UM PAPAI NOEL NO RECIFE

Todos os anos, nesses dias que antecedem a festa do Natal, eu lembro sempre de um pedido de Mariana, minha filha hoje uma jovem senhora de trinta anos, quando, na inocência dos seus quatro aninhos, fazia um sucinto bilhete: “Papai Noel, Eu quero de presente uma mesinha com as cadeirinhas, que eu possa carregar”.  

Todos os anos, nesses dias que antecedem à grande festa, estou a reler o bilhete para assim lembrar um Papai Noel que sempre me acompanhara em todos os meus sonhos infantis. Ao contrário da menina, para quem o bom velhinho é uma simples lenda, o meu Papai Noel era de verdade…  

Não penseis que estou a sonhar e muito menos a contar bravatas, mas eu conheci um Papai Noel! … Um Papai Noel cheio de ternura, de meiguice e bondade. Um Papai Noel vivente como qualquer um de nós…  

Não imagineis que se trata de alucinações, mas, com toda emoção da minha alma, posso afirmar que eu convivi com este Papai Noel.  

O meu Papai Noel, enquanto me embalava no seu colo nos meses que antecediam ao Natal, conversava horas a fio sobre o brinquedo desejado por mim para aquele ano…  

Quando ainda ninguém falava das festas de dezembro, ele, depois de um duro dia de trabalho no Porto do Recife, metia-se em sua oficina do fundo do quintal de nossa casa da Marquês de Maricá, nº 73, na Torre,  e lá, com os seus cabelos brancos como um algodão, seus óculos na ponta do nariz, trabalhava todas as noites para construir o meu sonho; transformando a madeira bruta em coloridos brinquedos, bem diferentes dos expostos nas lojas e adquiridos pelos pais dos outros meninos.

Os brinquedos, confeccionados pelo meu Papai Noel, em nada se assemelhavam aos industrializados. Eram caminhões, carros-de-mão, espadas, cidades com pequeninas casinhas, barcos, aviões que surgiam de sua oficina, cheios de detalhes e de cores vivas, que mais pareciam impregnados da eternidade… – Em sua quase totalidade, duraram até a última enchente do Capibaribe em 1975.  

Há 47 anos, num dia de setembro de 1966, o meu Papai Noel fez uma viagem e nunca mais voltou…

 

Antônio (Tonico) Machado Gomes da Silva, o meu Papai Noel

Nas minhas orações através dos Natais que se sucederam a partir de então, eu pedi a ele, como nos tempos de criança, um presente que eu julgava simples e fácil de conseguir pelos mundos por onde vagava o seu espírito…  

Eu pedia, ao meu Papai Noel, a partir daquele Natal de 1966, a felicidade: um estado de espírito, que não se pode comprar com dinheiro ou trocar por qualquer outro bem material, mas do qual a minha vida ainda hoje padece de uma eterna e insaciável sede

Nas minhas orações, eu parecia repetir a canção de Assis Valente:

Papai Noel,
vê se você tem,
a felicidade,
pra você me dar.

Eu houvera crescido, já não mais era uma criança, mas os meus sonhos infantis pareciam buscar no pedido ao meu Papai Noel, a felicidade não encontrada neste meu mundo material, racionalista e povoado de invejas.  

A vida foi passando e, com as cicatrizes da alma, as rugas do rosto e os cabelos brancos espalhados pela cabeça, pude compreender que a felicidade não estava nas possibilidades do meu Papai Noel… A felicidade é um bem, impossível de ser alcançado pela grande maioria dos viventes. É artigo que existe no mercado, mas encontra-se inacessível a muitos como eu…  

Nesses dias em que vivemos o espírito do Natal, com a cartinha de Mariana nas entre páginas de um dos meus livros, volto a lembrar-me, com o rosto tomado pelas lágrimas, do meu bom Tonico; este meu Papai Noel que não vejo a tantos natais…  

Nas minhas divagações, cantei baixinho, com a voz embargada pelo pranto, aquela canção que parecia esquecida:

Já faz tempo que eu pedi,
Mas o meu Papai Noel não veio.
Com certeza se esqueceu,
Ou então felicidade,
É brinquedo que não tem.

Mas, quando já imaginava que o bom velhinho havia esquecido do meu pedido, senti, ao vislumbrar Mariana no meu colo, que ele voltara de forma bem original… Observando melhor, ele ali estava, bem vivo e bem junto a mim, como que reencarnado na figura de sua neta, que dele possui a mesma pele morena, o mesmo nariz afilado, as mesmas pernas longas, as mesmas orelhas, o mesmo sorriso, a mesma beleza jovial e tantos outros sinais que marcavam o seu biótipo e a sua personalidade …

Ele finalmente voltara!…

O meu Papai Noel reencarnara, em forma de esperança, lembrando que o meu pedido de mais de quatro décadas, talvez um dia, quem sabe, venha a ser finalmente atendido…

CAPIBA, ALEGRIA DA GENTE

Para o Vocabulário Pernambuco, de Francisco Augusto Pereira da Costa¹, o adjetivo capiba tem o significado de “grande, volumoso, alentado”, podendo ainda ser entendido, também, como “chefe, dunga, mandão”, tal como foi usado pelo dicionarista Antônio Moraes Silva em carta dirigida ao desembargador Castro Falcão (1818): “Referiu-me José Bento Fernandes que um tal ‘Capiba dos Afogados’ tivera ordens de vir prender-me”.

                Capiba – anos 30

No Recife dos nossos dias, porém, Capiba é algo palpável, real, bem vivo, alegre, que irradia paz e amor, sendo festejado em qualquer lugar por homem, mulher, moça e, sobretudo, menino, como parte integrante da paisagem de sua cidade.

Este nosso Capiba, personagem de muitas estórias e alegria da gente pernambucana, herdou o apelido familiar do avô materno, Major Lourenço Xavier da Fonseca, juntamente com todos os seus irmãos – Sebastião, José, Severino, Maria, João, Pedro, Josefa, Antônio, Tereza e Hermann -, sobressaindo-se nacionalmente através de sua produção musical, algumas delas com lugar de destaque no repertório da música erudita e popular brasileira.

Pernambucano de Surubim, onde nasceu em 28 de outubro de 1904 e falecido no Recife, em 31 de dezembro de 1997, Lourenço da Fonseca Barbosa iniciou-se na banda musical de Taperoá (PB), onde o seu pai, Severino Atanásio de Souza Barbosa, atuava como regente. Inicialmente tocava trompa e, juntamente com os demais irmãos, passou a fazer parte da Filarmônica Lira da Borborema. Em 1914 a família transferiu-se para Campina Grande, onde o Mestre Severino Atanásio foi dirigir a Charanga Afonso Campos, passando o menino Capiba a dividir o seu tempo entre a música e o futebol.

O seu encontro com o piano só veio em 1920. O instrumento existia em sua casa desde 1918, quando fora comprado pelo irmão Sebastião pela quantia de 200 mil réis, sendo, porém, privilégio dos irmãos mais velhos. Como nono filho da família, Lourenço pouca atenção dava àquele móvel “com uma enorme dentadura, cheia de dentes pretos e brancos” … O piano era mais usado pela irmã Josefa, que aumentava a renda da família tocando na exibição de antigas produções do tempo do cinema mudo, apresentadas na tela do Cine Fox (Campina Grande – PB), estreladas por Pola Negri, Clara Bow, Charles Chaplin e Eddie Polo.

O jovem Lourenço não tinha grandes responsabilidades, dentro daquela família de músicos, até quando Josefa arranjou um noivo e marcou o casamento para 20 de maio de 1920. Sem Josefa no Cine Fox, a renda da família iria sofrer uma enorme perda. Para contornar o problema, só restava ao Maestro Severino Atanásio substituir a pianista por um dos seus filhos que, apesar de músicos, não estavam afeitos ao piano.

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ARRUANDO PELO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO

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A cidade do Recife sofreu grandes transformações na sua paisagem quando da administração de Francisco do Rego Barros (1802-1870), que veio a ser barão, visconde e finalmente Conde da Boa Vista.

Formado em matemática pela Universidade de Paris, com apenas 35 anos de idade, foi designado presidente da província de Pernambuco, ficando no cargo de 1837 a 1844, época em que o trouxe para o Recife o engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815 – 1901), responsável pela construção do Teatro de Santa Isabel (1850) e de importantes obras públicas.

É desta época a presença na equipe de obras públicas do Governo da Província do engenheiro José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, que além dos prédios da Casa de Detenção e do Ginásio Pernambucano foi responsável pelo projeto do Cemitério Público do Senhor Bom Jesus da Redenção, criado em 1841, pela Lei Provincial nº 91, tendo sido inaugurado em 1º de março de 1851.

Trata-se de uma área plana, originalmente ocupando um terreno de 351,35 m. de fundos por 320 m. de largo, tendo ao centro uma elegante capela em estilo gótico, em forma de cruz grega, para onde convergem todas às alamedas de túmulos dando, assim, um formato estelar ao conjunto.

Seria um ponto turístico do Recife, como acontece nas diversas cidades da Europa e mesmo das Américas, mas, infelizmente, não é de visitação habitual nem indicado por nenhum dos guias por nós consultados.

Bem conservado pela atual administração municipal, o Cemitério de Santo Amaro, chama a atenção do visitante para o seu portão de entrada, trazendo na sua base a data de MDCCCLI (1851), confeccionado em ferro fundido pela firma A.C. Staar & Cia. (Fundição Aurora), a mesma responsável pelos portões do Cemitério dos Ingleses e da Ordem Terceira do Carmo do Recife.

Aleias de palmeiras imperiais marca a avenida principal, ladeada pelos primeiros túmulos do início da segunda metade do século XIX, que conduz o visitante até a capela em estilo gótico, octogonal, situada ao centro do campo santo.

Nas diversas alamedas do Cemitério de Santo Amaro, vamos encontrar singulares obras de arte de escultores diversos que estão a exibir o seu talento nos diversos túmulos alguns deles centenários.

No ponto de confluência de suas ruas, encontramos uma singular capela gótica, a primeira do seu gênero em terras pernambucanas, projetada por José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), mandada construir pela Câmara Municipal do Recife em 1853.

“Trata-se de um monumento de puro estilo gótico de cruz grega, fechada por uma só abóbada, de uma belíssima e arrojada construção, e de grandeza proporcional ao fim a que é destinada, sem campanário e sem dependências”.

Tem no seu centro uma imagem do Cristo Crucificado, em ferro, produto de fundição francesa, tendo na sua abóbada placas de mármore alusivas às diversas fases de sua construção, como as restaurações sofridas nos anos de 1899 e 1930:

A Câmara Municipal do Recife a mandou fazer em 1853,…1855, segundo o plano do engenheiro civil José Mamede Alves Ferreira.

– Reaberta e melhorada na administração do Exmo. Dr. Esmeraldino Olympio de Torres Bandeira, prefeito do Município do Recife. Em 16 de junho de 1899.

– Restaurada na administração do Exmo. Sr. Dr. Francisco da Costa Maia, prefeito do Município, 1930.

Relembrando a observação do escritor Rubem Franca (in, Monumentos do Recife – Recife, 1977): O Cemitério encerra muito da cultura de um povo. Santo Amaro, aliás, ainda aguarda quem lhe faça um estudo completo, um levantamento dos sepulcros de pernambucanos famosos e populares. Um estudo dos seus monumentos funerários, que são, alguns verdadeiras obras de arte.

Joaquim Nabuco e outros túmulos

O mais suntuoso dos túmulos é dedicado ao Patrono da Raça Negra, o abolicionista Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo (1849-1910), obra do escultor italiano Giovanni Nicolini; sendo encarregado de montar em Pernambuco outro escultor, também italiano, Renato Baretta, em novembro de 1914.

O conjunto escultórico retrata a Emancipação do Elemento Escravo, em 13 de maio de 1888, dsc_7089formado por um grupo de ex-cativos levando sobre suas cabeças o sarcófago simbólico do grande abolicionista. À frente do monumento, o busto de Joaquim Nabuco, em mármore, tendo ao seu lado uma figura de mulher (a história), que ornamenta de rosas o pedestal do busto, onde se lê: A Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nasceu a 19 de agosto de 1849. Faleceu a 17 de janeiro de 1910.

Logo em frente ao mausoléu de Joaquim Nabuco, encontra-se o túmulo de José Mariano Carneiro da Cunha (1850-1912), também destacado líder do movimento abolicionista e de sua mulher Olegária (Olegarinha) Gama Carneiro da Cunha (1860 – 1898).

Um busto em bronze do abolicionista e estátua de uma mulher chorando, conservando as inscrições: À José Mariano / o Povo / Pernambucano. / Olegária Gama Carneiro da Cunha, 16-9-1860, 24-4-1898.

Outro belo túmulo do Cemitério de Santo Amaro, porém, pertence ao Barão e da Baronesa de Mecejana: Antônio Cândido Antunes de Oliveira e Colomba Ponce de Leão.

“O túmulo é todo feito em mármore de Carrara com grande influência dos romanos, por causa do sentimento católico. O formato de tocha invertida é símbolo da morte e da expectativa de que essa luz se reacenda”, explica o escultor e responsável pela última restauração do túmulo, Jobson Figueiredo, realizada em 1999.

Sobre seu mausoléu, escreve o próprio Barão de Mecejana, em seu testamento, conservado no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, ter sido o túmulo destinado, inicialmente, a sua filha e seu genro que faleceram de uma das epidemias que assolaram o Recife na segunda metade do século XIX. A posição do barão e baronesa, em genuflexo, demonstra a atitude do casal durante a doença que vitimou o casal.

Como bem observou o escritor Clarival do Prado Valadares, in Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (1972), vale reparar também o detalhe das esculturas em mármore do barão e da baronesa, que reproduzem até a textura de uma veste rendada.

Segundo estudo da pesquisadora Semira Adler Vainsencher, da Fundação Joaquim Nabuco:

“Vários mausoléus imponentes podem ser encontrados, também, no cemitério de Santo Amaro. O do governador Manuel Antônio Pereira Borba, mais conhecido como Manuel Borba, possui uma mulher com torre na cabeça, e em seus pés um grande leão de Pernambuco. No mausoléu, uma frase que ficou famosa: Pernambuco não se deixará humilhar. E a sua efígie, com a seguinte inscrição:

Cidadãos: quando quiserdes advertir aos vossos governantes, incitar os vossos compatriotas e educar os vossos filhos, apontai-lhes o exemplo que foi Manuel Borba – probidade e caráter – lealdade – bravura cívica. MCMCCCII. [sic]”

Um passeio pelas ruas e alamedas do Cemitério de Santo Amaro se transforma num verdadeiro desfilar de nomes que se destacaram na nossa história, particularmente nos movimentos revolucionários e movimentos literários, bem como nas artes, na poesia, na música popular e na própria história pernambucana.

Uma visita ao Cemitério de Santo Amaro se torna uma verdadeira aula de sapiência das mais diversas áreas do conhecimento humano, daí o nosso convite para tão agradável arruar.

A SINAGOGA PORTUGUESA DE AMSTERDÃ

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Com a expulsão dos holandeses de Pernambuco, em janeiro de 1654, grande parte dos judeus aqui radicados retornaram para Amsterdã e outros centros do centros.

Em Amsterdã coube ao então chefe da Zur Israel do Recife, o rabino português Isaac Aboab da Fonseca, reorganizar uma nova comunidade naquela cidade.

Em 1671, num dos seus famosos discursos, nos quais usava indistintamente o hebreu e o espanhol, fez ver aos sefardins de Amsterdã a necessidade da construção de uma sinagoga mais espaçosa. De imediato foi formada uma comissão para a construção da Grande Esnoga Portuguesa de Amsterdã, seguindo o traço do arquiteto holandês Elias Bouman, tendo a cerimônia de inauguração acontecido, perante o Príncipe de Orange, em 2 de agosto de 1675.

O monumental templo destinava-se ao serviço de comunidade de 3.000 fiéis, na sua maioria oriundos de Portugal.

No prédio, ainda hoje preservado, acima da porta principal, lê-se em letras douradas original hebraico de parte do Salmo 5.8: “Mas eu, pela vossa grande bondade, entrarei na Vossa casa [prostrar-me-ei no vosso santo templo, com a reverência a vós devida.]”.

Além do sentido próprio, as palavras trazem através das estrelas colocadas sobre os caracteres em hebraico, o ano da fundação do templo (5432=1672) e o nome do seu fundador: o Hakam Aboab.

Interior da sinagoga portuguesa de Amsterda segundo_foto de Leonardo Dantas Silva

Para orador oficial da solenidade de inauguração, o rabino Aboab da Fonseca escolheu um jovem judeu nascido em Pernambuco, Isaac de Andrade Velosino, conforme informa José Antônio Gonsalves de Mello. Nominado erradamente por Barbosa Machado, in Biblioteca Lusitana, por Jacob de Andrade Velosino, Isaac se declara judeu nascido no Recife em 1657, quando do seu casamento, em Amsterdã, em 15 de janeiro de 1698. Segundo Sacramento Blake, era ele Doutor em Talmud e Doutor em Filosofia, autor de várias obras, dentre as quais Epítome de la verdad de la ley de Moyses, escrita em espanhol, O Theologo Religioso, O Messias Restaurado, além de outros trabalhos sobre medicina e história do Brasil, tendo falecido na Haia no ano de 1712.

Devido à natureza do solo pantanoso, o templo foi construído sobre três mil estacas de madeira. No seu interior, todo o mobiliário lembra a sua origem luso-brasileira. A começar pelo hekal (armário onde se guarda a Sefer Torá, ou seja, os rolos da Lei de Moisés) , seguindo-se da tebá (altar onde são rezadas as orações em voz alta, com suas talhas e guirlandas ornamentais), confeccionados em jacarandá procedente de Pernambuco. Consta que, na época, toda a madeira fora importada por Moisés Curiel, conhecido também pelo nome de Jerônimo Nunes da Costa, que era agente nos Países Baixos junto ao Reino de Portugal.

No interior da sinagoga, bem no alto, do lado leste, ainda se conserva a placa da inauguração, confeccionada em mármore, com as letras em ouro, assinalando o ano 5435, ou seja, 1675 do calendário gregoriano, e o termo de abertura do templo. Construído sob a presidência de Isaac Levy Ximenes, tendo como zelosos favorecedores da fabrica o Sr. Haham Yshac Aboab da Fonseca, o Sr. Yshac de Pinto, o Sr. Mosseh Curiel. As quatro primeiras pedras as puseram os Senhores Mosseh Curiel, Josseph Ysrael Nunes, Ymanuel de Pinto, David Manuel de Pinto, seguindo-se da comissão de construção composta pelos Senhores Ysahac de Pinto, Semuel Vaz, Jahacob Aboab Osorio, Jahacob Ysrael Pereira, Ysahac Henriquez Coytino.

Sinagoga portuguesa de Amstredam Foto Leonardo Dantas_Silva (2)

O edifício apresenta em seu frontispício quatro grandes colunas de basalto [rocha ígnea vulcânica, ger. porfirítica ou vítrea, composta essencialmente de plagioclásio básico e augita], que sustêm três abóbadas de madeira, estando as duas galerias do interior do templo sustentadas por doze colunas de granito. Os bancos, alinhados perpendicularmente à tebá (estrado onde ficam os oficiantes), foram confeccionados em carvalho e dispõem, sobre o assento, o que ainda hoje é designado pela palavra portuguesa, gaveta. Nesta são guardados o talit (manta de oração), os livros de reza, o livro de parasa e outros objetos individuais para uso no culto.

A monumental Esnoga Portuguesa de Amsterdã conserva, ainda em nossos dias, as orações em hebraico com a pronúncia sefardita típica de Amsterdã, assinalando-se, ainda, orações em português como esta em louvor das autoridades:

A Sua Majestade a Rainha dos Países Baixos e Seu Real Consorte aos sereníssimos Príncipes seus Filhos, à sereníssima Princesa Madama sua May e seu real Consorte, e aos descendentes da Casa Real de Orange-Nassau aos ilustres Membros que concorrem no Governo destas Terras, e aos nobres e veneráveis Senhores Burgomestre e Magistrados desta Cidade de Amsterdã“.

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Até os dias atuais a esnoga não possui energia elétrica, sendo iluminada por enormes lustres de cobre polido, que sustentam mais de mil velas; toda a iluminação do ambiente feita por meio delas e por outras colocadas ao longo do respaldar dos bancos.

No seu entorno foram construídas umas pequenas casas que separam o prédio principal da via pública. Nessas pequenas casas térreas, antes residências de famílias judias, hoje existem bibliotecas, salas de aulas e reuniões, livrarias, uma micvê (piscina destinada ao banho ritual). Também uma pequena esnoga, que conserva o mobiliário da primitiva esnoga de 1639 e que hoje é utilizada para as funções religiosas durante o inverno, pois a grande sinagoga não possui aquecimento. A pequena esnoga dá acesso à célebre Livraria Montezinos do seminário Ets Haim (Árvore de Vidas).

A comunidade portuguesa de Amsterdã tem o seu início em 1602, quando ali chega o rabino alemão Uri Halevi, trazendo um grande número de cristãos-novos originários de Emden (cidade do norte da Alemanha). Esta primeira sinagoga veio a funcionar na residência do mercador português Jacob Tirado, que antes fora senhor de engenho em Pernambuco, residindo em Olinda, onde atendia pelo nome de James Lopes da Costa, sobre o qual já nos referimos.

Curiosamente tanto a primeira sinagoga, Bet Yahacob (Casa de Jacob), criada em 1613 por Jacob Tirado, como a atual Grande Sinagoga Portuguesa de Amsterdã, inaugurada em 1675 pelo rabino Isaac Aboab da Fonseca, foram iniciativas de pessoas que viveram em Pernambuco.

O Haham Isaac Aboab da Fonseca, primeiro rabino do Novo Mundo, introdutor da literatura hebraica nas Américas e fundador da monumental Esnoga Portuguesa de Amsterdã, veio a falecer aos 88 anos, em 9 de abril de 1693, naquela cidade, estando sepultado no cemitério de Ouderkerk, em Amstel. Sua biblioteca foi vendida em leilão, logo após a sua morte. Dela constavam 18 manuscritos em hebraico, 373 livros em hebraico e 53 em outras línguas.

Fotos do colunista

SÃO JOÃO DA VÁRZEA, UMA USINA DENTRO DO RECIFE

Casa de Ferro, Várzea, Recife

Em 1882, encontravam-se em atividade na Várzea do Capibaribe os engenhos: Borralho, Brum, Cova de Onça, Cumbe, Curado, do Meio, Poeta, São Francisco, Santo Inácio, Santo Amarinho, Santos Cosme e Damião e São João, os dois últimos de propriedade de Manuel Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque.

No início da década de 1890, os dois engenhos São João e o Santos Cosme e Damião foram comprados por Francisco do Rego Barros de Lacerda, então proprietário do engenho São Francisco da Várzea, que pretendia reunir as terras dos três engenhos para fundar uma usina de açúcar.

O novo proprietário nascera no engenho Trapiche, na freguesia do Cabo, em 2 de agosto de 1831, falecendo à meia noite do dia 24 de janeiro de 1899, em São João da Várzea. Foram seus pais o Barão e a Baronesa de Ipojuca João do Rego Barros e Inácia Militana Cavalcanti Lacerda.

Era ele sobrinho de Francisco do Rego Barros (1802-1870), Barão e depois Conde da Boa Vista, presidente da Província de Pernambuco entre 1837 a 1844.

Graças a esses laços de parentesco, Francisco do Rego Barros de Lacerda não escapou do destino político que sua família havia reservado para si: Em 1882, elege-se deputado geral do Império, para a legislação de 1882-1885. Em 1886, é eleito para a Câmara de Vereadores do Recife, continuando como vereador da capital de Pernambuco, após a proclamação da República, em 1889. Dois anos depois, em 1891, deixa a câmara municipal, para concorrer a uma vaga no Senado Estadual de Pernambuco, em 1892.

Sempre atento às novidades tecnológicas do seu tempo e inovações ligadas ao processo de plantio da cana e produção do açúcar, optou ele, em meados de 1893, por empreender viagem a fim de conhecer as novas unidades fabris utilizadas na produção açucareira nas zonas produtoras do sul dos Estados Unidos.

Para facilitar a comunicação entre seus engenhos, importou dos Estados Unidos uma ponte de ferro, com 160 m. de extensão, dividida em quatro vãos, que veio ser instalada sobre o leito rio Capibaribe, por seu filho Francisco do Rego Barros de Lacerda.

Com a chegada dos demais equipamentos, adquiridos no estado norte-americano da Luisiana, a nova usina veio ser inaugurada em 1894 em terras do antigo engenho São João, moendo canas dos três engenhos de sua propriedade, com a produção inicial de 4.200 sacos de açúcar.

O Sobrado de Ferro

Em sua viagem ao estado da Luisiana, o proprietário da Usina São João, despertou sua atenção para um estilo de casa de vivenda com estrutura em ferro e paredes de alvenaria em voga em Nova Orleans.

Encantado com o projeto, encomendou uma casa semelhante a fim de erguê-la nas terras do Engenho São João.

Com sua planta baixa lembrando a letra U, que se fecha com uma elegante escada de ferro em dois lances, na parte posterior, a casa tem sua estrutura pré-fabricada, tendo sido importada através do porto do Recife. Todas as fachadas, internas e externas, “possuem varandas suportadas por colunas de ferro fundido e peitoris igualmente fabricados em ferro. Toda a estrutura dos assoalhos e da coberta é em ferro. Somente as paredes são de alvenaria de tijolos e o recobrimento da casa em telhas de barro, tipo Marselha”. (¹)

O Sobrado de Ferro da Várzea possui em seu primeiro pavimento as dimensões de 34,2 m de comprimento por 26,4 m. de largura, compondo uma área de 902,88 m2. No andar térreo, numa área adicional de 224.10 m2, foram distribuídos a cozinha, copa, lavanderia, sanitários e outras acomodações. Considerando toda a construção, incluindo os terraços cobertos, a área total da casa é de 1.420,20 m2, sustentada por 69 colunas de ferro fundido.

O velho patriarca acompanhou toda a construção da sua nova residência, porém nunca chegou a nela residir, vindo a falecer pouco depois da conclusão das obras, em 24 de janeiro de 1899.

Maria da Conceição

Francisco do Rego Barros de Lacerda casara-se em 1853 com Mariana de Sá Barreto, desta união nasceram dois filhos e uma filha: João, Francisco e Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda.

O filho João (João Menino), casou com Filipa Barros Barreto, gerando tão somente uma filha falecida ainda criança.

O segundo filho do casal, Francisco do Rego Barros de Lacerda (Chico Velho), possuía o mesmo nome do patriarca e era formado em engenharia. Fora ele o responsável pela montagem da ponte de ferro sobre o rio Capibaribe, juntamente com a maquinaria da nova usina de açúcar e o Sobrado de Ferro, tendo falecido sem deixar descendência.

Restou da diminuta prole sua filha Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda (Cecé), que, nascida em 5 de agosto de 1863 e falecida em 9 de julho de 1942, continuou solteira, sucedendo aos irmãos como herdeira universal de todos os bens da família.

Em 1914 a Usina São João dispunha de 11 km de estrada de ferro e sete tanques para álcool. Em 1912, sua produção foi de 11.663 em sacas de 60 quilos de açúcar. No final da década, 1918, atingiu o patamar de 34.350 sacas. Em 1921, já acusava em seus relatórios uma capacidade de esmagamento diário de 200 toneladas de cana, ocupando o 9º lugar no parque industrial açucareiro do Estado; registrando, atingindo, em 1933, a produção de 37.853 sacas de açúcar.

Na década de 1930, dois novos engenhos foram adquiridos pela Usina São João: O Santo Amarinho, com 330 hectares, localizado no atual município de Jaboatão dos Guararapes, e o engenho Mamucaia, com 504 hectares, em São Lourenço da Mata.

Em fins daquela década, a Usina São João possuía um total de 2.644 hectares de terras produtoras de cana-de-açúcar para alimentar suas moendas, sendo 280 hectares do engenho São João; 550 hectares do Santos Cosme e Damião; 980 hectares do São Francisco, além dos dois acima citados.

No ano de 1934, encontrava-se a usina sob a administração de Ricardo Lacerda de Almeida Brennand, a quem D. Maria da Conceição do Rego Barros Lacerda, conhecida entre os familiares pelo apelido de Cecé, transformara, por perfilhamento, em seu herdeiro universal.

Assim, Maria da Conceição do Rego Barros de Lacerda, Cecé, com tal iniciativa, veio a se tornar a principal responsável pelo patrimônio econômico de toda Família Brennand, transformando-se numa espécie de “matriarca” de todos.

A Usina São João da Várzea continuou em atividade até o ano de 1943, quando veio encerrar sua produção de açúcar e álcool. Suas máquinas foram vendidas para a Usina Trapiche, então, propriedade da empresa Mendes Lima.

* * *

(¹) ANONYME / Cie. CENTRALE DE CONSTRUCTION / EAINE ST. PIERRE BELGIQUE / ADMINISTRATEUR DIRECTEUR LEON HIARD.” “Esse indício, da origem belga dos componentes da arquitetura metálica da casa, contradiz a primeira informação. A não ser que se considere a hipótese do edifício ter sido montado originalmente nos Estados Unidos da América do Norte e de lá ter sido reexportado para o Brasil”. – GOMES-DA-SILVA, Geraldo. Arquitetura de ferro no Brasil. São Paulo: Nobel, 1986. P. 218-222.

Informa o professor Geraldo Gomes da Silva, que a residência em questão “teria vindo de fato dos Estados Unidos, de onde chegara nos fins do século XIX. Essa informação não foi ainda comprovada mas, foi possível descobrir, numa das colunas de ferro fundido do pórtico de entrada, a inscrição: SOCIETÉ

SAUDADES QUE VEM DE CAPIBA…

Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (Surubim, Out/1904 – Recife, Dez/1997)

No próximo 28 de outubro de 2017 comemora-se a data de aniversário de Lourenço da Fonseca Barbosa, o nosso sempre pranteado Capiba….

Quando vivo, o seu aniversário era por ele comemorado com um grande jantar em um dos restaurantes da cidade.

Teria ele 113 anos…

Lourenço da Fonseca Barbosa, o nosso CAPIBA, vivera por 93 anos, nos deixando no último dia de 1997.

Mais um ano sem Capiba.

Em tudo, porém, a sua imagem encontra-se presente entre nós…

A cidade se apresenta vestida de luzes e com as mesmas cores de mais uma primavera, povoada por gente que passa apressada, na labuta da vida diária…

Os rostos pintados dos dias de carnaval, ressurgem com os seus semblantes tristonhos, desfilando apressados diante de mim, fazendo anunciar a volta do azul da primavera no Recife.

Ao meu lado, no entanto, está faltando alguém… Está faltando ele, que por mais de trinta carnavais foi meu companheiro neste mesmo reino azul da fantasia. Carnavais em que juntos cantávamos, acompanhando a multidão, os seus sucessos: Cala boca, menino (1966), Oh! Bela (1970), Catirina meu amor (1971), De chapéu de sol aberto (1972), Frevo e ciranda (1973), Juventude dourada (1975), O amigo do rei (1977), Frevo da solidão (1978), Trombone de prata (1979), E eu drumo (1980), A turma da boca livre (1982), Recife, que beleza (1985) e uma infinidade de outros a embalar a nossa alegria.

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Foram tantos os carnavais, foram tantas as histórias que se perderam no tempo, que tudo hoje se transforma num amontoado de saudades. Recordações daqueles tempos felizes e tranquilos, quando só voltávamos para casa com o sol ofuscante a sorrir dos nossos semblantes de foliões assumidos.
 
Tempos dos Bailes da Saudade, iniciados por mim em 1972, juntamente com Aldo Paes Barreto, e por dezoito vezes repetidos; das gravações na Rozenblit; da primeira Frevioca, por nós inaugurada no Carnaval de 1980; das noitadas no Clube Português; das festas que marcaram os seus 80 anos (1984), com ele desfilando em carro aberto, acompanhado por uma guarda de cavalaria; das eliminatórias do Frevança; dos almoços de todas as semanas e, mais recentemente, dos ensaios do Bloco da Saudade.

Tempos por ele mesmo descritos, pintados que foram com cores fortes e alegres, quando compôs, em 1970,  É hora de frevo (RCA BBL 1489):

Quem quiser me ver
Me procure aqui mesmo
Quando chega o carnaval
Seja noite ou dia
Aqui tudo é alegria
E alegria não faz mal
É aqui que eu danço
Aqui é que eu canto
Aqui é que eu faço
Com desembaraço
Misérias no passo!
Na quarta-feira
Quando tudo terminar
Eu espero mais um ano,
Até o frevo voltar.

Assim era ele ao irradiar a sua alegria infantil que a todos contagiava. Ao seu lado a vida parecia nunca ter fim e sua presença seria uma constante até o final de nossa caminhada.

Ao contrário da regra geral, de que nos fala o poeta Carlos Pena Filho, o Recife não foi para ele a cidade ingrata. Muito pelo contrário, era ele festejado em qualquer parte onde estivesse, por velhos e moços e, sobretudo, pelas crianças que por ele tinha um carinho todo especial. Crianças de hoje, adultos e velhos do amanhã, que por muitas décadas estarão a cantar em seus  carnavais os mesmos frevos feitos por ele para embalar a alegria de sua gente, confirmando, assim,   a eternidade que ele parecia transmitir.

Nos últimos dias de 1997, Capiba, o meu companheiro de mais de trinta carnavais, começou a ensaiar o seu adeus. E eu que acreditava na sua eternidade senti, no último encontro, o sabor da despedida.

Túmulo de Capiba

De mansinho ele se foi do meu convívio e hoje, quando começa mais um Carnaval sem a sua presença, é que eu sinto a falta que ele me faz.
 
Hoje, com a cidade tomada por risos dourados e bocas pintadas a cantar as suas melodias, enchendo de sons os mais tristes recantos, vejo-me vagando pelas ruas, como um órfão perdido no meio dessa multidão, procurando enganar os meus próprios sentimentos.
 
Na minha solidão, a sua presença… Para o meu consolo, a sua saudade… E assim sozinho, com o rosto tomado pelas lágrimas, lá me vou sem destino, cantando baixinho os versos que ele me ensinou:

Vivo nas ruas cantando
Um canto que me convém
Para fugir da tristeza
E da saudade também
Se estou certo ou errado
Alguém me há de dizer
Fujo talvez da saudade
Saudade que vem de você…

O MENINO E O VIOLINO…

Quando o menino recebeu das minhas mãos uma requinta [clarinete em mi bemol, utilizado em bandas de música], pouca coisa se poderia prever de seu futuro.

Era triste, pálido, desajeitado, esquálido até …

Era uma, entre dezenas de crianças que iniciava seus estudos musicais na Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana que o Departamento de Cultura, por mim dirigido, acabara de instalar, naqueles idos de 1976, na Escola Cônego Jonas Taurino, dos Peixinhos.

Com a implantação do Núcleo de Formação de Instrumentistas de Cordas, que mais tarde veio a ter o nome de 3º Núcleo do Projeto Espiral, o menino resolvera estudar violino.

Incentivado pelo maestro Ademir Araújo. Edson Rodrigues e por outros professores da escola, o menino foi apresentado ao professor Luís Soler para as provas iniciais, em julho de 1978.

Já sabia alguma coisa de solfejo, tinha alguma prática em leitura musical. Era um bom começo para quem queria estudar violino com um dos instrumentos recentemente doados pelo maestro Marlos Nobre, então diretor do Instituto Nacional de Música da Funarte.

Mas os empecilhos foram aumentando:

Filho de uma humilde mulher do povo, sem profissão definida e sem o apadrinhamento dos poderosos, o menino compareceu à minha sala de trabalho informando não poder continuar nas aulas do Projeto Espiral.

O motivo era simples: com as aulas de violino, no turno da tarde não poderia continuar seus estudos na escola dos Peixinhos.

– Apela para um, telefona para outra, finalmente, com a compreensão de alguns, se consegue uma vaga para o menino na Escola João Barbalho, no Parque Treze de Maio, conciliando o horário dos dois cursos.

Na segunda-feira, 19 de julho de 1982, quando já alguns anos haviam passado, finalmente o menino nos proporcionou uma grande alegria:

A criança de antes era o instrumentista de hoje e, com a desenvoltura dos que prometem alcançar o estrelato, Israel Ramos de França era solista da Orquestra de Câmara da Universidade Federal de Pernambuco executando, em concerto regido pelo seu professor Luís Soller, a “Sonata de Câmara, de F. Veradini”.

Ao ouvir as notas que saiam do seu violino procurei lembrar aquela boa mulher, cujo único sonho era ver o sucesso do filho.

Na plateia não havia lugar para ela, pois de há muito deixara este mundo dos vivos e hoje, lá de outros mundos na paz do dever cumprido, pede a Deus pelo filho Israel que deixou na terra.

– Israel estava soberbo, o Teatro Santa Isabel lotado, o público o aplaudia de pé, a alma daquela boa mãe merecia de mim toda a gratidão.

Diario de Pernambuco, 2 de agosto de 1982

FRANS POST, O PRIMEIRO PINTOR DO BRASIL

Retrato de Frans Post por Frans Halls

Para registrar as realizações do seu governo, preservar em tela a paisagem e a topografia da conquista, bem como os feitos militares e a arquitetura militar e civil do Brasil Holandês, o Conde João Maurício de Nassau-Siegen contou com os serviços de um jovem pintor de Haarlem, Frans Post (1612-1680), que, juntamente com outro pintor, Albert Eckhout (c.1610 – c.1665), da Groninga, tomou para si a tarefa de registrar todos os pormenores do universo do Novo Mundo de então.

Foi Frans Post o primeiro artista europeu a trabalhar em terras da América, o primeiro pintor acadêmico a documentar em cores a paisagem brasileira, registrando também algumas paisagens da África, deixando uma vasta obra da qual chegaram aos nossos dias pouco mais de 160 trabalhos.

Nasceu Frans Janszoon Post na cidade de Haarlem, Holanda, em 1612, sendo filho do pintor de vitrais Jan Janszoon Post e de sua mulher Francyntie Peters, cujo casamento aconteceu em 1604, sendo ambos naturais de Leiden.

Era Frans o terceiro filho do casal, que tinha por primogênito Pieter Post, nascido em Haarlem em 1608, seguindo-se de Anthoni, nascido em 1610, e Johana, a caçula nascida em 1614, pouco antes do falecimento do chefe da família: Jan Janzoon Post.

Órfão de pai aos dois anos, tendo sua mãe se casado com Harman van Warden em 1620, de quem logo depois se separa, o menino Frans tem no irmão Pieter o seu primeiro mestre.

Pouco se sabe de sua formação acadêmica, tão somente que criou-se na cidade de Haarlem, uma das mais prósperas da província, Flandres, célebre por suas corporações de artistas.

Pieter Post (1608-1669), o mais velho dos irmãos, vem a ser discípulo do grande Van Campen, um dos mais renomados arquitetos do seu tempo, responsável pela construção da Mauritshuis (Casa de Maurício), na Haia, e freqüentador da corte do Príncipe Frederico Henrique. Através dele é o jovem Frans apresentado ao Conde de Nassau, recém-nomeado Governador do Brasil Holandês, que o convida para acompanhá-lo em sua nova missão.

No Brasil, o jovem Frans Post tornou-se a memória visual do governador, transformando-se numa espécie de cronista da paisagem. Para isso acompanhou o Conde de Nassau em todas as suas viagens e campanhas militares, chegando até a registrar incursões de esquadras enviadas do Recife para a tomada das cidades de São Jorge da Mina, Forte Nassau, São Paulo de Luanda e ilha de São Tomé, na África.

Por sua vez, ao irmão mais velho do pintor, o arquiteto Pieter Jansz Post, que trabalhava com Jacob van Campen na construção da Mauritshuis em Haia, é atribuído o traçado urbano da Cidade Maurícia, bem como o projeto de alguns empreendimentos desenvolvidos pelo Conde de Nassau no Brasil, a saber: o Palácio de Friburgo, denominado pelos portugueses de Palácio das Torres; a Casa da Boa Vista; a Igreja dos Calvinistas Franceses, “uma réplica em ponto pequeno da Catedral de Haarlem”.

O traçado urbano da Cidade Maurícia (Mauritsstadt), vem detalhado no mapa de Cornelis Bastianszoon Golijath, Mauritiopolis, Reciffa et circvm iacentia castra, publicado no livro de Gaspar Barleus (n.º 40). (¹)

Ao contrário de Pieter Post, o seu irmão Frans Post é constante na documentação da época, chegando a privar da lista de comensais do Conde de Nassau, no Palácio de Friburgo, em 1º de abril de 1643. Segundo revela José Antônio Gonsalves de Mello: “ao todo 46 pessoas das quais 19 com empregados. Entre elas: Frans Plante, o doutor Piso, três fidalgos não identificados, Albert Eckhout e Frans Post, ‘pintores, ambos com criados’, o cartógrafo Georg Marcgrave, também com criado, etc.”. (²)

O objetivo principal de Frans Post seria a documentação de cidades, vilas, povoações, costumes, construções civis e militares, cenas de batalhas navais e terrestres, que viriam ilustrar um grande relatório das atividades do Governo do Conde de Nassau em terras da América.

OS QUADROS BRASILEIROS

Em carta ao então Príncipe João Maurício de Nassau, datada de 10 de dezembro de 1678, relacionando as obras que seriam entregues ao Rei Luís XIV, o encarregado de seus negócios Jacob Cohen faz referência a “18 pequenas paisagens brasileiras em molduras pretas” (18 kleine bras. lantschapen in zwarte lijsten). (³)

Por esta fonte, chega-se à conclusão que Frans Post pintou pelo menos 18 quadros a óleo retratando a paisagem brasileira durante sua estada de sete anos no Nordeste, de 1637 a 1644. Eram quadros com cerca de 60 x 90 cm., emoldurados em ébano, que foram conservados pelo Conde de Nassau até 1679, pouco antes de sua morte, quando foram presenteados, juntamente com outros quadros e objetos do Brasil, ao rei de França, Luís XIV. (4)

fp1

Desse total de 18 quadros, apenas sete podem ser identificados em nossos dias. Os demais simplesmente desapareceram com o passar do tempo e a desídia dos homens. Assim foram relacionados por Beatriz e Pedro Corrêa do Lago as seguintes telas, assinadas e datadas por F. Post:

1 –Vista de Itamaracá, 1637 (63,5 x 89,5), Mauritshuis, Haia;

2 – O Rio São Francisco e Forte Maurício, l638 (60 x 80 cm.), Museu do Louvre, Paris;

3 – O Carro de Bois, 15.8.1638 (61 x 88 cm.), Museu do Louvre, Paris;

4 – Forte Ceulen no Rio Grande (Forte dos Reis Magos, Rio Grande do Norte), 28.8.1639 (60 x 86 cm.), Museu do Louvre, Paris;

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OS QUINZE ANOS DO INSTITUTO RICARDO BRENNAND

Inaugurado em 12 de setembro de 2002, o Instituto Ricardo Brennand encontra-se localizado em uma área de pouco mais de 77 mil metros quadrados, na qual abriga o Castelo de São João, a Pinacoteca, a Galeria de Eventos, a Capela de Nossa Senhora das Graças e o Restaurante Castelus.

Ricardo Brennand

Juntando suas construções teremos uma área de 9,2 mil metros quadrados, de modo a oferecer aos seus visitantes o maior acervo de peças de arte já reunido por um só colecionador.

Costuma-se dizer, entre os colecionadores de obras de arte, que determinada peça, vez por outra, procura o seu próprio dono(!).

No Instituto Ricardo Brennand a história não acontece de forma diferente; aqui o objeto sempre procura o colecionador pelos mais estranhos e diferentes caminhos. Grande parte das obras em exposição, tem a sua própria história, algumas até transformando-se em romances e outras sendo objeto de conversas e exemplos de curiosidade.

Em sua portada de entrada o Instituto Ricardo Brennand ostenta dois dos oito grandes leões esculpidos em mármore que, no passado, ladeavam as escadarias do Palácio Monroe do Rio de Janeiro (1906). Demolido em 1976, foram dois desses leões oferecidos a Ricardo Brennand que os adquiriu para o seu futuro centro cultural, inaugurado em 2002.

A Mulher da Rede & outras esculturas

Uma das obras que mais causam impacto em nossos visitantes é a última escultura do artista italiano Antonio Frilli, A Mulher na Rede ou Doces Sonhos, adquirida em 2009.

O italiano Antonio Frilli, que em 1860 fundara o seu Atelier em Florença (Via del Fossi), foi um dedicado escultor de grandes estátuas em mármore de Carrara e alabastro, destinadas a famosos cemitérios, bem como para outras galerias conhecidas na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália.

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NAPOLEÃO BONAPARTE & PERNAMBUCO.

Em 1817 Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco para os Estados Unidos, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Napoleão em Pernambuco

Por conta da presença de Cruz Cabugá, nos Estados Unidos da América, Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetado em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses.

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.

Sem qualquer notícia recente dos acontecimentos envolvendo os simpatizantes da República Pernambucana, bem como da reação tirânica da coroa portuguesa contra os insurretos, partiu da Filadélfia o navio americano Parangon em direção às costas do Rio Grande do Norte, que veio aportar em baía Formosa, a 50 quilômetros de Natal, em 29 de agosto de 1817, transportando um carregamento de breu. Depois de despachar sua carga e se abastecer de víveres, o barco seguiu viagem com destino à Paraíba, não sem antes deixar em terra quatro franceses.

O pequeno grupo era chefiado pelo coronel Paul-Albert-Marie de Latapie, militante da infantaria dos exércitos napoleônicos, que gravemente ferido na batalha de Waterloo (1815), ocorrida a 15 km. de Bruxelas, fora buscar refúgio nos Estados Unidos. O experiente militar se fazia acompanhar dos também oficiais bonapartistas Artong e Roulet, apresentando-se como quarto personagem, um jovem cientista, Louis Adolphe Le Doulcet (1794-1882), que vem alcançar destaque nos estudos da Botânica e na produção musical. Seu nome é registrado pela Enciclopédia Larousse (que trata de sua aventura no Brasil), sendo ele filho do Conde de Pontécoulant (1769-1840), senador do Império francês ao tempo de Napoleão I.

Le Doulcet, que também era dado ao exercício da medicina, logo fez amizade com José Ignácio Borges, secretário do governador do Rio Grande do Norte, que facilitou para todo grupo os passaportes necessários para viagens por todo território brasileiro.

De posse dos papéis os aventureiros rumaram para o Recife, onde os aguardava o cônsul dos Estados Unidos M. Joseph Hay, que lhe fora indicado por Cabugá. O cônsul tinha como secretário o dinamarquês Georges Fleming Holdt, que havia servido na marinha de Napoleão, e que mais tarde vem a ser preso pelo governo, ocasião em que confessa a existência do plano de fuga do imperador da Ilha de Santa Helena.

Só ao chegar ao Brasil é que os franceses se dão conta do fracasso da Revolução Republicana de Pernambuco, cujos principais líderes se encontravam presos no Recife e Salvador, já tendo alguns deles dado suas vidas à causa da liberdade.

No Recife foram os franceses Latapie, Artong, Roulet e Le Doulcet recolhidos ao forte do Brum, por ordem do capitão-general Luiz do Rego Barreto, responsável pela repressão ao movimento republicano de seis de março de 1817.

Por intervenção do cônsul foram eles libertados, não sem antes confessar que “estavam na Filadélfia quando tomaram conhecimento das notícias da revolução de Pernambuco”. Tal acontecimento fez com que José Bonaparte desse continuidade a um ardiloso plano visando resgatar o seu irmão, Napoleão, de sua prisão na ilha de Santa Helena.

Louis Adolphe regressa ao Rio Grande do Norte, enquanto os três outros ficaram no Recife, na casa do cônsul dos Estados Unidos. Logo depois, Latapie e Artong seguem viagem para o Rio de Janeiro na tentativa de avistar-se com outros bonapartistas, inclusive com o general Theodoro van Hogendorp (1761-1822), militar holandês que depois de galgar os mais altos cargos no exército de Napoleão vivia anonimamente numa chácara, na Estrada da Tijuca, aonde por vezes recebera a visita do príncipe D. Pedro.

Nesse ínterim, chega às costas da Paraíba, na baía da Traição, um barco com oito marinheiros do navio Pinguim, os quais, presos e levados ao Recife, vieram confessar estar a serviço de Cabugá que fretara aquele navio nos Estados Unidos e o mandara para Pernambuco, carregado de armas e munições para uso dos revoltosos. Diante dos fatos, o Pinguim seguiu viagem rumo à Bahia, deixando-os na praia; o fato vem a ser comunicado pelo governador da Paraíba, Bernardo Teixeira, ao ministro Villa Nova Portugal, em data de 1º de março de 1818.

No Recife foi de pronto requerida à prisão de Roulet e de três outros franceses que se encontravam na casa do cônsul. Feita a busca no local, foram presos o secretário do consulado Georges Fleming Holdt, Roulet e três outros suspeitos, além do livro de correspondência oficial. Na prisão o dinamarquês Holdt veio confessar mais detalhes do plano traçado para a fuga de Napoleão, que lhe fora descrito em minúcias pelo coronel Latapie, quando de jantar na casa do cônsul norte-americano.

Do plano ali narrado já tinha conhecimento o próprio Napoleão, que autenticara com a sua assinatura às cartas geográficas enviadas sob sigilo de Santa Helena para José Bonaparte, nos Estados Unidos, confirmando a existência da quantia de mais de 1 milhão de dólares para fazer face às despesas com a pequena frota.

Depois de alguns meses na prisão, onde eram visitados constantemente pelo cônsul americano, foram eles libertados, afirmando Alfredo de Carvalho que “a sua enérgica conduta pesou nas determinações do governo de Pernambuco e do Rio e precipitou o desfecho do processo”.

Para o diplomata M. Joseph Hay, as autoridades portuguesas estavam cientes que “nem Roulet, nem Latapie, nem Louis Adolphe, nem Artong, tinham vindo ao Brasil com intuito de fazer agitação e de pregação em favor da proclamação de uma república”, mas tão somente sondar o ambiente a fim de estudar a possibilidade de pôr em prática o plano de fuga de seu imperador, então prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena.

Acatando tal argumentação, o Tribunal de Alçada de Pernambuco, julgando-se incompetente em razão dos fatos, enviou os franceses para o Rio de Janeiro de onde foram, no mais curto espaço de tempo, embarcados para Portugal, que logo os expulsou do seu território através da fronteira com a Espanha.

O plano de fuga de Napoleão, orquestrado por José Bonaparte, porém, só muito depois vem a ser conhecido com detalhes, quando em 1853 vem a ser publicada, em Londres, a correspondência diplomática, trocada por Charles Bagot, de Washington, com Lord Castlereagh. Segundo Alfredo de Carvalho, que faz referência à documentação no seu livro Aventuras e Aventureiros no Brasil (1929), publicado no Rio de Janeiro pela Ed. Pongetti, em relatório datado de 29 de julho de 1817, ficara escolhido como ponto de encontro da expedição “a ilha de Fernando de Noronha, situada a 62 léguas da costa do Brasil”, para onde iriam os barcos de guerra especialmente fretados para aquela operação, destacando o documento: “Ali devem reunir-se oficiais franceses de Bonaparte, em número de aproximadamente oitenta, setecentos oficiais americanos, duas escunas e um navio armado pelo Lord Cochrane, tendo a bordo oitocentos marinheiros e duzentos oficiais”.

Terminava assim o malogrado plano daqueles aventureiros de resgatar Napoleão Bonaparte de sua prisão na pequenina ilha rochosa de Santa Helena e transformá-lo no grande comandante dos exércitos republicanos da América do Sul.

Findaram-se assim, sem maiores consequências, os sonhos daqueles bonapartistas que, como os nossos patriotas, também acreditaram no arrebol da República de Pernambuco de 1817.

CRUZ CABUGÁ. O NOSSO PRIMEIRO EMBAIXADOR

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996)¹ , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense -, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

O homem dos 800 mil dólares

O escritor Laurentino Gomes, ao escrever sobre “A República de Pernambuco”, no seu livro 1808 etc. , inicia sua narrativa pela figura do comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, “agente secreto de uma conspiração em Pernambuco” que andava em maio de 1817 pelas ruas da Filadélfia, então capital dos Estados Unidos da América, “levando na bagagem 800.000 dólares”, quantia assombrosa para à época equivalente, em 2007, “a cerca de doze milhões de dólares” (!)

O nosso primeiro representante nos Estados Unidos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, fora enviado pelos maçons de Pernambuco, por ocasião da eclosão da Revolução Republicana de março de 1817, com o intuito de comprar armas para combater as tropas do rei Dom João VI; conseguir apoio e simpatias do governo americano para com a “nova república independente no Nordeste brasileiro” e, o que parecia mais sonhador, “recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados no território americano para, com ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, desde a derrota na batalha de Waterloo (1815).”

Dos revolucionários da República de 1817, foi o que melhor se saiu, pois continuando nos Estados Unidos da América, só retorna a Pernambuco em 1826, após o perdão real de 1821, para reaver seus bens deixados no Recife.

Com a proclamação de Independência do Brasil, pelo príncipe Dom Pedro, em 7 de setembro de 1822, Antônio Gonçalves de Cruz, o Cabugá, veio a ser nomeado “Cônsul privativo deste Império”, junto ao Governo dos Estados Unidos, pelo chanceler José Bonifácio”.

Segundo confirma o diplomata João Alfredo dos Anjos, em seu livro “José Bonifácio, o primeiro Chanceler do Brasil” (Brasília, 2008), “a sua Carta Patente de 5 de fevereiro de 1823, é encapada por carta de Bonifácio na qual se menciona, mais uma vez, o seu patriotismo, além da sua experiência, como razões da chancela do Imperador ao seu nome. A decisão já estava tomada em novembro de 1822, pois (Antônio) Gonçalves da Cruz aparece entre os agraciados da Ordem do Cruzeiro, como cônsul em Filadélfia” Segundo Hildebrando Accioly, in O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América :

Ao chegar (em 1824) aos Estados Unidos (José Silvestre) Rebello (o primeiro Encarregado de Negócios do Brasil em Washington) ali já encontrara, exercendo oficiosamente funções consulares, Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pela alcunha de Cabugá, que em 1817 servira como comissário do Governo republicano revolucionário de Pernambuco naquele país. Nomeado Cônsul-Geral pelo Governo imperial em 15 de janeiro de 1823, nunca chegou a assumir o cargo oficialmente. Naquela época era praxe, provavelmente herdada da administração portuguesa, que as pessoas designadas para ocupar cargos consulares solicitassem à Secretaria de Estado, pessoalmente ou por procurador, as respectivas cartas patentes, pagando os competentes emolumentos. Gonçalves da Cruz não o fez, talvez por ignorar esta norma, tendo-se limitado a esperar que a Repartição lhe remetesse o documento, o que nunca ocorreu. Consequentemente, não pôde tampouco obter do Governo americano o necessário exequatur. Isto não o impediu, porém, de trabalhar muito pelo reconhecimento da Independência do Brasil junto ao mesmo Governo.

¹ MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1996

² GOMES, Laurentino – 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo, Ed. Planeta, 2007.

³ANJOS, João Alfredo. José Bonifácio o primeiro Chanceler do Brasil. Brasília, Fundação Alexandre de Gusmão, 2008. 424 p.il.

4 ACCIOLY, Hildebrando. O Reconhecimento da Independência do Brasil pelos Estados Unidos da América, São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1936, p. 77-91

NA RUA DO BOM JESUS, TEM INÍCIO A HISTÓRIA DOS JUDEUS DOS EUA

 Rua da Cruz, dos Judeus e do Comércio, c. 1855. Recife, Pernambuco. Augusto Stahl.

Com a ocupação holandesa em Pernambuco (1630-1654), milhares de judeus se estabeleceram no Nordeste do Brasil no ramo do comércio, particularmente do açúcar e do tabaco, chegando alguns a possuir engenhos, dedicar-se à cobrança de tributos, empréstimo de capital e no comércio de escravos originários da costa africana.

O aumento da comunidade fez com que, alguns integrantes mais ricos da gente da nação (como se autodenominavam) fixarem-se na guarda do Bode, em terreno comprado pelo judeu Duarte Saraiva, em 1635, à Companhia das Índias Ocidentais. Depois de algumas construções, o terreno, que ficava próximo a “Porta de Terra” no lado norte da cidade, dando origem a chamada de Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus.

Duarte Saraiva, conhecido entre os do Recife e da Holanda pelo nome de David Senior Coronel, era um dos principais líderes da comunidade de então. Na sua casa funcionou a primeira sinagoga do Recife, em 1636, antes de ser construído o prédio destinado à Kahal Kadosh Zur Israel, ou seja, a “Santa Comunidade o Rochedo de Israel”.

Curiosamente, nesta sinagoga da Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, vem ter origem a história da Comunidade Hebraica dos Estados Unidos, conforme proclamação assinada pelo presidente Barack Obama, datada de dois de maio de 2012:

Há trezentos e cinquenta e oito anos atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiram do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o momento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esta saga tem início quando da rendição das tropas holandesas no Recife, em 27 de janeiro de 1654, dando causa a diáspora de 150 famílias judaicas forçadas a retornar aos Países Baixos e de lá, novamente, ao Novo Mundo, espalhando novas comunidades em ilhas do Caribe e na América do Norte.

Um desses grupos saídos do Recife vem a ser embarcado no navio holandês Valk, com destino aos Países Baixos. Na viagem de retorno vieram a se tornar prisioneiros de corsários espanhóis, sendo, porém, resgatados na Jamaica por franceses e, com estes, rumaram em direção à Nova Amsterdam a bordo do barco Sainte Catherine.

Em setembro de 1654, esses 23 judeus [entre homens, mulheres e crianças] já se encontravam na Nova Amsterdam, fundando assim a primeira comunidade judaica daquela que veio ser a cidade de Nova Iorque.

Segundo consultas ao arquivo do cemitério da Congregação Shearith Israel, daquela cidade, membros da Congregação Zur Israel do Recife aparecem em documentos do início da segunda metade do século XVII. Um deles, Benjamin Bueno de Mesquita, falecido em 1683, tem a sua lousa tumular preservada naquele cemitério; acrescentando a mesma fonte:

Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns desses judeus. Em Amsterdã, o rabino português Saul Levi Mortera – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma dessas embarcações em um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:

O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.

Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Catherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Catherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque.

Dessas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado. Entre esses adultos, foram identificados três homens citados no relatório da cidade como pessoas que assinaram o livro de atas da Congregação Zur Israel do Recife, no ano de 1648: Abraham Israel, David Israel e Mose Lumbroso.

Permanece o cemitério dos primitivos judeus do Recife em Nova Iorque, nos dias atuais, conservado pela Congregação Shearith Israel, estando localizado em um movimentado cruzamento daquela cidade, assinalado por uma placa com dizeres em inglês: “O Primeiro Cemitério da sinagoga Hispano-Portuguesa, Shearith Israel, na Cidade de Nova York 1656 – 1833”.

O tamanho da área do cemitério é pouco maior do que o de duas quadras de tênis. Parte acabou sendo destruída quando uma rua foi construída décadas atrás. Ao redor, famílias chinesas observam muitas vezes sem entender o que existe de especial nesse cemitério unindo as histórias de Brasil, Estados Unidos, Portugal, Holanda e da diáspora judaica.

Esses descendentes dos judeus saídos do Recife em 1654 se transformaram em figuras proeminentes na sociedade americana. Um deles, Benjamin Cardozo, já falecido, alcançou o posto de juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Outro Bruce Bueno de Mesquita, professor da Universidade de Nova York, é o mais destacado especialista de teoria dos jogos aplicada à ciência política.

O episódio que marca a presença dos vinte e três judeus do Recife na história da cidade de Nova Iorque (1654) é hoje reconhecido amplamente pelos norte-americanos, a ponto do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, assinar, em dois de maio do ano de 2012, a seguinte proclamação:

Há trezentos e cinquenta e oito ano atrás, um grupo de 23 refugiados judeus fugiu do Recife, Brasil, afligidos pela intolerância e opressão. Para eles, a partida marcou mais um capítulo da perseguição sofrida por um povo que tem sido testado desde o memento em que juntos passaram a professar sua fé. No entanto, foi também o marco de um novo começo. Quando estes homens, mulheres e crianças aportaram na Nova Amsterdam – que veio posteriormente a ser a Cidade de Nova Iorque – eles encontraram não apenas um porto seguro, mas as sementes de uma tradição de liberdade e oportunidades que uniria a suas histórias à história da América para sempre.

Esses 23 crentes abriram o caminho para milhões. Durante os próximos três séculos, judeus de todas as partes do mundo seguiram para construir novas vidas na América – um país onde a prosperidade é possível, onde os pais podem prover a seus filhos mais do que ele próprios tiveram, onde famílias não mais sofreriam a ameaça de violência ou exílio, onde podiam professar sua fé abertamente e verdadeiramente. Mesmo aqui, os judeus americanos suportaram tormentos de opressão e hostilidade; mesmo assim, através de cada obstáculo, gerações carregaram em si a profunda convicção de que um futuro melhor estava ao seu alcance. Na adversidade e no sucesso eles se apoiaram mutuamente, renovando o a tradição de comunidade, propósitos morais, e esforço comum tão presente em sua identidade.

Suas histórias de continua perseverança e crença no futuro são uma lição não apenas para os judeus americanos, mas para todos os americanos. Gerações de judeus americanos têm contribuído para alguns das grandes realizações do nosso país e para sempre enriquecido nossa vida nacional. Como um produto da herança e da fé, eles têm aberto nossos olhos para a injustiça, para os mais necessitados, e para a simples idéia de que nos devemos nos reconhecer através da luta dos nossos companheiros homens e mulheres. Estes princípios têm levado os defensores judeus a lutar pela igualdade das mulheres e pelos direitos dos trabalhadores, e pregar contra o racismo a partir da bimah (púlpito); eles inspiraram muito a liderar marchas contra a segregação, ajudaram a forjar os laços inquebráveis com o estado de Israel, e deu suporte o ideal de tikkun olam – nossa obrigação em reparar o mundo. Judeus americanos têm servido heroicamente em batalhas e nos inspirado na busca da paz, e hoje, eles se postam como líderes em comunidades por toda a nossa Nação.

Mais de 300 anos depois que aqueles refugiados puseram os pés na Nova Amsterdam, nós celebramos o permanente legado dos judeus americanos – dos milhões que cruzaram o Atlântico em busca de uma vida melhor, dos seus filhos e netos, e de todos cuja crença e dedicação os inspiraram a atingir o que seus antepassados podiam apenas imaginar. Nosso país se fortalece através de sua contribuição, e este mês, nós comemoramos a miríade de formas com as quais eles enriqueceram a experiência americana.

AGORA, POR ISSO, EU, BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos da América, em virtude da autoridade em mim investida pela Constituição e leis dos Estados Unidos, por meio desta proclamo mês de maio de 2012 como o Mês da Herança Judaico Americana. E conclamo todos os americanos a visitar o site www.JewishHeritageMonth.gov para aprender mais sobre a herança e contribuição dos Judeus Americanos e respeitar este mês com programações apropriadas, atividades, e cerimônias.

EM FÉ DO QUE, eu assino o presente documento neste segundo dia de Maio, do ano de dois mil e doze, duzentos e trinta e seis da independência dos Estados Unidos da América.

BARACK OBAMA

O POVO PERNAMBUCANO

 

Passados quinhentos anos de sua descoberta pelos portugueses, o Brasil apresenta-se com um biótipo próprio de sua gente, que em nada se parece com o português colonizador, o índio que já habitava a terra e o negro trazido da África como escravo para aqui construir o país-continente dos nossos dias.
 
“O brasileiro, como bem afirma Darci Ribeiro, tem a cara do povo brasileiro; ele não se parece nem com o português, nem com o índio, nem muito menos com o negro. Trata-se de um povo de identidade própria”.
 
Na verdade, um povo de mestiços, formado pelo cruzamento de várias raças, com influência de levas de colonizadores diversos, chegados em diferentes épocas, que transformaram o Brasil numa imensa democracia racial, com valores, usos e costumes diversos de quaisquer outros povos.

1. JERÔNIMO, O ADÃO PERNAMBUCANO
 
A mestiçagem de nossa gente, já registrada por Joaquim Nabuco, quando da publicação de O Abolicionismo  (Londres: 1883) – “Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos portanto admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos tudo fazer para esquece-la” (p. 22) –  estabelece que, ao contrário de outros países, como nos Estados Unidos da América,  a condição de liberto não impedia ao ex-escravo galgar os patamares da pirâmide social, e esclarece na mesma obra:

No Brasil, ao contrário: a escravidão ainda que fundada sobre a diferença das duas raças, nunca desenvolveu a prevenção da cor, e nisso foi infinitamente mais hábil. Os  contatos entre aquelas, desde  a colonização primitiva dos donatários até hoje, produziram uma população mestiça, como já vimos, e os escravos ao receberem a sua carta de alforria, recebiam também a investidura de cidadão. Não há assim entre nós castas sociais perpétuas, não há mesmo divisão fixa de classes. O escravo, que como tal praticamente não existe para a sociedade, […] é no dia seguinte  à sua alforria um cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos, e o mesmo grau de elegibilidade. Pode mesmo, ainda na penumbra do cativeiro, comprar escravos, talvez mesmo quem sabe? – algum filho do seu antigo senhor. Isso prova a confusão de classes e indivíduos , e a extensão ilimitada dos cruzamentos sociais entre escravos e livres, que fazem da maioria dos cidadãos brasileiros, se se pode assim dizer, mestiços políticos, nos quais se combatem as duas naturezas opostas: a do senhor de nascimento e a do escravo domesticado. (p. 174-75). 1

Isso porque, como bem observou recentemente Darci Ribeiro, “no Brasil a miscigenação nunca foi crime, nem pecado, daí o surgimento de um povo novo, o povo brasileiro, que em nada se parece com o português, o negro ou o índio”. 2

Em Pernambuco, um  aspecto que marcou a civilização duartina foi a mestiçagem que logo tomou conta da sociedade, encorajada pelo primeiro donatário como se depreende das cartas jesuíticas da época, denunciando a indiscriminada atividade sexual dos portugueses com os nativos; o que faz Francis Dutra concluir que “desde o filho mais novo do primeiro donatário aos mais insignificante degredado, os portugueses foram pais de gerações de mestiços”. Em depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendoça (sic.), datado de Olinda, 15 de novembro de 1593, Manuel Álvares, um criado de Dona Brites d’ Albuquerque, faz referência a “Manoel d’ Oliveira, mameluco que dizem ser filho bastardo de Jorge de Albuquerque e de uma índia mestiça deste Brasil”, in Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil. Denunciações  de Pernambuco, 1593-1595. Recife: Fundarpe, 1984.  p. 74; havendo ainda referências a uma escrava, de nome Antônia, que Jorge de Albuquerque no seu retorno à Portugal, in Naufrágio que passou Jorge Dalbuquerque, cap. XIII.
 
Somente Jerônimo de Albuquerque (O Torto), cunhado do primeiro donatário, em seu testamento, firmado em Olinda, em 13 de novembro de 1584, reconhece como filhos onze concebidos de sua mulher legítima, Filipa de Melo; oito com a índia Maria do Espírito Santo; cinco com outras mulheres, uma das quais Apolônia pequena, mãe do seu filho Felipe de Albuquerque, citado expressamente no testamento, deixando dúvidas ainda sobre uma filha tida com uma de suas escrava, de nome Maria, e de uma outra, Jerônima, “que se criara em sua casa e que foi tida por sua filha, mas que Deus sabia a verdade do ocorrido”. Dos oito filhos com a índia, posteriormente legitimados pela Coroa, os dois mais notáveis foram Catarina de Albuquerque, que se casou com o florentino Felipe Cavalcanti, fundador do clã Cavalcanti de Albuquerque, e Jerônimo de Albuquerque que, como veremos, veio ganhar fama com a expulsão dos franceses do Maranhão no início do século XVII.

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DERBY, O QUE ESCONDE ESTE BAIRRO

O bairro do Derby tem uma história singular, mas pouco conhecida dos recifenses dos nossos dias… Quem por lá passa, ou mesmo ouve falar, mal desconfia que, por traz de tão diminuto nome se esconde tanta história do passado do Recife.

– Sim… Derby.

Quem há de lembrar que nos anos finais do século XIX, o que veio a ser o simpático e agradável bairro do Recife fora um centro comercial de padrões internacionais, tendo por atração o Derby Club e, nele, um dos melhores hotéis da América do Sul, além de um Mercado Modelo que, de tão moderno, seria o inspirador de todos os avançados centros de compra (Shopping Centers) dos nossos dias (!).

Tudo começa quando, em terras da antiga Sociedade Hípica Derby Club, fundada em 6 de dezembro de 1888, o industrial Delmiro Augusto da Cruz Gouveia (1863 -1917) resolve iniciar, em 1898, a construção do Mercado da Estância ou Mercado Modelo, mais conhecido pela população como Mercado do Derby. Para isso firmou contrato de isenção de impostos com o município do Recife pelo prazo de 25 anos, ficando as obras concluídas em 7 de setembro de 1899. O novo edifício em estilo neogótico dispunha de 129 metros de fachada dividida em dois corpos principais com pavilhões em suas extremidades.

Mercado do Derby

Mercado do Derby

Voltado para o nascente, o Mercado do Derby dispunha de 18 portões e 112 janelas, localizando-se no centro um pavilhão em dois pavimentos onde funcionava a administração, com uma vista de todo o movimento dos corredores centrais. As cobertas dos dois corpos principais eram suspensas por quatro linhas e 16 colunas em ferro, sendo o pavilhão central cercado por ventiladores que se encarregavam da renovação do ar e da luminosidade do ambiente. Possuía o mercado 264 compartimentos, dispostos em forma de três ruas paralelas, sendo servido por água encanada, esgotos e uma central de energia elétrica, a grande novidade da época.

Em frente à fachada principal, tinha início uma área ajardinada com 400 metros quadrados de extensão, onde eram disputadas corridas de bicicleta e, mais adiante, à direita, foi erguido um luxuoso hotel com vários salões para jogos, cafés, restaurantes e outros divertimentos, sendo todo o conjunto servido por uma linha da Companhia de Ferro Carril, que administrava o transporte coletivo por tração animal.

mercado do derby2

Assinala a Wikipédia ser o atual bairro do Derby, no final do século XIX, algo inusitado difícil em ser concebido pelos que o conhecem em nossos dias:

“O empreendimento incluía mercado, hotel, cassino, velódromo, parque de diversões e loteamento residencial e causou admiração junto a segmentos da população do Recife, que se orgulhavam deste empreendimento a colocar a cidade em sintonia com o que havia de mais moderno e sofisticado no mundo da época. Expressão de progresso e civilidade, o Derby era um centro de diversões modernas que levou ao Recife os prazeres desconhecidos, produzidos com o auxílio da técnica e da ciência”.

A escritora americana norteamericana Marie Robinson Wright em seu livro The New Brazil (1901) (¹) descreve:

“Muitos estrangeiros visitam o porto de Pernambuco todo ano, e não é raro ver meia dúzia de nacionalidades representadas nos hotéis de seus atraentes subúrbios, especialmente no Derby, que é um dos mais pitorescos lugares que se pode imaginar, com bonitas casas, sombras de arvoredos, leve movimento das águas do rio, pequenas pontes artísticas semienterradas na vegetação das margens, e canoas alegremente pintadas deslizando na superfície da água. Este subúrbio goza da distinção de possuir um dos melhores hotéis da América do Sul; o Hotel do Derby é perfeitamente moderno em todos os sentidos e orientado por um padrão metropolitano de serviço. O mercado do Derby é um dos maiores estabelecimentos do seu tipo, no Brasil, e está equipado para os amplos negócios que diariamente são nele realizados. O subúrbio deve seu aspecto atraente à empresa de um cidadão muito progressista, Senhor Delmiro Gouveia, o proprietário, que tem pessoalmente dirigido tudo em sintonia com o desenvolvimento do empreendimento”.

O empreendimento contava com um dos melhores hotéis da América do Sul; o Hotel do Derby, que era considerado moderno em todos os sentidos, e prestava um padrão metropolitano de serviços. O mercado do Derby foi um dos maiores do gênero, no Brasil, e estava bem equipado para os negócios que diariamente nele eram realizados. Nele, além dos artigos comercializados nos mercados na época como os alimentos, se vendia gelo, jornais diários, artigos para fumantes. Havia filial da Livraria Francesa, lojas de perfumarias, lojas de tecidos, de calçados, de louças, de miudezas, e outras.

Hotel Internacional (Cartão Postal datado de 1908) (2)

Hotel Internacional (1908)

“Estrategicamente localizado fora do centro da cidade, numa área cercada por rios e mangues, adotava já naquela época um dos princípios de marketing que norteiam os shopping centers do século XXI: a garantia um isolamento espacial, um ambiente autônomo e com lógica própria, ideal para favorecer as compras e longe de tudo aquilo que possa dificultá-la – o barulho e o movimento das ruas, a falta de segurança, as intempéries naturais. O Derby do final do século XIX era ligado a outras localidades por bondes de bagagem, que trafegavam de manhã, para atender seus clientes”.

No Derby a diversão era a finalidade do empreendimento, e o consumo era promovido como espetáculo, distração, aventura e prazer, procurando ligaá-lo à ideia de progresso, distinção, status e bom gosto. Já naquele tempo utilizava iluminação elétrica com uso cenográfico, e seus funcionários eram orientados para atender com cortesia os clientes, enquanto a música, a variedade de comidas, bebidas e jogos formavam o espetáculo neste “Centro Comercial e de Diversões”. A então magia proporcionada pela luz elétrica e pelo cinema encantavam seus frequentadores.

Era estimulada a prática de esportes, que passaram a ser símbolos de distinção social: corridas de bicicleta (com casa de apostas), regatas, ginástica, jogos de bilhar, dados e dominó, tiro ao alvo, boliche e corridas de pedestres. A exposição denominada “Paris no Derby” constitui-se “um pavilhão para exhibição de diversos apparelhos electricos de diversões” .

Os jornais do Recife noticiavam que grandes multidões – de até oito mil pessoas, segundo matéria no Jornal Pequeno – frequentavam o Derby, e se constituíam num espetáculo à parte. Como os shopping centers de hoje em dia, o Derby visava a estender o consumo às horas livres, às noites, e aos dias santificados.

Mas, não se esqueça caro leitor de hoje, que estávamos no Recife, capital mundial da inveja e da cobiça…

O pior estava por vir…

O que era um paraíso, assinalado pela imprensa da época com títulos como Paris no Derby (Jornal Pequeno, Recife, 11 set. 1899) e causava admiração a todos que nos visitavam, num passe de mágica veio a ser destruído pelos inimigos do industrial Delmiro Gouveia: Na madrugada de 2 de janeiro de 1900, militantes da polícia civil, gente da confiança do vice-presidente da República, Francisco de Assis Rosa e Silva (1857-1929), e do governador do Estado, Sigismundo Antônio Gonçalves (1845-1915), botaram fogo na ala sul do Mercado do Derby, provocando a sua destruição e a consequente falência do empreendimento.

O ato criminoso já era esperado, depois da agressão de Delmiro Gouveia ao conselheiro Rosa e Silva, em 17 de junho de 1899, em plena Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro; episódio largamento divulgado tanto por jornais situacionistas como oposicionistas, e que veio dar causa ao incêndio e consequente destruição do Mercado do Derby.

O jornal recifense A Província publicou, em 4 de janeiro de 1900, um telegrama atribuído ao governador Sigismundo Gonçalves para o Conselheiro Rosa e Silva: “Mercado incendiado. Delmiro preso. Saudações, Sigismundo Gonçalves“.

No que restou do suntuoso prédio funcionou, anos depois sediou a Escola de Aprendizes Artífices (1909) e, no governo de Sérgio Loreto (1922-1926), foi nele instalado o 1º Batalhão de Infantaria Estadual, passando a ser ocupado definitivamente pelo Comando da Polícia Militar de Pernambuco a partir de 19 de novembro de 1925; conjunto arquitetônico devidamente tombado pelo Conselho Estadual de Cultura.

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1) WRIGHT, Marie Robinson. The New Brazil. It’s Resourses and attractions. Historical, Descriptive and Industrial. Philadelphia, George Barrie & Son, 1901. 314 p.

JOSÉ MINDLIN – UMA SAUDADE

De repente, ele deu adeus de mansinho e lá se foi do nosso convívio. Era domingo, 28 de fevereiro de 2010,  quando de Gustavo Krause recebi a notícia ainda em pleno almoço.

Em dezembro de 2000, quando do ingresso no século XXI, nós comentávamos com graça em encontro no Rio de Janeiro, que, a partir de então passaríamos a ter a mesma idade, “éramos homens e mulheres do século passado”…

De repente, no videoteipe da memória, uma amizade constante de pouco mais de três décadas passou a ser recordada nos seus momentos mais alegres e tocantes.

A minha amizade com José Mindlin é fruto desses encontros proporcionados pelo destino, ao longo de toda uma vida dedicada aos livros; afinidades que se encarregam de nos unir e tudo em volta passa a ter aquele gostinho de eternidade.

Os livros, no seu silêncio, possuem alma e estão sempre a procurar por seus donos e  a unir amigos, transformando vidas e aglutinando bibliófilos.

Assim foi com José Mindlin. Em 1977, havia eu editado o livro Diario de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1630-1632 (¹) , escrito por Ambrosius Richshoffer no século XVII, dentro da primeira fase da Coleção Pernambucana, desenvolvida por mim no Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco, entre 1975 e 1979. Coincidiu que, neste mesmo ano, recebi a edição francesa deste mesmo livro, impressa numa reduzida tiragem de 250 exemplares, com ilustrações valiosas, sob a orientação e bom gosto de um descendente daquele autor.

A nova edição francesa logo despertou o interesse do bibliófilo José Mindlin que, sabedor de que eu possuía o nº 221, com uma simpática dedicatória assinada pelo editor Frédéric Richshoffer, apressou-se em pedir a um amigo comum a possibilidade de eu, desfazendo-me do meu exemplar, o repassasse para sua biblioteca.

Com bom humor, respondi ao nosso amigo que “a melhor coisa é dispor na nossa estante de um livro que José Mindlin deseja para sua biblioteca…”.

Com graça José Mindlin respondeu: “Pensei tratar-se de um editor, mas vejo que estou diante de um bibliófilo…”.

Assim consolidou-se a nossa amizade em torno dos livros; amizade esta que, em tudo, tinha o sabor da eternidade.

Tornou-se assim uma convivência constante, com longas conversas telefônicas nas manhãs dos sábados, trocas de livros, garimpagens em bibliotecas particulares, e encontros habituais no Recife e  em São Paulo.

Quando eu ia a São Paulo, hospedava-me em sua casa da Rua Princesa Isabel, e ele, por algumas vezes, esteve no Recife ficando comigo na “Pensão da Rua Marquês de Maricá”. De certa feita, em 26 de fevereiro de 1999, ele me trouxe um livro com a “Colleção completa de Máximas pensamentos e reflexões do Marquez de Maricá”, Mariano José Pereira da Fonseca (1773-1848), edição de Eduardo e Henrique Laemmert (Rio de Janeiro, 1850), trazendo um cartão com a seguinte dedicatória: “Leonardo, meu caro, aí vai a sabedoria do Marquez de Maricá, juntando-se à rua, o Recife terá uma nova Academia. Um abraço amigo do José”.

Era uma amizade alegre, cercada de bom humor, com conversas de grande conteúdo, registrando até um seu telefonema de Praga, numa chuvosa manhã de domingo, só para trocar idéias sobre elementos de arquitetura barroca existentes na capital da República Tcheca.

Foi ele, por algumas vezes, Grande nos seus gestos para com Pernambuco:

Em 1996, depois de tomar conhecimento de que a primeira edição do livro de José Antônio Gonsalves de Mello, Gente da Nação – Cristãos-novos e Judeus em Pernambuco – 1542-1654, publicada por mim através de subscrição popular em 1989 encontrava-se esgotada, ele conseguiu do banqueiro Joseph Safra os recursos necessários para uma segunda edição, com a sua apresentação. (²)

Quando lhe foi oferecida à compra da Biblioteca de José Antônio Gonsalves de Mello em 1999, ele ponderou afirmando que tal acervo deveria permanecer em Pernambuco, graças à importância dos seus títulos e anotações para a história local.

Devido a sua ponderação e recomendação do conteúdo, a biblioteca na sua totalidade veio a ser adquirida um ano depois pelo industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand que a conserva, aberta aos pesquisadores, no seu instituto em terras da Várzea do Capibaribe.

Em 2004, ao adquirir toda a coleção das gazetas pernambucanas e outros jornais ao Instituto Ricardo Brennand, José Mindlin concordou com a microfilmagem de todos os exemplares originais. As cópias do microfilme de toda coleção encontram-se hoje no Instituto Ricardo Brennand (Recife), na Hemeroteca da Fundação Joaquim Nabuco,  restando ainda uma terceira para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com essas cópias micro filmadas o acesso à informação fica facilitado a todos os pesquisadores interessados naqueles atribulados anos de nossa história política e social.

As coleções desses jornais, parte deles do período anterior à Independência do Brasil (1822), foram adquiridas pelo Instituto Ricardo Brennand (Recife), em novembro de 2003, juntamente com outros impressos dos séculos XVIII e XIX, que os repassou para a Biblioteca de Guita e José Mindlin no ano seguinte. O acervo é originário da hemeroteca do historiador pernambucano Alfredo de Carvalho (1870-1916), autor da obra Annaes da Imprensa Periódica Pernambucana de 1821-1908 (Recife 1908), e encontrava-se preservado com carinho pela família do contabilista Leopoldo Luís dos Santos por quase um século.

Na coleção se encontram quinze exemplares avulsos do primeiro jornal a circular em Pernambuco, o Aurora Pernambucana, iniciado em 27 de março de 1821, tendo por redator o escritor português Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858); este casado em Pernambuco com Inácia Cândida do Rego Barreto, filha do governador Luís do Rego Barreto (1817-1821).

Além dos primeiros números desse jornal, o acervo em questão possui ainda às coleções dos seguintes periódicos: Segarrega, iniciado em dezembro de 1821, 24 edições; Relator Verdadeiro, 1821, reunindo seis edições; Gazeta do Governo Provisório [instituído quando do rompimento de Pernambuco com Portugal], um único número, 1822; Gazeta Pernambucana, 1822, reunindo dezoito edições; O Escudo da Liberdade, 1823, duas edições; O Marimbondo, 1822, coleção completa com cinco edições; Gazeta Extraordinária do Governo, 1822, dois exemplares; Diario da Junta do Governo, 1823, oito edições; Diario de Pernambuco, a partir de 1829, reunindo seis edições; Bússola da Liberdade, 1832, seis edições; O Velho Pernambucano, 1833, reunindo sete edições; A Cotidiana Fidedigna, 1834, reunindo 6 edições; O Azorrague, 1845, reunindo 49 edições.

Trata-se da mais rara coleção de jornais pernambucanos já reunida por um particular, com direito a capitulo especial no primeiro volume da obra Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin, organizada pelo próprio José Mindlin em 2005. Vários daqueles jornais, aqui relacionados, são únicos. Não se sabendo da existência de alguns desses originais nem na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional e muito menos no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, sendo vários deles desconhecidos até pelos que se dedicaram à  História da Imprensa no Brasil.

Além das gazetas pernambucanas, a coleção em questão possui também jornais de outras partes: A Gazeta do Rio de Janeiro (n. 104/1822); Jornal do Commercio  do Rio de Janeiro (n. 1 e n. 8/ 1827); Cidade do Rio, n. 221, 1889; Jornal de Princesa, Paraíba, número único 11 de junho de 1930; Gazeta de Lisboa, n. 221 de 18 de setembro de 1819; Cabichui, jornal paraguaio de 1867 narrando a vitória de Solano Lopes contra as forças imperiais brasileiras.

Pernambuco não lhe faltou em vida. Um gesto apenas, originário da Direção Regional do SESC, demonstrou a José Mindlin a nossa gratidão, por sua simpatia e dedicação aos nossos interesses culturais. Na Praia da Piedade, em município fronteiro ao Recife, Jaboatão dos Guararapes, uma biblioteca tem hoje o seu nome: Biblioteca José E. Mindlin. Inaugurada em 22 de março de 2002, com o seu retrato, pensamentos e algumas de suas obras, ela lá está a lembrar às novas gerações a importância deste que foi por toda vida “um amigo dos livros”.

Durante toda sua existência, ele cumpriu à risca o ensinamento de Michel de Montaigne (1533-1592) – Não faço nada sem alegria -, daí ter escolhido tal pensamento para o selo do seu Ex Libris e assim contagiar os seus amigos com o vírus da bibliofilia.

Ele se foi com a sua alegria, nos deixando órfãos de sua presença e de seu constante incentivo, frustados com a perda daquele sentimento de eternidade que nós pensávamos que nos iria acompanhar até o fim dos nossos dias.

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1) RICHSHOFFER,  Ambrósio.  Diário  de  um  soldado  da   Companhia  das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 210 p. il. (Coleção  pernambucana;  1ª  fase,  v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert  & Comp., 1897.

2) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação: Cristãos-novos e judeus em Pernambuco, 1542-1654. Apresentação de José E. Mindlin. 2.  ed. Recife: FJN, Ed. Massangana, 1996. 552 p. (Descobrimentos, n. 6). 

QUANDO OS VIOLÕES SE ENCONTRAM

A exemplo do piano forte, o violão surge na Europa a partir dos anos finais do século XVIII, passando para o Brasil no início do século XIX, originário que foi da Península Ibérica onde era chamado de guitarra.

Tem como antecessor a viola de arame, conhecida no Brasil como viola caipira, encontrável na literatura desde os tempos do Rei Afonso V, de Portugal, que concede, em 1455, perdão a um tocador que fora encontrado na vila de Évora, “uma hora depois das onze, tocando viola”. A viola aparece constantemente em relatos dos séculos XV e XVI em Portugal, lembrando a Crônica de El-Rei D. Sebastião, escrita pelo frei Bernardo da Cruz, em que o rei D. Sebastião (1554-1578) levou em sua expedição à África o violeiro Lemos de Domingos Madeira, como forma de entreter a tripulação. No depoimento de um contemporâneo, Philipe de Caverel, foram encontradas nos destroços da batalha de Alcácer Quibir (1578) “dez mil guitares” [violas], o que diz bem da popularidade daquele instrumento.

A viola de quatro cordas, também chamado de guitarra na Espanha e em outros países, é de origem árabe, sendo assim conhecida desde o Renascimento, século XV e XVI, em sua forma rudimentar. O violão, por sua vez, tem sua configuração atual datada do século XIX, quando nele foram incluídas cravelhas mecânicas (substituindo as de madeira), trastes fixos de marfim ou ébano (depois de metal) e tamanho aumentado. A este instrumento foi acrescida mais uma corda, correspondente ao mi grave (bordão), dispondo assim de três cordas graves (mi-lá-ré) e três agudas (sol-si-mi). Tem este as suas origens no alaúde, outro instrumento de cordas dedilhadas de origem árabe, com larga difusão na Europa da Idade Média ao Barroco, cuja forma é hoje assemelhada ao nosso bandolim.

O viajante francês Louis-François de Tollenare, que viveu no Recife no final da década de 1810, registrou em suas Notas Dominicais, um desenho no qual aparecem duas mulheres dançando ao som da viola caipira, possivelmente parte de um lundu. Escrevendo em 1817, Tollenare descreve o lundu como dança:

A mais cínica que se possa imaginar, não é mais nem menos do que a representação a mais crua do ato de amor carnal. A dançarina excita o seu cavalheiro com movimentos os menos equívocos; este responde da mesma maneira; a bela se entrega a paixão; o demônio da volúpia dela se apodera; os tremores precipitados das suas cadeiras indicam o ardor do fogo que a abrasa; o seu delírio torna-se convulsivo, a crise de amor parece operar-se, e ela cai desfalecida nos braços do seu par, fingindo ocultar com um lenço o rubor da vergonha e do prazer.

A partir da primeira metade do século XIX, o repertório de músicas europeias, executado nos teatros e salões, com grande parte delas incluídas nos programas das bandas militares, logo contagiou as camadas mais populares. As valsas, em andamento ternário que faziam rodopiar os pares nos salões da primeira metade do século XIX, ganharam novas cores ao contato com o lundu, transformando-se no final do século no maxixe das composições de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Patápio Silva e Anacleto de Medeiros.

O shottisch, vocábulo alemão logo abrasileirado para xótis e xote, a mazurca, a quadrilha francesa e, sobretudo, a polca foram ganhando novas cores e andamentos bem ao gosto dos músicos brasileiros, constituindo-se, em suas fusões e comunicações, em novos ritmos nacionais a partir da segunda metade do século XIX.

A polca, tocada nos repertórios das bandas militares, uniu-se ao dobrado e transformou em polca-marcha, origens remotas do nosso frevo instrumental. Nos salões, fundiu-se com a mazurca, originando a polca-mazurca; juntando-se ao lundu, transformou-se em polca-lundu que, por sua vez, deu origem à polca-choro.

É desta época a popularização do maxixe, definido como o modo brasileiro de dançar a polca, que, ao contato com o lundu, vem ganhar requebros, ousadia e lascívia em suas apresentações nos mal iluminados salões das sociedades dançantes e do Clube de Dança Popular do Rio de Janeiro, no final do século XIX, passando para as peças dos teatros de revistas e firmando-se como gênero de maior sucesso da música brasileira por mais de meio século.

O maxixe tem ciência,
ou pelo menos tem arte.
Para haver proficiência
basta mexer certa parte.

Mas logo a chamada “dança lasciva”, própria “das casas de bailes públicos onde é exibida, ambientes frequentados por mulheres de vida fácil e homens sem escrúpulos”, vem a tomar conta de outros centros, dentre eles, o Recife. Na imprensa, segundo descreve A Pimenta, n.º 20/1901, o maxixe passou a ser “uma dança levada. Toda cheia de caídos. Em que a mulata é danada. E o homem é todo mexidos! Em que tudo mexe. De cá para lá. E quem mais remexe. Mais no goto dá… Que não só se mexe com as pernas. Mas mexe com tudo mais!” Chegando o jornal Pernambuco (1912) a afirmar: “O Recife é por excelência a cidade dos maxixes, que pululam cada vez mais nas principais ruas de nossa capital”.

Enquanto se condenava o maxixe como dança, com sua coreografia libidinosa, própria dos meretrícios, sua execução como música despertava cada vez mais simpatizantes. Conta Luís Carlos Saroldi que, em 1907, o então ministro da Guerra, Hermes da Fonseca, “resolveu banir o maxixe dos repertórios das bandas militares” depois que o ministro alemão barão Franz von Reichenau, convidado para assistir às manobras militares do nosso Exército, solicitou ao mestre da banda a execução do Vem cá mulata, maxixe de Arquimedes de Oliveira.

Tal não foi a surpresa quando sete anos depois o mesmo Hermes da Fonseca, aos 58 anos, ocupando a Presidência da República (1910-1914), saído de uma viuvez e recém-casado com Nair de Tefé, a primeira caricaturista de nossa imprensa, trinta anos mais nova do que ele, permitiu que nos saraus do Palácio do Catete, para os quais era convidado todo o corpo diplomático, fosse executado o Corta-Jaca, maxixe de Chiquinha Gonzaga, além de outros sucessos da época executados ao violão popular.

O maxixe de então foi o antecessor da lambada do início dos anos 90, e, na interpretação de Luís Carlos Saroldi, “veio a se constituir em um dos fenômenos mais representativos da criatividade brasileira, resultado da habilidade tupiniquim de cruzar influências, deglutir contribuições alienígenas e superar as necessidades prementes”.

Por sua vez, o violão popular fazia assim a sua entrada triunfal nos salões mais finos e abastados, episódio descrito por Catulo da Paixão Cearense, in Matta iluminada (1924):

O violão popular fez assim a sua entrada triunfal nos salões mais finos e abastados no Rio de Janeiro no início do século XX, episódio descrito por Catulo da Paixão Cearense, in Matta iluminada (1924):

Hoje eu quase não entendo
essa linguagem que falas!
És o instrumento das salas,
pois trocastes, ó meu violão,
pelos palácios dos nobres,
que agora te dão açoite,
a majestade da noite,
tua glorificação.

O violão é descrito pelos vários dicionaristas como “instrumento cordofone, que soa por dedilhado, maior do que a viola, com caixa de ressonância em forma cintada do algarismo oito, da qual sai uma haste de madeira chamada de braço”. No braço, ou espelho, estão fixados 19 trastes (responsáveis pela formação do mesmo número de casas), sobre os quais são esticadas seis cordas (fabricadas em náilon ou metal), sendo três mais grossas (capeadas de metal fino), chamadas de bordões, e três mais finas, as primas, amarradas em igual número de tarraxas e afinadas por cravelhas mecânicas, alojadas na extremidade do braço (cabeça). Um cavalete de madeira fixa as cordas ao tampo harmônico, de fundo plano e uma abertura circular (boca).

Esclarece Suetônio Soares Valença(¹), sobre o verdadeiro surgimento da Música Popular Brasileira, naquele início de século XX:

Na verdade, ambos – choro e maxixe – são a resultante final do abrasileiramento da valsa, shottisch, mazurca, quadrilha e, sobretudo, a polca, sendo o choro a maneira brasileira de tocar essas danças-músicas e o maxixe o modo de dançá-las. Criações de músicos populares brasileiros, impregnadas do substantivo de origem negra, o choro encontrou no maxixe o seu paralelo no campo da dança maxixe, num segundo momento, gênero musical. […] À maneira “chorada”, lânguida de os músicos populares, moradores em sua maioria na Cidade Nova – trecho compreendido hoje entre a estação Central do Brasil e a Praça da Bandeira [Rio de Janeiro] –, interpretavam músicas de danças europeias, sobretudo a polca, fez nascer, por volta de 1880, o choro. Num primeiro momento, modo de tocar, e, tempos depois, gênero de música, o choro teve inicialmente no violão e no cavaquinho seus instrumentos de execução. A eles se juntaria a flauta, constituindo-se assim a formação básica do choro carioca.

Estavam, pois, fixadas as bases dos conjuntos de choro, surgidas no final da segunda metade do século XIX, cabendo ao flautista Joaquim Antônio da Silva Calado Júnior (1848-1880) a primazia de ter sido o primeiro a fazer uso de tal formação: flauta, cavaquinho e violão. Logo, outros conjuntos com a mesma formação foram surgindo no meio da gente modesta da cidade do Rio de Janeiro, habitantes da área denominada de Cidade Nova, já referida anteriormente.

Calado Júnior, que nos deixou o antológico Choro de Calado, veio a ser sucedido por outro virtuose da flauta, Patápio Silva (1881-1907), agraciado com medalha de ouro do Instituto Nacional de Música (1903), este último, com algumas de suas execuções preservadas em disco pela Casa Edson do Rio de Janeiro.
 
Os primeiros conjuntos de choro constituíam-se, em sua maioria, por flauta, cavaquinho e violões. A flauta como solista, o cavaquinho como centro, e os violões; ora fazendo solo, ora as modulações do acompanhamento. Na primeira década do século XX, esses conjuntos passam a contar com o concurso de outros instrumentos de sopro – flautim, trombone, bombardão, bombardino, trompete, clarineta e oficleide (oficlide); este último, instrumento de sopro da família dos metais, com nove a doze chaves, em desuso em nossos dias. Sua forma em U fechado era muito assemelhada ao saxofone. Da família das cordas vieram incorporar-se aos grupos de chorões, o bandolim (que teve no pernambucano Luperce Miranda e no carioca Jacob Bittencourt seus maiores intérpretes), a bandurra, a bandola e o violão de sete cordas, transformando os solos e as improvisações em grandes desafios para seus intérpretes.
 
Nas improvisações é que tais instrumentistas destacavam suas habilidades de verdadeiros virtuoses, denominando-se tais conjuntos de pau-e-cordas, a exemplo das primeiras orquestras dos blocos do Recife. Formadas por instrumentos de cordas (cavaquinho e violões) e madeira (flauta transversa), este último o mais popular dos instrumentos na segunda metade do século XIX e início do século XX; a base de tais orquestras, ainda hoje, movimenta os cortejos dos blocos carnavalescos do Recife.
 
As modulações dos violões, o contracanto do cavaquinho e a improvisação da flauta, deram lugar ao quarteto ideal em que, segundo o maestro Batista Siqueira (1906-1992), “somente um dos componentes sabia ler a música escrita [partitura]; todos os demais deviam ser improvisadores do acompanhamento harmônico”.
 
Sobre tais improvisos, lembra José Ramos Tinhorão à execução da polca Caiu, não disse?, de autoria do flautista Viriato Ferreira da Silva (falecido em 1883); “numa clara referência à preocupação virtuosística do solista compositor, no inventar de passagens (modulações) capazes de derrubar os seus acompanhantes”. Outro exemplo seria o tango brasileiro de Chiquinha Gonzaga, Só no choro, composto em 1889.
 
No início do século XX eram tantos os conjuntos de choro, formados por elementos da baixa classe média, que o carteiro carioca Alexandre Gonçalves Pinto, ele próprio devotado boêmio e grande chorão, em seu livro de memórias, O choro: reminiscência dos chorões antigos (Rio de Janeiro, 1936), relaciona, direta ou indiretamente, “dados identificadores de 285 chorões, dos quais cita 80 como tocadores de violão, 69 de flautas, 16 de cavaquinho (pelo fato de alguns violonistas também executarem o cavaquinho), 15 sopradores de oficlide; o quarto instrumento mais popular no choro, antecessor do saxofone”.(²)
 
Adianta o mesmo autor, com base naquele memorialista carioca, que 128 chorões eram funcionários públicos (militares e civis), dos quais 44 pertenciam ao Correio e Telégrafos, seguindo-se das bandas militares (de onde se originava grande parte dos instrumentistas de sopro), 31 de repartições federais, 13 da Prefeitura do Rio de Janeiro, dentre outros. Nas demais ocupações, a lista cita funcionários da Light, artífices, comerciários e até o sacristão da igreja de Santo Antônio (Pedro Sacristão) e um vendedor de folhetos de modinhas (Francisco Esquerdo), que se apresentava como cantor em tais conjuntos.
 
Esses grupos de músicos espalharam-se por todo o Brasil, originando vários virtuoses, a exemplo de João Teixeira Guimarães (João Pernambuco), autor de Sons de carrilhões, que, apesar de nascido na cidade sertaneja de Jatobá (PE), em dois de novembro de 1883, veio a fazer sucesso no Rio de Janeiro, como importante compositor e grande virtuose do violão popular, tendo falecido nesta cidade em 16 de outubro de 1947. Filho de uma índia caeté com um português, esse autodidata do violão se transfere ainda criança para o Recife e, em 1902, segue para o Rio de Janeiro aonde vem a ser operário de uma fundição. Frequentador de diversos grupos de chorões conhece Catulo da Paixão Cearense, com quem compõe o Coco do Engenho Novo (1911), cuja melodia é aplicada na letra do antológico Luar do sertão. Ainda com Catulo ele compõe, em 1912, Cabocla de Caxangá, sucesso absoluto do carnaval daquele ano.
 
Com João Pernambuco surgiu o Grupo Caxangá, cujos integrantes se apresentavam trajados de sertanejos nordestinos, sendo formado, além dele, por Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana; 1897-1973), Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos; 1891-1974), dentre outros grandes da Música Popular de então. O grupo instrumental durou até 1919, quando Pixinguinha vem a criar o conjunto Oito Batutas, formado por Pixinguinha (flauta), China (canto, violão e piano), Raul Palmieri (violão), Nelson Alves (bandolim e ganzá), Jacob Palmieri (pandeiro) e Luiz Oliveira (bandola e reco-reco), estreando com grande estilo na noite de sete de abril daquele ano no cinema Palais (Rio). Em dezembro de 1921, o conjunto viaja para uma temporada em Paris, retornando em julho do ano seguinte ao Rio de Janeiro, trazendo na sua formação saxofones e outros instrumentos modernos e, no repertório, composições do hot-jazz.
 
Em 1926, surge no Recife o conjunto vocal e instrumental, batizado por Mário Melo de Turunas da Mauricéia, que vem marcar época na história da Música Popular. Viaja no ano seguinte para o Rio de Janeiro, na formação de Luperce Miranda (bandolim), Augusto Calheiros (apelidado depois de Patativa do Norte), Manuel Bezerra de Lima (violonista cego falecido em 1943), Riachão (bandolim), Periquito (José Frazão), Felinto Moraes (1884-1927) e Romualdo Miranda (1898-1971). A exemplo do Grupo Caxangá, os seus músicos apresentavam-se trajados à moda dos sertanejos, com chapéus de abas largas e alpargatas de rabicho, tendo feito grande sucesso quando de sua estreia no Teatro Lírico, especialmente no que diz respeito às músicas do seu repertório: cocos, emboladas, toadas e outros ritmos pouco conhecidos na Capital Federal daqueles dias. São dessa época as gravações de Helena (Luperce Miranda) e Pinião (Luperce Miranda e Augusto Calheiros), este último, grande sucesso do Carnaval do 1928.

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Por essa época, qualquer tipo de composição executada por esses conjuntos de chorões era chamada de Choro; assim vieram a ser gravadas polcas, xótis, tanguinhos, valsas, habaneras, transformados em antológicos sucessos de nossa música instrumental. O sentimento magoado, o dedilhado melancólico, o trinado dos bandolins, o acompanhamento cadenciado da baixaria, passou a rotular composições “cheias de modulações imprevistas, armadas com o propósito de pôr à prova a capacidade ou senso polifônico dos acompanhadores”.
 
Observa Mário de Andrade, a existência de peças choronas nas quais “o movimento já não se coaduna mais com a dança, pelo menos com as danças brasileiras”.(³)

A rapidez é cada vez maior, se percebendo que a peça é concebida exclusivamente para execução instrumental [até virtuosística…] sem que sirva para mais coisa nenhuma, nem para se cantar nem para se dançar.

Lembra o autor que certos choros, como Urubu, de Pixinguinha, são comparáveis, pela excelência exigida de seus solistas, às peças de hot-jazz norte-americanas, a exemplo de I got rhythm (Gershwin) na execução de Louis Armstrong (1898-1971):

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São por assim dizer choros-hot, a que o próprio caráter improvisatório das linhas e às vezes o processo de variação, ainda ajuntam mais caráter.

Assim, para Mário de Andrade, choro seria um “conjunto instrumental livre, de função puramente musical, composto de um pequeno grupo de instrumentos solistas, exercendo o resto do conjunto uma função acompanhante, antipolifônico, de caráter puramente rítmico-harmônico”.
 
A riqueza instrumental desse binário levou o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a escrever uma das suas mais primorosas séries para orquestra de cordas, Choros, bem como outras peças exclusivas para violão, a exemplo de Douze Études (1924-29), Choros nº 1 e Prelúdios (1940). O mesmo acontece com o pernambucano Marlos Nobre (Recife, 1939), ao compor Reminiscências Op. 83 (1990-91) e Homenagem a Villa-Lobos (1977), peças escritas para violão e recentemente gravadas pelo violonista recifense Joaquim Freire, disco Leman Classics (LC 44601/1993). Ao compor Reminiscências, lembra Marlos Nobre, coincidentemente filho de um chorão, o violonista Carlos Nobre de Almeida, ter escrito esta peça “quase em um estado de transe emocional puro. Não pude me furtar ao envolvimento emocional daquele ambiente efervescente e criativo, das reuniões dos chorões do Recife nos idos de 1945-1950”.

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Esse ambiente musical das rodas de choro do Recife é também lembrado nos depoimentos de vários chorões da velha guarda, a exemplo do violonista carioca César Faria (Conjunto Época de Ouro), do bandolinista Luperce Miranda, apelidado de o Prestidigitador do Bandolim, tal a dificuldade de execução dos seus choros e frevos, além de Jacob Bittencourt (1918-1969), o Jacob do Bandolim, que, apesar de carioca, se tornou autor de frevos antológicos, escritos para aquele instrumento, como Sapeca e Frevo na Rua Nova.

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Todo esse ambiente do passado foi revivido por outro virtuose do violão, talvez o mais importante dos nossos dias, o violonista Henrique Annes, pernambucano do Recife, nascido em 25 de julho de 1946, professor do Conservatório Pernambucano de Música. No seu livro, Dedilhando Pernambuco (Recife, 2005), ele documenta composições de 20 autores pernambucanos, orquestradas especialmente para Oficina de Cordas de Pernambuco (violão, bandolim, viola sertaneja, flauta, violoncelo, contrabaixo e percussão), seguindo-se depois de compact disc laser a ser lançado separadamente com todas as músicas aqui orquestradas.
 
Assim, Henrique Annes consegue reunir neste livro peças compostas para violão por Alfredo Gama (1867-1932), Alfredo de Medeiros (1892-1961), Jacaré (Antônio da Silva Torres), nascido no Recife em 1929, Cláudio Carneiro Leal, Clóvis Pereira (1932), Euclides Fonseca (1854-1929), Henrique Annes (1946), Ivanildo Maciel, Jayme Duarte, João Pernambuco (1883-1947), José do Carmo (1895-1977), José Mariano (Marambá) da Fonseca (1896-1968), José Menezes (1923), Lourenço (Capiba) da Fonseca Barbosa (1904-1997), Luperce Miranda (1902-1976), Nelson Miranda, Nelson Vaz (1903- ?), Sebastião Libânio e Waldemar de Oliveira (1900-1977).
 
Tal número de virtuoses me fez lembrar de um programa radiofônico que existia no Recife, Quando os violões se encontram. Era produzido por Nélson Pinto e irradiado às 19h30min dos domingos pelo Rádio Jornal do Commercio, entre os anos de 1960 a 1964, nele se apresentando nomes como Chico Soares (Canhoto da Paraíba), Romualdo Miranda (irmão de Luperce Miranda), Benedito Santos, Zé do Carmo, Rossini Ferreira (bandolinista vencedor do Festival Internacional do Choro de 1977), Miro Rosé, Aníbal Carneiro (irmão de Minona Carneiro), Henrique Annes, dentre outros virtuoses das cordas.
 
Recordando o meu pai, Tonico Silva (Antônio Machado Gomes da Silva Netto; 1894-1966), me vem, nesse panorama aqui descrito, a lembrança de uma trova escrita pelo poeta Balthazar de Oliveira e por ele declamada:

Para amar, para dar prova.
Deve-se três coisas cumprir.
Tocar violão, fazer trova.
Vendo o luar, não dormir.

_____________

1) VALENÇA, Suetônio Soares. “Polca, polca-lundu, choro, maxixe”, in LOPES, Antônio Herculano (Org.). Entre Europa e África: a invenção do carioca. Op. cit. p. 66.

2) TINHORÃO, José Ramos. Pequena história social da Música Popular Bra17sileira: da modinha à lambada. 6ª ed. São Paulo: Art Editora, 1991. p. 105.

3) ANDRADE, Mário de. Dicionário Musical Brasileiro. São Paulo: EDUSP, 1989. p. 136-138.

A FESTA DOS ÍNDIOS PELADOS

 

Em 11 de maio de 1644, João Maurício de Nassau deixou triunfantemente a sua Cidade Maurícia. Montado a cavalo, seguido de um grande séqüito de admiradores, cavalgou ele pelo litoral em busca da Paraíba. A sua despedida de forma apoteótica, como a exaltar o sucesso dos sete anos do seu governo, mereceu de Netscher, escrevendo com a parcialidade de cidadão holandês, uma descrição sentida, com cores fortes e povoada por palavras tomadas de emoção, que vale a pena transcrever:

Pelo litoral passou por Olinda, Itamaracá, atingindo o Paraíba onde deveria embarcar. Por toda parte recebeu expressivas homenagens que significavam estima, reconhecimento e saudades. Sua viagem tomava o aspecto de uma marcha triunfal. As populações dos lugares por onde ia passando formavam alas para dizer-lhe adeus. Essas aclamações eram acompanhadas pelas bandas de música que toca¬vam o hino nacional Wilhelmus van Nassauwen e de salvas de canhões a lhe prestarem as últimas honras militares. O nosso aliado Jandui, chefe dos Tapuias, enviou uma delegação (entre a qual se achavam três dos seus sessenta filhos) para pedir a Maurício, mais uma vez, adiasse a partida, si isso fosse possível.

O seu embarque se dá no porto de Cabedelo, na Paraíba, levando em sua comitiva o Escabino e homem de negócios Gaspar Dias Ferreira, uma espécie de seu testa-de-ferro em negociatas nunca bem explicadas, figura misteriosa de agente duplo, com sua participação ainda por ser estudada.

Em Cabedelo, um grupo de índios afasta os guardas de sua escolta e o transporta, nos ombros, até o escaler que flutuava sobre as ondas, esperando para conduzi-lo até o Zuphen. Somente no dia 22 de maio de 1644 é que a esquadra levanta âncoras, deixando desolados nas praias dezenas de índios que com o Conde Nassau desejavam embarcar para a Holanda. Todo o episódio do seu embarque é descrito com cores vivas pelo cronista Gaspar Barlaeus (1647).

Partiu o Conde de Nassau no mesmo barco que o trouxera ao Brasil em 1637, o Zuphen. Ao seu redor navegava uma frota de treze navios, tripulados por 1.400 marinheiros, armados com 327 canhões, e um carregamento avaliado em 2.600.000 florins, composto principalmente de açúcar, pau-brasil, madeiras de lei [notadamente jacarandá e pau-violeta], fumo, pau-campeche [o caule e as raízes apresentam propriedades medicinais e deles se extrai matéria corante que contém hematoxilina], além de toda a produção de seus artistas e objetos vários, bem como curiosidades pertencentes ao seu museu de antropologia.

Depois de uma travessia, um tanto ou quanto atribulada, que lhe obrigara há vários dias de repouso após o desembarque no porto de Texel, o Conde de Nassau compareceu perante assembleia dos Estados-Gerais, reunidos na Haia, em 12 de agosto de 1644. Na ocasião, apresentou-lhes “um curto e prévio relatório a respeito de sua gestão no Brasil desde 1637”.

Em 20 de setembro do mesmo ano, tornou o Conde de Nassau à mesma assembléia onde, em nova audiência, pôde relatar a verdadeira situação do Brasil Holandês e, a exemplo do que fizera quando do seu Testamento Político, demorou-se bem mais no enfoque dos diversos assuntos, parte deles relacionados por Gaspar Barlaeus em seu livro (Amsterdã, 1647).

Reclamou o Conde de Nassau dos altos juros cobrados pela Companhia aos seus devedores, contrariando o próprio edital vigente que estabelecia o juro de 12% ao ano sobre as dívidas contraídas com a Companhia das Índias Ocidentais, conforme mais uma vez relata Gaspar Barlaeus em obra citada.

Além disso, deve atender-se a que um edito do ano de 1640 determinou que pelas dívidas garantidas por penhor não se cobrar juros superiores a 12% e pelas não garantidas apenas de 8%. São fáceis os exemplos de quão enormemente os nossos burlaram esta lei, exigindo um juro ilegal. Cosme de Oliveira, morador no Tijucupapo, tendo comprado alguns escravos por 9.000 florins, depois de pagar 12.000 de mora, foi preso por uma dívida de mais 15.000 florins. João Soares, cidadão de Muribeca, tendo recebido a crédito bens no valor de 36.000 florins, tendo pago 60.000, ainda devia de mora (ah! invoco o testemunho dos homens!) igual quantia! Seria, certamente, legal e justo abater-se os débitos destes quanto lhes foi cobrado com suma injustiça. Isto fizeram os Romanos, elaborando a Lei das Doze Tábuas para conterem os furores da plebe e suas justíssimas reclamações.

É desta época a notícia de uma curiosa festa brasileira, promovida por Nassau nos jardins e salões de sua residência, a Mauritshuis, na presença de nobres e embaixadores acreditados junto aos Países Baixos. Da crônica da vida diária da Holanda são freqüentes os comentários sobre esta festa, segundo se depreende da correspondência de muita gente famosa que descreve a festa brasileira com riquezas de detalhes. A nota de curiosidade da festa ficou por conta da apresentação da dança guerreira dos tapuias, nos mesmos moldes da que foi eternizada em tela por Albert Eckhout.

Na ocasião o Conde de Nassau fez apresentar os onze índios, que o acompanharam na sua viagem de regresso do Brasil, completamente despidos que com as suas setas e bordunas realizaram a dança ritual.

Assinala Besselaar que, “entre os convidados se achavam vários predicantes com suas esposas. Para alguns, a representação foi um grande escândalo e, justamente por ser motivo de escândalos para alguns, foi motivo de grande hilaridade para outros”.

A VIDA PRIVADA NO BRASIL HOLANDÊS

Durante o Brasil Holandês (1630-1654) transferiram-se para Pernambuco indivíduos originários das mais diferentes partes do mundo de então. Eram judeus, mercenários, predicantes, comerciantes e funcionários da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, ou simplesmente aventureiros e até prostitutas, todos em busca de dias melhores na Terra do Açúcar.

O Recife de então se transformara numa verdadeira Torre de Babel. As suas ruas, praças, templos e tavernas encontravam-se tomadas por holandeses, noruegueses, belgas, flamengos, ingleses, alemães, escoceses, dinamarqueses, além de um imenso número de judeus; estes últimos divididos em sefardins, oriundos da Península Ibérica, e askenazins, procedentes do norte da Europa.

Por força da Guerra Brasílica esses recém-chegados tiveram de conviver com mazombos, como eram chamados os naturais do Brasil, portugueses, espanhóis, italianos, ameríndios (a quem chamavam de brasilianner) e negros escravos originários das mais diferentes regiões da África.

Ao contrário dos portugueses que encontraram uma cultura ameríndia e dela tiraram proveito, os holandeses, em sua maioria formada por gente acostumada a viver nas cidades, vieram a sofrer por uma total falta de meios de subsistência o que tornou impossível à preservação da vida na colônia.

No Brasil, os holandeses continuaram a viver com os mesmo hábitos, como se ainda estivessem na Holanda. De lá eram transportados para o Brasil os produtos mais diversos. Até o necessário e o indispensável à subsistência, como a carne de boi e de carneiro salgadas, provinham de portos holandeses. Além destas, também de lá vinham o toucinho, presunto, língua, salmão, bacalhau, peixe seco, biscoitos, arenque, farinha de trigo, vinhos da Espanha, aguardente de uva, vinhos franceses do Reno, cerveja (birra), queijos diversos, manteiga, azeite, passas de Corinto, azeitonas, alcaparras, amêndoas e, sobretudo, farinha de trigo.

Mesmo a alimentação do corpo de tropas era dependente dos produtos importados. Para os soldados era solicitado que viessem da Holanda produtos como aveia, feijão, ervilhas, carne salgada, bacalhau, peixe seco, cerveja, vinho da Espanha, “vinho forte francês”, arroz, favas turcas [milho], cevada, passas e farinha de trigo. – Tal dieta, na qual predomina o álcool, as conservas e o sal, veio contribuir para a derrota das tropas da Companhia nas duas batalhas dos Montes Guararapes nos anos de 1648 e 1649.

Nenhuma simpatia para com os produtos da terra. Nada de frutas, verduras, batatas, legumes, raízes, caules e produtos à base da mandioca, como a farinha-de-pau, e outras culturas da terra, utilizadas à larga na alimentação dos portugueses, ameríndios e negros escravos.

Também da Holanda para cá foram trazidos gatos (para combater a incontrolável população de ratos), gansos, patos, porcos, além de cães ingleses empregados na captura de índios, negros fugidos e insurretos pernambucanos.

De portos europeus provinham os tecidos do vestuário dos holandeses – linhos, brocados, veludos, damascos, sedas, etc. -, que aqui chegavam juntamente com sapatos ingleses, selas de montaria, o marfim e o ouro da Guiné, pau-de-rede de Angola, especiarias da Índia, madeiras do Báltico, couros da Rússia, chapéus, plumas e tudo o que se podia comprar com os florins resultantes da venda do açúcar dos engenhos pernambucanos.

Até para a satisfação do apetite sexual dos flamengos, não muito dado a exotismos, vieram da Holanda um considerável número de prostitutas, como as que habitavam os sobrados da Rua do Vinho, paralela a Rua dos Judeus, onde se localizavam “os mais vis bordeis do mundo”.

Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos (1987).

No que diz respeito à convivência com as diversas etnias, os holandeses encontraram em Pernambuco uma sociedade de mestiços e foram obrigados a com ela conviver tolerando seus usos, costumes e até uniões as quais não estavam habituados.

Em 1646, segundo recenseamento realizado em fins de 1645 estaria confinado no centro do Recife um total de 4.660 pessoas, “entre particulares, empregados da Companhia e escravos”; população esta acrescida em 1.169 soldados que compunham o efetivo das guarnições dos fortes ali situados.

Segundo estimativa do cronista do Journael, publicado em Arnhem (capital da província de Géldria, no Baixo Reno), em sua edição de junho de 1646, por essa época, viviam no Recife cerca de 8.000 habitantes,

A fim de abrigar tanta gente, em tão diminuto espaço de terra, foram utilizadas todas as habitações disponíveis, acrescidas dos armazéns do porto e até dos sótãos [parte da casa entre o forro e o telhado] dos sobrados, alguns deles com quatro pavimentos. Neles eram acomodados “caixeiros, auxiliares de escrita e serventes”, em número de três a oito deles em cada cômodo, sob um calor asfixiante, com suas camas coladas às outras, na maior das promiscuidades.

Em cartas do Conselho do Recife, datadas de 31 de março e 20 de dezembro de 1641, nos deparamos com esses comentários: Se nós não abrigarmos essa gente em habitações coletivas, ela vai procurar alojamentos nas bodegas do porto, que são os bordeis mais vis do mundo. Ai! Do mancebo que ali cair – fica votada a irremissível perdição.

Diante de tamanha promiscuidade, não é de admirar que a vida na colônia tornou-se um verdadeiro inferno. A falta de água potável e alimentação adequada, sobretudo a ausência de vitaminas no cardápio diário, trouxeram consigo o crescimento dos casos de escorbuto e outras doenças, como a hemeralopia (deficiência de visão à luz do sol; cegueira diurna), disenterias sangüíneas (ventris fluxus, Piso), moléstias do fígado, surtos de gripes, dentre outras que dizimaram um grande número de pessoas.

Com a chegada sempre crescente das levas de aventureiros, dentre eles um elevado número de prostitutas, a sífilis transformou-se numa verdadeira epidemia no Brasil Holandês. Os médicos de então, como o cientista Willem Piso, foram procurar cura para tais doenças junto à flora medicinal indígena e experientes médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana, através do qual, “fica-se curado dentro de oito dias”.

Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen (2004) “que pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalha da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho e outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo “panorama de excessos não pode ser descritos por simples palavras”.

Dentro dos lares, ao contrário dos portugueses que escondiam suas mulheres e filhas da vista dos estranhos, os holandeses eram por demais liberais em suas relações com a sociedade.

Suas mulheres, em maior número do que as originárias de Portugal revelavam uma jovialidade pouco comum às nativas. Testemunha frei Manuel Calado, quando das festas em regozijo à Aclamação do Duque de Bragança, D. João IV, ao trono de Portugal, realizadas no Recife em abril de 1641.

E se o banquete era jantar durava a beberronia (ato de beber sem comedimento) até a noite, e se era ceia até a madrugada; e nestes convites se achavam as mais lindas damas e as mais graves mulheres, holandesas, francesas e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens, e arrimavam-se ao bordão de que aquele era o costume de suas terras.

No ambiente familiar, onde reinava tal liberdade, passou a ser comum a prática do adultério como se depreende das inúmeras denúncias chegadas ao Conselho Eclesiástico; assim assevera Hermann Wätjen (2004): Muita mulher infiel de soldado, metida em varas, teve de passar horas inteiras no pelourinho, exposta ao calor ardente do sol, na praça pública; muita dama elegante foi vergastada coram publico pelo carcereiro mor.

Militares e civis, em quantidade considerável, foram expulsos da colônia por crimes de bigamia; o que fez com que as autoridades exigissem de todo homem casado, logo que chegasse ao Recife, a apresentação da respectiva certidão de casamento.

A ata do Conselho da Zelândia, de 7 de agosto de 1649, narra o fato de certo capitão holandês, dado à prática da pederastia, ter sido transferido para a ilha de Fernando de Noronha e de lá para uma prisão em Amsterdã “em cujos cárceres pudesse acabar a sua arruinada existência”.

Neste ambiente restaram poucas casas de portugueses que viessem a merecer descrições mais apuradas de cronistas holandeses. Segundo documentos da época, os portugueses viviam em “distritos agrícolas, em miseráveis casas de taipa”, denunciando, inclusive, “falta de asseio do corpo e da casa”.

A casa rural dos portugueses é descrita como desprovida de conforto e ostentação de riqueza. Dispunha de poucos móveis, sendo grande parte dela construídas em taipa e cobertas de telha, observando-se a existência de pelo menos dois pavimentos, dominados por grande varanda.

No interior da casa, a mulher, sempre cercada por um razoável número de escravas, recebia os visitantes, sentada sobre um estrado, “conservando os pés escondidos, pois é considerado indecente mostrá-los aos visitantes, seja amigo ou pessoa estranha”.

A mesa era farta de alimentos proporcionados pelas culturas da terra, notadamente a mandioca da qual retiravam a farinha e a massa, usada largamente em sua culinária. Dela também fazia parte os tubérculos, verduras, legumes, frutas, que davam acompanhamento aos peixes e às carnes. As refeições eram seguidas de uma enorme variedade de doces e frutas cristalizadas, “que gozam da melhor aceitação entre velhos e jovens”.

Com respeito à dieta da família portuguesa, observa o reverendo Vicente Soler, em uma de suas cartas ao teólogo André Rivet, de Leiden, que “em lugar de pão o povo em geral come certa farinha, branca como neve, feita da raiz de certo vegetal. Alguns fazem bolos com ela, os quais alguns dos nossos consideram muito mais saboroso do que o melhor pão de cereais de que em geral não temos falta”. Nas suas observações, assegura o calvinista espanhol ser o português abstêmio ao vinho e outras bebidas alcoólicas, dando preferência à água natural, embora seja um apreciador dos sumos das frutas, adocicado com açúcar.

Segundo carta-geral do Governador e Conselho, datada de 14 de janeiro de 1638 e citada por Hermann Wätjen (2004), “as mulheres dos portugueses andavam por demais ataviadas de jóias (algumas falsas), vestindo-se pomposamente, enquanto alguns homens apresentavam-se mal vestidos. Nas casas portuguesas mais distintas, quando as mulheres saem às ruas são sempre carregadas por dois escravos, deitadas em redes ou sentadas em cadeirinhas, devidamente cobertas por um véu”.

Por conta de sua vida sedentária, recolhida ao interior da casa senhorial, sem quase receber os raios do sol, com a sua dieta plena de doces e outros produtos manufaturados com o açúcar, a fisionomia da mulher portuguesa é pouco atraente, pois logo perde os dentes, tornando-se gordas e pesadas.

O homem português era um eterno ciumento de sua mulher e filhas, tomando as precauções inimagináveis para tornar impossível que elas recebam galanteios de outros homens ou em absoluto figure em negócios do amor. Daí a razão de terem as portuguesas tão pouca liberdade de movimento e serem obrigadas pelos seus maridos à vida caseira.

Não obstante registrava-se um razoável número de uniões de mulheres da terra com holandeses. Frei Manuel Calado, em seu relato (1648), observa que “vinte mulheres portuguesas se casaram com os holandeses, ou para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges e por predicantes hereges (…) porque, como eles eram senhores da terra, fazia as coisas como lhes parecia, e era mais honroso e proveitoso”.

Na verdade um grande número de holandeses, senhores-de-engenho em particular, veio a casar com mulheres da terra ou portuguesas. Além de Gaspar van der Ley, aqui também casaram Abraham Tapper, Joris Garstman, Johan Heck, Jan Wijnants; o mesmo acontecendo no Rio Grande do Norte e no Maranhão, como conta o padre Antônio Vieira.

Com outras etnias, a exemplo dos negros e dos índios, a união com holandeses era vista sobre um prisma diverso. Enquanto os portugueses foram por todo o tempo tolerante para com as uniões mestiças, entre brancos, índios e até negros, o mesmo não se pode dizer das autoridades holandesas. Estas, a todo custo, procuravam impedir o contato sexual de brancos, “considerada como tal a descendência holandesa e a norte-européia em geral”, com toda população de cor.

A PROSTITUIÇÃO NO BRASIL HOLANDÊS

Da promiscuidade do dia-a-dia, agravada a cada dia com a chegada de um número cada vez maior de aventureiros, dentre os quais um grande número de prostitutas. A sífilis veio a tornar-se uma verdadeira epidemia no Brasil Holandês de então, obrigando cientistas, como os médicos Willem Piso e Georg Marcgrave, autores do livro clássico Historia Naturalis Brasiliae (1648), buscar a cura para tal doença junto à flora medicinal indígena e aos médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana fermentado, através do qual “fica-se curado dentro de oito dias”.

A propagação da lues, como também é denominada a sífilis, era propiciada pelo grande e imenso bordel a que fora transformado o Recife de então. Tal importação vem acontecer logo nos primeiros anos do Brasil Holandês, que recebeu verdadeiros “carregamentos de mulheres perdidas”, como se depreende das cartas do Conselho do Recife.
 
Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos.
 
Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen que “pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalhas da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.
 
O mesmo proceder acontecia com os marinheiros, após travessias de muitas semanas no mar, quase sempre envolvidos em batalhas e refregas. Também acontecia com os homens procedentes dos engenhos de açúcar, que se encontravam no Recife de passagem, longe da vista de suas famílias.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho, bem como outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo panorama de excessos, segundo Pierre Moreau não pode ser descritos por simples palavras.

A terrível problemática habitacional levou a promiscuidade e a consequente dissolução moral da capital do Brasil Holandês contribuindo para a elevação do número de doenças epidêmicas, com o aumento do número de óbitos e a derrocada de sua estrutura política e militar.

JUNHO DAS NOITES BRASILEIRAS

BDSJ

No nosso calendário de festejos populares, a festa do Senhor São João se torna a mais festejada em Pernambuco, nesse mês dedicado aos santos de junho.

É também a festa mais antiga do Brasil, já registrada por frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil 1500-1627, que assim as descrevia: “acudiam com muita boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Trata-se de uma festa de grande misticismo, a partir do próprio nome Batista – o que batiza cheio de graça -, em cuja noite se praticava feitiçarias, como demonstra a denúncia de Madalena de Calvos contra Lianor Martins, a Salteadeira, acusada dentre outras coisas, de trazer consigo uma semente enfeitiçada colhida na noite de São João, segundo depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendoça, em 22 de novembro de 1593, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco.

As festas juninas foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses, eles próprios ainda hoje cultores desta milenar tradição marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa as festas juninas coincidem com o início do verão, daí a presença da tradição de costumes pagãos dentro dos festejos, como adivinhações e o culto ao fogo.

No que diz respeito às fogueiras, ensina a tradição cristã divulgada pelos jesuítas ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer uma enorme fogueira no sentido de anunciar o nascimento de seu filho João Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz”. (João 1,6-8).

No Brasil as festas juninas acontecem com o início do inverno, tempo de colheita do milho e do feijão no Nordeste, que sempre está à espera das boas invernadas de modo a afastar o espectro das estiagens de modo a garantir a sua subsistência; como na polca de Zé Dantas e Luís Gonzaga, Lascando o cano (RCA 80/307B-1954):

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Vamo, vamo Joana
Findou-se o inferno
Houve um bom inverno
Há fartura no sertão…,
Ai! …Joana, traz pamonha, milho assado
Vou matá de bucho inchado
Quem num crê no meu Sertão.
Traz a riuna que eu vou lascar o cano
Pela safra desse ano
Em louvor a São João.

Em se tratando de um povo de bailadores, acostumado a dançar no meio da rua, na região Nordeste os festejos juninos são marcados, não somente pelas fogueiras, balões, comidas da época (nas quais predominam o milho, a mandioca, a castanha de caju e os doces variados), mas também pela música em seus mais diferentes gêneros a movimentar os arraiás, residências, comércio, clubes sociais, programação de rádio e televisão e, sobretudo, a alma festiva dessa gente; como naquela polca de Zé Dantas e Joaquim Lima, Chegou São João, gravada por Marinês (RCA- BBL1075-B-l/ 1960):

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Eita pessoá!
Chegou São João!
Vou me espraiá,
Vou dá no pé prô meu Sertão.
Eu vou pra lá,
Brincá com Tonha,
Com Zefa e Chico,
Comer pamonha e canjica
Vou soltar ronqueira,
Bebê e dançar coco
Em volta da fogueira.
Vou soltá,
Foguete, balão, buscapé
Bebendo aluá, cachaça e capilé

………………………………….

A festa de São João tem início com o Acorda Povo, logo na madrugada do dia 23, acordando os moradores ao som de zabumba, caracaxá, ganzá, triângulo, sanfona, tudo movido a muita cachaça: “Acorda povo que o galo cantou / Foi São João que anunciou ….”.

No por do sol do dia 23, véspera da festa do santo, são acendidas às fogueiras e a festa tem continuidade com a Bandeira de São João. Uma procissão antecipada por uma estrela, coberta de papel celofane com cerca de 150 cm. de diâmetro, iluminada por velas no seu interior, carregada por dois meninos. Seguem-se duas filas, formadas por homens e mulheres, que cantam e dançam em honra do santo, fazendo marcação com os pés e, por vezes, trocando umbigadas. Segue-se de uma bandeira, pintada com a imagem do Batista menino com o carneirinho, segurada em suas pontas por quadro adolescentes, antecedendo ao andor com a imagem do santo, esculpida em gesso ou madeira, carregado por quatro moças vestindo branco, encarnado e verde, cores mantidas também nas lanternas dos acompanhantes. Finalmente uma banda de pífanos, ou um terno de sanfona (acordem, zabumba e triângulo), acompanha os seguidores no seu canto: “Que bandeira é esta / Que vai levantar/ É de São João para festejar/ Que bandeira é esta / Que já levantou/ É de São João, primo do Senhor”.

A música é uma constante nos festejos juninos desde os primeiros dias da colonização. Foi assim com as capelas, referidas pelo frei Vicente do Salvador e descritas pelo Padre Carapuceiro, continuando em nossos dias com a adaptação de ritmos oriundos de outras plagas, como o xote (schottisch), proveniente da Hungria; a polca e a mazurca, originárias da Polônia, e a quadrilha, que teve por berço os salões aristocráticos de França e, no Brasil, veio a ser dançada da Corte às casebres da zona rural, como bem assinala O Carapuceiro, em sua edição de 6 de abril de 1842: “Nas baiúcas mais nojentas/ Onde a gente mal se vê/ Já se escuta a rabequinha,/ Já se sabe o balancê./ Nisto mesmo está o mérito/ Deste dançar tão jacundo,/ Que sem odiosa exclusão,/ Acomoda todo o Mundo”.

Não faltam nessas animadas festas os ritmos originários da terra, como o coco-de-roda, originário dos batuques africanos, que marcado por um ganzá, nas mãos do solista (tirador), acompanhado por um tambor em compasso binário, e respondido pelas vozes dos dançarinos a marcarem o ritmo com sapateado dos seus tamancos de madeira, trocas de umbigadas e assim mantém a alegria a noite inteira. Para Pereira da Costa, in Folk-Lore Pernambucano (1908), o coco é a “dança querida do populacho, com certa cadência acompanhada a palmas, e na qual os foliões acomodam trovas populares repetidamente”[…] “o coco, porém, está tão vulgarizado que chegou mesmo à zona sertaneja, com a sua particular toada, mas, com letra variada, convenientemente acomodada ao canto, e obedecendo sempre a um estribilho contínuo, cantado em coro pelos circunstantes”.

O nosso coco, também veio a ser era descrito no conto de Luís Guimarães Júnior (1845-98), quando, estudante da Faculdade de Direito do Recife, publicou no Diario de Pernambuco, 8 de fevereiro de 1871, um conto sob o título “A alma do outro mundo”, no qual comenta o que chamou de “samba do Norte” , na verdade o nosso coco-de-roda.

Rodrigues da Carvalho, in Cancioneiro do Norte (1928), afirma ser o coco a “dança predileta do pessoal dos engenhos de açúcar, negros e caboclos, cambiteiros, o mestre de fornalha, o metedor de cana, o banqueiro [mestre que dá ponto ao açúcar], os tanjedores da almanjarra, etc.”. Mas na hora da alegria, onde a cachaça passa a dirigir os gestos e as ações, nem mesmo a autoridade está livre de uma roda de coco; como bem descreve Zé Dantas em gravação de Luís Gonzaga (RCA-Leme 801656A/1957):

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O seu delegado fez mais um esforço
E madrugada mandou um reforço
Mas desconfiado por não ter notícia
Veio ver o que houve, com a sua polícia
E de manhã cedo, a graça do povo
Era o delegado contando bem rouco
Nesse coco poliça num tem vez
Se acaba no pau, quem falá em xadrez } bis

Também ligados ao Ciclo Junino, particularmente aos seus intérpretes, estão hoje o baião, o xaxado, a toada, a embolada, a ciranda e a marcha sertaneja, ou marcha junina, esta última originária das marchas populares com as quais Lisboa festeja o seu Santo Antônio e que vieram a ser conhecidas, através das companhias de revista, como marcha portuguesa, a exemplo da marcha de Zé Dantas e Luís Gonzaga, São João na roça (RCA 800895A/1952):

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A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou… ô
Vamos gente!…
Rapa pé nesse salão.
………………………….

Ou esta outra marchinha, marca do romantismo das noites juninas, composta por Luiz Gonzaga e José Fernandes, Olha pro céu (Vitale 603326832), recentemente relançada na coletânea 50 anos de chão, em homenagem ao Rei do Baião:

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Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo…
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo…

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O coração
O céu estava
Assim em festa
Porque era noite
De São João
Havia balões no ar
Xote, baião, no salão
E no terreiro, o teu olhar
Que incendiou meu coração

Tudo acontece numa mistura de ritmos e de cores, num cadinho conhecido no passado por forrobodó, já neste século por forrobodança e a partir dos anos quarenta por forró, como lembra Zé Dantas in Forró do Mané Vito, gravado por Luís Gonzaga em 1949 (RCA 800668B/49) ser o local onde todos esses sons se misturam num grande baile popular.

Nas composições musicais do ciclo junino está toda moral do sertanejo, “Sertão das muié séria / Dos homi trabaiadô”… (A volta da asa-branca, toada de Zé Dantas, gravada por Luís Gonzaga, em 1950, RCA 800739 A) e a vida simples do seu povo:

Ai São João chegou,
Iaiá!
Ai São João chegou,
Sinhá!
Teu vestido de chita,
Já mandei preparar.
Minha roupa de lista,
Já mandei engomar,
Eu tenho uma festinha
Para te levar
Eu tenho uma fogueira,
Para o nosso lar

E hoje, o jovem romântico de ontem, pode lembrar com saudades aquelas noites juninas que não voltam mais, cantando aquele sucesso sempre atual, composto por Zé Dantas e Luiz Gonzaga em 1954, que leva o singular título de Noites brasileiras (RCA 801307 A):

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Ai que saudade que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão, ai, ai…


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa