FRANS POST, O PRIMEIRO PINTOR DO BRASIL

Retrato de Frans Post por Frans Halls

Para registrar as realizações do seu governo, preservar em tela a paisagem e a topografia da conquista, bem como os feitos militares e a arquitetura militar e civil do Brasil Holandês, o Conde João Maurício de Nassau-Siegen contou com os serviços de um jovem pintor de Haarlem, Frans Post (1612-1680), que, juntamente com outro pintor, Albert Eckhout (c.1610 – c.1665), da Groninga, tomou para si a tarefa de registrar todos os pormenores do universo do Novo Mundo de então.

Foi Frans Post o primeiro artista europeu a trabalhar em terras da América, o primeiro pintor acadêmico a documentar em cores a paisagem brasileira, registrando também algumas paisagens da África, deixando uma vasta obra da qual chegaram aos nossos dias pouco mais de 160 trabalhos.

Nasceu Frans Janszoon Post na cidade de Haarlem, Holanda, em 1612, sendo filho do pintor de vitrais Jan Janszoon Post e de sua mulher Francyntie Peters, cujo casamento aconteceu em 1604, sendo ambos naturais de Leiden.

Era Frans o terceiro filho do casal, que tinha por primogênito Pieter Post, nascido em Haarlem em 1608, seguindo-se de Anthoni, nascido em 1610, e Johana, a caçula nascida em 1614, pouco antes do falecimento do chefe da família: Jan Janzoon Post.

Órfão de pai aos dois anos, tendo sua mãe se casado com Harman van Warden em 1620, de quem logo depois se separa, o menino Frans tem no irmão Pieter o seu primeiro mestre.

Pouco se sabe de sua formação acadêmica, tão somente que criou-se na cidade de Haarlem, uma das mais prósperas da província, Flandres, célebre por suas corporações de artistas.

Pieter Post (1608-1669), o mais velho dos irmãos, vem a ser discípulo do grande Van Campen, um dos mais renomados arquitetos do seu tempo, responsável pela construção da Mauritshuis (Casa de Maurício), na Haia, e freqüentador da corte do Príncipe Frederico Henrique. Através dele é o jovem Frans apresentado ao Conde de Nassau, recém-nomeado Governador do Brasil Holandês, que o convida para acompanhá-lo em sua nova missão.

No Brasil, o jovem Frans Post tornou-se a memória visual do governador, transformando-se numa espécie de cronista da paisagem. Para isso acompanhou o Conde de Nassau em todas as suas viagens e campanhas militares, chegando até a registrar incursões de esquadras enviadas do Recife para a tomada das cidades de São Jorge da Mina, Forte Nassau, São Paulo de Luanda e ilha de São Tomé, na África.

Por sua vez, ao irmão mais velho do pintor, o arquiteto Pieter Jansz Post, que trabalhava com Jacob van Campen na construção da Mauritshuis em Haia, é atribuído o traçado urbano da Cidade Maurícia, bem como o projeto de alguns empreendimentos desenvolvidos pelo Conde de Nassau no Brasil, a saber: o Palácio de Friburgo, denominado pelos portugueses de Palácio das Torres; a Casa da Boa Vista; a Igreja dos Calvinistas Franceses, “uma réplica em ponto pequeno da Catedral de Haarlem”.

O traçado urbano da Cidade Maurícia (Mauritsstadt), vem detalhado no mapa de Cornelis Bastianszoon Golijath, Mauritiopolis, Reciffa et circvm iacentia castra, publicado no livro de Gaspar Barleus (n.º 40). (¹)

Ao contrário de Pieter Post, o seu irmão Frans Post é constante na documentação da época, chegando a privar da lista de comensais do Conde de Nassau, no Palácio de Friburgo, em 1º de abril de 1643. Segundo revela José Antônio Gonsalves de Mello: “ao todo 46 pessoas das quais 19 com empregados. Entre elas: Frans Plante, o doutor Piso, três fidalgos não identificados, Albert Eckhout e Frans Post, ‘pintores, ambos com criados’, o cartógrafo Georg Marcgrave, também com criado, etc.”. (²)

O objetivo principal de Frans Post seria a documentação de cidades, vilas, povoações, costumes, construções civis e militares, cenas de batalhas navais e terrestres, que viriam ilustrar um grande relatório das atividades do Governo do Conde de Nassau em terras da América.

OS QUADROS BRASILEIROS

Em carta ao então Príncipe João Maurício de Nassau, datada de 10 de dezembro de 1678, relacionando as obras que seriam entregues ao Rei Luís XIV, o encarregado de seus negócios Jacob Cohen faz referência a “18 pequenas paisagens brasileiras em molduras pretas” (18 kleine bras. lantschapen in zwarte lijsten). (³)

Por esta fonte, chega-se à conclusão que Frans Post pintou pelo menos 18 quadros a óleo retratando a paisagem brasileira durante sua estada de sete anos no Nordeste, de 1637 a 1644. Eram quadros com cerca de 60 x 90 cm., emoldurados em ébano, que foram conservados pelo Conde de Nassau até 1679, pouco antes de sua morte, quando foram presenteados, juntamente com outros quadros e objetos do Brasil, ao rei de França, Luís XIV. (4)

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Desse total de 18 quadros, apenas sete podem ser identificados em nossos dias. Os demais simplesmente desapareceram com o passar do tempo e a desídia dos homens. Assim foram relacionados por Beatriz e Pedro Corrêa do Lago as seguintes telas, assinadas e datadas por F. Post:

1 –Vista de Itamaracá, 1637 (63,5 x 89,5), Mauritshuis, Haia;

2 – O Rio São Francisco e Forte Maurício, l638 (60 x 80 cm.), Museu do Louvre, Paris;

3 – O Carro de Bois, 15.8.1638 (61 x 88 cm.), Museu do Louvre, Paris;

4 – Forte Ceulen no Rio Grande (Forte dos Reis Magos, Rio Grande do Norte), 28.8.1639 (60 x 86 cm.), Museu do Louvre, Paris;

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OS QUINZE ANOS DO INSTITUTO RICARDO BRENNAND

Inaugurado em 12 de setembro de 2002, o Instituto Ricardo Brennand encontra-se localizado em uma área de pouco mais de 77 mil metros quadrados, na qual abriga o Castelo de São João, a Pinacoteca, a Galeria de Eventos, a Capela de Nossa Senhora das Graças e o Restaurante Castelus.

Ricardo Brennand

Juntando suas construções teremos uma área de 9,2 mil metros quadrados, de modo a oferecer aos seus visitantes o maior acervo de peças de arte já reunido por um só colecionador.

Costuma-se dizer, entre os colecionadores de obras de arte, que determinada peça, vez por outra, procura o seu próprio dono(!).

No Instituto Ricardo Brennand a história não acontece de forma diferente; aqui o objeto sempre procura o colecionador pelos mais estranhos e diferentes caminhos. Grande parte das obras em exposição, tem a sua própria história, algumas até transformando-se em romances e outras sendo objeto de conversas e exemplos de curiosidade.

Em sua portada de entrada o Instituto Ricardo Brennand ostenta dois dos oito grandes leões esculpidos em mármore que, no passado, ladeavam as escadarias do Palácio Monroe do Rio de Janeiro (1906). Demolido em 1976, foram dois desses leões oferecidos a Ricardo Brennand que os adquiriu para o seu futuro centro cultural, inaugurado em 2002.

A Mulher da Rede & outras esculturas

Uma das obras que mais causam impacto em nossos visitantes é a última escultura do artista italiano Antonio Frilli, A Mulher na Rede ou Doces Sonhos, adquirida em 2009.

O italiano Antonio Frilli, que em 1860 fundara o seu Atelier em Florença (Via del Fossi), foi um dedicado escultor de grandes estátuas em mármore de Carrara e alabastro, destinadas a famosos cemitérios, bem como para outras galerias conhecidas na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália.

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NAPOLEÃO BONAPARTE & PERNAMBUCO.

Em 1817 Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco para os Estados Unidos, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Napoleão em Pernambuco

Por conta da presença de Cruz Cabugá, nos Estados Unidos da América, Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetado em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses.

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.

Sem qualquer notícia recente dos acontecimentos envolvendo os simpatizantes da República Pernambucana, bem como da reação tirânica da coroa portuguesa contra os insurretos, partiu da Filadélfia o navio americano Parangon em direção às costas do Rio Grande do Norte, que veio aportar em baía Formosa, a 50 quilômetros de Natal, em 29 de agosto de 1817, transportando um carregamento de breu. Depois de despachar sua carga e se abastecer de víveres, o barco seguiu viagem com destino à Paraíba, não sem antes deixar em terra quatro franceses.

O pequeno grupo era chefiado pelo coronel Paul-Albert-Marie de Latapie, militante da infantaria dos exércitos napoleônicos, que gravemente ferido na batalha de Waterloo (1815), ocorrida a 15 km. de Bruxelas, fora buscar refúgio nos Estados Unidos. O experiente militar se fazia acompanhar dos também oficiais bonapartistas Artong e Roulet, apresentando-se como quarto personagem, um jovem cientista, Louis Adolphe Le Doulcet (1794-1882), que vem alcançar destaque nos estudos da Botânica e na produção musical. Seu nome é registrado pela Enciclopédia Larousse (que trata de sua aventura no Brasil), sendo ele filho do Conde de Pontécoulant (1769-1840), senador do Império francês ao tempo de Napoleão I.

Le Doulcet, que também era dado ao exercício da medicina, logo fez amizade com José Ignácio Borges, secretário do governador do Rio Grande do Norte, que facilitou para todo grupo os passaportes necessários para viagens por todo território brasileiro.

De posse dos papéis os aventureiros rumaram para o Recife, onde os aguardava o cônsul dos Estados Unidos M. Joseph Hay, que lhe fora indicado por Cabugá. O cônsul tinha como secretário o dinamarquês Georges Fleming Holdt, que havia servido na marinha de Napoleão, e que mais tarde vem a ser preso pelo governo, ocasião em que confessa a existência do plano de fuga do imperador da Ilha de Santa Helena.

Só ao chegar ao Brasil é que os franceses se dão conta do fracasso da Revolução Republicana de Pernambuco, cujos principais líderes se encontravam presos no Recife e Salvador, já tendo alguns deles dado suas vidas à causa da liberdade.

No Recife foram os franceses Latapie, Artong, Roulet e Le Doulcet recolhidos ao forte do Brum, por ordem do capitão-general Luiz do Rego Barreto, responsável pela repressão ao movimento republicano de seis de março de 1817.

Por intervenção do cônsul foram eles libertados, não sem antes confessar que “estavam na Filadélfia quando tomaram conhecimento das notícias da revolução de Pernambuco”. Tal acontecimento fez com que José Bonaparte desse continuidade a um ardiloso plano visando resgatar o seu irmão, Napoleão, de sua prisão na ilha de Santa Helena.

Louis Adolphe regressa ao Rio Grande do Norte, enquanto os três outros ficaram no Recife, na casa do cônsul dos Estados Unidos. Logo depois, Latapie e Artong seguem viagem para o Rio de Janeiro na tentativa de avistar-se com outros bonapartistas, inclusive com o general Theodoro van Hogendorp (1761-1822), militar holandês que depois de galgar os mais altos cargos no exército de Napoleão vivia anonimamente numa chácara, na Estrada da Tijuca, aonde por vezes recebera a visita do príncipe D. Pedro.

Nesse ínterim, chega às costas da Paraíba, na baía da Traição, um barco com oito marinheiros do navio Pinguim, os quais, presos e levados ao Recife, vieram confessar estar a serviço de Cabugá que fretara aquele navio nos Estados Unidos e o mandara para Pernambuco, carregado de armas e munições para uso dos revoltosos. Diante dos fatos, o Pinguim seguiu viagem rumo à Bahia, deixando-os na praia; o fato vem a ser comunicado pelo governador da Paraíba, Bernardo Teixeira, ao ministro Villa Nova Portugal, em data de 1º de março de 1818.

No Recife foi de pronto requerida à prisão de Roulet e de três outros franceses que se encontravam na casa do cônsul. Feita a busca no local, foram presos o secretário do consulado Georges Fleming Holdt, Roulet e três outros suspeitos, além do livro de correspondência oficial. Na prisão o dinamarquês Holdt veio confessar mais detalhes do plano traçado para a fuga de Napoleão, que lhe fora descrito em minúcias pelo coronel Latapie, quando de jantar na casa do cônsul norte-americano.

Do plano ali narrado já tinha conhecimento o próprio Napoleão, que autenticara com a sua assinatura às cartas geográficas enviadas sob sigilo de Santa Helena para José Bonaparte, nos Estados Unidos, confirmando a existência da quantia de mais de 1 milhão de dólares para fazer face às despesas com a pequena frota.

Depois de alguns meses na prisão, onde eram visitados constantemente pelo cônsul americano, foram eles libertados, afirmando Alfredo de Carvalho que “a sua enérgica conduta pesou nas determinações do governo de Pernambuco e do Rio e precipitou o desfecho do processo”.

Para o diplomata M. Joseph Hay, as autoridades portuguesas estavam cientes que “nem Roulet, nem Latapie, nem Louis Adolphe, nem Artong, tinham vindo ao Brasil com intuito de fazer agitação e de pregação em favor da proclamação de uma república”, mas tão somente sondar o ambiente a fim de estudar a possibilidade de pôr em prática o plano de fuga de seu imperador, então prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena.

Acatando tal argumentação, o Tribunal de Alçada de Pernambuco, julgando-se incompetente em razão dos fatos, enviou os franceses para o Rio de Janeiro de onde foram, no mais curto espaço de tempo, embarcados para Portugal, que logo os expulsou do seu território através da fronteira com a Espanha.

O plano de fuga de Napoleão, orquestrado por José Bonaparte, porém, só muito depois vem a ser conhecido com detalhes, quando em 1853 vem a ser publicada, em Londres, a correspondência diplomática, trocada por Charles Bagot, de Washington, com Lord Castlereagh. Segundo Alfredo de Carvalho, que faz referência à documentação no seu livro Aventuras e Aventureiros no Brasil (1929), publicado no Rio de Janeiro pela Ed. Pongetti, em relatório datado de 29 de julho de 1817, ficara escolhido como ponto de encontro da expedição “a ilha de Fernando de Noronha, situada a 62 léguas da costa do Brasil”, para onde iriam os barcos de guerra especialmente fretados para aquela operação, destacando o documento: “Ali devem reunir-se oficiais franceses de Bonaparte, em número de aproximadamente oitenta, setecentos oficiais americanos, duas escunas e um navio armado pelo Lord Cochrane, tendo a bordo oitocentos marinheiros e duzentos oficiais”.

Terminava assim o malogrado plano daqueles aventureiros de resgatar Napoleão Bonaparte de sua prisão na pequenina ilha rochosa de Santa Helena e transformá-lo no grande comandante dos exércitos republicanos da América do Sul.

Findaram-se assim, sem maiores consequências, os sonhos daqueles bonapartistas que, como os nossos patriotas, também acreditaram no arrebol da República de Pernambuco de 1817.

CRUZ CABUGÁ. O NOSSO PRIMEIRO EMBAIXADOR

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996)¹ , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense -, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

O homem dos 800 mil dólares

O escritor Laurentino Gomes, ao escrever sobre “A República de Pernambuco”, no seu livro 1808 etc. , inicia sua narrativa pela figura do comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, “agente secreto de uma conspiração em Pernambuco” que andava em maio de 1817 pelas ruas da Filadélfia, então capital dos Estados Unidos da América, “levando na bagagem 800.000 dólares”, quantia assombrosa para à época equivalente, em 2007, “a cerca de doze milhões de dólares” (!)

O nosso primeiro representante nos Estados Unidos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana de março de 1817, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Segundo confirma o diplomata João Alfredo dos Anjos, em seu livro “José Bonifácio, o primeiro Chanceler do Brasil” (Brasília, 2008), “a sua Carta Patente de 5 de fevereiro de 1823, é encapada por carta de Bonifácio na qual se menciona, mais uma vez, o seu patriotismo, além da sua experiência, como razões da chancela do Imperador ao seu nome. A decisão já estava tomada em novembro de 1822, pois (Antônio) Gonçalves da Cruz aparece entre os agraciados da Ordem do Cruzeiro, como cônsul em Filadélfia” Segundo Hildebrando Accioly, in O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América :

Ao chegar (em 1824) aos Estados Unidos (José Silvestre) Rebello (o primeiro Encarregado de Negócios do Brasil em Washington) ali já encontrara, exercendo oficiosamente funções consulares, Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pela alcunha de Cabugá, que em 1817 servira como comissário do Governo republicano revolucionário de Pernambuco naquele país. Nomeado Cônsul-Geral pelo Governo imperial em 15 de janeiro de 1823, nunca chegou a assumir o cargo oficialmente. Naquela época era praxe, provavelmente herdada da administração portuguesa, que as pessoas designadas para ocupar cargos consulares solicitassem à Secretaria de Estado, pessoalmente ou por procurador, as respectivas cartas patentes, pagando os competentes emolumentos. Gonçalves da Cruz não o fez, talvez por ignorar esta norma, tendo-se limitado a esperar que a Repartição lhe remetesse o documento, o que nunca ocorreu. Consequentemente, não pôde tampouco obter do Governo americano o necessário exequatur. Isto não o impediu, porém, de trabalhar muito pelo reconhecimento da Independência do Brasil junto ao mesmo Governo.

¹ MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1996

² GOMES, Laurentino – 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo, Ed. Planeta, 2007.

³ANJOS, João Alfredo. José Bonifácio o primeiro Chanceler do Brasil. Brasília, Fundação Alexandre de Gusmão, 2008. 424 p.il.

4 ACCIOLY, Hildebrando. O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América, São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936, p. 77-91

NA RUA DO BOM JESUS, TEM INÍCIO A HISTÓRIA DOS JUDEUS DOS EUA

 Rua da Cruz, dos Judeus e do Comércio, c. 1855. Recife, Pernambuco. Augusto Stahl.

Com a ocupação holandesa em Pernambuco (1630-1654), milhares de judeus se estabeleceram no Nordeste do Brasil no ramo do comércio, particularmente do açúcar e do tabaco, chegando alguns a possuir engenhos, dedicar-se à cobrança de tributos, empréstimo de capital e no comércio de escravos originários da costa africana.

O aumento da comunidade fez com que, alguns integrantes mais ricos da gente da nação (como se autodenominavam) fixarem-se na guarda do Bode, em terreno comprado pelo judeu Duarte Saraiva, em 1635, à Companhia das Índias Ocidentais. Depois de algumas construções, o terreno, que ficava próximo a “Porta de Terra” no lado norte da cidade, dando origem a chamada de Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus.

Duarte Saraiva, conhecido entre os do Recife e da Holanda pelo nome de David Senior Coronel, era um dos principais líderes da comunidade de então. Na sua casa funcionou a primeira sinagoga do Recife, em 1636, antes de ser construído o prédio destinado à Kahal Kadosh Zur Israel, ou seja, a “Santa Comunidade o Rochedo de Israel”.

Curiosamente, nesta sinagoga da Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, vem ter origem a história da Comunidade Hebraica dos Estados Unidos, conforme proclamação assinada pelo presidente Barack Obama, datada de dois de maio de 2012:

Há trezentos e cinquenta e oito anos atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiram do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o momento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esta saga tem início quando da rendição das tropas holandesas no Recife, em 27 de janeiro de 1654, dando causa a diáspora de 150 famílias judaicas forçadas a retornar aos Países Baixos e de lá, novamente, ao Novo Mundo, espalhando novas comunidades em ilhas do Caribe e na América do Norte.

Um desses grupos saídos do Recife vem a ser embarcado no navio holandês Valk, com destino aos Países Baixos. Na viagem de retorno vieram a se tornar prisioneiros de corsários espanhóis, sendo, porém, resgatados na Jamaica por franceses e, com estes, rumaram em direção à Nova Amsterdam a bordo do barco Sainte Catherine.

Em setembro de 1654, esses 23 judeus [entre homens, mulheres e crianças] já se encontravam na Nova Amsterdam, fundando assim a primeira comunidade judaica daquela que veio ser a cidade de Nova Iorque.

Segundo consultas ao arquivo do cemitério da Congregação Shearith Israel, daquela cidade, membros da Congregação Zur Israel do Recife aparecem em documentos do início da segunda metade do século XVII. Um deles, Benjamin Bueno de Mesquita, falecido em 1683, tem a sua lousa tumular preservada naquele cemitério; acrescentando a mesma fonte:

Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns desses judeus. Em Amsterdã, o rabino português Saul Levi Mortera – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma dessas embarcações em um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:

O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.

Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Catherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Catherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque.

Dessas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado. Entre esses adultos, foram identificados três homens citados no relatório da cidade como pessoas que assinaram o livro de atas da Congregação Zur Israel do Recife, no ano de 1648: Abraham Israel, David Israel e Mose Lumbroso.

Permanece o cemitério dos primitivos judeus do Recife em Nova Iorque, nos dias atuais, conservado pela Congregação Shearith Israel, estando localizado em um movimentado cruzamento daquela cidade, assinalado por uma placa com dizeres em inglês: “O Primeiro Cemitério da sinagoga Hispano-Portuguesa, Shearith Israel, na Cidade de Nova York 1656 – 1833”.

O tamanho da área do cemitério é pouco maior do que o de duas quadras de tênis. Parte acabou sendo destruída quando uma rua foi construída décadas atrás. Ao redor, famílias chinesas observam muitas vezes sem entender o que existe de especial nesse cemitério unindo as histórias de Brasil, Estados Unidos, Portugal, Holanda e da diáspora judaica.

Esses descendentes dos judeus saídos do Recife em 1654 se transformaram em figuras proeminentes na sociedade americana. Um deles, Benjamin Cardozo, já falecido, alcançou o posto de juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Outro Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova York, é o mais destacado especialista de teoria dos jogos aplicada à ciência política.

O episódio que marca a presença dos vinte e três judeus do Recife na história da cidade de Nova Iorque (1654) é hoje reconhecido amplamente pelos norte-americanos, a ponto do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, assinar, em dois de maio do ano de 2012, a seguinte proclamação:

Há trezentos e cinquenta e oito ano atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiu do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o memento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esses 23 crentes abriram o caminho para milhões. Durante os próximos três séculos, judeus de todas as partes do mundo seguiram para construir novas vidas na América – um país onde a prosperidade é possível, onde os pais podem prover a seus filhos mais do que ele próprios tiveram, onde famílias não mais sofreriam a ameaça de violência ou exílio, onde podiam professar sua fé abertamente e verdadeiramente. Mesmo aqui, os judeus americanos suportaram tormentos de opressão e hostilidade; mesmo assim, através de cada obstáculo, gerações carregaram em si a profunda convicção de que um futuro melhor estava ao seu alcance. Na adversidade e no sucesso eles se apoiaram mutuamente, renovando o a tradição de comunidade, propósitos morais, e esforço comum tão presente em sua identidade.

Suas histórias de continua perseverança e crença no futuro são uma lição não apenas para os judeus americanos, mas para todos os americanos. Gerações de judeus americanos têm contribuído para alguns das grandes realizações do nosso país e para sempre enriquecido nossa vida nacional. Como um produto da herança e da fé, eles têm aberto nossos olhos para a injustiça, para os mais necessitados, e para a simples idéia de que nos devemos nos reconhecer através da luta dos nossos companheiros homens e mulheres. Estes princípios têm levado os defensores judeus a lutar pela igualdade das mulheres e pelos direitos dos trabalhadores, e pregar contra o racismo a partir da bimah (púlpito); eles inspiraram muito a liderar marchas contra a segregação, ajudaram a forjar os laços inquebráveis com o estado de Israel, e deu suporte o ideal de tikkun olam – nossa obrigação em reparar o mundo. Judeus americanos têm servido heroicamente em batalhas e nos inspirado na busca da paz, e hoje, eles se postam como líderes em comunidades por toda a nossa Nação.

Mais de 300 anos depois que aqueles refugiados puseram os pés na Nova Amsterdam, nós celebramos o permanente legado dos judeus americanos – dos milhões que cruzaram o Atlântico em busca de uma vida melhor, dos seus filhos e netos, e de todos cuja crença e dedicação os inspiraram a atingir o que seus antepassados podiam apenas imaginar. Nosso país se fortalece através de sua contribuição, e este mês, nós comemoramos a miríade de formas com as quais eles enriqueceram a experiência americana.

AGORA, POR ISSO, EU, BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos da América, em virtude da autoridade em mim investida pela Constituição e leis dos Estados Unidos, por meio desta proclamo mês de maio de 2012 como o Mês da Herança Judaico Americana. E conclamo todos os americanos a visitar o site www.JewishHeritageMonth.gov para aprender mais sobre a herança e contribuição dos Judeus Americanos e respeitar este mês com programações apropriadas, atividades, e cerimônias.

EM FÉ DO QUE, eu assino o presente documento neste segundo dia de Maio, do ano de dois mil e doze, duzentos e trinta e seis da independência dos Estados Unidos da América.

BARACK OBAMA

O POVO PERNAMBUCANO

 

Passados quinhentos anos de sua descoberta pelos portugueses, o Brasil apresenta-se com um biótipo próprio de sua gente, que em nada se parece com o português colonizador, o índio que já habitava a terra e o negro trazido da África como escravo para aqui construir o país-continente dos nossos dias.
 
“O brasileiro, como bem afirma Darci Ribeiro, tem a cara do povo brasileiro; ele não se parece nem com o português, nem com o índio, nem muito menos com o negro. Trata-se de um povo de identidade própria”.
 
Na verdade, um povo de mestiços, formado pelo cruzamento de várias raças, com influência de levas de colonizadores diversos, chegados em diferentes épocas, que transformaram o Brasil numa imensa democracia racial, com valores, usos e costumes diversos de quaisquer outros povos.

1. JERÔNIMO, O ADÃO PERNAMBUCANO
 
A mestiçagem de nossa gente, já registrada por Joaquim Nabuco, quando da publicação de O Abolicionismo  (Londres: 1883) – “Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos portanto admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos tudo fazer para esquece-la” (p. 22) –  estabelece que, ao contrário de outros países, como nos Estados Unidos da América,  a condição de liberto não impedia ao ex-escravo galgar os patamares da pirâmide social, e esclarece na mesma obra:

No Brasil, ao contrário: a escravidão ainda que fundada sobre a diferença das duas raças, nunca desenvolveu a prevenção da cor, e nisso foi infinitamente mais hábil. Os  contatos entre aquelas, desde  a colonização primitiva dos donatários até hoje, produziram uma população mestiça, como já vimos, e os escravos ao receberem a sua carta de alforria, recebiam também a investidura de cidadão. Não há assim entre nós castas sociais perpétuas, não há mesmo divisão fixa de classes. O escravo, que como tal praticamente não existe para a sociedade, […] é no dia seguinte  à sua alforria um cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos, e o mesmo grau de elegibilidade. Pode mesmo, ainda na penumbra do cativeiro, comprar escravos, talvez mesmo quem sabe? – algum filho do seu antigo senhor. Isso prova a confusão de classes e indivíduos , e a extensão ilimitada dos cruzamentos sociais entre escravos e livres, que fazem da maioria dos cidadãos brasileiros, se se pode assim dizer, mestiços políticos, nos quais se combatem as duas naturezas opostas: a do senhor de nascimento e a do escravo domesticado. (p. 174-75). 1

Isso porque, como bem observou recentemente Darci Ribeiro, “no Brasil a miscigenação nunca foi crime, nem pecado, daí o surgimento de um povo novo, o povo brasileiro, que em nada se parece com o português, o negro ou o índio”. 2

Em Pernambuco, um  aspecto que marcou a civilização duartina foi a mestiçagem que logo tomou conta da sociedade, encorajada pelo primeiro donatário como se depreende das cartas jesuíticas da época, denunciando a indiscriminada atividade sexual dos portugueses com os nativos; o que faz Francis Dutra concluir que “desde o filho mais novo do primeiro donatário aos mais insignificante degredado, os portugueses foram pais de gerações de mestiços”. Em depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendoça (sic.), datado de Olinda, 15 de novembro de 1593, Manuel Álvares, um criado de Dona Brites d’ Albuquerque, faz referência a “Manoel d’ Oliveira, mameluco que dizem ser filho bastardo de Jorge de Albuquerque e de uma índia mestiça deste Brasil”, in Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil. Denunciações  de Pernambuco, 1593-1595. Recife: Fundarpe, 1984.  p. 74; havendo ainda referências a uma escrava, de nome Antônia, que Jorge de Albuquerque no seu retorno à Portugal, in Naufrágio que passou Jorge Dalbuquerque, cap. XIII.
 
Somente Jerônimo de Albuquerque (O Torto), cunhado do primeiro donatário, em seu testamento, firmado em Olinda, em 13 de novembro de 1584, reconhece como filhos onze concebidos de sua mulher legítima, Filipa de Melo; oito com a índia Maria do Espírito Santo; cinco com outras mulheres, uma das quais Apolônia pequena, mãe do seu filho Felipe de Albuquerque, citado expressamente no testamento, deixando dúvidas ainda sobre uma filha tida com uma de suas escrava, de nome Maria, e de uma outra, Jerônima, “que se criara em sua casa e que foi tida por sua filha, mas que Deus sabia a verdade do ocorrido”. Dos oito filhos com a índia, posteriormente legitimados pela Coroa, os dois mais notáveis foram Catarina de Albuquerque, que se casou com o florentino Felipe Cavalcanti, fundador do clã Cavalcanti de Albuquerque, e Jerônimo de Albuquerque que, como veremos, veio ganhar fama com a expulsão dos franceses do Maranhão no início do século XVII.

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DERBY, O QUE ESCONDE ESTE BAIRRO

O bairro do Derby tem uma história singular, mas pouco conhecida dos recifenses dos nossos dias… Quem por lá passa, ou mesmo ouve falar, mal desconfia que, por traz de tão diminuto nome se esconde tanta história do passado do Recife.

– Sim… Derby.

