A FESTA DOS ÍNDIOS PELADOS

 

Em 11 de maio de 1644, João Maurício de Nassau deixou triunfantemente a sua Cidade Maurícia. Montado a cavalo, seguido de um grande séqüito de admiradores, cavalgou ele pelo litoral em busca da Paraíba. A sua despedida de forma apoteótica, como a exaltar o sucesso dos sete anos do seu governo, mereceu de Netscher, escrevendo com a parcialidade de cidadão holandês, uma descrição sentida, com cores fortes e povoada por palavras tomadas de emoção, que vale a pena transcrever:

Pelo litoral passou por Olinda, Itamaracá, atingindo o Paraíba onde deveria embarcar. Por toda parte recebeu expressivas homenagens que significavam estima, reconhecimento e saudades. Sua viagem tomava o aspecto de uma marcha triunfal. As populações dos lugares por onde ia passando formavam alas para dizer-lhe adeus. Essas aclamações eram acompanhadas pelas bandas de música que toca¬vam o hino nacional Wilhelmus van Nassauwen e de salvas de canhões a lhe prestarem as últimas honras militares. O nosso aliado Jandui, chefe dos Tapuias, enviou uma delegação (entre a qual se achavam três dos seus sessenta filhos) para pedir a Maurício, mais uma vez, adiasse a partida, si isso fosse possível.

O seu embarque se dá no porto de Cabedelo, na Paraíba, levando em sua comitiva o Escabino e homem de negócios Gaspar Dias Ferreira, uma espécie de seu testa-de-ferro em negociatas nunca bem explicadas, figura misteriosa de agente duplo, com sua participação ainda por ser estudada.

Em Cabedelo, um grupo de índios afasta os guardas de sua escolta e o transporta, nos ombros, até o escaler que flutuava sobre as ondas, esperando para conduzi-lo até o Zuphen. Somente no dia 22 de maio de 1644 é que a esquadra levanta âncoras, deixando desolados nas praias dezenas de índios que com o Conde Nassau desejavam embarcar para a Holanda. Todo o episódio do seu embarque é descrito com cores vivas pelo cronista Gaspar Barlaeus (1647).

Partiu o Conde de Nassau no mesmo barco que o trouxera ao Brasil em 1637, o Zuphen. Ao seu redor navegava uma frota de treze navios, tripulados por 1.400 marinheiros, armados com 327 canhões, e um carregamento avaliado em 2.600.000 florins, composto principalmente de açúcar, pau-brasil, madeiras de lei [notadamente jacarandá e pau-violeta], fumo, pau-campeche [o caule e as raízes apresentam propriedades medicinais e deles se extrai matéria corante que contém hematoxilina], além de toda a produção de seus artistas e objetos vários, bem como curiosidades pertencentes ao seu museu de antropologia.

Depois de uma travessia, um tanto ou quanto atribulada, que lhe obrigara há vários dias de repouso após o desembarque no porto de Texel, o Conde de Nassau compareceu perante assembleia dos Estados-Gerais, reunidos na Haia, em 12 de agosto de 1644. Na ocasião, apresentou-lhes “um curto e prévio relatório a respeito de sua gestão no Brasil desde 1637”.

Em 20 de setembro do mesmo ano, tornou o Conde de Nassau à mesma assembléia onde, em nova audiência, pôde relatar a verdadeira situação do Brasil Holandês e, a exemplo do que fizera quando do seu Testamento Político, demorou-se bem mais no enfoque dos diversos assuntos, parte deles relacionados por Gaspar Barlaeus em seu livro (Amsterdã, 1647).

Reclamou o Conde de Nassau dos altos juros cobrados pela Companhia aos seus devedores, contrariando o próprio edital vigente que estabelecia o juro de 12% ao ano sobre as dívidas contraídas com a Companhia das Índias Ocidentais, conforme mais uma vez relata Gaspar Barlaeus em obra citada.

Além disso, deve atender-se a que um edito do ano de 1640 determinou que pelas dívidas garantidas por penhor não se cobrar juros superiores a 12% e pelas não garantidas apenas de 8%. São fáceis os exemplos de quão enormemente os nossos burlaram esta lei, exigindo um juro ilegal. Cosme de Oliveira, morador no Tijucupapo, tendo comprado alguns escravos por 9.000 florins, depois de pagar 12.000 de mora, foi preso por uma dívida de mais 15.000 florins. João Soares, cidadão de Muribeca, tendo recebido a crédito bens no valor de 36.000 florins, tendo pago 60.000, ainda devia de mora (ah! invoco o testemunho dos homens!) igual quantia! Seria, certamente, legal e justo abater-se os débitos destes quanto lhes foi cobrado com suma injustiça. Isto fizeram os Romanos, elaborando a Lei das Doze Tábuas para conterem os furores da plebe e suas justíssimas reclamações.

É desta época a notícia de uma curiosa festa brasileira, promovida por Nassau nos jardins e salões de sua residência, a Mauritshuis, na presença de nobres e embaixadores acreditados junto aos Países Baixos. Da crônica da vida diária da Holanda são freqüentes os comentários sobre esta festa, segundo se depreende da correspondência de muita gente famosa que descreve a festa brasileira com riquezas de detalhes. A nota de curiosidade da festa ficou por conta da apresentação da dança guerreira dos tapuias, nos mesmos moldes da que foi eternizada em tela por Albert Eckhout.

Na ocasião o Conde de Nassau fez apresentar os onze índios, que o acompanharam na sua viagem de regresso do Brasil, completamente despidos que com as suas setas e bordunas realizaram a dança ritual.

Assinala Besselaar que, “entre os convidados se achavam vários predicantes com suas esposas. Para alguns, a representação foi um grande escândalo e, justamente por ser motivo de escândalos para alguns, foi motivo de grande hilaridade para outros”.

A VIDA PRIVADA NO BRASIL HOLANDÊS

Durante o Brasil Holandês (1630-1654) transferiram-se para Pernambuco indivíduos originários das mais diferentes partes do mundo de então. Eram judeus, mercenários, predicantes, comerciantes e funcionários da Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, ou simplesmente aventureiros e até prostitutas, todos em busca de dias melhores na Terra do Açúcar.

O Recife de então se transformara numa verdadeira Torre de Babel. As suas ruas, praças, templos e tavernas encontravam-se tomadas por holandeses, noruegueses, belgas, flamengos, ingleses, alemães, escoceses, dinamarqueses, além de um imenso número de judeus; estes últimos divididos em sefardins, oriundos da Península Ibérica, e askenazins, procedentes do norte da Europa.

Por força da Guerra Brasílica esses recém-chegados tiveram de conviver com mazombos, como eram chamados os naturais do Brasil, portugueses, espanhóis, italianos, ameríndios (a quem chamavam de brasilianner) e negros escravos originários das mais diferentes regiões da África.

Ao contrário dos portugueses que encontraram uma cultura ameríndia e dela tiraram proveito, os holandeses, em sua maioria formada por gente acostumada a viver nas cidades, vieram a sofrer por uma total falta de meios de subsistência o que tornou impossível à preservação da vida na colônia.

No Brasil, os holandeses continuaram a viver com os mesmo hábitos, como se ainda estivessem na Holanda. De lá eram transportados para o Brasil os produtos mais diversos. Até o necessário e o indispensável à subsistência, como a carne de boi e de carneiro salgadas, provinham de portos holandeses. Além destas, também de lá vinham o toucinho, presunto, língua, salmão, bacalhau, peixe seco, biscoitos, arenque, farinha de trigo, vinhos da Espanha, aguardente de uva, vinhos franceses do Reno, cerveja (birra), queijos diversos, manteiga, azeite, passas de Corinto, azeitonas, alcaparras, amêndoas e, sobretudo, farinha de trigo.

Mesmo a alimentação do corpo de tropas era dependente dos produtos importados. Para os soldados era solicitado que viessem da Holanda produtos como aveia, feijão, ervilhas, carne salgada, bacalhau, peixe seco, cerveja, vinho da Espanha, “vinho forte francês”, arroz, favas turcas [milho], cevada, passas e farinha de trigo. – Tal dieta, na qual predomina o álcool, as conservas e o sal, veio contribuir para a derrota das tropas da Companhia nas duas batalhas dos Montes Guararapes nos anos de 1648 e 1649.

Nenhuma simpatia para com os produtos da terra. Nada de frutas, verduras, batatas, legumes, raízes, caules e produtos à base da mandioca, como a farinha-de-pau, e outras culturas da terra, utilizadas à larga na alimentação dos portugueses, ameríndios e negros escravos.

Também da Holanda para cá foram trazidos gatos (para combater a incontrolável população de ratos), gansos, patos, porcos, além de cães ingleses empregados na captura de índios, negros fugidos e insurretos pernambucanos.

De portos europeus provinham os tecidos do vestuário dos holandeses – linhos, brocados, veludos, damascos, sedas, etc. -, que aqui chegavam juntamente com sapatos ingleses, selas de montaria, o marfim e o ouro da Guiné, pau-de-rede de Angola, especiarias da Índia, madeiras do Báltico, couros da Rússia, chapéus, plumas e tudo o que se podia comprar com os florins resultantes da venda do açúcar dos engenhos pernambucanos.

Até para a satisfação do apetite sexual dos flamengos, não muito dado a exotismos, vieram da Holanda um considerável número de prostitutas, como as que habitavam os sobrados da Rua do Vinho, paralela a Rua dos Judeus, onde se localizavam “os mais vis bordeis do mundo”.

Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos (1987).

No que diz respeito à convivência com as diversas etnias, os holandeses encontraram em Pernambuco uma sociedade de mestiços e foram obrigados a com ela conviver tolerando seus usos, costumes e até uniões as quais não estavam habituados.

Em 1646, segundo recenseamento realizado em fins de 1645 estaria confinado no centro do Recife um total de 4.660 pessoas, “entre particulares, empregados da Companhia e escravos”; população esta acrescida em 1.169 soldados que compunham o efetivo das guarnições dos fortes ali situados.

Segundo estimativa do cronista do Journael, publicado em Arnhem (capital da província de Géldria, no Baixo Reno), em sua edição de junho de 1646, por essa época, viviam no Recife cerca de 8.000 habitantes,

A fim de abrigar tanta gente, em tão diminuto espaço de terra, foram utilizadas todas as habitações disponíveis, acrescidas dos armazéns do porto e até dos sótãos [parte da casa entre o forro e o telhado] dos sobrados, alguns deles com quatro pavimentos. Neles eram acomodados “caixeiros, auxiliares de escrita e serventes”, em número de três a oito deles em cada cômodo, sob um calor asfixiante, com suas camas coladas às outras, na maior das promiscuidades.

Em cartas do Conselho do Recife, datadas de 31 de março e 20 de dezembro de 1641, nos deparamos com esses comentários: Se nós não abrigarmos essa gente em habitações coletivas, ela vai procurar alojamentos nas bodegas do porto, que são os bordeis mais vis do mundo. Ai! Do mancebo que ali cair – fica votada a irremissível perdição.

Diante de tamanha promiscuidade, não é de admirar que a vida na colônia tornou-se um verdadeiro inferno. A falta de água potável e alimentação adequada, sobretudo a ausência de vitaminas no cardápio diário, trouxeram consigo o crescimento dos casos de escorbuto e outras doenças, como a hemeralopia (deficiência de visão à luz do sol; cegueira diurna), disenterias sangüíneas (ventris fluxus, Piso), moléstias do fígado, surtos de gripes, dentre outras que dizimaram um grande número de pessoas.

Com a chegada sempre crescente das levas de aventureiros, dentre eles um elevado número de prostitutas, a sífilis transformou-se numa verdadeira epidemia no Brasil Holandês. Os médicos de então, como o cientista Willem Piso, foram procurar cura para tais doenças junto à flora medicinal indígena e experientes médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana, através do qual, “fica-se curado dentro de oito dias”.

Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen (2004) “que pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalha da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho e outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo “panorama de excessos não pode ser descritos por simples palavras”.

Dentro dos lares, ao contrário dos portugueses que escondiam suas mulheres e filhas da vista dos estranhos, os holandeses eram por demais liberais em suas relações com a sociedade.

Suas mulheres, em maior número do que as originárias de Portugal revelavam uma jovialidade pouco comum às nativas. Testemunha frei Manuel Calado, quando das festas em regozijo à Aclamação do Duque de Bragança, D. João IV, ao trono de Portugal, realizadas no Recife em abril de 1641.

E se o banquete era jantar durava a beberronia (ato de beber sem comedimento) até a noite, e se era ceia até a madrugada; e nestes convites se achavam as mais lindas damas e as mais graves mulheres, holandesas, francesas e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens, e arrimavam-se ao bordão de que aquele era o costume de suas terras.

No ambiente familiar, onde reinava tal liberdade, passou a ser comum a prática do adultério como se depreende das inúmeras denúncias chegadas ao Conselho Eclesiástico; assim assevera Hermann Wätjen (2004): Muita mulher infiel de soldado, metida em varas, teve de passar horas inteiras no pelourinho, exposta ao calor ardente do sol, na praça pública; muita dama elegante foi vergastada coram publico pelo carcereiro mor.

Militares e civis, em quantidade considerável, foram expulsos da colônia por crimes de bigamia; o que fez com que as autoridades exigissem de todo homem casado, logo que chegasse ao Recife, a apresentação da respectiva certidão de casamento.

A ata do Conselho da Zelândia, de 7 de agosto de 1649, narra o fato de certo capitão holandês, dado à prática da pederastia, ter sido transferido para a ilha de Fernando de Noronha e de lá para uma prisão em Amsterdã “em cujos cárceres pudesse acabar a sua arruinada existência”.

Neste ambiente restaram poucas casas de portugueses que viessem a merecer descrições mais apuradas de cronistas holandeses. Segundo documentos da época, os portugueses viviam em “distritos agrícolas, em miseráveis casas de taipa”, denunciando, inclusive, “falta de asseio do corpo e da casa”.

A casa rural dos portugueses é descrita como desprovida de conforto e ostentação de riqueza. Dispunha de poucos móveis, sendo grande parte dela construídas em taipa e cobertas de telha, observando-se a existência de pelo menos dois pavimentos, dominados por grande varanda.

No interior da casa, a mulher, sempre cercada por um razoável número de escravas, recebia os visitantes, sentada sobre um estrado, “conservando os pés escondidos, pois é considerado indecente mostrá-los aos visitantes, seja amigo ou pessoa estranha”.

A mesa era farta de alimentos proporcionados pelas culturas da terra, notadamente a mandioca da qual retiravam a farinha e a massa, usada largamente em sua culinária. Dela também fazia parte os tubérculos, verduras, legumes, frutas, que davam acompanhamento aos peixes e às carnes. As refeições eram seguidas de uma enorme variedade de doces e frutas cristalizadas, “que gozam da melhor aceitação entre velhos e jovens”.

Com respeito à dieta da família portuguesa, observa o reverendo Vicente Soler, em uma de suas cartas ao teólogo André Rivet, de Leiden, que “em lugar de pão o povo em geral come certa farinha, branca como neve, feita da raiz de certo vegetal. Alguns fazem bolos com ela, os quais alguns dos nossos consideram muito mais saboroso do que o melhor pão de cereais de que em geral não temos falta”. Nas suas observações, assegura o calvinista espanhol ser o português abstêmio ao vinho e outras bebidas alcoólicas, dando preferência à água natural, embora seja um apreciador dos sumos das frutas, adocicado com açúcar.

Segundo carta-geral do Governador e Conselho, datada de 14 de janeiro de 1638 e citada por Hermann Wätjen (2004), “as mulheres dos portugueses andavam por demais ataviadas de jóias (algumas falsas), vestindo-se pomposamente, enquanto alguns homens apresentavam-se mal vestidos. Nas casas portuguesas mais distintas, quando as mulheres saem às ruas são sempre carregadas por dois escravos, deitadas em redes ou sentadas em cadeirinhas, devidamente cobertas por um véu”.

Por conta de sua vida sedentária, recolhida ao interior da casa senhorial, sem quase receber os raios do sol, com a sua dieta plena de doces e outros produtos manufaturados com o açúcar, a fisionomia da mulher portuguesa é pouco atraente, pois logo perde os dentes, tornando-se gordas e pesadas.

O homem português era um eterno ciumento de sua mulher e filhas, tomando as precauções inimagináveis para tornar impossível que elas recebam galanteios de outros homens ou em absoluto figure em negócios do amor. Daí a razão de terem as portuguesas tão pouca liberdade de movimento e serem obrigadas pelos seus maridos à vida caseira.

Não obstante registrava-se um razoável número de uniões de mulheres da terra com holandeses. Frei Manuel Calado, em seu relato (1648), observa que “vinte mulheres portuguesas se casaram com os holandeses, ou para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges e por predicantes hereges (…) porque, como eles eram senhores da terra, fazia as coisas como lhes parecia, e era mais honroso e proveitoso”.

Na verdade um grande número de holandeses, senhores-de-engenho em particular, veio a casar com mulheres da terra ou portuguesas. Além de Gaspar van der Ley, aqui também casaram Abraham Tapper, Joris Garstman, Johan Heck, Jan Wijnants; o mesmo acontecendo no Rio Grande do Norte e no Maranhão, como conta o padre Antônio Vieira.

Com outras etnias, a exemplo dos negros e dos índios, a união com holandeses era vista sobre um prisma diverso. Enquanto os portugueses foram por todo o tempo tolerante para com as uniões mestiças, entre brancos, índios e até negros, o mesmo não se pode dizer das autoridades holandesas. Estas, a todo custo, procuravam impedir o contato sexual de brancos, “considerada como tal a descendência holandesa e a norte-européia em geral”, com toda população de cor.

A PROSTITUIÇÃO NO BRASIL HOLANDÊS

Da promiscuidade do dia-a-dia, agravada a cada dia com a chegada de um número cada vez maior de aventureiros, dentre os quais um grande número de prostitutas. A sífilis veio a tornar-se uma verdadeira epidemia no Brasil Holandês de então, obrigando cientistas, como os médicos Willem Piso e Georg Marcgrave, autores do livro clássico Historia Naturalis Brasiliae (1648), buscar a cura para tal doença junto à flora medicinal indígena e aos médicos portugueses, que recomendavam para a infecção por gonorréia o sumo da cana fermentado, através do qual “fica-se curado dentro de oito dias”.

A propagação da lues, como também é denominada a sífilis, era propiciada pelo grande e imenso bordel a que fora transformado o Recife de então. Tal importação vem acontecer logo nos primeiros anos do Brasil Holandês, que recebeu verdadeiros “carregamentos de mulheres perdidas”, como se depreende das cartas do Conselho do Recife.
 
Muitas dessas “mulheres fáceis”, como a elas se referiam os documentos, aparecem com os seus nomes mais conhecidos: Cristinazinha Harmens, Anna Loenen, Janneken Jans, Maria Roothaer (Maria Cabelo de Fogo), Agniet, Elizabeth (apelidada de a Admirael), Maria Krack, Jannetgien Hendricx, Wyburch van den Cruze, Sara Douwaerts (apelidada de Senhorita Leiden), havendo outras duas conhecidas por Chalupa Negra e Sijtgen, segundo demonstra José Antônio Gonsalves de Mello em Tempo dos Flamengos.
 
Sobre o estado de promiscuidade atingido pela capital do Brasil Holandês, comenta Hermann Wätjen que “pelas ruas do Recife andava muita gente pouco ajuizada e que aí todas as portas se achavam abertas ao vício. Os soldados arrebanhados de todos os campos de batalhas da Europa, para arriscarem diariamente a vida e a saúde numa campanha de guerrilhas, contra um inimigo ardiloso e prático, queriam gozar à rédea solta os dias de folga”.
 
O mesmo proceder acontecia com os marinheiros, após travessias de muitas semanas no mar, quase sempre envolvidos em batalhas e refregas. Também acontecia com os homens procedentes dos engenhos de açúcar, que se encontravam no Recife de passagem, longe da vista de suas famílias.

Todos eles, soldados, marinheiros, capitães, agricultores, lotavam os botequins e albergues, ingerindo grandes quantidades de vinho, bem como outras bebidas destiladas. Eram portugueses, holandeses, negros, indígenas, turcos, judeus, mazombos, mulatos, mamelucos, crioulos, ingleses, franceses, alemães, italianos, cujo panorama de excessos, segundo Pierre Moreau não pode ser descritos por simples palavras.

A terrível problemática habitacional levou a promiscuidade e a consequente dissolução moral da capital do Brasil Holandês contribuindo para a elevação do número de doenças epidêmicas, com o aumento do número de óbitos e a derrocada de sua estrutura política e militar.

JUNHO DAS NOITES BRASILEIRAS

BDSJ

No nosso calendário de festejos populares, a festa do Senhor São João se torna a mais festejada em Pernambuco, nesse mês dedicado aos santos de junho.

É também a festa mais antiga do Brasil, já registrada por frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil 1500-1627, que assim as descrevia: “acudiam com muita boa vontade, porque são muito amigos de novidades, como no dia de São João Batista por causa das fogueiras e capelas”.

Trata-se de uma festa de grande misticismo, a partir do próprio nome Batista – o que batiza cheio de graça -, em cuja noite se praticava feitiçarias, como demonstra a denúncia de Madalena de Calvos contra Lianor Martins, a Salteadeira, acusada dentre outras coisas, de trazer consigo uma semente enfeitiçada colhida na noite de São João, segundo depoimento prestado perante o inquisidor Heitor Furtado de Mendoça, em 22 de novembro de 1593, quando da primeira visitação do Santo Ofício a Pernambuco.

As festas juninas foram trazidas para o Brasil pelos colonizadores portugueses, eles próprios ainda hoje cultores desta milenar tradição marcada pelas festas de Santo Antônio, em Lisboa e em Lagos; São João, no Porto e em Braga, e São Pedro, em Évora e Cascais. Na Europa as festas juninas coincidem com o início do verão, daí a presença da tradição de costumes pagãos dentro dos festejos, como adivinhações e o culto ao fogo.

No que diz respeito às fogueiras, ensina a tradição cristã divulgada pelos jesuítas ter sido um compromisso de Santa Isabel, prima da Virgem Maria, de mandar erguer uma enorme fogueira no sentido de anunciar o nascimento de seu filho João Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermédio. Ele não era a luz, mas devia dar testemunho da luz”. (João 1,6-8).

No Brasil as festas juninas acontecem com o início do inverno, tempo de colheita do milho e do feijão no Nordeste, que sempre está à espera das boas invernadas de modo a afastar o espectro das estiagens de modo a garantir a sua subsistência; como na polca de Zé Dantas e Luís Gonzaga, Lascando o cano (RCA 80/307B-1954):

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Vamo, vamo Joana
Findou-se o inferno
Houve um bom inverno
Há fartura no sertão…,
Ai! …Joana, traz pamonha, milho assado
Vou matá de bucho inchado
Quem num crê no meu Sertão.
Traz a riuna que eu vou lascar o cano
Pela safra desse ano
Em louvor a São João.

Em se tratando de um povo de bailadores, acostumado a dançar no meio da rua, na região Nordeste os festejos juninos são marcados, não somente pelas fogueiras, balões, comidas da época (nas quais predominam o milho, a mandioca, a castanha de caju e os doces variados), mas também pela música em seus mais diferentes gêneros a movimentar os arraiás, residências, comércio, clubes sociais, programação de rádio e televisão e, sobretudo, a alma festiva dessa gente; como naquela polca de Zé Dantas e Joaquim Lima, Chegou São João, gravada por Marinês (RCA- BBL1075-B-l/ 1960):

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Eita pessoá!
Chegou São João!
Vou me espraiá,
Vou dá no pé prô meu Sertão.
Eu vou pra lá,
Brincá com Tonha,
Com Zefa e Chico,
Comer pamonha e canjica
Vou soltar ronqueira,
Bebê e dançar coco
Em volta da fogueira.
Vou soltá,
Foguete, balão, buscapé
Bebendo aluá, cachaça e capilé

………………………………….

A festa de São João tem início com o Acorda Povo, logo na madrugada do dia 23, acordando os moradores ao som de zabumba, caracaxá, ganzá, triângulo, sanfona, tudo movido a muita cachaça: “Acorda povo que o galo cantou / Foi São João que anunciou ….”.

No por do sol do dia 23, véspera da festa do santo, são acendidas às fogueiras e a festa tem continuidade com a Bandeira de São João. Uma procissão antecipada por uma estrela, coberta de papel celofane com cerca de 150 cm. de diâmetro, iluminada por velas no seu interior, carregada por dois meninos. Seguem-se duas filas, formadas por homens e mulheres, que cantam e dançam em honra do santo, fazendo marcação com os pés e, por vezes, trocando umbigadas. Segue-se de uma bandeira, pintada com a imagem do Batista menino com o carneirinho, segurada em suas pontas por quadro adolescentes, antecedendo ao andor com a imagem do santo, esculpida em gesso ou madeira, carregado por quatro moças vestindo branco, encarnado e verde, cores mantidas também nas lanternas dos acompanhantes. Finalmente uma banda de pífanos, ou um terno de sanfona (acordem, zabumba e triângulo), acompanha os seguidores no seu canto: “Que bandeira é esta / Que vai levantar/ É de São João para festejar/ Que bandeira é esta / Que já levantou/ É de São João, primo do Senhor”.

A música é uma constante nos festejos juninos desde os primeiros dias da colonização. Foi assim com as capelas, referidas pelo frei Vicente do Salvador e descritas pelo Padre Carapuceiro, continuando em nossos dias com a adaptação de ritmos oriundos de outras plagas, como o xote (schottisch), proveniente da Hungria; a polca e a mazurca, originárias da Polônia, e a quadrilha, que teve por berço os salões aristocráticos de França e, no Brasil, veio a ser dançada da Corte às casebres da zona rural, como bem assinala O Carapuceiro, em sua edição de 6 de abril de 1842: “Nas baiúcas mais nojentas/ Onde a gente mal se vê/ Já se escuta a rabequinha,/ Já se sabe o balancê./ Nisto mesmo está o mérito/ Deste dançar tão jacundo,/ Que sem odiosa exclusão,/ Acomoda todo o Mundo”.

Não faltam nessas animadas festas os ritmos originários da terra, como o coco-de-roda, originário dos batuques africanos, que marcado por um ganzá, nas mãos do solista (tirador), acompanhado por um tambor em compasso binário, e respondido pelas vozes dos dançarinos a marcarem o ritmo com sapateado dos seus tamancos de madeira, trocas de umbigadas e assim mantém a alegria a noite inteira. Para Pereira da Costa, in Folk-Lore Pernambucano (1908), o coco é a “dança querida do populacho, com certa cadência acompanhada a palmas, e na qual os foliões acomodam trovas populares repetidamente”[…] “o coco, porém, está tão vulgarizado que chegou mesmo à zona sertaneja, com a sua particular toada, mas, com letra variada, convenientemente acomodada ao canto, e obedecendo sempre a um estribilho contínuo, cantado em coro pelos circunstantes”.

O nosso coco, também veio a ser era descrito no conto de Luís Guimarães Júnior (1845-98), quando, estudante da Faculdade de Direito do Recife, publicou no Diario de Pernambuco, 8 de fevereiro de 1871, um conto sob o título “A alma do outro mundo”, no qual comenta o que chamou de “samba do Norte” , na verdade o nosso coco-de-roda.

Rodrigues da Carvalho, in Cancioneiro do Norte (1928), afirma ser o coco a “dança predileta do pessoal dos engenhos de açúcar, negros e caboclos, cambiteiros, o mestre de fornalha, o metedor de cana, o banqueiro [mestre que dá ponto ao açúcar], os tanjedores da almanjarra, etc.”. Mas na hora da alegria, onde a cachaça passa a dirigir os gestos e as ações, nem mesmo a autoridade está livre de uma roda de coco; como bem descreve Zé Dantas em gravação de Luís Gonzaga (RCA-Leme 801656A/1957):

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O seu delegado fez mais um esforço
E madrugada mandou um reforço
Mas desconfiado por não ter notícia
Veio ver o que houve, com a sua polícia
E de manhã cedo, a graça do povo
Era o delegado contando bem rouco
Nesse coco poliça num tem vez
Se acaba no pau, quem falá em xadrez } bis

Também ligados ao Ciclo Junino, particularmente aos seus intérpretes, estão hoje o baião, o xaxado, a toada, a embolada, a ciranda e a marcha sertaneja, ou marcha junina, esta última originária das marchas populares com as quais Lisboa festeja o seu Santo Antônio e que vieram a ser conhecidas, através das companhias de revista, como marcha portuguesa, a exemplo da marcha de Zé Dantas e Luís Gonzaga, São João na roça (RCA 800895A/1952):

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A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou… ô
Vamos gente!…
Rapa pé nesse salão.
………………………….

Ou esta outra marchinha, marca do romantismo das noites juninas, composta por Luiz Gonzaga e José Fernandes, Olha pro céu (Vitale 603326832), recentemente relançada na coletânea 50 anos de chão, em homenagem ao Rei do Baião:

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Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo…
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo…

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O coração
O céu estava
Assim em festa
Porque era noite
De São João
Havia balões no ar
Xote, baião, no salão
E no terreiro, o teu olhar
Que incendiou meu coração

Tudo acontece numa mistura de ritmos e de cores, num cadinho conhecido no passado por forrobodó, já neste século por forrobodança e a partir dos anos quarenta por forró, como lembra Zé Dantas in Forró do Mané Vito, gravado por Luís Gonzaga em 1949 (RCA 800668B/49) ser o local onde todos esses sons se misturam num grande baile popular.

Nas composições musicais do ciclo junino está toda moral do sertanejo, “Sertão das muié séria / Dos homi trabaiadô”… (A volta da asa-branca, toada de Zé Dantas, gravada por Luís Gonzaga, em 1950, RCA 800739 A) e a vida simples do seu povo:

Ai São João chegou,
Iaiá!
Ai São João chegou,
Sinhá!
Teu vestido de chita,
Já mandei preparar.
Minha roupa de lista,
Já mandei engomar,
Eu tenho uma festinha
Para te levar
Eu tenho uma fogueira,
Para o nosso lar

E hoje, o jovem romântico de ontem, pode lembrar com saudades aquelas noites juninas que não voltam mais, cantando aquele sucesso sempre atual, composto por Zé Dantas e Luiz Gonzaga em 1954, que leva o singular título de Noites brasileiras (RCA 801307 A):

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Ai que saudade que eu sinto
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão

Meninos brincando de roda
Velhos soltando balão
Moços em volta à fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão, ai, ai…

SANTO ANTÔNIO, O NOSSO MILAGREIRO

SANTO ANTONIO

O nosso Glorioso Santo Antônio, Padroeiro de Pernambuco, cuja data, por todos nós festejada no dia 13 do mês de junho, é segundo o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, o maior dos nossos milagreiros.

Segundo ele ainda hoje um historiador eclesiástico constata que “de todos os taumaturgos da igreja latina, nenhuma dispõe de clientela tão numerosa”; primado explicável pela sua função de santo do quotidiano, a quem se apelava nas dificuldades da vida diária, vezo que, aliás, o padre Antônio Vieira já criticava no Maranhão dos meados do século XVII.

“Muitos cuidam que se aproveitam das maravilhas de Santo Antônio, empregando a valia deste santo para o remédio das coisas temporais, e isto é desperdiçá-las.” E exemplificava: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se mandais a encomenda, Santo Antônio; se esperais o retorno, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença, Santo Antônio; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo Antônio; e talvez se quereis os bens da alheia, Santo Antônio.” Além desta função de “paráclito universal”, que o fazia pau para toda obra.

Santo Antônio era sobretudo, como dizia o padre Vieira, um santo “deparador”, isto é, recuperador das coisas perdidas. “Deparar coisas perdidas é o gênio e a graça particular de Santo Antônio.” “Deus, como autor de todos os bens, é o que os dá; é o que os recupera.” Deus dera o Brasil aos portugueses; o flamengo herege usurpara-o; Santo Antônio lho restituiria. Em vista de devoção geral por Santo Antônio, era mister alistá-lo, mobilizando o ânimo tíbia da população luso-brasileira; e para tanto cumpria decifrar os signos da sua proteção sobrenatural à empresa.

Ao contrário da devoção a Nossa Senhora dos Prazeres, mas analogamente ao que se verifica em Nossa Senhora da Luz, a escolha de Santo Antônio pressupôs o seu culto no Pernambuco ante bellum; o êxito da ‘guerra da liberdade divina’ consolidará sua preeminência no imaginário religioso da capitania, ao conferir-lhe o cariz se santo militar.

TAMBÉM VEREADOR

Recentemente muita celeuma veio a ser causada por conta do soldo de vereador atribuído a Santo Antônio de Lisboa pela Câmara de Igarassu, fazendo honrar ao título que lhe foi concedido pelo Rei de Portugal ainda nos meados do século XVIII.

Tanta confusão por nada, vez que a tradição fez de Santo Antônio o santo mais popular de nosso país. Em Pernambuco foi o seu culto divulgado pelos frades franciscanos, já nos primeiros anos da colonização, ao fundarem em Olinda o primeiro convento em terras do Brasil (1585) e assim espalhar a devoção pelo santo lisboeta por todo Brasil.

Nascido em Lisboa, em 15 de agosto de 1195, e falecido na cidade italiana de Pádua, em 13 de junho de 1231, Santo Antônio tornou-se o orago mais popular do Brasil, onde possui 228 freguesias com a sua invocação. Em segundo lugar em popularidade viria São José, com 71 freguesias sob a sua proteção. Daí a afirmativa de Luís da Câmara Cascudo, in Dicionário do Folclore Brasileiro: “apesar de tanta bajulação e mudanças corográficas, o Brasil possui 70 localidades com o nome de Santo Antônio”.

No Recife a tradição do culto deste santo data de 1606, quando os mesmos franciscanos instalaram na então ilha de Antônio Vaz um convento sob a proteção de Santo Antônio, ainda hoje existente na Rua do Imperador e para onde aflui centenas de devotos em todas as terças-feiras do ano. Quando da elevação da então povoação à vila, em 19 de novembro de 1709, apesar de tentativa de eleger São Sebastião como padroeiro, numa bajulação flagrante ao governador Sebastião de Castro Caldas, o antigo “Povo dos Arrecifes” recebeu a denominação de Vila de Santo Antônio do Recife. A proteção do santo lisboeta foi mais tarde reconhecida pelo Papa Benedito XV, quando, em 12 de novembro de 1918, ao conceder o co-padroado da cidade a Nossa Senhora do Carmo, salientou ser “Santo Antônio o padroeiro principal”.

Por sua vez, a primitiva capitania de Pernambuco também tinha como padroeiro Santo Antônio de Lisboa, como bem demonstra Francisco Augusto Pereira da Costa, citando os estatutos da Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e Paraíba, aprovados em alvará de 13 de agosto de 1759, onde, no seu artigo 2º, declara que esta “usará de armas para os selos em que se veja na parte superior a imagem de Santo Antônio, padroeiro daquela capitania”.

Também no Recife tem Santo Antônio a sua carreira como militar, chegando a ser promovido ao posto de tenente de artilharia do forte do Buraco, em ato confirmado pelo rei D. João V, em 30 de abril de 1717, que lhe atribuía o soldo de 2$700 [dois mil e setecentos réis], a ser recebido pelos frades do seu convento. Um século mais tarde, os mesmos frades solicitaram do governador Luiz do Rego a promoção de Santo Antônio ao posto de sargento-mor. Em seu despacho, de 30 de agosto de 1819, aquele governador indeferia o pedido com base no fato de que, “sendo o santo oficial que nunca morre, hão de necessariamente chegar um dia a gozar debaixo deste título o soldo de marechal do Exército, do que mais poderem inventar e então serão sustentados [os frades] às custas da real fazenda, o que me não parece preciso”.

Na primeira quinzena de junho, nas primeiras treze noites, é o santo festejado. Nas cidades, ou na zona rural, os seus fiéis estão a cantar a trezena que nós, desde pequenino, nos acostumamos a ouvir.

Milagroso Antônio
Nosso Padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro

IOLANDA & ZÉDANTAS, A PARCERIA DO BEM-QUERER

Iolanda Dantas – 86 anos

Nestas festas do juninas de 2017, a musa maior do compositor José de Souza Dantas Filho (1921-1962) não se encontra entre nós; partiu para a eternidade em dois de janeiro passado aos 86 anos no Rio de Janeiro.

Dona Iolanda Dantas é hoje mais uma estrela que brilha em nosso céu. Foi ela a musa e inspiração maior do Zedantas, como gostava de ser chamado o mais importante parceiro da trajetória musical de Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989).

Para Dona Iolanda o Zedantas apaixonado escreveu Letra I (1953); Vem morena; Sabiá e uma tantos outros sucessos que marcaram as nossas festas juninas.

Dona Iolanda morreu aos 86 anos, numa segunda-feira, 2 de janeiro de 2017, no Rio de Janeiro, onde encontrava-se internada numa clínica médica da Tijuca, tendo o seu corpo sido cremada e suas cinzas transportadas para o Recife onde se encontram junto aos restos mortais de seu grande amor: José de Souza Dantas Filho, o nosso Zedantas poeta maior do nosso cancioneiro regional.

Segundo a bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco José de Souza Dantas Filho, conhecido como Zé Dantas ou Zedantas, como costumava assinar, nasceu no município de Carnaíba de Flores, Sertão do Alto Pajeú de Pernambuco, no dia 27 de fevereiro de 1921.

Ainda criança, mudou-se para o Recife para estudar e tornar-se médico, como queriam seus pais, pertencentes à burguesia rural nordestina. Foi aluno dos colégios Nóbrega, Americano Batista e Marista.

Em 1938, aos 17 anos, já compunha xotes, baiões e toadas, chegando a publicar alguns na Revista Formação, editada pelo Colégio Americano Batista.

Segundo depoimento do folclorista Mário Souto Maior, seu colega no Marista, Zedantas vivia batucando numa caixa de fósforos e criando músicas de improviso, pelos corredores do Colégio.

Durante a época em que era estudante de Medicina, para desespero do seu pai, tornou-se um boêmio. Passava noites em bares dos subúrbios da cidade, fazendo versos, cantando e desenvolvendo sua criatividade musical.

Em 1947, quando ainda estudava Medicina, já com certa fama de artista “improvisador” e compositor no meio universitário recifense, descobriu que o cantor e compositor Luiz Gonzaga, de quem era grande admirador, estava no Recife, hospedado no Grande Hotel.

Conseguiu entregar-lhe algumas composições suas, entre as quais era provável que estivessem Vem morena e Forró do Mané Vito, que foram gravadas por ele em 1949; A volta da asa branca e Acauã, gravadas respectivamente em 1950 e 1952.

Em dezembro de 1949, formou-se em Medicina, pela então Universidade do Recife. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, então a capital da República, para fazer residência médica em obstetrícia. Trabalhou no Hospital do IPASE, onde chegou a ser Vice-Diretor da Maternidade; atendia em seu consultório, como ginecologista, mas continuou investindo na sua carreira de compositor. Foi, ainda, diretor do programa O Rei do Baião, da Rádio Nacional e do Departamento Folclórico da Rádio Mayrink Veiga.

Casado com Iolanda Simões, em 26 de junho de 1954, a quem dedicou o baião “Letra I”, Zé Dantas foi pai de Sandra, Mônica e Zé Dantas Neto, merecendo essas recordações.

Zé Dantas era um homem maravilhoso, pai carinhoso e amigo dos seus amigos. (…) Todos sentimos muito orgulho dele e hoje, sua neta Marina Elali revive sua obra, cantando baiões do vovô Zé Dantas – com destaque para Sabiá; O Xote das Meninas.

Falecendo aos 41 anos, em onze de março de 1962, coube a sua mulher, Iolanda Dantas, educar os três filhos e se transformar na sentinela e guardiã de sua obra.

Assim eu a conheci, na luta em favor da preservação da memória de Zé Dantas, ainda dos anos de 1986, quando da edição do livro de Sinval Sá, O Sanfoneiro do Riacho da Brígida, que surgira em 6ª edição, “numa edição gorda”, segundo ironizava o próprio Luiz Gonzaga, trazendo o Cancioneiro de Zé Dantas, dentro da Coleção Pernambucana – 2ª Fase, com estudo introdutório de minha autoria.

Por essa época Dona Iolanda estava formando o seu filho, José de Souza Dantas Neto, em Medicina, pela Universidade do Rio de Janeiro, e a mim coube mandar apertar o anel de formatura, que pertencera ao próprio Zé Dantas, tarefa por mim confiada ao ourives Olegário Barreto, que tinha sua oficina na Rua da Concórdia.

O tempo passou, a amizade foi crescendo, era Iolanda irmã de meu amigo Manuel Simões, quando chega às minha mãos os originais de Mundicarmo Ferretti, com o título: “Na batida do zabumba, no balanço do forró”.

Com o consentimento de sua autora, optamos por um novo título “Baião dos dois – A música de Zedantas e Luiz Gonzaga no seu contexto de produção e sua atualização na década de 70”, que veio ser lançado com prefácio de minha autoria em 1988, pela Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco.

Nas nossas longas conversas tudo girava em torno do “Zé”, como se referia ela ao seu grande amor.

Passei a ser um dos vigilantes da sua memória, sempre chamando a atenção daqueles que teimavam em omitir o nome de Zé Dantas de suas interpretações, para isso sempre contando com o apoio dos amigos Toinho Alves e Marcelo Melo, do Quinteto Violado, e do próprio Luiz Gonzaga, que veio relançar o LP gravado em 1959 e relançado em 1970, Luiz Gonzaga canta seus sucessos com Zedantas, seguindo-se em 1962 da composição de Antônio Barros, Homenagem a Zé.

CAPELA DO BRENNAND COMPLETA TRÊS ANOS…

Em terras da Várzea do Capibaribe, no primitivo Engenho e depois Usina São João da Várzea (séc. XVII), o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido OSB, presidiu em maio de 2014 a bênção da Capela de Nossa Senhora das Graças em área do Instituto Ricardo Brennand.

Mandada construir pelo industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand e sua mulher Graça Maria Monteiro Brennand, a nova capela passou a ser a preferida das noivas do Recife e centro devocional da paróquia da Várzea.

Em estilo gótico o templo tem o projeto de Augusto Reinaldo Alves Filho, design técnico de Edgar Ulysses de Farias Filho, talhas e carpintaria do Mestre Nido (Eronildes José Carlos Honorato), imagem central de Elias Sultanum, rosáceas de Sérgio Mantur, catorze anjos de autoria do artista Ricardo Cavani Rosas, vitrais de Suely Cisneiros Muniz, iluminação de Regina Coeli de Barros e Mohana Barros, além de outros artistas que contribuíram para a beleza do singular conjunto.

Com o seu altar originário do barroco espanhol (séc. XVII?), trazendo cenas e entalhes policromados retratando cenas da vida de Santo Isidoro Lavrador (1070-1130), padroeiro da cidade de Madri, tendo ao centro a imagem de Nossa Senhora das Graças, padroeira da nova capela.

O novo templo dispõe de 15 x 40 m. de área e 21 m. de altura, espaço para 500 pessoas (300 sentadas), estando inserida em uma área ajardinada de 10 mil metros quadrados, com 200 vagas no estacionamento, cercada de lagos e conjunto escultórico em mármore.

A capela hoje integrante da Paróquia da Várzea, vem se prestando para solenidades religiosas, bem como atividades outras, coordenadas por aquela instituição.

O principal centro de congraçamento cultural da cidade do Recife em nossos dias é o Instituto Ricardo Brennand. Neste mês de setembro de 2014, o novo centro cultural de nossa cidade estará comemorando doze anos de atividades, com uma frequência de público acumulada em 2.001,534 visitantes, segundo a contagem registrada neste domingo.

Originário do sonho do industrial pernambucano Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, o Instituto foi inaugurado em 13 de setembro de 2002, quando da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil 1644-2002, para a qual foram trazidas do Museu da Dinamarca 28 grandes telas daquele pintor holandês, que esteve em Pernambuco entre 1637 e 1644, quando do governo do conde João Maurício de Nassau-Siegen.

Ocupando uma área de 30.000 metros quadrados, em terras do primitivo Engenho de São João da Várzea, o Instituto Ricardo Brennand reúne um complexo cultural formado pelo Castelo de São João, Pinacoteca, Biblioteca, Galeria, Parque de Esculturas e jardins.

A instituição é detentora de uma das maiores coleções particulares de armas brancas do mundo e de um notável acervo de pinturas e objetos do Brasil Holandês (1630-1654). O rico acervo é acrescido de uma coleção de quadros, retratando a paisagem brasileira do século XIX; móveis, esculturas e antiguidades, o que torna o local mais procurado pelos recifenses e visitantes que chegam ao Recife.

Sua média de frequentadores, nos últimos dois anos, atingiu a cifra de 150.000 visitantes a cada ano. Para um centro cultural distante catorze quilômetros do centro do Recife, a sua frequência surpreende até aos mais otimistas. Particularmente quando comparada com a visitação anual de alguns dos mais importantes museus brasileiros, como MASP – São Paulo (230.000), Museu de Arte Moderna de São Paulo (210.000) e Museu da Inconfidência de Ouro Preto (100.000).

Erguido sobre uma colina terciária, cercado por árvores frutíferas e exemplares da Mata Atlântica, o conjunto é contornado por lagos e criadouros de aves, ostentando na sua entrada uma imponente portada em cantaria, originária da França, ladeada por dois monumentais leões esculpidos em mármore; oriundos do Palácio Monroe (Rio de Janeiro).

Dominando os seus jardins o visitante encontrará uma réplica em dimensões originais do Davi de Michelangelo (1508), escultura em mármore de Carrara pesando sete toneladas, com 7,15 metros de altura total, confeccionada no ano de 2000 pelo estúdio de Franco Cervietti de Pietra Santa (Itália). Mais adiante se destaca a escultura original do artista colombiano Fernando Botero (1932), A Mulher no Cavalo, confeccionada em bronze que aparece junto de outras peças esculpidas em mármore e/ou fundidas em ferro e bronze procedentes das mais diversas coleções europeias.

Uma réplica de um castelo gótico-tudor foi especialmente construída pelo seu fundador, para abrigar uma das mais importantes coleções particulares de armas brancas medievais do mundo. Nele encontra-se guardado um conjunto de cerca de 5.000 peças de diversas procedências: facas, espadas, adagas, canivetes, estiletes e 50 armaduras completas (duas delas para criança e uma para cachorro). Deste acervo destacam-se os conjuntos, em tamanho original, de cavalo-cavaleiro-com-armadura, no estilo italiano, do século XVI, que estão a despertar a atenção de leigos e estudiosos, juntamente com a grande quantidade de curiosidades outras dos séculos XV ao XIX.

No mesmo recinto chama a atenção o mostruário da Cutelaria de Joseph Rodgers de Sheffield (Inglaterra), originária do século XVIII. Um notável conjunto de armas e armaduras orientais ocupa outra área com exemplares procedentes de países islâmicos do oriente e outra parte da Índia, compreendendo espadas e adagas, escudos e cotas de malhas da Dinastia Mongol.

Também no Castelo de São João encontra-se em exposição preciosos exemplares das espadas de cerimonial, folheadas a ouro e cravejadas com diamantes; vitrais e mobiliário gótico de várias procedências, que se misturam com esculturas clássicas, em mármore e bronze, candelabros, tapetes, dentro de um cenário medieval hoje integrante da paisagem urbana do Recife.

Por vinte e quatro anos, entre 1630 e 1654, o Nordeste do Brasil foi ocupado pelos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, que fixaram no Recife a sua capital. Dentro deste período, entre 1637 e 1644, foi o Brasil Holandês governado pelo nobre alemão João Maurício de Nassau-Siegen que se fez acompanhar da primeira comitiva de cientistas, artistas e homens de letras a cruzar a linha do equador.

Dentre os artistas da corte deste príncipe renascentista destacava-se a figura o pintor Frans Post (1612-1680), que veio a ser o primeiro da escola flamenga a registrar nas telas e em gravuras a paisagem do Brasil no século XVII. Através de seus quadros, os europeus puderam pela primeira vez visualizar as imagens de um Brasil real, antes somente descrito através de cartas e relatos dos viajantes.

Dos 163 quadros pintados por Frans Post, hoje espalhados pelo mundo, o Instituto Ricardo Brennand reúne vinte deles, constituindo-se na maior coleção deste pintor reunida em um só local. Dentre as raridades do conjunto, encontra-se uma tela retratando o Forte Frederick Hendrick com a ilha de Antônio Vaz à distância (61,6 x 88,9 cm.); datada de 1641, sendo uma das sete pintadas no Brasil.

Além de Frans Post, a coleção ostenta dois importantes quadros do pintor italiano Antônio Canal (1697-1768), que passou para a história das artes conhecido pelo apelido de O Canaletto. Trata-se de duas cenas da cidade de Veneza, A Praça Maior com a basílica de San Marco e O Grande Canal com a igreja de Nossa Senhora da Saúde.

No âmbito da arte brasileira, a produção dos pintores-viajantes, chegados ao Brasil após a Abertura dos Portos (1808), juntamente com a de artistas da Academia Imperial do Rio de Janeiro, bem como de representantes do Neoclassicismo e Impressionismo nos séculos XIX, tem ali um especial destaque na sala dedicada A Paisagem Brasileira.

Para a realização de grandes eventos e exposições temporárias, o Instituto Ricardo Brennand dispõe de uma suntuosa galeria, na qual se encontra exposta a réplica autorizada d’ O Pensador, obra de Auguste Rodin, concluída em 1904.

Integra ainda o conjunto um auditório para 100 pessoas e uma biblioteca com 45.000 volumes, localizada no prédio anexo à Pinacoteca, com especial enfoque para a história colonial brasileira, destacando-se o período Brasil-Holandês (1630-1654) e a História do Açúcar.

O Instituto Ricardo Brennand tem como principal objetivo a educação pela arte e, para isso, vem mantendo, especificamente, programas de caráter educativo voltados para crianças e jovens do Recife e de outras cidades do Nordeste.

Quando se indaga do industrial Ricardo Brenannd o segredo do sucesso de sua obra, demonstrado pelas contínuas romarias de visitantes, originários das mais diferentes regiões do país e, em particular, das mais diversas camadas da população do Grande Recife, ele explica tudo com um sorriso bonachão e um verso do poeta português Fernando Pessoa: Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.

RICARDO BRENNAND, O CONSTRUTOR DE SONHOS.

Neste 27 de maio passado, o industrial Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, completará 90 anos de existência, notabilizando-se, não somente como um construtor de fábricas (19 projetadas e modernizadas), mas também no grande criador do Instituto Ricardo Brennand, a sua Cidade dos Sonhos, que hoje se destaca como um dos mais importantes museus do Brasil.

Tudo começa quando ele, ainda muito jovem, inicia a sua coleção de armas brancas. Durante toda a sua vida e em todas as suas viagens aos mais diferentes continentes, foi ele formando a sua própria coleção de armas brancas, reunindo espadas, facas, alabardas, lanças, escudos, punhais, adagas, armaduras (para cavalos e cavaleiros), balestras, elmos, arcabuzes, espingardas, mosquetes, carabinas, pistolas de duelo, milhares de canivetes, uma singular armadura para cachorro, quadros e esculturas de procedências diversas, além de curiosidades; como as espadas de cerimonial do Rei Faruk I do Egito, folheadas a ouro e cravejadas por brilhantes.

Antes da criação do instituto, armas brancas não só da Europa, mas do Oriente, como as procedentes da China, Japão, Índia (verdadeiras joias da cutelaria mongol), do Nepal, da Oceania, integravam um pandemônio de peças que se espalhava pelos diversos cômodos de sua residência em São João da Várzea.

No início do século XXI, capitalizado com a venda de três fábricas de cimento do Grupo Brennand – Cimento Atol, nas Alagoas; Cimento Goiás, em Cesarina, e a CIMEPAR, na Paraíba -, que juntas produziam 2,5 milhões de toneladas/ano, Ricardo Brennand pensou em tornar realidade um antigo sonho; o de reunir no mesmo local todas as peças de sua monumental coleção.

Através de traços rabiscados com uma caneta vermelha, ele ia criando algo semelhante a um castelo medieval, como aqueles que despertaram a sua atenção quando de suas visitas ao Vale de Loire (Vallé de la Loire), na França.

Desejava Ricardo Brennand tão somente um cenário de época que servisse de fundo para exposição e guarda de suas peças seculares.

Um castelo construído no estilo Tudor; o mesmo estilo que dominou a arquitetura inglesa entre 1585 a 1603, tão presente nos prédios das Universidades Cambridge e Oxford, que remontam os primeiros tempos do neogótico.

Não mais pensamentos ou hipóteses, mas um castelo medieval na Várzea do Capibaribe, com todo o seu impacto, nuances, particularidades e mistérios, que pudesse abrigar a sua incomparável coleção de armas brancas em grande parte constituída de verdadeiras joias da cutelaria universal.

A tarefa de transformar o sonho em realidade foi entregue à firma Augusto Reinaldo Arquitetura e Desenho, cujo titular entregou-se de corpo e alma à ideia.

Para isso viajou ele à Europa numa temporada de observação aos monumentos do Vale de Loire, bem como de outros recantos da França, a fim de adquirir restos de demolição de antigos castelos a serem aplicados na construção do novo Castelo de São João.

Concluída a sua viagem de observação, Augusto Reinaldo vai ao encontro de Ricardo Brennand, no Hotel Ritz de Paris, levando em mãos uma coletânea de fotografias documentando 23 castelos do Vale do Loire, com detalhes que ele gostaria de repetir no Castelo de São João da Várzea; inclusive a portada de entrada esculpida em pedra, originária de um castelo francês.

Em sua viagem, Augusto Reinaldo foi aconselhado a visitar a pequena comunidade de Houdan (2.912 habitantes), nas cercania de Paris, onde adquiriu 19 peças de demolição que vieram ser aplicadas no Castelo de São João, como ele próprio relata: “todas restos de castelos medievais, como algumas janelas, telhado tipo de pombal, os dois portais de pedra, o piso, a escada, a balaustrada da varanda do primeiro andar, além de outras que ficaram guardadas para futuras construções”.

A construção do Castelo de São João prolongou-se por mais de dois anos, dando origem a um edifício de 7000 metros quadrados, destinado a guarda de toda a notável coleção de armas, passando a se destacar na paisagem da Várzea do Capibaribe pela imponência do seu estilo incomum.

Concluído o Castelo de São João, Ricardo Brennand acresce a área construída do seu instituto, com um novo espaço com 1.200 m.² destinado a uma Pinacoteca. O novo prédio viria abrigar a exposição da coleção dos quadros do pintor Frans Post (1612-1680), todo acervo do Brasil Holandês, bem como da nova exposição temporária dos 28 quadros da mostra itinerante Albert Eckhout volta ao Brasil – 1644-2002, trazida especialmente do Museu Nacional da Dinamarca.

A inauguração desta Cidade dos Sonhos acontece em 12 de setembro de 2002, com as presenças, além do casal Ricardo (Graça) Brennand, do Príncipe Herdeiro Frederik da Dinamarca; vice-presidente da República do Brasil, Marco Maciel; governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, dentre outras autoridades, culminando com a abertura da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil 1644-2002.

A mostra reunia pela primeira em terras brasileiras 28 grandes quadros daquele pintor holandês, alguns em grandes dimensões (168 x 294 cm.), produzidos entre 1637 e 1644 em Pernambuco, época em que o artista esteve a serviço do conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen, exercia o posto de Governador do Brasil Holandês.

Na noite da inauguração uma multidão de mais de 5000 pessoas tomou conta dos caminhos que levavam ao Instituto Ricardo Brennand, localizado em terras do primitivo Engenho São João que, no século XVII, fora propriedade de João Fernandes Vieira, principal líder o movimento da Insurreição Pernambucana (1645-1654).

Nos seus primeiros três meses de atividades, o Instituto Ricardo Brennand registrou a frequência de 164.419 pessoas, em grande parte motivadas pela exposição inaugural Albert Eckhout volta ao Brasil 1637-2002.

Com a abertura do seu Instituto Ricardo Brennand, ele veio se transformar no construtor de sonhos, figura conhecida em toda região, para alegria e deleite dos 2.480.000 visitantes que, durante os últimos quinze anos, visitaram o seu empreendimento em terras de São João da Várzea.

Hoje, aos noventa anos, olhando para o seu instituto, ele pode exclamar como o poeta Carlos Pena Filho:

… é do sonho dos homens
que uma cidade se inventa.

Foto do colunista

REPÚBLICA DE 1817 É LEMBRADA PELO SENADO

Exmos Senadores Humberto Costa e Cristovam Buarque, ilustres membros, companheiros estudiosos de 1817, meu amigo Rubem Amaral Júnior, Embaixador, que aqui veio prestigiar a nossa fala, fala esta que vai de todo à gratidão, à gratidão ao Senador Humberto Costa, que teve a iniciativa de festejar, lembrar e proclamar os feitos da Primeira República do Brasil, a República de 1817. Portanto, o meu agradecimento pessoal, como pernambucano.

Mas eu tomo para mim, neste início de fala, as palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, quando ele, no poema Pergunta a Joaquim Cardozo, interroga:

É que todo o dar ao Brasil
de Pernambuco há de ser nihil?
Será que o dar de Pernambuco
é suspeitoso porque em tudo
sintam à distância, o pé atrás,
insubserviente de quem já foi mais?

Meus amigos, o que hoje se comemora foi um comportamento permanente dos pernambucanos.

Muito antes do iluminismo, existia um sentimento de autonomismo em Pernambuco, sentimento este que se encontra presente até nos dias atuais.

Quem nasce em Pernambuco – desculpem a imodéstia – tem sempre um queixo levantado, tem sempre um orgulho muito grande de ser pernambucano.

Não é à toa que o símbolo dos revolucionários de 1817 está nas cabeças, nas camisas dos pernambucanos, que é a nossa bandeira, proclamada, outorgada pelos revolucionários de 1817, desenhada pelo Padre João Ribeiro Pessoa Montenegro e ressurgida pelo Governador Manuel Borba.

O pavilhão azul e branco encontra-se sempre nas cabeças de todos aqueles que, em plena festa de Carnaval, estão a demonstrar o seu orgulho; se vão para um campo de futebol, levam uma bandeira de Pernambuco.

Portanto, estamos diante do sentimento de autonomismo ainda hoje presente em Pernambuco.

Das antigas províncias formadoras do Território nacional, nenhuma deu maior número de mártires do que Pernambuco, haja vista a imensa lista de condenados à morte que nós herdamos de 1710, de 1817, de 1824, de 1848.

Numa consulta à história de Pernambuco, veremos que todos esses movimentos foram gerados do orgulho nativista dos restauradores de 1654.

Com uma mesma ideologia, de que os antepassados pernambucanos conquistaram toda a região do Nordeste do Brasil, da foz do São Francisco até o Maranhão, fora conquistada pelos seus antepassados.

Como diria o Padre Antonio Vieira, sós, pelejando com suas relíquias, Pernambuco conquistou todo aquele território, em batalhas de 1648 e 1649, com a expulsão dos holandeses em 1654. Com tal conquista doaram todo aquele território – que hoje é o Nordeste brasileiro – ao El-Rei de Portugal, à suserania da Coroa Portuguesa, mas debaixo de certas condições, a condição do autonomismo. E essa doutrina nos segue, nos persegue, nos impregna até os dias atuais.

Então, toda vez que Pernambuco se achava ferido no seu autonomismo, ele se manifestava através de uma revolta armada, como a que aconteceu com a República de Olinda, de 1710, chefiada por Bernardo Vieira de Melo, seus filhos e irmãos.

Nela, o governador português, Sebastião de Castro Caldas, se refugiou na Bahia, deixando no governo da capitania o bispo de Olinda, mas logo depois veio o outro governador.

O novo Governador português Félix José Machado de Mendonça – sucedendo a Sebastião de Castro Caldas – resolveu acusar os pernambucanos de tentarem uma rebelião contra a família do próprio governador e, com isso, mandou encarcerar todos os que tiveram destaque no movimento de 1710 e os envia para Lisboa, trancafiando-os na prisão do Limoeiro.

Nos cárceres, os prisioneiros pernambucanos, com o tempo, vão desaparecendo pelas mortes mais misteriosas, como se pode comprovar nos atestados do Livro de Óbitos da Paróquia de São Martinho. Um a um, vão morrendo e, quando chega o perdão real da Coroa, já não havia mais ninguém para perdoar, todos já haviam morrido.
Graças a tais certidões de óbito, pudemos comprovar o dia da morte da cada um dos nove que pereceram na prisão.

Observa José Antônio Gonsalves de Mello que a interligação de um ideário de liberdade dos pernambucanos remonta “à vitória sobre os holandeses e se renova não só em 1710, aqui referido, como ainda em 1817, em 1824 e em 1848. Dentro dessa linha de reivindicações, aqueles que pagaram então com a vida, nas celas do Limoeiro, seu ideal político de participação no governo de sua terra estão na companhia de outros mártires pernambucanos como o Padre João Ribeiro, o Frei Caneca e o Desembargador Nunes Machado”.

No século XVIII, por conta das ideias dos filósofos iluministas da segunda metade, veio a ser gerado, entre os estudantes de Pernambuco, um ideário liberal, um ideário republicano.

Essas ideias vieram a ser propagadas não só por aqueles estudantes de Coimbra e de Lisboa, cujos processos consegui ler detidamente.

Alguns deles tomaram parte ativa na Revolução de 1817, como é o caso do nosso Antônio Morais Silva, autor do primeiro Dicionário da Língua Portuguesa.

No século XVIII, as ideias daqueles iluministas foram divulgadas pelos seminaristas do então Seminário de Olinda, criado em 1799, e pelas lojas maçônicas, que já se faziam presentes no Recife.

Tais ideias passaram para uma revolta armada, eclodida no dia 6 de março de 1817, quando era proclamado um governo de caráter republicano, com representação dos militares, do clero, da magistratura, do comércio e dos senhores rurais.

Por um curto período de dois meses e meio, viveu-se naquela capitania um regime republicano, regido por uma Constituição, chamada de Lei Orgânica, que, sob a orientação de um Conselho de Estado, regulava a representatividade de classes, a independência da magistratura, a imprensa livre e outros direitos até então desconhecidos entre nós.

A Coroa Portuguesa logo combateu a revolta a ferro e fogo, levando à prisão centenas de patriotas, como eram chamados, nas cadeias do Recife e de Salvador.

Dessa lista, 13 presos foram condenados à morte, quatro foram fuzilados em Salvador, e nove foram enforcados no Recife, sendo depois seus corpos esquartejados; com suas cabeças separadas do corpo, juntamente com seus membros. Os troncos eram amarrados às caudas dos cavalos e arrastados até o cemitério.

Esses troféus de cabeça e dos quatro membros eram colocados em pontos previamente determinados.

Morreram, como consequência direta no envolvimento da Revolução de 1817, na atual Praça da República, no centro do Recife, que veio a ser chamada de Campo da Honra, em 8 de julho de 1817, os Capitães Domingos Teotônio Jorge e José de Barros Lima, além dos mártires Antônio Henrique Rabelo, Amaro Coutinho, José Peregrino Xavier de Carvalho, Inácio de Albuquerque Maranhão e o Padre Antônio Pereira de Albuquerque.

Na Bahia, foi executado por fuzilamento, no Campo da Pólvora, o Padre José Ignácio de Abreu e Lima (Padre Roma), em 29 de março de 1817, seguindo-se dos patriotas Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça e o Padre Miguel Joaquim de Almeida (Frei Miguelinho), em data de 12 de junho de 1817.

Discurso proferido em sessão especial do Senado Federal no dia 8 de maio de 2017

A PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO REPUBLICANA

A única revolução brasileira digna desse nome e credora de entusiasmo pela feição idealista que a distinguiu e lhe dá foros de ensinamento cívico, e pela realização prática que por algum, embora pouco, tempo lhe coube. Eu lhe disse uma vez que foi instrutivo pelas correntes de opinião que no seu seio se desenharam, atraente pelas peripécias, simpática pelos caracteres e tocante pelo desenlace. Foi um movimento a um tempo demolidor e construtor, como nenhum outro entre nós e como nenhuma outra em grau superior, na América espanhola. (Manuel de Oliveira Lima)

Em março de 1817, um observador estrangeiro, o comerciante francês Louis François de Tollenare (1780-1853), que residia no Recife no Largo do Paraíso, foi testemunha presencial dos acontecimentos e registrou nos seus apontamentos, depois publicados em livro com o título de Notas Dominicais, por Alfredo de Carvalho (Recife: Jornal do Recife, 1905)¹

Escrevendo no domingo, 9 de março de 1817, observa que na data de 6 do mesmo mês, “teve lugar uma revolução bem inesperada. O estandarte da independência foi levantado; as tropas colocaram-se em volta dele. O governador, assim traído, viu-se forçado a refugiar-se em um forte, ali capitular e acaba de embarcar para o Rio de Janeiro.”

Dos quartéis às ruas, foi apenas questão de tempo. Os sinos das igrejas tocavam rebate (sinal de alarme); o enviado do governador fora morto a tiros; um jovem tenente de Artilharia, Antônio Henriques, dirigiu-se à cadeia a fim de libertar Domingos José Martins e demais presos comuns que ali se encontravam, enquanto o capitão Manuel D’Azevedo entrava em negociações para soltura dos oficiais recolhidos à Fortaleza das Cinco Pontas.

O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro recolheu-se ao Forte do Brum, com seus familiares e demais oficiais, enquanto caíam os últimos redutos da resistência, com a rendição das tropas comandadas pelo marechal José Roberto Pereira da Silva que guarneciam o Campo do Erário (hoje Praça da República), às 16 horas do mesmo dia.

Destacamento comandado pelo tenente José Mariano foi enviado a Olinda e no dia seguinte os 800 milicianos de Domingos Teotônio Jorge fizeram o cerco da Fortaleza do Brum. Um ultimatum, assinado por Domingos Teotônio Jorge, padre João Ribeiro e Domingos José Martins, foi levado pelo advogado José Luiz de Mendonça ao governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro exigindo imediata rendição.

As condições foram logo aceitas pelos oficiais portugueses e governador, ali recolhidos, e a rendição foi de pronto assinada, enquanto os revoltosos providenciavam o transporte dos presos e familiares para o Rio de Janeiro.

Com gritos de regozijo pela vitória, os oficiais revoltosos retiraram das barretinas e dos pavilhões as insígnias do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, sendo o gesto seguido pela soldadesca. Uma bandeira toda branca veio a surgir, no meio da tropa, substituindo a real.

As tropas e o povo marcharam para o Campo do Erário [Praça da República], onde foram escolhidos os eleitores para a nomeação do novo governo, sendo posteriormente lavrado o seguinte termo:

Nós, abaixo assinados, presentes para votarmos na nomeação de um governo provisório para cuidar na causa da pátria, declaramos à face de Deus que temos votado e nomeado os cinco patriotas seguintes: da parte do eclesiástico, o Patriota João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro; da parte militar, o patriota capitão Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa; da parte da magistratura, o patriota José Luiz de Mendonça; da parte da agricultura, o patriota coronel Manuel Correia de Araújo; e da parte do comércio, o patriota Domingos José Martins e ao mesmo tempo todos firmamos esta nomeação, e juramos de obedecer a este governo em todas as suas deliberações e ordens. Dado na Casa do Erário, às doze horas do dia 7 de março de 1817. E eu Maximiano Francisco Duarte escrevi. Assinados – Luís Francisco de Paula Cavalcanti – José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima – Joaquim Ramos de Almeida – Francisco de Brito Bezerra Cavalcanti de Albuquerque – Joaquim José Vaz Salgado – Antônio Joaquim Ferreira de S. Paio -Francisco de Paula Cavalcanti – Felipe Néri Ferreira – Joaquim da Anunciação e Siqueira -Tomás Ferreira Vila Nova – José Maria de Vasconcelos Bourbon – Francisco de Paula Cavalcanti Júnior – Tomás José Alves de Siqueira – João de Albuquerque Maranhão – João Marinho Falcão.

A essa junta agregou-se um Conselho, formado pelos notáveis da nova república, que incluíam o desembargador Antônio Carlos de Andrade (irmão de José Bonifácio Andrade e Silva), o dicionarista Antônio Moraes Silva e o Deão da Sé, Dr. Bernardo Luís Ferreira Portugal.

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MONUMENTO AOS MÁRTIRES DE 1710, 1817 E 1824

Das antigas províncias formadoras do território nacional, nenhuma contribuiu com o maior número de mártires em favor da causa da liberdade do que Pernambuco, haja visto a imensa lista de condenados à pena capital nos movimentos emancipacionistas de 1710, 1817 e 1824.

Numa consulta à História de Pernambuco, veremos que todos os movimentos emancipacionistas aqui originários estavam inspirados no orgulho nativista dos Restauradores de 1654.

Uma mesma ideologia, a de que os antepassados pernambucanos conquistaram esta terra aos holandeses e que doaram a El-Rei de Portugal debaixo de certas condições, se repete ao longo de todas as revoluções e vem explicar o ideal republicano da gente de Pernambuco. Esse comportamento é uma constante em quase todos os movimentos revolucionários como bem observou Evaldo Cabral de Mello, uma espécie de doutrina das relações entre a Capitania e a Coroa.

Falta a essa legião de mártires o reconhecimento da gente pernambucana que, até o momento, em que pesem às comemorações pelo transcurso do segundo centenário da Revolução de 1817, ainda não tiveram os seus nomes gravados em um grande bloco de granito a ser colocado na Praça da República.

Assim sendo, estamos propondo a construção deste Monumentos aos Mártires da Pátria, constituído de um bloco de granito de cinco metros, inclinado sobre o jardim central da Praça da República, no qual, em sua face polida, sejam talhados os respectivos nomes dos que deram a vida pela causa da liberdade, de modo a ser conhecidos e reverenciados pelas gerações do presente e do futuro.

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OS FRUTOS DO IDEÁRIO LIBERAL DE SEIS DE MARÇO DE 1817

Derrotada a iniciativa de implantar, pela primeira vez, um regime republicano em terras brasileiras, o ideário de liberdade dos patriotas de 1817, ficaram adormecidos. Os heróis de então foram enforcados e/ou arcabuzados, com seus corpos mutilados depois de mortos, enquanto pais de famílias eram seviciados nos interiores das masmorras do Recife e de Salvador e os lares eram desonrados.

Segundo o padre Dias Martins, autor do livro Os Mártires Pernambucanos – vítimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas em 1710, 1817 e 1824 (Recife, 1853), a lista dos denunciados nesses movimentos somam o número de 628.

Todavia a chama da liberdade, permaneceu bem viva no espírito da gente de Pernambuco, que voltou a se manifestar em 1821.

Neste ano, a 29 de agosto, teve início um movimento armado contra o governo do capitão general Luiz do Rego Barreto, culminando com a formação da a Junta de Goiana, tornando-se vitorioso com a rendição das tropas portuguesas em capitulação assinada a 5 de outubro do mesmo ano, quando da Convenção do Beberibe, responsável pela expulsão dos exércitos portugueses do território de Pernambuco.

Tal episódio veio separar, definitivamente, a capitania de Pernambuco do Reino de Portugal; onze meses antes da proclamação da Independência do Brasil pelo Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança, em 7 de setembro de 1822.

Nota-se porém, pelo acompanhamento do “seu simpático caminhar” que, em todos os movimentos emancipacionistas originários de Pernambuco, o que se vislumbra é o orgulho nativista dos Restauradores de 1654.

Uma mesma ideologia, a de que os antepassados pernambucanos conquistaram esta terra aos holandeses e que doaram a El-Rei de Portugal debaixo de certas condições, se repete ao longo de todas as revoluções e vem explicar o ideal republicano da gente de Pernambuco. Esse comportamento é uma constante em quase todos os movimentos revolucionários como bem observou Evaldo Cabral de Mello, uma espécie de doutrina das relações entre a Capitania e a Coroa.

Segundo tal interpretação, passou a ser doutrina entre os pernambucanos, ao longo dos séculos que se sucederam, o entendimento de que:

A gente da terra deveria à Coroa não a vassalagem ‘natural’ a que estariam obrigados os habitantes do Reino e os demais povoadores da América Portuguesa, mas uma vassalagem de cunho contratual, de vez que restaurada a capitania, haviam-na espontaneamente restituído à suserania portuguesa¹.

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A TRÁGICA VIAGEM DE PEDRO ÁLVARES CABRAL

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Numa sala de aula, diante da pergunta – Quem descobriu o Brasil?

E qualquer criança responde com precisão: Pedro Álvares Cabral!

Ao que a professora complementa:

No dia 22 de abril do ano de 1500.

A verdadeira história, porém, nos seus meandros de grandeza e tragédias, só os versos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) podem melhor enunciar:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por que te cruzamos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nossos, ó mar!

Na década final do século XV, graças aos informes seguros trazidos pelo navegador Duarte Pacheco (1460-1533), D. Manuel I, O Venturoso, resolve consolidar o chamado Caminho das Índias, descoberto por Vasco da Gama (c.1469-1524), em 1498, iniciando a exploração das terras desconhecidas ao sul do Equador.

Para isso vem constituir uma grande esquadra formada por seis naus, três caravelas redondas, uma nau mercante, uma naveta de mantimentos, acrescida da nau-capitânia e da sota-capitânia, cujo comando, por carta régia de 15 de fevereiro de 1500, sob o comando de Pedro Álvares de Gouveia, depois Pedro Álvares Cabral, com o falecimento do seu irmão mais velho.caravela

Na manhã de 9 de março daquele ano, zarpou de Lisboa a armada levando em seu bojo entre 1200 a 1500 homens. Na tripulação, soldados, besteiros, feitor, agentes comerciais e escrivães, além do cosmógrafo Mestre João Faras, especialista em geografia e astronomia, do capelão frei Henrique de Coimbra, oito sacerdotes seculares, oito frades franciscanos. Levava como intérprete o cristão-novo Gaspar da Gama, também conhecido como “Gaspar da Índia”, um judeu polonês, capturado por Vasco da Gama, que lá vivera 30 anos e que, em Lisboa, fora convertido ao cristianismo e batizado com o nome de família do seu padrinho.

Contando com a experiência de navegadores consagrados, como Nicolau Coelho, que acompanhara Vasco da Gama em sua primeira viagem; de Bartolomeu Dias, o primeiro a contornar o Cabo da Boa Esperança (1487) – conhecido pelos mareantes como Cabo das Tormentas ou Cabo Não -, e de seu irmão, Diogo Dias, Pedro Álvares aventurou-se no mar. As demais naus eram comandadas por representantes da nobreza de então: Simão de Miranda Azevedo, Aires Gomes da Silva, Simão de Pina, Vasco de Ataíde, Nuno Leitão da Cunha, Pero de Ataíde, Gaspar de Lemos, Luís Pires e Simão de Pina.

Na terça-feira após a Páscoa, 21 de abril, segundo testemunho do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, foram encontradas, muita quantidade d’ervas compridas a que os mareantes chamam de botelho e assim outras, a que também chamam de rabo d’asno confirmando assim os primeiros sinais de terra.

No dia seguinte, 22 de abril de 1500, segundo a mesma fonte, pela manhã, topamos aves conhecidas por fura-buchos, e nestes dias, a hora das vésperas, houvemos vista de terra, primeiramente dum grande monte bem alto e redondo e de outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com grandes arvoredos; ao monte pôs o capitão o nome de Pascoal e à terra, Terra da Vera Cruz.

Estava assim lavrado o “Auto de Achamento do Brasil”, culminando com Pedro Álvares a série de incursões de navegadores anônimos.

Descobrimento do Brasil 02

Nas suas expedições, anteriores a 1500, procuravam esses anônimos portugueses, tendo a frente Duarte Pacheco, situar um ponto do desembarque oficial. De modo a obedecer a raia estabelecida a 7 de julho de 1494, quando da assinatura do Tratado de Tordesilhas, que reservara para a coroa portuguesa as terras existentes dentro das 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.

A trágica viagem

Passada uma semana, Pedro Álvares continuou sua viagem com destino à Índia, seguindo as recomendações de Vasco da Gama, navegando, no sentido sudeste, em busca do Cabo da Boa Esperança (África do Sul), denominado então pelos marinheiros de Cabo das Tormentas.

A sorte, porém, que o acompanhara até então, parece o ter abandonado: logo no dia 23 de maio, quando uma forte tempestade, já nas proximidades do cabo veio a provocar fortes baixas na esquadra. Na ocasião naufragaram as naus de Aires Gomes da Silva, Luís Pires e Simão Dias, levando consigo mais de 300 homens, seguindo-se da caravela de Bartolomeu Dias, o mesmo que houvera descoberto o dito Cabo da Boa Esperança, com 80 homens.

Somente a 16 de julho, os cinco navios restantes da esquadra vieram se reencontrar, completamente avariados e com as suas tripulações em pânico, na ilha de Quiloa, na costa do atual Quênia.

A viagem se seguiu com o que restou da primitiva frota atingindo Sofala (Moçambique), em julho, e Melinde (Quênia), a dois de agosto, onde com o apoio do xeque Omar conseguiu os serviços de um piloto hindu que a conduziu até a Índia.

Em 13 de setembro, aportaram em Calicute (Índia) a capitânia de Pedro Álvares, a sota-capitânia de Sancho Tovar, e a Anunciada, de Nuno Leitão da Cunha, além de duas outras comandadas por Nicolau Coelho e Simão de Miranda.

No final de setembro o capitão-mor teve o esperado encontro com o Samorim de Calicute – ou Samudri-Raj, o “Senhor do Mar” -, quando lhe fez entrega da carta do D. Manuel I, escrita em árabe, e presenteou-lhe com moedas de ouro e prata, sedas e brocados, recebendo em troca autorização para instalação de uma feitoria naquele movimentado centro comercial.

Mas o pior estava por vir. Enquanto os portugueses carregavam suas naus de especiarias, enfrentando a concorrência dos comerciantes árabes, que os viam como uma ameaça aos seus negócios, a esquadra veio a ser atacada, a 16 de dezembro de 1500, por cerca de 300 árabes e hindus.

Na ocasião perdeu a vida o escrivão Pero Vaz de Caminha, juntamente com o feitor Aires Corrêa, seis frades franciscanos e 50 outros portugueses. Em represália, segundo relato do Piloto Anônimo, foi Calicute bombardeada durante dois dias pelos portugueses “matando infinita gente e causando muito dano à cidade”.

Em seguida Pedro Álvares buscou abrigo no reino de Cochim (hoje a maior cidade do estado de Kerala, na costa do Malabar), distante 200 km de Calicute, para onde se dirigiu no dia 20 de dezembro. O rajá local, rival de Calicute, permitiu a instalação de uma feitoria e o carregamento das naus de pimenta, gengibre, canela e outras especiarias.

Em 16 de janeiro de 1501, com uma cabeça de ponte instalada em Cochim, na Índia, os navios que restaram da esquadra de Pedro Álvares iniciaram sua viagem de retorno a Lisboa.

No seu regresso foi encontrar em Bezeguiche, hoje Dakar, a nau desgarrada de Diogo Dias, com uma tripulação de apenas sete homens, e, numa feliz coincidência, com a expedição de Gonçalo Coelho que seguia em busca do Brasil.

Dos treze navios somente regressaram a Lisboa, a nau Anunciada, sob o comando de Nuno Leitão da Cunha, em 23 de junho de 1501, seguindo-se depois da nau capitânia de Pedro Álvares, que veio aportar no Tejo a 21 de julho de 1501, unindo pela primeira vez os quatro continentes: Europa, América, África e Ásia.

O restante dos navios e suas tripulações pereceram no mar, juntamente com todos os seus tripulantes; bem de acordo com a descrição do poeta Fernando Pessoa:

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

OLIVEIRA LIMA, O HISTORIADOR POR EXCELÊNCIA

Em 1997, dirigia eu a Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco quando, dentro da Série Descobrimentos, por mim dirigida, fiz entrega ao público ledor da terceira edição da primeira obra de Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), Pernambuco seu desenvolvimento histórico, cujo primeira edição fora publicada em 1895 e a segunda em 1975…

Muito embora se tratando de um verdadeiro breviário da pernambucanidade, este primeiro livro de Oliveira Lima, escrito em Berlim e impresso em Leipzig em 1895, é apontado por bibliógrafos, do quilate de um Rubem Borba de Moraes, como texto básico e indispensável para o conhecimento da formação histórica do Norte do Brasil e muito especialmente para o entendimento daquilo que o autor denominou de “simpático caminhar” da gente de Pernambuco.

Nascido na cidade do Recife, em rua que hoje guarda o seu nome, a 25 de dezembro de 1867, Manoel de Oliveira Lima conviveu poucos anos em sua terra natal, pois, junto com seus genitores, se transfere em 1873 para Lisboa, onde vem a realizar os estudos que o levaram a optar pela carreira diplomática.

Apesar de distante, a paisagem pernambucana jamais lhe sairá da memória, como ele próprio, mais tarde, vem externar em suas Memórias (Rio de Janeiro: Recife, 1986):

De Pernambuco eu trazia recordações que em breve se fizeram vagas; um dia passado no engenho do meu cunhado Araújo Beltrão, onde eu passeara pela primeira vez a cavalo, montado na maçaneta e seguro por um escravo, porque até então a minha montaria fora um carneiro por nome Cadete; outro dia passado em Olinda, meu tio Quintino, que ali era juiz de direito e morreu presidente da Relação do Recife, à cabeceira da mesa servindo a sopa de uma grande terrina; a campina por trás de nossa casa, onde se erguiam coqueiros e por onde de quando em vez silvava a maxambomba. Na minha memória ficou porém gravada a figura de Dom Vital [1844-1878], com a sua bela barba negra de capuchinho que os seus adversários diziam lustrada à brilhantina, como diziam perfumadas a sabão de Houbigant as suas mãos aristocráticas. Era nosso vizinho, ficando-nos fronteiro o Palácio da Soledade e, quando saía a pé à tardinha, não raro entrava no nosso jardim e demorava-se a conversar com o meu pai, sentados os dois por trás do portão de ferro.

Pernambuco foi sempre a sua pátria primeira, aquela que, como um ferro em brasa, marca a alma e, para todo sempre, se transforma com o passar dos anos na ideia de céu que fustiga o inconsciente de cada um.

O meu gosto pelos assuntos históricos foi temporão. Fiz exame de história com 11 anos e meio e tão bem me saí que o presidente da mesa declarou que, se a lei previsse um prêmio em casos tais, este me caberia. Pelo desenho, pela música e pelo canto e porquanto exige talento manual nunca senti a menor aptidão e às matemáticas e ciências naturais fui sempre avesso que duas vezes fui reprovado em física com grande humilhação para meu pai, que não se queria capacitar da minha incompatibilidade congênita com a ótica, parte que num e noutro exame me caiu o ponto.

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OS MÁRTIRES DE 1817

Debelada a revolução e deixando o governo provisório o Recife, em 19 de maio de 1817, logo no dia seguinte os portugueses saíram às ruas com as bandeiras do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves alçadas, dando vivas a El-Rei e morras aos patriotas pernambucanos, ao mesmo tempo que despedaçavam as bandeiras republicanas.

Não se fez tardar a reação por parte de Dom Marcos de Noronha e Brito, oitavo Conde dos Arcos, (1771-1828), que governava à Bahia, que, em sucessivas proclamações, anuncia terríveis castigos contra os revoltosos pernambucanos; três dessas proclamações foram por mim compiladas na Biblioteca de Guita e José Mindlin (São Paulo):

Dom Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, do Conselho de SUA MAGESTADE EL-REI NOSSO SENHOR, Gentil-Homem da Câmara de SUA ALTEZA REAL do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Grão-Cruz da Ordem de S. Bento d’Avis, Marechal de Campo dos Reais Exércitos, Comandante em Chefe do Real Corpo de Artilheiros Guarda-Costas do PRINCIPE PEDRO, e Capitão da Companhia de Voluntários, Governador e Capitão General da Capitania da Bahia, &c &c. &c.

Habitantes de Pernambuco! Marcham para a Comarca das Alagoas Bandeiras Portuguesas, e Soldados Baianos para as içar em toda extensão dessa Capitania.

Todo o Habitante de Pernambuco que não seguir rapidamente, e marchar junto com elas será fuzilado.

As Forças Navais ora a vista, e em Bloqueio do Porto têm ordem de arrazar a Cidade, e passar tudo à Espada se imediatamente não forem instauradas as Leis de SUA MAGESTADE EL-REI NOSSO SENHOR.

Nenhuma Negociaçãos será atendida sem que se proceda como preliminar a entrega dos Chefes da Revolta a bordo, ou a certeza de sua morte; ficando na inteligência de que a todos é lícito atirar-lhes a Espingarda como a Lobos.

Bahia 29 de Março de 1817.

(Assinado) Conde dos Arcos.

Pelo menos dois outros proclamas, assinados pelo Conde dos Arcos e trazidos pela esquadra real, chegaram a Pernambuco, datados de 21 e 29 de março de 1817, com textos e ameaças no mesmo teor, segundo confirma L.F. de Tollenare e as cópias dos nossos arquivos.

No domingo 25 de maio de 1817, continua L.F. de Tollenare, em seus apontamentos:

– A revolução de Pernambuco terminou a 20, depois de ter durado dois meses e meio.

A 18 recebeu-se do comandante da esquadra a resposta às propostas de acordo: prometia que a cidade seria poupada se os chefes se entregassem à clemência de sua majestade. A 19, as tropas foram reunidas, arengadas [conversa longa e enfadonha] e excitadas à defesa. Parece que mostravam pouca firmeza.

Ao meio-dia foi resolvida a retirada para o interior do país. Às três horas o Padre João Ribeiro mandou me dizer que o governo estava dissolvido; ele seguia o exército a pé, descalço, afim de dar o exemplo das privações, às quais cumpria preparar.

Uma hora depois recebi aviso de me prevenir, porque o exército se retirava e não se podia responder pelas desordens que ameaçam os retardatários e a retaguarda. (…)

Com grande surpresa nossa, a noite foi calma; não se ouvia rumor algum na cidade. A 20, ao nascer do dia, percebi na praia um padre que fazia sinais; dirigi-me a ele num bote. Acolheu-me com o grito de: “Viva El Rei”! e me pediu uma bandeira portuguesa.O governo provisório tinha feito destruir todas, poucos dias antes; entretanto, achou-se algumas que os marinheiros haviam escondido.

Dei-lhe a da escuna. Este padre me informou que os patriotas, em número de 6.000 homens, inclusive os escravos alforriados, se tinham retirado para o lado de Olinda com bagagens e uma numerosa artilharia; que quase não havia ninguém na cidade; que se os marinheiros desembarcassem fariam ali o que quisessem; que ia fazer içar a bandeira real por sua conta e risco. Durante este colóquio estabeleceram-se outras comunicações entre os navios e a praia. A coragem dos realistas crescia à medida que adquiria certeza do afastamento dos patriotas. Ao levantar do sol uma pequena sumaca içou o pavilhão português; os seus vizinhos saudaram-no e imitaram-na; pouco a pouco o exemplo alastrou e o porto reboou (ecoar) com o ruído das aclamações e das salvas.

Os navios estrangeiros levantaram os seus pavilhões nacionais. Entretanto os cinco fortes não faziam demonstração alguma. (…)

A grande Fortaleza do Brum era comandada por um jovem oficial, que permanecia indeciso entre o seu dever como militar e a sua prudência como cidadão; o sr. Ramos teve a felicidade de fazê-lo decidir a seguir o movimento geral. A Fortaleza do Buraco seguiu imediatamente o exemplo da do Brum.

O pequeno forte do Picão e os brigues armados foram também logo tomados sem resistência.

As sete horas as cores reais flutuavam por toda a parte, as salvas reais se repetiam, o ar vibrava abalado pelas contínuas descargas de artilharia. Tudo se fez sem resistência da parte dos patriotas e assistência do exército real. Os marinheiros foram quase que os únicos autores desta restauração.

Mais adiante o mesmo L.F. de Tollenare dá notícia do final de dois dos seus amigos revolucionários:

Parece que os seus chefes partiram sem haver concertado planos entre si; é preciso que julguem a sua causa desesperada.

O sr. José Luiz de Mendonça teve a ingenuidade de ficar na cidade e de se apresentar ao almirante, que o mandou prender.

O Padre João Ribeiro suicidou-se a três léguas daqui; passeiam a sua cabeça sangrenta pelas ruas da cidade.

Quando, a 19, me mandou dizer que o governo estava dissolvido, acrescentou que lamentava não poder me dizer adeus, mas, que eu podia ficar certo de que ele saberia morrer como homem livre. Não era um homem desonesto; mas, estava alucinado pela leitura dos nossos filósofos do século XVIII. O seu crime político não me pode fazer esquecer que fui seu amigo.

E as prisões dos líderes revolucionários vão se seguindo, um após outro, como se depreende das mesmas Notas Dominicais, de L.F. de Tollenare, que assim registra:

As prisões na cidade são numerosas; a mais notável foi a do sr. Gervásio Pires Ferreira, o negociante mais rico da cidade; quase que nenhuma parte tomou na revolução, e isto causa inquietação àqueles que o temor fez menos inocentes.

Cita-se a prisão dos dois vigários de Santo Antônio e da Boa Vista, do guardião de S. Francisco e de frades carmelitas; quase todos estes se envolveram na revolução, Receava-se pelo sr. Bento Jose da Costa, sogro do sr. (Domingos) Martins; mas, parece que ele se justificou. Os negociantes da cidade se interessavam por ele. Tem-se detalhes acerca da batalha de 15; travou-se perto de Salgado.

  Domingos José Martins – 1817

Não sei de que proezas brilhantes se possa falar, se é verdade que tudo se reduziu a três homens mortos. Aliás, o marechal Melo foi um Fábio, e tinha razão, porque, além da cavalaria da Bahia, o seu exército não podia inspirar-lhe grande confiança: não valia mais do que o dos patriotas (…) Sabemos a sorte do sr. Domingos José Martins; ferido na batalha de 14 ou 15, refugiou-se numa cabana e disfarçou-se. Fugindo de asilo em asilo, uma índia o denunciou; preso, foi embarcado no Pontal e conduzido para bordo da fragata.

Com ele achavam-se seu irmão, o sr. Vasconcelos Bourbon, e outros revolucionários. 0 sr. Manuel Correia de Araújo havia traído o partido antes do dia 20 de maio. Conquanto tenha assinado proclamações muito injuriosas à majestade real, e tomado parte em todas as deliberações do governo provisório, espera-se que a sua defecção [deserção] lhe proporcione a graça. 0 sr. José Luiz de Mendonca podia ter feito o mesmo, se o quisesse; mas, teve repugnância em ser um traidor; preferiu oferecer-se como vítima e não procurar desculpar-se. Dos cinco membros do governo provisório só resta prender o sr. Domingos Teotônio (Jorge). E’ homem de uma coragem fria e intrépida, mas, não tem os talentos de um chefe de partido. Vários dos conselheiros têm também sido presos. 0 novo governador, o sr. Rodrigo Lobo, mostra muita afabilidade para com os nacionais e estrangeiros; é apenas provisório: espera-se um outro nomeado pelo rei.

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MONSENHOR MUNIZ TAVARES, TESTEMUNHA OCULAR DE 1817

Nascido em 16 de fevereiro de 1793, na freguesia de Santo Antônio do Recife, Francisco Muniz Tavares, filho do comerciante português João Muniz Tavares, natural da ilha de São Miguel dos Açores, e de Dona Rita Soares de Mendonça, natural do Recife, foi uma pessoa direcionada pelo destino.

Orientado pelos seus pais, naquele Recife desprovido de oportunidades para um jovem, vem abraçar a carreira eclesiástica, fazendo os seus estudos filosóficos e teológicos na Congregação dos Padres da Madre de Deus, concluídos em 2 de abril de 1808.

Em 1817 estava Muniz Tavares com vinte e quatro anos de idade, ocupando as funções na Capelania do Hospital do Paraíso, ao lado do padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. O local era denominado de “Academia do Pátio do Paraíso”, onde eram debatidos o ideário dos filósofos do iluminismo, notadamente os filósofos franceses, que gozavam de grande simpatia por parte do padre João Ribeiro.

Vencido o movimento republicano de março de 1817, foi Muniz Tavares um dos primeiros prisioneiros do almirante Rodrigo Lobo que, agrilhoado [pelos pés e pelo pescoço] nos porões da corveta Mercúrio, foi enviado junto com outros prisioneiros para a cadeia da Bahia.

Recolhido às mais abjetas das masmorras, preso por corrente que impediam os seus movimentos, impedido inclusive de trocar a roupa imunda do seu corpo, o jovem sacerdote foi entregue a sanha de um carcereiro embriagado, de cuja boca era obrigado a ouvir os mais vis impropérios, contra os prisioneiros pernambucanos.

Nesta sucursal do inferno, Muniz Tavares teve a iniciativa de transformar o tempo ocioso do cárcere em horas de estudos. “Mediante avultado ganho para os carcereiro”, os prisioneiros tiveram acesso “ao uso do papel, pena, tinta, e com maior custo ainda tiveram algumas novelas e livros de viagens, que ambiciosamente passavam de mão em mão.”(¹)

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A BANDEIRA DE 1817

Proclamada a República de 6 de março de 1817, uma bandeira toda branca substituiu, desde os primeiros momentos, o pavilhão nacional do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, criado pelo decreto de 13 de maio de 1816. Ao descrever os acontecimentos daquele dia, Muniz Tavares, informa que “as tropas de Domingos Teotônio Jorge traziam arvorada uma bandeira branca em vez da real”.

Também na Paraíba confirma o mesmo autor: “A bandeira branca, símbolo da insurreição, foi içada com estrondosos vivas da multidão que não ficou ociosa”. O mesmo aconteceu na tomada da Fortaleza de Itamaracá, pelo padre Pedro de Souza Tenório.¹

A bandeira de então, a do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, era toda branca, tendo no centro as armas da união, isto é, o escudo das armas de Portugal e Algarves sobreposto as armas do Reino do Brasil e por timbre a coroa real.

O mesmo Louis François de Tollenare, nascido em Nantes (França), em 4 de abril de 1780 e lá falecido em 23 de dezembro de 1853, que se encontrava no Recife de 1816 a 1818, continua no seu papel de testemunha ocular dos fatos que aconteceram nesse conturbado período, depois registrados em seu manuscrito publicado, parcialmente, por Alfredo de Carvalho (1905) sob o título de Notas Dominicais. Tal manuscrito, desconhecido por Muniz Tavares, mas largamente citado por Oliveira Lima, vem a ser republicado na primeira fase da Coleção Pernambucana (v. 16) em 1978.²

Segundo Tollenare, em suas Notas Dominicais, o pavilhão branco tinha por fim tornar menos brusca a transição de regime era uma bandeira com que “os fortes do Recife anunciavam, havia muito tempo, o aparecimento de navios na costa e as embarcações vindas de fora, vendo sempre o sinal acostumado, entravam sem desconfiança: era isto o que justamente se queria, porquanto havia falta de víveres na cidade e se receava que o aspecto de uma nova bandeira assustasse os que traziam”.

Todavia, esta bandeira provisória, foi aos poucos sendo substituída por outra, descrevendo o mesmo Tollenare, em 16 de março, o projeto de um novo pavilhão; foi ventilada também a hipótese da adoção do pavilhão tricolor francês, porém logo afastada “por representar as três ordens honoríficas existentes na França”.

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O IDEÁRIO DA REPÚBLICA DE 1817

A única revolução brasileira digna desse nome e credora de entusiasmo pela feição idealista que a distinguiu e lhe dá foros de ensinamento cívico, e pela realização prática que por algum, embora pouco, tempo lhe coube. Eu lhe disse uma vez que foi instrutivo pelas correntes de opinião que no seu seio se desenharam, atraente pelas peripécias, simpática pelos caracteres e tocante pelo desenlace. Foi um movimento a um tempo demolidor e construtor, como nenhum outro entre nós e como nenhuma outra em grau superior, na América espanhola.

Manuel de Oliveira Lima.

O século XVIII, conhecido como o Século do Iluminismo, teve a sua segunda metade tomada por uma total revisão no âmbito social das ideias, a partir da Declaração de Independência das treze colônias inglesas, que vieram a se constituir nos Estados Unidos da América, em 4 de julho de 1776, com repercussões nos movimentos que antecederam a Revolução Francesa de 1789.

Autores de várias nacionalidades vieram expressar os seus princípios democráticos e nacionalistas, pondo em discussão o direito divino dos reis e despertando a burguesia para os princípios da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, mais tarde consagrados na Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789).

Filósofos como o suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que em 1762 fez publicar Du Contrat Social (Do Contrato Social), formulando uma nova teoria do Estado, fundamentado na convenção entre os homens com base no princípio da soberania popular; e Charles Louis de Secondat Montesquieu (1689-1755), autor de L’Esprit des Lois (O Espírito das Leis)¹ , eram lidos e discutidos não somente na França como em outros países. As obras poéticas e filosóficas de Voltaire (1694-1778), pseudônimo de François Marie Arounet, autor do Dicionário Filosófico; de Denis Diderot (1713-1784), editor da Enciclopédia Diderot; e do italiano Cesare Beccaria (1738-1794), autor do clássico Dos Delitos e das Penas (1764), despertavam a juventude para um novo comportamento.

A esse movimento de ideias não ficaram alheios os estudantes da Universidade de Coimbra que, levados pela atuação das Lojas Maçônicas, presentes em Portugal desde 1740, tornaram-se ávidos leitores daqueles filósofos cujas obras eram proibidas em Portugal e em suas colônias.

O ambiente em que viviam os estudantes daquela universidade portuguesa e as discussões motivadas pela influência das diversas correntes de ideias se depreende das páginas do Processo n.º 8094/1779 da Inquisição de Coimbra, por mim anotado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa). Nele foram denunciados nove estudantes brasileiros, então matriculados na Universidade de Coimbra, dentre os quais Antônio de Moraes Silva (Rio de Janeiro, 1 de Agosto de 1755 – Recife, 11 de Abril de 1824), que vem a ser o primeiro dicionarista da língua portuguesa e que, em 1817, seria nomeado membro do Conselho de Estado da República de Pernambuco.

O processo é fruto da denúncia do estudante de Geometria Francisco Cândido Chaves, 23 anos, ao Tribunal da Inquisição de Coimbra em 17 de maio de 1779, onde afirma que na casa do também estudante Antônio de Moraes Silva, brasileiro nascido no Rio de Janeiro, se discutiam pontos de religião e se citavam autores como Helvécio, Voltaire e Rousseau, a quem chamavam de profundíssimos filósofos e que alguns estudantes “eram aliciadores da seita dos Pedreiros Livres”, como se denominavam na época os simpatizantes da maçonaria.²

Ao depor em sua defesa, no processo movido contra si e mais oito colegas, Antônio Moraes Silva, na audiência de 28 de maio, declarou estar cursando o quinto ano do curso jurídico, sendo filho de Antônio de Moraes e Silva e de Rosa Maria de Carvalho, com idade de 23 anos, morador da Rua do Loureiro, Freguesia do Salvador, Coimbra. Nas audiências de 12 e 18 de junho, 6 e 7 de julho, disse ainda ser aplicado no estudo das línguas francesa, inglesa e italiana, sendo leitor de obras do Conde de Mirabeau (Honoré Gabriel Riqueti, 1749-1791), de quem lera o Sistema da Natureza e Instituições Políticas; bem como das obras de Montesquieu, Cavaleiro de Milagan (sic) e Quadro da História Moderna (sic); Beccaria, Tratado dos delitos e das penas; Voltaire, Obras poéticas, e Rousseau.

Na sua defesa, porém, diz “não entender nem entende que toque ao Santo Ofício puni-lo por essa razão, pois que o conhecimento [de tal matéria] está reservado a Real Mesa Censória”. Disse ainda ter emprestado a obra de Mirabeau a José Antônio de Mello, conhecido por Misantropo, que afirmou ser a dita obra perigosíssima e capaz de enganar a todos que não soubessem Filosofia, mas que ele não deixará de achar alguma preciosidade. Concluindo o curso de Medicina, em 1778, José Antônio se transferira para Pernambuco, no mês de novembro daquele ano, levando consigo a obra de Mirabeau. (Processo n.º 8094/ANTT).³

Mas a Inquisição do final do século XVIII não era a mesma de tempos passados: os seus segredos já vazavam para o mundo exterior…

Sabedor por um informante da sentença do inquisidor José Antônio Ribeiro de Moura, prolatada em 20 de julho de 1779, condenando a si e todos os demais companheiros por crime de heresia e apostasia, Antônio de Moraes Silva fugiu com destino à Lisboa, escondido numa carroça de feno. Dias depois, contando novamente com o concurso de amigos, se transfere para Londres onde permaneceu sob a proteção do embaixador de Portugal na Grã Bretanha, tenente-general Luís Pinto de Souza Coutinho, futuro Conde de Balsemão, a quem ele dedica à primeira edição do seu Diccionário da Língua Portugueza (1789).

No mesmo processo, o estudante Vicente Júlio Fernandes, filho de Júlio Fernandes, 25 anos de idade, natural da Ilha da Madeira, então condenado por heresia e apostasia, depondo em 30 de agosto de 1779, afirma que o estudante Francisco de Mello Franco “levara de sua casa dois ou mais tomos das Cartas do Marquês d’Argent para ler, os quais lhe emprestara Antônio de Moraes Silva, que lhe disse ter lido o Sistema da Natureza”, obtido por empréstimo a José Antônio da Silva Mello a quem tratava por Misantropo.

Depois de exercer atividades diplomáticas em Londres, Roma, e Paris, Antônio de Moraes e Silva regressa a Portugal. Em Lisboa, novamente comparece ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, em 21 de janeiro de 1785, Processo n.º 2015, apresentando atestado de ter procedido como bom católico, assinado pelo padre Ricardo a Sto. Silvano, vice provincial dos carmelitas descalços na Inglaterra, datado de 23 de novembro de 1784. Em sua confissão diz que, quando estudante em Coimbra, discutia com vários colegas acerca de matérias da religião, reduzindo todos os dogmas aos ditames razão, desprezando as verdades reveladas pelo lume da fé; que lera livros anticatólicos, como Emile (Emílio, ou Da Educação)4, de Rousseau. Absolvido, em 23 de dezembro de 1785, teve como pena de levi [pena menor] a de confessar-se nas quatro festas do ano – Natal, Páscoa da Ressurreição, Pentecostes e Assunção de Nossa Senhora – e o preceito de certas e determinadas orações.

Novamente indiciado pela Inquisição de Lisboa (Processo n.º 14.215), Antônio de Moraes Silva se vê compelido a retornar ao Brasil e assim tentar nova vida. Já casado com Narcisa Pereira da Silva, filha do tenente-coronel José Roberto Pereira da Silva, transfere-se para Pernambuco (Paranambuco), em 30 de abril de 1788, segundo denúncia de Escolástica Maurizia.5

Estabelecido no Recife, morador na Rua Nova, a partir de 1796, se transforma em proprietário do Engenho Novo da Muribeca, que recebera de seu sogro, aonde veio a escrever a segunda e mais importante edição do seu Dicionário da Língua Portugueza (1813) – recompilada, emendada e muito acrescentada, a partir da qual passa o seu nome a figurar como autor.

Com a chegada do século XIX, as ideias liberais, introduzidas em Pernambuco por estudantes e bacharéis da Universidades de Coimbra e Montpellier (França), alguns deles simpatizantes da maçonaria e outros pertencentes ao clero regular e secular, começaram a despertar na população antigos sentimentos nativistas.

A fundação do Seminário de Olinda, a 16 de fevereiro de 1800 pelo bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1742-1821), em muito contribuiu para que tais ideias liberais republicanas, divulgadas pelos teóricos da Revolução Francesa (1789), fossem debatidas nos púlpitos e entre os alunos do novo centro de estudos.

Depois de transformado em Seminário Diocesano de Olinda, o antigo Colégio dos Jesuítas foi logo transformado em uma instituição educacional cuja finalidade era “dar instruções à mocidade em todos os principais ramos da literatura, própria não só de um eclesiástico, mas também de um grande cidadão que se propõe a servir ao Estado”.

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1817, UMA TESTEMUNHA OCULAR DA REVOLTA

Estávamos em março de 1817, quando o Ouvidor da Comarca do Sertão, magistrado José da Cruz Ferreira, comparece perante o governador da capitania Caetano Pinto de Miranda Montenegro (1748-1827), a fim de narrar a denúncia, recebida da parte do português Manuel de Carvalho Medeiros, sobre a nova conspiração encabeçada pelo padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro (1766-1817), Domingos José Martins (1781-1817) e Antônio Gonçalves da Cruz (c.1775-1833), além de alguns oficiais dos regimentos de 1ª linha.

Imediatamente foram convocados os Oficiais-Generais portugueses, que se encontravam no Recife, e determinada a prisão dos civis e militares envolvidos, entre eles os capitães de Artilharia Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa, José de Barros Lima e Pedro da Silva Pedroso, tenente-secretário do mesmo Corpo, José Mariano de Albuquerque, e a do ajudante de Infantaria, Manuel de Souza Teixeira.

A prisão dos implicados dar-se-ia no dia seguinte, 6 de março, tendo sido destacados o marechal José Roberto Pereira da Silva para efetuar a dos civis e o comandante de cada um dos Corpos a dos militares. Nesse período, o brigadeiro Manuel Joaquim Barbosa de Castro, chefe da Artilharia, português, orgulhoso, altivo, violento e severo, no dizer de Muniz Tavares, reuniu a tropa e resolveu desacatar os oficiais suspeitos acusando-os de agitadores. Domingos Teotônio Jorge o repeliu, tendo o brigadeiro, imediatamente, ordenado ao capitão Antônio José Vitoriano que efetuasse a sua prisão na Fortaleza das Cinco Pontas.

De maneira diferente procedeu o capitão José de Barros Lima, conhecido pela alcunha de Leão Coroado, que ao ser intimado da voz de prisão desembainhou a sua espada e desferiu-a contra o brigadeiro português, dando início assim à revolta.

Um observador estrangeiro, o comerciante francês Louis François de Tollenare (1780-1853), que residia no Recife no Largo do Paraíso, foi testemunha presencial dos acontecimentos e registrou nos seus apontamentos, depois publicados em livro com o título de Notas Dominicais, por Alfredo de Carvalho (Recife: Jornal do Recife, 1905)¹

Escrevendo no domingo, 9 de março de 1817, observa que na data de 6 do mesmo mês, “teve lugar uma revolução bem inesperada. O estandarte da independência foi levantado; as tropas colocaram-se em volta dele. O governador, assim traído, viu-se forçado a refugiar-se em um forte, ali capitular e acaba de embarcar para o Rio de Janeiro.”

Um governo provisório, composto de cinco membros, foi instituído por um pequeno número de conjurados; fala-se em erigir a capitania de Pernambuco em República. Um acontecimento tão extraordinário merece bem que se lhe indague das causas. Eis o que, na minha qualidade de estrangeiro, pude perceber. Teria desejado muito manter um diário mais exato durante a revolução de Pernambuco. Mas, as minhas ocupações e as constantes inquietações em que tenho vivido me impediram de fazê-lo com o interesse que merecia. As minhas notas sobre este interessante assunto são, pois, muito menos cuidadas do que algumas outras consagradas a futilidades.

E continua o nosso observador francês, L.F. de Tollenare, na sua qualidade de “correspondente”, não muito simpático ao movimento revolucionário que se instalara, naquele momento, em Pernambuco:

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CANCIONEIRO DA QUARTA-FEIRA

 

Depois de um Carnaval, vem a quarta-feira ingrata, onde  “tudo é cinzas!”. A partir de então tem início a Quaresma que, no passado, era tempo de reflexão, jejum e abstinência completa de carne.

Em cada Quarta-Feira de Cinzas, porém, resta no peito do verdadeiro folião a verdadeira saudade, uma lembrança do carnaval que passou, assim expressada por vezes com lágrimas e acalentadas pelos versos do próprio cancioneiro carnavalesco de Edu Lobo.

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 Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
Na praça ninguém pra cantar.

Como no poema de Vinícius de Moraes, musicado por Carlos Lyra, chegou ao fim mais um carnaval (Marcha da quarta-feira de cinzas):

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Acabou o nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou
Pelas ruas, o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor…

Na quarta-feira, o folião de ontem volta à realidade do dia-a-dia, depois de conviver naquele reino azul da fantasia, sob a égide do Rei Momo, onde por momentos parecia ter encontrado a morada da felicidade. Ao reencontrar-se consigo mesmo, mirando-se no espelho ao amanhecer da quarta-feira, o folião cansado, vem descobrir dentro de si que o carnaval, apesar dos guizos e de todo colorido que se faz presente aos olhos, é uma festa triste; como nos versos de Raul e João Victor do Rego Valença, os Irmãos Valença (Saudade):

De que nos serve a folia
Tanto prazer e alegria
O carnaval é a ilusão
Deixando uma triste recordação
E se voltamos chorando
É a saudade
Que nos vem
Alguém nos ficou amando
E ficamos querendo alguém

De há muito o cancioneiro carnavalesco vem sendo tomado de versos inspirados na nostalgia trazida pela quarta-feira, desde os anos vinte quando os blocos carnavalescos regressavam às suas sedes cantando marchas, como esta de Raul Moraes (Despedida):

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Adeus, ó minha gente,
O bloco vai embora
Sentindo que a alma chora
E o coração fremente
Diz, findou-se o carnaval.
Até para o ano, adeus
Guarda nossas saudades
Que implorarão aos céus
Felicidades para, nossa alma liberal
Essa canção saudosa,
Há de fazer chorar
E sempre a relembrar
Nossa gente buliçosa
De regresso a cantar.

A espera de um outro carnaval é o acalanto que embala a alma de todo poeta e sonhador, como nos versos de Capiba, em De chapéu de sol aberto (1973):

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 Espero o ano inteiro,
Até ver chegar fevereiro
Para ouvir o clarim clarinar
E a alegria chegar!
Esta alegria que em mim
Parece que não terá fim
Mas se um dia o frevo acabar!
Juro que vou chorar…

O carnaval é talvez a forma de suavizar a vida desses poetas, daí a tristeza que toma conta do espírito de todos no alvorecer da quarta-feira, como naquele frevo de Nelson Ferreira:

Um carnaval a mais
Que beleza, no entanto…
Um carnaval a menos, que tristeza.
Vida, não foge tão depressa.
Ainda quero viver muitos carnavais…

Alguns deles não se conformam com a chegada da quarta-feira e por vezes teimam prolongar o seu próprio carnaval interior, como se fosse um ópio a lhes transportar para o mundo da fantasia e do surrealismo, como no frevo de Rudy Barbosa e Adelmo Tenório (Por que saideira?):

Estou vendo, a manhã está dizendo:
Já é quarta-feira! Por que saideira,
Se eu não queria, pra casa voltar…
Voltar, pra quê!
Voltar, pra quê!
Se vai voltar esta saudade de você

Vou desfilar meu sorriso
E ser o palhaço, desta multidão.
Pra  repousar meu cansaço,
Igual ao seu braço,
Não encontro mais não

Solidão, eu me embriago agora!
Está chegando a hora
D’ a tristeza voltar
Solidão, eu me embriago agora!
Está chegando a hora
D’ a tristeza voltar.

Para o autêntico folião, particularmente para os românticos dos anos dourados, quando a permissividade dos costumes não era a tônica dos festejos carnavalescos, a contagem regressiva da madrugada de uma quarta-feira se transformava em suplício; como nos versos de Geraldo Costa e José Menezes (Terceiro dia):

A noite morre, o sol vem chegando…
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval

Mas o que ensina a lição é que se vai um carnaval, mas fica-se sempre com uma saudade; como no frevo dos irmãos Reinaldo e Fernando Oliveira (É quarta-feira, é madrugada):

É quarta-feira, é madrugada…
O sol já chegou
O carnaval foi tudo um sonho bom que passou
Recordar não adianta nada, meu bem…
Melhor esperar, prô ano que vem!

Saudade vive escondida…
Esperando todo fim de carnaval
Não adianta esperar por toda vida
Nem por um ponto final.

Para aquele folião empedernido, porém, que viveu o carnaval até os últimos acordes; folião daqueles que em anos passados só saía dos salões acompanhando as orquestras, sob o comando de Nelson Ferreira, Guedes Peixoto ou José Menezes, em meio à turba frevolenta até os jardins da Praça do Entroncamento ou da Praça do Internacional, para só assim encerrar, às sete horas da manhã da quarta-feira, o seu carnaval.

Para esses, que viveram tantas paixões e que ainda hoje estão a lembrar daqueles rostos juvenis, que se perderam em meio aos confetes e serpentinas dos passados carnavais, pelo menos o frevo de Luiz Bandeira, gravado por Carmélia Alves em 1957 (Copacabana nº 5699, matriz 1725),  ficou na lembrança: 

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 É de fazer chorar
Quando o dia amanhece e obriga o frevo acabar
Ó quarta-feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar
Quem é de fato, um bom   pernambucano…
Espera um ano,
e se mete na brincadeira
Esquece tudo, quando cai no frevo.
E no melhor da festa,
Chega a quarta-feira.

Sim meus amigos, o nosso carnaval acabou. Como o poeta Vinicius de Moraes só nos resta cantar: 

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Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz
Seu canto de paz.

Mas para aquele pernambucano, ausente da terra, distante dos amigos e obrigado a conviver com gente estranha que não sabe o que é Carnaval, o espírito da quarta-feira  dura o ano inteiro e o acompanha onde quer que se encontre.

Longe do Recife, exilado voluntário do seu próprio chão, privado da paisagem e dos sons que acalenta em sua alma de folião, ele estará sempre a cantar baixinho, como a embalar o seu próprio coração, balbuciando a letra daquele frevo-canção, composto por Antônio Maria Araújo de Morais (Recife, 1921 – Rio, 1964) num de seus momentos de banzo e de saudades do seu torrão: Frevo nº 1 do Recife, gravado inicialmente pelo “Trio de Ouro” em 9 de agosto de 1951. O sucesso veio a ser regravado depois com competência por muita gente, a exemplo de Claudionor Germano e Expedito Baracho.

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Ô, ô, ô, ô, ô… saudade
Saudade, tão grande.
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras,
Passistas traçando tesouras,
Nas ruas repletas de lá…
Batidas de bombo,
São maracatus retardados,
Chegando à cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar.
 
Que adianta
Se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo
Valfrido Cebola, no passo;
Haroldo Fatia, Colaço…
Recife está perto de mim.

EU BEBO SIM… ESTOU VIVENDO!

“Branquinha”.
“Branquinha”,
é suco de cana
pouquinho – é rainha,
muitão – é tirana…

Ascenso Ferreira.

Música e bebida são como irmãs siamesas.

Não quero dizer com isso que uma não possa existir sozinha, na ausência da outra, mas seria uma conjunção desprovida de alegria e, por vezes do romantismo do dia-a-dia, que dá um gosto especial ao conteúdo poético e musical.bebida_musica

Chegou-se até vislumbrar uma música no silêncio, uma espécie de partitura sem som. Mas, no caminhar da vida diária, as notas da partitura se combinam com os versos que falam da bebida, ora levando às emoções vividas em eternos casos de amor e paixões, ora contagiando com sua alegria fazendo crer “que a nossa vida é um Carnaval”.

Existe até quem sinta mesmo o sabor da bebida ao ouvir ou entoar certas e determinadas canções, a exemplo do tenor Luciano Pavarotti para quem “se você comparar música e bebida, você perceberá que algumas músicas tem gosto de conhaque forte, outras tem gosto de um bom vinho e outras parecem coca-cola diet“.

Mas para nós, amantes da Música Popular Brasileira, a nossa música se retrata, segundo o poeta Olavo Bilac (1865-1908), numa “Lasciva dor, beijo de três saudades, / Flor amorosa de três raças tristes /Tristes, mas porém, bailadoras”.,

E talvez, por isso, é que a bebida se junta à música, como a cumprir o preceito que nos ensina o Talmude, no qual “não há alegria vem vinho”. E sob o seu efeito, libertam-se assim os seus pensamentos e, dando-se vazão aos sentimentos da alma, perde-se o medo de ser feliz.

Música e bebida são encontradas em nossas mais remotas manifestações folclóricas, a exemplo dessas manifestações, ainda no século XVIII, registradas por Francisco Pacífico do Amaral, em Escavações (¹) (Recife 1884), ao relatar as festas em homenagem ao governador José César de Menezes, ocorridas em 19 de março de 1775, quando dois “eremitas”, Antão e Bernabé, cantam dentre tantas essa quadrinha:

Dizei bem, vá de função,
Ferva o meu Padre a folia.
Bebamos, que a tudo chegam.
As esmolas da caixinha.

Em nossa música romântica foram tantas páginas escritas, gravadas por intérpretes famosos, logo caindo no gosto do público que as cantava e solfejavam a todo o momento, exaltando a dor de cotovelo e a bebida, sua natural companheira.

Páginas do cancioneiro popular cujos versos causariam inveja a qualquer poeta erudito, como aquela valsa composta por Orestes Barbosa (1893-1966), A Mulher que Ficou na Taça, e gravada por Francisco Alves (1898-1952) em 1934:

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Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando quem tu és.

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu vulto
O vulto dessa mulher.

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece ao meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que sedento
Quero a paixão sufocar.

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça e no coração.

Quando alguém aconselhava a não beber, eis que o próprio compositor popular saia-se com jóias como esta, composta por Luiz Antônio e João do Violão e gravada por Elizeth Cardozo em 1966:

elizeth

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Eu bebo sim,
Estou vivendo.
Tem gente que não bebe
E está morrendo
Eu bebo sim,
Estou vivendo.
Tem gente que não
E está morrendo.

Tem gente
Que está com o pé na cova,
Não bebeu e isso prova
Que a bebida não faz mal.
Uma prô santo,
Bota o choro e a saideira.
Desce toda a prateleira,
Diz que a vida está legal,
E bebo sim.

E o que dizer da música carnavalesca?

Dentro desta temática, bebida e música são temas obrigatórios; pois no reinado do deus Momo, o deus Baco é quem energiza a folia.

Já pelos idos de 1870, numa revista sob o título Zé-pereira Carnavalesco, o ator Francisco Correia Vasques, numa adaptação da cançoneta Les Pompiers de Nanterre, lançava o sucesso de todos os nossos carnavais:

E viva o Zé-pereira!
Que a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de carnaval!

Como não poderia deixar de ser, numa festa que une a alegria dionisíaca ao apelo do deus Baco, a bebedeira era quem embalava o nosso carnaval.

No início do século XX, precisamente no carnaval de 1905, surge uma velha cantiga popular a protestar contra o autoritarismo da polícia no seu afã de proibir a bebida em nossa festa maior:

Eu vou beber
Eu vou me embriagar
Eu vou fazer barulho
Pra polícia me pegar.

A bebida continuou de mãos dadas com a música carnavalesca, como nesta peça antológica surgida da parceria de Rubens Soares, Noel Alves e Francisco Alves, a que deram o nome de É bom parar:

Por que bebes tanto assim rapaz
Chega já é demais
Se é por causa de mulher é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar.

Gravado por Francisco Alves, este samba marcou sucesso em todos os carnavais, chegando até nossos dias como uma peça antológica de nossa festa maior.

Bebida e música carnavalesca continuaram presentes em nosso cancioneiro, chegando mesmo a contagiar os foliões de todo Brasil quando, no carnaval de 1953, Mirabeau Pinheiro, L. de Castro e H. Lobato, lançaram esta marchinha com o título de Cachaça:

Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E a água vem do Ribeirão.

No carnaval do ano de 1954, a combinação de bebida e marchinha carioca volta a ser cantando por todos os foliões a exemplo do sucesso composto por Zé da Zilda, Zilda e Waldir Machado: Saca-Rolha.

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu taco a mão no saca, saca, saca-rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar.

Os efeitos da bebedeira vêm a ser relembrados no carnaval de 1955, numa composição de Zé e Zilda, sob o título Ressaca:

Tá todo mundo de ressaca
Ressaca, ressaca, ressaca!
Ninguém aguenta mais
Eu vou mandar parar
Vai todo mundo pra casa curar!

No mesmo carnaval de 1955, os compositores cariocas Mirabeau e Airton tomam conta das ruas e dos salões com o sucesso Tem nego bebo aí.

Foi numa casca de banana que eu pisei
Escorreguei, quase cai.
Mas a turma lá de trás gritou – chi
Tem nego bebo aí, tem nego bebo aí.

A simbiose da música carnavalesca com a exaltação a bebida tem continuidade em 1956, com a composição de Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro, que leva o título de Turma do Funil, interpretada pelos Vocalistas Tropicais:

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Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe
Mas ninguém dorme do ponto
Ai, ai
Ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos
E eles que ficam tontos

A fonte nos parece inesgotável: música e bebida continuam a fazer sucesso em todos os carnavais, como naquele frevo composto por Caetano Veloso para o carnaval de 1972, Chuva, suor e cerveja.

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Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça.
Não saia do meu lado
Segure o meu pierrô molhado
E vamos embolar de ladeira
Ladeira abaixo.
Acho que a chuva ajuda
A gente a se ver
Venha, veja, deixa, beija, seja
O que Deus quiser.
A gente se embala, se embola, se enrola
Só para na porta da igreja
A gente se olha, se beija, se molha
De chuva, suor e cerveja.

_________________

1) AMARAL, F. P. do. Escavações – factos da história de Pernambuco. Recife: Typographia Jornal do Recife, 1884. 2ª ed. , Recife: Arquivo Público Estadual, 1974.

PARA HISTÓRIA DO CARNAVAL: AS VARIAÇÕES DO FREVO DOS VASSOURINHAS

A “Marcha nº 1 do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife”, composta em seis de janeiro de 1909 por Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser conhecida nacionalmente como FREVO DOS VASSOURINHAS.

Em fevereiro de 1945 a Continental, sob o selo nº 15279 B, fez a gravação em 78 rpm, da Marcha nº1. Omitindo o nome dos seus autores, apresentando como “Frevo nº 1 (Marcha Regresso do Clube Vassourinhas). Marcha popular de Pernambuco, adaptação de Almirante”. Como intérpretes Déo e Castro Barbosa, acompanhado por “Napoleão e seus soldados”.

Nesse disco, Almirante (Henrique Foréis Domingues; 1908-1980) não fez tão somente uma simples adaptação da Marcha nº 1, mas, como já acontecera com Lamartine Babo quando da gravação em 21 de dezembro de 1931 de O teu cabelo não nega, dos pernambucanos Raul e João Valença (Victor 33514 A), simplesmente escreveu outra letra e denominou de “Marcha regresso” (!), que veio a ser apresentada como “verdadeira” por Ruy Duarte no seu História social do frevo:

A saudade, ó Vassourinhas
Invadiu meu coração,
ao pensar que talvez nunca,
nunca mais te veja não.
A saudade. ó Vassourinhas,
enche d’ água os olhos meus,
ao pensar, ó Vassourinhas,
neste derradeiro adeus.

O Frevo dos Vassourinhas, como veio a ser conhecido a partir da gravação de “Severino Araújo e sua Orquestra Tabajaras”, em outubro de 1950 (Continental nº 16120 A; matriz 2147), tornou-se a música mais executada do Carnaval Brasileiro em nossos dias, segundo informa o Escritório de Arrecadação dos Direitos Autorais – Ecad que recolhe os seus direitos para o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas do Recife.

No Recife, a partir de 1941, o “Frevo dos Vassourinhas” recebeu, como acréscimo nas suas execuções, as variações especialmente composta pelo saxofonista da Orquestra de Nelson Ferreira, Félix (Felinho) Lins de Albuquerque (1895-1980) e assim abriu espaço para que outros virtuoses do instrumento compusessem suas próprias variações.

José Menezes - compositor

José Menezes – compositor

Dentre os autores de tais variações figuram o instrumentista José Xavier de Menezes (1923-2013), que nos deixou este depoimento que aqui transcrevo:

“Amigo Léo,

Este é um simples relato dos fatos sobre a 2ª gravação do frevo Vassourinhas. O toque jornalístico fica com você.

Gravado no dia 06/9/1950, no Rio de Janeiro, por “Zacarias e sua Orquestra”. Disco RCA-Victor – 78 rotações – nº 80.0705 -face A, e no verso – face B – foi gravado Freio a Óleo, de minha autoria – como é do seu conhecimento.

Consta do selo como título da música: FREVO DOS VASSOURINHAS (Nº1).

Histórico do surgimento da gravação:

No mês de maio de 1950, Geraldo Vilas (hoje falecido), representante da RCA-Victor, aqui no Recife, procurou o saxofonista Felinho, criador das variações do Vassourinhas, para fazer um arranjo da música, com suas variações, para ser gravada no Rio de Janeiro pela orquestra de Zacarias, que era na época, ela e a TABAJARA de Severino Araújo, as melhores do Brasil.

Felinho recusou o convite, alegando que suas variações só deviam ser gravadas por ele. Geraldo ofereceu passagem aérea e hospedagem no Rio de Janeiro e mais um cachê, para ele ir gravar com a orquestra de Zacarias. Mais uma vez Felinho recusou o convite com a legação de que não se sentia bem viajando de avião.

Em vista disso, Geraldo Vilas me procurou para fazer o arranjo e escrever variações inéditas, de minha autoria, que seriam executadas pelo 1º sax-alto da Orquestra de Zacarias, que se chamava Guerino.

Aceitei o convite, na condição da RCA comprometer-se em gravar, na face B do referido disco (que continha apenas duas músicas), um frevo de minha autoria, que seria FREIO A ÓLEO e assim foi feito.

Um fato interessante:

Quando Felinho soube do ocorrido, me procurou para saber se realmente eu tinha feito o arranjo de Vassourinhas, para outro músico gravar, com as variações dele.

Eu lhe respondi que realmente fiz o arranjo, entretanto, com variações de minha autoria, vez que, as variações e improvisações sobre um determinado tema musical, podem ser feitas de várias formas e por qualquer um.

Não existe autor de improvisações.

Em resposta, suas palavras foram as seguintes: “Quando o disco chegar, se tiver alguma de minhas variações, irei ao jornais protestar e processarei a gravadora”.

Quando disco chegou, mostrei a ele, e até a data de sua morte, muitos anos depois, ele nunca protestou porque as variações eram realmente inéditas. Eu tenho esse disco nos meus arquivos.

Recife, 18 de fevereiro de 2009.

José Menezes”

Sob o selo Mocambo, o “Frevo dos Vassourinhas”, de Matias da Rocha e Joana Batista, veio a ser gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto, compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696.

Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira, produção autônoma com o selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

* * *

Frevo dos Vassourinhas nº 1, de Matias da Rocha e Joana Batista, com  Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara

MARACATUS, A PRESENÇA DA ÁFRICA NO CARNAVAL DO RECIFE

Maracatu Elefante – Dona Santa

O maracatu, da forma hoje conhecida, tem suas origens na instituição dos Reis Negros, já conhecida na França e em Espanha, no século XV, e em Portugal, no século XVI, passando para Pernambuco onde encontramos narrativas e documentos sobre tais coroações de soberanos do Congo e de Angola a partir de 10 de setembro de 1666, segundo testemunho de Souchou de Rennefort, in Histoire des Indes Orientales, publicado em Paris 1688.

As coroações de reis e rainhas de Angola na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio do Recife são documentadas a partir de 1674, segundo documentação reunida in Alguns documentos para a história da escravidão. Recife: Editora Massangana, 1988.

O folguedo do maracatu, semelhante aos bailes e batuques organizados pelos pretos de Angola ao tempo do governador José César de Menezes (1774-78), objeto de denúncia à Inquisição de Lisboa por parte dos frades capuchinhos da Penha (ANTT – Cartório da Inquisição nº4740), foi sempre alvo de censuras por parte das classes dominantes e de perseguição policial; segundo denúncia do mesmo jornal em sua edição de 11 de novembro de 1856 ao tratar do maracatu da praça da Boa Vista.

Cortejos de reis negros

Os cortejos dos reis negros, geralmente anotados pela imprensa, quando das festas de Nossa Senhora dos Prazeres e nas do Rosário de Santo Antônio, não eram conhecidos por maracatus, como se depreende do noticiário do Diario de Pernambuco de 20 de outubro de 1851:

… percorrendo à tarde algumas ruas da cidade, divididos em nações, cada uma das quais tinha à frente o seu rei acobertado por uma grande umbela ou chapéu-de-sol de variadas cores. Tudo desta vez se passou na boa paz e sossego, porquanto a polícia, além de ter responsabilizado, segundo nos consta, o soberano universal de todas as nações africanas aqui existentes, por qualquer distúrbio que aparecesse em seus ajuntamentos, não deixou por isso de vigiá-los cuidadosamente.

Os reis negros, em especial o Rei do Congo, possuidor de uma hierarquia própria sobre os membros das demais nações africanas aqui residentes, compareciam às festas religiosas protegidos pela umbela. Um grande pálio redondo, ladeado por dignitários de suas respectivas cortes, sendo o cortejo aberto pela bandeira da nação, juntamente com outras bandeiras arvoradas, e acompanhados por instrumentos de percussão, nem sempre ao gosto da população branca, como se depreende na observação do Padre Carapuceiro: “Alguns desses chapelórios ainda há poucos anos apareciam nos batuques dos pretos em dias de Nossa Senhora do Rosário, cobrindo o figurão chamado de rei dos congos” (Diario de Pernambuco, 15.3.1843).

O grande guarda-sol colorido sob o qual vinha amparado o rei de cada nação, como fora observado pelo Padre Carapuceiro, era denominado cumbi pelos africanos que, ainda em nossos dias, assim trazem protegidos os seus sobas. Inicialmente pensou-se que esta grande umbela havia sido transplantada do cerimonial da igreja católica, onde é utilizada como proteção ao santo viático, quando de sua saída às ruas, conforme bem retratou Emil Bauch em uma de suas cromolitografias tomadas da calçada da igreja matriz da Boa Vista, no Recife (c 1852).

Maracatus, ajuntamentos de negros

No Recife a denominação maracatu servia, a partir da primeira metade do século XIX, para denominar um ajuntamento de negros, como por ocasião da fuga da escrava Catarina, anotada por José Antônio Gonsalves de Mello em consulta à edição do Diario de Pernambuco de 1º de julho de 1845:

Em o dia 2ª feira do Espírito Santo do ano próximo passado, fugiu a preta Catarina, de nação Angola, ladina, alta, bastante seca de corpo, seio pequeno, cor muito preta, bem feita de rosto, olhos grandes e vermelhos, com todos os dentes da frente, pés grandes metidos para dentro, muito conversadeira e risonha, de idade de 22 anos; tem sido encontrada na Estrada da Nova da Passagem da Madalena e no Aterro dos Afogados, vendendo verduras e aos domingos no maracatu dos coqueiros do dito Aterro, e há notícia de ser o seu coito certo a matriz da Várzea; cuja escrava pertence a Manoel Francisco da Silva, morador na Rua Estreita do Rosário, 10, 3º andar, ou em seu sítio em Santo Amaro, junto à igreja, o qual gratificará generosamente a quem lh’ a apresentar.

Outro exemplo aparece na ata da sessão extraordinária da Câmara Municipal do Recife de 28 de abril de 1851, quando foi endereçada ao desembargador Chefe de Polícia “uma petição do preto africano Antônio Oliveira, intitulado Rei do Congo, queixando-se de outro que, sem lhe prestar obediência, tem reunido os de sua nação para folguedos públicos, a fim de que o mesmo desembargador providenciasse em sentido de desaparecer semelhantes reuniões, chamadas vulgarmente de maracatus, pelas conseqüências desagradáveis que delas podem resultar” (Diario de Pernambuco, 27.5.1851).

No Recife, os cortejos dos soberanos negros, trazendo os seus reis e rainhas, não saíam no período do carnaval, mas tão somente por ocasião de suas festas religiosas ou em ocasiões outras como o embarque de africanos libertos de volta à mãe África. A presença de “batuque do Rei do Congo” no carnaval do Recife só vem a ser registrada a partir do final dos anos cinqüenta do século XIX.

Os reis no Carnaval

Maracatu Elefante – Rainhas e princesas

Somente nos anos setenta do século XIX é descrita a presença desses cortejos de reis negros durante o carnaval, segundo noticia o Diario de Pernambuco sem sua edição de 10 de fevereiro de 1872, ainda sem a denominação de maracatus:

No dia 11 do corrente sairá da Rua de Santa Rita Velha (bairro de São José) a nação velha de Cambinda, a qual vai em direitura à Rua das Calçadas buscar a sua rainha, e depois percorrerá diversas ruas, e às 3 horas se achará em frente à igreja do Rosário [de Santo Antônio] onde se soltarão algumas girândolas de fogo e uma salva de 21 tiro; dali seguirá para o Recife e na Rua do Bom Jesus voltará com a vice-rainha de sua nação.

O maracatu era, até então, considerado a reunião de negros em determinado local. Um o batuque, na acepção de “dança africana ao estrépido de instrumentos de percussão” (Pereira da Costa), mas não o cortejo real que levava às ruas a corte dos reis negros, como faz ver o extenso editorial do mesmo jornal, publicado em 18 de maio de 1880:

…. Há tempos, que indicamos um maracatu que costuma reunir-se quase no extremo norte do Cais do Apolo, na freguesia de S. Pedro Gonçalves do Recife; hoje temos notícia exata de dois outros, dos quais os vizinhos têm as mais cruéis recordações. Juntam-se estes na freguesia da Boa Vista, um na Rua do Giriquiti, outro na Rua do Atalho. Neste último, anteontem, houve uma grande assuada e barulho, chegando a aparecer diversas facas de ponta. Felizmente, não se deram ferimentos, mas não esteve longe de assim acontecer. Urge, repetimos, providenciar em ordem a que cessem, desapareçam tão selvagens instrumentos, e o Sr. Dr. Chefe de Polícia, que volveu suas vistas contra as casas de tavolagem, deve também dirigir sua atenção para os maracatus.

O maracatu, na verdade, era tão somente o batuque dos negros, com localização fixa em determinado bairro da cidade. O cortejo real, como no caso anteriormente citado da “nação velha de Cambinda”, não parece ser a mesma coisa. A conclusão é reforçada pelo depoimento do carnavalesco João Batista de Jesus, “Seu Veludinho” do maracatu Leão Coroado, que segundo a tradição faleceu com 110 anos, prestado à pesquisadora Katarina Real em janeiro de 1966, in O folclore no Carnaval do Recife. Recife: Editora Massangana, 1990. 2ªed. p. 184:

Maracatu nem tinha o nome de maracatu. O nome era nação. Uma “nação” mandava ofício para outro “estado”. Surgiu essa palavra pelos homens grandes, quando ouviram os baques dos bombos, chamaram “aquele maracatu!”

Cortejo é chamado de maracatu

Com a abolição da escravatura negra, em 1888, e a proclamação da República, em 1889, a figura do Rei do Congo – Muchino Riá Congo – perdeu a sua razão de ser. Os cortejos dos reis negros já presentes no carnaval, por sua vez, passaram a ter como chefe temporal e espiritual os babalorixás dos terreiros do culto nagô. Assim vieram para as ruas do Recife, não somente nos dias de festas religiosas em honra de Nossa Senhora do Rosário, mas também nas festas carnavalescas.

Após a abolição, porém, os antigos cortejos das nações africanas, que continuaram a se fazer presentes no carnaval do Recife então sob a chefia dos seus babalorixás, passaram a ser chamados de maracatus, particularmente quando a notícia tinha conotação policial, como a divulgada pelo Diario de Pernambuco, em sua edição de 26 de fevereiro de 1889:

Revista Diária. Maracatu Porto Rico – Na Praça Pedro I, da paróquia de São Frei Pedro Gonçalves do Recife, deu-se anteontem um conflito entre os sócios do Maracatu Porto Rico, quando este fazia um ensaio. Ao que parece o conflito foi motivado por uma praça do 14º Batalhão, pois que cerca de 60 homens, armados de facas e cacetes, rebelaram-se contra a dita praça, que ferida tratara de fugir, quando ali compareceu o subdelegado da paróquia. Esta autoridade conseguiu prender seis dos tais desordeiros, inclusive o ofensor da praça, que foi vistoriada pelo sr. dr. José Joaquim de Souza.

Ainda recentemente, ao que se depreende do depoimento do presidente da Nação do Leão Coroado, Luiz de França, falecido aos 95 anos, “para conversar pouco, só digo que o maracatu é da seita africana”. (Diario de Pernambuco, 14 de janeiro de 1996).

As seculares nações africanas

A mais tocante descrição de um maracatu carnavalesco do início do século vem de Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923) que, em 1908, assim relata o cortejo no seu Folk-Lore Pernambucano:

Rompe o préstito um estandarte ladeado por arqueiros, seguindo-se em alas dois cordões de mulheres lindamente ataviadas, com os seus turbantes ornados de fitas de cores variegadas, espelhinhos e outros enfeites, figurando no meio desses cordões vários personagens, entre os quais os que conduzem os fetiches religiosos, – galo de madeira, um jacaré empalhado e uma boneca de vestes brancas com manto azul -; e logo após, formados em linha, figuram os dignitários da corte, fechando o préstito o rei e a rainha.

Estes dois personagens, ostentando as insígnias da realeza, como coroas, cetros e compridos mantos sustidos por caudatários, marcham sob uma grande umbela e guardados por arqueiros.

No coice vêm os instrumentos: tambores, buzinas e outros de feição africana, que acompanham os cantos de marcha e danças diversas com um estrépito horrível.

Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda qui tenda, tenda,
Aruenda de totororó.

O autor chama a atenção do leitor para o Maracatu Cabinda Velha que, “desfraldando um rico estandarte de veludo bordado a ouro, como eram igualmente a umbela e as vestes dos reis e dignitários da corte, e usando todos eles de luvas de pelica branca e finíssimos calçados. Os vestuários dos arqueiros, porta-estandarte e demais figuras, eram de finos tecidos e convenientemente arranjados, sobressaindo os das mulheres, trajando saias de seda ou veludo de cores diversas, com as suas camisas alvíssimas, de custosos talhos de labirinto, rendas ou bordados, vistosos e finíssimos; e pendentes do pescoço, em numerosas voltas, compridos fios de miçangas, que do mesmo modo ornam-lhes os pulsos. Toda comitiva marchava descalça, à exceção do rei, da rainha e dos dignitários da corte, que usavam de calçados finos e de fantasia, de acordo com os seus vestuários”.

E concluindo, afirma Pereira da Costa:

“Quando o préstito saía, à tarde, recebia as saudações de uma salva de bombas reais, seguida de grande foguetearia, saudações essas que eram de novo prestadas no ato do seu recolhimento, renovando-se e continuando as danças até o amanhecer; e assim, em ruidosas festas e no meio de todas as expansões de alegria, deslizavam-se os três dias do Carnaval”.

Preservando a denominação de nação, os préstitos dos maracatus de baque virado (que utilizam nas suas apresentações tão somente instrumentos de percussão de origem africana) continuam a desfilar pelas ruas do Recife nos dias do carnaval e nos meses que antecedem a grande festa. Denominando-se de Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação do Indiano (1949), Nação Porto Rico (1915), Nação Cambinda Estrela (1953), além de outros grupos que surgiram mais recentemente, mantendo a tradição africana dos seus antepassados.

OLINDA, É TODA CARNAVAL

O Carnaval de Olinda tem o seu início oficial nos primeiros minutos do domingo quando, no Bonsucesso, o Homem da Meia Noite “bota a cabeça de fora / Aquece a folia / A rua toda estremece / No céu a lua aparece / Explode a alegria” ….

No rastro deste tradicional boneco surgem, como que saídos de um conto de fadas, a Mulher do Dia, o Menino da Tarde, o Tarado da Sé, o Capibão, dentre outras dezenas de bonecos gigantes que vão, pouco a pouco, tomando conta da paisagem.

Caboclinhos, maracatus-nação de baque virado, troças e clubes de frevo, maracatus rurais com seus caboclos de lança, blocos carnavalescos com suas orquestras de pau e cordas, tribos de índios, bois, reisados, a presença cigana nas La Ursas, turmas de palhaços colorido, multidões de alegres mascarados, estão a encher de cores ladeiras, becos, ruas e avenidas, nos dias dedicados ao Carnaval, transformando Olinda no Reino Azul da fantasia.

Batidas sincopadas de bombos dos maracatus-nação, estalidos das preacas dos caboclinhos, notas agudas e dissonantes das fanfarras de frevo, sons rurais de acordeões de La Ursas, batuques de escolas de samba, cômicas toadas de um Mateus do bumba-meu-boi, o lirismo do bloco Flor da Lira cantando, se juntam aos caboclos de lança do maracatu Piaba de Ouro de modo a se misturar com a onda de passistas seguidores dos cortejos da Pitombeiras, do Elefante, da Ceroula, do Vassourinhas, de Marim dos Caetés, ou mesmo do Eu acho é pouco, que mais parecem, na imagem de Alceu Valença, com uma enorme “cobra que desce a ladeira com gosto de gás”.

O carnaval de Olinda em nada se assemelha ao do resto do Brasil. Para o escritor Luís da Câmara Cascudo, “o carnaval dos grupos e dos ranchos, das escolas de samba do Rio de Janeiro” em nada se parece ao carnaval de Olinda, “o carnaval da participação coletiva na onda humana que se desloca, contorce e vibra na coreografia, a um tempo pessoal e geral do frevo, com a sugestão de suas marchas-frevos pernambucanas, insubstituíveis e únicas”.

Nesta paisagem carnavalesca, um ritmo é o grande responsável pela aglutinação das multidões que tomam conta das ruas, becos e avenidas da Cidade Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade durante o carnaval ou em seus momentos de alegria.

Surgido do repertório das bandas militares, o frevo pernambucano como música é o resultado da fusão da marcha, do tango brasileiro, do maxixe, da quadrilha, do galope e, mais particularmente da polca e do dobrado, que num mesmo cadinho deram origem a esta música singular de andamento alegro, ainda hoje em franca evolução rítmica e coreográfica. A partir dos anos trinta, do século passado, convencionou-se dividir o frevo em frevo-de-rua, frevo-canção e frevo-de-bloco.

Como no frevo de Severino Luiz Araújo e Nelson Luiz Gusmão, “… é lindo o carnaval de Olinda / E quem não viu ainda / Não sabe o que é paixão / A vida esquece a saudade / Tudo é felicidade / E amor no coração.”

• Do livro “O’ linda, o teu nome bem diz!”, 480 p. ilustrado, a espera de patrocínio para sua edição.

* * *

OLINDA, NO TEMPO DOS FLAMENGOS

A vida religiosa da capitania tinha como centro a matriz do Salvador do Mundo, sendo ela, em todo século XVI e início do século XVII, a segunda igreja em importância da América Portuguesa, depois da Sé da Bahia. O grande templo foi parcialmente concluído em 1540, apresentava-se com três naves, tendo na portada duas colunas geminadas. O padre Fernão Cardim assim o descreve em 1584: “uma formosa igreja matriz, de três naves, com muitas capelas ao redor, e que acabada ficaria uma boa obra”.

Preocupou-se o primeiro donatário não somente com a implantação da agroindústria açucareira, mas também com a educação da juventude e, muito particularmente, com a catequese dos indígenas, tendo para isso entregue aos padres da Companhia de Jesus, em 1551, a ermida de Nossa Senhora da Graça, por ele construída na mais alta elevação da vila. Coube aos padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires coordenarem o nivelamento do terreno e nele iniciar a construção, junto à primitiva igreja, do edifício do Colégio de Olinda. As obras se prolongaram por toda a segunda metade do século XVI, juntamente com a instalação de um Horto Botânico destinado à aclimatação das plantas exóticas, trazidas da Europa e do Oriente para Pernambuco.

Também as ordens religiosas procuraram estabelecer os seus conventos em terras da nova capitania. Inicialmente, como já vimos, foram os Jesuítas (1551), seguindo-se dos Franciscanos (1585), Carmelitas (1588) e Beneditinos (1592).

09. Ruínas da Sé de Olinda, segundo quadro de Frans Post (detalhe)

Ruínas da Sé em Olinda – Frans Post

Uma visão de Olinda, no início do século XVII, nos é dada por Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8):

Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

A riqueza de Olinda, por sua vez, era sustentada pelas mercadorias exportadas através porto de Pernambuco, notadamente o açúcar. Sua importância nas relações comerciais com o norte da Europa, é ressaltada em grande parte dos documentos do século XVI e início do século XVII, graças à produção do açúcar, que passara de gênero de alto luxo a produto acessível às classes de menor poder aquisitivo. Tal riqueza veio despertar a cobiça dos piratas e corsários, tornando as caravelas (navios pequenos e mal-armados), em presas fáceis. Informa K. R. Andrews que, entre 1589 e 1591, Portugal perdeu para corsários ingleses nada menos que 34 navios, em sua maioria procedentes dos portos de Pernambuco e da Bahia.

Em 1589, segundo fonte jesuítica, num período de nove meses, foram apreendidos por ingleses e franceses 73 navios carregados.

Na primeira metade do século XVII a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida em todos os portos da Europa, veio despertar a cobiça dos Países Baixos. Em guerra com a Espanha, sob cuja coroa se encontrava Portugal e suas colônias, necessitava a Holanda e demais repúblicas de todo açúcar produzido no Brasil para suas refinarias (26 só em Amsterdã). Com o insucesso da invasão da Bahia (1624), onde permaneceram por um ano, mas com o valioso apoio de Isabel da Inglaterra e Henrique IV da França, rancorosos inimigos da Espanha, a Holanda, através da Companhia das Índias Ocidentais, formada pela fusão de pequenas associações, em 1621, cujo capital elevara-se, em pouco tempo, a 7 milhões de florins, voltou o seu interesse para Pernambuco.

A produção de 121 engenhos de açúcar, “correntes e moentes” no dizer de van der Dussen, (¹) viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck. Uma grande armada, com 65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

A Vila de Olinda, uma das mais abastadas da América Portuguesa, cujo fausto era comparado com Lisboa e Coimbra, não se perturbara com os boatos da chegada dês uma grande armada .

Nas ruas os seus habitantes, aproveitando as festas pelo nascimento do príncipe Baltasar, herdeiro do trono de Espanha, vestiam seda e damasco, montavam em garbosos cavalos ajaezados em prata, com o som de suas cascavéis a chamar a atenção de sua passagem.

Senhores da terra, os holandeses escolheram o Recife como sede dos seus domínios no Brasil, por ter nesta praça a segurança que não dispunham em Olinda, “por ser aberta por muitas partes e incapaz de defesa”, na observação de Diogo Lopes Santiago (História da Guerra de Pernambuco).

Na noite de 25 de novembro de 1631, resolveram os chefes holandeses pôr fogo na sede da capitania de Pernambuco, “a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas e nobres edifícios, arderam seus templos tão famosos, e casas que custaram tantos mil cruzados em se fazerem” (Santiago).

O soldado da Companhia das Índias Ocidentais, Ambrósio Richshoffer, em anotações ao seu Diário, relata que a demolição dos edifícios de Olinda teve início no dia 17, “transportando-se mais tarde para o Recife todo o material aproveitável”.

A 24 nossa gente que ali se achava retirou-se para a aldeia Povo ou Recife, destruindo antes tudo o que foi possível e pondo fogo à cidade em diversos pontos. Esta resolução foi motivada pelo fato de ser a cidade toda montanhosa e desigualmente edificada, sendo difícil de fortificar e exigir uma forte guarnição, que podíamos empregar melhor aqui e em outros pontos. (²)

Olinda - Frans Post - Rijksmuseum 107,5 x 172,5 (2)

Olinda – Frans Post

Segundo depoimento de Duarte de Albuquerque Coelho, em Olinda “residiam 2.500 vizinhos, possuindo quatro conventos religiosos, sendo um de São Bento, outro dos recoletos de São Francisco, o terceiro do Carmo, e um colégio dos Jesuítas; havia mais duas paróquias, uma casa de Misericórdia e a da Conceição de recolhidas, além das Ermidas. O que não pode referir-se, sem grande e devido sentimento, é que também deixaram nas chamas todas estas igrejas e conventos, e as Santas Imagens”. (³)

Em Olinda a paisagem e costumes foram assim descritos pelo Frei Manuel Calado, “tudo eram delícias e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso” (O Valeroso Lucideno).

Mas a segurança para Waerdenburch e demais chefes holandeses falava mais alto, daí fixar-se no Recife e na ilha de Antônio Vaz que “são lugares próprios para, com oportunidade, fundar-se uma cidade” e “penso que ninguém que da Holanda vier para aqui quererá ir morar em Olinda” (Adolph van Els), sendo proibidas quaisquer construções no perímetro urbano da antiga capital.

Observa José Antônio Gonsalves de Mello que “uma população enorme, calculada em mais 7.000 pessoas, teve de se comprimir no Recife e em Antônio Vaz [área hoje ocupada pelos bairros do Recife e de Santo Antônio]. Aí as casas eram em número insuficiente e muitos dos armazéns tinham sido incendiados”.

Ao contrário do que muitos podem pensar, foi o açúcar, e não a esperança de descobrimento de minas, o motivo principal da invasão, conforme bem demonstrou José Antônio Gonsalves de Mello. (4)

Açúcar, no dizer do padre Antônio Vieira, passou a ser sinônimo de Brasil.

______________

1) DUSSEN, Adriaen van der. Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos holandeses (1639): suas condições econômicas e sociais. Rio de Janeiro: Instituto do Açúcar e do Álcool, 1947. 168 p. Tradução, introdução e notas de J. A. Gonsalves de Mello.

2) RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais 1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p. il. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor de Laemmert & Comp., 1897.

3) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638. Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12). Inclui mapas de Manoel Bandeira e índice onomástico.

4) MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. 2.ed. p. 130.

OLINDA, É SÓ PARA OS OLHOS

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Carlo Pena Filho

Os cronistas que descrevem a Vila de Olinda no final da segunda metade do século XVI e nos anos que antecederam ao incêndio provocado pelos holandeses, em novembro de 1631, são unânimes em proclamar as suas belezas naturais e a imponência do seu casario, dominados por ricos conventos, belas igrejas, a grandiosidade do seu colégio e o ambiente acolhedor de suas residências.

Em sua narrativa assinala o capelão holandês Johannes Baers, além das construções religiosas e do Colégio dos Jesuítas, alguns aspectos importantes da casa urbana olindense:

As casas não são baldas, mas, cômodas e bem feitas, arejadas por grandes janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas subidas todas com largas escadarias de pedra, porque as pessoas de qualidade moram todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são de pedra dura e pesada. (¹)

Sobre o mobiliário da casa urbana, revela o reverendo que nelas “foram achados poucos móveis, como cadeiras e bancos, caixões e arcas, e outras obras de madeira e objetos domésticos, pouca prata ou dinheiro amoedado, e outras alfaias preciosas ou jóias”.

Conclui, no entanto, o cronista ser o estado de guerra que se encontrava instalado, responsável pelo abandono da por seus moradores levando o que podia de seus pertences.

Eles ao que parece fugiram com os seus tesouros e a maior parte dos seus bens para as aldeias, montes e engenhos do interior, tendo sido prevenidos da nossa chegada com alguma antecedência.

Na visão romântica do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais de 1629 a 1640, era Olinda uma “cidade formosa, situada numa curiosa situação, de prazerosa perspectiva, com edifícios suntuosos, acompanhados por raros jardins com frutos e prazeres, fontes de uma água pura e maravilhosa”.

Neste lugar houve a afluência dos mais galantes homens e mulheres, cada qual se esforçando por ultrapassar os outros em orgulho e grandeza, tanto quanto as mulheres, por sua parte, podiam fazer. Elas não economizaram tesouro algum para enfeitar-se, para enfeitiçar o coração dos seus amantes com suas belezas, tendo na mão a ajuda de perfumes odoríferos. […} Nesta cidade as classes de mulheres mais elegantes usavam em lugar de sapatos, chapins [ calçado feminino de sola grossa, de madeira, cortiça etc., usado para realçar a estatura das mulheres], de meio pé de comprido. Tampouco saíam de portas afora para a rua, mesmo que fosse pelo espaço de meia pedrada, sem serem carregadas entre dois escravos numa rede de grande valor. E sobre ela, para guardá-la do sol, um pano de rico bordado engastado de pérolas.

Ao dar continuidade a sua narrativa, o oficial inglês, usando talvez da imaginação, conta o fato de certa dama olindense que tinha por hábito banhar-se à noitinha, “quando já estava escuro, numa fonte feita para esse propósito, perto da qual havia passeios sombreados por laranjeiras e cidreiras, de modo que ela vindo refrescar-se, encontrava então, sob essas sombras, onde o próprio ar era perfumado com odor das frutas e flores, com o seu bem amado que ali a esperava”.

A dama, com um toque de sua viola ou de algum outro instrumento dava alarme ao peregrino, que com toda a diligência buscava essa emboscada. E achando-a, desafiava a outra facção que respondendo “amigo”, descarregava-lhe uma saraivada de abraços, ficando ela mesma prisioneira de sua mercê, cujo tenro coração lhe dá bom quartel e por razão de piedade a ela propicia tantos favores quantos pode fornecer suas forças. Até que a lua, ficando descoberta, começa a desalojar esses lugares e eles fogem para algum refúgio seguro e mais privado. (²)

_______________

1) BAERS, Padre João. Olinda conquistada. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 76 p. (Coleção pernambucana; 1ª fase, v. 11 b). Fac-símile da ed. Recife: Typographia de Laemmert & C.- Editores, 1898. p. 40-42.

2) PUDSEY, Cuthbert. Diario de uma estada no Brasil 1629-1640. Rio de Janeiro: Index, 2000. p. 43-44.

FREI CANECA, O MÁRTIR ESQUECIDO

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A execução de Frei Caneca (detalhe), óleo do pintor palmarense Murilo La Greca

Certa vez em visita ao Recife, o então governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, desejou conhecer os Montes Guararapes, onde visitou a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, e o monumento em honra ao mártir pernambucano Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

O levaram ao Largo das Cinco Pontas, onde se encontra um pequenino busto e o resto de parede com uma lápide em mármore, assinalando o local do seu suplício em 13 de janeiro de 1825.

Extasiado, indagou o visitante se era tudo que existia no Recife em memória de tão ilustre liberal, e ao obter a confirmação exclamou irritado: É muito pouco para um Grande Brasileiro!

Os tempos passaram e nada foi feito para avivar a memória do mártir maior da Confederação do Equador (1824), restringindo-se tudo ao pequenino busto em cimento, junto a um resto de muro no qual se encontra afixada uma placa em mármore, com inscrição em letras pretas maiúsculas, ali colocada pelo Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (sic) na data de dois de julho de 1917:

Neste largo foi espingardeado junto à forca, a 13 de janeiro de 1825, por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo, o Patriota Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Republicano de 1817, e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824.

Nascido de uma família pobre do Recife, em agosto de 1779, Joaquim do Amor Divino Rabelo entrou para o convento carmelita de sua cidade em 1796. Ordenando-se em 1801, substituiu o seu nome de família pelo apelido dado a seu pai, que tinha a profissão de tanoeiro. Logo se notabilizou pelos seus conhecimentos de Retórica e Geometria, Direito, Filosofia Racional e Moral, com incursões nos estudos da mecânica e cálculo matemático. Foi membro da Academia do Paraíso, e teve participação inflamada no movimento que instalou a República em Pernambuco, em seis de março de 1817, tendo sido levado preso aos cárceres da Bahia, onde penou por quatro anos, sendo dele esses versos:

Não posso cantar meus males
Nem a mim mesmo em segredo;
É tão cruel o meu fado,
Que até de mim tenho medo.

Decretada a anistia pelas Cortes Portuguesas, em 1821, voltou frei Caneca ao Recife e, após o episódio da dissolução da Constituinte pelo imperador Pedro I, resolveu fundar o Typhis Pernambucano, principal divulgador das idéias liberais que viriam a ser defendidas pela Confederação do Equador (1824).

O jornal circulou entre 25 de dezembro de 1823 e 12 de agosto do ano seguinte, tendo sido impressas 29 edições, transformando-se no ideário dos liberais de então, partidários de Manoel de Carvalho Paes de Andrade.

Com a província de Pernambuco invadida pelas tropas imperiais, é proclamada, em dois de julho de 1824, a Confederação do Equador, movimento separatista de caráter republicano que mais uma vez põe em armas os liberais pernambucanos. Derrotados no Recife, os revoltosos iniciam penosa marcha em direção ao Ceará, episódio narrado com cores fortes por Frei Caneca no seu Itinerário. Presos e agrilhoados retornaram ao Recife, aonde o frade vem a ser condenado à forca em sentença expedida em 10 de janeiro de 1825.

Debalde o Cabido Metropolitano comparece em procissão ao Palácio do Governo pedindo a suspensão da pena. Em represália os cônegos negaram-se a desautorar suas ordens tornando nulo, perante o Direito Canônico, todos os atos que se seguiram.

A execução foi marcada para a manhã de 13 de janeiro de 1825.

Na prisão mais uma vez escreve versos, despedindo-se dos amigos e das suas filhas, por ele chamadas de “afilhadas das minhas entranhas”, dormira sereno a sua última noite e, na manhã seguinte, marchou com altivez em direção ao patíbulo.

Diante de tal cena o inesperado aconteceu: carrascos convocados para execução da pena capital negaram-se executá-la, pouco se importando com as promessas e com os suplícios que lhes foram imposto pela tropa.
Diante do impasse foi à pena transformada em execução por espingardeamento, o que aconteceu no Largo das Cinco Pontas, “por não haver réu que se prestasse a garroteá-lo”.

Quem passa a vida que eu passo,
Não deve a morte temer;
Com a morte não se assusta
Quem está sempre a morrer.

Os seus restos mortais vieram a ser sepultados no Convento do Carmo, em local não determinado, o seu nome, porém, é hoje reverenciado pela grande maioria das capitais do Brasil, onde sempre existe uma Rua Frei Caneca, muito embora continue esquecido na terra que lhe serviu de berço.

E observem que existe em pleno funcionamento uma Comissão de Notáveis destinada a elaboração das Comemorações dos 200 anos da Revolução Republicana de 1817, instituída com “pompa e circunstância” pelo governador Paulo Câmara!

Que fez esta Comissão de Notáveis no transcurso da morte de Frei Caneca, um dos mártires de 1817 e a principal cabeça pensante da Confederação do Equador?

RECORDAÇÕES DO GALO D’OURO

No dia 12 de março de 2005, ao abrir os jornais para minha leitura matinal, me surpreendem as notícias: Galo d’ Ouro encerra as atividades.

Fecho os olhos e, com o sentimento de quem perdeu um ente querido, começo a divagar recordando toda uma existência de mais de quatro décadas vividas naquele simpático restaurante português da Rua Camboa do Carmo.

Em minhas recordações surge a figura do português Joaquim Marques Cassimiro (falecido em 1983), dono d’O Cassimiro, restaurante por ele fundado em 1959, que antecedeu naquela rua o Galo d’ Ouro; este adquirido por outro português, Afonso Albérico Lopes da Silva, em 1962.

Ao Cassimiro e depois ao Galo d’Ouro comecei a freqüentar ainda em companhia do meu pai, Tonico Silva, que me iniciara nos temperos da cozinha portuguesa.

Já no Jornal do Commercio, nos idos de 1965, voltei a freqüentar com mais assiduidade o Galo d’Ouro ao lado de minha mãe Ilídia, nos finais de semana, e com os colegas de redação, vez por outra, nos almoços dos sábados.

O restaurante estava situado no mesmo local, em um lote bem mais estreito, tendo em sua entrada uma vitrine frigorífica, com peixes, lagostas e outros alimentos servidos no seu cardápio.

Vieram os tempos da Faculdade de Direito e lá estava eu, no Galo d’Ouro, com minha noiva da época que tinha por preferência “Lagosta ao termidor”; ainda num tempo em que o crustáceo era servido flambado em sua própria carapaça.

É dos anos sessenta do século XX a minha amizade com Gaudêncio de Souza Aguiar, que veio a ser gerente do restaurante até os seus últimos dias, quando já era o Galo dirigido pela viúva, Zuleide, e filhos de Afonso Albérico, falecido em 31 de outubro de 2003.

É também dos anos sessenta do século XX os almoços semanais com Capiba, que tinha por prato preferido “Salada de camarão sem pepino”, e sua mulher, Zezita, cuja preferência recaía na “Perna de cabrito com batatas coradas”.

Nos anos setenta, quando o Diário de Pernambuco organizava os festejos do seu Sesquicentenário foi a vez dos saudosos encontros com Antônio Camelo, Nereu Bastos, Joezil Barros e Gladstone Vieira Belo quase todas as semanas.

Nessas últimas quatro décadas fora o Galo d’Ouro uma extensão do meu lar: Almoçar no Galo, aos domingos, era como não sair de casa.

No Galo eu vi meus filhos ensaiarem os primeiros passos e crescerem até se tornar adultos. Mariana tinha por preferência, “Tutu de feijão com batatas fritas”; enquanto Tonico, até na última vez em que lá estivemos, pedia sempre: “Língua ao molho de madeira, com talharim”.

Eu, porém, auscultando sempre a sugestão do amigo Gaudêncio, ficava entre a Perna de Cabrito e o Polvo à espanhola; este último com a recomendação, “à moda antiga”, isto é, preparado no mesmo modo dos tempos do antigo Cassimiro.

Para sobremesa, a nossa escolha era unânime: Pudim de laranja; aquele mesmo gostinho doce-amargo, que me fazia lembrar os lanches com a minha saudosa mãe nas Lojas 4.400 da Rua Nova, ou na Botijinha, na Matias de Albuquerque. – Nos últimos tempos, na falta do Pudim de laranja, dávamos preferência a inesquecível Cartola.

Tudo isso servido com a prestimosidade de antigos funcionários, por nós conhecidos pelos seus nomes próprios: Alexandre, José Joaquim (que tem uma filha por nome de Mariana), Heleno, Barbosa, Osvaldo e Roberto.

O Galo d’ Ouro não mais existe, a Camboa do Carmo, nos domingos, transformou-se em território de fantasmas; como nos versos de Chico, “tempo passou na janela, só Carolina não viu…

CLAUDIONOR, PATRIMÔNIO IMATERIAL DE PERNAMBUCO

Dentre os agraciados com o título de Patrimônio Imaterial de Pernambuco, no ano de 2016, figura o nome do consagrado intérprete da música pernambucana Claudionor Germano da Hora.

De há muito, independente da consagração oficial pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, o nome de Claudionor Germano é uma consagração em todo território pernambucano, por conta de suas interpretações dos vários ritmos do nosso Estado.

Ao surgir a Fábrica de Discos Rozenblit em 1953, para intérprete do disco de lançamento foi lembrado, por Nelson Ferreira, o nome de Claudionor Germano. Assim, sob o selo Mocambo de n º 15000-B, matriz R–501, surgiu a sua primeira gravação no frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes, orquestra da PRA 8 sob a regência do próprio Nelson Ferreira.

Assim aparecia em disco o nome de Claudionor Germano, que veio a ser o intérprete favorito da maioria dos compositores do carnaval pernambucano. Ninguém no Brasil gravou mais para o carnaval do que ele; ninguém é mais conhecido do folião pernambucano do que esse intérprete maior dos frevos de Capiba, Nelson Ferreira, José Menezes, Manuel Gilberto, Antônio Maria, Luiz Bandeira, Alceu Valença, Getúlio Cavalcanti, dentre outros monstros sagrados do nosso frevo-canção; sua voz, quando chega o carnaval, se faz presente em todos os recantos de Pernambuco e em outros estados vizinhos.

