LAURINDO RABELO, O” POETA LAGARTIXA” – MÉDICO, CANTADOR, CORDELISTA E PUTANHEIRO …

“Rabello, o cabelludo; Rebello, o rebellado
[transcripção e notas de Glauco Mattoso]
Muitos conhecem Bocage, mais por causa da parte pornographica de sua obra poetica. Poucos, porem, conhecem o Bocage brasileiro, um creoulo chamado Laurindo Rabello (ou Rebello), e desses poucos a maioria o conhece como poeta da segunda geração romantica, e não como herdeiro da faceta pornographica de Bocage. Na verdade, o precursor dessa linhagem fescennina e satirica na poesia lusophona foi o Bocca do Inferno, Gregorio de Mattos, no seculo XVII, ainda no periodo barroco. Bocage grangeou a mesma fama “maldicta” no seculo seguinte, e Rabello recambiou a fama para o Brasil no seculo XIX, accrescentando à pecha de maldicto a figura do neguinho pobre, victima do preconceito e dos azares da vida.
Por seu porte magrelo e desengonçado, Rabello era conhecido como Poeta Lagartixa. Seu nome completo era Laurindo José da Silva Rabello. Nascido no Rio em 1826 e fallecido em 1864, tentou estudar medicina, mas, por falta de grana, foi recomeçar a vida na Bahia, onde se formou. La conheceu o repentista Moniz Barreto (1804-1868), com quem travou duellos e apprendeu a versejar à moda dos cantadores. Graças a esse convivio, practicou a glosa em forma de decimas heptasyllabas, transferindo o genero iberico dos moldes bocageanos para um ambiente typicamente brasileiro, ou antes, nordestino, aproveitando mottes locaes e influenciando outros glosadores, como os discipulos do potiguar Moysés Sesyom (1883-1932).
Occorre que a thematica mais popular, nos mottes e glosas, é justamente a que envolve sacanagem, razão pela qual toda aquella producção de Rabello ficou de fora das OBRAS COMPLETAS que Osvaldo Mello Braga reuniu em livro em 1946: “Obviamente, não pudemos accrescer as poesias das OBRAS LIVRES… pornographicas, obscenas.”, desculpava-se o organizador, na introducção ao volume. O titulo a que Braga se refere era uma edição posthuma e rara, publicada no Rio em 1882. Quem teve accesso a essa reliquia foi José Paulo Paes, que a facsimilou em 1981, presenteando-me com um exemplar. Estimulado pelo precioso material revelado, propuz à Brasiliense uma biographia do Poeta Lagartixa, que não chegou a sahir pela collecção de bolso onde estava programmada. Surge agora a opportunidade de divulgar na rede virtual o conteudo integral das LIVRES, cuja orthographia mantive e revisei com rigor etymologico para maior fidelidade ao original.
A vida indisciplinada e injustiçada do poeta (que abandonara as carreiras ecclesiastica e militar por insubordinação e fora perseguido por desgraças de todo typo, errando pelo paiz até voltar ao Rio, onde morreu quando tentava restabelecer-se como professor) captivou minha sympathia por seu espirito mordaz e revoltado, instigando-me a versejar no estylo dos glosadores. A principio, esporadicamente, na epocha em que editei o JORNAL DOBRABIL; agora, mais systematicamente, quando retomo o genero em 2001, no livro GLAUCO MATTOSO, O GLOSADOR MOTTEJOSO, bem como na versão ampliada dos LIMEIRIQUES (adaptação do limerick à redondilha de cunho fescennino, com aquelle tempero anthropophagicamente brasileiro que Laurindo mulatamente inaugurou). Segue, portanto, a matriz dessa rebeldia sacana. Saboreiem!
AO LEITOR CURIOSO
[prefacio da edição de 1882]
Depois de laboriosas pesquisas e de improbo trabalho, saem hoje colleccionadas em volume as poesias do Dr. Laurindo José da Silva Rebello, que não podem, PROH PUDOR! fazer parte das que o commum dos leitores encontrará em todas as livrarias.
Si não fosse o receio da redundancia de titulo, denominal-a-iamos — POESIAS EROTICAS, BURLESCAS E SATIRICAS — como o fez Innocencio da Silva para com as de Bocage, inspiradas pela mesma musa livre, galhofeira e desboccada.
Damol-as como a tradição oral nol-as conservou, por certo alteradas em mais de um poncto e modificadas, segundo a comprehensão poetica de cada um dos agentes da tradição as transmittiu ao editor.
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