PARA HISTÓRIA DO CARNAVAL: AS VARIAÇÕES DO FREVO DOS VASSOURINHAS

A “Marcha nº 1 do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife”, composta em seis de janeiro de 1909 por Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser conhecida nacionalmente como FREVO DOS VASSOURINHAS.

Em fevereiro de 1945 a Continental, sob o selo nº 15279 B, fez a gravação em 78 rpm, da Marcha nº1. Omitindo o nome dos seus autores, apresentando como “Frevo nº 1 (Marcha Regresso do Clube Vassourinhas). Marcha popular de Pernambuco, adaptação de Almirante”. Como intérpretes Déo e Castro Barbosa, acompanhado por “Napoleão e seus soldados”.

Nesse disco, Almirante (Henrique Foréis Domingues; 1908-1980) não fez tão somente uma simples adaptação da Marcha nº 1, mas, como já acontecera com Lamartine Babo quando da gravação em 21 de dezembro de 1931 de O teu cabelo não nega, dos pernambucanos Raul e João Valença (Victor 33514 A), simplesmente escreveu outra letra e denominou de “Marcha regresso” (!), que veio a ser apresentada como “verdadeira” por Ruy Duarte no seu História social do frevo:

A saudade, ó Vassourinhas
Invadiu meu coração,
ao pensar que talvez nunca,
nunca mais te veja não.
A saudade. ó Vassourinhas,
enche d’ água os olhos meus,
ao pensar, ó Vassourinhas,
neste derradeiro adeus.

O Frevo dos Vassourinhas, como veio a ser conhecido a partir da gravação de “Severino Araújo e sua Orquestra Tabajaras”, em outubro de 1950 (Continental nº 16120 A; matriz 2147), tornou-se a música mais executada do Carnaval Brasileiro em nossos dias, segundo informa o Escritório de Arrecadação dos Direitos Autorais – Ecad que recolhe os seus direitos para o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife.

No Recife, a partir de 1941, o “Frevo dos Vassourinhas” recebeu, como acréscimo nas suas execuções, as variações especialmente composta pelo saxofonista da Orquestra de Nelson Ferreira, Félix (Felinho) Lins de Albuquerque (1895-1980) e assim abriu espaço para que outros virtuoses do instrumento compusessem suas próprias variações.

José Menezes - compositor

José Menezes – compositor

Dentre os autores de tais variações figuram o instrumentista José Xavier de Menezes (1923-2013), que nos deixou este depoimento que aqui transcrevo:

“Amigo Léo,

Este é um simples relato dos fatos sobre a 2ª gravação do frevo Vassourinhas. O toque jornalístico fica com você.

Gravado no dia 06/9/1950, no Rio de Janeiro, por “Zacarias e sua Orquestra”. Disco RCA-Victor – 78 rotações – nº 80.0705 -face A, e no verso – face B – foi gravado Freio a Óleo, de minha autoria – como é do seu conhecimento.

Consta do selo como título da música: FREVO DOS VASSOURINHAS (Nº1).

Histórico do surgimento da gravação:

No mês de maio de 1950, Geraldo Vilas (hoje falecido), representante da RCA-Victor, aqui no Recife, procurou o saxofonista Felinho, criador das variações do Vassourinhas, para fazer um arranjo da música, com suas variações, para ser gravada no Rio de Janeiro pela orquestra de Zacarias, que era na época, ela e a TABAJARA de Severino Araújo, as melhores do Brasil.

Felinho recusou o convite, alegando que suas variações só deviam ser gravadas por ele. Geraldo ofereceu passagem aérea e hospedagem no Rio de Janeiro e mais um cachê, para ele ir gravar com a orquestra de Zacarias. Mais uma vez Felinho recusou o convite com a legação de que não se sentia bem viajando de avião.

Em vista disso, Geraldo Vilas me procurou para fazer o arranjo e escrever variações inéditas, de minha autoria, que seriam executadas pelo 1º sax-alto da Orquestra de Zacarias, que se chamava Guerino.

Aceitei o convite, na condição da RCA comprometer-se em gravar, na face B do referido disco (que continha apenas duas músicas), um frevo de minha autoria, que seria FREIO A ÓLEO e assim foi feito.

Um fato interessante:

Quando Felinho soube do ocorrido, me procurou para saber se realmente eu tinha feito o arranjo de Vassourinhas, para outro músico gravar, com as variações dele.

Eu lhe respondi que realmente fiz o arranjo, entretanto, com variações de minha autoria, vez que, as variações e improvisações sobre um determinado tema musical, podem ser feitas de várias formas e por qualquer um.

Não existe autor de improvisações.

Em resposta, suas palavras foram as seguintes: “Quando o disco chegar, se tiver alguma de minhas variações, irei ao jornais protestar e processarei a gravadora”.

Quando disco chegou, mostrei a ele, e até a data de sua morte, muitos anos depois, ele nunca protestou porque as variações eram realmente inéditas. Eu tenho esse disco nos meus arquivos.

Recife, 18 de fevereiro de 2009.

José Menezes”

Sob o selo Mocambo, o “Frevo dos Vassourinhas”, de Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto, compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696.

Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira, produção autônoma com o selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

* * *

Frevo dos Vassourinhas nº 1, de Matias da Rocha e Joana Batista, com  Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara

MARACATUS, A PRESENÇA DA ÁFRICA NO CARNAVAL DO RECIFE

Maracatu Elefante – Dona Santa

O maracatu, da forma hoje conhecida, tem suas origens na instituição dos Reis Negros, já conhecida na França e em Espanha, no século XV, e em Portugal, no século XVI, passando para Pernambuco onde encontramos narrativas e documentos sobre tais coroações de soberanos do Congo e de Angola a partir de 10 de setembro de 1666, segundo testemunho de Souchou de Rennefort, in Histoire des Indes Orientales, publicado em Paris 1688.

As coroações de reis e rainhas de Angola na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife são documentadas a partir de 1674, segundo documentação reunida in Alguns documentos para a história da escravidão. Recife: Editora Massangana, 1988.

O folguedo do maracatu, semelhante aos bailes e batuques organizados pelos pretos de Angola ao tempo do governador José César de Menezes (1774-78), objeto de denúncia à Inquisição de Lisboa por parte dos frades capuchinhos da Penha (ANTT – Cartório da Inquisição nº4740), foi sempre alvo de censuras por parte das classes dominantes e de perseguição policial; segundo denúncia do mesmo jornal em sua edição de 11 de novembro de 1856 ao tratar do maracatu da praça da Boa Vista.

Cortejos de reis negros

Os cortejos dos reis negros, geralmente anotados pela imprensa, quando das festas de Nossa Senhora dos Prazeres e nas do Rosário de Santo Antônio, não eram conhecidos por maracatus, como se depreende do noticiário do Diario de Pernambuco de 20 de outubro de 1851:

… percorrendo à tarde algumas ruas da cidade, divididos em nações, cada uma das quais tinha à frente o seu rei acobertado por uma grande umbela ou chapéu-de-sol de variadas cores. Tudo desta vez se passou na boa paz e sossego, porquanto a polícia, além de ter responsabilizado, segundo nos consta, o soberano universal de todas as nações africanas aqui existentes, por qualquer distúrbio que aparecesse em seus ajuntamentos, não deixou por isso de vigiá-los cuidadosamente.

Os reis negros, em especial o Rei do Congo, possuidor de uma hierarquia própria sobre os membros das demais nações africanas aqui residentes, compareciam às festas religiosas protegidos pela umbela. Um grande pálio redondo, ladeado por dignitários de suas respectivas cortes, sendo o cortejo aberto pela bandeira da nação, juntamente com outras bandeiras arvoradas, e acompanhados por instrumentos de percussão, nem sempre ao gosto da população branca, como se depreende na observação do Padre Carapuceiro: “Alguns desses chapelórios ainda há poucos anos apareciam nos batuques dos pretos em dias de Nossa Senhora do Rosário, cobrindo o figurão chamado de rei dos congos” (Diario de Pernambuco, 15.3.1843).

O grande guarda-sol colorido sob o qual vinha amparado o rei de cada nação, como fora observado pelo Padre Carapuceiro, era denominado cumbi pelos africanos que, ainda em nossos dias, assim trazem protegidos os seus sobas. Inicialmente pensou-se que esta grande umbela havia sido transplantada do cerimonial da igreja católica, onde é utilizada como proteção ao santo viático, quando de sua saída às ruas, conforme bem retratou Emil Bauch em uma de suas cromolitografias tomadas da calçada da igreja matriz da Boa Vista, no Recife (c 1852).

Maracatus, ajuntamentos de negros

No Recife a denominação maracatu servia, a partir da primeira metade do século XIX, para denominar um ajuntamento de negros, como por ocasião da fuga da escrava Catarina, anotada por José Antônio Gonsalves de Mello em consulta à edição do Diario de Pernambuco de 1º de julho de 1845:

Em o dia 2ª feira do Espírito Santo do ano próximo passado, fugiu a preta Catarina, de nação Angola, ladina, alta, bastante seca de corpo, seio pequeno, cor muito preta, bem feita de rosto, olhos grandes e vermelhos, com todos os dentes da frente, pés grandes metidos para dentro, muito conversadeira e risonha, de idade de 22 anos; tem sido encontrada na Estrada da Nova da Passagem da Madalena e no Aterro dos Afogados, vendendo verduras e aos domingos no maracatu dos coqueiros do dito Aterro, e há notícia de ser o seu coito certo a matriz da Várzea; cuja escrava pertence a Manoel Francisco da Silva, morador na Rua Estreita do Rosário, 10, 3º andar, ou em seu sítio em Santo Amaro, junto à igreja, o qual gratificará generosamente a quem lh’ a apresentar.

Outro exemplo aparece na ata da sessão extraordinária da Câmara Municipal do Recife de 28 de abril de 1851, quando foi endereçada ao desembargador Chefe de Polícia “uma petição do preto africano Antônio Oliveira, intitulado Rei do Congo, queixando-se de outro que, sem lhe prestar obediência, tem reunido os de sua nação para folguedos públicos, a fim de que o mesmo desembargador providenciasse em sentido de desaparecer semelhantes reuniões, chamadas vulgarmente de maracatus, pelas conseqüências desagradáveis que delas podem resultar” (Diario de Pernambuco, 27.5.1851).

No Recife, os cortejos dos soberanos negros, trazendo os seus reis e rainhas, não saíam no período do carnaval, mas tão somente por ocasião de suas festas religiosas ou em ocasiões outras como o embarque de africanos libertos de volta à mãe África. A presença de “batuque do Rei do Congo” no carnaval do Recife só vem a ser registrada a partir do final dos anos cinqüenta do século XIX.

Os reis no Carnaval

Maracatu Elefante – Rainhas e princesas

Somente nos anos setenta do século XIX é descrita a presença desses cortejos de reis negros durante o carnaval, segundo noticia o Diario de Pernambuco sem sua edição de 10 de fevereiro de 1872, ainda sem a denominação de maracatus:

No dia 11 do corrente sairá da Rua de Santa Rita Velha (bairro de São José) a nação velha de Cambinda, a qual vai em direitura à Rua das Calçadas buscar a sua rainha, e depois percorrerá diversas ruas, e às 3 horas se achará em frente à igreja do Rosário [de Santo Antônio] onde se soltarão algumas girândolas de fogo e uma salva de 21 tiro; dali seguirá para o Recife e na Rua do Bom Jesus voltará com a vice-rainha de sua nação.

O maracatu era, até então, considerado a reunião de negros em determinado local. Um o batuque, na acepção de “dança africana ao estrépido de instrumentos de percussão” (Pereira da Costa), mas não o cortejo real que levava às ruas a corte dos reis negros, como faz ver o extenso editorial do mesmo jornal, publicado em 18 de maio de 1880:

…. Há tempos, que indicamos um maracatu que costuma reunir-se quase no extremo norte do Cais do Apolo, na freguesia de S. Pedro Gonçalves do Recife; hoje temos notícia exata de dois outros, dos quais os vizinhos têm as mais cruéis recordações. Juntam-se estes na freguesia da Boa Vista, um na Rua do Giriquiti, outro na Rua do Atalho. Neste último, anteontem, houve uma grande assuada e barulho, chegando a aparecer diversas facas de ponta. Felizmente, não se deram ferimentos, mas não esteve longe de assim acontecer. Urge, repetimos, providenciar em ordem a que cessem, desapareçam tão selvagens instrumentos, e o Sr. Dr. Chefe de Polícia, que volveu suas vistas contra as casas de tavolagem, deve também dirigir sua atenção para os maracatus.

O maracatu, na verdade, era tão somente o batuque dos negros, com localização fixa em determinado bairro da cidade. O cortejo real, como no caso anteriormente citado da “nação velha de Cambinda”, não parece ser a mesma coisa. A conclusão é reforçada pelo depoimento do carnavalesco João Batista de Jesus, “Seu Veludinho” do maracatu Leão Coroado, que segundo a tradição faleceu com 110 anos, prestado à pesquisadora Katarina Real em janeiro de 1966, in O folclore no Carnaval do Recife. Recife: Editora Massangana, 1990. 2ªed. p. 184:

Maracatu nem tinha o nome de maracatu. O nome era nação. Uma “nação” mandava ofício para outro “estado”. Surgiu essa palavra pelos homens grandes, quando ouviram os baques dos bombos, chamaram “aquele maracatu!”

Cortejo é chamado de maracatu

Com a abolição da escravatura negra, em 1888, e a proclamação da República, em 1889, a figura do Rei do Congo – Muchino Riá Congo – perdeu a sua razão de ser. Os cortejos dos reis negros já presentes no carnaval, por sua vez, passaram a ter como chefe temporal e espiritual os babalorixás dos terreiros do culto nagô. Assim vieram para as ruas do Recife, não somente nos dias de festas religiosas em honra de Nossa Senhora do Rosário, mas também nas festas carnavalescas.

Após a abolição, porém, os antigos cortejos das nações africanas, que continuaram a se fazer presentes no carnaval do Recife então sob a chefia dos seus babalorixás, passaram a ser chamados de maracatus, particularmente quando a notícia tinha conotação policial, como a divulgada pelo Diario de Pernambuco, em sua edição de 26 de fevereiro de 1889:

Revista Diária. Maracatu Porto Rico – Na Praça Pedro I, da paróquia de São Frei Pedro Gonçalves do Recife, deu-se anteontem um conflito entre os sócios do Maracatu Porto Rico, quando este fazia um ensaio. Ao que parece o conflito foi motivado por uma praça do 14º Batalhão, pois que cerca de 60 homens, armados de facas e cacetes, rebelaram-se contra a dita praça, que ferida tratara de fugir, quando ali compareceu o subdelegado da paróquia. Esta autoridade conseguiu prender seis dos tais desordeiros, inclusive o ofensor da praça, que foi vistoriada pelo sr. dr. José Joaquim de Souza.

Ainda recentemente, ao que se depreende do depoimento do presidente da Nação do Leão Coroado, Luiz de França, falecido aos 95 anos, “para conversar pouco, só digo que o maracatu é da seita africana”. (Diario de Pernambuco, 14 de janeiro de 1996).

As seculares nações africanas

A mais tocante descrição de um maracatu carnavalesco do início do século vem de Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923) que, em 1908, assim relata o cortejo no seu Folk-Lore Pernambucano:

Rompe o préstito um estandarte ladeado por arqueiros, seguindo-se em alas dois cordões de mulheres lindamente ataviadas, com os seus turbantes ornados de fitas de cores variegadas, espelhinhos e outros enfeites, figurando no meio desses cordões vários personagens, entre os quais os que conduzem os fetiches religiosos, – galo de madeira, um jacaré empalhado e uma boneca de vestes brancas com manto azul -; e logo após, formados em linha, figuram os dignitários da corte, fechando o préstito o rei e a rainha.

Estes dois personagens, ostentando as insígnias da realeza, como coroas, cetros e compridos mantos sustidos por caudatários, marcham sob uma grande umbela e guardados por arqueiros.

No coice vêm os instrumentos: tambores, buzinas e outros de feição africana, que acompanham os cantos de marcha e danças diversas com um estrépito horrível.

Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda de totororó.

O autor chama a atenção do leitor para o Maracatu Cabinda Velha que, “desfraldando um rico estandarte de veludo bordado a ouro, como eram igualmente a umbela e as vestes dos reis e dignitários da corte, e usando todos eles de luvas de pelica branca e finíssimos calçados. Os vestuários dos arqueiros, porta-estandarte e demais figuras, eram de finos tecidos e convenientemente arranjados, sobressaindo os das mulheres, trajando saias de seda ou veludo de cores diversas, com as suas camisas alvíssimas, de custosos talhos de labirinto, rendas ou bordados, vistosos e finíssimos; e pendentes do pescoço, em numerosas voltas, compridos fios de miçangas, que do mesmo modo ornam-lhes os pulsos. Toda comitiva marchava descalça, à exceção do rei, da rainha e dos dignitários da corte, que usavam de calçados finos e de fantasia, de acordo com os seus vestuários”.

E concluindo, afirma Pereira da Costa:

“Quando o préstito saía, à tarde, recebia as saudações de uma salva de bombas reais, seguida de grande foguetearia, saudações essas que eram de novo prestadas no ato do seu recolhimento, renovando-se e continuando as danças até o amanhecer; e assim, em ruidosas festas e no meio de todas as expansões de alegria, deslizavam-se os três dias do Carnaval”.

Preservando a denominação de nação, os préstitos dos maracatus de baque virado (que utilizam nas suas apresentações tão somente instrumentos de percussão de origem africana) continuam a desfilar pelas ruas do Recife nos dias do carnaval e nos meses que antecedem a grande festa. Denominando-se de Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação do Indiano (1949), Nação Porto Rico (1915), Nação Cambinda Estrela (1953), além de outros grupos que surgiram mais recentemente, mantendo a tradição africana dos seus antepassados.

OLINDA, É TODA CARNAVAL

O Carnaval de Olinda tem o seu início oficial nos primeiros minutos do domingo quando, no Bonsucesso, o Homem da Meia Noite “bota a cabeça de fora / Aquece a folia / A rua toda estremece / No céu a lua aparece / Explode a alegria” ….

No rastro deste tradicional boneco surgem, como que saídos de um conto de fadas, a Mulher do Dia, o Menino da Tarde, o Tarado da Sé, o Capibão, dentre outras dezenas de bonecos gigantes que vão, pouco a pouco, tomando conta da paisagem.

Caboclinhos, maracatus-nação de baque virado, troças e clubes de frevo, maracatus rurais com seus caboclos de lança, blocos carnavalescos com suas orquestras de pau e cordas, tribos de índios, bois, reisados, a presença cigana nas La Ursas, turmas de palhaços colorido, multidões de alegres mascarados, estão a encher de cores ladeiras, becos, ruas e avenidas, nos dias dedicados ao Carnaval, transformando Olinda no Reino Azul da fantasia.

Batidas sincopadas de bombos dos maracatus-nação, estalidos das preacas dos caboclinhos, notas agudas e dissonantes das fanfarras de frevo, sons rurais de acordeões de La Ursas, batuques de escolas de samba, cômicas toadas de um Mateus do bumba-meu-boi, o lirismo do bloco Flor da Lira cantando, se juntam aos caboclos de lança do maracatu Piaba de Ouro de modo a se misturar com a onda de passistas seguidores dos cortejos da Pitombeiras, do Elefante, da Ceroula, do Vassourinhas, de Marim dos Caetés, ou mesmo do Eu acho é pouco, que mais parecem, na imagem de Alceu Valença, com uma enorme “cobra que desce a ladeira com gosto de gás”.

O carnaval de Olinda em nada se assemelha ao do resto do Brasil. Para o escritor Luís da Câmara Cascudo, “o carnaval dos grupos e dos ranchos, das escolas de samba do Rio de Janeiro” em nada se parece ao carnaval de Olinda, “o carnaval da participação coletiva na onda humana que se desloca, contorce e vibra na coreografia, a um tempo pessoal e geral do frevo, com a sugestão de suas marchas-frevos pernambucanas, insubstituíveis e únicas”.

Nesta paisagem carnavalesca, um ritmo é o grande responsável pela aglutinação das multidões que tomam conta das ruas, becos e avenidas da Cidade Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade durante o carnaval ou em seus momentos de alegria.

Surgido do repertório das bandas militares, o frevo pernambucano como música é o resultado da fusão da marcha, do tango brasileiro, do maxixe, da quadrilha, do galope e, mais particularmente da polca e do dobrado, que num mesmo cadinho deram origem a esta música singular de andamento alegro, ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica. A partir dos anos trinta, do século passado, convencionou-se dividir o frevo em frevo-de-rua, frevo-canção e frevo-de-bloco.

Como no frevo de Severino Luiz Araújo e Nelson Luiz Gusmão, “… é lindo o carnaval de Olinda / E quem não viu ainda / Não sabe o que é paixão / A vida esquece a saudade / Tudo é felicidade / E amor no coração.”

• Do livro “O’ linda, o teu nome bem diz!”, 480 p. ilustrado, a espera de patrocínio para sua edição.

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OLINDA, NO TEMPO DOS FLAMENGOS

A vida religiosa da capitania tinha como centro a matriz do Salvador do Mundo, sendo ela, em todo século XVI e início do século XVII, a segunda igreja em importância da América Portuguesa, depois da Sé da Bahia. O grande templo foi parcialmente concluído em 1540, apresentava-se com três naves, tendo na portada duas colunas geminadas. O padre Fernão Cardim assim o descreve em 1584: “uma formosa igreja matriz, de três naves, com muitas capelas ao redor, e que acabada ficaria uma boa obra”.

Preocupou-se o primeiro donatário não somente com a implantação da agroindústria açucareira, mas também com a educação da juventude e, muito particularmente, com a catequese dos indígenas, tendo para isso entregue aos padres da Companhia de Jesus, em 1551, a ermida de Nossa Senhora da Graça, por ele construída na mais alta elevação da vila. Coube aos padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires coordenarem o nivelamento do terreno e nele iniciar a construção, junto à primitiva igreja, do edifício do Colégio de Olinda. As obras se prolongaram por toda a segunda metade do século XVI, juntamente com a instalação de um Horto Botânico destinado à aclimatação das plantas exóticas, trazidas da Europa e do Oriente para Pernambuco.

Também as ordens religiosas procuraram estabelecer os seus conventos em terras da nova capitania. Inicialmente, como já vimos, foram os Jesuítas (1551), seguindo-se dos Franciscanos (1585), Carmelitas (1588) e Beneditinos (1592).

09. Ruínas da Sé de Olinda, segundo quadro de Frans Post (detalhe)

Ruínas da Sé em Olinda – Frans Post

Uma visão de Olinda, no início do século XVII, nos é dada por Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8):

Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

A riqueza de Olinda, por sua vez, era sustentada pelas mercadorias exportadas através porto de Pernambuco, notadamente o açúcar. Sua importância nas relações comerciais com o norte da Europa, é ressaltada em grande parte dos documentos do século XVI e início do século XVII, graças à produção do açúcar, que passara de gênero de alto luxo a produto acessível às classes de menor poder aquisitivo. Tal riqueza veio despertar a cobiça dos piratas e corsários, tornando as caravelas (navios pequenos e mal-armados), em presas fáceis. Informa K. R. Andrews que, entre 1589 e 1591, Portugal perdeu para corsários ingleses nada menos que 34 navios, em sua maioria procedentes dos portos de Pernambuco e da Bahia.

Em 1589, segundo fonte jesuítica, num período de nove meses, foram apreendidos por ingleses e franceses 73 navios carregados.

Na primeira metade do século XVII a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida em todos os portos da Europa, veio despertar a cobiça dos Países Baixos. Em guerra com a Espanha, sob cuja coroa se encontrava Portugal e suas colônias, necessitava a Holanda e demais repúblicas de todo açúcar produzido no Brasil para suas refinarias (26 só em Amsterdã). Com o insucesso da invasão da Bahia (1624), onde permaneceram por um ano, mas com o valioso apoio de Isabel da Inglaterra e Henrique IV da França, rancorosos inimigos da Espanha, a Holanda, através da Companhia das Índias Ocidentais, formada pela fusão de pequenas associações, em 1621, cujo capital elevara-se, em pouco tempo, a 7 milhões de florins, voltou o seu interesse para Pernambuco.

A produção de 121 engenhos de açúcar, “correntes e moentes” no dizer de van der Dussen, (¹) viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck. Uma grande armada, com 65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

A Vila de Olinda, uma das mais abastadas da América Portuguesa, cujo fausto era comparado com Lisboa e Coimbra, não se perturbara com os boatos da chegada dês uma grande armada .

Nas ruas os seus habitantes, aproveitando as festas pelo nascimento do príncipe Baltasar, herdeiro do trono de Espanha, vestiam seda e damasco, montavam em garbosos cavalos ajaezados em prata, com o som de suas cascavéis a chamar a atenção de sua passagem.

Senhores da terra, os holandeses escolheram o Recife como sede dos seus domínios no Brasil, por ter nesta praça a segurança que não dispunham em Olinda, “por ser aberta por muitas partes e incapaz de defesa”, na observação de Diogo Lopes Santiago (História da Guerra de Pernambuco).

Na noite de 25 de novembro de 1631, resolveram os chefes holandeses pôr fogo na sede da capitania de Pernambuco, “a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas e nobres edifícios, arderam seus templos tão famosos, e casas que custaram tantos mil cruzados em se fazerem” (Santiago).

O soldado da Companhia das Índias Ocidentais, Ambrósio Richshoffer, em anotações ao seu Diário, relata que a demolição dos edifícios de Olinda teve início no dia 17, “transportando-se mais tarde para o Recife todo o material aproveitável”.

A 24 nossa gente que ali se achava retirou-se para a aldeia Povo ou Recife, destruindo antes tudo o que foi possível e pondo fogo à cidade em diversos pontos. Esta resolução foi motivada pelo fato de ser a cidade toda montanhosa e desigualmente edificada, sendo difícil de fortificar e exigir uma forte guarnição, que podíamos empregar melhor aqui e em outros pontos. (²)

Olinda - Frans Post - Rijksmuseum 107,5 x 172,5 (2)

Olinda – Frans Post

Segundo depoimento de Duarte de Albuquerque Coelho, em Olinda “residiam 2.500 vizinhos, possuindo quatro conventos religiosos, sendo um de São Bento, outro dos recoletos de São Francisco, o terceiro do Carmo, e um colégio dos Jesuítas; havia mais duas paróquias, uma casa de Misericórdia e a da Conceição de recolhidas, além das Ermidas. O que não pode referir-se, sem grande e devido sentimento, é que também deixaram nas chamas todas estas igrejas e conventos, e as Santas Imagens”. (³)

Em Olinda a paisagem e costumes foram assim descritos pelo Frei Manuel Calado, “tudo eram delícias e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso” (O Valeroso Lucideno).

Mas a segurança para Waerdenburch e demais chefes holandeses falava mais alto, daí fixar-se no Recife e na ilha de Antônio Vaz que “são lugares próprios para, com oportunidade, fundar-se uma cidade” e “penso que ninguém que da Holanda vier para aqui quererá ir morar em Olinda” (Adolph van Els), sendo proibidas quaisquer construções no perímetro urbano da antiga capital.

Observa José Antônio Gonsalves de Mello que “uma população enorme, calculada em mais 7.000 pessoas, teve de se comprimir no Recife e em Antônio Vaz [área hoje ocupada pelos bairros do Recife e de Santo Antônio]. Aí as casas eram em número insuficiente e muitos dos armazéns tinham sido incendiados”.

Ao contrário do que muitos podem pensar, foi o açúcar, e não a esperança de descobrimento de minas, o motivo principal da invasão, conforme bem demonstrou José Antônio Gonsalves de Mello. (4)

Açúcar, no dizer do padre Antônio Vieira, passou a ser sinônimo de Brasil.

______________

1) DUSSEN, Adriaen van der. Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos holandeses (1639): suas condições econômicas e sociais. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1947. 168 p. Tradução, introdução e notas de J. A. Gonsalves de Mello.

2) RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p. il. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert & Comp., 1897.

3) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638. Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12). Inclui mapas de Manoel Bandeira e índice onomástico.

4) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. 2.ed. p. 130.

OLINDA, É SÓ PARA OS OLHOS

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Carlo Pena Filho

Os cronistas que descrevem a Vila de Olinda no final da segunda metade do século XVI e nos anos que antecederam ao incêndio provocado pelos holandeses, em novembro de 1631, são unânimes em proclamar as suas belezas naturais e a imponência do seu casario, dominados por ricos conventos, belas igrejas, a grandiosidade do seu colégio e o ambiente acolhedor de suas residências.

Em sua narrativa assinala o capelão holandês Johannes Baers, além das construções religiosas e do Colégio dos Jesuítas, alguns aspectos importantes da casa urbana olindense:

As casas não são baldas, mas, cômodas e bem feitas, arejadas por grandes janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas subidas todas com largas escadarias de pedra, porque as pessoas de qualidade moram todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são de pedra dura e pesada. (¹)

Sobre o mobiliário da casa urbana, revela o reverendo que nelas “foram achados poucos móveis, como cadeiras e bancos, caixões e arcas, e outras obras de madeira e objetos domésticos, pouca prata ou dinheiro amoedado, e outras alfaias preciosas ou jóias”.

Conclui, no entanto, o cronista ser o estado de guerra que se encontrava instalado, responsável pelo abandono da por seus moradores levando o que podia de seus pertences.

Eles ao que parece fugiram com os seus tesouros e a maior parte dos seus bens para as aldeias, montes e engenhos do interior, tendo sido prevenidos da nossa chegada com alguma antecedência.

Na visão romântica do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais de 1629 a 1640, era Olinda uma “cidade formosa, situada numa curiosa situação, de prazerosa perspectiva, com edifícios suntuosos, acompanhados por raros jardins com frutos e prazeres, fontes de uma água pura e maravilhosa”.

Neste lugar houve a afluência dos mais galantes homens e mulheres, cada qual se esforçando por ultrapassar os outros em orgulho e grandeza, tanto quanto as mulheres, por sua parte, podiam fazer. Elas não economizaram tesouro algum para enfeitar-se, para enfeitiçar o coração dos seus amantes com suas belezas, tendo na mão a ajuda de perfumes odoríferos. […} Nesta cidade as classes de mulheres mais elegantes usavam em lugar de sapatos, chapins [ calçado feminino de sola grossa, de madeira, cortiça etc., usado para realçar a estatura das mulheres], de meio pé de comprido. Tampouco saíam de portas afora para a rua, mesmo que fosse pelo espaço de meia pedrada, sem serem carregadas entre dois escravos numa rede de grande valor. E sobre ela, para guardá-la do sol, um pano de rico bordado engastado de pérolas.

Ao dar continuidade a sua narrativa, o oficial inglês, usando talvez da imaginação, conta o fato de certa dama olindense que tinha por hábito banhar-se à noitinha, “quando já estava escuro, numa fonte feita para esse propósito, perto da qual havia passeios sombreados por laranjeiras e cidreiras, de modo que ela vindo refrescar-se, encontrava então, sob essas sombras, onde o próprio ar era perfumado com odor das frutas e flores, com o seu bem amado que ali a esperava”.

A dama, com um toque de sua viola ou de algum outro instrumento dava alarme ao peregrino, que com toda a diligência buscava essa emboscada. E achando-a, desafiava a outra facção que respondendo “amigo”, descarregava-lhe uma saraivada de abraços, ficando ela mesma prisioneira de sua mercê, cujo tenro coração lhe dá bom quartel e por razão de piedade a ela propicia tantos favores quantos pode fornecer suas forças. Até que a lua, ficando descoberta, começa a desalojar esses lugares e eles fogem para algum refúgio seguro e mais privado. (²)

_______________

1) BAERS, Padre João. Olinda conquistada. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 76 p. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 b). Fac-símile da ed. Recife: Typographia de Laemmert & C.- Editores, 1898. p. 40-42.

2) PUDSEY, Cuthbert. Diario de uma estada no Brasil 1629-1640. Rio de Janeiro: Index, 2000. p. 43-44.

FREI CANECA, O MÁRTIR ESQUECIDO

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A execução de Frei Caneca (detalhe), óleo do pintor palmarense Murilo La Greca

Certa vez em visita ao Recife, o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, desejou conhecer os Montes Guararapes, onde visitou a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, e o monumento em honra ao mártir pernambucano Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

O levaram ao Largo das Cinco Pontas, onde se encontra um pequenino busto e o resto de parede com uma lápide em mármore, assinalando o local do seu suplício em 13 de janeiro de 1825.

Extasiado, indagou o visitante se era tudo que existia no Recife em memória de tão ilustre liberal, e ao obter a confirmação exclamou irritado: É muito pouco para um Grande Brasileiro!

Os tempos passaram e nada foi feito para avivar a memória do mártir maior da Confederação do Equador (1824), restringindo-se tudo ao pequenino busto em cimento, junto a um resto de muro no qual se encontra afixada uma placa em mármore, com inscrição em letras pretas maiúsculas, ali colocada pelo Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (sic) na data de dois de julho de 1917:

Neste largo foi espingardeado junto à forca, a 13 de janeiro de 1825, por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo, o Patriota Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Republicano de 1817, e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824.

Nascido de uma família pobre do Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796. Ordenando-se em 1801, substituiu o seu nome de família pelo apelido dado a seu pai, que tinha a profissão de tanoeiro. Logo se notabilizou pelos seus conhecimentos de Retórica e Geometria, Direito, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático. Foi membro da Academia do Paraíso, e teve participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em seis de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde penou por quatro anos, sendo dele esses versos:

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após o episódio da dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das idéias liberais que viriam a ser defendidas pela Confederação do Equador (1824).

O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições, transformando-se no ideário dos liberais de então, partidários de Manoel de Carvalho Paes de Andrade.

Com a província de Pernambuco invadida pelas tropas imperiais, é proclamada, em dois de julho de 1824, a Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano que mais uma vez põe em armas os liberais pernambucanos. Derrotados no Recife, os revoltosos iniciam penosa marcha em direção ao Ceará, episódio narrado com cores fortes por Frei Caneca no seu Itinerário. Presos e agrilhoados retornaram ao Recife, aonde o frade vem a ser condenado à forca em sentença expedida em 10 de janeiro de 1825.

Debalde o Cabido Metropolitano comparece em procissão ao Palácio do Governo pedindo a suspensão da pena. Em represália os cônegos negaram-se a desautorar suas ordens tornando nulo, perante o Direito Canônico, todos os atos que se seguiram.

A execução foi marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825.

Na prisão mais uma vez escreve versos, despedindo-se dos amigos e das suas filhas, por ele chamadas de “afilhadas das minhas entranhas”, dormira sereno a sua última noite e, na manhã seguinte, marchou com altivez em direção ao patíbulo.

Diante de tal cena o inesperado aconteceu: carrascos convocados para execução da pena capital negaram-se executá-la, pouco se importando com as promessas e com os suplícios que lhes foram imposto pela tropa.
Diante do impasse foi à pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

Os seus restos mortais vieram a ser sepultados no Convento do Carmo, em local não determinado, o seu nome, porém, é hoje reverenciado pela grande maioria das capitais do Brasil, onde sempre existe uma Rua Frei Caneca, muito embora continue esquecido na terra que lhe serviu de berço.

E observem que existe em pleno funcionamento uma Comissão de Notáveis destinada a elaboração das Comemorações dos 200 anos da Revolução Republicana de 1817, instituída com “pompa e circunstância” pelo governador Paulo Câmara!

Que fez esta Comissão de Notáveis no transcurso da morte de Frei Caneca, um dos mártires de 1817 e a principal cabeça pensante da Confederação do Equador?

RECORDAÇÕES DO GALO D’OURO

No dia 12 de março de 2005, ao abrir os jornais para minha leitura matinal, me surpreendem as notícias: Galo d’ Ouro encerra as atividades.

Fecho os olhos e, com o sentimento de quem perdeu um ente querido, começo a divagar recordando toda uma existência de mais de quatro décadas vividas naquele simpático restaurante português da Rua Camboa do Carmo.

Em minhas recordações surge a figura do português Joaquim Marques Cassimiro (falecido em 1983), dono d’O Cassimiro, restaurante por ele fundado em 1959, que antecedeu naquela rua o Galo d’ Ouro; este adquirido por outro português, Afonso Albérico Lopes da Silva, em 1962.

Ao Cassimiro e depois ao Galo d’Ouro comecei a freqüentar ainda em companhia do meu pai, Tonico Silva, que me iniciara nos temperos da cozinha portuguesa.

Já no Jornal do Commercio, nos idos de 1965, voltei a freqüentar com mais assiduidade o Galo d’Ouro ao lado de minha mãe Ilídia, nos finais de semana, e com os colegas de redação, vez por outra, nos almoços dos sábados.

O restaurante estava situado no mesmo local, em um lote bem mais estreito, tendo em sua entrada uma vitrine frigorífica, com peixes, lagostas e outros alimentos servidos no seu cardápio.

Vieram os tempos da Faculdade de Direito e lá estava eu, no Galo d’Ouro, com minha noiva da época que tinha por preferência “Lagosta ao termidor”; ainda num tempo em que o crustáceo era servido flambado em sua própria carapaça.

É dos anos sessenta do século XX a minha amizade com Gaudêncio de Souza Aguiar, que veio a ser gerente do restaurante até os seus últimos dias, quando já era o Galo dirigido pela viúva, Zuleide, e filhos de Afonso Albérico, falecido em 31 de outubro de 2003.

É também dos anos sessenta do século XX os almoços semanais com Capiba, que tinha por prato preferido “Salada de camarão sem pepino”, e sua mulher, Zezita, cuja preferência recaía na “Perna de cabrito com batatas coradas”.

Nos anos setenta, quando o Diário de Pernambuco organizava os festejos do seu Sesquicentenário foi a vez dos saudosos encontros com Antônio Camelo, Nereu Bastos, Joezil Barros e Gladstone Vieira Belo quase todas as semanas.

Nessas últimas quatro décadas fora o Galo d’Ouro uma extensão do meu lar: Almoçar no Galo, aos domingos, era como não sair de casa.

No Galo eu vi meus filhos ensaiarem os primeiros passos e crescerem até se tornar adultos. Mariana tinha por preferência, “Tutu de feijão com batatas fritas”; enquanto Tonico, até na última vez em que lá estivemos, pedia sempre: “Língua ao molho de madeira, com talharim”.

Eu, porém, auscultando sempre a sugestão do amigo Gaudêncio, ficava entre a Perna de Cabrito e o Polvo à espanhola; este último com a recomendação, “à moda antiga”, isto é, preparado no mesmo modo dos tempos do antigo Cassimiro.

Para sobremesa, a nossa escolha era unânime: Pudim de laranja; aquele mesmo gostinho doce-amargo, que me fazia lembrar os lanches com a minha saudosa mãe nas Lojas 4.400 da Rua Nova, ou na Botijinha, na Matias de Albuquerque. – Nos últimos tempos, na falta do Pudim de laranja, dávamos preferência a inesquecível Cartola.

Tudo isso servido com a prestimosidade de antigos funcionários, por nós conhecidos pelos seus nomes próprios: Alexandre, José Joaquim (que tem uma filha por nome de Mariana), Heleno, Barbosa, Osvaldo e Roberto.

O Galo d’ Ouro não mais existe, a Camboa do Carmo, nos domingos, transformou-se em território de fantasmas; como nos versos de Chico, “tempo passou na janela, só Carolina não viu…

CLAUDIONOR, PATRIMÔNIO IMATERIAL DE PERNAMBUCO

Dentre os agraciados com o título de Patrimônio Imaterial de Pernambuco, no ano de 2016, figura o nome do consagrado intérprete da música pernambucana Claudionor Germano da Hora.

De há muito, independente da consagração oficial pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, o nome de Claudionor Germano é uma consagração em todo território pernambucano, por conta de suas interpretações dos vários ritmos do nosso Estado.

Ao surgir a Fábrica de Discos Rozenblit em 1953, para intérprete do disco de lançamento foi lembrado, por Nelson Ferreira, o nome de Claudionor Germano. Assim, sob o selo Mocambo de n º 15000-B, matriz R–501, surgiu a sua primeira gravação no frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes, orquestra da PRA 8 sob a regência do próprio Nelson Ferreira.

Assim aparecia em disco o nome de Claudionor Germano, que veio a ser o intérprete favorito da maioria dos compositores do carnaval pernambucano. Ninguém no Brasil gravou mais para o carnaval do que ele; ninguém é mais conhecido do folião pernambucano do que esse intérprete maior dos frevos de Capiba, Nelson Ferreira, José Menezes, Manuel Gilberto, Antônio Maria, Luiz Bandeira, Alceu Valença, Getúlio Cavalcanti, dentre outros monstros sagrados do nosso frevo-canção; sua voz, quando chega o carnaval, se faz presente em todos os recantos de Pernambuco e em outros estados vizinhos.

Claudionor Germano da Hora nasceu no Recife, em 19 de abril de 1932, iniciando a sua carreira artística no Rádio Club de Pernambuco, em 1947, transferindo-se depois para o Rádio Tamandaré e, finalmente, para o Rádio Jornal do Commercio, onde teve oportunidade de atuar sob a direção do maestro Guerra Peixe. Foi durante anos o cantor da Orquestra de Nelson Ferreira e, a partir do carnaval de 1954, passou a integrar o cast da Fábrica de Discos Rozenblit. Sob o selo Mocambo veio a gravar, em 1959, os discos long plays Capiba – 25 anos de frevo (LP 40039) e Nelson Ferreira  O que eu fiz e você gostou (LP 40040), no que foi seguido em 1961 com Carnaval começa com C de Capiba (LP 40053) e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira (LP 40054), que vieram consagrá-lo como o mais importante intérprete do frevo-canção de todos os tempos. Gravou ainda Sambas de Capiba (LP 40044), em 1961, com destaque no lado B para A mesma rosa amarela (Capiba e Carlos Pena Filho), um dos sucessos da bossa-nova por ele lançado nacionalmente em março de 1960: disco 78 r.p.m., Mocambo nº 18877. Entre 1966-68 participou como finalista das três versões do Festival Internacional da Canção Popular, defendendo Canção do amor que não vem (Capiba), São os do Norte que vêm (Capiba e Ariano Suassuna) e Por causa de um amor (Capiba).

No âmbito do carnaval, além das dezenas de discos em 78 R.P.M. e dos LPs citados, foi responsável pela interpretação das séries Baile da Saudade v. I e II, O Bom do Carnaval e algumas faixas do Capital do Frevo, produzido anualmente pela Mocambo com as músicas inéditas de cada ano. Gravou ainda Dôzinho e seu carnaval, Cirandas (Musicolor K20286 – 1972) e Nelson Ferreira – Meio século de frevo-canção; este último, juntamente com 25 anos de frevo de Capiba, foram reeditados em compact-disc pela Polydisc-Recife em 1993.

Foi uma presença constante em todos os festivais da música carnavalesca, notadamente do Frevança (1979-89) e Recifrevo (1990-95), participando ainda de onze compactos (45 r.p.m.) e dois LPs da série O Bom do Carnaval com a gravadora RCA; participando, ainda, das excursões do Vôo do Frevo por duas vezes nos Estados Unidos (Miami e Nova Iorque) e no Japão (Tóquio).

Graças a sua invejável memória, que lhe dá a facilidade necessária de decorar todas as letras de sua bagagem de intérprete, aliada a pronúncia exata e a dicção perfeita, bem como a facilidade na mudança de tons e o conhecimento do estilo de cada compositor, Claudionor Germano vem sendo o mais requisitado intérprete do carnaval pernambucano: é ele o intérprete favorito de Capiba, de quem já gravou 124 músicas.

Quando do surgimento da Frevioca em 1980, orquestra volante com 28 músicos por mim criada para animar o carnaval do centro do Recife, convidei Claudionor Germano e o maestro Ademir Araújo para participar daquela volante do frevo, dupla que nela permaneceu durante muitos anos.

Sobre Claudionor Germano vale transcrever parte do depoimento do crítico musical e historiador José Ramos Tinhorão na contracapa do disco O Bom do Carnaval (RCA n º 1070342), gravado em 1981, com orquestra sob a direção do maestro Edson Rodrigues:

Embora tendo começado pelas tendo começado pelas canções de Vicente Celestino, ainda na escola (“ meu Brasil para aumentar a tua glória…”), embora não podendo deixar de sofrer, já rapaz, a influência fulminante do sestroso carioca Orlando Silva (ao lado de quem chegou a cantar, menino – que emoção! – durante uma festa de homenagem aos pracinhas da FEB), embora pagando o preço da moda, ao iniciar a carreira de profissional no Rádio Club de Pernambuco, em 1949, como crooner do conjunto Ases do Ritmo, foi como cantor de música tipicamente pernambucana que o estilo de Claudionor Germano se firmou. A ponto de, já em 1967, poder surgir diante dos milhares de brasileiros de todas as regiões que se acotovelavam no Estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, durante o II Festival Internacional da Canção, como a única voz capaz de emprestar o indispensável toque à vigorosa canção de Capiba, “São os do Norte que vêm”. Atualmente tão identificado com a música de sua região que pode ser considerado o cantor oficial do Recife (quando chega o carnaval é puxador de marchas e frevos, cantando pelas ruas em cima de um caminhão chamado de frevioca, além de figura indispensável, à frente das orquestras dos grandes bailes carnavalescos dos clubes Náutico e Português), Claudionor Germano consegue, no entanto, um privilégio de que poucos artistas podem se orgulhar: sem sair de sua terra pode ser ouvido – e suas interpretações neste disco comprovam isso – como uma autêntica voz nacional.

* * *


JOSÉ ANTÔNIO E SEU CENTENÁRIO

Transcorreu no último dia 16 de dezembro de 2016 o Centenário de Nascimento de José Antônio Gonsalves de Mello, o maior historiador brasileiro do seu tempo.

A data que deveria ser comemorada com festas e fanfarras, passa em extremo silêncio, só quebrado pela aposição de um painel de azulejos na casa onde ele morou de 1946 a 1969 no bairro das Graças (Rua das Pernambucanas), graças a iniciativa de um sócio do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, Sílvio Amorim.

O Instituto Ricardo Brennand, onde encontra-se preservado toda a biblioteca e arquivo pessoal de José Antônio, realiza um painel sobre sua obra e uma exposição com seus manuscritos, retratos, condecorações e objetos diversos.

Na Universidade Federal de Pernambuco, onde ensinou por tantos anos no Departamento de História e foi criador do falecido Instituto de Ciências do Homem; na Fundação Joaquim Nabuco, da qual foi o seu primeiro diretor; no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, do qual foi presidente e por vezes mantenedor, por dezenas de anos; reina tão somente o silêncio sem qualquer manifestação digna do vulto desta figura que, por tantos méritos, deveria ser exaltada e lembrada para as novas gerações de estudiosos da história pernambucana.

Sobre ele certa vez eu escrevi…

Certa vez o poeta Mauro Mota, ao fazer a apresentação de um dos seus livros, afirmou: “o que ele diz é; e se não é, passa a ser!”.

Para os que se dedicam aos estudos históricos, o nome de José Antônio Gonsalves de Mello continuará presente por muitas gerações que terão em sua obra, parte dela ainda desconhecida, fonte de referência obrigatória, inspiração para novos caminhos e exemplo de toda uma vida dedicada à pesquisa.

Para os seus discípulos, porém, naquele sete de janeiro de 2003, o desaparecimento de José de Antônio deixou em todos o sentimento de orfandade. A sensação de perda irreparável, ausência de uma retaguarda, barco sem timoneiro, alavanca sem fulcro, insegurança e falta de estímulo para prosseguir na caminhada.

Para quem escreve estas linhas, ainda com o coração nas mãos, a ausência de José Antônio é muito mais do que tudo isso… Com o seu passamento eu, que fui dos seus discípulos o mais amado, me vi, como que de repente, sem a presença do amigo, do companheiro de inúmeras viagens por terras de Portugal, do mestre vigilante e compreensivo, do conselheiro de todas as horas, enfim, daquele pai espiritual que, desde 1966, veio atenuar uma outra lacuna, a que me foi deixada com a ausência de Tonico¹ .

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A REPÚBLICA DE 1817

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996)¹ , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense -, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

¹ MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1996

RECORDANDO NOSSOS DEZEMBROS…

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Capela e Casa Grande do Engelho da Torre

Era chegado dezembro.

A festa de Santa Luzia, com suas luzes e gente de todas as partes, anunciava às crianças do bairro que estávamos no mês das festas.

Carrossel, roda-gigante, montanha russa, casa-dos-loucos, barquinhos, onda-marinha, barracas de prendas, bares e um serviço de alto-falantes com as suas mensagens “de alguém para você” compunham a paisagem do parque de diversões.

Em frente à secular matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, toda iluminada por cordões de lâmpadas que anunciavam de longe a sua presença, mamulengos, pastoris e a retreta, animada pelas bandas do Liceu de Artes e Ofício e da Polícia Militar, encantavam os frequentadores da festa em honra da padroeira dos operários das indústrias de fiação e tecelagem.

O padre Romeu Gusmão da Fonte, recém-chegado à paróquia, era todo doação para com seus novos paroquianos que, ainda em nossos dias, o têm como um santo, refrigério de todas as horas.

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Padre Romeu Gusmão da Fonte

Estávamos em dezembro, era tempo de festas no bairro da Torre.

No Sesi e na Vila Operária, os pastoris eram o chamariz dos finais de semana. Belas pastoras, orquestras nem sempre afinadas, jornadas animadas, belas pernas a rodopiar no tablado, faziam a festa em que os leilões de prendas e ramalhetes se tornavam o alvo especial de nossas brincadeiras…

Dezembro passava célere … Num piscar de olhos já estávamos na semana do Natal…

Na pobreza da Rua Marquês de Maricá, porém, a festa não tinha a animação do São João, muito embora guardasse na singeleza dos lares o espírito natalino.

Naquelas casas não havia lugar para a figura do Papai Noel, nem muito menos para pinheirinhos cobertos de algodão, como a imitar neve neste verão tropical.

Nas salas tão somente uma miniatura da lapinha, como a lembrar o nascimento do Cristo em Belém, e nas mesas algumas iguarias em tudo estranhas às residências de maiores posses.

– Um quarto de cabrito assado, com farofa, substituía com mais graça e sabor o peru da mesa dos ricos.

Na noite do Natal as crianças, algumas com as suas roupas novas, outras tão somente com o espírito natalino a povoar os seus sonhos, brincavam na rua sem calçamento, nem iluminação pública, à espera da “missa do galo”.

Brincava-se de roda, de barra-bandeira e de outras tertúlias infantis, à espera da meia-noite quando o bairro inteiro tinha um encontro marcado na missa campal, em frente à matriz iluminada, com cânticos natalinos e pregações a cargo dos padres José Sales Tiné e Romeu da Fonte, sob o repicar dos sinos anunciando a noite de Natal.

Velhos e moços, crianças e adolescentes, abraçavam-se e desejavam, como se fizessem parte de uma grande e infinita família, os melhores votos de um Feliz Natal! …

Era a renovação construída através das gerações, tendo por cenário o então bucólico bairro, que naquele instante se confraternizava naquela noite cheia de mistérios.

Nos lares mais modestos, os bolos e, muito especialmente, os pastéis de carne de porco, cobertos com açúcar e canela, faziam parte de nossa ceia.

Era Natal, a rua humilde de casas de taipa, “cariadas, porém de pé”, para usar a imagem do poeta, parecia vestir-se de alegria e esperança.

Os meninos iam dormir sonhando com os presentes que, ao acordar, iriam encontrar sobre os seus sapatos… Presentes que, de tão modestos, tornar-se-iam descartáveis para qualquer criança dos nossos dias.

A FRACASSADA FUGA DE NAPOLEÃO PARA O BRASIL

 

Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetada em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses, para Pernambuco por ocasião da proclamação da revolução republicana.
 
Na época, era propósito dos franceses, uma vez libertado imperador, conduzi-lo aos Estados Unidos, mas caso tivesse sido vitoriosa a República de Pernambuco, proclamada em 6 de março de 1817, e Napoleão viesse a desembarcar no Recife, que imagens poderíamos captar para uma história de ficção, com a figura carismática do Corso levando a chama republicana às plagas da América do Sul.

Em 1817 transpirava-se em Pernambuco um notório descontentamento com a sua situação de uma capitania tão rica reduzida à condição de colônia de Portugal, fazendo ressurgir sentimentos separatistas acalentados desde a expulsão do governo holandês em 1654.

Jovens bacharéis egressos de Coimbra e de outras universidades européias, padres e seminaristas do Seminário de Olinda, discutiam ardorosamente nos cenáculos das cinco lojas maçônicas e nos púlpitos das igrejas, o ideário liberal proclamado pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e pelos princípios da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776).

Em 6 de março de 1817 um movimento armado contra o governo português toma conta das ruas do Recife, com o apoio do clero, das classes militares e do comércio, visando transformar Pernambuco e as demais províncias, que hoje integram o nordeste brasileiro, numa República independente de Portugal. Para isso fora enviado preso para o Rio de Janeiro o governador português, Caetano Pinto de Miranda Montenegro; promulgado um projeto de Constituição – que tinha por princípios básicos a interdependência dos três poderes, as liberdades de crença e opinião e as garantias individuais -; criada uma nova bandeira e outros símbolos da pátria; constituindo um conselho de notáveis e eleitos os representantes das classes governantes.

Para a manutenção da nova república, movimentou-se a maçonaria em conseguir apoio e recursos junto às suas lojas de Londres e, em particular, dos Estados Unidos. Para esta república foi enviado como embaixador o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pelo apelido de Cabugá. Levando em sua bagagem o desenho aquarelado da Bandeira Republicana, o texto do projeto de constituição, a Lei Orgânica, e “uma carta para o irmão presidente”, Cabugá inicia sua delicada missão nos Estados Unidos da América. Muito embora não conseguindo o prometido encontro com o presidente Madison, vem a ser recebido em audiência particular pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, para o qual relatou os propósitos e necessidades da mais nova república sul-americana.

Não foi feliz o Cabugá nos seus primeiros contatos, mas, não se sabendo porquê razões, talvez até pelo seu relacionamento com a maçonaria internacional, ele vem despertar simpatias entre os emigrados franceses, simpatizantes da causa bonapartista. Conseguiu assim contratar embarcações e marinheiros, para o transporte de armas e munições para a nova república, bem como o apoio de José Bonaparte, que viu nos novos acontecimentos a possibilidade de por em execução o plano de fuga de seu irmão, Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses em Longwood, capital de Santa Helena, uma ilha do Atlântico Sul, situada a 1.850 km da costa ocidental da África.
 
Para Alfredo de Carvalho, que disserta sobre o episódio em seu livro, Aventuras e Aventureiros no Brasil (Rio de Janeiro: Pongetti & Cia., 1929), firmara-se assim entre o embaixador da nova República de Pernambuco, Antônio Gonçalves da Cruz, e os emigrados franceses “uma espécie de contrato de auxílios mútuos: os bonapartistas deveriam ajudar os revolucionários na luta pela independência e, conseguida esta, os republicanos prestariam seu apoio à tentativa de evasão de Napoleão da prisão onde se encontrava, na ilha de Santa Helena”.

Para isso contavam os bonapartistas com as simpatias de dez mil “emigrados franceses sempre prontos a sacrificarem-se pelo seu imperador”. Para as despesas com a formação de uma frota de guerra, devidamente armada e bem municiada, bem como a contratação de soldados e marinheiros necessários, dispunham eles de quantia superior a 1 milhão de dólares.

NAPOLEÃO EM PERNAMBUCO

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.

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JOÃO SANTIAGO, O POETA DO BATUTAS

João Santiago (Recife, Mar/1928 – Nov/1985)

Dos blocos carnavalescos mistos em atividade no Carnaval do Recife, o Batutas de São José é o mais antigo, surgido que fora de uma dissidência do decano Batutas da Boa Vista. Muito embora alguns dos blocos renascidos se considerem mais longevos, somente o Batutas tem uma atividade ininterrupta desde a sua fundação, naquela tarde chuvosa de 5 de junho de 1932.

Curiosamente o Batutas de São José teve a história do seu dia-a-dia contada em versos musicados, transformados em marchas de bloco e eternizados através das vozes dos seus simpatizantes. Uma estória (muito mais estória do que história), só conhecida e interpretada por aqueles que viveram as diferentes situações do caminhar do simpático bloco de São José.

Esta singular narrativa nos é contada, ao longo de mais de três décadas, pelo compositor e carnavalesco João Santiago dos Reis. Nascido no bairro recifense da Torre, em 1º de março de 1928, filho do músico José Felipe dos Reis (fundador da Orquestra Sinfônica do Recife e da orquestra da PRA 8), inspirou-se ele em fatos corriqueiros do dia-a-dia para escrever o cancioneiro do seu bloco querido.

A partir de 1952, João Santiago, em parceria com José Felipe, transformou situações curiosas em alegres marchas de bloco. Assim surgiram: A vitória é nossa (c/ José Felipe); O adeus de Lia (c/ José Felipe); Vou com Valdemar (1958);  Convença-se (1960); Depois eu digo (c/ José Felipe); A parada é dura (c/ José Felipe); Surpresa (c/ José Felipe); Relembrando o passado (1959); Reminiscência (1961); Escuta Levino (1962); Edite no cordão (1965); Trinta anos de glória (1968), Zezé (1973); todas, em sua maioria, inspiradas no dia-a-dia da simpática agremiação do bairro de São José.

Em A vitória é nossa, outro grande sucesso em parceira com José Felipe dos Reis, dá continuidade a sua singular crônica ao descrever todo um clima que antecede o carnaval vivenciado dentro de uma agremiação carnavalesca: Chegou o Carnaval morena / Por isso Batutas anuncia / Não perderemos a porfia / Veja o que estou a afirmar / Batutas este ano vai desacatar […] / Agora o Carnaval chegou / Bandeira gritou / “Não podemos perder” / Pode crer / No que vou lhe dizer / O Batutas este ano / A vitória vai ter.

De um desentendimento entre arrendatários do bar do Batutas surgiu, em 1958, Vou com Valdemar, segundo lugar no Concurso de Músicas Carnavalescas da Prefeitura do Recife: Você! / Não se iluda com o boato / Porque! / O boato não é legal / Abandone esta confusão / Porque o Batutas / É do meu coração.  Dois anos depois, ainda inspirado no mesmo tema, foi a vez de Convença-se, terceiro lugar no mesmo concurso da Prefeitura do Recife.

Não esqueceu o nosso saudoso Joca (como era chamado pelos seus familiares) dos blocos desaparecidos do nosso Carnaval, como “Camponeses”, “Camelo”, “Pavão de Ouro”, “Bobos em Folia” e “Flor da Lira”, todos eles citados em Relembrando o Passado, marcha ainda hoje cantada em nossas ruas: … Os “Camponeses”, “Camelo” e “Pavão / “Bobos em Folia”, do Sebastião. / Também “Flor da Lira”, com seus violões / Impressionava com suas canções.

Personagens anônimos da agremiação passaram para história, graças ao lugar de destaque conquistado no repertório do Batutas de São José: o fundador Augusto Bandeira (A vitória é nossa); Edite, figura obrigatória na ala feminina do bloco (Edite no Cordão); Osmundo, um barbeiro do bairro de Iputinga que, apesar do peso da idade, sempre foi o “reco-reco de ouro” (Reminiscência); o mestre Levino Ferreira, o mais importante compositor de frevos-de-rua do carnaval pernambucano (Escuta Levino), só para citar alguns; parte dessas músicas integram o disco Rozenblit, João Santiago e os 50 anos do Bloco Batutas de São José (LP 90021) 1982.

Mas o grande sucesso da História do Batutas de São José, segundo a narrativa musical de João Santiago, ficou por conta de Sabe lá qué’ isso (sic). Escrita para o carnaval de 1952, a marcha só veio a ser gravada em 1973, pelo Quinteto Violado e Zélia Barbosa, na etiqueta Marcus Pereira, Música Popular do Nordeste v. 1 (LP 4035001), sob o título Hino do Batutas de São José; seguindo-se de um segundo lançamento, dois anos mais tarde, pelo sambista Martinho da Vila, com arranjo orquestral a cargo do pernambucano Severino Araújo que fez desse frevo um sucesso nacional, com sucessivas regravações:

Eu quero entrar na folia, meu bem
Você sabe lá o qué’ isso
Batutas de São José, isso é parece que tem feitiço
Batutas tem atrações que,
ninguém pode resistir
Um  frevo desses bem faz,
demais a gente se distinguir…

João Santiago dos Reis, um dos nomes mais esquecidos do nosso Carnaval, faleceu na emergência do Hospital Getúlio Vargas, bairro do Cordeiro, na noite de 11 de novembro de 1985; em sua homenagem o compositor Getúlio Cavalcanti escreveu Chora Batutas:

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João Santiago deixou o Batutas
Chora saudades seu pessoal
Banhistas hoje apesar das lutas
Sente a tristeza do seu rival
E abre seus braços pela partida
De quem deu vida
Ao nosso Carnaval…

EU & O INSTITUTO RICARDO BRENNAND

Ao me ver durante quinze anos convivendo com os que procuram o Instituto Ricardo Brennand, me vem lembrança certo trecho do poema “Congresso dos Ventos“, de autoria do poeta Joaquim Cardozo:

Mas apesar daquele tumultuoso debater de línguas meteóricas
Podia-se ouvir muito bem a voz lamentosa do [Vento] Nordeste:
– Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do almirante Loncq,
Na praia do Pau Amarelo
Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de D. Antônio de Oquendo
Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:
Hoje vivo ensinando a empinar papagaios…

Sim meu caro leitor, presenciando o desenrolar da história desse instituto, desde setembro de 2001, hoje não passo daquele professor de meninos, de que fala o poeta Joaquim Cardozo.bn

Naquele fatídico 11 de setembro de 2001, quando do atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque, estava eu cuidando do futuro instituto em companhia do industrial Ricardo Brennand, quando de sua visita a Mauritshuis, a casa de Maurício de Nassau, na Haia.

No dia seguinte, o acompanhei ao Museu Nacional da Dinamarca, onde foi ele convencer os curadores daquela centenária instituição a trazer para Pernambuco a exposição do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1666), que vivera no Recife no tempo do Conde João Maurício de Nassau-Siegen, e cujos quadros vieram fazer parte da mostra de inauguração do Instituto Ricardo Brennand em 12 de setembro de 2002.

O curioso era que, apesar do entusiasmo de Ricardo Brennand, o pavilhão que hoje abriga a Pinacoteca, Biblioteca e Administração encontrava-se apenas nas fundações. Em onze meses foi todo ele construído e mobiliado a fim de receber os 28 quadros da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil – 1644-2002, que aqui foi vista por 160.000 visitantes, dando o início a história desse Instituto Ricardo Brennand em terras da Várzea do Capibaribe.

O que era projeto no papel, logo se tornou realidade palpável e festejada por multidões que cada dia estão a cruzar a aleia de palmeiras imperiais em busca de um museu europeu em terras da Várzea do Capibaribe.

Nos últimos doze anos, mais de 2.029.332 pessoas já visitaram o Instituto Ricardo Brennand, motivadas pelas exposições dos pintores holandeses Albert Eckhout e Frans Post, pela sua importante coleção acerca da história do Brasil Holandês, pelo notável conjunto de armas brancas, bem como do monumental acervo de obras artísticas originárias dos mais diferentes países.

Para um museu localizado no subúrbio da Várzea, a pouco mais de 14 quilômetros do centro do Recife, a média anual superior a 150 mil visitantes surpreende até aos mais otimistas. Particularmente se comparada com a frequência anual de alguns dos mais importantes museus brasileiros, como MASP – São Paulo (230.000), Museu de Arte Moderna de São Paulo (210.000) e Museu da Inconfidência de Ouro Preto (100.000).

Durante todos esses anos, eu continuo acompanhando o caminhar desse sonho, como a repetir os versos do poeta Carlos Pena Filho: “É dos sonhos dos homens, que uma cidade se inventa“.

Novas peças estão sempre a chegar, exigindo novos estudos e pesquisas, aqui e ali tem sempre um visitante a querer esclarecer algumas dúvidas, um mestrando ou doutorando que pede uma luz para a bibliografia relativa ao tema por ele escolhido, um grupo de pesquisadores está sempre a querer mais informações, um convidado mais curioso com esta ou aquela peça…

Assim continuo eu nesta Várzea do Capibaribe, tal e qual o vento Nordeste de que fala o poeta Joaquim Cardozo, reduzido a professor de meninos, ensinando a empinar papagaios….

JOSÉ ROZENBLIT, O DONO DA MÚSICA

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José Rozenblit (1927 – 2016)

Sábado passado, quando consultava eu as páginas do Facebook, deparo-me com a notícia de Hélio Rozenblit do falecimento aos 89 anos de José Rozenblit, uma das pessoas mais idealistas que conheci nesta minha caminhada de vida.

Por um momento relembrei José Rozenblit que, no seu escritório da Estrada dos Remédios, recebia a todos com a mesma simpatia, com uma educação que lhe era marca e a paciência de ouvir a todos, dentro da limitação de cada um.

A Mocambo contava sempre com a presença dos grandes artistas da terra, que lá pontificavam particularmente nos meses que antecediam ao carnaval; compositores, intérpretes, músicos, regentes, mais ou menos conhecidos, eram recebidos por José Rozenblit que falava a linguagem de cada um.

Lá se reuniam Nelson Ferreira, Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa), Guedes Peixoto, José Menezes, Clóvis Pereira, Adelmar Paiva, Benny Wolkoff, Claudionor Germano, Expedito Baracho, Mêves Gama, Luiz Queiroga, Camarão, Lourival Vilanova, Alcides Leão, João e Raul do Rego Valença (Irmãos Valença), Mário Filho e Jorge Gomes, Ozires Silva, Ivan Ferraz, Jacinto Silva, Genival Lacerda (Senador do Rojão), Ascenso Ferreira, Sebastião Lopes, Edgard Moraes, Ademir Araújo, Fernando Borges, Nascimento do Passo, Luiz Geraldo, Arnaldo (Coruja) Francisco das Neves; era um nunca acabar de nomes todos ligados às mais diferentes expressões culturais de Pernambuco.

Na arte reinava Amaury e Ana Elizabeth Vaz, na secretaria Maria Auxiliadora Beltrão; nos estúdios Hercílio e Hélio Rozenblit e mais um bocado de gente querida que o peso da idade não mais me auxiliam nas recordações.

Assim era a Fábrica Mocambo, inaugurada pelos irmãos Rozenblit em 1952, na Estrada dos Remédios nº 855, a sua fábrica. Sob o selo Mocambo foram surgindo em discos 78 RPM (78 rotações por minuto) os mais importantes sucessos do nosso carnaval e da música regional.

Escritórios foram abertos no Rio de Janeiro (Avenida Rio Branco nº 14), São Paulo (Praça das Bandeira nº 40) e Porto Alegre (Rua do Riachuelo nº 1252).

O primeiro disco com selo Mocambo veio surgir no carnaval de 1953. Tinha o nº 15.000, matriz nº 500, trazendo na face A o frevo-de-rua Come e dorme, de Nelson Ferreira, e na face B, o frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes. Tendo por intérpretes o cantor Claudionor Germano, orquestra e coro sob a direção do próprio Nelson Ferreira. A matriz foi gravada nos estúdios do Rádio Club de Pernambuco, na Avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro, tornando-se no grande sucesso do carnaval daquele ano.

No primeiro disco despontam, além de Nelson Ferreira responsável pela direção da orquestra e arranjos, os nomes de Aldemar Paiva, que vem depois alcançar sucesso com Saudade, gravado por Alcides Gerardi, e Frevo de Saudade, este parceria com o próprio Nelson Ferreira, e o de José Menezes, já famoso pelas gravações de Freio a óleo (RCA 80075-b/1950) e Baba de moça (Continental 16661-a/1953), gravados respectivamente pelas orquestras de Zacarias e de Severino Araújo.

Sob o selo Mocambo foram surgindo em discos 78 rpm os mais importantes sucessos do nosso carnaval, como o frevo Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto, compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696. Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira, produção autônoma com o selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

Mas o grande lançamento da Mocambo para o Carnaval Brasileiro aconteceu com um frevo-de-bloco Evocação em 1957, disco em 78 rpm nº 15142 B, matriz R 791. Foi a grande criação de Nelson Ferreira, a quem coube a direção da orquestra e do coral do Bloco Carnavalesco Batutas de São José. Foi o primeiro grande sucesso produzido no Recife que veio a ser cantado em todo o país, tendo vendido centenas de milhares de cópias em todo o Brasil, graças à força do rádio e da televisão. Em qualquer festa carnavalesca a marcha tornou-se obrigatória e, mesmo nos dias atuais, é comum encontrar-se grupos de foliões cantando animadamente em uma só voz:

 Felinto…, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos ?!
Blocos das Flores…, Andaluzas…,
Pirilampos…, Apôis-Fum…
dos carnavais saudosos ?!..”
Na alta madrugada,
O coro entoava,
do bloco a marcha-regresso,
que era o sucesso
dos tempos ideais
do velho Raul Moraes:
“Adeus, adeus, minha gente,
que já cantamos bastante”…
E o Recife adormecia,
ficava a sonhar
ao som da triste melodia…

Evocação foi o grande sucesso daquele carnaval de 1957, não só no Rio de Janeiro onde a Mocambo vendia centenas de milhares de cópias, mas em todo o Brasil onde chegava a força do rádio e a televisão já se fazia presente, o que levou o seu autor, Nelson Ferreira, a sair do Recife a fim de gravar programas especiais no Rio e São Paulo.

Não somente sucessos produzidos no Recife, mas também outros, de compositores cariocas, que vieram a ter o selo Mocambo, prensados na fábrica da Estrada dos Remédios, para depois conquistar o Carnaval Brasileiro, a exemplo de Máscara Negra, marcha-rancho de Zé Kéti e Pereira de Matos, gravada por Dalva de Oliveira para o carnaval de 1967; Ôbá, com a turma do Bafo da Onça, em 1962 (nº 15403-b); Ó Malhador, Dircinha Batista, 1963 (nº 15478 b); Samba do Saci, Bloco do Bafo da Onça, 1963 (nº 15489 b); Último a saber, Dircinha Batista, 1963 (nº 15482 a); Cabeleira do Zezé, Jorge Goulart, 1964 (nº 15544 b); A índia vai ter neném, Dircinha Batista, 1964 (nº 15543).

Porém o grande sucesso de vendagem da Rozenblit, no período de 1953 a 1983, quando veio fechar as suas portas como gravadora, foi o long-play com as músicas de Lourenço da Fonseca Barbosa, campeão de todos os carnavais e que atendia pelo apelido familiar de Capiba. No disco, feito para o carnaval de 1959, sob o título Capiba – 25 anos de frevo, gravado ao vivo nos estúdios da Rozenblit, com orquestra e coro sob a direção de Nelson Ferreira e tendo como intérprete Claudionor Germano, LP nº 40039, foram reeditados sucessos carnavalescos daquele compositor produzidos entre 1934 e 1959. Juntamente com o disco de Capiba foi produzido, para o mesmo carnaval, O que eu fiz e você gostou, LP nº 40040, com frevos-canções de Nelson Ferreira, alguns deles em parceria com Sebastião Lopes, Ziul Matos, Osvaldo Santiago e Aldemar Paiva, dentre outros, que, juntamente com o primeiro, veio consagrar o cantor Claudionor Germano como o mais importante intérprete da música carnavalesca pernambucana de todos os tempos.

Também em 1959 a Rozenblit lançou Velhos Carnavais do Recife (LP 40 178), com orquestra e coro sob a direção de Nelson Ferreira. No ano seguinte, no rastro do sucesso dos dois primeiros, foram lançados Carnaval começa com C, de Capiba, e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira, também gravados ao vivo nos estúdios da Rozenblit por Claudionor Germano e orquestra sob a direção do próprio Nelson Ferreira.

Em 1973, foram relançados com nova apresentação três LPs de Capiba: 25 anos de frevo (LP 60044); Carnaval começa com C (LP 60106) e Frevo alegria da gente (LP 60060). De Nelson Ferreira vieram a ser lançados : Meio século de frevo-canção ( LP 60042); Meio século de frevo-de-rua (LP 60041); Meio século de frevo-de-bloco (LP 60040); Meio século de valsas (LP 60043), permanecendo em catálogo uma série de antologias do carnaval pernambucano, como os cinco volumes do Baile da Saudade, com Claudionor Germano e orquestra de Nelson Ferreira (LP 90005 e LP 90007) e Expedito Baracho e orquestra de Clóvis Pereira ( LP 90013 e LP 90016); Carnavalença – Carnaval dos Irmãos Valença, gravado por Expedito Baracho e orquestra de Nelson Ferreira (LP 90010) ; O Frevo Vivo de Levino Ferreira, gravado pela orquestra de José Menezes (LP 90008); Olinda Carnaval I e II, em 1979 e 1982 ( LP 20.000 e LP 20018); Grandes Frevos de Bloco ( LP 60030); Sua Exa. o frevo de rua, gravado pela Banda Municipal do Recife (LP 60059); Viva o Frevo, antes lançado com o título Frevo na gafieira (LP 40076/1959), tendo Martins do Pandeiro como intérprete, com lançamentos consecutivos em 1973 e 1979; João Santiago e os 50 anos do Bloco Batutas de São José, com orquestra e coro sob a direção do próprio João Santiago dos Reis em 1983 (LP 90021), Carnaval do Nordeste volumes I e II , gravados respectivamente pelas orquestras de Guedes Peixoto e Ademir Araújo, sob o patrocínio da Sudene (LP 90018 e LP 20021); Capiba – 86 anos, com Claudionor Germano e orquestra de Clóvis Pereira em 1990 (LP 804083).

Alguns desses lançamentos foram transformados, pela Polydisc em fitas cassetes e, mais recentemente, em compact-laser (1994), continuando o Capiba – 25 anos de frevo como o campeão de vendas ainda em nossos dias.

Hoje, tudo são lembranças…

Lembranças de um tempo de glórias e de muitas alegrias, no qual “José Rozenblit, era o dono da nossa música” (!).

O’ LINDA! O TEU NOME BEM DIZ…

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Carlos Pena Filho

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Aos olhos de quem a contempla pela primeira vez, Olinda se apresenta povoada de sonhos e tomada pela claridade a ofuscar as retinas de quem chega: de limpeza e claridade/é a paisagem defronte…

Aquele conjunto de colinas, que pouco interessou aos indígenas habitantes de suas redondezas, antes da chegada do colonizador, fascinou Duarte Coelho, que chega a Pernambuco em 1535 e vê naquelas paragens o local ideal para a construção de uma vila.

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do Brasil (1627), a denominação Olinda vem de “um galego criado de Duarte Coelho, porque, andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse [a vila], e achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria: O’ linda!”.

A versão já fora antes relatada por Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI, sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c 1696- c 1762), chegando o historiador inglês Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: “Oh! linda situação para se fundar uma vila!”.

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de Olinda e começou recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a denominação teria origem em Portugal, “mais nada natural que aquele nome fosse de alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e que ele no Brasil quisesse perpetuar […] Sabe-se também que Olinda era o nome de uma das belas damas na novela do Amadis de Gaula, cuja leitura estava então muito em voga, não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história”.

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho Pereira, de 12 de março de 1537.

Naquele documento, impropriamente chamado de Foral de Olinda, a nascente vila recebe do primeiro donatário as terras de serventia, para uso comum dos seus habitantes. Nele se faz menção à existência da Câmara, da Rua Nova (Bispo Azeredo Coutinho), das fontes de águas potável, do Varadouro Galeota (onde aquela embarcação sofreu reparos) e do Arrecife dos Navios, porto da vila que veio dar origem à cidade do Recife.

Nome poético, surgido de uma leitura de novela; ou denominação saudosista, a relembrar um sítio perdido na toponímia portuguesa; ou ainda, exclamação de um criado de Duarte Coelho, oriundo da Galícia, perdido entre as matas de cajueiros que se espalhavam na planície arenosa, hoje ocupada pelos bairros do Rio Doce e Rio Tapado, tudo serve para explicar o que há no nome: Olinda. Os olindenses, porém, a exemplo dos seus avós, têm uma explicação própria para todo esse feitiço que toma conta de quem a conhece: Quem não viu Olinda, não amou ainda!

Os cronistas que descrevem a Vila de Olinda no final da segunda metade do século XVI e nos anos que antecederam ao incêndio provocado pelos holandeses, na noite de 25 de novembro de 1631, são unânimes em proclamar as suas belezas naturais e a imponência do seu casario, dominados por ricos conventos, belas igrejas, a grandiosidade do seu colégio e o ambiente acolhedor de suas residências.

Em sua narrativa, assinala o capelão holandês Johannes Baers, além das construções religiosas e do Colégio dos Jesuítas, alguns aspectos importantes da casa urbana olindense:

As casas não são baldas, mas, cômodas e bem feitas, arejadas por grandes janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas subidas todas com largas escadarias de pedra, porque as pessoas de qualidade moram todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são de pedra dura e pesada.

Na visão romântica do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais de 1629 a 1640, era Olinda uma cidade formosa, situada numa curiosa situação, de prazerosa perspectiva, com edifícios suntuosos, acompanhados por raros jardins com frutos e prazeres, fontes de uma água pura e maravilhosa.

Uma visão de Olinda, no início do século XVII, nos é dada por Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8): Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

Na primeira metade do século XVII, a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida em todos os portos da Europa, veio a despertar a cobiça dos Países Baixos. A produção de 121 engenhos de açúcar, correntes e moentes, no dizer de van der Dussen, viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck. Uma grande armada, com 65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

Senhores da terra, os holandeses escolheram o Recife como sede dos seus domínios no Brasil, por ter nesta praça a segurança que não dispunham em Olinda.

Na noite de 25 de novembro de 1631, resolveram os chefes holandeses pôr fogo na sede da capitania de Pernambuco, a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas e nobres edifícios, arderam seus templos tão famosos, e casas que custaram tantos mil cruzados em se fazerem.

Em Olinda, a paisagem e os costumes foram assim descritos pelo Frei Manuel Calado, tudo eram delícias e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso.

Com a sua paisagem, porém, tecida de sonho e claridade, impregnada pelas diversas tonalidades de verde, nas águas do seu mar, e de azul e outras cores no crepúsculo do seu céu, Olinda vem com o passar dos anos fascinando a todos que a conhecem.

A sua vista litorânea, povoada de jangadas e outros tipos de embarcações, foi uma sedução para esses viajantes ao longo dos séculos sendo hoje fonte de deleite e de paz para o visitante e mesmo para os próprios olindenses.

Em passeio por Olinda e seus arredores, como cicerone do escritor português Ramalho Ortigão, em l887, Joaquim Nabuco assim descreve a paisagem, em artigo publicado no jornal O Paiz (Rio), quando vista do terraço da Sé de Olinda: […] não é uma dessas vistas de altura, das quais o mar fica tão abaixo aos pés do espectador, que perde o movimento e a vida, parecendo uma tela diáfana estendida sobre o fundo vazio do ar, vistas em profundidade, que dão vertigem e nas quais a perspectiva é tão longínqua como se víssemos por um óculo virado. A vista de Olinda é outra; é uma vista em comprimento, em que os planos sucedem-se uns aos outros como o desenvolvimento da mesma sensação visual, em que desde Olinda até ao Recife, e mais longe até o Cabo de Santo Agostinho.

Possuído do orgulho de ser pernambucano, enfatiza Joaquim Nabuco, com o seu poder de observador perspicaz: Para conhecer uma paisagem não basta vê-la, é preciso muito mais, é preciso que as duas almas, a do contemplador e a do lugar, cheguem a entender-se, quantas vezes elas nem mesmo se falam! Não é a todos que a natureza conta os seus segredos e inspira o seu amor, mas mesmo com os poucos de quem ela tem prazer em fazer pulsar o coração é preciso que eles se aproximem dela sem pressa de a deixar, com tempo para ouvi-la. Os viajantes nunca estão nessa disposição de espírito em que é possível estabelecer-se o magnetismo da paisagem sobre os sentidos, de fato sobre o coração. Felizmente Ramalho Ortigão é uma máquina fotográfica instantânea, que apanha num segundo o seu objetivo todo, e acontece que hoje as boas máquinas percebem e notam sombras na pele, que não se veem a olho nu, e que servem para conhecer a enfermidade latente. Ele não terá sentido os eflúvios desta nossa terra, os quais talvez seja preciso ser pernambucano para sentir e que podem não ter realidade e magia senão para nós mesmos, mas a impressão que lhe causou a nossa Veneza há-de render-nos uma pintura que durará como as gravuras holandesas do Século XVII.

EU, TONICO E O DIARIO

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Tonico – Antônio Machado Gomes da Silva (1894-1966)

Se eu disser a alguém que aprendi a ler nas letras do Diario de Pernambuco, por certo irão duvidar da minha palavra.

Pois é, na verdade fui alfabetizado aos quatro anos de idade tendo como auxílio as letras recortadas das manchetes do Diario de Pernambuco!

A aventura de ser alfabetizado, antes do tempo previsto pelos pedagogos de então, devo ao meu pai Tonico Silva. Na sua maneira simples de enfrentar desafios, Tonico confeccionou, na sua oficina do fundo do quintal, algumas dezenas de cubos de madeira, com cerca de três centímetros de lado cada um e, neles, colou as letras recortadas do Diario de Pernambuco.

Com a paciência que lhe era peculiar iniciou a sua tarefa de alfabetizador pelas cinco vogais e, logo depois, com todas as letras do alfabeto.

Juntando os cubos foram sendo formadas palavras simples, em uso no meu dia-a-dia. Primeiro as monossílabas: pá, pé, sol, lua, cão…; seguiram-se as dissílabas – ovo, uva, pato, bola, faca, facão, dedo, dedal, bote, gato, rato, dado …; as trissílabas – galinha, cavalo, cachorro, jabuti, macaco, peteca… -; até as mais “complicadas” chegando às pequenas e mais simplórias frases.

Graças ao singular processo, ia eu visualizando e decorando as palavras que logo se transformavam em frases que, reunidas, davam origem a pequenas histórias.

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Ilídia Barbosa Dantas da Silva (1912-2000), minha primeira professora

A minha mãe, Ilidia Barbosa Dantas da Silva, que era professora primária, vendo a experiência, logo adquiria a cartilha Brincar de ler – Livro de figuras (Edições Melhoramentos, 1949) que, juntando-se aos cubos de madeira, passou a dar uma maior dinâmica ao aprendizado.

Pouco tempo depois, para alegria de Tonico e Ilidia, estava eu lendo tudo que me surgia diante dos olhos; falando como um papagaio, exibindo-me diante dos amigos.

Alfabetizado sim, mas bem antes do tempo previsto pelos educadores dos anos cinqüenta do século passado. Estava eu matriculado no Jardim da Infância da Escola Experimental Governador Barbosa Lima, onde as demais crianças da minha classe longe estavam da alfabetização. Tornei-me assim o patinho feio de minha turma e, se não fosse a paciência e o devotamento de Dona Ivone Correia, minha primeira professora, o sentimento de rejeição teria sido bem maior.

Hoje, neste mês em que completo sessenta anos, posso sentir que tenho uma ligação umbilical com o Diario de Pernambuco desde os quatro anos de idade.

E, agora, depois de tanta estrada, aqui estou escrevendo o primeiro capítulo das minhas memórias no Diario de Pernambuco, o mais antigo jornal diário em língua portuguesa, onde ingressei no seu corpo de redatores em julho de 1974 e com o qual continuo a colaborar nos tempos presentes.

Recife, dezembro de 2005.

ARRUANDO PELO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO

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A cidade do Recife sofreu grandes transformações na sua paisagem quando da administração de Francisco do Rego Barros (1802-1870), que veio a ser barão, visconde e finalmente Conde da Boa Vista.

Formado em matemática pela Universidade de Paris, com apenas 35 anos de idade, foi designado presidente da província de Pernambuco, ficando no cargo de 1837 a 1844, época em que o trouxe para o Recife o engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815 – 1901), responsável pela construção do Teatro de Santa Isabel (1850) e de importantes obras públicas.

É desta época a presença na equipe de obras públicas do Governo da Província do engenheiro José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, que além dos prédios da Casa de Detenção e do Ginásio Pernambucano foi responsável pelo projeto do Cemitério Público do Senhor Bom Jesus da Redenção, criado em 1841, pela Lei Provincial nº 91, tendo sido inaugurado em 1º de março de 1851.

Trata-se de uma área plana, originalmente ocupando um terreno de 351,35 m. de fundos por 320 m. de largo, tendo ao centro uma elegante capela em estilo gótico, em forma de cruz grega, para onde convergem todas às alamedas de túmulos dando, assim, um formato estelar ao conjunto.

Seria um ponto turístico do Recife, como acontece nas diversas cidades da Europa e mesmo das Américas, mas, infelizmente, não é de visitação habitual nem indicado por nenhum dos guias por nós consultados.

Bem conservado pela atual administração municipal, o Cemitério de Santo Amaro, chama a atenção do visitante para o seu portão de entrada, trazendo na sua base a data de MDCCCLI (1851), confeccionado em ferro fundido pela firma A.C. Staar & Cia. (Fundição Aurora), a mesma responsável pelos portões do Cemitério dos Ingleses e da Ordem Terceira do Carmo do Recife.

Aleias de palmeiras imperiais marca a avenida principal, ladeada pelos primeiros túmulos do início da segunda metade do século XIX, que conduz o visitante até a capela em estilo gótico, octogonal, situada ao centro do campo santo.

Nas diversas alamedas do Cemitério de Santo Amaro, vamos encontrar singulares obras de arte de escultores diversos que estão a exibir o seu talento nos diversos túmulos alguns deles centenários.

No ponto de confluência de suas ruas, encontramos uma singular capela gótica, a primeira do seu gênero em terras pernambucanas, projetada por José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), mandada construir pela Câmara Municipal do Recife em 1853.

“Trata-se de um monumento de puro estilo gótico de cruz grega, fechada por uma só abóbada, de uma belíssima e arrojada construção, e de grandeza proporcional ao fim a que é destinada, sem campanário e sem dependências”.

Tem no seu centro uma imagem do Cristo Crucificado, em ferro, produto de fundição francesa, tendo na sua abóbada placas de mármore alusivas às diversas fases de sua construção, como as restaurações sofridas nos anos de 1899 e 1930:

A Câmara Municipal do Recife a mandou fazer em 1853,…1855, segundo o plano do engenheiro civil José Mamede Alves Ferreira.

– Reaberta e melhorada na administração do Exmo. Dr. Esmeraldino Olympio de Torres Bandeira, prefeito do Município do Recife. Em 16 de junho de 1899.

– Restaurada na administração do Exmo. Sr. Dr. Francisco da Costa Maia, prefeito do Município, 1930.

Relembrando a observação do escritor Rubem Franca (in, Monumentos do Recife – Recife, 1977): O Cemitério encerra muito da cultura de um povo. Santo Amaro, aliás, ainda aguarda quem lhe faça um estudo completo, um levantamento dos sepulcros de pernambucanos famosos e populares. Um estudo dos seus monumentos funerários, que são, alguns verdadeiras obras de arte.

Joaquim Nabuco e outros túmulos

O mais suntuoso dos túmulos é dedicado ao Patrono da Raça Negra, o abolicionista Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo (1849-1910), obra do escultor italiano Giovanni Nicolini; sendo encarregado de montar em Pernambuco outro escultor, também italiano, Renato Baretta, em novembro de 1914.

O conjunto escultórico retrata a Emancipação do Elemento Escravo, em 13 de maio de 1888, dsc_7089formado por um grupo de ex-cativos levando sobre suas cabeças o sarcófago simbólico do grande abolicionista. À frente do monumento, o busto de Joaquim Nabuco, em mármore, tendo ao seu lado uma figura de mulher (a história), que ornamenta de rosas o pedestal do busto, onde se lê: A Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nasceu a 19 de agosto de 1849. Faleceu a 17 de janeiro de 1910.

Logo em frente ao mausoléu de Joaquim Nabuco, encontra-se o túmulo de José Mariano Carneiro da Cunha (1850-1912), também destacado líder do movimento abolicionista e de sua mulher Olegária (Olegarinha) Gama Carneiro da Cunha (1860 – 1898).

Um busto em bronze do abolicionista e estátua de uma mulher chorando, conservando as inscrições: À José Mariano / o Povo / Pernambucano. / Olegária Gama Carneiro da Cunha, 16-9-1860, 24-4-1898.

Outro belo túmulo do Cemitério de Santo Amaro, porém, pertence ao Barão e da Baronesa de Mecejana: Antônio Cândido Antunes de Oliveira e Colomba Ponce de Leão.

“O túmulo é todo feito em mármore de Carrara com grande influência dos romanos, por causa do sentimento católico. O formato de tocha invertida é símbolo da morte e da expectativa de que essa luz se reacenda”, explica o escultor e responsável pela última restauração do túmulo, Jobson Figueiredo, realizada em 1999.

Sobre seu mausoléu, escreve o próprio Barão de Mecejana, em seu testamento, conservado no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, ter sido o túmulo destinado, inicialmente, a sua filha e seu genro que faleceram de uma das epidemias que assolaram o Recife na segunda metade do século XIX. A posição do barão e baronesa, em genuflexo, demonstra a atitude do casal durante a doença que vitimou o casal.

Como bem observou o escritor Clarival do Prado Valadares, in Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (1972), vale reparar também o detalhe das esculturas em mármore do barão e da baronesa, que reproduzem até a textura de uma veste rendada.

Segundo estudo da pesquisadora Semira Adler Vainsencher, da Fundação Joaquim Nabuco:

“Vários mausoléus imponentes podem ser encontrados, também, no cemitério de Santo Amaro. O do governador Manuel Antônio Pereira Borba, mais conhecido como Manuel Borba, possui uma mulher com torre na cabeça, e em seus pés um grande leão de Pernambuco. No mausoléu, uma frase que ficou famosa: Pernambuco não se deixará humilhar. E a sua efígie, com a seguinte inscrição:

Cidadãos: quando quiserdes advertir aos vossos governantes, incitar os vossos compatriotas e educar os vossos filhos, apontai-lhes o exemplo que foi Manuel Borba – probidade e caráter – lealdade – bravura cívica. MCMCCCII. [sic]”

Um passeio pelas ruas e alamedas do Cemitério de Santo Amaro se transforma num verdadeiro desfilar de nomes que se destacaram na nossa história, particularmente nos movimentos revolucionários e movimentos literários, bem como nas artes, na poesia, na música popular e na própria história pernambucana.

Uma visita ao Cemitério de Santo Amaro se torna uma verdadeira aula de sapiência das mais diversas áreas do conhecimento humano, daí o nosso convite para tão agradável arruar.

A MÚSICA NÃO CARNAVALESCA DE CAPIBA

Em 1994, o então governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti, através do Decreto nº 17.319, de onze de fevereiro, considerou o Ano Capiba da Cultura Pernambucana, em homenagem aos 90 anos do cidadão Lourenço da Fonseca Barbosa.

No dia 28 de outubro vindouro, Capiba estará comemorando 112 anos e, ao que nos consta, continua com sua obra em grande parte desconhecida não somente do grande público, mas também de todos os que se interessam pelo fazer cultural dessa figura polivalente das nossas artes.capiba

Ele é um dos Grandes de Pernambuco, para usar a imagem com a qual o poeta espanhol Unamuno denominava aos Grandes de Espanha, daí ser merecedor das homenagens e reverências de todos os pernambucanos.

Na ocasião, integrando a Comissão Especial, prevista naquele decreto, como representante da Fundação Joaquim Nabuco, fiz ver aos demais membros da necessidade do resgate de um Capiba compositor erudito, das canções românticas, das valsas, dos choros, dos oratórios e missa, dos maracatus, das canções de câmara, dos sambas de exaltação, numa produção das mais profícuas para a música brasileira.

Neste propósito, fiz entrega ao presidente da Comissão, o projeto de produção de quatro discos, sob os títulos Capiba & seus Poetas, A Grande Missa Armorial e outras composições, O Piano de Capiba, Capiba, suas canções e seus maracatus, que deveriam marcar os 90 anos de vida deste Grande de Pernambuco.

No primeiro, Capiba & seus poetas, estariam reunidas as canções de câmara, através das quais ele musicou páginas literárias de dezenas de poetas, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Pena Filho, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Geraldino Brasil, Ascenso Ferreira, dentre outros.

No segundo, A Grande Missa Armorial e outras composições, estariam, além da peça que serve de título, O Sermão da Montanha, Abertura Solene, Suite Nordestina, Sem Lei nem Rei e a peça sinfônica, por ele denominada de Bolero de Capiba, inspirada no clássico Bolero de Ravel.

Em O Piano de Capiba, seriam gravados a sua série de valsas e choros, sob a interpretação de Elyanna Caldas Silveira; restando, por último, Capiba, suas canções & seus maracatus. Neste disco teríamos as canções de exaltação (Recife cidade lendária), as românticas (Maria Betânia), as valsas (Valsa verde), as guarânias (Serenata suburbana), os sambas (A mesma rosa amarela), a música dos festivais (São os do Norte que vêm), os maracatus (É de tororó), os sambas-afro (Por causa de um amor), as cirandas (Minha ciranda), dentre outros gêneros que vêm retratar a verdadeira importância da produção musical do senhor Lourenço da Fonseca Barbosa fora da música carnavalesca.

A sua produção para o Carnaval do Recife, e porque não dizer para o Carnaval Brasileiro, já se encontra bem divulgada na série Carnaval de Capiba, formada por três LPs produzidos pela Rozenblit a partir de 1959, gravados por Claudionor Germano com a orquestra sob a direção de Nelson Ferreira. O primeiro deles, Capiba – 25 anos de frevo, foi recentemente reeditado pela Polydisc na apresentação compact disc e encontra-se à disposição do grande público nas lojas especializadas.

Resta a outra face do compositor, esquecida e dispersa em dezenas de gravações, que tentei resgatar quando do transcurso dos seus 80 anos em disco patrocinado pelo falecido Bandepe, tendo na direção musical Mário Guedes Peixoto e como intérpretes Claudionor Germano, Expedito Baracho, Carlos Reis e Zélia Barbosa. O disco, que teve o título Capiba & seus poetas / Capiba & seus poemas, logo se tornou raridade em face de sua diminuta tiragem e então mereceria uma edição em compact disc, com nova apresentação e roupagem.

Desta série de discos apenas, e tão somente, A Missa Armorial foi lançada em CD, hoje esgotado, pelo Governo do Estado. O Piano de Capiba, gravado pela competência de Elyanna Caldas Silveira Varejão, foi produzido com recursos do próprio autor e logo se esgotou das prateleiras. Os demais ficaram tão somente na sugestão e, ao que se saiba, nenhum projeto existe para eles.

JOAQUIM NABUCO: ELEIÇÕES DE 1884

Apesar de Patrono da Cultura Pernambucana, Joaquim Nabuco é figura por demais citada, em todas as camadas da população, mas muito pouco estudada e conhecida.

Como pensador social, Joaquim Nabuco notabiliza-se pelos seus pronunciamentos em favor das reformas que, segundo ele, complementariam a abolição da escravatura.

Parte delas foram propostas quando da Campanha eleitoral de 1884, cujos discursos foram reunidos, por ele, no livro Campanha Abolicionista no Recife. Eleições 1884, Rio de Janeiro, Tipografia de G. Leuzinger & Filhos, 1885 que, em 1988, recebeu da Editora Massangana uma reedição fac-similar com estudo introdutório de Fernando da Cruz Gouvêa.joaquim-nabuco

Nos seus pronunciamentos Joaquim Nabuco defende uma Lei Agrária, em 5 de novembro de 1884, falando na Praça de São José do Ribamar:

“A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado da pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra ao Estado. Eu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões – a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão. […] “Sei que falando assim, serei acusado de ser um nivelador. Mas não tenho medo de qualificativos. Sim, eu quisera nivelar a sociedade, mas para cima, fazendo-se chegar ao nível do art. 179 da Constituição do Império que nos declara todos iguais perante a lei.”

A importância do operário, do artífice, daquele que ganha o pão com o seu trabalho manual e do seu suor, não foi esquecida, por Joaquim Nabuco que, em discurso pronunciado no Campo das Princesas, na tarde de 29 de novembro de 1884, dirigido por ele à classe dos “Artistas Pernambucanos”, vaticinara em tom profético:

“Eu bem sei que vós não pesais pelo número, e não influis pela fortuna, e além disso estais desarmados por falta de organização; mas como na frase revolucionária de Sieyès, podeis desde já dizer: “O que é o operário? Nada. O que virá ele a ser? Tudo!…” […] “E por isso que vos repito, se eu tivesse que escolher uma classe com a qual devesse identificar a minha candidatura, não procuraria nem os proprietários do solo a quem chamam – a lavoira; nem os descontadores de safra a quem chamam – o comércio; nem os empregados públicos, que representam a enfermidade nacional por excelência; nem as profissões científicas, que formam uma aristocracia intelectual, grande demais para um povo tão deprimido como o nosso; escolheria sim, o insignificante, o obscuro, o desprezado elemento operário, porque está nele o germe do futuro da nossa pátria; porque o trabalho manual, somente o trabalho manual, dá força, vida e dignidade a um povo.”

Em 28 de novembro de 1884 as portas da Associação Comercial de Pernambuco foram fechadas para que Joaquim Nabuco não falasse no seu recinto sobre o movimento abolicionista. Não se dando por vencido, conclamou seus seguidores para o Largo do Corpo Santo onde, em campo aberto, falou sobre a missão do comércio:

“É estranho que os representantes do comércio nesta cidade suponham ainda que podem separar o comércio da política, que pode haver prosperidade comercial sem boas intenções sociais, e não se atrevam, eles que acolheram nas salas da Associação o recente Congresso Agrícola, simples demonstração de escravagismo, a acolher da mesma forma o movimento abolicionista! Terá sido tão demorada a evolução do comércio em Pernambuco, que no fim do século XIX, os negociantes do Recife não vejam que comércio e escravidão são termos incompatíveis? Será possível que eles ignorem que a escravidão quer dizer monopólio, que a missão do comércio em toda parte é destruir monopólios?”

No Teatro de Santa Isabel, em 12 de outubro de 1884, faz a sua profissão de fé em Pernambuco, sua província natal, onde residem “as minhas origens, o meu berço, a minha pátria” (sic). Na ocasião ele abordou a sua preocupação com o separatismo que poderia advir com um regime de caráter republicano:

“Com a identificação de alma e coração que me prende a Pernambuco tão intimamente como o filho com a mãe e de tal forma que, se por uma dessas terríveis fatalidades, que eu daria a última gota do meu sangue para evitar, esse magnífico território fosse quebrado ao meio ou em pedaços, eu pensaria tanto em não ser Pernambucano como hoje penso em não ser Brasileiro. […] Sim Senhores, sinto-me tão Pernambucano como quem melhor o seja. Ninguém, acreditai-me, faz mais sinceros nem mais ardentes votos do que eu para que Pernambuco reconquiste no futuro algum reflexo pelo menos da hegemonia Nacional que, capitania ou província, exerceu no passado, do papel que representou neste Brasil em cuja alma insuflou o espírito da nacionalidade, o espírito de independência e o espírito de liberdade!”.

Que diremos nos dias atuais deste Grande Estadista de Pernambuco?

ESCRAVOS E SINOS EM TEMPOS DO CÓLERA

A falta de saneamento básico naquele Recife do século XIX e o pouco conhecimento da Medicina, no que diz respeito ao combate das epidemias, contribuíram para a descrença e o pavor da população que, por vezes, veio procurar refúgio no sobrenatural e na medicina popular.

Das epidemias que assolaram Pernambuco no século passado foi o cólera a que maior número de vítimas causou, superando mesmo a de febre amarela. Surgida em dezembro de 1849, foi a epidemia do cólera assim descrita por um observador:

A epidemia em seu furor não poupou quase habitante algum desta cidade. Viam-se fechadas as lojas de ruas e distritos inteiros. Os sinos não deixavam de dobrar anunciando ao povo aterrado o falecimento ou o estado mórbido dos habitantes. Os médicos, exaustos de forças, não chegavam para os doentes. De noite, por todas as ruas se encontravam ricos e pobres: transluzia em todos os semblantes a incerteza do futuro e o horror do presente. (Pereira da Costa, in Anais Pernambucanos v.10, p.44).

Trazida da cidade do Porto (Portugal) para o Brasil, através dos passageiros da barca Defensora, que em maio de 1855 aportou em Belém do Pará, a epidemia do cólera logo se espalhou para outras províncias.

Em dezembro daquele ano, através da fronteira com Alagoas, o vibrião faz sua primeira vítima na vila da Papacaça (Bom Conselho), ingressando assim no território pernambucano. Com poucos meses, o cólera já ceifava vidas em Águas Belas, Buíque, São Bento do Una e Canhotinho, sendo registrados casos, também, em Tacaratu, Flores, Sertânia e Alagoa do Monteiro, na Paraíba.

Na Zona da Mata o vibrião faz sua primeira vítima no engenho Cacimbas, município de Vitória de Santo Antão, que num único dia chegou a sepultar 120 vítimas, “havendo quem contasse mais de 300 cadáveres espalhados” no cemitério público.

De Vitória para o Recife foi só questão de dias, começando o vibrião a fazer suas vítimas no bairro de São José (Diario de Pernambuco, 31.1.1856), passando para o de Santo Antônio e o da Boa Vista, chegando ao clímax em março quando, num único dia, foram sepultados 133 cadáveres no cemitério público de Santo Amaro. Em maio, o número de óbitos já alcançava 3.338, para uma população de 60.000 habitantes no Recife; no restante da província, as vítimas do cólera já somavam 32.586 mortos oficiais.

DESCRENÇA NA MEDICINA

O pouco conhecimento científico dos meios de propagação do cólera, no século passado, provocou inúmeras polêmicas entre médicos estabelecidos no Recife. Para alguns, como o médico Joaquim de Aquino Fonseca, a doença era transmitida pelos doentes infectados, daí a necessidade da desinfecção das mercadorias importadas e a quarentena das tripulações dos navios; para outros, porém, como o médico Carolino Francisco de Lima Santos, “O cólera asiático não é contagioso” (O País, 14 e 15, fevereiro, 1856), o pavor coletivo, sim, era a principal causa de sua expansão.

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OS DESENHOS ATRIBUÍDOS A FRANS POST

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Noticiário que nos chega da Holanda, dão conta que o nos Arquivos do Museu de Haarlem foram encontrado, pelo curador Alexander Brown, 34 desenhos de animais da fauna brasileira atribuídos ao pintor Frans Post (1612-1680), que esteve em Pernambuco na comitiva do Conde João Maurício de Nassau entre 1637 e 1644.

A notícia vem causando uma grande repercussão entre os que se dedicam aos estudos do Brasil Holandês (1630-1654), citando o autor do artigo Stefan Cooper, publicado na imprensa holandesa em 8 de setembro passado, a declaração de vários deles eufóricos com tais descobertas.

Aqui com os meus botões e dentro da minha insignificância, depois de ver os desenhos “atribuídos ao pintor Frans Post”, me vem as dúvidas externadas em meu livro, 1630-1654 – Holandeses em Pernambuco (Recife, 2011), ao comentar as telas de Albert Eckhout (1610-1666) expostas no Instituto Ricardo Brennand em 12 de setembro de 2002.

Os desenhos agora surgidos no Arquivo do Museu do Haarlem, na Holanda, parecem ser de autoria de Zacharias Wagner (1614-1668), outro artista integrante da comitiva do Conde João Maurício de Nassau (1637-1644) cujos esboços foram utilizados nas grandes telas de Albert Eckhout, produzidas em Pernambuco (1641) e hoje expostas no Museu Nacional da Dinamarca.256d868e-c3cf-42ba-9757-62c955708fd4-1

Sobre os artistas de sua comitiva, vale lembrar que, já no final da vida, quando de carta dirigida ao Rei Luís XIV, de França, na qual faz oferta de seus presentes brasileiros, João Maurício de Nassau afirma ter contado, durante sua estada em terras brasileiras, com os serviços de seis pintores. Tal lista seria encabeçada pelos pintores Frans Post e Albert Eckhout, seguindo-se de Zacharias Wagener (alemão de Dresden, servindo no Brasil desde 1634), do cartógrafo e também astrônomo Georg Marcgrave, de mais um outro cartógrafo Cornelis Golijath ou Jan Vingboons (este ao que parece nunca veio ao Brasil), ficando como sexto nome o do aventureiro alemão Gaspar Schmalkalden, cujo Diário de viagem (1642-1645), reunindo 128 mapas, aquarelas e desenhos do Brasil, hoje se conserva na Landsbibliothek da cidade de Gota (Alemanha).¹

Desses lembrados como parte da comitiva do Conde de Nassau em Pernambuco, sobressai o nome do alemão Zacharias Wagener (1614-1668) que, estando no Brasil entre 1634 e 1641, documentou o que viu em aquarelas formando um álbum do maior interesse para os estudiosos das artes no Brasil Holandês.

Trata-se de uma coletânea de 110 aquarelas reunidas sob o título de Thier Buch (Livro dos Animais), conservadas no Gabinete de Estampas de Dresden (Alemanha). Por sua pequena dimensão (353 x 210mm), constituindo um álbum de 130 folhas com margens não numeradas. Trata-se de um conjunto das anotações de um viajante feitas ao longo dos 35 anos, nos seus horários de folga, ao tempo em que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais. Observações por ele feitas na Europa e no Brasil, bem como quando serviu à Companhia das Índias Orientais, na China, Japão, Java e outras remotas regiões do Oriente. O artista permaneceu em atividade até a sua aposentadoria, em 1668, no posto de vice-almirante.

No Governo do Conde Nassau, esse curioso personagem exerceu as funções de despenseiro, o que facilitou o seu convívio com pintores da comitiva, Frans Post e Albert Eckhout, e homens de ciência, como o médico Willem Piso e aquele que foi um misto de inúmeros saberes, Georg Marcgrave.11a1146a-82a9-4b1a-b3cb-48f99aaa0370

Esse relacionamento aparece na semelhança existente entre algumas das lâminas do Thier Buch, compostas até o ano de 1641, com detalhes outros reproduzidos nos livros de Marcgrave (1648;1652), bem como em observações coincidentes quando da descrição do timbu, como se designam os gambás (Marsupialia, didesphidae) no Nordeste do Brasil, registradas na prancha n.º 65. Leve-se em conta, ainda, a semelhança de algumas figuras esboçadas no Thier Buch com os tipos humanos apresentados nos grandes painéis de Albert Eckhout. Uma simples consulta ao trabalho de Zacharias Wagener vai encontrar semelhanças das pranchas 93 (omem brasiliano), 94 (molher brasilianae), 95 (omem tapuya), 96 (molher tapuya), 97 (omem negro), 98 (molher negra), 99 (mulato), 100 (mameluca), isso sem contar com os detalhes coincidentes encontrados nos grandes painéis e nas naturezas produzidos na mesma época do Albert Eckhout, em Pernambuco.²

Para outros autores, dentre eles José Roberto Teixeira Leite³ , as pranchas de Zacharias Wagener serviram de fonte em que se abeberou Eckhout para elaboração de suas pinturas. Lembra, em favor do seu raciocínio, o trecho escrito por Wagener na introdução do Thier Buck, no qual observa:

[…] Se agora alguém, volvendo para este modesto trabalho o seu espírito crítico e talento artístico, achar que isso ou aqui está muito grande ou muito pequeno, comprido ou largo demais, ou de modo geral não foi feito de acordo com a arte da pintura, saída esse alguém que para ele está aberto o caminho que trilhei muitas vezes com o perigo de vida, e que, já tendo eu desbravado, cabe-lhe percorrê-lo de novo, a fim de, com sua maior capacidade, realizar trabalho mais perfeito.

E conclui José Roberto Teixeira Leite: Isso não significa que Eckhout plagiou Wagener, mas sim que aproveitou, dentro de uma praxe absolutamente normal na sua época, seus bisonhos originais – aos quais emprestou forma artística mais perfeita.4c65238f-f314-436a-b9be-0ba0a2932769-1

Como Zacharias Wagener deixou o Recife levando os seus desenhos, em 1º de abril de 1641, três anos antes de Albert Eckhout, portanto, conclui-se que os quadros em grandes dimensões deste último, retratando o homem tupi, a mulher tupi, o homem tarairiu, o guerreiro negro, a negra com a criança, a dança dos índios tarairiu, o mameluco e a mameluca, foram executados durante a sua estada em Pernambuco (1637-1644) tal como se encontra assinalado na parte inferior de cada um deles: AEckhout fecit 1641 brasil; AEckhout. fecit. 1643. brasil.; etc.

Sobre outros pintores que estiveram na comitiva do Conde de Nassau no Brasil, chama a atenção José Roberto Teixeira Leite, baseado em informação de Erick Larsen, para a presença de Gillis Pieters (1612-1653), nascido e falecido em Antuérpia (Flandres), que assina o quadro O Recife e seu Porto (Coleção Beatriz e Mário Pimenta Camargo, São Paulo), datado de 1637. O realismo daquela produção, por si só, explica a presença de seu autor em Pernambuco no ano da chegada do Conde de Nassau.


¹Brasil Holandês – A viagem de Caspar Schmalkalden de Amsterdã para Pernambuco no Brasil. Editores Cristina Ferrão e José Paulo Monteiro Soares. Transcrição e tradução Álvaro Alfredo Bragança; organização científica por Dante Martins Teixeira. Rio de Janeiro: Index, 1998.

²TEIXEIRA, Dante Martins. O Thierbuch e a Autobiografia de Zacarias Wagener – Brasil Holandês. v. II. Rio de Janeiro: Index, 1997. p. 17.

³LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: ArtLivre, 1988.

OBSERVEM COMO TRATAM O RECIFE…

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Observem como os candidatos à Prefeitura da Cidade do Recife tratam o locativo da nossa cidade:

– Desconfiem daqueles que tratam o Recife sem o artigo que, obrigatoriamente, o antecede.

– Desconfiem dos que usam “em Recife”; “de Recife”; “Recife”… pois se não sabem fazer uso no seu linguajar do dia-a-dia: no Recife, do Recife e o Recife, por certo ainda não sabem em que cidade estão vivendo (!)

A denominação da atual cidade do Recife resulta do acidente geográfico ao qual Bento Teixeira (c. 1561-1600) chamou “a cinta de pedra, inculta e viva, onde quebra Netuno a fúria esquiva” (Prosopopéa, 1601).

Sua designação é registrada pela vez primeira no “Diário de Navegação” de Pero Lopes de Souza, que denomina seu porto natural de “Barra dos Arrecifes” (1532), e no chamado Foral de Olinda (1537), no qual o primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, nomeia-o Arrecife dos Navios.

Também no mapa do cartógrafo João Teixeira Albernaz I, “Carta Leste do Brasil”, no “Livro que dá razão do Estado do Brasil” (1618), encontra-se registrado “Lugar do Recife”, menção certa aos primórdios da primitiva povoação, depois Vila de Santo Antônio do Recife (1709) e, finalmente, Cidade do Recife (1823).

Como bem demonstrou o erudito José Antônio Gonsalves de Mello , arrecife é a forma antiga do vocábulo recife, ambos originários do árabe árraçif, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, cais, molhe. Em sua forma arcaica, arracefe, o vocábulo é encontrado desde 1258 e, a partir de 1507, aparece como arrecife que, ainda no século XVI, é também consignado como recife, segundo registra o dicionarista José Pedro Machado.DSC_5222

Durante quatro séculos, a exigência do artigo definido masculino precedendo o topônimo designativo de nossa cidade foi mansa e pacificamente aceita até pelos holandeses, que nela estabeleceram a sua capital entre 1630 e 1654. Nos documentos da época, e até em gravuras – como a que aparece no livro de Joannes de Laet (1630) -, o artigo definido masculino het, ou em sua forma abreviada ’t, antecedia sempre o topônimo designativo da capital do Brasil holandês: ’t Recife.

A regra geral ensina que todo topônimo originário de um acidente geográfico é antecedido pelo artigo definido. Adverte Gonsalves de Mello, antes citado:

“Por que se originou de um acidente geográfico – o recife ou o arrecife – a designação do Recife não prescinde do artigo definido masculino: o Recife, nunca “Recife” e não “em Recife”, “de Recife”, “para Recife”. E isto pela mesma razão porque ninguém diz “em Rio”, “de Bahia”, “em Pará”, “em Amazonas”, “em Rio Grande do Sul”, “em Paraíba” etc.

Como se não bastasse à lição, Gilberto Freyre corrobora a mesma regra em seu “O Recife, sim! Recife, não! – pequeno guia do Recife escrito para não-recifenses pelo recifense de Apipucos”, no qual esclarece: todo bom brasileiro de Pernambuco diz o Recife e não “Recife”, como diz o Brasil e não “Brasil”, o Rio e não “Rio”. O recifense constata Gilberto Freyre, diz chegar ao Recife, vir para o Recife, sair do Recife, voar sobre o Recife. Quando é outro o modo de a pessoa se referir ao Recife, o recifense conclui: “é gente de fora”.

No mesmo diapasão, são as observações de Valdemar de Oliveira:

“Isso de dizer em Recife é ignorância de gente do Sul, que não sabe muito de tais coisas, só sendo de lamentar que recifenses autênticos dêem curso a essa bobagem, já numerosas vezes – e por vozes mais autorizadas que a minha – combatida, sem contradita possível. A erronia se vai alastrando, mas é dever meu contraditá-la. Porque eu sou – e com muita honra – do Recife.”

As outras vozes mais autorizadas, a que se refere Valdemar de Oliveira, seriam as do reverendo Jerônimo Gueiros, em “Cidade de Recife ou cidade do Recife?”, Revista Arquivos, nº 1, 1942; do jornalista Mário Melo, em “O nome da capital pernambucana”, Revista da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, v. 8. 1944; além do ex-reitor e fundador da Universidade do Recife, Joaquim Amazonas, e do escritor Luiz Estevão, que sobre o tema dissertaram longamente em sessão do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

Quem despreza o artigo definido masculino antes do nome de nossa cidade, por certo nunca conheceu o, nem residiu no, e muito menos é originário do Recife.

Com muito orgulho, como diria o poeta Antônio Maria.

– O Recife assim exige.

Nunca é demais observar como os pretendentes ao posto de “Burgomestre do Recife” * estão a tratar o locativo de nossa cidade!!!

* Burgomestre: primeiro magistrado municipal de certas cidades da Alemanha, Bélgica, Países Baixos e Suíça, equivalente a prefeito, no Brasil, e a presidente da Câmara, em Portugal.

AS OLIMPÍADAS DE MAURÍCIO DE NASSAU

Em 1640, a notícia da aclamação de Dom João IV como novo Rei de Portugal, pondo fim a chamada União Ibérica (1580-1640), chega a Pernambuco através do piloto da barra de Salvador, João Lopes, que fora encarregado pelo Marquês de Montalvão de vir comunicar o acontecimento ao Conde de Nassau.

“Com o seu barco todo embandeirado e dando surriada de mosquetaria”, na descrição de frei Manuel Calado, testemunha presencial dos acontecimentos, João Lopes entra no porto do Recife, contorna a península e vai ancorar “defronte das casas do Conde de Nassau saindo em terra acompanhado de muitos flamengos e judeus, que tinham acudido à praia, a ver que movimento aquele seria”.

Após a leitura da carta que lhe fora dirigida por Dom Jorge de Mascarenhas, o Conde de Nassau, para quem tudo era pretexto para festas e comemorações, começou a pensar num congraçamento em que estivessem unidos portugueses, holandeses e mazombos [filhos de pais estrangeiros, sobretudo de portugueses, que nasce no Brasil] de tal modo grandioso que viesse a ficar na lembrança das gerações que se seguiram.

Inicialmente enviou à Bahia uma embaixada, tendo à frente Dirk Codde van der Burgh, a fim de apresentar suas felicitações ao Marquês de Montalvão, que se encontrava de partida para Portugal, e aos governadores gerais da Bahia.João-Msutício-de-Nassau

Para as festas comemorativas da aclamação de Dom João IV no Recife, João Maurício mandou inicialmente aplainar as ruas de Maurícia, para os torneios que aconteceram no mês de abril de 1641.

Na descrição dessas festas vamos nos valer da pena do frei Manuel Calado que, em seu O Valeroso Lucideno e triunfo da liberdade (1648), transforma tudo numa grande tela, com suas cores fortes e vibrantes, de modo a transportar o leitor para a vivência de uma época.

Logo que João Lopes se partiu para a Bahia, tratou o Príncipe festejar a aclamação d’El-Rei Dom João com grandes festas, e ostentações de alegria, e para isto mandou terraplenar, e aplainar uma comprida carreira, que estava defronte das suas casas, e para que os cavalos se não pudessem desgarrar, mandou fazer uma estacada baixa da parte do mar, e muitos palanques, e teatros de madeira, para se assentar a gente que viesse ver as festas; e da outra parte da carreira estavam todas as casas bem providas de janelas; e logo tomada boa informação de pessoas, que bem sabiam deste particular, escreveu cartas a todos os homens mancebos, e bons cavaleiros, e que tinham cavalos regalados, era toda a Capitania de Pernambuco, para que lhe fizessem mercê de se quererem achar com seus cavalos em umas festas solenes, que pretendia fazer.

Tanto pois que os mancebos cavaleiros de Pernambuco se viram avisados por as cartas do Príncipe, logo se prepararam de custosas librés, e ricos jaezes, como se requeria para festas que se haviam de fazer em honra de seu Rei, e Senhor; e alguns houve, que para aparecerem ricamente adornados, se empenharam mais do que suas posses, e cabedal alcançava; e outros pediram emprestadas a seus amigos, e parentes muitas joias de preço, e de valor; e chegado o dia aprazado, se vieram apresentar ao Príncipe, o qual os recebeu com alegre semblante, e os hospedou à sua mesa com esplêndidos manjares, e com muitas músicas, e diversos, e acordes instrumentos.

Fez o Príncipe duas quadrilhas de cavaleiros, a saber de uma parte era o Príncipe, que capitaneava a quadrilha dos holandeses, franceses, ingleses, e alemães; e da outra parte capitaneava a quadrilha dos portugueses Pedro Marinho Falcão.

