MULHER MENDIGA

Estava de bobeira, deitada folgadamente no sofá, passando os canais da tv sem muito compromisso em escutar o que realmente era transmitido quando resolvi para num canal aí… Era novela. Argh! Mentira, mentira… assisto! Pronto, confessei! Bem, a explicação disso – de eu ser noveleira – vem em outro texto…

Bom, voltando aos canais… estava ouvindo a fala de uma personagem e, em uma briga com uma amiga ela disse uma expressão que me chamou a atenção: mulher mendiga. Depois ela explicou o que seria e eu fiquei a refletir, achei bem interessante a colocação. Mulher mendiga!

A explicação foi que esse tipo de mulher seria aquela que aceita qualquer migalha de homens que pouco lhe valorizam, ou nem um pouco. Aí sim fiquei ainda mais reflexiva.

Acho que hoje tem muito disso. As mulheres estão fortes, responsáveis, corajosas mas, intimamente ainda podem estar se sentindo inseguras. Mesmo que sejam elas quem pagam as contas, que passam a roupa, que chegam tarde por conta de uma reunião importante de trabalho e que cuidam da lista do supermercado; o coraçãozinho continua o de uma mulher.

Vejam aqui que meu pensamento não masculinizou a mulher por este outro papel que ela também resolveu desempenhar e nem as minimizo pela insegurança que podem estar vivenciando.
 
Essa falta de segurança pode ser mais devastadora agora porque ela não mais tem tempo para lidar com isso. São tantas outras responsabilidades, decisões e compromissos que pouco se pensa e se sente o que realmente passa por dentro.

Acho que por isso essa expressão é válida agora: mulher mendiga. O que vier é lucro! Aqueles poucos minutos que ela tem, aproveita para ver se ele também tem… Se combinam, ótimo, se não… paciência, tente outra vez!

Se ele liga agora ou daqui a dez dias, ótimo, é o tempo que tem. Se ele quer apenas uma rapidinha na hora do almoço, ótimo, é o horário que achou. Se quer apenas alguns encontros e nada sério, ótimo, é a maneira dele não me prender. Uma característica marcante dessa mulher é a maneira como arruma desculpas por aceitar essas migalhas. Cada uma sabe o vazio que tem e que conteúdo lhe preenche.

Eu acredito que falta é querer mais para si. Não acho que seja falta de alto estima, até porque ela sabe o quanto já conquistou, mas ainda não entendeu que as conquistas ainda não cessaram. Se é a grande mulher que é, exige-se um companheiro à altura.

Não quero parecer petulante mas ‘mulher mendiga’ é uma associação muito feia para quem anda no mundo sobre saltos enormes, saias justíssimas e segurando as pontas em várias faces da vida.

Além disso, quem vive de migalha é pomba, eu, como um belo gavião, quero a ‘peça’ inteira!


EU ESPERAVA QUE FOSSE DIFERENTE

Eu esperei… Enquanto a música tocava, não nos dando chance nem mesmo de trocar poucas palavras, esperei que me chamasse para dançar.

Enquanto dançávamos, esperei que falasse ao meu ouvido o quanto gostou dos passos que trocamos suavemente; esperei que seus lábios tocassem os meus e que isso transformasse aquela noite.

Enquanto nos despedíamos, esperei que me abraçasse e prometesse me ligar.

Enquanto nos conhecíamos pelo telefone, esperei que me chamasse para sair e que quisesse isso por várias noites a fora.

Enquanto comemorávamos nossos aniversários, mês a mês, esperei que pedisse um compromisso mais sério.

Hoje, depois de tanto tempo, de tantas conversas… eu esperei que fosse diferente. Que você fosse diferente. Esperei que jamais me magoasse, ou que quando acontecesse, soubesse contornar a situação. Esperei que a minha confiança, pouco depositada – marcas minhas – fosse valer a pena… o risco. Na verdade, esperava que não fosse um risco.

Eu esperei você ontem, com o seu lugar pronto, arrumado, com o coração machucado mas aquecido. Eu esperei que, no mínimo, entendesse… Como esperei que nada disso acontecesse.

Esperei que me ligasse pela manhã e fizesse minhas esperanças voltarem… mas, realmente só esperei!


VIVER SONHANDO

Isso eu não mudo! Você sempre diz que espero muito das pessoas, que sonho além dos limites e que minhas expectativas para quaisquer situações extrapolam o normal. Mas, o que é normal, o que é correto pensar? Cada qual com seu limite! O meu vai longe…

Como não sonhar com um amor que me ligue só para dizer que recebeu uma ligação inesperada do pai distante?

Como não esperar compartilhar todos os momentos mais marcantes da vida da pessoa que amo e por vontade de ambos?

Como não querer olhares apaixonados sempre, mesmo com o possível (olhem que não admito que haja realmente) desgaste da relação ou em momentos de discussão?

Como não ansiar pela presença de quem admiro, respeito e desejo a cada minuto?

Não vejo motivo para não esperar acordar ao seu lado e lhe dizer um ‘bom dia’ carinhoso depois de perceber que me observou dormir?

Como não esperar receber elogios sempre, principalmente quando me preparo para recebe-los? Ou passando um perfume novo, vestindo uma roupa diferente ou simplesmente com um novo penteado.

Como não sonhar com você ajoelhado, olhando para mim como um homem, feliz e determinado, aguardando minha resposta sobre nossa eterna caminhada juntos?

Como não me alegrar com o fato de ter me apresentado à sua família somo sua ‘esposa’? Isso soa, no mínimo, como um desejo.

Não acredito em amor à primeira vista, mas, por que não contar aos nossos filhos que nos apaixonamos no momento em que nos vimos?

Você diz que sonho demais, que espero demais… Mas tudo está ligado ao sentimento que temos. Toda vez que pergunta o que quero lhe respondo apenas: Ame, e aja como quem ama! É simples.

E sonhar? Bom, entendo que nossas realizações partem de sonhos… “Tem que ser assim, pra ser de coração”*…

* Música: Não precisa, Compositor: Paula Fernandes


MEU PRESENTE PARA VOCÊ É A VERDADE!

Acho que todos nós entendemos um pouco da arte de representar. Somos atores em certas situações da nossa vida. Ora para dissimular sentimentos, fugir das responsabilidades que traz uma decisão, para fingir um estado de espírito ou mesmo para satisfazer pessoas que esperam muito de nós. O pior de tudo é que somos atores para nós mesmo, inclusive. Quem nunca forçou um sorriso somente para acreditar que realmente quer sorrir?

Hoje, por ser um dia único e muito significativo, eu não vou representar. Meu presente para você é a verdade de mim. Tiro o meu figurino e abandono minhas falas já escritas e exponho o que realmente se passa comigo. Considere-se uma pessoa especial – por favor, sem pretensão nessas minhas palavras. Acho que deveria se sentir assim porque, às vezes, nem para mim mesma conto essa verdade. Me engano com falsos planos futuros, planos que não incluem você. E é por isso mesmo que me engano, achando que essa trajetória será suficientemente boa sem você ao meu lado.

Eu te amo! Essa é uma das verdades que ainda escondo. Não sei se disfarço bem isso, na verdade não sou uma boa ‘mentirosa’, mas tento não demonstrar que ainda te amo… Nem para você, nem para quem quer que se interesse por isso e, por mais patético seja isso, nem para mim eu confesso que te amo. Mas, em uma situação eu mereço mérito: não te procuro em outras pessoas. Elas serão insuficientes. Não há abraço mais aconchegante, nem olhar mais sedutor. Não haverá maior pureza de sentimentos e nem beijo mais verdadeiro. Com isso eu não me iludo.

Às vezes saio desse palco que eu mesma montei e lembro dos nossos dias tão reais. Há que se fazer isso – não só pela delícia que é viajar num passado ainda tão vivo – mas para lembrar que as farsas podem ser desmanchadas. Eu insisto em chamar de passado uma vivência tão presente. Mas, explico que essa colocação quis expressar algo vivido há algum tempo e não referenciar uma situação que já passou – até porque não passou!

Entenda que isso é um presente (como já falei, sem querer ser pretensiosa) – não há, pelo menos por enquanto, o que se fazer com ele – eu acho. Apenas o guarde, aí, em seu coração, se achar que vale a pena. Quem sabe um dia, quando eu for dona do meu próprio teatro, não precisar de aplausos alheios e quando eu souber administrar sentimentos diversos, montarei minha própria peça, com falas verdadeiras. Você será convidado a integrar o elenco, claro, como protagonista da minha vida. E dessa vez, não será um drama!


ENTRE TANTAS PALAVRAS… A MELHOR!

Com essa, conta-se mais noites juntos do que esperado, porém menos do que ela realmente queria. Ficava por ali, passavam-se as horas e acabavam por amanhecer juntos, na cama, emaranhados – como ele gostava, e ela ainda mais – depois de descobrir esse hábito dele.

Acordou naquela manhã mais melancólica do que de costume… Muitas palavras mal colocadas, situações incômodas e, consequentemente, sentimentos mal entendidos surgiram nos últimos dias e, como forma de defesa… o afastamento.

Levantou sem acordá-lo, vestiu uma camisa – dele mesmo, jogada pelos cantos do quarto – e saiu sem ser percebida. Levou o remédio na mão, até a cozinha, e o tomou com pequenos goles d’água. Percebeu o último botão aberto ainda, sem ânimo assim o deixou… quem sabe ele veria como convite? Sem se prolongar nessa esperança vã, caminhou com os pés descalços até a sala. Sentou confortavelmente no pequeno sofá e ligou a tv.

Suspirou profundamente e logo percebeu que ligar o aparelho foi inútil, estava mais centrada em seus próprios pensamentos do que em programas culinários matinais. Não parava de perguntar-se o motivo de tantos desentendimentos… Nessas horas de questionamentos tão intensos, ficava realmente tensa e cobrava muito de si mesma. Melhores momentos, melhores atitudes, melhores palavras… só não sentimento; sabia que o que sentia era realmente o que de mais verdadeiro tinha. E ele? Ah, chegou o momento, tanta insegurança!

Automaticamente pensou na frase que leu em um livro recente onde o personagem, criado por Wilde, Lorde Henry Wotton, em suas várias divagações diz: “O pior em ter um romance é que ele lhe deixa extremamente sem romantismo”. Tão triste! Era algo que realmente tentava entender…

Ainda envolvida por lembranças de um presente pouco passado, pensou ainda mais o quanto a situação pode se complicar por coisa pouca. Nesta noite fez apenas uma pergunta à ele, sabia da resposta, mas a melodia cantada de suas palavras que poderiam ser doces, saída da boca de quem ela mais amava a faziam sonhar… Mas, ele duramente respondeu como alguém que pouco importa com a sonoridade leve de uma resposta pensada. “Tudo pode mudar, temos apenas o que conquistamos”. Fato, mas não quisto. Ela nunca pediu para que ele mentisse ou omitisse nada, mas a verdade pode ser colorida e ainda ser sincera…

Ele deu de ombros, ela virou e adormeceu… chateada.

Desligou a tv – percebeu que ligara apenas para afastar a solidão – e continuou acomodada ali mesmo. Tentou pensar nele com carinho, mas não resistiu e chorou. Sentida, magoada, mas com esperança de que ele percebesse a inutilidade do que aconteceu.

Ele acordou e andou pela casa à sua procura. Entrou na sala, foi ao seu encontro e a abraçou. Forte. Perguntou se ela a amava e se estava tudo bem. À primeira pergunta, respondeu que ‘sim, e muito’. Alguns segundos passaram antes que respondesse à segunda… Mas logo veio: ‘sim, tudo bem’. E fechou os olhos que ainda guardavam lágrimas.

Não estava tudo bem, mas ela queria que estivesse e, por isso, faria com isso se tornasse um fato. Ele sabia também que não estava, mas gostou da resposta… Na noite anterior era assim que deveria ter sido!

A nossa vida é uma somatória de realizações, principalmente das que mais desejamos e trabalhamos para alcançar… Daí o poder das palavras, a importância que damos a elas e o cuidado de como e quando as pronunciamos…

“A palavra é meu domínio sobre o mundo” (Clarice Lispector)

“Ninguém pode calcular a potência venenosa de uma palavra má num peito amante.” (Shakespeare)


TEMPO, CADA UM TEM O SEU!

Calma, calma! Eu nunca disse que não queria, pelo contrário! Acredito que minhas atitudes e minhas palavras sempre foram coerentes com meus sentimentos. Puros, ingênuos, porém muito fortes e claros.

Eu lhe amo, calma! Não fecha a caixinha ainda… Não neguei, só pedi mais tempo. Há tanto ainda para descobrirmos… Que lindo, que bom gosto, você escolheu? Não, não, não duvido… só quero saber se pensou em nós para escolhê-lo.

Não sei o que lhe dizer mais. Sinto que meu silêncio fica pesado, seu olhar parece decepcionado. Não fique assim. Temos tempo! Há situações pelas quais ainda não passamos e precisamos antes dessa grande decisão.

Essa nossa escolha pode sim ser precipitada, são mais pessoas, além de nós, que se envolveram. Não chore, eu sei sim o que sinto. Nunca menti nem duvidei… Apenas não acho o momento propício.

Você vai devolver? Não, isso não mudará minha decisão. Você é especial, já lhe disse isso. Único! Não estou sufocada, apesar de que realmente gostaria de mais tempo para mim… Ah sei lá, ficar em casa, sem fazer nada, assistir a um filme sozinha, ler um livro novo… Sim, sinto saudades. Meu Deus!

Desse jeito me vence pelo cansaço! É só questão de tempo, podemos esperar ainda… Não sei, meses, anos… Ok, meu velho, ok. Conseguiu! Aceito!

Peço à Carol, como neta mais velha, para entrar como florista, mas fale com o Gustavo para entrar empurrando sua cadeira de rodas e com o Junior para entrar com o oxigênio! Pode deixar que eu mesma cuido da minha bengala! Vê se sou moça de entrar sentada! 


DON’T TELL HIM, I DO IT!

Da infância pouco se lembra. De quebrar a perna, de pegar um banquinho para lavar as louças (ainda nem tinha tamanho), de queimar a barriga com o ferro passando as fraldas do irmão – ainda se vê a marca. Travessuras, alegrias, brincadeiras, coisas de criança.

Mas mesmo tão pequena já sabia que tinha algo especial entre eles. Não sabia o motivo, claro que achava ser normal já que estavam unidos por serem da mesma família, mas era maior que isso.

A sua presença incomodava mas, de uma maneira diferente, como se algo sempre tivesse que ser provado e aprovado. Nem trocar palavras precisavam; bastava um olhar e tudo era dito, sem nenhuma pronúncia.

Sempre tentava alcançar o que lhe era esperado, e ainda assim percebia que ficava devendo em algum aspecto. Notas, comportamento, escolhas… Ficava a dúvida se realmente fazia certo, da maneira correta, na medida certa, na hora apropriada.

A mão pesada de uma correção era a mais esperada para um carinho. Ansiava por um olhar de aprovação daquele de quem nunca soube o que realmente sentia, pensava, queria…

Entre poucas lembranças um episódio ficou marcado. Como mais velha se sentia responsável pelo irmão, assim sempre ajudava a cuidá-lo. Numa das vezes em que o vestia, perdeu a paciência e lhe deu um tapa na perna. Nessa mesma hora, lá estava ele, olhando a cena.

Claro que se seguiu o esperado, a briga. Nesse dia, não quis nem sair do quarto, chorava desesperada. Não pela voz alterada ou pelo possível tapa que recebeu, mas pelo desapontamento de quem mais se quer orgulhar. Depois, o inesperado. Ele voltou e, mesmo sem pedir desculpas, lhe deu um abraço. Isso bastou!

Disso tudo, o que ficou foi a reconciliação. Bom, dizem que as crianças, de tão puras e ingênuas, têm um poder enorme de perdoar, não guardam mágoas. Mas só iria entender que nem tudo o que dizem é verdade.

Anos mais tarde, a relação não muda muito. Discussões, brigas, tempo em que nem se falavam… Achava que tinha se perdido em tantas chateações e era impossível arrumar o que já nasceu diferente.

Quando não mais dividiam o mesmo espaço, a mesma casa, mantinha contato com a mãe. Ela era quem sempre os guiava na verdade – o que também só foi entendido tardiamente.

Sempre foi o porto, a força da casa e que também injustamente foi julgada nos momentos mais críticos (e que merece linhas exclusivas). Falavam ao telefone e ao se despedir pedia:

- Mammy, tell daddy that I love him!

Ela sempre falava: “Eu direi.”

Tenho certeza de que quando ela desligava o telefone nem precisava repassar, ele mesmo já escutava a resposta e entendia o recado daquela que foi embora e que, mesmo com tantas brigas injustas, não infundadas, deixava parte do seu coração para ele, e era uma doação sem retorno, sem devolução.

Hoje, reconhecendo a semelhança e provando, ambos, que não só crianças sabem esquecer o que nem mais fere o coração, ela mesma passa o recado que sempre quis dar, mesmo em pensamento ou orações. Só agora, depois de entender que a vida sempre tem razão é que diz por ela mesma: Daddy, I love you.


RENDA-SE

A renda na barra do vestido rodado foi pedido específico dela mesma à costureira. Achava que o ar romântico que a peça, já tão feminina, ganhava a deixava ainda mais bela. Não hesitou em vesti-lo para ir ao samba costumeiro no domingo. E ele iria repará-la, claro.

Assim, foi. O movimento do andar calmo, contando os passos, como quem quer apenas desfilar, contrastava com o batuque dos tantãs aquecidos desde o fim da tarde. Caminhava até a mesa cumprimentando os mais conhecidos e menos vistos. A renda do vestido vez em quando subia pela brisa que teimava em aparecer neste fim de tarde, subia levemente, mostrava as pernas cor de jambo, morena mel! Os pelinhos louros destacavam ainda mais o ar sensual que ela, ingênua e descompromissadamente, passava.

Não demorou a se render pela melodia ritmada. Enquanto dançava, os cabelos soltos desenhavam no ar figuras descaracterizadas de formas, soltavam um aroma doce, perpétuo. Molhados pelo suor de sua nuca, marcavam o colo descoberto pelo decote do vestido. O movimento dos lábios seguiam as letras das músicas que embalavam seu corpo há horas.

Sentia que era acompanhada pelos olhares alheios, desejos outros; mas sua vontade era específica demais para se deixar levar por qualquer outra tentação que pudesse surgir. Ele nota isso? Bom, naquela noite ela sabe o quanto foi notada. A renda do vestido não foi em vão. Se ele deixou passar, passado está!

Cuidado garoto, a renda do vestido rende mais do que imagina… e não em apenas uma noite!


ENTÃO, SOU FRÁGIL!

Você sabe a diferença entre medo e pavor? Não estou perguntando o significado de cada palavra, mas a diferença de sentimento, de reação que eles produzem em nós. Claro que se diferenciam, uma é mais intensa, avassaladora; a outra amedronta mas tem um fim.

Eu por exemplo, tenho pavor da solidão. É pavor mesmo! Não acho solução imaginável para isso. Pensar que um dia não terei com quem dividir nada, minhas alegrias, tristezas, medos, prazeres e bobagens. Não digo companheiro apenas, mas alguém. Não tem sentido uma pessoa viver sozinha.

Para explicar isso tem até teorias. A antropologia, por exemplo, admite que a “identidade está sempre relacionada à ideia de alteridade, ou seja, é necessário existir o outro e seus caracteres para definir por comparação e diferença com os caracteres pelos quais me identifico.”

Isso quer dizer que para definirmos nossa identidade não podemos fazer sozinhos, não é um processo totalmente individual. Todos precisamos de um “outro” para tomarmos consciência de nós mesmos, dos nossos limites. Temos que saber o que outro não é para podermos enxergar o que somos, entendeu? Complicado né? Mas na minha cabeça isso é simples. Não há vida solitária.

Muitos devem analisar isso como uma dependência, mas não é. Como posso explicar? A vida é cheia de momentos para ter que passar por eles sozinho, sendo eles bons ou ruins. Que graça tem uma gargalhada sem ter alguém para escutar (e rir junto)? Ou assistir a um filme interessante sem ter ninguém com quem discutir? Ou fazer um prato especial, mas não ter alguém para saborear? Não entendo isso.

O fato de me ver, de ficar sozinha e saber que isso não será passageiro, me dá pavor, como tinha dito. E medo eu tenho de estar só, sabendo que isso é um estado temporário, entendeu a diferença?

Eu assisti a um seriado chamado “Médium”, muito bom por sinal, que no começo do episódio, que infelizmente não me lembro o número, a protagonista fazia algumas considerações sobre o pavor e o medo. Isso conclui o meu pensamento (e mesmo se não o fizesse, não estragaria o momento de reflexão com qualquer outro final escrito por mim).

“Pavor…chega sem avisar e então consome nossos sentimentos com seu irracional senso de destruição. Você alguma vez teve a sensação de pavor? Não estou falando sobre medo. Medo é imediato. O medo aparece frente ao perigo imediato. Um assaltante com uma arma, um estranho em sua casa.

Estou falando de pavor. Pavor é persistente. Ele te consome. Você não consegue ignorá-lo. Simplesmente não passa. Porque é isto que é o pavor. Fica atormentando com alguma coisa que você não pode lidar.

Pavor pode afetar seu trabalho, sua casa, altera toda a sua personalidade. Esperança, como o pavor, frequentemente, vem sem avisar, e então, gratamente nos intoxica e vacina nossos sentimentos com uma irracional sensação de alegria e otimismo. Esperança é o alto, pavor é o baixo. E suponho que a vida é o material entre eles.”


AINDA LHE DECIFRO!

Você é insubstituível, extremamente necessária e eu não sei lidar com sua presença, muito menos com a falta que faz.

Não entendo direito seu sentido, suas colocações… Fico em dúvida quando se coloca nas situações, me fala, hein, de que lado está? De cá, de lá? Sei que essa posição que toma é a forma principal de lhe identificar.

Intimamente penso o quanto gostaria de termos uma relação melhor. Aí sim, ficaria tranquila, com a certeza de que as palavras se apresentariam perfeitas…

Tenho muitos defeitos, sei! Um deles é deixar de lhe conhecer bem, deixar que estrague meus pensamentos, só pelo motivo de ainda ser desconhecida a mim.

Por sua causa escutei palavras duras, verdadeiras – claro, mas que me cutucavam, me chamando a atenção por você.

Bom, de qualquer forma, sou mulher o suficiente para passar por cima de mais uma dificuldade. Vou vencer essa batalha, lhe colocar e seu devido lugar e deixar minhas frases simplesmente impecáveis.

Crase, como pode me dar tanta dor de cabeça?! Um dia ainda lhe decifro!

 


APENAS DIFERENÇAS

Sentia que a relação estava frágil, que escapava de seu controle, que os sentimentos viviam colocados à prova, bem como a paciência – que se esgotava a cada discussão diária.

Sempre havia algo que os incomodava. Ela, por desconfiar do que ele sentia; assim, via em cada atitude indícios de um término já esperado (mas nem um pouco quisto). Ele, por sempre achar que os caprichos mimados dela significavam insuficiência da parte dele.

Atitudes valem mais do que palavras.  Assim ele pensava, para ela andam juntas…

E não era somente nisso que ‘as ideias caminhavam cada uma para seu lado’. Não dormir engasgada com palavras a serem ditas era prioridade para ela… Deixar o tempo passar era o que resolvia; para ele!

Cumplicidade e companheirismo eram provas de que o amor se instalou. Ele achava que era apenas consequências da convivência.
A cada lágrima que caía, significava o quanto estava magoada e que era uma situação totalmente inesperada, assim ela sentia… Já para ele isso era a comprovação de que ela pedia sempre mais e não reconhecia seu amor.

Como gostava de falar com ele horas pelo telefone, contando empolgada a história do livro que estava terminando de ler. Ele apenas esperava o momento do ‘tchau, te amo’ – dito rispidamente pela falta de paciência com ‘tantas palavras’.

Parava sempre para pensar na quantidade de diferenças que eles tinham. Não demorava, lembrava que o amor que sentia por ele era uma motivação de vida. Leu em um livro de autoajuda (por mais que se envergonhe de dizê-lo) que a paciência ajuda a dar ao outro o direito de ser humano, que ela auxilia a entender que todos falham. Quando um erro é cometido, ter paciência significa dar mais tempo do que ele precisa para corrigir seus próprios enganos.
 
Amar e respeitar importa bem mais que se fazer estar certa! Assim, viveu e conviveu… simplesmente pelo amor que sentia por ele!

 “A ironia da raiva em uma ação errada está em gerar novos erros por si só.” (Desconheço o autor).


JÁ NÃO HÁ MAIS…

As últimas conversas não tinham sido nada agradáveis. Parecia que ele não estava compreendendo o quanto ela também sofria com essa decisão tomada tão repentinamente. E o pior, ele jogava sobre ela a responsabilidade daquilo que eles ainda não podiam ter, pelo menos não por enquanto.

Ouviu aquelas palavras ao telefone e desligou, ainda descrente. Caminhou sem jeito até o quarto e se jogou na cama. Encostou a cabeça no travesseiro e, entre pensamentos desconexos, chorou. A falta dele estava deixando sim um vazio, mesmo que poucos acreditassem. Ela achava que nem ele acreditava nisso.

Ficaram juntos por pouco tempo, mas, de alguma forma, ele conquistou uma parte dela, despertou certos sentimentos que ela já não sentia há algum tempo. Via nele qualidades que achava realmente importantes e que não mais faziam parte da sua rotina, a partir daquela noite.

Não precisava ser assim, as situações tendem a achar soluções satisfatórias para ambos, naturalmente. Ela achava que nesse caso isso aconteceria, que com o tempo tudo se encaixaria. Quando menos se esperava os dois estariam comprometidos pelo simples fato de quererem estar sempre perto. Não seria uma classificação que iria impor isso agora. Mas ele não entendia. As explicações dela não eram suficientes, os pedidos de paciência também não: não tinha vocação para Jó – como diversas vezes ele mencionou.

Como não houve entendimento e, ela já fazia o que estava ao seu alcance sem o reconhecimento dele, inevitavelmente chegou-se ao fim. Agora, as músicas não chegariam aos seus ouvidos com a mesma melodia de antes, o sorriso não apareceria mais tão facilmente em seus lábios e as estrelas não brilhariam mais todas as noites. Ela entendeu que o beijo dela e o olhar dele tinham agora direções diferentes…*

28 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


ELE BATEU UM BOLÃO!

Domingo para ela era sinônimo de futebol! Sim, para ela! Flamenguista (nem sabe bem o motivo), adorava assistir aos jogos pela tv. Infelizmente nessa cidade tão quente pouco se tinha campeonatos brasileiros nos campos pouco verdes de onde morava. Fora apenas uma vez ao estádio, mas não perdia a emoção quando acompanhava somente pela televisão mesmo.

Isso não mudou quando o conheceu. Pelo contrário, só aumentou a frequência dos jogos. Ele já fora jogador, amador. Só profissional quando contratado por um pequeno time do interior de Goiás. Na verdade isso pouco importava, a paixão de ambos pelo esporte era notável.

Assim, aos domingos o programa era algum ‘amador’. Ela acompanhava, sempre! Saíam de casa bem cedo, passavam na farmácia (compravam todo o tipo de acessório) e desciam direto ao estádio. Às vezes a arquibancada era totalmente imprópria. Sem assentos adequados, quente, cheia de buracos, a visão do campo era atrapalhada por um poste inconveniente… Ou mesmo o calor ficava insuportável; difícil um estádio ser coberto na cidade mais quente do país. Sem água e nem o famoso cachorro-quente vendido nos campos… Nada disso! As pessoas sempre perguntavam qual a graça em ir com ele… “Ah, ele joga! Isso basta.”

Tinha jogo que ela lutava com formigas para sentar em uma beiradinha do mato, ou ficava no carro mesmo tentando enxergar de binóculo os lances do jogo. Ainda assim era o melhor dos programas.

Quando ele entrava em campo… Ah! Era emocionante, mesmo que a concentração o impedia de ao menos notá-la ali. Isso a chateava silenciosamente. E foi assim por meses… Ela o acompanhava e ele só percebia sua presença quando iam embora.

Uma noite (ainda bem que era noite – sem o calor, principalmente), o jogo foi marcado para um lugar mais reservado. Ele, dessa vez, pensara no bem-estar dela. Tudo estava bom! Os bancos, clima, a lanchonete era acessível, a vista do campo era perfeita! Ele fez até um gol! Pena que naquela noite o time perdeu… Mas aquele jogo foi inesquecível… Não somente pelo cuidado dele; naquela noite ele a notara na arquibancada, assim que marcou o gol apontou em sua direção! Ah, agora sim…

São os detalhes de uma relação que fazem os grandes esforços se justificarem completamente…

25 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


DÚVIDA

Não é recente a tentativa de se achar a maior dor que aflige a alma humana. Muitos foram os que tentaram descrever esse mal. Miguel Falabella, por exemplo, acredita que o maior desconforto é a dor da saudade… “(…) Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. (…)”.

Já meu querido Luis Fernando Veríssimo, gênio da crônica (título que ainda irei compartilhar com ele, honrosamente) vê o “quase” como impossível de se conviver… “ (…) É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. (…)”.

Antes de Luis, mas com a mesma “idéia dolorida”, Mário de Sá-Carneiro, poeta e cronista português, (Narcisista, característica motivada certamente pela carência materna, já que tornara-se órfão ainda em fraldas. Acho que é por isso que tenta também desvendar os males que cercam as almas), relata sua dor maior com o “quase”… (…) – Ai, a dor de ser-quase, dor sem fim…Eu falhei–me entre os mais, falhei em mim, asa que se enlaçou mas não voou…(…)”.*

Nem mesmo o grande poeta e dramaturgo inglês, Shakespeare, tinha certeza de sua existência. Deixou exposto em sua mais conhecida tragédia, Hamlet: “To be or not to be: that’s the question” (Ser ou não ser, eis a questão). Claro, uma declaração contextualizada.

Na minha humilde concepção, porém não menos reflexiva, a maior dor é a da dúvida. Não essa dúvida corriqueira como que roupa vestir, que canal assistir ou de que lado da cama dormir. É a dúvida do que foi feito ou não, do que deixou para trás, do que poderia ser vivido se o caminho escolhido fosse outro.

Como conviver com a idéia de que se eu tivesse ficado….mas, e se eu tivesse ido? Pensar que se tivesse tido outro comportamento as situações seriam diferentes. Melhores, piores? Não lhe enlouquece? É como se chorasse um arrependimento sem ao menos saber pelo quê se está arrependido. Não há como prever os resultados de uma escolha assim. A vida nos dá caminhos vários, mas como ter certeza de que está trilhando o certo, ou qual lhe trará melhores resultados? Dúvida!

Mesmo na própria definição desta palavra maldita há dúvidas: “dúvida é um estado mental ou uma emoção entre acreditar e desacreditar”.  Gente, acreditar OU desacreditar? E tem mais, a filosofia também tenta conceituá-la: “A dúvida constitui, mais do que um conceito, todo um vasto tema na reflexão filosófica (…). O espanto, a ilusão, o erro e a ignorância constituem, entre outras atitudes, noções que exemplificam essa correlação negativa da dúvida face ao conhecimento”.

São muitas escolhas com resultados diferentes. Responsabilidade infinita decidir os rumos da vida, e não só nossa, de vários figurantes que esperam as decisões do protagonista… Mas, não há muito que fazer. Segue em frente, opte pelo que achar melhor que tudo fica bem…OU NÃO, como diria Caetano Veloso…

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” William Shakespeare

*Trecho extraído da publicação “O Livro dos Sentimentos – crônicas, contos e poemas para jogar com as emoções”. Seleção e Organização: Maria Isabel Borja e Márcio Vassalo.

17 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


ESTRELA

Ela olhou no relógio e se assustou, já eram quase oito horas e ainda faltavam alguns detalhes. Brinco, gloss, perfume… Tudo certo. Quase se esqueceu da bolsa! Nossa, dava para perceber que ia deixá-los esperando por muito tempo. O combinado era se encontrarem, no mesmo lugar de sempre, às oito, e com certeza iria se atrasar.

Na verdade esse era um sábado que ela preferia ficar em casa, ainda mais com o friozinho que estava fazendo. Em Cuiabá esse tempo aparecia uma vez no ano e ela bem que queria apenas ficar ‘deitadinha’ na cama, toda coberta (menos a cabeça, fica sem ar) e bebendo chocolate quente com açúcar queimado… Esse era um programa ao qual não estava acostumada e que naquele dia parecia o melhor a se fazer. Mesmo com ‘todo esse querer’, ou melhor, a falta dele, foi. Claro que sem muito esperar daquela noite, mas a companhia daqueles dois sempre a agradava…

Era de costume procurar aquele lugar, o nosso – por título próprio mesmo, mas, que já estava se tornando quase uma posse por direito. Dessa vez não foi diferente, ficaram por ali e aproveitaram a noite, que já tinha começado há algum tempo.

Entre ‘sambas e choros’… um olhar diferente em sua direção. Não era a primeira vez que tinha reparado no rapaz. Outras noites ele já tinha se feito notar mas nada que a alertasse para algo mais, ela não achava que sua provável intenção seria recíproca. Mas naquele dia parecia diferente, insistente e instigante.

Ela rodopiava e ele acompanhava o balanço do vestido que, vez ou outra subia um pouco mais que o necessário. Claro que ela percebia o quanto ele a observava e, justamente por isso, continuava a dançar, jeitosa, charmosa… Os cabelos se movimentavam cobrindo parte do rosto e os ombros, suavemente, agitavam ao toque do samba… Fechava levemente os olhos deixando se envolver ainda mais pela música. Ele tomou o microfone e cantou, olhando para ela. Sua voz era gostosa, firme e a deixou encantada…

‘Me dá um sorriso?’, ele disse. E ela obedeceu. Sorriu tímida, mas adorou o pedido. Já imaginou que ali ia dar ‘samba’ mesmo! Continuava cantando e dedicava à ela as músicas mais doces… Como ela se entregou! Queria aquela voz mais perto, bem mais perto… Ele saiu do palco e passou por ela… “Gostou da música que dediquei à você?”, ele perguntou tocando em sua mão. Ela novamente sorriu e balançou positivamente a cabeça. Queria mais, mas ele apenas passou e voltou à roda de samba…

Demorou até que, depois de muito se olharem, ele veio até ela. Claro que ela esperava esse momento, sabia que ia acontecer, mas, quando ele pediu para dançar com ela… ficou sem reação. Apenas aceitou e deixou ele a levar de acordo com a música. Dançaram juntinhos. Como ele estava cheiroso!

Mal terminou a música ela sentiu os lábios dele tocarem os dela, de leve, como se quisesse saber se tinha permissão. Ela o beijou e ele a abraçou, forte, contra seu corpo. O calor do seu corpo esquentava o dela naquela noite fria e isso era bom, muito bom. Se aconchegou em seus braços e mais uma vez sentiu seu perfume. Fechou os olhos e deixou que ele a balançasse mais uma vez de acordo com os toques da melodia…

Naquela noite, sem nuvens, com uma brisa gelada, início de um tímido inverno… ele a ensinou um outro significado para a palavra ‘estrela’… e ela não esqueceu, ainda não esqueceu.

12 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


O QUE HÁ DE NOVO…

Não era bem isso que ela tinha em mente quando resolveu aceitar a tal proposta. Sabia das dificuldades que uma nova vida traria, mas, mesmo assim se surpreendeu (ou melhor dizendo, se decepcionou) quando viu seus planos se desorientarem. Nada mais estava sob seu controle, a não ser a ordem doméstica, o cardápio do dia e outras trivialidades de uma housekeeper.

Ao redor olhava a janela da cozinha com a cortina quadriculada amarelinha (presente da sogra), as vassouras penduradas no suporte pregado na parede e o pano de pratos em cima do fogão. Era isso agora!

Antes, tinha seus horários preenchidos de vida, de trabalho, de amigos e, principalmente de família. Ultimamente fica na solidão de sua nova vida, de sua nova casa e com seu novo avental.

Cheirava a pitanga! Ah, bons tempos. Tempos em que seu perfume de pitanga era notado e apreciado. Gostavam muito desse cheiro! Agora, contentem-se em sentir o amaciante, na melhor das hipóteses…

Lia e compartilhava das idéias de Betty Friedan, Simone de Beauvoir, Drucilla Cornell, Seyla Benhabib, Heloneida Studart, e claro, Regina Navarro Lins. Hoje procura receitas culinárias. Pelo menos no almoço tem algo novo, sai da triste rotina. Entrava na cozinha apenas para deliciar os pratos de seu pai (que é ótimo gourmet e culinarista), agora é a autora, nesse ambiente estranho ainda.

Autora….sonha em ser autora! Na verdade continua lendo. Vício, aliás, bom hábito, herdado do seu pai (aprendeu com a mãe a enxergar as semelhanças). Escreve, raramente. Reflete, diariamente. Mas, principalmente, sonha. Com novos rumos, novas oportunidades e novos textos. Que venham eles!

A sensação de escrever e ser lida, e claro, apreciada, alimenta a esperança de que há ainda algo mais adiante… Espero que ao alcance ainda!

9 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


TEMPO, NÃO VENHA!

Estava sentada já há algum tempo em sua cama. Os joelhos dobrados junto ao peito e abraçados pelos braços. De alguma forma essa posição lhe trazia aconchego e segurança. Estava extremamente pensativa naquela tarde.

Ele tinha saído, mas logo voltaria. O que não seria grande problema, apesar dos últimos acontecimentos, ela gostava da sua companhia só não do que ele a fazia lembrar. Apesar de eles terem vivido bom tempos. Da juventude, da faculdade…

Levantou preguiçosamente da cama e foi até o banheiro se olhar no espelho, mais uma vez. Não estava se arrumando para sair nem admirando uma beleza que ela particularmente não via. Era bem pior. Estar feia é uma situação até reversível, mas, velha? Claro que há recursos para qualquer tipo de problema, inclusive rugas, mas não era só com isso que ela se preocupava.

Cada sinal que aparecia era como se fosse lhe tomado um tempo de sua vida, como se ela realmente encurtasse. Sentia que em vez de estar ganhando maturidade e experiência, ía perdendo juventude e mocidade. Engraçado, e ela sentia isso com apenas 35 anos.

Era um pavor assumir que estava envelhecendo, passando da idade para certas escolhas, vivências… Achava que perdia o sentido de viver assim, quase sem vida. Num estado em que nada era alegre, vivaz.

Achava até que a presença daquele por quem ela se apaixonou há muito tempo a estava consumindo. Ora, se conheceram ainda jovens, cheios de esperança e planos. Cada vez que ela olhava para ele, via as marcas do tempo chegando e se desesperava, porque ela também seguia o mesmo caminho. O culpava por ser um espelho. Refletia o que ela repugnava e temia: o isolamento e a inutilidade de alguém que já foi jovem…

Sentou novamente na cama e continuou pensativa. Silencio. Quebrado pelo barulho do carro. Era ele. A cada passo que ele dava ela sentia que era o andar dos anos se aproximando. Se encolhia e enfiava debaixo dos lençóis. O coração acelerado. Assim que ele entrou no quarto ela soltou um grito desesperador…

Depois daquele dia, ela não mais envelheceu, não mais viu seu corpo encontrar as marcas dos anos. Morreu de velhice, e por ironia, ainda jovem.

“Se quisermos congelar o tempo e nos encerrarmos nesse casulo, estaremos liquidados antes mesmo que a juventude acabe. Seremos a nossa ficção. A realidade continuará à nossa volta, e um dia vamos descobrir que estamos fora dela.” – Lya Luft, livro Perdas & Danos.

7 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


ESTA É A MINHA CONDIÇÃO

Particularmente hoje amanheci com uma terrível dor de cabeça. Deve ser pelas preocupações de ontem. Sim, aquelas que você me dá constantemente. Nem adianta vir com explicações inacreditáveis, ingênuas até.

Chega, eu quero dizer que me canso disso. Não há outra maneira de ver as coisas? Será que não vê que problemas pequenos, juntos, tornam-se enormes? Temos que saber lidar com eles, ou melhor, prevê-los antecipadamente… como a chuva que, antes de chegar dá sinais da sua vinda.

Acorde! Beijos mandados ao vento e ‘bons dias’ ditos na correria da manhã, sem nenhum conforto, são meros gestos. E nem venha novamente dizer que essas minhas cobranças cansam… ouvir suas ‘desculpas’ é que me deixam exausta.

Aí, depois do cansaço vem a culpa. Sinto-me culpada por deixar que faça isso comigo, por ainda dar chances que nem sempre serão bem aproveitadas. E dou, mesmo sabendo disso. Não pense que não reflito sobre as minhas atitudes; mas é que, ainda assim, penso que passo por situações indesejadas e não merecidas.

Sinta-se seguro com o meu amor, com meu respeito e fidelidade… mas não com a minha presença eterna, não assim. Não posso mais deixar minha felicidade de lado como antes fiz… Não seria justo nem comigo, nem com as pessoas que me cercam.

Poderia me conformar com esse seu jeito e deixar que o tempo se encarregue de nos dar rumo, mas acho injusto demais quando temos tanto amor e felicidade para viver e preferimos apenas nos deixar levar…

Por isso, eu digo ‘chega’ mais uma vez, para as lágrimas que correm pelo meu rosto nas horas de maior desespero, quando não sei mais o que esperar de você. Digo ‘chega’ para todas as situações que tenho que ser paciente mesmo sabendo que não era para ser assim. ‘Chega’ para discussões intermináveis e paras as ditas ‘conversas esclarecedoras’ que mais complicam do que ajudam. ‘Chega’ para as coisas que você ‘quis dizer’ mas na verdade, disse o que não deveria ter dito…

Ou somos totalmente abertos e sinceros e, acima de tudo, cuidadosos com esse sentimento mútuo (ou que deveria ser), ou nem somos! Não acha uma condição justa?

2 fevereiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


VOCÊ COLORIU MEU MUNDO…

Dançamos. Naquela noite, quente como de costume, dançamos até a festa acabar. Jamais imaginaria que seria assim. Eu que nem estava tão animada, queria ir apenas curtir com aqueles dois (já conhecidos, amigos mesmo, de vários outros ‘sambas’). Então, quando eu menos esperava, surge o convite. É, com direito a pedido – ‘like a gentleman’. “Dança comigo a próxima música?” – ele perguntou. Antes mesmo de eu responder, surgem as primeiras notas no violão…

Sim, dançamos… leves! Ao mesmo tempo em que meus pés seguiam a melodia, se enrolavam como se não eu tivesse mais o controle das minhas pernas. Minhas mãos seguravam em seu corpo com força, procurando segurança, e eu, sem perceber mais nada à minha volta, apenas sentia o cheiro do seu perfume que ainda exalava em seu pescoço. Não conseguia nem escutar a música, apenas acompanhava os passos que ele dava.

Ele é lindo! Não parava de pensar no quanto ele é bonito… e cheiroso. Me fez várias perguntas enquanto as músicas, teimosamente, continuavam com seus batuques ritmados. Respondia meio descrente, não achei que era um interesse real, parecia mais um meio de iniciar uma conversa desinteressante.

Quando finalmente a música chegou ao fim – não que eu quisesse, pelo contrário, a companhia dele me agradava – ele me abraçou. Ficamos ali, nos olhando. Claro que esperava uma inciativa dele de me beijar e, sinceramente, era o que eu realmente queria. Passados longos segundos, nos encontramos num beijo. Beijos… quantos, tantos, inebriantes!

E dançamos! Mais perguntas… Até que, ao fim da noite promessas foram feitas. Promessas de novos encontros que eu mesma achava difícil de acontecer – por mais que desejasse. Algo nele me deixou intrigada, interessada, claro.

Depois que ele saiu, meu telefone tocou. Inacreditavelmente era ele. Atendi sorridente (aposto que dava para escutar meu sorriso pelo outro lado do telefone – não sei o quão impossível isso pareça, mas sim, isso mesmo!). Outros encontros… Não é que realmente aconteceram? E até hoje me deixam assim, sem controle nas pernas… Desde a primeira vez!

29 janeiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


DOCE DESPRETENSÃO

Não foi um bom dia para levantar da cama. Despertou pela claridade que entrava pela janela aberta, nesses dias de calor intenso essa é a única solução. Sentou na cama e demorou a abrir os olhos. Bocejou demoradamente. Olhou no relógio do celular. Era mesmo hora de levantar.

Saiu da cama ainda tonta de sono. Trocou de roupa como quem realmente o fazia por obrigação. Sabia que nessa semana todos os dias seriam assim, preguiçosos e chatos. Ainda mais porque ainda pensava muito na resposta que recebeu dele. Que difícil agüentar aquelas palavras. Ele se despediu de uma maneira…

Balançou a cabeça como quem quer espantar pensamentos bobos e penteou os cabelos. Lembrou das manhãs que passava com ele, e das tardes, e das noites… Como se esquece um passado que ainda permanece tão presente? Mais uma vez tentou se distrair com outra coisa. Procurou alguma roupa para vestir, sem muita inspiração. Que bobagem, nada fica bem mesmo, qualquer uma serve… Logo percebeu como seria mesmo difícil essa semana.

Saiu do quarto silenciosamente, a pequena ainda dormia; encostou a porta e foi tomar café. Não se apressou, decidiu que hoje chegaria mais tarde no trabalho. Sentou-se à mesa com uma xícara de leite e pensou no que estaria fazendo agora se tudo fosse diferente, quer dizer, igual… a antes. Que pensamentos confusos.

Lembrou que recebera uma mensagem na noite passada, mas de tanto sono nem prestou atenção. Pegou o celular e foi verificar. Já imaginava quem era, o encontrara no shopping, horas antes. Um encontro meio rápido, só um cumprimento pálido. Na situação que ele se encontra nem ousou fazer diferente, só um sorriso já demonstrou o que queria.

Leu a mensagem. Nada piegas como costumava ser – mesmo que negasse isso veementemente. Meias palavras somente. Promessas de chocolates que não foram entregues até hoje. Como ela gosta de chocolate! E ele sabia disso. Eles já tinham um caso antigo, beijos e abraços de outros ‘festivais’. Esse descompromisso era pacto conjunto e era legal. Ela curtia muito essa falta de pretensão.

Parou de melancolia, pegou o celular e respondeu a mensagem: “Quando entregará meus chocolates? Ou terei que consegui-los by myself?”. Pronto. Será que ele resistirá aos seus pedidos? Se não chocolates, que fosse um filme, sem legenda mesmo. Aguarda ainda uma resposta…mais uma. Quem sabe ele consiga tornar essa segunda-feira mais interessante?!?

26 janeiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


NUMA MANHÃ…

Após uma noite mal dormida, sentei na cama e demorei a abrir os olhos. Eles relutavam em encontrar a claridade do dia que acabava de começar e já se destinava a ser bem preguiçoso.

Coloquei os pés descalços no chão e percebi que era uma manhã fria, mais um motivo para não querer sair da cama que insistia em me prender. Olhei no relógio do celular… perdi a manhã toda!

Não tinha planos para aquele dia mesmo, mas, uma manhã inteira era algo que eu não tinha durante cinco dias da semana. Como eu andava com sono ultimamente! Olhei meio desconfiada para o lado… ele ainda estava ali. Não costumávamos dividir a mesma cama durante a noite inteira. Me acho muito prática para isso: cada um no seu espaço. Mas, ele ficou ali.

Levantei – finalmente – sem fazer barulho. E fui passar um café, costume nada rotineiro para mim. Mas, naquela manhã era mais uma necessidade. Sentei no sofá e fiquei ali, bebendo o café ainda bem quente. Poucos minutos ele levanta atraído pelo aroma da bebida…

Beijo-me a testa e foi pegar uma xícara. Não me acostumava a acordar e tê-lo por perto. Não tenho problemas de intimidade, mas, achava que ainda não era momento para isso. A gente se curtia tanto, antecipar alguma coisa agora poderia estragar o que conseguimos nesse tempo. E eu sempre fui sincera… foi até por isso mesmo que estanhei a presença matinal dele.

Ainda com cara de sono e a roupa toda desalinhada (ele se mexe a noite inteira), sentou ao meu lado e passou o braço pela minha cintura. Chegou perto do meu ouvido e me deu um ‘bom dia’ bem baixinho. Sem nada responder, olhei para ele e sorri, ainda bebendo o resto do café que sobrava. Me senti confortável por alguns instantes, segura também.

Desde o começo do nosso ‘lance’ combinamos que tudo seria natural, ninguém forçaria nenhum sentimento. Mesmo assim ele já falava que era certo eu me apaixonar por ele. Era tão convicto disso que eu percebia uma calma anormal em seus olhos. Eu apenas achava graça da sua confiança tão aparente, mas ele negava dizendo: ‘Não é segurança, eu apenas sei. Você também, só não quer admitir. Você gosta de mim, não tanto quanto eu, mas gosta”. Para isso eu não tinha resposta, mudava de assunto rapidamente. Sempre que eu fazia isso ele me olhava, sorria e me abraçava – como quem apenas espera o ‘acontecimento’.

Levantei bruscamente e deixei o braço dele, que me envolvia tão carinhosamente, cair no sofá. Deixei minha xícara na pia e voltei ao quarto. Vi que as roupas dele estavam na cadeira ao lado da cama, dobradinhas. Sorri, sem perceber. Gosto desse jeito organizado dele… só para fazer uma ‘pirracinha’, joguei o cinto no chão e virei um dos tênis. Deitei novamente na cama e me espreguicei demoradamente… Escutei barulhos vindo da cozinha, era ele lavando a louça – não disse dessa organização dele!

Abracei o travesseiro e liguei a tv. Em alguns instantes a porta se abriu… Ele chegou perto dos pés da cama e ficou me olhando. Tocou meus pés levemente e foi subindo pelas pernas. Logo se jogou na cama também e me abraçou. Virei o corpo para o lado contrário e ele me abraçou ainda mais forte, como se mostrasse que mesmo assim, ele me queria por perto.

Senti sua respiração em meu pescoço; me beijou de leve, irresistivelmente – ele sabia como eu me sentia quando ele fazia isso. Continuou com as carícias e eu me contorcia, sem deixar ele parar. Virei e o beijei profundamente por alguns minutos. Pedi para esperar um pouquinho e fui ao banheiro. Liguei a torneira, molhei o rosto e me olhei no espelho. Fiquei ali, parada até que um sorriso malicioso surgiu em meu rosto. Voltei e ele continuava ali a me esperar. Reparei que ele já tinha arrumado o tênis e colocado o cinto no lugar, como o esperado. Ele viu que eu olhei e rimos juntos. Voltei para cama e dormimos novamente.

Pelo menos de uma coisa eu estava certa, foi realmente um dia preguiçoso…

21 janeiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


NÃO GOSTO DE DESPEDIDAS!

Do jeito que as coisas andam parece que será fácil pra mim, né? Deve pensar assim… Não recrimino este seu pensamento, de maneira alguma. Mas, tenho que bater o pé e insistentemente gritar que está totalmente errada. Sim, bem como uma criança birrenta que detesta ser ignorada – eu grito!

Na verdade é bem assim que ando me sentindo. Acho que essa minha fúria infantil é uma nítida prova de que as coisas não andam do jeito como eu gostaria, ou mesmo, não estão seguindo da forma natural como eu achei que seria. Ainda não consegue aplicar o que estou dizendo com a nossa realidade última?

Pois bem! Pense mais maternalmente, afinal, o é! Sou eu quem está ficando desta vez. Ficando para continuar a história que construímos aqui. E continuo sem vocês…

Sou eu que vou encarar a rotina sem meus ‘cafés’ da manhã feitos com tanto cuidado; sem a mesa posta com um pão de queijo quentinho, comprado na primeira hora do dia. Continuo aqui sem saber a quem recorrer quando brigar com ele ou quando a pequena ‘danar’ a dar uma de adolescente precoce.

E os livros? Disse-me que já os empacotou. Todos! 11 caixas repletas das mentes mais brilhantes que, sequer, podemos imaginar… Nem um fica para contar qualquer história. Na verdade isso pouco importa, pois a mente que mais me encanta e obtém minha total admiração se vai… para terras distantes, onde meu querido Mário Prata começou com suas palavras.

Não, não será fácil. Nem pra mim e nem para os outros dois que ficam. Bom, já que as lágrimas teimam em rolar, mesmo que eu tente imensamente não deixa-las aparecer… termino com uma frase do ‘espértim’ do Mário Prata: SAUDADE é quando, o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

19 janeiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


FAÇA-SE MEU PRÍNCIPE

Ninguém jamais disse que as escolhas que temos que fazer ao longo da vida são fáceis. Pelo contrário, há quem ache que poder optar dificulta nosso caminho. Como essa é uma reflexão que nada muda a realidade, uma vez que as escolhas têm que ser feitas, penso apenas a maneira como deixa-las confortáveis. Aí me vem: ‘nós’ somos uma escolha aconchegante?

Naquela noite meus olhos ficaram marejados, e cansados, por procurar você… em vão. Procurar a sua presença, o seu respeito, a sua consideração que sumiram.

Naquela noite minhas mãos trêmulas tentaram lhe tocar suavemente o rosto e sentir aquilo que prometeu ao meu coração, mas encontram uma face gélida que transparece a inconsequência de quem faz e nem sabe o quê fez realmente. Acho que essa sua ingenuidade que me segura…

Naquela noite a janela entreaberta assim permaneceu por muito tempo na esperança de lhe ver mais rápido, de presenciar sua chegada com alguns segundos de antecedência.

Naquela noite foi impossível permanecer na cama enquanto seu espaço permanecia vazio, bem como meu coração que batia apenas por obrigação biológica.

Naquela noite os segundos se estenderam e o sol teimava em se esconder.

Naquela noite me arrependi de não ser mais participativa em seu dia, mesmo sendo eu mesma quem insiste em falar contigo.

Aquela noite será única, porém, por motivos sujos, inconsequentes e infantis.

Não entendo essa sua maneira! Toma atitudes sem eira nem beira e espera, sinceramente, que eu ignore as consequências que isso gera? Acho que subestima minha autoestima. E confunde minha compreensão com consentimento.

Chega desse seu olhar petulante, essa sua voz confiante, seu jeito cheio de si como se a minha escolha em permanecer com você fosse apenas obrigação de quem ama. Aí entra a dificuldade, ou não, em analisar as opções. E tenha certeza de que são as suas atitudes que podem dificultar a minha permanência…

Pense mais no que faz consigo, e comigo. O fato de eu optar por ter sua companhia permanente não lhe dá o direito nem de achar que pretendo passar ainda mais noites como aquela.

A cada momento a vida nos exige uma decisão. A sua deu no que deu. Feriu meus sentimentos… pense nessa consequência!

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” – ANTOINE DE SAINT- EXUPÉRY em O Pequeno Príncipe.

12 janeiro 2012 FLOR DE LIZ - Sheila Liz


VOCÊ VAI E EU LHE ESPERO…

Não é a primeira vez que vejo você saindo pela porta de casa para encontrar com ela. Sempre as mesmas coisas: assuntos que permanecem inacabados, resoluções de pendências urgentes, dúvidas quanto ao destino daquele que é comum à vocês… Isso pra mim soa apenas como algo que sempre ‘é’; nunca deixou de ser.

É simplesmente dolorido vê-lo chegando já sabendo que a partida será em breve, e que outra terá o prazer de passar momentos com você… e que eram para ser exclusivamente meus. Sinto-me roubada. Principalmente quando me é prometido um ‘presente’ e um ‘futuro’ que não sinto serem meus ainda. É sempre o ‘passado’ lhe chamando! Entre e fecha a porta; simples assim! Pelo menos eu gostaria que fosse.

Você custa a entender o tamanho do meu incômodo com tudo isso. Mas é fácil pra você, já que é parte atuante da problemática. Eu sou mera espectadora… de cenas que envolvem minha vida, meus sentimentos… e a pessoa que amo. Aí me pergunto o quão dúbio pode ser o amor. Sim, dúbio! Eu o amo, indiscutivelmente, mas detesto sua maneira de agir passivamente quando o assunto é ela. Afinal, que papel desempenho na sua vida?

Só queria deixar toda essa tensão e viver a delícia de nos sentirmos entregues, íntimos, únicos um para com o outro. Queria sentir, sem preocupação, que a noite é apenas nossa; queria ter a certeza de que seu telefone não irá tocar e lhe tirar dos meus braços instantaneamente.

Engraçada essa situação, pois mostra a irreverência que a melancolia poderia ter: sinto-me triste quando aparece, isso porque já sei que estará de partida logo, e por motivos dificilmente justificáveis para mim.

Pode ser que eu tenha apenas que ser humilde diante do destino e encarar que essa é a nossa realidade. Mas acredito que sou petulante demais para achar que essa situação caiba em minha vida. Entenda; é mais que claro que sei do seu passado e o aceito… lá, onde deveria estar.

Sabe o que é mais irônico nessa história toda? É que vendo essa situação, dá a impressão de que compartilho sua presença e sentimento como se cometêssemos um adultério; quando na verdade EU sou a atual, a única. Ela é apenas seu passado; insistente…


PALAVRAS, MERAS PALAVRAS…

Depois de uma longa discussão ele finalmente desabafou a angústia que sentia sempre que ela opinava a respeito do que não lhe dizia respeito. Tão boba, achava que era dizendo o que pensava que ajudava a melhorar alguma situação que julgava estar problemática; apenas julgava. Esquece que não são todos os afogados que necessariamente não saibam nadar…

 “Não me importo com o que pensa, com sua opinião. Simplesmente assim!”. A sonoridade dessas palavras ecoou tão inesperadamente alta que a deixou imóvel. Por segundos, viu seus olhos se perderem nos dele, se perderem na dura e impensada declaração que acabara de enfrentar…

E era assim, dramática. Batalhas, guerras… as discussões  sempre tornavam-se maiores que realmente eram. Culpa dela (como na maioria das vezes). No mesmo nível que Shakespeare era dramático; Cecília (Meireles) melancólica e Paulo Coelho, farsante; ela era romântica. E isso deixava as falhas ainda maiores, já que fantasiosamente o amor é sublime em todas as formas.

Enfim, depois do que falou ele preferiu o silêncio. Não mais calmo, dessa vez a ausência de qualquer som se tornara uma enorme distância entre eles. Entre lágrimas, ela preferiu dar-lhe tempo para entender as consequências das palavras mal ditas.

Passíveis de erros, somos todos. Ela, mais do que ninguém, lidava com seus próprios há décadas. Percebendo a inquietação dele, pensou e disse: “Prefiro interpretar suas ações que suas palavras; suas atitudes são mais sinceras, honestas. Refletem com mais sensatez o que quer, suas palavras são apenas jogadas…”.

Inevitavelmente ele sorriu. Um sorriso confortável, cauteloso – com ela tudo era motivo… Abraçados agora, ela que sorri. O dela, gélido, apenas protocolo. Burocracia de quem se relaciona, ama – claro, mas prefere um bom relacionamento feliz que estar sempre respaldada pela razão. Apesar de que ainda duvidada de que lado a racionalidade sentimental estava – motivo para reflexões posteriores…


QUANDO O SILÊNCIO FALA

Olhava distraída pela janela do carro enquanto ele apenas dirigia. Nada lhe incomodava mais do que o silêncio, o dele principalmente. Sentia que não era apenas a ausência de palavras, aquele silêncio solitário despertava-lhe medo; medo de escutar seu próprio caos interno, sentimental. O fato de ele nada dizer a deixava pensando as mais variadas possibilidades de insatisfação; claro, as dele. Satisfeita ela estava. Incomodada também.

Ainda contemplando estupidamente as ruas e postes que falsamente iluminavam o caminho, esperava desesperadamente que algum assunto surgisse e lhe tirasse aquelas incertezas acerca de sua importância naquele relacionamento que ela custava a conquistar. “Por que isso agora? Não sou insegura assim”. Tentava lhe convencer de que nada acontecia e, muito descrente, pensava que essa angustia logo desapareceria e ficaria apenas a lembrança de algo que surgiu, mas, nunca chegou a ser uma realidade. Assim ela esperava!

Deu um suspiro profundo e inconsciente. Sem mais reações, ela procurava não demonstrar nenhuma expressão, seu olhar apenas se perdia nas gotas da chuva que acabava de começar. Nem o barulho que o cair da água fazia era maior que o silêncio dele. Era sufocante, dramaticamente desesperador…

Sentia o coração bater no peito num ritmo assustador. “Será que ele percebe, pelo menos, a minha presença aqui?”. De vez em quando ela se permitia olhar para ele, calma e discretamente. Ele apenas seguia seu rumo. Nem as paradas nos semáforos eram suficientes para algum assunto surgir.

Subitamente, com uma coragem desesperada, ela toma fôlego, permitiu que seus sentimentos transparecessem através de seu rosto, e deixou algumas palavras surgirem quebrando aquele silêncio eterno e pesado. “Está tudo bem?”. Ele olha para ela e sorri. “Sim”. Ela volta os olhos para fora da janela, como alguém que procura a realidade fora de si mesma, com medo de encarar situações que podem ser maiores do que sua própria defesa. “Que pergunta idiota”, pensou.

Sem entender direito sentiu o perfume dele mais forte, embriagando sua lucidez. O toque nada intencional da mão dele em sua perna pareceu mais carinhoso… Com um desejo bastante óbvio de acertar aquilo que ela assegurava não estar bem, olhou para ele, agora com lágrimas nos olhos e abriu os lábios com a intenção de lhe questionar aquilo que achava não ser capaz de escutar e ainda manter-se em pé. Mas, antes mesmo disso acontecer, correspondendo o seu olhar, ele disse: “Eu te amo e quero que nosso relacionamento seja eterno”. Ela sorriu, depois, sem graça, deixou que a alegria a contagiasse – disfarçadamente, pois não queria admitir que acabara de escutar o que esperava profundamente.

“Como ele sabia desde o primeiro momento o que me inquietava?”. Calada, com pensamentos congelados e coração aquecido, colocou a mão na perna dele (costume dela quando as coisas iam bem) e deixou que a ausência de conversa continuasse… Percebeu que o silêncio realmente dispensa palavras, mas também as forma, no exato momento em que elas têm que surgir…


E POR ACASO O AMOR FAZ ALGUM SENTIDO?

Naquela noite tive vontade de sumir… as lágrimas corriam, e a cada gota que caía e molhava o travesseiro – já acostumado a isso, mais vontade e mais certo parecia ir embora. É, sempre fui meio passional, intensa demais – talvez. Não gosto de meias palavras, de situações mal acabadas e muito menos de julgamentos mais incertos do que o contrário. Talvez se eu pensasse alto seria entendida como falante, apenas talvez.

Enquanto tentava entender o que havia se passado, me encolhia na cama quente, coberta pelos lençóis, tentando, de alguma forma insana, imaginar uma vida descomplicada, calada mas entendida, simplificada e simplesmente vivida. Um grito mudo saiu de mim… tenho certeza que ele escutou.

Abracei o travesseiro, agora ainda mais molhado, e pedi (acho que para mim mesma, nessas horas sou meio cética)… só pedi. Acho que deve ser esse o meu erro, pedir! Pensei nele. Aliás, pensei ainda mais nele. Sou assim, pra lá de exigente, pouco experiente e ainda meio carente. Eu? Somos dois e quatro só é quatro porque soma-se a outro dois. Sentido? Nessa hora nem tem mais…

Quando os pensamentos voavam ainda mais longe, mais do que eu imaginaria que pudessem ir, ele escutou. O que? Escutou aquele grito que dei, ora! Aquele mudo. É… ele realmente escutou. Como é que pode? Prova, sim prova. Enfim, eu sou pra ele e ele pra mim!


DESCUBRA-ME

Venha descobrir como sou antes que o tempo passe, que perca a oportunidade de saber de mim com a minha permissão.

Venha descobrir que prefiro seu abraço mais sincero que um beijo seu dado somente como uma despedida antecipada.

Saiba que prefiro rosas, mas, recebo qualquer flor pelo simples gesto que elas representam.

Veja o quanto gosto de um carinho e que, para mim, ele pode ser o remédio para a maioria dos males.

Descubra o valor que dou para seus recados inesperados; saiba o quanto eles me alegram o dia, e o quanto me entristece quando apenas desconsidera esse detalhe.

Saiba mais de mim procurando ver que penso mais no bem estar alheio, e isso com certeza diz respeito a você.

Veja o quanto sou inflexível a atrasos, mas prefiro que seja tarde a nunca.

Descubra que gosto de lhe receber perfumada e, a cada dia, escolho um perfume diferente para que sinta sempre algo novo, mesmo sabendo identificar que esse é o meu ‘cheiro’.

Descubra que minhas palavras saem da minha boca com a mesma intensidade que são sentidas em meu coração, fazendo com que o meu ‘eu amo você’ seja extremamente sincero e profundo.

Venha descobrir que encaro a saudade como um sentimento sempre presente pelo simples fato de estar a alguns metros distante.

Saiba mais de mim percebendo as escolhas que faço sobre o melhor sorvete, a melhor música, o melhor filme, o melhor livro.

Saiba que prefiro fazer algo que não queira realmente naquele momento porque tenho medo de me arrepender por não tê-lo feito.

Descubra o quanto gosto seus gestos ingênuos, habituais. Eles me provam que fiz uma boa escolha.

Descubra-me sabendo que gosto que adormeça antes de mim para que eu possa ‘escutar’ seu sono e sua respiração compassada.

Eu sei que você acredita que sabe de mim há algum tempo. Sim, realmente. Mas, queria que descobrisse mais de mim, mais do que os outros. Os defeitos são os primeiros aspectos que vemos, mas há detalhes tão intensos e não descobertos que podem provar muito mais de nós mesmos.

A vida pode ser muito difícil para que a atravessemos sozinhos. Ninguém sabe exatamente o tempo que se leva para ter certeza de um sentimento, até o dia em que tem que entender o que se passa em seu coração. Descubra-me, saiba mais de mim, assim também poderá descobrir um pouco mais de você… e entenderá o que nós dois sentimos.


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