Quem há de lembrar que nos anos finais do século XIX, o que veio a ser o simpático e agradável bairro do Recife fora um centro comercial de padrões internacionais, tendo por atração o Derby Club e, nele, um dos melhores hotéis da América do Sul, além de um Mercado Modelo que, de tão moderno, seria o inspirador de todos os avançados centros de compra (Shopping Centers) dos nossos dias (!).

Tudo começa quando, em terras da antiga Sociedade Hípica Derby Club, fundada em 6 de dezembro de 1888, o industrial Delmiro Augusto da Cruz Gouveia (1863 -1917) resolve iniciar, em 1898, a construção do Mercado da Estância ou Mercado Modelo, mais conhecido pela população como Mercado do Derby. Para isso firmou contrato de isenção de impostos com o município do Recife pelo prazo de 25 anos, ficando as obras concluídas em 7 de setembro de 1899. O novo edifício em estilo neogótico dispunha de 129 metros de fachada dividida em dois corpos principais com pavilhões em suas extremidades.

Mercado do Derby

Mercado do Derby

Voltado para o nascente, o Mercado do Derby dispunha de 18 portões e 112 janelas, localizando-se no centro um pavilhão em dois pavimentos onde funcionava a administração, com uma vista de todo o movimento dos corredores centrais. As cobertas dos dois corpos principais eram suspensas por quatro linhas e 16 colunas em ferro, sendo o pavilhão central cercado por ventiladores que se encarregavam da renovação do ar e da luminosidade do ambiente. Possuía o mercado 264 compartimentos, dispostos em forma de três ruas paralelas, sendo servido por água encanada, esgotos e uma central de energia elétrica, a grande novidade da época.

Em frente à fachada principal, tinha início uma área ajardinada com 400 metros quadrados de extensão, onde eram disputadas corridas de bicicleta e, mais adiante, à direita, foi erguido um luxuoso hotel com vários salões para jogos, cafés, restaurantes e outros divertimentos, sendo todo o conjunto servido por uma linha da Companhia de Ferro Carril, que administrava o transporte coletivo por tração animal.

mercado do derby2

Assinala a Wikipédia ser o atual bairro do Derby, no final do século XIX, algo inusitado difícil em ser concebido pelos que o conhecem em nossos dias:

“O empreendimento incluía mercado, hotel, cassino, velódromo, parque de diversões e loteamento residencial e causou admiração junto a segmentos da população do Recife, que se orgulhavam deste empreendimento a colocar a cidade em sintonia com o que havia de mais moderno e sofisticado no mundo da época. Expressão de progresso e civilidade, o Derby era um centro de diversões modernas que levou ao Recife os prazeres desconhecidos, produzidos com o auxílio da técnica e da ciência”.

A escritora americana norteamericana Marie Robinson Wright em seu livro The New Brazil (1901) (¹) descreve:

“Muitos estrangeiros visitam o porto de Pernambuco todo ano, e não é raro ver meia dúzia de nacionalidades representadas nos hotéis de seus atraentes subúrbios, especialmente no Derby, que é um dos mais pitorescos lugares que se pode imaginar, com bonitas casas, sombras de arvoredos, leve movimento das águas do rio, pequenas pontes artísticas semienterradas na vegetação das margens, e canoas alegremente pintadas deslizando na superfície da água. Este subúrbio goza da distinção de possuir um dos melhores hotéis da América do Sul; o Hotel do Derby é perfeitamente moderno em todos os sentidos e orientado por um padrão metropolitano de serviço. O mercado do Derby é um dos maiores estabelecimentos do seu tipo, no Brasil, e está equipado para os amplos negócios que diariamente são nele realizados. O subúrbio deve seu aspecto atraente à empresa de um cidadão muito progressista, Senhor Delmiro Gouveia, o proprietário, que tem pessoalmente dirigido tudo em sintonia com o desenvolvimento do empreendimento”.

O empreendimento contava com um dos melhores hotéis da América do Sul; o Hotel do Derby, que era considerado moderno em todos os sentidos, e prestava um padrão metropolitano de serviços. O mercado do Derby foi um dos maiores do gênero, no Brasil, e estava bem equipado para os negócios que diariamente nele eram realizados. Nele, além dos artigos comercializados nos mercados na época como os alimentos, se vendia gelo, jornais diários, artigos para fumantes. Havia filial da Livraria Francesa, lojas de perfumarias, lojas de tecidos, de calçados, de louças, de miudezas, e outras.

Hotel Internacional (Cartão Postal datado de 1908) (2)

Hotel Internacional (1908)

“Estrategicamente localizado fora do centro da cidade, numa área cercada por rios e mangues, adotava já naquela época um dos princípios de marketing que norteiam os shopping centers do século XXI: a garantia um isolamento espacial, um ambiente autônomo e com lógica própria, ideal para favorecer as compras e longe de tudo aquilo que possa dificultá-la – o barulho e o movimento das ruas, a falta de segurança, as intempéries naturais. O Derby do final do século XIX era ligado a outras localidades por bondes de bagagem, que trafegavam de manhã, para atender seus clientes”.

No Derby a diversão era a finalidade do empreendimento, e o consumo era promovido como espetáculo, distração, aventura e prazer, procurando ligaá-lo à ideia de progresso, distinção, status e bom gosto. Já naquele tempo utilizava iluminação elétrica com uso cenográfico, e seus funcionários eram orientados para atender com cortesia os clientes, enquanto a música, a variedade de comidas, bebidas e jogos formavam o espetáculo neste “Centro Comercial e de Diversões”. A então magia proporcionada pela luz elétrica e pelo cinema encantavam seus frequentadores.

Era estimulada a prática de esportes, que passaram a ser símbolos de distinção social: corridas de bicicleta (com casa de apostas), regatas, ginástica, jogos de bilhar, dados e dominó, tiro ao alvo, boliche e corridas de pedestres. A exposição denominada “Paris no Derby” constitui-se “um pavilhão para exhibição de diversos apparelhos electricos de diversões” .

Os jornais do Recife noticiavam que grandes multidões – de até oito mil pessoas, segundo matéria no Jornal Pequeno – frequentavam o Derby, e se constituíam num espetáculo à parte. Como os shopping centers de hoje em dia, o Derby visava a estender o consumo às horas livres, às noites, e aos dias santificados.

Mas, não se esqueça caro leitor de hoje, que estávamos no Recife, capital mundial da inveja e da cobiça…

O pior estava por vir…

O que era um paraíso, assinalado pela imprensa da época com títulos como Paris no Derby (Jornal Pequeno, Recife, 11 set. 1899) e causava admiração a todos que nos visitavam, num passe de mágica veio a ser destruído pelos inimigos do industrial Delmiro Gouveia: Na madrugada de 2 de janeiro de 1900, militantes da polícia civil, gente da confiança do vice-presidente da República, Francisco de Assis Rosa e Silva (1857-1929), e do governador do Estado, Sigismundo Antônio Gonçalves (1845-1915), botaram fogo na ala sul do Mercado do Derby, provocando a sua destruição e a consequente falência do empreendimento.

O ato criminoso já era esperado, depois da agressão de Delmiro Gouveia ao conselheiro Rosa e Silva, em 17 de junho de 1899, em plena Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro; episódio largamento divulgado tanto por jornais situacionistas como oposicionistas, e que veio dar causa ao incêndio e consequente destruição do Mercado do Derby.

O jornal recifense A Província publicou, em 4 de janeiro de 1900, um telegrama atribuído ao governador Sigismundo Gonçalves para o Conselheiro Rosa e Silva: “Mercado incendiado. Delmiro preso. Saudações, Sigismundo Gonçalves“.

No que restou do suntuoso prédio funcionou, anos depois sediou a Escola de Aprendizes Artífices (1909) e, no governo de Sérgio Loreto (1922-1926), foi nele instalado o 1º Batalhão de Infantaria Estadual, passando a ser ocupado definitivamente pelo Comando da Polícia Militar de Pernambuco a partir de 19 de novembro de 1925; conjunto arquitetônico devidamente tombado pelo Conselho Estadual de Cultura.

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1) WRIGHT, Marie Robinson. The New Brazil. It’s Resourses and attractions. Historical, Descriptive and Industrial. Philadelphia, George Barrie & Son, 1901. 314 p.

JOSÉ MINDLIN – UMA SAUDADE

De repente, ele deu adeus de mansinho e lá se foi do nosso convívio. Era domingo, 28 de fevereiro de 2010,  quando de Gustavo Krause recebi a notícia ainda em pleno almoço.

Em dezembro de 2000, quando do ingresso no século XXI, nós comentávamos com graça em encontro no Rio de Janeiro, que, a partir de então passaríamos a ter a mesma idade, “éramos homens e mulheres do século passado”…

De repente, no videoteipe da memória, uma amizade constante de pouco mais de três décadas passou a ser recordada nos seus momentos mais alegres e tocantes.

A minha amizade com José Mindlin é fruto desses encontros proporcionados pelo destino, ao longo de toda uma vida dedicada aos livros; afinidades que se encarregam de nos unir e tudo em volta passa a ter aquele gostinho de eternidade.

Os livros, no seu silêncio, possuem alma e estão sempre a procurar por seus donos e  a unir amigos, transformando vidas e aglutinando bibliófilos.

Assim foi com José Mindlin. Em 1977, havia eu editado o livro Diario de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1630-1632 (¹) , escrito por Ambrosius Richshoffer no século XVII, dentro da primeira fase da Coleção Pernambucana, desenvolvida por mim no Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, entre 1975 e 1979. Coincidiu que, neste mesmo ano, recebi a edição francesa deste mesmo livro, impressa numa reduzida tiragem de 250 exemplares, com ilustrações valiosas, sob a orientação e bom gosto de um descendente daquele autor.

A nova edição francesa logo despertou o interesse do bibliófilo José Mindlin que, sabedor de que eu possuía o nº 221, com uma simpática dedicatória assinada pelo editor Frédéric Richshoffer, apressou-se em pedir a um amigo comum a possibilidade de eu, desfazendo-me do meu exemplar, o repassasse para sua biblioteca.

Com bom humor, respondi ao nosso amigo que “a melhor coisa é dispor na nossa estante de um livro que José Mindlin deseja para sua biblioteca…”.

Com graça José Mindlin respondeu: “Pensei tratar-se de um editor, mas vejo que estou diante de um bibliófilo…”.

Assim consolidou-se a nossa amizade em torno dos livros; amizade esta que, em tudo, tinha o sabor da eternidade.

Tornou-se assim uma convivência constante, com longas conversas telefônicas nas manhãs dos sábados, trocas de livros, garimpagens em bibliotecas particulares, e encontros habituais no Recife e  em São Paulo.

Quando eu ia a São Paulo, hospedava-me em sua casa da Rua Princesa Isabel, e ele, por algumas vezes, esteve no Recife ficando comigo na “Pensão da Rua Marquês de Maricá”. De certa feita, em 26 de fevereiro de 1999, ele me trouxe um livro com a “Colleção completa de Máximas pensamentos e reflexões do Marquez de Maricá”, Mariano José Pereira da Fonseca (1773-1848), edição de Eduardo e Henrique Laemmert (Rio de Janeiro, 1850), trazendo um cartão com a seguinte dedicatória: “Leonardo, meu caro, aí vai a sabedoria do Marquez de Maricá, juntando-se à rua, o Recife terá uma nova Academia. Um abraço amigo do José”.

Era uma amizade alegre, cercada de bom humor, com conversas de grande conteúdo, registrando até um seu telefonema de Praga, numa chuvosa manhã de domingo, só para trocar idéias sobre elementos de arquitetura barroca existentes na capital da República Tcheca.

Foi ele, por algumas vezes, Grande nos seus gestos para com Pernambuco:

Em 1996, depois de tomar conhecimento de que a primeira edição do livro de José Antônio Gonsalves de Mello, Gente da Nação – Cristãos-novos e Judeus em Pernambuco – 1542-1654, publicada por mim através de subscrição popular em 1989 encontrava-se esgotada, ele conseguiu do banqueiro Joseph Safra os recursos necessários para uma segunda edição, com a sua apresentação. (²)

Quando lhe foi oferecida à compra da Biblioteca de José Antônio Gonsalves de Mello em 1999, ele ponderou afirmando que tal acervo deveria permanecer em Pernambuco, graças à importância dos seus títulos e anotações para a história local.

Devido a sua ponderação e recomendação do conteúdo, a biblioteca na sua totalidade veio a ser adquirida um ano depois pelo industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand que a conserva, aberta aos pesquisadores, no seu instituto em terras da Várzea do Capibaribe.

Em 2004, ao adquirir toda a coleção das gazetas pernambucanas e outros jornais ao Instituto Ricardo Brennand, José Mindlin concordou com a microfilmagem de todos os exemplares originais. As cópias do microfilme de toda coleção encontram-se hoje no Instituto Ricardo Brennand (Recife), na Hemeroteca da Fundação Joaquim Nabuco,  restando ainda uma terceira para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com essas cópias micro filmadas o acesso à informação fica facilitado a todos os pesquisadores interessados naqueles atribulados anos de nossa história política e social.

As coleções desses jornais, parte deles do período anterior à Independência do Brasil (1822), foram adquiridas pelo Instituto Ricardo Brennand (Recife), em novembro de 2003, juntamente com outros impressos dos séculos XVIII e XIX, que os repassou para a Biblioteca de Guita e José Mindlin no ano seguinte. O acervo é originário da hemeroteca do historiador pernambucano Alfredo de Carvalho (1870-1916), autor da obra Annaes da Imprensa Periódica Pernambucana de 1821-1908 (Recife 1908), e encontrava-se preservado com carinho pela família do contabilista Leopoldo Luís dos Santos por quase um século.

Na coleção se encontram quinze exemplares avulsos do primeiro jornal a circular em Pernambuco, o Aurora Pernambucana, iniciado em 27 de março de 1821, tendo por redator o escritor português Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858); este casado em Pernambuco com Inácia Cândida do Rego Barreto, filha do governador Luís do Rego Barreto (1817-1821).

Além dos primeiros números desse jornal, o acervo em questão possui ainda às coleções dos seguintes periódicos: Segarrega, iniciado em dezembro de 1821, 24 edições; Relator Verdadeiro, 1821, reunindo seis edições; Gazeta do Governo Provisório [instituído quando do rompimento de Pernambuco com Portugal], um único número, 1822; Gazeta Pernambucana, 1822, reunindo dezoito edições; O Escudo da Liberdade, 1823, duas edições; O Marimbondo, 1822, coleção completa com cinco edições; Gazeta Extraordinária do Governo, 1822, dois exemplares; Diario da Junta do Governo, 1823, oito edições; Diario de Pernambuco, a partir de 1829, reunindo seis edições; Bússola da Liberdade, 1832, seis edições; O Velho Pernambucano, 1833, reunindo sete edições; A Cotidiana Fidedigna, 1834, reunindo 6 edições; O Azorrague, 1845, reunindo 49 edições.

Trata-se da mais rara coleção de jornais pernambucanos já reunida por um particular, com direito a capitulo especial no primeiro volume da obra Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, organizada pelo próprio José Mindlin em 2005. Vários daqueles jornais, aqui relacionados, são únicos. Não se sabendo da existência de alguns desses originais nem na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional e muito menos no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, sendo vários deles desconhecidos até pelos que se dedicaram à  História da Imprensa no Brasil.

Além das gazetas pernambucanas, a coleção em questão possui também jornais de outras partes: A Gazeta do Rio de Janeiro (n. 104/1822); Jornal do Commercio  do Rio de Janeiro (n. 1 e n. 8/ 1827); Cidade do Rio, n. 221, 1889; Jornal de Princesa, Paraíba, número único 11 de junho de 1930; Gazeta de Lisboa, n. 221 de 18 de setembro de 1819; Cabichui, jornal paraguaio de 1867 narrando a vitória de Solano Lopes contra as forças imperiais brasileiras.

Pernambuco não lhe faltou em vida. Um gesto apenas, originário da Direção Regional do SESC, demonstrou a José Mindlin a nossa gratidão, por sua simpatia e dedicação aos nossos interesses culturais. Na Praia da Piedade, em município fronteiro ao Recife, Jaboatão dos Guararapes, uma biblioteca tem hoje o seu nome: Biblioteca José E. Mindlin. Inaugurada em 22 de março de 2002, com o seu retrato, pensamentos e algumas de suas obras, ela lá está a lembrar às novas gerações a importância deste que foi por toda vida “um amigo dos livros”.

Durante toda sua existência, ele cumpriu à risca o ensinamento de Michel de Montaigne (1533-1592) – Não faço nada sem alegria -, daí ter escolhido tal pensamento para o selo do seu Ex Libris e assim contagiar os seus amigos com o vírus da bibliofilia.

Ele se foi com a sua alegria, nos deixando órfãos de sua presença e de seu constante incentivo, frustados com a perda daquele sentimento de eternidade que nós pensávamos que nos iria acompanhar até o fim dos nossos dias.

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1) RICHSHOFFER,  Ambrósio.  Diário  de  um  soldado  da   Companhia  das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 210 p. il. (Coleção  pernambucana;  1ª  fase,  v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert  & Comp., 1897.

2) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação: Cristãos-novos e judeus em Pernambuco, 1542-1654. Apresentação de José E. Mindlin. 2.  ed. Recife: FJN, Ed. Massangana, 1996. 552 p. (Descobrimentos, n. 6). 

QUANDO OS VIOLÕES SE ENCONTRAM

A exemplo do piano forte, o violão surge na Europa a partir dos anos finais do século XVIII, passando para o Brasil no início do século XIX, originário que foi da Península Ibérica onde era chamado de guitarra.

Tem como antecessor a viola de arame, conhecida no Brasil como viola caipira, encontrável na literatura desde os tempos do Rei Afonso V, de Portugal, que concede, em 1455, perdão a um tocador que fora encontrado na vila de Évora, “uma hora depois das onze, tocando viola”. A viola aparece constantemente em relatos dos séculos XV e XVI em Portugal, lembrando a Crônica de El-Rei D. Sebastião, escrita pelo frei Bernardo da Cruz, em que o rei D. Sebastião (1554-1578) levou em sua expedição à África o violeiro Lemos de Domingos Madeira, como forma de entreter a tripulação. No depoimento de um contemporâneo, Philipe de Caverel, foram encontradas nos destroços da batalha de Alcácer Quibir (1578) “dez mil guitares” [violas], o que diz bem da popularidade daquele instrumento.

A viola de quatro cordas, também chamado de guitarra na Espanha e em outros países, é de origem árabe, sendo assim conhecida desde o Renascimento, século XV e XVI, em sua forma rudimentar. O violão, por sua vez, tem sua configuração atual datada do século XIX, quando nele foram incluídas cravelhas mecânicas (substituindo as de madeira), trastes fixos de marfim ou ébano (depois de metal) e tamanho aumentado. A este instrumento foi acrescida mais uma corda, correspondente ao mi grave (bordão), dispondo assim de três cordas graves (mi-lá-ré) e três agudas (sol-si-mi). Tem este as suas origens no alaúde, outro instrumento de cordas dedilhadas de origem árabe, com larga difusão na Europa da Idade Média ao Barroco, cuja forma é hoje assemelhada ao nosso bandolim.

O viajante francês Louis-François de Tollenare, que viveu no Recife no final da década de 1810, registrou em suas Notas Dominicais, um desenho no qual aparecem duas mulheres dançando ao som da viola caipira, possivelmente parte de um lundu. Escrevendo em 1817, Tollenare descreve o lundu como dança:

A mais cínica que se possa imaginar, não é mais nem menos do que a representação a mais crua do ato de amor carnal. A dançarina excita o seu cavalheiro com movimentos os menos equívocos; este responde da mesma maneira; a bela se entrega a paixão; o demônio da volúpia dela se apodera; os tremores precipitados das suas cadeiras indicam o ardor do fogo que a abrasa; o seu delírio torna-se convulsivo, a crise de amor parece operar-se, e ela cai desfalecida nos braços do seu par, fingindo ocultar com um lenço o rubor da vergonha e do prazer.

A partir da primeira metade do século XIX, o repertório de músicas europeias, executado nos teatros e salões, com grande parte delas incluídas nos programas das bandas militares, logo contagiou as camadas mais populares. As valsas, em andamento ternário que faziam rodopiar os pares nos salões da primeira metade do século XIX, ganharam novas cores ao contato com o lundu, transformando-se no final do século no maxixe das composições de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Patápio Silva e Anacleto de Medeiros.

O shottisch, vocábulo alemão logo abrasileirado para xótis e xote, a mazurca, a quadrilha francesa e, sobretudo, a polca foram ganhando novas cores e andamentos bem ao gosto dos músicos brasileiros, constituindo-se, em suas fusões e comunicações, em novos ritmos nacionais a partir da segunda metade do século XIX.

A polca, tocada nos repertórios das bandas militares, uniu-se ao dobrado e transformou em polca-marcha, origens remotas do nosso frevo instrumental. Nos salões, fundiu-se com a mazurca, originando a polca-mazurca; juntando-se ao lundu, transformou-se em polca-lundu que, por sua vez, deu origem à polca-choro.

É desta época a popularização do maxixe, definido como o modo brasileiro de dançar a polca, que, ao contato com o lundu, vem ganhar requebros, ousadia e lascívia em suas apresentações nos mal iluminados salões das sociedades dançantes e do Clube de Dança Popular do Rio de Janeiro, no final do século XIX, passando para as peças dos teatros de revistas e firmando-se como gênero de maior sucesso da música brasileira por mais de meio século.

O maxixe tem ciência,
ou pelo menos tem arte.
Para haver proficiência
basta mexer certa parte.

Mas logo a chamada “dança lasciva”, própria “das casas de bailes públicos onde é exibida, ambientes frequentados por mulheres de vida fácil e homens sem escrúpulos”, vem a tomar conta de outros centros, dentre eles, o Recife. Na imprensa, segundo descreve A Pimenta, n.º 20/1901, o maxixe passou a ser “uma dança levada. Toda cheia de caídos. Em que a mulata é danada. E o homem é todo mexidos! Em que tudo mexe. De cá para lá. E quem mais remexe. Mais no goto dá… Que não só se mexe com as pernas. Mas mexe com tudo mais!” Chegando o jornal Pernambuco (1912) a afirmar: “O Recife é por excelência a cidade dos maxixes, que pululam cada vez mais nas principais ruas de nossa capital”.

Enquanto se condenava o maxixe como dança, com sua coreografia libidinosa, própria dos meretrícios, sua execução como música despertava cada vez mais simpatizantes. Conta Luís Carlos Saroldi que, em 1907, o então ministro da Guerra, Hermes da Fonseca, “resolveu banir o maxixe dos repertórios das bandas militares” depois que o ministro alemão barão Franz von Reichenau, convidado para assistir às manobras militares do nosso Exército, solicitou ao mestre da banda a execução do Vem cá mulata, maxixe de Arquimedes de Oliveira.

Tal não foi a surpresa quando sete anos depois o mesmo Hermes da Fonseca, aos 58 anos, ocupando a Presidência da República (1910-1914), saído de uma viuvez e recém-casado com Nair de Tefé, a primeira caricaturista de nossa imprensa, trinta anos mais nova do que ele, permitiu que nos saraus do Palácio do Catete, para os quais era convidado todo o corpo diplomático, fosse executado o Corta-Jaca, maxixe de Chiquinha Gonzaga, além de outros sucessos da época executados ao violão popular.

O maxixe de então foi o antecessor da lambada do início dos anos 90, e, na interpretação de Luís Carlos Saroldi, “veio a se constituir em um dos fenômenos mais representativos da criatividade brasileira, resultado da habilidade tupiniquim de cruzar influências, deglutir contribuições alienígenas e superar as necessidades prementes”.

Por sua vez, o violão popular fazia assim a sua entrada triunfal nos salões mais finos e abastados, episódio descrito por Catulo da Paixão Cearense, in Matta iluminada (1924):

O violão popular fez assim a sua entrada triunfal nos salões mais finos e abastados no Rio de Janeiro no início do século XX, episódio descrito por Catulo da Paixão Cearense, in Matta iluminada (1924):

Hoje eu quase não entendo
essa linguagem que falas!
És o instrumento das salas,
pois trocastes, ó meu violão,
pelos palácios dos nobres,
que agora te dão açoite,
a majestade da noite,
tua glorificação.

O violão é descrito pelos vários dicionaristas como “instrumento cordofone, que soa por dedilhado, maior do que a viola, com caixa de ressonância em forma cintada do algarismo oito, da qual sai uma haste de madeira chamada de braço”. No braço, ou espelho, estão fixados 19 trastes (responsáveis pela formação do mesmo número de casas), sobre os quais são esticadas seis cordas (fabricadas em náilon ou metal), sendo três mais grossas (capeadas de metal fino), chamadas de bordões, e três mais finas, as primas, amarradas em igual número de tarraxas e afinadas por cravelhas mecânicas, alojadas na extremidade do braço (cabeça). Um cavalete de madeira fixa as cordas ao tampo harmônico, de fundo plano e uma abertura circular (boca).

Esclarece Suetônio Soares Valença(¹), sobre o verdadeiro surgimento da Música Popular Brasileira, naquele início de século XX:

Na verdade, ambos – choro e maxixe – são a resultante final do abrasileiramento da valsa, shottisch, mazurca, quadrilha e, sobretudo, a polca, sendo o choro a maneira brasileira de tocar essas danças-músicas e o maxixe o modo de dançá-las. Criações de músicos populares brasileiros, impregnadas do substantivo de origem negra, o choro encontrou no maxixe o seu paralelo no campo da dança maxixe, num segundo momento, gênero musical. […] À maneira “chorada”, lânguida de os músicos populares, moradores em sua maioria na Cidade Nova – trecho compreendido hoje entre a estação Central do Brasil e a Praça da Bandeira [Rio de Janeiro] –, interpretavam músicas de danças europeias, sobretudo a polca, fez nascer, por volta de 1880, o choro. Num primeiro momento, modo de tocar, e, tempos depois, gênero de música, o choro teve inicialmente no violão e no cavaquinho seus instrumentos de execução. A eles se juntaria a flauta, constituindo-se assim a formação básica do choro carioca.

Estavam, pois, fixadas as bases dos conjuntos de choro, surgidas no final da segunda metade do século XIX, cabendo ao flautista Joaquim Antônio da Silva Calado Júnior (1848-1880) a primazia de ter sido o primeiro a fazer uso de tal formação: flauta, cavaquinho e violão. Logo, outros conjuntos com a mesma formação foram surgindo no meio da gente modesta da cidade do Rio de Janeiro, habitantes da área denominada de Cidade Nova, já referida anteriormente.

Calado Júnior, que nos deixou o antológico Choro de Calado, veio a ser sucedido por outro virtuose da flauta, Patápio Silva (1881-1907), agraciado com medalha de ouro do Instituto Nacional de Música (1903), este último, com algumas de suas execuções preservadas em disco pela Casa Edson do Rio de Janeiro.
 
Os primeiros conjuntos de choro constituíam-se, em sua maioria, por flauta, cavaquinho e violões. A flauta como solista, o cavaquinho como centro, e os violões; ora fazendo solo, ora as modulações do acompanhamento. Na primeira década do século XX, esses conjuntos passam a contar com o concurso de outros instrumentos de sopro – flautim, trombone, bombardão, bombardino, trompete, clarineta e oficleide (oficlide); este último, instrumento de sopro da família dos metais, com nove a doze chaves, em desuso em nossos dias. Sua forma em U fechado era muito assemelhada ao saxofone. Da família das cordas vieram incorporar-se aos grupos de chorões, o bandolim (que teve no pernambucano Luperce Miranda e no carioca Jacob Bittencourt seus maiores intérpretes), a bandurra, a bandola e o violão de sete cordas, transformando os solos e as improvisações em grandes desafios para seus intérpretes.
 
Nas improvisações é que tais instrumentistas destacavam suas habilidades de verdadeiros virtuoses, denominando-se tais conjuntos de pau-e-cordas, a exemplo das primeiras orquestras dos blocos do Recife. Formadas por instrumentos de cordas (cavaquinho e violões) e madeira (flauta transversa), este último o mais popular dos instrumentos na segunda metade do século XIX e início do século XX; a base de tais orquestras, ainda hoje, movimenta os cortejos dos blocos carnavalescos do Recife.
 
As modulações dos violões, o contracanto do cavaquinho e a improvisação da flauta, deram lugar ao quarteto ideal em que, segundo o maestro Batista Siqueira (1906-1992), “somente um dos componentes sabia ler a música escrita [partitura]; todos os demais deviam ser improvisadores do acompanhamento harmônico”.
 
Sobre tais improvisos, lembra José Ramos Tinhorão à execução da polca Caiu, não disse?, de autoria do flautista Viriato Ferreira da Silva (falecido em 1883); “numa clara referência à preocupação virtuosística do solista compositor, no inventar de passagens (modulações) capazes de derrubar os seus acompanhantes”. Outro exemplo seria o tango brasileiro de Chiquinha Gonzaga, Só no choro, composto em 1889.
 
No início do século XX eram tantos os conjuntos de choro, formados por elementos da baixa classe média, que o carteiro carioca Alexandre Gonçalves Pinto, ele próprio devotado boêmio e grande chorão, em seu livro de memórias, O choro: reminiscência dos chorões antigos (Rio de Janeiro, 1936), relaciona, direta ou indiretamente, “dados identificadores de 285 chorões, dos quais cita 80 como tocadores de violão, 69 de flautas, 16 de cavaquinho (pelo fato de alguns violonistas também executarem o cavaquinho), 15 sopradores de oficlide; o quarto instrumento mais popular no choro, antecessor do saxofone”.(²)
 
Adianta o mesmo autor, com base naquele memorialista carioca, que 128 chorões eram funcionários públicos (militares e civis), dos quais 44 pertenciam ao Correio e Telégrafos, seguindo-se das bandas militares (de onde se originava grande parte dos instrumentistas de sopro), 31 de repartições federais, 13 da Prefeitura do Rio de Janeiro, dentre outros. Nas demais ocupações, a lista cita funcionários da Light, artífices, comerciários e até o sacristão da igreja de Santo Antônio (Pedro Sacristão) e um vendedor de folhetos de modinhas (Francisco Esquerdo), que se apresentava como cantor em tais conjuntos.
 
