HISTÓRIAS E LENDAS DO VELHO CHICO

Este colunista entre dois canoeiros contadores de lendas e histórias do Velho Chico

Ontem fui a Penedo, cidade histórica belíssima à beira do Rio São Francisco, ao entrar no Centro Histórico, emocionei-me, senti 400 anos me espionando, cada rua estreita enladeirada é um pedaço do Brasil colonial. Igrejas suntuosas e casarões fascinantes fizeram valer as duas horas de viagem a convite dos diretores da Pataxó Tour.

Navegamos o Velho Chico de canoa, almoçamos, pitu, peixe, camarão. O divino pirão deixou-me o estômago cheio. Enquanto os empresários acertavam-se, fiquei a conversar, puxando histórias e lendas dos dois velhos canoeiros. Com convicção da verdade, contaram-me algumas histórias, lendas, faço o repasse.

A MOEDA – No percurso do Rio São Francisco, existem três capelas encravadas em pequenas ilhas ao longo do rio, os canoeiros às vezes param, descem, rezam, continuam a viagem. Certa vez desceu uma família, rezaram à Nossa Senhora. Um dos filhos, 10 anos, achou uma moeda no chão da igreja, abaixou-se, colocou-a no bolso. Terminada a reza, o canoeiro e família continuaram a navegação. De repente o Rio São Francisco saiu da calmaria, começou a levantar ondas, balançando a canoa cada vez mais, uma onda veio tão forte que inclinou a canoa, vários balaios de frutas caíram n’água. O canoeiro gritou: Valha-me Nossa Senhora. Ouviu baixinho no pé do ouvido, devolva o que é de Nossa Senhora ao Rio. Desesperado, ele perguntou se alguém pegou algum objeto da Igreja. O menino tirou a moeda do bolso mostrou ao pai, achou no chão da Igreja. Valha-me Nossa Senhora, jogue a moeda no rio, menino. O pivete lançou a moeda, afundou na água. Naquele momento as ondas começaram a baixar, a canoa tomou prumo, continuou a navegação, o rio tranquilo.

A BANDA – No Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a Foz, existe uma intensa navegação comercial transportando frutas, açúcar, coco, enfim, artigos de primeira necessidade. As vezes o navegador passa três a quatro dias embarcados vendendo mercadorias nas cidades ribeirinhas.. Durante o percurso apresentam-se vários locais apropriados para passar a noite, pequenas praias. Perto da cidade de Traipu existe um local aconchegante, facilitando atracação, bem próprio para passar a noite. Porém, os mais antigos canoeiros evitam aquele lugar por medo do que possa acontecer nas madrugadas. Há muitos anos, a Banda Filarmônica de Traipu viajou à Penedo, onde haveria um concerto musical. A Filarmônica tocava música clássica, dobrado , música de carnaval. A estrada de barro não ajudava, o velho ônibus em alta velocidade virou, alguns músicos morreram. Para não haver choradeira na cidade o prefeito mandou enterrar os músicos perto do local onde morreram. Quem dorme naquela praia é acordado pela madrugada, maior barulho, se ouve uma banda tocando dobrado bem alto, cada vez mais intenso, ninguém aguenta tanto barulho, foge, retorna ao Rio São Francisco. Um canoeiro conhecido ficou surdo para o resto da vida.

ILHA DA FITINHA – Um comerciante de coco, viúvo, tinha apenas uma filha, educou-a internada em Aracaju, dizia, minha filha só casa com homem rico. Acontece que o amor é traiçoeiro, Rosinha, a filha, apaixonou-se por um jovem canoeiro. Quando o pai, Coroné Antônio dos Cocos, soube do namoro, expulsou o rapaz da Ilha, proibindo colocar o pé em sua propriedade. Rosinha passou 36 dias e 35 noites chorando. No dia que seu pai viajou para comercializar coco em Pão de Açúcar, Rosinha parou de chorar, mandou recado, o canoeiro Zé Dantas veio depressa, namoraram dentro d’água escondidos no manguezal. Combinaram, quando o velho viajava, Rosinha colocava uma fitinha amarela no coqueiro comprido que entrava pelo rio por cima do manguezal. Assim foi feito, os dois encontraram-se várias vezes durante as viagens do Coroné. Certo manhã Rosinha não parou de vomitar, o pai levou-a ao médico. Estava grávida. O Coroné armou maior confusão, passou cinco dias falando sem parar, quando calou-se, de repente, achou melhor casar Rosinha com o canoeiro. O casamento foi feito às pressas na Ilha, apenas alguns convidados , vergonha na família. Quando nasceu o primeiro filho, deram o nome de Antônio José, o avô ficou caducando o neto, mais 12 filhos vieram, todos com nome de Antônio. Antônio José, Antônia Maria, Maria Antônia, Antônio Luiz, Antônio Carlos…Quem navegar Velho Chico pra bandas de Piaçabuçu, vai conhecer uma ilha cheia de coqueiros viçosos, manguezais exuberantes, é a Ilha da Fitinha.

Entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato, seu Rei mandou dizer, que contasse mais quatro.

A AFILHADA

Dr. Romero chegou cedo ao escritório, algumas pessoas o esperavam na sala. Cumprimentou-as, ao mesmo tempo deu um olhar fotográfico, entrou na sala, sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Logo chamou Nena, perguntou os assuntos daquela manhã, a secretária explicou cada caso, a filha de Adamastor veio pegar o cheque mensal.

Romero lembrou o amigo de infância, Adamastor, o melhor ponta esquerda do time de futebol da praia. Naquela época, adolescentes, a juventude aceitava melhor as diferenças, com mais honestidade, valia mais quem sabia jogar mais, quem trepava mais rápido num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Adamastor, um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira do trapiche avançado mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Romero, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira, mergulhavam e pescavam à beira mar, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes, na puberdade, se descobrindo, se possuindo dentro do mar, em intenção às moças de maiô deitadas na areia alva da praia.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Raras vezes eles se viam, embora fossem compadres, Romero era padrinho de uma de suas filhas. Anos depois Adamastor procurou o amigo, estava morrendo, pediu ajuda, não deixar a família desamparada. Há dois anos Romero mensalmente dá um cheque de R$ 500,00 à família, um dos filhos vem buscá-lo no início de cada mês. Ele não conhecia essa filha à sua espera, ela entrou no escritório.

– “Você parece com o Adamastor, sente-se por favor” recebeu em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se elegante, cruzou as pernas, sorriu.

-“Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou, uma juventude alegre e livre na praia. Eu sou Clarissa, sua afilhada.”

– “Não me diga que prazer, ter uma afilhada bonita, não é para todo mundo”. Disse Romero rendendo-se ao encanto da morena. “Clarissa, minha afilhada, o que você faz na vida? Adamastor foi meu grande amigo de infância, gostaria de saber se posso ajudar em alguma coisa a mais?”

-“Doutor Romero na verdade eu trabalhava numa loja do Shopping, a empresa passando por dificuldades, fiquei desempregada, ainda bem que moro com mamãe.”
– “Faça o seguinte, traga seu currículo, deixe com minha secretária, vou ver o que posso fazer.” Levantou-se deu-lhe o cheque, ficou olhando a filha de Adamastor se retirar. Pensou, uma bela mulher!

Duas semanas depois Clarissa trabalhava no escritório, auxiliando Nena. A convivência entre o padrinho e a afilhada foi se estreitando, Romero tinha maior carinho pela filha do amigo, às vezes iam lanchar numa sorveteria perto do escritório, conversavam bastante, ele sorria com o bom humor da afilhada. Entretanto, ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo vez, final do expediente ele dirigia rumo à sua casa, avistou Clarissa no ponto de ônibus, ofereceu carona. Ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa, no primeiro sinal vermelho o carro parou, ele olhou nos olhos de Clarissa, no verde arrancou, deixou-a em frente de sua casa, na despedida em vez de beijinho na face, aconteceu o primeiro beijo na boa, ficou só no beijo, ela desceu rápida.

Dia seguinte Clarissa estava encabulada, mal encarou o padrinho. Ele a chamou, disse que o beijo foi uma coisa natural, afinal ela é uma mulher atraente. Pediu a Clarissa fazer alguns pagamentos, ela saiu à pé, o banco era perto. De repente, Romero encheu-se de desejo, desceu à garagem, conseguiu alcançá-la , parou o carro. Passarem uma tarde inesquecível num motel luxuoso.

Romero adorou a aventura, toda semana repetiam a tarde maravilhosa, por muito tempo. Na virada desse ano, durante o réveillon na praia, um italiano conheceu Clarissa, conversaram, tomaram champanhe, celebraram com fogos a entrada do ano novo, dormiram juntos no hotel. Paolo apaixonou-se pela morenice, pela sensualidade daquela jovem, embarcou para Itália quatro dias depois, levou Clarissa, a jovem está em Gênova. Na véspera da viagem a afilhada explicou ao padrinho o inesperado acontecido, o italiano apaixonou-se, prometeu o mundo à ela. Romero chocou-se. Teve enorme depressão, a tristeza aumenta quando pensa, talvez nunca mais veja sua querida afilhada.

A MANICURE

– Depois de velho, você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, a campanhia do apartamento tocou, uma morena sorridente se apresentou, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas, ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retornaria na hora do almoço.

Durante o cortar das unhas de mão, Aparecida alisava a de Fonseca com suavidade, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos, olhou para manicure com curiosidade, ficou inquieto ao perceber o generoso decote da manicure, seios duros, empinados, há tempo não excitava-se com uma mulher. Puxou conversa.

– Menina você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro, sustentar minha filha, uma vizinha me ensinou, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. Ganho meu sustento.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Marido não, meu vizinho, namorei com ele, me emprenhou ainda menina, eu tinha 15 anos. Danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão, canta bem. Há mais de cinco anos não tenho notícias dele, soube que é traficante no morro. Por isso vivo com minha mãe.

Conversaram muito, Aparecida contou sua vida severina, comum na periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. A morena agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado ao perceber o corpo da morena dentro do vestido azul claro, quase transparente. Aparecida despediu-se perguntando quando retornava. Venha no próximo sábado, disse com entusiasmo admirando o rebolado da manicure em direção à porta.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca resmungou, fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Dois meses Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Num sábado cheio de sol, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou-lhe o pescoço, o colo, deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, “não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. No apartamento da Ponta Verde, embalado pela carícia do vento Nordeste, em cima do tapete comprado na Capadócia fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a mulher para almoçar, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar, o que deu em você hoje?

Fonseca, homem decente, conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida, encontram-se uma vez por semana para deliciosa tarde de amor, com ajutório. Fonseca está sentindo-se mais jovem, cabelo cortado, camisa da moda. Nunca mais Dona Sílvia reclamou o relaxamento do marido.

DESEJOS DE ANO NOVO

Nesse final de ano recebi um presente, o livro, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA” de meu querido amigo Ignácio Loyola Brandão, jornalista, ator, o escritor brasileiro mais lido no país e no estrangeiro.

Uma dedicatória gentil, generosa, deixou-me emocionado, “Para o grande Carlito, que me deu o título deste livro, com a amizade de sempre”. No final do livro cheio de histórias e crônicas fascinantes, Ignácio explica o título.

“Final de ano é também momento de desejar boas-festas. Mas todas as frases, todos os cartões, tudo foi esgotado, virou clichê, lugar-comum, banalidade. Estava no computador buscando alguma originalidade, porque é o que esperam de mim. Aí travei! De repente, meu amigo Carlito Lima, de Marechal Deodoro, cidadezinha vizinha a Maceió, me salvou. Carlito organiza um dos menores e mais amados festivais de literatura do Brasil, FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), pequeno, mas com nomes de primeiro time e muito companheirismo. Pois repasso aos leitores os desejos de Carlito. Vejam que delícia. Podem usar.

Alguns desejos para o próximo ano novo.

Se existir guerra, que seja de travesseiro.

Se for pra prender, que seja o cabelo.

Se existir fome, que seja de amor.

Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó.

Se for pra atacar, que seja pela pontas.

Se for pra enganar, que seja o estômago.

Se for pra armar, que arme um circo.

Se for pra chorar, que seja de alegria.

Se for pra assaltar, que seja a geladeira.

Se for para mentir, que seja a idade.

Se for para algemar, que se algeme na cama.

Se for pra roubar, que seja um beijo.

Se for pra afogar, que afogue o ganso.

Se for pra perder, que seja o medo.

Se for pra brigar que briguem as aranhas.

Se for pra doer, que doa a saudade.

Se for pra cair, que caia na gandaia.

Se for pra morrer, que morra de amores.

Se for pra tomar, que tome um vinho.

Se for pra queimar, que queime um fumo.

Se for pra garfar, que garfe um macarrone.

Se for pra enforcar, que enforque a aula.

Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo.

Não vacilei (continua Ignácio) copiei e enviei para vários amigos, inclusive ao Chico Buarque, devia uma mensagem a ele. Meia hora depois veio a resposta.
Adendo para adictos:

Se for pra cheirar, que seja a flor.

Se for pra fumar, que seja a cobra.

Se for pra picar, que seja a mula.

Obs. de Ignácio. – Pensando nas novas gerações, esclareço: “a cobra está fumando” era a expressão que os soldados brasileiros, chamados de pracinhas, que lutavam na Europa na última Grande Guerra, usavam ao atacar o inimigo.”

Assim Ignácio Loyola Brandão encerra seu novo livro, encantador. Aproveito para enviar aos amigos, novamente, esses desejos de ano novo, em meu nome, em nome do Loyola e do meu novo parceiro, Chico Buarque. Um ótimo 2017.

DE MÃOZINHAS DADAS

Maria Lúcia acordou-se com leve dor de cabeça, amargo na boca, havia bebido na noite anterior. Ainda deitada desligou o ar condicionado. Veio-lhe a imagem, detalhes da tarde de amor, Marcelo, terno, carinhoso, ao mesmo tempo selvagem, deixou-a em êxtase duas vezes, quase desmaia. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem mais velho, poderia ser seu pai. Lucinha não tinha algum sentimento de culpa, não importava aquela situação camuflada, pouquíssimos amigos sabiam do caso. Sem problema ou preconceito em amar um homem mais velho e casado. Bem melhor que Julião, ex marido, Marcelo usava a experiência, sabia mexer nos pontos sensíveis de uma mulher, devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto Julião um desastre na cama, apesar do belo corpo jovem, bebia muito, cheirava; na hora do amor pensava apenas em satisfazer-se. Maria Lúcia aguentou apenas dois anos de casada, não tinha saudade daquela época. Hoje, uma mulher livre, fazia o que queria, até um caso de amor com um homem maduro. Na véspera, depois da estonteante tarde de amor, Maria Lúcia saiu com um grupo de amigos na balada noturna, dançou e bebeu até quase amanhecer o dia.

Saiu do devaneio ao olhar o relógio, 11:30 h, levantou-se, abriu a cortina, dia ensolarado, luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda misturava um azul turquesa em suas águas, pequenas marolas. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida é bela.

Na sala encontrou os pais, a irmã mais nova.

– “Lucinha querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega.” Entregou a irmã.

– “Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta, independente, dona do meu nariz”.

Conversavam enquanto Maria Lúcia preparava um lanche na cozinha. O celular tocou, era Dudu. Toda mulher bonita, gostosa, separada, tem um amigo homossexual.

Eduardo não parece homo, não dá para notar sua opção sexual até ele abrir a boca. Lucinha atendeu.

– “Diga Duduzinho querido! Como está vossa excelência?”

– “Estou à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos encontramos numa barraca de praia, para um bom chope? Depois seja o que Deus quiser. Esse dia ensoralado é um convite para desmantelo.

– “Fechado, uma hora na Barraca Pedra Virada, tem sempre amigos curtindo uma cervejinha”.

A mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de orelha.

– “Lucinha, você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja outro marido. Esse Dudu parece, mas não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, com juízo.”

– “Minha mãe essa vida é curta, ou eu me divirto ou tenho juízo, os dois são incompatíveis”. Deu uma gargalhada.

Maria Lúcia deu partida no carro rumo ao encontro, tomou a Avenida Beira Mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou na espera, ao olhar de lado teve um susto. Seu amado Marcelo entrava num restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar, acabou-se a alegria, veio-lhe um profundo ciúme do fundo da alma. Precisou uma buzinada para acordá-la ao abrir sinal verde, acelerou o carro, mais adiante parou no acostamento, colocou a cabeça entre as mãos por cima do volante, chorou de raiva e pena de si mesma. Ao se recuperar retomou a Avenida Beira Mar.

Dudu esperava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de cerveja na mão, peixinho frito na outra, ao vê-la fez sinal. Lucinha achegou-se devagar, sentou-se, chorou discretamente, queria tomar um porre, contou ao amigo o encontro inesperado com o amado Marcelo.

– “Você diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Marcelo e a esposa.” Provocou-a Dudu.

– “De mãozinhas dadas! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!”

O PEQUENO PRÍNCIPE NEGRO

Ninguém sabe de onde veio, nem ele. A mãe o abandonou na Praça do Centenário quando Cícero não havia completado oito anos, negrinho, chamava atenção sua figura bonita. Olhos pretos, vivos, cabelos crespos. Sozinho no mundo, ficou a vagar pela cidade grande.

O menino enjeitado, triste e assustado, perambulou durante dias pelas ruas de Maceió, dormindo sob marquise, em praças, faminto, até que encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria tornarem-se amigos, entrosou-se com esses menores que faziam ponto no centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Sobreviviam de esmola, do que achavam no lixo, de roubos fortuitos, até pequenos assaltos. Assim viveu Cicinho por anos nas ruas da cidade, abandonado pela sociedade, pelos governos, sem escola, sem casa, sem documentos, duas vezes preso por vagabundagem. Sua família eram os colegas de rua, de cola e de cruz.

Num dia de festa, o Brasil havia vencido um jogo da Copa do Mundo, enquanto a cidade comemorava, Cicinho procurava comida num container no bairro chique da Jatiúca, lixo de qualidade.

Alzira, moradora de um prédio, da janela reparou a cena, comoveu-se, teve pena do adolescente catador, alheio à festa. Agradou-lhe a silhueta daquele jovem moreno, cabelos crespos cumpridos, vestes maltrapilhas, capa velha surrada, parecia o Pequeno Príncipe Mendigo. De repente, ao acaso, ele olhou para a coroa, cumprimentou-a sorrindo. Ela respondeu-lhe outro sorriso. Com a mão direita aberta Alzira deu um sinal para ele esperar, desceu levando um bolo de chocolate na mão, ao aproximar, sentiu uma forte empatia, um afeto maternal pelo jovem. Cicinho recebeu o bolo, dividiu com amigos, comeram sentados no chão. A partir daquela dia, algumas vezes na semana, o jovem cheira-cola aparecia em frente ao edifício, a coroa lhe dava o que comer em um saco de papel pardo.

Alzira havia completado 41 anos no dia que conheceu Cicinho, dizia para si mesma, ser um presente de Deus. Mulher sofrida no amor, foi casada, sem filhos, por onze anos com um médico, abandonou-a por uma aluna da Faculdade. Um trauma para Alzira, quarentona bonita, vistosa, charmosa. Desde sua decepção amorosa, trancou-se para o mundo, mora sozinha, evitou namoro, sexo e amigas. Funcionária pública, o trabalho ajuda sua existência

Sentia-se abandonada igual ao jovem catador de lixo, ele veio preencher uma carência afetiva, alegrava-se ao dar-lhe parte de sua comida, depois presenteou-lhe camisa, roupa. Com o passar do tempo deu-lhe trabalho, mandou o barbeiro dar-lhe um trato, tornou-se uma espécie de secretário para limpeza da casa, do carro, fazer compras e outros afazeres. Cicinho toda manhã dava plantão em frente ao prédio de Alzira, à tarde caía no mundo junto aos companheiros. Certo dia ela convidou-o a morar no quarto de empregada, almoçava com a cozinheira.

Alzira ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava a ler, a escrever e contas aritméticas. Deu sorte, conseguiu matricular o jovem no Colégio Marista onde os Irmãos têm cursos gratuitos para os necessitados.

Cicinho é calado, casmurro por natureza. Alzira descobriu, em conversa, seu sonho, uma prancha de surf. No natal ela presenteou-lhe uma prancha, o jovem feliz da vida, danou-se a surfar na praia de Cruz das Almas. Nunca abandonou os amigos, quando ia ao surf marcava com os companheiros cheira-cola, eles pegando carona na prancha. Quando podia, arranjava comida para sua turma. Cicinho tem consciência que a sorte passou em sua vida. É generoso e solidário, embora o sentimento de injustiça e desigualdade social seja forte em suas convicções.

Tornou-se um forte e belo rapaz, espadaúdo, típico surfista. Atualmente estuda para vestibular de Direito, quer ser um bom advogado e criar uma casa de abrigo a menores moradores de rua, seus sonhos fizeram feliz Dona Alzira, como ele a chama.

Cicinho deixou a dependência de empregada, dorme em quarto próprio. Mostra sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, lhe deu o que um jovem precisa, um lar, afeto e estudo. Está aprendendo a dirigir, carro prometido se passar no vestibular. Para Alzira é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho.

Nas refeições divide a mesa com seu protegido. Segundo línguas ferinas, sem provas, invencionice de quem não têm o que fazer, durante parte da noite, divide também a cama forrada de lençol de linho e travesseiros de marcela. Alzira anda na maior felicidade, apenas um problema, administrar o ciúme das paqueras que dão em cima de seu belo Pequeno Príncipe Negro.

O DEZEMBRO QUE ME HABITA

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Árvore de Natal decorada de Reisado, cheia de fitas

Dezembro, férias de verão, as festas natalinas faziam a alegria da moçada. Praça Sinimbu, Praça da Faculdade (Afrânio Jorge). Armavam-se roda gigante, barquinhos, tiro ao alvo, um palco para folguedos natalinos rolando por toda noite. As mocinhas desfilavam na calçada em torno da praça, os jovens de blusa gola roulê, encostados nos carros paqueravam as meninas que vinham e que passavam num doce balanço a caminho do nada. Um forte alto-falante anunciava produtos patrocinadores e enviava recado a CR$ 2,00 (dois cruzeiros), num som gutural o locutor enfático: “Alô, alô, Aninha Amorim, você é a garota que mais brilha nessa festa; assinado, você já sabe!”. “Alô, alô menina do vestido de bolinha azul, estou lhe esperando atrás da Igreja às nove horas.”

Época dos flertes, namoros bem comportados no portão de casa, festas de clubes ou casas, descobrindo o prazer de dançar. Música suave, blues e jazz americanos e de baião. Logo depois, arrebentou o rock. Ainda menino, aprendi os passos de Elvis Presley.

Na festa de rua, construía-se a Nau Catarineta, navio de barro (taipa) no centro da praça, especialmente para dançar a Chegança, folguedo proveniente da Península Ibérica, auto de tema marinho contando as dificuldades da vida marítima, as tempestades, o contrabando, as brigas entre marujos e entre cristãos e mouros. Alguns personagens marcantes: o Almirante, o Padre e o Cozinheiro.

Manoel, pintor de parede, todo ano fazia o papel do Almirante na Chegança. A partir do dia 6 de dezembro até terminar a Festa de Rua na Praça Afrânio Jorge, dia de Reis, 6 de janeiro, ele saía à rua fardado de Almirante de Chegança, só tirava a farda para dormir e trabalhar, assim mesmo porque tinha receio de sujar com tinta sua belíssima farda. À noite quem quisesse encontrá-lo era só aparecer no Cabaré da Railda, estava Manoel, Almirante, fardado junto à rapariga Joaninha Boca de Fole, seu xodó.

No palco dos folguedos, toda noite havia a maior atração, o Pastoril, dança folclórica natalina formada por duas colunas de pastoras, cordão azul e cordão encarnado. As duas torcidas vibravam na platéia, maior competição. No final da Festa, era declarado o cordão campeão quem vendesse mais votos.

As pastoras, com fantasias singelas, saias bem rodadas, entravam cantando a primeira jornada: “Boa noite, meus senhores todos… Boa noite, senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… que alegremente vamos a Belém…” Mestra, a primeira pastora do encarnado; contra-mestra, a do azul; entre as duas, Diana, fantasiada de azul e encarnado: “Sou a Diana… Não tenho partido… O meu partido são os dois cordões…”

Menino meio danadinho, na puberdade, nos intervalos entre as jornadas eu chamava em cena uma pastora, alguma bonitinha, com os peitos mais acentuados. Ela entrava dançando ao som da música. No palco, eu colocava a cédula com alfinete, como quem prega uma medalha, descuidadamente, roçava o seio da pastora com a palma da mão, ela corava. Eu gritava de emoção: “Viva o cordão encarnado!”, descia feliz da vida, excitado, sentindo o seio em minha mão.

Existe uma enorme diversidade de folguedos natalinos em Alagoas. O professor, pesquisador Théo Brandão, catalogou 36 tipos de grupos folclóricos. Guerreiro, Reisado, Boi, Coco de roda, Baiana, Taieira, Nega da Costa, Pagode, Fandango, Maracatu, entre outros.

Por tudo isso, dezembro me encanta, alguns acham o natal triste, ao contrário, meu natal cada ano fica mais alegre. No mês de dezembro minha casa é decorada com um tema folclórico, inclusive a árvore de natal. Esse ano, é do Reisado, auto popular, formado por grupos de brincantes fantasiados, músicos, cantores que vão de porta em porta, anunciar a chegada do Messias, homenagear os três Reis Magos e fazer louvação aos donos das casas onde dançam, em troca de bebida e comida..

Tornou-se tradicional o café em minha casa na manhã do 24 de dezembro oferecido aos parentes e alguns amigos. Início 7:00 h, término por volta das 14:00 h. Café nordestino com muita poesia, música, depoimentos, orações, ano passado dançamos o pastoril, a alegria reina nos abraços, beijos, gentilezas, sem troca de presente. Meu natal é o dezembro que me habita.

UFC NO CAMPO SANTO

Naquela manhã, dia de finados, Norminha tirou o carro da garage, distraída, pensava no marido e como foi traída. Pela primeira vez retornava ao cemitério desde os acontecimentos no enterro, afinal passaram 18 anos juntos. Fernandinha, a filha de 14 anos, perguntou se ia encontrar a Adélia, filha do pai com a outra mulher.

– Deus me livre, nunca mais em minha vida quero ver aquela desgraçada, vadia, sirigaita, enfeitiçou o finado seu pai, ainda fez essa filha. É sua irmã, por parte de pai, apenas. Não quero e você está proibida de fazer amizade com essa moça.

Mal sabia Norminha, as duas estudavam em colégios do CEPA, são amigas desde que descobriram serem meio irmãs, filhas do Peixotinho, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Norminha rumou para ao cemitério, Fernanda ao lado, calada, a mãe em devaneios.uf

Fernando Lyra Peixoto, ainda jovem, conseguiu um emprego na Rede Ferroviária com um deputado amigo da família, assíduo e trabalhador, todos os chefes gostavam daquele servidor, gentil. Sempre arranjavam uma maneira de uma função gratificada. Peixotinho não reclamava o salário de funcionário, tinha outra viração, emprestar dinheiro, um pequeno agiota, controlado, morava com a mãe viúva. Adolescente descobriu uma das coisas mais importante em sua vida, sexo e mulher. Carinha de santo, sonso que só o cão, uma lábia de encantar mulheres, vivia atrás das empregadas na vizinhança, os amigos o apelidaram maldosamente, Rei das Peniqueiras.

Guardou seu dinheirinho ganho na repartição, tinha casa, comida e roupa lavada. Por acaso investiu na agiotagem, um amigo desesperado pediu-lhe emprestado, pagou-lhe com juro de 10%, Peixotinho gostou, tornou-se agiota, investia também em apartamentos pequenos, o aluguel aumentava sua renda. Solteiro, gostava mesmo de uma garota de programa, teve poucas namoradas. Certo dia percebeu, os amigos de infância estavam casados. Aos 30 anos resolveu se casar, namorou e casou-se com Norminha, três anos depois apareceu sua filha, Fernandinha. Homem sério, todos admiravam, Norminha não cansava de se orgulhar, pelo Peixotinho botava a mão no fogo.

Certo dia amanheceu com a garganta inflamada, ao tomar algumas injeções na farmácia, conheceu a enfermeira, Ana, bonita morena, mãe solteira, vivia com o filho e o pai no bairro do Jacintinho. Trabalhava muito em hospital e dava plantão em farmácias fazendo curativos, aplicando injeções para sustentar a casa. Peixotinho empolgado com a sensualidade da jovem, retornou à farmácia paquerando abertamente Aninha. Sua insistência e lábia conseguiram levá-la a um motel. A partir daí teve encontros semanais com a carinhosa enfermeira, preenchendo parte de sua vida amorosa. Aninha engravidou quase ao mesmo tempo que Norminha, as duas filhas nasceram com diferença de um mês. Ana não fazia questão em ser a “outra”, afinal Peixoto ajudava muito, até cedeu um de seus apartamentos para moradia de Ana, o pai e os filhos. Peixoto conseguiu guardar esse segredo durante 15 anos. Certa manhã, na repartição, sentado, de repente veio-lhe suor frio, dor aguda no peito, a dor aumentou, caiu a cabeça para frente no birô, infarto fulminante. Morreu feito um passarinho.

Dia seguinte no enterro Norminha percebeu uma morena junto à filha adolescente, as duas chorando no caixão, quis saber quem eram aquelas intrusas. Everaldo, amigo, confidente de Peixotinho, contou-lhe a verdade. Norminha partiu desesperada, puxou Aninha e a filha do caixão, chamando-a de vadia, deu tapa na cara, alguns amigos intervieram botando paz no enterro. Depois de alguns meses, as duas, encontraram-se em audiência, brigando pela herança de Peixotinho. O “come quieto” deixou onze apartamentos pequenos.

Naquele dia de finado finalmente Norminha chegou ao Campo Santo, uma orquestra tocava as Bachianas de Villa Lobos enchendo o ambiente de saudades. Cemitério lotado, Norminha e Fernandinha dirigiram-se ao túmulo de Peixotinho, ao ver, ao longe, Aninha e filha ajoelhadas colocando flores no túmulo do marido, a viúva partiu em disparada, na velocidade que vinha rodou a bolsa na cara da “outra”, atordoada, levou murro na cara, ao cair revidou puxando o cabelo de Norminha. Atracaram-se no chão xingando-se mutuamente de vadia e puta. Ninguém teve coragem de apartar a briga, as duas rolaram, puxaram cabelo, deram tapas, jogaram areia, por mais de cinco minutos. Precisou dois policiais para terminar o briga. Perante o Delegado as duas tiveram que explicar para não ser enquadradas em perturbação da ordem pública. Uma coisa ficou clara, o UFM do Campo Santo ainda terá mais rounds.

LISBOA, VELHA CIDADE

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Lisboa à noite

Última escala da viagem, descemos em Lisboa direto de Praga, saímos do Leste Europeu encantados com a beleza das cidades, dos prédios, dos castelos, das igrejas, principalmente das mulheres. As eslavas são as mais bonitas do mundo.

Portugal é nosso pai, talvez avô, às vezes nos desentendemos, entretanto, nos amamos há 516 anos, desde o descobrimento. Vivemos juntos, fizemos história juntos. Sinto-me em casa quando estou em Lisboa.

Nosso país tem tamanho continental graças aos portugueses, os bandeirantes gananciosos em busca de ouro, prata e diamantes desbravaram o Oeste brasileiro, esqueceram o Tratado de Tordesilhas assinado entre Espanha e Portugal em que dividia as terras descobertas. Pelo Tratado, o Brasil português, seria bem menor. Uma linha imaginária passando na região de Belém do Pará e Laguna em Santa Catarina, separava o lado Leste para Portugal e Oeste para Espanha. Entretanto bravos portugueses misturados com nativos, índios, resolveram conquistar o Oeste com as Entradas e Bandeiras, e o Brasil tornou-se esse imenso país, anos depois as Forças Armadas brasileiras ocuparam, marcaram, mantiveram a linha de fronteira do Brasil com os países hispânicos da América do Sul.

Os portugueses não tiveram problemas em se miscigenar com índios e negros formando uma raça de mulatos e cafuzos. A colonização do Brasil teve acertos e erros. Mesmo dividido em capitânias hereditárias, os portugueses conseguiram unificar formando apenas um país, ao contrário da América do Sul Espanhola, dividida em nove países.

Entretanto a colonização brasileira teve um preço, muito ouro, prata, altíssimos impostos, foram diretos para família real viver nababescamente como viviam os reis e a corte.

Em 1755, aconteceu na cidade de Lisboa uma das maiores tragédias urbanas da humanidade. Um grande terremoto seguido por tsunami deixou milhares de mortos. Casas, igrejas, praças destruídas. A devastação da cidade, foi quase total. A restauração foi trabalhosa, dispendiosa, demorada, modificaram o traçado das ruas. Praticamente reconstruíram nova cidade.

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Naquela época o Marquês de Pombal, nobre diplomata e estadista português. Secretário de Estado durante o reinado de D. José I (1750-1777), figura controversa e carismática da História Portuguesa, mandava mais que o Rei, resolveu o problema da reconstrução de Lisboa aumentando os impostos e levando toda a riqueza possível do Brasil. A reconstrução de Lisboa foi feita com o suor e riqueza dos brasileiros. São coisas de colonizador e colonizado, o povo português nada teve com o saque aos cofres brasileiros.

Lisboa, fim da viagem de um bom grupo alegre organizado por Tereza e Pauline Rezende. No Rossio comi um divino ensopado de perdiz. Passeios e compras na Rua da Prata, Rua do Ouro. Fascinante a pitoresca cidade, antigos bondes elétricos trafegam em ruas estreitas e em largas avenidas modernas. O antigo junto ao novo sofisticado. Nas noitadas as casas, restaurante, cheios, ouvindo belos fados. Tivemos o privilégio de almoçar o melhor bacalhau de Portugal na Laurentina, com direito à sobremesa bem portuguesa, a baba de camelo.

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Este colunista com amigos portugueses, Maria e Fernando na Casa do Brasil de Lisboa

Na última noite, devido a gentileza da amiga, Maria Xavier, funcionária do Ministério da Cultura de Portugal, tive a honra em proferir uma palestra seguida de noitada de autógrafos, para minha surpresa, todos os livros vendidos. Uma alegria imensa ser entrevistado pelo competente jornalista João Morales, o mediador preparou a projeção de fotos de várias fases do Brasil nos últimos 50 anos, assunto da palestra e debate, conversamos mais de hora e meia na Casa do Brasil de Lisboa, no Bairro Alto. Auditório cheio, fiquei emocionado com o carinho dos amigos e dos amigos dos amigos que apareceram.

E como ninguém é de ferro nos despedimos de Lisboa com um bacalhau na boemia do Bairro Alto. Lisboa sempre a sorrir, tão formosa, e no vestir sempre airosa, o branco véu da saudade. Até a próxima, minha querida cidade, cheia de encanto e beleza.

BUDAPESTE, CIDADE PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Hungria, esse país povoou minha imaginação na juventude. Entre meus divertimentos, aos 12 anos, eu possuía uma amada coleção de selos. Tia Zezé Peixoto trabalhava nos Correios me trazia selos descolados, caídos das cartas. Certa vez me presenteou um pacote, 24 selos coloridos, belíssimos, neles escrito Magyar Posta, Correio da Hungria. Tornaram-se a preciosidade da coleção, eu mostrava a todo mundo, maior orgulho aqueles selos de um país distante e misterioso.

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Seleção da Hungria 1954

Em 1954 acompanhei por rádios e jornais a Copa do Mundo de Futebol na Suíça. A Hungria era a melhor seleção daquela Copa, inigualável, ganhava dos países mais fracos de 10 x 0 para cima, eliminou o Brasil nas quartas de finais 4 x 2. Numa das maiores injustiças do futebol, esse time perdeu a final em Berna para a Alemanha, campeã, 3 x 2 de virada. O Honved time base da seleção húngara possuía os melhores jogadores do mundo, inesquecíveis, Puskas, Kocsis, Czibor, Grosics. Destaques na história do futebol. Coloquei as fotos desses jogadores na parede de uma puxada no quintal de minha casa onde eu estudava durante a tarde. Tornei-me fã do Honved, de Puskas.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Alemanha invadiu a Hungria. Isolaram os judeus em Budapeste, construíram uma muralha dentro da cidade formando um gueto. Segundo dados do Holocausto, 380.000 judeus húngaros foram mortos nos Campos de Concentração durante a ocupação. Ao terminar a 2ª Guerra os nazistas fugiram da Hungria dando lugar ao vencedor, o Exército de ocupação russo. Azar da população húngara. Saiu Hitler entrou Stalin instalando o regime comunista colocando mais um país na órbita soviética.

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Revolução Húngara 1956 – o povo em armas contra o jugo soviético

Em 1956 eu era cadete da Escola Militar de Fortaleza, tomei conhecimento pelos jornais da Revolução na Hungria. Fiquei interessado, quis entender, acompanhei a revolução do país de Puskas, ele era major do exército húngaro.

A Revolução da Hungria se iniciou no começo de 1956, uma manifestação organizada por estudantes e intelectuais húngaros contra as condições de vida e contra o governo do Partido Comunista, pretendendo adoção de algumas medidas democráticas no país. Cerca de 200 mil pessoas participaram da manifestação entre estudantes, operários e soldados. Os manifestantes derrubaram a estátua de Stalin, agentes da repressão passaram para o lado dos manifestantes. Conselhos revolucionários foram criados em Budapeste e outras cidades para organizar a população. O clima de guerra civil cresceu no país. Os governantes tentaram chegar a um acordo com Moscou. Entretanto, em novembro de 1956 tanques do Exército Vermelho entraram em Budapeste reprimindo brutalmente manifestações. Mais de 20 mil húngaros mortos, contra pouco mais de 700 soldados soviéticos. Era o fim da Revolução Húngara.

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Ponte das Correntes, separa Buda e Peste

Agora nesse bendito 2016, há alguns dias, com 76 anos nos costados, conheci esse país que habitou meus devaneios de juventude. Ao entrar em Budapeste encantei-me, fiquei fascinado com a beleza da cidade, extrapolou a expectativa. De um lado do Rio Danúbio fica Peste, suntuosos edifícios do antigo império austro-húngaro, imponente o edifício do Parlamento de fachadas e agulhas góticas. Em Peste concentram-se museus, galerias, igrejas, óperas. É a zona de compras da cidade, modernos shoppings instalados em palácios do Século XVIII. Atravessando a Ponte das Corrente, guarnecida por leões de pedra, fica Buda, morada dos ricos, onde se localizam castelos, a deslumbrante Igreja de São Matias e muitas construções medievais da cidade.

O Rio Danúbio divide Buda e Peste, inspirou Strauss compor a valsa, talvez a mais conhecida, “Danúbio Azul”. Durante uma noite após um show folclórico, navegamos num luxuoso barco onde avistamos toda cidade iluminada. As noitadas acontecem em modernos clubes ou em navios abandonados à margem do rio. Existem banhos turcos (a maioria também ocupa antigos palácios), unissex. Muito interessante. As belas húngaras costumam rejuvenescer nesses banhos turnos, às vezes nuas. Espetáculo à parte.

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Memorial dos Sapatos

Certa manhã, perambulamos, cinco casais, pela exuberante Budapeste, conhecendo, descobrindo à pé aquela fascinante cidade. A certa altura Dr. Catão nos instigou a procurarmos o Memorial dos Sapatos construído em 2005 por dois artistas, eles fixaram à margem do Danúbio alguns sapatos de bronze simbolizando um triste fato; num dia de inverno um grupo de judeus foi levado pelos nazistas à margem do Danúbio onde foram obrigados a tirar seus sapatos (valiosos durante a guerra) e saltar dentro do rio gelado.

Não se pode esconder, nem esquecer as atrocidades das guerras. Contudo, a beleza da cidade é imorredoura, inebriante, Budapeste, cidade para viver um grande amor, retornarei, em lua de mel, quando completar 50 anos de casado.

CONTOS DOS BOSQUES DE VIENA

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Este colunista e a bela garçonete em Bratislava

Logo após a 2ª Guerra Mundial a Europa foi repartida, a parte Leste ficou em mãos da União Soviética onde Stalin implantou o regime comunista, a parte Oeste os americanos tomaram conta. A União Soviética foi aliada contra o nazismo alemão tornou-se inimiga depois da 2ª Grande Guerra, na época foi iniciada outra guerra, política, sem canhões, chamaram de Guerra Fria. Os USA de um lado, a União Soviética do outro, sempre querendo exibirem suas supremacias. Os Estados Unidos distribuíam seus filmes ao mundo mostrando o estilo de vida, o “way of life”, onde tudo corria às mil maravilhas, as mulheres eram plásticas, recatadas e do lar. Nos anos 50 inventaram o concurso Miss Universo, onde representantes de vários países concorriam ao certame mundial da beleza. O Brasil sempre mandava a sua. Em 1954 a Miss Brasil ficou em segundo lugar, a bela e gostosíssima baiana Marta Rocha perdeu por duas polegadas a mais no traseiro, esses jurados…Os países socialistas não concorriam a essa invenção burguesa.

Viajando recentemente pelo Leste Europeu, ex países comunistas, hoje convictos capitalistas, deslumbrei-me com a beleza das checas, das húngaras, das eslavas. Conclui, se essas mulheres entrassem em qualquer concurso de beleza, ganhariam, são as mulheres mais bonitas do mundo. Por isso o tráfico de mulheres é intenso sequestrando adolescentes eslavas. Depois do petróleo, hoje, o tráfico de belas mulheres é o segundo maior negócio do mundo e as meninas do Leste Europeu são as mercadorias mais valiosas.

Deixando o devaneio ao lado, voltemos à viagem, saímos de Praga num ônibus confortável, sempre assistidos regiamente por Tereza e Pauline Rezende, organizadoras, logo chegamos à capital da Eslováquia a belíssima Bratislava. A cidade tem dois mil anos de história, remonta à época dos celtas, fez parte do Império Romano e ao longo dos séculos atraiu famílias reais, presenciou a coroação de 19 reis e rainhas do império húngaro. A beleza, a cultura, a história e o charme de Bratislava foram danificadas na 2ª Guerra Mundial. Durante os anos vivendo sob o jugo de Moscou se esqueceram do passado lendário da cidade. Recentemente, a cidade passou por uma grande reconstrução, um despertar cultural. Os turistas estão redescobrindo a charmosa cidade velha, os tesouros góticos da cidade, os restaurantes elegantes, os cafés.

A música em Bratislava está vinculada à vida musical vienense. Notáveis compositores frequentaram a cidade, Mozart, Haydn, Liszt, Bartók e Beethoven que interpretou sua Missa Solemnis pela primeira vez em Bratislava.

Almocei um gostoso goulash servido pela garçonete mais bonita do mundo. Mais algumas voltas na cidade partimos para Viena, a exuberante capital austríaca.
ANSCHLUSS- palavra alemã significa anexação. É utilizada em História para referir-se à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938. Logo depois houve um plebiscito, onde 95% dos austríacos votaram a favor da anexação, a Alemanha ganhou a Áustria sem precisar invadir, sem morrer um soldado, o país se considerava alemão. Depois da 2ª Guerra, na divisão entre os vencedores, a Áustria ficou sob domínio americano.

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Este colunista tomando vinho no Café Mozart, Viena, 5°, onde o compositor tomava porres homéricos

Viena, a capital, é reconhecida pela ONU como a cidade de melhor qualidade de vida do mundo. Segurança pública altamente eficiente, serviços públicos excelentes, educação de alta qualidade e diversidade de opções culturais e lazer para população de todas as categorias sociais.

Viena é uma cidade de exuberantes palácios, museus, catedrais e igrejas carregados de história, de largas avenidas repletas de elegantes cafés e restaurantes. Historicamente foi e continua sendo o centro de música erudita, da música clássica, berço e moradia de extraordinários artistas, Franz Schubert, Beethoven, Strauss, Mozart. Entre as grandes figuras vienenses estão, Sigmund Freud, o famoso psicanalista, a imperatriz Isabel Amélia Eugênia, conhecida como Sissi da Áustria. Em 1956 realizaram o filme, Sissi a Imperatriz, com Romy Schneider, produção cinematográfica austríaca de maior sucesso no mundo, depois mais 2 filmes em continuação.

Durante uma noite tivemos o privilégio de ouvir na Ópera de Viena um empolgante, elegante (direito à champanhe no intervalo) e inesquecível concerto, me enlevou a alma, trouxe-me recordações da distante infância quando ouvia na Rádio Difusora de Alagoas o programa “Sonho de Valsa”, naquela época me deliciavam as valsas de Strauss, principalmente, a preferida, “Contos dos Bosques de Viena”. Era a valsa que ouvia naquele momento, naquele local, mais chique impossível.

OUTONO DE PRAGA

Berlim, cinco da manhã, o termômetro marcava 4° centígrados fora do hotel. Preparava-me para viagem à Praga, partida do ônibus prevista para 6:30 horas. Um pouco de ressaca, gosto do vinho Landwein na boca, fiz a barba, tomei um banho quente, depois de um café à salsicha de porco, enfrentamos a estrada. Na saída da cidade revi ao longe o edifício do Reschstag, sede do Parlamento da Alemanha. Em 27 de fevereiro de 1933 incendiaram misteriosamente aquele prédio. O incêndio do Parlamento Alemão foi usado pelos nazistas, liderados por Hitler, como perseguição aos opositores políticos. Iniciava a ascensão de Hitler. Pensava nesse fato histórico quando o ônibus dobrou pegando a impecavelmente limpa rodovia.carlito

Pelo caminho descemos em Dresden, uma volta na cidade mais bombardeada, mais sofrida, durante 2ª Guerra Mundial, foram três dias horripilantes de bombardeios ininterruptos, pelo dia eram os aviões ingleses, à noite os aviões americanos, a belíssima cidade foi destruída, arrasada, insensatez da humanidade, igual às bombas americanas de Hiroshima e Nagazaki no Japão. (Na foto ao lado, este colunista em Dresden)

Fiquei surpreso com a restauração da belíssima cidade, nenhuma marca dos bombardeios. A Orquestra de Câmara de Dresden tocava em frente a um convento naquela manhã de quarta feira. Prosseguimos viagem à margem do histórico Rio Elba, emocionava-me conhecer locais cheirando à História e à Guerra.

Ao meio dia entramos na esplendorosa Praga, almoçamos num restaurante italiano, comida da Itália existe em todo canto do mundo. Fascinado com o centro da cidade, caminhei em torno das luxuosas lojas, turistas de todo canto do mundo, base da economia do país que se chamava Tchecoslováquia, hoje repartido em República Tcheca e Eslováquia, perambulei o resto da tarde esquentando-me do frio de 8° desse outono. Fui conhecer os locais onde aconteceu o movimento político, histórico, “Primavera de Praga”.

Após a 2ª Guerra Mundial os comunistas haviam chegado ao poder na Tchecoslováquia. Nesses anos, a vida política no país tornou-se burocratizada e autoritária, dentro dos parâmetros da União Soviética, era o processo da “stalinização”, em referência ao ditador soviético Stalin. Em janeiro de 1968 Alexander Dubcek assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista tcheco. Imediatamente Dubcek, colocou em prática um audacioso plano de reformas políticas, econômicas e sociais visando “humanizar” o regime. No plano de reformas constavam a liberdade de imprensa, o fim do monopólio político do Partido Comunista, a livre organização partidária, a tolerância religiosa, entre outras medidas que apontavam para a democratização do país.

O movimento liderado por Dubcek contou com o apoio de intelectuais e da população do país. Entretanto, não agradou a Stalin, a 20 de agosto de 1968, tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Os tanques tomaram a capital Praga e, ao invés de encontrarem tropas tchecas armadas e resistentes, depararam-se com uma reação pacífica. Os tchecos inconformados com a invasão armada da União Soviética, se deitavam na frente dos tanques, conversavam com os soldados pedindo que retornassem à URSS. Os soviéticos prenderam Alexander Dubcek, levaram para Moscou junto com outros líderes tchecos, acabando o curto, entretanto, significativo movimento conhecido como Primavera de Praga. As reformas políticas de Dubcek viriam vinte anos depois com a derrocada do comunismo na Europa Oriental.

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Primavera de Praga – 1968 – Reação pacífica dos tchecos à invasão soviética

Praga cidade de muita história, cultura e arte foi desde o século IX cenário dos intercâmbios comerciais e culturais, centro do mercado do Leste Europeu. Na Praça da Cidade Velha, encontra-se o relógio astronômico da Câmara Municipal, umas das jóias da cidade. Contudo, o mais representativo de Praga são suas casas, seus edifícios barrocos e góticos, fachadas mostrando a riqueza de antigas famílias nobres e mercadores. Entre elas, a casa onde morou o escritor Franz Kafka. Pelas ruas da cidade também passeou outra célebre personagem, Wolfang Amadeus Mozart, um dos maiores músicos da humanidade.

Encantei-me com a deslumbrante cidade, a beleza singela das folhas mortas levadas ao vento, caindo ao chão, nesse frio outono de Praga.

CÍRCULO DE GIZ EM BERLIM

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Em pedaços do Muro de Berlim conservado, o desenho da foto do beijo histórico entre Brejnev (Rússia) e Honecker (Alemanha Oriental). Abaixo, este colunista e esposa imitam os dois líderes comunistas

Desenhando no chão um círculo de giz ao redor de um peru ele sente dificuldade em ultrapassar a linha do círculo, torna-se prisioneiro, a área marcada do círculo é seu mundo, a percepção de liberdade do peru limita-se ao círculo de giz desenhado no chão. A vida é bem parecida, nos impõe vários círculos de giz desde que nascemos, às vezes procuramos sair do círculo ou nos acomodamos com os limites. O problema é que sempre existirá um outro círculo nos cerceando a liberdade, às vezes a felicidade.

Durante a juventude descobri na leitura e nas viagens a melhor maneira de transpor o círculo de giz. Consegui abrir caminhos, enxergar novos horizontes, conhecer cidades, outros povos, outras culturas, com a leitura e o espírito aventureiro. Hoje, setentão e muitas viagens no costado, continuo com o gosto de aventura, de viagem, conhecer outros palcos da história da humanidade. Nos últimos dias realizei um sonho viajando, visitei parte do Leste Europeu, países alinhados à União das Repúblicas Socialista Soviética após 2ª Guerra Mundial, separados do Oeste Europeu pela imaginária, não tanto, Cortina de Ferro, naquela época.

Hitler derrotado, os aliados vencedores iniciaram a repartição do “saque” em territórios campos de batalhas. Assim foi deflagrada no cenário mundial a Guerra Fria ( guerra política, sem armas), a Alemanha e o mundo foi dividido entre os vencedores, o lado Oeste liderado pelas nações liberais capitalistas, USA, Inglaterra e França e as nações da parte Leste ficaram na órbita da União Soviética. Stalin o consolidador do regime comunista implantou nas fronteiras da Europa uma linha divisória marcante, muros de concretos, fortificações militares, arames farpados, fossos fundos impedindo qualquer tipo de transposição de tropas, equipamentos e armas de guerra e outros obstáculos delimitando fronteiras, evitando qualquer “contaminação” dos países liberais, capitalistas.

Foi quando o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, denunciou, “uma cortina de ferro desceu sobre a Europa”, acusando a União Soviética de uma ferrenha divisão político-ideológica entre os regime comunista e o sistema liberal capitalista.

A URSS, aliada na 2ª Guerra Mundial contra o Nazismo, tornou-se inimiga da coligação anglo – saxâ, defensora dos valores da sociedade ocidental contemporânea. A Cortina de Ferro foi o mais implacável círculo de giz da história contemporânea.

Em 1961, auge da Guerra Fria, depois da Revolução Cubana de cunho socialista intensificaram-se as defesas dos Blocos quase surgindo uma Terceira Guerra Mundial, foi preciso a União Soviética retirar os mísseis com ogivas nucleares de Cuba, bem na porta dos USA. Nessa época foi construído pela União Soviética o Muro de Berlim, dividindo a cidade de Berlim entre os setores comunista e capitalista, a expressão “cortina de ferro” foi consolidada na imprensa e opinião pública. Era o mais novo círculo de giz ou de concreto, implantado pelo regime soviético na Europa dividida.

A Guerra Fria entre os dois sistemas políticos, determinou um apartamento econômico, social, cultural entre as nações. Em Berlim no muro intransponível muitos habitantes da parte oriental foram mortos ao tentarem transpô-lo, era o isolamento ideológico para não contaminar o regime socialista com os bens de consumo do capitalismo liberal. O Muro de Berlim, círculo de giz bem delineado na bela capital da Alemanha, dividiu famílias, casais, amigos.

A Cortina de Ferro finalmente acabou-se depois do povo demolir o Muro de Berlim em 1989 e da queda dos vários regimes comunistas que dominavam o leste europeu, revolta e descontentamento com a falência da retórica socialista, em especial no campo econômico. Durante esse período vários países tentaram liberta-se do jugo soviético, como a Hungria em 1956, A Primavera de Praga em 1968, todos os movimentos esmagados pelas tropas soviéticas.

Passei esses últimos dias conhecendo os países do Leste Europeu, grata surpresa, beleza urbana, economia pujante. Ainda restam pedaços conservados do Muro de Berlim, fiz documentário fotográfico do desenho famoso, o presidente russo Brejnev beijando Honecker presidente da Alemanha Oriental. O Muro de Berlim foi o último círculo de giz concreto de uma época insana contemporânea da humanidade.

Para completar a série de círculos, visitei na Alemanha a marcante vergonha da humanidade, o Campo de Concentração de Sachsenhausen onde os nazista exterminavam o povo judeu e não ariano.

Nada melhor que uma viagem, conhecendo mais o mundo se conhece mais nossa aldeia. Relaxei, desliguei-me completamente até do mais novo círculo de giz inventado pela modernidade, o Face book.

O INFORMANTE

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Bar do Chope

No início ele veio se achegando entre os frequentadores do Bar do Chope, Rua do Livramento. Ninguém sabia de onde Etelvino tinha vindo com aquele ar de malandro carioca, puxando de uma perna. Diariamente no início da tarde ele aparecia com um jornal embaixo do braço, mancando, cumprimentava os habitués do Bar do Chope, abria o jornal e danava-se a ler. Era jornal da semana anterior, mas impressionava por ser jornal de grande circulação no sul do país, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo Etelvino conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios de plantão. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. No início dos anos 70, auge da ditadura, isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias cheias de mistério, invencionices, cada vez mais circulavam no bar. Uns diziam que Etelvino mancava consequência da explosão de uma granada na luta armada contra comunistas, outros afirmavam com certeza, ele era coronel da Aeronáutica, mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam ele ser um araponga em busca de informações, gente importante naqueles anos. Deviam tomar cuidado, não falar sobre política na frente da autoridade. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Era cadeia certa.

Etelvino alimentava o mistério sobre sua situação, às vezes exagerava em opiniões e histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando ele chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Ele sério colocava o indelével jornal na mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial, carregando no sotaque carioca.

– Ontem jantei com o coronel comandante do 20º BC no quartel do Exército, infelizmente não posso revelar detalhes, entretanto, digo uma coisa meus amigos, aqui para nós, não vão dizer que fui eu que falei, confio em vocês. É que lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Aragarças e Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra os pára-quedistas do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados.

Os colegas de copo ficavam admirados. Essas notícias eram proibidas de serem publicadas em jornais, o que dava uma maior credibilidade ao Coronel Etelvino, como os desocupados já o chamavam. Era coronel para cá, coronel para lá.

Etelvino tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia a história com fanfarronice no Bar do Chope.

Certo dia ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 a 12 estudantes bebiam e conversavam junto à sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Etelvino se juntou aos amigos numa mesa mais ao canto e começou sua história da tarde. Os bêbados ficaram emocionados em verem os personagens bem perto, ao vivo.

– Estão vendo aqueles estudantes, são todos comunistas, fichados. Aquele magro é o Eduardo Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro mais gordinho chama-se Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio Lins, o Aldo Rebelo e o José Rocha. Estão bebendo e tramando subversão. Serão presos nesses próximos dias.

Os vadios ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do Informante.

Até que certa tarde quando a “galera” puxava um chope ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Maior correria na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique, havia assassinado, descarregando o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente à Igreja do Livramento.

Quando acabaram os tiros, serenou a gritaria, corpos no chão, os bêbados gritaram, “Coronel prenda o assassino”. Só encontraram o grande ídolo algum tempo depois, encolhido embaixo de uma mesa por trás da mureta. Ao responder a um colega que exigia sua interferência naquele brutal assassinato, ele balbuciou, gaguejando, tremendo, ainda acocorado:

– Não… não.. não sou co..coronel não!!!

Ao correr para o banheiro Etelvino não pode esconder a calça melada, cagou-se de tanto medo. Depois desse dia nunca mais o carioca Etelvino, o informante, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.

LEMBRANÇAS DA ACADEMIA

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Academia Militar das Agulhas Negras

O tempo passa, o tempo voa, nesse final de ano serão comemorados 55 anos da formatura de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN – 1961. Muitas histórias, lembranças, daquela época estão nítidas em minha mente, como se fosse ante ontem. Foram três anos de rígida formação militar, intelectual e física. Entretanto, a vida de cadete fora dos muros da Academia foi vivida com muita intensidade.

Certa noite gelada de inverno, resolvemos ir à boate Casablanca, éramos sete cadetes bebendo no Bar Zé Carioca em Resende. Ao chegarmos chamávamos atenção, cabeças raspadas, rapazes cheios de saúde, fazíamos furor entre as mulheres do famoso cabaré. Alguns tinham namoradas no lupanar. Nos anos dourados, românticos, prostitutas se apaixonavam.

O conjunto tocava música lenta, salão cheio, pares dançando, se divertindo. De repente um colega, bêbado, tirou para dançar a acompanhante de um caminhoneiro. Depois de áspera discussão, o forte caminhoneiro acertou um murro, o cadete caiu ao chão. Ânimos exaltados, começou uma briga generalizada no salão do cabaré, eu nunca tinha visto luta igual, só em cinema. Murro de um lado, de outro, cadeiras se arrebentando nas costas, nos braços, copos voando. Cadetes x Caminhoneiros. Já havia um bom tempo de briga quando colegas gritaram: “A patrulha da Academia chegou, vamos fugir pelo campo moçada! ” Corremos em direção ao mato, cada um por si no meio do matagal até chegarmos a algum destino.

Ao pular uma janela no fundo do salão senti forte pancada, quebraram uma cadeira em minha cabeça, desmaie. Um colega veio em meu socorro, acordou-me, arrastou-me pelo ombro para o mato. Nesse momento, a Patrulha já havia prendido dois cadetes. Na marcha de retirada noturna pelo matagal fui levado no ombro do colega. A dor aumentando, o sangue não estancava, continuava sangrando. Pedi ao amigo me deixar, preferia apresentar-me à patrulha. De qualquer modo, o ferimento iria me denunciar. Alguns colegas conseguiram se evadir, embrenhando-se matagal a dentro.

O colega improvisou uma atadura com minha camisa apertando o ferimento, tentando estancar o sangue, a cabeça doía. Retornei ao cabaré, fui devidamente preso pela patrulha e escoltado à enfermaria da AMAN, costuraram 20 pontos na cabeça. Eu e mais dois colegas amanhecemos o domingo na prisão da Academia.

Dias depois do acontecimento, cantou no Boletim Interno, transcrito de minhas alterações (assentamentos).

“Punição – Cadete de Infantaria Carlos Roberto Peixoto Lima – Por ter frequentado ambiente não compatível com a situação de cadete, por ter ingerido bebida alcoólica, por ter participado de uma briga contra civis, infringido o R/4, Regulação Disciplinar do Exército, fica preso por 15 dias. Permanece no comportamento bom. Punição de caráter repressivo.”

A prisão em si foi fácil, pouco tempo, afinal, havia dois companheiros fazendo companhia. A cadeia era um cubículo bem arrumado junto ao Corpo da Guarda. Todos os dias saíamos para assistir aulas, educação física e instrução militar. O problema foi a sindicância para apurar os fatos e quem mais participou da briga. O capitão encarregado era encrenqueiro, chato e prepotente. Fez pressão, marcação constante para que eu delatasse os companheiros fugitivos. Todo tarde me convocava para depor; deixava-me numa cadeira por mais de duas horas esperando. O capitão me ameaçava se não delatasse os companheiros seria desligado da AMAN, se delatasse, conseguiria aliviar a punição. Tentou métodos psicológicos, me convencendo ser para o próprio bem de meus amigos, mereciam punição, era uma maneira de educar. O capitão aplicava uma simples tortura mental. Entretanto, jamais delatar era ponto pétreo do nosso código de honra, não escrito, respeitado.

Entre os cadetes havia destaque, os atletas das equipes de futebol, voleibol, atletismo, natação, entre outros, eram os mais destacados. Depois os “cu de ferro”, boas notas, os que estavam sempre entre os primeiros na classificação. Os cadetes levavam uma vida simples, austera, de muito estudo e disciplina, de repente aparecia um fato isolado, caso da briga, fiquei famoso.

Certo domingo escalaram-me de serviço de cabo das baias no Curso de Infantaria, função, fiscalizar a limpeza das baias e dos animais (a Infantaria ainda tinha burro e cavalos). O sargento de dia era um cadete do terceiro ano. Passei o domingo conversando com o colega, lamentou ser pobre, vida difícil, filho de alfaiate. Por conta desse domingo de conversa houve maior aproximação entre nós; quando o via no pátio ou no cinema, depois do jantar, conversávamos bastante. Tornou-se meu amigo.

Fiquei pasmado, admirado, incrédulo quando, em 1969, li uma notícia nos jornais que certo capitão Carlos Lamarca tinha roubado armas e munições no quartel de São Paulo e partido para a guerrilha. Lamarca era o cadete, companheiro de serviço naquele domingo frio da Academia Militar das Agulhas Negras.

ASSISTÊNCIA VIRTUAL

Alô Dirceu, não imagina onde estou“. Falou ao celular uma voz feminina, rouca de cigarro, sotaque carioca. Dirceu reconheceu de imediato. Surpreso respondeu. “Marília, você deve estar na praia de Ipanema tomando um belo chope“.

– Estou em Maceió, meu querido, à beira da piscina do belíssimo Hotel Jatiúca. Hoje pela manhã fui deixar uma amiga no aeroporto do Galeão, viajando à Maceió, uma semana numa excursão. Não resisti, telefonei para casa, dei uma desculpa boba, comprei a passagem no balcão, estou aqui, minha irresponsabilidade é do tamanho da vontade de conhecer meu amado Dirceu à cores e ao vivo.

Deu uma gostosa gargalhada enquanto ele sobre o impacto da surpresa pensava o que fazer. Desculpou-se, pediu para retornar a ligação em 30 minutos.av

Dirceu saiu da sala foi à varanda do escritório, acendeu um cigarro, puxou uma longa tragada, recordou rápido como tudo começou. Há 15 anos se rendeu à esposa e filhos comprou um computador, inevitável no mundo moderno. Hoje não pode viver sem um, seja no escritório, nos negócios, no lazer. Tem como distração conversar nas redes sociais, boa parte da noite dedica aos amigos virtuais.

Ano passado encontrou Marília numa sala de bate papo, deram-se bem, ela viúva, ele casado há mais de 30 anos, pareciam ter a mesma visão do mundo, o gosto convergente pelas letras, artes e história, passavam horas teclando, conversando, sessentões revolucionários, ainda querendo mudar o mundo. De um tempo para cá a afinidade aumentou, troca de confidências, fotografias, às vezes conversa ao telefone. Naquele momento deu-lhe uma vontade imensa de encontrá-la no hotel, entretanto, tem respeito e amor à esposa. Contar a verdade seria um problema maior, estava a definir a estratégia quando o celular tocou. “E aí, menino, a gente vai se ver?” – “Claro que sim, espere-me no hotel, são três e meia, às quatro e meia estarei aí” marcou Dirceu, cujo nome verdadeiro é Abelardo Silveira. “Espero aqui na piscina“, respondeu Marília, nome virtual de Carolina Paes Leme, ambos 65 anos.

Pontual, Abelardo entrou no hotel às 16:30 h. atravessou o hall, parou no terraço olhando devagar, os hóspedes curtindo a tarde de verão na piscina. De repente percebeu uma mulher sozinha de biquíni deitada numa cadeira, ao se aproximar, ela levantou-se sorrindo, bem perto se encararam, olhos nos olhos, naturalmente deram-se um abraço demorado, terno e sensual. Abelardo alegrou-se com o corpo e a beleza da amiga, coroa mais bonita e conservada não havia conhecido. Abraçando-a pelos ombros levou-a ao bar onde conversaram alegremente acompanhando bebidinha e salgadinho. Eram sete da noite quando Abelardo recebeu um telefonema da mulher perguntando se iria jantar, ele confirmou, não havia percebido o tempo passar. Olhou para Marília, disse enfático.

– Minha querida nunca lhe escondi meu casamento, estou num dilema, contar à minha mulher será bem pior, por isso peço-lhe, me aguarde, eu telefono amanhã às 9 da manhã. Espere.

Em casa Abelardo ficou matutando como dar assistência quatro dias à Marília, a coroa mais bonita do Brasil. Lembrou-se, havia um problema, uma pendenga a resolver no Recife. Comunicou à mulher, dia seguinte pela manhã viajava ao Recife. Dirceu apanhou Marília na entrada do hotel, dirigindo devagar, rumaram ao Litoral Norte alagoano, mostrou praias lindas de um azul exuberante, Ipioca, Paripueira, Japaratinga, Maragogi, entrou em Pernambuco. No Recife hospedaram-se na praia de Boa Viagem.

Ao ficarem juntos e a sós no apartamento, beijaram-se, amaram-se devagar com muito carinho e ternura, como pessoas maduras. No início da tarde Abelardo resolveu o problema no bairro do Recife Antigo. Ficaram por lá visitando os casarões coloniais. As ruas estreitas, antigas, encantavam o casal sessentão. Fizeram uma noitada de vinho e amor.

Dia seguinte retornaram à Maceió, via litoral, devagar, conversando, sem importar o passado ou futuro, sábios, idosos, sabem dar valor ao presente. O tempo é um relâmpago. Durante o restante dos dias, Dirceu fez estripulias, mas conseguiu dar assistência à Marília e não foi assistência virtual.

DISCRETAMENTE

Nove meses após o casamento do Dr. Romero e Dona Marilena nasceu Maria Aparecida; ano depois veio Ana Maria. As duas eram xodós da mãe, Dona Marilena, como se brincasse de boneca, vestia as duas iguaiszinhas, andavam juntas, estudavam juntas, só não pareciam gêmeas porque Cidinha era branca igual à mãe e Aninha morena como o pai.

Na adolescência a primeira revolta, acabaram esse negócio de se vestirem iguais. Aos 13 anos Aninha, mais esperta, já havia beijado um namoradinho. Cresceram na praia da Pajuçara. A juventude dos anos dourados era uma festa, apareceram namorados, Henrique amava Aninha que amava João que amava Cidinha que amava Henrique, assim nesse círculo amoroso passou o tempo. Para desespero e dor de corno de Henrique, João namorou Aninha, engravidou, noivaram e casaram em uma festa bonita no sítio dos pais na Massagueira beirando a Lagoa. No dia do casamento, sem esperança de Aninha, Henrique cedeu aos encantos de Cidinha, começaram namoro, em dois anos casaram-se na mesma casa, no mesmo terraço, no mesmo jardim.ds

Anos passaram, os dois casais unidos em torno da família, vieram filhos para alegria dos avós. Dr. Romero comprou três apartamentos no mesmo prédio onde foi morar, deu um a cada filha, facilitando a visita constante dos netos, para felicidade de Dona Marilena.

Entretanto, a vida é um relâmpago como disse o poeta Lêdo Ivo, de repente um infarto, Dr. Romero caiu fulminado no chão de sua cozinha onde gostava de se deliciar com carnes gordurosas e as pernas das empregadas, tinha o pecado de gostar de mulher, às vezes se distraia com raparigas arranjadas por Audálio, o motorista.

Os genros tomaram conta dos negócios do sogro, inclusive uma fazenda lucrativa, eles se davam bem, corretos, os negócios continuaram a dar sustento de classe média alta para família. Entretanto, João percebia, era visível o carinho, o desvelo, de Henrique por sua mulher, tinha ciúme contido para o bem da família.

O destino tem seus caprichos, certa noite os dois casais saíram para uma festa, muito vinho, comida, bebida. Ao voltar, João dirigia em velocidade, Henrique pediu para desacelerar, João virou a cabeça, “está com medo?” Nesse momento, um estrondo, um jipe vinha no sentido contrário bateu de lado, o carro virou duas vezes, gritos de dor. Custou a chegar socorro. Todos levados ao hospital foram atendidos, apenas João precisava maiores cuidados, ficou internado, entrou em coma, morreu uma semana depois. Maior tristeza para família, muita dor, contudo, a vida continuou.

Um anos após a morte de João, Cidinha inventou uma viagem, um cruzeiros às Ilhas Gregas. Deixaram os filhos com a avó, na Itália tomaram um transatlântico de luxo, duas semanas visitando as românticas, Miconos, Patmos, Lesbos, entre outras. No navio toda noite depois do jantar, dançavam, se divertiam, arranjavam paqueras para Aninha, sempre rejeitados discretamente. Certa noite a orquestra tocou “As Time Goes By”, Aninha pediu permissão à irmã pegou na mão de Henrique, puxou-o, dançaram lentamente. Aninha abraçava o cunhado, olhou em seus olhos perguntando, “lembra da música, vimos o filme juntos no Cinema de Arte”, ele sorriu. “Inesquecível, está guardada em minha mente e coração, já assisti “Casablanca” 300 vezes pensando em você”. Aninha sorriu. Ele continuou, “somos adultos, quase velhos, entretanto, amor não envelhece, nunca deixei de lhe amar, todos sabem, inclusive João, ele sabia. Só agora confesso a verdade, apenas para nós dois, Casei-me com Cidinha para estar perto de você”, calaram-se, abraçaram-se, juntaram o rosto. Nesse momento Henrique sentiu uma mão leve nas costas, a esposa comunicava cansaço, ia se recolher, ficassem mais um pouco. Dançaram apertados. Discretamente entraram no camarote da cunhada e se amaram pela primeira vez com toda ternura recolhida que tinham para dar.

Dia seguinte no café da manhã os três felizes, alegres, conversavam sobre o que viria na continuação. Ao retornarem contaram as aventuras à família e aos filhos, mostrando fotos da viagem linda maravilhosa..

Henrique hoje, aos 63 anos, vive bem com Cidinha, a esposa, em seu apartamento. Vez em quando, encontros de amor, ternura e carinho com Aninha, a cunhada. Os três sabem, discretamente.

GUILHERME PALMEIRA

gp

Somos amigos há muitos anos, bote anos, nossos pais eram amigos, acho que até nossos avós e bisavós, somos amigos desde quando éramos índios caetés povoando o litoral alagoano, o mais bonito e charmoso das costas brasileiras.

Quando eu morava no Rio, vez em quando ia à casa do Senador Rui Palmeira na Rua Almirante Guilhobel, depois de um bom almoço dominical, partíamos para o Maracanã assistir vitórias do Fluminense.

Nossas férias nessa bela Maceió foram maravilhosamente aproveitadas, praia da Avenida, Pajuçara, réveillon da Fênix, carnaval nas ruas e nos clubes. Bela época dos anos dourados, aproveitamos, vivíamos nossa cultura popular, época do cinema novo, da bossa nova, revolução dos costumes, queríamos também transformar o mundo, como qualquer jovem.

Certa vez no Engenho Prata, São Miguel dos Campos, em conversas, tira gosto e cervejinha gelada, Guilherme comunicou ser candidato a deputado estadual nas eleições de 1966, alegria geral. Dias depois Esdras Gomes distribuía adesivos, GP 66. Foi uma vitória retumbante, iniciava naquele momento uma carreira política das mais admiráveis na história das Alagoas.

Final de 1967 eu servia na 9ª Companhia de Fronteira, Roraima, promovido a Capitão, vinha definitivamente para Maceió, estava classificado no 20º Batalhão de Caçadores, 20 BC. Ao chegar em casa pela tarde, coloquei um calção desci à praia da Avenida, depois de um bom mergulho e braçadas naquele mar azul do tamanho do mundo, fiz uma promessa, nunca mais sair de Maceió. Cumpri a promessa, deixei até a carreira militar.

Maceió uma festa, continuei meus estudos na Faculdade de Engenharia, tempo de viver uma Maceió ensolarada. Logo formamos um quinteto inseparável, Guilherme Palmeira, Marden Bentes, Eduardo Uchoa e Galba Acioly, jovens, solteiros e bonitos, fazíamos a festa onde chegássemos. Éramos conhecidos entre as melhores famílias, entre as jovens deslumbrantes, como também nos bares e lugares não compatíveis às moças casadoiras, nos cabarés da vida. Convidados para batizados, casamentos, aniversários, alegrávamos as noites com bom humor e fidalguia. Jovens boêmios, considerados bons partidos, custamos a casar.

Acompanhei a vida política de Guilherme, deputado, governador, senador, prefeito de Maceió. Finalmente Ministro do Tribunal de Contas da União, aposentado se estabeleceu em Brasília, nunca esquecendo sua querida Alagoas, vez em quando às sextas feiras reúne amigos na varanda do apartamento, praia da Ponta Verde para conversas e uma rodada de uísque.

Guilherme prefeito de Maceió, fui Secretário de Desenvolvimento Urbano. Travamos campanha e briga contra qualquer tipo de poluição. Descobri ser proibido colocar qualquer tipo de placa ou outdoor na ladeira da antiga rodoviária, anunciei. a derrubada de todas as placas e outdoors, maior poluição visual, distraindo a atenção dos motoristas. Na véspera, término do expediente, recebi um telefonema de um advogado avisando, dia seguinte a Secretaria receberia uma liminar do Tribunal de Justiça cancelando a derrubada.

Fiquei a pensar sozinho em meu gabinete. Tomei a decisão, convoquei os funcionários, fiscais, caminhão, às seis da manhã, antecipei, derrubamos todos outdoors, foi lindo aparecer aquela mata verde exuberante, permanece ainda hoje. A liminar chegou às minhas mãos ás nove da manhã, o serviço já estava feito. O juiz mandou me prender, Guilherme tomou as dores, assumiu ter ordenado aquela ação, me esconderam numa casa em Paripueira, passei quase uma semana naquela bela praia. Só não fui preso devido ao pulso firme de Guilherme e a competência do advogado Diógenes Tenório de Albuquerque em minha defesa.

Lembrei esse fato mostrando a firmeza de caráter, honestidade, amor à sua terra, sapiência e liderança de Guilherme Palmeira, o melhor prefeito da história de Maceió. Desculpe o Rui, ele é o segundo melhor.

Hoje Guilherme vive cercado de amigos que o admiram. Ele orgulhoso do filho, Rui Palmeira, seu herdeiro político na decência e no amor à terra, fazendo uma gestão eficiente e honesta na Prefeitura. Nos próximos quatro anos, Rui deixará Maceió no topo da cidade mais bonita do Brasil, para maior orgulho de Guilherme.

A MASSOTERAPEUTA

– “Como é ruim desconfiar da mulher”, pensava Pedro Clementino tomando cerveja, sozinho, no Bar da Biu. “Cicinha tem outro cara ou está fazendo programa. Todo dia uma novidade, celular, vestidos, calcinhas bonitas entrando pela bunda, até presente para mim. Cada dia mais gostosa, mais bonita. Seu salário não dá para isso, de onde vem esse dinheiro? Não nasci para ser corno. Vou descobrir tudinho”. Martirizava-se em dúvidas o jovem Pedro.

Tudo começou quando Pedro Clementino veio do sertão tentar a sorte na capital. Por lá não havia possibilidades de emprego, nem melhoria de vida, a população vive praticamente da bolsa família ou aposentadoria do INSS. Pedro ao chegar no Jacintinho foi morar num quarto alugado de uma casa apertada, mal lhe cabia. Arranjou seu primeiro emprego, servente de pedreiro em uma construção no Tabuleiro, passou a sobreviver do salário mínimo.mtr

Logo descobriu as praias da capital, a coisa mais linda e exuberante de sua vida. Todo domingo desce a ladeira do Jacintinho rumo à Jatiúca, se esbalda na areia da praia, um menino, melado feito um bife à milanesa mergulha no mar azul esverdeado.

Cicinha empregada doméstica em um belo apartamento na orla da Ponta Verde, morava com a mãe, conheceu Pedro num bar enquanto ele dedilhava um velho violão cantando músicas ouvidas no rádio. Ao avistá-la, sorriu, paixão repentina, Cicinha, bela morena, olhos negros, constante sorriso nos lábios, correspondeu aos olhares insistentes de Pedro. Nessa mesma noite se amaram no quarto apertado, começava uma história de amor. Os dois, 24 anos, se deram bem, divertiam-se nos bares, nas praias, na cama além do amor, Cicinha dava-lhe uma massagem relaxante. Resolveram se juntar, mudaram-se para uma casa pequena, aluguel R$ 200,00, dividido. Pobres não se casam, acasalam-se. Assim se passaram dois anos de felicidade e muito amor, preveniam-se da gravidez.

Cicinha tem uma rotina no emprego, às sete horas prepara um suco de laranja para o patrão, antes dele caminhar na orla. Ao retornar Dr. Sílvio toma um café reforçado. O rico comerciante, coroa bonito, casado pela terceira vez, em torno das oito horas ruma ao trabalho, enquanto Michelle, a esposa, vinte e cinco anos mais nova, acorda às 10, um suco para despertar, vai à Academia, malha duas horas seguidas, é seu grande sacrifício pela pátria e a família. Se mantém gostosa aos 40 anos.

No fim de semana Cicinha carrega o companheiro para praia, cerveja gelada, acarajé, ele é excelente companhia , se lambuza na areia, aluga uma bóia e parte mar adentro. Algumas brigas normais, entretanto, a cama e a massagem são aliados do amor.

Certa manhã Cicinha chegou atrasada no emprego, Dona Michelle estava em São Paulo comprando roupas nas Zara da vida. A empregada não teve tempo de colocar a farda de doméstica, ainda de mini saia preparava o suco do patrão, Dr. Sílvio percebeu a beleza de seu corpo. Durante a caminhada, surgia na mente as pernas da empregada. No retorno o patrão sentado à mesa da cozinha, esperou o café reforçado enquanto admirava o corpo de Cicinha fritando ovo. O patrão não aguentou, levantou se, encostou-se em Cicinha, ela sentiu o volume por trás, tomou um susto, “que é isso Dr. Sílvio?” disse acanhada, repreendendo-o. O patrão voltou a sentar enquanto ela servia o café.

Dr. Sílvio, homem de pouca conversa, foi taxativo. “Olha Cicinha não sou mais uma criança, tento viver a verdade da vida. Hoje lhe descobri, vou fazer-lhe uma proposta, dou-lhe o que quiser por uns abraços, um toque.” Ela voltou ao fogão enquanto ele comia, olhava de lado. Silêncio sepulcral Ao levantar-se Dr. Sílvio abraçou-a por trás, ela gostou, levantou-a rumo ao quarto de empregada, fizeram amor. Cicinha complementou uma massagem, o patrão sentiu-se leve, disposto, sem as constantes dores na coluna. Ao sair deixou-lhe num envelope seis notas de R$ 50,00. Dr. Sílvio não pode mais viver sem a massagem de Cicinha, duas vezes por semana, leva-a a um motel, sai feliz da vida, corpo e alma leve como uma pluma.

Foi difícil explicar a Pedro ao pedir satisfação daquela “riqueza” repentina. Cicinha contou a verdade, pela metade. “Numa manhã o patrão reclamava de dores lombares, ofereci uma massagem, aprendi num curso, tenho força nas mãos, foi sucesso. Agora faço massagem duas vezes por semana no patrão e na patroa, eles me pagam R$ 50,00 cada massagem. Um dia vou deixar meu emprego, quero viver só de massagem, fiz curso, sou massoterapeuta. Vou ficar rica e deixo você.” Disse brincando, abraçando seu homem.

Pedro Clementino, satisfeito com a explicação, beijou-lhe os lábios, o pescoço, amou-a. Estão vivendo felizes como se fosse para sempre.

PIU-PIU

Minha memória é recheada de pessoas com quem convivi ou simplesmente conheci, tornaram-se inesquecíveis. Uma delas foi Piu-piu, um maceioense elegante, constantemente trajando paletó arrumado, de fazer inveja a lordes ingleses.

Eu tinha meus 10 anos de idade, meu pai costumava levar os filhos homens para o centro da cidade ao fim da tarde para tomar uma cerveja com amigos no Bar Colombo, o ponto de encontro de intelectuais, escritores, boêmios e outros desocupados. A meninada se fartava de sanduíche, pão francês, fiambre e queijo do reino acompanhado de um saboroso caldo de cana moída na hora. Toda tarde a Rua do Comércio se apinhava de gente, moças acompanhadas das mães fazendo compras nas casas comerciais, figuras da cidade apenas passeando. Encontravam-se nos bares, lojas e no Cinearte (depois São Luiz). bg

Uma dessas figuras ficou-me inesquecível pela elegância e tamanho, forte e falastrão, conhecido como Piu-piu. Impecavelmente vestido, todos os dias ele aparecia de jaqueta (blazer) com botões dourados, calça bem passada, uma bota preta de cano longo completava a vestimenta. O charuto dava um ar de esnobe ao comerciante. Piu-piu apesar de trajes tão distintos vivia de um pequeno comércio, venda e compra de antiguidades, objeto de artes, ouro, prata e jóias. Dava para sustentar a pequena família e seu inigualável guarda-roupa. O antiquário além de se vestir bem, era esmerado na arrumação pessoal. Cabelos impecavelmente penteados com brilhantina Glostora, barba bem feita. O bigode denso, digno de um príncipe hindu ou de um kaiser alemão, grosso, bem frisado, as pontas de curvas perfeitas faziam meia lua subindo como se apontasse para o céu. Diziam que o bigode do Piu-piu era frisado por ferro de engomar.

Nosso herói morava no bairro do Prado, mas vivia no centro da cidade. Além das túnicas ele aparecia de chapéu Panamá, as mãos reluzentes de anéis de todos os tipos, seus dedos eram dourados e brilhantes. Na Rua do Comércio, impreterivelmente às 14 horas desfilava sua elegância e pretensa arrogância, pois se dizia brigador, disposto a qualquer luta. Andava armado, punhal e revólver.

Seu bigode era atração, ele tinha uma verdadeira adoração na manutenção daqueles dois tufos intocáveis. Ficou contrariadíssimo quando jovens, estudantes, colocaram o apelido de Piu-piu, “Bigode de Arame”. Muitas vezes correu atrás de estudantes que gritavam “Bigode de Arame”, empunhando o punhal, levava sempre na cintura, por baixo do paletó.

Contavam-se muitas histórias da vida de Piu-piu. Um fato marcante ficou na história de Maceió, comentado por muitos anos nas rodas do Bar Colombo. Fato brilhantemente contado pelo historiador Félix de Lima Júnior no livro Maceió de Outrora.

Nos anos 30/40, Maceió vivia um intenso momento intelectual, moravam na cidade e se reuniam no Bar Colombo, os escritores, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manoel Diegues ( pai do Cacá Diegues), Raquel de Queiroz, Lêdo Ivo, José Lins do Rêgo, Arnon de Mello, Aurélio Buarque de Holanda, entre outros. Por outra parte o Estado de Alagoas vivia um momento de intensa intriga política, o que nunca foi novidade. Dois grupos políticos se digladiavam: O do Senador Fernandes Lima, de quem Piu-piu era amigo pessoal, ligado e defensor; e o grupo do austero governador Costa Rego, homem duro, apesar de seu amor e pendor às artes, tratava os inimigos com repressões constantes.

Certa tarde na Rua do Comércio o nosso valente Piu-piu disse não ter medo de ninguém, nem mesmo do governador e destemperou impropérios, atacando o governador Costa Rego em um discurso improvisado nos arredores do Bar Colombo.

Dois dias depois ele estava parado em frente ao Relógio Oficial, quando cinco homens desceram do bonde vindo de Jaraguá. Dois deles derrubaram Piu-piu, outros dois seguraram pelos braços e pernas, e o último homem com uma tesoura foi cortando, arrancando o suntuoso bigode, fio por fio, sem que o valente Piu-piu desse qualquer gemido. Não deu um piu. Os amigos não acudiram, ficaram com medo daquela briga, 5 contra 1. A polícia chegou quando o serviço acabou. Arrancaram o bigode mais famoso do Estado. A região do lábio superior de Piu-piu ficou deformada. Ele só voltou a frequentar o Bar Colombo muito tempo depois, quando conseguiu regenerar seu bigode de arame. Tornou-se herói.

A rapaziada do Liceu Alagoano aproveitou o fato para versejar e cantou seus versos no Comércio: “O navio apitou… A canoa virou… O bigode do Piu-piu… Marroquim arrancou”. Piu-piu, Marcolino Ribeiro da Silva, morreu aos 98 anos em Maceió no dia 5/3/65.

DE COMO CRISTINA, BELA, RECATADA E DO LAR, TRANSFORMOU-SE NA DONA DA NOITE

Era uma vez em Maceió, uma jovem, bela, recatada e do lar, marido de tradicional família do açúcar alagoano. Cristina, aluna do Colégio Santíssimo Sacramento, aprendeu costura, cozinha, ser rainha da casa. Pai evangélico, a filha saía à rua, às festas, se acompanhada dos irmãos, assim, sua virgindade permaneceu invicta até o casamento. Sua beleza e sensualidade exuberantes chamavam atenção. Numa festa de Carnaval conheceu Antônio Alfredo, mancebo de família rica, estudante de Direito em Coimbra, bonito, másculo, o xodó das mulheres, passava férias na cidade.

Antônio Alfredo encantou-se com Cristina, a bela, iniciaram namoro de portão de casa, horário e vigilância rígidos. Dentro de dois anos casaram-se, apesar da resistência dos pais do noivo, não era bem querer a entrada de uma filha do pastor na família. Antônio, advogado das empresas familiares, se impôs, casou-se, com direito à Lua de Mel na Europa.br

Três anos se passaram, o casal bonito chamava atenção. Antônio não queria filho, Cristina frustrada. O ritmo de amor na cama diminuiu, às vezes mais de um mês sem um carinho. Em conversa com Sofia, Cristina ouviu com atenção o relato das peripécias sexuais da prima na cama com o marido, ele não podia viver sem aqueles carinhos especiais. Cristina, ingênua, encantou-se com os detalhes contados, acendeu uma fogueira em suas entranhas, quase adormecidas.

À noite, depois do banho, vestiu minúscula lingerie preta, divina. Antônio ao deitar disse apenas cansado, deitou-se pro lado. Foi um tabefe em Cristina, ela não admitiu, abraçou o marido, atacou com volúpia, mãos e bocas entornaram aquele corpo másculo. Antônio levantou-se, olhou para esposa, repreendeu, “quem faz isso é prostituta, quem lhe ensinou? Você quer ser rapariga? Me deixe me paz”. Foi dormir em outro quarto.

Cristina chorou, seus instintos desejavam aqueles carinhos ensinados pela prima. Ela se perguntava, era uma tarada? uma quenga? Custou a dormir. Antônio jamais voltou a falar sobre o acontecimento daquela noite.

O casal gostava de passar fim de semana no bucólico sítio na Bica da Pedra, beirando a lagoa. Certo domingo Cristina teve que retornar à Maceió mais cedo, o motorista viria buscar Antônio perto da noite, deixou o marido cheio do uísque deitado na rede. Vinte minutos de viagem sentiu a falta da bolsa, naquela época não havia telefone, resolveu voltar ao sítio. Ao entrar na casa não havia vestígio do marido, apanhou a bolsa em cima da mesa, retornava ao carro, de repente ouviu barulho em seu quarto. Ao abrir a porta, um choque inesperado, a cena mais horripilante permaneceu na memória para o resto da vida. O belo Antônio, nu, na posição que Napoleão perdeu a guerra, de quatro, o filho do morador montado. Cristina soltou um grito de horror, correu, entrou no carro, chorando até chegar em casa.

Era noite quando Cristina parou de chorar, tomou um banho, nua, olhou-se no espelho, achou-se bonita. Colocou um belo vestido, pegou um taxi em direção ao Zinga Bar em Riacho Doce, avistou alguns conhecidos, sentou-se à mesa com amigas, a partir dessa noite, escandalizou a província saindo com homens solteiros e casados. Cristina e Antônio tornaram-se comentários em todas as esquinas, bares e lares da cidade.

Certo dia, sem avisar, Cristina viajou ao Rio de Janeiro. Amou a balada carioca, bonita, fez sucesso entre artistas, políticos, desocupados. Arranjava emprego, entretanto, três vezes demitida por falta. Ela caiu nas noitadas cariocas. A nova vida terminou arrastando-a a uma fina casa de mulheres. Fez sucesso, mestra em todas as posições do Kama-Sutra, homens faziam fila esperando sua vez. Até que um dia um senador se apaixonou, deu-lhe apartamento, jóias, um emprego no Senado, letra O, em troca da exclusividade. Os anos passaram, dois filhos. Hoje, em Copacabana, nenhum vizinho sabe a origem, o segredo daquela bela setentona, “viúva”. Cristina, olha pela janela o mar azul, relembra da juventude, bela, recata e do lar. Tem planos, rever o sítio da Bica da Pedra.

AS TURISTAS

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Praia da Jatiúca onde as turistas alugaram apartamento

– Alô! O senhor tem apartamento mobiliado para alugar, por um mês?

Perguntou ao telefone, voz feminina, sotaque sulista. Santoro respondeu imediato.

– Tenho minha senhora, um quarto e sala, na praia da Jatiúca. Interessa ?

– Interessa. Posso vê-lo hoje às duas da tarde?

Santoro informou o endereço. Às 14:00 horas ele estava na portaria do prédio quando apareceram duas mulheres vestidas com saídas de praia, corpos bem torneados, divinas e maduras. Ana Lúcia, professora de música na USP e Paola, jornalista, ambas paulistas. Santoro ficou encantado com Ana Lúcia, simpática, envolvente, falante, risonha. Cabelos castanhos, rosto oval, olhos pretos brilhantes como uma estrela da tarde.

Elas gostaram do apartamento e da praia, fecharam negócio, um mês de aluguel adiantado, R$ 6.000,00. Santoro despediu-se, bolso cheio e o perfume de Ana Lúcia nas narinas. Em casa entregou o dinheiro à esposa, pagar contas atrasadas, nada como um dinheirinho fora da temporada. Santoro, funcionário público, comprou esse apartamento para melhorar a renda. Ganha um extra com a locação no verão quando Maceió se enche de turista, fora da temporada sempre pinga algum aluguel.

Dia seguinte, na hora do almoço, atendeu o celular.

– Seu Santoro, é Ana Lúcia, a inquilina, será que o senhor pode nos dar algumas orientações sobre a cidade, aluguel de carro, e outras dúvidas? Marcaram encontro às 19:00 horas no apartamento. Santoro, homem gentil, chegou na hora certa. Ao abrir a porta do apartamento uma grata surpresa, as belas mulheres estavam à vontade. Ana Lúcia, roupão de banho levemente aberto, brincou, esteja em casa!

Revista na mão, Paola mostrou o que queriam, conhecer Alagoas, litoral norte, litoral sul, alugar um carro, ter uma pessoa que as orientasse, um guia turístico particular nesse mês de férias. Pagariam bem, pediram a Santoro indicar algum amigo ou amiga. R$ 150,00 a diária do guia, livre, refeições e outras despesas por conta delas.

Em casa Santoro contou à esposa, a boa proposta das mulheres, estava pensando em seu cunhado, desempregado. Bernadete, mulher prática, sugeriu. Porque você não tira férias da repartição e pega esse serviço? Ainda pode alugar seu carro. Santoro gostou da proposta, imposta, de Bernadete. Telefonou para as moças, acertaram. Dia seguinte, ele apareceu de bermuda na hora combinada. Santoro, surfista na juventude, fina estampa, forte, passou o dia mostrando algumas praias, à noite deu uma volta na orla com as paulistas. Dia seguinte rumaram às praias do litoral sul até a bela cidade de Penedo às margens do Velho Chico.

Muito coqueiro, paisagem verde, as paulistas encantadas com a beleza dos mares e do Rio São Francisco. Tiveram uma boa surpresa, a conversa inteligente e culta de Santoro, homem chegado à leitura, profundo conhecedor da cultura nordestina. Em Penedo, pegaram dois apartamentos num hotel. Jantaram no Restaurante Rocheira, comeram, beberam e conversaram, sorriram bastante com as histórias do “guia”. Eram duas horas da manhã quando retornaram ao hotel cantando pelas ruas bucólicas entre casas coloniais da velha cidade histórica.

Pela manhã, os boêmios acordaram em uma larga cama depois de uma inusitada noitada de amor a três, “ménage à trois“.

As turistas passaram um mês percorrendo Alagoas, praia, sol, cultura, amor e boemia. Santoro guiou as paulistas com gentileza e carinho. As “coroas” ficaram fascinadas pela bela cidade histórica de Marechal Deodoro. Ana Lúcia e Paola jamais pensaram em conhecer tanta beleza, tanto divertimento, e o mais incrível, dividirem o “guia turístico” na cama. Santoro viveu um sonho, um mês de amor com as paulistas. Recebeu o aluguel do carro, não quis receber o acertado como guia turístico, entretanto, elas fizeram maior questão, pagaram o contratado. Até que chegou o dia, Santoro levou seus dois “amores” ao aeroporto.

Bernadete amou o dinheiro das turistas, pagou dívidas, ainda sobrou. Para Santoro restou lembrança e esperança, as turistas reservaram o apartamento. Final do ano elas vêm conhecer o resto das Alagoas.

ESCRITOS PARA NATASHA

Procuramos nos acostumar com a inexorabilidade do tempo, depois dos 70 anos vivemos enterrando amigos. Entretanto, quando vai-se um jovem, o inconformismo, a impotência inundam nossa alma. Semana passada Natasha Dellape, mulher coragem, terminou uma batalha prolongada contra o câncer, a morte, única niveladora da igualdade humana, levou-a. Deixou meu querido sobrinho Mário Humberto, os filhos Mário Victor e Iuri. Ao morrer alguém querido, inevitavelmente lembro o poema de John Donne.natasha

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Nossa família ficou diminuída, os sinos dobram por todos nós. Emocionaram-me os escritos para Natasha no Facebook. Peço permissão a meus leitores, repassar o carinho, admiração, o amor e saudade de seus amigos.

“Natasha minha prima linda, se o jornalismo brasileiro vai mal, ele fica muito pior sem você. Que o céu te receba muito bem, para você continuar sua carreira fechando o Diário Celeste, e você como editora de Deus ou seja lá quem for o patrão, ou então fechando o Paraíso TV 1ª Edição, com reportagens daqui da terra, onde você brilhou e deixou um rastro de coisas lindas. Estou muito triste, triste de não ter jeito, já chorei até não poder demais. Natasha Dellape Lima, que esse Lima. você casou com Mário Humberto, e agora não mais maneira, você é parte da minha família, que eu tenho orgulho em tê-la. Te amo, seja feliz aí em cima, como você foi aqui na terra entre nós”. MARIO FERNANDO LIMA CASTELLO BRANCO.

“Hoje uma colega muito querida voltou para a casa de origem. Conheci a Natasha Dellape na TV…como produtora. Aliás, ela me metia em cada uma! Hahahaha. Nata era uma jornalista de mão cheia; a maior catadora de pauta que conheci. Adorava uma denúncia…e fazia aquela risada maléfica engraçada pra mim. Eu já sabia: “era um abacaxi”! Ela adorava me entregar essas pautas porque gostava do meu jeito de conseguir as coisas nos lugares mais inóspitos e com as pessoas mais arredias. Posso dizer que só “acordei” pra esse meu lado “entrona” e “briguenta” na externa por causa dela… Formávamos uma bela dupla! Depois ela foi promovida ao cargo de “chefa”. Lembro bem que disse a ela: “não vou te parabenizar porque perdi uma grande produtora!”. E ríamos… Natasha viveu uma batalha intensa contra uma doença física grave. Foi resiliente. Não havia cara feia nem reclamação. O corpo físico não resistiu…mas certamente seu espírito cumpriu uma linda missão. Nada foi em vão. Nada nunca é em vão. Voinha, recebe a Nata por aí, tá? Sei que sua recepção vai ser, no mínimo, cheia de sorrisos”. CATARINA MARTORELLI

“Muito triste com a notícia da sua partida. Você irradiou luz, alegria e acima de tudo lutou como ninguém mas a hora chegou…. A hora do descanso minha amiga @natashadellape e de trilhar um novo caminho na espiritualidade. Que Deus te receba de braços abertos e conforte sua família que hoje chora de saudade. Vai com Deus Nata”. THAISE CAVALCANTE

“Acabei de saber do falecimento de mais um amigo de profissão. Um aperto no peito e o pensamento voltado ao Criador na certeza de que Natasha Dellape terá o descanso dos guerreiros. Lutou enquanto pôde. Descansa em paz, querida menina!” NIVIANE RODRIGUES

“Hoje, nossa família perdeu uma grande guerreira, Natasha Dellape! Exemplo de amor, força e superação!! A cada dia de luta, nos ensinava mais e mais… Betuquinha, Mário Victor, Iuri, Tia Tania , Tio Betuca e Carminha, estamos com vocês para o que vocês precisarem sempre! Um beijo no coração de vocês”. CAROLINA LIMA

“Conversamos bastante por aqui nos últimos meses. Ela elogiava meu trabalho de uma forma tão pura, tão intensa, tão orgulhosa como nunca antes havia feito. Ela me comoveu com palavras. Eu admirei sua fibra, via seu feição. Sua obstinação em mostrar doçura e amor e em se aproximar de todos antes de dizer adeus. Consegui falar muitas coisas que queria a ela. Talvez todas elas. Que eu via nela uma guerreira e que Deus iria abençoá-la. É incrível como situações limítrofes aproximam. Pude conhecer mais um pouco da pessoa com quem trabalhei e ela, a mim. Natasha, esteja com Deus. E que Ele conforte sua família. Obrigado por ter me ensinado com seu exemplo um pouco mais da arte de viver, de conviver e de conhecer mais da essência”. FERNANDO MOREIRA

“Ficam as boas lembranças….muitas saudades. Que Deus a ilumine em sua nova jornada, Nateyshaaa ( era assim que eu a chamava)! Seja feliz! Siga em paz de volta ao doce lar,querida! Nos reencontraremos.” LIARA NOGUEIRA

JAMAIS ENCONTRARÁ

RC

Rua do Comércio – Maceió

Era uma vez em Maceió uma senhora bonita, passava dos cinquenta, toda quarta-feira à tarde costumava ir à Rua do Comércio, centro da cidade, amava aquelas lojas, movimento do povo, dizia não trocar pelos Shoppings com ar condicionado. Depois de visitar as lojas preferidas, Dona Leila visitava o escritório de advocacia do marido e filha. Em uma dessas visitas sentou-se em frente a filha, tomou um café forte, desabafou.

– Cristina, estou com raiva daquela sirigaita, Solange, tem um caso com de seu pai!

– Mas mamãe, só agora que a senhora está reclamando das namoradas do papai. Você sempre foi permissiva. Papai, o maior boêmio da cidade, mulherengo, todos conhecem essa fraqueza. A senhora, em mais de 30 anos de casados, nunca reclamou. Meu Pai, ainda hoje, mais de sessenta anos, sai à noite para jogar baralho com os amigos. A senhora sabe, depois do pôquer, eles partem rumo aos encontros marcados.

– Sei de tudo menina, meu caso é uma história de amor, poucos entendem, não sou tola, como muitos pensam. Em minha adolescência conheci Everaldo, quase 10 anos mais velho, me apaixonei. Ele fazia Faculdade de Direito, um homão, alegre, encantador, sempre gostou de viver. Na época do carnaval ninguém lhe segurava. Quinze dias antes iniciava a Maratona Carnavalesca na Rua do Comércio. Toda noite ele partia alegre para Maratona, em cada esquina um palco com orquestra de frevo, o corso de carros abertos rodeando, Everaldo preferia dançar no meio dos foliões, as mulheres davam em cima, era o homem mais bonito de Maceió. Certa noite, eu tinha 14 anos, seu avô me levou para o carnaval na Rua do Comércio. Ficamos em pé apreciando o povo passar, em frente ao Cine São Luiz. Certo momento Everaldo me viu, aproximou-se, disse para papai. “Seu Joaquim quando sua filha crescer mais um pouquinho, vou casar com ela”, saiu se requebrando dentro de uma camisola de cetim. Eu me senti a mulher mais feliz do mundo, quase não dormi. O tempo passou tornei-me uma bela mulher. Lembro bem, eu tinha 19 anos, em uma festa na Portuguesa, Vanúsia cantava: “Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante surpresa tão rude, nem sei como pude, chegar ao portão…” De repente uma mão forte segurou a minha, olhei, Everaldo levantou-me em direção ao dancing, me abraçou, dançamos sem conversar, apenas sorríamos. A partir daquela noite ficamos namorando, era só felicidade, mal escutava minhas tias, primas, conhecidas, nos ouvidos: “Você namorando com Everaldo, o maior mulherengo da cidade, não vai lhe respeitar, quando terminar o namoro, ninguém mais lhe quer”, e coisas parecidas. Eu estava feliz, o mundo podia se acabar. Quase um ano de namoro, tivemos que casar, grávida de você. Fomos morar numa casa do velho Joaquim na Pitanguinha, Everaldo trabalhava, advogado solicitado, sabe empolgar com um discurso. Seu pai é um homem fascinante. Sei que não é santo. Nunca quis casar com santo. Essa história você não sabe, mês passado aportou um navio de turista, ele com amigos foram tomar chope, se distraíram, o navio deixou o cais de Maceió. Pela manhã me avisou no celular, estava em Salvador. Na segunda feira quando cheguei do trabalho pela tarde a casa estava repleta de flores e velas, ele me abraçou, nos amamos como nunca mais fizemos. Noitada maravilhosa, graças aos chopes do navio.

– Mamãe, disso eu sei, desde que me entendi como gente, você casou-se com o maior boêmio da cidade, sabendo que seria a maior corna de Maceió. Cada um procura sua cruz. Hoje a senhora veio reclamar de papai, aliás, a primeira vez na vida vejo a senhora criticar papai, o que houve mesmo?

– Não estou reclamando de Everaldo, menina. Estou irada com a sirigaita da Solange , tem um xodó com seu pai. Pelo ouvido na espreita de telefone, a ridícula vai casar e acabou com seu pai. O bichinho há uma semana está triste, ninguém gosta de ser chutado. O que ela pensa? Quem é ela para dar um fora em seu pai? Aquela cretina jamais encontrará outro homem que nem Everaldo. Jamais!

– Mamãe…

O XEXEIRO

jaraguá

Jaraguá – antigo bairro boêmio

Era uma vez em Maceió um rapaz chamado João Fortunato, conhecido como “Joãozinho Caga Rua”, quando mais jovem deu-lhe uma dor de barriga na rua, ali mesmo baixou as calças, deixou sua marca no meio-fio, daquele dia até hoje atende por esse apelido. Amante da boemia e do carnaval, certa vez, em ensaio noturno, o Bloco Cavaleiro dos Montes arrastava foliões cantando e dançando pela Avenida da Paz. João, feliz da vida, agarrado à uma bela jovem desconhecida, dançava o frevo com maestria. O bloco tomou rumo ao bairro boêmio de Jaraguá.

Ao passar pelo corredor de Jaraguá, a bela acompanhante de João se identificou. Vera era “inquilina” da Boate Alhambra, fazia a vida naquele antigo casarão, convidou João a subir ao cabaré. Entre surpreso e alegre, prontamente galgou as íngremes escadas do lupanar . De paquera no bloco, achou-se no direito, sentiu-se namorado, mesmo sem dinheiro, convidou-a para o quarto.

Depois do amor, a jovem rapariga cobrou pelos competentes serviços. João confessou, não tinha dinheiro, pensava ser de graça. Vera falou braba, ele tratasse de arranjar o pagamento, pegou calça, cueca, camisa e sapato de João, entregou ao Leão de Chácara da Alhambra (segurança), só devolvia quando pagasse.

Joãozinho não teve o que pensar, nu, abriu a porta do quarto, desceu as escadas aos pulos, a rapariga gritava: “Xexeiro, Xexeiro…” Nove da noite, a Boate Alhambra começava a funcionar.

O Leão de Chácara não conseguiu alcançar João, excelente atleta, exímio jogador de futebol. Sua nudez foi notada pelos passantes, olhavam incrédulos. Joãozinho continuou correndo pela rua até desembocar na Avenida da Paz . Surpresa, não podia continuar, as rodas de famílias conversando, cadeiras na calçada, era costume na cidade, antes da televisão.

Um homem nu passando seria excitante novidade naquelas rodas de conversas, entretanto, João escondeu-se atrás de um poste. Olhou em frente , meninos brincavam, jovens namoravam nos bancos, a Avenida da Paz, à noite, era uma festa. João encontrou uma solução , partiu em direção à praia iluminada, Lua cheia. Correu na areia fofa, branca, fria, até encontrar solo de areia dura, molhada, beira mar, onde alguns jovens jogavam futebol sob o luar. Ao se aproximar devagar, a meninada percebeu, ouviu-se a gritaria: “Um homem nu! Um homem nu!”. Imediatamente Joãozinho correu, mergulhou no mar, água tépida, deliciosa, era noite de verão.

Nosso herói ficou por muito tempo curtindo gostoso banho noturno, deixava o corpo nu ser levado pelas pequenas ondas, não havia pressa. Naquele momento, olhando pro céu prateado pela Lua cheia, deslumbrou uma cintilante estrela, sentiu-se dono do mundo, do universo, poeta, seresteiro, no seu encantamento, começou a cantar para o infinito: “A estrela Dalva… no céu desponta… e a lua anda tonta… com tamanho esplendor… as pastorinhas pra consolo da lua… vão cantando na rua… lindos versos de amor…”

Por volta da dez horas da noite, depois de tomar uma fresca, as famílias recolheram-se, os jovens cansados das brincadeiras foram dormir, os namorados, depois do xumbrego, excitados, se auto aliviavam. Joãozinho esperou um pouco, onze horas, apenas alguns boêmios passavam em direção às boates de Jaraguá, dar expansão aos instintos e fantasias.

Afinal nosso herói saiu do mar, corpo molhado, dedos engelhados. Sentiu o vento, tremia de frio. Andou, correu, pulou, recuperou-se. Caminhou pela praia. Retornou às calçadas na Praça Sinimbu, pouca gente na rua. Correndo de poste em poste, Joãozinho, nu, conseguiu chegar em sua casa na Rua da Alegria. Recebeu a devida descompostura do pai, no fundo se orgulhava em ter aquele filho boêmio, cheio de histórias e picardias. Dia seguinte, o pai deu-lhe o dinheiro, não queria filho desonesto, xexeiro, a moça merecia o pagamento. À tarde, Joãozinho resgatou suas roupas, seu sapato de coro de jacaré. Contou a Vera sua aventura noturna, ela caiu às gargalhadas, amaram-se novamente, dessa vez , não houve a devida recompensa pecuniária.

UCPM

vc

O colunista e a Nêga Odete, ela morreu aos 82 anos em 2014

Maceió vivia uma época áurea, anos 50, tempos de Arnon de Mello governador, boa qualidade de vida, a cidade parecia uma só família. Ainda não acontecera a invasão dos trabalhadores rurais procurando melhoria de vida, inchando a urbe, ocupando áreas à beira do Rio Salgadinho, o maior desastre urbano – ambiental da cidade. Devido à falta de política agrária, nos anos 60 aconteceu esse perverso êxodo dos camponeses à capital, não conseguiram emprego, nem tiveram uma merecida reforma agrária no campo.

D. Leda Collor, primeira dama, revolucionava a cultura, o que havia de melhor de teatro no Brasil vinha à Maceió, Teatro Deodoro cheio. A Aliance Francaise um sucesso, Juventude Musical, projetos culturais enchiam os olhos e ouvidos dos alagoanos.

Nós adolescentes formávamos grupos, turmas (hoje galeras), unidos e adversários nas brincadeiras, jogos, festas de rua, folguedos populares. No pastoril torcíamos veementemente emocionados, Azul x Encarnado, no campo de futebol, CRB x CSA.

Várias turmas de jovens tomavam conta das áreas de lazer, turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras.

Maior rivalidade entre time de futebol e voleibol de cada turma, ou namoradas. Os jovens convergiam, misturavam-se nas praias da Avenida ou Pajuçara; nos clubes, Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; nos colégios, Diocesano, Liceu, Guido e Batista. Resultava intercâmbio de amizade, todos se conheciam na província de Maceió nos meados dos anos 50.

Eu morava na Avenida da Paz, junto ao bairro boêmio de Jaraguá, entretanto, rodava toda Maceió de bicicleta. Certa vez namorava uma bela morena na Pitanguinha (onde nasceu Djavan), quase toda noite, depois do jantar, eu subia a ladeira do Farol pedalando e empurrando a bicicleta. A namorada tinha uma irmã, gêmea. Numa noite, a namorada adoeceu, sua irmã resolveu fazer uma brincadeira, tomou seu lugar. Andei pelas ruas da Pitanguinha sem perceber, sem saber que dava cheiro, amasso, na irmã da namorada. Na despedida, depois de um beijo, ela confessou ser a irmã, pediu segredo, guardei até hoje.

Numa noite, passando pela Praça do Centenário, encontrei Humberto, um dos amigos que guardo no peito. Depois de conversa informal e amena sobre mulheres, futebol e festas, convidou-me para reunião de uma associação inusitada que a turma do Farol havia fundada com imaginação e bom humor.

Assisti à reunião e me tornei sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, com sede na casa do presidente, meu primo.

Tinha regulamentação. O sócio ganhava patente ao contar aventuras, conquistas, com empregadas domésticas, chamávamos maldosamente de peniqueira, naquele tempo havia penico. Conforme a emoção da aventura ganhava promoção aos postos, havia hierarquia da UCPM.

Quase sempre se ouvia alguma aventura com a Nêga Odete, bonita negra, uma rainha africana, a rainha de Sabá, a própria Nêga Fulô do poeta Jorge de Lima. Lábios carnudos, bunda rebitada, riso debochado. Empregada doméstica na casa dos Montenegro na Praça Sinimbu, saía à noite em busca de aventuras, dedicava-se literalmente ao que mais gostava, o que mais sabia fazer, amor. Não era prostituta como algumas madames diziam, não recebia dinheiro em troca do carinho, principalmente se o parceiro fosse jovem e bonito. Ao anoitecer desfilava sua silhueta divina, calipígia de ébano dos sonhos eróticos da nossa juventude, uma rainha. Metade de minha geração da Avenida da Paz teve iniciação sexual nas areias mornas da Praia da Avenida da Paz, nos braços, na sabedoria da negra bonita.

Cheguei a tenente na UCPM, sem merecimento. Entretanto, alguns amigos galgaram ao posto máximo, houve apenas dois generais na hierarquia da UCPM. Por coincidência, os dois hoje moram em Brasília. Um deles, político dos mais influentes e queridos do nosso Brasil, o outro chegou a ministro de um egrégio Tribunal.

FERNANDO “FOSSE MÃE”

PDR

Fernando Magalhães aportou em Maceió nos anos 60, arribou de Santo Amaro da Purificação, cidade célebre por conta de Caetano e Bethânia. Muitos baianos vinham tentar vestibular de engenharia em Alagoas, pensando ser mais fácil. Ele penou, três tentativas seguidas, levou ferro em todas.

Seu pai, rico comerciante, sustentava o filho com boa mesada, Fernando morava no Hotel Atlântico, praia da Avenida da Paz. Em vez de estudar, vivia na praia organizando “baba”, pelada como chamam os baianos, paquerando as meninas pudicas vestidas em maiôs comportados.

Ele não teve coragem de falar aos pais sua reprovação no vestibular na primeira vez que retornou à Santo Amaro, festa de arromba quando voltou à fazenda do velho. Todos crentes que nosso amigo cursava engenharia, os pais e parentes, orgulhosos.

Assim Fernando morou alguns anos em Maceió, vagabundeando com boa mesada. Gostava de se exibir, pagava uma conta aqui, outra acolá, os amigos boêmios alagoanos, adoravam. Por conta da simpatia, de boa conversa, fez muita amizade na alta e na baixa roda da cidade.

Acordava-se por volta das nove da manhã. Tomava café no hotel, descia à praia da Avenida, bola de couraça rodando nas mãos, chamando jogadores. Na extensa areia dura da praia dava um chute para cima, era o sinal, havia chegado, começava o baba entre os desocupados esperando pelo “Baiano”. Depois da pelada, um banho de mar com direito a algumas braçadas para estirar os músculos, e paquerar alguma jovem desavisada banhista, seu ponto fraco, mulheres.

Namorou algumas moças bonitas da cidade, contudo, seu habitat preferido foi a zona de Jaraguá, frequentou religiosamente os cabarés, tornou-se o dono da zona, íntimo do Mossoró, o rei da noite, Fernando era o queridinho de todas as raparigas. Além de bom pagador, tratava-as com carinho e respeito. Enfeitiçou as quengas acostumadas com clientes grosseiros.

Certa noite na Boate Tabaris (onde hoje funciona a Faculdade de Alagoas), ele contou-me a história do seu apelido.

Quem não tem uma prima, uma tia, uma parente que de quando em vez, se hospeda em sua casa? Pois Fernando também teve na época de sua adolescência. Sua tia Cida, bela quarentona, alourada, sempre passava alguns dias na fazenda da irmã em Santo Amaro da Purificação. No mês de janeiro a fazenda enchia-se de parentes e aderentes, comida, bebida à vontade, banho de cachoeira, passeio de cavalo. À noite dormiam em dois enormes quartos, homens e mulheres separados. Entretanto, tia Cida tinha privilégio, um quarto exclusivo, junto ao único banheiro dentro da casa grande.

Certa noite Fernando acordou-se, bexiga cheia, para entrar no banheiro mais rápido atravessou o quarto da tia Cida. Ao abrir cuidadosamente a porta, o sobrinho teve uma taquicardia ao ver sua amada tia deitada em decúbito ventral, vestindo apenas uma calcinha preta, dormindo como uma neném. Com o coração disparado, o sangue fervendo, andou na ponta dos pés em direção ao banheiro sem perder de vista aquela quarentona magnífica, coberta apenas por uma minúscula calcinha. Entrou no banheiro, fez o serviço, voltou no mesmo ritual. Pecou sozinho entre os lençóis de sua cama.

Dia seguinte no café da manhã, a tia cochichou no ouvido do querido sobrinho: “Eu lhe vi, ontem à noite!” Fernando não conseguiu sossegar o espírito, durante todo o dia vinha-lhe a imagem de tia Cida deitada na cama, o detalhe da calcinha de renda preta lhe deixava louco.

O ritual repetiu-se por mais três noites. Ele levantava-se, passava devagar pelo quarto, contemplando a beleza da tia, só sossegava na cama entre suas mãos. Cida, durante o dia, continuou provocando-o com olhares pedintes e sorrisos marotos.

No quinto dia, Fernando estava a ponto de bala, a tia não saía-lhe da cabeça. Havia passado da meia-noite, abriu a porta do quarto, Cida deitada, vestia apenas minúscula e provocante calcinha, mexia o corpo em movimentos lânguidos, ele endoidou, não conseguiu se segurar, quando se deu, estava por cima, a bela mulher o segurou repreendendo: “Sou sua Tia, menino!!””

Ele virou-a, antes de beijar-lhe a boca, gritou-lhe baixo no ouvido: “FOSSE MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!”. A tia abraçou-lhe às gargalhadas, arranhando-lhe as costas.

Manhã seguinte, feliz da vida, Fernando contou sua aventura, entre juras de segredo, em maior confidência, a seu amigo mais íntimo de Santo Amaro, Pedro Cabral. Quem poderia no mundo guardar um segredo desse? Daquele dia até hoje em Santo Amaro da Purificação e adjacências, nosso herói pegou o apelido, “Fosse Mãe”.

Para Cida ficaram inesquecíveis as férias na fazenda, principalmente quando a noite dormia.

Fernando conseguiu entrar na Faculdade no quarto vestibular. Hoje, meu amigo é engenheiro aposentado da Rede Ferroviária Federal, setentão, mora em Salvador, os amigos, sem saber o porquê, conhece-o por “FERNANDO FOSSE MÃE”.

A MASSAGISTA

Dona Mercedes morreu no dia que completou 51 anos de casada. O Coronel Eustáquio enterrou a esposa na Fazenda Olho D’água das Flores, aonde passaram suas vidas com muito trabalho, amor e carinho. Era mulher ativa, de opiniões, deixava o marido pensar que mandava, entretanto, o Coronel fazia o que ela queria. No último desejo, pediu ao marido para ser enterrada junto ao túmulo do filho embaixo de uma enorme aroeira num morrete perto dos currais.

Assim foi feito. Os cinco filhos vieram de Maceió e enterraram a matriarca junto ao seu amado filho Bruno, morto aos 20 anos.MSS

A ausência da mulher foi um baque na vida do Coronel. Aos 72 anos ele monta toda manhã fiscalizando, dando ordens na fazenda, duro nas cobranças em seu império, seu latifúndio, um extenso pasto do gado. Os filhos formados, 3 advogados, uma assistente social e uma médica. O coronel tem uma preocupação, nenhum dos filhos, genros e netos, tem vocação para vida no campo. O filho mais novo, Bruno, foi seu braço direito, seu orgulho, amava a fazenda, não queria estudar, briguento, gostava de cachaça e mulheres. Morreu de queda de cavalo, correndo bêbado uma vaquejada. Quando lembra Bruno, dá uma dor no coração de saudade, era o filho querido, o companheiro nas andanças pela fazenda.

Depois que Dona Mercedes morreu, o coronel Eustáquio se enclausurou na fazenda. Deixou de ir à capital, abandonou seu apartamento na praia da Pajuçara. Nunca foi mulherengo, entretanto, gostava de se aliviar, como dizia, com garotas de programa arranjadas nos classificados. Depois da viuvez, nem isso mais procurava.

No final de ano a família reuniu-se no natal. Festa tradicional, animada com filhos, netos, agregados e convidados. Na festa, Natália, a filha médica, notou o coronel cansado. Exigiu fazer um checape urgente.

Edgar, o genro, figura simpática, conversador, vende imóveis e carros, fazia tudo para agradar ao sogro. Ofereceu-se para acompanhar o velho Coronel aos médicos. Foram 20 dias entre consultas e exames. O doutor urologista examinou os resultados. Depois de apalpar o ventre, pediu ao Coronel para ficar na posição que Napoleão perdeu a guerra, fez o famoso toque retal. Constatou, próstata volumosa e inflamada. Passou-lhe antibiótico e determinou ao Coronel, toda semana tomar massagem na próstata, até diminuir o tamanho e acabar a inflamação.

À noite a filharada e os netos foram visitá-lo em seu confortável apartamento. Ele confidenciou aos filhos, estava constrangido com o tratamento, recusava ao toque do médico. Seu fio-ó-fó era órgão de saída, entrada nunca. Foi categórico, não voltava ao consultório para levar dedada, tomava apenas o remédio.

A filha Natália, ao dormir, conversou com o marido sua preocupação com o pai, a massagem na próstata era necessária. Edgar homem de desembaraços e de soluções, nunca põe dificuldades, prometeu resolver o problema.

Dia seguinte pela manhã procurou o doutor urologista, acertando os detalhes de um plano traçado no travesseiro. Contrataram uma amiga do doutor, com curso de enfermagem, mestra em massagem na próstata, veio à calhar. Com a conivência do doutor prosseguiu a estratégia.

Edgar procurou o sogro levando recado do doutor, ele poderia, se quisesse, ser atendido por uma massagista, em local especial. Depois de muito relutar, o coronel foi conhecer a massagista, Michelle, no carro, esperando. Ficou encantado com a beleza daquela morena simpática que lhe sorriu pecaminosamente. Com jura do genro em não contar aos filhos, o velho se deixou levar para um motel na praia de Jacarecica, deixou-se aos cuidados da massoterapêutica.

O que houve ou que não houve, ninguém sabe. A próstata do coronel já curou há muito tempo, entretanto, ele prossegue o tratamento. Fica feliz quando amanhece a quarta-feira, vem à Maceió radiante junto com o querido genro, Edgar, dia da massagem com a bonita massagista. Michelle, aliviou as dívidas, engorda seu salário em R$ 400,00 toda semana, para ela o Coronel caiu do céu.

O TREM DAS ALAGOAS

No longínquo ano da graça de 1956, ainda menino, havia me submetido ao difícil exame para Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Em noite de festa de rua, Praça Sinimbu, Jarbas Bagdá deu-me a notícia mostrando o jornal, O Globo do Rio, meu nome entre os aprovados, era a glória. Corri, desembestado, dar a notícia em casa. Dona Zeca improvisou maior festa até altas horas da noite, amigos e parentes, bebidas e comidas. Final de festa atravessei a Avenida da Paz, andei pela praia, garrafa de vinho numa mão, sapatos na outra. A lua iluminava a imensidão do mar. Pensava, me perguntava, ”O quê será?”.trem

Retornei, sentei-me no parapeito do coreto, olhando para o infinito, não sei de felicidade ou tristeza, chorei como menino. Naquele momento estava deixando de ser menino. Ser menino foi a passagem extraordinariamente mais bela de minha vida. Amanheceu o dia, dei o último gole, entre feliz e bêbado fui dormir.

O Exército deu a viagem para Fortaleza em duas etapas, de Maceió ao Recife de trem, e do Recife à Fortaleza, via marítima. Numa madrugada de março, deixando minha mãe chorosa, meu pai levou-me à bela Estação Ferroviária de Maceió. Embarquei no trem para Recife juntamente com Rubião Torres e Élio Wanderley, alagoanos aprovados nos exames da EPF. Partimos no famoso trem das Alagoas às 6:00 horas, chegada prevista 18:00 horas, nunca cumprindo o horário.

Escalas incontáveis, Bebedouro, Fernão Velho, Satuba, União dos Palmares, inúmeras pequenas cidades perdidas nos canaviais.

Nas estações, desciam e entravam novos passageiros. O trem parava o mínimo tempo, aproveitar os vendedores de frutas, de comidas. ”Olha a manga madurinha…Cavaco, olha o cavaco…Tapioca quentinha feita na hora…Olha a água de quartinha…Chapéu de palha…” Impressionou-me os ambulantes em cada estação, pareciam as mesmas pessoas, os mesmos artigos oferecidos. Também havia pedintes. ”Dê uma esmola para o aleijadinho… Um auxílio para quem tem fome”… Os meninos pediam tostões e o ceguinho cantava na viola: ”Seu José, Dona Maria… Tenha pena do ceguinho que não vê a luz do dia…”

O maquinista puxava o apito, o foguista botava lenha, a vistosa Maria Fumaça puxava os vagões como se fosse a mãe pata e os patinhos em fila. Invadia canaviais,verde cana, cana caiana. O azul do céu encontrava-se com o verde dos morros nos horizontes ondulados. O poeta Ascêncio Ferreira imortalizou essa viagem com o poema, “O Trem das Alagoas”. “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar… Mergulham mocambos nos mangues molhados… Moleques mulatos vêm vê-los passar… Adeus, adeus, mangueiras, coqueiros, cajueiros em flor. Adeus morena do cabelo cacheado… Vou danado pra Catende com vontade de chegar…Cana caiana, cana roxa, cana fita, cada qual é mais bonita, todas boa de chupar…Vou danado pra Catende, com vontade de chegar. Já deixei a praia longe…e vem perto outro mar.”

O outro mar ainda estava longe, viagem cansativa, bancos de madeira dura. Conversávamos, especulávamos o que haveria de ser, três meninos. No fundo do coração batia saudade, meus pais, meus irmãos, meu mundo, minha praia. Às vezes a vontade de chorar, olhava o verde canavial no infinito disfarçadamente enxugava uma lágrima. Eu era apenas um menino.

Na hora do almoço, fomos para o vagão restaurante. Tomamos cerveja conversando amenidades, amenizou o restante de viagem. Era noite quando o trem entrou na última estação, Recife. Primeira etapa da viagem cumprida, a danada da saudade a apertar, não valia chorar.

Ao descer do trem, avistei Seu Marcos, sogro de minha irmã Rosita. Levou-me para sua casa, prédio antigo, Rua da Imperatriz, centro do Recife, tive tratamento de príncipe. Cansado fui deitar. Com o travesseiro abafei meu choro, minhas lágrimas, meus temores. Adormeci. Nessa noite fiz xixi na cama.

ALMIRANTE SALDANHA (2)

No longínquo 1955, Romeu Saldanha, ao ingressar no Colégio Naval em Angra dos Reis, RJ, ficou encantado com as instalações, limpeza, muito verde, muito mar. Surpreso com ele mesmo, infância livre, leve e solta na praia, adaptou-se ao regime militar. Abominava apenas o “trote” dos veteranos. Em primeira carta a seus pais, escreveu.

“Queridos pais. Estou em período de adaptação aqui no Colégio Naval. Rotina diária é repleta de atividades voltadas para a formação intelectual, moral e física dos cadetes. A formação militar-naval faz a diferença em relação as demais instituições de ensino do país, proporciona aos cadetes os fundamentos da profissão do mar. O dia começa às 6:00 h, com o toque da alvorada. As aulas são ministradas das 7:30 h às 12:30 h. Às 14:00 h é realizada a parada escolar, são verificados o apuro dos uniformes e o asseio pessoal dos cadetes, seguida de desfile em continência. Às tardes eralmente os cadetes realizam atividades inerentes à profissão Militar Naval, fazem educação física e treinam nas equipes esportivas. Depois do jantar, os cadetes retornam às salas de aula, estudo obrigatório das 19:30 h às 21:30 h. O dia termina às 22:00 h com o renitente e belo toque do silêncio.as

O despertar do gosto pelo mar é a essência da formação marinheira, exercício de vela e remo, travessias e competições a bordo dos veleiros oceânicos, a atuação harmoniosa no remo e o prazer solitário da canoagem proporcionam elementos para fazer o jovem evidenciar seus valores e, principalmente, respeitar os elementos da natureza. Todos os cadetes podem desfrutar dessa experiência que requer, é verdade, dedicação especial e muito espírito marinheiro.

Fiquei feliz no teste de natação, dei um show, o instrutor mandou nadar 100 metros, quase bati recorde. Já estou na equipe de natação do Colégio Naval, muito orgulhoso. Meu pai, aconteceu um fato, lembrei-me muito do senhor, professor e homem honesto. Na primeira prova, português, o professor distribuiu as provas, saiu da sala de aula. Ninguém filou. Faz parte do Código de Honra do Cadete, não escrito, bonito, não? Os instrutores e professores, oficiais da Marinha, nos orientam sobre procedimentos na vida….”

Romeu Saldanha tinha suas folgas, sábado depois da formatura, e domingo eram livres, ida ao Rio ou ficar perambulando por Angra dos Reis, Paraty e
adjacências. Nosso herói logo descobriu um cabaré na estrada, surpresa agradável, mulheres bonitas, tornou-se frequentador assíduo.

No Colégio Naval o cadete recebe o soldo de soldado, entretanto, o pai de Romeu, enviava sempre uma complementação pecuniária, o cadete Saldanha desviava essa complementação às moças do cabaré. Romeu não perdeu o vício, compulsão por mulher.

Foram três anos no Colégio Naval mais três anos na Escola Naval na Ilha de Villegagion, na bela cidade do Rio de Janeiro. Seis anos se passaram para se
tornar Tenente da Marinha. Romeu sempre se destacou pela liderança entre colegas, sobretudo, ser atleta de natação. Nos 100 e 200 metros livres, bateu recordes das Forças Armadas.

Durante sua formação, nunca deixou de passar férias na querida Maceió, desfrutar o prazer de nadar até às piscinas naturais da Pajuçara, velejar, rever amigos, fazia sucesso entre as jovens casadoiras. Ao colocar o uniforme de gala para o réveillon do Clube Fênix, arrasava. Entretanto, diariamente, frequentava os cabarés do bairro boêmio de Jaraguá. Certo verão uma jovem prostituta apaixonou-se pelo alegre Romeu, foi o romance daquelas férias.

Amava as festas natalinas de rua na Praça da Faculdade, observava detalhadamente as moças desfilando, não errava o alvo, sempre havia namorada nas férias, naquela época as jovens eram virgens juramentadas, mesmo assim, Romeu, com o carro do pai, conseguia levar alguma para o Posto de Salvamento na Avenida da Paz, local de noite tranquila.

Desde menino gostou da cultura popular nordestina. Aproveitava as férias para assistir ao folclore natalino, decorou músicas do Pastoril, Reisado, Guerreiro, Chegança. Ainda hoje é amante, pesquisador, de folguedos.

Em uma manhã ensolarada de 1960, no Rio de Janeiro, aconteceu a esperada, cintilante formatura na Escola Naval, Romeu Saldanha tornou-se Tenente da Marinha, pronto para conhecer o mundo e todas as mulheres do mundo.

ALMIRANTE SALDANHA (I)

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Praia de Pajuçara

No dia em que a Alemanha invadiu a Polônia, 1º de setembro de 1939, deflagrando a II Grande Guerra Mundial, nascia em Maceió, bairro da Pujuçara, Romeu Peixoto Saldanha, filho do ilustre professor de português e literatura, Manoel Saldanha, catedrático do Liceu Alagoano, Diocesano e Sacramento. O Professor Saldanha, intelectual, escritor bissexto, possuía excelente biblioteca em casa, gostava de ler e ensinar, amigo de Graciliano Ramos, homem de destaque no cenário alagoano. Naquela época professor recebia salário condizente, usava paletó para dar aula. A mãe de Romeu, Dona Margarida, linda morena, do lar, excelente dona de casa, gostava de cantar “Favela”, de Hekel Tavares, enquanto trabalhava em casa.

Romeu criou-se na Pajuçara, com um ano já andava na areia da praia, aos quatro sabia nadar, aos oito navegava no “snipes” de seu pai, proeiro, manejava a vela bujarrona como gente grande. Aos dez anos seu maior prazer, nadar até a piscina natural, deliciando-se com mergulhos entre pedras, recifes, matando peixe com arpão, retornando, muitas vezes, carona de jangadas de pescadores. Seu fascínio pelo mar tornou marcante em sua vida. Dona Margarida, a pedido do filho, o fantasiava de marinheiro nos carnavais, foi apelidado, não se sabe por quem, de Almirante, pegou.

Estudava no Colégio Diocesano, pela manhã pegava o bonde, junto ao pai. Nas horas vagas, brincadeira com amigos correndo praias e sítios, roubando coco, melancia, mamão, cana caiana. À noite no Gramado da Pajuçara, indefinida praça bucólica, gramada e arborizada – (onde hoje está criminosamente instalado um posto de combustível) – os meninos jogavam ximbra, pião, soltavam arraias, andavam de bicicleta, patins e outras brincadeiras. Almirante e os amigos tiveram uma infância livre, leve e solta na Maceió daquela época.

De repente foi aparecendo cabelos no sovaco, voz engrossando, hormônios transformando o menino em rapaz o que fez sentir atração pelas mulheres. Certo dia, Luzia, a empregada, amarrando os cadarços de seu sapato encostou-se em Romeu, ele sentiu a ereção, ficou encantado.

Gostava de ler feito o pai, aos 13 anos havia lido a coleção, Clássicos Jackson. Quando chegava a revista O Cruzeiro, ficava excitado olhando fotos das mulheres de maiô, lia a revista no banheiro. Colecionava escondido uma revista proibida, histórias em quadrinhos de Carlos Zéfiro, desenhista pornográfico. Na praia se achegava às moças de maiô, certa hora não aguentava, mergulhava, se aliviando na água tépida do mar de Pajuçara. Foi quando percebeu, surgiu outro fascínio em sua vida, além do mar, as mulheres. Com uma pua abriu um buraco no banheiro da empregada ficava no fundo do quintal, discretamente olhava Luzia tomando banho. Certo dia ela notou a artimanha do patrãzinho, passou a dar massagem em seu corpo ao tomar banho, deixando o Almirante eriçado. Em seu aniversário, 14 anos, Luzia cochichou no ouvido, tinha um presente, marcou às oito da noite atrás dos Sete Coqueiros. Romeu ficou excitadíssimo, ansioso, olhando o relógio. Foi devidamente desvirginado aos 14 aninhos. Caiu na besteira de contar prosa, se gabando para amigos, detalhou os pormenores do amor em plena areia da praia de Pajuçara. Seu primo Afrânio pediu a mesma noitada à Luzia, ela recusou, por vingança contou o acontecido aos tios. Dona Margarida colocou Luzia para fora do emprego e o professor Saldanha, orgulhoso do filho, contava aos amigos, tinha um macho dos bons em casa. Romeu aprendeu, nunca mais se gabou, tornou-se um come quieto.

Naquela época namorada era virgem, os jovens depois do agarrado no portão da casa da namorada, saía em busca de empregada doméstica ou subiam as escadas dos casarões do bairro boêmio de Jaraguá pagando o carinho, o amor das raparigas. Almirante tornou-se um frequentador assíduo, a sexualidade à flor da pele foi uma constante pelo resto da vida.

Certo dia uma revista da Marinha caiu em sua mão, naquele ano terminava o ginásio, em casa informou aos pais, queria ser oficial da Marinha, estar perto do mar, conhecer lugares. Fez os exames. Dia 15 de março de 1955 sentou praça como cadete no Colégio Naval de Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Dali por diante dedicou sua vida à Marinha, ao mar e às mulheres.

NO ESCURINHO DO CINEMA

Nos anos 60 havia cinema em diversos bairros de Maceió. Cine Rex na Pajuçara, bairro da classe média alta, casas dos aristocratas do açúcar, deputados, senadores, praia onde o mar beija as areias com mais alma e mais amor, como diria o poeta Aldemar Paiva. O cine Plaza, da família Voss, ficava no bairro do Poço, fui frequentador assíduo. O Lux na Ponta Grossa fazia a alegria da juventude com filmes de aventuras. O cine Ideal na Levada passava grandes séries de cowboys. Nos anos 80 foi transformado em cinema pornô.

Certa feita fui jurado em um concurso literário. Fiquei impressionado com uma crônica bem escrita por um cidadão de Maragogi. Ele confessava detalhes de sua vida homossexual, quando sentia vontade, quando dava comichão no rabo, entrava na matinê do Ideal com o filme iniciado. Não demorava, alguém encostava se oferecendo como parceiro, em pé encostado à parede satisfaziam-se, ativa ou passivamente. Na crônica ele chegava a pormenores impressionantes, até chocantes. Uma outra jurada, professora, socióloga da Universidade, arquivou aquela crônica, documento para estudos de comportamentos sexuais. É bom esclarecer aos apressadinhos meninos do arco-íris, o cine Ideal fechou suas portas há algum tempo.cine rex

Cinearte, o cinema mais chique no centro da cidade passou a ser chamado São Luiz quando foi comprado por Luiz Severiano Ribeiro, o maior empresário de cinema do Brasil. Foi a época do cinemascope e tecnicolor, o auge dos filmes americanos deslumbrantes, “Suplício de Uma Saudade”, “Tarde Demais para Esquecer”, “Juventude Transviada”, entre outros. No início de uma paquera, o jovem marcava encontro no São Luiz, pedindo para moça guardar o lugar. Ao iniciar o filme, no escurinho do cinema, ele sentava-se ao lado. Às vezes, pegava na mão, era a glória pegar na mão no primeiro dia de namoro. Quando se tratava de jovem mais avançada em seu tempo, marcava encontro nas cadeiras nos fundos, mais discreto para beijo na boca, ou outras carícias mais íntimas. Depois nos gabávamos aos amigos, o grande feito, maior “sabão” com fulana no São Luiz.

As matinês do São Luiz eram muito frequentadas, a juventude de Maceió se juntava para brincadeiras e gaiatices. Certa feita no filme “Sansão e Dalila”, numa cena, Dalila caminhava numa estrada, a câmara focalizava Dalila andando de costas. De repente ela pára, vira a cabeça, olha para trás, com a mão direita dá adeus a Sansão.

Becker, figura das mais conhecidas da cidade, ficou para assistir outra seção do filme. Quando apareceu a cena de Dalila caminhando, Becker deu um grito choroso, “Tchau Dalila!!!”. Nesse momento, na tela, Dalila parou, olhou para trás, deu adeus. O cinema veio a baixo, às gargalhadas. Outra vez durante um filme de terror, maior tensão, todos entretidos no filme, Becker sentado no balcão jogou de cima uma galinha viva. A galinha caiu batendo asas, co-có-ró-cando, um susto apavorante na platéia. Parou o filme, tentaram inutilmente descobrir o autor da brincadeira, o cínico do Becker também reclamava, os clientes do cinema pediam para continuar o filme, Becker foi salvo, era sempre suspeito.

Um rapaz de uma das famílias mais distintas de Maceió nasceu com problema, tinha idade mental de cinco anos. Pedro vivia perambulando pela Rua do Comércio, todos gostavam de Pedro. Ele assistia, revia várias vezes os filmes no São Luiz. O gerente compadeceu dos gastos com cinema de Rafael, propôs ele ser fiscal. Sua missão era, proibir algazarra, proibir fumar. Ninguém podia se masturbar, beijar podia. O rapaz memorizava: “Não pode fumá, não pode guitá, não pode matubá!”

Rafael até que ajudou, quando percebia um cigarro aceso, aproximava-se, “Cigarro não! poibido, poibido”. Ele ficava louco porque não podia identificar os meninos gritando nas matinês. Certa vez, Rafael encostado com a barriga na mureta notou um casal suspeito nas últimas cadeiras. Andou de ponta de pés até constatar a cena, a namorada segurava alguma coisa por dentro da braguilha do namorado. Rafa não deu tempo, nem advertiu, emocionado com o primeiro flagrante, gritou:

– “Ela tá matubando ele! Tá matubando. Não pode, não pode.”

O cinema veio abaixo numa só vaia. O casal de jovens saiu apressado pedindo licença entre as cadeiras. Por azar a moça foi identificada pela cruel juventude da Rua do Comércio. Por muito tempo ficou conhecida como “Mãozinha de Ouro”.

Mais de 50 anos depois, semana passada, na fila de idosos do banco, a reconheci. Coroa enxuta, bonita, sarada. Lembrei-me da história do escurinho do cinema, conservou nossa amiga.

BLOCO DA NÊGA FULÔ

Maceió sempre teve tradição de carnaval de rua desde os anos 1930/1940 com as festas tradicionais do Major Bonifácio em Bebedouro, do Moleque Namorador na Ponta Grossa, o Rás Gonguila com seu Bloco Cavaleiros dos Montes. Outros Blocos animavam o carnaval de rua, “Bomba Atômica”, “Vulcão” (ainda existe – 80 anos), “Pitanguinha vai à Lua”, “Amigo da Onça”, “Vou Botar Fora”, “Daqui não Saio” , entre outros.BNF

Anos 60 fervia carnaval com o tradicional Banho de Mar à Fantasia no domingo anterior ao carnaval, blocos fantasiados desfilavam, muito frevo e marchinhas na Avenida da Paz.

A “Maratona Carnavalesca” iniciava quinze dias anterior ao carnaval, a Rua do Comercio alegrava as noites, orquestra de frevo em cada esquina, o povo dançando, ricos, pobres, pretos, mulatos, brancos, soldados e capitães, enfermeiras e doutores. Sempre animado o carnaval de rua em Maceió.

De alguns anos para cá, estão querendo acabar essa tradição, a maior manifestação cultural popular do povo brasileiro, a alegria fugaz que se chama carnaval. Nos dias de carnaval, blocos não desfilam mais com seus estandartes no ar. E no entanto é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade.

Por conta do relato acima, um grupo de cidadãos, de foliões, velhinhos serelepes, amantes do carnaval, criou o “Bloco da Nêga Fulô” com finalidade única de divertimento durante o carnaval, tentando retomar a tradição do carnaval de rua em Maceió.

O nome do Bloco foi escolhido em homenagem ao grande poeta alagoano Jorge de Lima, eternizou o poema “Essa Nêga Fulô”, hoje mundialmente conhecido. Obra prima da literatura brasileira.

“… O Sinhô foi açoitar
sozinho a Nêga Fulô.
A nêga tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a Nêga Fulô.
Essa Nêga Fulô!
Essa Nêga Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, Nêga Fulô?
Essa Nêga Fulô!”

O Bloco vai desfilar no domingo de carnaval, dia 7 de fevereiro, partindo impreterivelmente às 15:30 horas da região dos Sete Coqueiros, desfilando até o Alagoinha, orla da Ponta Verde. Lembrando que, a orla é do povo, não é propriedade dos moradores dos belos edifícios, esses, inclusive, vão passar o carnaval em suas casas de praia ou no Recife.

O Bloco é aberto a todos, entra homem, entra menino, entra velho, entra mulher. Não haverá trio elétrico ou carro de som, será pé no chão, a diretoria sugere aos foliões as fantasias, mesmo estilizada. Tem maior charme que mulher com flor nos cabelos? Tocará no Bloco marchinhas e frevo a W & K Orquestra de Frevo Marechal, a melhor do Estado.

É o retorno de animação na cidade nos dias de carnaval. E, que o povo tenha motivo para ficar em Maceió durante o carnaval. Carnaval é alegria, é coisa séria. O comércio local perde com o êxodo dos foliões em busca da folia em outros lugares.

Um economista fez o seguinte cálculo: durante o carnaval viajam mais de 200 mil maceioense em busca da folia do Rio, Salvador, Barra de São Miguel, Paripueira, Recife e outros lugares. Se cada um desses viajantes gastar R$ 300,00, em média, durante o carnaval, R$ 60 milhões de reais deixam de circular em Maceió durante os quatro dias. Carnaval é um grande negócio. Maceió perde, fica mais pobre, com a saída dos foliões.

O Bloco Nêga Fulô vem preencher a falta de carnaval durante o carnaval. Sem custo para Prefeitura ou Governo do Estado, todas as despesas estão repartidas entre os organizadores.

Queremos apenas o retorno do carnaval de rua , é preciso cantar, alegrar a cidade. Não podemos deixar que nos roubem também a alegria, são apenas quatro dias de ilusão, depois tudo volta ao normal porque é carnaval.

CONVIDAMOS A TODOS, INCLUSIVE TURISTAS, PARA DESFILAREM OU ASSITIREM O “BLOCO DA NÊGA FULÔ” DAS 15:30 ÀS 17:00 HORAS SAINDO DOS SETE COQUEIROS AO ALAGOINHA, DOMINGO 7 DE FEVEREIRO. E VIVA O CARNAVAL!

O GUIA VOLUNTARIO

FRED

Na última sexta feira eu visitava hotéis de Maceió durante o café da manhã distribuindo folhetos, convidando turistas para assistirem às Sextas Clássicas em Marechal Deodoro, encontrei o amigo Fred, pediu-me aquele material, encarregou-se em distribuir no hotel, onde geralmente toma café. Sorri-lhe, cúmplice, Frederico é o maior paquerador de turista do Estado das Alagoas. Durante a temporada fica incontrolável. Por conta dessa compulsão, Margarete, ex esposa, não aguentou levar tanto chifre, deixou-o . Hoje aos sessenta anos, aposentado, mora num pequeno apartamento à beira mar, sua vida é andar pela manhã, tomar café em hotéis na orla, paquerar as turistas. Conhecedor da história das Alagoas, bom conversador, gentil, figura agradável, se intitula guia turístico voluntário, as turistas que vêm em busca de aventuras amam seus serviços gratuitos nos passeios e na cama.

SEXTAS CLÁSSICAS

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Durante à noite eu estava no belíssimo Convento de Santa Maria Magdalena , concentrado, ouvindo, me deliciando com o Bolero de Ravel tocado pela Orquestra Filarmônica Manoel Alves de França, uma das cinco de Marechal Deodoro, encerramento do projeto Sextas Clássicas, onde o povo ouve música de alta qualidade, povo simples também gosta do que é bom, percebi um aceno do outro lado, era Fred acompanhado por duas mulheres. Depois do encerramento houve serenata pelas ruas bucólicas da histórica Marechal Deodoro (420 anos), encontrei o amigo feliz da vida, apresentou-me suas companhias, mineiras, de Juiz de Fora, Ana Lúcia, professora de música da faculdade e Goreti, arquiteta. Estavam encantadas com a cidade histórica, casario colonial bem conservado, Igrejas, Casa-Museu onde nasceu o Marechal Deodoro, Palácio Provincial, o belíssimo Museu de Arte Sacra, e aquele maravilhoso projeto musical, Sextas Clássicas. Continuamos andando na serenata, cantando cantigas de antigos carnavais.

Antes da despedida Fred cochichou-me ao ouvido, estava bígamo das duas, mulheres maduras sem preconceitos. Convidei-os para no dia seguinte participar da abertura do carnaval de Marechal no Bloco Ninho do Pinto.

BLOCO NINHO DO PINTO

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Eram 9 horas da manhã nos encontramos no povoado da Massagueira, entramos na escuna com os foliões do Bloco, orquestra de frevo, passistas, autoridades, governador, prefeito, iniciamos navegando pela lagoa Manguaba. O Bloco Ninho do Pinto é o único bloco anfíbio no mundo. Lanchas, canoas, jetskys, outras embarcações acompanhavam as duas escunas do Bloco, as mineiras fascinadas com tanta beleza entre os canais das lagoas, ilhas e coqueirais, a orquestra não parava de tocar, as passistas traçando tesouras, estandarte no ar. Pouco mais de uma hora navegando qual cisne branco, avistamos ao longe o Centro Histórico de Marechal Deodoro, repleto, cinco orquestras de frevo esperando junto com a multidão. As escunas aportaram, o Bloco desembarcou, o Prefeito Cristiano Matheus entregou a chave da cidade ao Rei Momo, iniciou o desfile pelas ruas estreitas enladeiradas, o povo delirava, mais de duas horas dançando, cantando, com direito a banho jato d’água. As mineiras pulavam, se divertiam juntas a Fred, o mais feliz dos foliões naquela manhã de abertura de carnaval. Retornaram à Orla Lagunar onde num palco armado uma excelente orquestra de frevo, W & K, tocou para o povo dançar até mais tarde.

BLOCO DA NÊGA FULÔ

Almocei com Fred e as mineiras no Bar do Pato, povoado da Massagueira, o maior pólo gastronômico do Nordeste. As turistas fascinadas; ter um guia como Frederico Magalhães é privilégio. Elas retornaram à Minas prometendo vir passar o carnaval em Alagoas especialmente para sair no Bloco da Nêga Fulô que vai estrear no domingo de carnaval, 7 de fevereiro, saindo dos Sete Coqueiros até o Alagoinha, orla de Maceió, a partir das 15:30. Fred me telefonou, as mineiras já compraram fantasia, reservaram pousada na praia do Francês em Marechal Deodoro, onde vão desfilar em todos os blocos possíveis de Marechal, até no Bloco dos Garçons na quarta feira de cinza. O turismo de Alagoas agradece a ajuda de Frederico Magalhães, o eficiente guia voluntário.

SOLAMENTE UNA VEZ

ipioca

Praia de Ipioca

Há mais de seis anos deixei de dirigir, tornei-me amigo de taxistas. Gosto de conversar com esses motoristas anônimos, futebol, política (é um termômetro), o que acontece na cidade. A prefeitura da cidade de São Paulo proibiu taxistas conversarem esses assuntos com clientes, fico imaginando a conversa de taxista paulista, Sartre? Tchaikovsky? Marx?

Semana passada peguei um taxi no posto, disse o destino ao amigo Arara, fomos conversando, perguntei sobre o movimento dos turistas. Ele não se fez de rogado, gosta de contar casos, ótimo contador de história. Enfrentamos o trânsito louco enquanto ele narrava com entusiasmo sua aventura.

“Coronel, o senhor não vai acreditar, eu aguardava passageiro calmamente no posto, eram 10 horas, quando a argentina apareceu, coroa bonita, vestido transparente de renda branca, por baixo maiô azul claro. Sorrindo foi negociando o custo em levá-la à praia de Ipioca e ficar esperando até às três da tarde, o almoço ela pagava. Fiz meus cálculos, ela aceitou. Sentou-se no banco dianteiro, partimos rumo ao litoral norte. A coroa se apresentou, Filipa, mora em Córdoba, fascinada por Maceió, está comprando um apartamento na Jatiúca, sempre passa férias e feriados, conhece todas as praias, apaixonada por Ipioca. Ficou empolgada ao passarmos pelas novas ruas e avenidas em frente ao mar. Em Ipioca estacionei embaixo de uma árvore, Filipa desceu, rumou à barraca de praia, acompanhei-a à distância, pediu ao garçom, sombrinha, mesa, cadeira. Eu apreciando, a argentina tirou o vestido, de maiô respirou fundo, de repente correu, entrou no mar, pulou marolas, mergulhou.”

Interessadíssimo na história, perguntei, que tal a coroa?

– “Uma Deusa, corpo enxuto, tudo em seus lugares, foi campeã de natação na Argentina.” Respondeu o Arara com ar de cumplicidade. Continuou. “A bonitona nadou meia hora mar a dentro. Saiu da água saltitando, feliz, alegre, sorrindo, deu-me um adeus ao longe, retornou à mesa, ajeitou a sombrinha pediu ao garçom cerveja e peixe frito, camarão. Na segunda cerveja ela virou-se, chamou-me com os dedos, atendi, sentei-me a seu lado, num português com sotaque entendível, conversamos bastante. Trocou para uísque, eu na coca. Cada vez soltava-se mais, perguntou-me que tal a veterana? Só depois entendi que veterana é coroa, mulher usada, semi nova, em argentino. Respondi, a senhora ganha de muita jovem

Arara, todo orgulhoso disse ter notado depois da bebida um clima de paquera.

Filipa puxou assuntos picantes, sexo e coisa e tal. Ela perguntou-me se queria almoçar em algum restaurante ou comeria na barraca, respondi-lhe que o peixe estava ótimo, matava a fome com aquele delicioso bijupirá e camarão. Ela tomava uísque como se fosse cerveja, sorria, cantava, quase embriaga, deu três da tarde, ela falou que não importasse a hora, pagava mais. Às quatro ela pagou a conta, levantou-se, eu ajudei-a a levar o vestido, de maiô entrou no carro, cantando e sorrindo. Ao sentar-se, de repente olhou para mim, puxou meu rosto, beijou-me a boca, ficamos grudados. Olhamos, olhos nos olhos, ela deu as ordens, para o hotel. Segui com o carro conversando com a veterana, não deixava de sorrir e cantar. No hotel levei-a ao quarto, nos abraçamos, fomos ao banho. Passei um resto de tarde maravilhoso, coroa extraordinária a argentina nadadora, sabia tudo na cama. Sai às nove da noite, pagou-me o combinado, deixei-a dormindo.

Eu ansioso por saber se a argentina estava ainda na cidade, perguntei se ele a procurou novamente, qual hotel se hospedava. Arara continuou sua história.

No dia seguinte fui ao hotel, encontrei-a no café da manhã, pediu-me para sentar, disse-me em seu espanhol. “Arara, me gustó sair con usted, pero, saio solamente una vez, sin repetir lo taxista, una vez cada uno, una vez nada más, solamente una vez.” Levantou-se, entrou no hotel. Com alguns dias descobri, três colegas taxistas tiveram a mesma aventura maravilhosa com a argentina. Vão completar dois meses, nunca mais avistei a veterana“.

Chegamos ao nosso destino, Arara parou o taxi, eu pensando, “solamente una vez”, deu-me uma ponta de inveja do Arara.

CELULAR É O CÃO!

Marluce começou a desconfiar quando Germano colocou o celular para carregar na tomada da área de serviço. Tantas tomadas nas salas do amplo apartamento, onde sempre carregava o celular, porquê agora só na área de serviço? Quando o celular tocava o marido se levantava num rompante, atendia, voz baixa, às vezes conversas desconexas, marcando e desmarcando compromissos, a esposa achou estranho. Durante à noite aproveitando o sono pesado de Germano, ela apanhou o celular da cabeceira, trancou-se no banheiro, iniciou uma procura de ligações diretas e no WhatsApp. Não percebeu algum nome de mulher em destaque, porém, um tal de Dr. Sílvio era constante nas chamadas, conversas longas, 8 a 10 minutos. Saiu do banheiro, deitou-se, insone, elucubrações, histórias, fantasias, até suposição de homossexualidade do marido. Dr. Sílvio, não lembrou de algum, era quem mais aparecia nas ligações. Ao acordar, domingo, testou Germano com carinhos, ele correspondeu, transa fervorosa, surpreendente, para um sessentão.

Na segunda feira marcou com Audálio, detetive particular procurado no Google. Às três horas da tarde ela subiu o Edifício Breda, o mais antigo da cidade. Contou a verdade ao jovem detetive, a desconfiança de uma aventura do marido. Com uma foto de Germano, número da chapa do carro, local de trabalho e um adiantamento de R$ 500,00, o detetive prometeu trabalho, aguardasse.TCL

Na segunda feira seguinte Audálio telefonou, convidou a madame a comparecer ao escritório. Marluce subiu no velho elevador às quatro da tarde, ao entrar na sala sentou-se numa confortável poltrona, encarou o detetive, “e aí?”

“Descobri tudo Dona Marluce”, disse Audálio mostrando-se vencedor. “Foi uma semana trabalhosa, muitas investigações, espero que a senhora me recompense. Aqui estão as provas em fotos”, disse, estendendo-lhe um envelope pardo.

Marluce num átimo tomou-o das mãos de Audálio, rasgando pela beira, abriu o envelope. Ficou surpresa, assustada e muda ao ver fotos de seu marido no carro entrando em motel com Silvinha, amiga de longas datas. Uma onda de raiva tomou seu ser, deu um tapa nos cinzeiros da mesinha, voaram longe. Audálio, abraçou-a, mandou chorar, ela chorou com tanta ira que molhou a camisa do detetive. Precisou algum tempo e um lexotan para se acalmar. Marluce calada, pensou meia hora, sentada. Levantou-se da poltrona, encarou o jovem detetive, num impulso abraçou-o, beijou-lhe a boca, dentro do escritório no chão de falso granito fez amor urrando, gritando, chamando Germano de corno, os vizinhos de salas ouviram e acudiram. Audálio abriu a porta, tudo sob controle. Já calma, vestida, ela fez um cheque de R$ 5.000,00, saiu da sala como se nada tivesse acontecido.

Ficou a matutar o quê fazer, ligou para o filho nos USA, descansou um pouco a alma. Na quinta feira telefonou para Eduardo, marido de Silvinha convidando para jantar no sábado, nunca mais os casais tinham se visto. Eduardo aceitou, comunicou a Silvinha, ela imediatamente ligou para Germano, a intuição feminina baixou em Silvinha, “ela está sabendo” disse convicta à Germano. “Sabe nada, tomo todo cuidado possível”, respondeu.

No sábado, o casal chegou para o jantar, Marluce se mostrava radiante, servia e tomava John Walker Blue, tira gosto o melhor possível servido pelo garçom Lourival. O jantar, uma delícia, Bijupirá ao molho de camarão e lagosta ao thermidor. Depois de muitas conversas e uísques, foram para varanda tomar licor, continuar a noitada, uma vista linda da praia de Ponta Verde. Em certo momento, Marluce falou alto, “Ah! tenho uma surpresa interessante para mostrar”. Retornou com o envelope pardo, distribuiu para cada um, uma fotografia. Todos emudeceram olhando as fotos. Eduardo foi o primeiro a se manifestar, xingou a mulher de vadia, puta, deu-lhe um soco, ela caiu, ele saiu. Germano olhou para a esposa, Marluce simplesmente sorriu-lhe, “pode sair, suas malas estão na portaria, nunca mais volte aqui”. Encarou a ex amiga com olho roxo, “sua puta, Dr. Sílvio, vá embora daqui imediatamente, dou-lhe uma cacetada no outro olho.”

Dias depois Silvinha recriminava Germano, “você disse que tomou todos os cuidados!”. “Ela desconfiou quando carreguei o celular”, respondeu, “celular é o cão!.”

OS FRANCESES, CRISTIANO E AS SEXTAS CLÁSSICAS

Depois do Brasil ser descoberto por Pedro Cabral, Portugal para melhor administrar a colonização, dividiu-o em Capitanias Hereditárias, 13 faixas de terras doadas a nobres portugueses que colonizariam e passariam a capitania para herdeiros. Uma das que sobressaíram foi a de Pernambuco, desde o Rio São Francisco até Igarassu ao norte. O donatário Duarte Coelho deu prioridade à colonização das cidades de Olinda e Recife deixando a parte sul abandonada. Assim que piratas franceses perceberam, desembarcaram na região por volta de 1540, danaram-se a contrabandear Pau Brasil, abundante na Mata Atlântida da região, construíram um porto, deu nome a Praia do Porto dos Franceses, depois Praia do Francês como é conhecida hoje mundialmente por sua beleza. Os franceses não colonizaram, não construíram casas queriam apenas o Pau Brasil, foi facilitado, dominaram os índios caetés com presentes, miçangas, espelhos e pedraria, esses mesmos índios, anos depois fizeram um banquete antropofágico com os tripulantes da comitiva do Bispo Dom Pero Fernandes Sardinha naufragados nessa costa sul.sc

Só em 1596 os portugueses iniciaram a colonização efetiva dessa região, expulsando os franceses, construíram as primeiras casa na região de Taperaguá, deram o nome de Povoado Madalena do Sumaúma, em 1632 foi elevado a vila com o bonito e vasto nome de Vila de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul. O povo foi simplificando chamando de Alagoa do Sul, depois ficou apenas Alagoas. Quando a região se emancipou de Pernambuco em 1817, a nova província tomou o nome de Alagoas com capital a cidade de Alagoas. Em 1839 a capital foi transferida para Maceió. Para homenagear o filho mais ilustre nascido na cidade, em 1939 a cidade de Alagoas tomou o nome de Marechal Deodoro, como é conhecida oficialmente até hoje. Portanto com queríamos demonstrar a cidade de Marechal Deodoro, é o berço da civilização alagoana, tudo começou no bairro histórico de Taperaguá.

Em 2006 quando o compositor Gilberto Gil era Ministro da Cultura, Marechal Deodoro foi tombada passou a ser patrimônio histórico do Brasil. Em 2008 o jornalista Cristiano Matheus foi eleito prefeito, iniciou uma administração transformadora. Hoje a cidade histórica de Marechal Deodoro é considerada uma das mais bonitas do Brasil com sua arquitetura colonial preservada, o Palácio Provincial, a Casa-Museu onde nasceu o Marechal Deodoro, o Convento Franciscano de Santa Maria Madalena (390 anos) onde está instalado o Museu de Arte Sacra um dos mais bonitos do Brasil, o Mercado das Mulheres Rendeiras, além de outros prédios históricos significativos no Centro Histórico onde foi construída uma moderna e linda Orla Laguna. Além da beleza cênica das lagoas, de lambuja as maravilhosas, encantadoras Praia do Francês, Barra Nova, Praia do Saco e o Pólo Gastronômico da Massagueira.

Uma outra forte característica cultural da cidade de Marechal Deodoro é a música, aqueles índios caetés tocavam flauta, talvez venha daí a musicalidade da região. São cinco Orquestras Filarmônicas, duas Bandas de Pífanos, Chorinhos, Seresteiros de Marechal, além de músicos como Nelson da Rabeca, saxofonista Seu Zezinho, aos 87 anos vive perambulando tocando pela cidade. Por tudo isso a Prefeitura realiza o projeto SEXTAS CLÁSSICAS na temporada de verão, consiste em concertos em frente ao Convento todas as sextas feiras ao anoitecer. Em 2016, terceira edição do projeto, tem a imperdível programação.

Dia 8 de janeiro – Concerto Filarmônicas, Aconchego, Santa Cecília (105 anos) e o tenor Dhyda Lyra cantando canções napolitanas.

Dia 15 de Janeiro-Concerto Filarmônicas, Nossa Senhora da Boa Viagem, Carlos Gomes (100 anos) e Maestro Max Carvalho com soprano Elvira Rebelo

Dia 22 de janeiro – Concerto Filarmônica Manoel Alves de França. Concerto de Carnaval, Orquestra de Frevo W & K. Serenata músicas antigas de carnaval pelas ruas enladeiradas e estreitas do Centro Histórico, Seresteiros de Marechal. IMPERDÍVEL. www.sextasclassicasemmarechal.blogspot.com

RÉVEILLON

Palavra francesa, festa de virada do ano com baile e ceia.

Na nossa belíssima Maceió a festa fica por conta da Prefeitura e alguns hotéis na orla da Ponta Verde, com muitos fogos bonitos soltados à meia-noite

Nos anos dourados em Maceió o destaque da passagem de ano era o Réveillon no Clube Fênix Alagoana. Baile chique, os homens vestiam smokings pretos, gravata borboleta, faixa na cintura e as mulheres maravilhosas, vestidos de bailes longos cintilantes.RVL

Depois de romper ano novo em casa subia com a família para o salão nobre do clube onde se divertia a fina flor da burguesia alagoana. Ao chegar, os abraços não davam para quem queria. Momentos de alegria, beijos e abraços, chapeuzinho, apito. Era hora de rever amigos que estudavam ou trabalhavam fora da cidade.

Baile animado sempre com orquestra das melhores do Brasil, Tabajara de Severino Araújo, Casino de Sevilha. Festa chique, muito charme, champanhe e comidinhas. Eu passava nas mesas, dava a primeira volta cumprimentando os amigos e o uísque, Benedito Bentes, Teotônio Vilela, Jorge Quintela, Ardel Jucá, foliões constantes de ano novo. Lá para as duas horas da manhã, anunciavam a rainha da Fênix. As jovens desfilavam informalmente, como se nada quisessem, eram candidatíssimas ao cetro de rainha.

Os metais sinfônicos tocavam belas músicas, casais e namorados dançando de rosto colado no salão. De repente uma batida de bumbo, duas, três, anunciando o carnaval. A moçada e as senhoras de belos vestidos longos e cintados, os homens de smokings caíam no passo, cantando com alegria as marchinhas de Capiba.

“Mandei fazer um buquê para minha amada, mas sendo ele de bonina disfarçada…o brilho da estrela matutina…adeus menina linda flor da madrugada….”

Iniciava o ano novo com um animado carnaval. Nada mais alegre, mais feliz. Amigos de braços dados terminavam o réveillon amanhecendo o dia cantando e dançando às sombras das amendoeiras da Avenida da Paz, com direito a mergulho de roupa no mar calmo de uma luminosa manhã. Surgia um novo ano.

Namorados ainda bêbados, alegres, com o paletó do smoking aberto, o vestido tão caprichosamente costurado durante meses para o baile do réveillon se arrastavam nas calçadas da Avenida. Algumas mergulhavam para saudar Iemanjá e o Deus Netuno. Era assim o réveillon dos anos dourados, da gente dourada, um carnaval antecipado para entrar o ano novo com muita alegria e esperanças.

No dia 1º de janeiro acordava tarde, vestia um velho calção de banho, descia à praia da Avenida. Nas rodinhas de papo, de paquera, o assunto era o réveillon, quem namorou, como tinha sido o maravilhoso baile da Fênix.

Um mergulho com a namorada no mar tranqüilo, alguns abraços marítimos fechava a manhã. As meninas iam para casa descansar enquanto nós jovens sadios, com força e vigor, continuávamos o primeiro dia do ano tomando uma cachacinha nos bares da praia em Jaraguá, perto dos trapiches. Ao anoitecer íamos às raparigas, subíamos as escadas dos casarões de Jaraguá para desejar um feliz ano novo para todas, boas entradas.

Sempre inventavam histórias fantásticas no ano novo. Em 1959 algum gaiato inventou que todos negros iam virar macacos na passagem de ano para 1960. Foi uma brincadeira de mal gosto de um astrólogo no Sul do país que se espalhou por todo o Brasil. Aqui em Maceió a onda corria, como brincadeira. Um jovem, companheiro de praia, negro que nem um tição, filho da lavadeira, semi-analfabeto, melhor jogador de futebol da turma, me confidenciou, estava com medo da chegada do dia 31 de dezembro. Eu esclareci, tudo não passava de uma brincadeira de péssimo gosto.

Nelson Ferreira grande compositor pernambucano pegou essa notícia esdrúxula e compôs um frevo, muito tocado naquele carnaval, dizia mais ou menos assim:

“Dizem que em sessenta negro vai virar macaco, ora vejam só que grande confusão…”

Terminava a música se lastimando que o Brasil ia perder Pelé e Didi. Hoje, por conta do “politicamente correto” certamente Nelson Ferreira seria crucificado.

Assim eram nossos réveillons, cheios de charmes e histórias fantásticas. Um excelente 2016 para todos.

* * *

“Operação Macaco“, frevo da autoria de Nelson Ferreira e Sebastião Lopes, interpretado pela cantora pernambucana Nerise Paiva:

PRA QUÊ ESSA PRESSA?

Mal você chegou já está de saída, para quê essa pressa toda, 2015 ? Vai correr 100 metros rasos na Olimpíada? Depois que envelhecemos tudo encurta, principalmente o tempo, mal se consegue diferençar o anteontem do hoje, lembra-me os versos de Lêdo Ivo “…Na Barra de São Miguel, diante do mar, só agora aprendi: o dia mais longo do homem dura menos que um relâmpago. O tempo não será mais celebrado entre as constelações. O Céu e a terra vão sumir na cinza desapontada dos amanhãs roubados pela morte. E tudo o que amei se dissolve.

A vida é um relâmpago, dura só um dia, Luzia, e não se leva nada desse mundo. No entanto é preciso cantar e alegrar a cidade…rv

Nada contra você 2015, sou um otimista incurável, que fazer? As descobertas dos roubos, a banalidade da corrupção, a revelação de tenebrosa bandidagem dentro dos podres poderes, fez o brasileiro enxergar uma realidade surpreendente. O país tornou-se dividido, intolerante. Entretanto fez o povo pensar e exigir mudanças nas atitudes, no comportamento, nos costumes. Essas mudanças não são fáceis, até as revoluções armadas como a Francesa, foi preciso tempo para consolidá-la. 2015 mostrou ao povo que o rei está nu. O governo baixa pacote, panacéia econômica, medidas demagógicas, sacrificando o trabalhador, devia olhar o próprio umbigo, diminuir gastos. Nada é projetado a longo prazo, obras de infra estrutura viária, industrial ou agrícola. Tudo é aqui e agora, lucro fácil para empreiteiras.

É difícil governar tenho certeza. Alagoas, por exemplo, em 1970 tinha apenas 13.000 funcionários, um Estado enxuto, hoje não de sabe o número, mais de 80 mil. Problema maior é a qualidade da educação, a falta de leitura fez a televisão imbecilizar boa parte da sociedade brasileira. Contudo, continuo um otimista irrecuperável, depois da prisão desses empresários e dos políticos envolvidos na corrupção, depois desses movimentos de rua, a sociedade brasileira vai mudar de postura, inclusive diminuir a cruel distribuição da riqueza, não é possível oito grandes famílias possuam 70% do PIB nacional. Existem dois caminhos, tolerância zero com a corrupção e um projeto de educação e cultura eficiente, atingindo toda população. Monteiro Lobato dizia, um país é feito de homens e livros. Dentro de 20 ou 30 anos o Brasil estará em seu devido lugar se iniciarem essas mudanças concretas em 2016.

2015 me pregou uma peça, fiquei angustiado 20 dias até receber o resultado do exame de biópsia na próstata. Senti um alívio enorme ao ler o resultado negativo. Cansaços, dores e outros achaques são pertinente a um homem de 75 anos. Antigamente um homem de minha idade ficava numa cadeira de balanço esperando a morte chegar. Graças a modernidade da medicina, um idoso tem vida ativa no trabalho, na sociedade e no sexo. Foram importantes as invenções e descobertas da medicina.

Em 2015 trabalhei que nem um menino de 40 anos, disse minha geriatra, Dra. Ronny, ela incentiva ao idoso à ocupação intelectual e exercícios físicos. Trabalho muito, faço parte da equipe do Prefeito Cristiano Matheus, nesses últimos sete anos realizamos projetos importantes em Marechal Deodoro. Há que destacar dois projetos, AS SEXTAS CLÁSSICAS, durante a temporada de verão, música clássica, de boa qualidade, concerto em frente ao belíssimo Convento de Santa Maria Madalena, em janeiro de 2016, toda sexta feira à noite, acontecerá a terceira edição.

E o projeto maior, 6ª Festa Literária de Marechal Deodoro, VI FLIMAR, hoje considerada nas cinco melhores do país, entre mais de 300, é uma referência cultural do Estado das Alagoas, do Brasil. Já estamos trabalhando no projeto da 7ª FLIMAR, prevista para setembro de 2016.

E assim vamos lutando contra o tempo, que não precisava ser tão relâmpago. Poderia ser mais devagar, em marcha lenta. Falando em marcha surgiu novo projeto, o “BLOCO DA NÊGA JUJU”, a desfilar no domingo de carnaval, cantando marchinhas de amor de antigos carnavais, aberto ao público, todos convidados. Um ótimo 2016.

SANGUE E AREIA

SA

Depois de três anos de muito estudo, privação e ralação, afinal Getúlio terminava o curso na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza. Seu destino era a Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formaria oficial do Exército. Naquele ano houve em Fortaleza uma “Maratona de Matemática”. Getúlio bom na matéria tirou 2º lugar. Ganhou uma passagem à Europa pela PANAIR.

Ao chegar em Maceió mostrava a todos a passagem, seu prêmio, sua sonhada viagem à Europa. O programa de férias era simples como são as coisas boas da vida. Getúlio acordava cedo, vestia um velho calção de banho, descia para a praia da Avenida. Futebol, nadar, namorar com Sônia, encerrando o dia com boas noitadas na zona de Jaraguá.

Certa tarde convidou a namorada para assistir no Cine São Luiz, “Suplício de uma Saudade”. Depois passearam pela Rua do Comércio apreciando vitrines das lojas. A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada vitrine da Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara. Entraram na joalheria. Getúlio colocou a tiara na cabeça de Soninha. Ficou emocionado com a beleza da namorada. Ao ver o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes dos pais. A tiara ficou catalogada nos sonhos impossíveis.

Na véspera de Natal a moçada convergia à festa de rua na Praça da Faculdade, Praça Afrânio Jorge, no Prado. Getúlio amava assistir os folguedos natalinos, pastoril, chegança, guerreiro, reisado, o belo folclore de sua terra. Perto da meia-noite cada qual reunia-se com a família em sua casa para a distribuição e troca de presentes. Depois da ceia as famílias vizinhas se reuniam na Avenida da Paz para assistir a missa no coreto.

Getúlio se emocionou quando Sônia apareceu, linda, exuberante, deslumbrante, cabelos castanhos longos, o sorriso mostrava a alegria de sua alma. Ele se aproximou, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.

Ao desembrulhar o papel, apareceu uma linda caixa. Soninha abriu, emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreendida. A emoção lhe deixou atônita ao perceber a cintilante, belíssima tiara. Colocou-a de imediato na cabeça. Uma rainha. Só depois ela soube, seu amado havia se sacrificado, vendeu a preciosa passagem para Europa e comprou aquele belíssimo, desejado e impossível presente. Ela beijou-o, feliz, radiosa. Mostrava a todos sua belíssima tiara. Qual mulher não fica louca de felicidade por uma loucura de amor?

Depois da missa se afastaram, ficaram conversando num banco da Avenida, beijos e carinhos excitantes. Já eram quase 3 horas da manhã quando Sônia convidou Getúlio para um passeio na praia, curtir as estrelas, noite escura de lua nova, molhando os pés, sapatos nos dedos. Certo momento abraçaram-se, ela devagar sentou-se, tomou-lhe a mão puxando-o. Getúlio sentiu de repente os lábios no ouvido, escutou a mais bela declaração de amor.

“- Getúlio, minha vida, eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei essa semana escolhendo um presente para você nesse natal. Foi difícil, tudo que imaginava, você merecia mais. Na hora de dormir ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida, eu mesma. Nesse natal meu presente é meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama, me respeita, também é tarado por mim. Meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua…”

Abraçaram-se na areia branca. Muitos carinhos, soltaram os desejos presos, desejos cheios de ternura. O vento soprava em direção ao mar, apenas Yemanjá, os botos, as carapebas, tainhas, arraias, ouviram os gritos de dor e de gozo de uma rainha de tiara dourada.

Os dois ainda estavam deitados, abraçados, quando o Sol apareceu como um Rei. Despontou no horizonte bem longe uma cabeça vermelha como se fosse uma criança nascendo. Nuvens brancas tornaram-se laranjas – avermelhada, o mar tremeluziu de dourado. Uma luminosa e bela amanhã amanheceu, os amantes se levantaram, abraçados, descalços, felizes, com os sapatos entre os dedos, caminharam, cada qual para sua casa.

Os raios de sol iluminaram a praia e a marca rubra de amor nos lençóis de areia branca, sangue e areia; sangue encarnado impregnado na areia alva e morna. Um dia bonito de verão surgia; testemunhando uma história de amor. Uma História de Natal.


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