CASAMENTO MODERNO

Numa luminosa manhã de praia eu saboreava acarajé com cervejinha gelada quando alguém me tocou ao ombro, reconheci Ubiratã, não o via há anos. O homem ao envelhecer tende a engordar, a cair cabelos, Bira não é exceção. Sentou-se a meu lado puxando conversa, recordações dos anos 80, trabalhamos juntos. Perguntei pela namorada da época, Jeane uma bela e sensual jovem. Bira contou-me sua vida. Engravidou Jeane, casou-se, foi morar com os sogros. Tiveram dois filhos, hoje rapazes. O casamento durou 10 anos, largou a mulher, os filhos, os sogros, foi viver sozinho.

Como se tivessem surgidas do mar, apareceram duas mulheres molhadas, sorriso nos lábios, Ubiratã me apresentou-as. Ruth, morena, pele de um marrom café-com-leite, cabelos crespos, rosto redondo, olhos negros salientes, nariz achatado e lábios carnudos. A outra, Quitéria, pele alva, rosada, cabelos pretos como uma graúna, rosto oval, nariz afilado, o sorriso dava um toque de sensualidade em sua boca carmim molhada. Simpáticas e gostosas vestiam minúsculas tangas. Avaliei-as entre 30 e 35 anos de idade.

Conversamos por mais de uma hora, todos bem humorados pela exuberante manhã de maio. Ruth é de Palmeira dos Índios, terra de bonitas mulheres, ainda menina veio para capital com os pais. Quitéria é de Salvador, mora em Maceió desde que fez um curso de enfermagem, só vai à Bahia de visita. As duas têm muitas coisas em comum, são bonitas, sensuais, enfermeiras. Pediram licença, retornaram a caminhar na praia, Bira aproveitou, contou-me o resto de sua vida.

Atualmente é chefe de vendas de cervejaria, conheceu Ruth num Hospital ao fazer alguns exames. A amizade continuou, ele afim da jovem, paquerou, assediou. Teve grande decepção quando Ruth confessou morar com uma colega de hospital, eram namoradas. Ele ficou chocado com a sinceridade. Conheceu Quitéria numa festa, tornaram-se amigos. Bira tinha suas paqueras, suas namoradas, entretanto, gostava de sair com as duas amigas comprometidas, achava-as divertidas.

Certo dia Ruth telefonou, sua mãe havia morrido. Bira foi ao enterro, deu apoio à amiga. Na missa de 7º dia, Ruth lhe fez uma proposta: o apartamento de três quartos herdado da mãe ficou grande para o casal, Ruth gostaria de alugar um quarto do apartamento, por que não ele? Vivia sozinho, perambulando nas casas de tios e irmãos.

Ubiratã aceitou, foi morar junto ao casal, acertaram pagamentos e algumas normas para viverem em harmonia, ele sentiu-se confortável, não houve problemas de convivência entre os três. Passaram-se alguns meses até que certa noite de sexta-feira Ruth foi dar plantão no Hospital, Quitéria estava a fim de tomar um porre, Bira acompanhou a amiga. Numa barraca de praia ficaram até mais tarde bebendo e conversando, o álcool derruba barreiras, preconceitos, desinibe, as pessoas ficam mais verdadeiras. Quitéria confessou, notava seus olhares pra cima dela, ela também gostava de homem, sentia uma forte atração pelo amigo. Depois da meia-noite, foram para casa cantando pela rua. Bira tomou banho, deitou-se. Ainda não havia pegado no sono quando Quitéria entrou no quarto, vestia apenas a calcinha. Bira olhou-a, deu-lhe taquicardia, sentou-se na cama, ela se aproximou, em pé encostou-se abraçando a cabeça de Bira. Deitaram-se, beijaram-se, amaram-se com fúria de apaixonados. Depois do amor, cabeças no lugar, resolveram falar a verdade para Ruth, não podia haver traição entre eles, passaram o sábado se amando, bebendo e confabulando.

Ruth chegou quando os dois assistiam o Jornal Nacional, sentiu que havia alguma coisa no ar. Os três reuniram-se à mesa, com ajuda de uma garrafa de uísque confessaram o que havia ocorrido. Ruth calada ouviu atentamente a história. Havia um clima de expectativa e constrangimento entre eles, ficaram calados se olhando, minutos de silêncio. Até que Ruth levantou-se, aproximou-se de Bira, baixou a cabeça e deu-lhe um beijo ardente em seus lábios. Nessa noite tremeu a terra, no apartamento aconteceram inimagináveis cenas de amor.

Mês passado os três comemoraram quatro anos juntos. Agora querem um filho, adotado.

As meninas retornaram da caminhada trazendo acarajé e cerveja, bebemos até mais tarde. Quando passamos dos setenta anos pensamos que já vimos tudo na vida, de repente nos surpreendemos com o ser humano. Conheço bígamo, trígamo, casamento gay, casamentos modernos, não havia imaginado um trio amoroso oficial. Os três, na maior felicidade, convidaram-me para padrinho do menino.

O CACHORRO QUE CHORAVA

Alagoas é celeiro de bons jornalistas. A imprensa honesta batalhadora e competente faz parte de nossa história. A última safra tem Ricardo Rodrigues como dos melhores jornalistas atuantes. Ele opera também na área da boemia.
    
No último domingo, tomamos algumas cervejas junto a Marcelo Firmino, na gostosa orla da Ponta Verde, contemplando o mar azul esverdeado brilhar com o sol do verão de abril. Ricardo lembrou o caso do cachorro que chorava. Um fenômeno que abalou, assanhou a cidade e o Brasil nos idos dos anos 70.
     
Quando Ricardo completou 10 anos, ganhou do pai, Arlindo, um lindo cachorro. Não pertencia a alguma raça específica, ou seja, um legítimo vira-lata. Colocaram o nome de Jonhson, homenagem ao presidente dos USA. O cachorro ficou bonito danado, cresceu apegado ao dono.
     
Certa vez, durante a madrugada, roubaram algumas garrafas de cachaça no Bar de Seu Arlindo, ponto de encontro da boemia em Jaraguá. Ele resolveu levar o cachorro para dormir no bar, a contragosto de Ricardo. Jonhson tornou-se patrimônio, mascote do Bar do Arlindo. Os fregueses tinham carinho pelo cão.
    
O bar era freqüentado por artistas e boêmios. Seu Arlindo colocava música na possante vitrola Phillips, a moçada curtia Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso e outros cantores da época enquanto tomava cerveja e branquinha.
   
Certo dia, Seu Arlindo notou Jonhson chorar. Uivava, quando tocava música; não todas. Finalmente descobriu, o choro se dava apenas com Altemar Dutra. O cachorro chorava exclusivamente com a música “Vida Minha” do Altemar.
   
Johnson tornou-se atração. Quando aparecia um desavisado, os assíduos frequentadores apostavam como o cachorro chorava ao ouvir música. Alguns desatentos pagaram garrafas, caixas de cervejas, para os malandros.
    
O fato se espalhou nos meios boêmios da cidade, entrou pelo Poço, Mangabeiras, Ponta da Terra, Pajuçara, até no Tabuleiro. Todos queriam conhecer o cachorro que chorava. O Bar do Arlindo de repente, se encheu. Gente do povo, deputado, senador, coronel, capitão, ficavam pasmados com o choro de Johnson.
      
Sociólogos, filósofos, professores da UFAL tentaram explicar o fenômeno. Muitas páginas foram escritas em tese de mestrado sobre o cachorro que chorava.  Teorias fizeram trabalhar os tipos das máquinas de datilografias da época.
       
Certa noite apareceu o jornalista Bernardino Souto Maior. Ao ouvir o uivo do cachorro ao som da música do Altemar Dutra, foi taxativo com Arlindo:
          
 - “Vou levar você e o cachorro para o Programa Flávio Cavalcante”
      
Naquela época, na TV Tupi de São Paulo, o Programa Flávio Cavalcante, tinha a maior audiência no Brasil. Havia um quadro chamado “Fora de Série”, onde Flávio apresentava histórias interessantes, fenômenos e outras gaiatices.
       
Não deu 15 dias, Bernardino entrou no Bar do Arlindo:
    
 “ – Prepare uma jaula para o cachorro. Aqui estão nossas passagens para São Paulo. Vamos viajar amanhã e entrar no ar ao vivo no domingo.”
    
Numa fria madrugada de sexta-feira no Aeroporto Campo dos Palmares, entraram no avião: Arlindo, Bernardino e o já famoso Jonhson.
   
Na hora do programa ao vivo, todos estavam nervosos. Se falhasse seria vexame televisionado para todo o Brasil. Até que chegou o momento. Flávio Cavalcante com sua empáfia de apresentador estrelado iniciou:
   
“ -E agora meus amigos de todo o Brasil. Vou apresentar Jonhson, o cachorro que veio das Alagoas. Um sentimental cachorro que chora quando ouve Altemar Dutra.”
      
Entraram Bernardino e Seu Arlindo com Jonhson. Depois de algumas perguntas, finalmente Flávio manda rodar a música. Maior expectativa. Quando se ouviu: “Eu acordei chorando… e tu não acreditaste… vida minha…”, Jonhson irrompeu em uivos. Chorou com lágrimas caindo como uma personagem de novela mexicana.
   
A platéia e todos os expectadores ligados na TV deliraram. Maior sucesso, muitos aplausos. Johnson era a nova sensação do Brasil.
    
Muitos quiseram comprar nosso herói canino. Chegaram propostas do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro. Um milionário de New York mandou uma oferta fabulosa. Mas Seu Arlindo preferiu conservar Jonhson junto a ele, fazendo guarda em seu bar e brincando com o filho Ricardo.
   
Nunca mais um alagoano foi tão aplaudido em rede de televisão nacional. Difícil um sucesso como o de Jonhson, o cachorro que chorava. 

ZEZÉ, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

De seus 80 e poucos anos Zezé mantém a dignidade profissional de barbeiro, elegante, bem humorado, recebe os velhos e novos amigos no salão no centro da cidade. É prazeroso cortar cabelo com o octogenário conhecedor e vivedor da cidade, testemunha viva da história nesses últimos setenta anos. Durante o corte de cabelo Zezé sempre conta uma história interessante, atual ou antiga. Nos anos 50/60 seu salão ficava em frente à Assembléia Legislativa, ele testemunhou brigas e tiroteios, feitos bélicos presentes na histórica política das Alagoas. Zezé assistiu ao duelo de revólveres em punho, entre o deputado Oséas Cardoso e os irmãos Pinho, resultando uma morte, Policarpo Pinho. Ele foi testemunha do grande tiroteio na Assembleia Legislativa no dia 13 (sexta-feira) de setembro de 1957, deputados da oposição e do governo se guerrearam durante a votação do impeachment do governador Muniz Falcão. Ao iniciar o tiroteio de pistolas e metralhadoras, os curiosos que se encontravam na Praça Pedro II correram para onde puderam, muitos entraram no salão do Zezé procurando abrigo.

Zezé sempre exerceu com amor e competência a profissão de barbeiro, entretanto, nunca negligenciou suas horas de lazer curtindo o que mais gosta, um bom futebol e conversas de botequim com cervejinha gelada. No tempo de soldado do 20º Batalhão de Caçadores jogou do time do Exército ao lado do caceteiro Tomires, grande zagueiro, por muitos anos jogador do Flamengo. Zezé era assíduo ao futebol de praia dos Perrelli na Avenida da Paz. Todo domingo, os irmãos Perrelli, filhos de italiano, organizavam a pelada com traves, camisas, bola, juiz, durante a manhã era a maior atração na praia da Avenida. Havia fila para jogar na pelada dos Perrelli.

Ainda hoje Zezé corta o cabelo dos companheiros do futebol de praia, tem amizade com magnatas e remediados da cidade, contudo, sua maior virtude é saber contar histórias com bom humor e sabedoria. Zezé é fonte de minhas crônicas semanais. Ao sair do salão de Zezé me sinto bonito, cabelo bem cortado e empolgado com as histórias fantásticas de Maceió nos anos dourados.

Sexta-feira passada ao me sentar na cadeira, Zezé informou, quem estava a pouco na cadeira onde me sentei foi Lelo, grande boêmio, amava a zona, gostava duma rapariga, vivia nos cabarés. Naquela época a dona da noite era Railda, cafetina braba, olhar severo, nariz adunco, competia com o famoso Mossoró nas noitadas da cidade. Muita lenda se conta de Railda. Zezé não se fez de rogado contou a história de Lelo. 

- “Assim que as boates de rapariga de Jaraguá subiram para o Tabuleiro e Canaã, Railda alugou uma casa, um sítio na Avenida Fernandes Lima. Arrumou a boate, contratou conjunto musical para os clientes dançarem com suas meninas, mulheres bonitas escolhidas entre as melhores raparigas da cidade. Havia disputa com Mossoró, outro dono da noite. A cafetina não admitia sequer comentários elogiosos às meninas do concorrente. Certa noite Lelo bebia com amigos na Boate Areia Branca, mesa vasta de bebidas e mulheres, para puxar o saco do Mossoró, Lelo falou alto para quem quisesse ouvir, as mulheres da Railda eram umas merdas e a cafetina de tão bêbada havia mijado de pernas abertas feito uma égua. Railda soube do ocorrido, da manifestação, da preferência raparigueira de Lelo.

Numa sexta-feira, noite de impreterível visita dos boêmios à zona, Lelo tomou algumas cervejas no bilhar da Rua do Comércio, convidou os parceiros: “Vamos às raparigas”, subiu com amigos para noitada. Assim que entrou no sítio da Railda levou uma tapa, caiu no chão, as meninas buscaram um penico já preparado cheio de cocô e xixi derramaram sobre o coitado, deitado, pedindo socorro enquanto as raparigas lhe enchiam de porrada, foi preciso um amigo intervir com um revólver. Railda e suas raparigas suspenderam a surra. Lelo foi levado cheio de pancada numa Kombi para um banho no Riacho Catolé, a Kombi ficou fedendo à merda por mais de uma semana. Depois de alguns meses Lelo fez as pazes com Railda e continuou assíduo cliente.”

Com detalhes precisos Zezé contou essa história, teria outras se não tivesse terminado o corte de cabelo. 

A FESTA DO NORDESTE INDEPENDENTE

O povo feliz, com alma lavada e enxaguada, dançava na praia da Avenida da Paz, comemorava a Independência do Nordeste. A festa varou a noite, continuou por mais 20 dias. No palco armado um vistoso pastoril cantava acenando para o povo.

De um lado, o cordão encarnado, uma coluna com sete pastoras, moças charmosas, bonitas com seus vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. Do outro lado, o cordão azul, outras sete jovens, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo na praia com seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas coloridas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões, dançava a Diana de minissaia, dividida entre azul e encarnado. Atrás da Diana, ao fundo, o pastor, segurando um cajado feito bengala com uma estrela incrustada na ponta. Todos dançavam, todos sorriam, era Festa da Independência.  

A primeira pastora do encarnado- a Mestra- era a vereadora Heloísa Helena; a Diana, que não tem partido a afinadíssima cantora Leureny Barbosa; e a Contra-Mestra, primeira pastora do cordão azul com seu saiote rodado, a ex-prefeita Kátia Born. Elas pareciam estar com vinte aninhos iguais às outras pastoras. Atrás da Diana dançava o pastor, pelos trejeitos afeminados reconheci Lolita, um famoso fresco do Recife que costumava dizer: “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Cantavam a primeira jornada do pastoril:

Boa noite meus senhores todos; Boa noite senhoras também. Somos pastoras, pastorinhas belas, Que alegremente vamos a Belém… 

E o povão, embaixo do palco, vibrava, e enlouquecia quando as pastoras rodavam levantando os saiotes, apareciam as pernas das dançarinas. Eram mulheres-meninas com suas bonitas e empinadas bundas cobertas apenas por uma minúscula calcinha preta. A moçada ia ao delírio, ajudada pelo artista, poeta Aldemar Paiva, animando ao microfone:

Viva o cordão encarnado! Viva o cordão azul! Viva a Independência!  

Sem deixar de olhar para as pastoras o povão respondia: VIVA! 

Durante toda a noite apresentaram-se fandangos, folguedos, folias, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança, guerreiro e outras danças populares nordestinas.

No Clube Fênix acontecia um agitado e divertido baile de carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou durante toda noite. A moçada no ginásio lotado se esbaldava se empolgava com as músicas, ia ao delírio quando a orquestra arrochava no frevo Vassourinhas. O dia foi despertando, a orquestra desceu, deu algumas voltas no salão, saiu do ginásio para a rua, puxando os foliões em direção à praia.

O povo dançava na extensa praia de areia branca, molhada e dura, cantando música de Capiba: “Eu bem sabia, que esse amor um dia… também tinha seu fim… essa vida é mesmo assim… não penses que estou triste, nem que vou chorar… eu vou cair no frevo, vou me acabar...” Continuavam os gritos: “Viva a Independência”. “Viva o Nordeste!”. 

De repente os foliões entraram na água cristalina e morna naquela luminosa manhã. O mar de um esverdeado com matizes azuis, levemente dourado pelo sol da madrugada convidava ao mergulho. O povo lavava a roupa, a fantasia, e sua alma.  A música continuou.

De repente emergiram da água os Deuses do mar, Yemanjá, Netuno, o Príncipe Submarino e algumas belíssimas sereias com caras e rabos humanos, alegres pelo carnaval inesperado. Como no Olimpo deuses e homens se misturaram, caíram na folia. Deuses brasileiros, deuses nordestinos, deuses da água e da alegria. A festa da Independência do Nordeste durou vinte e um dias.

No vigésimo segundo dia acordei-me, nesse momento percebi, tudo foi apenas um sonho, um feliz sonho sonhado.

 

CONVERSA NO ACARAJÉ

Praia da Jatiúca – Acarajé da Irmã

- Traz três cervejas e três acarajés, falou alto um dos bêbados.

Eram 9:00 horas da manhã, praia da Jatiúca, três boêmios retardatários sentados à mesa no Acarajé da Irmã iniciavam mais uma saideira da noitada, roupa da noite anterior, conversavam alto, como se apenas eles estivessem no mundo. Veio mais cerveja, retornaram a conversa.

Bêbado 1 – Vocês viram como ela estava bonita? A sacana me trocou por um cara rico, ainda veio reclamar três meses de pensão atrasados. Mas eu não quero mais, nem vestida de ouro!

Bêbado 2 – Você tem que pagar ou o juiz manda lhe prender, não brinque com esse negócio de pensão, a minha pago assim que recebo o salário.

Bêbado 1 – Se me prenderem peço pro deputado me soltar, aqui no Brasil ninguém vai pra cadeia, essa terra só tem bandido, tudo solto. Por que só eu vou preso? Sabe de uma coisa? Ela ainda vai voltar para mim se arrastando. Eu tive vontade de dar um murro no namorado. Não dei porque me seguraram.

Bêbado 3- Acontece meu irmão, você ainda é apaixonado pela ex-mulher, agora que o tempo passou vou lhe contar.  Ela é bandida cara, lhe botava ponta desde o tempo de namoro, e não era só com homens, eu vi com esses olhos que a terra há de comer, ela beijando outra na boca numa festa em Paripueira.

Ao ouvir a história do amigo o bêbado 1 rompeu no choro, colocou os braços na mesa deitou a cabeça como se estivesse se escondendo do mundo. Chorava que nem menino, não sei se por  amor, dor de corno ou cachaça. Os amigos lhe consolaram alisando os cabelos, diziam frases feitas: a vida é assim mesmo, saia para outra, tem muita mulher no mundo.  De repente ele levantou a cabeça, enxugou as lágrimas, respirou fundo se fazendo de forte. Não vou mais chorar, gritou batendo a mesa. Continuou.

Bêbado 1 – Aquela cachorra vai me pagar, não faço o que tenho vontade por causa da nossa filhinha, 3 aninhos, não merece essas brigas. Ela disse que só volta se eu deixar a bebida, não sou alcoólatra, bebo quando quero, não fico bêbado, pode ver, bebemos a noite toda, ninguém está bêbado.  Quando ela entrou no barzinho com o cara metido a rico porque tem um carro japonês, carro velho, eu fiquei mordido de raiva. Ela me trocou por causa de dinheiro. Mas vocês vão ver, essa semana vou ganhar na Mega-Sena, tenho certeza, ela vai querer voltar balançando o rabo que nem uma cachorrinha. Aí vou passar na cara dela todo meu dinheiro da Mega-Sena. Vou ficar rico meu irmão. Vou dar um carro para cada amigo.

Nessa altura o bêbado 2 baixou a megalomania alcoólica, disse que era difícil tirar a Mega-Sena, o melhor era ele continuar no empreguinho.

Bêbado 1 – Tenho aquele emprego, foi dado pelo meu primo deputado, nem apareço por lá, mas, sou um homem de visão, de negócios, preciso de uma oportunidade, preciso só de um capital, e vou ganhara Mega-Sena essa semana, tenho certeza.

Querendo acabar a ilusão alcoólica ou por gabolice, num rompante, o amigo confessou.

Bêbado 2 – Esqueça aquela mulher, ela não vale nada, não é digna de você. Agora já passou, você não está mais com ela, posso contar o que aconteceu, também fui culpado. Lembra daquele dia de seu aniversário? Foi um porre só, depois da meia noite você se apagou, levamos pra cama. O pessoal foi saindo ficamos eu e ela na varanda conversando, bebendo, de repente ela me alisou o pé, me abraçou, me beijou, aconteceu ali mesmo na varanda. Hoje lhe peço desculpa, foi só aquela vez, me arrependi no outro dia, a verdade é que eu também comi a diaba.

Ao ouvir a confissão do amigo, o bêbado 1 levantou-se com os olhos esbugalhados, tentou um murro no bêbado 2, entretanto, caiu no chão, na areia da praia. Foi preciso ajuda para levantá-lo e carregá-lo. De longe vi quando os três bêbados abraçados, discutindo, entraram num taxi que desapareceu na luminosa manhã do sábado de aleluia.

MISS PARIPUEIRA

Foto: Celso Brandão

Convicta dentro de sua insanidade, ela se orgulhava clamando aos quatro cantos da cidade: “Eu sou a Miss Paripueira”. Vestia-se escandalosamente, saias e blusas chamativas, enfeitava-se de colorares, balagandãs. Pulseiras das mais diversas enchiam seus pequenos braços. Baixinha e amável, amava sua peruca, amarrava uma fita na testa, os óculos escuros era peça imprescindível pelo dia e pela noite.

A molecada gostava da maluca, pedia para dançar, tendo ou não música, ela não fazia de rogada, marcava passos como uma bailarina, dançar estava no seu sangue, na sua índole.

Nasceu não se sabe quando na comunidade de Paripueira, belíssima praia, atração turística do Nordeste, antigamente um recanto de poucos privilegiados, mar azul esverdeado. Marolas beijando os pés à beira-mar, andar dentro d’água ao fundo é um passeio, depois de alguns momentos mar à dentro, a água permanece pouco acima da cintura. Paripueira é paraíso e refúgio. Gente de letras e artes mora naquela praia pertinho da capital, um bairro de Maceió.

Ambrosina Maria da Conceição, mulher saudável casou-se teve filhos, até que um dia desatinou, sentiu-se linda, se coroou Miss Paripueira. Em janeiro na famosa Festa de Santo Amaro, era a alegria da meninada, divertida com seus colares, suas roupas coloridas e um sorriso constante na boca como se tivesse mangando do mundo, tornou-se símbolo da cidade. Nos carnavais ela percorria a maratona carnavalesca na Rua do Comércio em Maceió, o Banho de Mar à fantasia na Avenida da Paz e gostava de acompanhar os blocos pela cidade.

Ficava triste e irada quando a meninada a chamava de Sabiá, canela de Sabiá, perdia a alegria, se zangava, pegava pedra e pau sacudia nos meninos. Certa vez acertou uma pedra no olho de um jovem, o levaram para no Hospital, o pai, influente político foi à Delegacia deu queixa do ocorrido, levou dois guardas, tentou prender Miss Paripueira, entretanto, a comunidade saiu à rua a seu favor, defendendo aquela criatura que não fazia mal algum. Para assegurar a liberdade levaram-na num jipe para Maceió, passou um mês na casa de um primo no bairro do Poço. Foi quando conheceu melhor a capital, todo dia ela se arrumava com seus vestidos chamativos, seus inefáveis óculos escuros, a bolsa espalhafatosa e desfilava pela Rua do Comércio no centro da cidade, se empolgando, em sua loucura ouvia aplausos, palmas do povo aclamando: Miss Paripueira, Miss Paripueira. Agradecia fazendo uma reverência com o corpo, dava uma volta, um adeus com a mão, continuava em frente, era a mulher mais bonita e mais feliz do mundo

Em sua cabeça todos os homens lhe olhavam, lhe queriam, lhe desejavam. Entretanto, seu maior prazer era dançar, quando havia música, a baixinha saía nos passos bem marcados, tinha ginga e balanço. Durante o carnaval ficava à frente dos blocos, seja o Vulcão, o Cavaleiro dos Montes, o Vou Botar Fora, Miss Paripueira era sempre bem vinda fazendo o passo no seu estilo alegre, contagiante. Sempre agradecendo à multidão, aos fãs, delirava em sua cabeça ao ouvir gritar: Miss Paripueira, Miss Paripueira.

Não se sabe o fim da doce, encantadora, louca, extravagante criatura que em sua época teve um pedaço do reino das cidades de Maceió e Paripueira. Não se sabe onde ou quando morreu. Até que lhe prestaram algumas homenagens.
Na entrada da cidade havia um bar com o nome de Miss Paripueira e um retrato na parede pintado por um artista anônimo. O artista, cineasta, poeta José Marcio Passos dirigiu e produziu um curta documentário, “Meu Nome é Miss Paripueira”, exibido em 1978 no Festival de Cinema Brasileiro de Penedo.

Mais recente, na era da Internet tem uma comunidade no Orkut: “Eu sou fã de Miss Paripueira”. Em um carnaval recente houve um concurso de fantasia exclusiva de Miss Paripueira. Quem era íntimo dessa grande mulher é o célebre jornalista José Alberto Costa, o JAC que poderá contar pormenores da vida de nossa pacata e alegre cidadã, não podemos relegar ao esquecimento os heróis e heroínas de nossa cidade.

O APOSENTADO

Ilustração: Nerino de Campos ( Internet)

- “Hoje foi de arrepiar, muito movimento na loja e pouca compra…” É assim que Matilde inicia reclamando, ao chegar em casa à noite enquanto Bruno assiste televisão. Toma meia hora do marido em conversa sobre a loja, aliás, monólogo ininterrupto, ele apenas ouve. Onze horas toma banho, veste pijaminha, deita-se ao lado da esposa, 110 quilos de peso e 39 anos de casados. Há muito tempo sem carinho, sem amor, sem transa.

Certa manhã ao chegar de sua caminhada matinal, o aposentado Bruno encontrou Matilde conversando com uma jovem de saia abaixo ao joelho, camisa branca, mangas compridas, fechada no punho e no pescoço, cabelo em coque amarrado para trás. Seus traços bonitos se apagavam sem pintura, sem brinco ou miçangas. A esposa apresentou, era a nova empregada. Madalena o cumprimentou olhando para o chão. Enquanto chupava laranja Bruno escutava as ordens de sua dura mulher, no final, ela virou-se para o marido.

-“Agora discuta com o Dr. Bruno seu ordenado e os pagamentos”.

Bruno sentou-se, olhou para a nova empregada, não demoraram a se entenderem. Salário mínimo, FGTS, INSS, folga aos sábados à tarde e aos domingos. Madalena aceitou a proposta, do salário haveria de recolher o dízimo (10%) a sua Igreja. Teria tempo para orações no domingo.

A jovem discreta, de roupas e falas comedidas, com o tempo tornou-se alegre dentro da casa de Matilde. Cozinhava bem, os cômodos sempre limpos, a dona da casa estava satisfeita, não precisava fiscalizar, perfeição nos serviços. Matilde sai de casa pelas 10 da manhã direto para loja, almoça no Shopping, raramente em casa, só retorna pelas 9 ou 10 da noite.  O marido reclama, da boca para fora, de sua dedicação ao trabalho, os filhos estão criados, ela não precisa trabalhar tanto. Matilde responde que o trabalho faz bem ao corpo e a mente, ama sua loja, jamais ficaria o dia em casa, coisa de velho aposentado, alusão clara ao marido.

Bruno tem uma aposentadoria pequena, entretanto, devido à herança comprou quatro apartamentos, melhorou seu padrão de vida, ainda empresta algum dinheiro a amigos.

Ele passa a manhã no computador, no face book, escrevendo crônicas, publicadas em alguns blogs, contudo, ele gosta mesmo de abrir páginas de sexo na internet, se excita, depois visita uma casa de massagem na Mangabeiras.

Certa vez Madalena, a empregada, olhando por trás se aproximou do patrão e falou baixinho, sem precisar, estavam apenas os dois na casa.

“- Dr. Bruno o senhor gosta de mulheres, não é? Eu vejo no computador. Sabe, o novo pastor de minha Igreja me disse que não é pecado e me abraçou e me beijou dentro do carro. Eu gosto, meu marido me abandonou, sinto falta.”

Bruno com surpresa olhou para a empregada, percebeu nos seus olhos faíscas de mulher no cio. Disse-lhe ser ateu, não se metia com religião dos outros, quem quiser que faça sexo, não havia pecado.

Semanas se passaram Bruno já olhava Madalena com outros olhos, ficava fantasiando o que havia por baixo daquelas vestes arcaicas. Certa tarde puxou conversa: “O pastor lhe deixou em paz?” Madalena chegou-se bem perto do patrão e falou baixinho como segredo. “Dr. Bruno ele me levou para um motel, coisa bonita, cheia de espelhos, eu gostei, vivia pensando na hora de sair com ele. Agora eu estou com medo, tem dois problemas, além de ser casado, ele gosta de bater, olha a marca aqui”. Imediatamente levantou a saia, apareceu o corpo de Madalena, perfeito, pernas mais bonita Bruno nunca as viu iguais. Examinou extasiado os hematomas na coxa da empregada, alisou, quando percebeu os olhos faiscando, não teve dúvida ali mesmo na sala aconteceu. A mulher por baixo dos mantos é uma loba, um vulcão, agora em erupção nos braços do aposentado.

Ela continua em seu emprego, deixou o pastor de vez. Bruno disfarça bem, só faz amor no motel, dobrou o salário, sendo que, dessa outra metade, Madalena não paga o dízimo da Igreja, não é salário, é gratificação de serviços extras.

NÊGO JAIME

Bar do Relógio e Hotel Bella Vista

Uma cidade não é composta apenas de prédios, parques, jardins, ruas e praias, ela tem espírito, tem alma, essa alma é o povo que nela vive, é sua história. Algumas personagens se destacam em certa época, depois caem no esquecimento. Tento lembrar algum deputado dos anos 60, vem à memória um ou outro, entretanto, figuras populares ficam na história da cidade.

Cortando o cabelo com o velho Zezé o tempo passa rápido, ele é um poço de histórias de Maceió. Essa semana nos lembramos do Nêgo Jaime, (desculpe-me o movimento afro, era assim que o chamávamos). Forte, mais de 1,90 metros, enfermeiro da Rede Ferroviária, boêmio, calmo como um budista, contudo, não levava desaforo para casa.

Certa vez, no Bar do Relógio, ponto da boemia, de virada de noite de Maceió, dois marinheiros bêbados tomavam a saideira para retornarem ao navio, ao avistarem o Nêgo Jaime solitário em uma mesa, um dos marinheiros, com ar de superioridade, entregou-lhe uma dose de cachaça, “Toma Nêgão, quero ver se você é bom”. Jaime na maior paciência, disse que estava apenas de cervejinha, no outro dia tinha que trabalhar. O marinheiro insistiu, provocando, “Você não é homem Negão?” Jaime não teve dúvida, levantou-se, deu um murro no marinheiro, iniciou verdadeira batalha. Os marinheiros eram bons de briga, entretanto, Nêgo Jaime estava com demônio no corpo. Mais de meia hora entre murros e golpes, Jaime bateu como sabia, com raiva, quase mata os marujos. Levaram os dois para o Pronto Socorro. Precisou entendimento entre a Capitania dos Portos e a Rede Ferroviária, os marinhos queriam matar Jaime, só houve sossego quando o navio partiu.

Jaime não era desordeiro, nem arruaceiro, mas parece que atraia os provocadores.  Toda sexta-feira ele tomava uma cervejinha no Bar da Maravilha antes de ir à Zona de Jaraguá. Numa dessas noites chegaram três playboys de lambreta e provocaram o Nêgo. Ele se retirou elegantemente, Jaime se vestia bem, deixou os provocadores, foi para os braços de Lourdinha na Boate Tabaris. Na outra sexta-feira aconteceu a mesma provocação, com os lambretistas. Na terceira sexta-feira, Nêgo Jaime chegou requintado, terno de linho branco, segurando o paletó entre os dedos, pediu cerveja, ficou observando o movimento aguardando a hora de Lourdinha em Jaraguá.

De repente apareceram quatro lambretistas fazendo maior zoada. Ao sentarem iniciaram a perturbar: “Olha aí o Picolé de Onça todo de branco”. “Macaco de branco fica mais feio”. Jaime se aproximou na maior calma, nem conversou, rodou o paletó na cara do primeiro que caiu no chão, ao se levantar levou outra paletozada, ficou estatelado, o Nêgão virou-se e mandou o paletó num lourinho metido a James Dean que se arriou no calçamento. Desesperados, os playboys montaram nas lambretas, partiram sem destino, sem pagar. Nunca mais apareceram às sextas no Bar Maravilha. Nêgo Jaime mostrou sua estratégia ao dono do bar ao descosturar a manga do paletó e tirar pesadas britas arrumadas dentro das mangas, criativo, inventou uma arma.

Jaime tinha um chamego com a Nêga Jandira, dona de um bar, todo ano desfilavam pela Escola de Samba Unidos do Poço. Jandira era a porta estandarte, bonita, sabia requebrar sua maravilhosa bunda deixando a moçada com água na boca. No carnaval, a Unidos do Poço desfilava para valer, queria o terceiro campeonato seguido, Jandira fazia evoluções com o estandarte no ar, delirantemente aplaudida pelo povo na Rua do Comércio, ao passar pelo palanque, defronte ao Cine São Luiz, Jandira deu tudo de si, Nêgo Jaime dançando, acompanhava mais atrás sua amiga a evoluir. De repente apareceu um popular, como disse o jornal, não aguentou, atravessou a corda de segurança, passou a mão na bunda da Jandira e agarrou-a à retaguarda. Foi preciso Jaime destravá-lo do abraço traseiro, deu-lhe um murro, o tarado caiu de costas na bilheteria do Cine São Luiz. Mesmo com esse inusitado acontecimento, como foi noticiado, os jurados compreenderam o desvario do tarado, deram à Unidos do Poço o título de tri-campeã do carnaval alagoano. 

FÉRIAS TROPICAIS

Sigrid e Hannah, amigas de infância, vizinhas na fria Oslo, tinham um sonho, sair em férias tropicais e ter uma aventura, um amor latino. Ao completarem 40 anos, divorciadas, com filhos, resolveram conhecer o Brasil durante o verão. Leram e pesquisaram sobre o país, a alegria de viver, as noites tropicais e os homens cativantes.  Compraram passagem de Oslo para o Rio de Janeiro, se divertiram com os desfiles das escolas de samba, com a sensualidade do povo seminu nas praias de Ipanema e Leblon, entretanto, a aventura amorosa, maior estímulo da viagem não aconteceu. Compraram um cruzeiro no luxuoso transatlântico G Mistral para conhecer a Bahia. Ao desembarcarem, o guia levou-as para o candomblé, negros e mulatos dançando, o encantamento da religiosidade num roteiro de turismo, entretanto, nada aconteceu em termos de um namoro fortuito. Ao sair de Salvador o navio faria ainda uma escala, em uma bela e pequena cidade do Nordeste.

Logo após o café da manhã, elas foram ao tombadilho para assistirem ao atraque do navio, ficaram fascinadas com o deslumbramento da luminosa manhã, um azul infinito no céu como se fora um sonho. A beleza da enseada deu-lhes um sentimento de paz, sem saber, estavam apreciando o casario da Avenida da Paz, orla de Maceió.  Com uma alegria inexplicável as quarentonas norueguesas pediram informações, o que poderiam desfrutar nas curtas horas na cidade.  Ao desembarcarem se assanharam ouvindo a Banda de Pífano de Marechal Deodoro tocando o frevo Vassourinhas, caíram num carnaval improvisado com outros turistas no cais do porto. Andaram 10 minutos arrodeando o porto, apareceu a praia de Pajuçara. Descortinou o cenário jamais visto pelas louras nórdicas, um mar azul turquesa com matizes verdes, cor que Deus fez especialmente para uso particular como bem disse o poeta Noaldo.

Desceram à praia de areia alva, andaram a beira-mar sentindo a água tépida fazer carinho nos pés. De repente foram abordadas por um jovem moreno, alto, com foto na mão, oferecia passeio de jangada às pedras, aos arrecifes das piscinas naturais da praia de Pajuçara. Estavam orientadas, acertaram o preço. Severino, o jangadeiro, gentilmente ajudou-as a subirem na jangada, as duas estavam extremamente felizes com aquele passeio inusitado.  De biquíni, Sigrid de um lado massageava a mão na água sentindo a velocidade da jangada.  Hannah maravilhada, via diminuir os prédios da orla, discretamente encantada com o corpo do jangadeiro. Severino moreno, alto, calção de banho ao joelho, sem camisa, músculos bem talhados do tempo de estivador carregando sacos de açúcar, 28 anos, dono da jangada, vivia de levar turistas ao maravilhoso passeio às piscinas naturais.

Ele navegou cerca de 300 metros, jogou a âncora, maré seca, a água dava abaixo do peito. Severino ajudou às norueguesas descerem da jangada. Na vez de Hannah houve um movimento na maré, seus corpos se juntaram. Deu um frio na espinha da norueguesa. Ao mergulhar na piscina natural, ela sentia ainda o jangadeiro, sentia a virilidade daquele moreno, deu-lhe um arrepio no corpo. As duas turistas conversavam, Severino nada entendia, elas aproximaram da jangada, com um espanhol arrastado, conseguiriam se entender. Queriam ficar mais afastadas dos turistas. Severino em 10 minutos de velejo ancorou a jangada em um local distanciado mais conhecido como Pedra Virada. As norueguesas surpreendendo tiraram o biquíni, ficaram nuas, mergulharam. Severino ficou surpreso e fascinado com a beleza daquelas gringas malucas que o convidaram para mergulhar. Ele não teve dúvida nadou feito um peixe, ao se aproximar, Hannah deu-lhe um beijo.  O resto da tarde teve apenas o Sol, o Céu, o Sal de Maceió como testemunha.

Eram 16 horas quando desembarcaram na praia, o navio partiria às 18 horas. Deram abraços, beijos, Sigrid tirou da bolsa U$ 200 entregou-os ao jovem jangadeiro. Elas andaram apressadas, certo momento viraram quase ao mesmo tempo gritando: “Gra-cias, Se-ve-rino”.

À noite, navio al mare, as norueguesas faziam planos para próximas férias tropicais em Maceió. Na Barraca Soró Sereno, Severino, feliz da vida, tomava cerveja, lembrando da aventura marítima, das quatro horas de amor aquático com as belas norueguesas.

NÊGA ODETE MORREU, CHORAM OS VIÚVOS SAUDOSISTAS

Eu e Nêga Odete

Ao entardecer do dia 20 de dezembro de 1928, dentro de uma casa de taipa, porta e janela na Rua São Luiz no Farol, um choro avisava ao mundo, nasceu Odete dos Martírios, a negra mais bonita e charmosa que perambulou por Maceió no século XX. De mãe pobre e pai fujão, foi criada pela avó no bairro da Levada.  Cresceu uma menina alegre, cativante. Tinha o carinho da avó, e as ruas, as praças, a lagoa Mundaú para brincar, pescar e catar sururu. Criou-se livre, sem estudar, correndo e percorrendo toda biboca da cidade.

Tornou-se uma morena bonita, rosto oval, cabelos negros, olhos penetrantes. Corpo roliço, bem moldado, cheio de curvas acentuadas, cintura fina, pele aveludada como jamais alguém teve, segundo Bráulio. Odete despertava desejo nos homens no doce balanço de seu caminhar, era a Nêga Fulô que o poeta Jorge de Lima não conheceu.

Não havia completado 15 anos, quando Floro, um belo rapaz, acadêmico de direito, morador da Rua Pedro Monteiro, filho de um rico comerciante, ficou encantado com a negra bonita cheia de sensualidade. Cantou Odete por mais de um mês, prometendo amor, carinho e agrado. Até que numa noite de lua cheia, seus corpos se uniram embaixo de uma jaqueira no morro do Tom Mix pelas bandas da praia do Sobral. Floro deflorou Odete. A negra gritava como uma selvagem, havia doído, havia gostado. Em casa, sua avó notou o sangue, esbravejou, já não era mais moça, tinha perdido a honra, não queria sua neta quenga! Reclamou da vida de pobre.

