Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Era uma vez uma linda pombinha conhecida como Burguesa.
Ela andava saltitante pelas campinas à procura de sementes e minúsculos insetos para alimentar-se.
Quando queria deliciar-se com frutas, alçava seus voos pelos pomares das redondezas ou adentrava as matas à procura de frutas silvestres.
A Burguesinha, apesar de toda liberdade, de farta comida, de beber água em córregos e fontes e até sugar água cheirosa captada pelas flores, cansou-se daquela vidinha rotineira.
- Ora, veja só! Eu não sou uma pomba qualquer, afinal das contas, sou uma linda burguesa e não mereço levar a mesma vida que levam as pombas comuns. Eu quero muito mais!
Não demorou muito tempo e ela se transformou num pássaro de gaiola, como era o seu desejo.
Em sua gaiola de ouro, ela desfrutava do bom e do melhor.
Numa vasilha muito limpa, uns grãozinhos de ração, do outro lado, frutas estrategicamente colocadas, e num recipiente de vidro, água limpa. Cheia de mordomias. Até um balanço, dentro da nova casa, ela ganhara!
Enquanto tudo era novidade, ela se divertia. Pela manhã, sua gaiola era colocada na varanda para que pudesse tomar sol. E assim, ela ficava sempre assistindo à alegria dos outros pássaros, que livres e soltos, faziam suas algazarras.
E foi assim também que ela percebeu que toda mordomia que desfrutava era insignificante diante da liberdade perdida. E passou a ficar triste e sentir uma imensa saudade da vidinha simples que levava antigamente.
Muitas vezes, é preferível viver a simplicidade e a liberdade do próprio habitat do que experimentar uma vida burguesa, onde a prisão é o princípio do fim.
Não era apenas um quadro na parede. Era minha tela preferida.
Na paisagem bucólica, um céu azul bordado de nuvens brancas como o céu que eu via no meu sertão. Casinhas singelas, uma cor-de-rosa com a tinta já desbotada, e a outra, uma casinha de taipa, lembrando o cenário nordestino que mora em minha saudade.
O chão de barro vermelho, a vegetação minguada, a roupa dependurada na cerca de faxina, eu poderia dizer que conheço cada detalhe desta tela.
Não sei precisar quanto tempo tenho esta obra decorando minha sala, porém sei que não sou a primeira proprietária, mas com certeza serei a última. Foi um presente, e que presente! Um pedacinho do sertão bulindo com minha saudade.
Quando meu companheiro viu aquele quadro, achou a minha cara, e não pensou duas vezes comprou, acertou em cheio. Trato esta tela como se fosse meu santo de devoção pendurado na parede.
Certo dia tirando a poeira do quadro, observei na casinha de pau-a-pique, em letras pequeninas, a seguinte inscrição: CENTRO ESPIRITA PAI JOROBINHA. Fiquei pensando… Meu Deus! Quanto tempo com este quadro só hoje me dei conta do escrito nesta placa.
Pasmem! tem apenas uma semana que para minha alegria descobri que esta obra que data de 1986 é nada mais, nada menos que uma tela do queridíssimo artista plástico Demócrito Borges. E eu que morria de vontade de possuir uma tela com sua assinatura…
Não me perguntem a razão de minha cegueira em relação à assinatura… Logo eu que sou tão observadora. Quem sabe Pai Jorobinha possa explicar?
É mais um maio que chega E eu longe do meu sertão, Só pensando nas quermesses, Novenas e procissão, Das festas em Ipueiras, Dos parques e brincadeiras, Das prendas e do leilão.
As festas religiosas Animavam o interior. Os fiéis acompanhavam A Virgem Santa no andor. A banda era tradição, Animando a multidão Em seu ato de fervor.
Ainda tem a bandinha, Fazendo a animação. Ainda escuto os benditos, Na boca da população. Fogos faíscam no ar Ouvindo seu ribombar Dispara o meu coração.
Saudade é feito coceira, Quando começa a coçar. Chegando fico inquieta, E corro pro meu lugar, Faço as malas vou embora Festejar Nossa Senhora Nas quermesses me esbaldar.
