AGENDAMENTO, VERDADES E MENTIRA

Por solicitação de meu urologista, Dr. Ronalsa, ontem fui marcar exame de Ressonância Magnética da próstata. Ao chegar no laboratório no Stella Maris fui informado que aquele exame só era realizado no laboratório da Ponta Verde. Lá vou eu pegar outro taxi. Para quem não sabe, deixei de dirigir há sete anos, quando fui renovar minha carteira de motorista exigiram tanto teste que desisti. Não renovei a carteira e desde aquele dia só ando de taxi. Dei o carro à minha filha.

Ao chegar no laboratório fiquei deslumbrado com a fachada maravilhosa de vidro fumê, o Dr. Chico deve ter gasto uma nota, pensei. Logo na entrada peguei uma senha de atendimento. Marquei na maquininha: Ressonância e Prioritário. Saiu uma ficha RP 150. Fui sentar-me esperando a vez, encontrei meu amigo de longas datas, Dr. Jair, ele olhou-me e filosofou.

– Meu amigo, antigamente a gente se encontrava nos bares e biroscas da cidade, hoje só nos encontramos em sala de médico ou laboratório.” Deu uma gostosa gargalhada.

Fiquei esperando sentadinho em meu lugar. Quando percebi uma mulher passando e sentando-se mais adiante. Olhei, reconheci, era Aninha, fui cumprimentá-la. Cheguei-me por trás dei um cheiro em seu cabelo. Ao olhar-me, a mulher disse um ôxente com voz e cara de braba. Quase morro de vergonha, não era Aninha, pedi mil desculpas. Ainda bem que a mulher se acalmou, foi compreensiva, perdoou-me. Eu descabriado voltei a sentar-me. Esperei mais um pouco, o placar chamou, RP 150.

Fui imediatamente mostrando a documentação pedi para marcar o exame. A atendente olhou-me educadamente, pediu até desculpa, para dizer que eu tinha apanhado a ficha errada, aquela RP era para realizar o exame; para marcar o exame eu teria que pegar uma senha de Agendamento Prioritário. Lá fui eu pegar outra ficha. Saiu do buraquinho a nova senha, AP 433. Ao sentar-me, a ficha AP 426 havia sido chamada. Calculei, tinham 7 pessoas na frente, o que daria, mais ou menos, meia hora de espera.

Descobri algumas revistas, folheei, não me agradaram. Eram, Caras, Quem, e outras revistas de baboseiras com celebridades televisivas. Terminei pegando o celular para passar o tempo. Foi quando entrei no jogo da moda do Facebook: Escrever nove verdades e uma mentira para os amigos acertarem a mentira. Escrevi a lista na hora, já postando no Facebook. Copio abaixo para que meus leitores acertem qual a mentira. Eis a lista:

1 – Já frequentei o terreiro de Menininha do Gantois em Salvador.

2 – Já tomei banho e pesquei no Riacho Salgadinho (hoje esgoto a céu aberto), junto com Cacá Diegues.

3 – Já desci um rapel de mais de 100 metros de altura na Floresta Amazônica.

4 – Votei no General Henrique Lott para presidente da República em 1960. (Jânio Quadros foi o eleito).

5 – Fui entrevistado no programa do Jô Soares.

6 – Fui Presidente da Escola de Samba Unidos do Poço.

7 – Fui amigo de Lamarca na Academia Militar das Agulhas Negras.

8 – Fui descoberto escritor aos 61 anos de idade.

9 – Conheci pessoalmente Fidel Castro em Habana em 2008 na 17ª Feira Internacional do livro, onde dei uma palestra.

10 – Quando fui prefeito da Barra de São Miguel foi aprovada na Câmara de Vereadores a bandeira do município, com as cores do Fluminense.

Quem quiser participar da brincadeira pode responder para meu e-mail (carlitoplima7@gmail.com). Quem acertar a mentira dessa lista ganha um livro, remeterei via Correios.

Mas voltemos ao laboratório. Certo momento reconheci uma amiga ao longe na sala enorme, era a Cláudia, ia acenar com a mão, mas eu estava traumatizado com a mancada da moça parecida com Aninha. Preferi fazer que não via.

Afinal fui chamado, marquei o exame. Feliz da vida fui saindo do laboratório quando encontrei a Sheila Maluf, depois de um papo rápido, reclamei a demora para marcar um exame. Ela estranhou. “Você veio agendar o exame no laboratório? Pois eu agendo por telefone, não gasto dois minutos. Já venho fazer os exames.”

Dei um sorriso de babaca. É isso mesmo, aos 77 anos aprendendo todo dia.

CLODOALDO, O TRÍGAMO

Clodoaldo nasceu em Fernão Velho, belo bairro beirando a Lagoa Mundaú, foi vizinho do grande poeta e pintor alagoano, Pedro Cabral. Menino ainda estudou em Maceió, tem uma vocação irresistível às mulheres. Na juventude tornou-se o conquistador, o rei das raparigas, daí seu apelido, Clodô das Quengas. Conseguiu formar-se em Direito com mais de 40 anos, figura popular e bem humorada da cidade. Repreende quando algum amigo o chama de Dr. Clodô das Quengas. Na hora corrige.

– Favor chamar-me de Dr. Clodoaldo Lima. Não existe o Dr. Clodô, só o Dr. Clodoaldo. Não desmoralize meu título de bacharel!!!

Casou-se cedo depois que engravidou uma prima. Ele costumava dizer que priminha não era irmãzinha, terminou no altar com Josefa, uma mimosa flor do povoado do Riacho Velho, um paraíso de Marechal Deodoro. Clodô nunca se acostumou com a vida de casado, sua vida era de bar em bar pelas ruas da cidade, onde foi encontrando novos amores. Uma delas sua colega de repartição. Ele trabalha, tem uma sinecura na Assembléia Legislativa, coisa mole, vai algumas vezes na semana até para bater papo, rever os amigo. Gaba-se de ter arranjado 280 votos para o deputado, seu protetor. Os votos que o deputado teve em Fernão Velho, ele contabilizava como se fossem todos por ele arranjados.

Um dia apareceu uma menina bonita, vinda do sertão, foi descabaçada por um deputado daquelas bandas, comprou o silêncio com um emprego na Assembléia. Clodoaldo logo namorou Rosinha, a rainha do sertão, como ele apelidou. Numa bela tarde, Rosinha confessou que estava grávida. Rosinha ganhou uma casa da COHAB do deputado sertanejo, onde ainda mora, e Clodô assumiu a paternidade, tem o afeto do menino, um rapaz. Na certidão do jovem consta filho de Clodoaldo Lima, mas é a cara do deputado como dizem as más línguas. Clodô é homem moderno, não se importa com certas picuinhas, ama o menino, seu filho do coração. Do lado de Josefa tem duas filhas, moças bonitas. Rosa e Josefa não se frequentam, mas se aceitam. Os meninos meio-irmãos se dão bem quando se encontram.

Durante a última eleição, Clodoaldo foi enviado pelo deputado para ajudar na campanha no Litoral Norte, tarefa que fez com satisfação porque terminava as noitadas raparigando. Acontece que uma jovem de nome Aparecida, quase da idade de suas filhas, 18 aninhos, encantou nosso Casanova. A moça bonita dava alguma bola, mas quando chegava nos finalmentes ela escorregava feito um muçum ensaboado. De tanto insistir, numa noite de lua na praia de Maragogi, despedida de campanha, Clodoaldo conseguiu com promessa de casamento, casa e comida, uma noite memorável de amor nas águas mornas noturnas. Nove meses depois nasceu na Casa de Saúde Santa Mônica, o menino José Roberto.

Três famílias, três casas montadas consomem todo salário de funcionário e de advogado independente. Clodô vive aperreado de dinheiro, mas, sempre com um sorriso nos lábios e um bom astral na alma. “Trígamo” assumido, convive como pode com as três esposas. As filhas de Josefa até ajudam a Aparecida com o recém nascido. As coisas iam bem com Clodô; as três mulheres não complicam sua vida. Por tudo isso, resolveu realizar uma festa de confraternização no Natal passado. Reuniu, pela primeira vez, as três famílias, as três mulheres na casa da Josefa. O início do encontro foi formal, depois começaram a descontrair. Clodô estava felicíssimo com o feito, as famílias reunidas. A cerveja, a cachaça, o uísque entornando. As três mulheres empurravam direitinho um copo, como também Clodoaldo. Até que certa hora, quando a cachaça subiu para cabeça, Josefa perguntou ao marido;

– Está feliz meu amor? Juntando sua esposa e as suas duas raparigas?

Rosa quando ouviu o desaforo, falou alto, “Rapariga é a mãe”. A outra, Aparecida de imediato foi puxando os cabelos da dona da casa, arrastando-a pelo chão, gritando que Josefa era uma coroa sambada e que Clodô gostava mesmo era dela, novinha e cheirosa. A briga generalizou-se entre as três. Uma dando tapa e puxão de cabelos nas outras. A confusão durou quase uma hora. Só acabou quando cansaram. Clodoaldo conseguiu apartá-las. Levou as duas convidadas para suas respectivas casas. Nunca mais quis saber de juntar as meninas, como ele as chama. Família que bebe unida, nem sempre permanece unida.

A SEMANA É SANTA, MAS ENTRE VINHOS E CHOCOLATES

Meus netos estão se empanturrando de chocolate para alegria dos fabricantes. Essa invencionice comercial, a venda da “comida dos deuses” durante a Páscoa, está definitivamente institucionalizada pela propaganda massiva. Nossos netos vêem o ovo de chocolate e o coelho como símbolos da semana da paixão e morte de Cristo. Um período mais apropriado à meditação, à oração, tornou-se a festa do chocolate.

Os marqueteiros não combinaram com a Igreja, tão conservadora nos assuntos sobre sexo, pois, coelho é o símbolo de procriação, de fertilidade, de muitas transas, e chocolate é conhecido como alimento afrodisíaco. Portanto, os símbolos da semana santa moderna, inventados pelo comércio, são apologias ao sexo. Não deixa de ser uma evolução da Igreja, sempre castradora em sua história.

Juntar coelho com ovo de chocolate deu samba de crioulo doido. Meu neto menor em sua inocência perguntou porque o ovo de coelho é de chocolate e o da galinha é de cozinha. Foi difícil explicar.

Sou saudosista das tradições, mesmo sem muita crença, tenho boas recordações da semana santa de meu tempo de criança ou juventude.

Iniciava no Domingo de Ramos quando se comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado em um burrico. Seus discípulos trouxeram dois burricos puseram em cima deles suas vestes, e sobre elas Jesus montou. A multidão estendeu suas vestes e cortaram ramos das árvores, espalhando-os pela estrada, formando um tapete de folhagem para o Rei dos Reis passar em cima de um jerico. O povo acompanhava Cristo, aclamava: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!” Entrando Jesus em Jerusalém, toda cidade se alvoroçou. Perguntavam Quem é este? E a multidão respondia: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia.” Assim li, aprendi e está escrito na Bíblia.

Sempre achei essa parte da história de Cristo muito emblemática. Entrada triunfal num jerico, logo depois ser traído e crucificado. Mas para meninada dos anos 50/60, o melhor do Domingo de Ramos era a procissão. Iniciava na Catedral, os colégios femininos religiosos compareciam: São José, Sacramento, um desfile de meninas bonitas, a moçada comparecia mais para paquerar. Um olhar, um sorriso, um piscar de olho valia a pena a missa, a procissão.

O feriado começava na quinta-feira santa, a partir desse dia era proibido comer carne. Em compensação minha mãe cozinhava um delicioso bacalhau, arabaiana, camarão, feijão ao coco, jerimunzada, brêdo, uma delícia. Por que só existe esse maravilhoso tipo de comida na semana-santa? Nunca esclareceram-me essa dúvida.

Na noite da quinta-feira havia uma brincadeira perigosa. A meninada saía em bando, cinco a seis moleques para o “Serra Velho”. A serração de velho é uma tradição européia conhecida desde o século XVIII. Reunia-se o grupo de jovens brincalhões, diante da casa de um velho. Serravam um pedaço de tábua com muito ruído, muito choro, muito lamento. Os velhos “serrados” irritavam-se com a brincadeira. Pela crença popular, velho serrado morreria naquele ano, não chegava à outra Quaresma. A garotada cantava alto acordando a vizinhança: “As almas do outro mundo vieram lhe avisar que deste ano o “Seu Fulano” não vai passar”. “Encomende a alma a Deus, que seu corpo já não vale nada”. E liam um bem humorado testamento em versos feitos anteriormente com ajuda de adultos. Os velhos ficavam brabos. Certa vez levamos uma carreira do pai do Toroca na Pajuçara. Seu Pádua um velho ranzinza da Avenida, quando estávamos lendo seu “testamento”, jogou um penico cheio de xixi, tive que ir para casa tomar um demorado banho.

Na Sexta-feira da Paixão parecia que o mundo havia se acabado. As rádios tocavam músicas fúnebres, era proibido ir à praia, tomar banho de mar, proibido sorrir. As mulheres da vida fechavam as portas dos cabarés e o balaio; nem pensar numa visita fortuita.

À noite todos iam à Igreja para beijar os pés de Nosso Senhor morto. Finalmente o sábado de aleluia. A meninada preparava um boneco de pano, o Judas, sempre com um nome de algum político ou algum inimigo público ( quanta gente hoje poderia ser o Judas! ). Quando às 10 horas, os sinos da Igreja dobravam anunciando a aleluia, a moçada caía de cacete malhando, tocando fogo no Judas amarrado em um poste. Melhor do que malhar um Judas, era roubar os Judas dos pivetes da vizinhança. (Já estão taxando a malhação de Judas como uma brincadeira primata, politicamente incorreta)

Afinal chegava o domingo da ressurreição. Os padres contavam a história como Cristo depois de morto subiu aos céus. Hoje é um espetáculo pirotécnico com atores globais para se assistir comendo chocolate e tomando vinho.

QUEM MORREU FOI ADALBERTO

Adalberto saiu do consultório feliz. A geriatra, ao ler o resultado dos exames, constatou diabete, pressão alta e outras achaques normais em um homem de 73 anos. Tudo controlável, além de um regime alimentar passou remédios para a pressão e diabete. Caminhadas diárias cerca de 30 minutos, pouco álcool, recomendou a doutora, podia levar a vida normal. Como era perto das festas natalinas Adalberto deixou para iniciar as recomendações médicas após ano novo. Como o carnaval era cedo, mais uma vez foi adiado o tratamento.

Na quarta feira de cinzas, Adalberto estava com uma bruta ressaca, um péssimo humor maior que qualquer TPM da esposa. À tarde sentou-se na poltrona para assistir a apuração do desfile da Escola de Samba do Rio de Janeiro. Anos atrás ele desfilou pela Salgueiro e torcia por essa escola. De repente deu-lhe uma tonteira, suando frio, uma dor no braço e no coração. Deu um suspiro, tentou levantar-se da confortável poltrona, porém, arriou a cabeça, ali ficou.

Dona Creuza, a esposa, ao chegar no apartamento às sete da noite, encontrou a cena trágica, Adalberto com a cabeça pendida no lado esquerdo. Ela o sacudiu gritando pelo nome, até perceber que estava morto, chamou uma ambulância.

Dia seguinte uma comoção no enterro no Parque das Flores, muitos amigos, Adalberto era criatura simpática, bom comerciante, os amigos ocorreram para despedir do último boêmio da cidade, como disse um parceiro olhando o defunto no caixão.

Em certo momento apareceu uma senhora, aparentando cinquenta anos, rosto bonito, levando pelo braço um jovem de seus 12 anos. O rapaz encostou-se no caixão, alisou a cabeça de Adalberto, chorou sem conseguir parar. Logo todos que estavam no enterro souberam do fato, era filho. Adalberto tinha vida dupla, sustentava outra família num bairro da Ponta Grossa.

Andréa, a filha, e Edivaldo, o genro, ficaram consolando Creuza, ela irada, não se conformava com a traição de tantos anos de Adalberto. Agora aos 60 anos, se achando velha para recomeçar a vida, não havia mais razão de viver. Não ficou para o enterro.

Num gesto impensado, o genro Edivaldo, convidou Dona Creuza para morar no quarto de hóspede de sua casa até a poeira baixar, o tempo é remédio para todos os males. Dona Creuza estabeleceu-se na casa da filha de mala e cuia. Nos primeiros dias pediu para ninguém falar sobre o “Defunto”, assim passou a chamar Adalberto. Não compareceu à missa de sétimo dia. Dizia não encarar as amigas com ar de chorosa, mas no íntimo zombava do chifre que ela havia tomado durante sua vida.

Acontece que Dona Creuza começou a mandar dentro de casa, dava ordens nas empregadas, escolhia o almoço, fiscalizava a faxina, metia-se na vida dos netos adolescentes. À noite assistia todas as novelas, acabando com o prazer de Edivaldo em ver seus filmes escolhidos na NETFLIX. Ficou de vez, ia ao seu apartamento apenas para limpar. Passaram-se quatro meses, Edivaldo, Andréa e os filhos andavam nervosos, chateados com a velha mandando em casa. No início não impuseram condições devido o estado emocional da, agora ficou difícil.

No aniversário de Edivaldo ele convidou alguns amigos para uma cervejinha e almoço no sábado pela manhã. Continuaram pela tarde, acontece que Ulisses, um amigo do jogo de pôquer, viúvo, um boa vida aposentado, engraçou-se de Dona Creuza. Passaram a tarde conversando alegremente. Confidencialmente trocaram telefones. Na semana seguinte encontraram-se discretamente no apartamento da viúva. Dona Creuza com seus sessenta anos ainda tem atrativos. Ulisses um pouco mais novo. Dois meses se passaram, avisaram à família, estavam vivendo juntos. Dona Creuza retornou ao apartamento. Andréa não pode provar, porém, tem certeza que tudo aconteceu por manobra estratégia de Edivaldo, sabedor da situação precária afetiva e financeira de seu amigo Ulisses, convidou-o para o aniversário apostando no namoro dos coroas. O marido nega as insinuações da esposa com um sutil sorriso nos lábios. Hoje todos felizes, como os finais de histórias. Quem morreu foi Adalberto.

ÔI TÊCA!

Têca Braga e a filha, era a dona de Barra Grande, Maragogi

Deu-me uma tristeza profunda ao ler no “Face” sua última viagem, não estava esperando, nem preparado. Foi terrível, uma dor dentro de mim, chorei como uma criança sem conseguir parar. Pensei em você, irmã de minha irmã, minha irmã. Veio-me sua imagem ainda menina brincando em minha casa com a Socorrinho. Lembrei-me de seu pai, Chico Braga, de terno branco, de Dona Naty. Veio-me a lembrança da juventude livre, bela, na Avenida da Paz. Eu tinha maior alegria em levá-las para as festas daquela Maceió bucólica. A Fênix, o Zinga Bar, nós éramos jovens felizes donos da praia mais bonita das Alagoas.

O tempo inexorável trouxe os casamentos. Marcelo entrou na família, vocês além de irmãos tornaram-se compadres de Clailton e Socorrinho. A saudade é imensa Têca. Não sabia que doía tanto, que você era tão importante em nossa vida. Estamos arrasados. Dói muito. Por quê você se foi assim, de repente, sem avisar?

Certa vez o Carteiro disse ao Poeta que a poesia não era de quem escrevia, era de quem precisava. Estou precisando agora dos versos de nosso Chico para esse momento. “A saudade é o pior tormento, é pior que o esquecimento… A saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco, e evita a atracar o cais… A saudade é o revés do parto, é arrumar o quarto do filho que já morreu…” É o tamanho da saudade que você nos deixou.

Lembrei-me de nossa última viagem, ano passado, pela Europa Oriental retornando por Lisboa. Eu e Vânia nos divertimos, tínhamos seus cuidados profissionais juntados ao carinho. Ficamos encantados com Paulinne. Em Lisboa você era a mais entusiasta com minha palestra e lançamento do meu livro. Parece que estou vendo você no pé da escada da Casa do Brasil comendo acarajé.

Ah Têca, tantos amigos comentando sua ida, cheios de carinhos e saudades. Você era muito querida nessa terra. Chorei ao ler no Zap a mensagem de Socorrinho.

“Custando a acreditar que naquela maca entrando na capela do hospital era você! Custando a acreditar que na sua Barra Grande era seu, aquele corpo tão sereno, tão bonito, e com flores tão coloridas, assim como você viveu todas as cores desta vida! Custando a acreditar que não vou ter mais aquela companheira de todas as horas, aqueles papos amigos cheios de confidências e afagos na alma, em mais nossos almoços, nossos cinemas, nossa viagens, nem nossa Missas! Custando acreditar que não tenho mais aquela amiga feliz, transbordante de alegria, e de saber aproveitar a vida intensamente, mas que o excesso de descuido com a saúde lhe traiu! Obrigado Tequinha por nossa amizade desde sempre, que nos irmanou nos tornando comadres duas vezes! Fique certa que sua luz brilhará eternamente, pois foram muitas sementes que você plantou! Fico zelando por suas quatro pérolas! Custando acreditar na falta que você vai me fazer! Um belo caminho de Deus, minha irmã!

Que lindo minha irmã escreveu. Você Têca, minha querida amiga, sempre prestigiou minhas invencionices. Era a primeira a chegar nas Sextas Clássicas de Marechal Deodoro, não perdia a FLIMAR. Nos lançamentos de meus livros com receio de pouco público eu dizia para mim, pelo menos a Têca Braga vai aparecer. Ainda chamo seu nome de solteira, foi assim que entrou em nossa vida, menina, ficou gravado na mente, na alma, no coração. Têca Braga.

Um poeta inglês, John Donne certa vez escreveu um poema que diz mais ou menos assim. “Nenhum homem é uma ilha, ninguém é sozinho; cada homem faz parte do continente, parte do todo. A morte de qualquer ser humano me diminui porque sou parte da humanidade; e por isso, nunca perguntes por quem os sinos dobram, eles também dobram por ti”.

Nosso mundo ficou menor, se foi um pedaço, uma parte do continente. Nós ficamos diminuídos.Os sinos dobram por você, Têca Braga, mas dobram também por mim, por suas filhas, seus genros, pelos netos e bisnetos, pela Socorrinho, por todos os amigos que você deixou.

Talvez um dia a gente se encontre por aí, quem sabe? Vânia manda-lhe um beijo. Até mais ver, irmãzinha.

A VONTADE

– Estou com uma vontade de dar, de trair o Zeferino. Me dá uma dor no peito, depressão, raiva, pelo desprezo que tenho a meu marido. Vontade de sair com um cara, transar muito, sou a mulher mais carente e idiota do mundo. Conversava Eugênia, chorosa, com a amiga Gabriela

– Até que entendo sua vontade, mas esse negócio de trair, na maioria das vezes torna em arrependimento, piora a depressão. Faça as coisas que o coração mandar, porém, tenha calma, reflita para depois não se arrepender. Aconselhou Gabriela.

– Você condena essa vontade de eu trair, minha amiga ?

– Quem sou eu para julgar? Para condenar alguém. Como amiga posso dar uma opinião, apenas isso. Sei que é uma situação passageira, por isso aconselho pensar, o travesseiro noturno ou uma volta na orla contemplando o mar, refletindo, acalma o coração, faz bem a depressão.

– Gabriela, o problema maior é o meu desprezo pelo Zeferino, nunca pensei, ele é um cara fraco, perdedor, desde que foi despedido do emprego há mais de sete meses, vive dentro de casa, esperando as coisas caírem do céu. Todo dia é uma desculpa ou uma mentira de promessa de emprego, culpando o governo. Eu sustento a casa, comida, água, luz, telefone, o colégio do Carlinhos, tudo com o trabalho de cabeleireira no meu salão de beleza. Não tenho descanso nem aos domingo para sustentar a casa. O Zeferino nem aí, só sai para o botequim, chega na hora do jantar, o português da bodega já não vende fiado. É uma tristeza. Minha única reação é não transar quando ele se achega querendo coisas. Uma noite me pegou a pulso, não sei mais o que fazer. Que ele merece um chifre, merece. Tenho um cliente, coroa alinhado, elegante, faz cabelo e unhas toda semana, olha demais para mim, conversamos muito, eu deixo meu decote bem aberto ele fica contemplando, mas é um homem sério. Da última vez que ele foi ao salão, estava lendo numa revista uma reportagem sobre o filme 50 Tons de Cinza, disse que viu o filme, gostou das cenas de sexo. Eu sorri para ele perguntando se gostava da fruta. O coroa deu uma gargalhada, me respondeu, gosto e é bom. Apesar de ele ter chegado aos sessenta anos, tenho certeza, se eu quiser, sai comigo.

– Eugênia veja o que vai fazer. A melhor solução para briga ou desentendimento é o diálogo. Faça uma força, fale francamente, com o Zeferino, diga tudo que pensa, que ele arranje um emprego, nem que seja de varredor, não é desonra alguma.

Eugênia foi para casa, tirou o fim-de-semana para refletir. Sábado ao entardecer foi contemplar o mar azul-esverdeado da praia de Jatiúca. Pensou bastante nas palavras da amiga Gabriela, psicóloga. Consultou seu coração e à mente, pensou no Zeferino, no Carlinhos e no sessentão cheiroso. Era noite quando retornou à casa, primeiro, uma conversa franca com o marido.

– Que ares de felicidades são esses? Perguntou, dias depois, Gabriela à Eugênia. Vejo que resolveu seus problemas, gostei dessa transformação jovial, acabou-se a tristeza, a depressão, voltou sua alegria.

– Minha amiga, tudo começou com o contemplar do belo verde mar, me senti bem, pensei no que meu coração queria. A primeira decisão foi ter uma conversa aberta com o Zeferino, disse que estava a fim de me separar, fui franca, critiquei as grossuras dele comigo, a preguiça de arranjar trabalho. Finalmente acertamos, outra chance no casamento, eu ajudaria a procurar-lhe emprego. As coisas se arrumaram, estamos vivendo melhor, ele agora tem um emprego arranjado por mim, ajuda no sustento da casa, sua auto-estima melhorou.

– Ainda bem que você apagou a ideia, a vontade de trair com o coroa elegante. Disse Gabriela sorrindo.

– É o que você pensa, o coroa elegante chama-se Francisco, com ele arranjei um trabalho de almoxarife para o Zeferino. O Doutor é engenheiro, tem uma construtora. Homem generoso e discreto. Aqui para nós, satisfiz minha vontade. Apesar da idade, o coroa é ótimo, suas invencionices na cama me deixam louca.

A APOSENTADORIA

Aconteceu na sala de audiências do Fórum, ela apareceu acompanhada da delegada de mulheres. A negra Silvina surgiu com seu permanente e debochado sorriso. A delegada mandou a moça contar a surra que levou do companheiro, o servente de pedreiro Josualdo, que ali se encontrava para depor sobre sua violência intempestiva e seu ciúme incontrolável quando viu sua mulher brincando com a meninada da rua, na Chã da Jaqueira.

Josualdo arrastou-a pelo braço, entrou em casa esmurrando-a. Ele tinha um ciúme doentio pela singeleza e beleza silvestre de Silvina. Conheceram-se há três anos, quando Josualdo foi construir uma casa na praia do Pontal do Peba, foz do Rio São Francisco. Vieram morar na capital.

Como não teve infância, a maior paixão de Silvina era brincar com os meninos da rua. Por tudo isso, Josualdo tinha um doentio ciúme. Proibiu sua mulher de sair à rua e jogar com os meninos. A jovem ficava em casa acabrunhada, infeliz.

Certo tarde, debruçada na janela, assistia a meninada brincar de garrafão. Não resistiu, com sua habilidade atlética foi brincar junto aos moleques. Josualdo retornou mais cedo. Quando viu sua mulher jogando com a meninada, puxou-a com seus fortes braços. Irado esmurrou Silvina que sofria, não pela dor, mas pelo ódio em não poder com Josualdo, um touro de forte.

Foi essa a história contada no Fórum ao juiz na presença do promotor. Era o último caso da carreira do magistrado. Havia solicitado aposentadoria aos 68 anos. O último caso da sua vida como juiz.

Homem sério, correto e honesto, nosso juiz honrou a instituição. Bem casado há 40 anos, três filhos e três netos, viveu sempre para o lar. Em todo tempo de casado jamais prevaricou, fiel à esposa e a seus princípios.

Certa momento, a delegada pediu ao juiz e ao promotor para comprovarem in-loco os edemas, as sequelas da surra de Josualdo. Na sala contígua entraram apenas os quatro. A delegada pediu à Silvina mostrar as manchas no corpo. Num átimo, sem pudor e sem maldade, a negra puxou o zíper, deixou cair o vestido de chita. Deu-se uma comoção ao surgir o corpo moreno perfeito, coberto apenas por uma minúscula calcinha branca. Os seios duros e pontiagudos pareciam dois cuscuzes de chocolate. A lascívia exalada por Silvina deixou o promotor boquiaberto e o vestal juiz encantado. A delegada, percebendo o impacto, o arraso causado aos machos, mostrou os edemas e pediu que a deusa negra se vestisse.

Foi o último julgamento do Dr. juiz. Houve separação, estipulou-se uma quantia do salário de Josualdo como pensão.

O Doutor aposentou-se. Ficou sem trabalhar. Quando cansou do ócio foi ajudar na banca de advocacia de seu filho. Certa manhã de sol, nosso juiz aposentado descia de carro a ladeira do Farol.

De repente seu coração acelerou, reconheceu entre os meninos que vendiam frutas e legumes, a jovem Silvina vestida de short e uma blusa leve. Ela caminhava dengosamente em sua direção com quatro pacotes de feijão verde. Ao ver o juiz, Silvina pulou de alegria e saiu-lhe um grito espontâneo: “Doutor !”. Enfiou a cabeça dentro do carro, com um sorriso encantador e o decote mostrando os seios mais lindos que ele tinha visto em sua vida. Disse em voz clara, quase sussurrando: – “Doutor, sou muito agradecida pelo que fez. Naquele dia tive vontade de lhe dar um beijo, o senhor é um homem bonito. Se precisar de mim, dou o que o senhor quiser, é só pedir”. O Doutor emudeceu, engatou uma primeira, acelerou o carro, medo da tentação.

À noite, durante uma festa, o artista global e poeta, Chico de Assis recitou o belíssimo poema de Jorge de Lima, Nêga Fulô. Quando a voz de Chico cheia de sensualidade recitou os versos: “Essa Nêga Fulô… essa Nêga Fulô…”. Veio a imagem de Silvina, nua, na cabeça de nosso nobre e honrado juiz.

Decorrido algum tempo, o Doutor Juiz passou várias vezes pelo ponto de Silvina, sempre uma alegria quando ela o via. Até que tirou uma dúvida, perguntou-lhe a idade. “24 anos, mas pareço menos”, respondeu. O Doutor Juiz tem agora o que fazer na aposentadoria, pelo menos uma vez na semana, remoça seu corpo, sua alma, nos braços da sua Nêga Fulô.

CINCO HISTÓRIAS DE MÚSICAS E DE CARNAVAL

José Luiz Calazans – O Jararaca – “Mamãe eu quero”

“TONGA DA MIRONGA DO CABULETÊ”

Durante a ditadura havia uma censura impertinente a certos compositores, entre eles Vinicius de Moraes. Sentindo a angústia do companheiro, Gesse, esposa baiana da época, o diverte, ensinando-lhe xingamentos em Nagô, entre eles “tonga da mironga do cabuletê”, que significa “o pêlo do cu da mãe”.

Com Toquinho, Vinícius compõe a canção com o mote anal, para apresentá-la num show no Teatro Castro Alves. Boa oportunidade de xingar os censores sem que eles compreendessem. O poeta ainda se divertia com tudo isso: “Garanto, no Departamento de Censura não tem um que saiba falar nagô”.

Abaixo, a letra da inspirada canção da dupla, Vinicius e Toquinho:

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“Eu caio de bossa, eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa, xingando em nagô
Você que ouve e não fala
Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala,
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do cabuletê
A tonga da mironga do cabuletê”

* * *

“O MUNDO É UM MOINHO”

Cartola compôs uma das músicas mais bonitas do cancioneiro nacional quando percebeu sua filha caída na boemia desvairada.

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“Ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida
já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco a tua vida,
em pouco tempo não serás mais o que és.
Ouça-me bem, amor, presta atenção, o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó…”

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“MAMÃE EU QUERO”

Muita gente pensa que a música brasileira mais cantada no estrangeiro é Garota de Ipanema, na realidade é a música carnavalesca de Jararaca, Mamãe eu Quero. Jararaca, José Luiz Calazans, alagoano do Pilar, fazia a dupla mais conhecida nos anos 50, Jararaca e Ratinho. Certo dia Tom Jobim compôs com Jararaca essa beleza: “Ainda ontem eu vim de lá do Pilar… Ainda ontem eu vim de lá do Pilar…”. Que foi gravada por Djavan.

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“TOURADAS DE MADRID.”

Na Copa do Mundo de 1950, quase 200 mil pessoas assistiam ao jogo Brasil x Espanha no Maracanã, todos cantando: “Eu fui às touradas em Madri. E quase não volto mais aqui. Pra ver Peri beijar Ceci. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha; Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba! Caracoles! Sou do samba, Não me amola. Pro Brasil eu vou fugir! Isto é conversa mole para boi dormir.”

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Final de jogo um homem sentado na arquibancada chorava feito um menino, um senhor foi consolá-lo afinal o Brasil ganhou de 7 x 0 da Espanha. Ele olhou para cima esclareceu ao senhor: “Não é pelo jogo que estou chorando, é pela música, fui eu quem fiz.” Era o grande compositor Braguinha, emocionado com todo Maracanã cantando sua música, ainda hoje tocada em todos os bailes de carnaval.

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“CARNAVAL ADIADO”

Em 1912 o herói, Barão do Rio Branco, faleceu dias antes do carnaval, as autoridades brasileiras, além de decretarem luto oficial, acharam que não era de bom tom que o povo saísse às ruas para brincar e cantar, adiaram o carnaval para o Sábado de Aleluia. Entretanto, os foliões preferiram divertir-se duas vezes, no carnaval e na aleluia, cantando uma musiquinha que dizia assim: “Com a morte do Barão/Tivemos dois carnavá/Ai que bom, ai que gostoso/Se morresse o marechá”. O marechal era o presidente Hermes da Fonseca.

É CARNAVAL – TEM O BLOCO DA NÊGA FULÔ

Há 77 anos eu nascia num ensolarado carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, dancei no baile infantil da Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua atrás dos blocos. Durante a juventude, depois do ano novo, aguardava o carnaval chegar acontecendo nas pré carnavalescas, Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras no Clube Fênix onde a bonita burguesia em fantasia ou smoking , caía no passo. Ao amanhecer, banho de mar na praia da Avenida.

Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava toda noite na Rua do Comércio a Maratona Carnavalesca, além do corso, fila de carros rodeando o centro, em cada esquina uma orquestra tocava frevança. Caía no passo junto às moças virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do carnaval, sem diferenças, apenas sorrisos, remelexo do corpo, a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.

Domingo anterior ao carnaval o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia, desfile e concurso de troças, fantasias e bloco carnavalesco na Avenida da Paz. A turma de Rubens Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, numa carroceria puxada a trator, fazia críticas à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, além de brincarem nas ruas, frequentavam clubes e biroscas da cidade.

Foliões fantasiavam-se com bom humor, Fusco, Tarzan, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição, os Blocos de Frevo (Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros). Depois do desfile, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima, meu pai esperava com um “laco-paco” de maracujá, cerveja gelada e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam quatro a cinco frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci, um bloco de cada vez, iam se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. O último bloco desaparecia em Jaraguá ao anoitecer.

O carnaval começava na noite do Sábado de Zé Pereira. Brincava no corso em jipe, vestido de macacão e maizena na mão, meladeira herdada dos entrudos – primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando, amores surgindo, amores fugindo, amor de carnaval desaparece na fumaça. Quase meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube ou Iate. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.

Domingo por volta das 10 da manhã a moçada já fazia fila, matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, as moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira, “um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanha não tem mais”. “Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar”. A Orquestra do Maestro Passinha dava as últimas voltas no salão, finalmente o sol nascendo se dirigia à praia arrastando os foliões, dançando o Vassourinha na areia branca, fria, terminava num mergulho coletivo no mar azul esverdeado.

Cansados, molhados, sentávamos num banco da avenida, de mãos dadas ou abraçados à namorada, ainda tínhamos fôlego de beijar, e cantar: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou… “

SAUDOSISTA É QUEM VIVE DO PASSADO. VAMOS ALEGRAR A CIDADE. NO DOMINGO DE CARNAVAL 26 DE FEVEREIRO DE 2017, DESFILE DO “BLOCO DA NÊGA FULÔ” ÀS 15 HORAS PARTINDO DOS SETE COQUEIROS. BLOCO ABERTO, TODOS ESTÃO CONVIDADOS. APANHE A SUA FANTASIA, ALEGRE SEU OLHAR PROFUNDO, QUE A VIDA DURA SÓ UM DIA, LUZIA, E NÃO SE LEVA NADA DESSE MUNDO.

NO FUNDO DO MAR

Rosana estudou em colégio de freira, foi carola de igreja na juventude, quase santa em sua maturidade. Usava vestidos de mangas cumpridas, xales nos ombros, encobria o jovem corpo, ninguém sabia o que havia por baixo daqueles panos. Sua mãe, viúva, lhe alertava, mulher depois dos 25 anos fica difícil arranjar marido, está na hora de namorar para casar, tente conseguir alguém que possa lhe sustentar.

Por meio de um deputado amigo, e amante, a mãe arranjou-lhe um emprego na Secretaria de Finanças. Nessa época Rosana conheceu, namorou, Jorginho, baixo, falante, advogado de uma empresa. Sem muito amor, depois de dois anos entre namoro e noivado casaram-se na Igreja dos Martírios, muitos parentes, amigos, lua-de-mel em Salvador. Rosana casou-se virgem, assim conservou-se durante o noivado graças ao respeito do noivo, se fosse da laia de certos indivíduos, aquele cabaço havia voado há muito tempo.

Jorginho ficou surpreso com o desempenho de Rosana na cama, fogosa que nem uma égua no cio, montou e se fez montada, ele voltou da lua-de-mel exausto. Ao retornar à vida normal ficou preocupado com sua ardente mulher, daria conta? Entretanto, Rosana continuou em vestidos longos, cinzentos, assexuados. Somente Jorginho no mundo conhecia verdadeiramente aquela loba cheia de furor na cama, na rua uma dama. Anos passaram, dois filhos crescidos, Rosana continuou do trabalho para missa, para casa. Tinha um tratamento respeitoso ao marido, excelente dona de casa. Só não abria mão de seu banho de mar aos domingos na praia da Pajuçara, defronte ao apartamento. Jorginho não gostava de praia, ela sozinha. Sempre com um maiô discreto.

Em certo momento, as coisas foram mudando, Rosana tornou-se mais alegre, havia felicidade explícita em seu sorriso, chamava Jorginho de meu amor, coisa nunca vista nos 20 anos de casados, seus vestidos encurtaram, colaram nas curvas do corpo, na praia era um biquíni, Rosana tornou-se outra mulher. O marido ficou com pulga, carrapato, piolho e o cão atrás da orelha, nunca vira uma transformação tão radical em uma pessoa. Ele passava o dia a matutar. O que estaria acontecendo? Será influência de alguma colega de repartição? Será que pirou? Deixou de acreditar nos santos? Está me galhando? Ao pensar nessa última pergunta, deu-lhe uma tristeza profunda, aquela depressão típica, exclusiva de corno. Não teve coragem de esclarecer tão delicado assunto com a esposa. Ficou sofrendo calado, sozinho, o pior sofrimento.

Certa manhã tomou decisão, foi ao centro da cidade, subiu no Edifício Breda, conversou com um detetive particular. Contou toda história a Audálio. Ele pediu-lhe uma foto da mulher e seu itinerário normal. Jorginho, contrariado, sentindo-se um traidor, deu-lhe as informações dos locais mais frequentados, inclusive o banho de mar aos domingos, um mergulho na praia da Pajuçara em frente ao seu edifício.

Audálio fez o trabalho, primeira semana sem algum fato concreto, nenhuma pista de traição. Continuou. Seguiu a mulher por toda cidade, nada de anormal, um mês, dois meses de investigação. Jorginho desistiu, era só uma transformação de mulher madura, medo de velhice prematura, como disse o psicólogo. Pagou a Audálio. O detetive ficou frustrado, uma desmoralização, nunca havia desistido, perdido um caso.

Audálio, sem cliente, por distração, continuou seguindo a mulher de Jorginho em todos os lugares, até que num belo domingo, percebeu Rosana entrar o mar, alugou uma bóia de um rapaz alto, espadaúdo, que a ajudava segurando a bóia, chegaram ao fundo até dar água no pescoço. O detetive tirou várias fotos de Rosana apegada ao moreno. Por baixo da bóia, ninguém percebia, discretamente tirava o biquíni, entrava em erupção na água tépida da Pajuçara. Em casa, Audálio revelou as fotos, eram contundentes, amor no fundo do mar, sentiu-se triunfante. Pensou no marido, era apenas mais um corno no mundo, estava feliz, não valia a pena, deu-se por vitorioso, rasgou as fotografias.

O GRANDE ÍDOLO

Eram dois irmão chamados Zé, Zé Miguel e Zé Gabriel, para diferençar chamavam o menor de Zé Pequeno, o apelido pegou, sem cerimônia, assim ficou conhecido. Tornou-se comerciante de material de construção, solteirão convicto, chegado às mulheres da vida, nunca namorou. Certo dia apareceu na casa de sua mãe, uma prima vinda do Rio de Janeiro, Zulmira, havia passado dos 30. Zé Pequeno ficou encantado com a vistosa loura, roupa decotada, divertida, sem meias palavras, dizia o que vinha na cabeça, tetas exuberantes, sorriso desavergonhado. Suas conversas escandalizavam a família e amigos. A maldade humana especulava a profissão de Zulmira no Rio de Janeiro.

Entretanto, o coração tem razões que própria razão desconhece. Zé Pequeno ficou encantado, apaixonado, pela prima. Não adiantaram os fuxicos, as previsões dos amigos. Zé Pequeno respondia, sabia o que queria. Terminou casando-se com a bela Zulmira. Os amigos, os desocupados, previram um belo par de chifres. Com três meses de casados telefonaram para Zé Pequeno, sua distinta esposa estava com um jovem num motel perto da rodoviária. Zé pegou-a em flagrante saindo do motel. Não houve acordo, acabou o casamento. Foi a crônica do chifre anunciado

Zé Pequeno gostou de ser casado, disse para si mesmo, jamais com mulher bonita, casaria novamente com mulher feia. Certo dia entrou na sua loja, Eulália, colega de infância, estrábica, sem muitos predicados da beleza feminina. Logo Zé Pequeno casou novamente, sem medo de levar ponta.

Os anos se passaram, os dois se deram bem, cada qual no seu canto sem se intrometer na seara do outro. Eulália tem uma butique de moda, ganha para seu sustento, é boa e servil esposa. Entretanto, tem duas manias incuráveis, ciúme doentio do Zé Pequeno e neura constante da violência urbana. Ela lê tudo nos jornais sobre assalto, assassinato, sequestro. É sua conversa predileta. Sabe todas as histórias contadas no rádio, televisão. Eulália ama o alarmismo da imprensa, faz bem à sua mente, alimenta-se de fatos tenebrosos. Exagera as histórias, terminando com a frase. “Ninguém suporta mais tanta violência!”

Numa bela tarde de sábado, Eulália foi a uma palestra sobre violência urbana, não poderia perder. O conferencista expôs sua teoria. A maioria dos crimes estão na faixa entre 14 e 26 anos, são traficantes, eles se matam por pontos de venda drogas. De repente o palestrante perguntou à plateia quantas vezes alguém tinha sido assaltado ou quantas pessoas conheciam que foram assaltadas. Apenas duas mulheres levantaram o braço. Eulália pensou, tentou relembrar algum assalto com amigo, nada. Retornou para casa decepcionada, não conhecia um parente, um amigo que foi assaltado, frustrante .

Nessa mesma tarde, Zé Pequeno telefonou para uma amiga moradora do Trapiche, cafetina das melhores meninas de programas da cidade. Apanhou a garota, bonita, alta. Levou-a para um motel. Tarde agradável, alguns uísques, até que na hora do banho ele escorregou, caiu de costa, nuca no chão, abriu-lhe a cabeça, o sangue jorrou.

Foi dirigindo ao Pronto Socorro, levou alguns pontos na cabeça. Zé começou a pensar o que dizer em casa. Teve uma ideia, uma mentira bem encaixada e registrada. Dirigiu-se à Delegacia de Plantão, abriu um Boletim de Ocorrência. Contou o assalto. Quando abriu o carro estacionado, dois rapazes armados mandaram ele dirigir rumo ao Litoral Norte, ao chegar na praia de Ipioca, mandaram parar. Deram-lhe uma coronhada, ele desmaiou. Levaram o dinheiro da carteira, o celular e o lep-top, ainda bem que deixaram o carro e ele, vivo.

Ao contar a história do assalto em casa, veio uma áurea de felicidade e alegria dentro de Eulália, ela não conteve o sorriso de satisfação. Ouviu atentamente a história do marido. Deu-lhe uma íntima satisfação. Contou exagerando a história para toda vizinhança, como Zé Pequeno foi assaltado. Há mais de um mês é seu único assunto. O assalto ao Zé acabou a frustração de Eulália. Zé Pequeno agora é seu grande ídolo.

A MULHER DA CAPA PRETA

Aristides cursava a Academia Militar das Agulhas Negras, quando vinha de férias gostava de andar fardado com o uniforme militar. Orgulhava-se de ser cadete e adorava exibir-se. Fazia sucesso entre as garotas.

Durante as férias houve uma festa de 15 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um empresário que por sua ousadia de homem de negócios tinha ficado rico, muito rico, morava numa mansão na praia de Pajuçara.

Os jovens dançavam no imenso salão iluminado por vistosos lustres. Aristides havia recebido um convite formal, como era época de chuva, além de fardado levou a pelerine – capa longa, azul escuro, usada como integrante do uniforme do cadete, cobre os ombros e a parte superior do corpo, tem fendas abertas para os braços.

Quando a orquestra iniciou a tocar “Blue Moon”, Aristides avistou uma bela moça no canto da sala olhando em sua direção. Num impulso irresistível levantou-se em direção à bela moça que vestia o único vestido preto naquela festa. Aproximou-se, antes de convidá-la para dançar, ela abriu os braços dizendo que estava esperando o convite. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço bem apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Certo momento ele perguntou por seu nome. Rita, respondeu a moça. Ele juntou seu corpo ao do jovem, e assim ficaram dançando, mudos, afastavam-se algumas vezes para olhar um ao outro. Caso de paixão fulminante. Dançaram, conversaram. Certa momento, Rita lhe falou, devia ir para casa, tinha que chegar antes da meia-noite. Ele ofereceu-se para levá-la. Na saída chovia muito, chuva intensa, Aristides ofereceu, cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a do aguaceiro, correram em direção ao abrigo de ônibus.

Subiram no ônibus quase vazio. Sentados no banco conversaram como se conhecessem há muitos anos. Ao passar pela Avenida da Paz, Aristides puxou o rosto de Rita, deu um beijo ardente, sentiu seus lábios frio. De repente percebeu que ela chorava.

Perto da praça da Faculdade de Medicina Rita tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa preta, aliás, a pelerine azul escuro. Marcaram na praça.

Aristides, cuidadoso ficou olhando até ela desaparecer na esquina, na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Rita não saiu de seu pensamento durante o dia. Quando o relógio bateu sete horas da noite Aristides estava na praça da Faculdade. Ficou a olhar os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Rita. Até que uma moça assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Aristides bateu na porta. Apareceu uma senhora com aparência triste. Tomou um susto quando o rapaz perguntou se ali morava Rita.

A velha mulher perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Rita, havia conhecido ontem, marcaram para se encontrar naquela noite na praça.

Aristides arrepiou-se, quando a triste senhora respondeu, no dia anterior fez um ano de sua morte num desastre de carro.

Tentando ficar calmo, Aristides contou o encontro da festa. Inclusive. havia deixado com Rita sua pelerine, devido a chuva.

Resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até a capela, aconteciam dois velórios noturnos, famílias choravam seus mortos. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Rita. Ao aproximar-se, perceberam, a pelerine, a capa preta, cobria o túmulo de Rita. Emocionados abraçaram-se chorando. Ficaram no cemitério até a meia-noite quando os portões se fecharam. Aristides não quis levar a pelerine.

Há muito tempo que moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto, ainda vêem, nas noites de lua nova, uma bela mulher, pálida, circulando vestida em uma elegante capa preta.

O Coronel Aristides há 42 anos ininterruptos vem a Maceió, tem uma obrigação, rezar no túmulo de Rita.

Em homenagem a mais famosa mulher do bairro, um grupo de foliões do Prado, comandado pelo agitador cultural Marcos Catende formou um bloco, deu o nome de “Bloco da Mulher da Capa Preta”. Todo carnaval desfila pelas ruas do bairro, com um boneco gigante, uma bela mulher vestida e coberta por uma longa capa preta.

SONHANDO COM GERUSA

Quando José Júlio nasceu, seu pai, Coronel Maurício, dono de terras a perder de vista no sertão, atendeu ao pedido da esposa, Dona Virgínia, bonita e vaidosa, não quis amamentar o filho, medo dos seios caírem, contratou uma ama de leite. Julinho, bebê bonito, rosado, sorriso permanente nos lábios, chorava ao sentir fome. Ele não gostou do leite da primeira ama de leite, uma “velha” que dava de mamar ao seu 13º filho. O jeito foi apelar para Gerusa, bela negra da fazenda, acabava de parir dois meninos gêmeos, dois mestiços, nome do pai não revelado. Entretanto, alguns sagazes perceberam a semelhança dos gêmeos, a começar pelos olhos azuis holandeses do coronel Maurício. Negra descendente de rainha africana, alta, porte elegante, seios pontiagudos, beleza, dureza, pedindo para serem abocanhados. Assim fez José Júlio quando Gerusa ofereceu os seios. Julinho mamava muito, quando lhe tiravam a ama de leite, ele chorava, chorava, só acalmava quando chupava os seios da negra. Mamou sem leite até aos 10 anos de idade, parou porque Gerusa foi sequestrada pelo namorado pistoleiro e se escafederam para bandas de São Paulo. O menino entristeceu, chorou muitas noites seguidas, sonhava mamando Gerusa.

José Júlio desenvolveu o corpo rapidamente, parrudo e espadaúdo, diziam ser conseqüência do leite abissínio da rainha negra. Seu pai o flagrou farejando as empregadas. Ao completar 13 anos, o coronel deu-lhe um presente, levou-o à zona em Arapiraca. José Júlio foi desvirginado por uma rapariga, Pafinha. Depois a reencontrou nos cabarés de Jaraguá.

Ao completar 32 anos, José Júlio, solteiro convicto, um dos maiores boêmios da cidade, anunciou em casa, estava a fim de casar com a nova namorada, Matilda, filha do Coronel Genuíno, dono das terras de São José da Tapera. Ótima notícia para família, quatro meses depois noivou. No dia do noivado seus pais lhe deram de presente uma casa, ou melhor, depositaram na sua conta bancaria o que hoje valeria R$ 450.000,00, para que comprasse a casa. A festa de noivado virou a noite. O casamento era de gosto das duas famílias.

Dia seguinte pela manhã, José Júlio foi ao Banco, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, todo seu, presentão. Filho único. De repente ele surpreendeu-se com a entrada majestosa de uma mulher, a Deusa não andava, desfilava, dirigiu-se ao caixa, todos olhavam seu generoso decote. José Júlio extasiado com aquela aparição, a mulher mais bonita, mais atraente, que já vira em sua vida. Ficou surpreso quando ela o olhou fixamente. Esperou a Deusa na calçada do Banco. Ao aparecer ele se apresentou, José Júlio Nogueira, fazendeiro, advogado. Ela sorriu, perguntou onde tomava uma cerveja nessa cidade. Julinho a levou para uma gostosa barraca de praia, conversaram e beberam toda tarde. Ela, artista de teatro, encenou uma peça no Teatro Deodoro, final da turnê estava voltando para o Rio de Janeiro, onde morava. Terminaram dormindo no Hotel Atlântico. Dia seguinte ela viajou, deixou-o enlouquecido com a noitada de amor; não saiam de sua cabeça os dois seios, duas taças, iguaiszinhos aos de Gerusa, sendo brancos.

José Júlio inventou uma viagem ao Rio. Não retornou, amou Leonor durante cinco meses, duas semanas e dois dias, até acabar o dinheiro da compra da casa. Sem a grana, ele não mais servia para a famosa artista carioca. Julinho caiu em si, escreveu duas cartas pedindo perdão, uma para os pais, outra para noiva.

Algumas semanas depois do retorno, perdoaram o vexame, José Júlio conseguiu reatar o noivado. Certa noite passeava no calçadão de mãos dadas com Matilda. Propositalmente o Coronel Genuíno esbarrou com eles, foi avisando, “Vamos marcar a data do casamento”. Em cinco meses Julinho casava-se na Catedral Metropolitana. As aventuras no Rio de Janeiro ficaram inesquecíveis. José Júlio hoje é um homem pacato, entretanto, seu coração ainda bate forte ao ver passar um belo rabo de saia. Nunca deixou de sonhar mamando Gerusa.

HISTÓRIAS E LENDAS DO VELHO CHICO

Este colunista entre dois canoeiros contadores de lendas e histórias do Velho Chico

Ontem fui a Penedo, cidade histórica belíssima à beira do Rio São Francisco, ao entrar no Centro Histórico, emocionei-me, senti 400 anos me espionando, cada rua estreita enladeirada é um pedaço do Brasil colonial. Igrejas suntuosas e casarões fascinantes fizeram valer as duas horas de viagem a convite dos diretores da Pataxó Tour.

Navegamos o Velho Chico de canoa, almoçamos, pitu, peixe, camarão. O divino pirão deixou-me o estômago cheio. Enquanto os empresários acertavam-se, fiquei a conversar, puxando histórias e lendas dos dois velhos canoeiros. Com convicção da verdade, contaram-me algumas histórias, lendas, faço o repasse.

A MOEDA – No percurso do Rio São Francisco, existem três capelas encravadas em pequenas ilhas ao longo do rio, os canoeiros às vezes param, descem, rezam, continuam a viagem. Certa vez desceu uma família, rezaram à Nossa Senhora. Um dos filhos, 10 anos, achou uma moeda no chão da igreja, abaixou-se, colocou-a no bolso. Terminada a reza, o canoeiro e família continuaram a navegação. De repente o Rio São Francisco saiu da calmaria, começou a levantar ondas, balançando a canoa cada vez mais, uma onda veio tão forte que inclinou a canoa, vários balaios de frutas caíram n’água. O canoeiro gritou: Valha-me Nossa Senhora. Ouviu baixinho no pé do ouvido, devolva o que é de Nossa Senhora ao Rio. Desesperado, ele perguntou se alguém pegou algum objeto da Igreja. O menino tirou a moeda do bolso mostrou ao pai, achou no chão da Igreja. Valha-me Nossa Senhora, jogue a moeda no rio, menino. O pivete lançou a moeda, afundou na água. Naquele momento as ondas começaram a baixar, a canoa tomou prumo, continuou a navegação, o rio tranquilo.

A BANDA – No Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a Foz, existe uma intensa navegação comercial transportando frutas, açúcar, coco, enfim, artigos de primeira necessidade. As vezes o navegador passa três a quatro dias embarcados vendendo mercadorias nas cidades ribeirinhas.. Durante o percurso apresentam-se vários locais apropriados para passar a noite, pequenas praias. Perto da cidade de Traipu existe um local aconchegante, facilitando atracação, bem próprio para passar a noite. Porém, os mais antigos canoeiros evitam aquele lugar por medo do que possa acontecer nas madrugadas. Há muitos anos, a Banda Filarmônica de Traipu viajou à Penedo, onde haveria um concerto musical. A Filarmônica tocava música clássica, dobrado , música de carnaval. A estrada de barro não ajudava, o velho ônibus em alta velocidade virou, alguns músicos morreram. Para não haver choradeira na cidade o prefeito mandou enterrar os músicos perto do local onde morreram. Quem dorme naquela praia é acordado pela madrugada, maior barulho, se ouve uma banda tocando dobrado bem alto, cada vez mais intenso, ninguém aguenta tanto barulho, foge, retorna ao Rio São Francisco. Um canoeiro conhecido ficou surdo para o resto da vida.

ILHA DA FITINHA – Um comerciante de coco, viúvo, tinha apenas uma filha, educou-a internada em Aracaju, dizia, minha filha só casa com homem rico. Acontece que o amor é traiçoeiro, Rosinha, a filha, apaixonou-se por um jovem canoeiro. Quando o pai, Coroné Antônio dos Cocos, soube do namoro, expulsou o rapaz da Ilha, proibindo colocar o pé em sua propriedade. Rosinha passou 36 dias e 35 noites chorando. No dia que seu pai viajou para comercializar coco em Pão de Açúcar, Rosinha parou de chorar, mandou recado, o canoeiro Zé Dantas veio depressa, namoraram dentro d’água escondidos no manguezal. Combinaram, quando o velho viajava, Rosinha colocava uma fitinha amarela no coqueiro comprido que entrava pelo rio por cima do manguezal. Assim foi feito, os dois encontraram-se várias vezes durante as viagens do Coroné. Certo manhã Rosinha não parou de vomitar, o pai levou-a ao médico. Estava grávida. O Coroné armou maior confusão, passou cinco dias falando sem parar, quando calou-se, de repente, achou melhor casar Rosinha com o canoeiro. O casamento foi feito às pressas na Ilha, apenas alguns convidados , vergonha na família. Quando nasceu o primeiro filho, deram o nome de Antônio José, o avô ficou caducando o neto, mais 12 filhos vieram, todos com nome de Antônio. Antônio José, Antônia Maria, Maria Antônia, Antônio Luiz, Antônio Carlos…Quem navegar Velho Chico pra bandas de Piaçabuçu, vai conhecer uma ilha cheia de coqueiros viçosos, manguezais exuberantes, é a Ilha da Fitinha.

Entrou pela perna do pinto, saiu pela perna do pato, seu Rei mandou dizer, que contasse mais quatro.

A AFILHADA

Dr. Romero chegou cedo ao escritório, algumas pessoas o esperavam na sala. Cumprimentou-as, ao mesmo tempo deu um olhar fotográfico, entrou na sala, sentou-se no birô, iniciou a leitura da correspondência. Logo chamou Nena, perguntou os assuntos daquela manhã, a secretária explicou cada caso, a filha de Adamastor veio pegar o cheque mensal.

Romero lembrou o amigo de infância, Adamastor, o melhor ponta esquerda do time de futebol da praia. Naquela época, adolescentes, a juventude aceitava melhor as diferenças, com mais honestidade, valia mais quem sabia jogar mais, quem trepava mais rápido num coqueiro e sabia fugir correndo do vigia. Adamastor, um atleta nato, desde o futebol na praia até mergulhar da cumeeira do trapiche avançado mar adentro. Tornou-se o melhor amigo de Romero, andavam sempre juntos caçando lagartixa com atiradeira, mergulhavam e pescavam à beira mar, pegavam caranguejo goiamum e outras brincadeira inventada por aqueles jovens adolescentes, na puberdade, se descobrindo, se possuindo dentro do mar, em intenção às moças de maiô deitadas na areia alva da praia.

O tempo que tudo desfaz, separou a amizade de infância. Raras vezes eles se viam, embora fossem compadres, Romero era padrinho de uma de suas filhas. Anos depois Adamastor procurou o amigo, estava morrendo, pediu ajuda, não deixar a família desamparada. Há dois anos Romero mensalmente dá um cheque de R$ 500,00 à família, um dos filhos vem buscá-lo no início de cada mês. Ele não conhecia essa filha à sua espera, ela entrou no escritório.

– “Você parece com o Adamastor, sente-se por favor” recebeu em pé. A jovem puxou a cadeira confortável sentou-se elegante, cruzou as pernas, sorriu.

-“Meu pai falava muito no senhor, muitas histórias ele contou, uma juventude alegre e livre na praia. Eu sou Clarissa, sua afilhada.”

– “Não me diga que prazer, ter uma afilhada bonita, não é para todo mundo”. Disse Romero rendendo-se ao encanto da morena. “Clarissa, minha afilhada, o que você faz na vida? Adamastor foi meu grande amigo de infância, gostaria de saber se posso ajudar em alguma coisa a mais?”

-“Doutor Romero na verdade eu trabalhava numa loja do Shopping, a empresa passando por dificuldades, fiquei desempregada, ainda bem que moro com mamãe.”
– “Faça o seguinte, traga seu currículo, deixe com minha secretária, vou ver o que posso fazer.” Levantou-se deu-lhe o cheque, ficou olhando a filha de Adamastor se retirar. Pensou, uma bela mulher!

Duas semanas depois Clarissa trabalhava no escritório, auxiliando Nena. A convivência entre o padrinho e a afilhada foi se estreitando, Romero tinha maior carinho pela filha do amigo, às vezes iam lanchar numa sorveteria perto do escritório, conversavam bastante, ele sorria com o bom humor da afilhada. Entretanto, ao olhar as pernas da jovem esquentava o sangue na veia, tentava se policiar. Certo vez, final do expediente ele dirigia rumo à sua casa, avistou Clarissa no ponto de ônibus, ofereceu carona. Ela abriu a porta do carro, sentou-se como uma princesa, no primeiro sinal vermelho o carro parou, ele olhou nos olhos de Clarissa, no verde arrancou, deixou-a em frente de sua casa, na despedida em vez de beijinho na face, aconteceu o primeiro beijo na boa, ficou só no beijo, ela desceu rápida.

Dia seguinte Clarissa estava encabulada, mal encarou o padrinho. Ele a chamou, disse que o beijo foi uma coisa natural, afinal ela é uma mulher atraente. Pediu a Clarissa fazer alguns pagamentos, ela saiu à pé, o banco era perto. De repente, Romero encheu-se de desejo, desceu à garagem, conseguiu alcançá-la , parou o carro. Passarem uma tarde inesquecível num motel luxuoso.

Romero adorou a aventura, toda semana repetiam a tarde maravilhosa, por muito tempo. Na virada desse ano, durante o réveillon na praia, um italiano conheceu Clarissa, conversaram, tomaram champanhe, celebraram com fogos a entrada do ano novo, dormiram juntos no hotel. Paolo apaixonou-se pela morenice, pela sensualidade daquela jovem, embarcou para Itália quatro dias depois, levou Clarissa, a jovem está em Gênova. Na véspera da viagem a afilhada explicou ao padrinho o inesperado acontecido, o italiano apaixonou-se, prometeu o mundo à ela. Romero chocou-se. Teve enorme depressão, a tristeza aumenta quando pensa, talvez nunca mais veja sua querida afilhada.

A MANICURE

– Depois de velho, você ficou relaxado, coisa feia! Não corta o cabelo, unhas grandes, vou contratar manicure. Se eu morrer você vai virar lobisomem. Vivia reclamando Dona Sílvia aos ouvidos de Fonseca.

Certo sábado, pela manhã, a campanhia do apartamento tocou, uma morena sorridente se apresentou, Aparecida, manicure. Dona Sílvia tirou o marido da leitura dos jornais na varanda, hora de fazer as unhas, ele levantou-se, mais para livrar-se da insistente mulher. Sentou-se na poltrona, cumprimentou a manicure, acionou o controle remoto da televisão. Colocou os pés numa bacia de água quente para amolecer as unhas. Dona Sílvia deixou o marido entregue à manicure, foi às compras, sábado é dia de Shopping, encontro de amigas, só retornaria na hora do almoço.

Durante o cortar das unhas de mão, Aparecida alisava a de Fonseca com suavidade, ele sentiu uma sensação gostosa, carícia no toque de mãos, olhou para manicure com curiosidade, ficou inquieto ao perceber o generoso decote da manicure, seios duros, empinados, há tempo não excitava-se com uma mulher. Puxou conversa.

– Menina você é a boa manicure, sabe cortar com suavidade, onde aprendeu essa delicadeza?

– Eu precisava de uma profissão, ganhar dinheiro, sustentar minha filha, uma vizinha me ensinou, hoje tenho bons fregueses, não paro de cortar unhas, os clientes gostam. Ser manicure foi muito bom para mim. Ganho meu sustento.

– E seu marido, pai de sua filha, não lhe ajuda?

– Marido não, meu vizinho, namorei com ele, me emprenhou ainda menina, eu tinha 15 anos. Danou-se para o Rio de Janeiro, sonhava ser cantor de rádio e televisão, canta bem. Há mais de cinco anos não tenho notícias dele, soube que é traficante no morro. Por isso vivo com minha mãe.

Conversaram muito, Aparecida contou sua vida severina, comum na periferia do Nordeste. Ao terminar, ele olhou os pés, as mãos, admirou as unhas simetricamente cortadas, perfeitas. Perguntou o preço do serviço, pagou R$ 35,00, cinco a mais do valor pedido. A morena agradeceu, guardou o material. Fonseca ficou encantado ao perceber o corpo da morena dentro do vestido azul claro, quase transparente. Aparecida despediu-se perguntando quando retornava. Venha no próximo sábado, disse com entusiasmo admirando o rebolado da manicure em direção à porta.

Na hora do almoço Dona Sílvia inspecionou as mãos, os pés, do marido, aprovou, perguntou se havia gostado da manicure, Fonseca resmungou, fez-se indiferente, entretanto, a jovem não saía da cabeça.

Dois meses Fonseca alimentou-se de fantasia, sonhava com a morena acariciando seus pés. Ficava feliz desde sexta-feira. Em conversas enquanto cortava unhas, tornaram-se amigos, íntimos, certa vez ela confessou ter sido garota de programa, não gostou. Num sábado cheio de sol, ao pagar a manicure, Fonseca encorajou-se, alisou-lhe o pescoço, o colo, deu-lhe um beijo na testa. Ela reclamou baixinho, “não Seu Fonseca, não…” Ele a trouxe num abraço apertado, beijou-lhe a boca. No apartamento da Ponta Verde, embalado pela carícia do vento Nordeste, em cima do tapete comprado na Capadócia fizeram amor pela primeira vez.

Dona Sílvia ao chegar notou a cara de felicidade do marido tomando uma cervejinha, cantando na varanda, achando o mar e a vida bonita. Convidou a mulher para almoçar, variar de comida, de tempero, foram à Barraca Pedra Virada na orla da Ponta Verde, encontraram amigos, passaram uma tarde maravilhosa conversando, uísque de combustível. Ao chegar em casa amaram-se como nunca mais tinham amado. Dona Sílvia, antes de adormecer, conseguiu perguntar, o que deu em você hoje?

Fonseca, homem decente, conversou sério com a manicure, não ficava bem fazer amor dentro de sua casa, era falta de respeito. Marcou, estabeleceu com Aparecida, encontram-se uma vez por semana para deliciosa tarde de amor, com ajutório. Fonseca está sentindo-se mais jovem, cabelo cortado, camisa da moda. Nunca mais Dona Sílvia reclamou o relaxamento do marido.

DESEJOS DE ANO NOVO

Nesse final de ano recebi um presente, o livro, “SE FOR PRA CHORAR QUE SEJA DE ALEGRIA” de meu querido amigo Ignácio Loyola Brandão, jornalista, ator, o escritor brasileiro mais lido no país e no estrangeiro.

Uma dedicatória gentil, generosa, deixou-me emocionado, “Para o grande Carlito, que me deu o título deste livro, com a amizade de sempre”. No final do livro cheio de histórias e crônicas fascinantes, Ignácio explica o título.

“Final de ano é também momento de desejar boas-festas. Mas todas as frases, todos os cartões, tudo foi esgotado, virou clichê, lugar-comum, banalidade. Estava no computador buscando alguma originalidade, porque é o que esperam de mim. Aí travei! De repente, meu amigo Carlito Lima, de Marechal Deodoro, cidadezinha vizinha a Maceió, me salvou. Carlito organiza um dos menores e mais amados festivais de literatura do Brasil, FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), pequeno, mas com nomes de primeiro time e muito companheirismo. Pois repasso aos leitores os desejos de Carlito. Vejam que delícia. Podem usar.

Alguns desejos para o próximo ano novo.

Se existir guerra, que seja de travesseiro.

Se for pra prender, que seja o cabelo.

Se existir fome, que seja de amor.

Se for pra atirar, que seja o pau no gato-t-ó-tó.

Se for pra atacar, que seja pela pontas.

Se for pra enganar, que seja o estômago.

Se for pra armar, que arme um circo.

Se for pra chorar, que seja de alegria.

Se for pra assaltar, que seja a geladeira.

Se for para mentir, que seja a idade.

Se for para algemar, que se algeme na cama.

Se for pra roubar, que seja um beijo.

Se for pra afogar, que afogue o ganso.

Se for pra perder, que seja o medo.

Se for pra brigar que briguem as aranhas.

Se for pra doer, que doa a saudade.

Se for pra cair, que caia na gandaia.

Se for pra morrer, que morra de amores.

Se for pra tomar, que tome um vinho.

Se for pra queimar, que queime um fumo.

Se for pra garfar, que garfe um macarrone.

Se for pra enforcar, que enforque a aula.

Se for pra ser feliz, que seja o tempo todo.

Não vacilei (continua Ignácio) copiei e enviei para vários amigos, inclusive ao Chico Buarque, devia uma mensagem a ele. Meia hora depois veio a resposta.
Adendo para adictos:

Se for pra cheirar, que seja a flor.

Se for pra fumar, que seja a cobra.

Se for pra picar, que seja a mula.

Obs. de Ignácio. – Pensando nas novas gerações, esclareço: “a cobra está fumando” era a expressão que os soldados brasileiros, chamados de pracinhas, que lutavam na Europa na última Grande Guerra, usavam ao atacar o inimigo.”

Assim Ignácio Loyola Brandão encerra seu novo livro, encantador. Aproveito para enviar aos amigos, novamente, esses desejos de ano novo, em meu nome, em nome do Loyola e do meu novo parceiro, Chico Buarque. Um ótimo 2017.

DE MÃOZINHAS DADAS

Maria Lúcia acordou-se com leve dor de cabeça, amargo na boca, havia bebido na noite anterior. Ainda deitada desligou o ar condicionado. Veio-lhe a imagem, detalhes da tarde de amor, Marcelo, terno, carinhoso, ao mesmo tempo selvagem, deixou-a em êxtase duas vezes, quase desmaia. Jamais pensou ficar apaixonada por um homem mais velho, poderia ser seu pai. Lucinha não tinha algum sentimento de culpa, não importava aquela situação camuflada, pouquíssimos amigos sabiam do caso. Sem problema ou preconceito em amar um homem mais velho e casado. Bem melhor que Julião, ex marido, Marcelo usava a experiência, sabia mexer nos pontos sensíveis de uma mulher, devagar, sem pressa, ficava a explorar sua anatomia, enquanto Julião um desastre na cama, apesar do belo corpo jovem, bebia muito, cheirava; na hora do amor pensava apenas em satisfazer-se. Maria Lúcia aguentou apenas dois anos de casada, não tinha saudade daquela época. Hoje, uma mulher livre, fazia o que queria, até um caso de amor com um homem maduro. Na véspera, depois da estonteante tarde de amor, Maria Lúcia saiu com um grupo de amigos na balada noturna, dançou e bebeu até quase amanhecer o dia.

Saiu do devaneio ao olhar o relógio, 11:30 h, levantou-se, abriu a cortina, dia ensolarado, luminosa manhã. O mar de um verde esmeralda misturava um azul turquesa em suas águas, pequenas marolas. Contemplando do alto da janela deu-lhe uma sensação de bem estar, amava sua cidade, sua praia, a vida é bela.

Na sala encontrou os pais, a irmã mais nova.

– “Lucinha querida, a noitada foi boa, sua cara de ressaca não nega.” Entregou a irmã.

– “Foi ótima, saí com as amigas, eu posso, sou adulta, independente, dona do meu nariz”.

Conversavam enquanto Maria Lúcia preparava um lanche na cozinha. O celular tocou, era Dudu. Toda mulher bonita, gostosa, separada, tem um amigo homossexual.

Eduardo não parece homo, não dá para notar sua opção sexual até ele abrir a boca. Lucinha atendeu.

– “Diga Duduzinho querido! Como está vossa excelência?”

– “Estou à toa na vida, quero saber da programação nesse belo sábado, que tal nos encontramos numa barraca de praia, para um bom chope? Depois seja o que Deus quiser. Esse dia ensoralado é um convite para desmantelo.

– “Fechado, uma hora na Barraca Pedra Virada, tem sempre amigos curtindo uma cervejinha”.

A mãe ouvindo a conversa, não perdeu oportunidade para um conselho e um puxão de orelha.

– “Lucinha, você já vai sair? Daqui a pouco fica falada, não arranja outro marido. Esse Dudu parece, mas não é homem, cuidado com a vida. Quero que você se divirta, com juízo.”

– “Minha mãe essa vida é curta, ou eu me divirto ou tenho juízo, os dois são incompatíveis”. Deu uma gargalhada.

Maria Lúcia deu partida no carro rumo ao encontro, tomou a Avenida Beira Mar. De repente, sinal vermelho, ela freou, ficou na espera, ao olhar de lado teve um susto. Seu amado Marcelo entrava num restaurante de mãos dadas com a esposa. Deu-lhe uma sensação de mal estar, acabou-se a alegria, veio-lhe um profundo ciúme do fundo da alma. Precisou uma buzinada para acordá-la ao abrir sinal verde, acelerou o carro, mais adiante parou no acostamento, colocou a cabeça entre as mãos por cima do volante, chorou de raiva e pena de si mesma. Ao se recuperar retomou a Avenida Beira Mar.

Dudu esperava sentado, camisa vermelha, bem penteado, moço bonito, elegante, copo de cerveja na mão, peixinho frito na outra, ao vê-la fez sinal. Lucinha achegou-se devagar, sentou-se, chorou discretamente, queria tomar um porre, contou ao amigo o encontro inesperado com o amado Marcelo.

– “Você diz não ter preconceito, aceita esse amor proibido. Faz análise, tem cabeça boa, não entendo esse choque, esse chilique ao ver Marcelo e a esposa.” Provocou-a Dudu.

– “De mãozinhas dadas! De mãozinhas dadas não dá para aguentar!”

O PEQUENO PRÍNCIPE NEGRO

Ninguém sabe de onde veio, nem ele. A mãe o abandonou na Praça do Centenário quando Cícero não havia completado oito anos, negrinho, chamava atenção sua figura bonita. Olhos pretos, vivos, cabelos crespos. Sozinho no mundo, ficou a vagar pela cidade grande.

O menino enjeitado, triste e assustado, perambulou durante dias pelas ruas de Maceió, dormindo sob marquise, em praças, faminto, até que encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria tornarem-se amigos, entrosou-se com esses menores que faziam ponto no centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Sobreviviam de esmola, do que achavam no lixo, de roubos fortuitos, até pequenos assaltos. Assim viveu Cicinho por anos nas ruas da cidade, abandonado pela sociedade, pelos governos, sem escola, sem casa, sem documentos, duas vezes preso por vagabundagem. Sua família eram os colegas de rua, de cola e de cruz.

Num dia de festa, o Brasil havia vencido um jogo da Copa do Mundo, enquanto a cidade comemorava, Cicinho procurava comida num container no bairro chique da Jatiúca, lixo de qualidade.

Alzira, moradora de um prédio, da janela reparou a cena, comoveu-se, teve pena do adolescente catador, alheio à festa. Agradou-lhe a silhueta daquele jovem moreno, cabelos crespos cumpridos, vestes maltrapilhas, capa velha surrada, parecia o Pequeno Príncipe Mendigo. De repente, ao acaso, ele olhou para a coroa, cumprimentou-a sorrindo. Ela respondeu-lhe outro sorriso. Com a mão direita aberta Alzira deu um sinal para ele esperar, desceu levando um bolo de chocolate na mão, ao aproximar, sentiu uma forte empatia, um afeto maternal pelo jovem. Cicinho recebeu o bolo, dividiu com amigos, comeram sentados no chão. A partir daquela dia, algumas vezes na semana, o jovem cheira-cola aparecia em frente ao edifício, a coroa lhe dava o que comer em um saco de papel pardo.

Alzira havia completado 41 anos no dia que conheceu Cicinho, dizia para si mesma, ser um presente de Deus. Mulher sofrida no amor, foi casada, sem filhos, por onze anos com um médico, abandonou-a por uma aluna da Faculdade. Um trauma para Alzira, quarentona bonita, vistosa, charmosa. Desde sua decepção amorosa, trancou-se para o mundo, mora sozinha, evitou namoro, sexo e amigas. Funcionária pública, o trabalho ajuda sua existência

Sentia-se abandonada igual ao jovem catador de lixo, ele veio preencher uma carência afetiva, alegrava-se ao dar-lhe parte de sua comida, depois presenteou-lhe camisa, roupa. Com o passar do tempo deu-lhe trabalho, mandou o barbeiro dar-lhe um trato, tornou-se uma espécie de secretário para limpeza da casa, do carro, fazer compras e outros afazeres. Cicinho toda manhã dava plantão em frente ao prédio de Alzira, à tarde caía no mundo junto aos companheiros. Certo dia ela convidou-o a morar no quarto de empregada, almoçava com a cozinheira.

Alzira ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava a ler, a escrever e contas aritméticas. Deu sorte, conseguiu matricular o jovem no Colégio Marista onde os Irmãos têm cursos gratuitos para os necessitados.

Cicinho é calado, casmurro por natureza. Alzira descobriu, em conversa, seu sonho, uma prancha de surf. No natal ela presenteou-lhe uma prancha, o jovem feliz da vida, danou-se a surfar na praia de Cruz das Almas. Nunca abandonou os amigos, quando ia ao surf marcava com os companheiros cheira-cola, eles pegando carona na prancha. Quando podia, arranjava comida para sua turma. Cicinho tem consciência que a sorte passou em sua vida. É generoso e solidário, embora o sentimento de injustiça e desigualdade social seja forte em suas convicções.

Tornou-se um forte e belo rapaz, espadaúdo, típico surfista. Atualmente estuda para vestibular de Direito, quer ser um bom advogado e criar uma casa de abrigo a menores moradores de rua, seus sonhos fizeram feliz Dona Alzira, como ele a chama.

Cicinho deixou a dependência de empregada, dorme em quarto próprio. Mostra sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, lhe deu o que um jovem precisa, um lar, afeto e estudo. Está aprendendo a dirigir, carro prometido se passar no vestibular. Para Alzira é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho.

Nas refeições divide a mesa com seu protegido. Segundo línguas ferinas, sem provas, invencionice de quem não têm o que fazer, durante parte da noite, divide também a cama forrada de lençol de linho e travesseiros de marcela. Alzira anda na maior felicidade, apenas um problema, administrar o ciúme das paqueras que dão em cima de seu belo Pequeno Príncipe Negro.

O DEZEMBRO QUE ME HABITA

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Árvore de Natal decorada de Reisado, cheia de fitas

Dezembro, férias de verão, as festas natalinas faziam a alegria da moçada. Praça Sinimbu, Praça da Faculdade (Afrânio Jorge). Armavam-se roda gigante, barquinhos, tiro ao alvo, um palco para folguedos natalinos rolando por toda noite. As mocinhas desfilavam na calçada em torno da praça, os jovens de blusa gola roulê, encostados nos carros paqueravam as meninas que vinham e que passavam num doce balanço a caminho do nada. Um forte alto-falante anunciava produtos patrocinadores e enviava recado a CR$ 2,00 (dois cruzeiros), num som gutural o locutor enfático: “Alô, alô, Aninha Amorim, você é a garota que mais brilha nessa festa; assinado, você já sabe!”. “Alô, alô menina do vestido de bolinha azul, estou lhe esperando atrás da Igreja às nove horas.”

Época dos flertes, namoros bem comportados no portão de casa, festas de clubes ou casas, descobrindo o prazer de dançar. Música suave, blues e jazz americanos e de baião. Logo depois, arrebentou o rock. Ainda menino, aprendi os passos de Elvis Presley.

Na festa de rua, construía-se a Nau Catarineta, navio de barro (taipa) no centro da praça, especialmente para dançar a Chegança, folguedo proveniente da Península Ibérica, auto de tema marinho contando as dificuldades da vida marítima, as tempestades, o contrabando, as brigas entre marujos e entre cristãos e mouros. Alguns personagens marcantes: o Almirante, o Padre e o Cozinheiro.

Manoel, pintor de parede, todo ano fazia o papel do Almirante na Chegança. A partir do dia 6 de dezembro até terminar a Festa de Rua na Praça Afrânio Jorge, dia de Reis, 6 de janeiro, ele saía à rua fardado de Almirante de Chegança, só tirava a farda para dormir e trabalhar, assim mesmo porque tinha receio de sujar com tinta sua belíssima farda. À noite quem quisesse encontrá-lo era só aparecer no Cabaré da Railda, estava Manoel, Almirante, fardado junto à rapariga Joaninha Boca de Fole, seu xodó.

No palco dos folguedos, toda noite havia a maior atração, o Pastoril, dança folclórica natalina formada por duas colunas de pastoras, cordão azul e cordão encarnado. As duas torcidas vibravam na platéia, maior competição. No final da Festa, era declarado o cordão campeão quem vendesse mais votos.

As pastoras, com fantasias singelas, saias bem rodadas, entravam cantando a primeira jornada: “Boa noite, meus senhores todos… Boa noite, senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… que alegremente vamos a Belém…” Mestra, a primeira pastora do encarnado; contra-mestra, a do azul; entre as duas, Diana, fantasiada de azul e encarnado: “Sou a Diana… Não tenho partido… O meu partido são os dois cordões…”

Menino meio danadinho, na puberdade, nos intervalos entre as jornadas eu chamava em cena uma pastora, alguma bonitinha, com os peitos mais acentuados. Ela entrava dançando ao som da música. No palco, eu colocava a cédula com alfinete, como quem prega uma medalha, descuidadamente, roçava o seio da pastora com a palma da mão, ela corava. Eu gritava de emoção: “Viva o cordão encarnado!”, descia feliz da vida, excitado, sentindo o seio em minha mão.

Existe uma enorme diversidade de folguedos natalinos em Alagoas. O professor, pesquisador Théo Brandão, catalogou 36 tipos de grupos folclóricos. Guerreiro, Reisado, Boi, Coco de roda, Baiana, Taieira, Nega da Costa, Pagode, Fandango, Maracatu, entre outros.

Por tudo isso, dezembro me encanta, alguns acham o natal triste, ao contrário, meu natal cada ano fica mais alegre. No mês de dezembro minha casa é decorada com um tema folclórico, inclusive a árvore de natal. Esse ano, é do Reisado, auto popular, formado por grupos de brincantes fantasiados, músicos, cantores que vão de porta em porta, anunciar a chegada do Messias, homenagear os três Reis Magos e fazer louvação aos donos das casas onde dançam, em troca de bebida e comida..

Tornou-se tradicional o café em minha casa na manhã do 24 de dezembro oferecido aos parentes e alguns amigos. Início 7:00 h, término por volta das 14:00 h. Café nordestino com muita poesia, música, depoimentos, orações, ano passado dançamos o pastoril, a alegria reina nos abraços, beijos, gentilezas, sem troca de presente. Meu natal é o dezembro que me habita.

UFC NO CAMPO SANTO

Naquela manhã, dia de finados, Norminha tirou o carro da garage, distraída, pensava no marido e como foi traída. Pela primeira vez retornava ao cemitério desde os acontecimentos no enterro, afinal passaram 18 anos juntos. Fernandinha, a filha de 14 anos, perguntou se ia encontrar a Adélia, filha do pai com a outra mulher.

– Deus me livre, nunca mais em minha vida quero ver aquela desgraçada, vadia, sirigaita, enfeitiçou o finado seu pai, ainda fez essa filha. É sua irmã, por parte de pai, apenas. Não quero e você está proibida de fazer amizade com essa moça.

Mal sabia Norminha, as duas estudavam em colégios do CEPA, são amigas desde que descobriram serem meio irmãs, filhas do Peixotinho, funcionário exemplar da Rede Ferroviária. Norminha rumou para ao cemitério, Fernanda ao lado, calada, a mãe em devaneios.uf

Fernando Lyra Peixoto, ainda jovem, conseguiu um emprego na Rede Ferroviária com um deputado amigo da família, assíduo e trabalhador, todos os chefes gostavam daquele servidor, gentil. Sempre arranjavam uma maneira de uma função gratificada. Peixotinho não reclamava o salário de funcionário, tinha outra viração, emprestar dinheiro, um pequeno agiota, controlado, morava com a mãe viúva. Adolescente descobriu uma das coisas mais importante em sua vida, sexo e mulher. Carinha de santo, sonso que só o cão, uma lábia de encantar mulheres, vivia atrás das empregadas na vizinhança, os amigos o apelidaram maldosamente, Rei das Peniqueiras.

Guardou seu dinheirinho ganho na repartição, tinha casa, comida e roupa lavada. Por acaso investiu na agiotagem, um amigo desesperado pediu-lhe emprestado, pagou-lhe com juro de 10%, Peixotinho gostou, tornou-se agiota, investia também em apartamentos pequenos, o aluguel aumentava sua renda. Solteiro, gostava mesmo de uma garota de programa, teve poucas namoradas. Certo dia percebeu, os amigos de infância estavam casados. Aos 30 anos resolveu se casar, namorou e casou-se com Norminha, três anos depois apareceu sua filha, Fernandinha. Homem sério, todos admiravam, Norminha não cansava de se orgulhar, pelo Peixotinho botava a mão no fogo.

Certo dia amanheceu com a garganta inflamada, ao tomar algumas injeções na farmácia, conheceu a enfermeira, Ana, bonita morena, mãe solteira, vivia com o filho e o pai no bairro do Jacintinho. Trabalhava muito em hospital e dava plantão em farmácias fazendo curativos, aplicando injeções para sustentar a casa. Peixotinho empolgado com a sensualidade da jovem, retornou à farmácia paquerando abertamente Aninha. Sua insistência e lábia conseguiram levá-la a um motel. A partir daí teve encontros semanais com a carinhosa enfermeira, preenchendo parte de sua vida amorosa. Aninha engravidou quase ao mesmo tempo que Norminha, as duas filhas nasceram com diferença de um mês. Ana não fazia questão em ser a “outra”, afinal Peixoto ajudava muito, até cedeu um de seus apartamentos para moradia de Ana, o pai e os filhos. Peixoto conseguiu guardar esse segredo durante 15 anos. Certa manhã, na repartição, sentado, de repente veio-lhe suor frio, dor aguda no peito, a dor aumentou, caiu a cabeça para frente no birô, infarto fulminante. Morreu feito um passarinho.

Dia seguinte no enterro Norminha percebeu uma morena junto à filha adolescente, as duas chorando no caixão, quis saber quem eram aquelas intrusas. Everaldo, amigo, confidente de Peixotinho, contou-lhe a verdade. Norminha partiu desesperada, puxou Aninha e a filha do caixão, chamando-a de vadia, deu tapa na cara, alguns amigos intervieram botando paz no enterro. Depois de alguns meses, as duas, encontraram-se em audiência, brigando pela herança de Peixotinho. O “come quieto” deixou onze apartamentos pequenos.

Naquele dia de finado finalmente Norminha chegou ao Campo Santo, uma orquestra tocava as Bachianas de Villa Lobos enchendo o ambiente de saudades. Cemitério lotado, Norminha e Fernandinha dirigiram-se ao túmulo de Peixotinho, ao ver, ao longe, Aninha e filha ajoelhadas colocando flores no túmulo do marido, a viúva partiu em disparada, na velocidade que vinha rodou a bolsa na cara da “outra”, atordoada, levou murro na cara, ao cair revidou puxando o cabelo de Norminha. Atracaram-se no chão xingando-se mutuamente de vadia e puta. Ninguém teve coragem de apartar a briga, as duas rolaram, puxaram cabelo, deram tapas, jogaram areia, por mais de cinco minutos. Precisou dois policiais para terminar o briga. Perante o Delegado as duas tiveram que explicar para não ser enquadradas em perturbação da ordem pública. Uma coisa ficou clara, o UFM do Campo Santo ainda terá mais rounds.

LISBOA, VELHA CIDADE

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Lisboa à noite

Última escala da viagem, descemos em Lisboa direto de Praga, saímos do Leste Europeu encantados com a beleza das cidades, dos prédios, dos castelos, das igrejas, principalmente das mulheres. As eslavas são as mais bonitas do mundo.

Portugal é nosso pai, talvez avô, às vezes nos desentendemos, entretanto, nos amamos há 516 anos, desde o descobrimento. Vivemos juntos, fizemos história juntos. Sinto-me em casa quando estou em Lisboa.

Nosso país tem tamanho continental graças aos portugueses, os bandeirantes gananciosos em busca de ouro, prata e diamantes desbravaram o Oeste brasileiro, esqueceram o Tratado de Tordesilhas assinado entre Espanha e Portugal em que dividia as terras descobertas. Pelo Tratado, o Brasil português, seria bem menor. Uma linha imaginária passando na região de Belém do Pará e Laguna em Santa Catarina, separava o lado Leste para Portugal e Oeste para Espanha. Entretanto bravos portugueses misturados com nativos, índios, resolveram conquistar o Oeste com as Entradas e Bandeiras, e o Brasil tornou-se esse imenso país, anos depois as Forças Armadas brasileiras ocuparam, marcaram, mantiveram a linha de fronteira do Brasil com os países hispânicos da América do Sul.

Os portugueses não tiveram problemas em se miscigenar com índios e negros formando uma raça de mulatos e cafuzos. A colonização do Brasil teve acertos e erros. Mesmo dividido em capitânias hereditárias, os portugueses conseguiram unificar formando apenas um país, ao contrário da América do Sul Espanhola, dividida em nove países.

Entretanto a colonização brasileira teve um preço, muito ouro, prata, altíssimos impostos, foram diretos para família real viver nababescamente como viviam os reis e a corte.

Em 1755, aconteceu na cidade de Lisboa uma das maiores tragédias urbanas da humanidade. Um grande terremoto seguido por tsunami deixou milhares de mortos. Casas, igrejas, praças destruídas. A devastação da cidade, foi quase total. A restauração foi trabalhosa, dispendiosa, demorada, modificaram o traçado das ruas. Praticamente reconstruíram nova cidade.

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Naquela época o Marquês de Pombal, nobre diplomata e estadista português. Secretário de Estado durante o reinado de D. José I (1750-1777), figura controversa e carismática da História Portuguesa, mandava mais que o Rei, resolveu o problema da reconstrução de Lisboa aumentando os impostos e levando toda a riqueza possível do Brasil. A reconstrução de Lisboa foi feita com o suor e riqueza dos brasileiros. São coisas de colonizador e colonizado, o povo português nada teve com o saque aos cofres brasileiros.

Lisboa, fim da viagem de um bom grupo alegre organizado por Tereza e Pauline Rezende. No Rossio comi um divino ensopado de perdiz. Passeios e compras na Rua da Prata, Rua do Ouro. Fascinante a pitoresca cidade, antigos bondes elétricos trafegam em ruas estreitas e em largas avenidas modernas. O antigo junto ao novo sofisticado. Nas noitadas as casas, restaurante, cheios, ouvindo belos fados. Tivemos o privilégio de almoçar o melhor bacalhau de Portugal na Laurentina, com direito à sobremesa bem portuguesa, a baba de camelo.

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Este colunista com amigos portugueses, Maria e Fernando na Casa do Brasil de Lisboa

Na última noite, devido a gentileza da amiga, Maria Xavier, funcionária do Ministério da Cultura de Portugal, tive a honra em proferir uma palestra seguida de noitada de autógrafos, para minha surpresa, todos os livros vendidos. Uma alegria imensa ser entrevistado pelo competente jornalista João Morales, o mediador preparou a projeção de fotos de várias fases do Brasil nos últimos 50 anos, assunto da palestra e debate, conversamos mais de hora e meia na Casa do Brasil de Lisboa, no Bairro Alto. Auditório cheio, fiquei emocionado com o carinho dos amigos e dos amigos dos amigos que apareceram.

E como ninguém é de ferro nos despedimos de Lisboa com um bacalhau na boemia do Bairro Alto. Lisboa sempre a sorrir, tão formosa, e no vestir sempre airosa, o branco véu da saudade. Até a próxima, minha querida cidade, cheia de encanto e beleza.

BUDAPESTE, CIDADE PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Hungria, esse país povoou minha imaginação na juventude. Entre meus divertimentos, aos 12 anos, eu possuía uma amada coleção de selos. Tia Zezé Peixoto trabalhava nos Correios me trazia selos descolados, caídos das cartas. Certa vez me presenteou um pacote, 24 selos coloridos, belíssimos, neles escrito Magyar Posta, Correio da Hungria. Tornaram-se a preciosidade da coleção, eu mostrava a todo mundo, maior orgulho aqueles selos de um país distante e misterioso.

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Seleção da Hungria 1954

Em 1954 acompanhei por rádios e jornais a Copa do Mundo de Futebol na Suíça. A Hungria era a melhor seleção daquela Copa, inigualável, ganhava dos países mais fracos de 10 x 0 para cima, eliminou o Brasil nas quartas de finais 4 x 2. Numa das maiores injustiças do futebol, esse time perdeu a final em Berna para a Alemanha, campeã, 3 x 2 de virada. O Honved time base da seleção húngara possuía os melhores jogadores do mundo, inesquecíveis, Puskas, Kocsis, Czibor, Grosics. Destaques na história do futebol. Coloquei as fotos desses jogadores na parede de uma puxada no quintal de minha casa onde eu estudava durante a tarde. Tornei-me fã do Honved, de Puskas.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Alemanha invadiu a Hungria. Isolaram os judeus em Budapeste, construíram uma muralha dentro da cidade formando um gueto. Segundo dados do Holocausto, 380.000 judeus húngaros foram mortos nos Campos de Concentração durante a ocupação. Ao terminar a 2ª Guerra os nazistas fugiram da Hungria dando lugar ao vencedor, o Exército de ocupação russo. Azar da população húngara. Saiu Hitler entrou Stalin instalando o regime comunista colocando mais um país na órbita soviética.

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Revolução Húngara 1956 – o povo em armas contra o jugo soviético

Em 1956 eu era cadete da Escola Militar de Fortaleza, tomei conhecimento pelos jornais da Revolução na Hungria. Fiquei interessado, quis entender, acompanhei a revolução do país de Puskas, ele era major do exército húngaro.

A Revolução da Hungria se iniciou no começo de 1956, uma manifestação organizada por estudantes e intelectuais húngaros contra as condições de vida e contra o governo do Partido Comunista, pretendendo adoção de algumas medidas democráticas no país. Cerca de 200 mil pessoas participaram da manifestação entre estudantes, operários e soldados. Os manifestantes derrubaram a estátua de Stalin, agentes da repressão passaram para o lado dos manifestantes. Conselhos revolucionários foram criados em Budapeste e outras cidades para organizar a população. O clima de guerra civil cresceu no país. Os governantes tentaram chegar a um acordo com Moscou. Entretanto, em novembro de 1956 tanques do Exército Vermelho entraram em Budapeste reprimindo brutalmente manifestações. Mais de 20 mil húngaros mortos, contra pouco mais de 700 soldados soviéticos. Era o fim da Revolução Húngara.

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Ponte das Correntes, separa Buda e Peste

Agora nesse bendito 2016, há alguns dias, com 76 anos nos costados, conheci esse país que habitou meus devaneios de juventude. Ao entrar em Budapeste encantei-me, fiquei fascinado com a beleza da cidade, extrapolou a expectativa. De um lado do Rio Danúbio fica Peste, suntuosos edifícios do antigo império austro-húngaro, imponente o edifício do Parlamento de fachadas e agulhas góticas. Em Peste concentram-se museus, galerias, igrejas, óperas. É a zona de compras da cidade, modernos shoppings instalados em palácios do Século XVIII. Atravessando a Ponte das Corrente, guarnecida por leões de pedra, fica Buda, morada dos ricos, onde se localizam castelos, a deslumbrante Igreja de São Matias e muitas construções medievais da cidade.

O Rio Danúbio divide Buda e Peste, inspirou Strauss compor a valsa, talvez a mais conhecida, “Danúbio Azul”. Durante uma noite após um show folclórico, navegamos num luxuoso barco onde avistamos toda cidade iluminada. As noitadas acontecem em modernos clubes ou em navios abandonados à margem do rio. Existem banhos turcos (a maioria também ocupa antigos palácios), unissex. Muito interessante. As belas húngaras costumam rejuvenescer nesses banhos turnos, às vezes nuas. Espetáculo à parte.

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Memorial dos Sapatos

Certa manhã, perambulamos, cinco casais, pela exuberante Budapeste, conhecendo, descobrindo à pé aquela fascinante cidade. A certa altura Dr. Catão nos instigou a procurarmos o Memorial dos Sapatos construído em 2005 por dois artistas, eles fixaram à margem do Danúbio alguns sapatos de bronze simbolizando um triste fato; num dia de inverno um grupo de judeus foi levado pelos nazistas à margem do Danúbio onde foram obrigados a tirar seus sapatos (valiosos durante a guerra) e saltar dentro do rio gelado.

Não se pode esconder, nem esquecer as atrocidades das guerras. Contudo, a beleza da cidade é imorredoura, inebriante, Budapeste, cidade para viver um grande amor, retornarei, em lua de mel, quando completar 50 anos de casado.

CONTOS DOS BOSQUES DE VIENA

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Este colunista e a bela garçonete em Bratislava

Logo após a 2ª Guerra Mundial a Europa foi repartida, a parte Leste ficou em mãos da União Soviética onde Stalin implantou o regime comunista, a parte Oeste os americanos tomaram conta. A União Soviética foi aliada contra o nazismo alemão tornou-se inimiga depois da 2ª Grande Guerra, na época foi iniciada outra guerra, política, sem canhões, chamaram de Guerra Fria. Os USA de um lado, a União Soviética do outro, sempre querendo exibirem suas supremacias. Os Estados Unidos distribuíam seus filmes ao mundo mostrando o estilo de vida, o “way of life”, onde tudo corria às mil maravilhas, as mulheres eram plásticas, recatadas e do lar. Nos anos 50 inventaram o concurso Miss Universo, onde representantes de vários países concorriam ao certame mundial da beleza. O Brasil sempre mandava a sua. Em 1954 a Miss Brasil ficou em segundo lugar, a bela e gostosíssima baiana Marta Rocha perdeu por duas polegadas a mais no traseiro, esses jurados…Os países socialistas não concorriam a essa invenção burguesa.

Viajando recentemente pelo Leste Europeu, ex países comunistas, hoje convictos capitalistas, deslumbrei-me com a beleza das checas, das húngaras, das eslavas. Conclui, se essas mulheres entrassem em qualquer concurso de beleza, ganhariam, são as mulheres mais bonitas do mundo. Por isso o tráfico de mulheres é intenso sequestrando adolescentes eslavas. Depois do petróleo, hoje, o tráfico de belas mulheres é o segundo maior negócio do mundo e as meninas do Leste Europeu são as mercadorias mais valiosas.

Deixando o devaneio ao lado, voltemos à viagem, saímos de Praga num ônibus confortável, sempre assistidos regiamente por Tereza e Pauline Rezende, organizadoras, logo chegamos à capital da Eslováquia a belíssima Bratislava. A cidade tem dois mil anos de história, remonta à época dos celtas, fez parte do Império Romano e ao longo dos séculos atraiu famílias reais, presenciou a coroação de 19 reis e rainhas do império húngaro. A beleza, a cultura, a história e o charme de Bratislava foram danificadas na 2ª Guerra Mundial. Durante os anos vivendo sob o jugo de Moscou se esqueceram do passado lendário da cidade. Recentemente, a cidade passou por uma grande reconstrução, um despertar cultural. Os turistas estão redescobrindo a charmosa cidade velha, os tesouros góticos da cidade, os restaurantes elegantes, os cafés.

A música em Bratislava está vinculada à vida musical vienense. Notáveis compositores frequentaram a cidade, Mozart, Haydn, Liszt, Bartók e Beethoven que interpretou sua Missa Solemnis pela primeira vez em Bratislava.

Almocei um gostoso goulash servido pela garçonete mais bonita do mundo. Mais algumas voltas na cidade partimos para Viena, a exuberante capital austríaca.
ANSCHLUSS- palavra alemã significa anexação. É utilizada em História para referir-se à anexação político-militar da Áustria por parte da Alemanha em 1938. Logo depois houve um plebiscito, onde 95% dos austríacos votaram a favor da anexação, a Alemanha ganhou a Áustria sem precisar invadir, sem morrer um soldado, o país se considerava alemão. Depois da 2ª Guerra, na divisão entre os vencedores, a Áustria ficou sob domínio americano.

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Este colunista tomando vinho no Café Mozart, Viena, 5°, onde o compositor tomava porres homéricos

Viena, a capital, é reconhecida pela ONU como a cidade de melhor qualidade de vida do mundo. Segurança pública altamente eficiente, serviços públicos excelentes, educação de alta qualidade e diversidade de opções culturais e lazer para população de todas as categorias sociais.

Viena é uma cidade de exuberantes palácios, museus, catedrais e igrejas carregados de história, de largas avenidas repletas de elegantes cafés e restaurantes. Historicamente foi e continua sendo o centro de música erudita, da música clássica, berço e moradia de extraordinários artistas, Franz Schubert, Beethoven, Strauss, Mozart. Entre as grandes figuras vienenses estão, Sigmund Freud, o famoso psicanalista, a imperatriz Isabel Amélia Eugênia, conhecida como Sissi da Áustria. Em 1956 realizaram o filme, Sissi a Imperatriz, com Romy Schneider, produção cinematográfica austríaca de maior sucesso no mundo, depois mais 2 filmes em continuação.

Durante uma noite tivemos o privilégio de ouvir na Ópera de Viena um empolgante, elegante (direito à champanhe no intervalo) e inesquecível concerto, me enlevou a alma, trouxe-me recordações da distante infância quando ouvia na Rádio Difusora de Alagoas o programa “Sonho de Valsa”, naquela época me deliciavam as valsas de Strauss, principalmente, a preferida, “Contos dos Bosques de Viena”. Era a valsa que ouvia naquele momento, naquele local, mais chique impossível.

OUTONO DE PRAGA

Berlim, cinco da manhã, o termômetro marcava 4° centígrados fora do hotel. Preparava-me para viagem à Praga, partida do ônibus prevista para 6:30 horas. Um pouco de ressaca, gosto do vinho Landwein na boca, fiz a barba, tomei um banho quente, depois de um café à salsicha de porco, enfrentamos a estrada. Na saída da cidade revi ao longe o edifício do Reschstag, sede do Parlamento da Alemanha. Em 27 de fevereiro de 1933 incendiaram misteriosamente aquele prédio. O incêndio do Parlamento Alemão foi usado pelos nazistas, liderados por Hitler, como perseguição aos opositores políticos. Iniciava a ascensão de Hitler. Pensava nesse fato histórico quando o ônibus dobrou pegando a impecavelmente limpa rodovia.carlito

Pelo caminho descemos em Dresden, uma volta na cidade mais bombardeada, mais sofrida, durante 2ª Guerra Mundial, foram três dias horripilantes de bombardeios ininterruptos, pelo dia eram os aviões ingleses, à noite os aviões americanos, a belíssima cidade foi destruída, arrasada, insensatez da humanidade, igual às bombas americanas de Hiroshima e Nagazaki no Japão. (Na foto ao lado, este colunista em Dresden)

Fiquei surpreso com a restauração da belíssima cidade, nenhuma marca dos bombardeios. A Orquestra de Câmara de Dresden tocava em frente a um convento naquela manhã de quarta feira. Prosseguimos viagem à margem do histórico Rio Elba, emocionava-me conhecer locais cheirando à História e à Guerra.

Ao meio dia entramos na esplendorosa Praga, almoçamos num restaurante italiano, comida da Itália existe em todo canto do mundo. Fascinado com o centro da cidade, caminhei em torno das luxuosas lojas, turistas de todo canto do mundo, base da economia do país que se chamava Tchecoslováquia, hoje repartido em República Tcheca e Eslováquia, perambulei o resto da tarde esquentando-me do frio de 8° desse outono. Fui conhecer os locais onde aconteceu o movimento político, histórico, “Primavera de Praga”.

Após a 2ª Guerra Mundial os comunistas haviam chegado ao poder na Tchecoslováquia. Nesses anos, a vida política no país tornou-se burocratizada e autoritária, dentro dos parâmetros da União Soviética, era o processo da “stalinização”, em referência ao ditador soviético Stalin. Em janeiro de 1968 Alexander Dubcek assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista tcheco. Imediatamente Dubcek, colocou em prática um audacioso plano de reformas políticas, econômicas e sociais visando “humanizar” o regime. No plano de reformas constavam a liberdade de imprensa, o fim do monopólio político do Partido Comunista, a livre organização partidária, a tolerância religiosa, entre outras medidas que apontavam para a democratização do país.

O movimento liderado por Dubcek contou com o apoio de intelectuais e da população do país. Entretanto, não agradou a Stalin, a 20 de agosto de 1968, tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Os tanques tomaram a capital Praga e, ao invés de encontrarem tropas tchecas armadas e resistentes, depararam-se com uma reação pacífica. Os tchecos inconformados com a invasão armada da União Soviética, se deitavam na frente dos tanques, conversavam com os soldados pedindo que retornassem à URSS. Os soviéticos prenderam Alexander Dubcek, levaram para Moscou junto com outros líderes tchecos, acabando o curto, entretanto, significativo movimento conhecido como Primavera de Praga. As reformas políticas de Dubcek viriam vinte anos depois com a derrocada do comunismo na Europa Oriental.

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Primavera de Praga – 1968 – Reação pacífica dos tchecos à invasão soviética

Praga cidade de muita história, cultura e arte foi desde o século IX cenário dos intercâmbios comerciais e culturais, centro do mercado do Leste Europeu. Na Praça da Cidade Velha, encontra-se o relógio astronômico da Câmara Municipal, umas das jóias da cidade. Contudo, o mais representativo de Praga são suas casas, seus edifícios barrocos e góticos, fachadas mostrando a riqueza de antigas famílias nobres e mercadores. Entre elas, a casa onde morou o escritor Franz Kafka. Pelas ruas da cidade também passeou outra célebre personagem, Wolfang Amadeus Mozart, um dos maiores músicos da humanidade.

Encantei-me com a deslumbrante cidade, a beleza singela das folhas mortas levadas ao vento, caindo ao chão, nesse frio outono de Praga.

CÍRCULO DE GIZ EM BERLIM

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Em pedaços do Muro de Berlim conservado, o desenho da foto do beijo histórico entre Brejnev (Rússia) e Honecker (Alemanha Oriental). Abaixo, este colunista e esposa imitam os dois líderes comunistas

Desenhando no chão um círculo de giz ao redor de um peru ele sente dificuldade em ultrapassar a linha do círculo, torna-se prisioneiro, a área marcada do círculo é seu mundo, a percepção de liberdade do peru limita-se ao círculo de giz desenhado no chão. A vida é bem parecida, nos impõe vários círculos de giz desde que nascemos, às vezes procuramos sair do círculo ou nos acomodamos com os limites. O problema é que sempre existirá um outro círculo nos cerceando a liberdade, às vezes a felicidade.

Durante a juventude descobri na leitura e nas viagens a melhor maneira de transpor o círculo de giz. Consegui abrir caminhos, enxergar novos horizontes, conhecer cidades, outros povos, outras culturas, com a leitura e o espírito aventureiro. Hoje, setentão e muitas viagens no costado, continuo com o gosto de aventura, de viagem, conhecer outros palcos da história da humanidade. Nos últimos dias realizei um sonho viajando, visitei parte do Leste Europeu, países alinhados à União das Repúblicas Socialista Soviética após 2ª Guerra Mundial, separados do Oeste Europeu pela imaginária, não tanto, Cortina de Ferro, naquela época.

Hitler derrotado, os aliados vencedores iniciaram a repartição do “saque” em territórios campos de batalhas. Assim foi deflagrada no cenário mundial a Guerra Fria ( guerra política, sem armas), a Alemanha e o mundo foi dividido entre os vencedores, o lado Oeste liderado pelas nações liberais capitalistas, USA, Inglaterra e França e as nações da parte Leste ficaram na órbita da União Soviética. Stalin o consolidador do regime comunista implantou nas fronteiras da Europa uma linha divisória marcante, muros de concretos, fortificações militares, arames farpados, fossos fundos impedindo qualquer tipo de transposição de tropas, equipamentos e armas de guerra e outros obstáculos delimitando fronteiras, evitando qualquer “contaminação” dos países liberais, capitalistas.

Foi quando o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, denunciou, “uma cortina de ferro desceu sobre a Europa”, acusando a União Soviética de uma ferrenha divisão político-ideológica entre os regime comunista e o sistema liberal capitalista.

A URSS, aliada na 2ª Guerra Mundial contra o Nazismo, tornou-se inimiga da coligação anglo – saxâ, defensora dos valores da sociedade ocidental contemporânea. A Cortina de Ferro foi o mais implacável círculo de giz da história contemporânea.

Em 1961, auge da Guerra Fria, depois da Revolução Cubana de cunho socialista intensificaram-se as defesas dos Blocos quase surgindo uma Terceira Guerra Mundial, foi preciso a União Soviética retirar os mísseis com ogivas nucleares de Cuba, bem na porta dos USA. Nessa época foi construído pela União Soviética o Muro de Berlim, dividindo a cidade de Berlim entre os setores comunista e capitalista, a expressão “cortina de ferro” foi consolidada na imprensa e opinião pública. Era o mais novo círculo de giz ou de concreto, implantado pelo regime soviético na Europa dividida.

A Guerra Fria entre os dois sistemas políticos, determinou um apartamento econômico, social, cultural entre as nações. Em Berlim no muro intransponível muitos habitantes da parte oriental foram mortos ao tentarem transpô-lo, era o isolamento ideológico para não contaminar o regime socialista com os bens de consumo do capitalismo liberal. O Muro de Berlim, círculo de giz bem delineado na bela capital da Alemanha, dividiu famílias, casais, amigos.

A Cortina de Ferro finalmente acabou-se depois do povo demolir o Muro de Berlim em 1989 e da queda dos vários regimes comunistas que dominavam o leste europeu, revolta e descontentamento com a falência da retórica socialista, em especial no campo econômico. Durante esse período vários países tentaram liberta-se do jugo soviético, como a Hungria em 1956, A Primavera de Praga em 1968, todos os movimentos esmagados pelas tropas soviéticas.

Passei esses últimos dias conhecendo os países do Leste Europeu, grata surpresa, beleza urbana, economia pujante. Ainda restam pedaços conservados do Muro de Berlim, fiz documentário fotográfico do desenho famoso, o presidente russo Brejnev beijando Honecker presidente da Alemanha Oriental. O Muro de Berlim foi o último círculo de giz concreto de uma época insana contemporânea da humanidade.

Para completar a série de círculos, visitei na Alemanha a marcante vergonha da humanidade, o Campo de Concentração de Sachsenhausen onde os nazista exterminavam o povo judeu e não ariano.

Nada melhor que uma viagem, conhecendo mais o mundo se conhece mais nossa aldeia. Relaxei, desliguei-me completamente até do mais novo círculo de giz inventado pela modernidade, o Face book.

O INFORMANTE

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Bar do Chope

No início ele veio se achegando entre os frequentadores do Bar do Chope, Rua do Livramento. Ninguém sabia de onde Etelvino tinha vindo com aquele ar de malandro carioca, puxando de uma perna. Diariamente no início da tarde ele aparecia com um jornal embaixo do braço, mancando, cumprimentava os habitués do Bar do Chope, abria o jornal e danava-se a ler. Era jornal da semana anterior, mas impressionava por ser jornal de grande circulação no sul do país, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil.

Com o tempo Etelvino conseguiu plantar informações que o deixou muito respeitado entre os desocupados e boêmios de plantão. Certa vez conversando com um bêbado, ele insinuou ser informante do S.N.I. e das Forças Armadas. No início dos anos 70, auge da ditadura, isso era nitroglicerina pura, como diria depois de alguns anos um nosso Presidente.

Histórias cheias de mistério, invencionices, cada vez mais circulavam no bar. Uns diziam que Etelvino mancava consequência da explosão de uma granada na luta armada contra comunistas, outros afirmavam com certeza, ele era coronel da Aeronáutica, mancava devido à queda de um avião. Todas as histórias convergiam ele ser um araponga em busca de informações, gente importante naqueles anos. Deviam tomar cuidado, não falar sobre política na frente da autoridade. Meter o pau no presidente Médici, nem pensar. Era cadeia certa.

Etelvino alimentava o mistério sobre sua situação, às vezes exagerava em opiniões e histórias. Já fazia parte da roda de desocupados. Quando ele chegava, os companheiros perguntavam pelas novidades. Ele sério colocava o indelével jornal na mesa, entrelaçava os dedos das mãos e iniciava suas invencionices em tom confidencial, carregando no sotaque carioca.

– Ontem jantei com o coronel comandante do 20º BC no quartel do Exército, infelizmente não posso revelar detalhes, entretanto, digo uma coisa meus amigos, aqui para nós, não vão dizer que fui eu que falei, confio em vocês. É que lá pelo Amazonas para as bandas do Rio Aragarças e Araguaia está havendo maior guerra. Os guerrilheiros comunistas treinados em Cuba, China e Moscou, estão lutando contra os pára-quedistas do Exército. A coisa está preta, muitos mortos e feridos dos dois lados.

Os colegas de copo ficavam admirados. Essas notícias eram proibidas de serem publicadas em jornais, o que dava uma maior credibilidade ao Coronel Etelvino, como os desocupados já o chamavam. Era coronel para cá, coronel para lá.

Etelvino tinha uma boa fonte de informação. Seu sobrinho, sargento da S/2 secção de informações do 20º BC, passava-lhe algumas notícias por alto, o tio insistia. Depois ele desenvolvia a história com fanfarronice no Bar do Chope.

Certo dia ele estava lendo O Globo da semana anterior, enquanto 10 a 12 estudantes bebiam e conversavam junto à sua mesa. Ele ficou escutando a conversa, maior atenção. Logo depois Etelvino se juntou aos amigos numa mesa mais ao canto e começou sua história da tarde. Os bêbados ficaram emocionados em verem os personagens bem perto, ao vivo.

– Estão vendo aqueles estudantes, são todos comunistas, fichados. Aquele magro é o Eduardo Bomfim, o galego é o Ronaldo Lessa, o outro mais gordinho chama-se Jurandir Bóia, ainda tem o Ênio Lins, o Aldo Rebelo e o José Rocha. Estão bebendo e tramando subversão. Serão presos nesses próximos dias.

Os vadios ficavam na maior excitação. Ele sabe de tudo! Que cara bem informado. Admiravam e se orgulhavam da amizade do Informante.

Até que certa tarde quando a “galera” puxava um chope ouviu-se um tiro, dois tiros, vários tiros. Maior correria na Rua do Livramento, gente se abaixando, outros se deitando. Foi Ivanildo Omena, irmão do famoso Cabo Henrique, havia assassinado, descarregando o revólver no seu inimigo Paulo Calheiros no meio da multidão em frente à Igreja do Livramento.

Quando acabaram os tiros, serenou a gritaria, corpos no chão, os bêbados gritaram, “Coronel prenda o assassino”. Só encontraram o grande ídolo algum tempo depois, encolhido embaixo de uma mesa por trás da mureta. Ao responder a um colega que exigia sua interferência naquele brutal assassinato, ele balbuciou, gaguejando, tremendo, ainda acocorado:

– Não… não.. não sou co..coronel não!!!

Ao correr para o banheiro Etelvino não pode esconder a calça melada, cagou-se de tanto medo. Depois desse dia nunca mais o carioca Etelvino, o informante, apareceu no Bar do Chope, nem no Centro da cidade.

LEMBRANÇAS DA ACADEMIA

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Academia Militar das Agulhas Negras

O tempo passa, o tempo voa, nesse final de ano serão comemorados 55 anos da formatura de minha turma da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN – 1961. Muitas histórias, lembranças, daquela época estão nítidas em minha mente, como se fosse ante ontem. Foram três anos de rígida formação militar, intelectual e física. Entretanto, a vida de cadete fora dos muros da Academia foi vivida com muita intensidade.

Certa noite gelada de inverno, resolvemos ir à boate Casablanca, éramos sete cadetes bebendo no Bar Zé Carioca em Resende. Ao chegarmos chamávamos atenção, cabeças raspadas, rapazes cheios de saúde, fazíamos furor entre as mulheres do famoso cabaré. Alguns tinham namoradas no lupanar. Nos anos dourados, românticos, prostitutas se apaixonavam.

O conjunto tocava música lenta, salão cheio, pares dançando, se divertindo. De repente um colega, bêbado, tirou para dançar a acompanhante de um caminhoneiro. Depois de áspera discussão, o forte caminhoneiro acertou um murro, o cadete caiu ao chão. Ânimos exaltados, começou uma briga generalizada no salão do cabaré, eu nunca tinha visto luta igual, só em cinema. Murro de um lado, de outro, cadeiras se arrebentando nas costas, nos braços, copos voando. Cadetes x Caminhoneiros. Já havia um bom tempo de briga quando colegas gritaram: “A patrulha da Academia chegou, vamos fugir pelo campo moçada! ” Corremos em direção ao mato, cada um por si no meio do matagal até chegarmos a algum destino.

Ao pular uma janela no fundo do salão senti forte pancada, quebraram uma cadeira em minha cabeça, desmaie. Um colega veio em meu socorro, acordou-me, arrastou-me pelo ombro para o mato. Nesse momento, a Patrulha já havia prendido dois cadetes. Na marcha de retirada noturna pelo matagal fui levado no ombro do colega. A dor aumentando, o sangue não estancava, continuava sangrando. Pedi ao amigo me deixar, preferia apresentar-me à patrulha. De qualquer modo, o ferimento iria me denunciar. Alguns colegas conseguiram se evadir, embrenhando-se matagal a dentro.

O colega improvisou uma atadura com minha camisa apertando o ferimento, tentando estancar o sangue, a cabeça doía. Retornei ao cabaré, fui devidamente preso pela patrulha e escoltado à enfermaria da AMAN, costuraram 20 pontos na cabeça. Eu e mais dois colegas amanhecemos o domingo na prisão da Academia.

Dias depois do acontecimento, cantou no Boletim Interno, transcrito de minhas alterações (assentamentos).

“Punição – Cadete de Infantaria Carlos Roberto Peixoto Lima – Por ter frequentado ambiente não compatível com a situação de cadete, por ter ingerido bebida alcoólica, por ter participado de uma briga contra civis, infringido o R/4, Regulação Disciplinar do Exército, fica preso por 15 dias. Permanece no comportamento bom. Punição de caráter repressivo.”

A prisão em si foi fácil, pouco tempo, afinal, havia dois companheiros fazendo companhia. A cadeia era um cubículo bem arrumado junto ao Corpo da Guarda. Todos os dias saíamos para assistir aulas, educação física e instrução militar. O problema foi a sindicância para apurar os fatos e quem mais participou da briga. O capitão encarregado era encrenqueiro, chato e prepotente. Fez pressão, marcação constante para que eu delatasse os companheiros fugitivos. Todo tarde me convocava para depor; deixava-me numa cadeira por mais de duas horas esperando. O capitão me ameaçava se não delatasse os companheiros seria desligado da AMAN, se delatasse, conseguiria aliviar a punição. Tentou métodos psicológicos, me convencendo ser para o próprio bem de meus amigos, mereciam punição, era uma maneira de educar. O capitão aplicava uma simples tortura mental. Entretanto, jamais delatar era ponto pétreo do nosso código de honra, não escrito, respeitado.

Entre os cadetes havia destaque, os atletas das equipes de futebol, voleibol, atletismo, natação, entre outros, eram os mais destacados. Depois os “cu de ferro”, boas notas, os que estavam sempre entre os primeiros na classificação. Os cadetes levavam uma vida simples, austera, de muito estudo e disciplina, de repente aparecia um fato isolado, caso da briga, fiquei famoso.

Certo domingo escalaram-me de serviço de cabo das baias no Curso de Infantaria, função, fiscalizar a limpeza das baias e dos animais (a Infantaria ainda tinha burro e cavalos). O sargento de dia era um cadete do terceiro ano. Passei o domingo conversando com o colega, lamentou ser pobre, vida difícil, filho de alfaiate. Por conta desse domingo de conversa houve maior aproximação entre nós; quando o via no pátio ou no cinema, depois do jantar, conversávamos bastante. Tornou-se meu amigo.

Fiquei pasmado, admirado, incrédulo quando, em 1969, li uma notícia nos jornais que certo capitão Carlos Lamarca tinha roubado armas e munições no quartel de São Paulo e partido para a guerrilha. Lamarca era o cadete, companheiro de serviço naquele domingo frio da Academia Militar das Agulhas Negras.

ASSISTÊNCIA VIRTUAL

Alô Dirceu, não imagina onde estou“. Falou ao celular uma voz feminina, rouca de cigarro, sotaque carioca. Dirceu reconheceu de imediato. Surpreso respondeu. “Marília, você deve estar na praia de Ipanema tomando um belo chope“.

– Estou em Maceió, meu querido, à beira da piscina do belíssimo Hotel Jatiúca. Hoje pela manhã fui deixar uma amiga no aeroporto do Galeão, viajando à Maceió, uma semana numa excursão. Não resisti, telefonei para casa, dei uma desculpa boba, comprei a passagem no balcão, estou aqui, minha irresponsabilidade é do tamanho da vontade de conhecer meu amado Dirceu à cores e ao vivo.

Deu uma gostosa gargalhada enquanto ele sobre o impacto da surpresa pensava o que fazer. Desculpou-se, pediu para retornar a ligação em 30 minutos.av

Dirceu saiu da sala foi à varanda do escritório, acendeu um cigarro, puxou uma longa tragada, recordou rápido como tudo começou. Há 15 anos se rendeu à esposa e filhos comprou um computador, inevitável no mundo moderno. Hoje não pode viver sem um, seja no escritório, nos negócios, no lazer. Tem como distração conversar nas redes sociais, boa parte da noite dedica aos amigos virtuais.

Ano passado encontrou Marília numa sala de bate papo, deram-se bem, ela viúva, ele casado há mais de 30 anos, pareciam ter a mesma visão do mundo, o gosto convergente pelas letras, artes e história, passavam horas teclando, conversando, sessentões revolucionários, ainda querendo mudar o mundo. De um tempo para cá a afinidade aumentou, troca de confidências, fotografias, às vezes conversa ao telefone. Naquele momento deu-lhe uma vontade imensa de encontrá-la no hotel, entretanto, tem respeito e amor à esposa. Contar a verdade seria um problema maior, estava a definir a estratégia quando o celular tocou. “E aí, menino, a gente vai se ver?” – “Claro que sim, espere-me no hotel, são três e meia, às quatro e meia estarei aí” marcou Dirceu, cujo nome verdadeiro é Abelardo Silveira. “Espero aqui na piscina“, respondeu Marília, nome virtual de Carolina Paes Leme, ambos 65 anos.

Pontual, Abelardo entrou no hotel às 16:30 h. atravessou o hall, parou no terraço olhando devagar, os hóspedes curtindo a tarde de verão na piscina. De repente percebeu uma mulher sozinha de biquíni deitada numa cadeira, ao se aproximar, ela levantou-se sorrindo, bem perto se encararam, olhos nos olhos, naturalmente deram-se um abraço demorado, terno e sensual. Abelardo alegrou-se com o corpo e a beleza da amiga, coroa mais bonita e conservada não havia conhecido. Abraçando-a pelos ombros levou-a ao bar onde conversaram alegremente acompanhando bebidinha e salgadinho. Eram sete da noite quando Abelardo recebeu um telefonema da mulher perguntando se iria jantar, ele confirmou, não havia percebido o tempo passar. Olhou para Marília, disse enfático.

– Minha querida nunca lhe escondi meu casamento, estou num dilema, contar à minha mulher será bem pior, por isso peço-lhe, me aguarde, eu telefono amanhã às 9 da manhã. Espere.

Em casa Abelardo ficou matutando como dar assistência quatro dias à Marília, a coroa mais bonita do Brasil. Lembrou-se, havia um problema, uma pendenga a resolver no Recife. Comunicou à mulher, dia seguinte pela manhã viajava ao Recife. Dirceu apanhou Marília na entrada do hotel, dirigindo devagar, rumaram ao Litoral Norte alagoano, mostrou praias lindas de um azul exuberante, Ipioca, Paripueira, Japaratinga, Maragogi, entrou em Pernambuco. No Recife hospedaram-se na praia de Boa Viagem.

Ao ficarem juntos e a sós no apartamento, beijaram-se, amaram-se devagar com muito carinho e ternura, como pessoas maduras. No início da tarde Abelardo resolveu o problema no bairro do Recife Antigo. Ficaram por lá visitando os casarões coloniais. As ruas estreitas, antigas, encantavam o casal sessentão. Fizeram uma noitada de vinho e amor.

Dia seguinte retornaram à Maceió, via litoral, devagar, conversando, sem importar o passado ou futuro, sábios, idosos, sabem dar valor ao presente. O tempo é um relâmpago. Durante o restante dos dias, Dirceu fez estripulias, mas conseguiu dar assistência à Marília e não foi assistência virtual.

DISCRETAMENTE

Nove meses após o casamento do Dr. Romero e Dona Marilena nasceu Maria Aparecida; ano depois veio Ana Maria. As duas eram xodós da mãe, Dona Marilena, como se brincasse de boneca, vestia as duas iguaiszinhas, andavam juntas, estudavam juntas, só não pareciam gêmeas porque Cidinha era branca igual à mãe e Aninha morena como o pai.

Na adolescência a primeira revolta, acabaram esse negócio de se vestirem iguais. Aos 13 anos Aninha, mais esperta, já havia beijado um namoradinho. Cresceram na praia da Pajuçara. A juventude dos anos dourados era uma festa, apareceram namorados, Henrique amava Aninha que amava João que amava Cidinha que amava Henrique, assim nesse círculo amoroso passou o tempo. Para desespero e dor de corno de Henrique, João namorou Aninha, engravidou, noivaram e casaram em uma festa bonita no sítio dos pais na Massagueira beirando a Lagoa. No dia do casamento, sem esperança de Aninha, Henrique cedeu aos encantos de Cidinha, começaram namoro, em dois anos casaram-se na mesma casa, no mesmo terraço, no mesmo jardim.ds

Anos passaram, os dois casais unidos em torno da família, vieram filhos para alegria dos avós. Dr. Romero comprou três apartamentos no mesmo prédio onde foi morar, deu um a cada filha, facilitando a visita constante dos netos, para felicidade de Dona Marilena.

Entretanto, a vida é um relâmpago como disse o poeta Lêdo Ivo, de repente um infarto, Dr. Romero caiu fulminado no chão de sua cozinha onde gostava de se deliciar com carnes gordurosas e as pernas das empregadas, tinha o pecado de gostar de mulher, às vezes se distraia com raparigas arranjadas por Audálio, o motorista.

Os genros tomaram conta dos negócios do sogro, inclusive uma fazenda lucrativa, eles se davam bem, corretos, os negócios continuaram a dar sustento de classe média alta para família. Entretanto, João percebia, era visível o carinho, o desvelo, de Henrique por sua mulher, tinha ciúme contido para o bem da família.

O destino tem seus caprichos, certa noite os dois casais saíram para uma festa, muito vinho, comida, bebida. Ao voltar, João dirigia em velocidade, Henrique pediu para desacelerar, João virou a cabeça, “está com medo?” Nesse momento, um estrondo, um jipe vinha no sentido contrário bateu de lado, o carro virou duas vezes, gritos de dor. Custou a chegar socorro. Todos levados ao hospital foram atendidos, apenas João precisava maiores cuidados, ficou internado, entrou em coma, morreu uma semana depois. Maior tristeza para família, muita dor, contudo, a vida continuou.

Um anos após a morte de João, Cidinha inventou uma viagem, um cruzeiros às Ilhas Gregas. Deixaram os filhos com a avó, na Itália tomaram um transatlântico de luxo, duas semanas visitando as românticas, Miconos, Patmos, Lesbos, entre outras. No navio toda noite depois do jantar, dançavam, se divertiam, arranjavam paqueras para Aninha, sempre rejeitados discretamente. Certa noite a orquestra tocou “As Time Goes By”, Aninha pediu permissão à irmã pegou na mão de Henrique, puxou-o, dançaram lentamente. Aninha abraçava o cunhado, olhou em seus olhos perguntando, “lembra da música, vimos o filme juntos no Cinema de Arte”, ele sorriu. “Inesquecível, está guardada em minha mente e coração, já assisti “Casablanca” 300 vezes pensando em você”. Aninha sorriu. Ele continuou, “somos adultos, quase velhos, entretanto, amor não envelhece, nunca deixei de lhe amar, todos sabem, inclusive João, ele sabia. Só agora confesso a verdade, apenas para nós dois, Casei-me com Cidinha para estar perto de você”, calaram-se, abraçaram-se, juntaram o rosto. Nesse momento Henrique sentiu uma mão leve nas costas, a esposa comunicava cansaço, ia se recolher, ficassem mais um pouco. Dançaram apertados. Discretamente entraram no camarote da cunhada e se amaram pela primeira vez com toda ternura recolhida que tinham para dar.

Dia seguinte no café da manhã os três felizes, alegres, conversavam sobre o que viria na continuação. Ao retornarem contaram as aventuras à família e aos filhos, mostrando fotos da viagem linda maravilhosa..

Henrique hoje, aos 63 anos, vive bem com Cidinha, a esposa, em seu apartamento. Vez em quando, encontros de amor, ternura e carinho com Aninha, a cunhada. Os três sabem, discretamente.

GUILHERME PALMEIRA

gp

Somos amigos há muitos anos, bote anos, nossos pais eram amigos, acho que até nossos avós e bisavós, somos amigos desde quando éramos índios caetés povoando o litoral alagoano, o mais bonito e charmoso das costas brasileiras.

Quando eu morava no Rio, vez em quando ia à casa do Senador Rui Palmeira na Rua Almirante Guilhobel, depois de um bom almoço dominical, partíamos para o Maracanã assistir vitórias do Fluminense.

Nossas férias nessa bela Maceió foram maravilhosamente aproveitadas, praia da Avenida, Pajuçara, réveillon da Fênix, carnaval nas ruas e nos clubes. Bela época dos anos dourados, aproveitamos, vivíamos nossa cultura popular, época do cinema novo, da bossa nova, revolução dos costumes, queríamos também transformar o mundo, como qualquer jovem.

Certa vez no Engenho Prata, São Miguel dos Campos, em conversas, tira gosto e cervejinha gelada, Guilherme comunicou ser candidato a deputado estadual nas eleições de 1966, alegria geral. Dias depois Esdras Gomes distribuía adesivos, GP 66. Foi uma vitória retumbante, iniciava naquele momento uma carreira política das mais admiráveis na história das Alagoas.

Final de 1967 eu servia na 9ª Companhia de Fronteira, Roraima, promovido a Capitão, vinha definitivamente para Maceió, estava classificado no 20º Batalhão de Caçadores, 20 BC. Ao chegar em casa pela tarde, coloquei um calção desci à praia da Avenida, depois de um bom mergulho e braçadas naquele mar azul do tamanho do mundo, fiz uma promessa, nunca mais sair de Maceió. Cumpri a promessa, deixei até a carreira militar.

Maceió uma festa, continuei meus estudos na Faculdade de Engenharia, tempo de viver uma Maceió ensolarada. Logo formamos um quinteto inseparável, Guilherme Palmeira, Marden Bentes, Eduardo Uchoa e Galba Acioly, jovens, solteiros e bonitos, fazíamos a festa onde chegássemos. Éramos conhecidos entre as melhores famílias, entre as jovens deslumbrantes, como também nos bares e lugares não compatíveis às moças casadoiras, nos cabarés da vida. Convidados para batizados, casamentos, aniversários, alegrávamos as noites com bom humor e fidalguia. Jovens boêmios, considerados bons partidos, custamos a casar.

Acompanhei a vida política de Guilherme, deputado, governador, senador, prefeito de Maceió. Finalmente Ministro do Tribunal de Contas da União, aposentado se estabeleceu em Brasília, nunca esquecendo sua querida Alagoas, vez em quando às sextas feiras reúne amigos na varanda do apartamento, praia da Ponta Verde para conversas e uma rodada de uísque.

Guilherme prefeito de Maceió, fui Secretário de Desenvolvimento Urbano. Travamos campanha e briga contra qualquer tipo de poluição. Descobri ser proibido colocar qualquer tipo de placa ou outdoor na ladeira da antiga rodoviária, anunciei. a derrubada de todas as placas e outdoors, maior poluição visual, distraindo a atenção dos motoristas. Na véspera, término do expediente, recebi um telefonema de um advogado avisando, dia seguinte a Secretaria receberia uma liminar do Tribunal de Justiça cancelando a derrubada.

Fiquei a pensar sozinho em meu gabinete. Tomei a decisão, convoquei os funcionários, fiscais, caminhão, às seis da manhã, antecipei, derrubamos todos outdoors, foi lindo aparecer aquela mata verde exuberante, permanece ainda hoje. A liminar chegou às minhas mãos ás nove da manhã, o serviço já estava feito. O juiz mandou me prender, Guilherme tomou as dores, assumiu ter ordenado aquela ação, me esconderam numa casa em Paripueira, passei quase uma semana naquela bela praia. Só não fui preso devido ao pulso firme de Guilherme e a competência do advogado Diógenes Tenório de Albuquerque em minha defesa.

Lembrei esse fato mostrando a firmeza de caráter, honestidade, amor à sua terra, sapiência e liderança de Guilherme Palmeira, o melhor prefeito da história de Maceió. Desculpe o Rui, ele é o segundo melhor.

Hoje Guilherme vive cercado de amigos que o admiram. Ele orgulhoso do filho, Rui Palmeira, seu herdeiro político na decência e no amor à terra, fazendo uma gestão eficiente e honesta na Prefeitura. Nos próximos quatro anos, Rui deixará Maceió no topo da cidade mais bonita do Brasil, para maior orgulho de Guilherme.

A MASSOTERAPEUTA

– “Como é ruim desconfiar da mulher”, pensava Pedro Clementino tomando cerveja, sozinho, no Bar da Biu. “Cicinha tem outro cara ou está fazendo programa. Todo dia uma novidade, celular, vestidos, calcinhas bonitas entrando pela bunda, até presente para mim. Cada dia mais gostosa, mais bonita. Seu salário não dá para isso, de onde vem esse dinheiro? Não nasci para ser corno. Vou descobrir tudinho”. Martirizava-se em dúvidas o jovem Pedro.

Tudo começou quando Pedro Clementino veio do sertão tentar a sorte na capital. Por lá não havia possibilidades de emprego, nem melhoria de vida, a população vive praticamente da bolsa família ou aposentadoria do INSS. Pedro ao chegar no Jacintinho foi morar num quarto alugado de uma casa apertada, mal lhe cabia. Arranjou seu primeiro emprego, servente de pedreiro em uma construção no Tabuleiro, passou a sobreviver do salário mínimo.mtr

Logo descobriu as praias da capital, a coisa mais linda e exuberante de sua vida. Todo domingo desce a ladeira do Jacintinho rumo à Jatiúca, se esbalda na areia da praia, um menino, melado feito um bife à milanesa mergulha no mar azul esverdeado.

Cicinha empregada doméstica em um belo apartamento na orla da Ponta Verde, morava com a mãe, conheceu Pedro num bar enquanto ele dedilhava um velho violão cantando músicas ouvidas no rádio. Ao avistá-la, sorriu, paixão repentina, Cicinha, bela morena, olhos negros, constante sorriso nos lábios, correspondeu aos olhares insistentes de Pedro. Nessa mesma noite se amaram no quarto apertado, começava uma história de amor. Os dois, 24 anos, se deram bem, divertiam-se nos bares, nas praias, na cama além do amor, Cicinha dava-lhe uma massagem relaxante. Resolveram se juntar, mudaram-se para uma casa pequena, aluguel R$ 200,00, dividido. Pobres não se casam, acasalam-se. Assim se passaram dois anos de felicidade e muito amor, preveniam-se da gravidez.

Cicinha tem uma rotina no emprego, às sete horas prepara um suco de laranja para o patrão, antes dele caminhar na orla. Ao retornar Dr. Sílvio toma um café reforçado. O rico comerciante, coroa bonito, casado pela terceira vez, em torno das oito horas ruma ao trabalho, enquanto Michelle, a esposa, vinte e cinco anos mais nova, acorda às 10, um suco para despertar, vai à Academia, malha duas horas seguidas, é seu grande sacrifício pela pátria e a família. Se mantém gostosa aos 40 anos.

No fim de semana Cicinha carrega o companheiro para praia, cerveja gelada, acarajé, ele é excelente companhia , se lambuza na areia, aluga uma bóia e parte mar adentro. Algumas brigas normais, entretanto, a cama e a massagem são aliados do amor.

Certa manhã Cicinha chegou atrasada no emprego, Dona Michelle estava em São Paulo comprando roupas nas Zara da vida. A empregada não teve tempo de colocar a farda de doméstica, ainda de mini saia preparava o suco do patrão, Dr. Sílvio percebeu a beleza de seu corpo. Durante a caminhada, surgia na mente as pernas da empregada. No retorno o patrão sentado à mesa da cozinha, esperou o café reforçado enquanto admirava o corpo de Cicinha fritando ovo. O patrão não aguentou, levantou se, encostou-se em Cicinha, ela sentiu o volume por trás, tomou um susto, “que é isso Dr. Sílvio?” disse acanhada, repreendendo-o. O patrão voltou a sentar enquanto ela servia o café.

Dr. Sílvio, homem de pouca conversa, foi taxativo. “Olha Cicinha não sou mais uma criança, tento viver a verdade da vida. Hoje lhe descobri, vou fazer-lhe uma proposta, dou-lhe o que quiser por uns abraços, um toque.” Ela voltou ao fogão enquanto ele comia, olhava de lado. Silêncio sepulcral Ao levantar-se Dr. Sílvio abraçou-a por trás, ela gostou, levantou-a rumo ao quarto de empregada, fizeram amor. Cicinha complementou uma massagem, o patrão sentiu-se leve, disposto, sem as constantes dores na coluna. Ao sair deixou-lhe num envelope seis notas de R$ 50,00. Dr. Sílvio não pode mais viver sem a massagem de Cicinha, duas vezes por semana, leva-a a um motel, sai feliz da vida, corpo e alma leve como uma pluma.

Foi difícil explicar a Pedro ao pedir satisfação daquela “riqueza” repentina. Cicinha contou a verdade, pela metade. “Numa manhã o patrão reclamava de dores lombares, ofereci uma massagem, aprendi num curso, tenho força nas mãos, foi sucesso. Agora faço massagem duas vezes por semana no patrão e na patroa, eles me pagam R$ 50,00 cada massagem. Um dia vou deixar meu emprego, quero viver só de massagem, fiz curso, sou massoterapeuta. Vou ficar rica e deixo você.” Disse brincando, abraçando seu homem.

Pedro Clementino, satisfeito com a explicação, beijou-lhe os lábios, o pescoço, amou-a. Estão vivendo felizes como se fosse para sempre.

PIU-PIU

Minha memória é recheada de pessoas com quem convivi ou simplesmente conheci, tornaram-se inesquecíveis. Uma delas foi Piu-piu, um maceioense elegante, constantemente trajando paletó arrumado, de fazer inveja a lordes ingleses.

Eu tinha meus 10 anos de idade, meu pai costumava levar os filhos homens para o centro da cidade ao fim da tarde para tomar uma cerveja com amigos no Bar Colombo, o ponto de encontro de intelectuais, escritores, boêmios e outros desocupados. A meninada se fartava de sanduíche, pão francês, fiambre e queijo do reino acompanhado de um saboroso caldo de cana moída na hora. Toda tarde a Rua do Comércio se apinhava de gente, moças acompanhadas das mães fazendo compras nas casas comerciais, figuras da cidade apenas passeando. Encontravam-se nos bares, lojas e no Cinearte (depois São Luiz). bg

Uma dessas figuras ficou-me inesquecível pela elegância e tamanho, forte e falastrão, conhecido como Piu-piu. Impecavelmente vestido, todos os dias ele aparecia de jaqueta (blazer) com botões dourados, calça bem passada, uma bota preta de cano longo completava a vestimenta. O charuto dava um ar de esnobe ao comerciante. Piu-piu apesar de trajes tão distintos vivia de um pequeno comércio, venda e compra de antiguidades, objeto de artes, ouro, prata e jóias. Dava para sustentar a pequena família e seu inigualável guarda-roupa. O antiquário além de se vestir bem, era esmerado na arrumação pessoal. Cabelos impecavelmente penteados com brilhantina Glostora, barba bem feita. O bigode denso, digno de um príncipe hindu ou de um kaiser alemão, grosso, bem frisado, as pontas de curvas perfeitas faziam meia lua subindo como se apontasse para o céu. Diziam que o bigode do Piu-piu era frisado por ferro de engomar.

Nosso herói morava no bairro do Prado, mas vivia no centro da cidade. Além das túnicas ele aparecia de chapéu Panamá, as mãos reluzentes de anéis de todos os tipos, seus dedos eram dourados e brilhantes. Na Rua do Comércio, impreterivelmente às 14 horas desfilava sua elegância e pretensa arrogância, pois se dizia brigador, disposto a qualquer luta. Andava armado, punhal e revólver.

Seu bigode era atração, ele tinha uma verdadeira adoração na manutenção daqueles dois tufos intocáveis. Ficou contrariadíssimo quando jovens, estudantes, colocaram o apelido de Piu-piu, “Bigode de Arame”. Muitas vezes correu atrás de estudantes que gritavam “Bigode de Arame”, empunhando o punhal, levava sempre na cintura, por baixo do paletó.

Contavam-se muitas histórias da vida de Piu-piu. Um fato marcante ficou na história de Maceió, comentado por muitos anos nas rodas do Bar Colombo. Fato brilhantemente contado pelo historiador Félix de Lima Júnior no livro Maceió de Outrora.

Nos anos 30/40, Maceió vivia um intenso momento intelectual, moravam na cidade e se reuniam no Bar Colombo, os escritores, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manoel Diegues ( pai do Cacá Diegues), Raquel de Queiroz, Lêdo Ivo, José Lins do Rêgo, Arnon de Mello, Aurélio Buarque de Holanda, entre outros. Por outra parte o Estado de Alagoas vivia um momento de intensa intriga política, o que nunca foi novidade. Dois grupos políticos se digladiavam: O do Senador Fernandes Lima, de quem Piu-piu era amigo pessoal, ligado e defensor; e o grupo do austero governador Costa Rego, homem duro, apesar de seu amor e pendor às artes, tratava os inimigos com repressões constantes.

Certa tarde na Rua do Comércio o nosso valente Piu-piu disse não ter medo de ninguém, nem mesmo do governador e destemperou impropérios, atacando o governador Costa Rego em um discurso improvisado nos arredores do Bar Colombo.

Dois dias depois ele estava parado em frente ao Relógio Oficial, quando cinco homens desceram do bonde vindo de Jaraguá. Dois deles derrubaram Piu-piu, outros dois seguraram pelos braços e pernas, e o último homem com uma tesoura foi cortando, arrancando o suntuoso bigode, fio por fio, sem que o valente Piu-piu desse qualquer gemido. Não deu um piu. Os amigos não acudiram, ficaram com medo daquela briga, 5 contra 1. A polícia chegou quando o serviço acabou. Arrancaram o bigode mais famoso do Estado. A região do lábio superior de Piu-piu ficou deformada. Ele só voltou a frequentar o Bar Colombo muito tempo depois, quando conseguiu regenerar seu bigode de arame. Tornou-se herói.

A rapaziada do Liceu Alagoano aproveitou o fato para versejar e cantou seus versos no Comércio: “O navio apitou… A canoa virou… O bigode do Piu-piu… Marroquim arrancou”. Piu-piu, Marcolino Ribeiro da Silva, morreu aos 98 anos em Maceió no dia 5/3/65.

DE COMO CRISTINA, BELA, RECATADA E DO LAR, TRANSFORMOU-SE NA DONA DA NOITE

Era uma vez em Maceió, uma jovem, bela, recatada e do lar, marido de tradicional família do açúcar alagoano. Cristina, aluna do Colégio Santíssimo Sacramento, aprendeu costura, cozinha, ser rainha da casa. Pai evangélico, a filha saía à rua, às festas, se acompanhada dos irmãos, assim, sua virgindade permaneceu invicta até o casamento. Sua beleza e sensualidade exuberantes chamavam atenção. Numa festa de Carnaval conheceu Antônio Alfredo, mancebo de família rica, estudante de Direito em Coimbra, bonito, másculo, o xodó das mulheres, passava férias na cidade.

Antônio Alfredo encantou-se com Cristina, a bela, iniciaram namoro de portão de casa, horário e vigilância rígidos. Dentro de dois anos casaram-se, apesar da resistência dos pais do noivo, não era bem querer a entrada de uma filha do pastor na família. Antônio, advogado das empresas familiares, se impôs, casou-se, com direito à Lua de Mel na Europa.br

Três anos se passaram, o casal bonito chamava atenção. Antônio não queria filho, Cristina frustrada. O ritmo de amor na cama diminuiu, às vezes mais de um mês sem um carinho. Em conversa com Sofia, Cristina ouviu com atenção o relato das peripécias sexuais da prima na cama com o marido, ele não podia viver sem aqueles carinhos especiais. Cristina, ingênua, encantou-se com os detalhes contados, acendeu uma fogueira em suas entranhas, quase adormecidas.

À noite, depois do banho, vestiu minúscula lingerie preta, divina. Antônio ao deitar disse apenas cansado, deitou-se pro lado. Foi um tabefe em Cristina, ela não admitiu, abraçou o marido, atacou com volúpia, mãos e bocas entornaram aquele corpo másculo. Antônio levantou-se, olhou para esposa, repreendeu, “quem faz isso é prostituta, quem lhe ensinou? Você quer ser rapariga? Me deixe me paz”. Foi dormir em outro quarto.

Cristina chorou, seus instintos desejavam aqueles carinhos ensinados pela prima. Ela se perguntava, era uma tarada? uma quenga? Custou a dormir. Antônio jamais voltou a falar sobre o acontecimento daquela noite.

O casal gostava de passar fim de semana no bucólico sítio na Bica da Pedra, beirando a lagoa. Certo domingo Cristina teve que retornar à Maceió mais cedo, o motorista viria buscar Antônio perto da noite, deixou o marido cheio do uísque deitado na rede. Vinte minutos de viagem sentiu a falta da bolsa, naquela época não havia telefone, resolveu voltar ao sítio. Ao entrar na casa não havia vestígio do marido, apanhou a bolsa em cima da mesa, retornava ao carro, de repente ouviu barulho em seu quarto. Ao abrir a porta, um choque inesperado, a cena mais horripilante permaneceu na memória para o resto da vida. O belo Antônio, nu, na posição que Napoleão perdeu a guerra, de quatro, o filho do morador montado. Cristina soltou um grito de horror, correu, entrou no carro, chorando até chegar em casa.

Era noite quando Cristina parou de chorar, tomou um banho, nua, olhou-se no espelho, achou-se bonita. Colocou um belo vestido, pegou um taxi em direção ao Zinga Bar em Riacho Doce, avistou alguns conhecidos, sentou-se à mesa com amigas, a partir dessa noite, escandalizou a província saindo com homens solteiros e casados. Cristina e Antônio tornaram-se comentários em todas as esquinas, bares e lares da cidade.

Certo dia, sem avisar, Cristina viajou ao Rio de Janeiro. Amou a balada carioca, bonita, fez sucesso entre artistas, políticos, desocupados. Arranjava emprego, entretanto, três vezes demitida por falta. Ela caiu nas noitadas cariocas. A nova vida terminou arrastando-a a uma fina casa de mulheres. Fez sucesso, mestra em todas as posições do Kama-Sutra, homens faziam fila esperando sua vez. Até que um dia um senador se apaixonou, deu-lhe apartamento, jóias, um emprego no Senado, letra O, em troca da exclusividade. Os anos passaram, dois filhos. Hoje, em Copacabana, nenhum vizinho sabe a origem, o segredo daquela bela setentona, “viúva”. Cristina, olha pela janela o mar azul, relembra da juventude, bela, recata e do lar. Tem planos, rever o sítio da Bica da Pedra.

AS TURISTAS

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Praia da Jatiúca onde as turistas alugaram apartamento

– Alô! O senhor tem apartamento mobiliado para alugar, por um mês?

Perguntou ao telefone, voz feminina, sotaque sulista. Santoro respondeu imediato.

– Tenho minha senhora, um quarto e sala, na praia da Jatiúca. Interessa ?

– Interessa. Posso vê-lo hoje às duas da tarde?

Santoro informou o endereço. Às 14:00 horas ele estava na portaria do prédio quando apareceram duas mulheres vestidas com saídas de praia, corpos bem torneados, divinas e maduras. Ana Lúcia, professora de música na USP e Paola, jornalista, ambas paulistas. Santoro ficou encantado com Ana Lúcia, simpática, envolvente, falante, risonha. Cabelos castanhos, rosto oval, olhos pretos brilhantes como uma estrela da tarde.

Elas gostaram do apartamento e da praia, fecharam negócio, um mês de aluguel adiantado, R$ 6.000,00. Santoro despediu-se, bolso cheio e o perfume de Ana Lúcia nas narinas. Em casa entregou o dinheiro à esposa, pagar contas atrasadas, nada como um dinheirinho fora da temporada. Santoro, funcionário público, comprou esse apartamento para melhorar a renda. Ganha um extra com a locação no verão quando Maceió se enche de turista, fora da temporada sempre pinga algum aluguel.

Dia seguinte, na hora do almoço, atendeu o celular.

– Seu Santoro, é Ana Lúcia, a inquilina, será que o senhor pode nos dar algumas orientações sobre a cidade, aluguel de carro, e outras dúvidas? Marcaram encontro às 19:00 horas no apartamento. Santoro, homem gentil, chegou na hora certa. Ao abrir a porta do apartamento uma grata surpresa, as belas mulheres estavam à vontade. Ana Lúcia, roupão de banho levemente aberto, brincou, esteja em casa!

Revista na mão, Paola mostrou o que queriam, conhecer Alagoas, litoral norte, litoral sul, alugar um carro, ter uma pessoa que as orientasse, um guia turístico particular nesse mês de férias. Pagariam bem, pediram a Santoro indicar algum amigo ou amiga. R$ 150,00 a diária do guia, livre, refeições e outras despesas por conta delas.

Em casa Santoro contou à esposa, a boa proposta das mulheres, estava pensando em seu cunhado, desempregado. Bernadete, mulher prática, sugeriu. Porque você não tira férias da repartição e pega esse serviço? Ainda pode alugar seu carro. Santoro gostou da proposta, imposta, de Bernadete. Telefonou para as moças, acertaram. Dia seguinte, ele apareceu de bermuda na hora combinada. Santoro, surfista na juventude, fina estampa, forte, passou o dia mostrando algumas praias, à noite deu uma volta na orla com as paulistas. Dia seguinte rumaram às praias do litoral sul até a bela cidade de Penedo às margens do Velho Chico.

Muito coqueiro, paisagem verde, as paulistas encantadas com a beleza dos mares e do Rio São Francisco. Tiveram uma boa surpresa, a conversa inteligente e culta de Santoro, homem chegado à leitura, profundo conhecedor da cultura nordestina. Em Penedo, pegaram dois apartamentos num hotel. Jantaram no Restaurante Rocheira, comeram, beberam e conversaram, sorriram bastante com as histórias do “guia”. Eram duas horas da manhã quando retornaram ao hotel cantando pelas ruas bucólicas entre casas coloniais da velha cidade histórica.

Pela manhã, os boêmios acordaram em uma larga cama depois de uma inusitada noitada de amor a três, “ménage à trois“.

As turistas passaram um mês percorrendo Alagoas, praia, sol, cultura, amor e boemia. Santoro guiou as paulistas com gentileza e carinho. As “coroas” ficaram fascinadas pela bela cidade histórica de Marechal Deodoro. Ana Lúcia e Paola jamais pensaram em conhecer tanta beleza, tanto divertimento, e o mais incrível, dividirem o “guia turístico” na cama. Santoro viveu um sonho, um mês de amor com as paulistas. Recebeu o aluguel do carro, não quis receber o acertado como guia turístico, entretanto, elas fizeram maior questão, pagaram o contratado. Até que chegou o dia, Santoro levou seus dois “amores” ao aeroporto.

Bernadete amou o dinheiro das turistas, pagou dívidas, ainda sobrou. Para Santoro restou lembrança e esperança, as turistas reservaram o apartamento. Final do ano elas vêm conhecer o resto das Alagoas.

ESCRITOS PARA NATASHA

Procuramos nos acostumar com a inexorabilidade do tempo, depois dos 70 anos vivemos enterrando amigos. Entretanto, quando vai-se um jovem, o inconformismo, a impotência inundam nossa alma. Semana passada Natasha Dellape, mulher coragem, terminou uma batalha prolongada contra o câncer, a morte, única niveladora da igualdade humana, levou-a. Deixou meu querido sobrinho Mário Humberto, os filhos Mário Victor e Iuri. Ao morrer alguém querido, inevitavelmente lembro o poema de John Donne.natasha

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Nossa família ficou diminuída, os sinos dobram por todos nós. Emocionaram-me os escritos para Natasha no Facebook. Peço permissão a meus leitores, repassar o carinho, admiração, o amor e saudade de seus amigos.

“Natasha minha prima linda, se o jornalismo brasileiro vai mal, ele fica muito pior sem você. Que o céu te receba muito bem, para você continuar sua carreira fechando o Diário Celeste, e você como editora de Deus ou seja lá quem for o patrão, ou então fechando o Paraíso TV 1ª Edição, com reportagens daqui da terra, onde você brilhou e deixou um rastro de coisas lindas. Estou muito triste, triste de não ter jeito, já chorei até não poder demais. Natasha Dellape Lima, que esse Lima. você casou com Mário Humberto, e agora não mais maneira, você é parte da minha família, que eu tenho orgulho em tê-la. Te amo, seja feliz aí em cima, como você foi aqui na terra entre nós”. MARIO FERNANDO LIMA CASTELLO BRANCO.

“Hoje uma colega muito querida voltou para a casa de origem. Conheci a Natasha Dellape na TV…como produtora. Aliás, ela me metia em cada uma! Hahahaha. Nata era uma jornalista de mão cheia; a maior catadora de pauta que conheci. Adorava uma denúncia…e fazia aquela risada maléfica engraçada pra mim. Eu já sabia: “era um abacaxi”! Ela adorava me entregar essas pautas porque gostava do meu jeito de conseguir as coisas nos lugares mais inóspitos e com as pessoas mais arredias. Posso dizer que só “acordei” pra esse meu lado “entrona” e “briguenta” na externa por causa dela… Formávamos uma bela dupla! Depois ela foi promovida ao cargo de “chefa”. Lembro bem que disse a ela: “não vou te parabenizar porque perdi uma grande produtora!”. E ríamos… Natasha viveu uma batalha intensa contra uma doença física grave. Foi resiliente. Não havia cara feia nem reclamação. O corpo físico não resistiu…mas certamente seu espírito cumpriu uma linda missão. Nada foi em vão. Nada nunca é em vão. Voinha, recebe a Nata por aí, tá? Sei que sua recepção vai ser, no mínimo, cheia de sorrisos”. CATARINA MARTORELLI

“Muito triste com a notícia da sua partida. Você irradiou luz, alegria e acima de tudo lutou como ninguém mas a hora chegou…. A hora do descanso minha amiga @natashadellape e de trilhar um novo caminho na espiritualidade. Que Deus te receba de braços abertos e conforte sua família que hoje chora de saudade. Vai com Deus Nata”. THAISE CAVALCANTE

“Acabei de saber do falecimento de mais um amigo de profissão. Um aperto no peito e o pensamento voltado ao Criador na certeza de que Natasha Dellape terá o descanso dos guerreiros. Lutou enquanto pôde. Descansa em paz, querida menina!” NIVIANE RODRIGUES

“Hoje, nossa família perdeu uma grande guerreira, Natasha Dellape! Exemplo de amor, força e superação!! A cada dia de luta, nos ensinava mais e mais… Betuquinha, Mário Victor, Iuri, Tia Tania , Tio Betuca e Carminha, estamos com vocês para o que vocês precisarem sempre! Um beijo no coração de vocês”. CAROLINA LIMA

“Conversamos bastante por aqui nos últimos meses. Ela elogiava meu trabalho de uma forma tão pura, tão intensa, tão orgulhosa como nunca antes havia feito. Ela me comoveu com palavras. Eu admirei sua fibra, via seu feição. Sua obstinação em mostrar doçura e amor e em se aproximar de todos antes de dizer adeus. Consegui falar muitas coisas que queria a ela. Talvez todas elas. Que eu via nela uma guerreira e que Deus iria abençoá-la. É incrível como situações limítrofes aproximam. Pude conhecer mais um pouco da pessoa com quem trabalhei e ela, a mim. Natasha, esteja com Deus. E que Ele conforte sua família. Obrigado por ter me ensinado com seu exemplo um pouco mais da arte de viver, de conviver e de conhecer mais da essência”. FERNANDO MOREIRA

“Ficam as boas lembranças….muitas saudades. Que Deus a ilumine em sua nova jornada, Nateyshaaa ( era assim que eu a chamava)! Seja feliz! Siga em paz de volta ao doce lar,querida! Nos reencontraremos.” LIARA NOGUEIRA

JAMAIS ENCONTRARÁ

RC

Rua do Comércio – Maceió

Era uma vez em Maceió uma senhora bonita, passava dos cinquenta, toda quarta-feira à tarde costumava ir à Rua do Comércio, centro da cidade, amava aquelas lojas, movimento do povo, dizia não trocar pelos Shoppings com ar condicionado. Depois de visitar as lojas preferidas, Dona Leila visitava o escritório de advocacia do marido e filha. Em uma dessas visitas sentou-se em frente a filha, tomou um café forte, desabafou.

– Cristina, estou com raiva daquela sirigaita, Solange, tem um caso com de seu pai!

– Mas mamãe, só agora que a senhora está reclamando das namoradas do papai. Você sempre foi permissiva. Papai, o maior boêmio da cidade, mulherengo, todos conhecem essa fraqueza. A senhora, em mais de 30 anos de casados, nunca reclamou. Meu Pai, ainda hoje, mais de sessenta anos, sai à noite para jogar baralho com os amigos. A senhora sabe, depois do pôquer, eles partem rumo aos encontros marcados.

– Sei de tudo menina, meu caso é uma história de amor, poucos entendem, não sou tola, como muitos pensam. Em minha adolescência conheci Everaldo, quase 10 anos mais velho, me apaixonei. Ele fazia Faculdade de Direito, um homão, alegre, encantador, sempre gostou de viver. Na época do carnaval ninguém lhe segurava. Quinze dias antes iniciava a Maratona Carnavalesca na Rua do Comércio. Toda noite ele partia alegre para Maratona, em cada esquina um palco com orquestra de frevo, o corso de carros abertos rodeando, Everaldo preferia dançar no meio dos foliões, as mulheres davam em cima, era o homem mais bonito de Maceió. Certa noite, eu tinha 14 anos, seu avô me levou para o carnaval na Rua do Comércio. Ficamos em pé apreciando o povo passar, em frente ao Cine São Luiz. Certo momento Everaldo me viu, aproximou-se, disse para papai. “Seu Joaquim quando sua filha crescer mais um pouquinho, vou casar com ela”, saiu se requebrando dentro de uma camisola de cetim. Eu me senti a mulher mais feliz do mundo, quase não dormi. O tempo passou tornei-me uma bela mulher. Lembro bem, eu tinha 19 anos, em uma festa na Portuguesa, Vanúsia cantava: “Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com uma carta na mão. Ante surpresa tão rude, nem sei como pude, chegar ao portão…” De repente uma mão forte segurou a minha, olhei, Everaldo levantou-me em direção ao dancing, me abraçou, dançamos sem conversar, apenas sorríamos. A partir daquela noite ficamos namorando, era só felicidade, mal escutava minhas tias, primas, conhecidas, nos ouvidos: “Você namorando com Everaldo, o maior mulherengo da cidade, não vai lhe respeitar, quando terminar o namoro, ninguém mais lhe quer”, e coisas parecidas. Eu estava feliz, o mundo podia se acabar. Quase um ano de namoro, tivemos que casar, grávida de você. Fomos morar numa casa do velho Joaquim na Pitanguinha, Everaldo trabalhava, advogado solicitado, sabe empolgar com um discurso. Seu pai é um homem fascinante. Sei que não é santo. Nunca quis casar com santo. Essa história você não sabe, mês passado aportou um navio de turista, ele com amigos foram tomar chope, se distraíram, o navio deixou o cais de Maceió. Pela manhã me avisou no celular, estava em Salvador. Na segunda feira quando cheguei do trabalho pela tarde a casa estava repleta de flores e velas, ele me abraçou, nos amamos como nunca mais fizemos. Noitada maravilhosa, graças aos chopes do navio.

– Mamãe, disso eu sei, desde que me entendi como gente, você casou-se com o maior boêmio da cidade, sabendo que seria a maior corna de Maceió. Cada um procura sua cruz. Hoje a senhora veio reclamar de papai, aliás, a primeira vez na vida vejo a senhora criticar papai, o que houve mesmo?

– Não estou reclamando de Everaldo, menina. Estou irada com a sirigaita da Solange , tem um xodó com seu pai. Pelo ouvido na espreita de telefone, a ridícula vai casar e acabou com seu pai. O bichinho há uma semana está triste, ninguém gosta de ser chutado. O que ela pensa? Quem é ela para dar um fora em seu pai? Aquela cretina jamais encontrará outro homem que nem Everaldo. Jamais!

– Mamãe…

O XEXEIRO

jaraguá

Jaraguá – antigo bairro boêmio

Era uma vez em Maceió um rapaz chamado João Fortunato, conhecido como “Joãozinho Caga Rua”, quando mais jovem deu-lhe uma dor de barriga na rua, ali mesmo baixou as calças, deixou sua marca no meio-fio, daquele dia até hoje atende por esse apelido. Amante da boemia e do carnaval, certa vez, em ensaio noturno, o Bloco Cavaleiro dos Montes arrastava foliões cantando e dançando pela Avenida da Paz. João, feliz da vida, agarrado à uma bela jovem desconhecida, dançava o frevo com maestria. O bloco tomou rumo ao bairro boêmio de Jaraguá.

Ao passar pelo corredor de Jaraguá, a bela acompanhante de João se identificou. Vera era “inquilina” da Boate Alhambra, fazia a vida naquele antigo casarão, convidou João a subir ao cabaré. Entre surpreso e alegre, prontamente galgou as íngremes escadas do lupanar . De paquera no bloco, achou-se no direito, sentiu-se namorado, mesmo sem dinheiro, convidou-a para o quarto.

Depois do amor, a jovem rapariga cobrou pelos competentes serviços. João confessou, não tinha dinheiro, pensava ser de graça. Vera falou braba, ele tratasse de arranjar o pagamento, pegou calça, cueca, camisa e sapato de João, entregou ao Leão de Chácara da Alhambra (segurança), só devolvia quando pagasse.

Joãozinho não teve o que pensar, nu, abriu a porta do quarto, desceu as escadas aos pulos, a rapariga gritava: “Xexeiro, Xexeiro…” Nove da noite, a Boate Alhambra começava a funcionar.

O Leão de Chácara não conseguiu alcançar João, excelente atleta, exímio jogador de futebol. Sua nudez foi notada pelos passantes, olhavam incrédulos. Joãozinho continuou correndo pela rua até desembocar na Avenida da Paz . Surpresa, não podia continuar, as rodas de famílias conversando, cadeiras na calçada, era costume na cidade, antes da televisão.

Um homem nu passando seria excitante novidade naquelas rodas de conversas, entretanto, João escondeu-se atrás de um poste. Olhou em frente , meninos brincavam, jovens namoravam nos bancos, a Avenida da Paz, à noite, era uma festa. João encontrou uma solução , partiu em direção à praia iluminada, Lua cheia. Correu na areia fofa, branca, fria, até encontrar solo de areia dura, molhada, beira mar, onde alguns jovens jogavam futebol sob o luar. Ao se aproximar devagar, a meninada percebeu, ouviu-se a gritaria: “Um homem nu! Um homem nu!”. Imediatamente Joãozinho correu, mergulhou no mar, água tépida, deliciosa, era noite de verão.

Nosso herói ficou por muito tempo curtindo gostoso banho noturno, deixava o corpo nu ser levado pelas pequenas ondas, não havia pressa. Naquele momento, olhando pro céu prateado pela Lua cheia, deslumbrou uma cintilante estrela, sentiu-se dono do mundo, do universo, poeta, seresteiro, no seu encantamento, começou a cantar para o infinito: “A estrela Dalva… no céu desponta… e a lua anda tonta… com tamanho esplendor… as pastorinhas pra consolo da lua… vão cantando na rua… lindos versos de amor…”

Por volta da dez horas da noite, depois de tomar uma fresca, as famílias recolheram-se, os jovens cansados das brincadeiras foram dormir, os namorados, depois do xumbrego, excitados, se auto aliviavam. Joãozinho esperou um pouco, onze horas, apenas alguns boêmios passavam em direção às boates de Jaraguá, dar expansão aos instintos e fantasias.

Afinal nosso herói saiu do mar, corpo molhado, dedos engelhados. Sentiu o vento, tremia de frio. Andou, correu, pulou, recuperou-se. Caminhou pela praia. Retornou às calçadas na Praça Sinimbu, pouca gente na rua. Correndo de poste em poste, Joãozinho, nu, conseguiu chegar em sua casa na Rua da Alegria. Recebeu a devida descompostura do pai, no fundo se orgulhava em ter aquele filho boêmio, cheio de histórias e picardias. Dia seguinte, o pai deu-lhe o dinheiro, não queria filho desonesto, xexeiro, a moça merecia o pagamento. À tarde, Joãozinho resgatou suas roupas, seu sapato de coro de jacaré. Contou a Vera sua aventura noturna, ela caiu às gargalhadas, amaram-se novamente, dessa vez , não houve a devida recompensa pecuniária.

UCPM

vc

O colunista e a Nêga Odete, ela morreu aos 82 anos em 2014

Maceió vivia uma época áurea, anos 50, tempos de Arnon de Mello governador, boa qualidade de vida, a cidade parecia uma só família. Ainda não acontecera a invasão dos trabalhadores rurais procurando melhoria de vida, inchando a urbe, ocupando áreas à beira do Rio Salgadinho, o maior desastre urbano – ambiental da cidade. Devido à falta de política agrária, nos anos 60 aconteceu esse perverso êxodo dos camponeses à capital, não conseguiram emprego, nem tiveram uma merecida reforma agrária no campo.

D. Leda Collor, primeira dama, revolucionava a cultura, o que havia de melhor de teatro no Brasil vinha à Maceió, Teatro Deodoro cheio. A Aliance Francaise um sucesso, Juventude Musical, projetos culturais enchiam os olhos e ouvidos dos alagoanos.

Nós adolescentes formávamos grupos, turmas (hoje galeras), unidos e adversários nas brincadeiras, jogos, festas de rua, folguedos populares. No pastoril torcíamos veementemente emocionados, Azul x Encarnado, no campo de futebol, CRB x CSA.

Várias turmas de jovens tomavam conta das áreas de lazer, turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras.

Maior rivalidade entre time de futebol e voleibol de cada turma, ou namoradas. Os jovens convergiam, misturavam-se nas praias da Avenida ou Pajuçara; nos clubes, Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; nos colégios, Diocesano, Liceu, Guido e Batista. Resultava intercâmbio de amizade, todos se conheciam na província de Maceió nos meados dos anos 50.

Eu morava na Avenida da Paz, junto ao bairro boêmio de Jaraguá, entretanto, rodava toda Maceió de bicicleta. Certa vez namorava uma bela morena na Pitanguinha (onde nasceu Djavan), quase toda noite, depois do jantar, eu subia a ladeira do Farol pedalando e empurrando a bicicleta. A namorada tinha uma irmã, gêmea. Numa noite, a namorada adoeceu, sua irmã resolveu fazer uma brincadeira, tomou seu lugar. Andei pelas ruas da Pitanguinha sem perceber, sem saber que dava cheiro, amasso, na irmã da namorada. Na despedida, depois de um beijo, ela confessou ser a irmã, pediu segredo, guardei até hoje.

Numa noite, passando pela Praça do Centenário, encontrei Humberto, um dos amigos que guardo no peito. Depois de conversa informal e amena sobre mulheres, futebol e festas, convidou-me para reunião de uma associação inusitada que a turma do Farol havia fundada com imaginação e bom humor.

Assisti à reunião e me tornei sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, com sede na casa do presidente, meu primo.

Tinha regulamentação. O sócio ganhava patente ao contar aventuras, conquistas, com empregadas domésticas, chamávamos maldosamente de peniqueira, naquele tempo havia penico. Conforme a emoção da aventura ganhava promoção aos postos, havia hierarquia da UCPM.

Quase sempre se ouvia alguma aventura com a Nêga Odete, bonita negra, uma rainha africana, a rainha de Sabá, a própria Nêga Fulô do poeta Jorge de Lima. Lábios carnudos, bunda rebitada, riso debochado. Empregada doméstica na casa dos Montenegro na Praça Sinimbu, saía à noite em busca de aventuras, dedicava-se literalmente ao que mais gostava, o que mais sabia fazer, amor. Não era prostituta como algumas madames diziam, não recebia dinheiro em troca do carinho, principalmente se o parceiro fosse jovem e bonito. Ao anoitecer desfilava sua silhueta divina, calipígia de ébano dos sonhos eróticos da nossa juventude, uma rainha. Metade de minha geração da Avenida da Paz teve iniciação sexual nas areias mornas da Praia da Avenida da Paz, nos braços, na sabedoria da negra bonita.

Cheguei a tenente na UCPM, sem merecimento. Entretanto, alguns amigos galgaram ao posto máximo, houve apenas dois generais na hierarquia da UCPM. Por coincidência, os dois hoje moram em Brasília. Um deles, político dos mais influentes e queridos do nosso Brasil, o outro chegou a ministro de um egrégio Tribunal.

FERNANDO “FOSSE MÃE”

PDR

Fernando Magalhães aportou em Maceió nos anos 60, arribou de Santo Amaro da Purificação, cidade célebre por conta de Caetano e Bethânia. Muitos baianos vinham tentar vestibular de engenharia em Alagoas, pensando ser mais fácil. Ele penou, três tentativas seguidas, levou ferro em todas.

Seu pai, rico comerciante, sustentava o filho com boa mesada, Fernando morava no Hotel Atlântico, praia da Avenida da Paz. Em vez de estudar, vivia na praia organizando “baba”, pelada como chamam os baianos, paquerando as meninas pudicas vestidas em maiôs comportados.

Ele não teve coragem de falar aos pais sua reprovação no vestibular na primeira vez que retornou à Santo Amaro, festa de arromba quando voltou à fazenda do velho. Todos crentes que nosso amigo cursava engenharia, os pais e parentes, orgulhosos.

Assim Fernando morou alguns anos em Maceió, vagabundeando com boa mesada. Gostava de se exibir, pagava uma conta aqui, outra acolá, os amigos boêmios alagoanos, adoravam. Por conta da simpatia, de boa conversa, fez muita amizade na alta e na baixa roda da cidade.

Acordava-se por volta das nove da manhã. Tomava café no hotel, descia à praia da Avenida, bola de couraça rodando nas mãos, chamando jogadores. Na extensa areia dura da praia dava um chute para cima, era o sinal, havia chegado, começava o baba entre os desocupados esperando pelo “Baiano”. Depois da pelada, um banho de mar com direito a algumas braçadas para estirar os músculos, e paquerar alguma jovem desavisada banhista, seu ponto fraco, mulheres.

Namorou algumas moças bonitas da cidade, contudo, seu habitat preferido foi a zona de Jaraguá, frequentou religiosamente os cabarés, tornou-se o dono da zona, íntimo do Mossoró, o rei da noite, Fernando era o queridinho de todas as raparigas. Além de bom pagador, tratava-as com carinho e respeito. Enfeitiçou as quengas acostumadas com clientes grosseiros.

Certa noite na Boate Tabaris (onde hoje funciona a Faculdade de Alagoas), ele contou-me a história do seu apelido.

Quem não tem uma prima, uma tia, uma parente que de quando em vez, se hospeda em sua casa? Pois Fernando também teve na época de sua adolescência. Sua tia Cida, bela quarentona, alourada, sempre passava alguns dias na fazenda da irmã em Santo Amaro da Purificação. No mês de janeiro a fazenda enchia-se de parentes e aderentes, comida, bebida à vontade, banho de cachoeira, passeio de cavalo. À noite dormiam em dois enormes quartos, homens e mulheres separados. Entretanto, tia Cida tinha privilégio, um quarto exclusivo, junto ao único banheiro dentro da casa grande.

Certa noite Fernando acordou-se, bexiga cheia, para entrar no banheiro mais rápido atravessou o quarto da tia Cida. Ao abrir cuidadosamente a porta, o sobrinho teve uma taquicardia ao ver sua amada tia deitada em decúbito ventral, vestindo apenas uma calcinha preta, dormindo como uma neném. Com o coração disparado, o sangue fervendo, andou na ponta dos pés em direção ao banheiro sem perder de vista aquela quarentona magnífica, coberta apenas por uma minúscula calcinha. Entrou no banheiro, fez o serviço, voltou no mesmo ritual. Pecou sozinho entre os lençóis de sua cama.

Dia seguinte no café da manhã, a tia cochichou no ouvido do querido sobrinho: “Eu lhe vi, ontem à noite!” Fernando não conseguiu sossegar o espírito, durante todo o dia vinha-lhe a imagem de tia Cida deitada na cama, o detalhe da calcinha de renda preta lhe deixava louco.

O ritual repetiu-se por mais três noites. Ele levantava-se, passava devagar pelo quarto, contemplando a beleza da tia, só sossegava na cama entre suas mãos. Cida, durante o dia, continuou provocando-o com olhares pedintes e sorrisos marotos.

No quinto dia, Fernando estava a ponto de bala, a tia não saía-lhe da cabeça. Havia passado da meia-noite, abriu a porta do quarto, Cida deitada, vestia apenas minúscula e provocante calcinha, mexia o corpo em movimentos lânguidos, ele endoidou, não conseguiu se segurar, quando se deu, estava por cima, a bela mulher o segurou repreendendo: “Sou sua Tia, menino!!””

Ele virou-a, antes de beijar-lhe a boca, gritou-lhe baixo no ouvido: “FOSSE MÃE!!!!!!!!!!!!!!!!!”. A tia abraçou-lhe às gargalhadas, arranhando-lhe as costas.

Manhã seguinte, feliz da vida, Fernando contou sua aventura, entre juras de segredo, em maior confidência, a seu amigo mais íntimo de Santo Amaro, Pedro Cabral. Quem poderia no mundo guardar um segredo desse? Daquele dia até hoje em Santo Amaro da Purificação e adjacências, nosso herói pegou o apelido, “Fosse Mãe”.

Para Cida ficaram inesquecíveis as férias na fazenda, principalmente quando a noite dormia.

Fernando conseguiu entrar na Faculdade no quarto vestibular. Hoje, meu amigo é engenheiro aposentado da Rede Ferroviária Federal, setentão, mora em Salvador, os amigos, sem saber o porquê, conhece-o por “FERNANDO FOSSE MÃE”.


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