Durante a noite Odete chorou lembrando momentos de carinho, sentiu a sensação de seu corpo penetrado. Pela manhã tomou uma decisão, trabalhar, ser independente. Como uma analfabeta podia arranjar emprego?

Soube de uma família que estava precisando de empregada doméstica. Odete bateu na casa na Praça Sinimbu. Foi atendida, a senhora gostou da moça negra, simpática, carne firme, disposta no trabalho. Ensinou-lhe a cozinhar. A menina aprendeu rápido, tornou-se excelente cozinheira. Odete fez parte dessa família por muitos anos.

Sentia-se independente com o pequeno salário. Tinha um quarto na casa, comida, era livre, sozinha, podia fazer o que bem quisesse. Ao anoitecer, depois do dia de trabalho, disposta, cheirosa, dentro de um vestido de chita, se pintava para sair em busca de diversão nas noites da cidade. Entregava-se ao que mais gostava e sabia fazer, amor. Os homens se encantavam, prometiam. Nunca recebeu dinheiro de alguém, selecionava seus parceiros. Gostava de homem novo e bonito. Estudantes ficavam à espreita desde as sete da noite na Praça Sinimbu, desejando Odete. Ela não tinha parceiro certo, escolhia o privilegiado para deitar na morna areia da praia da Avenida ou no gramado do sítio da Sinhá perto do Riacho Salgadinho.

Por ser livre e independente Odete foi confundida como prostituta. Entretanto, jamais aceitou um centavo de algum homem. Viveu solteira pelo resto da vida,saía com quem queria, escolhia seu parceiro, generosa, desvirginou metade de minha geração. Choram muitos sessentões.

Morava em um quartinho perto da Praça da Faculdade, sozinha, como sempre viveu. Morreu essa semana com poucos amigos ao redor. Essa é a história verdadeira de uma lenda urbana, uma mulher forte, cheia de alegria que amou o mundo do jeito que o enxergava, grande Nêga Odete, heroína do povo, mulher valente, mito e fantasia de muitos homens nos anos 50/60 na cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, a bela Maceió.

TRICOLOR DE CORAÇÃO

“Sou tricolor de coração”, é um sentimento forte, até irracional, como dissesse que sua vida, seu ser, é o próprio time que torce. Continua a música… “O Fluminense me fascina, eu tenho amor ao tricolor”, declaração de amor, de ternura por uma entidade quase abstrata, uma entidade perto de fictícia, mutante, um time de futebol.

Quando tinha meus seis anos de idade, numa tarde de domingo eu brincava com amigos na Avenida da Paz, apareceu um primo, Warren, um pouco mais velho, levantava a bandeira do Fluminense vibrando, comemorando o campeonato carioca de futebol de 1946. A partir daquele momento, menino ainda, tornou-me tricolor. Embora meu pai fosse Fluminense, minha preferência não teve sua influência, ele não fez que nem eu, quando meu filho Henrique nasceu, cobri o berço com uma bandeira tricolor. Ele foi crescendo ganhando camisas do Flu, ainda hoje lhe presenteio. Não é a toa que sua filha, minha neta Camila, é tricolor, quatro gerações tricolores na família.

Não conheço motivo racional explicando esse sentimento ardente, passional, fanático de um torcedor. Tenho amigos que está na quarta ou quinta esposa, entretanto, continuam torcendo pelo mesmo clube, só não acaba a paixão por seu time do coração. Mudam as mulheres, mas os times continuam os mesmos. Parodiando o poeta Lêdo Ivo: “Amar mulheres, várias. Time de futebol, apenas um…” Quando um cidadão muda de clube é chamado de vira casaca, em meus mais de 70 anos de vida não conheço alguém que mudou de time, alguém que virou a casaca. Os jogadores dos clubes mudam, existem alguns que jogaram em mais de seis clubes, são profissionais. Entretanto, os torcedores continuam.

Quando um time passa por má fase, o torcedor fica com o coração apertado, sofre, chora, mas um dia seu time se recupera e vem lhe dar a alegria irracional, fugaz, que é ser campeão de qual torneio.  Vejam vocês meus amigos, o Fluminense ganhou a Taça Guanabara domingo, quase uma semana se passou, todos os dias coloco a camisa das três cores andando na praia, ainda sinto abraços, ainda ouço gritos de gol, ficou gravado em minha mente o gol magistral de Deco, enganando ao bom goleiro do Vasco e a todos que assistiam ao jogo. Ao terminar um campeonato já entramos em outro, torcendo, ouvindo as notícias, discutindo apaixonadamente com amigos, ninguém tem razão, o torcedor só quer a liberdade de torcer e discutir, basta isso para ser feliz.

Diz a lenda que nos anos 60 o Volkswagen montado na segunda-feira após jogo ganho pelo Corinthians tinha sempre um defeito, os operários corintianos trabalhavam de ressaca, as conversas animadas na linha de montagem distraiam os trabalhadores.

Todas as mulheres gostam quando fazemos loucuras de amor, no futebol existem as loucuras de torcedor, andam pelo mundo acompanhando o time. No Brasil existe muito homem sessentão com o nome Ademir, foi homenagem ao magnífico Ademir Queixada, o maior goleador dos anos 50.

Há mais de trinta anos eu tive a honra de ser eleito Prefeito de Barra de São Miguel, aliás, foi Dona Leonita, a prefeita anterior, que me elegeu. No início do mandato, Dona Rosa, secretária de educação, veio com um problema a ser resolvido com urgência, Como Barra de São Miguel era município novo, não tinha ainda uma bandeira. Eu prometi resolver o problema com rapidez. À noite, em minha casa, arrumei a prancheta de engenheiro, coloquei papel de desenho, passei mais de quatro horas desenhando e redesenhando a bandeira da Barra. Dia seguinte pedi ao Dr. Théo Brandão, o homem que mais conhecia heráldica no Estado, desenhar o brasão da bandeira. Ele desenhou um escudo muito significativo. No fim de semana a Câmara de Vereadores aprovou, e ainda hoje tremula na porta das repartições da Barra de São Miguel a bandeira com as três cores: Verde, Branca e Vermelha, bem parecida com a do Fluminense.

AS CARIOCAS

  

 - O que tem para se fazer nessa terra? Perguntou Adriana à amiga Rose enquanto enchia a xícara de café no hotel. Beto, ao lado, não perdeu a oportunidade, entrou na conversa das duas quarentonas, chiques e bonitas.

- Desculpe a intromissão, é que hoje, é o sábado do Pinto da Madrugada, o melhor bloco carnavalesco das Alagoas, muito animado, vale a pena dar uma olhada, daqui a pouco estará desfilando na orla uma multidão, quinze orquestras tocando frevo e marchinhas de antigos carnavais.

As cariocas se interessaram, agradeceram, pediram mais informações, Beto sentou-se junto a elas, era só o que queria. Depois que ele se aposentou e se separou leva a vida nos hotéis paquerando turistas maiores de trinta em busca de diversão e de alguma aventura fortuita

Elas curtiram o Bloco Pinto da Madrugada naquela bela manhã de fevereiro, dançaram, pularam, cantaram, ficaram encantadas com a animação, a organização, o frevo na rua, as marchinhas antigas cantadas pelo povo fantasiado ou simplesmente de bermudas. Acompanharam o bloco por mais de seis quilômetros, mais de três horas se divertindo, um carnaval inesperado. Eram quatro horas da tarde quando descansaram numa barraca tomando cerveja, uísque, assistindo passar as pecinhas, as rolinhas e outros blocos.

Nessa altura, Dr. Evaldo, digno membro da Justiça Alagoana, sessentão aprumado, conquistador, leva a vida de solteiro embora seja casado há mais de 30 anos, solicitado pelo pareia, também fazia companhia às cariocas fascinadas pela orla, pela cor do mar e pelo carnaval repentino. Ao anoitecer foram se amar num luxuoso motel em Jacarecica. Sua Excelência convenceu a Rose a ficar para o carnaval. No domingo pegaram uma mesa na Barraca Pedra Virada assistindo o Bloco Vulcão passar arrastando uma multidão.

Durante a semana, sem a companhia do magistrado, conheceram o litoral norte, belíssimas praias, Paripueira, Tabuba, Japaratinga, dormiram numa pousada em Maragogi. Sem cerimônia Beto cumpriu a obrigação noturna com as cariocas, a “ménage à trois” teve ajuda da pílula azul.

 Continuando a semana, viajaram pelo litoral sul. Na praia do Miaí, Beto fez de estrada a areia extensa e dura, tendo ao lado um mar azul que não tem tamanho, do outro lado um belo e altivo coqueiral, seguiram em frente até a praia do Pontal do Peba, a foz do São Francisco, onde almoçaram uma bela peixada. Dormiram na cidade histórica de Penedo, as cariocas fascinadas com o folclore carnavalesco e com a bela, bucólica e colonial cidade patrimônio do Brasil.

Afinal chegou o carnaval. Beto conseguiu fantasias, os três desfilaram no sábado pela Escola de Samba Gaviões da Pajuçara, cariocas nunca tinham desfilado pelas exuberantes e ricas escolas do Rio do Janeiro, pela primeira vez estavam sambando numa escola, em Maceió, onde elas nunca imaginaram que havia escolas de samba. As moças se encantaram com os sambistas, as alegorias, nunca iguais às escolas do Rio de Janeiro é verdade, mas a animação era a mesma, ou até melhor, um desfile brilhante. Sua Excelência, do palanque das autoridades acenou às meninas sambando na pista. Foi de muita empolgação e emoção até o término da passarela, sua escola foi a última.

Depois do desfile, os três aceitaram o convite para terminar a noitada no baile de carnaval do Jaraguá Tênis Clube. Orquestra de frevo, muita animação, brincaram até o dia amanhecer. Beto dormiu entre as duas. O restante do carnaval foi dividido, toda noite não perdiam entrar no frevo da Praça Moleque Namorador se misturando com o povão animado, pela manhã e pela tarde optaram pela bela e histórica cidade de Marechal Deodoro, 28 km de Maceió, onde pularam ao som de orquestras de frevo nas praias do Francês, Barra Nova e o Centro Histórico. Na quarta-feira de cinzas as cariocas ainda acompanharam o tradicional Bloco dos Garçons em Marechal.

Era quinta-feira pela manhã quando as duas cariocas no aeroporto se despediram do eficiente cicerone, prometendo um dia voltar, certeza no próximo carnaval. Beto ao chegar em casa, anotou no caderninho, nome, endereço e telefone, as cariocas Adriana e Rose, eram as 114ª e 115ª “namoradas” depois da separação.

“CINCO ESCOLAS DE SAMBA BRILHANDO NO SÁBADO DE CARNAVAL”

Apesar de ter nascido com um pé no frevo, sempre gostei do samba romântico e alegre. Quando morei no Rio de Janeiro assisti muitos ensaios do Salgueiro, me empolgava com aqueles negros sambistas, cantores apaixonados por sua escola. Sou salgueirense, torço pela Escola Vermelha e Branca. Em minha juventude acompanhei algumas escolas de samba em Maceió, sem a exuberância das escolas do Rio, entretanto, o samba no pé é brasileiro. Na época havia a Escola de Samba Circulista, Unidos do Poço, Jangadeiros Alagoanos, desfilei várias vezes pela Unidos. Certa vez, levado pelo sambista Sebastião Canuto, passei algum tempo ligado àquela escola. O presidente e a vice-presidente renunciaram, me colocaram como presidente tampão, quase um ano, até nova eleição.

Pessoas mal informadas acham que Escola de Samba é exclusividade do Rio de Janeiro, entretanto, em todo o Brasil, do Amazonas ao Rio Grande do Sul as escolas desfilam no carnaval, embora não tenham a riqueza das fantasias, adereços e carros alegóricos do Rio, contudo, os sambistas são do mesmo nível, nada ficam a dever aos do sul maravilha. A diferença está no dinheiro, os milhões que uma escola gasta para desfilar na Marquês de Sapucaí contrastam com os poucos mil reais das escolas alagoanas para desfilar na Pajuçara.

É preciso muito amor, muita garra, para encarar a preparação da Escola. Planejar, desenhar, construir carros alegóricos, fantasias e adereços, muito trabalho para a alegria fugaz de uma noite de carnaval. Nesse bendito 2012 voltei aos bastidores da organização de uma escola, há mais de quatro meses fui à luta junto ao José Hilton (Prego) e sua mulher Marilda, presidente da Escola de Samba Gaviões da Pajuçara, tentando parceria e ajuda com amigos. Pois, para esse espetáculo maravilhoso de carnaval a Prefeitura vai dispor apenas R$ 15 mil para cada escola, total de R$ 75 mil para as cinco, números ridículos comparando com a Prefeitura de Manaus, cidade um pouco maior, que está doando R$ 2 milhões para as oito escolas, ou seja, R$ 250 mil para cada uma, o prefeito manauara afirmou, é um investimento para o turismo. Enquanto em nossa cidade inventaram que o turista vem para descansar, é a maior balela, a maior hipocrisia oficial. O turista quer sempre ver alguma coisa de nossa cultura, de nosso carnaval. No sábado de Zé Pereira a nossa bela cidade vai ter o maior desfile de samba de todos os tempos. As cinco escolas capricharam em suas alas e carros alegóricos, vão brilhar na passarela da Pajuçara. O povão frustrado sem carnaval vai poder assistir ao grande espetáculo oferecido pelos sambistas e alegorias feitas com sangue, suor, lágrima e dinheiro do próprio bolso. Não percam, sábado dia 18 na Pajuçara a partir das 20 horas.

Em meus 72 anos de vida tive algumas honrarias, entretanto, a maior das honrarias ganhei nesse carnaval, a Escola de Samba Gaviões da Pajuçara tem como enredo a história desse velho escriba. Estou curtindo adoidado o carinho dos sambistas, não falto aos ensaios, tenho trabalhado junto ao Prego e à diretoria como retribuição a essa homenagem. Em cima do carro alegórico quero ver os amigos sambando nas 14 alas cantando, contando minha vida, desde a caserna à boemia. Vejam a beleza do samba enredo:

Um Capitão, um Duque, um Imortal… Carlito Lima sob a luz do carnaval!” 

O tempo não pode apagar… Se o livro guardar uma história, “Retratos da Vida”, idas e vindas lembrar… Relatos que esse gigante ouviu, viveu, testemunhou, perpetuou em verdadeiras obras magistrais. Romances, poemas, crônicas geniais. Carlito Lima… Se Deus lhe deu bendito seja. O dom e a nobreza de escrever com o coração. O Golpe em ação, o Regime, a Mordaça. Salve a Revolução!

Nas “Confissões de um Capitão”. A doce magia da Boemia. “O Duque de Jaraguá” revela um olhar…Dessa cidade a encantar ( refrão)

La lá ia… Assim, “o imortal” segue adiante. Lançando mais “declarações de amor”. À sua terra, sua gente, sua arte. Sua cultura, sua cidade, MACEIÓ. Eterna paixão, morada da felicidade!

O show começou “ESPIA”, vem ver! Chegou Gaviões para você. A minha emoção vai com o “Velho Capita”. Sobrevoar essa Avenida (refrão)

AS FOLIÃS DO NINHO DO PINTO

Chegada do Pinto a Marechal


 
Braga (Pinto) –Dr. Petrúcio (vice) – Carlito (Secretário) – Braga Lyra (Pinto) – Cristiano Matheus (Prefeito) – Eduardo Lyra (Pinto)


 
Moça bonita dançando o frevo

A multidão na frevança, descendo ladeira da bela Marechal Deodoro

Ao ouvir a notícia na televisão, Rosana telefonou para amiga.

– “Neguinha estou vendo no programa do Canetinha, amanhã tem abertura do carnaval em Marechal, vai bombar, três orquestras acompanhando o Bloco Pinto da Madrugada, seremos duas turistas se divertindo em busca de aventuras.”                                                                                    

– “Estou nessa, vamos logo cedo.” Disse Vanessa com alegria.

As duas são amigas há alguns anos, trabalham juntas, almas gêmeas, moças alegres gostam da balada e de carnaval.

Sábado pela manhã vestiram short curto, camisa frouxa, o colar havaiano dava o tom carnavalesco, tomaram um ônibus enfrentando 30 km até Marechal. Ao desembarcar na cidade colonial ficaram encantadas com a nova urbanização da orla lagunar. A lagoa Manguaba embelezava o cenário bucólico da cidade histórica de Marechal Deodoro. Tomaram uma mesa numa barraca da orla observando o povo chegando à concentração da festa no cais das lanchas. Apareciam crianças, jovens e adultos fantasiados, orquestra tocando frevo, aguardavam a chegada triunfal e anunciada do Pinto em uma embarcação.

As amigas estavam maravilhadas com a alegria, o colorido, o ambiente naquela belíssima orla. Em pouco tempo estava repleta, uma multidão curtindo a festa ao som do frevo e de marchinhas antigas, esperando o Pinto.

De repente avistou-se no horizonte da lagoa um barco, avisaram: “Lá vem o Pinto!” A embarcação cada vez mais se achegava, até que deu para notar dentro da escuna foliões fantasiados dançando ao som de uma orquestra de frevo, na proa do barco havia um ninho com um vulto amarelo, ao se aproximar foi reconhecido, era um anão fantasiado de pinto, o Cicinho, assessor do prefeito, acenava entusiasmado e bem humorado para a multidão em terra.

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A PERIGUETE DE PENEDO

Ela cruzou as pernas como se ninguém estivesse perto, o short jeans mostrava mais que escondia as coxas torneadas. Elisa é moldada, sarada em academia. O rosto moreno, cabelo preto escorrido, boca carnuda, olhar profundamente negro, completam a beleza exótica daquela mulher. Foi essa a visão de Edgar ao entrar no Restaurante Rocheira na tarde de um bonito dia de verão. O Rio São Francisco entre uma cor verde esmeralda e verde cana arrastava suas águas em busca do mar a alguns quilômetros de Penedo.

Edgar sentiu-se bem, tomou mesa em frente àquela mulher estonteante, cumprimentou-a com um discreto aceno de cabeça, pediu ao garçom uísque e tira-gosto de jacaré ensopado ao coco.

O segundo uísque ele já tomou na mesa de Elisa, conversa animada, altos papos, ela cantora do grupo de banda de forró, viajaria no outro para encontrar os parceiros em Campina Grande. Certo momento Edgar foi ao banheiro, telefonou para mulher, deu-lhe a boa notícia, a empresa que ele faz contabilidade havia liberado R$ 4.000,00 de gratificação, entretanto, só retornava para Maceió dia seguinte. Voltou à mesa da gostosa, tinha certeza de uma noitada de amor com a maravilhosa mulher.

Eram 9:00 horas da noite os dois em estado de alegria, triscados do uísque deram um beijo. Logo depois saíram abraçados rumo à pousada pelas ruas enladeiradas da bela, bucólica, colonial Penedo, cantando cantigas de amor.

Ao ver Elisa após o banho Edgar beijou-lhe com carinho, cheio de desejo, enrolaram-se vadiando até os instantes do êxtase. No intervalo de descanso ela pediu champanhe, Edgar eufórico com o desempenho e alegria da companhia, interfonou pedindo duas garrafas de Dom Pérignon, tomaram a primeira taça brindando de braços entrelaçados. Certo momento novamente veio-lhe o desejo, a moça disse espere, encharcou-se, entornou champanhe no corpo, encheu duas taças trouxe-as borbulhando estrelas de amor, como diria o poeta. Edgar tomou de um gole, jogou a taça, beijou-lhe o gosto do champanhe no corpo, após o momento culminante do segundo tempo, ele apagou, dormiu como um menino.

Dia seguinte, às 12 horas Edgar acordou-se com dor de cabeça tentando refazer, relembrar a noitada anterior, ao recordar-se da bela, levantou-se, a procurou no quarto, no banheiro, até que notou sua carteira na mesa em cima de um bilhete em letras garrafais: “QUERIDO, A NOITE FOI MARAVILHOSA, UM DIA NOS ENCONTRAREMOS, EU PAGAREI COM JUROS OS R$ 4.000,00.” Edgar percebeu o golpe da bela cantora, colocou alguma droga no champanhe, desligou seu celular e escafedeu-se. Não pode fazer um BO na Delegacia de Penedo, seria prato cheio para Imprensa, o remédio foi um empréstimo no Banco antes de retornar a Maceió. A ressaca moral era enorme, entretanto, a lembrança da noitada de amor ficou marcada dentro da mente e do corpo.

Meses depois do ocorrido, passeando pelo Shopping, Edgar notou uma figura conhecida num cartaz da banda do forró se apresentando em Marechal Deodoro, era ela, era Elisa entre quatro belas mulheres do grupo de vocalistas com vestimentas profundamente sensuais. Comprou ingresso. Na quinta-feira, dia da apresentação, inventou viagem de negócio, dirigiu 28 km até Marechal. Assistiu ao show de intensa animação, o povo dançava e cantava ao som da banda. Ao findar, Edgar dirigiu-se ao camarim dos artistas, pediu para falar com a vocalista apontando o cartaz em sua mão. O travesti que atendeu na porta deu um grito para dentro do camarim: “Periguete tem um homem bonito, um seu cliente querendo falar com você”. Elisa ao ver Edgar sorriu-lhe, “Desculpe querido por aquele dia, eu estava precisando, vou pagar tudinho, tim-tim por tim-tim, com amor”. Deu-lhe um abraço. Logo depois saíram juntos.

Toda vez que a Banda de Forró faz show retornando aos arredores de Maceió, a Periguete de Penedo paga um pedaço de sua dívida a Edgar.

A PRIMA VERINHA

Verinha separou-se aos 29 anos, Vinícius, seu marido, diplomata, poeta e boêmio, trocou-a por uma de 19, naquela época o Rio de Janeiro era a capital da República, surgia a bossa-nova, o cinema novo, eram os anos dourados. Verinha para esquecer o drama conjugal, viajou, conhecer sua família nordestina, passou as férias na casa do Tio Mário, irmão de seu pai. Fizeram uma festa em sua chegada. A carioca encantou-se com a cidade, com a praia de Pajuçara, ficou hospedada numa enorme casa à beira-mar pertencente a seu avô, onde morava na época seu tio. Durante os dias que passou conheceu toda Maceió, passeou na Lagoa Mundaú, tomou banho em Bica da Pedra, no Catolé, foi em todas as praias, sempre havia um programa para Verinha.

Os homens amaram Verinha, carioca, moderna, separada, acendeu a fantasia na mente masculina, a bela despertou o coração e outros órgãos dos homens. Dançou nos clubes, altamente paquerada por solteiros e casados, recebeu muitas cantadas. Entretanto, o melhor programa era a praia de Pajuçara, água morna, um azul-esverdeado estonteante, nunca tinha visto igual, morava em Copacabana. Toda manhã pegava seu primo Mariozinho, 12 anos, exigia sua companhia de cavalheiro. Ao chegar à praia estendia a toalha, abria a sombrinha, pegava um livro, saboreava a leitura queimando a pele sentindo a brisa suave do mar. Mariozinho ia jogar futebol, os amigos encantados com aquela figura feminina de biquíni, um dos primeiros a ser usado na província, se deliciavam homenageando o Deus Onã. Tudo se acaba, um dia Verinha retornou ao Rio, ao seu emprego no Senado Federal, saiu fascinada com a terra que não conhecia. Não deu para ninguém.

Dois anos depois Tio Mário recebeu um telegrama Western, avisava nova viagem de Verinha, passava o mês de janeiro de férias na casa. Ao desembarcar no aeroporto a família prestou calorosa acolhida, Verinha feliz, alegre abraçava todos, teve um susto quando percebeu Mariozinho, agora um adolescente, quase homem, alto, forte, espadaúdo. Ela abraçou-o, encantada com a figura jovem do primo, “menino como você está bonito”, disse abraçando-o novamente.

Em casa colocaram Verinha num quarto improvisado de uma sala, havia mais hóspedes na casa de Tio Mário, no mês de janeiro, toda família desfrutava a praia da Pajuçara, Tia Virgínia tinha maior prazer em recebê-los. Na hora do jantar uma festa. Verinha não se cansava de olhar e estar junto ao primo querido, agora um homem, ou quase homem.

Quando deu meia-noite Mariozinho acordou-se com vontade de fazer xixi, de pijama foi ao banheiro, atravessou um quarto, jovens dormiam, ao atravessar o segundo quarto, tomou um susto, sua prima estava apenas de calcinha preta dormindo de bruços, andou mais devagar apreciando aquela maravilha, foi ao banheiro, retornou mais devagar admirando o corpo perfeito. Quase não dorme pensando na imagem da prima dormindo.

Dia seguinte na hora do café Verinha olhava insistentemente para o primo, chegou-se perto, falou baixinho, tinha o visto passar para o banheiro, convidou-o para praia. Uma alegria toda família reunida entre sombrinhas, voleibol, banho de mar. A hora do almoço era outra festa, depois jogar buraco, ping-pong. Ao cair da tarde curtir um pôr-do-sol.

Depois do jantar Verinha perguntou discretamente a Mariozinho se ele era virgem, respondeu gaguejando que sim. Ela lhe falou no ouvido, “até hoje, meia-noite vá ao banheiro, estou esperando que você passe”. Mariozinho não conseguiu dormir, ao dar meia-noite, um tanto nervoso, atravessou o primeiro quarto, ao entrar no segundo quarto a prima estava esperando, abraçaram-se, ela dizia, “priminho não é irmãozinho”. Assim foram as 28 noites das férias.

Mariozinho, hoje, muitos anos passados daquelas férias maravilhosas, não se lembra da primeira namorada, nem do primeiro beijo, entretanto, as noites inesquecíveis da prima Verinha ficaram incrustadas em sua mente, em sua alma.

A TOALHINHA DO CINE AURORA

 

Diógenes foi o primeiro a chegar, há mais de cinco anos não via o amigo Lula, tomou uma mesa ao ar livre, na época o Bar Veleiro era o mais frequentado da juventude no Recife. Uma brisa suave deu-lhe sensação de bem estar, pediu chope ao garçom, naquele momento apareceu Lula, braços abertos, sorrindo, trazia uma toalhinha junto ao pescoço, abraçaram-se emocionados, afinal amigo de infância é para toda vida.

Sentaram olhando um para o outro curtindo o momento, brindaram à velha amizade com taças de chope. Diógenes iniciou a longa conversa da noitada.

- E aí, onde vai assistir amanhã a final Brasil x Itália? Acho que vai dar Brasil, esse bendito ano de 1970 está sendo generoso comigo. Você deve saber, casei com Carolina em janeiro, sempre foi o amor de minha vida, depois de tantos desencontros nos juntamos para valer, está grávida. Para aumentar a felicidade estou na maior torcida, ver o Brasil tricampeão. De manhã cedinho retorno a Maceió, vou assistir ao jogo com Carolina, meus pais e irmãos.

- Pois olhe, tenho certeza da vitória, será 4 x 0 ou 4 x1. O Brasil não perde essa nem que a vaca tussa. Eu soube de seu casamento com Carolina, a paixão de sua juventude, de sua vida, pois eu também tinha uma grande paixão, hoje estou curado posso contar.

- Mas Lulinha, pelo que me consta você nunca foi chegado a uma mulher.

- Pois fique sabendo de meu segredo, minha grande paixão era você.

Disse Lula às gargalhadas enquanto tomava um gole de chope e bem dobrava a toalhinha em cima da mesa. Continuou a conversa.

- Meu grande amigo, minha paixão recolhida, desde menino já sabia, eu era homossexual, entretanto, só me revelei quando servi ao Exército no 20º Batalhão de Caçadores, ao ver aqueles soldados nus durante o banho coletivo bem pertinho me dava uma comichão, até que um dia me declarei a um colega, fiquei com ele e com outros, descobriram, o capitão quis me expulsar, seu pai foi quem quebrou o galho me deu um atestado, doença hepática, eu saí do Exército sem escândalo, deram-me baixa como incapaz para o serviço ativo. Depois fui trabalhar na loja de meu pai, me apaixonei por um caixeiro viajante, vendia relógio, eu assinei um pedido enorme, a loja ficou com relógio durante mais de cinco anos, o carioca era bonito, namorou uma menina da sociedade, eu não aguentei, morrendo de ciúmes fiz maior escândalo. Bastou para papai arranjar um emprego nos Correios com um senador e me deportar para o Recife, eu estava desonrando a família, disse ele. E você? Que tem feito?

- Como você sabe, eu deixei a Marinha, fiz engenharia, estou com muitas obras em Maceió, depois de uma vida boêmia um tanto desregrada me casei, agora sou um cara bem comportado, um marido exemplar, amo minha Carolina, quero envelhecer junto a ela. E essa toalhinha? Você chegou com ela pendurada no pescoço!

- Ah Diógenes, com essa toalhinha eu ando por todo canto, ela tem história, sou conhecido aqui na cidade também pela toalhinha que sempre levo comigo. Tudo começou ao descobrir um cinema de filme pornô, Cine Aurora, frequentado por bichas iguais a mim, vão ao cinema em busca de aventuras, sentam-se junto a algum rapaz, se der chance ali no escurinho do cinema fazem o que pode. No primeiro dia, no final da peripécia senti a precisão de uma lavagem mínima. Dia seguinte levei uma toalhinha, foi sucesso, a moda pegou, hoje todo gay de escurinho do cinema tem toalhinha, eu fui o inventor. Alguns inclusive levam água numa garrafa de coca, para a ablução.

Os dois amigos deram uma gargalhada, beberam, tomaram um porre até altas horas, lembraram muitas histórias, cheios de saudades.

Semana passada Diógenes foi ao enterro do amigo Lula no Recife, seu rosto lívido parecia dar uma leve risada. Em suas mãos cruzadas, algum amigo colocou um carinho, uma toalhinha, a toalhinha do Cine Aurora.

CARTAS MAL QUEIMADAS

Agamenon sempre foi o cara politicamente correto, não faltava à repartição, os Correios, um tio deputado arranjou-lhe o emprego na década de 70, não fumava, bebia socialmente. Batia no peito com orgulho ao confessar: “Nunca traí Mariza nesses 36 anos de casamento”. O colega Barreto fazia discurso: “Se Agamenon não existisse deveria ser inventado é o único homem no mundo que não trai a mulher, um fenômeno, só acredito porque vi a pilantra da Soninha querendo dar para ele e ser recusada, foi repelida na hora, e Soninha não é mulher de se enjeitar”.

A fama de homem íntegro orgulhava a família, Mariza repetia em qualquer ocasião: “Por Agamenon ponho a mão no fogo, é o homem mais honesto do mundo, nunca soube de algum caso com namorada ou rapariga, feito o restante dos homens que conheço.”

Quando os filhos se casaram, eles ficaram morando sozinhos numa casa, bairro alto do Farol. Certo dia Mariza teve a idéia, porque não comprar um apartamento na orla?  Agamenon gostou da ideia. Logo acharam um três quartos, perto da praia, de cinema, de restaurante, local animado, prazeroso. 

Quando o edifício ficou pronto, iniciou-se a mudança. Não tinham pressa, a casa entrou no negócio. Levaram primeiramente os móveis mais pesados em um caminhão. Dormiram no apartamento. Mesmo aos 65 anos Agamenon é bom de cama, estreou a nova morada com uma noite de amor com Dona Mariza, hoje sessentona sem muitos atrativos, o tempo é cruel para mulheres que não se cuidam. Mesmo assim Agamenon enfrentou bem sua gordinha.

Durante a semana foram levando de carro roupas e pequenos objetos, o casal de aposentados estava curtindo a mudança. Certa hora Agamenon sozinho na casa deu uma vasculhada geral, no quintal procurando algum objeto esquecido viu uma tulha de papel mal queimado em uma lata de lixo. Curioso, mexeu, virou, notou que eram cartas, alguns trechos legíveis. Ele teve uma dor no coração ao ler uma declaração de amor à sua mulher, à sua Mariza, datadas de 1977/78, já estavam casados. Agamenon sentou-se em um pequeno banco, continuou lendo os pedaços, decifrando o que estava escrito. Ficou louco assim que percebeu o missivista apaixonado, era Afrânio, um dos melhores amigos na época, oficial da Marinha, logo depois transferido. Ainda estava tentando ler as cartas quando Mariza apareceu no quintal. Ela ao longe percebeu o desastre, as cartas não haviam sido totalmente queimadas, não dava para enganar. Ao vê-la Agamenon mostrou os destroços em papel, olhando nos olhos, tentando se conter, falou alto, cheio de raiva: “Me explique isso!”. Mariza baixou o olhar, chegou-se mais perto, confessou tudo, sem mentira, teve sim um caso com Afrânio, entretanto, foi coisa passageira, não significou nada para ela, o amor de sua vida era ele, somente ele, não destruísse os belos 36 anos juntos, os filhos.

Agamenon com calma e muita mágoa desabafou a única vez: “Sua puta, se não tivesse significado nada, você não teria guardado as cartas, nunca passou em minha cabeça que eu era corno. Você não merece um tiro, merece apenas meu desprezo, não diga a verdade para nossos filhos, não quero que eles saibam que são filhos de uma puta”. Deixou-a chorando, retirou-se para nunca mais voltar.

Hoje Agamenon é um boêmio, diz ele que está em busca do tempo perdido que nem Proust. Vive nos bares da cidade namorando as coroas mais descoladas, descobriu o Viagra, é um homem dedicado apenas à cama. Adora dormir, ler e transar. Na temporada de turismo faz dos hotéis ponto de paquera, as turistas em busca de uma aventura, tem em Agamenon um ponto de apoio. Escondeu de todos o verdadeiro motivo do fim de seu casamento de 36 anos. Alguns amigos perguntam: “Agamenon, não entendo, como você, o mais bem comportado dos homens, largou a mulher de sessenta anos, para viver na boemia”. Ele responde curto: “Foram cartas mal queimadas”.

PARA CURTIR 2012

Praia de Porto de Pedras – Foto Roberto Farias

A vida se inicia com uma corrida, o espermatozóide mais veloz fecunda o óvulo que fica à espera desse mais esperto. O prêmio da junção é o feto desenvolvido dentro da mulher, nove meses depois expelido em forma de bebê, o primeiro ciclo do ser humano. A seguir vêm os outros ciclos contínuos: a infância, a adolescência, a juventude, a maturidade, a meia idade, a senilidade e finalmente a morte. Se enterrado nosso corpo se mistura fertilizando a terra que gera alimentos necessários aos órgãos humanos produzirem novos espermas competindo loucamente contra milhões de colegas ejaculados para fecundar apenas um óvulo, repetindo o ciclo da vida humana.
                  
O ano novo faz lembrar esses ciclos de vida, acaba um ano, ressurge outro, feito àquela ave da mitologia, Fênix, morria, ressuscitava das cinzas. Na vida real nós morremos várias vezes e ressuscitamos em outro ciclo, em nova fase da vida. Esses ciclos dão a sabedoria ao homem, mostram, ninguém é imortal, a morte faz parte do ser humano tanto quanto o nascimento comemorado todos os anos nos festivos aniversários. O ano novo nos trás o sentimento de renovação de vida. Entretanto, muitos não percebem o presente maravilhoso, a experiência extraordinária que é simplesmente viver. Por preconceito, ignorância ou medo, muitos homens terminam seu último ciclo sem viver de fato o que a vida apresenta de bonito e simples.
                 
Como dizia o poetinha Vinicius de Moraes: “Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida. Cuidado, companheiro! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom ninguém me vai dizer que tem sem provar muito bem provado. Com certidão passada em cartório do céu. E assinado embaixo: Deus. E com firma reconhecida! A vida não é brincadeira, amigo. A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida…”
                
Na verdade a vida é curta e temos que desfrutá-la pedacinho por pedacinho. Curtir as coisas boas, as mais simples, encontram-se com facilidade, elas estão no coração de cada um. Por tudo isso ofereço a meus leitores, que me dão tanto carinho nos encontros, nas ruas, nos bares, nos lares, nos mares, o texto de um amigo, Sérgio Braga Neto que me presenteou no final de 1997, eu o guardei no arquivo sentimental. As sábias sugestões de Sérgio são para refletir, ajudar a curtir o ano novo e o verão que se aproximam.
              
“Não tome muito sol, cuide já desta barriga crescente, não esquente a cabeça, não brigue, não corra, não morra, não ande armado, ande mais pelado, ligue o ar, o ventilador, transpire, mas se inspire também, leia mais, desligue a TV, encoste o carro, mexa-se, caminhe na praia, ande de bicicleta, mergulhe de cabeça, manere no trânsito, aumente o rádio, olhe a paisagem, seja paciente, não fique doente, veja a morena passar, deixe o tempo passar, deixe o juro baixar, deixe o ano findar, esqueça o relatório, cuide do ócio, não só do negócio, vá à matinê, faça a sua soirée, não se retraia, se distraia, curta o verde do mar, veja a nudez se bronzear, sirva à turista, defina a sua musa, esqueça a bolsa, abra a sua, circule a moeda, tome mais chope, troque de carro, troque de paqueras, descubra novos bares, bote seu cotovelo no balcão, bote sal na sua temporada de sol, tome gelados, sucos de pitanga, mangaba e açaí, que já tem por aqui, coma aquela carapeba, tainha e curimã, mas preste atenção tome cuidado com os bichos que estão no ar, urubu, gavião e carcará, e os que rastejam na política, no chão, cobra, gabiru e camaleão, se exponha, não ponha a mão no rabo do foguete brasileiro, tome juízo, se privatize, pule desse trem desgovernado, tenha atitudes e estilo, cresça e principalmente não desapareça.
          
Mesmo porque, é a festa do verão que se inicia com a chegada da era de aquárius, trazendo grandes mudanças e emoções, nós estamos preparados e merecemos estar aqui! É a festa do verão, com muito sol, água de coco, um grande agito e um calor muito louco, para nos confundir.”
           
Em 2012 façamos força para amar a vida simplesmente. É preciso trabalhar para viver, não, viver para trabalhar! Que bom seria se pobres e ricos tivessem direito à Justiça, Liberdade, Educação, e os corações de todos os homens estivessem permanentemente encharcados de generosidade! 

UMA HISTÓRIA DE NATAL E DE AMOR

 

Meu São José, dai-me licença
Para o pastoril dançar
Viemos, para adorar
Jesus nasceu para nos salvar

 

Rainha Tereza

Depois de três anos de muito estudo, privação e ralação, finalmente Luciano terminou o curso da Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica em Barbacena. Seu destino era a Academia da Força Aérea, onde se formaria oficial da Aeronáutica. Naquele ano aconteceu na Escola uma “Maratona de Matemática”. Luciano, bom na matéria, tirou 1º lugar. Ganhou uma passagem à Europa pela PANAIR.
     
Ao chegar a Maceió, orgulhoso, ele mostrava a todos seu prêmio, a passagem, sonhada e suada viagem à Europa.
      
Entretanto, queria mesmo era curtir as férias, programas simples como são as coisas boas da vida. Luciano acordava cedo, vestia um velho calção de banho, descia à praia da Avenida da Paz. Jogar futebol, nadar, namorar Tereza. À noite, geralmente saía com amigos, um bordejo pelos bares da cidade, terminava na boemia de Jaraguá.
       
Certa tarde levou a namorada ao Cine São Luiz. Assistiram, “Suplício de uma Saudade”, Tereza chorou, ele também. Ao sair do cinema, de mãos dadas, passearam apreciando as vitrines natalinas das lojas. A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara. Entraram na joalheria. Luciano colocou a tiara na cabeça de Tereza. Emocionou-se com a beleza da namorada, parecia uma rainha. Ao ver o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes dos pais. A tiara foi catalogada nos sonhos impossíveis.
            
Na véspera de Natal a moçada convergia às festas na Praça da Faculdade ou Praça Sinimbu. Luciano amava o colorido folclore nordestino, pastoril, chegança, guerreiro, reisado, coco de roda. Perto da meia-noite cada qual retornava à sua casa, distribuição e troca de presentes. Depois da ceia de Natal, as famílias vizinhas se reuniam na missa do coreto da Avenida.
                
Luciano emocionou-se quando Tereza apareceu. Estava belíssima, deslumbrante, cabelos longos, sorriso apaixonado. Ele aproximou-se, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.
       
A namorada desembrulhou o papel, apareceu uma linda caixa de veludo azul, abriu-a. Tereza emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreensível, a emoção lhe deixou atônita ao ver a cintilante, belíssima tiara. Colocou-a de imediato na cabeça. A mais bela princesa do Natal. Ela soube pela cunhada, seu amado vendeu a preciosa passagem para Europa e comprou o impossível presente. Tereza beijou-o com muito carinho, feliz, radiosa. Mostrava a todos sua belíssima tiara, era aquela felicidade própria das mulheres que se sentem amadas com loucuras de amor.
      
Depois da missa ficaram juntos num banco da Avenida, beijos e carinhos excitantes. Eram três horas da manhã quando Tereza convidou Luciano a um passeio na praia. Queria curtir as estrelas naquela noite escura de lua nova.  Ao chegar à areia branca, sentaram-se, deitaram-se, abraçaram-se, beijaram-se. Luciano sentiu os lábios na orelha e escutou a mais bela declaração de amor:
    
“- Eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei a semana escolhendo um presente para você nesse Natal. Foi difícil, tudo que imaginava você merecia mais. Na hora de dormir, eu ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida: eu mesma. Nesse Natal meu presente é meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama me respeita, mas também é tarado por mim. Pois meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua…”
       
Abraçaram-se na areia branca. Muitos carinhos, desejos cheios de ternura. O vento levou os gemidos em direção ao mar. Apenas Yemanjá, os botos, as carapebas e tainhas ouviram os gritos de dor e de gozo de uma rainha de tiara prateada.
         
Ainda estavam deitados, dormindo enlaçados, quando o Sol apareceu despertando-os. Parecia uma cabeça vermelha de criança nascendo no horizonte. As nuvens brancas tornaram-se laranjas-avermelhadas e o mar tremeluziu dourado. Os namorados se levantaram. Abraçados, descalços, sapatos entre os dedos, caminharam felizes. Atravessaram a rua, despediram-se com beijos e juras de amor, cada qual entrou em sua casa.
     
A luminosa manhã alumiou a praia, destacou a marca vermelha do amor na areia branca. Era sangue e areia; sangue encarnado impregnado na areia alva e morna. Uma bonita manhã surgiu; testemunha de uma bela história de amor. Uma História de Natal.

A CASA DO SENADOR

Eu era capitão do Exército quando conheci o soldado Benevides. Baixinho, magro, risonho. Foi fácil tornarmos amigos, ele é do tipo afável, comunicativo, tem prazer em servir aos outros. Num português mais claro, Bené era o maior bajulador do quartel. Sabia chaleirar com dignidade.

Ao dar baixa do Exército, pediu-me para arranjar-lhe emprego. Benevides além de discreto é bom de serviço, cuidadoso motorista.

Certa noite, em uma bela festa, eu participava de uma roda de uísque entre alguns abastados das Alagoas, um conhecido empresário, Humberto, reclamou a falta de bom motorista, discreto no trabalho. Aproveitei a ocasião, indiquei o jovem Benevides como confiável, cargo que exerce até hoje com discrição e fidelidade canina.

Humberto, homem de doces negócios açucareiros, gosta também da cana, de uma aguardente. Para ele nada melhor que um bom uísque acompanhado por belas mulheres. Naquela época ele tinha um time de deixar essas meninas da televisão no chinelo. Bom financista, Humberto fez alguns cálculos, chegou à conclusão, alugar uma casa junto a dois amigos, num local discreto para receber convidadas saía mais barato, mais seguro que motel.

Alugaram uma bela mansão, varandas internas, vista para a piscina central. A casa pertenceu a um senador das Alagoas, foi logo batizada de Casa do Senador. Localização discreta no alto de Jacarecica, exuberante vista para o mar.

Toda sexta-feira acontecia “repiau” na Casa do Senador. Os convidados levavam garrafa de uísque na mão e namorada no braço, evitando tentação de paquerar mulher alheia. A boa comida do “repiau” ficava por conta de uma cozinheira baiana contratada, Humberto é vidrado em caruru, vatapá e acarajé. Foram farras memoráveis restritas aos três inquilinos e poucos amigos, a fina flor da burguesia alagoana.

Benevides adaptou-se ao sistema de vida da empresa, muito trabalho, quase sem folga. Às sextas-feiras, pela manhã, tinha a missão de acompanhar a cozinheira ao mercado, ajudar na compra dos ingredientes do caruru. A partir das 15 horas ele preparava a Casa do Senador nos mínimos detalhes, gelo, bebida, copos limpos, toalhas nos apartamentos. Tudo supervisionado por Benevides, um mordomo perfeito, servia de garçom na hora precisa. Geralmente as farras terminavam por volta de 20:00 horas. O patrão e amigos depois de beber, comer e raparigar retornavam às suas casas. Os empregados ficavam para limpar, ajeitar a casa. Benevides levava cada menina em sua residência, outras em bares e ponto de encontros continuando a noitada.

Bené frequentemente me visita, ainda tem esse hábito. Eu puxava para que soltasse algumas histórias da casa do Senador, como ele confia no Capitão, contou-me muitas farras homéricas acontecidas naquela casa de prazer.

Certa vez, Benevides convidou-me para padrinho de casamento. Com muita honra entrei na Igreja a fim de testemunhar meu amigo dar o sim à Madalena, bela moça glutona, aos 25 anos já tinha 98 quilos. O dócil Bené se encantou com a beleza gorda e brabeza de Madá, a mandona. Hoje têm cinco filhos, 10 netos são a alegria da casa controlada pela matriarca.

Certo dia, Benevides apareceu-me com um galo na cabeça, olho roxo. Perguntei se foi acidente. Ele reparou para os dois lados certificando que estávamos sós, contou-me o ocorrido, quase cochichando.

-“Meu Capitão, sexta-feira passada houve maior farra na Casa do Senador, acabou-se à meia-noite. Como sempre, fui distribuir as jovens no final de festa. Uma delas trocou a calcinha no carro para continuar a balada noturna da Jatiúca, esqueceu, deixou a calcinha usada no banco traseiro.

No sábado pela manhã acordei-me com um murro na cara acertado pelo braço forte de Madalena. Ciumenta, braba feito um siri na lata, me encheu de bordoada gritando: – “Sem-vergonha, achei uma calcinha de rapariga no carro, você é um cabra safado, ainda pega o carro do patrão para farrear, vou dizer ao Dr. Humberto.” E continuou me batendo. Apanhei como escravo, mas não contei a verdade, não posso contar o que se passa na Casa do Senador, é segredo do patrão”.

Assim é Benevides, discreto, servil e fiel. Quanto à Casa do Senador, hoje é só lembrança, foi desativada há poucos anos.

SOCORRINHO

Idosos não perdem a memória, às vezes ficam esquecidos. O fascinante do ser humano é que detalhes de um passado mais distante se perpetuam na mente. Consegui programar minha memória, recordo apenas coisas boas, as ruins apaguei-as para ser feliz.
    
Lembro bem, eu era menino, ano da graça de 1947, tinha 7 anos, morava na Avenida da Paz. Último dia de novembro minha mãe deu um presente à família, nasceu Socorrinho, última dos cinco filhos. Alguém apareceu com a recém nascida nos braços para mostrá-la aos irmãos. Eu fiquei curioso ao ver a criança chorando, me emocionei, feliz da vida. Aquela menina chorona tornou-se uma das figuras mais importantes de minha existência.
     
Nossa infância na praia da Avenida e no riacho Salgadinho foi de liberdade e alegria. Na aurora de minha vida, nos meus 12 anos queridos, eu percorria toda redondeza pescando ou pegando caranguejo. Meus pais criaram os filhos com sabedoria e generosidade, entretanto, menino é malvado, Socorrinho devia ter quatro ou cinco anos, eu já rapaz, pegava caranguejo pelo casco, ele abria as patas enormes, maldosamente eu amedrontava, achegava o bicho brabo perto do rosto dos pivetes, Socorrinho foi a vítima número um. Até hoje tem pavor a caranguejo, sequer sabe o gosto de uma saborosa caranguejada.
     
Certa época fui para Escola Militar, peguei um trem em Maceió até o Recife de onde viajei para Fortaleza. Durante 12 horas o trem correu entre pequenos morros, canaviais verdes em contraste com o céu azul, me vinham lembranças, meus pais, meus irmãos. Disfarçadamente chorei.
       
Perambulei 13 anos pelo Brasil, férias sempre em Maceió. Certa vez Socorrinho me confidenciou, estava paquerando, me apresentou seu namorado, Clailton, a partir desse dia ganhei outro irmão. Está gravada em minha mente a figura de Clailton na varanda de nossa casa, tocando violão, cantando: “Oh cachaça amiga, não há quem me diga que não tens valor… e de saudade eu morro, vem em meu SOCORRO mais outra lapada”. Minha afinidade é tanta com Socorrinho que Clailton costuma dizer que só tem ciúmes de mim e de Chico Buarque de quem Socorrinho é fã de carteirinha.
       
Em 1967, promovido a capitão, voltei a morar nas Alagoas. Nada mais queria na vida; solteiro, morando com o carinho, casa e comida dos pais e irmãos; de quebra, uma Maceió bonita, festiva, me encantou. Nessa época, dos irmãos apenas Socorrinho estava ainda na casa do General e Dona Zeca. Foi uma fase bonita e feliz de minha existência. Socorrinho era minha companheira, minha amiga para todos os cantos, festas, casamentos, Zinga Bar. Eu adorava paquerar suas amigas. Ela fazia não gostar, dizia estar preocupada com possível sujeira de minha parte, mas no fundo eu sabia, tinha maior orgulho do irmão.
            
Nunca tive desentendimento com Socorrinho. Aliás, tive uma única briga. Certa vez discutimos, não lembro o motivo. Dia seguinte, ela emburrada não falou comigo, raiva mesmo, ranzinza. Eu pensei, ela tinha razão. Socorrinho não só me perdoou, como me abraçou emocionada quando ao entrar em seu quarto, uma surpresa: sua cama estava coberta de rosas. Foi a única maneira que encontrei em pedir desculpas.
      
Em 1970 me casei, logo depois foi ela. Socorrinho tornou-se um esteio na família. Sempre foi a primeira chegar aos problemas, nas dificuldades da família, nos piores momentos, na hora da morte, como também na hora da alegria. Ela herdou de Dona Zeca o amor às festas, à família, ao natal, ao ano novo. Sua casa sempre foi cheia, Clailton feito o General, apoiando.
    
Está fazendo 60 anos daquela cena gravada em minha mente, a menina nos braços não sei de quem, sendo mostrada aos irmãos. Desde aquele momento veio nossa bem querência, nossa cumplicidade, amizade, o apoio mútuo, até os dias de hoje.

OBS- “Esse texto faz parte do livro, MENINOS DA AVENIDA, organizado por Lelé Lima, 306 páginas, 257 fotografias, histórias da vida da cidade contada em crônicas de Paulo Ramalho, Guilherme Palmeira, Cuca, Sônia Cardoso, Lelé, Mendonça Neto, Albertina Lima, Eurico Uchoa, Humberto Gomes de Barros, João Kepler, Mozart Cintra, Murillo Mendes, Paulo Silveira, Ricardo Peixoto, Chiquinho Nemésio, Milton Hênio. Será lançado dia 16 dezembro a partir das 18 horas no Bar Barroco em Jaraguá. Todos convidados.”

ATÉ O DOMINGO AMANHECER

- Doutora, na verdade estou cansada, enjoada de meu marido, casei-me cedo aos 18 anos, hoje com 25 me sinto uma menina, Germano ficou velho, passa a noite em casa na televisão assistindo novela e jogo de futebol, vai trabalhar porque tem necessidade, sem filhos, não tem mais emoção, a alegria de quando nos casamos. Quando fazemos amor é aquela coisa burocrática, obrigatória. Confesso, já tive vontade e oportunidade de traí-lo, entretanto, não faz minha cabeça, queria meu marido como antes. Oriente-me, por favor!

A doutora Junga da Silveira olhou para Anunciada, pigarreou, com fala bem compassada deu sua opinião.

- Minha querida, você está passando pela crise dos sete anos, todo casal tem esse problema. Está na hora de uma rearrumação nesse casamento via sexo, a cama é ótima para reorganizar uma vida. Faça uma surpresa, à noite você convida o marido para assistir a um bom filme, alugue um especial, cenas quentes de sexo. Compre três garrafas de bom vinho, vista um lingerie sensual, assista ao filme e vamos ver no que dá.

Uma semana depois voltou Aparecida, radiante, satisfeita da vida.

- Doutora foi um santo remédio, não acabamos a segunda garrafa de vinho, não havia terminado o filme, nós já estávamos abraçados no tapete, tudo como antigamente. Germano vem repetindo a dose quase todos os dias, a senhora salvou meu casamento. Eu contei-lhe que a senhora sugeriu apimentar nossa noites, ele comprou o Kama-Sutra, deu-me para ler e ver as figuras, as posições, todo dia tem novidade.
Passaram-se alguns meses, Anunciada voltou à consulta. Entrou nervosa.

- Desde aquela época nós estamos constantemente tendo experiências novas na cama. Acontece que Germano me fez uma pergunta, fiquei preocupada, perguntou se eu já tinha ouvido falar em swing, eu respondi, é um ritmo de música. Ele sorriu e me explicou: “Existe aqui no Rio de Janeiro clubes de swing, entretanto, não é para dançar, esse swing é a troca de casais, cada um vai com a mulher do outro para o motel. Depois é como nada tivesse acontecido.” Continuou: “Nós já fizemos todas as experiências que imaginávamos. Será que você toparia fazer essa novidade?” Eu fiquei chocada, não soube responder, ainda não sei o que dizer. Na minha cabeça ele é um grande mau caráter, me trocar, saber que eu vou com outro homem que mal conheço. Isso é degradante. Estava tão bom o Kama-Sutra, me ajude doutora.

- Querida Anunciada, a traição é relativa, algumas pessoas acham que se você está fazendo e o parceiro sabe, não é traição. No seu caso é diferente, pela escala de valores e de ética muito forte, educação com padrões rígidos, típica nordestina, a decisão é sua. Nada posso aconselhar.

Anunciada foi para casa. Sexta-feira à noite Germano voltou a insistir no swing. Ela constrangida com o coração dizendo não, aceitou a proposta. Foram ao bar da troca de casais, tomaram uma mesa, serviram uísque, logo chegou um casal pedindo para sentar. Muita conversa, Germano estava radiante quando viu a bela mulher da troca. O marido também era um alto, bonito. Até que chegou a hora da troca. Anunciada estava com o coração aos pulos. No motel não aguentou disse ao futuro parceiro, não queria, tornou-se uma confusão, o cara telefonou no celular se sentindo ludibriado. 

Em casa ao ver o marido chegar, teve nojo, asco de Germano, disse apenas que precisava de um tempo, pensar. Dormiu num hotel. Dia seguinte pegou todas as roupas, foi para o aeroporto, retornou para sua querida e bonita cidade. Contou o porquê da separação aos pais. Eles deram todo apoio.

Hoje Anunciada é solteira, independente e feliz, é vista aos sábados num bar gostoso, bem frequentado por paqueradores, onde comparecem as mulheres mais descoladas da cidade. Em vez em quando ela leva um parceiro a seu pequeno apartamento, oferece um bom vinho, assiste a um bom filme, à vontade, de lingerie, faz amor até o domingo amanhecer.

A DAMA DE PRETO

Antônio Coutinho havia terminado o curso da Academia Militar das Agulhas Negras, foi designado para servir no Recife, naquele ano de 1964 rebentou o golpe militar. Era um tenente compenetrado, idéias próprias sobre a situação do país, apoiou e participou da revolução.
    
Jovem educado, bem criado, sempre gostou de ler, de participar de atividades culturais e sociais. Nesse período pós golpe, a partir de abril de 1964 era convidado para grandes festas e eventos no Recife, conheceu algumas personagens da mais alta hierarquia social e política pernambucana. Por ser uma figura alegre, bem falante, bom contador de histórias e principalmente por ser tenente do Exército Brasileiro, fator de muito peso entre os bajuladores, Coutinho frequentava constantemente as festas da cidade. Seja no consulado dos Estados Unidos ou nas belas mansões. Certa vez compareceu a um aniversário de um amigo rico em um apartamento elegante do Recife, edifício Acaica, praia de Boa Viagem, foi acompanhado de um major amigo. A festa rolava, um encanto, bom uísque, boas conversas, brincadeiras divertidas, declamação de poesia, jogos de salão.
        
Certa hora o major falou que o tenente Coutinho recitava poesias. Os anfitriões pediram, exigiram, ele advertiu saber apenas poesia erótica; foi aplaudido, pediram, por insistência ele recitou Delírio, de Olavo Bilac:

 “Nua, mas para o amor não cabe o pejo. Na minha a sua boca comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela pedia – Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo, fremente, a minha boca obedecia.
E os seus seios, tão rígidos mordia Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo meu bem! – num frenesi. No seu ventre pousei a minha boca, -Mais abaixo meu bem! – disse ela louca. Moralistas, perdoai! Obedeci …”

Assim que terminou de recitar a bela poesia de Olavo Bilac, uma bonita senhora vestida de preto, aparentando uns 25 anos, vistosa, elegante, bem tratada, linda, dedos cheios de anéis de brilhantes, sentou-se ao seu lado e cochichou no ouvido: “Adorei a poesia”. A madame tinha pele morena, cabelo preto como uma noite escura. Passaram o resto da noite conversando e por que não dizer, paquerando. O grande problema era o ciumento marido que foi se chegando até participar da roda onde estava a Dama de Preto e o tenente poeta. Coutinho entristeceu ao perceber que a Deusa era casada. Não aparecia a aliança, os anéis ofuscavam qualquer outra jóia em seus dedos finos, bem tratados.

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A MENINA DA JANELA

Balthazar dedicou sua vida à nação, ao Exército Brasileiro, ao passar para reserva como coronel, comprou um apartamento perto da praia. Para família foi uma alegria saber que os pais estão morando com ótima qualidade de vida. Ele armou-se de um computador, danou-se a escrever. Chegou a hora de desfrutar a merecida aposentadoria.
     
Pela manhã caminha na orla, encontra amigos, fica a conversar até as nove, hora de tomar um bom café e ler jornais. Retorna à praia as onze, reúne-se com colegas aposentados, consertar o mundo e ficar olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Preenche a tarde no shopping, cinemas, livraria; gosta de ler. Depois do Jornal Nacional, Balthazar se recolhe ao escritório, entra no computador, pesquisar, ler jornais, enviar e-mails para amigos e escrever. Cismou de escrever um livro narrando passagens de sua vida. De sua cadeira tem uma ampla visão sobre as janelas dos apartamentos do prédio vizinho. Às vezes ele desliga a luz, para apreciar melhor o panorama. Aprendeu no Exército: observar é ver sem ser visto.
          
Quando uma bela jovem retorna da Faculdade por volta das 23 horas, ele se liga enquanto sua querida Helena, a esposa, dorme no terceiro sono. A moça é um encanto, estatura baixa, cabelos louros escorridos até o ombro, nariz afilado, lábios grossos, uma belezura. Seu corpo um monumento à libido, seios duros, pontiagudos, bunda delirantemente torneada. Ao entrar no quarto ela tira a roupa, se enrola numa toalha, vai ao banho antes de dormir. A última cena é delirante, ao sair do banheiro abre a toalha, nuínha como Deus a fez, veste um pijaminha curto moldando o belo traseiro, reza antes de deitar-se. Balthazar fica num excitamento juvenil. Após a última cena muda, ele vai direto ao seu quarto, acorda sua amada Helena, abraça-a, ama-a, pensando na menina da janela.
        
A moça mora com o pai, veterinário, trabalha para um fazendeiro perto de Palmeira dos Índios. Só retorna à capital no fim de semana.
       
Certo dia, ao anoitecer, Balthazar dirigia o carro, ia às compras. Ao longe, no ponto de ônibus, reconheceu a vizinha em pé, com livros abraçados ao peito, esperando condução. Ao cruzar os olhos, ela sorriu, Balthazar freou o carro no reflexo. Perguntou se estava indo ao centro. A moça não se fez de rogada, entrou no carro. Como uma princesa sentou-se ao lado, a mini saia mostrava suas pernas maravilhosas. Deu boa noite, disse que ia para a Faculdade de Direito. Conversaram amenidades; o coração do jovem coroa estava disparado feito de um menino. Afinal chegaram à Faculdade.
       
Naquela noite Balthazar esperou ansioso a chegada de sua musa na janela. Compensou a espera, Madalena ao chegar, tirou a roupa bem devagar nem uma profissional faria com tanta sensualidade.
     
No outro dia, à mesma hora, Balthazar passou com o carro no ponto de ônibus, frustrou-se. Três dias depois, emocionou-se quando a viu. Parou o carro, ela entrou mais bonita que nunca. Madalena com apenas 22 anos é mulher prática, pragmática, perdeu a mãe cedo, vive com o pai, um sacrificado, explorado pelo patrão, levam uma vida com parcimônia. Em certo momento ela foi direta, olhando Balthazar.
      
- Eu acho que você está me paquerando. Percebo toda noite me olhando da janela. Faço aquela cena de propósito. Tenho esse defeito, adoro saber que os homens estão me olhando.
     
Balthazar enrubesceu, virou o rosto, encarou-a, deu um sorriso largo.
      
- Você é danadinha hein?
      
- Danadinha ou danadona, vou lhe fazer uma proposta indecente: transo com você, e você paga minha faculdade. Que tal? Pense. Pegue-me aqui mais tarde, às 9 horas, perco a última aula. Vou lhe esperar nessa esquina.
         
Balthazar, emocionado, parou o carro. Ela desceu, andando como uma princesa acenou com os dedos sem olhar para trás.
         
Difícil foi arranjar uma desculpa para sair de casa naquela noite.
       
Quando deu nove da noite Madalena se aproximou do local, ele estava plantado. No motel quase teve um infarto ao sair do banheiro ao deparar com a moça deitada na cama, maravilhosa, divina.
        
Balthazar hoje está com acréscimo nas despesas, no orçamento doméstico. Entretanto remoçou, feliz da vida, espera as tardes das quartas-feiras para ter Madá em seus braços. À noite não se cansa em vê-la, fica observando, ao longe, a menina da janela.

MANHÃ DE DOMINGO NA JATIÚCA

Praia da Jatiúca

Geralmente acordo-me cedo, na cama me espreguiço pensando no que fazer. Levanto-me, abro as janelas da varanda deixando o ar puro da manhã circular no apartamento, encho o pulmão de ar. O sol acima do horizonte, o mar verde esmeralda, o céu azul repleto de nuvens. Sinto a brisa do nordeste que refresca e balança as palhas dos coqueiros. Bela manhã de domingo na Jatiúca.
          
Um velho calção de banho e o dia para vadiar, descalço, desço e atravesso a avenida até a praia, gostosura o pisar na areia fofa e morna, sensação de conforto. Caminho na areia molhada, dura, enquanto pequenas ondas molham, banham, meus pés. De um lado o marzão que não tem tamanho, do outro, uma cortina de edifícios envidraçados, beleza da concepção da arquitetura alagoana. Ali moram figuras famosas, senador, governador até escritor.
       
É hora de chegada dos ambulantes carregando caixas de isopor, ajeitam-se na areia. Empregados do Hotel Meliá colocam confortáveis cadeiras brancas com sobrinhas para os hóspedes, enquanto os nativos ricos, pobres, farofeiros com farnéis cheios, comidas, farinha e bebida, escolhem, ocupam pedaços na praia.
      
A praia é o local mais democrático e mais barato de uma cidade. Bendita Maceió com tantas praias em seu entorno. Continuo a caminhada, duas moças bonitas estendem toalhas no chão, morenas, corpos perfeitos, tangas bem curtas chamam atenção. As gostosas se deitam em decúbito ventral expondo seus maravilhosos traseiros oleados, brilhantes, parecem terem sido lapidados num torno. Mais adiante um homem forte, beirando 50 anos, apenas de sunga vermelha, esparadrapo no ombro, faz exercícios de alongamento exibindo o corpo musculoso às moças ao redor. Chegam famílias arrumando sombrinhas, isopores e equipamentos.
    
De repente, deu-me dor no coração ao atravessar a água corrente amarelada, contaminada, vinda de um bueiro desaguando poluição, crime inafiançável segundo a legislação, entretanto, a lei não existe para os bacanas que descarregam no mar os dejetos de seus valiosos edifícios. Alegro-me ao ver Cida, a ambulante mais charmosa da Jatiúca, de biquíni varre sua área de trabalho, coloca mesas e cadeiras, vende bebida, tira-gosto, dou um aceno de mão, ela responde enquanto enfeita uma mesa com um buquê de espirradeira rosa.
      
Continuo a prazerosa andança, gostosura, os pés lavados pela marola. Na areia uma organizada e disputada pelada de futebol entre dois times, camisa azul e encarnada. Com medo de uma bolada na cara, passo rápido pela faixa de Gaza, zona de perigo para banhistas onde é permitido futebol.
     
Um ambulante enfeitado da cabeça aos pés com tubos de creme amarrados em cordão, oferece sua mercadoria aos gritos, cuidado com o sol. Na avenida os ônibus esvaziam mais passageiros, em trajes de banho invadem a praia. São 8:00 horas, é cedo, às 10:00 horas a praia estará completamente tomada.
     
Numa roda de pagode, jovens cantam, dançam, estão abastecidos, garrafa de cachaça, de rum e muito tira-gosto. Duas mulheres sentadas em cadeiras à beira-mar me acenam, me chamam, são minhas leitoras, idade entre 40 e 50 anos. Elas me convidam para sentar e conversar, acompanhá-las naquela manhã de domingo. Tenho meus compromissos, chope dominical com os amigos, consigo educadamente me desculpar. Continuo a andança. Na Ponta Verde dou meia-volta, retorno observando o ar alegre dos frequentadores de praia. Um senhor empilha enormes bóias pretas de câmara de ar de caminhão, alugam aos banhistas. Três crianças correm beira-mar levantando água em baldes plásticos, mergulham.
         
No mar, bem ao fundo, um casal se abraça, se beija, fazem amor pela manhã na água tépida da Jatiúca. Que beleza, bendito o amor matinal dentro d’água! Um ambulante oferece queijo assado, recuso, sem parar a caminhada observo a bela moça de biquíni rosa, sentada, pernas cruzadas para dentro, mãos juntas como se rezasse, olha ao longe o mar, meditação, um quadro bonito de tranquilidade, uma ilha de paz entre o burburinho de banhistas por todos os lados.

Afinal retorno ao meu ponto de partida, edifício San Diego. Respiro fundo. 

O ambulante abriu-me um coco, coloco-o levemente à boca, sugo com carinho como se fosse o seio da mulher amada, divina água. Assim começa meu domingo, mais tarde, chope com amigos. Na próxima semana tudo se repete, mudam alguns personagens, entretanto, a história é a mesma, a alegria, o prazer de uma manhã de domingo na praia de Jatiúca.

VIAGEM LÍRICA E SENTIMENTAL DO POETA LÊDO IVO AO LITORAL

 

Luminosa manhã, azul, Luiz Carlos me esperava, além de jornalista, historiador, é fotógrafo. Pouco antes das oito horas acostamos no Hotel Ponta Verde. Vieram-me lembranças, anos 70, engenheiro daquela obra eu chegava cedo para contemplar o mar esverdeado e o exuberante coqueiral, prazeroso trabalho. O poeta Lêdo Ivo apareceu, acabou meu devaneio. Partimos, os três velhinhos, rumo ao litoral norte das Alagoas. Atravessamos a orla urbana, praia da Jatiúca, onde moram, o governador Téo Vilela, o senador Collor e este imodesto escriba, o bairro mais chique da cidade. Logo depois, Cruz das Almas, Jacarecica.

A estrada paralela ao mar nos presenteia uma exuberante vista, elegantes coqueiros, seus troncos não conseguem tapar o verde mar de matizes azuis. Na praia de Guaxuma identificamos a casa de PC Farias envolvida em mortes misteriosamente não resolvidas Em Ipioca subimos ao Alto, tirar fotos no local onde um dia foi casa do Marechal Floriano Peixoto. Que bela vista! Continuamos estrada a fora, conversas, muitas lembranças, casos bem humorados, faziam a festa daqueles três senhores de vida bem rodada enquanto o carro rodava no asfalto.

Entramos para conhecer a nova ponte da Barra de Santo Antônio, um paraíso dividido pelo Rio, casas de veraneio e de pescadores. Retomamos a estrada cortando um canavial viçoso, fez lembrar o poema, Trem das Alagoas, de Ascenso Ferreira. ”Adeus morena do cabelo cacheado… Vou danado pra Catende… Com vontade de chegar… Cana caiana, cana roxa, cana fita,… Cada qual é mais bonita… Todas boas de chupar…”

 

Na Usina Santo Antônio seguimos rumo ao mar, região ondulada de difícil manejo do trator, a cana é cortada à mão pelos cambiteiros. Atravessamos, sem pressa, pequenas fazendas de gados brancos e búfalos pretos, até o Passo de Camaragibe, bucólica cidade, berço de nascimento do mestre Aurélio Buarque de Holanda. Luiz Carlos fotografou a casa onde morou o maior dicionarista da língua portuguesa. Por cima de uma belíssima ponte, construção do governador Fernandes Lima em 1910, atravessamos o Rio Camaragibe. Novamente entramos entre canaviais e coqueirais, um imenso tapete verde, o verde de Lorca, “Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre el mar y el caballo en la montaña.”

 

Chegamos à bela Barra de Camaragibe, o mestre Lêdo extasiado contempla cheio de emoção pequenas jangadas de velas brancas sobre o mar. Continuamos nossa via, a estrada se tornou minúscula entre enormes coqueiros velhos, centenários, altos, altivos como se fossem sentinelas do mar. Até Porto de Pedras atravessamos oito povoados de casario antigo, há mais de 30 anos o progresso é marcado apenas pelo mar de antenas parabólicas nos baixos e velhos telhados. 

Marceneiro, Riacho, São Miguel dos Milagres, cidade pequena, o mar, uma piscina, como todo litoral. É bom que se diga, o banco de coral no mar entre Alagoas e Pernambuco é o segundo maior do mundo perdendo apenas para o da Austrália. Em São Miguel dos Milagres o famoso jornalista Sebastião Nery passa férias de fim de ano na casa de Maurício Moreira. Segundo uma revista de turismo, a água daquele mar é a mais quente dos mares brasileiros. Bom demais para amar dentro d’água!

Seguimos em frente, no povoado do Toque, o Bugarelli construiu a pousada mais charmosa da região, Cacá Diégues não perde dias de descanso naquele paraíso, proibido crianças.  Mais adiante o povoado de Tatuamunha, terra do tatu grande, no Rio um programa ambiental do peixe boi, incrível ver aqueles enormes mamíferos nadando mansamente nas águas escuras. Alguns ricaços de São Paulo encontraram aquele paraíso, há três anos organizam um réveillon encantador, armam tendas, quatro dias de festa no meio do coqueiral.

Afinal chegamos a Porto de Pedras, visitando o velho farol fixação sentimental de Lêdo Ivo, encontramos a simpatia de Fernanda Borghetti, primeira dama do município. Almoçamos em companhia do valoroso prefeito Júnior Boi Lambão. Empanturramo-nos de tanta fritada de camarão, inesquecível como essa viagem do poeta Lêdo Ivo aos mares do Norte das Alagoas.

A BOMBA

Neste ano de glória de 2011, nós, amigos, colegas concluintes do curso da Academia Militar das Agulhas Negras – 1961, faremos um belo encontro comemorando com saudades e lembranças esse cinquentenário.  Entre os colegas certamente encontrarei os coronéis, Rocha e Wanderley

No final dos anos 60, ambos eram capitães, Rocha servia na Fábrica de Material Bélico em Piquete e Wanderley no 5º Regimento de Infantaria em Lorena, cidades vizinhas, bem próximas. Época de repressão e terrorismo em alta escala, em São Paulo aconteceram vários ataques terroristas a quartéis do Exército e o caso do Capitão Lamarca, contemporâneo da AMAN.

Rocha depois de uma viagem de férias ao Ceará, como sempre, trouxe um presente para o amigo.  Era uma tarde de quarta-feira não havia expediente no 5º RI. Capitão Rocha parou o carro em frente ao quartel, chamou o soldado sentinela entregando um pacote envolto em papel jornal, pediu para entregar ao Capitão Wanderley. Nesse momento o Tenente, oficial de dia, observava o movimento, percebeu quando um cidadão entregou um embrulho à sentinela, deu partida e acelerou o carro.

Imediatamente o tenente correu, ordenando ao soldado colocar o embrulho no chão com cuidado, devia ser uma bomba, mandou tocar alarme geral, desesperado gritava, é uma bomba!

Os soldados bem treinados tomaram posições estratégicas sob o comando de sargentos e cabos, entrincheirados, atrás dos muros e paredes, vigiavam, ao longe, a “bomba”, o embrulho imóvel, soberbo e inatingível no calçamento.

Todo quarteirão foi interditado, desviaram o trânsito para outras ruas, impedindo qualquer pessoa se aproximar. Enquanto isso o embrulho, no meio da rua, solitário, fazia temer toda população que espreitava nas varandas dos prédios da vizinhança esperando a bomba explodir a qualquer momento. Logo a mídia tomou conhecimento, ficaram na expectativa.  As televisões, jornalistas, fotógrafos se penduravam em prédios fotografando aguardando o anunciado sargento sapador especialista em desarmar bombas.

Foi nesse clima que o Capitão Wanderley, vindo calmamente de uma pescaria, sentiu o movimento estranho ao passar perto do quartel.

Os soldados relataram o ocorrido, o Capitão, autoridade, foi verificar mais próximo o pacote, ao olhar a “bomba” de perto se emocionou, reconheceu os abençoados pacotes, presentes constantes do amigo Capitão Rocha.

Procurou imediatamente o Oficial de Dia, contou sua versão sobre o pacote. O Tenente, nessa altura, não admitia outra hipótese, a não ser bomba.

Os soldados protegidos, abrigados, ficaram apavorados quando o Capitão acercou-se da bomba, sem proteção, indefeso.

Wanderley, com água na boca, pensava no presente, aproximou-se do embrulho. A expectativa e o silêncio tomaram conta da multidão, dentro e fora do quartel acompanhavam a insensatez, a maluquice do Capitão.

Com o embrulho aos pés, num gesto contínuo, Wanderley abaixou-se, acocorou-se, segurou o pacote, imediatamente foi abrindo pelos lados, retirou o papel jornal, as palhas de bananeiras protetoras, até aparecerem 12 bonitas barras de rapaduras, douradas, como se fossem barras de ouro nordestino.

Com os dedos, indicador e mindinho, quebrou um pedaço da rapadura, levou-o à boca, deu uma bela dentada, sorriu de satisfação. Colocou o pacote nas axilas, retornou andando devagar e calmo como ele próprio. Mastigava carinhosamente a rapadura, lambendo os beiços diante de uma enorme plateia pasmada, incrédula no que via acontecer, todos boquiabertos esperando a bomba explodir, soltaram um uníssono e exclamativo. “Oh”. Foi um alívio geral, a paranóia naquela época era contagiante.

A CHACINA DE JARAGUÁ

 

Praça Dois Leões (antiga Recebedoria) e Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo

Muitas histórias ainda não foram registradas à tinta ou nos computadores, são histórias orais passadas de pai para filho, de geração a geração. Há alguns tempos atrás corria à boca miúda dos mais velhos habitantes do bairro boêmio e histórico de Jaraguá, um fato que se deu no início do século XX, quando a República do Brasil estava engatinhando. Naquela época o bairro vivia na efervescência de muitos negócios, exportação de açúcar, algodão, e importação de materiais industrializados. O porto de Jaraguá era um dos mais movimentados do Brasil. Na Praça da Recebedoria, hoje Praça Dois Leões, em torno da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, moravam estivadores, embarcadiços, pescadores, homens que tinham o mar como sustento, como parte de sua vida.
        
Os vizinhos se conheciam, havia casamento entre eles, como fosse uma grande família. Seu Augusto, estivador, homem forte, rude, líder da comunidade, ficava de olho naqueles que admiravam a beleza de sua alegre filha, Augusta, a moça mais bonita da redondeza. Ao chegar à praça, faceira, a todos encantava, contudo, apenas um lhe tocava o coração, Gumercindo, jovem espadaúdo, forte musculatura, corpo forjado no carrego de sacos de açúcar no cais do porto, tornou-se embarcadiço. Os pais de Augusta permitiram o namoro. Era do gosto das duas famílias.
             
Certa tarde de domingo, uma pequena patrulha da Força Policial, comandada pelo Cabo Sobral, fazia ronda na Praça da Recebedoria, ao avistar Augusta de roupa domingueira, o cabo se encantou. Ficou deslumbrado com a beleza da moça, se apaixonou. Todo domingo, ele dava serviço só para admirar a menina passando para missa na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Certo dia Sobral se apresentou, conversou com o pai da moça. Não se conformou em saber que a bela Augusta estava comprometida com um embarcadiço.  Não admitia uma negativa, era quase proposta de casamento, ele um cabo da Força Policial, autoridade, de tradicional família (sua família deu nome à belíssima praia do Sobral, continuação da Avenida da Paz).
               
Dia 14 de janeiro havia a festa de Bom Jesus dos Navegantes. As embarcações enfeitadas flutuavam na enseada de Jaraguá, procissão marítima com a imagem de Jesus, muitos fogos, muita alegria. À noite a festa de prolongava na Praça da Recebedoria. Tendas para leilões, bingos, tablados onde se dançava e jogava. Improvisavam bares servindo cachaça e tira-gosto.
            
Nas casas eram organizadas festas particulares frequentadas apenas pelos vizinhos e convidados. Gumercindo havia chegado em uma barcaça de Penedo. Os amigos encheram a festa na casa de Augustão.
            
O Cabo Sobral, ao longe, percebeu a animação na casa de Augusto, encheu-se de despeito ao ver, pela janela, Gumercindo dançando coco de roda com Augusta na maior felicidade. O Cabo, enciumado, tomou várias talagadas de cachaça, embriagou-se, tentou entrar na casa de Augusto na companhia de três policiais, foram barrados na porta por Simplício, irmão do dono da casa, só podia entrar parente. O cabo alterou-se, respeitasse a autoridade, apareceram mais de 10 estivadores, ele recuou.

Sobral, conhecido arruaceiro não de conformou, retornou com mais 12 policiais, foram rechaçados por braços e pontapés, a briga generalizou-se, entre tapas, murros, pontapés e faca, uma peixeirada deixou um policial morto na rua. Sobral ensandecido retornou à Delegacia Regional, armou mais de 40 homens. Montados em cavalos invadiram a praça atropelando, atirando, matando quem estava na frente. Na casa de Augusto, ao perceberem os tiros, dispersaram, pularam muro, fugiram da sanha dos policiais. Dois músicos ficaram guardando seus instrumentos, foram fuzilados. Na praça, os ambulantes, nada tinham a ver com a briga, correram para dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo. Os soldados do Cabo Sobral entraram atiraram nos inocentes, não ficou um vivo.
           
No outro dia, o governador Gabino Besouro visitou o local da chacina, estava escandalizado, entretanto, permitiu que os cadáveres, mais de 40 mortos, fossem ajuntados em carroça de bonde e enterrados numa vala comum no cemitério de Jaraguá. Nenhuma notícia foi publicada em jornais, nada registrado. Para abafar o caso, a Igreja determinou a interdição do templo católico. A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo da freguesia de Jaraguá ficou fechada por mais de 20 anos. Entretanto, o povo, o dono da verdade e da história, não esqueceu, ainda hoje, por tradição oral, netos e bisnetos de Gumercindo e Augusta contam a história do massacre de Jaraguá ouvida de seus pais, de seus avós.

O CAFEZINHO

- “É o senhor Nicácio? Sou Leonora, a nova inquilina. Foi bem de viagem? Ainda não nos conhecemos, estou lhe telefonando por dois motivos. Primeiro, gostei muito do apartamento, bem mobiliado, perto da praia, como eu queria. Inteiramente satisfeita. E o senhor recebeu o dinheiro direitinho do corretor?”

-“Sim, quero dar-lhe o recibo. A senhora veja o que está precisando, gosto de deixar o apartamento sempre nos trinques.”

- “É esse o outro motivo, o liquidificador está velho, sem força, será que dá para me arranjar outro?”

- “Não há problema, vou comprar um novo e levo no apartamento, pode ser à noite? Vamos marcar para oito horas?”

- “Tudo bem fico esperando às oito da noite, tenho um compromisso às oito e meia, peço para não atrasar.”

-Então passo as sete, 19 horas, ok?

Depois do jantar Nicácio avisou à esposa, estava levando um liquidificador para nova inquilina, voltava já. Tirou o carro, rumou à praia de Pajuçara.

Ao tocar na campanhia, esperou um pouco, de repente apareceu Leonora vestida apenas de camisa social masculina, as belas pernas realçavam, ele notou as penugens douradas que nem um milharal brilhante, a camisa comprida não deixava saber se estava de short ou calcinha, o sangue de Nicácio ferveu. Ela notou o impacto no locatário, deu um sorriso bonito, maroto, sem vergonha. “Entre Seu Nicácio faz de conta que a casa é sua”. E gargalhou desbragadamente da piada feita. Ele entregou o pacote, entrou maquinalmente. Leonora fechou a porta, indicou com a mão o sofá. Nicácio sentou, disse ter compromisso.

Ela sorrindo impôs, desculpasse, mas só sairia depois do cafezinho.  Levantou a caixa do liquidificador e num impulso com o braço direito colocou-a em cima do armário, com esse gesto a camisa subiu mostrando o corpo moreno, Nicácio estremeceu ao perceber, ela estava de calcinha branca pouco encobrindo o traseiro exuberante. Leonora percebeu a reação, sorriu, faria um café maravilhoso, sua especialidade. Colocou o bule no fogo, retornou sentando junto no sofá. Descalça brincava com seus pés bem tratados, deu uma taquicardia em nosso amigo, ele tem uma paixão incontida, uma compulsão a pés femininos. Leonora puxou conversa.

- “Me disseram que o senhor era um velho, estou vendo um coroa enxuto, embora meio forte (não quis dizer gordo), mas com aparência bonita. O senhor faz exercícios, anda? Eu não deixo de andar todo dia, estou adorando o calçadão da Pajuçara, todo entardecer caminho das cinco às seis horas. De manhã não posso, acordo tarde, sou chegada a umas baladas, noitadas.”

- “Minha querida, muito obrigado pela gentileza, sou um velho beirando os setenta anos, cuido bem da saúde, ando pelas manhãs, faço pilates três vezes por semana. Minha geração de coroa é privilegiada, uma geração revolucionária que transformou o mundo, inventou novas tecnologias, bons remédios para garantir a saúde e o desempenho físico.” Continuaram conversando amenidades com algumas malícias, ela distraidamente deixava aparecer a camisa desabotoada, sutiã não existia, dentro da camisa de tecido fino com listras estreitas, azul e branco, percebia-se dois belos cuscuzes pontiagudos. Certo momento o bule ferveu, Leonora coou o cafezinho, colocou na xícara, ele bebeu embevecido, com a libido despertada e incontida. Nicácio, de repente, perguntou onde ela trabalhava. A inquilina deu uma gostosa gargalhada, encostou perto do ouvido, do rosto, falou com meiguice, “presto certo tipo de serviço, quer experimentar?”

Nicácio adorou aquele começo de noite.  Acostumou-se, viciou-se, toma cafezinho uma ou duas vezes por semana. Chegaram a um acordo, Leonora paga apenas a energia consumida e o condomínio, o aluguel fica por conta dos cafezinhos. Nicácio ficou mais pobre em sua aposentadoria, entretanto, um pobre feliz da vida, leva na boca constantemente o sabor de um gostoso cafezinho.

TEMPOS DE ARNON

Há quem diga que uma fotografia vale mil palavras. Embora eu seja amante da palavra, concordo que certas fotografias dizem muito mais que palavras. Lendo o suplemento SABER dedicado ao centenário de Arnon de Mello, viajei no tempo revendo figuras clássicas da política alagoana dos anos 50 vestidas de paletó branco. Autoridades em inaugurações, reuniões públicas. Meu pai, Mário Lima, coronel do Exército, foi comandante da Polícia Militar e Secretário de Segurança durante o governo de Arnon.

Veio-me nitidamente à memória acontecimentos da eleição de 1950, a mais tumultuada da história de Alagoas. Eu tinha apenas 10 anos, ficaram gravadas em minha mente as reuniões que se realizavam em minha casa pela cúpula da oposição ao governador Silvestre Péricles. A UDN dizia ser o único lugar seguro em Alagoas. Acompanhei atentamente àquelas reuniões históricas dos homens de terno branco, apenas uma mulher, Dona Leda.

Silvestre Péricles, governador honesto, era um déspota, um ditador arbitrário, não admitia ser contrariado, nem sequer houvesse oposição. Para eleição de 1950 encontraram um candidato de consenso o General Vieira Peixoto, na hora do acordo, Silvestre não admitiu, não aceitou, candidato de consenso se fosse o dele, Campos Teixeira, de vitória tranquila.

A oposição liderada pela UDN apresentou o nome de Arnon de Mello e foi à luta. Silvestre não suportava qualquer tipo de manifestação contra o governo, ficou desesperado quando sentiu a candidatura de Arnon crescer. Começou a infernizar a vida da oposição. Mandou dar surras, acabar comícios, rasgar cartazes, placas, faixas.

Certo dia, na véspera da chegada do Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN à Presidente da República, meu pai chegou em casa perguntando e contando o ocorrido.

- “Sabem da nova do Silvestre? Ele passava de carro pela Praça Sergipe notou surpreso a meninada da UDN de caminhão, pichando muro, colando cartazes do Brigadeiro e de Arnon. Mandou parar o carro, botou a garotada para correr puxando o revólver, atirando para cima, gritando raivoso: “Cabras safados, arnonmelistas filhos de uma puta vocês vão se estrepar comigo”. A juventude udenista aterrorizada correu como pôde. O motorista deixou o caminhão na praça, foi recolhido ao DETRAN por ordem do governador, tocaram fogo na carroceria cheia de cartazes.”

No outro dia saíram manifestos nos jornais, foram passados telegramas para as autoridades federais. Temia-se por uma reação maluca de Silvestre na chegada do Brigadeiro. Guedes de Miranda candidato à vice de Arnon fez um grande pronunciamento, temeroso que não haver garantia do Exército durante a eleição. Seria fatal para as pretensões de vitória da UDN

Pela tarde fui junto com minha mãe e irmãos para o centro da cidade na casa de meu primo, o hoje pediatra Walter Lima, ficamos esperando o desfile em carro aberto do Brigadeiro e Arnon. Meu pai ficou de prontidão no quartel do 20º Batalhão de Caçadores (hoje 59º B.Inf.Mtz.) onde era o comandante.

Enquanto aguardamos o desfile de carros vindo do aeroporto, apareceram em grande estilo e muito barulho uma revoada de aviões da Força Aérea sediados no Recife. Vinham desagravar o Brigadeiro, para mostrar força ou mesmo para intimidar o governador, pretensão difícil. Na loucura de Silvestre não havia medo, ninguém lhe intimidava.

Cerca de seis aviões voaram baixo na cidade antes e durante o desfile. Quando deram rasantes ostensivas em cima do Palácio do Governo na Praça dos Martírios, Silvestre saía na sacada do palácio e dava banana com o braço e uma mão.

O Brigadeiro perdeu a eleição para Getúlio Vargas. Arnon ganhou para governador e para deputado federal, naquela época podia candidatar-se a dois cargos. O mais surpreendente, foi a derrota do General Góes Monteiro, eminência parda da República na época, e irmão de Silvestre, perdeu a eleição de Senador da República para Ezequias da Rocha, um obscuro médico de Major Isidoro. Assim foram as eleições em 1950.

COM ARTE E MANHA, FLIMAR TRANSFORMA MARECHAL DEODORO

Hoje cedo o espaço mostrando a repercussão da 2ª FLIMAR, o texto é do escritor Ovídio Poli Júnior, um dos organizadores da FLIP, Festa Literária de Paraty

“Uma garça solitária observa o horizonte à beira da Lagoa Manguaba, ao lado de um barco artesanal de pesca. Essa garça não tem pressa, caminha a passos lentos e deixa marcas no chão ao mariscar. Assim é a FLIMAR: serena, poética, inesquecível.

Um observador cartesiano que participasse da FLIMAR veria apenas mais uma das muitas festas literárias que surgiram no Brasil no saudável rastro deixado pela FLIP. Mas o que se passa em Marechal Deodoro desde que Carlito Lima assumiu a secretaria de cultura é algo verdadeiramente revolucionário: com apoio do prefeito Cristiano Matheus, o escritor alagoano, incansável, realiza um evento que já deixou marcas profundas nos corações e mentes da cidade.

A FLIMAR, a bem da verdade, não se limita a um evento: é desde o início um acontecimento político, cultural e social. No texto que escrevi no ano passado, afirmei que quando a literatura toma as ruas amplia-se o campo do possível. Ao voltar este ano a Marechal Deodoro, vejo que a literatura pode fazer parte de um amplo projeto de transformação social.

Prova disso é a modificação urbanística da orla lagunar e a ocupação desse espaço público pela população local. No ano passado, depois das seis da tarde, Marechal Deodoro parecia uma cidade-fantasma saída de um conto de Gabriel García Márquez. Este ano, a orla foi ocupada pelas tendas da Flimarzinha. Hoje, além dos quiosques, tem-se às margens da Lagoa Manguaba quadras de esporte e o livre acesso à internet.

Como disse o escritor Homero Fonseca, o significado de uma festa literária vai muito além da mera “espetacularização” de que falam alguns críticos. Uma festa literária aproxima as pessoas e exercita a arte do encontro. Mais que isso, é um dos poucos instrumentos, além da própria leitura, que permitem fortalecer o reconhecimento social do escritor. No Brasil, até bem pouco tempo, os escritores eram para muitas pessoas seres distantes, inatingíveis, espécie de monges abnegados que em suas casas lutavam com os rascunhos. Ver Ignácio de Loyola Brandão rodeado de crianças na saída do auditório é cena que não se apaga da memória (e para algumas crianças de Marechal Deodoro essa foi a primeira vez que travaram contato com um escritor).

A coisa é mesmo espetacular e não há nenhum problema nisso, desde que o espetáculo não seja um fim em si mesmo. A festa alagoana tem como objetivo democratizar o acesso à leitura literária (e não apenas ao letramento), como parte de um projeto educacional em que também se destaca a construção de uma faculdade municipal, onde certamente os filhos dos que hoje trabalham nos canaviais e nas pousadas da praia do Francês poderão estudar (e estudar de verdade, nada de “ensino a distância”, coisa bastante duvidosa desde os filósofos pré-socráticos).

Saio da FLIMAR mais uma vez encantado e sobretudo entusiasmado, no sentido grego da palavra: carregando deus dentro de si. Uma vasta programação na escola técnica federal com palestras e oficinas, bem como nas escolas públicas e nas praças. Concertos nas igrejas, exposições, apresentações de grupos folclóricos, contação de histórias, concurso de redação. Cabe destacar também as tradicionais bandas filarmônicas da cidade e a expressiva presença de cordelistas. Estudantes e professores de outros estados brasileiros também estiveram presentes à festa alagoana, saudando o trabalho árduo da equipe que ao lado de mais de quarenta escritores deu ainda maior envergadura a essa segunda edição da FLIMAR, que em meio ao casario colonial e a um cenário paradisíaco estende também seus braços a escritores de outros países (Argentina, Bolívia, Moçambique).

Como ainda carrego Descartes na maleta, pude observar que o tradicional “fuso horário” de 60 minutos que alegremente se vê em Marechal Deodoro diminuiu este ano para 45 minutos. Deve chegar a 30 minutos no próximo ano, mas jamais a menos que isso, o que é muito bom: como a garça, a FLIMAR não tem pressa em existir, pois sabe que veio para ficar.”

MARCELINA S/A

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Marcelina não quis mostrar a cara

A moto corria solta, ziguezagueava entre carros, ônibus, caminhões, no anárquico trânsito do meio dia. Marcelina dirigia sua moto veloz entre as brechas dos veículos, imprudente como ela só. De repente fecha o sinal, ela, desajuizada, tentou atravessar a avenida, quase ao chegar do outro lado foi atropelada por um carro na traseira da moto, rodopiou, a jovem foi jogada longe. Acordou-se no Pronto Socorro cheia de hematomas, nada grave, seu capacete salvou-lhe a vida segundo as testemunhas. O médico deu-lhe alta pelo simples motivo de o hospital estar superlotado, recomendou repouso absoluto. Marcelina chegou em casa assustando sua mãe, levou o esperado sermão. “Eu não lhe disse, moto é perigosa, e agora no seu emprego? Menina desmiolada. Se aquiete, seja normal com as outras, para que andar de moto?”

Na verdade Marcelina não tem emprego fixo, nem seguro ou recolhimento de FGTS, presta alguns serviços a seletos amigos, eles organizaram uma espécie de cooperativa para que Marcelina possa trabalhar com mais calma, alma e dedicação. É o serviço especial mais antigo da humanidade, até santa existe nesse ramo, Santa Maria Madalena, prima de Jesus. Por tudo isso Marcelina sente-se segura, os cooperativados são excelentes patrões, não lhe deixarão ao Deus dará.

Ela tem certeza da cobertura, do apoio. Na manhã seguinte ao acidente, deu o primeiro telefonema, para o deputado. Estava em casa toda machucada, precisava de um adiantamento, não era caridade, ela pagaria com muito amor e carinho, ele bem sabia. O deputado reclamou, não do dinheiro, ela merecia pela excelência dos serviços, ninguém é tão eficiente como Marcelina, mas pelo estouvamento, precisa ser mais comportada nesse trânsito maluco, deixasse a loucura apenas para o trabalho, o serviço, pediu o número da conta e mandou um assessor depositar R$ 500,00.

Marcelina passou o resto do dia em contatos com seus patrões, o coronel, o secretário de estado, o líder político, o médico, o vereador, o professor universitário aposentado, os cooperativados. Ela ainda presta serviço camufladamente a um pastor e a uma linda advogada.

Seu verdadeiro nome é Cícera, Marcelina é apelido, os amigos colocaram. Quando o líder político conheceu intimamente aquela morena alta, bonita, cabelos negros, sorriso escancarado e debochado, alegre, olhar de gata no cio, comentou para os amigos de roda de chope, havia dormido com a mulher do século e do sexo, a morena mais frajola e quente da redondeza. Nos braços de um homem era a própria Afrodite, libidinosa e voluptuosa, fazia programa há pouco tempo, entretanto, ela é única, ama o pecado, peca só por prazer e vive para pecar, como diria o poeta. Diverte-se e gosta dos prazeres da carne. Entre quatro paredes tudo lhe é permitido, de lado, de baixo, de cima. 

Os amigos ficaram fascinados com as descrições pormenorizadas do líder. Nesse mesmo dia o médico telefonou, foi devidamente atendido. Ao encontrar com os amigos confirmou a eficiência da deusa marrom. Em uma semana todos constaram a perfeição e dedicação de Cícera. Assim, pediram exclusividade, formaram uma espécie de cooperativa, tudo que ela pede, a despesa é devidamente repartido entre os cooperativados. Deram-lhe a moto para ser mais rápida no atendimento, deram também um banho de loja, Cícera virou chique.

Seu apelido, Marcelina, é devido a uma preferência, diz ela, se fosse homem seria boiola.  Como Marcelino é um conhecido homossexual da cidade, Cícera foi apelidada de Marcelina. Marcelina ama duas coisas na vida, andar de moto e dar. Os cooperativados depositaram em sua conta um generoso montante, nossa amiga passou um mês se recuperando. Assim que pôde, procurou os amigos de fé, os que socorreram na precisão, pagou a dívida com calorosas tardes de amor a cada um dos beneficiários. Valeu a pena. Marcelina retornou à moto e ao amor, não toma juízo, ama a velocidade, continua correndo nas brechas do trânsito caótico. Atualmente está traindo desbragadamente a Cooperativa, apareceram mais clientes em seu caderninho, muito bem cotada, as ações subiram, tornou-se Marcelina S/A. 
 

II FESTA LITERÁRIA DE MARECHAL DEODORO – FLIMAR 2011

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Será realizada a 2ª FLIMAR entre 7 e 11 de setembro próximo. Com uma programação arrojada e ousada, o melhor da literatura brasileira em debates e palestras, o alagoano, vai ter a oportunidade de ver e ouvir os grandes escritores e artistas do Brasil.

A Festa Literária tem como objetivo principal criar uma política de incentivo à leitura que se prolongue e sejam constantes as atividades literárias nas escolas e comunidades, contribuindo para que haja amor e hábito à leitura, reduzindo o analfabetismo, melhorando o próprio ser humano e a qualidade de vida.

A diferença da FLIMAR para outro tipo de festa literária é o envolvimento de toda rede de ensino de Marechal Deodoro nas atividades. Foi uma determinação do Prefeito Cristiano Matheus para que a juventude tenha momentos de prazer e encantamento, e que fique esse legado da cultura na população contribuindo efetivamente para um futuro e um mundo melhor. A 2ª FLIMAR  estará entre os melhores eventos culturais do Brasil em 2011. 

Além da programação central de mesas de debates e palestras no auditório do Espaço Cultural e no IFAL, haverá uma série de manifestações culturais na belíssima orla lagunar, feirinha de arte e cultura, uma tenda para programação infantil, contação de histórias, leitura de livros, o trenzinho da BRASKEM levando os visitantes em viagem ilustrativa com guia turístico ao Centro Histórico de Marechal Deodoro. Toda noite um belo show musical, Nelson da Rabeca, Alceu Valença.

No sábado os seresteiros da Pitanguinha farão uma belíssima seresta pelas ruas de Marechal. Haverá sempre muita cultura para se ver. Vale a pena uma visita. Transporte para Marechal pelas linhas regulares de Vans saindo perto da Santa Casa de Maceió e os ônibus saindo da rodoviária e da Praça da Faculdade. Abaixo a programação do auditório do Espaço Cultural Santa Maria Magadalena da Alagoa do Sul com os melhores escritores do Brasil:

Quarta-feira (07/09). 19h30min – Palestra de Abertura: “Lêdo Ivo – O Iluminado Poeta Alagoano”. Palestrante: Alexei Bueno. Quinta-feira (08/09) -10h – TEMA: Jorge Cooper, o Poeta Marginal. PARTICIPANTES: Fernando Fiúza e Charles Cooper. 11h20 min. – TEMA: Latino-América – O Diálogo das Proximidades e das Diferenças. PARTICIPANTES: Edmundo Torrejón Jurado (Bolívia) e Sérgio de Sá (Brasil). 14h – TEMA: Arnon de Mello, Centenário (1911 – 2011).

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DE ODETE DOS MARTÍRIOS

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O autor em recente visita à Nega Odete

Ao entardecer do dia 20 de dezembro de 1928, dentro de uma casa de taipa, porta e janela na Rua São Luiz no Farol, um choro avisava ao mundo, nasceu Odete dos Martírios, a negra mais bonita e charmosa que perambulou por Maceió no século XX.
                
De mãe pobre e pai fujão, foi criada pela avó no bairro da Levada.  Cresceu uma menina alegre, cativante. Tinha o carinho da avó, e as ruas, as praças, a lagoa Mundaú para brincar, pescar e catar sururu. Criou-se livre, sem estudar, correndo e percorrendo toda biboca da cidade.
               
Tornou-se uma moça bonita, rosto oval, cabelos negros, olhos penetrante. Corpo roliço, bem moldado, cheio de curvas acentuadas, cintura fina, pele aveludada como jamais alguém teve. Odete despertava desejo nos homens quando andava num rebolado natural.
             
Ainda não havia completado 15 anos, quando Floro, um belo rapaz, acadêmico de direito, morador da Rua Pedro Monteiro, filho de um rico comerciante, ficou encantado com a negra bonita cheia de sensualidade Cantou Odete por mais de um mês, prometendo amor, carinho e agrado. Até que numa noite de lua cheia, seus corpos se unirem embaixo de uma jaqueira no morro do Tom Mix pelas bandas da praia do Sobral. Floro deflorou Odete. A negra gritava como uma selvagem, havia doído, havia gostado. Em casa, sua avó notou o sangue, esbravejou, não era mais moça, tinha perdido a honra, não queria sua neta quenga! Reclamou da vida de pobre.
         
Durante a noite Odete chorou lembrando momentos de carinho, sentiu a sensação de seu corpo penetrado. Pela manhã tomou uma decisão, trabalhar, ser independente. Como uma analfabeta podia arranjar emprego?
       
Soube de uma família que estava precisando de empregada doméstica. Odete bateu na casa na Praça Sinimbu. Foi atendida, a senhora gostou da moça negra, simpática, carne firme, disposta no trabalho. Ensinou-lhe a cozinhar. A menina aprendeu rápido, tornou-se exímia cozinheira. Odete fez parte dessa família por muitos anos.
             
Sentia-se independente com o pequeno salário. Tinha um quarto na casa, comida, era livre, sozinha, podia fazer o que bem quisesse. Ao anoitecer, depois do dia de trabalho, disposta, cheirosa, dentro de um vestido de chita, se pintava para sair em busca de diversão nas noites da cidade. Fazer o que mais gostava, amor. Os homens se encantavam, prometiam. Nunca recebeu dinheiro de alguém, selecionava seus parceiros. Gostava de homem novo e bonito. Estudantes ficavam à espreita desde as sete da noite na Praça, desejando Odete. Ela não tinha parceiro certo, escolhia o privilegiado para deitar na morna areia da praia da Avenida ou no gramado do sítio da Sinhá perto do Riacho Salgadinho.
            
Por ser livre e independente Odete foi confundida como prostituta. Entretanto, jamais aceitou um centavo de algum homem. Viveu solteira pelo resto da vida
               
Hoje com mais de 80 anos, mora em um quartinho perto da Praça da Faculdade, sozinha, como sempre viveu. Apesar das seqüelas da idade, ainda sente-se uma auréola de alegria e felicidade, sua pele continua a mais sedosa de todas as mulheres, como diz Bráulio. Essa é a história verdadeira da Negra Odete, mito e fantasia de muitos homens nos anos 50/60 na cidade de Nossa Senhora dos Prazeres, a bela Maceió.                     

ESSA NEGRA FULÔ

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Foi na sala de audiências do Fórum da Serraria, ela apareceu acompanhada da delegada de mulheres. A negra Benedita surgiu com seu permanente e debochado sorriso. A delegada mandou a moça contar a surra que levou do companheiro, o servente de pedreiro Severino, que ali se encontrava para depor sobre sua violência intempestiva e seu ciúme incontrolável quando viu sua mulher, Benedita, jogando futebol com a meninada da rua, na Chã da Jaqueira.

Severino arrastou-a pelo braço, entrou em casa esmurrando-a. Ele tinha um ciúme doentio pela singeleza e beleza silvestre de Benedita.  Conheceram-se há três anos, quando Severino foi construir uma casa na praia do Pontal do Peba, foz do Rio São Francisco. Vieram morar na capital.

Como não teve infância, maior paixão de Benedita é brincar com os meninos da rua quase da sua idade.  Por tudo isso, Severino tem essa doentia paixão e ciúme, proibiu sua amada de sair na rua e jogar com os meninos. Benedita ficava em casa acabrunhada, infeliz.

Certo tarde, debruçada na janela, assistia a meninada brincar de garrafão e jogar futebol. Não resistiu, com sua habilidade nata de atleta foi dar seus dribles e chutes certeiros junto aos moleques da rua. Severino retornou mais cedo. Quando viu sua mulher jogando com a meninada, puxou-a com seus fortes braços. Irado esmurrou a indefesa Benedita, que sofria, não pela dor, mas pelo ódio em não poder com Severino, um touro de forte.

Foi essa a história contada no Fórum ao juiz Dr. Caio Monteiro na presença do promotor. Era o último caso da carreira do magistrado. Havia solicitado aposentadoria aos 65 anos. O último caso da sua vida como juiz.

Dr. Caio, homem sério, correto e honesto, honrou a instituição. Bem casado há 33 anos, três filhos e três netos, viveu sempre para o lar. Em todo tempo de casado jamais prevaricou, fiel à esposa e a seus princípios. 

Certa hora, a delegada pediu ao juiz e ao promotor para comprovar in-loco os edemas, as sequelas da surra de Severino. Na sala contígua entraram apenas os quatro. A delegada pediu à Benedita mostrar as manchas no corpo.  Num átimo, sem pudor e sem maldade, a negra puxou o zíper, deixou cair o vestido de chita. Deu-se uma comoção ao surgir o corpo moreno perfeito, coberto por uma minúscula calcinha branca. Os seios duros e pontiagudos pareciam dois cuscuzes de chocolate.  A lascívia exalada por Benedita deixou o promotor boquiaberto e o vestal juiz, Caio Barreto, encantado, excitado. A delegada, percebendo o impacto, o arraso causado nos machos, mostrou os edemas e pediu que a deusa negra se vestisse.

Foi o último julgamento do Dr. Caio Barreto. Houve separação, estipulou-se uma quantia do salário de Severino como pensão.

Dr. Caio aposentou-se. Ficou sem trabalhar algum tempo. Quando cansou do ócio foi trabalhar na banca de advocacia de seu filho.  Certa manhã de sol, nosso juiz aposentado descia de carro a ladeira do Farol.

De repente seu coração acelerou, disparou, reconheceu entre os meninos que vendiam frutas e legumes a menina Benedita, de curto short e uma blusa leve. Caminhava dengosamente em direção a seu carro com quatro pacotes de feijão verde. Reconheceu o juiz, Benedita pulou de alegria e saiu-lhe um grito espontâneo: “DOUTOR!”. Entrou com a cabeça dentro do carro, com um sorriso encantador e o decote mostrando os seios mais lindos que Caio tinha visto em sua vida. Disse em voz clara, quase sussurrando: – “Doutor o senhor é um homem bonito, naquele dia tive vontade de lhe beijar. Sou muito agradecida pelo que fez. Se precisar de mim, dou o que o senhor quiser, é só pedir.” Caio emudeceu, engatou uma primeira, acelerou o carro, medo da tentação.

À noite, durante uma festa, o nosso artista global e poeta, Chico de Assis recitou o belíssimo poema de Jorge de Lima, Negra Fulô. Quando a voz de Chico cheia de sensualidade recitou os versos: “Essa negra FULÔ… essa negra FULÔ…” veio a imagem de Benedita, nua, na cabeça de nosso nobre e honrado juiz.

Decorreu um mês, Dr. Caio tem agora o que fazer na aposentadoria, montou apartamento no Tabuleiro para sua Negra Fulô.

A CASA DE ALAGOAS

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Leila Diniz, a rainha da banda de Ipanema

Foi num bonito verão final dos anos 60. Aproveitei uma viagem dos Bentes, filhos do Benedito. Peguei carona, fui de carro para o Rio de Janeiro. Não houve planejamento de roteiro, parávamos onde bem entendíamos e dormíamos no primeiro hotel quando Luciano se cansava na direção.

No interior da Bahia pernoitamos no Hotel Familiar. Os preços das diárias fixados em um quadro negro: “QUARTO COM PINICO: CR$ 5,00”. “QUARTO SEM PINICO: C$ 4,00”. Perdi a preciosa fotografia dessa pérola brasileira.

No Rio ficamos no apartamento do Cáo, Rua Paissandu no Flamengo, espécie de embaixada alagoana. Sempre havia uma cama ou um colchão para um amigo.

Naquela época funcionava a Casa de Alagoas, associação que dava assistência à colônia alagoana radicada no Rio de Janeiro. Era ponto de encontro, matar saudades, unir a tribo caeté.

Roberto Mendes, o presidente da associação havia ganhado uma eleição disputadíssima contra Ronaldo Lessa, nos esperava extensa programação. 

No sábado estava marcado um pré-carnavalesco: baile “Vermelho e Preto” no Clube de Regatas Flamengo.

Na Rua Paissandu iniciava a preparação etílica. As meninas iam se achegando, começavam as paqueras.  Todos vestidos com camisas rubros- negras, inclusive os tricolores e vascaínos. Partimos para a sede do Flamengo.

Roberto Mendes organizou a noitada. Os ingressos foram comprados antecipadamente. Na hora da entrada faltou ingresso para o Bob, um carioca que morou em Alagoas, se sente alagoano. Ficamos matutando como resolver o problema da entrada do Bob, de repente Roberto Mendes avistou um caminhão entrando pelo portão lateral, gritou, “Venha cá Bob!”. Confabularam com o motorista, colocaram Bob por trás do caminhão frigorífico, cheio de gelo da festa.

O baile fervia animado. Depois de algumas voltas encontramos Bob no bar tomando conhaque puro. Estava molhado, batia o queixo. Vinte minutos dentro do frigorífico do caminhão; quase morre congelado. Sambamos até o dia amanhecer com charmosas rubro-negras.

No domingo pela manhã, novo encontro na Praça General Osório. Maior expectativa em desfilar na Banda de Ipanema. Roberto havia providenciado uma ala dos alagoanos. Nossa fantasia: sunga de banho de mar, tamanquinho de praia e uma toalha em volta do pescoço para abastecer de lança-perfume.

Nesse trajes começamos esquentar as baterias num bar perto da praça. O bar lotado, nossa mesa das mais concorridas, meninas bonitas, namoradas, paqueras. Era só alegria, felicidade, chope e carnaval.

Em certo momento Bob sentiu fortes cólicas, talvez conseqüência da friagem do frigorífico, foi se esvair no acanhado e sujo banheiro. Depois dos serviços, depois de ter obrado, voltou à mesa. Pagamos a conta, levantamos, na partida, pela primeira vez alguém reclamou:

“Êita fedor de merda! Alguém pisou em bosta!”

Olhamos nos solados dos tamancos, nenhum vestígio de cocô. Nessa altura havia uma multidão na Praça General Osório. A Banda animada tocava o samba:

“Nesse carnaval não quero mais saber… de brigar com você… vamos brincar juntinhos… água na boca para quem ficar sozinho… as nossas brigas… não podem continuar… por que nosso amor não pode se acabar…”

Nosso grupo animado, ala cheia de gente bonita, contrastava o cheiro de merda no ar. Até que a fonte fedorenta foi descoberta, era o Bob. Na hora do serviço, parte do tolete lançado no sanitário caiu na sunga. Ele, sem sentir, vestiu-a novamente. Infestou-se de cocô.

A Banda de Ipanema acabou à noite. Programamos terminar a farra no Alkasar, Copacabana. Enfrentamos um ônibus lotado, éramos mais de 20 pessoas em pé, se acotovelando. A certa altura um passageiro gritou:

-“Motorista pare! Alguém cagou dentro do ônibus!”

Resumo da ópera, fomos presos na Delegacia em solidariedade a Bob, o cagão. O delegado só nos soltou depois de Bob tomar um banho com sabugo, dado pelos soldados de plantão.

Terminamos a noite às gargalhadas no Alkasar, relembrando as façanhas da juventude bonita, solidária e cagona. Assim era a Casa de Alagoas nos tempos dos anos dourados. 

O BANCO DE IRENE

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Expedito caminhava com o amigo Nery no calçadão da praia, nove da manhã, de repente ela apareceu ultrapassando num rebolado de mulher no cio, o short curto mostrava as pernas douradas pelo sol, salpicadas de penugens louras. Os dois ficaram fascinados com o balançado daquela mulher, sozinha, andando e bebericando latinha de cerveja. Sem intenções mais profundas Expedito sorriu e falou ao vento: “Que belo café da manhã!” A moça olhou para trás sorrindo: “Só falta tira-gosto de carne do sol e uma boa conversa.” Ele não aguentou a provocação, apressou os passos, encostou-se à bela, enquanto seu amigo se despedia atravessando a rua. Andaram mais um pouco, sentaram num banco, conversaram, ela capixaba, Espírito Santo, de passeio pela cidade. Marcaram encontro, dali à uma hora no mesmo banco onde a deixou contemplando o dia e o mar azul.
     
Em casa, Expedito tomou banho, trocou de roupa, perfumou-se, avisou à esposa, estava viajando para Arapiracara só retornava pela noitinha. Entrou no carro, acostou exatamente às 10 horas no calçadão, buzinou, a bela permanecia sentada no banco admirando o mar, lata de cerveja na mão, virou-se, sorriu, levantou-se em direção ao carro. Rumaram pelo litoral norte. Expedito perguntou para onde desejava ir, o que desejava fazer, ele tinha todo o tempo do mundo. Sem pensar muito, ela respondeu.
     
-“Quero contemplar esse azul-esverdeado do mar, quero tomar cerveja, quero tira-gosto de carne do sol, conversar bastante, curtir esse dia tão bonito. Me leve para onde quiser, seja meu timoneiro, meu capitão, me conduza.”
       
Expedito estava empolgado, nunca havia acontecido uma aventura com uma mulher tão determinada, uma jovem que poderia ser sua filha. Conversaram amenidades, Ele contou sua vida, gosta do comércio, comprar para vender mais caro, vibra ter lucro, com 56 anos, tem ainda muitos sonhos, ganhar dinheiro é um jogo, ele sabia jogar.
    
Irene olhou para o companheiro, alisou o rosto, os lábios. – “‘Você é um homem bonito, gosto dos cabelos brancos, o dobro de minha idade, é assim que gosto.” Caiu às gargalhadas. Ao chegar à barraca na praia em Guaxuma, Expedito pediu uísque, ela cerveja, comeram carne de sol desfiada. “E você? De onde vem? Prá onde vai?”. Perguntou-lhe encostando-se mais.
 
- “Sou filhinha de papai, mimada, família rica. Já ouviu falar em Cachoeiro do Itapemirim? a terra de Roberto Carlos? Minha família é de lá. Briguei com meus pais, besteira, só porque gosto de tomar uns porres e não quero casar tão cedo, a família me perturba. Como não conhecia o Nordeste, tirei umas férias.” Outra gostosa gargalhada. “Perambulei por essas lindas cidades litorâneas, um mês, sem lenço e sem documento, como vocês diziam no século passado. Está na hora de voltar, terminei as férias. Foi bom, provei, posso viver sozinha, não sou criança, sei o que quero e aonde vou. Nada lhe pergunto, nem quero saber se é casado. Gostei de você assim que o vi, tinha certeza que falaria comigo. Minha intuição feminina é forte. Vamos sair daqui, pague a conta, quero você, quero um dia maravilhoso de amor, antes passemos na farmácia.” Outra gargalhada.
  
Expedito estava encantado com aquela jovem, a franqueza, a maneira independente de ser. Foi uma tarde de amor arrebatadora, animalesca. Ao anoitecer Irene pediu, ele deixou-a no mesmo banco, no mesmo lugar, queria olhar o mar iluminado pela luz noturna. Ele perguntou se no dia seguinte se encontrariam. Encostada ao carro, ela beijou dois dedos, colocou-os com carinho em sua boca. Pediu que ele fosse para casa ver a esposa.
     
Expedito tomou um banho, jantou com a mulher, pensando naquele dia inimaginável, na jovem que naquele mesmo dia desapareceria, nunca mais veria. Ele continua fazendo caminhadas no calçadão, ao passar pelo banco de Irene, vem a lembrança gostosa daquele dia de amor juvenil, marcante, inesquecível.

TRAIÇÃO

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De repente o carro tremeu, Osvaldo sentiu as bordoadas no pára-choque traseiro. Olhou para trás, a mulher acelerava o carro em batidas contínuas atrás do Toyota do marido, e gritava. “Raparigueiro sem vergonha, foi a última vez que me traiu.” Verônica, a namorada sentada ao lado, ficou assustada, vinha de uma tranquila tarde no motel. Entardecia, o pôr-do-sol se espraiava ao longe na praia da Ponta Verde, entretanto, naquele momento havia acabado todo romantismo, Osvaldo tentou minimizar. “É uma louca, ex-esposa, me persegue, quando me encontra com mulher, inferniza minha vida, vou processá-la, eu tentando refazer minha vida, ela faz esse escândalo.”

Aproveitou o sinal vermelho, girou a direção para direita, fugiu do flagrante. Quando chegasse em casa seria pior, conhecia sua mulher apesar de apenas três anos de casados. Levou a namoradinha em casa, ela pediu para não mais procurá-la, não sabia ser casado. Ele, enfático, negou. “Aquilo é uma doida!”

Tinha que encarar a esposa, tentar uma conversa amena, pedir perdão, eram planos enquanto dirigia rumo sua casa, apreensivo e até medroso, enfrentar fera ferida não é brincadeira. Em frente ao edifício, viu suas roupas jogadas, espalhadas pelo jardim. O porteiro recolhia algumas vestes. Osvaldo estacionou, entrou silencioso sem querer ser visto, ao colocar no carro seus pertences, Helena apareceu na janela do 6º andar, abriu o verbo: “Você nunca mais vai me trair seu filho da puta, vá embora daqui antes de eu lhe dar um tiro.”

Não teve outro jeito, catou as roupas, pastas, papéis, saiu rápido, procurou hotel. Tomou banho, esperar a mulher esfriar a cabeça e o coração, naquele momento não adiantava discutir. A noite chegou, o sono não veio, ainda estava sob o efeito da emoção, da adrenalina, ser apanhado em flagrante é doloroso, não tem explicação. A mulher sabia de tudo, perguntou certa vez quem era a sirigaita chamada Verônica. Ele gaguejou Helena percebeu, mulher ciumenta procura e encontra, conhece as reações de um mentiroso. Osvaldo passou a noite acordado, arrependido, amava a esposa, apenas não estava acostumado à vida de casado, queria ser eterno solteiro.

No apartamento Helena chorou, chorou muito, não quis telefonar para mãe, nem para amigas, tinha que resolver o problema sozinha, gostava do cretino, entretanto, jamais admitiu traição, é de sua índole. Não era a primeira, nem segunda vez. Não nasceu para corna. Tomou um demorado banho imerso, com o sabonete alisou seu corpo, veio-lhe o desejo de estar com seu homem, não podia, tinha amor próprio, jamais aceitaria a deslealdade. Saiu da banheira, nua se olhou no espelho, sentiu-se melhor ao ver-se uma mulher sensual, pernas bonitas, bem delineadas, chegou mais perto ao espelho, encarou seus olhos, viu-se por dentro, mulher nova, cheia de vigor, uma vida para viver.

Eram 10 horas da noite, sexta-feira, os bares cheios, a moçada em busca de diversão, alguns carentes se preenchiam no chope. Helena perambulou belo baixo Jatiúca, sozinha, em busca de não sabia o quê. De repente avistou duas amigas à beira da calçada num bar, dirigiu-se à mesa, foi bem acolhida, festejada. Contou às amigas a traição de Osvaldo, recebeu maior apoio moral, afinal, amiga é para essas coisas.

As três continuaram juntas noite adentro, numa boate se misturaram com amigos. De repente Helena em cima da mesa deu um show de requebro, o povo aplaudia a dança sensual da bela morena. Veio-lhe à mente a cena de um filme, se inspirou, levantou a saia, segurou na calcinha, foi baixando-a, fez um strip-tease coberto, tirou a calcinha, a moçada foi ao delírio, com a mão rodou, rodou, até jogar a calcinha branca no meio do salão. Desceu à mesa, divertia-se com as cantadas de todos os homens. Naquela noite não ficou com ninguém.

No outro dia, um pouco de ressaca, sem algum arrependimento. Hoje Helena é maior boêmia da cidade, ama a noite, não quer se amarrar, muitas propostas, só quer diversão. Osvaldo já tentou várias vezes reconciliar, ela responde, “sem chance, tolerância zero à traição.”

DOS FRANCESES À FLIMAR

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Praia do Francês

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Taperaguá

Há muitos anos, no tempo do Brasil dividido em Capitanias Hereditárias, a de Pernambuco se destacava, o litoral se estendia de Igaraçu até a foz do São Francisco. Duarte Coelho, o donatário, ficou empolgado e concentrado na colonização entre Olinda e Recife, deixou a parte sul abandonada, aliás, habitada pelos verdadeiros donos da terra, os silvícolas caetés. Nos meados do século XVI aventureiros franceses, povo de indiscutível bom gosto pelo belo e pela pirataria, deram às costas nessa região.

Encantaram-se com o cenário natural, duas enormes lagoas interligadas, belíssimo estuário desaguando em praias de areia branca, mar tranqüilo, arrecifes paralelos quase à beira mar. Naquele paraíso encontraram enorme quantidade do valiosíssimo Pau Brasil. Os franceses desmataram, saquearam, contrabandearam a madeira; enganaram os nativos e comeram as nativas por muito tempo. Construíram um porto na praia, ficou famoso, por muitos anos deu nome a praia do Porto dos Franceses, hoje, praia do Francês, a mais charmosa do Brasil.

A notícia do contrabando de madeira chegou aos ouvidos de Duarte Coelho. Imediatamente ele doou uma sesmaria, da Payuçara à Lagoa do Sul, ao sobrinho Diogo Duarte, na condição de colonizar, expulsar os franceses, terminar com o roubo do Pau Brasil. Assim em 1596 foi fundado o povoado de Madalena do Sumaúma, onde hoje é o bairro histórico de Taperaguá, o marco zero da cidade e do Estado.

Logo o povoado cresceu, tornou-se Vila com o belíssimo nome de Vila de Santa Maria Magdalena da Alagoa do Sul; com o tempo o povo simplificou para apenas Alagoas. Em 1817 a província foi emancipada de Pernambuco tomou o nome de Província das Alagoas, com capital a cidade de Alagoas. Tempos depois a capital foi transferida para Maceió. Em 1939 a cidade de Alagoas passou a se chamar Marechal Deodoro em homenagem ao proclamador da República nascido, criado e batizado naquela bela cidade à beira da Lagoa Manguaba.

Marechal é berço de muitos homens ilustres das letras e das artes, como Rosalvo Ribeiro um dos maiores pintores brasileiro, Tavares Bastos, político e escritor, um dos primeiros brasileiros a escrever e falar sobre o federalismo e a República, escreveu alguns livros. É um dos 40 patronos da Academia Brasileira de Letras.

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