OS SANTOS DO RIO GRANDE DO NORTE E O MANIFESTO DOS PERNAMBUCANOS DE 1646

Quando das Guerras com a Holanda (1630-1654), se transportou para o Nordeste do Brasil os propósitos da Guerra Religiosa, que grassava em Flandres e nos Países Baixos, entre católicos, calvinistas e luteranos desde a segunda metade do século XVI.

Em 16 de julho de 1645, na localidade de Cunhaú, no hoje município de Canguaretama, no Rio Grande do Norte, uma tropa holandesa de 200 homens, comandados pelo alemão Jacob Rabi, juntamente com um grande número de índios tapuias e potiguares, dizimaram sessenta e nove habitantes locais que assistiam a missa dominical na igrejinha de Nossa Senhora das Candeias.

Matança semelhante veio se repetir, dias depois, no povoado próximo, Uruaçu. Ali também foram dizimados Mateus Moreira e dezenas de outros homens; repetindo os índios os mesmos atos de antropofagia de Cunhaú devorando, ainda vivos, os corpos de suas vítimas retirando deles os olhos, a língua, o pênis e outras partes.

Por conta de tais atrocidades os portugueses passaram a fio de espada cerca de 200 outros índios que lutaram ao lado dos holandeses, quando da Batalha de Casa Forte (Recife), em dezessete de agosto de 1645.

Esses fatos motivaram um longo processo de canonização por parte da Igreja Católica, concluído recentemente pelo Papa Francisco, em solenidade acontecida no domingo 15 de outubro do ano de 2017, quando declarou santos os 30 Mártires de Cunhaú e Uruaçu, massacrados no Rio Grande do Norte em 16 de julho de 1645.

A cerimônia de canonização foi presidida pelo Papa Francisco e contou com 450 concelebrantes, assistida por aproximadamente 50 mil pessoas, que lotavam a Praça de São Pedro.

Na ocasião, o Papa Francisco declarou santos os mártires potiguares. após o pedido oficial durante a cerimônia celebrada pelo cardeal Ângelo Amato, prefeito da congregação da Causa dos Santos. “Que estes que agora são santos indiquem a todos nós o verdadeiro caminho do amor e da intercessão junto ao Senhor para um mundo mais justo“, declarou o Papa Francisco, em sua homilia.

Por conta desses episódios, a História nos relata o sentimento de abandono que veio a tomar conta dos Habitantes de Pernambuco que, em outubro de 1645, resolveram redigir um longo manifesto narrando o clima de terror que estavam vivendo sob o domínio holandês.

Manifesto dos cidadãos de Pernambuco publicado para sua defesa sobre a tomada de armas contra a Companhia das Índias Ocidentais, dirigido a todos os príncipes cristãos e particularmente aos Senhores Estados dos Países Baixos Unidos.

Numa das versões do documento, escrito em espanhol, como se depreende da cópia original, pertencente ao Instituto Ricardo Brennand do Recife, são descritas algumas das atrocidades perpetradas pelos holandeses e índios antropófagos, seus aliados, que a eles eram entregues, para alimentação, os corpos das vítimas dos seus soldados.

Sendo bem servidos pelos selvagens tapuias a quem animavam (os holandeses) como a tigres e lobos sangrentos, que diante dos seus olhos comiam os corpos mortos daqueles que haviam matado, feito tão abominável que nem os antigos tiranos cometeram tal crueldade. Nas praças onde paravam para repousar e comer os que os recebiam amigavelmente em suas casas eram mortos e como recompensa da sua cortesia e pagamento pela comida que aqueles cristãos haviam dado a cristãos, davam-se seus corpos como comida para os selvagens.

No ano seguinte (1646), o embaixador Francisco de Souza Coutinho, de posse de cópia desse manifesto, bem como dos relatórios de funcionários da Companhia, descontentes com o clima de terror insuflado pelo governo do Recife, fez publicar uma série de panfletos, traduzidos para o holandês, denunciando a triste situação em que viviam os habitantes de Pernambuco.

Não há infâmia tão grande nem descortesia que não tenham usado contra as mulheres; depois de terem abusado delas desonestamente, e as filhas aos olhos dos pais e as mulheres casadas na presença de seus maridos as davam como regalo aos selvagens, que depois de satisfazerem seus intentos bestiais, as matavam e comiam. É verdade que não era a maior crueldade matá-las, por que depois da infâmia de desonrá-las e violá-las, elas mesmas prefeririam a própria morte por acharem-se privadas de sua honra. Os ouvidos humanos têm horror de escutar tais coisas, mas os da Companhia tiveram olhos para vê-las e permitir tais crueldades, não apenas a um, mas a muitas de nossas pequenas crianças arrancaram os selvagens dos seios de suas mães. Assados e guisados como prato muito delicado. Comum entre eles um provérbio que dizia que os holandeses vieram ao Brasil para castigar os pecados dos portugueses, no que também concordamos e confessamos diante de Deus que bem merecemos tal castigo por nossos pecados, mas que tenham conosco segundo sua grande misericórdia e como um pai benigno que após haver castigado seus filhos lança o açoite ao fogo. Nossa perdição não foi apenas termos caído nas mãos de senhores cruéis e que tinham ódio mortal contra a nação (portuguesa), mas também extremamente apegados ao dinheiro; e passada toda a fúria sangrenta dedicaram-se com afinco a tomar-nos nossos bens justa ou injustamente.

Esses panfletos eram impressos em oficinas fictícias e distribuídos nas ruas, de modo a levantar a opinião pública contra os dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais, com sede em Amsterdã. Esta, por sua vez, incomodada com tamanho noticiário, veio à forra [levar a efeito uma vingança; desforrar-se, vingar-se], denunciado, pela imprensa, a deslealdade de Portugal e a duplicidade de D. João IV ao apoiar, de forma escusa, o movimento separatista de Pernambuco.

FREI CANECA, O MÁRTIR ESQUECIDO

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A execução de Frei Caneca (detalhe), óleo do pintor palmarense Murilo La Greca

Certa vez em visita ao Recife, o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, desejou conhecer os Montes Guararapes, onde visitou a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, e o monumento em honra ao mártir pernambucano Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

O levaram ao Largo das Cinco Pontas, onde se encontra um pequenino busto e o resto de parede com uma lápide em mármore, assinalando o local do seu suplício em 13 de janeiro de 1825.

Extasiado, indagou o visitante se era tudo que existia no Recife em memória de tão ilustre liberal, e ao obter a confirmação exclamou irritado: É muito pouco para um Grande Brasileiro!

Os tempos passaram e nada foi feito para avivar a memória do mártir maior da Confederação do Equador (1824), restringindo-se tudo ao pequenino busto em cimento, junto a um resto de muro no qual se encontra afixada uma placa em mármore, com inscrição em letras pretas maiúsculas, ali colocada pelo Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (sic) na data de dois de julho de 1917:

Neste largo foi espingardeado junto à forca, a 13 de janeiro de 1825, por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo, o Patriota Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Republicano de 1817, e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824.

Nascido de uma família pobre do Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796. Ordenando-se em 1801, substituiu o seu nome de família pelo apelido dado a seu pai, que tinha a profissão de tanoeiro. Logo se notabilizou pelos seus conhecimentos de Retórica e Geometria, Direito, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático. Foi membro da Academia do Paraíso, e teve participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em seis de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde penou por quatro anos, sendo dele esses versos:

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após o episódio da dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das idéias liberais que viriam a ser defendidas pela Confederação do Equador (1824).

O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições, transformando-se no ideário dos liberais de então, partidários de Manoel de Carvalho Paes de Andrade.

Com a província de Pernambuco invadida pelas tropas imperiais, é proclamada, em dois de julho de 1824, a Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano que mais uma vez põe em armas os liberais pernambucanos. Derrotados no Recife, os revoltosos iniciam penosa marcha em direção ao Ceará, episódio narrado com cores fortes por Frei Caneca no seu Itinerário. Presos e agrilhoados retornaram ao Recife, aonde o frade vem a ser condenado à forca em sentença expedida em 10 de janeiro de 1825.

Debalde o Cabido Metropolitano comparece em procissão ao Palácio do Governo pedindo a suspensão da pena. Em represália os cônegos negaram-se a desautorar suas ordens tornando nulo, perante o Direito Canônico, todos os atos que se seguiram.

A execução foi marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825.

Na prisão mais uma vez escreve versos, despedindo-se dos amigos e das suas filhas, por ele chamadas de “afilhadas das minhas entranhas”, dormira sereno a sua última noite e, na manhã seguinte, marchou com altivez em direção ao patíbulo.

Diante de tal cena o inesperado aconteceu: carrascos convocados para execução da pena capital negaram-se executá-la, pouco se importando com as promessas e com os suplícios que lhes foram imposto pela tropa.
Diante do impasse foi à pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

Os seus restos mortais vieram a ser sepultados no Convento do Carmo, em local não determinado, o seu nome, porém, é hoje reverenciado pela grande maioria das capitais do Brasil, onde sempre existe uma Rua Frei Caneca, muito embora continue esquecido na terra que lhe serviu de berço.

E observem que existe em pleno funcionamento uma Comissão de Notáveis destinada a elaboração das Comemorações dos 200 anos da Revolução Republicana de 1817, instituída com “pompa e circunstância” pelo governador Paulo Câmara!

Que fez esta Comissão de Notáveis no transcurso da morte de Frei Caneca, um dos mártires de 1817 e a principal cabeça pensante da Confederação do Equador?

VINTE ANOS SEM CAPIBA

Capiba no Galo da Madrugada

Parece que foi ontem, mas faz vinte anos que o nosso ídolo maior, Capiba, nos deixou na orfandade no último dia do ano de 1997, quando partiu para a eternidade.

Para o Vocabulário Pernambuco, de Francisco Augusto Pereira da Costa¹ , o adjetivo capiba tem o significado de “grande, volumoso, alentado”, podendo ainda ser entendido, também, como “chefe, dunga, mandão”, tal como foi usado pelo dicionarista Antônio Moraes Silva em carta dirigida ao desembargador Castro Falcão (1818): “Referiu-me José Bento Fernandes que um tal ‘Capiba dos Afogados’ tivera ordens de vir prender-me”.

No Recife das nossas vidas, porém, Capiba é algo palpável, real, bem vivo, alegre, que irradiava paz e amor, sendo festejado em qualquer lugar por homem, mulher, moça e, sobretudo, pelas crianças, como parte integrante da paisagem de sua cidade.

Este nosso Capiba, personagem de muitas estórias e alegria da gente pernambucana, herdara o apelido familiar do avô materno, Major Lourenço Xavier da Fonseca, juntamente com todos os seus irmãos – Sebastião, José, Severino, Maria, João, Pedro, Josefa, Antônio, Tereza e Hermann -, sobressaindo-se nacionalmente através de sua produção poética e musical, algumas delas com lugar de destaque no repertório da música erudita e popular brasileira.

Pernambucano de Surubim, onde nascera em 28 de outubro de 1904 e falecido no Recife, em 31 de dezembro de 1997, Lourenço da Fonseca Barbosa iniciou-se na banda musical de Taperoá (PB), onde o seu pai, Severino Atanásio de Souza Barbosa, atuava como regente. Inicialmente tocava trompa e, juntamente com os demais irmãos, passou a fazer parte da Filarmônica Lira da Borborema. Em 1914 a família transferiu-se para Campina Grande, onde o Mestre Severino Atanásio foi dirigir a Charanga Afonso Campos, passando o menino Capiba a dividir o seu tempo entre a música e o futebol.

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O POVO BRASILEIRO

Nem preto, nem branco, nem índio, nem nipônico, europeu ou qualquer outra etnia conhecida…, mas tão somente brasileiro.

Trata-se de uma figura única, formada por diferentes povos, um tipo híbrido, formado pelo cruzamento de povos diferentes, que hoje ocupa esse país continente, “abençoado por Deus e bonito por natureza“.

Passados mais de quinhentos anos de sua descoberta pelos portugueses, o Brasil apresenta-se com um biótipo próprio de sua gente, que em nada se parece com o português colonizador; o índio que já habitava a terra e o negro trazido da África como escravo para aqui construir o país-continente dos nossos dias.

O brasileiro, como bem afirma Darci Ribeiro, tem a cara do povo brasileiro; ele não se parece nem com o português, nem com o índio, nem muito menos com o negro. Trata-se de um povo de identidade própria”.

Na verdade, um povo de mestiços, formado pelo cruzamento de várias raças, com influência de levas de colonizadores diversos, chegados em diferentes épocas, que transformaram o Brasil numa imensa democracia racial, com valores, usos e costumes diversos de quaisquer outros povos.

A mestiçagem de nossa gente, já registrada por Joaquim Nabuco, quando da publicação de “O Abolicionismo” (Londres: 1883):

“Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos, portanto, admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos tudo fazer para esquece-la” (p. 22) – estabelece que, ao contrário de outros países, como nos Estados Unidos da América, a condição de liberto não impedia ao ex-escravo galgar os patamares da pirâmide social, e esclarece na mesma obra:

No Brasil, ao contrário: a escravidão ainda que fundada sobre a diferença das duas raças, nunca desenvolveu a prevenção da cor, e nisso foi infinitamente mais hábil. Os contatos entre aquelas, desde a colonização primitiva dos donatários até hoje, produziram uma população mestiça, como já vimos, e os escravos ao receberem a sua carta de alforria, recebiam também a investidura de cidadão. Não há assim entre nós castas sociais perpétuas, não há mesmo divisão fixa de classes. O escravo, que como tal praticamente não existe para a sociedade, […] é no dia seguinte à sua alforria um cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos, e o mesmo grau de elegibilidade. Pode mesmo, ainda na penumbra do cativeiro, comprar escravos, talvez mesmo quem sabe? – algum filho do seu antigo senhor. Isso prova a confusão de classes e indivíduos, e a extensão ilimitada dos cruzamentos sociais entre escravos e livres, que fazem da maioria dos cidadãos brasileiros, se se pode assim dizer, mestiços políticos, nos quais se combatem as duas naturezas opostas: a do senhor de nascimento e a do escravo domesticado. (p. 174-75).”

Isso porque, como bem observou recentemente Darci Ribeiro, “no Brasil a miscigenação nunca foi crime, nem pecado, daí o surgimento de um povo novo, o povo brasileiro, que em nada se parece com o português, o negro ou o índio”.

Já no passado tivemos o ancestral de quase todos nós pernambucanos, o nosso Jerônimo de Albuquerque (O Torto), cunhado do primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, que em seu testamento, firmado em Olinda, em 13 de novembro de 1884, reconhece como filhos onze concebidos de sua mulher legítima, Filipa de Melo; oito com a índia Maria do Espírito Santo; cinco com outras mulheres, uma das quais Apolônia pequena, mãe do seu filho Felipe de Albuquerque, deixando dúvidas ainda sobre uma filha tida com uma de suas escrava, de nome Maria, e de uma outra, Jerônima, “que se criara em sua casa e que foi tida por sua filha, mas que Deus sabia a verdade do ocorrido”.

Assim, Jerônimo de Albuquerque foi pai de 24 filhos, devidamente reconhecidos, entre legítimos e legitimados, o que lhe valeu o apelido entre os historiadores brasileiros de “Adão Pernambucano“.

Da descendência de Jerônimo de Albuquerque originaram-se algumas das mais tradicionais famílias pernambucanas, como Cavalcanti Albuquerque, Fragoso de Albuquerque, Albuquerque Maranhão, Siqueira Cavalcanti, Pessoa de Albuquerque, dentre outras, justificando assim o apelido de Adão Pernambucano, dado no decorrer dos séculos ao seu patriarca.

Como bem dizia na época Caspar van Baerle, “não existe pecado do lado de baixo do Equador” e, nos nossos dias, Chico Buarque de Holanda acrescentou: “vamos fazer um pecado, rasgado, suado, a todo vapor…”.

O PRECIOSO, O NOSSO PRIMEIRO JORNAL

Em Pernambuco, a primeira tentativa de criação de um jornal informativo de circulação popular veio surgir com a Revolução Republicana de 1817, quando o advogado José Luís de Mendonça, utilizando-se da experiência do tipógrafo inglês James Pinches e dos tipos importados no ano anterior por Ricardo Fernandes Catanho, auxiliado por “dois frades e um marinheiro francês”, veio a editar em 28 de março daquele ano:

O Preciso dos sucessos que tiveram lugar em Pernambuco etc.” Impresso na “Oficina da República de Pernambuco, 2ª vez Restaurado”, em clara alusão à Restauração Pernambucana de 27 de janeiro de 1654.

As questões sobre liberdade de pensamento, de religião e de expressão, bem como a inamovibilidade da magistratura, a plena capacidade dos estrangeiros aqui residentes e a liberdade progressiva do elemento escravo, eram preocupações dos “patriotas” de 1817, que os fizeram constar no projeto de constituição (Lei Orgânica) datado de 29 de março daquele ano.

Os sonhos de uma República democrática vieram a ser debelados pelas tropas leis ao Príncipe Dom João, em 19 de maio de 1817, quando a revolução veio a ser dizimada pelas tropas do general português Luís do Rego Barreto. A semente libertária, porém, veio brotar quando da Convenção do Beberibe (1821) e Confederação do Equador (1824), mantendo-se viva em episódios outros do passado desta “Nova Roma de bravos guerreiros”.

À publicação d’ O Preciso, de José Luís de Mendonça, se seguiram os jornais: Aurora Pernambucana (1821), Segarrega (1821), Relator Verdadeiro (1821), Gazeta Extraordinária (1822), Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco (1823), O Caheté (1823) e O Thyphis Pernambucano (1823), este último redigido pelo frei Joaquim do Amor Divino Caneca que, em janeiro de 1825, veio pagar com a vida pela divulgação de um ideário republicano defendido em seu jornal.

José Luiz de Mendonça foi uma espécie de jurista oficial do governo revolucionário. O viajante francês L.F.de Tollenare o descreve como um homem rico e inteligente, com uma reputação de ser alguém honesto e com prestígio nas classes abastadas. Era um crítico da administração portuguesa, mas também um moderado.

Acrescenta o mesmo Tollenare: “O sr. José Luís de Mendonça teve a ingenuidade de ficar na cidade e de se apresentar ao almirante, que o mandou prender”.

Ao depor no Processo n.º 7.058, Inquisição de Lisboa, em que figura como denunciado o padre Bernardo Luiz Ferreira Portugal (1755-post1832), diz José Luiz de Mendonça ser “advogado dos Auditórios Eclesiástico e Secular, tenente do Regimento de Cavalaria de Olinda, casado, natural de Porto Calvo (Alagoas), morador na Vila de Santo Antônio do Recife, 31 anos de idade”. No “Livro (1º) dos Termos das Entradas de Irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento do Bairro de Santo Antônio 1791-1833”, o seu nome aparece nas fls. 36: “13 de abril de 1799, José Luiz de Mendonça e sua mulher D. Vitoriana Pereira da Silva”.

Condenado por sua participação na República de Pernambuco, veio a ser arcabuzado, em 12 de junho de 1817, junto com os patriotas Domingos José Martins e o padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro, no Campo da Pólvora da cidade do Salvador (Bahia).

A esses movimentos não ficara alheio um recifense do bairro de Santo Antônio, nascido em 10 de maio de 1798, que, após sua formação de liberal no Seminário de Olinda, ingressou no mundo das artes gráficas fundando o que veio a ser o primeiro grande jornal diário da província: Antonino José de Miranda Falcão.

Simpatizante dos princípios democráticos contidos no ideário Confederação do Equador (1824), processado e acusado de traição pelo Tribunal de Alçada, por seu envolvimento com frei Caneca e com Cipriano José Barata (1762-1838), Antonino José de Miranda Falcão veio a fundar, em 7 de novembro de 1825, o Diario de Pernambuco, hoje o mais antigo noticioso em circulação não só da América Latina como nos países da comunidade de língua portuguesa.

Quando da deflagração da República de Pernambuco, em 6 de março de 1817, os sentimentos nativistas forjados por ocasião da Restauração Pernambucana de 1654 continuavam bem presentes nos pronunciamentos dos patriotas de então. Assim é que O Preciso etc., o primeiro jornal a circular nesta província, redigido por José Luiz de Mendonça, narrando os fatos acontecidos quando da eclosão do movimento, tem como impressor a Off. da República de Pernambuco, 2ª vez restaurado, numa alusão clara à Restauração Pernambucana de 27 de janeiro de 1654.

No meio da população ainda permanecia o espírito nativista formado pela Restauração Pernambucana, em 1654, e posto em prática na deposição do Xumbergas (Jerônimo de Mendonça Furtado) em 1666, na posteriormente chamada Guerra dos Mascates, movimento republicano de caráter separatista encabeçado por Bernardo Vieira de Melo, em 1710.

O NOVO E VELHO SÃO LUIZ

Domingo último, dia 4 de dezembro, voltei ao Cine São Luiz (sic) da minha juventude para assistir o lançamento do filme documentário 1817 – A Revolução Esquecida, da cineasta Tisuka Yamasaki, patrocinado pelo Ministério da Educação, que tem a frente o pernambucano José Mendonça Filho.

Confesso que, apesar da importância de uma produção inusitada, que tem por objetivo a divulgação junto às escolas de todo país a importância de Pernambuco na proclamação da República de 1817, me veio momentos de recordação de um tempo em que o Cinema de Luiz Severiano Ribeiro era a sala de visitas da cidade do Recife.

Recordo de suas palavras no folheto inaugural daquela casa de espetáculos:

A inauguração de um novo cinema é sempre motivo de grande contentamento, a inauguração do São Luiz, de uma forma particular, enche-nos de e bem compreensível orgulho, é que ao entregar grande púbico pernambucano um dos mais luxuosos e bem aparelhados cinemas do Brasil, colocamos a cidade do Recife no âmbito cinematográfico, numa posição de igualdade, se não de superioridade, em relação aos grandes centros do território nacional.” – Luiz Severiano Ribeiro

Com essas palavras o empresário Luiz Severiano Ribeiro iniciava o texto do convite para a inauguração do Cine São Luiz do Recife, em acontecimento ocorrido em 6 de setembro de 1952, que, por mais de meio século, esteve entre os mais belos e luxuosos cinemas do Brasil.

Nos dias de hoje, o tradicional cinema da Rua da Aurora, bem no centro do Recife, voltara a sua finalidade primitiva graças ao interesse do Governo do Estado, que pretende desapropriou o imóvel e seus pertencentes, e nele instalou uma espécie de Cinemateca, sob a administração da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE.

O Cine São Luiz (sic.) foi construído no início da segunda metade do século XX utilizando-se a criatividade de profissionais pernambucanos – Américo Rodrigues Campello, Maurício Coutinho, Oscar Dubeux Neto, Lula Cardozo Ayres e Pedro Correia de Araújo -, responsáveis que foram pela construção, acústica, instalações, ambientação e decoração da nossa mais importante sala de espetáculo.

Segundo depoimento do seu proprietário, na noite de sua inauguração, “tudo no São Luiz foi cuidadosamente estudado antes de se proceder a sua realização, de forma a obter a máxima perfeição aliada ao máximo conforto…”.

A partir de então, passa ele a dissertar sobre as modernas técnicas utilizadas no sistema de projetores – iguais aos que se encontram instalados no Rádio do City Music Hall de Nova York –; sonorização; climatização – uma temperatura ideal calculada cientificamente em relação à temperatura externa e equilibra o seu grau de umidade no ponto considerado ótimo para a saúde e bem-estar dos expectadores –; poltronas – optamos pela colocação de assentos de espuma de borracha, iguais aos que se encontram instalados em todos os aviões -; a localização dos assentos e a inclinação da plateia obedecia “a determinados cálculos modernos”, de modo a oferecer uma visibilidade perfeita da tela a qualquer um dos seus 1.290 expectadores.

Continuando a sua apresentação, Luiz Severiano Ribeiro chama atenção para o significado da monumental decoração: “Dentre todos os projetos apresentados, escolhemos aquele que tirava diretamente do cinema – São Luiz – o seu motivo decorativo. Mas, se São Luiz (sic) foi um grande Santo, foi também um grande Rei. Por isso, a decoração da plateia representa o interior de uma grande tenda real: vastas tapeçarias suspensas. Bordadas com os três lírios de França, sobre os quais repousam dezesseis escudos de guerra, em lembrança das Cruzadas, o teto é como um imenso véu de rede, que grossas cordas amarram”.

E continua, Severiano Ribeiro: “Na frente do palco, os variados ornatos simbolizam as grandes virtudes de um Rei, que desceu do trono para subir a um altar: a Palma (o prêmio da eterna bem-aventurança), a Concha (o brasão do peregrino), os dois besantes (os arautos do valor), a Flor de Lis (orgulho da Casa de França) e os dois ramos policromados (o perfume de todas as virtudes), em cujo colorido nossos olhos descansam”.

Durante toda segunda metade do século XX e início do século XXI, o Cine São Luiz se constituiu numa espécie de templo da sétima arte.

Gerações de cinéfilos, ou mesmo de expectadores sedentos de emoção, compareciam ao cinema da Rua da Aurora, sempre movimentada nas tardes românticas dos domingos da Sorveteria Gemba, do Quem-me-quer e das regatas do Capibaribe.

Aquele cinema com suas colunas de granito, dois grandes painéis de Lula Cardozo Ayres, detalhes em metal amarelo em todos os corrimões e minudências outras., recebeu nos seus primeiros anos uma sociedade na qual as mulheres faziam questão de exibir o que havia mais recente no mundo da moda e das joias; enquanto os homens só lá compareciam vestindo trajes formais, com destaque para as gravatas.

O mesmo cinema que, em 1998, recebia 30 mil pessoas por semana, quando do lançamento do filme Titanic, superando a frequência das melhores salas de projeção de todo o país.

Este mesmo cinema, antes o “Templo da Sétima Arte no Recife”, porém, permanecia fechado, sem qualquer utilidade, ameaçado no seu futuro em ser transformado numa filial de lojas de magazine (como já acontece com o Cine Moderno), ou em templo religioso, mesmo até a hipótese de ser riscado da paisagem recifense.

Hoje, porém, depois de ter tombado pelo Governo do Estado, o São Luiz parece ter renascido das cinzas, voltando a sobreviver como um centro de atividades cinematográficas, fazendo reviver as projeções de nossa adolescência.

NATAL: SAUDADE, OLHAR DA MINHA MÃE REZANDO…

Nesses dias que antecedem às comemorações do Natal, me pego recitando um soneto do poeta maranhense, Da Costa e Silva:

“Saudade! Olhar de minha mãe rezando
E o pranto lento deslizando a fio…
Saudade! Amor da minha terra… o rio
Cantigas de águas claras soluçando.”

Saudade é um sentimento que se apossa de nós a todo o momento, particularmente nesses dias em que todos festejam em sua volta e só você, unicamente você, não tem o que festejar, pois sua mãezinha já não mais comparece no final da noite a balbuciar baixinho:

Boa noite, meu filho…

Esta é a dura lição a nos ensinar que por mais experiências que a vida notenha oferecido, nunca estaremos devidamente preparados para conviver com o sentimento da orfandade.

Ela nos deixou em um domingo no qual o calendário marcava 13 de maio de 2000, quando todos festejavam o Dia das Mães e o cemitério estava tomado por flores.

O vazio que, a partir de então, se apossou de nós é como se uma boa parte do nosso ser tenha sido sepultado naquela manhã, juntamente com o que restou da mãezinha querida.

Sem ela, a vida se transforma num eterno vácuo… A sua presença, mesmo silenciosa, era o bálsamo que suavizava o nosso dia-a-dia, particularmente quando da chegada da noite, com o seu beijo a solfejar aquela cantiga de ninar que nos fazia dormir sossegado:

Boa noite, meu filho…

Das trevas dos seus últimos anos, do silêncio de que foi tomada, ela era o nosso Norte: O nosso referencial de vida. Suas palavras, o nosso consolo; sua presença, o nosso incentivo…

Nascera na primitiva povoação da Torre, em 27 de março de 1912, filha de um comerciante, Manuel Pantaleão Barbosa Dantas, e de uma tecelã da Fábrica de Tecidos da Torre, Guilhermina Francisca dos Santos.

Foi moça bonita, de cabelos negros e longos, que despertava o vate dos poetas de então… Estudando à noite e trabalhando durante o dia, formou-se pela Escola Normal Pinto Júnior, em dezembro de 1930, e, por toda a vida, dedicou-se ao magistério, abrindo os caminhos do saber a uma infinidade de gerações.

Por ocasião de seu velório, eram dezenas de vozes a balbuciar, entre lágrimas:

Minha primeira professora!

Em 1932, casou-se com Antônio Machado Gomes da Silva, técnico em máquinas e motores do Porto do Recife, e dessa união deixou apenas um filho, Leonardo Antônio Dantas da Silva, e três netos: Antônio (Tonico) Machado Gomes da Silva Neto, Mariana e Isadora.

Toda sua vida foi povoada de exemplos de dedicação e, sobretudo, de doação para com os que dela se acercavam.

Ilídia Barbosa Dantas da Silva foi a mulher forte de que fala às Escrituras. A mulher total, idealizada pelos filósofos. A criatura de Deus que, com o seu passamento, tornou bem mais tristes todos os que com ela conviveram.

Mas também a mulher, simples e doce, como nas trovas portuguesas:

Vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria
Era uma santa escutando
O que a outra santa dizia.

Com a sua ausência do nosso mundo, a humanidade se torna um tanto ou quando mais pobre.

O céu, no entanto, tornou-se mais rico com a ascensão desta estrela…

Se duvidas, é só voltar os olhos para o infinito…

Logo perceberás que todas as estrelas estarão sorrindo.

ZUMBI DOS PALMARES E OUTRAS REBELIÕES NEGRAS EM PERNAMBUCO

A data comemorativa do Dia da Consciência Negra, em vinte de novembro, nos leva, forçosamente, a meditar sobre os horrores da escravidão e suas origens.

Desde os tempos bíblicos, como nos informa o livro do Gênesis, os vencidos eram tornados à condição de escravos, em troca de suas vidas. A escravidão era dessa forma, vista como um gesto “humanitário”, chegando a fazer parte de todos os grandes códigos da antiguidade, como o de Hamurabi, com especial enfoque no Direito Romano e nas Ordenações do Reino, que serviram de norma escrita ao mundo português até o século XIX.

Depois que Antão Gonçalves e Nunes Tristão capturaram os azenegues do Rio do Ouro, em 1441, a serviço do Infante D. Henrique de Portugal, as expedições portuguesas e espanholas transformaram-se em verdadeiras empresas, com objetivo de incrementar o comércio escravo, fixando na Costa da África várias feitorias, especialmente na região do Cabo Branco, estabelecendo-se posteriormente na ilha de Arguim (1448) e no Senegal (1460), com a finalidade de adquirir prisioneiros de tribos africanas, para transformá-los em escravos.

Na estimativa de Vitorino Magalhães Godinho, in Os descobrimentos e a economia mundial v. IV (Lisboa, 1981-83), citado por José Ramos Tinhorão, in. Os negros em Portugal – Essa presença silenciosa (Lisboa, 1988), foram importados como escravos berberes, árabes e negros africanos, entre 1448 e 1505, de 136.000 a 151.000 indivíduos.¹
Em Portugal, foram os escravos, inicialmente, destinados aos serviços domésticos e logo em seguida passaram a ser usados na florescente lavoura da cana-de-açúcar nas ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde.

Na América, a escravidão foi introduzida pelos espanhóis com os descobrimentos, havendo indícios de que nas naus comandadas por Cristóvão Colombo, em 1492, já houvesse escravo;² com regularidade, porém, a importação de negros só foi introduzida pelos espanhóis, a partir de 1501, em São Domingos. No Brasil, se comprova a existência de escravos a partir de 1531, na Capitania de São Vicente. Em Pernambuco, em carta escrita em 1539, dirigida ao rei D. João III, o donatário Duarte Coelho Pereira solicita autorização para a importação direta da costa da Guiné de 24 negros, a cada ano, quantidade que seria aumentada por D. Catarina, em 1559, para 120, mediante o pagamento de uma taxa reduzida, nada impedindo que outros negros aqui chegassem por outros caminhos. No testemunho dos jesuítas Antônio Pires (4.6.1552) e José Anchieta (1548), era comum a existência de escravos negros e índios em Pernambuco; a escravidão dos índios durou até o século XVII, quando foi extinta pela Bula do Papa Urbano VIII, de 22 de abril de 1639.

1. A Escravidão em Pernambuco

Escrevendo de Olinda, em 1584, o padre Fernão Cardim diz possuir Pernambuco 66 engenhos, com produção de açúcar estimada em 200 arrobas, sendo o porto do Recife visitado anualmente por 45 navios, o que proporcionava às famílias aqui residentes um fausto por vezes superior ao de Lisboa. Todos os demais cronistas do século XVI e início do século XVII são unânimes em confirmar o crescente progresso da Capitania Duartina, chegando frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, escrita na primeira metade do século XVII, a afirmar que era Pernambuco o mais nomeado e frequentado porto do Brasil, (1618), devendo render “perto de vinte mil cruzados e os direitos do açúcar” – produção estimada por Ambrósio Fernandes Brandão, in Diálogo das grandezas do Brasil, em 500 mil arrobas e cujo transporte para Europa era feito por cem naus fretadas por particulares.

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UM PAPAI NOEL NO RECIFE

Todos os anos, nesses dias que antecedem a festa do Natal, eu lembro sempre de um pedido de Mariana, minha filha hoje uma jovem senhora de trinta anos, quando, na inocência dos seus quatro aninhos, fazia um sucinto bilhete: “Papai Noel, Eu quero de presente uma mesinha com as cadeirinhas, que eu possa carregar”.  

Todos os anos, nesses dias que antecedem à grande festa, estou a reler o bilhete para assim lembrar um Papai Noel que sempre me acompanhara em todos os meus sonhos infantis. Ao contrário da menina, para quem o bom velhinho é uma simples lenda, o meu Papai Noel era de verdade…  

Não penseis que estou a sonhar e muito menos a contar bravatas, mas eu conheci um Papai Noel! … Um Papai Noel cheio de ternura, de meiguice e bondade. Um Papai Noel vivente como qualquer um de nós…  

Não imagineis que se trata de alucinações, mas, com toda emoção da minha alma, posso afirmar que eu convivi com este Papai Noel.  

O meu Papai Noel, enquanto me embalava no seu colo nos meses que antecediam ao Natal, conversava horas a fio sobre o brinquedo desejado por mim para aquele ano…  

Quando ainda ninguém falava das festas de dezembro, ele, depois de um duro dia de trabalho no Porto do Recife, metia-se em sua oficina do fundo do quintal de nossa casa da Marquês de Maricá, nº 73, na Torre,  e lá, com os seus cabelos brancos como um algodão, seus óculos na ponta do nariz, trabalhava todas as noites para construir o meu sonho; transformando a madeira bruta em coloridos brinquedos, bem diferentes dos expostos nas lojas e adquiridos pelos pais dos outros meninos.

Os brinquedos, confeccionados pelo meu Papai Noel, em nada se assemelhavam aos industrializados. Eram caminhões, carros-de-mão, espadas, cidades com pequeninas casinhas, barcos, aviões que surgiam de sua oficina, cheios de detalhes e de cores vivas, que mais pareciam impregnados da eternidade… – Em sua quase totalidade, duraram até a última enchente do Capibaribe em 1975.  

Há 47 anos, num dia de setembro de 1966, o meu Papai Noel fez uma viagem e nunca mais voltou…

 

Antônio (Tonico) Machado Gomes da Silva, o meu Papai Noel

Nas minhas orações através dos Natais que se sucederam a partir de então, eu pedi a ele, como nos tempos de criança, um presente que eu julgava simples e fácil de conseguir pelos mundos por onde vagava o seu espírito…  

Eu pedia, ao meu Papai Noel, a partir daquele Natal de 1966, a felicidade: um estado de espírito, que não se pode comprar com dinheiro ou trocar por qualquer outro bem material, mas do qual a minha vida ainda hoje padece de uma eterna e insaciável sede

Nas minhas orações, eu parecia repetir a canção de Assis Valente:

Papai Noel,
vê se você tem,
a felicidade,
pra você me dar.

Eu houvera crescido, já não mais era uma criança, mas os meus sonhos infantis pareciam buscar no pedido ao meu Papai Noel, a felicidade não encontrada neste meu mundo material, racionalista e povoado de invejas.  

A vida foi passando e, com as cicatrizes da alma, as rugas do rosto e os cabelos brancos espalhados pela cabeça, pude compreender que a felicidade não estava nas possibilidades do meu Papai Noel… A felicidade é um bem, impossível de ser alcançado pela grande maioria dos viventes. É artigo que existe no mercado, mas encontra-se inacessível a muitos como eu…  

Nesses dias em que vivemos o espírito do Natal, com a cartinha de Mariana nas entre páginas de um dos meus livros, volto a lembrar-me, com o rosto tomado pelas lágrimas, do meu bom Tonico; este meu Papai Noel que não vejo a tantos natais…  

Nas minhas divagações, cantei baixinho, com a voz embargada pelo pranto, aquela canção que parecia esquecida:

Já faz tempo que eu pedi,
Mas o meu Papai Noel não veio.
Com certeza se esqueceu,
Ou então felicidade,
É brinquedo que não tem.

Mas, quando já imaginava que o bom velhinho havia esquecido do meu pedido, senti, ao vislumbrar Mariana no meu colo, que ele voltara de forma bem original… Observando melhor, ele ali estava, bem vivo e bem junto a mim, como que reencarnado na figura de sua neta, que dele possui a mesma pele morena, o mesmo nariz afilado, as mesmas pernas longas, as mesmas orelhas, o mesmo sorriso, a mesma beleza jovial e tantos outros sinais que marcavam o seu biótipo e a sua personalidade …

Ele finalmente voltara!…

O meu Papai Noel reencarnara, em forma de esperança, lembrando que o meu pedido de mais de quatro décadas, talvez um dia, quem sabe, venha a ser finalmente atendido…

CAPIBA, ALEGRIA DA GENTE

Para o Vocabulário Pernambuco, de Francisco Augusto Pereira da Costa¹, o adjetivo capiba tem o significado de “grande, volumoso, alentado”, podendo ainda ser entendido, também, como “chefe, dunga, mandão”, tal como foi usado pelo dicionarista Antônio Moraes Silva em carta dirigida ao desembargador Castro Falcão (1818): “Referiu-me José Bento Fernandes que um tal ‘Capiba dos Afogados’ tivera ordens de vir prender-me”.

                Capiba – anos 30

No Recife dos nossos dias, porém, Capiba é algo palpável, real, bem vivo, alegre, que irradia paz e amor, sendo festejado em qualquer lugar por homem, mulher, moça e, sobretudo, menino, como parte integrante da paisagem de sua cidade.

Este nosso Capiba, personagem de muitas estórias e alegria da gente pernambucana, herdou o apelido familiar do avô materno, Major Lourenço Xavier da Fonseca, juntamente com todos os seus irmãos – Sebastião, José, Severino, Maria, João, Pedro, Josefa, Antônio, Tereza e Hermann -, sobressaindo-se nacionalmente através de sua produção musical, algumas delas com lugar de destaque no repertório da música erudita e popular brasileira.

Pernambucano de Surubim, onde nasceu em 28 de outubro de 1904 e falecido no Recife, em 31 de dezembro de 1997, Lourenço da Fonseca Barbosa iniciou-se na banda musical de Taperoá (PB), onde o seu pai, Severino Atanásio de Souza Barbosa, atuava como regente. Inicialmente tocava trompa e, juntamente com os demais irmãos, passou a fazer parte da Filarmônica Lira da Borborema. Em 1914 a família transferiu-se para Campina Grande, onde o Mestre Severino Atanásio foi dirigir a Charanga Afonso Campos, passando o menino Capiba a dividir o seu tempo entre a música e o futebol.

O seu encontro com o piano só veio em 1920. O instrumento existia em sua casa desde 1918, quando fora comprado pelo irmão Sebastião pela quantia de 200 mil réis, sendo, porém, privilégio dos irmãos mais velhos. Como nono filho da família, Lourenço pouca atenção dava àquele móvel “com uma enorme dentadura, cheia de dentes pretos e brancos” … O piano era mais usado pela irmã Josefa, que aumentava a renda da família tocando na exibição de antigas produções do tempo do cinema mudo, apresentadas na tela do Cine Fox (Campina Grande – PB), estreladas por Pola Negri, Clara Bow, Charles Chaplin e Eddie Polo.

O jovem Lourenço não tinha grandes responsabilidades, dentro daquela família de músicos, até quando Josefa arranjou um noivo e marcou o casamento para 20 de maio de 1920. Sem Josefa no Cine Fox, a renda da família iria sofrer uma enorme perda. Para contornar o problema, só restava ao Maestro Severino Atanásio substituir a pianista por um dos seus filhos que, apesar de músicos, não estavam afeitos ao piano.

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ARRUANDO PELO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO

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A cidade do Recife sofreu grandes transformações na sua paisagem quando da administração de Francisco do Rego Barros (1802-1870), que veio a ser barão, visconde e finalmente Conde da Boa Vista.

Formado em matemática pela Universidade de Paris, com apenas 35 anos de idade, foi designado presidente da província de Pernambuco, ficando no cargo de 1837 a 1844, época em que o trouxe para o Recife o engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815 – 1901), responsável pela construção do Teatro de Santa Isabel (1850) e de importantes obras públicas.

É desta época a presença na equipe de obras públicas do Governo da Província do engenheiro José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, que além dos prédios da Casa de Detenção e do Ginásio Pernambucano foi responsável pelo projeto do Cemitério Público do Senhor Bom Jesus da Redenção, criado em 1841, pela Lei Provincial nº 91, tendo sido inaugurado em 1º de março de 1851.

Trata-se de uma área plana, originalmente ocupando um terreno de 351,35 m. de fundos por 320 m. de largo, tendo ao centro uma elegante capela em estilo gótico, em forma de cruz grega, para onde convergem todas às alamedas de túmulos dando, assim, um formato estelar ao conjunto.

Seria um ponto turístico do Recife, como acontece nas diversas cidades da Europa e mesmo das Américas, mas, infelizmente, não é de visitação habitual nem indicado por nenhum dos guias por nós consultados.

Bem conservado pela atual administração municipal, o Cemitério de Santo Amaro, chama a atenção do visitante para o seu portão de entrada, trazendo na sua base a data de MDCCCLI (1851), confeccionado em ferro fundido pela firma A.C. Staar & Cia. (Fundição Aurora), a mesma responsável pelos portões do Cemitério dos Ingleses e da Ordem Terceira do Carmo do Recife.

Aleias de palmeiras imperiais marca a avenida principal, ladeada pelos primeiros túmulos do início da segunda metade do século XIX, que conduz o visitante até a capela em estilo gótico, octogonal, situada ao centro do campo santo.

Nas diversas alamedas do Cemitério de Santo Amaro, vamos encontrar singulares obras de arte de escultores diversos que estão a exibir o seu talento nos diversos túmulos alguns deles centenários.

No ponto de confluência de suas ruas, encontramos uma singular capela gótica, a primeira do seu gênero em terras pernambucanas, projetada por José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), mandada construir pela Câmara Municipal do Recife em 1853.

“Trata-se de um monumento de puro estilo gótico de cruz grega, fechada por uma só abóbada, de uma belíssima e arrojada construção, e de grandeza proporcional ao fim a que é destinada, sem campanário e sem dependências”.

Tem no seu centro uma imagem do Cristo Crucificado, em ferro, produto de fundição francesa, tendo na sua abóbada placas de mármore alusivas às diversas fases de sua construção, como as restaurações sofridas nos anos de 1899 e 1930:

A Câmara Municipal do Recife a mandou fazer em 1853,…1855, segundo o plano do engenheiro civil José Mamede Alves Ferreira.

– Reaberta e melhorada na administração do Exmo. Dr. Esmeraldino Olympio de Torres Bandeira, prefeito do Município do Recife. Em 16 de junho de 1899.

– Restaurada na administração do Exmo. Sr. Dr. Francisco da Costa Maia, prefeito do Município, 1930.

Relembrando a observação do escritor Rubem Franca (in, Monumentos do Recife – Recife, 1977): O Cemitério encerra muito da cultura de um povo. Santo Amaro, aliás, ainda aguarda quem lhe faça um estudo completo, um levantamento dos sepulcros de pernambucanos famosos e populares. Um estudo dos seus monumentos funerários, que são, alguns verdadeiras obras de arte.

Joaquim Nabuco e outros túmulos

O mais suntuoso dos túmulos é dedicado ao Patrono da Raça Negra, o abolicionista Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo (1849-1910), obra do escultor italiano Giovanni Nicolini; sendo encarregado de montar em Pernambuco outro escultor, também italiano, Renato Baretta, em novembro de 1914.

O conjunto escultórico retrata a Emancipação do Elemento Escravo, em 13 de maio de 1888, dsc_7089formado por um grupo de ex-cativos levando sobre suas cabeças o sarcófago simbólico do grande abolicionista. À frente do monumento, o busto de Joaquim Nabuco, em mármore, tendo ao seu lado uma figura de mulher (a história), que ornamenta de rosas o pedestal do busto, onde se lê: A Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nasceu a 19 de agosto de 1849. Faleceu a 17 de janeiro de 1910.

Logo em frente ao mausoléu de Joaquim Nabuco, encontra-se o túmulo de José Mariano Carneiro da Cunha (1850-1912), também destacado líder do movimento abolicionista e de sua mulher Olegária (Olegarinha) Gama Carneiro da Cunha (1860 – 1898).

Um busto em bronze do abolicionista e estátua de uma mulher chorando, conservando as inscrições: À José Mariano / o Povo / Pernambucano. / Olegária Gama Carneiro da Cunha, 16-9-1860, 24-4-1898.

Outro belo túmulo do Cemitério de Santo Amaro, porém, pertence ao Barão e da Baronesa de Mecejana: Antônio Cândido Antunes de Oliveira e Colomba Ponce de Leão.

“O túmulo é todo feito em mármore de Carrara com grande influência dos romanos, por causa do sentimento católico. O formato de tocha invertida é símbolo da morte e da expectativa de que essa luz se reacenda”, explica o escultor e responsável pela última restauração do túmulo, Jobson Figueiredo, realizada em 1999.

Sobre seu mausoléu, escreve o próprio Barão de Mecejana, em seu testamento, conservado no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, ter sido o túmulo destinado, inicialmente, a sua filha e seu genro que faleceram de uma das epidemias que assolaram o Recife na segunda metade do século XIX. A posição do barão e baronesa, em genuflexo, demonstra a atitude do casal durante a doença que vitimou o casal.

Como bem observou o escritor Clarival do Prado Valadares, in Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (1972), vale reparar também o detalhe das esculturas em mármore do barão e da baronesa, que reproduzem até a textura de uma veste rendada.

Segundo estudo da pesquisadora Semira Adler Vainsencher, da Fundação Joaquim Nabuco:

“Vários mausoléus imponentes podem ser encontrados, também, no cemitério de Santo Amaro. O do governador Manuel Antônio Pereira Borba, mais conhecido como Manuel Borba, possui uma mulher com torre na cabeça, e em seus pés um grande leão de Pernambuco. No mausoléu, uma frase que ficou famosa: Pernambuco não se deixará humilhar. E a sua efígie, com a seguinte inscrição:

Cidadãos: quando quiserdes advertir aos vossos governantes, incitar os vossos compatriotas e educar os vossos filhos, apontai-lhes o exemplo que foi Manuel Borba – probidade e caráter – lealdade – bravura cívica. MCMCCCII. [sic]”

Um passeio pelas ruas e alamedas do Cemitério de Santo Amaro se transforma num verdadeiro desfilar de nomes que se destacaram na nossa história, particularmente nos movimentos revolucionários e movimentos literários, bem como nas artes, na poesia, na música popular e na própria história pernambucana.

Uma visita ao Cemitério de Santo Amaro se torna uma verdadeira aula de sapiência das mais diversas áreas do conhecimento humano, daí o nosso convite para tão agradável arruar.

A SINAGOGA PORTUGUESA DE AMSTERDÃ

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Com a expulsão dos holandeses de Pernambuco, em janeiro de 1654, grande parte dos judeus aqui radicados retornaram para Amsterdã e outros centros do centros.

Em Amsterdã coube ao então chefe da Zur Israel do Recife, o rabino português Isaac Aboab da Fonseca, reorganizar uma nova comunidade naquela cidade.

Em 1671, num dos seus famosos discursos, nos quais usava indistintamente o hebreu e o espanhol, fez ver aos sefardins de Amsterdã a necessidade da construção de uma sinagoga mais espaçosa. De imediato foi formada uma comissão para a construção da Grande Esnoga Portuguesa de Amsterdã, seguindo o traço do arquiteto holandês Elias Bouman, tendo a cerimônia de inauguração acontecido, perante o Príncipe de Orange, em 2 de agosto de 1675.

O monumental templo destinava-se ao serviço de comunidade de 3.000 fiéis, na sua maioria oriundos de Portugal.

No prédio, ainda hoje preservado, acima da porta principal, lê-se em letras douradas original hebraico de parte do Salmo 5.8: “Mas eu, pela vossa grande bondade, entrarei na Vossa casa [prostrar-me-ei no vosso santo templo, com a reverência a vós devida.]”.

Além do sentido próprio, as palavras trazem através das estrelas colocadas sobre os caracteres em hebraico, o ano da fundação do templo (5432=1672) e o nome do seu fundador: o Hakam Aboab.

Interior da sinagoga portuguesa de Amsterda segundo_foto de Leonardo Dantas Silva

Para orador oficial da solenidade de inauguração, o rabino Aboab da Fonseca escolheu um jovem judeu nascido em Pernambuco, Isaac de Andrade Velosino, conforme informa José Antônio Gonsalves de Mello. Nominado erradamente por Barbosa Machado, in Biblioteca Lusitana, por Jacob de Andrade Velosino, Isaac se declara judeu nascido no Recife em 1657, quando do seu casamento, em Amsterdã, em 15 de janeiro de 1698. Segundo Sacramento Blake, era ele Doutor em Talmud e Doutor em Filosofia, autor de várias obras, dentre as quais Epítome de la verdad de la ley de Moyses, escrita em espanhol, O Theologo Religioso, O Messias Restaurado, além de outros trabalhos sobre medicina e história do Brasil, tendo falecido na Haia no ano de 1712.

Devido à natureza do solo pantanoso, o templo foi construído sobre três mil estacas de madeira. No seu interior, todo o mobiliário lembra a sua origem luso-brasileira. A começar pelo hekal (armário onde se guarda a Sefer Torá, ou seja, os rolos da Lei de Moisés) , seguindo-se da tebá (altar onde são rezadas as orações em voz alta, com suas talhas e guirlandas ornamentais), confeccionados em jacarandá procedente de Pernambuco. Consta que, na época, toda a madeira fora importada por Moisés Curiel, conhecido também pelo nome de Jerônimo Nunes da Costa, que era agente nos Países Baixos junto ao Reino de Portugal.

No interior da sinagoga, bem no alto, do lado leste, ainda se conserva a placa da inauguração, confeccionada em mármore, com as letras em ouro, assinalando o ano 5435, ou seja, 1675 do calendário gregoriano, e o termo de abertura do templo. Construído sob a presidência de Isaac Levy Ximenes, tendo como zelosos favorecedores da fabrica o Sr. Haham Yshac Aboab da Fonseca, o Sr. Yshac de Pinto, o Sr. Mosseh Curiel. As quatro primeiras pedras as puseram os Senhores Mosseh Curiel, Josseph Ysrael Nunes, Ymanuel de Pinto, David Manuel de Pinto, seguindo-se da comissão de construção composta pelos Senhores Ysahac de Pinto, Semuel Vaz, Jahacob Aboab Osorio, Jahacob Ysrael Pereira, Ysahac Henriquez Coytino.

Sinagoga portuguesa de Amstredam Foto Leonardo Dantas_Silva (2)

O edifício apresenta em seu frontispício quatro grandes colunas de basalto [rocha ígnea vulcânica, ger. porfirítica ou vítrea, composta essencialmente de plagioclásio básico e augita], que sustêm três abóbadas de madeira, estando as duas galerias do interior do templo sustentadas por doze colunas de granito. Os bancos, alinhados perpendicularmente à tebá (estrado onde ficam os oficiantes), foram confeccionados em carvalho e dispõem, sobre o assento, o que ainda hoje é designado pela palavra portuguesa, gaveta. Nesta são guardados o talit (manta de oração), os livros de reza, o livro de parasa e outros objetos individuais para uso no culto.

A monumental Esnoga Portuguesa de Amsterdã conserva, ainda em nossos dias, as orações em hebraico com a pronúncia sefardita típica de Amsterdã, assinalando-se, ainda, orações em português como esta em louvor das autoridades:

A Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos e Seu Real Consorte aos sereníssimos Príncipes seus Filhos, à sereníssima Princesa Madama sua May e seu real Consorte, e aos descendentes da Casa Real de Orange-Nassau aos ilustres Membros que concorrem no Governo destas Terras, e aos nobres e veneráveis Senhores Burgomestre e Magistrados desta Cidade de Amsterdã“.

Sinagoga portuguesa de Amstredam Foto Leonardo Dantas_Silva (3)

Até os dias atuais a esnoga não possui energia elétrica, sendo iluminada por enormes lustres de cobre polido, que sustentam mais de mil velas; toda a iluminação do ambiente feita por meio delas e por outras colocadas ao longo do respaldar dos bancos.

No seu entorno foram construídas umas pequenas casas que separam o prédio principal da via pública. Nessas pequenas casas térreas, antes residências de famílias judias, hoje existem bibliotecas, salas de aulas e reuniões, livrarias, uma micvê (piscina destinada ao banho ritual). Também uma pequena esnoga, que conserva o mobiliário da primitiva esnoga de 1639 e que hoje é utilizada para as funções religiosas durante o inverno, pois a grande sinagoga não possui aquecimento. A pequena esnoga dá acesso à célebre Livraria Montezinos do seminário Ets Haim (Árvore de Vidas).

A comunidade portuguesa de Amsterdã tem o seu início em 1602, quando ali chega o rabino alemão Uri Halevi, trazendo um grande número de cristãos-novos originários de Emden (cidade do norte da Alemanha). Esta primeira sinagoga veio a funcionar na residência do mercador português Jacob Tirado, que antes fora senhor de engenho em Pernambuco, residindo em Olinda, onde atendia pelo nome de James Lopes da Costa, sobre o qual já nos referimos.

Curiosamente tanto a primeira sinagoga, Bet Yahacob (Casa de Jacob), criada em 1613 por Jacob Tirado, como a atual Grande Sinagoga Portuguesa de Amsterdã, inaugurada em 1675 pelo rabino Isaac Aboab da Fonseca, foram iniciativas de pessoas que viveram em Pernambuco.

O Haham Isaac Aboab da Fonseca, primeiro rabino do Novo Mundo, introdutor da literatura hebraica nas Américas e fundador da monumental Esnoga Portuguesa de Amsterdã, veio a falecer aos 88 anos, em 9 de abril de 1693, naquela cidade, estando sepultado no cemitério de Ouderkerk, em Amstel. Sua biblioteca foi vendida em leilão, logo após a sua morte. Dela constavam 18 manuscritos em hebraico, 373 livros em hebraico e 53 em outras línguas.

Fotos do colunista

SÃO JOÃO DA VÁRZEA, UMA USINA DENTRO DO RECIFE

Casa de Ferro, Várzea, Recife

Em 1882, encontravam-se em atividade na Várzea do Capibaribe os engenhos: Borralho, Brum, Cova de Onça, Cumbe, Curado, do Meio, Poeta, São Francisco, Santo Inácio, Santo Amarinho, Santos Cosme e Damião e São João, os dois últimos de propriedade de Manuel Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque.

No início da década de 1890, os dois engenhos São João e o Santos Cosme e Damião foram comprados por Francisco do Rego Barros de Lacerda, então proprietário do engenho São Francisco da Várzea, que pretendia reunir as terras dos três engenhos para fundar uma usina de açúcar.

O novo proprietário nascera no engenho Trapiche, na freguesia do Cabo, em 2 de agosto de 1831, falecendo à meia noite do dia 24 de janeiro de 1899, em São João da Várzea. Foram seus pais o Barão e a Baronesa de Ipojuca João do Rego Barros e Inácia Militana Cavalcanti Lacerda.

Era ele sobrinho de Francisco do Rego Barros (1802-1870), Barão e depois Conde da Boa Vista, presidente da Província de Pernambuco entre 1837 a 1844.

Graças a esses laços de parentesco, Francisco do Rego Barros de Lacerda não escapou do destino político que sua família havia reservado para si: Em 1882, elege-se deputado geral do Império, para a legislação de 1882-1885. Em 1886, é eleito para a Câmara de Vereadores do Recife, continuando como vereador da capital de Pernambuco, após a proclamação da República, em 1889. Dois anos depois, em 1891, deixa a câmara municipal, para concorrer a uma vaga no Senado Estadual de Pernambuco, em 1892.

Sempre atento às novidades tecnológicas do seu tempo e inovações ligadas ao processo de plantio da cana e produção do açúcar, optou ele, em meados de 1893, por empreender viagem a fim de conhecer as novas unidades fabris utilizadas na produção açucareira nas zonas produtoras do sul dos Estados Unidos.

Para facilitar a comunicação entre seus engenhos, importou dos Estados Unidos uma ponte de ferro, com 160 m. de extensão, dividida em quatro vãos, que veio ser instalada sobre o leito rio Capibaribe, por seu filho Francisco do Rego Barros de Lacerda.

Com a chegada dos demais equipamentos, adquiridos no estado norte-americano da Luisiana, a nova usina veio ser inaugurada em 1894 em terras do antigo engenho São João, moendo canas dos três engenhos de sua propriedade, com a produção inicial de 4.200 sacos de açúcar.

O Sobrado de Ferro

Em sua viagem ao estado da Luisiana, o proprietário da Usina São João, despertou sua atenção para um estilo de casa de vivenda com estrutura em ferro e paredes de alvenaria em voga em Nova Orleans.

Encantado com o projeto, encomendou uma casa semelhante a fim de erguê-la nas terras do Engenho São João.

Com sua planta baixa lembrando a letra U, que se fecha com uma elegante escada de ferro em dois lances, na parte posterior, a casa tem sua estrutura pré-fabricada, tendo sido importada através do porto do Recife. Todas as fachadas, internas e externas, “possuem varandas suportadas por colunas de ferro fundido e peitoris igualmente fabricados em ferro. Toda a estrutura dos assoalhos e da coberta é em ferro. Somente as paredes são de alvenaria de tijolos e o recobrimento da casa em telhas de barro, tipo Marselha”. (¹)

O Sobrado de Ferro da Várzea possui em seu primeiro pavimento as dimensões de 34,2 m de comprimento por 26,4 m. de largura, compondo uma área de 902,88 m2. No andar térreo, numa área adicional de 224.10 m2, foram distribuídos a cozinha, copa, lavanderia, sanitários e outras acomodações. Considerando toda a construção, incluindo os terraços cobertos, a área total da casa é de 1.420,20 m2, sustentada por 69 colunas de ferro fundido.

O velho patriarca acompanhou toda a construção da sua nova residência, porém nunca chegou a nela residir, vindo a falecer pouco depois da conclusão das obras, em 24 de janeiro de 1899.

Maria da Conceição

Francisco do Rego Barros de Lacerda casara-se em 1853 com Mariana de Sá Barreto, desta união nasceram dois filhos e uma filha: João, Francisco e Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda.

O filho João (João Menino), casou com Filipa Barros Barreto, gerando tão somente uma filha falecida ainda criança.

O segundo filho do casal, Francisco do Rego Barros de Lacerda (Chico Velho), possuía o mesmo nome do patriarca e era formado em engenharia. Fora ele o responsável pela montagem da ponte de ferro sobre o rio Capibaribe, juntamente com a maquinaria da nova usina de açúcar e o Sobrado de Ferro, tendo falecido sem deixar descendência.

Restou da diminuta prole sua filha Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda (Cecé), que, nascida em 5 de agosto de 1863 e falecida em 9 de julho de 1942, continuou solteira, sucedendo aos irmãos como herdeira universal de todos os bens da família.

Em 1914 a Usina São João dispunha de 11 km de estrada de ferro e sete tanques para álcool. Em 1912, sua produção foi de 11.663 em sacas de 60 quilos de açúcar. No final da década, 1918, atingiu o patamar de 34.350 sacas. Em 1921, já acusava em seus relatórios uma capacidade de esmagamento diário de 200 toneladas de cana, ocupando o 9º lugar no parque industrial açucareiro do Estado; registrando, atingindo, em 1933, a produção de 37.853 sacas de açúcar.

Na década de 1930, dois novos engenhos foram adquiridos pela Usina São João: O Santo Amarinho, com 330 hectares, localizado no atual município de Jaboatão dos Guararapes, e o engenho Mamucaia, com 504 hectares, em São Lourenço da Mata.

Em fins daquela década, a Usina São João possuía um total de 2.644 hectares de terras produtoras de cana-de-açúcar para alimentar suas moendas, sendo 280 hectares do engenho São João; 550 hectares do Santos Cosme e Damião; 980 hectares do São Francisco, além dos dois acima citados.

No ano de 1934, encontrava-se a usina sob a administração de Ricardo Lacerda de Almeida Brennand, a quem D. Maria da Conceição do Rego Barros Lacerda, conhecida entre os familiares pelo apelido de Cecé, transformara, por perfilhamento, em seu herdeiro universal.

Assim, Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda, Cecé, com tal iniciativa, veio a se tornar a principal responsável pelo patrimônio econômico de toda Família Brennand, transformando-se numa espécie de “matriarca” de todos.

A Usina São João da Várzea continuou em atividade até o ano de 1943, quando veio encerrar sua produção de açúcar e álcool. Suas máquinas foram vendidas para a Usina Trapiche, então, propriedade da empresa Mendes Lima.

* * *

(¹) ANONYME / Cie. CENTRALE DE CONSTRUCTION / EAINE ST. PIERRE BELGIQUE / ADMINISTRATEUR DIRECTEUR LEON HIARD.” “Esse indício, da origem belga dos componentes da arquitetura metálica da casa, contradiz a primeira informação. A não ser que se considere a hipótese do edifício ter sido montado originalmente nos Estados Unidos da América do Norte e de lá ter sido reexportado para o Brasil”. – GOMES-DA-SILVA, Geraldo. Arquitetura de ferro no Brasil. São Paulo: Nobel, 1986. P. 218-222.

Informa o professor Geraldo Gomes da Silva, que a residência em questão “teria vindo de fato dos Estados Unidos, de onde chegara nos fins do século XIX. Essa informação não foi ainda comprovada mas, foi possível descobrir, numa das colunas de ferro fundido do pórtico de entrada, a inscrição: SOCIETÉ

SAUDADES QUE VEM DE CAPIBA…

Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (Surubim, Out/1904 – Recife, Dez/1997)

No próximo 28 de outubro de 2017 comemora-se a data de aniversário de Lourenço da Fonseca Barbosa, o nosso sempre pranteado Capiba….

Quando vivo, o seu aniversário era por ele comemorado com um grande jantar em um dos restaurantes da cidade.

Teria ele 113 anos…

Lourenço da Fonseca Barbosa, o nosso CAPIBA, vivera por 93 anos, nos deixando no último dia de 1997.

Mais um ano sem Capiba.

Em tudo, porém, a sua imagem encontra-se presente entre nós…

A cidade se apresenta vestida de luzes e com as mesmas cores de mais uma primavera, povoada por gente que passa apressada, na labuta da vida diária…

Os rostos pintados dos dias de carnaval, ressurgem com os seus semblantes tristonhos, desfilando apressados diante de mim, fazendo anunciar a volta do azul da primavera no Recife.

Ao meu lado, no entanto, está faltando alguém… Está faltando ele, que por mais de trinta carnavais foi meu companheiro neste mesmo reino azul da fantasia. Carnavais em que juntos cantávamos, acompanhando a multidão, os seus sucessos: Cala boca, menino (1966), Oh! Bela (1970), Catirina meu amor (1971), De chapéu de sol aberto (1972), Frevo e ciranda (1973), Juventude dourada (1975), O amigo do rei (1977), Frevo da solidão (1978), Trombone de prata (1979), E eu drumo (1980), A turma da boca livre (1982), Recife, que beleza (1985) e uma infinidade de outros a embalar a nossa alegria.

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Foram tantos os carnavais, foram tantas as histórias que se perderam no tempo, que tudo hoje se transforma num amontoado de saudades. Recordações daqueles tempos felizes e tranquilos, quando só voltávamos para casa com o sol ofuscante a sorrir dos nossos semblantes de foliões assumidos.
 
Tempos dos Bailes da Saudade, iniciados por mim em 1972, juntamente com Aldo Paes Barreto, e por dezoito vezes repetidos; das gravações na Rozenblit; da primeira Frevioca, por nós inaugurada no Carnaval de 1980; das noitadas no Clube Português; das festas que marcaram os seus 80 anos (1984), com ele desfilando em carro aberto, acompanhado por uma guarda de cavalaria; das eliminatórias do Frevança; dos almoços de todas as semanas e, mais recentemente, dos ensaios do Bloco da Saudade.

Tempos por ele mesmo descritos, pintados que foram com cores fortes e alegres, quando compôs, em 1970,  É hora de frevo (RCA BBL 1489):

Quem quiser me ver
Me procure aqui mesmo
Quando chega o carnaval
Seja noite ou dia
Aqui tudo é alegria
E alegria não faz mal
É aqui que eu danço
Aqui é que eu canto
Aqui é que eu faço
Com desembaraço
Misérias no passo!
Na quarta-feira
Quando tudo terminar
Eu espero mais um ano,
Até o frevo voltar.

Assim era ele ao irradiar a sua alegria infantil que a todos contagiava. Ao seu lado a vida parecia nunca ter fim e sua presença seria uma constante até o final de nossa caminhada.

Ao contrário da regra geral, de que nos fala o poeta Carlos Pena Filho, o Recife não foi para ele a cidade ingrata. Muito pelo contrário, era ele festejado em qualquer parte onde estivesse, por velhos e moços e, sobretudo, pelas crianças que por ele tinha um carinho todo especial. Crianças de hoje, adultos e velhos do amanhã, que por muitas décadas estarão a cantar em seus  carnavais os mesmos frevos feitos por ele para embalar a alegria de sua gente, confirmando, assim,   a eternidade que ele parecia transmitir.

Nos últimos dias de 1997, Capiba, o meu companheiro de mais de trinta carnavais, começou a ensaiar o seu adeus. E eu que acreditava na sua eternidade senti, no último encontro, o sabor da despedida.

Túmulo de Capiba

De mansinho ele se foi do meu convívio e hoje, quando começa mais um Carnaval sem a sua presença, é que eu sinto a falta que ele me faz.
 
Hoje, com a cidade tomada por risos dourados e bocas pintadas a cantar as suas melodias, enchendo de sons os mais tristes recantos, vejo-me vagando pelas ruas, como um órfão perdido no meio dessa multidão, procurando enganar os meus próprios sentimentos.
 
Na minha solidão, a sua presença… Para o meu consolo, a sua saudade… E assim sozinho, com o rosto tomado pelas lágrimas, lá me vou sem destino, cantando baixinho os versos que ele me ensinou:

Vivo nas ruas cantando
Um canto que me convém
Para fugir da tristeza
E da saudade também
Se estou certo ou errado
Alguém me há de dizer
Fujo talvez da saudade
Saudade que vem de você…

O MENINO E O VIOLINO…

Quando o menino recebeu das minhas mãos uma requinta [clarinete em mi bemol, utilizado em bandas de música], pouca coisa se poderia prever de seu futuro.

Era triste, pálido, desajeitado, esquálido até …

Era uma, entre dezenas de crianças que iniciava seus estudos musicais na Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana que o Departamento de Cultura, por mim dirigido, acabara de instalar, naqueles idos de 1976, na Escola Cônego Jonas Taurino, dos Peixinhos.

Com a implantação do Núcleo de Formação de Instrumentistas de Cordas, que mais tarde veio a ter o nome de 3º Núcleo do Projeto Espiral, o menino resolvera estudar violino.

Incentivado pelo maestro Ademir Araújo. Edson Rodrigues e por outros professores da escola, o menino foi apresentado ao professor Luís Soler para as provas iniciais, em julho de 1978.

Já sabia alguma coisa de solfejo, tinha alguma prática em leitura musical. Era um bom começo para quem queria estudar violino com um dos instrumentos recentemente doados pelo maestro Marlos Nobre, então diretor do Instituto Nacional de Música da Funarte.

Mas os empecilhos foram aumentando:

Filho de uma humilde mulher do povo, sem profissão definida e sem o apadrinhamento dos poderosos, o menino compareceu à minha sala de trabalho informando não poder continuar nas aulas do Projeto Espiral.

O motivo era simples: com as aulas de violino, no turno da tarde não poderia continuar seus estudos na escola dos Peixinhos.

– Apela para um, telefona para outra, finalmente, com a compreensão de alguns, se consegue uma vaga para o menino na Escola João Barbalho, no Parque Treze de Maio, conciliando o horário dos dois cursos.

Na segunda-feira, 19 de julho de 1982, quando já alguns anos haviam passado, finalmente o menino nos proporcionou uma grande alegria:

A criança de antes era o instrumentista de hoje e, com a desenvoltura dos que prometem alcançar o estrelato, Israel Ramos de França era solista da Orquestra de Câmara da Universidade Federal de Pernambuco executando, em concerto regido pelo seu professor Luís Soller, a “Sonata de Câmara, de F. Veradini”.

Ao ouvir as notas que saiam do seu violino procurei lembrar aquela boa mulher, cujo único sonho era ver o sucesso do filho.

Na plateia não havia lugar para ela, pois de há muito deixara este mundo dos vivos e hoje, lá de outros mundos na paz do dever cumprido, pede a Deus pelo filho Israel que deixou na terra.

– Israel estava soberbo, o Teatro Santa Isabel lotado, o público o aplaudia de pé, a alma daquela boa mãe merecia de mim toda a gratidão.

Diario de Pernambuco, 2 de agosto de 1982

FRANS POST, O PRIMEIRO PINTOR DO BRASIL

Retrato de Frans Post por Frans Halls

Para registrar as realizações do seu governo, preservar em tela a paisagem e a topografia da conquista, bem como os feitos militares e a arquitetura militar e civil do Brasil Holandês, o Conde João Maurício de Nassau-Siegen contou com os serviços de um jovem pintor de Haarlem, Frans Post (1612-1680), que, juntamente com outro pintor, Albert Eckhout (c.1610 – c.1665), da Groninga, tomou para si a tarefa de registrar todos os pormenores do universo do Novo Mundo de então.

Foi Frans Post o primeiro artista europeu a trabalhar em terras da América, o primeiro pintor acadêmico a documentar em cores a paisagem brasileira, registrando também algumas paisagens da África, deixando uma vasta obra da qual chegaram aos nossos dias pouco mais de 160 trabalhos.

Nasceu Frans Janszoon Post na cidade de Haarlem, Holanda, em 1612, sendo filho do pintor de vitrais Jan Janszoon Post e de sua mulher Francyntie Peters, cujo casamento aconteceu em 1604, sendo ambos naturais de Leiden.

Era Frans o terceiro filho do casal, que tinha por primogênito Pieter Post, nascido em Haarlem em 1608, seguindo-se de Anthoni, nascido em 1610, e Johana, a caçula nascida em 1614, pouco antes do falecimento do chefe da família: Jan Janzoon Post.

Órfão de pai aos dois anos, tendo sua mãe se casado com Harman van Warden em 1620, de quem logo depois se separa, o menino Frans tem no irmão Pieter o seu primeiro mestre.

Pouco se sabe de sua formação acadêmica, tão somente que criou-se na cidade de Haarlem, uma das mais prósperas da província, Flandres, célebre por suas corporações de artistas.

Pieter Post (1608-1669), o mais velho dos irmãos, vem a ser discípulo do grande Van Campen, um dos mais renomados arquitetos do seu tempo, responsável pela construção da Mauritshuis (Casa de Maurício), na Haia, e freqüentador da corte do Príncipe Frederico Henrique. Através dele é o jovem Frans apresentado ao Conde de Nassau, recém-nomeado Governador do Brasil Holandês, que o convida para acompanhá-lo em sua nova missão.

No Brasil, o jovem Frans Post tornou-se a memória visual do governador, transformando-se numa espécie de cronista da paisagem. Para isso acompanhou o Conde de Nassau em todas as suas viagens e campanhas militares, chegando até a registrar incursões de esquadras enviadas do Recife para a tomada das cidades de São Jorge da Mina, Forte Nassau, São Paulo de Luanda e ilha de São Tomé, na África.

Por sua vez, ao irmão mais velho do pintor, o arquiteto Pieter Jansz Post, que trabalhava com Jacob van Campen na construção da Mauritshuis em Haia, é atribuído o traçado urbano da Cidade Maurícia, bem como o projeto de alguns empreendimentos desenvolvidos pelo Conde de Nassau no Brasil, a saber: o Palácio de Friburgo, denominado pelos portugueses de Palácio das Torres; a Casa da Boa Vista; a Igreja dos Calvinistas Franceses, “uma réplica em ponto pequeno da Catedral de Haarlem”.

O traçado urbano da Cidade Maurícia (Mauritsstadt), vem detalhado no mapa de Cornelis Bastianszoon Golijath, Mauritiopolis, Reciffa et circvm iacentia castra, publicado no livro de Gaspar Barleus (n.º 40). (¹)

Ao contrário de Pieter Post, o seu irmão Frans Post é constante na documentação da época, chegando a privar da lista de comensais do Conde de Nassau, no Palácio de Friburgo, em 1º de abril de 1643. Segundo revela José Antônio Gonsalves de Mello: “ao todo 46 pessoas das quais 19 com empregados. Entre elas: Frans Plante, o doutor Piso, três fidalgos não identificados, Albert Eckhout e Frans Post, ‘pintores, ambos com criados’, o cartógrafo Georg Marcgrave, também com criado, etc.”. (²)

O objetivo principal de Frans Post seria a documentação de cidades, vilas, povoações, costumes, construções civis e militares, cenas de batalhas navais e terrestres, que viriam ilustrar um grande relatório das atividades do Governo do Conde de Nassau em terras da América.

OS QUADROS BRASILEIROS

Em carta ao então Príncipe João Maurício de Nassau, datada de 10 de dezembro de 1678, relacionando as obras que seriam entregues ao Rei Luís XIV, o encarregado de seus negócios Jacob Cohen faz referência a “18 pequenas paisagens brasileiras em molduras pretas” (18 kleine bras. lantschapen in zwarte lijsten). (³)

Por esta fonte, chega-se à conclusão que Frans Post pintou pelo menos 18 quadros a óleo retratando a paisagem brasileira durante sua estada de sete anos no Nordeste, de 1637 a 1644. Eram quadros com cerca de 60 x 90 cm., emoldurados em ébano, que foram conservados pelo Conde de Nassau até 1679, pouco antes de sua morte, quando foram presenteados, juntamente com outros quadros e objetos do Brasil, ao rei de França, Luís XIV. (4)

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Desse total de 18 quadros, apenas sete podem ser identificados em nossos dias. Os demais simplesmente desapareceram com o passar do tempo e a desídia dos homens. Assim foram relacionados por Beatriz e Pedro Corrêa do Lago as seguintes telas, assinadas e datadas por F. Post:

1 –Vista de Itamaracá, 1637 (63,5 x 89,5), Mauritshuis, Haia;

2 – O Rio São Francisco e Forte Maurício, l638 (60 x 80 cm.), Museu do Louvre, Paris;

3 – O Carro de Bois, 15.8.1638 (61 x 88 cm.), Museu do Louvre, Paris;

4 – Forte Ceulen no Rio Grande (Forte dos Reis Magos, Rio Grande do Norte), 28.8.1639 (60 x 86 cm.), Museu do Louvre, Paris;

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OS QUINZE ANOS DO INSTITUTO RICARDO BRENNAND

Inaugurado em 12 de setembro de 2002, o Instituto Ricardo Brennand encontra-se localizado em uma área de pouco mais de 77 mil metros quadrados, na qual abriga o Castelo de São João, a Pinacoteca, a Galeria de Eventos, a Capela de Nossa Senhora das Graças e o Restaurante Castelus.

Ricardo Brennand

Juntando suas construções teremos uma área de 9,2 mil metros quadrados, de modo a oferecer aos seus visitantes o maior acervo de peças de arte já reunido por um só colecionador.

Costuma-se dizer, entre os colecionadores de obras de arte, que determinada peça, vez por outra, procura o seu próprio dono(!).

No Instituto Ricardo Brennand a história não acontece de forma diferente; aqui o objeto sempre procura o colecionador pelos mais estranhos e diferentes caminhos. Grande parte das obras em exposição, tem a sua própria história, algumas até transformando-se em romances e outras sendo objeto de conversas e exemplos de curiosidade.

Em sua portada de entrada o Instituto Ricardo Brennand ostenta dois dos oito grandes leões esculpidos em mármore que, no passado, ladeavam as escadarias do Palácio Monroe do Rio de Janeiro (1906). Demolido em 1976, foram dois desses leões oferecidos a Ricardo Brennand que os adquiriu para o seu futuro centro cultural, inaugurado em 2002.

A Mulher da Rede & outras esculturas

Uma das obras que mais causam impacto em nossos visitantes é a última escultura do artista italiano Antonio Frilli, A Mulher na Rede ou Doces Sonhos, adquirida em 2009.

O italiano Antonio Frilli, que em 1860 fundara o seu Atelier em Florença (Via del Fossi), foi um dedicado escultor de grandes estátuas em mármore de Carrara e alabastro, destinadas a famosos cemitérios, bem como para outras galerias conhecidas na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália.

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NAPOLEÃO BONAPARTE & PERNAMBUCO.

Em 1817 Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco para os Estados Unidos, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Napoleão em Pernambuco

Por conta da presença de Cruz Cabugá, nos Estados Unidos da América, Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetado em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses.

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.

Sem qualquer notícia recente dos acontecimentos envolvendo os simpatizantes da República Pernambucana, bem como da reação tirânica da coroa portuguesa contra os insurretos, partiu da Filadélfia o navio americano Parangon em direção às costas do Rio Grande do Norte, que veio aportar em baía Formosa, a 50 quilômetros de Natal, em 29 de agosto de 1817, transportando um carregamento de breu. Depois de despachar sua carga e se abastecer de víveres, o barco seguiu viagem com destino à Paraíba, não sem antes deixar em terra quatro franceses.

O pequeno grupo era chefiado pelo coronel Paul-Albert-Marie de Latapie, militante da infantaria dos exércitos napoleônicos, que gravemente ferido na batalha de Waterloo (1815), ocorrida a 15 km. de Bruxelas, fora buscar refúgio nos Estados Unidos. O experiente militar se fazia acompanhar dos também oficiais bonapartistas Artong e Roulet, apresentando-se como quarto personagem, um jovem cientista, Louis Adolphe Le Doulcet (1794-1882), que vem alcançar destaque nos estudos da Botânica e na produção musical. Seu nome é registrado pela Enciclopédia Larousse (que trata de sua aventura no Brasil), sendo ele filho do Conde de Pontécoulant (1769-1840), senador do Império francês ao tempo de Napoleão I.

Le Doulcet, que também era dado ao exercício da medicina, logo fez amizade com José Ignácio Borges, secretário do governador do Rio Grande do Norte, que facilitou para todo grupo os passaportes necessários para viagens por todo território brasileiro.

De posse dos papéis os aventureiros rumaram para o Recife, onde os aguardava o cônsul dos Estados Unidos M. Joseph Hay, que lhe fora indicado por Cabugá. O cônsul tinha como secretário o dinamarquês Georges Fleming Holdt, que havia servido na marinha de Napoleão, e que mais tarde vem a ser preso pelo governo, ocasião em que confessa a existência do plano de fuga do imperador da Ilha de Santa Helena.

Só ao chegar ao Brasil é que os franceses se dão conta do fracasso da Revolução Republicana de Pernambuco, cujos principais líderes se encontravam presos no Recife e Salvador, já tendo alguns deles dado suas vidas à causa da liberdade.

No Recife foram os franceses Latapie, Artong, Roulet e Le Doulcet recolhidos ao forte do Brum, por ordem do capitão-general Luiz do Rego Barreto, responsável pela repressão ao movimento republicano de seis de março de 1817.

Por intervenção do cônsul foram eles libertados, não sem antes confessar que “estavam na Filadélfia quando tomaram conhecimento das notícias da revolução de Pernambuco”. Tal acontecimento fez com que José Bonaparte desse continuidade a um ardiloso plano visando resgatar o seu irmão, Napoleão, de sua prisão na ilha de Santa Helena.

Louis Adolphe regressa ao Rio Grande do Norte, enquanto os três outros ficaram no Recife, na casa do cônsul dos Estados Unidos. Logo depois, Latapie e Artong seguem viagem para o Rio de Janeiro na tentativa de avistar-se com outros bonapartistas, inclusive com o general Theodoro van Hogendorp (1761-1822), militar holandês que depois de galgar os mais altos cargos no exército de Napoleão vivia anonimamente numa chácara, na Estrada da Tijuca, aonde por vezes recebera a visita do príncipe D. Pedro.

Nesse ínterim, chega às costas da Paraíba, na baía da Traição, um barco com oito marinheiros do navio Pinguim, os quais, presos e levados ao Recife, vieram confessar estar a serviço de Cabugá que fretara aquele navio nos Estados Unidos e o mandara para Pernambuco, carregado de armas e munições para uso dos revoltosos. Diante dos fatos, o Pinguim seguiu viagem rumo à Bahia, deixando-os na praia; o fato vem a ser comunicado pelo governador da Paraíba, Bernardo Teixeira, ao ministro Villa Nova Portugal, em data de 1º de março de 1818.

No Recife foi de pronto requerida à prisão de Roulet e de três outros franceses que se encontravam na casa do cônsul. Feita a busca no local, foram presos o secretário do consulado Georges Fleming Holdt, Roulet e três outros suspeitos, além do livro de correspondência oficial. Na prisão o dinamarquês Holdt veio confessar mais detalhes do plano traçado para a fuga de Napoleão, que lhe fora descrito em minúcias pelo coronel Latapie, quando de jantar na casa do cônsul norte-americano.

Do plano ali narrado já tinha conhecimento o próprio Napoleão, que autenticara com a sua assinatura às cartas geográficas enviadas sob sigilo de Santa Helena para José Bonaparte, nos Estados Unidos, confirmando a existência da quantia de mais de 1 milhão de dólares para fazer face às despesas com a pequena frota.

Depois de alguns meses na prisão, onde eram visitados constantemente pelo cônsul americano, foram eles libertados, afirmando Alfredo de Carvalho que “a sua enérgica conduta pesou nas determinações do governo de Pernambuco e do Rio e precipitou o desfecho do processo”.

Para o diplomata M. Joseph Hay, as autoridades portuguesas estavam cientes que “nem Roulet, nem Latapie, nem Louis Adolphe, nem Artong, tinham vindo ao Brasil com intuito de fazer agitação e de pregação em favor da proclamação de uma república”, mas tão somente sondar o ambiente a fim de estudar a possibilidade de pôr em prática o plano de fuga de seu imperador, então prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena.

Acatando tal argumentação, o Tribunal de Alçada de Pernambuco, julgando-se incompetente em razão dos fatos, enviou os franceses para o Rio de Janeiro de onde foram, no mais curto espaço de tempo, embarcados para Portugal, que logo os expulsou do seu território através da fronteira com a Espanha.

O plano de fuga de Napoleão, orquestrado por José Bonaparte, porém, só muito depois vem a ser conhecido com detalhes, quando em 1853 vem a ser publicada, em Londres, a correspondência diplomática, trocada por Charles Bagot, de Washington, com Lord Castlereagh. Segundo Alfredo de Carvalho, que faz referência à documentação no seu livro Aventuras e Aventureiros no Brasil (1929), publicado no Rio de Janeiro pela Ed. Pongetti, em relatório datado de 29 de julho de 1817, ficara escolhido como ponto de encontro da expedição “a ilha de Fernando de Noronha, situada a 62 léguas da costa do Brasil”, para onde iriam os barcos de guerra especialmente fretados para aquela operação, destacando o documento: “Ali devem reunir-se oficiais franceses de Bonaparte, em número de aproximadamente oitenta, setecentos oficiais americanos, duas escunas e um navio armado pelo Lord Cochrane, tendo a bordo oitocentos marinheiros e duzentos oficiais”.

Terminava assim o malogrado plano daqueles aventureiros de resgatar Napoleão Bonaparte de sua prisão na pequenina ilha rochosa de Santa Helena e transformá-lo no grande comandante dos exércitos republicanos da América do Sul.

Findaram-se assim, sem maiores consequências, os sonhos daqueles bonapartistas que, como os nossos patriotas, também acreditaram no arrebol da República de Pernambuco de 1817.

CRUZ CABUGÁ. O NOSSO PRIMEIRO EMBAIXADOR

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996)¹ , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense -, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

O homem dos 800 mil dólares

O escritor Laurentino Gomes, ao escrever sobre “A República de Pernambuco”, no seu livro 1808 etc. , inicia sua narrativa pela figura do comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, “agente secreto de uma conspiração em Pernambuco” que andava em maio de 1817 pelas ruas da Filadélfia, então capital dos Estados Unidos da América, “levando na bagagem 800.000 dólares”, quantia assombrosa para à época equivalente, em 2007, “a cerca de doze milhões de dólares” (!)

O nosso primeiro representante nos Estados Unidos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana de março de 1817, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Segundo confirma o diplomata João Alfredo dos Anjos, em seu livro “José Bonifácio, o primeiro Chanceler do Brasil” (Brasília, 2008), “a sua Carta Patente de 5 de fevereiro de 1823, é encapada por carta de Bonifácio na qual se menciona, mais uma vez, o seu patriotismo, além da sua experiência, como razões da chancela do Imperador ao seu nome. A decisão já estava tomada em novembro de 1822, pois (Antônio) Gonçalves da Cruz aparece entre os agraciados da Ordem do Cruzeiro, como cônsul em Filadélfia” Segundo Hildebrando Accioly, in O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América :

Ao chegar (em 1824) aos Estados Unidos (José Silvestre) Rebello (o primeiro Encarregado de Negócios do Brasil em Washington) ali já encontrara, exercendo oficiosamente funções consulares, Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pela alcunha de Cabugá, que em 1817 servira como comissário do Governo republicano revolucionário de Pernambuco naquele país. Nomeado Cônsul-Geral pelo Governo imperial em 15 de janeiro de 1823, nunca chegou a assumir o cargo oficialmente. Naquela época era praxe, provavelmente herdada da administração portuguesa, que as pessoas designadas para ocupar cargos consulares solicitassem à Secretaria de Estado, pessoalmente ou por procurador, as respectivas cartas patentes, pagando os competentes emolumentos. Gonçalves da Cruz não o fez, talvez por ignorar esta norma, tendo-se limitado a esperar que a Repartição lhe remetesse o documento, o que nunca ocorreu. Consequentemente, não pôde tampouco obter do Governo americano o necessário exequatur. Isto não o impediu, porém, de trabalhar muito pelo reconhecimento da Independência do Brasil junto ao mesmo Governo.

¹ MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1996

² GOMES, Laurentino – 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo, Ed. Planeta, 2007.

³ANJOS, João Alfredo. José Bonifácio o primeiro Chanceler do Brasil. Brasília, Fundação Alexandre de Gusmão, 2008. 424 p.il.

4 ACCIOLY, Hildebrando. O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América, São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936, p. 77-91

NA RUA DO BOM JESUS, TEM INÍCIO A HISTÓRIA DOS JUDEUS DOS EUA

 Rua da Cruz, dos Judeus e do Comércio, c. 1855. Recife, Pernambuco. Augusto Stahl.

Com a ocupação holandesa em Pernambuco (1630-1654), milhares de judeus se estabeleceram no Nordeste do Brasil no ramo do comércio, particularmente do açúcar e do tabaco, chegando alguns a possuir engenhos, dedicar-se à cobrança de tributos, empréstimo de capital e no comércio de escravos originários da costa africana.

O aumento da comunidade fez com que, alguns integrantes mais ricos da gente da nação (como se autodenominavam) fixarem-se na guarda do Bode, em terreno comprado pelo judeu Duarte Saraiva, em 1635, à Companhia das Índias Ocidentais. Depois de algumas construções, o terreno, que ficava próximo a “Porta de Terra” no lado norte da cidade, dando origem a chamada de Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus.

Duarte Saraiva, conhecido entre os do Recife e da Holanda pelo nome de David Senior Coronel, era um dos principais líderes da comunidade de então. Na sua casa funcionou a primeira sinagoga do Recife, em 1636, antes de ser construído o prédio destinado à Kahal Kadosh Zur Israel, ou seja, a “Santa Comunidade o Rochedo de Israel”.

Curiosamente, nesta sinagoga da Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, vem ter origem a história da Comunidade Hebraica dos Estados Unidos, conforme proclamação assinada pelo presidente Barack Obama, datada de dois de maio de 2012:

Há trezentos e cinquenta e oito anos atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiram do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o momento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esta saga tem início quando da rendição das tropas holandesas no Recife, em 27 de janeiro de 1654, dando causa a diáspora de 150 famílias judaicas forçadas a retornar aos Países Baixos e de lá, novamente, ao Novo Mundo, espalhando novas comunidades em ilhas do Caribe e na América do Norte.

Um desses grupos saídos do Recife vem a ser embarcado no navio holandês Valk, com destino aos Países Baixos. Na viagem de retorno vieram a se tornar prisioneiros de corsários espanhóis, sendo, porém, resgatados na Jamaica por franceses e, com estes, rumaram em direção à Nova Amsterdam a bordo do barco Sainte Catherine.

Em setembro de 1654, esses 23 judeus [entre homens, mulheres e crianças] já se encontravam na Nova Amsterdam, fundando assim a primeira comunidade judaica daquela que veio ser a cidade de Nova Iorque.

Segundo consultas ao arquivo do cemitério da Congregação Shearith Israel, daquela cidade, membros da Congregação Zur Israel do Recife aparecem em documentos do início da segunda metade do século XVII. Um deles, Benjamin Bueno de Mesquita, falecido em 1683, tem a sua lousa tumular preservada naquele cemitério; acrescentando a mesma fonte:

Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns desses judeus. Em Amsterdã, o rabino português Saul Levi Mortera – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma dessas embarcações em um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:

O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.

Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Catherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Catherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque.

Dessas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado. Entre esses adultos, foram identificados três homens citados no relatório da cidade como pessoas que assinaram o livro de atas da Congregação Zur Israel do Recife, no ano de 1648: Abraham Israel, David Israel e Mose Lumbroso.

Permanece o cemitério dos primitivos judeus do Recife em Nova Iorque, nos dias atuais, conservado pela Congregação Shearith Israel, estando localizado em um movimentado cruzamento daquela cidade, assinalado por uma placa com dizeres em inglês: “O Primeiro Cemitério da sinagoga Hispano-Portuguesa, Shearith Israel, na Cidade de Nova York 1656 – 1833”.

O tamanho da área do cemitério é pouco maior do que o de duas quadras de tênis. Parte acabou sendo destruída quando uma rua foi construída décadas atrás. Ao redor, famílias chinesas observam muitas vezes sem entender o que existe de especial nesse cemitério unindo as histórias de Brasil, Estados Unidos, Portugal, Holanda e da diáspora judaica.

Esses descendentes dos judeus saídos do Recife em 1654 se transformaram em figuras proeminentes na sociedade americana. Um deles, Benjamin Cardozo, já falecido, alcançou o posto de juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Outro Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova York, é o mais destacado especialista de teoria dos jogos aplicada à ciência política.

O episódio que marca a presença dos vinte e três judeus do Recife na história da cidade de Nova Iorque (1654) é hoje reconhecido amplamente pelos norte-americanos, a ponto do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, assinar, em dois de maio do ano de 2012, a seguinte proclamação:

Há trezentos e cinquenta e oito ano atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiu do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o memento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esses 23 crentes abriram o caminho para milhões. Durante os próximos três séculos, judeus de todas as partes do mundo seguiram para construir novas vidas na América – um país onde a prosperidade é possível, onde os pais podem prover a seus filhos mais do que ele próprios tiveram, onde famílias não mais sofreriam a ameaça de violência ou exílio, onde podiam professar sua fé abertamente e verdadeiramente. Mesmo aqui, os judeus americanos suportaram tormentos de opressão e hostilidade; mesmo assim, através de cada obstáculo, gerações carregaram em si a profunda convicção de que um futuro melhor estava ao seu alcance. Na adversidade e no sucesso eles se apoiaram mutuamente, renovando o a tradição de comunidade, propósitos morais, e esforço comum tão presente em sua identidade.

Suas histórias de continua perseverança e crença no futuro são uma lição não apenas para os judeus americanos, mas para todos os americanos. Gerações de judeus americanos têm contribuído para alguns das grandes realizações do nosso país e para sempre enriquecido nossa vida nacional. Como um produto da herança e da fé, eles têm aberto nossos olhos para a injustiça, para os mais necessitados, e para a simples idéia de que nos devemos nos reconhecer através da luta dos nossos companheiros homens e mulheres. Estes princípios têm levado os defensores judeus a lutar pela igualdade das mulheres e pelos direitos dos trabalhadores, e pregar contra o racismo a partir da bimah (púlpito); eles inspiraram muito a liderar marchas contra a segregação, ajudaram a forjar os laços inquebráveis com o estado de Israel, e deu suporte o ideal de tikkun olam – nossa obrigação em reparar o mundo. Judeus americanos têm servido heroicamente em batalhas e nos inspirado na busca da paz, e hoje, eles se postam como líderes em comunidades por toda a nossa Nação.

Mais de 300 anos depois que aqueles refugiados puseram os pés na Nova Amsterdam, nós celebramos o permanente legado dos judeus americanos – dos milhões que cruzaram o Atlântico em busca de uma vida melhor, dos seus filhos e netos, e de todos cuja crença e dedicação os inspiraram a atingir o que seus antepassados podiam apenas imaginar. Nosso país se fortalece através de sua contribuição, e este mês, nós comemoramos a miríade de formas com as quais eles enriqueceram a experiência americana.

AGORA, POR ISSO, EU, BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos da América, em virtude da autoridade em mim investida pela Constituição e leis dos Estados Unidos, por meio desta proclamo mês de maio de 2012 como o Mês da Herança Judaico Americana. E conclamo todos os americanos a visitar o site www.JewishHeritageMonth.gov para aprender mais sobre a herança e contribuição dos Judeus Americanos e respeitar este mês com programações apropriadas, atividades, e cerimônias.

EM FÉ DO QUE, eu assino o presente documento neste segundo dia de Maio, do ano de dois mil e doze, duzentos e trinta e seis da independência dos Estados Unidos da América.

BARACK OBAMA


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