Cai Carlinhos Cachoeira, Cai Demóstenes também. Cai máscara de quem tem Conchavo com roubalheira. Quero ver esta poeira Abaixar sem alarido! Virar pizza é proibido Afirma a população Farta de tanto ladrão Nos dez de Queixo caído.
Lembro-me dos belos dias Tão repletos de alegrias Onde as velhas cantorias Encantavam meu rincão. Com jeitinho de repente Eu revivo no presente Este canto absorvente Nos oito pés a quadrão.
Gostava da brincadeira De pegar numa peixeira E descascar macaxeira Pras bandas do meu sertão Porém minha realidade, Residindo na cidade É matar minha saudade Nos oito pés a quadrão.
Morando na minha oca, Descascava a mandioca Para fazer tapioca Naqueles tempos de então Depois deitava na rede Tacava o pé na parede Hoje mato minha sede Nos oito pés a quadrão
O rádio eu sempre ligava Quando a aurora raiava, E cantando acompanhava O canto do Gonzagão. Nosso bom cabra da peste, O rei caboclo do agreste E que já cantou o Nordeste Nos oito pés a quadrão.
Sei que não sou repentista, Porém vou seguindo a pista Sem baixar a minha crista Sem ter medo de esporão. Eu gosto de versejar Não importa o lugar Mas você vai me escutar Nos oito pés a quadrão.
Isto é canto de mulher Que vai metendo a colher E como quem nada quer Na cumbuca mete a mão. De lá tira agulha e linha Não dá nó nem desalinha Pois é canto de Dalinha Nos oito pés a quadrão.
Escutei de um amigo E não pude acreditar Que você acabrunhado Bebia todas num bar, Cada copo que sorvia O meu nome repetia Dando muito que falar.
Quando você me deixou, Só eu sei quanto penei. Arrumei as suas malas Quis chorar, mas não chorei! E sem nenhum alarido Com meu coração partido Minha onda eu segurei.
Não me mande mais recado, Não me fale de paixão. Se quiser beber que beba, Beba até cair no chão. Não me venha com clamor Pois perdi o meu pudor Já tem outro em seu colchão.
Tome um trago por nós dois, Tome uma dose por mim, Dê um gole paro o santo, Suje o chão botequim. Encha a cara de cachaça, Comemore a cada taça Nosso confirmado fim!
-Hoje é dia do trabalho, Escutei alguém dizer. Dizia a dona de casa Tendo muito que fazer. Há muito estava de pé E já tinha feito o café No escuro do amanhecer.
No ombro o pano de prato E a pia superlotada. Como num passe de mágica Logo a louça foi lavada. Com o pano inda na mão Pega o rumo do fogão Para uma nova jornada.
É tarefa o dia inteiro Café, almoço e jantar, A boa dona de casa Tem mesmo que se virar. Lava, passa e cozinha, E varre a casa todinha Sem tempo pra descansar.
Depois que sai da cozinha, Depois que larga o fogão, Banha-se para dormir, Mas dormir não pode, não No quarto esta o marido, Exigindo já despido: - Cumpra sua obrigação!
Se você não acredita Digo: – pode acreditar! Ainda vivem assim, Neste atraso secular As mulheres submissas Que ainda assistem missas E cumprem juras de altar.
Quem pintou o meu retrato Com as pálidas cores da vida Por certo desconhecia Minha porção atrevida. Meu desejo de viver, Meu eterno renascer, Por ser mulher aguerrida.
Prepare tinta e pincel Retoque sua aquarela. Deixe o rubro do sertão Carminar a sua tela. Não me deixe descorada Pois não me vejo apagada Nem iluminada à vela.
Não queira me desenhar, Sem saber minha história. Pois sairia falso o tom Na riscada trajetória. Não faça de mim um borrão. Com sua coloração Se não me tem na memória.
Minha querida mamãe, Veja só que novidade. Entrei para uma igreja, Acredite, é verdade! Confesso que sou fiel Do Papa beijo o anel, Em ato de lealdade
Para seu conhecimento, É ICAS, minha igreja! Católica e apostólica, E também é sertaneja. Falo com sinceridade, Pra minha felicidade, Lá não se passa bandeja.
Fizeram minha cabeça, Aqui no Besta Fubana. Já não sou considerada, A tal herege profana. Rezo pra virgem Maria, Não sou mais de putaria Renego quem é sacana.
