ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

PAIXÃO DE ATLÂNTICO NA BEIRA DO MAR

No estilo de poesia galope à beira-mar, muitas vezes se descreve a cena litorânea na visão da terra pro mar. Vamos ver como seria uma voz de lá pra cá.

Não passo de um pobre e minúsculo Atlântico
Diante da moça que vem se banhar
Princesa dos raios de brilho solar
Que mostra pra gente que o ouro é ralé
Uma espuma finíssima me veste a maré
Qual nata de leite depois de amornar
E a Deusa se achega, de bem comparar
Descida das nuvens que rimam com sonho
E eu pobre Oceano, não tenho tamanho
De ser seu parceiro de beira de mar.

E a moça abeirando meus véus de espuma
Olhar de cupido a me recear
Aqui… bem aqui! O cabelo a voar
De cor, cor-de-cuia de louro brejeiro
Seus pés, de mansinho, me tocam primeiro
E a boca em suspiro aspira o meu ar
Recolhe os bracinhos a se arrupiar
E se carrapixam os poros e pelos
Os outros primores, eu nem pude vê-los
Morri de Atlântico na beira do mar.

De lenda e sereia a moça se agacha
E põe-se ditosa a me baldear
Um fogo de afago me faz fervilhar
Borbulhas de flauta perfume reseda
Uma pele macia – qual capa de seda
Dos amendoins no afã de torrar
No raso das águas se faz cobrejar
Em colcha de espuma de puro chenill
E o “A” de paixão se afoga no til
Na onda de Atlântico da beira do mar.

RESENHA MATUTO-ESPORTIVA

Quadrangular decisivo
Na Baixada da Graminha!
Aripuá de Besouros
E Atlético Cebolinha
Jogam nesta terça feira
Com Fodões da Gameleira
E Sport  Carreirinha.

Atlético Gancho do Galo
E Esportivo do Feijão
Empataram em  doze a doze
Na baixa do Miguelão
Esporte Severinim
Desempatou no finzim
Sai invicto e campeão.

Aviso pro Romeirão
De Capoeira do Milho:
Linguinha não vem jogar
Pois a mulher teve filho
Patativa e Polegada
Vão bater uma pelada
Na baixada dos Novilho.

Lista dos classificados
Pra jogar na capital:
Papangu da Barra Mansa
Criciúma do Mingau
Pelotas do Sítio Novo
Esportivo Varapau
Operários do Pau Grosso
Esporte Clube Caroço
Traíras e Capiau.

Tuna-Luso dos Doquinhas
Vence Esporte Mulungu
O Nacional de Barrancos
Perde para o Pajeú
Esporte Clube Cansaço
Levou catorze golaço
Do Açudense  do Sul

Calouros de Pau-a-Pique
Enfrenta Riacho Fundo
Arrochados do Lajeiro
Decide com Vagabundos
Caceteiros do Baixil
E Puteiros que Pariu
Vão desputar o segundo.

O escrete Alegrense
Lá de Lagoa do Choro
Enfrenta Sete Riachos
E Atlético Fura Couro
Pra decidir a rodada
Da Taça Vaca Malhada
No gramado Bebedouro.

Tampas de Capela Nova
E Bastiões do Trapiá
Disputam no Galegão
A Taça Mané Preá
Juiz é Chico Bandido
Bandeirinhas Zé Caído
E Mizinha do Tauá.

Escalação do Pelotas
Do Terreiro de Santinha
Ximbica, Kadú e Tula
Dê-Jango, Sapo e Xalá
Enxuga-Rato e Patola
Haja-Cu e Maricá
Zé Papelão contundido
Zé Bola tá dividido
Entre Cheiroso e Gambá.

OBRA INACABADA DE UMA COLHER DE PEDREIRO

Faixa 2 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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PAPEL-DE-BODEGA

A TABA DA SARVAÇÃO

Meu cumpade, o que eu escuto
Derna de pequininim
É que o Brasil brasileiro
Pra sair dos atoleiro
Tá faltando tanto assim.

Tá faltando tanto assim
E nós tudo se afogando
Os doutor de vez em quando
Corruto, dos bigodão
Corre pra televisão
Beija os pobre, dá risada
E anuncia a chegada
Da Taba da Sarvação.

E grita os povo na rua:
– Foi o fim dos militar!
Já podemo festejar
O fim da submissão!!!

É bandeira dos partido
Correndo de mão em mão:
– Bem que aquele home disse
Que a gente se assubisse
Na Taba da Sarvação!

Com pouco mais tá de novo
O povo desmiolado
Satisfeito isprivitado
Folgado nas alegria:

– Foi um tá de Anistia
Que sortou-se da prisão!
Vi dizer que o home é quente
E agora chegou pra gente
A Taba da Sarvação!!!

Mas nem demora de novo
Os povo torna a gritar
Um tá de “Direta Já”
E “Agora o Brasil Mudou”
“Já temo os Doutor
Nos destino da nação!
Vamo acabar com as greve
Que agora é Tancredo Neve
A Taba da Sarvação!”

Os povo batero in riba
Correram atrás dos bombeiro
Fizeram um tá choradeiro
Pra mode ver um caixão
Eu não sei pro que razão
Depois de tanto mistério
Levaram pro cemitério
A Taba da Sarvação.

Mas pelas força de Ulysses
Teve a Constituição
E a Taba da Sarvação
Voltava em forma de Lei.

Não sei pra que tanta Lei
Mas os povo acreditaram
Que aqueles papé letrado
Dava toda solução.
E dizia: “Meu cumpade,
Esses papé, na verdade,
É a Taba da Sarvação!”

Pra resumir a questão
Foram vindo os presidente
E os povo besta e contente
Confiaram nos gangão
Se não tivesse os dedão
Dos vivaldino de sempre
Nós até seria crente
Na Taba das Sarvação.

Agora mando um recado
Pros dotorzão federá
Arranjar outras mentira
Pra mode nos enganar
Pois as lorotas de sempre
Tamo canso de escutar:

– Vamo acabar cu`s bandido
Vamo acabar cu`s babão
Vamo acudir as escola
Reformar as eleição
Menos abocanhamento
Menos ônibus ferrugento
Mais trabalho pros cristão…

Fim das esculhambação!
Credo-cruz, Ave-Maria!!
Isso quase todo dia
Enche o saco, meu patrão
Já que a gente não tem vez
Empurre no de vocês
A Taba da Sarvação.

PAISAGEM DE INTERIOR

MODE O POVO FICAR ODARA

Em cima do oratório
Ou dentro da gavetinha
Tem um cartão de natal
Escrito com letra minha:

“Mode o povo ficar odara
Leve a vida cor-de-arara:

Esquecer as miadeiras
Arquivar pasta de briga
Crescer na vista as bondades
Arrancar pé de urtiga
Desenganchar lua cheia
Das antenas que há na rua
Só maginando: ODARA
Escrito no “o” da lua.”

Não viver de muito frege
Nem muito vaticanoso.

Frege é tá medonho, é fuzaca
E Vaticano é Veloso.

(no rabo de 2015 pro focinho de 2016)

MEU CORDIAL MEIA-NOITE

E na hora vinte e quatra
Da última data riscada
De um calendário pé-duro
Ajunte a companheirada
E peça duas rodadas
de um birinaite seguro:

Uma pro caju amigo
Outra pro imbu maduro
Converse qualquer brebôte:
– Tá medonho! Oxente! Vôte!
Com pouco mais é futuro.

CONSELHO DE ÉTICA E DE COURO PARLAMENTAR

Durante o debate, cada autoridade pode sacudir
1Kg. de má-criação nos peitos do conselheiro opositor.
(Tudo ao respiro da ética e da decência nacioná)

– De honra, decoro e ética
É composto este Conselho.
Não pode ter um grupelho
A fim de tagarelar.

– Êpa! Epíssima! Olhe lá!
Grupelho é Vossa Excelência!
E aviso: minha clemência
É couro em parlamentar.

– Couro bom de pezunhar
Do zóvo até o cangote
Vossa Excelência não bote
Capacho no meu cruzar.

– A mais ilógica… Ou quiçá
A mais “peba” da indecência
É Vossa felaputência
Querer nos moralizar.

– Dou-lhe um pega-pra-capar
E um grito de “teje-preso!”
Seu corno do chifre aceso
Bisturi de vegetá.

– Se for pra esculhambar
Escute Excelência Vossa:
Devolva a moral que é nossa
Que seu traquejo é roubar.

– Meu nível, eu não vou baixar
Ao chorume da carcaça
Sua Excelência não passa
De um ladrão de Bagdá.

– Tou cagando pro azar
Porque meu fundo é de ema
E trago um par de algemas
Pra Vossa Excelência usar.

– É melhor nós se acalmar…
Pouco mais tá dando um causo
Pois nós véve dos aplauso
Do povo desse lugar.

– Não é véve!
É convéve!
É por isso que eu me arreto!
Vossa Excelência é esperto
Mas não vale um grão de sá.

SOU FÃ DO BILHETISMO DO AMOR

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 10 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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O NÃO DO AMOR

Uma caboca faceira
Esqueletou meu juizo
Pousou sem nenhum aviso
No corpo nu da paixão.

Uma fofinha malvada
Uma fofura morena
Uma almofada de pena
De sobre-cu de pavão.

Meu tangedor de viver
Ganhou um trote seguro
Escutando com apuro
A fala dessa mulher
Nem escura nem acesa
Água quebrada a frieza
Na fonte do bem-me-quer.

Contorniei as fronteiras
Do corpo da caboquinha
Que nem a fada madrinha
Com varinha de condão
Que mesmo dizendo NÃO
Só parecia que sim
Pois NÃO de amor é assim
Se engana com o coração.

Porque o NÃO do amor
Tem sentido diferente
Um NÃO bem forte diz: NÃO!
Depois um NÃO displicente
Traz dez NÃOZINHOS manhosos
Pra bem juntinho da gente.

É O XERÉM TRITURADO DA SAUDADE NO ANGU REQUENTADO DA ILUSÃO

Dez Altemares Dutras não me bastam
Num luar de cebola em serenata
Choro resmas de lágrimas nesta data
De algarismos do nunca-mais-voltar
Fico léguas, parado a ruminar
As palavras “se achegue” se achegando
A palavra “lindeza” se enfeitando
E a palavra “aliança” em sua mão
Lembro dela em tão doce comunhão
Que o açúcar é doado em caridade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

Num pensar de silêncio acabrunhante
No azedume de um riso amarelado
Imagino nós dois amadrinhados
Qual ponteiros no vão do meio-dia
Duas valsas dançando poesia
Cinderelo abrandando a Cinderela
Um desfecho choroso de novela
Sem o “livrai-nos do mal” da extrema-unção
E um papel despautado de colchão
Com nós dois em sinal de igualdade
É o xerém triturado da saudade
No angu requentado da ilusão.

RASGA-RABO BAGUNÇADOR DE BAGUNÇA

MERENDA CORRIQUEIRA

Ah, se minh’aula retornasse
Pro giz da minha infância
Pro meu caderno encapado
E o meu nome escancarado:
EU, Primeiro Ano A.

Ah, Primeiro ano A!

A professora: “Bom-dia!!!”
A bolsa, a banca, a folia
A turma do dia-a-dia
A lei da Diretoria
A sineta, a correria
A hora de merendar…

Ah, se minh’aula retornasse
Pro meu recreio de infância:
Pro ritual da lancheira
Da merenda corriqueira:
O copo – irmão da garrafa
O bolo, o ponche, a toalha,
Goiaba, biscoito, pão…

Não há no mundo dos cheiros
Na mais antiga distância
Cheiro melhor que a fragrância
Dessa lancheira de infância.

Não há no reino das cores
Nos arco-íris, bandeiras
Nos frutos das romãzeiras
Amora, amor que avermelha,
Um rubro mais colorido
Que o tom da minha lancheira.

Enganam-se os poetas
Trovadores, seresteiros
Que celebram Chão de Estrelas
Versejando sem razão
Ao dizer, de vão em vão
Que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.
É não!!!
A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição.

O IMPOSTO DO CUPIDO

Nos braços da minha amada
Sou inventor de carinho
Tal qualmente um bem-te-vi
Mimando um bem-te-vizinho
Eu chega fico alesado
Feito um bacorim mamado
Pro riba dos bacorinho.

É aquele enganchamento
De perna de boca e mão
Aquele agrado de coxa
É aquela alisação
E se acaso ela der sopa
Descascadinha de roupa
Virge-Maria!… Sei não!

O falar da minha amada
É aquele meio-tom
Aquela vozinha fofa
Que nem um talco pom-pom
Na orelha desse ouvido
É aquele sustenido
Fazendo cochicho bom.

Meu peso sem gravidade
Me manera vento afora
Eu em formato de doido
Esqueço o dia e a hora
E se ela disser: – Menino!
Vambora fazer menino?
Menino, eu digo: – Vambora!

O imposto do cupido
Eu pago só o varejo
Aparecendo um fiscal
Declaro dois ou três beijos
E sonego o apurado:
Chamego luxurioso
Os fósco que acende a chama
Palavreado de cama
Os apelido dengoso
Os meus saldos de balanço
Curruxiado e gracejos
E aviso a fiscaiada
– Se multar a minha amada
Tá multando meus desejos.

DELITO CHUMBREGADOR

Vi uma feme pernosa
Do mocotó de bacia
No bafo do meio dia
Mais parecendo miragem
Apreciando a paisagem
Dessa fulanez-de-tal
Mulher nos prumo, nos grau
Sem falha, sem defeitura…
Dei por fé formosura
Da sujeitice humanal.

Da sujeitice humanal
Descobri o que é o amor:

É um coice nos incômodo
É um ligar de motor
É um avôo de condor
É injeção de fogueira
É gá-gá-gá de gagueira
É lua no meio dia
É verso, é poesia
É alegria, é frescor
É colapso intupidor
É dismái, é faniquito
É mei camim prum delito
Delito chumbregador.

CPI DO PREQUETÉ

Discurso pra ficha suja, ficha limpa, ficha mais-ou-menos e fichinha

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Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém mais pode entrar numa gandaia
Num esquema político de primeira
Ninguém pode fundar uma empreiteira
Pra ganhar concorrência viciada
Ninguém pode assinar uma papelada
No birô do oitão de um cabaré
Desviar: pão, feijão, milho e café
Nem tampouco uma grana apalavrada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém pode usurpar nenhum bregueço
Que a imprensa sacode a tirania
Tudo aquilo que antes se fazia
Construindo os arrimos do progresso,
Hoje em dia termina em processo
Nesse vão que se diz TRE
Um juiz todo chei de prequeté
Vem pro meio qual tripa atravessada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Ninguém pode afanar um cadeado
Dar um agá no dinheiro da saúde
Construir, de mentira, dez açudes
Desfalcar um lixão terceirizado
Tudo isso que nunca foi pecado
Hoje em dia é tratado por mundé
Alazão se transforma em pangaré
Na visão dessa lei mumificada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

Rapinar, ninguém pode rapinar
Extorquir, ninguém pode extorquir
Se o cristão desejar subtrair
Tem ir pra justiça carimbar
É a lei que não sabe onde vai dar
É a busca que busca o busca-pé
É a raspa fajuta de um rapé
Sufocando uma venta honestizada
Ninguém pode fazer hoje mais nada
Se um juiz invocado não quiser.

TODOS: (Cabaré, busca-pé, pangaré, prequeté)

Meu prefeito foi cassado no vão do TRE
Ninguém pode fazer um caquiado
Se um juiz invocado não quiser.

AGORA, FALANDO SÉRIO

Tão inventando uma lei
Que ao pobre parlamentar não é permitido mais:

Botar a família pra viajar num teco-teco por conta da muda
Não pode dar uma banguela numa obra
Não pode arrumar uma boquinha dentro dum esquema
Num pode construir um castelo
Não pode comer bola
Não pode flanar na Europa com o cartãozão do governo
Não pode receber por fora mode gastar nas campanhas
Não pode pular de galho em proveito partidário
Não pode se dar bem num negócio mutucado
Não pode mentir pro povo
Empregar mulher, não pode
Empregar filho, não pode
Não pode empregar amante…

Tá com a molesta!!!

Acabou milho, acabou pipoca!

Quer que o cabra faça o quê?

Que vá trabalhar pro povo?
Que trabalhe por louvor?

Mas eu já vi o doutor
Desdizendo em contraponto:

– Nesse negócio de lei…
O cabra tem que ser macho.
Porque lei é feito cerca:
Foi fraca, passa por cima
Foi forte, passa por baixo

E priu.

Poema publicado em 2010 no livro Berro Novo

METEOROLOGIA

Nuvens engasga-azul no céu de Brasília
Céu coisado a parcialmente coisado no Nordeste
Joias de gelo na Região Sul
Zabumba de trovão no Triângulo Mineiro
Tempo úmido e intimidade do ar tirando a blusa no feriadão
Zonas voltam a foder no fim da tarde em todo litoral
Angústia de 4% na camada de ozônio faz o céu perder o colírio
Previsão de seca na língua do papagaio
86º no long-play de Saturno e crosta de Plutão propícia à aterrissagem

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

BRASIL DE CHEIRO

Cabral nos descobriu
E o Brasil virou colônia
Depois passou a extrato
Só depois virou água de cheiro
Do reino de Portugal

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

NINGUÉM CONSEGUE MAIS SER HONESTO, NEM MESMO NO MICROFONE

Era o filho mais correto de Chico Porra-Nenhuma dos Porra-Nenhuma da capital, que até já assistiu o cavalo selado da mamata cruzar bem ali nas suas fuças, mas só arrumou na vida o maldito sobrenome.

Mesmo assim conseguiu uma boquinha vitalícia: ser nomeado presidente da Secretaria do Fenômeno Solitário. Não quis pra não sujar o nome. E ali mesmo, no Salão Banal da secretaria, fazia um discurso fecundo e honestizado dizendo o porquê da não aceitação:

-… E como diria o grande Camilo Cartola amigo meu: E pra quem já não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu…

De repente, o discurso de ganso virou silêncio de fundo de mar, e, sem mais um tique nem taque de fala, ouve um conselho doméstico de grande profundidade – Sua Senhora Dona Virtuosa Porra Nenhuma, sem dependência de honestidade régia, prescreve a toda garganta de mão direita arribada:

– Porra, meu amor! Vai-te embora, Porra! Larga de tanta asneira e corre pro Ministério do Pau Dento pra salvar teu casamento! Lá, vai ser tua posse, teu destino e teu mandato! Lá, tão ensinando o povo a comer o povo, a mamar e traquejar sem grei nem lei todo tipo de fraude e mamação.

Ele tartarugou a velocidade do discurso e disse sob a capa da probidade:

– Isso é uma coisa malufa. Ninguém consegue mais ser honesto nem mesmo no microfone.

Publicado no livro Papel de Bodega – 2013

BRASILEIROS E BRASILEIRAS

Correndo dos tiros
Correndo da peia
Correndo da chuva
Sem capa de chuva
Correndo da cheia

Correndo dos gritos
Correndo da dor
Correndo do aluno
Que molecamente
Cala o professor

Correndo da dengue
Correndo da lida
Correndo do imposto
Tão caro e crescente
Cobrado da vida

Correndo de Eva
Correndo de Adão
Correndo dos cultos
Que cobram dinheiro
Pela salvação

Correndo do crack
Correndo do pó
Correndo das drogas
Que tocam nas rádios
De mal a pior

Correndo pro pódio
Correndo pra Glória
Correndo pros braços
Mofinos, suados
Da própria vitória.

