INCOMODOU-ME

Cheguei, ansiosa pelo que viria a encontrar. Tinha certeza de que o sorriso costumeiro seria meu recepcionista. Não deu outra! Parece que o olhar radiante acompanhado do seu mais largo sorriso se fez ao me receber… Não pense você que estou sendo vaidosa a ponto de achar que era especificamente pela minha chegada, não! É ela, é dela, energia que emana!

Além da imensa afabilidade não pude deixar de notar que, mesmo em casa, calçava um belo salto com fitas douradas, vestido colorido de mangas compridas e uma maquiagem que me fez desejar passar tempo no espelho a copiar. Seus cabelos presos num coque desalinhado mostravam os cuidados recentes que teve ao clarear algumas mechas… e que ficaram ótimas, inclusive. Eu falei!

Estava ali para tratar de negócios, mas com ela o abraço sempre nos traz lembranças desta velha amizade que perdura, e que não enjoa e que se sustenta. Recíproca, claro, mas ela… ela sempre me puxou para junto de si. Me lembrando de que ali estava e ficaria até eu voltar ao eixo. Conheceu minha pequena quando ainda era realmente pequena.

Como estava vaidosa, diferente, calma! Logo colocou o avental e começou os trabalhos na cozinha, afinal, cheguei na hora do almoço e ela fez questão de prepará-lo. Que maestria no fogão e que caos na pia! Detalhes, meros, a companhia era tudo!

Servidas, logo sentamos à mesa de trabalho e ali detalhamos planos, projetos, sonhos. Ela me incomodou tanto nesses últimos meses que acabou me fazendo recordar a que vim, pelo que me apaixonei. Cheguei a concordei em caminhar com ela, comigo, conosco até que surgiu a Consigo. Ela Conseguiu primeiro!

É, menina, agora mais que isso né? Você me incomodou e isso foi bom, foi ótimo. Tudo que nos incomoda nos faz querer melhorar, mudar principalmente e, claro, para melhor. Trouxe Consigo o poder de realizar as nossas vontades, prazeres que estavam dentro do peito. Não tem jeito, é adiante que caminharemos. Eu com a sua companhia e você com este sorriso!


ALGO SOBRE O QUE SOMOS…

Despertei vagarosamente; e ainda com os olhos fechados continuei deitada na cama com uma tremenda preguiça. Tentei lembrar sobre a noite passada. Sei que algo aconteceu, não era hábito ficar deitada até tarde na cama, mas, custava até a me localizar direito, na verdade não fazia ideia de onde estava.

A maciez do lençol não era conhecida. Passei a mão levemente no colchão tentando achar alguma prova do acontecimento passado. Não ousava abrir os olhos, procurei os outros sentidos mesmo! Os lençóis ainda quentes me deram a entender que não era apenas o calor do meu próprio corpo que se instalara ali. Um sorriso de canto de boca se fez e me inundei de uma esperança boba, pensando e aguardando seu retorno ao quarto.

Logo me questionei sobre a sua presença, realmente não reconheci o aconchego do quarto. Era para ter me acostumado com a quina da mesa de canto encostando nos meus pés, ou à cortina que me mexia a cada leve brisa que entrava e me arrepiava o braço, ou ainda ao ventilador de teto silencioso, diferente das outras centenas de vezes em que estive aqui. Mesmo assim, despreocupada, espreguicei e tentei expulsar qualquer melancolia que beirava, matinalmente, minha cabeça, desde sua partida. Não eram somente as manhãs que me deixavam de mal humor, mas as manhãs sem você.

O cheirinho de café já invadia o dormitório e me seduzia. Acho que era mais um estímulo a sair dali e lhe encontrar num abraço saudoso. Estiquei a blusa amassada, no corpo, ajeitei os cabelos num coque mal feito e saí descalça, sentindo o chão gelado e úmido. Neste momento me dou conta realmente que não conhecia aquele quarto, nem aquela cama. Já em desespero atravesso a porta única de acesso à cozinha e não vejo você, não vejo ninguém. As xícaras de café, ainda quentinhas, postas cuidadosamente na mesa nem me atiçam o vício.

Ainda sem reconhecer nada do lugar procuro vestígios seus, somente seus. Não penso em mais ninguém. Barulhos no banheiro me fazem bater na porta desesperadamente, procurando alguma explicação. Quem seria? O que seria? O que me faria não estar com você? Apenas abro sem a permissão de quem ali deveria estar. Surge apenas o meu próprio reflexo. Seguro na borda da pia procurando apoio, sinto os sentidos esvaírem do meu corpo. Sou eu, apenas eu, sem você.

O chão gelado me recebe num cair descompensado do meu corpo. Sem jeito, com a cabeça no chão, percebo que apenas a minha presença estivera ali. Fico por minutos, eu acho, na mesma posição, esperando reviver qualquer sentimento que ainda tenha aqui dentro. Só me faço levantar quando noto uma caixa na mesinha de centro, na sala. Tinha escrito seu nome. Consegui chegar até lá, com dificuldade, me faltava perna, pulmão, fluxo, coração. Faltava-me eu com você. Dentro, nossas centenas de fotos tiradas nesses sete poucos anos. Aos poucos o sofá foi ficando familiar, as cores das paredes se ajustaram para as que uso em meu apartamento e o tapete se fez igual ao que me deu em viagem ao Nordeste.

Você se foi, percebi. Com você foram a minha identidade, meu sorriso e a cor do meu apartamento. Meus sentidos e minha melancolia matinal, que nos fazia graça ao acordar, tornaram-se permanentes, assim. Tornou-se permanente, assim como a sólida negritude das minhas paredes. Se foi não por minha vontade, nem sua, nem… Se foi, me olhe, me acolha, me aguarde.

23 fevereiro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


ENTRE TANTOS MINUTOS ESCOLHI O MELHOR

Já chegava a hora. Eu sentia o clima diferente, sentia dentro de mim sem ter como explicar, mas sabia que era hora. Só enfiei o pé dentro do tênis já surrado, sujo, merecedor de um belo banho, e extremamente confortável e prático; saí em disparada ao portão.

Nem ouvi quando a histeria de minha mãe passou daquela cabeça doida dela e chegou (ou tentou chegar) aos meus ouvidos já dispersos , meus sentidos estavam focados é no horário, no tempo. Ai, portão trancado. Volto dentro de casa para pegar a chave e ela continua a gritar, agora já com as mãos na cintura, secando-as no avental que achava dar-lhe um ar de dona de casa prendada, esperando talvez que eu entendesse a gravidade da situação e parasse para acudi-la. Sem chance mãe, está na hora.

Abro o portão e nem me dou ao trabalho de tirar a chave do miolo e guardá-la no porta chaves. E ainda correr o risco de ficar surda (minha mãe). Já já volto e levo-a ao lugar novamente, espere só um minuto, já está chegando a hora.

Com falta de ar pela correria toda e, claro, ansiedade, sento-me na muretinha já gasta, com tijolos ainda sem acabamento. A perna encosta na mureta e percebo que me arranhei com o cimento seco e mal feito, riscando minha perna que, não me desperta atenção alguma. Só cuspi na mão e passei na perna para apagar o ‘branco’ que o cimento deixou.

Olhava de um lado, olhava para o outro e nada. Tudo como sempre, sem muito movimento, apenas as poucas pessoas que circulavam àquela hora, voltando de um dia cheio de trabalho. Aquele dia estava particularmente seco, me arranhava a garganta. Tossi e acabei espantando o cachorro da vizinha que passava cambaleando de tanta sede naquele momento. Não sei por que ela não tranca ele, uma hora será atropelado. Este foi o único pensamento solto que tive, acho que até aliviei meus ombros que estavam rígidos pela espera ansiosa e demorada. Eu sabia que era hora mas, nada acontecia.

Os olhos a procurar o movimento pelo qual acordei especialmente naquele dia ficavam em vão passando as linhas amarelas da rua que já apagadas tiravam os limites dos poucos carros a trafegar. Ainda procurando alguma listra pintada no asfalto me assustei quando o ônibus freou bruscamente na parada e abriu a porta de forma ainda mais apressada. Vá, vá seu Zé, deixe-me descer que hoje tenho um encontro. Automaticamente meus olhos encheram-se de lágrimas, foi inevitável e ao mesmo tempo em que aquela frase tão boba chegava aos meus ouvidos como uma melodia de Iara a encantar os pescadores desavisados.

Passei o dorso da mão no rosto para secar aquelas bobeiras úmidas, muito envergonhada. Além disso, queria enxergar bem direitinho o gingado que aqueles passos mostravam aos fazer o trajeto até a casa azul com portão branco. Ainda de longe eu contava as passadas dele e, a medida que eu o sentia próximo ia serrando os olhos até fechá-los para que apenas a sensação de sua presença fosse sentida, absolutamente única e especial. Esqueci que não era possível, eu sentia mais que isso… o cheiro do seu perfume se adiantava e me entorpecia antes mesmo dos meus poucos pelos se arrepiarem pela pequena brisa produzida pelo seu movimento ali, bem ali, pertinho. Naquele minuto passou em minha mente tudo o que deixei de lado para estar ali, naquele exato momento em que o frio causa calor suficiente para me escorrer suor gelado e apropriadamente inconveniente.

Abri os olhos quando escutei o bater do portão branco na grade, já enferrujada, da casa azul. Ele passou. Nossa, foi tão rápido! Intenso, como sempre.

Um peso tomou conta do meu peito, abaixei a cabeça e desci a mureta, cortando, desta vez, a perna. Novamente não me distraiu. Pise no cadarço desamarrado, na pressa nem me dei conta do frouxidão que ficou o nó. Como estava sujo!

Atravessei o portão da minha casa, da azul não seria capaz! Não esqueci a chave no miolo, peguei-a e entrei em casa. Ela ainda estava de pé, ainda estava a gritar, desta vez o som da voz dela era estridente, atingiu meus tímpanos e me tirou do sério. O que fazia sentada nesses cinco minutos na rua? Me deixou falando sozinha menina! Balancei a mão apenas para espantá-la de perto; não era falta de respeito, apenas queria meu espaço para curtir o breve momento de felicidade que tive. Continuei meus passos tristes e cheguei em meu quarto. Sem importar muito com a bagunça da cama, me joguei nela como uma criança confiantemente o faz numa piscina de bolinhas, prestes a se afogar numa felicidade infantil.

Só fechei os olhos, exausta por conta daquela intensidade dos minutos recém vividos. Sem nem fechar a porta do quarto, apaguei com o travesseiro a me acolher a cabeça. Sonhei, acordada (ou dormindo mesmo, não sei, ficava fora de mim às vezes), com ele, claro. Amanhã me farei notar. Lavarei o tênis de manhã cedo!

19 janeiro 2017 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


UMA CONVERSA, DIA DESSES

Olá,

Há tanto que eu gostaria de dividir com você, mas, já percebi que não gosta muito de conversar, ainda mais quando envolve assuntos relacionados ao nosso namoro/casamento/sei lá o que é.

Não insisto mais por não querer lhe chatear ou discutir, mas há tanto a ser dito. Além disso, vejo que minhas opiniões lhe incomodam, desta forma também prefiro mantê-las comigo, e ainda continuo a pensar que há tanto a ser dito…

E vivido, o mais importante, eu sei! Mas travo com alguma ‘não solução’, alguma pendência que ficou e me consome toda a alegria e vontade de estar com você. Eu pensei que dividíamos muito mais que a cama ou as contas da casa; achei que dividíamos a vida! Sinto, ultimamente que estamos mais individuais. Entendo que não é ruim em sua totalidade, até porque temos nossa individualidade mesmo e é importante a mantermos, mas temos que saber lidar com isso para que não nos afaste muito a ponto de não conseguirmos voltar…

Há tanto a dizer, mais como uma maneira de dividir minhas fraquezas, e dúvidas, e quereres e não quereres… mas, não consigo. Acho que tenho medo que me julgue, como tem sim feito ultimamente… Devo estar colhendo algo que plantei, eu penso.

Tenho medos a lhe falar, mas não o falo para não sei taxada como fraca, há problemas que eu queria que visse mas tenho medo de ser taxada como negativa, há comportamento alheio que me incomoda mas tenho medo de falar e ser taxada como intolerante, tenho dúvidas a lhe expor mas tenho medo de ser taxada como insegura… Como fazer com que chegue até você e não volte como um peso ou arrependimento por ter dividido?

Então, à noite, ao me deitar, as lágrimas vêm; pequeninas, caladas, só para que saiam do meu peito. Assim, adormeço e outro dia começa; um pouco mais vazia, pelo desabafo mudo e cheia de vontade de estar bem.

Eu começo a entender ‘ser feliz’ por mim mesma. Na verdade nunca foi confuso isso para que hoje eu ‘entenda’, mas sinto muito por VOCÊ não entender que eu penso ser muito maior a felicidade por nós, a felicidade somada de duas pessoas é potencializada! Você é quem não enxerga que há muito mais que ser feliz sozinho, a ideia de que isso basta já está batida… Abra a cabeça para novos horizontes. Sou completa, sim, sozinha, mas sou maior quando sou ‘nós’.

Aqui fico, já cansei e cansou também, imagino. Boa tarde! A noite chega e esta será diferente, somos nós, novamente!

16 dezembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


DEIXE-ME SER

Sentada numa poltrona de lugar único, respondia as perguntas de maneira desconfortável. Não só pela obrigação em responder ao demorado e insignificante questionamento, mas porque aquele lugar não me deixava à vontade.

Na verdade não era obrigada a responder, necessariamente; mas a partir do momento em que aceitei a fazer a tal entrevista me comprometi em esclarecer algumas coisas, mesmo que me deixassem entediada… se bem que acho minha vida um tremendo tédio mesmo. Não sei o motivo que leva as pessoas a lerem o que escrevo, não tenho nada a dizer que acrescente… só relato o que vejo, o que sinto, quer coisa mais egoísta que textos meus?!