Esses grupos de músicos espalharam-se por todo o Brasil, originando vários virtuoses, a exemplo de João Teixeira Guimarães (João Pernambuco), autor de Sons de carrilhões, que, apesar de nascido na cidade sertaneja de Jatobá (PE), em dois de novembro de 1883, veio a fazer sucesso no Rio de Janeiro, como importante compositor e grande virtuose do violão popular, tendo falecido nesta cidade em 16 de outubro de 1947. Filho de uma índia caeté com um português, esse autodidata do violão se transfere ainda criança para o Recife e, em 1902, segue para o Rio de Janeiro aonde vem a ser operário de uma fundição. Frequentador de diversos grupos de chorões conhece Catulo da Paixão Cearense, com quem compõe o Coco do Engenho Novo (1911), cuja melodia é aplicada na letra do antológico Luar do sertão. Ainda com Catulo ele compõe, em 1912, Cabocla de Caxangá, sucesso absoluto do carnaval daquele ano.
 
Com João Pernambuco surgiu o Grupo Caxangá, cujos integrantes se apresentavam trajados de sertanejos nordestinos, sendo formado, além dele, por Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana; 1897-1973), Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos; 1891-1974), dentre outros grandes da Música Popular de então. O grupo instrumental durou até 1919, quando Pixinguinha vem a criar o conjunto Oito Batutas, formado por Pixinguinha (flauta), China (canto, violão e piano), Raul Palmieri (violão), Nelson Alves (bandolim e ganzá), Jacob Palmieri (pandeiro) e Luiz Oliveira (bandola e reco-reco), estreando com grande estilo na noite de sete de abril daquele ano no cinema Palais (Rio). Em dezembro de 1921, o conjunto viaja para uma temporada em Paris, retornando em julho do ano seguinte ao Rio de Janeiro, trazendo na sua formação saxofones e outros instrumentos modernos e, no repertório, composições do hot-jazz.
 
Em 1926, surge no Recife o conjunto vocal e instrumental, batizado por Mário Melo de Turunas da Mauricéia, que vem marcar época na história da Música Popular. Viaja no ano seguinte para o Rio de Janeiro, na formação de Luperce Miranda (bandolim), Augusto Calheiros (apelidado depois de Patativa do Norte), Manuel Bezerra de Lima (violonista cego falecido em 1943), Riachão (bandolim), Periquito (José Frazão), Felinto Moraes (1884-1927) e Romualdo Miranda (1898-1971). A exemplo do Grupo Caxangá, os seus músicos apresentavam-se trajados à moda dos sertanejos, com chapéus de abas largas e alpargatas de rabicho, tendo feito grande sucesso quando de sua estreia no Teatro Lírico, especialmente no que diz respeito às músicas do seu repertório: cocos, emboladas, toadas e outros ritmos pouco conhecidos na Capital Federal daqueles dias. São dessa época as gravações de Helena (Luperce Miranda) e Pinião (Luperce Miranda e Augusto Calheiros), este último, grande sucesso do Carnaval do 1928.

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Por essa época, qualquer tipo de composição executada por esses conjuntos de chorões era chamada de Choro; assim vieram a ser gravadas polcas, xótis, tanguinhos, valsas, habaneras, transformados em antológicos sucessos de nossa música instrumental. O sentimento magoado, o dedilhado melancólico, o trinado dos bandolins, o acompanhamento cadenciado da baixaria, passou a rotular composições “cheias de modulações imprevistas, armadas com o propósito de pôr à prova a capacidade ou senso polifônico dos acompanhadores”.
 
Observa Mário de Andrade, a existência de peças choronas nas quais “o movimento já não se coaduna mais com a dança, pelo menos com as danças brasileiras”.(³)

A rapidez é cada vez maior, se percebendo que a peça é concebida exclusivamente para execução instrumental [até virtuosística…] sem que sirva para mais coisa nenhuma, nem para se cantar nem para se dançar.

Lembra o autor que certos choros, como Urubu, de Pixinguinha, são comparáveis, pela excelência exigida de seus solistas, às peças de hot-jazz norte-americanas, a exemplo de I got rhythm (Gershwin) na execução de Louis Armstrong (1898-1971):

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São por assim dizer choros-hot, a que o próprio caráter improvisatório das linhas e às vezes o processo de variação, ainda ajuntam mais caráter.

Assim, para Mário de Andrade, choro seria um “conjunto instrumental livre, de função puramente musical, composto de um pequeno grupo de instrumentos solistas, exercendo o resto do conjunto uma função acompanhante, antipolifônico, de caráter puramente rítmico-harmônico”.
 
A riqueza instrumental desse binário levou o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a escrever uma das suas mais primorosas séries para orquestra de cordas, Choros, bem como outras peças exclusivas para violão, a exemplo de Douze Études (1924-29), Choros nº 1 e Prelúdios (1940). O mesmo acontece com o pernambucano Marlos Nobre (Recife, 1939), ao compor Reminiscências Op. 83 (1990-91) e Homenagem a Villa-Lobos (1977), peças escritas para violão e recentemente gravadas pelo violonista recifense Joaquim Freire, disco Leman Classics (LC 44601/1993). Ao compor Reminiscências, lembra Marlos Nobre, coincidentemente filho de um chorão, o violonista Carlos Nobre de Almeida, ter escrito esta peça “quase em um estado de transe emocional puro. Não pude me furtar ao envolvimento emocional daquele ambiente efervescente e criativo, das reuniões dos chorões do Recife nos idos de 1945-1950”.

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Esse ambiente musical das rodas de choro do Recife é também lembrado nos depoimentos de vários chorões da velha guarda, a exemplo do violonista carioca César Faria (Conjunto Época de Ouro), do bandolinista Luperce Miranda, apelidado de o Prestidigitador do Bandolim, tal a dificuldade de execução dos seus choros e frevos, além de Jacob Bittencourt (1918-1969), o Jacob do Bandolim, que, apesar de carioca, se tornou autor de frevos antológicos, escritos para aquele instrumento, como Sapeca e Frevo na Rua Nova.

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Todo esse ambiente do passado foi revivido por outro virtuose do violão, talvez o mais importante dos nossos dias, o violonista Henrique Annes, pernambucano do Recife, nascido em 25 de julho de 1946, professor do Conservatório Pernambucano de Música. No seu livro, Dedilhando Pernambuco (Recife, 2005), ele documenta composições de 20 autores pernambucanos, orquestradas especialmente para Oficina de Cordas de Pernambuco (violão, bandolim, viola sertaneja, flauta, violoncelo, contrabaixo e percussão), seguindo-se depois de compact disc laser a ser lançado separadamente com todas as músicas aqui orquestradas.
 
Assim, Henrique Annes consegue reunir neste livro peças compostas para violão por Alfredo Gama (1867-1932), Alfredo de Medeiros (1892-1961), Jacaré (Antônio da Silva Torres), nascido no Recife em 1929, Cláudio Carneiro Leal, Clóvis Pereira (1932), Euclides Fonseca (1854-1929), Henrique Annes (1946), Ivanildo Maciel, Jayme Duarte, João Pernambuco (1883-1947), José do Carmo (1895-1977), José Mariano (Marambá) da Fonseca (1896-1968), José Menezes (1923), Lourenço (Capiba) da Fonseca Barbosa (1904-1997), Luperce Miranda (1902-1976), Nelson Miranda, Nelson Vaz (1903- ?), Sebastião Libânio e Waldemar de Oliveira (1900-1977).
 
Tal número de virtuoses me fez lembrar de um programa radiofônico que existia no Recife, Quando os violões se encontram. Era produzido por Nélson Pinto e irradiado às 19h30min dos domingos pelo Rádio Jornal do Commercio, entre os anos de 1960 a 1964, nele se apresentando nomes como Chico Soares (Canhoto da Paraíba), Romualdo Miranda (irmão de Luperce Miranda), Benedito Santos, Zé do Carmo, Rossini Ferreira (bandolinista vencedor do Festival Internacional do Choro de 1977), Miro Rosé, Aníbal Carneiro (irmão de Minona Carneiro), Henrique Annes, dentre outros virtuoses das cordas.
 
Recordando o meu pai, Tonico Silva (Antônio Machado Gomes da Silva Netto; 1894-1966), me vem, nesse panorama aqui descrito, a lembrança de uma trova escrita pelo poeta Balthazar de Oliveira e por ele declamada:

Para amar, para dar prova.
Deve-se três coisas cumprir.
Tocar violão, fazer trova.
Vendo o luar, não dormir.

_____________

1) VALENÇA, Suetônio Soares. “Polca, polca-lundu, choro, maxixe”, in LOPES, Antônio Herculano (Org.). Entre Europa e África: a invenção do carioca. Op. cit. p. 66.

2) TINHORÃO, José Ramos. Pequena história social da Música Popular Bra17sileira: da modinha à lambada. 6ª ed. São Paulo: Art Editora, 1991. p. 105.

3) ANDRADE, Mário de. Dicionário Musical Brasileiro. São Paulo: EDUSP, 1989. p. 136-138.

A FESTA DOS ÍNDIOS PELADOS

 

Em 11 de maio de 1644, João Maurício de Nassau deixou triunfantemente a sua Cidade Maurícia. Montado a cavalo, seguido de um grande séqüito de admiradores, cavalgou ele pelo litoral em busca da Paraíba. A sua despedida de forma apoteótica, como a exaltar o sucesso dos sete anos do seu governo, mereceu de Netscher, escrevendo com a parcialidade de cidadão holandês, uma descrição sentida, com cores fortes e povoada por palavras tomadas de emoção, que vale a pena transcrever:

Pelo litoral passou por Olinda, Itamaracá, atingindo o Paraíba onde deveria embarcar. Por toda parte recebeu expressivas homenagens que significavam estima, reconhecimento e saudades. Sua viagem tomava o aspecto de uma marcha triunfal. As populações dos lugares por onde ia passando formavam alas para dizer-lhe adeus. Essas aclamações eram acompanhadas pelas bandas de música que toca¬vam o hino nacional Wilhelmus van Nassauwen e de salvas de canhões a lhe prestarem as últimas honras militares. O nosso aliado Jandui, chefe dos Tapuias, enviou uma delegação (entre a qual se achavam três dos seus sessenta filhos) para pedir a Maurício, mais uma vez, adiasse a partida, si isso fosse possível.

O seu embarque se dá no porto de Cabedelo, na Paraíba, levando em sua comitiva o Escabino e homem de negócios Gaspar Dias Ferreira, uma espécie de seu testa-de-ferro em negociatas nunca bem explicadas, figura misteriosa de agente duplo, com sua participação ainda por ser estudada.

Em Cabedelo, um grupo de índios afasta os guardas de sua escolta e o transporta, nos ombros, até o escaler que flutuava sobre as ondas, esperando para conduzi-lo até o Zuphen. Somente no dia 22 de maio de 1644 é que a esquadra levanta âncoras, deixando desolados nas praias dezenas de índios que com o Conde Nassau desejavam embarcar para a Holanda. Todo o episódio do seu embarque é descrito com cores vivas pelo cronista Gaspar Barlaeus (1647).

Partiu o Conde de Nassau no mesmo barco que o trouxera ao Brasil em 1637, o Zuphen. Ao seu redor navegava uma frota de treze navios, tripulados por 1.400 marinheiros, armados com 327 canhões, e um carregamento avaliado em 2.600.000 florins, composto principalmente de açúcar, pau-brasil, madeiras de lei [notadamente jacarandá e pau-violeta], fumo, pau-campeche [o caule e as raízes apresentam propriedades medicinais e deles se extrai matéria corante que contém hematoxilina], além de toda a produção de seus artistas e objetos vários, bem como curiosidades pertencentes ao seu museu de antropologia.

Depois de uma travessia, um tanto ou quanto atribulada, que lhe obrigara há vários dias de repouso após o desembarque no porto de Texel, o Conde de Nassau compareceu perante assembleia dos Estados-Gerais, reunidos na Haia, em 12 de agosto de 1644. Na ocasião, apresentou-lhes “um curto e prévio relatório a respeito de sua gestão no Brasil desde 1637”.

Em 20 de setembro do mesmo ano, tornou o Conde de Nassau à mesma assembléia onde, em nova audiência, pôde relatar a verdadeira situação do Brasil Holandês e, a exemplo do que fizera quando do seu Testamento Político, demorou-se bem mais no enfoque dos diversos assuntos, parte deles relacionados por Gaspar Barlaeus em seu livro (Amsterdã, 1647).

Reclamou o Conde de Nassau dos altos juros cobrados pela Companhia aos seus devedores, contrariando o próprio edital vigente que estabelecia o juro de 12% ao ano sobre as dívidas contraídas com a Companhia das Índias Ocidentais, conforme mais uma vez relata Gaspar Barlaeus em obra citada.

Além disso, deve atender-se a que um edito do ano de 1640 determinou que pelas dívidas garantidas por penhor não se cobrar juros superiores a 12% e pelas não garantidas apenas de 8%. São fáceis os exemplos de quão enormemente os nossos burlaram esta lei, exigindo um juro ilegal. Cosme de Oliveira, morador no Tijucupapo, tendo comprado alguns escravos por 9.000 florins, depois de pagar 12.000 de mora, foi preso por uma dívida de mais 15.000 florins. João Soares, cidadão de Muribeca, tendo recebido a crédito bens no valor de 36.000 florins, tendo pago 60.000, ainda devia de mora (ah! invoco o testemunho dos homens!) igual quantia! Seria, certamente, legal e justo abater-se os débitos destes quanto lhes foi cobrado com suma injustiça. Isto fizeram os Romanos, elaborando a Lei das Doze Tábuas para conterem os furores da plebe e suas justíssimas reclamações.

É desta época a notícia de uma curiosa festa brasileira, promovida por Nassau nos jardins e salões de sua residência, a Mauritshuis, na presença de nobres e embaixadores acreditados junto aos Países Baixos. Da crônica da vida diária da Holanda são freqüentes os comentários sobre esta festa, segundo se depreende da correspondência de muita gente famosa que descreve a festa brasileira com riquezas de detalhes. A nota de curiosidade da festa ficou por conta da apresentação da dança guerreira dos tapuias, nos mesmos moldes da que foi eternizada em tela por Albert Eckhout.

Na ocasião o Conde de Nassau fez apresentar os onze índios, que o acompanharam na sua viagem de regresso do Brasil, completamente despidos que com as suas setas e bordunas realizaram a dança ritual.

Assinala Besselaar que, “entre os convidados se achavam vários predicantes com suas esposas. Para alguns, a representação foi um grande escândalo e, justamente por ser motivo de escândalos para alguns, foi motivo de grande hilaridade para outros”.

A VIDA PRIVADA NO BRASIL HOLANDÊS

Durante o Brasil Holandês (1630-1654) transferiram-se para Pernambuco indivíduos originários das mais diferentes partes do mundo de então. Eram judeus, mercenários, predicantes, comerciantes e funcionários da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, ou simplesmente aventureiros e até prostitutas, todos em busca de dias melhores na Terra do Açúcar.

O Recife de então se transformara numa verdadeira Torre de Babel. As suas ruas, praças, templos e tavernas encontravam-se tomadas por holandeses, noruegueses, belgas, flamengos, ingleses, alemães, escoceses, dinamarqueses, além de um imenso número de judeus; estes últimos divididos em sefardins, oriundos da Península Ibérica, e askenazins, procedentes do norte da Europa.

Por força da Guerra Brasílica esses recém-chegados tiveram de conviver com mazombos, como eram chamados os naturais do Brasil, portugueses, espanhóis, italianos, ameríndios (a quem chamavam de brasilianner) e negros escravos originários das mais diferentes regiões da África.

Ao contrário dos portugueses que encontraram uma cultura ameríndia e dela tiraram proveito, os holandeses, em sua maioria formada por gente acostumada a viver nas cidades, vieram a sofrer por uma total falta de meios de subsistência o que tornou impossível à preservação da vida na colônia.

No Brasil, os holandeses continuaram a viver com os mesmo hábitos, como se ainda estivessem na Holanda. De lá eram transportados para o Brasil os produtos mais diversos. Até o necessário e o indispensável à subsistência, como a carne de boi e de carneiro salgadas, provinham de portos holandeses. Além destas, também de lá vinham o toucinho, presunto, língua, salmão, bacalhau, peixe seco, biscoitos, arenque, farinha de trigo, vinhos da Espanha, aguardente de uva, vinhos franceses do Reno, cerveja (birra), queijos diversos, manteiga, azeite, passas de Corinto, azeitonas, alcaparras, amêndoas e, sobretudo, farinha de trigo.

Mesmo a alimentação do corpo de tropas era dependente dos produtos importados. Para os soldados era solicitado que viessem da Holanda produtos como aveia, feijão, ervilhas, carne salgada, bacalhau, peixe seco, cerveja, vinho da Espanha, “vinho forte francês”, arroz, favas turcas [milho], cevada, passas e farinha de trigo. – Tal dieta, na qual predomina o álcool, as conservas e o sal, veio contribuir para a derrota das tropas da Companhia nas duas batalhas dos Montes Guararapes nos anos de 1648 e 1649.

Nenhuma simpatia para com os produtos da terra. Nada de frutas, verduras, batatas, legumes, raízes, caules e produtos à base da mandioca, como a farinha-de-pau, e outras culturas da terra, utilizadas à larga na alimentação dos portugueses, ameríndios e negros escravos.

Também da Holanda para cá foram trazidos gatos (para combater a incontrolável população de ratos), gansos, patos, porcos, além de cães ingleses empregados na captura de índios, negros fugidos e insurretos pernambucanos.

De portos europeus provinham os tecidos do vestuário dos holandeses – linhos, brocados, veludos, damascos, sedas, etc. -, que aqui chegavam juntamente com sapatos ingleses, selas de montaria, o marfim e o ouro da Guiné, pau-de-rede de Angola, especiarias da Índia, madeiras do Báltico, couros da Rússia, chapéus, plumas e tudo o que se podia comprar com os florins resultantes da venda do açúcar dos engenhos pernambucanos.

Até para a satisfação do apetite sexual dos flamengos, não muito dado a exotismos, vieram da Holanda um considerável número de prostitutas, como as que habitavam os sobrados da Rua do Vinho, paralela a Rua dos Judeus, onde se localizavam “os mais vis bordeis do mundo”.

Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos (1987).

No que diz respeito à convivência com as diversas etnias, os holandeses encontraram em Pernambuco uma sociedade de mestiços e foram obrigados a com ela conviver tolerando seus usos, costumes e até uniões as quais não estavam habituados.

Em 1646, segundo recenseamento realizado em fins de 1645 estaria confinado no centro do Recife um total de 4.660 pessoas, “entre particulares, empregados da Companhia e escravos”; população esta acrescida em 1.169 soldados que compunham o efetivo das guarnições dos fortes ali situados.

Segundo estimativa do cronista do Journael, publicado em Arnhem (capital da província de Géldria, no Baixo Reno), em sua edição de junho de 1646, por essa época, viviam no Recife cerca de 8.000 habitantes,

A fim de abrigar tanta gente, em tão diminuto espaço de terra, foram utilizadas todas as habitações disponíveis, acrescidas dos armazéns do porto e até dos sótãos [parte da casa entre o forro e o telhado] dos sobrados, alguns deles com quatro pavimentos. Neles eram acomodados “caixeiros, auxiliares de escrita e serventes”, em número de três a oito deles em cada cômodo, sob um calor asfixiante, com suas camas coladas às outras, na maior das promiscuidades.

Em cartas do Conselho do Recife, datadas de 31 de março e 20 de dezembro de 1641, nos deparamos com esses comentários: Se nós não abrigarmos essa gente em habitações coletivas, ela vai procurar alojamentos nas bodegas do porto, que são os bordeis mais vis do mundo. Ai! Do mancebo que ali cair – fica votada a irremissível perdição.

Diante de tamanha promiscuidade, não é de admirar que a vida na colônia tornou-se um verdadeiro inferno. A falta de água potável e alimentação adequada, sobretudo a ausência de vitaminas no cardápio diário, trouxeram consigo o crescimento dos casos de escorbuto e outras doenças, como a hemeralopia (deficiência de visão à luz do sol; cegueira diurna), disenterias sangüíneas (ventris fluxus, Piso), moléstias do fígado, surtos de gripes, dentre outras que dizimaram um grande número de pessoas.

Com a chegada sempre crescente das levas de aventureiros, dentre eles um elevado número de prostitutas, a sífilis transformou-se numa verdadeira epidemia no Brasil Holandês. Os médicos de então, como o cientista Willem Piso, foram procurar cura para tais doenças junto à flora medicinal indígena e experientes médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana, através do qual, “fica-se curado dentro de oito dias”.

Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen (2004) “que pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalha da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho e outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo “panorama de excessos não pode ser descritos por simples palavras”.

Dentro dos lares, ao contrário dos portugueses que escondiam suas mulheres e filhas da vista dos estranhos, os holandeses eram por demais liberais em suas relações com a sociedade.

Suas mulheres, em maior número do que as originárias de Portugal revelavam uma jovialidade pouco comum às nativas. Testemunha frei Manuel Calado, quando das festas em regozijo à Aclamação do Duque de Bragança, D. João IV, ao trono de Portugal, realizadas no Recife em abril de 1641.

E se o banquete era jantar durava a beberronia (ato de beber sem comedimento) até a noite, e se era ceia até a madrugada; e nestes convites se achavam as mais lindas damas e as mais graves mulheres, holandesas, francesas e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens, e arrimavam-se ao bordão de que aquele era o costume de suas terras.

No ambiente familiar, onde reinava tal liberdade, passou a ser comum a prática do adultério como se depreende das inúmeras denúncias chegadas ao Conselho Eclesiástico; assim assevera Hermann Wätjen (2004): Muita mulher infiel de soldado, metida em varas, teve de passar horas inteiras no pelourinho, exposta ao calor ardente do sol, na praça pública; muita dama elegante foi vergastada coram publico pelo carcereiro mor.

Militares e civis, em quantidade considerável, foram expulsos da colônia por crimes de bigamia; o que fez com que as autoridades exigissem de todo homem casado, logo que chegasse ao Recife, a apresentação da respectiva certidão de casamento.

A ata do Conselho da Zelândia, de 7 de agosto de 1649, narra o fato de certo capitão holandês, dado à prática da pederastia, ter sido transferido para a ilha de Fernando de Noronha e de lá para uma prisão em Amsterdã “em cujos cárceres pudesse acabar a sua arruinada existência”.

Neste ambiente restaram poucas casas de portugueses que viessem a merecer descrições mais apuradas de cronistas holandeses. Segundo documentos da época, os portugueses viviam em “distritos agrícolas, em miseráveis casas de taipa”, denunciando, inclusive, “falta de asseio do corpo e da casa”.

A casa rural dos portugueses é descrita como desprovida de conforto e ostentação de riqueza. Dispunha de poucos móveis, sendo grande parte dela construídas em taipa e cobertas de telha, observando-se a existência de pelo menos dois pavimentos, dominados por grande varanda.

No interior da casa, a mulher, sempre cercada por um razoável número de escravas, recebia os visitantes, sentada sobre um estrado, “conservando os pés escondidos, pois é considerado indecente mostrá-los aos visitantes, seja amigo ou pessoa estranha”.

A mesa era farta de alimentos proporcionados pelas culturas da terra, notadamente a mandioca da qual retiravam a farinha e a massa, usada largamente em sua culinária. Dela também fazia parte os tubérculos, verduras, legumes, frutas, que davam acompanhamento aos peixes e às carnes. As refeições eram seguidas de uma enorme variedade de doces e frutas cristalizadas, “que gozam da melhor aceitação entre velhos e jovens”.

Com respeito à dieta da família portuguesa, observa o reverendo Vicente Soler, em uma de suas cartas ao teólogo André Rivet, de Leiden, que “em lugar de pão o povo em geral come certa farinha, branca como neve, feita da raiz de certo vegetal. Alguns fazem bolos com ela, os quais alguns dos nossos consideram muito mais saboroso do que o melhor pão de cereais de que em geral não temos falta”. Nas suas observações, assegura o calvinista espanhol ser o português abstêmio ao vinho e outras bebidas alcoólicas, dando preferência à água natural, embora seja um apreciador dos sumos das frutas, adocicado com açúcar.

Segundo carta-geral do Governador e Conselho, datada de 14 de janeiro de 1638 e citada por Hermann Wätjen (2004), “as mulheres dos portugueses andavam por demais ataviadas de jóias (algumas falsas), vestindo-se pomposamente, enquanto alguns homens apresentavam-se mal vestidos. Nas casas portuguesas mais distintas, quando as mulheres saem às ruas são sempre carregadas por dois escravos, deitadas em redes ou sentadas em cadeirinhas, devidamente cobertas por um véu”.

Por conta de sua vida sedentária, recolhida ao interior da casa senhorial, sem quase receber os raios do sol, com a sua dieta plena de doces e outros produtos manufaturados com o açúcar, a fisionomia da mulher portuguesa é pouco atraente, pois logo perde os dentes, tornando-se gordas e pesadas.

O homem português era um eterno ciumento de sua mulher e filhas, tomando as precauções inimagináveis para tornar impossível que elas recebam galanteios de outros homens ou em absoluto figure em negócios do amor. Daí a razão de terem as portuguesas tão pouca liberdade de movimento e serem obrigadas pelos seus maridos à vida caseira.

Não obstante registrava-se um razoável número de uniões de mulheres da terra com holandeses. Frei Manuel Calado, em seu relato (1648), observa que “vinte mulheres portuguesas se casaram com os holandeses, ou para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges e por predicantes hereges (…) porque, como eles eram senhores da terra, fazia as coisas como lhes parecia, e era mais honroso e proveitoso”.

Na verdade um grande número de holandeses, senhores-de-engenho em particular, veio a casar com mulheres da terra ou portuguesas. Além de Gaspar van der Ley, aqui também casaram Abraham Tapper, Joris Garstman, Johan Heck, Jan Wijnants; o mesmo acontecendo no Rio Grande do Norte e no Maranhão, como conta o padre Antônio Vieira.

Com outras etnias, a exemplo dos negros e dos índios, a união com holandeses era vista sobre um prisma diverso. Enquanto os portugueses foram por todo o tempo tolerante para com as uniões mestiças, entre brancos, índios e até negros, o mesmo não se pode dizer das autoridades holandesas. Estas, a todo custo, procuravam impedir o contato sexual de brancos, “considerada como tal a descendência holandesa e a norte-européia em geral”, com toda população de cor.

A PROSTITUIÇÃO NO BRASIL HOLANDÊS

Da promiscuidade do dia-a-dia, agravada a cada dia com a chegada de um número cada vez maior de aventureiros, dentre os quais um grande número de prostitutas. A sífilis veio a tornar-se uma verdadeira epidemia no Brasil Holandês de então, obrigando cientistas, como os médicos Willem Piso e Georg Marcgrave, autores do livro clássico Historia Naturalis Brasiliae (1648), buscar a cura para tal doença junto à flora medicinal indígena e aos médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana fermentado, através do qual “fica-se curado dentro de oito dias”.

A propagação da lues, como também é denominada a sífilis, era propiciada pelo grande e imenso bordel a que fora transformado o Recife de então. Tal importação vem acontecer logo nos primeiros anos do Brasil Holandês, que recebeu verdadeiros “carregamentos de mulheres perdidas”, como se depreende das cartas do Conselho do Recife.
 
Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos.
 
Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen que “pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalhas da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.
 
O mesmo proceder acontecia com os marinheiros, após travessias de muitas semanas no mar, quase sempre envolvidos em batalhas e refregas. Também acontecia com os homens procedentes dos engenhos de açúcar, que se encontravam no Recife de passagem, longe da vista de suas famílias.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho, bem como outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo panorama de excessos, segundo Pierre Moreau não pode ser descritos por simples palavras.

A terrível problemática habitacional levou a promiscuidade e a consequente dissolução moral da capital do Brasil Holandês contribuindo para a elevação do número de doenças epidêmicas, com o aumento do número de óbitos e a derrocada de sua estrutura política e militar.

JUNHO DAS NOITES BRASILEIRAS

BDSJ

No nosso calendário de festejos populares, a festa do Senhor São João se torna a mais festejada em Pernambuco, nesse mês dedicado aos santos de junho.

É também a festa mais antiga do Brasil, já registrada por frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil 1500-1627, que assim as descrevia: “acudiam com muita boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Trata-se de uma festa de grande misticismo, a partir do próprio nome Batista – o que batiza cheio de graça -, em cuja noite se praticava feitiçarias, como demonstra a denúncia de Madalena de Calvos contra Lianor Martins, a Salteadeira, acusada dentre outras coisas, de trazer consigo uma semente enfeitiçada colhida na noite de São João, segundo depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendoça, em 22 de novembro de 1593, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco.

As festas juninas foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses, eles próprios ainda hoje cultores desta milenar tradição marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa as festas juninas coincidem com o início do verão, daí a presença da tradição de costumes pagãos dentro dos festejos, como adivinhações e o culto ao fogo.

No que diz respeito às fogueiras, ensina a tradição cristã divulgada pelos jesuítas ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer uma enorme fogueira no sentido de anunciar o nascimento de seu filho João Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz”. (João 1,6-8).

No Brasil as festas juninas acontecem com o início do inverno, tempo de colheita do milho e do feijão no Nordeste, que sempre está à espera das boas invernadas de modo a afastar o espectro das estiagens de modo a garantir a sua subsistência; como na polca de Zé Dantas e Luís Gonzaga, Lascando o cano (RCA 80/307B-1954):

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Vamo, vamo Joana
Findou-se o inferno
Houve um bom inverno
Há fartura no sertão…,
Ai! …Joana, traz pamonha, milho assado
Vou matá de bucho inchado
Quem num crê no meu Sertão.
Traz a riuna que eu vou lascar o cano
Pela safra desse ano
Em louvor a São João.

Em se tratando de um povo de bailadores, acostumado a dançar no meio da rua, na região Nordeste os festejos juninos são marcados, não somente pelas fogueiras, balões, comidas da época (nas quais predominam o milho, a mandioca, a castanha de caju e os doces variados), mas também pela música em seus mais diferentes gêneros a movimentar os arraiás, residências, comércio, clubes sociais, programação de rádio e televisão e, sobretudo, a alma festiva dessa gente; como naquela polca de Zé Dantas e Joaquim Lima, Chegou São João, gravada por Marinês (RCA- BBL1075-B-l/ 1960):

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Eita pessoá!
Chegou São João!
Vou me espraiá,
Vou dá no pé prô meu Sertão.
Eu vou pra lá,
Brincá com Tonha,
Com Zefa e Chico,
Comer pamonha e canjica
Vou soltar ronqueira,
Bebê e dançar coco
Em volta da fogueira.
Vou soltá,
Foguete, balão, buscapé
Bebendo aluá, cachaça e capilé

………………………………….

A festa de São João tem início com o Acorda Povo, logo na madrugada do dia 23, acordando os moradores ao som de zabumba, caracaxá, ganzá, triângulo, sanfona, tudo movido a muita cachaça: “Acorda povo que o galo cantou / Foi São João que anunciou ….”.

No por do sol do dia 23, véspera da festa do santo, são acendidas às fogueiras e a festa tem continuidade com a Bandeira de São João. Uma procissão antecipada por uma estrela, coberta de papel celofane com cerca de 150 cm. de diâmetro, iluminada por velas no seu interior, carregada por dois meninos. Seguem-se duas filas, formadas por homens e mulheres, que cantam e dançam em honra do santo, fazendo marcação com os pés e, por vezes, trocando umbigadas. Segue-se de uma bandeira, pintada com a imagem do Batista menino com o carneirinho, segurada em suas pontas por quadro adolescentes, antecedendo ao andor com a imagem do santo, esculpida em gesso ou madeira, carregado por quatro moças vestindo branco, encarnado e verde, cores mantidas também nas lanternas dos acompanhantes. Finalmente uma banda de pífanos, ou um terno de sanfona (acordem, zabumba e triângulo), acompanha os seguidores no seu canto: “Que bandeira é esta / Que vai levantar/ É de São João para festejar/ Que bandeira é esta / Que já levantou/ É de São João, primo do Senhor”.

A música é uma constante nos festejos juninos desde os primeiros dias da colonização. Foi assim com as capelas, referidas pelo frei Vicente do Salvador e descritas pelo Padre Carapuceiro, continuando em nossos dias com a adaptação de ritmos oriundos de outras plagas, como o xote (schottisch), proveniente da Hungria; a polca e a mazurca, originárias da Polônia, e a quadrilha, que teve por berço os salões aristocráticos de França e, no Brasil, veio a ser dançada da Corte às casebres da zona rural, como bem assinala O Carapuceiro, em sua edição de 6 de abril de 1842: “Nas baiúcas mais nojentas/ Onde a gente mal se vê/ Já se escuta a rabequinha,/ Já se sabe o balancê./ Nisto mesmo está o mérito/ Deste dançar tão jacundo,/ Que sem odiosa exclusão,/ Acomoda todo o Mundo”.

Não faltam nessas animadas festas os ritmos originários da terra, como o coco-de-roda, originário dos batuques africanos, que marcado por um ganzá, nas mãos do solista (tirador), acompanhado por um tambor em compasso binário, e respondido pelas vozes dos dançarinos a marcarem o ritmo com sapateado dos seus tamancos de madeira, trocas de umbigadas e assim mantém a alegria a noite inteira. Para Pereira da Costa, in Folk-Lore Pernambucano (1908), o coco é a “dança querida do populacho, com certa cadência acompanhada a palmas, e na qual os foliões acomodam trovas populares repetidamente”[…] “o coco, porém, está tão vulgarizado que chegou mesmo à zona sertaneja, com a sua particular toada, mas, com letra variada, convenientemente acomodada ao canto, e obedecendo sempre a um estribilho contínuo, cantado em coro pelos circunstantes”.

O nosso coco, também veio a ser era descrito no conto de Luís Guimarães Júnior (1845-98), quando, estudante da Faculdade de Direito do Recife, publicou no Diario de Pernambuco, 8 de fevereiro de 1871, um conto sob o título “A alma do outro mundo”, no qual comenta o que chamou de “samba do Norte” , na verdade o nosso coco-de-roda.

Rodrigues da Carvalho, in Cancioneiro do Norte (1928), afirma ser o coco a “dança predileta do pessoal dos engenhos de açúcar, negros e caboclos, cambiteiros, o mestre de fornalha, o metedor de cana, o banqueiro [mestre que dá ponto ao açúcar], os tanjedores da almanjarra, etc.”. Mas na hora da alegria, onde a cachaça passa a dirigir os gestos e as ações, nem mesmo a autoridade está livre de uma roda de coco; como bem descreve Zé Dantas em gravação de Luís Gonzaga (RCA-Leme 801656A/1957):

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O seu delegado fez mais um esforço
E madrugada mandou um reforço
Mas desconfiado por não ter notícia
Veio ver o que houve, com a sua polícia
E de manhã cedo, a graça do povo
Era o delegado contando bem rouco
Nesse coco poliça num tem vez
Se acaba no pau, quem falá em xadrez } bis

Também ligados ao Ciclo Junino, particularmente aos seus intérpretes, estão hoje o baião, o xaxado, a toada, a embolada, a ciranda e a marcha sertaneja, ou marcha junina, esta última originária das marchas populares com as quais Lisboa festeja o seu Santo Antônio e que vieram a ser conhecidas, através das companhias de revista, como marcha portuguesa, a exemplo da marcha de Zé Dantas e Luís Gonzaga, São João na roça (RCA 800895A/1952):

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A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou… ô
Vamos gente!…
Rapa pé nesse salão.
………………………….

Ou esta outra marchinha, marca do romantismo das noites juninas, composta por Luiz Gonzaga e José Fernandes, Olha pro céu (Vitale 603326832), recentemente relançada na coletânea 50 anos de chão, em homenagem ao Rei do Baião:

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Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo…
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo…

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O coração
O céu estava
Assim em festa
Porque era noite
De São João
Havia balões no ar
Xote, baião, no salão
E no terreiro, o teu olhar
Que incendiou meu coração

Tudo acontece numa mistura de ritmos e de cores, num cadinho conhecido no passado por forrobodó, já neste século por forrobodança e a partir dos anos quarenta por forró, como lembra Zé Dantas in Forró do Mané Vito, gravado por Luís Gonzaga em 1949 (RCA 800668B/49) ser o local onde todos esses sons se misturam num grande baile popular.

Nas composições musicais do ciclo junino está toda moral do sertanejo, “Sertão das muié séria / Dos homi trabaiadô”… (A volta da asa-branca, toada de Zé Dantas, gravada por Luís Gonzaga, em 1950, RCA 800739 A) e a vida simples do seu povo:

Ai São João chegou,
Iaiá!
Ai São João chegou,
Sinhá!
Teu vestido de chita,
Já mandei preparar.
Minha roupa de lista,
Já mandei engomar,
Eu tenho uma festinha
Para te levar
Eu tenho uma fogueira,
Para o nosso lar

E hoje, o jovem romântico de ontem, pode lembrar com saudades aquelas noites juninas que não voltam mais, cantando aquele sucesso sempre atual, composto por Zé Dantas e Luiz Gonzaga em 1954, que leva o singular título de Noites brasileiras (RCA 801307 A):

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Ai que saudade que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão, ai, ai…

SANTO ANTÔNIO, O NOSSO MILAGREIRO

SANTO ANTONIO

O nosso Glorioso Santo Antônio, Padroeiro de Pernambuco, cuja data, por todos nós festejada no dia 13 do mês de junho, é segundo o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, o maior dos nossos milagreiros.

Segundo ele ainda hoje um historiador eclesiástico constata que “de todos os taumaturgos da igreja latina, nenhuma dispõe de clientela tão numerosa”; primado explicável pela sua função de santo do quotidiano, a quem se apelava nas dificuldades da vida diária, vezo que, aliás, o padre Antônio Vieira já criticava no Maranhão dos meados do século XVII.

“Muitos cuidam que se aproveitam das maravilhas de Santo Antônio, empregando a valia deste santo para o remédio das coisas temporais, e isto é desperdiçá-las.” E exemplificava: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se mandais a encomenda, Santo Antônio; se esperais o retorno, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo Antônio; e talvez se quereis os bens da alheia, Santo Antônio.” Além desta função de “paráclito universal”, que o fazia pau para toda obra.

Santo Antônio era sobretudo, como dizia o padre Vieira, um santo “deparador”, isto é, recuperador das coisas perdidas. “Deparar coisas perdidas é o gênio e a graça particular de Santo Antônio.” “Deus, como autor de todos os bens, é o que os dá; é o que os recupera.” Deus dera o Brasil aos portugueses; o flamengo herege usurpara-o; Santo Antônio lho restituiria. Em vista de devoção geral por Santo Antônio, era mister alistá-lo, mobilizando o ânimo tíbia da população luso-brasileira; e para tanto cumpria decifrar os signos da sua proteção sobrenatural à empresa.

Ao contrário da devoção a Nossa Senhora dos Prazeres, mas analogamente ao que se verifica em Nossa Senhora da Luz, a escolha de Santo Antônio pressupôs o seu culto no Pernambuco ante bellum; o êxito da ‘guerra da liberdade divina’ consolidará sua preeminência no imaginário religioso da capitania, ao conferir-lhe o cariz se santo militar.

TAMBÉM VEREADOR

Recentemente muita celeuma veio a ser causada por conta do soldo de vereador atribuído a Santo Antônio de Lisboa pela Câmara de Igarassu, fazendo honrar ao título que lhe foi concedido pelo Rei de Portugal ainda nos meados do século XVIII.

Tanta confusão por nada, vez que a tradição fez de Santo Antônio o santo mais popular de nosso país. Em Pernambuco foi o seu culto divulgado pelos frades franciscanos, já nos primeiros anos da colonização, ao fundarem em Olinda o primeiro convento em terras do Brasil (1585) e assim espalhar a devoção pelo santo lisboeta por todo Brasil.

Nascido em Lisboa, em 15 de agosto de 1195, e falecido na cidade italiana de Pádua, em 13 de junho de 1231, Santo Antônio tornou-se o orago mais popular do Brasil, onde possui 228 freguesias com a sua invocação. Em segundo lugar em popularidade viria São José, com 71 freguesias sob a sua proteção. Daí a afirmativa de Luís da Câmara Cascudo, in Dicionário do Folclore Brasileiro: “apesar de tanta bajulação e mudanças corográficas, o Brasil possui 70 localidades com o nome de Santo Antônio”.

No Recife a tradição do culto deste santo data de 1606, quando os mesmos franciscanos instalaram na então ilha de Antônio Vaz um convento sob a proteção de Santo Antônio, ainda hoje existente na Rua do Imperador e para onde aflui centenas de devotos em todas as terças-feiras do ano. Quando da elevação da então povoação à vila, em 19 de novembro de 1709, apesar de tentativa de eleger São Sebastião como padroeiro, numa bajulação flagrante ao governador Sebastião de Castro Caldas, o antigo “Povo dos Arrecifes” recebeu a denominação de Vila de Santo Antônio do Recife. A proteção do santo lisboeta foi mais tarde reconhecida pelo Papa Benedito XV, quando, em 12 de novembro de 1918, ao conceder o co-padroado da cidade a Nossa Senhora do Carmo, salientou ser “Santo Antônio o padroeiro principal”.

Por sua vez, a primitiva capitania de Pernambuco também tinha como padroeiro Santo Antônio de Lisboa, como bem demonstra Francisco Augusto Pereira da Costa, citando os estatutos da Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e Paraíba, aprovados em alvará de 13 de agosto de 1759, onde, no seu artigo 2º, declara que esta “usará de armas para os selos em que se veja na parte superior a imagem de Santo Antônio, padroeiro daquela capitania”.

Também no Recife tem Santo Antônio a sua carreira como militar, chegando a ser promovido ao posto de tenente de artilharia do forte do Buraco, em ato confirmado pelo rei D. João V, em 30 de abril de 1717, que lhe atribuía o soldo de 2$700 [dois mil e setecentos réis], a ser recebido pelos frades do seu convento. Um século mais tarde, os mesmos frades solicitaram do governador Luiz do Rego a promoção de Santo Antônio ao posto de sargento-mor. Em seu despacho, de 30 de agosto de 1819, aquele governador indeferia o pedido com base no fato de que, “sendo o santo oficial que nunca morre, hão de necessariamente chegar um dia a gozar debaixo deste título o soldo de marechal do Exército, do que mais poderem inventar e então serão sustentados [os frades] às custas da real fazenda, o que me não parece preciso”.

Na primeira quinzena de junho, nas primeiras treze noites, é o santo festejado. Nas cidades, ou na zona rural, os seus fiéis estão a cantar a trezena que nós, desde pequenino, nos acostumamos a ouvir.

Milagroso Antônio
Nosso Padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro

IOLANDA & ZÉDANTAS, A PARCERIA DO BEM-QUERER

Iolanda Dantas – 86 anos

Nestas festas do juninas de 2017, a musa maior do compositor José de Souza Dantas Filho (1921-1962) não se encontra entre nós; partiu para a eternidade em dois de janeiro passado aos 86 anos no Rio de Janeiro.

Dona Iolanda Dantas é hoje mais uma estrela que brilha em nosso céu. Foi ela a musa e inspiração maior do Zedantas, como gostava de ser chamado o mais importante parceiro da trajetória musical de Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989).

Para Dona Iolanda o Zedantas apaixonado escreveu Letra I (1953); Vem morena; Sabiá e uma tantos outros sucessos que marcaram as nossas festas juninas.

Dona Iolanda morreu aos 86 anos, numa segunda-feira, 2 de janeiro de 2017, no Rio de Janeiro, onde encontrava-se internada numa clínica médica da Tijuca, tendo o seu corpo sido cremada e suas cinzas transportadas para o Recife onde se encontram junto aos restos mortais de seu grande amor: José de Souza Dantas Filho, o nosso Zedantas poeta maior do nosso cancioneiro regional.

Segundo a bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco José de Souza Dantas Filho, conhecido como Zé Dantas ou Zedantas, como costumava assinar, nasceu no município de Carnaíba de Flores, Sertão do Alto Pajeú de Pernambuco, no dia 27 de fevereiro de 1921.

Ainda criança, mudou-se para o Recife para estudar e tornar-se médico, como queriam seus pais, pertencentes à burguesia rural nordestina. Foi aluno dos colégios Nóbrega, Americano Batista e Marista.

Em 1938, aos 17 anos, já compunha xotes, baiões e toadas, chegando a publicar alguns na Revista Formação, editada pelo Colégio Americano Batista.

Segundo depoimento do folclorista Mário Souto Maior, seu colega no Marista, Zedantas vivia batucando numa caixa de fósforos e criando músicas de improviso, pelos corredores do Colégio.

Durante a época em que era estudante de Medicina, para desespero do seu pai, tornou-se um boêmio. Passava noites em bares dos subúrbios da cidade, fazendo versos, cantando e desenvolvendo sua criatividade musical.

Em 1947, quando ainda estudava Medicina, já com certa fama de artista “improvisador” e compositor no meio universitário recifense, descobriu que o cantor e compositor Luiz Gonzaga, de quem era grande admirador, estava no Recife, hospedado no Grande Hotel.

Conseguiu entregar-lhe algumas composições suas, entre as quais era provável que estivessem Vem morena e Forró do Mané Vito, que foram gravadas por ele em 1949; A volta da asa branca e Acauã, gravadas respectivamente em 1950 e 1952.

Em dezembro de 1949, formou-se em Medicina, pela então Universidade do Recife. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, então a capital da República, para fazer residência médica em obstetrícia. Trabalhou no Hospital do IPASE, onde chegou a ser Vice-Diretor da Maternidade; atendia em seu consultório, como ginecologista, mas continuou investindo na sua carreira de compositor. Foi, ainda, diretor do programa O Rei do Baião, da Rádio Nacional e do Departamento Folclórico da Rádio Mayrink Veiga.

Casado com Iolanda Simões, em 26 de junho de 1954, a quem dedicou o baião “Letra I”, Zé Dantas foi pai de Sandra, Mônica e Zé Dantas Neto, merecendo essas recordações.

Zé Dantas era um homem maravilhoso, pai carinhoso e amigo dos seus amigos. (…) Todos sentimos muito orgulho dele e hoje, sua neta Marina Elali revive sua obra, cantando baiões do vovô Zé Dantas – com destaque para Sabiá; O Xote das Meninas.

Falecendo aos 41 anos, em onze de março de 1962, coube a sua mulher, Iolanda Dantas, educar os três filhos e se transformar na sentinela e guardiã de sua obra.

Assim eu a conheci, na luta em favor da preservação da memória de Zé Dantas, ainda dos anos de 1986, quando da edição do livro de Sinval Sá, O Sanfoneiro do Riacho da Brígida, que surgira em 6ª edição, “numa edição gorda”, segundo ironizava o próprio Luiz Gonzaga, trazendo o Cancioneiro de Zé Dantas, dentro da Coleção Pernambucana – 2ª Fase, com estudo introdutório de minha autoria.

Por essa época Dona Iolanda estava formando o seu filho, José de Souza Dantas Neto, em Medicina, pela Universidade do Rio de Janeiro, e a mim coube mandar apertar o anel de formatura, que pertencera ao próprio Zé Dantas, tarefa por mim confiada ao ourives Olegário Barreto, que tinha sua oficina na Rua da Concórdia.

O tempo passou, a amizade foi crescendo, era Iolanda irmã de meu amigo Manuel Simões, quando chega às minha mãos os originais de Mundicarmo Ferretti, com o título: “Na batida do zabumba, no balanço do forró”.

Com o consentimento de sua autora, optamos por um novo título “Baião dos dois – A música de Zedantas e Luiz Gonzaga no seu contexto de produção e sua atualização na década de 70”, que veio ser lançado com prefácio de minha autoria em 1988, pela Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco.

Nas nossas longas conversas tudo girava em torno do “Zé”, como se referia ela ao seu grande amor.

Passei a ser um dos vigilantes da sua memória, sempre chamando a atenção daqueles que teimavam em omitir o nome de Zé Dantas de suas interpretações, para isso sempre contando com o apoio dos amigos Toinho Alves e Marcelo Melo, do Quinteto Violado, e do próprio Luiz Gonzaga, que veio relançar o LP gravado em 1959 e relançado em 1970, Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zedantas, seguindo-se em 1962 da composição de Antônio Barros, Homenagem a Zé.

CAPELA DO BRENNAND COMPLETA TRÊS ANOS…

Em terras da Várzea do Capibaribe, no primitivo Engenho e depois Usina São João da Várzea (séc. XVII), o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido OSB, presidiu em maio de 2014 a bênção da Capela de Nossa Senhora das Graças em área do Instituto Ricardo Brennand.

Mandada construir pelo industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand e sua mulher Graça Maria Monteiro Brennand, a nova capela passou a ser a preferida das noivas do Recife e centro devocional da paróquia da Várzea.

Em estilo gótico o templo tem o projeto de Augusto Reinaldo Alves Filho, design técnico de Edgar Ulysses de Farias Filho, talhas e carpintaria do Mestre Nido (Eronildes José Carlos Honorato), imagem central de Elias Sultanum, rosáceas de Sérgio Mantur, catorze anjos de autoria do artista Ricardo Cavani Rosas, vitrais de Suely Cisneiros Muniz, iluminação de Regina Coeli de Barros e Mohana Barros, além de outros artistas que contribuíram para a beleza do singular conjunto.

Com o seu altar originário do barroco espanhol (séc. XVII?), trazendo cenas e entalhes policromados retratando cenas da vida de Santo Isidoro Lavrador (1070-1130), padroeiro da cidade de Madri, tendo ao centro a imagem de Nossa Senhora das Graças, padroeira da nova capela.

O novo templo dispõe de 15 x 40 m. de área e 21 m. de altura, espaço para 500 pessoas (300 sentadas), estando inserida em uma área ajardinada de 10 mil metros quadrados, com 200 vagas no estacionamento, cercada de lagos e conjunto escultórico em mármore.

A capela hoje integrante da Paróquia da Várzea, vem se prestando para solenidades religiosas, bem como atividades outras, coordenadas por aquela instituição.

O principal centro de congraçamento cultural da cidade do Recife em nossos dias é o Instituto Ricardo Brennand. Neste mês de setembro de 2014, o novo centro cultural de nossa cidade estará comemorando doze anos de atividades, com uma frequência de público acumulada em 2.001,534 visitantes, segundo a contagem registrada neste domingo.

Originário do sonho do industrial pernambucano Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, o Instituto foi inaugurado em 13 de setembro de 2002, quando da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil 1644-2002, para a qual foram trazidas do Museu da Dinamarca 28 grandes telas daquele pintor holandês, que esteve em Pernambuco entre 1637 e 1644, quando do governo do conde João Maurício de Nassau-Siegen.

Ocupando uma área de 30.000 metros quadrados, em terras do primitivo Engenho de São João da Várzea, o Instituto Ricardo Brennand reúne um complexo cultural formado pelo Castelo de São João, Pinacoteca, Biblioteca, Galeria, Parque de Esculturas e jardins.

A instituição é detentora de uma das maiores coleções particulares de armas brancas do mundo e de um notável acervo de pinturas e objetos do Brasil Holandês (1630-1654). O rico acervo é acrescido de uma coleção de quadros, retratando a paisagem brasileira do século XIX; móveis, esculturas e antiguidades, o que torna o local mais procurado pelos recifenses e visitantes que chegam ao Recife.

Sua média de frequentadores, nos últimos dois anos, atingiu a cifra de 150.000 visitantes a cada ano. Para um centro cultural distante catorze quilômetros do centro do Recife, a sua frequência surpreende até aos mais otimistas. Particularmente quando comparada com a visitação anual de alguns dos mais importantes museus brasileiros, como MASP – São Paulo (230.000), Museu de Arte Moderna de São Paulo (210.000) e Museu da Inconfidência de Ouro Preto (100.000).

Erguido sobre uma colina terciária, cercado por árvores frutíferas e exemplares da Mata Atlântica, o conjunto é contornado por lagos e criadouros de aves, ostentando na sua entrada uma imponente portada em cantaria, originária da França, ladeada por dois monumentais leões esculpidos em mármore; oriundos do Palácio Monroe (Rio de Janeiro).

Dominando os seus jardins o visitante encontrará uma réplica em dimensões originais do Davi de Michelangelo (1508), escultura em mármore de Carrara pesando sete toneladas, com 7,15 metros de altura total, confeccionada no ano de 2000 pelo estúdio de Franco Cervietti de Pietra Santa (Itália). Mais adiante se destaca a escultura original do artista colombiano Fernando Botero (1932), A Mulher no Cavalo, confeccionada em bronze que aparece junto de outras peças esculpidas em mármore e/ou fundidas em ferro e bronze procedentes das mais diversas coleções europeias.

Uma réplica de um castelo gótico-tudor foi especialmente construída pelo seu fundador, para abrigar uma das mais importantes coleções particulares de armas brancas medievais do mundo. Nele encontra-se guardado um conjunto de cerca de 5.000 peças de diversas procedências: facas, espadas, adagas, canivetes, estiletes e 50 armaduras completas (duas delas para criança e uma para cachorro). Deste acervo destacam-se os conjuntos, em tamanho original, de cavalo-cavaleiro-com-armadura, no estilo italiano, do século XVI, que estão a despertar a atenção de leigos e estudiosos, juntamente com a grande quantidade de curiosidades outras dos séculos XV ao XIX.

No mesmo recinto chama a atenção o mostruário da Cutelaria de Joseph Rodgers de Sheffield (Inglaterra), originária do século XVIII. Um notável conjunto de armas e armaduras orientais ocupa outra área com exemplares procedentes de países islâmicos do oriente e outra parte da Índia, compreendendo espadas e adagas, escudos e cotas de malhas da Dinastia Mongol.

Também no Castelo de São João encontra-se em exposição preciosos exemplares das espadas de cerimonial, folheadas a ouro e cravejadas com diamantes; vitrais e mobiliário gótico de várias procedências, que se misturam com esculturas clássicas, em mármore e bronze, candelabros, tapetes, dentro de um cenário medieval hoje integrante da paisagem urbana do Recife.

Por vinte e quatro anos, entre 1630 e 1654, o Nordeste do Brasil foi ocupado pelos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, que fixaram no Recife a sua capital. Dentro deste período, entre 1637 e 1644, foi o Brasil Holandês governado pelo nobre alemão João Maurício de Nassau-Siegen que se fez acompanhar da primeira comitiva de cientistas, artistas e homens de letras a cruzar a linha do equador.

Dentre os artistas da corte deste príncipe renascentista destacava-se a figura o pintor Frans Post (1612-1680), que veio a ser o primeiro da escola flamenga a registrar nas telas e em gravuras a paisagem do Brasil no século XVII. Através de seus quadros, os europeus puderam pela primeira vez visualizar as imagens de um Brasil real, antes somente descrito através de cartas e relatos dos viajantes.

Dos 163 quadros pintados por Frans Post, hoje espalhados pelo mundo, o Instituto Ricardo Brennand reúne vinte deles, constituindo-se na maior coleção deste pintor reunida em um só local. Dentre as raridades do conjunto, encontra-se uma tela retratando o Forte Frederick Hendrick com a ilha de Antônio Vaz à distância (61,6 x 88,9 cm.); datada de 1641, sendo uma das sete pintadas no Brasil.

Além de Frans Post, a coleção ostenta dois importantes quadros do pintor italiano Antônio Canal (1697-1768), que passou para a história das artes conhecido pelo apelido de O Canaletto. Trata-se de duas cenas da cidade de Veneza, A Praça Maior com a basílica de San Marco e O Grande Canal com a igreja de Nossa Senhora da Saúde.

No âmbito da arte brasileira, a produção dos pintores-viajantes, chegados ao Brasil após a Abertura dos Portos (1808), juntamente com a de artistas da Academia Imperial do Rio de Janeiro, bem como de representantes do Neoclassicismo e Impressionismo nos séculos XIX, tem ali um especial destaque na sala dedicada A Paisagem Brasileira.

Para a realização de grandes eventos e exposições temporárias, o Instituto Ricardo Brennand dispõe de uma suntuosa galeria, na qual se encontra exposta a réplica autorizada d’ O Pensador, obra de Auguste Rodin, concluída em 1904.

Integra ainda o conjunto um auditório para 100 pessoas e uma biblioteca com 45.000 volumes, localizada no prédio anexo à Pinacoteca, com especial enfoque para a história colonial brasileira, destacando-se o período Brasil-Holandês (1630-1654) e a História do Açúcar.

O Instituto Ricardo Brennand tem como principal objetivo a educação pela arte e, para isso, vem mantendo, especificamente, programas de caráter educativo voltados para crianças e jovens do Recife e de outras cidades do Nordeste.

Quando se indaga do industrial Ricardo Brenannd o segredo do sucesso de sua obra, demonstrado pelas contínuas romarias de visitantes, originários das mais diferentes regiões do país e, em particular, das mais diversas camadas da população do Grande Recife, ele explica tudo com um sorriso bonachão e um verso do poeta português Fernando Pessoa: Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.

RICARDO BRENNAND, O CONSTRUTOR DE SONHOS.

Neste 27 de maio passado, o industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, completará 90 anos de existência, notabilizando-se, não somente como um construtor de fábricas (19 projetadas e modernizadas), mas também no grande criador do Instituto Ricardo Brennand, a sua Cidade dos Sonhos, que hoje se destaca como um dos mais importantes museus do Brasil.

Tudo começa quando ele, ainda muito jovem, inicia a sua coleção de armas brancas. Durante toda a sua vida e em todas as suas viagens aos mais diferentes continentes, foi ele formando a sua própria coleção de armas brancas, reunindo espadas, facas, alabardas, lanças, escudos, punhais, adagas, armaduras (para cavalos e cavaleiros), balestras, elmos, arcabuzes, espingardas, mosquetes, carabinas, pistolas de duelo, milhares de canivetes, uma singular armadura para cachorro, quadros e esculturas de procedências diversas, além de curiosidades; como as espadas de cerimonial do Rei Faruk I do Egito, folheadas a ouro e cravejadas por brilhantes.

Antes da criação do instituto, armas brancas não só da Europa, mas do Oriente, como as procedentes da China, Japão, Índia (verdadeiras joias da cutelaria mongol), do Nepal, da Oceania, integravam um pandemônio de peças que se espalhava pelos diversos cômodos de sua residência em São João da Várzea.

No início do século XXI, capitalizado com a venda de três fábricas de cimento do Grupo Brennand – Cimento Atol, nas Alagoas; Cimento Goiás, em Cesarina, e a CIMEPAR, na Paraíba -, que juntas produziam 2,5 milhões de toneladas/ano, Ricardo Brennand pensou em tornar realidade um antigo sonho; o de reunir no mesmo local todas as peças de sua monumental coleção.

Através de traços rabiscados com uma caneta vermelha, ele ia criando algo semelhante a um castelo medieval, como aqueles que despertaram a sua atenção quando de suas visitas ao Vale de Loire (Vallé de la Loire), na França.

Desejava Ricardo Brennand tão somente um cenário de época que servisse de fundo para exposição e guarda de suas peças seculares.

Um castelo construído no estilo Tudor; o mesmo estilo que dominou a arquitetura inglesa entre 1585 a 1603, tão presente nos prédios das Universidades Cambridge e Oxford, que remontam os primeiros tempos do neogótico.

Não mais pensamentos ou hipóteses, mas um castelo medieval na Várzea do Capibaribe, com todo o seu impacto, nuances, particularidades e mistérios, que pudesse abrigar a sua incomparável coleção de armas brancas em grande parte constituída de verdadeiras joias da cutelaria universal.

A tarefa de transformar o sonho em realidade foi entregue à firma Augusto Reinaldo Arquitetura e Desenho, cujo titular entregou-se de corpo e alma à ideia.

Para isso viajou ele à Europa numa temporada de observação aos monumentos do Vale de Loire, bem como de outros recantos da França, a fim de adquirir restos de demolição de antigos castelos a serem aplicados na construção do novo Castelo de São João.

Concluída a sua viagem de observação, Augusto Reinaldo vai ao encontro de Ricardo Brennand, no Hotel Ritz de Paris, levando em mãos uma coletânea de fotografias documentando 23 castelos do Vale do Loire, com detalhes que ele gostaria de repetir no Castelo de São João da Várzea; inclusive a portada de entrada esculpida em pedra, originária de um castelo francês.

Em sua viagem, Augusto Reinaldo foi aconselhado a visitar a pequena comunidade de Houdan (2.912 habitantes), nas cercania de Paris, onde adquiriu 19 peças de demolição que vieram ser aplicadas no Castelo de São João, como ele próprio relata: “todas restos de castelos medievais, como algumas janelas, telhado tipo de pombal, os dois portais de pedra, o piso, a escada, a balaustrada da varanda do primeiro andar, além de outras que ficaram guardadas para futuras construções”.

A construção do Castelo de São João prolongou-se por mais de dois anos, dando origem a um edifício de 7000 metros quadrados, destinado a guarda de toda a notável coleção de armas, passando a se destacar na paisagem da Várzea do Capibaribe pela imponência do seu estilo incomum.

Concluído o Castelo de São João, Ricardo Brennand acresce a área construída do seu instituto, com um novo espaço com 1.200 m.² destinado a uma Pinacoteca. O novo prédio viria abrigar a exposição da coleção dos quadros do pintor Frans Post (1612-1680), todo acervo do Brasil Holandês, bem como da nova exposição temporária dos 28 quadros da mostra itinerante Albert Eckhout volta ao Brasil – 1644-2002, trazida especialmente do Museu Nacional da Dinamarca.

A inauguração desta Cidade dos Sonhos acontece em 12 de setembro de 2002, com as presenças, além do casal Ricardo (Graça) Brennand, do Príncipe Herdeiro Frederik da Dinamarca; vice-presidente da República do Brasil, Marco Maciel; governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, dentre outras autoridades, culminando com a abertura da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil 1644-2002.

A mostra reunia pela primeira em terras brasileiras 28 grandes quadros daquele pintor holandês, alguns em grandes dimensões (168 x 294 cm.), produzidos entre 1637 e 1644 em Pernambuco, época em que o artista esteve a serviço do conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen, exercia o posto de Governador do Brasil Holandês.

Na noite da inauguração uma multidão de mais de 5000 pessoas tomou conta dos caminhos que levavam ao Instituto Ricardo Brennand, localizado em terras do primitivo Engenho São João que, no século XVII, fora propriedade de João Fernandes Vieira, principal líder o movimento da Insurreição Pernambucana (1645-1654).

Nos seus primeiros três meses de atividades, o Instituto Ricardo Brennand registrou a frequência de 164.419 pessoas, em grande parte motivadas pela exposição inaugural Albert Eckhout volta ao Brasil 1637-2002.

Com a abertura do seu Instituto Ricardo Brennand, ele veio se transformar no construtor de sonhos, figura conhecida em toda região, para alegria e deleite dos 2.480.000 visitantes que, durante os últimos quinze anos, visitaram o seu empreendimento em terras de São João da Várzea.

Hoje, aos noventa anos, olhando para o seu instituto, ele pode exclamar como o poeta Carlos Pena Filho:

… é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Foto do colunista

REPÚBLICA DE 1817 É LEMBRADA PELO SENADO

Exmos Senadores Humberto Costa e Cristovam Buarque, ilustres membros, companheiros estudiosos de 1817, meu amigo Rubem Amaral Júnior, Embaixador, que aqui veio prestigiar a nossa fala, fala esta que vai de todo à gratidão, à gratidão ao Senador Humberto Costa, que teve a iniciativa de festejar, lembrar e proclamar os feitos da Primeira República do Brasil, a República de 1817. Portanto, o meu agradecimento pessoal, como pernambucano.

Mas eu tomo para mim, neste início de fala, as palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, quando ele, no poema Pergunta a Joaquim Cardozo, interroga:

É que todo o dar ao Brasil
de Pernambuco há de ser nihil?
Será que o dar de Pernambuco
é suspeitoso porque em tudo
sintam à distância, o pé atrás,
insubserviente de quem já foi mais?

Meus amigos, o que hoje se comemora foi um comportamento permanente dos pernambucanos.

Muito antes do iluminismo, existia um sentimento de autonomismo em Pernambuco, sentimento este que se encontra presente até nos dias atuais.

Quem nasce em Pernambuco – desculpem a imodéstia – tem sempre um queixo levantado, tem sempre um orgulho muito grande de ser pernambucano.

Não é à toa que o símbolo dos revolucionários de 1817 está nas cabeças, nas camisas dos pernambucanos, que é a nossa bandeira, proclamada, outorgada pelos revolucionários de 1817, desenhada pelo Padre João Ribeiro Pessoa Montenegro e ressurgida pelo Governador Manuel Borba.

O pavilhão azul e branco encontra-se sempre nas cabeças de todos aqueles que, em plena festa de Carnaval, estão a demonstrar o seu orgulho; se vão para um campo de futebol, levam uma bandeira de Pernambuco.

Portanto, estamos diante do sentimento de autonomismo ainda hoje presente em Pernambuco.

Das antigas províncias formadoras do Território nacional, nenhuma deu maior número de mártires do que Pernambuco, haja vista a imensa lista de condenados à morte que nós herdamos de 1710, de 1817, de 1824, de 1848.

Numa consulta à história de Pernambuco, veremos que todos esses movimentos foram gerados do orgulho nativista dos restauradores de 1654.

Com uma mesma ideologia, de que os antepassados pernambucanos conquistaram toda a região do Nordeste do Brasil, da foz do São Francisco até o Maranhão, fora conquistada pelos seus antepassados.

Como diria o Padre Antonio Vieira, sós, pelejando com suas relíquias, Pernambuco conquistou todo aquele território, em batalhas de 1648 e 1649, com a expulsão dos holandeses em 1654. Com tal conquista doaram todo aquele território – que hoje é o Nordeste brasileiro – ao El-Rei de Portugal, à suserania da Coroa Portuguesa, mas debaixo de certas condições, a condição do autonomismo. E essa doutrina nos segue, nos persegue, nos impregna até os dias atuais.

Então, toda vez que Pernambuco se achava ferido no seu autonomismo, ele se manifestava através de uma revolta armada, como a que aconteceu com a República de Olinda, de 1710, chefiada por Bernardo Vieira de Melo, seus filhos e irmãos.

Nela, o governador português, Sebastião de Castro Caldas, se refugiou na Bahia, deixando no governo da capitania o bispo de Olinda, mas logo depois veio o outro governador.

O novo Governador português Félix José Machado de Mendonça – sucedendo a Sebastião de Castro Caldas – resolveu acusar os pernambucanos de tentarem uma rebelião contra a família do próprio governador e, com isso, mandou encarcerar todos os que tiveram destaque no movimento de 1710 e os envia para Lisboa, trancafiando-os na prisão do Limoeiro.

Nos cárceres, os prisioneiros pernambucanos, com o tempo, vão desaparecendo pelas mortes mais misteriosas, como se pode comprovar nos atestados do Livro de Óbitos da Paróquia de São Martinho. Um a um, vão morrendo e, quando chega o perdão real da Coroa, já não havia mais ninguém para perdoar, todos já haviam morrido.
Graças a tais certidões de óbito, pudemos comprovar o dia da morte da cada um dos nove que pereceram na prisão.

Observa José Antônio Gonsalves de Mello que a interligação de um ideário de liberdade dos pernambucanos remonta “à vitória sobre os holandeses e se renova não só em 1710, aqui referido, como ainda em 1817, em 1824 e em 1848. Dentro dessa linha de reivindicações, aqueles que pagaram então com a vida, nas celas do Limoeiro, seu ideal político de participação no governo de sua terra estão na companhia de outros mártires pernambucanos como o Padre João Ribeiro, o Frei Caneca e o Desembargador Nunes Machado”.

No século XVIII, por conta das ideias dos filósofos iluministas da segunda metade, veio a ser gerado, entre os estudantes de Pernambuco, um ideário liberal, um ideário republicano.

Essas ideias vieram a ser propagadas não só por aqueles estudantes de Coimbra e de Lisboa, cujos processos consegui ler detidamente.

Alguns deles tomaram parte ativa na Revolução de 1817, como é o caso do nosso Antônio Morais Silva, autor do primeiro Dicionário da Língua Portuguesa.

No século XVIII, as ideias daqueles iluministas foram divulgadas pelos seminaristas do então Seminário de Olinda, criado em 1799, e pelas lojas maçônicas, que já se faziam presentes no Recife.

Tais ideias passaram para uma revolta armada, eclodida no dia 6 de março de 1817, quando era proclamado um governo de caráter republicano, com representação dos militares, do clero, da magistratura, do comércio e dos senhores rurais.

Por um curto período de dois meses e meio, viveu-se naquela capitania um regime republicano, regido por uma Constituição, chamada de Lei Orgânica, que, sob a orientação de um Conselho de Estado, regulava a representatividade de classes, a independência da magistratura, a imprensa livre e outros direitos até então desconhecidos entre nós.

A Coroa Portuguesa logo combateu a revolta a ferro e fogo, levando à prisão centenas de patriotas, como eram chamados, nas cadeias do Recife e de Salvador.

Dessa lista, 13 presos foram condenados à morte, quatro foram fuzilados em Salvador, e nove foram enforcados no Recife, sendo depois seus corpos esquartejados; com suas cabeças separadas do corpo, juntamente com seus membros. Os troncos eram amarrados às caudas dos cavalos e arrastados até o cemitério.

Esses troféus de cabeça e dos quatro membros eram colocados em pontos previamente determinados.

Morreram, como consequência direta no envolvimento da Revolução de 1817, na atual Praça da República, no centro do Recife, que veio a ser chamada de Campo da Honra, em 8 de julho de 1817, os Capitães Domingos Teotônio Jorge e José de Barros Lima, além dos mártires Antônio Henrique Rabelo, Amaro Coutinho, José Peregrino Xavier de Carvalho, Inácio de Albuquerque Maranhão e o Padre Antônio Pereira de Albuquerque.

Na Bahia, foi executado por fuzilamento, no Campo da Pólvora, o Padre José Ignácio de Abreu e Lima (Padre Roma), em 29 de março de 1817, seguindo-se dos patriotas Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça e o Padre Miguel Joaquim de Almeida (Frei Miguelinho), em data de 12 de junho de 1817.

Discurso proferido em sessão especial do Senado Federal no dia 8 de maio de 2017

A PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA

A única revolução brasileira digna desse nome e credora de entusiasmo pela feição idealista que a distinguiu e lhe dá foros de ensinamento cívico, e pela realização prática que por algum, embora pouco, tempo lhe coube. Eu lhe disse uma vez que foi instrutivo pelas correntes de opinião que no seu seio se desenharam, atraente pelas peripécias, simpática pelos caracteres e tocante pelo desenlace. Foi um movimento a um tempo demolidor e construtor, como nenhum outro entre nós e como nenhuma outra em grau superior, na América espanhola. (Manuel de Oliveira Lima)

Em março de 1817, um observador estrangeiro, o comerciante francês Louis François de Tollenare (1780-1853), que residia no Recife no Largo do Paraíso, foi testemunha presencial dos acontecimentos e registrou nos seus apontamentos, depois publicados em livro com o título de Notas Dominicais, por Alfredo de Carvalho (Recife: Jornal do Recife, 1905)¹

Escrevendo no domingo, 9 de março de 1817, observa que na data de 6 do mesmo mês, “teve lugar uma revolução bem inesperada. O estandarte da independência foi levantado; as tropas colocaram-se em volta dele. O governador, assim traído, viu-se forçado a refugiar-se em um forte, ali capitular e acaba de embarcar para o Rio de Janeiro.”

Dos quartéis às ruas, foi apenas questão de tempo. Os sinos das igrejas tocavam rebate (sinal de alarme); o enviado do governador fora morto a tiros; um jovem tenente de Artilharia, Antônio Henriques, dirigiu-se à cadeia a fim de libertar Domingos José Martins e demais presos comuns que ali se encontravam, enquanto o capitão Manuel D’Azevedo entrava em negociações para soltura dos oficiais recolhidos à Fortaleza das Cinco Pontas.

O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro recolheu-se ao Forte do Brum, com seus familiares e demais oficiais, enquanto caíam os últimos redutos da resistência, com a rendição das tropas comandadas pelo marechal José Roberto Pereira da Silva que guarneciam o Campo do Erário (hoje Praça da República), às 16 horas do mesmo dia.

Destacamento comandado pelo tenente José Mariano foi enviado a Olinda e no dia seguinte os 800 milicianos de Domingos Teotônio Jorge fizeram o cerco da Fortaleza do Brum. Um ultimatum, assinado por Domingos Teotônio Jorge, padre João Ribeiro e Domingos José Martins, foi levado pelo advogado José Luiz de Mendonça ao governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro exigindo imediata rendição.

As condições foram logo aceitas pelos oficiais portugueses e governador, ali recolhidos, e a rendição foi de pronto assinada, enquanto os revoltosos providenciavam o transporte dos presos e familiares para o Rio de Janeiro.

Com gritos de regozijo pela vitória, os oficiais revoltosos retiraram das barretinas e dos pavilhões as insígnias do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, sendo o gesto seguido pela soldadesca. Uma bandeira toda branca veio a surgir, no meio da tropa, substituindo a real.

As tropas e o povo marcharam para o Campo do Erário [Praça da República], onde foram escolhidos os eleitores para a nomeação do novo governo, sendo posteriormente lavrado o seguinte termo:

Nós, abaixo assinados, presentes para votarmos na nomeação de um governo provisório para cuidar na causa da pátria, declaramos à face de Deus que temos votado e nomeado os cinco patriotas seguintes: da parte do eclesiástico, o Patriota João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro; da parte militar, o patriota capitão Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa; da parte da magistratura, o patriota José Luiz de Mendonça; da parte da agricultura, o patriota coronel Manuel Correia de Araújo; e da parte do comércio, o patriota Domingos José Martins e ao mesmo tempo todos firmamos esta nomeação, e juramos de obedecer a este governo em todas as suas deliberações e ordens. Dado na Casa do Erário, às doze horas do dia 7 de março de 1817. E eu Maximiano Francisco Duarte escrevi. Assinados – Luís Francisco de Paula Cavalcanti – José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima – Joaquim Ramos de Almeida – Francisco de Brito Bezerra Cavalcanti de Albuquerque – Joaquim José Vaz Salgado – Antônio Joaquim Ferreira de S. Paio -Francisco de Paula Cavalcanti – Felipe Néri Ferreira – Joaquim da Anunciação e Siqueira -Tomás Ferreira Vila Nova – José Maria de Vasconcelos Bourbon – Francisco de Paula Cavalcanti Júnior – Tomás José Alves de Siqueira – João de Albuquerque Maranhão – João Marinho Falcão.

A essa junta agregou-se um Conselho, formado pelos notáveis da nova república, que incluíam o desembargador Antônio Carlos de Andrade (irmão de José Bonifácio Andrade e Silva), o dicionarista Antônio Moraes Silva e o Deão da Sé, Dr. Bernardo Luís Ferreira Portugal.

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MONUMENTO AOS MÁRTIRES DE 1710, 1817 E 1824

Das antigas províncias formadoras do território nacional, nenhuma contribuiu com o maior número de mártires em favor da causa da liberdade do que Pernambuco, haja visto a imensa lista de condenados à pena capital nos movimentos emancipacionistas de 1710, 1817 e 1824.

Numa consulta à História de Pernambuco, veremos que todos os movimentos emancipacionistas aqui originários estavam inspirados no orgulho nativista dos Restauradores de 1654.

Uma mesma ideologia, a de que os antepassados pernambucanos conquistaram esta terra aos holandeses e que doaram a El-Rei de Portugal debaixo de certas condições, se repete ao longo de todas as revoluções e vem explicar o ideal republicano da gente de Pernambuco. Esse comportamento é uma constante em quase todos os movimentos revolucionários como bem observou Evaldo Cabral de Mello, uma espécie de doutrina das relações entre a Capitania e a Coroa.

Falta a essa legião de mártires o reconhecimento da gente pernambucana que, até o momento, em que pesem às comemorações pelo transcurso do segundo centenário da Revolução de 1817, ainda não tiveram os seus nomes gravados em um grande bloco de granito a ser colocado na Praça da República.

Assim sendo, estamos propondo a construção deste Monumentos aos Mártires da Pátria, constituído de um bloco de granito de cinco metros, inclinado sobre o jardim central da Praça da República, no qual, em sua face polida, sejam talhados os respectivos nomes dos que deram a vida pela causa da liberdade, de modo a ser conhecidos e reverenciados pelas gerações do presente e do futuro.

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OS FRUTOS DO IDEÁRIO LIBERAL DE SEIS DE MARÇO DE 1817

Derrotada a iniciativa de implantar, pela primeira vez, um regime republicano em terras brasileiras, o ideário de liberdade dos patriotas de 1817, ficaram adormecidos. Os heróis de então foram enforcados e/ou arcabuzados, com seus corpos mutilados depois de mortos, enquanto pais de famílias eram seviciados nos interiores das masmorras do Recife e de Salvador e os lares eram desonrados.

Segundo o padre Dias Martins, autor do livro Os Mártires Pernambucanos – vítimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas em 1710, 1817 e 1824 (Recife, 1853), a lista dos denunciados nesses movimentos somam o número de 628.

Todavia a chama da liberdade, permaneceu bem viva no espírito da gente de Pernambuco, que voltou a se manifestar em 1821.

Neste ano, a 29 de agosto, teve início um movimento armado contra o governo do capitão general Luiz do Rego Barreto, culminando com a formação da a Junta de Goiana, tornando-se vitorioso com a rendição das tropas portuguesas em capitulação assinada a 5 de outubro do mesmo ano, quando da Convenção do Beberibe, responsável pela expulsão dos exércitos portugueses do território de Pernambuco.

Tal episódio veio separar, definitivamente, a capitania de Pernambuco do Reino de Portugal; onze meses antes da proclamação da Independência do Brasil pelo Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança, em 7 de setembro de 1822.

Nota-se porém, pelo acompanhamento do “seu simpático caminhar” que, em todos os movimentos emancipacionistas originários de Pernambuco, o que se vislumbra é o orgulho nativista dos Restauradores de 1654.

Uma mesma ideologia, a de que os antepassados pernambucanos conquistaram esta terra aos holandeses e que doaram a El-Rei de Portugal debaixo de certas condições, se repete ao longo de todas as revoluções e vem explicar o ideal republicano da gente de Pernambuco. Esse comportamento é uma constante em quase todos os movimentos revolucionários como bem observou Evaldo Cabral de Mello, uma espécie de doutrina das relações entre a Capitania e a Coroa.

Segundo tal interpretação, passou a ser doutrina entre os pernambucanos, ao longo dos séculos que se sucederam, o entendimento de que:

A gente da terra deveria à Coroa não a vassalagem ‘natural’ a que estariam obrigados os habitantes do Reino e os demais povoadores da América Portuguesa, mas uma vassalagem de cunho contratual, de vez que restaurada a capitania, haviam-na espontaneamente restituído à suserania portuguesa¹.

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A TRÁGICA VIAGEM DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Numa sala de aula, diante da pergunta – Quem descobriu o Brasil?

E qualquer criança responde com precisão: Pedro Álvares Cabral!

Ao que a professora complementa:

No dia 22 de abril do ano de 1500.

A verdadeira história, porém, nos seus meandros de grandeza e tragédias, só os versos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) podem melhor enunciar:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por que te cruzamos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nossos, ó mar!

Na década final do século XV, graças aos informes seguros trazidos pelo navegador Duarte Pacheco (1460-1533), D. Manuel I, O Venturoso, resolve consolidar o chamado Caminho das Índias, descoberto por Vasco da Gama (c.1469-1524), em 1498, iniciando a exploração das terras desconhecidas ao sul do Equador.

Para isso vem constituir uma grande esquadra formada por seis naus, três caravelas redondas, uma nau mercante, uma naveta de mantimentos, acrescida da nau-capitânia e da sota-capitânia, cujo comando, por carta régia de 15 de fevereiro de 1500, sob o comando de Pedro Álvares de Gouveia, depois Pedro Álvares Cabral, com o falecimento do seu irmão mais velho.caravela

Na manhã de 9 de março daquele ano, zarpou de Lisboa a armada levando em seu bojo entre 1200 a 1500 homens. Na tripulação, soldados, besteiros, feitor, agentes comerciais e escrivães, além do cosmógrafo Mestre João Faras, especialista em geografia e astronomia, do capelão frei Henrique de Coimbra, oito sacerdotes seculares, oito frades franciscanos. Levava como intérprete o cristão-novo Gaspar da Gama, também conhecido como “Gaspar da Índia”, um judeu polonês, capturado por Vasco da Gama, que lá vivera 30 anos e que, em Lisboa, fora convertido ao cristianismo e batizado com o nome de família do seu padrinho.

Contando com a experiência de navegadores consagrados, como Nicolau Coelho, que acompanhara Vasco da Gama em sua primeira viagem; de Bartolomeu Dias, o primeiro a contornar o Cabo da Boa Esperança (1487) – conhecido pelos mareantes como Cabo das Tormentas ou Cabo Não -, e de seu irmão, Diogo Dias, Pedro Álvares aventurou-se no mar. As demais naus eram comandadas por representantes da nobreza de então: Simão de Miranda Azevedo, Aires Gomes da Silva, Simão de Pina, Vasco de Ataíde, Nuno Leitão da Cunha, Pero de Ataíde, Gaspar de Lemos, Luís Pires e Simão de Pina.

Na terça-feira após a Páscoa, 21 de abril, segundo testemunho do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, foram encontradas, muita quantidade d’ervas compridas a que os mareantes chamam de botelho e assim outras, a que também chamam de rabo d’asno confirmando assim os primeiros sinais de terra.

No dia seguinte, 22 de abril de 1500, segundo a mesma fonte, pela manhã, topamos aves conhecidas por fura-buchos, e nestes dias, a hora das vésperas, houvemos vista de terra, primeiramente dum grande monte bem alto e redondo e de outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com grandes arvoredos; ao monte pôs o capitão o nome de Pascoal e à terra, Terra da Vera Cruz.

Estava assim lavrado o “Auto de Achamento do Brasil”, culminando com Pedro Álvares a série de incursões de navegadores anônimos.

Descobrimento do Brasil 02

Nas suas expedições, anteriores a 1500, procuravam esses anônimos portugueses, tendo a frente Duarte Pacheco, situar um ponto do desembarque oficial. De modo a obedecer a raia estabelecida a 7 de julho de 1494, quando da assinatura do Tratado de Tordesilhas, que reservara para a coroa portuguesa as terras existentes dentro das 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.

A trágica viagem

Passada uma semana, Pedro Álvares continuou sua viagem com destino à Índia, seguindo as recomendações de Vasco da Gama, navegando, no sentido sudeste, em busca do Cabo da Boa Esperança (África do Sul), denominado então pelos marinheiros de Cabo das Tormentas.

A sorte, porém, que o acompanhara até então, parece o ter abandonado: logo no dia 23 de maio, quando uma forte tempestade, já nas proximidades do cabo veio a provocar fortes baixas na esquadra. Na ocasião naufragaram as naus de Aires Gomes da Silva, Luís Pires e Simão Dias, levando consigo mais de 300 homens, seguindo-se da caravela de Bartolomeu Dias, o mesmo que houvera descoberto o dito Cabo da Boa Esperança, com 80 homens.

Somente a 16 de julho, os cinco navios restantes da esquadra vieram se reencontrar, completamente avariados e com as suas tripulações em pânico, na ilha de Quiloa, na costa do atual Quênia.

A viagem se seguiu com o que restou da primitiva frota atingindo Sofala (Moçambique), em julho, e Melinde (Quênia), a dois de agosto, onde com o apoio do xeque Omar conseguiu os serviços de um piloto hindu que a conduziu até a Índia.

Em 13 de setembro, aportaram em Calicute (Índia) a capitânia de Pedro Álvares, a sota-capitânia de Sancho Tovar, e a Anunciada, de Nuno Leitão da Cunha, além de duas outras comandadas por Nicolau Coelho e Simão de Miranda.

No final de setembro o capitão-mor teve o esperado encontro com o Samorim de Calicute – ou Samudri-Raj, o “Senhor do Mar” -, quando lhe fez entrega da carta do D. Manuel I, escrita em árabe, e presenteou-lhe com moedas de ouro e prata, sedas e brocados, recebendo em troca autorização para instalação de uma feitoria naquele movimentado centro comercial.

Mas o pior estava por vir. Enquanto os portugueses carregavam suas naus de especiarias, enfrentando a concorrência dos comerciantes árabes, que os viam como uma ameaça aos seus negócios, a esquadra veio a ser atacada, a 16 de dezembro de 1500, por cerca de 300 árabes e hindus.

Na ocasião perdeu a vida o escrivão Pero Vaz de Caminha, juntamente com o feitor Aires Corrêa, seis frades franciscanos e 50 outros portugueses. Em represália, segundo relato do Piloto Anônimo, foi Calicute bombardeada durante dois dias pelos portugueses “matando infinita gente e causando muito dano à cidade”.

Em seguida Pedro Álvares buscou abrigo no reino de Cochim (hoje a maior cidade do estado de Kerala, na costa do Malabar), distante 200 km de Calicute, para onde se dirigiu no dia 20 de dezembro. O rajá local, rival de Calicute, permitiu a instalação de uma feitoria e o carregamento das naus de pimenta, gengibre, canela e outras especiarias.

Em 16 de janeiro de 1501, com uma cabeça de ponte instalada em Cochim, na Índia, os navios que restaram da esquadra de Pedro Álvares iniciaram sua viagem de retorno a Lisboa.

No seu regresso foi encontrar em Bezeguiche, hoje Dakar, a nau desgarrada de Diogo Dias, com uma tripulação de apenas sete homens, e, numa feliz coincidência, com a expedição de Gonçalo Coelho que seguia em busca do Brasil.

Dos treze navios somente regressaram a Lisboa, a nau Anunciada, sob o comando de Nuno Leitão da Cunha, em 23 de junho de 1501, seguindo-se depois da nau capitânia de Pedro Álvares, que veio aportar no Tejo a 21 de julho de 1501, unindo pela primeira vez os quatro continentes: Europa, América, África e Ásia.

O restante dos navios e suas tripulações pereceram no mar, juntamente com todos os seus tripulantes; bem de acordo com a descrição do poeta Fernando Pessoa:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

OLIVEIRA LIMA, O HISTORIADOR POR EXCELÊNCIA

Em 1997, dirigia eu a Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco quando, dentro da Série Descobrimentos, por mim dirigida, fiz entrega ao público ledor da terceira edição da primeira obra de Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), Pernambuco seu desenvolvimento histórico, cujo primeira edição fora publicada em 1895 e a segunda em 1975…

Muito embora se tratando de um verdadeiro breviário da pernambucanidade, este primeiro livro de Oliveira Lima, escrito em Berlim e impresso em Leipzig em 1895, é apontado por bibliógrafos, do quilate de um Rubem Borba de Moraes, como texto básico e indispensável para o conhecimento da formação histórica do Norte do Brasil e muito especialmente para o entendimento daquilo que o autor denominou de “simpático caminhar” da gente de Pernambuco.

Nascido na cidade do Recife, em rua que hoje guarda o seu nome, a 25 de dezembro de 1867, Manoel de Oliveira Lima conviveu poucos anos em sua terra natal, pois, junto com seus genitores, se transfere em 1873 para Lisboa, onde vem a realizar os estudos que o levaram a optar pela carreira diplomática.

Apesar de distante, a paisagem pernambucana jamais lhe sairá da memória, como ele próprio, mais tarde, vem externar em suas Memórias (Rio de Janeiro: Recife, 1986):

De Pernambuco eu trazia recordações que em breve se fizeram vagas; um dia passado no engenho do meu cunhado Araújo Beltrão, onde eu passeara pela primeira vez a cavalo, montado na maçaneta e seguro por um escravo, porque até então a minha montaria fora um carneiro por nome Cadete; outro dia passado em Olinda, meu tio Quintino, que ali era juiz de direito e morreu presidente da Relação do Recife, à cabeceira da mesa servindo a sopa de uma grande terrina; a campina por trás de nossa casa, onde se erguiam coqueiros e por onde de quando em vez silvava a maxambomba. Na minha memória ficou porém gravada a figura de Dom Vital [1844-1878], com a sua bela barba negra de capuchinho que os seus adversários diziam lustrada à brilhantina, como diziam perfumadas a sabão de Houbigant as suas mãos aristocráticas. Era nosso vizinho, ficando-nos fronteiro o Palácio da Soledade e, quando saía a pé à tardinha, não raro entrava no nosso jardim e demorava-se a conversar com o meu pai, sentados os dois por trás do portão de ferro.

Pernambuco foi sempre a sua pátria primeira, aquela que, como um ferro em brasa, marca a alma e, para todo sempre, se transforma com o passar dos anos na ideia de céu que fustiga o inconsciente de cada um.

O meu gosto pelos assuntos históricos foi temporão. Fiz exame de história com 11 anos e meio e tão bem me saí que o presidente da mesa declarou que, se a lei previsse um prêmio em casos tais, este me caberia. Pelo desenho, pela música e pelo canto e porquanto exige talento manual nunca senti a menor aptidão e às matemáticas e ciências naturais fui sempre avesso que duas vezes fui reprovado em física com grande humilhação para meu pai, que não se queria capacitar da minha incompatibilidade congênita com a ótica, parte que num e noutro exame me caiu o ponto.

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OS MÁRTIRES DE 1817

Debelada a revolução e deixando o governo provisório o Recife, em 19 de maio de 1817, logo no dia seguinte os portugueses saíram às ruas com as bandeiras do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves alçadas, dando vivas a El-Rei e morras aos patriotas pernambucanos, ao mesmo tempo que despedaçavam as bandeiras republicanas.

Não se fez tardar a reação por parte de Dom Marcos de Noronha e Brito, oitavo Conde dos Arcos, (1771-1828), que governava à Bahia, que, em sucessivas proclamações, anuncia terríveis castigos contra os revoltosos pernambucanos; três dessas proclamações foram por mim compiladas na Biblioteca de Guita e José Mindlin (São Paulo):

Dom Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, do Conselho de SUA MAGESTADE EL-REI NOSSO SENHOR, Gentil-Homem da Câmara de SUA ALTEZA REAL do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Grão-Cruz da Ordem de S. Bento d’Avis, Marechal de Campo dos Reais Exércitos, Comandante em Chefe do Real Corpo de Artilheiros Guarda-Costas do PRINCIPE PEDRO, e Capitão da Companhia de Voluntários, Governador e Capitão General da Capitania da Bahia, &c &c. &c.

Habitantes de Pernambuco! Marcham para a Comarca das Alagoas Bandeiras Portuguesas, e Soldados Baianos para as içar em toda extensão dessa Capitania.

Todo o Habitante de Pernambuco que não seguir rapidamente, e marchar junto com elas será fuzilado.

As Forças Navais ora a vista, e em Bloqueio do Porto têm ordem de arrazar a Cidade, e passar tudo à Espada se imediatamente não forem instauradas as Leis de SUA MAGESTADE EL-REI NOSSO SENHOR.

Nenhuma Negociaçãos será atendida sem que se proceda como preliminar a entrega dos Chefes da Revolta a bordo, ou a certeza de sua morte; ficando na inteligência de que a todos é lícito atirar-lhes a Espingarda como a Lobos.

Bahia 29 de Março de 1817.

(Assinado) Conde dos Arcos.

Pelo menos dois outros proclamas, assinados pelo Conde dos Arcos e trazidos pela esquadra real, chegaram a Pernambuco, datados de 21 e 29 de março de 1817, com textos e ameaças no mesmo teor, segundo confirma L.F. de Tollenare e as cópias dos nossos arquivos.

No domingo 25 de maio de 1817, continua L.F. de Tollenare, em seus apontamentos:

– A revolução de Pernambuco terminou a 20, depois de ter durado dois meses e meio.

A 18 recebeu-se do comandante da esquadra a resposta às propostas de acordo: prometia que a cidade seria poupada se os chefes se entregassem à clemência de sua majestade. A 19, as tropas foram reunidas, arengadas [conversa longa e enfadonha] e excitadas à defesa. Parece que mostravam pouca firmeza.

Ao meio-dia foi resolvida a retirada para o interior do país. Às três horas o Padre João Ribeiro mandou me dizer que o governo estava dissolvido; ele seguia o exército a pé, descalço, afim de dar o exemplo das privações, às quais cumpria preparar.

Uma hora depois recebi aviso de me prevenir, porque o exército se retirava e não se podia responder pelas desordens que ameaçam os retardatários e a retaguarda. (…)

Com grande surpresa nossa, a noite foi calma; não se ouvia rumor algum na cidade. A 20, ao nascer do dia, percebi na praia um padre que fazia sinais; dirigi-me a ele num bote. Acolheu-me com o grito de: “Viva El Rei”! e me pediu uma bandeira portuguesa.O governo provisório tinha feito destruir todas, poucos dias antes; entretanto, achou-se algumas que os marinheiros haviam escondido.

Dei-lhe a da escuna. Este padre me informou que os patriotas, em número de 6.000 homens, inclusive os escravos alforriados, se tinham retirado para o lado de Olinda com bagagens e uma numerosa artilharia; que quase não havia ninguém na cidade; que se os marinheiros desembarcassem fariam ali o que quisessem; que ia fazer içar a bandeira real por sua conta e risco. Durante este colóquio estabeleceram-se outras comunicações entre os navios e a praia. A coragem dos realistas crescia à medida que adquiria certeza do afastamento dos patriotas. Ao levantar do sol uma pequena sumaca içou o pavilhão português; os seus vizinhos saudaram-no e imitaram-na; pouco a pouco o exemplo alastrou e o porto reboou (ecoar) com o ruído das aclamações e das salvas.

Os navios estrangeiros levantaram os seus pavilhões nacionais. Entretanto os cinco fortes não faziam demonstração alguma. (…)

A grande Fortaleza do Brum era comandada por um jovem oficial, que permanecia indeciso entre o seu dever como militar e a sua prudência como cidadão; o sr. Ramos teve a felicidade de fazê-lo decidir a seguir o movimento geral. A Fortaleza do Buraco seguiu imediatamente o exemplo da do Brum.

O pequeno forte do Picão e os brigues armados foram também logo tomados sem resistência.

As sete horas as cores reais flutuavam por toda a parte, as salvas reais se repetiam, o ar vibrava abalado pelas contínuas descargas de artilharia. Tudo se fez sem resistência da parte dos patriotas e assistência do exército real. Os marinheiros foram quase que os únicos autores desta restauração.

Mais adiante o mesmo L.F. de Tollenare dá notícia do final de dois dos seus amigos revolucionários:

Parece que os seus chefes partiram sem haver concertado planos entre si; é preciso que julguem a sua causa desesperada.

O sr. José Luiz de Mendonça teve a ingenuidade de ficar na cidade e de se apresentar ao almirante, que o mandou prender.

O Padre João Ribeiro suicidou-se a três léguas daqui; passeiam a sua cabeça sangrenta pelas ruas da cidade.

Quando, a 19, me mandou dizer que o governo estava dissolvido, acrescentou que lamentava não poder me dizer adeus, mas, que eu podia ficar certo de que ele saberia morrer como homem livre. Não era um homem desonesto; mas, estava alucinado pela leitura dos nossos filósofos do século XVIII. O seu crime político não me pode fazer esquecer que fui seu amigo.

E as prisões dos líderes revolucionários vão se seguindo, um após outro, como se depreende das mesmas Notas Dominicais, de L.F. de Tollenare, que assim registra:

As prisões na cidade são numerosas; a mais notável foi a do sr. Gervásio Pires Ferreira, o negociante mais rico da cidade; quase que nenhuma parte tomou na revolução, e isto causa inquietação àqueles que o temor fez menos inocentes.

Cita-se a prisão dos dois vigários de Santo Antônio e da Boa Vista, do guardião de S. Francisco e de frades carmelitas; quase todos estes se envolveram na revolução, Receava-se pelo sr. Bento Jose da Costa, sogro do sr. (Domingos) Martins; mas, parece que ele se justificou. Os negociantes da cidade se interessavam por ele. Tem-se detalhes acerca da batalha de 15; travou-se perto de Salgado.

  Domingos José Martins – 1817

Não sei de que proezas brilhantes se possa falar, se é verdade que tudo se reduziu a três homens mortos. Aliás, o marechal Melo foi um Fábio, e tinha razão, porque, além da cavalaria da Bahia, o seu exército não podia inspirar-lhe grande confiança: não valia mais do que o dos patriotas (…) Sabemos a sorte do sr. Domingos José Martins; ferido na batalha de 14 ou 15, refugiou-se numa cabana e disfarçou-se. Fugindo de asilo em asilo, uma índia o denunciou; preso, foi embarcado no Pontal e conduzido para bordo da fragata.

Com ele achavam-se seu irmão, o sr. Vasconcelos Bourbon, e outros revolucionários. 0 sr. Manuel Correia de Araújo havia traído o partido antes do dia 20 de maio. Conquanto tenha assinado proclamações muito injuriosas à majestade real, e tomado parte em todas as deliberações do governo provisório, espera-se que a sua defecção [deserção] lhe proporcione a graça. 0 sr. José Luiz de Mendonca podia ter feito o mesmo, se o quisesse; mas, teve repugnância em ser um traidor; preferiu oferecer-se como vítima e não procurar desculpar-se. Dos cinco membros do governo provisório só resta prender o sr. Domingos Teotônio (Jorge). E’ homem de uma coragem fria e intrépida, mas, não tem os talentos de um chefe de partido. Vários dos conselheiros têm também sido presos. 0 novo governador, o sr. Rodrigo Lobo, mostra muita afabilidade para com os nacionais e estrangeiros; é apenas provisório: espera-se um outro nomeado pelo rei.

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MONSENHOR MUNIZ TAVARES, TESTEMUNHA OCULAR DE 1817

Nascido em 16 de fevereiro de 1793, na freguesia de Santo Antônio do Recife, Francisco Muniz Tavares, filho do comerciante português João Muniz Tavares, natural da ilha de São Miguel dos Açores, e de Dona Rita Soares de Mendonça, natural do Recife, foi uma pessoa direcionada pelo destino.

Orientado pelos seus pais, naquele Recife desprovido de oportunidades para um jovem, vem abraçar a carreira eclesiástica, fazendo os seus estudos filosóficos e teológicos na Congregação dos Padres da Madre de Deus, concluídos em 2 de abril de 1808.

Em 1817 estava Muniz Tavares com vinte e quatro anos de idade, ocupando as funções na Capelania do Hospital do Paraíso, ao lado do padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. O local era denominado de “Academia do Pátio do Paraíso”, onde eram debatidos o ideário dos filósofos do iluminismo, notadamente os filósofos franceses, que gozavam de grande simpatia por parte do padre João Ribeiro.

Vencido o movimento republicano de março de 1817, foi Muniz Tavares um dos primeiros prisioneiros do almirante Rodrigo Lobo que, agrilhoado [pelos pés e pelo pescoço] nos porões da corveta Mercúrio, foi enviado junto com outros prisioneiros para a cadeia da Bahia.

Recolhido às mais abjetas das masmorras, preso por corrente que impediam os seus movimentos, impedido inclusive de trocar a roupa imunda do seu corpo, o jovem sacerdote foi entregue a sanha de um carcereiro embriagado, de cuja boca era obrigado a ouvir os mais vis impropérios, contra os prisioneiros pernambucanos.

Nesta sucursal do inferno, Muniz Tavares teve a iniciativa de transformar o tempo ocioso do cárcere em horas de estudos. “Mediante avultado ganho para os carcereiro”, os prisioneiros tiveram acesso “ao uso do papel, pena, tinta, e com maior custo ainda tiveram algumas novelas e livros de viagens, que ambiciosamente passavam de mão em mão.”(¹)

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A BANDEIRA DE 1817

Proclamada a República de 6 de março de 1817, uma bandeira toda branca substituiu, desde os primeiros momentos, o pavilhão nacional do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, criado pelo decreto de 13 de maio de 1816. Ao descrever os acontecimentos daquele dia, Muniz Tavares, informa que “as tropas de Domingos Teotônio Jorge traziam arvorada uma bandeira branca em vez da real”.

Também na Paraíba confirma o mesmo autor: “A bandeira branca, símbolo da insurreição, foi içada com estrondosos vivas da multidão que não ficou ociosa”. O mesmo aconteceu na tomada da Fortaleza de Itamaracá, pelo padre Pedro de Souza Tenório.¹

A bandeira de então, a do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, era toda branca, tendo no centro as armas da união, isto é, o escudo das armas de Portugal e Algarves sobreposto as armas do Reino do Brasil e por timbre a coroa real.

O mesmo Louis François de Tollenare, nascido em Nantes (França), em 4 de abril de 1780 e lá falecido em 23 de dezembro de 1853, que se encontrava no Recife de 1816 a 1818, continua no seu papel de testemunha ocular dos fatos que aconteceram nesse conturbado período, depois registrados em seu manuscrito publicado, parcialmente, por Alfredo de Carvalho (1905) sob o título de Notas Dominicais. Tal manuscrito, desconhecido por Muniz Tavares, mas largamente citado por Oliveira Lima, vem a ser republicado na primeira fase da Coleção Pernambucana (v. 16) em 1978.²

Segundo Tollenare, em suas Notas Dominicais, o pavilhão branco tinha por fim tornar menos brusca a transição de regime era uma bandeira com que “os fortes do Recife anunciavam, havia muito tempo, o aparecimento de navios na costa e as embarcações vindas de fora, vendo sempre o sinal acostumado, entravam sem desconfiança: era isto o que justamente se queria, porquanto havia falta de víveres na cidade e se receava que o aspecto de uma nova bandeira assustasse os que traziam”.

Todavia, esta bandeira provisória, foi aos poucos sendo substituída por outra, descrevendo o mesmo Tollenare, em 16 de março, o projeto de um novo pavilhão; foi ventilada também a hipótese da adoção do pavilhão tricolor francês, porém logo afastada “por representar as três ordens honoríficas existentes na França”.

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O IDEÁRIO DA REPÚBLICA DE 1817

A única revolução brasileira digna desse nome e credora de entusiasmo pela feição idealista que a distinguiu e lhe dá foros de ensinamento cívico, e pela realização prática que por algum, embora pouco, tempo lhe coube. Eu lhe disse uma vez que foi instrutivo pelas correntes de opinião que no seu seio se desenharam, atraente pelas peripécias, simpática pelos caracteres e tocante pelo desenlace. Foi um movimento a um tempo demolidor e construtor, como nenhum outro entre nós e como nenhuma outra em grau superior, na América espanhola.

Manuel de Oliveira Lima.

O século XVIII, conhecido como o Século do Iluminismo, teve a sua segunda metade tomada por uma total revisão no âmbito social das ideias, a partir da Declaração de Independência das treze colônias inglesas, que vieram a se constituir nos Estados Unidos da América, em 4 de julho de 1776, com repercussões nos movimentos que antecederam a Revolução Francesa de 1789.

Autores de várias nacionalidades vieram expressar os seus princípios democráticos e nacionalistas, pondo em discussão o direito divino dos reis e despertando a burguesia para os princípios da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, mais tarde consagrados na Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789).

Filósofos como o suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que em 1762 fez publicar Du Contrat Social (Do Contrato Social), formulando uma nova teoria do Estado, fundamentado na convenção entre os homens com base no princípio da soberania popular; e Charles Louis de Secondat Montesquieu (1689-1755), autor de L’Esprit des Lois (O Espírito das Leis)¹ , eram lidos e discutidos não somente na França como em outros países. As obras poéticas e filosóficas de Voltaire (1694-1778), pseudônimo de François Marie Arounet, autor do Dicionário Filosófico; de Denis Diderot (1713-1784), editor da Enciclopédia Diderot; e do italiano Cesare Beccaria (1738-1794), autor do clássico Dos Delitos e das Penas (1764), despertavam a juventude para um novo comportamento.

A esse movimento de ideias não ficaram alheios os estudantes da Universidade de Coimbra que, levados pela atuação das Lojas Maçônicas, presentes em Portugal desde 1740, tornaram-se ávidos leitores daqueles filósofos cujas obras eram proibidas em Portugal e em suas colônias.

O ambiente em que viviam os estudantes daquela universidade portuguesa e as discussões motivadas pela influência das diversas correntes de ideias se depreende das páginas do Processo n.º 8094/1779 da Inquisição de Coimbra, por mim anotado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa). Nele foram denunciados nove estudantes brasileiros, então matriculados na Universidade de Coimbra, dentre os quais Antônio de Moraes Silva (Rio de Janeiro, 1 de Agosto de 1755 – Recife, 11 de Abril de 1824), que vem a ser o primeiro dicionarista da língua portuguesa e que, em 1817, seria nomeado membro do Conselho de Estado da República de Pernambuco.

O processo é fruto da denúncia do estudante de Geometria Francisco Cândido Chaves, 23 anos, ao Tribunal da Inquisição de Coimbra em 17 de maio de 1779, onde afirma que na casa do também estudante Antônio de Moraes Silva, brasileiro nascido no Rio de Janeiro, se discutiam pontos de religião e se citavam autores como Helvécio, Voltaire e Rousseau, a quem chamavam de profundíssimos filósofos e que alguns estudantes “eram aliciadores da seita dos Pedreiros Livres”, como se denominavam na época os simpatizantes da maçonaria.²

Ao depor em sua defesa, no processo movido contra si e mais oito colegas, Antônio Moraes Silva, na audiência de 28 de maio, declarou estar cursando o quinto ano do curso jurídico, sendo filho de Antônio de Moraes e Silva e de Rosa Maria de Carvalho, com idade de 23 anos, morador da Rua do Loureiro, Freguesia do Salvador, Coimbra. Nas audiências de 12 e 18 de junho, 6 e 7 de julho, disse ainda ser aplicado no estudo das línguas francesa, inglesa e italiana, sendo leitor de obras do Conde de Mirabeau (Honoré Gabriel Riqueti, 1749-1791), de quem lera o Sistema da Natureza e Instituições Políticas; bem como das obras de Montesquieu, Cavaleiro de Milagan (sic) e Quadro da História Moderna (sic); Beccaria, Tratado dos delitos e das penas; Voltaire, Obras poéticas, e Rousseau.

Na sua defesa, porém, diz “não entender nem entende que toque ao Santo Ofício puni-lo por essa razão, pois que o conhecimento [de tal matéria] está reservado a Real Mesa Censória”. Disse ainda ter emprestado a obra de Mirabeau a José Antônio de Mello, conhecido por Misantropo, que afirmou ser a dita obra perigosíssima e capaz de enganar a todos que não soubessem Filosofia, mas que ele não deixará de achar alguma preciosidade. Concluindo o curso de Medicina, em 1778, José Antônio se transferira para Pernambuco, no mês de novembro daquele ano, levando consigo a obra de Mirabeau. (Processo n.º 8094/ANTT).³

Mas a Inquisição do final do século XVIII não era a mesma de tempos passados: os seus segredos já vazavam para o mundo exterior…

Sabedor por um informante da sentença do inquisidor José Antônio Ribeiro de Moura, prolatada em 20 de julho de 1779, condenando a si e todos os demais companheiros por crime de heresia e apostasia, Antônio de Moraes Silva fugiu com destino à Lisboa, escondido numa carroça de feno. Dias depois, contando novamente com o concurso de amigos, se transfere para Londres onde permaneceu sob a proteção do embaixador de Portugal na Grã Bretanha, tenente-general Luís Pinto de Souza Coutinho, futuro Conde de Balsemão, a quem ele dedica à primeira edição do seu Diccionário da Língua Portugueza (1789).

No mesmo processo, o estudante Vicente Júlio Fernandes, filho de Júlio Fernandes, 25 anos de idade, natural da Ilha da Madeira, então condenado por heresia e apostasia, depondo em 30 de agosto de 1779, afirma que o estudante Francisco de Mello Franco “levara de sua casa dois ou mais tomos das Cartas do Marquês d’Argent para ler, os quais lhe emprestara Antônio de Moraes Silva, que lhe disse ter lido o Sistema da Natureza”, obtido por empréstimo a José Antônio da Silva Mello a quem tratava por Misantropo.

Depois de exercer atividades diplomáticas em Londres, Roma, e Paris, Antônio de Moraes e Silva regressa a Portugal. Em Lisboa, novamente comparece ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, em 21 de janeiro de 1785, Processo n.º 2015, apresentando atestado de ter procedido como bom católico, assinado pelo padre Ricardo a Sto. Silvano, vice provincial dos carmelitas descalços na Inglaterra, datado de 23 de novembro de 1784. Em sua confissão diz que, quando estudante em Coimbra, discutia com vários colegas acerca de matérias da religião, reduzindo todos os dogmas aos ditames razão, desprezando as verdades reveladas pelo lume da fé; que lera livros anticatólicos, como Emile (Emílio, ou Da Educação)4, de Rousseau. Absolvido, em 23 de dezembro de 1785, teve como pena de levi [pena menor] a de confessar-se nas quatro festas do ano – Natal, Páscoa da Ressurreição, Pentecostes e Assunção de Nossa Senhora – e o preceito de certas e determinadas orações.

Novamente indiciado pela Inquisição de Lisboa (Processo n.º 14.215), Antônio de Moraes Silva se vê compelido a retornar ao Brasil e assim tentar nova vida. Já casado com Narcisa Pereira da Silva, filha do tenente-coronel José Roberto Pereira da Silva, transfere-se para Pernambuco (Paranambuco), em 30 de abril de 1788, segundo denúncia de Escolástica Maurizia.5

Estabelecido no Recife, morador na Rua Nova, a partir de 1796, se transforma em proprietário do Engenho Novo da Muribeca, que recebera de seu sogro, aonde veio a escrever a segunda e mais importante edição do seu Dicionário da Língua Portugueza (1813) – recompilada, emendada e muito acrescentada, a partir da qual passa o seu nome a figurar como autor.

Com a chegada do século XIX, as ideias liberais, introduzidas em Pernambuco por estudantes e bacharéis da Universidades de Coimbra e Montpellier (França), alguns deles simpatizantes da maçonaria e outros pertencentes ao clero regular e secular, começaram a despertar na população antigos sentimentos nativistas.

A fundação do Seminário de Olinda, a 16 de fevereiro de 1800 pelo bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1742-1821), em muito contribuiu para que tais ideias liberais republicanas, divulgadas pelos teóricos da Revolução Francesa (1789), fossem debatidas nos púlpitos e entre os alunos do novo centro de estudos.

Depois de transformado em Seminário Diocesano de Olinda, o antigo Colégio dos Jesuítas foi logo transformado em uma instituição educacional cuja finalidade era “dar instruções à mocidade em todos os principais ramos da literatura, própria não só de um eclesiástico, mas também de um grande cidadão que se propõe a servir ao Estado”.

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1817, UMA TESTEMUNHA OCULAR DA REVOLTA

Estávamos em março de 1817, quando o Ouvidor da Comarca do Sertão, magistrado José da Cruz Ferreira, comparece perante o governador da capitania Caetano Pinto de Miranda Montenegro (1748-1827), a fim de narrar a denúncia, recebida da parte do português Manuel de Carvalho Medeiros, sobre a nova conspiração encabeçada pelo padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro (1766-1817), Domingos José Martins (1781-1817) e Antônio Gonçalves da Cruz (c.1775-1833), além de alguns oficiais dos regimentos de 1ª linha.

Imediatamente foram convocados os Oficiais-Generais portugueses, que se encontravam no Recife, e determinada a prisão dos civis e militares envolvidos, entre eles os capitães de Artilharia Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, José de Barros Lima e Pedro da Silva Pedroso, tenente-secretário do mesmo Corpo, José Mariano de Albuquerque, e a do ajudante de Infantaria, Manuel de Souza Teixeira.

A prisão dos implicados dar-se-ia no dia seguinte, 6 de março, tendo sido destacados o marechal José Roberto Pereira da Silva para efetuar a dos civis e o comandante de cada um dos Corpos a dos militares. Nesse período, o brigadeiro Manuel Joaquim Barbosa de Castro, chefe da Artilharia, português, orgulhoso, altivo, violento e severo, no dizer de Muniz Tavares, reuniu a tropa e resolveu desacatar os oficiais suspeitos acusando-os de agitadores. Domingos Teotônio Jorge o repeliu, tendo o brigadeiro, imediatamente, ordenado ao capitão Antônio José Vitoriano que efetuasse a sua prisão na Fortaleza das Cinco Pontas.

De maneira diferente procedeu o capitão José de Barros Lima, conhecido pela alcunha de Leão Coroado, que ao ser intimado da voz de prisão desembainhou a sua espada e desferiu-a contra o brigadeiro português, dando início assim à revolta.

Um observador estrangeiro, o comerciante francês Louis François de Tollenare (1780-1853), que residia no Recife no Largo do Paraíso, foi testemunha presencial dos acontecimentos e registrou nos seus apontamentos, depois publicados em livro com o título de Notas Dominicais, por Alfredo de Carvalho (Recife: Jornal do Recife, 1905)¹

Escrevendo no domingo, 9 de março de 1817, observa que na data de 6 do mesmo mês, “teve lugar uma revolução bem inesperada. O estandarte da independência foi levantado; as tropas colocaram-se em volta dele. O governador, assim traído, viu-se forçado a refugiar-se em um forte, ali capitular e acaba de embarcar para o Rio de Janeiro.”

Um governo provisório, composto de cinco membros, foi instituído por um pequeno número de conjurados; fala-se em erigir a capitania de Pernambuco em República. Um acontecimento tão extraordinário merece bem que se lhe indague das causas. Eis o que, na minha qualidade de estrangeiro, pude perceber. Teria desejado muito manter um diário mais exato durante a revolução de Pernambuco. Mas, as minhas ocupações e as constantes inquietações em que tenho vivido me impediram de fazê-lo com o interesse que merecia. As minhas notas sobre este interessante assunto são, pois, muito menos cuidadas do que algumas outras consagradas a futilidades.

E continua o nosso observador francês, L.F. de Tollenare, na sua qualidade de “correspondente”, não muito simpático ao movimento revolucionário que se instalara, naquele momento, em Pernambuco:

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CANCIONEIRO DA QUARTA-FEIRA

 

Depois de um Carnaval, vem a quarta-feira ingrata, onde  “tudo é cinzas!”. A partir de então tem início a Quaresma que, no passado, era tempo de reflexão, jejum e abstinência completa de carne.

Em cada Quarta-Feira de Cinzas, porém, resta no peito do verdadeiro folião a verdadeira saudade, uma lembrança do carnaval que passou, assim expressada por vezes com lágrimas e acalentadas pelos versos do próprio cancioneiro carnavalesco de Edu Lobo.

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 Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
Na praça ninguém pra cantar.

Como no poema de Vinícius de Moraes, musicado por Carlos Lyra, chegou ao fim mais um carnaval (Marcha da quarta-feira de cinzas):

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Acabou o nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou
Pelas ruas, o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor…

Na quarta-feira, o folião de ontem volta à realidade do dia-a-dia, depois de conviver naquele reino azul da fantasia, sob a égide do Rei Momo, onde por momentos parecia ter encontrado a morada da felicidade. Ao reencontrar-se consigo mesmo, mirando-se no espelho ao amanhecer da quarta-feira, o folião cansado, vem descobrir dentro de si que o carnaval, apesar dos guizos e de todo colorido que se faz presente aos olhos, é uma festa triste; como nos versos de Raul e João Victor do Rego Valença, os Irmãos Valença (Saudade):

De que nos serve a folia
Tanto prazer e alegria
O carnaval é a ilusão
Deixando uma triste recordação
E se voltamos chorando
É a saudade
Que nos vem
Alguém nos ficou amando
E ficamos querendo alguém

De há muito o cancioneiro carnavalesco vem sendo tomado de versos inspirados na nostalgia trazida pela quarta-feira, desde os anos vinte quando os blocos carnavalescos regressavam às suas sedes cantando marchas, como esta de Raul Moraes (Despedida):

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Adeus, ó minha gente,
O bloco vai embora
Sentindo que a alma chora
E o coração fremente
Diz, findou-se o carnaval.
Até para o ano, adeus
Guarda nossas saudades
Que implorarão aos céus
Felicidades para, nossa alma liberal
Essa canção saudosa,
Há de fazer chorar
E sempre a relembrar
Nossa gente buliçosa
De regresso a cantar.

A espera de um outro carnaval é o acalanto que embala a alma de todo poeta e sonhador, como nos versos de Capiba, em De chapéu de sol aberto (1973):

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 Espero o ano inteiro,
Até ver chegar fevereiro
Para ouvir o clarim clarinar
E a alegria chegar!
Esta alegria que em mim
Parece que não terá fim
Mas se um dia o frevo acabar!
Juro que vou chorar…

O carnaval é talvez a forma de suavizar a vida desses poetas, daí a tristeza que toma conta do espírito de todos no alvorecer da quarta-feira, como naquele frevo de Nelson Ferreira:

Um carnaval a mais
Que beleza, no entanto…
Um carnaval a menos, que tristeza.
Vida, não foge tão depressa.
Ainda quero viver muitos carnavais…

Alguns deles não se conformam com a chegada da quarta-feira e por vezes teimam prolongar o seu próprio carnaval interior, como se fosse um ópio a lhes transportar para o mundo da fantasia e do surrealismo, como no frevo de Rudy Barbosa e Adelmo Tenório (Por que saideira?):

Estou vendo, a manhã está dizendo:
Já é quarta-feira! Por que saideira,
Se eu não queria, pra casa voltar…
Voltar, pra quê!
Voltar, pra quê!
Se vai voltar esta saudade de você

Vou desfilar meu sorriso
E ser o palhaço, desta multidão.
Pra  repousar meu cansaço,
Igual ao seu braço,
Não encontro mais não

Solidão, eu me embriago agora!
Está chegando a hora
D’ a tristeza voltar
Solidão, eu me embriago agora!
Está chegando a hora
D’ a tristeza voltar.

Para o autêntico folião, particularmente para os românticos dos anos dourados, quando a permissividade dos costumes não era a tônica dos festejos carnavalescos, a contagem regressiva da madrugada de uma quarta-feira se transformava em suplício; como nos versos de Geraldo Costa e José Menezes (Terceiro dia):

A noite morre, o sol vem chegando…
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval

Mas o que ensina a lição é que se vai um carnaval, mas fica-se sempre com uma saudade; como no frevo dos irmãos Reinaldo e Fernando Oliveira (É quarta-feira, é madrugada):

É quarta-feira, é madrugada…
O sol já chegou
O carnaval foi tudo um sonho bom que passou
Recordar não adianta nada, meu bem…
Melhor esperar, prô ano que vem!

Saudade vive escondida…
Esperando todo fim de carnaval
Não adianta esperar por toda vida
Nem por um ponto final.

Para aquele folião empedernido, porém, que viveu o carnaval até os últimos acordes; folião daqueles que em anos passados só saía dos salões acompanhando as orquestras, sob o comando de Nelson Ferreira, Guedes Peixoto ou José Menezes, em meio à turba frevolenta até os jardins da Praça do Entroncamento ou da Praça do Internacional, para só assim encerrar, às sete horas da manhã da quarta-feira, o seu carnaval.

Para esses, que viveram tantas paixões e que ainda hoje estão a lembrar daqueles rostos juvenis, que se perderam em meio aos confetes e serpentinas dos passados carnavais, pelo menos o frevo de Luiz Bandeira, gravado por Carmélia Alves em 1957 (Copacabana nº 5699, matriz 1725),  ficou na lembrança: 

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 É de fazer chorar
Quando o dia amanhece e obriga o frevo acabar
Ó quarta-feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar
Quem é de fato, um bom   pernambucano…
Espera um ano,
e se mete na brincadeira
Esquece tudo, quando cai no frevo.
E no melhor da festa,
Chega a quarta-feira.

Sim meus amigos, o nosso carnaval acabou. Como o poeta Vinicius de Moraes só nos resta cantar: 

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Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz
Seu canto de paz.

Mas para aquele pernambucano, ausente da terra, distante dos amigos e obrigado a conviver com gente estranha que não sabe o que é Carnaval, o espírito da quarta-feira  dura o ano inteiro e o acompanha onde quer que se encontre.

Longe do Recife, exilado voluntário do seu próprio chão, privado da paisagem e dos sons que acalenta em sua alma de folião, ele estará sempre a cantar baixinho, como a embalar o seu próprio coração, balbuciando a letra daquele frevo-canção, composto por Antônio Maria Araújo de Morais (Recife, 1921 – Rio, 1964) num de seus momentos de banzo e de saudades do seu torrão: Frevo nº 1 do Recife, gravado inicialmente pelo “Trio de Ouro” em 9 de agosto de 1951. O sucesso veio a ser regravado depois com competência por muita gente, a exemplo de Claudionor Germano e Expedito Baracho.

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Ô, ô, ô, ô, ô… saudade
Saudade, tão grande.
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras,
Passistas traçando tesouras,
Nas ruas repletas de lá…
Batidas de bombo,
São maracatus retardados,
Chegando à cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar.
 
Que adianta
Se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo
Valfrido Cebola, no passo;
Haroldo Fatia, Colaço…
Recife está perto de mim.

EU BEBO SIM… ESTOU VIVENDO!

“Branquinha”.
“Branquinha”,
é suco de cana
pouquinho – é rainha,
muitão – é tirana…

Ascenso Ferreira.

Música e bebida são como irmãs siamesas.

Não quero dizer com isso que uma não possa existir sozinha, na ausência da outra, mas seria uma conjunção desprovida de alegria e, por vezes do romantismo do dia-a-dia, que dá um gosto especial ao conteúdo poético e musical.bebida_musica

Chegou-se até vislumbrar uma música no silêncio, uma espécie de partitura sem som. Mas, no caminhar da vida diária, as notas da partitura se combinam com os versos que falam da bebida, ora levando às emoções vividas em eternos casos de amor e paixões, ora contagiando com sua alegria fazendo crer “que a nossa vida é um Carnaval”.

Existe até quem sinta mesmo o sabor da bebida ao ouvir ou entoar certas e determinadas canções, a exemplo do tenor Luciano Pavarotti para quem “se você comparar música e bebida, você perceberá que algumas músicas tem gosto de conhaque forte, outras tem gosto de um bom vinho e outras parecem coca-cola diet“.

Mas para nós, amantes da Música Popular Brasileira, a nossa música se retrata, segundo o poeta Olavo Bilac (1865-1908), numa “Lasciva dor, beijo de três saudades, / Flor amorosa de três raças tristes /Tristes, mas porém, bailadoras”.,

E talvez, por isso, é que a bebida se junta à música, como a cumprir o preceito que nos ensina o Talmude, no qual “não há alegria vem vinho”. E sob o seu efeito, libertam-se assim os seus pensamentos e, dando-se vazão aos sentimentos da alma, perde-se o medo de ser feliz.

Música e bebida são encontradas em nossas mais remotas manifestações folclóricas, a exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, registradas por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (¹) (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essa quadrinha:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia.
Bebamos, que a tudo chegam.
As esmolas da caixinha.

Em nossa música romântica foram tantas páginas escritas, gravadas por intérpretes famosos, logo caindo no gosto do público que as cantava e solfejavam a todo o momento, exaltando a dor de cotovelo e a bebida, sua natural companheira.

Páginas do cancioneiro popular cujos versos causariam inveja a qualquer poeta erudito, como aquela valsa composta por Orestes Barbosa (1893-1966), A Mulher que Ficou na Taça, e gravada por Francisco Alves (1898-1952) em 1934:

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Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando quem tu és.

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu vulto
O vulto dessa mulher.

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece ao meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que sedento
Quero a paixão sufocar.

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração.

Quando alguém aconselhava a não beber, eis que o próprio compositor popular saia-se com jóias como esta, composta por Luiz Antônio e João do Violão e gravada por Elizeth Cardozo em 1966:

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Eu bebo sim,
Estou vivendo.
Tem gente que não bebe
E está morrendo
Eu bebo sim,
Estou vivendo.
Tem gente que não
E está morrendo.

Tem gente
Que está com o pé na cova,
Não bebeu e isso prova
Que a bebida não faz mal.
Uma prô santo,
Bota o choro e a saideira.
Desce toda a prateleira,
Diz que a vida está legal,
E bebo sim.

E o que dizer da música carnavalesca?

Dentro desta temática, bebida e música são temas obrigatórios; pois no reinado do deus Momo, o deus Baco é quem energiza a folia.

Já pelos idos de 1870, numa revista sob o título Zé-pereira Carnavalesco, o ator Francisco Correia Vasques, numa adaptação da cançoneta Les Pompiers de Nanterre, lançava o sucesso de todos os nossos carnavais:

E viva o Zé-pereira!
Que a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de carnaval!

Como não poderia deixar de ser, numa festa que une a alegria dionisíaca ao apelo do deus Baco, a bebedeira era quem embalava o nosso carnaval.

No início do século XX, precisamente no carnaval de 1905, surge uma velha cantiga popular a protestar contra o autoritarismo da polícia no seu afã de proibir a bebida em nossa festa maior:

Eu vou beber
Eu vou me embriagar
Eu vou fazer barulho
Pra polícia me pegar.

A bebida continuou de mãos dadas com a música carnavalesca, como nesta peça antológica surgida da parceria de Rubens Soares, Noel Alves e Francisco Alves, a que deram o nome de É bom parar:

Por que bebes tanto assim rapaz
Chega já é demais
Se é por causa de mulher é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar.

Gravado por Francisco Alves, este samba marcou sucesso em todos os carnavais, chegando até nossos dias como uma peça antológica de nossa festa maior.

Bebida e música carnavalesca continuaram presentes em nosso cancioneiro, chegando mesmo a contagiar os foliões de todo Brasil quando, no carnaval de 1953, Mirabeau Pinheiro, L. de Castro e H. Lobato, lançaram esta marchinha com o título de Cachaça:

Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E a água vem do Ribeirão.

No carnaval do ano de 1954, a combinação de bebida e marchinha carioca volta a ser cantando por todos os foliões a exemplo do sucesso composto por Zé da Zilda, Zilda e Waldir Machado: Saca-Rolha.

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu taco a mão no saca, saca, saca-rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar.

Os efeitos da bebedeira vêm a ser relembrados no carnaval de 1955, numa composição de Zé e Zilda, sob o título Ressaca:

Tá todo mundo de ressaca
Ressaca, ressaca, ressaca!
Ninguém aguenta mais
Eu vou mandar parar
Vai todo mundo pra casa curar!

No mesmo carnaval de 1955, os compositores cariocas Mirabeau e Airton tomam conta das ruas e dos salões com o sucesso Tem nego bebo aí.

Foi numa casca de banana que eu pisei
Escorreguei, quase cai.
Mas a turma lá de trás gritou – chi
Tem nego bebo aí, tem nego bebo aí.

A simbiose da música carnavalesca com a exaltação a bebida tem continuidade em 1956, com a composição de Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro, que leva o título de Turma do Funil, interpretada pelos Vocalistas Tropicais:

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Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme do ponto
Ai, ai
Ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos
E eles que ficam tontos

A fonte nos parece inesgotável: música e bebida continuam a fazer sucesso em todos os carnavais, como naquele frevo composto por Caetano Veloso para o carnaval de 1972, Chuva, suor e cerveja.

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Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça.
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrô molhado
E vamos embolar de ladeira
Ladeira abaixo.
Acho que a chuva ajuda
A gente a se ver
Venha, veja, deixa, beija, seja
O que Deus quiser.
A gente se embala, se embola, se enrola
Só para na porta da igreja
A gente se olha, se beija, se molha
De chuva, suor e cerveja.

_________________

1) AMARAL, F. P. do. Escavações – factos da história de Pernambuco. Recife: Typographia Jornal do Recife, 1884. 2ª ed. , Recife: Arquivo Público Estadual, 1974.

PARA HISTÓRIA DO CARNAVAL: AS VARIAÇÕES DO FREVO DOS VASSOURINHAS

A “Marcha nº 1 do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife”, composta em seis de janeiro de 1909 por Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser conhecida nacionalmente como FREVO DOS VASSOURINHAS.

Em fevereiro de 1945 a Continental, sob o selo nº 15279 B, fez a gravação em 78 rpm, da Marcha nº1. Omitindo o nome dos seus autores, apresentando como “Frevo nº 1 (Marcha Regresso do Clube Vassourinhas). Marcha popular de Pernambuco, adaptação de Almirante”. Como intérpretes Déo e Castro Barbosa, acompanhado por “Napoleão e seus soldados”.

Nesse disco, Almirante (Henrique Foréis Domingues; 1908-1980) não fez tão somente uma simples adaptação da Marcha nº 1, mas, como já acontecera com Lamartine Babo quando da gravação em 21 de dezembro de 1931 de O teu cabelo não nega, dos pernambucanos Raul e João Valença (Victor 33514 A), simplesmente escreveu outra letra e denominou de “Marcha regresso” (!), que veio a ser apresentada como “verdadeira” por Ruy Duarte no seu História social do frevo:

A saudade, ó Vassourinhas
Invadiu meu coração,
ao pensar que talvez nunca,
nunca mais te veja não.
A saudade. ó Vassourinhas,
enche d’ água os olhos meus,
ao pensar, ó Vassourinhas,
neste derradeiro adeus.

O Frevo dos Vassourinhas, como veio a ser conhecido a partir da gravação de “Severino Araújo e sua Orquestra Tabajaras”, em outubro de 1950 (Continental nº 16120 A; matriz 2147), tornou-se a música mais executada do Carnaval Brasileiro em nossos dias, segundo informa o Escritório de Arrecadação dos Direitos Autorais – Ecad que recolhe os seus direitos para o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife.

No Recife, a partir de 1941, o “Frevo dos Vassourinhas” recebeu, como acréscimo nas suas execuções, as variações especialmente composta pelo saxofonista da Orquestra de Nelson Ferreira, Félix (Felinho) Lins de Albuquerque (1895-1980) e assim abriu espaço para que outros virtuoses do instrumento compusessem suas próprias variações.

José Menezes - compositor

José Menezes – compositor

Dentre os autores de tais variações figuram o instrumentista José Xavier de Menezes (1923-2013), que nos deixou este depoimento que aqui transcrevo:

“Amigo Léo,

Este é um simples relato dos fatos sobre a 2ª gravação do frevo Vassourinhas. O toque jornalístico fica com você.

Gravado no dia 06/9/1950, no Rio de Janeiro, por “Zacarias e sua Orquestra”. Disco RCA-Victor – 78 rotações – nº 80.0705 -face A, e no verso – face B – foi gravado Freio a Óleo, de minha autoria – como é do seu conhecimento.

Consta do selo como título da música: FREVO DOS VASSOURINHAS (Nº1).

Histórico do surgimento da gravação:

No mês de maio de 1950, Geraldo Vilas (hoje falecido), representante da RCA-Victor, aqui no Recife, procurou o saxofonista Felinho, criador das variações do Vassourinhas, para fazer um arranjo da música, com suas variações, para ser gravada no Rio de Janeiro pela orquestra de Zacarias, que era na época, ela e a TABAJARA de Severino Araújo, as melhores do Brasil.

Felinho recusou o convite, alegando que suas variações só deviam ser gravadas por ele. Geraldo ofereceu passagem aérea e hospedagem no Rio de Janeiro e mais um cachê, para ele ir gravar com a orquestra de Zacarias. Mais uma vez Felinho recusou o convite com a legação de que não se sentia bem viajando de avião.

Em vista disso, Geraldo Vilas me procurou para fazer o arranjo e escrever variações inéditas, de minha autoria, que seriam executadas pelo 1º sax-alto da Orquestra de Zacarias, que se chamava Guerino.

Aceitei o convite, na condição da RCA comprometer-se em gravar, na face B do referido disco (que continha apenas duas músicas), um frevo de minha autoria, que seria FREIO A ÓLEO e assim foi feito.

Um fato interessante:

Quando Felinho soube do ocorrido, me procurou para saber se realmente eu tinha feito o arranjo de Vassourinhas, para outro músico gravar, com as variações dele.

Eu lhe respondi que realmente fiz o arranjo, entretanto, com variações de minha autoria, vez que, as variações e improvisações sobre um determinado tema musical, podem ser feitas de várias formas e por qualquer um.

Não existe autor de improvisações.

Em resposta, suas palavras foram as seguintes: “Quando o disco chegar, se tiver alguma de minhas variações, irei ao jornais protestar e processarei a gravadora”.

Quando disco chegou, mostrei a ele, e até a data de sua morte, muitos anos depois, ele nunca protestou porque as variações eram realmente inéditas. Eu tenho esse disco nos meus arquivos.

Recife, 18 de fevereiro de 2009.

José Menezes”

Sob o selo Mocambo, o “Frevo dos Vassourinhas”, de Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto, compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696.

Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira, produção autônoma com o selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

* * *

Frevo dos Vassourinhas nº 1, de Matias da Rocha e Joana Batista, com  Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara

MARACATUS, A PRESENÇA DA ÁFRICA NO CARNAVAL DO RECIFE

Maracatu Elefante – Dona Santa

O maracatu, da forma hoje conhecida, tem suas origens na instituição dos Reis Negros, já conhecida na França e em Espanha, no século XV, e em Portugal, no século XVI, passando para Pernambuco onde encontramos narrativas e documentos sobre tais coroações de soberanos do Congo e de Angola a partir de 10 de setembro de 1666, segundo testemunho de Souchou de Rennefort, in Histoire des Indes Orientales, publicado em Paris 1688.

As coroações de reis e rainhas de Angola na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife são documentadas a partir de 1674, segundo documentação reunida in Alguns documentos para a história da escravidão. Recife: Editora Massangana, 1988.

O folguedo do maracatu, semelhante aos bailes e batuques organizados pelos pretos de Angola ao tempo do governador José César de Menezes (1774-78), objeto de denúncia à Inquisição de Lisboa por parte dos frades capuchinhos da Penha (ANTT – Cartório da Inquisição nº4740), foi sempre alvo de censuras por parte das classes dominantes e de perseguição policial; segundo denúncia do mesmo jornal em sua edição de 11 de novembro de 1856 ao tratar do maracatu da praça da Boa Vista.

Cortejos de reis negros

Os cortejos dos reis negros, geralmente anotados pela imprensa, quando das festas de Nossa Senhora dos Prazeres e nas do Rosário de Santo Antônio, não eram conhecidos por maracatus, como se depreende do noticiário do Diario de Pernambuco de 20 de outubro de 1851:

… percorrendo à tarde algumas ruas da cidade, divididos em nações, cada uma das quais tinha à frente o seu rei acobertado por uma grande umbela ou chapéu-de-sol de variadas cores. Tudo desta vez se passou na boa paz e sossego, porquanto a polícia, além de ter responsabilizado, segundo nos consta, o soberano universal de todas as nações africanas aqui existentes, por qualquer distúrbio que aparecesse em seus ajuntamentos, não deixou por isso de vigiá-los cuidadosamente.

Os reis negros, em especial o Rei do Congo, possuidor de uma hierarquia própria sobre os membros das demais nações africanas aqui residentes, compareciam às festas religiosas protegidos pela umbela. Um grande pálio redondo, ladeado por dignitários de suas respectivas cortes, sendo o cortejo aberto pela bandeira da nação, juntamente com outras bandeiras arvoradas, e acompanhados por instrumentos de percussão, nem sempre ao gosto da população branca, como se depreende na observação do Padre Carapuceiro: “Alguns desses chapelórios ainda há poucos anos apareciam nos batuques dos pretos em dias de Nossa Senhora do Rosário, cobrindo o figurão chamado de rei dos congos” (Diario de Pernambuco, 15.3.1843).

O grande guarda-sol colorido sob o qual vinha amparado o rei de cada nação, como fora observado pelo Padre Carapuceiro, era denominado cumbi pelos africanos que, ainda em nossos dias, assim trazem protegidos os seus sobas. Inicialmente pensou-se que esta grande umbela havia sido transplantada do cerimonial da igreja católica, onde é utilizada como proteção ao santo viático, quando de sua saída às ruas, conforme bem retratou Emil Bauch em uma de suas cromolitografias tomadas da calçada da igreja matriz da Boa Vista, no Recife (c 1852).

Maracatus, ajuntamentos de negros

No Recife a denominação maracatu servia, a partir da primeira metade do século XIX, para denominar um ajuntamento de negros, como por ocasião da fuga da escrava Catarina, anotada por José Antônio Gonsalves de Mello em consulta à edição do Diario de Pernambuco de 1º de julho de 1845:

Em o dia 2ª feira do Espírito Santo do ano próximo passado, fugiu a preta Catarina, de nação Angola, ladina, alta, bastante seca de corpo, seio pequeno, cor muito preta, bem feita de rosto, olhos grandes e vermelhos, com todos os dentes da frente, pés grandes metidos para dentro, muito conversadeira e risonha, de idade de 22 anos; tem sido encontrada na Estrada da Nova da Passagem da Madalena e no Aterro dos Afogados, vendendo verduras e aos domingos no maracatu dos coqueiros do dito Aterro, e há notícia de ser o seu coito certo a matriz da Várzea; cuja escrava pertence a Manoel Francisco da Silva, morador na Rua Estreita do Rosário, 10, 3º andar, ou em seu sítio em Santo Amaro, junto à igreja, o qual gratificará generosamente a quem lh’ a apresentar.

Outro exemplo aparece na ata da sessão extraordinária da Câmara Municipal do Recife de 28 de abril de 1851, quando foi endereçada ao desembargador Chefe de Polícia “uma petição do preto africano Antônio Oliveira, intitulado Rei do Congo, queixando-se de outro que, sem lhe prestar obediência, tem reunido os de sua nação para folguedos públicos, a fim de que o mesmo desembargador providenciasse em sentido de desaparecer semelhantes reuniões, chamadas vulgarmente de maracatus, pelas conseqüências desagradáveis que delas podem resultar” (Diario de Pernambuco, 27.5.1851).

No Recife, os cortejos dos soberanos negros, trazendo os seus reis e rainhas, não saíam no período do carnaval, mas tão somente por ocasião de suas festas religiosas ou em ocasiões outras como o embarque de africanos libertos de volta à mãe África. A presença de “batuque do Rei do Congo” no carnaval do Recife só vem a ser registrada a partir do final dos anos cinqüenta do século XIX.

Os reis no Carnaval

Maracatu Elefante – Rainhas e princesas

Somente nos anos setenta do século XIX é descrita a presença desses cortejos de reis negros durante o carnaval, segundo noticia o Diario de Pernambuco sem sua edição de 10 de fevereiro de 1872, ainda sem a denominação de maracatus:

No dia 11 do corrente sairá da Rua de Santa Rita Velha (bairro de São José) a nação velha de Cambinda, a qual vai em direitura à Rua das Calçadas buscar a sua rainha, e depois percorrerá diversas ruas, e às 3 horas se achará em frente à igreja do Rosário [de Santo Antônio] onde se soltarão algumas girândolas de fogo e uma salva de 21 tiro; dali seguirá para o Recife e na Rua do Bom Jesus voltará com a vice-rainha de sua nação.

O maracatu era, até então, considerado a reunião de negros em determinado local. Um o batuque, na acepção de “dança africana ao estrépido de instrumentos de percussão” (Pereira da Costa), mas não o cortejo real que levava às ruas a corte dos reis negros, como faz ver o extenso editorial do mesmo jornal, publicado em 18 de maio de 1880:

…. Há tempos, que indicamos um maracatu que costuma reunir-se quase no extremo norte do Cais do Apolo, na freguesia de S. Pedro Gonçalves do Recife; hoje temos notícia exata de dois outros, dos quais os vizinhos têm as mais cruéis recordações. Juntam-se estes na freguesia da Boa Vista, um na Rua do Giriquiti, outro na Rua do Atalho. Neste último, anteontem, houve uma grande assuada e barulho, chegando a aparecer diversas facas de ponta. Felizmente, não se deram ferimentos, mas não esteve longe de assim acontecer. Urge, repetimos, providenciar em ordem a que cessem, desapareçam tão selvagens instrumentos, e o Sr. Dr. Chefe de Polícia, que volveu suas vistas contra as casas de tavolagem, deve também dirigir sua atenção para os maracatus.

O maracatu, na verdade, era tão somente o batuque dos negros, com localização fixa em determinado bairro da cidade. O cortejo real, como no caso anteriormente citado da “nação velha de Cambinda”, não parece ser a mesma coisa. A conclusão é reforçada pelo depoimento do carnavalesco João Batista de Jesus, “Seu Veludinho” do maracatu Leão Coroado, que segundo a tradição faleceu com 110 anos, prestado à pesquisadora Katarina Real em janeiro de 1966, in O folclore no Carnaval do Recife. Recife: Editora Massangana, 1990. 2ªed. p. 184:

Maracatu nem tinha o nome de maracatu. O nome era nação. Uma “nação” mandava ofício para outro “estado”. Surgiu essa palavra pelos homens grandes, quando ouviram os baques dos bombos, chamaram “aquele maracatu!”

Cortejo é chamado de maracatu

Com a abolição da escravatura negra, em 1888, e a proclamação da República, em 1889, a figura do Rei do Congo – Muchino Riá Congo – perdeu a sua razão de ser. Os cortejos dos reis negros já presentes no carnaval, por sua vez, passaram a ter como chefe temporal e espiritual os babalorixás dos terreiros do culto nagô. Assim vieram para as ruas do Recife, não somente nos dias de festas religiosas em honra de Nossa Senhora do Rosário, mas também nas festas carnavalescas.

Após a abolição, porém, os antigos cortejos das nações africanas, que continuaram a se fazer presentes no carnaval do Recife então sob a chefia dos seus babalorixás, passaram a ser chamados de maracatus, particularmente quando a notícia tinha conotação policial, como a divulgada pelo Diario de Pernambuco, em sua edição de 26 de fevereiro de 1889:

Revista Diária. Maracatu Porto Rico – Na Praça Pedro I, da paróquia de São Frei Pedro Gonçalves do Recife, deu-se anteontem um conflito entre os sócios do Maracatu Porto Rico, quando este fazia um ensaio. Ao que parece o conflito foi motivado por uma praça do 14º Batalhão, pois que cerca de 60 homens, armados de facas e cacetes, rebelaram-se contra a dita praça, que ferida tratara de fugir, quando ali compareceu o subdelegado da paróquia. Esta autoridade conseguiu prender seis dos tais desordeiros, inclusive o ofensor da praça, que foi vistoriada pelo sr. dr. José Joaquim de Souza.

Ainda recentemente, ao que se depreende do depoimento do presidente da Nação do Leão Coroado, Luiz de França, falecido aos 95 anos, “para conversar pouco, só digo que o maracatu é da seita africana”. (Diario de Pernambuco, 14 de janeiro de 1996).

As seculares nações africanas

A mais tocante descrição de um maracatu carnavalesco do início do século vem de Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923) que, em 1908, assim relata o cortejo no seu Folk-Lore Pernambucano:

Rompe o préstito um estandarte ladeado por arqueiros, seguindo-se em alas dois cordões de mulheres lindamente ataviadas, com os seus turbantes ornados de fitas de cores variegadas, espelhinhos e outros enfeites, figurando no meio desses cordões vários personagens, entre os quais os que conduzem os fetiches religiosos, – galo de madeira, um jacaré empalhado e uma boneca de vestes brancas com manto azul -; e logo após, formados em linha, figuram os dignitários da corte, fechando o préstito o rei e a rainha.

Estes dois personagens, ostentando as insígnias da realeza, como coroas, cetros e compridos mantos sustidos por caudatários, marcham sob uma grande umbela e guardados por arqueiros.

No coice vêm os instrumentos: tambores, buzinas e outros de feição africana, que acompanham os cantos de marcha e danças diversas com um estrépito horrível.

Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda de totororó.

O autor chama a atenção do leitor para o Maracatu Cabinda Velha que, “desfraldando um rico estandarte de veludo bordado a ouro, como eram igualmente a umbela e as vestes dos reis e dignitários da corte, e usando todos eles de luvas de pelica branca e finíssimos calçados. Os vestuários dos arqueiros, porta-estandarte e demais figuras, eram de finos tecidos e convenientemente arranjados, sobressaindo os das mulheres, trajando saias de seda ou veludo de cores diversas, com as suas camisas alvíssimas, de custosos talhos de labirinto, rendas ou bordados, vistosos e finíssimos; e pendentes do pescoço, em numerosas voltas, compridos fios de miçangas, que do mesmo modo ornam-lhes os pulsos. Toda comitiva marchava descalça, à exceção do rei, da rainha e dos dignitários da corte, que usavam de calçados finos e de fantasia, de acordo com os seus vestuários”.

E concluindo, afirma Pereira da Costa:

“Quando o préstito saía, à tarde, recebia as saudações de uma salva de bombas reais, seguida de grande foguetearia, saudações essas que eram de novo prestadas no ato do seu recolhimento, renovando-se e continuando as danças até o amanhecer; e assim, em ruidosas festas e no meio de todas as expansões de alegria, deslizavam-se os três dias do Carnaval”.

Preservando a denominação de nação, os préstitos dos maracatus de baque virado (que utilizam nas suas apresentações tão somente instrumentos de percussão de origem africana) continuam a desfilar pelas ruas do Recife nos dias do carnaval e nos meses que antecedem a grande festa. Denominando-se de Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação do Indiano (1949), Nação Porto Rico (1915), Nação Cambinda Estrela (1953), além de outros grupos que surgiram mais recentemente, mantendo a tradição africana dos seus antepassados.

OLINDA, É TODA CARNAVAL

O Carnaval de Olinda tem o seu início oficial nos primeiros minutos do domingo quando, no Bonsucesso, o Homem da Meia Noite “bota a cabeça de fora / Aquece a folia / A rua toda estremece / No céu a lua aparece / Explode a alegria” ….

No rastro deste tradicional boneco surgem, como que saídos de um conto de fadas, a Mulher do Dia, o Menino da Tarde, o Tarado da Sé, o Capibão, dentre outras dezenas de bonecos gigantes que vão, pouco a pouco, tomando conta da paisagem.

Caboclinhos, maracatus-nação de baque virado, troças e clubes de frevo, maracatus rurais com seus caboclos de lança, blocos carnavalescos com suas orquestras de pau e cordas, tribos de índios, bois, reisados, a presença cigana nas La Ursas, turmas de palhaços colorido, multidões de alegres mascarados, estão a encher de cores ladeiras, becos, ruas e avenidas, nos dias dedicados ao Carnaval, transformando Olinda no Reino Azul da fantasia.

Batidas sincopadas de bombos dos maracatus-nação, estalidos das preacas dos caboclinhos, notas agudas e dissonantes das fanfarras de frevo, sons rurais de acordeões de La Ursas, batuques de escolas de samba, cômicas toadas de um Mateus do bumba-meu-boi, o lirismo do bloco Flor da Lira cantando, se juntam aos caboclos de lança do maracatu Piaba de Ouro de modo a se misturar com a onda de passistas seguidores dos cortejos da Pitombeiras, do Elefante, da Ceroula, do Vassourinhas, de Marim dos Caetés, ou mesmo do Eu acho é pouco, que mais parecem, na imagem de Alceu Valença, com uma enorme “cobra que desce a ladeira com gosto de gás”.

O carnaval de Olinda em nada se assemelha ao do resto do Brasil. Para o escritor Luís da Câmara Cascudo, “o carnaval dos grupos e dos ranchos, das escolas de samba do Rio de Janeiro” em nada se parece ao carnaval de Olinda, “o carnaval da participação coletiva na onda humana que se desloca, contorce e vibra na coreografia, a um tempo pessoal e geral do frevo, com a sugestão de suas marchas-frevos pernambucanas, insubstituíveis e únicas”.

Nesta paisagem carnavalesca, um ritmo é o grande responsável pela aglutinação das multidões que tomam conta das ruas, becos e avenidas da Cidade Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade durante o carnaval ou em seus momentos de alegria.

Surgido do repertório das bandas militares, o frevo pernambucano como música é o resultado da fusão da marcha, do tango brasileiro, do maxixe, da quadrilha, do galope e, mais particularmente da polca e do dobrado, que num mesmo cadinho deram origem a esta música singular de andamento alegro, ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica. A partir dos anos trinta, do século passado, convencionou-se dividir o frevo em frevo-de-rua, frevo-canção e frevo-de-bloco.

Como no frevo de Severino Luiz Araújo e Nelson Luiz Gusmão, “… é lindo o carnaval de Olinda / E quem não viu ainda / Não sabe o que é paixão / A vida esquece a saudade / Tudo é felicidade / E amor no coração.”

• Do livro “O’ linda, o teu nome bem diz!”, 480 p. ilustrado, a espera de patrocínio para sua edição.

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OLINDA, NO TEMPO DOS FLAMENGOS

A vida religiosa da capitania tinha como centro a matriz do Salvador do Mundo, sendo ela, em todo século XVI e início do século XVII, a segunda igreja em importância da América Portuguesa, depois da Sé da Bahia. O grande templo foi parcialmente concluído em 1540, apresentava-se com três naves, tendo na portada duas colunas geminadas. O padre Fernão Cardim assim o descreve em 1584: “uma formosa igreja matriz, de três naves, com muitas capelas ao redor, e que acabada ficaria uma boa obra”.

Preocupou-se o primeiro donatário não somente com a implantação da agroindústria açucareira, mas também com a educação da juventude e, muito particularmente, com a catequese dos indígenas, tendo para isso entregue aos padres da Companhia de Jesus, em 1551, a ermida de Nossa Senhora da Graça, por ele construída na mais alta elevação da vila. Coube aos padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires coordenarem o nivelamento do terreno e nele iniciar a construção, junto à primitiva igreja, do edifício do Colégio de Olinda. As obras se prolongaram por toda a segunda metade do século XVI, juntamente com a instalação de um Horto Botânico destinado à aclimatação das plantas exóticas, trazidas da Europa e do Oriente para Pernambuco.

Também as ordens religiosas procuraram estabelecer os seus conventos em terras da nova capitania. Inicialmente, como já vimos, foram os Jesuítas (1551), seguindo-se dos Franciscanos (1585), Carmelitas (1588) e Beneditinos (1592).

09. Ruínas da Sé de Olinda, segundo quadro de Frans Post (detalhe)

Ruínas da Sé em Olinda – Frans Post

Uma visão de Olinda, no início do século XVII, nos é dada por Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8):

Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

A riqueza de Olinda, por sua vez, era sustentada pelas mercadorias exportadas através porto de Pernambuco, notadamente o açúcar. Sua importância nas relações comerciais com o norte da Europa, é ressaltada em grande parte dos documentos do século XVI e início do século XVII, graças à produção do açúcar, que passara de gênero de alto luxo a produto acessível às classes de menor poder aquisitivo. Tal riqueza veio despertar a cobiça dos piratas e corsários, tornando as caravelas (navios pequenos e mal-armados), em presas fáceis. Informa K. R. Andrews que, entre 1589 e 1591, Portugal perdeu para corsários ingleses nada menos que 34 navios, em sua maioria procedentes dos portos de Pernambuco e da Bahia.

Em 1589, segundo fonte jesuítica, num período de nove meses, foram apreendidos por ingleses e franceses 73 navios carregados.

Na primeira metade do século XVII a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida em todos os portos da Europa, veio despertar a cobiça dos Países Baixos. Em guerra com a Espanha, sob cuja coroa se encontrava Portugal e suas colônias, necessitava a Holanda e demais repúblicas de todo açúcar produzido no Brasil para suas refinarias (26 só em Amsterdã). Com o insucesso da invasão da Bahia (1624), onde permaneceram por um ano, mas com o valioso apoio de Isabel da Inglaterra e Henrique IV da França, rancorosos inimigos da Espanha, a Holanda, através da Companhia das Índias Ocidentais, formada pela fusão de pequenas associações, em 1621, cujo capital elevara-se, em pouco tempo, a 7 milhões de florins, voltou o seu interesse para Pernambuco.

A produção de 121 engenhos de açúcar, “correntes e moentes” no dizer de van der Dussen, (¹) viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck. Uma grande armada, com 65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

A Vila de Olinda, uma das mais abastadas da América Portuguesa, cujo fausto era comparado com Lisboa e Coimbra, não se perturbara com os boatos da chegada dês uma grande armada .

Nas ruas os seus habitantes, aproveitando as festas pelo nascimento do príncipe Baltasar, herdeiro do trono de Espanha, vestiam seda e damasco, montavam em garbosos cavalos ajaezados em prata, com o som de suas cascavéis a chamar a atenção de sua passagem.

Senhores da terra, os holandeses escolheram o Recife como sede dos seus domínios no Brasil, por ter nesta praça a segurança que não dispunham em Olinda, “por ser aberta por muitas partes e incapaz de defesa”, na observação de Diogo Lopes Santiago (História da Guerra de Pernambuco).

Na noite de 25 de novembro de 1631, resolveram os chefes holandeses pôr fogo na sede da capitania de Pernambuco, “a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas e nobres edifícios, arderam seus templos tão famosos, e casas que custaram tantos mil cruzados em se fazerem” (Santiago).

O soldado da Companhia das Índias Ocidentais, Ambrósio Richshoffer, em anotações ao seu Diário, relata que a demolição dos edifícios de Olinda teve início no dia 17, “transportando-se mais tarde para o Recife todo o material aproveitável”.

A 24 nossa gente que ali se achava retirou-se para a aldeia Povo ou Recife, destruindo antes tudo o que foi possível e pondo fogo à cidade em diversos pontos. Esta resolução foi motivada pelo fato de ser a cidade toda montanhosa e desigualmente edificada, sendo difícil de fortificar e exigir uma forte guarnição, que podíamos empregar melhor aqui e em outros pontos. (²)

Olinda - Frans Post - Rijksmuseum 107,5 x 172,5 (2)

Olinda – Frans Post

Segundo depoimento de Duarte de Albuquerque Coelho, em Olinda “residiam 2.500 vizinhos, possuindo quatro conventos religiosos, sendo um de São Bento, outro dos recoletos de São Francisco, o terceiro do Carmo, e um colégio dos Jesuítas; havia mais duas paróquias, uma casa de Misericórdia e a da Conceição de recolhidas, além das Ermidas. O que não pode referir-se, sem grande e devido sentimento, é que também deixaram nas chamas todas estas igrejas e conventos, e as Santas Imagens”. (³)

Em Olinda a paisagem e costumes foram assim descritos pelo Frei Manuel Calado, “tudo eram delícias e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso” (O Valeroso Lucideno).

Mas a segurança para Waerdenburch e demais chefes holandeses falava mais alto, daí fixar-se no Recife e na ilha de Antônio Vaz que “são lugares próprios para, com oportunidade, fundar-se uma cidade” e “penso que ninguém que da Holanda vier para aqui quererá ir morar em Olinda” (Adolph van Els), sendo proibidas quaisquer construções no perímetro urbano da antiga capital.

Observa José Antônio Gonsalves de Mello que “uma população enorme, calculada em mais 7.000 pessoas, teve de se comprimir no Recife e em Antônio Vaz [área hoje ocupada pelos bairros do Recife e de Santo Antônio]. Aí as casas eram em número insuficiente e muitos dos armazéns tinham sido incendiados”.

Ao contrário do que muitos podem pensar, foi o açúcar, e não a esperança de descobrimento de minas, o motivo principal da invasão, conforme bem demonstrou José Antônio Gonsalves de Mello. (4)

Açúcar, no dizer do padre Antônio Vieira, passou a ser sinônimo de Brasil.

______________

1) DUSSEN, Adriaen van der. Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos holandeses (1639): suas condições econômicas e sociais. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1947. 168 p. Tradução, introdução e notas de J. A. Gonsalves de Mello.

2) RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p. il. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert & Comp., 1897.

3) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638. Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12). Inclui mapas de Manoel Bandeira e índice onomástico.

4) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. 2.ed. p. 130.

OLINDA, É SÓ PARA OS OLHOS

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Carlo Pena Filho

Os cronistas que descrevem a Vila de Olinda no final da segunda metade do século XVI e nos anos que antecederam ao incêndio provocado pelos holandeses, em novembro de 1631, são unânimes em proclamar as suas belezas naturais e a imponência do seu casario, dominados por ricos conventos, belas igrejas, a grandiosidade do seu colégio e o ambiente acolhedor de suas residências.

Em sua narrativa assinala o capelão holandês Johannes Baers, além das construções religiosas e do Colégio dos Jesuítas, alguns aspectos importantes da casa urbana olindense:

As casas não são baldas, mas, cômodas e bem feitas, arejadas por grandes janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas subidas todas com largas escadarias de pedra, porque as pessoas de qualidade moram todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são de pedra dura e pesada. (¹)

Sobre o mobiliário da casa urbana, revela o reverendo que nelas “foram achados poucos móveis, como cadeiras e bancos, caixões e arcas, e outras obras de madeira e objetos domésticos, pouca prata ou dinheiro amoedado, e outras alfaias preciosas ou jóias”.

Conclui, no entanto, o cronista ser o estado de guerra que se encontrava instalado, responsável pelo abandono da por seus moradores levando o que podia de seus pertences.

Eles ao que parece fugiram com os seus tesouros e a maior parte dos seus bens para as aldeias, montes e engenhos do interior, tendo sido prevenidos da nossa chegada com alguma antecedência.

Na visão romântica do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais de 1629 a 1640, era Olinda uma “cidade formosa, situada numa curiosa situação, de prazerosa perspectiva, com edifícios suntuosos, acompanhados por raros jardins com frutos e prazeres, fontes de uma água pura e maravilhosa”.

Neste lugar houve a afluência dos mais galantes homens e mulheres, cada qual se esforçando por ultrapassar os outros em orgulho e grandeza, tanto quanto as mulheres, por sua parte, podiam fazer. Elas não economizaram tesouro algum para enfeitar-se, para enfeitiçar o coração dos seus amantes com suas belezas, tendo na mão a ajuda de perfumes odoríferos. […} Nesta cidade as classes de mulheres mais elegantes usavam em lugar de sapatos, chapins [ calçado feminino de sola grossa, de madeira, cortiça etc., usado para realçar a estatura das mulheres], de meio pé de comprido. Tampouco saíam de portas afora para a rua, mesmo que fosse pelo espaço de meia pedrada, sem serem carregadas entre dois escravos numa rede de grande valor. E sobre ela, para guardá-la do sol, um pano de rico bordado engastado de pérolas.

Ao dar continuidade a sua narrativa, o oficial inglês, usando talvez da imaginação, conta o fato de certa dama olindense que tinha por hábito banhar-se à noitinha, “quando já estava escuro, numa fonte feita para esse propósito, perto da qual havia passeios sombreados por laranjeiras e cidreiras, de modo que ela vindo refrescar-se, encontrava então, sob essas sombras, onde o próprio ar era perfumado com odor das frutas e flores, com o seu bem amado que ali a esperava”.

A dama, com um toque de sua viola ou de algum outro instrumento dava alarme ao peregrino, que com toda a diligência buscava essa emboscada. E achando-a, desafiava a outra facção que respondendo “amigo”, descarregava-lhe uma saraivada de abraços, ficando ela mesma prisioneira de sua mercê, cujo tenro coração lhe dá bom quartel e por razão de piedade a ela propicia tantos favores quantos pode fornecer suas forças. Até que a lua, ficando descoberta, começa a desalojar esses lugares e eles fogem para algum refúgio seguro e mais privado. (²)

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1) BAERS, Padre João. Olinda conquistada. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 76 p. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 b). Fac-símile da ed. Recife: Typographia de Laemmert & C.- Editores, 1898. p. 40-42.

2) PUDSEY, Cuthbert. Diario de uma estada no Brasil 1629-1640. Rio de Janeiro: Index, 2000. p. 43-44.

FREI CANECA, O MÁRTIR ESQUECIDO

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A execução de Frei Caneca (detalhe), óleo do pintor palmarense Murilo La Greca

Certa vez em visita ao Recife, o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, desejou conhecer os Montes Guararapes, onde visitou a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, e o monumento em honra ao mártir pernambucano Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

O levaram ao Largo das Cinco Pontas, onde se encontra um pequenino busto e o resto de parede com uma lápide em mármore, assinalando o local do seu suplício em 13 de janeiro de 1825.

Extasiado, indagou o visitante se era tudo que existia no Recife em memória de tão ilustre liberal, e ao obter a confirmação exclamou irritado: É muito pouco para um Grande Brasileiro!

Os tempos passaram e nada foi feito para avivar a memória do mártir maior da Confederação do Equador (1824), restringindo-se tudo ao pequenino busto em cimento, junto a um resto de muro no qual se encontra afixada uma placa em mármore, com inscrição em letras pretas maiúsculas, ali colocada pelo Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (sic) na data de dois de julho de 1917:

Neste largo foi espingardeado junto à forca, a 13 de janeiro de 1825, por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo, o Patriota Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Republicano de 1817, e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824.

Nascido de uma família pobre do Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796. Ordenando-se em 1801, substituiu o seu nome de família pelo apelido dado a seu pai, que tinha a profissão de tanoeiro. Logo se notabilizou pelos seus conhecimentos de Retórica e Geometria, Direito, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático. Foi membro da Academia do Paraíso, e teve participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em seis de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde penou por quatro anos, sendo dele esses versos:

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após o episódio da dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das idéias liberais que viriam a ser defendidas pela Confederação do Equador (1824).

O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições, transformando-se no ideário dos liberais de então, partidários de Manoel de Carvalho Paes de Andrade.

Com a província de Pernambuco invadida pelas tropas imperiais, é proclamada, em dois de julho de 1824, a Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano que mais uma vez põe em armas os liberais pernambucanos. Derrotados no Recife, os revoltosos iniciam penosa marcha em direção ao Ceará, episódio narrado com cores fortes por Frei Caneca no seu Itinerário. Presos e agrilhoados retornaram ao Recife, aonde o frade vem a ser condenado à forca em sentença expedida em 10 de janeiro de 1825.

Debalde o Cabido Metropolitano comparece em procissão ao Palácio do Governo pedindo a suspensão da pena. Em represália os cônegos negaram-se a desautorar suas ordens tornando nulo, perante o Direito Canônico, todos os atos que se seguiram.

A execução foi marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825.

Na prisão mais uma vez escreve versos, despedindo-se dos amigos e das suas filhas, por ele chamadas de “afilhadas das minhas entranhas”, dormira sereno a sua última noite e, na manhã seguinte, marchou com altivez em direção ao patíbulo.

Diante de tal cena o inesperado aconteceu: carrascos convocados para execução da pena capital negaram-se executá-la, pouco se importando com as promessas e com os suplícios que lhes foram imposto pela tropa.
Diante do impasse foi à pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

Os seus restos mortais vieram a ser sepultados no Convento do Carmo, em local não determinado, o seu nome, porém, é hoje reverenciado pela grande maioria das capitais do Brasil, onde sempre existe uma Rua Frei Caneca, muito embora continue esquecido na terra que lhe serviu de berço.

E observem que existe em pleno funcionamento uma Comissão de Notáveis destinada a elaboração das Comemorações dos 200 anos da Revolução Republicana de 1817, instituída com “pompa e circunstância” pelo governador Paulo Câmara!

Que fez esta Comissão de Notáveis no transcurso da morte de Frei Caneca, um dos mártires de 1817 e a principal cabeça pensante da Confederação do Equador?

RECORDAÇÕES DO GALO D’OURO

No dia 12 de março de 2005, ao abrir os jornais para minha leitura matinal, me surpreendem as notícias: Galo d’ Ouro encerra as atividades.

Fecho os olhos e, com o sentimento de quem perdeu um ente querido, começo a divagar recordando toda uma existência de mais de quatro décadas vividas naquele simpático restaurante português da Rua Camboa do Carmo.

Em minhas recordações surge a figura do português Joaquim Marques Cassimiro (falecido em 1983), dono d’O Cassimiro, restaurante por ele fundado em 1959, que antecedeu naquela rua o Galo d’ Ouro; este adquirido por outro português, Afonso Albérico Lopes da Silva, em 1962.

Ao Cassimiro e depois ao Galo d’Ouro comecei a freqüentar ainda em companhia do meu pai, Tonico Silva, que me iniciara nos temperos da cozinha portuguesa.

Já no Jornal do Commercio, nos idos de 1965, voltei a freqüentar com mais assiduidade o Galo d’Ouro ao lado de minha mãe Ilídia, nos finais de semana, e com os colegas de redação, vez por outra, nos almoços dos sábados.

O restaurante estava situado no mesmo local, em um lote bem mais estreito, tendo em sua entrada uma vitrine frigorífica, com peixes, lagostas e outros alimentos servidos no seu cardápio.

Vieram os tempos da Faculdade de Direito e lá estava eu, no Galo d’Ouro, com minha noiva da época que tinha por preferência “Lagosta ao termidor”; ainda num tempo em que o crustáceo era servido flambado em sua própria carapaça.

É dos anos sessenta do século XX a minha amizade com Gaudêncio de Souza Aguiar, que veio a ser gerente do restaurante até os seus últimos dias, quando já era o Galo dirigido pela viúva, Zuleide, e filhos de Afonso Albérico, falecido em 31 de outubro de 2003.

É também dos anos sessenta do século XX os almoços semanais com Capiba, que tinha por prato preferido “Salada de camarão sem pepino”, e sua mulher, Zezita, cuja preferência recaía na “Perna de cabrito com batatas coradas”.

Nos anos setenta, quando o Diário de Pernambuco organizava os festejos do seu Sesquicentenário foi a vez dos saudosos encontros com Antônio Camelo, Nereu Bastos, Joezil Barros e Gladstone Vieira Belo quase todas as semanas.

Nessas últimas quatro décadas fora o Galo d’Ouro uma extensão do meu lar: Almoçar no Galo, aos domingos, era como não sair de casa.

No Galo eu vi meus filhos ensaiarem os primeiros passos e crescerem até se tornar adultos. Mariana tinha por preferência, “Tutu de feijão com batatas fritas”; enquanto Tonico, até na última vez em que lá estivemos, pedia sempre: “Língua ao molho de madeira, com talharim”.

Eu, porém, auscultando sempre a sugestão do amigo Gaudêncio, ficava entre a Perna de Cabrito e o Polvo à espanhola; este último com a recomendação, “à moda antiga”, isto é, preparado no mesmo modo dos tempos do antigo Cassimiro.

Para sobremesa, a nossa escolha era unânime: Pudim de laranja; aquele mesmo gostinho doce-amargo, que me fazia lembrar os lanches com a minha saudosa mãe nas Lojas 4.400 da Rua Nova, ou na Botijinha, na Matias de Albuquerque. – Nos últimos tempos, na falta do Pudim de laranja, dávamos preferência a inesquecível Cartola.

Tudo isso servido com a prestimosidade de antigos funcionários, por nós conhecidos pelos seus nomes próprios: Alexandre, José Joaquim (que tem uma filha por nome de Mariana), Heleno, Barbosa, Osvaldo e Roberto.

O Galo d’ Ouro não mais existe, a Camboa do Carmo, nos domingos, transformou-se em território de fantasmas; como nos versos de Chico, “tempo passou na janela, só Carolina não viu…

CLAUDIONOR, PATRIMÔNIO IMATERIAL DE PERNAMBUCO

Dentre os agraciados com o título de Patrimônio Imaterial de Pernambuco, no ano de 2016, figura o nome do consagrado intérprete da música pernambucana Claudionor Germano da Hora.

De há muito, independente da consagração oficial pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, o nome de Claudionor Germano é uma consagração em todo território pernambucano, por conta de suas interpretações dos vários ritmos do nosso Estado.

Ao surgir a Fábrica de Discos Rozenblit em 1953, para intérprete do disco de lançamento foi lembrado, por Nelson Ferreira, o nome de Claudionor Germano. Assim, sob o selo Mocambo de n º 15000-B, matriz R–501, surgiu a sua primeira gravação no frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes, orquestra da PRA 8 sob a regência do próprio Nelson Ferreira.

Assim aparecia em disco o nome de Claudionor Germano, que veio a ser o intérprete favorito da maioria dos compositores do carnaval pernambucano. Ninguém no Brasil gravou mais para o carnaval do que ele; ninguém é mais conhecido do folião pernambucano do que esse intérprete maior dos frevos de Capiba, Nelson Ferreira, José Menezes, Manuel Gilberto, Antônio Maria, Luiz Bandeira, Alceu Valença, Getúlio Cavalcanti, dentre outros monstros sagrados do nosso frevo-canção; sua voz, quando chega o carnaval, se faz presente em todos os recantos de Pernambuco e em outros estados vizinhos.

Claudionor Germano da Hora nasceu no Recife, em 19 de abril de 1932, iniciando a sua carreira artística no Rádio Club de Pernambuco, em 1947, transferindo-se depois para o Rádio Tamandaré e, finalmente, para o Rádio Jornal do Commercio, onde teve oportunidade de atuar sob a direção do maestro Guerra Peixe. Foi durante anos o cantor da Orquestra de Nelson Ferreira e, a partir do carnaval de 1954, passou a integrar o cast da Fábrica de Discos Rozenblit. Sob o selo Mocambo veio a gravar, em 1959, os discos long plays Capiba – 25 anos de frevo (LP 40039) e Nelson Ferreira  O que eu fiz e você gostou (LP 40040), no que foi seguido em 1961 com Carnaval começa com C de Capiba (LP 40053) e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira (LP 40054), que vieram consagrá-lo como o mais importante intérprete do frevo-canção de todos os tempos. Gravou ainda Sambas de Capiba (LP 40044), em 1961, com destaque no lado B para A mesma rosa amarela (Capiba e Carlos Pena Filho), um dos sucessos da bossa-nova por ele lançado nacionalmente em março de 1960: disco 78 r.p.m., Mocambo nº 18877. Entre 1966-68 participou como finalista das três versões do Festival Internacional da Canção Popular, defendendo Canção do amor que não vem (Capiba), São os do Norte que vêm (Capiba e Ariano Suassuna) e Por causa de um amor (Capiba).

No âmbito do carnaval, além das dezenas de discos em 78 R.P.M. e dos LPs citados, foi responsável pela interpretação das séries Baile da Saudade v. I e II, O Bom do Carnaval e algumas faixas do Capital do Frevo, produzido anualmente pela Mocambo com as músicas inéditas de cada ano. Gravou ainda Dôzinho e seu carnaval, Cirandas (Musicolor K20286 – 1972) e Nelson Ferreira – Meio século de frevo-canção; este último, juntamente com 25 anos de frevo de Capiba, foram reeditados em compact-disc pela Polydisc-Recife em 1993.

Foi uma presença constante em todos os festivais da música carnavalesca, notadamente do Frevança (1979-89) e Recifrevo (1990-95), participando ainda de onze compactos (45 r.p.m.) e dois LPs da série O Bom do Carnaval com a gravadora RCA; participando, ainda, das excursões do Vôo do Frevo por duas vezes nos Estados Unidos (Miami e Nova Iorque) e no Japão (Tóquio).

Graças a sua invejável memória, que lhe dá a facilidade necessária de decorar todas as letras de sua bagagem de intérprete, aliada a pronúncia exata e a dicção perfeita, bem como a facilidade na mudança de tons e o conhecimento do estilo de cada compositor, Claudionor Germano vem sendo o mais requisitado intérprete do carnaval pernambucano: é ele o intérprete favorito de Capiba, de quem já gravou 124 músicas.

Quando do surgimento da Frevioca em 1980, orquestra volante com 28 músicos por mim criada para animar o carnaval do centro do Recife, convidei Claudionor Germano e o maestro Ademir Araújo para participar daquela volante do frevo, dupla que nela permaneceu durante muitos anos.

Sobre Claudionor Germano vale transcrever parte do depoimento do crítico musical e historiador José Ramos Tinhorão na contracapa do disco O Bom do Carnaval (RCA n º 1070342), gravado em 1981, com orquestra sob a direção do maestro Edson Rodrigues:

Embora tendo começado pelas tendo começado pelas canções de Vicente Celestino, ainda na escola (“ meu Brasil para aumentar a tua glória…”), embora não podendo deixar de sofrer, já rapaz, a influência fulminante do sestroso carioca Orlando Silva (ao lado de quem chegou a cantar, menino – que emoção! – durante uma festa de homenagem aos pracinhas da FEB), embora pagando o preço da moda, ao iniciar a carreira de profissional no Rádio Club de Pernambuco, em 1949, como crooner do conjunto Ases do Ritmo, foi como cantor de música tipicamente pernambucana que o estilo de Claudionor Germano se firmou. A ponto de, já em 1967, poder surgir diante dos milhares de brasileiros de todas as regiões que se acotovelavam no Estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, durante o II Festival Internacional da Canção, como a única voz capaz de emprestar o indispensável toque à vigorosa canção de Capiba, “São os do Norte que vêm”. Atualmente tão identificado com a música de sua região que pode ser considerado o cantor oficial do Recife (quando chega o carnaval é puxador de marchas e frevos, cantando pelas ruas em cima de um caminhão chamado de frevioca, além de figura indispensável, à frente das orquestras dos grandes bailes carnavalescos dos clubes Náutico e Português), Claudionor Germano consegue, no entanto, um privilégio de que poucos artistas podem se orgulhar: sem sair de sua terra pode ser ouvido – e suas interpretações neste disco comprovam isso – como uma autêntica voz nacional.

* * *


JOSÉ ANTÔNIO E SEU CENTENÁRIO

Transcorreu no último dia 16 de dezembro de 2016 o Centenário de Nascimento de José Antônio Gonsalves de Mello, o maior historiador brasileiro do seu tempo.

A data que deveria ser comemorada com festas e fanfarras, passa em extremo silêncio, só quebrado pela aposição de um painel de azulejos na casa onde ele morou de 1946 a 1969 no bairro das Graças (Rua das Pernambucanas), graças a iniciativa de um sócio do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, Sílvio Amorim.

O Instituto Ricardo Brennand, onde encontra-se preservado toda a biblioteca e arquivo pessoal de José Antônio, realiza um painel sobre sua obra e uma exposição com seus manuscritos, retratos, condecorações e objetos diversos.

Na Universidade Federal de Pernambuco, onde ensinou por tantos anos no Departamento de História e foi criador do falecido Instituto de Ciências do Homem; na Fundação Joaquim Nabuco, da qual foi o seu primeiro diretor; no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, do qual foi presidente e por vezes mantenedor, por dezenas de anos; reina tão somente o silêncio sem qualquer manifestação digna do vulto desta figura que, por tantos méritos, deveria ser exaltada e lembrada para as novas gerações de estudiosos da história pernambucana.

Sobre ele certa vez eu escrevi…

Certa vez o poeta Mauro Mota, ao fazer a apresentação de um dos seus livros, afirmou: “o que ele diz é; e se não é, passa a ser!”.

Para os que se dedicam aos estudos históricos, o nome de José Antônio Gonsalves de Mello continuará presente por muitas gerações que terão em sua obra, parte dela ainda desconhecida, fonte de referência obrigatória, inspiração para novos caminhos e exemplo de toda uma vida dedicada à pesquisa.

Para os seus discípulos, porém, naquele sete de janeiro de 2003, o desaparecimento de José de Antônio deixou em todos o sentimento de orfandade. A sensação de perda irreparável, ausência de uma retaguarda, barco sem timoneiro, alavanca sem fulcro, insegurança e falta de estímulo para prosseguir na caminhada.

Para quem escreve estas linhas, ainda com o coração nas mãos, a ausência de José Antônio é muito mais do que tudo isso… Com o seu passamento eu, que fui dos seus discípulos o mais amado, me vi, como que de repente, sem a presença do amigo, do companheiro de inúmeras viagens por terras de Portugal, do mestre vigilante e compreensivo, do conselheiro de todas as horas, enfim, daquele pai espiritual que, desde 1966, veio atenuar uma outra lacuna, a que me foi deixada com a ausência de Tonico¹ .

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RECORDANDO NOSSOS DEZEMBROS…

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Capela e Casa Grande do Engelho da Torre

Era chegado dezembro.

A festa de Santa Luzia, com suas luzes e gente de todas as partes, anunciava às crianças do bairro que estávamos no mês das festas.

Carrossel, roda-gigante, montanha russa, casa-dos-loucos, barquinhos, onda-marinha, barracas de prendas, bares e um serviço de alto-falantes com as suas mensagens “de alguém para você” compunham a paisagem do parque de diversões.

Em frente à secular matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, toda iluminada por cordões de lâmpadas que anunciavam de longe a sua presença, mamulengos, pastoris e a retreta, animada pelas bandas do Liceu de Artes e Ofício e da Polícia Militar, encantavam os frequentadores da festa em honra da padroeira dos operários das indústrias de fiação e tecelagem.

O padre Romeu Gusmão da Fonte, recém-chegado à paróquia, era todo doação para com seus novos paroquianos que, ainda em nossos dias, o têm como um santo, refrigério de todas as horas.

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Padre Romeu Gusmão da Fonte

Estávamos em dezembro, era tempo de festas no bairro da Torre.

No Sesi e na Vila Operária, os pastoris eram o chamariz dos finais de semana. Belas pastoras, orquestras nem sempre afinadas, jornadas animadas, belas pernas a rodopiar no tablado, faziam a festa em que os leilões de prendas e ramalhetes se tornavam o alvo especial de nossas brincadeiras…

Dezembro passava célere … Num piscar de olhos já estávamos na semana do Natal…

Na pobreza da Rua Marquês de Maricá, porém, a festa não tinha a animação do São João, muito embora guardasse na singeleza dos lares o espírito natalino.

Naquelas casas não havia lugar para a figura do Papai Noel, nem muito menos para pinheirinhos cobertos de algodão, como a imitar neve neste verão tropical.

Nas salas tão somente uma miniatura da lapinha, como a lembrar o nascimento do Cristo em Belém, e nas mesas algumas iguarias em tudo estranhas às residências de maiores posses.

– Um quarto de cabrito assado, com farofa, substituía com mais graça e sabor o peru da mesa dos ricos.

Na noite do Natal as crianças, algumas com as suas roupas novas, outras tão somente com o espírito natalino a povoar os seus sonhos, brincavam na rua sem calçamento, nem iluminação pública, à espera da “missa do galo”.

Brincava-se de roda, de barra-bandeira e de outras tertúlias infantis, à espera da meia-noite quando o bairro inteiro tinha um encontro marcado na missa campal, em frente à matriz iluminada, com cânticos natalinos e pregações a cargo dos padres José Sales Tiné e Romeu da Fonte, sob o repicar dos sinos anunciando a noite de Natal.

Velhos e moços, crianças e adolescentes, abraçavam-se e desejavam, como se fizessem parte de uma grande e infinita família, os melhores votos de um Feliz Natal! …

Era a renovação construída através das gerações, tendo por cenário o então bucólico bairro, que naquele instante se confraternizava naquela noite cheia de mistérios.

Nos lares mais modestos, os bolos e, muito especialmente, os pastéis de carne de porco, cobertos com açúcar e canela, faziam parte de nossa ceia.

Era Natal, a rua humilde de casas de taipa, “cariadas, porém de pé”, para usar a imagem do poeta, parecia vestir-se de alegria e esperança.

Os meninos iam dormir sonhando com os presentes que, ao acordar, iriam encontrar sobre os seus sapatos… Presentes que, de tão modestos, tornar-se-iam descartáveis para qualquer criança dos nossos dias.


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