Poema publicado no livro Papel de Bodega – 2013

ESCUTAÇÃO DE MEI DE FEIRA

Feira Nordestina – Militão dos Santos

– Olha o jerimum cabôco!
– Olha aí o abacaxííí !
– Brinco de menina fême!
– Traíra, coco e siri !
– É califon e caçola
que tá no risco da moda!
– Vamo abrindo aí a roda…
…afastaí brocoió!!!
– Cura muxicão de urêia
ferradura de abêia
mijadura de potó
remedia cuspe grosso
reumatismo no osso
quizumbice e catimbó!
– Dernantonte que’u não drumo!
– Taí um jumento bom!
– Uma rodada de cana!
– Só ta quebrado o guidon!
– Quedê Pêdo Pirangueiro?
– Te acocora e passa o grau!
– Dez mireis de mel coado!
– Só abastava ter dado
uma camada de pau.

– Oxente, taqui pra tu!
– Tocou Alcides Gerarde!
– Tem popeline estampado?
se tiver quero mais tarde
– Arrupinou a comida!
– Balinheira? É no mangaio!
– Ô ruge-ruge da gota!
– Tô liso, pra que balaio!
– Enxada só tramuntina!
– Embucharam Ambrosina
de viver de gaio em gaio.

– E os preço cuma tão?
– Tão pulas hora da morte!
– Visse os peito de Maria?
– E eu lá tenho essa sorte!
– Foi cinco junta de boi
três nuvía e um garrote.

– Cana grande foi sanoite…
quase que não se acabava:
lá no peba comi peba
lá na fava comi fava
lá em Bruxa comi Bruxa
e o dia não manheçava.

CAMINHÃO DE MUDANÇA

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:
Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse estaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retrato olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:
Um emoldurado de retrato com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.  

Poema desenvolvido a partir duma visão poética repassada pelo cumpade David Sento-Sé.

SE FOR MENTIRA EU ESTORE

Tronchura do garrafão

Zabé foi empregada da família de minha mulher por longas décadas. Hoje, aposentada, desfruta merecido descanso na sua casa de duas águas. Semana passada, comprou um garrafão de água mineral e o bicho, depois de retirada da tampa, no despejar para o filtro, deu uma torção no meio da garrafa de plástico, pelo deslocamento de ar interno e ficou lá, troncho, em estado de escoliose-aquática-mineral.

Zabé, rezadeira, com um pé no candomblé e batedeira-de-bombo de primeira, viu o nó do demônio no bucho do garrafão e sentiu a cozinha da casa contaminada do satanás das água-morta. Deu de garra duma vassoura e fez uma reza com passes de vassoura por riba do garrafão, que era ver um espadachim de senzala. A água do bicho foi avoada em esgoto distante a poder de credo-às-avessas e só depois de um segundo garrafão, benzido e glorificado, é que, segundo ela, a casa voltou ao normal.

Se for mentira eu estopore!!

ZÉ QUALQUER E CHICA BOA

Empurra a cancela Zé
Abre o curral da verdade
Pra mostrar pra mocidade
Como é que vive um Zé
Sem um conforto sequer
Com sua latas furadas
E a cacimba tão distante
Um Zé arame farpante
Feito de gente e de fé.

O Zé que se aprisiona
Aos cacos velhos da enxada
Que nasce herdeiro do nada
E qualquer lado é seu caminho
Medalhas, são seus espinhos
Quedas de bois são batalhas
Seus braços, duas cangalhas
De taipa e barro é seu ninho.

O Zé metido em gibão
Numa besta atrás dum boi
Por entre as juremas pretas
Por onde o bicho se foi
A poder de grito e ois
Peitando graveto torto
Um dos três vai sair morto
Ou ele, a besta ou o boi.

É cabôco elefantado
Que não tem medo de cruz
Que fita o sol faiscando
Dez mil peixeiras de luz
O Zé que assim se conduz
Nas brenhas deste sertão
O Zé Ninguém, Zé Qualquer
Mas o Qualquer deste Zé
Não é qualquer qualquer não.

É um Qualquer niquelado
Acabestrado num Zé
Não é Zé pra qualquer nome
Nem Qualquer pra qualquer Zé
Diante desses apois
Eu vou dizer quem tu sois
Pode escrever se quiser:

Sois argumento de foice
Sois riacho correntoso
Tu sois o carquejo espinhoso
Sois calo de coronel
Sois cor de barro a granel
Sois couro bom que não mofa
Sois um doutor sem farofa
Sem soqueira de anel.

Sois umbuzeiro de estrada
Sois ninho de carcará
Sois folha seca, sois galho
Sois fulô de se cheirar
Sois fruto doce e azedo
Sois raiz que logo cedo
Quer terra pra se enfiar.

No inverno sois caçote
Espelho de céu no chão
Chorrochochó de biqueira
Espuma de cachoeira
Sois lodo, sois timbungão
Sois nuvem quebrando a barra
Violino de cigarra
Afinando a chiação.

Sois bafo de cuscuzeira
Sois caldo de milho quente
Sois a canjica do milho
Sois milho pessoalmente
Tu sois forte no batente
Tu sois como milho assado
Se não for bem mastigado
Sai inteirinho da gente.

Tu desarruma as tristezas
Caçando uma risadinha
Sois doido, doido tu sois
Tu sois um baião-de-dois
Tu sois pirão de farinha
Sois bruto que se ameiga
No amor tu sois manteiga
Numa creamecrackerzinha.

Sois um Zé Qualquer do mato
Provador de amargor
Tu sois urro, sois maciço
Devoto do padre Ciço
Sois matuto rezador
O Zé Qualquer em pessoa
Marido de Chica Boa
O teu verdadeiro amor.

É Francisca Caliméria
Feliciana Qualquer
Chica Boa é apelido
Pode chamar quem quiser
Mas digo as outras pessoas
Não digam que Chica “É” boa
O cabra que assim caçoa
Vê direitim quem é Zé.

BANDEIRA NORDESTINA

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capa12

A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro

É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.

Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:

O rijo e forte umbuzeiro.

UMA CARTA DE PERAÍ

O amor, quando é maduro e bem-gostado, é feito bambu de lagoa: pode envergar, mas não tomba.

Ouvi dizer que paixão
É um salto duplo e mortal
De um amor aventurado
Pulando em riba um do outro
Às cegas e embriagado.

Paixão blu-blu-amoreco
Paixão pom-pom vermelhado
Paixão bolinho-com-Fanta
Paixão xaxim-aguado
Paixão arranca-porteira
Paixão do quengo-virado
Paixão ninho-de-vexame
Paixão demônia, vulcânica
De brasa, de gamação
Contramãozinha-em-paixão
Paixão de baú guardado.

A nossa era pura e alva
Feito delírio de lírio
De fuloreio nevado:

Um letreirão luminoso
De branco sebo-lavado
Com graça, luz e perfume
Sem voragem de ciúme
Sem desfavor, sem pecado.

Mas num regaço de um dia
O marimbondo da cisma
Trouxe um ferrão venenado:

Brigamos de teimosia
E ouvi daquela Maria
Este toró macriado:

 “Paixão é feito fumaça
Embaça o zói e sufoca
Quando da fé, ela passa!”

Ao ver suas nádegas gêmeas
Por capricho se afastar
Meu picadeiro da insônia
Tornou-se sala-de-estar.

Eu era casca de alpiste
Fora do cocho, assoprada
Imprestável pra semente
Pra bico da passarada
E ela, uma margarida
Dessas de plástico sem vida
De folha dura aramada.

De corpo manco, incompleto
Inflei meu orgulho reto
Pra disfarçar meu saci
Me aboletei na boleia
Duma marinete véia
Que transporta o Cariri.

Mas, no agá do vambora,
Sem nem saber pr`onde ir
Chegou em riba da hora
Com mil nasceres de aurora
Uma carta de peraí.

CINEMINHA PORNÔ

Durante a exibição de um filme pornô, a garota não se conteve: deu de garra dos possuídos do namorado e tome sexo oral. O namorado, de chapéu na cabeça, assistiu ao filme todinho de goso-segurado.

Terminada a sessão, as luzes foram acesas, e ele rapidamente colocou o chapéu no colo, enquanto ela, meio sem graça, abaixou a cabeça fingindo procurar alguma coisa, dizendo:

– …Cadê, cadê?

Uma velhinha, que tinha presenciado toda a cena, respondeu:

– Ahh minha fia, se você não engoliu, deve tá durinha do mesmo jeito, debaixo do chapéu!

PELO SINAL

Pedro Sinal do Bico Doce
Livrai-me desse castigo
De eu não mais sofrer ressaca
Dessas que dá-no-sentido
E faz um pobre romeiro
Adubar um cajueiro
Com a massa alcoólica dos figo.

Por sinal, Pedro Sinal,
Até Padre Mané Lau
Vem tomar uma comigo.

Isso é uma questão profana
Mas também é pastoral

FOI TOINHO PARTINDO DE VIAGEM E DONA IRENE CAINDO NO BERREIRO

Se foi mentira eu estopore, foi o cumpade Willinho que me contou.

Quando Toinho de Seu Clovis deu o pira de Itabaiana no rumo famoso e carioquento, do Rio de Janeiro, sua mãe abriu o porta-lágrimas e, cheia de “ai-Jesus!”, caiu num berreiro de fazer inveja a qualquer novela mexicana. Era choro aos solavancos, sem embreagem, mas era isso mesmo: Trabalho, no interior da Paraíba, era trocinho penoso pr’aquela rapaziada e o primeiro filho de Seu Clovis e Dona Irene, sabido feito bicho de circo, tinha mesmo que rumar para o Sudeste.

Os transportes eram difíceis e telefone coisa rara feito mortalha de segunda mão. A falta de notícias era torneira aberta pras lágrimas de Dona Irene e válvula fechada pra caldeira de vexame de Seu Clovis, que, feito fábrica de pólvora explodia por qualquer coisinha.

No adiantado de alguns anos, chega na casa dos Almeida em Itabaiana, um magnífico e dobrado telegrama com a tão esperada notícia de Toinho. Era um filetezinho grudado em papel dos Correios com doze letras de notícia: “FIZ BOA VIAGEM.”

Eita cumpade!!! Tome festa, tome “viva!” e alegria e Dona Irene com a torneira de choro aberta pede providências para o envio do mais doce telegrama de resposta e tinha que ser ligeiro feito coceira de cachorro. Depois de muito puxa-encoi sem querer ir, segue Seu Clovis pros Correios, e, num giro de mão, chega com o clone do telegrama que enviou. Numa tirinha ainda menor, o paizão acomodou onze preciosas letrinhas; “TOINHO VENHA.”

Nervosa feito velha em canoa, Dona Irene solta um arrepio de boca:

– E tu tais querendo matar o menino de aperrei? E isso é jeito de mandar notícia? E, se lá no Rio, ele pensar que foi uma coisa… uma morte que Deus o livre, uma desgraça, um má feito, um insucesso, ou mesmo uma operação! Não vai ser uma desgraça dessas bem desgraçadas Clovis de Deus?

Diante da fala reclamosa da mulher, Seu Clovis convenceu-se do arriscoso de acontecer e, no brusco do fato, passou outro telegrama isento de mal entendido. Com voz de abuso deu um priu na lengalenga mostrou, de arrancada, a cópia telegramosa com catorze letras bem respostadas: “TOINHO NÃO VENHA.” Aí Dona Irene ferveu em pouca água, virou barata de costas e, de fel e vinagre espinoteou:

– Pronto! Agora deu o créu! Tu acabasse de ridimunhar o juízo do menino: É venha, é não venha… é venha, é não venha! Isso é lá jeito dum cristão se comunicar com outro cristão que ta longe de casa e nos cafundó do Rio de Janeiro, criatura??????

No complicado da questão, Seu Clovis com a pólvora da impaciência a um triz duma labareda bem acesa e fumaçada, cuidou de um derradeiro e decisivo telegrama. Pra deixar o assunto bem falecido e sepultado, gastou 19 letras numa resposta bem dizer a prego batido e ponta virada: “TOINHO, SE QUISER VIR VENHA. SE NÃO QUISER, NÃO VENHA”.

Voltou pra casa de andar pegado, atirando pro azar e virado num frasquinho de veneno. Ninguém pode dizer nem fum nem fum e meio e a coisa acabou aí.

Dezembros se passaram sem carta-vai-carta-vem e um belo dia, de mala na mão, de táxi bem pago e troco bem recebido, chega Toinho em sassarico de visita com a mãozona estendida e balbucia de boca em risada: “Bença Pai?” Ah meu cumpade! Seu Clovis com as tripas às avessas, mira por cima do arame dos óculos, e lança um oxente perguntativo:

– Agora lascou! O que danado tu viesse fazer aqui Toinho? Me diz mesmo? Ô Irene! Vem ver uma coisa!

Afff Maria!!! Dona Irene caiu num berreiro de fazer inveja a qualquer novela mexicana e foi festa de derreter triângulo e juntar anão de bicicleta grande.

MEUS PECADOS PREDILETOS

A letra é minha e a música é do meu filho Vítor Quirino.

Com a participação especial do cumpade Xangai.

Está no livro Berro Novo, Editora Bagaço.

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PRU-QUI-PRU-LI, PRU CULÁ

Pru-qui-pru-li,  pru culá
Se via Zé  e Ditinha
Pru-qui-pru-li,  pru culá
Dando sombra  no luar
Tava o cumpade Chepinha.

E Zé foi bigodeado
Eu lhe digo seu doutor
A noiva que ele tinha
O Chepinha carregou
Na alfândega dos chamego
Paraibidade falsa
Disfarçada em pó de arroz
Foi-se embora e não voltou.

Num deserto de afeto
Zé sofria no varejo
Enchendo tonel sem fundo
Chorando a falta dum beijo.

Eu disse a ele: – cumpade!
Não se murche tanto assim!
És um pneu infurave
Pra toda rodagem ruim!
Eu quero te ver rodando…
Isso existe derna quando
King-Kong era sagüim…

…És um cara afuturado
Não vai te faltar amor
Tu sois forte e extremido
Engole esse comprimido
Que cura seja o que for!
E ele de voz pequena
Disse a minha Cibalena
– “Não quero tu nessa dor”…

“…Não existe um só remédio
Pra tapar minha ferida
Pru-qui-pru-li,  pru culá
Se danem a procurar
A minha amada querida
Vê se salva a honra dela
Pois mode eu morrer por ele
Só falta eu perder a vida.”

Pru-qui-pru-li,  pru culá
Revistemo pau-de-arara
Quarto, sala e camarinha
Surremo macho na cara
Prendemo pau perigoso
Porque buraco ocioso
Fareja ponta de vara.

Num areal sombreado
Junto dum pé de juá
Achemo um rasto esquisito
Pro-qui; pro-li;  pro-culá!

Da conclusão que tiremo
Do cumpade eu tive dó
Pru-qui-pru-li,  pro culá
Arrodeando o falar
Eu pigarrei o gogó…

E disse: – Cumpade velho!
Se prepare pro pior:
O Rasto que voz tá vendo
Digital não tem melhor:
São duas marcas de joelho
A bunda dum mulheraço
Um rego de espinhaço
E uma marca de cocó.

APEGO DE TANGEDOR

Vaqueiro que é bom vaqueiro
Cabôco trabalhador
Se apega pela boiada
Na vida de tangedor
Pulum boi, puluma vaca
Véve naquela fuzaca
Num causo grande de amor.

Com Nena de Zé de Shell
E com a vaquinha Amarela
Divide sua paixão
Chama na xinxa a donzela
Bem distante da cancela
Pra não se ver traição.

Adoece de avexo
Vendo o patrão sem amor
Negociar a boiada
Mode comprar um trator
Chora no pé da cancela
Vendo a vaquinha Amarela
Saindo pro matador.

CARTOMANTE

A cartomante fala para a mulher:

– Vejo nas cartas que seu marido tem uma amante, mas o pior é que… ele vai morrer ainda hoje!

– Continue… Continue… Veja aí se vou ser absolvida…

.

ME COMPRE ESTE RÁDIO

Cumpade me faça essa caridade
Me compre este rádio por quanto valer
Mode eu não ter raiva e não ficar roxo
Depois ficar chocho, mode eu não morrer
Me diga cumpade pelas caridade
Que quer esse rádio pra sua família
Eu dou de agrado uma dúzia de pilha
Que junto com ele mandaram eu comprar
Andava comigo pra todo lugar:
Pra feira, novena, açude e roçado
Inté um retrato com o peste do lado
Todo abestaiado me pus a tirar.

Mas tive um desgosto depois do Repórter
Mode uma notícia que o peste me deu
Falou que mataram cumpade Nenêu
Pertou o meu peito, me deu um sobroço
Os povo correram foi um alvoroço
E o rádio danado a falar e dizer:
Dizer que foi tiro. Seis tiro de doze
Pro riba dum coice dum tal caratê
Falou que os povo pagaram pra ver
Que foi briga boa, bem afuleimada
No bom da notícia, fez uma zoada
Não deu quem matou e nem disse o porquê.

EXÉRCITO BRASILEIRO X ONÇA

Em Mossoró, depois da passagem frustrada de Lampião, que enfrentou tropas do exército nacional, um soldado saiu como herói, porque escapou ferido de garra com seu fuzil.

Aparece uma onça e começa a comer os bezerros da região. O prefeito foi ao soldado, já recuperado e diz:

– Bom dia Soldado, precisamos de sua ajuda urgente. A onça, que todos já sabem, está fazendo muito estrago nas criações e só um fuzil para matar e liquidar a questão.

– Pois não, Seu Prefeito. Essa onça morre já-já, agorinhazinha!

– Ótimo, porque ela já matou dois caçadores.

– Comequié????? A bicha já comeu dois home????

– Sim senhor. Matou dois que tentaram derrubá-la de espingarda. Agora só um fuzil, certeiro e potente e…

O soldado ficou pensando… assuntou, assuntou e disse:

– Bom Seu Prefeito, só tem um problema: Como o senhor sabe, eu sou do exército brasileiro, portanto sou Federá. Preciso saber se essa onça é Federá ou Estaduá, pra não haver conflito entre os dois governos, né não?

PANO DO LEITE

Não-sei-o-que-é-que-eu-tenho
Pra gostar tanto de leite
Minto!
Eu sei:
É a cor; é o cheiro; é o sabor.

Minha mãe já me dizia:

“- Sente aí um bocadinho,
Que eu vou esfriar o leite…”

Tudo com leite é deleite.

Desde quando vinha vindo
Da madrugada pro dia
Com seu anúncio leitoso
Na voz do entregador:
Óh o leite!!!!

E o branco-branco em cascata
Derramava-se em natura
Do pescoção da botija
Pro caneco medidor.

Do caneco pra panela
E por fim pra caçarola
Decantando a fazendola
No fino pano do leite.

Bem que a gente deveria
Postar em boa moldura
O algodãozinho asseado
Desse pano coador
E preservar nessa tela
Os ciscos da vacaria
Digitais do dia-a-dia
Marquinhas de interior.

O DIA EM QUE DEUS ADEUSOU-SE

…Quando Deus adeusou-se por inteiro
Fez os poetas, as musas e as rosas.
Ao cabo do sétimo dia
Deus atirou pra cima e no escuro.

Na lona celestial
Abriu goteiras de estrelas
E o rombo brilhante do luar.

MANÉ CABELIM LTDA.

PAPEL-DE-BODEGA-

Faixa 14 do disco Papel de Bodega, que é parte integrante do livro de mesmo nome, publicado pelas Edições Bagaço.

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