DOS INVERNOS NATURAIS AOS INVERNOS IDEOLÓGICOS…

BRASIL: meu ontem, brincar na “lama”; meu hoje, ver meu País na lama!

* * *

POÇA

Pingo. Pingo. Chove muito.
Pingo. Pingo. Cada gota!
Ô relâmpago! Ô trovoada!
É chegada a invernada.

Corre, corre, sai da chuva.
Pula poça. Quanta água!
Ô menino, vai pra casa,
vai tirar roupa molhada,

passar álcool na cabeça,
enxugar-se na toalha.
Quando é noite tá tossindo,
tá co’a febre danada!

Tô brincando. Tô brincando.
Eu não vou gripar é nada.
Para casa eu não vou,
vou ficar co’a meninada…

Dias de chuva, espeto tanajura.
Barquinho que quero arranco do caderno.
Água de poça, beijos de mariposa.
Ouço zoada: é o canto da cigarra.

Grande alvoroço está no galinheiro.
Haja galinha trepada no poleiro.
Mas que algazarra faz essa passarada!
Quanta rãzinha desce na enxurrada!

-Menina limpa, fique à distância.
Depois reclama se levar banho de lama.
Sai dessa árvore, vai pra lugar seguro,
que de soslaio pode cair um raio!

Faz medo não barulho de trovão.
Quanta lembrança! Invernos de criança:
invernos sujos, brincar na lama;
invernos limpos de dias lindos!

* * *

ATENÇÃO!

Não são os tolos que querem
“mudar o mundo”,
são os cheios de intenção…

Aconselha-se sempre ficar
atento, verificar amiúde,
olhar de perto, checar a direção,
o outro rumo que se quer dar:
Do que se trata?

Nem sempre o novo é bom!

Entenda: não é porque
a correnteza me arrasta,
que eu devo me deixar
levar, conduzir…

A água que lava,
também pode trazer a lama!

Há situações, há casos,
em que é preciso discernir,
e saber dizer não!

Então, é-nos exigido resistir,
lutar contra;
sob risco de sermos tragados,
e sob pena de sermos
subjugados!

UM DIÁLOGO IMAGINÁRIO…

A compreensão essencial sobre a vida de cada um é que trata-se de uma luta interna, individual do início ao fim. Cabe a cada um ganhar ou perder a guerra contra si mesmo. Combatemos intimamente contra o desânimo, o abatimento, a falta de fé, a desesperança e a descrença. Somos eternas pelejas contra a acomodação, o alheamento, a falta de sentido, a preguiça e o medo. Lutamos dentro de nós contra as várias tendências que nos querem derrotar, oprimir o ser em seu âmago de coragem e sua força de vontade. Luta-se contra as aflições e os comportamentos obsessivos ou depressivos. E bem assim, contra a anulação do arbítrio, atropelado por um modo de conduzir-se tão compulsivo ao ponto de imobilizar e conseguir aniquilar o “eu” capaz de tomar decisões e de fazer escolhas. Obcecações, manias fixas que nos fazem quedar sem opção, seja quanto à nossa própria capacidade de reação, seja quanto ao poder exercer controle sobre nossas consciências e atitudes, enfim, ter domínio sobre os atos praticados. E quando a compulsão e o vício dominam e subjugam absolutamente, a pessoa sente-se impotente, pois quem age compulsivamente compra uma briga com seu centro de razão, e invariavelmente perde!

-Não, meu caro, a culpa dos nossos fracassos está no tempo e suas fatalidades, ao tempo se deve creditar quem somos ou seremos e quem não somos nessa vida…

-Ora, você tá de brincadeira, não fique de zoação, não me venha agora com suas ironias, é preciso compreender e aceitar que a vida é antes de mais nada uma experiência pessoal, uma realidade intransferível, e aquilo que somos hoje pertence mesmo ao resultado da partida disputada no interior de cada um.

– Pois sim, quer dizer então que o ambiente em que se vive é de somenos importância? Faça-me o favor…

– Pois sim digo eu, meu amigo, não me deturpe as palavras! Saiba você, é precisamente a forma como se reage ao meio em que se nasce o fator determinante dos nossos futuros. Óbvio que para quem nasce e vive em melhores condições sócio-econômicas as chances de sucesso na vida são facilitadas, e aumentam em larga medida. Contudo, não é em absoluto um definitivo selo de garantia, um carimbo de vitória sem percalços ou retrocessos para ninguém… Tudo irá depender das idiossincrasias, das características individuais, das resiliências perante as tragédias, das capacidades de se superar diante dos limites, ou seja, das determinações buscadas na alma e não nos determinismos biológicos ou nas condições sociais, que isso se pode reverter com vontade pessoal e coragem para mudar o próprio “destino”.

– Continuo dizendo que é o tempo… O tempo que não dispõe de muito tempo, e está sempre apressado e cheio de afobações. Ainda ontem éramos crianças soltando pipas e ganhando as ruas. Naquele antes era pular corda e jogar queimado, e hoje é saltear as dívidas e se queimar. E agora cá estamos, derrubando pontes e erguendo muros. Ah!, o tempo… Ah!, esse monstro que se nos apossa das vontades e nos conduz às tronchuras dos caminhos… Não fosse ele, ainda hoje nossas maldadezinhas seriam apenas nossas linhas chilenas armadas para cortar, nossas trapaças enceradas com cerol e as outras pipas roubadas lá nas alturas… De qualquer sorte, o tempo em que se perde tempo não volta, ou melhor, retorna na conta dos desperdícios…

– Você não tem jeito…

– É, vai ver que é por causa desse meu nome: humano…

– É, vai ver também que é por causa desse seu outro nome: ideologia…

DURANTE UMA BREVE ETERNIDADE…

Lágrimas que riem, razões para acreditar – um filme…

Nos corredores esquerdo e direito do recinto as grandes portas laterais ainda estão todas abertas, e no interior daquele “livro em movimento” as poltronas vermelhas somente aos poucos se vão preenchendo, sendo ocupadas. À frente uma imensa cortina encobre ainda uma branca e enorme tela, uma muito larga e curva tela de aflorar sentimentos, aguçar imaginações, acender ilusões e despertar tantos sonhos… Que lugar!!! Que bom ritual e motivo pra sair de casa! Que novo estado d’alma!!! Que bela “atmosfera” traz o cinema…

E já no por enquanto que antecede -com sabor de pipocas, refrigerantes e doces- aquela “suspensão do real”, aquele entretanto da vida que logo logo será “estrelado”, partindo lá do alto daquelas paredes sonoras, os alto-falantes ressoam e propagam, para impacientes ouvidos, músicas-promessas… É como se dissessem: ouçam-me, this Is My Song!

…”I know why the world is smiling /Smiling so tenderlyIt’s hears the same old story /Throught-out eternity Love, this is my song.” …

Uma espera-desejo, um anseio fortíssimo toma conta… E as luzes se apagam, e fiat lux! Mesmo em sendo apenas um breve espetáculo contra o breu da impermanência, são feixes-feitiços de luz para distrair as sombras do mundo e seus cotidianos… Começa outra trilha sonora…

Sim, uma luz que alumia a descrença e se projeta feito páginas-fantasias de imagens “vivas”, uma mágica vontade de acreditar, apesar das precariedades daquelas “verdades”… E faz-se ali como que um momento quase vero, assim, contra a inexatidão da vida…

Mas do exato amor, o que esperar?

Como se sabe, logo mais o pano será descerrado e haverá um princípio. E é certo, haverá também um último beijo e derradeiro suspiro; então: The End, fim do sonho, fim da emoção. E agora todos saíram de cena…

O tempo, este aqui, tem mesmo seu tanto de acontecer e se cumprir como tudo que é provisório, como tudo nesse nosso estar que mal chega e já se vai. Tendo seus dias contados desde o começo, esse relâmpago de ser principiou junto ao próprio mundo veloz, sendo ele a própria rapidez tão sem apelo e surda…

Bem assim também é o mesmo palco onde vivemos e nos percebemos. E onde sabemos que tudo passa, mesmo!

Talvez no além-eras, quando teremos um corpo-alma que já não estará sujeito ao fim e que desconhecerá a sensação destas horas incessantes… Quem sabe um dia…

No filme da vida de cada um, uma dedicatória em silêncio e intimamente guardada: sim, foi tudo um sonho, um sonho lindo que sonhei, sempre inspirado em ti…

O que fica na lembrança, afinal? O que é o dinheiro – pago na bilheteria – diante dos travos nos dentes e os queixos tão trêmulos, os nós na garganta, os soluços querendo chorar? Diante do desejar infinitamente voltar àquelas cenas? Do ansiar reviver como um sonho próprio, poder permanecer, entender que é preciso sempre e sempre cuidar da gentileza? Eternizar o seu momento inspirado…

E assim o amor, apenas ele, é quem permanece dando sentido a tudo, principalmente à esperança…

RELIGIÃO CRISTÃ COMO ÓPIO DO POVO, OU MARXISMO CULTURAL COMO TORPOR DO MUNDO?

Em que época estamos vivendo? Em que tipo de sociedade desembocamos, em qual estágio da história nos encontramos? Em qual estado da arte, amplitude e complexidade da ideia/idealização de liberdade (é um valor absoluto?) nos encontramos? Chegamos, finalmente , a um tempo -algo nietzschiano- onde “cada cabeça, uma sentença”?

Mas, será que existem mesmo tantas “verdades válidas e possíveis” quantas sejam as cabeças humanas no mundo? Ou apenas estamos presenciando dias escatológicos de um paroxismo filosófico relativista? Dias em que se pretende implantar/impor politicamente uma “democracia” tão radical quanto supostamente há formas diversas (infinitas?) de gêneros(?), moralidades, valores e comportamentos aceitáveis entre nós? Para cada desejo e sentimento íntimo, uma fluidez incessante de personalidade e sexualidade humanas?

E essa nossa pretensa “diversidade identitária de gênero” chega mesmo a esse tal ponto de radicalidade, ou tudo não passa simplesmente da velha tática de guerra ideológica de fragmentar os sentimentos de um povo para enfim enfraquecer suas resistências culturais, e assim conquistar seus corações e mentes? A velha artimanha de confundir para controlar…

“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender” diz a letra do maravilhoso samba “Coisas do mundo, minha nega” tão lindamente interpretado por nosso Paulinho da Viola. Sim, as coisas estão no mundo e é preciso que fiquemos bem atentos a elas… Sim, é mais que preciso examinar a história, as filosofias, os pensamentos, as ideologias versus a realidade…

Bom, o poeta Fernando Pessoa, por seu heterônimo Álvaro de Campos e seu poema “Tabacaria”, suspeita que “não há mais metafísica no mundo senão chocolates”… Ok; por motivações distintas, de Immanuel Kant com sua Filosofia Crítica, a Karl Marx com seu Materialismo Histórico-Dialéctico, muitas foram as advertências sobre se há ou não efetivamente algum valor intrínseco à metafísica. E daí, o materialismo marxista é quem tem razão?

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O AMOR EM SANTA AMÁLIA

Um Conto, duas vidas… (final)

Há um auditório lotado à sua frente, inteiro ouvidos. Irá proferir mais uma de suas tantas palestras sobre ciência e razão. Particularmente, travava ela um renhido debate junto a seus pares de métier, uma luta epistemológica contra muitas das visões reducionistas e excessivamente racionalistas que grassavam naqueles seus ambientes. Qual a origem do conhecimento? A filosofia da ciência era-lhe a “pupila dos olhos”. Nessa oportunidade falará para um grupo de jovens recém-ingressos numa universidade, cuja excelência eram as engenharias e a física aplicada. Estava ali na condição de conferencista/convidada. Isso virara rotina para ela e muitos queriam ouvi-la, pois era uma entusiasta da causa científico-tecnológica:

“…procurar causas, querer entender, buscar respostas, tudo isso move um intelecto perquiridor e inquieto. Qual outro ser vivo nesse planeta realiza tal empresa, além dos humanos? Nós não apenas modificamos o meio em que vivemos, pois que fazemos muito mais! A partir dos nossos sistemas lógico-racionais e das capacidades intelectivas originadas e trabalhadas no interior do pensamento organizado, acumulamos um acervo científico-cultural que tratamos, a cada dia, de ampliar e multiplicar através de nossas pesquisas. E de posse das hábeis ferramentas daí resultantes, e igualmente obtidas pelo laborioso fazer dos homens, erigimos um mundo de eficiência e de prontidão tecnológica. Porém, digo-vos: se a razão humana não apostasse e confiasse na efetividade da razão humana, ninguém jamais entraria num avião… E tampouco nós alçaríamos esse voo, cujas luzes já remontam aos séculos quase a perder de vista de nossa profícua história, em que pesem as delimitações da própria história da ciência… A ciência acontece pela intercessão desse fato, algo de miraculoso… Gostem ou não uns e outros! Sim, a ciência se ergue por intermédio de uma estranhíssima catedral: nosso cérebro gelatino-aquoso, prestes a se derreter e desmanchar-se quando fora de nossas caixas cranianas, é misteriosamente apto a elaborar perguntas e intuir respostas, deduzir fórmulas e calcular infinitos… Como isso pode ser? Como pode ser assim? O que nos reserva o futuro? Não há como saber… Mas de novo vos digo: de minha parte, acredito que tudo sempre prosseguirá para muito além dessa fábula de nossas cinderelas em carruagens de mera abóbora apodrecível; e só. Nosso tempo e nossa razão de ser hão de encontrar um destino, cuja fronteira ultrapassará os limites dessas meia-noites de nós. Sejam bem-vindos ao mundo das ciências, e parabéns! Muito obrigada.”

– Palmas efusivas e demoradas ecoam naquele auditório repleto.

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O AMOR EM SANTA AMÁLIA

Um Conto, duas vidas… Parte 2

Depois de uma visão como aquela, tão linda e tão nua (“teria sido despida de malícia?”, torturava-se ele em pensamentos…), seus dias passaram a ser de desejo e renitência mental, e nada havia que pudesse fazer para socorrê-lo nas obsessões que passaram a dominar-lhe as vontades . Contudo, era alguém extremamente ciente do valor daquela amizade, tesouro que considerava inimaginável de perder. E também era cheio de pudores e completamente respeitador. Enfim, um rapaz de boas maneiras, comedido nos impulsos e costumes, e sempre muito equilibrado nos modos e no trato para com os outros, principalmente com o sexo oposto. Um verdadeiro gentleman, na melhor acepção dessa palavra. Porém, passou inapelavelmente a travar intensa luta contra si, contra seus impulsos e tentações sensualizantes. Ele muito a queria, mas começou a questionar-se intensamente acerca do como ela enxergava-o afinal eram amigos desde a mais tenra infância; sim, pode-se dizer que assim se deu aquele conhecimento mútuo, aquela partilha de vidas e de histórias. E agora? Como desvencilhar-se de um passado de praticamente irmãos , para transformá-lo numa nova realidade de paixão para ambos? Sempre fora galanteador, é fato, inclusive com a própria amiga encantadora, que acostumara-se a levar aquilo na conta de seu jeito de ser, de seu natural comportamento e boa educação. Ele sabia disso! Tinha de mudar tal visão, mas como, como fazê-lo sem ferir, nem ferir-se por fim? Como abordá-la nesse sentido, como conquistá-la para um presente de namoro e romance e um futuro promissor de eternos enamorados, que era só no que pensava naquele seu coração tão repleto de encantamentos por ela.

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O AMOR EM SANTA AMÁLIA

Um Conto, duas vidas… Parte 1

Quando em criança eles brincavam sempre juntos, eram amigos inseparáveis, sem nunca sequer cometerem quaisquer atos que os atritassem entre si, como sói acontecer nessas idades. E assim juntos cresceram, e juntos viraram dois jovens muito cativantes, atraentes e talentosos. Tão inteligentes e inusitados na forma de se entenderem, que pareciam viver ora num palco, ora no interior dalgum livro cujas páginas eles próprios escreviam. Porém, nela especialmente, sua beleza e delicadeza de ser sempre foram atributos ímpares e incontrastáveis, fatores de raro encantamento e causa de despertarem uma hipnotizante vontade de jamais afastar-se daquela tão vívida e despretensiosa sedução. Ela apenas emanava gentileza, apenas sorria suas luzes, apenas possuía consigo o poder de imantar. Então era coisa de produzir paixões instantâneas, logo à primeira aproximação, ao primeiro contato, ao primeiro olhar. Seus sedosos cabelos negro-acastanhados, levemente ondulados e volumosos emolduravam um rosto perfeito, de traços suaves, harmônicos e delicados. Os olhos, também castanhos cor-de-mel, ou cor de âmbar, ora esverdeavam, ora clareavam a íris com o sol. Era-lhe uma característica, um charme a mais que encerrava! E havia um brilho tão promessa naquele olhar, que quem o fitasse acolhia para si a nítida impressão de estar fitando a própria esperança em pessoa… E assim corriam seus dias; livres, divertidos, ricos de afetos e generosos em possibilidades quanto ao futuro…

O futuro, suas ainda intangíveis sinas de uma vida afora, por puro talento e inventividade deles, é-lhes agora o próprio momento presente, uma antecipação no tempo, uma realidade imaginada em suas mentes, uma distância que fazem encurtar e surgir diante de si… Idealizam seus amanhãs, e o fazem divertindo-se: “pegam o destino pelo laço” e o trazem para junto, pois o querem ali mesmo, já. Através desses instantâneos elaboram seus dias que hão de vir, sucessão de fantasias e imagens que tratam de encenar e atualizar em animadas conversas . Gostam muito de brincar disso, dessa espécie de: “o que será de nós no amanhã?” Então começam a “voar” com seus palcos…]

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O AMOR E O MUNDO

Quando alguém diz: o universo como o conhecemos inaugurou a si mesmo a partir dalguma “flutuação quântica no vácuo”, assim, no ermo de um fundo cósmico tão infinito quanto sem qualquer porquê, assim, num “horizonte de eventos” de uma eternidade tão desgovernada quanto sem ânimo ou vontade de existir, pede-nos para perguntar: como então você pode estar aqui para nos assegurar que foi assim? Uau!

Tudo bem que viver jamais será fácil, o mundo não faz grandes concessões à paz. Do primeiro ao último instante de cada vivente dessa nossa jornada terrena, nada haverá de transigir com qualquer possível trégua duradoura. A vida é enfrentamento do princípio ao fim e só tende a recrudescer suas dificuldades à medida que o tempo passa. Portanto, que ninguém se iluda: o seu amanhã será como esse mesmo hoje de durezas, contudo, numa condição já avançada na hora do seu próprio corpo e tão exigente quanto sempre, sendo que você estará mais velho.

Coragem, coragem e coragem, eis a receita. É preciso sorrir, é preciso saber que nascemos para lutar. Mas, por mais paradoxal que tudo isso possa parecer, há tanta promessa de amor nessa certeza quanto existe uma força que é capaz de nos realizar vivos. Afinal, cá estamos, e a palavra acaso não passa de incoerência na boca dos rendidos ao infinito mistério de nos sabermos aqui.

Por outro lado, você pode se chamar ansiedade e de forma aflitiva e recorrente viver a imaginar toda sorte de metafísicas redentoras. Daí, na alma torturada, pode desconhecer calma ou limites. E ir, no espírito desejoso, bem fundo nos quereres. Pode mesmo ver-se invadido e compelido no ser a experimentar muitas outras sensações, se permitir. Assim levar seu corpo até às últimas consequências, embriagar-se do quanto lhe vier de apetites, vontades, apelos.

Você pode sentir, pode viver e abraçar por tempos a fio uma miríade de seduções e prazeres nos convites das mundanidades afora. Então entreter-se, deleitar-se inteiro com seus sentidos envolvidos pela sensualidade do mundo, refestelar-se nas tramas das emoções sensoriais, realizar em si todo frêmito que houver nesses oráculos das tentações a povoar a mente e alvoroçar a pele. Tudo isso pode acontecer, sim, pode ser.

Mas vai passar, tudo passa. Um dia tudo fica para trás e o que resta é você com sua verdade pessoal: onde me perdi do amor? São infinitos os infinitos além de nós! Formigueiros de planetas e tudo que há de objetos e estrelas envoltas em gases e poeira, um angustiante turbilhão formando mundos e mais mundos apartado-emaranhados. Cosmológicas e complexas regiões de impensáveis e estonteantes aglomerados indiscerníveis, colossais ocorrências de incontáveis galáxias, todas absolutamente recheadas de espantosos corpos celestiais, tão numerosos quanto assombrosamente gigantescos e extravagantes.

Nós e o universo! Vastidão-realidade da qual fazemos parte. Amplidão tão distante, atualidade tão perto! Momento bem aqui dentro do peito, aviltando-nos no átrio tão afligido, concretude tão bem aqui nos enredando e emudecendo. Assim, simplesmente gritando: perplexidade, perplexidade! Do pré-atômico instante inaugural ao primordial lugar-espaço desencadeado, tudo se chama perplexidade, tudo proclama desassossego.

Seu corpo, seus pensamentos e você. Você que no entanto vai passar para esse mundo de gozos e turbilhões alucinantes, você que ficará para trás. Porém, antes se perguntará: onde me perdi do amor? Ora, o comportamento humano tantas vezes transita entre a malícia e a perversidade; e ignora-se de morte na indiferença, e apunhala-se cheio de fatalidades na maldade. E vai se perguntar: onde, quando, como nos perdemos do amor? E vai por fim se questionar do amor e vai entender a falta que ele faz, pois a vida torna-se um absoluto sem sentido para quem desacredita no amor.

Afinal, qual outra força seria capaz de fazer valer e existir a vida se a indiferença e o acaso são inclementes e tudo o que podem é aniquilação? Só o amor, somente ele pode tirar o não-ser da condição de ausência e inconsciência para conduzi-lo até uma outra verdade de ser, uma outra realidade dotada de sensibilidade e de auto percepção de si. Ele, a única potência capaz de operar esse milagre.

Ora, a indiferença é coisa que arruína e o acaso é “movimento” sem direção e mera ocorrência espalhada ao léo, é tão somente passo dado à toa e sem finalidade, e é antes o próprio caos desprovido de razão e completamente sem vontade de qualquer chance de vida. Enfim, ambos são causas destrutivas e desagregadoras e apenas o amor é quem pode e quer que eu e você existamos e tomemos ciência de tudo. O amor, ele sim, organiza a própria existência na direção da vida e na intenção da consciência. O amor, ele sim, é em si uma força criadora.

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Falando com o meu silêncio

Quando medito sobre o silêncio minha boca emudece mas
meu peito regozija-se e meu coração compreende…

***

O extraordinário do silêncio é que ele fala
em qualquer idioma…

***

Você pode dizer o que quiser, falar o quanto puder,
mas saiba de uma coisa: o silêncio o está observando…

***

É quando está sozinho que você fatalmente descobre
o peso do silêncio…

***

Um silêncio pesado é mais enervante que a própria
inquietação do tempo enquanto demora das horas.

***

O silêncio o atinge de várias maneiras,
a pior delas é como solidão.

***

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UM POEMA PARA A ARTE, ESSA QUESTÃO…

Arte a serviço de quê, ou de quem?

Com que olhos você vê o belo, como seus olhos veem a beleza? O que é belo pra você? Com que ouvidos você escuta o mundo, a música e o silêncio? Com que dor você sofre a perda, a ausência, a indiferença? Com que fé você exerce a esperança? Com que saber você se responde? Como você exerce a liberdade?

Liberdade? Possuir a liberdade, ou ser possuído por ela? O não-limites de tudo fazer e querer, vaga suas infinitas vontades afora; porém não no ser , mas no vazio que nunca basta, que sempre precisa poder e nunca se encontra, se satisfaz. O que seu coração anda desejando, o que seu pensamento anda imaginando? Com que amor você ama a vida e a humanidade em nós?

Não há humano sobre a terra capaz de despir-se à nudez da isenção. Nem a sabedoria de um Salomão ou a realeza da ciência são anotações de um eximir-se de inclinações e cargas afetivas. Cada um é sua história e cada história seu rosário de preferências. A neutralidade não nos pertence, nem como utopia. Essa mesma, que emula a própria tragédia! Viver é equilibrar-se entre a razão, o desejo e a pergunta cuja mãe é a dúvida que até conhece alguns atalhos e estações, mas jamais o fim da linha… E é por aí que nos equilibramos, por essa linha tão fuga do labirinto quanto o próprio homem-animal que nos assombra.

Tanto vento e tão pouco coração. Tão suspeitos esses insuspeitos gritos: revolução! Qual? Essa dos teus infernos, tão enfermos quanto esquisitos? Estranho, muito estranho. A depender do que dizes, a se medir por teus gestos, é o fim. Apenas atestas tua doença. Da mente, do espírito escravizado: pelo despeito, inveja, ambição desenfreada, concupiscências, vícios e hedonismos; pela loucura, enfim! Loucura de uma alma rancorosa que já não engana, meu caro, minha cara.

Poesia? Pra que poesia? Vocês sabem onde nós estamos? Não existem mais os motivos, os ideais. Por que poesia? Sequer nos habitam mais os sertões onde a sede não sabe da água mas a vida sabe da dor. Nem existem mais as cidades, aquelas onde a morte nos espreitava mas as luzes se acendiam. Por que, então, poesia? Me digam, por quê? Vocês pensam que hoje a vida não vale nada? Vocês acham que é por isso? Não. Vocês estão enganados. Não é de hoje que a vida não vale nada. Vocês perceberam mesmo onde estamos? Perdemos o sentido do existir… Hoje é a morte. A morte é que já não vale nada.

Eu fui na casa do “senhor saber”, que já sabia do fim do mundo e do começo de tudo. Que me disse saber de Deus e de Sua morte. Fui bem recebido. Soube de novidades: de coisas, genes, genéticas, cibernéticas, e do robô que sou. Naquela casa, tudo é sabido: bicho, chip e controle remoto. Sim. Tudo lá é gentil. Sanitário. livre. Igual. Tudo lá é liberto do próprio querer-se livre. Aliás, do próprio querer-se ser. Tudo lá é determinado. Pre-determinado. Sem arbítrio. E o tratam pelo nome. Tudo se trata pelo nome: COISA. E convidam a entrar. Mandam ficar à vontade: senta, Rex…

Por entre raiva e espanto passei. Queriam o quê? As pessoas confundem poesia com elogio. E poema com espuma de barbear. Mas não é isso. A poesia é mesmo lâmina. E o poema é corte que sangra. Então eu vi um livro de poesia pendurado num sebo no centro da cidade. Dei-o por morto. Atravessei a rua. Entrei. Sua capa encarquilhada e suas páginas amarelecidas falavam de grave enfermidade. Quis saber do preço. O dono respondeu: não tem preço. Como (retruquei)? O livro não tem preço, repetiu. Fitei os olhos da resposta, e chorei. Depois sorri. Sorri o riso guardado de há muito, mas incontível agora. Por fim, soltei o grito: o grito da alma lavada!

Essa lágrima indisfarçada vem do nó na garganta e do aperto no coração. E qual o vento leste, do castigo e da devastação, vemos esses dias indo e vindo. Quanta loucura no mundo! Quanta impiedade e malícia! O vento da maldade sopra nesses dias. Que transformação é essa? A humanidade, em reunião de pedantes. E as cidades, em cidadelas erguidas não para a proteção das virtudes mas sim para o festim das bestas.

Se Deus dissesse: tome o fermento, faça o pão, o homem perguntaria: e o fogo? Deus lhe responderia: tu, homem, és o fogo…

A arte não existe pela arte, a arte é pela vida. Como pode a arte ser por si mesma se ela é essência humana? A arte é pela chama e pelo pão… É pra reafirmar a luta do homem em construção!

Caminho na calçada larga de uma beira-mar, a calçada é tão larga quanto o vento que sopra e me traz areia às faces (é a algazarra do vento e do grão). Ajudado pela força do vento, sigo. Estou só e penso. Penso em Van Gogh, penso em campos de cereais… Penso na distância que separa céus e homens. Homens que querem as estrelas que brilham! Olho pro céu e vejo uma gaivota que flana. E eu penso agora em pássaros. Em pássaros e em grãos. Penso no alimento que garante a vida.

Neste momento não mais estou só. Estamos eu, Van Gogh, o pássaro, o chão, o vento, os grãos… Grãos que voam, caem e germinam. Voam com pássaros que os conduzem nos bicos. Caem por seus descuidos! E se espalham com o vento. E germinam porque há um chão os esperando com sua fertilidade pra fazê-los brotar. Penso em todos os cios e em todas as sínteses. Penso em campos de cereais… Penso em rios. Rios em que me banho e nado. E em rios em que jamais nadarei também, tão subterrâneos que são…

O vento está tão forte que insistentemente me empurra pra frente. Compelido pelo vento eu luto contra sua força e ele parece mesmo querer me dizer, vamos, siga. E ele parece mesmo me dar uma ordem para seguir. E eu lhe digo: pensas que é só assim? Pensas que é só soprar e ordenar: siga. E o susto que se toma? Soprar é muito fácil, difícil é viver…

Há uma distância tremenda entre céus e homens. Céus brincam de estrelas, homens de mentiras. Homens querem as estrelas que brilham pros homens. Homens que brincam de deuses, estrelas que brindam os homens.

O vento fica revoltado e sopra e sopra e sopra. Um torvelinho se forma e levanta arrastando consigo mais e mais grãos. E eu penso em campos de cereais… Penso na luta dos homens, luta que que nunca se acaba. Homens que não se superam. Penso em terras andinas e em sua festa de cores. Penso no condor. Voo alto com ele. E eu também vejo as luzes europeias. E eu também penso no oriente bramânico e xintoísta.

E eu quero explicação pra tudo, quero compreender tudo. E quero que meus sentidos o façam, me permitam. Neste instante, uma vaga rebenta com violência. E eu me viro e vejo de novo o mar. Ele está murmurando desesperado E eu não tenho ouvidos para escutá-lo. Estou longe…

Aí acontece o milagre: Van Gogh, como se houvera arrancado de si sua orelha para doá-la a mim, me faz escutar e entender que realmente meus próprios ouvidos podem estar a me enganar e que verdadeiramente há em mim uma verdade silenciosa. Agradeço a Van Gogh e ao poeta. Está findando a tarde e uma estrela solitária surge inaugurando a noite. E eu escuto o poeta. E eu me lembro de Van Gogh. Me lembro de seu brilho, me lembro de seu desespero… Me lembro de seus campos de cereais.

Finalmente cheguei ao meu destino. O vento se aquietou com a noite. Eu me fiz calmo com Van Gogh. Estou sorrindo internamente ainda agradecendo ao poeta. Ligeiro, subo três degraus que me separam da porta do bar onde vou me reunir com amigos. Abro a porta e encontro todos já reunidos. Saúdo-os e junto-me a eles. Ergo um brinde à vida, a Van Gogh, ao poeta e, finalmente, às estrelas que brilham (sublimes), para os homens!

EVOCAÇÃO

Poesia, o outro lado do espelho…

É. Realmente não sabemos o que somos, ou quem somos. Existência/ser; ser/não ser nada. Mas há um lugar/instante – para além de toda filosofia -, onde se pode permanecer sendo: na poesia! (Por certo cada anjo vela por ela…). Nela vivemos: por baixo de coisas como tabuletas (não é mesmo, Fernando Pessoa?), por cima de coisas como tabuletas… (essas nossas asas…), – por baixo/cima da grande e primordial explosão? -, (na pós-explosão?), no Jardim de Proserpina (com Algernon Charles Swinburne), em todos os lagos ( de Alphonse de Lamartine, de Victor Hugo…), por todos os lados (bem espalhados, esparramados…). Nela os homens ocos têm alma (meu caro T.S.Eliot…)! (E já não se teme o reino de sombras da morte?!).

Pois com ela podemos assuntar os dias e libertar a fome. E por ela podemos contar dos desejos do ser e dos medos do não ser. E podemos essas coisas exteriores, e ir por mundos interiores, e falar do que é banal, do que é universal, do que é transcendental e de toda embriaguez. Com ela repelimos os absurdos cotidianos (como um Maiakovski)! Ligamos a poesia e ouvimos música… Podemos nela sentir o cheiro de terra molhada (da terra molhada da pós-hora que vai chover). Ela é ponte entre o eu e o tudo, formando um todo conosco pra nos acudir nos vazios. Saciadora de nossas sedes, de nossas sedes de infinito. Perfeição perfeita do imperfeito em nós, venha com forma ou sem forma.

Pois que: conforma, deforma, reforma, transforma, reporta excessiva e comporta toda construção. Toda plástica e efígie. Toda metáfora. Todo símbolo e figura. Todo lirismo. Toda ode. Toda elegia. Evocadora encantada que permanece mudando. Vara de condão, conto de fadas na realidade do mistério, no mistério real. Imperfeita harmonia. Perfeita desarmonia. Tudo em você cabe. Passeio por tudo. Viagem inteira. Caminhos todos. Paisagens todas. Todos os sítios. Todas as imagens. Todas as metas… Todas as físicas. Metafísicas.

Transcendências… Colírio e fonte da juventude ante a nossa ainda finita imanência do ser; causa de permanência perante a fugacidade das horas, diante do éter das coisas. Receptáculo perfeito dos infinitos quereres, cada ponte no dizer, cada gota de emoção. Pacificadora dos espíritos nas porfias, libertadora nas algemas da alma. Toda emanação tu és, os lampejos tu principias, ó poesia, todo assomo de vir a ser… Asas e berçário das ideias que esvoaçam, acalanto das palavras. Conivente desaguar para os desejos, nascente e foz para as paixões…

Toda esgueirada e furtiva sombra pelas noites, toda chama acesa das manhãs. Tudo que inflama o incêndio e alastra, arroubo que queima e arrebata, ígnea composição que faz arder. Pórtico e brecha para tudo, janela cúmplice que se abre pra olharmos nossos nus e expiarmos por inculpáveis nossos pecados…

Porta aberta, desmesurada, escancarada para tudo! Por ti falam: homens de fé e que duvidam de fé, esperançosos e sem esperanças. Ó Deusa cósmica! Ó Grande mito! Ó Confluência das almas! Ó Harmonia no caos: os surdos te ouvem! Os mudos falam por ti! Os cegos te vêem! Todos te pressentem e sentem teu cheiro e sabor! Unguento e bálsamo nas feridas, lágrima que escorre, pranto que desata junto aos nós em nossas gargantas. Ranger ainda de nossos ossos quando o tempo nos é pó. Plenitude que nos foi concedida… Sem cessar de possibilidades: da língua, do espírito. Alma para o corpo da linguagem. Vestimenta dos homens. Desnudar-se humano.

Olha, poesia, vamos fazer um trato, celebrar um contrato: eu não te deixo. Tu não me deixas. Nunca! Como um marsupial conduz sua cria, te conduzirei comigo! Quero que cresças, mas não te desentranhes de mim. Que não me sejas etérea. Nem me escapes, como água, por entre as mãos. Preciso de ti para falar do indizível! Quero que conspires comigo… E que sejamos escravos um do outro, cúmplices, “escravamente” cúmplices. E assim sigamos pela vida, mundo afora como ciganos. Onde fores, irei. Teçamos juntos nossa teia de inspiração!

Como um mergulhador que mergulhasse num oceano, mergulho na poesia. Estou cheio de imagens e meu corpo presente transcende. Passo por um túnel, vou ao encontro das imensidades, das eternidades em mim. Sou todo sensação. Estou brilhando com as estrelas e nada mais me causa estranheza. Sou todo, estou inteiro. Tudo é maravilhoso! Sou tudo e tudo é. Já nem sou eu, porque somos. Eu e o infinito, o infinito e eu. Eu e o mistério, o mistério e eu. Agora recobro os sentidos do meu tempo presente. Retorno. E espero o momento do mergulho derradeiro…

SETEMBRO AMARELO

Mil razões para viver!

Não há rocha que resista à persistência, ou aço que não separe ferro e carbono ante o fogo da determinação. Não há tora que não se curve à força da obstinação e da vontade, não há nada que detenha esse rio rumo ao mar.

Rumo ao encontro que o espera há uma longa, muito longa estrada por percorrer, mas quem se decide a vencê-la, vence. Se o curso dessa estrada é a vida, o sentido da vida é caminhar seguindo o fluxo contínuo do tempo, prosseguindo até cada razão sua se cumprir. Portanto, não desista de si mesmo, jamais desista de viver.

Há tanta beleza no mundo, paisagens magnetizantes, neve que derrete, corredeiras, cursos d’água… Climas, estações, sol que nasce, que aquece, lua que sai. Flores, bosques, estepes e pradarias. Chuva bendita que brilha sua prata, correnteza que vai, vai…

Pão, vinho, vento-assovio, verdejante mundo em paz com a terra molhada. Mesa posta, farta, varanda; olhar do alto um sem fim de horizonte junto ao o voo-pássaro, os montes, os cantos-gorjeios, os campos, o lugar. Cada coisa, cada objeto, tudo, tudo certo. Harmônicas pedras com o tempo que não passa nessa rocha que nos recorda: Passarão os céus e a terra, mas… E nós?

Em cada um mora uma eternidade prometida, uma sequência desses sóis, uma montanha bem alta por subir. Um encontro! Agora a vida é constituída de três essencialidades: olhar pela janela dos infinitos, escrever a própria história com a lança dos espinhos, e amar. Por enquanto a isso estamos presos, escancaradamente!, mas a essencialidade do amor nos conduz… Quem sabe onde?

Quando jovens, vaidosos que somos, dentre tudo o que nos compõe o ser, que nos constitui corpos humanos, o que mais nos retira prazer de viver é se ver e não se gostar( por isso a indústria da beleza lucra tanto!). Depois lutamos contra o tempo e as imperfeições, lutamos ainda e sempre contra o que não nos satisfaz perante o espelho. Somos fortes, somos frágeis… Diante dessa luz acusadora, penamos. Nosso mundo é estético, imagético, escravo da perfeição. Dos pés à cabeça, nos exigimos e nos referenciamos através de outras harmonias consideradas.

A palavra atração nos atrai, o sentimento de aceitação é-nos fundamental. Sem a autoestima em alta, a alma padece. Como diz o ditado popular: “quem não se ama primeiro, não pode querer ser amado”… Quem haveria de se apaixonar por quem não se valoriza?

Assim é a vida, assim é o mundo, assim funciona a reciprocidade das relações afetivas. Admiração, eis uma “palavrinha” encantada… Mas a admiração pode passar por outras exigências além-estética, outras formas de encantamento. A inteligência é uma delas, e bem decisiva. Como não sentir-se imantado por essa reunião “fatal”: um belo sorriso emoldurado por uma boca instigante que sabe o que diz… (Invista em si mesmo, acredite!).

Pois é, desde que o mundo é mundo carregamos essa marca, essa especificidade bem nossa que é a capacidade de se ver. Somos os que nos reconhecemos, auto-reconhecemos, e isso nos custa bem caro! E o tempo faz estragos, sim, mas há certas coisas que o tempo vem melhorar. Uma delas é a paciência e uma outra é o amor que se sente, assim como a casa e o botão: uma para o outro, fechados para os curiosos, mas por dentro cúmplices, entretocados. E mutuamente permitidos, abertos para os segredos de uma vida compartilhada…

Do mistério chamado Deus pouco sabemos, a não ser que acende o cosmos e irradia-nos verbo e pensamentos, razão pela qual nos afirmamos por música e nos acordamos por que chamados, ateados por inumeráveis desejos. Sonhos impronunciáveis, viagem pelo milagre, amor-paixão que sentimos e sede. Passos que somos conduzidos e vamos para onde há essas janelas e as possibilidades…

Asas alçadas e fé, voos, palavras-pontes. Imã e eco das vontades, porto, estação, destino,lado de fora, cá dentro. Fato incompreensível, intuição, alma que nos nomeamos. Ensaio que podemos nos palcos, estreias que cantamos a plenos pulmões, dias que imortalizamos. Vida que traduzimos como arte, ciências e ânsia. E ainda há quem diga que Deus é nossa criação!

Solidão! Orquestra sinfônica em mim, toque-me. Imensidão céus afora, faça-me pasmar como nunca. Mãos, minhas mãos, multiplique-me. Meu lado de fora, reúna-me. Meu interior, conduza-me àquele lugar sempre além de mim. Minha vida, diga que o amor existe, diga que a amar se aprende, diga que o amor se estende ao indizível, diga que o amor sabe amar! Meu sono, diga que estou acordado. Meu fardo, diga que tudo passa.Minha existência, diga que a paciência pode, diga que o querer alcança, diga que a experiência transcende.

Sentimo-nos abandonados! Claro que Deus não tem sexo nem cor da pele, o que há em Deus é inteireza, integridade de Ser. Mas aqui cada pessoa que sente é uma ilha cercada de si mesma por todos os lados. Se tenta fugir-se a nado, arrisca-se contra seu pulmão-prisão qual um náufrago e nega-se no próprio “eu”, desmente-se no próprio “ego” contraditório e inescapável. Quem “sai”, volta-se mesmo para si, aos seus interesses resguardados. Se vai atrás de afetos, é porque antes precisa-se por existir nessa carência chamada vida, nessa insistência chamada pele. No entanto, se se “doa” por amor, muito exige… Egoístas? Humanos, apenas humanos. Assim como tu, assim como cada um de nós.

Mas há a falta de grana! A maior contradição do dinheiro é não comprar a essencial simplicidade… Muito cara, por um lado; sem preço, por outro. Não paga a neve que cai, a uva que nasce, o dia que se vai. Tudo isso o dinheiro não pode, ainda que possa o vinho – que quando é bom, vira milagre e noite-maravilha em estado de graça…

Há caos! Tudo dá errado! Todo mundo sofre, você não carrega sozinho/a essa cruz. O rio em cada um escorre como o sangue das guerras, amarga como o sal do suor vencido pelo enfado do dia. Mas vai, prossegue, vai em busca do oceano que o espera incansável e se abre generoso como os braços abertos do pai do filho pródigo. Saiba, lembre-se sempre que existe uma força gravitacional que reúne céus e terra, que profetiza os átomos e que organiza e mantém a coesão do mundo. Interessante, muito interessante, não é? Quem dá força a essa força?

E você nasceu!, você venceu, você ganhou a estrada… E o curso dessa estrada é a vida, e o sentido da vida é caminhar, seguir o fluxo contínuo do tempo, prosseguir até que cada razão sua se cumpra… naturalmente! Portanto, não desista de si mesmo, jamais desista de viver.

MEU BRASIL BRASILEIRO

Heranças de um tempo índio

A Terra Brasilis…

A tarefa do tempo é fazer chegar setembro no hemisfério sul, fazer voltar a primavera. A tarefa desta estação é fazer valer sorrir, florir, encher de cores o coração geral destas sul-americanas terras. A tarefa da floresta é verdejar, festejar a vida, reverenciar seu povo. Povo-lembrança dos arcos de um arco-íris no céu como retinas coloridas; íris dos olhos do Sabiá a mirar ainda um tempo. Livre tempo, asas que se perderam. Lágrimas de um tempo pássaro, tempo anta, tempo onça, tempo fauna, tempo flora, tempo tinta e urucum. Tempo de se andar nu. Tempo de pintar o corpo, tempo de pintar o rosto, tempo-“bugre” e caçador.

Tempo lendas, tempo arco, tempo flecha, tempo ritos, tempo rio, tempo solto imenso-mar. Tempo serras e cerrados, e sertões e caatingas, e os brejos e os riachos, veredas de buritis. Mil palmeiras, mil vales e cachoeiras, as verdes exuberâncias, as tantas cores sem fim. Lagoas de águas tão doce, os picos e as chapadas, os mangues e os seringais. Ilhas, lagos, baías e enseadas. A ímpar fertilidade! As águas tão caudalosas, aves lindas e canoras, tempo das praias mais belas, sapos, rãs, vitórias-régias, encantos por todo lado. Paraísos, maravilhas, araras e papagaios: Terra de Vera Cruz.

Tempo de banhos-cascatas , tempo-pesca em rios fartos, de pescar com pontas-setas, e de rústico “canoar”. Preparar peixe na palha, assar a batata doce, cozer em panelas de barro. Tempo de colher raízes, tempo de assar castanhas. Tempo de coco e palmito. Fabricar as arapucas, coletar frutos silvestres. Tempo de dormir em redes, tempo de enfeite e plumas, cerâmicas e cestarias. Tempo de oralidades, rito de contar histórias, rituais de reunir.

Tempo mandioca e milho, mastigar a cacimacaxera, mastigar o abatiui, fazer tudo fermentar, tempo de tomar cauim. Tempo de comer beiju. Tempo de corrupiar, tempo de girar em rito, rito-rituais de cura, ritos de celebrações. Tempo-ritos de passagem, ritos de iniciação de cunhatãs e curumins. Indiozinhos tão arredios e um tempo mata, tempo flecha, tempo chuva, tempo de ser com os bichos. Ventos de querer voltar um tempo, vento de impossível sopro, tempo de tempos assim.

Vida eternos curumins… Vento-aldeia, aldeia dos ventos e magias; pajés, caciques e ocas, e tabas de congregar. Tempos de tantas tribos, todas tribos de um tempo. Tempo Ticuna, tempo. Tempo Terena e Kaingangue, tempo. Tempo Macuxi, tempo. Pataxó e Xavante, tempo. Tempo dos Ianomâmis. Tempos Tabajaras, tempo. Tempos Caetés, tempo. Tempos Tupiniquins e Tamoios, tempo. Tempos de um tempo Tuxá, Potiguara e Guajajara. Tempo Karipuna, tempo. Tempos dos Tupinambás. Tempos Guarani-Kaiowá. Tempo Xipaya,tempo. Tempo Kamaiurá.

E ver o bambu ventar, soprar a taboca-gigante, trombeta de curar e purgar. Tempo-cerimônia, tempo. Horas xuatê, horas de lutar e brincar. Tempos de sacudir o chocalho, de brandir o maracá, rodopios pra se encantar. Pés de ritmar o toré e marcar, e dançar sagradas danças, e cantar e mais cantar. Tempos dos povos-nações, de ser uma gente feliz. Tempo Pankararu, tempo. Tempo Xucurus, tempo. Tempo Cariris. Tempo de evocar espíritos, tempo de ouvir as matas, escutar os ancestrais, se aconselhar.

Tempos Cariris-Xocós, tempos de nadar nos rios, subir nos ouricuris, em palmeiras balançando, tempos tão livres assim. Falar dialetos tantos, falar só línguas indígenas, de caçar îakaré, îagûara, inhambuxintã, de beber na Ibiaçá, de pisar firme o yby, de falar língua tupy. Tempo Tupi-Guaranis, tempo. Tantas outras etnias, tempo.Tempo litoral, tempo. Tempos de um tão lindo tempo, tempos de um Brasil que, ainda Terra Brasilis, foi berço de um tempo índio!

A herança…

Ao cair da tarde o sol vem banhar-se às águas da lagoa azul. E a lagoa inteira veste-se de dourado, celebrando cálida esse momento nu. E sorrindo acalma cada raio e aninha-os. E abraçando guarda-os consigo um a um. Mas a passarada, toda alvoroçada, logo se assanha pela hora dada. E grita bem alto e imperativa para a lua branca: ei, Selene, volta! Aparece, ó nossa, e te desencanta. Vem, que és tu agora!

E a lua desperta, tão silente e sábia, só espia ao longe, aquela magia. Já a natureza, esgueirando-se então, traja-se numa outra, ao trocar de roupa. E acalentando ela a própria escuridão, canta e adormece. Mas só dormita a bela, que a preguiça é pouca. Rebulindo-se à noite feito ventania, faz-se acordada e viva noutra sinfonia. Que sibila, e chia, e estrila, e pisca e pirilampa e acende, e se acende e não. E haja cantiga, e haja cantiga. Repetida e quanto, tão comprida e tão… Quem esquece?

E ali na água, quem é que coaxa, quem é que se arrisca? É o sapo, é o sapo, aquele enfunado, já inflando o papo. E a dona coruja, o que é que pia, o que nos avisa? Avisa da morte, avisa da sorte da casa vizinha? Qual nada, qual nada, ela arregala é mesmo os enormes olhos da sabedoria. E em rasgando o manto, em voo já pleno, bem longo assobia: ooolhe, ooolhe, ooolhe, vem rompendo aurora, vem nascendo o dia!

SE DEIXARMOS O AMOR FALAR…

Por entre a melodia das harpas, com os sons e silêncios – tão remotos – daquelas idílicas cordas, ressoava uma antiquíssima canção egípcia. Uma canção-conselho, uma anciã vontade de harmonia, um desiderato que findava assim: “Passe um dia feliz, usufrua dos mais doces perfumes, adorne pescoço e braços de sua esposa com flores de lótus e mantenha seu amor sempre ao seu lado. Não interrompa a música e a dança e esqueça a preocupação. Pense apenas no prazer, pois em breve chegará a sua vez: a jornada para a terra do silêncio!”

* * *
No mesmo Egito ancestral e mítico, o Egito da civilização assaz e seu rio caudaloso, uma dança astro-teológica venerava um rei-deus – Osíris – como evocação de fertilidade e paz…Não obstante, Osíris padeceu esquartejado por Seth, seu irmão invejoso. E não obstante ainda, o mito então retorna e regenera-se em luz, desta feita, e revigora as férteis esperanças daquele povo das colheitas…

* * *
Acontece que fomos erguidos sobre cadáveres ( e ainda o somos)! Somos os erigidos pelo medo e o espanto, nossa sentença… Os antigos matavam gente por oferendas! Sacrificavam aos deuses nossas virgens, e jovens, e crianças… Ritos, rituais, celebrações e danças por seus deuses desejosos de carnes, por seus deuses insaciáveis e frágeis… Frágeis deuses da bonança, tão desumanos… quanto humanos…

* * *
E no entanto, Gaia Terra – nossa casa- é um cisco, um minúsculo e ermo fragmento, um grão esquecido no Caos. E o deus Hélios com seus quatro corcéis, o deus Sol (o nosso mesmo Sol), aquele deus grego flamejante de leste para oeste, é um astro mínimo e perdido, uma estrela a arder qual um periférico pingo na hélice helicoidal e láctea dessa galáxia menor, nossa parte no infinito e nosso abrigo e derredor…

* * *
Somos uma civilização por encontrar um céu, por alcançar um alto e babilônico céu e salto pro depois… Depois de eternizar cada nome na Babel…

* * *
Somos a civilização que roubou o fogo, somos cada um uma chama, cada um, um Prometeu. E agora, que ardemos essa flama, e abrimos o segredo, sobreveio-nos o ciúme. E as rugas… E as moléstias… Aos vingados por Pandora, resta agora ser cruel? Resta sermos os mil faces, qual um Zeus???

* * *
Nós, os eternos apaixonados, os incorrigíveis e insaciáveis, não podemos nem a astúcia de um Ulisses. O Ulisses dos mil ardis que resistiu ( mas também caiu…), o Ulisses dos engenhos e prudência, o herói que venceu Circe (mas cedeu…), aquele que desceu ao Hades e sobreviveu, aquele de saber a paciência. Mas não nos amarramos aos mastros e vamos com os cantos das sereias… Nem resistimos muito aos testes… Somos os Ulisses sem Penélope.

* * *
“E tão contrário a si é o mesmo amor”!!! Com facas nos dentes somos Eros e Afrodite, e somos Psique e como tal, queremos o triunfo do amor. Sonhamos com o amor… imortal!

* * *
Somos tão pequenos e tão torrenciais… Quem é você, quem sou eu? Um rio, um caudaloso rio que corre nesses infinitos… Os Cérberos nos nossos cérebros de não fugir dos infernos que somos nós. Podemos o quê, meu Deus?

* * *
Somos oráculos e auroras, trazemos dedos cor-de-rosa e laranja em nosso ser para traçar o arco das manhãs. Inauguramo-nos a cada novo dia! Luzimos o açafrão do amanhecer.

* * *
E repetimos, e sabemos: Ainda que falássemos a língua dos anjos, sem amor nada seríamos!Como o apóstolo, desejamos o amor. Erguemo-nos por entre espinhos e desejamos o amor.

* * *
E, ainda que fracos, ainda que longe de sermos qual um Ulisses o herói, sabemos que precisamo-nos sempre! E lembre-se, lembrem-se (todos) da última estrela no infinito… “Não interrompam a música e a dança e esqueçam a preocupação. Pensem apenas no prazer, pois em breve chegará a sua vez (a vez de cada um): a jornada para a terra do silêncio!”

* * *

Há esperança para nós? Se o amor vencer, se deixarmos o amor falar…

O TEMPO, O HOMEM, E O SILÊNCIO…

Os maiores limites do corpo são o tempo e a posse da coragem, e o maior desafio da alma é convencer o “eu” humano que se pode vencer tais obstáculos. O primeiro, através da inspiração que protagoniza a esperança de haver um sentido maior para a existência e o mundo; o segundo, através da fé que robustece a força sediada na mente. Desses alimentos vivem: a pessoa que respira, a arte que supera e a própria razão das coisas que realizamos contra os absurdos.

Nos dias desse ringue temporal nossa luta é nas cordas, acuados. Pugilista de golpes baixos, adversário que avança célere contra o corpo, o rosto e o espírito mundano que nos move pela vida afora, o tempo – que tem contrato assinado com a certeza- só respeita mesmo a sabedoria, ainda que sempre tentando dar uma de esquecidinho em relação a ela…

Nem o gongo intercede, acalma seu desatino. Cercados por todos os lados, marcados, surrados, a luta é inglória e o que ressoa é destino. Aliás, quando acaba a contagem é-nos tarde, um não mais levantar, um repique de sino e aviso: aqui jaz.

Mas a história da humanidade é a história da superação diária da melancolia, a luta para seguir adiante contra a saudade antecipada, a certeza do fim. O maior edifício humano é o horizonte invisível aos olhos que nós sempre divisamos por alcançar, essa estrada que nunca acaba. Aqui, perder-se da fé é esmorecer na coragem, desistir da esperança. Nosso melhor ponto de chegada é prosseguir…

Não há erro em afirmar o tempo como concessão da eternidade, pois absolutamente certo é que nada sai do nada!

Resta entender o quê ou quem existiu e existe desde sempre, essa presença que se dispõe à intuição agora, essa cabal negação do vácuo, essa indizível certeza que se impõe. É inteligente? É consciente?

Há consistências matemáticas aqui e alhures no universo, isso agora também se sabe. Mas números, embora efetivos, são só acúmulos, linguagem ainda sem sentimentos, representações simbólicas de um processo infinito, um firme sinal de inteligência.

Contudo, o que é eterno se fez esperança para o pensamento que pressente, e sentido para a experiência que se constrói. E, essencialmente, se fez afetivo motivo de um mundo sensível que reconhece transcendências para além da física de seus tijolos constitutivos.

Sem dúvida que o princípio de tudo possui uma faculdade lógica de ímpar natureza, verdade insuperável e única. A razão volitiva em si, a inteligência em si, o ato de vontade em si.

Ora, primordialmente não pode haver matemática, energia ou matéria organizada, nenhuma realidade que se evidencie racional, que se preste à percepção inteligente, ao cálculo e a toda fórmula sem que, necessariamente, tenha partido de uma decisão consciente, sem que indique deliberação e vontade causal.

É bem simples: essas coisas, em sendo contingências temporais, são carentes de explicação que lhes seja anterior.

Porém, a despeito dos números que encerram, as leis naturais, as equações, os efeitos aparentes, a ordem e as regularidades da natureza não são meras acumulações, não são cúmulos de acasos. Antes demandam intenção e trabalho volitivo, nascem de causas motivadas.

São realidades que exigem, para virem a existir, um poder deliberado e um querer fazer, ou seja: uma força inteligente e criadora anterior. Portanto, nascem dalguma precedência autônoma. Como? Quem? O Ser Necessário, O Ser em Si. Esse Ser a quem chamamos de “Silêncio”…

Sim, o outro nome de Deus é Silêncio! Não por ausência, mas por infinita sabedoria, pois somente fala com o silêncio quem aprende a mover-se sem o peso dos rancores e procura a paz. Porém, se os sinais do Criador são silenciosos, também são eloquentes: há mais comunicados em uma pétala de flor que palavras em um dicionário… E a atividade a que chamamos de ciência não tem vida própria, ela é uma ferramenta para o conhecimento a serviço da razão. Inclusive, hoje podemos -como nunca na história- juntar filosofia, ciência e religião para atestar essa verdade. Mas…

…Estive tão ocupado com minha própria pequenez, que nem vi o tempo passar. Hoje estou enorme, do tamanho de minhas ausências. Clamo por Deus, acordo na noite, revivo cada dor e me cobro. O tempo não volta; mas eu retorno – sem falta – a mim. Volto como sentença: tudo passa, menos viver esse inexorável destino. Se não aprender o perdão, estarei morto. Pra sempre!Esta palavra é do tamanho do mistério… E tão decisiva quanto o verbo existir, que também tento aprender!

Deus é bom? Ser tirado do nada e trazido à vida é bom ou ruim? Ter consciência, poder pensar, refletir geral é bom ou ruim? Ter uma inteligência poderosa, poder compreender as coisas, ter sensibilidade, é bom ou ruim? Poder amar, ter sentimentos, ter esperança, é bom ou ruim? Cada um que diga, que fale por si. Mas uma coisa é certa: só podemos tudo isso porque um dia fomos tirados de nosso nada existencial e apresentados à luz da existência revelada, esse milagre dos milagres.

DUAS GARRAFAS DE TINTO, AS LEMBRANÇAS, A EMBRIAGUEZ E A MÚSICA! TANTA MÚSICA…

A emoção contida numa garrafa de vinho, transborda. O que cabe ao coração, a não ser beber essa taça de novidades? O rumorejar das coisas, os assuntos do mundo, os apelos dos corpos, o chacoalhar das almas, a incontinência das paixões, tudo tudo por um brinde e um triz na noite acompanhada desse fermento dos céus. Aceita? Acompanha-me?

Companheira que não te abandona, a música é alegria até quando triste. Eterna amiga, vida que resiste ao tempo; repleta e plena, dele não se desliga e a ele volta conosco, contagia. Revive… Fica… Basta um click…

No instante música, a alma é maior e o corpo não se dobra pelo metal tão vil. Outros são os metais pelos quais o corpo balança, noutro lugar está o querer dos pés, rosto, mãos, torso: na leveza do ar, no outro lado da gravidade. Subindo junto, todo ouvidos, sensação de voo, alegria dos sentidos. Maravilha! Quer dançar comigo?, nem pergunta o ritmo. Apenas inicia e todos num zás-trás já o estão seguindo. Tudo se propaga, evolui melodia!; e cadência… Percussão, cordas, harmonia. Mil instrumentos, um único momento: magia!, pura magia…

Tendo uma alma livre, me fiz cativo de uma dama: a música, minha ama. Exerço o ofício de ir apanhar de cada galo e sol o amanhecer, o tom da aurora: canto, chama. Sou dessas palavras-tramas, dessas letras exercidas. Ou segredadas de entrelinhas… Dizer, entretecer, costurar.Tecer. Sou como Sherazade se adiando, sou conto, sou narrativas. Sou essas mil… E uma mais. A música não acaba. Jamais!

Uma música pra cantar de tarde, música pra cantar quando for tarde, algo que salve a sensação. Se não salvar, que acalme, suavize a razão. Uma canção que abrande, que entorpeça a certeza, que torne o tempo sereno, que traga a distância pra perto. Música que fale direto à tristeza mas cante fazendo da saudade e da vida vivida um caderno de anotações. Desses que se podem sacar e ver o número, o endereço. Desses que nos protegem do esquecimento, e cabem ir conosco. Uma canção pra cantar de tarde, querendo ficar. Uma que toque a sensação. Com tudo anotado, guardado. Uma canção de alívio, que aplaque a desrazão.

Não, a canção jamais se esgota. Ela é como o destino do sonho, como a nobreza da águia, como um rio para o mar. Ouça-a para sempre, alegre-se. Agradeça, rejubile-se, viva-a. A canção é divina, é sua asa. Nosso mais sensível olhar, um sentido a nos ecoar epifanias, o êxtase de Deus: cantar! Sim, a canção jamais se esgota! Traz a eternidade, nos faz felizes. Sinta-a, se embeveça, olhe o céu. Seja como um rio para o mar!

Dança comigo, garota, dança a dança desse convite que te faço. Dá-me tua mão, acompanha-me ao salão, vamos ficar juntinhos. Vamos dançar juntinhos essa linda canção, vamos colar nossos corpos, vamos cingir nossas almas, vamos nos abandonar um no outro. Vamos deixar somente a música entre nós dois, mais nada além dela. Dança comigo, querida, dança essa dança da promessa, essa dança da celebração que é só nossa, co’a música pela qual seremos lembrados. A dança nos une, a noite nos une, a atmosfera nos une, tudo nos une, somos o amor. Dança comigo, dança, linda minha! Dancemos juntos e sigamos. Somos a canção, somos o amor.

Tem horas que dá vontade de simplesmente abrir os braços, esperar a corrente de ar chegar, pular dentro, embarcar e aventurar-se no mais maravilhoso passeio e experiência de ir-se elevando juntos. Não como fuga do mundo, mas como partícipes vivos nas melhores notas e acordes das mais lindas canções. Ah se pudéssemos tomar parte apenas da arte, viver somente daquilo que vale a pena! Intensos, felizes, livres. Imortais!

Para sentir a vida, ir fundo, é preciso mais que se estar vivo, viva. Um bom exemplo é o ouvido para o ritmo, como o corpo é percorrido. A vontade logo de dançar, a espontânea alegria. A experiência da música é definitiva. Amém.

A sentimental modinha e o sensual lundu. Na primeira os salões da corte, o refino da ópera (ela já mais singela), essas influências. No segundo o batuque africano, o ritmo profano. O erudito e o popular, lado a lado numa época. A origem aristocrática e a plebeia poética um dia deram-se as mãos; na música! A música, sempre ela, abrindo portas, enxergando janelas. Mostrando ao mundo que a humanidade é única, basta querer valsar, ou sambar, juntos!

Gosto de música clássica, gosto dos instrumentos, desse acordo com o vento sobre se reinventar e voar. Gosto da poesia na música, dessa acústica feito letra, dessa união feito asa, palavra, texto para sonhar (e dançar)… Gosto que gosto de escutar: canções onde em tudo me transmudo, melodias onde em tudo estou. Eu vou, em transe me mudo (tão ouvido e estação de ir que sou…)! Sim, ó música, sou ritmo da vida se te escuto, sou até o que nem posso, se me mergulho em teus compassos. Que te ouvindo eu me faço tão invento quanto és! E insólito me “janelo” quando aporto; e te anelo, e me revelo, e me transporto para a dimensão de um crepúsculo sem ocaso numa viagem por sentidos e sentimentos meus; perto do sol, mas longe de Ícaro derretido… Eterna aurora!

Estou vivo e ouço imagens. Pela amizade à musica se desenham os horizontes de cada um, e seus refúgios, abrigos. Tudo ao alcance dos ouvidos, e dos espíritos. Então os mundos, então os destinos. Pela identidade na música se delineiam sentidos e significados. E os motivos. E os sábados, e os domingos, e os dias. Ad infinitum…

Quem canta sorrindo, voa. É incrível! Empina a alma leve tal uma pipa, e solta a voz qual o vento. E faz firulas no ar e esquece, assim como quem nunca desce da árvore de quando menino. E aquelas nossas festas na na casa do Bolinha, parece até que foi ontem! E no entanto já faz tanto tempo…

Glorinhas do céu, o que foi feito de nós? O que houve com nossos heróis? Estamos tão sós… Restamos tão sem horizontes, tão assim vivendo ao leo! Tão sem beijos roubados nos fundos dos quintais, tão sem causar ciúmes,tão sem quê, tão sem mais,sem contentamentos… Eu não entendo! Alguém aí me responde onde está havendo uma festa? Alguma Lulu como aquelas, alguém como tu, alguém como nós, onde estão todos? No umbral do tempo, nessa escola fugidia onde tudo é certo e nada é normal, o muro do Sacré Coeur ainda está de pé? Nunca mais vi igual… “Será que algum dia”, ainda?

Aquilo que o tempo não cura, a música ajuda, faz suportar. Onde a saudade constrói morada, e tortura, e insiste em voltar, a música ameniza, sabe aplacar. E na demorada agonia de uma noite insone e de amargura, socorre-o no leito acordado e no aperto no peito, pra você não chorar. Sim, a música é capaz disso, a música pode abarcar os sentidos e envolver os motivos em outro abraço, até devolver o sorriso ao rosto triste e ao olhar perdido. Remove o longe pra perto e espanta todo deserto que quer se instalar. E, na mente baldia, nas horas agudas de tédio e melancolia, vem se aninhar.

Mas quando não se faz providencial a distância entre o ontem e a dor sofrida, a música se achega abrandando, soluçando junto, batendo junto ao peito no compasso da aflição, até dar guarida e doer menos o coração. E se ainda assim não se aquieta a angústia que o acompanha na solidão, se ainda assim a ausência sentida vem com a noite que não silencia, e retorna, e corrói latejante, e fica, e reclama a cama vazia, canta o próprio lamento, a música.

E, de tão única que é, socorre-o na lágrima e acalma-lhe o ser e não o abandona. E acalenta e enxuga esta lágrima que rola na alma de sua face, vinda do coração. E faz-se qual um hino para injetar vontade de, e coragem. E canta com força uma ode ao amanhecer, e se impõe como súplica ao momento, ao enlevo de uma canção de ensinar o novo, e ninar! Durma agora, pode dormir, tudo passa. Pronto, amigo, acorde, levante-se, volte a cantar, volte a sonhar.

Estou de mudança, vou morar na música. E vou pra ficar lá, no lugar onde apenas meu corpo precisa ocupar o vento. Às ondas, vou encarregar de deslizar seus sons na pele de minh’alma definitiva. E viajarei; e irei qual melodia: harmônico, sinfônico, feliz. E vou antenar meus pés e ouvidos no mesmo ritmo e verdade. E depois vou esquecer quem fui, o que fiz, ou não fiz. Inteiro ali, saciado e longe, não mais serei ansiedade. Serei apenas o que ouço, serei apenas o que vibro.

Tem razão a canção! Ansiamos as estrelas, vertigem de distância e cosmos. Mas a canção de realidade e sonho nos diz: “Porque se chamava moço, também se chamava estrada”. E o tempo passa (“nem se lembra se olhou pra trás”). E nossa alma sai por cada poro, escapa, transpira, transporta-se para o ar. “Viagem de ventania”. E nosso corpo fica, vai ficando. E o tempo passa. A pequena cidade amanhece ainda junto às gotículas d’água, que o sol nascente logo dissipa com frescor. E o comércio sorri e abre as portas, e a simplicidade dá bom dia. Mas somos transeuntes e transigimos com a estrada, e partimos. E ganhamos o mundo. E o tempo dispara, e a alma evapora, e o frescor vai embora, e o corpo fica.

Ansiamos as estrelas, mas nos perdemos do bom dia, do sorriso, do vizinho. E já não nos chamamos moços, mas permanecemos alma. E a saudade fica, fica, fica. Não passa! O humano é muito sonho, sonho de estrada e sol. E o céu é uma cidadezinha esquecida em meio ao mundo, porém eterna em nossas vontades de eternamente nos chamarmos moços. E de eternamente nos chamarmos sonho. Poesia, música e sonho realmente não envelhecem.

As uvas murcham, a videira passa, mas o vinho fica. Até quando a garrafa esvazia, o vinho persiste como motivo, como encanto ainda… Até se a adega está perdida, o vinho resta como o sabor que celebrou o encontro, que inaugurou o amor. A vida passa, mas o vinho fica, permanece. Como o milagre de um dia…

A vida não é um carnaval, mas bem que poderia ser. Uma noite, um baile, a embriaguez, nossa paixão no salão e nada mais. Bem que poderia ser só essa fantasia, a vida, essa alegria de sermos sempre eu e você. Eu e você sem ver outro dia pra dar adeus nem ais. Bem que poderia ser só assim a vida: a música, o amor, e nada mais pra doer. Nada mais!

O PT, A”PRESIDENTA”, O LULA E O MARXISMO CULTURAL

Hoje vivemos sob o império do relativo, sob a égide do provisório, esse escudo que engana, que ilude. Dizem que são as palavras que vencem a guerra, a despeito inclusive do sangue derramado, das efetividades de uma batalha, dos conflitos que são só momentos, páginas marcadas de um calendário. Ou seja, mesmo enquanto soma de atrozes e decisivos combates, a guerra passa, os momentos passam, mas as palavras ficam, persistem guerreando.

Pelas palavras se constroem, se precipitam e se determinam as atitudes e os fatos. E se a costura dos fatos faz a história, e se a história segue seu curso e esse curso é a verdade do mundo, e se há mesmo uma verdade, e se a verdade é uma só, se a verdade é única, então um dia as palavras e os fatos serão um só momento, uma só história, o encontro de um destino que se cumpriu.

Por que digo isso? Digo porque a guerra está viva, ainda, a guerra de palavras, as versões contra os fatos, fatos que devem o que são ao curso da história, história que continua sendo contada, sendo construída, pois não está consumada. Como fazer as palavras serem dignas de crédito? Associando-as aos fatos, fazendo-as espelhar a verdade.

Nossa atualidade fervilha de estigmatizadores da história, de “guerras de narrativas” no dizer da esquerda, pois não faltam os inconformados com o passado. O marxismo cultural, por exemplo, é uma estratégia de dominação marxista não ortodoxa que busca se infiltrar em todos os espaços de influência de nossa sociedade e assim desconstruir nossos valores milenares. Obviamente que o PT se aproveitou dessa tática para inculcar em nossos jovens “a necessidade de mudar tudo que está aí”.

Muitos lulistas estrebucham quando se fala dessa verdadeiro ardil de guerra que é o marxismo cultural, negando mesmo a existência de um tal expediente. Talvez porque gostariam de fazer tudo, no âmbito da esquerda, parecer a “ordem evolutiva natural das coisas”. Mas não é, e a disseminação do “politicamente correto” se deu a partir de objetivos ideológicos planejados, movimentos direcionados enquanto doutrinação revolucionária voltada principalmente para os mais vulneráveis emocionalmente e os mais jovens. Um “Cavalo de Troia” minuciosamente arquitetado para infiltrar-se socialmente até sedimentar no inconsciente coletivo.

O que têm em comum as ideias de Antonio Gramsci, a Escola de Frankfurt com sua Teoria Crítica e a reengenharia linguística dos idiomas ocidentais, com a atual proliferação do pensamento esquerdista em nossa sociedade? Ora, há tudo em comum! Em não ocorrendo internacionalmente a revolução nos moldes do marxismo ortodoxo com suas etapas -luta de classes, ditadura do proletariado, superação do capitalismo e finalmente uma sociedade sem classes e igualitária-, que então ela ocorra pela desconstrução cultural dos valores ocidentais.

Qual a face mais visível dessa revolução “invisível” e não ortodoxa? O politicamente correto; o desconstrucionismo linguístico (história vista como discurso, como narrativa social e gênero literário, releitura do sentido das palavras); a doutrinação marxista nas escolas e universidades com instrumentalização (aparelhamento) da educação pública para fins políticos; a reinterpretação e ressignificação da história; o sócio-construtivismo com sua pedagogia do oprimido; o relativismo cultural (nenhum valor cultural/religioso é superior ao outro); os ataques à família tradicional e a ideologia de gênero.

Quem, a partir dos primeiros anos da década de 80 do século passado em diante, manteve algum contato acadêmico com os setores de humanas, letras e artes das universidades públicas brasileiras, ou com seus cursos de linguística aplicada ao ensino de línguas, pôde verificar a significativa mudança de ênfase em muitos dos conteúdos de seus bacharelados e, especialmente, de suas licenciaturas.

Que o digam as severas críticas feitas ao ensino gramatical normativo , com implicante desmerecimento das gramáticas tradicionais por sua “norma culta seletiva e excludente”. Também na valorização das sociolinguísticas e dos estudos tantas vezes propositalmente enviesados das variedades nos usos da linguagem, variedades essas delimitadas pelos grupos sociais (leia-se: lugar social, luta de classes, classe dominante) dos falantes.

Assim foi que a análise sintática virou a “prima pobre” e a disciplina “análise do discurso” virou febre. Nessas aulas eram comuns os escrutínios de determinados textos escritos, escolhidos a dedo, ou de certas canções do cancioneiro popular, tudo com o intuito de “demonstrar e deixar patente os preconceitos de gênero, o machismo, a dominação de classe, ali embutidos”. O viés foi de tal ordem, que sobrou até para as desinências nominais, essas que indicam as flexões de gênero (masculino e feminino) em nosso idioma. Não à toa, a ex-Presidente Dilma fez questão de ser chamada de Presidenta!

Essas mudanças de paradigmas curriculares aconteceram igualmente nas áreas de filosofia, pedagogia e afins, onde os estudos dos filósofos e intelectuais marxistas passaram a ser mais acentuados do que os estudos clássicos ou o tomismo/escolástica aristotélica de São Tomás de Aquino. Ressalte-se ainda, perante as bibliotecas universitárias, as formações de lobbies e de grupos de pressão com vistas ao aumento dos acervos, e mesmo para a criação de bancos de dados específicos, de autores como: György Lukács, Antonio Gramsci, Max Horkheimer, Alexei Leontiev, Lev Vygotsky, Wilhelm Reich, Paulo Freire, etc.

O PT foi fundado em fevereiro de 1980 e já nasceu como o filho latino-americano predileto de uma nova visão do marxismo, uma autêntica cria dessa nova forma de fazer a revolução. Exatamente esse partido um dia encarnou e traduziu, como poucos dentre a esquerda mundial, o conceito de “poder onipresente e invisível de um imperativo categórico”, e Lula, seu líder máximo, o papel por excelência do intelectual orgânico gramscista (não precisava ser detentor de diploma acadêmico, apenas ter identidade perfeita com um determinado ambiente ou grupo social ).

Revisionismo socialista estratégico, com sua contra-hegemonia cultural a ser conquistada pela classe trabalhadora que “deveria desenvolver instituições e cultura próprias, disseminando-as para torná-las hegemônicas e tentando sitiar o estado burguês, isso antes mesmo de tomar o poder governamental” (apud Armando Avena).

Deixemos então o próprio PT falar sobre “O Socialismo que queremos construir”: “A democracia será a referência estratégica para a construção do nosso modelo de socialismo. Uma democracia alicerçada na participação organizada das massas e que seja capaz de articular representação com participação direta. A pluralidade também deve ser um referencial da ação petista para a construção do socialismo” ( vide: “Resoluções do Terceiro Congresso do Partido dos Trabalhadores”). Sabemos agora que dentre a “pluralidade”, inseriam-se os ladrões de cofres públicos, os corruptos em geral, os ditadores sanguinários e até terroristas do Estado Islâmico (com quem Dilma queria dialogar).

Mas enquanto fomentava o Foro de São Paulo lá fora, maliciosamente o PT aqui no Brasil tentava disfarçar suas reais intenções socialistas num contexto mais amplo de sua assunção ao poder. Em que pese as ameaças de censura (de forma indireta, porém controle, porém censura sim!) aos meios de comunicação; em que pese as várias tentativas de relativizar o direito à propriedade privada; vide, por exemplo, o PNDH-3 que trazia coisas do tipo: “um dono de imóvel não poderá pedir reintegração de posse, caso ele seja invadido por algum sem terra ou sem teto. O proprietário terá que enfrentar uma audiência pública, da qual participarão os movimentos sociais para analisar os “direitos humanos” envolvidos, ficando o juiz sujeito à decisão dessa audiência.”

E ainda não esqueçamos que a ex-presidente Dilma tentou praticamente tutelar e esvaziar, por decreto, os poderes do Congresso Nacional e extinguir a nossa democracia indireta, representativa. Foi aquele de número 8.243, de 23 de maio de 2014 que criava uma tal “Política Nacional de Participação Social” e um certo “Sistema Nacional de Participação Social”, onde os membros dos “movimentos sociais”, bem como os próprios “movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”, “o cidadão” e “os coletivos” poderiam, caso a coisa vingasse, exercer poderes legislativos, e até executivos, à revelia dos nossos representantes democraticamente eleitos: “todos os órgãos da administração pública direta ou indireta contarão, em seus conselhos, com representantes da sociedade civil”; idem “todos os órgãos da gestão pública, incluindo as agências reguladoras.”

E aí? Ficaríamos ou não reféns dos coletivos ao molde do que já aconteceu na extinta União Soviética e acontece agora na Venezuela? Ficaríamos ou não nas mãos dos movimentos sociais controlados pelo PT? Acrescente-se a tudo isso, a enormidade de dinheiro desviado dos cofres públicos, o largo aparelhamento do Estado Brasileiro, a associação do PT com os piores facínoras do mundo, os apoios políticos e financeiros (com dinheiro nosso, do BNDES, EBCT, PETROBRAS e outras estatais) para “eleger” ditadores latino-americanos e caribenhos e as estranhas alianças mantidas pelo Foro de São Paulo. Lembremo-nos de certos assentamentos do MST que mais parecem campos avançados para treinamento de guerrilha, inclusive com direito a manterem cursos escancaradamente voltados para a doutrinação marxista.

Na cabeça de muitos, o destino imutável da humanidade é viver mesmo numa sociedade igualitária, socialista. Se for igualitária junto com certos tipos que “ilustram” o petismo et caterva, estamos pra lá de condenados ao inferno! Mas por que insisto nisso? Insisto porque a guerra está viva, ainda, a guerra de palavras, a guerra de ações tentadas, a guerra das versões contra os fatos. Fatos que devem o que são ao curso da história, história que continua sendo contada, sendo construída pois não está consumada.

Há alguma escatologia para a história? Tanto o materialismo marxista, quanto as visões religiosas acreditam que sim. Por isso, enquanto houver mundo, haverá história… Como fazer então as palavras serem dignas de crédito? Associando-as aos fatos, fazendo-as espelhar a verdade. Ao menos à verdade do mundo. E essa verdade é que, comprovadamente, as ideologias revolucionárias não desistem nunca.

A ASSUSTADORA “TOLERÂNCIA” DOS INTOLERANTES!

Nesses tempos pós-impeachment, dez em cada dez blogueiros da artilharia petista fazem questão de deixar patente suas aversões à classe média nos textos que escrevem. Agora entre eles virou lugar-comum tecer considerações irônicas como: “Dizem que o sonho de toda classe média brasileira é ser parte da Europa. Mas há ao menos uma exceção: a Holanda. A Holanda é o pesadelo da classe média brasileira e da família de bem”. Do mesmo modo, postagens cheias de ódios e preconceitos explícitos tornaram-se corriqueiras, e de tudo fazem para tentar amesquinhar moral e politicamente essa parcela de nossa população: “A nossa classe média não tem mais receio de confessar publicamente que não gosta de pobre, preto, nordestino, índio. Por extensão, nem de petistas, comunistas, bolivarianos etc. Tudo ladrão. Todos merecem morrer”, disse alguém lulista em uma rede social.

Bonecos de ventríloquo do Lula, papagaios da Marilena Chauí, poderíamos chamá-los assim…

Na verdade execram a própria condição social em que vivem e se lambuzam. Interessante é que no auge de sua popularidade o ex-presidente Lula, segundo os institutos de pesquisas, alcançou mais de 80% de aprovação, por óbvio contando largamente com o apoio da classe média: “O presidente Lula encerrará seu mandato na Presidência da República no auge de sua popularidade. Após sete anos e 11 meses de governo, 83% dos brasileiros adultos avaliam sua gestão como ótima ou boa – com isso, repete a marca de outubro, a mais alta já alcançada por um presidente na série histórica do Datafolha. A fatia dos que veem seu governo como regular é de 13%, enquanto 4% consideram-no ruim ou péssimo.”

Como a realidade sempre se impõe e não podia ser diferente com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, seus índices de aprovação desmoronaram após os dados nus e crus de sua herança político-econômica se manifestarem em toda sua desastrosa concretude e os fatos corruptos-administrativos de seu governo, e do governo de sua pupila, apurados pela operação Lava Jato virem à tona. Aí não houve mais marqueteiro que pudesse dar jeito e o mundo de fantasia petista foi desmascarado, culminando no impeachment da presidente. Impeachment levado a cabo pelo Senado, todos sabem, porque os números efetivos das nossas contas públicas estavam completamente incompatíveis com as mentiras fiscais do governo Dilma Rousseff, que mais que “pedalou”, mentiu desavergonhadamente aos brasileiros para ganhar uma eleição na base da enganação e da fraude.

Acompanhando de perto os articulistas ligados ao PT e às esquerdas em geral, são comuns também encontrarmos neles avaliações “conjunturais”, tipo essa “pérola” que li outro dia: “crise de identidade no Brasil é doença crônica, precisa de um estudo epidemiológico para entender esse fenômeno. Efeito da educação escravagista que viralizou entre os próprios empregados. Com o baixo investimento em pesquisa dificilmente se encontrará a cura. O vírus do fascismo e do coronelismo feudal mata mais que o câncer. Só por um milagre mesmo!”

Estão enfurecidos e não se conformam, por exemplo, com o fato da reforma trabalhista apresentada pelo governo Temer ter sido aprovada sem maiores contestações a partir das ruas; daí enxergarem essa tal “crise de identidade no Brasil”. Agem como se obrigatoriamente os trabalhadores tivessem que se identificar com a mesma ideologia socialista que professam.

O danado é que a camisa de força onde querem meter a classe trabalhadora teima em não funcionar como desejariam que acontecesse. Desde Carl Marx que é assim, aliás, pois não há na história um único manifesto, desse tipo “convocatório”, que tenha logrado resultar em algo como uma revolução generalizada de trabalhadores contra patrões. Isso apesar das muitas tentativas panfletárias e dos muitos gritos de ordem saídos das bocas militantes dos socialistas. Porém, historicamente, com a insuficiência prática da luta de classes instigada de forma maniqueísta pelo marxismo e com o crescimento das classes médias na esteira do capitalismo, muitos filósofos e pensadores marxistas passaram a discutir novas formas mais dissimuladas e estrategicamente disfarçadas para insuflar socialmente uns contra os outros, visando a promoção de suas verdadeiras taras intelectuais. A esse incremento ideológico dá-se de forma geral o nome de “marxismo cultural”, a origem filosófica do “politicamente correto”.

Politicamente, a camuflagem e o mimetismo são tão “naturalmente” usados como um camaleão transformista ou certas cobras que apresentam coloração semelhante à do meio ambiente para ficarem menos visíveis e assim aumentarem suas capacidades de iludir e capturar suas presas. Astúcia que serve de arma aos sedutores ideológicos, tão “mutantes” quanto venenosos. Foi assim que surgiu a “Carta ao povo brasileiro” arquitetada na campanha de Lula no ano de 2002 para acalmar o mercado financeiro; foi assim que o Foro de São Paulo disfarçou-se por muito tempo como sendo apenas uma frente política de esquerda não comunista, enquanto tramava o bolivarianismo socialista para toda a América Latina e Caribe.

Cortina de fumaça lançada, usaram e abusaram do “nós contra eles”, das artimanhas do “politicamente correto”, das falsas estatísticas, da ideologização estudantil, das estratégias de propaganda e marketing político ao estilo “guerra fria”, das formações de milícias e preparações de grupos paramilitares e, muito especialmente, da ocupação tática do Estado e da corrupção político-administrativa como método de governar e assaltar desenfreadamente os cofres públicos – intentando acumular fundos para a conquista permanente e em escala continental do poder.

Em exame interno, muitos petistas hoje lamentam não terem conseguido convocar uma Assembléia Constituinte como na Venezuela, não haverem imposto ao País o “controle social da mídia” e feito passar no Congresso uma lei dos meios de comunicação, para com isso desestruturarem economicamente o jornalismo profissional. Não que não tenham tentado, pois foram várias as investidas nesse sentido. Inclusive quiseram exercer controle até sobre os conteúdos das produções audiovisuais nacionais e supervisionar, como verdadeiros censores, o exercício da profissão de jornalista, como muito bem nos lembrou o “BLOG DO NOBLAT” em artigo recente. Não esqueçamos ainda das declarações do então ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que falava da “necessidade de se travar uma ‘disputa ideológica’ contra os evangélicos.” O desejo de Carvalho era ver um PT hegemônico, passando por cima de tudo que ousasse contrariar os objetivos político-filosóficos do partido.

Mas, a despeito das autocríticas para consumo interno, a guerra agora é aberta e está declarada. Já não fazem questão de tentar esconder suas intenções totalitárias e nem tampouco seus planos socialistas para o Brasil. Lula, José Dirceu e Gleisi Hoffmann que o digam, com seus discursos ameaçadores e seus ódios publicamente externados. E que o diga também o Diretório Nacional do PT, que aprovou uma resolução tornada igualmente pública em que o partido lamenta não haver modificado o currículo das academias militares e nem atuar para intervir na Polícia Federal e no Ministério Público.

E o dia a dia da militância nas redes sociais reforça sobremaneira o corpo a corpo do partido no interesse da volta escatológica do PT ao poder. Para tanto, não dão a mínima trégua na patrulha ideológica e na “construção do socialismo”. Seja atacando sistematicamente o juiz Sérgio Moro, seja justificando o ditador Maduro, seja idolatrando obstinadamente o Lula, esses militantes internéticos não param nunca.

Vejam, por exemplo, o absurdo de comentário de uma fanática do lulopetismo, apresentada no Facebook como “professora e psicóloga”, sobre as posições políticas do jovem conhecido como Fernando Holiday, que é um crítico bem ácido do Lula e das esquerdas socialistas, e é negro e assumidamente gay e atualmente é vereador na cidade de São Paulo pelo partido Democratas (DEM): “Este rapaz devia honrar a cor que ele tem e valorizar o Presidente LULA que implantou políticas públicas de inclusão do NEGRO brasileiro.”

Por mais despropositado que seja, segundo essa seguidora incondicional do ex-presidente, uma pessoa como Holiday teria mais é que ser absolutamente reverente e eternamente grato ao Lula. Ela, em sua adoração insana, estabeleceu que foi mesmo o seu ídolo de barro quem incluiu os negros no cenário nacional. Desse jeito, quer submetê-los todos à sua intolerância e sectarismo! É inacreditável, mas é assim mesmo que pensa a mente facciosa de muitos dos partidários da seita. Para essa gente doutrinada e doentia, um negro, um gay ou um alguém pertencente às chamadas minorias sociais não têm direito a opinião própria nem podem exercer qualquer ato de vontade ou de liberdade que contraste e contrarie a visão de mundo comuno-petista. É assustador, não é?

Enfim, eis aqui a síntese da lavagem cerebral que foi feita nessa gente (transcrito ipsis litteris de uma página do Facebook):

Pessoa 1) “No país aonde negros aplaudem feliciano (sic). Gays aplaudem bolsonaro (sic). Favelados aplaudem dória (sic). Pobres criticam ações sociais. Os moro (sic) da vida nem ficam com sentimento de culpa.”

Pessoa 2) “Essa (sic) foi um resumo mais contundente que li hoje. É a impotência a nos acometer diante desse caos de vergonha.”

Aí está o resultado de anos de doutrinação marxista. Essas pessoas acreditam de verdade possuírem uma “superioridade” moral e intelectual sobre aqueles que não se curvam aos seus caprichos ideológicos e passam a desdenhá-los como se estúpidos fossem! Tornaram-se incapazes de compreender e aceitar que simplesmente existem pessoas que pensam de forma diferente, que veem o mundo de outra maneira. Tamanho fanatismo as tornaram cegas e não percebem que a estupidez está é com elas, intolerantes e patrulhadoras das vontades e das liberdades alheias que são. Ao mesmo tempo que é assustador, não deixa de ser também humanamente constrangedor saber que ainda existe gente assim.

Existe mesmo alguém
como nós humanos?
Até o diabo duvida.
Santo Deus!

E que Deus nos proteja da “tolerância” dos intolerantes!

SHOW DE HORRORES!

O Estado Brasileiro é tão onipresente e onisciente, tão todo poderoso, que a quase condição de sobrevivência de quem nasce aqui é fazer parte da administração pública. Mal a criança começa a dar seus primeiros passos, a mãe sentencia: estude para fazer concurso! Então os cursinhos preparatórios se multiplicam e os jovens passam a morar em salas de aula e visitar suas casas. Para ter um emprego melhor remunerado é preciso sair das faculdades e ir direto para esses cursinhos, e “não me incomodem que estou hibernando para ser fiscal”. Então as estações do ano passam a ser contadas de edital em edital.

Logo muitos estarão acreditando que o mundo é somente esse resumo estatal, qual uma metáfora da caverna criada por Platão. Ao menos essas pessoas entram para o serviço público pela porta da frente, ingressam por seus méritos após muito estudarem. E hoje em dia são cada vez mais horas de estudos exigidas até a aprovação sonhada. Não raras vezes levam anos estudando. Mas a atividade econômica mais rentável é mesmo a criação de um partido político. Esse “ramo de atividade” irá garantir a sobrevivência de muita gente “esperta”, via fundo partidário e outras “oportunidades de negócios”…

Inclusive um tal de Lula estimou haver uns “300 picaretas” em nosso Congresso Nacional. E o que fez ele? Virou Presidente da República e foi às compras… Mas era pouco, muito pouco, ele queria mais, muito mais. Queria possuir o País inteiro para si! Ok, ele aceitava dividir o butim, o produto do roubo e da pilhagem com seu partido e seus amigos. Mas ainda não bastava, ele queria mais! Que tal a América Latina? Ok, “como bons socialistas vamos nos dedicar ao internacionalismo, não é Fidel? Vamos criar o Foro de São Paulo!”

A aparente apatia das ruas quanto à “questão Temer”, sobre seu afastamento ou não da Presidência da República, não condiz com o que se seguiu ao resultado da votação na Câmara dos Deputados em Brasília, ocorrendo nas mídias sociais, e sites e blogs na internet, uma verdadeira guerra de opiniões, pontos de vista e, pra não variar, demonstrações de intolerância generalizada. Das provocações dos petistas e seus entornos, passando por representantes parlamentares diversos, aos tidos por liberais ou conservadores, todos estiveram em polvorosa durante esses dias próximos passados em nosso País.

No Facebook, por exemplo, com direito a bandeirinha de Cuba estampada onde comumente se vê a foto do “dono da página”, um militante socialista postou a seguinte provocação: “Brasileiros surreais! Temer comprou o Congresso. Mas a preocupação do povo é com a Venezuela!” Ou então na página de um outro: “O mesmo Congresso que fingiu indignação com as pedaladas fiscais, aprova leis que enfraquecem o combate à corrupção”. E essa foi a tônica da semana.

Não faltaram, obviamente, as afetações “indignadas” com a “burguesia que não saiu às ruas para protestar contra a corrupção nem bateu panelas nas varandas gourmet dos seus apartamentos”. Manifestações de revolta e cólera bem seletivas e convenientes para quem, reiterada e sistematicamente, transforma seus partidários corruptos, julgados e condenados por nossa Justiça, em “perseguidos políticos” e “heróis do povo brasileiro”…

Tudo dentro do script , “logicamente” que aproveitaram-se da situação toda para voltarem a afirmar e reafirmar com histeria que houve mesmo um “golpe parlamentar contra a presidenta (sic) Dilma Rousseff”. Claro, claro, era de se esperar, pois “faz parte do meu show”…

Nos bastidores o que se diz é que o resultado da votação interessou, e muito, ao Lula e ao PT e às suas franjas e adjacências ideológicas. Calculam que assim poderão, nas próximas eleições, “matar dois coelhos com uma só cajadada”, ou seja: explorar e apostar no desgaste que as reformas trabalhista e previdenciária trarão à opinião pública e, aproveitando-se eles também dessas reformas no futuro, caso consigam voltar à Presidência, encontrarem as finanças públicas um pouco menos comprometidas e não precisarem encarar a realização dessas mesmas medidas saneadoras -sem dúvida um tema difícil-, porém medidas mais que necessárias, imprescindíveis para nossa economia. Vejam essa notícia veiculada pelo Portal G1, em 07/01/2016, e tirem suas próprias conclusões: “A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira (7) , em um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, que o País vai ter que ‘encarar’ uma reforma da Previdência Social. Disse que, atualmente, os brasileiros estão envelhecendo mais e, por isso, ‘não é possível’ que a idade média de aposentadoria no país seja de 55 anos”.

Se há uma coisa que os movimentos sindicais de esquerda gostam de fazer são as ditas “análises de conjunturas”, as “mexidas nas peças do xadrez político de acordo com os cenários tais ou quais”… Daí então essa hipocrisia, essa desfaçatez da revolta sacada da algibeira petista contra “as perdas de direitos dos trabalhadores”. Algo que soa como um gongo vindo bem a calhar; afinal salvam-se as aparências…

Ao militante que postou nas redes sociais “Brasileiros surreais! Temer comprou o Congresso. Mas a preocupação do povo é com a Venezuela!” , digo que: cinismo pouco é bobagem para pessoas como você, tão coniventes com um ditador sanguinário como Nicolás Maduro. Certamente é algum discípulo da filósofa petista Marilena Chauí e, como ela, “odeia a classe média”. Militância que não hesitou em dizer-se, por ocasião do processo de impeachment, disposta a “ir para a rua entrincheirada com armas na mão se derrubarem a presidenta (sic) Dilma”.

Várias foram as ameaças de ruptura com o estado democrático de direito vigente. Nunca esqueçamos do caso, gravíssimo!, do professor universitário e sindicalista Mauro Iasi, cuja vontade “poetizada” (ao parafrasear o dramaturgo marxista Bertolt Brecht) é conduzir para a morte os liberais e conservadores brasileiros oferecendo-lhes: “um bom paredão, uma boa espingarda, uma boa bala, uma boa pá e uma boa cova”.

E Lula, o padrinho do chavismo venezuelano? Este desejou ver o “exército do Stédile (MST)” avançando contra nossas instituições democráticas! E agora o Sr Maduro, desmascarando-se de vez enquanto tirano que é, passa por cima do parlamento do seu país e reedita ali, na prática, uma assembleia constituinte que é mais uma espécie de sovietes, aqueles conselhos populares deliberativos à moda do comunismo soviético. Tudo sob as bençãos, os louvores e aplausos entusiasmados dos grã-petistas Gleisi Hoffmann e José Dirceu.

Semana passada li num blog hospedado(é isso?) no portal “Estadão Jornal Digital” uma entrevista com o escritor e jornalista Fernando Morais; lá se pode encontrar a seguinte “pérola”, a partir de uma demonstração de espanto do próprio entrevistador:

“A conversa aconteceu em dois tempos. Decidi reencontrar o Fernando (Morais) em um segundo momento para aprofundar algumas coisas que falamos no nosso primeiro encontro, e que haviam me intrigado. Particularmente quando lhe perguntei se não achava o Stalin meio over. No meio de sua longa resposta, ele comentou, “Qual a solução? Precisa fuzilar muita gente pra poder alcançar a utopia? Não sei. Depende, tem lugar que precisou”.

Mas muitos opositores do petismo, com toda razão, ficaram também furiosos com os deputados que votaram favoravelmente ao não afastamento do Presidente Michel Temer, afinal ele é um corrupto pego em flagrante em uma cínica e criminosa conversa em pleno Palácio do Jaburu com o dono da JBS. E agora?

A Venezuela do Sr Maduro vive hoje sob um regime autoritário-bolivariano, uma plena ditadura, isso é fato. O Lula tem grande e direta responsabilidade sobre essa situação de fome e privações dos nossos vizinhos, isso também é fato. A organização política denominada Foro de São Paulo; que reuniu por ocasião de sua criação centenas de partidos marxistas, além de instituições como as Farc e o MIR chileno, foi uma idealização do Lula e do Fidel Castro com o objetivo estratégico de elegerem o máximo de governos de esquerda entre nós e fomentarem a bolivarianização da América Latina, ou seja, o totalitarismo, o “socialismo do século XXI”.

O PMDB foi cúmplice do PT no mais ousado, grandioso e escandaloso assalto aos cofres públicos brasileiros, isso é fato; porém há aí uma inegável e essencial diferença: o PMDB não é um partido bolivariano, socialista e autoritário, o PT é. Isso alivia os crimes do PMDB? Não, mas o diferencia quanto aos fins:

“A Câmara aprovou na noite desta terça-feira a proposta que susta o decreto da presidente Dilma Rousseff que regulamenta os conselhos populares. Tendo em mãos a promessa da oposição de obstrução das votações da Câmara enquanto não fosse votada a matéria, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), convocou a sessão extraordinária para votá-la, contrariando o governo federal. Tentando evitar o pior, o governo obstruiu o processo de votação para tentar inviabilizar derrubada, mas não conseguiu.”

As cartas estão na mesa, 2018 será nosso Portão de Brandemburgo, nossa travessia rumo ao futuro ou nosso regresso para um “tête-à-tête” stalinista, para um flerte com um Walter Ulbricht ou um Nikita Khrushchev, bem ao gosto de certos saudosistas do muro de Berlim… Ou quiçá nosso retrocesso para um 1917 bolchevique, isso em pleno século XXI!

“Alô, alô, marciano, aqui quem fala é da Terra Brasilis, pra variar estamos em guerra, você não imagina a loucura, o querer tirânico tá na maior fissura porque … Tá cada vez mais querendo nos ver down, down, down!” E olhando pra trás, pra trás, pra trás…

BASTA DE POPULISMO

O estatismo, ou estadismo, autocrático e intervencionista da esquerda latino-americana precisa , para se garantir e enraizar culturalmente, do populismo personificado na figura dalgum “pai dos pobres”, ou dalgum déspota travestido de patrono dos sentimentos do povo, ou seja: só sobrevive por intermédio da venda de ilusões. Quando então isso fracassa social e economicamente, coisa que logo acontece, passa-se costumeiramente à ruptura democrática e à desmoralização institucional, com total menosprezo à ordem constitucional estabelecida

Sem mentir para o povo, não existe candidatura viável no âmbito dessa esquerda demagógica e populista. Isso é óbvio, pois somente através da venda de ilusões e das campanhas baseadas em “verdades” claudicantes é que políticos como Hugo Chaves, Nicolás Maduro, Daniel Ortega, Dilma Rousseff ou Lula conseguem prevalecer sobre a parcela seriamente preocupada com os destinos de seus países. Contam, por um lado, com a fração mais emocionalmente fragilizada da população, primeiras vítimas de seus discursos fáceis e de suas promessas impossíveis e, na outra face de suas moedas, confeccionadas com ouro de tolo e estampadas com cantos de sereias encantatórias, contam com a porção hipnotizada e mesmerizada de pessoas sistematicamente ideologizadas pelas cartilhas marxistas. De resto, contam ainda com os membros da “nomenklatura” partidária, com a entourage simpatizante e com todos os que juntos hão de se locupletar, ávidos das facilidades obtidas com o exercício do poder.

Essa histeria em torno do ex-presidente Lula tem todo esse componente populista-ideológico. Aí estão os nossos últimos quatorze anos a corroborarem o que digo… Lula fala a língua do povo; seus sectários, junto aos seus mantenedores intelectuais, falam a língua de Carl Marx, e está fechado o cerco contra a nação. E aquilo que não se consegue inculcar nas salas de aula, os marqueteiros tratam de completar nas campanhas eleitorais.

Uma candidatura dessas jamais vai falar em responsabilidade fiscal, crescimento da dívida pública, questão previdenciária, razoabilidade na arrecadação de tributos, essas prestações pecuniárias compulsórias, esses temas. Mas nem pensar!, pois tudo o que querem é construir discursos fáceis para problemas complexos e difíceis de equacionar sem sacrifícios gerais. Daí a principal mentira: apontar culpas onde está muitas vezes o caminho para a solução; esconder os verdadeiros culpados, acentuando e perpetuando os erros.

O populismo é um círculo vicioso: promessas vãs, gastança irresponsável, quebradeira generalizada e rápida, culpa jogada nos outros, mais promessas vãs… Sendo isso mais danoso ainda em um país como o nosso, tão viciado em conluios cartoriais pra lá de parasitários e em cínicos patrimonialismos . Não à toa a aliança eleitoral/associação para a ocupação predatória do Estado entre o PT e o PMDB deu no que deu: juntou-se aí a fome com a vontade de comer, e o resto é já agora tragédia viva e história nacional de perversão. Dando aqui os devidos créditos às honradas exceções individuais que existiram, notadamente que os demais partidos tiveram também suas culpas, à medida de suas capacidades de venderem as boquinhas de seus peixes aos anzóis cheios de iscas mensaleiras lançadas pelo petismo e etc. E bote etc nisso…

O PT caiu, mas o petismo não. Nas palavras proferidas pela senadora Gleisi Hoffmann, quando de seu discurso oficial no recente encontro do Foro de São Paulo ocorrido na Nicarágua, todo um arcabouço ideológico rançoso, próprio dos piores autoritarismos, deixou-se mostrar em ossos e esqueletos saídos como que dos armários socialistas ou chavistas-bolivarianos:

“Agradeço aos companheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional por proporcionar este encontro. Saudamos os triunfos eleitorais mais recentes do Daniel Ortega na Nicarágua e Lenin Moreno no Equador, que demonstraram claramente que é possível enfrentar as novas táticas eleitorais e golpistas da direita. O PT manifesta também o seu apoio e solidariedade ao PSUV, seus aliados, e ao presidente Nicolás Maduro, frente à violenta ofensiva da direita pelo poder na Venezuela. Temos a expectativa de que a Assembleia Constituinte possa contribuir para uma consolidação cada vez maior da revolução bolivariana e que as divergências políticas se resolvam de forma pacífica.”

Hoffmann agradece e celebra o triunfo da sabotagem contra a democracia, e faz isso cinicamente em nome da democracia. Na maior cara de pau, a petista se diz solidária com atos como a manobra do Sr Nicolás Maduro no sentido de intentar reescrever a constituição venezuelana de modo a transformá-la finalmente em um mero instrumento a seu serviço e segundo seu arbítrio e talante. Exatamente a lei máxima de seu País o déspota Maduro ousa redefinir à sua imagem e semelhança. Logo a Carta Magna, documento que historicamente mundo livre afora nasceu e foi pensado como garantia de uma nação contra os abusos do poder do Estado, mormente dos ímpetos tirânicos dos governantes.

Com esse gesto, a senadora do PT, e atual presidente do partido, rasga de vez a máscara de democrata e passa a demonstrar, agora de forma escancarada, e oficialmente!, o caráter autoritário de suas intenções e de seus planos para nosso País. O tirano absolutista que existe em Nicolás Maduro, igualmente existe em gente como Gleise Hoffmann, e que ninguém duvide disso. É completamente patético dizer, em saudação, que há triunfos eleitorais na Nicarágua, pois também o sistema de Daniel Ortega transformou-se em uma rematada ditadura, na prática uma oligarquia comandada pela família desse ditador que impôs para seu País um regime de partido único.

A Venezuela é hoje uma terra arrasada, uma tragédia social, econômica e humanitariamente falando. Mas a pérfida senadora, a traidora da democracia, acha por bem louvar uma tal situação. Nisso faz coro e eco com seu líder, o Lula, outro que descaradamente afirmou que “há excesso de democracia” naquele país vizinho. Tudo isso é muito triste, totalmente lamentável, deplorável, digno apenas de suscitar revolta, de causar repulsa . Como pode alguém festejar ditadores, saborear a miséria de uma gente, regozijar-se e comprazer-se com os infortúnios de uma nação inteira? Gleisi e Lula o fazem! Sordidamente o fazem!

Uma das maiores arrogâncias da esquerda é arvorar-se de definidora daquilo que é ou não é “humano”, como se fora do pensamento esquerdista tudo o mais fosse pura desumanidade. Então, a partir daí, o militante se sente vestido com o manto da pureza e da santidade transformadora, e o ideólogo socialista se acha o próprio ente iluminado, o grande e prévio conhecedor das necessidades alheias. Não sem razão se diz ser coisa de seita uma tal presunção de superioridade.

Para confiar em governos, necessário seria confiar no homem e na mulher governantes, mas esses tipos não merecem muita confiança. Não há perversão política maior do que acusar os outros daquilo que você faz ou acoberta naqueles em quem você deu seu voto. Se há uma claríssima revelação que os acontecimentos desses últimos treze, quatorze anos fez ao Brasil, é esta: como existem cínicos entre nós! Em 2018 teremos eleições, e os brasileiros estão sofridos e escaldados, fartos de pagarem a conta do descalabro populista.

Lula é hoje um criminoso julgado e condenado pela justiça brasileira, outros partidários seus vão pelo mesmo caminho. Mas o petismo é recalcitrante e está assanhado, louco para terminar aquilo que começou: fazer do Brasil um país bolivariano, aos moldes do chavismo e do estatismo ditatorial. Para que não nos deixemos enganar, aí está a senadora Gleisi Hoffmann falando em nome do partido e, principalmente, em nome do Lula, que foi quem bancou sua “eleição” para a presidência do PT. O Brasil que tem juízo deve estar atento a isso!

Precisamos falar de liberalismo na economia, precisamos dar voz e voto para quem de fato quer ver este País um gigante econômico e nossa nação uma nação de gente empreendedora, próspera e verdadeiramente livre. Precisamos discernir entre quem apenas nos parasita e quem realmente trabalha. O Estado Brasileiro é um horror perdulário e um monstro pantagruélico para nos cobrar tributos consumidos e perdidos na gastança geral, vamos dar um basta nessa imoralidade!


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