POEMA PREFERENCIAL

Tentei escrever
um poema bom,
mas como não vem
vai este sem tom.

Na fila do banco
falta inspiração.
Com tanto travanco
não sai nada não.

Com fome e cansada,
quase desmaiando,
puta e estressada,
quase me mijando…

Se eu não fosse fera
da melhor idade
seria a espera
uma eternidade!

OoooOoooOoooOééque…”

O azul é o Planeta,
o  branco, contemplação,
o  prata lunar completa
o  vermelho da paixão.

O ouro solar reluz,
o  amarelo de uma flor,
o lilás dança e seduz
o  rosa  intenso do amor.

O preto é guerra ou paz
o cinza, melancolia,
o marrom do solo traz
o  laranja da alegria.

O verde é vegetação,
é o ar, árvore, mina,
é da Terra o pulmão
que o  próprio Homem extermina.

AINDA HÁ TEMPO

O seus olhar transmite  uma bruma
cinzenta e triste a vagar distante,
como se olhassem invisível escuma
estes seus olhos de olhar errante.

Amargas gotas contam as estórias
em sua face agora amargurada
de malogradas lutas e inglórias
que transformaram seu olhar em nada.

O brilho dos seus olhos se apagou…
suas retinas guardam uma vida
que seu escuro olhar não desfrutou…

Ainda há tempo! Reacenda a chama
da cor do seu olhar a ser vivida
dentro dos olhos de alguém que te ama!

BOBA PROCURA BOBO PARA RELACIONAMENTO BOBO

Sou boba, bem bobinha, bem bobona,
procuro um companheiro de bobices,
para um papo bem bobo e cafona,
falando só bobagens e tolices.

Que não critique a minha superfície,
nem ironize a cor dos meus cabelos,
pouco me importa a sua calvície,
prefiro paz em vez de atropelos.

Essencial que curta um bom vinho,
mas que saiba sorvê-lo com elegância,
sem perder o controle e a consciência.

E que após o amor no morno ninho,
fiquemos bobos na noite abobada,
rindo de tudo, sem falar mais nada…

depois dormir sonhando com bobagens.

SEGREDO

Desatei só os nós das ilusões,
tirei os alfinetes das torturas,
entrei nos sonhos de outros corações,
guardei no peito o amor das aventuras.

Ardi-me em chamas, congelei-me ao vento,
senti as incertezas tormentosas,
perdi as formas do meu pensamento,
fingi diversas formas mais formosas,

até não mais querer, senão da vida
uma ilusão apenas, um segredo
trancafiado na alma rendida

à espera de um sonho que pedi:
um só amor, uma paixão sem medo,
que acordada eu não conheci…

DESPEDIDA

 

Soluço incontido
pela  lucidez
que alcançou meu voo
com o uivar do vento.
Vou partir, embora
leve a embriaguez
do encantamento
deste beijo.  Agora
deixo os braços teus
e um sussurro entoo
fundo em teu ouvido
- carinho atrevido -
a dizer-te adeus…

ENTROU AREIA

 

Biquíni novo. Fio dental?  Nananinanão! Vou tentar se mais sensata e comprar um mais confortável.  Além de não ficar bonito pra quem já está na melhor idade (kkk!), aquela merda sai ralando o rego da bunda! Tem que ser muito sem noção pra usar um troço daqueles. Melhor seria poder usar um tapa sexo. Engraçado, né? A lei não permite isso, mas o fio dental, que deixa a bunda toda de fora, pode. Os homens são mais seguros de si. Sabem que o escondidinho é mais apimentado e tem mais sabor… Não precisam mostrar tudo de uma vez só pra “pegar” mulher.

Mas não estou aqui pra falar de “pegação” e sim da minha ida à praia pra estrear o biquíni novo. Que bom que nas cidades grandes ninguém fica reparando se você – cinquentona sessentona, setentona ou mais – esteja usando biquíni ou não. Ninguém fica fazendo chacota das suas celulites, nem dos seus pneuzinhos nem das pelancas das que já estão pra lá da “melhor idade”…

Pois bem, o dia estava lindo e fazia um calorzinho gostoso e confortável. Não levei nem barraca. Peguei minha canga e minhas havaianas e lá fui eu. Tava a fim de curtir uma onda, ou melhor, um sol, pra pegar aquele bronze. Deitei-me sobre a canga, a uma distância razoável, já que o mar estava meio estressadinho. Pensei: “Aqui não tem onda que me pegue”! Ledo engano. Pegou. E pegou feio. Veio com tudo, me chacoalhou e me molhou todinha. E o pior: entrou areia. Puta que pariu! Ainda bem que não ousei ir com o fio-dental que não me contive em comprar! Aí ia ralar tudo mesmo…até além do rego!

LIBERTA

O odor do sexo
que em transe exala
dos desejos úmidos
vindos deste amplexo
revolveu lampejos
que jaziam tímidos
na mente escrava.

Em ânsia de espera
seiva talismânica
enfim se liberta
e em fusão vulcânica
jorra da esfera
com o calor dos beijos
e da ardente lava.

INSULTOS TAMBÉM NÃO, NÉ?

Tu te chamas porco. E és um dos bichos mais limpos da natureza. O homem te impõe viver na lama e na imundície e ainda comer aquela lavagem… É claro que comes. É claro que vives naquele chiqueiro, porque não podes, tu mesmo, limpar toda aquela nojeira. Mas evitas fazer cocô e xixi na lama onde te banhas. O que tu querias mesmo é água e comida limpas. Os homens, no entanto, estão pouco se lixando pra ti, porquinho. Querem é que tu vires “Leitão à pururuca”, quando bem ainda não alcançaste a idade adulta. Ficas uma delícia mesmo… ainda mais acompanhado de uma boa caipirinha… mas é a vida, porquinho, coisas do nosso planeta… Os galináceos, os bovinos e os caprinos também passam por isso. Sem falar dos animais que vivem nas matas, e que são caçados pelos humanos. Muitos deles quase chegam à extinção. Mas, voltando à vaca fria, porco – porque este texto é especialmente dedicado a ti – há pessoas que não te comem, porque te acham um animal imundo, cheio de vermes. Vejam só! Até uma simples folha de alface pode conter um verme, se não for bem lavada e higienizada… Essa crença poderia ser boa pra ti, mas lá vem a ruim: cientistas descobriram que tua carne é uma das mais saudáveis de todas. Aí, porco, tu te ferraste ainda mais.. Podiam, ao menos, te dar uma vida mais digna e não te torturarem na hora de te matar. Existe até uma lei para punir quem mata animais sem a devida técnica. O problema é que as leis costumam ser infringidas com muita frequência, até as criadas para proteger os seres humanos… Mas se o que vou dizer agora puder te servir de consolo, te digo: os homens estão se matando uns aos outros, e na maioria das vezes com crueldade. E nem é por antropofagia! Não há outro motivo que não seja a ganância, a vingança ou pura maldade mesmo. Entre essa matança, sobra também para os humanos inocentes, até para as criancinhas.

Porquinho, falei tanto para finalmente chegar ao principal ponto desta crônica: não sei por que deram seu nome aos corruptos. Os homens, além de te comerem ainda te insultam! Aí também já é demais, né mesmo? Tu não tens nada a ver com essa merda que invade nosso país… Aliás, também os ladrões, os cretinos, os safados, os assassinos e tudo quanto é raça ruim não deveriam levar teu nome nem o de animal algum! Até hoje, passados mais de 40 anos do Women’s Lib, da década de 70, algumas mulheres ainda chamam os homens machistas de “porcos chauvinistas”! O que tens tu a ver com a violência e a opressão física e psíquica que alguns homens vis ainda exercem sobre a mulher? Tu, ó porco – como os demais bichinhos e as feras mais selvagens, e mesmo os insetos e os roedores que vivem no esgoto – nada tem a ver com as sujeiras de tantos animais ditos racionais!

MAIS UM ANJO EM MINHA VIDA

Porte galante, pelo enrolado, meu cachorrinho cor de marfim. Lindo poodle! Parecia um anjo. Todos paravam para admirá-lo. Não lhe cortaram a cauda como costumam fazer com cães dessa raça. Ainda bem. Nunca pude imaginá-lo cotó.

Detestava o barulho do caminhão do lixo. No horário de praxe, corria para a varanda e se sentava, deixando o rabo bem esticado e a carinha entre as grades da varanda. Latia e olhava para trás, bem dentro dos meus olhos, como se pedindo minha aprovação. Vendo-me sorrir, virava-se novamente e, então, com mais ênfase, demonstrando toda sua indignação, voltava a latir para o rapazes da limpeza pública.

Durante nossos passeios, não gostava da meia-volta: percebia que estávamos voltando para casa, por isso, empacava – isso mesmo, literalmente, igual a um burrinho! Dessa vez, seu olhar era de súplica, como se dissesse: “Não quero ir embora!”. Eu ficava com dó e continuava o passeio. Ele seguia contente, todo garboso.

O único jeito de voltar sem que ele percebesse era passando pela outra calçada. Isso o desnorteava, porque não havia ali o cheiro de suas mijadas que marcavam seu território. Dava-me remorso, mas eu tinha outros afazeres, além de ter que me enfeitar para um namorado que não largava do meu pé e que já estava começando a sentir ciúmes do bichinho. Teve um dia que não aguentei a barra e tive que despachar o animal sem dó nem piedade… o namorado, é claro!

Entre outras coisas menos saudáveis, o bicho gostava de comer caroço de abacate! Eu rezava para que fosse só isso! Depois de pegar as porcarias que porventura ele encontrava, o safado dissimulava, fechando bem a boca. Mas eu logo percebia, devido ao rabo que se tornava mais enrolado, além do andar requebrante e do focinho em riste. Quando pegava algum osso, era bom nem tentar tomar. Rosnava de dar medo! E se ele comia alguma porcaria, eu chegava a esbravejar: – Puta que pariu… comeu merda! Lá vou eu ter que lavar a boca deste puto nojento!

Eu precisava tomar outros cuidados também em nossas saídas, porque se alguém chegasse muito perto de mim, ele rosnava e tentava pular em cima da pessoa, com a intenção de morder mesmo. Com as crianças, não! Essas tinham livre acesso. Com elas ele nada fazia, a não ser se enroscar nas perninhas delas e se deixar acariciar. Com as orelhas abaixadas, a carinha relaxada como se estivesse sorrindo, a cauda em festa e uma meiguice no olhar, simplesmente lambia a criançada.

Não havia completado ainda nove anos quando partiu para outras esferas. Deve ter-se juntado à celestial morada dos outros seis cãezinhos que alegraram grande parte da minha existência: Jagunço, Baianinha, Diana, Dick, Batakotô e Kitula. Com certeza, todos receberam com carinho a chegada do novo anjinho. Mais um anjo em minha vida, a quem também agradeço pela alegria!

– Obrigada, Elohim! 

DIA NACIONAL DA POESIA

A Castro Alves

 Ah, jovem poeta,
tão cedo partiste,
mas antes deixaste
tua poesia
alegre e triste,
falando de amores,
falando de dores,
das coisas da vida
que ainda existem!

Mas, crê, meu poeta,
que nada se esvai,
que nada se perde
na vida e na morte,
e na esfera da sorte.

No teu infortúnio,
quanta dor, poeta!
Mas, que bom, amaste
também, com alegria!

Tua poesia
continua viva
na nossa palavra,
nos nossos sentidos,
nas ondas do mar,
nas cores das flores,
na densa floresta
do nosso planeta,
querido poeta!

Salve este belo dia
14 de Março,
do teu nascimento
e da poesia!

RECADO PARA UMA CERTA MARIA

E agora, Maria, como ficas? Na solidão que criastes pra ti mesma? Ali perto há uma saída… corre logo e sai. O outro lado pode ser mais luminoso e alegre do que esse beco sombrio em que vives. O que te prende aí?  Não há nem musgo no muro… e nenhuma pedra no meio do caminho para chutares e desabafares tuas dores. Não há uma pedrinha sequer para te distraíres,  jogando-a ao léu e vê-la cair de volta ao chão, ricocheteando ante teu triste olhar. Isso poderia ser  um paliativo.  Não tens que seguir a trilha tormentosa.  Dá uma desviada que poderás ter boas surpresas.  Se não encontrares o que procuras, desvia mais. Os caminhos são infinitos e o teu existe. É só seguir em frente.  Se continuares caminhando por estradas que só te dão tropeços,  procura outras. Se insistires em ficar aí vagando nesse limbo, sem aproveitares a beleza de vida, não vai te restar mais nada  senão esperares chegar ao fim do último caminho certo para todos nós: sete palmos abaixo do chão. Mas tu também, tal qual o José, és dura na queda e não morres! Então, sai dessa umbral escuro onde só tens encontrado  desamor e solidão. Deixa de ser besta,  Maria!

MEU ABACATEIRO

 

A natureza sempre tem algo a nos dizer. Às vezes nos faz despertar com seus gritos de socorro; outras vezes nos traz serenidade, com seu perfume, cores e magia. Entro pela primeira vez em minha nova morada. Olho para fora e fico embevecida… poderia eu supor que um dia iria morar num pequenino espaço, tendo à frente um enorme abacateiro, cujas copas eu pudesse acariciar da minha janela? E desta janela eu pudesse acompanhar todas as suas fases, todas suas atividades? Ontem, flores, hoje frutos, e amanhã o ciclo continua, com os passarinhos cantando sobre seus galhos, voando em sua volta e vindo pousar quase na palma da minha mão. Pegam as migalhas de pão e voltam para seus ninhos escondidos entre as folhas do abacateiro, sempre verdejantes, balançando alegremente ao vento. Parece também que voam… parece até que dançam…parece também que cantam…

SOLIDÃO

Os passarinhos sonham…
dormiram cedo hoje.
O céu se move.
As nuvens não se acanham
e ainda chove.
Por isso, já se foram
os bichinhos…
que dó!
Deixaram-me triste
na janela
e só,
olhando a lama e a chuva
que inundam
a fonte antes bela
dos caminhos.

FOLIA E DISRITMIA

Da esquerda para direita: duas amigas, Marcos e Glória

Folia de carnaval, com uma turma alegre de músicos e foliões cheios de energia e de inspiração carnavalesca. Hoje, para dar um descanso ao coração acelerado, envio uma gravação de um samba composto por Zé Katimba, sucesso na voz de Martinho da Vila. Aí vai para vocês, amigos fubânicos, “DISRITMIA”, cantada por mim, acompanhada do impecável teclado de Marcos d’Abreu. O arranjo estilizado é dele. Faltou mixagem, e eu gravei em cima do playback. por isso, desculpem a qualidade não tão boa da voz.

 

MALHAR EM FERRO FRIO

Como todos nós sabemos, o que mais se vê ocupando as posições importantes  nos órgãos governamentais do nosso país é autoridade com tendências exacerbadas voltadas para a corrupção, a roubalheira, o cinismo e a falta de respeito.

Enquanto não houver reforma na legislação penal brasileira, tudo de maligno vai continua ocorrendo – e ainda aumentar. Pelas leis penais vigentes, o acusado pode apresentar todo tipo de recurso. Quem puder pagar um bom advogado, e é claro que, principalmente ladrão e corrupto político tem condições financeiras para isso, ele nunca será preso e vai seguir na política praticando seus delitos. Isso nos tira a razão, nos enraivece, e nos causa asco, por vermos nosso país ridicularizado perante o mundo, mostrando uma imagem vergonhosa do nosso governo, causado por esses impostores que só entraram na política por interesses próprios, e não para trabalhar em prol de um país melhor e proporcionar uma via digna ao povo.

No entanto, a própria legislação penal encoraja o mau elemento a agir com mais violência e escárnio contra seu semelhante. A impunidade, a anacrônica e lenta justiça que ainda subsiste incentiva a prática de crimes de qualquer natureza e, ultimamente com mais frequência, a corrupção e a roubalheira na área política. Urge uma reforma nas leis, porque cada criminoso tem que pagar pelo seu crime, com penalidade justa na medida da sua gravidade.

Não adianta mudar o governo, não adianta novas eleições, não adianta colocar gente nova no poder. O que adianta é a reforma na legislação penal brasileira, com o preenchimento das lacunas existentes relativas ao crime de corrupção e de outros delitos. Sem leis adequadas, é malhar em ferro frio.

COMETA DE HALLEY

 

Halley em 1986 não foi visível a olho nu

Parabólico andarilho do Universo,
escondido atrás desse silêncio,
decifra a vida, a morte,
a transcendência.

Enigmático mago, corpo etéreo,
solitário peregrino das galáxias,
desencanta o encanto
da existência.

Anel diáfano, itinerante eterno
no sistema temerário das estrelas,
carrega a incógnita
da essência.

- Vulto de luz, núcleo fulgurante,
não terei mais tempo de encontrar-te…
por que passastes desta vez
distante?…

(Última passagem do cometa em 9/2/1986; próxima passagem prevista para 2061)

HARMONIA

Viajo nos vapores dos meus vinhos
e me transmuto em éter nos meus sonhos,
construo nas estrelas meus caminhos
e aniquilo os vermes, vis, medonhos.

As cobras e as aranhas que se cruzem
e que procriem abomináveis seres,
e o Inferno com seu fogo os lambuze
do ferro derretido dos prazeres.

Todos os anjos permanecem intactos
com suas asas espalhando nuvens
para espantar os monstros abjetos.

A harmonia só será perfeita
se a música composta pelos deuses
forem tocadas por divina orquestra.

GOLE DE VINHO

Enquanto bebo
no mesmo copo que o seu
tudo faz sentido
do que nunca aconteceu:
tremo e percebo
nesta sua presença
no meu ninho
que o prazer
do seu beijo
sempre quente
e habitual,
mas que derretido
no meu gole de vinho
faz a diferença
do que poderia ser
simplesmente
normal.

FUGA EM TOM MAIOR

Que seria de mim sem minhas fugas
que me fazem sair de tantos medos?
A melodia apaga minhas rugas,
onde não queres mais tocar teus dedos.

Que seria de mim  sem os teclados
onde meus olhos inda são brilhantes?
Eles refletem meus lábios fechados
que não queres beijá-los como antes.

O ritmo inflama o meu desejo
de colar os  meus seios em um  peito
e  mergulhar na seiva de um beijo.

Contrapontos ficaram no passado,
e a fuga em tom Maior é este jeito
de ver teu corpo ao meu entrelaçado.

EITA CACHACINHA BOA, SÔ!

Só me resta inspiração
Pra fazer uma quadrinha
Tomei uma cachacinha
Que é bom pro coração
E cura qualquer paixão
Tira tudo que é ruim
Que ficou dentro de mim
Estou entrando na décima
Mesmo com uma pobre  rima
Do começo, meio e fim.

UM MACHISTA EM MINHA VIDA

Ele pensava que eu fosse uma cachorra!  E tinha razão nesse raciocínio vil, mas visível.  Quem era a irracional que organizava tudo no lar? Comida, bebida, limpeza da casa, compras… tudo mesmo! Até o banho dele e o que se relacionasse ao seu bem-estar, sua aparência… majestosa, por sinal!  Quem? Quem? Quem?  É lógico que ficava tudo por conta da fêmea abestada  e submissa!

Ah, não! Que martírio! Era uma vida  de cão mesmo! Um pega pra capar! Uma das coisas que que mais me irritava nele era a bagunça e a sujeira que  ele produzia dentro de casa – e não limpava, é claro!  Sobrava tudo para  a escrava, ou melhor, a cachorra aqui, que nem empregada tinha! 

Eu até que tentava obter dele alguma cooperação, mas ele fazia de conta que não me ouvia.  Se eu fosse igual àquela cadela da mãe dele, as coisas seriam diferentes… No mínimo, morder-lhe-ia as orelhas!          
                           
Chovesse canivetes, estivesse eu curtindo aquela  preguiça,  não havia alternativa:  tinha que sair com ele! E o safado, mesmo comigo,  tentava dar suas escapadinhas. Não podia ver uma fêmea – magra ou gorda, bonita ou feia, lourinha, moreninha ou pretinha… bastava que lhe dessem bola!  E ele, muito bonito, elegante e saradão… era assim, ó, de paquera!
                           
Eu me sentia protegida em sua companhia, mas às vezes ela exagerava nessa postura, causando-me problemas.  Certo dia, quase fomos parar na delegacia: um homem vinha em nossa direção, passou rente ao meu lado, mas nem chegou a  esbarrar em mim. Não deu outra: ele tentou agredi-lo, e só não conseguiu seu intento porque eu consegui contê-lo, segurando-o com toda minha força e tentando acalmá-lo com palavras  sensatas.   
                           
Apesar de tanta demonstração de carinho e cuidados comigo, havia momentos em que ele despejava sua violência contra mim. Isso acontecia sempre que eu, também muito autoritária, insistia em fazer prevalecer minha vontade – eu também tenho um geniozinho do cão, ainda mais quando eu acordava com a cachorra!  E isso não era raro.

Outra coisa que me causava indignação era quando ele invadia minha privacidade, intrometendo-se nas minhas amizades, em frequentes ataques de desagrado.  Além disso, vasculhava minhas coisas. Chegou ao ponto de rasgar uma minissaia que eu havia acabado de comprar.  Eu ficava irada e ia  lá tomar dele. Mas… pra quê!  Ele partia que nem uma fera pra cima de mim. Guardo cicatrizadas em minha pele as marcas de nossas desavenças.   
    
Mesmo assim, sinto saudades – que nem mulher de malandro!   Gostava demais dele, e ele era vidrado em mim.  Mas, um dia ele não aguentou mais essa vida e partiu para sempre.

Foi difícil a despedida, de minha parte, porque ele, já inerte, não sentia mais nada. Ele vai ficar para sempre na minha lembrança, pela imensa alegria que me proporcionou durante nossos oito anos de convivência.

Seu olhar expressivo e envolvente tinha  os mesmos matizes de um olhar humano…
    
Que cachorro!

BICHO NÃO IDENTIFICADO

Apareceu no Senado
Nesta sexta-feira treze
pra mais um queguelequeze
Bicho não identificado
Bem rabudo e safado
Pois sangrou a funcionária
Na função de secretária
Com uma mordida na perna
Esse tal de alienígena
Desconhecido na área

A MAESTRIA DO MAR

Escuto  o mar
pelos suaves tons
que ele transmite
na regência dedicada
à melodia.

Escuto o mar
pelo fluir dos sons
que ele emite
com métrica adequada
à poesia.

Escuto o mar
nas espumas desfeitas
que dedilham
as teclas brancas, pretas
das areias.

Escuto o mar
quando a onda me lança,
me mergulha
na sinuosa dança
das sereias.

Escuto o mar
na infinita escala
a soar
o sibilar estro                      
do seu manto.
 
O mar me escuta,
quando a voz me cala
ao rogar:
Mar, seja o Maestro
do meu canto!

VOCÊ

Eu não quero ser só isso,
este olhar anuviado,
sorriso banal, sem viço,
porte triste e encurvado.

Eu já fui alguém um dia,
único dia  sem nome…
depois nada mais sentia
a não ser sede e fome.

Agora não sou senão
pesadelo ou magia…
quem sabe uma ilusão,
crua e cruel fantasia.

Para ser real, ser gente,
não apenas manequim,
falta  você tão-somente
que é um pedaço de mim…

ODE AOS SEIOS

Pintura de Leonid Alfremov

Febril e sem pejo,
mostro-te os seios,
as rubras aréolas
e  os rijos  mamilos
depois de beijados
com lumes de anseios:
rútilo desejo
de amores sonhados…

Quentes e tranquilos.
ausentes de medos,
tornam-se as pérolas
mais e mais rosadas
com o suave choque
da língua molhada
ou do leve toque
circular dos dedos…

SALVE 2012!


 
2012, salve…

Vamos brincar mais
E sejamos crianças:
Mundo só de paz!

Sigamos felizes
Inspirados nos pássaros:
Mundo de matizes!

Boas lembranças
O passado não apaga:
Mundo de esperanças!

Adeus, velho onze…
No novo dois mil e doze,
Ouro, prata e bronze!

Ô, EVA…

Pintura de Campbell

Eva, minha irmã,
tava bem na sua cara:
não era a maçã!

VIVA O MESTRE!

Jesus Menino, símbolo de amor
E fraternidade aqui na Terra,
Se não viesses mostrar  tua dor
Unindo um pouco mais todos os seres
Seria bem maior toda esta guerra…

Comunhão mais forte falta ainda
Rei, mas o exemplo que nos destes
Impera quando vemos a  mais linda
Serena, porém  luminosa estrela
Trazer aos lares toda a singeleza
Ornamentada pela tua vinda!

FATO NÃO CONSUMADO

(Ficção. A autora ama a vida e declara que caso não morra de morte morrida…chamem a polícia! Rs!)

Um tiro na cabeça resolveria tudo. Mas cadê o revólver? Puta merda! Tá proibido pra cidadãos comuns. Os bandidos têm de montão… e de tudo quanto é tipo.  Mas eles só matam quem num tá a fim de morrer ou  os que ainda têm um tempão pela frente pra curtir a vida.

Há outros meios. Bate, porém, aquele medo da possibilidade da não consumação  do fato, o que pode   dar início ao drama de um novo soneto. Se tentar emendar, fica ainda muito pior: é  aquele  morre -não- morre… e os profissionais de saúde não desligam os aparelhos… ou será que sim?  Suponho que a certa hora, de preferência de madrugada, alguém vai lá e desliga, mas só depois da agonia sem limites naquela via crucis.  Quem sobrevive fica em frangalhos, todo estropiadinho. 

Antes de tudo, portanto, bom é pensar em todas as consequências, sem deixar de fora  parentes e amigos,  que vão ficar sofrendo  inconsoláveis pela tragédia, coitados. E aquela choradeira.. aquela rezadeira…

Fora isso, como se  não bastasse também a grana preta que vai ser despendida no velório e no sepultamento – só a cova custa os olhos da cara ( de quem fica, né?) – lá se vão mais umas  bufunfas pra  encomendar as missas de 7º dia, 30º dia, 365º dia…  e por aí vai.  Muita gente não percebe que quem fica aqui na Terra  é que precisa da reza de quem já foi  lá  pro Céu.

Os mais religiosos e tradicionalistas irão fazer visita ao túmulo invariavelmente no Dia dos Mortos, em meio àquele tumulto, chova ou faça sol. A última hipótese quase nunca acontece. Mas é preciso enfrentar essa. Vai que alguma alma do outro mundo venha puxar sua perna durante a noite. Eu, hein, Rosa! Melhor cumprir a missão. É um diazinho só… passa rápido…

Alguns familiares e amigos, além de tanto sofrimento, vão se apiedar da alma do defunto, porque acreditam que o destino para esse ato tresloucado será inevitavelmente o limbo, o umbral, onde  ficará vagueando por centenas e centenas de anos, até que algum espírito bondoso e evoluído venha em  seu socorro… e se vier!  E haja reza e haja missa e haja compaixão.

Pensando bem… e  se isso tudo for mesmo verdade?  Cruz credo, pé de pato, mangalô,  treiz veiz! Ideia deletada! E o cachorro, tadinho… ia ficar a deus-dará ou  virar sabão… Não, melhor não!

– Vem, au, au…  simbora passeá?

VENTO VEM, VENTO VAI

(Dedico a Van Gogh – fonte de minha inspiração – e a todos os fubânicos o meu primeiro haicai)

Van Gogh

O vento que agora
ziguezagueia nas nuvens
logo vai embora.

JAGUNÇO

Franzino, embornal a tiracolo, chapéu de feltro, o homem do outro lado da vala gritava espavorido, fazendo sinal para o motorista do caminhão.  As duas tábuas, formando pinguelas, iam-se afastando uma da outra à medida em que o caminhão, apinhado de gente, avançava.  Por questão de segundos, não despencamos no leito seco do rio…
  
Dali em diante, teríamos de prosseguir  a pé. A estradinha tornava-se cada vez mais estreita e perigosa, ao mesmo tempo que mais bonita e fascinante. Vez ou outra, uma casinha despontava ao longe, perdida no meio do mato.  A fumaça da chaminé fazia-nos pensar no que estariam cozinhando… A imagem de um franguinho com quiabo, arroz com feijão e angu inspirava-nos a brincar de soldadinhos: “Um, dois, feijão com arroz,três, quatro, fazer o prato, aipim, mandioca, pão e paçoca, angu e fubá que a roça nos dá.”
      
Para nós, crianças, essa mudança para uma cidadezinha lá no fim do mundo parecia um conta de fadas.  Papai, advogado, 40, mamãe, professora, 33, e já com cinco filhos pequenos para criar… Caminhávamos alegres, cantando, deliciando-nos com a doçura da cana-de-açúcar que papai cortava ou com as frutinhas maduras, vermelhinhas de café, que colhíamos na beira da estrada.  – Frutinha de café dá verme… -  mamãe dizia.

Nossas barrigas começando a roncar levava-nos a fazer gracinha pra mamãe.  Cada um pegava dois pedaços de pau para marcar o ritmo: “Meio dia! Panela no fogo, barriga vazia, macaco torrado que vem da Bahia, fazendo careta pra dona Maria!” – Calma, garotada! Não demora muito a estaremos chegando na próxima pousada – papai nos consolava.
  
O destino daquela peregrinação ficava na zona contestada entre Minas Gerais e Espírito Santo. Tinha fama de perigosa – como quase todas as cidadezinhas daquela região: muita rixa entre os dois partidos políticos da época: PSD e UDN.  Matava-se por qualquer coisinha.

Daí, papai batizou aquele baixinho – de olhos esverdeados, pelo curto cor de mel – de Jagunço. Mestiço, parecia ter resquícios de alguma raça – se bem que naquela região só se vissem vira-latas… Juntou-se a nós no arraial onde havíamos pernoitado. Participou de um lindo período do cotidiano daquelas felizes crianças. Nosso primeiro cachorro.

Encantava-me vê-lo nadar. – Um dia ainda vou nadar assim… –  E foi ali mesmo, naquele açude,  que nadei pela primeira vez. Meus irmãos e eu pegávamos na peneira uns peixinhos minúsculos e os engolíamos vivos. – Peixinho engolido vivo faz a criança sair nadando sozinha –  dizia o povo. Certo dia, uma amiga nossa carregou-me para  a água, onde não dava pé para mim.  – Vou te soltar!–  Mas eu não sei nadar! –  Se não nadar, vai afundar… Não sei se por medo ou pelos peixinhos engolidos, o certo é que saí nadando que nem o Jagunço!
  
Vejo-o, agora, chegando em casa, depois de algumas horas ausente. Entra pelo beco e vai para a porta da cozinha à espera de sua comida.  Era um cachorro sério, circunspecto, de personalidade própria. Ar de aristocrata. Não me recordo de tê-lo visto abanando o rabo pra ninguém. O filho do vizinho, um garoto de uns dez anos, vivia jogando pedra no bicho. Felizmente, não acertava, mas um dia chutou-lhe o traseiro. 
  
– Menino malvado!  Vou contar para seu pai que você está maltratando meu cachorro! –    Pode contar, sua banguela!  Sabe o que acontece com menina candongueira?:  vem o capeta, de noite, pelo buraco da formiga, e carrega ela com ele pro Inferno! Ah, pra quê! Desde menininha, eu já não gostava de intimidações! Com o nariz empinado e o dedo em riste, eu repetia: – Vou contar pro seu pai… vou contar pro seu pai…

Contudo, na hora de dormir, arrepiava-me toda ao imaginar a figura horripilante do capeta saindo do buraco da formiga para me pegar… Ah! Se pelo menos o Jagunço estivesse aqui…   Ele dormiria ao lado da minha cama e se o bicho feio aparecesse ele o mandaria de volta para o Inferno!  Mas ele não era cachorro de dormir dentro de casa… O jeito era esperar todos adormeceram para eu procurar aconchego na beirinha da cama do meu irmão mais velho. Como eu sabia que o chifrudo só aparecia à noite, eu voltava para  minha cama ao raiar do dia, com vergonha de que o mano me visse. Ele percebia tudo e ficava quieto. 

Esse meu pavor durou algum tempo, até que surgiu em minha mente uma certeza:  o Belzebu só deveria aparecer para alguém muito malvado, como menino que maltrata animais! Fui procurar aquele garoto. Com  com os olhos faiscando e quase lhe enfiando o fura-bolos na fuça, disse-lhe: ô, seu menino bobalhão!  Satanás vai aparecer é pra você, porque ele não gosta de menino que machuca animaizinhos! Ele nunca mais judiou do Jagunço.
  
Algumas vezes o cãozinho  me seguia. Quando passávamos em frente  a determinadas casas, rodeava cabeça e franzia o focinho ao sentir o malfadado cheiro de bundinha de tanajura torrada, uma iguaria apreciada por muita gente. Eu detestava aquele odor, mas o que me dava mais nojo era a lembrança das  bundinhas ainda cruas, reluzentes, purulentas…
  
Enquanto Jagunço dormia no alpendre de casa, cansado de tantas andanças, meus irmãos e eu ficávamos observando as figuras mágicas e fantasmagóricas das nuvens ou olhávamos estrelas. – Aquelas lá não são as Três Marias? – Sim, concordavam todos. – Mamãe me disse que aquele outro  grupo de estrelas lá, ó, representa a Chave do Céu – ensinava  um de meus irmãos. O  caçula perguntava: –  E  como se chama aquela estrelona ali, ó,  tão brilhante e que não pisca? – Papai me disse que quando não pisca não é estrela, é planeta! –  eu respondia, com ar de sabichona.
  
Em noites de lua cheia, o céu parecia ainda mais encantado e misterioso: – Olhem o carrinho de boi! – eu gritava, quase sem fôlego.

– Cadê? – perguntavam meus quatro irmãos, com os olhos arregalados.

– Alá, ó, passando em frente à lua! Mas, ao olhar pela segunda vez, a silhueta do carrinho de boi, perfeita, com seis boizinhos, o boiadeiro andando ao lado com a varinha de tocar bois atravessada no ombro, já havia desaparecido. Somente algumas nuvens esparsas, do tipo “carneiros”, salpicavam o céu naquela noite… Os meninos olhavam pra mim de soslaio e eu dizia categoricamente: – Juro que vi! Eu tinha 7 anos  e essa foi a única aparição sobrenatural que tive na minha vida. 
  
Algum tempo depois, num dia triste para toda a cidade, teríamos preferido que Jagunço não tivesse nos acompanhado: é que ele ficava farejando as tumbas, ameaçando cavar! A igreja ficava em cima de um morro, o único da cidade. O cemitério, atrás. 

Os sinos badalavam. O enterro era de um rapaz que se suicidara tomando formicida. Começava a chover. O ar parecia estranho, pesado. Todos consternados ao lado do defunto. De súbito, na hora de descer o caixão, alguém da família do morto, de revólver em punho, gritava alucinado, tentando jogar um dos presentes dentro da cova: –  A culpa é sua, seu desgraçado! Vou lhe matar!
  
Foi aquele alvoroço. O caixão largado na beira da cova, o Jagunço latindo, o povo todo correndo morro abaixo, alguns escorregando na lama que já se formara da chuva. Naquele dia, Jagunço teve que tomar banho.
  
O cheiro do formicida ficou por muito tempo impregnado em minhas narinas, misturando-se ao da bundinha de tanajura torrada.
  
Jagunço não nos acompanhou em nossa próxima andança cigana. Tento lembrar o motivo, mas não consigo. Talvez bem no recôndito do meu inconsciente tenham ficado escondidas  as últimas lembranças que eu pudesse ter dele…

CORRUPÇÃO, VADE RETRO!

Hoje vivemos ainda  mais um dia cansativo. Povo sofrido, exaurido, nesta terra tão bonita. Gente que quer ver banida a  praga, a fome, a doença, e tudo de ruim que vem  desta guerra tão maligna… Livre o povo quer respeito,  sem que bandido estrague a existência tão digna!
 
Na pureza do amor, não cabe selvageria de desamor e de dor… Gritemos não, não e não, quantas vezes for preciso!

Safadeza odiosa não combina com os seres deste Planeta tão lindo…

Corrupção: xô, xô, xô! Vade retro! Fora!

Amém!

A FORÇA DOS OPOSTOS

Diz o Antigo Testamento que no princípio tudo era trevas… e  Deus criou a Luz,  formando  assim os primeiros opostos da face da Terra:  o Dia e a Noite. Eles não se atraem, mas vivem pacificamente, cada um respeitando a soberania do outro.  Vez ou outra,  a lua aparece antes de o sol se pôr e quando isso acontece o astro-rei vai saindo devagarzinho para dar lugar à  lua que vem chegando de mansinho…  Assim, não há agressão contra a beleza dos raios de sol que ainda estão sumindo no horizonte, dando-nos aquela sensação de paz, aquele belo claro-escuro dos últimos raios do  pôr-do-sol com o aparecimento  dos primeiros clarões da lua…

Pois é, tudo ia bem quando, no sexto dia da Criação, o Todo-Poderoso decidiu, segundo o AT (sic!) fazer à  Sua própria imagem seres opostos que se atraíssem entre si, que vivessem juntos e em harmonia. Deu-lhes, no entanto, livre arbítrio, ordenando-lhes apenas que não comessem o fruto da árvore proibida. Mas não deu outra: fraquejaram diante da tentação e da persuasão da Serpente,  deixando-se  conduzir pela promessa demoníaca.  O desfecho da história da Criação se deu, todos sabemos, com a expulsão do Paraíso dos nossos primeiros ancestrais.

Assim, a atração ou não entre esses últimos opostos, ficou sujeita a questões da igualdade ou, pelo menos da semelhança de pensamentos ligadas à integridade, banditismo,  amor, ódio,  gosto,  cheiro,  visão, tato, sexo, inteligência, esclarecimento, educação,  harmonia,  melodia e ritmo. Enfim…

Entre os animais irracionais, existe prudência e sabedoria instintivas:  após a luta, o mais fraco, ao ver que a situação para seu lado está cada vez mais periclitante,  dá o fora logo, porque sabe que  mais cedo ou  mais tarde o bicho vai pegar mesmo!  Põe o rabinho entre as pernas, e vai se catar. Alguns de seus semelhantes conseguem ficar no trono por anos a fio (um mistério misteriosíssimo!), mas um dia vão ter que  abdicar das coroas indevidamente colocadas em suas cabeças, e se não se redimirem e viraram homens de verdade, poderão ter que enfrentar a guilhotina. Isso só ainda não aconteceu porque, para a sorte deles e azar do povo,  não estamos mais na Idade Média…

Agora, abrangendo mais o assunto:  se as potências mundiais insistirem em usar suas forças descontroladamente,  podemos sim concordar filosoficamente com a frase daquele comercial,  postada na matéria do Cardeal Cícero Cavalcanti de ontem, de que “Power is nothing without control”.  E continuando, agora sem nenhuma filosofia e sem procurar usar frases rebuscadas, melhor é usar mesmo o lugar-comum:  não é preciso ter bola de cristal para ver que se houver insistência nessa ‘força sem controle’  vamos, finalmente chegar ao ‘nada’, porque  com  explosão desenfreada entre os opostos, afundaremos todos no mesmo barco, depois de assistirmos à desintegração da árvore genealógica de Adão e Eva e, consequentemente, a devastação geral do Jardim do Éden… 

BRINCADEIRA CORUJÂNICA

Mãe coruja e filhotes

A mãe coruja, que apare na foto acima, e o pai coruja, que não aparece porque foi à caça, faleceram em 1980 e 1985, respectivamente.  Atualmente,  colaboram para blogues por meio de psicografia e, além de já estarem bem longe daqui e bem protegidos, são bastante respeitados,  porque só  mandam boa poesia.

Os filhotes, da esquerda para  o centro e do centro para a direita – importante ressaltar que as posições não seguem ordem de  antiguidade nem de sexo nem de bosta nenhuma:

1º – o  mais levado: pilota moto e avião – conta com proteção divina;

2º – a mais chata: única corujinha-fêmea entre os irmãos. Esconde-se, procurando proteção: é colunista de blogue e é muito geniosa. Quando a irritam fala palavrões;

3º – o  mais tímido: gostava de música clássica e de jogar sinuca. Já subiu para outras esferas e tenho certeza de que sua proteção está garantida;

4º – o mais vermêinho: quase totalmente escondido, o caçula, procurando proteção: é colunista de um blogue e se mete em política contrária à linha editorial. Gosta de pesquisar estatísticas e vira uma goiaba vermêia quando o contrariam;

5º – o mais poeta: primogênito e circunspecto, fala pouco e escreve muito. Colaborador de blogues. Não precisa de proteção porque só colabora com poesia e fica na dele.

O bicho coruja tem inimigos mortais, como gatos do mato, cobras, gaviões , escorpiões e outros bichos  que vivem na região fubânica. Como é um animal esperto, consegue, na maioria das vezes, livrar-se deles. Quando o barulho é muito grande, fica em alerta. Alguns animais dessa espécie,  principalmente os nativos dos estados de Goiás e de Minas Gerais, atacam para se defender ou se alimentar… ou quando estão de saco cheio! 
 
A coruja é muito importante para o equilíbrio da ecologia, porque caça animais que são pragas nas plantações, principalmente nas hortas…

Uma só coruja, ao contrário do que muita gente pensa,  é capaz de acabar com todos os ratos que se aproximam.

Um dos sons emitidos pela coruja é: HAHAHAHAHAHAHAHA!

SONO DE ANJOS

Desencantar,
partir completamente,
sem amores
sem rancores
sem saudades…

Voar aos Céus
e não levar memórias,
nem emblemas
nem diplomas
e nem glórias.

Dormir assim
profundamente só:
sem taças
sem jóias
sem fronteiras…

Não ver ninguém,
enfim, e após o sonho,
só morrer,
viver
eternamente…

VIDA E MORTE

 

Tela de Marc Chagall

As gotas
de sêmen
caem
reluzentes
nas ondas
de um cio.

Os pontos
de um sonho
nascem
das sementes
com os pingos
de um rio.

Retornam
às nuvens
à espera
das outras
que estão
por um fio.

DESEJO

Na noite de plenilúnio,
em assombrosa viagem,
a estrela cadente passa
- itinerante do espaço.

Faço um pedido
e me calo…

PIANO E VOZ

Marcos d’Abreu e Glória Horta

Amigos fubânicos,  esta gravação de “O Milagreiro” de Djavan foi feita durante uma apresentação  no Clube da Bossa Nova em Brasília, há cerca de 5 anos. Como sempre, peço que perdoem alguma falha na voz  -  não só pela precariedade da gravação, mas também por culpa da cantora, que ainda estava aprendendo a cantar… e ainda estou! Hehehehe! Quanto ao maestro Marcos d’Abreu,  somente um piano muito desafinado, o que não é o caso aqui, poderia tirar a perfeição da sua harmonia.

 

ACALANTO

Entro no mar
e o mar traz-me o encanto
do seu canto.

Na praia
o mar se espraia:
acalanto.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa