JAGUNÇO
Franzino, embornal a tiracolo, chapéu de feltro, o homem do outro lado da vala gritava espavorido, fazendo sinal para o motorista do caminhão. As duas tábuas, formando pinguelas, iam-se afastando uma da outra à medida em que o caminhão, apinhado de gente, avançava. Por questão de segundos, não despencamos no leito seco do rio…
Dali em diante, teríamos de prosseguir a pé. A estradinha tornava-se cada vez mais estreita e perigosa, ao mesmo tempo que mais bonita e fascinante. Vez ou outra, uma casinha despontava ao longe, perdida no meio do mato. A fumaça da chaminé fazia-nos pensar no que estariam cozinhando… A imagem de um franguinho com quiabo, arroz com feijão e angu inspirava-nos a brincar de soldadinhos: “Um, dois, feijão com arroz,três, quatro, fazer o prato, aipim, mandioca, pão e paçoca, angu e fubá que a roça nos dá.”
Para nós, crianças, essa mudança para uma cidadezinha lá no fim do mundo parecia um conta de fadas. Papai, advogado, 40, mamãe, professora, 33, e já com cinco filhos pequenos para criar… Caminhávamos alegres, cantando, deliciando-nos com a doçura da cana-de-açúcar que papai cortava ou com as frutinhas maduras, vermelhinhas de café, que colhíamos na beira da estrada. – Frutinha de café dá verme… - mamãe dizia.
Nossas barrigas começando a roncar levava-nos a fazer gracinha pra mamãe. Cada um pegava dois pedaços de pau para marcar o ritmo: “Meio dia! Panela no fogo, barriga vazia, macaco torrado que vem da Bahia, fazendo careta pra dona Maria!” – Calma, garotada! Não demora muito a estaremos chegando na próxima pousada – papai nos consolava.
O destino daquela peregrinação ficava na zona contestada entre Minas Gerais e Espírito Santo. Tinha fama de perigosa – como quase todas as cidadezinhas daquela região: muita rixa entre os dois partidos políticos da época: PSD e UDN. Matava-se por qualquer coisinha.
Daí, papai batizou aquele baixinho – de olhos esverdeados, pelo curto cor de mel – de Jagunço. Mestiço, parecia ter resquícios de alguma raça – se bem que naquela região só se vissem vira-latas… Juntou-se a nós no arraial onde havíamos pernoitado. Participou de um lindo período do cotidiano daquelas felizes crianças. Nosso primeiro cachorro.
Encantava-me vê-lo nadar. – Um dia ainda vou nadar assim… – E foi ali mesmo, naquele açude, que nadei pela primeira vez. Meus irmãos e eu pegávamos na peneira uns peixinhos minúsculos e os engolíamos vivos. – Peixinho engolido vivo faz a criança sair nadando sozinha – dizia o povo. Certo dia, uma amiga nossa carregou-me para a água, onde não dava pé para mim. – Vou te soltar!– Mas eu não sei nadar! – Se não nadar, vai afundar… Não sei se por medo ou pelos peixinhos engolidos, o certo é que saí nadando que nem o Jagunço!
Vejo-o, agora, chegando em casa, depois de algumas horas ausente. Entra pelo beco e vai para a porta da cozinha à espera de sua comida. Era um cachorro sério, circunspecto, de personalidade própria. Ar de aristocrata. Não me recordo de tê-lo visto abanando o rabo pra ninguém. O filho do vizinho, um garoto de uns dez anos, vivia jogando pedra no bicho. Felizmente, não acertava, mas um dia chutou-lhe o traseiro.
– Menino malvado! Vou contar para seu pai que você está maltratando meu cachorro! – Pode contar, sua banguela! Sabe o que acontece com menina candongueira?: vem o capeta, de noite, pelo buraco da formiga, e carrega ela com ele pro Inferno! Ah, pra quê! Desde menininha, eu já não gostava de intimidações! Com o nariz empinado e o dedo em riste, eu repetia: – Vou contar pro seu pai… vou contar pro seu pai…
Contudo, na hora de dormir, arrepiava-me toda ao imaginar a figura horripilante do capeta saindo do buraco da formiga para me pegar… Ah! Se pelo menos o Jagunço estivesse aqui… Ele dormiria ao lado da minha cama e se o bicho feio aparecesse ele o mandaria de volta para o Inferno! Mas ele não era cachorro de dormir dentro de casa… O jeito era esperar todos adormeceram para eu procurar aconchego na beirinha da cama do meu irmão mais velho. Como eu sabia que o chifrudo só aparecia à noite, eu voltava para minha cama ao raiar do dia, com vergonha de que o mano me visse. Ele percebia tudo e ficava quieto.
Esse meu pavor durou algum tempo, até que surgiu em minha mente uma certeza: o Belzebu só deveria aparecer para alguém muito malvado, como menino que maltrata animais! Fui procurar aquele garoto. Com com os olhos faiscando e quase lhe enfiando o fura-bolos na fuça, disse-lhe: ô, seu menino bobalhão! Satanás vai aparecer é pra você, porque ele não gosta de menino que machuca animaizinhos! Ele nunca mais judiou do Jagunço.
Algumas vezes o cãozinho me seguia. Quando passávamos em frente a determinadas casas, rodeava cabeça e franzia o focinho ao sentir o malfadado cheiro de bundinha de tanajura torrada, uma iguaria apreciada por muita gente. Eu detestava aquele odor, mas o que me dava mais nojo era a lembrança das bundinhas ainda cruas, reluzentes, purulentas…
Enquanto Jagunço dormia no alpendre de casa, cansado de tantas andanças, meus irmãos e eu ficávamos observando as figuras mágicas e fantasmagóricas das nuvens ou olhávamos estrelas. – Aquelas lá não são as Três Marias? – Sim, concordavam todos. – Mamãe me disse que aquele outro grupo de estrelas lá, ó, representa a Chave do Céu – ensinava um de meus irmãos. O caçula perguntava: – E como se chama aquela estrelona ali, ó, tão brilhante e que não pisca? – Papai me disse que quando não pisca não é estrela, é planeta! – eu respondia, com ar de sabichona.
Em noites de lua cheia, o céu parecia ainda mais encantado e misterioso: – Olhem o carrinho de boi! – eu gritava, quase sem fôlego.
– Cadê? – perguntavam meus quatro irmãos, com os olhos arregalados.
– Alá, ó, passando em frente à lua! Mas, ao olhar pela segunda vez, a silhueta do carrinho de boi, perfeita, com seis boizinhos, o boiadeiro andando ao lado com a varinha de tocar bois atravessada no ombro, já havia desaparecido. Somente algumas nuvens esparsas, do tipo “carneiros”, salpicavam o céu naquela noite… Os meninos olhavam pra mim de soslaio e eu dizia categoricamente: – Juro que vi! Eu tinha 7 anos e essa foi a única aparição sobrenatural que tive na minha vida.
Algum tempo depois, num dia triste para toda a cidade, teríamos preferido que Jagunço não tivesse nos acompanhado: é que ele ficava farejando as tumbas, ameaçando cavar! A igreja ficava em cima de um morro, o único da cidade. O cemitério, atrás.
Os sinos badalavam. O enterro era de um rapaz que se suicidara tomando formicida. Começava a chover. O ar parecia estranho, pesado. Todos consternados ao lado do defunto. De súbito, na hora de descer o caixão, alguém da família do morto, de revólver em punho, gritava alucinado, tentando jogar um dos presentes dentro da cova: – A culpa é sua, seu desgraçado! Vou lhe matar!
Foi aquele alvoroço. O caixão largado na beira da cova, o Jagunço latindo, o povo todo correndo morro abaixo, alguns escorregando na lama que já se formara da chuva. Naquele dia, Jagunço teve que tomar banho.
O cheiro do formicida ficou por muito tempo impregnado em minhas narinas, misturando-se ao da bundinha de tanajura torrada.
Jagunço não nos acompanhou em nossa próxima andança cigana. Tento lembrar o motivo, mas não consigo. Talvez bem no recôndito do meu inconsciente tenham ficado escondidas as últimas lembranças que eu pudesse ter dele…