SEVERINA, UMA HEROÍNA

Severina nasceu em União dos Palmares, filha de trabalhadores rurais descendentes dos quilombolas, onde Zumbi organizou o Quilombo e lutou contra a escravidão.

Morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Menina, já perambulava pelas ruas do povoado. Foi criada tomando leite de cabra, leite de jumenta, comendo “tô fraco” (galinha d’angola) no pirão. Era a mais rechonchuda da região. Quando ela completou 10 anos, seu pai resolveu mudar-se em busca de melhor qualidade de vida, foi morar numa invasão de terrenos no Vale do Riacho Reginaldo em Maceió. Sua infância foi marcante. Líder das meninas e dos meninos, ela jogava ximbra, subia em pé de árvore, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos 14 anos pegou um corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam tentados quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham receio do severo pai. Certo dia, Zezinho, um jovem caminhoneiro ao voltar de uma longa viagem avistou Severina, o coração bateu forte. A piveta que ele via brincando, correndo nas ruas, trepando nas árvores, ganhando corrida dos meninos, havia se transformado numa deslumbrante moça. Ele foi se achegando, se achegando, até que Severina concordou namorar. Depois de dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim houve festa, a bebida e comida não se estragaram. O casório aconteceu no dia 31 de dezembro.

Quatro dias depois do casamento Zezinho partia para outra viagem. Severina sem avisar, pela manhã estava pronta, para surpresa do marido sentou-se na boléia do caminhão. Foi a primeira das inúmeras viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Logo aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista melhor que o Zezinho. Assim passaram nove anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar a luz.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Severina foi tentar sua vida no Rio da Janeiro, ficou na casa do irmão. Logo estava trabalhando de cabeleireira para dar sustento aos filhos. Casou-se novamente, uma bela mulher fica sozinha se quiser. Com alguns anos a saudade foi maior, voltou e fixou residência em Maceió, trabalhando de manicure. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento.

Certo dia Severina alugou um salão de beleza numa espécie de mercado de artesanato. Ela fez negócio, estabeleceu-se, passou mais de seis anos à frente de seu aprazível salão embelezando clientes. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência da Severina.

Ela morava num apartamento perto desse mercado. Quando em certa manhã ouviu o grito de fogo; ao perceber que o mercado estava em chamas, seu coração pulou, saiu correndo, conseguiu entrar no salão retirou a televisão. Ao retornar, o salão estava em chamas, tentou entrar no fogaréu, mas os bombeiros proibiram, dois militares seguraram seus braços. Severina tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seus equipamentos em poucos minutos. Perdeu tudo, não tinha seguro.

Nada na vida lhe foi fácil. Com muito trabalho Severina equipou outro salão no bairro da Ponta da Terra, onde hoje, a vistosa e bonita quarentona, mãe de 2 filhos, avó de um neto, no quarto casamento, atende a clientela.

Certa tarde, seu salão estava cheio quando entrou um assaltante de revólver na mão exigindo dinheiro e celulares de todos. Severina pediu calma ao ladrão que apontava a arma, ela levou seus clientes para o fundo do salão, voltou para negociar com o assaltante. Começou a conversar calmamente com o meliante, de repente, tirando o apurado do bolso do avental, falou firme, gritando:

– “Você não vai mexer com meus clientes. Tome aqui meu celular, tome meu dinheiro. E sabe de uma coisa, puxe para fora daqui seu cabra safado!!!!”

O assaltante assustado deu um pique, disparou pela calçada sem sequer olhar para trás. Os clientes aliviados bateram palmas. Assim é Severina, uma heroína brasileira.

MINHA ESTREIA NO PALCO AOS 77

Foi uma noite memorável, embora eu não tenha mais tanto tempo para rememorá-la. Aos 77 anos fiz minha estréia num palco de teatro a convite do ator e diretor Chico de Assis. Aliás, eu interpretei eu mesmo, contando algumas histórias que escrevo dominicalmente em alguns jornais do Brasil. Impressionado com as boas gargalhadas da platéia, me empolguei dramatizando as narrativas, o Chico magnífico recitou alguns poemas e a afinadíssima Andréa Laís, cantou belas músicas, a ver com as narrativas. Para não ser cabotino transcrevo algumas opiniões de quem assistiu peça SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA.

“ Carlito! Fiquei encantada com sua apresentação no Teatro Deodoro na noite de ontem. Sentei-me ao lado de Rosita, e juntas relembrávamos cada detalhe tão bem descrito por você. E ríamos com a plateia que vibrava a cada narração. Ambientação perfeita, encenação nota 1000! A cantora, impecável como intérprete das belas músicas, o maravilhoso Chico de Assis conduzindo o espetáculo e declamando com maestria, a composição perfeita de Cremilda e do garçom…Sem defeito! Tudo arrematado com os sambistas,olhe! PARABÉNS! Alagoas lhe agradece. Grande abraço.” VÂNIA PAPINI,. (escritora, cantora, produtora cultural.)

“Valeu a pena tanta expectativa! Uma viagem pela cidade que se torna mais humana através de vocês. O instrumento ainda acaricia meus ouvidos quase surdos, e esta voz é única! Parabéns. Deve ser utilizado no programa do Chico, na TV, como seriado. É história. Maceió, seus enredos, sua cultura, seu povo”. EVERALDO MOREIRA. (psiquiatra, ator, escritor, ligado às letras e ás artes.)

CRÍTICA do dramaturgo GUILHERME DE MIRANDA RAMOS, para o Caderno B da Gazeta de Alagoas.”O PALCO FOI DO VELHO CAPITA”

“ Na semana passada, o Teatro Deodoro transformou-se num auditório da fictícia Rádio ZY-200, uma homenagem aos 200 anos de Emancipação Política de nosso Estado e à Rádio Difusora, ZYO-4, numa idealização de Chico de Assis, Carlito Lima e Andréa Laís..

O programa-espetáculo “Se for pra chorar, que seja de alegria” apresentou um locutor (interpretado por Chico de Assis) entrevistando o escritor/historiador Carlos Roberto Peixoto Lima (nosso queridíssimo Carlito Lima). Na entrevista, Carlito narrou histórias que viveu ou que ouviu falar em Maceió desde 1930, enquanto imagens pessoais e da cidade eram projetadas num telão, nostalgicamente. Entre uma história e outra, a dupla Andréa Laís (voz) e Toni Augusto (violão) fizeram apresentações musicais ligadas às narrativas, que ainda foram intercaladas por declamações de poesias (de autores diversos) pelo próprio Chico.

Carlito estava muito à vontade (como sempre fica em qualquer lugar). Apesar de ser sua estreia no teatro, arrancou risadas como se estivesse numa grande roda de amigos, na varanda de casa. Andréa Laís (que voz é essa, garota?) encantou mais do que uma horda de sereias em alto-mar. Toni Augusto (veterano na música) bailou os dedos num violão que mais parecia a lira de Orfeu. Chico de Assis (que, além de atuar, acumulou idealização, roteiro, direção e ainda fez a programação visual do projeto) foi impecável nas declamações. Porém, com tantas atribuições, talvez tenha lhe faltado um pouco de atenção no resultado final. Edner (Careca) Pimentel fez uma luz caprichosa, destacando cada plano de cena, mas, em alguns momentos, deixou a cantora na penumbra. Márcio Brebal proporcionou um som digno de CD (e que efeito vintage maravilhoso em alguns momentos), porém não silenciou o microfone headset (facial) de Carlito nos momentos musicais, quando ele, ansioso (no bom sentido), revisava, comentava, cantarolava – e a plateia escutava. Mas parabéns pela discretíssima troca de bateria do mesmo microfone durante uma cena. O que poderia ter sido o maior desconforto, foi resolvido engenhosamente.

Os escritos de Carlito são fascinantes. É difícil selecioná-los entre tanta coisa engraçada e crítica. São mais de 850 narrativas nesses 16 anos que se tornou escritor. 17 crônicas estão presentes na produção. Some-se isso a seis intervenções poéticas de Chico e 13 performances musicais de Andréa Laís/Toni Augusto e algumas intervenções da (sempre engraçada) Cremilda (interpretado pelo ótimo Naéliton Santos). Teve até a participação do garçom Pescoço (citado nas crônicas do Velho Capita)! Era impossível que o tempo da produção fosse cumprido. Uma hora e meia de apresentação é o ideal; duas horas é aceitável. Mas três horas, definitivamente, é comprometedor. Tanto que algumas pessoas foram embora no meio do espetáculo, preocupadas, talvez, com o horário do ônibus. Dói ter que cortar na carne da crônica e, consequentemente, da música, mas é preciso. Já a poesia está na dose certa. Na literatura, menos é mais. Na cena, já que a produção se assumiu como um espetáculo de literatura-música-teatro, não pode ser diferente.

CONVERSAS NA JATIÚCA

Domingo de meio sol, desci do meu apartamento para uma caminhada na praia, andei meia hora. Ao retornar mergulhei no azul do mar, nadei. Relaxado partir em busca de cerveja e conversa fiada, avistei Gilseno, solitário, quatro garrafas consumidas embaixo da mesa. Arrastei uma cadeira, pedi acarajé, cerveja, puxei conversa perguntando por Rosane, sua digníssima esposa. Percebi minha gafe quando ele respondeu com visível mágoa e aborrecimento.

– Me largou! Danou-se no mundo!

Gilseno sorveu um copo olhando distante para o horizonte do mar da Jatiúca. Pedi-lhe desculpa, não sabia do fato; continuamos a conversa amena, repetitiva, quando de repente o amigo desabafou.

– A sacana está em Paris!

Olhando para o cão, como se confessasse, contou-me o trágico ocorrido nos pormenores.

– Na sexta-feira antes do carnaval fui à casa de praia na Barra de São Miguel preparando para receber os amigos durante a folia. Da varanda eu contemplava a belíssima vista, a praia cheia de arrecifes, mar de um azul esverdeado que invadia a alma. Nesse momento ela apareceu, Gracinha, a filha da faxineira veio ajudar. Jovem, bonita e sensual com olhar de pidona. Seus olhos não me enganavam. Eu olhava pecaminosamente a moça desde que ela havia voltado de São Paulo, para onde partira há três anos, com menino no bucho, em busca do pai. Ficou em Sampa até que o marido desapareceu, ela tentou sobreviver, foi difícil, não conseguiu, retornou à casa da mãe.

Gracinha deve ter 18 a 19 anos, uma gracinha gostosíssima, além do mais provocante, só usa mini-saia deixando à vista detalhes do belo espécime feminino. Em São Paulo deve ter feito alguns programas, tem artimanhas para seduzir e quengar um homem.

– Continuei trabalhando na casa, mudando lâmpadas, empurrando sofá, me vi bem perto de Gracinha dentro de casa, sentia sua respiração e cheiro, não me contive, alisei seu cabelo, seus braços, ela murmurava num tom de cumplicidade, “Que é isso Seu Gilseno?”
Abracei-a e deitei-a tapete da sala, nos beijamos. Fomos à apoteose.

– Estávamos ainda estirados no chão quando de repente a porta se abriu. Rosane chocou-se com a cena. Foi um flagrante constrangedor, ela gritou com ódio, gritou feito uma louca “Cabra safado, aguente as consequências!” Bateu a porta, Retornou a Maceió.

– Não tive coragem de voltar para casa. Procurei amigos, parentes, contei a história, pedi para amigos construírem a ponte da paz. Eu estava arrependido, prometi nunca mais acontecer, e outras promessas que me davam esperança. Rosane irredutível mandou recado que ele não tivesse a ousadia em procurá-la.

– Sábado de carnaval, acordei-me na casa na Barra, pensava muito avaliando a besteira que tinha feito, ainda bem que não tínhamos filhos. À noite fui dar uma volta no carnaval do centro da Barra. Tive um susto quando vi Rosane com um short curto, barriguinha de fora, toda charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Deixei passar um tempo, cruzava os olhos com os delas, ela mudava o olhar. Até que certa hora o álcool deu-me coragem, fui até Rosane, ela me empurrou, ameaçou chamar a polícia. Algum tempo depois me levaram bêbado para casa. No domingo deu-me uma enorme depressão. Voltei à noite para o carnaval na praça, foi pior. Ao ver Rosane abraçando e beijando a boca de um jovem, parti para cima dela, peguei-a pela manga da camisa querendo levá-la para casa; levei um soco do acompanhante. Mais tarde me levaram novamente bêbado para casa. Depois do carnaval a procurei, não consegui encontrá-la. A mulher desapareceu de casa com roupas e pertences.

– Eu soube de notícia da Rosane quando ela já estava em Paris. Na quarta-feira de cinzas assim que o banco abriu, ela sacou R$ 120.000,00 de nossa conta conjunta, foi para o Recife, de lá para Europa. Não sei quando volta, e o pior, o jovem atleta está fazendo companhia nos passeios parisienses e em sua cama no hotel à beira do Sena. Não sei como suportar esse castigo.

Ao terminar a trágica história, estávamos na 12ª garrafa quando passaram duas mulheres belíssimas, Gilseno continuou olhando para o infinito, triste, sem apetência sequer de olhar as belezas do mundo.

SE FOR PRÁ CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA

Todos somos artistas, às vezes não sabemos como direcionarmos o talento emergente dentro de nós desde que nascemos. Os talentos são os mais diversos, para o bem ou para o mal. Tomando o exemplo da História Mundial, é inegável que Hitler e Stalin eram altamente talentosos, apenas usaram seus talentos de líderes e pensadores para impor ao mundo suas ideias, com talento e idealismo mataram mais de 100 milhões de pessoas, mas isso são apenas detalhes. Já Jesus, Gandhi e Luther King usaram seus talentos para mudar o mundo com o amor e a paz. Tom Jobim e Chico Buarque fascinaram o povo com o talento musical. Jorge Amado, Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marques se imortalizaram com a arte de escrever. As mulheres rendeiras do Nordeste criaram o filé, a renda, a singeleza com seus talentos natos.

Mal comparando, no decorrer de minha vida procurei meu talento na arte. Tentei o violão, desajeitado, não consegui aprender a nota de dó. Na pintura fui um desastre, meus quadros de natureza morta pareciam pedaços de defuntos, hoje talvez fizessem sucesso como pintura moderna, quem sabe com exposição no MAM ou no MOMA? Até que um dia alguns amigos me incentivaram a escrever um livro cotando histórias de minha vida atribulada. Gostei da idéia e danei-me a escrever. Com seis meses o livro estava pronto, lancei CONFISSÕES DE UM CAPITÃO em 2001, tinha apenas 61 anos, houve um sucesso inesperado, fui entrevistado até no Jô Soares. Engoli a corda, não parei mais de escrever. Atualmente toda semana escrevo na Gazeta de Alagoas a coluna HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA, são pequenos contos numa linguagem coloquial que agradam aos leitores, esse é meu linguajar, eu gosto do que escrevo. Já são 851 historinhas publicadas nos jornais, revistas e sites nesses 16 anos. Recentemente na bela Palmeira dos Índios tive a surpresa em sentir popularidade entre as professoras e a população que lêem minha coluna na Tribuna do Sertão.

Por conta desse sucesso, o ator de tantas novelas na Globo e filmes internacionais, Chico de Assis, convidou-me a participar de em espetáculo, uma peça teatral, em que eu entro contando algumas dessas histórias passadas em Maceió, ele, Chico, arremata com um poemas ligados à história e a afinadíssima cantora Andréa Laís, acompanhada de Toni Augusto, canta músicas que tenha um elo com a história. Mesmo com meus alquebrados 77 anos, aceitei esse desafio. Ao contar a minha mulher que seria ator de teatro por um dia, ela me perguntou. “O que falta mais você inventar na vida?”.

A peça com o título, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA”, concorreu no edital do projeto TEATRO É O MAIOR BARATO, foi uma das escolhidas. Ensaiamos quase dois meses e vamos estrear na próxima quarta-feira dia 5 de julho no Teatro Deodoro às 19.30.

O espetáculo consta de uma encenação: Uma entrevista ao vivo na fictícia Rádio ZY – 200 (homenagem à Radio Difusora de Alagoas – ZYO4 e aos 200 anos de Alagoas). Nesse programa, o radialista (Chico de Assis) entrevista o historiador Carlito Lima sobre alguns acontecimentos e lembranças de seus 77 anos de vida. O entrevistado conta diversas histórias vividas ou ouvidas por ele, enfocando a infância, a juventude em Maceió. São histórias bem humoradas com figuras conhecidas no Estado, o tempo da ditadura quando era Capitão do Exército. Em seguida de cada relato, o ator Chico de Assis recita um poema ou a cantora Andréa Laís canta uma música, provocando na plateia um exercício de reflexão, de conhecimento de sua terra, até de auto-estima com a alegria e a irreverência dos atores.

“Se For prá Chorar que Seja de Alegria” é uma obra de relacionamento humano do nordestino, envolvida com uma capa de bom humor singular e o enfoque do passado, arrematada pela poesia e a musica.

Lembrando que o teatro é o mais antigo e o mais moderno meio de comunicação para aprimorar conhecimentos e difundir a cultura na sociedade. E a peça tem um papel fundamental de estimular a formação de público e o gosto pela juventude pelo teatro, e a valorização da produção artística das Alagoas.

Finalmente convido meus queridos leitores e família, levem seus filhos e netos para aplaudir ou vaiar esse espetáculo inédito em Maceió inventado pela mente fértil, pelas fantasias do ator Chico de Assis, orgulho das Alagoas.

TEATRO DEODORO – DIA 5 DE JULHO – 19.30 HORAS.

BRINCADEIRA DE PEGA

Depois das aulas na Faculdade de Engenharia era costume a turma reunir-se para uma cerveja e traçar planos noturnos na Pizzaria Sorriso na Praça Sinimbu. Certa noite de quinta-feira, após uma prova, tomei rumo à pizzaria, assim que entrei recebi o convite, participar de uma festinha íntima na praia da Sereia. As moças já estavam esperando para levá-las a um bar escondido em frente ao mar. Confesso, o convite me abalou, mas a namorada me esperava para assistir a última seção do Cine São Luiz. A paixão foi maior, agradeci aos amigos, fui ao cinema onde o amor puro e belo me aguardava.

Na manhã seguinte depois de tomar um café generoso daqueles que só existe na casa da nossa mãe, dirigi o carro rumo à Faculdade. Ao ligar o rádio sintonizado num programa de ronda policial, o locutor escandaloso esbravejava contando os acontecimentos.

“E atenção para essa notícia da juventude transviada. Um bando de xexelentos, rabugentos, estudantes da Faculdade de Engenharia da UFAL, promoveu um bacanal na praia da Sereia juntamente com algumas mundanas. Estavam como vieram ao mundo perturbando a moralidade pública, um escândalo na praia da Sereia. A depravação era tanta que uma moradora da redondeza chamou a Rádio Patrulha. Todos foram recolhidos a 1ª Delegacia de Polícia da Capital”.

Logo percebi que os xexelentos eram meus colegas. Mentalmente agradeci à namorada por não ter ido à festa. Na Faculdade um dos colegas contou a proeza, às gargalhadas.

Os meninos saíram em dois carros e um jipe percorrendo alguns pontos da cidade pegando as convidadas para a festinha. Eram sete acadêmicos e oito mulheres na praia em noite de lua cheia. No bar discreto pediram cerveja, cachaça, rabo de galo, tira-gosto de camarão, panã, siri, cioba. Todos conversando, sorrindo e cantando. A animação prosseguiu, um dos colegas tocava divinamente flauta, deu um show tocando músicas de Chico Buarque e Caetano. A cachaça rolava. Alguns mais apressadinhos davam uma saída para deitar-se olhando a Lua, os corpos rolando, lambuzando-se de areia da praia, parecia filé à milanesa.

Em certo momento, alguém teve a idéia.

“Está tudo muito bom, festa arretada, mas vamos animar um bocadinho, é tarde da noite e não tem vizinho por aqui. Vamos brincar de pega! As meninas correndo na frente se escondem, nós partimos depois para procurá-las. Quem conseguir achar e pegar alguma, os dois vão saudar Iemanjá num banho de mar ou em qualquer lugar. A ordem é essa!”.

A sugestão foi aceita por unanimidade. Logo estavam os 13 festeiros correndo e gritando pela praia iluminados por um luar prateado. Viam-se os vultos correndo e ouviam-se os gritinhos nervosos das meninas escondendo-se dos caçadores, brincadeira apimentada. Dois amigos preferiram ficar sentados no bar apenas olhando a brincadeira de pega, divertindo-se. Já durava uma hora de corre-corre, quando apareceu um jipe em marcha lenta com luz alta acesa focando os alegres jovens que brincavam de pega. Quando focou um dos acadêmicos pegando uma bonita morena, o estudante virou-se gritando alto.

– Apague essa luz, seu filho….!!!

O jipe parou, saltaram três policias com cassetete na mão e revólver nos quartos, era a Rádio Patrulha. Prenderam o casal. O comandante chamou todos para reunirem-se no bar. O pessoal foi se achegando, vestindo a roupa. Um dos estudantes apresentou-se como aluno do NPOR, mas não houve acordo. O sargento comandante da patrulha informou que a denúncia foi uma ligação de um capitão do Exército que morava pela redondeza pedindo para acabar aquela imoralidade pública, contra os bons costumes. Exigiu a prisão de todos os marginais da orgia.

Convidados para comparecerem à delegacia, foram os quinze pegadores, pecadores. O delegado logo trancafiou as mulheres no xadrez. A sorte é que um dos acadêmicos era primo do delegado. Os estudantes comovidos pediram para liberar as meninas. Às quatro da manhã chegaram a um acordo, os homens estavam liberados, podiam ir para casa, as mulheres depois seriam soltas. O delegado não cumpriu o acordo, as moças dormiram na delegacia, foram soltas no dia seguinte. Jornalistas encarregaram-se de espalhar a notícia do bacanal nas rádios e jornais.

Hoje esses engenheiros da brincadeira de pega na praia da Sereia são respeitosos pais de famílias, avôs, ainda trabalhando pelo desenvolvimento do belo Estado das Alagoas. E essa turma de Engenharia 1971 ainda reúne-se toda primeira quinta-feira do mês num almoço fraterno, nostálgico e alegre, lembrando-se das histórias da juventude.

Essa e outras histórias serão contadas na peça SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA – Dia 5 de julho no Teatro Deodoro, Maceió – 19 horas.

DIA DOS NAMORADOS

Em pedaços do Muro de Berlim conservado, o desenho da foto do beijo histórico entre Brejnev (Rússia) e Honecker (Alemanha Oriental). Abaixo, este colunista e esposa imitam os dois líderes comunistas

Esse negócio de dia dos pais, dia mães, dia nos namorados, dia dos amantes e outros dias, é invenção do comércio para vender mais. As armas do capitalismo são a propaganda e a invencionice para vender o que precisa e o que não precisa. Os judeus americanos inventaram os Shoppings Centers nos Estados Unidos nos anos 50 que se tornaram as catedrais do consumo em todos os lugares do mundo. O sonho das cidades interioranas de médio porte é ter um Shopping na cidade, somente para consumir, comprar o que não precisa. E esses “dias” são para o consumo.

Apenas um desses dias me comove, como romântico incorrigível, eu amo o Dia dos Namorados, sempre compro flores para minha amada, que há 48 anos aceitou casar com um dos boêmios mais conhecido na cidade. Porém conseguimos atravessar mares bravios, estradas esburacadas, tempestades e turbulências com muita fibra, e lógico, é preciso muito amor para suportar tantos desgastes. Quase meio século de união e o coração nos faz compreender que a vida é tão pequena para tanto amor. E nesse Dia dos Namorados recebi o mais bonito presente de minha mulher, uma declaração escrita tirada de versos, de músicas que acompanharam nossas vidas. Eu quero ler e mostrar para todo mundo que apesar de todos os percalços da vida, o amor é feito mocinho de cinema americano, no fim sempre vence.

* * *

Carlito,

Se pudesse contar nossa história iria buscar nas poesias das músicas que se identificam com as diversas fases de nossas vidas. Começaria com Noite dos Mascarados:

Quem é você? Diga logo que quero saber… Sou seresteiro poeta e cantor, eu modesta parte só zombo do amor, sou colombina, eu sou pierrô, fui porta-estandarte, não sei mais dançar, eu modesta parte nasci pra sambar, …Deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que você quiser, o que você pedir eu lhe dou seja você quem for seja o que Deus quiser… Desses contrastes nasceu nosso amor num dia de carnaval.

A vida segue, Chico Buarque expressava o que eu sentia algumas vezes na música: Com Açúcar com Afeto. Fiz seu doce predileto pra você parar em casa, qual o quê com seu terno mais bonito você sai nem acredito quando diz que não se atrasa. Quando a noite enfim lhe cansa você vem feito criança implorar o meu perdão, Qual o quê, logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços (e pernas) PRA VOCÊ.

Em tempos difíceis a sensibilidade de Chico, cantava em Roda Viva “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu. A gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar mas eis que chega a Roda Viva e carrega o destino pra lá…”

Noites de amor: O meu amor tem um jeito manso que é só seu, E que me deixa louca quando me beija a boca, A minha pele toda fica arrepiada, e me beija com calma e fundo ate minh’alma se sentir beijada.

No outono de nossas vidas me emociono com Valsinha, um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar… Olhou-me do jeito mais… Do que sempre costumava olhar. E foram tantos beijos loucos que a vizinhança toda despertou…

E a bela letra de LIKE A BRIDGE OVER TROUBLED WATERS, de dois americanos: Simon e Garfield, (COMO A PONTE SOBRE ÁGUAS REVOLTAS) que diz mais ou menos assim: sempre estarei do seu lado como uma ponte sobre águas revoltas, quando você se sentir sozinho, os amigos não forem encontrados, quando lágrimas correrem de seus olhos, eu estarei do seu lado como a ponte sobre águas revoltas… Te amo.

Vânia

Maceió, 12 de junho de 2017

A SEQUELA

Adonias era jovem e pedreiro dos bons. Certo sábado pela tarde resolveu adiantar um serviço de assentamento de pastilhas na fachada do edifício. Estava preparando o andaime para trabalhar quando de repente escorregou; ainda não havia colocado o equipamento de segurança individual, deu-se o desastre, caiu do quinto andar.

Teve muita sorte, os andaimes abaixo amorteceram a queda e Adonias caiu em cima de um monte de caixas de papelão e areia fofa. A pancada foi forte, os colegas o levaram imediatamente para o Pronto Socorro. O médico que atendeu o acidentado confirmou ter sido um milagre. Adonias estava cheio de escoriações, hematomas e vários ossos quebrados. Contudo, um detalhe inusitado chamou a atenção, talvez pela pancada deu-se uma sequela imediata, o priapismo, ou seja, a ereção persistente e constante do pênis, mais conhecida pela massa ignara como “paudurecência”.

Enfaixaram e engessaram Adonias em suas múltiplas contusões, porém, o levantar do lençol em certo local, dava para perceber o priapismo. O médico previu no mínimo vinte dias de cama e determinou sua transferência para algum hospital. Levaram Adonias em ambulância para uma Casa de Saúde com todo corpo enfaixado, apenas uma parte livre e dura. Dia seguinte um jornal fez reportagem sobre o acidente, acusando a falta de segurança da construtora e o jornalista destacou a sequela do priapismo.

A partir desse dia não houve mais sossego para Adonias. Foi visitado por curiosos e por gente interessada em estudar o fenômeno. Uma turma de estudantes de medicina acompanhou o caso diariamente. Algumas jovens foram de tamanha dedicação, davam plantão à noite tentando resolver o problema. Algumas visitas voluntárias até dormiam como acompanhante, uma mostra de solidariedade humana. Duas beatas de uma igreja da redondeza, quando souberam do acontecido entraram nessa corrente, dando seu sacrifício para confortar o pedreiro. Ramona, um conhecido homossexual, fez várias tentativas para debelar o priapismo do jovem, ele gostava de admirar aquela “doença.”

Adonias foi se recuperando dos ossos quebrados, mas a dureza continuava desafiando a medicina, mesmo com todas as solidárias tentativas.

O dono da construtora contratou algumas jovens da Boate Areia Branca. As profissionais não conseguiram amolentar. Pedro já se sentia incomodado com tanta gente cheia de caridade.

Depois de sete dias e seis noites de ininterrupta rigidez, lembraram em falar com Mãe Dolores, que atendia num terreiro do Tabuleiro. Certa noite levaram Mãe Dolores, coroa bonita e experiente, ex dançarina do Circo Garcia, ainda jovem trabalhou em várias casas noturnas pelo Nordeste. Conhecida dos velhos boêmios pelos seus dotes e serviços completos, ela sabia posições sem nunca ter lido o Kama-Sutra, fazia um “frango-assado” como ninguém. Uma mestra.

Explicaram qual o trabalho, abaixar o priapismo, ela aceitou. Ao chegar à Casa de Saúde pediu para ficar a sós com o paciente dentro do apartamento e entrou com ramos e óleo de benza trancou a porta por dentro. Mais de 40 minutos se passaram quando ouviram um barulho como se fosse um baque no chão. Os amigos bateram à porta, preocupados. Dolores apareceu toda faceira, sorria maravilhosamente com cara desavergonhada. Dentro do quarto, Adonias enfaixado, caído no chão, satisfeito, vibrava olhando a parte afetada: “Consegui! Consegui! Viva Dolores!”

O caso do priapismo foi discutido em seminários em todo o Brasil e no exterior. Alguns cientistas disseram que foi a pancada da cabeça no chão devido à queda da cama que fez voltar ao normal. Os esotéricos acharam que a cura foi devido à reza de Mãe Dolores. Já os boêmios, os conhecedores da vida e dos serviços da dançarina tiveram certeza que foi o divino trabalho de Dolores, sua especialidade, o “frango assado” que ela fazia magistralmente. Mestra nesse ofício, ela ainda tinha mais alternativas além do “frango assado”, como o “psilone”, o “rolo compressor”, o “130”, para resolverem com magia e competência a sequela de Adonias.

A ENXURRADA

Ponte sobre o Salgadinho Avenida da Paz – 1949

A chuva tamborilava nas vidraças das janelas, batia forte feito um chicote. O aguaceiro descia pelo telhado do bangalô, transbordando a calha de zinco, em cuja extremidade, parecendo cachoeira, caía em jorro no gramado do jardim. Três crianças alvoroçadas, alegres, aproveitando a inesperada bica, tomavam banho de chuva, brincavam empurrando um ao outro. Entardecia, de repente ouviu-se um estrondo, o relâmpago iluminou o céu e o mar, por um instante avistou-se alguns barcos, jangadas, balançando em mar revolto, pescadores retornavam da faina diária. O trovão assustou os meninos e os moradores da redondeza. Era final do mês de maio de 1949 quando aconteceu o maior temporal da história de Maceió.

Na cabeça de Gabriel vieram-lhe os caranguejos. Durante trovoadas goiamuns saem das tocas e entram facilmente nas armadilhas. As cinco “ratoeiras” feitas por ele, usando lata de azeite, deviam estar desarmadas, fechadas, com um baita goiamum preso. Dia seguinte, bem cedo, iria recolhê-las, pensava o menino. No início daquela tarde, como sempre fazia, Gabriel colocou cinco armadilhas em tocas de goiamum no sítio de coqueiros de Dona Sinhá, terra salobra, manguezal, celeiro de caranguejos, à margem do Riacho Salgadinho.

Raios e trovões continuavam. Da varanda onde os meninos saltitavam encharcados não se enxergava o horizonte da imensidão do mar. Naquele momento estacionou na porta do bangalô um Ford 1946, preto. Doutor Bernardo abriu a porta do carro e o guarda-chuva, correu em direção à casa atravessando o jardim. Ao chegar à varanda foi abraçado pelos três filhos encharcados. Feliz por estar em casa gritou recomendando à esposa:

– Isabel mande esses moleques trocarem de roupa, a chuvarada vai continuar, tenho medo de uma cheia igual à do ano passado.

Não foi preciso o pedido à Isabel, era como se fosse ordem direta aos filhos. Os três correram para seus quartos, tomaram banho, vestiram pijamas, retornaram à sala onde o pai balançava-se numa cadeira de palhinha ouvindo o noticiário da Rádio Difusora de Alagoas – ZYO4, sobre a chuva forte caindo em toda região de Maceió.

Na noite do temporal os meninos brincavam despreocupados. Antes do jantar, Dr. Bernardo pediu ao filho mais velho um grogue. Mário abriu o bar, colocou três dedos de conhaque Napoleón que o doutor tomou de uma talagada, engolindo o líquido que desceu ardendo goela abaixo. Pediu outro, precisava, havia se encharcado na chuvarada, comentou. Depois do jantar a família reunida ouvia as notícias pelo rádio, algumas barreiras caíram na periferia, ninguém sabia a previsão do tempo. O noticiário confirmou que foi o maior volume de água caída na cidade nos últimos anos. Eram nove e meia quando Isabel colocou os meninos para dormir.

Por volta das 10 horas da noite ouviu-se um estrondo contínuo, era barulho de água em movimento. Uma enxurrada em velocidade passava por perto. A tromba d’água descia desde o bairro do Tabuleiro dos Martins 15 quilômetros acima da região da orla e foi se avolumando, crescendo pelo bairro do Farol como uma onda desgovernada, atropelando o que encontrava pela frente. Virou carros e carroças, derrubou árvores. Quando a enxurrada desceu como uma cachoeira no bairro das Mangabeiras, desprendeu-se um enorme pedaço da encosta caindo por trás de mais de 20 casas. A barreira cobriu de terra e lama essas casas, muitas pessoas morreram soterradas.

A tromba d’água tomou o Vale do Riacho Salgadinho, cada vez mais volumosa, insustentável, levava o que havia no leito do riacho. Na foz, no desembocar do mar, a água chegou avassaladora quebrando ao meio a ponte de concreto da Avenida da Paz sobre o riacho, arrastou os dois blocos pesados da ponte à beira mar.

No vão onde havia a ponte sobre o Salgadinho, ficaram apenas os trilhos dos bondes pregados em seus dormentes. O tamanho da tragédia foi avaliado quando o dia amanheceu.

Fragmentos do romance MANGUABA a ser lançado em julho

O LEILÃO

O fato se deu no início dos anos 60, quando não se ousava pensar em tenebrosas transações, o mundo era mais puro e idealista, embora não fosse tão politicamente correto com deveria sê-lo.

Jaciara bela e exótica cafuza, cabelos negros escorridos, rosto redondo, olhos agateados, lábios carnudos e encarnados, era conhecida como Índia, morava com o pai, cortador de cana, pobre e analfabeto, sem perspectiva de vida melhor.

A mãe fugiu com um motorista de caminhão, arribou pela estrada afora, tornou-se prostituta estradeira. O pai de tanto desgosto começou a beber muito, não aparecia para cortar cana, o capataz da fazenda ameaçou-lhe tirar a casa de taipa. Sem deixar a cachaça terminou morrendo. A menina Jaciara ficou só no mundo. Aconselhada por amigas foi tentar sobreviver na capital. Procurou de casa em casa até arranjar trabalho de empregada doméstica. Tinha disposição, fazia uma faxina caprichada agradou à patroa. Acontece que sua sensualidade e beleza agradaram ao patrão, aos dois filhos e até ao pai do patrão, o avô, o bom velhinho quando olhou a Índia pensou que ainda era moço, e tentou. Jaciara tinha prometido ao pai casar virgem, para cumprir a promessa e evitar o assédio dos quatro machos da casa, após cinco meses de trabalho, sem comunicar a patroa largou o emprego, tinha apenas 17 anos.

Sem ter para onde ir, ficou sentada na orla olhando o mar, com uma maleta no chão. Nessa tarde conheceu Cícero, um homossexual que com pena levou-a para sua casa, pediu a mãe para dar guarida até arranjar emprego. Na casa de Cícero não se podia pagar empregada. Jaciara fez alguns trabalhos em troca da comida e dormida. Difícil uma analfabeta achar emprego.

Certo dia uma vizinha, ao vê-la, aconselhou: “Menina você é muito bonita, os homens lhe desejam, vá ganhar dinheiro no cabaré.” “Eu sou virgem”, disse Jaciara. –“Sua virgindade vale ouro, muito coronel pagaria um dinheirão para tirar-lhe o cabaço”.

O Cão, o Belzebu ficou atentando o juízo de Jaciara. Numa noite procurou a vizinha, pediu para levá-la à zona. Ao chegar à Boate São Jorge, bairro boêmio de Jaraguá, subiram a íngreme escada, Jaciara empolgou-se com a beleza do salão. O dono, o rei da noite, chegou perto, a amiga foi falando: “Pai Velho, olhe o presente que trouxe para você, essa bela índia”. Aproximou-se, cochichou no ouvido: “É virgem”.

O Negrão conhecedor profundo da alma boêmia interessou-se por Jaciara, o fato de ser virgem, deixou-lhe empolgado. Havia quem desse um bom dinheiro por aquela jovem. Mandou-a esperar, Jaciara estava deslumbrada com a música do conjunto, a alegria da casa, os pares dançando no salão. O “Pai Velho” levou-a ao escritório, um quarto especial. Deu alguns trocados para amiga e despachou-a, ficou com Jaciara, era todo sorriso, simpático, passava confiança às meninas, adorado pelas raparigas. Fez algumas perguntas à Índia. De repente pediu-lhe para tirar a roupa. Jaciara desabotoou os laços nos ombros, o vestido de chita caiu no chão, desabrochou a beleza seminua da jovem, o Pai Velho encantou-se. Se não fosse virgem ele seria o primeiro, contudo, aquela virgem valia ouro. “Você vai passar alguns dias só aparecendo no salão, tome dinheiro, compre três vestidos, toda noite fique bem bonita se mostrando de mesa em mesa, não vá para o quarto com ninguém, diga que é virgem, eu vou arranjar alguém especial para lhe tirar a virgindade, depois fica trabalhando na boate.”

Toda noite Mossoró anunciava o leilão da virgem Jaciara no dia do Show de Reinaldo, uma trupe divertida de travestis, e inauguração da luz negra no salão. Na noite marcada a Boate estava cheia; políticos, coronéis, usineiros, reservaram mesa. Foi uma das maiores festas na história do bairro boêmio de Jaraguá. Um rico fazendeiro arrematou a Índia no leilão. Colecionador de cabaços, ele usava um colar, cada conta, uma virgem sacrificada. Pagou uma fortuna por Jaciara. Depois, não houve outra alternativa, ela continuou sua vida no cabaré.

O CONFORMISTA

Raimundo é cearense, foi trabalhar em Maceió nos anos 70 e ficou morando para o resto da vida. Religioso, crente e conformista, não perde missa, comunga aos domingos. Toda calamidade acontecida ele encara com a frase conformista predileta: “São os desígnios de Deus”. Sua religiosidade tornou-o um homem temente ao Todo Poderoso. No Colégio Marista do Ceará era considerado peixinho dos irmãos pela inabalável fé aos dogmas da Igreja Católica. Rezava muito, ajudava a missa, coroinha. Era mostrado como um exemplo de jovem o que deixava a galera do mal enciumada. Tornou-se alvo de muitas brincadeiras irreverentes. Raimundo nem aí, firme em suas convicções com muita personalidade.

Na maturidade preservou o sentimento religioso conformista. Tudo que acontece, seja bom ou mal, para ele são os desígnios de Deus. Sua mulher Iolanda, depois de 35 anos de casados, dois filhos encaminhados, funciona na prática uma irmã e amiga, cuida bem do marido e da casa, mas não se cuida, já ultrapassou os 121 quilos. Mais de três anos sem sexo completaram o casal.

Com todos predicados religiosos, Raimundo não é o santo que se parece; tem seus pecados. Gosta de uma garota de programa em alguma tarde. Ele tem uma agenda confidencial com a relação de amigas que lhe prestam serviços agradáveis. Uma vez na semana telefona para alguma.

Certa tarde Raimundo estava dirigindo pela orla de Pajuçara para refestelar sua alma olhando o verde-azulado do mar. Ao longe ele avistou uma mulher num ponto de ônibus pedindo carona com a mão. O cearense parou o carro adiante, a moça se aproximou perguntando:

– Vai até o Hotel Jatiúca?

Ele abriu a porta e a bonita jovem já foi sentando, cruzou as belas pernas mal encobertas pela mini-saia. Deu uma sensação de fervor nas veias de Raimundo. Puxou conversa até chegar no Hotel. Michelle antes de dar o número do telefone pedido, se ofereceu:

– Você foi tão gentil, não quer um agradecimento logo adiante na praia de Cruz das Almas?

O coroa ficou entusiasmado pela aventura inesperada. Seria coisa rápida, disse ela. Nosso amigo empolgado estacionou o carro embaixo dos coqueiros perto a outros carros que ali estavam enquanto os ocupantes se dedicavam ao amor vespertino. Michelle pediu para ele se dirigir mais adiante, num local mais ermo. Raimundo atendeu, estacionou o carro num local mais deserto no meio do coqueiral.

O cearense ficou encantado com a habilidade da jovem quando acabou a função. De repente, Raimundo ouviu um “toc-toc” no vidro do carro, ao olhar de lado havia um cano de revólver apontando, e uma voz mandando abrir o vidro. Eram três meliantes. Colocaram o casal no banco traseiro, deram a partida, um dos meliantes tinha um revólver na mão direita e alisava o cabelo de Michelle com a esquerda. Rumaram pelo litoral norte. Nos arredores da praia mais deserta, o motorista estacionou, era tarde, estava escurecendo.

Os assaltantes mandaram os dois descerem, cataram dinheiro, carteira, cartão, tudo que podia. Um dos meliantes obrigou Michelle a fazer o que ela já havia feito com Raimundo. Os outros dois bandidos barbaramente estupraram Raimundo por trás de uma moita. Deixaram o cearense sozinho na praia. Levaram o carro e a moça.

Foi um pesadelo para nosso herói, a região ficou dolorida. Andou até um povoado, de lá tomou um táxi, foi para casa. Contou a sua mulher sobre o assalto, prestou queixa à Polícia, omitiu o detalhe da jovem e do estupro.

No dia seguinte pela manhã recebeu a boa notícia: tinham encontrado o carro abandonado na fronteira de Pernambuco. O carro estava intacto, Raimundo providenciou as segundas vias dos documentos. Só teve um problema: toda noite sonhava com o estupro e gostava no sonho. Teve a ideia de procurar um médico, fazer análise. Depois de algumas seções, ouvindo a história do estupro e dos sonhos noturnos, o médico psiquiatra concluiu que sua sexualidade é ambígua, ou seja, Raimundo é bissexual.

O coroa cearense continua com suas garotas de programa, e agora variando com menininhos para aliviar seus sonhos. Não teve coragem de contar a história verdadeira ao padre no confessionário. Mas em seus pensamentos e devaneios se justifica, ele ser bissexual faz parte dos desígnios de Deus. Raimundo é um convicto conformista.

A PRESENÇA DE ISAURA

Na fila da loteria Heleno contemplava o belo pescoço da senhora em sua frente. De repente a coroa virou o rosto, ele reconheceu Isaura, ficou feliz ao rever um amor de sua juventude.

Não pararam mais de conversar. Depois continuaram contando suas vidas sentados num banquinho. Há muitos anos não se viam.

– E aí Heleno, você continua mulherengo?

– Hoje estou solteiro. Dois casamentos não deram certos. Sou ainda o romântico incorrigível procurando alguém para lhe substituir. Nunca encontrei.

– Você é um danado! Sempre gentil!

– Não é gentileza Isa. Depois de tantos anos, sou um sessentão e você beirando; uma mulher casada, respeito seu marido, mas posso dizer sem mágoa, você sempre foi a mulher de minha vida, nunca lhe esqueci, conservo esse amor bonito dentro de mim. Esse negócio de dizer que sou mulherengo é verdade, depois que você se casou, descambei para as raparigas, tornei-me um grande boêmio, tive muitas mulheres, minha vida desregrada foi fruto da dor-de-cotovelo por você me ter abandonado.

– De fato nosso amor foi bonito, todos comentavam nossa paixão, nosso namoro avançado. Naquela época namorados não transavam, mas você queria muito. Uma paixão louca! Era tarado por mim. Precisei me segurar muito para continuar virgem. Mas você foi culpado queria todas as mulheres do mundo.

– Lembra da bóia na praia da Avenida? Eu colocava a bóia de pneu de caminhão dentro d’água, você estirava seu corpo fazendo os braços de remo, e me segurava na borda da boia, por baixo as coisas aconteciam, ninguém percebia. À noite eu subia ás casas de raparigas de Jaraguá. Fazia o serviço pensando em você.

– Menino sem-vergonha! Como a gente era feliz!

– Como está o Josafá, o homem mais feliz do mundo, o homem que tem você nos braços há mais de 30 anos?

– Heleno, vou ser sincera. Desculpe o desabafo, afinal você é um amigo confiável. Namorei normalmente com Josafá, não era aquela coisa doida de nosso namoro. Nos casamos construímos nossa família. São dois filhos casados e independentes. Tenho um neto. Ano passado tive duas tristezas na vida. Descobri que Josafá tem uma amante, menina nova, sustentada por ele há três anos. Encheu-me de mágoa. E o pior, descobri um câncer na mama esquerda. Já me operei, tenho como tratar do câncer, os médicos dizem que posso controlar a doença e viver muitos anos. Mas o meu marido não dá mais para controlar, ele está apaixonado por essa sirigaita. Eu vivo só, ninguém sabe que se passa comigo, vivo indignada dentro de minha dignidade.

Heleno apertou sua mão, olhou nos seus olhos.

– Minha querida Isa, não aguento isso, deixe a merda desse marido. Eu ainda lhe amo, sempre lhe amarei, estou à sua espera o dia que você quiser, pelo resto da vida. Amanhã pela tarde estarei viajando, vou passar quase um mês no navio COSTA MARU, sai do cais do porto direto para Europa, atravessando o Oceano Atlântico. Quando eu retornar quero conversar com você. Está certo? Você promete que me vê? Me dê seu telefone.

Despediram-se com beijo no rosto.

À noite o Josafá chegou meio tarde e meio bêbado. Na hora de dormir, Isaura alisou o corpo do marido, beijou-lhe o pescoço, foi se achegando como pedisse carinho, um pouco de atenção. Nesse momento ele falou aborrecido, grosseiro.

– Não quero, não quero pegar sua doença. Você está com câncer Isaura!

Deu-lhe um empurrão, virou-se para o lado e adormeceu.

Humilhada e ofendida, chorando baixinho, ela correu ao banheiro, sentou-se na privada e caiu em prantos, chorou muito. Certo momento se recuperou, respirou fundo, levantou-se, olhou-se no espelho, achou-se uma mulher bonita, conservada, atraente. Veio-lhe um sentimento forte de auto-estima, jurou para ela mesma nunca mais chorar por Josafá, e que curava o câncer.

Retornou à cama, custou a adormecer. Fez um retrospecto de sua vida, ninguém mais dependia dela, ninguém. Pensou bastante no que seria o futuro que lhe restava junto à Josafá.

Eram oito horas da manhã quando ela levantou-se. Tomou café, trocou de roupa, foi ao cabeleireiro, à manicure. No shopping comprou roupas, foi ao banco, almoçou. Chegou em casa por volta das duas horas, arrumou a mala, escreveu uma carta simples para Josafá. Tomou um táxi.

O navio Costa Maru repleto de passageiros desencostava do cais. Na balaustrada do convés Heleno contemplava o mar, o casario da Avenida se afastando, diminuindo de tamanho. Ele feliz e embevecido com a cor do mar de sua terra, quando, de repente, sentiu uma mão por cima da sua; ao olhar de lado teve a mais bela visão de sua vida, a presença de Isaura.

O SÁBIO

Olegário assim que aposentou-se comprou um sítio com uma bela casa para as bandas de do Alto de Ipioca. Uma linda vista da praia e um clima gostosamente ventilado. Contratou um caseiro para tomar conta do sítio e deu certo nos afazeres. Lula, o caseiro, ficou morando numa casa de taipa dentro do sítio, bem arrumada, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro.

Olegário gostou de Lula, trabalhador, incentivou ao empregado arrumar uma moça e casar ou amigar. Lula confessou que ter acontecido uma decepcionante experiência marital. Sua mulher fugiu com um pilantra, ele preferia ficar só na vida.

Certo dia o caseiro foi a Rio Largo, aniversário de um primo, conheceu Esmeralda, morena bonita, 26 anos, também separada.

A família começou a incentivar em namoro entre os primos. Lula ainda traumatizado com experiência de ser corno, foi engolindo a corda. Depois de algumas cervejas os dois já conversavam animados. No mês seguinte Lula parou um caminhão na porta de Esmeralda, pegaram uma cama e um guarda-roupa, se juntaram na casa de morador do Sítio de Olegário.

A lua-de-mel durou pouco, Esmeralda tem um defeito congênito que alguns chamam de furor uterino ou comichão na genitália ou ninfomaníaca, o companheiro tem que ser ótimo de cama para dar conta e Lula não é tão bom assim. Com certo tempo Olegário ouviu alguns cochichos, Esmeralda estava saindo com moradores e vaqueiros das redondezas, até o menino Pedroca visitava a mulher enquanto. Lula toda tarde entrava nas matas em busca de lenha ou fiscalizando os caçadores proibidos por Olegário, deixava a mulher sozinha, sem ter o que fazer. Alguém chegou a fuxicar em seu ouvido, ele não quis saber, achava Esmeralda honesta, gostava dela, lhe dava carinho e boa comida quando chegava cansado da mata. Mas ficou desassossegado com o fuxico.

Nos fins-de-semana o casal descia à belíssima praia de Ipioca, direto para a bodega do Joaldo. Os dois casais se davam bem, tomavam cerveja, cachacinha, iam à praia, tinham um domingo maravilhoso. Até que Joaldo deu para visitar Lula com assiduidade, mesmo sem Lula em casa, ele aparecia para uma prosa com Esmeralda. Precisou um amigo abrir o jogo: Joaldo estava de caso com sua mulher, toda tarde ele chegava sorrateiramente para visitá-la.

Lula ficou indignado. Logo seu maior amigo, fazer uma traição dessa! A coisa não ia ficar assim. Depois de muito remover, pensar, resolveu dar fim aquela história que machucava o fundo de seu coração. Foi à Feira do Passarinho, comprou um velho revólver, R$ 150,00. Ao entrar em casa Esmeralda desconfiou, havia alguma coisa no ar, perguntou porque ele estava estranho. Lula pediu que o deixasse em paz. No outro dia, domingo, os dois desceram até à casa de Joaldo. Enquanto as mulheres foram à praia, Lula pediu um particular com o amigo. Foram para mesa de um bar mais afastado. Ele foi direto, estava com mágoa no coração.

– Joaldo, estou com um problema. Primeiro eu desconfiei, agora tenho certeza de um caso muito sério. Esmeralda está me traindo, ela tem um amante. Eu preciso acabar com esta situação. Comprei uma arma, está aqui em minha cintura, vou matar o amante de minha mulher.

O amigo respirou fundo, baixou os olhos, maior silêncio entre os dois. De repente Joaldo olhou nos olhos de Lula e falou bem pausado.

– Meu amigo, não faça isso. Você vai acabar sua vida por causa dessa mulher que não lhe merece. No mínimo 20 anos de cadeia. Eu estou sabendo que ela é doente, precisa procurar um médico para ver se tem cura. Se você matar esse cara, vai ser uma desgraça.

Segurou na mão do amigo e perguntou

– Escute! Por quanto você comprou o revólver?

– R$ 150,00

– Vamos fazer um negócio! Eu estou precisando de uma arma na venda, tenho medo de assalto, lhe dou R$ 250,00 por ela está bom?

Calaram-se, um olhando para o outro. Lula pensou, pensou, depois de alguns minutos de silêncio, chegou às conclusões.

– Você tem razão, não vale a pena pegar uma cadeia por aquela cadela. Mas, me faça um favor, eu vou para casa agora, você diga a essa vaca que não pise mais em minha casa, vou queimar tudo dela. Ela não apareça!

Pegou o dinheiro de Joaldo, colocou no bolso, entregou o revólver, levantou-se. Subiu ao Alto de Ipioca aliviado da dor que oprimia seu coração. Prometeu-se nunca mais casar, só raparigar. Hoje Lula, o Sábio, vive sozinho no Sítio do Olegário, com direito a levar uma amiga para esquentar a cama juntos. Casar nunca mais.

O CUNHADO

Beth, Sofia e Gina eram três moças bonitas, seus pais colocaram esses nomes em homenagem às artistas de cinema: Elizabeth Taylor, Sofia Loren e Gina Lolobrígida. As meninas não perdiam em beleza para as três celebridades da época. Moravam em Jaraguá perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Quando desciam para a praia da Avenida da Paz, nós, jovens ratos de praia, interrompíamos o futebol, a bola parava para apreciar a chegada daquelas magníficas moças, fonte de inspiração dos tarados, que dentro d’água se possuíam na intenção das gostosas musas.

Acontece que elas tinham um irmão mais velho, alto, forte, sua musculatura mantida por duros exercícios contrastava com o cérebro, do tamanho de uma ervilha. Sebastião era conhecido por sua valentia, aliás, por suas brigas. Era o maior arruaceiro do bairro e da zona das raparigas de Jaraguá. Certa vez brigou com quatro policiais, foi preso, espancado. Passou a detestar qualquer tipo de polícia. Ele tinha um afeto e ciúme pelas irmãs, doentio. Partia para briga quando alguém chamava alguma irmã de gostosa.

Epaminondas, estudante de medicina, encantou-se com a mais nova. Com a permissão do cunhado começou a namorar com Gina. Namoro decente como era naquela época, mão na mão, em vez em quando um beijinho. Sempre com a fiscalização ostensiva de Sebastião. Certa noite, depois do namoro comportado, ao voltar para casa, uma moça mal falada isto é, que gostava de um amor mais avançado, provocou Epaminondas que prontamente entrosou-se com ela, colocou-a no jipe, terminou numa noitada estacionado no Posto de Salvamento da praia do Sobral.

Epaminondas estava feliz, todo dia namorava com sua amada Gina, depois ia deslanchar com Julieta no jipe ao carinho da brisa do mar.

Certa noite Beth, a cunhada, viu Epaminondas apanhar Julieta para mais uma seção de exercícios no jipe. Na noite seguinte quando Epaminondas chegou na casa de Gina, ela estava uma fera, namoro acabado, não admitia ser trocada por uma vagabunda. Nesse momento Sebastião apareceu arregaçando as mangas da camisa, com cara trancada, falando alto que irmã dele não levava chifre. Epaminondas na hora tomou um susto, brigar com Sebastião, era apanhar na hora, levaria uma surra histórica. Com presença de espírito, ele convidou Sebastião para tomar uma bebida e conversar, tentação irresistível para o arruaceiro, que vivia sem dinheiro. Foram para um bar por perto, desceram cerveja, pinga e tira-gosto. Epaminondas explicou que Julieta era só para se divertir, ele gostava mesmo de Gina, namoro para casamento e coisa e tal. No campo da astúcia Epaminondas ganhava tranqüilo do mastodonte.

Foi uma noitada de muita bebida, passaram por sete bares diferentes. Sebastião onde chegava provocava alguém, a sorte é que os provocados tiravam o corpo fora.

Mias tarde, Sebastião já na maior amizade com Epaminondas, só o chamava de cunhado, inventou de dar uma volta nos cabarés de Jaraguá. Epaminondas acabou concordando, partiram para gandaia.

Ao passar no final da Avenida da Paz, Sebastião pediu para parar o jipe. Saltou, dirigiu-se a um policial militar que fazia ronda. Epaminondas não acreditou no que via, Sebastião deu três murros no policial deixando-o no chão, deu ponta pé, recolheu o capacete e correu para o jipe.

Epaminondas assustado deu partida e por insistência parou na Boate Alhambra. Sentados em uma mesa Sebastião colocou o capacete em sua cabeça. Pediram cachaça e duas raparigas. Depois da primeira dose Epaminondas conseguiu tirar o capacete da cabeça do cunhado, colocou-o embaixo na mesa, estava apreensivo com aquela maluquice.

Certa hora Epaminondas foi ao sanitário. Ao retornar percebeu a confusão, seis policiais xingando Sebastião, todos falando alto. Saiu do banheiro sem ser percebido, desceu a escada íngreme de um salto. Teve sorte, não havia policial no jipe, conseguiu chegar em sua casa na Avenida da Paz.

No outro dia, soube do acontecido, o cunhado brigou com os seis policiais, levou muita pancada, amarraram o arruaceiro, levaram preso para 2ª Delegacia, onde deram uma surra inesquecível.

Epaminondas é quem esqueceu a bela Gina, passou muito tempo sem passar perto da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Evitou pelo resto da vida encontrar-se com Sebastião, seu ex cunhado, o maior arruaceiro da paróquia de Jaraguá.

AGENDAMENTO, VERDADES E MENTIRA

Por solicitação de meu urologista, Dr. Ronalsa, ontem fui marcar exame de Ressonância Magnética da próstata. Ao chegar no laboratório no Stella Maris fui informado que aquele exame só era realizado no laboratório da Ponta Verde. Lá vou eu pegar outro taxi. Para quem não sabe, deixei de dirigir há sete anos, quando fui renovar minha carteira de motorista exigiram tanto teste que desisti. Não renovei a carteira e desde aquele dia só ando de taxi. Dei o carro à minha filha.

Ao chegar no laboratório fiquei deslumbrado com a fachada maravilhosa de vidro fumê, o Dr. Chico deve ter gasto uma nota, pensei. Logo na entrada peguei uma senha de atendimento. Marquei na maquininha: Ressonância e Prioritário. Saiu uma ficha RP 150. Fui sentar-me esperando a vez, encontrei meu amigo de longas datas, Dr. Jair, ele olhou-me e filosofou.

– Meu amigo, antigamente a gente se encontrava nos bares e biroscas da cidade, hoje só nos encontramos em sala de médico ou laboratório.” Deu uma gostosa gargalhada.

Fiquei esperando sentadinho em meu lugar. Quando percebi uma mulher passando e sentando-se mais adiante. Olhei, reconheci, era Aninha, fui cumprimentá-la. Cheguei-me por trás dei um cheiro em seu cabelo. Ao olhar-me, a mulher disse um ôxente com voz e cara de braba. Quase morro de vergonha, não era Aninha, pedi mil desculpas. Ainda bem que a mulher se acalmou, foi compreensiva, perdoou-me. Eu descabriado voltei a sentar-me. Esperei mais um pouco, o placar chamou, RP 150.

Fui imediatamente mostrando a documentação pedi para marcar o exame. A atendente olhou-me educadamente, pediu até desculpa, para dizer que eu tinha apanhado a ficha errada, aquela RP era para realizar o exame; para marcar o exame eu teria que pegar uma senha de Agendamento Prioritário. Lá fui eu pegar outra ficha. Saiu do buraquinho a nova senha, AP 433. Ao sentar-me, a ficha AP 426 havia sido chamada. Calculei, tinham 7 pessoas na frente, o que daria, mais ou menos, meia hora de espera.

Descobri algumas revistas, folheei, não me agradaram. Eram, Caras, Quem, e outras revistas de baboseiras com celebridades televisivas. Terminei pegando o celular para passar o tempo. Foi quando entrei no jogo da moda do Facebook: Escrever nove verdades e uma mentira para os amigos acertarem a mentira. Escrevi a lista na hora, já postando no Facebook. Copio abaixo para que meus leitores acertem qual a mentira. Eis a lista:

1 – Já frequentei o terreiro de Menininha do Gantois em Salvador.

2 – Já tomei banho e pesquei no Riacho Salgadinho (hoje esgoto a céu aberto), junto com Cacá Diegues.

3 – Já desci um rapel de mais de 100 metros de altura na Floresta Amazônica.

4 – Votei no General Henrique Lott para presidente da República em 1960. (Jânio Quadros foi o eleito).

5 – Fui entrevistado no programa do Jô Soares.

6 – Fui Presidente da Escola de Samba Unidos do Poço.

7 – Fui amigo de Lamarca na Academia Militar das Agulhas Negras.

8 – Fui descoberto escritor aos 61 anos de idade.

9 – Conheci pessoalmente Fidel Castro em Habana em 2008 na 17ª Feira Internacional do livro, onde dei uma palestra.

10 – Quando fui prefeito da Barra de São Miguel foi aprovada na Câmara de Vereadores a bandeira do município, com as cores do Fluminense.

Quem quiser participar da brincadeira pode responder para meu e-mail (carlitoplima7@gmail.com). Quem acertar a mentira dessa lista ganha um livro, remeterei via Correios.

Mas voltemos ao laboratório. Certo momento reconheci uma amiga ao longe na sala enorme, era a Cláudia, ia acenar com a mão, mas eu estava traumatizado com a mancada da moça parecida com Aninha. Preferi fazer que não via.

Afinal fui chamado, marquei o exame. Feliz da vida fui saindo do laboratório quando encontrei a Sheila Maluf, depois de um papo rápido, reclamei a demora para marcar um exame. Ela estranhou. “Você veio agendar o exame no laboratório? Pois eu agendo por telefone, não gasto dois minutos. Já venho fazer os exames.”

Dei um sorriso de babaca. É isso mesmo, aos 77 anos aprendendo todo dia.

CLODOALDO, O TRÍGAMO

Clodoaldo nasceu em Fernão Velho, belo bairro beirando a Lagoa Mundaú, foi vizinho do grande poeta e pintor alagoano, Pedro Cabral. Menino ainda estudou em Maceió, tem uma vocação irresistível às mulheres. Na juventude tornou-se o conquistador, o rei das raparigas, daí seu apelido, Clodô das Quengas. Conseguiu formar-se em Direito com mais de 40 anos, figura popular e bem humorada da cidade. Repreende quando algum amigo o chama de Dr. Clodô das Quengas. Na hora corrige.

– Favor chamar-me de Dr. Clodoaldo Lima. Não existe o Dr. Clodô, só o Dr. Clodoaldo. Não desmoralize meu título de bacharel!!!

Casou-se cedo depois que engravidou uma prima. Ele costumava dizer que priminha não era irmãzinha, terminou no altar com Josefa, uma mimosa flor do povoado do Riacho Velho, um paraíso de Marechal Deodoro. Clodô nunca se acostumou com a vida de casado, sua vida era de bar em bar pelas ruas da cidade, onde foi encontrando novos amores. Uma delas sua colega de repartição. Ele trabalha, tem uma sinecura na Assembléia Legislativa, coisa mole, vai algumas vezes na semana até para bater papo, rever os amigo. Gaba-se de ter arranjado 280 votos para o deputado, seu protetor. Os votos que o deputado teve em Fernão Velho, ele contabilizava como se fossem todos por ele arranjados.

Um dia apareceu uma menina bonita, vinda do sertão, foi descabaçada por um deputado daquelas bandas, comprou o silêncio com um emprego na Assembléia. Clodoaldo logo namorou Rosinha, a rainha do sertão, como ele apelidou. Numa bela tarde, Rosinha confessou que estava grávida. Rosinha ganhou uma casa da COHAB do deputado sertanejo, onde ainda mora, e Clodô assumiu a paternidade, tem o afeto do menino, um rapaz. Na certidão do jovem consta filho de Clodoaldo Lima, mas é a cara do deputado como dizem as más línguas. Clodô é homem moderno, não se importa com certas picuinhas, ama o menino, seu filho do coração. Do lado de Josefa tem duas filhas, moças bonitas. Rosa e Josefa não se frequentam, mas se aceitam. Os meninos meio-irmãos se dão bem quando se encontram.

Durante a última eleição, Clodoaldo foi enviado pelo deputado para ajudar na campanha no Litoral Norte, tarefa que fez com satisfação porque terminava as noitadas raparigando. Acontece que uma jovem de nome Aparecida, quase da idade de suas filhas, 18 aninhos, encantou nosso Casanova. A moça bonita dava alguma bola, mas quando chegava nos finalmentes ela escorregava feito um muçum ensaboado. De tanto insistir, numa noite de lua na praia de Maragogi, despedida de campanha, Clodoaldo conseguiu com promessa de casamento, casa e comida, uma noite memorável de amor nas águas mornas noturnas. Nove meses depois nasceu na Casa de Saúde Santa Mônica, o menino José Roberto.

Três famílias, três casas montadas consomem todo salário de funcionário e de advogado independente. Clodô vive aperreado de dinheiro, mas, sempre com um sorriso nos lábios e um bom astral na alma. “Trígamo” assumido, convive como pode com as três esposas. As filhas de Josefa até ajudam a Aparecida com o recém nascido. As coisas iam bem com Clodô; as três mulheres não complicam sua vida. Por tudo isso, resolveu realizar uma festa de confraternização no Natal passado. Reuniu, pela primeira vez, as três famílias, as três mulheres na casa da Josefa. O início do encontro foi formal, depois começaram a descontrair. Clodô estava felicíssimo com o feito, as famílias reunidas. A cerveja, a cachaça, o uísque entornando. As três mulheres empurravam direitinho um copo, como também Clodoaldo. Até que certa hora, quando a cachaça subiu para cabeça, Josefa perguntou ao marido;

– Está feliz meu amor? Juntando sua esposa e as suas duas raparigas?

Rosa quando ouviu o desaforo, falou alto, “Rapariga é a mãe”. A outra, Aparecida de imediato foi puxando os cabelos da dona da casa, arrastando-a pelo chão, gritando que Josefa era uma coroa sambada e que Clodô gostava mesmo era dela, novinha e cheirosa. A briga generalizou-se entre as três. Uma dando tapa e puxão de cabelos nas outras. A confusão durou quase uma hora. Só acabou quando cansaram. Clodoaldo conseguiu apartá-las. Levou as duas convidadas para suas respectivas casas. Nunca mais quis saber de juntar as meninas, como ele as chama. Família que bebe unida, nem sempre permanece unida.

A SEMANA É SANTA, MAS ENTRE VINHOS E CHOCOLATES

Meus netos estão se empanturrando de chocolate para alegria dos fabricantes. Essa invencionice comercial, a venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. Nossos netos vêem o ovo de chocolate e o coelho como símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período mais apropriado à meditação, à oração, tornou-se a festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, de muitas transas, e chocolate é conhecido como alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo. Não deixa de ser uma evolução da Igreja, sempre castradora em sua história.

Juntar coelho com ovo de chocolate deu samba de crioulo doido. Meu neto menor em sua inocência perguntou porque o ovo de coelho é de chocolate e o da galinha é de cozinha. Foi difícil explicar.

Sou saudosista das tradições, mesmo sem muita crença, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança ou juventude.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois burricos puseram em cima deles suas vestes, e sobre elas Jesus montou. A multidão estendeu suas vestes e cortaram ramos das árvores, espalhando-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, aclamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Entrando Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam Quem é este? E a multidão respondia: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia.” Assim li, aprendi e está escrito na Bíblia.

Sempre achei essa parte da história de Cristo muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois ser traído e crucificado. Mas para meninada dos anos 50/60, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, um desfile de meninas bonitas, a moçada comparecia mais para paquerar. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena a missa, a procissão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne. Em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau, arabaiana, camarão, feijão ao coco, jerimunzada, brêdo, uma delícia. Por que só existe esse maravilhoso tipo de comida na semana-santa? Nunca esclareceram-me essa dúvida.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para o “Serra Velho”. A serração de velho é uma tradição européia conhecida desde o século XVIII. Reunia-se o grupo de jovens brincalhões, diante da casa de um velho. Serravam um pedaço de tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos “serrados” irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado morreria naquele ano, não chegava à outra Quaresma. A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo vieram lhe avisar que deste ano o “Seu Fulano” não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada”. E liam um bem humorado testamento em versos feitos anteriormente com ajuda de adultos. Os velhos ficavam brabos. Certa vez levamos uma carreira do pai do Toroca na Pajuçara. Seu Pádua um velho ranzinza da Avenida, quando estávamos lendo seu “testamento”, jogou um penico cheio de xixi, tive que ir para casa tomar um demorado banho.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios tocavam músicas fúnebres, era proibido ir à praia, tomar banho de mar, proibido sorrir. As mulheres da vida fechavam as portas dos cabarés e o balaio; nem pensar numa visita fortuita.

À noite todos iam à Igreja para beijar os pés de Nosso Senhor morto. Finalmente o sábado de aleluia. A meninada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público ( quanta gente hoje poderia ser o Judas! ). Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando, tocando fogo no Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos pivetes da vizinhança. (Já estão taxando a malhação de Judas como uma brincadeira primata, politicamente incorreta)

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje é um espetáculo pirotécnico com atores globais para se assistir comendo chocolate e tomando vinho.

QUEM MORREU FOI ADALBERTO

Adalberto saiu do consultório feliz. A geriatra, ao ler o resultado dos exames, constatou diabete, pressão alta e outras achaques normais em um homem de 73 anos. Tudo controlável, além de um regime alimentar passou remédios para a pressão e diabete. Caminhadas diárias cerca de 30 minutos, pouco álcool, recomendou a doutora, podia levar a vida normal. Como era perto das festas natalinas Adalberto deixou para iniciar as recomendações médicas após ano novo. Como o carnaval era cedo, mais uma vez foi adiado o tratamento.

Na quarta feira de cinzas, Adalberto estava com uma bruta ressaca, um péssimo humor maior que qualquer TPM da esposa. À tarde sentou-se na poltrona para assistir a apuração do desfile da Escola de Samba do Rio de Janeiro. Anos atrás ele desfilou pela Salgueiro e torcia por essa escola. De repente deu-lhe uma tonteira, suando frio, uma dor no braço e no coração. Deu um suspiro, tentou levantar-se da confortável poltrona, porém, arriou a cabeça, ali ficou.

Dona Creuza, a esposa, ao chegar no apartamento às sete da noite, encontrou a cena trágica, Adalberto com a cabeça pendida no lado esquerdo. Ela o sacudiu gritando pelo nome, até perceber que estava morto, chamou uma ambulância.

Dia seguinte uma comoção no enterro no Parque das Flores, muitos amigos, Adalberto era criatura simpática, bom comerciante, os amigos ocorreram para despedir do último boêmio da cidade, como disse um parceiro olhando o defunto no caixão.

Em certo momento apareceu uma senhora, aparentando cinquenta anos, rosto bonito, levando pelo braço um jovem de seus 12 anos. O rapaz encostou-se no caixão, alisou a cabeça de Adalberto, chorou sem conseguir parar. Logo todos que estavam no enterro souberam do fato, era filho. Adalberto tinha vida dupla, sustentava outra família num bairro da Ponta Grossa.

Andréa, a filha, e Edivaldo, o genro, ficaram consolando Creuza, ela irada, não se conformava com a traição de tantos anos de Adalberto. Agora aos 60 anos, se achando velha para recomeçar a vida, não havia mais razão de viver. Não ficou para o enterro.

Num gesto impensado, o genro Edivaldo, convidou Dona Creuza para morar no quarto de hóspede de sua casa até a poeira baixar, o tempo é remédio para todos os males. Dona Creuza estabeleceu-se na casa da filha de mala e cuia. Nos primeiros dias pediu para ninguém falar sobre o “Defunto”, assim passou a chamar Adalberto. Não compareceu à missa de sétimo dia. Dizia não encarar as amigas com ar de chorosa, mas no íntimo zombava do chifre que ela havia tomado durante sua vida.

Acontece que Dona Creuza começou a mandar dentro de casa, dava ordens nas empregadas, escolhia o almoço, fiscalizava a faxina, metia-se na vida dos netos adolescentes. À noite assistia todas as novelas, acabando com o prazer de Edivaldo em ver seus filmes escolhidos na NETFLIX. Ficou de vez, ia ao seu apartamento apenas para limpar. Passaram-se quatro meses, Edivaldo, Andréa e os filhos andavam nervosos, chateados com a velha mandando em casa. No início não impuseram condições devido o estado emocional da, agora ficou difícil.

No aniversário de Edivaldo ele convidou alguns amigos para uma cervejinha e almoço no sábado pela manhã. Continuaram pela tarde, acontece que Ulisses, um amigo do jogo de pôquer, viúvo, um boa vida aposentado, engraçou-se de Dona Creuza. Passaram a tarde conversando alegremente. Confidencialmente trocaram telefones. Na semana seguinte encontraram-se discretamente no apartamento da viúva. Dona Creuza com seus sessenta anos ainda tem atrativos. Ulisses um pouco mais novo. Dois meses se passaram, avisaram à família, estavam vivendo juntos. Dona Creuza retornou ao apartamento. Andréa não pode provar, porém, tem certeza que tudo aconteceu por manobra estratégia de Edivaldo, sabedor da situação precária afetiva e financeira de seu amigo Ulisses, convidou-o para o aniversário apostando no namoro dos coroas. O marido nega as insinuações da esposa com um sutil sorriso nos lábios. Hoje todos felizes, como os finais de histórias. Quem morreu foi Adalberto.

ÔI TÊCA!

Têca Braga e a filha, era a dona de Barra Grande, Maragogi

Deu-me uma tristeza profunda ao ler no “Face” sua última viagem, não estava esperando, nem preparado. Foi terrível, uma dor dentro de mim, chorei como uma criança sem conseguir parar. Pensei em você, irmã de minha irmã, minha irmã. Veio-me sua imagem ainda menina brincando em minha casa com a Socorrinho. Lembrei-me de seu pai, Chico Braga, de terno branco, de Dona Naty. Veio-me a lembrança da juventude livre, bela, na Avenida da Paz. Eu tinha maior alegria em levá-las para as festas daquela Maceió bucólica. A Fênix, o Zinga Bar, nós éramos jovens felizes donos da praia mais bonita das Alagoas.

O tempo inexorável trouxe os casamentos. Marcelo entrou na família, vocês além de irmãos tornaram-se compadres de Clailton e Socorrinho. A saudade é imensa Têca. Não sabia que doía tanto, que você era tão importante em nossa vida. Estamos arrasados. Dói muito. Por quê você se foi assim, de repente, sem avisar?

Certa vez o Carteiro disse ao Poeta que a poesia não era de quem escrevia, era de quem precisava. Estou precisando agora dos versos de nosso Chico para esse momento. “A saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento… A saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco, e evita a atracar o cais… A saudade é o revés do parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu…” É o tamanho da saudade que você nos deixou.

Lembrei-me de nossa última viagem, ano passado, pela Europa Oriental retornando por Lisboa. Eu e Vânia nos divertimos, tínhamos seus cuidados profissionais juntados ao carinho. Ficamos encantados com Paulinne. Em Lisboa você era a mais entusiasta com minha palestra e lançamento do meu livro. Parece que estou vendo você no pé da escada da Casa do Brasil comendo acarajé.

Ah Têca, tantos amigos comentando sua ida, cheios de carinhos e saudades. Você era muito querida nessa terra. Chorei ao ler no Zap a mensagem de Socorrinho.

“Custando a acreditar que naquela maca entrando na capela do hospital era você! Custando a acreditar que na sua Barra Grande era seu, aquele corpo tão sereno, tão bonito, e com flores tão coloridas, assim como você viveu todas as cores desta vida! Custando a acreditar que não vou ter mais aquela companheira de todas as horas, aqueles papos amigos cheios de confidências e afagos na alma, em mais nossos almoços, nossos cinemas, nossa viagens, nem nossa Missas! Custando acreditar que não tenho mais aquela amiga feliz, transbordante de alegria, e de saber aproveitar a vida intensamente, mas que o excesso de descuido com a saúde lhe traiu! Obrigado Tequinha por nossa amizade desde sempre, que nos irmanou nos tornando comadres duas vezes! Fique certa que sua luz brilhará eternamente, pois foram muitas sementes que você plantou! Fico zelando por suas quatro pérolas! Custando acreditar na falta que você vai me fazer! Um belo caminho de Deus, minha irmã!

Que lindo minha irmã escreveu. Você Têca, minha querida amiga, sempre prestigiou minhas invencionices. Era a primeira a chegar nas Sextas Clássicas de Marechal Deodoro, não perdia a FLIMAR. Nos lançamentos de meus livros com receio de pouco público eu dizia para mim, pelo menos a Têca Braga vai aparecer. Ainda chamo seu nome de solteira, foi assim que entrou em nossa vida, menina, ficou gravado na mente, na alma, no coração. Têca Braga.

Um poeta inglês, John Donne certa vez escreveu um poema que diz mais ou menos assim. “Nenhum homem é uma ilha, ninguém é sozinho; cada homem faz parte do continente, parte do todo. A morte de qualquer ser humano me diminui porque sou parte da humanidade; e por isso, nunca perguntes por quem os sinos dobram, eles também dobram por ti”.

Nosso mundo ficou menor, se foi um pedaço, uma parte do continente. Nós ficamos diminuídos.Os sinos dobram por você, Têca Braga, mas dobram também por mim, por suas filhas, seus genros, pelos netos e bisnetos, pela Socorrinho, por todos os amigos que você deixou.

Talvez um dia a gente se encontre por aí, quem sabe? Vânia manda-lhe um beijo. Até mais ver, irmãzinha.

A VONTADE

– Estou com uma vontade de dar, de trair o Zeferino. Me dá uma dor no peito, depressão, raiva, pelo desprezo que tenho a meu marido. Vontade de sair com um cara, transar muito, sou a mulher mais carente e idiota do mundo. Conversava Eugênia, chorosa, com a amiga Gabriela

– Até que entendo sua vontade, mas esse negócio de trair, na maioria das vezes torna em arrependimento, piora a depressão. Faça as coisas que o coração mandar, porém, tenha calma, reflita para depois não se arrepender. Aconselhou Gabriela.

– Você condena essa vontade de eu trair, minha amiga ?

– Quem sou eu para julgar? Para condenar alguém. Como amiga posso dar uma opinião, apenas isso. Sei que é uma situação passageira, por isso aconselho pensar, o travesseiro noturno ou uma volta na orla contemplando o mar, refletindo, acalma o coração, faz bem a depressão.

– Gabriela, o problema maior é o meu desprezo pelo Zeferino, nunca pensei, ele é um cara fraco, perdedor, desde que foi despedido do emprego há mais de sete meses, vive dentro de casa, esperando as coisas caírem do céu. Todo dia é uma desculpa ou uma mentira de promessa de emprego, culpando o governo. Eu sustento a casa, comida, água, luz, telefone, o colégio do Carlinhos, tudo com o trabalho de cabeleireira no meu salão de beleza. Não tenho descanso nem aos domingo para sustentar a casa. O Zeferino nem aí, só sai para o botequim, chega na hora do jantar, o português da bodega já não vende fiado. É uma tristeza. Minha única reação é não transar quando ele se achega querendo coisas. Uma noite me pegou a pulso, não sei mais o que fazer. Que ele merece um chifre, merece. Tenho um cliente, coroa alinhado, elegante, faz cabelo e unhas toda semana, olha demais para mim, conversamos muito, eu deixo meu decote bem aberto ele fica contemplando, mas é um homem sério. Da última vez que ele foi ao salão, estava lendo numa revista uma reportagem sobre o filme 50 Tons de Cinza, disse que viu o filme, gostou das cenas de sexo. Eu sorri para ele perguntando se gostava da fruta. O coroa deu uma gargalhada, me respondeu, gosto e é bom. Apesar de ele ter chegado aos sessenta anos, tenho certeza, se eu quiser, sai comigo.

– Eugênia veja o que vai fazer. A melhor solução para briga ou desentendimento é o diálogo. Faça uma força, fale francamente, com o Zeferino, diga tudo que pensa, que ele arranje um emprego, nem que seja de varredor, não é desonra alguma.

Eugênia foi para casa, tirou o fim-de-semana para refletir. Sábado ao entardecer foi contemplar o mar azul-esverdeado da praia de Jatiúca. Pensou bastante nas palavras da amiga Gabriela, psicóloga. Consultou seu coração e à mente, pensou no Zeferino, no Carlinhos e no sessentão cheiroso. Era noite quando retornou à casa, primeiro, uma conversa franca com o marido.

– Que ares de felicidades são esses? Perguntou, dias depois, Gabriela à Eugênia. Vejo que resolveu seus problemas, gostei dessa transformação jovial, acabou-se a tristeza, a depressão, voltou sua alegria.

– Minha amiga, tudo começou com o contemplar do belo verde mar, me senti bem, pensei no que meu coração queria. A primeira decisão foi ter uma conversa aberta com o Zeferino, disse que estava a fim de me separar, fui franca, critiquei as grossuras dele comigo, a preguiça de arranjar trabalho. Finalmente acertamos, outra chance no casamento, eu ajudaria a procurar-lhe emprego. As coisas se arrumaram, estamos vivendo melhor, ele agora tem um emprego arranjado por mim, ajuda no sustento da casa, sua auto-estima melhorou.

– Ainda bem que você apagou a ideia, a vontade de trair com o coroa elegante. Disse Gabriela sorrindo.

– É o que você pensa, o coroa elegante chama-se Francisco, com ele arranjei um trabalho de almoxarife para o Zeferino. O Doutor é engenheiro, tem uma construtora. Homem generoso e discreto. Aqui para nós, satisfiz minha vontade. Apesar da idade, o coroa é ótimo, suas invencionices na cama me deixam louca.

A APOSENTADORIA

Aconteceu na sala de audiências do Fórum, ela apareceu acompanhada da delegada de mulheres. A negra Silvina surgiu com seu permanente e debochado sorriso. A delegada mandou a moça contar a surra que levou do companheiro, o servente de pedreiro Josualdo, que ali se encontrava para depor sobre sua violência intempestiva e seu ciúme incontrolável quando viu sua mulher brincando com a meninada da rua, na Chã da Jaqueira.

Josualdo arrastou-a pelo braço, entrou em casa esmurrando-a. Ele tinha um ciúme doentio pela singeleza e beleza silvestre de Silvina. Conheceram-se há três anos, quando Josualdo foi construir uma casa na praia do Pontal do Peba, foz do Rio São Francisco. Vieram morar na capital.

Como não teve infância, a maior paixão de Silvina era brincar com os meninos da rua. Por tudo isso, Josualdo tinha um doentio ciúme. Proibiu sua mulher de sair à rua e jogar com os meninos. A jovem ficava em casa acabrunhada, infeliz.

Certo tarde, debruçada na janela, assistia a meninada brincar de garrafão. Não resistiu, com sua habilidade atlética foi brincar junto aos moleques. Josualdo retornou mais cedo. Quando viu sua mulher jogando com a meninada, puxou-a com seus fortes braços. Irado esmurrou Silvina que sofria, não pela dor, mas pelo ódio em não poder com Josualdo, um touro de forte.

Foi essa a história contada no Fórum ao juiz na presença do promotor. Era o último caso da carreira do magistrado. Havia solicitado aposentadoria aos 68 anos. O último caso da sua vida como juiz.

Homem sério, correto e honesto, nosso juiz honrou a instituição. Bem casado há 40 anos, três filhos e três netos, viveu sempre para o lar. Em todo tempo de casado jamais prevaricou, fiel à esposa e a seus princípios.

Certa momento, a delegada pediu ao juiz e ao promotor para comprovarem in-loco os edemas, as sequelas da surra de Josualdo. Na sala contígua entraram apenas os quatro. A delegada pediu à Silvina mostrar as manchas no corpo. Num átimo, sem pudor e sem maldade, a negra puxou o zíper, deixou cair o vestido de chita. Deu-se uma comoção ao surgir o corpo moreno perfeito, coberto apenas por uma minúscula calcinha branca. Os seios duros e pontiagudos pareciam dois cuscuzes de chocolate. A lascívia exalada por Silvina deixou o promotor boquiaberto e o vestal juiz encantado. A delegada, percebendo o impacto, o arraso causado aos machos, mostrou os edemas e pediu que a deusa negra se vestisse.

Foi o último julgamento do Dr. juiz. Houve separação, estipulou-se uma quantia do salário de Josualdo como pensão.

O Doutor aposentou-se. Ficou sem trabalhar. Quando cansou do ócio foi ajudar na banca de advocacia de seu filho. Certa manhã de sol, nosso juiz aposentado descia de carro a ladeira do Farol.

De repente seu coração acelerou, reconheceu entre os meninos que vendiam frutas e legumes, a jovem Silvina vestida de short e uma blusa leve. Ela caminhava dengosamente em sua direção com quatro pacotes de feijão verde. Ao ver o juiz, Silvina pulou de alegria e saiu-lhe um grito espontâneo: “Doutor !”. Enfiou a cabeça dentro do carro, com um sorriso encantador e o decote mostrando os seios mais lindos que ele tinha visto em sua vida. Disse em voz clara, quase sussurrando: – “Doutor, sou muito agradecida pelo que fez. Naquele dia tive vontade de lhe dar um beijo, o senhor é um homem bonito. Se precisar de mim, dou o que o senhor quiser, é só pedir”. O Doutor emudeceu, engatou uma primeira, acelerou o carro, medo da tentação.

À noite, durante uma festa, o artista global e poeta, Chico de Assis recitou o belíssimo poema de Jorge de Lima, Nêga Fulô. Quando a voz de Chico cheia de sensualidade recitou os versos: “Essa Nêga Fulô… essa Nêga Fulô…”. Veio a imagem de Silvina, nua, na cabeça de nosso nobre e honrado juiz.

Decorrido algum tempo, o Doutor Juiz passou várias vezes pelo ponto de Silvina, sempre uma alegria quando ela o via. Até que tirou uma dúvida, perguntou-lhe a idade. “24 anos, mas pareço menos”, respondeu. O Doutor Juiz tem agora o que fazer na aposentadoria, pelo menos uma vez na semana, remoça seu corpo, sua alma, nos braços da sua Nêga Fulô.

CINCO HISTÓRIAS DE MÚSICAS E DE CARNAVAL

José Luiz Calazans – O Jararaca – “Mamãe eu quero”

“TONGA DA MIRONGA DO CABULETÊ”

Durante a ditadura havia uma censura impertinente a certos compositores, entre eles Vinicius de Moraes. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse, esposa baiana da época, o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção com o mote anal, para apresentá-la num show no Teatro Castro Alves. Boa oportunidade de xingar os censores sem que eles compreendessem. O poeta ainda se divertia com tudo isso: “Garanto, no Departamento de Censura não tem um que saiba falar nagô”.

Abaixo, a letra da inspirada canção da dupla, Vinicius e Toquinho:

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“Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa, xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê”

* * *

“O MUNDO É UM MOINHO”

Cartola compôs uma das músicas mais bonitas do cancioneiro nacional quando percebeu sua filha caída na boemia desvairada.

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“Ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida,
em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem, amor, presta atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó…”

* *   *

“MAMÃE EU QUERO”

Muita gente pensa que a música brasileira mais cantada no estrangeiro é Garota de Ipanema, na realidade é a música carnavalesca de Jararaca, Mamãe eu Quero. Jararaca, José Luiz Calazans, alagoano do Pilar, fazia a dupla mais conhecida nos anos 50, Jararaca e Ratinho. Certo dia Tom Jobim compôs com Jararaca essa beleza: “Ainda ontem eu vim de lá do Pilar… Ainda ontem eu vim de lá do Pilar…”. Que foi gravada por Djavan.

* * *

“TOURADAS DE MADRID.”

Na Copa do Mundo de 1950, quase 200 mil pessoas assistiam ao jogo Brasil x Espanha no Maracanã, todos cantando: “Eu fui às touradas em Madri. E quase não volto mais aqui. Pra ver Peri beijar Ceci. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha; Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba! Caracoles! Sou do samba, Não me amola. Pro Brasil eu vou fugir! Isto é conversa mole para boi dormir.”

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Final de jogo um homem sentado na arquibancada chorava feito um menino, um senhor foi consolá-lo afinal o Brasil ganhou de 7 x 0 da Espanha. Ele olhou para cima esclareceu ao senhor: “Não é pelo jogo que estou chorando, é pela música, fui eu quem fiz.” Era o grande compositor Braguinha, emocionado com todo Maracanã cantando sua música, ainda hoje tocada em todos os bailes de carnaval.

* * *

“CARNAVAL ADIADO”

Em 1912 o herói, Barão do Rio Branco, faleceu dias antes do carnaval, as autoridades brasileiras, além de decretarem luto oficial, acharam que não era de bom tom que o povo saísse às ruas para brincar e cantar, adiaram o carnaval para o Sábado de Aleluia. Entretanto, os foliões preferiram divertir-se duas vezes, no carnaval e na aleluia, cantando uma musiquinha que dizia assim: “Com a morte do Barão/Tivemos dois carnavá/Ai que bom, ai que gostoso/Se morresse o marechá”. O marechal era o presidente Hermes da Fonseca.

É CARNAVAL – TEM O BLOCO DA NÊGA FULÔ

Há 77 anos eu nascia num ensolarado carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, dancei no baile infantil da Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua atrás dos blocos. Durante a juventude, depois do ano novo, aguardava o carnaval chegar acontecendo nas pré carnavalescas, Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras no Clube Fênix onde a bonita burguesia em fantasia ou smoking , caía no passo. Ao amanhecer, banho de mar na praia da Avenida.

Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava toda noite na Rua do Comércio a Maratona Carnavalesca, além do corso, fila de carros rodeando o centro, em cada esquina uma orquestra tocava frevança. Caía no passo junto às moças virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do carnaval, sem diferenças, apenas sorrisos, remelexo do corpo, a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.

Domingo anterior ao carnaval o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia, desfile e concurso de troças, fantasias e bloco carnavalesco na Avenida da Paz. A turma de Rubens Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, numa carroceria puxada a trator, fazia críticas à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, além de brincarem nas ruas, frequentavam clubes e biroscas da cidade.

Foliões fantasiavam-se com bom humor, Fusco, Tarzan, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição, os Blocos de Frevo (Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros). Depois do desfile, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima, meu pai esperava com um “laco-paco” de maracujá, cerveja gelada e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam quatro a cinco frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci, um bloco de cada vez, iam se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. O último bloco desaparecia em Jaraguá ao anoitecer.

O carnaval começava na noite do Sábado de Zé Pereira. Brincava no corso em jipe, vestido de macacão e maizena na mão, meladeira herdada dos entrudos – primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando, amores surgindo, amores fugindo, amor de carnaval desaparece na fumaça. Quase meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube ou Iate. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.

Domingo por volta das 10 da manhã a moçada já fazia fila, matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, as moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira, “um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanha não tem mais”. “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”. A Orquestra do Maestro Passinha dava as últimas voltas no salão, finalmente o sol nascendo se dirigia à praia arrastando os foliões, dançando o Vassourinha na areia branca, fria, terminava num mergulho coletivo no mar azul esverdeado.

Cansados, molhados, sentávamos num banco da avenida, de mãos dadas ou abraçados à namorada, ainda tínhamos fôlego de beijar, e cantar: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou… “

SAUDOSISTA É QUEM VIVE DO PASSADO. VAMOS ALEGRAR A CIDADE. NO DOMINGO DE CARNAVAL 26 DE FEVEREIRO DE 2017, DESFILE DO “BLOCO DA NÊGA FULÔ” ÀS 15 HORAS PARTINDO DOS SETE COQUEIROS. BLOCO ABERTO, TODOS ESTÃO CONVIDADOS. APANHE A SUA FANTASIA, ALEGRE SEU OLHAR PROFUNDO, QUE A VIDA DURA SÓ UM DIA, LUZIA, E NÃO SE LEVA NADA DESSE MUNDO.

NO FUNDO DO MAR

Rosana estudou em colégio de freira, foi carola de igreja na juventude, quase santa em sua maturidade. Usava vestidos de mangas cumpridas, xales nos ombros, encobria o jovem corpo, ninguém sabia o que havia por baixo daqueles panos. Sua mãe, viúva, lhe alertava, mulher depois dos 25 anos fica difícil arranjar marido, está na hora de namorar para casar, tente conseguir alguém que possa lhe sustentar.

Por meio de um deputado amigo, e amante, a mãe arranjou-lhe um emprego na Secretaria de Finanças. Nessa época Rosana conheceu, namorou, Jorginho, baixo, falante, advogado de uma empresa. Sem muito amor, depois de dois anos entre namoro e noivado casaram-se na Igreja dos Martírios, muitos parentes, amigos, lua-de-mel em Salvador. Rosana casou-se virgem, assim conservou-se durante o noivado graças ao respeito do noivo, se fosse da laia de certos indivíduos, aquele cabaço havia voado há muito tempo.

Jorginho ficou surpreso com o desempenho de Rosana na cama, fogosa que nem uma égua no cio, montou e se fez montada, ele voltou da lua-de-mel exausto. Ao retornar à vida normal ficou preocupado com sua ardente mulher, daria conta? Entretanto, Rosana continuou em vestidos longos, cinzentos, assexuados. Somente Jorginho no mundo conhecia verdadeiramente aquela loba cheia de furor na cama, na rua uma dama. Anos passaram, dois filhos crescidos, Rosana continuou do trabalho para missa, para casa. Tinha um tratamento respeitoso ao marido, excelente dona de casa. Só não abria mão de seu banho de mar aos domingos na praia da Pajuçara, defronte ao apartamento. Jorginho não gostava de praia, ela sozinha. Sempre com um maiô discreto.

Em certo momento, as coisas foram mudando, Rosana tornou-se mais alegre, havia felicidade explícita em seu sorriso, chamava Jorginho de meu amor, coisa nunca vista nos 20 anos de casados, seus vestidos encurtaram, colaram nas curvas do corpo, na praia era um biquíni, Rosana tornou-se outra mulher. O marido ficou com pulga, carrapato, piolho e o cão atrás da orelha, nunca vira uma transformação tão radical em uma pessoa. Ele passava o dia a matutar. O que estaria acontecendo? Será influência de alguma colega de repartição? Será que pirou? Deixou de acreditar nos santos? Está me galhando? Ao pensar nessa última pergunta, deu-lhe uma tristeza profunda, aquela depressão típica, exclusiva de corno. Não teve coragem de esclarecer tão delicado assunto com a esposa. Ficou sofrendo calado, sozinho, o pior sofrimento.

Certa manhã tomou decisão, foi ao centro da cidade, subiu no Edifício Breda, conversou com um detetive particular. Contou toda história a Audálio. Ele pediu-lhe uma foto da mulher e seu itinerário normal. Jorginho, contrariado, sentindo-se um traidor, deu-lhe as informações dos locais mais frequentados, inclusive o banho de mar aos domingos, um mergulho na praia da Pajuçara em frente ao seu edifício.

Audálio fez o trabalho, primeira semana sem algum fato concreto, nenhuma pista de traição. Continuou. Seguiu a mulher por toda cidade, nada de anormal, um mês, dois meses de investigação. Jorginho desistiu, era só uma transformação de mulher madura, medo de velhice prematura, como disse o psicólogo. Pagou a Audálio. O detetive ficou frustrado, uma desmoralização, nunca havia desistido, perdido um caso.

Audálio, sem cliente, por distração, continuou seguindo a mulher de Jorginho em todos os lugares, até que num belo domingo, percebeu Rosana entrar o mar, alugou uma bóia de um rapaz alto, espadaúdo, que a ajudava segurando a bóia, chegaram ao fundo até dar água no pescoço. O detetive tirou várias fotos de Rosana apegada ao moreno. Por baixo da bóia, ninguém percebia, discretamente tirava o biquíni, entrava em erupção na água tépida da Pajuçara. Em casa, Audálio revelou as fotos, eram contundentes, amor no fundo do mar, sentiu-se triunfante. Pensou no marido, era apenas mais um corno no mundo, estava feliz, não valia a pena, deu-se por vitorioso, rasgou as fotografias.

O GRANDE ÍDOLO

Eram dois irmão chamados Zé, Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamavam o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, sem cerimônia, assim ficou conhecido. Tornou-se comerciante de material de construção, solteirão convicto, chegado às mulheres da vida, nunca namorou. Certo dia apareceu na casa de sua mãe, uma prima vinda do Rio de Janeiro, Zulmira, havia passado dos 30. Zé Pequeno ficou encantado com a vistosa loura, roupa decotada, divertida, sem meias palavras, dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Suas conversas escandalizavam a família e amigos. A maldade humana especulava a profissão de Zulmira no Rio de Janeiro.

Entretanto, o coração tem razões que própria razão desconhece. Zé Pequeno ficou encantado, apaixonado, pela prima. Não adiantaram os fuxicos, as previsões dos amigos. Zé Pequeno respondia, sabia o que queria. Terminou casando-se com a bela Zulmira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres. Com três meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, sua distinta esposa estava com um jovem num motel perto da rodoviária. Zé pegou-a em flagrante saindo do motel. Não houve acordo, acabou o casamento. Foi a crônica do chifre anunciado

Zé Pequeno gostou de ser casado, disse para si mesmo, jamais com mulher bonita, casaria novamente com mulher feia. Certo dia entrou na sua loja, Eulália, colega de infância, estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casou novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Eulália tem uma butique de moda, ganha para seu sustento, é boa e servil esposa. Entretanto, tem duas manias incuráveis, ciúme doentio do Zé Pequeno e neura constante da violência urbana. Ela lê tudo nos jornais sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe todas as histórias contadas no rádio, televisão. Eulália ama o alarmismo da imprensa, faz bem à sua mente, alimenta-se de fatos tenebrosos. Exagera as histórias, terminando com a frase. “Ninguém suporta mais tanta violência!”

Numa bela tarde de sábado, Eulália foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A maioria dos crimes estão na faixa entre 14 e 26 anos, são traficantes, eles se matam por pontos de venda drogas. De repente o palestrante perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado ou quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres levantaram o braço. Eulália pensou, tentou relembrar algum assalto com amigo, nada. Retornou para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi assaltado, frustrante .

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores meninas de programas da cidade. Apanhou a garota, bonita, alta. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ele escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou.

Foi dirigindo ao Pronto Socorro, levou alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Teve uma ideia, uma mentira bem encaixada e registrada. Dirigiu-se à Delegacia de Plantão, abriu um Boletim de Ocorrência. Contou o assalto. Quando abriu o carro estacionado, dois rapazes armados mandaram ele dirigir rumo ao Litoral Norte, ao chegar na praia de Ipioca, mandaram parar. Deram-lhe uma coronhada, ele desmaiou. Levaram o dinheiro da carteira, o celular e o lep-top, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio uma áurea de felicidade e alegria dentro de Eulália, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido. Deu-lhe uma íntima satisfação. Contou exagerando a história para toda vizinhança, como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Eulália. Zé Pequeno agora é seu grande ídolo.

A MULHER DA CAPA PRETA

Aristides cursava a Academia Militar das Agulhas Negras, quando vinha de férias gostava de andar fardado com o uniforme militar. Orgulhava-se de ser cadete e adorava exibir-se. Fazia sucesso entre as garotas.

Durante as férias houve uma festa de 15 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um empresário que por sua ousadia de homem de negócios tinha ficado rico, muito rico, morava numa mansão na praia de Pajuçara.

Os jovens dançavam no imenso salão iluminado por vistosos lustres. Aristides havia recebido um convite formal, como era época de chuva, além de fardado levou a pelerine – capa longa, azul escuro, usada como integrante do uniforme do cadete, cobre os ombros e a parte superior do corpo, tem fendas abertas para os braços.

Quando a orquestra iniciou a tocar “Blue Moon”, Aristides avistou uma bela moça no canto da sala olhando em sua direção. Num impulso irresistível levantou-se em direção à bela moça que vestia o único vestido preto naquela festa. Aproximou-se, antes de convidá-la para dançar, ela abriu os braços dizendo que estava esperando o convite. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço bem apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Certo momento ele perguntou por seu nome. Rita, respondeu a moça. Ele juntou seu corpo ao do jovem, e assim ficaram dançando, mudos, afastavam-se algumas vezes para olhar um ao outro. Caso de paixão fulminante. Dançaram, conversaram. Certa momento, Rita lhe falou, devia ir para casa, tinha que chegar antes da meia-noite. Ele ofereceu-se para levá-la. Na saída chovia muito, chuva intensa, Aristides ofereceu, cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a do aguaceiro, correram em direção ao abrigo de ônibus.

Subiram no ônibus quase vazio. Sentados no banco conversaram como se conhecessem há muitos anos. Ao passar pela Avenida da Paz, Aristides puxou o rosto de Rita, deu um beijo ardente, sentiu seus lábios frio. De repente percebeu que ela chorava.

Perto da praça da Faculdade de Medicina Rita tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa preta, aliás, a pelerine azul escuro. Marcaram na praça.

Aristides, cuidadoso ficou olhando até ela desaparecer na esquina, na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Rita não saiu de seu pensamento durante o dia. Quando o relógio bateu sete horas da noite Aristides estava na praça da Faculdade. Ficou a olhar os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Rita. Até que uma moça assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Aristides bateu na porta. Apareceu uma senhora com aparência triste. Tomou um susto quando o rapaz perguntou se ali morava Rita.

A velha mulher perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Rita, havia conhecido ontem, marcaram para se encontrar naquela noite na praça.

Aristides arrepiou-se, quando a triste senhora respondeu, no dia anterior fez um ano de sua morte num desastre de carro.

Tentando ficar calmo, Aristides contou o encontro da festa. Inclusive. havia deixado com Rita sua pelerine, devido a chuva.

Resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até a capela, aconteciam dois velórios noturnos, famílias choravam seus mortos. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Rita. Ao aproximar-se, perceberam, a pelerine, a capa preta, cobria o túmulo de Rita. Emocionados abraçaram-se chorando. Ficaram no cemitério até a meia-noite quando os portões se fecharam. Aristides não quis levar a pelerine.

Há muito tempo que moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto, ainda vêem, nas noites de lua nova, uma bela mulher, pálida, circulando vestida em uma elegante capa preta.

O Coronel Aristides há 42 anos ininterruptos vem a Maceió, tem uma obrigação, rezar no túmulo de Rita.

Em homenagem a mais famosa mulher do bairro, um grupo de foliões do Prado, comandado pelo agitador cultural Marcos Catende formou um bloco, deu o nome de “Bloco da Mulher da Capa Preta”. Todo carnaval desfila pelas ruas do bairro, com um boneco gigante, uma bela mulher vestida e coberta por uma longa capa preta.

SONHANDO COM GERUSA

Quando José Júlio nasceu, seu pai, Coronel Maurício, dono de terras a perder de vista no sertão, atendeu ao pedido da esposa, Dona Virgínia, bonita e vaidosa, não quis amamentar o filho, medo dos seios caírem, contratou uma ama de leite. Julinho, bebê bonito, rosado, sorriso permanente nos lábios, chorava ao sentir fome. Ele não gostou do leite da primeira ama de leite, uma “velha” que dava de mamar ao seu 13º filho. O jeito foi apelar para Gerusa, bela negra da fazenda, acabava de parir dois meninos gêmeos, dois mestiços, nome do pai não revelado. Entretanto, alguns sagazes perceberam a semelhança dos gêmeos, a começar pelos olhos azuis holandeses do coronel Maurício. Negra descendente de rainha africana, alta, porte elegante, seios pontiagudos, beleza, dureza, pedindo para serem abocanhados. Assim fez José Júlio quando Gerusa ofereceu os seios. Julinho mamava muito, quando lhe tiravam a ama de leite, ele chorava, chorava, só acalmava quando chupava os seios da negra. Mamou sem leite até aos 10 anos de idade, parou porque Gerusa foi sequestrada pelo namorado pistoleiro e se escafederam para bandas de São Paulo. O menino entristeceu, chorou muitas noites seguidas, sonhava mamando Gerusa.

José Júlio desenvolveu o corpo rapidamente, parrudo e espadaúdo, diziam ser conseqüência do leite abissínio da rainha negra. Seu pai o flagrou farejando as empregadas. Ao completar 13 anos, o coronel deu-lhe um presente, levou-o à zona em Arapiraca. José Júlio foi desvirginado por uma rapariga, Pafinha. Depois a reencontrou nos cabarés de Jaraguá.

Ao completar 32 anos, José Júlio, solteiro convicto, um dos maiores boêmios da cidade, anunciou em casa, estava a fim de casar com a nova namorada, Matilda, filha do Coronel Genuíno, dono das terras de São José da Tapera. Ótima notícia para família, quatro meses depois noivou. No dia do noivado seus pais lhe deram de presente uma casa, ou melhor, depositaram na sua conta bancaria o que hoje valeria R$ 450.000,00, para que comprasse a casa. A festa de noivado virou a noite. O casamento era de gosto das duas famílias.

Dia seguinte pela manhã, José Júlio foi ao Banco, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, todo seu, presentão. Filho único. De repente ele surpreendeu-se com a entrada majestosa de uma mulher, a Deusa não andava, desfilava, dirigiu-se ao caixa, todos olhavam seu generoso decote. José Júlio extasiado com aquela aparição, a mulher mais bonita, mais atraente, que já vira em sua vida. Ficou surpreso quando ela o olhou fixamente. Esperou a Deusa na calçada do Banco. Ao aparecer ele se apresentou, José Júlio Nogueira, fazendeiro, advogado. Ela sorriu, perguntou onde tomava uma cerveja nessa cidade. Julinho a levou para uma gostosa barraca de praia, conversaram e beberam toda tarde. Ela, artista de teatro, encenou uma peça no Teatro Deodoro, final da turnê estava voltando para o Rio de Janeiro, onde morava. Terminaram dormindo no Hotel Atlântico. Dia seguinte ela viajou, deixou-o enlouquecido com a noitada de amor; não saiam de sua cabeça os dois seios, duas taças, iguaiszinhos aos de Gerusa, sendo brancos.

José Júlio inventou uma viagem ao Rio. Não retornou, amou Leonor durante cinco meses, duas semanas e dois dias, até acabar o dinheiro da compra da casa. Sem a grana, ele não mais servia para a famosa artista carioca. Julinho caiu em si, escreveu duas cartas pedindo perdão, uma para os pais, outra para noiva.

Algumas semanas depois do retorno, perdoaram o vexame, José Júlio conseguiu reatar o noivado. Certa noite passeava no calçadão de mãos dadas com Matilda. Propositalmente o Coronel Genuíno esbarrou com eles, foi avisando, “Vamos marcar a data do casamento”. Em cinco meses Julinho casava-se na Catedral Metropolitana. As aventuras no Rio de Janeiro ficaram inesquecíveis. José Júlio hoje é um homem pacato, entretanto, seu coração ainda bate forte ao ver passar um belo rabo de saia. Nunca deixou de sonhar mamando Gerusa.

HISTÓRIAS E LENDAS DO VELHO CHICO

Este colunista entre dois canoeiros contadores de lendas e histórias do Velho Chico

Ontem fui a Penedo, cidade histórica belíssima à beira do Rio São Francisco, ao entrar no Centro Histórico, emocionei-me, senti 400 anos me espionando, cada rua estreita enladeirada é um pedaço do Brasil colonial. Igrejas suntuosas e casarões fascinantes fizeram valer as duas horas de viagem a convite dos diretores da Pataxó Tour.

Navegamos o Velho Chico de canoa, almoçamos, pitu, peixe, camarão. O divino pirão deixou-me o estômago cheio. Enquanto os empresários acertavam-se, fiquei a conversar, puxando histórias e lendas dos dois velhos canoeiros. Com convicção da verdade, contaram-me algumas histórias, lendas, faço o repasse.

A MOEDA – No percurso do Rio São Francisco, existem três capelas encravadas em pequenas ilhas ao longo do rio, os canoeiros às vezes param, descem, rezam, continuam a viagem. Certa vez desceu uma família, rezaram à Nossa Senhora. Um dos filhos, 10 anos, achou uma moeda no chão da igreja, abaixou-se, colocou-a no bolso. Terminada a reza, o canoeiro e família continuaram a navegação. De repente o Rio São Francisco saiu da calmaria, começou a levantar ondas, balançando a canoa cada vez mais, uma onda veio tão forte que inclinou a canoa, vários balaios de frutas caíram n’água. O canoeiro gritou: Valha-me Nossa Senhora. Ouviu baixinho no pé do ouvido, devolva o que é de Nossa Senhora ao Rio. Desesperado, ele perguntou se alguém pegou algum objeto da Igreja. O menino tirou a moeda do bolso mostrou ao pai, achou no chão da Igreja. Valha-me Nossa Senhora, jogue a moeda no rio, menino. O pivete lançou a moeda, afundou na água. Naquele momento as ondas começaram a baixar, a canoa tomou prumo, continuou a navegação, o rio tranquilo.

A BANDA – No Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a Foz, existe uma intensa navegação comercial transportando frutas, açúcar, coco, enfim, artigos de primeira necessidade. As vezes o navegador passa três a quatro dias embarcados vendendo mercadorias nas cidades ribeirinhas.. Durante o percurso apresentam-se vários locais apropriados para passar a noite, pequenas praias. Perto da cidade de Traipu existe um local aconchegante, facilitando atracação, bem próprio para passar a noite. Porém, os mais antigos canoeiros evitam aquele lugar por medo do que possa acontecer nas madrugadas. Há muitos anos, a Banda Filarmônica de Traipu viajou à Penedo, onde haveria um concerto musical. A Filarmônica tocava música clássica, dobrado , música de carnaval. A estrada de barro não ajudava, o velho ônibus em alta velocidade virou, alguns músicos morreram. Para não haver choradeira na cidade o prefeito mandou enterrar os músicos perto do local onde morreram. Quem dorme naquela praia é acordado pela madrugada, maior barulho, se ouve uma banda tocando dobrado bem alto, cada vez mais intenso, ninguém aguenta tanto barulho, foge, retorna ao Rio São Francisco. Um canoeiro conhecido ficou surdo para o resto da vida.

ILHA DA FITINHA – Um comerciante de coco, viúvo, tinha apenas uma filha, educou-a internada em Aracaju, dizia, minha filha só casa com homem rico. Acontece que o amor é traiçoeiro, Rosinha, a filha, apaixonou-se por um jovem canoeiro. Quando o pai, Coroné Antônio dos Cocos, soube do namoro, expulsou o rapaz da Ilha, proibindo colocar o pé em sua propriedade. Rosinha passou 36 dias e 35 noites chorando. No dia que seu pai viajou para comercializar coco em Pão de Açúcar, Rosinha parou de chorar, mandou recado, o canoeiro Zé Dantas veio depressa, namoraram dentro d’água escondidos no manguezal. Combinaram, quando o velho viajava, Rosinha colocava uma fitinha amarela no coqueiro comprido que entrava pelo rio por cima do manguezal. Assim foi feito, os dois encontraram-se várias vezes durante as viagens do Coroné. Certo manhã Rosinha não parou de vomitar, o pai levou-a ao médico. Estava grávida. O Coroné armou maior confusão, passou cinco dias falando sem parar, quando calou-se, de repente, achou melhor casar Rosinha com o canoeiro. O casamento foi feito às pressas na Ilha, apenas alguns convidados , vergonha na família. Quando nasceu o primeiro filho, deram o nome de Antônio José, o avô ficou caducando o neto, mais 12 filhos vieram, todos com nome de Antônio. Antônio José, Antônia Maria, Maria Antônia, Antônio Luiz, Antônio Carlos…Quem navegar Velho Chico pra bandas de Piaçabuçu, vai conhecer uma ilha cheia de coqueiros viçosos, manguezais exuberantes, é a Ilha da Fitinha.

Entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato, seu Rei mandou dizer, que contasse mais quatro.

A AFILHADA

Dr. Romero chegou cedo ao escritório, algumas pessoas o esperavam na sala. Cumprimentou-as, ao mesmo tempo deu um olhar fotográfico, entrou na sala, sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Logo chamou Nena, perguntou os assuntos daquela manhã, a secretária explicou cada caso, a filha de Adamastor veio pegar o cheque mensal.

Romero lembrou o amigo de infância, Adamastor, o melhor ponta esquerda do time de futebol da praia. Naquela época, adolescentes, a juventude aceitava melhor as diferenças, com mais honestidade, valia mais quem sabia jogar mais, quem trepava mais rápido num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Adamastor, um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira do trapiche avançado mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Romero, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira, mergulhavam e pescavam à beira mar, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes, na puberdade, se descobrindo, se possuindo dentro do mar, em intenção às moças de maiô deitadas na areia alva da praia.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Raras vezes eles se viam, embora fossem compadres, Romero era padrinho de uma de suas filhas. Anos depois Adamastor procurou o amigo, estava morrendo, pediu ajuda, não deixar a família desamparada. Há dois anos Romero mensalmente dá um cheque de R$ 500,00 à família, um dos filhos vem buscá-lo no início de cada mês. Ele não conhecia essa filha à sua espera, ela entrou no escritório.

– “Você parece com o Adamastor, sente-se por favor” recebeu em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se elegante, cruzou as pernas, sorriu.

-“Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou, uma juventude alegre e livre na praia. Eu sou Clarissa, sua afilhada.”

– “Não me diga que prazer, ter uma afilhada bonita, não é para todo mundo”. Disse Romero rendendo-se ao encanto da morena. “Clarissa, minha afilhada, o que você faz na vida? Adamastor foi meu grande amigo de infância, gostaria de saber se posso ajudar em alguma coisa a mais?”

-“Doutor Romero na verdade eu trabalhava numa loja do Shopping, a empresa passando por dificuldades, fiquei desempregada, ainda bem que moro com mamãe.”
– “Faça o seguinte, traga seu currículo, deixe com minha secretária, vou ver o que posso fazer.” Levantou-se deu-lhe o cheque, ficou olhando a filha de Adamastor se retirar. Pensou, uma bela mulher!

Duas semanas depois Clarissa trabalhava no escritório, auxiliando Nena. A convivência entre o padrinho e a afilhada foi se estreitando, Romero tinha maior carinho pela filha do amigo, às vezes iam lanchar numa sorveteria perto do escritório, conversavam bastante, ele sorria com o bom humor da afilhada. Entretanto, ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo vez, final do expediente ele dirigia rumo à sua casa, avistou Clarissa no ponto de ônibus, ofereceu carona. Ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa, no primeiro sinal vermelho o carro parou, ele olhou nos olhos de Clarissa, no verde arrancou, deixou-a em frente de sua casa, na despedida em vez de beijinho na face, aconteceu o primeiro beijo na boa, ficou só no beijo, ela desceu rápida.

Dia seguinte Clarissa estava encabulada, mal encarou o padrinho. Ele a chamou, disse que o beijo foi uma coisa natural, afinal ela é uma mulher atraente. Pediu a Clarissa fazer alguns pagamentos, ela saiu à pé, o banco era perto. De repente, Romero encheu-se de desejo, desceu à garagem, conseguiu alcançá-la , parou o carro. Passarem uma tarde inesquecível num motel luxuoso.

Romero adorou a aventura, toda semana repetiam a tarde maravilhosa, por muito tempo. Na virada desse ano, durante o réveillon na praia, um italiano conheceu Clarissa, conversaram, tomaram champanhe, celebraram com fogos a entrada do ano novo, dormiram juntos no hotel. Paolo apaixonou-se pela morenice, pela sensualidade daquela jovem, embarcou para Itália quatro dias depois, levou Clarissa, a jovem está em Gênova. Na véspera da viagem a afilhada explicou ao padrinho o inesperado acontecido, o italiano apaixonou-se, prometeu o mundo à ela. Romero chocou-se. Teve enorme depressão, a tristeza aumenta quando pensa, talvez nunca mais veja sua querida afilhada.

A MANICURE

– Depois de velho, você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, a campanhia do apartamento tocou, uma morena sorridente se apresentou, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas, ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retornaria na hora do almoço.

Durante o cortar das unhas de mão, Aparecida alisava a de Fonseca com suavidade, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos, olhou para manicure com curiosidade, ficou inquieto ao perceber o generoso decote da manicure, seios duros, empinados, há tempo não excitava-se com uma mulher. Puxou conversa.

– Menina você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro, sustentar minha filha, uma vizinha me ensinou, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. Ganho meu sustento.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Marido não, meu vizinho, namorei com ele, me emprenhou ainda menina, eu tinha 15 anos. Danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão, canta bem. Há mais de cinco anos não tenho notícias dele, soube que é traficante no morro. Por isso vivo com minha mãe.

Conversaram muito, Aparecida contou sua vida severina, comum na periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. A morena agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado ao perceber o corpo da morena dentro do vestido azul claro, quase transparente. Aparecida despediu-se perguntando quando retornava. Venha no próximo sábado, disse com entusiasmo admirando o rebolado da manicure em direção à porta.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca resmungou, fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Dois meses Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Num sábado cheio de sol, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou-lhe o pescoço, o colo, deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, “não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. No apartamento da Ponta Verde, embalado pela carícia do vento Nordeste, em cima do tapete comprado na Capadócia fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a mulher para almoçar, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar, o que deu em você hoje?

Fonseca, homem decente, conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida, encontram-se uma vez por semana para deliciosa tarde de amor, com ajutório. Fonseca está sentindo-se mais jovem, cabelo cortado, camisa da moda. Nunca mais Dona Sílvia reclamou o relaxamento do marido.

DESEJOS DE ANO NOVO

Nesse final de ano recebi um presente, o livro, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA” de meu querido amigo Ignácio Loyola Brandão, jornalista, ator, o escritor brasileiro mais lido no país e no estrangeiro.

Uma dedicatória gentil, generosa, deixou-me emocionado, “Para o grande Carlito, que me deu o título deste livro, com a amizade de sempre”. No final do livro cheio de histórias e crônicas fascinantes, Ignácio explica o título.

“Final de ano é também momento de desejar boas-festas. Mas todas as frases, todos os cartões, tudo foi esgotado, virou clichê, lugar-comum, banalidade. Estava no computador buscando alguma originalidade, porque é o que esperam de mim. Aí travei! De repente, meu amigo Carlito Lima, de Marechal Deodoro, cidadezinha vizinha a Maceió, me salvou. Carlito organiza um dos menores e mais amados festivais de literatura do Brasil, FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), pequeno, mas com nomes de primeiro time e muito companheirismo. Pois repasso aos leitores os desejos de Carlito. Vejam que delícia. Podem usar.

Alguns desejos para o próximo ano novo.

Se existir guerra, que seja de travesseiro.

Se for pra prender, que seja o cabelo.

Se existir fome, que seja de amor.

Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó.

Se for pra atacar, que seja pela pontas.

Se for pra enganar, que seja o estômago.

Se for pra armar, que arme um circo.

Se for pra chorar, que seja de alegria.

Se for pra assaltar, que seja a geladeira.

Se for para mentir, que seja a idade.

Se for para algemar, que se algeme na cama.

Se for pra roubar, que seja um beijo.

Se for pra afogar, que afogue o ganso.

Se for pra perder, que seja o medo.

Se for pra brigar que briguem as aranhas.

Se for pra doer, que doa a saudade.

Se for pra cair, que caia na gandaia.

Se for pra morrer, que morra de amores.

Se for pra tomar, que tome um vinho.

Se for pra queimar, que queime um fumo.

Se for pra garfar, que garfe um macarrone.

Se for pra enforcar, que enforque a aula.

Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo.

Não vacilei (continua Ignácio) copiei e enviei para vários amigos, inclusive ao Chico Buarque, devia uma mensagem a ele. Meia hora depois veio a resposta.
Adendo para adictos:

Se for pra cheirar, que seja a flor.

Se for pra fumar, que seja a cobra.

Se for pra picar, que seja a mula.

Obs. de Ignácio. – Pensando nas novas gerações, esclareço: “a cobra está fumando” era a expressão que os soldados brasileiros, chamados de pracinhas, que lutavam na Europa na última Grande Guerra, usavam ao atacar o inimigo.”

Assim Ignácio Loyola Brandão encerra seu novo livro, encantador. Aproveito para enviar aos amigos, novamente, esses desejos de ano novo, em meu nome, em nome do Loyola e do meu novo parceiro, Chico Buarque. Um ótimo 2017.

DE MÃOZINHAS DADAS

Maria Lúcia acordou-se com leve dor de cabeça, amargo na boca, havia bebido na noite anterior. Ainda deitada desligou o ar condicionado. Veio-lhe a imagem, detalhes da tarde de amor, Marcelo, terno, carinhoso, ao mesmo tempo selvagem, deixou-a em êxtase duas vezes, quase desmaia. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem mais velho, poderia ser seu pai. Lucinha não tinha algum sentimento de culpa, não importava aquela situação camuflada, pouquíssimos amigos sabiam do caso. Sem problema ou preconceito em amar um homem mais velho e casado. Bem melhor que Julião, ex marido, Marcelo usava a experiência, sabia mexer nos pontos sensíveis de uma mulher, devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto Julião um desastre na cama, apesar do belo corpo jovem, bebia muito, cheirava; na hora do amor pensava apenas em satisfazer-se. Maria Lúcia aguentou apenas dois anos de casada, não tinha saudade daquela época. Hoje, uma mulher livre, fazia o que queria, até um caso de amor com um homem maduro. Na véspera, depois da estonteante tarde de amor, Maria Lúcia saiu com um grupo de amigos na balada noturna, dançou e bebeu até quase amanhecer o dia.

Saiu do devaneio ao olhar o relógio, 11:30 h, levantou-se, abriu a cortina, dia ensolarado, luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda misturava um azul turquesa em suas águas, pequenas marolas. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida é bela.

Na sala encontrou os pais, a irmã mais nova.

– “Lucinha querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega.” Entregou a irmã.

– “Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta, independente, dona do meu nariz”.

Conversavam enquanto Maria Lúcia preparava um lanche na cozinha. O celular tocou, era Dudu. Toda mulher bonita, gostosa, separada, tem um amigo homossexual.

Eduardo não parece homo, não dá para notar sua opção sexual até ele abrir a boca. Lucinha atendeu.

– “Diga Duduzinho querido! Como está vossa excelência?”

– “Estou à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos encontramos numa barraca de praia, para um bom chope? Depois seja o que Deus quiser. Esse dia ensoralado é um convite para desmantelo.

– “Fechado, uma hora na Barraca Pedra Virada, tem sempre amigos curtindo uma cervejinha”.

A mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de orelha.

– “Lucinha, você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja outro marido. Esse Dudu parece, mas não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, com juízo.”

– “Minha mãe essa vida é curta, ou eu me divirto ou tenho juízo, os dois são incompatíveis”. Deu uma gargalhada.

Maria Lúcia deu partida no carro rumo ao encontro, tomou a Avenida Beira Mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou na espera, ao olhar de lado teve um susto. Seu amado Marcelo entrava num restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar, acabou-se a alegria, veio-lhe um profundo ciúme do fundo da alma. Precisou uma buzinada para acordá-la ao abrir sinal verde, acelerou o carro, mais adiante parou no acostamento, colocou a cabeça entre as mãos por cima do volante, chorou de raiva e pena de si mesma. Ao se recuperar retomou a Avenida Beira Mar.

Dudu esperava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de cerveja na mão, peixinho frito na outra, ao vê-la fez sinal. Lucinha achegou-se devagar, sentou-se, chorou discretamente, queria tomar um porre, contou ao amigo o encontro inesperado com o amado Marcelo.

– “Você diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Marcelo e a esposa.” Provocou-a Dudu.

– “De mãozinhas dadas! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!”

O PEQUENO PRÍNCIPE NEGRO

Ninguém sabe de onde veio, nem ele. A mãe o abandonou na Praça do Centenário quando Cícero não havia completado oito anos, negrinho, chamava atenção sua figura bonita. Olhos pretos, vivos, cabelos crespos. Sozinho no mundo, ficou a vagar pela cidade grande.

O menino enjeitado, triste e assustado, perambulou durante dias pelas ruas de Maceió, dormindo sob marquise, em praças, faminto, até que encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria tornarem-se amigos, entrosou-se com esses menores que faziam ponto no centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Sobreviviam de esmola, do que achavam no lixo, de roubos fortuitos, até pequenos assaltos. Assim viveu Cicinho por anos nas ruas da cidade, abandonado pela sociedade, pelos governos, sem escola, sem casa, sem documentos, duas vezes preso por vagabundagem. Sua família eram os colegas de rua, de cola e de cruz.

Num dia de festa, o Brasil havia vencido um jogo da Copa do Mundo, enquanto a cidade comemorava, Cicinho procurava comida num container no bairro chique da Jatiúca, lixo de qualidade.

Alzira, moradora de um prédio, da janela reparou a cena, comoveu-se, teve pena do adolescente catador, alheio à festa. Agradou-lhe a silhueta daquele jovem moreno, cabelos crespos cumpridos, vestes maltrapilhas, capa velha surrada, parecia o Pequeno Príncipe Mendigo. De repente, ao acaso, ele olhou para a coroa, cumprimentou-a sorrindo. Ela respondeu-lhe outro sorriso. Com a mão direita aberta Alzira deu um sinal para ele esperar, desceu levando um bolo de chocolate na mão, ao aproximar, sentiu uma forte empatia, um afeto maternal pelo jovem. Cicinho recebeu o bolo, dividiu com amigos, comeram sentados no chão. A partir daquela dia, algumas vezes na semana, o jovem cheira-cola aparecia em frente ao edifício, a coroa lhe dava o que comer em um saco de papel pardo.

Alzira havia completado 41 anos no dia que conheceu Cicinho, dizia para si mesma, ser um presente de Deus. Mulher sofrida no amor, foi casada, sem filhos, por onze anos com um médico, abandonou-a por uma aluna da Faculdade. Um trauma para Alzira, quarentona bonita, vistosa, charmosa. Desde sua decepção amorosa, trancou-se para o mundo, mora sozinha, evitou namoro, sexo e amigas. Funcionária pública, o trabalho ajuda sua existência

Sentia-se abandonada igual ao jovem catador de lixo, ele veio preencher uma carência afetiva, alegrava-se ao dar-lhe parte de sua comida, depois presenteou-lhe camisa, roupa. Com o passar do tempo deu-lhe trabalho, mandou o barbeiro dar-lhe um trato, tornou-se uma espécie de secretário para limpeza da casa, do carro, fazer compras e outros afazeres. Cicinho toda manhã dava plantão em frente ao prédio de Alzira, à tarde caía no mundo junto aos companheiros. Certo dia ela convidou-o a morar no quarto de empregada, almoçava com a cozinheira.

Alzira ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava a ler, a escrever e contas aritméticas. Deu sorte, conseguiu matricular o jovem no Colégio Marista onde os Irmãos têm cursos gratuitos para os necessitados.

Cicinho é calado, casmurro por natureza. Alzira descobriu, em conversa, seu sonho, uma prancha de surf. No natal ela presenteou-lhe uma prancha, o jovem feliz da vida, danou-se a surfar na praia de Cruz das Almas. Nunca abandonou os amigos, quando ia ao surf marcava com os companheiros cheira-cola, eles pegando carona na prancha. Quando podia, arranjava comida para sua turma. Cicinho tem consciência que a sorte passou em sua vida. É generoso e solidário, embora o sentimento de injustiça e desigualdade social seja forte em suas convicções.

Tornou-se um forte e belo rapaz, espadaúdo, típico surfista. Atualmente estuda para vestibular de Direito, quer ser um bom advogado e criar uma casa de abrigo a menores moradores de rua, seus sonhos fizeram feliz Dona Alzira, como ele a chama.

Cicinho deixou a dependência de empregada, dorme em quarto próprio. Mostra sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, lhe deu o que um jovem precisa, um lar, afeto e estudo. Está aprendendo a dirigir, carro prometido se passar no vestibular. Para Alzira é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho.

Nas refeições divide a mesa com seu protegido. Segundo línguas ferinas, sem provas, invencionice de quem não têm o que fazer, durante parte da noite, divide também a cama forrada de lençol de linho e travesseiros de marcela. Alzira anda na maior felicidade, apenas um problema, administrar o ciúme das paqueras que dão em cima de seu belo Pequeno Príncipe Negro.

O DEZEMBRO QUE ME HABITA

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Árvore de Natal decorada de Reisado, cheia de fitas

Dezembro, férias de verão, as festas natalinas faziam a alegria da moçada. Praça Sinimbu, Praça da Faculdade (Afrânio Jorge). Armavam-se roda gigante, barquinhos, tiro ao alvo, um palco para folguedos natalinos rolando por toda noite. As mocinhas desfilavam na calçada em torno da praça, os jovens de blusa gola roulê, encostados nos carros paqueravam as meninas que vinham e que passavam num doce balanço a caminho do nada. Um forte alto-falante anunciava produtos patrocinadores e enviava recado a CR$ 2,00 (dois cruzeiros), num som gutural o locutor enfático: “Alô, alô, Aninha Amorim, você é a garota que mais brilha nessa festa; assinado, você já sabe!”. “Alô, alô menina do vestido de bolinha azul, estou lhe esperando atrás da Igreja às nove horas.”

Época dos flertes, namoros bem comportados no portão de casa, festas de clubes ou casas, descobrindo o prazer de dançar. Música suave, blues e jazz americanos e de baião. Logo depois, arrebentou o rock. Ainda menino, aprendi os passos de Elvis Presley.

Na festa de rua, construía-se a Nau Catarineta, navio de barro (taipa) no centro da praça, especialmente para dançar a Chegança, folguedo proveniente da Península Ibérica, auto de tema marinho contando as dificuldades da vida marítima, as tempestades, o contrabando, as brigas entre marujos e entre cristãos e mouros. Alguns personagens marcantes: o Almirante, o Padre e o Cozinheiro.

Manoel, pintor de parede, todo ano fazia o papel do Almirante na Chegança. A partir do dia 6 de dezembro até terminar a Festa de Rua na Praça Afrânio Jorge, dia de Reis, 6 de janeiro, ele saía à rua fardado de Almirante de Chegança, só tirava a farda para dormir e trabalhar, assim mesmo porque tinha receio de sujar com tinta sua belíssima farda. À noite quem quisesse encontrá-lo era só aparecer no Cabaré da Railda, estava Manoel, Almirante, fardado junto à rapariga Joaninha Boca de Fole, seu xodó.

No palco dos folguedos, toda noite havia a maior atração, o Pastoril, dança folclórica natalina formada por duas colunas de pastoras, cordão azul e cordão encarnado. As duas torcidas vibravam na platéia, maior competição. No final da Festa, era declarado o cordão campeão quem vendesse mais votos.

As pastoras, com fantasias singelas, saias bem rodadas, entravam cantando a primeira jornada: “Boa noite, meus senhores todos… Boa noite, senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… que alegremente vamos a Belém…” Mestra, a primeira pastora do encarnado; contra-mestra, a do azul; entre as duas, Diana, fantasiada de azul e encarnado: “Sou a Diana… Não tenho partido… O meu partido são os dois cordões…”

Menino meio danadinho, na puberdade, nos intervalos entre as jornadas eu chamava em cena uma pastora, alguma bonitinha, com os peitos mais acentuados. Ela entrava dançando ao som da música. No palco, eu colocava a cédula com alfinete, como quem prega uma medalha, descuidadamente, roçava o seio da pastora com a palma da mão, ela corava. Eu gritava de emoção: “Viva o cordão encarnado!”, descia feliz da vida, excitado, sentindo o seio em minha mão.

Existe uma enorme diversidade de folguedos natalinos em Alagoas. O professor, pesquisador Théo Brandão, catalogou 36 tipos de grupos folclóricos. Guerreiro, Reisado, Boi, Coco de roda, Baiana, Taieira, Nega da Costa, Pagode, Fandango, Maracatu, entre outros.

Por tudo isso, dezembro me encanta, alguns acham o natal triste, ao contrário, meu natal cada ano fica mais alegre. No mês de dezembro minha casa é decorada com um tema folclórico, inclusive a árvore de natal. Esse ano, é do Reisado, auto popular, formado por grupos de brincantes fantasiados, músicos, cantores que vão de porta em porta, anunciar a chegada do Messias, homenagear os três Reis Magos e fazer louvação aos donos das casas onde dançam, em troca de bebida e comida..

Tornou-se tradicional o café em minha casa na manhã do 24 de dezembro oferecido aos parentes e alguns amigos. Início 7:00 h, término por volta das 14:00 h. Café nordestino com muita poesia, música, depoimentos, orações, ano passado dançamos o pastoril, a alegria reina nos abraços, beijos, gentilezas, sem troca de presente. Meu natal é o dezembro que me habita.

UFC NO CAMPO SANTO

Naquela manhã, dia de finados, Norminha tirou o carro da garage, distraída, pensava no marido e como foi traída. Pela primeira vez retornava ao cemitério desde os acontecimentos no enterro, afinal passaram 18 anos juntos. Fernandinha, a filha de 14 anos, perguntou se ia encontrar a Adélia, filha do pai com a outra mulher.

– Deus me livre, nunca mais em minha vida quero ver aquela desgraçada, vadia, sirigaita, enfeitiçou o finado seu pai, ainda fez essa filha. É sua irmã, por parte de pai, apenas. Não quero e você está proibida de fazer amizade com essa moça.

Mal sabia Norminha, as duas estudavam em colégios do CEPA, são amigas desde que descobriram serem meio irmãs, filhas do Peixotinho, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Norminha rumou para ao cemitério, Fernanda ao lado, calada, a mãe em devaneios.uf

Fernando Lyra Peixoto, ainda jovem, conseguiu um emprego na Rede Ferroviária com um deputado amigo da família, assíduo e trabalhador, todos os chefes gostavam daquele servidor, gentil. Sempre arranjavam uma maneira de uma função gratificada. Peixotinho não reclamava o salário de funcionário, tinha outra viração, emprestar dinheiro, um pequeno agiota, controlado, morava com a mãe viúva. Adolescente descobriu uma das coisas mais importante em sua vida, sexo e mulher. Carinha de santo, sonso que só o cão, uma lábia de encantar mulheres, vivia atrás das empregadas na vizinhança, os amigos o apelidaram maldosamente, Rei das Peniqueiras.

Guardou seu dinheirinho ganho na repartição, tinha casa, comida e roupa lavada. Por acaso investiu na agiotagem, um amigo desesperado pediu-lhe emprestado, pagou-lhe com juro de 10%, Peixotinho gostou, tornou-se agiota, investia também em apartamentos pequenos, o aluguel aumentava sua renda. Solteiro, gostava mesmo de uma garota de programa, teve poucas namoradas. Certo dia percebeu, os amigos de infância estavam casados. Aos 30 anos resolveu se casar, namorou e casou-se com Norminha, três anos depois apareceu sua filha, Fernandinha. Homem sério, todos admiravam, Norminha não cansava de se orgulhar, pelo Peixotinho botava a mão no fogo.

Certo dia amanheceu com a garganta inflamada, ao tomar algumas injeções na farmácia, conheceu a enfermeira, Ana, bonita morena, mãe solteira, vivia com o filho e o pai no bairro do Jacintinho. Trabalhava muito em hospital e dava plantão em farmácias fazendo curativos, aplicando injeções para sustentar a casa. Peixotinho empolgado com a sensualidade da jovem, retornou à farmácia paquerando abertamente Aninha. Sua insistência e lábia conseguiram levá-la a um motel. A partir daí teve encontros semanais com a carinhosa enfermeira, preenchendo parte de sua vida amorosa. Aninha engravidou quase ao mesmo tempo que Norminha, as duas filhas nasceram com diferença de um mês. Ana não fazia questão em ser a “outra”, afinal Peixoto ajudava muito, até cedeu um de seus apartamentos para moradia de Ana, o pai e os filhos. Peixoto conseguiu guardar esse segredo durante 15 anos. Certa manhã, na repartição, sentado, de repente veio-lhe suor frio, dor aguda no peito, a dor aumentou, caiu a cabeça para frente no birô, infarto fulminante. Morreu feito um passarinho.

Dia seguinte no enterro Norminha percebeu uma morena junto à filha adolescente, as duas chorando no caixão, quis saber quem eram aquelas intrusas. Everaldo, amigo, confidente de Peixotinho, contou-lhe a verdade. Norminha partiu desesperada, puxou Aninha e a filha do caixão, chamando-a de vadia, deu tapa na cara, alguns amigos intervieram botando paz no enterro. Depois de alguns meses, as duas, encontraram-se em audiência, brigando pela herança de Peixotinho. O “come quieto” deixou onze apartamentos pequenos.

Naquele dia de finado finalmente Norminha chegou ao Campo Santo, uma orquestra tocava as Bachianas de Villa Lobos enchendo o ambiente de saudades. Cemitério lotado, Norminha e Fernandinha dirigiram-se ao túmulo de Peixotinho, ao ver, ao longe, Aninha e filha ajoelhadas colocando flores no túmulo do marido, a viúva partiu em disparada, na velocidade que vinha rodou a bolsa na cara da “outra”, atordoada, levou murro na cara, ao cair revidou puxando o cabelo de Norminha. Atracaram-se no chão xingando-se mutuamente de vadia e puta. Ninguém teve coragem de apartar a briga, as duas rolaram, puxaram cabelo, deram tapas, jogaram areia, por mais de cinco minutos. Precisou dois policiais para terminar o briga. Perante o Delegado as duas tiveram que explicar para não ser enquadradas em perturbação da ordem pública. Uma coisa ficou clara, o UFM do Campo Santo ainda terá mais rounds.

LISBOA, VELHA CIDADE

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Lisboa à noite

Última escala da viagem, descemos em Lisboa direto de Praga, saímos do Leste Europeu encantados com a beleza das cidades, dos prédios, dos castelos, das igrejas, principalmente das mulheres. As eslavas são as mais bonitas do mundo.

Portugal é nosso pai, talvez avô, às vezes nos desentendemos, entretanto, nos amamos há 516 anos, desde o descobrimento. Vivemos juntos, fizemos história juntos. Sinto-me em casa quando estou em Lisboa.

Nosso país tem tamanho continental graças aos portugueses, os bandeirantes gananciosos em busca de ouro, prata e diamantes desbravaram o Oeste brasileiro, esqueceram o Tratado de Tordesilhas assinado entre Espanha e Portugal em que dividia as terras descobertas. Pelo Tratado, o Brasil português, seria bem menor. Uma linha imaginária passando na região de Belém do Pará e Laguna em Santa Catarina, separava o lado Leste para Portugal e Oeste para Espanha. Entretanto bravos portugueses misturados com nativos, índios, resolveram conquistar o Oeste com as Entradas e Bandeiras, e o Brasil tornou-se esse imenso país, anos depois as Forças Armadas brasileiras ocuparam, marcaram, mantiveram a linha de fronteira do Brasil com os países hispânicos da América do Sul.

Os portugueses não tiveram problemas em se miscigenar com índios e negros formando uma raça de mulatos e cafuzos. A colonização do Brasil teve acertos e erros. Mesmo dividido em capitânias hereditárias, os portugueses conseguiram unificar formando apenas um país, ao contrário da América do Sul Espanhola, dividida em nove países.

Entretanto a colonização brasileira teve um preço, muito ouro, prata, altíssimos impostos, foram diretos para família real viver nababescamente como viviam os reis e a corte.

Em 1755, aconteceu na cidade de Lisboa uma das maiores tragédias urbanas da humanidade. Um grande terremoto seguido por tsunami deixou milhares de mortos. Casas, igrejas, praças destruídas. A devastação da cidade, foi quase total. A restauração foi trabalhosa, dispendiosa, demorada, modificaram o traçado das ruas. Praticamente reconstruíram nova cidade.

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Naquela época o Marquês de Pombal, nobre diplomata e estadista português. Secretário de Estado durante o reinado de D. José I (1750-1777), figura controversa e carismática da História Portuguesa, mandava mais que o Rei, resolveu o problema da reconstrução de Lisboa aumentando os impostos e levando toda a riqueza possível do Brasil. A reconstrução de Lisboa foi feita com o suor e riqueza dos brasileiros. São coisas de colonizador e colonizado, o povo português nada teve com o saque aos cofres brasileiros.

Lisboa, fim da viagem de um bom grupo alegre organizado por Tereza e Pauline Rezende. No Rossio comi um divino ensopado de perdiz. Passeios e compras na Rua da Prata, Rua do Ouro. Fascinante a pitoresca cidade, antigos bondes elétricos trafegam em ruas estreitas e em largas avenidas modernas. O antigo junto ao novo sofisticado. Nas noitadas as casas, restaurante, cheios, ouvindo belos fados. Tivemos o privilégio de almoçar o melhor bacalhau de Portugal na Laurentina, com direito à sobremesa bem portuguesa, a baba de camelo.

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Este colunista com amigos portugueses, Maria e Fernando na Casa do Brasil de Lisboa

Na última noite, devido a gentileza da amiga, Maria Xavier, funcionária do Ministério da Cultura de Portugal, tive a honra em proferir uma palestra seguida de noitada de autógrafos, para minha surpresa, todos os livros vendidos. Uma alegria imensa ser entrevistado pelo competente jornalista João Morales, o mediador preparou a projeção de fotos de várias fases do Brasil nos últimos 50 anos, assunto da palestra e debate, conversamos mais de hora e meia na Casa do Brasil de Lisboa, no Bairro Alto. Auditório cheio, fiquei emocionado com o carinho dos amigos e dos amigos dos amigos que apareceram.

E como ninguém é de ferro nos despedimos de Lisboa com um bacalhau na boemia do Bairro Alto. Lisboa sempre a sorrir, tão formosa, e no vestir sempre airosa, o branco véu da saudade. Até a próxima, minha querida cidade, cheia de encanto e beleza.

BUDAPESTE, CIDADE PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Hungria, esse país povoou minha imaginação na juventude. Entre meus divertimentos, aos 12 anos, eu possuía uma amada coleção de selos. Tia Zezé Peixoto trabalhava nos Correios me trazia selos descolados, caídos das cartas. Certa vez me presenteou um pacote, 24 selos coloridos, belíssimos, neles escrito Magyar Posta, Correio da Hungria. Tornaram-se a preciosidade da coleção, eu mostrava a todo mundo, maior orgulho aqueles selos de um país distante e misterioso.

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Seleção da Hungria 1954

Em 1954 acompanhei por rádios e jornais a Copa do Mundo de Futebol na Suíça. A Hungria era a melhor seleção daquela Copa, inigualável, ganhava dos países mais fracos de 10 x 0 para cima, eliminou o Brasil nas quartas de finais 4 x 2. Numa das maiores injustiças do futebol, esse time perdeu a final em Berna para a Alemanha, campeã, 3 x 2 de virada. O Honved time base da seleção húngara possuía os melhores jogadores do mundo, inesquecíveis, Puskas, Kocsis, Czibor, Grosics. Destaques na história do futebol. Coloquei as fotos desses jogadores na parede de uma puxada no quintal de minha casa onde eu estudava durante a tarde. Tornei-me fã do Honved, de Puskas.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Alemanha invadiu a Hungria. Isolaram os judeus em Budapeste, construíram uma muralha dentro da cidade formando um gueto. Segundo dados do Holocausto, 380.000 judeus húngaros foram mortos nos Campos de Concentração durante a ocupação. Ao terminar a 2ª Guerra os nazistas fugiram da Hungria dando lugar ao vencedor, o Exército de ocupação russo. Azar da população húngara. Saiu Hitler entrou Stalin instalando o regime comunista colocando mais um país na órbita soviética.

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Revolução Húngara 1956 – o povo em armas contra o jugo soviético

Em 1956 eu era cadete da Escola Militar de Fortaleza, tomei conhecimento pelos jornais da Revolução na Hungria. Fiquei interessado, quis entender, acompanhei a revolução do país de Puskas, ele era major do exército húngaro.

A Revolução da Hungria se iniciou no começo de 1956, uma manifestação organizada por estudantes e intelectuais húngaros contra as condições de vida e contra o governo do Partido Comunista, pretendendo adoção de algumas medidas democráticas no país. Cerca de 200 mil pessoas participaram da manifestação entre estudantes, operários e soldados. Os manifestantes derrubaram a estátua de Stalin, agentes da repressão passaram para o lado dos manifestantes. Conselhos revolucionários foram criados em Budapeste e outras cidades para organizar a população. O clima de guerra civil cresceu no país. Os governantes tentaram chegar a um acordo com Moscou. Entretanto, em novembro de 1956 tanques do Exército Vermelho entraram em Budapeste reprimindo brutalmente manifestações. Mais de 20 mil húngaros mortos, contra pouco mais de 700 soldados soviéticos. Era o fim da Revolução Húngara.

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Ponte das Correntes, separa Buda e Peste

Agora nesse bendito 2016, há alguns dias, com 76 anos nos costados, conheci esse país que habitou meus devaneios de juventude. Ao entrar em Budapeste encantei-me, fiquei fascinado com a beleza da cidade, extrapolou a expectativa. De um lado do Rio Danúbio fica Peste, suntuosos edifícios do antigo império austro-húngaro, imponente o edifício do Parlamento de fachadas e agulhas góticas. Em Peste concentram-se museus, galerias, igrejas, óperas. É a zona de compras da cidade, modernos shoppings instalados em palácios do Século XVIII. Atravessando a Ponte das Corrente, guarnecida por leões de pedra, fica Buda, morada dos ricos, onde se localizam castelos, a deslumbrante Igreja de São Matias e muitas construções medievais da cidade.

O Rio Danúbio divide Buda e Peste, inspirou Strauss compor a valsa, talvez a mais conhecida, “Danúbio Azul”. Durante uma noite após um show folclórico, navegamos num luxuoso barco onde avistamos toda cidade iluminada. As noitadas acontecem em modernos clubes ou em navios abandonados à margem do rio. Existem banhos turcos (a maioria também ocupa antigos palácios), unissex. Muito interessante. As belas húngaras costumam rejuvenescer nesses banhos turnos, às vezes nuas. Espetáculo à parte.

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Memorial dos Sapatos

Certa manhã, perambulamos, cinco casais, pela exuberante Budapeste, conhecendo, descobrindo à pé aquela fascinante cidade. A certa altura Dr. Catão nos instigou a procurarmos o Memorial dos Sapatos construído em 2005 por dois artistas, eles fixaram à margem do Danúbio alguns sapatos de bronze simbolizando um triste fato; num dia de inverno um grupo de judeus foi levado pelos nazistas à margem do Danúbio onde foram obrigados a tirar seus sapatos (valiosos durante a guerra) e saltar dentro do rio gelado.

Não se pode esconder, nem esquecer as atrocidades das guerras. Contudo, a beleza da cidade é imorredoura, inebriante, Budapeste, cidade para viver um grande amor, retornarei, em lua de mel, quando completar 50 anos de casado.

CONTOS DOS BOSQUES DE VIENA

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Este colunista e a bela garçonete em Bratislava

Logo após a 2ª Guerra Mundial a Europa foi repartida, a parte Leste ficou em mãos da União Soviética onde Stalin implantou o regime comunista, a parte Oeste os americanos tomaram conta. A União Soviética foi aliada contra o nazismo alemão tornou-se inimiga depois da 2ª Grande Guerra, na época foi iniciada outra guerra, política, sem canhões, chamaram de Guerra Fria. Os USA de um lado, a União Soviética do outro, sempre querendo exibirem suas supremacias. Os Estados Unidos distribuíam seus filmes ao mundo mostrando o estilo de vida, o “way of life”, onde tudo corria às mil maravilhas, as mulheres eram plásticas, recatadas e do lar. Nos anos 50 inventaram o concurso Miss Universo, onde representantes de vários países concorriam ao certame mundial da beleza. O Brasil sempre mandava a sua. Em 1954 a Miss Brasil ficou em segundo lugar, a bela e gostosíssima baiana Marta Rocha perdeu por duas polegadas a mais no traseiro, esses jurados…Os países socialistas não concorriam a essa invenção burguesa.

Viajando recentemente pelo Leste Europeu, ex países comunistas, hoje convictos capitalistas, deslumbrei-me com a beleza das checas, das húngaras, das eslavas. Conclui, se essas mulheres entrassem em qualquer concurso de beleza, ganhariam, são as mulheres mais bonitas do mundo. Por isso o tráfico de mulheres é intenso sequestrando adolescentes eslavas. Depois do petróleo, hoje, o tráfico de belas mulheres é o segundo maior negócio do mundo e as meninas do Leste Europeu são as mercadorias mais valiosas.

Deixando o devaneio ao lado, voltemos à viagem, saímos de Praga num ônibus confortável, sempre assistidos regiamente por Tereza e Pauline Rezende, organizadoras, logo chegamos à capital da Eslováquia a belíssima Bratislava. A cidade tem dois mil anos de história, remonta à época dos celtas, fez parte do Império Romano e ao longo dos séculos atraiu famílias reais, presenciou a coroação de 19 reis e rainhas do império húngaro. A beleza, a cultura, a história e o charme de Bratislava foram danificadas na 2ª Guerra Mundial. Durante os anos vivendo sob o jugo de Moscou se esqueceram do passado lendário da cidade. Recentemente, a cidade passou por uma grande reconstrução, um despertar cultural. Os turistas estão redescobrindo a charmosa cidade velha, os tesouros góticos da cidade, os restaurantes elegantes, os cafés.

A música em Bratislava está vinculada à vida musical vienense. Notáveis compositores frequentaram a cidade, Mozart, Haydn, Liszt, Bartók e Beethoven que interpretou sua Missa Solemnis pela primeira vez em Bratislava.

Almocei um gostoso goulash servido pela garçonete mais bonita do mundo. Mais algumas voltas na cidade partimos para Viena, a exuberante capital austríaca.
ANSCHLUSS- palavra alemã significa anexação. É utilizada em História para referir-se à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938. Logo depois houve um plebiscito, onde 95% dos austríacos votaram a favor da anexação, a Alemanha ganhou a Áustria sem precisar invadir, sem morrer um soldado, o país se considerava alemão. Depois da 2ª Guerra, na divisão entre os vencedores, a Áustria ficou sob domínio americano.

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Este colunista tomando vinho no Café Mozart, Viena, 5°, onde o compositor tomava porres homéricos

Viena, a capital, é reconhecida pela ONU como a cidade de melhor qualidade de vida do mundo. Segurança pública altamente eficiente, serviços públicos excelentes, educação de alta qualidade e diversidade de opções culturais e lazer para população de todas as categorias sociais.

Viena é uma cidade de exuberantes palácios, museus, catedrais e igrejas carregados de história, de largas avenidas repletas de elegantes cafés e restaurantes. Historicamente foi e continua sendo o centro de música erudita, da música clássica, berço e moradia de extraordinários artistas, Franz Schubert, Beethoven, Strauss, Mozart. Entre as grandes figuras vienenses estão, Sigmund Freud, o famoso psicanalista, a imperatriz Isabel Amélia Eugênia, conhecida como Sissi da Áustria. Em 1956 realizaram o filme, Sissi a Imperatriz, com Romy Schneider, produção cinematográfica austríaca de maior sucesso no mundo, depois mais 2 filmes em continuação.

Durante uma noite tivemos o privilégio de ouvir na Ópera de Viena um empolgante, elegante (direito à champanhe no intervalo) e inesquecível concerto, me enlevou a alma, trouxe-me recordações da distante infância quando ouvia na Rádio Difusora de Alagoas o programa “Sonho de Valsa”, naquela época me deliciavam as valsas de Strauss, principalmente, a preferida, “Contos dos Bosques de Viena”. Era a valsa que ouvia naquele momento, naquele local, mais chique impossível.

OUTONO DE PRAGA

Berlim, cinco da manhã, o termômetro marcava 4° centígrados fora do hotel. Preparava-me para viagem à Praga, partida do ônibus prevista para 6:30 horas. Um pouco de ressaca, gosto do vinho Landwein na boca, fiz a barba, tomei um banho quente, depois de um café à salsicha de porco, enfrentamos a estrada. Na saída da cidade revi ao longe o edifício do Reschstag, sede do Parlamento da Alemanha. Em 27 de fevereiro de 1933 incendiaram misteriosamente aquele prédio. O incêndio do Parlamento Alemão foi usado pelos nazistas, liderados por Hitler, como perseguição aos opositores políticos. Iniciava a ascensão de Hitler. Pensava nesse fato histórico quando o ônibus dobrou pegando a impecavelmente limpa rodovia.carlito

Pelo caminho descemos em Dresden, uma volta na cidade mais bombardeada, mais sofrida, durante 2ª Guerra Mundial, foram três dias horripilantes de bombardeios ininterruptos, pelo dia eram os aviões ingleses, à noite os aviões americanos, a belíssima cidade foi destruída, arrasada, insensatez da humanidade, igual às bombas americanas de Hiroshima e Nagazaki no Japão. (Na foto ao lado, este colunista em Dresden)

Fiquei surpreso com a restauração da belíssima cidade, nenhuma marca dos bombardeios. A Orquestra de Câmara de Dresden tocava em frente a um convento naquela manhã de quarta feira. Prosseguimos viagem à margem do histórico Rio Elba, emocionava-me conhecer locais cheirando à História e à Guerra.

Ao meio dia entramos na esplendorosa Praga, almoçamos num restaurante italiano, comida da Itália existe em todo canto do mundo. Fascinado com o centro da cidade, caminhei em torno das luxuosas lojas, turistas de todo canto do mundo, base da economia do país que se chamava Tchecoslováquia, hoje repartido em República Tcheca e Eslováquia, perambulei o resto da tarde esquentando-me do frio de 8° desse outono. Fui conhecer os locais onde aconteceu o movimento político, histórico, “Primavera de Praga”.

Após a 2ª Guerra Mundial os comunistas haviam chegado ao poder na Tchecoslováquia. Nesses anos, a vida política no país tornou-se burocratizada e autoritária, dentro dos parâmetros da União Soviética, era o processo da “stalinização”, em referência ao ditador soviético Stalin. Em janeiro de 1968 Alexander Dubcek assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista tcheco. Imediatamente Dubcek, colocou em prática um audacioso plano de reformas políticas, econômicas e sociais visando “humanizar” o regime. No plano de reformas constavam a liberdade de imprensa, o fim do monopólio político do Partido Comunista, a livre organização partidária, a tolerância religiosa, entre outras medidas que apontavam para a democratização do país.

O movimento liderado por Dubcek contou com o apoio de intelectuais e da população do país. Entretanto, não agradou a Stalin, a 20 de agosto de 1968, tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Os tanques tomaram a capital Praga e, ao invés de encontrarem tropas tchecas armadas e resistentes, depararam-se com uma reação pacífica. Os tchecos inconformados com a invasão armada da União Soviética, se deitavam na frente dos tanques, conversavam com os soldados pedindo que retornassem à URSS. Os soviéticos prenderam Alexander Dubcek, levaram para Moscou junto com outros líderes tchecos, acabando o curto, entretanto, significativo movimento conhecido como Primavera de Praga. As reformas políticas de Dubcek viriam vinte anos depois com a derrocada do comunismo na Europa Oriental.

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Primavera de Praga – 1968 – Reação pacífica dos tchecos à invasão soviética

Praga cidade de muita história, cultura e arte foi desde o século IX cenário dos intercâmbios comerciais e culturais, centro do mercado do Leste Europeu. Na Praça da Cidade Velha, encontra-se o relógio astronômico da Câmara Municipal, umas das jóias da cidade. Contudo, o mais representativo de Praga são suas casas, seus edifícios barrocos e góticos, fachadas mostrando a riqueza de antigas famílias nobres e mercadores. Entre elas, a casa onde morou o escritor Franz Kafka. Pelas ruas da cidade também passeou outra célebre personagem, Wolfang Amadeus Mozart, um dos maiores músicos da humanidade.

Encantei-me com a deslumbrante cidade, a beleza singela das folhas mortas levadas ao vento, caindo ao chão, nesse frio outono de Praga.

CÍRCULO DE GIZ EM BERLIM

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Em pedaços do Muro de Berlim conservado, o desenho da foto do beijo histórico entre Brejnev (Rússia) e Honecker (Alemanha Oriental). Abaixo, este colunista e esposa imitam os dois líderes comunistas

Desenhando no chão um círculo de giz ao redor de um peru ele sente dificuldade em ultrapassar a linha do círculo, torna-se prisioneiro, a área marcada do círculo é seu mundo, a percepção de liberdade do peru limita-se ao círculo de giz desenhado no chão. A vida é bem parecida, nos impõe vários círculos de giz desde que nascemos, às vezes procuramos sair do círculo ou nos acomodamos com os limites. O problema é que sempre existirá um outro círculo nos cerceando a liberdade, às vezes a felicidade.

Durante a juventude descobri na leitura e nas viagens a melhor maneira de transpor o círculo de giz. Consegui abrir caminhos, enxergar novos horizontes, conhecer cidades, outros povos, outras culturas, com a leitura e o espírito aventureiro. Hoje, setentão e muitas viagens no costado, continuo com o gosto de aventura, de viagem, conhecer outros palcos da história da humanidade. Nos últimos dias realizei um sonho viajando, visitei parte do Leste Europeu, países alinhados à União das Repúblicas Socialista Soviética após 2ª Guerra Mundial, separados do Oeste Europeu pela imaginária, não tanto, Cortina de Ferro, naquela época.

Hitler derrotado, os aliados vencedores iniciaram a repartição do “saque” em territórios campos de batalhas. Assim foi deflagrada no cenário mundial a Guerra Fria ( guerra política, sem armas), a Alemanha e o mundo foi dividido entre os vencedores, o lado Oeste liderado pelas nações liberais capitalistas, USA, Inglaterra e França e as nações da parte Leste ficaram na órbita da União Soviética. Stalin o consolidador do regime comunista implantou nas fronteiras da Europa uma linha divisória marcante, muros de concretos, fortificações militares, arames farpados, fossos fundos impedindo qualquer tipo de transposição de tropas, equipamentos e armas de guerra e outros obstáculos delimitando fronteiras, evitando qualquer “contaminação” dos países liberais, capitalistas.

Foi quando o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, denunciou, “uma cortina de ferro desceu sobre a Europa”, acusando a União Soviética de uma ferrenha divisão político-ideológica entre os regime comunista e o sistema liberal capitalista.

A URSS, aliada na 2ª Guerra Mundial contra o Nazismo, tornou-se inimiga da coligação anglo – saxâ, defensora dos valores da sociedade ocidental contemporânea. A Cortina de Ferro foi o mais implacável círculo de giz da história contemporânea.

Em 1961, auge da Guerra Fria, depois da Revolução Cubana de cunho socialista intensificaram-se as defesas dos Blocos quase surgindo uma Terceira Guerra Mundial, foi preciso a União Soviética retirar os mísseis com ogivas nucleares de Cuba, bem na porta dos USA. Nessa época foi construído pela União Soviética o Muro de Berlim, dividindo a cidade de Berlim entre os setores comunista e capitalista, a expressão “cortina de ferro” foi consolidada na imprensa e opinião pública. Era o mais novo círculo de giz ou de concreto, implantado pelo regime soviético na Europa dividida.

A Guerra Fria entre os dois sistemas políticos, determinou um apartamento econômico, social, cultural entre as nações. Em Berlim no muro intransponível muitos habitantes da parte oriental foram mortos ao tentarem transpô-lo, era o isolamento ideológico para não contaminar o regime socialista com os bens de consumo do capitalismo liberal. O Muro de Berlim, círculo de giz bem delineado na bela capital da Alemanha, dividiu famílias, casais, amigos.

A Cortina de Ferro finalmente acabou-se depois do povo demolir o Muro de Berlim em 1989 e da queda dos vários regimes comunistas que dominavam o leste europeu, revolta e descontentamento com a falência da retórica socialista, em especial no campo econômico. Durante esse período vários países tentaram liberta-se do jugo soviético, como a Hungria em 1956, A Primavera de Praga em 1968, todos os movimentos esmagados pelas tropas soviéticas.

Passei esses últimos dias conhecendo os países do Leste Europeu, grata surpresa, beleza urbana, economia pujante. Ainda restam pedaços conservados do Muro de Berlim, fiz documentário fotográfico do desenho famoso, o presidente russo Brejnev beijando Honecker presidente da Alemanha Oriental. O Muro de Berlim foi o último círculo de giz concreto de uma época insana contemporânea da humanidade.

Para completar a série de círculos, visitei na Alemanha a marcante vergonha da humanidade, o Campo de Concentração de Sachsenhausen onde os nazista exterminavam o povo judeu e não ariano.

Nada melhor que uma viagem, conhecendo mais o mundo se conhece mais nossa aldeia. Relaxei, desliguei-me completamente até do mais novo círculo de giz inventado pela modernidade, o Face book.

O INFORMANTE

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Bar do Chope

No início ele veio se achegando entre os frequentadores do Bar do Chope, Rua do Livramento. Ninguém sabia de onde Etelvino tinha vindo com aquele ar de malandro carioca, puxando de uma perna. Diariamente no início da tarde ele aparecia com um jornal embaixo do braço, mancando, cumprimentava os habitués do Bar do Chope, abria o jornal e danava-se a ler. Era jornal da semana anterior, mas impressionava por ser jornal de grande circulação no sul do país, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo Etelvino conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios de plantão. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. No início dos anos 70, auge da ditadura, isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias cheias de mistério, invencionices, cada vez mais circulavam no bar. Uns diziam que Etelvino mancava consequência da explosão de uma granada na luta armada contra comunistas, outros afirmavam com certeza, ele era coronel da Aeronáutica, mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam ele ser um araponga em busca de informações, gente importante naqueles anos. Deviam tomar cuidado, não falar sobre política na frente da autoridade. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Era cadeia certa.

Etelvino alimentava o mistério sobre sua situação, às vezes exagerava em opiniões e histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando ele chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Ele sério colocava o indelével jornal na mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial, carregando no sotaque carioca.

– Ontem jantei com o coronel comandante do 20º BC no quartel do Exército, infelizmente não posso revelar detalhes, entretanto, digo uma coisa meus amigos, aqui para nós, não vão dizer que fui eu que falei, confio em vocês. É que lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Aragarças e Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra os pára-quedistas do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados.

Os colegas de copo ficavam admirados. Essas notícias eram proibidas de serem publicadas em jornais, o que dava uma maior credibilidade ao Coronel Etelvino, como os desocupados já o chamavam. Era coronel para cá, coronel para lá.

Etelvino tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia a história com fanfarronice no Bar do Chope.

Certo dia ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 a 12 estudantes bebiam e conversavam junto à sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Etelvino se juntou aos amigos numa mesa mais ao canto e começou sua história da tarde. Os bêbados ficaram emocionados em verem os personagens bem perto, ao vivo.

– Estão vendo aqueles estudantes, são todos comunistas, fichados. Aquele magro é o Eduardo Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro mais gordinho chama-se Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio Lins, o Aldo Rebelo e o José Rocha. Estão bebendo e tramando subversão. Serão presos nesses próximos dias.

Os vadios ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do Informante.

Até que certa tarde quando a “galera” puxava um chope ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Maior correria na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique, havia assassinado, descarregando o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente à Igreja do Livramento.

Quando acabaram os tiros, serenou a gritaria, corpos no chão, os bêbados gritaram, “Coronel prenda o assassino”. Só encontraram o grande ídolo algum tempo depois, encolhido embaixo de uma mesa por trás da mureta. Ao responder a um colega que exigia sua interferência naquele brutal assassinato, ele balbuciou, gaguejando, tremendo, ainda acocorado:

– Não… não.. não sou co..coronel não!!!

Ao correr para o banheiro Etelvino não pode esconder a calça melada, cagou-se de tanto medo. Depois desse dia nunca mais o carioca Etelvino, o informante, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.


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