27 outubro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


COMO VOCÊ GOSTA?

Parece uma pergunta bem fácil de responder. Na verdade, é. Se eu pergunto como você gosta do seu ovo: frito, cozido ou mexido? Como gosta do seu arroz: soltinho ou ‘empapado’? Acho que são questões que conseguimos responder sem muita dificuldade… a resposta é mais fácil com um parâmetro e são situações em que a decisão é sobre algo palpável.

Agora, se formos mais profundos, se eu pergunto como você gosta que lhe amem? Entendendo aqui o amor como uma necessidade. ‘Ai, gosto que me amem profundamente’ – linda resposta né? Quase que unânime. Mas pense bem, não diz nada isso. Profundamente… uma piscina com dois metros de profundidade tem um efeito para mim, mas para uma criança tem outro…

O que quero dizer é que não é uma resposta de mão única, mesmo sendo questionada a maneira como VOCÊ gosta. Geralmente gostamos que nos tratem – nos amem – como nós o fazemos. Se sou carinhosa, gosta que me façam carinho. Atenciosa, gosto da atenção do meu parceiro, enfim, damos dicas com nosso comportamento para entenderam como gostaríamos de nos sentir amados. Mas, vamos além… já pensou em responder esta questão analisando que qualquer relacionamento (homem-mulher, pai-filho, irmãos) são duas pessoas ou mais? Então, não acha que deveríamos pensar nesta reposta pensando em mais componentes?

Dou-lhe outro exemplo: eu detesto passar roupas, acho que trauma do meu casamento passado, era literalmente obrigada a passar roupas. Porém, como forma de demonstrar cuidado o faço para meu marido. Se perguntar a ele dirá que tanto faz eu passar ou não, sem entender o sentimento que tem por trás disso. Veja, minha forma de amar é cuidando dele. Aqui já poderíamos ter uma situação de estresse se não soubermos conduzir essas maneiras diferentes de ‘amar’.

Ele, por sua vez, cuida de mim deixando-me respirar quando tenho um problema, me deixa quieta… Para mim seria melhor que ele conversasse comigo ou só me desse ‘colo’. Aqui, sem entendimento, seria outra situação de conflito… entramos em conflito porque esquecemos que cada um tem um limite e uma maneira de ver as coisas, de sentir, de gostar.

Veja bem, não quero dizer aqui que tem que aceitar tudo sem priorizar a maneira como você quer. Só acho que podemos refletir acerca da completude do amor, da imensidão que é quando realmente nos permitimos ver a quantidade de gente que nos ama e não sabemos identificar. Devemos saber como gostamos que nos amem, ter parâmetros nos ajuda a entender a nós mesmos, mas não limitar nossos prazeres e bem-estares. Sem contar que deixamos de sofrer por desentendimentos que poderiam ser evitados com essa reflexão.

Ficamos limitados em ver só que aceitamos como ‘modo certo de amar’. Há pessoas que acham que receber flores é a maior demonstração de romantismo, de amor; outras acreditam que um CD de sua banda favorita basta, ou ainda que apenas almoçar juntos num dia corrido é o que há! Gente! Há tantas cores, tantos sabores, tantas sensações, e tantos ‘quereres’. Recebamos tudo isso, nos proporcionemos a vida, o amor. Eu sei de como gosto, hoje: frito, cozido e mexido.

24 outubro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


FRESCOR

Terminou de alinhar os botões da camisa devidamente passada. Deu uma última olhada no espelho, ajeitou uns fiozinhos de cabelo loiro que lhe desciam a testa e limpou resquícios de batom no canto da boa. Sem tempo de escolher o perfume do dia, manteve o vidro que já estava na bolsa e saiu apressada, batendo a porta de casa – neste momento lembra o tanto que já brigou por isso: bater a porta, é só ter cuidado e encostá-la. Mas enfim, o fez e não tinha tempo nem de se culpar pelo acontecido…

Estava apressada porque não gosta de atrasos. Detestava fazer alguém esperá-la, da mesma forma quando acontecia o contrário. Que falta de compromisso! – pensava. Assim, não queria correr o risco e saiu minutos mais cedo do que havia planejado, mas, ansiosa, ainda esperava não se atrasar.

Ligou o som do carro e deixou ali, rodando a playlist da própria rádio, sem muita exigência de ritmos. Gostava mesmo era da companhia das palavras cantadas em melodias… Limpou os óculos e os colocou, driblando a luz excessiva daquele dia de primavera. Retocou o batom, a cor intensa a deixava segura, manteve o vermelho mesmo; delicadamente alinhou o tal fio de cabelo que teimava em cair em seu rosto e o acertou. Nem percebeu que o vizinho a observava com dúvidas se a ajudava em algo ou era apenas a moça já conhecida por sua distração e estava ali apenas a passar o tempo; demorou para ligar o carro.

No caminho observou os canteiros floridos, provas de que a melhor estação do ano já estava presente. Nem pensou duas vezes, parou no acostamento e clicou as flores, várias e várias vezes, se infiltrando nas coloridas pétalas ou as deixando brilhar sozinhas no foco da câmera.

Entrou novamente no carro, ainda com o som a tocar, sorriu de leve ao ver o lindo resultado daquela paradinha peralta. Seguiu o caminho, agora com mais receio do temido atraso. Nas primeiras notas da nova música que surgia na rádio aumentou o volume e cantou. Seguiu a voz da cantora, gesticulando e coreografando como se fosse sua própria consciência cantante. Não se preocupava com olhares alheios, vivia para si e sabia de uma possível plateia disfarçada. Acalmou os ânimos ao virar a esquina da gelateria, local do encontro. Olhou rapidamente nos dois lados da rua, sem vagas. Parou num estacionamento próximo, a alguns passos a mais do que gostaria de caminhar. Não por marasmo corporal, era muito mais simples, não queria sujar a sola da altíssima sandália nova. Mas, cada desejo lhe concede um preço a ser pago, vai da vontade de realiza-lo para acertar este valor!

Foi. Cuidadosamente caminhou até a porta da gelateria e foi recepcionada pelo facchino, elegantemente vestido de branco. Notou, com certo orgulho, que ele usava luvas tão brancas quanto ao seu colarinho. Procurou sua companhia em algumas poucas mesas vazias e não achou, escolheu aleatoriamente e sentou-se. Ajeitou a saia na cintura, bem marcada, como gosta. Passou a mão nos vincos para deixá-los mais marcados. Não hesitou em receber o cardápio oferecido pela camariera.

Escolheu seu sorvete, physalis com cioccolato. Ah que delícia, nem demorou a chegar. Deliciando-se com a novidade, recebeu uma mensagem pelo celular: encontro cancelado. Mi scusi. Os olhinhos chegaram a marejar, por um segundo o sorvete perdeu a graça, o ambiente se enegreceu… Por um segundo, apenas isso. Leu a mensagem apenas. Não respondeu e voltou ao seu mais novo prazer das tardes frescas da primavera. Sua companhia lhe bastou naquele momento, e que venham mais frescores como este!

13 setembro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


ELA É NUANCE

Apenas abriu lentamente os olhos, ainda com muito sono, tonta de cansaço, noite mal dormida, sabe? Fechou-os. Ficou por ali algum tempo ainda, imóvel, aguardando o próximo estímulo do seu corpo que a ajudaria a levantar e começar o dia… Mas parece que ele era condizente com seu estado de espírito: inércia.