Enfim, estava ali diante do entrevistador. Confesso que não facilitei, monossilábica! Nem parecia a mesmo que desenhava letras em sequencia num papel e montava extensos textos. A de se lidar comigo assim mesmo, como sou. Para não demonstrar toda essa minha simplicidade baixava o olhar, quem sabe assim não passo um ar de mistério, estranheza até, não faz mal, desde que seja algo interessante.

Meu olhar triste gerou a pergunta sobre meu estado de espírito (como eu já imaginava). O que me fez pensar que as pessoas nos taxam por breves momentos de exposição. ‘Não, não estou triste, apenas cansada. Estou cansada’. Logo suspiro como se colocasse para fora algo guardado e que me pesava o peito. Cansada!

Acendi meu pequeno vício, de tempos. Inclusive em minhas próprias mãos estão as marcas de minha inconsequência… Queimadas. Diferente do que pensei, meus dedos têm mais histórias a contar do que minha cabeça consiga imaginar.

Vamos logo com isso, seu moço! Não, não sou daqui, mas, meu coração é! Não, não me vejo importante apesar de me intitularem como uma escritora e tanto. Nem escritora profissional sou, não quero o título, escrevo quando quero, meu compromisso é comigo mesma. E de novo o egoísmo aparece. Mas convenhamos, quem não o é!? Aliás, escrever quando e como quero é que faz meus textos terem a excelência que tantos dizem. Só escrevo quando estou viva, e há fases em que morro! Aí, morro mesmo.

Sou amadora. E pense na forma mais completa e complexa do termo: amo escrever e escrevo por amor mesmo. Me leiam pensando assim: no sentimento que coloquei nessas linhas.

Pensando assim, que injusto quanto julgamento pela minha escrita. Julgamento ruim! Se não gostou é porque não me entendeu… Sentimentos não são para serem aprovados, julgados… Mas para serem sentidos, vividos. Como o ser humano se completa sentindo apenas a parte boa da vida? Como sei do que gosto se não provo o que não gosto? Que insensatez!

Muitos me taxam de melancólica. Não tenho que explicar mas gosto de o fazer: não sou melancólica. Penso apenas que a tristeza é mais cheia de detalhes, de descrições, de sensações. Ela é mais interessante, assim como o mau humor. Me instiga; de certa forma a melancolia me seduz, como se fosse algo a ser consertado, melhorado. Falar da felicidade é perder tempo, dela não se fala, se aproveita, se vive!

Neste momento meu cigarro acaba, assim como meu pequeno momento de prazer viciante. Desta forma meu olhar volta a emanar meu tédio, suspiro novamente e penso no outro texto que começa a crescer em meu peito. É com essa melancolia que caminho de mãos dadas, e continuo meu caminhar sem olhar a quem me grita: Clarice!

18 novembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


BE NICE! NÃO É UMA SUGESTÃO, É UMA NECESSIDADE

Há situações em nossas vidas que nunca pensamos a respeito, pelo simples fato de não ter relevância; ainda. Coisas bobas, às vezes pequenas, clichês até, me arrisco em dizer, e que em algum momento serão de tamanha importância que não acreditaremos que foram deixadas de lado…

Como exemplo: só saberemos das necessidades básicas de um ser humano quando tivermos consciência de que falta a um de nossos filhos e pode ser falta emocional também. Ou, mais trivial ainda (para não usar clichê novamente), só sentiremos falta de um abraço quando não o tivermos mais.

Há exceções, claro. Pessoas mais esclarecidas, porém, muitos de nós não enxerga que essas pequenas coisas juntas são mais valiosas do que outras que parecem importantes mas são extremamente vazias.

Hoje tenho pessoas queridas distantes. Este foi o start para eu rever minhas diretrizes e notar a vida alheia, que de alheia não tem nada uma vez que vivemos em sociedade e meus filhos compartilham desse modo de vida. Há de se rever mesmo e agora.

Lembro claramente, por exemplo, que se eu recebesse uma ordem dos meus pais e o questionassem o porquê disso eu era tratada como desrespeitosa. Hoje as crianças têm o direito de saber! Ora, sem discutir a maneira como cada um educa o seu, eu quero mostrar é a falta de respeito e hierarquia que está nitidamente dentro de nossas casas.

Passeava no shopping com minha família final de semana passado e ou entrar no elevador vi um bebê sendo empurrado no carrinho (o que nos mostra ser ainda pequeno mesmo) e na mão segurava um tablet! Mais uma vez, cada um entende como quer a educação, o problema é o que isso gerará na sociedade em que eu vivo e que meus filhos viverão. Como mantê-los atentos ao seu redor, até mesmo por questão de segurança física, se estão focados num pequeno aparelho em suas mãos?!?

Eu lembro que lia ‘A Moreninha’ e, achava o máximo os tratamentos entre as personagens. Respeitoso, polido, até sedutor por tanto cuidado. Hoje a impressão que tenho é que as relações estão tão desvalorizadas que ninguém se importa com a convivência e sim com o status ou o lucro que o contato gera.

Vi ontem uma série de época em que ao cumprimentar a moça o rapaz beijou-lhe a mão. Ela, pasma, disse que ele tinha maneiras arcaicas para um rapaz tão a frente do seu tempo, ele ainda mais surpreso garantiu que a evolução é inevitável, a tecnologia é vantajosa, mas as boas maneiras, o cavalheirismo, a educação e o cuidado sempre serão a maior riqueza humana. O que lhe sustenta o caráter! E não é?!?

Agradecimento hoje é raro, ou um ‘obrigado’. Pegue exemplos diários: o motorista do seu lado quando quer entrar em sua frente toma-lhe o lugar ou lhe faz sinal pedindo permissão? Se alguém derruba algo no chão é ajudado ou ninguém vê (ou se importa)? Parece lugar-comum este tema mas está tão pesado esse comportamento social que chega a ser triste sair na rua e nos depararmos com tanta indiferença.

O pior é que já contagiou tanto as pessoas que, da porta para dentro isso tem acontecido também. Sabe aquela história que cachorro com mais de um dono morre de fome? É bem assim, deixamos a responsabilidade de tudo para o próximo da fila, nos isentamos de certos comportamentos que dizem muito a respeito do nosso caráter. Pense você: se tiver três copos sujos na pia de sua casa, você usa um e o lava. Lavará todos também ou só o seu? Se parou para pensar um segundo que seja já é sinal de que algo está meio errado aí…

Esse jargão de que ‘gentileza gera gentileza’ é verdade, mas esperar o outro começar ou esperar algo em troca é morrer à míngua. Há de se fazer o certo, o gentil, o importante pelo simples fato de ser certo.

Além de sermos agentes dessas gentilezas, devemos saber recebe-las também, até para que elas tenham continuidade e gerem o bem estar que devem proporcionar. Noite dessas saí com meu marido para jantar e estava chovendo, de leve. Ao sairmos do restaurante ele pediu que eu aguardasse que ele pegaria o carro, assim, eu não me molharia… peguei na mão dele e disse que não precisava, era perto. Me arrependi segundos depois, quando ele disse: ah, mas eu queria fazer isso. Não queria que se molhasse. Onde está minha sensibilidade e receptividade aí? Triste não?!? Poderia ter recebido um agrado, um cuidado, e ele ficaria contente em ter me proporcionado isso…

Pensem bem sobre suas maneiras. Comece logo pela manhã. Você responde a todos o ‘bom dia’ que recebe no Whatsapp? Deixa a senhora entrar na sua frente na fila do pão por respeito? Escuta com paciência a história de sua filha que esqueceu de passar o batom para ir ao colégio e o mundo acabou pra ela? Já respondeu o e-mail de aniversário que seu pai mandou há dois meses e não quer que ele pense que não foi importante? Seja gentil e atencioso, não haverá modernidade que tire o brilho disso tudo, ou falta de tempo que justifique nossa desatenção.

Partiu!… responder e-mail do meu pai!

16 setembro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


SEM BAGUNÇA, POR FAVOR!

Sentei no banco do carro e, como de costume, liguei o rádio após me arrumar para dirigir. Coloquei o cinto, ajeitei o banco – casa com dois motoristas requer ajustes diários – e aumentei o volume. Especialmente hoje o fiz para espantar os pensamentos sobre a noite passada que permaneciam a me ensurdecer. Quem sabe com as músicas as ideias se calariam e a calmaria me acolheria pelo menos enquanto buscava meu caminho, literalmente.

É claro, não podia ser diferente, que meus pensamentos eram sobre nós, eu e você, que na verdade acho que sou mais eu me preocupando e você apenas fazendo o que bem quer…

Lembrei que ainda ontem, fiquei sentada nos degraus da varanda, acompanhando o esconder do sol, a entrada das luzes naturais da noite e o esfriar do dia e do meu próprio sentimento. Até que me convenci de que não viria mais ao meu encontro, pelo menos não hoje. Eu já sabia, mas, esperava outro fim para isso. Há algum tempo, acho que já lhe disse inclusive, um amigo me falou que notava em mim uma esperança platônica em relação aos outros, me aconselhou a não o fazer. Quanto mais esperamos mais nos decepcionamos… Achei que eram apenas palavras de um descompromissado, mais um que eu tinha encontrado. Hoje vejo que foi um dos melhores conselhos que recebi e que não sei coloca-lo em prática ainda.

Ainda com o som do carro ligado, me distanciei da realidade e me recordei da noite anterior. Explicações e desculpas para situações previsíveis já não me satisfazem mais, na verdade, penso serem mais sem sentido do que qualquer coisa imaginável! Como se esquecer que tem um compromisso a honrar, alguém a que se merece dar satisfações, ou apenas que se tem um abraço a dar porque simplesmente sente saudades? Não há compreensão. Entendo que não esquece, apenas não o faz.

Você me tirou um pouco da inocência que eu tinha, com você tive que aprender a ser maliciosa. Despertou o instinto de sobrevivência de uma relação amorosa, caso contrário o coração se parte fácil. Me tirou a doçura dos afagos, o cuidado dos carinhos. Pensava que um beijo era uma demonstração de amor e não obrigação matrimonial; achei que a celebrávamos as datas pelo tempo juntos e não que mascarava a ideia comercial de trocar presentes, também acreditava que a preocupação com seu dia a dia era apenas para saber o que vivera e não uma investigação desconfiada. Percebe que sou mais simples do que pensa? Se eu gostaria de reciprocidade à altura? Mas é claro, quem não o quer? Até nisso me fez acreditar que a egoísta era eu por fazer e querer de volta. Mas só quero de volta o que você mesmo se propôs a dar: divisão de prazeres da vida, momentos de felicidade, cuidado genuíno e amor leve.

Parei, cheguei onde queria. Desliguei o carro e o som se fez mudo, assim como meus pensamentos. É aqui que desce, que lhe deixo, que nos despedimos. Percebe que é você quem vai… sempre! Na volta, sou eu quem espero. Já tentou ficar na expectativa da chegada? Tente, é uma mistura de euforia com medo. Requer coragem. Aí falamos de mim, corajosa sou eu! Por deixar entrar, fazer uma bagunça tremenda e ainda permanecer ali. Acho que deixo por saber que tenho o poder de reajustar as coisas. Acho que está na hora da faxina, afinal, hoje é sexta. Sábado é dia de sair e domingo descansar. Segunda chega com uma expectativa e tudo (de) novo!


SENSE

Estava tão acostumada com a monotonia dos amores normais que me surpreendi quando notei que as sensações tinham se expandido imensuravelmente.

Eu, que só tinha delírios a oferecer, passei a ter e transbordar uma completude essencial para meu novo ‘eu’, como se naturalmente construísse uma personalidade nova, mas interligada necessariamente a você. Sim, me percebi através de você.

Sensorial. Como as sensações estavam confusas. De uma maneira muito boa, claro. Conseguia sentir em meus lábios o sabor suave do seu cheiro, enxergava nitidamente a maciez da sua pele como uma aura tocável. Se me distraio, volto à orbita ao escutar a sua melancolia, sem ao menos dizer nada, me pedindo socorro, mudo.

Foi tão gradativo que nem percebi que acontecia. Se eu falar que foi de forma mágica vai dizer que é clichê? Mas não me perdoaria se não descrevesse assim: magicamente belo, encontro de personalidades pertencentes….

Eu nem relutava mais, deixava o som da sua inquietude me levar, suas notas agudas me inebriavam os sentidos. Tocava seu desejo com tanta propriedade que parecia materializar em meus braços e abraços e apertos e, finalmente, aconchego.

E fui… levada por sentidos só agora descobertos. Só deixei para trás banalidades e segui meu mais novo caminho, sem a certeza de estar certa, apenas fui cheia de entusiasmo colorido. Catei minha alma ingênua e cândida e parti para este seu ser!


PRECISAVA ESCREVER

Após tanto tempo sem conseguir expressar meus sentimentos, sem buscar uma fuga para minhas lutas diárias, me convenci de que precisava escrever. E não é apenas uma sequencia de palavras que até podem ter coesão, ou fazer algum sentido mesmo que desconexo, ou ainda dizer algo a alguém. Precisava ter sentido para mim, mostrar que ainda vivo, que tenho dentro de mim uma vontade de troca que grita e que precisa quebrar este silêncio que chegou e não quis mais partir.

É inevitável umas férias de nós mesmos. Eu acredito que cada um tem seus momentos de meditação. O meu se prolongou e fez uma estadia teimosa. Pensando bem, este longo tempo afastada das palavras (e aqui confesso que não só da escrita como da leitura, um dos meus maiores amores e orgulhos) me fez enxergar a importância que elas têm e o efeito positivo da minha prática.

Eu esqueci-me que pelo prazer de escrever eu consigo parar para me entender e escrever sobre isso; que observo melhor o que acontece ao meu redor, como se dão as relações, os sentimentos… são eles que descrevo e escrevo sempre.

Há um motivo muito importante que levei em conta ao querer me formar em Jornalismo, e até dele me afastei, apaguei-o momentaneamente e senti falta. A grandeza que me vejo como escritora me fez falta. A insegurança em relação ao que escrevo tomou conta e me impediu de voltar… não à veracidade, mas ao impacto, ao sucesso do meu objetivo.

Nada complexo só cômodo. Na verdade, o comodismo nos torna pequenos, medíocres e ignorantes. Posso arrumar desculpas, descrever meus motivos que, entre eles está a falta de tempo, mas até onde isso é concreto?

Há de se dar um basta nessas mentiras e começar a enfrentar as verdades de forma mais corajosa. Não sou pequena, nem mereço nada que não seja especial… Assim o sou e assim serão meus dizeres… Continuando agora, e seu eu quiser, sem mais longas pausas.

25 janeiro 2016 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


AZUIS

Eu tinha prometido dar a ela um isqueiro azul. Para combinar com o cinto cheio de brilhos que ela usou naquele mesmo dia, dia da promessa. Entre conversas gratuitas e descontraídas fazemos promessas que, facilmente, se desfazem sozinhas com o tempo… como folha que a brisa leva sem muito esforço.

Mas esta eu queria manter. Era tão simples, um mimo apenas, para atender a um capricho. Um isqueiro azul! E ela nem fumava… Ver o contraste da chama com a tonalidade mais clara do anil a distraíam; distanciavam do mundo que ela mesma já não entendia como seu. Era natural dela e eu entendo, gosto de vê-la apreciando o que é dela; e somente dela.

Não era aleatoriamente que usava o belo cinto. Escolhera por algum motivo… o azul que tornava o objeto tão especial também tinha o intuito de acalmá-la… Mas não via isso como vantagem… Nos momentos de maior adrenalina era quando eu mais gostava de observá-la. A palpitação no peito e a loucura, que transparecia em seus olhos, me tocavam de forma tão profunda que vez ou outra a provocava, justamente para ver esta exata reação!

As provocações eram pequenas, e tantas. Uma contradição gratuita já bastava para fazer com que as bochechas rosadas se avermelhassem rubras. Negativa para que eu trocasse as meias – não combinavam com a camisa dela, ou outra negativa para que eu deixasse de falar a palavra ‘umbigo’ – ela não gostava dessa palavra, a enojava; isso a deixavam brava. E eu gostava. Nossa, como eu gostava. Tudo isso me fazia ver o quanto ela dependia de mim para seus sorrisos saírem mais fáceis dos lábios. Me provava que por pouca coisa conseguia fazê-la sentir preenchida de pequenas felicidades. E assim eu sabia que eu a completaria com esses pequenos detalhes.

Não me importava em fazer esses caprichos, meu prêmio era tão valioso; o brilho em seu olhar me enfeitiçava e, quando dava por mim, já tinha excluído vários verbetes do meu dicionário pessoal e minhas meias não eram mais coloridas (mais fáceis de combinar).

Definitivamente eu lhe daria o isqueiro azul, assim como prometi. Seria uma data importante a se marcar no calendário, neste dia eu a veria diferente, com o brilho nos olhos como eu gostava! Depois deste, hei de providenciar a presilha de cabelos em forma de joaninha, o lápis com borrachinha na ponta na cor verde limão e a buzina para a bicicleta que ela não tinha… Há, hei de providenciar!


SINAIS DE VIDA

Ela fechou os olhos, finalmente. Com ar cansado, deu apenas um curto e profundo suspiro e deixou-se cair sob os lençóis delicadamente escolhidos para aquele momento. Tinham um cheiro doce, bem como gosta dos seus perfumes, isso a fazia lembrar dos belos momentos que estava prestes a perder, por capricho…

Tentou limpar a mente; os pensamentos frenéticos tomaram um ritmo mais ameno, e continuou com os pequeninos olhos fechados, desta vez com a ajuda das mãos que apertavam o rosto, quase como se quisesse esconder-se de si mesma.

Envergonhada, ainda com seus dedos sob os olhos, chorou baixinho, bem baixinho. Num silêncio notavelmente impossível, pegou o travesseiro, na cegueira que se fazia, e o acomodou abaixo do ventre.

Agora, aconchegante, abaixou uma das mãos a acariciou a barriga. A quentura da mão foi de encontro com a pele sensível e a fez remexer na cama. Ainda com os olhos fechado, sentiu escorrer a primeira lágrima em seu rosto, desceu quente também… Chegou ao canto da boca e sentiu inundar a língua com um gosto mais amargo, mais característico da situação do que da própria lágrima.

Rapidamente tirou a mão e limpou o rosto já coberto de um choro libertador que lhe rendeu os olhos vermelhos, agora abertos e sensíveis, ainda mais com a claridade do quarto. Permaneceu ali, deitada, aguardando algum sinal de que lhe batia o coração e existia vida onde ela não achou mais ter.

Deixou-se ser tocada por mãos frias e firmes, a contragosto, mas facilitou o contato por necessidade. Afastou, a pedidos, a camisola leve que escolhera para aquele dia, de seda azul bem clarinho, memorável. Com os olhos cerrados, notou apenas vultos e sombras. Com medo, agarrou o ventre com voracidade e a determinação de um protetor nato, e sentou com dificuldade… o medo passou, o sentimento agora era de leveza, após sentir um pequeno desconforto no antebraço…

Deitou novamente e, fechou os olhos finalmente. Suspirou e confiou no que estava por vir.


NADA DO MESMO…

Ela tinha um cheirinho no cabelo indescritível. Na verdade já passei horas deitado na cama, olhando para o nada apenas desfrutando desse cheirinho que ela tem… Acho que num dia desses cheguei a uma conclusão: era uva.

Isso me lembra a cor que ela usava nas pequeninas unhas. Eram sempre bem curtinhas mas, também, sempre pintadas. Roxo, ela gostava dessa cor e eu passei a gostar também. Ô menina influente!

A pele tão branquinha, não tinha as marcas da adolescência comum. Macia, lisinha, com uma fina camada de pelinhos louros… Vontade de bagunça-los num abraço inesperado… Sim, com ela era assim, tudo na espontaneidade. Mal ela sabia o quanto eu planejava e pensava e desejava e a lia e a decifrava em meus mais frequente pensamentos…

Os seus lábios finos, mal conseguiam apresentar a cor do batom mal passado. Era sem vaidade, gostava de insistir nesta ideia… mas sempre andava com penduricalhos no pescoço e orelha… e enfeitava os dedos com anéis multicoloridos, tão pequeninos quanto seus dedos delicados.

Essa minha paixão não era mal interpretada, nem mal conversada ou escondida; ela sabia bem que eu gostava da companhia dela mesmo quando não estava tão perto. Ela sabia que a janela do meu quarto ficava aberta às tarde de quinta justamente para vê-la voltar da aula de francês. Aguardava o aceno distante que ela me dava, sem pretensão. Eu sabia, e ela também… dizia que sabia.

Esperava chegar a segunda-feira quando eu matava a última aula para ir ao encontro dela na aula de violão. Renato Russo, com sua letras cheias de enigmas, era seu predileto. Passei a entender a vida de Eduardo e Mônica assim…

Ela sabia que não sentia por mim o mesmo que eu por ela, e eu sabia… Mas eu gostava de insistir. Na verdade não era uma insistência sem fundamento, um dia ela me veria como um próximo e não seria démodé me amar.

E eu esperei mas sabe que, diferente desses meladas histórias de amor de um jovem que se apaixona pela vizinha, ainda novos, e crescem fazendo tudo juntos, e nutrem carinho um pelo outro, e fazem esse carinho passar a ser mais que isso… Não, no meu caso houve o Rogério. Chegou e acabou com meu final. Levou o violão com a foto do Renato e foi colher uvas em outro lugar!


SOMENTE PALAVRAS

Pra mim sempre foi uma declaração escancarada. Cada palavra que tomava forma na tela era a materialização do tudo o que eu sentia, no mais íntimo. Palavras que saíam de mim de forma tão natural como minha própria respiração; acontece de forma involuntária, mas, necessária bem similar ao sentimento que tenho por ela. Via como um acontecimento notório até mesmo por isso não entendo ela ser tão cega quanto à isso.

Foi nesse contexto que mais uma vez ela me pegou desprevenido, sem ter palavras para me explicar – como se isso fosse possível. Mas não que eu não soubesse o que acontecia e nem que tudo poderia ter suas razões para assim serem… é que ela simplesmente não entendia, ou não queria entender, sei lá, às vezes acho que nem ela se entende direito.

Imagine, estava eu sentado concentradíssimo em meu computador já a tantas da noite. As teclas quase saíam voando de tanta rapidez e emoção e euforia e dedicação… sem respirar! Há muito não comia e nem lembrava disso. Ela chegou em casa ansiosa por um beijo, ou um abraço, ou um comprimento, ou pelo menos um olhar de rabo de olho apenas para checar sua chegada ali. Eu fiz questão de desapontá-la… Não que eu fizesse intencionalmente, claro que não, eu a amo… e era isso que estava a provar ali, ocupado em minhas teclas e páginas e palavras e textos…

Não sei bem como se deu a sua saída. Escutei apenas algumas poucas palavras que ela gritava… algo sobre atenção, falta de carinho e que eu tinha que provar. Acenei para que ela soubesse que estava ali escutando o que ela tentava enfiar em minha cabeça mas, surpreendentemente ela ficou ainda mais chateada. Mal ela sabia que meus dedos se moviam tão freneticamente para que ela sentisse o meu conforto e carinho através de minhas escritas, ou palavras digitadas, ideias passadas para tela, como bem quiser…

Realmente percebi que tinha me deixado quando amanheceu o dia e não vi meu café ao lado do computador. Era assim que ela iniciava nosso dia, me proporcionando ‘combustível para a realização de coisas incríveis’, assim ela dizia. Sem café, sem cheirinho do shampoo dela vindo do banheiro, nem da bronca matinal por conta da minha estadia frequente ao computador… Aí senti falta.

Mas continuava a pensar que ela apenas não me entende, que fazia por ela, pelo meu sentimento por ela. Achei que meus textos sobre nós a faria compreender meu sentimento. Achei que somente palavras seriam o suporte para a nossa convivência. E assim se foram as flores meticulosamente colocadas nos cantos da casa, se foram os fios de cabelo que teimavam permanecer no travesseiro mesmo após sair da cama, se foi o perfume doce que incendiava o quarto a cada borrifada em seu pescoço… se foi a rouquidão da sua voz a me seduzir… apenas pela importância, às vezes demasiada, que dei às palavras… Ditas ou não ditas.


DEVANEIOS

Como diferenciamos a perseverança esperançosa da persistência teimosa? Em qualquer situação que vejo a necessidade de insistir um pouco para alcançar o sucesso desejado pode me surgir a dúvida: até onde ir sem parecer idiota pela insistência?

Não é pouco que escuto sobre continuar acreditando, esperar pelos resultados, entender que tudo tem seu tempo mas, não sei até onde seguir. Na verdade acho que sou tão perdida na vida que esta é só uma das situações que me canso de pensar e quase, quase chego numa solução sensata… Bom, mas, falando sobre a tal insistência, ou persistência, ou perseverança… Acho que é tudo a mesma coisa, pelo menos no dicionário são colocados como sinônimos, a diferença, acredito, está na ação em si… daí podemos diferenciá-las como qualidade (persiste até conseguir, pessoa de personalidade, enfim…) ou defeito (cara chato, insiste e não vê que não sai do lugar, vai se tornar frustrado).

Sei lá, depende também do êxito, né? Se você conseguir o que quer é um baita dum persistente, se não conseguiu é taxado como uma pessoa chata e sem noção do seu limite, que perdeu tempo. Na verdade nem penso muito no que possa parecer mas, do que eu sinto sobre a situação em si, achar a hora certa de parar (não desistir).

Seria fácil se tudo tivesse um limite claro a ser ultrapassado, como numa corrida em que o corredor sabe que assim que cruzar a linha se torna vencedor… mas quando se trata de relações, por exemplo, até quando insistir é uma questão clássica. Há os mais românticos que podem responder que o amor não acaba, perdura, tudo aceita pacientemente. Há os egocêntricos que dizem que assim que se sentir prejudicado caia fora. Os céticos não acreditam na troca sentimental e sim na troca carnal, então, enquanto estiverem dormindo juntos está bom! Acho que todos são tão perdidos quanto eu.

Será que tem mesmo que haver um sinal claro de até quando podemos aguentar a situação? Eu disse que acho mais fácil se houvesse mas, onde estaria o mérito de persistente se já soubesse até onde vou para me gerar resultados? Difícil pensar nessas situações… quando se trata de relações e sentimentos não há como aplicar lógica ou racionalidade. A coisa só é…

Acho que só vou pegar em sua mão, sentir o calor que transmite em contato com a minha pele e perceber que há mais do que eu possa julgar como limite, ou como certo e errado.

Ah, e antes que surjam ‘comentariozinhos’, não estou passando por crises amorosas, nem todos os textos são auto biográficos. São devaneios sobre situações que mais gosto de tentar entender…


AMBIGUIDADE POÉTICA

Eu já sabia desse jeito dela e sabe que, pensando bem, foi justamente essa sua maneira de ser que me cativou… Suas peculiaridades me intrigaram, me instigaram e eu simplesmente me deixei levar.

Lidar com essa tempestade calma, com essa fúria pacífica, com esse planejamento desordenado que é a vida dela me deixa entretido. Na verdade mais do que isso, me desperta um interesse irreal quase como se eu tivesse que descobri-la e consertá-la. Isso considerando que quem precisa de conserto não sou eu mesmo.

Não sei se o sentimento era mútuo. Vez ou outra demonstrava que enxergava minha presença, balbuciava poucas palavras gentis ou mesmo desviava o olhar a me ver passar. Para quem conhece sabe que esses são sintomas de ligeiro interesse e, acredite, era melhor me contentar com isso mesmo…

Era assim, ora diferente. Dizia, em seus momentos de maior afeto, que preferia estar sozinha a ficar com uma companhia tão distante quanto eu. Comentário seguido, claro, de uma enorme irritabilidade. No fundo queria apenas que eu me aproximasse dela, que a aconchegasse em mim. Era um duelo constante, um descobrimento sem fim. Acho que mais dentro dela do que em relação a minha companhia.

Ah e se me chamasse de idiota, esse era o auge! Aí sim saberia que a tinha conquistado de vez. Me contentava em decifrá-la, era interessante. Sabe o que mais era interessante, sua tentativa de sempre se mostrar indiferente. Indiferente ao seu passado e ao futuro que eu tinha planejado para nós. Mas eu descobria a mentira que seus lábios contavam à medida que o brilho dos seus olhos reluzia, imensamente, em minha direção.

As botas masculinas e pesadas, as roupas escuras e largas, os cabelos longos e retos tentavam esconder sua delicadeza. De certa forma até o faziam, mas, não para mim, não. Eu via a meiguice em seu rosto entre as expressões aflitivas que se impunha.

Difícil! E é aí que está o valor disso. A dificuldade nos leva a caminhos melhores, a pessoas que valham a pena, a corações mais receptivos do que pensamos. Esta vale a pena, ô se vale.


PONDERAÇÕES OTIMISTAS

Você já ouviu aquela história de copo meio cheio ou meio vazio? Geralmente é usado para analisar se somos otimistas ou pessimistas… Mais frases como essas são ditas, como, ‘ otimista vê uma oportunidade em cada desastre o pessimista vê um desastre em cada oportunidade’, ou ‘o pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas’.

Há muitas frases dessas por aí e, por esses dias refleti ainda mais sobre isso. Você se encaixa em alguma dessas duas opções: otimista ou pessimista? Até porque, pelo que entendi, nessas tentativas de nos enquadrar numa categoria, uma é excludente da outra… Imagino como seria e se existe o meio termo.

Hoje é isso que quero compartilhar com vocês, a ideia de pessimista e otimista e, como eu penso que poderia não ser 8 ou 80 (não podia deixar essa passar!). Isso porque fui chamada de pessimista e, achei ruim. Primeiro porque não me considero assim, me digo realista (ponderada, razoável, cuidadosa, reflexiva – escolha!) e outra porque a pessoa utilizou a palavra de modo pejorativo – se é que podemos considerar alguma qualidade numa pessoa pessimista…

Ora, pensar nas consequências de um ato prevendo o que ele pode acarretar de negativo não é apenas pensar no pior. Apenas gosto de considerar todas as variáveis, principalmente aquelas que podem acarretar numa ‘cagada’. Confesso que isso me segura às vezes para tomar certas decisões meio arriscadas, mas culpo a astrologia. Sou libriana e, pelo que me consta, pessoas do signo de libra tendem a ser indecisos – segundo o Google.

Brincadeiras à parte, não me ligo nessa de horóscopo. Sei que pondero até demais as coisas e me dificulta tomar decisões com tempo mais hábil, mas ainda assim, em minha defesa, não acredito que vejo somente o lado negativo.

Pra mim é questão de obviedade. Se um prato é deixado na beira da mesa há chances dele cair assim como chances disso não acontecer. Neste caso, pensando no desastre que seria se ele espatifasse no chão, prefiro muda-lo de lugar porque acho mesmo que ele pode cair… Agora, isso é realmente ser pessimista ou prevenida? E esse pensamento, seguido de atitude, se encaixa em vários outros casos menos banais…

Fazer compras para pagar mês que vem já sabendo que não terei grana suficiente para cobrir já me impede de efetivá-las. Há quem diga (os otimistas) que ‘vai dar tudo certo’, ‘vamos dar um jeito’, ‘fique tranquila’… mas, se o plano não for desenhado não há Cristo que me faça entender que realmente não há com o que me preocupar. Deu pra entender? Sim, me impeço de tomar atitudes pensado que vai dar errado, isso é simplesmente ser racional para mim.

Isso não me exclui o pensamento que coisas boas podem surgir no meio do caminho, mas, sem a certeza, fico aqui, quietinha mesmo. Entenda, eu posso ver o copo meio cheio sim, mas se o vejo meio vazio, me movimento para enchê-lo até a boca. Assim sei que sempre o terei ali, confortavelmente cheio, inteiro.

“Sou um pessimista pela inteligência e um otimista por desejo.” (Antonio Gramsci – filósofo italiano)

31 janeiro 2015 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


DESACERTOS COMPARTILHADOS

Desde que chegou, tarde da noite, entrou para o quarto e de lá não mais saiu. Fui acompanhando as cores no céu até que ficassem claro, com os primeiros toques dourados no barrado da cortina… Ela ainda estava lá, entre lençóis e murmúrios.

Eu devia saber que a percepção importa. Ela diz que planeja o futuro, mas, passando na memória tudo que já aconteceu, tenho minhas dúvidas, e muitas. Será que quem pensa no futuro realmente pretende chegar até ele? Está verdadeiramente disposto a fazê-lo mais presente do que os pensamentos e atitudes de agora?

Ela dizia sempre que sim… E mesmo que não dissesse neste exato momento, eu sentia que ela queria que eu entendesse que ‘sim’. Neste exato momento, a alguns metros de distância dela, com uma parede entre nós… Eu estava sentado na velha poltrona de couro, esfolada pelo uso continuo, apenas a fitar a parede da sala que dava direto ao quarto dela. Como se a aproximação me fizesse senti-la, entender seus pensamentos noturnos transformados em frustrações matinais… E, me desculpem os céticos, mas as paredes vibravam com a opinião dela, tremiam a cada suspiro dela… E o que ela queria, só e somente, era descansar sua solidão!

Solidão… que consistência tinha isso a essa altura do nosso complicado relacionamento? Não me via ausente. Poderia concluir que a tristeza que girava em torno de nós, e que era mais constante que ausente, a fazia ansiar pela solitude, achava melhor do que enfrentar qualquer que fossem nossos desacertos.

Não queria me sentir ofendido por esses pensamentos que, até neste momento, eram apenas meus; conclusões de quem adianta os problemas sem nem ao menos se dar o trabalho de acompanhar suas soluções. Não havíamos trocado uma palavra nos últimos instantes e eu ainda insistia em manter uma conversa com ela. Conversa essa que eu fazia ambos de nós… Fundamentado de que as pessoas são melhores no abstrato, e eu queria ser este melhor, já que via nos olhos melancólicos dela – que há tempos se apresentam – que mudei. Desde que nos conhecemos, eu mudei… E as lágrimas alheias me certificam de que foi uma mudança mundana, sem nenhuma razão a se comemorar.

Desconfortavelmente mexi na cadeira. Queria esperá-la acordar e ser a primeira sensação do dia para ela… meu objetivo era que isso lhe causasse conforto e duvidava de que conseguiria atingi-lo.

Já com o sol a esquentar o tapete da sala pela janela semiaberta, me inquietei ainda mais… Percebia o tempo ainda, apesar das divagações que ocorriam desde a madrugada… horário de conversas tolas, fundamentais e cansativas… Senti acalentado quando vi a porta se abrir. Sorriu, um sorriso ingênuo, descansado… Nesse momento sei que ela lembrou dos nossos sentimentos mútuos e os considerou. Nessas horas vemos que a memória dá a imortalidade aos momentos, bons, preferencialmente. Os ruins nos manteriam insanos com a frequência que podem surgir sem serem bem quistos… Ou quistos de forma alguma.

A abracei. Comecei o contato por mim, mesmo que soe egoísta, foi por mim. Precisava de uma certeza de que eu ainda tinha o direito de toca-la. Com isso ela chegou pertinho, encostou os lábios no meu ouvido e sussurrou: eu era apenas uma mulher sem passado e você o transformou. Infelizmente o transformou em algo vil. Todos cometemos erros, talvez tenhamos cometido os mesmos e é isso que nos une agora.

Terminou seu sussurro apertando ainda mais seu corpo contra o meu no abraço que eu iniciei… Na verdade, eu havia iniciado várias situações pelo que bem entendi… Olhei seu rosto delicado, e as lágrimas não se envergonhavam em descer. Sorriu novamente e se voltou para dentro do quarto, dessa vez com a minha companhia. E com a de nossos fracassos também…

19 dezembro 2014 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


FRESCOR DA INOCÊNCIA

A juventude ainda lhe fazia visita, na verdade acabara de chegar, seria uma companhia constante por algum tempo. O frescor do seu sorriso era nítido e transmitia alegria sem tamanho. Os cabelos desfiados e bagunçados pelo rosto não lhe tiravam o charme de menina…

Pois sim, passava de menina para mulher. Por fora pouco se percebia… Seus olhos ainda tinham um brilho peculiar. Brilho que, somente aqueles que ainda não viram tudo na vida, têm. A simplicidade ainda era sua casa e conforto. Seus pés pisavam levemente pelo chão, ainda em descoberta deste novo caminho que estava por vir…

Não enxergava as malícias ao redor nem que em si mesma podia ser despertada e, talvez, viraria uma marca própria… assim como a pequena pinta no canto direito da boca. Era ainda tão ingênua que tentava apagar a manchinha escura com pó de maquiagem, mal sabia que poderia conseguir muito com a tal pinta.

As saias ainda eram rodadas, sem marcar curva alguma de seu corpo em formação. Não trocava a xícara de leite matinal por nenhuma de café, nem os desenhos pouco engraçados por capítulos da vida real dos telejornais. Preferia as coloridas páginas de gibis a densas folhas dos livros mais elaborados… Tinha poucas ambições até ali, uma delas, assim como qualquer menina da sua idade com pretensões de vir a ser uma bela mulher, era encontrar um amor. Mas não qualquer amor, um daqueles que se tem para a vida toda. Realmente UM amor.

Isso não duraria muito, essa falta de lucidez, essa imensa insensatez seria apenas uma passagem de seu passado. Se deu conta disso quando escutou a primeira vez sua mãe chorar por mais um amor que passou pela porta e se despediu de vez. Na verdade muitos entram e saem pela porta da pobre velha. A jovem, ainda sem saber do que se tratava, não via as cenas variadas de amor que a mãe se submetia.

Eram tantas lágrimas que a jovem acolheu a mãe em seu colo e pedia apenas seu silêncio. Desesperada a senhora continuava a chorar e esbravejar. Adjetivava o amor de forma que a menina pedia com mais ardor silêncio. Chegava a tapar os ouvidos com suas delicadas e gélidas mãos, mas sem sucesso.

Exausta, apenas se levantou e deixou a velha ali, quase desmaiada de tanto chorar. Foi ao quarto e sentou na cama, atônita. Sozinha, se olhou no pedacinho de espelho que restava pendurado na parede suja. Pegou no canto da cama uma tolha de rosto e limpou o pó que passara em cima da pinta, para disfarça-la. Chegou a se machucar com tanta força que esfregou o rosto. Fitou-se por alguns instantes…

Saiu do quarto e passou pela velha que ainda estava no chão, agora só em suspiros cansados… Postou-se no batente da porta e puxou a lateral da saia até a cintura. Balançou o quadril e esperou… esperou que o amor viesse e lhe pedisse meia hora…

14 novembro 2014 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


ACREDITAR E SEGUIR

A vontade é tomar as rédeas de cada situação adversa que apareça e fazê-la simplesmente se dissolver no tempo. Não sei se assim o aprendizado ainda seria válido, sei que quando o frio nos atinge, aperta o coração e congela as veias, é difícil lembrar onde Ele colocou o cobertor…

Esquecemos também que, a fim de recuperar tal e qualquer controle, devemos, por vezes, renunciar a ele. Claro que por uma causa nobre, pelo menos assim acredita-se. Ao fazê-lo, acreditamos estar protegendo aqueles que amamos; aqueles sem os quais não podemos viver. Silenciosamente soltamos as amarras, sem muita fé mas com o mínimo de crença, achando que as situações serão escritas da forma como devem, mesmo que saiam ‘tortas’.

Mas é num contexto ora perigoso que também deixamos escapar da memória que não e sempre que temos algum controle para renunciar… às vezes pior, descobrimos que a mais perigosa verdade nisso tudo é que controle é meramente uma ilusão. Pergunte-se qual o real controle que tem, de quê, como?

Podemos caminhar pelos ladrilhos coloridos, com peças nobres, figuras extraordinárias… mas eles ainda serão recortados e ainda assim teremos o ímpeto de chegar ao fim do caminho. É quase que como um instinto, chegar ao fim.

Mas, são reflexões que podem nos deixar meio insanos. São perguntas que têm que ser feitas para que não aconteça num dia alguém nos alertar sobre qualquer questão que tenha ficado para trás. Esses sentimentos que surgem têm que ser entendidos, como aquela dor de estômago que nos incomoda o dia inteiro e que, no fim das, descobrimos que era apenas fome demasiada. As respostas podem ser mais simples do que pensamos, deixando-as ainda mais gostosas quando descobertas…

E outra coisa, nem sempre essa necessidade de controle sejam em relação a situações… podem remeter à pessoas o que é pior ainda, menos passível de acontecer mesmo. Se o concreto já é complexo imaginem o subjetivo… sem traçado algum.

Ainda assim, somente siga. Olhando ao céu ou para o próprio coração… dizem que suas batidas são compassadas e transmitem o que há de melhor para cada um…


NUM GUENTO ISSO!

Ai, me irrita essas pessoas sorridentes na primeira hora do domingo. Acordam cedo como se fosse o último dia do mundo, cantarolando com os passarinhos (nessa hora eles sempre aparecem na janela, né) e cheias de energia para gastar. Gente! Domingo é dia preguiçoso, nada de atividade cedo (nem tarde), nem programação muito complicada, não. É cama, cozinha, tv e cama de novo!

Não, e as mulheres magérrimas que dizem sempre que comem de tudo. Qué isso gente? E para enfatizar ainda falam assim: ‘de um tudo’! Tá, tá bom! Vai ver a geladeira da mocréia… só alface e água e vem querendo dizer que come tudo. ‘Irritativas’, né?

Tem situação mais irritante do que encontrar a tia chata no mercado e logo sentir o tom da pergunta: veio como, de carro? Esqueci de falar que a tal tia mora na zona rural da cidade… Ai, qual é a resposta certa nessa hora? Sabe que ela vai pedir… Que coisa feia né. Só sai de fininho e diz que só foi comprar alface (porque você não é magérrima, como de um nada!) e já tá na hora!

Num ‘guento’ gente que fala tocando, sabe? Já é uma conversa chata ou uma piada sem graça aí o sujeito ainda fica de batendo, tocando, empurrando como se quisesse chamar ainda mais atenção para a tal história. Não dá, num guento. Melhor nem começar a falar senão é ‘safanão na oreia’.

Ah, uma das mais chatas frases e parece que virou moda, a pessoa acha que falar isso a faz um filósofo: a felicidade não é um objetivo e sim um caminho. Ai gente, quem deixou esse ser abrir a boca? Tá bom que Gandhi disse uma coisa parecida com isso mas, cara, vamos lá, era Gandhi. E ele não saiu filosofando no ponto de ônibus, ele movimentou o mundo! Quer dar uma de indiano agora? Se enxerga né!

Sabe o que eu num ‘gento’ também gente que gosta de ponto. É, ponto. De exclamação, interrogação. Vai escrever um texto e quer exprimir mesmo o que sente: te amo!!!!!!!!!!!!!! Eu sei o sentido do ponto num texto, um só tá bão. Pessoa inconveniente.

Gente mais ‘irritativa’ que aquelas que reclamam de tudo não tem. Parece que o sol nunca brilha, as flores nunca são coloridos o suficiente, o copo sempre está meio vazio. Pessoas cheias de ‘não me toque’, tudo tá ruim, tudo irrita. Eu hein. Não vive, filha. Não sabe conviver!

1 setembro 2014 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


VASO QUEBRADO

Entrou como se fosse uma facada em meu peito. Dava pra sentir a lâmina cortando as fibras do meu corpo e eu simplesmente me entreguei depois de tanto lutar. Eu me rendi sem forças, muito menos vontade. Meu corpo ficou trêmulo e minhas pernas perderam a obrigação de estarem em pé.

O pior não foi a reação que meu corpo teve no momento, mas as marcas que com certeza ele terá. Suas palavras dilaceram meu coração; e com esta abertura eles se foram… alguns sentimentos só se foram, sem olhar pra trás e sem esperança de voltarem.

As oportunidades surgem para que possamos aproveitá-las. As suas de se desculpar estavam lá. Você as deixou passar apenas para que pareça certo, sem erros a resgatar. Ó engano, longe de ser!
 
Já é sabido que as palavras machucam muito e, por experiência, digo que muito mais que tapas e pontapés. Como vou me recuperar disso? Não sei, por isso esta nossa distância. É como se eu não reconhecesse em você aquilo que eu mais admirava. Seu cuidado teve prazo de validade. Fui pega de surpresa e o que é pior, por mim mesma, pela minha reação a tudo o que aconteceu.

Você, mais do que muitas pessoas, bem sabe a importância que as palavras têm pra mim. O quanto acho que bem ditas ou mal ditas nos alteram o caminho de uma forma até irreversível. E ainda assim as utiliza para me machucar, me afastar… Pois bem, o que farei? Sim, no singular. Nem sei dizer ‘nós’ por agora. Vou contar com você para quê? Sempre soube que sua companhia era uma alegria, uma certeza de cuidado comigo… se já não é mais assim…qual o sentido?

Ai, muitas perguntas que por ora estão sem respostas… e nem as quero enquanto não passar esse mal estar. Insisti muito por sua companhia, mesmo quando não estávamos bem, agora quero um pouco de espaço… Essa pode ser uma mudança mínima mas que dentro de mim pode representar um comportamento mais sério a longo prazo.

Estou tão ruim que nem lerei mais este texto. Vai assim, sem revisão. Ponto! Até o próximo sentimento…


ESPAÇO PARA FELICIDADE

Pra conseguir passar por tantas situações adversas na vida temos que nos tornar artistas… Temos que aguçar e expandir nosso sentidos… Tornar a vida mais interessante com cores, toques, aromas, sons e gostos… Deixar que o universo interno, muitas vezes mais aconchegante, tome conta da realidade e nos tire dessa órbita cansativa!

Claro que há exceções, não generalizo. Pois bem, pensando assim, e quando o contrário é mais certo? E quando os nossos sentimentos são mais negativos que o que nos rodeia? Aí a coisa fica séria… Não há fuga! É como se não houvesse nenhuma partitura a tocar, nenhum quadro a pintar nem folha em branco a escrever… Já está tudo preenchido e da pior forma possível.

Sabe que não é difícil ver essa situação… às vezes acontecem por motivos tão banais: paixões perdidas, caprichos sem rendição, ou apenas o vento que sopra errado e nos bagunça os cabelos. É nessa hora que também não se enxerga nenhum abraço. Vira uma doença, corrói o que nos torna vivos, turva a visão, já distante, que temos da felicidade.

Os problemas não podem ser maiores que as suas próprias soluções. Não há tristeza suficiente que possa nos tirar a consciência de vida. Nosso querido Suassuna (e aqui presto minha homenagem) nos ensinou uma vez: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”.

Há que se ter cuidado. Não há situação que não possa ficar ainda pior, mas, menos difícil é que melhore. São os ditados mais clichês que nos dizem: “depois da tempestade vem a calmaria”, “a esperança é a última que morre”, “não há nada melhor que um dia após o outro”…

Temos que deixar algumas folhas em branco, sempre há o que se escrever, o que registrar. Deixar a porta aberta para circular o ar. Se nos preenchermos  de negatividade o espaço cessa para os mais deliciosos prazeres que ainda estarão por vir. Deixe os braços abertos que o abraço confortante virá, deixe os olhos sem lágrimas que a mais bela imagem surgirá…


COMO SE CUIDA DE ALGUÉM?

Como se cuida de alguém? Não faço a reflexão sobre filhos ou pais que já necessitam de cuidados, mas de um companheiro… Alguém com quem se escolhe passar bons momentos por muito tempo, acreditava-se que eternamente… Hoje, acho que isso já mudou.

Mas é essa a questão, como se cuida de quem se escolhe amar? Sem pensar em apenas alimentar, vestir, oferecer teto… consideradas condições básicas. Neste ponto tenho uma visão mais romântica da convivência, mesmo que entendendo que possa ser curta. Vejam, entendendo e não pretendendo!

Claro que falo dos cuidados emocionais. Daquele ‘bom dia’ logo cedo e que pode nos proporcionar boas energias para realmente começarmos o dia… Ou um sorriso ainda na cama mostrando a satisfação da companhia que se estende por todos os dias sem cansaço.

Cuidado em ligar durante o expediente apenas para checar o bem estar alheio. Ou o carinho inesperado diante de um filme complexo, que requer sua atenção… não tanto quanto a companhia. A lembrança de datas importantes, sem presentes… apenas a lembrança!

Eu acredito que esses pequenos gestos cuidadosos façam os casais mais felizes. Bom, deixa eu arrumar a frase: acho que esses cuidados ajudam a deixá-los mais felizes. A intensidade dessa dedicação é estritamente proporcional à felicidade conseguida. Eu penso assim.

Essas não são medidas de sentimento mas, demonstram de certa forma, a grandiosidade do amor que temos pelo outro. Não são obrigações, são maneiras de manter a felicidade mais presente. E, sinceramente, tão importante quanto proporcionar este conforto ao companheiro é receber dele a gratidão, ou melhor, reconhecimento por tanta demonstração, incansável, desse amor…


PIEGAS

Sempre de olhos baixos, sem olhar nem para o caminho que seus próprios pés seguiam. Tinha uma personalidade incrível, porém, muito quieto. Tinha um mundo interno totalmente único, obscuro, distante.

Tímido, falava baixinho, calmo e com uma polidez sem igual. Até mesmo seus carinhos eram suaves. Carinhos esses que somente os extremamente íntimos sabiam que ele fazia.

Sua maior extravagância foi ‘dredear’ os cabelos. Como ficou diferente! Depois disso soube conversar olhando nos olhos, de alguns pelo menos.

Gostava de rock e roupas escuras. Poderia parecer um clichê mas, bem diferente disso. Ele era especial, realmente único. Inteligente pra caramba. Éramos muito diferentes.

Mas sabe o que me fez aproximar dele? A curiosidade. Sim, de como ele lidava com sentimentos, desejos, libido. Acho que foi uma das melhores curiosidades que tive. Parecia que a sua introspecção se fazia um monstro interior e, quando resolvia colocar para fora, vinha como elogios inéditos.

Lembro dos bilhetes, flores, fotos e bombons. Ah, os bombons. Eles finalizavam nossos encontros, na verdade se faziam desculpas para nos vermos.

Quando descobri seus sentimentos vi o quanto ele era carinhoso, romântico… gostoso! Era de poucas palavras, mas, tinha uma boca, uma língua…

Ainda procuro um ‘caladinho’ por aí enquanto ele ainda não me vem falar ao ouvido.


AS PESSOAS NÃO TÊM IDEIA DE COMO MUDAM NOSSA VIDA

Mais uma vez sem medo de ser clichê com um título tão piegas, enfim… quem me conhece sabe o quanto sou ‘manteiga derretida’, como dizia minha comadre. Ai, saudade dela inclusive.

Bom, o texto… passamos por diversas fases em nossas vidas e em cada uma delas há pessoas que nos auxiliam nessa jornada. Com o passar do tempo é normal que o contato com elas se dissipe. Vejam, normal, não necessariamente o melhor a se deixar acontecer. Digo isso pois hoje foi um dia especial para aqueles com quem convivi há algum tempo. Seria para mim também mas não pude me encontrar com eles.

Foi um dia de encontros, de lembranças, de desabafos, de muitos abraços e promessas de novos momentos como este. E, por mais que eu não pude estar presente, senti a alegra do reencontro e deixarei aqui meu registro de que essas pessoas não têm ideia de como mudaram a minha vida.

Cada uma com sua pitada em um determinado episódio. Como aquela que sempre me acompanhou desde pequena. Foi minha parceira nas aulas, nas poucas festas que eu podia ir, em minha única viagem desacompanhada para BH e, como não poderia ser diferente, se tornou uma pessoa muito importante também para minha pequena, assumindo o compromisso de ser sua madrinha.

Ou aquele com quem sempre podia contar nas aulas de matemática. Até porque ele era o ‘cabeça’ da turma, seus óculos não deixavam ele negar a fama de inteligente. Ele foi muito meu amigo. Confesso que meus pais esperavam mais da nossa amizade. Sei que ele me procurou neste tempo distante, leu meus textos e fico contente com o que construiu para si.

Filho de professor deve ser um saco! Ela tirava de letra. Sempre radiante com suas sardas que eu achava lindas. Mantivemos contato até depois do colégio, trabalhamos juntas e se casou também com um grande amigo meu, muito querido. Sua participação em minha vida foi grande, ela sabe disso. Minha filha esta aí para comprovar!

Ah, ele! Palhaço até hoje, não me admira. Sempre o brincalhão. Não poupava gracinhas no colégio. Acho ótimo ter mantido seu bom humor, é assim que me marcou…

Ela era nova no colégio, tinha vindo de Brasília. Adorávamos as histórias que tinha para contar de lá. Era tão descolada! Detestava Cuiabá! Mas aqueles lindos olhos azuis compartilhou comigo muitas coisas. Sabe que hoje detesto garapa? Nem te conto o motivo… Quando novas dividimos o mesmo sonho: estudar jornalismo. Pena hoje estar longe…

Outro também que era muito autêntico. Muito meu amigo, gostava de sua sinceridade. A cara da irmã, também era ancião do colégio, estudou lá desde pequeno. Gostava de uma bagunça. Uma vez uma professora perguntou à ele quem ele achava ser a pessoa mais lembrada na escola, por minha surpresa ele disse meu nome. Isso me marou muito! Achei ótimo vê-lo, mesmo que por foto. Espero que ele lembre disso!

Tinha essa duplinha inseparável. Assim lembro deles. Tínhamos sempre festa comemorativa na escola, acho que essa era da Primavera. Tinha um show de talentos e eles eram a atração, tocavam violão e cantavam. Foi através deles que descobri Jorge Vercillo.

Ela morava duas ruas atrás da minha casa, até mesmo por isso voltávamos juntas do colégio. Adorava ir à casa dela tomar banho de piscina e comer brigadeiro a tarde inteira. Sempre a achei linda, não me surpreendeu ter virado ‘um mulherão’. Esta também não queria ter me distanciado tanto…

Tinha a ‘ferrugem’. Sempre estudiosa, linda, diferente com seus cabelos vermelhos. Esta foi mais distante mas eu a admirava de varias formas, sem contar de seus talentos eram muitos, e ainda são… canta maravilhosamente bem pelo que vi nas gravações.

Alguma colegas tiveram suas vidas marcadas anos depois da nossa separação colegial. Sei de suas lutas e infelizmente só acompanhei de longe. Mas aqui meu recado: você continue com seu lindo sorriso e sempre a líder que foi; e você, ser artista é lindo, conhecer várias cidades é um prazer, espero que seja sempre assim pra você.

Bom, não consigo falar de todos, até porque na metade desse texto tive que correr a pagar um pano, teclado já estava encharcado. É só para lembrar a quem lê que, todas as pessoas que passam em nossa vidas nos deixam uma lembrança. Essas pessoas me deixaram coisas boas. Ainda bem que as reencontrei!


NÓS DUAS

Dia desses apareceu aqui no meu portão. Até me assustei, há tempos não nos víamos, nem nos falávamos. Depois do nosso último infeliz encontro achei que a distância seria mais apropriada.

Chegou com cara de quem queria desabafar, como se algo a incomodasse muito. Fiquei sem reação a princípio, mas, com certeza, gostei da visita inesperada. Tanto que não consegui disfarçar o sorriso maroto no canto da boca, nem o brilho no olhar… e deveria ter feito!

Sem pensar muito, nem deixá-la falar sobre a vinda, a abracei. Suspirei em seu ouvido e isso fez com que chorasse baixinho. Senti o soluço retido no peito como que querendo esconder um sentimento doído. Ao fim, ela também apenas suspirou…

Ainda sem trocarmos nenhuma palavra, abri o portão e ela entrou, foi até a sala e sentou no sofá. Com as mãos delicadamente postas nos joelhos ela me olhou. Já estava com lágrimas prestes a cair quando limpou orgulhosamente a face. A fitei por um tempo, observei seus cabelos mexerem com o fraco vento que nos achava. Os lábios trêmulos, rosados, me despertavam interesse antigo… só acordei desse transe sedutor quando ela levantou os olhos em minha direção. Vi novamente a melancolia de um sentimento que já durou.

Balancei negativamente a cabeça. Sentei ao seu lado e a abracei de novo. O perfume dela chegava a mim como um convite irresistível. Deixei que ela sentisse minha respiração bem de perto. Por um instante achei que seria suficiente, mas não! Ela se afastou e deixou uma distância maior do que antes.

Não pensei em desistir. Busquei um copo de água para acalmá-la. Não recusou, limpou a garganta e me devolveu o copo, assim como tinha feito com o amor que lhe entreguei há algum tempo. Levantou os ombros e, bem baixinho, quase sem querer, se despediu com um breve ‘tchau’.

Abriu a porta e saiu, sem fechá-la. Aquele momento sem palavras me fez perceber que o nosso caminho não tinha volta. O meu cuidado com ela não tinha sido suficiente para fazê-la enxergar que somente nós importamos. Exausta pelo encontro infeliz deite ali mesmo e senti seu perfume ir embora com ela.  Foi e não voltou. Só posso esperar que ela veja que meu amor é verdadeiro…

13 fevereiro 2014 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


EU ENCHO O SACO!

Descobri recentemente um texto de Martha Medeiros que me instigou muito. Gosto demais do trabalho dela, leio textos aleatórios, livro mesmo ainda não possuo – confesso com certa vergonha. Mas este texto… ah!  “Não canse quem te quer bem” é o título. Ele detalha diversas situações em que somos inconvenientes e cansamos, por banalidades, pessoas que nos estimam.

Me identifiquei não pelas passagens em si que ela expõe, mas, com o título mesmo. Esta semana, inclusive, cansei alguém que me ama. Na verdade, acho que faço isso com mais frequência do que eu gostaria e consiga confessar.

O pior é que, como ela coloca, é como um ímpeto quase impossível de segurar. Bom, em minha defesa alego que isso acontece não com o objetivo de gerar discussões ou mal estares.  É mais como uma forma de chamar atenção, ou ainda, como Martha coloca, que as ‘Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto’. No meu caso, anseio por este afeto alheio… um ponto positivo, ainda tentando não me deixar tão ruim na história, é que enxergo que faço isso de uma maneira torta, quase doentia; e por isso tento não continuar a chateação.

A implicância contínua e a “encheção” rotineira cansam. Querer explicação por qualquer atitude tomada pelo outro, cansa! Sempre exigir prova de sentimentos, cansa! Pedir atenção demasiadamente exclusiva, cansa! E principalmente, no meu caso, a desconfiança cansa! Sim, sempre me vi como uma pessoa desconfiada e não insegura, e acabo cobrando uma responsabilidade anormal do meu companheiro e, tenho certeza que isso também cansa!

Minha chatice tem data de validade, eu quero acreditar e trabalhar nisso. Chega uma hora que eu mesma me exausto . Bom, minha meta é seguir os conselhos de Marta e privá-lo desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de mim.

16 janeiro 2014 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


PARA O AMOR NÃO ENCONTRADO

Nas cartas que trocávamos desde a época em que ela se mudou, de tudo escrevíamos. Ali não sentia nenhum constrangimento. Recordava lembranças de infância, a saudade que sinto dos meus distantes, as frustações que tenho por imaturidade minha e as confusões sentimentais que me atormentam nas noites mais longas.

Na verdade este é o assunto mais abordado, tanto por ela quanto por mim mesmo. O tema comum me conforta, saber que tenho companhia na dúvida me faz entender que sozinho não estou. Me fazia bem ler nas linhas espaçadas aquela letrinha dela tão bem feita, desenhada, diferente das padronizadas e frias das telas do computador. Sim, sou adepto ao retrô (mais charmoso de se dizer).

O envelope sempre vinha com algum detalhe diferente do anterior. Ou era uma letra, sinal ortográfico ou mesmo um pequeno desenho mal feito, mas, delicadamente colocado de propósito. Geralmente era como um código que eu esperava ansiosamente para decifrar. Na carta os elementos nem sempre eram fáceis, mas sempre, sempre ao final da leitura conseguia decodificar. Estavam interligados: o desenho e a carta em si.

Não é só a brincadeira que me prendia às leituras e me faziam responder imediatamente. As cartas me ajudavam a entender o que mais me afligia, a refletir sobre as questões mais difíceis pra mim. Na verdade, sei que não é pessoal. Encontrar e permanecer com a pessoa por quem se nutre um sentimento verdadeiro não é fácil muito menos simples.

A busca pela companhia de outra pessoa é a fonte de infelicidade do mundo, justamente pela complexidade de se doar e, em minha opinião o mais difícil: de receber, sem restrições, o outro como ele é. Por tantas frustrações é que me sinto menos satisfeito, gradativamente.

Hoje corri ao portão para colher minha carta. Surpreendentemente, logo nas primeiras linhas minha correspondente já adiantou sua dolorosa despedida. Após suas reflexões ela dizia que era cansativo pensar sem saber se o retorno era apenas filosofia barata ou experiência de possível aplicação. “Olhe, não é nada pessoal. Aprecio, mais do que de costume, nossas conversas, mas, pra mim, ficamos por aqui”, simples assim.

Ainda justificando, o que pra mim era apenas injustificável, dizia que essa iniciativa tinha que ser tomada antes que chegássemos a uma conclusão ainda pior: de que não há companhia que valha a pena. Ou antes que tomássemos como filosofia passível de argumentação a nossa falha encontrar as respostas às perguntas que nos preocupam; ou ainda pior, pensar na possibilidade de que elas não podem ser respondidas no fim das contas. “No final é melhor pensar que ficamos por descobrir, isso deixa a esperança sobreviver”.

Foi assim que ela me salvou, e sabia que o faria com essa atitude. Ela sentia que a tinta levemente deixada no papel em forma de letras já não me alimentava, eu já não era mais tocado pela existência do outro como antes e que, possivelmente, cairia no clichê de apenas morrer de amor perdido, ou melhor, não encontrado… Foi assim que ela amorosamente me salvou.

20 dezembro 2013 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


O QUE NOS FAZ FALTA

O sol brilhava forte, quase não conseguia abrir os olhos pela incomoda claridade; mesmo assim, este contato era uma dos momentos que ele mais apreciava. Há algum tempo este era o instante em que ele sentia-se vivo, o calor o fazia lembrar de quando podia ser livre…

As peças do dominó nas mãos já suadas aguardavam sua vez para serem dispersas. Era um jogo monótono mas fazia o tempo passar com menos lentidão naquele imenso calabouço em que ele se encontrava. A diversão patética que o simplório jogo lhe proporcionava também lhe mantinha pensante, era um lugar em que a insanidade o alcançava com rapidez e silenciosamente.

Lembrava os motivos pelos quais estava ali, sabia que havia justificativa, porém, sempre se sentia inconformado pela distância daqueles que lhe eram queridos. Esta época então era mais dolorida. Recordava das luzes diversas espalhadas pela cidade, dos enfeites cuidadosamente escolhidos para celebrar data tão importante, do cheiro do assado no forno que era preparado com tanto carinho.

Desperto por um empurrão do companheiro, jogou sua peça à mesa e desfez o jogo ainda no começo. Levantou chateado e encostou a face na grade suja e quente. Por alguns minutos fechou os olhos e viu o rosto da Michele. Ah, quanta saudade! Seus olhos castanhos, pele morena, seu rosto arredondado em volto com os cabelos cacheados… Será que ela vem me ver este ano? Nas cartas trocadas tinham sempre promessas que somente às vezes eram cumpridas: “este ano eu levo a pequena”; “vou te ver em todas as visitas a partir de agora”; “estarei te esperando aqui”… Não a culpava por tanta distância principalmente porque nem ele podia cumprir suas próprias promessas…

Abriu os olhos e viu sua realidade novamente. Suspirou profundamente e foi em direção ao banheiro. Jogou água no rosto, estava fria. Olhou-se no espelho e não reconheceu o rapaz alegre de algum tempo atrás. Os olhos fundos, tristes, com olhar cansado, cabelo desalinhado e sem corte. Estava ansioso pelo horário de visita, naquele dia eles concediam algumas horas a mais. Passou as mãos nos cabelos, limpou uma pequena sujeita na gola do macacão e saiu para seguir a fila de volta para dentro.

Já na cela sentou na beirada da cama, com as mãos juntinhas fez uma pequena oração, não que fosse costume, era pela data que se aproximava. Pediu apenas aquilo que geralmente esquecemos de felicitar: o conforto dos seus, o abraços dos próximos e a união consigo daqueles que lhe são amados. Na verdade, era muito simples seu desejo só vê-la, só queria isso: vê-la. Saber que o sentimento ainda estava ali, que a fazia querer saber dele e que, quando saísse ainda tivesse o direito de beijá-la tão apaixonadamente como a primeira vez…

8 novembro 2013 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


SUA HONROSA PARTIDA

Antes de partir deixou um antigo baú de madeira. Fez questão de me entregar pessoalmente e em mãos (não literalmente né, era enorme). Já velho, pesado, o baú era guardado, naqueles tempos, ao lado da cama. Sempre achei que tinha um mistério envolvido ali, nunca me disse o que guardava nem como o obteve, ele apenas existia e por ali ficava. Então, no dia que resolveu ir embora deixou para trás essa relíquia; não um abraço, muito menos um beijo e nem a explicação de sua partida, apenas o baú.

Curiosa menos do que intrigada, tentei abri-lo, mas, estava fechado com um cadeado bronze. Também aparentando ser bem antigo, o cadeado tinha traços em ouro, como se fossem desenhos sem formas, muito bonito. Daí minha vontade de não quebrá-lo. Mas, sem a chave pouco me restava.

Sentei ao lado dele e tentei imaginar o que seria mais importante do que a presença dele que, foi embora mas, me deu a companhia daquela caixa de madeira. Ainda mais num momento como esse em que a decisão de sua partida foi unilateral. Minha tristeza estava latente mas minha curiosidade aguçada.

Ah, imaginei mil coisas… seriam nossas lembranças bobas de namoro? Ou o cachorro que ele jurava ter fugido? Ou ainda alguma herança que não lhe vale mais? Ah, sei lá, tenho que abri-lo antes que essa curiosidade me mate.

De joelhos, ainda com lágrimas nos olhos peguei ajustei o cadeado nas mãos e com uma chave encontrada debaixo da cama tentei abrir; nada! E nem um mapa de onde esta chave poderia estar ele deixou… Lembrei que atrás da porta que dá acesso ao corredor ele mantinha uma caixa fixa na parede com algumas chaves da casa, do escritório, do sítio… Ali achei a que procurava. Cuidadosamente abri o cadeado com medo do que poderia ver.

Ainda esperançosa de que poderia ser algo relacionado à nós como um provável pedido inusitado de reconciliação, abri a tampa com muita vontade. Fechei imediatamente. Os poucos segundos em que ele permaneceu aberto me deu a noção do que era guardado ali. Doeu o coração, ainda mais a consciência… mas, soube o motivo de sua partida…

O baú guardava cada lamentação, cada discussão, cada reclamação que eu tinha feito durante esses anos. A tristeza ali dentro foi contagiante e arrebatadora. Ele guardou tudo, durante tanto tempo… até que não coube mais. Chorei ainda mais profundamente. Sentei no chão ao lado do meu baú e chorei.

Fiquei ali pensativa durante muito tempo, somente com a companhia do que tinha de pior de mim mesma…


FORTALEZA

As pequenas e belas pétalas que caem ao chão enquanto as folhas balançavam as copas me lembrou do quanto eu tinha a agradecer. Enquanto passeava pela estradinha do parque percebi a beleza que começa neste período. Coincidentemente é uma época muito especial por aqui…

Resolvi dar-me este tempo a sós. Repensar qualquer coisa necessária… Os bancos estavam convidativos, o tempo fresco, difícil acontecer aqui, mesmo à noitinha. Não se via a lua e apenas raras estrelas.

Foi nesse momento tão calmo que algo inquietante me surgiu no peito. Como esses dias são importantes! Sim, é neste período que comemoro ‘você’, intimamente ainda mais fervorosa! De várias formas mas com a mesma intensidade de três anos atrás, de quando me vi envolvida nos seus braços dançantes e abraços conquistadores…

Ao longo dessa convivência sua presença se tornou especial. Sua calma me acalenta, sua paciência me surpreende, sua postura me ensina. Não esperaria menos deste sentimento que cresce comigo.

Sorri sozinha. O vento balançou o longo vestido, os cabelos o acompanhavam. Ao longe via-se as luzes da rua, preferi a distância pelo aconchego do silêncio. Podia ficar horas por ali, esquecendo de todo o resto que não fosse nosso prazer. Acho que a confusão da rotina nos impede de apreciar as coisas, os momentos, as pessoas… Clichê, mas é!

Na verdade, tudo o que pensei é clichê. Pessoa importante, aprendizado pela convivência… Mas a sequência da vida é clichê. Pode mudar as personagens, alguns detalhes, mas os sentidos que nos impressionam ou ensinam são os mesmos. Claro que a cada etapa nosso amadurecimento está em algum nível e aí vemos as situações serem como novas.

Caos novamente! Qualquer pensamento mais coerente torna-se, em mim, denso. Parei por ali. Suas mãos novamente encontraram as minhas e relaxei… Busca-me como o fez naquela noite de caos…


RECORDAÇÕES

Dia desses estava garimpando algumas fotos bem guardadas no fundo do armário para montar um álbum. Lembro que quando eu era mais nova era uma diversão ver álbuns… De formatura, casamento, bebês; geralmente eram temáticos. Deles saíam cada história! Lembranças mesmo. De quando a tia veio passar o Natal e reuniram-se para uma ’pastelada’ em família, ou do cachorrinho novo que conquistou todos na casa, da amiga antiga que hoje não sabe-se onde está…

Fotos desconexas, sem ângulo, às vezes sem foco (tínhamos que revelar todas) e o mais importante pra mim: sem pose! Como é chato esse negócio de montar um cenário para tirar foto. Isso acontecia, antigamente,  quando ia-se em estúdio e fazia um book, com um profissional e tal, mas hoje não, é sempre arrumado, não tem mais espontaneidade, é tudo montado.   Arruma o cabelo, ajeita a manga do vestido, vira o rosto para que o melhor lado saia na foto… Que coisa chata, sem graça! O legal era ver a risada de boca aberta mostrando a alegria do momento, ou a cara de sono depois de acordar numa manhã fresca na chácara dos pais.

Hoje é tudo engessado e isso reflete inclusive no ‘conhecer’ o outro. As fotos de antes mostravam mais seus gostos, seus amigos, e só quem você deixava via essa parte tão íntima da sua vida. Agora liberou geral, todos veem tudo com esse ‘trem’ de rede social,  apesar de que ninguém se conhece apenas com fotos do rosto, são tiradas em vários dias diferentes, com batons de outra cor, com o cabelo penteado do outro lado mas sempre do rosto.

Como se lembra de momentos se só aparece você! ‘Eu na Chapada’ – aí aparece a bendita com a mão na cintura (nada da paisagem), ‘Eu no carnaval’ – aí ela está com a mesma mão na cintura mas com roupas coloridas (nada de trio elétrico), ‘Eu na fazenda’ –  lá está ela com roupa de montaria e  com a mão na cintura (nada de cavalos). Que coisa hein!

Somos o que vivemos, as lembranças são as provas da felicidade que sentimos, dos lugares que conhecemos, das pessoas que passaram em nossas vidas e um pouco disso tem sido roubado, o egocentrismo chegou e deixou essa forma gostosa de nostalgia pra trás…


ÉS SÁBIA!

Minha admiração sempre foi muito discreta. Acho que pela nossa proximidade achava que não havia necessidade de lhe contar sobre as coisas que lhe via fazer e achava lindo, genial, inteligente ou mesmo ingênuo. Pelo contrário, estava ali perto para lhe dizer do que eu não achava certo. Que coisa!

Você, com toda sabedoria, soube esperar que eu mesma enxergasse o quanto sabia lidar com as mais adversas situações. Sentia calada, interiorizando cada crítica que eu fazia e, ainda sim me perdoava sem eu saber que tinha ser.

Emocionalmente forte como a rocha que permanece intacta mesmo com o bater fortes das ondas no mar em fúria, você segurou as pontas. Como ainda podia achar que era frágil? Que era apenas coadjuvante em nossas vidas? Mal sabia que a peça era em torno de você!

Só agora percebo a influência que sempre teve em todas as minhas decisões; e fez isso tão discretamente, sem necessidade de assinatura por onde passava. Só agora vejo que não teria o rumo que tenho hoje se não fosse o seu apoio sutil e essencial em cada etapa em que me via desorientada… e mesmo que achasse que já seguia meu rumo, me redirecionava para o caminho certo.

Sempre soube que chegaria esse dia, que eu abriria os olhos e enxergaria assim como o cego curado que aprecia os primeiros raios de sol do dia. Sabia que olharia para trás com um pesar no peito por não ter dito, por não ter feito ou por não ter apoiado. Ou pior, por ter feito tudo de maneira contrária e grosseira.

Será que desculpas agora funcionariam? Sei que não apaga o que já passou mas ameniza qualquer cicatriz que eu tenha deixado? Sei que dirá que não há pelo que me desculpar mas, ainda assim o faço. E isso mostra ainda mais a superioridade que tem.

Bom, sigamos nossos caminhos, agora com a certeza de que não é apenas uma aprendiz neste mundo de provas, és sábia!


SÓ DE PASSAGEM

As pétalas delicadas, branquinhas, aguardavam meu carinho matinal na janela já aberta do quarto. A brisa que pela manhã chegava mansa balançava os frágeis galhos e liberava o perfume sutil da pequena flor. A presença do vasinho ali era prova de que ele já me visitara. Era assim: rápido e imperceptível. Vinha apenas para me ver dormir as poucas horas que restavam da manhã, aparecia quando os raios do sol já me despertavam o profundo descansar.

Mesmo sem vê-lo, só por notar o pequeno mimo deixado, me sentia completa, segura. Como era carinhoso o cuidado dele! Todos os dias as mesmas pétalas delicadas e branquinhas. Dizia que pareciam comigo, pele alva, cheiro de flor.

Sinto falta de quando ele vinha por mais tempo, não apenas de passagem. Sua estadia demorava um pouco mais e se apresentava mais intensa. Quando vinha, me despertava e, juntos esperávamos acordados o amanhecer. Dizia que me ver à luz do dia fazia mais jus à minha beleza, que a via plena, por isso as visitas durante a manhã.

Há algum tempo ele parou de ficar. Apenas passa… Ainda me pergunto o motivo disso. Tentei permanecer acordada mas, não resisti e adormeci sem notar a sua chegada. Penso que algo em seu sentimento mudou, as noites tornaram-se sua moradia. A escuridão lhe desperta agora uma sensatez obscura. Tento descobrir suas feições novamente, mas, insiste em se manter distante, vem apenas de deixar a minha delicada flor. No fundo acho que isso é a única ligação que o segura como ser…

Mantém a flor como símbolo; lembrança do sentimento que um dia teve por nós. Acho até que esse compromisso cuidadoso é a única coisa que o liga a algo real. Espero que um dia volte e permaneça. Continuo a esperar a sua vinda, sempre com a imagem do que um dia fomos, e com a esperança de que me entregue e não a deixe na janela …


PARA VOCÊ QUE ESTAVA EM COMA NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS…

Para você que estava em coma nos últimos dois anos, perdeu a chance de ver o Botafogo ser campeão carioca, de perceber que beijo heterossexual na novela das oito é o que é estranho hoje e que o Brasil virou um canteiro de obras sem você nem entender quando acabará… Aí vai uma série de ‘news’ que você pode ter perdido também.   ‘Se liga’, muita coisa mudou mas, ‘fica de boa’, você ainda pode se atualizar e ficar ‘in’. Saiba que o que está pegando entre a galera é ‘sensualizar’ com uma dança de cabeça pra baixo, rebolando o quadril em frenéticos movimentos com pausas marcadas. Não entendeu? Joga na net: quadradinho de oito. Ah, pra falar a verdade nem precisa, veja aquele programinha com a filha da garota de Ipanema… ela faz ao vivo, na tv, aberta, acessível às crianças, à tarde…

Não é só isso não. Quando casal famoso briga por aí é ‘supercomum’ se vingar fazendo topless. Virou moda depois que uma dessas mulheres frutas aí resolveu tirar a blusa numa boate ‘nos estrangeiros’ porque o companheiro sentia ciúmes… Aí ela resolveu dar uma lição… e um real motivo, né?

Sem contar que postar vídeos na net ‘trolando’ alguém é ‘mega’. Sim, o último que vi foi o filho enganando o pai (que ficou desesperado) dizendo que é heterossexual e ele tinha que conviver com esta escolha…

Ah, rapazes menores de 18 anos já podem dirigir. Sim, pelo menos o que eles acham que seria um carro. Dia desses o ‘amigo’ da minha filha veio buscá-la para um ‘encontro’ com amigos no seu – dito – carro. Sim, sim, tinha quatro rodas e andava por aí. Fiquei ‘choqued’, e não menos preocupada quando ‘realizei’ que era um skate. É assim que eles chamam isso que, na minha época ,era apenas um skate, hoje é o automóvel deles…

Antigamente o rapaz se esforçava para conquistar uma moça. Abrir a porta do carro, encantá-la com um buquê de flores, surpreendê-la com cartas de amor. Hoje, os ‘lelesques’ ainda se esforçam (?). Mandam a ‘novinha’ dar uma caprichada no ‘look’ porque ele vai ‘encostar’ na casa dela à noite para eles ‘rolarem’ por aí no seu carro novo (trocou as rodinhas do skate). É, almost the same!

Também é usual hoje deixar ‘todo o mundo’ (literalmente) entrar em sua vida. Sim, acredito que isso começou mesmo quando o muro de Berlim foi à baixo, não sei… Bom, qualquer um pode saber se você está de bom humor hoje, se pintou o cabelo, se gosta de tomar leite à tarde, se prefere andar de bicicleta a assistir séries legendadas, se dorme com o gato gordo do seu avô… sim, coisas úteis! Isso porque o facebook permite isso. E, acredite, pessoas passam horas tentando descobrir essas coisas entre si!

Sem contar que, tenho refletido muito nessa tecnologia que se apresentou há algum tempo chamada celular, esse novos, com câmera… Não sei se foi a melhor ou pior invenção do planeta! Isso porque ele permite que todos, e qualquer um, tirem fotos. Várias fotos. Várias fotos iguais. Várias fotos iguais e posadas. Isso porque há a necessidade de encher o facebook de fotos. Isso porque (percebe que tudo tem explicação) você tem, no seu perfil, pessoas que não conhecem seu lado direito do rosto (só o esquerdo), assim, tira fotos de todos os 360 graus, não perde um ângulo, ou direção… só o  sentido!

Sim, sim. Foi um bom tempo que ficou adormecido nesta cama de hospital. O coma lhe tomou tempo de vida… Não, não, não desligue os aparelhos. Juro que melhora! Tenho que lhe falar ainda da importância do tomate hoje. Troca-se por barras de ouro…


NOS VEMOS EM SEMELHANTES AO REDOR

Batiam insistentemente à porta esperando que alguém de dentro da casa atendesse. Depois de longos minutos, ainda aguardando à frente da casa, uma pequena abriu. Pequena mesmo, não mais que cinco anos. Ainda de pijamas a menina pulou para o colo daquele que lhe parecia estar do seu lado.

Os demais não esperaram e logo entraram na casa. Silenciosa. Acharam os dois estavam no banheiro. Viam-se as pequeninas pegadas dela pela casa. Ao rever seus passos descobriram que ela estava escondida no armário do quarta do irmão. Carregava consigo um livro de histórias infantis, já gasto, de edição antiga, com as folhas gastas de tanto serem passadas com as pontas dos dedos. A capa que era de um azul escuro já lhe parecia cinza pelo tempo. Era o preferido, por isso o único bem que valia a pena salvar.

Parecia assustada, quieta. Nem as perguntas dos agentes ela respondia. Olhar distante, quase que relembrando o que deveriam ter sido os piores momentos de sua ainda iniciante vida. Por ser de tão pouca idade eles se perguntavam como ela havia sido tão lúcida a ponto de chamar socorro…

Enquanto alguns investigavam a casa, agora tratada como cena, outras a levavam à um lugar onde podiam fazer-lhe exames e lhe acolher. Lá, tentaram conversa mas apenas uma delas tiveram sucesso, aquela de cabelos longos, lisos, castanhos – bem parecida com um daqueles achados na casa, já desfalecida. A ligação da menina com aquela que lhe era querida permitiu a aproximação.

Foi descoberto que a mãe havia lhe treinado caso algo acontecesse. ‘Ligue para polícia, diga que está sozinha e que venham lhe ajudar. Desligue, siga para um lugar seguro e espere até que alguém apareça’. E foi exatamente assim que se seguiu.

Eles não entendiam a necessidade que a mãe tinha de lhe orientar. Certamente esperavam que algo acontecesse. Foram brutalmente separadas, o menos trágico é que uma deles sobreviveu para lembrar os momentos em que juntas estavam…

Com o olhar ainda distante, a pequena suspirou e perguntou: ‘ela não vai voltar, né?’ O olhar de sua confidente abaixou e, mesmo sem muito entendimento, ela compreendeu a resposta. Chorou transparecendo a criança que ainda é. Aquela que ali estava a lhe ajudar ficou tão perdida que a abraçou instintivamente. Foi levada aos familiares que chegaram e que lhe sobraram. Um aceno de adeus fechou o dia de ambas.

A mulher com cabelos longos, lisos e castanhos voltou para casa com uma questão a ser respondida: como seria crescer sempre com medo, sempre à espreita de ter que fazer uma ligação de socorro… Sentou no sofá de sua casa com uma taça de vinho e pôs-se a relembrar os dias de infância, quando também jovem perdeu a mãe. Numa das fotos notou-lhe com um livro entre os braços; olhou mais de perto e lá estava um pequeno livro de capa azul bem escuro, de contos infantis, seu preferido, um que valia a pena salvar…


ELA DEIXOU A JANELA ABERTA COMO DE COSTUME…

Ela deixou a janela aberta como de costume. As cortinas faziam um leve balançar pela brisa pouca que fazia naquela noite. São raras as casas em que as janelas não tinham grades, a dela, antiga, colaborou comigo, era livre.

Não estava me esperando, ache estranho num primeiro momento, mas depois entendi tudo. Procurei por ela, por vestígios dela no quarto. Devagar, de mansinho, sem fazer barulho, minha presença não era bem quista mais, não queria mais confusão.

Mesmo com a luz apagada, dava-se para notar alguns objetos ali, até mesmo por conta da luz da lua. Sentei na cama esperando que em minutos ela poderia aparecer. Desconfortado, deitei. Entre meus braços senti uma peça de roupa, levei-a ao rosto… seu cheiro ainda estava presente.  Cheiro do perfume que ela usava para dormir. É uma mulher especialmente diferente, até mesmo para dormir passava perfume, penteava os cabelos… Por vezes a recriminei em pensamento por atitudes tão fúteis, não imaginei que mais tarde seriam essas situações que eu mais sentiria falta.

Fiquei por minutos com a roupa entre as mãos. Deitei novamente. Fui tentado a ver um novo porta-retratos na cabeceira da cama, junto ao último livro que ela lera (As Esganadas – Jô). Quanto tempo despendia nessas linhas que, para mim, nunca acabavam. Me aninhava em seu colo esperando o momento em que sua angustia de ler a próxima página acabaria para, aí sim, me ver. Era o momento que eu tinha para ela.

Uma foto tirada recentemente de nós dois. Uma das preferidas dela, entre as últimas que tiramos. Ela guardou, pelo menos ainda. O vestido que usava era o mesmo da noite em que nos conhecíamos, e eu, peguei algo qualquer, era apenas um jantar. Ah, se não me engano ela queria comemorar mais um aniversário. Pouco importou, estava cansado e com fome aquela noite, ela só sossegou quando tirei a foto que tanto insistiu… e ali estava, em sua cabeceira.

O tempo passava e nenhum movimento por ali. Comecei a ficar angustiado. Achei que tinha dito a ela que viria hoje. Liguei para ela, o celular em cima da cama vibrou. Era meu número tocando no dela, porém, não tinha meu nome. Me apagou da agenda. Que drama! Era apenas mais uma discussão de algo que eu fiz ou deixe passar, logo ela esqueceria e voltaríamos a ser como antes.

Pelo demora prolongada, permaneci deitado e dormi. Pensei que o tempo passaria mais rápido. O dia amanheceu e fui acordado pela luz do sol, clareando pela janela ainda aberta. Isso queria dizer que eu ainda estava no quarto dela e ela não voltou para casa.

Resolvi abrir os olhos, depois de uma leve reflexão sobre o desconforto de ficar esperando por ela e me deparei com o quarto vazio. Sem nada… Cama, cortinas, cômoda, cabeceira, celular, livros.. nada! Vazio. Percebi que não era o quarto que estava assim, era eu mesmo. Comprovado pela carta em meu bolso que insistia em guardar mas não acreditar. Ela dizia que era o fim. Que o importante não é apenas o tempo que passávamos juntos mas a qualidade dele. Além disso, não conseguia esquecer meus deslizes e que um deles, particularmente, era amargo, e presencial demais.

Entre algumas gotas que caiam de meu rosto, lembrei o que ela disse há poucas semanas: “Estar comigo foi tão insignificante que nem mesmo o que eu digo você leva em conta. Isso não foi recíproco. Os detalhes da nossa relação, que para mim era assim vista, são tão importantes quanto os grandes acontecimentos. O respeito que eu desenvolvi sozinha por você se perdeu, ou melhor, foi roubado, porque na verdade eu não queria entregá-lo, você o tirou de mim, tamanha a vontade que eu tinha em continuar e você de se desfazer.”

 Eu a traí. Simplesmente isso. Não apenas com o corpo de outra mulher, mas com a minha alma. O meu caráter, que ela ajudou a descobrir, ruiu quando mandei a primeira mensagem para outra. A minha integridade virou o sentimento mais patético que poderia existir. Jamais pensei que poderia perder tudo com isso. E com ‘tudo’ não quero apenas dizer os beijos, abraços e noites juntos. Significa muito mais. Os planos de vida, a risadas descontraídas, a confidencialidade e companheirismo… mais da parte dela do que minha. Foi um traição tão profunda que, se tivesse sido ‘apenas’ carnal, acredito que, por ela ser tão especial, eu seria perdoado, mas meus erros foram cometidos diariamente, negligenciando cada momento de nós mesmos…

A vergonha não tinha tomado conta de mim até que ela mesma leu em voz alta o que tinha descoberto. Naquele momento senti falta dos carinhos que eu não percebia que ela me dava, dos abraços aconchegantes à noite quando eu apenas procurava meu espaço na cama, o cuidado com a lembrança das datas que comemorávamos, até mesmo das fotos inconvenientes e insistentes. Depois de muito chorar e terminar de reler os escritos no papel já quase irreconhecível, voltei à subir pela janela que ela deixou a aberta como de costume. As cortinas faziam um leve balançar pela brisa pouca que fazia naquela noite. São raras as casas em que as janelas não tinham grades, a dela, antiga, colaborou comigo, era livre…


AO FIM DO ARCO-ÍRIS

Dava para ver claramente no seu rosto que nada tinha mudado, eu é que fazia o drama todo e insistia naquilo que mais detestava. Seus olhos fixos no horizonte longe me deixavam irritada, aí sim me sentia incentivada a perturbar sua paz. Volte! Não para mim, volte a ser você. Se assim for, consequentemente voltará para mim, a sermos dois novamente. Volte! A me deixar contente, a se preocupar, a não se deixar abater pelos meus caprichos chatos, desnecessários.

Busque a direção comigo, a direção de volta ao caminho de qual não devia ter desviado. Não fui aquela que partiu seu coração e o marcou para sempre, não! Quando chegou já tinha esta cicatriz, bem lembro. Acho que foi por isso que foi desleal, me confundiu com outras passagens. E ainda assim o procuro de volta.

Não, espere, não venha correndo. Chegue com sua certeza, com ela será completo, por isso, não tenha pressa. A sua ausência não implica que nos distanciamos, eu não deixaria isso acontecer, mesmo depois de fazer meu pranto descer doído… Se quiser, pego vagalumes para iluminar seu caminho de volta, ao final dele estarei para vê-lo sorrir novamente.

Nunca pedi para esquecer o que viveu antes de nós, só para deixar onde deveriam ficar lembranças, ou melhor, não acordá-las, principalmente por não serem mais bem vindas. Esse nosso romance é delicado e ainda assim intenso. Daí a força das palavras que dizemos sempre antes de dormir: eu te amo. Sim, acho que elas são ditas no final do dia, nas horas em que a cidade se acalma, poucos estão ativos e escutam essas verdades, isso as fortalece. Somos só nós para revela-las e senti-las… antes de dormir.

Vem, devagar. Bata palmas em minha janela, como antes, anunciando sua chegada. Faz meu coração pular com sua visita muito esperada, mas surpreendente. Não deixe para amanhã. Posso te aguardar com os pés descalços e cabelos molhados, como antes.

Não vamos continuar com essa insensatez. You’re the right guy. E eu também sou a garota certa. Me chame, eu sempre o escuto, chame mais uma vez que eu chego perto, pertinho da sua boca. Aí as palavras se desfazem, seu olhar volta a ter uma direção e suas mãos me acham. Não seremos sempre iguais, mas teremos sempre esse sentimento que nos alcança. Venha me dizer isso, desta vez toque em meu rosto para que eu preste atenção.
 
Traga sua confiança e mexa com minha lucidez. Eu desejo asas para voar alto no céu e cair exatamente onde possa me resgatar. Bem ali, ao fim do arco-íris, onde as cores se misturam, começam, terminam… serei seu presente e você me tornará futuro.

25 fevereiro 2013 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


TEM COISA QUE NÃO PRECISA DE EXPLICAÇÃO

“As chuvas continuam pelo país concentradas nas áreas mais escuras do ma…” Isso era o que eu conseguia escutar do jornal que passava na tv quando percebi que ele já estava a algum tempo falando coisas mil à minha frente. Sentado num banquinho de plástico, bem pertinho do sofá que eu estava, gesticulava freneticamente explicando como são formadas as chuvas. Era algo que dizia sobre nuvens e poeira e encontros de massas e coisas densas… Parei tudo para prestar atenção ao que dizia. Desenhou com as mãos o céu e tudo o que precisava para explicar o acontecimento todo. Era tanta coisa que só sabia que tinha terminado quando dizia: “entendeu? Pega esse conhecimento aí.”

Era assim. Sabia um pouquinho de cada assunto. E o melhor era que ele realmente queria me fazer entender as coisas nos mais fiéis detalhes com que conseguia. Sobre os terremotos foi incrível! As palmas das mãos tornaram-se as placas e o encontro das duas formaram o terremoto, ao fundo já providenciava com a boca mesmo, aquilo que deveria ser o som estrondoso que esse evento geraria.

E sobre o efeito do energético em nosso corpo? Esta foi demais! Ele vinha com a explicação de que estimula o metabolismo e tem a função fornecer a energia através da ingestão de taurina e cafeína, ‘sabe o que é isso, né?”, perguntava. Aí vinha o ‘plus’ de toda explicação: ‘ainda tem em diferentes sabores, mas, geralmente é feito com açaí ou guaraná”. Só faltou a propaganda dos fabricantes e o alerta de “não ingerir com bebida alcóolica”.

Ah, é uma delícia vê-lo fazendo teatro utilizando todos os sentidos para se fazer entender sobre as ligações químicas. Não gosto de deixá-lo perceber que nem entendo muita coisa. Este liga-se com uma combinação ‘ina’ e forma isso, se fosse ‘eno’ seria aquilo e ‘ano’ aquilo outro… É, ele queria ter sua formação em Química, sempre digo que seria um ótimo professor.

Mas, o melhor, mesmo, é quando tenta explicar algo que fico relutanteem entender. Nãopela minha falta de conhecimento mas, pela vontade em querer escutá-lo mais e mais e mais… Ele nem nota que é ‘mânha’, explica com toda a paciência do mundo. Engraçado foi o dia em que perguntei: Por que me ama se me acha tão chata? É, está é uma pergunta que não quer calar! O que responder? Se eu te contar que ele teve tanta astúcia que me deu uma volta, convenceu-me da minha chatice (fato!) e ainda ganhou um beijo apaixonado no final, terminando com um sonoro: “Neguinha, neguiiinha.”

27 janeiro 2013 SHEILA LIZ - FLOR DE LIZ


ENTRE NÓS

Não chovia nem era um dia ensolarado, inspirador. Não estava alegremente reflexiva nem tristemente pensativa, apenas sabia que algo incomodava a minha tão procurada mente pacífica. Sim, mesmo que por fora mostrava-me calma, o caos dentro de mim era refletido pelos meus olhos castanhos.

Esta inquietude devia ser pela nova rotina em que me via nesses últimos dias. Sabia que um dia isso cairia sobre mim com um peso anormal. Sempre tive medo da rotina, na verdade, não dela em si, mas o que a acompanha.

Um início tão encantador, mágico, seria cutucado por um inexperiente rotina que poderia facilmente se instalar e ficar sem ser convidada. Não poderia deixar isso acontecer sem fazer nada. Assim lhe alerto: sinto falta!

Sinto falta de nós, de mim, de você. De beijo demorado, de como apenas num beijo eu sentia o gosto da sua boca, a delicadeza dos seus lábios nos meus. A quentura que me subia entre as pernas quando você se insinuava, parado, diante de mim, com a boca distante apenas a ponto de não me tocar, sua respiração com cheiro de menta (bala que tinha o cuidado de chupar para ficar mais agradável). Ah, sua respiração… conforme ela aumentava a minha seguia o mesmo ritmo frenético, e eu não tinha a mínima intenção de deixa-la mais devagar; apenas aumentá-la.

Sinto falta do nosso desejo. Do cheiro na nuca, do carinho nos ombros. Ai! Seus dedos percorriam minhas costas tão suavemente, até chegar em minha cintura onde sua mão tornava o toque suave em pegada viril.

Pensando nisso rolo na cama com uma preguiça disfarçada. Roço as pernas para espantar a vontade de você que vem me entrando novamente. Eu mesma toco meus seios a essa altura já proeminentes no vestido que mal cobria meu corpo deitado desajeitado no colchão. O quarto abafado me faz levantar, procuro por você. Não está. Não mais como eu gostaria. Penso como gostaria de tê-lo novamente, como antes; preocupado, namorado, amado, empenhado.

Repentinamente aparece atrás de mim e me abraça. O perfume me embriaga, facilmente me leva para cama de novo. Leu meus pensamentos. A transpiração molha meu corpo exatamente como eu queria. Prova de que hoje conseguimos espantar a rotina, amanhã teremos que arranjar nova posição.


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