A SOBERBA

Quando Gerônimo acertou o pagamento da pousada no Recife, Seu Manoel, o proprietário, pediu-lhe um favor: Levar de carona até Maceió, Lilian, sua sobrinha adolescente. Gentil, ele disse ser um prazer, embora gostasse mais de dirigir solitário nas estradas, quando refletia, pensava na vida.

Partiram pelas três e meia da tarde. A jovem acomodou-se a seu lado no banco da frente, não o cumprimentou. Tinha um “walkman” grudado ao corpo e os fones no ouvido. Constantemente ouvindo música durante a viagem numa pose de quem estava fazendo um favor em ter sua companhia.

Gerônimo sentiu um desconforto com o comportamento pedante e mal-agradecido da jovem. Lilian era graciosa como qualquer moça de 17 anos. Corpo bem formado, tórax estreito, cintura fina e quadris largos. Sua pele rosada contrastava sob a blusa de malha branca, desenhada com motivos modernos, cobrindo seios abundantes. Uma bermuda jeans apertada, destacava as pernas grossas. O conjunto era completado por um rosto suave, cabelos castanhos, uma bela jovem, pena ser tão soberba, pensou Gerônimo, enquanto analisava a sua companhia acidental.

A viagem rumo à Maceió transcorreu monótona, sem diálogo, a menina só ouvia música e gesticulava como se estivesse dançando. Esgotado o repertório do “walkman”, Lilian retirou os fones do ouvido e sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um som jovem, ficou a ouvir calada. Gerônimo ainda tentou conversar alguma coisa, desistiu diante do mutismo da moça.

Com duas horas de viagem bateu uma chuva grossa persistente, há mais de uma semana chovia na região. Gerônimo parou num posto de combustível para abastecer e lanchar. Depois do lanche, pela primeira vez Lilian falou.

– “Deixe, minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.”

Gerônimo até se assustou, ele já havia pagado, respondeu brincando.

– “Na próxima você paga”.

Depois de dirigir mais 15 minutos ainda sob um intenso temporal, encontrou uma fila de carros parados. Gerônimo perguntou a um guarda rodoviário o que havia acontecido, ele respondeu que o aterro da cabeça de uma pequena ponte estava com problemas devido à enxurrada, o D.E.R. proibiu a passagem pela ponte. Estava perigoso enfrentar um desvio até Maceió àquela hora, escurecia. Aconselhou a dormir em Palmares e continuar a viagem no outro dia pela manhã, quando a ponte estivesse liberada.

Gerônimo perguntou a opinião de Lilian. Ela fez um gesto com os ombros e os lábios, como se dissesse tanto faz. Ele precavido voltou até o posto. Recomendaram um hotel na cidade.

Acertou na portaria, pediu dois quartos. A chuva não parava, marcou com Lilian para jantar no próprio hotel às 19: 30h.

Quando Gerônimo desceu na hora combinada, Lilian já havia jantado, subia as escadas para seu quarto, sem sequer dar um boa-noite. Ele não entendia aquela grossura. Jantou, recolheu-se cedo. Assistiu ao Jornal Nacional, leu um pouco. Deitou-se com seu pijaminha bermuda esperando o sono. Relâmpagos cortavam o ar e trovões ribombavam incessantemente, custou a dormir.

Ainda não era meia-noite quando foi despertado por fortes batidas na porta de seu quarto, a voz aflita de Lilian pedia, desesperada: “Por favor, abra aqui. Abra a porta!” Gerônimo deixou a cama num salto. Abriu a porta, Lilian entrou como um bólido, enrolada no cobertor, deitando-se de pronto na cama, confessava com voz trêmula morrer de medo de trovão. Gerônimo surpreso e fascinado pelo encanto da moça, agora humilde pelo pavor, sentou-se à cabeceira, buscou confortá-la, alisou a cabeça, mandou que ela dormisse à vontade; ele ficava no sofá. Foi surpresa e emoção para o sessentão, quando ela puxou-o pelo braço pedindo: “Vem para perto de mim cara!”

Ela levantou o lençol por um momento, estava nua. Ao mesmo tempo em que abraçou-o, ela tremia, Lilian levantou o rosto beijando voluptuosamente seu “motorista” na boca.

A noite longa transcorreu com muita chuva, muitos trovões e muitos ais. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita nos carinhos e na hora certa, nada foi aprendido, nasceu assim, era Deusa.

Dia seguinte, quando Gerônimo acordou, Lilian não estava na cama. Olhou para o céu pela janela, o tempo havia melhorado, mas continuava chuvoso. Tomou banho, fez a barba, arrumou a mala e desceu. Quando tomava café percebeu Lilian pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro, a jovem tomou a mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido. Não cumprimentou o companheiro de amor acidental da noite de raios e trovões. Durante a viagem o fone no ouvido. Nem sequer um “obrigado” quando ele deixou-a no edifício dos pais no bairro da Pajuçara.

48 ANOS E A ALMA CONTINUA ERÓTICA

O jovem casal no carnaval da vida

No último dia 9 deste mês de janeiro, festejamos 48 anos de casados. Nem tudo foi fácil, cheio de flores, o céu nem sempre de brigadeiro, claro, tiveram rotas de colisão nesses anos. Com compreensão, carinho, principalmente amor, conseguimos desviar ou amenizar essas colisões.

A luta do dia-a-dia foi vencida, ainda estamos vencendo. Eu com 78 e Vânia fazendo 70 anos, ainda trabalhamos e sonhamos como se fôssemos jovens, viver e sonhar é preciso. E temos tantos sonhos para o futuro, participarmos de Festas Literárias no Brasil, em Guadalajara. Viajarmos à Inglaterra ou Rússia.

Sinto-me um privilegiado porque conheço intimamente minha companheira, só eu conheço profundamente o ser humano extraordinário, gentil, de extrema bondade, porém, forte, justa e perseverante. Essa brava companheira dedica-se de corpo e alma ao pai com 98 anos, aos três filhos e três netos. E a mim, claro.

Nesses 48 anos soubemos enfrentar alguns percalços, nenhuma tempestade poderá mais fazer nosso barco afundar, além de tudo, agora já avistamos a praia, estamos pertos do destino final, navegar é preciso, é inexorável.

Retenho em minha mente, em minhas lembranças nítidas, como de fosse hoje, sua imagem entrando na Igreja, vestida de noiva, sorrindo, feliz, olhando para mim.

Construímos uma vida, uma bela família. Vânia, como Promotora de Justiça e advogada, deixa de legado sua atuação sempre ao lado do bem social. Também deixo meu legado nos livros, na cidadania por uma sociedade mais justa. Acreditamos no ser humano. Em nossa casa de praia, na parede da sala, está desenhado um verso de meu querido poeta Lêdo Ivo: “Na Barra de São Miguel, diante do mar, só agora compreendi, o dia mais longo de um homem dura menos que um relâmpago.”

Quarenta e oito anos de luta e prazer, e até momentos de dor. O coração e o tempo nos faz compreender que a vida é tão pequena, é um relâmpago para se viver um grande amor.

Para não prolongar transcrevo um poema que ouvimos juntos recentemente no Fórum das Letras de Ouro Preto, pela própria autora ADÉLIA PRADO, gostaria que saboreassem a sabedoria nos versos da poeta mineira.

Erótica é a Alma

Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar.

A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos.

A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos.

O segredo não é reformar por fora.

É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior.

E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar.

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história.

Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos.

Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios.
Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo.

Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Aprenda: bisturi algum Vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.

FESTA DE SANTO AMARO NA PRAIA DE PARIPUEIRA.

Pablo Victor Gagliano nasceu em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, criança bonita de chamar atenção, um bebê rosado, lourinho de olhos verdes. Na juventude era cortejado pelo mulherio, as moças e coroas se apaixonavam ao conversar com aquele rapaz elegante, gentil e bonito.

Ao formar-se em engenharia química foi convidado para trabalhar numa indústria instalada em Maceió. Ele apaixonou-se pela cidade, nunca havia imaginado uma cor do mar tão bela, as praias um paraíso cheio de coqueirais, ficou morando na bela terra do poeta Lêdo Ivo. As jovens da cidade caíram em cima de Pablo. Além de bonito e educado, ele tinha um comportamento exemplar. Não era chegado às noitadas, nem às farras com raparigas comuns ao pessoal da terra. O genro que toda mãe deseja. Sua vida de solteiro não durou muito, apareceu Regina, uma bela morena de cabelos cacheados, lábios grossos e de uma simpatia contagiante. Ele rendeu-se aos encantos da moça e casou-se em numa festa de arromba, como quis Dona Mercedes, sua sogra.

Pablo em pouco tempo fez um pé de meia e construiu sua casa de praia na belíssima Paripueira, sua paixão. Uma casa grande onde nas férias levava seus dois filhos, passava todo o verão, não perdia a alegre e tradicional Festa de Santo Amaro, início de janeiro, com muita música, bebida, folguedos e quermesse da Igreja.

Quando os filhos se tornaram adolescentes preferiam passar férias na praia da Barra de São Miguel, reduto da juventude no verão, na casa do tio Renato, irmão de Regina. Era um desgosto para Pablo. Por conta disso ele transformou sua enorme casa numa pousada. Há alguns anos ele a administra em fim de semana. Às vezes Regina prefere ficar em Maceió, mas ele sempre vai fiscalizar os serviços prestados por Dona Cícera, a arrumadeira, e pelo jovem Gerson, administrador, porteiro, faz tudo da Pousada Cruz Alta.

Regina sempre foi ciumenta, mesmo sem Pablo dar motivos. As mulheres olham com admiração e excitação para seu lindo marido, às vezes se insinuando, afinal o cara é um tipão de coroa, porém, o comportamento dele é exemplar.

Pablo, de repente, ficou relaxado com os deveres conjugais junto à esposa. Só faziam amor quando Regina insistia, o que a deixou encucada. Até que, certo dia ela leu numa revista que o primeiro sintoma de um homem que está traindo é a frieza sexual com a esposa.

Regina procurou Audálio, detetive especializado, no Edifício Breda. Depois de um mês de investigação seguindo o suspeito, ele nada encontrou. Mostrou fotografias do marido no trabalho, nas ruas, na pousada, tomando banho de mar, sempre desacompanhado. Durante as noites que ela não o acompanhava, ele dormia sozinho em Paripueira. O experiente Audálio concluiu que o marido estava passando apenas por uma fase sem entusiasmo, embolsou os R$ 2.000,00 combinados e entregou-lhe as fotos. Regina não ficou contente com as investigações. Ela sentia no corpo e no comportamento a mudança do marido.

No início de janeiro no ano passado, Regina inventou que não podia acompanhar o marido à Festa de Santo Amaro em Paripueira, pediu desculpas por não ir. Ele disse que não havia problema e partiu feliz da vida para seu paraíso.

Ela percebeu essa alegria no ar. Deixou o maridão viajar. Ao anoitecer, sem avisar, partiu célere em busca de um flagrante do marido com alguma sirigaita. Eram sete da noite quando Regina entrou na pousada perguntando pelo esposo. Dona Cícera e o administrador, o jovem Gerson, disseram que estava no quarto assistindo televisão. Regina bateu à porta com força, Pablo custou a atender. Assim que abriu, a esposa entrou de repente perguntando quem estava com ele, queria conhecer a puta de seu marido. Pablo ficou assustado. Regina procurou no banheiro, armário, guarda-roupa, quando percebeu que ele estava sozinho, começou a chorar. Só parou quando foi consolada pelo paciente marido. Dormiram na pousada, Pablo nessa noite empenhou-se em suas obrigações conjugais.

No dia seguinte, Regina depois do almoço retornou à Maceió. Pegou suas coisas e partiu. Quando dirigia pela estrada, no meio do caminho, lembrou que havia deixado os óculos no quarto. Retornou imediatamente. A porta do quarto não estava na chave, ao abrir, surpreendeu-lhe a cena chocante. Seu belíssimo marido estava abraçando o administrador Gerson, alisando seus cabelos, beijando seu rosto. Regina avançou que nem uma leoa deu uma tapa no marido, saiu correndo, tomou o carro retornando para sua casa.

Regina hoje, um ano depois, mudou seu modo de vida, não se sabe se por vingança ou por prazer. Quem quiser encontrá-la todo fim de semana está nas baladas de Maceió, dançando, bebendo, namorando, dando para todo mundo. Pablo, o belo, continua morando em Paripueira. Regina só o aceita de volta se ele fizer um tratamento, a cura gay. Ela acredita piamente que homossexualismo é doença.

CHAPLIN 78 ANOS DEPOIS

Em 1940, ano que eu nasci, início da 2ª Guerra Mundial, Charles Chaplin escreveu o texto abaixo; em 2018 continua atual, o mundo pouco mudou, a ganância em forma de roubalheira tomou conta de nosso país. Como sou um otimista incorrigível, peço vênia aos leitores para transcrevê-lo como mensagem de ano novo.

“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!” Charles Chaplin – 1940

É NATAL

No Natal as famílias cristãs reúnem-se para comemorar o nascimento de Jesus, há troca de presentes, ceia com peru e outros pratos, finas iguarias, até um pão especial foi inventado por um italiano chamado Tom para comemorar o Natal, o panetone. As famílias mais pobres e os miseráveis não têm direito ao Natal gastronômico etílico, se divertem perambulando pelas ruas, encantando-se, fascinados com as luzes da cidade. Poucos são indiferentes ao Natal, é quando a vida faz um intervalo comemorando a fraternidade, a bondade, a gentileza.

Em minha adolescência li um livro que se tornou inesquecível, o genial escritor inglês Charles Dickens em “UM CONTO DE NATAL” narra uma história que mostra o significado natalino, tocando o coração do leitor.

A história se passa em Londres, nos meados do Século XIX, auge da Revolução Industrial. Em meio ao frio e à neve da cidade, à véspera do Natal, todos se preparam para a celebração do nascimento de Cristo. As donas de casa ocupam-se com seus assados, os homens, ansiosos, não vêm a hora de voltar para casa, e as crianças perdem o sono pensando nos presentes. Apenas uma pessoa não parece feliz com o Natal: o velho Scrooge, homem de negócios, sovina, ranzinza e solitário, quer que os pobres se explodam para acabar com o crescimento da população. Ele não vê razão para tanta alegria e inquieta-se com a folga que terá de dar a seu secretário no dia de Natal. Sozinho em seu escritório, trabalhando noite alta na véspera de Natal, Scrooge recebe a visita do fantasma de Marley, seu falecido sócio, que se arrepende de ter passado a vida atrás do dinheiro. Ele leva Scrooge em uma viagem inesquecível para tentar salvá-lo enquanto é tempo por intermédio de três espíritos que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro no final de ver tantas histórias mostradas pelos espíritos, se transforma num homem generoso. Dickens, brilhantemente evocou o Natal como um momento de redenção contra a avareza, um intervalo de fraternidade em meio à competição cruel do capitalismo industrial.

Outro dia, em minhas releituras, me deliciei com “UM CONTO DE NATAL”, Dickens soube mais que ninguém mostrar a necessidade do ser humano em sentimentos fraternais, pelo espírito natalino.

Hoje o Natal está sofisticado, em todas as cidades do mundo há um esparramar de luzes, de brilho nas ruas, nos prédios, nas casas. Cidades como Gramado tem o Natal como a maior fonte de renda, o turismo começa em novembro com muita festa, apresentação de shows natalinos. Duas vezes já viajei a Gramado levando meus netos, é um Natal espetaculoso, porém a cultura alemã é predominante, anões, cervos, neves, danças folclóricas germânicas. A meninada se diverte em sonhos naquela cidade.

Outro dia conversando na Confraria dos Barrigas Brancas na Barraca Pedra Virada (Barriga Branca no Ceará é homem mandado pela mulher) o professor Radjalma Cavalcante dava uma sugestão. Maceió ser uma espécie de Polo do Natal Nordestino, afinal em Alagoas existem 36 espécies de folguedos natalinos ricos e coloridos.

Parece que o Prefeito Rui ou o Secretário Vinicius Palmeira ouviu esse apelo e de repente Maceió se transformou numa cidade cheia de luz no período natalino. A noite está belissimamente decorada com luminárias entre os coqueiros e amendoeiras. Ainda por cima a Prefeitura está realizando uma programação de folguedos que me transportaram para juventude, mostrando que nossas tradições não estão mortas, com apresentação de pastoril, coco de roda, e todo folclore. No sábado 23 haverá uma programação imperdível na orla, uma virada musical natalina e muito folclore. Para meus olhos nordestinos, bairrista, nosso natal está mais bonito que o Natal alemão de Gramado.

E não é só Maceió, algumas cidades do interior estão se acendendo para o Natal. Passei em Palmeira dos Índios a ornamentação e programação com autos natalinos está encantadora.

Há quem não goste de Natal, dizem ser uma festa triste e nostálgica, a tristeza está na alma de cada um. Como tenho uma alegria intrínseca dentro de uma alma carnavalesca, faço de meu Natal um Carnaval. Pela manhã do dia 24 minha dileta companheira oferece um café de Natal à família com poesia, música e folclore, começa às 7 h às vezes termina ás 17 h. À noite saímos pelas ruas cintilantes de Maceió, terminando com um bom uísque na casa de algum amigo. Bom Natal. Boas Festas aos amigos. Jingle Bells para todo mundo.

ZUMBA

Túlio tem duas paixões na vida, cavalo e mulher. Parte da infância passou na fazenda do avô em União dos Palmares, bem perto da Serra da Barriga, onde os escravos refugiados se organizaram construíram uma sociedade, a República dos Palmares. Local de difícil acesso, os negros conseguiram por 100 anos se defenderem dos governos escravagistas. Ganga Zumba foi o líder de Palmares que se tornou refúgio de escravos foragidos. À medida que foi crescendo, eles se organizaram em Quilombos. Ganga Zumba tinha um palácio, quatro esposas, guardas, ministros e súditos devotos. A República dos Palmares era formada por cerca de 2.000 casas que abrigavam famílias, guardas e oficiais que faziam parte de nobreza. Ganga Zumba tinha deferências e honrarias de Rei.

Ganga Zumba chegou a acertar um tratado de paz oferecido pelos governantes e fazendeiros, para transferir os negros de Palmares outro local. Zumbi, sobrinho de Ganga Zumba, não aceitou o acordo. Ganga Zumba foi envenenado e a resistência aos portugueses continuou com Zumbi.

Como Túlio gostava de contar essa história desde criança e tem a pele morena, cabelos crespos, lábios carnudos, parecido com seu avô paterno, filho de um português com uma escrava, logo tomou o apelido de Zumba. Todos os amigos na fazenda, na cidade, colegas da faculdade de agronomia chamam o moreno Túlio carinhosamente de Zumba.

Hoje ele mora em Maceió, com seus 65 anos administra a fazenda que lhe coube como herança, de onde tira a para seu viver sem muitos atropelos financeiros. Suas três filhas e a esposa gostam da vida da cidade, apenas um genro o ajuda na administração do campo.
Túlio não perde leilão de cavalos, vive procurando, viajando, comprando e vendendo, conhece o Brasil e é popular no ramo de leilões, todos conhecem Zumba. Ângela, sua esposa, raramente o acompanha, no íntimo ele gosta, fica livre para outra paixão, mulher, não pode ver um rabo de saia, Zumba nunca dorme sozinho nos hotéis. Em leilões de gado sempre tem mulher bonita.

Certa vez, em uma exposição na cidade de Palmas, ele experimentava um cavalo baio, estava gostando do trotar do animal quando avistou uma bela mulher, de jeans e chapéu de cowboy, com os braços por cima da cerca apreciando Zumba e o cavalo. Ela sorriu ao longe.

À noite quando ele saía do hotel para jantar num restaurante da cidade encontrou-se com a linda mulher no elevador, cumprimentaram-se.

– Comprou aquele baio? Perguntou a mulher sorrindo.

– Ainda não decidi.

Esse diálogo foi início de uma conversa animada. Alice, era fazendeira em Goiás, entendia de cavalos e bois. Zumba convidou-a para jantar na cidade, ela não se fez de rogada aceitou o convite. Zumba estava na maior felicidade, a bela fazendeira tinha uma idade indefinida entre 45 a 55 anos, bem arrumada, bem tratada, e com aquela conversa, que mais ele queria? Terminaram dormindo juntos os três dias no hotel. Ele não perguntou, nem ela esclareceu os detalhes de sua vida, apenas que era fazendeira. Foram três dias de amor e cavalo. Zumba retornou à Maceió feliz da vida.

Ano seguinte, ele viajou àquele leilão na mesma época, dezembro, no fundo com uma pequena esperança de encontrar Alice. Foi em vão a procura em todos os lugares. Perdeu a esperança em encontrá-la. Mas o destino compensou, à noite dirigiu-se ao bar em busca de alguma aventura. Teve a sorte de encontrar uma solitária jovem, bonita que nem um cão. Ele sentou-se no banquinho junto à jovem. De repente puxou conversa, ela veterinária, estava adorando a exposição, conversaram, beberam, foram até o piano onde um argentino tocava tangos e outras canções. Cantaram, estavam se divertindo, terminaram no quarto do hotel. Na despedida, Elizabeth, a jovem, confessou-lhe que tinha amado os três dias com aquele coroa, moreno, alto. Zumba sentiu-se mais jovem com a aventura. Dias inesquecíveis. Retornou feliz da vida.

Durante o ano participou de vários leilões e exposições, até que em dezembro retornou ao Leilão de Palmas. Ele achava que dava sorte.

Foi à exposição, montou, discutiu preços, conversou com fazendeiros. À noite tomou um banho e saiu em busca de aventuras, pensou em Alice e na jovem Elizabeth. Quando tomava o segundo uísque no bar do hotel, eis que surge a maior surpresa de sua vida. As duas louras, Alice e Elizabeth, juntas, olharam discretamente para ele, não cumprimentaram Zumba. Ele ainda chocado com aquela dupla aparição, ouviu quando Elizabeth tratou Alice com um “mamãe” bem carinhoso. Pelo olhar de indiferença, percebeu que as duas juntas tornou-se inviável qualquer contato, muito menos uma noite de amor.

O remédio foi ouvir tango argentino. E para dormir se valeu de uma acompanhante anônima.

A FESTA DO CANALHA

Maceió vista do alto de Cruz das Almas

A primeira Festa do Canalha foi há quase 30 anos no Bar do Alípio à beira da Lagoa Mundaú no belíssimo bairro do Pontal da Barra, onde as mulheres rendeiras em suas casas tecem nas calçadas as encantadoras e coloridas peças de renda, filé e labirinto. O Bar do Alípio tornou-se por muitos anos o ponto de encontro de intelectuais, artistas, políticos e outros desocupados. Certo final de ano os amigos, Júlio Bandeira, Arnon, José Wanderley, Marcos Davi entre outros, fizeram uma confraternização. Bons uísques, tira-gosto da melhor qualidade, eram cerca de 10 a 12 pessoas. Foi quando se comentou a separação de um dos amigos, o Doutor havia trocado sua esposa, 20 anos de casado, pela enfermeira de 18 anos. Alguém do grupo logo o elegeu “O canalha do ano”, a brincadeira terminou mais tarde e cada qual para sua casa.

Ano seguinte, ao convocar os mesmos amigos, acrescidos mais de outros, o Júlio lembrava que iriam escolher novamente o canalha daquele ano. Assim começou a festa do canalha, sempre alguém que separou da mulher ou arranjou uma amante ou coisa parecida era o agraciado.

Logo depois, sete comunistas resolveram abrir um restaurante, o Casablanca na Ponta Verde. A Festa do Canalha passou a ser realizada no restaurante dos camaradas. Sempre escolhendo o canalha por um desvio de conduta domiciliar. Por algum tempo o Casablanca foi o ponto dos políticos e boêmios. O jornalista Plínio Lins fazia o Programa Conversa de Botequim nas quartas-feiras entrevistando uma figura de projeção na época, era divertido. Acontece que o capitalismo é difícil crescer nas mãos de comunistas que consumiam mais que os clientes, o Casablanca foi à falência.

O maior cirurgião cardiovascular do Brasil, Dr. José Wanderley que tem um coração maior que todos que já salvou, resolveu realizar a festa de confraternização em sua residência. A partir desse ano tudo mudou. Primeiramente pelo conforto de uma belíssima casa no alto da Cruz das Almas com uma vista exuberante para toda orla de Maceió. Segundo, foi a boca livre. O Dr. José Wanderley prepara uma recepção digna de um sertanejo, ele é de Cacimbinhas, ao chegar o convidado, o uísque já está sendo colocado em seu copo e a comida variada nas mesas. Não existe convite, é tradição a frequência de políticos de todos os partidos. Socialistas, liberais, anarquistas, fascistas, inimigos e amigos se encontram nessa casa para despedida de fim de ano. A festa inicia às 10 horas da manhã sem hora para acabar, às vezes o sol do domingo está alto quando os retardatários bêbados deixam a casa do Wanderley. Essa festa tornou-se um evento político e boêmio da cidade de Maceió.

Durante a festa reúne-se uma Comissão de Alto Nível sempre com a participação Júlio Bandeira, Marcos Davi, Arnon, entre outros, para escolha do CANALHA DO ANO. A expectativa é enorme. Quando chega o momento da anunciação, o presidente da Comissão faz um preâmbulo, os motivos pelos quais o ganhador foi merecedor do título anual e logo em seguida sob aplausos é conhecido o Canalha do Ano, sempre um caso de desvio de conduta conjugal. Certas pessoas acham a brincadeira pesada. Houve caso de uma ex-esposa, sabendo que o ex-marido tinha sido escolhido partiu para cima do locutor anunciante, um recatado médico, tomou e rasgou o discurso escrito pela Comissão. Outra vez uma grande autoridade foi contemplada com o título, um caso sério que ainda não era sabido pelos órgãos da Imprensa, para ter discrição deram o título a um amigo do contemplado, simbolicamente. Os boêmios da cidade adoram essa boca livre de bons uísques e tira-gosto, almoço, ouvindo boa música num local paradisíaco durante todo o dia do sábado, deixa qualquer cidadão com vontade de tomar mais uma. A paciência do Dr. Wanderley e da Dra. Simone, sua esposa são admiráveis.

Certa vez um conhecido boêmio saiu da Festa pelas 19 horas, colocaram o bêbado dentro de um taxi, o motorista perguntou onde ele morava disseram que era perto da Praça Centenário. Ao chegar à Praça o taxista perguntava onde bêbado morava ele respondia, cantando.

-“Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza…” e caia no sono no assento traseiro.

Depois de lutar por mais de uma hora perguntando se alguém conhecia aquele cidadão, o taxista retornou à casa do Wanderley com o bêbado ainda cantando: “Moro num país tropical”. O vereador Juca Carvalho, depois de algum telefonema, entregou ao taxista o endereço detalhado do boêmio.

Assim é a festa de confraternização na casa do Dr. Wanderley. Hoje dia 9 dezembro tem mais outra e o Dr. Wanderley estará de braços abertos e sorriso franco recebendo a elite política de Alagoas, seus amigos e alguns boêmios penetras.

SOCORRINHO

Idosos não perdem a memória, às vezes ficam esquecidos. O fascinante do ser humano é que detalhes de um passado mais distante se perpetuam na mente. Programei minha memória recordar apenas coisas boas, as ruins apaguei-as, para ser feliz.

Eu era um menino de sete anos, ano da graça de 1947, morava na Avenida da Paz. No último dia de novembro minha mãe deu um presente à família, nasceu Socorrinho, última dos cinco filhos. Alguém apareceu com a criancinha nos braços para mostrá-la aos irmãos. Eu fiquei curioso ao vê-la chorando, emocionei-me, fiquei feliz, senti uma premonição, aquela menina chorona tornou-se uma das figuras mais importantes de minha existência.

Nossa infância na praia da Avenida e nas cercanias do riacho Salgadinho foi de liberdade e alegria, percorria toda redondeza pescando ou catando caranguejo. Meus pais criaram os filhos com sabedoria e generosidade, entretanto, menino é malvado, Socorrinho devia ter quatro ou cinco anos, eu quase rapaz, pegava o goiamum pelo casco, as patas do bicho enormes abertas nervosas, eu amedrontava os mais novos achegando o caranguejo brabo perto do rosto dos meninos, Socorrinho foi vítima. Até hoje ela tem pavor a caranguejo, sequer sabe o gosto de uma saborosa caranguejada.

Ainda jovem passei no concurso e fui estudar na Escola Militar, peguei um trem em Maceió até o Recife de onde viajei para Fortaleza. Durante 12 horas o trem correu entre pequenos morros, canaviais verdes fazendo um horizonte ondulado com o céu azul, me vinham lembranças, meus pais, meus irmãos. Disfarçadamente chorei enquanto o “Trem de Alagoas” cantava, “vou danado pra Catende com vontade de chegar”.

Durante o tempo que estive no Exército morei 13 anos pelo Brasil afora, nunca deixando de passar as férias em Maceió. Certa vez Socorrinho me confidenciou, estava namorando e me apresentou o Clailton, a partir desse dia ganhei outro irmão. Está gravada em minha mente a figura de Clailton na varanda de nossa casa, tocando violão, cantando: “Oh cachaça amiga, não há quem me diga que não tens valor… e de saudade eu morro, vem em meu SOCORRO mais outra lapada”.

Em 1967, promovido a capitão fui classificado para servir no 20º Batalhão de Caçadores, voltei a morar nas Alagoas, que felicidade. Nada mais queria na vida; solteiro, morando na casa dos pais com comida, roupa lavada e o carinho dos pais e irmãos; de quebra, uma Maceió bonita, festiva, eu vivia no paraíso. Nessa época, dos cinco irmãos, apenas eu e Socorrinho morávamos na casa do General e Dona Zeca. Foi uma fase bonita, alegre e feliz de minha existência. Socorrinho era minha companheira, minha amiga para toda programação, festas, casamentos, aniversários, Zinga Bar. Às vezes eu paquerava suas amigas, ela dizia não gostar, preocupada com possível sujeira de minha parte com as amigas, porém, no fundo eu sabia, ela tinha maior orgulho do irmão.

Nunca tive desentendimento com Socorrinho. Aliás, tive uma única discussão, não lembro o motivo. Dia seguinte, ela emburrada não falou comigo, raiva mesmo, ranzinza. Eu pensei, ela tinha um pouco de razão. Socorrinho não só perdoou, como me abraçou emocionada quando ao entrar em seu quarto a cama estava coberta de rosas. Foi minha maneira de pedir desculpas.

Em 1970 me casei com Vânia, amada companheira de 47 anos, logo depois Socorrinho casou-se com Clailton, seu primeiro e único namorado. Socorrinho tornou-se o esteio na família. Sempre foi a primeira chegar aos problemas nas dificuldades da família, nos piores momentos, na hora da morte, como também na hora da alegria. Ela herdou de Dona Zeca o amor às festas, à família, ao natal, ao ano novo. Sua casa sempre cheia, Clailton ainda canta ao violão nos dias de festa.

Hoje, aquela cena ainda em minha mente, a criancinha recém-nascida nos braços não sei de quem, sendo mostrada aos irmãos está fazendo 70 anos. Desde aquele momento veio nossa bem querência, nossa cumplicidade, amizade. Sempre tivemos um apoio mútuo e forte, hoje e até o final de nossas vidas.

O ANIVERSÁRIO DA VOVÓ

– “Minha sobrinha como você está bonita, as guerrilheiras se deram bem quando voltaram a ser normais. Você está linda minha querida.”

– “Tio Aprígio amado, você está um coroa enxuto, garanto como tem muitas mulheres dando em cima desse viúvo, setentão. Cheguei ontem, vim somente curtir os 100 anos da vovó Creuza, retorno na terça-feira. Ela está lúcida, impressionante, sentada na cadeira de balanço, me deu um abraço apertado, conversamos muito, ela lembra-se de pormenores dos tempos da ditadura, minha prisão, meus anos de exílio, a falta que eu fazia, sempre fui muito chegada à minha avó. Achou-me parecida com mamãe.”

– “De fato sua mãe e sua tia eram bonitas, aliás, todas as mulheres da família são lindas. Cristina minha querida, você ultrapassou os cinquenta, continua uma mulher atraente, desejável. Ainda está casada com aquele jovem pilantra?”

– “Meu tio, acho que você está me cantando. O pilantra era apenas uma questão de cama, nunca fui casada com ele, sou uma mulher livre, faço o que quero. Adorei seu ciúme. Agora vamos cantar os parabéns para Vovó. Sempre adorei esse sítio aqui da Bica da Pedra, hoje estou com vontade de tomar um porre, me acompanhe tio Aprígio querido e lindo.”

Na reunião familiar comemorando os 100 anos da matriarca Creuza estavam os convidados especiais e a família, filhos, genros, netos, bisnetos, tataranetos, faziam a festa no bem cuidado Sítio Junqueiro, entre coqueiros, mangueiras, à beira da Lagoa Manguaba, um paraíso particular da família. Com muita alegria cantaram os parabéns, Aprígio discursou com bom humor e boas recordações, Cristina se emocionou. Dona Creuza tem um carinho especial ao genro, alegre por natureza, feliz, radiante, lúcida, em movimentos lentos agradeceu, tomou uma cachacinha, acendeu um cigarro na vela, depois soprou as velinhas, abraçou a todos, celebrando a vida, 100 anos de vida.

A festa continuou animada, muitas recordações, casos contados, histórias hilariantes e outras tristes. Um conjunto tocava belas músicas, dançaram, cantaram, beberam até altas horas da noite. Na hora de dormir cada qual se ajeitou nos cinco quartos do Sítio, outros retornaram a Maceió. Alguns mais resistentes ficaram para curtir o amanhecer, pegar o sol com a mão. Sentados no cais das lanchas Aprígio e Cristina conversaram, lembrando os tempos de sua prisão. Aprígio viajando para o Recife, abrindo contatos com ao militares, até conseguir um acordo, Cristina solta, exilou-se no México, depois rumou à Europa, Bruxelas, Paris, muita saudade do Brasil. Enfim o retorno.

O sol nasceu por entre os coqueirais em certo momento a sobrinha encostou-se em Júlio, surpreendeu-o beijando na boca, cochichou no ouvido.

-“Vamos ao hotel?” Olhos nos olhos, o domingo amanhecendo esplendoroso, céu e nuvens alaranjados. Eles se levantaram. Aprígio falou aos bêbados retardatários deitados na grama.

– “Vou para Maceió, levo a Cristina no hotel. Logo mais retorno, tem a famosa feijoada da Dona Creuza. Até mais tarde.”

Os dois entraram no carro, olharam-se, abraçaram-se, beijaram-se como se fossem dois colegiais. Enquanto Cristina saltou do carro para abrir a cancela do sítio, Aprígio habilmente tirou uma pílula azul da carteira, colocou-a na boca, mastigou, engoliu.

Ao entrar no apartamento do hotel, calmamente tomaram um banho quente, o dia havia amanhecido, apesar de todo cansaço, relaxaram se amando, dormiram. Acordaram ao meio dia, repetiram a liturgia do amor do fim de noite. Fizeram um lanche no hotel, passaram no apartamento de Aprígio na praia da Jatiúca, digno de um viúvo. Ele vestiu um calção de banho, bermuda, camisa colorida, rumaram para feijoada de Dona Creuza.

O planejamento de retorno ao Rio falhou. Cristina ficou todo mês de fevereiro e o carnaval, adorou passear pelo litoral norte, litoral sul, encantada com as cidades históricas, barrocas, Penedo, Piranhas, Marechal Deodoro. Aproveitou a época carnavalesca saiu no Bloco da Nêga Fulô no domingo de carnaval, nunca deixando de visitar vovó Creuza no Sítio. Passeou por todos os mares das Alagoas sempre acompanhada do querido tio.

No aeroporto Cristina despedindo-se, sorrindo para o tio.

– “Meu amor, todos esses dias, inesquecível, obrigado por tudo, qualquer dia a gente se vê, tenho certeza, até o próximo aniversário da Vovó.”

CONVERSA DE TAXISTA

Ao tomar um taxi no centro da cidade cumprimentei o motorista e dei-lhe o destino, a orla de Jatiúca. Nesse mesmo momento, em frente, uma jovem atravessava a faixa de pedestre quando de repente o forte o Vento Nordeste levantou a saía da moça mostrando um belo traseiro enfeitado por uma minúscula calcinha vermelhe, as mãos da jovem estavam ocupadas com sacolas, ela não teve como baixar a saia continuando a exposição de seu belo corpo para quem quisesse olhar. Ao retornar a calmaria o taxista engatou a primeira e fomos rumo ao destino. Ele sorrindo, satisfeito da vida, olhou-me de soslaio e comentou com bom humor.

– O senhor viu que coisa linda? E há quem não goste disso. Eu sou casado, sustento minha família com esse taxi, mas tenho esse vício por mulher, gosto de dar uma voltinha por fora quando aparece oportunidade, entende Doutor?

Eu simplesmente afirmei, entendia. O taxista continuou falando entrando na orla no Centro, Maceió é a única capital que tem praia no centro da cidade. Não parou mais de falar.

– Está vendo aquele pardal ali na calçada? Eu fico prevenido, a cidade está enfestada de pardais multando quem ultrapassa a velocidade. Para que o Prefeito colocou isso? Vai perder voto. Eu gosto do Rui Palmeira, mas esse negócio de pardal deixa a gente mais nervoso no trânsito. Dizem que é para educar os motoristas, pode até ser, mas eu não gosto. Mesmo assim eu voto no Rui. Sempre votei no pai, Guilherme Palmeira, um homem de bem, foi um grande governador e senador.

E continuou falando, conhecia a velharia política alagoana, foi citando os conhecidos até chegarmos à praia da Pajuçara, quando o taxi parou numa faixa de pedestre em frente a um luxuoso hotel. Nesse momento atravessaram três turistas andando devagar, vestidas em saída de praia, tecido fino e transparente mostrando os pequenos biquínis que mal cobriam as partes pudentes. Foi o pretexto para o taxista continuar a apologia à mulher.

– Olha aí que coisa mais linda, essas mulheres com o andar rebolativo, macio, sem pressa, ficam desfilando para o mundo, elas sabem que homem gosta de olhar. É um espetáculo e eu quero viver muito tempo para apreciar. A gente não come, mas olha, Doutor. Deu uma risada de sua própria piada.

Sinal verde, ele arrancou o taxi, não parou de falar.

– Vou contar uma história que o senhor não vai acreditar. Na temporada em janeiro eu peguei no hotel duas paulistas bonitas feito a gota serena, levei-as à praia do Francês. Providenciei sombrinha, cadeiras, elas ficaram encantadas com tanta beleza, pediram cerveja ao garçom, tomaram banho de mar, andaram na praia, retornaram à mesa, enchendo a cara com cerveja e caipirinha, eu só espiando e esperando de longe. Já tarde resolveram almoçar na barraca, me convidaram. Comi uma boa moqueca de peixe, sem beber, é claro. Eu percebi que as duas estavam meio bêbadas, cantavam e conversavam. Só retornamos a Maceió perto das seis horas, anoitecendo. As paulistas começaram a conversar sacanagem, perguntavam-me coisas, se eu gostava, eu respondia tudo, todo encabulado. Ao passar por um motel na beira da estrada, ouvi o grito me ordenando: Pare o carro! Eu imediatamente freie o taxis. Uma delas se achegou por trás de mim, convidou-me para uma “ménage a trois” que eu nunca iria esquecer. Eu topei mesmo sem saber o que era “ménage a trois”. Doutor nunca tinha visto tanta coisa em minha vida, as mulheres ficaram loucas, fumaram maconha. Aprendi muito nas duas horas que passamos juntos. No final, elas pagaram a conta do motel, champanhe e outras bebidas finas. Na volta elas continuaram contando e conversando, levei-as ao hotel em que estavam hospedadas na praia da Ponta Verde. Ao despedir-me, ofereci meus préstimos para o dia seguinte, levá-las a qualquer praia que quisessem. Elas me agradeceram, viajariam na madrugada, estavam numa excursão. Quando voltassem a Maceió, me procuravam. Entreguei-lhes meu cartão. Deram beijinhos, e pagaram-me a conta, mais que havíamos acertado.

O taxista só parou de falar quando chegamos ao meu edifício, ele ainda tinha outras história para contar. Agradeci, paguei. Fiquei pensando. Na outra encarnação quem sabe se terei a sorte em ser motorista de taxi em Maceió.

DEVIA TER DADO

– “Eu devia ter dado.” Ritinha confessava, em soluços, abraçada à amiga Miriam, sentadas num banco do cemitério Parque das Flores. Era quase meia-noite o corpo de Afrânio estava sendo velado pelos amigos e parentes.

Afrânio aparentava boa saúde, caminhava diariamente às 17 horas pela orla. Naquela tarde Afrânio, andando, sentiu um mal estar, dor no peito, caiu no chão. Socorreram, colocaram-no em um taxi, avisaram à Paula, sua esposa, levaram o infartado ao Hospital, ao chegar estava morto. Foi uma choradeira entre parentes e amigos, os dois filhos que moram em São Paulo pegariam o primeiro avião. A notícia correu rápida no Facebook, postaram o laço preto, a foto e as notícias fúnebres elogiosas. “Alagoas fica menor. Morre Afrânio Cavalcanti grande empresário, o velório será o Parque das Flores e o enterro às 17 horas de amanhã.” Afrânio era muito querido, gentil, trabalhador, bem casado, tinha apenas um defeito, gostava de um rabo de saia. Teve vários casos, mas nunca se prendeu a alguma de suas aventuras. A esposa minimizava esse defeito para viver bem.

O Parque das Flores logo ficou repleto, as duas amigas Paula e Ritinha abraçadas diante do caixão choravam em desespero aquela tragédia, os amigos consolavam a viúva. Foram 31 anos de casados, eles viviam em harmonia possível. Quando os filhos foram para o Sul estudar e ficaram por lá, o casal ficou mais amigo, precisavam um do outro. Paula chorava aos prantos diante do marido inerte no caixão, sabia que nunca mais teria seu bom humor, seu carinho e as noites gostosas de amor, afinal, Afrânio era sábio de cama.

Deram um calmante à Paula, ela deitou-se nos aposentos do velório. Ritinha acordada aguentou no salão olhando para o defunto, estava chocada, desesperada, arrependida, havia descoberto naquele momento doloroso que amava Afrânio, marido de sua melhor amiga, sua cabeça pensava em perda, lamento e traição, quando apareceu a amiga Miriam convidando-a a um passeio pela alameda iluminada do cemitério. Sentaram-se no banco embaixo de enormes pés de eucaliptos. Foi naquele momento que ela desabafava junto à amiga.

– ”Eu devia ter dado a ele.” Continuou abrindo seu coração para Miriam.

– “Eu e Paula sempre fomos grandes amigas. Depois que me separei do Arnaldo, comecei a sair com o casal, Afrânio cheio de bom humor vivia me arranjando namorado, até que dei algumas escapulidas com alguns. Ano passado na praia de Paripueira em um passeio na piscina natural, eu estava segurando a jangada com o corpo dentro d’água, de repente, senti um corpo junto ao meu por baixo d’água, entrelaçou-me entre as pernas, deu-me uma gostosa excitação, olhei nos olhos de Afrânio e balancei a cabeça negando amavelmente. Aquele momento me agradou confesso, eu adorei. Dias depois me encontrei com Afrânio no Shopping, ele convidou-me para um sorvete. Sentamos, ele perguntou se eu acreditava que um homem podia amar duas mulheres? Porque me amava e era tarado por mim. Já pensou? Eu quase sessentona. Mandei que ele se aquietasse, já não era mais menino, não ligou, continuou a conversa. Fez-me a proposta indecente. Por que não um encontro em vez em quando num motelzinho gostoso? Não precisava Paula saber.

Eu saí do Shopping excitada com a proposta, porém, havia uma amiga no meio do caminho. Afrânio quando podia, dizia-se apaixonado, eu resisti durante esse tempo todo. Hoje eu o vendo morto, inerte, a vida acabada, fiquei num profundo sentimento de perda e de arrependimento. Eu devia ter dado a ele, Miriam. Agora Inês é morta”.

Retornaram ao velório, Ritinha procurou Paula, ela estava sozinha no quarto, sentada na cama, deu duas batidas no colchão com a mão, convidando a amiga sentar-se. Abraçaram-se. A viúva puxou conversa.

– “Minha querida amiga, Afrânio gostava muito de você, muito mesmo, eu não sentia ciúme. Ele lhe tinha um carinho especial, eu percebia. Agora que tudo acabou, diga-me, até por curiosidade, continuarei sua amiga seja qual for a resposta. Vocês transavam?”.

Deu-se um momento longo de profundo silêncio.

– “Paula vou lhe contar a verdade, fui-lhe amiga fiel com muito esforço. Afrânio tentou, tentou muitas vezes, insistente. Confesso várias vezes tive vontade, só não dei, para não lhe trair”.

– “E eu pensava que vocês transavam. Você devia ter dado, o bichinho queria tanto.” Disse Paula sorrindo, beijando a testa da amiga.

O PREFEITO COM NOME DE IMPERADOR

Na história da humanidade tivemos grandes gestores que governaram com a cultura e a arte, esses fizeram administrações humanistas, gravaram seu nome na História.

Um exemplo da Antiguidade foi Adriano, imperador romano de 117 a 138, considerado um dos chamados “cinco grandes imperadores”. Ele reconstruiu o Panteão e construiu o Templo de Vénus e Roma. Adriano era um humanista. Durante seu reinado, ele viajou para quase todas as províncias do Império Romano. Um ardente admirador da Grécia, fez de Atenas a Capital da Cultura do Império. Adriano era entusiasmado pela literatura e nomeou seus assessores entre escritores, arquitetos, pintores e artistas.

Na história do Brasil durante o governo holandês no Nordeste, tivemos o Conde Maurício de Nassau. Ele amou a terra assim que chegou, houve um encantamento mútuo. Arrodeado de assessores bem escolhidos, arquitetos, pintores, escritores, artistas, transformou Recife em uma das cidades mais belas do Brasil. Até hoje Nassau é reverenciado pela sua administração ligada à cultura e à arte.

Recentemente em Palmeira dos Índios, agreste alagoano, foi eleito um prefeito de origem popular com nome de imperador, Júlio César, que resolveu revolucionar a administração municipal caduca praticada no Brasil e está tentando retornar a cidade de Palmeira dos Índios em seu devido patamar cultural, econômico e social no Nordeste Brasileiro.

Ao assumir a Prefeitura, tal qual anos atrás Graciliano Ramos assumiu, fez uma reunião com o secretariado, foi incisivo, “Não posso errar”, disse alto e bom tom para que todos soubessem que ali naquela cadeira havia um administrador de pulso com ideias inovadoras. Partiu para Brasília em busca de soluções, pedindo a um e a outro nos Ministérios e no Congresso. Já é conhecido como o prefeito pidão, como ele mesmo se denomina. Está conseguindo transformar Palmeira dos Índios dentro das limitações financeiras que são graves nos municípios brasileiros. O Poder concentrador do Governo Federal está acabando com o Federalismo. Só um exemplo na captação de recursos para a cultura pela Lei Rouanet, em 2016, 79% dos valores captados ficaram no Rio e São Paulo e 21% para o resto do Brasil. É uma distribuição cruel de recursos. Há mais de 10 anos está engavetado um projeto de mudança nessa lei, entretanto, o lobby do Sul Maravilha é poderoso.

Mas voltemos ao prefeito com nome de Imperador, Júlio César, num gesto de ousadia resolveu reconquistar o lugar de Palmeira dos índios e transformou a cidade na Capital da Cultura das Alagoas. Desde o Carnaval, São João, Semana do Índio, vem dando todo apoio à Cultura e a Educação. Recentemente foi realizada a Semana de Graciliano Ramos e a 1ª Festa Literária de Palmeira dos Índios. O sucesso extrapolou a expectativa, com uma programação da melhor qualidade, o auditório restaurado, sempre cheio, recebeu grandes escritores de todo Brasil em mesas de debates com temas dos mais variados, desde a entrevista com o escritor Ivan Barros, homenageado, realizada pelos palmeirenses, jornalista Pedro Oliveira e Dr. Damião, como mesas de debates diversas: Projeto de incentivo à leitura (Passarinhar), Índios Xucurus na formação cultural das Alagoas, religiosidade popular. E mesas sobre a vida e obra do maior escritor brasileiro de todos os tempos, o ex-prefeito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos. Parte da família do nosso maior escritor compareceu ao evento, que constou ainda com o corredor Velho Graça apresentando oficinas, venda e troca de livros, contação de histórias. Foi uma grande festa onde a Literatura se misturou com o Teatro em encantadas apresentações de alunos, e shows noturnos magnífico mostrando a arte e cultura nordestina.

O auditório e o corredor sempre lotados sensibilizou a comunidade. A Festa Literária de Palmeira dos Índios se consolidou desde a primeira edição e pode considerar que já entrou na lista das melhores do Nordeste, foi o evento cultural do ano em Alagoas. De parabéns Palmeira dos Índios, Alagoas, a secretária Isvânia Marques, a eficiente equipe, e principalmente o mentor de tudo isso, o obstinado, ousado, pidão, renitente, prefeito Júlio César, com nome de Imperador.

A MOÇA DA JANELA

Maxwel morou a vida toda no bairro do Tabuleiro do Pinto, perto do aeroporto, aonde nasceu. Quando os filhos cresceram pressionaram o pai a se mudar para orla.

Devido aos tempos modernos, aos apelos dos filhos, à comodidade da família, finalmente Maxwel comprou um apartamento na Ponta Verde, perto da praia. Para família foi uma alegria, para ele um sacrifício. Trocou uma casa confortável de 400 m², enorme jardim de muitas rosas, orquídeas penduradas em frondosa mangueira por um apartamento de três quartos, 140 m². Mas a família acima de tudo. O casal ficou com uma suíte, a outra suíte os dois filhos ocupam ocasionalmente e um quarto foi transformado em gabinete. Colocou um computador para escrever. Agora que se aposentou do Banco do Brasil, onde passou mais de 30 anos, é hora de desfrutar a merecida aposentadoria. Pretende passar um ano de pernas pro ar, depois pensar em alguma ocupação.

Pela manhã caminha na orla, encontra amigos, fica a bater papo até às nove horas antes de tomar um bom café e ler jornais. Retorna à praia às onze horas, reúne-se com outros aposentados para falar do mundo e ficar olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Preenchem as tardes no shopping, cinemas, livraria; gosta de ler. Só depois do Jornal Nacional, Maxwel recolhe-se ao escritório, liga o ar condicionado entra no computador para pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para os amigos e escrever. Já plantou várias árvores, tem dois filhos, agora cismou de escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira em frente à bancada do computador, tem uma ampla visão sobre as janelas dos apartamentos do prédio vizinho. Às vezes ele desliga a luz, para apreciar melhor o panorama.

Quando uma jovem chega por volta das 23 horas ele fica ligado enquanto sua querida Josefa, a esposa, dorme no terceiro sono. A moça é um encanto, estatura baixa, cabelos louros escorridos, nariz um pouco achatado, lábios grossos. Seu corpo é um monumento, seios duros, pontiagudos, cintura fina. O traseiro delirantemente bem torneada e protuberante. Ela não percebeu que o espelho da porta do guarda-roupa reflete todos os movimentos no quarto.

Assim que chega, tira a roupa, enrola-se numa toalha e vai ao banho antes de dormir. A cena mais emocionante é ao sair do banho, abre a toalha, como Deus a fez, veste uma minúscula lingerie curta antes de deitar. Maxwel fica num excitamento de menino. Muitas vezes depois dessas cenas mudas, ele vai direto ao quarto, acorda sua amada Josefa, pensando na moça da janela.

Certo dia, ao cair da tarde, Maxwel pegou o carro para ir às compras no mercado. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a jovem em pé com os livros abraçados, esperando condução. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Maxwel freou o carro no reflexo. Perguntou sinalizando com o indicador se ela ia à cidade. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a minissaia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade do no Farol. Maxwel mentiu, também ia para o Farol. Foram conversando amenidades, mas o coração do coroa estava disparado feito um menino. Afinal chegaram à Faculdade.

Naquela noite Maxwel ficou esperando ansioso a chegada de sua musa da janela. Compensou a espera, ao chegar, ela tirou a roupa bem devagar, deixou o coroa excitadíssimo. Na tarde seguinte, à mesma hora, Maxwel passou com o carro no ponto do ônibus e frustrou-se, ela não apareceu. Dois dias depois, ficou feliz quando a viu no ponto de ônibus. Freou o carro, ela entrou. Verônica, assim se chama, 23 anos, é mulher prática, pragmática, perdeu a mãe cedo, seu pai tem uma loja em Rio Largo. Em certo momento ela foi direta, olhando Maxwel dirigir o carro:

– Eu acho que você está me paquerando. Pensa que não percebo você toda noite na janela me olhando. Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro que os homens me olhem.

Maxwel tentou se acalmar, encarou-a, e deu um sorriso largo.

– Mas menina você é danadinha hein?

– Danadinha ou danadona, vou lhe fazer uma proposta indecente e curta: transo com você, e você paga minha faculdade. Que tal? Pense. Estamos chegando, me pegue aqui mais tarde, às 9 horas, depois de minha última aula. Estou lhe esperando nessa esquina.

Maxwel parou o carro. Ela desceu, acenou com os dedos sem olhar para trás. O difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa as nove daquela noite. Em casa, pouco antes das oito horas ele arriscou:

– Querida, está passando um filmaço no Shopping. Topa?
Ficou esperando a resposta. Quando ela disse estar sem vontade, ele quase dava uma gargalhada de felicidade. Perguntou se incomodava de ele ir sozinho. Ela sempre liberou.

Às nove da noite Verônica se aproximou do local, ele já estava plantado, esperando.

O aposentado Maxwel agora tem mais despesa no orçamento, pagar faculdade. Feliz da vida espera as tardes das quartas-feiras para ter a moça da janela nos braços.

FESTA LITERÁRIA DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

Nos últimos anos estive em pelo menos 30 festas literárias e bienais de livro pelo Brasil e até Buenos Aires, Lima, Cartagena, Havana e Frankfurt. Está havendo um crescimento de feiras literárias em todo mundo, principalmente em cidades de médio porte, e em bairros, na periferia. É um fenômeno que dá importância ao incentivo à leitura em forma lúdica, festiva, apresentando artistas locais e folclore o que aumenta a autoestima e o sentimento de pertencimento. Em algumas regiões os eventos substituem as bibliotecas públicas no papel de juntar o leitor, os livros e os escritores, as festas têm um poder maior de comunicação e interação com a comunidade. A verdade é que o livro foi praticamente expulso da vida pública brasileira. Você não vê as pessoas lendo nas praças, nas ruas, nos ônibus. As publicações perderam muita força. A imagem do livro se desgastou a tal ponto que precisamos de campanhas e mais campanhas de incentivo à leitura no país. Mas as feiras e os festivais estão recolocando o livro em sua importância na cultura e desenvolvimento do país.

No Brasil praticamente começou com a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, em situação geográfica privilegiada, no triângulo econômico e cultural do Brasil, Rio, São Paulo e Minas Gerais. Esse ano no mês de julho realizou-se a 15ª edição. A FLIP tem uma característica, bem parecida com as Bienais de livro, a comercialização de livro como objetivo principal. A FLIP foi a inspiração e muitas cidades inventaram as Festas Literárias, como a FLIPOÇOS em Poços de Caldas, FLIARAXÁ em Araxá, FLIBOQUEIRÂO em Boqueirão no interior da Paraíba, entre outras.

Quando fui convidado para exercer o cargo de Secretário de Cultura de Marechal Deodoro, cidade histórica do Estado de Alagoas, planejamos e realizamos a 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro em 2010. Foi um sucesso inesperado, às duras penas, pouca verba, convidamos grandes escritores do Brasil, como Marina Colasanti, Antônio Torres, Maurício Melo Jr, entre outros. Belas palestras, o público gostou. Porém em uma conversa com o poeta Affonso Romano de Santanna ele observou.

– O Brasil tem muitos escritores, precisamos é de fazer leitores.

Fiquei com aquela observação na cabeça. Certo dia li em um jornal alguns dados sobre leitura no mundo. A UNESCO, órgão da Educação da ONU publicou que nos países desenvolvidos cada habitante lê uma média de 14 livros por ano. Na América Latina o país melhor em leitura é a Argentina, cada habitante lê uma média de 4 livros por ano. No Brasil esses números são ridículo, nossa média de leitura é de 1,8 livros por ano por habitante. Esses dados da ONU me deixaram alarmado.

Procurei então a Secretária de Educação do município, Flávia Souza. Juntamente com sua equipe resolvemos que a FLIMARZINHA para jovens seria um programa de leitura durante o período escolar, tendo a FLIMAR como culminância desse programa. Foi uma revolução na educação em Marechal Deodoro. Cada uma das escolas durante o ano dentro de um cronograma realizou sua própria FLIMARZINHA os alunos se dedicavam à literatura e a leitura com muita alegria, com teatro, recital, contação de história. Durante o ano em todas as classes havia uma hora de leitura por semana, os alunos liam os livros trazidos da biblioteca e podiam levar para casa para continuar a leitura. Foi lançado concurso de contos inspirados em alguma poesia. Os 30 melhores contos foram editados em livro, lançado durante a FLIMAR. Ao deixar a secretaria, ano passado pedi para as professoras dos 8ª e 9ª anos realizarem uma pesquisa de quantos livros os alunos leram em 2016. O resultado foi surpreendente e gratificante, cada aluno dos 8º e 9º anos de Marechal Deodoro leu uma média de 4,2 livros. Isso basta para justificar nosso trabalho com a juventude deodorense.

“A leitura no Brasil sempre foi uma obrigação chata, um dever, não um prazer. Nesses eventos vejo crianças brincando com os livros, dessacralizando o objeto, transformando numa coisa lúdica, prazerosa. Acho que é por isso que eles são cada vez mais populares e, quanto mais se parecerem com eventos e não com aulas, melhor”. ( Zuenir Ventura).

Fui realizador de sete Festas Literárias de Marechal Deodoro (FLIMAR), em 2017 já realizei a Festa Literária do Pontal da Barra (FLIPONTAL) e na próxima semana entre 25 e 28 de outubro estarei junto ao prefeito Júlio César e a Secretária de Cultura, Isvânia Marques ajudando a realizar a 1ª Festa Literária de Palmeira dos Índios (FLIPALMEIRA), com uma programação esmerada, homenageando dois escritores palmeirenses da melhor cepa, Graciliano Ramos e Ivan Barros. A bela cidade histórica de Palmeira dos Índios se transforma na Capital da Cultura das Alagoas.

O FUTURO É HOJE

– Josimar você não tem vergonha? Só faltava essa, casar com a filha de sua terceira ex-esposa, uma menina mais nova que você quase 40 anos. Você tem vergonha não? Hoje ela está com 20 anos, novinha bonita, atraente, os homens gostam da juventude, mas quando você chegar aos 70 anos ela ainda estará no auge dos 30 anos. É uma ponta certa do tamanho de um bonde.

Repreendia Virgínia, a irmã mais velha de Josimar, solteira, invicta, ligada à Igreja de São Pedro, autêntica filha de Maria, cheia de preconceitos e dogmas, reza todos os dias pela alma de Josimar, seu único irmão, seu último parente, mas fica estarrecida com sua vida de mulherengo incorrigível.

Há alguns anos quando o irmão casou-se a primeira vez, Virgínia comemorou, afinal o mano querido sairia da vida pecaminosa de solteiro, cheio de raparigas e amantes. Foi difícil para Josimar acostumar-se com a vida de casado. Nas sextas-feiras, ao meio dia, saía direto para o Bar do Pontal, ponto de encontro de suas amizades, inclusive algumas garotas de programa. Mesmo com o nascimento de seu filho, Josimar continuou sua vida de boêmio. O casamento durou cinco anos, a separação foi até um alívio para esposa. Josimar nunca deixou faltar nada na casa da ex-mulher e do filho. Ele tem um bom emprego arranjado por um amigo de infância, deputado, uma sinecura federal, aparece uma vez por semana, é um tremendo funcionário boa vida.

Certa vez apareceu uma prima da Bahia, toda frajola, morena da cor de melaço, encantou nosso herói, saiu com ele várias vezes, ficava nas preliminares, mas nada do jogo principal. Marta, a baiana, dizia que ali só entrava casando. Muita cantada, muita lábia gasta pelo boêmio, porém Marta resistiu bravamente. Quem não resistiu foi Josimar que terminou casando-se na Igreja de São Joaquim na cidade baixa de Salvador, com uma alegre recepção na casa dos primos. Sua família e amigos viajaram para Bahia num ônibus fretado. Quem mais ficou alegre foi Virgínia pensando que a prima consertaria a vida do irmão mulherengo. Nos primeiros meses o casal vivia de mãos dadas em lua-de-mel, aparecia em todos os lugares, enamorados. Os amigos comentavam, quem diria? Como uma mulher pode transformar um homem.

Certo dia chegou um recado de Brasília do deputado mandando Josimar resolver uma questão em Delmiro Gouveia, sertão alagoano. Ele não é advogado, mas tem conversa convincente, sabe defender pertinentemente seus pontos de vista, mesmo que esteja errado. No sertão ele resolveu a questão mais cedo que pensava e retornou ao lar pensando nas noites de amor com a baiana do rabo grande, sua digníssima esposa. Ao entrar no apartamento ouviu um barulho estranho, no quarto deparou-se com uma imagem que até hoje está fixada em sua mente e em sua alma. A bela Marta deitada na cama com um dos funcionários do prédio. Deu-lhe uma dor no coração, saiu do apartamento, foi para um bar encher a cara de cachaça. Terminou o casamento com um chifre enorme que ainda hoje dói. Prometeu nunca mais casar na sua vida, dedicar-se apenas às raparigas.

Anos depois conheceu, por intermédio da irmã, Mariluce, uma viúva, madura, bonita coroa, com uma filha de 16 anos, Maria da Penha. Josimar se encantou, andava cansado da vida solteira, os amigos casados, ele já não conseguia uma conversa adequada à sua idade nas noitadas cheias de jovem. Com certo tempo acertou formalmente e casou-se pela terceira vez. Mãe e filha foram viver no apartamento de três quartos do jovem coroa Josimar. Ele ficou feliz com seu novo casamento e deu-se às maravilhas com Maria da Penha, dizia que a enteada era a filha que não teve. Matriculou e custeou a moça na Faculdade de Direito. Quando podiam viajavam os três. Maria da Penha tinha o padrasto como confidente sobre seus namorados. Josimar dava-lhe vestidos, perfumes, até um carro seminovo a enteada ganhou. A mãe ficava com ciúmes pelo tratamento dado à sua filha, achava que ela também merecia. O tempo foi passando até que estourou a bomba. Josimar apaixonado por Maria da Penha deixou a mulher e foi viver com sua filha, um escândalo. Ele está feliz da vida diz que o futuro é hoje. Nem ligou com a espinafração que a querida irmã Virgínia estava lhe dando naquele momento.

SEU FORTES

O canal em alvenaria de pedra rachão retificando o Riacho Salgadinho -Reginaldo foi construído pelo Governador Major Luís Cavalcante. Antes dessa obra de saneamento, suas margens eram cobertas de manguezais e outros tipos de vegetação ribeirinha.

Quando a maré enchia, as águas se dispersavam pelos arredores, chegavam aos fundos dos quintais da Rua Silvério Jorge, onde eu morava, formando um terreno salobro apropriado para o “habitat” de caranguejos, goiamuns azulados, com a pata direita maior que o casco.

Um dos divertimentos da meninada era colocar “ratoeiras” feitas de latas de azeite nas tocas dos caranguejos e esperar o goiamum penetrar para morder a isca de pedaços de limão ou abacaxi. Uma alegria encontrar a ratoeira fechada com um goiamum preso. Imediatamente colocava o caranguejo dentro de um caixote de ripas no fundo do quintal de minha casa. Depois de cevados, cozinhar a caranguejada era farra dos meninos da Avenida da Paz.

Nas imediações da ponte de ferro havia um sítio com pesadas vacas cheias de leite em seus grandes úberes. Essa vacaria era o sustento do proprietário, Seu Fortes, um senhor respeitável que gostava de ler.

Ele dizia-se simpatizante do comunismo stalinista da União Soviética e do presidente Getúlio Vargas. O homem teve tantas decepções políticas que abandonou as vacas, encheu o sítio de cachorros, falava com os animais. Dias mais tarde endoidou de vez.

Certa vez eu colocava ratoeiras de caranguejos nas áreas vizinhas, entrei em seu sítio. Ao retornar à tarde, no momento que vi a ratoeira desarmada, feliz da vida, corri para pegá-la, de repente senti uma paulada na cabeça, me virei, era Seu Fortes irado gritando me chamando de ladrão. Tive medo, saí correndo, nunca voltei para pegar minha preciosa ratoeira.

Seu Fortes cada dia mais doido continuou morando em uma casinha do pequeno sítio que deixou de ser vacaria para dar lugar a mais de 20 cachorros, vira-latas legítimos. O louco passou a viver da ajuda dos parentes. As vacas sumiram.

Quando o doido aparecia, maltrapilho, vestido numa calça de saco, paletó rasgado por cima de uma camisa tosca, sapato velho, caminhando às margens do Salgadinho ou na Avenida da Paz, com um séquito de mais de 20 cachorros e discursando para ninguém, a meninada escondia-se e gritava para lhe fazer raiva:

– “Seu Fortes comunista!”

O doido virava-se de um lado para outro procurando de onde vinha a provocação levantava seu tabique de pau que mais parecia uma borduna de índio, gritava para quem quisesse ouvir:

– “Comunista é a puta que pariu!”

Irado, jogava pedras na direção das pessoas de onde vinha o insulto de comunista. Certa vez ele acertou uma pedra em um menino, meu vizinho, o pai deu queixa na polícia. Nós meninos fomos chamados a depor na delegacia, demos razão ao doido, confessamos que aporrinhávamos o pouco juízo do coitado.

Em 1954, durante uma crise política no Brasil, o presidente da República Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no coração, foi uma comoção geral em todo o país. As pessoas ficaram com luto dentro da alma, até os adversários de Getúlio se comoveram.

Certo tarde, a meninada jogava ximbra (bola de gude) na Avenida da Paz, quando apareceu Seu Fortes com sua cachorrada. O doido parou perto da ponte do Salgadinho discursando para o vento, ninguém entendia o que falava. Nesse momento um dos meninos, olhou para Seu Fortes de longe e gritou com toda força da garganta:

-“Seu Fortes! Você matou Getúlio Vargas! Assassino de Getúlio!”

Ao ouvir a afronta o doido enlouqueceu mais ainda, o rosto ficou rubro, o queixo começou a tremer, rodopiou o corpo, procurando de onde tinha vindo aquele despropósito. De repente começou a jogar os braços para cima segurando seu tabique e gritava para os passantes assustados:

-“Assassino de Getúlio é a puta-que-o-pariu seus filhos de uma puta!”

Ao nos ver, catou algumas pedras, partiu para cima jogando o que podia em nossa direção. Corremos nos dispersamos pela vizinhança. A partir desse dia tínhamos outro chavão para aporrinhar seu juízo fraco, chamá-lo de “Assassino de Getúlio.”

Seu Fortes foi um dos doidos inesquecíveis de minha adolescência na Avenida da Paz, cidade de Maceió dos anos dourados!!!

A FILHA DE SEU IRMÃO

Ramiro é um sessentão bonito, mulherengo irrecuperável, mesmo com mais de 30 anos de casado é chegado a uma aventura, gosta de garota de programa. Nas sextas-feiras não dispensa uma matinê com uma bonita jovem

Certa manhã folheou o jornal na seção de acompanhantes, escolheu a anunciante: “Jandira, morena, 20 anos, esguia, universitária, seletiva. 9.8881-XXXX”. Marcou encontro na orla. Ao se reconhecerem, a morena entrou no carro com muita classe e ares de princesa. Ramiro ficou feliz em vê-la.

Na suíte máster ao ficar à vontade a jovem fez ferver o sangue nas veias do coroa. Como dois animais se entregaram ao melhor exercício físico do corpo humano. Durante o intervalo, no relaxe da hidromassagem, tomando um uísque, Ramiro provocou.

– Conte sua vida, menina.

Jandira havia gostado do alegre acompanhante, não se fez de rogada.

– Minha vida é uma novela. Meu marido fugiu com minha melhor amiga, deixou-me apenas uma filha de quatro anos. Faço programa para poder pagar a faculdade e o sustento da criança. Embora eu seja filha de um homem rico.

Continuou sua história.

– Minha mãe era pobre, filha de lavadeira, morava na Chã da Jaqueira. Quando jovem era linda de chamar atenção, todos os homens do bairro queriam namorá-la. O cabo Alcides do destacamento ficou perdidamente apaixonado, se declarava quando podia. Para ajudar em casa mamãe foi trabalhar numa residência de um fazendeiro na Jatiúca. O senhor mantinha a casa para os filhos, dois rapazes e uma moça, estudarem na capital. Os pais vinham à Maceió nos fins de semana. Com a convivência entre os jovens foram rolando brincadeiras, agarrados, até que um dia aconteceu o inevitável, o filho mais velho deflorou minha mãe e engravidou. Um desassossego, minha avó não deixou abortar. Para acomodar a situação minha mãe casou-se com o cabo de polícia apaixonado. Eu nasci e fui criada por um pai decente. O cabo Alcides morreu quando eu tinha dez anos, baleado por um bandido. Mamãe ficou sozinha nesse mundo trabalhando como lavadeira, copeira, faxineira para me sustentar. Só me revelou sobre meu pai verdadeiro quando fiz 14 anos, nas vésperas de morrer de câncer. Fiquei sozinha no mundo, fui morar com uma tia. Eu ainda piveta comecei a namorar um menino, vizinho. O diabo atentou, fiquei grávida. Casei e fui mãe com 16 anos de idade. Minha filha, Paula, é linda e por ela faço todo sacrifício. Felizmente tenho muita raça, estudei e consegui entrar na Faculdade de Direito à noite. Trabalho numa loja no Shopping. Minha sorte é que não pago aluguel moro num apartamento do meu ex-sogro, ele me cedeu, porque adora a neta, Paulinha. Faço alguns programas, tenho certeza que um dia me livro disso.

Ramiro tomava o uísque, interessado na história de Jandira, perguntou.

– E seu pai verdadeiro, você já esteve com ele? Ele sabe de sua existência?.

– Esse é o problema, certa vez tomei coragem, resolvi encará-lo, descobri seu escritório, esperei, fui recebida por ele. Quando contei minha história, meu pai se comoveu, queria saber mais detalhes. Eu constrangida e orgulhosa saí correndo. Nunca mais o procurei.

Ramiro emocionado perguntou.

– Por acaso, o nome de seu pai verdadeiro é Ronaldo?

Jandira chocou-se e confirmou assustada.

– É sim. Como você sabe?

Ramiro tomou um golaço de uísque e olhando nos olhos da morena, perguntou

– Como era o nome de sua mãe?

– Bartira

– É muita coincidência. Você não vai acreditar, conheço a história, lembro como se fosse hoje da Bartira, era bonita sua mãe. Prepare-se para maior surpresa de sua vida. Ronaldo é meu irmão. Eu sou seu tio, Jandira

Ela emocionada levantou-se da banheira, enrolou-se em uma toalha, atordoada com a descoberta, foi perguntando.

– Você tem certeza do que está dizendo? Não posso acreditar.

Acabou-se o clima sensual, conversaram a tarde toda. Ramiro resolveu ajudá-la

Dia seguinte Ramiro conversou e preparou o irmão, inventou uma história omitindo o motel. Marcaram um encontro, foi emocionante. Depois de alguns dias, muita conversa e do DNA, Ronaldo assumiu a paternidade.

Bethânia, seu nome verdadeiro, continua trabalhando no Shopping. Seu pai dá-lhe uma mesada. Ela deixou a vida de programa.

A esposa e os filhos de Ronaldo, depois do choque inicial, aceitaram a paternidade comprovada pelo DNA. A pequena Paulinha, a neta, é a alegria da família.

Quando Ramiro encontra a sobrinha se olham com carinho. Entretanto, ele não consegue apagar da mente a tarde de intenso amor com a filha de seu irmão.

OS TEMPOS MUDARAM

O assunto nas redes sociais dessa semana foi o homossexualismo, embora que no mundo atual não haja mais tabu. Houve um avanço da humanidade de respeito à preferência de cada um. Entretanto, há algum tempo, nos anos 50/60 as coisas eram diferentes. Contavam-se nos dedos os homossexuais assumidos na cidade.

Existia no bairro do Farol, perto de onde hoje é a TV Gazeta, o Zeiga, uma pensão especial de gays. O mais famoso hóspede atendia por Ramona, tornou-se o mais conhecido da redondeza, com trejeitos escandalosos era a chacota preferida da meninada, ele parecia gostar da notoriedade.

Certa vez aportou em Maceió, um jovem baiano bonito, parecia um galã de Roliúde, de nome Sandoval Duarte. Era rico, logo ficou conhecido nos clubes, nos bares e restaurantes, gostava de pagar rodadas de cerveja. Hospedado em um hotel ele pintava, seus quadros agradaram, tinha talento. Uma amiga da alta roda resolveu ajudá-lo numa exposição concorrida e badalada. As moças solteiras ficaram encantadas com o charme daquele artista espirituoso, rico e bonito.

Houve “frisson” na sociedade alagoana, uma decepção geral nas meninas casadoiras quando revelaram o escândalo. O jovem pintor baiano, Sanduarte, foi apanhado em flagrante amoroso com um rapaz de alta linhagem, também coqueluche das meninas. Sanduarte continuou morando em Maceió, sem problemas, era querido por sua simpatia. Em certo carnaval fizeram uma marchinha com ele, foi sucesso.

Em noite de Baile de Máscara do Clube Fênix Alagoana, um forte rapaz alagoano concorreu com luxuosíssima fantasia bordada de lantejoulas e paetês. Ninguém sabia se masculino ou feminino. O sexo do folião só foi revelado durante a premiação, era homem, ganhou o concurso de fantasia de luxo, primeiro lugar. O vencedor pertencia a uma família tradicional, naquela época a revelação de sua preferência sexual foi uma “desmoralização”. Os pais exilaram o filho no Rio de Janeiro, destino de muitos que iam dar expansão à sexualidade reprimida.

As lésbicas também eram poucas, refreadas. Hoje estão aí aos montes, parece que o homossexualismo feminino está em expansão. As mulheres entraram com fervor no caminho da revolução de costumes, estão transformando o mundo.

Entretanto, ainda hoje existe algum receio em sair do armário. Há dois anos, um amigo, casado três vezes – vou chamá-lo de Rock, em homenagem a Rock Hudson, bonito ator de cinema que no final da vida revelou-se – foi ao Recife passar um fim de semana com a namorada, aliás, uma garota de programa promovida à condição de noiva, assim apresentava Michelle aos amigos.

Quando seu bonito carro passava numa curva perto da cidade de Novo Lino, foi cruzado e fechado por uma camionete. Saltaram quatro homens com revólveres na mão, apontando, gritando ser um assalto. Um neguinho magro, com cara de fuinha e voz de “foen” entrou e sentou-se no banco traseiro, encostou o frio cano da arma na nuca de Rock. Ele apavorado obedecendo aos gritos do marginal, entrou com o carro num canavial.

Apareceram os outros assaltantes da camionete. Arrecadaram cartões de crédito, mais de três mil reais em dinheiro, talão de cheques, jóias e bijuterias da “noiva”. Eram quase seis da tarde, já anoitecia quando dois bandidos levaram Michelle para outro local, fizeram o que quiseram com a jovem. Enquanto isso, os outros meliantes seguraram Rock, mandaram-no se despir. Ele ficou nu, na posição que Napoleão perdeu a Guerra. Nesse momento o Fuinha estuprou o apavorado Rock. Foi doloroso, ele chorou angustiado. Com o serviço feito, os assaltantes entraram na camionete, deram o arranque, deixaram o casal no carro, levaram a chave.

Passava das oito da noite quando Rock e Michelle bateram numa casa perto de Novo Lino. Foram socorridos. Dormiram num pequeno hotel, prestaram queixa à Polícia. Na manhã do sábado seu irmão acudiu com a chave extra do carro. Retornaram à Maceió.

O assalto deixou algumas sequelas, foram traumáticos os primeiros dias para Rock. Existe uma relação muito forte entre a vítima e o algoz. Rock não esqueceu o Fuinha, tinha sonhos eróticos sendo estuprado, ouvia a voz foen, vinha-lhe uma excitação estranha. Resolveu pedir ajuda a um psiquiatra. Com dois meses de análise, entendeu, o estupro revelou sua ambígua sexualidade.

Rock hoje vive tranqüilo, assumiu a bissexualidade. Quando dá comichão, quando a vontade chega sem controle, ele vai à noite à orla, e escolhe algum jovem para um programa. Para os amigos mais íntimos, afirma sorrindo, que é bissexual porque só existem dois sexos, se fossem três ele era tri. Os tempos mudaram.

A GORDINHA GULOSA

Durval, sessentão, aposentado, e agora viúvo, está levando uma vida inimaginável há um ano. Depois da morte da esposa foi morar num pequeno apartamento da praia de Pajuçara.

Às vezes sai à noite em busca de divertimento. Numa sexta-feira foi a uma casa de show e dança, sentou-se à mesa, pediu um uísque ao garçom. Suas vizinhas de mesa eram três jovens na faixa de 30 a 40 anos. Uma loura bem vestida, saia vermelha, outra loura de mini-saia mostrando as pernas bonitas e a terceira, uma simpática, risonha e bonita gordinha, com um vestido de renda longo e um generoso decote realçando a exuberância dos seios.

Durval encantou-se com a beleza angelical da gordinha. Nariz afilado, boca pequena, lábios carnudos. Os cabelos pretos que nem um mutum, davam-lhe um tom sensual na aparência.

O viúvo viu a uva, achou-a nova, calculou ter o dobro da idade da gordinha. Depois de dois uísques Durval já conversava com as vizinhas. Eram pernambucanas, estavam a trabalho em Maceió, retornariam no domingo para o Recife. Cidinha, a gordinha, embarcava para Lisboa na segunda-feira pela manhã. Tinha conseguido um curso de cinema de seis meses na Europa.

Durval estava embevecido com a conversa descontraída das jovens. Sentiu fortes sinais de paquera nos sorrisos de Cidinha. A diferença de idade não seria empecilho.

Ao iniciar uma música suave, Durval convidou a gordinha para dançar. Abraçaram-se e ele sentiu colar-se o corpo da jovem. Mudos, se acarinhavam deslizando pelo salão. O coroa descolou o rosto, olhou-a nos olhos, de repente Cidinha beijou-lhe a boca, continuaram dançando entre beijos e carícias.

Tarde da noite Durval levou as jovens ao hotel e Cidinha ao apartamento. No espelho do elevador olharam-se abraçados e sorrindo. Um belo e simpático casal de gordinhos.

Ela resolveu tomar um banho. Durval entregou-lhe uma toalha. Quando do chuveiro jorrava água morna, ele entrou no banheiro, ficou encantado ao ver a gordinha entregue à água. Ensaboaram-se, beijaram-se, arrastaram-se à cama.

Num momento de intenso movimento, ouviu-se um estalo forte. O estrado da cama quebrou, o colchão arriou ao chão. Deram uma gargalhada, continuaram amando-se.

Depois de muito amor, os dois estatelados e mudos olhavam para o teto, Cidinha foi a primeira a falar:

– “O amor me dá uma compulsão enorme, quero comer. Tem alguma macarronada por perto nessa hora?”

Colocaram uma roupa e foram para a Casa do Macarrão. Cidinha comeu a primeira, pediu outra. Durval achou a maior graça porque vieram a terceira e quarta macarronada. Ele acompanhando discretamente. Cidinha esclareceu, a culpa era dele, quanto maior o êxtase, maior a fome. Levaram mais duas macarronadas num pacote viajando para o apartamento.

Dormiram como dois anjos de Botero. Ao acordar pelas 10 horas da manhã, enquanto a amada dormia, Durval levantou-se, escovou os dentes, tomou banho, enrolou-se numa toalha. Foi à geladeira beliscar alguma coisa. Ao perceber que não havia mais macarronada, saiu-lhe uma gargalhada tão alta que acordou os dorminhocos retardatários do prédio. Rolaram sorrindo na cama quebrada.

Antes de partirem para o Recife, degustaram um substancial café numa padaria, ele combinou que a acompanharia até sua partida a Portugal. O sábado ensolarado estava convidativo, cantaram durante a viagem de carro pela estrada litorânea cheia de céu, mar e muito coqueiro. Resolveram dormir em Maragogi. Hospedaram-se no Hotel Salinas. Foram à praia. Durante a noite divertiram-se no salão de dança, onde encheram a cara com muito uísque. Pela manhã, Durval roçou seu nariz no nariz de Cidinha, ela dormindo, sonhando, cheirava seu namorado. Beijaram-se nos lábios com muito carinho. Cidinha acordou-se voraz. Fizeram amor até mais tarde. A cama do hotel não despencou.

Domingo rumo ao Recife. O café da manhã regional, delícia da comida nordestina. O Salinas tem o melhor serviço de café da manhã do país. Certo momento Durval saiu para fechar a conta na recepção. Deixou a amada terminando seu café da manhã.

Meia hora depois ele retornou e percebeu os garçons espantados com aquela hóspede que não parava de comer esvaziando pratos e enchendo-os novamente de comidas. Quando ela viu Durval, deram uma gargalhada na maior cumplicidade. Ainda cochichou no ouvido: “Tapeei um pouco, mas não pude resistir tanta coisa gostosa. O culpado foi você meu amor, a compulsão é enorme, ainda sinto minhas pernas entre as suas, meus seios ainda estão em suas mãos.”

No Recife ele deixou-a numa mansão no bairro de Casa Forte. A família da gordinha é das mais tradicionais descendentes de Maurício de Nassau.

O avião decolava às seis da manhã do dia seguinte. Como combinado, ao entardecer Cidinha, de malas prontas, apareceu no hotel de Durval. Jantaram num chique restaurante de Boa Viagem, retornaram ao hotel. Foram horas seguidas de intenso amor e vinho. O coroa recorreu discretamente da ajuda da valorosa azulzinha. Na madrugada saíram do ninho amoroso direto para o aeroporto. Despediram-se num beijo prolongado.

Quando o avião decolou, ela pediu o primeiro lanche de bordo. E assim prosseguiu nas sete horas de vôo. Foram quatorze lanches e cinco garrafas de vinho durante a travessia do Oceano Atlântico. Cidinha comia recordando detalhes da aventura com o alegre coroa e pensava se algum dia iria revê-lo.

DESEJOS PRESOS

O baiano Antônio Firmino viajou para rever amigos, colegas de turma de Engenharia em Maceió. Na manhã do sábado enquanto esperava um amigo no saguão do hotel, avistou uma senhora, pareceu-lhe familiar, achegou-se. O coração disparou, e a memória trouxe a imagem de uma adolescente alegre, bonita, ensaiava e dançava o rock nas festas. Madrinha de formatura, sua doce e inesquecível namorada. Firmino chamou-a pelo nome. Tereza!

Surpresa ela aproximou-se, o sangue ferveu-lhe, explodiu o coração ao reconhecer o amor de juventude, um grito saiu da goela e da alma. “Firmino! Não é possível”. Abraçaram-se longamente, 40 anos de lembranças, sentimentos e desejos presos.

Arrefecidos os ânimos, sentaram-se no sofá sorrindo um para outro. Lágrimas presas nas faces de Tereza. Num relance, Antônio Firmino fez uma análise visual de sua ex-namorada. Tornou-se uma bela e apetitosa sessentona, cabelos castanhos longos e lisos envolviam o rosto delicado, olhos vivos brilhavam até pela emoção. Tereza interrompeu sua redescoberta.

– “O que está olhando? Eu estou em forma, graças a muita malhação, bisturi e hormônios.”

Conversaram bastante, Antônio resumiu sua vida, ainda trabalhava em construção, continuava morando em Salvador, estava em viagem solitário à Maceió para pensar na vida depois da morte da esposa, companheira de mais de 30 anos, há quatro meses. Foi bem casado, mas nunca havia esquecido aquele amor juvenil, puro e bonito da alagoana. Tereza emocionada deu um beijo em sua face, também resumiu sua vida, separou-se há três anos depois que lhe apareceu um câncer no seio, mas tem dois filhos e dois netos. Luta bravamente contra a doença maligna, cortou um seio, parece que conseguiu vencer, os últimos exames estavam ótimos. A perspectiva da morte transformou sua cabeça. Recomeçou a viver intensamente nesses últimos anos, por conta disso ficou má vista entre fuxiqueiros, o que pouco importa, a vida é uma dádiva. Sou uma coroa alegre que ama viver o que me resta.

Nesse momento apareceu Luciano, vinha buscá-lo. Cumprimentaram-se, ela o conhecia. Tereza perguntou onde era o almoço, ficou de telefonar para Firmino.

Passava um pouco das quatro horas, Antônio acompanhado de doze colegas de turma de Engenharia com esposas no restaurante se refestelavam de lagosta, peixe e camarão. Rolavam histórias, memórias e muito uísque. De repente apareceu Tereza, cumprimentou os casais, puxou uma cadeira, sentou-se ao lado de Antônio, cochichou no seu ouvido: “Não lhe largo mais”. O almoço terminou tarde.

Chegaram ao hotel às oito da noite de pilequinho, cantando antigas canções. No elevador se beijaram. Depois de um demorado banho se amaram como se o mundo fosse acabar. A ajuda azul foi determinante. Antônio Firmino ficou surpreso com o desempenho de Tereza, parecia uma loba no cio.

Toalhas na cintura, sentados no tapete, garrafa de uísque, os dois se abriram contando histórias de suas vidas. Tereza certa hora confessou que depois do tratamento do câncer, tomou muito hormônio, aguçou a libido, o sexo. Despertou-lhe uma inevitável necessidade de sexo. Alguns chamam de compulsão, é o pecado capital da Luxúria. Ela gosta de ser assim, só depois da separação e ver a morte perto teve a coragem de se desprender dos preconceitos. Durante o casamento foi correta com o marido, o amor burocrático a satisfazia.

Inesperadamente apareceu Firmino, namorado de sua juventude quando a virgindade era preservada e os desejos eram presos. Jamais ele saiu de suas lembranças e também do coração. Dormiram agarrados.

Amanheceu o domingo, Antônio Firmino acordou-lhe com um beijo no rosto. Ela abraçou-o, se amaram. Passaram o domingo na cama e na varanda conversando e se amando, curtindo a fascinante vista do mar do Maceió.

Continuaram quatro dias de amor sem sair do apartamento do hotel, comendo, bebendo, conversando, sorrindo, se amando felizes daquele encontro meio maluco, acidental. Nem o vício de Tereza em caminhar na orla, aconteceu.

Até que chegou a quarta-feira ingrata, Firmino deixaria o carro alugado no aeroporto, o avião decolava às 14 horas para Salvador, havia necessidade urgente de sua presença no escritório. Tereza o acompanhou até o aeroporto, sentada bem junto, o carro deslizava pela grande avenida. Num impulso ela o abraçou e beijou. Dirigindo e sorrindo ele pedia à amada, cuidado e juízo. Antônio estava às alturas de tanta excitação. Ao parar num sinal vermelho, um carro com três senhoras parou justaposto. As madames perceberam o que eles estavam fazendo, ficaram escandalizadas, fizeram o sinal da cruz, balançaram a cabeça repreendendo aquela falta de vergonha. O semáforo fez-se verde, Antônio acelerou, ao mesmo tempo saiu um gemido e um grito. “Sua maluca”. Continuaram correndo na avenida às gargalhadas.

Na hora do embarque despediram-se, beijos e lágrimas. Tereza ficou na varanda contemplando o avião decolar, a saudade bateu forte. Está programando viagem à Bahia necessidade em rever aquele amor, o mais puro de sua juventude. Juventude que ainda possui em seu corpo sessentão marcado pelo câncer. E soltar seus desejos que antigamente, há anos eram presos.


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