Claudionor Germano da Hora nasceu no Recife, em 19 de abril de 1932, iniciando a sua carreira artística no Rádio Club de Pernambuco, em 1947, transferindo-se depois para o Rádio Tamandaré e, finalmente, para o Rádio Jornal do Commercio, onde teve oportunidade de atuar sob a direção do maestro Guerra Peixe. Foi durante anos o cantor da Orquestra de Nelson Ferreira e, a partir do carnaval de 1954, passou a integrar o cast da Fábrica de Discos Rozenblit. Sob o selo Mocambo veio a gravar, em 1959, os discos long plays Capiba – 25 anos de frevo (LP 40039) e Nelson Ferreira  O que eu fiz e você gostou (LP 40040), no que foi seguido em 1961 com Carnaval começa com C de Capiba (LP 40053) e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira (LP 40054), que vieram consagrá-lo como o mais importante intérprete do frevo-canção de todos os tempos. Gravou ainda Sambas de Capiba (LP 40044), em 1961, com destaque no lado B para A mesma rosa amarela (Capiba e Carlos Pena Filho), um dos sucessos da bossa-nova por ele lançado nacionalmente em março de 1960: disco 78 r.p.m., Mocambo nº 18877. Entre 1966-68 participou como finalista das três versões do Festival Internacional da Canção Popular, defendendo Canção do amor que não vem (Capiba), São os do Norte que vêm (Capiba e Ariano Suassuna) e Por causa de um amor (Capiba).

No âmbito do carnaval, além das dezenas de discos em 78 R.P.M. e dos LPs citados, foi responsável pela interpretação das séries Baile da Saudade v. I e II, O Bom do Carnaval e algumas faixas do Capital do Frevo, produzido anualmente pela Mocambo com as músicas inéditas de cada ano. Gravou ainda Dôzinho e seu carnaval, Cirandas (Musicolor K20286 – 1972) e Nelson Ferreira – Meio século de frevo-canção; este último, juntamente com 25 anos de frevo de Capiba, foram reeditados em compact-disc pela Polydisc-Recife em 1993.

Foi uma presença constante em todos os festivais da música carnavalesca, notadamente do Frevança (1979-89) e Recifrevo (1990-95), participando ainda de onze compactos (45 r.p.m.) e dois LPs da série O Bom do Carnaval com a gravadora RCA; participando, ainda, das excursões do Vôo do Frevo por duas vezes nos Estados Unidos (Miami e Nova Iorque) e no Japão (Tóquio).

Graças a sua invejável memória, que lhe dá a facilidade necessária de decorar todas as letras de sua bagagem de intérprete, aliada a pronúncia exata e a dicção perfeita, bem como a facilidade na mudança de tons e o conhecimento do estilo de cada compositor, Claudionor Germano vem sendo o mais requisitado intérprete do carnaval pernambucano: é ele o intérprete favorito de Capiba, de quem já gravou 124 músicas.

Quando do surgimento da Frevioca em 1980, orquestra volante com 28 músicos por mim criada para animar o carnaval do centro do Recife, convidei Claudionor Germano e o maestro Ademir Araújo para participar daquela volante do frevo, dupla que nela permaneceu durante muitos anos.

Sobre Claudionor Germano vale transcrever parte do depoimento do crítico musical e historiador José Ramos Tinhorão na contracapa do disco O Bom do Carnaval (RCA n º 1070342), gravado em 1981, com orquestra sob a direção do maestro Edson Rodrigues:

Embora tendo começado pelas tendo começado pelas canções de Vicente Celestino, ainda na escola (“ meu Brasil para aumentar a tua glória…”), embora não podendo deixar de sofrer, já rapaz, a influência fulminante do sestroso carioca Orlando Silva (ao lado de quem chegou a cantar, menino – que emoção! – durante uma festa de homenagem aos pracinhas da FEB), embora pagando o preço da moda, ao iniciar a carreira de profissional no Rádio Club de Pernambuco, em 1949, como crooner do conjunto Ases do Ritmo, foi como cantor de música tipicamente pernambucana que o estilo de Claudionor Germano se firmou. A ponto de, já em 1967, poder surgir diante dos milhares de brasileiros de todas as regiões que se acotovelavam no Estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, durante o II Festival Internacional da Canção, como a única voz capaz de emprestar o indispensável toque à vigorosa canção de Capiba, “São os do Norte que vêm”. Atualmente tão identificado com a música de sua região que pode ser considerado o cantor oficial do Recife (quando chega o carnaval é puxador de marchas e frevos, cantando pelas ruas em cima de um caminhão chamado de frevioca, além de figura indispensável, à frente das orquestras dos grandes bailes carnavalescos dos clubes Náutico e Português), Claudionor Germano consegue, no entanto, um privilégio de que poucos artistas podem se orgulhar: sem sair de sua terra pode ser ouvido – e suas interpretações neste disco comprovam isso – como uma autêntica voz nacional.

* * *


JOSÉ ANTÔNIO E SEU CENTENÁRIO

Transcorreu no último dia 16 de dezembro de 2016 o Centenário de Nascimento de José Antônio Gonsalves de Mello, o maior historiador brasileiro do seu tempo.

A data que deveria ser comemorada com festas e fanfarras, passa em extremo silêncio, só quebrado pela aposição de um painel de azulejos na casa onde ele morou de 1946 a 1969 no bairro das Graças (Rua das Pernambucanas), graças a iniciativa de um sócio do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, Sílvio Amorim.

O Instituto Ricardo Brennand, onde encontra-se preservado toda a biblioteca e arquivo pessoal de José Antônio, realiza um painel sobre sua obra e uma exposição com seus manuscritos, retratos, condecorações e objetos diversos.

Na Universidade Federal de Pernambuco, onde ensinou por tantos anos no Departamento de História e foi criador do falecido Instituto de Ciências do Homem; na Fundação Joaquim Nabuco, da qual foi o seu primeiro diretor; no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, do qual foi presidente e por vezes mantenedor, por dezenas de anos; reina tão somente o silêncio sem qualquer manifestação digna do vulto desta figura que, por tantos méritos, deveria ser exaltada e lembrada para as novas gerações de estudiosos da história pernambucana.

Sobre ele certa vez eu escrevi…

Certa vez o poeta Mauro Mota, ao fazer a apresentação de um dos seus livros, afirmou: “o que ele diz é; e se não é, passa a ser!”.

Para os que se dedicam aos estudos históricos, o nome de José Antônio Gonsalves de Mello continuará presente por muitas gerações que terão em sua obra, parte dela ainda desconhecida, fonte de referência obrigatória, inspiração para novos caminhos e exemplo de toda uma vida dedicada à pesquisa.

Para os seus discípulos, porém, naquele sete de janeiro de 2003, o desaparecimento de José de Antônio deixou em todos o sentimento de orfandade. A sensação de perda irreparável, ausência de uma retaguarda, barco sem timoneiro, alavanca sem fulcro, insegurança e falta de estímulo para prosseguir na caminhada.

Para quem escreve estas linhas, ainda com o coração nas mãos, a ausência de José Antônio é muito mais do que tudo isso… Com o seu passamento eu, que fui dos seus discípulos o mais amado, me vi, como que de repente, sem a presença do amigo, do companheiro de inúmeras viagens por terras de Portugal, do mestre vigilante e compreensivo, do conselheiro de todas as horas, enfim, daquele pai espiritual que, desde 1966, veio atenuar uma outra lacuna, a que me foi deixada com a ausência de Tonico¹ .

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A REPÚBLICA DE 1817

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996)¹ , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.

A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).

Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense -, tendo o Time (Londres) lhe dedicado o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).

De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.

Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

¹ MELLO-MOURÃO, Gonçalo de B.C. e. A Revolução de 1817 e a História do Brasil – Um estudo de história diplomática, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1996

RECORDANDO NOSSOS DEZEMBROS…

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Capela e Casa Grande do Engelho da Torre

Era chegado dezembro.

A festa de Santa Luzia, com suas luzes e gente de todas as partes, anunciava às crianças do bairro que estávamos no mês das festas.

Carrossel, roda-gigante, montanha russa, casa-dos-loucos, barquinhos, onda-marinha, barracas de prendas, bares e um serviço de alto-falantes com as suas mensagens “de alguém para você” compunham a paisagem do parque de diversões.

Em frente à secular matriz de Nossa Senhora do Rosário da Torre, toda iluminada por cordões de lâmpadas que anunciavam de longe a sua presença, mamulengos, pastoris e a retreta, animada pelas bandas do Liceu de Artes e Ofício e da Polícia Militar, encantavam os frequentadores da festa em honra da padroeira dos operários das indústrias de fiação e tecelagem.

O padre Romeu Gusmão da Fonte, recém-chegado à paróquia, era todo doação para com seus novos paroquianos que, ainda em nossos dias, o têm como um santo, refrigério de todas as horas.

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Padre Romeu Gusmão da Fonte

Estávamos em dezembro, era tempo de festas no bairro da Torre.

No Sesi e na Vila Operária, os pastoris eram o chamariz dos finais de semana. Belas pastoras, orquestras nem sempre afinadas, jornadas animadas, belas pernas a rodopiar no tablado, faziam a festa em que os leilões de prendas e ramalhetes se tornavam o alvo especial de nossas brincadeiras…

Dezembro passava célere … Num piscar de olhos já estávamos na semana do Natal…

Na pobreza da Rua Marquês de Maricá, porém, a festa não tinha a animação do São João, muito embora guardasse na singeleza dos lares o espírito natalino.

Naquelas casas não havia lugar para a figura do Papai Noel, nem muito menos para pinheirinhos cobertos de algodão, como a imitar neve neste verão tropical.

Nas salas tão somente uma miniatura da lapinha, como a lembrar o nascimento do Cristo em Belém, e nas mesas algumas iguarias em tudo estranhas às residências de maiores posses.

– Um quarto de cabrito assado, com farofa, substituía com mais graça e sabor o peru da mesa dos ricos.

Na noite do Natal as crianças, algumas com as suas roupas novas, outras tão somente com o espírito natalino a povoar os seus sonhos, brincavam na rua sem calçamento, nem iluminação pública, à espera da “missa do galo”.

Brincava-se de roda, de barra-bandeira e de outras tertúlias infantis, à espera da meia-noite quando o bairro inteiro tinha um encontro marcado na missa campal, em frente à matriz iluminada, com cânticos natalinos e pregações a cargo dos padres José Sales Tiné e Romeu da Fonte, sob o repicar dos sinos anunciando a noite de Natal.

Velhos e moços, crianças e adolescentes, abraçavam-se e desejavam, como se fizessem parte de uma grande e infinita família, os melhores votos de um Feliz Natal! …

Era a renovação construída através das gerações, tendo por cenário o então bucólico bairro, que naquele instante se confraternizava naquela noite cheia de mistérios.

Nos lares mais modestos, os bolos e, muito especialmente, os pastéis de carne de porco, cobertos com açúcar e canela, faziam parte de nossa ceia.

Era Natal, a rua humilde de casas de taipa, “cariadas, porém de pé”, para usar a imagem do poeta, parecia vestir-se de alegria e esperança.

Os meninos iam dormir sonhando com os presentes que, ao acordar, iriam encontrar sobre os seus sapatos… Presentes que, de tão modestos, tornar-se-iam descartáveis para qualquer criança dos nossos dias.

A FRACASSADA FUGA DE NAPOLEÃO PARA O BRASIL

 

Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetada em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses, para Pernambuco por ocasião da proclamação da revolução republicana.
 
Na época, era propósito dos franceses, uma vez libertado imperador, conduzi-lo aos Estados Unidos, mas caso tivesse sido vitoriosa a República de Pernambuco, proclamada em 6 de março de 1817, e Napoleão viesse a desembarcar no Recife, que imagens poderíamos captar para uma história de ficção, com a figura carismática do Corso levando a chama republicana às plagas da América do Sul.

Em 1817 transpirava-se em Pernambuco um notório descontentamento com a sua situação de uma capitania tão rica reduzida à condição de colônia de Portugal, fazendo ressurgir sentimentos separatistas acalentados desde a expulsão do governo holandês em 1654.

Jovens bacharéis egressos de Coimbra e de outras universidades européias, padres e seminaristas do Seminário de Olinda, discutiam ardorosamente nos cenáculos das cinco lojas maçônicas e nos púlpitos das igrejas, o ideário liberal proclamado pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e pelos princípios da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776).

Em 6 de março de 1817 um movimento armado contra o governo português toma conta das ruas do Recife, com o apoio do clero, das classes militares e do comércio, visando transformar Pernambuco e as demais províncias, que hoje integram o nordeste brasileiro, numa República independente de Portugal. Para isso fora enviado preso para o Rio de Janeiro o governador português, Caetano Pinto de Miranda Montenegro; promulgado um projeto de Constituição – que tinha por princípios básicos a interdependência dos três poderes, as liberdades de crença e opinião e as garantias individuais -; criada uma nova bandeira e outros símbolos da pátria; constituindo um conselho de notáveis e eleitos os representantes das classes governantes.

Para a manutenção da nova república, movimentou-se a maçonaria em conseguir apoio e recursos junto às suas lojas de Londres e, em particular, dos Estados Unidos. Para esta república foi enviado como embaixador o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pelo apelido de Cabugá. Levando em sua bagagem o desenho aquarelado da Bandeira Republicana, o texto do projeto de constituição, a Lei Orgânica, e “uma carta para o irmão presidente”, Cabugá inicia sua delicada missão nos Estados Unidos da América. Muito embora não conseguindo o prometido encontro com o presidente Madison, vem a ser recebido em audiência particular pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, para o qual relatou os propósitos e necessidades da mais nova república sul-americana.

Não foi feliz o Cabugá nos seus primeiros contatos, mas, não se sabendo porquê razões, talvez até pelo seu relacionamento com a maçonaria internacional, ele vem despertar simpatias entre os emigrados franceses, simpatizantes da causa bonapartista. Conseguiu assim contratar embarcações e marinheiros, para o transporte de armas e munições para a nova república, bem como o apoio de José Bonaparte, que viu nos novos acontecimentos a possibilidade de por em execução o plano de fuga de seu irmão, Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses em Longwood, capital de Santa Helena, uma ilha do Atlântico Sul, situada a 1.850 km da costa ocidental da África.
 
Para Alfredo de Carvalho, que disserta sobre o episódio em seu livro, Aventuras e Aventureiros no Brasil (Rio de Janeiro: Pongetti & Cia., 1929), firmara-se assim entre o embaixador da nova República de Pernambuco, Antônio Gonçalves da Cruz, e os emigrados franceses “uma espécie de contrato de auxílios mútuos: os bonapartistas deveriam ajudar os revolucionários na luta pela independência e, conseguida esta, os republicanos prestariam seu apoio à tentativa de evasão de Napoleão da prisão onde se encontrava, na ilha de Santa Helena”.

Para isso contavam os bonapartistas com as simpatias de dez mil “emigrados franceses sempre prontos a sacrificarem-se pelo seu imperador”. Para as despesas com a formação de uma frota de guerra, devidamente armada e bem municiada, bem como a contratação de soldados e marinheiros necessários, dispunham eles de quantia superior a 1 milhão de dólares.

NAPOLEÃO EM PERNAMBUCO

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.

Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.

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JOÃO SANTIAGO, O POETA DO BATUTAS

João Santiago (Recife, Mar/1928 – Nov/1985)

Dos blocos carnavalescos mistos em atividade no Carnaval do Recife, o Batutas de São José é o mais antigo, surgido que fora de uma dissidência do decano Batutas da Boa Vista. Muito embora alguns dos blocos renascidos se considerem mais longevos, somente o Batutas tem uma atividade ininterrupta desde a sua fundação, naquela tarde chuvosa de 5 de junho de 1932.

Curiosamente o Batutas de São José teve a história do seu dia-a-dia contada em versos musicados, transformados em marchas de bloco e eternizados através das vozes dos seus simpatizantes. Uma estória (muito mais estória do que história), só conhecida e interpretada por aqueles que viveram as diferentes situações do caminhar do simpático bloco de São José.

Esta singular narrativa nos é contada, ao longo de mais de três décadas, pelo compositor e carnavalesco João Santiago dos Reis. Nascido no bairro recifense da Torre, em 1º de março de 1928, filho do músico José Felipe dos Reis (fundador da Orquestra Sinfônica do Recife e da orquestra da PRA 8), inspirou-se ele em fatos corriqueiros do dia-a-dia para escrever o cancioneiro do seu bloco querido.

A partir de 1952, João Santiago, em parceria com José Felipe, transformou situações curiosas em alegres marchas de bloco. Assim surgiram: A vitória é nossa (c/ José Felipe); O adeus de Lia (c/ José Felipe); Vou com Valdemar (1958);  Convença-se (1960); Depois eu digo (c/ José Felipe); A parada é dura (c/ José Felipe); Surpresa (c/ José Felipe); Relembrando o passado (1959); Reminiscência (1961); Escuta Levino (1962); Edite no cordão (1965); Trinta anos de glória (1968), Zezé (1973); todas, em sua maioria, inspiradas no dia-a-dia da simpática agremiação do bairro de São José.

Em A vitória é nossa, outro grande sucesso em parceira com José Felipe dos Reis, dá continuidade a sua singular crônica ao descrever todo um clima que antecede o carnaval vivenciado dentro de uma agremiação carnavalesca: Chegou o Carnaval morena / Por isso Batutas anuncia / Não perderemos a porfia / Veja o que estou a afirmar / Batutas este ano vai desacatar […] / Agora o Carnaval chegou / Bandeira gritou / “Não podemos perder” / Pode crer / No que vou lhe dizer / O Batutas este ano / A vitória vai ter.

De um desentendimento entre arrendatários do bar do Batutas surgiu, em 1958, Vou com Valdemar, segundo lugar no Concurso de Músicas Carnavalescas da Prefeitura do Recife: Você! / Não se iluda com o boato / Porque! / O boato não é legal / Abandone esta confusão / Porque o Batutas / É do meu coração.  Dois anos depois, ainda inspirado no mesmo tema, foi a vez de Convença-se, terceiro lugar no mesmo concurso da Prefeitura do Recife.

Não esqueceu o nosso saudoso Joca (como era chamado pelos seus familiares) dos blocos desaparecidos do nosso Carnaval, como “Camponeses”, “Camelo”, “Pavão de Ouro”, “Bobos em Folia” e “Flor da Lira”, todos eles citados em Relembrando o Passado, marcha ainda hoje cantada em nossas ruas: … Os “Camponeses”, “Camelo” e “Pavão / “Bobos em Folia”, do Sebastião. / Também “Flor da Lira”, com seus violões / Impressionava com suas canções.

Personagens anônimos da agremiação passaram para história, graças ao lugar de destaque conquistado no repertório do Batutas de São José: o fundador Augusto Bandeira (A vitória é nossa); Edite, figura obrigatória na ala feminina do bloco (Edite no Cordão); Osmundo, um barbeiro do bairro de Iputinga que, apesar do peso da idade, sempre foi o “reco-reco de ouro” (Reminiscência); o mestre Levino Ferreira, o mais importante compositor de frevos-de-rua do carnaval pernambucano (Escuta Levino), só para citar alguns; parte dessas músicas integram o disco Rozenblit, João Santiago e os 50 anos do Bloco Batutas de São José (LP 90021) 1982.

Mas o grande sucesso da História do Batutas de São José, segundo a narrativa musical de João Santiago, ficou por conta de Sabe lá qué’ isso (sic). Escrita para o carnaval de 1952, a marcha só veio a ser gravada em 1973, pelo Quinteto Violado e Zélia Barbosa, na etiqueta Marcus Pereira, Música Popular do Nordeste v. 1 (LP 4035001), sob o título Hino do Batutas de São José; seguindo-se de um segundo lançamento, dois anos mais tarde, pelo sambista Martinho da Vila, com arranjo orquestral a cargo do pernambucano Severino Araújo que fez desse frevo um sucesso nacional, com sucessivas regravações:

Eu quero entrar na folia, meu bem
Você sabe lá o qué’ isso
Batutas de São José, isso é parece que tem feitiço
Batutas tem atrações que,
ninguém pode resistir
Um  frevo desses bem faz,
demais a gente se distinguir…

João Santiago dos Reis, um dos nomes mais esquecidos do nosso Carnaval, faleceu na emergência do Hospital Getúlio Vargas, bairro do Cordeiro, na noite de 11 de novembro de 1985; em sua homenagem o compositor Getúlio Cavalcanti escreveu Chora Batutas:

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João Santiago deixou o Batutas
Chora saudades seu pessoal
Banhistas hoje apesar das lutas
Sente a tristeza do seu rival
E abre seus braços pela partida
De quem deu vida
Ao nosso Carnaval…

EU & O INSTITUTO RICARDO BRENNAND

Ao me ver durante quinze anos convivendo com os que procuram o Instituto Ricardo Brennand, me vem lembrança certo trecho do poema “Congresso dos Ventos“, de autoria do poeta Joaquim Cardozo:

Mas apesar daquele tumultuoso debater de línguas meteóricas
Podia-se ouvir muito bem a voz lamentosa do [Vento] Nordeste:
– Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do almirante Loncq,
Na praia do Pau Amarelo
Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de D. Antônio de Oquendo
Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:
Hoje vivo ensinando a empinar papagaios…

Sim meu caro leitor, presenciando o desenrolar da história desse instituto, desde setembro de 2001, hoje não passo daquele professor de meninos, de que fala o poeta Joaquim Cardozo.bn

Naquele fatídico 11 de setembro de 2001, quando do atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque, estava eu cuidando do futuro instituto em companhia do industrial Ricardo Brennand, quando de sua visita a Mauritshuis, a casa de Maurício de Nassau, na Haia.

No dia seguinte, o acompanhei ao Museu Nacional da Dinamarca, onde foi ele convencer os curadores daquela centenária instituição a trazer para Pernambuco a exposição do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1666), que vivera no Recife no tempo do Conde João Maurício de Nassau-Siegen, e cujos quadros vieram fazer parte da mostra de inauguração do Instituto Ricardo Brennand em 12 de setembro de 2002.

O curioso era que, apesar do entusiasmo de Ricardo Brennand, o pavilhão que hoje abriga a Pinacoteca, Biblioteca e Administração encontrava-se apenas nas fundações. Em onze meses foi todo ele construído e mobiliado a fim de receber os 28 quadros da exposição Albert Eckhout volta ao Brasil – 1644-2002, que aqui foi vista por 160.000 visitantes, dando o início a história desse Instituto Ricardo Brennand em terras da Várzea do Capibaribe.

O que era projeto no papel, logo se tornou realidade palpável e festejada por multidões que cada dia estão a cruzar a aleia de palmeiras imperiais em busca de um museu europeu em terras da Várzea do Capibaribe.

Nos últimos doze anos, mais de 2.029.332 pessoas já visitaram o Instituto Ricardo Brennand, motivadas pelas exposições dos pintores holandeses Albert Eckhout e Frans Post, pela sua importante coleção acerca da história do Brasil Holandês, pelo notável conjunto de armas brancas, bem como do monumental acervo de obras artísticas originárias dos mais diferentes países.

Para um museu localizado no subúrbio da Várzea, a pouco mais de 14 quilômetros do centro do Recife, a média anual superior a 150 mil visitantes surpreende até aos mais otimistas. Particularmente se comparada com a frequência anual de alguns dos mais importantes museus brasileiros, como MASP – São Paulo (230.000), Museu de Arte Moderna de São Paulo (210.000) e Museu da Inconfidência de Ouro Preto (100.000).

Durante todos esses anos, eu continuo acompanhando o caminhar desse sonho, como a repetir os versos do poeta Carlos Pena Filho: “É dos sonhos dos homens, que uma cidade se inventa“.

Novas peças estão sempre a chegar, exigindo novos estudos e pesquisas, aqui e ali tem sempre um visitante a querer esclarecer algumas dúvidas, um mestrando ou doutorando que pede uma luz para a bibliografia relativa ao tema por ele escolhido, um grupo de pesquisadores está sempre a querer mais informações, um convidado mais curioso com esta ou aquela peça…

Assim continuo eu nesta Várzea do Capibaribe, tal e qual o vento Nordeste de que fala o poeta Joaquim Cardozo, reduzido a professor de meninos, ensinando a empinar papagaios….

JOSÉ ROZENBLIT, O DONO DA MÚSICA

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José Rozenblit (1927 – 2016)

Sábado passado, quando consultava eu as páginas do Facebook, deparo-me com a notícia de Hélio Rozenblit do falecimento aos 89 anos de José Rozenblit, uma das pessoas mais idealistas que conheci nesta minha caminhada de vida.

Por um momento relembrei José Rozenblit que, no seu escritório da Estrada dos Remédios, recebia a todos com a mesma simpatia, com uma educação que lhe era marca e a paciência de ouvir a todos, dentro da limitação de cada um.

A Mocambo contava sempre com a presença dos grandes artistas da terra, que lá pontificavam particularmente nos meses que antecediam ao carnaval; compositores, intérpretes, músicos, regentes, mais ou menos conhecidos, eram recebidos por José Rozenblit que falava a linguagem de cada um.

Lá se reuniam Nelson Ferreira, Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa), Guedes Peixoto, José Menezes, Clóvis Pereira, Adelmar Paiva, Benny Wolkoff, Claudionor Germano, Expedito Baracho, Mêves Gama, Luiz Queiroga, Camarão, Lourival Vilanova, Alcides Leão, João e Raul do Rego Valença (Irmãos Valença), Mário Filho e Jorge Gomes, Ozires Silva, Ivan Ferraz, Jacinto Silva, Genival Lacerda (Senador do Rojão), Ascenso Ferreira, Sebastião Lopes, Edgard Moraes, Ademir Araújo, Fernando Borges, Nascimento do Passo, Luiz Geraldo, Arnaldo (Coruja) Francisco das Neves; era um nunca acabar de nomes todos ligados às mais diferentes expressões culturais de Pernambuco.

Na arte reinava Amaury e Ana Elizabeth Vaz, na secretaria Maria Auxiliadora Beltrão; nos estúdios Hercílio e Hélio Rozenblit e mais um bocado de gente querida que o peso da idade não mais me auxiliam nas recordações.

Assim era a Fábrica Mocambo, inaugurada pelos irmãos Rozenblit em 1952, na Estrada dos Remédios nº 855, a sua fábrica. Sob o selo Mocambo foram surgindo em discos 78 RPM (78 rotações por minuto) os mais importantes sucessos do nosso carnaval e da música regional.

Escritórios foram abertos no Rio de Janeiro (Avenida Rio Branco nº 14), São Paulo (Praça das Bandeira nº 40) e Porto Alegre (Rua do Riachuelo nº 1252).

O primeiro disco com selo Mocambo veio surgir no carnaval de 1953. Tinha o nº 15.000, matriz nº 500, trazendo na face A o frevo-de-rua Come e dorme, de Nelson Ferreira, e na face B, o frevo-canção Boneca, com letra de Aldemar Paiva e música de José Menezes. Tendo por intérpretes o cantor Claudionor Germano, orquestra e coro sob a direção do próprio Nelson Ferreira. A matriz foi gravada nos estúdios do Rádio Club de Pernambuco, na Avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro, tornando-se no grande sucesso do carnaval daquele ano.

No primeiro disco despontam, além de Nelson Ferreira responsável pela direção da orquestra e arranjos, os nomes de Aldemar Paiva, que vem depois alcançar sucesso com Saudade, gravado por Alcides Gerardi, e Frevo de Saudade, este parceria com o próprio Nelson Ferreira, e o de José Menezes, já famoso pelas gravações de Freio a óleo (RCA 80075-b/1950) e Baba de moça (Continental 16661-a/1953), gravados respectivamente pelas orquestras de Zacarias e de Severino Araújo.

Sob o selo Mocambo foram surgindo em discos 78 rpm os mais importantes sucessos do nosso carnaval, como o frevo Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, gravado em junho de 1956 pela orquestra de Nelson Ferreira apresentando, pela primeira vez em disco, as variações em sax-alto, compostas por Felinho (Félix Lins de Albuquerque) em 1941, por ele executadas na segunda parte, em dezesseis compassos sem interrupção, segundo a matriz nº R.696. Ainda na mesma fábrica veio a ser prensado o disco, Frevo dos Vassourinhas nº 1, com orquestra e coro sob a direção de Clóvis Pereira, produção autônoma com o selo “Repertório” nº 9093, matriz R 285, gravado na sua versão cantada no auditório do Rádio Jornal do Commercio.

Mas o grande lançamento da Mocambo para o Carnaval Brasileiro aconteceu com um frevo-de-bloco Evocação em 1957, disco em 78 rpm nº 15142 B, matriz R 791. Foi a grande criação de Nelson Ferreira, a quem coube a direção da orquestra e do coral do Bloco Carnavalesco Batutas de São José. Foi o primeiro grande sucesso produzido no Recife que veio a ser cantado em todo o país, tendo vendido centenas de milhares de cópias em todo o Brasil, graças à força do rádio e da televisão. Em qualquer festa carnavalesca a marcha tornou-se obrigatória e, mesmo nos dias atuais, é comum encontrar-se grupos de foliões cantando animadamente em uma só voz:

 Felinto…, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos ?!
Blocos das Flores…, Andaluzas…,
Pirilampos…, Apôis-Fum…
dos carnavais saudosos ?!..”
Na alta madrugada,
O coro entoava,
do bloco a marcha-regresso,
que era o sucesso
dos tempos ideais
do velho Raul Moraes:
“Adeus, adeus, minha gente,
que já cantamos bastante”…
E o Recife adormecia,
ficava a sonhar
ao som da triste melodia…

Evocação foi o grande sucesso daquele carnaval de 1957, não só no Rio de Janeiro onde a Mocambo vendia centenas de milhares de cópias, mas em todo o Brasil onde chegava a força do rádio e a televisão já se fazia presente, o que levou o seu autor, Nelson Ferreira, a sair do Recife a fim de gravar programas especiais no Rio e São Paulo.

Não somente sucessos produzidos no Recife, mas também outros, de compositores cariocas, que vieram a ter o selo Mocambo, prensados na fábrica da Estrada dos Remédios, para depois conquistar o Carnaval Brasileiro, a exemplo de Máscara Negra, marcha-rancho de Zé Kéti e Pereira de Matos, gravada por Dalva de Oliveira para o carnaval de 1967; Ôbá, com a turma do Bafo da Onça, em 1962 (nº 15403-b); Ó Malhador, Dircinha Batista, 1963 (nº 15478 b); Samba do Saci, Bloco do Bafo da Onça, 1963 (nº 15489 b); Último a saber, Dircinha Batista, 1963 (nº 15482 a); Cabeleira do Zezé, Jorge Goulart, 1964 (nº 15544 b); A índia vai ter neném, Dircinha Batista, 1964 (nº 15543).

Porém o grande sucesso de vendagem da Rozenblit, no período de 1953 a 1983, quando veio fechar as suas portas como gravadora, foi o long-play com as músicas de Lourenço da Fonseca Barbosa, campeão de todos os carnavais e que atendia pelo apelido familiar de Capiba. No disco, feito para o carnaval de 1959, sob o título Capiba – 25 anos de frevo, gravado ao vivo nos estúdios da Rozenblit, com orquestra e coro sob a direção de Nelson Ferreira e tendo como intérprete Claudionor Germano, LP nº 40039, foram reeditados sucessos carnavalescos daquele compositor produzidos entre 1934 e 1959. Juntamente com o disco de Capiba foi produzido, para o mesmo carnaval, O que eu fiz e você gostou, LP nº 40040, com frevos-canções de Nelson Ferreira, alguns deles em parceria com Sebastião Lopes, Ziul Matos, Osvaldo Santiago e Aldemar Paiva, dentre outros, que, juntamente com o primeiro, veio consagrar o cantor Claudionor Germano como o mais importante intérprete da música carnavalesca pernambucana de todos os tempos.

Também em 1959 a Rozenblit lançou Velhos Carnavais do Recife (LP 40 178), com orquestra e coro sob a direção de Nelson Ferreira. No ano seguinte, no rastro do sucesso dos dois primeiros, foram lançados Carnaval começa com C, de Capiba, e O que faltou e você pediu, de Nelson Ferreira, também gravados ao vivo nos estúdios da Rozenblit por Claudionor Germano e orquestra sob a direção do próprio Nelson Ferreira.

Em 1973, foram relançados com nova apresentação três LPs de Capiba: 25 anos de frevo (LP 60044); Carnaval começa com C (LP 60106) e Frevo alegria da gente (LP 60060). De Nelson Ferreira vieram a ser lançados : Meio século de frevo-canção ( LP 60042); Meio século de frevo-de-rua (LP 60041); Meio século de frevo-de-bloco (LP 60040); Meio século de valsas (LP 60043), permanecendo em catálogo uma série de antologias do carnaval pernambucano, como os cinco volumes do Baile da Saudade, com Claudionor Germano e orquestra de Nelson Ferreira (LP 90005 e LP 90007) e Expedito Baracho e orquestra de Clóvis Pereira ( LP 90013 e LP 90016); Carnavalença – Carnaval dos Irmãos Valença, gravado por Expedito Baracho e orquestra de Nelson Ferreira (LP 90010) ; O Frevo Vivo de Levino Ferreira, gravado pela orquestra de José Menezes (LP 90008); Olinda Carnaval I e II, em 1979 e 1982 ( LP 20.000 e LP 20018); Grandes Frevos de Bloco ( LP 60030); Sua Exa. o frevo de rua, gravado pela Banda Municipal do Recife (LP 60059); Viva o Frevo, antes lançado com o título Frevo na gafieira (LP 40076/1959), tendo Martins do Pandeiro como intérprete, com lançamentos consecutivos em 1973 e 1979; João Santiago e os 50 anos do Bloco Batutas de São José, com orquestra e coro sob a direção do próprio João Santiago dos Reis em 1983 (LP 90021), Carnaval do Nordeste volumes I e II , gravados respectivamente pelas orquestras de Guedes Peixoto e Ademir Araújo, sob o patrocínio da Sudene (LP 90018 e LP 20021); Capiba – 86 anos, com Claudionor Germano e orquestra de Clóvis Pereira em 1990 (LP 804083).

Alguns desses lançamentos foram transformados, pela Polydisc em fitas cassetes e, mais recentemente, em compact-laser (1994), continuando o Capiba – 25 anos de frevo como o campeão de vendas ainda em nossos dias.

Hoje, tudo são lembranças…

Lembranças de um tempo de glórias e de muitas alegrias, no qual “José Rozenblit, era o dono da nossa música” (!).

O’ LINDA! O TEU NOME BEM DIZ…

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Carlos Pena Filho

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Aos olhos de quem a contempla pela primeira vez, Olinda se apresenta povoada de sonhos e tomada pela claridade a ofuscar as retinas de quem chega: de limpeza e claridade/é a paisagem defronte…

Aquele conjunto de colinas, que pouco interessou aos indígenas habitantes de suas redondezas, antes da chegada do colonizador, fascinou Duarte Coelho, que chega a Pernambuco em 1535 e vê naquelas paragens o local ideal para a construção de uma vila.

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do Brasil (1627), a denominação Olinda vem de “um galego criado de Duarte Coelho, porque, andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse [a vila], e achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria: O’ linda!”.

A versão já fora antes relatada por Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI, sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c 1696- c 1762), chegando o historiador inglês Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: “Oh! linda situação para se fundar uma vila!”.

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de Olinda e começou recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a denominação teria origem em Portugal, “mais nada natural que aquele nome fosse de alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e que ele no Brasil quisesse perpetuar […] Sabe-se também que Olinda era o nome de uma das belas damas na novela do Amadis de Gaula, cuja leitura estava então muito em voga, não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história”.

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho Pereira, de 12 de março de 1537.

Naquele documento, impropriamente chamado de Foral de Olinda, a nascente vila recebe do primeiro donatário as terras de serventia, para uso comum dos seus habitantes. Nele se faz menção à existência da Câmara, da Rua Nova (Bispo Azeredo Coutinho), das fontes de águas potável, do Varadouro Galeota (onde aquela embarcação sofreu reparos) e do Arrecife dos Navios, porto da vila que veio dar origem à cidade do Recife.

Nome poético, surgido de uma leitura de novela; ou denominação saudosista, a relembrar um sítio perdido na toponímia portuguesa; ou ainda, exclamação de um criado de Duarte Coelho, oriundo da Galícia, perdido entre as matas de cajueiros que se espalhavam na planície arenosa, hoje ocupada pelos bairros do Rio Doce e Rio Tapado, tudo serve para explicar o que há no nome: Olinda. Os olindenses, porém, a exemplo dos seus avós, têm uma explicação própria para todo esse feitiço que toma conta de quem a conhece: Quem não viu Olinda, não amou ainda!

Os cronistas que descrevem a Vila de Olinda no final da segunda metade do século XVI e nos anos que antecederam ao incêndio provocado pelos holandeses, na noite de 25 de novembro de 1631, são unânimes em proclamar as suas belezas naturais e a imponência do seu casario, dominados por ricos conventos, belas igrejas, a grandiosidade do seu colégio e o ambiente acolhedor de suas residências.

Em sua narrativa, assinala o capelão holandês Johannes Baers, além das construções religiosas e do Colégio dos Jesuítas, alguns aspectos importantes da casa urbana olindense:

As casas não são baldas, mas, cômodas e bem feitas, arejadas por grandes janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas subidas todas com largas escadarias de pedra, porque as pessoas de qualidade moram todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são de pedra dura e pesada.

Na visão romântica do oficial inglês Cuthbert Pudsey, que esteve a serviço da Companhia das Índias Ocidentais de 1629 a 1640, era Olinda uma cidade formosa, situada numa curiosa situação, de prazerosa perspectiva, com edifícios suntuosos, acompanhados por raros jardins com frutos e prazeres, fontes de uma água pura e maravilhosa.

Uma visão de Olinda, no início do século XVII, nos é dada por Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8): Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas, colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra. Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios, porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos, porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

Na primeira metade do século XVII, a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida em todos os portos da Europa, veio a despertar a cobiça dos Países Baixos. A produção de 121 engenhos de açúcar, correntes e moentes, no dizer de van der Dussen, viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck. Uma grande armada, com 65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

Senhores da terra, os holandeses escolheram o Recife como sede dos seus domínios no Brasil, por ter nesta praça a segurança que não dispunham em Olinda.

Na noite de 25 de novembro de 1631, resolveram os chefes holandeses pôr fogo na sede da capitania de Pernambuco, a infeliz vila de Olinda tão afamada por suas riquezas e nobres edifícios, arderam seus templos tão famosos, e casas que custaram tantos mil cruzados em se fazerem.

Em Olinda, a paisagem e os costumes foram assim descritos pelo Frei Manuel Calado, tudo eram delícias e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso.

Com a sua paisagem, porém, tecida de sonho e claridade, impregnada pelas diversas tonalidades de verde, nas águas do seu mar, e de azul e outras cores no crepúsculo do seu céu, Olinda vem com o passar dos anos fascinando a todos que a conhecem.

A sua vista litorânea, povoada de jangadas e outros tipos de embarcações, foi uma sedução para esses viajantes ao longo dos séculos sendo hoje fonte de deleite e de paz para o visitante e mesmo para os próprios olindenses.

Em passeio por Olinda e seus arredores, como cicerone do escritor português Ramalho Ortigão, em l887, Joaquim Nabuco assim descreve a paisagem, em artigo publicado no jornal O Paiz (Rio), quando vista do terraço da Sé de Olinda: […] não é uma dessas vistas de altura, das quais o mar fica tão abaixo aos pés do espectador, que perde o movimento e a vida, parecendo uma tela diáfana estendida sobre o fundo vazio do ar, vistas em profundidade, que dão vertigem e nas quais a perspectiva é tão longínqua como se víssemos por um óculo virado. A vista de Olinda é outra; é uma vista em comprimento, em que os planos sucedem-se uns aos outros como o desenvolvimento da mesma sensação visual, em que desde Olinda até ao Recife, e mais longe até o Cabo de Santo Agostinho.

Possuído do orgulho de ser pernambucano, enfatiza Joaquim Nabuco, com o seu poder de observador perspicaz: Para conhecer uma paisagem não basta vê-la, é preciso muito mais, é preciso que as duas almas, a do contemplador e a do lugar, cheguem a entender-se, quantas vezes elas nem mesmo se falam! Não é a todos que a natureza conta os seus segredos e inspira o seu amor, mas mesmo com os poucos de quem ela tem prazer em fazer pulsar o coração é preciso que eles se aproximem dela sem pressa de a deixar, com tempo para ouvi-la. Os viajantes nunca estão nessa disposição de espírito em que é possível estabelecer-se o magnetismo da paisagem sobre os sentidos, de fato sobre o coração. Felizmente Ramalho Ortigão é uma máquina fotográfica instantânea, que apanha num segundo o seu objetivo todo, e acontece que hoje as boas máquinas percebem e notam sombras na pele, que não se veem a olho nu, e que servem para conhecer a enfermidade latente. Ele não terá sentido os eflúvios desta nossa terra, os quais talvez seja preciso ser pernambucano para sentir e que podem não ter realidade e magia senão para nós mesmos, mas a impressão que lhe causou a nossa Veneza há-de render-nos uma pintura que durará como as gravuras holandesas do Século XVII.

EU, TONICO E O DIARIO

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Tonico – Antônio Machado Gomes da Silva (1894-1966)

Se eu disser a alguém que aprendi a ler nas letras do Diario de Pernambuco, por certo irão duvidar da minha palavra.

Pois é, na verdade fui alfabetizado aos quatro anos de idade tendo como auxílio as letras recortadas das manchetes do Diario de Pernambuco!

A aventura de ser alfabetizado, antes do tempo previsto pelos pedagogos de então, devo ao meu pai Tonico Silva. Na sua maneira simples de enfrentar desafios, Tonico confeccionou, na sua oficina do fundo do quintal, algumas dezenas de cubos de madeira, com cerca de três centímetros de lado cada um e, neles, colou as letras recortadas do Diario de Pernambuco.

Com a paciência que lhe era peculiar iniciou a sua tarefa de alfabetizador pelas cinco vogais e, logo depois, com todas as letras do alfabeto.

Juntando os cubos foram sendo formadas palavras simples, em uso no meu dia-a-dia. Primeiro as monossílabas: pá, pé, sol, lua, cão…; seguiram-se as dissílabas – ovo, uva, pato, bola, faca, facão, dedo, dedal, bote, gato, rato, dado …; as trissílabas – galinha, cavalo, cachorro, jabuti, macaco, peteca… -; até as mais “complicadas” chegando às pequenas e mais simplórias frases.

Graças ao singular processo, ia eu visualizando e decorando as palavras que logo se transformavam em frases que, reunidas, davam origem a pequenas histórias.

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Ilídia Barbosa Dantas da Silva (1912-2000), minha primeira professora

A minha mãe, Ilidia Barbosa Dantas da Silva, que era professora primária, vendo a experiência, logo adquiria a cartilha Brincar de ler – Livro de figuras (Edições Melhoramentos, 1949) que, juntando-se aos cubos de madeira, passou a dar uma maior dinâmica ao aprendizado.

Pouco tempo depois, para alegria de Tonico e Ilidia, estava eu lendo tudo que me surgia diante dos olhos; falando como um papagaio, exibindo-me diante dos amigos.

Alfabetizado sim, mas bem antes do tempo previsto pelos educadores dos anos cinqüenta do século passado. Estava eu matriculado no Jardim da Infância da Escola Experimental Governador Barbosa Lima, onde as demais crianças da minha classe longe estavam da alfabetização. Tornei-me assim o patinho feio de minha turma e, se não fosse a paciência e o devotamento de Dona Ivone Correia, minha primeira professora, o sentimento de rejeição teria sido bem maior.

Hoje, neste mês em que completo sessenta anos, posso sentir que tenho uma ligação umbilical com o Diario de Pernambuco desde os quatro anos de idade.

E, agora, depois de tanta estrada, aqui estou escrevendo o primeiro capítulo das minhas memórias no Diario de Pernambuco, o mais antigo jornal diário em língua portuguesa, onde ingressei no seu corpo de redatores em julho de 1974 e com o qual continuo a colaborar nos tempos presentes.

Recife, dezembro de 2005.

ARRUANDO PELO CEMITÉRIO DE SANTO AMARO

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A cidade do Recife sofreu grandes transformações na sua paisagem quando da administração de Francisco do Rego Barros (1802-1870), que veio a ser barão, visconde e finalmente Conde da Boa Vista.

Formado em matemática pela Universidade de Paris, com apenas 35 anos de idade, foi designado presidente da província de Pernambuco, ficando no cargo de 1837 a 1844, época em que o trouxe para o Recife o engenheiro francês Louis Léger Vauthier (1815 – 1901), responsável pela construção do Teatro de Santa Isabel (1850) e de importantes obras públicas.

É desta época a presença na equipe de obras públicas do Governo da Província do engenheiro José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra, que além dos prédios da Casa de Detenção e do Ginásio Pernambucano foi responsável pelo projeto do Cemitério Público do Senhor Bom Jesus da Redenção, criado em 1841, pela Lei Provincial nº 91, tendo sido inaugurado em 1º de março de 1851.

Trata-se de uma área plana, originalmente ocupando um terreno de 351,35 m. de fundos por 320 m. de largo, tendo ao centro uma elegante capela em estilo gótico, em forma de cruz grega, para onde convergem todas às alamedas de túmulos dando, assim, um formato estelar ao conjunto.

Seria um ponto turístico do Recife, como acontece nas diversas cidades da Europa e mesmo das Américas, mas, infelizmente, não é de visitação habitual nem indicado por nenhum dos guias por nós consultados.

Bem conservado pela atual administração municipal, o Cemitério de Santo Amaro, chama a atenção do visitante para o seu portão de entrada, trazendo na sua base a data de MDCCCLI (1851), confeccionado em ferro fundido pela firma A.C. Staar & Cia. (Fundição Aurora), a mesma responsável pelos portões do Cemitério dos Ingleses e da Ordem Terceira do Carmo do Recife.

Aleias de palmeiras imperiais marca a avenida principal, ladeada pelos primeiros túmulos do início da segunda metade do século XIX, que conduz o visitante até a capela em estilo gótico, octogonal, situada ao centro do campo santo.

Nas diversas alamedas do Cemitério de Santo Amaro, vamos encontrar singulares obras de arte de escultores diversos que estão a exibir o seu talento nos diversos túmulos alguns deles centenários.

No ponto de confluência de suas ruas, encontramos uma singular capela gótica, a primeira do seu gênero em terras pernambucanas, projetada por José Mamede Alves Ferreira (1820-1865), mandada construir pela Câmara Municipal do Recife em 1853.

“Trata-se de um monumento de puro estilo gótico de cruz grega, fechada por uma só abóbada, de uma belíssima e arrojada construção, e de grandeza proporcional ao fim a que é destinada, sem campanário e sem dependências”.

Tem no seu centro uma imagem do Cristo Crucificado, em ferro, produto de fundição francesa, tendo na sua abóbada placas de mármore alusivas às diversas fases de sua construção, como as restaurações sofridas nos anos de 1899 e 1930:

A Câmara Municipal do Recife a mandou fazer em 1853,…1855, segundo o plano do engenheiro civil José Mamede Alves Ferreira.

– Reaberta e melhorada na administração do Exmo. Dr. Esmeraldino Olympio de Torres Bandeira, prefeito do Município do Recife. Em 16 de junho de 1899.

– Restaurada na administração do Exmo. Sr. Dr. Francisco da Costa Maia, prefeito do Município, 1930.

Relembrando a observação do escritor Rubem Franca (in, Monumentos do Recife – Recife, 1977): O Cemitério encerra muito da cultura de um povo. Santo Amaro, aliás, ainda aguarda quem lhe faça um estudo completo, um levantamento dos sepulcros de pernambucanos famosos e populares. Um estudo dos seus monumentos funerários, que são, alguns verdadeiras obras de arte.

Joaquim Nabuco e outros túmulos

O mais suntuoso dos túmulos é dedicado ao Patrono da Raça Negra, o abolicionista Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo (1849-1910), obra do escultor italiano Giovanni Nicolini; sendo encarregado de montar em Pernambuco outro escultor, também italiano, Renato Baretta, em novembro de 1914.

O conjunto escultórico retrata a Emancipação do Elemento Escravo, em 13 de maio de 1888, dsc_7089formado por um grupo de ex-cativos levando sobre suas cabeças o sarcófago simbólico do grande abolicionista. À frente do monumento, o busto de Joaquim Nabuco, em mármore, tendo ao seu lado uma figura de mulher (a história), que ornamenta de rosas o pedestal do busto, onde se lê: A Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo. Nasceu a 19 de agosto de 1849. Faleceu a 17 de janeiro de 1910.

Logo em frente ao mausoléu de Joaquim Nabuco, encontra-se o túmulo de José Mariano Carneiro da Cunha (1850-1912), também destacado líder do movimento abolicionista e de sua mulher Olegária (Olegarinha) Gama Carneiro da Cunha (1860 – 1898).

Um busto em bronze do abolicionista e estátua de uma mulher chorando, conservando as inscrições: À José Mariano / o Povo / Pernambucano. / Olegária Gama Carneiro da Cunha, 16-9-1860, 24-4-1898.

Outro belo túmulo do Cemitério de Santo Amaro, porém, pertence ao Barão e da Baronesa de Mecejana: Antônio Cândido Antunes de Oliveira e Colomba Ponce de Leão.

“O túmulo é todo feito em mármore de Carrara com grande influência dos romanos, por causa do sentimento católico. O formato de tocha invertida é símbolo da morte e da expectativa de que essa luz se reacenda”, explica o escultor e responsável pela última restauração do túmulo, Jobson Figueiredo, realizada em 1999.

Sobre seu mausoléu, escreve o próprio Barão de Mecejana, em seu testamento, conservado no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano, ter sido o túmulo destinado, inicialmente, a sua filha e seu genro que faleceram de uma das epidemias que assolaram o Recife na segunda metade do século XIX. A posição do barão e baronesa, em genuflexo, demonstra a atitude do casal durante a doença que vitimou o casal.

Como bem observou o escritor Clarival do Prado Valadares, in Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros (1972), vale reparar também o detalhe das esculturas em mármore do barão e da baronesa, que reproduzem até a textura de uma veste rendada.

Segundo estudo da pesquisadora Semira Adler Vainsencher, da Fundação Joaquim Nabuco:

“Vários mausoléus imponentes podem ser encontrados, também, no cemitério de Santo Amaro. O do governador Manuel Antônio Pereira Borba, mais conhecido como Manuel Borba, possui uma mulher com torre na cabeça, e em seus pés um grande leão de Pernambuco. No mausoléu, uma frase que ficou famosa: Pernambuco não se deixará humilhar. E a sua efígie, com a seguinte inscrição:

Cidadãos: quando quiserdes advertir aos vossos governantes, incitar os vossos compatriotas e educar os vossos filhos, apontai-lhes o exemplo que foi Manuel Borba – probidade e caráter – lealdade – bravura cívica. MCMCCCII. [sic]”

Um passeio pelas ruas e alamedas do Cemitério de Santo Amaro se transforma num verdadeiro desfilar de nomes que se destacaram na nossa história, particularmente nos movimentos revolucionários e movimentos literários, bem como nas artes, na poesia, na música popular e na própria história pernambucana.

Uma visita ao Cemitério de Santo Amaro se torna uma verdadeira aula de sapiência das mais diversas áreas do conhecimento humano, daí o nosso convite para tão agradável arruar.

A MÚSICA NÃO CARNAVALESCA DE CAPIBA

Em 1994, o então governador Joaquim Francisco de Freitas Cavalcanti, através do Decreto nº 17.319, de onze de fevereiro, considerou o Ano Capiba da Cultura Pernambucana, em homenagem aos 90 anos do cidadão Lourenço da Fonseca Barbosa.

No dia 28 de outubro vindouro, Capiba estará comemorando 112 anos e, ao que nos consta, continua com sua obra em grande parte desconhecida não somente do grande público, mas também de todos os que se interessam pelo fazer cultural dessa figura polivalente das nossas artes.capiba

Ele é um dos Grandes de Pernambuco, para usar a imagem com a qual o poeta espanhol Unamuno denominava aos Grandes de Espanha, daí ser merecedor das homenagens e reverências de todos os pernambucanos.

Na ocasião, integrando a Comissão Especial, prevista naquele decreto, como representante da Fundação Joaquim Nabuco, fiz ver aos demais membros da necessidade do resgate de um Capiba compositor erudito, das canções românticas, das valsas, dos choros, dos oratórios e missa, dos maracatus, das canções de câmara, dos sambas de exaltação, numa produção das mais profícuas para a música brasileira.

Neste propósito, fiz entrega ao presidente da Comissão, o projeto de produção de quatro discos, sob os títulos Capiba & seus Poetas, A Grande Missa Armorial e outras composições, O Piano de Capiba, Capiba, suas canções e seus maracatus, que deveriam marcar os 90 anos de vida deste Grande de Pernambuco.

No primeiro, Capiba & seus poetas, estariam reunidas as canções de câmara, através das quais ele musicou páginas literárias de dezenas de poetas, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Pena Filho, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Geraldino Brasil, Ascenso Ferreira, dentre outros.

No segundo, A Grande Missa Armorial e outras composições, estariam, além da peça que serve de título, O Sermão da Montanha, Abertura Solene, Suite Nordestina, Sem Lei nem Rei e a peça sinfônica, por ele denominada de Bolero de Capiba, inspirada no clássico Bolero de Ravel.

Em O Piano de Capiba, seriam gravados a sua série de valsas e choros, sob a interpretação de Elyanna Caldas Silveira; restando, por último, Capiba, suas canções & seus maracatus. Neste disco teríamos as canções de exaltação (Recife cidade lendária), as românticas (Maria Betânia), as valsas (Valsa verde), as guarânias (Serenata suburbana), os sambas (A mesma rosa amarela), a música dos festivais (São os do Norte que vêm), os maracatus (É de tororó), os sambas-afro (Por causa de um amor), as cirandas (Minha ciranda), dentre outros gêneros que vêm retratar a verdadeira importância da produção musical do senhor Lourenço da Fonseca Barbosa fora da música carnavalesca.

A sua produção para o Carnaval do Recife, e porque não dizer para o Carnaval Brasileiro, já se encontra bem divulgada na série Carnaval de Capiba, formada por três LPs produzidos pela Rozenblit a partir de 1959, gravados por Claudionor Germano com a orquestra sob a direção de Nelson Ferreira. O primeiro deles, Capiba – 25 anos de frevo, foi recentemente reeditado pela Polydisc na apresentação compact disc e encontra-se à disposição do grande público nas lojas especializadas.

Resta a outra face do compositor, esquecida e dispersa em dezenas de gravações, que tentei resgatar quando do transcurso dos seus 80 anos em disco patrocinado pelo falecido Bandepe, tendo na direção musical Mário Guedes Peixoto e como intérpretes Claudionor Germano, Expedito Baracho, Carlos Reis e Zélia Barbosa. O disco, que teve o título Capiba & seus poetas / Capiba & seus poemas, logo se tornou raridade em face de sua diminuta tiragem e então mereceria uma edição em compact disc, com nova apresentação e roupagem.

Desta série de discos apenas, e tão somente, A Missa Armorial foi lançada em CD, hoje esgotado, pelo Governo do Estado. O Piano de Capiba, gravado pela competência de Elyanna Caldas Silveira Varejão, foi produzido com recursos do próprio autor e logo se esgotou das prateleiras. Os demais ficaram tão somente na sugestão e, ao que se saiba, nenhum projeto existe para eles.


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