UM MINUTO DE SILÊNCIO

Falando com o meu silêncio

Quando medito sobre o silêncio minha boca emudece mas
meu peito regozija-se e meu coração compreende…

***

O extraordinário do silêncio é que ele fala
em qualquer idioma…

***

Você pode dizer o que quiser, falar o quanto puder,
mas saiba de uma coisa: o silêncio o está observando…

***

É quando está sozinho que você fatalmente descobre
o peso do silêncio…

***

Um silêncio pesado é mais enervante que a própria
inquietação do tempo enquanto demora das horas.

***

O silêncio o atinge de várias maneiras,
a pior delas é como solidão.

***

Clique aqui e leia este artigo completo »

UM POEMA PARA A ARTE, ESSA QUESTÃO…

Arte a serviço de quê, ou de quem?

Com que olhos você vê o belo, como seus olhos veem a beleza? O que é belo pra você? Com que ouvidos você escuta o mundo, a música e o silêncio? Com que dor você sofre a perda, a ausência, a indiferença? Com que fé você exerce a esperança? Com que saber você se responde? Como você exerce a liberdade?

Liberdade? Possuir a liberdade, ou ser possuído por ela? O não-limites de tudo fazer e querer, vaga suas infinitas vontades afora; porém não no ser , mas no vazio que nunca basta, que sempre precisa poder e nunca se encontra, se satisfaz. O que seu coração anda desejando, o que seu pensamento anda imaginando? Com que amor você ama a vida e a humanidade em nós?

Não há humano sobre a terra capaz de despir-se à nudez da isenção. Nem a sabedoria de um Salomão ou a realeza da ciência são anotações de um eximir-se de inclinações e cargas afetivas. Cada um é sua história e cada história seu rosário de preferências. A neutralidade não nos pertence, nem como utopia. Essa mesma, que emula a própria tragédia! Viver é equilibrar-se entre a razão, o desejo e a pergunta cuja mãe é a dúvida que até conhece alguns atalhos e estações, mas jamais o fim da linha… E é por aí que nos equilibramos, por essa linha tão fuga do labirinto quanto o próprio homem-animal que nos assombra.

Tanto vento e tão pouco coração. Tão suspeitos esses insuspeitos gritos: revolução! Qual? Essa dos teus infernos, tão enfermos quanto esquisitos? Estranho, muito estranho. A depender do que dizes, a se medir por teus gestos, é o fim. Apenas atestas tua doença. Da mente, do espírito escravizado: pelo despeito, inveja, ambição desenfreada, concupiscências, vícios e hedonismos; pela loucura, enfim! Loucura de uma alma rancorosa que já não engana, meu caro, minha cara.

Poesia? Pra que poesia? Vocês sabem onde nós estamos? Não existem mais os motivos, os ideais. Por que poesia? Sequer nos habitam mais os sertões onde a sede não sabe da água mas a vida sabe da dor. Nem existem mais as cidades, aquelas onde a morte nos espreitava mas as luzes se acendiam. Por que, então, poesia? Me digam, por quê? Vocês pensam que hoje a vida não vale nada? Vocês acham que é por isso? Não. Vocês estão enganados. Não é de hoje que a vida não vale nada. Vocês perceberam mesmo onde estamos? Perdemos o sentido do existir… Hoje é a morte. A morte é que já não vale nada.

Eu fui na casa do “senhor saber”, que já sabia do fim do mundo e do começo de tudo. Que me disse saber de Deus e de Sua morte. Fui bem recebido. Soube de novidades: de coisas, genes, genéticas, cibernéticas, e do robô que sou. Naquela casa, tudo é sabido: bicho, chip e controle remoto. Sim. Tudo lá é gentil. Sanitário. livre. Igual. Tudo lá é liberto do próprio querer-se livre. Aliás, do próprio querer-se ser. Tudo lá é determinado. Pre-determinado. Sem arbítrio. E o tratam pelo nome. Tudo se trata pelo nome: COISA. E convidam a entrar. Mandam ficar à vontade: senta, Rex…

Por entre raiva e espanto passei. Queriam o quê? As pessoas confundem poesia com elogio. E poema com espuma de barbear. Mas não é isso. A poesia é mesmo lâmina. E o poema é corte que sangra. Então eu vi um livro de poesia pendurado num sebo no centro da cidade. Dei-o por morto. Atravessei a rua. Entrei. Sua capa encarquilhada e suas páginas amarelecidas falavam de grave enfermidade. Quis saber do preço. O dono respondeu: não tem preço. Como (retruquei)? O livro não tem preço, repetiu. Fitei os olhos da resposta, e chorei. Depois sorri. Sorri o riso guardado de há muito, mas incontível agora. Por fim, soltei o grito: o grito da alma lavada!

Essa lágrima indisfarçada vem do nó na garganta e do aperto no coração. E qual o vento leste, do castigo e da devastação, vemos esses dias indo e vindo. Quanta loucura no mundo! Quanta impiedade e malícia! O vento da maldade sopra nesses dias. Que transformação é essa? A humanidade, em reunião de pedantes. E as cidades, em cidadelas erguidas não para a proteção das virtudes mas sim para o festim das bestas.

Se Deus dissesse: tome o fermento, faça o pão, o homem perguntaria: e o fogo? Deus lhe responderia: tu, homem, és o fogo…

A arte não existe pela arte, a arte é pela vida. Como pode a arte ser por si mesma se ela é essência humana? A arte é pela chama e pelo pão… É pra reafirmar a luta do homem em construção!

Caminho na calçada larga de uma beira-mar, a calçada é tão larga quanto o vento que sopra e me traz areia às faces (é a algazarra do vento e do grão). Ajudado pela força do vento, sigo. Estou só e penso. Penso em Van Gogh, penso em campos de cereais… Penso na distância que separa céus e homens. Homens que querem as estrelas que brilham! Olho pro céu e vejo uma gaivota que flana. E eu penso agora em pássaros. Em pássaros e em grãos. Penso no alimento que garante a vida.

Neste momento não mais estou só. Estamos eu, Van Gogh, o pássaro, o chão, o vento, os grãos… Grãos que voam, caem e germinam. Voam com pássaros que os conduzem nos bicos. Caem por seus descuidos! E se espalham com o vento. E germinam porque há um chão os esperando com sua fertilidade pra fazê-los brotar. Penso em todos os cios e em todas as sínteses. Penso em campos de cereais… Penso em rios. Rios em que me banho e nado. E em rios em que jamais nadarei também, tão subterrâneos que são…

O vento está tão forte que insistentemente me empurra pra frente. Compelido pelo vento eu luto contra sua força e ele parece mesmo querer me dizer, vamos, siga. E ele parece mesmo me dar uma ordem para seguir. E eu lhe digo: pensas que é só assim? Pensas que é só soprar e ordenar: siga. E o susto que se toma? Soprar é muito fácil, difícil é viver…

Há uma distância tremenda entre céus e homens. Céus brincam de estrelas, homens de mentiras. Homens querem as estrelas que brilham pros homens. Homens que brincam de deuses, estrelas que brindam os homens.

O vento fica revoltado e sopra e sopra e sopra. Um torvelinho se forma e levanta arrastando consigo mais e mais grãos. E eu penso em campos de cereais… Penso na luta dos homens, luta que que nunca se acaba. Homens que não se superam. Penso em terras andinas e em sua festa de cores. Penso no condor. Voo alto com ele. E eu também vejo as luzes europeias. E eu também penso no oriente bramânico e xintoísta.

E eu quero explicação pra tudo, quero compreender tudo. E quero que meus sentidos o façam, me permitam. Neste instante, uma vaga rebenta com violência. E eu me viro e vejo de novo o mar. Ele está murmurando desesperado E eu não tenho ouvidos para escutá-lo. Estou longe…

Aí acontece o milagre: Van Gogh, como se houvera arrancado de si sua orelha para doá-la a mim, me faz escutar e entender que realmente meus próprios ouvidos podem estar a me enganar e que verdadeiramente há em mim uma verdade silenciosa. Agradeço a Van Gogh e ao poeta. Está findando a tarde e uma estrela solitária surge inaugurando a noite. E eu escuto o poeta. E eu me lembro de Van Gogh. Me lembro de seu brilho, me lembro de seu desespero… Me lembro de seus campos de cereais.

Finalmente cheguei ao meu destino. O vento se aquietou com a noite. Eu me fiz calmo com Van Gogh. Estou sorrindo internamente ainda agradecendo ao poeta. Ligeiro, subo três degraus que me separam da porta do bar onde vou me reunir com amigos. Abro a porta e encontro todos já reunidos. Saúdo-os e junto-me a eles. Ergo um brinde à vida, a Van Gogh, ao poeta e, finalmente, às estrelas que brilham (sublimes), para os homens!

EVOCAÇÃO

Poesia, o outro lado do espelho…

É. Realmente não sabemos o que somos, ou quem somos. Existência/ser; ser/não ser nada. Mas há um lugar/instante – para além de toda filosofia -, onde se pode permanecer sendo: na poesia! (Por certo cada anjo vela por ela…). Nela vivemos: por baixo de coisas como tabuletas (não é mesmo, Fernando Pessoa?), por cima de coisas como tabuletas… (essas nossas asas…), – por baixo/cima da grande e primordial explosão? -, (na pós-explosão?), no Jardim de Proserpina (com Algernon Charles Swinburne), em todos os lagos ( de Alphonse de Lamartine, de Victor Hugo…), por todos os lados (bem espalhados, esparramados…). Nela os homens ocos têm alma (meu caro T.S.Eliot…)! (E já não se teme o reino de sombras da morte?!).

Pois com ela podemos assuntar os dias e libertar a fome. E por ela podemos contar dos desejos do ser e dos medos do não ser. E podemos essas coisas exteriores, e ir por mundos interiores, e falar do que é banal, do que é universal, do que é transcendental e de toda embriaguez. Com ela repelimos os absurdos cotidianos (como um Maiakovski)! Ligamos a poesia e ouvimos música… Podemos nela sentir o cheiro de terra molhada (da terra molhada da pós-hora que vai chover). Ela é ponte entre o eu e o tudo, formando um todo conosco pra nos acudir nos vazios. Saciadora de nossas sedes, de nossas sedes de infinito. Perfeição perfeita do imperfeito em nós, venha com forma ou sem forma.

Pois que: conforma, deforma, reforma, transforma, reporta excessiva e comporta toda construção. Toda plástica e efígie. Toda metáfora. Todo símbolo e figura. Todo lirismo. Toda ode. Toda elegia. Evocadora encantada que permanece mudando. Vara de condão, conto de fadas na realidade do mistério, no mistério real. Imperfeita harmonia. Perfeita desarmonia. Tudo em você cabe. Passeio por tudo. Viagem inteira. Caminhos todos. Paisagens todas. Todos os sítios. Todas as imagens. Todas as metas… Todas as físicas. Metafísicas.

Transcendências… Colírio e fonte da juventude ante a nossa ainda finita imanência do ser; causa de permanência perante a fugacidade das horas, diante do éter das coisas. Receptáculo perfeito dos infinitos quereres, cada ponte no dizer, cada gota de emoção. Pacificadora dos espíritos nas porfias, libertadora nas algemas da alma. Toda emanação tu és, os lampejos tu principias, ó poesia, todo assomo de vir a ser… Asas e berçário das ideias que esvoaçam, acalanto das palavras. Conivente desaguar para os desejos, nascente e foz para as paixões…

Toda esgueirada e furtiva sombra pelas noites, toda chama acesa das manhãs. Tudo que inflama o incêndio e alastra, arroubo que queima e arrebata, ígnea composição que faz arder. Pórtico e brecha para tudo, janela cúmplice que se abre pra olharmos nossos nus e expiarmos por inculpáveis nossos pecados…

Porta aberta, desmesurada, escancarada para tudo! Por ti falam: homens de fé e que duvidam de fé, esperançosos e sem esperanças. Ó Deusa cósmica! Ó Grande mito! Ó Confluência das almas! Ó Harmonia no caos: os surdos te ouvem! Os mudos falam por ti! Os cegos te vêem! Todos te pressentem e sentem teu cheiro e sabor! Unguento e bálsamo nas feridas, lágrima que escorre, pranto que desata junto aos nós em nossas gargantas. Ranger ainda de nossos ossos quando o tempo nos é pó. Plenitude que nos foi concedida… Sem cessar de possibilidades: da língua, do espírito. Alma para o corpo da linguagem. Vestimenta dos homens. Desnudar-se humano.

Olha, poesia, vamos fazer um trato, celebrar um contrato: eu não te deixo. Tu não me deixas. Nunca! Como um marsupial conduz sua cria, te conduzirei comigo! Quero que cresças, mas não te desentranhes de mim. Que não me sejas etérea. Nem me escapes, como água, por entre as mãos. Preciso de ti para falar do indizível! Quero que conspires comigo… E que sejamos escravos um do outro, cúmplices, “escravamente” cúmplices. E assim sigamos pela vida, mundo afora como ciganos. Onde fores, irei. Teçamos juntos nossa teia de inspiração!

Como um mergulhador que mergulhasse num oceano, mergulho na poesia. Estou cheio de imagens e meu corpo presente transcende. Passo por um túnel, vou ao encontro das imensidades, das eternidades em mim. Sou todo sensação. Estou brilhando com as estrelas e nada mais me causa estranheza. Sou todo, estou inteiro. Tudo é maravilhoso! Sou tudo e tudo é. Já nem sou eu, porque somos. Eu e o infinito, o infinito e eu. Eu e o mistério, o mistério e eu. Agora recobro os sentidos do meu tempo presente. Retorno. E espero o momento do mergulho derradeiro…

SETEMBRO AMARELO

Mil razões para viver!

Não há rocha que resista à persistência, ou aço que não separe ferro e carbono ante o fogo da determinação. Não há tora que não se curve à força da obstinação e da vontade, não há nada que detenha esse rio rumo ao mar.

Rumo ao encontro que o espera há uma longa, muito longa estrada por percorrer, mas quem se decide a vencê-la, vence. Se o curso dessa estrada é a vida, o sentido da vida é caminhar seguindo o fluxo contínuo do tempo, prosseguindo até cada razão sua se cumprir. Portanto, não desista de si mesmo, jamais desista de viver.

Há tanta beleza no mundo, paisagens magnetizantes, neve que derrete, corredeiras, cursos d’água… Climas, estações, sol que nasce, que aquece, lua que sai. Flores, bosques, estepes e pradarias. Chuva bendita que brilha sua prata, correnteza que vai, vai…

Pão, vinho, vento-assovio, verdejante mundo em paz com a terra molhada. Mesa posta, farta, varanda; olhar do alto um sem fim de horizonte junto ao o voo-pássaro, os montes, os cantos-gorjeios, os campos, o lugar. Cada coisa, cada objeto, tudo, tudo certo. Harmônicas pedras com o tempo que não passa nessa rocha que nos recorda: Passarão os céus e a terra, mas… E nós?

Em cada um mora uma eternidade prometida, uma sequência desses sóis, uma montanha bem alta por subir. Um encontro! Agora a vida é constituída de três essencialidades: olhar pela janela dos infinitos, escrever a própria história com a lança dos espinhos, e amar. Por enquanto a isso estamos presos, escancaradamente!, mas a essencialidade do amor nos conduz… Quem sabe onde?

Quando jovens, vaidosos que somos, dentre tudo o que nos compõe o ser, que nos constitui corpos humanos, o que mais nos retira prazer de viver é se ver e não se gostar( por isso a indústria da beleza lucra tanto!). Depois lutamos contra o tempo e as imperfeições, lutamos ainda e sempre contra o que não nos satisfaz perante o espelho. Somos fortes, somos frágeis… Diante dessa luz acusadora, penamos. Nosso mundo é estético, imagético, escravo da perfeição. Dos pés à cabeça, nos exigimos e nos referenciamos através de outras harmonias consideradas.

A palavra atração nos atrai, o sentimento de aceitação é-nos fundamental. Sem a autoestima em alta, a alma padece. Como diz o ditado popular: “quem não se ama primeiro, não pode querer ser amado”… Quem haveria de se apaixonar por quem não se valoriza?

Assim é a vida, assim é o mundo, assim funciona a reciprocidade das relações afetivas. Admiração, eis uma “palavrinha” encantada… Mas a admiração pode passar por outras exigências além-estética, outras formas de encantamento. A inteligência é uma delas, e bem decisiva. Como não sentir-se imantado por essa reunião “fatal”: um belo sorriso emoldurado por uma boca instigante que sabe o que diz… (Invista em si mesmo, acredite!).

Pois é, desde que o mundo é mundo carregamos essa marca, essa especificidade bem nossa que é a capacidade de se ver. Somos os que nos reconhecemos, auto-reconhecemos, e isso nos custa bem caro! E o tempo faz estragos, sim, mas há certas coisas que o tempo vem melhorar. Uma delas é a paciência e uma outra é o amor que se sente, assim como a casa e o botão: uma para o outro, fechados para os curiosos, mas por dentro cúmplices, entretocados. E mutuamente permitidos, abertos para os segredos de uma vida compartilhada…

Do mistério chamado Deus pouco sabemos, a não ser que acende o cosmos e irradia-nos verbo e pensamentos, razão pela qual nos afirmamos por música e nos acordamos por que chamados, ateados por inumeráveis desejos. Sonhos impronunciáveis, viagem pelo milagre, amor-paixão que sentimos e sede. Passos que somos conduzidos e vamos para onde há essas janelas e as possibilidades…

Asas alçadas e fé, voos, palavras-pontes. Imã e eco das vontades, porto, estação, destino,lado de fora, cá dentro. Fato incompreensível, intuição, alma que nos nomeamos. Ensaio que podemos nos palcos, estreias que cantamos a plenos pulmões, dias que imortalizamos. Vida que traduzimos como arte, ciências e ânsia. E ainda há quem diga que Deus é nossa criação!

Solidão! Orquestra sinfônica em mim, toque-me. Imensidão céus afora, faça-me pasmar como nunca. Mãos, minhas mãos, multiplique-me. Meu lado de fora, reúna-me. Meu interior, conduza-me àquele lugar sempre além de mim. Minha vida, diga que o amor existe, diga que a amar se aprende, diga que o amor se estende ao indizível, diga que o amor sabe amar! Meu sono, diga que estou acordado. Meu fardo, diga que tudo passa.Minha existência, diga que a paciência pode, diga que o querer alcança, diga que a experiência transcende.

Sentimo-nos abandonados! Claro que Deus não tem sexo nem cor da pele, o que há em Deus é inteireza, integridade de Ser. Mas aqui cada pessoa que sente é uma ilha cercada de si mesma por todos os lados. Se tenta fugir-se a nado, arrisca-se contra seu pulmão-prisão qual um náufrago e nega-se no próprio “eu”, desmente-se no próprio “ego” contraditório e inescapável. Quem “sai”, volta-se mesmo para si, aos seus interesses resguardados. Se vai atrás de afetos, é porque antes precisa-se por existir nessa carência chamada vida, nessa insistência chamada pele. No entanto, se se “doa” por amor, muito exige… Egoístas? Humanos, apenas humanos. Assim como tu, assim como cada um de nós.

Mas há a falta de grana! A maior contradição do dinheiro é não comprar a essencial simplicidade… Muito cara, por um lado; sem preço, por outro. Não paga a neve que cai, a uva que nasce, o dia que se vai. Tudo isso o dinheiro não pode, ainda que possa o vinho – que quando é bom, vira milagre e noite-maravilha em estado de graça…

Há caos! Tudo dá errado! Todo mundo sofre, você não carrega sozinho/a essa cruz. O rio em cada um escorre como o sangue das guerras, amarga como o sal do suor vencido pelo enfado do dia. Mas vai, prossegue, vai em busca do oceano que o espera incansável e se abre generoso como os braços abertos do pai do filho pródigo. Saiba, lembre-se sempre que existe uma força gravitacional que reúne céus e terra, que profetiza os átomos e que organiza e mantém a coesão do mundo. Interessante, muito interessante, não é? Quem dá força a essa força?

E você nasceu!, você venceu, você ganhou a estrada… E o curso dessa estrada é a vida, e o sentido da vida é caminhar, seguir o fluxo contínuo do tempo, prosseguir até que cada razão sua se cumpra… naturalmente! Portanto, não desista de si mesmo, jamais desista de viver.

MEU BRASIL BRASILEIRO

Heranças de um tempo índio

A Terra Brasilis…

A tarefa do tempo é fazer chegar setembro no hemisfério sul, fazer voltar a primavera. A tarefa desta estação é fazer valer sorrir, florir, encher de cores o coração geral destas sul-americanas terras. A tarefa da floresta é verdejar, festejar a vida, reverenciar seu povo. Povo-lembrança dos arcos de um arco-íris no céu como retinas coloridas; íris dos olhos do Sabiá a mirar ainda um tempo. Livre tempo, asas que se perderam. Lágrimas de um tempo pássaro, tempo anta, tempo onça, tempo fauna, tempo flora, tempo tinta e urucum. Tempo de se andar nu. Tempo de pintar o corpo, tempo de pintar o rosto, tempo-“bugre” e caçador.

Tempo lendas, tempo arco, tempo flecha, tempo ritos, tempo rio, tempo solto imenso-mar. Tempo serras e cerrados, e sertões e caatingas, e os brejos e os riachos, veredas de buritis. Mil palmeiras, mil vales e cachoeiras, as verdes exuberâncias, as tantas cores sem fim. Lagoas de águas tão doce, os picos e as chapadas, os mangues e os seringais. Ilhas, lagos, baías e enseadas. A ímpar fertilidade! As águas tão caudalosas, aves lindas e canoras, tempo das praias mais belas, sapos, rãs, vitórias-régias, encantos por todo lado. Paraísos, maravilhas, araras e papagaios: Terra de Vera Cruz.

Tempo de banhos-cascatas , tempo-pesca em rios fartos, de pescar com pontas-setas, e de rústico “canoar”. Preparar peixe na palha, assar a batata doce, cozer em panelas de barro. Tempo de colher raízes, tempo de assar castanhas. Tempo de coco e palmito. Fabricar as arapucas, coletar frutos silvestres. Tempo de dormir em redes, tempo de enfeite e plumas, cerâmicas e cestarias. Tempo de oralidades, rito de contar histórias, rituais de reunir.

Tempo mandioca e milho, mastigar a cacimacaxera, mastigar o abatiui, fazer tudo fermentar, tempo de tomar cauim. Tempo de comer beiju. Tempo de corrupiar, tempo de girar em rito, rito-rituais de cura, ritos de celebrações. Tempo-ritos de passagem, ritos de iniciação de cunhatãs e curumins. Indiozinhos tão arredios e um tempo mata, tempo flecha, tempo chuva, tempo de ser com os bichos. Ventos de querer voltar um tempo, vento de impossível sopro, tempo de tempos assim.

Vida eternos curumins… Vento-aldeia, aldeia dos ventos e magias; pajés, caciques e ocas, e tabas de congregar. Tempos de tantas tribos, todas tribos de um tempo. Tempo Ticuna, tempo. Tempo Terena e Kaingangue, tempo. Tempo Macuxi, tempo. Pataxó e Xavante, tempo. Tempo dos Ianomâmis. Tempos Tabajaras, tempo. Tempos Caetés, tempo. Tempos Tupiniquins e Tamoios, tempo. Tempos de um tempo Tuxá, Potiguara e Guajajara. Tempo Karipuna, tempo. Tempos dos Tupinambás. Tempos Guarani-Kaiowá. Tempo Xipaya,tempo. Tempo Kamaiurá.

E ver o bambu ventar, soprar a taboca-gigante, trombeta de curar e purgar. Tempo-cerimônia, tempo. Horas xuatê, horas de lutar e brincar. Tempos de sacudir o chocalho, de brandir o maracá, rodopios pra se encantar. Pés de ritmar o toré e marcar, e dançar sagradas danças, e cantar e mais cantar. Tempos dos povos-nações, de ser uma gente feliz. Tempo Pankararu, tempo. Tempo Xucurus, tempo. Tempo Cariris. Tempo de evocar espíritos, tempo de ouvir as matas, escutar os ancestrais, se aconselhar.

Tempos Cariris-Xocós, tempos de nadar nos rios, subir nos ouricuris, em palmeiras balançando, tempos tão livres assim. Falar dialetos tantos, falar só línguas indígenas, de caçar îakaré, îagûara, inhambuxintã, de beber na Ibiaçá, de pisar firme o yby, de falar língua tupy. Tempo Tupi-Guaranis, tempo. Tantas outras etnias, tempo.Tempo litoral, tempo. Tempos de um tão lindo tempo, tempos de um Brasil que, ainda Terra Brasilis, foi berço de um tempo índio!

A herança…

Ao cair da tarde o sol vem banhar-se às águas da lagoa azul. E a lagoa inteira veste-se de dourado, celebrando cálida esse momento nu. E sorrindo acalma cada raio e aninha-os. E abraçando guarda-os consigo um a um. Mas a passarada, toda alvoroçada, logo se assanha pela hora dada. E grita bem alto e imperativa para a lua branca: ei, Selene, volta! Aparece, ó nossa, e te desencanta. Vem, que és tu agora!

E a lua desperta, tão silente e sábia, só espia ao longe, aquela magia. Já a natureza, esgueirando-se então, traja-se numa outra, ao trocar de roupa. E acalentando ela a própria escuridão, canta e adormece. Mas só dormita a bela, que a preguiça é pouca. Rebulindo-se à noite feito ventania, faz-se acordada e viva noutra sinfonia. Que sibila, e chia, e estrila, e pisca e pirilampa e acende, e se acende e não. E haja cantiga, e haja cantiga. Repetida e quanto, tão comprida e tão… Quem esquece?

E ali na água, quem é que coaxa, quem é que se arrisca? É o sapo, é o sapo, aquele enfunado, já inflando o papo. E a dona coruja, o que é que pia, o que nos avisa? Avisa da morte, avisa da sorte da casa vizinha? Qual nada, qual nada, ela arregala é mesmo os enormes olhos da sabedoria. E em rasgando o manto, em voo já pleno, bem longo assobia: ooolhe, ooolhe, ooolhe, vem rompendo aurora, vem nascendo o dia!

SE DEIXARMOS O AMOR FALAR…

Por entre a melodia das harpas, com os sons e silêncios – tão remotos – daquelas idílicas cordas, ressoava uma antiquíssima canção egípcia. Uma canção-conselho, uma anciã vontade de harmonia, um desiderato que findava assim: “Passe um dia feliz, usufrua dos mais doces perfumes, adorne pescoço e braços de sua esposa com flores de lótus e mantenha seu amor sempre ao seu lado. Não interrompa a música e a dança e esqueça a preocupação. Pense apenas no prazer, pois em breve chegará a sua vez: a jornada para a terra do silêncio!”

* * *
No mesmo Egito ancestral e mítico, o Egito da civilização assaz e seu rio caudaloso, uma dança astro-teológica venerava um rei-deus – Osíris – como evocação de fertilidade e paz…Não obstante, Osíris padeceu esquartejado por Seth, seu irmão invejoso. E não obstante ainda, o mito então retorna e regenera-se em luz, desta feita, e revigora as férteis esperanças daquele povo das colheitas…

* * *
Acontece que fomos erguidos sobre cadáveres ( e ainda o somos)! Somos os erigidos pelo medo e o espanto, nossa sentença… Os antigos matavam gente por oferendas! Sacrificavam aos deuses nossas virgens, e jovens, e crianças… Ritos, rituais, celebrações e danças por seus deuses desejosos de carnes, por seus deuses insaciáveis e frágeis… Frágeis deuses da bonança, tão desumanos… quanto humanos…

* * *
E no entanto, Gaia Terra – nossa casa- é um cisco, um minúsculo e ermo fragmento, um grão esquecido no Caos. E o deus Hélios com seus quatro corcéis, o deus Sol (o nosso mesmo Sol), aquele deus grego flamejante de leste para oeste, é um astro mínimo e perdido, uma estrela a arder qual um periférico pingo na hélice helicoidal e láctea dessa galáxia menor, nossa parte no infinito e nosso abrigo e derredor…

* * *
Somos uma civilização por encontrar um céu, por alcançar um alto e babilônico céu e salto pro depois… Depois de eternizar cada nome na Babel…

* * *
Somos a civilização que roubou o fogo, somos cada um uma chama, cada um, um Prometeu. E agora, que ardemos essa flama, e abrimos o segredo, sobreveio-nos o ciúme. E as rugas… E as moléstias… Aos vingados por Pandora, resta agora ser cruel? Resta sermos os mil faces, qual um Zeus???

* * *
Nós, os eternos apaixonados, os incorrigíveis e insaciáveis, não podemos nem a astúcia de um Ulisses. O Ulisses dos mil ardis que resistiu ( mas também caiu…), o Ulisses dos engenhos e prudência, o herói que venceu Circe (mas cedeu…), aquele que desceu ao Hades e sobreviveu, aquele de saber a paciência. Mas não nos amarramos aos mastros e vamos com os cantos das sereias… Nem resistimos muito aos testes… Somos os Ulisses sem Penélope.

* * *
“E tão contrário a si é o mesmo amor”!!! Com facas nos dentes somos Eros e Afrodite, e somos Psique e como tal, queremos o triunfo do amor. Sonhamos com o amor… imortal!

* * *
Somos tão pequenos e tão torrenciais… Quem é você, quem sou eu? Um rio, um caudaloso rio que corre nesses infinitos… Os Cérberos nos nossos cérebros de não fugir dos infernos que somos nós. Podemos o quê, meu Deus?

* * *
Somos oráculos e auroras, trazemos dedos cor-de-rosa e laranja em nosso ser para traçar o arco das manhãs. Inauguramo-nos a cada novo dia! Luzimos o açafrão do amanhecer.

* * *
E repetimos, e sabemos: Ainda que falássemos a língua dos anjos, sem amor nada seríamos!Como o apóstolo, desejamos o amor. Erguemo-nos por entre espinhos e desejamos o amor.

* * *
E, ainda que fracos, ainda que longe de sermos qual um Ulisses o herói, sabemos que precisamo-nos sempre! E lembre-se, lembrem-se (todos) da última estrela no infinito… “Não interrompam a música e a dança e esqueçam a preocupação. Pensem apenas no prazer, pois em breve chegará a sua vez (a vez de cada um): a jornada para a terra do silêncio!”

* * *

Há esperança para nós? Se o amor vencer, se deixarmos o amor falar…

O TEMPO, O HOMEM, E O SILÊNCIO…

Os maiores limites do corpo são o tempo e a posse da coragem, e o maior desafio da alma é convencer o “eu” humano que se pode vencer tais obstáculos. O primeiro, através da inspiração que protagoniza a esperança de haver um sentido maior para a existência e o mundo; o segundo, através da fé que robustece a força sediada na mente. Desses alimentos vivem: a pessoa que respira, a arte que supera e a própria razão das coisas que realizamos contra os absurdos.

Nos dias desse ringue temporal nossa luta é nas cordas, acuados. Pugilista de golpes baixos, adversário que avança célere contra o corpo, o rosto e o espírito mundano que nos move pela vida afora, o tempo – que tem contrato assinado com a certeza- só respeita mesmo a sabedoria, ainda que sempre tentando dar uma de esquecidinho em relação a ela…

Nem o gongo intercede, acalma seu desatino. Cercados por todos os lados, marcados, surrados, a luta é inglória e o que ressoa é destino. Aliás, quando acaba a contagem é-nos tarde, um não mais levantar, um repique de sino e aviso: aqui jaz.

Mas a história da humanidade é a história da superação diária da melancolia, a luta para seguir adiante contra a saudade antecipada, a certeza do fim. O maior edifício humano é o horizonte invisível aos olhos que nós sempre divisamos por alcançar, essa estrada que nunca acaba. Aqui, perder-se da fé é esmorecer na coragem, desistir da esperança. Nosso melhor ponto de chegada é prosseguir…

Não há erro em afirmar o tempo como concessão da eternidade, pois absolutamente certo é que nada sai do nada!

Resta entender o quê ou quem existiu e existe desde sempre, essa presença que se dispõe à intuição agora, essa cabal negação do vácuo, essa indizível certeza que se impõe. É inteligente? É consciente?

Há consistências matemáticas aqui e alhures no universo, isso agora também se sabe. Mas números, embora efetivos, são só acúmulos, linguagem ainda sem sentimentos, representações simbólicas de um processo infinito, um firme sinal de inteligência.

Contudo, o que é eterno se fez esperança para o pensamento que pressente, e sentido para a experiência que se constrói. E, essencialmente, se fez afetivo motivo de um mundo sensível que reconhece transcendências para além da física de seus tijolos constitutivos.

Sem dúvida que o princípio de tudo possui uma faculdade lógica de ímpar natureza, verdade insuperável e única. A razão volitiva em si, a inteligência em si, o ato de vontade em si.

Ora, primordialmente não pode haver matemática, energia ou matéria organizada, nenhuma realidade que se evidencie racional, que se preste à percepção inteligente, ao cálculo e a toda fórmula sem que, necessariamente, tenha partido de uma decisão consciente, sem que indique deliberação e vontade causal.

É bem simples: essas coisas, em sendo contingências temporais, são carentes de explicação que lhes seja anterior.

Porém, a despeito dos números que encerram, as leis naturais, as equações, os efeitos aparentes, a ordem e as regularidades da natureza não são meras acumulações, não são cúmulos de acasos. Antes demandam intenção e trabalho volitivo, nascem de causas motivadas.

São realidades que exigem, para virem a existir, um poder deliberado e um querer fazer, ou seja: uma força inteligente e criadora anterior. Portanto, nascem dalguma precedência autônoma. Como? Quem? O Ser Necessário, O Ser em Si. Esse Ser a quem chamamos de “Silêncio”…

Sim, o outro nome de Deus é Silêncio! Não por ausência, mas por infinita sabedoria, pois somente fala com o silêncio quem aprende a mover-se sem o peso dos rancores e procura a paz. Porém, se os sinais do Criador são silenciosos, também são eloquentes: há mais comunicados em uma pétala de flor que palavras em um dicionário… E a atividade a que chamamos de ciência não tem vida própria, ela é uma ferramenta para o conhecimento a serviço da razão. Inclusive, hoje podemos -como nunca na história- juntar filosofia, ciência e religião para atestar essa verdade. Mas…

…Estive tão ocupado com minha própria pequenez, que nem vi o tempo passar. Hoje estou enorme, do tamanho de minhas ausências. Clamo por Deus, acordo na noite, revivo cada dor e me cobro. O tempo não volta; mas eu retorno – sem falta – a mim. Volto como sentença: tudo passa, menos viver esse inexorável destino. Se não aprender o perdão, estarei morto. Pra sempre!Esta palavra é do tamanho do mistério… E tão decisiva quanto o verbo existir, que também tento aprender!

Deus é bom? Ser tirado do nada e trazido à vida é bom ou ruim? Ter consciência, poder pensar, refletir geral é bom ou ruim? Ter uma inteligência poderosa, poder compreender as coisas, ter sensibilidade, é bom ou ruim? Poder amar, ter sentimentos, ter esperança, é bom ou ruim? Cada um que diga, que fale por si. Mas uma coisa é certa: só podemos tudo isso porque um dia fomos tirados de nosso nada existencial e apresentados à luz da existência revelada, esse milagre dos milagres.

DUAS GARRAFAS DE TINTO, AS LEMBRANÇAS, A EMBRIAGUEZ E A MÚSICA! TANTA MÚSICA…

A emoção contida numa garrafa de vinho, transborda. O que cabe ao coração, a não ser beber essa taça de novidades? O rumorejar das coisas, os assuntos do mundo, os apelos dos corpos, o chacoalhar das almas, a incontinência das paixões, tudo tudo por um brinde e um triz na noite acompanhada desse fermento dos céus. Aceita? Acompanha-me?

Companheira que não te abandona, a música é alegria até quando triste. Eterna amiga, vida que resiste ao tempo; repleta e plena, dele não se desliga e a ele volta conosco, contagia. Revive… Fica… Basta um click…

No instante música, a alma é maior e o corpo não se dobra pelo metal tão vil. Outros são os metais pelos quais o corpo balança, noutro lugar está o querer dos pés, rosto, mãos, torso: na leveza do ar, no outro lado da gravidade. Subindo junto, todo ouvidos, sensação de voo, alegria dos sentidos. Maravilha! Quer dançar comigo?, nem pergunta o ritmo. Apenas inicia e todos num zás-trás já o estão seguindo. Tudo se propaga, evolui melodia!; e cadência… Percussão, cordas, harmonia. Mil instrumentos, um único momento: magia!, pura magia…

Tendo uma alma livre, me fiz cativo de uma dama: a música, minha ama. Exerço o ofício de ir apanhar de cada galo e sol o amanhecer, o tom da aurora: canto, chama. Sou dessas palavras-tramas, dessas letras exercidas. Ou segredadas de entrelinhas… Dizer, entretecer, costurar.Tecer. Sou como Sherazade se adiando, sou conto, sou narrativas. Sou essas mil… E uma mais. A música não acaba. Jamais!

Uma música pra cantar de tarde, música pra cantar quando for tarde, algo que salve a sensação. Se não salvar, que acalme, suavize a razão. Uma canção que abrande, que entorpeça a certeza, que torne o tempo sereno, que traga a distância pra perto. Música que fale direto à tristeza mas cante fazendo da saudade e da vida vivida um caderno de anotações. Desses que se podem sacar e ver o número, o endereço. Desses que nos protegem do esquecimento, e cabem ir conosco. Uma canção pra cantar de tarde, querendo ficar. Uma que toque a sensação. Com tudo anotado, guardado. Uma canção de alívio, que aplaque a desrazão.

Não, a canção jamais se esgota. Ela é como o destino do sonho, como a nobreza da águia, como um rio para o mar. Ouça-a para sempre, alegre-se. Agradeça, rejubile-se, viva-a. A canção é divina, é sua asa. Nosso mais sensível olhar, um sentido a nos ecoar epifanias, o êxtase de Deus: cantar! Sim, a canção jamais se esgota! Traz a eternidade, nos faz felizes. Sinta-a, se embeveça, olhe o céu. Seja como um rio para o mar!

Dança comigo, garota, dança a dança desse convite que te faço. Dá-me tua mão, acompanha-me ao salão, vamos ficar juntinhos. Vamos dançar juntinhos essa linda canção, vamos colar nossos corpos, vamos cingir nossas almas, vamos nos abandonar um no outro. Vamos deixar somente a música entre nós dois, mais nada além dela. Dança comigo, querida, dança essa dança da promessa, essa dança da celebração que é só nossa, co’a música pela qual seremos lembrados. A dança nos une, a noite nos une, a atmosfera nos une, tudo nos une, somos o amor. Dança comigo, dança, linda minha! Dancemos juntos e sigamos. Somos a canção, somos o amor.

Tem horas que dá vontade de simplesmente abrir os braços, esperar a corrente de ar chegar, pular dentro, embarcar e aventurar-se no mais maravilhoso passeio e experiência de ir-se elevando juntos. Não como fuga do mundo, mas como partícipes vivos nas melhores notas e acordes das mais lindas canções. Ah se pudéssemos tomar parte apenas da arte, viver somente daquilo que vale a pena! Intensos, felizes, livres. Imortais!

Para sentir a vida, ir fundo, é preciso mais que se estar vivo, viva. Um bom exemplo é o ouvido para o ritmo, como o corpo é percorrido. A vontade logo de dançar, a espontânea alegria. A experiência da música é definitiva. Amém.

A sentimental modinha e o sensual lundu. Na primeira os salões da corte, o refino da ópera (ela já mais singela), essas influências. No segundo o batuque africano, o ritmo profano. O erudito e o popular, lado a lado numa época. A origem aristocrática e a plebeia poética um dia deram-se as mãos; na música! A música, sempre ela, abrindo portas, enxergando janelas. Mostrando ao mundo que a humanidade é única, basta querer valsar, ou sambar, juntos!

Gosto de música clássica, gosto dos instrumentos, desse acordo com o vento sobre se reinventar e voar. Gosto da poesia na música, dessa acústica feito letra, dessa união feito asa, palavra, texto para sonhar (e dançar)… Gosto que gosto de escutar: canções onde em tudo me transmudo, melodias onde em tudo estou. Eu vou, em transe me mudo (tão ouvido e estação de ir que sou…)! Sim, ó música, sou ritmo da vida se te escuto, sou até o que nem posso, se me mergulho em teus compassos. Que te ouvindo eu me faço tão invento quanto és! E insólito me “janelo” quando aporto; e te anelo, e me revelo, e me transporto para a dimensão de um crepúsculo sem ocaso numa viagem por sentidos e sentimentos meus; perto do sol, mas longe de Ícaro derretido… Eterna aurora!

Estou vivo e ouço imagens. Pela amizade à musica se desenham os horizontes de cada um, e seus refúgios, abrigos. Tudo ao alcance dos ouvidos, e dos espíritos. Então os mundos, então os destinos. Pela identidade na música se delineiam sentidos e significados. E os motivos. E os sábados, e os domingos, e os dias. Ad infinitum…

Quem canta sorrindo, voa. É incrível! Empina a alma leve tal uma pipa, e solta a voz qual o vento. E faz firulas no ar e esquece, assim como quem nunca desce da árvore de quando menino. E aquelas nossas festas na na casa do Bolinha, parece até que foi ontem! E no entanto já faz tanto tempo…

Glorinhas do céu, o que foi feito de nós? O que houve com nossos heróis? Estamos tão sós… Restamos tão sem horizontes, tão assim vivendo ao leo! Tão sem beijos roubados nos fundos dos quintais, tão sem causar ciúmes,tão sem quê, tão sem mais,sem contentamentos… Eu não entendo! Alguém aí me responde onde está havendo uma festa? Alguma Lulu como aquelas, alguém como tu, alguém como nós, onde estão todos? No umbral do tempo, nessa escola fugidia onde tudo é certo e nada é normal, o muro do Sacré Coeur ainda está de pé? Nunca mais vi igual… “Será que algum dia”, ainda?

Aquilo que o tempo não cura, a música ajuda, faz suportar. Onde a saudade constrói morada, e tortura, e insiste em voltar, a música ameniza, sabe aplacar. E na demorada agonia de uma noite insone e de amargura, socorre-o no leito acordado e no aperto no peito, pra você não chorar. Sim, a música é capaz disso, a música pode abarcar os sentidos e envolver os motivos em outro abraço, até devolver o sorriso ao rosto triste e ao olhar perdido. Remove o longe pra perto e espanta todo deserto que quer se instalar. E, na mente baldia, nas horas agudas de tédio e melancolia, vem se aninhar.

Mas quando não se faz providencial a distância entre o ontem e a dor sofrida, a música se achega abrandando, soluçando junto, batendo junto ao peito no compasso da aflição, até dar guarida e doer menos o coração. E se ainda assim não se aquieta a angústia que o acompanha na solidão, se ainda assim a ausência sentida vem com a noite que não silencia, e retorna, e corrói latejante, e fica, e reclama a cama vazia, canta o próprio lamento, a música.

E, de tão única que é, socorre-o na lágrima e acalma-lhe o ser e não o abandona. E acalenta e enxuga esta lágrima que rola na alma de sua face, vinda do coração. E faz-se qual um hino para injetar vontade de, e coragem. E canta com força uma ode ao amanhecer, e se impõe como súplica ao momento, ao enlevo de uma canção de ensinar o novo, e ninar! Durma agora, pode dormir, tudo passa. Pronto, amigo, acorde, levante-se, volte a cantar, volte a sonhar.

Estou de mudança, vou morar na música. E vou pra ficar lá, no lugar onde apenas meu corpo precisa ocupar o vento. Às ondas, vou encarregar de deslizar seus sons na pele de minh’alma definitiva. E viajarei; e irei qual melodia: harmônico, sinfônico, feliz. E vou antenar meus pés e ouvidos no mesmo ritmo e verdade. E depois vou esquecer quem fui, o que fiz, ou não fiz. Inteiro ali, saciado e longe, não mais serei ansiedade. Serei apenas o que ouço, serei apenas o que vibro.

Tem razão a canção! Ansiamos as estrelas, vertigem de distância e cosmos. Mas a canção de realidade e sonho nos diz: “Porque se chamava moço, também se chamava estrada”. E o tempo passa (“nem se lembra se olhou pra trás”). E nossa alma sai por cada poro, escapa, transpira, transporta-se para o ar. “Viagem de ventania”. E nosso corpo fica, vai ficando. E o tempo passa. A pequena cidade amanhece ainda junto às gotículas d’água, que o sol nascente logo dissipa com frescor. E o comércio sorri e abre as portas, e a simplicidade dá bom dia. Mas somos transeuntes e transigimos com a estrada, e partimos. E ganhamos o mundo. E o tempo dispara, e a alma evapora, e o frescor vai embora, e o corpo fica.

Ansiamos as estrelas, mas nos perdemos do bom dia, do sorriso, do vizinho. E já não nos chamamos moços, mas permanecemos alma. E a saudade fica, fica, fica. Não passa! O humano é muito sonho, sonho de estrada e sol. E o céu é uma cidadezinha esquecida em meio ao mundo, porém eterna em nossas vontades de eternamente nos chamarmos moços. E de eternamente nos chamarmos sonho. Poesia, música e sonho realmente não envelhecem.

As uvas murcham, a videira passa, mas o vinho fica. Até quando a garrafa esvazia, o vinho persiste como motivo, como encanto ainda… Até se a adega está perdida, o vinho resta como o sabor que celebrou o encontro, que inaugurou o amor. A vida passa, mas o vinho fica, permanece. Como o milagre de um dia…

A vida não é um carnaval, mas bem que poderia ser. Uma noite, um baile, a embriaguez, nossa paixão no salão e nada mais. Bem que poderia ser só essa fantasia, a vida, essa alegria de sermos sempre eu e você. Eu e você sem ver outro dia pra dar adeus nem ais. Bem que poderia ser só assim a vida: a música, o amor, e nada mais pra doer. Nada mais!

O PT, A”PRESIDENTA”, O LULA E O MARXISMO CULTURAL

Hoje vivemos sob o império do relativo, sob a égide do provisório, esse escudo que engana, que ilude. Dizem que são as palavras que vencem a guerra, a despeito inclusive do sangue derramado, das efetividades de uma batalha, dos conflitos que são só momentos, páginas marcadas de um calendário. Ou seja, mesmo enquanto soma de atrozes e decisivos combates, a guerra passa, os momentos passam, mas as palavras ficam, persistem guerreando.

Pelas palavras se constroem, se precipitam e se determinam as atitudes e os fatos. E se a costura dos fatos faz a história, e se a história segue seu curso e esse curso é a verdade do mundo, e se há mesmo uma verdade, e se a verdade é uma só, se a verdade é única, então um dia as palavras e os fatos serão um só momento, uma só história, o encontro de um destino que se cumpriu.

Por que digo isso? Digo porque a guerra está viva, ainda, a guerra de palavras, as versões contra os fatos, fatos que devem o que são ao curso da história, história que continua sendo contada, sendo construída, pois não está consumada. Como fazer as palavras serem dignas de crédito? Associando-as aos fatos, fazendo-as espelhar a verdade.

Nossa atualidade fervilha de estigmatizadores da história, de “guerras de narrativas” no dizer da esquerda, pois não faltam os inconformados com o passado. O marxismo cultural, por exemplo, é uma estratégia de dominação marxista não ortodoxa que busca se infiltrar em todos os espaços de influência de nossa sociedade e assim desconstruir nossos valores milenares. Obviamente que o PT se aproveitou dessa tática para inculcar em nossos jovens “a necessidade de mudar tudo que está aí”.

Muitos lulistas estrebucham quando se fala dessa verdadeiro ardil de guerra que é o marxismo cultural, negando mesmo a existência de um tal expediente. Talvez porque gostariam de fazer tudo, no âmbito da esquerda, parecer a “ordem evolutiva natural das coisas”. Mas não é, e a disseminação do “politicamente correto” se deu a partir de objetivos ideológicos planejados, movimentos direcionados enquanto doutrinação revolucionária voltada principalmente para os mais vulneráveis emocionalmente e os mais jovens. Um “Cavalo de Troia” minuciosamente arquitetado para infiltrar-se socialmente até sedimentar no inconsciente coletivo.

O que têm em comum as ideias de Antonio Gramsci, a Escola de Frankfurt com sua Teoria Crítica e a reengenharia linguística dos idiomas ocidentais, com a atual proliferação do pensamento esquerdista em nossa sociedade? Ora, há tudo em comum! Em não ocorrendo internacionalmente a revolução nos moldes do marxismo ortodoxo com suas etapas -luta de classes, ditadura do proletariado, superação do capitalismo e finalmente uma sociedade sem classes e igualitária-, que então ela ocorra pela desconstrução cultural dos valores ocidentais.

Qual a face mais visível dessa revolução “invisível” e não ortodoxa? O politicamente correto; o desconstrucionismo linguístico (história vista como discurso, como narrativa social e gênero literário, releitura do sentido das palavras); a doutrinação marxista nas escolas e universidades com instrumentalização (aparelhamento) da educação pública para fins políticos; a reinterpretação e ressignificação da história; o sócio-construtivismo com sua pedagogia do oprimido; o relativismo cultural (nenhum valor cultural/religioso é superior ao outro); os ataques à família tradicional e a ideologia de gênero.

Quem, a partir dos primeiros anos da década de 80 do século passado em diante, manteve algum contato acadêmico com os setores de humanas, letras e artes das universidades públicas brasileiras, ou com seus cursos de linguística aplicada ao ensino de línguas, pôde verificar a significativa mudança de ênfase em muitos dos conteúdos de seus bacharelados e, especialmente, de suas licenciaturas.

Que o digam as severas críticas feitas ao ensino gramatical normativo , com implicante desmerecimento das gramáticas tradicionais por sua “norma culta seletiva e excludente”. Também na valorização das sociolinguísticas e dos estudos tantas vezes propositalmente enviesados das variedades nos usos da linguagem, variedades essas delimitadas pelos grupos sociais (leia-se: lugar social, luta de classes, classe dominante) dos falantes.

Assim foi que a análise sintática virou a “prima pobre” e a disciplina “análise do discurso” virou febre. Nessas aulas eram comuns os escrutínios de determinados textos escritos, escolhidos a dedo, ou de certas canções do cancioneiro popular, tudo com o intuito de “demonstrar e deixar patente os preconceitos de gênero, o machismo, a dominação de classe, ali embutidos”. O viés foi de tal ordem, que sobrou até para as desinências nominais, essas que indicam as flexões de gênero (masculino e feminino) em nosso idioma. Não à toa, a ex-Presidente Dilma fez questão de ser chamada de Presidenta!

Essas mudanças de paradigmas curriculares aconteceram igualmente nas áreas de filosofia, pedagogia e afins, onde os estudos dos filósofos e intelectuais marxistas passaram a ser mais acentuados do que os estudos clássicos ou o tomismo/escolástica aristotélica de São Tomás de Aquino. Ressalte-se ainda, perante as bibliotecas universitárias, as formações de lobbies e de grupos de pressão com vistas ao aumento dos acervos, e mesmo para a criação de bancos de dados específicos, de autores como: György Lukács, Antonio Gramsci, Max Horkheimer, Alexei Leontiev, Lev Vygotsky, Wilhelm Reich, Paulo Freire, etc.

O PT foi fundado em fevereiro de 1980 e já nasceu como o filho latino-americano predileto de uma nova visão do marxismo, uma autêntica cria dessa nova forma de fazer a revolução. Exatamente esse partido um dia encarnou e traduziu, como poucos dentre a esquerda mundial, o conceito de “poder onipresente e invisível de um imperativo categórico”, e Lula, seu líder máximo, o papel por excelência do intelectual orgânico gramscista (não precisava ser detentor de diploma acadêmico, apenas ter identidade perfeita com um determinado ambiente ou grupo social ).

Revisionismo socialista estratégico, com sua contra-hegemonia cultural a ser conquistada pela classe trabalhadora que “deveria desenvolver instituições e cultura próprias, disseminando-as para torná-las hegemônicas e tentando sitiar o estado burguês, isso antes mesmo de tomar o poder governamental” (apud Armando Avena).

Deixemos então o próprio PT falar sobre “O Socialismo que queremos construir”: “A democracia será a referência estratégica para a construção do nosso modelo de socialismo. Uma democracia alicerçada na participação organizada das massas e que seja capaz de articular representação com participação direta. A pluralidade também deve ser um referencial da ação petista para a construção do socialismo” ( vide: “Resoluções do Terceiro Congresso do Partido dos Trabalhadores”). Sabemos agora que dentre a “pluralidade”, inseriam-se os ladrões de cofres públicos, os corruptos em geral, os ditadores sanguinários e até terroristas do Estado Islâmico (com quem Dilma queria dialogar).

Mas enquanto fomentava o Foro de São Paulo lá fora, maliciosamente o PT aqui no Brasil tentava disfarçar suas reais intenções socialistas num contexto mais amplo de sua assunção ao poder. Em que pese as ameaças de censura (de forma indireta, porém controle, porém censura sim!) aos meios de comunicação; em que pese as várias tentativas de relativizar o direito à propriedade privada; vide, por exemplo, o PNDH-3 que trazia coisas do tipo: “um dono de imóvel não poderá pedir reintegração de posse, caso ele seja invadido por algum sem terra ou sem teto. O proprietário terá que enfrentar uma audiência pública, da qual participarão os movimentos sociais para analisar os “direitos humanos” envolvidos, ficando o juiz sujeito à decisão dessa audiência.”

E ainda não esqueçamos que a ex-presidente Dilma tentou praticamente tutelar e esvaziar, por decreto, os poderes do Congresso Nacional e extinguir a nossa democracia indireta, representativa. Foi aquele de número 8.243, de 23 de maio de 2014 que criava uma tal “Política Nacional de Participação Social” e um certo “Sistema Nacional de Participação Social”, onde os membros dos “movimentos sociais”, bem como os próprios “movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”, “o cidadão” e “os coletivos” poderiam, caso a coisa vingasse, exercer poderes legislativos, e até executivos, à revelia dos nossos representantes democraticamente eleitos: “todos os órgãos da administração pública direta ou indireta contarão, em seus conselhos, com representantes da sociedade civil”; idem “todos os órgãos da gestão pública, incluindo as agências reguladoras.”

E aí? Ficaríamos ou não reféns dos coletivos ao molde do que já aconteceu na extinta União Soviética e acontece agora na Venezuela? Ficaríamos ou não nas mãos dos movimentos sociais controlados pelo PT? Acrescente-se a tudo isso, a enormidade de dinheiro desviado dos cofres públicos, o largo aparelhamento do Estado Brasileiro, a associação do PT com os piores facínoras do mundo, os apoios políticos e financeiros (com dinheiro nosso, do BNDES, EBCT, PETROBRAS e outras estatais) para “eleger” ditadores latino-americanos e caribenhos e as estranhas alianças mantidas pelo Foro de São Paulo. Lembremo-nos de certos assentamentos do MST que mais parecem campos avançados para treinamento de guerrilha, inclusive com direito a manterem cursos escancaradamente voltados para a doutrinação marxista.

Na cabeça de muitos, o destino imutável da humanidade é viver mesmo numa sociedade igualitária, socialista. Se for igualitária junto com certos tipos que “ilustram” o petismo et caterva, estamos pra lá de condenados ao inferno! Mas por que insisto nisso? Insisto porque a guerra está viva, ainda, a guerra de palavras, a guerra de ações tentadas, a guerra das versões contra os fatos. Fatos que devem o que são ao curso da história, história que continua sendo contada, sendo construída pois não está consumada.

Há alguma escatologia para a história? Tanto o materialismo marxista, quanto as visões religiosas acreditam que sim. Por isso, enquanto houver mundo, haverá história… Como fazer então as palavras serem dignas de crédito? Associando-as aos fatos, fazendo-as espelhar a verdade. Ao menos à verdade do mundo. E essa verdade é que, comprovadamente, as ideologias revolucionárias não desistem nunca.

A ASSUSTADORA “TOLERÂNCIA” DOS INTOLERANTES!

Nesses tempos pós-impeachment, dez em cada dez blogueiros da artilharia petista fazem questão de deixar patente suas aversões à classe média nos textos que escrevem. Agora entre eles virou lugar-comum tecer considerações irônicas como: “Dizem que o sonho de toda classe média brasileira é ser parte da Europa. Mas há ao menos uma exceção: a Holanda. A Holanda é o pesadelo da classe média brasileira e da família de bem”. Do mesmo modo, postagens cheias de ódios e preconceitos explícitos tornaram-se corriqueiras, e de tudo fazem para tentar amesquinhar moral e politicamente essa parcela de nossa população: “A nossa classe média não tem mais receio de confessar publicamente que não gosta de pobre, preto, nordestino, índio. Por extensão, nem de petistas, comunistas, bolivarianos etc. Tudo ladrão. Todos merecem morrer”, disse alguém lulista em uma rede social.

Bonecos de ventríloquo do Lula, papagaios da Marilena Chauí, poderíamos chamá-los assim…

Na verdade execram a própria condição social em que vivem e se lambuzam. Interessante é que no auge de sua popularidade o ex-presidente Lula, segundo os institutos de pesquisas, alcançou mais de 80% de aprovação, por óbvio contando largamente com o apoio da classe média: “O presidente Lula encerrará seu mandato na Presidência da República no auge de sua popularidade. Após sete anos e 11 meses de governo, 83% dos brasileiros adultos avaliam sua gestão como ótima ou boa – com isso, repete a marca de outubro, a mais alta já alcançada por um presidente na série histórica do Datafolha. A fatia dos que veem seu governo como regular é de 13%, enquanto 4% consideram-no ruim ou péssimo.”

Como a realidade sempre se impõe e não podia ser diferente com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, seus índices de aprovação desmoronaram após os dados nus e crus de sua herança político-econômica se manifestarem em toda sua desastrosa concretude e os fatos corruptos-administrativos de seu governo, e do governo de sua pupila, apurados pela operação Lava Jato virem à tona. Aí não houve mais marqueteiro que pudesse dar jeito e o mundo de fantasia petista foi desmascarado, culminando no impeachment da presidente. Impeachment levado a cabo pelo Senado, todos sabem, porque os números efetivos das nossas contas públicas estavam completamente incompatíveis com as mentiras fiscais do governo Dilma Rousseff, que mais que “pedalou”, mentiu desavergonhadamente aos brasileiros para ganhar uma eleição na base da enganação e da fraude.

Acompanhando de perto os articulistas ligados ao PT e às esquerdas em geral, são comuns também encontrarmos neles avaliações “conjunturais”, tipo essa “pérola” que li outro dia: “crise de identidade no Brasil é doença crônica, precisa de um estudo epidemiológico para entender esse fenômeno. Efeito da educação escravagista que viralizou entre os próprios empregados. Com o baixo investimento em pesquisa dificilmente se encontrará a cura. O vírus do fascismo e do coronelismo feudal mata mais que o câncer. Só por um milagre mesmo!”

Estão enfurecidos e não se conformam, por exemplo, com o fato da reforma trabalhista apresentada pelo governo Temer ter sido aprovada sem maiores contestações a partir das ruas; daí enxergarem essa tal “crise de identidade no Brasil”. Agem como se obrigatoriamente os trabalhadores tivessem que se identificar com a mesma ideologia socialista que professam.

O danado é que a camisa de força onde querem meter a classe trabalhadora teima em não funcionar como desejariam que acontecesse. Desde Carl Marx que é assim, aliás, pois não há na história um único manifesto, desse tipo “convocatório”, que tenha logrado resultar em algo como uma revolução generalizada de trabalhadores contra patrões. Isso apesar das muitas tentativas panfletárias e dos muitos gritos de ordem saídos das bocas militantes dos socialistas. Porém, historicamente, com a insuficiência prática da luta de classes instigada de forma maniqueísta pelo marxismo e com o crescimento das classes médias na esteira do capitalismo, muitos filósofos e pensadores marxistas passaram a discutir novas formas mais dissimuladas e estrategicamente disfarçadas para insuflar socialmente uns contra os outros, visando a promoção de suas verdadeiras taras intelectuais. A esse incremento ideológico dá-se de forma geral o nome de “marxismo cultural”, a origem filosófica do “politicamente correto”.

Politicamente, a camuflagem e o mimetismo são tão “naturalmente” usados como um camaleão transformista ou certas cobras que apresentam coloração semelhante à do meio ambiente para ficarem menos visíveis e assim aumentarem suas capacidades de iludir e capturar suas presas. Astúcia que serve de arma aos sedutores ideológicos, tão “mutantes” quanto venenosos. Foi assim que surgiu a “Carta ao povo brasileiro” arquitetada na campanha de Lula no ano de 2002 para acalmar o mercado financeiro; foi assim que o Foro de São Paulo disfarçou-se por muito tempo como sendo apenas uma frente política de esquerda não comunista, enquanto tramava o bolivarianismo socialista para toda a América Latina e Caribe.

Cortina de fumaça lançada, usaram e abusaram do “nós contra eles”, das artimanhas do “politicamente correto”, das falsas estatísticas, da ideologização estudantil, das estratégias de propaganda e marketing político ao estilo “guerra fria”, das formações de milícias e preparações de grupos paramilitares e, muito especialmente, da ocupação tática do Estado e da corrupção político-administrativa como método de governar e assaltar desenfreadamente os cofres públicos – intentando acumular fundos para a conquista permanente e em escala continental do poder.

Em exame interno, muitos petistas hoje lamentam não terem conseguido convocar uma Assembléia Constituinte como na Venezuela, não haverem imposto ao País o “controle social da mídia” e feito passar no Congresso uma lei dos meios de comunicação, para com isso desestruturarem economicamente o jornalismo profissional. Não que não tenham tentado, pois foram várias as investidas nesse sentido. Inclusive quiseram exercer controle até sobre os conteúdos das produções audiovisuais nacionais e supervisionar, como verdadeiros censores, o exercício da profissão de jornalista, como muito bem nos lembrou o “BLOG DO NOBLAT” em artigo recente. Não esqueçamos ainda das declarações do então ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que falava da “necessidade de se travar uma ‘disputa ideológica’ contra os evangélicos.” O desejo de Carvalho era ver um PT hegemônico, passando por cima de tudo que ousasse contrariar os objetivos político-filosóficos do partido.

Mas, a despeito das autocríticas para consumo interno, a guerra agora é aberta e está declarada. Já não fazem questão de tentar esconder suas intenções totalitárias e nem tampouco seus planos socialistas para o Brasil. Lula, José Dirceu e Gleisi Hoffmann que o digam, com seus discursos ameaçadores e seus ódios publicamente externados. E que o diga também o Diretório Nacional do PT, que aprovou uma resolução tornada igualmente pública em que o partido lamenta não haver modificado o currículo das academias militares e nem atuar para intervir na Polícia Federal e no Ministério Público.

E o dia a dia da militância nas redes sociais reforça sobremaneira o corpo a corpo do partido no interesse da volta escatológica do PT ao poder. Para tanto, não dão a mínima trégua na patrulha ideológica e na “construção do socialismo”. Seja atacando sistematicamente o juiz Sérgio Moro, seja justificando o ditador Maduro, seja idolatrando obstinadamente o Lula, esses militantes internéticos não param nunca.

Vejam, por exemplo, o absurdo de comentário de uma fanática do lulopetismo, apresentada no Facebook como “professora e psicóloga”, sobre as posições políticas do jovem conhecido como Fernando Holiday, que é um crítico bem ácido do Lula e das esquerdas socialistas, e é negro e assumidamente gay e atualmente é vereador na cidade de São Paulo pelo partido Democratas (DEM): “Este rapaz devia honrar a cor que ele tem e valorizar o Presidente LULA que implantou políticas públicas de inclusão do NEGRO brasileiro.”

Por mais despropositado que seja, segundo essa seguidora incondicional do ex-presidente, uma pessoa como Holiday teria mais é que ser absolutamente reverente e eternamente grato ao Lula. Ela, em sua adoração insana, estabeleceu que foi mesmo o seu ídolo de barro quem incluiu os negros no cenário nacional. Desse jeito, quer submetê-los todos à sua intolerância e sectarismo! É inacreditável, mas é assim mesmo que pensa a mente facciosa de muitos dos partidários da seita. Para essa gente doutrinada e doentia, um negro, um gay ou um alguém pertencente às chamadas minorias sociais não têm direito a opinião própria nem podem exercer qualquer ato de vontade ou de liberdade que contraste e contrarie a visão de mundo comuno-petista. É assustador, não é?

Enfim, eis aqui a síntese da lavagem cerebral que foi feita nessa gente (transcrito ipsis litteris de uma página do Facebook):

Pessoa 1) “No país aonde negros aplaudem feliciano (sic). Gays aplaudem bolsonaro (sic). Favelados aplaudem dória (sic). Pobres criticam ações sociais. Os moro (sic) da vida nem ficam com sentimento de culpa.”

Pessoa 2) “Essa (sic) foi um resumo mais contundente que li hoje. É a impotência a nos acometer diante desse caos de vergonha.”

Aí está o resultado de anos de doutrinação marxista. Essas pessoas acreditam de verdade possuírem uma “superioridade” moral e intelectual sobre aqueles que não se curvam aos seus caprichos ideológicos e passam a desdenhá-los como se estúpidos fossem! Tornaram-se incapazes de compreender e aceitar que simplesmente existem pessoas que pensam de forma diferente, que veem o mundo de outra maneira. Tamanho fanatismo as tornaram cegas e não percebem que a estupidez está é com elas, intolerantes e patrulhadoras das vontades e das liberdades alheias que são. Ao mesmo tempo que é assustador, não deixa de ser também humanamente constrangedor saber que ainda existe gente assim.

Existe mesmo alguém
como nós humanos?
Até o diabo duvida.
Santo Deus!

E que Deus nos proteja da “tolerância” dos intolerantes!

SHOW DE HORRORES!

O Estado Brasileiro é tão onipresente e onisciente, tão todo poderoso, que a quase condição de sobrevivência de quem nasce aqui é fazer parte da administração pública. Mal a criança começa a dar seus primeiros passos, a mãe sentencia: estude para fazer concurso! Então os cursinhos preparatórios se multiplicam e os jovens passam a morar em salas de aula e visitar suas casas. Para ter um emprego melhor remunerado é preciso sair das faculdades e ir direto para esses cursinhos, e “não me incomodem que estou hibernando para ser fiscal”. Então as estações do ano passam a ser contadas de edital em edital.

Logo muitos estarão acreditando que o mundo é somente esse resumo estatal, qual uma metáfora da caverna criada por Platão. Ao menos essas pessoas entram para o serviço público pela porta da frente, ingressam por seus méritos após muito estudarem. E hoje em dia são cada vez mais horas de estudos exigidas até a aprovação sonhada. Não raras vezes levam anos estudando. Mas a atividade econômica mais rentável é mesmo a criação de um partido político. Esse “ramo de atividade” irá garantir a sobrevivência de muita gente “esperta”, via fundo partidário e outras “oportunidades de negócios”…

Inclusive um tal de Lula estimou haver uns “300 picaretas” em nosso Congresso Nacional. E o que fez ele? Virou Presidente da República e foi às compras… Mas era pouco, muito pouco, ele queria mais, muito mais. Queria possuir o País inteiro para si! Ok, ele aceitava dividir o butim, o produto do roubo e da pilhagem com seu partido e seus amigos. Mas ainda não bastava, ele queria mais! Que tal a América Latina? Ok, “como bons socialistas vamos nos dedicar ao internacionalismo, não é Fidel? Vamos criar o Foro de São Paulo!”

A aparente apatia das ruas quanto à “questão Temer”, sobre seu afastamento ou não da Presidência da República, não condiz com o que se seguiu ao resultado da votação na Câmara dos Deputados em Brasília, ocorrendo nas mídias sociais, e sites e blogs na internet, uma verdadeira guerra de opiniões, pontos de vista e, pra não variar, demonstrações de intolerância generalizada. Das provocações dos petistas e seus entornos, passando por representantes parlamentares diversos, aos tidos por liberais ou conservadores, todos estiveram em polvorosa durante esses dias próximos passados em nosso País.

No Facebook, por exemplo, com direito a bandeirinha de Cuba estampada onde comumente se vê a foto do “dono da página”, um militante socialista postou a seguinte provocação: “Brasileiros surreais! Temer comprou o Congresso. Mas a preocupação do povo é com a Venezuela!” Ou então na página de um outro: “O mesmo Congresso que fingiu indignação com as pedaladas fiscais, aprova leis que enfraquecem o combate à corrupção”. E essa foi a tônica da semana.

Não faltaram, obviamente, as afetações “indignadas” com a “burguesia que não saiu às ruas para protestar contra a corrupção nem bateu panelas nas varandas gourmet dos seus apartamentos”. Manifestações de revolta e cólera bem seletivas e convenientes para quem, reiterada e sistematicamente, transforma seus partidários corruptos, julgados e condenados por nossa Justiça, em “perseguidos políticos” e “heróis do povo brasileiro”…

Tudo dentro do script , “logicamente” que aproveitaram-se da situação toda para voltarem a afirmar e reafirmar com histeria que houve mesmo um “golpe parlamentar contra a presidenta (sic) Dilma Rousseff”. Claro, claro, era de se esperar, pois “faz parte do meu show”…

Nos bastidores o que se diz é que o resultado da votação interessou, e muito, ao Lula e ao PT e às suas franjas e adjacências ideológicas. Calculam que assim poderão, nas próximas eleições, “matar dois coelhos com uma só cajadada”, ou seja: explorar e apostar no desgaste que as reformas trabalhista e previdenciária trarão à opinião pública e, aproveitando-se eles também dessas reformas no futuro, caso consigam voltar à Presidência, encontrarem as finanças públicas um pouco menos comprometidas e não precisarem encarar a realização dessas mesmas medidas saneadoras -sem dúvida um tema difícil-, porém medidas mais que necessárias, imprescindíveis para nossa economia. Vejam essa notícia veiculada pelo Portal G1, em 07/01/2016, e tirem suas próprias conclusões: “A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira (7) , em um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, que o País vai ter que ‘encarar’ uma reforma da Previdência Social. Disse que, atualmente, os brasileiros estão envelhecendo mais e, por isso, ‘não é possível’ que a idade média de aposentadoria no país seja de 55 anos”.

Se há uma coisa que os movimentos sindicais de esquerda gostam de fazer são as ditas “análises de conjunturas”, as “mexidas nas peças do xadrez político de acordo com os cenários tais ou quais”… Daí então essa hipocrisia, essa desfaçatez da revolta sacada da algibeira petista contra “as perdas de direitos dos trabalhadores”. Algo que soa como um gongo vindo bem a calhar; afinal salvam-se as aparências…

Ao militante que postou nas redes sociais “Brasileiros surreais! Temer comprou o Congresso. Mas a preocupação do povo é com a Venezuela!” , digo que: cinismo pouco é bobagem para pessoas como você, tão coniventes com um ditador sanguinário como Nicolás Maduro. Certamente é algum discípulo da filósofa petista Marilena Chauí e, como ela, “odeia a classe média”. Militância que não hesitou em dizer-se, por ocasião do processo de impeachment, disposta a “ir para a rua entrincheirada com armas na mão se derrubarem a presidenta (sic) Dilma”.

Várias foram as ameaças de ruptura com o estado democrático de direito vigente. Nunca esqueçamos do caso, gravíssimo!, do professor universitário e sindicalista Mauro Iasi, cuja vontade “poetizada” (ao parafrasear o dramaturgo marxista Bertolt Brecht) é conduzir para a morte os liberais e conservadores brasileiros oferecendo-lhes: “um bom paredão, uma boa espingarda, uma boa bala, uma boa pá e uma boa cova”.

E Lula, o padrinho do chavismo venezuelano? Este desejou ver o “exército do Stédile (MST)” avançando contra nossas instituições democráticas! E agora o Sr Maduro, desmascarando-se de vez enquanto tirano que é, passa por cima do parlamento do seu país e reedita ali, na prática, uma assembleia constituinte que é mais uma espécie de sovietes, aqueles conselhos populares deliberativos à moda do comunismo soviético. Tudo sob as bençãos, os louvores e aplausos entusiasmados dos grã-petistas Gleisi Hoffmann e José Dirceu.

Semana passada li num blog hospedado(é isso?) no portal “Estadão Jornal Digital” uma entrevista com o escritor e jornalista Fernando Morais; lá se pode encontrar a seguinte “pérola”, a partir de uma demonstração de espanto do próprio entrevistador:

“A conversa aconteceu em dois tempos. Decidi reencontrar o Fernando (Morais) em um segundo momento para aprofundar algumas coisas que falamos no nosso primeiro encontro, e que haviam me intrigado. Particularmente quando lhe perguntei se não achava o Stalin meio over. No meio de sua longa resposta, ele comentou, “Qual a solução? Precisa fuzilar muita gente pra poder alcançar a utopia? Não sei. Depende, tem lugar que precisou”.

Mas muitos opositores do petismo, com toda razão, ficaram também furiosos com os deputados que votaram favoravelmente ao não afastamento do Presidente Michel Temer, afinal ele é um corrupto pego em flagrante em uma cínica e criminosa conversa em pleno Palácio do Jaburu com o dono da JBS. E agora?

A Venezuela do Sr Maduro vive hoje sob um regime autoritário-bolivariano, uma plena ditadura, isso é fato. O Lula tem grande e direta responsabilidade sobre essa situação de fome e privações dos nossos vizinhos, isso também é fato. A organização política denominada Foro de São Paulo; que reuniu por ocasião de sua criação centenas de partidos marxistas, além de instituições como as Farc e o MIR chileno, foi uma idealização do Lula e do Fidel Castro com o objetivo estratégico de elegerem o máximo de governos de esquerda entre nós e fomentarem a bolivarianização da América Latina, ou seja, o totalitarismo, o “socialismo do século XXI”.

O PMDB foi cúmplice do PT no mais ousado, grandioso e escandaloso assalto aos cofres públicos brasileiros, isso é fato; porém há aí uma inegável e essencial diferença: o PMDB não é um partido bolivariano, socialista e autoritário, o PT é. Isso alivia os crimes do PMDB? Não, mas o diferencia quanto aos fins:

“A Câmara aprovou na noite desta terça-feira a proposta que susta o decreto da presidente Dilma Rousseff que regulamenta os conselhos populares. Tendo em mãos a promessa da oposição de obstrução das votações da Câmara enquanto não fosse votada a matéria, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), convocou a sessão extraordinária para votá-la, contrariando o governo federal. Tentando evitar o pior, o governo obstruiu o processo de votação para tentar inviabilizar derrubada, mas não conseguiu.”

As cartas estão na mesa, 2018 será nosso Portão de Brandemburgo, nossa travessia rumo ao futuro ou nosso regresso para um “tête-à-tête” stalinista, para um flerte com um Walter Ulbricht ou um Nikita Khrushchev, bem ao gosto de certos saudosistas do muro de Berlim… Ou quiçá nosso retrocesso para um 1917 bolchevique, isso em pleno século XXI!

“Alô, alô, marciano, aqui quem fala é da Terra Brasilis, pra variar estamos em guerra, você não imagina a loucura, o querer tirânico tá na maior fissura porque … Tá cada vez mais querendo nos ver down, down, down!” E olhando pra trás, pra trás, pra trás…

BASTA DE POPULISMO

O estatismo, ou estadismo, autocrático e intervencionista da esquerda latino-americana precisa , para se garantir e enraizar culturalmente, do populismo personificado na figura dalgum “pai dos pobres”, ou dalgum déspota travestido de patrono dos sentimentos do povo, ou seja: só sobrevive por intermédio da venda de ilusões. Quando então isso fracassa social e economicamente, coisa que logo acontece, passa-se costumeiramente à ruptura democrática e à desmoralização institucional, com total menosprezo à ordem constitucional estabelecida

Sem mentir para o povo, não existe candidatura viável no âmbito dessa esquerda demagógica e populista. Isso é óbvio, pois somente através da venda de ilusões e das campanhas baseadas em “verdades” claudicantes é que políticos como Hugo Chaves, Nicolás Maduro, Daniel Ortega, Dilma Rousseff ou Lula conseguem prevalecer sobre a parcela seriamente preocupada com os destinos de seus países. Contam, por um lado, com a fração mais emocionalmente fragilizada da população, primeiras vítimas de seus discursos fáceis e de suas promessas impossíveis e, na outra face de suas moedas, confeccionadas com ouro de tolo e estampadas com cantos de sereias encantatórias, contam com a porção hipnotizada e mesmerizada de pessoas sistematicamente ideologizadas pelas cartilhas marxistas. De resto, contam ainda com os membros da “nomenklatura” partidária, com a entourage simpatizante e com todos os que juntos hão de se locupletar, ávidos das facilidades obtidas com o exercício do poder.

Essa histeria em torno do ex-presidente Lula tem todo esse componente populista-ideológico. Aí estão os nossos últimos quatorze anos a corroborarem o que digo… Lula fala a língua do povo; seus sectários, junto aos seus mantenedores intelectuais, falam a língua de Carl Marx, e está fechado o cerco contra a nação. E aquilo que não se consegue inculcar nas salas de aula, os marqueteiros tratam de completar nas campanhas eleitorais.

Uma candidatura dessas jamais vai falar em responsabilidade fiscal, crescimento da dívida pública, questão previdenciária, razoabilidade na arrecadação de tributos, essas prestações pecuniárias compulsórias, esses temas. Mas nem pensar!, pois tudo o que querem é construir discursos fáceis para problemas complexos e difíceis de equacionar sem sacrifícios gerais. Daí a principal mentira: apontar culpas onde está muitas vezes o caminho para a solução; esconder os verdadeiros culpados, acentuando e perpetuando os erros.

O populismo é um círculo vicioso: promessas vãs, gastança irresponsável, quebradeira generalizada e rápida, culpa jogada nos outros, mais promessas vãs… Sendo isso mais danoso ainda em um país como o nosso, tão viciado em conluios cartoriais pra lá de parasitários e em cínicos patrimonialismos . Não à toa a aliança eleitoral/associação para a ocupação predatória do Estado entre o PT e o PMDB deu no que deu: juntou-se aí a fome com a vontade de comer, e o resto é já agora tragédia viva e história nacional de perversão. Dando aqui os devidos créditos às honradas exceções individuais que existiram, notadamente que os demais partidos tiveram também suas culpas, à medida de suas capacidades de venderem as boquinhas de seus peixes aos anzóis cheios de iscas mensaleiras lançadas pelo petismo e etc. E bote etc nisso…

O PT caiu, mas o petismo não. Nas palavras proferidas pela senadora Gleisi Hoffmann, quando de seu discurso oficial no recente encontro do Foro de São Paulo ocorrido na Nicarágua, todo um arcabouço ideológico rançoso, próprio dos piores autoritarismos, deixou-se mostrar em ossos e esqueletos saídos como que dos armários socialistas ou chavistas-bolivarianos:

“Agradeço aos companheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional por proporcionar este encontro. Saudamos os triunfos eleitorais mais recentes do Daniel Ortega na Nicarágua e Lenin Moreno no Equador, que demonstraram claramente que é possível enfrentar as novas táticas eleitorais e golpistas da direita. O PT manifesta também o seu apoio e solidariedade ao PSUV, seus aliados, e ao presidente Nicolás Maduro, frente à violenta ofensiva da direita pelo poder na Venezuela. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica.”

Hoffmann agradece e celebra o triunfo da sabotagem contra a democracia, e faz isso cinicamente em nome da democracia. Na maior cara de pau, a petista se diz solidária com atos como a manobra do Sr Nicolás Maduro no sentido de intentar reescrever a constituição venezuelana de modo a transformá-la finalmente em um mero instrumento a seu serviço e segundo seu arbítrio e talante. Exatamente a lei máxima de seu País o déspota Maduro ousa redefinir à sua imagem e semelhança. Logo a Carta Magna, documento que historicamente mundo livre afora nasceu e foi pensado como garantia de uma nação contra os abusos do poder do Estado, mormente dos ímpetos tirânicos dos governantes.

Com esse gesto, a senadora do PT, e atual presidente do partido, rasga de vez a máscara de democrata e passa a demonstrar, agora de forma escancarada, e oficialmente!, o caráter autoritário de suas intenções e de seus planos para nosso País. O tirano absolutista que existe em Nicolás Maduro, igualmente existe em gente como Gleise Hoffmann, e que ninguém duvide disso. É completamente patético dizer, em saudação, que há triunfos eleitorais na Nicarágua, pois também o sistema de Daniel Ortega transformou-se em uma rematada ditadura, na prática uma oligarquia comandada pela família desse ditador que impôs para seu País um regime de partido único.

A Venezuela é hoje uma terra arrasada, uma tragédia social, econômica e humanitariamente falando. Mas a pérfida senadora, a traidora da democracia, acha por bem louvar uma tal situação. Nisso faz coro e eco com seu líder, o Lula, outro que descaradamente afirmou que “há excesso de democracia” naquele país vizinho. Tudo isso é muito triste, totalmente lamentável, deplorável, digno apenas de suscitar revolta, de causar repulsa . Como pode alguém festejar ditadores, saborear a miséria de uma gente, regozijar-se e comprazer-se com os infortúnios de uma nação inteira? Gleisi e Lula o fazem! Sordidamente o fazem!

Uma das maiores arrogâncias da esquerda é arvorar-se de definidora daquilo que é ou não é “humano”, como se fora do pensamento esquerdista tudo o mais fosse pura desumanidade. Então, a partir daí, o militante se sente vestido com o manto da pureza e da santidade transformadora, e o ideólogo socialista se acha o próprio ente iluminado, o grande e prévio conhecedor das necessidades alheias. Não sem razão se diz ser coisa de seita uma tal presunção de superioridade.

Para confiar em governos, necessário seria confiar no homem e na mulher governantes, mas esses tipos não merecem muita confiança. Não há perversão política maior do que acusar os outros daquilo que você faz ou acoberta naqueles em quem você deu seu voto. Se há uma claríssima revelação que os acontecimentos desses últimos treze, quatorze anos fez ao Brasil, é esta: como existem cínicos entre nós! Em 2018 teremos eleições, e os brasileiros estão sofridos e escaldados, fartos de pagarem a conta do descalabro populista.

Lula é hoje um criminoso julgado e condenado pela justiça brasileira, outros partidários seus vão pelo mesmo caminho. Mas o petismo é recalcitrante e está assanhado, louco para terminar aquilo que começou: fazer do Brasil um país bolivariano, aos moldes do chavismo e do estatismo ditatorial. Para que não nos deixemos enganar, aí está a senadora Gleisi Hoffmann falando em nome do partido e, principalmente, em nome do Lula, que foi quem bancou sua “eleição” para a presidência do PT. O Brasil que tem juízo deve estar atento a isso!

Precisamos falar de liberalismo na economia, precisamos dar voz e voto para quem de fato quer ver este País um gigante econômico e nossa nação uma nação de gente empreendedora, próspera e verdadeiramente livre. Precisamos discernir entre quem apenas nos parasita e quem realmente trabalha. O Estado Brasileiro é um horror perdulário e um monstro pantagruélico para nos cobrar tributos consumidos e perdidos na gastança geral, vamos dar um basta nessa imoralidade!

NUNCA ESTAREMOS SEGUROS

Um dos objetivos mais clássicos da esquerda socialista é: “libertar os oprimidos do jugo da elite burguesa e lutar em favor da construção de uma sociedade ideal, sem opressão e sem classes sociais”.

Para isso, essa militância sempre lança mão da visão marxista da luta de classes e segue dividindo o mundo em um “nós contra eles” sem trégua, sendo que o “nós” -onde se colocam-, representa o “lado do bem”, e o “eles” -contra o qual precisam lutar- representa o egoísmo burguês e a opressão de uma sociedade patriarcal e capitalista. Estabelecem de forma panfletária uma sociedade maniqueísta do bem contra o mal e transformam a história humana inteira na própria história dessa luta. Será? Façamos um recorte temporal e tentativa de síntese (muito precária) de uma trajetória:

Quando a civilização romana ruiu no ocidente, aquela parte do mundo que depois viria a ser o berço das nossas primeiras universidades ficou como que à deriva. Aconteceu que os povos de origem germânica, até então mantidos em relativa convivência pacífica com os romanos fora dos domínios do império, passaram a invadir o que restou daquele poder. Os moradores de Roma falantes do latim, ou os romanizados, chamavam de bárbaros a essa gente que habitava além das fronteiras dos seus domínios.

Eles, os bárbaros, em sua maioria formavam agrupamentos humanos organizados em aldeias, cujas moradias eram bem rústicas e compostas basicamente de barro e galhos de árvores. Cultivavam cereais como o trigo e a cevada, criavam gado para a obtenção tanto de alimento como do couro para as vestimentas que os protegia. Faziam da guerra e dos saques um modo de tomarem para si as riquezas uns dos outros. Já os hunos eram nômades e exímios criadores de cavalo, viviam em carroças ou tendas e passavam seus dias perambulando através das florestas ou percorrendo os campos abertos. Muito violentos e cruéis, tinham como maior fonte de sustentação as espoliações que praticavam contra aqueles a quem subjugassem.

Clique aqui e leia este artigo completo »

PARA ALÉM DAS IDEOLOGIAS

Indiferente aos sábados ou quaisquer tardes de domingo, o Sol arde seu destino nesse espaço e firmamento. Também para a montanha, fria e alta, nada importa a semana dessas datas (bem humanas). Mesmo a Terra se reclina algo pêndulo nesses ciclos equinócios e solstícios que oscilam os verões e inauguram as estações. E o rio segue seu curso rumo ao mar e aos oceanos desse mundo e a semente rompe o solo e irrompe para o alto cada árvore desses frutos que colhemos. E o sal e a cana doce são fermentos e delícias para nós.

Mas a natureza não se inclina para ler quaisquer páginas dessas linhas das peregrinas testemunhas que descrevem e observam os céus. Céu, céu de estrelas, céu que recobre tudo com seu manto e nos reserva a admiração e o espanto. Céu sobre nós que rasgamos o véu dos físico-químicos elementos (cegos?) desse mistério que nem entendemos… Céus que muito dizem e muito calam, nossa realidade é torcer pela vida e nossa necessidade é ter fé. E é isso que nossas ciências atestam!, e o que excedemos daí é orgulho. A ligação entre a mente humana e o sentido da vida é tão forte e tão tênue quanto a página de um livro…

Antes do destino chegar, sonhamos com vilarejos. Casas simples, gente simples, coração leve, sol na varanda. Manhãs de besouros, tesouros verdes, vidas simples e mel. Rosas no jardim, janelas laterais, frutas nos quintais, fraternais desejos, bom dia, boa tarde, gestos francos, cordiais. Antes do destino, a amizade. Antes do destino, a boa vontade. Antes do destino, os sorrisos fartos, as cercas-vivas, o chão de terra, o manacá-de-jardim, os jasmins e o perfume de flores no ar. Antes do destino o sonho, o querer, o abraço, o pai, a mãe, os irmãos, os tios, as tias, os primos, os vizinhos. Os amigos! Antes do destino, o lugar, o nosso lugar. Antes do destino, a juventude. Antes do destino, a consciência. Antes do destino, o abrir das cortinas… E o perigo!

A vida é uma breve passagem do corpo, mas uma longa, muito longa jornada da mente. Nos sentimos vivos a partir das conjunções carnais que nos geram para o mundo, porém nos percebemos agora como inquietos prisioneiros dessas nossas bioquímicas, fisiologias habitantes de almas que transigem com lembranças imemoriais. Os dias no calendário são nossas invenções, o tempo ninguém sabe ao certo seus desígnios.

Os planos de Deus são mistérios, e nós apenas começamos para eles no contexto da história porque não podemos ler a palma da mão da eternidade; não podemos perceber, ainda, o antes e o absolutamente depois da ordem vigente nos átomos e nas químicas milagrosamente vitais, essas esquinas que um dia haveremos de dobrar. Sim, por enquanto a vida é uma breve passagem do corpo, corpo que não dá conta de explicar a incontida vontade de infinitos em nós, nem tampouco essas “estranhas” memórias trazidas atávicas em nossas mentes…

Há pessoas que desde o nascer carregam consigo uma infinita sede de vida. São como os pátios, os intensos átrios das jovens faculdades. E muito caminham e caminham, mas, por fim, tornam-se como a brisa que afaga, pois aprendem a ser simples como a água suave a deslizar nos regatos. E ainda que incandescentes vivam, se acalmam. No coração palpitante, encerram a excentricidade de moverem-se pelas trilhas da mais íntima e singular esperança, férteis veredas que muitos desconhecem. Mas ali não se trata de um instante estreante, inesperadamente novo, recém inaugurado, um “lugar inusitado”.

Ao contrário, trata-se da eterna novidade em seu segredo de perpétua renovação, plenitude que jamais se extingue. E é por isso que são saciados, mesmo sendo insaciáveis de não caberem em si desde que vêm ao mundo. E tateiam o grande contentamento nesse mistério que intuem a existência, e o vislumbram e esperam. Sempre revigorados nessa vontade imensa, viventes sequiosos rumo ao seio do mais límpido espírito, caminhantes certos rumo à posse da absoluta e derradeira alma. Porém com uma alegria experimentada já de agora, escalando dúvida por dúvida e superando-as, uma a uma. Sentem, pressentem que a vida não é só aqui, sabem que a vida é muito mais…

Uma explicação para a vida? Oxigênio, carbono… E? Alakazam… Não busque em sínteses químicas, aquilo de além-estrelas… Ouça seu pensar , veja sua mente, esses fantásticos “silêncios”… Perscrute os “truques” do “nada”, vá aos “fantasmas” dos átomos… Ali, naqueles espaços tão vagos, tão caos, tão predestinados… Tudo está organizado pra nós, ouça a voz da arte, entenda-a, é um lugar-tenente… Perceba na música você, seu “eu”, o som dos céus, o posto avançado de Deus.

Entrar na vida é fazer da vida o próprio vinho. Então é preciso plantar a uva e colher. E é preciso escolher o tipo, proceder o preparo, deixar fermentar e descansar. Daí o sabor, o aroma e a embriaguez afinal. Fé, coragem, trabalho e amor. Viver é reconhecer o deserto, penar ao oásis, ganhar a alma, beber. Isso é viver: sede de deserto, água de oásis, sede de deserto. Nossa alma é como fagulha, pode incendiar ou apagar. Centelha de céu ou silêncio já não ígneo, por extinguir-se e só. Dá trabalho viver, pois pede-se enfrentar, expor-se às rajadas que sopram e açoitam mas fazem avivar a brasa, assanhar o calor, reacender a chama, queimar. Entrar na vida é ser videira, fusão aos ventos, vinho, fogo. Depois do fruto, antes das cinzas. A festa da vida é tentadora, esses tantos burburinhos…

No entanto é no silêncio das coisas que o tempo nos resgata para uma paz perdida, destroçada pelos conflitos do coração que tudo sente. Não é fácil escapar das aflições, não é simples. Mas na calma da hora que silencia abre-se uma janela que clareia uma porta, e portas podem ser abertas também. Busque-se a leveza das coisas, contudo sem descuidar da profundidade de suas razões, afinal, Deus, a máxima simplicidade, é a infinita inteligência também…

AS PALAVRAS! AS PALAVRAS!

Sim senhor, hoje existo! Não minha imagem osso, que por osso é pó. Ou minha sombra pálida, que por sombra é nada. Hoje existo em cada vírgula, estou vivo em cada ponto. E continuo. Hoje cada palavra me representa e também quando interrogo(?), falo. Mesmo quando calo, quando silencio, falo. Falo pelas entrelinhas, falo pelas reticências… As palavras, o que querem dizer, dizem. E o que não querem, dizem também; mais dia, menos dia, mais hora, menos hora. Sim senhor, hoje existo, sou palavra. Minha vida hoje é um ponto de exclamação!

Antes mesmo de expressar-se numa sequência de sons emitidos e articulados com lógica fonética e conteúdos semânticos aptos a serem compreendidos por um ouvinte, a fala humana faz-se gênese linguística em nossas mentes. Como bem disse Ferdinand Saussure, a língua é um sistema de signos formados pela junção do significante e do significado, ou seja, da união entre uma imagem acústica e um sentido. E por onde começa esse elo? Como primícias, por nossos sentidos todos, é óbvio, e como processo detidamente inteligente, seu cerne é o raciocínio, o pensamento.

Daí então, apesar de o signo linguístico inicialmente encerrar certa arbitrariedade , não é arriscado dizer: de tão acostumados, para nós hoje é como se cada nome de coisa ou ser atraísse gravitacionalmente características próprias daquela nomeação original. Algo assim como se em nossas alamedas mentais essas associações sígnicas-identitárias transitassem empunhando um crachá natural pregado no bolso da blusa ou camisa.

O desenrolar das histórias das comunidades humanas, com suas interações migratórias e os vários outros fatores determinantes de contatos e interpenetrações idiomáticas e de dialetos, foi tratando (através dos processos de derivação ou composição) de estabelecer e ampliar o acervo lexical de cada povo ou nação; e o avanço tecnológico, por sua vez, foi tratando de exigir novas “invenções” de nomes.

Contudo, através das épocas, por um processo diacrônico, as estruturas e as acepções das palavras podem sofrer variações morfológicas ou de sentido, respectivamente. Ou mesmo passar cultural e socialmente por sensíveis mudanças de emprego semântico. Isso por tratar-se a língua de uma entidade viva, passível até de cair em desuso ou transmudar-se em outra ou outras, pois nossa maneira de falar também sofre a ação do tempo. A filologia é que vem em nosso socorro quanto a isso. E quando então vista a partir de suas características do momento, sintonizando o falante com seu tempo, lidamos com a sincrônica contemporaneidade de uma dada realidade linguística.

As palavras! As palavras! Ah! se todos soubessem como é bom cultivar e devotar a elas o nosso mais dedicado amor! Jamais esqueço da belíssima e verdadeira explosão de exaltação às palavras que o poeta Pablo Neruda construiu em um dos seus mais arrebatadores momentos. Ali ele nos diz, dentre outras maravilhas sobre os vocábulos amados, que:

…”são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas… As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema!”

E o poeta segue em sua linda profissão de fé, até confessar:

…”que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes que andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas; por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.”

Que coisa bela! Que belo testemunho de amor! Parabéns Neruda, parabéns! Também amo as palavras, também preciso delas como o próprio ar que respiro. Pudesse eu dar um conselho que fosse acatado por todos, com certeza diria para as pessoas dedicarem-se ao hábito de aprender palavras, estudar palavras, colecionar palavras na mente, saber suas histórias, carregá-las nos bolsos, nas abas dos chapéus, nas palmas das mãos, debaixo dos braços, sobre os ombros, por todo possível e impossível canto por onde andem. Sim, dediquem-se às palavras como quem dedica-se a um ser muito amado, afinal são elas que nos elevam à condição de humanos!

Se você parar pra pensar nas causas e sobre a essência desses valores que nos traduzem em quem somos e demarcam nossa humanidade, talvez percorra corredores antropológicos que falem de projeções e sublimações, ou adentre assuntos fisiológicos constituintes ou biológicos-hormonais, e vá até à bioquímica das reações e dos estados moleculares, e termine se perguntando sobre o que é a matéria afinal. E não achará a resposta e acabará contentando-se com alguma equação matemática que lhe prometerá ser a “fórmula do universo”.

No entanto, para caminhar até essa representação numérica, você foi conduzido/conduzida pelas mãos generosas das palavras. Sem elas jamais o conhecimento -ou a vontade de conhecer- sairia do lugar, avançaria. Da mais abstrata das abstrações aos engenhos dos números, do seu nome próprio ao clamor por Deus, o Verbo que a tudo principiou, lá estão elas, as palavras! Portanto, cuide de se entender com elas…

“JACARÉS DEBAIXO DA CAMA”, OU FATO HISTÓRICO?

Tida por por muitos como lapidar, essa frase do dramaturgo alemão Bertholt Brecht nos instiga e provoca: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Ok, vale a reflexão. E por valer, reflitamos também sobre isso que vos proponho pensar: sem suas margens, um rio não seria rio, seria leito espraiado, seria águas sem curso, seria rumo nenhum, jamais tocaria o mar. Bem assim é a liberdade, que sem seguras mãos-margens e medidas para guiar-se , perde-se então no caminho, desaprende o verdadeiro sentido de ser livre por desconhecer obrigações morais e negligenciar responsabilidades.

Na era dos absolutos hedonismos, tudo que não for meu próprio umbigo é castigo. Mesmo os filhos já estão sendo considerados fardos , pois que os corpos possuem-se e estão exclusivamente para o inteiro tempo do fetiche. Nada de dividir o “meu viver para meu prazer” com outros seres que me exijam dedicação e renúncias.

E desse jeito vamos nos tornando cada vez mais os egoístas habitantes de um mundo cultivador de paradoxos: por um lado exacerba-se ao infinito os individualismos ávidos que se levantam contra quaisquer valores morais impeditivos desse exercício da “plenitude do eu para mim”, por outro, corre-se cada vez mais para os braços garantidores do Estado, sempre com o fito de, através deste ente legiferante, impor por força de lei a aceitação social das concupiscências totais.

Em nosso País, em um debate contra o advogado brasileiro Miguel Nagib, fundador e líder do “movimento escola sem partido”, uma procuradora federal disse que “os filhos não são dos pais, mas do Estado”. No Reino Unido, legisladores entenderam que os médicos são os que possuem o direito de decidir, à revelia dos pais, se uma criança menor de idade que apresente alguma grave doença apontada como incurável deve ou não continuar em tratamento, ou se se deve desligar os aparelhos que possam lhe prolongar a vida.

Um caso concreto: o bebê inglês de nome Charlie que sofria de uma doença mitocondrial que lhe provocava o enfraquecimento dos seus músculos e sérios danos cerebrais. Os pais do menino, Chris Gard e Connie Yates, apelaram então aos Juízes britânicos, porém esses autorizaram o desligamento. Recursaram ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo; perderam mais uma vez. Registre-se que esses pais pretendiam levar seu filho aos Estados Unidos para um tratamento novo, experimental. Os agentes do Estado não lhes deram permissão.

Se uma determinada lei é elaborada como orientação moral coletiva para as ações de uma dada sociedade e torna-se exigibilidade nos regimes democráticos, quando votada e aprovada por suas casas legislativas, e sabendo-se que essas instituições representam o próprio povo que as legitimam a partir do voto dado livremente, perguntemo-nos: o que está acontecendo com a sociedade ocidental, cujos pilares estiveram milenarmente fincados em princípios cristãos de valorização e respeito à vida humana acima de tudo?

Uma pista segura para a descristianização dos nossos valores morais e éticos, e para a “desconstrução” filosófica e comportamental de uma cultura como a nossa, passa por aquilo que o marxismo chama de “revolução permanente, continuada”. Com efeito, uma ideia não cai junto com um muro derrubado, pois sobrevive renitente nas mentes e nas ações daqueles que a consideram a causa “redentora” da humanidade! E subsiste principalmente quando essas pessoas infiltram-se por tudo quanto há de instituições voltadas para a disseminação do conhecimento, ou seja, as instituições de ensino. Daí por diante, basta aguardar o resultado…

Na crença marxista, a materialidade das coisas causam as ideias e não o contrário. Então nossa história seria exclusivamente a história das relações entre a humanidade e a matéria que nos compõe e sustém, e o que passa daí é mera ideologia subvertedora da realidade e precisa ser posta abaixo em suas fundações, para que um dia se chegue ao “lugar comum” da felicidade geral: uma humanidade livre de classes sociais e finalmente conhecedora da definitiva e verdadeira liberdade, o derradeiro estágio de nossa história. Nada de religião, nada de metafísicas, nenhuma mística que não seja a nossa própria evolução histórica e social. Logicamente guiada pela “práxis” marxista.

Não é à toa que valores como família, religião, direito de propriedade, individualidade, etc. são considerados inimigos ideológicos do processo evolutivo marxista rumo ao destino comum de uma humanidade nascida para esse dia (segundo esse pensamento): o dia em que todos terão tudo segundo suas capacidades e não porque uma classe dominante subjugou e oprimiu as demais classes sociais.

E Marx ainda considerava que seu ideal de sociedade era baseado em um processo científico(?), isso em detrimento dos outros socialismos que seriam apenas utópicos. Assim, para os marxistas, o “céu” acontecerá aqui, mais dia, menos dia, e ele será enfim sem relações familiares opressoras ou dominações sociais de classes, sem acúmulos de capitais ou de poderes, e sem a necessidade de um Estado que exerça controle sobre as pessoas que livremente se respeitarão. Contudo, isso não é utópico, segundo o próprio!

Mas há um porém: antes disso, faça-se a revolução! E que os meios de produção mudem de mãos e passem a pertencer ao proletariado, e que se constitua um novo Estado não burguês, a partir dos membros do partido, para que todos sejam reeducados segundo os novos princípios que os libertarão do jugo dos valores opressores históricos. Esse filme já não foi visto? Sim, ele foi. Mas acontece de muitos ainda o quererem reprisar… Se não como “ditadura do proletariado”, agora como ditadura do pensamento único…

Nossa civilização é fruto de um conjunto de circunstâncias históricas e de valores que nos legaram, dentre outros edifícios, o método científico, a economia de livre mercado, o estado democrático de direito, o respeito às liberdades civis, os direitos humanos, a virtude da caridade, a razão filosófica estruturada, as belas artes, a música em todo seu esplendor e as universidades de tantos saberes.

Desde a antiguidade greco-romana, passando pela queda do império romano do ocidente e pela pacificação dos povos bárbaros germânicos, vimos nos construindo até chegarmos onde chegamos. O que há de tão errado conosco, ao ponto do marxismo nos tomar por uma grande mentira de liberdade ou mera farsa social que deve ser “desmascarada e desconstruída”?

De fato a elaboração marxista é bem engenhosa. E enganosa! Tenta fazer tudo o mais passar por ideologia encobridora da “realidade como ela deve ser”, e apenas sua filosofia da “materialidade histórico-dialética” do mundo é detentora das explicações das coisas e dos fatos. E olhem que Marx se propunha colocar o pensamento de Hegel, com seu “idealismo absoluto”, na “rota da verdade”: da materialidade das coisas, para o mundo ideal…

Não é nem mesmo pela questão da batalha econômica contra a pretensa “mais-valia”, “apropriada” pelo capital em “desfavor do operário”, que o marxismo torna-se um canto de sereia sedutor, e sim muito mais pelo que instiga as pessoas em suas propensões libertárias… Uma grande contradição, posto o próprio Marx ver o anarquismo como algo infantil…

Ora, se a tal mais-valia já se provou uma doutrina frouxa, tíbia em suas “explicações” da “exploração patrão-empregado”, isso não importa aos militantes da causa, pois para esses o que interessa é desconstruir a acumulação capitalista e pôr abaixo os opressores valores ocidentais. E para tal, esses militantes foram e continuam sendo sistematicamente doutrinados.

Lutar contra a opressão, ser iconoclasta, vanguardista, militante da construção de um novo amanhecer para um mundo livre, amante da justiça e quebrador dos grilhões que acorrentam os incapazes de enxergá-los, parece uma linda e necessária tarefa a cumprir. Por isso a sedução, o encantamento e a contente reprodução dessas ideias tão libertárias…

Agora voltemos à frase de Brecht : “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Aparentemente bacana, não é mesmo? Isso é tudo que uma economia liberal precisa, concluiria algum apressado, associando logo as margens do rio contenedoras com a intromissão estatal sobre os rumos da economia e contra o pleno exercício do livre-mercado. Só que não! Sem a observação dos contratos, sem o cumprimento das leis (leis que sejam realmente justas e necessárias), sem o direito de propriedade assegurado, sem a manutenção das boas tradições, sem essas seguranças jurídicas e sem a observação de valores morais e éticos, não há verdadeira democracia, não há verdadeiro estado democrático de direito nem tampouco respeito às liberdades individuais.

Por ocasião da revolução socialista russa, iniciada em 1917 e que levou ao poder o Partido Bolchevique de Vladimir Lênin, o que se prometia era menos opressão e mais democracia. Acontece que as coisas por lá se deram sempre de forma a mais perpetuarem-se os poderosos sanguinários em detrimento da liberdade, da justiça e da democracia. Certo é que o marxismo previa certas “etapas” a serem galgadas até a “libertação final”. A começar pela ditadura do proletariado, e a tal da tomada dos meios de produção. Também havia o lema: tudo pelo partido, nada fora do partido…

E o governo provisório de Alexander Kerenski que haveria de cuidar da transição até uma maior participação popular foi sobrepujado por um Lênin sedento de poder, e os mencheviques (que defendiam uma revolução gradual, com democracia e liberdade capitalista a fim de se produzir riquezas e só depois implementar o socialismo -como o próprio Marx previa inicialmente), foram atropelados pelos ávidos bolcheviques do “paz, terra, pão, liberdade e trabalho”, e o Partido Comunista tornou-se o Estado inteiro, e Leon Trótski, um bolchevique!, foi assassinado no México, e Lênin morreu em janeiro de 1924, e um tal de Josef Stalin assumiu o poder, e começaram os expurgos, e o resto já pertence à história com seus fatos, suas crueldades e sua verdade incontestável.

Da próxima vez que alguém lhe disser que você anda vendo jacarés debaixo da cama, responda: não!, eu apenas estou atento à história e prestando muita atenção aos fatos, e eles me contam de outras roupagens, outras “escolas” do marxismo, porém de uma mesmíssima finalidade: a “libertação” socialista… Pois é, acontece que o socialismo seria só o penúltimo estágio, a antecâmara de um lugar-comum social onde finalmente todos seriam verdadeiramente livres. O que sempre dá de tão errado?

“POLITICAMENTE CORRETO”? POIS SIM…

O humanismo secular socialista ainda hoje tenta se fazer passar por ideal de justiça, coisa fraterna. Mas segue mesmo é atropelando valores e mistificando pretensas causas do bem. Sempre promovendo tiranos e usurpando riquezas, porém, fino especialista em desvirtuar a verdade sobre sua face mais sinistra, sua pura vontade tirânica e cesarista. Despotismo absolutamente disposto a fazer calar pela força toda e qualquer divergência, toda e qualquer voz contrária. Regime opressor capaz de silenciar de morte as discordâncias.

Sim, um regime político -como o vigente em Cuba e na Coreia do Norte- que mantém pessoas sob eterna vigilância, tratando-as como crianças tuteladas, é o pior dos mundos, pois tira-lhes a liberdade de escolha e o direito de ir e vir para que “desaprendam os valores burgueses” e se “desacostumem” de legítimas necessidades humanas que vão além dos limites e imediatismos do meio ambiente natural e dos fisiologismos do corpo. Tudo jaz nesse sistema sob o tacão da censura e do autoritarismo do partido socialista, organização que se confunde com o próprio ente estatal.

E há o agravante terrível de que nem mesmo as condições para a sobrevivência básica de suas populações são dadas ou restam garantidas, posto haver inevitáveis racionamentos gerais, inclusive de alimentos. Sem dúvida que isso é um crime hediondo contra a humanidade, deformação moral e horror perpetrado com o requinte de ser continuado por décadas e décadas a fio. Através de sua sádica “excelência”, o socialismo no mundo tem sido esse sinônimo de tirania, prática de usurpação e histórico de confiscos e apetites saqueadores.

Hipócrita, dissimulado, mimético e camaleônico, treinado como ilusionista e acostumado a confundir almas juvenis desprevenidas, idealistas e bem intencionadas, vira-se em verdadeira serpente contra os imprudentes calcanhares de um povo, uma nação. Na eterna espreita, o bote! Na oportunidade cavada, o pulo do gato. E eis que o transformista de butique e viés totalitário (seu “pedigree”) mostra suas garras afiadas: enfia goela abaixo sua tirania e se apossa de tudo, principalmente das liberdades mais caras e imprescindíveis ao ser humano.

No entanto, sobremaneira e não obstante seus exemplos de aberrações comportamentais, vide os Kim Jong-un, Josef Stalin, Mao Tsé-Tung e muitos outros facínoras dessa verdadeira fábrica de ditadores, o socialismo vai mudar a versão tantas vezes quantas lhe convier o caso ou uma dada situação que deponha contra “suas razões”. E assim seguirá manipulando os incautos e distorcendo seus feitos e os acontecimentos reais e adaptando a história segundo seus interesses e dourando quaisquer atos desabonadores que tenha praticado: “o socialismo utópico ainda está por vir perante a ordem mundial”, “o socialismo ideal ainda não aconteceu, ainda não foi colocado em prática”, “a autêntica vivência socialista ainda não foi experimentada” ; é o que dizem.

Claro, seus fanáticos seguidores continuam fantasiando um mundo cujo passado foi sempre contrário à “justiça social socialista”. Por conseguinte (segundo os próprios), um futuro melhor encontra-se, “como destino comum”, na razão direta de suas práticas militantes e de suas ações coletivistas e coletivizantes, ações revolucionárias e “transformadoras de uma realidade que é apenas por enquanto”, “considerando-se que precisa ser mudada por ser socialmente perversa”.

Não há quaisquer perspectivas sócio-econômicas do presente nem cenários políticos do passado que lhes sirvam de parâmetro de humanidade real , nem tampouco sobre os quais lhes recaiam culpa ou responsabilidade. Contudo, há uma “trava histórica” que não cessam de propalar, não cansam de acusar, denunciar: “o reacionarismo burguês dos conservadores e dos economicamente liberais”. Daí, obstinadamente, como um mantra, repetem por seus slogans e frases de efeito: “uma outra narrativa se impõe e faz-se imperativa!” ; “é preciso mudar o mundo!”.

Agora; quanto aos cárceres físicos e mentais, quanto às mãos enfiadas nos bolsos alheios e a conta das suas desventuras, quanto aos prejuízos líquidos e certos que fatalmente causam e repassam como um infeliz legado à sociedade (pois esse é o saldo e nada resiste aos fatos), ora ora, que transfira-se e repute-se as inteiras responsabilidades sobre tudo isso para o capitalismo e o liberalismo econômico, por suas elites, suas crenças milenaristas e seu “Estado burguês”; como sempre… “Quiçá sobre culpa também para os libertários anarquistas, porventura…”

Um regime que precisa tirar a liberdade, a independência alheia, como condição de sua própria sustentação dá-nos mostras cabais de se tratar de uma imoralidade escravizante e alienante em si mesma, em que pese eles nunca admitirem esse fato. Portanto, uma tal ideologia passa-nos, isso sim, recibo e atestado de arbitrariedade e de canalhice ao último grau.

Dizer o quê, de uma doutrina política para quem a palpabilidade das coisas concretas não lhe interessa e o que conta é sua exclusiva versão dos fatos? Dizer o quê, de uma ideologia cujas inquestionáveis verdades do mundo, a realidade como ela é, simplesmente não lhe cabe ou sequer expressa algum valor humano intrínseco para suas convicções? Inclusive, pela necessidade de contornar essas evidências, tenta fazer da efetividade da história uma mera peça de ficção, uma plástica dobrável e encaixável numa agenda com seu próprio viés, pouco importando se isso é fartamente desmentido pelo registro histórico ou pela experiência pessoal.

Apenas os muito cínicos, os de muita má vontade, os dementes, os intérpretes equivocados ou os jovens desavisados, ou então os completamente mal intencionados são os que ainda insistem na defesa dessa tamanha monstruosidade de mortífera opressão.

E é precisamente sobre os desavisados que um insidioso e ditatorial “politicamente correto” senta praça hoje em dia. Da “luta de classes” e da “mais-valia” até esse patrulhamento estético-macabro foi só uma questão de maquinação de “novas” estratégias para a continuidade da sedução, do “encantamento” e da cooptação de pessoas desapercebidas dos venenos ocultos e imprevidentes quanto às camuflagens das terceiras intenções .

Não que as pessoas não devam se respeitar, que fique bem claro. Mas, a despeito dos que pensam ou assumem ser essa onipresente cobrança uma natural e manifesta “evolução comportamental “, digo-lhes eu: isso é mentira! Isso é uma pérfida mentira! Pois óbvio está que essa “correção moral” não passa de cínica manipulação dos sentimentos de um povo, de um esconderijo tático para o eterno e hediondo joguete do “nós contra eles”, tão ao verdadeiro propósito do velho contexto da luta de classes de feitio socialista.

Quanto mais demandas houver por controles, seja controle do pensamento, seja da livre manifestação de uma opinião, mais se exigirá das leis, mais se pedirá aos governos a imposição de limites. Autoritarismo por autoridade, poderio por legitimidade. Ou seja, mais Estado, mais intromissão. Por fim, mais sutil costume quanto ao Estado-Censor, mais tácitos consentimentos, mais “voluntárias” aceitações. Uma trama de desfaçatez, um sonho de consumação totalizante, uma pseudo democracia, um ideal de hegemonia…

CORRA QUE O ESTADO VEM AÍ…

Creio que aquele que “me governa” sempre me limita. Não gosto do “Estado”, essa entidade jurídica imperante e soberba a me vigiar a liberdade e controlar os dias, pois tenho de lhe pagar pra viver… Não gosto do “Estado”, esse ente difuso, onipresente e insaciável, sempre a me exigir suor e sangue.

Não obstante meu asco, reconheço-o (com pesar) em sua novidade histórica normatizadora como um avanço político disciplinador das relações sociais, em face da boçalidade humana. Ou seja, uma infeliz inevitabilidade da vida real, um mal necessário para impor que pessoas de atitudes e interesses tantas vezes belicosos se adequem à vida em sociedade e não se matem umas às outras na primeira contenda do dia.

Agora, o que não se pode aceitar, de forma nenhuma!, são seus abusos enquanto entidade soberana que é, seus arroubos totalitários de príncipe ávido e cínico. Muito menos se deve permitir que extrapole de si e se intrometa impositivamente sobre as escolhas e preferências individuais.

É absolutamente intolerável qualquer excesso judicante, toda e qualquer ultrajante medida sua que venha tolher nossa liberdade de decidir os próprios caminhos e humilhar nosso livre arbítrio, ao ponto, mesmo, de torná-lo nulo! O Estado não pode tratar as pessoas como crianças numa creche ou como bichinhos seus de “estimação”. Quem é o Estado afinal, a não ser o déspota organizado politicamente?

Em nosso País, a interferência estatal já está assumindo um caráter tão extravagante, tão esdrúxulo, que chega-se ao ponto de se proibir, por exemplo, que bares e restaurantes disponham saleiros à vista de seus fregueses, sob a ridícula alegação de que assim os estão protegendo das “tentações da mesa” sobre suas saúdes!

Em um crescente intervencionismo pode-se inclusive chegar a limitar o direito dos pais educarem seus filhos de acordo com as crenças e os princípios e valores morais que melhor lhes convier. Qualquer dúvida sobre isso, aconselho lembrar da histérica militância do “politicamente correto”, com sua infernal patrulha sobre todos nós e a demandar por leis restritivas até da liberdade de opinião…

Se as pessoas, conscientes do valor da autodeterminação e do imprescindível respeito à capacidade individual de decidir, deixarem o Estado se agigantar perante suas vidas, tudo restará
amargo. Ditadura é o nome disso, tirania. Ainda que disfarçada de estado de direito… Por isso cuidado, muito cuidado com as legislações abusivas, confiscatórias, sufocantes.

Da próxima vez que você se engajar numa “causa política”, numa militância do “bom, do belo e do justo”, dê antes uma espiadinha pela janela da história, tente ver como foi que lá atrás as coisas acabaram resultando… Estender alegre e docilmente os braços, juntá-los um ao outro e prostrar-se à espera do carrasco é um filme de algemas já bem visto… Vai querer reprisá-lo ainda e mais uma vez?

A pessoa humana (o animal político) versus a razão humana (a consciência) tem sido o pano de fundo da nossa história como uma porfia de triste destino. Para nós, ideologicamente, tentar “resgatar a história” virou sinônimo de errar de novo, insistir nos erros, ao invés de aprender com os já cometidos desacertos, com os equívocos já sobejamente conhecidos. Historicamente, pode-se dizer, somos os sabotadores ideológicos de nós mesmos enquanto “sociedades organizadas”.

Claro que fizemos progressos, certo que há avanços, inquestionavelmente eles ocorreram. Todavia, isso se deu (e se dá) bem mais no aspecto científico-tecnológico do que propriamente na seara política. Socialmente caminhamos ainda por entre as brumas das nossas mortíferas incoerências e as vertiginosas beiradas dos nossos abismos éticos e cavernas comportamentais.

Se se olhar de perto, bem amiúde, dá pra ver que ao longo do tempo mudam-se os trajes dos “revolucionários”, mas suas almas recalcitrantes não mudam. Maquinam-se “outras” heterodoxias filosóficas, porém suas ortodoxias doutrinárias não mudam. Morre o homem, padece o “animal político”, fica o dogma, permanece o erro…

A respeito da discussão sobre que tipo de capitalismo vigora no Brasil, se de Estado, como se diz do caso chinês, ou o quê?, já que decididamente liberal não é, digo eu: o modelo brasileiro é mesmo um anti-capitalismo, uma flagrante desconstrução da livre iniciativa, um empecilho, um estorvo às liberdades genuinamente capitalistas, posto haver aqui um acordo de não-concorrência intrínseca, com praticamente se dando a anulação das responsabilidades individuais entre os “amigos do rei”.

Com efeito; uma ordem econômica viciada, moralmente comprometida e corrompida em seus fundamentos mais comezinhos, não é um ambiente de liberdades
empreendedoras com seus riscos inerentes.

Um sistema marcadamente sustentado não pelas relações de trocas mercantis legítimas e voluntárias, próprias das leis de livre mercado, mas sim por um balcão de negócios de interesses escusos mantido na base de outro tipo de permutas – as trocas de favores e sinecuras malandramente combinadas entre políticos venais e “empresários” bandidos, não pode mesmo ser chamado
de capitalismo.

Uma engrenagem econômica movida essencialmente a partir da compra de facilidades estatais pagas, ao fim e ao cabo, com o mesmo dinheiro originariamente pertencente aos contribuintes desse ente de direito público transformado em mero agente distribuidor (doador) de benesses escolhidas a dedo, não é uma ordem econômica capitalista.

A bem da verdade, esse verdadeiro jogo de cartas marcadas restringe-se à classe política, à “nomenklatura” e aos seus poucos amigos -os “grandes” empresários designados cúmplices, sendo que a maioria do povo é obrigada a tentar sobreviver em meio a toda sorte de dificuldades criadas por esse glutão chamado “Estado Brasileiro”. Na prática, a nossa população vive apenas de aparas financeiras, umas mínimas sobras em que se agarra como o náufrago a uma tábua.

JUSTIÇA ELEITORAL

Não procure escondido nas tocas e buracos aquilo que os próprios tribunais já escancaram; não espere dos ratos aquilo que apenas certos homens togados podem dar: o dissimulado caráter de justo ao que é mentira, e o caráter de justiça ao que é comprovadamente injusto e falso.

Querer justificar em nome da “paz social” um governo eleito na base da maior fraude eleitoral da história do Brasil, é o mesmo que pretender justificar a não punição de um estupro em nome da “pacificação” entre as partes. Canalhice ímpar, porcas alegações. Juiz ou verme?

Na clássica definição, democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo. No caso concreto brasileiro; democracia é a maneira que os partidos políticos encontraram de fazer com que o povo pague para continuar sendo enganado e pobre, enquanto elege políticos para que eles se tornem “democraticamente” poderosos e ricos.

Um país sem verdadeira justiça é um país afundado na mentira. E uma democracia corrompida é pseudo democracia, uma suja imoralidade. Legitimidade usurpada, legião de canalhas. Eleição que apenas disfarça, que solapa uma razão e não passa de arranjo, é um mero faz de conta, um abuso, um truque combinado entre malandros pra fraudar seu próprio povo e assim governar roubando. Infeliz destino, podres poderes. Brasil, reaja! Brasil, reaja! Até quando viverás se desmoralizando? Até quando conviverás com tanta trapaça?

Justiça Eleitoral ou almofada de carimbo? Tribunal ou selo de chancela? Lei eleitoral ou mera letra morta? Destino de um país ou sua triste procela? Toga do Juiz ou a capa de um Mandrake?

Eleições gerais ou processo de araque? Voto respeitado ou alheias vontades? Eleitor ou palhaço feito involuntário? Urnas eletrônicas ou grande lorota? Democracia ou coelhos na cartola? País sério ou feio picadeiro? Povo ou pouco importa?

E por fim registro aqui meus parabéns ao sr. juiz Herman Benjamin, relator do processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE . A ele envio meus respeitos e admiração. E viva sua decência e coragem em meio ao joio, em meio ao nojo, em meio ao sórdido. Parabéns também à senhora ministra Rosa Weber por seu voto, e igualmente parabéns ao senhor ministro Luiz Fux, vocês três honraram a toga que vestem e a função que exercem. O Brasil decente agradece.

O MAR

A inconfundível névoa fina da maresia que se espalha e paira cheirando a grude e umidade a invadir-nos as narinas e as casas. E o buliçoso vai e vem de pernas hipnotizadas a passear calçadas que convidam e beiram. E as folhas abalonadas e extensas dos sargaços verde-acastanhados que flutuam suas águas e depois frequentam suas praias atapetando-as com seu marrom. E as velas ao vento infladas tão longe quais gaivotas branco-pontilhadas. E as redes saltitantes arrastadas e trazidas cheinhas de peixes a aguçar sabores e arrodear curiosidades. E o reflexo lindo-prateado que dança para o deleite de nossos olhos extasiados. E o eterno ir e vir das ondas sempre acordadas a nos embalar sonhos e a alcovitar abraços nos banhos colados dos enamorados. E a fina areia a registrar o instante borbulhante-temporário de nossos rastros molhados. E o azul mutante-esverdeado a nos desvairar os sentidos e a embasbacar os semblantes de estandarte alucinado! O Mar, meu Deus, o mar! O mar, o sal, o mar! O mar essa retina difícil de acreditar! O mar essa marca pra toda vida: milagre! Milagre! Não há o que duvidar: milagre!

… e o milagre

Ela morava em frente à praia cheirando a sol e muro baixo e a vida ali era um eterno amanhecer de portas e janelas abertas. Areia branca, vegetação e ondas. Murmúrio a pé e inesquecível… Tudo era bom, tudo era sal, água e alegria. Tudo era mar. E era a vida que havia, energia sem nome onde eu me chamava paz. Mas um anjo me puxou pelos braços e um demônio agarrou-me as pernas e eu gritei: parem! Deixem-me ainda não ser terra! Diante do mar, saibam, diante do mar não há santo ou pecador. Diante do mar somente há êxtase e aprendizado, pés descalços e grande sabor de culpa nenhuma…

O menino…

O menino corre carregando consigo a pipa que voa, o vento lambe a terra e levanta com sua língua tão larga o torvelinho de pó, poeira em redemoinho a girar. Já a tarde é avançada no sol e a rua pára pra ser diversão e algazarra . E o menino nunca está sozinho. Uma trave a improvisar, outra trave, par, ímpar, zera no dez a pelada. Na casa mais próxima o socorro da água, de torneira, que o minuto nem espera e a bola muito menos e saracoteia e rola. Agora a lua já ensaia seu lugar, ainda junto ao suor que cai dos rostos e corpos exaustos a arengar suas resenhas. E a boca da noite vem pra mandar a rua voltar com roupas simples no além muros a magnetizar olhares e a brincar e conversar nas calçadas radiantes. Encontros. Eternos. Tão grandes. E tudo vai tornar a ser rua, e o menino vai continuar.

E a pipa, e a bola, e o suor já e o torvelinho que faz o mundo.

E vai. E o menino vai. E a rua sai. E de novo. E rola. E o menino. E a bola. E o vento. E o vento. A ventania. E o menino. O menino. Os dias. Até um dia. Até um dia.

…e a lembrança

Na cidade de minha infância havia ainda o pote de ouro lá no fim do arco-íris e as ruas eram de barro, onde floresciam singelas florzinhas lilases e amarelas. Meio acanhadinhas, talvez por serem tão simples e belas. Nasciam nos cantos dos muros, junto aos melõezinhos, às carrapateiras, aos carrapichos e às urtigas! Assim a vida ardia, e sujava e… quanta alegria! Nas tardes de minha rua havia festa todo dia, tão cheias de vida que eram. De crianças a brincar, tão repletas eram as noitinhas de minha rua. Nas casas de minha infância havia quintais! Acho que é lá que ainda hoje eu moro.

O sonho…

Meu Deus! Hoje sonhei com velhos amigos tão queridos! Revi minha infância e juventude, passeei nos quintais daquelas horas e por tanta aventura de nós. Quanta história! Meu Deus! Passeei de novo nos jardins daqueles dias sem extravagâncias, daqueles dias nada excêntricos: a não ser que éramos leves e podíamos VOAR…

… e os amigos

Os dias vão passando e nós os vamos cumprindo, perdendo-os. Meus amigos, quem fomos nós para o mundo? Nada, nada. Os dias vão avançando e vamos juntos rumo ao: agora é que não somos nada mesmo. Nada, nada. Sobre o tempo, o que tenho a dizer é: quem te viu, quem te vê! É isso, é isso aí. Quanto mais se vive, quanto mais invisível se fica (que importa?). O melhor dos amigos é poder rever o “nada” que um dia, essa cumplicidade… Triste de quem não celebrou amizades para então… (não tem passado!). É bom rir de nossas insignificâncias, esse brinde: tim-tim. Até que éramos bem danados! E como vivemos! Um gosto de saudade, uma música ainda. Amizade, tradução: sentido. Fomos tanto para o mundo de nossos sonhos, essa vida que nos fizemos! Tanto significado… Uma música ainda!

O amor…

Amar é como ver o mar: sabe-se o sal que tempera, os altos e baixos, o quão profundo se pode ir no mergulho… E sabe-se ser cambiante: ora turbulento, ora fascinante. Ora sôfrego e voraz! O ir e vir, as ressacas que quebram, a tamanha força, a eternidade derramada, espraiada com graça. Revolto oceano, misterioso e hipnótico oceano, fatalmente absorto, perigosamente devorador. Assim é o mar… Amar é assim como ser o mar, como ter um intenso mar dentro de si… Impossível querer braçar – desafiar – e não cambalear ao sair. Se sair… Impossível singrar sem emarear, impossível restar sem certo enjoo… Uma ânsia, uma aflição… Uma incontrolável vontade de retorno! A melhor parte, a melhor noite, o melhor motivo de haver motivo. Sonhar! A tontura n’alma, o vinho, a pele a se propagar… Uma efervescência, um encontro acústico a tilintar. Uma taça, outra taça, um olhar n’outro olhar brilhante, borbulhante, enebriado com o amor e o champanhe que faz-se brinde. E faz convidar aos amantes ao entregar-se alucinante, ao movimento estonteante que é do mar. Desse mar…

… e o tempo

O tempo e a vida agora mesmo estão fluindo entre a gana do porvir e a ânsia da conquista. O impulso do mundo é na direção do progresso, e a necessidade de sentir-se motivado exige-nos movimento. O rio flui rumo ao mar, os edifícios fluem rumo aos céus, as ruas fluem rumo ao dinheiro, o futuro flui rumo a mais futuro. Vive-se como se a existência fosse uma seta correndo à nossa frente, e nós precisássemos alcançá-la a qualquer custo. E os sentimentos fluem rumo ao esvaziamento. Ninguém consegue amar se não compreende o tempo do amor. Se não percebe que esse tempo é diferente do tempo das correntezas que rumam para os oceanos das grandes ambições. O amor só ambiciona amar. Se frente a frente com o espelho não se vê a alma, apenas mira-se o olho, então que se aprenda a amar com esses olhos do tempo, e eles ensinarão a amar com os olhos da alma. E ensinarão finalmente que só se perde do amor quem antes já se perdeu da própria capacidade de amar, não o contrário. O amor é permanente. O amor não sai do lugar!

A simplicidade….

O céu é uma rua do passado, sem asfalto-sangue, nem carros apressados. É quando a saudade liga o rádio e ainda escuta o amor. Que era tão proibido… E o cinema era o mundo todo! O céu existe nalgum lugar que vi num filme que eu mesmo me destinei e dirigi. Agora o que não existe é a máquina do tempo (das inocências perdidas). Não que queira dourar o ontem, não é isso. É apenas por lembrar, na alma, que a simplicidade salva.

… e as palavras!

Um universo tão vasto faz estontear o rumo dos homens e suas bússolas. Um pássaro tão lá no alto inspira as asas dos homens que caminham. Um oceano tão sal faz pasmar uma humanidade sedenta. Assim é nossa liberdade: um labirinto, um sonho e um engolir em seco. Tão desejada e buscada, e sempre escoando como a água em nossas mãos. Entanto, jamais aceitarei isso: que decepem meus dedos… de voar!

Escrever é ser livre! Ainda que as palavras sejam éter…

O DINHEIRO E A ÉTICA

Como se diz por aí, dinheiro não é problema, é solução. Obviamente que sim, dinheiro é solução pra ir e vir e viver… Há tantos projetos (projetos de vida, sonhos), que dependem de grana para saírem do papel, tantas realizações, tantas necessidades legítimas, tantas justas vontades! E tantas viagens por esse mundo de meu Deus… O dinheiro só é problema se se torna uma desarrazoada obsessão, uma avareza da alma, uma cegueira de poder, um apego em si, uma trama de dominação, uma doença do espírito.

Quanto aos que põem a mão em grana roubada, principalmente roubada dos cofres públicos de um País como o nosso onde tantos são tão carentes de tudo, esse é o caso mesmo de depravação moral imperdoável, coisa pra lá de hedionda. No mais, quisera eu sempre uma graninha extra (honesta!) pra voar, voar, e mais “voar” por aí…

Não obstante, essa é uma moeda com muitas faces…

Alguém já disse que “o dinheiro compra até amor verdadeiro”! Pois é, o dinheiro pode quase tudo, nesse mundo onde muitos corações transitam entre o oportunismo sem culpa e o cinismo(?) que “sabe se valorizar”… Mas também o completo reverso do bilhão é a falta até de amor próprio, afinal na vida real ninguém ama “o amor e uma cabana”, muito menos admira o fracasso.

Mas como nem o “quase tudo” é perfeito, não raro em meio ao dinheiro acumulado ávido, o amor se perde, a simplicidade se esquece de existir e a vida se esvazia. Então, se há aí uma riqueza, há muito de pobreza também, e a pior delas talvez: a miséria moral! Claro que, como frisei, é bem ruim a falta de grana, torna o dia a dia muito difícil e o mundo um lugar praticamente impossível de se viver.

Por outro lado, o excesso material traz uma dificuldade de outro tipo: faz da pessoa-acúmulo uma amnésia do mundo! E, às vezes, quando precisa da sinceridade sem subterfúgios, já desaprendeu até a reconhecer os afetos que não têm preço. Quer receber, acreditar, mas tem dúvidas: será que sou eu, ou meu dinheiro?

O dinheiro que compra pessoas é maldito, primeiro porque corrompe, depois porque perdeu o sentido. Riqueza feita de desonra tudo o que soma é destruição: humilha o homem e engana a alma. Sorri como luxo, porém resta como lixo. Não aquele lixo que se joga fora, mas aquilo em que se transforma o caráter.

Governantes que se vendem, por exemplo, não são dignos de assim serem reconhecidos, apenas se deve chamá-los de cínicos, pois somente conseguem vestir-se de fracos. Vejam o nosso caso: não há verdadeira crise econômica no Brasil, nunca houve! Somos um País rico, muito rico. Nossa crise é moral e nosso colapso tem nomes e sobrenomes, antes de vir a ser fome e desemprego. Inclusive sabem pedir votos, esses nomes, e conhecem de traição como ninguém. Depois se organizam como poder e então destroem valores e princípios.

É verdade sim, nós não temos crises econômicas, o que nós temos é miséria moral crônica. E como o dinheiro corrompe! Meu Deus do céu, como o dinheiro apequena o homem! Perde-se a honra por um pote de ouro, vende-se a alma por uma conta bancária, troca-se o ser por uma riqueza que passa. No entanto, o dinheiro que tanto compra, não compra o valor do caráter nem a verdade do sol: o caráter, se se vende, é porque era uma farsa; e a verdade do sol, porque não se pode tocar com mãos humanas a essência que arde seus renasceres.

Então há limites bem claros para o poder ancorado apenas na riqueza dos homens: a honra de quem a tem, e a inevitabilidade do novo amanhecer. Na vida existem sensações tão sutis, assuntos tão impagáveis, que triste de quem não perceber isso. De que te adiantará toda riqueza do mundo, se ela te cegar os olhos do coração?

Cuidado, portanto, não viva para o dinheiro, pois por algum tempo serás rico, mas pelo tempo inteiro não passarás de um miserável, uma pobre alma vazia, um rio que corre seu curso mas é incapaz de ouvir o murmúrio dos ventos…


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa