APEGO DE TANGEDOR

Vaqueiro que é bom vaqueiro
Cabôco trabalhador
Se apega pela boiada
Na vida de tangedor
Pulum boi, puluma vaca
Véve naquela fuzaca
Num causo grande de amor.

Com Nena de Zé de Shell
E com a vaquinha Amarela
Divide sua paixão
Chama na xinxa a donzela
Bem distante da cancela
Pra não se ver traição.

Adoece de avexo
Vendo o patrão sem amor
Negociar a boiada
Mode comprar um trator
Chora no pé da cancela
Vendo a vaquinha Amarela
Saindo pro matador.

CARTOMANTE

A cartomante fala para a mulher:

– Vejo nas cartas que seu marido tem uma amante, mas o pior é que… ele vai morrer ainda hoje!

– Continue… Continue… Veja aí se vou ser absolvida…

.

ME COMPRE ESTE RÁDIO

Cumpade me faça essa caridade
Me compre este rádio por quanto valer
Mode eu não ter raiva e não ficar roxo
Depois ficar chocho, mode eu não morrer
Me diga cumpade pelas caridade
Que quer esse rádio pra sua família
Eu dou de agrado uma dúzia de pilha
Que junto com ele mandaram eu comprar
Andava comigo pra todo lugar:
Pra feira, novena, açude e roçado
Inté um retrato com o peste do lado
Todo abestaiado me pus a tirar.

Mas tive um desgosto depois do Repórter
Mode uma notícia que o peste me deu
Falou que mataram cumpade Nenêu
Pertou o meu peito, me deu um sobroço
Os povo correram foi um alvoroço
E o rádio danado a falar e dizer:
Dizer que foi tiro. Seis tiro de doze
Pro riba dum coice dum tal caratê
Falou que os povo pagaram pra ver
Que foi briga boa, bem afuleimada
No bom da notícia, fez uma zoada
Não deu quem matou e nem disse o porquê.

EXÉRCITO BRASILEIRO X ONÇA

Em Mossoró, depois da passagem frustrada de Lampião, que enfrentou tropas do exército nacional, um soldado saiu como herói, porque escapou ferido de garra com seu fuzil.

Aparece uma onça e começa a comer os bezerros da região. O prefeito foi ao soldado, já recuperado e diz:

– Bom dia Soldado, precisamos de sua ajuda urgente. A onça, que todos já sabem, está fazendo muito estrago nas criações e só um fuzil para matar e liquidar a questão.

– Pois não, Seu Prefeito. Essa onça morre já-já, agorinhazinha!

– Ótimo, porque ela já matou dois caçadores.

– Comequié????? A bicha já comeu dois home????

– Sim senhor. Matou dois que tentaram derrubá-la de espingarda. Agora só um fuzil, certeiro e potente e…

O soldado ficou pensando… assuntou, assuntou e disse:

– Bom Seu Prefeito, só tem um problema: Como o senhor sabe, eu sou do exército brasileiro, portanto sou Federá. Preciso saber se essa onça é Federá ou Estaduá, pra não haver conflito entre os dois governos, né não?

PANO DO LEITE

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“- Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

O DIA EM QUE DEUS ADEUSOU-SE

…Quando Deus adeusou-se por inteiro
Fez os poetas, as musas e as rosas.
Ao cabo do sétimo dia
Deus atirou pra cima e no escuro.

Na lona celestial
Abriu goteiras de estrelas
E o rombo brilhante do luar.

MANÉ CABELIM LTDA.

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 14 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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PADRE CIÇO CONTRA 007

…Meu nome é BOND, eu sou James Bond
Falou o agente sacando a mão.
Meu nome é CIÇO, eu sou Padre Ciço
Falou meu Padrim Padre Ciço Romão.
O mundo calou-se prestando atenção
Encontro danado que nunca se viu
Vi gente gritando – Puta que pariu!
Essas duas alma, são alma da boa
Caiu no momento chuvosa garoa
E tome mentira milagre e questão.

Vi Bond mostrando buraco de bala
Tinha mais de vinte no mei do pulmão
Faltavam três veias no seu coração
Mas ele guardava lá dentro da mala
O meu Padrim Ciço pegou a bengala
Meteu num buraco que logo fechou
Todo ferimento se cicatrizou
Surgiu um jumento da cor de ambulância
Puxando uma maca e naquela distancia
Com o tal detetive dali disparou.

A velha beata se estatelou
Com o baita milagre em pleno sertão
E meu Padrim Ciço ou Ciço Romão
Agora babando se abestalhou
Quando James Bond da maca pulou
Puxou um canhão de dentro do terno
Prendeu uma seca roubando um inverno
Jogou uma corda e a nuvem laçou
A seca covarde dali se pirou
Livrando a gente daquela inferno.

O meu Padrim Ciço se vendo por baixo
Daquela mentira que Bond aprontou
Pensou nos milagres que já milagrou
Pegou a bengala e foi pro riacho
Numa pescaria contando por baixo
Pescou três baleias e um tubarão
Um fole tocando xaxado e baião
Segundo o primeiro já foi de gonzaga
Uma vela acesa que nunca se apaga
Duzentas sardinhas e um pé de limão.

O agente secreto ficou assustado
Vendo uma baleia no mar do sertão
Puxou a fivela do seu cinturão
E feito um foguete pra cima e pro lado
Saiu flutuando no mei do roçado
Deu mais de mil tiros com seu mosquetão
Prendeu a volante salvou lampião
Matou coronel, feriu deputado
E um mar de corruto, correndo pro lado
Parou a roubança, salvou-se a nação.

Ai Padre Ciço botou um queixão
– Assim ta ca gota de tanta mentira !
Ai James Bond fez padre de mira
Ai Padre Ciço tacou-lhe um bufete
Pegou de surpresa zero zero sete
Os dois se atracaram zero zero oito
O padre tinhoso, mordido e afoito
Falou: – com mentira ninguém me ilude
Foi fazer milagre lá em Hollywood
Milagre pesado maior de dezoito.

SABATINA FEITA COM UM MATUTO PRESIDENTE DE BANCO DE FEIRA

Fiz esse texto no ano 2000 e foi publicado em 2001 na página 79 do livro Prosa Morena.

O assunto corrupção é feito casa funerária: não tem fim nunca.

prosa morena

* * *

Senador – Senhor Pedim de Mané Lingüiça, sendo um presidente de banco de feira, como o sr. vê a situação econômica do Brasil, hoje?

Matuto – Ahh!… O Brasil tá se acabando ligerim feito sabão em mão de lavadeira.

Senador – Ao seu ver, qual a causa desta situação de crise em que o país se encontra?

Matuto – Falta de medida meu cumpade! Cada qual só devia estirar a perna até onde lhe chega o lençol.

Senador – Mas o governo promete ajustes para resolver o problema da crise, não promete?

Matuto – É… Só que ovelha prometida não diminui rebanho, né?

Senador – E quanto aos novos rumos que o governo está tomando, qual a sua opinião?

Matuto – Pra quem tá perdido, todo mato é caminho.

Senador – Na sua opinião, o que o governo deve fazer para sair da crise?

Matuto – Deve deixar de mel que é estruição de farinha.

Senador – O que o sr. acha do problema dos rombos, no poder público?

Matuto – O problema tá na cerca: cerca ruim é que ensina o boi ser ladrão.

Senador – Agora vamos falar de Nordeste. Como é verdadeiramente o quadro da seca no Nordeste?

Matuto – Olhe: De bicho de cabelo, só quem escapa é escova, de bicho de fôlego, só quem escapa é fole, e animal de quatro pé, só escapa tamborete.

Senador – O sr. não acha que o governo tem realmente vontade de resolver este problema da seca?

Matuto – O que mais se perde neste mundo é vontade e cuspe, home!

Senador – E os açudes que os governos já construíram?

Matuto – Açude de papel e cuia emborcada não ajunta água não, cumpade véi!

Senador – E quanto aos políticos que já deram a palavra, que vão resolver esta situação caótica do Nordeste, o sr. também não acredita?

Matuto – Olhe cumpade: sol de inverno, chuva de verão, choro de mulher e palavra de ladrão… esse aqui não fia não.

Senador – Mas o sr. não acha que a atual situação econômica, está afetando pobres e ricos e o próprio governo?

Matuto – Tá nada, home!.. O pau entorta no cu do rico e do governo, mas só se quebra no do pobre.

Senador – Como é que o pobre esta sobrevivendo nesta crise?

Matuto – Gato com fome come até farofa de alfinete.

Senador – Como o sr. vê a justiça no Brasil?

Matuto – Da justiça pobre só conhece os castigo.

Senador – Como o Sr. está vivendo agora?

Matuto – Nasci nu, tou vestido; pra morrer pelado não custo.

Senador – O que o Sr. acha da classe política brasileira?

Matuto – Olhe cumpade véi, tem um magote ali dentro tão bom de roubo que, se vendesse cavalo, achava um jeito de ficar com o galope.

Senador – E quanto aos prefeitos e vereadores?

Matuto – Ahhh! meu fi… Esses aí tão ensinando rato a subir de costa em garrafa.

Senador – E quanto à oposição?

Matuto – Humm?

Senador – A oposição!…O sr. acredita nos partidos de oposição?

Matuto – Hummmm!

Senador – O senhor acha que são realmente o que dizem? Íntegros, retos, austeros?

Matuto – Hum-hum!

Senador – O sr. é sempre assim, de poucas palavras?

Matuto – Palavra de homem é um tiro. Falar sem cuidar é atirar sem apontar.

Senador – Como homem do povo, que recado o sr. tem para os governantes?

Matuto – Meu recado é uma verdade: a gente nunca se esquece de quem se esquece da gente.

MATUTO DOENTE DAS PARTES

No tronco do ser humano
Nos finá mais derradêro
Tem uma rosquinha enfezada
Que quando tá inflamada
Incomoda o corpo intêro.

Se tossir se faz presente
Se chorar se faz também
O cabra não pode nada
Com nada se entretém
Eu lhe digo meu cumpade
Não deseje essa maldade
Pra rosca de seu ninguém.

Não sei o nome da cuja
Desta cuja eu tiro o “ja”
O que resta é quase nada
Bote o “nada” na parada
Quero ver tu agüentar.

Eu lhe digo meu cumpade
Que é grande humilhação
Um cabra do meu quilate
Adoecido das parte
Fazer uma operação.

Não suportando mais dor
O meu ato derradeiro
Foi procurar um doutor
Do “Bocá do Arenguêro.”

Do Bocá do Arenguêro
Fejoêro, Fiofó
Bufante, Frescó e Lôrto
Apito, Brote e Bozó.

De Furico, Fedegoso
Piscante, Pelado e Bóga
Fosquete, Frinfra e Sedém
Zuêro, Ficha e Vintém
De Ás de Copa e de Fóba.

De Oití, Ôi de Porco
Ané de Couro e Caguêro
De Gira-Sol e Goiaba
Roseta, Rosa, Rabada
Bôto, Zero e Mialhêro.

De Nó dos Fundo e Buzéco
De Sonoro e Pregueado
Rabichol, Furo e Argola
Ané de Ouro e de Sola
Boca de Véia e Zangado.

Um doutô de Aro Treze
De Peidante e Zé de Bóga
Que não aperte o danado
Nem deixe com muita folga.

Um doutô piscialista
Em Bocá da Tarraqueta
Doutô de Quinca e Dentrol
Zebesquete e Carrapeta.

Doutô de Rosca, Rosquinha
Tareco, Frasco e Obrom
Ceguinho, Butico e Zero
Tripa Gaitêra e Fom-Fon.

Mialhêro e Mucumbuco
Buraco, Brôa e Boguêro
For Ever, Cruaca, Urna
Gritadô, Frande e Fuêro.

Cano-de-Escape e Pretinho
Rodinha, X.P.T.O.
Zerinho, Subiadô
Tripa Oca e Fiofó.

Um doutô de Helidório
Ou de Boca de Caçapa
Que não seja inimigo
Também não seja meu chapa.

Tratador de Canto Escuro
De Boréu ou de Cheiroso
De Formiróide e Alvado
De Parreco e de Manhoso.

De Chambica e Cibazol
Apolonio e Fobilário
Bilé, Briôco e Roxim
Fresado, Anílha e Cagário
Vazo Preto, Zé Careta
Olho Cego e Espoleta
Fuzil, Fiôto e Fuário.

Não é doutô de ovário
É doutô de Oriol
De Cá-pra-nós e Bostoque
De Futrico e de Ilhó.

De Culiseu e Caneco
Roscofe, Forno e Botão
De disco, de Farinheiro
De Jolí, Fundo e Fundão
De Quo-Vadis e Fichinha
Que não venha com gracinha
E que que não tenha dedão.

Um doutô de Zé de Quinca
Canal 2 e Cagadô
Buzina, Vesúvio e Cego
Federá e Sim-sinhô
Fagulhêro e Zé Zoada
Rosquete, Fim de Regada…
…Eu só queria um doutor.

O doutô se preparou-se
Parecia Galileu
Aprumou um telescópio
Quem viu estrela fui eu
Ele disse arribe as perna
– Tenha calma, sonho meu
A partir daquela hora
Perante Nossa Senhora
Não sei o que sucedeu.

C`as força da humildade
Já me sinto mais milhó
Me desejo um anus novo
Cheio de verso e forró
Pros cumpade , com franqueza
Desejo grande riqueza:
Saúde no fiofó.

O MATUTO E O CORONÉ

O BOLO-MAU E OS TRÊS CORPINHOS

Mote de Roberto Silva

Era uma vez três corpinhos.
Três meninas, três gracinhas
Que só comiam alface.

Garapa? Só sem açúcar.
Pão-de-ló sem pão, sem ló.
Viviam na ditadura
De nunca, nunca engordar:

– Deus nos livre de gordura!
Deus nos livre de quindim!
Eca! Pra musse e manjar
Chocolate? Nem pensar!
Sorvete? Tudo de ruim!

– Deus nos proteja de massa
Arroz, fritura, feijão…

Até o leite integral
Era prejudicial.
Apenas eu, Bolo-Mau,
Era a única tentação.

Eu era um bolo adorado
Do bom dos melhores bons:
Chocolatíssimo flocado
Gostosamente adoçado
Ornado em branco e marrom.

Era o mimo da moçada
O desejo dos brotinhos
Mas vivia acabrunhado
Por nunca ter conquistado
A gula dos três corpinhos.

Um dia, tracei um plano:
Botei meu melhor recheio
Iguarias de princesa
E, daquelas três lindezas,
Duas caíram de cheio.

Mas a terceira esbelteza
Fugitiva do pudim
Regurgitava, enjoava
Resistia até o fim.

Mas eu, de Mau, insisti:
Revesti-me de alface
De pepino e couve-flor
E fui bater na janela
Do corpinho tentador.

Vendo-me assim de verdura
Corpinho se derreteu
Garfou-me de gulodice
E do Bolo-Mau, comeu.

Ficou tão viva e animada
Que não parou de provar
Quem era de hortaliça
Ficou quitute, roliça
De filezinho pra lá.

Tornou-se violãozuda
Malagueta de arder
As rosas se boquiabrem
E se rosam por lhe ver.

Tem audiência estourada
Quando o amor tá de vez
Me faz pro aniversário
Devora-me com avidez
Faz  beiço-ventilador
Me sopra velas de amor
Na velocidade três.

FARINHA DE AIPIM

Se o espírito não me engana
Acho que eu vi um espírito!
E era um espírito fême
De mansidão esquisito.

Dona de carícia branca
Qual farinha de aipim
E nascia e desnascia
A quatro dedo de mim.

Era um gozo de cabôca
O seu corpo era um roçado
Seu rosto um lerão viçoso
Adubadinho e manhoso
E eu era todo um arado!

Eu arava,  ela fofava
E agricultava  bonito
Me molecava nos braços
Que’u batia no infinito.

Entre o colchão e o arado
Que nem um papel carbono
De abano bem lavrado
Esse roçado espritado
Já era um poema escrito
Cujo verso mais bonito
Já tava todo orvalhado.

CABÔCA BANDA-VOOU

Vou falar duma Maroca
Cabôca Banda-voou
A morena mais beldade
Mais lua, mais Afrodite
E mais Helena de Tróia
Que meu zói já divisou
Bem mais que aquela Maroca
Dos cuscus de mandioca
Que Zé da Luz versejou.

Eu vou deixar bem riscado
Na casca da melancia
Que nós nascemo um pro outro
Como que má comparando:
Fratura e radiografia.

Eu, solteirão acabado
Não sentia alegração
Grunia, churumingava
Pulava da ribanceira
Da marvada solidão
Sofrido e caramujado
Me vendo ali estancado
Chorei por ignição.

Um motorzão de arranco
Que três livros não traduz
Me surgiu beatamente
Como saída dos verso
Do poeta Zé da luz
Era um trovão de cabôca
Chega deu água na boca
Com a sustança dos cuscus.

Divisei essa Maroca
Quartuda e amaciada
Atoicinhada por fora
Por dentro bem traquejada
Plena nos truque dengoso
Nos belisco e cafuné
Trazendo nos peito inchado
Dois cuscusão de fubá
Que, só faltava falar
Dizendo: Chega Mané!

Era um cardápio celeste
Malagueta era o olhar
Beiço de crocância rara
Cadilac era o andar.

Os cuscus fazendo yoga
No corpo da mansidão
E o Detran da criação
Disse: O céu é logo ali!
Foi quando eu parti pra riba
Feito peixe no jiqui:
Achei brecha pra entrar
Mas não achei pra sair.

Se namoremo, noivemo
Deixemos de ser estranho
Fumo direto pro pade
Que disse a bem da verdade:
–Só falta correr os banho!

Cumprindo a ordem do pade
Corremo lá pro riacho
E danemo a se banhar.
– Só falta correr os banho!
Tornava o pade a falar.

Repetimo por três vez
Aqueles banho enxerido:
Eu lavava as coisa dela
E ela, meus possuído
E o pade já meio estranho:
– Só falta correr os banho
Que o casório é resolvido.

Eu perdi a paciência
Chamei Maroca prum canto
Ela, com o zói de espanto
E eu com voz de cimento:
E falei: Ô Maroquinha
Pra não fugir do rosário
Eu conto com seu vigário
Pra fazer o casamento.

Conto com tua sede
Pra agasalhar numa rede
Nossos quatro mocotó.
Pro arranhado dos peito
Eu conto com tuas unha
Conto com essa pecúnia
Pra três noite de forró.

Mas abra o zói do vigário
Que deixe de ró-có-có
Que não fale mais em banho
Que num banho deste tamanho
Tu embuxa e é pior!!!

NENÉM NA BALANÇA DA CIBRAZEN

No interior mais mato adentro daqui de nós, o Médico termina de examinar uma criança doente, no miolo dum comércio de beco de fim de feira. Na falta de uma balança pediátrica apropriada, pergunta a mulher que traz a doentinha nos braços:

– A senhora sabe quantos quilos ela está pesando?

– Aff Maria Doutor, isso é uma coisa que sei não sinhô!

Sem os dados do peso da criança, fica o Doutor sem poder receitar a dosagem correta do remédio. Nisso, um ajudante da casa, na melhor das inteções, sugere bem sugerido:

– Ô doutor, aqui do lado tem uma balança da Cibrazen, mas eu acho que a neném é muito pequena…

O Doutor espertamente atina prum detalhe, e diz de acelerado:

– Ôpa rapaz, vai dar certo! Mesmo sendo balança industrial, a gente pesa. Vamos lá: Primeiro sobe na balança a mãe com a criança nos braços; depois, a gente segura a criança e sobe a mãe sozinha. Aí, é só pegar o peso das duas, diminuir do dela sozinha, teremos o peso da criança e eu passo a dosagem certa do remédio. Vamos Dona Maria…

Nesse interim-tim-tim a mulher temerosa retruca:

– Ô Doutor, por caridade, não vamos pesar desse jeito não; eu vejo a hora, que Deus o livre, que pode findar errado a dosage da bichinha!

– Mas por que Dona Maria????

– É porque eu não sou a mãe dela não, eu sou a tia!!

SECAS DE MARÇO

Versos sem os TONS JOBINIANOS

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É pau é pedra é o fim do caminho
É um metro é uma légua é um pobre burrinho
É um caco de vida é a vida é o sol
É a dor é a morte vindo com o arrebol
É galho de jurema é um pé de poeira
Cai já, bambeia é do boi a caveira
É pé de macambira invadindo a cocheira
É vaqueiro morrendo é a reza brejeira
É angico é facheiro é aquela canseira
É farelo é um cisco é um resto de feira
É a fome na porta é um queira ou não queira
Na seca de março é a fuga estradeira
É o pé é o chão é a terra assadeira
É menino na mão e mais dez na traseira
É um Deus lá no céu Padre Cíço no chão
É romeiro rezando dentro dum caminhão
É o filho disposto partindo sozinho
No sul a esperança, é um novo caminho
É o pai fatigado é a mãe a lutar
É a caçimba distante é a lata a pingar
É carcaça de bicho é um mandacaru
É mau cheiro chegando é o vôo do urubu
É barriga de vento é um corpo na rede
É anjinho morrendo é a sede é a sede
É o canto agourento daquela acauã
É o vôo da asa branca no sol da manhã
É a seca de março torrando o sertão
É promessa de vida, é a nova eleição
É doutor diplomado é doutor coroné
É um pão uma feira um remédio no pé
É um poço uma pipa um cantor uma fã
É a troca e o troco depois de amanhã
É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição
………………………………………
É pau é pedra é o fim do caminho.

Poema musicado e publicado em 2001 no livro Prosa Morena (Ed. Bagaço)

CONVERSA DE SERTANEJO

Tu sabes que onde se encontram dois sertanejos, os três tão falando de chuva, de inverno.

Isso foi lá no céu, onde um magote de desocupados ficava, boquinha da noite, todo dia, falando de inverno e de chuva.

– Inverno bom foi em 1935…

– Foi nada, chuva mesmo foi em 42…

Só faltava sair tapa.

Todo dia, já no fim da conversa, passava um velhinho baixinho, magro, de barba branca e comprida, quase arrastando no chão .

Interrompia a discussão só pra dizer:

– Vocês nunca viram chuva!

Dizia isso e ia simbora.Todo dia a mesma coisa, até que um dos camaradas se arretou:

– Me diz uma coisa, quem danado é esse velho abusado que fica dizendo “vocês nunca viram chuva…vocês nunca viram inverno”?

Um caba repondeu:

– Sei quem é não. Dizem que é um tal de Noé…

UM VARAL EMPESTADO DE CALCINHA

Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão

Quando ela me faz uma cosquinha
Dou risada que afrouxo a suspensão
Amolengo o espinhaço e o coração
E navego num beijo apaixonado
Faço um verso jeitoso e afinado
Mais bonito que letra de baião
Vendo a roupa estendida num cordão
Silhueta de minha malandrinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

Aviventa o respiro e o doidejo
Catuaba pra alma estimular
Mandacaru eclipsando o luar
Nas barrancas profundas do desejo
Estradando nas molas do molejo
Baticum ritimando o coração
E as bandeiras que voam em branquidão
São enxágües  que  brilham na festinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

É uma peça rendosa e refinada
Modelada pros traços da viola
Não é calça, calção e nem caçola
Camisola, anágua ou “baby-dó”
Este traje é dos trajes o menor
Provoqueiro, faceiro e brincalhão
Cobre o ímã-do-mundo com razão
Mas com ela é melhor do que nuinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

DIGA-SE DE PASSAGEM

Tiro a passagem do trem que passa aqui de passagem
Locomotivo meus trilhos me atrelo na compridagem
Com olhos de sentinela ligo a TV da janela
Janelo minha viagem:

Passam miunças de povo esbanjando poesia:
Um magote de Marias adornando um quarador
Passa a passo de cavalo, um vaqueiro aboiador
Um tico de procissão
Cantando: Oh Nossinhora do meu Pé-pé d`Socorro!
Um polidoro de gorro de porte pixototim
E passa a motocicleta desprezando a cavalgada
E passa um carro-garrincha driblando dez catabis
E passa um carro cantante cometendo Xororós
Por cima comete bis.
Passa o bocejo de um jegue
Com o gosto hortelânico do bem cedo da manhã
Passa uma vaca Mococa alvinegra de nascença
Na maior indiferença sem saia e sem sutiã
Passa uma casa de taipa com antena paranóica
Dez porquim com uma porca na vitamina de barro
Passa carroça de burro entuiada de capim
Um ninho de João-de-barro com dois João-de-barrozim
Passa um cabrito mamando com rabo em ventilador
Um leite saborizado no balde do tirador
Um espiche de magreza de um matuto taquariço
Passa um cabôco mestiço mimando um galo de briga
Passa a mulher rechonchuda
Habitada de menino – oito meses de barriga
Um galo véi namorante, um cachorro acaba-foda
Passa o tango dos perus tufando e fazendo  roda
Guri levando a gaiola em formato de garçom
Um desses galego assado
Pintando uma bicicleta com bomba de detefon
Passa a reca de cachorro na putice da cadela…

Toda casinha que passa, passa a fechar a tramela
Finalmente chega a noite exonerando o cenário
Turvando o documentário do meu TV de janela.

Fica a lua sem camisa mostrando seu redondor
Sãojorgeando a paisagem com sua pérola de cor
A noite só tem visagem e, diga-se de passagem,
Na crença do rezador.

BRINDE A UM CACHACEIRO SAFADO

A aperitividade dos bêbados
A carraspanice diária
As meropeias da vida
A calibrina necessária
Ao bebível, ao potável
A tudo comemorável
Ao coquetel caneado.

A bebedeira, ao pileque
Ao mundo do engasga-gato
Da branquinha e da bicada
Do ebrioso de fato.

Ao inventor da meiota
Do pifão e da lapada
Da talagada ferina
Da gororoba precária
Da abrideira querida
Da saideira sofrida
Da mandureba ordinária.

Ao bafejo de cachaça
Ao biriteiro triscado
Ao ébrio, ao pinga-fogo
Ao bicudo e ao melado
Ao chupa-rolha, ao pinguço
Ao compasso do soluço
E ao cachaceiro safado.

VERSOS DO LÁ FORA

A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.
As portas eram caducas
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“- Nessa casa aqui tem gente!”

Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh!  Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!

Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!

HEN HEM… QUE COISA MAIS LINDA!

Quando ela vem de mêrmo
Hen hem… Que coisa mais linda!
É um agrado agradave
Inocente e molestave
Que pra mim nunca se finda.

Sandalinha  lepo-lepo
Vestidinho bem folote
Dou-lhe um chegue na cintura
Taco um cheiro no cangote
Vejo o corpo torneado
Morenoso e jambeado
De amor cheim de mote.

Ela vai se legalsando
Vai logo se coisa e tal
O consciente e o sub
Cai no serviço camal.

Dá impressão que o mundo
Tá na hora do recreio
Que o ping-pong da vida
Esqueceu  o desenfreio
Que deu sossego na terra
Que Saddam véio de guerra
Acabou com o tiroteio.

Eu nela me esparadrapo
Mercúrio e cromo no amor
Ganho um beijo assaborado
Calmoso e alegrador
E vou me desvermelhando
Feito um pijama secando
Morrido no quarador.

DOMINGO NA PRAIA

Saí de Campina montado num jegue
Rumando pra Ilha de Itamaracá
Dezoito semanas sem nem descansar
Cheguei numa praia cheinha de fême
Vestida somente de óleo e de creme
Na parte de baixo um fio-dentá
Olhei pra direita achei um casá
Roçando um no outro deitado na areia
Valei-me São Jorge que a coisa tá feia
Tou vendo um galope na beira do mar.

Galope era tanto que o mar se calava
O vento soprava pro lado de lá
A onda quebrava, mas bem devagar
O povo passava e não dava fé
Porque em carícia de homem e mulher
De tudo se faz pra não estragar
O sol se escondia pra não esquentar
Não vinha ninguém dizer que não pode
E o noivo e a noiva – a cabra e o bode
Fazendo galope na beira do mar.

Tem água de coco, laranja, sorvete
Cerveja gelada pra gente tomar
Cachaça da boa, din-din, guaraná
Esteira, toalha, sombrinha e chapéu
Pro raio de sol caindo do céu
Tem óleo de bronze pra pele queimar
Tem moça passando pra lá e pra cá
Tem nego morrendo de sol e de porre
Olhando pra moça levanta e não morre
Cantando galope na beira do mar.

Tem gente buchuda correndo na areia
Fazendo de tudo pro bucho baixar
Cachorro maluco querendo brincar
Matuto molhado tirando retrato
Tem véio caduco que vem de sapato
Se banha no raso pra não se afogar
A véia enxerida querendo nadar
Mergulha no fundo, levanta engasgada
O véio caduco solta uma risada
Cantando galope na beira do mar.

Tem barco de vela, tem lancha, jangada
Moleque brincando na câmara de ar
Menina na pedra querendo pescar
A mãe acenando pra hora do rango
Sacode, no prato, farofa de frango
Doce de goiaba, suco de cajá
O pai pega o rango e vai se deitar
Na sombra gostosa que vem do coqueiro
Reclama a falta de um paliteiro
Cantando galope na beira do mar.

Tem jogo de bola, de chute e raquete
Tem homem e mulher querendo jogar
Tem rede de arrasto pra gente puxar
Menino correndo pra cima e pra baixo
Perdi o meu óculo na areia e não acho
Dou cinco mil contos pra quem encontrar
Tou vendo embaçado não posso enxergar
A moça bonita de bunda de fora
Assim desse jeito prefiro ir-me embora
Cantando galope na beira do mar.

Do livro Paisagem de Interior Ed. Bagaço 1996

ESPASMOS DE GAFIEIRA

A madrugada sonâmbula
Desperta de cara inchada
E quando espreguiça os braços
Espalha brechas de luz.

Pelas gretas da janela
Assisto a uma cena bela
Musicada a rouxinol
É uma aurora escanchada
De pele rubra borrada
Parindo gema de sol.

Có-ró-có-cós espaçados
De galos gogós-de-sola
E encarrilhados tô-fracos
Dos guinés, frangos-de-angola
Mugidos, silvos, trinados
E restos de conversados
Ruídos de mundo afora.

Canecos dão seus tibungos
Lá no pote da biqueira
E banham lerões de nylon
Com seus Colgates pastosos
De hálitos brancos frescosos
Nos céus-das-bocas  riseiras.

E o sino alegre blom-blim-bla
Um blom-blin-blá  animado
E as velhas de boca funda
Que insistem em ter pecado
Mastigam seus Pai-nossos
E Credos, bem mastigados.

Cá pra nós os pecadores
Uma brisa viajeira
Trás um cheiro de pão doce
Crioulo, brote e carteira
Mas não haverá café…

…Sinto um fervor de fogueira:
No arame, tua saia
Maldosamente ensaia
Espasmos de gafieira.

A TABA DA SARVAÇÃO

Meu cumpade, o que eu escuto
Derna de pequininim
É que o Brasil brasileiro
Pra sair dos atoleiro
Tá faltando tanto assim.

Tá faltando tanto assim
E nós tudo se afogando
Os doutor de vez em quando
Corruto, dos bigodão
Corre pra televisão
Beija os pobre, dá risada
E anuncia a chegada
Da Taba da Sarvação.

E grita os povo na rua:
– Foi o fim dos militar!
Já podemo festejar
O fim da submissão!!!

É bandeira dos partido
Correndo de mão em mão:
– Bem que aquele home disse
Que a gente se assubisse
Na Taba da Sarvação!

Com pouco mais tá de novo
O povo desmiolado
Satisfeito isprivitado
Folgado nas alegria:

– Foi um tá de Anistia
Que sortou-se da prisão!
Vi dizer que o home é quente
E agora chegou pra gente
A Taba da Sarvação!!!

Mas nem demora de novo
Os povo torna a gritar
Um tá de “Direta Já”
E “Agora o Brasil Mudou”
“Já temo os Doutor
Nos destino da nação!
Vamo acabar com as greve
Que agora é Tancredo Neve
A Taba da Sarvação!”

Os povo batero in riba
Correram atrás dos bombeiro
Fizeram um tá choradeiro
Pra mode ver um caixão
Eu não sei pro que razão
Depois de tanto mistério
Levaram pro cemitério
A Taba da Sarvação.

Mas pelas força de Ulysses
Teve a Constituição
E a Taba da Sarvação
Voltava em forma de Lei.

Não sei pra que tanta Lei
Mas os povo acreditaram
Que aqueles papé letrado
Dava toda solução.
E dizia: “Meu cumpade,
Esses papé, na verdade,
É a Taba da Sarvação!”

Pra resumir a questão
Foram vindo os presidente
E os povo besta e contente
Confiaram nos gangão
Se não tivesse os dedão
Dos vivaldino de sempre
Nós até seria crente
Na Taba das Sarvação.

Agora mando um recado
Pros dotorzão federá
Arranjar outras mentira
Pra mode nos enganar
Pois as lorotas de sempre
Tamo canso de escutar:

– Vamo acabar cu`s bandido
Vamo acabar cu`s babão
Vamo acudir as escola
Reformar as eleição
Menos abocanhamento
Menos ônibus ferrugento
Mais trabalho pros cristão…

Fim das esculhambação!
Credo-cruz, Ave-Maria!!
Isso quase todo dia
Enche o saco, meu patrão
Já que a gente não tem vez
Empurre no de vocês
A Taba da Sarvação.

MEU CORDIAL MEIA-NOITE

E na hora vinte e quatra
Da última data riscada
De um calendário pé-duro
Ajunte a companheirada
E peça duas rodadas
de um birinaite seguro:

Uma pro caju amigo
Outra pro imbu maduro
Converse qualquer brebôte:
– Tá medonho! Oxente! Vôte!
Com pouco mais é futuro.

PAPAI NOEL FUNERÁRIO

Agora, agorinhazinha, de guidom bem segurado e ciclista magricela, passou aqui em frente de casa, em Itabaiana, uma bicicleta-de-som, dessas de vender disco-pirata, propagandando a promoção de Fim de Ano da Funerária Rosa Master.

Acredita???

Promoção: Uma moto zero quilômetro que será sorteada no Natal.

Levando-se em conta que os motos-taxista são quem mais comem mulher casada na região – sujeito a um tei-bei no zuvido e que, defuntamento de indivíduo por se lascança de moto no asfalto é o termômetro de morte mais agirafado da cidade, a promoção é justa, legítima e camumbembada.

Pra asseverar a conversa, pedi ao meu assistente que desse um pulinho lá e ele conferiu: a moto está ao lado do birô de atendimento, cheia de bolas brancas de aniversário e caixão em posição de sentido por todo lado. Se for mentira eu estopre!!

PS. Melhor do que isto, só o nome de uma funerária lá de Itamaracá: TOU DE OLHO EM VOCÊ!

DE POVO ADENTRO

Pra se fazer um partido
Mode empurrar no Brasil
Basta uns quatro filiado
Que coma feito esmeril
Disfarçado de gentil
Que seja bem traquejado
Ou mesmo mal-afamado
Mas com o seguinte perfil:

Que só pense em enricar
Mais enricar de verdade
Nem que seja cometendo
Umas três honestidade
Que negue toda verdade
Até com prova na mão
Com as feição mais ó meno
Que seja bom de aceno…
O resto é televisão.

É aí que o candidato
Sai muçum lubrificado
Entrando de povo adentro
Até o dia marcado
Quando os cabra abestaiado
Vai escolher na cabina
A marca da vaselina
Com que vai ser enrabado.

Este poema foi feito no ano 2000, publicado no livro Prosa Morena em 2001 (Ed. Bragaço)

ENROLANDO BOLDRIN

Marrapaz! Bobó, quando tá tocando gaita, é mais descansado do que caranguejo almoçando. Passou uns dias aqui, no sertão, só dormindo, bebendo e tocando aquela gaita cheia de pitoco. Bem cedo, cinco e meia; eu cheguei e disse: “Bobó, tu não tinha uma viagem pra São Paulo, pro programa de Boldrin?” Ele disse: “É no dia 22”. Eu disse: “Vinte e dois é hoje, home de Deus!!!”…Cuida que já é mei dia em ponto!!!!

Aí ele saiu que nem uma vaca acuada de cachorro… E correu pra Campina Grande… 

***

Zefinha foi pra rodoviária… Ele tava lá, tranquilo que só jumento em sombra de igreja; bem dizer com uma muda de roupa, a gaita. Aí Zefinha disse: “Bobó, tu não vai pra São Paulo, pro programa de Boldrin; tu não tem um figurino de vergonha, home de Deus? Vai-te embora comprar uma roupa apresentave!!!”

Aí ele saiu pulando feito periquito em areia quente… Alvoroçado que só bode em chiqueiro de cabrita…

***

Voltou faceiro que só mosca em tampa de xarope… Devagar que só enterro de viúva rica.

Sabendo que jabuti não pega ema, Zefinha perguntou: “Ô Bobó, que hora é o teu voo?” Ele disse: “Dezenove e quarenta”… Aí ela disse de boca toda: “JÁ SÃO SEIS HORA EM PONTO, BOBÓ!!!” Corre que o avião tá num pé e noutro!!!

Aí ele saiu pro riba de tudo feito cachoeira de Paulo Afonso… Ligeiro que só coceira de cachorro e entrou no avião dizendo: “Vamo que eu sou um homem ligeiramente!!!!”

***

Na outra semana, o povo no sertão tava que era uma boca só:

“Bobó passou a manhã todinha em Rolando Boldrin”.

Aí eu disse: “Eu sabia tanto! Uma coisa que ele sabe é enrolar”…

MARILYN MONROE AGARRADA COM O VESTIDO E O VESTIDO DANADO A SE ENFUNAR

Deu um vento na Serra do Araripe
Que entronxou uma igreja no Japão
E, por falta de padre e de beato,
Vei de lá com a molesta feito o cão:

Derrubou as muralhas lá da China
Levantou um poeirão em Bagdá
Se enfiou num esgoto no Catar
Foi sair no quintal da longitude
Estourou um bueiro em Roliúde
Que até hoje tá dando o que falar:
Foi uma moça querendo se esquivar
De mostrar a caçola e os possuído:
Marilyn Monroe agarrada com o vestido
E o vestido danado a se enfunar.

marilyn

CUPIDOVITAMINADO@QUALQUERPESSOA

Zefinha nasceu no mato
Lá no Alto da Farinha
Nem parece ser do mato
Nem parece ser Zefinha.

Usa brinco que balança
Atende no celular
É fã de Paralabamba
Pata-pata e coisa e tá
Mas segundo o pessuá
Nunca teve namorado
Nunca dançou colado
Nunca foi de passear.

Quando chega a conversar
Só fala coisa educada
Amostra as unhas pintada…
Só vendo o seu gestuá.
Negócio pra Ipanema
Uma coisa de cinema
Quase um audiovisuá.

Quando me encontro com ela
Formo um casal bem-grudado
Ensopado de luxúria
Feito um paiol de pecado.

De coração pintalgado
De efeito luminoso
Me sinto retemperado
Corado, forte e garboso:

Nesse banquete de agrado
Nos beijos sou almoçado
Na fala sou fastioso.

É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO

Dez Altemares Dutras não me bastam
Num luar de cebola em serenata
Choro resmas de lágrimas nesta data
De algarismos do nunca-mais-voltar
Fico léguas, parado a ruminar
As palavras “se achegue” se achegando
A palavra “lindeza” se enfeitando
E a palavra “aliança” em sua mão
Lembro dela em tão doce comunhão
Que o açúcar é doado em caridade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

Num pensar de silêncio acabrunhante
No azedume de um riso amarelado
Imagino nós dois amadrinhados
Qual ponteiros no vão do meio-dia
Duas valsas dançando poesia
Cinderelo abrandando a Cinderela
Um desfecho choroso de novela
Sem o “livrai-nos do mal” da extrema-unção
E um papel despautado de colchão
Com nós dois em sinal de igualdade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

O IMPOSTO DO CUPIDO

Nos braços da minha amada
Sou inventor de carinho
Tal qualmente um bem-te-vi
Mimando um bem-te-vizinho
Eu chega fico alesado
Feito um bacorim mamado
Pro riba dos bacorinho.

É aquele enganchamento
De perna de boca e mão
Aquele agrado de coxa
É aquela alisação
E se acaso ela der sopa
Descascadinha de roupa
Virge-Maria!… Sei não!

O falar da minha amada
É aquele meio-tom
Aquela vozinha fofa
Que nem um talco pom-pom
Na orelha desse ouvido
É aquele sustenido
Fazendo cochicho bom.

Meu peso sem gravidade
Me manera vento afora
Eu em formato de doido
Esqueço o dia e a hora
E se ela disser: – Menino!
Vambora fazer menino?
Menino, eu digo: – Vambora!

O imposto do cupido
Eu pago só o varejo
Aparecendo um fiscal
Declaro dois ou três beijos
E sonego o apurado:
Chamego luxurioso
Os fósco que acende a chama
Palavreado de cama
Os apelido dengoso
Os meus saldos de balanço
Curruxiado e gracejos
E aviso a fiscaiada
– Se multar a minha amada
Tá multando meus desejos.

REFORMA ELEITORAL

Retirar as poltronas giratórias do parlamento e trocar por tamboretes.

Vá lá que o cabra não faça nada, mas ficar encostado e rodando já é demais!

ALTO NÍVEL DO DEBATE POLÍTICO NACIONÁ

Cada candidato dirige um desaforo ao adversário com direito a uma réplica de dois segundos:

– …Saiba Vossa Excelência que na minha cabeça ninguém caga.

– Pois fique sabendo que comigo a parada é dobrada, escreveu não leu o pau comeu.

– Comigo não tem pescoço, tudo é gógó.

– Comigo ninguém tira leite com espuma.

– Pois vamos emendar as camisas pra ver a tapa voar?

– Eu emendo sim as camisas, pois quando me abufelo madeira sobe de preço.

– Pois fique sabendo que eu sou uma pessoa que nunca morreu e não tem inveja de quem morre.

– E eu sou uma pessoa que nunca morreu e nem tem inveja de quem Deus já matou.

– Pois pise no meu pé e diga quantos murros quer.

– Pise no meu e veja quem se fodeu.

– Retire essa palavra do debate.

– Minha palavra é feito peido, não tem retorno; pronto.

COISAS PRA SE DIZER BENZÓ-DEUS

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No lugar que caxete é comprimido
Tem coisa de se dizer benzó-Deus!
Da sabença de tantos Zebedeus
Ao rinchar dum jumento intumescido
Cangapé dum moleque mal-ouvido
Ou história dos que não têm história
Um Jesus bem cristoso e chei de glória
Protegendo nações de deserdados
Sanfoneiros com seus tarrabufados
Cantadores com suas trajetórias.

Sá-Zefinha ser mãe de tantos filhos
Bem dizer sendo uma zefinharia
Boiadeiro aboiando em sintonia
Com o blém-blém do chocalho que chocalha
Juremas com escoliose nas galhas
Respirando num solo ressequido
Um café bem torrado e bem fervido
Que agrada monarcas e plebeus
São coisas que se diga benzó-Deus!
No lugar que caxete é comprimido.

Benzó-Deus pra horta Chica Roxa
Verdezinha, pinicada de azulão
Pra bravura da mula em bestidão
Trabalhando sem nunca se enfarar
Benzó-Deus pra coalhada do luar
Despejando um manjar resplandecido
Pro matuto feliz e divertido
A despeito de ser tão maltratado
Cavucando uma roça no roçado
Esperando um inverno prometido.

Benzó-Deus quando o cochicho do vento
Despenteia e penteia o capinzal
Quando a loja serena de um  varal
Se alvoroça e sacode  a estamparia
Benzó-Deus pro carro-de-boi que chia
Imprimindo seu nome em chão-batido
Pro silêncio mais alto que o ruído
Feito um tempo amuado e mal-com-Deus
Benzó-Deus  pro marrom dos olhos teus
Faiscando um olhar enternecido.

MALANDRO NA ELEIÇÃO

Historinha de um pleito eleitoral – BÊ-Á-BÁ para as crianças sem partido.

Era uma vez um malandro
Que fugiu da detenção
Em tempos longes, mofados
De roubo e depravação
De malandragem finória
Daria até outra história
Não fosse a convocatória
Duma bendita eleição:

É que o malandro Moleza
Como era conhecido
Se escondeu num caminhão
Pra mode não ser detido.

E deu-se então uma fuga
De grande sabedoria
Pois tinha sido traçada
Com toda geometria:
Fugia ali de carona
Por debaixo duma lona
Por sobre a carroceria.

E já no fim da viagem
Quando o caminhão parava
Moleza foi espiar
Mais ou meno onde é que tava.

Ficou então espantado
Sem muita compreensão
Pois o caminhão parava
No meio duma multidão.

A multidão se empurrava
Com festa e reboliço
Afinal, ali chegava
O palanque do comício
De onde os home ia falar
E pra Moleza escapar
Ia ser um estrupiço.

Com pouco mais foi subindo
Aquelas arturidade
Pra mode falar pro povo
De suas capacidade.

E por debaixo da lona
O malandro observou
A tal da politicagem
Por detrás dos bastidor.
Pra sua grande surpresa
Viu esperança acesa:
A política lhe chamou:

Ouviu um homem falando
Com a voz de Senador:
– Hoje vai ser moleza
Digo a você com certeza
Já temos dez orador.

Escutou um esquerdista
E agitador sindicá:
– Nós exigimo Moleza
Pro setor industriá!

Ouviu depois uma dama
Com vozeirão de artista
Era líder feminista
E dos Direito das Mulé
Que dizia com brabeza:
– Os home só quer Moleza
Mas nós mulé também quer!!

Esse magote de gente
Usava da esperteza
Em nome da capitá
E também da redondeza.

Uns falava abaixadinho
Mas demonstravam franqueza.
De tudo não se sabia
Mas lá no fundo se via
Que só queria Moleza.

Ouvindo aquele chamado
De tamanha envergadura
Moleza viu liberdade
No lugar da captura
No mei da fuga acuada
Findava sendo lançada
A sua candidatura.

Pra mode sair bonito
No pape de orador
Moleza foi se alembrando
Do que era sabedor:

Aproveitou sua fama
De ser grande atirador
E se lançou: Pistolão
De todos os eleitor.

O cartaz era uma pistola
Sobre título eleitorá
E uma frase que dizia:
Ou você dá voto a mim
Ou então vai se lascar.

E pegou o microfone
Com a maior desenrolança
Falou de roubo, de jogo
De traficança e matança
Partiu no mei três partido
Partiu depois no comprido
Dobrou e fez uma trança.

Fez de forma democrática
Um acordo partidário
Concorda quem é medroso
Discorda quem é otário
Assim tornou-se prefeito
Seu vice não foi eleito
Pois faleceu dum disparo.

Pra começar o governo
Criou logo um estatuto
Onde o produto do roubo
E o roubo do produto
Ganhava o mesmo valor
Pois a ordem dos trator
Não altera o viaduto.

Devolveu os objeto
De quem já tinha roubado
Deu maconha e cocaína
Pro eleitor viciado
Empregou a mulherada
Dos marido que matou
Pagou o bicho roubado
De cem mil apostador
Findou cercando o currá
De apoio eleitorá
E se fez governador.

* * *

Salomão Schwartzman fala sobre Jessier Quirino na Rádio BandNews FM (7/Out/2012):

POLITICAGEM – TIRE SEU POLÍTICO DO CAMINHO – DE DOMINGO AGORA A OITO

A tal da politicagem?
É o acento circunflexo da palavrinha cocô
É feito brigar com um gambá
Pois mesmo o cabra ganhando
Sai arranhado e fedendo
É dirigir dando ré
O cabra tem três espelhos
E ainda olha pra trás
E pode prestar atenção:
Na boca do candidato é o mesmo Mané Luis
Trabalho, honestidade
Trabalho, honestidade
Por quê?
Porque o povo gosta de mentira!
Seu Manezinho Boleiro
Suplente de merda viva
Foi dar uma de sincero
Dizendo o que pretendia
Trabalhar de terça à quinta
E roubar só o normal
Teve uma queda de votação tão pra baixo
Que até hoje ainda é suplente
Taí, fila da puta!

Tire seu político do caminho
Que eu quero passar com o eleitor
Hoje, pra esses peste eu sou Chiquinho
Fí de Seu Chico aboiador
Mas amanhã sou Chico véi que não dá trégua
Assim, táqui pra tu, fí duma égua

De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
Do fundo do coração
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão
De domingo agora a oito
É dia “arreganha-cofre”
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende a mão
E se agarrar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão
É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado
Ninguém come mais insosso
Ninguém bebe mais salgado
De domingo agora a oito
Não relampeja e nem chove
É o dia que nos comove
É o grande dia “D”
Agora, o dia “fuD”
Vai ser de domingo à nove.

CONVERSA DE MANICURE

COMÍCIO DE BECO ESTREITO

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Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição.

Um locutor tabacudo
De converseiro comprido
Uns alto-falante rouco
Que espalhe o alarido
Microfone com a flanela
Ou vermelha ou amarela
Conforme a cor do partido.

Uma gambiarra véia
Banguela no acender
Quatro faixa de bramante
Escrito qualquer dizer
Dois pistom e um tarol
Pode até ficar melhor
Uma torcida pra torcer.

Aí é subir pra riba
Meia dúzia de corruto
Quatro babão cinco puta
Uns oito capanga bruto
E acunhar na promessa
E a pisadinha é essa:
Três promessas por minuto.

Anunciar a chegança
Do corruto ganhador
Pedir o “V” da vitória
Dos dedos dos eleitor
E mandar que os vira-lata
Do bojo da passeata
Traga o home no andor.

Protegendo o monossílabo
De dedada e beliscão
A cavalo na cacunda
Chega o dono da eleição
Faz boca de fechecler
E nesse qué-ré-qué-qué
Vez por outra um foguetão.

Com voz de vento encanado
Com o VIVA dos babão
É só dizer que é mentira
Sua fama de ladrão
Falar do roubo dos home
Prometer o fim da fome
E tá ganha a eleição.

E terminada a campanha
Faturada a votação
Foda-se povo, pistom
Foda-se caminhão
Promessa, meta, programa…
É só mergulhar na brahma
E curtir a posição.

Sendo um cabra despachudo
De politiquice quente
Batedorzão de carteira
Vigaristão competente
É só mandar pros otário
A foto num calendário
Bem família, bem decente:

Ele, um diabo sério e honrado
Ela, uma diaba influente
Bem vestido e bem posado
Até parecendo gente
Carregando a tiracolo
Sem pose, sem protocolo
Um diabozinho inocente.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa