz e perfume
Sem voragem de ciúme
Sem desfavor, sem pecado.

Mas num regaço de um dia
O marimbondo da cisma
Trouxe um ferrão venenado:

Brigamos de teimosia
E ouvi daquela Maria
Este toró macriado:

 “Paixão é feito fumaça
Embaça o zói e sufoca
Quando da fé, ela passa!”

Ao ver suas nádegas gêmeas
Por capricho se afastar
Meu picadeiro da insônia
Tornou-se sala-de-estar.

Eu era casca de alpiste
Fora do cocho, assoprada
Imprestável pra semente
Pra bico da passarada
E ela, uma margarida
Dessas de plástico sem vida
De folha dura aramada.

De corpo manco, incompleto
Inflei meu orgulho reto
Pra disfarçar meu saci
Me aboletei na boleia
Duma marinete véia
Que transporta o Cariri.

Mas, no agá do vambora,
Sem nem saber pr`onde ir
Chegou em riba da hora
Com mil nasceres de aurora
Uma carta de peraí.

 

POLITICAGEM – TIRE SEU POLÍTICO DO CAMINHO – DE DOMINGO AGORA A OITO

A tal da politicagem?
É o acento circunflexo da palavrinha cocô
É feito brigar com um gambá
Pois mesmo o cabra ganhando
Sai arranhado e fedendo
É dirigir dando ré
O cabra tem três espelhos
E ainda olha pra trás
E pode prestar atenção:
Na boca do candidato é o mesmo Mané Luis
Trabalho, honestidade
Trabalho, honestidade
Por quê?
Porque o povo gosta de mentira!
Seu Manezinho Boleiro
Suplente de merda viva
Foi dar uma de sincero
Dizendo o que pretendia
Trabalhar de terça à quinta
E roubar só o normal
Teve uma queda de votação tão pra baixo
Que até hoje ainda é suplente
Taí, fila da puta!

Tire seu político do caminho
Que eu quero passar com o eleitor
Hoje, pra esses peste eu sou Chiquinho
Fí de Seu Chico aboiador
Mas amanhã sou Chico véi que não dá trégua
Assim, táqui pra tu, fí duma égua

De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
Do fundo do coração
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão
De domingo agora a oito
É dia “arreganha-cofre”
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende a mão
E se agarrar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão
É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado
Ninguém come mais insosso
Ninguém bebe mais salgado
De domingo agora a oito
Não relampeja e nem chove
É o dia que nos comove
É o grande dia “D”
Agora, o dia “fuD”
Vai ser de domingo à nove.

DE DOMINGO AGORA A OITO

O poema De Domingo Agora a Oito, foi feito em agosto de 2005 publicado no livro Bandeira Nordestina (Ed. Bagaço ) em 2006

De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
– Do fundo do coração –
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão.

De domingo agora a oito
É dia arreganha-cofre
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende-a-mão
De se abraçar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão.

É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado:
– Ninguém come mais insosso
Ninguém mais bebe salgado!

De domingo agora a oito
Não relampeja nem chove
É dia que nos comove
É o grande dia D.

Agora o dia fu-D
Vai ser de domingo a nove.

 

A CUMEEIRA DE AROEIRA LÁ DA CASA GRANDE

 

Oh! cumeeira de aroeira lá da casa-grande
Veja e nos mande uma visão dessa velha morada
Sendo a parada retilínea do telhado em quedas
Não te arredas dessa empena tão estruturada
Sois a chegada de telheiro, ripa e caibaria
Hospedaria de pavões, corujas e pardais
Nos teus anais e cabedais de vida em cumeeira
Diz aroeira – dessa casa – o que enxergas mais?

- Pelas janela e portais lá da sala da frente
Vejo contentes e voantes espreguiçadeiras
Relaxadeiras de alpendre junto à rede armada
Lonas listradas, cores-vivas, vidas de cadeira
As choradeiras de avencas pendem dos frechais
E os fuás das trepadeiras jasmineiras voam
Blusas magoam com bateres as saias das portas
E vejo hortas de verduras que nos afeiçoam.
Esta é a visão daqui de cima que meu olho expande
Eu, cumeeira de aroeira desta casa-grande.

Vejo o cimento avermelhado do piso da sala
E nesta sala quatro portas e quatro janelas
Cor amarela combinando com retrato antigo
E pouco artigo de mobília se avista nela
Uma janela abre as asas por cima dum cofre
Atrás do cofre inclinado: rifle e mosquetão
Um birozão de escritório, uma banca de rádio
E junto ao rádio uma cadeira balança no chão.
Esta é a visão daqui de cima que meu olho expande
Eu, cumeeira de aroeira desta casa grande.

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BANDEIRA NORDESTINA

capa12

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro
E quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado

É quando o tronco hasteado
É sombra pro polegar
É sombra pro fura-bolo
É sobra pro seu vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote

É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão
Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-avoada
Amarelo-jaca-aberta

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No bandejar buliçoso
Das folhas das bananeiras
Das bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:

O rijo e forte umbuzeiro .

CAMINHÃO DE MUDANÇA

No interior, o carro de mudança de móveis é chamado de andorinha. Lá vai a andorinha!

O poema Caminhão de Mudança é o retrato puro e versejado de uma mudança partindo de seu torrão.

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.  

Poema desenvolvido a partir duma visão poética repassada pelo cumpade David Sento-Sé.

UMA PITOMBEIRA NO CAMINHO

Venho por essas malchupadas linhas
Remedar um poema de Drummond:

Tinha uma pitombeira no meio do caminho.
Tinha cachos de pitomba
Na pitombeira do caminho.
Vi com a pitomba dos olhos
As pitombas suculentas do caminho
Mas, no meio do caminho, não tinha uma única pedra.
Uma única e bendita pedra, no meio do caminho.

O que adianta?
Uma pitombeira botando
E não ter nenhuma pedra pra derrubar um cachinho?!

Pra saciar meu desejo
Fui chupar o poema de Drummond.

UMA PAIXÃO PRA SANTINHA

Xanduca de Mané Gago
Tinha querença mais eu
Me vestia de abraço
Bucanhava os beiço meu
Era aquele tirinete
Parecia dois colchete
Eu in nela e ela in nêu.

No apolegar das tetas
No chamego penerado
Na misturação das perna
Nos cafuné molengado
Nos beijo mastigadinho
Nos açoite de carinho
Nós era bem escolado.

Era aquele tudo um pouco
Era aquela amoridade
Mas faltava na verdade
Sensação de friviôco
Um querer, uma pujança
Daquela que dá sustança
Na homencia do cabôco.

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DUAS POESIAS

CIRURGIA DE HEMORRÓIDA

* * *

MEU NOME NÃO TEM SUSTANÇA

Eu quero trocar meu nome
Prum nome mais verdadeiro
Pois, Nuca de Zé Bedêu
Não tem sustança nem cheiro
Quero um nome de Doutor
Graúdo, respeitador:
Astragildo de Medêro.

Astragildo de Medêro
Ô nomezim arretado!
Com ele bem adubado
Eu era um filosofeiro
E dia em toda altura:
-O raso não tem fundura
No planeta brasileiro!

O raso não tem fundura
Ia pro Repórter Esso
Ia ser grande sucesso
A minha filosofura
Os doutor na altura
Espalhava o boateiro
E dizia: – Meu cumpade
O dono dessa verdade
É Astragildo de Medêro.

Já um nome apeiticado
Já um nomezim reimoso
Já não é considerado
Já não pode ser famoso.

O raso não tem fundura!
Com bravura digo eu
Os doutor logo adverte:
- Pelo que se asucedeu
A má palavra se herda
Pois quem falou essa merda
Foi Nuca de Zé Bedêu.

AGRURAS DA LATA D’ÁGUA

 

…E eu que fui enjeitada
Só porque era furada.
Me botaram um pau na boca,
Sabão grudaram no furo,
Me obrigaram a levar água
Muitas vezes pendurada,
Muitas vezes num jumento.

Era aquele sofrimento,
As juntas enferrujadas.
Fiquei com o fundo comido.
Quando pensei que tivesse
Minha batalha cumprido,
Um remendo me fizeram:
Tome madeira no fundo
E tome água e leva água,
E tome água e leva água.

Daí nasceu minha mágoa:
O pau da boca caía,
Os beiços não resistiam.
Me fizeram um troca-troca:
Lá vem o fundo pra boca,
Lá vai o pau para o fundo.
Que trocado mais sem graça
Na frente de todo mundo.
E tome água e leva água
E tome água e leva água.

Já quase toda enfadada,
Provei lavagem de porco,
Ai mexeram de novo:
Botaram o pau na beirada.
E assim desconchavada,
Medi areia e cimento,
Carreguei muito concreto
Molhado duro e friento,
Sofri de peitos abertos,
Levei baque dei peitada.

Me amassaram as beiradas,
Cortaram minhas entranhas.
Lá fui eu assar castanha,
Fui por fim escancarada.
Servi de cocho de porco
Servi também de latada.

Se a coisa não complica,
Talvez eu seja uma bica
Pela próxima invernada.
E inverno é chuva, é água,
E eu encherei outras latas
Cumprindo minha jornada.

NENÉM NA BALANÇA DA CIBRAZEN

No interior mais mato adentro daqui de nós, o Médico termina de examinar uma criança doente, no miolo dum comércio de beco de fim de feira. Na falta de uma balança pediátrica apropriada, pergunta a mulher que traz a doentinha nos braços:

- A senhora sabe quantos quilos ela está pesando?

- Aff Maria Doutor, isso é uma coisa que sei não sinhô!

Sem os dados do peso da criança, fica o Doutor sem poder receitar a dosagem correta do remédio. Nisso, um ajudante da casa, na melhor das inteções, sugere bem sugerido:

- Ô doutor, aqui do lado tem uma balança da Cibrazen, mas eu acho que a neném é muito pequena…

O Doutor espertamente atina prum detalhe, e diz de acelerado:

- Ôpa rapaz, vai dar certo! Mesmo sendo balança industrial, a gente pesa. Vamos lá: Primeiro sobe na balança a mãe com a criança nos braços; depois, a gente segura a criança e sobe a mãe sozinha. Aí, é só pegar o peso das duas, diminuir do dela sozinha, teremos o peso da criança e eu passo a dosagem certa do remédio. Vamos Dona Maria…

Nesse interim-tim-tim a mulher temerosa retruca:

- Ô Doutor, por caridade, não vamos pesar desse jeito não; eu vejo a hora, que Deus o livre, que pode findar errado a dosage da bichinha!

- Mas por que Dona Maria????

- É porque eu não sou a mãe dela não, eu sou a tia!!


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