CONVERSA DE TAXISTA

Ao tomar um taxi no centro da cidade cumprimentei o motorista e dei-lhe o destino, a orla de Jatiúca. Nesse mesmo momento, em frente, uma jovem atravessava a faixa de pedestre quando de repente o forte o Vento Nordeste levantou a saía da moça mostrando um belo traseiro enfeitado por uma minúscula calcinha vermelhe, as mãos da jovem estavam ocupadas com sacolas, ela não teve como baixar a saia continuando a exposição de seu belo corpo para quem quisesse olhar. Ao retornar a calmaria o taxista engatou a primeira e fomos rumo ao destino. Ele sorrindo, satisfeito da vida, olhou-me de soslaio e comentou com bom humor.

– O senhor viu que coisa linda? E há quem não goste disso. Eu sou casado, sustento minha família com esse taxi, mas tenho esse vício por mulher, gosto de dar uma voltinha por fora quando aparece oportunidade, entende Doutor?

Eu simplesmente afirmei, entendia. O taxista continuou falando entrando na orla no Centro, Maceió é a única capital que tem praia no centro da cidade. Não parou mais de falar.

– Está vendo aquele pardal ali na calçada? Eu fico prevenido, a cidade está enfestada de pardais multando quem ultrapassa a velocidade. Para que o Prefeito colocou isso? Vai perder voto. Eu gosto do Rui Palmeira, mas esse negócio de pardal deixa a gente mais nervoso no trânsito. Dizem que é para educar os motoristas, pode até ser, mas eu não gosto. Mesmo assim eu voto no Rui. Sempre votei no pai, Guilherme Palmeira, um homem de bem, foi um grande governador e senador.

E continuou falando, conhecia a velharia política alagoana, foi citando os conhecidos até chegarmos à praia da Pajuçara, quando o taxi parou numa faixa de pedestre em frente a um luxuoso hotel. Nesse momento atravessaram três turistas andando devagar, vestidas em saída de praia, tecido fino e transparente mostrando os pequenos biquínis que mal cobriam as partes pudentes. Foi o pretexto para o taxista continuar a apologia à mulher.

– Olha aí que coisa mais linda, essas mulheres com o andar rebolativo, macio, sem pressa, ficam desfilando para o mundo, elas sabem que homem gosta de olhar. É um espetáculo e eu quero viver muito tempo para apreciar. A gente não come, mas olha, Doutor. Deu uma risada de sua própria piada.

Sinal verde, ele arrancou o taxi, não parou de falar.

– Vou contar uma história que o senhor não vai acreditar. Na temporada em janeiro eu peguei no hotel duas paulistas bonitas feito a gota serena, levei-as à praia do Francês. Providenciei sombrinha, cadeiras, elas ficaram encantadas com tanta beleza, pediram cerveja ao garçom, tomaram banho de mar, andaram na praia, retornaram à mesa, enchendo a cara com cerveja e caipirinha, eu só espiando e esperando de longe. Já tarde resolveram almoçar na barraca, me convidaram. Comi uma boa moqueca de peixe, sem beber, é claro. Eu percebi que as duas estavam meio bêbadas, cantavam e conversavam. Só retornamos a Maceió perto das seis horas, anoitecendo. As paulistas começaram a conversar sacanagem, perguntavam-me coisas, se eu gostava, eu respondia tudo, todo encabulado. Ao passar por um motel na beira da estrada, ouvi o grito me ordenando: Pare o carro! Eu imediatamente freie o taxis. Uma delas se achegou por trás de mim, convidou-me para uma “ménage a trois” que eu nunca iria esquecer. Eu topei mesmo sem saber o que era “ménage a trois”. Doutor nunca tinha visto tanta coisa em minha vida, as mulheres ficaram loucas, fumaram maconha. Aprendi muito nas duas horas que passamos juntos. No final, elas pagaram a conta do motel, champanhe e outras bebidas finas. Na volta elas continuaram contando e conversando, levei-as ao hotel em que estavam hospedadas na praia da Ponta Verde. Ao despedir-me, ofereci meus préstimos para o dia seguinte, levá-las a qualquer praia que quisessem. Elas me agradeceram, viajariam na madrugada, estavam numa excursão. Quando voltassem a Maceió, me procuravam. Entreguei-lhes meu cartão. Deram beijinhos, e pagaram-me a conta, mais que havíamos acertado.

O taxista só parou de falar quando chegamos ao meu edifício, ele ainda tinha outras história para contar. Agradeci, paguei. Fiquei pensando. Na outra encarnação quem sabe se terei a sorte em ser motorista de taxi em Maceió.

DEVIA TER DADO

– “Eu devia ter dado.” Ritinha confessava, em soluços, abraçada à amiga Miriam, sentadas num banco do cemitério Parque das Flores. Era quase meia-noite o corpo de Afrânio estava sendo velado pelos amigos e parentes.

Afrânio aparentava boa saúde, caminhava diariamente às 17 horas pela orla. Naquela tarde Afrânio, andando, sentiu um mal estar, dor no peito, caiu no chão. Socorreram, colocaram-no em um taxi, avisaram à Paula, sua esposa, levaram o infartado ao Hospital, ao chegar estava morto. Foi uma choradeira entre parentes e amigos, os dois filhos que moram em São Paulo pegariam o primeiro avião. A notícia correu rápida no Facebook, postaram o laço preto, a foto e as notícias fúnebres elogiosas. “Alagoas fica menor. Morre Afrânio Cavalcanti grande empresário, o velório será o Parque das Flores e o enterro às 17 horas de amanhã.” Afrânio era muito querido, gentil, trabalhador, bem casado, tinha apenas um defeito, gostava de um rabo de saia. Teve vários casos, mas nunca se prendeu a alguma de suas aventuras. A esposa minimizava esse defeito para viver bem.

O Parque das Flores logo ficou repleto, as duas amigas Paula e Ritinha abraçadas diante do caixão choravam em desespero aquela tragédia, os amigos consolavam a viúva. Foram 31 anos de casados, eles viviam em harmonia possível. Quando os filhos foram para o Sul estudar e ficaram por lá, o casal ficou mais amigo, precisavam um do outro. Paula chorava aos prantos diante do marido inerte no caixão, sabia que nunca mais teria seu bom humor, seu carinho e as noites gostosas de amor, afinal, Afrânio era sábio de cama.

Deram um calmante à Paula, ela deitou-se nos aposentos do velório. Ritinha acordada aguentou no salão olhando para o defunto, estava chocada, desesperada, arrependida, havia descoberto naquele momento doloroso que amava Afrânio, marido de sua melhor amiga, sua cabeça pensava em perda, lamento e traição, quando apareceu a amiga Miriam convidando-a a um passeio pela alameda iluminada do cemitério. Sentaram-se no banco embaixo de enormes pés de eucaliptos. Foi naquele momento que ela desabafava junto à amiga.

– ”Eu devia ter dado a ele.” Continuou abrindo seu coração para Miriam.

– “Eu e Paula sempre fomos grandes amigas. Depois que me separei do Arnaldo, comecei a sair com o casal, Afrânio cheio de bom humor vivia me arranjando namorado, até que dei algumas escapulidas com alguns. Ano passado na praia de Paripueira em um passeio na piscina natural, eu estava segurando a jangada com o corpo dentro d’água, de repente, senti um corpo junto ao meu por baixo d’água, entrelaçou-me entre as pernas, deu-me uma gostosa excitação, olhei nos olhos de Afrânio e balancei a cabeça negando amavelmente. Aquele momento me agradou confesso, eu adorei. Dias depois me encontrei com Afrânio no Shopping, ele convidou-me para um sorvete. Sentamos, ele perguntou se eu acreditava que um homem podia amar duas mulheres? Porque me amava e era tarado por mim. Já pensou? Eu quase sessentona. Mandei que ele se aquietasse, já não era mais menino, não ligou, continuou a conversa. Fez-me a proposta indecente. Por que não um encontro em vez em quando num motelzinho gostoso? Não precisava Paula saber.

Eu saí do Shopping excitada com a proposta, porém, havia uma amiga no meio do caminho. Afrânio quando podia, dizia-se apaixonado, eu resisti durante esse tempo todo. Hoje eu o vendo morto, inerte, a vida acabada, fiquei num profundo sentimento de perda e de arrependimento. Eu devia ter dado a ele, Miriam. Agora Inês é morta”.

Retornaram ao velório, Ritinha procurou Paula, ela estava sozinha no quarto, sentada na cama, deu duas batidas no colchão com a mão, convidando a amiga sentar-se. Abraçaram-se. A viúva puxou conversa.

– “Minha querida amiga, Afrânio gostava muito de você, muito mesmo, eu não sentia ciúme. Ele lhe tinha um carinho especial, eu percebia. Agora que tudo acabou, diga-me, até por curiosidade, continuarei sua amiga seja qual for a resposta. Vocês transavam?”.

Deu-se um momento longo de profundo silêncio.

– “Paula vou lhe contar a verdade, fui-lhe amiga fiel com muito esforço. Afrânio tentou, tentou muitas vezes, insistente. Confesso várias vezes tive vontade, só não dei, para não lhe trair”.

– “E eu pensava que vocês transavam. Você devia ter dado, o bichinho queria tanto.” Disse Paula sorrindo, beijando a testa da amiga.

O PREFEITO COM NOME DE IMPERADOR

Na história da humanidade tivemos grandes gestores que governaram com a cultura e a arte, esses fizeram administrações humanistas, gravaram seu nome na História.

Um exemplo da Antiguidade foi Adriano, imperador romano de 117 a 138, considerado um dos chamados “cinco grandes imperadores”. Ele reconstruiu o Panteão e construiu o Templo de Vénus e Roma. Adriano era um humanista. Durante seu reinado, ele viajou para quase todas as províncias do Império Romano. Um ardente admirador da Grécia, fez de Atenas a Capital da Cultura do Império. Adriano era entusiasmado pela literatura e nomeou seus assessores entre escritores, arquitetos, pintores e artistas.

Na história do Brasil durante o governo holandês no Nordeste, tivemos o Conde Maurício de Nassau. Ele amou a terra assim que chegou, houve um encantamento mútuo. Arrodeado de assessores bem escolhidos, arquitetos, pintores, escritores, artistas, transformou Recife em uma das cidades mais belas do Brasil. Até hoje Nassau é reverenciado pela sua administração ligada à cultura e à arte.

Recentemente em Palmeira dos Índios, agreste alagoano, foi eleito um prefeito de origem popular com nome de imperador, Júlio César, que resolveu revolucionar a administração municipal caduca praticada no Brasil e está tentando retornar a cidade de Palmeira dos Índios em seu devido patamar cultural, econômico e social no Nordeste Brasileiro.

Ao assumir a Prefeitura, tal qual anos atrás Graciliano Ramos assumiu, fez uma reunião com o secretariado, foi incisivo, “Não posso errar”, disse alto e bom tom para que todos soubessem que ali naquela cadeira havia um administrador de pulso com ideias inovadoras. Partiu para Brasília em busca de soluções, pedindo a um e a outro nos Ministérios e no Congresso. Já é conhecido como o prefeito pidão, como ele mesmo se denomina. Está conseguindo transformar Palmeira dos Índios dentro das limitações financeiras que são graves nos municípios brasileiros. O Poder concentrador do Governo Federal está acabando com o Federalismo. Só um exemplo na captação de recursos para a cultura pela Lei Rouanet, em 2016, 79% dos valores captados ficaram no Rio e São Paulo e 21% para o resto do Brasil. É uma distribuição cruel de recursos. Há mais de 10 anos está engavetado um projeto de mudança nessa lei, entretanto, o lobby do Sul Maravilha é poderoso.

Mas voltemos ao prefeito com nome de Imperador, Júlio César, num gesto de ousadia resolveu reconquistar o lugar de Palmeira dos índios e transformou a cidade na Capital da Cultura das Alagoas. Desde o Carnaval, São João, Semana do Índio, vem dando todo apoio à Cultura e a Educação. Recentemente foi realizada a Semana de Graciliano Ramos e a 1ª Festa Literária de Palmeira dos Índios. O sucesso extrapolou a expectativa, com uma programação da melhor qualidade, o auditório restaurado, sempre cheio, recebeu grandes escritores de todo Brasil em mesas de debates com temas dos mais variados, desde a entrevista com o escritor Ivan Barros, homenageado, realizada pelos palmeirenses, jornalista Pedro Oliveira e Dr. Damião, como mesas de debates diversas: Projeto de incentivo à leitura (Passarinhar), Índios Xucurus na formação cultural das Alagoas, religiosidade popular. E mesas sobre a vida e obra do maior escritor brasileiro de todos os tempos, o ex-prefeito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos. Parte da família do nosso maior escritor compareceu ao evento, que constou ainda com o corredor Velho Graça apresentando oficinas, venda e troca de livros, contação de histórias. Foi uma grande festa onde a Literatura se misturou com o Teatro em encantadas apresentações de alunos, e shows noturnos magnífico mostrando a arte e cultura nordestina.

O auditório e o corredor sempre lotados sensibilizou a comunidade. A Festa Literária de Palmeira dos Índios se consolidou desde a primeira edição e pode considerar que já entrou na lista das melhores do Nordeste, foi o evento cultural do ano em Alagoas. De parabéns Palmeira dos Índios, Alagoas, a secretária Isvânia Marques, a eficiente equipe, e principalmente o mentor de tudo isso, o obstinado, ousado, pidão, renitente, prefeito Júlio César, com nome de Imperador.

A MOÇA DA JANELA

Maxwel morou a vida toda no bairro do Tabuleiro do Pinto, perto do aeroporto, aonde nasceu. Quando os filhos cresceram pressionaram o pai a se mudar para orla.

Devido aos tempos modernos, aos apelos dos filhos, à comodidade da família, finalmente Maxwel comprou um apartamento na Ponta Verde, perto da praia. Para família foi uma alegria, para ele um sacrifício. Trocou uma casa confortável de 400 m², enorme jardim de muitas rosas, orquídeas penduradas em frondosa mangueira por um apartamento de três quartos, 140 m². Mas a família acima de tudo. O casal ficou com uma suíte, a outra suíte os dois filhos ocupam ocasionalmente e um quarto foi transformado em gabinete. Colocou um computador para escrever. Agora que se aposentou do Banco do Brasil, onde passou mais de 30 anos, é hora de desfrutar a merecida aposentadoria. Pretende passar um ano de pernas pro ar, depois pensar em alguma ocupação.

Pela manhã caminha na orla, encontra amigos, fica a bater papo até às nove horas antes de tomar um bom café e ler jornais. Retorna à praia às onze horas, reúne-se com outros aposentados para falar do mundo e ficar olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Preenchem as tardes no shopping, cinemas, livraria; gosta de ler. Só depois do Jornal Nacional, Maxwel recolhe-se ao escritório, liga o ar condicionado entra no computador para pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para os amigos e escrever. Já plantou várias árvores, tem dois filhos, agora cismou de escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira em frente à bancada do computador, tem uma ampla visão sobre as janelas dos apartamentos do prédio vizinho. Às vezes ele desliga a luz, para apreciar melhor o panorama.

Quando uma jovem chega por volta das 23 horas ele fica ligado enquanto sua querida Josefa, a esposa, dorme no terceiro sono. A moça é um encanto, estatura baixa, cabelos louros escorridos, nariz um pouco achatado, lábios grossos. Seu corpo é um monumento, seios duros, pontiagudos, cintura fina. O traseiro delirantemente bem torneada e protuberante. Ela não percebeu que o espelho da porta do guarda-roupa reflete todos os movimentos no quarto.

Assim que chega, tira a roupa, enrola-se numa toalha e vai ao banho antes de dormir. A cena mais emocionante é ao sair do banho, abre a toalha, como Deus a fez, veste uma minúscula lingerie curta antes de deitar. Maxwel fica num excitamento de menino. Muitas vezes depois dessas cenas mudas, ele vai direto ao quarto, acorda sua amada Josefa, pensando na moça da janela.

Certo dia, ao cair da tarde, Maxwel pegou o carro para ir às compras no mercado. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé com os livros abraçados, esperando condução. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Maxwel freou o carro no reflexo. Perguntou sinalizando com o indicador se ela ia à cidade. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a minissaia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade do no Farol. Maxwel mentiu, também ia para o Farol. Foram conversando amenidades, mas o coração do coroa estava disparado feito um menino. Afinal chegaram à Faculdade.

Naquela noite Maxwel ficou esperando ansioso a chegada de sua musa da janela. Compensou a espera, ao chegar, ela tirou a roupa bem devagar, deixou o coroa excitadíssimo. Na tarde seguinte, à mesma hora, Maxwel passou com o carro no ponto do ônibus e frustrou-se, ela não apareceu. Dois dias depois, ficou feliz quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou. Verônica, assim se chama, 23 anos, é mulher prática, pragmática, perdeu a mãe cedo, seu pai tem uma loja em Rio Largo. Em certo momento ela foi direta, olhando Maxwel dirigir o carro:

– Eu acho que você está me paquerando. Pensa que não percebo você toda noite na janela me olhando. Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Maxwel tentou se acalmar, encarou-a, e deu um sorriso largo.

– Mas menina você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona, vou lhe fazer uma proposta indecente e curta: transo com você, e você paga minha faculdade. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde, às 9 horas, depois de minha última aula. Estou lhe esperando nessa esquina.

Maxwel parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás. O difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa as nove daquela noite. Em casa, pouco antes das oito horas ele arriscou:

– Querida, está passando um filmaço no Shopping. Topa?
Ficou esperando a resposta. Quando ela disse estar sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava de ele ir sozinho. Ela sempre liberou.

Às nove da noite Verônica se aproximou do local, ele já estava plantado, esperando.

O aposentado Maxwel agora tem mais despesa no orçamento, pagar faculdade. Feliz da vida espera as tardes das quartas-feiras para ter a moça da janela nos braços.

FESTA LITERÁRIA DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

Nos últimos anos estive em pelo menos 30 festas literárias e bienais de livro pelo Brasil e até Buenos Aires, Lima, Cartagena, Havana e Frankfurt. Está havendo um crescimento de feiras literárias em todo mundo, principalmente em cidades de médio porte, e em bairros, na periferia. É um fenômeno que dá importância ao incentivo à leitura em forma lúdica, festiva, apresentando artistas locais e folclore o que aumenta a autoestima e o sentimento de pertencimento. Em algumas regiões os eventos substituem as bibliotecas públicas no papel de juntar o leitor, os livros e os escritores, as festas têm um poder maior de comunicação e interação com a comunidade. A verdade é que o livro foi praticamente expulso da vida pública brasileira. Você não vê as pessoas lendo nas praças, nas ruas, nos ônibus. As publicações perderam muita força. A imagem do livro se desgastou a tal ponto que precisamos de campanhas e mais campanhas de incentivo à leitura no país. Mas as feiras e os festivais estão recolocando o livro em sua importância na cultura e desenvolvimento do país.

No Brasil praticamente começou com a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, em situação geográfica privilegiada, no triângulo econômico e cultural do Brasil, Rio, São Paulo e Minas Gerais. Esse ano no mês de julho realizou-se a 15ª edição. A FLIP tem uma característica, bem parecida com as Bienais de livro, a comercialização de livro como objetivo principal. A FLIP foi a inspiração e muitas cidades inventaram as Festas Literárias, como a FLIPOÇOS em Poços de Caldas, FLIARAXÁ em Araxá, FLIBOQUEIRÂO em Boqueirão no interior da Paraíba, entre outras.

Quando fui convidado para exercer o cargo de Secretário de Cultura de Marechal Deodoro, cidade histórica do Estado de Alagoas, planejamos e realizamos a 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro em 2010. Foi um sucesso inesperado, às duras penas, pouca verba, convidamos grandes escritores do Brasil, como Marina Colasanti, Antônio Torres, Maurício Melo Jr, entre outros. Belas palestras, o público gostou. Porém em uma conversa com o poeta Affonso Romano de Santanna ele observou.

– O Brasil tem muitos escritores, precisamos é de fazer leitores.

Fiquei com aquela observação na cabeça. Certo dia li em um jornal alguns dados sobre leitura no mundo. A UNESCO, órgão da Educação da ONU publicou que nos países desenvolvidos cada habitante lê uma média de 14 livros por ano. Na América Latina o país melhor em leitura é a Argentina, cada habitante lê uma média de 4 livros por ano. No Brasil esses números são ridículo, nossa média de leitura é de 1,8 livros por ano por habitante. Esses dados da ONU me deixaram alarmado.

Procurei então a Secretária de Educação do município, Flávia Souza. Juntamente com sua equipe resolvemos que a FLIMARZINHA para jovens seria um programa de leitura durante o período escolar, tendo a FLIMAR como culminância desse programa. Foi uma revolução na educação em Marechal Deodoro. Cada uma das escolas durante o ano dentro de um cronograma realizou sua própria FLIMARZINHA os alunos se dedicavam à literatura e a leitura com muita alegria, com teatro, recital, contação de história. Durante o ano em todas as classes havia uma hora de leitura por semana, os alunos liam os livros trazidos da biblioteca e podiam levar para casa para continuar a leitura. Foi lançado concurso de contos inspirados em alguma poesia. Os 30 melhores contos foram editados em livro, lançado durante a FLIMAR. Ao deixar a secretaria, ano passado pedi para as professoras dos 8ª e 9ª anos realizarem uma pesquisa de quantos livros os alunos leram em 2016. O resultado foi surpreendente e gratificante, cada aluno dos 8º e 9º anos de Marechal Deodoro leu uma média de 4,2 livros. Isso basta para justificar nosso trabalho com a juventude deodorense.

“A leitura no Brasil sempre foi uma obrigação chata, um dever, não um prazer. Nesses eventos vejo crianças brincando com os livros, dessacralizando o objeto, transformando numa coisa lúdica, prazerosa. Acho que é por isso que eles são cada vez mais populares e, quanto mais se parecerem com eventos e não com aulas, melhor”. ( Zuenir Ventura).