Pousou a mão lentamente sobre a cabeça tentando lembra-se dos afazeres do dia, queria permitir-se ficar um pouco mais no aconchego solitários dos lençóis. Não teve outro jeito a não ser realmente despertar. Sentou-se na cama, ajeitou a camiseta amarrotada e saiu da cama com os pés descalços a sentir o chão gelado. Nem se preocupou com o caos do quarto, na verdade não o notava, confundia-o com o interno, se acostumou com a bagunça mental tanto quanto a que lhe rodeava o dia, em casa mesmo.

Não era essa desordem que impediria de organizar seu dia nem suas atividades… Tomou o café, gelado, estava desde a noite anterior no fogão; não conteve a careta, engoliu ainda assim e só pensou: ‘let’s wake up!’.

Entrou ao banheiro e sentou-se na privada, de porta aberta mesmo, morava só mas não seria problema se tivesse presença alheia, a privacidade é relativa, pelo menos para ela. Fez um xixi rápido e tomou um banho, este demorado. Lavou a consciência, como sempre o faz pela manhã, deixou o ontem escorrer pelo ralo e ficou limpa para os novos raios de sol que aparecem pela janela embaçada do banheiro.

Preocupou-se com o que vestiria, escolheu a dedo. Preto, salto fino e batom vermelho. Ah, como adora batons. A cor revela uma parte sensual do corpo, por onde emite o que deseja e recebe o que mais gosta.

Aprontou-se e saiu rapidamente ao ouvir o pequeno sinal de chegada do carro a buscá-la. Fechou a porta com força, o barulho ecoou no corredor e a fez enrubescer pelo desconforto causado ao vizinho. Sua imposição era de uma personalidade mais delicada não invasiva, por isso era tão boa no que se propunha a fazer…. chegava de mansinho, deixava-se ser notada quando estava perto demais para uma recusa efetiva… Entrou no carro e notou a gravata diferente daquele dia. O perfume dele também não era o de costume. A excitante novidade a fez ir rápido demais, puxou-o e, num suspiro profundo revelou à ele a atividade daquele dia: só faça, bem feito. O desafio deixou impressões positivas, a pegou pela cintura e descobriu que não era somente o batom que ela gostava vermelho.

Para ela era só mais um dia a ser esquecido quando voltasse à solidão de seu apartamento. Para ele as nuances dela a cada dia despertavam um sentimento de aventura inesquecível. Não queria mais que ela se contentasse com o café gelado, ela recusava a companhia por mais de uma noite. Sua solidão era parte de sua personalidade, se fosse diferente não seria tão interessante. A melancolia de estar sozinha a tornava misteriosa quando em outra companhia, o medo de ficar desinteressante a obrigava ficar só. Esquecem que estar só não é estar vazio , ela sabia disso, gostava de conhecer-se a cada noite e assim, encorajava-se a levantar para mais um dia de gravatas interessantes.


COMPLETUDE

Eu ficava simplesmente impressionada com a fala mansa dele. E não era só isso que me deixava ainda mais atenta, o tom do voz não se alterava , era tranquilo, pacífico, bem condizente com a personalidade dele; não se irritava facilmente, nem dificilmente na verdade. O mais complicado dos problemas era motivo para se superar e não descabelar como a histérica aqui. Deve ser por isso que essa fala mansa me acalmava ao mesmo tempo em que eu a desejava como qualidade minha, e desejava ansiosamente, típico da minha personalidade.

Quem disse que gosto de me desesperar diante de qualquer infortúnio? O ‘qualquer’ era dele, claro, sempre diminuindo o que eu achava exageradamente ‘grande’. Mas, ainda ficava atenta pois insisto: não é só a mansidão da voz, mas sua expressão… Não havia marcas na testa, sabe? Aquelas que insistem em aparecer quando algo nos gera preocupação ou mesmo dúvida, seus ombros se mantinham alinhados mesmo com tanto peso sobre eles, sua boca mantinha-se num sorriso constante e por trás dele a sinceridade de quem realmente sentia-se feliz em situações mais adversas.

Acho que ele nem me via a notá-lo. Tinha virado meu mais novo vício: descobrir que ‘raio’ de mansuetude era aquela. Podia passar horas a olhar sua expressão suave. Tirou-me dos devaneios a respeito desta brandura ao me perguntar ‘O que olhas tanto? Estás aflita com algo que disse?’. Levitei! Nem respondi, apenas me deixei levar pela melodia suave de sua voz a me levar a qualquer lugar em que eu encontrasse essa serenidade.

De certa forma o fez, me envolveu em sua vida, calmamente… Fiquei irritada, confesso. Nosso primeiro beijo foi após várias músicas, o segundo encontro só aconteceu por inquietude minha e o namoro…. ah, o namoro, apenas foi acontecendo com a tranquilidade que lhe é típica. E me envolvi, mas não me contaminou, ruim ou bom? Não consigo decidir. Desejo desesperadamente a serenidade dele, mas não sei onde colocaria esta tempestuosidade que nos move e me guia e me faz acordar para vê-lo naquela calmaria…

Completamo-nos? Acho que sim. O alvoroço que causo vai de encontro com a serenidade dele que nos acolhe; e nos mistura. Uma mistura boa, dá samba, sambinha suave e ritmado… aquele que nos aproximou desde o primeiro encontro.


INCOMODOU-ME

Cheguei, ansiosa pelo que viria a encontrar. Tinha certeza de que o sorriso costumeiro seria meu recepcionista. Não deu outra! Parece que o olhar radiante acompanhado do seu mais largo sorriso se fez ao me receber… Não pense você que estou sendo vaidosa a ponto de achar que era especificamente pela minha chegada, não! É ela, é dela, energia que emana!

Além da imensa afabilidade não pude deixar de notar que, mesmo em casa, calçava um belo salto com fitas douradas, vestido colorido de mangas compridas e uma maquiagem que me fez desejar passar tempo no espelho a copiar. Seus cabelos presos num coque desalinhado mostravam os cuidados recentes que teve ao clarear algumas mechas… e que ficaram ótimas, inclusive. Eu falei!

Estava ali para tratar de negócios, mas com ela o abraço sempre nos traz lembranças desta velha amizade que perdura, e que não enjoa e que se sustenta. Recíproca, claro, mas ela… ela sempre me puxou para junto de si. Me lembrando de que ali estava e ficaria até eu voltar ao eixo. Conheceu minha pequena quando ainda era realmente pequena.

Como estava vaidosa, diferente, calma! Logo colocou o avental e começou os trabalhos na cozinha, afinal, cheguei na hora do almoço e ela fez questão de prepará-lo. Que maestria no fogão e que caos na pia! Detalhes, meros, a companhia era tudo!

Servidas, logo sentamos à mesa de trabalho e ali detalhamos planos, projetos, sonhos. Ela me incomodou tanto nesses últimos meses que acabou me fazendo recordar a que vim, pelo que me apaixonei. Cheguei a concordei em caminhar com ela, comigo, conosco até que surgiu a Consigo. Ela Conseguiu primeiro!

É, menina, agora mais que isso né? Você me incomodou e isso foi bom, foi ótimo. Tudo que nos incomoda nos faz querer melhorar, mudar principalmente e, claro, para melhor. Trouxe Consigo o poder de realizar as nossas vontades, prazeres que estavam dentro do peito. Não tem jeito, é adiante que caminharemos. Eu com a sua companhia e você com este sorriso!


ALGO SOBRE O QUE SOMOS…

Despertei vagarosamente; e ainda com os olhos fechados continuei deitada na cama com uma tremenda preguiça. Tentei lembrar sobre a noite passada. Sei que algo aconteceu, não era hábito ficar deitada até tarde na cama, mas, custava até a me localizar direito, na verdade não fazia ideia de onde estava.

A maciez do lençol não era conhecida. Passei a mão levemente no colchão tentando achar alguma prova do acontecimento passado. Não ousava abrir os olhos, procurei os outros sentidos mesmo! Os lençóis ainda quentes me deram a entender que não era apenas o calor do meu próprio corpo que se instalara ali. Um sorriso de canto de boca se fez e me inundei de uma esperança boba, pensando e aguardando seu retorno ao quarto.

Logo me questionei sobre a sua presença, realmente não reconheci o aconchego do quarto. Era para ter me acostumado com a quina da mesa de canto encostando nos meus pés, ou à cortina que me mexia a cada leve brisa que entrava e me arrepiava o braço, ou ainda ao ventilador de teto silencioso, diferente das outras centenas de vezes em que estive aqui. Mesmo assim, despreocupada, espreguicei e tentei expulsar qualquer melancolia que beirava, matinalmente, minha cabeça, desde sua partida. Não eram somente as manhãs que me deixavam de mal humor, mas as manhãs sem você.

O cheirinho de café já invadia o dormitório e me seduzia. Acho que era mais um estímulo a sair dali e lhe encontrar num abraço saudoso. Estiquei a blusa amassada, no corpo, ajeitei os cabelos num coque mal feito e saí descalça, sentindo o chão gelado e úmido. Neste momento me dou conta realmente que não conhecia aquele quarto, nem aquela cama. Já em desespero atravesso a porta única de acesso à cozinha e não vejo você, não vejo ninguém. As xícaras de café, ainda quentinhas, postas cuidadosamente na mesa nem me atiçam o vício.

Ainda sem reconhecer nada do lugar procuro vestígios seus, somente seus. Não penso em mais ninguém. Barulhos no banheiro me fazem bater na porta desesperadamente, procurando alguma explicação. Quem seria? O que seria? O que me faria não estar com você? Apenas abro sem a permissão de quem ali deveria estar. Surge apenas o meu próprio reflexo. Seguro na borda da pia procurando apoio, sinto os sentidos esvaírem do meu corpo. Sou eu, apenas eu, sem você.

O chão gelado me recebe num cair descompensado do meu corpo. Sem jeito, com a cabeça no chão, percebo que apenas a minha presença estivera ali. Fico por minutos, eu acho, na mesma posição, esperando reviver qualquer sentimento que ainda tenha aqui dentro. Só me faço levantar quando noto uma caixa na mesinha de centro, na sala. Tinha escrito seu nome. Consegui chegar até lá, com dificuldade, me faltava perna, pulmão, fluxo, coração. Faltava-me eu com você. Dentro, nossas centenas de fotos tiradas nesses sete poucos anos. Aos poucos o sofá foi ficando familiar, as cores das paredes se ajustaram para as que uso em meu apartamento e o tapete se fez igual ao que me deu em viagem ao Nordeste.

Você se foi, percebi. Com você foram a minha identidade, meu sorriso e a cor do meu apartamento. Meus sentidos e minha melancolia matinal, que nos fazia graça ao acordar, tornaram-se permanentes, assim. Tornou-se permanente, assim como a sólida negritude das minhas paredes. Se foi não por minha vontade, nem sua, nem… Se foi, me olhe, me acolha, me aguarde.

23 fevereiro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


ENTRE TANTOS MINUTOS ESCOLHI O MELHOR

Já chegava a hora. Eu sentia o clima diferente, sentia dentro de mim sem ter como explicar, mas sabia que era hora. Só enfiei o pé dentro do tênis já surrado, sujo, merecedor de um belo banho, e extremamente confortável e prático; saí em disparada ao portão.

Nem ouvi quando a histeria de minha mãe passou daquela cabeça doida dela e chegou (ou tentou chegar) aos meus ouvidos já dispersos , meus sentidos estavam focados é no horário, no tempo. Ai, portão trancado. Volto dentro de casa para pegar a chave e ela continua a gritar, agora já com as mãos na cintura, secando-as no avental que achava dar-lhe um ar de dona de casa prendada, esperando talvez que eu entendesse a gravidade da situação e parasse para acudi-la. Sem chance mãe, está na hora.

Abro o portão e nem me dou ao trabalho de tirar a chave do miolo e guardá-la no porta chaves. E ainda correr o risco de ficar surda (minha mãe). Já já volto e levo-a ao lugar novamente, espere só um minuto, já está chegando a hora.

Com falta de ar pela correria toda e, claro, ansiedade, sento-me na muretinha já gasta, com tijolos ainda sem acabamento. A perna encosta na mureta e percebo que me arranhei com o cimento seco e mal feito, riscando minha perna que, não me desperta atenção alguma. Só cuspi na mão e passei na perna para apagar o ‘branco’ que o cimento deixou.

Olhava de um lado, olhava para o outro e nada. Tudo como sempre, sem muito movimento, apenas as poucas pessoas que circulavam àquela hora, voltando de um dia cheio de trabalho. Aquele dia estava particularmente seco, me arranhava a garganta. Tossi e acabei espantando o cachorro da vizinha que passava cambaleando de tanta sede naquele momento. Não sei por que ela não tranca ele, uma hora será atropelado. Este foi o único pensamento solto que tive, acho que até aliviei meus ombros que estavam rígidos pela espera ansiosa e demorada. Eu sabia que era hora mas, nada acontecia.

Os olhos a procurar o movimento pelo qual acordei especialmente naquele dia ficavam em vão passando as linhas amarelas da rua que já apagadas tiravam os limites dos poucos carros a trafegar. Ainda procurando alguma listra pintada no asfalto me assustei quando o ônibus freou bruscamente na parada e abriu a porta de forma ainda mais apressada. Vá, vá seu Zé, deixe-me descer que hoje tenho um encontro. Automaticamente meus olhos encheram-se de lágrimas, foi inevitável e ao mesmo tempo em que aquela frase tão boba chegava aos meus ouvidos como uma melodia de Iara a encantar os pescadores desavisados.

Passei o dorso da mão no rosto para secar aquelas bobeiras úmidas, muito envergonhada. Além disso, queria enxergar bem direitinho o gingado que aqueles passos mostravam aos fazer o trajeto até a casa azul com portão branco. Ainda de longe eu contava as passadas dele e, a medida que eu o sentia próximo ia serrando os olhos até fechá-los para que apenas a sensação de sua presença fosse sentida, absolutamente única e especial. Esqueci que não era possível, eu sentia mais que isso… o cheiro do seu perfume se adiantava e me entorpecia antes mesmo dos meus poucos pelos se arrepiarem pela pequena brisa produzida pelo seu movimento ali, bem ali, pertinho. Naquele minuto passou em minha mente tudo o que deixei de lado para estar ali, naquele exato momento em que o frio causa calor suficiente para me escorrer suor gelado e apropriadamente inconveniente.

Abri os olhos quando escutei o bater do portão branco na grade, já enferrujada, da casa azul. Ele passou. Nossa, foi tão rápido! Intenso, como sempre.

Um peso tomou conta do meu peito, abaixei a cabeça e desci a mureta, cortando, desta vez, a perna. Novamente não me distraiu. Pise no cadarço desamarrado, na pressa nem me dei conta do frouxidão que ficou o nó. Como estava sujo!

Atravessei o portão da minha casa, da azul não seria capaz! Não esqueci a chave no miolo, peguei-a e entrei em casa. Ela ainda estava de pé, ainda estava a gritar, desta vez o som da voz dela era estridente, atingiu meus tímpanos e me tirou do sério. O que fazia sentada nesses cinco minutos na rua? Me deixou falando sozinha menina! Balancei a mão apenas para espantá-la de perto; não era falta de respeito, apenas queria meu espaço para curtir o breve momento de felicidade que tive. Continuei meus passos tristes e cheguei em meu quarto. Sem importar muito com a bagunça da cama, me joguei nela como uma criança confiantemente o faz numa piscina de bolinhas, prestes a se afogar numa felicidade infantil.

Só fechei os olhos, exausta por conta daquela intensidade dos minutos recém vividos. Sem nem fechar a porta do quarto, apaguei com o travesseiro a me acolher a cabeça. Sonhei, acordada (ou dormindo mesmo, não sei, ficava fora de mim às vezes), com ele, claro. Amanhã me farei notar. Lavarei o tênis de manhã cedo!

19 janeiro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


UMA CONVERSA, DIA DESSES

Olá,

Há tanto que eu gostaria de dividir com você, mas, já percebi que não gosta muito de conversar, ainda mais quando envolve assuntos relacionados ao nosso namoro/casamento/sei lá o que é.

Não insisto mais por não querer lhe chatear ou discutir, mas há tanto a ser dito. Além disso, vejo que minhas opiniões lhe incomodam, desta forma também prefiro mantê-las comigo, e ainda continuo a pensar que há tanto a ser dito…

E vivido, o mais importante, eu sei! Mas travo com alguma ‘não solução’, alguma pendência que ficou e me consome toda a alegria e vontade de estar com você. Eu pensei que dividíamos muito mais que a cama ou as contas da casa; achei que dividíamos a vida! Sinto, ultimamente que estamos mais individuais. Entendo que não é ruim em sua totalidade, até porque temos nossa individualidade mesmo e é importante a mantermos, mas temos que saber lidar com isso para que não nos afaste muito a ponto de não conseguirmos voltar…

Há tanto a dizer, mais como uma maneira de dividir minhas fraquezas, e dúvidas, e quereres e não quereres… mas, não consigo. Acho que tenho medo que me julgue, como tem sim feito ultimamente… Devo estar colhendo algo que plantei, eu penso.

Tenho medos a lhe falar, mas não o falo para não sei taxada como fraca, há problemas que eu queria que visse mas tenho medo de ser taxada como negativa, há comportamento alheio que me incomoda mas tenho medo de falar e ser taxada como intolerante, tenho dúvidas a lhe expor mas tenho medo de ser taxada como insegura… Como fazer com que chegue até você e não volte como um peso ou arrependimento por ter dividido?

Então, à noite, ao me deitar, as lágrimas vêm; pequeninas, caladas, só para que saiam do meu peito. Assim, adormeço e outro dia começa; um pouco mais vazia, pelo desabafo mudo e cheia de vontade de estar bem.

Eu começo a entender ‘ser feliz’ por mim mesma. Na verdade nunca foi confuso isso para que hoje eu ‘entenda’, mas sinto muito por VOCÊ não entender que eu penso ser muito maior a felicidade por nós, a felicidade somada de duas pessoas é potencializada! Você é quem não enxerga que há muito mais que ser feliz sozinho, a ideia de que isso basta já está batida… Abra a cabeça para novos horizontes. Sou completa, sim, sozinha, mas sou maior quando sou ‘nós’.

Aqui fico, já cansei e cansou também, imagino. Boa tarde! A noite chega e esta será diferente, somos nós, novamente!

16 dezembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


DEIXE-ME SER

Sentada numa poltrona de lugar único, respondia as perguntas de maneira desconfortável. Não só pela obrigação em responder ao demorado e insignificante questionamento, mas porque aquele lugar não me deixava à vontade.

Na verdade não era obrigada a responder, necessariamente; mas a partir do momento em que aceitei a fazer a tal entrevista me comprometi em esclarecer algumas coisas, mesmo que me deixassem entediada… se bem que acho minha vida um tremendo tédio mesmo. Não sei o motivo que leva as pessoas a lerem o que escrevo, não tenho nada a dizer que acrescente… só relato o que vejo, o que sinto, quer coisa mais egoísta que textos meus?!

Enfim, estava ali diante do entrevistador. Confesso que não facilitei, monossilábica! Nem parecia a mesmo que desenhava letras em sequencia num papel e montava extensos textos. A de se lidar comigo assim mesmo, como sou. Para não demonstrar toda essa minha simplicidade baixava o olhar, quem sabe assim não passo um ar de mistério, estranheza até, não faz mal, desde que seja algo interessante.

Meu olhar triste gerou a pergunta sobre meu estado de espírito (como eu já imaginava). O que me fez pensar que as pessoas nos taxam por breves momentos de exposição. ‘Não, não estou triste, apenas cansada. Estou cansada’. Logo suspiro como se colocasse para fora algo guardado e que me pesava o peito. Cansada!

Acendi meu pequeno vício, de tempos. Inclusive em minhas próprias mãos estão as marcas de minha inconsequência… Queimadas. Diferente do que pensei, meus dedos têm mais histórias a contar do que minha cabeça consiga imaginar.

Vamos logo com isso, seu moço! Não, não sou daqui, mas, meu coração é! Não, não me vejo importante apesar de me intitularem como uma escritora e tanto. Nem escritora profissional sou, não quero o título, escrevo quando quero, meu compromisso é comigo mesma. E de novo o egoísmo aparece. Mas convenhamos, quem não o é!? Aliás, escrever quando e como quero é que faz meus textos terem a excelência que tantos dizem. Só escrevo quando estou viva, e há fases em que morro! Aí, morro mesmo.

Sou amadora. E pense na forma mais completa e complexa do termo: amo escrever e escrevo por amor mesmo. Me leiam pensando assim: no sentimento que coloquei nessas linhas.

Pensando assim, que injusto quanto julgamento pela minha escrita. Julgamento ruim! Se não gostou é porque não me entendeu… Sentimentos não são para serem aprovados, julgados… Mas para serem sentidos, vividos. Como o ser humano se completa sentindo apenas a parte boa da vida? Como sei do que gosto se não provo o que não gosto? Que insensatez!

Muitos me taxam de melancólica. Não tenho que explicar mas gosto de o fazer: não sou melancólica. Penso apenas que a tristeza é mais cheia de detalhes, de descrições, de sensações. Ela é mais interessante, assim como o mau humor. Me instiga; de certa forma a melancolia me seduz, como se fosse algo a ser consertado, melhorado. Falar da felicidade é perder tempo, dela não se fala, se aproveita, se vive!

Neste momento meu cigarro acaba, assim como meu pequeno momento de prazer viciante. Desta forma meu olhar volta a emanar meu tédio, suspiro novamente e penso no outro texto que começa a crescer em meu peito. É com essa melancolia que caminho de mãos dadas, e continuo meu caminhar sem olhar a quem me grita: Clarice!

18 novembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


BE NICE! NÃO É UMA SUGESTÃO, É UMA NECESSIDADE

Há situações em nossas vidas que nunca pensamos a respeito, pelo simples fato de não ter relevância; ainda. Coisas bobas, às vezes pequenas, clichês até, me arrisco em dizer, e que em algum momento serão de tamanha importância que não acreditaremos que foram deixadas de lado…

Como exemplo: só saberemos das necessidades básicas de um ser humano quando tivermos consciência de que falta a um de nossos filhos e pode ser falta emocional também. Ou, mais trivial ainda (para não usar clichê novamente), só sentiremos falta de um abraço quando não o tivermos mais.

Há exceções, claro. Pessoas mais esclarecidas, porém, muitos de nós não enxerga que essas pequenas coisas juntas são mais valiosas do que outras que parecem importantes mas são extremamente vazias.

Hoje tenho pessoas queridas distantes. Este foi o start para eu rever minhas diretrizes e notar a vida alheia, que de alheia não tem nada uma vez que vivemos em sociedade e meus filhos compartilham desse modo de vida. Há de se rever mesmo e agora.

Lembro claramente, por exemplo, que se eu recebesse uma ordem dos meus pais e o questionassem o porquê disso eu era tratada como desrespeitosa. Hoje as crianças têm o direito de saber! Ora, sem discutir a maneira como cada um educa o seu, eu quero mostrar é a falta de respeito e hierarquia que está nitidamente dentro de nossas casas.

Passeava no shopping com minha família final de semana passado e ou entrar no elevador vi um bebê sendo empurrado no carrinho (o que nos mostra ser ainda pequeno mesmo) e na mão segurava um tablet! Mais uma vez, cada um entende como quer a educação, o problema é o que isso gerará na sociedade em que eu vivo e que meus filhos viverão. Como mantê-los atentos ao seu redor, até mesmo por questão de segurança física, se estão focados num pequeno aparelho em suas mãos?!?

Eu lembro que lia ‘A Moreninha’ e, achava o máximo os tratamentos entre as personagens. Respeitoso, polido, até sedutor por tanto cuidado. Hoje a impressão que tenho é que as relações estão tão desvalorizadas que ninguém se importa com a convivência e sim com o status ou o lucro que o contato gera.

Vi ontem uma série de época em que ao cumprimentar a moça o rapaz beijou-lhe a mão. Ela, pasma, disse que ele tinha maneiras arcaicas para um rapaz tão a frente do seu tempo, ele ainda mais surpreso garantiu que a evolução é inevitável, a tecnologia é vantajosa, mas as boas maneiras, o cavalheirismo, a educação e o cuidado sempre serão a maior riqueza humana. O que lhe sustenta o caráter! E não é?!?

Agradecimento hoje é raro, ou um ‘obrigado’. Pegue exemplos diários: o motorista do seu lado quando quer entrar em sua frente toma-lhe o lugar ou lhe faz sinal pedindo permissão? Se alguém derruba algo no chão é ajudado ou ninguém vê (ou se importa)? Parece lugar-comum este tema mas está tão pesado esse comportamento social que chega a ser triste sair na rua e nos depararmos com tanta indiferença.

O pior é que já contagiou tanto as pessoas que, da porta para dentro isso tem acontecido também. Sabe aquela história que cachorro com mais de um dono morre de fome? É bem assim, deixamos a responsabilidade de tudo para o próximo da fila, nos isentamos de certos comportamentos que dizem muito a respeito do nosso caráter. Pense você: se tiver três copos sujos na pia de sua casa, você usa um e o lava. Lavará todos também ou só o seu? Se parou para pensar um segundo que seja já é sinal de que algo está meio errado aí…

Esse jargão de que ‘gentileza gera gentileza’ é verdade, mas esperar o outro começar ou esperar algo em troca é morrer à míngua. Há de se fazer o certo, o gentil, o importante pelo simples fato de ser certo.

Além de sermos agentes dessas gentilezas, devemos saber recebe-las também, até para que elas tenham continuidade e gerem o bem estar que devem proporcionar. Noite dessas saí com meu marido para jantar e estava chovendo, de leve. Ao sairmos do restaurante ele pediu que eu aguardasse que ele pegaria o carro, assim, eu não me molharia… peguei na mão dele e disse que não precisava, era perto. Me arrependi segundos depois, quando ele disse: ah, mas eu queria fazer isso. Não queria que se molhasse. Onde está minha sensibilidade e receptividade aí? Triste não?!? Poderia ter recebido um agrado, um cuidado, e ele ficaria contente em ter me proporcionado isso…

Pensem bem sobre suas maneiras. Comece logo pela manhã. Você responde a todos o ‘bom dia’ que recebe no Whatsapp? Deixa a senhora entrar na sua frente na fila do pão por respeito? Escuta com paciência a história de sua filha que esqueceu de passar o batom para ir ao colégio e o mundo acabou pra ela? Já respondeu o e-mail de aniversário que seu pai mandou há dois meses e não quer que ele pense que não foi importante? Seja gentil e atencioso, não haverá modernidade que tire o brilho disso tudo, ou falta de tempo que justifique nossa desatenção.

Partiu!… responder e-mail do meu pai!

16 setembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


SEM BAGUNÇA, POR FAVOR!

Sentei no banco do carro e, como de costume, liguei o rádio após me arrumar para dirigir. Coloquei o cinto, ajeitei o banco – casa com dois motoristas requer ajustes diários – e aumentei o volume. Especialmente hoje o fiz para espantar os pensamentos sobre a noite passada que permaneciam a me ensurdecer. Quem sabe com as músicas as ideias se calariam e a calmaria me acolheria pelo menos enquanto buscava meu caminho, literalmente.

É claro, não podia ser diferente, que meus pensamentos eram sobre nós, eu e você, que na verdade acho que sou mais eu me preocupando e você apenas fazendo o que bem quer…

Lembrei que ainda ontem, fiquei sentada nos degraus da varanda, acompanhando o esconder do sol, a entrada das luzes naturais da noite e o esfriar do dia e do meu próprio sentimento. Até que me convenci de que não viria mais ao meu encontro, pelo menos não hoje. Eu já sabia, mas, esperava outro fim para isso. Há algum tempo, acho que já lhe disse inclusive, um amigo me falou que notava em mim uma esperança platônica em relação aos outros, me aconselhou a não o fazer. Quanto mais esperamos mais nos decepcionamos… Achei que eram apenas palavras de um descompromissado, mais um que eu tinha encontrado. Hoje vejo que foi um dos melhores conselhos que recebi e que não sei coloca-lo em prática ainda.

Ainda com o som do carro ligado, me distanciei da realidade e me recordei da noite anterior. Explicações e desculpas para situações previsíveis já não me satisfazem mais, na verdade, penso serem mais sem sentido do que qualquer coisa imaginável! Como se esquecer que tem um compromisso a honrar, alguém a que se merece dar satisfações, ou apenas que se tem um abraço a dar porque simplesmente sente saudades? Não há compreensão. Entendo que não esquece, apenas não o faz.

Você me tirou um pouco da inocência que eu tinha, com você tive que aprender a ser maliciosa. Despertou o instinto de sobrevivência de uma relação amorosa, caso contrário o coração se parte fácil. Me tirou a doçura dos afagos, o cuidado dos carinhos. Pensava que um beijo era uma demonstração de amor e não obrigação matrimonial; achei que a celebrávamos as datas pelo tempo juntos e não que mascarava a ideia comercial de trocar presentes, também acreditava que a preocupação com seu dia a dia era apenas para saber o que vivera e não uma investigação desconfiada. Percebe que sou mais simples do que pensa? Se eu gostaria de reciprocidade à altura? Mas é claro, quem não o quer? Até nisso me fez acreditar que a egoísta era eu por fazer e querer de volta. Mas só quero de volta o que você mesmo se propôs a dar: divisão de prazeres da vida, momentos de felicidade, cuidado genuíno e amor leve.

Parei, cheguei onde queria. Desliguei o carro e o som se fez mudo, assim como meus pensamentos. É aqui que desce, que lhe deixo, que nos despedimos. Percebe que é você quem vai… sempre! Na volta, sou eu quem espero. Já tentou ficar na expectativa da chegada? Tente, é uma mistura de euforia com medo. Requer coragem. Aí falamos de mim, corajosa sou eu! Por deixar entrar, fazer uma bagunça tremenda e ainda permanecer ali. Acho que deixo por saber que tenho o poder de reajustar as coisas. Acho que está na hora da faxina, afinal, hoje é sexta. Sábado é dia de sair e domingo descansar. Segunda chega com uma expectativa e tudo (de) novo!


SENSE

Estava tão acostumada com a monotonia dos amores normais que me surpreendi quando notei que as sensações tinham se expandido imensuravelmente.

Eu, que só tinha delírios a oferecer, passei a ter e transbordar uma completude essencial para meu novo ‘eu’, como se naturalmente construísse uma personalidade nova, mas interligada necessariamente a você. Sim, me percebi através de você.

Sensorial. Como as sensações estavam confusas. De uma maneira muito boa, claro. Conseguia sentir em meus lábios o sabor suave do seu cheiro, enxergava nitidamente a maciez da sua pele como uma aura tocável. Se me distraio, volto à orbita ao escutar a sua melancolia, sem ao menos dizer nada, me pedindo socorro, mudo.

Foi tão gradativo que nem percebi que acontecia. Se eu falar que foi de forma mágica vai dizer que é clichê? Mas não me perdoaria se não descrevesse assim: magicamente belo, encontro de personalidades pertencentes….

Eu nem relutava mais, deixava o som da sua inquietude me levar, suas notas agudas me inebriavam os sentidos. Tocava seu desejo com tanta propriedade que parecia materializar em meus braços e abraços e apertos e, finalmente, aconchego.

E fui… levada por sentidos só agora descobertos. Só deixei para trás banalidades e segui meu mais novo caminho, sem a certeza de estar certa, apenas fui cheia de entusiasmo colorido. Catei minha alma ingênua e cândida e parti para este seu ser!


PRECISAVA ESCREVER

Após tanto tempo sem conseguir expressar meus sentimentos, sem buscar uma fuga para minhas lutas diárias, me convenci de que precisava escrever. E não é apenas uma sequencia de palavras que até podem ter coesão, ou fazer algum sentido mesmo que desconexo, ou ainda dizer algo a alguém. Precisava ter sentido para mim, mostrar que ainda vivo, que tenho dentro de mim uma vontade de troca que grita e que precisa quebrar este silêncio que chegou e não quis mais partir.

É inevitável umas férias de nós mesmos. Eu acredito que cada um tem seus momentos de meditação. O meu se prolongou e fez uma estadia teimosa. Pensando bem, este longo tempo afastada das palavras (e aqui confesso que não só da escrita como da leitura, um dos meus maiores amores e orgulhos) me fez enxergar a importância que elas têm e o efeito positivo da minha prática.

Eu esqueci-me que pelo prazer de escrever eu consigo parar para me entender e escrever sobre isso; que observo melhor o que acontece ao meu redor, como se dão as relações, os sentimentos… são eles que descrevo e escrevo sempre.

Há um motivo muito importante que levei em conta ao querer me formar em Jornalismo, e até dele me afastei, apaguei-o momentaneamente e senti falta. A grandeza que me vejo como escritora me fez falta. A insegurança em relação ao que escrevo tomou conta e me impediu de voltar… não à veracidade, mas ao impacto, ao sucesso do meu objetivo.

Nada complexo só cômodo. Na verdade, o comodismo nos torna pequenos, medíocres e ignorantes. Posso arrumar desculpas, descrever meus motivos que, entre eles está a falta de tempo, mas até onde isso é concreto?

Há de se dar um basta nessas mentiras e começar a enfrentar as verdades de forma mais corajosa. Não sou pequena, nem mereço nada que não seja especial… Assim o sou e assim serão meus dizeres… Continuando agora, e seu eu quiser, sem mais longas pausas.

25 janeiro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


AZUIS

Eu tinha prometido dar a ela um isqueiro azul. Para combinar com o cinto cheio de brilhos que ela usou naquele mesmo dia, dia da promessa. Entre conversas gratuitas e descontraídas fazemos promessas que, facilmente, se desfazem sozinhas com o tempo… como folha que a brisa leva sem muito esforço.

Mas esta eu queria manter. Era tão simples, um mimo apenas, para atender a um capricho. Um isqueiro azul! E ela nem fumava… Ver o contraste da chama com a tonalidade mais clara do anil a distraíam; distanciavam do mundo que ela mesma já não entendia como seu. Era natural dela e eu entendo, gosto de vê-la apreciando o que é dela; e somente dela.

Não era aleatoriamente que usava o belo cinto. Escolhera por algum motivo… o azul que tornava o objeto tão especial também tinha o intuito de acalmá-la… Mas não via isso como vantagem… Nos momentos de maior adrenalina era quando eu mais gostava de observá-la. A palpitação no peito e a loucura, que transparecia em seus olhos, me tocavam de forma tão profunda que vez ou outra a provocava, justamente para ver esta exata reação!

As provocações eram pequenas, e tantas. Uma contradição gratuita já bastava para fazer com que as bochechas rosadas se avermelhassem rubras. Negativa para que eu trocasse as meias – não combinavam com a camisa dela, ou outra negativa para que eu deixasse de falar a palavra ‘umbigo’ – ela não gostava dessa palavra, a enojava; isso a deixavam brava. E eu gostava. Nossa, como eu gostava. Tudo isso me fazia ver o quanto ela dependia de mim para seus sorrisos saírem mais fáceis dos lábios. Me provava que por pouca coisa conseguia fazê-la sentir preenchida de pequenas felicidades. E assim eu sabia que eu a completaria com esses pequenos detalhes.

Não me importava em fazer esses caprichos, meu prêmio era tão valioso; o brilho em seu olhar me enfeitiçava e, quando dava por mim, já tinha excluído vários verbetes do meu dicionário pessoal e minhas meias não eram mais coloridas (mais fáceis de combinar).

Definitivamente eu lhe daria o isqueiro azul, assim como prometi. Seria uma data importante a se marcar no calendário, neste dia eu a veria diferente, com o brilho nos olhos como eu gostava! Depois deste, hei de providenciar a presilha de cabelos em forma de joaninha, o lápis com borrachinha na ponta na cor verde limão e a buzina para a bicicleta que ela não tinha… Há, hei de providenciar!


SINAIS DE VIDA

Ela fechou os olhos, finalmente. Com ar cansado, deu apenas um curto e profundo suspiro e deixou-se cair sob os lençóis delicadamente escolhidos para aquele momento. Tinham um cheiro doce, bem como gosta dos seus perfumes, isso a fazia lembrar dos belos momentos que estava prestes a perder, por capricho…

Tentou limpar a mente; os pensamentos frenéticos tomaram um ritmo mais ameno, e continuou com os pequeninos olhos fechados, desta vez com a ajuda das mãos que apertavam o rosto, quase como se quisesse esconder-se de si mesma.

Envergonhada, ainda com seus dedos sob os olhos, chorou baixinho, bem baixinho. Num silêncio notavelmente impossível, pegou o travesseiro, na cegueira que se fazia, e o acomodou abaixo do ventre.

Agora, aconchegante, abaixou uma das mãos a acariciou a barriga. A quentura da mão foi de encontro com a pele sensível e a fez remexer na cama. Ainda com os olhos fechado, sentiu escorrer a primeira lágrima em seu rosto, desceu quente também… Chegou ao canto da boca e sentiu inundar a língua com um gosto mais amargo, mais característico da situação do que da própria lágrima.

Rapidamente tirou a mão e limpou o rosto já coberto de um choro libertador que lhe rendeu os olhos vermelhos, agora abertos e sensíveis, ainda mais com a claridade do quarto. Permaneceu ali, deitada, aguardando algum sinal de que lhe batia o coração e existia vida onde ela não achou mais ter.

Deixou-se ser tocada por mãos frias e firmes, a contragosto, mas facilitou o contato por necessidade. Afastou, a pedidos, a camisola leve que escolhera para aquele dia, de seda azul bem clarinho, memorável. Com os olhos cerrados, notou apenas vultos e sombras. Com medo, agarrou o ventre com voracidade e a determinação de um protetor nato, e sentou com dificuldade… o medo passou, o sentimento agora era de leveza, após sentir um pequeno desconforto no antebraço…

Deitou novamente e, fechou os olhos finalmente. Suspirou e confiou no que estava por vir.


NADA DO MESMO…

Ela tinha um cheirinho no cabelo indescritível. Na verdade já passei horas deitado na cama, olhando para o nada apenas desfrutando desse cheirinho que ela tem… Acho que num dia desses cheguei a uma conclusão: era uva.

Isso me lembra a cor que ela usava nas pequeninas unhas. Eram sempre bem curtinhas mas, também, sempre pintadas. Roxo, ela gostava dessa cor e eu passei a gostar também. Ô menina influente!

A pele tão branquinha, não tinha as marcas da adolescência comum. Macia, lisinha, com uma fina camada de pelinhos louros… Vontade de bagunça-los num abraço inesperado… Sim, com ela era assim, tudo na espontaneidade. Mal ela sabia o quanto eu planejava e pensava e desejava e a lia e a decifrava em meus mais frequente pensamentos…

Os seus lábios finos, mal conseguiam apresentar a cor do batom mal passado. Era sem vaidade, gostava de insistir nesta ideia… mas sempre andava com penduricalhos no pescoço e orelha… e enfeitava os dedos com anéis multicoloridos, tão pequeninos quanto seus dedos delicados.

Essa minha paixão não era mal interpretada, nem mal conversada ou escondida; ela sabia bem que eu gostava da companhia dela mesmo quando não estava tão perto. Ela sabia que a janela do meu quarto ficava aberta às tarde de quinta justamente para vê-la voltar da aula de francês. Aguardava o aceno distante que ela me dava, sem pretensão. Eu sabia, e ela também… dizia que sabia.

Esperava chegar a segunda-feira quando eu matava a última aula para ir ao encontro dela na aula de violão. Renato Russo, com sua letras cheias de enigmas, era seu predileto. Passei a entender a vida de Eduardo e Mônica assim…

Ela sabia que não sentia por mim o mesmo que eu por ela, e eu sabia… Mas eu gostava de insistir. Na verdade não era uma insistência sem fundamento, um dia ela me veria como um próximo e não seria démodé me amar.

E eu esperei mas sabe que, diferente desses meladas histórias de amor de um jovem que se apaixona pela vizinha, ainda novos, e crescem fazendo tudo juntos, e nutrem carinho um pelo outro, e fazem esse carinho passar a ser mais que isso… Não, no meu caso houve o Rogério. Chegou e acabou com meu final. Levou o violão com a foto do Renato e foi colher uvas em outro lugar!


SOMENTE PALAVRAS

Pra mim sempre foi uma declaração escancarada. Cada palavra que tomava forma na tela era a materialização do tudo o que eu sentia, no mais íntimo. Palavras que saíam de mim de forma tão natural como minha própria respiração; acontece de forma involuntária, mas, necessária bem similar ao sentimento que tenho por ela. Via como um acontecimento notório até mesmo por isso não entendo ela ser tão cega quanto à isso.

Foi nesse contexto que mais uma vez ela me pegou desprevenido, sem ter palavras para me explicar – como se isso fosse possível. Mas não que eu não soubesse o que acontecia e nem que tudo poderia ter suas razões para assim serem… é que ela simplesmente não entendia, ou não queria entender, sei lá, às vezes acho que nem ela se entende direito.

Imagine, estava eu sentado concentradíssimo em meu computador já a tantas da noite. As teclas quase saíam voando de tanta rapidez e emoção e euforia e dedicação… sem respirar! Há muito não comia e nem lembrava disso. Ela chegou em casa ansiosa por um beijo, ou um abraço, ou um comprimento, ou pelo menos um olhar de rabo de olho apenas para checar sua chegada ali. Eu fiz questão de desapontá-la… Não que eu fizesse intencionalmente, claro que não, eu a amo… e era isso que estava a provar ali, ocupado em minhas teclas e páginas e palavras e textos…

Não sei bem como se deu a sua saída. Escutei apenas algumas poucas palavras que ela gritava… algo sobre atenção, falta de carinho e que eu tinha que provar. Acenei para que ela soubesse que estava ali escutando o que ela tentava enfiar em minha cabeça mas, surpreendentemente ela ficou ainda mais chateada. Mal ela sabia que meus dedos se moviam tão freneticamente para que ela sentisse o meu conforto e carinho através de minhas escritas, ou palavras digitadas, ideias passadas para tela, como bem quiser…

Realmente percebi que tinha me deixado quando amanheceu o dia e não vi meu café ao lado do computador. Era assim que ela iniciava nosso dia, me proporcionando ‘combustível para a realização de coisas incríveis’, assim ela dizia. Sem café, sem cheirinho do shampoo dela vindo do banheiro, nem da bronca matinal por conta da minha estadia frequente ao computador… Aí senti falta.

Mas continuava a pensar que ela apenas não me entende, que fazia por ela, pelo meu sentimento por ela. Achei que meus textos sobre nós a faria compreender meu sentimento. Achei que somente palavras seriam o suporte para a nossa convivência. E assim se foram as flores meticulosamente colocadas nos cantos da casa, se foram os fios de cabelo que teimavam permanecer no travesseiro mesmo após sair da cama, se foi o perfume doce que incendiava o quarto a cada borrifada em seu pescoço… se foi a rouquidão da sua voz a me seduzir… apenas pela importância, às vezes demasiada, que dei às palavras… Ditas ou não ditas.


DEVANEIOS

Como diferenciamos a perseverança esperançosa da persistência teimosa? Em qualquer situação que vejo a necessidade de insistir um pouco para alcançar o sucesso desejado pode me surgir a dúvida: até onde ir sem parecer idiota pela insistência?

Não é pouco que escuto sobre continuar acreditando, esperar pelos resultados, entender que tudo tem seu tempo mas, não sei até onde seguir. Na verdade acho que sou tão perdida na vida que esta é só uma das situações que me canso de pensar e quase, quase chego numa solução sensata… Bom, mas, falando sobre a tal insistência, ou persistência, ou perseverança… Acho que é tudo a mesma coisa, pelo menos no dicionário são colocados como sinônimos, a diferença, acredito, está na ação em si… daí podemos diferenciá-las como qualidade (persiste até conseguir, pessoa de personalidade, enfim…) ou defeito (cara chato, insiste e não vê que não sai do lugar, vai se tornar frustrado).

Sei lá, depende também do êxito, né? Se você conseguir o que quer é um baita dum persistente, se não conseguiu é taxado como uma pessoa chata e sem noção do seu limite, que perdeu tempo. Na verdade nem penso muito no que possa parecer mas, do que eu sinto sobre a situação em si, achar a hora certa de parar (não desistir).

Seria fácil se tudo tivesse um limite claro a ser ultrapassado, como numa corrida em que o corredor sabe que assim que cruzar a linha se torna vencedor… mas quando se trata de relações, por exemplo, até quando insistir é uma questão clássica. Há os mais românticos que podem responder que o amor não acaba, perdura, tudo aceita pacientemente. Há os egocêntricos que dizem que assim que se sentir prejudicado caia fora. Os céticos não acreditam na troca sentimental e sim na troca carnal, então, enquanto estiverem dormindo juntos está bom! Acho que todos são tão perdidos quanto eu.

Será que tem mesmo que haver um sinal claro de até quando podemos aguentar a situação? Eu disse que acho mais fácil se houvesse mas, onde estaria o mérito de persistente se já soubesse até onde vou para me gerar resultados? Difícil pensar nessas situações… quando se trata de relações e sentimentos não há como aplicar lógica ou racionalidade. A coisa só é…

Acho que só vou pegar em sua mão, sentir o calor que transmite em contato com a minha pele e perceber que há mais do que eu possa julgar como limite, ou como certo e errado.

Ah, e antes que surjam ‘comentariozinhos’, não estou passando por crises amorosas, nem todos os textos são auto biográficos. São devaneios sobre situações que mais gosto de tentar entender…


AMBIGUIDADE POÉTICA

Eu já sabia desse jeito dela e sabe que, pensando bem, foi justamente essa sua maneira de ser que me cativou… Suas peculiaridades me intrigaram, me instigaram e eu simplesmente me deixei levar.

Lidar com essa tempestade calma, com essa fúria pacífica, com esse planejamento desordenado que é a vida dela me deixa entretido. Na verdade mais do que isso, me desperta um interesse irreal quase como se eu tivesse que descobri-la e consertá-la. Isso considerando que quem precisa de conserto não sou eu mesmo.

Não sei se o sentimento era mútuo. Vez ou outra demonstrava que enxergava minha presença, balbuciava poucas palavras gentis ou mesmo desviava o olhar a me ver passar. Para quem conhece sabe que esses são sintomas de ligeiro interesse e, acredite, era melhor me contentar com isso mesmo…

Era assim, ora diferente. Dizia, em seus momentos de maior afeto, que preferia estar sozinha a ficar com uma companhia tão distante quanto eu. Comentário seguido, claro, de uma enorme irritabilidade. No fundo queria apenas que eu me aproximasse dela, que a aconchegasse em mim. Era um duelo constante, um descobrimento sem fim. Acho que mais dentro dela do que em relação a minha companhia.

Ah e se me chamasse de idiota, esse era o auge! Aí sim saberia que a tinha conquistado de vez. Me contentava em decifrá-la, era interessante. Sabe o que mais era interessante, sua tentativa de sempre se mostrar indiferente. Indiferente ao seu passado e ao futuro que eu tinha planejado para nós. Mas eu descobria a mentira que seus lábios contavam à medida que o brilho dos seus olhos reluzia, imensamente, em minha direção.

As botas masculinas e pesadas, as roupas escuras e largas, os cabelos longos e retos tentavam esconder sua delicadeza. De certa forma até o faziam, mas, não para mim, não. Eu via a meiguice em seu rosto entre as expressões aflitivas que se impunha.

Difícil! E é aí que está o valor disso. A dificuldade nos leva a caminhos melhores, a pessoas que valham a pena, a corações mais receptivos do que pensamos. Esta vale a pena, ô se vale.


PONDERAÇÕES OTIMISTAS

Você já ouviu aquela história de copo meio cheio ou meio vazio? Geralmente é usado para analisar se somos otimistas ou pessimistas… Mais frases como essas são ditas, como, ‘ otimista vê uma oportunidade em cada desastre o pessimista vê um desastre em cada oportunidade’, ou ‘o pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas’.

Há muitas frases dessas por aí e, por esses dias refleti ainda mais sobre isso. Você se encaixa em alguma dessas duas opções: otimista ou pessimista? Até porque, pelo que entendi, nessas tentativas de nos enquadrar numa categoria, uma é excludente da outra… Imagino como seria e se existe o meio termo.

Hoje é isso que quero compartilhar com vocês, a ideia de pessimista e otimista e, como eu penso que poderia não ser 8 ou 80 (não podia deixar essa passar!). Isso porque fui chamada de pessimista e, achei ruim. Primeiro porque não me considero assim, me digo realista (ponderada, razoável, cuidadosa, reflexiva – escolha!) e outra porque a pessoa utilizou a palavra de modo pejorativo – se é que podemos considerar alguma qualidade numa pessoa pessimista…

Ora, pensar nas consequências de um ato prevendo o que ele pode acarretar de negativo não é apenas pensar no pior. Apenas gosto de considerar todas as variáveis, principalmente aquelas que podem acarretar numa ‘cagada’. Confesso que isso me segura às vezes para tomar certas decisões meio arriscadas, mas culpo a astrologia. Sou libriana e, pelo que me consta, pessoas do signo de libra tendem a ser indecisos – segundo o Google.

Brincadeiras à parte, não me ligo nessa de horóscopo. Sei que pondero até demais as coisas e me dificulta tomar decisões com tempo mais hábil, mas ainda assim, em minha defesa, não acredito que vejo somente o lado negativo.

Pra mim é questão de obviedade. Se um prato é deixado na beira da mesa há chances dele cair assim como chances disso não acontecer. Neste caso, pensando no desastre que seria se ele espatifasse no chão, prefiro muda-lo de lugar porque acho mesmo que ele pode cair… Agora, isso é realmente ser pessimista ou prevenida? E esse pensamento, seguido de atitude, se encaixa em vários outros casos menos banais…

Fazer compras para pagar mês que vem já sabendo que não terei grana suficiente para cobrir já me impede de efetivá-las. Há quem diga (os otimistas) que ‘vai dar tudo certo’, ‘vamos dar um jeito’, ‘fique tranquila’… mas, se o plano não for desenhado não há Cristo que me faça entender que realmente não há com o que me preocupar. Deu pra entender? Sim, me impeço de tomar atitudes pensado que vai dar errado, isso é simplesmente ser racional para mim.

Isso não me exclui o pensamento que coisas boas podem surgir no meio do caminho, mas, sem a certeza, fico aqui, quietinha mesmo. Entenda, eu posso ver o copo meio cheio sim, mas se o vejo meio vazio, me movimento para enchê-lo até a boca. Assim sei que sempre o terei ali, confortavelmente cheio, inteiro.

“Sou um pessimista pela inteligência e um otimista por desejo.” (Antonio Gramsci – filósofo italiano)


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