De irmã logo passei, A madre superiora. Talvez eu possa pregar! Em alguma emissora. Grito aleluia! Contente, Fique a senhora ciente: Minha sina é promissora!
Quem te viu e quem te vê Oh meu velho Jatobá. O rio da minha infância Vivida no Ceará. Agora tão poluído, E se não for acudido De ti não sei que será…
Já não se vê as meninas Correndo pra se banhar, Menino bobo espreitando Somente para espiar. E o canto das lavadeiras Não se escuta em Ipueiras Meu rio vai se acabar…
Se não se acabar de vez, Vai mudando de feição, Pois recebendo esgotos, Abriga a poluição. Com isso perde a cidade Que vai viver de saudade Com o rio no coração.
Centenárias oiticicas, Ladeavam tuas beiras, Não vejo mais o angico, Nem as velhas ingazeiras. Ainda posso encontrar Mas se muito procurar As lindas carnaubeiras.
Os machados e queimadas. Causam a destruição. O homem inconsequente, Utiliza sua mão Para acabar com a riqueza, Encantos da natureza, Agora em degradação.
Eu fui uma cantoria Pras bandas do Juazeiro Tive que fugir ligeiro De quem repente fazia Pois o cabra se exibia Olhando para o meu lado, Cada verso era um recado Que vinha do cantador, Que me fazia louvor Bastante entusiasmado.
Me acenava com a mão, Olhava para o meu rosto, Mirava mesmo com gosto Com aquele olhar pidão. E cantando uma canção, Destas que falam de amor Até me chamou de flor! E eu tive então que sorrir Vendo a plateia aplaudir Os arroubos do cantador.
Fiquei um tanto sem graça, Mas levei na brincadeira, Pois eu era forasteira Novata naquela praça. Mas sendo mulher de raça, Eu jamais titubeei. O cantador encarei Aderindo a diversão, Pra minha satisfação Aplausos também ganhei.
Chegando ao meu Ceará Fui logo para o fogão. Peguei feijão de corda Cozinhei para o baião. Peguei pimenta de cheiro Ali mesmo no canteiro Da mulher do seu João.
Peguei nata, peguei queijo, De alho peguei uns dentes. Da pimentinha de cheiro, Já fui tirando as sementes, E catei logo o arroz, Organizando depois Os outros ingredientes.
Quando o feijão ficou pronto Com o arroz misturei Botei um pouco de sal Botei mais água e provei. Com a cebola na mão, O tomate e o pimentão, O baião eu temperei.
Pra ver se já estava seco Meti a colher no centro. Peguei o queijo de coalho, Joguei uns pedaços dentro. O queijo se derretia Minha gula aparecia Com o cheiro do coentro.
Após esta maratona Ficou pronto o meu baião Comida mais cobiçada Pras bandas do meu sertão. Repito: baião-de-dois, Não é só feijão com arroz, Tem segredo e tradição!
A prata cobre seus cabelos Um sorriso borda seu rosto De posse de um bandolim Retira acordes com gosto No semblante de Tereza Resplende toda beleza, A desluzir o desgosto.
Com Jeito e cheia de graça, Ela abraça o bandolim. E com seu ar de nobreza Para a vida ela diz sim Nem vê o sol quase posto Reabre o sorriso no rosto E assim desdenha do fim.
Renasce a cada canção Que dita o seu dedilhar. Transmite tanta emoção Dificil não se encantar. Ela nos leva as alturas Espargindo só ternuras Quando começa a tocar.
Cachoeira que jorrava No coração do Brasil… Não é mais o que era antes Borbotando encantos mil! Agora é um mar de lama, Que em cascata se derrama. No político covil.
Despida também descalça Caminhei pelo sertão. Chegando a sentir de perto O calor do meu torrão, Que me esquentava a moleira Porém prossegui arteira Pois sou barro deste chão.
Diante dum céu azul Bordado de Nuvens brancas, Entre casas eu passava Vendo janelas sem trancas Minha sombra me seguia, A cada passo eu crescia Com minhas passadas francas.
Mas tudo foi só um sonho, Vivido numa aquarela, Onde aflora o surreal Numa Pintura tão bela. E nesse meu versejar, Eu quero cumprimentar, Demócrito e sua tela.
O Serrote está branquinho, Já começou a trovejar, - Menino vai trazer lenha! Ouvia mamãe gritar. - Tira a roupa do varal Lá se vem um temporal E corre pra não molhar!
Era a fartura das águas Um festival de alegria, Menino enchendo pote, Lata de vinte e bacia, Era grande a animação Alagando meu sertão Que encharcado sorria.
E a meninada corria Pra se banhar nas biqueiras. Nos quintais e nas calçadas, Choviam as brincadeiras. Eita gostosa lembrança, Dos meus tempos de criança Na cidade de Ipueiras.
O barquinho de papel Sumia na correnteza, Diante do meu olhar Que em tudo via beleza “Cai chuva de lá do céu” “Cai chuva no meu chapéu” Eu cantava a natureza.
Só sei que viro menina, Quando volto ao meu recanto. Pois minha alma nordestina Vai se vestindo de encanto. Lá tudo me contagia, Vou aspirando magia E transformando-a em canto.
Você me fala de amor, Que me adora e coisa e tal… Amigo pegue seu rumo, Vá, não me leve a mal. Você já saiu da tela, Estou em outra novela, E até mudei de canal.
Quando vi chegar a hora De você sair do ar, No camarim eu fiquei Novo ato a ensaiar, Imbuída na labuta Fui feliz em minha luta Mesmo não sendo seu par.
Sou estrela principal Em um novo seriado. As histórias fracassadas São roteiros do passado. Eu seguirei adiante, Você foi só figurante, Num caso finalizado.
A galinha de Mundico, Penosa de estimação Bateu asas foi embora Deixando o mesmo na mão, Mas voltou arrependida Porém não teve guarida Nem do Mundico perdão.
-Desde nova lhe conheço, Era franga em meu terreiro. Vivia trepando em pau Pois gostava d’um poleiro. Galos entravam na rinha Pra disputar a franguinha, Querendo ser o primeiro.
-Já virou galinha velha Do sobrecu arreado De tanto galo que andou No seu costeiro montado Agora me pede arrego Dizendo que quer sossego Depois de ter aprontado.
Muito tempo já passou Mas me lembro muito bem. Você deixou o meu milho Foi ciscar noutro xerém. Pra sua canja digo não, E nem quero o seu pirão Pois bem sei não me convém.
Falou assim o Mundico, E coberto de razão, Ignorando a galinha, Que magoou seu coração. Hoje tem uma perua E sai com ela na rua Cheio de satisfação.
Numa casinha de taipa, no meio de um lindo carnaubal, morava Chapeuzinho de Palha. Lá viviam também : seu pai, sua mãe e um irmãozinho.
O pai era um simples agricultor.
A mãe, para ajudar nas despesas de casa, dedicava-se ao artesanato.
As carnaubeiras, que cantarolavam ao vento abrigando passarinhos, eram as mesmas que forneciam palha para a confecção do artesanato.
Dava gosto de se ver pendurada num alpendre, construídos com troncos de carnaúbas, o artesanato que ali ficava exposto encantando os passantes, que vez por outra, paravam para adquirir alguma peça : abanos, vassouras, peneiras, cestas, chapéus entre outros objetos que compunham o cenário.
O que era feito no meio da semana, era levado para ser vendido na feira de sábado.
Eles viviam com sacrifício.
O que ganhavam não sobrava para brinquedos. As crianças tinham que se contentar com brinquedos improvisados.
Chapeuzinho de Palha tinha este nome porque não tirava da cabeça o chapéu que ganhara de presente de sua mãe.
Já seu irmão, passava o dia para cima e para baixo, montado num cavalo de pau, feito do talo da carnaúba, um mimo do pai, que se esmerou em fazer umas orelhas e colocar um cabresto de barbante.
Chapeuzinho vivia triste e emburrada pelos cantos, por não ter com que brincar.
Não queria brincadeira de menino.
Com o chapéu não tinha graça brincar. Fazer o quê?
Chegou o sábado e a menina pediu a mãe para ir com ela a feira.
No mercado chegando Chapeuzinho ficou maravilhada com um cesto cheio de bonecas de pano com roupinhas coloridas.
Pedia insistentemente a mãe que comprasse uma para ela.
Queria porque queria.
Sem condições de satisfazer a vontade da filha, pois ainda não havia vendido uma peça sequer das que levara a feira nada podia fazer. Além disso precisava primeiramente comprar alimentos de que a casa necessitava. O que a filha em sua inocência não entendia.
A vendedora de bonecas, vendo o pranto da criança, e a contrariedade estampada no rosto da mãe, num gesto de bondade, pegou uma bonequinha rechonchuda de pano e deu de presente a menina, que de imediato começou a sorrir, pegando a boneca no colo feito um bebê.
A mãe comovida escolheu a mais bela peça de palha e ofertou aquela que numa atitude de nobreza fez sua filha sorrir.
Muitas vezes um pequeno gesto se torna grande quando feito com amor.
Os açudes estão cheios A natureza faz festa. A flora sorvendo chuvas O seu verdor manifesta. Flores bordam a campina, E a natureza se anima Ao fulgor que a chuva empresta.
É o sertão de roupa nova, É a caatinga reflorida. Reaparecem as flores O verde traz nova vida. É o brotar da esperança É a chegada da bonança É a caatinga colorida.
A chuva faz seu milagre, Quando molha meu rincão. A vida brota em cores Com a umidade do chão. A paisagem é tão bela Abrolha nova aquarela, Colorindo meu sertão.
Maria não foi rendeira Não aprendeu a namorar. Morava numa fazenda Nem deu tempo de sonhar, E logo que embonecou O coronel lhe estreou, E começou seu penar.
Virou menina falada Lá pras bandas do sertão E todo mundo dizia: É comida do patrão! A fofoca se espalhou A patroa lhe expulsou Foi a sua perdição.
Maria saiu sozinha, Pegando a estrada a pé. Sem ter lar e sem apoio Perdida perdeu a fé Desgraçada e sem amiga. Restou-lhe ser rapariga, Se vender num cabaré.
O meu verso é minha vida, Gotas de contentamento, Que jorram d’uma cacimba, Que atende por pensamento. Cada verso que germina A minha estrofe ilumina Dando luz ao argumento.
Nascida e criada no interior, fui uma menina feliz vivendo na simplicidade que envolve as pequenas cidades. Na memória preservo as inesquecíveis e marcantes lembranças.
Nunca me rebelei contra os singelos brinquedos feitos artesanalmente com os quais eu brincava, até porque não tinha como compará-los aos brinquedos mais sofisticados que só mais tarde cheguei a conhecer.
Éramos uma família de oito irmãos. Cinco homens e três mulheres. Nossos brinquedos não eram comprados em lojas, e sim no meio da feira. Quando muito, em alguma bodega. Outros eram feitos em casa mesmo.
Os brinquedos dos meninos eram carrinhos feitos de madeira e lata de óleo. Ajudei muito meus irmãos a carregar os caminhões com caixas de fósforo. Cavalo de pau feito do talo de carnaúba, pião! Eu era fascinada por pião, até aprendi como soltar, mesmo sendo brincadeira de menino. Também gostava de soltar carrapeta, um brinquedinho improvisado que qualquer “menino do buchão” sabia fazer. E ainda me metia a soltar papagaio e jogar nas peladas com bola de meia.
Nós, as meninas, tínhamos as panelinhas de barro e com elas brincávamos de fazer comidinhas. Mas meu chamego maior era com as inesquecíveis bonecas de pano.
Até hoje tenho uma verdadeira paixão pelas bonecas de pano. E não esqueço, na feira que acontecia aos sábados em Ipueiras, Dona Delfina, uma senhora que vendia verduras em grandes cuias, trazia sempre uma cuia especial. Era uma imensa cuia lotada de bonequinhas de pano. As bonecas com suas roupas coloridas deixavam-me encantada.
Guardo com muito carinho três bonecas, feitas pelas filhas de dona Delfina, que aprenderam o oficio com a mãe. Comigo elas estão há mais ou menos dez anos. Hoje resolvi tirá-las do armário, fotografá-las e dividir com vocês o que para mim é relíquia.
Saí do meu interior, porém, jamais permiti que meu interior saísse de mim. Gosto de exercitar os antigos costumes e sempre serei mais rural do que urbana.
Quando o vaqueiro partiu Minha dor doeu no peito Com saudades do sujeito Que minha vida floriu Minha alegria sumiu, E nesta situação Olhando pro seu gibão Eu renego meu destino Pois meu maior desatino Foi perder minha paixão.
Tão garboso ele passava Bem em frente ao meu portão Com uma rosa na mão, Que beijava e me jogava. Eu toda prosa ficava Com aquele moço Trigueiro Que rondava meu terreiro E me chamava de flor, Por merecer meu amor Entreguei-me ao tal vaqueiro.
Uma viagem esticada Ele foi e não voltou. Meu coração palpitou, E chorei desesperada. Olhos grudados na estrada, E aperto no coração Murchava a flor do sertão Que hoje se chama saudade Perdeu a felicidade Ao perder sua paixão.
Nem vaqueiro nem boiada, Só saudade e solidão Passando pela estrada Que corta o meu sertão. Não tem aceno de mão, Nem levantar de chapéu, Pois hoje mora no céu Aquele viril vaqueiro, Que tacava o tempo inteiro Boiadas de déu em déu.
Poesia é o olhar Diferente do poeta Que lança sua seta Na hora de contemplar. E para nos enlevar, Daquela contemplação Vai brotando a inspiração Alimento do dia-a-dia, Que o poeta contagia E transforma em criação.
Foi no começo de 1970 que a cidade de Ipueiras assistiu um espetáculo nunca antes visto em seus domínios.
A cidade estava movimentada e o Ipueiras Hotel de propriedade de Seu Meton Nunes Alexandre estava lotado de hóspedes especiais. Pois foi nesse dito hotel, que a caravana do Coronel Ludugéro se hospedou.
Coronel Ludugero que já trabalhava na televisão e era nosso velho conhecido do rádio, veículo que nos colocava, e até hoje nos coloca, em contato com o mundo, estava ali, em carne e osso para a felicidade dos ipueirenses.
Os momentos que antecederam o show foram especiais para a juventude daquela cidade que buscava ver de perto os artistas, coisa rara no interior.
O GCDI, Grêmio Cultural e Diversional Ipueirense se vestiu de alegria, e foi palco do inusitado espetáculo. O clube se tornou pequeno para tantos que queriam ver de perto o velho coronel e sua trupe.
Ver de perto Filomena, Otrópe, a moça que tocava piston, que o coroné chamava de Marrom, e que, garantem os que assistiram o show, que a tal Marrom, é nada mais, nada menos do que a hoje famosa Alcione. Tudo isso era delirante para nós, pobres mortais nascidos no interior.
Quando a caravana se foi, deixou um rastro de alegria, uns riam das piadas contadas, outros relembravam admirados da morena que tocava piston, as mocinhas saudosas suspiravam pelos artistas que com elas bailaram na pista de dança, e por algum tempo não se falava em outra coisa.
E foi o mesmo rádio que tanto divulgou o saudoso coronel que no dia 14 de março de 1970, espalhou por todo Brasil a triste notícia da trágica morte do coronel e boa parte de sua caravana num acidente de avião.
O coronel viajava do Maranhão para Belém, e nesse percurso, foi vítima de um desastre aéreo na Baia de Guajará-Mirim.
Aquele acidente, fatal, acabaria de vez com a dupla Coroné Ludugero( Luiz Jacinto da Silva) e Otrópe, (Irandir Peres Costa), que até hoje são relembrados com saudades.
E foi assim que Ipueiras que antes sorria e se embalava ao som da “rede véia” e “flor do ananá” transformou seu sorriso em consternação por aqueles que estiveram há tão pouco tempo alegrando aquela cidade.
Não sou de medir palavras Não sou mulher recatada O que serve para sua Não serve pra minha estrada Sou mulher de atitude E nem sei se isto é virtude Ou insolência dobrada.
Enfrento qualquer encrenca Seja aqui ou no sertão Já tive que puxar faca Numa certa ocasião Quando puxei a peixeira Eu vi pegar na carreira Quem armou tal confusão
Onde você estudou, Não pude ser educada, Pois tive que botar cedo O meu pezinho na estrada, Mas na escola da vida Não virei uma perdida Garanto, sou graduada.
Se quiser me enfrentar Va prestando atenção Não fujo de uma peleja Sou mulher de opinião. Gosto de diplomacia Mas numa delegacia Tenho argumentação.
Se quiser ganhar no grito Alto também sei gritar. Se vier na covardia A mesma arma vou usar. Porém se acordo quiser A palavra desta mulher Acordo não vai quebrar.
Dou um boi pra não entrar, Pra não sair uma boiada E contra raiva eu aviso Que já estou vacinada. E sou sim, flor que se cheira Mas não caia na besteira De querer me azucrinar.
Eu casei na Igreja verde, A Deus não peço perdão, O cartório e a igreja Dispensei na ocasião Eu fiz o meu edital E não precisei de aval Ao recusar certidão.
Nunca quis ser bem certinha Nem seguir a procissão Eu já nasci pecadora Diz minha religião Sou batizada e crismada Nunca fui excomungada, Mas não gosto de sermão.
E quando alguém me pergunta Se sou solteira ou casada, Eu respondo bem ligeiro: Sou mesmo é amancebada! E vejo quem me arguiu Fazendo que não ouviu Saindo desapontada.
E não venham me pedir, Meu álbum de casamento As bodas disso ou daquilo Bobagens eu não aguento. Acho que a felicidade Se faz com cumplicidade, E jamais com juramento.
Sou poeta de bancada Porém fui desafiada Deixei meu rastro na estrada Em alpendres e terreiro. E quem quiser o meu canto Entoando um acalanto Eu vou cessar qualquer pranto Cantando quadrão mineiro.
Eu quase nunca me zango, Arrasto pé num fandango, Danço valsa, danço tango, Mas se tiver sanfoneiro Eu danço xote e xaxado Um forrozinho encaixado Capricho no requebrado, Cantando quadrão mineiro.
Uma rosa oferecida Sendo xilo ou natural É presente especial, E sempre bem recebida. Recebendo dou guarida Dentro do meu coração, Pois mexe com a emoção Trazendo felicidade, E se traduz amizade Registro a satisfação.
Esta xilo foi presente que recebi do músico, poeta e xilógrafo João Nicodemos que conheci no III Seminário de Crato. Quero aqui agradecer a atenção de Niko e o carinho de todos.
Não peço licença à musa Quando quero poetar. Na hora que o santo arreia Meto pau a registrar Minha simples poesia, Onde não vejo heresia Em meu modo de atuar.
Tenho dois nomes de santa, Que me foi dado na pia. O segundo é Lourdes O primeiro é Maria. Mas pra fugir desta linha Preferi usar Dalinha, Que é a cara desta cria.
Da minha mãe eu herdei O sobrenome Aragão, O herdado de meu pai Causa certa confusão Mesmo rimando com bunda Gosto do nome Catunda E uso com satisfação.
Não curto meias palavras Meu pavio é meio curto, Mesmo assim sou atinada Por pouco, não entro em surto Não sou de mandar recado Não sei o que é pecado E de viver não me furto.
É quando a saudade bate No coração do sujeito Que o nó aperta no peito E nem cachaça rebate. Trava um intenso combate Bebe e tropeça na marcha E tudo por uma racha, Que rachou seu coração Fica de quatro no chão Porém sossego não acha.
Traz a Unidos da Tijuca A grande celebração. Na avenida coroado Será o rei do baião. Nosso saudoso Gonzaga Que segue com sua saga, Encantando a multidão.
Luiz já é consagrado, Pois reinar é seu destino Encantou todo Brasil Com o seu canto divino. Recordar o Gonzagão É mexer com o coração Desta nação nordestina.
Quero ver o povo inteiro, Fazendo sua louvação, Homenageando Lua, Luiz o rei do baião Quero ver o sanfoneiro Neste Rio de Janeiro Em plena coroação.
Amedrontando crianças e deixando adultos menos corajosos de cabelo em pé, por muito tempo se viu e ouviu falar da figura dos amortalhados, principalmente no interior nordestino.
Por trás de cada mortalha vestida, havia, com certeza, uma história forte de culpas e pecados a serem reparados. Assim sendo a mortalha fazia parte do ritual de expiação aplicado ao grande pecador.
Contam que certa vez, uma linda moça, porém muito jovem, queria ir a uma festa. Mas pela pouca idade só poderia ir acompanhada dos pais. Sendo filha de uma pobre viúva, pai ela não tinha. A mãe, no momento adoentada, não poderia acompanha-la a tão desejada festa.
A jovem descontrolada num ímpeto de raiva e loucura, como se tivesse possuída pelo demônio, deu uma surra na pobre viúva que ficou prostrada durante muitos dias.
Vendo o sofrimento da mãe, não demorou muito tempo, bateu o arrependimento na filha desnaturada. Tentando acabar com o remorso que lhe doía na alma foi até a igreja e contou tudo ao padre em confissão.
O padre, após ouvir atentamente o relato absurdo da jovem, aplicou-lhe a penitência merecida: Durante cinco anos a filha desalmada, teria de perambular pelas ruas, becos e estradas vestida numa mortalha, e toda vez que passasse em cemitérios e igrejas teria de parar para rezar um rosário. A jovem cumpriu religiosamente sua penitência fazendo assim as pazes com Deus e obtendo o perdão de sua mãe. Agora, ela poderia ir a festa tão sonhada que acontecia todos os anos. Sua mãe gozava de boa saúde, ela já tinha idade suficiente para freqüentar as festas e tinha expiado sua culpa.
Bem vestida, foi ao baile, mas não teve um cristão que a tirasse para dançar, pois ninguém queria dançar com uma moça que no passado vestia-se com mortalha.
Andei montando um cavalo, Pras bandas do meu sertão. Sua fama percorria Toda aquela região. Em cavalo não confio, Porém sendo desafio, Encara a situação.
Ele me olhou de soslaio Porém não me intimidou. Passei a perna por cima, A sela me acomodou Eu gostei da montaria, Ele bravo se exibia, Só que não me derrubou.
Pra ver sua reação, Eu enfiei o chicote. Ele então me chacoalhou, E disparou no pinote Numa aventura assassina, Segurei na sua crina Me enroscando em seu cangote.
Horas me faltava céu. Horas me faltava chão. Hora nenhuma faltou, Foi mesmo disposição. Porém ele parecia, Que aos poucos esmorecia, Penando em minha mão.
Se o bruto ficou domado, Isto não posso dizer. Só sei que segue meu rastro Isto posso perceber, Escuto seu relinchar Porém só volto a montar Atendendo o meu querer.
Rita fez tremer Sergipe E abalou Aracaju Ao mandar policial, Fardado, tomar no cu. Pois Rita além de roqueira Tem fama de barraqueira E gosta d’um sururu.
De cachorros e cavalos E cafajeste também, Chamou os policiais Achou pouco foi além: Venham fumar baseado! Dava no ar seu recado Sem ligar para ninguém.
Baseado no que vi, E ouvi na televisão Não vou dizer que a roqueira Não estava com a razão Mas policia ofendida Usando a contrapartida Esboçou sua reação.
“Eu sou mulher e sou mãe!” Dela todo mundo escuta. Xingando o policial, Chamou de filho da puta. Já encarei ditadura Esta é minha postura Não mudo minha conduta.
Foi na Barra dos coqueiros Que este fato aconteceu. Rita Lee intimidada A polícia ofendeu. Chutou o pau da barraca, Sem medo abriu a matraca, Revolta não escondeu
O que seria um bom show Terminou em confusão Rita Lee bem exaltada Abusou do palavrão, Foi parar no xilindró A tal roqueira vovó Para dar explicação.
Chegando lá Rita Lee, Argumentou na versão: Estava muito excitada E sobre forte emoção. Mas Rita não pediria Sua aposentadoria Sem rebu sem confusão.
A polícia ganhou mídia E Rita divulgação. Eram os dois disputando Espaço na ocasião. Até Heloisa Helena Achou que valia apena Pegar da mídia um quinhão.
Entre mortos e feridos, Bem salvos todos estão. O Boletim de Ocorrência Papel de divulgação. Foi uma grande cartada Rita foi muito falada Dentro e fora da nação.
Vou levar flores bonitas. Para rainha do mar. Vou com meu vestido branco Só para homenagear. Vou levar minha oferenda Ofertando cada prenda Com intenção de agradar.
Bela rainha das águas Dê-me a sua proteção. Proteja bem minha estrada Conforte meu coração E traga-me de verdade A dona felicidade E ponha na minha mão.