31 agosto 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


O MONSTRO DA ELETRÔNICA E A VIÚVA ESQUARTEJADA

O MONSTRO DA ELETRÕNICA E A VIÚVA ESQUARTEJADA

Findava o mês de dezembro,
era o ano de dois mil.
Por volta das treze horas
de uma tarde cor de anil,
Bom Jardim serviu de palco
a um crime chocante e vil.

Na Rua Manoel Arnóbio,
próximo da capelinha,
à oficina eletrônica
chegou a mulher sozinha.
Nem de longe pressentia
que encontrar a morte vinha!

Verônica, jovem viúva,
perdera há pouco o marido.
Em virtude disso, havia
um Seguro recebido.
E o dono da eletrônica
tinha há pouco conhecido.

O que a fez naquela hora
chegar àquele lugar
foi um som que lá deixara
para o técnico consertar,
o qual mandou avisá-la
que já podia ir buscar.

Entrou na casa onde o algoz
por ela estava esperando.
Levou-a para a cozinha.
Ela nele confiando.
Pois jamais suspeitaria
o que ele estava tramando.

A discutir começaram,
já que o assunto primeiro
foi a viúva exigir
reposição de um dinheiro
que ele lhe surripiara,
como qualquer trapaceiro.

Tomado de fúria, Adilso
(era esse o nome seu),
pegou a pobre indefesa
e o seu pescoço torceu.
Ao golpe não resistindo,
sem vida, o corpo pendeu…

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24 agosto 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


AMOR E RECEIO

Mulher dos sonhos meus, anjo impoluto,
por que me és tão cruel, se te amo tanto?!
Dá-me, ao menos na ponta do teu manto,
uma pousada – embora um só minuto!

Tira-me da aflição, poupa-me o pranto
que derramo por ti, dá-me um reduto
no único céu que aspiro e que disputo:
teu coração, pra eu viver feito um santo!

Mas são vãos meus lamentos, são perdidos
estes versos que arranco, em prantos, d’alma
– se os não ouso levar aos teus ouvidos!…

Eu receio sofrer mais, se disseres
que já tens um amor, que eu tenha calma
e procure outro amor noutras mulheres.

17 agosto 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


CALABAR – A HISTÓRIA VERDADEIRA

Tem sido a história contada
sempre pelo vencedor,
o que torna duvidoso
o juízo de valor
expresso nas suas páginas,
seja em que período for.

Assim, o que foi escrito
pelo historiador de outrora
pode não ser verdadeiro
conforme o saber de agora.
De pôr os pontos is
está, portanto, na hora.

É o caso de um brasileiro
cuja índole guerreira
levou-o a ser condenado
da mais injusta maneira
com pecha de traidor-
-mor da pátria brasileira.

Ou seja, esse personagem
foi transformado em vilão
por historiadores de
duvidosa opinião,
de acordo com preconceitos
predominantes então.

Os holandeses tentaram
se apoderar do Brasil
para aqui desenvolver
a sua ação mercantil,
enfrentando nesta terra
acolhida sempre hostil.

Pernambuco rechaçou
desde logo os invasores
que aqui se depararam
com inúmeros revezes,
terminando derrotados
nas batalhas muitas vezes

Calabar, como outros tantos,
uma escolha fez então
por algo que ele julgava,
conforme a sua visão,
está fazendo o melhor
para ajudar a nação.

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LEITURAS

Quantos livros já li, não sei. Não conto.
Só sei que a vida inteira li bastante,
buscando aprimorar-me a cada instante.
De tanto ler, às vezes, fico tonto.

Para a leitura eu estou sempre pronto.
Quem me conhece, vê no meu semblante.
Ler, para mim, é muito estimulante:
quanto mais leio, mas pra ler me apronto.

Sou portador do vírus da leitura,
pois o livro transmite à criatura
ensinamentos, saberes profundos…

De leituras, portanto, me alimento.
Como leitor jamais eu me aposento…
A leitura revela novos mundos.


NA ROTA DOS TROPEIROS

I

Com o céu ainda escuro
os animais carregados
vão em busca das veredas,
pelos tropeiros guiados,
em demanda do sertão
nos velhos tempos passados.

Nas horas frescas do dia
segue a burrama apressada,
aqui e ali se detendo,
abocanhando a ramada,
enquanto os tropeiros vão
distribuindo relhada.

Lentamente o sol se alteia.
O calor aos poucos vem.
A tropa mantém o passo.
A sede chega também.
Um minuto de descanso
a comitiva não tem.

Contínuo estalar de relho
vai ecoando no espaço,
enquanto a tropa caminha
em cima do firme passo,
cada vez sentindo mais
o peso no espinhaço.

Meio dia, o sol a pino,
uma rápida parada
para os animais beberem.
Depois prossegue a jornada.
Parar, só para o pernoite.
Mas inda tem muita estrada.

Um tropeiro mais saudoso
uma cantiga inicia.
Logo após, acompanhando,
um companheiro assobia.
Talvez já sintam saudade
da querida moradia..

Nos períodos invernosos
aumentam os desafios:
lamaçal por toda parte,
solos escorregadios
e perigos redobrados
na travessia dos rios.

Temporais inesperados
desabam a qualquer hora,
fustigando os caminhantes.
No percurso, mais demora…
Alguém chega a fazer prece,
mas o tempo não melhora.

Enormes dificuldades
nessa época aflige a tropa.
A chuva cai sem parar
e tudo o que encontra ensopa.
Com empecilhos diversos
quem viaja sempre topa…

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LAMPIÃO E A BARONESA DE ÁGUA BRANCA

Água Branca é uma cidade
do interior de Alagoas,
terra de raras belezas,
de generosas pessoas
que só praticam ações
voltadas às causas boas.

Passaram por Água Branca
grandes personalidades
como Delmiro Gouveia
e outras celebridades,
sem esquecer Lampião
e suas barbaridades.

Foi aí que Virgulino,
sanguinário cangaceiro,
praticou um grande assalto,
classificado o primeiro,
que o faria conhecido
então no país inteiro.

O bandido iniciara
há pouco sua carreira
no crime, substituindo
o chefe, Sinhô Pereira.
Das cidades que assaltou,
foi água Branca a primeira.

Um certo dia o facínora,
conforme o noticiário,
com destino a Água Branca
despachou um emissário
com pedido à baronesa
de valor pecuniário.

Um total de 20 contos
eis a quantia pedida.
Se ela atendesse, teria
segurança garantida;
mas, negando, poderia,
até pagar com a vida.

Já nos seus 90 anos,
Dona Joana, a baronesa,
representante política
de Água Branca e redondeza,
mandou de volta ao bandido
um recado com firmeza.

– Diga a seu chefe que eu tenho
o dinheiro, mas é para
arrancar-lhe o couro fora
e esticar numa vara.
Foi essa a resposta dela,
bem objetiva e clara.

-2-

Depois, para prevenir-se
do terrível marginal,
temendo que ele fizesse
para a cidade algum mal,
solicitou do Governo
reforço policial.

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SONHOS DESFEITOS

Foram-se os sonhos que eu sonhei pra nós!
Sonhos tão lindos que morreram cedo,
deixando dor e frustração após…
De amar de novo, agora eu tenho medo.

Prefiro dela nem lembrar a voz…
Ouvir somente a voz do passaredo
para afastar essa tristeza atroz
que me acompanha e disfarço em segredo.

Quantas vezes a gente não se engana,
ante um rostinho encantador e doce
que esconde uma alma falsa, leviana?…

Hoje, não sei se seria capaz
de perdoar quem mágoa só me trouxe…
É arriscado, no amor, voltar atrás!


AMBIÇÃO SEM LIMITE

AMBICAO SEM LIMITE

(Um Conto das Mil e uma Noites)

Um dervixe, no deserto,
caminhava certo dia.
Vinha de longe e apenas
tinha a fé por companhia.
O seu corpo maltratado,
fome e cansaço sentia.

Imerso em seus pensamentos
prosseguia o viajor.
Próximo de uma colina
encontrou um mercador
que de cem camelos era
o feliz possuidor.

Pediu-lhe o pobre uma esmola,
que de pronto foi negada.
O mercador recusou-se,
alma insensível, malvada,
a oferecer ajuda
a um pedinte na estrada.

O esmoler perguntou
àquele homem prepotente:
– São seus esses cem camelos?
– São meus – disse sorridente.
– E tem dívidas o senhor?
– Não, nenhuma, certamente.

– Um homem com cem camelos
e que não tem dívida é rico…
Muito rico com certeza!
Falou o outro – Eu explico:
evitando dar esmolas,
rico cada vez mais fico.

– Deus lhe fez rico e, a mim, pobre;
teve, pois, suas razões.
Mas Ele não quer que os pobres
sofram, como eu, privações.
Rico que despreza pobre
talvez sofra punições.

Ante um comentário às vezes
gente há que raciocina,
pois a fala do dervixe
tocou o rico sovina,
que temeu logo os castigos
da Providência Divina.

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QUERER

Quero-te muito! E, por querer-te tanto,
eu não te esqueço um momento sequer.
Teu nome é música pra mim, é canto.
Como eu te quero, ninguém mais te quer!

Às vezes choro copioso pranto,
imaginando uma razão qualquer
que nos impeça mútuo amor. No entanto,
não vou deixar de te querer, mulher!…

Tu és manhã que vem raiando agora!
Eu sou a tarde que se descolora…
Entre nós dois uma distância existe.

Porém distância é para ser vencida…
E como há para tudo uma saída,
meu coração de amar-te não desiste.


PRECE

Deus, meu Senhor, perdoa os erros meus,
os meus pecados, minhas omissões!…
Se tenho errado nas minhas ações,
se a alguém fiz mal, foi sem querer, meu Deus!

Pecador, minha estrada hei percorrido
como barco perdido em mar revolto,
exposto às tempestades, leme solto,
navegando sem rumo definido.

Dá-me forças, ó Deus, para que eu vença
tantas barreiras que esta vida tem…
Peço ainda, Senhor, para também
fortalecer a minha pouca crença.

Mostra-me a direção, o lado certo,
pra que eu possa seguir mais confiante…
Que a minha fé em Ti seja constante
e que de mim estejas sempre perto!


AUSÊNCIA

Tu foste em minha vida um anjo lindo,
a flor mais bela havida em meu jardim,
o paraíso para mim se abrindo…
Em minha vida foste tudo, enfim.

O amor que te votei foi grande, infindo.
Ninguém jamais amou alguém assim.
Foste um ser para mim sempre bem-vindo…
A tua ausência dói demais em mim!

Sinto-me agora um barco em mar de escolhos,
sujeito a turbulências e fracassos,
amargo pranto a deslizar dos olhos.

Mas poderás esse caos reverter,
acabando de vez o meu meu sofrer,
no dia em que voltares a meus braços…


MANHÃ SERTANEJA

No sertão, um dia, cedo,
quando raiava a alvorada,
quando já festivamente
gorjeava a passarada,
saí de espingarda à mão
pra fazer uma caçada.

Segui pisando na areia
orvalhada dos caminhos,
embevecido, escutando
o trinar dos passarinhos
que, saudando o arrebol,
pousavam perto dos ninhos.

Borboletas coloridas
voavam pela campina…
Busquei um alto rochedo
de onde avistava a colina
naquela hora encoberta
por um lençol de neblina.

Gotas de orvalho escorriam
por sobre a verde milhã.
De um arvoredo distante
vinha o canto da acauã…
Depois o sol cor de ouro
encheu de luz a manhã.

Nem lembrei mais da caçada,
contemplando a natureza.
Passei horas deslumbrado
perante tanta beleza…
Deus nasceu numa manhã,
lá no sertão, com certeza.


PAISAGEM ESQUECIDA

Em minha vida foste uma paisagem
que vai ficando logo para trás
e que, afinal, quando acaba a viagem,
a gente esquece e não revê jamais.

Tua lembrança só tristeza traz!
Apagar da memória tua imagem,
acalmaria um coração sem paz…
Esquecer-te é, portanto, uma vantagem!

Orquídea frágil que na haste pendeu,
nossa afeição, à míngua, feneceu,
depois de ter o jarro arrebentado.

Jamais teria afinal prosperado…
O amor não pode ter somente um lado!
E o nosso tinha um lado só: o meu.


O RAPAZ QUE NAMOROU UM TRAVESTI

O RAPAZ QUE NAMOROU UM TRAVESTI

Leitor, vou narrar um caso
que de fato aconteceu
com um nosso conhecido,
aliás, vizinho meu,
o qual gostou de uma jovem
que outro dia conheceu.

Como se sabe, o amor
deixa o homem meio cego,
levando ele a pisar
até em ponta de prego,
pois a paixão o emburrece
e altera seu próprio ego.

O tal a quem me refiro
era pessoa normal,
vivia tranquilamente
junto com seu pessoal,
preocupação nenhuma
perturbava seu astral.

Na verdade, era um sujeito
macho até prova em contrário
que acabou sendo motivo
de ironia e comentário
quando um dia apaixonou-se
e deu uma de otário.

Desprovido de malícia,
a ninguém nunca fez mal.
Cumpridor dos seus deveres,
sempre muito cordial,
o seu único ponto fraco
era a cachaça, afinal.

Quando ele estava “bicado”
espantava muita gente
com a mania que tinha
de se tornar eloquente,
mas engrolava as palavras
e bodejava somente.

Completara vinte anos,
estava na flor da idade.
Tinha seus sonhos de jovem,
muita força de vontade,
porém pra namorar tinha
alguma dificuldade.

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FRUTOS DESEJADOS

A vida às vezes má pode mudar um dia,
pois até entre pedra uma planta viceja.
Exemplo semelhante, à criatura enseja
que a tristeza de outrora então vire alegria.

Nem tudo acaba bem, se bem não principia;
nem sempre o velho crente encontra sua igreja.
Enfim, por ser a vida uma tenaz peleja,
não se deve jamais dar chance à covardia.

É preciso ter fé e prosseguir avante
sem nunca fraquejar sequer um só instante,
buscando aproveitar da vida os bons minutos.

O sucesso não vai para mãos que não agem,
a vitória afinal é dos que têm coragem…
Sem ação ninguém colhe os desejados frutos!


O PERNETA

Guarda-chuva e capa preta,
aos pulos pela calçada,
irrompe um homem perneta
no meio da chuvarada.

Igualmente carrapeta,
vai girando o camarada…
Tomara que não se meta
em nenhuma trapalhada.

É que os carros vão passando
numa incrível disparada,
parecendo um louco bando

em busca talvez do nada,
milhões de sonhos levando
nas águas da enxurrada!…


DEIDADE

Porte elegante, rosto angelical,
nariz perfeito, boca delicada,
olhos castanhos, pele acetinada,
cabelos pretos, corpo escultural…

Gestos suaves, caminhar de fada,
mulher de sonho, beleza ideal!
Isso tudo e bem mais é minha amada,
estrela do meu céu e meu fanal.

Entretanto, essa deusa, na verdade,
ao sentir-se, afinal, uma deidade,
exagera talvez na compostura.

Pois, sabedora do poder que tem,
trata às vezes quem a ama com desdém,
ferindo o coração da criatura!


SERENATAS NO BOSQUE

Recordo – era em noites idas,
num bosque: árvores floridas,
a brisa fresca e aromada,
murmurejo de cascatas
e eu fazendo serenatas
sob a lua prateada.

No frio das madrugadas
canções eram ecoadas
pelos rochedos distantes…
E o violão que eu dedilhava
por todo o bosque espalhava
seus acordes fascinantes.

Naquelas noites ditosas,
de serenatas saudosas
o bosque inteiro eu enchia.
E após cada madrugada
via a lúcida alvorada
vir anunciar o dia.

E quando o sol, no horizonte,
surgia por trás de um monte,
de luz o bosque inundava…
Tinha início um novo dia,
eu dali me despedia
e a casa, feliz, voltava.


OPORTUNIDADE

Vivendo embora na mesma cidade,
nos encontrando com certa constância,
entre nós dois jamais houve amizade,
pois me esnobavas com tua arrogância.

Nunca me deste uma oportunidade!
Interessante agora é que a distância,
que em nossos corações põe a saudade,
nos aproxime com recíproca ânsia.

A vida é sempre cheia de surpresa!
Do meu castelo já quase em ruínas,
quem sabe, venhas te tornar princesa?!

Pra que possamos, em noites de lua,
entre flores e o orvalho das campinas,
caminhar juntos, minha mão na tua!

30 março 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


GRATAS LEMBRANÇAS…

A Marly Mota

Bom Jardim das antigas serenatas,
dos paus-d’arco e da Pedra do Navio;
sinos a repicar, manhãs de estio,
orquestra de cigarras pelas matas.

Nossas bandas de música em tocatas;
repentistas cantando em desafio;
os poços de águas límpidas no rio…
Do tempo que se foi, lembranças gratas!

Saudosos seresteiros, violões;
centenários e belos casarões;
os festejos no pátio da matriz.

As cadeiras dispostas nas calçadas;
os clubes, o cinema e as três chamadas…
Sem saber, a gente era mais feliz!

23 março 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


NO SERTÃO

Lá no sertão, quando a chuva desaba,
a natureza se veste de cores.
Milhões de insetos buscam logo as flores…
E, por uns tempos, a pobreza acaba.

Nas manhãs claras, sob o azul do céu,
pelas campinas se elevam vapores,
no ar espalhando suaves olores,
cobrindo tudo qual se fosse um véu.

O sertanejo, cheio de esperança,
sentindo o cheiro que exala da terra,
descansa o olhar sobre a virente serra,
e de louvar ao Senhor não se cansa.

16 março 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


A VOLTA DA GALINHA

Por uns tempos sumiu minha galinha…
Todos achavam que houvesse morrido!
Eis que um dia, porém, torna a bichinha,
chegou fazendo o maior alarido.

Ao voltar, acontece que ela vinha
acompanhada de um bando nutrido
(os seus pintinhos) pra alegria minha.
Sua volta deixou-me comovido!

Algures escondida, ela – coitada!
exposta ao sol, à chuva, à ventania,
conseguiu produzir uma ninhada!

A natureza é pródiga e capaz:
– lição de amor e de sabedoria,
uma galinha, sem saber, nos traz!…


PRIMEIRA LEMBRANÇA

Minha primeira lembrança
vem de um sábado à tardinha:
um gato de índole mansa
que ficara com a vizinha.

Eu era muito criança…
Há pouco a família tinha
ido toda, de mudança,
pra terras de Sá-Doninha.

Voltando ao antigo lar,
um recanto bem singelo,
eu e mãe fomos buscar

nosso bichano amarelo
de nome peculiar:
“Poeta” – um gatinho belo.

23 fevereiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


A MORTE DO PAPAGAIO QUE FICOU PRESO NO IBAMA

VVPppg

Dona Gedália Valentin chora a morte de “Meu Lourinho”

Leitor prestai atenção
do que é capaz a maldade
em pessoas má-fé
que há na sociedade,
as quais na prática do mal
têm especialidade.

Alguém inescrupuloso
de espírito deletério
com uma denúncia anônima
provocou um caso sério,
talvez por causa de inveja
na Bomba do Hemetério.

Naquela comunidade
uma popular senhora,
dona Gedália Ferreira,
enlutada até agora
com a perda de um ser querido,
de dor e saudade chora.

Foi decerto negligência
a causadora do drama
inusitado talvez,
que a população reclama:
a morte de um papagaio
nas dependências do IBAMA.

Durante a apreensão
da ave, consta nos autos,
o órgão governamental
deu como causa “maus-tratos”,
o que, na realidade,
não passava de boatos.

Sempre disposta a atendê-lo
em toda e qualquer carência,
há mais ou menos nove anos,
com carinho e paciência
dona Gedália mantinha
o louro na residência.

Mas a política do IBAMA
é bastante diferente:
colocam os animais
num depósito deprimente,
onde em péssimas condições
vão a óbito simplesmente.

Muitas vezes a ex-dona
do louro foi implorar
lá na sede do IBAMA
para ao menos ele olhar.
Porém nem esse desejo
conseguiu concretizar.

Diante da má vontade
pelo IBAMA apresentada,
restou tentar na Justiça,
que foi logo acionada,
conseguir que a ave fosse
à dona reintegrada.

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16 fevereiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


NA PRAIA

Mar! Verde mar! Leve espuma
cuja brancura encandeia!…
Já sem forças, de uma em uma,
as ondas morrem na areia.

Então nosso olhar vagueia
até muito além da bruma,
onde nasce a lua cheia
aureolada de espuma.

Os recifes de corais
formam naturais piscinas
ornadas de coqueirais.

Gaivotas cruzam a praia…
E sobre as areias finas
a branca espuma desmaia.

Porto de Galinhas, 4.Nov.1995

9 fevereiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


DESAFIOS

Nas vastidão sem fim do firmamento
ziguezagueia cintilante bolha
num vendaval levada pelo vento,
exposta a tudo, sem nenhuma escolha.

Vencer os desafios sempre eu tento,
porém me sinto às vezes como folha
a deslizar em rio caudalento
com receios de que um abismo a colha.

Não conquistar um bem que muito quis,
de modo algum fará alguém feliz.
Em consequência, os dissabores vêm.

Mas com certeza o que começa finda,
até as cores de uma tarde linda…
E os desafios terão fim também!

2 fevereiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


ADRENALINA DESPERDIÇADA

Por mais que o nosso coração palpite
e ter alguém seja o maior mister,
a vida nos impõe regra e limite,
inclusive em matéria de mulher.

Quem ama ao devaneio se permite.
Mas nem sempre se alcança o que se quer!
Não vale a pena que a gente se irrite
por qualquer coisa ou motivo qualquer.

Muita vez a paixão irrompe brava,
mas não progride, assim logo termina.
E tudo permanece como estava…

Amar é bom, entretanto atrapalha
e faz desperdiçar adrenalina,
mesmo que dure igual fogo de palha.

26 janeiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


O MATUTO

Eu vivo no mêi dos mato,
das fulô sintindo chêro,
me banhando nos regato,
sem precisá de chuvêro.
Sempre cum sastifação,
eu trabaio o ano intêro
na minha roça de mio,
fazendo calo nas mão
pra sustentá os meus fio
e toda a famiação.

Trabaio e num me arrependo,
pois é minha obrigação.
Meu pôco lucro num vendo
nem mêrmo pru um milhão.
É assim qu’eu cumpriendo…
Nessa vida de rocêro,
eu fedo mais do que chêro.
Mais cuido bem paioça.
Sempre limpa tá a roça
e tudo cum munto esmêro.

Na roça tudo é mió,
apesá da vida dura.
As pessoa veve só,
porém veve mais sigura.
Num tem carro nem ladrão.
Assarto? tem isso não!
Tudo é mais assussegado.
Ninguém é atrupelado.
Num inziste crontamão,
nem os povo anda apressado.

Nós ispia para os campo
e só inxéiga beleza.
À noite vê pirilampo
faiscando cumo istrela.
Ôisse os som das correnteza
e as brisa cantando pela
ramáge dos aivoredo.
E o mió dispertadô
é um galo cantadô
qui acorda nóis logo cedo.

19 janeiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


TRISTE CONSOLO

A mãe carente com o bebê nos braços
diz à senhora: “Vim lhe dar meu filho!
Já não suporto mais tantos fracassos
no calvário sem fim que há anos trilho…”

Momentos bons cada vez mais escassos
para uma estrela que não teve brilho;
seus horizontes foram sempre baços;
sua escalada cheia de empecilho.

Pobreza extrema expõe os dois à fome,
cuja saúde aos poucos se consome.
Pobre criança, alheia a tudo, chora!

Invade a mãe um sentimento atroz,
mas dá o filho e se consola após…
Pois melhor sorte ele há de ter agora.

12 janeiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


NO ALVORECER

Alvorecia. Inda o sol
se escondia atrás do monte.
Somente a luz do arrebol
avermelhava o horizonte.

Num arvoredo defronte,
gorjeava o rouxinol.
Também murmurava a fonte,
das folhas sob o lençol.

Cigarras e passarinhos
cantavam com animação
nos arredores vizinhos…

Mas eu, sem saber por que,
tinha triste o coração…
Talvez por não ter você!

Bom Jardim, 6/01/68

5 janeiro 2017 DODDO FELIX - GORJEIOS


NOITE DE CHUVA

Chove incessantemente. É noite escura.
A chuva escore, a cantar, no telhado.
Entre as ramagens do bosque molhado,
beijando as flores o vento murmura.

Dentro da noite eu sofro um mal sem cura:
estou preso ante a chuva e, desolado,
penso em ti, se estivesses ao meu lado
para aquecer-me com tua ternura!…

E desejo apertar-te nos meus braços,
receber os teus beijos, teus abraços
e juntinho a teu corpo adormecer…

Mas estou só, o meu leito vazio.
Não tenho sono, faz bastante frio.
E a noite toda a chover, a chover.

Bom Jardim, junho/62

29 dezembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


PASSARINHO MORTO

I

Poeta emplumado,
ó meu passarinho
que ainda há pouquinho
cantava no prado!…

Morreste, coitado,
deixando teu ninho
sem dono, sozinho,
tristonho, enlutado.

De um ramo florido
caíste ferido
qual flor que tombou.

Perverso, um menino,
com um tiro assassino,
foi quem te matou.

II

Teu frágil corpinho,
todo ensanguentado,
apanho, magoado,
e, em choro, acarinho…

Instinto mesquinho,
menino malvado,
estás premiado?
Pobre passarinho:

um véu de tristeza
cobre a natureza
que é toda um só pranto.

Porém fica em paz,
que tu viverás
no meu triste canto!

22 dezembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


TRAGÉDIA NO MAR

A tempestade desabava forte
num mar sem lua. Nos penhascos torvos,
indiferentes, crocitavam corvos,
possivelmente pressentindo morte.

Ausente estava com certeza a sorte
dos pescadores cercados de estorvos,
águas revoltas ingerindo em sorvos,
em meio às vagas, procurando um norte.

Ondas rugiam num furor medonho,
daqueles homens sepultando o sonho
de à terra firme poderem tornar…

Assim, no abismo assustador e tredo,
enfrentaram a dor, o frio, o medo,
até serem tragados pelo mar!…

15 dezembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


RESUMO

Todo dia desfila em minha frente
essa morena tentadora e bela,
arrebentando coração da gente
que anseia aflito pelos beijos dela!

Andar sinuoso como de serpente,
passa gingando defronte à janela…
Nem imagina que um poeta ardente
vive sonhando, a suspirar, por ela!

O seu olhar, a sua voz charmosa,
enfim, revelam a amante fogosa,
cheia de amor, constantemente em cio.

Paixão, amor, desilusão, ciúme…
No seu jeito de ser ela resume
toda a beleza da mulher do Rio!

Rio de Janeiro, setembro/1993

8 dezembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


MEU RECANTO

Tem mais ou menos dez metros quadrados
o meu recanto no segundo andar.
Lá não tem vista pra todos os lados,
mas vale a pena o que se pode olhar!…

São as ladeiras e uns velhos sobrados
da querida cidade secular.
Na primavera, paus-d’arco florados,
aonde vão os pássaros cantar.

Uma nesga de céu com muito azul…
E, quando a noite se faz estrelada,
de braço aberto, o cruzeiro do sul.

As torres da matriz. O campo-santo…
Cenário de beleza inigualada!
Eis enfim o que mostra o meu recanto.

Bom Jardim, 3 de março de 1997

1 dezembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


O GALO(*)

Não me responsabilizo pela veracidade dos fatos aqui narrados, mesmo porque, na época em que eles aconteceram, eu residia noutra cidade. Meu irmão José, que a tudo presenciou, foi quem me passou todas as informações. Contou-me que, há alguns anos, na casa de nossos pais existiu um galináceo que terminou ficando famoso pela valentia demonstrada enquanto viveu. Segundo meu irmão, era um galo vermelho, enorme, pescoço dourado e grosso, e uma crista que dava gosto de ver. Seu canto podia ser ouvido a quilômetros de distância. Nem todo cachorro bravo impunha tanto respeito quanto o galo Lampião – era esse o nome do bicho.

Pouca gente tinha chegado a nossa porta sem antes receber umas boas esporadas da ave assustadora e truculenta. Não havia homem barbado, mulher destemida, moça corajosa, rapaz valente nem menino desavisado que não fosse pra espora… Isso, sem falar nas pessoas da casa, pois ninguém escapava das suas investidas. Criança pequena, nem pensar! Era se esquecer, sair ao terreiro o pau cantar… Cada dia que passava, Lampião ia fazendo novas vítimas. Não poupava gatos, cachorros, bodes, porcos e toda sorte de bichos que fosse encontrando. Raposa nenhuma se atrevia a aparecer em nosso terreiro. Gambá, nem em sonho! Os poucos que ousaram botar o focinho, no território da fera foram estraçalhados na mesma hora. A fama desse valentão de penas foi longe!

Veio até gente de Recife para vê-lo de perto. Dava gosto possuir um bicho tão valente! Um dia, meu pai e meu irmão foram à feira e de lá trouxeram um bezerrote com o objetivo de engordá-lo durante uns dois anos, quando então o venderiam. Com a chegada do bovino, o galo mostrou-se enfurecido. Começou a bater em tudo o que aparecesse em sua frente. E não se aquietou mais. Passou a noite toda a soltar um canto estranho, atrapalhando o sono da vizinhança.

No dia seguinte, a primeira coisa que fez, logo ao amanhecer, foi partir feito um louco para cima do pobre bezerro, as esporas afiadas como punhais, deixando-o todo furado, igual tábua de pirulito, o sangue a escorrer em bicas. O coitado, não resistindo ao violento ataque, veio a perecer logo em seguida, baldados todos os esforços no intuito de salvá-lo. Diante de tais ocorrências, ao meu pai só restou a alternativa de sacrificar o galo assassino, pois o mesmo havia passado dos limites. Era o cúmulo. Onde já se viu tamanho absurdo?! Assim sendo, foi o valentão abatido com tiros de rifle.

(*) Publicado originalmente na Revista GLOBO RURAL – Seção Leitura – janeiro 2000

24 novembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


ÚLTIMO FAVOR

A quem sei que de mim não gosta mais,
quero pedir um último favor:
desta vida, afinal, quando eu me for,
não acompanhe os meus restos mortais.

Você, que nem sequer ouviu meus ais
e até mesmo zombou da minha dor,
na cova onde eu jazer não ponha flor,
nem se aproxime do local jamais!…

De quem sempre me deu só desprazer,
prece e remorso, quando eu for embora,
também dispenso sem me constranger.

Este favor que estou pedindo agora,
não será tão difícil de atender…
Basta esperar: eu parto a qualquer hora!

Bom Jardim, 15.Jul.2003

17 novembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


ESTÓRIA DO BOI INDOMÁVEL E O BODE MISTERIOSO

estoria-do-boi-indomavel

Às musas quero pedir
competência nesta hora
para uma estória narrar,
a qual ocorreu outrora.
E em meio à população
repercute ainda agora.

Existia no sertão
numa fazenda importante,
pertencente a um coronel,
que era rico bastante,
um barbatão indomável,
astucioso e possante.

Vaqueiro nenhum havia
que nele pusesse a mão.
Simplesmente era impossível,
em qualquer ocasião,
um cavalo obter êxito
em sua perseguição.

Léguas e léguas de terra
que a vista não alcança
media a propriedade
cujo nome era Esperança.
Pra percorrer tanta terra
até urubu se cansa.

Na dita fazenda havia
nascido um boi e crescido.
Vaqueiros da redondeza
tinham forças despendido,
porém pegar o tal boi
nenhum tinha conseguido.

Cavalos bons com vaqueiros
trajando roupas de couro,
botina, espora e chibata,
voando tal qual besouro,
não conseguiam chegar
ao menos perto do touro.

Os animais se esforçavam
na carreira mato afora
vencendo despenhadeiros,
castigados na espora,
descendo e subindo serra
cansados, línguas de fora.

Equilibrados na sela,
 se agachando ou levantando
com a maior agilidade,
espinhos e paus driblando,
mas os vaqueiros só viam
o boi na frente bufando.

2

Às vezes passavam dias
procurando no cercado
uma pista ainda que fosse
um rastro no chão deixado…
Dificilmente encontravam
o barbatão desgarrado.

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10 novembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


LEMBRANÇA DO TREM

Vontade chorar, ao relembrar, tristonho,
um tempo que passou! Domingo, na Estação:
casais de namorado acalentando sonho;
enchendo a plataforma, ansiosa, a multidão.

O experiente ancião, a inocente criança,
todos quantos enfim o comboio aguardavam,
estampavam na face uns sinais de esperança…
De repente, no Dique, os apitos soavam.

Era o trem que chegava espalhando alegria.
Desciam dos vagões vistosos passageiros.
A multidão, contente, a todos acolhia.
E todos da Estação se afastavam faceiros…

Nas noites de domingo, quando vinha o trem,
para toda a cidade era mesmo uma festa!…
Daquela gente alegre e daquele vaivém,
uma grata lembrança é tudo quanto resta.

3 novembro 2016 DODDO FELIX - GORJEIOS


GOL DE CABEÇA

Estádio cheio. O ponta-esquerda avança,
recebe a bola e passa para adiante,
justo onde estava um ágil centroavante,
o qual no peito a gorduchinha amansa.

Surge um zagueiro, leva um drible e dança.
Outro aparece, veloz, ofegante…
Rola a redonda em busca do atacante
que mira a meta e um pelotaço lança.

Voa a pelota qual se fosse uma ave.
Vence o goleiro, vai de encontro à trave…
Vibra a torcida em êxtase total.

Depois da trave o couro volta ao meio
dos jogadores, de onde um cabeceio
marca um golaço sen-sa-ci-o-nal!

Bom Jardim, 27/9/2012


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