A descrição do frei Manuel Calado por si vale uma crítica de costumes, na nos proporciona informações valiosas que passaram despercebidas a outros autores do seu tempo, a exemplo da descrição dos cavalos, da forma de montar e habilidades dos cavaleiros portugueses, em contraposição aos holandeses, da preferência das mulheres da terra pelos holandeses (afirma o frei que mais de vinte delas vieram a casar com holandeses), além de outras minudências que bem revelam aspectos importantes das relações sociais de então.

A festa continua e a descrição do frade nos leva a ela:

“Preparadas todas as coisas requisitas para estas festas; as damas estrangeiras de todas as partes do Norte, postas por as janelas; e a mais gente grave subida nos palanques, e teatros, e a outra gente comum repartida cada uma por onde pôde, e o rio cheio de batéis, e barcas carregadas de homens, e mulheres. Fizeram os cavaleiros sua entrada na cidade Maurícia, que antes se chamava Santo Antônio. Desta sorte diante de todos, iam os trombetas tocando seus instrumentos; e logo se seguia o Príncipe João Maurício só, e após ele iam os cavaleiros de dois em dois, misturados um holandês, e um português; e assim deram volta por as ruas da cidade, até chegarem ao posto aonde haviam de correr; e subidos os juízes em um teatro de madeira, todo toldado de panos de seda, com uma mesa, a onde estava urna salva de prata grande com os prêmios, e joias, que se haviam de dar aos que as merecessem, por os juízes, os quais eram os do supremo Conselho, Pierre Bonjur, mestre-sala do Príncipe. Passearam a carreira os holandeses com sua quadrilha, e os portugueses com a sua; e logo o Príncipe correu só diante de todos, e os portugueses, e os holandeses de dois em dois com suas lanças, e como os holandeses todos cavalgavam à bastarda, sempre se descompunham em picar os cavalos, que suposto que eram os melhores da Capitania, que todos os de fama haviam adquirido, assim por fás, como por nefas [com ou sem razão; justa ou injustamente]; todavia em dando em suas mãos logo se deitavam a perder, porquanto os holandeses não lhes ensinavam outras habilidades mais que a dar saltos, e lhes faziam perder aquelas, que haviam aprendido em as mãos dos portugueses.

Os portugueses como todos iam à gineta corriam tão fechados nas selas, e tão compostos, e airosos, que levavam após si os olhos de todos, e principalmente os olhos das damas; porém nenhumas se poderiam gabar, que português algum de Pernambuco se afeiçoasse à mulher das partes do Norte; não digo eu para casar com ela, mas nem ainda para tratar amores, ou para alguma desenvoltura; como por o contrário o fizeram quase vinte mulheres portuguesas, que se casaram com os holandeses, ou para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges, e por predicantes hereges, porquanto os holandeses as enganaram, dizendo-lhes, que eram católicos romanos; e também, porque como eles eram senhores da terra, faziam as coisas como lhes parecia, e era mais honroso, e proveitoso; e se os país das mulheres se queixavam, não eram ouvidos, antes os ameaçavam com falsos testemunhos, e com castigos.

Enfim tornando à história, tanto que todos correram a primeira carreira, se armou a corda da argolinha; estavam postos muitos anéis de ouro com custosas pedras, e trancelins do mesmo, e voltas de cadeias de ouro, e cortes de tela, e seda, e começaram todos a correr, sendo o Príncipe João Maurício o primeiro, com umas lanças de um pau mui agudo, e de comprimento de dez até doze palmos, e os portugueses com lanças de vinte e cinco panos. E o primeiro prêmio levou Henrique Pereira, que rol uma cadeia de ouro miúda de três voltas, o segundo prêmio foi um anel de um diamante de preço, o qual ganhou João Fernandes Vieira, mas como o seu competidor no pôr das lanças foi o secretário do Príncipe, os juízes lhe quiseram dar o prêmio, e mandaram que tornassem a correr outras três lanças, porém nunca o secretário se pôde melhorar, e tanto que a João Fernandes Vieira se julgou o prêmio, ele o aceitou, e o deu ao secretário, dizendo-lhe que a ele pertencia, por melhor cavaleiro; os mais dos outros prêmios levaram os cavaleiros portugueses; e correndo no fim patos à mão, e à espada, partiu Vicente Rodrigues de Souza a carreira na sela, e logo se pôs nas ancas do cavalo, e quando se foi chegando ao pato, pôs a cabeça na sela, e levantou os pés para o alto, e deu com eles no pato, e foi acabar a carreira assentado na sela (coisa de que os holandeses ficaram admirados) já o partirem dois portugueses juntos, e abraçados, e no meio da carreira passar-se um ao cavalo do camarada nas ancas, isso era coisa ordinária, porque em Pernambuco há muitos, e mui bons homens de cavalo.

Enfim, os portugueses correram com tanto ar, e com tanta bizarria, que algumas damas inglesas, e francesas, tiraram os anéis dos dedos, e os mandaram oferecer por prêmios, só por os ver correr. Acabado este jogo se apartaram as quadrilhas, cada uma por sua parte, e vieram, como que cada um buscava seu inimigo, e quando se encontraram, indo passando uns por os outros, levavam das espadas, e se iam acutilando ao falso; e entretanto a mosquetaria, que estava emboscada, saía a dar suas surriadas; e com isso se acabou a festa deste dia.

O segundo dia de festas, no qual parece que foi somente de comedorias e bebedeiras, observa o frade sobretudo o comportamento do sexo feminino presente – as mais lindas damas, e as mais graves mulheres, holandesas, francesas, e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens -, era a alegria dessas mulheres em contraposição ao comportamento recolhido e sorumbático das matronas portuguesas:

No dia seguinte mandou o Príncipe disparar toda a artilharia, assim da terra, como do mar, e convidou a todos os cavaleiros, aonde houve muitos brindes, como é costume de sua terra, e com umas cerimônias a modo de jogo, e quem as errava lhe faziam beber três vezes em castigo de seu erro, e todas as vezes que se brindava a saúde d’El-Rei Dom João, o quarto deste nome Rei de Portugal, tinham obrigação de se levantarem todos os circunstantes com os chapéus nas mãos, e não se tornavam a cobrir, nem assentar, até que o brinde não dava volta a toda a mesa; e enquanto o brinde durava, não se calavam as trombetas, que eram muitas nem parava o estrondo das caixas de guerra; e se o banquete era jantar durava a beberronia até à noite, e se era ceia até a madrugada; e nestes convites se acharam as mais lindas damas, e as mais graves mulheres, holandesas, francesas, e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens, e arrimavam-se ao bordão de que aquele era o costume de suas terras.

No terceiro dia das comemorações pela aclamação de D. João IV, o frade nos traz a descrição de um “jogo de canas e laranjas” juntamente com a encenação de uma peça teatral em francês; praticada pelos mesmos franceses, residentes do Recife, em sua língua materna, culminando com uma pitada de malícia ao olho grande dos holandeses:

No terceiro dia ordenou o Príncipe João Maurício um jogo de canas e laranjadas, o qual se fez na Praça dos Coqueiros com muito regozijo; o Príncipe de uma parte com os de sua quadrilha, e da outra os cavaleiros portugueses, e com duas emboscadas de mosqueteiros, os quais disparavam todas as vezes que o Príncipe corria, ao som de muitas caixas, e trombetas; e ao depois se fizeram escaramuças, nas quais os portugueses deixaram muito atrás os holandeses, em destreza, e galhardia; e chegada à noite, depois da ceia, mandou e Príncipe representar uma comédia em língua francesa, com muita ostentação, suposto que poucos, ou nenhum dos portugueses entendeu a letra da comédia, senão praticada por os mesmos franceses na nossa língua materna; e no seguinte dia despediu o Príncipe os cavaleiros portugueses, com muitos agradecimentos da mercê, que lhe haviam feito em se querer achar nas suas festas.

Porém a muitos dos holandeses lhe ficou o olho aberto à vista das muitas joias, e ricas librés, de que haviam visto adornados os portugueses; e começaram a deitar traças como ordenariam algum estratagema para lh’as roubar, que este era o intento que sempre tiveram depois que entraram em Pernambuco, o tratar de roubar aos moradores, e tirar-lhes a sustância, e as vidas por todos os caminhos que podiam, e nunca fizeram obras, por as quais se julgasse que queriam conservar a terra, e os moradores dela.”

A estratégia política do Conde de Nassau mais uma vez se fez presente. Enquanto festejava com os portugueses e mazombos a aclamação do novo rei de Portugal e a sua consequente emancipação da coroa de Espanha, com promessas de uma paz duradoura entre os habitantes de Pernambuco, João Maurício já pensava em tirar vantagens do interregno das lutas para alargar o território do Brasil Holandês e conquistar novas praças na África.

O DIA DE JOAQUIM NABUCO

Joaquim Nabuco

O ano de 2009 foi dedicado ao Sesquicentenário de Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo que, nascido em 19 de agosto de 1849, na atual Rua da Imperatriz, veio a ser não somente o Patrono da Raça Negra mas o maior pensador do seu tempo.

Apesar de Patrono da Cultura Pernambucana, Joaquim Nabuco é figura por demais citada, em todas as camadas da população, mas muito pouco estudada e conhecida.

Como reformador social, Joaquim Nabuco notabiliza-se pelos seus pronunciamentos em favor das reformas que, segundo ele, complementariam a abolição da escravatura. Parte delas foram propostas quando da Campanha eleitoral de 1884, cujos discursos foram reunidos no livro Campanha Abolicionistas no Recife. Eleições 1884, Rio de Janeiro, Tipografia de G. Leuzinger & Filhos, 1885 que, em 1988, recebeu da Editora Massangana uma reedição fac-similar com estudo introdutório de Fernando da Cruz Gouvêa.

Naqueles pronunciamentos Joaquim Nabuco defende uma Lei Agrária, em 5 de novembro de 1884, falando na Praça de São José do Ribamar:

A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado da pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra ao Estado. Eu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões – a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão. […] “Sei que falando assim, serei acusado de ser um nivelador. Mas não tenho medo de qualificativos. “Sim, eu quisera nivelar a sociedade, mas para cima, fazendo-se chegar ao nível do art. 179 da Constituição do Império que nos declara todos iguais perante a lei.”

A importância do operário, do artífice, daquele que ganha o pão com o seu trabalho manual e do seu suor, não foi esquecida, por Joaquim Nabuco que, em discurso pronunciado no Campo das Princesas, na tarde de 29 de novembro de 1884, dirigido por ele à classe dos “Artistas Pernambucanos”, vaticinara em tom profético:Joaquim Nabuco - Bibli OL

Eu bem sei que vós não pesais pelo número, e não influis pela fortuna, e, além disso, estais desarmados por falta de organização; mas como na frase revolucionária de Sieyès, podeis desde já dizer: “O que é o operário”? Nada. O que virá ele a ser? Tudo!…” […] “E por isso que vos repito, se eu tivesse que escolher uma classe com a qual devesse identificar a minha candidatura, não procuraria nem os proprietários do solo a quem chamam – a lavoira; nem os descontadores de safra a quem chamam – o comércio; nem os empregados públicos, que representam a enfermidade nacional por excelência; nem as profissões científicas, que formam uma aristocracia intelectual, grande demais para um povo tão deprimido como o nosso; escolheria sim, o insignificante, o obscuro, o desprezado elemento operário, porque está nele o germe do futuro da nossa pátria; porque o trabalho manual, somente o trabalho manual, dá força, vida e dignidade a um povo.”.

Em 28 de novembro de 1884 as portas da Associação Comercial de Pernambuco foram fechadas para que Joaquim Nabuco não falasse no seu recinto sobre o movimento abolicionista. Não se dando por vencido, conclamou seus seguidores para o Largo do Corpo Santo onde, em campo aberto, falou sobre a missão do comércio:

É estranho que os representantes do comércio nesta cidade suponham ainda que podem separar o comércio da política, que pode haver prosperidade comercial sem boas intenções sociais, e não se atrevam, eles que acolheram nas salas da Associação o recente Congresso Agrícola, simples demonstração de escravagismo, a acolher da mesma forma o movimento abolicionista! Terá sido tão demorada a evolução do comércio em Pernambuco, que no fim do século XIX, os negociantes do Recife não vejam que comércio e escravidão são termos incompatíveis? Será possível que eles ignorem que a escravidão quer dizer monopólio, que a missão do comércio em toda parte é destruir monopólios?”.

No Teatro de Santa Isabel, em 12 de outubro de 1884, faz a sua profissão de fé em Pernambuco, sua província natal, onde residem “as minhas origens, o meu berço, a minha pátria” (sic). Na ocasião ele abordou a sua preocupação com o separatismo que poderia advir com um regime de caráter republicano:

Com a identificação de alma e coração que me prende a Pernambuco tão intimamente como o filho com a mãe e de tal forma que, se por uma dessas terríveis fatalidades, que eu daria a última gota do meu sangue para evitar, esse magnífico território fosse quebrado ao meio ou em pedaços, eu pensaria tanto em não ser Pernambucano como hoje penso em não ser Brasileiro. […] Sim Senhores, sinto-me tão Pernambucano como quem melhor o seja. Ninguém acreditai-me, faz mais sinceros nem mais ardentes votos do que eu para que Pernambuco reconquiste no futuro algum reflexo pelo menos da hegemonia Nacional que, capitania ou província, exerceu no passado, do papel que representou neste Brasil em cuja alma insuflou o espírito da nacionalidade, o espírito de independência e o espírito de liberdade!”.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo veio a falecer em Washington, em 17 de janeiro de 1910, como representante do Brasil junto ao Governo dos Estados Unidos, os seus restos mortais descansam no Cemitério de Santo Amaro (Recife).

A ATUALIDADE DE JOAQUIM NABUCO

O ano de 2009 foi dedicado ao Sesquicentenário de Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo que, nascido em 19 de agosto de 1849, na atual Rua da Imperatriz, veio a ser não somente o Patrono da Raça Negra mas o maior pensador do seu tempo.

Apesar de Patrono da Cultura Pernambucana, Joaquim Nabuco é figura por demais citada, em todas as camadas da população, mas muito pouco estudada e conhecida.

Como reformador social, Joaquim Nabuco notabiliza-se pelos seus pronunciamentos em favor das reformas que, segundo ele, complementariam a abolição da escravatura. Parte delas foram propostas quando da Campanha eleitoral de 1884, cujos discursos foram reunidos, por ele, no livro Campanha Abolicionista no Recife. Eleições 1884, Rio de Janeiro, Tipografia de G. Leuzinger & Filhos, 1885 que, em 1988, recebeu da Editora Massangana uma reedição fac-similar com estudo introdutório de Fernando da Cruz Gouvêa.

Naqueles pronunciamentos Joaquim Nabuco defende uma Lei Agrária, em 5 de novembro de 1884, falando na Praça de São José do Ribamar: “A propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado da pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra ao Estado. Eu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões – a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo. Uma é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão. […] “Sei que falando assim, serei acusado de ser um nivelador. Mas não tenho medo de qualificativos. Sim, eu quisera nivelar a sociedade, mas para cima, fazendo-se chegar ao nível do art. 179 da Constituição do Império que nos declara todos iguais perante a lei.”

A importância do operário, do artífice, daquele que ganha o pão com o seu trabalho manual e do seu suor, não foi esquecida, por Joaquim Nabuco que, em discurso pronunciado no Liceu de Artes e Ofícios, localizado no Campo das Princesas, na tarde de 29 de novembro de 1884, dirigido por ele à classe dos “Artistas Pernambucanos”, vaticinara em tom profético: “Eu bem sei que vós não pesais pelo número, e não influis pela fortuna, e além disso estais desarmados por falta de organização; mas como na frase revolucionária de Sieyès, podeis desde já dizer: “O que é o operário? Nada. O que virá ele a ser? Tudo!” […] “E por isso que vos repito, se eu tivesse que escolher uma classe com a qual devesse identificar a minha candidatura, não procuraria nem os proprietários do solo a quem chamam – a lavoira; nem os descontadores de safra a quem chamam – o comércio; nem os empregados públicos, que representam a enfermidade nacional por excelência; nem as profissões científicas, que formam uma aristocracia intelectual, grande demais para um povo tão deprimido como o nosso; escolheria sim, o insignificante, o obscuro, o desprezado elemento operário, porque está nele o germe do futuro da nossa pátria; porque o trabalho manual, somente o trabalho manual, dá força, vida e dignidade a um povo.”

Em 28 de novembro de 1884 as portas da Associação Comercial de Pernambuco foram fechadas para que Joaquim Nabuco não falasse no seu recinto sobre o movimento abolicionista. Não se dando por vencido, conclamou seus seguidores para o Largo do Corpo Santo onde, em campo aberto, falou sobre a missão do comércio: “É estranho que os representantes do comércio nesta cidade suponham ainda que podem separar o comércio da política, que pode haver prosperidade comercial sem boas intenções sociais, e não se atrevam, eles que acolheram nas salas da Associação o recente Congresso Agrícola, simples demonstração de escravagismo, a acolher da mesma forma o movimento abolicionista! Terá sido tão demorada a evolução do comércio em Pernambuco, que no fim do século XIX, os negociantes do Recife não vejam que comércio e escravidão são termos incompatíveis? Será possível que eles ignorem que a escravidão quer dizer monopólio, que a missão do comércio em toda parte é destruir monopólios?”
No Teatro de Santa Isabel, em 12 de outubro de 1884, faz a sua profissão de fé em Pernambuco, sua província natal, onde residem “as minhas origens, o meu berço, a minha pátria” (sic).

Na ocasião ele abordou a sua preocupação com o separatismo que poderia advir com um regime de caráter republicano: “… com a identificação de alma e coração que me prende a Pernambuco tão intimamente como o filho com a mãe e de tal forma que, se por uma dessas terríveis fatalidades, que eu daria a última gota do meu sangue para evitar, esse magnífico território fosse quebrado ao meio ou em pedaços, eu pensaria tanto em não ser Pernambucano como hoje penso em não ser Brasileiro. […] Sim Senhores, sinto-me tão Pernambucano como quem melhor o seja. Ninguém, acreditai-me, faz mais sinceros nem mais ardentes votos do que eu para que Pernambuco reconquiste no futuro algum reflexo pelo menos da hegemonia Nacional que, capitania ou província, exerceu no passado, do papel que representou neste Brasil em cuja alma insuflou o espírito da nacionalidade, o espírito de independência e o espírito de liberdade!”.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo veio a falecer em Washington, em 17 de janeiro de 1910, como representante do Brasil junto ao Governo dos Estados Unidos.

TEATRO DE SANTA ISABEL, A JOIA QUE O RECIFE ESCONDE

Quem passa pela Praça da República mal desconfia das riquezas que aquele prédio neoclássico do Teatro de Santa Isabel esconde nos seus 165 anos de existência.

É preciso adentrar, pisando nas pontas dos pés, para não fazer barulho ou arranhar o seu piso de madeira, voltar os olhos para cima, num daqueles concertos oficiais que a Orquestra Sinfônica do Recife realiza nas últimas quartas-feiras de cada mês, e se extasiar com o dourado que ofusca os olhos, numa combinação de cores, e com a emoção que invade a alma em ter aquela joia rara como patrimônio artístico e histórico de nossa cidade.

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Tudo tem início em 1840, quando o jovem engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815-1877) chega ao Recife, para trabalhar na Repartição de Obras Públicas da Província, e recebe a incumbência do governador Francisco do Rego Barros, futuro conde da Boa Vista, de projetar um Teatro de Pernambuco.

Por essa época possuía o Recife alguns teatros, sendo o mais velho deles chamado de Casa da Ópera, fundado em 1772, estando construindo um novo, Teatro Apollo, pertencente à Sociedade Harmônico-Theatral, que viria a ser inaugurado em 19 de dezembro de 1846.

Na verdade restava, tão-somente, a Casa da Ópera, que funcionava na atual Rua do Imperador, e de há muito vinha apresentando sinais de decadência já denunciados pelos viajantes Henry Koster (1810) e L. F. de Tollenare (1817), – “as senhoras da boa sociedade não assistem a elas [peças teatrais], ali se executam danças de uma lubricidade desenfreada”.

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O padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, no seu O Carapuceiro (n.º 22/1832), preferiu se referir à Casa da Ópera por sua designação popular: Teatro Capoeira.

Em 15 de outubro de 1840, registra Vauthier em seu Diário a visita por ele feita ao Teatro Central de Pernambuco (Casa da Ópera) de onde saiu bastante decepcionado.

Torturado pelos males da província, sobretudo pela inveja de outros profissionais, Vauthier conseguiu aprovar o projeto do seu teatro a duras penas. Por vezes, teve que recorrer aos jornais para responder às críticas de seus opositores, como o fez em agosto de 1841, utilizando-se das páginas do Diário de Pernambuco. O projeto para o novo teatro que Vauthier concebeu e conseguiu aprovar não obteve unanimidade. Assim, já em agosto de 1841 o francês se via compelido a fazer publicar num jornal local, o Diário de Pernambuco, um artigo em que justificava o seu projeto e rebatia as críticas que lhe eram feitas.

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No projeto do Teatro de Pernambuco, Vauthier consegue um exemplar arquitetônico inspirado no cenário do classicismo recifense, que então se afigurava: “a miscigenação de seus traços, a singularidade de suas concepções e suas afinidades com o meio construído recifense faziam do teatro uma edificação que só pode ser qualificada de pernambucana e que, se transplantada para a França, certamente lá seria considerada estrangeira”.

Em fins de 1846, Louis Léger Vauthier retorna à França, não chegando a ver concluídas as obras do seu teatro, só terminadas quatro anos mais tarde.

Depois de muito trabalho, vem a inauguração ser anunciada para o dia 14 de maio de 1850, com a encenação do drama em três atos O Pajem de Aljubarrota, mas o Teatro de Santa Isabel só veio a abrir suas portas na noite do dia 18, em face de um temporal que vários dias castigou o Recife.

O novo teatro tornou-se o ponto de encontro da sociedade de então, até que, na tarde de 19 de setembro de 1869, veio a ser tomado por um grande incêndio.

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Segundo descrição do Jornal do Recife, “hora e meia depois só restavam do majestoso edifício as paredes laterais e o seu interior era um enorme braseiro que ardeu por muito tempo”, estimando-se o prejuízo em 500 contos de réis.

Mas logo teve início a reconstrução do teatro, com suas obras entregue a responsabilidade do engenheiro pernambucano José Tibúrcio Pereira de Magalhães, autor do projeto do Teatro da Paz, de Belém do Pará (1869-1875) e da Assembleia Provincial de Pernambuco (1870-1874), duas das grandes obras representativas do classicismo arquitetônico do Império do Brasil.

Um novo e mais espaçoso teatro veio a surgir no local do antigo edifício, que teve aproveitadas as suas paredes laterais e a sua fachada em pedra lioz portuguesa. Colunas e vigas de ferro foram utilizadas na nova estrutura, telhas de barro vieram substituir a lousa francesa, mas mantendo o quanto possível as linhas mestras do projeto de Vauthier.ts

No seu interior, porém, o teatro ampliou o seu espaço interno, bem de acordo para uma sala de espetáculos à altura da cidade do Recife, possibilitando assim mais uma ordem de camarotes com a sua altura aumentada em cerca de três metros.

Do velho teatro foram incorporados ao novo, sem alterações significativas, componentes que sobreviveram ao incêndio: o pórtico frontal e as fachadas do bloco do foyer, elementos fundamentais da composição legada por Vauthier.

Desta forma, o projeto de José Tibúrcio de Magalhães reunia no seu exterior trechos preservados do teatro original, porções remanescentes deste modificadas por ampliações, e ainda partes reconstruídas que ora obedeciam ao traçado primitivo, ora configuravam uma nova fisionomia.

O Teatro de Santa Isabel veio a ser reaberto ao público na noite de 16 de dezembro de 1876, com a encenação da ópera O Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi, em alusão à alegoria do grande painel existente sobre o seu proscênio.

O local tornou-se famoso por ter sido palco das polêmicas entre os estudantes do curso jurídico, Antônio de Castro Álvares e Tobias Barreto de Menezes (1867), o primeiro exaltando Eugênia Câmara e o segundo Adelaide Amaral, ambas artistas de companhias líricas que assim tiveram lugar em páginas da literatura brasileira.

O Teatro de Santa Isabel conserva o seu interior bem ao estilo francês, possuindo colunas e frisos revestidos de metal amarelo, um rico lustre de cristal, obras em talha douradas; e, no seu salão nobre, móveis em estilo pernambucano (Berenger) e retratos do conde da Boa Vista e de Vauthier, pintados por Murillo La Greca.

Sua capacidade de público é de 878 espectadores, distribuídos na plateia e nas quatro ordens de camarotes. Pelo seu palco passaram artistas como João Caetano, Procópio Ferreira, Paulo Autran, dançou Pavlova, regeram Carlos Gomes e Marlos Nobre, foi cenário de debates cívicos, como os pronunciados por José Mariano Carneiro da Cunha e Rui Barbosa. Joaquim Nabuco, que nele pregou a Campanha Abolicionista (1884) e, ao voltar ao Recife, após a promulgação da lei que extinguiu no Brasil a escravidão (1888), exclamou: Ganhamos aqui a causa da Abolição.

O conjunto encontra-se inscrito como Monumento Nacional no livro Histórico, v. 1, n.º 260, em 31 de outubro de 1949 (Processo n.º 401-T/49).

COMO É PESADA A MINHA CRUZ…

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No dia 12 de março de 2014, a vereadora Priscila Krause resolveu comemorar o transcurso dos 477 anos de existência histórica da Cidade do Recife de forma inusitada e salutar, junto à combalida e ameaçada CRUZ DO PATRÃO.

Assim ela chamou a atenção de todos para importância de um dos mais antigos monumentos do Recife, que marca o seu desenvolvimento como porto e cidade, desde os seus primórdios no século XVI.

Da primeira metade do século XVI aos nossos dias é o primitivo Arrecife dos Navios “a porta de entrada da capitania” graças a excelência do seu porto natural, já utilizado em 1530 pela armada de Martin Afonso de Souza, em torno do qual teve origem à cidade do Recife.

As condições naturais de profundidade, abrigo das correntes e dos ventos, possibilitaram a formação sobre as areias da primitiva península do Povo dos Arrecifes, ou ainda, Ribeira do Mar dos Arrecifes dos Navios, que veio se tornar o Bairro do Recife dos nossos dias.

“Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro”, na descrição da Prosopopéa (1601), do poeta cristão-novo Bento Teixeira, obra poética escrita em Pernambuco na segunda metade do século XVI, seria a origem humilde da povoação do Recife.

Situada no cruzamento do paralelo, a oito graus e três minutos e 45,8 segundos de latitude sul, e do meridiano a 34 graus e 52 minutos e 14,8 segundos de longitude oeste, a Barra do Arrecife, assim chamada no Diário de Navegação de Pero Lopes de Souza pela Costa do Brasil até o Rio Urugay (de 1530 a 1532) veio a ser a Ribeira do Mar dos Navios, a que se refere o donatário Duarte Coelho Pereira na chamada Carta Foral de 12 de março de 1537. Era na época uma minúscula povoação de mareantes e alguns pescadores que viviam em torno em torno do Porto dos Navios e da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles denominada de Corpo Santo.

Desde a segunda metade do século XVI, fora o Recife um porto por excelência, o de maior movimento da América Portuguesa, escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco. Tal riqueza logo despertou a cobiça da Holanda que, em guerra com a Espanha, voltou suas atenções para o açúcar, produzido por 121 engenhos e exportado por meio desse porto.

Em 14 de fevereiro de 1630, utilizando a maior esquadra que até então cruzara a linha do Equador, formada por 65 embarcações e 7.280 homens, os holandeses vieram se instalar na antiga capitania Duartina, iniciando uma dominação que se estendeu até janeiro de 1654.

1. A CRUZ DO PATRÃO

Recife - 1759 Planta e plano da Villa de Santo Antônio do Recife Pernambuco

O acesso ao porto do Recife, segundo demonstram todos os mapas que tratam desta área, foi uma preocupação constante dos seus habitantes; daí a existência dos marcos de balizamento que ofereciam a orientação segura de navegação no seu canal de acesso.

Uma cruz de alvenaria aparece na planta elaborada pelo padre José Caetano em 1759, denominada: Prospecto da Vila do Recife, vista pelo lado fronteiro à Cidade de Olinda (etc.), localizada no istmo que ligava a vila do Recife à cidade de Olinda, no mesmo local onde hoje se encontra a CRUZ DO PATRÃO. Nesta versão a Cruz do Patrão aparece representada por uma coluna em alvenaria situada à beira da praia, conservando as mesmas coordenadas dos dias atuais.

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Na Planta e Plano da Villa de Santo Antônio do Recife de Pernambuco etc. e “no alistamento que se fez no anno de 1773…”, encontra-se novamente assinalada a Cruz do Patrão trazendo o nº 86.

No manuscrito sob o título Recompilação de notícias soteropolitanas e basílicas, de autoria de Luís dos Santos Vilhena, datado de 1801, e conservado na Secção de Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, novamente a Cruz do Patrão aparece assinalada com destaque.

O mesmo apenas repete o Plano da Villa de Santo Antônio de Pernambuco…, elaborado em 1780, que vem servir de base ao Plano do Porto e Praça de Pernambuco por José Fernandes Portugal (1808), onde novamente é assinalada a presença da Cruz do Patrão no mesmo local em que se encontra em nossos dias.

É desta época a existência de uma litografia, que nos foi oferecida em 2011, ao Instituto Ricardo Brennand (Recife), na qual a Cruz do Patrão, tal qual conhecemos hoje, aparece no areal do istmo nas proximidades do Forte do Buraco e no horizonte a cidade de Olinda.

2. O MONUMENTO AMEAÇADO

A Cruz do Patrão se torna em nossos dias o mais antigo monumento do Recife, estando localizada às margens do Rio Beberibe, no extremo norte do bairro do Recife, tendo servido no passado ao sistema de balizamento da entrada do ancoradouro interno do nosso porto; como a própria denominação está revelar, na sua conceituação náutica: Patrão – chefe da guarnição de embarcação pequena a remos ou a motor.

O balizamento se dava por uma linha reta formada pelo alinhamento da visão do piloto do barco com a coluna da Cruz do Patrão e esta, por sua vez, com a Igreja de Santo Amaro das Salinas; a combinação das duas imagens indicava a direção segura de navegabilidade no canal de acesso ao Porto do Recife.

Trata-se o monumento em questão de uma coluna em alvenaria, já documentada nos mapas e gravuras, desde o século XVIII. Formalmente, ainda em sua forma atual, é citada no Plano do Porto do Recife de 1814, como referência explícita ao patrão-mor [oficial encarregado de capitania dos portos ou arsenal de marinha]. A coluna em alvenaria aparece encimada por uma cruz de pedra com as iniciais INRI, ou seja, Iesus Nazarenus Rex Iudeorum, com cerca de seis metros de altura por dois de diâmetro.

Na literatura regional a Cruz do Patrão veio ser consagrada nos romances de Franklin Távora, como cenário de execuções por fuzilamento e umas tantas outras estórias envolvendo crendices, bruxarias e assombrações.

Nos dias atuais situa-se o monumento na entrada norte do Porto do Recife, nas proximidades da Fortaleza de São João Batista do Brum (1631); esta, por sua vez, considerada Monumento Nacional regularmente inscrita no Livro de História do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob o nº 43/1938.

Para valorização daquele local, basta tão somente a implantação no seu entorno de um belo e aprazível jardim, com um píer ancoradouro para barcos, de onde se possa vislumbrar no final das tarde o por do sol.

Atualmente, encontra-se a Cruz do Patrão, como objeto de processo de tombamento, Lei Estadual nº 7970, aberto pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE, aberto em 29 de agosto de 2012, conforme publicação do Diario Oficial do Estado.

O processo de tombamento lá está, dormitando nas gavetas da FUNDARPE, pois, na verdade, quem se importa com a preservação do secular monumento da CRUZ DO PATRÃO?

ARRUANDO PELO RECIFE E OLINDA: UM PASSEIO CURIOSO SOBRE OS ARRECIFES

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Quem chega a Pernambuco começa seu caminhar pelas ruas do velho Bairro do Recife: “Ali é que é o Recife / mais propriamente chamado”. Em torno dele, ao longo de seu porto, com seus três mil metros de cais acostável, estão às origens do povoamento da cidade do Recife.
De lá se avistam as ondas quebrando sobre a muralha dos arrecifes, ponto onde o visitante sentirá na alma os versos do cristão-novo Bento Teixeira, escritos ainda nos primeiros anos de nossa colonização:

Hé este porto tal, por estar posta,
Huma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva;
Antre a praya, e pedra decomposta,
O estranhado elemento se diriva,
Com tanta mansidão, q. hua fateyxa
Basta ter à fatal Argos anneyxa.

Prosopopéa, 1601.

No século XIX, ai contemplar a muralha dos nossos arrecifes, o sábio inglês Charles Darwin (1809-1882), autor da Teoria da evolução das espécies, quando esteve no Recife a bordo do navio H. M. S. Beagle, em 12 de agosto de 1836, assim registrou em seu Diário (¹):

O objeto mais curioso que observei nesta vizinhança foi o recife que forma o ancoradouro. Duvido de que em todo mundo haja outra estrutura natural que apresente aspecto tão artificial. Percorre uma extensão de vários quilômetros em absoluta linha reta, paralela à praia e pouco distante desta. A largura varia entre 30 e 60 metros e tem superfície nivelada e macia; compõe-se de arenito duro de estratificação obscura. Durante a preamar, as ondas se quebram sobre ele, mas, na vazante, a parte superior fica seca, de sorte que se apresenta como um quebra-mar construído pela mão de ciclopes.

Depois de afirmar que a formação dos arrecifes da costa pernambucana se deve a um aglutinado de restos de animais marinhos, “pelo sucessivo crescimento e morte das pequenas conchas Serpulae, juntamente com algumas bernaclas e nulliporae”, conclui:

Esses insignificantes seres orgânicos, especialmente as Serpulae, prestam excelente serviço ao povo do Recife; pois, sem o auxílio da sua proteção, a barreira de arenito, de há muito, teria sido inevitavelmente destruída, e sem essa barreira nunca haveria de existir um ancoradouro.

Nos dias atuais, uma visita aos arrecifes torna-se um passeio dos mais agradáveis, bastando tão somente embarcar em um das baiteiras (barquinhos) que se encontram ancorados no cais da Praça do Marco Zero, ou no catamarã que faz o passeio nos rios do centro da cidade, e, atravessando a bacia do porto, chega-se a grande muralha de pedra.

Um Parque de Esculturas, produzidas pelo artista Francisco Brennand no ano de 2000, para comemorar o V Centenário do Descobrimento do Brasil, vai encantar o visitante com toda a simbologia de seus mistérios.

A começar por uma grande e colossal torre em cerâmica, também chamada de Coluna de Cristal, domina o conjunto de esculturas formado por sereias – Cora, Severina, Justina, Marina, Alberta – animais mitológicos, tartarugas e guardados por velhos canhões de ferro fincados na pedra dos arrecifes que, no passado, serviam de amarração aos barcos que lá ancoravam.

Nas duas placas de bronze existentes no local o artista Francisco Brennand deixou escrito:

COLUNA DE CRISTAL

Homens vindos das cidades alcançaram as grandes florestas do mundo.

Nada melhor como símbolo desse encontro do que a ideia de uma coluna encimada pela elipse de uma flor, cujo nome é Cristal.

Os conquistadores encontraram a Árvore da Vida, catedral de folhagens guardando em seu âmago o OVO resplendente da eternidade.

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SEREIAS

Nesta sentinela avançada do Atlântico, cinco Sereias olham o tempo:

Cora, Severina, Justina, Marina, Alberta.
Cada uma representa um século.

Assim, 500 anos de descoberta. Ali, tão perto, uma coluna branca tenta ser o pouso de voos desconhecidos.

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Dos arrecifes o visitante gozará da singular vista do Forte do Picão e da cidade de Olinda, ao norte; caminhando, sobre as pedras, em direção ao sul, chegaremos às ruínas da Casa de Banhos aonde as famílias do Recife, no final do século XIX, ”vinham curtir das delícias de um banho salgado”; podendo estender o passeio até a praia do Pina.

Para a construção do atual Porto do Recife, informa Tadeu Rocha(²) :

Alteou-se a muralha dos arrecifes, construíram-se quebra-mares, fizeram-se extensos cais, ergueram-se armazéns e montaram-se guindastes. No dia 12 de setembro de 1918, o vapor São Paulo, do Lóide Brasileiro, acostou ao novo cais de cabotagem. E em 2 de outubro de 1924, o paquete Gelria, do Lóide Real Holandês, atracou no cais de dez metros, sob os aplausos do povo que acorrera ao porto para receber o belo transatlântico.

As obras do novo Porto, porém, já eram consideradas conclusas em 15 de abril de 1922 quando o Arlanza, transatlântico inglês de 14 mil toneladas, atracou em seu ancoradouro interno.

O Recife, a exemplo de outras cidades portuárias, nasceu e se desenvolveu em torno de seu porto, segundo nos ensina com muita propriedade o também recifense Josué de Castro:

A cidade nasceu como porto e a serviço imediato do porto. É este um dos seus aspectos mais singulares: em regra, constrói-se um porto para servir a uma cidade; no caso, levantaram os holandeses uma cidade para servir a seu porto. Seu primeiro fator de progressão foi o crescimento desse porto a serviço de uma região fértil, onde a indústria açucareira prosperava a largos passos. Foi o açúcar produzido nos solos aluvionais e de decomposição do nordeste, nas famosas terras de massapê, da chamada região da Mata, que constituiu, desde o começo e durante quase todos os períodos da história nordestina, o fator fundamental de propulsão e de evolução da cidade do Recife. Foi no Vale do Capibaribe, em suas margens alongadas em várzeas fecundas, que se iniciou o plantio da cana no país – plantio que se mostrou de logo extremamente vantajoso. Quando os holandeses se preocuparam em invadir Pernambuco, fizeram-no antes de tudo atraídos pelo cheiro do açúcar, produto tão disputado na época pelos mercados mundiais, e aqui chegando assentaram na entrada do vale cultivado para receberem, o mais diretamente possível, o produto da região, transportado em barcaças através do próprio rio. […] A localização desses engenhos e de outros, plantados no Vale do Beberibe, tiveram uma extraordinária influência na direção que tomou a cidade em sua evolução. Como já tivemos ocasião de aludir, anteriormente, o Recife viveu, desde suas origens, sempre atraído por duas seduções opostas: pela atração do vasto mar salpicado de caravelas e pela atração do ondulado mar dos canaviais espalhados nas grandes várzeas. (³)

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______________

DARWIN, Charles, “A muralha de pedra”, in: SILVA, Leonardo Dantas & SOUTO-MAIOR, Mário (org.).O Recife – quatro séculos de sua paisagem. Recife: Massangana, 1992, p. 166.

ROCHA, Tadeu, Roteiros do Recife (Olinda e Guararapes), 4 ed. Recife: ed. do autor, 1972, ilustrações de Hélio Feijó.

CASTRO, Josué, Fatores de localização da cidade do Recife. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947, p. 65-6.

MASSANGANA, O QUE HÁ NO NOME…

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Aproveitando uma oportunidade de excursão fui até o Engenho Massangana, em terras do Cabo de Santo Agostinho, magnificamente conservado pela Fundação Joaquim Nabuco.

Em uma exposição ali montada por técnicos daquele Fundação, o primeiro senão… Lá está escrito que o nome ENGENHO MASSANGANA foi uma criação do próprio Joquim Nabuco, ao escrever o seu livro “Minha Formação” (1911), pura inverdade como passados a refutar… pedindo, urgentemente, que o texto do primeiro painel seja reescrito pelos responsáveis (!)

Mas, afinal, o que seria Massangana?

Para Gilberto Freyre “não se deve desprezar o significado dos velhos nomes de lugares: povoados, vilas, cidades. Sob pena de se deixar de sentir o que neles é poesia e não simplesmente de história”.
Nos dicionários consultados, desde o vetusto Antônio de Moraes Silva (1813) até o clássico Laudelino Freyre, além dos atuais Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss, não se encontram quaisquer registros.

No Dicionário Lello (Porto, 1959) aparece Massangano, com a designação de “posto administrativo do concelho de Cambambe, Angola”; servindo ainda para denominar “mau clima; terrenos pantanosos”.

Palavra de origem africana, portanto, que chega até nós através de escravos angolanos para cá trazidos. Consultando o Dicionário Kimbundu-Português, de A. de Assis Júnior (Luanda, s/d), observamos que o vocábulo na sua forma masculina, Massanganu, serve como designativo de “confluência; foz. Lugar onde dois rios se juntam num só: Massanganuma Lukala ni Kuanza”; serve assim para denominar o “antigo concelho [divisão administrativa de distrito; parte de um distrito] da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, constituindo hoje a área e sede do posto deste nome, concelho de Cambambe (Dondo), distrito de Quanza-Norte, província de Luanda, compreendida na língua de terra formada pelos rios Lucala e Quanza, na margem direita deste rio”.

Tudo bem de acordo com a denominação do Engenho Massangana, em cujas terras se unem os riachos Massangano e Algodoais, que juntos formam o rio Suape, no município do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.

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Mas por que Massangana e não Massangano?

Lembra Nilo Pereira, citado por Manuel Correia de Andrade , que Alceu de Amoroso Lima, em comunicação à Academia Brasileira de Letras, informa que “é palavra masculina, vinda do africano, converte-se em palavra feminina, quando Nabuco lhe dedica, em ‘Minha Formação’, o capítulo que imortalizou a casa-grande onde a Madrinha do grande pernambucano – mais matriarca do que senhora de escravo – deu à escravidão mais um sentido de liberdade que de ofensa à condição humana”.

A conclusão do ilustre pensador, Alceu de Amoroso Lima, não parece acertada.

O vocábulo Massangana, como designação do engenho da infância de Joaquim Nabuco, já se encontra presente em documentos do século XVIII.

Ao instituir o Morgado de Nossa Senhora da Madre de Deus no Cabo de Santo Agostinho, em 28 de outubro de 1580, o vianês João Paes Barreto deu início à colonização da sesmaria que lhe fora doada pelo primeiro donatário Duarte Coelho (1535-1554) nela levantando dez engenhos, dentre os quais o Massangana.

O mesmo engenho aparece como pertencente àquele morgadio, quando da instalação da Vila do Cabo de Santo Agostinho, em 18 de junho de 1812. Criada por Alvará Régio de 27 de julho de 1811, a vila teve como seu primeiro capitão-mor o sétimo e último morgado Francisco Paes Barreto, futuro Marquês do Recife, que veio a falecer em 26 de setembro de 1848.

Massangana aparece, ainda, em anúncio do Diario de Pernambuco, no qual Dona Ana Rosa Falcão de Carvalho comunica o falecimento do seu escravo, Elias, episódio também anotado por Joaquim Nabuco em seu livro de memórias, ao transcrever parte da carta de sua madrinha comunicando o desenlace ao seu pai, Conselheiro Nabuco de Araújo…” o meu Elias o qual fez-me uma falta sensível, tanto a mim como ao meu filhinho…”.

O anúncio do Diario de Pernambuco, publicado na edição de 29 de julho de 1856, que por sua importância para o estudo da sociedade de então vai transcrito na íntegra, mostra, por outro lado, o uso corrente do vocábulo Massangana como designação daquele engenho de açúcar:

“É falecido o Elias, escravo que foi da casa Massangana. Não podemos deixar de consignar esta lembrança em memória de um indivíduo que sempre mereceu a dita de ser considerado – homem de bem; nascido no cativeiro, Elias, tornou-se, em pouco, digno de ser tido num apreço a ponto de a sua firma, pelos padecimentos do chefe da casa de Massangana, ser tão respeitada e avaliada, que deixou alguma fortuna”.

Como se não bastasse, Massangana aparece ainda como marca de afamada aguardente de cana, fabricada “no engenho de igual denominação, situado no município do Cabo”; com tal significado aparece registrado no Dicionário do Aurélio, que grafa maçangana com cedilha (aguardente de cana; cachaça). Na imprensa da época, Massangana é então sinônimo de boa cachaça:

– “Deve-lhe mandar de presente um queijinho bom, uma galinha, e algumas garrafas do champanhe de Massangana”.(O Etna n.º 27 de 1882).

– “Falar-se de festas no Cajueiro vem logicamente à idéia de uma refeição de caju com a sua inseparável massangana”. (O Binóculo nº 40 de 1882).

– “Preferidos os generosos vinhos e o champanhe, onde o patriotismo da laranjinha e da boa Massangana ?”. (O Tamoio nº 6 de 1896).

Lembra Pereira da Costa que “com o nome de Massangano existe um povoado na margem esquerda do rio São Francisco, pertencente ao município de Petrolina, e um riacho no Cabo (de Santo Agostinho)”.

O vocábulo, que na língua kimbundu serve para designar “confluência, foz; lugar onde dois rios se juntam num só”, a exemplo de tantos outros de origem africana, como maximbombo (Moçambique) que em Pernambuco veio a ser usado como maxambomba, assumiu entre nós a forma feminina pura e simplesmente, sem qualquer interferência de qualquer erudito.

Deve-se tudo, como diria o poeta Manuel Bandeira, à “língua certa do povo/ porque é ele que fala o gostoso português do Brasil”… .

PEDRO ÁLVARES CABRAL, ESSE DESCONHECIDO…

Nascido em Belmonte, em 1467 ou 1468, Pedro Álvares Gouveia usava, em 1500, o nome de família de sua genitora, Isabel de Gouveia. Somente em 1509, quando do falecimento do seu irmão mais velho, é que passou a fazer uso do nome de família do seu genitor, assinando-se Pedro Álvares Cabral.Pedro-Álvares-Cabral

Veio a ser casado com D. Isabel de Castro que, apesar de ser neta dos reis D. Fernando de Portugal e D. Henrique de Castela, bem como sobrinha de Afonso de Albuquerque (c 1462 – 1515), Governador da Índia (1508) e conquistador do Oriente, era de uma família nobre de prestígio mas desprovida de riquezas.

Por ingerência de Afonso de Albuquerque, responsável pelo união de Cabral com a sua sobrinha, o rei D. Manuel lhe concedeu, em 1514, uma tença anual de 200.000 reis; ANTT Corpo Cronológico, P 11, M.º 44, doc. 43.

Por ter recusado a participar da segunda esquadra enviada à Índia, em 1502, Cabral indispôs-se com o rei D. Manuel, passando então a viver no ostracismo, recolhido em Santarém, terra de sua mulher, aonde veio a falecer no final do ano de 1520, vitimado pela malária adquirida em Calicute, sem avaliar a real grandeza do seu feito.

Veio a ser sepultado na igreja da Graça, daquela cidade, em jazigo da família de sua mulher. Na lápide, à esquerda do altar-mor, se lê:

“Aquijaz Pedralvares Cabral e dona Isabel de Castro sua mulher cuja he esta capella e de todos os seus erdeiros a qual depois da morte de seu marido foi camareira mór da Infanta Dona Maria filha del rei Dom João o terceiro deste nome” – nenhuma referência de que ele fora o descobridor do Brasil!

Sobre esse fato, comenta Pedro Calmon, “essa lápide decorre a certeza de que Cabral morreu sem ter percebido inteiramente a importância do seu descobrimento, e, ao tempo, não parecia ele mais digno de memória do que o título de camareira-mor da infanta…. De um modo ou de outro, é ironia do destino, seja o cargo de Isabel de Castro o que mais se evidencia na inscrição sepulcral do descobridor do Brasil! Em 1520 – é certo – o Brasil ainda era vaga expressão geográfica: continuava a fascinação do Oriente e somente aí a glória… A simplicidade da lápide é um sinal a mais, da pouca estima que ligou D. Manuel ao feito de seu capitão, parcialmente recompensado, três lustros depois, graças ao parentesco de Albuquerque”; in História do Brasil. Rio: José Olympio, 1959 v. 1 p. 93.

A TRÁGICA VIAGEM DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

Numa sala de aula, diante da pergunta – Quem descobriu o Brasil?

E qualquer criança responde com precisão: Pedro Álvares Cabral!

Ao que a professora complementa: No dia 22 de abril do ano de 1500.

A verdadeira história, porém, nos seus meandros de grandeza e tragédias, só os versos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) podem melhor enunciar:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Na década final do século XV, graças aos informes seguros trazidos pelo navegador Duarte Pacheco (1460-1533), D. Manuel I, O Venturoso, resolve consolidar o chamado Caminho das Índias, descoberto por Vasco da Gama (c.1469-1524), em 1498, iniciando a exploração das terras desconhecidas ao sul do Equador.Pedro-

Para isso vem constituir uma grande esquadra formada por seis naus, três caravelas redondas, uma nau mercante, uma naveta de mantimentos, acrescida da nau-capitânia e da sota-capitânia, cujo comando, por carta régia de 15 de fevereiro de 1500, sob o comando de Pedro Álvares de Gouveia, depois Pedro Álvares Cabral, com o falecimento do seu irmão mais velho.

Na manhã de 9 de março daquele ano, zarpou de Lisboa a armada levando em seu bojo entre 1200 a 1500 homens. Na tripulação, soldados, besteiros, feitor, agentes comerciais e escrivães, além do cosmógrafo Mestre João Faras, especialista em geografia e astronomia, do capelão frei Henrique de Coimbra, oito sacerdotes seculares, oito frades franciscanos. Levava como intérprete o cristão-novo Gaspar da Gama, também conhecido como “Gaspar da Índia”, um judeu polonês, capturado por Vasco da Gama, que lá vivera 30 anos e que, em Lisboa, fora convertido ao cristianismo e batizado com o nome de família do seu padrinho.

Contando com a experiência de navegadores consagrados, como Nicolau Coelho, que acompanhara Vasco da Gama em sua primeira viagem; de Bartolomeu Dias, o primeiro a contornar o Cabo da Boa Esperança (1487) – conhecido pelos mareantes como Cabo das Tormentas ou Cabo Não -, e de seu irmão, Diogo Dias, Pedro Álvares aventurou-se no mar.

As demais naus eram comandadas por representantes da nobreza de então: Simão de Miranda Azevedo, Aires Gomes da Silva, Simão de Pina, Vasco de Ataíde, Nuno Leitão da Cunha, Pero de Ataíde, Gaspar de Lemos, Luís Pires e Simão de Pina.

Na terça-feira após a Páscoa, 21 de abril, segundo testemunho do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, foram encontradas, muita quantidade d’ervas compridas a que os mareantes chamam de botelho e assim outras, a que também chamam de rabo d’asno confirmando assim os primeiros sinais de terra.

No dia seguinte, 22 de abril de 1500, segundo a mesma fonte, pela manhã, topamos aves conhecidas por fura-buchos, e nestes dias, a hora das vésperas, houvemos vista de terra, primeiramente dum grande monte bem alto e redondo e de outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com grandes arvoredos; ao monte pôs o capitão o nome de Pascoal e à terra, Terra da Vera Cruz.

Estava assim lavrado o “Auto de Achamento do Brasil”, culminando com Pedro Álvares a série de incursões de navegadores anônimos.

Nas suas expedições, anteriores a 1500, procuravam esses anônimos portugueses, tendo a frente Duarte Pacheco, situar um ponto do desembarque oficial. De modo a obedecer a raia estabelecida a 7 de julho de 1494, quando da assinatura do Tratado de Tordesilhas, que reservara para a coroa portuguesa as terras existentes dentro das 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.

A trágica viagem

Passada uma semana, Pedro Álvares continuou sua viagem com destino à Índia, seguindo as recomendações de Vasco da Gama, navegando, no sentido sudeste, em busca do Cabo da Boa Esperança (África do Sul), denominado então pelos marinheiros de Cabo das Tormentas.

A sorte, porém, que o acompanhara até então, parece o ter abandonado: logo no dia 23 de maio, quando uma forte tempestade, já nas proximidades do cabo veio a provocar fortes baixas na esquadra. Na ocasião naufragaram as naus de Aires Gomes da Silva, Luís Pires e Simão Dias, levando consigo mais de 300 homens, seguindo-se da caravela de Bartolomeu Dias, o mesmo que houvera descoberto o dito Cabo da Boa Esperança, com 80 homens.

Somente a 16 de julho, os cinco navios restantes da esquadra vieram se reencontrar, completamente avariados e com as suas tripulações em pânico, na ilha de Quiloa, na costa do atual Quênia.

A viagem se seguiu com o que restou da primitiva frota atingindo Sofala (Moçambique), em julho, e Melinde (Quênia), a dois de agosto, onde com o apoio do xeque Omar conseguiu os serviços de um piloto hindu que a conduziu até a Índia.

Em 13 de setembro, aportaram em Calicute (Índia) a capitânia de Pedro Álvares, a sota-capitânia de Sancho Tovar, e a Anunciada, de Nuno Leitão da Cunha, além de duas outras comandadas por Nicolau Coelho e Simão de Miranda.

No final de setembro o capitão-mor teve o esperado encontro com o Samorim de Calicute – ou Samudri-Raj, o “Senhor do Mar” -, quando lhe fez entrega da carta do D. Manuel I, escrita em árabe, e presenteou-lhe com moedas de ouro e prata, sedas e brocados, recebendo em troca autorização para instalação de uma feitoria naquele movimentado centro comercial.

Mas o pior estava por vir. Enquanto os portugueses carregavam suas naus de especiarias, enfrentando a concorrência dos comerciantes árabes, que os viam como uma ameaça aos seus negócios, a esquadra veio a ser atacada, a 16 de dezembro de 1500, por cerca de 300 árabes e hindus.

Na ocasião perdeu a vida o escrivão Pero Vaz de Caminha, juntamente com o feitor Aires Corrêa, seis frades franciscanos e 50 outros portugueses. Em represália, segundo relato do Piloto Anônimo, foi Calicute bombardeada durante dois dias pelos portugueses “matando infinita gente e causando muito dano à cidade”.

Em seguida Pedro Álvares buscou abrigo no reino de Cochim (hoje a maior cidade do estado de Kerala, na costa do Malabar), distante 200 km de Calicute, para onde se dirigiu no dia 20 de dezembro. O rajá local, rival de Calicute, permitiu a instalação de uma feitoria e o carregamento das naus de pimenta, gengibre, canela e outras especiarias.

Em 16 de janeiro de 1501, com uma cabeça de ponte instalada em Cochim, na Índia, os navios que restaram da esquadra de Pedro Álvares iniciaram sua viagem de retorno a Lisboa.

No seu regresso foi encontrar em Bezeguiche, hoje Dakar, a nau desgarrada de Diogo Dias, com uma tripulação de apenas sete homens, e, numa feliz coincidência, com a expedição de Gonçalo Coelho que seguia em busca do Brasil.

Dos treze navios somente regressaram a Lisboa, a nau Anunciada, sob o comando de Nuno Leitão da Cunha, em 23 de junho de 1501, seguindo-se depois da nau capitânia de Pedro Álvares, que veio aportar no Tejo a 21 de julho de 1501, unindo pela primeira vez os quatro: Europa, América, África e Ásia.

O restante dos navios e suas tripulações pereceram no mar, juntamente com todos os seus tripulantes; bem de acordo com a descrição do poeta Fernando Pessoa:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

1649: GUARARAPES, A CARTADA FINAL…

Após o primeiro confronto, nos Montes Guararapes, em 19 de abril de 1648, os exércitos da Companhia das Índias Ocidentais permaneceram por quase um ano recolhidos ao Recife, mantendo em incursões por outros locais da costa do Nordeste do Brasil, enquanto os luso-brasileiros se transformavam em senhores das vias de comunicação com o interior e dos centros de produção da capitania.

A partir dessa época os membros do Grande Conselho, sitiados no Recife, bem como alguns diretores da Companhia das Índias Ocidentais, na Holanda, passaram a repensar os seus planos para o futuro de sua colônia no Brasil.

Sem controle dos centros produtores, que no passado produziam por vezes 4.484 toneladas de açúcar em um só ano (1642), se viam então dependentes do tráfico marítimo e até das rações que lhes mandavam da Europa.

Depois de uma incursão na região açucareira do Recôncavo, na Bahia, a frota do almirante Witte de With retorna ao Recife e em levantamento feito pelo Grande Conselho verifica que suas forças, naquela ocasião, eram de 6.000 soldados brancos, acrescidos de 600 índios tapuias e negros. Verificou-se que um quinto do efetivo encontrava-se enfermo, havendo outros prestando serviço a bordo dos navios, o que reduzia tal efetivo para 5.100 homens, havendo 200 que haviam concluído o tempo de serviço e estavam de volta à Europa.

Em reunião realizada na casa do General Sigmund von Schkoppe, nos dias 15 e 16 de setembro de 1648, insistiu o Grande Conselho numa nova investida contra os insurretos do Recife porque alguma coisa é preciso arriscar-se nesta guerra. Os oficiais mostraram-se favoráveis a um ataque ao Rio de Janeiro e/ou à enseada do Cabo de Santo Agostinho, de onde eram enviados os barcos com o açúcar produzido na capitania de Pernambuco, no que não concordavam os membros do Conselho.

Tal decisão ia de encontro à do General Sigmund von Schkoppe, ainda convalescente do ferimento que sofrera na primeira batalha dos Guararapes. Era ele de opinião que se armasse uma esquadra para tomada da praça do Rio de Janeiro, ao constatar as poucas possibilidades de rompimento do cerco feito pelos luso-brasileiros em Pernambuco.

Contrariando o velho cabo de guerra o Conselho Holandês preferiu reunir o exército e assim enfrentar mais uma vez as tropas comandadas pelo general português Francisco Barreto de Menezes.

Para essa nova incursão, foram destacados 3.060 soldados brancos, 250 marinheiros e 200 índios, sob o comando de Pedro Poti, totalizando 3.510 homens. O comando geral das tropas foi confiado ao Tenente General Johan van den Brincken; trazendo os soldados em suas mochilas ração para oito dias, e os marinheiros levavam consigo cinco ou seis peças de artilharia de campo.

Do lado dos luso-brasileiros foi de grata surpresa a chegada, em 4 de agosto de 1648, ao Arraial Novo do Bom Jesus (hoje, Torrões), de 300 infantes do Terço das Ilhas, sob o comando do mestre de campo Francisco Figueiroa. Vinha a tropa munida de armamento moderno; conforme observa o Relatório do Coronel Miguel van Goch ao Conselho de Governo: as espingardas do inimigo alcançavam mais longe do que as nossas e que o inimigo estava armado de arcabuzes compridos e de meio croque.¹

Na noite de 17 de fevereiro de 1649, um exército de 3.510 homens, sob o comando do Tenente General Johan van den Brincken, saiu do Recife em direção aos Afogados. De lá, cruzou o rio e marchou para a Barreta (terras que hoje correspondem às de Boa Viagem), em busca dos Montes Guararapes, ao som de muitas trombetas, clarins e caixas.

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1848 – BATALHA DOS GUARARAPES

12.Primeira Batalha dos Guararapes. Pintado em Portugal por

Primeira Batalha dos Guararapes. Pintado em Portugal

Na primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 19 de abril de 1648, o exércitos luso-brasileiro era formado por 2.200 homens, divididos em quatro terços, comandados pelos mestres de campo João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, o governador dos Índios, capitão-mor Filipe Camarão, e o governador dos pretos, Henrique Dias, não dispondo de qualquer peça de artilharia.

A técnica portuguesa de combate, posta em prova quando das guerras contra Espanha, no Alentejo, seguia o figurino das guerras de Flandres. Eram os exércitos formados por Terços de Infantaria, constituídos de 2.000 homens, subdivididos em companhias de 200 homens cada uma, formadas por igual número de piqueiros e arcabuzeiros. Os piqueiros eram armados com um longo pique (lanças com 18 pés de comprimento), espada, peitoral e celada; os arcabuzeiros, sem armadura defensiva, dispunham apenas do arcabuz ou espingarda de mecha com sua forquilha e uma adaga.

Nas guerras europeias, marchavam em formação de grandes quadrados de 50 piqueiros em cada face, rodeados e flanqueados nos vértices por outros quadrados de arcabuzeiros, alternando assim as descargas de armas de fogo com as cargas de armas brancas.

Nas Guerras Brasílicas, porém, tais conhecimentos cediam lugar à malícia e ao elemento surpresa, desenvolvido pelos índios, e pela improvisação, obedecendo a topografia e a vegetação do terreno; tudo aliado ao denodo dos combatentes e sua inigualável técnica em manobrar com a espada.

Documento holandês datado de 9 de julho de 1648, dirigido pelo Conselho do Recife aos Estados Gerais, diz bem dessas técnicas estranhas aos comandantes seguidores dos estrategistas europeus: 

Todos os dias a experiência nos mostra que se habituaram a esta guerra de tal modo que podem medir-se com os mais exercitados soldados, como se tem visto nas refregas que com eles temos tido e como ainda se vê diariamente nos encontros que temos com eles a cada momento. Resistem muito bem agora de pé firme e logo que descarregam suas espingardas atiram-se sobre os nossos, para se baterem corpo a corpo. Sabem também armar emboscadas em lugares e passos apropriados e vantajosos, fazer sortidas dentro do mato e, em geral, produzir muito mal aos nossos. Quanto às armas estão bem munidos, sabem muito bem se servir delas, e no tocante às suas qualidades corporais excedem muito aos nossos soldados mais exercitados, quando à agilidade e disposição. Além disso, sabem melhor que os nossos se submeter às provações, tais como a falta de víveres, enquanto os nossos soldados têm de carregar sempre alforges ou então transportar os víveres logo atrás deles.

Em 17 de abril de 1648, governador das Armas Holandesas, general Sigmund von Schkoppe, temível pela crueldade com que tratava os seus adversários e pelo espírito de disciplina para com seus subordinados, sai do Recife à frente de um formidável exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de cerca de 1.000 índios tapuias e negros carregadores.

No dizer de Diogo Lopes Santiago depois da meia-noite da sexta para o sábado, marchando em direção aos Afogados:

Com grande estrondo de armas, tocando caixas, clarins e trombetas, por imaginar, como de feito segurou sua gente, que logo os nossos vendo seus bem ordenados e formados esquadrões que constavam de 7.400 soldados (afora setecentos gastadores e negros, que eram os que carregavam a bagagem) com seis [cinco, nos relatórios holandeses] peças de artilharia, e suas luzentes e brilhantes armas e 71 bandeiras tremulando.

Os regimentos holandeses eram comandados pelos coronéis Johan van den Brincken, Guilherme de Hauthyn, Adolph van Els, Hendrick van Haus e Cornelis van der Brande.

Nas reformas implantadas por Maurício de Nassau, os batalhões dos exércitos holandeses no Brasil eram formados por 500 homens, divididos por fileiras de 300 piqueiros e 200 mosqueteiros, que se alternavam por ocasião do desenvolvimento da batalhas.

Cruzando o rio Tejipió, nos Afogados, as tropas holandesas seguiram em direção à Barreta, onde existia uma pequena estância defendida por 86 homens sob o comando do capitão Bartolomeu Soares Canha. Travou-se então o combate da guarnição com os tapuias que acompanhavam as tropas holandesas e que lutavam à maneira dos luso-brasileiros. O seu comandante, junto com alguns, conseguiu escapar restando 47 soldados, que foram imediatamente degolados, e mais sete prisioneiros logo enforcados por ordem de Von Schkoppe.

Neste local os holandeses fizeram uma parada, pernoitando na leitaria de Antônio Cavalcanti [na altura da atual igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem], enquanto aguardavam a chegada de cinco peças de artilharia que haviam feito conduzir pelo rio Tejipió.

O comandante português, general Francisco Barreto de Menezes, que se encontrava no Arraial Novo do Bom Jesus [Torrões], resolveu reunir seu conselho de oficiais que, por sua vez, decidiu ir ao encontro das tropas invasoras nos Montes Guararapes.

Reunindo 2.200 homens, marcharam por três léguas em busca das três colinas que se erguiam na margem do caminho onde as tropas holandesas teriam de passar em busca da Muribeca, ou de Nazaré do Cabo, deixando 300 homens na guarnição do Arraial Novo.

As tropas luso-brasileiras chegaram a Guararapes:

No sábado, à tarde, e pelas 10 horas da noite se acabaram de situar em troços, em uma baixa e planície que está ao pé do último monte, que vulgarmente chamam Outeiro”, distante três léguas do Arraial Novo e uma légua da Muribeca. Restava ao inimigo uma passagem de pouco mais de cem passos de largo, cerca de cem metros, entre o monte e um terreno alagadiço que o contornava. Estacionavam assim os luso-brasileiros, escondidos entre a vegetação e o manguezal, em sítio acomodado, não só para reprimir o ímpeto do inimigo, mas ainda para destruí-lo.

Batalha dos Guararpes de autoria do pintor catarinense Vitor Meireles

Batalha dos Guararapes (pelo pintor catarinense Vitor Meireles)

No domingo, 19 de abril, saiu Von Schkoppe no comando de suas tropas da Barreta em direção à povoação da Muribeca, sendo molestado por escaramuças após uma hora de marcha, o que o obrigou a galgar os montes Guararapes deixando os nossos em desvantagem. No testemunho presencial de Diogo Lopes Santiago:

Ocupavam os holandeses o alto do monte, a campina e a planície bem junto do boqueirão, e por outra parte os tapuias e os índios fazendo ostentação de seus bem compostos e ordenados esquadrões e de suas luzentes e brilhantes armas tocando muitos clarins, trombetas e caixas, arvorando 61 bandeiras de cores diversas, principalmente azul e cor laranjada, trazendo o estandarte dos Estados, ao qual todas as bandeiras faziam salva; este era de tafetá carmesim azul, no qual vinham esculpidas e bordadas as armas de Holanda e dos da Companhia das Índias Ocidentais postas no mesmo carmesim com muita curiosidade e perfeição, e no campo um leão rompante coroado, estendendo as garras […] Constava a vanguarda do inimigo de dois esquadrões, um de oitocentos e outros de novecentos soldados, com a flor de toda a sua gente, e traziam os soldados velhos das fortalezas, deixando-as guarnecidas com os que de novo haviam vindo na armada de Holanda, por não serem ainda práticos nem experimentados na terra; e muita parte da gente que vinha no exército eram franceses, alemães, polacos, húngaros, ingleses e de outras nações das partes do norte, e o resto holandeses, todos versados e experimentados nas guerras de Flandres, Alemanha e outras províncias.

No seu relatório, Francisco Barreto de Menezes, citado pelo major Antônio de Souza Júnior¹, diz:3

Tanto que o inimigo se descobriu pelo alto dos Montes Guararapes, mandei tocar a investir, tendo posto na vanguarda os mestre de campo Fernandes Vieira e para dar nos lados do inimigo o capitão-mor Camarão, de uma parte e da outra o governador Henrique Dias. Dada a primeira carga, em ambas as partes, investimos à espada, rompendo ao inimigo todos os seus batalhões.

Os Terços de Fernandes Vieira e de Filipe Camarão atacaram na baixada os regimentos de von Schkoppe, Adolph van Els e Servaes Carpentier, que, falecendo em combate vem a ser substituído por Keerweer, que constituíam uma brigada, enquanto o Terço de Henrique Dias investira contra os regimentos de Brinck e Hauthyn postados no alto do monte.

Dada a primeira descarga, os soldados comandados por Henrique Dias passaram a usar de suas rapieiras (espadas) em combate corpo a corpo, conseguindo romper as fileiras do inimigo. Recuando para o outro lado do monte, deixaram para trás as peças de artilharias, munições e caixas do dinheiro, que seria usado no pagamento das tropas. Vislumbrando a vitória, com a fuga do inimigo imediato, entregaram-se, então, ao saque descuidando-se do combate.

No êxtase de que estavam tomados, não se aperceberam do contra-ataque holandês partido de um regimento de reserva, sob o comando do coronel Hendrick van Haus, que, por pouco, não viria a decidir a sorte da batalha. Nessa refrega, o coronel Haus é ferido mortalmente, o que obrigou o deslocamento das tropas de Cornelis van der Brande, que, retomando a artilharia anteriormente conquistada, viria a causar muito estrago entre as nossas forças se não fosse a imediata intervenção de Barreto de Menezes que enviou, em socorro aos homens de Henrique Dias, parte do terço comandada por André Vidal de Negreiros.

Na interpretação dos fatos, comenta o major Antônio de Souza Júnior:

Verdadeiramente apavorados diante do ímpeto ofensivo dos patriotas, que se serviam de preferência, de arma branca e buscavam o combate corpo a corpo, os holandeses foram lançados sobre os terrenos alagadiços no sopé dos montes e aí postos fora da luta, na maioria atolados no brejo ou derrubados por certeiros golpes de espada.

Interpretação bem de acordo com o relatório de von Schkoppe que, ferido no artelho, foi uma simples testemunha dos fatos desenrolados em Guararapes:

Os nossos quiseram passar o alagado, pensando que havia solo firme, mas foram obrigados a retroceder; o inimigo vendo que os nossos com grande desordem se retiravam em direção à direita, sem mosquete, lança, espada ou algo para enfrentá-lo caiu sobre os nossos por detrás com grande fúria e encerrou os que estavam no alagado e não puderam resistir e daí resultou terem ficado tantos oficiais e soldados. Dominada a desordem, coloquei a tropa novamente no alto do monte e verifiquei que o total de nossa força tinha sofrido baixa de mais de 1500 homens, dos quais alguns tinham fugido para a Barreta e outros tinham conduzido uma boa parte dos oficiais para a Barreta. Eu tinha sido, muito tempo antes deste encontro, ferido e como estava muito enfraquecido com grande perda de sangue do meu ferimento, dei ordem ao major Claesz (Tonis) para avisar ao coronel (Cornelis) van der Brande que se mantivesse nos montes que ocupávamos e se retirasse com a noite, em boa ordem, para a leitaria (de Antônio Cavalcanti).

No seu relatório, o coronel Cornelis van der Brande confirma a versão do general Sigmund von Schkoppe:

Depois de termos lutado desde antes do meio-dia de 19 de abril, durante cerca de três horas e depois da luta ficarem os dois exércitos um em frente ao outro, observando-se, partimos à noite com boa ordem e chegamos ao destino já tarde, com um forte aguaceiro.

Por sua vez, Francisco Barreto de Menezes conclui:

Amanhecendo segunda-feira, o dia de Nossa Senhora dos Prazeres, mandei descobrir o campo, achando, nas demonstrações dele, ter-se retirado o inimigo com grande pressa e destroço, pois deixou na campanha 900 homens mortos e entre eles alguns feridos, uma peça de artilharia de bronze, muitas munições e armas e as 30 bandeiras que tenho referido…

No amanhecer do dia 20 de abril, foram encontradas no campo da batalha, 33 bandeiras e estandartes, duas peças de artilharia em bronze, armas das mais diversas, muita pólvora, cunhetes de balas, alfaias, animais domésticos, algemas e grilhões diversos, uma grande quantidade de moedas em ouro, mantimentos e até uma sortida farmácia.

Nas baixas do exército holandês, segundo minucioso relatório incluído pelo major Antônio de Souza Júnior em Do Recôncavo aos Guararapes (1949), figuravam 523 feridos e 515 outros, entre mortos e prisioneiros, dos quais 46 oficiais. No confronto perderam a vida os coronéis Hendrick van Haus, Cornelis van Elst e Servaes Carpentier, ficando feridos o general van Schkoppe e o coronel Guilherme Houthain. O coronel Pedro Keerweer que sucedera o coronel Carpentier, fora dado por desaparecido nos relatórios holandeses, mas, na verdade, se encontrava como prisioneiro de João Fernandes Vieira.

Do lado dos luso-brasileiros foram computados 84 mortos, incluindo-se os que perderam a vida no combate da estância da Barreta, e mais de 400 feridos.

Em seus comentários, o major Antônio de Souza Júnior diz que a primeira Batalha dos Guararapes, estudada no quadro de sua época e guardadas as proporções, é um grande acontecimento militar, digno de figurar com realce entre os que deram renome de grandes capitães a Gustavo Adolpho, Turenne e outros chefes militares do século XVII.

E, mais adiante, enfatiza:

Destarte, sem nenhum exagero patriótico, mas, ao contrário, à luz da palavra oficial dos que tiveram a responsabilidade de dirigir a batalha que se travou nos Guararapes, aos 19 dias do mês de abril do ano de 1648, podemos asseverar que tanto o comando como as tropas luso-brasileiras demonstraram nítida superioridade moral e profissional em relação ao comando e às tropas holandesas.

A vitória dos Guararapes nesse dia não foi, portanto, obra fortuita dos acontecimentos, mas o resultado da ação vigilante e decidida dos chefes, da bravura e espírito combativo dos soldados que constituíam aquele indomável exército de patriotas.

__________________________________________

¹   SOUZA-JÚNIOR, Antônio de. Do Recôncavo aos Guararapes. Rio de Janeiro, 1949 p. 152.

A CASA PORTUGUESA NO BRASIL HOLANDÊS

Com a destruição da Vila de Olinda, em novembro de 1631, e o conseqüente êxodo da população em busca da segurança do interior da capitania e até mesmo da Bahia, para onde migraram as famílias de maiores posses, restaram poucas casas de portugueses que viessem a merecer descrições mais apuradas de cronistas holandeses.ch1

Segundo documentos holandeses, os portugueses vivem em “distritos agrícolas, em miseráveis casas de taipa”, denunciando, inclusive, “falta de asseio do corpo e da casa”.

Ao contrário do que nos revelam os quadros de Frans Post e de outros artistas da Missão Nassau, que tão bem documentaram os nossos engenhos e comunidades interioranas, a casa rural dos portugueses é descrita pelo Governador e Conselho (1638) como desprovida de conforto e ostentação de riqueza. Dispunha de poucos móveis, sendo grande parte dela construídas em taipa e cobertas de telha, observando-se a existência de pelo menos dois pavimentos, dominados por grande varanda.

Adianta o documento que as paredes do interior das casas dos portugueses eram, em sua grande maioria, desprovidas de quadros e outros objetos de arte, o que logo despertava a atenção dos holandeses visto estar vivendo os Países Baixos o período de maior popularização das artes plásticas no ambiente doméstico.

No interior da casa, a mulher, sempre cercada por um razoável número de escravas, recebia às visitas sentada sobre um estrado, “conservando os pés escondidos, pois é considerado indecente mostrá-los aos visitantes, seja amigo ou pessoa estranha”.

A mesa era farta de alimentos proporcionados pelas culturas da terra, notadamente a mandioca da qual retiravam a farinha e a massa, usada largamente em sua culinária. Dela também fazia parte os tubérculos, verduras, legumes, frutas, que davam acompanhamento aos peixes e às carnes. As refeições eram seguidas de uma enorme variedade de doces e frutas cristalizadas, “que gozam da melhor aceitação entre velhos e jovens”.

Um dos orgulhos da dona de casa portuguesa eram os seus talheres de prata, que elas sempre julgavam em melhor quantidade e em maior número do que os de suas amigas.ch2

Com respeito à dieta da família portuguesa, observa o reverendo Vicente Soler, em uma de suas cartas ao teólogo André Rivet, de Leiden, que “em lugar de pão o povo em geral come certa farinha, branca como neve, feita da raiz de certo vegetal. Alguns fazem bolos com ela, os quais alguns dos nossos consideram muito mais saboroso do que o melhor pão de cereais de que em geral não temos falta”. Nas suas observações, assegura o calvinista espanhol ser o português abstêmio ao vinho e outras bebidas alcoólicas, dando preferência à água natural, embora seja um apreciador dos sumos das frutas, adocicado com açúcar.

Segundo carta-geral do Governador e Conselho, datada de 14 de janeiro de 1638 e citada por Hermann Wätjen, as mulheres dos portugueses andavam por demais ataviadas de jóias (algumas falsas), vestindo-se pomposamente, enquanto alguns homens apresentavam-se mal vestidos. Nas casas portuguesas mais distintas, quando as mulheres saem às ruas são sempre carregadas por dois escravos, deitadas em redes ou sentadas em cadeirinhas, devidamente cobertas por um véu.

Por conta de sua vida sedentária, recolhida ao interior da casa senhorial, sem quase receber os raios do sol, com a sua dieta plena de doces e outros produtos manufaturados com o açúcar, a fisionomia da mulher portuguesa é pouco atraente, pois logo perde os dentes e se tornam, gordas e pesadas.

É quase incrível como o português é ciumento de sua mulher e como toma todas as precauções imagináveis para tornar impossível que ela receba galanteios de outros homens ou em absoluto figure em negócios do amor. Daí a razão de terem as portuguesas tão pouca liberdade de movimento e serem obrigadas pelos seus maridos à vida caseira

Sobre o recato da vida do lar, aponta o frei Manuel Calado, como exemplo, a resposta dada por uma comissão de matronas que fora à presença do Conde de Nassau intervir em favor da senhora-de-engenho Jerônima de Almeida, mulher de Rodrigo de Barros Pimentel que se encontrava foragido na Bahia.

Denunciada por um seu escravo, que havia sido por ela castigado, como tendo recepcionado uma tropa de campanhistas que viera da Bahia com cartas de seu marido, foi Dona Jerônima de Almeida trazida presa da vila de Porto Calvo, juntamente com nove filhas e três filhos, para o Recife. Submetida a julgamento sumário, foi àquela senhora condenada a morrer degolada, a sua sorte provocou a compaixão das mulheres “dos homens nobres e principais que moravam em torno do Recife”.

No testemunho de frei Manuel Calado, o fato provocou a compaixão e revolta das senhoras que moravam nos arredores do Recife, a ponto de constituírem uma comissão com o objetivo de interceder, pela sorte daquela matrona, junto ao Conde de Nassau, não sem antes “guarnecerem o muro com ameias de caixas de açúcar para conseguir o seu intento”.

O príncipe João Maurício, Conde de Nassau, recebeu estas mulheres com alegre semblante (que o tinha ele para todos) e as fez levantar da terra com muita cortesia e lhes disse, que se soubera que havia de ter tão formosas e honradas hóspedes, que estivera preparado com um banquete, segundo elas mereciam, porém já que o haviam tomado de sobressalto as convidava a jantar com ele com a sua mesa ordinária; elas lhe beijaram a mão por a mercê, e pavor, lhe responderam que o banquete que elas vinham buscar à sua casa era, que achando graça em seus olhos, fosse servido a Sua Excelência de acudir a tão grande crueldade e perdoar Dona Jerônima; e que jantar à sua mesa haviam por recebido a mercê, porém não era uso nem costume entre os portugueses comerem as mulheres, senão com os seus maridos, e ainda com estes era quando não havia hóspedes em casa (não sendo pai ou irmão) porque nesses casos não vinham à mesa.

O pedido das senhoras pernambucanas foi imediatamente acolhido pelo Conde de Nassau que, por decreto, suspendeu, com o seu perdão, a execução de Dona Jerônima de Almeida, “por autoridade e poder que tinha de Governador e Capitão General de Pernambuco e das demais capitanias conquistadas e sujeitas ao Estado da Holanda”.

A PROPÓSITO DA COMENDA

Discurso pronunciado por este colunista, no dia 17 de março de 2016, na sede da União Brasileira de Escritores, Recife

Meus amigos aqui presentes…

Peço que relevem, neste momento, a emoção que toma conta de mim ao receber esta homenagem dos que fazem a Secção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores – UBE.

Não são muito comuns tais homenagens a mim tributadas.

Durante minha vida de escritor, iniciada nos idos de 1965 e consolidada em março do ano seguinte, ao ingressar como repórter no Jornal do Commercio do Recife, foram poucas as ocasiões.

Em 1972, com o lançamento do meu primeiro livreto, Bandeira de Pernambuco, prefaciado pelo escritor Marcos Vinícios Villaça; seguindo-se em 1975, com a publicação do livro O Recife: uma história de quatro séculos, aconteceram solenidades das mais concorridas, mas tudo depois caiu na rotina.

Hoje, com mais de 50 títulos publicados e cerca de 380 edições outras, venho a ser tomado pela emoção quando recebo homenagens como esta que a União Brasileira de Escritores me proporciona nesta noite.

Com respeito à Comenda Jorge de Albuquerque Coelho, a mim outorgada nesta noite, vale exaltar a iniciativa dos que fazem a União Brasileira de Escritores – Secção de Pernambuco na criação dessa honraria, que tem como patrono um dos primeiros heróis da Terra Pernambucana.isCAWR229W

Era ele filho do primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira e de sua mulher Brites de Albuquerque, nascido na então Vila de Olinda em 23 de abril de 1539 e falecido em Lisboa em 1596 ou 1597.

Em 1554, enquanto estudava em Portugal, morre seu pai, o que o faz regressar em 1560, para o Brasil juntamente com seu irmão primogênito, Duarte Coelho de Albuquerque.

Juntos os filhos do primeiro donatário Duarte Coelho, vêm auxiliar sua mãe, Brites de Albuquerque, no combate aos indígenas e na exploração das terras de capitania, cujas fronteiras atingiam toda margem esquerda do Rio São Francisco do seu nascedouro, em Minas Gerais, até o atual estado de Sergipe.

Em 29 de junho de 1565, Jorge de Albuquerque Coelho regressa a Portugal na nau Santo António, iniciando assim uma viagem das mais tormentosas.

A descrição dessa infeliz travessia vem fazer parte da História Trágico-Marítima, uma “colecção de relações e notícias de naufragios, e successos infelizes, acontecidos aos navegadores portuguezes”, reunidos por Bernardo Gomes de Brito, e publicados em dois tomos em 1735 e 1736, que provavelmente deu origem à lenda e ao romance popular “A Nau Catrineta”.

Nessa coletânea encontra-se transcrita a narrativa do “Naufrágio que passou Jorge de Albuquerque Coelho vindo do Brasil para este Reino no ano de 1565, escrito por Bento Teixeira Pinto, que se achou no dito naufrágio”.

O texto desse episódio é atribuído a um certo “Bento Teixeira Pinto”, confundido por muitos com o poeta Bento Teixeira nascido na cidade do Porto em 1561 e falecido nos cárceres da Inquisição em Lisboa, no ano de 1600. Pela data da viagem, 1565, seria ele uma criança. Na verdade Bento Teixeira vem a ser o autor do poema épico Prosopopéa. “O primeiro poema escrito no Brasil a merecer as honras do prelo”, publicado em Lisboa em 1601 e dedicado ao mesmo Jorge de Albuquerque Coelho.

No capítulo relativo ao episódio da nau Santo Antônio, incerto na História Trágico-Marítima, conta o narrador que depois de porfiada resistência contra um corsário francês, sofreu tamanhos temporais que ficou em mísero estado, sucedendo, para cúmulo de desventuras, que os franceses, seus vencedores, depois de roubarem tudo ao navio português, até a bússola, o abandonaram avariado e quase sem governo à fúria dos mares.

Navegando ao acaso e sem probabilidade de chegar a um porto, os tripulantes já lançavam sortes para ver qual seria comido pelos companheiros, quando, por milagre, chegaram à terra portuguesa, depois de quatro meses e um dia perdidos no Atlântico revolto.

Em quatro de agosto de 1578, Jorge foi encarregado, no exército do rei D. Sebastião, do comando de uma coluna de cavalaria. Portou-se com valor na batalha de Alcácer-Quibir, defendeu seu rei (D. Sebastião de Portugal) e quando este, tendo-lhe morrido o cavalo, se achou a pé no meio dos mouros, cedeu-lhe a sua própria montaria, perdendo assim as esperanças de salvação.

Ferido, foi levado prisioneiro para Fez (Marrocos), onde sofreu uma dolorosa operação nas pernas, que o deixou aleijado pelo restante dos seus dias. Resgatado no tempo do domínio espanhol, voltou para Portugal, mais venturoso do que seu irmão que morreu no cativeiro.

Pelo falecimento deste irmão havia herdado a capitania de Pernambuco, mas isso de nada lhe servia, inválido sem poder defendê-la contra as agressões dos índios, indigente para sustentá-la e desenvolvê-la. Filipe I, desejando cativá-lo, esquivo às suas ordens, ofereceu-lhe auxílio para manter a província. Aceitou-os Jorge de Albuquerque para não desbaratar o patrimônio de seus filhos, mas sem voltar a Pernambuco, se fez representar em Olinda por seu filho Duarte, logo que este atingiu a maior idade.

Permaneceu Jorge em Portugal, escrevendo estudos e algumas memórias sobre as guerras da exploração do Brasil até sua morte, entre os anos de 1596 e 1597.

Jorge de Albuquerque Coelho, porém, tornou-se célebre em primeiro lugar pelas desgraças, entre as quais avulta principalmente sua desastrosa viagem marítima vindo do Brasil em 1565; em segundo lugar, pelo brio e abnegação na batalha de Alcácer-Quibir, dando, em época já eivada pelo egoísmo, um exemplo notável de patriotismo e de coragem.

Bibliógrafos de renome, como Diogo Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana (Lisboa,1741-1749), 4 v., e Augusto Victorino Alves Sacramento Blake, Dicionário Bibliográfico Brasileiro (Rio 1883-1902), 7 v., registram alguns manuscritos da lavra de Jorge de Albuquerque Coelho encontrados na Biblioteca particular do Marquês de Valença (Portugal), um deles intitulado “Memórias das Guerras do Brasil”, o que eleva o nosso patrono ao campo das letras, além do seu lugar consagrado no campo militar e como personagem principal no romanceiro popular universal.

O Romance da Nau Catrineta vem a ser consagrado por Almeida Garrett, no seu Romanceiro, impresso em 1841, e por outros autores portugueses, registrando F.C. Pires de Lima, no seu “A Nau Catrineta” – Ensaio de interpretação histórica” (Porto, 1954), as diversas versões desse auto popular, além das várias vilas de Portugal e das ilhas dos Açores e Madeira, na Espanha, na França e Inglaterra.

Entre nós da saga da Nau Catrineta aparece na forma do Fandango, registrado no Nordeste Brasileiro, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, em São Paulo e outros estados brasileiros.

São estas, em poucas palavras, o que revela a figura homenageada pela Secção de Pernambuco da União Brasileira de Escritores, o também pernambucano JORGE DE ALBUQUERQUE COELHO.

OLINDA E RECIFE, DOIS DESTINOS NUMA SÓ HISTÓRIA

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Carlos Pena Filho

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Aos olhos de quem a contempla pela primeira vez, Olinda se apresenta povoada de sonhos e tomada pela claridade a ofuscar as retinas de quem chega: de limpeza e claridade/é a paisagem defronte…

Aquele conjunto de colinas, que pouco interessou aos indígenas habitantes de suas redondezas, antes da chegada do colonizador, fascinou Duarte Coelho, que chega a Pernambuco em 1535 e vê naquelas paragens o local ideal para a construção de uma vila.

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do Brasil (1627), a denominação Olinda vem de “um galego criado de Duarte Coelho, porque, andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse [a vila], e achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria: O’ linda!”.

A versão já fora antes relatada por Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI, sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c 1696- c 1762), chegando o historiador inglês Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: “Oh! linda situação para se fundar uma vila!”.

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de Olinda e começou recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a denominação teria origem em Portugal, “mais nada natural que aquele nome fosse de alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e que ele no Brasil quisesse perpetuar […] Sabe-se também que Olinda era o nome de uma das belas damas na novela do Amadis de Gaula, cuja leitura estava então muito em voga, não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história”.

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho Pereira, de 12 de março de 1537.

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A CALUNGA DE ANGOLA NOS MARACATUS DO RECIFE

CALUNGA DE MARACATU

O embaixador Alberto da Costa e Silva, que por muitos anos serviu na Embaixada do Brasil em Lisboa, ao escrever o seu livro A Enxada e a LançaA África antes dos portugueses¹ , veio revelar aspectos vários ligados a manifestações brasileiras de origem africana. No seu livro, todas as suas etnias antes dos Descobrimentos, aparecem aos olhos do leitor interessado em tão fascinantes temas, hoje presentes em nosso mundo contemporâneo. Nas suas 768 páginas, o livro estuda cada uma das regiões com os seus respectivos costumes, lendas e tradições, bem como os vários povos que ali habitavam.

De especial interesse para nós, que há tantos anos estudamos a Instituição dos Reis do Congo e sua presença nos maracatus do Recife, é a forte influência do culto da Calunga entre os ambundos de Angola, guardada como objeto sagrado e poderoso pelos cabeças de certas linhagens².

No seu Dicionário Kimbundo-Português, A. de Assis Júnior define o adjetivo kalúnga por “Eminente; Insigne; tratamento equivalente a Excelência; Eminência; Senhor; Fidalgo que tem honras de grandeza; pessoa de alta gerarquia. Grande. Incomensurável. Infinito”. Como substantivo, kalúnga: “massa líquida que circunda os continentes, o Oceano”. Na Mitologia, Kalunga seria “Deus”; na sua acepção “- ‘ a-ngombe”, seria o “Deus da Morte; a própria Morte; o Além; a Eternidade; uma das três deusas que fiavam e cortavam o fio da vida”; na acepção de “- Samba”, seria o “Deus da família, da vida; o maior dos Deuses”.

Calunga de Angola

Explica Alberto da Costa e Silva: “Segundo a lenda, o herói civilizador ambundo, Angola Inene, teria trazido de terras do nordeste ou, conforme outras versões, do mar, as lungas (ou malunga, que é plural em quimbundo da palavra). Esta última origem seria o resultado de interpolação européia, do traduzir equivocado de Calunga, ‘as grandes águas’, por oceano Atlântico, e contrasta com o papel agrário da escultura de madeira, ligada aos ritos de chamar a chuva e da fertilidade. As ‘grandes águas’ podem ter sido um dos afluentes do Zaire ou qualquer outro lago ou rio. Os europeus além disso, interpretaram Calunga como uma alta divindade e talvez tenham contagiado com este novo conceito as crenças ambundas. (…) A Calunga tornou-se assim, e desde há bastante tempo – a contar do fim do século XIII? -, fonte de poder político e de uma organização social fundada na terra, num sítio preciso, e não apenas na estrutura de parentesco. Muito embora tenha sido depois suplantada, em quase toda parte, por novos símbolos da centralização estatal, persistiu como emblema dominante no baixo Lui e ligada ao nome de numerosos ancestrais e fundadores de reinos, bem como aos títulos de vários sobas. Entre os cubas houve um Calunga; Calala Ilunga foi o herói civilizador dos lubas; os quiocos possuem um Calunga entre os seus maiores; os povos do sul do lago Maláuu dizem que Calunga lhes trouxe as novas instituições; a palavra aplica-se entre os lundas, ao senhor, ao chefe, ao rei, e, entre os congos, era, a um só tempo, o título mais comum dos quitomes, uma grande extensão de água e a vasta corrente mítica a separar as duas montanhas que formavam o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. A boneca, com o seu nome, atravessou o Atlântico e sobrevive nos maracatus brasileiros”.

“Cada lunga vivia num determinado curso d’água. E era guardada por uma linhagem, cujo chefe conhecia o segredo da comunicação com as forças espirituais que a boneca continha. Essa linhagem sobrepunha-se às demais e seu cabeça possuía autoridade territorial sobre toda a área banhada pelo riacho ou pedaço de rio onde morava a lunga. Era ele quem alocava as terras a novas famílias que para ali quisessem mudar-se e, paulatinamente, senhor das chuvas e da fertilidade da terra, passou a receber tributos e a concentrar riqueza e poder. Estabeleceu-se também uma hierarquia entre os vários guardiães de calungas: o custódio da estatueta do rio principal era mais importante do que o dos riachos tributários, a graduação da autoridade fazendo-se conforme a hidrografia”.

Calunga do Recife

No Recife a Calunga, também chamada de boneca, se liga ao cortejo das nações africanas, do qual se originou o nosso maracatu, segundo esclarece a mesma fonte: “Mantendo-se em segredo, os vínculos entre grupos ambundos, num segredo auxiliado pela ignorância dos senhores de escravos, tinham os chefes vendidos [escravos] de mostrar a fonte do seu poder – e já agora também penhor de unidade do grupo ao Brasil -, a calunga”.

Até os nossos dias a calunga faz parte do ritual do maracatu, encarnando nos seus axés a força dos antepassados do grupo. Em sua honra é cantada a primeira toada do maracatu – ainda dentro da sede quando a calunga passa das mãos da rainha para outras mãos, cada qual dançando um pouco com a calunga, antes de passá-la adiante – , sendo levada às ruas pela dama-do-paço (uma espécie de conselheira segunda pessoa da rainha) e em sua honra é também cantada a última toada, quando o préstito se recolhe à sede.

As calungas, quase sempre de madeira escura, podem ser de um ou outro sexo, muito embora sejam sempre tratadas no feminino, representando, por vezes, ascendentes africanos ou pessoas ligadas à história do próprio grupo. No caso excepcional, uma calunga tem o seu nome ligado a um membro da Família Real Brasileira: Dona Isabel, do Maracatu Leão Coroado, homenageia a Princesa Isabel que, em 13 de maio de 1888, assinou a Lei Áurea extinguindo a escravidão negra no Brasil.

São designadas pelos nomes de iniciação em cada grupo: Dona Emília, Dona Leopoldina e Dom Luiz, no Maracatu Elefante; Dona Clara e Dona Isabel, no Maracatu Leão Coroado; Dona Joventina, no Maracatu Estrela Brilhante; Dona Inês e Dona Júlia, no Maracatu Porto Rico, esta última uma homenagem a Dona Santa que fora rainha do Maracatu Elefante.

Sobre o assunto, informa Guerra-Peixe, no seu Maracatus do Recife:

Das bonecas (calungas) do Elefante, Dona Emília parece ser a que recebe maiores atenções. Dedicada a ela há ocasião para a dança especial, quando passa pelas mãos de todas as baianas do cortejo; a ela são consagrados os cânticos mais “fortes”; é essa a principal boneca levada à porta da igreja de N.S. do Rosário [dos Homens Pretos de Santo Antônio]; com ela o Maracatu Elefante dança diante dos terreiros visitados. E é nas canções oferecidas a Dona Emília que os músicos executam o ritmo “de Luanda” – o toque “para salvar os mortos”, os “eguns”, como dizem. À mesma calunga, finalmente cabem as designações: “Princesa Dona Emília”, “Princesa Diamante” e “Princesa Pernambucana”, indiferentemente.

Dom Luís “representa um rei africano”, sendo por isso considerado como “rei do Congo”, circunstância por que é nomeado de uma ou outra forma.

O certo, porém, é que as calungas, quaisquer delas, como bonecas que “representam” os ancestrais africanos, é um registro repetido em diversos maracatus tradicionais.

Os ascendentes africanos ou não, invocados nas bonecas, constituem um ponto que carece ser estudado por pessoa credenciada como frisamos antes. Avançando, porém, um pouco nessas questões, seria oportuno perguntar se: “Princesa Pernambucana” não é uma reinterpretação originada dos problemas dos escravos? – diante das reprimendas às suas recordações oportunas, lembradas por Pereira da Costa. Tal como se verificou no panteão afro-brasileiro – originando as identificações dos orixás com os santos católicos, já em parte assinaladas pelos estudiosos – talvez o mesmo ocorresse com as calungas. As informações sobre Dom Luís – “um rei africano” e “rei do Congo”- parecem resultar de reminiscências da instituição do Rei do Congo estabelecida entre nós. Vejamos os dizeres de um cântico:

A bandêra é brasilêra
Nosso rei veio de Luanda
Ôi, viva Dona Emília
Princesa Pernambucana

Nas vestimentas das calungas predomina o branco, a cor simbólica ou aledá de Orixalá, no panteão afro-recifense. Esse elemento concorda com o que apontamos sobre o principal totem do Maracatu, o elefante “o primeiro animal que Orixalá montou”³.

Quando das chuvas que inundaram o Recife em julho de 1975, provocando deslizamentos de barreiras nos morros da zona norte, no Córrego do Cotó, em Água Fria, o velho Luiz de França, principal responsável pelo Maracatu Leão Coroado, nascido em 1900, mas que nunca quis ser o rei daquele grupo, saiu de casa apenas com as calungas – Dona Clara e Dona Isabel – , não se importando com os comentários dos curiosos que, não entendendo o significado do seu gesto, censuravam “o velho que dormia agarrado com duas calungas de maracatu”.

Com a morte de Dona Santa, em 1962, a original Nação do Elefante deixou de desfilar, e suas três calungas, juntamente com outros pertences, estão hoje recolhidos ao Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.

Naquele ambiente convencional de museu, restam as lembranças daquela boneca que, empunhada pela dama-do-paço, vinha às ruas do Recife mostrar a força da nação do Elefante ao som dessas loas:

Princesa Dona Emília
Pra onde vai? – Vou passeá
Eu vou para Luanda
Vou quebrar saramuná.
Eu vou, eu vou
Eu vou para machá
Eu vou para Luanda
Eu vou para Luanda
Vou quebrá saramuná.

A boneca é de seda!
É de seda e madeira
A boneca é de seda!

É de seda e madeira. /A boneca é de seda! / É de seda e madeira.

______________________________________

¹SILVA, Alberto da Costa e. A Enxada e a LançaA África antes dos portugueses. Rio: Nova Fronteira, 1992

²SILVA, Leonardo Dantas. Estudos sobre a escravidão negra v. 2. Recife: FUNDAJ; Editora Massangana, 1988 303 p. il. (Série Abolição, v. 17).

³GUERRA-PEIXE, César. Op. cit.

O MARACATU ELEFANTE

Maria Júlia do Nascimento, Dona Santa (1877-1962)

Maria Júlia do Nascimento

O mais famoso dos nossos maracatus, a Nação do Elefante, teve por muitos anos como rainha Maria Júlia do Nascimento, reverenciada por todos a quem chamavam de Dona Santa.

Pesquisado pelo maestro Guerra-Peixe, in Maracatus do Recife, o Elefante teria sua origem na corte do Rei Congo, D. Domingos Marques de Araújo, primeiro rei eleito da paróquia da Boa Vista em 6 de abril de 1801.

Foi no Elefante que reinou Maria Júlia do Nascimento, filha de africanos nascida no Recife em 25 de março de 1877, precisamente no Pátio da Santa Cruz, cedo coroada rainha do Maracatu Leão Coroado, sendo tratada pelo apelido de “Santa” ou “Santinha”. Casou-se com João Vitorino, então Rei do Maracatu Elefante, transferindo-se para este, na qualidade de rainha. Ficando viúva, em 1928, permaneceu como rainha, sem ser oficialmente coroada, que só se deu em 27 de fevereiro de 1947, ficando no trono até o seu falecimento, em 5 de outubro de 1962, quando se extinguiu a Nação do Elefante, cujo acervo faz parte hoje do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco.

Informa Guerra-Peixe que, na sua melhor fase (1928), o Elefante estava assim constituído:

Rainha, rei, dama-de-honra da rainha, dama-de-honra do rei, princesa, príncipe, dama-de-honra do ministro, ministro, dama-de-honra do embaixador, embaixador, duquesa, duque, condessa, conde, quatro vassalos, três calungas (Dom Luiz, Dona Leopoldina, Dona Emília), três damas-do-paço (que portavam as bonecas durante o desfile do maracatu), porta-estandarte (embaixador), escravo, figuras do tigre e do elefante, guarda-coroa, corneteiro, baliza, lanceiros (treze meninos), brasabundo (uma espécie de guarda-costas do grupo), batuqueiros (quinze músicos), caboclos (20) e baianas (20), importando o cortejo em cerca de 150 pessoas.¹

Maracatu Elefante, Maria Júlia do Nascimento

Em 1952, quando da realização da pesquisa, o mesmo musicólogo só encontrou no cortejo do Elefante um rei (Antonio, afilhado da rainha), a rainha Dona Santa, dama-de-honra do rei, dama-de-honra da rainha, príncipe, princesa, três calungas (das quais só saíam duas), porta-estandarte, embaixador, escravo, as figuras do tigre e do elefante, damas-de-frente (oito), batuqueiros (nove), caboclos (oito) e baianas (oito). Estava o maracatu reduzido à metade!

Segue embaixadô me amostra o siná
A nossa bandêra é nacioná
Segue embaixadô me amostra o siná
A nossa bandêra é nacioná

Eu vou pra Luanda
Buscá miçanga pra saramuná
Eu vou pra Luanda
Buscá miçanga pra saramuná

A orquestra de um maracatu nação é formada tão-somente por instrumentos de percussão, ao contrário dos maracatus de orquestra, que quase sempre têm trombone e outros instrumentos de sopro no seu conjunto.

Seu toque é assim descrito por Guerra-Peixe:

tarol anuncia levemente um esquema ritmo bem simples, rufado e intercalado de pausas; quase no mesmo instante, o gonguê assinala a sua rítmica característica; a seguir, dão entrada as caixas-de-guerra. Por essa altura, o tarol já passou do esquema inicial às variações. Daí, prosseguem as entradas dos zabumbas: o marcante destaca os batuques violentos e espaçados; o meião, pouco depois, segue o toque do marcante; e, conjuntamente, ressoam os repiques, aumentando enormemente a intensidade do conjunto. Revela notar que mais ou menos contemporaneamente à entrada dos últimos, as baianas respondem em coro. À repetição coral, os zabumbas fazem variações, as quais cessam cada vez que a rainha [ou diretor, no caso do Leão Coroado] canta o solo. Novamente à volta do coro, repetem-se as variações, enquanto a intensidade se torna cada vez mais forte e o andamento vai sendo acelerado, tudo concorrendo para subjugar as vozes das baianas. Alcançando o clímax musical, o toque permanece algum tempo na polirritmia cada vez mais violenta, quando, sobressaindo-se a tudo, se ouve o apito da rainha [ou responsável pelo conjunto], advertindo o próximo fim de música. Baianas e músicos ficam atentos e, à repetição do apito – seja em que momento tenha coincidido no decorrer da execução – os batuqueiros aguardam o próximo ictus do motivo rítmico e, subitamente, todo o conjunto estaca e, num preciso e intensíssimo baque surdo, pára o toque.²

Aqui dentro desta sede
Onde Elefante brincô
Palácio de rei (bis)
É casa de governadô

A orquestra de um maracatu nação é quase sempre formada por um gonguê, um tarol, duas caixas-de-guerra e nove bombos; exceção para o Maracatu Estrela Brilhante que traz na sua orquestra um ganzá, podendo o número de zabumbas variar de acordo com as posses do contratante.

Inspirado na temática musical do maracatu, compositores eruditos, como Guerra-Peixe, Marlos Nobre, Mário Guedes Peixoto, Ernesto Mahle, Carlos Alberto Pinto Fonseca, vêm realizando notáveis criações de peças musicais para orquestra e arranjos para canto coral. O mesmo acontece no âmbito da música popular, onde compositores como Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa), Irmãos Valença, Ascenso Ferreira, Miro Oliveira, Sebastião Lopes levaram o ritmo e a dança dos maracatus do Recife aos salões, por vezes com notáveis arranjos orquestrais; a exemplo dos maracatus de Capiba, com orquestrações de Guerra-Peixe, gravados pelos Titulares do Ritmo.³

Com o aparecimento do Frevança – Encontro Nacional do Frevo e do Maracatu – , criado por nós a partir de 1979, o maracatu ganhou novos apreciadores, chegando a ser a música mais votada de todo o festival, revelando compositores como Ademir Araújo, Marcelo Varela, Antônio Carlos Nóbrega, Dimas Sedícias, Edson Rodrigues, Antônio José Madureira, dentre outros.

Declínio do maracatu?

Enquanto o maracatu, como gênero musical, cresce nos festivais recifenses de música popular, ganhando apreciadores e novos compositores, chegou-se a temer, até bem recentemente, pelo futuro do maracatu em terras pernambucanas.

Vaticinava Francisco Augusto Pereira da Costa em seu Folk-Lore Pernambucano, publicado em 1908:

Se o maracatu, prestes a extinguir-se pelo seu arrefecimento, uma vez que não existem mais africanos, e os seus descendentes procuram de preferência imitar a sociedade de gente branca, celebrando as suas festas íntimas com reuniões dançantes segundo os moldes usados; se o maracatu, portanto, já rareando, modestamente aparece somente nas folias carnavalescas, época houve, e bem próxima ainda, em que se exibia em número avultado, mais ou menos bem organizados, ostentando mesmo algumas aparatosas galas e com um luxo, que o seu arranjo complexo representava, relativamente, avultada quantia.

Katarina Real, que pesquisou o carnaval do Recife entre 1961-1966, teve a mesma opinião, com respeito ao fim do maracatu em terras recifenses. Em 1967, quando da primeira edição do seu O folclore no Carnaval do Recife, apresenta como causas a miscigenação progressiva no fenótipo da gente brasileira, com o natural branqueamento e o desaparecimento do negro puro e dos reais valores culturais oriundos da mãe África. Os cultos africanos de Xangô vão dando lugar aos rituais aculturados da umbanda; desapareceram os “pretos velhos” e as “pretas da costa”, responsáveis pela transmissão oral de uma cultura herdada das “terras do lado de lá”, o maracatu vai perdendo o seu caráter religioso, para se transformar num clube carnavalesco.

Sobre o assunto, depois de referir-se ao desaparecimento de Maria Júlia do Nascimento, em 1962, conhecida popularmente como “Dona Santa” e cultuada pela gente humilde com o doce tratamento de “Minha Madrinha”, Katarina Real conclui:

O enfraquecimento atual das Nações (maracatus) deve-se em grande parte ao desmoronamento destas duas pedras fundamentais: 1- o orgulho numa herança cultural mais ou menos estritamente africana e 2 – a desintegração do matriarcado afro-brasileiro. […] Mesmo chegando o triste dia de desaparecer do Recife a última velha “Nação”, para uma considerável maioria dos pernambucanos de todas as classes sociais, o Maracatu continuará a ser uma emoção, um sentimento, um motivo de vibração. Os intelectuais, os jornalistas, a classe média, e o povo em geral – todos sentem o Maracatu peculiarmente seu. Ser pernambucano é sentir o Maracatu.4

Em 1989, ao reencontrar-se com os Maracatus Nação, durante o Carnaval do Recife, tal não foi o espanto da pesquisadora ao constatar que estavam erradas as suas previsões. Na ocasião constatou o renascimento da Nação do Elefante, de volta às ruas do Recife desde 1986; o retorno da Nação Porto Rico do Oriente, que por morte do seu rei José Eudes das Chagas, em 1978, havia passado dois anos sem sair no carnaval, além do aparecimento da Nação Encanto do Pina, formada por uma ala mais tradicional da Nação do Porto Rico do Oriente; além do aparecimento do Maracatu Nação Pernambuco, formado por jovens universitários.

Naquele Carnaval, para surpresa de Katarina Real, algumas nações, a exemplo do que vem acontecendo há alguns anos, desfilaram com maior pompa do que nos anos de 1968, quando interrompeu sua pesquisa. As Nações renascidas, Porto Rico do Oriente e do Elefante, só para salientar essas duas, saíram, a primeira com cerca de 400 figurantes, relembrando os antigos préstitos de coroação dos Reis do Congo no Recife.

Indiferentes a tudo, as seculares nações vêm às ruas na segunda-feira de carnaval (até recentemente vinham também na terça-feira), e fazem as suas reverências no adro da Igreja de Nossa Senhora do Terço, no bairro de São José, ou de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no bairro de Santo Antônio, onde entoam os cânticos para os seus mortos (eguns), e seguem pelas ruas afora com o estandarte no ar, umbela girando, rei e rainha com porte de realeza, damas-do-paço empunhando às calungas, damas-de-frente portando buquês de flores, lanceiros abrindo espaço na multidão, meninos carregando lampiões ou puxando a carroça com o animal símbolo da nação, baianas com uma ginga própria dos terreiros de xangô e um jogo de braços característicos da dança molenga, caboclos de pena fazendo complicados passos, como servissem de guia ao préstito, e no final uma orquestra de percussionistas com o seu baque virado.

Denominando-se de Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação do Indiano (1949), Nação Porto Rico (1915), Nação Cambinda Estrela (1953), Nação Pernambuco, além de outros grupos que surgiram mais recentemente, mantendo a tradição africana dos nossos antepassados.

Princesa Dona Clara
Pra onde vai? – Vou passeá.
Eu vou para Luanda
Vou quebrá saramuná.
Eu vou, eu vou
Eu vou para machá
Eu vou para Luanda
Eu vou para Luanda
Vou quebrá saramuná.

___________________________

1) GUERRA-PEIXE, César. Maracatus do Recife. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife; São Paulo: Irmãos Vitale, 1981. 172 p. il. (Coleção Recife, v. 14).

2) GUERRA-PEIXE, César. Maracatus do Recife. Op. cit.

3) Sedução do Norte – LP-RGE, XLRP – 5025/1958.

4) REAL, Katarina. O folclore no Carnaval do Recife. Rio: MEC; Campanha de Defesa do Folclore, 1967. 160 p. il.

MARACATUS, OS LAMENTOS DAS TERRAS DO LADO DE LÁ

Fotos do colunista

FOTO 40

O maracatu, da forma hoje conhecida, tem suas origens na instituição dos Reis Negros, já registrada na França e em Espanha, no século XV, e em Portugal, no século XVI. Em Pernambuco registramos a presença de coroações dos soberanos do Congo e de Angola a partir de 10 de setembro de 1666, segundo transcrição de Pereira da Costa, citando o testemunho de Urbain Souchou de Rennefort, in Memoires pour servir a L’Histoire des  Indes Orientales etc,  publicado em Paris 1688.

Apesar do duro cativeiro em que vivem os negros não deixam de se divertirem algumas vezes.  No domingo 10 de setembro de 1666, teve lugar a sua festa em Pernambuco.  Depois de terem ido à missa, em número de cerca de quatrocentos homens e cem mulheres, elegeram um rei e uma rainha; marcharam pelas ruas cantando e recitando versos por eles improvisados, precedidos de atabaques, trombetas e pandeiros.  Vestiam as roupas de seus senhores e senhoras, trazendo correntes de ouro e brincos de ouro e pérolas; alguns estavam mascarados.  Os gastos da cerimônia lhes custaram cem escudos.  “Durante toda a semana, o rei e os seus oficiais não fizeram outra coisa senão passearem gravemente pelas ruas, de espada e punhal ao cinto”. (1)

As coroações de reis e rainhas de Angola na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife, por sua vez, são documentadas a partir de 1674. 2 Das nações dos negros, era do Congo a que mais se destacava dentro das irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito, cuja função não era tão-somente cerimonial, como deixa entender a descrição de alguns viajantes, mas um encargo administrativo, do interesse do Governador da Capitania e do bem público, com a função de “inspecionar e manter a ordem e subordinação entre os pretos que lhe forem sujeitos”, conforme o Diario de Pernambuco, 20 de setembro de 1848:

Publicação a pedido – O Dr. Antônio Henrique de Miranda, juiz de direito e chefe de polícia nesta cidade do Recife de Pernambuco, por S. M. I. e C. o senhor D. Pedro II, que Deus guarde, etc.  Faço saber que, tendo-me requerido o preto liberto Antônio de Oliveira a confirmação da nomeação que tivera para rei de Congo dos pretos desta cidade, e havendo provado com o termo da dita nomeação ser verdade o expedido em sua petição; depois de haver obtido as informações necessárias a respeito de sua conduta, hei por bem confirmar a indicada nomeação, segundo o antigo costume desta cidade, ficando  o referido rei de Congo obrigado a inspecionar e manter a ordem e subordinação entre os pretos que lhe forem sujeitos, pelo que lhe mandei passar o presente título, para poder exercer o lugar para que foi nomeado.  Dada e passada nesta secretaria de polícia de Pernambuco aos 14 dias do mês de setembro de 1848.  Eu Aprígio José da Silva, 1º amanuense da secretaria de policia, o escrevi.  Antônio Henrique de Miranda.

No Recife os cortejos dos Reis Negros vieram a ser transformados no maracatu, cujo vocábulo aparece na imprensa a partir do final da primeira metade do século XIX, para denominar os ajuntamentos de negros, como por ocasião da fuga da escrava Catarina, anotada por José Antônio Gonsalves de Mello em consulta à edição do Diario de Pernambuco de 1º de julho de 1845:

Em o dia 2ª feira do Espírito Santo do ano próximo passado, fugiu a preta Catarina, de nação Angola, ladina, alta, bastante seca de corpo, seio pequeno, cor muito preta, bem feita de rosto, olhos grandes e vermelhos, com todos os dentes da frente, pés grandes metidos para dentro, muito conversadeira e risonha, de idade de 22 anos; tem sido encontrada na Estrada da Nova da Passagem da Madalena e no Aterro dos Afogados, vendendo verduras e aos domingos no maracatu dos coqueiros do dito Aterro, e há notícia de ser o seu coito certo a matriz da Várzea; cuja escrava pertence a Manoel Francisco da Silva, morador na Rua Estreita do Rosário, 10, 3º andar, ou em seu sítio em Santo Amaro, junto à igreja, o qual gratificará generosamente a quem lh’a apresentar.

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Na sessão extraordinária da Câmara Municipal do Recife de 28 de abril de 1851, foi oficiado ao desembargador Chefe de Polícia “uma petição do preto africano Antônio Oliveira, intitulado Rei do Congo, queixando-se de outro que, sem lhe prestar obediência, tem reunido os de sua nação para folguedos públicos, a fim de que o mesmo desembargador providenciasse em sentido de desaparecer semelhantes reuniões, chamadas vulgarmente de maracatus, pelas consequências desagradáveis que delas podem resultar” (Diario de Pernambuco, 27.5.1851).  

O folguedo do maracatu, semelhante aos bailes e batuques organizados pelos pretos de Angola ao tempo do governador José César de Menezes (1774-78), objeto de denúncia à Inquisição de Lisboa por parte dos frades capuchinhos da Penha (3)  , foi sempre alvo de censuras por parte das classes dominantes e de perseguição policial; segundo registra o mesmo jornal em sua edição de 11 de novembro de 1856 ao tratar do maracatu da praça da Boa Vista:

No domingo, os pretinhos do Rosário, talvez avezados, quiseram apresentar na Praça da Boa Vista o seu maracatu; a polícia, porém, dispersou-os, não porque julgasse que aquele inocente divertimento era atentatório à ordem pública, mas porque do maracatu passariam à bebedeira, e daí aos distúrbios como sempre acontece; obrou-se muito bem.

Até então, os cortejos dos reis negros eram geralmente anotados pela imprensa, quando das festas de Nossa Senhora dos Prazeres e nas de Nossa Senhora do Rosário de Santo Antônio, como descreve o Diario de Pernambuco em sua edição de 20 de outubro de 1851, sem a denominação de maracatus.  

Nos anos setenta do século XIX é descrita a presença desses cortejos de reis negros durante o Carnaval, como noticia o Diario de Pernambuco sem sua edição de 10 de fevereiro de 1872, ainda sem a denominação de maracatus:

No dia 11 do corrente sairá da Rua de Santa Rita Velha [bairro de São José] a nação velha de Cambinda, a qual vai em direitura à Rua das Calçadas buscar a sua rainha, e depois percorrerá diversas ruas, e às 3 horas se achará em frente à igreja do Rosário [de Santo Antônio] onde se soltarão algumas girândolas de fogo e uma salva de 21 tiros; dali seguirá para o Recife e na Rua do Bom Jesus voltará com a vice-rainha de sua nação.    

O maracatu era considerado então a reunião de negros, um o batuque, na acepção de “dança africana ao estrépito de instrumentos de percussão” (Pereira da Costa), mas não o cortejo real, este sim chamado de nação, que levava às ruas a corte dos reis negros, como faz ver o extenso editorial do mesmo jornal, publicado em 18 de maio de 1880:

Há tempos, que indicamos um maracatu que costuma reunir-se quase no extremo norte do Cais do Apolo, na freguesia de S. Pedro Gonçalves do Recife; hoje temos notícia exata de dois outros, dos quais os vizinhos têm as mais cruéis recordações. Juntam-se estes na freguesia da Boa Vista, um na Rua do Giriquiti, outro na Rua do Atalho. Neste último, anteontem, houve uma grande assuada e barulho, chegando a aparecer diversas facas de ponta. Felizmente, não se deram ferimentos, mas não esteve longe de assim acontecer. Urge, repetimos, providenciar em ordem a que cessem, desapareçam tão selvagens instrumentos, e o Sr. Dr. Chefe de Polícia, que volveu suas vistas contra as casas de tavolagem, deve também dirigir sua atenção para os maracatus.

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O maracatu, na verdade, era tão somente o batuque dos negros; um ajuntamento, com localização fixa em determinado bairro da cidade. O cortejo real, como no caso anteriormente citado da “nação velha de Cambinda”, não parece ser a mesma coisa. Para Ascenso Ferreira “o maracatu não é clube, é Nação” (4). A conclusão é reforçada pelo depoimento do carnavalesco João Batista de Jesus, “Seu Veludinho” do maracatu Leão Coroado, que segundo a tradição faleceu com 110 anos, prestado à pesquisadora Katarina Real em janeiro de 1966 (5) 

Maracatu nem tinha o nome de maracatu. O nome era nação. Uma “nação” mandava ofício para outro “estado”. Surgiu essa palavra pelos homens grandes: quando ouviram os baques dos bombos,  chamaram… “Aquele maracatu.”

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 1) A informação é transcrita in COSTA, F. A. Pereira da.  Anais Pernambucanos (Coleção Pernambucana 2a. fase, v. 10) p. 408.  Segundo Rubens Borba de Morais, in Bibliographia Brasileira. Amsterdam – Rio de Janeiro: Colibris Editora Ltda., 1958 v. II, p. 270, o autor permaneceu no Recife entre 6 de julho e 2 de novembro de 1666, tendo a sua obra uma segunda edição: Souchou de Rennefort, Memoires pour servir a L’Histoire des Indes Orientales etc. , Paris 1702, estando a descrição de Pernambuco contida na segunda parte, p. 279.

2) SILVA, Leonardo Dantas.  Alguns documentos para a história da escravidão. Recife: Editora Massangana, 1988. SILVA, Leonardo Dantas. “A instituição do Rei do Congo e sua presença nos maracatus”, in Estudos sobre a escravidão negra”. Recife: FUNDAJ; Editora Massangana, 1988 303 p. il. (Série Abolição, v. 17).   p. 15 – 56.

3) Arquivo Nacional da Torre do Tombo – ANTT (Portugal), Cartório da Inquisição nº4740.

4) FERREIRA, Ascenso, in É de tororó – Maracatu.. Rio: Casa do Estudante do Brasil, 1951 p. 16.

5) REAL, Katarina. O folclore no Carnaval do Recife. Recife: Editora Massangana, 1990. 2ªed. p. 184:


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