Fui realizador de sete Festas Literárias de Marechal Deodoro (FLIMAR), em 2017 já realizei a Festa Literária do Pontal da Barra (FLIPONTAL) e na próxima semana entre 25 e 28 de outubro estarei junto ao prefeito Júlio César e a Secretária de Cultura, Isvânia Marques ajudando a realizar a 1ª Festa Literária de Palmeira dos Índios (FLIPALMEIRA), com uma programação esmerada, homenageando dois escritores palmeirenses da melhor cepa, Graciliano Ramos e Ivan Barros. A bela cidade histórica de Palmeira dos Índios se transforma na Capital da Cultura das Alagoas.

O FUTURO É HOJE

– Josimar você não tem vergonha? Só faltava essa, casar com a filha de sua terceira ex-esposa, uma menina mais nova que você quase 40 anos. Você tem vergonha não? Hoje ela está com 20 anos, novinha bonita, atraente, os homens gostam da juventude, mas quando você chegar aos 70 anos ela ainda estará no auge dos 30 anos. É uma ponta certa do tamanho de um bonde.

Repreendia Virgínia, a irmã mais velha de Josimar, solteira, invicta, ligada à Igreja de São Pedro, autêntica filha de Maria, cheia de preconceitos e dogmas, reza todos os dias pela alma de Josimar, seu único irmão, seu último parente, mas fica estarrecida com sua vida de mulherengo incorrigível.

Há alguns anos quando o irmão casou-se a primeira vez, Virgínia comemorou, afinal o mano querido sairia da vida pecaminosa de solteiro, cheio de raparigas e amantes. Foi difícil para Josimar acostumar-se com a vida de casado. Nas sextas-feiras, ao meio dia, saía direto para o Bar do Pontal, ponto de encontro de suas amizades, inclusive algumas garotas de programa. Mesmo com o nascimento de seu filho, Josimar continuou sua vida de boêmio. O casamento durou cinco anos, a separação foi até um alívio para esposa. Josimar nunca deixou faltar nada na casa da ex-mulher e do filho. Ele tem um bom emprego arranjado por um amigo de infância, deputado, uma sinecura federal, aparece uma vez por semana, é um tremendo funcionário boa vida.

Certa vez apareceu uma prima da Bahia, toda frajola, morena da cor de melaço, encantou nosso herói, saiu com ele várias vezes, ficava nas preliminares, mas nada do jogo principal. Marta, a baiana, dizia que ali só entrava casando. Muita cantada, muita lábia gasta pelo boêmio, porém Marta resistiu bravamente. Quem não resistiu foi Josimar que terminou casando-se na Igreja de São Joaquim na cidade baixa de Salvador, com uma alegre recepção na casa dos primos. Sua família e amigos viajaram para Bahia num ônibus fretado. Quem mais ficou alegre foi Virgínia pensando que a prima consertaria a vida do irmão mulherengo. Nos primeiros meses o casal vivia de mãos dadas em lua-de-mel, aparecia em todos os lugares, enamorados. Os amigos comentavam, quem diria? Como uma mulher pode transformar um homem.

Certo dia chegou um recado de Brasília do deputado mandando Josimar resolver uma questão em Delmiro Gouveia, sertão alagoano. Ele não é advogado, mas tem conversa convincente, sabe defender pertinentemente seus pontos de vista, mesmo que esteja errado. No sertão ele resolveu a questão mais cedo que pensava e retornou ao lar pensando nas noites de amor com a baiana do rabo grande, sua digníssima esposa. Ao entrar no apartamento ouviu um barulho estranho, no quarto deparou-se com uma imagem que até hoje está fixada em sua mente e em sua alma. A bela Marta deitada na cama com um dos funcionários do prédio. Deu-lhe uma dor no coração, saiu do apartamento, foi para um bar encher a cara de cachaça. Terminou o casamento com um chifre enorme que ainda hoje dói. Prometeu nunca mais casar na sua vida, dedicar-se apenas às raparigas.

Anos depois conheceu, por intermédio da irmã, Mariluce, uma viúva, madura, bonita coroa, com uma filha de 16 anos, Maria da Penha. Josimar se encantou, andava cansado da vida solteira, os amigos casados, ele já não conseguia uma conversa adequada à sua idade nas noitadas cheias de jovem. Com certo tempo acertou formalmente e casou-se pela terceira vez. Mãe e filha foram viver no apartamento de três quartos do jovem coroa Josimar. Ele ficou feliz com seu novo casamento e deu-se às maravilhas com Maria da Penha, dizia que a enteada era a filha que não teve. Matriculou e custeou a moça na Faculdade de Direito. Quando podiam viajavam os três. Maria da Penha tinha o padrasto como confidente sobre seus namorados. Josimar dava-lhe vestidos, perfumes, até um carro seminovo a enteada ganhou. A mãe ficava com ciúmes pelo tratamento dado à sua filha, achava que ela também merecia. O tempo foi passando até que estourou a bomba. Josimar apaixonado por Maria da Penha deixou a mulher e foi viver com sua filha, um escândalo. Ele está feliz da vida diz que o futuro é hoje. Nem ligou com a espinafração que a querida irmã Virgínia estava lhe dando naquele momento.

SEU FORTES

O canal em alvenaria de pedra rachão retificando o Riacho Salgadinho -Reginaldo foi construído pelo Governador Major Luís Cavalcante. Antes dessa obra de saneamento, suas margens eram cobertas de manguezais e outros tipos de vegetação ribeirinha.

Quando a maré enchia, as águas se dispersavam pelos arredores, chegavam aos fundos dos quintais da Rua Silvério Jorge, onde eu morava, formando um terreno salobro apropriado para o “habitat” de caranguejos, goiamuns azulados, com a pata direita maior que o casco.

Um dos divertimentos da meninada era colocar “ratoeiras” feitas de latas de azeite nas tocas dos caranguejos e esperar o goiamum penetrar para morder a isca de pedaços de limão ou abacaxi. Uma alegria encontrar a ratoeira fechada com um goiamum preso. Imediatamente colocava o caranguejo dentro de um caixote de ripas no fundo do quintal de minha casa. Depois de cevados, cozinhar a caranguejada era farra dos meninos da Avenida da Paz.

Nas imediações da ponte de ferro havia um sítio com pesadas vacas cheias de leite em seus grandes úberes. Essa vacaria era o sustento do proprietário, Seu Fortes, um senhor respeitável que gostava de ler.

Ele dizia-se simpatizante do comunismo stalinista da União Soviética e do presidente Getúlio Vargas. O homem teve tantas decepções políticas que abandonou as vacas, encheu o sítio de cachorros, falava com os animais. Dias mais tarde endoidou de vez.

Certa vez eu colocava ratoeiras de caranguejos nas áreas vizinhas, entrei em seu sítio. Ao retornar à tarde, no momento que vi a ratoeira desarmada, feliz da vida, corri para pegá-la, de repente senti uma paulada na cabeça, me virei, era Seu Fortes irado gritando me chamando de ladrão. Tive medo, saí correndo, nunca voltei para pegar minha preciosa ratoeira.

Seu Fortes cada dia mais doido continuou morando em uma casinha do pequeno sítio que deixou de ser vacaria para dar lugar a mais de 20 cachorros, vira-latas legítimos. O louco passou a viver da ajuda dos parentes. As vacas sumiram.

Quando o doido aparecia, maltrapilho, vestido numa calça de saco, paletó rasgado por cima de uma camisa tosca, sapato velho, caminhando às margens do Salgadinho ou na Avenida da Paz, com um séquito de mais de 20 cachorros e discursando para ninguém, a meninada escondia-se e gritava para lhe fazer raiva:

– “Seu Fortes comunista!”

O doido virava-se de um lado para outro procurando de onde vinha a provocação levantava seu tabique de pau que mais parecia uma borduna de índio, gritava para quem quisesse ouvir:

– “Comunista é a puta que pariu!”

Irado, jogava pedras na direção das pessoas de onde vinha o insulto de comunista. Certa vez ele acertou uma pedra em um menino, meu vizinho, o pai deu queixa na polícia. Nós meninos fomos chamados a depor na delegacia, demos razão ao doido, confessamos que aporrinhávamos o pouco juízo do coitado.

Em 1954, durante uma crise política no Brasil, o presidente da República Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no coração, foi uma comoção geral em todo o país. As pessoas ficaram com luto dentro da alma, até os adversários de Getúlio se comoveram.

Certo tarde, a meninada jogava ximbra (bola de gude) na Avenida da Paz, quando apareceu Seu Fortes com sua cachorrada. O doido parou perto da ponte do Salgadinho discursando para o vento, ninguém entendia o que falava. Nesse momento um dos meninos, olhou para Seu Fortes de longe e gritou com toda força da garganta:

-“Seu Fortes! Você matou Getúlio Vargas! Assassino de Getúlio!”

Ao ouvir a afronta o doido enlouqueceu mais ainda, o rosto ficou rubro, o queixo começou a tremer, rodopiou o corpo, procurando de onde tinha vindo aquele despropósito. De repente começou a jogar os braços para cima segurando seu tabique e gritava para os passantes assustados:

-“Assassino de Getúlio é a puta-que-o-pariu seus filhos de uma puta!”

Ao nos ver, catou algumas pedras, partiu para cima jogando o que podia em nossa direção. Corremos nos dispersamos pela vizinhança. A partir desse dia tínhamos outro chavão para aporrinhar seu juízo fraco, chamá-lo de “Assassino de Getúlio.”

Seu Fortes foi um dos doidos inesquecíveis de minha adolescência na Avenida da Paz, cidade de Maceió dos anos dourados!!!

A FILHA DE SEU IRMÃO

Ramiro é um sessentão bonito, mulherengo irrecuperável, mesmo com mais de 30 anos de casado é chegado a uma aventura, gosta de garota de programa. Nas sextas-feiras não dispensa uma matinê com uma bonita jovem

Certa manhã folheou o jornal na seção de acompanhantes, escolheu a anunciante: “Jandira, morena, 20 anos, esguia, universitária, seletiva. 9.8881-XXXX”. Marcou encontro na orla. Ao se reconhecerem, a morena entrou no carro com muita classe e ares de princesa. Ramiro ficou feliz em vê-la.

Na suíte máster ao ficar à vontade a jovem fez ferver o sangue nas veias do coroa. Como dois animais se entregaram ao melhor exercício físico do corpo humano. Durante o intervalo, no relaxe da hidromassagem, tomando um uísque, Ramiro provocou.

– Conte sua vida, menina.

Jandira havia gostado do alegre acompanhante, não se fez de rogada.

– Minha vida é uma novela. Meu marido fugiu com minha melhor amiga, deixou-me apenas uma filha de quatro anos. Faço programa para poder pagar a faculdade e o sustento da criança. Embora eu seja filha de um homem rico.

Continuou sua história.

– Minha mãe era pobre, filha de lavadeira, morava na Chã da Jaqueira. Quando jovem era linda de chamar atenção, todos os homens do bairro queriam namorá-la. O cabo Alcides do destacamento ficou perdidamente apaixonado, se declarava quando podia. Para ajudar em casa mamãe foi trabalhar numa residência de um fazendeiro na Jatiúca. O senhor mantinha a casa para os filhos, dois rapazes e uma moça, estudarem na capital. Os pais vinham à Maceió nos fins de semana. Com a convivência entre os jovens foram rolando brincadeiras, agarrados, até que um dia aconteceu o inevitável, o filho mais velho deflorou minha mãe e engravidou. Um desassossego, minha avó não deixou abortar. Para acomodar a situação minha mãe casou-se com o cabo de polícia apaixonado. Eu nasci e fui criada por um pai decente. O cabo Alcides morreu quando eu tinha dez anos, baleado por um bandido. Mamãe ficou sozinha nesse mundo trabalhando como lavadeira, copeira, faxineira para me sustentar. Só me revelou sobre meu pai verdadeiro quando fiz 14 anos, nas vésperas de morrer de câncer. Fiquei sozinha no mundo, fui morar com uma tia. Eu ainda piveta comecei a namorar um menino, vizinho. O diabo atentou, fiquei grávida. Casei e fui mãe com 16 anos de idade. Minha filha, Paula, é linda e por ela faço todo sacrifício. Felizmente tenho muita raça, estudei e consegui entrar na Faculdade de Direito à noite. Trabalho numa loja no Shopping. Minha sorte é que não pago aluguel moro num apartamento do meu ex-sogro, ele me cedeu, porque adora a neta, Paulinha. Faço alguns programas, tenho certeza que um dia me livro disso.

Ramiro tomava o uísque, interessado na história de Jandira, perguntou.

– E seu pai verdadeiro, você já esteve com ele? Ele sabe de sua existência?.

– Esse é o problema, certa vez tomei coragem, resolvi encará-lo, descobri seu escritório, esperei, fui recebida por ele. Quando contei minha história, meu pai se comoveu, queria saber mais detalhes. Eu constrangida e orgulhosa saí correndo. Nunca mais o procurei.

Ramiro emocionado perguntou.

– Por acaso, o nome de seu pai verdadeiro é Ronaldo?

Jandira chocou-se e confirmou assustada.

– É sim. Como você sabe?

Ramiro tomou um golaço de uísque e olhando nos olhos da morena, perguntou

– Como era o nome de sua mãe?

– Bartira

– É muita coincidência. Você não vai acreditar, conheço a história, lembro como se fosse hoje da Bartira, era bonita sua mãe. Prepare-se para maior surpresa de sua vida. Ronaldo é meu irmão. Eu sou seu tio, Jandira

Ela emocionada levantou-se da banheira, enrolou-se em uma toalha, atordoada com a descoberta, foi perguntando.

– Você tem certeza do que está dizendo? Não posso acreditar.

Acabou-se o clima sensual, conversaram a tarde toda. Ramiro resolveu ajudá-la

Dia seguinte Ramiro conversou e preparou o irmão, inventou uma história omitindo o motel. Marcaram um encontro, foi emocionante. Depois de alguns dias, muita conversa e do DNA, Ronaldo assumiu a paternidade.

Bethânia, seu nome verdadeiro, continua trabalhando no Shopping. Seu pai dá-lhe uma mesada. Ela deixou a vida de programa.

A esposa e os filhos de Ronaldo, depois do choque inicial, aceitaram a paternidade comprovada pelo DNA. A pequena Paulinha, a neta, é a alegria da família.

Quando Ramiro encontra a sobrinha se olham com carinho. Entretanto, ele não consegue apagar da mente a tarde de intenso amor com a filha de seu irmão.

OS TEMPOS MUDARAM

O assunto nas redes sociais dessa semana foi o homossexualismo, embora que no mundo atual não haja mais tabu. Houve um avanço da humanidade de respeito à preferência de cada um. Entretanto, há algum tempo, nos anos 50/60 as coisas eram diferentes. Contavam-se nos dedos os homossexuais assumidos na cidade.

Existia no bairro do Farol, perto de onde hoje é a TV Gazeta, o Zeiga, uma pensão especial de gays. O mais famoso hóspede atendia por Ramona, tornou-se o mais conhecido da redondeza, com trejeitos escandalosos era a chacota preferida da meninada, ele parecia gostar da notoriedade.

Certa vez aportou em Maceió, um jovem baiano bonito, parecia um galã de Roliúde, de nome Sandoval Duarte. Era rico, logo ficou conhecido nos clubes, nos bares e restaurantes, gostava de pagar rodadas de cerveja. Hospedado em um hotel ele pintava, seus quadros agradaram, tinha talento. Uma amiga da alta roda resolveu ajudá-lo numa exposição concorrida e badalada. As moças solteiras ficaram encantadas com o charme daquele artista espirituoso, rico e bonito.

Houve “frisson” na sociedade alagoana, uma decepção geral nas meninas casadoiras quando revelaram o escândalo. O jovem pintor baiano, Sanduarte, foi apanhado em flagrante amoroso com um rapaz de alta linhagem, também coqueluche das meninas. Sanduarte continuou morando em Maceió, sem problemas, era querido por sua simpatia. Em certo carnaval fizeram uma marchinha com ele, foi sucesso.

Em noite de Baile de Máscara do Clube Fênix Alagoana, um forte rapaz alagoano concorreu com luxuosíssima fantasia bordada de lantejoulas e paetês. Ninguém sabia se masculino ou feminino. O sexo do folião só foi revelado durante a premiação, era homem, ganhou o concurso de fantasia de luxo, primeiro lugar. O vencedor pertencia a uma família tradicional, naquela época a revelação de sua preferência sexual foi uma “desmoralização”. Os pais exilaram o filho no Rio de Janeiro, destino de muitos que iam dar expansão à sexualidade reprimida.

As lésbicas também eram poucas, refreadas. Hoje estão aí aos montes, parece que o homossexualismo feminino está em expansão. As mulheres entraram com fervor no caminho da revolução de costumes, estão transformando o mundo.

Entretanto, ainda hoje existe algum receio em sair do armário. Há dois anos, um amigo, casado três vezes – vou chamá-lo de Rock, em homenagem a Rock Hudson, bonito ator de cinema que no final da vida revelou-se – foi ao Recife passar um fim de semana com a namorada, aliás, uma garota de programa promovida à condição de noiva, assim apresentava Michelle aos amigos.

Quando seu bonito carro passava numa curva perto da cidade de Novo Lino, foi cruzado e fechado por uma camionete. Saltaram quatro homens com revólveres na mão, apontando, gritando ser um assalto. Um neguinho magro, com cara de fuinha e voz de “foen” entrou e sentou-se no banco traseiro, encostou o frio cano da arma na nuca de Rock. Ele apavorado obedecendo aos gritos do marginal, entrou com o carro num canavial.

Apareceram os outros assaltantes da camionete. Arrecadaram cartões de crédito, mais de três mil reais em dinheiro, talão de cheques, jóias e bijuterias da “noiva”. Eram quase seis da tarde, já anoitecia quando dois bandidos levaram Michelle para outro local, fizeram o que quiseram com a jovem. Enquanto isso, os outros meliantes seguraram Rock, mandaram-no se despir. Ele ficou nu, na posição que Napoleão perdeu a Guerra. Nesse momento o Fuinha estuprou o apavorado Rock. Foi doloroso, ele chorou angustiado. Com o serviço feito, os assaltantes entraram na camionete, deram o arranque, deixaram o casal no carro, levaram a chave.

Passava das oito da noite quando Rock e Michelle bateram numa casa perto de Novo Lino. Foram socorridos. Dormiram num pequeno hotel, prestaram queixa à Polícia. Na manhã do sábado seu irmão acudiu com a chave extra do carro. Retornaram à Maceió.

O assalto deixou algumas sequelas, foram traumáticos os primeiros dias para Rock. Existe uma relação muito forte entre a vítima e o algoz. Rock não esqueceu o Fuinha, tinha sonhos eróticos sendo estuprado, ouvia a voz foen, vinha-lhe uma excitação estranha. Resolveu pedir ajuda a um psiquiatra. Com dois meses de análise, entendeu, o estupro revelou sua ambígua sexualidade.

Rock hoje vive tranqüilo, assumiu a bissexualidade. Quando dá comichão, quando a vontade chega sem controle, ele vai à noite à orla, e escolhe algum jovem para um programa. Para os amigos mais íntimos, afirma sorrindo, que é bissexual porque só existem dois sexos, se fossem três ele era tri. Os tempos mudaram.

A GORDINHA GULOSA

Durval, sessentão, aposentado, e agora viúvo, está levando uma vida inimaginável há um ano. Depois da morte da esposa foi morar num pequeno apartamento da praia de Pajuçara.

Às vezes sai à noite em busca de divertimento. Numa sexta-feira foi a uma casa de show e dança, sentou-se à mesa, pediu um uísque ao garçom. Suas vizinhas de mesa eram três jovens na faixa de 30 a 40 anos. Uma loura bem vestida, saia vermelha, outra loura de mini-saia mostrando as pernas bonitas e a terceira, uma simpática, risonha e bonita gordinha, com um vestido de renda longo e um generoso decote realçando a exuberância dos seios.

Durval encantou-se com a beleza angelical da gordinha. Nariz afilado, boca pequena, lábios carnudos. Os cabelos pretos que nem um mutum, davam-lhe um tom sensual na aparência.

O viúvo viu a uva, achou-a nova, calculou ter o dobro da idade da gordinha. Depois de dois uísques Durval já conversava com as vizinhas. Eram pernambucanas, estavam a trabalho em Maceió, retornariam no domingo para o Recife. Cidinha, a gordinha, embarcava para Lisboa na segunda-feira pela manhã. Tinha conseguido um curso de cinema de seis meses na Europa.

Durval estava embevecido com a conversa descontraída das jovens. Sentiu fortes sinais de paquera nos sorrisos de Cidinha. A diferença de idade não seria empecilho.

Ao iniciar uma música suave, Durval convidou a gordinha para dançar. Abraçaram-se e ele sentiu colar-se o corpo da jovem. Mudos, se acarinhavam deslizando pelo salão. O coroa descolou o rosto, olhou-a nos olhos, de repente Cidinha beijou-lhe a boca, continuaram dançando entre beijos e carícias.

Tarde da noite Durval levou as jovens ao hotel e Cidinha ao apartamento. No espelho do elevador olharam-se abraçados e sorrindo. Um belo e simpático casal de gordinhos.

Ela resolveu tomar um banho. Durval entregou-lhe uma toalha. Quando do chuveiro jorrava água morna, ele entrou no banheiro, ficou encantado ao ver a gordinha entregue à água. Ensaboaram-se, beijaram-se, arrastaram-se à cama.

Num momento de intenso movimento, ouviu-se um estalo forte. O estrado da cama quebrou, o colchão arriou ao chão. Deram uma gargalhada, continuaram amando-se.

Depois de muito amor, os dois estatelados e mudos olhavam para o teto, Cidinha foi a primeira a falar:

– “O amor me dá uma compulsão enorme, quero comer. Tem alguma macarronada por perto nessa hora?”

Colocaram uma roupa e foram para a Casa do Macarrão. Cidinha comeu a primeira, pediu outra. Durval achou a maior graça porque vieram a terceira e quarta macarronada. Ele acompanhando discretamente. Cidinha esclareceu, a culpa era dele, quanto maior o êxtase, maior a fome. Levaram mais duas macarronadas num pacote viajando para o apartamento.

Dormiram como dois anjos de Botero. Ao acordar pelas 10 horas da manhã, enquanto a amada dormia, Durval levantou-se, escovou os dentes, tomou banho, enrolou-se numa toalha. Foi à geladeira beliscar alguma coisa. Ao perceber que não havia mais macarronada, saiu-lhe uma gargalhada tão alta que acordou os dorminhocos retardatários do prédio. Rolaram sorrindo na cama quebrada.

Antes de partirem para o Recife, degustaram um substancial café numa padaria, ele combinou que a acompanharia até sua partida a Portugal. O sábado ensolarado estava convidativo, cantaram durante a viagem de carro pela estrada litorânea cheia de céu, mar e muito coqueiro. Resolveram dormir em Maragogi. Hospedaram-se no Hotel Salinas. Foram à praia. Durante a noite divertiram-se no salão de dança, onde encheram a cara com muito uísque. Pela manhã, Durval roçou seu nariz no nariz de Cidinha, ela dormindo, sonhando, cheirava seu namorado. Beijaram-se nos lábios com muito carinho. Cidinha acordou-se voraz. Fizeram amor até mais tarde. A cama do hotel não despencou.

Domingo rumo ao Recife. O café da manhã regional, delícia da comida nordestina. O Salinas tem o melhor serviço de café da manhã do país. Certo momento Durval saiu para fechar a conta na recepção. Deixou a amada terminando seu café da manhã.

Meia hora depois ele retornou e percebeu os garçons espantados com aquela hóspede que não parava de comer esvaziando pratos e enchendo-os novamente de comidas. Quando ela viu Durval, deram uma gargalhada na maior cumplicidade. Ainda cochichou no ouvido: “Tapeei um pouco, mas não pude resistir tanta coisa gostosa. O culpado foi você meu amor, a compulsão é enorme, ainda sinto minhas pernas entre as suas, meus seios ainda estão em suas mãos.”

No Recife ele deixou-a numa mansão no bairro de Casa Forte. A família da gordinha é das mais tradicionais descendentes de Maurício de Nassau.

O avião decolava às seis da manhã do dia seguinte. Como combinado, ao entardecer Cidinha, de malas prontas, apareceu no hotel de Durval. Jantaram num chique restaurante de Boa Viagem, retornaram ao hotel. Foram horas seguidas de intenso amor e vinho. O coroa recorreu discretamente da ajuda da valorosa azulzinha. Na madrugada saíram do ninho amoroso direto para o aeroporto. Despediram-se num beijo prolongado.

Quando o avião decolou, ela pediu o primeiro lanche de bordo. E assim prosseguiu nas sete horas de vôo. Foram quatorze lanches e cinco garrafas de vinho durante a travessia do Oceano Atlântico. Cidinha comia recordando detalhes da aventura com o alegre coroa e pensava se algum dia iria revê-lo.

DESEJOS PRESOS

O baiano Antônio Firmino viajou para rever amigos, colegas de turma de Engenharia em Maceió. Na manhã do sábado enquanto esperava um amigo no saguão do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, achegou-se. O coração disparou, e a memória trouxe a imagem de uma adolescente alegre, bonita, ensaiava e dançava o rock nas festas. Madrinha de formatura, sua doce e inesquecível namorada. Firmino chamou-a pelo nome. Tereza!

Surpresa ela aproximou-se, o sangue ferveu-lhe, explodiu o coração ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela e da alma. “Firmino! Não é possível”. Abraçaram-se longamente, 40 anos de lembranças, sentimentos e desejos presos.

Arrefecidos os ânimos, sentaram-se no sofá sorrindo um para outro. Lágrimas presas nas faces de Tereza. Num relance, Antônio Firmino fez uma análise visual de sua ex-namorada. Tornou-se uma bela e apetitosa sessentona, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto delicado, olhos vivos brilhavam até pela emoção. Tereza interrompeu sua redescoberta.

– “O que está olhando? Eu estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.”

Conversaram bastante, Antônio resumiu sua vida, ainda trabalhava em construção, continuava morando em Salvador, estava em viagem solitário à Maceió para pensar na vida depois da morte da esposa, companheira de mais de 30 anos, há quatro meses. Foi bem casado, mas nunca havia esquecido aquele amor juvenil, puro e bonito da alagoana. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, também resumiu sua vida, separou-se há três anos depois que lhe apareceu um câncer no seio, mas tem dois filhos e dois netos. Luta bravamente contra a doença maligna, cortou um seio, parece que conseguiu vencer, os últimos exames estavam ótimos. A perspectiva da morte transformou sua cabeça. Recomeçou a viver intensamente nesses últimos anos, por conta disso ficou má vista entre fuxiqueiros, o que pouco importa, a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama viver o que me resta.

Nesse momento apareceu Luciano, vinha buscá-lo. Cumprimentaram-se, ela o conhecia. Tereza perguntou onde era o almoço, ficou de telefonar para Firmino.

Passava um pouco das quatro horas, Antônio acompanhado de doze colegas de turma de Engenharia com esposas no restaurante se refestelavam de lagosta, peixe e camarão. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente apareceu Tereza, cumprimentou os casais, puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Antônio, cochichou no seu ouvido: “Não lhe largo mais”. O almoço terminou tarde.

Chegaram ao hotel às oito da noite de pilequinho, cantando antigas canções. No elevador se beijaram. Depois de um demorado banho se amaram como se o mundo fosse acabar. A ajuda azul foi determinante. Antônio Firmino ficou surpreso com o desempenho de Tereza, parecia uma loba no cio.

Toalhas na cintura, sentados no tapete, garrafa de uísque, os dois se abriram contando histórias de suas vidas. Tereza certa hora confessou que depois do tratamento do câncer, tomou muito hormônio, aguçou a libido, o sexo. Despertou-lhe uma inevitável necessidade de sexo. Alguns chamam de compulsão, é o pecado capital da Luxúria. Ela gosta de ser assim, só depois da separação e ver a morte perto teve a coragem de se desprender dos preconceitos. Durante o casamento foi correta com o marido, o amor burocrático a satisfazia.

Inesperadamente apareceu Firmino, namorado de sua juventude quando a virgindade era preservada e os desejos eram presos. Jamais ele saiu de suas lembranças e também do coração. Dormiram agarrados.

Amanheceu o domingo, Antônio Firmino acordou-lhe com um beijo no rosto. Ela abraçou-o, se amaram. Passaram o domingo na cama e na varanda conversando e se amando, curtindo a fascinante vista do mar do Maceió.

Continuaram quatro dias de amor sem sair do apartamento do hotel, comendo, bebendo, conversando, sorrindo, se amando felizes daquele encontro meio maluco, acidental. Nem o vício de Tereza em caminhar na orla, aconteceu.

Até que chegou a quarta-feira ingrata, Firmino deixaria o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14 horas para Salvador, havia necessidade urgente de sua presença no escritório. Tereza o acompanhou até o aeroporto, sentada bem junto, o carro deslizava pela grande avenida. Num impulso ela o abraçou e beijou. Dirigindo e sorrindo ele pedia à amada, cuidado e juízo. Antônio estava às alturas de tanta excitação. Ao parar num sinal vermelho, um carro com três senhoras parou justaposto. As madames perceberam o que eles estavam fazendo, ficaram escandalizadas, fizeram o sinal da cruz, balançaram a cabeça repreendendo aquela falta de vergonha. O semáforo fez-se verde, Antônio acelerou, ao mesmo tempo saiu um gemido e um grito. “Sua maluca”. Continuaram correndo na avenida às gargalhadas.

Na hora do embarque despediram-se, beijos e lágrimas. Tereza ficou na varanda contemplando o avião decolar, a saudade bateu forte. Está programando viagem à Bahia necessidade em rever aquele amor, o mais puro de sua juventude. Juventude que ainda possui em seu corpo sessentão marcado pelo câncer. E soltar seus desejos que antigamente, há anos eram presos.

ERRADICANDO A GONÔ

Bairro boêmio de Jaraguá

Logo após a II Guerra aconteceram problemas com a população boêmia no Nordeste, houve proliferação de doenças venéreas. Os americanos com seus dólares aumentaram a prostituição em nossas terras, trouxeram e disseminaram gonorréias e outras doenças. As prostitutas ficaram infestadas, transmitindo moléstias aos soldados brasileiros e à população nativa.

Em Maceió houve um trabalho organizado contra as doenças venéreas. O Ministério da Saúde enviou remédios. Surgiram as camisinhas. O Governo repassou verba para uma campanha de prevenção.

O ponto mais visado foi o bairro boêmio de Jaraguá onde as moças exerciam seu trabalho. Naquela época as melhores mulheres frequentavam os casarões da Rua Sá e Albuquerque, as mais baratas ficavam no baixo meretrício, o Duque, o Verde e o Sovaco do Urubu, onde hoje é o Centro de Convenções.

Primeira providência, todas as prostitutas passaram por rigoroso exame. O Posto de Saúde da Praça das Graças se encheu de cafetinas e pupilas na fila dos exames, tiravam a carteirinha de serviço com data de exame carimbado, havia espaço para notificar as revalidações.

A procura foi tão grande que abriram outro ponto de exame na Delegacia de Jaraguá, o delegado da época, Sargento Sobral, se empenhou na campanha com muito zelo. Como autoridade da região, o sargento-delegado fazia ronda diária fiscalizando se todas as operárias do sexo tinham suas carteirinhas carimbadas, exame em dia.

Constatando alguma doença transmissível a jovem era obrigatoriamente internadas no Hospital de Doenças Tropicais para tratamento até sarar. Depois da cura podia voltar à atividade, ao trabalho.

Nos quartos das pensões foram colocados cartazes preventivos: “EXIJAM A CARTEIRA PROFISSIONAL DE SAÚDE”. Alguns clientes se constrangiam em exigir a carteira das raparigas, pegaram doenças por conta disso. Essas carteiras eram atualizadas no Posto Avançado da Erradicação de Jaraguá, com médicos fazendo novos exames diários e indicando o tratamento adequado se fosse o caso.

A atuação do Sargento Sobral foi fundamental nos serviços da erradicação. Onde havia alguém com suspeita de doença, ele mandava buscar para rigorosa investigação.

Foi formada uma rede de informações em vários cabarés. As moças recusavam fregueses quando suspeitavam que eles estavam infectados. Muitas davam parte na delegacia, entregando o cliente. O delegado levava os acusados para o posto em nome da lei, sob a custódia de seus auxiliares.

Cidadãos da mais alta sociedade constrangeram-se em serem levados por policiais ao Posto Avançado de Jaraguá a fim de serem examinados. Não tinha acordo com o delegado. Geralmente essas denúncias eram fundamentadas e o delegado, além de dar uma bronca no doente fazia verdadeiras investigações policiais com os “criminosos” para descobrir a pessoa que transmitiu a doença, e quem transmitiu a essa pessoa.

As investigações eram constantes. Chamava as pessoas transmissoras da doença, citado pelo doente, até chegar aos sadios. O Sargento Sobral obrigava a todos os envolvidos serem tratados adequadamente pelos médicos, baixando ao Hospital nos casos precisos.

Houve até problemas conjugais. O zeloso delegado chegou a enviar esposas dos contaminados para exames específicos. Alguns suspeitos se livravam confessando ter se contaminado no Recife. Se acaso “entregassem” quem passou a doença, podia ser quem fosse, o delegado ia pessoalmente buscá-la para os devidos exames. Como geralmente o suspeito estava também infectado, obrigava a confessar a quem mais ela havia transmitido e com quem havia pegado a doença até chegar no final do novelo.

Em uma dessas investigações, Gerusa, uma das meninas mais queridas da Boate Alhambra, promíscua, apareceu doente. O delegado a fez relacionar todos os parceiros da última quinzena. Na relação, havia gente conhecida, inclusive um capitão do Polícia e um deputado. O delegado chamou todos os clientes de Gerusa, via carta entregue em mãos, para que fossem devidamente examinados e tratados. Mas, teve deferência especial com o deputado e o capitão. Foi pessoalmente à Assembléia Legislativa e à Polícia Militar, juntamente com o médico, para que essas autoridades fossem examinadas. Foi constatado que as duas autoridades estavam sadias. O trabalho imprescindível do zeloso Sargento Sobral conseguiu erradicar as doenças venéreas da cidade trazidas pelos soldados americanos.

TEMPOS MODERNOS

Feliz em encontrar a irmã no shopping, Ismael puxou duas cadeiras da mesa de um bar, pediu dois chopes no início daquela tarde de sexta-feira. Virgínia olhou-o, sorriu-lhe, sorveu um gole de chope, puxou a conversa.

– Ismael querido, há algum tempo precisava falar com você. Só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmãozinho desde criança, nossas afinidades são escancaradas. Você casou-se, separou-se três vezes, agora está solteiro novamente aos 50 anos, nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, disseram-me que vai casar-se com a Maju. Até gosto da moça, mesmo com quase 20 anos de diferença, parece ser equilibrada e sensata. Acontece que me informaram um pequeno detalhe de sua vida pessoal, tenho obrigação de lhe passar, não quero que meu irmão seja enganado. Uma fonte fiel confidenciou-me, ela é sapatona, ou melhor, bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz prima. Desculpe eu tocar em sua vida particular. Sabendo do fato, seria uma traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.

Ismael respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

– Obrigado Virgínia, você agiu bem, não poderia ser de outra forma. Francamente, nunca desconfiei. Eu até gosto da Girlene, a amiga inseparável, nada até agora me fez perceber essa opção sexual de Maju, sei que ela gosta de homem, tenho certeza, na cama é um arraso. Vou pensar no que fazer, é um caso grave, não sei se dá para conviver sabendo que a sua mulher gosta também de mulher. Obrigado minha irmã.

Pediram mais chope, passaram a tarde conversando amenidades.

Eram nove horas da noite quando Ismael encontrou-se com Maju numa barraca na orla, acompanhada de Girlene, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Girlene em casa, dormiram no apartamento, amaram-se com ardor, Ismael nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia de Guaxuma, bebericar até o final da tarde. Maju perguntou se podia convidar Girlene.

– Tudo bem disse Ismael, mas, antes, quero uma conversa. Foi claro e taxativo com a namorada.

– Maju, temos mais de um ano juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Girlene vem atiçando a maldade alheia vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo, que vocês são caso, é o mexerico corrente nas rodas de nossa convivência que chegou aos meus ouvidos.

Maju ouviu olhando nos olhos do namorado, baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– Ismael querido, é verdade, eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual, a Girlene não é só minha prima. Eu estava esperando um momento apropriado para lhe confessar. Conversei muito com Girlene, tenho uma proposta, você pode até se chocar, não imagino sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meio louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida. Quero continuar nosso relacionamento como está, sem casamento, cada qual em seu lugar. Peço-lhe apenas você passe uma noite com Girlene, conversando, sinta como é uma pessoa boa, entre em sua intimidade, depois me diga se aceita a situação, sem compromissos.

Ismael, um conservador, teve um impacto com aquela inusitada proposta, pediu um tempo para pensar. Foram à praia, Guaxuma estava linda.

Depois de uma semana analisando friamente a proposta, Ismael topou passar uma noite conversando com Girlene. Foi simples, Girlene apareceu em seu apartamento numa noite de Lua. Ajudados por uma garrafa de uísque conversaram na varanda, entenderam-se às maravilhas na sala e no quarto. No dia seguinte tinha resolvido a situação satisfatoriamente, agradando às três partes. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos, passeando em Lisboa, o mais caro foram as três passagens de avião. Ismael aderiu aos Tempos Modernos.

O MASSACRE DE JARAGUÁ

Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo

O fato se deu há muitos anos. Naquela época o bairro de Jaraguá vivia na efervescência de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento.

Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, era como fosse uma só família. Augusta era a moça mais bonita da redondeza, 16 anos, filha de Seu Augusto, estivador, homem forte e rude. Ele ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha. Menina sapeca, trepava em árvore, corria na praia, faceira, a todos encantava. Mas só um ela se agradava, Gumercindo, jovem espadaúdo, tomou corpo de homem com 18 anos, forte musculatura, corpo foi forjado carregando sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias.

Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria. Quando o cabo viu a moça de roupa domingueira, encantou-se, ficou deslumbrado com a beleza de Augusta. Todo domingo o cabo admirava a menina de seus sonhos passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia ele se apresentou e falou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço. Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).

No dia 10 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações flutuavam, singravam na enseada da praia da Avenida, cada qual com sua decoração, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa se prolongava na Praça da Recebedoria. Colocavam tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça tira-gosto para animar a moçada.

Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado de Penedo numa barcaça. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão, pai da menina mais bonita da cidade.

O Cabo Sobral, ao longe, assistia a animação na casa de Augusto, ficou com ciúme e despeito quando viu pela janela Gumercindo dançando o coco com a amada Augusta na maior felicidade. O Cabo, bêbado, com mais três policiais, tentou entrar na casa de Augusto, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa. O cabo quis alterar, apareceram alguns estivadores, ele recuou. Depois de certo tempo, o Cabo Sobral, conhecido arruaceiro, retornou com mais cinco policiais. Foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se. Uma peixeirada deixou um policial morto estirado na rua.

Cabo Sobral e seus homens bateram em retirada. Ao retornar ao quartel armou mais de 20 soldados, fez um discurso incitando vingar o companheiro assassinado pelos estivadores. Montados a cavalos galoparam até a praça atropelando e atirando em quem estivesse pela frente. Os donos das casas pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Na casa de Augusto, todos dispersaram. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram fuzilados. Na praça, os ambulantes que nada tinham a ver com a história correram para o interior da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram, atiraram em todos inocentes, não ficou um vivo.

No dia seguinte o governador soube da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 30, fossem ajuntados em carroça de bonde, e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá.

Nenhuma notícia foi publicada em jornais, não houve um registro sobre a ocorrência. Até a Igreja foi conivente para abafar o caso, determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por mais de 20 anos. Mas o povo, os moradores do bairro de Jaraguá não esqueceram, ainda hoje, por tradição oral, os netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá.

GERAÇÃO GUERREIRA

Costumo afirmar que esses sessentões e setentões ainda cheios de vigor que andam por aí, fazem parte de uma geração privilegiada. Tiveram uma infância bonita e livre e fizeram parte de uma juventude revolucionária dos anos 60/70 quando houve uma transformação no mundo. Essa geração teve uma participação efetiva na vida da cidade, do país, do mundo, fazendo brilhar mentes e corações.

É inimaginável, os jovens de hoje não têm idéia do que era ter 16, 20 ou 28 anos naquela época. Essa geração guerreira e contestadora mudou o mundo para melhor.

A arte foi usada para essa transformação. A música e a literatura eram ferramentas revolucionárias. Apareceram os inigualáveis Beatles, que faziam a cabeça da juventude cantando músicas de John Lennon e Paul Macartney, Ringo Star na bateria e George Harisson completando o time, pediam uma chance para a paz no mundo, com músicas como IMAGINE, YESTERDAY, MICHEL entre as outras. Chegando junto os Rolling Stones faziam sucesso com a irreverência de Mick Jagger.

Os USA fervilhavam com a juventude cantando e manifestando-se contra a iníqua Guerra do Vietnam. O festival de Woodstock foi o ápice do movimento musical mostrando ao mundo uma alternativa de vida com paz e amor.

No Brasil foi época de músicas de protesto. Apareceram o teatro de vanguarda, o cinema novo e a bossa nova, marcos na diversificada cultura brasileira. Época dos grandes festivais de música popular revelando para o Brasil e o Mundo compositores e cantores como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Milton Nascimento que subiram e nunca desceram do palco da música popular brasileira.

Que jovens fomos nós que assistimos ao vivo Garrincha e Pelé fazer malabarismo com a bola e serem três vezes campeões do mundo?

Tínhamos orgulho de um Brasil cheio de esperança e otimismo durante o governo de Juscelino Kubstcheck inaugurando siderurgias, usinas elétricas, fábricas de automóveis. A classe média brasileira teve acesso a carros populares fabricados no Brasil e o número de miseráveis brasileiros diminuiu.

Deu-se o golpe de 1964, uma boa parte do povo brasileiro apoiou no momento a “Revolução” pensando que a intervenção militar fosse temporária e houvesse eleições para presidente em 1965 como propunham os revolucionários. Mas veio a repressão. Os militares se aboletaram no poder por mais de 20 anos.

Os jovens daquela época, esses sessentões de hoje que estão no comando do país, foram os que mais contestaram o regime. Os considerados subversivos eram estudantes secundaristas, universitários que lideraram a luta contra a ditadura. Um exemplo que orgulha os alagoanos foi o então estudante de Direito Vladimir Palmeira. Organizou e liderou a passeata de 100.000 pessoas contra o regime em pleno Rio de Janeiro. Marcha que ficou na história do Brasil.

Nas Alagoas as coisas não foram diferentes, houve mudança de costumes. Antes daquele momento de transformação, nossa cultura machista, preconceituosa, cometeu injustiças hoje inconcebíveis.

Relendo alguns poemas daquela época que causaram impacto até nos meios intelectuais, achei um especial que gosto muito, é de uma menina na época, batalhadora, vindo do sertão, da beira do velho Chico, chegou em Maceió, fez o curso de medicina. Poeta e compositora escreveu muitas poesias, concorreu e foi vencedora de festivais de músicas. Revolucionou a nossa cidade com suas idéias avançadas. Menina bonita vindo da bela cidade de Piranhas fez sucesso nos festivais de músicas e nunca mais deixou de escrever seus poemas. Hoje faz parte da intelectualidade alagoana, é um esteio, uma batalhadora, uma incentivadora dos neófitos escritores das Alagoas. Por tudo isso e para homenagear nossa geração que tanto me orgulha, transcrevo o poema.

ÊXTASE

Você comigo, num abraço estreito… Nossos corações batiam acelerados.
Meu rosto recostado em seu peito… Nós dois sempre mais aconchegados.
Não sei se era amor que nos unia… Os nossos corpos num abraço deslumbrante.
Só sei que entre nós, algo existia… Um desejo que nos dominou, no instante.
Respirávamos mais forte e então… Tremia todo corpo, meu e seu.
Apertava trêmula, confiante, sua mão… Era totalmente sua e você meu.
Na volúpia do amor, extasiados… Esquecidos do mundo e de tudo enfim
Por momentos ficamos abraçados… Você esquecido de si e eu de mim.
Depois, tudo volta à tona e eu… Cabisbaixa, tristonha, o afasto de mim.
Por momento esqueci e você se esqueceu… Que o momento feliz chegou ao fim.

Hoje esse poema amoroso parece banal. Mas naquela época teve grande abalo e repercussão, com insinuações preconceituosas contra nossa poeta, a corajosa e inspirada Rosiane, lídima representante dessa bela Geração Guerreira.

SEVERINA, UMA HEROÍNA

Severina nasceu em União dos Palmares, filha de trabalhadores rurais descendentes dos quilombolas, onde Zumbi organizou o Quilombo e lutou contra a escravidão.

Morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Menina, já perambulava pelas ruas do povoado. Foi criada tomando leite de cabra, leite de jumenta, comendo “tô fraco” (galinha d’angola) no pirão. Era a mais rechonchuda da região. Quando ela completou 10 anos, seu pai resolveu mudar-se em busca de melhor qualidade de vida, foi morar numa invasão de terrenos no Vale do Riacho Reginaldo em Maceió. Sua infância foi marcante. Líder das meninas e dos meninos, ela jogava ximbra, subia em pé de árvore, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos 14 anos pegou um corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam tentados quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham receio do severo pai. Certo dia, Zezinho, um jovem caminhoneiro ao voltar de uma longa viagem avistou Severina, o coração bateu forte. A piveta que ele via brincando, correndo nas ruas, trepando nas árvores, ganhando corrida dos meninos, havia se transformado numa deslumbrante moça. Ele foi se achegando, se achegando, até que Severina concordou namorar. Depois de dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim houve festa, a bebida e comida não se estragaram. O casório aconteceu no dia 31 de dezembro.

Quatro dias depois do casamento Zezinho partia para outra viagem. Severina sem avisar, pela manhã estava pronta, para surpresa do marido sentou-se na boléia do caminhão. Foi a primeira das inúmeras viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Logo aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista melhor que o Zezinho. Assim passaram nove anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar a luz.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Severina foi tentar sua vida no Rio da Janeiro, ficou na casa do irmão. Logo estava trabalhando de cabeleireira para dar sustento aos filhos. Casou-se novamente, uma bela mulher fica sozinha se quiser. Com alguns anos a saudade foi maior, voltou e fixou residência em Maceió, trabalhando de manicure. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento.

Certo dia Severina alugou um salão de beleza numa espécie de mercado de artesanato. Ela fez negócio, estabeleceu-se, passou mais de seis anos à frente de seu aprazível salão embelezando clientes. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência da Severina.

Ela morava num apartamento perto desse mercado. Quando em certa manhã ouviu o grito de fogo; ao perceber que o mercado estava em chamas, seu coração pulou, saiu correndo, conseguiu entrar no salão retirou a televisão. Ao retornar, o salão estava em chamas, tentou entrar no fogaréu, mas os bombeiros proibiram, dois militares seguraram seus braços. Severina tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seus equipamentos em poucos minutos. Perdeu tudo, não tinha seguro.

Nada na vida lhe foi fácil. Com muito trabalho Severina equipou outro salão no bairro da Ponta da Terra, onde hoje, a vistosa e bonita quarentona, mãe de 2 filhos, avó de um neto, no quarto casamento, atende a clientela.

Certa tarde, seu salão estava cheio quando entrou um assaltante de revólver na mão exigindo dinheiro e celulares de todos. Severina pediu calma ao ladrão que apontava a arma, ela levou seus clientes para o fundo do salão, voltou para negociar com o assaltante. Começou a conversar calmamente com o meliante, de repente, tirando o apurado do bolso do avental, falou firme, gritando:

– “Você não vai mexer com meus clientes. Tome aqui meu celular, tome meu dinheiro. E sabe de uma coisa, puxe para fora daqui seu cabra safado!!!!”

O assaltante assustado deu um pique, disparou pela calçada sem sequer olhar para trás. Os clientes aliviados bateram palmas. Assim é Severina, uma heroína brasileira.

MINHA ESTREIA NO PALCO AOS 77

Foi uma noite memorável, embora eu não tenha mais tanto tempo para rememorá-la. Aos 77 anos fiz minha estréia num palco de teatro a convite do ator e diretor Chico de Assis. Aliás, eu interpretei eu mesmo, contando algumas histórias que escrevo dominicalmente em alguns jornais do Brasil. Impressionado com as boas gargalhadas da platéia, me empolguei dramatizando as narrativas, o Chico magnífico recitou alguns poemas e a afinadíssima Andréa Laís, cantou belas músicas, a ver com as narrativas. Para não ser cabotino transcrevo algumas opiniões de quem assistiu peça SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA.

“ Carlito! Fiquei encantada com sua apresentação no Teatro Deodoro na noite de ontem. Sentei-me ao lado de Rosita, e juntas relembrávamos cada detalhe tão bem descrito por você. E ríamos com a plateia que vibrava a cada narração. Ambientação perfeita, encenação nota 1000! A cantora, impecável como intérprete das belas músicas, o maravilhoso Chico de Assis conduzindo o espetáculo e declamando com maestria, a composição perfeita de Cremilda e do garçom…Sem defeito! Tudo arrematado com os sambistas,olhe! PARABÉNS! Alagoas lhe agradece. Grande abraço.” VÂNIA PAPINI,. (escritora, cantora, produtora cultural.)

“Valeu a pena tanta expectativa! Uma viagem pela cidade que se torna mais humana através de vocês. O instrumento ainda acaricia meus ouvidos quase surdos, e esta voz é única! Parabéns. Deve ser utilizado no programa do Chico, na TV, como seriado. É história. Maceió, seus enredos, sua cultura, seu povo”. EVERALDO MOREIRA. (psiquiatra, ator, escritor, ligado às letras e ás artes.)

CRÍTICA do dramaturgo GUILHERME DE MIRANDA RAMOS, para o Caderno B da Gazeta de Alagoas.”O PALCO FOI DO VELHO CAPITA”

“ Na semana passada, o Teatro Deodoro transformou-se num auditório da fictícia Rádio ZY-200, uma homenagem aos 200 anos de Emancipação Política de nosso Estado e à Rádio Difusora, ZYO-4, numa idealização de Chico de Assis, Carlito Lima e Andréa Laís..

O programa-espetáculo “Se for pra chorar, que seja de alegria” apresentou um locutor (interpretado por Chico de Assis) entrevistando o escritor/historiador Carlos Roberto Peixoto Lima (nosso queridíssimo Carlito Lima). Na entrevista, Carlito narrou histórias que viveu ou que ouviu falar em Maceió desde 1930, enquanto imagens pessoais e da cidade eram projetadas num telão, nostalgicamente. Entre uma história e outra, a dupla Andréa Laís (voz) e Toni Augusto (violão) fizeram apresentações musicais ligadas às narrativas, que ainda foram intercaladas por declamações de poesias (de autores diversos) pelo próprio Chico.

Carlito estava muito à vontade (como sempre fica em qualquer lugar). Apesar de ser sua estreia no teatro, arrancou risadas como se estivesse numa grande roda de amigos, na varanda de casa. Andréa Laís (que voz é essa, garota?) encantou mais do que uma horda de sereias em alto-mar. Toni Augusto (veterano na música) bailou os dedos num violão que mais parecia a lira de Orfeu. Chico de Assis (que, além de atuar, acumulou idealização, roteiro, direção e ainda fez a programação visual do projeto) foi impecável nas declamações. Porém, com tantas atribuições, talvez tenha lhe faltado um pouco de atenção no resultado final. Edner (Careca) Pimentel fez uma luz caprichosa, destacando cada plano de cena, mas, em alguns momentos, deixou a cantora na penumbra. Márcio Brebal proporcionou um som digno de CD (e que efeito vintage maravilhoso em alguns momentos), porém não silenciou o microfone headset (facial) de Carlito nos momentos musicais, quando ele, ansioso (no bom sentido), revisava, comentava, cantarolava – e a plateia escutava. Mas parabéns pela discretíssima troca de bateria do mesmo microfone durante uma cena. O que poderia ter sido o maior desconforto, foi resolvido engenhosamente.

Os escritos de Carlito são fascinantes. É difícil selecioná-los entre tanta coisa engraçada e crítica. São mais de 850 narrativas nesses 16 anos que se tornou escritor. 17 crônicas estão presentes na produção. Some-se isso a seis intervenções poéticas de Chico e 13 performances musicais de Andréa Laís/Toni Augusto e algumas intervenções da (sempre engraçada) Cremilda (interpretado pelo ótimo Naéliton Santos). Teve até a participação do garçom Pescoço (citado nas crônicas do Velho Capita)! Era impossível que o tempo da produção fosse cumprido. Uma hora e meia de apresentação é o ideal; duas horas é aceitável. Mas três horas, definitivamente, é comprometedor. Tanto que algumas pessoas foram embora no meio do espetáculo, preocupadas, talvez, com o horário do ônibus. Dói ter que cortar na carne da crônica e, consequentemente, da música, mas é preciso. Já a poesia está na dose certa. Na literatura, menos é mais. Na cena, já que a produção se assumiu como um espetáculo de literatura-música-teatro, não pode ser diferente.

CONVERSAS NA JATIÚCA

Domingo de meio sol, desci do meu apartamento para uma caminhada na praia, andei meia hora. Ao retornar mergulhei no azul do mar, nadei. Relaxado partir em busca de cerveja e conversa fiada, avistei Gilseno, solitário, quatro garrafas consumidas embaixo da mesa. Arrastei uma cadeira, pedi acarajé, cerveja, puxei conversa perguntando por Rosane, sua digníssima esposa. Percebi minha gafe quando ele respondeu com visível mágoa e aborrecimento.

– Me largou! Danou-se no mundo!

Gilseno sorveu um copo olhando distante para o horizonte do mar da Jatiúca. Pedi-lhe desculpa, não sabia do fato; continuamos a conversa amena, repetitiva, quando de repente o amigo desabafou.

– A sacana está em Paris!

Olhando para o cão, como se confessasse, contou-me o trágico ocorrido nos pormenores.

– Na sexta-feira antes do carnaval fui à casa de praia na Barra de São Miguel preparando para receber os amigos durante a folia. Da varanda eu contemplava a belíssima vista, a praia cheia de arrecifes, mar de um azul esverdeado que invadia a alma. Nesse momento ela apareceu, Gracinha, a filha da faxineira veio ajudar. Jovem, bonita e sensual com olhar de pidona. Seus olhos não me enganavam. Eu olhava pecaminosamente a moça desde que ela havia voltado de São Paulo, para onde partira há três anos, com menino no bucho, em busca do pai. Ficou em Sampa até que o marido desapareceu, ela tentou sobreviver, foi difícil, não conseguiu, retornou à casa da mãe.

Gracinha deve ter 18 a 19 anos, uma gracinha gostosíssima, além do mais provocante, só usa mini-saia deixando à vista detalhes do belo espécime feminino. Em São Paulo deve ter feito alguns programas, tem artimanhas para seduzir e quengar um homem.

– Continuei trabalhando na casa, mudando lâmpadas, empurrando sofá, me vi bem perto de Gracinha dentro de casa, sentia sua respiração e cheiro, não me contive, alisei seu cabelo, seus braços, ela murmurava num tom de cumplicidade, “Que é isso Seu Gilseno?”
Abracei-a e deitei-a tapete da sala, nos beijamos. Fomos à apoteose.

– Estávamos ainda estirados no chão quando de repente a porta se abriu. Rosane chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio, gritou feito uma louca “Cabra safado, aguente as consequências!” Bateu a porta, Retornou a Maceió.

– Não tive coragem de voltar para casa. Procurei amigos, parentes, contei a história, pedi para amigos construírem a ponte da paz. Eu estava arrependido, prometi nunca mais acontecer, e outras promessas que me davam esperança. Rosane irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

– Sábado de carnaval, acordei-me na casa na Barra, pensava muito avaliando a besteira que tinha feito, ainda bem que não tínhamos filhos. À noite fui dar uma volta no carnaval do centro da Barra. Tive um susto quando vi Rosane com um short curto, barriguinha de fora, toda charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Deixei passar um tempo, cruzava os olhos com os delas, ela mudava o olhar. Até que certa hora o álcool deu-me coragem, fui até Rosane, ela me empurrou, ameaçou chamar a polícia. Algum tempo depois me levaram bêbado para casa. No domingo deu-me uma enorme depressão. Voltei à noite para o carnaval na praça, foi pior. Ao ver Rosane abraçando e beijando a boca de um jovem, parti para cima dela, peguei-a pela manga da camisa querendo levá-la para casa; levei um soco do acompanhante. Mais tarde me levaram novamente bêbado para casa. Depois do carnaval a procurei, não consegui encontrá-la. A mulher desapareceu de casa com roupas e pertences.

– Eu soube de notícia da Rosane quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, ela sacou R$ 120.000,00 de nossa conta conjunta, foi para o Recife, de lá para Europa. Não sei quando volta, e o pior, o jovem atleta está fazendo companhia nos passeios parisienses e em sua cama no hotel à beira do Sena. Não sei como suportar esse castigo.

Ao terminar a trágica história, estávamos na 12ª garrafa quando passaram duas mulheres belíssimas, Gilseno continuou olhando para o infinito, triste, sem apetência sequer de olhar as belezas do mundo.

SE FOR PRÁ CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA

Todos somos artistas, às vezes não sabemos como direcionarmos o talento emergente dentro de nós desde que nascemos. Os talentos são os mais diversos, para o bem ou para o mal. Tomando o exemplo da História Mundial, é inegável que Hitler e Stalin eram altamente talentosos, apenas usaram seus talentos de líderes e pensadores para impor ao mundo suas ideias, com talento e idealismo mataram mais de 100 milhões de pessoas, mas isso são apenas detalhes. Já Jesus, Gandhi e Luther King usaram seus talentos para mudar o mundo com o amor e a paz. Tom Jobim e Chico Buarque fascinaram o povo com o talento musical. Jorge Amado, Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marques se imortalizaram com a arte de escrever. As mulheres rendeiras do Nordeste criaram o filé, a renda, a singeleza com seus talentos natos.

Mal comparando, no decorrer de minha vida procurei meu talento na arte. Tentei o violão, desajeitado, não consegui aprender a nota de dó. Na pintura fui um desastre, meus quadros de natureza morta pareciam pedaços de defuntos, hoje talvez fizessem sucesso como pintura moderna, quem sabe com exposição no MAM ou no MOMA? Até que um dia alguns amigos me incentivaram a escrever um livro cotando histórias de minha vida atribulada. Gostei da idéia e danei-me a escrever. Com seis meses o livro estava pronto, lancei CONFISSÕES DE UM CAPITÃO em 2001, tinha apenas 61 anos, houve um sucesso inesperado, fui entrevistado até no Jô Soares. Engoli a corda, não parei mais de escrever. Atualmente toda semana escrevo na Gazeta de Alagoas a coluna HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA, são pequenos contos numa linguagem coloquial que agradam aos leitores, esse é meu linguajar, eu gosto do que escrevo. Já são 851 historinhas publicadas nos jornais, revistas e sites nesses 16 anos. Recentemente na bela Palmeira dos Índios tive a surpresa em sentir popularidade entre as professoras e a população que lêem minha coluna na Tribuna do Sertão.

Por conta desse sucesso, o ator de tantas novelas na Globo e filmes internacionais, Chico de Assis, convidou-me a participar de em espetáculo, uma peça teatral, em que eu entro contando algumas dessas histórias passadas em Maceió, ele, Chico, arremata com um poemas ligados à história e a afinadíssima cantora Andréa Laís, acompanhada de Toni Augusto, canta músicas que tenha um elo com a história. Mesmo com meus alquebrados 77 anos, aceitei esse desafio. Ao contar a minha mulher que seria ator de teatro por um dia, ela me perguntou. “O que falta mais você inventar na vida?”.

A peça com o título, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA”, concorreu no edital do projeto TEATRO É O MAIOR BARATO, foi uma das escolhidas. Ensaiamos quase dois meses e vamos estrear na próxima quarta-feira dia 5 de julho no Teatro Deodoro às 19.30.

O espetáculo consta de uma encenação: Uma entrevista ao vivo na fictícia Rádio ZY – 200 (homenagem à Radio Difusora de Alagoas – ZYO4 e aos 200 anos de Alagoas). Nesse programa, o radialista (Chico de Assis) entrevista o historiador Carlito Lima sobre alguns acontecimentos e lembranças de seus 77 anos de vida. O entrevistado conta diversas histórias vividas ou ouvidas por ele, enfocando a infância, a juventude em Maceió. São histórias bem humoradas com figuras conhecidas no Estado, o tempo da ditadura quando era Capitão do Exército. Em seguida de cada relato, o ator Chico de Assis recita um poema ou a cantora Andréa Laís canta uma música, provocando na plateia um exercício de reflexão, de conhecimento de sua terra, até de auto-estima com a alegria e a irreverência dos atores.

“Se For prá Chorar que Seja de Alegria” é uma obra de relacionamento humano do nordestino, envolvida com uma capa de bom humor singular e o enfoque do passado, arrematada pela poesia e a musica.

Lembrando que o teatro é o mais antigo e o mais moderno meio de comunicação para aprimorar conhecimentos e difundir a cultura na sociedade. E a peça tem um papel fundamental de estimular a formação de público e o gosto pela juventude pelo teatro, e a valorização da produção artística das Alagoas.

Finalmente convido meus queridos leitores e família, levem seus filhos e netos para aplaudir ou vaiar esse espetáculo inédito em Maceió inventado pela mente fértil, pelas fantasias do ator Chico de Assis, orgulho das Alagoas.

TEATRO DEODORO – DIA 5 DE JULHO – 19.30 HORAS.

BRINCADEIRA DE PEGA

Depois das aulas na Faculdade de Engenharia era costume a turma reunir-se para uma cerveja e traçar planos noturnos na Pizzaria Sorriso na Praça Sinimbu. Certa noite de quinta-feira, após uma prova, tomei rumo à pizzaria, assim que entrei recebi o convite, participar de uma festinha íntima na praia da Sereia. As moças já estavam esperando para levá-las a um bar escondido em frente ao mar. Confesso, o convite me abalou, mas a namorada me esperava para assistir a última seção do Cine São Luiz. A paixão foi maior, agradeci aos amigos, fui ao cinema onde o amor puro e belo me aguardava.

Na manhã seguinte depois de tomar um café generoso daqueles que só existe na casa da nossa mãe, dirigi o carro rumo à Faculdade. Ao ligar o rádio sintonizado num programa de ronda policial, o locutor escandaloso esbravejava contando os acontecimentos.

“E atenção para essa notícia da juventude transviada. Um bando de xexelentos, rabugentos, estudantes da Faculdade de Engenharia da UFAL, promoveu um bacanal na praia da Sereia juntamente com algumas mundanas. Estavam como vieram ao mundo perturbando a moralidade pública, um escândalo na praia da Sereia. A depravação era tanta que uma moradora da redondeza chamou a Rádio Patrulha. Todos foram recolhidos a 1ª Delegacia de Polícia da Capital”.

Logo percebi que os xexelentos eram meus colegas. Mentalmente agradeci à namorada por não ter ido à festa. Na Faculdade um dos colegas contou a proeza, às gargalhadas.

Os meninos saíram em dois carros e um jipe percorrendo alguns pontos da cidade pegando as convidadas para a festinha. Eram sete acadêmicos e oito mulheres na praia em noite de lua cheia. No bar discreto pediram cerveja, cachaça, rabo de galo, tira-gosto de camarão, panã, siri, cioba. Todos conversando, sorrindo e cantando. A animação prosseguiu, um dos colegas tocava divinamente flauta, deu um show tocando músicas de Chico Buarque e Caetano. A cachaça rolava. Alguns mais apressadinhos davam uma saída para deitar-se olhando a Lua, os corpos rolando, lambuzando-se de areia da praia, parecia filé à milanesa.

Em certo momento, alguém teve a idéia.

“Está tudo muito bom, festa arretada, mas vamos animar um bocadinho, é tarde da noite e não tem vizinho por aqui. Vamos brincar de pega! As meninas correndo na frente se escondem, nós partimos depois para procurá-las. Quem conseguir achar e pegar alguma, os dois vão saudar Iemanjá num banho de mar ou em qualquer lugar. A ordem é essa!”.

A sugestão foi aceita por unanimidade. Logo estavam os 13 festeiros correndo e gritando pela praia iluminados por um luar prateado. Viam-se os vultos correndo e ouviam-se os gritinhos nervosos das meninas escondendo-se dos caçadores, brincadeira apimentada. Dois amigos preferiram ficar sentados no bar apenas olhando a brincadeira de pega, divertindo-se. Já durava uma hora de corre-corre, quando apareceu um jipe em marcha lenta com luz alta acesa focando os alegres jovens que brincavam de pega. Quando focou um dos acadêmicos pegando uma bonita morena, o estudante virou-se gritando alto.

– Apague essa luz, seu filho….!!!

O jipe parou, saltaram três policias com cassetete na mão e revólver nos quartos, era a Rádio Patrulha. Prenderam o casal. O comandante chamou todos para reunirem-se no bar. O pessoal foi se achegando, vestindo a roupa. Um dos estudantes apresentou-se como aluno do NPOR, mas não houve acordo. O sargento comandante da patrulha informou que a denúncia foi uma ligação de um capitão do Exército que morava pela redondeza pedindo para acabar aquela imoralidade pública, contra os bons costumes. Exigiu a prisão de todos os marginais da orgia.

Convidados para comparecerem à delegacia, foram os quinze pegadores, pecadores. O delegado logo trancafiou as mulheres no xadrez. A sorte é que um dos acadêmicos era primo do delegado. Os estudantes comovidos pediram para liberar as meninas. Às quatro da manhã chegaram a um acordo, os homens estavam liberados, podiam ir para casa, as mulheres depois seriam soltas. O delegado não cumpriu o acordo, as moças dormiram na delegacia, foram soltas no dia seguinte. Jornalistas encarregaram-se de espalhar a notícia do bacanal nas rádios e jornais.

Hoje esses engenheiros da brincadeira de pega na praia da Sereia são respeitosos pais de famílias, avôs, ainda trabalhando pelo desenvolvimento do belo Estado das Alagoas. E essa turma de Engenharia 1971 ainda reúne-se toda primeira quinta-feira do mês num almoço fraterno, nostálgico e alegre, lembrando-se das histórias da juventude.

Essa e outras histórias serão contadas na peça SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA – Dia 5 de julho no Teatro Deodoro, Maceió – 19 horas.


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