A MÁQUINA DO TEMPO

No centro da sala pré-televisão, um solene rádio Franklin (marca da Philips argentina), valvulado, caixa mista de madeira e baquelita trazia o mundo para dentro de casa por meio de duas emissoras AM de cidades vizinhas. Havia sempre um disc jockey ocupando manhã ou tarde inteiras com seus programas. Depois da escola, eu “entrava no ar” a partir das 11h e seguia até A Hora do Angelus, quando a Ave-Maria de Gounod anunciava suavemente que era hora do banho, porque em pouco tempo meus pais chegariam do trabalho e o jantar seria servido sem atrasos.

Logo na abertura do programa, a voz impostada do locutor lançava a isca fatal: “Daqui a pouco, The Beatles!”. E o sujeito ficava embromando a tarde inteira para, quase noite, enfim liberar a magia – são lembranças de 1966, quando já estávamos completamente contaminados pelo som repetido naquela espécie de cadeia municipal de rádios tocando em várias casas, espalhando o vírus a todo volume na cidade inteira.

A contaminação começou em 9 de fevereiro de 1964, quando uma América perplexa sediou um surto de histeria até então desconhecido – que dera os primeiros sinais dois dias antes em Nova York, com a paralisação inédita do aeroporto JFK.

Naquela noite de domingo, a rede CBS levaria ao ar mais um programa The Ed Sullivan Show, até então um mamute de popularidade. Ali, descobriu-se que a audiência monumental era apenas um elefantinho diante do que viria depois, já que “apenas” 73 milhões de pessoas (34% da população americana da época) se postaram diante de suas tevês, eletrizadas pelos rapazes de Liverpool. Foi o instante em que aqueles quatro garotos que alucinaram o aeroporto ao desembarcar, conquistaram definitivamente a América e partiram para enlouquecer o mundo, inauguraram a beatlemania e começaram a consolidar a maior banda de todos os tempos.

Passados 50 anos, a mesma CBS produziu um especial para comemorar aquela noite memorável. A noite que mudou a América virou mais um marco de uma banda acostumada a feitos estratosféricos. E deixou claro que, por mais que alguém com muito talento entre na fila, ninguém consegue pisar o território de divindade dos Beatles. Uma divindade obtida exatamente porque eles pisaram juntos céus e infernos humanos enquanto mudavam o comportamento do mundo, amparados pela obra genial que produziram.

O show contou com releituras de clássicos da banda feitas por uma constelação de astros da música mundial. A noite já seguia imperdível, até que Ringo Starr pisou o palco e elevou tudo para outro patamar, o reino do sobrenatural. A ponto de a sempre estranha Yoko Ono, agora oitentona, cair na gandaia enlouquecida numa dança estranhíssima, parecendo possuída por alguma entidade!

Logo depois, com a entrada de Paul McCartney em cena, veio a comprovação de que até o sobrenatural tem graduações. Ao lado do velho comparsa, e invocando a memória de John e George, o cavaleiro de sua majestade abriu as portas da máquina do tempo.

Diante daquela apoteose, a pergunta óbvia: por que ninguém cansa de ouvir as velhas, insuperáveis e eternas canções de sempre? Por que elas seguem tocando com frescor? Talvez porque sejam guardadas até por crianças muito pequenas, que se esgoelam em cada palavra das letras para engrossar o coro dos pais e avós. Como é possível ver nos encontros de três gerações de uma mesma família nas plateias que McCartney junta ao redor do mundo.

Por que os filmes e clipes, mesmo mostrando todos os signos da época em que foram gravados e enfrentando o tempo que não para de passar, parecem aguardar o futuro para ensinar modernidade?

Tudo naqueles caras era amanhã, nada envelheceu! No panteão dos maiores da música de todos os tempos, The Beatles vive acima do topo. E a distância entre o primeiro lugar e o topo já é dimensão de Universo. O resto é galáxia!

BALADA DA VIDA

A esquina estava turva pela neblina, e a chuva fina piorava muito a sensação térmica e o desconforto de estar na rua. Empurrou a porta de vidro, emoldurada por um trabalho refinado de artesãos dos metais, para se livrar da ventania. Porta antiga, pesada. Ele estava quase congelando e foi bom entrar no ambiente aquecido da cafeteria centenária.

O chapéu e o sobretudo vinham ensopados, pesados. Estendeu como pôde na cadeira vazia do outro lado da mesa. Ele estava gelado. O velho garçom se aproximou e pediu desculpas, encerrando seu turno, mas “a menina” viria atender.

Ela veio, iluminando tudo ao redor. Tão deslumbrante, que dava vergonha de pedir. Mas pediu. E voltou outros dias e mais outros e outros. E ele pediu, ela atendeu.

E saíram pela rua, ora uma lua brincando no corpo ora a água escorrendo no rosto. O cabelo liso misturando a intenção de cachos, caindo pelas costas, sem trilha, como um linho em desalinho. Entraram em becos sem saída. Só restava o beijo. Longo, forte, apaixonado. Como uma penitência de quem não tem medo de pecar. Como uma saída que não se quer encontrar.

E riram quase como nunca se riu. E ela andava nua como uma lua inteira num céu sem nuvens. Como uma velha canção rock’n’roll que não termina quando acaba, que segue tocando enquanto o coração se acalma, nós sabemos, nós sabemos. Como a fumaça que sobe na contraluz consumindo o cigarro bem devagar.

Amanheceram tantas vezes que ele perdeu a noção de beleza, tantas vezes foram as vezes que a viu tão bela. Era difícil acreditar que o mundo era o mesmo, um só. Ainda mais quando a menina dançava em sombras, dando contornos de paraíso à sua visão. E aos seus ouvidos com a música suave, tocando baixinho. E as cortinas dançando pela fresta do vento.

Eu nunca quis ninguém
E não vou começar agora
Eu nunca planejei, eu não entendo
Então me diga o que posso fazer
Não se afaste
Sim, há algo sobre você
E eu não posso acreditar
O jeito que você me conhece
Você sente todos os gostos
Você sabe quando estou triste
Mas aqui no meu coração
Há emoções misturadas
Mas há algo sobre você
Você sabe que há algo sobre você
Você veio brilhando, babe
Agora há algo sobre você
Eu não sei
Não sei o que estou sentindo

Desceu do avião sem pressa, o aeroporto estava calmo àquela hora. Caminhou pela calçada quase correndo para o táxi. Da janela do hotel viu algumas pessoas andando sobre a neve. Juntou as mãos e soprou, lembrando da dança das cortinas. Embaçou o vidro pelo contraste do próprio calor com a geleira de Viena. Era quase Natal, a cidade estava linda!

Logo à frente
Eu vi uma luz trêmula
Minha cabeça ficou pesada
E minha visão embaçou
Eu tive que parar para passar a noite
Lá estava ela, na entrada da porta
Eu ouvi o sino da Missão
E eu estava pensando comigo mesmo
Aqui pode ser o céu
Ou pode ser o inferno
Então, ela acendeu uma vela
E me mostrou o caminho
Havia vozes pelo corredor
Eu pensei tê-las ouvido dizerem
Bem-vindo ao Hotel Califórnia
Que lugar encantador
Que rosto encantador
Vários quartos no Hotel Califórnia
Qualquer época do ano
Você pode encontrá-lo aqui
A última coisa que me lembro
Eu estava correndo para a porta
Eu tinha que encontrar a passagem de volta
Para o lugar onde eu estava antes

Pensou no lugar onde estava antes e não soube se adormeceu ou simplesmente sentiu saudade a noite inteira. A cidade era deslumbrante de dia também. Andou devagar pelas ruas, o olhar perdido nas vitrines. Era como se buscasse em vão mirar o que já não existia.

De repente, começou a ouvir a própria voz dentro da cabeça, como se houvesse alguém declamando:

“Ontem você estava tão bonita; eu esqueci de pedir que fizesse uma foto instantânea. A festa rolando lá fora, na sala e na varanda, e nós dois sozinhos lá dentro falando coisas sérias.

Os outros sorrindo o sorriso das festas, a gente buscando motivo pra festa. Havia um pontinho apenas, a nos deixar preocupados. Era preciso saber logo a que veio.

“Eu sou otimista”, você me disse tão linda, tão otimista, com aquele sorriso que ilumina tudo – a vida que você dá a tudo com aquele sorriso! “O pontinho não sabe com quem está mexendo!”, eu pensei.

Ah!, eu queria dizer tanta coisa… Mas, no fundo, você sabe de todas as coisas que eu gostaria de falar. Há o amor do qual já dissemos, lembra? Eu não ligo que o mundo não compreenda, basta que a gente faça. Como o beijo que já sabemos como será. É inevitável rir do mundo. Ele é risível!

Eu não sei do amanhã, só vejo o até breve porque já é tão breve… É o que dá para dizer todo dia, enquanto há tempo. Eu estarei naquele porto que a gente combinou, contando as horas, aguardando você chegar carregando a vida. Como sempre foi seu destino, é da sua natureza.

Ficarei olhando o rio, com o vinho que nos prometemos, esperando para lhe ver pela calçada, o vento zanzando no seu vestido. Mas não tem problema se não aparecer.

Você nunca vai estar sozinha, eu não vou deixar que esqueça isso, mesmo sem saber onde está agora. Aquele seu retrato que não foi feito ficou na minha memória, não vou esquecer. Eu lembro que seus olhos me disseram muita coisa naquela hora. Tocaram a balada da vida.

Eu me entreguei às rezas que conheço e até às que desconheço, falei com santos que nem sei se existem! E terminei rezando uma velha canção: “Você é forte/letras e músicas/todas as músicas que ainda hei de ouvir”. Estou calmo agora, quase sinto você. Deve ser o vento assobiando pelos becos. Os mesmos becos onde tudo começou depois que saímos da cafeteria.”

Sequer um rosto na multidão! Nada! Apenas a saudade querendo enxergar o impossível. Ele caminhou mais um pouco, como teria de fazer o resto da vida. Sozinho sem nunca estar sozinho. Ela estaria nos sons estranhos, nos sopros do vento, nos sobressaltos noturnos, na preguiça das manhãs de inverno. Como aquela que cobria tudo de branco, apressando a vontade de voltar para a calçada do porto. Ainda restava por lá o sol e o movimento das marés.

Trechos de:
Something about you (Brian Howe-Terry Thomas)
Hotel California (Don Felder-Don Henley-Glenn Frey)
Você é linda (Caetano Veloso)

FIM DE LINHA

O trem ligeiro de Braga para Lisboa partiu rigorosamente no horário marcado: 13h07. Como são pontuais os trens! Isso lá é horário de gente? Dois minutos antes, três depois e seria muito mais compreensível. Mas, a pontualidade dos trens sempre foi assim, quase irritante. Até parece que todos são ingleses. Qualquer minuto é igual, ganha solenidade. Inclusive esses quebrados.

Partiu sem apitos, sem aqueles velhos sinais que se perderam no tempo. Apenas uns sons pálidos imitando os antigos resfôlegos das locomotivas de outrora. Talvez do sistema de freios. Permanece apenas aquele tlec tlec seco, metálico das rodas em atrito com os trilhos. E o balanço que, garante a lenda, inspirou a música de Glenn Miller.

A velocidade descomunal chegava a 220 km/hora em alguns trechos do trajeto. O sistema de pendulação ativa permite aos comboios vencer curvas em altas velocidades, ao contrário dos trens convencionais. E ajuda a batizar o Alfa Pendular, serviço premium da Comboios de Portugal.

Porto, Vila Nova de Gaia, Aveiro e Coimbra vão marcando pontos principais no trajeto que oferece as paisagens características do deslumbrante ambiente das aldeias e freguesias portuguesas, repleto de uvas, azeitonas, verduras, ovelhas, vinícolas… E de uma gente simpática e acolhedora.

É preciso certa atenção na bilheteria da estação para driblar alguns desconfortos. Viajar de costas (metade dos passageiros de cada vagão) pode ser bem desagradável para quem sente enjoos. Ainda mais em horários de refeições.

É possível amenizar o problema comprando o bilhete da Classe Conforto, onde as poltronas são mais largas e apenas três por fileira, uma delas individual. Um arremedo das lendárias primeiras classes, onde também a metade viaja de costas. Mas, com bilhete mais caro e menos gente por vagão, diminuem as chances de surpresas desagradáveis.

Continua impressionante a secular capacidade dos cobradores de memorizar rostos, indispensável para a função de orientar o fluxo e comprovar o pagamento de quem entra e sai nas diversas estações do trajeto.

O cobrador de trinta e poucos anos parou ao lado da poltrona à frente da minha. O homem, que embarcara pouco antes, apresentou um bilhete diferente do meu, um papel bem maior. Comprado com o desconto garantido para quem atingiu determinada idade.

O rapaz pediu documento e comprovou a desconfiança: o passageiro tinha dois anos menos. Imediatamente, iniciou uma reprimenda elegante, mas definitiva. Ao final, foi taxativo: o homem teria de pagar mais quinze euros para completar o valor normal do bilhete. E alertou que aquele tipo de infração acarretava também uma multa de mais vinte e cinco euros que, excepcionalmente, decidira não cobrar.

Sem argumento, restou ao homem estender o cartão de crédito ao rapaz. Foi informado de que o pagamento dentro do trem só poderia ser feito em dinheiro. Verdade ou mentira, disse que não tinha. Se aquilo era um estratagema, a resposta veio irredutível: teria de descer na próxima estação e regularizar a situação na bilheteria, onde cartões eram aceitos. E que o tempo da parada era curto, deveria esperar o próximo comboio.

O passageiro, envergonhado, se desculpou – ali, eu estava inclinado a pagar por ele. O rapaz disse que não havia desculpas para aquela atitude, pois era uma infração cometida por arbítrio, já que a legislação era clara a respeito do direito a desconto. A palavra “arbítrio” soou alto no meu ouvido, como um apito de árbitro de futebol. O cartão amarelo era merecido. Para o homem e para mim. Escapei por um fio! O cobrador deu o assunto por encerrado com altivez e se afastou pelo corredor.

O homem tomou o celular e começou a explicar que chegaria atrasado ao compromisso em Lisboa. Na estação de Aveiro, pegou a pequena mala no bagageiro e desceu do vagão com rapidez, cabisbaixo. Lá adiante, o cobrador, implacável, dominava a cena. Exalava o ar de guardião das normas, de dever cumprido.

O trem voltou a se movimentar e vi o homem em pé na plataforma da estação, de novo ao telefone. Não havia tomado ainda nenhuma providência. Segui a próxima meia hora pensando naquele episódio cheio de variáveis.

Claro que havia ali uma questão humana inquietante. Talvez – e era bem provável – ele não tivesse dinheiro suficiente e tentou diminuir as despesas da viagem. E outra questão humana ainda mais inquietante: a prática do desrespeito às normas, inclusive lesando terceiros. Afinal, o desconto terminava sendo pago pelo governo – por todos.

Tentei me colocar no lugar daquele homem, interrompido pela humilhação que acabou atraindo por livre arbítrio. Comecei a me convencer de que estaria arrependido se tivesse pago a diferença do bilhete. Mesmo que recebesse de volta, não seria a melhor alternativa. Afinal, havia outros trens fazendo o mesmo trajeto. Não tão rápidos, não tão confortáveis. Bem mais baratos. Questão de escolha.

A viagem avançou para além daquela meia hora de meditação, a tarde caiu feito um viaduto e João Bosco entrou na minha cabeça tocando daquele jeito fabuloso. A maravilha que essas bugigangas eletrônicas conseguem ser de vez em quando! A internet do trem é perfeita. E gratuita, claro, incluída no preço do bilhete.

Mesmo já tendo tomado partido pelo cobrador, pensei naquele homem que desceu do trem lá atrás, quando ainda havia tarde. Fiquei na dúvida se ele se foi cedo ou tarde. Talvez sentido alguma dor, eu não sei, ele foi.

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança dança
Na corda bamba, de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Lisboa estava chegando e eu pude ir até o fim da linha. Fui o último a descer daquele trem. Rumei devagar pela plataforma, ficando para trás das pessoas apressadas que foram se distanciando cada vez mais e sumindo em diversas direções.

Tomei um café para ajudar a espantar o frio. Fiquei olhando as pessoas com seus gorros, sobretudos e cachecóis, indo e vindo no fluxo implacável da vida. Não senti saudade do sol de onde vim, o frio me faz bem.

Ajustei o cachecol, fechei os botões do sobretudo. Peguei o chapéu que havia pousado sobre o balcão. Troquei um sorriso breve com a balconista bonita – adorei a malícia daquele olhar – e fui embora pensando em nada. Desci as escadas, uma senhora me ajudou com a máquina de bilhetes, entrei no metrô e me assustei com o silêncio reinante. Ao menos, um pequeno grupo de estudantes riu de algum gracejo. E houve um abraço terno entre dois deles.

Nada mais belo que abraço sereno
E sabor de perdão
Ver a beleza
E em gesto pequeno ter a imensidão
Como espalhar por aí
Qualquer coisa que faça sorrir
Aquietar o silêncio das dores daqui

Não havia vivalma além de mim. Subi sozinho os longos lances de escadas rolantes da estação. Os azulejos dominavam o ambiente e havia muitas citações literárias ao longo do caminho. Atravessei a rua já enxergando o luminoso do meu hotel refletido no chão molhado pela chuva que caíra mais cedo.

Pensei no homem que desceu do trem antes da hora. Onde estaria agora? Era óbvio, sequer lembrava de mim, se é que me notou – e quase lhe paguei a diferença do bilhete, que teria resolvido tudo. Ou apenas errado junto.

Eu estava cansado. Um banho quente, uma sopa servida no quarto e me atirei na cama. Nem sei que tamanho teve a noite. A alegria estava anotada na agenda da manhã seguinte, trazida por uns amigos que estavam vindo de Madri. Haveria festa.

Trechos de:
O bêbado e a equilibrista (João Bosco-Aldir Blanc)
Mais bonito não há (Milton Nascimento-Tiago Iorc)

MENINOS DO MUNDO

A temperatura lá fora rodava o zero grau do termômetro, a gente se preparando para os quatro negativos prometidos para o fim de semana. A lareira da sala espalhando o mistério do fogo pelos cinco sentidos e afagando nossas sensações térmicas. As labaredas crepitando felicidade pela eternidade daquela noite portuguesa.

O som da casa era universal, vínhamos de diversas partes do mundo. De repente, o som dos relógios, o pulsar do tempo na música, e a gente ali vivendo a transformação, o presente como pêndulo de passado e futuro mudando segundo a segundo. O que seria o momento seguinte está sendo agora e num piscar já se foi, virou lembrança.

Em casa, novamente em casa
Eu gosto de estar aqui quando posso
Quando chego em casa
Cansado e com frio
É bom pra esquentar meus ossos
Ao lado da lareira

Aquele caldeirão de afetos que desconhece fronteiras e idiomas. A linguagem dos sinais, da comida, dos doces, do café, do tabaco, do vinho, dos sorrisos, dos olhos, das mãos, da madeira sendo colocada no fogo, dos cliques fotográficos, dos abraços, dos silêncios, dos cheiros e beijos… Soa universal, é inteiramente compreensível até de boca fechada. Até quando se abre em frases mal construídas em idiomas alheios – pouco importa. E a luz dourada, tênue, discreta como só caberia assim.

Pensei no tempo em que estive sozinho, em que quis rever amigos e recordações. Mas os caminhos da vida nos afastaram, perdemos tudo aquilo que um dia doeu de tanta saudade. E também aquelas pessoas, que já não são as mesmas. Nos tornamos estranhos quando fomos ficando pela estrada e sumimos nos nossos passados mútuos.

A grama era mais verde
As luzes mais brilhantes
Com amigos por perto
As noites eram maravilhosas

Mas a vida roda em mistérios insondáveis. Basta acreditar nisso, acredite. Até parece magia! A solidão de uma viagem escolhida solitária virada de ponta-cabeça. Um outro país, vão surgindo pessoas que nunca vi antes (será?), que deviam ser distantes porque estranhas, mas nunca foram estranhas. Nem distantes. Caminhos de vida renovados.

Uma mulher adorável que saiu de alguma página de um livro bom, o sol das noites com sol, atrai o mundo para o seu mundo. Foi assim que cheguei. E mais não conto, pois as regras dos reinos encantados não permitem. É preciso encontrar o caminho.

De repente, despencaram no meu coração meninos do mundo – minha pequena frota dos dois lados do oceano vai aumentando – que me renovam, que me tomam pela mão. E saímos em folia pelas ruas, pelos bosques gelados, como se tivéssemos a mesma idade. Pregando peças, caminhando em nossos silêncios e solidões, saciando nossas curiosidades pela natureza, nossas necessidades do Divino. Nossos interesses pelas artes, pelo movimento das pessoas, pelas esquinas da vida, pelas histórias que escrevemos, por quem somos, pelo passado que parece que sempre existiu entre nós. Que diabos é isso? Estou garimpando as respostas.

Eu juro que você já me viu
Sim, você já me viu aqui antes, antes
E então não diga
Não diga o contrário
Esta voz, esta voz em especial
Sim, você já a ouviu antes, antes
Não é à toa
Que a estrada parece tão longa
Porque eu já fiz tudo isso antes
Você sentiu essa sensação
Você já sentiu isso antes, antes

Vejo os suaves David e Barča – que pode ser Bárbara, mas prefiro o som de Bartcha, é mais a carinha dela. São amigos, saem de vez em quando, juntos ou não, da pequena aldeia onde vivem na República Tcheca, e rodam em busca do futuro. Vão crescendo como gente grande, tentando, aprendendo.

Ele me emociona falando que enxerga em mim o pai idealizado – ora “my big daddy” ora “mi papá”, que ele diz me olhando com ternura, beijando meu rosto e tentando caprichar num português particular -, e generoso faz jantares delicados para todos nós. Ela bota o olho talentoso em ação para criar fotos lindas por onde passa, virou my sweet baby e começou a me matar de saudade muitos dias antes de seguir viagem. Ele ainda fica mais um pouco por aqui.

Joana é tuga legítima, virou de sangue no primeiro contato. Sentimos a mesma coisa, como se a ligação existisse desde sempre. Sonhos à flor da pele, linda, tentando encontrar as saídas. Acho que não vai demorar, ela já percorre chão por aí faz tempo, está rondando o terreiro do amanhã.

Bárbara, a caçulinha bárbara, uma grande tuga a caminho, força descomunal da natureza. Esvoaçante, multidisciplinar, um vulcãozinho ainda rodando naquele delicioso desalinho confiante de quem tem todo o tempo pela frente. Para piorar a confusão, completamente contaminada pela arte. E humor à flor da pele.

Pensei nos meus meninos (de sangue) do mundo, que estão no Brasil. Na minha Débora, pedaço adorado de mim. A cara de moleca que vai ficando muito mais forte do que eu, minhas aflições serenadas. Que me permite simplesmente seguir sem pressa alguma. É indescritível vê-la sempre naquela grandeza de montanha, em movimentos precisos de relojoeiro.

Pedro, do mundo como a pedra e o vento, local em qualquer lugar, sempre andando na direção dos melhores sopros. Refinado, apuradíssimo, casual como a vida, meu geniozinho de estimação haja lâmpada, haja luar.

Júlia, a caçulinha do outro lado (de onde estou agora) do Atlântico, a bárbara de lá, emoção pura, sempre tirando onda, dona do pedaço, minha canção mais nova, minha glória de ser padrinho – e, por minha conta, pedacinho silencioso de pai.

Antes de chegar em casa passei pelos açoites do frio na rua semideserta, envolta na neblina que deixa tudo sobrenatural. Mas estava lá em cima, acima de tudo, um luar imenso dando cartas no céu, como um chamado. Talvez a guiar as estrelas que fugiram para algum lugar mais quente.

Vou seguir o chamado
E onde é que vai dar?
E onde é que vai dar?
Não sei…
Céu abriga o recado
Que é pra eu me guardar
Mudanças estão por vir
Esperar ser proclamado
O grande final,
O grande final feliz!

Fiquei pensando como seria estar ali em solidão. Dei de ombros, minha viagem solitária virou multidão. Pessoas adoráveis que ficaram no calor dos trópicos. Pessoas adoráveis brotando do frio. Sobre minha cabeça quase um luar do sertão. Não demora, encontro as estrelas sumidas.

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão
Bola de meia, bola de gude

Os meninos do mundo, meus meninos, resgataram o moleque morando no meu coração. Quem sabe, isso quer dizer amor? Quem sabe o que há por saber? Onde é que vai dar? Quem sabe…

Ah, meus meninos… Vou carregá-los sempre! E daí pra quando eu não estiver mais por aqui? Eles estarão e serão por mim. E me enxergarão pirilampo fingindo ser estrela debaixo da lua, já está combinado.

Pensei no tempo e era tempo demais
Você olhou sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça
Eu simplesmente não consigo parar
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe, isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer

Olhei para a mulher saída da página de um livro bom, demos uma piscadela, fizemos um brinde sem precisar levantar taças, felizes pelos meninos se divertindo. Estrada de fazer o sonho acontecer. Que outra cara eu poderia ter, senão feliz?

Trechos de:
Time (David Gilmour-Nick Mason-Richard Wright-Roger Waters)
High hopes (David Gilmour-Polly Samson)
Condolence (Benjamin Clementine)
O chamado (Marina Lima-Giovanni Bizzotto)
Bola de meia, bola de gude (Milton Nascimento-Fernando Brant)
Quem sabe isso quer dizer amor (Lô Borges-Márcio Borges)

NOITES COM SOL

Deixei a casa onde passei os últimos tempos de um ciclo meu. Meses felizes. Conheci um estilo de vida quase inimaginável em São Paulo, me espalhei em novos ambientes, ganhei novos amigos – inclusive o danado do gato mimoso – e saí trôpego de saudade.

Resolvi passar aquele meu último dia do resto de minha vida no hotel da região da Paulista em que sou recebido como gente de casa. Não havia opção melhor diante de algumas coisas derradeiras por resolver antes da viagem. Ainda mais com aquele acolhimento terno. Sim, terno, algo que também parece quase impossível numa metrópole daquele tamanho, quase sempre desenhada pelos contornos do estresse coletivo.

O trânsito estava calmo, apesar da garoa do meio de tarde cinzenta. E o velho taxista garantiu a costumeira prosa boa no trajeto até o aeroporto. Na antessala de embarque de um grupo de companhias aéreas fomos obrigados a dividir o ambiente com um deputado federal denunciado por corrupção – quase redundância da política nacional.

Ele andava de um lado para o outro preso ao celular. Sim, o (nosso) dinheiro público servindo para bancar o telefone que nunca desliga. E, como vimos logo em seguida, também um bilhete de primeira classe para aquele um. Que certamente terá volta.

Algumas horas depois entrei no finger e vi de relance o nome de batismo do meu avião pintado na fuselagem: “Pedro Álvares Cabral”. Eu estava partindo para algumas aventuras que vinha planejando há muito tempo e aquilo me pareceu um encanto do destino, um sinal para as minhas descobertas pessoais. Dessas coincidências que podem não ter qualquer valor visível, mas soam boas por algum motivo extrassensorial.

O tradicional acolhimento dos portugueses se fez sentir ao primeiro contato. Assim que o avião estabilizou, chegou o cardápio que deu início ao serviço de bordo. Em alguns átimos revi a nossa Varig nos melhores momentos – que marcou época ao redor do mundo com seu padrão impecável, com uma cozinha cantada em verso e prosa e que provoca suspiros saudosistas até hoje.

Depois da noite de sono reconfortante, o magnífico nascer do sol sobre África e Europa informava que há algo maior além daquela visão janela de avião, muito acima de nós!

Descer no Porto foi poder rever do alto uma terra que adorei desde que conheci, anos antes. Agora, era apenas uma rápida passagem. O carro deslizou veloz em direção a Braga, que escolhi meio que por escolher, sem entender direito por quê.

A cidade linda, histórica, a mais antiga de Portugal, fundada pelos romanos há mais de dois mil anos como Bracara Augusta. Era outro lugar que estava revendo, agora com muito mais tempo.

Rodei a chave e entrei num lugar onde precisei desmentir minha certeza de que já conhecia. Foi como movimentar a porta de um saloon do Velho Oeste americano, oscilando o passado deixado naquela viagem longa e o futuro que combinei comigo às escuras.

Entrei num mundo encantado de histórias de viagens, de acolhimento, de doação, de vida, de encontros humanos, de coisas que parecem não existir mais. Mas estavam flutuando ali, como a solidão dos peregrinos que vira força descomunal para chegar ao destino.

Um trem ligeiro até Lisboa, Portugal passando pela janela, o fim de semana entre amigos queridos que por ali passavam. Andar a pé em algazarra por lugares que estavam guardados na saudade, passear de tuk tuk até a hora do almoço n’O Magano. Cozinha alentejana, canto escondido da cidade em Campo de Ourique, (ainda) fora do circuito dos turistas – tesouro descoberto por um amigo querido que conhece aquilo tudo pelo coração. A comida espetacular, vinhos que se derramaram nas taças como que caídos do céu dos vinhos.

A festa da noite, o Solar dos Presuntos como cenário para os aniversários comemorados, o prazer da cozinha minhota e de rever Agostinho, Miguel e conhecer Felipe, craques na arte de receber e servir com alegria e gracejos, característica da casa famosa.

Amanhecer o domingo com a ansiedade da saudade prévia dos amigos que iriam de volta para casa, uma lágrima bem disfarçada na voz firme do “até breve”, uma última foto no ônibus que os levou ao aeroporto.

Antes do meu trem noturno, tempo de sobra para o grande prazer de descer a pé até o Terreiro do Paço e, diante do Tejo, imaginar as grandes navegações portuguesas. Um domingo em que a famosa luz de Lisboa estava primorosa para iluminar minhas fotos, meus sonhos e o futuro que batia no coração. Como se fosse pouco, o sagrado direito de ir e vir sem incômodos, sem medos, sem violência urbana sufocante.

Depois das duas da tarde, a subida sem pressa da avenida da Liberdade e a entrega ao prazer do bacalhau, no Ribadouro instalado desde 1947 em belíssimo prédio de fachada curva com tempero de História.

O desembarque na estação gelada, a vontade de chegar em casa e cruzar de novo a porta de saloon, passar a limpo os rascunhos emocionais. Os dias seguintes de caminhadas pelos sítios históricos, a oração na extraordinária Sé de Braga, o bacalhau no Inácio, o café de saco com tostas n’A Brasileira – tradição desde 1907 -, a procura por um chapéu que não está em loja nenhuma, o frio que não dá trégua – às vezes com chuva fina que pede o tal chapéu.

A visita à Freguesia de Apúlia para um almoço – indispensável caso a temporada de sardinhas seja generosa. Bobagem se não houver sardinhas, não faltarão outros sabores inesquecíveis do mar. Segredos da pequena reserva de pescadores e sargaceiros estendida diante do Atlântico.

A descoberta do prazer de esperar a hora chegando para a conversa parelha, intensa, de olho brilhando, como criaturas da noite em voo calmo, procurando luz onde secar tanto sereno. Indo pela noite avançada, desenhando sonhos, virando madrugada, precisando ser parada porque há sempre dia seguinte. Talvez a tradução de Noites com sol:

Ouvi dizer que são milagres
Noites com sol
Mas, hoje eu sei, não são miragens
Noites com sol
Posso entender o que diz a rosa
Ao rouxinol
Peço um amor que me conceda
Noites com sol
Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir a janela
Noites com sol e neblina
Deixa rolar nas retinas
Deixa entrar o sol
Livre será se não te prendem
Constelações
Então verás que não se vendem
Ilusões
Vem que eu estou tão só
Vamos fazer amor
Vem me trazer o sol
Vem me livrar do abandono
Meu coração não tem dono
Vem me aquecer nesse outono
Deixa o sol entrar
Pode abrir a janela
Noites com sol são mais belas
Certas canções são eternas
Deixa o sol entrar

A calma dos dias, o silêncio reinante, as senhoras donas das casas estendendo suas roupas nas varandas iluminadas pelo sol que tenta brigar com o frio, os carros parando absolutamente respeitosos em todas as faixas de pedestres, a cortesia das pessoas atrás dos balcões, os preços justos, a vida passando boa…

A noite de novo, a incrível experiência de cruzar com um estranho encapuzado pelo frio na rua deserta e não sentir medo. A traição do reflexo condicionado pela minha violência urbana acumulada, o susto com um vulto se aproximando, o olhar para trás de supetão e o dar de cara apenas com o poste de iluminação. Imóvel, como seria óbvio. Somente uma luz acesa das noites com sol, que fez de vulto minha própria sombra em movimento.

A sensação de ar fresco de volta à vida, as janelas abertas para ele correr livre e solto (mesmo não deixando dormir, carregando para a noite alta). Eu começava a enxergar o destino na escolha do destino. Eu começava a sentir a vontade de ficar. Eu começava a sentir.

Texto (co)incidental:
Noites com sol (Flávio Venturini-Ronaldo Bastos)

AS MENINAS FRANCESAS

As meninas francesas deviam ter entre treze e quinze anos. Aguardavam o embarque. Eram quatro. Eram quatro livros. Abertos, sendo devorados.

Os smartphones e outros cacarecos digitais estavam lá, displicentes, espalhados sobre a mesa da lanchonete. Milagrosamente esquecidos, até pouco vigiados.

As meninas francesas destoavam de tudo e todos ao redor, pois não eram ilhas teclando seus individualismos, como ficou comum de se ver. Apenas liam. E, fosse pouco, também conversavam como nos velhos tempos. Ainda por cima, naquele idioma lindo! Comentavam entre elas alguns pontos das próprias leituras, rabiscando as páginas com anotações. Como nos velhos tempos. Eram lindas as meninas daquele jeito!

Sim, elas conversavam animadamente e isso parecia algo estranhíssimo. Senti um sopro suave no coração. As letras pareciam flutuar formando palavras, como um éter que a gente quase consegue ver antes de evaporar.

Aquelas francesinhas não eram ninfetas, não eram lolitas, não pareciam parte desse jogo de sedução. Não tinham sabor de frutas forçadas a amadurecer antes da hora. Não pareciam vítimas da vida cheia de modismos e imposições. Eram apenas meninas embaladas em jeans, camisetas e tênis. Sem batom, sem glamour. Duas delas usando óculos de grau sem qualquer complexo. Sem antecipar o tempo de suas vidas. Apenas liam e conversavam, como sabíamos fazer antes de fingir ter esquecido. Eram lindas! Talvez por isso.

Ao anúncio de voo iminente, juntaram tudo em suas mochilas, mas permaneceram sentadas, entregues aos seus livros. Deixaram para seguir no fim, quando praticamente todos já haviam atravessado o portão rumo à pista. Foram as últimas a entrar no avião, logo depois dos seus adultos de estimação. Lendo, lendo, lendo, lendo. Caminharam pelo corredor até seus assentos e seguiram lendo a viagem inteira.

Na revista de bordo, li a respeito de uma espécie de clube do livro por assinatura. Pensei nas meninas francesas e seus livros, e na leitura como tábua de salvação para a ignorância generalizada que nos mostra seus dentes afiados o tempo inteiro. E que, muito mais do que amedrontar, entristece.

Lembrei do menino no jantar da noite anterior, no restaurante do hotel. Manteve-se cabisbaixo, vidrado no smartphone, enquanto todos os presentes aderiram ao Parabéns pra você a partir da chegada do bolo de aniversário que seus (envergonhados) pais e avós caprichosamente encomendaram.

Para quebrar o constrangimento, fiz um gracejo e convoquei o rapazinho a apagar a velinha. Usei o velho truque de dizer que, se vacilasse, eu mesmo apagaria. O desprezo no olhar que mereci foi tamanho que pensei em soprar e sair à francesa. Imagino que tradução ele encontrou para mim.

O sopro tíbio não teve força para trazer junto o sorriso cobrado pelos parentes para as fotos. Ele apenas apagou, como se apagasse todos os chatos que lhe cercavam fora do seu mundo virtual. Como quem cumpre um compromisso indesejado, sopra um incômodo para longe. Lacônico, distante, quase imantado por aquela telinha maldita.

Pena que eu não tivesse bola de cristal para antecipar o dia seguinte e me sentir salvo pelas meninas francesas e seus livros abertos, sendo devorados. Voltei à realidade com o anúncio do pouso. Saí apressado, mas deu tempo vê-las indo no rumo do embarque internacional.

Imagino que as meninas francesas vararam a noite voando a caminho de casa, lendo, sendo felizes, descobrindo o mundo escondido nas letras que quase flutuavam como um éter que a gente quase vê, antes de virarem palavras para contar histórias. Senti um sopro suave apagando aquela velinha que por pouco não queimou meu coração.

Ainda estou me perguntando se aquilo tudo foi mesmo real, ou se terei sido enganado por alguma holografia no meio da mesmice que nos encerra neste berço esplêndido de coisa nenhuma.

Refiz minhas caminhadas pelas margens do Sena manuseando livros naquelas famosas caixas verdes, sebos quase camelôs onde os buquinistas, especializadíssimos, comercializam raridades impressas, livros, gravuras e cartazes de uma Paris que já não existe, mas parece viva.

Esses comerciantes – simpáticos ou antipáticos como só os parisienses antipáticos conseguem ser – estão lá compondo um dos circuitos mais importantes da cidade. Na margem esquerda, entre Ilha de Saint Louis e Ponte do Carrossel. Na margem direita, entre Hôtel de Ville e Louvre.

Eles que são história em tempo real. Que fazem circular a palavra escrita surrada, já lida, que maravilhou, que foi tocada por tantos. Páginas marcadas a lápis e borracha, rabiscadas, copiadas, roubadas, vivas.

Páginas que passarão pela vida das quatro meninas francesas que passaram como poesia, me dando alento, me olhando por dentro, velando por mim. Sem pressa, como devem ser as verdadeiras meninas. Lindas como o som de um acordeão francês. Lidas como as palavras espalhadas pelas margens do Sena. Vividas no tempo certo, como um sonho bom.

MUNDO TECNOLÓGICO

Bons tempos aqueles em que nos juntávamos em patotas para conversar. Calçadas e pracinhas eram quase templos de ser feliz. Também havia lugar para papel, lápis e canetas registrando interesses, bordando bilhetinhos apaixonados. Até hoje sou viciado em Bic Cristal azul e caderneta, para rabiscar minhas pequenas relevâncias. E olhe que sempre fui rapidíssimo nos teclados, herança do curso de datilografia e das máquinas de telex – tecnologias hoje confinadas no dicionário ou na memória dos mais velhos.

Assisti à explosão da comunicação digital que apelidamos de redes sociais, um conjunto de estímulos virtuais sabiamente desenhados para orientar o consumo e a toada. Algo que encanta mais os jovens, naturalmente atraídos para as bugigangas eletrônicas vendidas como ferramentas capazes de matar o tédio da vida moderna. Algo que tem apressado desnecessariamente a vida comum, como se fosse possível enfiar tanta coisa dentro do passar inflexível do tempo.

Vi como fui tratado quase como peça de museu quando afirmei peremptoriamente meu interesse comedido por tais “modernidades”. Vi como quase todos discordaram quando eu disse que essa febre era uma boa porta de entrada para neuroses e isolamento social. E para doenças que ainda nem conhecemos direito, mas que começam a se manifestar e a preocupar os operadores de saúde, já atônitos e sem a menor ideia de antídotos e de gastos futuros que serão exigidos com tratamentos para as tecnopatias.

Os aplicativos foram aparecendo como panaceia para todos os males. Tudo muito moderno, às vezes parecendo até além do que realmente precisamos, cobertos de opções e perguntas quase sempre de difícil compreensão para quem fala o idioma comum.

Afinal, quem aguenta esse cipoal de coisas que vivem numa nuvem que não se vê, perseguem nossos passos digitais e saltam sem convite nas nossas telas oferecendo tudo no mundo, e ainda encheram nossas vidas de novas regras de comportamento? Quem pode achar normal ter o Google, que não passa de uma potente ferramenta de pesquisa, como sabedoria coletiva?

Uma simples passada no supermercado torna-se um inferno de opções: tipo de nota fiscal, com ou sem CPF, programa de pontuação, quantas sacolas… Resolva comprar café, leite, xampu ou papel higiênico! São tantas alternativas que a gente pensa estar numa comédia de horrores – as redes sociais espalham versões engraçadíssimas a respeito dessas “experiências”, expressão idiota metida a profunda, inventada para designar o velho ato de comprar.

E não adianta apelar para vendedores, pois a ajuda será monossilábica, impaciente e cheia de gerúndios. É da logica digital não acumular conhecimento, somente informações. É da lógica digital apenas processar o que vai se acumulando no semideus Big Data.

Não surpreende. O Big Data está baseado em cinco “Vs”: valor, variedade, velocidade, veracidade e volume. Impossível digitalizar humanidades indispensáveis para a existência do homem e arquivadas pra sempre no velho mundo analógico.

Ai de nós se o sinal do celular sumir no nevoeiro e perdermos o acesso para a tal nuvem, tão indefinida como os rostos e vozes dos negócios de hoje. Simplesmente, a vida para como um burro empacado, sem qualquer backup que nos mantenha em cena.

A tal nuvem que acumula cada vez mais informações de todos e emite aquela voz cada vez menos digitalizada, que não consegue responder às perguntas mais simples feitas fora do roteiro programado pelos gênios da tecnologia, quase sempre analfabetos para o que não seja tecnologia.

Alguém pode ser feliz conversando com vozes que, quando xingadas, repetem platitudes do tipo “Desculpe, não consegui entender sua demanda” e ainda pedem para você repetir? Sinceramente!

Tempos chatos, em que as pessoas vão recusando mais e mais telefonar, conversar, esclarecer, olhar, afagar… Tudo deve ser feito via posts e mensagens, algo profundamente irritante, incompleto. Atitude de exclusão numa época em que o discurso de inclusão vai se tornando outra chatice sem par, porque quase nunca sai do trololó. Algo que nos constrange até diante de velhos amigos, a quem agora precisamos indagar, por escrito, se podem falar.

Continuo acreditando que é da natureza humana a sociabilidade plena, o afeto, a contemplação, a transformação pelo conhecimento que não dispensa legados, os compartilhamentos presenciais, o dom de ouvir o outro, o prazer imenso da troca de olhares, a extraordinária comunicação contida nos gestos, as mensagens profundas dos semblantes, a convivência, as brincadeiras, as coisas simples, as felicidades.

Não nego a saudade dos tempos em que equipamentos tinham botões on/off precisos, estavam ligados ou desligados, não programavam funções porque roçaram no bolso, alguém passou um dedo sem querer ou alguma entidade resolveu atualizar o sistema.

Renego as tecnologias? Claro que não. Ou não estaríamos aqui, trocando informações e ideias diante de uma tela iluminada. Apenas defendo seu uso coerente, secundário, complementar, pois o papel central jamais deixará de ser nosso. Não há como fugir do fato de a inteligência artificial ser resultado da inteligência natural, sem possibilidade de ordem inversa.

Quem duvidar pode aguardar sentado até ser apresentado ao conjunto de máquinas capazes de idealizar um cérebro – serve até mesmo um daqueles cérebros de azeitona que infestam e apoquentam nosso cotidiano. Aposto que a posteridade herdará o fóssil de um crédulo que morreu esperando.

Sinceramente, não me surpreende ver um vídeo como este que está a seguir circulando no mundo digital e pregando contra ele, protagonizado por um jovem. Não o divulgo como se eu tivesse razão. Apenas feliz por ver que o óbvio está óbvio.

Talvez eu não esteja mais por aqui quando a humanidade chipada cansar de tanta tecnologia, de tanta prepotência digital e voltar a ser apenas um bando de gente curiosa e afetiva. Afinal, mesas de bares foram feitas para pessoas, não para robôs.

Alguém aí consegue imaginar a cervejinha estupidamente gelada trocada no cardápio por algum óleo lubrificante sintetizado do grafite bi-carbonizado na fonte, capaz de atingir baixíssimas temperaturas ao simples contato com o ar? E descer mais macio do que o som da palavra avelã?

Imagine a chatice de fazer um pedido por telepatia ao garçom! Prefiro erguer o indicador e ele saber exatamente do que se trata: “mais uma”, que deve vir estupidamente gelada, se possível com a garrafa “mofada”. Chega de “experiências”. Basta-nos ser o que somos, simples humanos. Analógicos, com apoio digital.

Aproveite sua cerveja, relaxe. Afinal, nada está sob controle. E nunca estará.

A NOITE

Tudo estava calado ao redor, chegamos ao meio do feriadão, as pessoas viajaram.

Nos feriados, todos correm da cidade e se entregam animados às estradas entupidas, onde se arrastam por horas em engarrafamentos monumentais até cidadezinhas que entram em colapso com tanta gente chegando de fora. As pessoas vivem trocando de estresses.

O tempo mudou de repente. O calor sufocante foi sendo afastado por uma brisa refrescante que virou vento forte nas folhas das árvores, que virou garoa e restou frio. Os prédios ao redor estavam escuros, como se abrigassem apenas as memórias dos seus moradores, que deixaram seus confortos em casa para descansar em desconfortos diversos, improvisados.

Sim, é quase comovente ver a multidão trocando de estresses, se atirando a desconfortos improvisados, porque tudo isso embute o desejo de descobrir a vida, de ser feliz nem que seja por átimos. É assim que é. É a regra do jogo.

Mais cedo, os gritos e as cantigas da torcida no estádio ao longe denunciavam até o placar de um jogo de futebol. Apito final, a multidão desfeita escorrendo por rampas de acesso, ruas, carros, ônibus, trens e metrô. Tabela cumprida, cada qual em busca dos resultados da própria vida.

Os pássaros que fazem farra o dia inteiro estavam calados em seu merecido descanso. A festa que houve numa casa vizinha já virou lembrança, as visitas foram embora deixando o silêncio depois do vozerio de uma dose a mais. Um gato vadio cruzou comigo, indo embora quando eu estava chegando. Só me olhou de longe, com os cuidados normais dos felinos, sem interromper sua caminhada de rei dos becos.

Os ponteiros que viraram números e marcam as horas digitais nas bugigangas eletrônicas acabaram de avançar uma hora por conta própria, cumprindo o ritual do horário de verão. Peguei com carinho o velho Tissot dos anos sessenta, adiantei e dei corda. Ele e eu não entendemos essa coisa de mexer no tempo, apressar o passo para recuar lá na frente.

Ele e eu estamos juntos há tantos anos… Somos contemporâneos e já temos tempo de sobra para saber que tudo isso leva a lugar nenhum. Ninguém reinventa a roda, os tempos precisos da natureza não carecem de reparos ou melhorias humanas, até porque não temos nada além de presunção para tamanha tarefa.

Afinal, quando começamos a aparecer por aqui, o planeta já girava ao redor do Sol para mudar as horas e passar o tempo, para fazer dia nas horas claras e noite nas horas escuras. E até fazer magia ao oferecer o espetáculo do Sol da meia-noite.

Clique aqui e leia este artigo completo »

INCLINAÇÕES MUSICAIS II

Nem passou tanto tempo assim daquele meu encontro com Beto no aeroporto do Rio, e recebi mensagem dele repleta de tristeza. Estava enfrentando suas primeiras dificuldades na relação com Júlia. Águas turvas.

Ao que parecia, o navegador, marinheiro com amor em cada porto, não estava se relacionando bem com a terra firme do porto seguro. Aquele ar radiante de quem, depois de tantos anos, estava vivendo uma relação clara, limpa, monogâmica e deslumbrante – palavras dele – parecia ter sucumbido às (primeiras) nuvens que de vez em quando fecham o céu e fazem inverno em qualquer relacionamento.

Li e reli o que ele me escreveu, tentando encontrar pistas. Garantiu que não havia mais outras namoradas, namoradas ao mesmo tempo, como nos velhos tempos. Mas estava claro que o plano inclinara perigosamente, ameaçando desabar.

Fechei minha porta, entrei no elevador e dei de cara com uma linda mulher chorando delicadamente. “Dor de amor”, pensei. Baixei a cabeça para não haver constrangimento.

Quando a porta abriu na garagem, me enchi de coragem para um “Vai dar tudo certo, acredite!”. Ela respondeu com um leve aceno de mão, abrindo os dedos, um sorriso triste, de endoidecer, e desapareceu entre os carros.

Sentei diante do volante; olhei meu rosto no retrovisor, pensando que aquela frase também me servia por inteiro. Ainda bem que o cara grisalho que me duplicava estava sereno, dando certeza de que eu contava com ele para tudo, o tempo todo.

Liguei o carro e o locutor inundou o ambiente com as péssimas notícias de sempre. Àquela hora da noite o trânsito já estava ameno, como deveriam ser amenas todas as noites.

Clique aqui e leia este artigo completo »

INCLINAÇÕES MUSICAIS

Antes de embarcar para Brasília encontrei Beto, um velho amigo que iria do Rio para o Nordeste. Fazia tempo que não tínhamos notícias mútuas e começamos nosso encontro por um abraço demorado.

Estudamos juntos quando jovens, e naqueles tempos nossas conversas varavam boas madrugadas. Contei minhas novidades primeiro e logo chegou a vez dele, pois era evidente sua ansiedade. Tivera um casamento que durou pouco e apostara, desde a separação de quase vinte anos, no caminho teoricamente mais simples dos relacionamentos furtivos. Tinha uma vida parecida com a minha, de viagens constantes, e virara um solteirão convicto.

Ele me falou da dificuldade de levar relacionamentos a sério. Contou de várias namoradas, namoradas ao mesmo tempo no melhor estilo marinheiro, um amor em cada porto, até que Júlia – que também era minha amiga daqueles tempos – apareceu e jogou todas essas teorias e práticas pelos ares, empurrou o navegador para terra firme.

Por algum motivo insondável, Beto quis estar sozinho quando percebeu que a chegada dela era inevitável e com ares de porto seguro, e foi se afastando das outras mulheres. Agora andava radiante porque, pela primeira vez em tantos anos, estava vivendo uma relação clara, limpa, monogâmica e deslumbrante – palavras dele.

O meu amigo trazia naquele momento um brilho intenso no olhar, que saltava aos olhos, me contou do novo amor numa conversa deliciosa que nos distanciou da confusão e do desconforto das salas de embarque. Logo me dei conta de que formavam um casal óbvio que algum capricho do destino e das correntes demorou a juntar.

– Você pode rir de mim, se quiser, pois sei que estou meio bobo mesmo. Mas algo me diz que vou amar muito essa mulher, que finalmente vou ter um relacionamento como sempre sonhei.

Anunciaram o embarque do meu voo. Dei um abraço afetuoso no meu amigo, fiz um afago em sua bochecha. Desejei que o clima de renascimento tomasse conta deles dois e fui embora feliz.

– Dê um beijo na Júlia, diga que estou torcendo!

Desembarquei, peguei o carro no estacionamento do aeroporto e segui sem pressa, observando a cidade vazia pelo feriado de Páscoa.

Talvez a Páscoa passe distante dessa conversa mole de coelhos machos botando ovos de chocolate enormes – isso deve explicar aqueles olhinhos esbugalhados! Imagino que esteja nesse compasso descompassado dos corações apaixonados, como pandeiros que se apressam quando toca a música certa, que arrepia, que dá frio na barriga.

Beto havia deixado claro que mexera nos seus demônios, que andou morrendo de medo nos primeiros momentos, mas algum tipo de certeza começou a apressar seu coração, a desmantelar suas incertezas convictas de tantos anos.

Afinal, só porque os tempos atuais nos exigem apressados, fugazes, superficiais, alheios, infelizes, invejosos, traiçoeiros, obsessivos, mentirosos, não é razoável todo mundo estar obrigado a se mostrar praticante da negação dos afetos. É claro que preferi acreditar naqueles dois e desejar a mesma sorte, pois meu amigo estava convincente demais.

No rádio do carro a voz celestial de Milton fazia perguntas infernais. Beto e Júlia voltaram à minha mente. Desejei vida longa a tudo que estava representado naquela felicidade escancarada horas antes pelo meu amigo.

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito, me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

Logo me veio à mente olhos cor de mel, covinhas, cabelo ao vento, marcas de sol… daquela que desacata, que é revelia, Dona Flor que Jorge Amado nos colocou latente à flor da pele, rediviva naquela trilha sonora linda!

O rádio do carro continuou sem deixar por menos. Geraldo Azevedo, que conheço há tantos anos com muito bem-querer, seguiu apontando a rota do porto com a delicadeza costumeira.

Coração, essa mesma batida
Que bate tão diferente
Quando acontece na gente
O mesmo amor
É um amor diferente demais
Quem inventou o amor
Teve certamente inclinações musicais

Ainda estou sem resposta para a mesma batida do coração, que bate tão diferente. Inclinações musicais de quem inventou o amor? Acontece na vida da gente, feito impressão digital, como canções parecidas e tão desiguais.

Rebatizei meus amigos como Beto e Júlia para deixá-los incógnitos
em seus beijos e abraços inteiramente apaixonados.
Vida longa ao amor deles! O mesmo amor, um amor diferente demais!

Trechos de:
O que será? – À flor da pele (Chico Buarque)
Inclinações musicais (Geraldo Azevedo-Renato Rocha)

AMORES INCERTOS

Eu apenas queria que você soubesse da minha vontade de dizer tanta coisa, escrever outras tantas. Algo que tivesse cores, nomes. Algo que me curasse de noites insones que jamais quis dormir. Coisas que nem sei dizer, aquelas certas coisas que devem ficar no silêncio. Como as velhas canções que terminam, mas nunca param de tocar.

Coisas do tempo de lua e estrela, da ternura que não se envergonhava de se envergonhar por timidez juvenil. Da flor do cáctus sob o sol de janeiro, fevereiro… qualquer sol. Das maçãs que amanheciam alvas como se meninas em flor fossem. Dos bandolins que ninguém mais ouvia, porque não havia mais ninguém além de nós.

Ah!… Eu queria poder lhe dizer tantas coisas, doces como você, que eu não disse porque não disse, porque não ouvi. Porque não deu tempo. Porque não soube do que teria havido se desdito fosse, se dito houvesse sido. Onde está você agora? Onde fomos parar?

Teu zói é a flor da paisagem
Sereno fim da viagem
Teu zói é a cor da beleza
Sorriso da natureza
Azul de prata, meu litoral
Dois brincos de pedra rara
Riacho de água clara
Roupa com cheiro de mala
Zoim assim são mais belos
Que renda branca na sala
Quem vê não enxerga a praia
Teus zói no fim da vereda
Amor de papel de seda
Teus zói clareia o roçado
Reluz teu cordão colado
Que renda branca na sala…
Nóis no lençol de cambraia!

Ah!… O tempo do vento nordeste soprando pleno, sem temores, sem madrugadas interrompidas. A música na vitrola. A toada dos afagos sorrateiros, certeiros sob a luz das estrelas bruxuleantes na direção do dia. Arrebatadores, sem dó nem piedade, como o mar se atirando nas pedras, carinho selvagem da natureza. Amor de papel de seda.

Açoite que nunca termina até a maré baixar e revelar a quietude da areia molhada, que vai secando para se espalhar por todos os ventos da rosa dos ventos. Desmantelando os pontos cardeais e colaterais, desviando as direções planejadas, desarrumando a razão. Escrevendo outra história em mal traçadas linhas. Em passos firmes e tropeços.

Onde estão as crianças que fomos, querendo ser adultas? Que bobagem tentar apressar aquele tempo para ver o que se passaria no amanhã! Para que tentar conhecer antes este agora que ainda era futuro, para, neste futuro que é presente sem futuro, sentir tanta vontade de voltar para aquele passado, que era o presente que a gente encurtou por impaciência?

Crianças nos claros da tarde
Cachorros na boca da noite
Os galos nos dentes do dia
Cada desejo é um açoite
Eu nunca volto nem vou
Apenas sou
Aberta aquela janela
Este peito estrangulado
O que não digo me queima
Não satisfaz o falado
Não te odeio nem te amo
Apenas chamo
Viaja o vento nordeste
Cavalo de meu segredo
Se estás comigo distraio
Se vais, eu morro de medo
Eu não me lembro nem esqueço
Adormeço

Não sei em que ponto sua mão escorregou entre os meus dedos, onde deixamos de sentir nossos cheiros, nos perdemos de vista e do futuro que poderia ter sido. Por mais que insista em lembrar, não sei. Não vi, não vejo, não verei o elo que se quebrou. Há uma bruma em meu olhar, que chegou no frio que a chuva trouxe batendo na janela.

Quis, quero, quererei vencer o medo de dobrar a esquina que sempre me paralisou. Ali estava o futuro que eu não quis encarar por timidez juvenil. Ali está o passado que perdi por sensatez pueril.

Por mais que se tente escapar, a vida é precisa. Nas dores, nos risos, no cortejo pelas veredas, nos sussurros que incendeiam o coração. Era assim que tinha de ser. E foi! E vai até o próximo será. Como terá sido quando eu estava no seu lábio tocando o botão vermelho, quase flor. Nosso mistério. E seguirei pela vida sendo. Ouvindo seu pensamento. Mudo. De lugar. Não falo. Dou de ombros ao grito sufocado. Contradigo e acato. Desacato conformado. Amenizo.

Neste exato momento em que você me chega escrita, estou ouvindo o seu movimento suave. Aquela canção, enquanto escrevo tudo que você reconheceria imediatamente como louvor ou réquiem que tanto podem ser. Um ou outro.

Vem morena ouvir comigo essa cantiga
Sair por essa vida aventureira
Tanta toada eu trago na viola
Pra ver você mais feliz
Tanta saudade eu já senti, morena
Mas foi coisa tão bonita
Da vida, nunca vou me arrepender

Eu precisava escrever. E escrevi pelos amores que não dão certo porque são fortes demais, líquidos e certos. Por mim. Pela distância e pelo tempo que passou. Por tudo que houve, por tudo que não houve e por tudo que haverá até terminar tudo. Ou não.

Daqui a alguns dias serão dias que passarão, que podem ser para sempre ou nunca mais. Nada demais, haverá o amanhã como houve o ontem. É certo que o hoje mata de dúvida entre o ir e o não ir. Adormeço. Quem sabe eu sonho? Assim, amanheço.

Dedicado a Fulano – que não tem nome porque cabem todos os nomes –,
velho amigo, que chorou comigo seu amor incerto, com dor e esperança.
Ao redor de uma mesa de bar,
cercados de cervejas, embriagados de lembranças.
E de futuros. Incertos como os amores.
“Haverá!”, eu disse. E calei.
Não sei se por sofrimento ou sossego.
Não fosse o amor assim tão incerto…

Trechos de:
Flor da paisagem (Robertinho de Recife-Fausto Nilo)
Vento Nordeste (Sueli Costa-Abel Silva)
Toada-Na direção do dia (Zé Renato-Cláudio Nucci-Juca Filho)

ALMA NOTURNA

Eu era muito pequeno na minha cidadezinha quando meu pai entrou em casa e colocou um rádio Franklin (fabricado pela Philips argentina) sobre a cristaleira da sala. Lugar nobre da casa.

Madeira amarelada e baquelita, cheio de faixas de ondas, valvulado. Porta do mundo. E eu me postei tantas tardes inteiras diante dele para ouvir Beatles e Roberto Carlos. E informações de lugares que eu imaginava muito distantes, que faziam rodar o globo da minha pequena geografia.

Foi ali que eu iniciei a descoberta do maior segredo, algo que moveu minha vida. Perguntas, perguntas e mais perguntas… Como a música era feita? Como se materializava dentro daquela caixa eletrificada? Era um teatro de brinquedo? Havia pessoas em miniatura ali dentro? A minha curiosidade infantil permanecia insatisfeita e aguçada.

A banda de música da minha cidadezinha me deixou ainda mais deslumbrado ao dar a resposta: pessoas tocavam instrumentos e aqueles sons se juntavam para formar a música. Eu só queria entender como as pessoas iam parar dentro dos discos, dentro dos rádios – ainda não sabia o que era tevê. Devoto precoce da música, me tornei discípulo da banda, subindo e descendo as ladeiras atrás dela. Apurando o ouvido para o amanhã.

E vieram os circos. Quem pôde resistir ao “Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor!”. E pude pisar pela primeira vez a ribalta, sentir seu magnetismo mesmo quando era dia, não tinha espetáculo. Ali havia magia, não restava a menor dúvida. Bastava chegar a noite e um novo mundo surgia!

Havia uma praça com coreto na minha cidadezinha, como havia em qualquer cidadezinha como a minha. Era ali que eu via fascinado a banda de música em momentos de gala. Era ali que eu, pequenininho, leitor precoce, dava meus primeiros avisos ao microfone da difusora municipal instalada no térreo do coreto – e lia os oferecimentos musicais dos apaixonados de então.

Ronnie Von enfeitou o país com A praça. Havia a minha praça e eu acreditava que A praça era da minha praça. Era 1967, ano em que deixei minha pequena cidade para morar na capital. A primeira ruptura. Ali eu já estava completamente apaixonado pela arte da música.

E fui embora ouvindo A praça para morrer de saudade da minha praça. E fui embora para perder meu primeiro amor, a minha infância, de quem morro de saudade sem cura mesmo quando volto à minha velha praça e não me acho mais.

A mesma praça, o mesmo banco
As mesmas flores, o mesmo jardim
Tudo é igual, mas estou triste
Porque não tenho você perto de mim

E fui embora querendo chegar perto dos músicos onde quer que fosse. E dos artistas todos. E da arte, porque percebi que ela seria meu caminho para a infância eterna. E ganhei da minha tia Severa meu primeiro radinho a pilha, Crown – americano, um luxo! -, que me ensinou a dormir ouvindo o mundo. E depois veio o MotoRadio Dunga de duas faixas, o Philco Transglobe de tantas outras…

E admirei pintores e escultores. E fotógrafos. E descobri o cinema e a tevê. E me completei com imagens. E com filmes e programas e novelas. Porque vinham de outros mundos e eu quis ser mundano daqueles mundos. Um aluno.

E me tornei amante das madrugadas e conheci nelas a companhia inseparável das letras impressas sobre papel. E me apaixonei pela Bic Cristal azul, macia, parceira de todas as sinas, rabiscando minhas dores e louvores. Enfeitando meus amores. E rodava a vitrola… zilhões de voltas, milhões de músicas, milhares de discos. E corria a tinta azul marcando a alta alvura do papel.

Agora eram música e letra, dois pedaços da mesma arte de todas as artes. E entoei cantorias. E aprendi a viver sozinho sem nunca estar sozinho. A nunca ter medo porque sempre haverá algo por descobrir. Que reanimará, dará novo sentido. Uma espécie de cura. Existirá!

Existirá
Em todo porto tremulará
A velha bandeira da vida
Acenderá
Todo farol iluminará
Uma ponta de esperança
E se virá
Será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá
Toda certeza vã
Não sobrará pedra sobre pedra
Existirá

E fui embora da minha capital para o mundo. E entoei novas cantorias, maiores. E veio minha grande arte, uma menina que cabia no antebraço, agora mulher. O porto onde já tremula a (minha) velha bandeira da vida. Para um futuro que existirá num instante, quando for o óbvio.

Eu canto, porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
Atravesso noites e dias no vento
Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou me desfaço
Não sei se fico ou passo
Eu sei que eu canto e a canção é tudo
Tem sangue eterno a asa ritmada
E um dia eu sei que estarei mudo, mais nada

E andei aprendendo pelo mundo. Apurei a descoberta do maior segredo que moveu minha vida. Respostas, respostas, respostas… Aprendi como a música era feita, como se materializava dentro das caixas eletrificadas. Como as pessoas iam parar dentro dos discos, dos rádios, das tevês, dos arquivos digitais. A minha curiosidade infantil estava satisfeita. E aguçada para novas perguntas.

Dei um jeito de fazer discos em grandes estúdios. Dei um jeito de fazer documentários com a banda de música da minha infância e com a festa da padroeira da minha cidadezinha. Fui para o coreto com a banda de novo. Gravamos pelas ruas, pelas histórias das pessoas. A minha gente e eu nos divertimos contando um pedacinho da nossa história simples por inteiro.

E descobri outras artes, outros negócios e a maneira de juntar tudo com o amparo de palco, som, luz, câmera, amigos e ação. Dei meu jeito de enfeitar o mundo corporativo onde vivo com a brisa da arte com quem casei para sempre.

Já não sofro, já não temo. Já não espero, apenas sou e vou. Nas horas vagas sigo sendo a mesma criatura da noite que perdia o sono quando o motor da luz desligava. Que fingia dormir quando os adultos, para anunciar a solenidade da escuridão, iam apagar velas e lamparinas que iluminavam a casa. Que sentia os cheiros da parafina e do querosene espalhados no ar. Que levantava quase flutuando quando todos dormiam, para olhar o céu de estrelas e conversar com Deus. Que aprendeu a não ter sono de manhã e nem em hora nenhuma do dia, porque a vida corre ligeira e é bom não perder quase nada. Que aguarda o silêncio da noite para ouvir música, ler, escrever. Para viver. E dormir sempre quando é madrugada, essa eterna namorada.

As criaturas da noite
Num voo calmo e pequeno
Procuram luz aonde secar
Peso de tanto sereno
Os habitantes da noite
Passam na minha varanda
São viajantes querendo chegar
Antes dos raios de sol
Eu te espero chegar
Vendo os bichos sozinhos na noite
Distração de quem quer esquecer
O seu próprio destino.
Sou viajante querendo chegar
Antes dos raios de sol

Enquanto for, quero ter sido apenas. Mais nada. E terá bastado porque amei a arte, como amo e amarei. Desde muito jovem não passou um dia sequer que não tenha ouvido músicas, folheado leituras e rabiscado escritas. Os três. Como um sacerdócio. Na tribulação ou na serenidade.

Carrego as marcas do sereno mas não reclamo do sol que amanhece outro pedaço do dia que terei de viver. Está no Eclesiastes: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; de modo que nada há novo debaixo do sol”.

Sou viajante que não teme as estradas, porque aprendi a respeitar as curvas incertas e as retas com neblina. Sou viajante querendo chegar apenas no tempo certo. Aceito a sina. Ainda é cedo pra ficar tarde demais.

* * *

Dedicado a dona Darci, uma das professorinhas que me ensinou o bê-á-bá, a que me deu a primeira Bic Cristal azul de presente, que virou parceira de vida inteira apesar da Parker 51, da Montblanc, que vivem delicadamente esquecidas em algum lugar.

Trechos de:
A Praça (Carlos Imperial)
A cura (Lulu Santos)
Motivo (Raimundo Fagner-Cecília Meireles)
Criaturas da Noite (Flávio Venturini-Luiz Carlos Sá)

CONVERSA FIADA

Os bares estão repletos. Infelizes! Ninguém conversa mais como antigamente. Saudade, eu? Nostalgia? Nada, tristeza apenas.

Quem ouve nalguma mesa alguém falando a respeito da última que presta? Pra que falar de filmes, livros, discos – tem quem nem saiba o que danado é isso, se estiver fora das hérnias! Pinturas e esculturas é querer demais, quase humilhar.

De repente, Chico Buarque lança disco novo. Vá lá, meio cambeta diante de frutos mais antigos, mas um alento mesmo assim. Em poucas horas, os discípulos do maldito evangelho do politicamente correto inventaram uma discussão feita sob medida para quem perdeu qualquer medida e o senso de ridículo.

Mal Os Tribalistas desembarcam de novo pelo porto do rio adjacente do que sobrou da cultura musical e já sapecam a pergunta idiota fundamental “por que passaram 15 anos mudos?”, como se ficar calado fosse proibido e o manancial obrigatório!

Quem se preocupa com as quatro estações ou sabe que existem, complexas como o ciclo feminino? E que ninguém ouse botar a lua e o ciclo das marés no meio da prosa. É quase desatino pensar que alguém pensa nisso nos bares infelizes da vida. E misturar ciclos pode ser desastroso para mentes monofásicas.

A quem diabos interessa a beleza das flores, que quase pedem desculpas pelos cantinhos que ainda ocupam fora das floriculturas? Daqui a pouco nem elas saberão a hora que a natureza vai murchar, cair, semear e renascer para dar frutos. Afinal, estão aí as polpas congeladas e, não demora, serão sintetizadas.

Estamos sendo treinados para falar somente das últimas besteiras, tão bestas quanto nós nos tornamos. Há lugar nobre para as maledicências, insolvências, penitências de quem abriu mão do belo por menor que fosse em favor do feio generalizado cada vez maior.

Claro, tudo deve correr pelas redes sociais. Por favor! Não invente esse negócio chatérrimo de conversar ou telefonar. Escreva. Tudo abreviado. Melhor ainda se conseguir traduzir tudo para emoticons.

Puxa vida, é difícil para esses muderninhos se relacionar com quem não domina a comunicação paralinguística – termo solene de banca de mestrado, né não?. Se ligue, aprenda a rezar pela doutrina do Vale do Silício ou não será ninguém, seu analógico de merda! Tá bom, mande um áudio. Mas resuma tudo a nove segundos. Afinal, existem essas regrinhas, como a dos 140 caracteres, ora!

Aprenda a falar da internet das coisas, não importa que coisas sejam essas e que ninguém saiba explicar. Tem também a realidade aumentada, que é muito bom para impressionar. Aliás, os apóstolos do mundo digital não têm qualquer problema em viajar na maionese.

E quando a coisa aperta, começam a usar termos técnicos estrangeiros, que não fazem a menor ideia do que significam. Sim, exatamente aquilo que conhecemos como “rota de fuga”.

Você ainda não sabe o que é indústria 4.0? Santo Deus! Ninguém pode morrer sem essa informação. Se você está no Brasil, sossegue. Aqui, nosso parque industrial está na fase 1.0, pegando no tranco. E provavelmente a gente morra antes de discutir o quarto estágio.

A indústria… a indústria de tudo! Há! Impiedosa, sem tons flexíveis, só ângulos retos. Só interessa o muito, pouco é igual a nada, que só serve a nenhuns.

A indústria… refém da escala, do tudo ou nada. A indústria… que inventou o entretenimento para substituir a cultura e matar o fio da meada das coisas, amarelar o retrato da origem, trocar o saber pela decoreba. A indústria das máquinas para fazer o difícil ou repetitivo e tornar o aprendizado um caminhante obsoleto para a morte. Ah, os tempos das artes e ofícios! Deixa pra lá, não tente explicar o que isso significa. É semear no deserto.

Aridez! Quentura sem o contraponto do inverno. Oxalá as impressoras 3D, metidas a cavalo do cão, aprendam a fazer chover. É só o que falta.

Vamos sobrando, do jeito que dá, trilhando uma trilhinha de nada, na maior cautela para não cair no buraco com fome de tragar tudo.

É por isso que morro de medo de poeira cósmica, do tal do ano-luz que me faz ver, vivinha da silva, uma estrela que já morreu há bilhões de anos – que diabo de conta é essa? E olhe que nem bebi ainda!

Um mestre querido me ensinou que um pensador italiano disse, certa feita, que haverá no futuro algumas ausências muito importantes (na falta que farão) para o homem. O silêncio e a escuridão são duas delas.

Compreendo perfeitamente, sei que não é brincadeira. Acho que o pior de envelhecer é envelhecer neste tempo horroroso que parece já estar morto por falta das coisas mais banais, que eram ótimas. Um tempo que parece se matar a cada dia. Iluminado demais e aos gritos.

A indústria do amanhã encheu o mundo de barulhos e de luzes acesas o tempo inteiro. A madrugada está cheia de vozes, carros e motos roncando a plenos pulmões, garrafas tilintando, palavrões embriagados, músicas ruins, até o ruído poderoso do caminhão do lixo em dueto com os gritos dos garis formando a suíte do amanhecer mais limpo. E nada disso acontece no escuro.

Lembro dos tempos do meu pai, em que os homens tinham suas lanternas a pilha como acessório, para iluminar, quando não era noite de lua, o chão que acolheria o passo a passo da caminhada.

Tempos em que era quase música o chiado do movimento dos pés sobre a terra nua com pedrinhas, que empoeirava sapatos para serem engraxados em casa.

Tempos em que a gente se divertia aprendendo a chamar aquelas lanternas de flashlight e enchia o peito de orgulho quando nos era confiada a nobre tarefa de alumiar o chão. Conversa fiada. Tempos idos, nada mais!

TREMELUZINDO

A minha cidadezinha do interior era igual a todas naqueles anos 60. A “luz”, como chamávamos energia elétrica, saía das entranhas de um velho gerador fumacento, barulhento, lento. Tempo em que ninguém sabia da inimizade entre óleo diesel e meio ambiente. Tempo em que postes serviam somente para sustentar fios, abrigar passarinhos e inutilizar pipas de garotos sem perícia.

O bicho rodava o dia inteiro, engasgando aqui e acolá. Na boca da noite, nós, meninos acostumados a tirar do derredor encantos para distrair a mente, ficávamos enlevados com o tremeluzir da luz acesa. Às nove havia o rito de passagem da luz elétrica para a luz do fogo; hora do velho motor descansar.

Era o ápice da nossa poesia, a energia indo embora em espasmos, o silêncio da máquina desligada se espalhando pelas ruas e becos, a luz bruxuleante das velas e das lamparinas dominando devagarinho os ambientes das casas simples.

Os nossos medos e lendas da escuridão das noites do sertão nos empurrando para a cama. O cheiro da parafina e do querosene marcando nossas narinas para o resto da vida, indicando o caminho da volta que nunca se perde. Os lençóis puxados até a cabeça, pouco importando o calor às vezes infernal, eram muralhas de pano contra a possível invasão de fantasmas noturnos, ardilosos, aterrorizantes, poderosíssimos segundo contavam os mais velhos.

Fico me perguntando por que a luz de hoje não tem mais a beleza do tremeluzir; simplesmente some, como por encanto. Sem qualquer poesia. Atraindo iras e reclamos. Parando fábricas e escritórios, trens, elevadores e metrôs. Queimando equipamentos. Apagando semáforos e instalando o caos nas ruas. Atiçando malfeitores sobre a população desprotegida.

Ela simplesmente some. Talvez para ridicularizar postes de um sistema elétrico moderno e desconfiável. Afinal, desde quando postes servem para algo além de sustentar fios, abrigar passarinhos e inutilizar pipas de garotos sem perícia?

Os postes sem “luz” de hoje em dia, e seus complexos sistemas digitais, não sabem declamar a poesia que havia na hora de faltar energia naqueles tempos, provocar os espasmos delicados da luz apagando, acendendo, apagando, acendendo… até os gritos de euforia quando ela voltava. Apagaram a poesia que havia na escuridão, inventaram o apagão. Direto. Brusco. E ainda culpam raios e trovões, raios!

Chamam os velhos motores de obsoletos, poluentes. E mesmo cientes da inimizade visceral da poluição com o meio ambiente, andam de mãos dadas com termelétricas. Que custam caro. Que são agressivas. Que queimam carvão, que é madeira queimada. No melhor estilo natureza morta. Quanta modernidade! Quanta diferença dos velhos motores fumacentos, barulhentos, lentos da minha infância!

A minha cidadezinha do interior continua igual a todas as outras. A “luz” vem não se sabe de onde e nem de que jeito. Apenas vem. Sem fumaça, sem som. Velocíssima! Lá, todos sabem da inimizade entre óleo diesel e meio ambiente, mas ninguém liga ou desliga.

Os postes ainda sustentam fios e abrigam passarinhos. Não inutilizam mais pipas porque os garotos não sabem o que é perícia. Raridade, um par de tênis pendurado pelo cadarço, jogado há décadas por algum grisalho de hoje.

Não existe mais o tremeluzir da luz acesa nem os versos dourados das velas e lamparinas para distrair a mente no jogo com o vento e as sombras. A cidade fica acesa a noite inteira, sem espasmos para chamar o descanso da escuridão.

Morreram os medos, as lendas e os fantasmas noturnos. Morreram os luares e as noites do sertão. Morreram os mais velhos ardilosos e levaram com eles suas histórias de fazer medo. Morremos aqueles nós, sonhadores, que ficávamos apurando a vista para contar estrelas, pouco ligando para as verrugas que cresceriam nos dedos que apontavam, matemáticos.

Os eletrizados de hoje vestiram o hábito da liturgia eletrônica. Acreditam que fiat lux é milagre, mas perdem a conexão quando a luz apaga sem dedo no interruptor. Ignoram a diferença entre canonização e carbonização. Ignoram os curtos-circuitos cada vez mais intermitentes. Não sabem viver sem sinal e mesmo assim ignoram todos os sinais.

Não compreendem que há séculos se declama poesia no escuro e que a vida vive tremeluzindo como as estrelas das noites do sertão. E vez por outra ainda aparece uma lua. Que, ainda por cima, traz São Jorge dourado. Aí, é bonito demais! Virgem Maria, cheia de graça, assim eu vergo! Mas essa já é outra história.

PALAVRAS DA LUA

Ana,

Eu menino, meu pai (já doente da última doença) ficava ao lado da minha rede – prazer especial depois da volta da escola – lendo para mim as notícias da Apollo 11. Sim, da lua do homem, aquela deserta, de crateras, poeira lunar, pedras e terra estranhas, bandeira americana sem vento, marcas de bota no solo, gente duvidando da viagem…

“É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade”! O primeiro homem a pisar na lua, comandante da missão, que disse a frase poderosa, hoje não está mais aqui e flutua para o esquecimento, como é comum acontecer aos humanos que saem das suas épocas naturais. Ainda tem gente como eu que lembra da face e do nome: Neil Armstrong. E dos outros dois, Edwin Aldrin e Michael Collins – esse, um azarado que, como piloto do módulo de comando, esteve lá mas não pôde descer ao solo lunar. Juro que, se eu estivesse na missão, teria desobedecido as ordens e faria o parceiro sujar as botas também. E resolveria tudo quando voltasse à Terra.

A Lua, a nossa, dos nossos, a dos mistérios, a de São Jorge, a dos poetas, dos sonhadores, dos lunáticos, ora dourada ora prateada, segue lá, firme, todos os dias, eterna, ora exibida ora escondida, nova, crescente, meia, cheia, minguante. Ciclo perfeito regulando as marés, mostrando que o céu é real, nos fazendo crer que nem tudo está perdido.

Claro que eu adorava as histórias e notícias do meu pai querido, mas duvido que aquela lua dos astronautas seja a mesma que se esparrama como luar do sertão, a que nos serve de portal que guarda um acesso imaginário aos nossos queridos e às nossas saudades, aos nossos sonhos, que nos faz múltiplos como você tão bem (d)escreveu.

No caso da lua, não jogo no timaço da Nasa, prefiro a camisa surrada do time de várzea cujo hino diz “Mente quem diz que a lua é velha!”.

Como você, tenho cá meus escritos lunáticos, de noites de observação, como uma que fiz aqui mesmo na minha vila natal – onde estou agora para mais uma festa da minha Mãe padroeira. Quem sabe, publico qualquer dia, depois de limpar a poeira lunar?

Que todas as luas de todas as noites, exibidas ou escondidas, sigam nos protegendo e nos permitindo sair por aí, flutuando à cata de quem amamos (ou pretendemos amar). Inclusive do amor que nos acende a alma, já que a lua também é dos namorados.

Por conta dessa danada dessa lua é que resolvi escrever esta carta a você, amiga que não conheço. Até mais.

SEMANA DOIDA

Esta semana foi digna de hospício e temos o direito de misturar fatos e piadas prontas. Afinal, o brasileiro tem esse dom de iludir a si mesmo, fazer piada de tudo e matar todo mundo de rir. Dizem por aí que é ótimo conseguir rir de si mesmo, mas vai ficando cada vez mais claro que essa conversa é mole. A cada piada dessas, só chegamos à conclusão de que estamos numa situação ainda pior, sem saída.

Geddel, morrendo de medo de tomar na papuda, alegou risco de estupro e pediu para voltar à prisão domiciliar. Prefere dar o ar da graça somente para quem conhece. Tão bobinho… Segundo Zé Simão, há risco de zoofilia, porcofilia.

Não duvidemos que essa notícia de estupro iminente tenha sido plantada exatamente para a defesa apresentar esse argumento para tirar “o porco” (segundo Renato Russo, em seu livro) da cadeia. Afinal, Eduardo Cunha chegou para uma temporada no mesmo clube de cafajestes e nem tocou no assunto. A não ser que a falta de Cláudia Cruz Credo… Afinal, Ricardo já tomou no Saud e foi pra lá também. Deve ter conversado com Geddel e o baianinho agora tá doido pra negociar uma dação e confessar que a única mala que gosta de manusear é a do dinheiro, quem requebra os quartos na dancinha da garrafa é seu irmão de-puta-do.

Provando que tem esquema de proteína animal, Joesley voltou para Sun Paolo, onde até agora nenhum preso demonstrou interesse em suas carnes podres. Esse tá preocupado é com o fato de que tem gente ticiana da vida com ele. E aí não tem acordo, não vale esse troquinho que a PGR está cobrando, porque a tanajura está indo pro brejo. O negócio é tão sério que ele até esqueceu o terço e Nossa Senhora na viagem de volta.

Janot, ao invés de pedir para cagar e sair, enlouqueceu a biruta e saiu denunciando tudo. Até Pero Vaz de Caminha vai ser exumado para explicar o emprego que pediu para um irmão na carta a El Rey de Portugal, quando relatou que Cabral descobriu um bordel a céu aberto na Bahia.

E Collor já começou a traduzir a petição de extradição da ossada de Caminha, pois só chama Janôt de Janó. Por esse detalhe, a nova PGR Dodge Dart já está desconfiada que o collorido vendeu a agência de carrões propinados e envenenados, mas está mancomunado com Cerveró nessa rima pobre. Pode ser apenas um ponto de vista da Dodge, mas Cerveró não perde o foco, está sempre com um olho na missa e outro no padre observando tudo em imagens 2D.

Enquanto isso, um juiz de São Paulo condenou um morador de rua a prisão domiciliar, por furto. Imagine a confusão para cumprir o mandado e levar esse cara para casa. O jeito foi montar uns tapumes e botar o infeliz dentro.

Noutra frente da Sala de Justiça, a Polícia Federal investiga com Batman a suspeita de que Zé Sarney teria malas escondidas no Maranhão, com cerca de R$ 1 trilhão de cruzados. Dizem que o mais difícil está sendo convencer o marimbondo de fogo que isso é apenas papel velho, que ele pode dizer onde está o tesouro do Capitão Gancho e até fazer um acordo para trocar por três pentes Flamengo (cabem em qualquer bolso e são bons para pentear bigodes e macacos).

O país desmanchando e uma enorme tribo de desocupados acampou no modelo MST na porta de um hotel em Copacabana, chorando porque Lady Gaga recebeu o espírito de Tim Maia e não vai mais se apresentar no Rock in Rio! Teve uma das bonecas inconsoláveis que saiu na defesa: “Não é nada disso, ela teve uma crise de fimose!” E outra, em desespero, gritou de lá: “Deixe de ser burra, mulher, é fibromiaugia, uma doença transmitida pelos gatos”. Aí passa um sacana com um som altíssimo no carro e, com aquela voz fanha e desmunhecada, grita: “Ela não vem mais, gentchi. Não vem mais!”, tripudiando das coleguinhas. Ô raça desunida essa de fãs de celebridades mediúnicas.

E os espíritos zombeteiros estão por aí, como prova o relato de um jantar à sós, em que Lula recebeu a visita de Marisa. Ela chegou naquele copo que enlouquece andando pela mesa, revelando todos os escondidinhos de abóbora do velhaco. Ao final, ainda avisou que Celso Daniel estava na fila para descer e dar uma palavrinha com Nine Fingers. Imediatamente, ele acionou o adévogádo João Bobo para pedir ao supremo de frango que feche todos os centros espíritas do país, para que Marisa, Celso (e todas as testemunhas que foram morridas) e Toninho do PT não façam delação premiada no além para o juiz Sergio Morro de medo.

A defesa vazada do molusco já preparou até um habeas corpus preventivo para Zé Dirceu, que andou dizendo que preferia morrer a virar delator. Afinal, não custa garantir, pois o cabra pode mudar de ideia quando passar para o plano de curso superior por supletivo e virar mal-assombro de língua solta na prova oral do Juízo Final.

Zé Sarney também resolveu apoiar essa medida de extrema unção, pois teve um palpite que Dilson Funaro também pode entrar na fila da mesa branca para falar exatamente do Plano Cruzado, daquela dinheirama escondida e do maranhão que ele guardou nas malas. Afinal, não fica bem para um homem público e notório do porte de Matusalém ter a vida exposta na privada mediúnica e tomar na ilha de Curupu.

Imediatamente, lula lelé, ainda tonto tentando achar os recibos de aluguel que doutor Moro imparcial pediu, e puto porque Marisa não contou onde escondeu esses papéis, ligou para Sir Ney, disse que ele está proibido de morrer e que vai buscar apoio para mumificá-lo em vida na própria cadeira de madeira imortal da Academia Brasileira de Letras tortas. O velho marimbondo disse que topa, desde que não falte óleo de peroba para tirar a barba e graxa Nugget para pintar o cabelo e o bigode. E para fazer barba, cabelo e bigode, pediu para arranjar recursos da conta Amigo para Edison Babão e Jáder Baralho irem junto, com a condição de arrumar graxa acaju.

Das Alagoas, Renan encrenqueiro profissional continuou com cara de paisagem, mas não escondeu o interesse a respeito do processo de transporte das tintas acaju para o outro lado da meia-noite. Afinal, o homem dos bois voadores pretende continuar se fazendo de morto para comer o coveiro da Papuda. Geddel entrou numa crise branda, nada mais do que um panicuzinho na tevê, chorando lágrimas de crocodilo. Mas isso dá e passa.

FADIGA DE MATERIAL

Edson Fachin recomendou à PF realizar uma prisão discreta e sem algemas para Joesley e Saud. O ex-procurador Miller, por ora, está livre da cadeia.

Gostaria de saber por que nossas inselênças togadas, especialmente as dos tribunais “superiores”, têm tanta dificuldade de tratar bandidos como simples bandidos. Que estranha “alergia” é essa a algemas? Por que evitar que esses fulanos sejam mostrados entrando em cana? Que respeito humano merecem esses patifes, que dedicaram vidas inteiras a roubar descaradamente o país e a prejudicar principalmente as pessoas mais necessitadas?

O mínimo que a população roubada, excluída, sacrificada, tripudiada, enganada merece é ver esses vagabundos algemados sendo enfiados na parte traseira de camburões. Exatamente como acontece com qualquer bandido. Exatamente para que essas imagens sejam eternas, enfeitem campanhas eleitorais futuras, mostrem quem esses ordinários realmente são.

Por que a televisão mostra Geddel chorando diante de policiais? Nós choramos antes pelos 34 anos de banditismo dele (carreira de crimes iniciada em 1983, no primeiro cargo público que ocupou), pelos R$ 51 milhões enfiados em malas – e ninguém duvida que isso é apenas parte do butim.

Uso esse exemplo apenas porque é o mais recente. Afinal, Zé Dirceu está solto (pelo Supremo, com voto decisivo de Gilmar Mendes) e cagando goma, como se tivesse moral para chamar alguém de traidor! Afinal, Dilma Rousseff passou anos berrando que era honesta, viajando pelo mundo com despesas nababescas às nossas custas, até finalmente terminar denunciada no processo do Quadrilhão petista e em outros que coroam sua vida medíocre e desonesta.

O patife-mor, Lula da Silva, levou – SÓ DA ODEBRECHT, NO FINAL DO MANDATO, PARA GARANTIR O “FUTURO” – R$ 300 milhões!!! Como bem disse Antonio Palocci, um inquestionável grão-patife petista, um “pacto de sangue”. Obviamente firmado à custa do sangue de muitos brasileiros indefesos, mortos em hospitais moribundos e em ruas infestadas de marginais incontroláveis. Ou vítimas da ignorância endêmica ensinada em escolas de mentira dominadas de ideologia vulgar.

Sarney, Aécio, Renan, Jucá, Collor, Lobão, Jáder, Serra, Cunha, Cabral e que tais passaram a vida posando de bacanas e enchendo as burras com dinheiro sem origem. Michel Temer apodreceu debaixo de denúncias e segue no palácio, cercado de outra parte irremediável da escória, como se não houvesse amanhã!

Depois dessas “amenidades” recorrentes e irritantes escritas em sentenças como essa do Fachin, dos “efeitos laxantes” do Gilmar, ninguém tem o direito de se queixar das teorias de rabinhos presos que começam a ganhar força pelo país. Na verdade, ninguém aguenta mais a forma de agir e a impunidade desses vagabundos da política e suas quadrilhas altamente especializadas. Ninguém aguenta mais esses juízes de tribunais superiores, que são pagos para defender os interesses do país e cada vez mais é o que menos fazem, é bom lembrar.

Está dando fadiga de material. Estamos (a parte que presta do Brasil, que é felizmente a grande maioria) cansados de conviver e sustentar essa corja sem limites. Precisamos punir TODOS e recomeçar a vida. Chega dessa gente ordinária – os bandidos e os que, cúmplices, ainda os defendem! Não precisamos e nem merecemos isso


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa