SIÁ RITA TAPERA

Boanerges era o detetive. Policiava a fazenda. Dava notícias de tudo.

Investigava os desvios de conduta, rastejava e colhia vestígios de algum malfeito. Observador e astuto, era um menino vivo, mesmo com a cara abestada, própria de quem nasce no mato.”

Siá Rita Tapera era uma negra magra e comprida, de seus quarenta e poucos anos, com a pele tostada e engelhada pelo sol dos Cariris; filha do lendário vaqueiro Vicente Matias da Pedra da Bicha, era casada com Zé Tapera e morava na vizinha Santa Catarina, uma enorme fazenda de propriedade do agrônomo Edson Santa Cruz, que a gente nunca chegou a ver e a quem todo mundo chamava de “o Doutor”.

Siá Rita tinha aquele fuá de cabelo enorme que parecia nunca ter visto um pente e trazia sempre um cachimbo de barro a cano comprido num dos cantos da boca; tinha um jeito de falar e contar histórias num sotaque engraçado, o linguajar muito rápido e sempre olhando pro chão.

Usava um pano que lhe cobria os cabelos já começando a embranquecer, o que tornava a sua cabeça ainda maior do que era. Aparecia pelo menos uma vez por semana lá por casa, quando ia lavar a nossa roupa, já que mamãe e nossas irmãs não conseguiam dar conta de tudo.

Pois bem, Nunes, como chamávamos Boanerges, um dia, desconfiou que a cabeça de Siá Rita estava maior do que de costume.

Enquanto alguém a entretinha, ele, por trás, puxava o pano que lhe cobria a cabeça, sem que ela pudesse nada fazer.

E a surpresa foi aquela chuva de sabão pelo chão da nossa cozinha.

É que ela guardara, ali, o sabão – artigo mais ou menos raro, já que além do “sabão da terra” que mamãe gastava horas e horas na beira do fogo pra fabricar, de sebo de gado e “potaça”, como chamávamos a soda cáustica, aquele em barras só era encontrado nas bodegas, e era caro.

Siá Rita fazia da cabeça um depósito para levar o sabão com que lavava os seus “panos”.

É claro que nós todos rimos muito enquanto mamãe, bondosa feito ela, não brigou com Siá Rita, ponderou apenas que, da próxima vez, não precisava esconder o sabão, era só pedir, que ela lhe daria.

Até porque não se podia abrir mão de uma boa lavadeira, num tempo em que a apanha do algodão, abundante naquela época era atividade que ocupava toda mão de obra dali: adultos, crianças e até idosos.

ZÉ GRANDE E AS MELANCIAS DE PADRE SEBASTIÃO

Zé Grande, era um sujeito grandão e largo mas o sobrenome Grande, não era porisso não, era de família, pois ele era irmão de Joãozinho Grande, que vem a ser o pai do nosso Ronaldo Piquinha do Bom Fim de São José do Egito.

Zé Grande foi aquele matuto que nasceu pra ser boêmio e assim viveu até que se finou, na década de oitenta. Deixou, como recompensa para a viúva que carregou  nas costas toda a sua vida boêmia e preguiçosa, uma gorda pensão por um bom emprego que os seus muitos amigos e admiradores lhe arrumaram no Estado.

Zé Grande apesar de ter nascido na pequena vila do Bomfim,  sempre foi um sujeito além do seu tempo, sempre na frente daquela gente matuta de lá.

Quando ainda era meninote, deu na cabeça de roubar umas melancias no roçado de duas velhas tias sovinas, que não davam nada a ninguém. Melancia naquele tempo nos roçados sertanejos era coisa rara, ao contrário de hoje, encontrada aos montes nas feiras da região, vindas da agricultura irrigada.

Bom, a melancia, como outras raridades, as poucas que existiam eram guardadas como jóias de família, nos roçados. Os matutos procuravam escondê-las cobertas por ramas e galhos secos num cuidado tão grande que acabavam chamando  a atenção, de longe a gente já sabia aonde elas estavam. Coisas vindas da inocência daquele povo do mato.

Elas eram também o correio sentimental dos apaixonados, era na casca da melancia que os namorados escreviam num alfabeto grosseiro, com a ponta da faca, as iniciais do nome da amada. Já as matutinhas escreviam, numa caligrafia mais elaborada, os nomes dos namorados, usando a curva do birilo de cabelo.

Mas voltando pra Zé Grande, um dia ele cismou de dar um abalo nas melancias das velhas  tias, que eram guardadas com todo cuidado, para serem presenteadas pro padre Sebastião, quando viesse celebrar missa no povoado. Fora do padre, não davam nenhuma pra nenhum cristão, nem pra remédio.

Zé, para completar o plano sinistro, convidou um molecote bem mais novo do que ele, chamado Edvaldo de Siá Merença, moleque ligeiro e ladino, velho conhecedor dos roçados locais. Numa boca de noite, se juntaram  no pé de um serrote detrás do arruado e foram traçar o plano:

– Edvaldo, tu pulas a cerca pra dentro e eu fico do lado de fora pra pegar o saco. Agora, tem uma coisa: tu só não podes pegar as melancias que tão marcadas com uma cruz, que são as grandes, do padre Sebastião, essas tu nem chegas perto.

Edvaldo pulou a cerca que nem um gato e não demorou muito, já jogou o saco de estopa com as melancias dentro.Zé abriu o saco e tava lá a desgraceira, justamente as maiores, tudo com uma cruz do tamanho do mundo.

– Edvaldo, desgraçado, eu não disse que era pra deixar as melancias da cruz? Tu tais doido? Essas melancias são as melancias  do padre!

E Edvaldo respondeu:

– Zé, eu não sou o cão não! O cão é quem tem medo de cruz!

FRAGMENTOS DE UMA PEQUENA QUASE LENDA SEM PÉ NEM CABEÇA

Num fim de tarde de outubro, um jovem médico caminhava sozinho pelas areias de uma das praias da sua cidade, assobiando a música “Desbravador dos sete mares” – que todo mundo pensa que é de Tim Maia mas é de Lulu Santos -, quando vislumbrou entre espumas, um pacote que era levado e trazido de volta pelas ondas.

O jovem pegou o pacote que tinha o formato de um queijo de coalho e era embalado com fita de empacotamento marrom da marca “SCOTH”. Não teve dúvida do seu conteúdo e já pensava em presenteá-lo a um outro jovem poeta amigo seu que acabara de voltar de uma viagem de turismo etílico a um país da América Latina.

Tomando em mãos o embrulho, pela sua consistência, o jovem logo percebeu que se enganara, não era o que pensava.

Dirigindo-se ao calçadão da avenida, ali sentou-se e com ajuda dos dentes conseguiu rasgar a embalagem que, para sua surpresa, guardava um velho alfarrábio escrito em javanês sânscrito de uma era qualquer AC.

Intelcetual que era, o jovem logo decifrou o conteúdo do alfarrábio que mandava que ele, na companhia de outros famosos amigos, fosse até um hotel numa determinada cidade do interior e, lá chegando, subisse até o topo de uma montanha e lá procurasse um Xamã de uma tribo de índios todos louros descendentes de Vikings, que moravam em casas de taipa com paredes precárias, bebiam água suja e cachaça e fumavam liamba em cachimbos sagrados.

O Xamã, (pra encurtar a história) foi curto e grosso:

“Vocês que eram cinco inseparáveis amigos, depois passaram a ser quatro, agora serão apenas dois, abandonem com a maior brevidade possível dois dos seus amigos, que bebem rum e uísque de qualidade duvidosa.

Larguem todos os bares e mercados públicos, frequentados por eles e voltem imediatamente pra o “CLUB DU VIN” de onde nunca deveriam ter saído”.

Os dois amigos (agora são dois) médicos retornaram, puseram em prática os ensinamento do XAMÃ, evitando o contato com os velhos e sem futuro amigos.

E assim viveram sempre muito felizes daí pra frente, frequentando ambientes, agora de classe.

Enquanto seus velhos ex amigos continuaram na sina que lhes escolheram os seus destinos.

Frequentando bares decadentes, mercados públicos, bebendo rum e uísque de qualidade duvidosa…

A FEIRA DA PRATA

Começava logo depois do açude velho, nas imediações do grupo escolar, e se estendia pela rua de barro entre casas de tijolos batidos, em sua maioria, num tempo em que ninguém sabia o que era calçamento, indo até o Cruzeiro onde ficavam os animais de montaria e bois de carro.

Isso, já pelas quatro e meia, cinco da manhã.

Todo trajeto da vila era ocupado por toscas barracas cobertas por velhas lonas e caixões de pinho, onde eram expostos farinha, feijão e milho.Prata

Nas “miudezas”, eram vendidos produtos mais refinados, como perfumes, brilhantinas, rendas, ri-ris, colchetes, agulhas, linhas, tesouras, pentes e mais uma gama de “brevidades” para atender às necessidades daquela gente do mato.

Já as “miçangas” eram as lonas estendidas no chão, com enxadas, pás, picaretas, foices, bacias de zinco e alumínio, urupemas, “canelas de ema” pra pintar casa e outras bugigangas de grosseiro fabrico.

O espaço para os utensílios de barro era separado, acho que para os matutos não quebrarem com os pés.

Mas o nosso espetáculo começava já na terça-feira, quando os caminhões começavam a chegar da feira do Boi Velho, trazendo as atrações do dia seguinte.

Eram cegos, aleijados, vendedores de remédios com tejus e salamantas dentro de maletas, emboladores, folheteiros e outros anônimos, que acampavam no oitão da igrejinha, onde passavam a noite, para no dia seguinte venderem os seus produtos.

Recordo de nós, meninos curiosos, assistindo à encenação daqueles artistas do povo, no ensaio geral daquele que, para eles, era apenas mais um passo na peleja pela sobrevivência naquela “vida amarga vida”.

Mas, para nós outros, era o novo que estava chegando.

Tinha um sujeito muito magro e pálido que, sempre sentado numa lona no chão, vendia folhetos e remédios pra não sei o quê. Nos acessos de asma que tinha, tirava de um estojo de alumínio, uma seringa de vidro, puxava de dentro de um frasco um líquido que, misturado ao pó de outro frasco redondo, era injetado na veia do seu braço cadavérico, enforcado por um tubo de borracha que ele amarrava, usando os dentes pra ajudar.

Isso, ali no meio da feira, na frente de todo mundo.

Dava medo ver aquela cena, mas ele tinha algo que nos seduzia, que eram os folhetos que lia e as histórias que neles tinham.

Nunca me esqueci de três ceguinhas, que pareciam ser gêmeas e cantavam acompanhadas de ganzás, repetindo gestos sincronizados de cabeça e olhos sem luz.

Pelo menos, era isso que me parecia.

Muitos anos depois, vendo as ceguinhas de Campina Grande, no belíssimo filme A pessoa é para o que nasce, me vem aquela imagem que nunca me saiu da lembrança.

– Seriam elas?

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Os cheiros dos diversos produtos de se comer espalhados ali, misturados com o do fumo, das cordas de sisal queimando nas bancas de fumo pra acender os cigarros, juntando com o som das vozes, o berro de cabras e ovelhas, as conversas, as cantorias daquela gente, tudo formava na nossa cabeça uma monumental confusão que nos acompanhava até à noite, quando o sono invadia o nosso viver naquele lugar silencioso e tranquilo no meio da caatinga onde ficava a nossa casa.

Aos passos dos animais que nos conduziam de volta pra casa, ia se dissipando aos poucos aquele momento mágico da feira.

E como num passe de mágica, tudo aquilo ia ficando para trás.

A paisagem ia mudando de perfil aos passos lentos dos bois do carro que nos conduzia, até que tudo dava lugar à tranquilidade da nossa aldeia.

Tudo ia ficando lentamente para trás.

Até ficar definitivamente.

– Outra feira? Sabe Deus quando, quando o cabelo crescer de novo ou o dente doer novamente.

O DILÚVIO DE CINCOENTA E QUATRO

Eram umas quatro horas da tarde, quando eu, com seis anos de idade, saí da nossa casa na Fazenda Mugiqui, no Cariri paraibano, com o meu irmão Boanerges, para um lugar chamado Lagoa, dentro da nossa propriedade, em busca de uma cabra parida que estava escondendo o cabrito.

Eu tinha seis anos e ele treze.

Depois de procurar sem sucesso pela cabra, meu irmão resolveu voltar pra casa, quando, de um momento pra outro, o céu começou a escurecer e um barulho feito o de um avião se fez presente entre o céu e a terra.

Lembro que, ainda confuso, fui jogado no pescoço do meu irmão que, a essa altura, já partia rumo à nossa moradia em velocidade fenomenal.

Recordo que, morrendo de medo, olhava pra baixo e não via os seus pés tocarem o chão.

Àquela altura do ano, já tínhamos boas chuvas e o marmeleiro fazia uma cortina nas margens das veredas daquele lugar, o que o tornava mais sombrio e pavoroso pra mim.

Depois de longa corrida sem nada me dizer, já olhando o alpendre da nossa casa, com os primeiros pingos descendo violentamente sobre as nossas costas e cabeças, é que vim me dar conta da tempestade que apenas começava a cair.

Entramos em casa, eu ainda tremendo – já havia todo um ambiente preparado para aquele evento: os tonéis e latas nas biqueiras e as imagens de santos e espelhos cobertos com panos nas paredes. Eram os cuidados da minha mãe e das minhas irmãs contra possíveis raios.

Era o que rezava a lenda dali.

A luz dos relâmpagos penetrava pelas frestas do telhado, portas e janelas clareando todos os cômodos da casa quase ininterruptamente e trovões monumentais sacodiam o chão com uma fúria jamais vista por nós pequenos.

Era como se estivéssemos num pequeno barco, enfrentando ondas gigantes dentro da noite escura.

Voltei a ver essa cena, lá na frente, quando vi os meus primeiros filmes no cinema.

Vez por outra, meu pai abria uma brecha da janela que dava pra o nascente e nós, os pequenos, dividíamos o espaço com o seu corpo imenso, na tentativa de ver alguma coisa lá fora, dentro da escuridão da noite.

O clarear dos relâmpagos nos vinha mostrar um imenso tapete branco de espuma que tomava a grande várzea em toda a sua extensão de comprimento e largura, a partir daquela imagem dava para avaliar o quanto era grande aquela chuva.

Sei que, lá pra nove e pouco, os pingos foram se tornando escassos até virarem uma sinfonia descompassada a bater nas latas e tonéis que, cheios, já nos vinham garantir água doce para o nosso consumo.

Recolhidos nas nossas camas, quem disse que o sono vinha?

Era a expectativa dos primeiros raios de sol – com o dia claro, poderíamos melhor contemplar aquele magnífico espetáculo da natureza que era a chuva, o inverno.

Dia clareando, sol ainda entre nuvens, já estávamos em pé na cozinha, em torno do fogão à lenha, em busca das primeiras notícias daquela chuva gigantesca.

Pedro Grande, um negro magro, comprido, de pescoço curto, cabeça pequena e olhos brancos e enormes parecendo ser maiores que o seu rosto, foi o nosso primeiro repórter, passando pra Carminha, minha irmã mais velha, tudo o que tinha visto desde a sua morada, num sítio chamado Pereiros, até a nossa, o Mugiqui, cerca de quase uma légua de distância.

“Foi um diluve, cumade, foi um diluve”, era o que repetia Pedro Grande, soprando um pires de café quente, que apoiava na ponta dos cinco dedos dobrados da mão.

Era um costume dos mais velhos daquela época.

Essa imagem de Pedro Grande ficou na nossa lembrança por muito tempo e vez por outra brincávamos, colocando dois pires brancos sobre os olhos, pra imitar os olhos enormes dele.

“Foi um diluve, foi um diluve.”

E foi mesmo. Logo depois, papai e alguns moradores que chegavam foram traçando um mapa do acontecido.

Foi de meu irmão Pedrinho, imediatamente mais velho, que veio o primeiro sobressalto:

– Cadê os cabritos?

Eram uns três cabritinhos “enjeitados” que criávamos em casa e que, coincidentemente, tinham dormido no baixio por onde teria passado toda aquela água.

Não houve tempo para algum de nós recolhê-los para a segurança do nosso quintal, onde costumavam dormir todas as noites quando voltavam do pasto.

Como já estavam incorporados ao nosso cotidiano, cada era chamado por um nome.

O meu, de estimação, era “Pichete”, de pelagem castanha e ondulada; batizei-o assim por causa do seu pelo crespo, igual ao cabelo dos sararás que andavam ali naquela ribeira.

Partimos eu e Pedrinho na carreira, pra detrás do baldo do nosso açude, onde eles costumavam pastar.

Logo que cruzamos a cerca divisória, já começamos a contemplar o que não queríamos: os dois mais velhos, ainda vivos, estirados na margem da cachoeira provocada pela sangria do açude, sem nenhuma possibilidade de salvação.

Com o coração em pedaços, temendo pelo pior, corri sem rumo, olhando em todas as direções, atrás do meu Pichete.

Não corri muito e lá estava o que restara de sua pequena carcaça: quarto com parte das costelas presa no arame farpado que atravessava a grota da sangria do açude; mais adiante, pude ver a sua cabeça presa ao que restou do seu pescoço, também pendurada no arame farpado da cerca.

Seus olhos ainda brilhavam em contraste com o sol, fitando aquele céu azul que o cobria.

Chorei, chorei muito até ser carinhosamente consolado pela minha mãe, que era um oceano de ternura.

As outras notícias foram chegando ao longo da manhã, o açude de tio Luiz, que era nosso vizinho, havia arrombado e levado com ele todo um enorme plantio de bananeiras que ele levara anos para cultivar.

Entre outras notícias mais ou menos ruins que chegavam, duas foram muito alvissareiras: havia nascido em meio àquela torrente, no Mugiqui, uma linda poltrinha alazã, filha de uma égua do meu irmão Boanerges; na Fazenda Matarina, também nossa vizinha, nascera Tânia, a segunda filha de uma prole de oito que viriam depois, da minha irmã Priscila e do meu cunhado Eugênio. Mas logo viriam os banhos de açude, pescaria de balaio, ramada e landuá.

Era o inverno que chegava e nos fazia esquecer todas as tristezas e desventuras.

A GUERRA DO IRAQUE

Esse “ensaio de rabo” entre dois baitolas, um americano e o outro coreano, tem gerado notícias frequentes no rádio, TV e jornal.

Até por falta de notícias por aqui, já que tudo permanece na mais absoluta “calmaria”.

Geraldo Freire, grande radialista pernambucano, outro dia perguntava aos colegas de bancada se não estavam preocupados com essa guerra EEUU X CORÉIA.

Lembrei de uma matutinha dos Bernardos do Boi Velho, Paraíba, que foi trabalhar em São Paulo e deixou a mãe viúva morando sozinha num sítio perto da rua.

Acabara de estourar a Guerra do Iraque e rádio, jornal e TV só falavam nisso.

A Globo, dia e noite (somente).

A matutinha ouvia aquilo o tempo todo e só pensava na mãe.

Sozinha lá no Boi Velho.

Um dia não aguentou mais e depois de muitas fichas gastas no posto telefônico finalmente conseguiu falar com a mãe.

– Mamãe eu tô aqui preocupada com essa guerra acabando com tudo e a senhora sozinha aí.

A mãe, um poço de tranquilidade, responde.

– Minha filha, eu tando com minha louça lavada, minha casa e meus terreiros varridos e Tupi latindo na minha porta, não tem guerra que me aperreie…

SEU ALEIXINHO

Era um camarada pequenininho, muito observador e sempre com uma resposta engraçada na ponta da língua. Foi pai do poeta, escritor e grande folclorista Aleixo Leite Filho que, juntamente com o poeta Zé de Cazuza, concentram o conhecimento de toda a história da cantoria e dos grandes cantadores da nossa terra.

Seu Aleixinho tinha uma farmácia em Bom Jesus (hoje Tuparetama), e era procurado pelos matutos dali pra prescrever remédios (quase todos homeopáticos) para os mais diversos males. E se o cabra não tivesse o dinheiro na hora, levava mesmo assim o remédio, o que fazia dele um sujeito estimado por todos . Se não fosse preciso o remédio, o doente levava pelo menos um bom conselho.

Na crença do sertanejo, existem alimentos que não podem jamais ser ingeridos juntos. O leite costuma fazer mal, ou até matar, se for ingerido com uma série de alimentos, com batata, por exemplo. Geralmente eram leite e outras comidas mais requintadas que não podiam ser misturadas com nada, o que foi na verdade uma artifício criado pelos senhores de escravos para que eles não consumissem jamais esses alimentos ditos nobres. Batata com feijão, podia; batata com leite, jamais.

Foi o que aconteceu uma vez, quando no balcão de seu Aleixinho chegou uma mulher do sítio com um menino pra lhe fazer uma consulta

– Seu Aleixinho, esse menino tá com catarro e quer comer melancia. Melancia com catarro “ofende” seu Aleixinho ?

– Se ofende ou não, eu não sei. Agora, que é nojento é muito!

Outra vez veio um camarada procurando um determinado remédio:

– Seu Aleixinho, “prá quanto” é esse remédio ?

– É dez mil réis!

– Virge Maria! E porque o mesmo remédio, na farmácia de seu Lourival Nunes, em São José, é quinze mil réis?

– Sabe por que é meu filho?

– Sei não seu Aleixinho!

– É por que Lourival não tem medo de ir pro inferno não. E eu tenho!

O CACHORRO TUPI

 

Uma mulher da família dos Bernardos morava em Ouro Velho e tinha uma filha empregada em São Paulo.  

Tinha também um cachorro chamado Tupi.

Isso foi na época daquela guerra em que os americanos invadiram o Iraque com o pretexto de “salvar” o Golfo Pérsico e foi matéria constante de jornais e televisão onde os Ianques aterrorizavam o mundo com o seu poderio bélico.

A gente ligava a televisão e era aquela bola de fogo, eram os salvadores do mundo matando velhos e crianças no Iraque, pra mostrar quem é que mandava.

A moça coitada longe da mãe era toda preocupação com aquela ameaça iminente, chegando pela televisão.

Um dia falando com a mãe pelo telefone, manifestou toda a sua angústia em relação à segurança física da genitora:

– Ô Mãe, essa guerra todinha aí e a senhora não tem medo não?

A mãe respondeu, do alto da sua matuta sabedoria:

– Ah minha filha, eu estando com as minhas portas trancadas e “Tupi” no meu terreiro, não tem guerra que me assombre!

DÉCIO E O AMOR DE MÃE

José Aderço Flor  (Décio) é figura das mais expressivas do Pajeú das Flores. É o rei da rua da Baixa, do bar do Checo, bar de Tonhão e outros estabelecimentos de respeito em São José do Egito.

Grandão, tem um  coração do seu tamanho, daí ser um campeão de popularidade naquela beirada do Pajeú. Encarregado da limpeza da cidade, executa com extrema precisão as tarefas que lhe são confiadas tornando a cidade uma das mais limpas da região .

Décio trabalha como um boi de carro, mas quando larga o batente, vive toda a sua plenitude etílica. Isso tudo na companhia de Ronaldo Piquinha, Fernando Cadé, Rona Leite, Antônio de Catarina e outros mais ou menos importantes no pedaço.

Rolava outro dia, numa discussão sobre beber ou não beber, atender a pedido de mãe, de mulher,  essas mungangas de cachaceiros. Décio deu o seu  testemunho:

– Mãe me chamou num canto, um dia desses pra me dar uns conselhos sobre cachaça: “Meu filho, deixe de beber  que isso não bota ninguém pra frente não. Faça como seus irmãos, porque você não segue o exemplo deles? Acabe com essa cachaça!” Mãe, a senhora fale com Nelson Gonçalves, Lindomar Castilho e Núbia Lafayette, se eles deixarem de cantar eu deixo de beber. Pronto!

FOGO PAGÔ

FOGO-PAGÔ

Beatriz Aragão foi professorinha primária por toda a sua vida. Aposentada, mora hoje na cidade de São José do Egito e é irmã de Antonio de Catarina, bebe umas caninhas, por que ninguém é de ferro, e sempre gostou de forró, para dar vazão à sua alma  festeira.

Uma vez, chegando num lugarejo chamado Ponta Direita, perto do Bomfim, distrito de São José do Egito, estava havendo  lá um autêntico forró de sala de reboco, com direito a sanfona de fole rasgado e batuque de melê.

O sanfoneiro, um dos piores da região, só conhecia uma música que se intitulava “Fogo Pagô”, grande sucesso do nosso cancioneiro regional, de um compositor chamado Rivaldo Serrano, gravada na época pelo inesquecível Luiz Gonzaga.

A música tratava da trágica morte pelas mãos assassinas de um menino malvado, de um tipo de rolinha que habita os pés-de-serra e que os sertanejos chamam de cascavel porque quando levanta vôo suas asas emitem um barulho igual ao guizo da temível serpente. Chamam também de  Fogo-Pagô, por causa do seu canto triste.

Os versos  diziam mais ou menos  assim:

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”Teve pena da rolinha
que o menino matou
mas depois que torrou a bichinha
e comeu com farinha, gostou…”

O sanfoneiro repetia sempre a mesma coisa pela noite à dentro, quando Beatriz, já impaciente, mandou parar a sanfona;

– Ô, meu amigo, quer dizer que se esse menino não tivesse matado esse passarinho, não ia ter forró aqui hoje ?

O INGLÊS DA VOLTA E OS BRITOS DE PESQUEIRA

Os Britos de Pesqueira, segundo alguns historiadores locais, surgiram todos a partir de uma bela história de amor, vivida por um jovem inglês e uma bela morena sertaneja. Que se encontraram quando aqui aportou lá pelos idos de mil oitocentos e tantos, em busca de aventuras, Richard Breitt, ou Richard Noble.

Veio da Inglaterra com apenas onze anos, escondido num navio comandado pelo tio, de onde havia fugido depois de jogar um tinteiro não cara de um professor na escola em que estudava. E aqui chegando, na primeira oportunidade embarcou para o sertão com um suiço que o abrigara, e foi parar precisamente no povoado de Varas, hoje Jabitacá, na época pertencente ao município de Afogados da Ingazeira. Na fazenda Volta, onde se hospedou, conheceu a linda morena filha do fazendeiro, voltou para o Recife com o suíço e tornou a fugir novamente para o sertão. Casou-se com ela e dali nunca mais saiu, gerando uma prole imensa que vai desde o célebre Adolfo Rosa Meia Noite, que morreu em Malta na Paraíba, debaixo de trinta “bocas de fogo” enfrentando sozinho trinta homens da polícia, até grandes empreendedores que povoaram e desenvolveram o sertão com a implantação de indústrias agrícolas que ficaram famosas em todo o Brasil e até no exterior.

O sobrenome “Breitt” difícil de ser pronunciado pelos nativos, logo virou “Brito” e Richard Breitt, tornou-se Ricardo Brito. Assim surgiram os Britos, todos de pele clara e olhos azuis. Esses galegos herdaram a valentia de um ancestral lendário: Ricardo I, Ricardo Coração de Leão, o rei guerreiro da Inglaterra que se destacou nos campos de batalha na Terra Santa como cruzado. Talvez por isso, os Britos nunca gostaram de levar desaforo pra casa. Aliás, pra lugar nenhum.

Ricardo I que era aliado do rei Filipe Augusto da França, tornou-se seu inimigo por que se recusou a casar-se com uma irmã sua, uma mulher feia chamada Alice. Terminou morrendo de uma flexada que levou no braço por questões de pouca monta.

Apaixonados por cavalos e corridas como manda a tradição inglesa, eram dos Britos os melhores animais que corriam nos “prados” da região e ai do juiz que ousasse desclassificar um cavalo dos Britos, numa competição.

Na década de sessenta, eram numerosos e poderosos numa espécie de aldeia que era a fazenda Ipojuca, atrás da serra de Cimbres, entre Pesqueira e Monteiro na vizinha Paraíba. Em Monteiro os “prados” eram as grandes festas domingueiras e os Britos levavam seus belos animais para competir com os pangarés da região. O público lotava a rua do Matadouro pra ver o espetáculo, que envolvia apostas vultuosas decorrentes do bom lucro que vinha da cultura algodoeira, nessa época já nos seus extertores finais.

O prado era uma festa pra todo mundo, menos para os meninos, que ficavam atrás dos adultos e de lá só traziam cotoveladas e pisaduras nos pés . Não viam nada até por que é um espetáculo muito rápido em função da pouca extensão da pista.

Manoel Bezerra, era o barbeiro oficial da cidade, tinha um salão, no centro, no beco de seu Pedroza Amador, onde além de cortar cabelos era também “queimador de sinal”. O matuto chegava lá com aquele sinal bem feio, ele danava “água forte” e o cabra saía com aquela ferida horrorosa na cara, mas sem o sinal. Se tivesse sorte, escapava.

Um dia chegou um velhinho de um sítio ali perto com um pedido para Manoel: arranjar uma colocação na barbearia para um filho seu que tinha “atenuança” pro serviço de barbeiro e já fazia alguns “caminhos de rato” na cabeça dos cabras de lá .

– Seu Mané, ele fica até de graça, só pra dominar o ofício!

Como havia uma cadeira sobrando no salão, de um colega que tinha feito a “viagem grande”, Manoel aceitou a proposta e Toinho, começou a trabalhar.

Muito aplicado Toinho era também muito inseguro, afinal a clientela era quase toda da rua, coisa mais refinada. Foi não foi, virava pro velho barbeiro para consultar:

– Tá bom seu Manoel?

– Tá sim, tá primeira, respondia o mestre, na maioria das vezes, sem sequer olhar de lado.

Um dia de sábado que antecederia um grande prado no domingo, os Britos começaram a chegar com os seus cavalos e foram tomando a cidade com a sua presença assustadora até por que viravam gigantes juntos dos severininhos nativos. Um deles, com o cabelo batendo nos ombros e a barba atingindo o peito, foi dar lá na barbearia de Manoel, Sentou logo na cadeira de Toinho, abriu a camisa onde deixou aparecer um revólver que mais paracia um canhão .

Toinho assustado com aquele homão ainda perguntou :

– Vai cabelo e barba ?

– Tudo, disse o cliente antes de cair num sono profundo.

O corte ia até bem quando Toinho que já raspara um pedaço do bigode do camarada lembrou-se de consultar Manoel:

– Ele disse bigode também, seu Manoel ?

– Não sei. Pergunte a ele.

Aí a coisa complicou quando Toinho foi acordar o vaqueiro:

– Meu amigo, o bigode também vai, não vai?

O cabra deu um pulo:

– Não toque no meu bigode, você não tá nem doido !

Toinho ainda teve tempo de se virar para Manoel:

– Seu Manoel, segure aí essa tesoura e essa navalha que eu vou ali e volto “jazim”, e saiu levantando poeira no calçamento.

A MORTE SEVERINA…

Esse camarada nasceu e foi criado numa terra de pouca chuva e pouca água nos Cariris Velhos na Paraíba, pobre, analfabeto e “doido” não lhe restou outra opção que não fosse um “galão” que logo e muito cedo empunhou pra ganhar a vida abastecendo a pequena vila da Prata.

Lá pelo começo dos anos sessenta a vila virou cidade e ele continuou com seu galão sobre os ombros vendendo a pouca água que o também pequeno açude represava, labuta que muitas vezes entrava pela noite escura percorrendo a passos curtos um caminho que só ele conhecia e enxergava .

Era comum encontrar a sua pequena e esquelética figura se movendo entre o território das águas e o dos potes, num gingado que lembrava o dos jangadeiros, pra tornar mais leves aquelas duas latas de querosene, presas por correntes de arame a uma vara curva que chamavam de “pau de galão”.

Tempos depois, a cidade cresceu, veio a água encanada e o seu trabalho  perdeu  a razão de ser.

Aí ele parou e foi correr e jogar pedras que nunca acertavam o alvo que eram os moleques que mexiam e zombavam dele.

Alegre divertido e “sem perder a ternura jamais” foi-se embora num caminho sem volta o nosso Severino Doido.

Deixando um vazio em quem desde menino com ele conviveu.

Seu galão, com latas enferrujadas, permanece pendurado em alguma parede da nossa feliz infância naquele lugar.

Que a Mãe Natureza lhe reserve um lugar com águas cristalinas e flores coloridas e perfumadas.

Assim como foi a sua humilde e terna alma…

PEDRO CELESTINO BATISTA (PEDRO BIQUARA)

Boêmio, poeta, humorista e amigo terminal, é o mínimo que se pode dizer desse matuto nascido em Boi velho, que pertencia a Monteiro-PB. Tal qual o personagem Buendía do romance “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques, fez na vida de tudo um pouco sem que nada de material lhe restasse quando partiu.jogo do bicho

Morreu pobre mas cercado pelos muitos amigos que fez ao longo de uma existência onde foi agricultor, comerciante (representante comercial: representava o foto Odeon, que fazia ampliações fotográficas, pelo Cariri paraibano e ribeiras do Pajeú).

Um dia, largou tudo e foi ser cambista, sendo essa a atividade mais duradoura. Isso foi lá pelos idos de 40/50.

Pedro era amigo dos cantadores, promovia cantorias e lhes dava abrigo dentro dos limites da sua pobreza. Era um verdadeiro mecenas. Como as cantorias aconteciam sempre à noite e varavam as madrugadas, era muito comum vê-lo dormindo durante o dia, sobre a “banca de bicho”.

Contam que um dia num beco de São José, ele foi acordado por uma mulher muito feia que foi logo lhe perguntando:

– Meu senhor, é aqui que passa bicho?

Ao que de imediato respondeu:

– É não minha senhora, mas pode passar!

Outra ocasião, uma velhinha chegou na banca e lhe consultou no ouvido, afinal era um bom palpite que não podia ser partilhado com ninguém:

– Seu Pedro, eu sonhei essa noite, que a minha casa tava pegando fogo. O que é que eu jogo seu Pedro?

E Pedro sem pestanejar:

– Jogue água minha senhora!

Bem perto de morrer sofrendo de barriga d’água, na cidade de Monteiro, o poeta Zé de Cazuza foi à sua casa e encontrando na sala a sua esposa perguntou-lhe:

– Como está indo Pedro?

Ela respondeu:

– Vai bem não Zé, ainda ontem o médico tirou sete litros de água da barriga dele!

Pedro, deitado numa cama ali junto chamou Zé:

– Pra você ver meu amigo, naquela seca de trinta e dois eu quase morro de sede, agora estou com uma cacimba dentro do bucho!

ZÉ QUEBRA PANELA

Era um matutinho nascido ali perto de Tabira. Comprido, zarolho e desdentado, feio de quebrar resguardo de raposa, mas portador de uma sagacidade e de uma capacidade de enganar o seu semelhante sem limites, andava bem vestido e calçava sapatos de duas cores, um evidente indicativo de malandragem na época para uns, para outros, e um traço de boemia que distinguia os seres iluminados e raros que ousam ser diferentes. Zé era o nosso João Grilo.

Vendia e comprava tudo, mas gostava mesmo era de negociar com fumo de rolo nas feiras. A banca de fumo, numa feira, era, talvez, a mais simples, uma vez que não tinha sequer uma lona cobrindo; era aquela mesinha feita com velhas tábuas de caixão, acinzentadas pelo sol e pela chuva, com os pregos torcidos e mal pregados, um tronco de pinhão ou um pedaço de corda queimando com o fogo eterno de uma pira sagrada onde os matutos iam acender os cigarros e economizar os fósforos, que, como todo produto industrializado, eram caros; o matricó era pouco usado, pois dava trabalho para acender , o isqueiro nem pensar, viria muitos anos depois.

Mas Zé achava que Deus vivia lhe chamando pra outra missão mais nobre do que envenenar os pulmões daqueles desgraçados que lhe compravam fumo, e se meteu a fazer imagem de santo, ser o novo Aleijadinho daqueles Pajeús, numa inspiração que ele considerava ter vindo direta do céu.

Passou o nosso Roque Santeiro, a viver dentro das caatingas, juntando troncos secos de imburana, com os quais fazia as imagens, que, por faltar-lhe um mínimo de jeito para a coisa, estas saíam todas tronchas e com as feições “labrogeiras”, como dizem os matutos.

Aproveitando o “embalo”, quando a ocasião favorecia, vendia também lascas de tábuas de velhos caixotes de sabão, que jurava serem milagrosas, por terem sido tiradas do caixão do santo “Padim Ciço”. Repetia o gesto dos soldados romanos rateando o manto sagrado, quando negociava mulambos de tecido preto afirmando serem garras miraculosas da batina do “Meu Padrinho”.

Um dia, estava ele na feira, comercializando esses produtos completamente heterogêneos: a banca de fumo e a de santo ali junto, quando chegou uma devota, velhinha com cara de rezadeira e de quem entendia do traçado:

– Meu senhor, eu conheço um magote de santo, já “froquentei” muita novena, igreja, o diabo a quatro. Já paguei muita promessa, mas estou aqui “mei atrapaida”, isto aqui é São José ou Santo Antônio?

Zé, com ar professoral, explicou:

– Olhe, minha senhora, o santo se tiver com o menino no braço direito, é São José, se tiver no braço esquerdo, é Santo Antônio, agora se o bicho tiver um par de chifres, um rabo e um espeto comprido na mão, não chegue nem perto que isso aí é o satanás!

Outra vez, em uma de suas transações, um cabra mais sabido “empurrou-lhe”, literalmente, dois rolos de um fumo muito ruim que ele não conseguia vender de jeito nenhum; o matuto chegava, cheirava, “arripunava”, ia embora e nada de comprar.

Não se deu por vencido, botou tudo num saco e danou-se para a feira de Sertânia, que ficava para outras bandas e onde ninguém lhe conhecia as manhas. Já no adiantado da hora, a feira terminando e nada de comprador. Zé se aperreou e apelou para um recurso no qual ele era mestre: o seu marketing pessoal.

– Óia, pessoá, quem comprar desse meu fumo agora, vai tudim pro Juazeiro comigo, eu levo tudim pra o Juazeiro do meu Padim Ciço!

Não demorou muito, e lá se foram os dois rolos de fumo. Também, quem era besta perder uma promoção daquelas!? Um pedaço aqui, outro ali, e vendeu toda aquela mercadoria de péssima qualidade.

A coisa ia bem, até que chegou uma velhinha apressada:

– Ô, meu senhor, adonde tá o caminhão mode noís ir botando os troços em riba?

Zé pegou na bucha:

– Que caminhão que nada, dona Maria aonde foi que a senhora já viu pagar “premessa” de caminhão? O meu “Padim” não gosta de caminhão chegando lá não!  Nóis vamo tudo é à pé.

 Promessa é promessa!

DO LIVRO “PINTO VELHO DO MONTEIRO UM CANTADOR SEM PARELHA”

livropintodomonteiro

Foi na Prata-PB, cantando no beco da bodega de Mariano Morcego com Lino Pedra Azul, quando Pinto começou esta bela sextilha:

Se o tempo não passasse
E a gente não envelhecesse
Se chegasse aos vinte anos
Não subisse e nem descesse…

Nisso, chegou Pedro Caial – um negro magro, comprido e desengonçado, completamente embriagado, mas grande admirador do cantador.

Caial partiu para lhe dar um abraço, caindo por cima dele, quase derrubando-o.

Alguém da platéia, de pronto, veio acudir e levou Pedro Caial embora; Pinto se peneirou e retomou a sextilha:

Se o tempo não passasse
E a gente não envelhecesse
Se chegasse aos vinte anos
Não subisse e nem descesse
Diz agora o que é que eu faço
Com um “fela da puta” desse!

BIBI ALEXANDRE

Bibi Alexandre é um cabra atarracado, forte e vermelho, que compra e vende bode lá pelas bandas de Ouro Velho, Mundo Novo, Tuparetama, por ali afora…

Gente boa, alegre e brincalhão, nunca gostou muito de briga, mas numa terça-feira , dia de feira no lugar, no meio de uma cachaçada, no bar de Mocinho, lá em Ouro Velho, entrou numa discussão sem motivo aparente e partiu para uma aventura sem futuro nenhum, com o negro Luizão, que tinha o dobro da sua altura, da sua coragem e era afeito às imbuanças do lugar.

Agarraram-se, rolaram pelo chão até que o negão começou a levar nítida vantagem, por ser mais novo e mais comprido e muito, muito mais ligeiro do que Bibi.

E tome cacete, rasteira e Bibi tentando só se defender, recuando e o tapa e a rasteira comendo no centro, o chapéu já tinha voado lá longe.

A platéia limitava-se a assistir, sem interferir e já tinha até torcida, quando Bibi não aguentou mais e “jogou a toalha”.

Não sem antes protestar:

– Ô povo covarde é esse de Boi Velho! Cadê os apartadô de briga daqui?

MIGUEL MARCONDES E AS MATUTINHAS DO BALANÇO

Miguel Marcondes e Luís Homero, Banda Vates e Violas

Uma vez, na década de noventa, eu acabara de chegar na minha cidade da Prata-PB, quando fui convidado por Antenor Dirceu, irmão dos Vates e Violas e meu primo, pra um forró em homenagem a não sei quem no sítio Balanço na Santa Catarina, comunidade rural nossa vizinha, que tem parte das terras no município de Monteiro.

Já na boquinha da noite, “se juntamos” eu Miguel, Antenor e mais uns dois cachaceirinhos e fomos pro samba, lá no pé da serra de Santa Catarina, aonde por trás se vê o clarão da iluminação de Monteiro. Chegamos na casinha do forró aonde o sanfoneiro era um negro magro e imbuanceiro, filho de Vital, um astro da sanfona lá daquelas bandas.

Como a bebida se resumia a uma cachaça” lasca peito” misturada com “crush”, fomos até Monteiro em busca de uma bebidinha mais palatável. Antenor ficou no forró, que não tava lá essas coisas todas. Também pudera, tava apenas começando.

Fomos até Monteiro, paramos num bar, demos de garra de um litro de uísque (Natu Noblilis) e nos esquecemos do Balanço e de Antenor. Lá pelas tantas, alguém lembrou que o nosso companheiro ficara lá esperando a nossa volta pois tínhamos saído somente pra ir buscar a bebida.

Retornamos lá pelas oito da noite e o forró ainda do mesmo jeito que deixamos. Levados por Antenor, eu e Miguel entramos no salão pra dar uma olhada. No meio dos poucos casais dançavam duas matutinhas, uma servindo de par para a outra.

Chamei Miguel:

– Migué, vai apartar aquelas duas pra ver se a gente consegue dançar hoje aqui.

Miguel saiu com aquele jeitão magro, comprido e empenado pra um lado e abordou as meninas:

– Bora dançar com nós dois, disse olhando pra mim que, por ser péssimo dançarino, nunca tive coragem de chamar ninguém pra dançar.

Muito menos de “apartar” duas mulheres.

Era um costume lá pelo sertão, devido ao  fato dos maridos não estarem presentes, as mulheres jamais poderiam dançar com cavalheiros.

Diante da proposta de Miguel a matutinha se virou sem parar a dança  e respondeu:

– Nóis não pode dançar com homem não, nós somos casadas.

E Miguel respondeu:

– Tudo bem, eu quero ver é vocês fazerem menino…

* * *

SIMÃO LEITE, UM CABRA DO PAJEÚ

Simão Leite, era comerciante em Itapetim, casado com Madalena, irmã de Louro, Dimas e Otacílio Batista e pai de Charliton Patriota, ex-secretário de cultura de São José do Egito, gente boa a competente.

Seu Simão, como era conhecido, tinha um caminhão que ele mesmo dirigia carregando as mercadorias que comercializava nas feiras, lá pelo Pajeú .

Naquela época, era comum o motorista do caminhão carregar também passageiros entre uma cidade e outra. Primeiro pela dificuldade de transporte, depois, era mais uma fonte de renda que se agregava ao comércio, que geralmente era do ramo de tecidos.

Seu Simão, era um homem sereno e de boa paz. Isso até que alguém pisasse nos seus calos. E foi o que aconteceu num sábado, já de tardezinha, quando voltava pra Itapetim, depois de uma feira em São José do Egito.

A feira não tinha sido grande coisa, mas pelo menos o caminhão ia lotado, o que já era alguma coisa. O problema é que, no meio dos passageiros, ia um bebinho, não se sabe de onde, nem pra onde ia, nem ele mesmo. Parece que subira no caminhão de seu Simão só pra perturbar, “acanaiar”, como dizem os matutos dali.

Nos solavancos do caminhão, peitava nos passageiros e, o que era pior, foi não foi, batia no teto da cabine fazendo com que o motorista parasse. Todo mundo esperava que aquele imprudente descesse e ele nem aí, só fazia rir, como todo bebinho que se preza.

Se tinha uma coisa que qualquer motorista detestava, era alguém bater na cabine em cima da sua cabeça.

Seu Simão parava e ninguém descia e isso foi uma, duas e, na terceira vez, acabou a paciência. Seu Simão já desceu com um tinta e oito na mão :

– Desça daí de cima, seu bebo féla da puta, que eu quero atirar em você!

E o bebinho, na maior tranquilidade:

– E que revólver safado é esse seu, que num alcança aqui em cima?

UMA PASSADA POR SÃO JOSÉ DO EGITO

Quem chega no Checo’s Bar, em São José, pode até sair liso, mas com fome jamais. A sua cozinha é um primor, o seu cardápio o mais variado e a sua frigideira “multi-uso” atenderia aos mais rigorosos padrões dos mais renomados “chefs” franceses. E com um sem número de pratos (tira-gostos para os mais íntimos).

Ficamos a imaginar, um deses cozinheiros estrangeiros acompanhando a fritura de um preá, uma passarinha, um fígado de alemão, rolinha, piaba, a gota serena, na frigideira do velho Checo’s, que não tem o hábito de trocar o óleo jamais.

“O segredo está na mistura de sabores das iguarias” sentencia o grande “gourmet”, da nobre cozinha pajeuzense.

O cheiro das frituras de Checo atrai os narizes mais requintados da cidade e o preá frito na sua panela, é um dos pratos mais caros . No Checo’s, tudo vira comida. Dizem que outro dia passou por lá um bebinho “em fim de linha” procurando um tira-gosto, “qualquer coisa que dê pra mastigar”.

Qualquer coisa pra essses bebinhos, é qualquer coisa mesmo, com exceção de dois bichos que por uma questão de ética não comem de jeito nenhum “do chão cururu e dos ares urubu”, o resto eles traçam .

– Checo, uma lapada de cana e um tira-gosto, pode ser qualquer coisa – pediu outro dia um bebinho que por ali passava, levado mais pelo vento do que pelas suas canelas.

O dono do estabelecimento sem querer atender ao bebinho, foi implacável :

– Tem mais nada não fulano, comeram tudo !

– Mas não é possível, eu não subi esta ladeira pra perder minha viagem não. Eu só saio daqui quando tomar uma e comer qualquer coisa. Ou bota ou eu não vou mimbora daqui e ainda fico perturbando; pode ir logo chamando a polícia que é um bichinho que eu não tenho medo de jeito nenhum!

Checo, pra evitar escândalos no seu estabelecimento, propôs ao cliente :

– Olha, agora de tiragosto eu só tenho mesmo o pano de café passado no óleo, é pegar ou largar.

No interior ainda se cultiva o hábito de coar o café num saquinho de flanela que é segurado por duas varetinhas de marmeleiro, que servem de cabos evitando que as pessoas se queimem quando do preparo da nossa bebida mais nobre. Com o tempo, esses saquinhos, por mais esvaziados que sejam, vão acumulando resíduo e ficando cada vez mais volumosos adquirindo uma aparência de carne ou coisa parecida.

O bebinho topou na hora. Checo tirou as varetinhas, colocou aquele troço na frigideira, com sal, vinagre e ainda cortou uma cebola de agrado.

O desgraçado comeu, bebeu a cachaça, pagou e desapareceu ladeira a baixo, alegre e feliz desafiando a lei da gravidade.

*

Dia desses estavam no Checo’s Décio com Ronaldo Piquinha e Antonio de Catarina, comemorando o aniversário do nosso confrade Lalá. Conversa vai, conversa vem, a fumaça da cozinha inundando todo o ambiente, Décio chamou o proprietário num canto do bar e lhe fez preocupado uma observação:

– Checo, eu tô vendo a hora dessa tua panela “bater” o motor!

– Tais ficando doido, Décio, por que ?

– Porque eu já ando aqui há muito tempo e nunca vi tu trocando o óleo dela!

JOÃO DUDU E O PORTUGUÊS DA VARZINHA

João Dudu era um velho sertanejo brabo, com um chapéu de abas gigantescas dobradas na fronte, uma pajeuzeira e um rabo de égua em cada lado da cintura, presos por um largo cinturão de sola, vestia sempre um mal cortado terno de brim cáqui, roupa que na época caracterizava os velhos carranças do Sertão.

Recordo o mestre Filizardo Garcez que tinha sido cangaceiro do Doutor Augusto Santa Cruz e já com seus oitenta e tantos anos, morava na vila da Prata. Era um caboclo bastante alto para os padrões sertanejos, magro e de olhos acinzentados, com seu terno cáqui seu punhal na cintura e uma cara dura que botava onça pra correr só com um olhar. Eu que morria de medo dele, ficava abismado quando minha mãe dizia que tinha sido com o mestre Filizardo que aprendera as suas primeiras letras.

Chapéu de couro quebrado na testa uma baixa verde e uma “rabo de égua” pendente na cintura, era essa a indumentária daqueles sertanejos, sempre prontos para enfrentar um iminente inimigo.

O velho João Dudu, morava na fazenda Malhada do Riachão, atualmente município de Tuparetama, um lugar ainda hoje isolado e de acesso penoso.

A fazenda Malhada era vizinha da fazenda Caiçara, que fora comprada por um português.

O português tinha um filho chamado Orlando que arrumou um namoro com Francisquinha filha do velho João Dudu e começou a “alisar” os bancos da fazenda Malhada, contra a vontade do velho fazendeiro: “Eu crio minhas fias pro serviço de casa, não é pra namoro não “!

A rebeldia da moça movida pelo motor da paixão, entretanto, não permitiu que o namoro se acabasse ali. Continuaram a se encontrar escondidos, acobertados pela cumplicidade de Terezinha a irmã mais nova, que trazia e levava bilhetes e recados.

O namoro prosseguia na sua clandestinidade quando tomaram uma decisão radical: fugiriam numa segunda feira às seis horas da tarde. Orlando a estaria esperando atrás da cerca de pau a pique do velho curral que ficava ao lado da casa grande.

Chegado o dia, estava lá na espera Orlando no seu cavalo, pronto para a maior aventura da sua vida.

Seis horas, o sol se pondo, os animais se recolhendo, os vagalumes acendendo as suas lanternas verdes, a noite estendendo o seu escuro véu sobre a caatinga, só Francisquinha não chegava.

Já impaciente Orlando viu se aproximar um vulto de mulher, segurou a emoção, preparou-se e no lusco-fusco percebeu que não era a sua amada e sim a irmã mais nova com a mais nova notícia:

– Orlando, Francisquinha se arrependeu e mandou eu vir aqui te avisar que ela desistiu de fugir, eu vim aqui, só te dizer isso .

– Mas é danado, Terezinha: eu esperei esse tempo todo, fiz despesas, fiz até uma feira que tá aqui na carona, e agora, o que é que eu faço?

– Sei não Orlando!

– Ô Terezinha, pra eu não perder a viagem, tu não queres ir comigo não?

– Eu quero!

– Então sobe na cerca e monta aqui na garupa.

Terezinha montou, fugiram, casaram, tiveram filhos e viveram juntos e felizes por muitos e muitos anos.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa