A PROCISSÃO DA BOIADA

Entre Rui Barbosa e Os Sertões de Euclides

Interpretação de Xangai 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Tô matutando o porquê
Da força que tem o nada
Mode falar do estalo
Do espanto e do estouro
De dentro do passadouro
Da procissão da boiada.

Ao invés de rezas rezes
Gadaria arrebanhada
Tropel de cascos, mugidos
De mansidão ritmada.

Ditongos ois! De um vaqueiro
Conduzidor e freteiro
Chiqueirador da manada.

Chifre de cabeça acima
Pelanca pescoço abaixo
Rabos de abana mosca
Tilintar de chocalhada…

Revelação de cadência
Retrato da paciência
É a procissão da boiada.

Eis que, ao revés do sossego,
Um trisco de não sei quê
Talvez um voo diminuto
De um inocente tizio…

…Assusta o passo da rês
Que chispa desbandeirada
Abala o manso dos bois
E arrasta toda boiada.

Daí pra frente é arrasto
Tropeço de déu em déu
É uma torre de babel
Disparando ababelada:

Atropelo, desadoro
Carreira desenfreada
Desvario, agitação
Boi fugido de roldão
Boi perdido em bololô
Boi avoado em tumulto
Vaqueiro bradando ôôôô!!!!!

Mas nada desalvoroça
O abalo instigador.

…Eis que o fôlego das ventas,
De exaustão redobrada,
Acalma o povão dos bois
Alenta toda a boiada
E a procissão segue lorde
Como se fosse uma ordem
Da força hercúlea do nada.

CARROSSEL NA CHUVA

Clique aqui para ouvir: 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

* * *

Seria pura alegria:
Um domingo de recreio
Camisa nova de malha.
Viagens, lendas, batalhas
Epopéia aventurosa
Num cavalo de aluguel.

Mas nem música nem zoada
Nem maçã caramelada
Nem pipoqueiro ou floreiro
Nem bombom no tabuleiro
Nem ingresso, nem sucessos
Nem pirulitos de mel…

Foi domingo acinzentado
Sonolento, anuviado
E choveu no carrossel.

Não campeei pelo mundo
Não me amostrei pra Maria
Não me esbaldei na alegria
Não sorri com dente novo
Não fanfarrei com o povo
Não vi o povo girar.

Não conheci Panamá
Nem guerra do Paraguai
Não acenei pra mamãe
Nem dei adeus a papai
Não persegui samurais
Não me alistei num quartel.

Foi domingo acinzentado
Sonolento, anuviado
E choveu no carrossel.

Já fui rei, já fui monarca
Fui campeão de rodeio
Já fui os Três Mosqueteiros
Já fui caubói bom de laço
Já fui lanceiro de aço
Fui São Jorge lá do céu.

Mas domingo foi nublado
Sonolento, anuviado
E choveu no carrossel.

Se essa chuva…
Se essa chuva fosse minha!
Eu mandava, eu mandava neblinar
Com neblinas, com neblinas de lembranças
Para o meu carrossel rodopiar.

MOVIMENTO DOS SEM-PÉ-NEM-CABEÇA

Eu sou do time dos sem mala e sem malemolência
Sem aparência aprisionada filha do botox
Sem prato inox, sem finesse e sem BMW
Sem um alfarrábio num caderno pra tirar xerox.

Sou Movimento dos Sem-Pé do pé 47
Sou canivete sem a lâmina que perdeu o cabo
Quase me acabo pra matar o mosquetão dum cano
E entrei no cano justamente pra fugir de um cabo.

De cabo a rabo estou no muro dessa honoris causa
Com a menopausa menstruada da rapaziada
Cravei zoada na memória de um pensamento
E o Movimento Sem Cabeça deu com o Pé na estrada.

Puxei a trança avermelhada de um sansão careca
Com a terereca da firmeza dessa nossa luta
Filhos da puta! Supliquei de voz aveludada
Pois sem veludo na cabeça um pé não se disputa.

E a caravana dos Sem-Pés seguiu de espora avante
Causa gigante dos anões dos fundos everestes
Marrom-celeste é o dolorido de nossa bandeira
A verdadeira bananeira que esse Adão me veste.

Se eu for eleito inelegível, serei coroado
Com os pés rachados pelas plumas dessa nossa sina
E a purpurina gente fina feito um baobá
Tibungará na vermelhura desse azul-piscina.

QUER VER MATUTO HUMILHADO É TÁ DOENTE DAS PARTES

PAPAI NOEL FUNERÁRIO

Agora, agorinhazinha, de guidom bem segurado e ciclista magricela, passou aqui em frente de casa, em Itabaiana, uma bicicleta-de-som, dessas de vender disco-pirata, propagandando a promoção de Fim de Ano da Funerária Rosa Master.

Acredita???

Promoção: Uma moto zero quilômetro que será sorteada no Natal.

Levando-se em conta que os motos-taxista são quem mais comem mulher casada na região – sujeito a um tei-bei no zuvido e que, defuntamento de indivíduo por se lascança de moto no asfalto é o termômetro de morte mais agirafado da cidade, a promoção é justa, legítima e camumbembada.

Pra asseverar a conversa, pedi ao meu assistente que desse um pulinho lá e ele conferiu: a moto está ao lado do birô de atendimento, cheia de bolas brancas de aniversário e caixão em posição de sentido por todo lado. Se for mentira eu estopre!!

PS. Melhor do que isto, só o nome de uma funerária lá de Itamaracá: TOU DE OLHO EM VOCÊ!

UM VARAL EMPESTADO DE CALCINHA

Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão

Quando ela me faz uma cosquinha
Dou risada que afrouxo a suspensão
Amolengo o espinhaço e o coração
E navego num beijo apaixonado
Faço um verso jeitoso e afinado
Mais bonito que letra de baião
Vendo a roupa estendida num cordão
Silhueta de minha malandrinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

Aviventa o respiro e o doidejo
Catuaba pra alma estimular
Mandacaru eclipsando o luar
Nas barrancas profundas do desejo
Estradando nas molas do molejo
Baticum ritimando o coração
E as bandeiras que voam em branquidão
São enxágües  que  brilham na festinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

É uma peça rendosa e refinada
Modelada pros traços da viola
Não é calça, calção e nem caçola
Camisola, anágua ou “baby-dó”
Este traje é dos trajes o menor
Provoqueiro, faceiro e brincalhão
Cobre o ímã-do-mundo com razão
Mas com ela é melhor do que nuinha
Um varal empestado de calcinha
Aviventa o respiro da paixão.

CONSELHO DE ÉTICA E DE COURO PARLAMENTAR

Durante o debate, cada autoridade pode sacudir
1Kg. de má-criação nos peitos do conselheiro opositor.
(Tudo ao respiro da ética e da decência nacioná)

– De honra, decoro e ética
É composto este Conselho.
Não pode ter um grupelho
A fim de tagarelar.

– Êpa! Epíssima! Olhe lá!
Grupelho é Vossa Excelência!
E aviso: minha clemência
É couro em parlamentar.

– Couro bom de pezunhar
Do zóvo até o cangote
Vossa Excelência não bote
Capacho no meu cruzar.

– A mais ilógica… Ou quiçá
A mais “peba” da indecência
É Vossa felaputência
Querer nos moralizar.

– Dou-lhe um pega-pra-capar
E um grito de “teje-preso!”
Seu corno do chifre aceso
Bisturi de vegetá.

– Se for pra esculhambar
Escute Excelência Vossa:
Devolva a moral que é nossa
Que seu traquejo é roubar.

– Meu nível, eu não vou baixar
Ao chorume da carcaça
Sua Excelência não passa
De um ladrão de Bagdá.

– Tou cagando pro azar
Porque meu fundo é de ema
E trago um par de algemas
Pra Vossa Excelência usar.

– É melhor nós se acalmar…
Pouco mais tá dando um causo
Pois nós véve dos aplauso
Do povo desse lugar.

– Não é véve!
É convéve!
É por isso que eu me arreto!
Vossa Excelência é esperto
Mas não vale um grão de sá.

RASGA-RABO BAGUNÇADOR DE BAGUNÇA

ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

VERSOS DO LÁ FORA

Foto do colunista – Em Riachão do Bacamarte-PB

A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.

As portas eram caducas,
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“– Nessa casa aqui tem gente!”

Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh! Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!

Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!

Poema do livro Berro Novo

ALTO NÍVEL DO DEBATE POLÍTICO NACIONÁ

Cada candidato dirige um desaforo ao adversário com direito a uma réplica de dois segundos:

– …Saiba Vossa Excelência que na minha cabeça ninguém caga.

– Pois fique sabendo que comigo a parada é dobrada, escreveu não leu o pau comeu.

– Comigo não tem pescoço, tudo é gógó.

– Comigo ninguém tira leite com espuma.

– Pois vamos emendar as camisas pra ver a tapa voar?

– Eu emendo sim as camisas, pois quando me abufelo madeira sobe de preço.

– Pois fique sabendo que eu sou uma pessoa que nunca morreu e não tem inveja de quem morre.

– E eu sou uma pessoa que nunca morreu e nem tem inveja de quem Deus já matou.

– Pois pise no meu pé e diga quantos murros quer.

– Pise no meu e veja quem se fodeu.

– Retire essa palavra do debate.

– Minha palavra é feito peido, não tem retorno; pronto.

GRAMÁTICA NO INTERIOR

A professora explica ser a língua portuguesa muito curiosa. Nela havendo expressões que, embora contendo termo negativo, indica afirmação. Exemplo: “Pois não”.

O aluno, beradeiro da roça, bota beiço caído no assunto, discorda e diz o porquê:

– Pfessora!!! Isso é na cidade que só tem apartamento. Lá no sítio a expressão “pois não” é negativa mesmo.

E justifica:

– Se mãe perguntar: “Ohhh Biuzinho!!! A galinha pôs ovo?” Eu respondo “pôs não!!!!!”. Esse “pôs não” é negativo ou não é???

PAISAGEM DE INTERIOR

RODAI POR NÓS, LAVRADORES

Vagem Tambor

Senhores caminhoneiros,
Rodai por nós
Kombeiros, taxistas, carroceiros,
Rodai por nós
Ônibus e trens estradeiros,
Rodai por nós.

Cocão do carro-de-boi,
Cantai e rodai por nós lavradores
Sem bora e vambora
Amém.

Poema publicado no livro Berro Novo

PANO DO LEITE

Ninho de casaca-de-couro. Estrada de barro – Cariatá, distrito de Itabaiana-PB.

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“- Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

Publicado no livro Berro Novo, 2010

CERCAS & FRONTAIS

Há cerca nas redondezas
Há cerca pelos currais
Há cerca nos condomínios
Há cerca nos milharais
E, há cerca de infindos anos
Não há cerca nos frontais
Planetas, sóis e relâmpagos
Vagueiam de pirilampos
Nas curvas celestiais.

Do livro Papel de Bodega

ÔHH DE CASA!!

Saletazinha de estar – Casa de Dona Otávia. Mogeiro de Baixo-PB (Foto do colunista)

A porta dura fechada
Com a chave que fecha a dura
A rede pensa armada
Bordada na curvatura
Uma poltrona sentada
Retrato dando risada
Do tempo da formatura.

O guarda-roupa de pé
Cama patente deitada
Uma mesinha de quatro
Com as cadeiras cansadas
Um fogãozim Jacaré
E a geladeira gelada
Uma lixeira nos fundos
Com a pá de lixo enfiada

Um abanador de palha
Um fogareiro sem brasa
E gente batendo palma
Dizendo assim:
Ôhh de casa!!

Do livro Prosa Morena

MATUTO NO CINEMA

TREM DA GREAT WEST

TRÊS AÇÕES AVACALHATIVAS

Meu cumpade e Papa Berto I

É de perplexidade o assunto.

Numa única semana, vi, nas redes sociais e no noticiário de TV, pelo menos três ações avacalhativas, que me deixaram perplexo e até pensar estar sofrendo da bola.

Uma foi a do Deputado Fufuca. A primeira vez que viçou, cruzou logo com o touro da presidência da Câmara.

Êita pau!

Outra foi a intenção esbaforida do governo, de rever leis ambientais em reservas de floresta, área indígena e de mineração, tudo ao sabor dum vexame, como diz o matuto, que não tinha vexame. Esta, (por enquanto), questionada pela justiça e pelo povo.

Como diria Reinivaldo “o Crente”: tem ciênça nesse pé de pau!!

A terceira, uma de derrubar o queixo, e, brilhantemente relatada por José Paulo Cavalcanti, na crônica: “Minha terra tem palmeiras”; foi de quando a motosserra roncou, bem dizer, na mão de um partido que se diz ético, esquartejando uma palmeira adulta, pra passar com um trio elétrico que Deus o livre.

Tenho um poema chamado “Coco do pé de manga”, do livro Papel de Bodega que diz:

As mangueiras tão de luto
E as mangas de sentimento
Derrubaram um pé de manga
Pra fazer um apartamento.

Pergunto, por que não:

As palmeiras tão de luto
E as árvores de sentimento?

Confiram uma versão pedagógica da garotinha Heloísa, de 10 anos da cidade de Areia-PB, cantando de pandeiro na mão.

Recebi este vídeo do cumpade e cantador Vital Farias.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa