Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Já falamos desse gênio da caatinga por aqui. Morava em em Brasília, aposentado da construção civil onde, aos sessenta e poucos anos, foi atropelado e morreu longe da sua pátria Ouro Velho. Marcílio foi tudo na vida, inclusive cantador de viola.
Na sua fase de cantador de viola, uma noite cantava na Prata com o grande poeta local Jurandir Tembório. Estavam cantando um mourão. Marcílio começou:
Já passou da meia noite e o galo já cantou …
Nisso foi entrando no recinto um soldado desmantelado e horroroso, chamado Bianor. Bianor era branco, comprido, gordo, sem pescoço e ainda tinha o nariz comprido. A barriga sobrava dentro da túnica caqui surrada. Bianor era um cabra muito feio, parecia um pote de barro cru. Mas era soldado de polícia, era autoridade.
Jurandir continuou o mourão, saudando o recém chegado:
E quem está chegando agora é o soldado Bianor
E Marcílio:
Ele está fazendo a ronda Quem tiver menino esconda Que o papafigo chegou.
Bianor, atingido na sua vaidade e autoridade, deu voz de prisão a todos dois.
(Pra o meu velho amigo, mais amigo do que velho, que partiu em setembro de 2009.Cansou de tanto viver )
Aposentado do Funrural, cambista em Ouro Velho, irmão de Cona e um do poucos ainda vivos dessa tribo tão grandiosa.
Sérgio é uma criação perfeita de Deus. Magro, bem humorado, atualizado, amigo de todo mundo, não sabe o que é doença e remédio, não toma nem pra “difruço”, porque não sabe o que é isso.
Nasceu no sítio Dependência, no município de Monteiro, no ano de mil novecentos e dez, quando o sertão ainda era repleto de onças, e foi no meio delas que começou a sua vida de almocreve, carregando cargas naqueles sertões bravios, sem conhecer fronteiras, e nem o medo que elas impõem. Lampião já comandava grupos armados e impunha o terror a muita gente que habitava o seu vasto domínio. Sérgio, saindo do Boi Velho, transitava sem sobrosso levando cargas para Serra Talhada, Salgueiro e outras localidades, onde o cangaceiro era temido.
– A gente andava meio cismado, pois não conhecia o homem, mas tínhamos certeza de que a briga dele não era com a gente, por isso não tínhamos medo de andar por lá.
Sérgio, que era afilhado do meu tio Cícero Nunes, da fazenda Boa Vista, foi também agricultor. Alcançou as duas guerras mundiais, viu seus amigos do Boi Velho, e matutos como ele, Pedrinho e Doutor partirem para combater os alemães na longínqua Itália e voltarem cobertos pela glória dos vencedores, viu o Padrinho Padre Cícero, viu o homem atingir a lua, e a chegada da televisão colorida, sem espanto nenhum, como até hoje tem vivido. Viu épocas de bons invernos e grandes secas, viu também gente arribar, morrer de fome, de peste, ser enterrada em redes, tudo conforme a vontade de Deus.
Viu tudo isso e muito mais tem pra contar nos seus noventa e três anos, completados em setembro de dois mil e três, com as pernas firmes, olhos enxergando longe e os pés palmilhando a terra que lhe viu nascer.
Padre João Honório era o pároco da freguesia de Monteiro, em meados dos anos cinqüenta. Veio ainda muito jovem de Areia, na Paraíba, e lá foi ficando até o fim dos seus dias, beirando a casa dos oitenta. Era baixinho, gordinho, papudinho e a sua papada aumentava na medida em que ia se zangando com algum malfeito de um ou outro cristão desavisado. Dava um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair, era um fidelíssimo servo de Deus e conduzia os seus mandamentos até aos extremos. Era irredutível, mas, também, honesto caridoso e morreu como deveriam os da sua espécie: pobre, sem patrimônio algum, que não fosse o bem que praticou ao longo do seu apostolado.
O povo gostava dele, mas temia os seus gritos, principalmente as mulheres, se estivessem de vestido decotado, ou ombros nus, na igreja ou em qualquer outro lugar que fosse.
Como a sua paróquia se estendia às outras localidades, era certo que todas as terças-feiras estaria em Boi Velho e nas quartas, na Prata, rezando a missa, dando gritos nos matutos e falando mal de João Agripino, político famoso na Paraíba e seu desafeto de estimação.
Um dia de feira, em Boi Velho, padre João Honório, encontrou Sérgio Bernardo na rua:
– Como vai, Sérgio?
– Bem, graças a Deus, melhor, se não fosse essa seca danada!
E completou:
– O senhor vai bem, não é, Padre Honório?
– Vou como Deus permite.
– Sempre gordinho, não é?
E continuou:
– Padre, o Senhor sabe quais são os únicos bichos que não emagrecem na seca?
– Sei não, Sérgio!
– É padre e jumento!
Quando ainda era jovem, ele e o irmão Antônio Bernardo (Cona) conversavam:
– Sérgio tu sabias que eu vou pedir fulana em casamento? (referia-se a uma prima de ambos, muito feia e solteirona)
Sérgio aconselhou o irmão:
– Pois, Cona, tu cuidas logo em fazer esse pedido senão vão terminar sacudindo ela no mato!
Simão Leite, era comerciante em Itapetim, casado com Madalena, irmã de Louro, Dimas e Otacílio Batista e pai de Charliton Patriota, ex-secretário de cultura de São José do Egito, gente boa a competente.
Seu Simão, como era conhecido, tinha um caminhão que ele mesmo dirigia carregando as mercadorias que comercializava nas feiras, lá pelo Pajeú .
Naquela época, era comum o motorista do caminhão carregar também passageiros entre uma cidade e outra. Primeiro pela dificuldade de transporte, depois, era mais uma fonte de renda que se agregava ao comércio, que geralmente era do ramo de tecidos.
Seu Simão, era um homem sereno e de boa paz. Isso até que alguém pisasse nos seus calos. E foi o que aconteceu num sábado, já de tardezinha, quando voltava pra Itapetim, depois de uma feira em São José do Egito.
A feira não tinha sido grande coisa, mas pelo menos o caminhão ia lotado, o que já era alguma coisa. O problema é que, no meio dos passageiros, ia um bebinho, não se sabe de onde, nem pra onde ia, nem ele mesmo. Parece que subira no caminhão de seu Simão só pra perturbar, “acanaiar”, como dizem os matutos dali.
Nos solavancos do caminhão, peitava nos passageiros e, o que era pior, foi não foi, batia no teto da cabine fazendo com que o motorista parasse. Todo mundo esperava que aquele imprudente descesse e ele nem aí, só fazia rir, como todo bebinho que se preza.
Se tinha uma coisa que qualquer motorista detestava, era alguém bater na cabine em cima da sua cabeça.
Seu Simão parava e ninguém descia e isso foi uma, duas e, na terceira vez, acabou a paciência. Seu Simão já desceu com um tinta e oito na mão :
- Desça daí de cima, seu bebo féla da puta, que eu quero atirar em você!
E o bebinho, na maior tranquilidade:
- E que revólver safado é esse seu, que num alcança aqui em cima?
Eleição, no meu tempo de menino, cheirava a carne, muita carne guisada naqueles panelões em fogões improvisados, no meio da rua da Prata, que era a minha vila ou atrás do mercado público em Monteiro, quando cheguei por lá pra estudar.
Aquilo é que era festa cívica, com os matutos, todos ali irmanados sem coloração paritdária, sem desavenças, rasgando tacos de carne mal cozida, com o arroz duro, da “Inleição”..
Era comida e muita e pra muitos dos que estavam ali representava a única oportunidade de botar um pedaço de carne na boca, naqueles tempos sem bolsa família. Se o voto era vendido ou não, a gente pelo menos não percebia. O importante era a festa, era o ajuntamento daquela gente pura e honesta.
Mas com o tempo, as coisas foram mudando (acho que pra pior), pois a primeira coisa que tiraram da eleição foi a comida, que representava, em última análise, a única vantagem que o eleitor levava junto ao candidato (mala ou não). Hoje, nem camisa o eleitor pode levar do candidato, tá proibido também. Apesar das camisas que vestem os eleitores terem a mesma cor da bandeira do candidato, só faltando mesmo o nome de fariseu. Só que ele não precisa mais comprar, é ele o eleitor, que compra ou pega uma camisa velha com a cor do seu partido e sai na rua matando e morrendo .
Ou tacando checho de pedra no adversário, como aconteceu outro dia, em Ouro Velho, onde um aprendiz de terrorista (desconhecido até agora) escondido numa vereda, lá na Dependência, derrubou com uma tijolada um cabo eleitoral que, montado numa 125, cabalava votos do povo de lá. A sorte do condenado foi o capacete, visto que a tijolada ia alcançá-lo, lá nele, bem no meio da testa. Mas mesmo assim ainda teve chá de quixabeira e inquérito policial pra apurar o inusitado atentado político .
Israel é sobrinho de Chico de Dedês e, por ter nascido na Prata, é candidato a reeleição, para o cargo de vereador. Outro dia, foi fazer uma visita aos seu eleitores da Cabeça do Boi e chegando na casa de uma velhinha, eleitora de outros carnavais, se admirou com a ausência do seu retrato na porta da sua casinha.
- Dona Felíça, o que foi feito do retrato que eu lhe entreguei na rua?
- Ah, seu Israé eu preguei pru dento na porta da cozinha, mode o sol num ficá batendo.
- Dona Feliça eu sou candidato a vereador, não é a agente da SUCAM, não!
Isabel era irmã de Chico de Dedês, era bonita e engraçada como todos os Bernardos.
Isabel foi casada com Simão, filho de seu Batista dos Correios, com quem teve um bocado de filhos.
Simão era soldado de polícia e sustentava aquele horror de gente com o seu pequeno soldo e os esforços de um roçado que cultivava , uma vez que na condição de militar, dispunha de tempo, visto a tranquilidade que sempre reinou na pequena Prata onde moravam.
Vestir, calçar e dar de comer àqueles meninos, todos pequenos, não era tarefa fácil não e enquanto a mãe se desdobrava nas atividades domésticas, o soldado Simão, ostentando a farda da briosa Polícia Militar da Paraíba, “puxava cobra pros pés” no seu roçado.
Era muita boca pra pouca comida.
Numa quarta feira, que era dia de feira na Prata, Simão comprou um quarto de bode na bodega de Branquinho levou pra casa e foi tomar “uma” no bar de Severino Rodrigues, por que ninguém é de ferro.
Passaram os dias e quando foi na segunda feira, Isabel foi reclamar ao marido:
- Simão, a carne acabou e não tem mais nada pra os meninos comerem.
- Mais Isabel, e eu não comprei carne quarta feira?
Isso foi Isabel :
- Simão, tu compraste um quarto de bode, não foi um calendário não!
A televisão, quando chegou lá pelo sertão, bagunçou com a cabeça dos matutos. E, se brincar, até hoje tem gente que não acredita caber tanta gente ali dentro.
Na primeira ida dos americanos à lua, Zé Quelé, ex- cangaceiro e ex-soldado, que era irmão de Quelé do Pajeú, já com quase oitenta anos, e morando na Prata da Paraíba, puxava o punhal pra quem dissesse que aquele foguete que ele vira entre chiados e chuviscos das TVs da época, tinha realmente pousado na lua.
- Tá doido! Como é que um troço grande desse jeito, senta num troço tão pequeno daqueles, dizia se referindo à lua.
Chico de Dedês, em Ouro Velho, não só gostou, como aprovou a televisão. E descobriu coisas novas:
- Num sei como é que esse povo da rua gosta de ver briga de murro, parêia de carro e o pior, matam e morrem por causa de home jogando futebol.
Na verdade, o sertanejo, mudou os seus conceitos, a partir da magia da televisão.
Mas nem sempre foi assim. Enquanto hoje, principalmente nas grades cidades, o assunto que prevalece entre os homens é cem por cento futebol (mulher nem pensar) os velhos sertanejos gostavam mesmo era de falar de inverno de pegas de boi e… de mulher.
- Visse as calça de Maria?
- E eu lá tive essa sorte!
Conversavam os dois matutinhos de Jessier na feira de Itabaiana.
Contam que um bando de sertanejos toda tardinha se reunia num cantinho lá no céu pra falar de inverno e chuva (já que no céu deve ser proibido falar de mulher). Ficavam ali jogando conversa fora até a boquinha da noite, quando se recolhiam.
- Pense num inverno grande foi aquele de 37!
- Foi nada. Aquilo foi lá chuva! Chuva mesmo foi em 28!
Nisso passava um velhinho baixinho branquinho com a barba branca quase arrastando no chão, que nunca parava pra conversar, só dizia:
- Vocês nunca viram chuva!
Ficava todo mundo puto, por que ele nunca conversava com ninguém, só passava, entrava na conversa dos outros e ia embora, até que um dia um deles perguntou pra um dos mais velhos:
- Me diz uma coisa, quem é esse velho abusado que não quer conversa com ninguém e fica dizendo que nós nunca vimos inverno?
Há algum tempo atrás, quando o futebol era pouco divulgado no interior, num lugarzinho lá nos cafundós da Paraíba, já perto do Ceará, acho que foi em Monte Orebe, um sujeito chamado João de Luca convenceu dois cantadores a fazer uma cantoria na sua casa que ficava detrás do campo de futebol desse lugar, já quase no meio do mato.
Diante da promessa do dono da casa de que iria muita gente, um dos cantadores, que tinha um dinheirinho, começou a divulgar o evento numa difusora local .
Uma semana de anúncios e chegou o sábado dia da grande cantoria. Os dois cantadores chegaram na casa de João de Luca de tarde, logo cedo pra conferir o público presente. Não tinha ninguém a não ser o dono da casa , que era bem pequenininha.
Um deles , entrou na sala e viu que só tinha um cancão preso numa gaiola. Olhou pro terreiro e tava lá um jumento amarrado num pé de pereiro e devidamente “armado”.
Pronto, o mote tava ali.
E o cantador que era dos bons glosou:
Eu tive uma idéia maluca e divulguei até no rádio de cantar detrás do estádio na casa de João de Luca um cancão numa arapuca ele pegou pra nós três e um jumento pedrês subindo o pau e descendo como quem fica dizendo: “olha aqui pro cu de vocês!”
José Balduíno nasceu num lugar chamado Junco, numa dessas inserções que a Paraíba faz no Rio Grande do Norte, nos tornando ainda mais irmãos na seca, na fome e na pobreza, mas sempre irmãos.
Mudou-se pra São José do Egito ainda muito moço quando adotou e foi adotado pela cidade .
Zé dirigiu na vida tudo que se movesse sobre rodas. Foi caminhoneiro de muitas estradas por este “gigante pela própria natureza” e depois, se achando velho para a estrada, largou o caminhão e passou pra veículos menores.
Quem não conheceu Zé Melé certamente deixou de conhecer um pedaço de São José do Egito.
A sua irreverência e a maneira totalmente descomprometida com que sempre conduziu a sua atribulada vida, fizeram dele um sujeito diferente. E o curioso é que as suas estripulias não chegaram a causar grandes estragos a ninguém, sequer a ele mesmo.
Depois de enfrentar muitas paradas, acabou perdendo para uma traiçoeira parada cardíaca aos cincoenta e poucos anos de vida, deixando um vazio abissal nas conversas da rua da Baixa e do Elite, seus pontos prediletos na cidade.
Para Zé, se a vida foi breve, teve toda ela a intensidade e a marca do seu caráter e da sua ousadia .
Seu André de Brito, dos Britos de Pesqueira, na década de sessenta era proprietário de uma égua que ganhava todas as corridas na região. Era uma estrela de categoria internacional e costuma desmoralizar os bons cavalos de prado por onde passava, aumentando o patrimônio do seu dono. Seu André cuidava dela como de uma filha.
Uma vez, passando, por Afogados da Ingazeira e Tabira, onde “alisou” os matutos de lá, procurava um caminhão que levasse o animal até a Fazenda Ipojuca onde morava, quando apareceu Zé Melé que propôs levar a valiosa mercadoria no seus velho caminhão.
Depois de dar todas as garantias de que o animal chegaria são e salvo , “pode deixar seu André eu tô acostumado a transportar cavalo de raça, pode ir simbora tranquilo que sua égua chega lá”. Acertaram o frete, ele improvisou um engradado com pendões de agave, chamou um ajudante e caiu na estrada rumo à fazenda Ipojuca que ficava perto de Arcoverde .
A viagem corria tranquila, quando entrando na cidade de Arcoverde, o caminhão caiu num buraco, a égua espantou-se, quebrou o engradado, pulou no chão e, como não era o seu dia, caiu debaixo dos pneus traseiros do velho Ford.
Zé, devido a velocidade, só parou a alguns metros, quando desceu para avaliar o desmantelo.
A eguinha tava lá “contando as estrelas” com os cascos, tinha acabado de morrer ali de maneira banal, o animal de corridas mais famoso dos últimos tempos e o mimo de seu André .
Zé desceu do caminhão já cercado de curiosos e não se abalou nem um pouco. Pelo contrário. Se dirigiu a um circo que estava acampado nas imediações e já foi negociar as carnes nobres da campeã com o dono do estabelecimento para alimentar os famintos leões que já haviam devorado todos os gatos da cidade.
O seu companheiro de empreitada, a essa altura, conhecedor da valentia do dono do animal e medindo a intensidade da tragédia, não conseguia parar de tremer as pernas quando recebeu de Zé o seguinte comando:
- Fulano, te prepara aí que nós vamos agora direto pra a Ipojuca, eu não vou perder este frete não! Acidente é acidente!
O ajudante, descendo do caminhão como quem vai fugindo de um tiroteio, ainda lhe respondeu:
- Vou contigo não Zé, Tu vais sozinho, eu volto pra casa no “dedinho”, vou até a pé. Mas na Ipojuca eu não vou contigo não!.
Zé Melé não desistiu e subiu a serra em direção à grande fazenda e lá chegando foi logo reconhecido pelo velho fazendeiro que deu ordens a seus cabras armados de rifles para receber a tão esperada encomenda .
Zé desceu do caminhão e foi logo dando a notícia com a naturalidade que lhe era peculiar:
- Seu André, eu não tenho uma notícia muito boa pra lhe dar não !
- Foi minha égua?
- Foi sim senhor! Ela caiu do caminhão …
- Não dê mais uma palavra, eu só quero ver agora a placa traseira desse caminhão. Desapareça antes que eu mude de idéia.
Zé entrou na cabine, engatou uma “primeira”, passou pelos cabras dos rifles e sumiu no giro do Pajeú que o “rabo era um v”.
Rafael é um matuto imenso, branco, de mãos enormes, gestos largos e uns oitenta e tantos janeiros já vividos. Semi-analfabeto, deixou a região dos Velhos Cariris na Paraíba, onde nasceu, e veio morar no Pajeú, no município de São José do Egito, na década de sessenta. E nunca mais saiu de lá .
Tangido pela aridez da sua região, quando chegou ainda moço, naquela beirada do Pajeú, revelou-se um líder nato e logo abraçou a causa socialista, seguindo fielmente os ensinamentos do seu mestre, o doutor Arraes, que também muito lhe estimava e respeitava.
Os estudantes gostavam dele que era presença em todos os comícios da região, onde fazia discursos inflamados em torno das idéias do seu líder, sendo ovacionado pela platéia.
Fora disso era um sujeito disposto para o pesado do eito, um simples agricultor que cuidava da sua labuta de subsistência com coragem e determinação .
Encontrei-o uma vez na década de noventa, em direção à feira de São José, tangendo uma carroça de burro com uma imensa carga de carvão.
Rafael, nasceu perto de São João do Cariri, na Paraíba, onde morava com uma dezena de irmãos num lugar esquecido por Deus, com uma das mais baixas taxas de precipitação pluviométrica do país, onde só existem pequenos arbustos e uma imensidão de terra nua, sem nada .
Contam que uma vez, ele, que era o mais velho e arrimo de família, já que não tinha mais pai, saiu com destino a Coxixila, também na Paraíba, onde ficou por mais de um mês no serviço de cassaco de rodagem.
Sem notícias de casa, quando voltou encontrou a mãe morta e um dilema entre os irmãos: como fazer o enterro, se o único pau de enterrar defunto, aquele que cruzava os punhos da rede que era levada nos ombros de almas caridosas, cumprindo os desígnios da Severina morte, tinha ido acudir outro morto bem longe dali ?.
Fizeram as contas e o pau não chegaria com menos de três dias.
Tristes e preocupados, os irmãos mais novos esperavam do mais velho, uma solução.
Uma irmã, lhe perguntou: E agora Rafael o que é que nóis faz pra enterrar mãe?
E ele, entre triste e decidido :
- É… só tem um jeito pessoá, nóis “retaia” mãe, “sarga” ela e quando o pau chegar, nóis enterra ela!
Zé Quebra Panela era um matutinho nascido ali perto de Tabira. Comprido, zarolho e desdentado, feio de quebrar resguardo de raposa, mas portador de uma sagacidade e de uma capacidade de enganar o seu semelhante sem limites.
Andava bem vestido, calçava sapatos de duas cores, um evidente indicativo de malandragem na época pra uns, pra outros, um traço de boemia que distinguia os seres iluminados e raros que ousam ser diferentes. De nome José, que chamávamos de Zé, ele era o nosso João Grilo.
Zé vendia e comprava tudo, mas gostava mesmo era de negociar com fumo de rolo nas feiras. A sua banca de fumo era talvez a mais mal montada, uma vez que não tinha sequer uma lona cobrindo. Era aquela mesinha feita com velhas tábuas de caixão acinzentadas pelo sol e pela chuva, com os pregos torcidos e mal pregados, de um lado um tronco de pinhão, ou um pedaço de corda queimando como o fogo eterno de uma pira sagrada, onde os matutos iam acender os cigarros e economizar os fósforos que, como todo produto industrializado, eram caros. O matricó era pouco usado pois dava trabalho pra acender, o isqueiro nem pensar, viria muitos anos depois.
Mas Zé achava que Deus vivia lhe chamando pra outra missão mais nobre do que envenenar os pulmões daqueles desgraçados que lhe compravam fumo.
Então se meteu a fazer imagem de santo, talvez com a intenção de ser o novo Aleijadinho daqueles Pajeús, numa inspiração que ele considerava ter vindo direta do céu. Passou o nosso Roque Santeiro a viver dentro das caatingas, juntando troncos secos de imburana, com os quais praticava a sua arte. Mas, por faltar-lhe um mínimo de trejeito artístico pra coisa, as imagens sagradas saíam todas tronchas e com as feições “labrogeiras”, como dizem os matutos.
Aproveitando o “embalo” e a inspiração das coisas santas, quando a ocasião favorecia, vendia também lascas de tábuas de velhos caixotes de sabão, que jurava serem milagrosas por terem sido tiradas do caixão do santo “Padim Ciço”. Repetia o gesto dos soldados romanos que ratearam o manto sagrado, quando negociava mulambos de tecido preto afirmando serem garras miraculosas da batina do “Meu Padrinho”.
Um dia estava ele na feira, comercializando esses produtos absolutamente heterogêneos, banca de fumo e banca de santo, quando chegou uma devota velhinha, com cara de rezadeira, beata com ar de quem entendia de santos, por força da devoção.
- Meu senhor, eu conheço um magote de santo, já “froquentei” muita novena, igreja, tudo que o senhor pode imaginar. Já paguei muita promessa, mas tou aqui “mei atrapaiada”. Me responda uma coisa: Isto aqui é São José ou é Santo Antônio?
Zé, com ar professoral, explicou:
- Olhe, minha senhora, o santo se estiver com o menino no braço direito é São José. Se estiver com o menino no braço esquerdo, é Santo Antônio. Agora, se o bicho tiver um par de chifres, um rabo e um espeto comprido na mão, não chegue nem perto, que isso aí é o satanás!
Paulo é o irmão mais novo de Chico de Dedês de Ouro Velho, na Paraíba. Não ouve lá essas coisas toda, daí o apelido.
Uma noite tava lá em Ouro Velho, num carteado, quando sua mãe chegou à porta do cassino pedindo a ele dez contos pra comprar açúcar. Pediu uma vez, duas e Paulo nem aí, fazendo que não estava ouvindo. Nisso, um dos companheiros o cutucou, pois ele permanecia de cabeça baixa, ignorando a presença da mãe.
— Paulo, tua mãe, tá aí, querendo falar contigo!
— O que é que a senhora quer mãe?
— Quero vinte. Vinte contos pra comprar açúcar!
E ele:
— Inda agora era dez!
Outro dia estava jogando sinuca em Ouro Velho quando chegou uma pessoa apressada chamando por ele.
Perguntou ao portador:
— O que é que tu queres?
— Mandaram te chamar, lá na tua casa, que uma cobra mordeu a tua sogra!
Quem chega no Checo’s Bar, em São José, pode até sair liso, mas com fome jamais. A sua cozinha é um primor, o seu cardápio o mais variado e a sua frigideira “multi-uso” atenderia aos mais rigorosos padrões dos mais renomados “chefs” franceses. E com um sem número de pratos (tira-gostos para os mais íntimos).
Ficamos a imaginar, um deses cozinheiros estrangeiros acompanhando a fritura de um preá, uma passarinha, um fígado de alemão, rolinha, piaba, a gota serena, na frigideira do velho Checo’s, que não tem o hábito de trocar o óleo jamais.
“O segredo está na mistura de sabores das iguarias” sentencia o grande “gourmet”, da nobre cozinha pajeuzense.
O cheiro das frituras de Checo atrai os narizes mais requintados da cidade e o preá frito na sua panela, é um dos pratos mais caros . No Checo’s, tudo vira comida. Dizem que outro dia passou por lá um bebinho “em fim de linha” procurando um tira-gosto, “qualquer coisa que dê pra mastigar”.
Qualquer coisa pra essses bebinhos, é qualquer coisa mesmo, com exceção de dois bichos que por uma questão de ética não comem de jeito nenhum “do chão cururu e dos ares urubu”, o resto eles traçam .
- Checo, uma lapada de cana e um tira-gosto, pode ser qualquer coisa – pediu outro dia um bebinho que por ali passava, levado mais pelo vento do que pelas suas canelas.
O dono do estabelecimento sem querer atender ao bebinho, foi implacável :
- Tem mais nada não fulano, comeram tudo !
- Mas não é possível, eu não subi esta ladeira pra perder minha viagem não. Eu só saio daqui quando tomar uma e comer qualquer coisa. Ou bota ou eu não vou mimbora daqui e ainda fico perturbando; pode ir logo chamando a polícia que é um bichinho que eu não tenho medo de jeito nenhum!
Checo, pra evitar escândalos no seu estabelecimento, propôs ao cliente :
- Olha, agora de tiragosto eu só tenho mesmo o pano de café passado no óleo, é pegar ou largar.
No interior ainda se cultiva o hábito de coar o café num saquinho de flanela que é segurado por duas varetinhas de marmeleiro, que servem de cabos evitando que as pessoas se queimem quando do preparo da nossa bebida mais nobre. Com o tempo, esses saquinhos, por mais esvaziados que sejam, vão acumulando resíduo e ficando cada vez mais volumosos adquirindo uma aparência de carne ou coisa parecida.
O bebinho topou na hora. Checo tirou as varetinhas, colocou aquele troço na frigideira, com sal, vinagre e ainda cortou uma cebola de agrado.
O desgraçado comeu, bebeu a cachaça, pagou e desapareceu ladeira a baixo, alegre e feliz desafiando a lei da gravidade.
*
Dia desses estavam no Checo’s Décio com Ronaldo Piquinha e Antonio de Catarina, comemorando o aniversário do nosso confrade Lalá. Conversa vai, conversa vem, a fumaça da cozinha inundando todo o ambiente, Décio chamou o proprietário num canto do bar e lhe fez preocupado uma observação:
- Checo, eu tô vendo a hora dessa tua panela “bater” o motor!
- Tais ficando doido, Décio, por que ?
- Porque eu já ando aqui há muito tempo e nunca vi tu trocando o óleo dela!
A cidade de Monteiro na Paraíba, na década de sessenta vivia cheia de caminhões e caminhoneiros, a maioria transportando cargas do algodão, que ainda era abundante naquela época.
Lembro que nos dias de semana, as calçadas que rodeavam o mercado público ficavam forradas de enormes lonas e sobre elas os remendadores que com suas agulhas, linhas grossas, e macetinhos de madeira remendavam, com paciência e extrema habilidade os buracos nelas causados pelas longas caminhadas. Era mais uma profissão que girava em torno da cultura do algodão.
Zacarias Policarpo, pai de Batista, (ainda hoje caminhoneiro) e Luciene, meus primeiros vizinhos em Monteiro, ainda hoje, meus amigos, Joaquim Muniz, Jeronimo, João de Iaiá, Zé Tempero, eram velhos navegadores da estrada.
Orestes, Carretão Pedro Sola, Antonio Grosso e Mário Cabeção eram os “chapeados” ou “ganhadores”, gigantes estivadores que com seus chapéus esquisitos, feitos com metades de velhas bolas de couro, carregavam sem cansaço nenhum a frota de caminhões que partiam todos os dias para os mais diferentes destinos do nosso imenso país.
Mário Cabeção era ganhador. Era um “mulato sarará” de grossos lábios, sempre estourados pelo sol escaldante e o clima seco do Cariri. Na parte superior da boca somente os dois caninos, os outros , perdidos talvez nas muitas brigas em que se metia quando bebia. Enfrentava e botava pra correr dois, três ou até mais soldados de polícia, nos cabarés da cidade, ia preso mas deixava no local um considerável estrago. Dizem que, após cada contenda, era soldado pra todo lado à procura de capacetes e cassetetes perdidos durante o conflito, tudo isso, numa época em que essas questões eram resolvidas com cassetetes de um lado e murros de outro, armas de fogo, jamais.
Mário foi também um dos melhores zagueiros do time local. A lembrança que tenho dele é de quando já não havia mais algodão e caminhões a carregar. Decadente, bêbado e descalço, era apenas um Sansão dominado pelos Filisteus, perambulando pelos bares da cidade na mais absoluta pobreza, porém sem pedir nada a ninguém. Através da sua rota e desabotoada camisa, dava pra ver a musculatura ainda rija do seu peito de gigante.
Não sei quando morreu, nem se seus poucos amigos estavam lá junto, tomando a “saideira”. Certamente embarcou num daqueles enterros da “caridade”, sem choro nem flores e apenas uma vela de chama mortiça a derramar sebo derretido nas táboas do seu pobre esquife. Seguramente nunca vai ter o seu nome colocado numa rua da cidade que o viu nascer.
Mário, como todos os outros “ganhadores”, além da atividade do dia, ainda ia fazer “bico” à noite, carregando fretes dos passageiros que chegavam nos ônibus da “Realeza”. Com o apurado, ia beber e pagar cachaça com preá, rolinha ou arribaçã, para os amigos, na barracas de Pedrinho Crispim, Metódio, Luzia, Nazinho Fogueteiro e tantas outras espalhadas naquela ribeira do Paraíba.
Contam que uma noite, desceu do ônibus a Madre Superiora do Colégio das Lurdinas, tendo como bagagem um enorme baú contendo só Deus sabe o que (troços de freira, talvez). Mário que estava no seu plantão, jogou o baú na cabaça e tocou pro colégio que ficava a uns quatrocentos metros de distância. Com o pescoço quase enterrado nos ombros e as pernas bambas pela carga descomunal, tocou para o seu destino acompanhando o comboio das irmãs que foram buscar a Madre.
Chegando no colégio, botou a carga no chão e ficou esperando o pagamento do frete, quando uma freirinha veio fechar o portão do estabelecimento.
- Deus lhe pague seu Mário, agredeceu a irmãzinha, já empurrando o pesado portão.
Mário deu a última cartada:
- Apois irmã, diga pelo menos onde é o escritório desse homem pra eu ir receber o meu frete!
Viajar ao lado de Chico Pedrosa é viajar pelo Brasil através da sua ambulante alma.
As suas muitas e engraçadas histórias, fazem com que os quilômetros passem impercepeptíveis e as distâncias diminuam.
Não é por acaso que divido com ele, sempre que posso, viagens que faço pelas “terras do sem fim” da Paraíba do Norte, berço meu e dele também.
Chico é um cidadão do mundo, (pelo menos do mundo do Nordeste do Brasil, do nosso mundo) .
A profissão de vendedor, e hoje de poeta popular, lhe levaram para os quatro cantos desse país que ele conhece como poucos.
Outro dia, íamos eu e ele pra Limoeiro, quando eu puxei o assunto de trem, um tema que me fascina até por que nunca entrei num deles.
- Chico, tu já deves ter andado muito de trem. Alguma história?
- Tem sim. Uma vez eu peguei o trem em Sertânia, com destino a Serra Talhada, eu moço e bem parecido, notei que uma moça até jeitosa olhava pra mim no banco do lado. Me levantei, encostei e puxei conversa. “- Tá vindo de onde?”
- Do Recife, vou pra Mirandiba. Tô vindo do hospital.
- Algum parente doente?
- Não, era eu “merma”.
- Doente de quê?
- Mordida de cachorro doido, tô tomando injeção no bucho.
Milonga, era um dos doidinhos imprescindíveis de São José do Egito. Vivia catando coisinhas no chão, dormia na rua e ninguém (nem ele mesmo) lhe sabia o nome, ou de onde veio. Solícito, não era homem para negar um mandado a ninguém, por isso, um lhe dava a roupa, outro a comida e assim ia tocando a sua vida, debaixo da benevolência e da imensa piedade de Deus. Até que um dia Deus deixou ele pra lá.
Foi encontrado morto com uma pedrada na cabeça, sabe Deus pela mão de quem e qual a causa, uma vez que era manso e bom.
Otacílio era um rapaz ainda muito novo, quando morreu de um “sucesso”. Uma “Lazarina” de cano fino, uma medida de chumbo seis, outra de pólvora “Elefante”, duas buchas de corda bem vaquetadas, uma espoleta “Pica-pau” e um garrancho que bateu na queixa da espingarda, que era “muito doce” (espingarda doce é aquela que dispara com muita facilidade e que a gente conduz com muito cuidado, nos braços, assim como quem carrega roupa engomada), promoveram o tiro que lhe varou a “titela”.
Como ninguém tinha coragem de dar a notícia ao seu avô, bastante idoso e morando a uma certa distância, Milonga se encarregou de ser o emissário de tão triste novidade para o coitado, que era louco pelo neto, a quem chamava de Tercílio por que não conseguia pronunciar-lhe o nome corretamente.
Lá vai Milonga cumprir a sua missão macabra… Encontra o velhinho, sentado numa espreguiçadeira, na sala da casinha onde morava, conversando com as suas “apragatas”, assuntando coisas da vida, sem importância.
Milonga, sem “arrodeios”, botou a cabeça na janela e foi logo anunciando a tragédia:
– Seu Chiquinho, sabe Tercílio, seu neto?
– Sim, o que foi que houve?
– Morreu! Morreu dum tiro de espingarda, lá nele, bem na caixa dos peitos!
O pobre não se conteve:
– Ah meu Deus, meu neto morreu e eu não quero mais viver, eu quero ir junto com ele! Eu quero ir pro céu com ele!
Milonga, que a tudo assistia impassível, foi providencial:
– Apois “côide” logo, seu Chiquinho, que já tão fechando o caixão!
Os Beateles foram, sem dúvida, o maior fenômeno musical do século que passou. Com suas melodias e letras ricas em poesia, estabeleceram uma nova ordem musical no planeta, e acabaram chegando no Sertão, através das milagrosas ondas do rádio.
E ficaram também famosos por lá, principalmente depois que um desocupado inventou que eles iam gravar a nossa eterna “Asa Branca”.
Perdeu quem esperou para ouvir. Eles nunca gravaram o nosso hino e John Lennon, o seu líder maior, acabou tombando pela fúria assassina de um psicopata americano, “que perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber, foi mais um covarde a se esconder diante de um novo mundo”, como diria Milton Nascimento na sua bela Canção do Novo Mundo.
Pra nós todos, foi uma tristeza sem igual e a notícia correu de boca em boca por todo o Sertão, quando chegou na feira de Sertânia, onde dois matutos conversavam:
- Tu subesse que mataram John Lennon?
- Não; e quem diabo era John Lennon?
- Era dos “Brito”…
- Dos Brito de Arcoverde? Apois pode se preparar que vai morrer mais gente: isso não vai ficar assim não!
Os Grossos ficam num entroncamento da estrada que liga São José do Egito a Tuparetama, em Pernambuco, e também conduz às cidade de Ouro Velho e Prata, na Paraíba e, dependendo da disposição do viajante, a Paris, Nova Iorque e assim por diante.
É um arruadozinho que não chega a ter vinte casas, com um campo de futebol onde o gramado são seixos, um grupo escolar e a bodega de Raimundo, um caboclo comprido que só a estrada do Juazeiro e que jamais vestiu uma camisa.
Dizem que botou uma, pra batizar uma vez, um menino.
Raimundo é um matuto calmo, tranquilo e valente que não “abre” nem prum trem carregado de pólvora com um doido fumando em cima.
O trecho de estrada que liga São José aos Grossos é uma sucessão de curvas que mais parece uma serpente e é todo ornamentado de cruzes dos muitos acidentes que a estrada provoca.
Seu Vicente morava ali perto dos Grossos num sitiozinho pequeno onde passava os dias em meio a gerimuns, espigas de milho e uma “situação” de meio quadro de palma, que cortava para as duas vaquinhas de leite que criava com dificuldade, dependendo exclusivamente das chuvas, que são raras, e às vezes levam meses pra chegar .
Seu Vicente quase não saía e quase não tinha amigos, visto que todo o seu tempo era para a sua criação e a sua plantação. Ia nas segundas feiras até Tuparetama fazer a sua feira e conversar com os poucos conhecidos.
Uma vez ia com destino a Tuparetama e um caminhão que passava deu uma chapuletada num bebinho montado numa bicicleta. Não foi coisa de morte e o desgraçado só levou uns sarrabulhos, ficou meio amassado mas escapou.
Seu Vicente viu tudo.
O delegado novato resolveu abrir inquérito e enviar ao juiz da comarca de Tuparetama e lá vai seu Vicente depor na audiência, diante de um juiz novinho que tinha idade pra ser o seu neto e um nó na gravata, na táboa do queixo, do tamanho de um ferro de engomar:
-Seu nome?
-Vicente de tal!
-Sua profissão?
-Trabaio na agricultura.
-Viu o acidente?
- A barruada? Vi sim senhor!
E tome pergunta e seu Vicente agoniado pensando nos bichos com sede no sítio e tome pergunta. O juiz dispensou seu Vicente ele correu pro sítio, pensando que tudo tinha acabado alí. Quem disse? Um mês depois, lá vem outra intimação e lá vai o coitado depor outra vez, agora já era um novo e desconhecido juiz.
No outro mês, a mesma coisa:
-Seu nome!
-Vicente de tal!
-Profissão?
-Testemunha!
-Como testemunha?
Seu Vicente “pegou ar”:
-Doutor, o senhor é o décimo juiz que me faz essas perguntas e o meu gadinho que tá la no sítio com fome e sede não quer saber disso não. Vamo fazê assim: O senhor me prenda logo que é mió pois todo dia eu vou tá aqui pra depor na sua frente!
Quando cheguei em Monteiro, lá pelo anos sessenta, conheci Severino Elói, que tinha um caminhão velho e somente um braço. Usava um paletó surrado, com uma das mangas penduradas, como se não se conformasse com a falta do braço perdido.
Era casado, se não me engano, com Raimunda. Depois se mudou pra Rio da Barra e lá colocou um hotelzinho na beira da pista que liga Sertânia a Iguaracy, onde ostentava uma bateria de panelas de alumínio sempre limpas e polidas, o que era, na época, um cartão de visitas que recomendava qualquer restaurante.
O meu velho e saudoso amigo Wilson Galdino, sempre que nos encontrávamos na Bodega do Cearense aqui no Recife, me contava inesquecíveis histórias da nossa saudosa Monteiro. Uma delas, que Wilson deixou comigo e nunca esqueci foi essa de Severino Elói.
Num tempo em que o trajeto entre as duas cidades, era todo de barro, ele saiu de Monteiro com destino a Arcoverde, com uma carga de carvão. Não era tarefa pra qualquer caminhão não, principalmente pra o de Severino que se arrastava penosamente cumprindo aquela longa travessia de marmeleiro, caatinga branca e favela.
Num trecho ladeiroso, entre Monteiro e Sertânia, era preciso dar toda a carga no acelerador numa descida, pra garantir a subida da outra ladeira, em função da limitação da potência da velha máquina, que por estar sempre com os pneus na lona, só podia viajar no período da tarde quando o sol era mais brando e maneirava mais no estouro dos velhos pneus.
Pois bem, numa dessas tardes, lá vai ele descendo a fatídica ladeira, dando tudo que podia em velocidade para subir a outra que lhe esperava. Só não contava com uma pedra no meio do caminho, que estourou logo um dos pneus. No impacto, aquela patinha que ficava no capuz “voou” também e uma de suas asas metálicas se incumbiu de rasgar o outro pneu.
Severino, desceu, cubou a situação e olhou pra o relógio, a tarde já indo embora, o sol dando adeus a todos. O pior é que a viagem estava apenas começando e havia um longo percurso a ser vencido.
Severino desceu da boléia, olhou pro caminhão todo inclinado para um lado, tirou o sapato e, com a ponta do pé, começou a cutucar umas locas de pedras que havia no leito da estrada.
O ajudante que a tudo assistia imaginou:
– Meu Deus, o homem dessa vez endoidou! Severino, o que é que tu estás procurando.
MOISÉS MARIANO E JOÃO SALVADOR – DOIS CABRAS TRABALHADORES
Moravam entre o céu e a terra, um perto da Prata e o outro perto de Ouro Velho, no Cariri paraibano. Eram compadres, bons companheiros e tinham um ponto em comum: detestavam tudo o que lhes parecesse trabalho. Nunca deram um dia de serviço pra homem nenhum e viviam debaixo das graças da divina providência.
Os meses de março e abril pra eles era uma tortura, pois era o tempo em que chegavam alvissareiras, as primeiras chuvas do inverno no sertão e isso representava trabalho.
E, como trabalho, não era com eles, sempre se encontravam pra boas conversas, geralmente à boquinha da noite, pra não pegar mormaço. Era no alpendre da casa de Moisés que se sentavam num banco de aroeira e a conversa entrava noite à dentro sem pressa pra acabar.
- Cumpade João, aquilo é “relampo” ou vagalume?
- É vagalume cumpade, pode ficar sossegado.
- E esses “pipoco” é trovão?
- É não cumpade é foguetão, deve ter nascido menino por aí.
Quando finalmente chegava o imponderável inverno, o velho Moisés mandava chamar o compadre, selavam os burrinhos e iam pras bandas do Pajeú, pra casa de parentes, onde não tinham a menor das obrigações.
Passado o inverno, era grande a curiosidade dos dois quando encontravam alguém que chegasse do lugar onde estavam:
- E aí, já quebraram o milho todo?
- Já apanharam a safra de algodão?
Só depois que obtinham todas essas respostas, é que retornavam felizes ao Velho Cariri.
Moisés Mariano morreu com 98 anos e João Salvador com 97.
Bibi Alexandre é um cabra atarracado, forte e vermelho, que compra e vende bode lá pelas bandas de Ouro Velho, Mundo Novo, Tuparetama, por ali afora…
Gente boa, alegre e brincalhão, nunca gostou muito de briga, mas numa terça–feira , dia de feira no lugar, no meio de uma cachaçada, no bar de Mocinho, lá em Ouro Velho, entrou numa discussão sem motivo aparente e partiu para uma aventura sem futuro nenhum, com o negro Luizão, que tinha o dobro da sua altura, da sua coragem e era afeito às imbuanças do lugar.
Agarraram-se, rolaram pelo chão até que o negão começou a levar nítida vantagem, por ser mais novo e mais comprido e muito, muito mais ligeiro do que Bibi.
E tome cacete, rasteira e Bibi tentando só se defender, recuando e o tapa e a rasteira comendo no centro, o chapéu já tinha voado lá longe.
A platéia limitava-se a assistir, sem interferir e já tinha até torcida, quando Bibi não aguentou mais e “jogou a toalha”.
Não sem antes protestar:
– Ô povo covarde é esse de Boi Velho! Cadê os apartadô de briga daqui?
Recorro às lembranças remotas para falar do Marcolino que conheci de perto. Isso foi lá pelos anos cincoenta, quando eu andava pela casa dos dez anos. O lugar era o Mugiqui, a fazenda do meu pai, onde a minha irmã mais velha, que era muito festeira, organizava “sambas” debaixo de um grande cajueiro que ficava entre a nossa casa e a de um morador, um negão chamado Duão.
Acho que foi por ali que eu e meu companheiro Agenor, ambos da mesma idade, vimos pela primeira vez o poeta, que na época ainda trabalhava na agricultura com o seu pai e irmãos. Nos fins de semana, ele acompanhava o sanfoneiro Pedro Bentinho, cantando e tocando pandeiro. As músicas, não eram necessariamente xotes e baiões mas também sambas que já eram sucessos nos poucos rádios existentes na região.
O poeta, alto e um tanto desleixado no andar, mantinha uma vasta cabeleira, que lembrava o grande Castro Alves. A sua voz era profunda e suave. E, já mesmo sem sabermos ao certo quem era, impressionava a dois matutinhos que na casa de Duão escutavam abestalhados aqueles artistas do povo, que entre uma e outra “lapada” de cachaça, falavam de coisas que não entendíamos. Certamente eram “conversas sem protocolo e de fácil vocabulário”, como iria compor mais tarde o já famoso Zé Marcolino.
Desse dia de festa restou pra nós, eu e Agenor , filho de um morador do Mugiqui e meu fiel escudeiro, uma história, no mínimo inusitada.
Cansados de ouvir as conversas na casa de Duão, eu e meu amigo decidimos voltar pro cajueiro e esperar a festa que começaria logo mais no início da tarde daquele sábado. Chegando no local da festa, já encontramos tudo rigorosamente arrumado, uma mesa forrada, com os instrumentos em cima, o botequim com todas as bebidas e copos , o chão varrido para a dança e uma detalhe: ninguém no local, todos na casa do negão que ficava a algumas braças de distância, certamente participando daquele momento tão raro, na companhia daqueles artistas.
Sozinhos no cajueiro, o que fizemos eu e o meu companheiro Agenor? Fomos, é claro, mexer nos instrumentos. Agenor deu de garra do pandeiro e eu peguei o cavaquinho, tudo ali, inclusive até a sanfona dando a maior sopa. Brabos feito índios, nós dois nascidos naquelas brenhas, na verdade nunca tínhamos visto instrumentos tão de perto.
Desajeitado e com coordenação motora precária, segurei o cavaquinho contra o peito e quando, inventei de tocar, a palheta escorregou pra dentro do instrumento. Bem que eu ainda tentei retirar aquela coisinha pequena, mas meus dedos não iam além das duras cordas de aço, bem esticadas e afinadas. Desesperado, só me vinha na cabeça uma idéia, não haveria mais festa e a culpa seria toda minha. Passei o cavaquinho, pra Agenor que ainda tentou inutilmente e tomou uma sábia decisão:
- Vamo embora pra casa.
Saímos dali, “voando”, perdemos a grande festa, dei uma desculpa qualquer pra minha mãe, por voltar tão cedo e o pior: deixamos de juntar as tampinhas de cerveja e guaraná, como também as carteiras vazias de cigarros com que fazíamos notas de dinheiro.
Voltamos lá no dia seguinte, onde só os vestígios da grande festa nos aguardava. As tampinhas e as “notas” de cigarro, já tinham sido colhidas por outros meninos com mais sorte que nós.
Vim reencontrar Marcolino algum tempo na depois, já cantarolando as suas primeiras composições, encostado em algum balcão de cedro das bodegas que freqüentava na Prata. A música “Rolinha branca“, já era sucesso nas noites geladas do lugar, na voz de Toinho Cavalo Velho, o seu maior fã na cidade.
Marcolino foi, sem dúvida, um dos poetas e compositores que mais se arrimou de elementos da natureza na composição do seu belo e pungente trabalho musical. Cacimba Nova, Serrote Agudo, Matuto Aperreado, Marimbondo e Pássaro Carão, são, dentre outras muitas, exemplos desse aproveitamento. Em Pássaro Carão, a frase “ainda ontem eu vi, pólvora no chão”, me deixou curioso: que pólvora seria essa de que falava o poeta?
Não houve tempo pra desfazer a dúvida com o autor do verso. Primeiro foram os desencontros, depois a sua partida antes do combinado.
Conversando um dia com o pesquisador recifense Urbano Lima, admirador e amigo de Marcolino, este me explicou que a tal pólvora eram mosquitinhos microscópicos, que se juntam em milhares, ora no chão, ora em pequenas poças dágua que as primeiras chuvas do inverno deixam na caatinga e que constituem no imaginário da matutada, uma das “experiências” de bom e promissor inverno.
Pouco “escolado”, como a maioria da sua geração, o poeta se valia com assombrosa espontaneidade desses recursos para tecer a sua duradoura e fabulosa obra poética.
Saudade imprudente, foi um hino sertanejo, cristalizado no voz do gigante Dominguinhos. Sala de reboco, na voz de Gonzaga, vive ainda hoje na boca do povo, com a sua magnífica simplicidade.
Ouso dizer que no período da chamada “Jovem Guarda”, foram as canções de Marcolino que mantiveram a resistência de Gonzaga e o seu baião, contra aquele que, na minha visão, foi um movimento idiota, composto por versões imbecis de músicas estrangeiras e alguns simpatizantes igualmente idiotas , entre os quais estava eu. A Prata, minha e de Marcolino, sofreu as metamorfoses, decorrentes de um processo natural de decomposição da cultura de raiz, que a TV ajudou a disseminar.
As bodegas não sobreviveram, as serenatas nas suas noites geladas são hoje notas perdidas na memória de uns poucos. Toinho Cavalo Velho, o primeiro intérprete do poeta, largou a serenata pela palavra do Senhor, trocou o velho e fanhoso violão por uma bíblia que conduz debaixo do braço, pelas mesmas ruas em que cantava “Rolinha Branca“.
Tudo isso foi depois que o poeta partiu.
Hordas dos chamados “agroboys”, invadiram os sertões e litorais com aberrações sonoras que priorizam a pornografia e o desrespeito pela mulher, comportamento que na visão do poeta Ésio Rafael já se enquadra, também, numa questão de saúde pública.
Felizmente, Marcolino foi poupado de testemunhar tamanha aberração. Melhor pra ele que, lá do céu, nos ampara com o legado que nos deixou aqui na terra. Se alguém descesse um dia de “lá de cima”, certamente confirmaria essa passagem:
Marcolino chega no céu, bota a sua maleta no chão, pendura o paletó num armador, se vira pro Criador e diz:
João Dudu era um velho sertanejo brabo, com um chapéu de abas gigantescas dobradas na fronte, uma pajeuzeira e um rabo de égua em cada lado da cintura, presos por um largo cinturão de sola, vestia sempre um mal cortado terno de brim cáqui, roupa que na época caracterizava os velhos carranças do Sertão.
Recordo o mestre Filizardo Garcez que tinha sido cangaceiro do Doutor Augusto Santa Cruz e já com seus oitenta e tantos anos, morava na vila da Prata. Era um caboclo bastante alto para os padrões sertanejos, magro e de olhos acinzentados, com seu terno cáqui seu punhal na cintura e uma cara dura que botava onça pra correr só com um olhar. Eu que morria de medo dele, ficava abismado quando minha mãe dizia que tinha sido com o mestre Filizardo que aprendera as suas primeiras letras.
Chapéu de couro quebrado na testa uma baixa verde e uma “rabo de égua” pendente na cintura, era essa a indumentária daqueles sertanejos, sempre prontos para enfrentar um iminente inimigo.
O velho João Dudu, morava na fazenda Malhada do Riachão, atualmente município de Tuparetama, um lugar ainda hoje isolado e de acesso penoso.
A fazenda Malhada era vizinha da fazenda Caiçara, que fora comprada por um português.
O português tinha um filho chamado Orlando que arrumou um namoro com Francisquinha filha do velho João Dudu e começou a “alisar” os bancos da fazenda Malhada, contra a vontade do velho fazendeiro: “Eu crio minhas fias pro serviço de casa, não é pra namoro não “!
A rebeldia da moça movida pelo motor da paixão, entretanto, não permitiu que o namoro se acabasse ali. Continuaram a se encontrar escondidos, acobertados pela cumplicidade de Terezinha a irmã mais nova, que trazia e levava bilhetes e recados.
O namoro prosseguia na sua clandestinidade quando tomaram uma decisão radical: fugiriam numa segunda feira às seis horas da tarde. Orlando a estaria esperando atrás da cerca de pau a pique do velho curral que ficava ao lado da casa grande.
Chegado o dia, estava lá na espera Orlando no seu cavalo, pronto para a maior aventura da sua vida.
Seis horas, o sol se pondo, os animais se recolhendo, os vagalumes acendendo as suas lanternas verdes, a noite estendendo o seu escuro véu sobre a caatinga, só Francisquinha não chegava.
Já impaciente Orlando viu se aproximar um vulto de mulher, segurou a emoção, preparou-se e no lusco-fusco percebeu que não era a sua amada e sim a irmã mais nova com a mais nova notícia:
- Orlando, Francisquinha se arrependeu e mandou eu vir aqui te avisar que ela desistiu de fugir, eu vim aqui, só te dizer isso .
- Mas é danado, Terezinha: eu esperei esse tempo todo, fiz despesas, fiz até uma feira que tá aqui na carona, e agora, o que é que eu faço?
- Sei não Orlando!
- Ô Terezinha, pra eu não perder a viagem, tu não queres ir comigo não?
- Eu quero!
- Então sobe na cerca e monta aqui na garupa.
Terezinha montou, fugiram, casaram, tiveram filhos e viveram juntos e felizes por muitos e muitos anos.
“Amar mulheres,várias
Cidades só uma,Recife” (Lêdo Ivo)
Depois de quarenta anos por aqui escapando de morrer de susto de bala e vício, venho dar razão ao poeta Lêdo Ivo.
E digo ainda: quem vive no Recife e ama essa cidade não pode deixá-la jamais.
Principalmente se for de carro.
Foi isso que tentei fazer na quarta-feira passada quando, depois de penar por mais de duas horas na Abdias de Carvalho com destino a Limoeiro (pra ver o forró de lá com Fábio Junho), desisti de ir pelo TIP e segui o rumo de Camaragibe e São Lourenço, cidades da Copa do Mundo de Ricardo Teixeira, pra quem não sabe.
Pela propaganda, imaginava eu ver por ali já uma tuia de metrô, viaduto e aeroporto.
Mas o que ví foi um engarrafamento que me tomou mais de uma hora pra percorrer quinze míseros quilômetros.
O fato é que um trajeto que se percorre em uma hora e pouco (Recife-Limoeiro), me tomou mais de três horas.
Num engarrafamento, além da insegurança, medo de assalto e claustrofobia a gente tem também a oportunidade de refletir sobre outras questões.
Como por exemplo: além de Lêdo Ivo, não seriam também o prefeito João da Costa do Marfim e o governador Dudu Fields, também apaixonados pelo Recife e estariam evitando que o povo largasse a cidade, deixando ela sem ninguém?
Pois a paixão cega os olhos, como diria o outro Campos se não me engano, no livro Lanterna de Popa.
O fato é que pra ver Fábio Junho qualquer sacrifício é justificado.
Até ficar gastando a gasolina e o disco de embreagem na sua Dvintezinha numa fila sem começo,meio ou fim.
” Amar mulheres,várias
Cidades só uma,Recife”.
Ou ainda: “Recife tem encantos mil
é o coração do meu Brasil
é um paraíso tropical
e tem um acervo cultural
O curioso é que ainda existe gente feito eu que ama o Recife e, apesar de tudo, gosta de viver nessa merda.
Espedito é hoje um caboclo magro que só cachorro de fateira e mirradinho no auge dos seus setenta e poucos anos vividos com muita imbuança, cachaça e pescaria de traíras nos açudes da região, com permissão ou não dos donos.
Mas é um sujeito de bom coração que sabe valorizar os amigos .
Nasceu no pé da Serra da Matarina, filho de moradores que vieram do tempo de Cícero Nunes um dos primeiros donos da fazenda do mesmo nome.
Cresceu naquela ribeira vizinha da Santa Catarina uma outra fazenda hoje transformada em assentamento do INCRA.
Na sua trajetória de cachaça, na então pequena Prata, bateu, apanhou, foi preso e sempre solto pelo dono da Matarina ou os filhos dele a quem viu nascer.
Contam que um dia, já com várias entradas na delegacia local, entrou em desentendimento com outro cachaceirinho lá da Serra do Louro perto da Santa Catarina, meteu a faca no desafeto, um negro imbuanceiro e tocador de oito baixos.
Dessa vez foi pra valer, foram duas facadas certeiras no bucho do negro que quase lhe mandavam pro bico do urubu.
E o nêgo Espedito cheio de cana, foi preso sem a mínima resistência e no flagrante.
Um sargento novato, responsável pelo policiamento local e que já vinha de olho na sua folha corrida decretou :
- Vai dormir hoje por aqui e de amanhã pra depois, nós “desce” com ele pra o Serrotão.
O Serrotão, que os matutos da região chamam de “Pintada” (talvez por ser pintada de branco), era e ainda é, uma terrível masmorra situada no bairro homônimo em Campina Grande pra onde muita gente da região já foi mandada e nunca mais voltou.
Perdemos ontem, na fazenda São Miguel aonde morava, junto da Vila de Nazaré no município de Serra Talhada, o grande sertanejo Luiz de Cazuza .
Pra quem não sabe, Luiz de Cazuza foi uma figura lendária dos tempos dos sertões bravios de Lampião e do cangaço e ainda parente muito próximo de Virgulino (até por que ali todo mundo é parente).
Fazendeiro e sanfoneiro dos bons, morreu tranquilamente de tanto viver depois de ter criado uma ruma de filhos dentre eles o escritor José Alves Sobrinho, membro da UBE e meu dileto amigo.
A bela fazenda São Miguel ainda hoje é um celeiro de bons sanfoneiros sendo o seu astro maior o cantor e forrozeiro Assizão que lá nasceu e foi criado pelo pessoal de Luiz de Cazuza.
Figura suave, magérrimo e gente boa, morreu talvez de um descuido dos meus amigos da São Miguel, que não fizeram o que lhes pedi:
Entreter ele pra gente comemorar os cento e um anos, festa para a qual eu já havia sido convidado agora no mês de setembro.
Convivi em São José do Egito com o poeta Canção que tinha uma aparência séria, uma cara meio fechada e guardava dentro de si um tesouro de bondade e candura, adorava a Deus e às coisas da natureza, venerava a Virgem Maria e amava ao seu próximo, mais do que a si mesmo
Quem com ele conviveu, sabe disso.
Convivi também com o poeta Jó Patriota, nascido em Itapetim e vivendo também em São José, cuja pobreza e humildade eram antes de tudo, um desígnio da natureza que ele procurava cumprir com resignação, por isso morreu na mais absoluta paz, como morrem os justos.
Convivo ainda hoje, com o poeta Dedé de Tabira que conheci na década de oitenta ainda com cara de menino, declamando desconfiado, feito menino de escola, a sua perfeita e profunda poesia.
Finalmente, convivi com o poeta Alberto da Cunha Melo no Recife, desde o fim dos anos oitenta, e com ele dividi por muito tempo noites impagáveis, na companhia de Urariano Mota e Abdias Moura, no saudoso “Bets” Bar, na beira–mar da praia de Casa Caiada, onde víamos a lua nascer aos nossos pés em noites de poesias e histórias sem fim dessas que só nos contam os boêmios e a noite.
Alberto era um sujeito mal amanhado que parecia ter acabado de descer de um caminhão, vindo daqueles interiores do sertão.
A sua aparência confrontava-se com o sua refinadíssima cultura e a sua poesia singular.
No resto, era um matuto, igual a Canção, igual a Jó Patriota, igual a Dedé, sem a mínima habilidade pra competir ou sequer falar mal de alguém, por isso eu costumava dizer que ele era o terceiro Cancão, Jó seria o segundo, Dedé, pela ordem, o quarto.
Maciel Correia, um exímio observador da alma humana, copiava os trejeitos de Alberto e o imitava com perfeição, quando ele inventava de cantar, com a sua voz horrorosa e desentoada, uma ciranda tenebrosa cujos versos diziam assim:
”Um caminhão carregado de areia
Deu uma virada feia na ladeira do pavão
Acorda João pra fazer as catacumbas
Morreram sete calungas debaixo do caminhão”
Alberto repetia esse refrão compulsivamente, a gente morria de rir e ele nem aí.
Uma vez, levei-o a São José e lá ficamos na companhia de Jó e Antônio de Catarina, onde rolou muita cachaça e histórias pra guardar. Uma delas de que nunca me esqueci, foi o fato de Alberto já meio “chamuscado”, como de resto todos nós, e também pela pouca intimidade que sempre teve com automóveis, já tarde da noite quando íamos deixar Jó em casa, Alberto inoportunamente colocou a mão pra fora segurando a coluna da porta do automóvel quando Jó, sem culpa nenhuma bateu a porta, machucando feio a sua mão .
Alberto gemia sem parar, Jó procurava desesperadamente acudí-lo segurando a sua mão enquanto a nós outros só nos restava sorrir com a cena.
No outro dia de manhãzinha ouvi quando alguém batia na porta da casa de Antônio de Catarina onde dormíamos na mais profunda ressaca.
Do primeiro andar onde eu estava, ouvi o diálogo entre Jó e Antônio:
-Antônio : -Quem é ?
-É Jó .
-E que que tu queres numa hora dessas, Jó?
- Vim pedir perdão a Alberto.
Assim era Jó, assim era também Alberto.
* * *
Por não gostar de dinheiro (acho que nunca botou mais de cem reais no bolso), nunca se preocupou com o seu futuro. Enfim, com a velhice que não viveu, posto que, com o conhecimento que possuía poderia, através de um bom concurso público, ter assegurado uma vida mais confortável que não lhe deixasse com a angústia que carregava ultimamente.
Poderia ter ido ver-lhe nessa derradeira vez, mas faltou-me a necessária coragem, combalido que fiquei, com perda irreparável que também sofri, pelo mesmo mal que o vitimou.
Preferi guardar a imagem do nosso último encontro, que já não era mais a mesma que sempre tive comigo .
Já não havia aquele “verniz das estrelas” nos seus olhos .
Também já não estava lá mais aquele sorriso de menino que ficou cristalizado na antiga foto.
(Pra Rael de Simão e Valmir de Vamberto, gente da Prata).
Chegou lá pela Prata na Paraíba, há uns cinco anos atrás trazido e vindo só Deus sabe de onde e por quem.
Era um negro roliço de mocotó grosso, bucho empinado e um indicativo de gente andada:
Um chapéu preto com aba pequena e uma peninha de pavão do lado esquerdo.
Numa velha Belina marrom, ano setenta e pouco com um alto falante de difusora no teto e um microfone enrolado num farrapo de flanela vermelha onde gritava os milagres do produtos que vendia .
Em latas vazias de vick vaporube, espoleta picapau e até de graxa de sapato usadas que comprava por aí afora, colocava porções de uma pomada milagrosa, que dizia ser ser um peixe da Amazônia chamado piraquê o famoso peixe elétrico.
Pomada milagrosa que curava de mal do monte, passando por reumatismo e até espinhela caída.
Mas na verdade era sebo de gado que adquiria nos açougues da região, derretia e botava dentro das latas.
O nego era jeitoso pra enganar os matutos.
Espalhava as latas em cima de um pano florado no capuz da velha Belina, misturadas com fogos de artifíco que também comercializava e com a difusora e muita saliva ia “lascando’ os pobres matutos doentes ou não.
Mas o negão tinha outros planos pra ampliação do negócio.
Foi quando ele encontrou lá no mercado da Prata, um galego magro e sarará feio de quebrar resguardo de raposa, chamado Galêgo de Inaça Calú, tava ali o homem certo.
Depois de alguns “pingos de solda” os dois acertaram uma nova empreitada que essa sim ia render uma boa grana pros dois.
Aí o negão mandou embora um aleijado e um anão que lhe faziam companhia e começou a investir no galego pra sua nova empreitada.
Mas não podia ser lá na cidade do galego por que poderia despertar alguma desconfiança.
Foram estrear a novidade na vizinha Sumé, na feira de lá.
O negócio foi o seguinte, o negão comprou um pedaço ainda sangrando de fígado de boi, e botou num lado do queixo do galego depois enrolou com uma tira de pano branco fino cobrindo toda a cara do desgraçado, só deixando os olhos, os buracos da venta e a boca de fora.
Até as orelhas ficaravam cobertas.
Tinha que ficar também aparecendo um pedaço de figado preto pra impressionar os circunstantes simulando uma doença muito feia na cara daquele coitado vivente.
Quando o sangue do fígado começava a coagular, o negão tacava uma colher de óleo de salada pra poder escorrer e empapar o pano.
Aí o galego entrava na Belina ficava sentado todo tronxo, com as duas mãos apoiadas nos joelhos, no que restava do banco traseiro já ocupado com o butijão de gás que servia de combustível pro carro e o negão, com no microfone fazia o resto.
“Venha” ver meus amigos o sofrimento desse rapaz e ajudem em nome de Deus.
Nos intervalos ainda achava pouco e botava no ar a música “Noite traiçoeira” com o padre Marcelo Rossi.
Aí chovia dinheiro dentro da Belina.
Os matutos que morrem de medo de doença feia, perguntavam :
É “cance”?
O negão tampava com a mão o microfone e respondia baixinho:
É.
Algumas mulheres chegavam mais perto:
E isso pega moço ?
Diz o povo que sim .
Vige Maria, vem olhar fulana!
Outras não tinham coragem de se aproximar e jogavam o dinheiro de longe.
E o caixa dos dois engordando de feira em feira, de cidade em cidade.
Até que um dia o galego contestou a partilha das ofertas e partiram pra briga com ameaça de contar tudo pra polícia.
Monteiro acaba de ficar mais pobre , com a morte nesta segunda 24 de janeiro, do bodegueiro Mariano Bezerra da Silva, último irmão vivo de Pinto do Monteiro.
Mariano, morreu aos 96 anos , vividos com muita dignidade , trabalho e honradez.
Assim falei dele no livro PINTO VELHO DO MONTEIRO , UM CANTADOR SEM PARELHA, que teve a sua primeira edição no ano de 2002:
Severino Lourenço da Silva Pinto foi o mais velho de uma família de oito filhos, cujos destaques foram ele e o irmão Heleno, também um grande e respeitado cantador, restando ainda vivos Filomena, com 94 anos, e Mariano, com 92.
Mariano Bezerra da Silva ou “Seu Mariano da Bodega” é estabelecido com uma mercearia em Monteiro há exatos sessenta anos . Aos 92 anos, é um ativo comerciante, estando, ainda, à frente do negócio que ajudou a criar e formar os seus filhos.
Seu Mariano, um homem trabalhador, digno e generoso, sempre dispensou a Pinto um cuidado especial, apesar de mais novo 19 anos. Sempre o ajudou e, ainda, fala dele de maneira fraterna e carinhosa.
Pouco antes e após a morte do poeta, alguns jornais do Recife publicaram matérias dando conta de que Pinto estivera vivendo e morrera na miséria e abandonado numa casa em Monteiro. O que aqui, a bem da verdade, provoca uma pronta correção. Quem o conheceu de perto, e com ele conviveu, tem conhecimento de que Pinto, embora tenha tido – em função do seu extraordinário talento – condições de amealhar bens, nunca o fez. Sempre repartia tudo com todos, conhecidos ou não. “Não deixou bens a inventariar”, assim consta no seu atestado de óbito.
Quando em Sertânia, já praticamente cego e imobilizado em decorrência de uma fratura na perna esquerda (seqüela de uma “traquinagem”, assim, por ele – a mim – descrita: “Foi no ano de 1930, na rua Duque de Caxias no Recife, eu estava num 1º andar do “Cabaré das Polacas”, houve um incêndio e eu pulei do alto e quebrei a perna!…”), mais uma vez foi acolhido pelo irmão que, pacientemente, cuidou dele, não deixando que lhe faltasse o essencial, até o fim.
A casa em que foi abrigado era simples e humilde, mas não lhe faltaram os cuidados da diligente Lenice, que cuidava da limpeza e preparava o pouquíssimo alimento que consumia, e do cabo Edésio, o eterno companheiro dos fins de tarde e quem lhe assistiu os últimos suspiros, com quem traçava glosas e outras conversas de “poeta para poeta”.
Ao longo da convivência com Mariano, não foram poucas as bodegas que este abriu e entregou ao irmão-poeta, que por viver sempre na estrada e ser um desastrado para negócios, iam sempre à falência.
Na maioria das vezes, Pinto, então, distribuía a “massa falida” com quem estivesse por perto, fosse conhecido ou não.
Mariano conta que, numa dessas ocasiões, ainda resgatou a balança que ia debaixo do braço de um camarada que a tinha recebido de Pinto como presente. Em sua alma de poeta, decididamente não havia espaço para negócios ou lucros.
Cantando com João Furiba, depois de mais uma falência, começou a se queixar da falta de sorte no ramo de bodegas, findou uma lamentosa sextilha:
Do jeito que as coisas vão
Com essa falta de sorte
É melhor a gente ir
Pro Rio Grande do Norte.
Furiba:
Se você quiser ter sorte
Na sua mercearia
Coloque uma etiqueta
Em cada mercadoria
Se nela tiver meu nome
Vai conquistar freguesia.
Pinto:
Triste da mercadoria
Que nela tiver teu nome
Pode vir um guabiru
Com quinze dias de fome
Mija o pão caga no queijo
Passa por cima e não come.
Uma vez , na década de noventa eu acabara de chegar na minha cidade da Prata PB, quando fui convidado por Antenor Dirceu , irmão dos Vates e Violas e meu primo, pra um forró em homenagem a não sei quem no sítio Balanço na Santa Catarina , comunidade rural nossa vizinha , que tem parte das terras no município de Monteiro.
Já a boquinha da noite, “se juntamos” eu Miguel , Antenor e mais uns dois cachaceirinhos e fomos pro samba , lá no pé da serra de Santa Catarina , aonde por trás se vê o clarão da iluminação de Monteiro.
Chegamos na casinha do forró aonde o sanfoneiro era um negro magro e imbuanceiro , filho de Vital , um astro da sanfona lá daquelas bandas.
Como a bebida se resumia a uma cachaça” lasca peito” misturada com “crush”, fomos até Monteiro em busca de uma bebidinha mais palatável.
Antenor ficou no forró, que não tava lá essas coisas todas.
Também pudera, tava apenas começando.
Fomos até Monteiro , paramos num bar, demos de garra de um litro de uísque (Natu Noblilis) e nos esquecemos do Balanço e de Antenor.
Lá pelas tantas , alguém lembrou que o nosso companheiro , ficara lá esperando a nossa volta pois tínhamos saído somente pra ir buscar a bebida.
Retornamos , lá pelas oito da noite e o forró ainda do mesmo jeito que deixamos.
Levados por Antenor eu e Miguel entramos no salão pra dar uma olhada.
No meio dos poucos casais , dançavam duas matutinhas , uma servindo de par para a outra.
Chamei Miguel:
Migué , vai apartar aquelas duas pra ver se a gente consegue dançar hoje aqui.
Mguel saiu com aquele jeitão magro , comprido e empenado pra um lado e abordou as meninas:
Bora dançar com nós dois , olhando pra mim que por ser péssimo dançarino , nunca tive coragem de chamar ninguém pra dançar.
Muito menos de “apartar” duas mulheres.
Era um costume lá pelo sertão , devido ao fato dos maridos não estarem presentes, as mulheres jamais poderiam dançar com cavalheiros.
Nasceu no sítio Olhos D’água, hoje município de Ouro Velho no Estado da Paraíba, em 1930.
Foi ajudante de caminhão, agricultor e morava com a mulher na mesma casa centenária, sem reboco e de chão batido, onde nasceu.
Chico escondia por trás do vasto bigode toda uma vida de aventuras, arruaças e histórias engraçadas. Gago e desconfiado não fazia amizade à primeira vista, num contato mais próximo tornava-se aquilo que se pode chamar de “amigo de infância” tal era o seu desprendimento e a sua lealdade.
Aos oitenta anos, o seu patrimônio era um centenário casarão com paredes de tijolos nus, uma pequena, aposentadoria rural que recebia, alguns trocados que ganhava na atividade rural e um monte enorme de histórias que fizeram dele sem dúvida o sujeito mais importante daquelas plagas.
Sábio como era , se não foi pro céu, foi por que não quis.
O caminho ele conhecia.
A MISSA DA CABRA
Chico tinha uma cabra ladrona que tava entrando no roçado de um cabra lá perto dos Olhos Dágua aonde ele morava.
Um dia na feira do Boi Velho o camarada encontrou-se com ele e pediu providências e Chico prometou dar um jeito.
Na outra semana , outra reclamação:
Mas Chico, será que vai ser preciso eu ir pra polícia?
Pode deixar fulano, que não vai mais acontecer.
Dois dias depois o cabra encontrou Chico:
Chico, assim não dá, você tem que dar um jeito nessa cabra!
Chico respondeu :
Agora meu velho, a única coisa que eu posso fazer, é rezar uma missa pra alma dela pois eu já matei a coitada, vendi o couro e até já comi a buchada dela.
Chico, que já vinha doente, passou mal semana passada e foi levado pra Monteiro, lá o médico depois de examiná-lo recomendou:
Seu Chico eu vou mandar aplicar um soro no senhor.
Isso foi Chico:
Doutor, eu prefiro que o senhor me dê o leite ou o queijo, o soro não vai resolver meu problema não.
Melhorou e voltou pros Olhos Dágua. Dois dias foi de novo pra Monteiro.
Dessa vez , não voltou mais.
Aí , todos os olhos do lugar se encheram dágua com a sua partida.
Chico e sua companheira no velho casarão de Dedês onde moravam
Da direita para a esquerda: Manoel Filó, Zelito Nunes, Sebastião Dias, Chico de Dedês, Dulau e Nildinho, num congresso de Cantadores em Monteiro-PB
Em frente à casa de Paulo Preto na Boa Vista dos Barões, município de Prata-PB; na foto Chico de Dedês está em pé; sentados: Nerise, Edelzuita Rabelo, Zelito Nunes, Santanna, Antonio de Catarina, Edleuza, Luciano Nunes e outros
Era sobrinho de Chico de Dedês, presepeiro , engraçado e mulherengo.
Era gente dos Bernardos do Boi Velho.
Teria sido o sucessor do tio se não tivesse morrido ainda muito novo num estúpido acidente de carro onde ele dirigia , segundo contam , depois de tomar umas e outras num bar lá mesmo, há uns seis ou sete anos atrás.
Apesar de ser considerado um cabra gente fina, Chico de Nêga , não era exatamente aquele marido que todo pai e mãe de família gostariam de ter como genro.
Um dia chegou uma mulher na casa de Nêga , para um particular:
Nêga , eu tenho um negócio pra combinar contigo.
Pois não, diga o que é ?.
É o seguinte , fulana a minha filha , “se perdeu” com Chico teu filho e é por isso que eu vim aqui pra gente providenciar esse casamento antes que o povo comece a falar.
Tu sabes como é esse povo daqui!
Nêga , olhou pro chão, olhou pra rua e respondeu :
Olha fulana , a tua filha não tá “perdida” não, ela tá só “ariada”.
Perdida mesmo ela vai ficar se inventar de casar com Chico…..
Lourival Nunes . era meu primo carnal, nascido na Fazenda Boa Vista, no Cariri paraibano, onde nasceram o meu pai e o poeta Zé de Cazuza.
Lourival , foi um homem além do seu tempo, empreendedor inteligente , foi um Delmiro Gouveia daqueles Cariris.
Quando avião ainda era apenas um ponto escuro , sobrevoando as alturas daquelas caatingas ,Lourival já possuía um “teco-teco”, que ele mesmo pilotava.
Casado pela segunda vez, com Zanita Romão , uma monteirense bonita, esta lhe deu seis filhos que vi crescerem, quando estudava em Monteiro e morava na frente á casa onde moravam.
Daí o meu apego , com os meninos que considero como sobrinhos.
Lourival Filho, Louro como o chamamos , é um deles e de quem ouvi essa história:
Durante a década de sessenta , Lourival montou uma fábrica de beneficiamento de sisal , cuja cultura era abundante na Paraíba.
A fábrica chegou a ter cento e tantos operários.
Poroca , um matuto gordinho e sarará, era um deles, mecânico dos bons , era também um dos homens de confiança de Lourival. Muito apegado aos meninos do patrão , tinha pois a sua simpatia.
Lourival era um sujeito alvo, bem falante , leitor compulsivo, viajado e muito elegante no trato com as pessoas.
Mas era também muito esquentado e não gostava de ouvir desaforos de ninguém.
Usava invariavelmente , roupa branca de linho e frequentava o melhor clube da Cidade de Monteiro, que era o Aero Clube de Monteiro.
Que era realmente o melhor até por que só tinha esse mesmo.
O maquinário da fábrica tinha que ser lubrificado todo fim de tarde quando terminava o expediente e os mecânicos , terminada a tarefa e longe dos olhos do patrão , transformavam o ambiente , num verdadeiro faroeste , influência dos filmes assistidos no Cine Galdino.
Transformavam-se em “artistas e bandidos” trocando tiros , com jatos de óleo das possantes motolias à pressão .
Eram aqueles “caubóis” de motolias em punho, como se fossem revólveres, trocando tiros com jatos de óleo lubrificantes , onde todos artistas e bandidos terminavam o “filme” invariavelmente ensopados com o óleo fino e pegajoso que era destinado às máquinas.
Aquela sessão de cinema acontecia quase todo fim de tarde , enquanto o patrão tomava o seu uisquinho , em companhia dos amigos no Aero Clube.
Poroca , era um dos “caubóis” mais destemidos uma vez que com a sua motolia matava literalmente todos os inimigos.
Tá rendido?
Se o cabra não levantasse as mãos , levava uma rajada de óleo.
Isso tudo acontecia em meio às possantes máquinas da usina.
Um fim de tarde , tava lá o maior faroeste , com o “caubói” Poroca atirando em todo mundo que não se rendesse.
Foi quando o patrão , resolveu voltar pra fazer uma recomendação aos mecânicos depois de algum tempo que já havia saído.
Entrando na sala das máquinas , notou alguma coisa estranha , uma certa correria , só que não avistava ninguém .
Resolveu dar uma olhada mais de perto e quando passou por trás de uma das máquinas, ouviu a ordem:
Tá rendido?
E antes de qualquer reação , levou aquele banho de óleo que lhe cobriu da cabeça aos pés, deixando verde-oliva, a sua roupinha de linho, branco e as lentes dos seus óculos.
Quando o “caubói” Poroca , percebeu quem era o alvo , aí já era tarde , o patrão tava lá bronzeado e imóvel, parecendo a estátua da praça João Pessoa.
O velho Poroca, largou no chão o seu “revólver” e desapareceu no oco do mundo.
E só veio dar as caras, quinze dias depois , quando Lourival mandou um embaixador na sua casa , com um decreto de anistia.
Zé Grande, era um sujeito grandão e largo mas o sobrenome Grande, não era porisso não, era de família,pois ele era irmão de Joãozinho Grande, que vem a ser o pai do nosso Ronaldo Piquinha do Bom Fim de São José do Egito.
Zé Grande foi aquele matuto que nasceu pra ser boêmio e assim viveu até que se finou, na década de oitenta .
Deixou , como recompensa para a viúva que carregou nas costas toda a sua vida boêmia e preguiçosa, uma gorda pensão por um bom emprego que os seus muitos amigos e admiradores lhe arrumaram no Estado.
Zé Grande apesar de ter nascido na pequena vila do Bomfim, sempre foi um sujeito além do seu tempo, sempre na frente daquela gente matuta de lá.
Quando ainda era meninote deu na cabeça de roubar umas melancias no roçado de duas velhas tias sovinas, que não davam nada a ninguém.
Melancia naquele tempo nos roçados sertanejos era coisa rara, ao contrário de hoje encontrada aos montes nas feiras da região, vindas da agricultura irrigada.
Bom, a melancia, como outras raridades, as poucas que existiam eram guardadas como jóias de família, nos roçados.
Os matutos procuravam escondê-las cobertas por ramas e galhos secos num cuidado tão grande que acabavam chamando a atenção, de longe a gente já sabia aonde elas estavam.
Coisas vindas da inocência daquele povo do mato.
Elas eram também o correio sentimental dos apaixonados, era na casca da melancia que os namorados escreviam num alfabeto grosseiro, com a ponta da faca, as iniciais do nome da amada, já as matutinhas escreviam numa caligrafia mais elaborada, os nomes dos namorados, usando a curva do birilo de cabelo.
Mas voltando pra Zé Grande, um dia ele cismou de dar um abalo nas melancias das velhas tias, que eram guardadas com todo cuidado, para serem presenteadas pro padre Sebastião, quando viesse celebrar missa no povoado.
Fora do padre não davam nenhuma pra nenhum cristão, nem pra remédio.
Zé, para completar o plano sinistro, convidou um molecote bem mais novo do que ele, chamado Edvaldo de Siá Merença, moleque ligeiro e ladino, velho conhecedor dos roçados locais.
Numa boca de noite, se juntaram no pé de um serrote detrás do arruado e foram traçar o plano:
“Edvaldo, tu pulas a cerca pra dentro e eu fico do lado de fora pra pegar o saco, agora tem uma coisa, tu só não podes pegar as melancias que tão marcadas com uma cruz, que são as grandes, do padre Sebastião, essas tu nem chegas perto”.
Edvaldo pulou a cerca que nem um gato e não demorou muito, já jogou o saco de estopa com as melancias dentro.
Zé abriu o saco e tava lá a desgraceira, justamente as maiores, tudo com uma cruz do tamanho do mundo.
Edvaldo, desgraçado, eu não disse que era pra deixar as melancias da cruz? Tu tais doido? Essas melancias são as melancias do padre!
Isso foi Edvaldo:
Zé, eu não sou o cão não! O cão é quem tem medo de cruz….
Inácio Jacaré era um matutinho pequeno, com cabeça grande de cearense e uma sagacidade fora do comum, principalmente para negócios. Nasceu no Boi Velho, que era município de Monteiro na época. Seu ofício principal era o de boiadeiro, mas se a ocasião exigisse, vendia vermelho em velório e picolé no Pólo Norte.
Inácio não deixava, por nenhuma hipótese, um negócio se estragar, principalmente se dependesse de uma boa conversa. Comprava e vendia bois e cavalos e, de vez em quando, se a situação permitisse, pagava aos credores, mas fazia qualquer coisa para abrigar um amigo ou outro qualquer necessitado, no seu imenso coração .
Naqueles confins por onde andava, corria também, de boca em boca, a sua fama e todos gostavam de conversar com ele. Pode-se dizer que era um homem sem abuso nenhum.
Como já estava se achando velho, pensava que era vergonha uma pessoa instruída como ele não conhecer a cidade de São Paulo.
Resolveu ir até lá. Comprou passagem, pegou um “Batalhão” e foi-se embora à procura de um filho que lá vivia, sem levar endereço, achando que não seria difícil encontrá-lo.
Chegando na estação rodoviária do Tietê, não se assombrou nem um pouco, procurou saber de uns motoristas de táxi, que disputavam a corrida, já brigando pra ver quem segurava a sua velha maleta, onde morava o rapaz.
– Pra onde vai, senhor?
– Quero que você me deixe na casa de Inacinho.
– O senhor tá doido? Isso aqui é São Paulo!
– Quem diabo é Inacinho?
– Mais era só o que faltava, todo mundo conhece Inacinho aqui em São Paulo, num vai dizer que tu não conhece?
Ele “trabaia” com negócio de carro e mora perto de Mastruz, aquele que gostava de trocar tiro com os filhos de Juvená Mago, lá no Boi Véi!
Chegou à Prata, nos anos 50 e foi prosperando no ramo de compra de algodão e cereais, até se tornar um dos homens mais influentes do lugar, morava no único sobrado que havia na vila, era vaidoso gastador e generoso. Nas novenas do mês de maio, mês de Nossa Senhora era comum cada noite ser patrocinada por um dos figurões do lugar onde a paróquia e o padre sem esquecerem que o dinheiro também traz felicidade, promoviam além das celebrações sacras, as ditas profanas com direito a leilões de carneiros, bodes, galinhas assadas e até jerimuns; além das tradicionais salvas de foguetões e bacamartes.
Vaidoso como era, Zé Boiba dava a carga toda na sua noite, à noite de Zé Borba era uma festa à parte, a fachada da igreja era ornamentada de luzes e cordões e mais cordões de papeizinhos azuis brancos e vermelhos, além da praça de guerra promovida pelos estampidos dos foguetões e bacamartes. Era festa pra todo mundo menos pra mim que morria de medo de tiros (ainda hoje morro) pequeno magro e feio ficava me entrelaçando nas pernas da minha mãe, feito um cachorro vira-latas com medo daquele tiroteio. Lembro-me da sua preocupação em amenizar o meu sofrimento tentando tampar os meus ouvidos com a sua mantilha.
Pois bem, um certo dia a vaidade de Zé Borba cruzou com a sagacidade de um matuto sabido que morava ali perto na ribeira de São Francisco, chamado Miguel Leopoldo. Miguel era um cigano nas atitudes e também na aparência, era magro alto, com enormes bigodes cobrindo os cantos da boca usava um chapéu grande botas de cano longo, e camisas quadriculadas ao estilo dos “cowboys” americanos. Era antes de tudo um “trocador de cavalos” e jamais entrava num negócio em que não tivesse a certeza de que ia “lascar” o outro, diziam que ele chegava ao requinte de pintar com listras, as patas de velhos e inúteis pangarés para dar-lhes um certo ar de nobreza e conseqüentemente aumentar-lhes o valor.
O grande poeta e compositor Zé Marcolino filho da aterra, era antes de tudo um cronista nato e conhecedor das manhas e malandragens de Miguel e outras figuras dali que de matutos só tinham o nome. Contava que um dia depois de suas andanças com Luiz Gonzaga, estava na Prata para rever os amigos e beber daquelas águas caririzeiras, quando encontrou Miguel, com um proposta tentadora:
— “Maicolino”, eu tô pra vender um animal de raça a Zé Bóiba, e se eu fechar negócio nos vamos tomar umas e outras e matar a saudade.
E de fato foi procurar Zé Borba que se encontrava sentado numa espreguiçadeira na calçada do seu sobrado contemplando naquele fim tarde, a feira da Prata que também estava terminando. Miguel montando um velho e cansado burro fazia à custa de muita espora o animal se esbaldar em evoluções na frente do comerciante que já queria à todo custo adquirir tão valioso animal.
O desfecho dessa história eu deixo para o genial poeta paraibano de Guarabira, Chico Pedroza que, mesmo sem haver conhecido nenhum dos três personagens nela envolvidos, traçou em versos uma descrição perfeita dos fatos. Eis aí o “trocador de cavalos”:
O TROCADOR DE CAVALOS
Quantas figuras marcantes
Habitam nossa lembrança
Fatos que aconteceram
Quando a gente era criança
Estão em nossa memória
Fazendo parte da história
Duma época que passou
Caminhando ao nosso lado
Fantasiando o passado
Que o tempo não apagou.
Milonga é doidinho e vive catando coisinhas no chão, na cidade de São José do Egito e ninguém (nem ele mesmo) lhe sabe o nome, ou de onde veio.
Mulato e baixinho, tem o tipo físico dos habitantes da zona canavieira de Pernambuco, lugar de onde acham que ele veio.
Solícito, não é homem para negar um mandado a ninguém, por isso, um lhe dá a roupa outro a comida e assim vai tocando a sua vida, debaixo da benevolência e da imensa piedade de Deus.
Otacílio era um rapaz ainda muito novo, quando morreu de um “sucesso”.
Uma “Lazarina” de cano fino, uma medida de chumbo seis, outra de pólvora “Elefante”, duas buchas de corda bem vaquetadas, uma espoleta “Pica-pau”, e um garrancho que bateu na queixa da espingarda, que era “muito doce” (espingarda doce é aquela que dispara com muita facilidade e que a gente conduz com muito cuidado, nos braços, assim como quem carrega roupa engomada), promoveram o tiro que lhe varou a titela.
O que foi uma pena pois era um rapaz muito moço ainda.
Como ninguém tinha coragem de dar a notícia ao seu avô, já velhinho e morando a uma certa distância, Milonga se encarregou de ser o emissário de tão triste novidade .para o coitado que era louco pelo neto a quem chamava de Tercílio por que não conseguia pronunciar-lhe o nome corretamente.
Era um matutinho nascido ali perto de Tabira. Comprido, zarolho e desdentado, feio de quebrar resguardo de raposa, mas portador de uma sagacidade e de uma capacidade de enganar o seu semelhante sem limites, andava bem vestido e calçava sapatos de duas cores, um evidente indicativo de malandragem na época para uns, para outros, e um traço de boemia que distinguia os seres iluminados e raros que ousam ser diferentes. Zé era o nosso João Grilo.
Vendia e comprava tudo, mas gostava mesmo era de negociar com fumo de rolo nas feiras. A banca de fumo, numa feira, era, talvez, a mais simples, uma vez que não tinha sequer uma lona cobrindo; era aquela mesinha feita com velhas tábuas de caixão, acinzentadas pelo sol e pela chuva, com os pregos torcidos e mal pregados, um tronco de pinhão ou um pedaço de corda queimando com o fogo eterno de uma pira sagrada onde os matutos iam acender os cigarros e economizar os fósforos, que, como todo produto industrializado, eram caros; o matricó era pouco usado, pois dava trabalho para acender , o isqueiro nem pensar, viria muitos anos depois.
Mas Zé achava que Deus vivia lhe chamando pra outra missão mais nobre do que envenenar os pulmões daqueles desgraçados que lhe compravam fumo, e se meteu a fazer imagem de santo, ser o novo Aleijadinho daqueles Pajeús, numa inspiração que ele considerava ter vindo direta do céu.
Passou o nosso Roque Santeiro, a viver dentro das caatingas, juntando troncos secos de imburana, com os quais fazia as imagens, que, por faltar-lhe um mínimo de jeito para a coisa, estas saíam todas tronchas e com as feições “labrogeiras”, como dizem os matutos.
Aproveitando o “embalo”, quando a ocasião favorecia, vendia também lascas de tábuas de velhos caixotes de sabão, que jurava serem milagrosas, por terem sido tiradas do caixão do santo “Padim Ciço”. Repetia o gesto dos soldados romanos rateando o manto sagrado, quando negociava mulambos de tecido preto afirmando serem garras miraculosas da batina do “Meu Padrinho”.
Um dia, estava ele na feira, comercializando esses produtos completamente heterogêneos: a banca de fumo e a de santo ali junto, quando chegou uma devota, velhinha com cara de rezadeira e de quem entendia do traçado:
França foi como quase todos dali, também agricultor, depois dono de bodega e finalmente vereador na cidade de Ouro Velho. É sobrinho de Cabôclo Ferreira, primo de Joaquim Menezes e de Cabôco Ferreira .
França, tinha aquela têmpera de sertanejo feito pra durar eternamente mas teve que viajar há uns seis meses atrás, isso com mais de noventa e seis anos. Semi-analfabeto, nunca deixou sem resposta qualquer que fosse a pergunta a ele dirigida .
As suas respostas carregadas de refinado humor, ainda divertam aos que o procuravam. Proprietário de uma padaria, foi o continuador da fabricação das famosas “BOLACHAS MENÊS” que foram inventadas por uma sua tia , juntamente com uma vizinha, chamada Madalena Nunes, tia de meu pai.
As famosas “BOLACHAS MENÊS” como são chamadas vêm de uma tradição que já dura quase um século. São um produto genuinamente Ourovelhense e a sua fórmula é tão secreta quanto a da coca cola são fofas e adocicadas contendo um forte sabor de canela e cravo, ir a Ouro Velho e não provar as tradicionais bolachas Menês, é um sacrilégio tão grande quanto ir à Roma e não ver o Papa. As bolachas “Menês”, são componentes obrigatórios da bagagem de qualquer ourovelhense com destino a outroslrincões do país, principalmente São Paulo e Brasília, destino fatal da maioria dos que emigram dali.
Antes mesmo do abraço e da saudação quando chega numa dessas cidades, o ourovelhense saúda o conterrâneo com um pacote de bolachas nos peitos.
Nasceu no Boi Velho, que na época pertencia à Monteiro e era família dos Bernardos e de Cabôco Ferreira todos gente afamada naquelas quebradas dos Velhos Cariris.
Só tinha um problema , Zé que era pequeno e magro que só um sibito, queria a todo custo entrar pra gloriosa Polícia Militar da Paraíba, onde pretendia alcançar quem sabe , o posto de marechal , uma patente muito em voga no exército brasileiro , isso lá no limiar dos anos sessenta aonde era tido como certo que o mundo ia se acabar e os Estados Unidos , alimentavam uma guerra idiota com os comunistas da Rússia , fato que nem de longe interessava a Zé.
Apesar da compleição física contrária a qualquer regimento militar – um metro e cinqüenta e poucos centímetros, e uns cinqüenta e poucos quilos, Zé , por indicação de um padrinho forte, foi incorporado à briosa Polícia Militar da Paraíba.
De farda cáqui , quépi e coturno , ele era o próprio Zé Carrapeta , personagem do poema O ABILOLADO, do poeta Chico Pedrosa.
Depois que passou “a pronto” foi lotado no quartel de Campina Grande , onde enfrentou a antipatia do comandante que não lhe dava descanso.
Cumprido o prazo de recolhimento e treinamento no quartel de Campina , eis que chega a hora do bravo contingente partir para cumprir o seu dever ou seja: Todo mundo ir para o interior , estabelecer a ordem nas regiões mais críticas onde ainda imperava o “faroeste” , quando se falava que o rifle 44 , era a justiça do Piancó.