DO LIVRO “PINTO VELHO DO MONTEIRO UM CANTADOR SEM PARELHA”

livropintodomonteiro

Foi na Prata-PB, cantando no beco da bodega de Mariano Morcego com Lino Pedra Azul, quando Pinto começou esta bela sextilha:

Se o tempo não passasse
E a gente não envelhecesse
Se chegasse aos vinte anos
Não subisse e nem descesse…

Nisso, chegou Pedro Caial – um negro magro, comprido e desengonçado, completamente embriagado, mas grande admirador do cantador.

Caial partiu para lhe dar um abraço, caindo por cima dele, quase derrubando-o.

Alguém da platéia, de pronto, veio acudir e levou Pedro Caial embora; Pinto se peneirou e retomou a sextilha:

Se o tempo não passasse
E a gente não envelhecesse
Se chegasse aos vinte anos
Não subisse e nem descesse
Diz agora o que é que eu faço
Com um “fela da puta” desse!

BIBI ALEXANDRE

Bibi Alexandre é um cabra atarracado, forte e vermelho, que compra e vende bode lá pelas bandas de Ouro Velho, Mundo Novo, Tuparetama, por ali afora…

Gente boa, alegre e brincalhão, nunca gostou muito de briga, mas numa terça-feira , dia de feira no lugar, no meio de uma cachaçada, no bar de Mocinho, lá em Ouro Velho, entrou numa discussão sem motivo aparente e partiu para uma aventura sem futuro nenhum, com o negro Luizão, que tinha o dobro da sua altura, da sua coragem e era afeito às imbuanças do lugar.

Agarraram-se, rolaram pelo chão até que o negão começou a levar nítida vantagem, por ser mais novo e mais comprido e muito, muito mais ligeiro do que Bibi.

E tome cacete, rasteira e Bibi tentando só se defender, recuando e o tapa e a rasteira comendo no centro, o chapéu já tinha voado lá longe.

A platéia limitava-se a assistir, sem interferir e já tinha até torcida, quando Bibi não aguentou mais e “jogou a toalha”.

Não sem antes protestar:

– Ô povo covarde é esse de Boi Velho! Cadê os apartadô de briga daqui?

MIGUEL MARCONDES E AS MATUTINHAS DO BALANÇO

Miguel Marcondes e Luís Homero, Banda Vates e Violas

Uma vez, na década de noventa, eu acabara de chegar na minha cidade da Prata-PB, quando fui convidado por Antenor Dirceu, irmão dos Vates e Violas e meu primo, pra um forró em homenagem a não sei quem no sítio Balanço na Santa Catarina, comunidade rural nossa vizinha, que tem parte das terras no município de Monteiro.

Já na boquinha da noite, “se juntamos” eu Miguel, Antenor e mais uns dois cachaceirinhos e fomos pro samba, lá no pé da serra de Santa Catarina, aonde por trás se vê o clarão da iluminação de Monteiro. Chegamos na casinha do forró aonde o sanfoneiro era um negro magro e imbuanceiro, filho de Vital, um astro da sanfona lá daquelas bandas.

Como a bebida se resumia a uma cachaça” lasca peito” misturada com “crush”, fomos até Monteiro em busca de uma bebidinha mais palatável. Antenor ficou no forró, que não tava lá essas coisas todas. Também pudera, tava apenas começando.

Fomos até Monteiro, paramos num bar, demos de garra de um litro de uísque (Natu Noblilis) e nos esquecemos do Balanço e de Antenor. Lá pelas tantas, alguém lembrou que o nosso companheiro ficara lá esperando a nossa volta pois tínhamos saído somente pra ir buscar a bebida.

Retornamos lá pelas oito da noite e o forró ainda do mesmo jeito que deixamos. Levados por Antenor, eu e Miguel entramos no salão pra dar uma olhada. No meio dos poucos casais dançavam duas matutinhas, uma servindo de par para a outra.

Chamei Miguel:

– Migué, vai apartar aquelas duas pra ver se a gente consegue dançar hoje aqui.

Miguel saiu com aquele jeitão magro, comprido e empenado pra um lado e abordou as meninas:

– Bora dançar com nós dois, disse olhando pra mim que, por ser péssimo dançarino, nunca tive coragem de chamar ninguém pra dançar.

Muito menos de “apartar” duas mulheres.

Era um costume lá pelo sertão, devido ao  fato dos maridos não estarem presentes, as mulheres jamais poderiam dançar com cavalheiros.

Diante da proposta de Miguel a matutinha se virou sem parar a dança  e respondeu:

– Nóis não pode dançar com homem não, nós somos casadas.

E Miguel respondeu:

– Tudo bem, eu quero ver é vocês fazerem menino…

* * *

SIMÃO LEITE, UM CABRA DO PAJEÚ

Simão Leite, era comerciante em Itapetim, casado com Madalena, irmã de Louro, Dimas e Otacílio Batista e pai de Charliton Patriota, ex-secretário de cultura de São José do Egito, gente boa a competente.

Seu Simão, como era conhecido, tinha um caminhão que ele mesmo dirigia carregando as mercadorias que comercializava nas feiras, lá pelo Pajeú .

Naquela época, era comum o motorista do caminhão carregar também passageiros entre uma cidade e outra. Primeiro pela dificuldade de transporte, depois, era mais uma fonte de renda que se agregava ao comércio, que geralmente era do ramo de tecidos.

Seu Simão, era um homem sereno e de boa paz. Isso até que alguém pisasse nos seus calos. E foi o que aconteceu num sábado, já de tardezinha, quando voltava pra Itapetim, depois de uma feira em São José do Egito.

A feira não tinha sido grande coisa, mas pelo menos o caminhão ia lotado, o que já era alguma coisa. O problema é que, no meio dos passageiros, ia um bebinho, não se sabe de onde, nem pra onde ia, nem ele mesmo. Parece que subira no caminhão de seu Simão só pra perturbar, “acanaiar”, como dizem os matutos dali.

Nos solavancos do caminhão, peitava nos passageiros e, o que era pior, foi não foi, batia no teto da cabine fazendo com que o motorista parasse. Todo mundo esperava que aquele imprudente descesse e ele nem aí, só fazia rir, como todo bebinho que se preza.

Se tinha uma coisa que qualquer motorista detestava, era alguém bater na cabine em cima da sua cabeça.

Seu Simão parava e ninguém descia e isso foi uma, duas e, na terceira vez, acabou a paciência. Seu Simão já desceu com um tinta e oito na mão :

– Desça daí de cima, seu bebo féla da puta, que eu quero atirar em você!

E o bebinho, na maior tranquilidade:

– E que revólver safado é esse seu, que num alcança aqui em cima?

UMA PASSADA POR SÃO JOSÉ DO EGITO

Quem chega no Checo’s Bar, em São José, pode até sair liso, mas com fome jamais. A sua cozinha é um primor, o seu cardápio o mais variado e a sua frigideira “multi-uso” atenderia aos mais rigorosos padrões dos mais renomados “chefs” franceses. E com um sem número de pratos (tira-gostos para os mais íntimos).

Ficamos a imaginar, um deses cozinheiros estrangeiros acompanhando a fritura de um preá, uma passarinha, um fígado de alemão, rolinha, piaba, a gota serena, na frigideira do velho Checo’s, que não tem o hábito de trocar o óleo jamais.

“O segredo está na mistura de sabores das iguarias” sentencia o grande “gourmet”, da nobre cozinha pajeuzense.

O cheiro das frituras de Checo atrai os narizes mais requintados da cidade e o preá frito na sua panela, é um dos pratos mais caros . No Checo’s, tudo vira comida. Dizem que outro dia passou por lá um bebinho “em fim de linha” procurando um tira-gosto, “qualquer coisa que dê pra mastigar”.

Qualquer coisa pra essses bebinhos, é qualquer coisa mesmo, com exceção de dois bichos que por uma questão de ética não comem de jeito nenhum “do chão cururu e dos ares urubu”, o resto eles traçam .

– Checo, uma lapada de cana e um tira-gosto, pode ser qualquer coisa – pediu outro dia um bebinho que por ali passava, levado mais pelo vento do que pelas suas canelas.

O dono do estabelecimento sem querer atender ao bebinho, foi implacável :

– Tem mais nada não fulano, comeram tudo !

– Mas não é possível, eu não subi esta ladeira pra perder minha viagem não. Eu só saio daqui quando tomar uma e comer qualquer coisa. Ou bota ou eu não vou mimbora daqui e ainda fico perturbando; pode ir logo chamando a polícia que é um bichinho que eu não tenho medo de jeito nenhum!

Checo, pra evitar escândalos no seu estabelecimento, propôs ao cliente :

– Olha, agora de tiragosto eu só tenho mesmo o pano de café passado no óleo, é pegar ou largar.

No interior ainda se cultiva o hábito de coar o café num saquinho de flanela que é segurado por duas varetinhas de marmeleiro, que servem de cabos evitando que as pessoas se queimem quando do preparo da nossa bebida mais nobre. Com o tempo, esses saquinhos, por mais esvaziados que sejam, vão acumulando resíduo e ficando cada vez mais volumosos adquirindo uma aparência de carne ou coisa parecida.

O bebinho topou na hora. Checo tirou as varetinhas, colocou aquele troço na frigideira, com sal, vinagre e ainda cortou uma cebola de agrado.

O desgraçado comeu, bebeu a cachaça, pagou e desapareceu ladeira a baixo, alegre e feliz desafiando a lei da gravidade.

*

Dia desses estavam no Checo’s Décio com Ronaldo Piquinha e Antonio de Catarina, comemorando o aniversário do nosso confrade Lalá. Conversa vai, conversa vem, a fumaça da cozinha inundando todo o ambiente, Décio chamou o proprietário num canto do bar e lhe fez preocupado uma observação:

– Checo, eu tô vendo a hora dessa tua panela “bater” o motor!

– Tais ficando doido, Décio, por que ?

– Porque eu já ando aqui há muito tempo e nunca vi tu trocando o óleo dela!

JOÃO DUDU E O PORTUGUÊS DA VARZINHA

João Dudu era um velho sertanejo brabo, com um chapéu de abas gigantescas dobradas na fronte, uma pajeuzeira e um rabo de égua em cada lado da cintura, presos por um largo cinturão de sola, vestia sempre um mal cortado terno de brim cáqui, roupa que na época caracterizava os velhos carranças do Sertão.

Recordo o mestre Filizardo Garcez que tinha sido cangaceiro do Doutor Augusto Santa Cruz e já com seus oitenta e tantos anos, morava na vila da Prata. Era um caboclo bastante alto para os padrões sertanejos, magro e de olhos acinzentados, com seu terno cáqui seu punhal na cintura e uma cara dura que botava onça pra correr só com um olhar. Eu que morria de medo dele, ficava abismado quando minha mãe dizia que tinha sido com o mestre Filizardo que aprendera as suas primeiras letras.

Chapéu de couro quebrado na testa uma baixa verde e uma “rabo de égua” pendente na cintura, era essa a indumentária daqueles sertanejos, sempre prontos para enfrentar um iminente inimigo.

O velho João Dudu, morava na fazenda Malhada do Riachão, atualmente município de Tuparetama, um lugar ainda hoje isolado e de acesso penoso.

A fazenda Malhada era vizinha da fazenda Caiçara, que fora comprada por um português.

O português tinha um filho chamado Orlando que arrumou um namoro com Francisquinha filha do velho João Dudu e começou a “alisar” os bancos da fazenda Malhada, contra a vontade do velho fazendeiro: “Eu crio minhas fias pro serviço de casa, não é pra namoro não “!

A rebeldia da moça movida pelo motor da paixão, entretanto, não permitiu que o namoro se acabasse ali. Continuaram a se encontrar escondidos, acobertados pela cumplicidade de Terezinha a irmã mais nova, que trazia e levava bilhetes e recados.

O namoro prosseguia na sua clandestinidade quando tomaram uma decisão radical: fugiriam numa segunda feira às seis horas da tarde. Orlando a estaria esperando atrás da cerca de pau a pique do velho curral que ficava ao lado da casa grande.

Chegado o dia, estava lá na espera Orlando no seu cavalo, pronto para a maior aventura da sua vida.

Seis horas, o sol se pondo, os animais se recolhendo, os vagalumes acendendo as suas lanternas verdes, a noite estendendo o seu escuro véu sobre a caatinga, só Francisquinha não chegava.

Já impaciente Orlando viu se aproximar um vulto de mulher, segurou a emoção, preparou-se e no lusco-fusco percebeu que não era a sua amada e sim a irmã mais nova com a mais nova notícia:

– Orlando, Francisquinha se arrependeu e mandou eu vir aqui te avisar que ela desistiu de fugir, eu vim aqui, só te dizer isso .

– Mas é danado, Terezinha: eu esperei esse tempo todo, fiz despesas, fiz até uma feira que tá aqui na carona, e agora, o que é que eu faço?

– Sei não Orlando!

– Ô Terezinha, pra eu não perder a viagem, tu não queres ir comigo não?

– Eu quero!

– Então sobe na cerca e monta aqui na garupa.

Terezinha montou, fugiram, casaram, tiveram filhos e viveram juntos e felizes por muitos e muitos anos.

FRANCISCO BERNARDO DE MENEZES – CHICO DE DEDÊS

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Chico e sua companheira no velho casarão de Dedês onde moravam

Nasceu no sítio Olhos D’água, hoje município de Ouro Velho no Estado da Paraíba, em 1930. Foi ajudante de caminhão, agricultor e morava com a mulher na mesma casa centenária, sem reboco  e de chão batido, onde nasceu.

Chico escondia por trás do vasto bigode toda uma vida de aventuras, arruaças e histórias engraçadas. Gago e desconfiado, não fazia amizade à primeira vista. Num contato mais próximo, tornava-se aquilo que se pode chamar de “amigo de infância”, tal era o seu desprendimento e a sua lealdade.

Aos   oitenta anos, o seu patrimônio era um centenário casarão com paredes de tijolos nus, uma pequena  aposentadoria rural que recebia, alguns trocados que ganhava na atividade rural e um monte enorme de histórias que fizeram dele sem dúvida o sujeito mais importante daquelas plagas.

Sábio como era,  se não foi pro céu, foi  por que não quis. O caminho ele conhecia.

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Da direita  para a esquerda: Manoel Filó, Zelito Nunes, Sebastião Dias, Chico de Dedês, Dulau e Nildinho, num congresso de Cantadores em Monteiro-PB

A MISSA DA CABRA

Chico tinha uma cabra ladrona que tava entrando no roçado de um sujeito lá perto dos Olhos Dágua aonde ele morava. Um dia na feira do Boi Velho o camarada encontrou-se com ele e pediu providências e Chico prometou dar um jeito.

Na outra semana , outra reclamação:

– Mas Chico, será que vai ser preciso eu ir pra polícia?

– Pode deixar Fulano, que não vai mais acontecer.

Dois dias depois o cabra encontrou Chico:

– Chico, assim não dá, você tem que dar um jeito nessa cabra!

Chico respondeu :

– Agora meu velho, a única coisa que eu posso fazer é rezar uma missa pra alma dela pois eu já matei a coitada, vendi o couro e até já comi a buchada.

Chico, que já vinha doente, passou mal e foi levado pra Monteiro. Lá o médico, depois de examiná-lo, recomendou:

– Seu Chico eu vou mandar aplicar um soro no senhor.

E Chico respondeu:

– Doutor, eu prefiro que o senhor me dê o leite ou o queijo, o soro não vai resolver meu problema não.

Melhorou e voltou pros Olhos Dágua. Dois dias foi de novo pra Monteiro.

Dessa vez, não voltou mais.

Aí, todos os olhos do lugar se encheram d’água com a sua partida.

Em frente à casa de Paulo Preto na Boa Vista dos Barões, município de Prata-PB; na foto Chico de Dedês está em pé; sentados: Nerise, Edelzuita Rabelo, Zelito Nunes, Santanna, Antonio de Catarina, Edleuza, Luciano Nunes e outros

JOSÉ BORBA FILHO (ZÉ BÓIBA)

Chegou à Prata, nos anos 50 e foi prosperando no ramo de compra de algodão e cereais, até se tornar um dos homens mais influentes do lugar. Morava no único sobrado que havia na vila, era vaidoso gastador e generoso. Nas novenas do mês de maio, mês de Nossa Senhora, era comum cada noite ser patrocinada por um dos figurões do lugar, onde a paróquia e o padre sem esquecerem que o dinheiro também traz felicidade, promoviam além das celebrações sacras, as ditas profanas com direito a leilões de carneiros, bodes, galinhas assadas e até jerimuns; além das tradicionais salvas de foguetões e bacamartes.

Vaidoso como era, Zé Boiba dava a carga toda na sua noite. A noite de Zé Borba era uma festa à parte, a fachada da igreja era ornamentada de luzes e cordões e mais cordões de papeizinhos azuis brancos e vermelhos, além da praça de guerra promovida pelos estampidos dos foguetões e bacamartes. Era festa pra todo mundo, menos pra mim que morria de medo de tiros (ainda hoje morro) pequeno magro e feio ficava me entrelaçando nas pernas da minha mãe, feito um cachorro vira-latas com medo daquele tiroteio. Lembro-me da sua preocupação em amenizar o meu sofrimento, tentando tampar os meus ouvidos com a sua mantilha.

Pois bem, um certo dia a vaidade de Zé Borba cruzou com a sagacidade de um matuto sabido que morava ali perto na ribeira de São Francisco, chamado Miguel Leopoldo. Miguel era um cigano nas atitudes e também na aparência, era magro alto, com enormes bigodes cobrindo os cantos da boca. Usava um chapéu grande, botas de cano longo e camisas quadriculadas ao estilo dos “cowboys” americanos. Era antes de tudo um “trocador de cavalos” e jamais entrava num negócio em que não tivesse a certeza de que ia “lascar” o outro. Diziam que ele chegava ao requinte de pintar  com listras, as patas de velhos e inúteis pangarés para dar-lhes um certo ar de nobreza e conseqüentemente aumentar-lhes o valor.

O grande poeta e compositor Zé Marcolino, filho da terra, era antes de tudo um cronista nato e conhecedor das manhas e malandragens de Miguel e outras figuras dali, que de matutos só tinham o nome. Contava que um dia, depois de suas andanças com Luiz Gonzaga, estava na Prata para rever os amigos e beber daquelas águas caririzeiras, quando encontrou Miguel, com uma proposta tentadora:

– “Maicolino”, eu tô pra vender um animal de raça a Zé Bóiba, e se eu fechar negócio nós vamos tomar umas e outras e matar a saudade.

E, de fato, foi procurar Zé Borba que se encontrava sentado numa espreguiçadeira na calçada do seu sobrado, contemplando naquele fim tarde a feira da Prata que também estava terminando. Miguel montando um velho e cansado burro fazia à custa de muita espora o animal se esbaldar em evoluções na frente do comerciante que já queria a todo custo adquirir tão valioso animal.

O desfecho dessa história eu deixo para o genial poeta paraibano de Guarabira, Chico Pedroza que, mesmo sem haver conhecido nenhum dos três personagens nela envolvidos, traçou em versos uma descrição perfeita dos fatos. Eis aí o “trocador de cavalos”:

O TROCADOR DE CAVALOS

Quantas figuras marcantes
Habitam nossa lembrança
Fatos que aconteceram
Quando a gente era criança
Estão em nossa memória
Fazendo parte da história
Duma época que passou
Caminhando ao nosso lado
Fantasiando o passado
Que o tempo não apagou.

“EM VIDA, VERSOS E VIOLA”

Zé Marcolino escreveu
A história de um caboclo
Que com ele conviveu
Nas terras do Cariri
Na antiga Mugiqui
Que hoje é Prata e cidade
Esse matuto sem soldo
Era Miguel Leopoldo
Trocador de qualidade.
De mediana estatura
Dono de um vozeirão
Sua voz se confundia
Com o eco de um trovão
Nunca freqüentou escola
Mas tinha em sua cachola
Algo que hipnotizava
No lugar aonde chegasse
Abrisse a boca e falasse
Ligeiro impressionava.
De chapéu de abas largas
Lenço envolto no pescoço
Botas limpas, roupa cara,
Algum dinheiro no bolso.
Era um “cow-boy” do sertão
Se selasse um barbatão
O marruá marcharia
Faceiro, acima da média,
Só no balanço da rédea
Que Miguel nem se bolia.

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FRANÇA MENEZES, UM FILÓSOFO DO BOI VELHO

França foi como quase todos dali, também agricultor, depois dono de bodega e finalmente vereador na cidade de Ouro Velho. É sobrinho de Cabôclo Ferreira, primo de Joaquim Menezes e de Cabôco Ferreira .

França, tinha aquela têmpera de sertanejo feito pra durar eternamente mas teve que viajar  há uns seis  meses atrás, isso com  mais de noventa e seis anos. Semi-analfabeto, nunca deixou sem resposta qualquer que fosse a pergunta a ele dirigida .

As suas respostas carregadas de refinado humor, ainda divertam aos que o procuravam. Proprietário de uma padaria, foi o continuador da fabricação das famosas “BOLACHAS MENÊS” que foram inventadas por uma sua tia, juntamente com  uma vizinha, chamada Madalena Nunes, tia de meu pai.

As famosas “BOLACHAS MENÊS” como são chamadas vêm de uma tradição que já dura quase um século. São um produto genuinamente Ourovelhense e a sua fórmula é tão secreta quanto a da coca cola são fofas e adocicadas contendo um forte sabor de canela e cravo, ir a Ouro Velho e não provar as tradicionais bolachas Menês, é um sacrilégio tão grande quanto ir à Roma e não ver o Papa. As bolachas “Menês”, são componentes obrigatórios da bagagem de qualquer ourovelhense com destino a outros rincões do país, principalmente São Paulo e Brasília, destino fatal da maioria dos que emigram dali.

Antes mesmo do abraço e da saudação quando chega numa dessas cidades, o ourovelhense  saúda o conterrâneo com um pacote de bolachas nos peitos.

Na década de cinquenta, França era proprietário de uma pequena bodega em Boi Velho, e naquela época, por não existir ainda a luz elétrica no lugar, o consumo de querosene era alto, e todo estabelecimento, tinha uma lata grande de dezoito litros, em cima de um tamborete, com uma torneirinha por onde escorria o líquido que enchia as garrafas dos fregueses.

Um dia, chegou uma pessoa procurando querosene, e França, mandou Sebastião seu filho, ainda menino, encher a garrafa do freguês.

Era dia sete de setembro e, justamente na hora em que Sebastião abriu a torneira da lata e botou a garrafa embaixo, o desfile ia passando na porta da bodega e ele correu pra ver a parada que só ocorria, uma vez por ano.

Bastião ficou lá vendo a festa e nem se lembrou do querosene, que a essa altura já tomava conta de todo o estabelecimento.

França gritou por Sebastião que finalmente lembrou-se da garrafa que havia deixado na boca da torneira.

Correu de volta, e ao entrar na bodega, já foi debaixo de pau!

– Oi pai, porque está dando em mim? Perguntou se fazendo de inocente.

E França:

– Pra você saber que dentro de uma garrafa não cabe uma lata de querosene!

O NÊGO DA POMADA

(Pra Rael de Simão e Valmir de Vamberto, gente da Prata)

Chegou lá pela Prata na Paraíba, há uns cinco anos atrás trazido e vindo só Deus sabe de onde e por quem.

Era um negro roliço de mocotó grosso, bucho empinado e um indicativo de gente andada:

Um chapéu preto com aba pequena e uma peninha de pavão do lado esquerdo.

Numa velha Belina marrom, ano setenta e pouco com um alto falante de difusora no teto e um microfone enrolado num farrapo de flanela vermelha onde gritava os milagres do produtos que vendia.

Em latas vazias de vick vaporube, espoleta picapau e até de graxa  de sapato usadas que comprava por aí afora, colocava porções de uma pomada milagrosa,  que dizia ser ser um peixe da Amazônia chamado piraquê o famoso  peixe elétrico.

Pomada milagrosa que curava de mal do monte, passando por reumatismo e até espinhela caída.

Mas na verdade era sebo de gado que adquiria nos açougues da região, derretia e botava dentro das latas.

O nego era jeitoso pra enganar os matutos.

Espalhava as latas em cima de um pano florado no capuz da velha Belina, misturadas com fogos de artifíco que também comercializava e com a difusora e muita saliva ia “lascando’ os pobres matutos doentes ou não.

Mas o negão tinha outros planos pra ampliação do negócio.

Foi quando  ele encontrou lá no mercado da Prata, um galego magro e sarará feio de quebrar resguardo de raposa, chamado Galêgo de Inaça Calú, tava ali o homem certo.

Depois de alguns “pingos de solda” os dois acertaram uma nova empreitada que essa sim ia render uma boa grana pros dois.

Aí o negão mandou embora um aleijado e um anão que lhe faziam companhia  e começou a  investir no galego pra sua nova empreitada.

Mas não podia ser lá na cidade do galego por que poderia despertar alguma desconfiança.

Foram estrear a novidade na vizinha Sumé, na feira de lá.

O negócio foi o seguinte, o negão comprou  um pedaço ainda sangrando de fígado de boi, e botou num lado do queixo do galego depois enrolou com uma tira  de pano branco fino cobrindo toda a cara do desgraçado, só deixando os olhos, os buracos da venta e a boca de fora.

Até as orelhas ficaravam cobertas.

Tinha que ficar também aparecendo um pedaço de figado preto pra impressionar os circunstantes simulando uma doença muito feia na cara daquele coitado vivente.

Quando o sangue do fígado começava a coagular, o negão tacava uma colher de óleo de salada pra poder escorrer e empapar o pano.

Aí o galego entrava na Belina  ficava sentado todo tronxo, com as duas mãos apoiadas nos joelhos, no que restava do banco traseiro já ocupado com o butijão de gás que servia de combustível  pro carro e o negão, com no microfone fazia o resto.

– “Venha” ver meus amigos o sofrimento desse rapaz e ajudem em nome de Deus.

Nos intervalos ainda achava pouco e botava no ar a música “Noite traiçoeira” com o padre Marcelo Rossi.

Aí chovia dinheiro dentro da Belina.

Os matutos que morrem de medo de doença feia, perguntavam :

– É “cance”?

O negão tampava com a mão o microfone e respondia baixinho:

– É.

Algumas mulheres chegavam mais perto:

– E isso pega moço ?

– Diz o povo que sim .

– Vige Maria, vem olhar fulana!

Outras não tinham coragem de se aproximar e jogavam o dinheiro de longe.

E o caixa dos dois engordando de feira em feira, de cidade em cidade.

Até que um dia o galego contestou a partilha das ofertas e partiram pra briga com ameaça de contar tudo pra polícia.

Aí anoiteceu e não amanheceu.

O  mundo abriu e fechou com o Negão da Pomada.

Até hoje…..

MARCÍLIO PATRIOTA DO OURO VELHO

Já falamos desse gênio da caatinga por aqui. Morava em Brasília, aposentado da construção civil onde, aos sessenta e poucos anos, foi atropelado e morreu longe da sua pátria Ouro Velho. Marcílio foi tudo na vida, inclusive cantador de viola.

Na sua fase de cantador de viola, uma noite cantava na Prata com o grande poeta local Jurandir Tembório. Estavam cantando um mourão. Marcílio começou:

Já passou da meia noite
e o galo já cantou …

Nisso foi entrando no recinto um soldado desmantelado e horroroso, chamado Bianor. Bianor era branco, alto, gordo, sem pescoço e ainda tinha o nariz comprido. A barriga sobrava dentro da túnica caqui surrada. Bianor era um cabra muito feio, parecia um pote de barro cru. Mas era soldado de polícia, era autoridade.

Jurandir continuou o mourão, saudando o recém chegado:

E quem está chegando agora
é o soldado Bianor

E Marcílio:

Ele está fazendo a ronda
Quem tiver menino esconda
Que o papafigo chegou.

Bianor, atingido na sua vaidade e autoridade, deu voz de prisão a todos dois.

MOISÉS MARIANO E JOÃO SALVADOR – DOIS CABRAS TRABALHADORES

Moravam entre o céu e a terra, um perto da Prata e o outro perto de Ouro Velho, no Cariri paraibano. Eram compadres, bons companheiros e tinham um ponto em comum: detestavam tudo o que lhes parecesse trabalho. Nunca deram um dia de serviço pra homem nenhum e viviam debaixo das graças da divina providência.

Os meses de março e abril pra eles era uma tortura, pois era o tempo em que chegavam alvissareiras, as primeiras chuvas do inverno no sertão e isso representava trabalho.

E, como trabalho, não era com eles, sempre se encontravam pra boas conversas, geralmente à boquinha da noite, pra não pegar mormaço. Era no alpendre da casa de Moisés que se sentavam num banco de aroeira e a conversa entrava noite à dentro sem pressa pra acabar.

– Cumpade João, aquilo é “relampo” ou vagalume?

– É vagalume cumpade, pode ficar sossegado.

– E esses “pipoco” é trovão?

– É não cumpade: é foguetão; deve ter nascido menino por aí.

Quando finalmente chegava o imponderável inverno, o velho Moisés mandava chamar o compadre, selavam os burrinhos e iam pras bandas do Pajeú, pra casa de parentes, onde não tinham a menor das obrigações.

Passado o inverno, era grande a curiosidade dos dois quando encontravam alguém que chegasse do lugar onde estavam:

– E aí, já quebraram o milho todo?

– Já apanharam a safra de algodão?

Só depois que obtinham todas essas respostas, é que retornavam felizes ao Velho Cariri.

Moisés Mariano morreu com 98 anos e João Salvador com 97.

Afinal, pra que “tanta lida pra tão pouca vida”?

INÁCIO JACARÉ

Inácio Jacaré era um matutinho pequeno, com cabeça grande de cearense e uma sagacidade fora do comum, principalmente para negócios. Nasceu no Boi Velho, que era município de Monteiro na época. Seu ofício principal era o de boiadeiro, mas se a ocasião exigisse, vendia vermelho em velório e picolé no Pólo Norte.

Inácio não deixava, por nenhuma hipótese, um negócio se estragar, principalmente se dependesse de uma boa conversa. Comprava e vendia bois e cavalos e, de vez em quando, se a situação permitisse, pagava aos credores, mas fazia qualquer coisa para abrigar um amigo ou outro qualquer necessitado no seu imenso coração .

Naqueles confins por onde andava, corria também, de boca em boca, a sua fama e todos gostavam de conversar com ele. Pode-se dizer que era um homem sem abuso nenhum.

Como já estava se achando velho, pensava que era vergonha uma pessoa instruída como ele não conhecer a cidade de São Paulo.

Resolveu ir até lá. Comprou passagem, pegou um “Batalhão” e foi-se embora à procura de um filho que lá vivia, sem levar endereço, achando que não seria difícil encontrá-lo.

Chegando na estação rodoviária do Tietê, não se assombrou nem um pouco, procurou saber de uns motoristas de táxi, que disputavam a corrida, já brigando pra ver quem segurava a sua velha maleta, onde morava o rapaz.

– Pra onde vai, senhor?

– Quero que você me deixe na casa de Inacinho.

– O senhor tá doido? Isso aqui é São Paulo! Quem diabo é Inacinho?

– Mais era só o que faltava, todo mundo conhece Inacinho aqui em São Paulo, num vai dizer que tu não conhece? Ele “trabaia” com negócio de carro e mora perto de Mastruz, aquele que gostava de trocar tiro com os filhos de Juvená Mago, lá no Boi Véi! (Referia-se a um cabra que teve umas malquerenças no Boi Velho e entrou no “oco do mundo”.)

No meio desse impasse, surgiu, milagrosamente, outro Severininho e perguntou:

– É Inácio de tal?

– É esse mesmo!

– Pois ele trabalha aqui, bem pertinho!

E trabalhava mesmo.

O motorista de táxi ainda ouviu a pilhéria:

– Tais vendo aí seu besta?!

Antes de voltar, passeando pela famosa Zé Paulino, seus olhos matreiros enxergaram, num tabuleiro, uma oportunidade de ganhar uns bons trocados quando de volta para o Norte. Uma partida de sutiãs vendidos à preço de banana que ele comprou sem pestanejar, de olho no lucro fácil.

Só que, talvez por não ser um utensílio do seu uso, não percebeu que eram todos num padrão bastante exagerado, fabricado talvez pra alemãs ou holandesas, jamais para aquelas severininhas, chochinhas, da sua terra.

Voltou. E chegando numa feira em Tuparetama, esparramou a mercadoria numa lona no meio da rua e esperou pela clientela que não demorou muito a chegar:

– Seu “Zé”, pra quanto é esse bicho?

– Isso tá barato demais, era dez, mas eu tô fazendo tudo a cinco!

As mulheres pegavam os sutiãs, botavam mais ou menos no “lugar” e sobrava pano que dava para fazer mais uma volta no corpo.

– Ah, seu Zé, esse negócio é grande demais, não dá pra nós não. O senhor não tem outros mais pequenos não?

Inácio, já inteirado do tremendo fiasco, tentava emendar:

– Mas tá quaje de graça; vocês leva e chega em casa e bota uns “carços”, que vai dar certim!

BEATRIZ ARAGÃO

Beatriz Bezerra de Aragão é irmã de Antônio e de Catarina, vive hoje aposentada na cidade de São José do Egito.

Apesar de ter deixado há tempo o serviço público, na condição de professora, carrega ainda na alma todos os trejeitos de quem passou boa parte da sua vida tecendo poemas de amor à vida, de giz e apagador na mão, diante de um quadro negro, tão negro quanto o futuro, seu e daqueles sertanejinhos pobres a quem procurou ensinar a ler e escrever com a intenção de colocá-los num mundo melhor, onde alguns poucos teriam a parte que lhes caberia nas fábricas, vilas e favelas daquela imensa e tenebrosa São Paulo, sumidouro de almas nordestinas.

Beatriz faz parte de um gênero onde nascem poucos exemplares. Como todo agente de educação, leva uma vida modesta cercada pelos filhos, netos e muitos amigos. Não aparenta tristezas, apesar dos catabios da sorte e vai “tangendo as suas cabrinhas” com toda aquela serenidade da eterna professorinha primária que sempre foi.

Ela seria muito bem, aquela Irene, do poema de Manoel Bandeira, “Irene no Céu”:

“Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene chegando no céu e pedindo a São Pedro:
– Com licença, meu branco!
– Você não precisa pedir licença, Irene – Pode ir entrando!”…

Mas fica só na comparação, pois tenho certeza de que ela não quer ser chamada pelo pessoal de lá de cima nem tão cedo.

Da sala de aula, além da imensa lição de vida, Beatriz guardou, com cuidado e carinho, histórias que viveu na rica convivência com o povo do mato, gente simples, pobre e exuberantemente sábia.

Uma vez na aula de religião, Beatriz perguntou aos meninos:

– Vocês sabem quem é que pode mais do que Deus?

Ninguém se atreveu a responder, até que lá do fundo da sala veio a voz ainda muito fina, porém determinada:

– Eu sei, professora!

– Então diga, quem pode mais do que Deus!

– É o jumentinho daquela história que a senhora contou, que carregou Nossa Senhora e o Menino Jesus!

SEU OSVALDO DA FARMÁCIA E O BENZETACIL

Seu Osvaldo era um homenzinho branco e muito pequeno. Ficava ainda menor, por trás das grossas lentes dos óculos que usava pra adivinhar os garranchos das receitas que os médicos desenhavam no atendimento aos doentes do lugar.

Seus cabelos eram grisalhos e sempre bem penteados, o bigode e as unhas amarelados pelo cigarro e não largava jamais a camisa branca de mangas curtas e a gravata.

A sua farmácia, se não era a melhor era pelo menos a mais bem localizada da cidade de Monteiro, uma vez que ficava na avenida central e olhando para a praça principal, a Praça João Pessoa.

Seu Osvaldo, tinha a aparência de um sujeito de cara meio fechada e de pouca conversa mas dominava o conhecimento dos remédios que compunham o seu estoque, que a essa altura já não eram tão homeopáticos assim. Já existia nesse tempo coisa mais moderna, como, por exemplo, o Benzetacil, um poderoso antibiótico que injetado no braço doía mais do que ferroada de marimbondo no olho e o cabra passava mais de uma semana com gosto de ferrugem na boca. Doía mas curava um bocado de doença, por isso era caro.

Clodoaldo Torres Filho, Clodoaldinho, passou a sua adolescência em Monteiro, antes de vir pra Pernambuco e muito jovem ainda, ocupar pelo seu talento, cargos de alta envergadura no governo e na iniciativa privada. Bom contador de histórias, de personalidade alegre e festiva, Clodoaldo conta de um diálogo que assistiu num dia de feira na frente da farmácia de seu Osvaldo, quando vivia em Monteiro.

Eram duas matutinhas conversando com o velho farmacêutico:

– Se eu fosse vocês compravam esse antibiótico que tá em promoção, tá com um preço muito bom!

– Mas seu Osvaldo, nóis não tem doença nenhuma não!

– Mas esse remédio é muito bom, previne muita coisa e tá muito barato, depois vai subir, é antibiótico!

– E arde seu Osvaldo ?

– Arde!

– E dói?

– Dói!

– Então vamo tomar fulana que deve ser muito bom!

INSUPERÁVEL ONIPOTÊNCIA

Há algum tempo atrás, quando o futebol era pouco divulgado no interior, num lugarzinho lá nos cafundós da Paraíba, já perto do Ceará, acho que foi em Monte Orebe, um sujeito chamado João de Luca convenceu dois cantadores a fazer uma cantoria na sua casa que ficava detrás do campo de futebol desse lugar, já quase no meio do mato.

Diante da promessa do dono da casa de que iria muita gente, um dos cantadores, que tinha um dinheirinho, começou a divulgar o evento numa difusora local .

Uma semana de anúncios e chegou o sábado dia da grande cantoria. Os dois cantadores chegaram na casa de João de Luca de tarde, logo cedo pra conferir o público presente. Não tinha ninguém a não ser o dono da casa , que era bem pequenininha.

Um deles entrou na sala e viu que só tinha um cancão preso numa gaiola. Olhou pro terreiro e tava lá um jumento amarrado num pé de pereiro e devidamente “armado”.

Pronto, o mote tava ali.

E o cantador que era dos bons glosou:

Eu tive uma idéia maluca
e divulguei até no rádio
de cantar detrás do estádio
na casa de João de Luca
um cancão numa arapuca
ele pegou pra nós três
e um jumento pedrês
subindo o pau e descendo
como quem fica dizendo:
“olha aqui pro cu de vocês!”

NO TEMPO DOS CAMINHÕES

 

A cidade de Monteiro na Paraíba, na década de sessenta, vivia cheia de caminhões e caminhoneiros, a maioria transportando cargas do algodão, que ainda era abundante naquela época.

Lembro que nos dias de semana, as calçadas que rodeavam o mercado público ficavam forradas de enormes lonas e sobre elas os remendadores que com suas agulhas, linhas grossas, e macetinhos de madeira remendavam, com paciência e extrema habilidade os buracos nelas causados pelas longas caminhadas. Era mais uma profissão que girava em torno da cultura do algodão.

Zacarias Policarpo, pai de Batista, (ainda hoje caminhoneiro) e Luciene, meus primeiros vizinhos em Monteiro, ainda hoje, meus amigos, Joaquim Muniz, Jeronimo, João de Iaiá, Zé Tempero, eram velhos navegadores da estrada.

Orestes, Carretão Pedro Sola, Antonio Grosso e Mário Cabeção eram os “chapeados” ou “ganhadores”, gigantes estivadores que com seus chapéus esquisitos, feitos com metades de velhas bolas de couro, carregavam sem cansaço nenhum a frota de caminhões que partiam todos os dias para os mais diferentes destinos do nosso imenso país.

Mário Cabeção era ganhador. Era um “mulato sarará” de grossos lábios, sempre estourados pelo sol escaldante e o clima seco do Cariri. Na parte superior da boca somente os dois caninos, os outros , perdidos talvez nas muitas brigas em que se metia quando bebia. Enfrentava e botava pra correr dois, três ou até mais soldados de polícia, nos cabarés da cidade, ia preso mas deixava no local um considerável estrago. Dizem que, após cada contenda, era soldado pra todo lado à procura de capacetes e cassetetes perdidos durante o conflito, tudo isso, numa época em que essas questões eram resolvidas com cassetetes de um lado e murros de outro, armas de fogo, jamais.

Mário foi também um dos melhores zagueiros do time local. A lembrança que tenho dele é de quando já não havia mais algodão e caminhões a carregar. Decadente, bêbado e descalço, era apenas um Sansão dominado pelos Filisteus, perambulando pelos bares da cidade na mais absoluta pobreza, porém sem pedir nada a ninguém. Através da sua rota e desabotoada camisa, dava pra ver a musculatura ainda rija do seu peito de gigante.

Não sei quando morreu, nem se seus poucos amigos estavam lá junto, tomando a “saideira”. Certamente embarcou num daqueles enterros da “caridade”, sem choro nem flores e apenas uma vela de chama mortiça a derramar sebo derretido nas táboas do seu pobre esquife. Seguramente nunca vai ter o seu nome colocado numa rua da cidade que o viu nascer.

Mário, como todos os outros “ganhadores”, além da atividade do dia, ainda ia fazer “bico” à noite, carregando fretes dos passageiros que chegavam nos ônibus da “Realeza”. Com o apurado, ia beber e pagar cachaça com preá, rolinha ou arribaçã, para os amigos, na barracas de Pedrinho Crispim, Metódio, Luzia, Nazinho Fogueteiro e tantas outras espalhadas naquela ribeira do Paraíba.

Contam que uma noite, desceu do ônibus a Madre Superiora do Colégio das Lurdinas, tendo como bagagem um enorme baú contendo só Deus sabe o que (troços de freira, talvez). Mário que estava no seu plantão, jogou o baú na cabaça e tocou pro colégio que ficava a uns quatrocentos metros de distância. Com o pescoço quase enterrado nos ombros e as pernas bambas pela carga descomunal, tocou para o seu destino acompanhando o comboio das irmãs que foram buscar a Madre.

Chegando no colégio, botou a carga no chão e ficou esperando o pagamento do frete, quando uma freirinha veio fechar o portão do estabelecimento.

– Deus lhe pague seu Mário, agredeceu a irmãzinha, já empurrando o pesado portão.

Mário deu a última cartada:

– Apois irmã, diga pelo menos onde é o escritório desse homem pra eu ir receber o meu frete!

CONVERSAS SEM PROTOCOLO E SAUDADES DE MARCOLINO

 

José Marcolino Alves (Jun/1930 – Set/1987)

Recorro às lembranças remotas para falar do Marcolino que conheci de perto. Isso foi lá pelos anos cincoenta, quando eu andava pela casa dos dez anos. O lugar era o Mugiqui, a fazenda do meu pai, onde a minha irmã mais velha, que era muito festeira, organizava “sambas” debaixo de um grande cajueiro que ficava entre a nossa casa e a de um morador, um negão chamado Duão.

Acho que foi por ali que eu e meu companheiro Agenor, ambos da mesma idade, vimos pela primeira vez o poeta, que na época ainda trabalhava na agricultura com o seu pai e irmãos. Nos fins de semana, ele acompanhava o sanfoneiro Pedro Bentinho, cantando e tocando pandeiro. As músicas não eram necessariamente xotes e baiões mas também sambas que já eram sucessos nos poucos rádios existentes na região.

O poeta, alto e um tanto desleixado no andar, mantinha uma vasta cabeleira, que lembrava o grande Castro Alves. A sua voz era profunda e suave. E, já mesmo sem sabermos ao certo quem era, impressionava a dois matutinhos que na casa de Duão escutavam abestalhados aqueles artistas do povo, que entre uma e outra “lapada” de cachaça, falava de coisas que não entendíamos. Certamente eram “conversas sem protocolo e de fácil vocabulário”, como iria compor mais tarde o já famoso Zé Marcolino.

Desse dia de festa restou pra nós, eu e Agenor, filho de um morador do Mugiqui e meu fiel escudeiro, uma história, no mínimo inusitada.

Cansados de ouvir as conversas na casa de Duão, eu e meu amigo decidimos voltar pro cajueiro e esperar a festa que começaria logo mais no início da tarde daquele sábado. Chegando no local da festa, já encontramos tudo rigorosamente arrumado, uma mesa forrada, com os instrumentos em cima, o botequim com todas as bebidas e copos, o chão varrido para a dança e um detalhe: ninguém no local, todos na casa do negão que ficava a algumas braças de distância, certamente participando daquele momento tão raro, na companhia daqueles artistas.

Sozinhos no cajueiro, o que fizemos eu e o meu companheiro Agenor? Fomos, é claro, mexer nos instrumentos. Agenor deu de garra do pandeiro e eu peguei o cavaquinho, tudo ali, inclusive até a sanfona dando a maior sopa. Brabos feito índios, nós dois nascidos naquelas brenhas, na verdade nunca tínhamos visto instrumentos tão de perto.

Desajeitado e com coordenação motora precária, segurei o cavaquinho contra o peito e, quando inventei de tocar, a palheta escorregou pra dentro do instrumento. Bem que eu ainda tentei retirar aquela coisinha pequena, mas meus dedos não iam além das duras cordas de aço, bem esticadas e afinadas. Desesperado, só me vinha na cabeça uma idéia: não haveria mais festa e a culpa seria toda minha. Passei o cavaquinho pra Agenor que ainda tentou inutilmente e tomou uma sábia decisão:

– Vamo embora pra casa.

Saímos dali, “voando”, perdemos a grande festa, dei uma desculpa qualquer pra minha mãe por voltar tão cedo e o pior: deixamos de juntar as tampinhas de cerveja e guaraná, como também as carteiras vazias de cigarros com que fazíamos notas de dinheiro.

Voltamos lá no dia seguinte, onde só os vestígios da grande festa nos aguardavam. As tampinhas e as “notas” de cigarro, já tinham sido colhidas por outros meninos com mais sorte que nós.

Vim reencontrar Marcolino algum tempo depois, já cantarolando as suas primeiras composições, encostado em algum balcão de cedro das bodegas que freqüentava na Prata. A música “Rolinha branca“, já era sucesso nas noites geladas do lugar, na voz de Toinho Cavalo Velho, o seu maior fã na cidade.

Marcolino foi, sem dúvida, um dos poetas e compositores que mais se arrimou de elementos da natureza na composição do seu belo e pungente trabalho musical. Cacimba Nova, Serrote Agudo, Matuto Aperreado, Marimbondo e Pássaro Carão, são, dentre outras muitas, exemplos desse aproveitamento. Em Pássaro Carão, a frase “ainda ontem eu vi, pólvora no chão”, me deixou curioso: que pólvora seria essa de que falava o poeta?

Não houve tempo pra desfazer a dúvida com o autor do verso. Primeiro foram os desencontros, depois a sua partida antes do combinado.

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Conversando um dia com o pesquisador recifense Urbano Lima, admirador e amigo de Marcolino, este me explicou que a tal pólvora eram mosquitinhos microscópicos, que se juntam em milhares, ora no chão, ora em pequenas poças d’água que as primeiras chuvas do inverno deixam na caatinga e que constituem no imaginário da matutada, uma das “experiências” de bom e promissor inverno.

Pouco “escolado”, como a maioria da sua geração, o poeta se valia com assombrosa espontaneidade desses recursos para tecer a sua duradoura e fabulosa obra poética.

Saudade imprudente, foi um hino sertanejo, cristalizado no voz do gigante Dominguinhos. Sala de reboco, na voz de Gonzaga, vive ainda hoje na boca do povo, com a sua magnífica simplicidade.

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Ouso dizer que no período da chamada “Jovem Guarda”, foram as canções de Marcolino que mantiveram a resistência de Gonzaga e o seu baião, contra aquele que, na minha visão, foi um movimento idiota, composto por versões imbecis de músicas estrangeiras e alguns simpatizantes igualmente idiotas, entre os quais estava eu. A Prata, minha e de Marcolino, sofreu as metamorfoses decorrentes de um processo natural de decomposição da cultura de raiz, que a TV ajudou a disseminar.

As bodegas não sobreviveram, as serenatas nas suas noites geladas são hoje notas perdidas na memória de uns poucos. Toinho Cavalo Velho, o primeiro intérprete do poeta, largou a serenata pela palavra do Senhor, trocou o velho e fanhoso violão por uma bíblia que conduz debaixo do braço, pelas mesmas ruas em que cantava “Rolinha Branca“.

Tudo isso foi depois que o poeta partiu.

Hordas dos chamados “agroboys” invadiram os sertões e litorais com aberrações sonoras que priorizam a pornografia e o desrespeito pela mulher, comportamento que na visão do poeta Ésio Rafael já se enquadra, também, numa questão de saúde pública.

Felizmente, Marcolino foi poupado de testemunhar tamanha aberração. Melhor pra ele que, lá do céu, nos ampara com o legado que nos deixou aqui na terra. Se alguém descesse um dia de “lá de cima”, certamente confirmaria essa passagem:

Marcolino chega no céu, bota a sua maleta no chão, pendura o paletó num armador, se vira pro Criador e diz:

– Poeta, cheguei…

* * *

PAULO BERNARDO DE MENEZES (PAULO MOUCO)

Paulo é o irmão mais novo de Chico de Dedês de Ouro Velho, na Paraíba. Não ouve lá essas coisas toda, daí o apelido.

Uma noite tava lá em Ouro Velho, num carteado, quando sua mãe chegou à porta do cassino pedindo a ele dez contos pra comprar açúcar. Pediu uma vez, duas e Paulo nem aí, fazendo que não estava ouvindo. Nisso, um dos companheiros o cutucou, pois ele permanecia de cabeça baixa, ignorando a presença da mãe.

– Paulo, tua mãe, tá aí, querendo falar contigo!

– O que é que a senhora quer mãe?

– Quero vinte. Vinte contos pra comprar açúcar!

E ele:

– Inda agora era dez!

Outro dia estava jogando sinuca em Ouro Velho quando chegou uma pessoa apressada chamando por ele.

Perguntou ao portador:

– O que é que tu queres?

– Mandaram te chamar, lá na tua casa, que uma cobra mordeu a tua sogra!

– Que cobra foi?

– Não sei não, parece que foi uma cascavel!

E ele, passando giz no taco:

– Pense numa cobrinha pra eu ter fé nela!

POEMINHA PARA LETÍCIA

Poeminha mal acabado para uma musa que dorme no ano novo.

princesa-

Sonha minha princezinha
Teu sonho de amor e paz
Se fosse a vontade minha
Não crescerias jamais
Pra não sofreres nas curvas
Que a estrada da vida faz

Voa teu sonho filhinha
Nas asas de um passarinho
Que navega em céu de estrelas
E pousa devagarinho
Num galho onde o seu amor
Lhe espera dentro do ninho

Deixa que teu pai filhinha
Embale esse sonho teu
Porque o dia acabou
E a noite prevaleceu
E jajá nasce outro ano
No lugar do que morreu…

* * *

Nota do Editor: Poema publicado neste JBF no dia 2 de janeiro de 2014

SÉRGIO BERNARDO

Pra o meu velho amigo, mais amigo do que velho, que partiu em setembro de 2009. Cansou de tanto viver.

Aposentado do Funrural, cambista em Ouro Velho, irmão de Cona e um do poucos ainda vivos dessa tribo tão grandiosa.

Sérgio é uma criação perfeita de Deus. Magro, bem humorado, atualizado, amigo de todo mundo, não sabe o que é doença e remédio, não toma nem pra “difruço”, porque não sabe o que é isso.

Nasceu no sítio Dependência, no município de Monteiro, no ano de mil novecentos e dez, quando o sertão ainda era repleto de onças, e foi no meio delas que começou a sua vida de almocreve, carregando cargas naqueles sertões bravios, sem conhecer fronteiras, e nem o medo que elas impõem. Lampião já comandava grupos armados e impunha o terror a muita gente que habitava o seu vasto domínio. Sérgio, saindo do Boi Velho, transitava sem sobrosso levando cargas para Serra Talhada, Salgueiro e outras localidades, onde o cangaceiro era temido.

– A gente andava meio cismado, pois não conhecia o homem, mas tínhamos certeza de que a briga dele não era com a gente, por isso não tínhamos medo de andar por lá.

Sérgio, que era afilhado do meu tio Cícero Nunes, da fazenda Boa Vista, foi também agricultor. Alcançou as duas guerras mundiais, viu seus amigos do Boi Velho, e matutos como ele, Pedrinho e Doutor partirem para combater os alemães na longínqua Itália e voltarem cobertos pela glória dos vencedores, viu o Padrinho Padre Cícero, viu o homem atingir a lua, e a chegada da televisão colorida, sem espanto nenhum, como até hoje tem vivido. Viu épocas de bons invernos e grandes secas, viu também gente arribar, morrer de fome, de peste, ser enterrada em redes, tudo conforme a vontade de Deus.

Viu tudo isso e muito mais tem pra contar nos seus noventa e três anos, completados em setembro de dois mil e três, com as pernas firmes, olhos enxergando longe e os pés palmilhando a terra que lhe viu nascer.

Padre João Honório era o pároco da freguesia de Monteiro, em meados dos anos cinqüenta. Veio ainda muito jovem de Areia, na Paraíba, e lá foi ficando até o fim dos seus dias, beirando a casa dos oitenta. Era baixinho, gordinho, papudinho e a sua papada aumentava na medida em que ia se zangando com algum malfeito de um ou outro cristão desavisado. Dava um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair, era um fidelíssimo servo de Deus e conduzia os seus mandamentos até aos extremos. Era irredutível, mas, também, honesto caridoso e morreu como deveriam os da sua espécie: pobre, sem patrimônio algum, que não fosse o bem que praticou ao longo do seu apostolado.

O povo gostava dele, mas temia os seus gritos, principalmente as mulheres, se estivessem de vestido decotado, ou ombros nus, na igreja ou em qualquer outro lugar que fosse.

Como a sua paróquia se estendia às outras localidades, era certo que todas as terças-feiras estaria em Boi Velho e nas quartas, na Prata, rezando a missa, dando gritos nos matutos e falando mal de João Agripino, político famoso na Paraíba e seu desafeto de estimação.

Um dia de feira, em Boi Velho, padre João Honório, encontrou Sérgio Bernardo na rua:

– Como vai, Sérgio?

– Bem, graças a Deus, melhor, se não fosse essa seca danada!

E completou:

– O senhor vai bem, não é, Padre Honório?

– Vou como Deus permite.

– Sempre gordinho, não é?

E continuou:

– Padre, o Senhor sabe quais são os únicos bichos que não emagrecem na seca?

– Sei não, Sérgio!

– É padre e jumento!

Quando ainda era jovem, ele e o irmão Antônio Bernardo (Cona) conversavam:

– Sérgio tu sabias que eu vou pedir fulana em casamento? (referia-se a uma prima de ambos, muito feia e solteirona)

Sérgio aconselhou o irmão:

– Pois, Cona, tu cuidas logo em fazer esse pedido senão vão terminar sacudindo ela no mato!

SEU VICENTE DOS GROSSOS

 

Os Grossos ficam num entroncamento da estrada que liga São José do Egito a Tuparetama, em Pernambuco, e também conduz às cidade de Ouro Velho e Prata, na Paraíba e, dependendo da disposição do viajante, a Paris, Nova Iorque e assim por diante.

É um arruadozinho que não chega a ter vinte casas, com um campo de futebol onde o gramado são seixos, um grupo escolar e a bodega de Raimundo, um caboclo comprido que só a estrada do Juazeiro e que jamais vestiu uma camisa. Dizem que botou uma, pra batizar uma vez, um menino.

Raimundo é um matuto calmo, tranquilo e valente que não “abre” nem prum trem carregado de pólvora com um doido fumando em cima.

O trecho de estrada que liga São José aos Grossos é uma sucessão de curvas que mais parece uma serpente e é todo ornamentado de cruzes dos muitos acidentes que a estrada provoca.

Seu Vicente morava ali perto dos Grossos num sitiozinho pequeno onde passava os dias em meio a gerimuns, espigas de milho e uma “situação” de meio quadro de palma, que cortava para as duas vaquinhas de leite que criava com dificuldade, dependendo exclusivamente das chuvas, que são raras, e às vezes levam meses pra chegar .

Seu Vicente quase não saía e quase não tinha amigos, visto que todo o seu tempo era para a sua criação e a sua plantação. Ia nas segundas feiras até Tuparetama fazer a sua feira e conversar com os poucos conhecidos. Uma vez ia com destino a Tuparetama e um caminhão que passava deu uma chapuletada num bebinho montado numa bicicleta.  Não foi coisa de morte e o desgraçado só levou uns sarrabulhos, ficou meio amassado mas escapou. Seu Vicente viu tudo.

O delegado novato resolveu abrir inquérito e enviar ao juiz da comarca de Tuparetama e lá vai seu Vicente depor na audiência, diante de um juiz novinho que tinha idade pra ser o seu neto e um nó na gravata, na táboa do queixo, do tamanho de um ferro de engomar:

– Seu nome?

– Vicente de tal!

– Sua profissão?

– Trabaio na agricultura.

– Viu o acidente?

– A barruada? Vi sim senhor!

E tome pergunta e seu Vicente agoniado pensando nos bichos com sede no sítio e tome pergunta. O juiz dispensou seu Vicente, ele correu pro sítio, pensando que tudo tinha acabado alí. Quem disse? Um mês depois, lá vem outra intimação e lá vai o coitado depor outra vez, agora já era um novo e desconhecido juiz.

No outro mês, a mesma coisa:

– Seu nome!

– Vicente de tal!

– Profissão?

– Testemunha!

– Como testemunha?

Seu Vicente “pegou ar”:

– Doutor, o senhor é o décimo juiz que me faz essas perguntas e o meu gadinho que tá la no sítio com fome e sede não quer saber disso não. Vamo fazê assim: O senhor me prenda logo que é mió pois todo dia eu vou tá aqui pra depor na sua frente!

CHICO PEDROSA E A MOÇA DO CACHORRO DOIDO

Chico Pedrosa, um vendedor de sonhos

Viajar ao lado de Chico Pedrosa é viajar pelo Brasil através da sua ambulante alma.

As suas muitas e engraçadas histórias, fazem com que os quilômetros passem impercepeptíveis e as distâncias diminuam.

Não é por acaso que divido com ele, sempre que posso, viagens que faço  pelas “terras do sem fim” da Paraíba do Norte, berço meu e dele também.

Chico é um cidadão do mundo, (pelo menos do mundo do Nordeste do Brasil, do nosso mundo) .

A  profissão de vendedor, e hoje de poeta popular, lhe levaram para os quatro cantos desse país que ele conhece como poucos.

Outro dia, íamos eu e ele pra Limoeiro, quando eu puxei o assunto de trem, um tema que me fascina até por que nunca entrei num deles.

– Chico, tu já deves ter andado muito de trem. Alguma história?

– Tem sim. Uma vez eu peguei o trem em Sertânia, com destino a Serra Talhada, eu moço e bem parecido, notei que uma moça até jeitosa olhava pra mim no banco do lado. Me levantei, encostei e puxei conversa. “– Tá vindo de onde?”

– Do Recife, vou pra Mirandiba. Tô vindo do hospital.

– Algum parente  doente?

– Não, era eu “merma”.

– Doente de quê?

– Mordida de cachorro doido, tô tomando injeção no bucho.

– Mas, ficou sentindo alguma coisa ?

– Não, só uns arrepios na lua nova.

– Vige Maria!!!

– Bora pra Mirandiba?

– Posso não nêga, vou descer aqui em Custódia.

(Te dana, vai morder outro!!!)

ZÉ MELÉ

José Balduíno nasceu num lugar chamado Junco, numa dessas inserções que a Paraíba faz no Rio Grande do Norte, nos tornando ainda mais irmãos na seca, na fome e na pobreza, mas sempre irmãos.

Mudou-se pra São José do Egito ainda muito moço quando adotou e foi adotado pela cidade .

Zé dirigiu na vida tudo que se movesse sobre rodas. Foi caminhoneiro de muitas estradas por este “gigante pela própria natureza” e depois, se achando velho para a estrada, largou o caminhão e passou pra veículos menores.

Quem não conheceu Zé Melé certamente deixou de conhecer um pedaço de São José do Egito.

A sua irreverência e a maneira totalmente descomprometida com que sempre conduziu a sua atribulada vida, fizeram dele um sujeito diferente. E o curioso é que as suas estripulias não chegaram a causar grandes estragos a ninguém, sequer a ele mesmo.

Depois de enfrentar muitas paradas, acabou perdendo para uma traiçoeira parada cardíaca aos cincoenta e poucos anos de vida, deixando um vazio abissal nas conversas da rua da Baixa e do Elite, seus pontos prediletos na cidade.

Para Zé, se a vida foi breve, teve toda ela a intensidade e a marca do seu caráter e da sua ousadia .

Seu André de Brito, dos Britos de Pesqueira, na década de sessenta era proprietário de uma égua que ganhava todas as corridas na região. Era uma estrela de categoria internacional e costuma desmoralizar os bons cavalos de prado por onde passava, aumentando o patrimônio do seu dono. Seu André cuidava dela como de uma filha.

Uma vez, passando, por Afogados da Ingazeira e Tabira, onde “alisou” os matutos de lá, procurava um caminhão que levasse o animal até a Fazenda Ipojuca onde morava, quando apareceu Zé Melé que propôs levar a valiosa mercadoria no seus velho caminhão.

Depois de dar todas as garantias de que o animal chegaria são e salvo, “pode deixar seu André eu tô acostumado a transportar cavalo de raça, pode ir simbora tranquilo que sua égua chega lá”. Acertaram o frete, ele improvisou um engradado com pendões de agave, chamou um ajudante e caiu na estrada rumo à fazenda Ipojuca que ficava perto de Arcoverde .

A viagem corria tranquila, quando entrando na cidade de Arcoverde, o caminhão caiu num buraco, a égua espantou-se, quebrou o engradado, pulou no chão e, como não era o seu dia, caiu debaixo dos pneus traseiros do velho Ford.

Zé, devido a velocidade, só parou a alguns metros, quando desceu para avaliar o desmantelo.

A eguinha tava lá “contando as estrelas” com os cascos, tinha acabado de morrer ali de maneira banal, o animal de corridas mais famoso dos últimos tempos e o mimo de seu André .

Zé desceu do caminhão já cercado de curiosos e não se abalou nem um pouco. Pelo contrário. Se dirigiu a um circo que estava acampado nas imediações e já foi negociar as carnes nobres da campeã com o dono do estabelecimento para alimentar os famintos leões que já haviam devorado todos os gatos da cidade.

O seu companheiro de empreitada, a essa altura, conhecedor da valentia do dono do animal e medindo a intensidade da tragédia, não conseguia parar de tremer as pernas quando recebeu de Zé o seguinte comando:

– Fulano, te prepara aí que nós vamos agora direto pra a Ipojuca, eu não vou perder este frete não! Acidente é acidente!

O ajudante, descendo do caminhão como quem vai fugindo de um tiroteio, ainda lhe respondeu:

– Vou contigo não Zé, Tu vais sozinho, eu volto pra casa no “dedinho”, vou até a pé. Mas na Ipojuca eu não vou contigo não!.

Zé Melé não desistiu e subiu a serra em direção à grande fazenda e lá chegando foi logo reconhecido pelo velho fazendeiro que deu ordens a seus cabras armados de rifles para receber a tão esperada encomenda .

Zé desceu do caminhão e foi logo dando a notícia com a naturalidade que lhe era peculiar:

– Seu André, eu não tenho uma notícia muito boa pra lhe dar não !

– Foi minha égua?

– Foi sim senhor! Ela caiu do caminhão …

– Não dê mais uma palavra, eu só quero ver agora a placa traseira desse caminhão. Desapareça antes que eu mude de idéia.

Zé entrou na cabine, engatou uma “primeira”, passou pelos cabras dos rifles e sumiu no giro do Pajeú que o “rabo era um v”.

AINDA OS BERNARDOS DO BOI VELHO

Isabel era irmã de Chico de Dedês, era bonita e engraçada como todos os Bernardos.

Isabel foi casada com Simão, filho de seu Batista dos Correios, com quem teve um bocado de filhos.

Simão era soldado de polícia e sustentava aquele horror de gente com o seu pequeno soldo e os esforços de um roçado que cultivava , uma vez que na condição de militar, dispunha de tempo, visto a tranquilidade que sempre reinou na pequena Prata onde moravam.

Vestir, calçar e dar de comer àqueles meninos, todos pequenos, não era tarefa fácil não e enquanto a mãe se desdobrava nas atividades domésticas, o soldado Simão, ostentando a farda da briosa Polícia Militar da Paraíba, “puxava cobra pros pés” no seu roçado.

Era muita boca pra pouca comida.

Numa quarta feira, que era dia de feira na Prata, Simão comprou um quarto de bode na bodega de Branquinho levou pra casa e foi tomar “uma” no bar de Severino Rodrigues, por que ninguém é de ferro.

Passaram os dias e quando foi na segunda feira, Isabel foi reclamar ao marido:

– Simão, a carne acabou e não tem mais nada pra os meninos comerem.

– Mais Isabel, e eu não comprei carne quarta feira?

Isso foi Isabel :

– Simão, tu compraste um quarto de bode, não foi um calendário não!

– E o que é que tem isso a ver com calendário?

– Simão, calendário é que dura o ano todo…

calend-rio

PAULINHO CABEÇÃO

O cidadão Paulo Almeida durante muito tempo trabalhou na Pneuservice, que já foi  a mais famosa loja de pneus do Recife.

Paulo entrou lá como estoquista e chegou a ser o melhor vendedor da empresa. Mas um dia largou tudo e foi-se embora pra Monteiro, reformou  o centenário casarão que foi do seu pai, o Major Inocêncio, e começou lá uma lojinha de artesanato que hoje é uma das melhores do Brasil.

Cabeça grande, coração maior ainda, Paulinho é um vencedor nato que logo cedo, ainda muito pequeno, começou a pegar no batente. Com apenas onze anos, já prestava pequenos serviços pra uma banca de bicho e uma loja de tecidos estabelecidas na cidade.

Mas se tinha uma coisa que incomodava Paulinho, era ser chamado de cabeção. Era, cabeção faz isso, cabeção faz aquilo… Era insuportável, principalmente por que ele sabia que tinha realmente a cabeça um pouco desproporcional à sua sambuda aparência. E isso doía, maltratava. Paulinho chorava silenciosamente a sua encefálica maldição.

Um dia de feira em Sumé, onde ia acompanhando a loja de tecidos, Paulinho não suportou mais a história de cabeção, sentou no meio fio na frente da loja e começou a chorar copiosamente.

Nisso ia passando uma mulher que compadecida foi lhe consolar:

– Meu filho, por que você tá chorando?

– Porque todo mundo vive me chamando de cabeção e eu não aguento mais!

– Ah meu filho não chore não, eu vou lhe contar uma coisa: Lá em Monteiro, na rua da Várzea, tem um menino com a cabeça maior do que a sua.

– E quem é ?

– É  o filho de Dos Anjos costureira.

E Paulinho, ainda mais injuriado:

– Dos Anjos costureira, é a minha mãe!

A PRIMEIRA RAYOVAC

Lá pelos meus dez anos, lembro que apanhei algodão no roçado do meu pai durante quase um mês.

Sol quente, trabalho tão duro quanto pouco produtivo.

Um dia de serviço meu não chegava a cinco quilos de algodão que papai apesar de ter plantado acabava nos comprando a ainda arredondava o peso.

Mas no meu caso, todo aquele sacrifício tinha um objetivo definido: a compra da minha primeira lanterna Rayovac.

E foi o que fiz com todo o dinheiro da minha labuta e mais uns trocados vindos da economia de minha terna mãe.

Aproveitando uma viagem de Antônio um dos meus irmãos mais velhos à Campina Grande, confiei-lhe a tarefa e desde então dormi muito pouco e perdi a conta das horas que vigiei a estrada de terra batida que dava acesso à nossa moradia à espera de num momento pra outro, ver finalmente surgir numa daquelas ladeiras, a sua figura, com uma mala na mão e a minha lanterna dentro.

É preciso dizer que uma viagem à Campina durava muito naquele tempo.

Como não deve durar hoje pra os meninos que ainda vivem por lá, em função do asfalto e a velocidade dos veículos atuais, posto que fora isso, “tudo está como sempre foi” como no Coito das Araras da minha querida Cátia de França.

Bom, mas chegou enfim o dia em que meu irmão, surge no meu horizonte como um último soldado sobrevivente de uma guerra.

Abriu a maleta e dela tirou uma caixa amarela e azul com a minha «Rayovac» cromada novinha em folha já equipada com duas possantes pilhas que agente chamava «elemento» (a pilha, no nosso idioma matutês, era a própria lanterna).

Depois de uma noite de muito acende-apaga, fui dormir o camarada mais feliz do planeta com minha Raiovaque debaixo do travesseiro.

No dia seguinte, depois de mostrar pra todos os amigos, filhos dos moradores, chamei Agenor que era o meu cabra de confiança, um ano mais velho, e juntamente com mamãe, combinamos trazer de volta pra casa uma cabra nossa que já estava na casa de dona Quitéria costureira no vizinho sítio Catucá há mais de uma semana.

O Catucá ficava a uns quatro quilômetros, coisa que se resolveria em pouco tempo entre a ida e volta mesmo à pé.

Mas como a minha intenção era viver a primeira aventura usando a lanterna, combinei com o companheiro que só íamos sair lá pelas quatro horas o que fizemos em marcha muito lenta pra que a noite nos alcançasse com aquela poderosa arma, a minha lanterna.

Chegamos sem muito alvoroço no Catucá já à tardinha, falamos com Dona Quitéria que amarrou a cabra que era mansinha com uma corda fina, se despediu de nós e foi cuidar dos seus afazeres.

Saímos por ali devagar sem pressa esperando pela noite que parecia chegar preguiçosamente.

Agenor na frente, a cabrinha no meio e eu tangendo atrás sem maiores problemas já que ela concordava plenamente em voltar pra casa.

Não havíamos percorrido nem metade do nosso trajeto, quando a noite desabou sobre nós com magnífica velocidade.

E o que seria a vereda por onde voltávamos, passou a ser apenas uma listra estreita contornada pela espessa caatinga fechada naquele inverno de abril.

Eu de lanterna acesa, Agenor confiante e a cabrinha, ela mesma, quem disse que quis mais andar?

Puxões pelos chifres, empurrões pelos quartos e até cipoadas nas costelas nada disso lhe convencia a ir em frente.

Animal de hábitos diurnos, não arredaria mais um pé dali.

E agora Agenor?

“Vamo soltar essa peste aqui e vamo simbora”.

E foi o que fizemos com a madame que entrou no aceiro da vereda sem antes me fitar com dois terríveis e incandescentes olhos trespassados pelo foco da lanterna.

O resto, foi o cantar do bacurau e outros bichos da noite e o breu que nos cercava no meio da caatinga longe ainda de casa.

Quase voando empinamos no «giro» de casa onde encontrei mamãe preocupada com tanta demora.

Ainda acompanhei com o foco da lanterna, o trajeto do meu companheiro, com destino à sua moradia que ficava a uns quinhentos metros do nosso terreiro até ele desaparecer na escuridão daquele abril, coisa que não era novidade pra ele.

Quanto a mim, depois de um banho de água gelada, desmoralizado e frustrado fui dormir sem a história que eu tinha preparado pra contar no dia seguinte.

Tudo por culpa de uma cabrinha imprudente.

NILDINHO, UMA HISTÓRIA EM DOIS TEMPOS

No começo da década de oitenta depois de mais uma derrota eleitoral na regiāo eu me encontrava na minha cidade na Prata-PB, quando alguém me falou de um menininho que havia sofrido um grave acidente,havia perdido o movimento das pernas e se movia precariamente.

Peguei o carro e na companhia de meu sobrinho Eugeninho subimos a serra do Gabriel que limita os municípios de Prata e Monteiro.

Lá numa minúscula casa de taipa encontramos Nildinho com quatro anos, se muito, se movimentando pelos poucos cômodos da casa apoiado nas mãos como um macaquinho.nd2

O destino vinha sendo cruel com Nildinho que num acesso de eplepsia segundo a mãe, sozinho em casa caíra em cima do fogo que esquentava panelas no chão do casebre pela ausência de um fogão por mais rudimentar que fosse.

A mãe que não estava em casa no momento já o encontrou se debatendo sobre a lenha em brasas.

Nessa época ele ainda engatinhava.

Socorrido, sofreu amputação da metade de um pé e de uma perna logo abaixo do joelho.

Não preciso dizer o quanto aquilo nos chocou a mim e a Eugeninho.

Voltamos pra Recife onde morávamos e como já tínhamos feito de outras vezes, começamos a articular o “resgate” de Nildinho.

Consultamos Aderbal Vieira de Melo, ortopedista amigo comum que se interessou pelo caso .

Com o apoio de Zélia minha irmã que lhe daria abrigo, trouxemos Nldinho e Antonio Pituba seu pai (a mãe não poderia vir, cuidando de outros menores).

Os exercícios de fisioterapia começaram de pronto numa clínica onde atendia Aderbal.

A fase inicial era recuperar o coto da perna amputada que dobrara pra dentro.

E era preciso trazer de volta o movimento a qualquer custo.

Extremamente penoso era ver o samaritano Aderbal dobrar com força aquele joelho até estirá-lo pra que o movimento fosse restabelecido devido o tempo que ficara imóvel.

Causava pena também a hora do banho.

De região extremamente seca, Nildinho chorava horrores na hora do banho.

Mas o tempo e a dedicação prevaleceram e o joelho de Nildinho voltou ao movimento original.

Com a ajuda de um jovem casal dono de uma loja de aparelhos ortopédicos no Pátio de Santa Cruz – que num gesto de rara beleza humanitária doou a perna mecânica, a muleta e a bota que iriam devolver os seus movimentos.nd1

“Apto para o trabalho inclusive” segundo o bom Aderbal, Nildinho, para alegria e emoção de todos nós, voltou depois de meses (poucos) pra casa andando com suas pernas.

Passado algum tempo, perdemos Nildinho de vista, quando fui informado pra tristeza de nós todos que a mãe, algum tempo depois, tirou-lhe a perna mecânica e a bota para mendigar nas feiras da região.

Passando um dia de feira por Monteiro, fui procurá-los no Mercado.

De longe pude ainda vê-lo, com tristeza e frustração, já grandinho, sentado no chão ao lado da mãe.

Junto dos dois, uma bacia com moedas e ainda a velha muleta de alumínio alongada com um pedaço de pau.

Isso foi num tempo de plena ausência dos chamados “programas sociais” que bem ou mal tiram essa pobre gente de uma linha de miséria absoluta.

Trinta e poucos anos depois reencontro Nildinho num comício na Prata, cara fechada, dois meninos pequenos ao seu lado, forte musculoso, perguntei-lhe a idade sem me identificar.

“Trinta e sete” respondeu-me sem mais perguntas.

Antes de sair de junto observei, além do cajado que lhe servia de amparo, o coto do joelho voltado pra posição do acidente.

Vale ressaltar aqui que mais uma campanha eleitoral foi perdida por mim na minha aldeia.

E que uma “corrente de orações” movimenta uma campanha pela retorno de plena saúde de Eugenio Nunes Filho, Eugeninho, que ora luta pela sobrevivência num transplante de medula na distante e sombria São Paulo.

Os que crêem rogam a Deus pelo seu pleno restabelecimento.

Eu, do meu lado e a meu modo, rogo à mãe Natureza que lhe devolva, pelo menos em parte, todo o bem que ele espalhou entre os seus semelhantes por aqui.

Que ele volte restabelecido e disposto pra juntos, quem sabe, ajudarmos a outros “Nildinhos” da vida…

CHICO DE NÊGA

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Era sobrinho de Chico de Dedês, presepeiro, engraçado e mulherengo. Era gente dos Bernardos do Boi Velho.

Teria sido o sucessor do tio se não tivesse morrido ainda muito novo num estúpido acidente de carro onde ele dirigia, segundo contam, depois de   tomar umas e outras num bar lá mesmo, há uns seis ou sete anos.

Apesar de ser considerado um cabra gente fina, Chico de Nêga não era exatamente aquele marido que todo pai e mãe de família gostariam de ter como genro.

Um dia chegou uma mulher na casa de Nêga para um particular:

– Nêga, eu tenho um negócio pra combinar contigo.

– Pois não, diga o que é.

– É o seguinte, fulana a minha filha, “se perdeu” com Chico teu filho e é por isso que eu vim aqui pra gente providenciar esse casamento antes que o povo comece a falar. Tu sabes como é esse povo daqui!

Nêga olhou pro chão, olhou pra rua e respondeu:

– Olha, fulana, a tua filha não tá “perdida” não, ela tá só “ariada”. Perdida mesmo ela vai ficar se inventar de casar com Chico…

PINTO E FURIBA EM SERTÂNIA

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João Furiba e Pinto do Monteiro

Nas idas e vindas do destino, Furiba estava mais uma vez brigado com Pinto quando uma noite, vindo de Patos,  o carro faltou gasolina bem perto da travessa dos Guararapes, residência oficial de Pinto, em Sertânia.

Furiba olhou no relógio, eram 11h30 da noite, posto de gasolina aberto, nem pensar, hotel muito menos!

Só havia uma alternativa – a casa de Pinto, até então seu desafeto.

E foi pra lá que se dirigiu.

Ao aproximar-se, notou que havia luz acesa no interior da minúscula moradia.

Encostou a cara nas brechas da janela e lá estava o velho amigo lendo a Bíblia, sob a luz mortiça de uma vela.

Furiba pigarreou e chamou:

– Pinto, aqui é Furiba!

Pinto assoprou a vela, foi deitar-se,  e Furiba, depois de muito bater à porta da casa, terminaria a gelada noite enrodilhado dentro do velho “fusca”. 

(Do livro Pinto Velho do Monteiro – Um cantador sem parelha)

O BODEGUEIRO MARIANO

Monteiro ficou mais pobre no dia 24 de janeiro de 2011, com a morte, do bodegueiro  Mariano Bezerra da Silva, último irmão vivo de Pinto do Monteiro.

Mariano morreu aos 96 anos, vividos com muita dignidade, trabalho e honradez.

Assim falei dele no livro PINTO VELHO DO MONTEIRO, UM CANTADOR SEM PARELHA, que teve a  sua primeira edição no ano de  2002:livropintodomonteiro

Severino Lourenço da Silva Pinto foi o mais velho de uma família de oito filhos, cujos destaques foram ele e o irmão Heleno, também um grande e respeitado cantador, restando ainda vivos Filomena, com 94 anos, e Mariano, com 92.

Mariano Bezerra da Silva ou “Seu Mariano da Bodega” é estabelecido com uma mercearia em Monteiro há exatos sessenta anos. Aos 92 anos, é um ativo comerciante, estando, ainda, à frente do negócio que ajudou a criar e formar os seus filhos.

Seu Mariano, um homem trabalhador, digno e generoso, sempre dispensou a Pinto um cuidado especial, apesar de mais novo 19 anos. Sempre o ajudou e, ainda, fala dele de maneira fraterna e carinhosa.

Pouco antes e após a morte do poeta, alguns jornais do Recife publicaram matérias dando conta de que Pinto estivera vivendo e morrera na miséria e abandonado numa casa em Monteiro. O que aqui, a bem da verdade, provoca uma pronta correção. Quem o conheceu de perto, e com ele conviveu, tem conhecimento de que Pinto, embora tenha tido – em função do seu extraordinário talento – condições de amealhar bens, nunca o fez. Sempre repartia tudo com todos, conhecidos ou não. “Não deixou bens a inventariar”, assim consta no seu atestado de óbito.

Quando em Sertânia, já praticamente cego e imobilizado em decorrência de uma fratura na perna esquerda (seqüela de uma “traquinagem”, assim, por ele – a mim – descrita: “Foi no ano de 1930, na rua Duque de Caxias no Recife, eu estava num 1º andar do “Cabaré das Polacas”, houve um incêndio e eu pulei do alto e quebrei a perna!…”), mais uma vez foi acolhido pelo irmão que, pacientemente, cuidou dele, não deixando que lhe faltasse o essencial, até o fim.

A casa em que foi abrigado era simples e humilde, mas não lhe faltaram os cuidados da diligente Lenice, que cuidava da limpeza e preparava o pouquíssimo alimento que consumia, e do cabo Edésio, o eterno companheiro dos fins de tarde e quem lhe assistiu os últimos suspiros, com quem traçava glosas e outras conversas de “poeta para poeta”.

Ao longo da convivência com Mariano, não foram poucas as bodegas que este abriu e entregou ao irmão-poeta que, por viver sempre na estrada e ser um desastrado para negócios, iam sempre à falência.

Na maioria das vezes, Pinto, então, distribuía a “massa falida” com quem estivesse por perto, fosse conhecido ou não.

Mariano conta que, numa dessas ocasiões, ainda resgatou a balança que ia debaixo do braço de um camarada que a tinha recebido de Pinto como presente. Em sua alma de poeta, decididamente não havia espaço para negócios ou lucros.

Cantando com João Furiba, depois de mais uma falência, começou a se queixar da falta de sorte no ramo de bodegas, findou uma lamentosa sextilha:

Do jeito que as coisas vão
Com essa falta de sorte
É melhor a gente ir
Pro Rio Grande do Norte.

Furiba:

Se você quiser ter sorte
Na sua mercearia
Coloque uma etiqueta
Em cada mercadoria
Se nela tiver meu nome
Vai conquistar freguesia.

Pinto:

Triste da mercadoria
Que nela tiver teu nome
Pode vir um guabiru
Com quinze dias de fome
Mija o pão, caga no queijo
Passa por cima e não come.

SEVERINO ELÓI

 Quando cheguei em Monteiro, lá pelo anos sessenta, conheci Severino Elói, que tinha um caminhão velho e somente um braço. Usava um paletó surrado, com uma das mangas penduradas, como se não se conformasse com a falta do braço perdido.

Era casado, se não me engano, com Raimunda. Depois se mudou pra Rio da Barra e lá colocou um hotelzinho na beira da pista que liga Sertânia a Iguaracy, onde ostentava uma bateria de panelas de alumínio sempre limpas e polidas, o que era, na época, um cartão de visitas que recomendava qualquer restaurante.caminhao

O meu velho e saudoso amigo Wilson Galdino, sempre que nos encontrávamos na Bodega do Cearense aqui no Recife, me contava inesquecíveis histórias da nossa saudosa Monteiro. Uma delas, que Wilson deixou comigo e nunca esqueci foi essa de Severino Elói.

Num tempo em que o trajeto entre as duas cidades, era todo de barro, ele saiu  de Monteiro com destino a Arcoverde, com uma carga de carvão. Não era tarefa pra qualquer caminhão não, principalmente pra o de Severino que se arrastava penosamente cumprindo aquela longa travessia de marmeleiro, caatinga branca e favela.

Num trecho ladeiroso, entre Monteiro e Sertânia, era preciso dar toda a carga no acelerador  numa descida, pra  garantir a subida da outra ladeira, em função da limitação da potência da velha máquina, que por estar sempre com os pneus na lona, só podia viajar no período da tarde quando o sol era mais brando e maneirava mais no estouro dos velhos pneus.

Pois bem, numa dessas tardes, lá vai ele descendo a fatídica ladeira, dando tudo que podia em velocidade para subir a outra que lhe esperava. Só não contava com uma pedra no meio do caminho, que estourou logo um dos pneus. No impacto, aquela patinha que ficava no capuz “voou” também e uma de suas asas metálicas se incumbiu de rasgar o outro pneu.

Severino, desceu, cubou a situação e olhou pra o relógio, a tarde já indo embora, o sol dando adeus a todos. O pior é que a viagem estava apenas começando e havia um longo percurso a ser vencido.

Severino desceu da boléia, olhou pro caminhão todo inclinado para um lado, tirou o sapato e, com a ponta do pé, começou a cutucar umas locas de  pedras que havia no leito da estrada.

O ajudante que a tudo assistia imaginou:

– Meu Deus, o homem dessa vez endoidou! Severino, o que é que tu estás procurando.

E ele bem tranquilo:

– Nada não: é só uma cascavé pra me morder…

DUAS HISTORIAS DE RONALDO CUNHA LIMA

 

Ronaldo José da Cunha Lima (Março/1936 – Jul/2012)

– 1 –

Numa sexta feira meio dia, Ronaldo entra num restaurante  em Campina Grande e de uma mesa lotada parte um bebinho de braços abertos:

– Meu governador.

Ronaldo abraça o bebinho:

–  Meu amigo.

O bebinho:

De onde o senhor me conhece?

Ronaldo:

De um bar.

O bebinho se virando pros amigos:

– Eu não disse que ele ia me reconhecer?

* * *

– 2 –

Essa outra foi em João Pessoa, na saída de um restaurante, quando se dirigia ao carro oficial de governador e um bebinho maltrapilho, todo lascado parte em sua direção:

Doutor Ronaldo, eu queria pedir um favor ao senhor.

Pois não, peça.

Era se o senhor podia me levar em casa que eu tô sem nenhum pra passagem.

Ronaldo:

O amigo mora aonde?

No Cristo.

Ronaldo:

Pode entrar.

O bebinho senta do lado do motorista naquele carrão preto do tamanho do mundo, com o governador da Paraíba na parte traseira e acompanhados pela segurança, entram naquelas  ruas estreitas rumo à favela do Cristo.

O inusitado da presença causa espanto aos moradores que saem aos montes movidos pela curiosidade e o bebinho lá na frente naquele carrão, se sentindo o próprio dono do pedaço. Entram e saem de becos e ruelas, quando o bebinho ordena:

Pronto, pode parar naquela barraca.

O motorista para, o bebinho desce, se dirige ao governador:

Quer descer, doutor Ronaldo?

– Não, obrigado.

Ai o bebinho se vira pros companheiros da barraca, todos paralisados, sem acreditar no que estão vendo.

Olha aí bando de fíi de rapariga, vê quem tá me trazendo pra casa. Esculhamba comigo agora! Eu sô tão fraquinho.

O governador sorriu e partiu rumo ao seu  destino. E  aquele anônimo bebinho ficou com mais uma história pra contar.

Tão fraquinha….

MANOEL FERREIRA DA SILVA (CABOCLO FERREIRA OU CABOCLO DE MIMOSA)

Caboclo Ferreira era uma conjunção perfeita de força física, extravagância e coragem, fatores que faziam dele uma pessoa que não conhecia o impossível. Nasceu em Boi Velho-PB, em data não precisa, viveu sempre dali para Itapetim-PE, embora a sua fama na boca do povo o tivesse levado várias vezes a São Paulo ou Brasília, cidades destino dos desvalidos daqueles Cariris.

Era muito comum ouvir histórias de Caboclo, passadas nesses lugares, embora ele nunca houvesse estado lá. Era o imaginário popular dando asas a um herói que onde quer que chegasse formava-se uma roda ao seu redor para ouvir ou ver as suas proezas.

Uma delas , foi acontecida em Itapetim-PE, quando ainda se chamava Umburana.

Genival Duda, de Monteiro, que o conheceu de perto, conta que num dia de feira, dois cabras se desentenderam e se travaram no bufete, bem no meio da feira, provocando correria e desespero nos presentes, porque matuto é assim: corre pra cima pra ver, ou corre com medo sem sequer saber de que.

Bom, os cabras da briga rebolavam pelo meio da feira, derrubando tudo que tava em pé por lá, farinha, feijão, o diabo a quatro.

Alguém teve a idéia de chamar Caboclo pra apartar a briga, coisa que ele também gostava de fazer. Caboclo conhecia um dos cabras e correu pra lá. Chegando no meio da “imbuança”, pegou um dos brigões pelo pescoço e jogou ele pra cima. O cabra caiu com todo corpo dentro de um caixão de farinha.

O outro, que era mais sambudo, ele agarrou pelo meio da cintura e jogou também pra cima. O cabra se estatelou em cima de um caminhão e ficou lá aquela porcaria.

A briga acabou aí.

Na outra feira, um deles, chegou todo empenado, com um braço numa tipóia e chamou Cabolco num canto:

– Seu Cabôco, eu queria pedir uma coisa ao senhor!

– Pois peça!

– O que eu queria pedir ao senhor seu Cabôco, é que quando o senhor me “ver” numa briga, mesmo que eu tiver apanhando, o senhor num aparte não, por caridade!

LUIZ DE CAZUZA

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Perdemos em março de 2011, na fazenda São Miguel aonde morava, junto da Vila de Nazaré no município de Serra Talhada, o grande sertanejo Luiz de Cazuza .

Pra quem não sabe, Luiz de Cazuza foi uma figura lendária dos tempos dos sertões bravios de Lampião e do cangaço e ainda parente muito próximo de Virgulino (até por que ali todo mundo é parente).

Fazendeiro e sanfoneiro dos bons, morreu tranquilamente de tanto viver depois de ter criado uma ruma de filhos dentre eles o escritor José Alves Sobrinho, membro da UBE e meu dileto amigo.

A  bela fazenda São Miguel ainda hoje é um celeiro de bons sanfoneiros sendo o seu astro maior o cantor e forrozeiro Assizão que lá nasceu e foi criado pelo pessoal de Luiz de Cazuza.

Figura suave, magérrimo e gente boa.

FERNANDO E GUSTO, DOIS MATUTOS NA CIDADE GRANDE

Luiz Augusto e Fernando Robson são meus sobrinhos e, na década de 80, vieram estudar aqui no Recife.

Muito unidos, andavam sempre juntos (a pé), posto que não tinham carro nem dinheiro pra ônibus, muito menos pra táxi, “lascados” que eram.

Como moravam perto do centro, percorriam sempre a pé o trajeto que os levava ao colégio onde estudavam.

Vez por outra, se aventuravam a dar umas voltas pela “cidade”, que é como chamávamos e ainda hoje se chama o centro do Recife.

Só que, por serem muito, mas muito do mato, acabavam trazendo boas histórias pra casa.

A Avenida Conde da Boa Vista, naquela época, era o “Shopping” da cidade, com as lojas e butiques mais chiques e caras das Américas, coisa pra gente rica, usineiro.

Pois bem, um dia faltou açúcar na nossa pobre república e o diligente Gusto percorreu toda a Conde da Boa Vista, procurando uma bodega onde vendesse o produto. Ainda bem que não perguntou a ninguém, se tinha bodega por ali, ia findar apanhando por tal heresia.

Outra vez, iam ele e Fernando lá pela Sete de Setembro, em  pleno coração da Boa Vista; dois bichos do mato, passadas longas, ombros arreados, cara pra cima, medindo a altura dos edifícios, e deram com uma enorme fila, que dobrava uma esquina e findava na frente de um banco.

Era o pessoal do PIS, que acabara de ser implantado; estavam ali pra se cadastrarem ou coisa afim.

Curiosos, ficaram observando a certa distância, quando Gusto resolveu ir até lá pra saber o porquê de tanta gente junta ali.

E lá vai Gusto, matutão, e ainda meio mouco (herança de família), se aproxima de uma mulher e pergunta:

– Minha senhora, o que é isso aí?

E a mulher:

– É a fila do PIS.

Gusto volta e Fernando pergunta:

– E aí Gusto?

– Sei não, não ouvi direito, nas parece que é a filha do bispo que tá chegando ali.

Outra vez, os dois, já mais malandros, estudando em Campina Grande, vão passando na Praça da Bandeira, no centro da cidade, quando avistam aquela roda de gente e, no meio, um brejeirinho meio troncudo, moreno, com os cabelos pretos lisos nos ombros, olhos meio puxados, nu da cintura pra cima, fazendo piruetas e dando saltos mortais.

Era um “índio” do Amazonas que desafiava os nativos dali pra quem mantê-lo com por mais de cinco minutos amarrado.

O “índio”, certamente nascido ali pelo Anel do Brejo, era o satanás de rabo e ninguém conseguia prendê-lo por mais de cinco minutos.

Aqueles amarelinhos, ali da plateia, acostumados a atarem pés de galinha, eram café pequeno para o desafiante, que saía com a corda na mão desafiando os presentes.

Foi quando, pra sua desgraça, deu com aqueles dois bichos do mato, acostumados a amarrar boi, burro, feixe de lenha e até carga de palma em carro de bois, que é a coisa mais difícil de amarrar no planeta Terra.

O “índio” esfregando corda e ninguém quer mais ficar desmoralizado, quando ele tem o azar de peitar com Fernando.

– Bora amarrar esse “coisado” Gusto?

– Bora.

Gusto pegou a corda, mandou o “índio” juntar os mocotós e já deu ali dois nós cegos que nem peixeira amolada desatava.

Passou a corda pra Fernando, que já foi juntando os pulsos do desgraçado noutra armadilha fatal.

A essa altura, toda plateia em silêncio e o artista já com cara de desgosto, quando Fernando, achando pouco, deu uma laçada, com o resto da corda, nos punhos do índio, passou a corda por dentro, passou pelos pés e puxou, dando um nó “cearense”, daqueles de carga de caminhão.

O pobre do “índio” foi se vergando, curvando, e com a cabeça já junto aos pés, ainda teve tempo de murmurar baixinho, no ouvido de Fernando:

– Por caridade, deixe eu ganhar a minha feira…

SEU VICENTE DOS GROSSOS

Os Grossos ficam num entroncamento da estrada que liga São José do Egito a Tuparetama, em Pernambuco; e também conduz às cidades de Ouro Velho e Prata, na Paraíba e, dependendo da disposição do viajante, a Paris, Nova Iorque e assim por diante.

É um arruadozinho, que não chega a ter vinte casas, com um campo de futebol onde o gramado são seixos; um grupo escolar e a bodega de Raimundo, um caboclo comprido que só a estrada do Juazeiro, e que jamais vestiu uma camisa. Dizem que botou uma pra batizar, uma vez, um menino.

Raimundo é um matuto calmo, tranquilo e valente, que não “abre” nem prum trem carregado de pólvora com um doido fumando em cima.

O trecho de estrada que liga São José aos Grossos é uma sucessão de curvas, que mais parece uma serpente e é todo ornamentado de cruzes dos muitos acidentes que a estrada provoca.

Seu Vicente morava ali perto dos Grossos, num sitiozinho pequeno, onde passava os dias em meio a jerimuns, espigas de milho e uma “situação” de meio quadro de palma, que cortava para as duas vaquinhas de leite que criava com dificuldade, dependendo exclusivamente das chuvas, que são raras e, às vezes, levam meses pra chegar.

Seu Vicente quase não saía e quase não tinha amigos, visto que todo o seu tempo era para a sua criação e a sua plantação. 

Ia às segundas-feiras até Tuparetama, fazer a sua feira e conversar com os poucos conhecidos. Uma vez, ia com destino a

Tuparetama e um caminhão que passava deu uma chapuletada num bebinho montado numa bicicleta. Não foi coisa de morte e o desgraçado só levou uns sarrabulhos, ficou meio amassado, mas escapou. Seu Vicente viu tudo.

O delegado novato resolveu abrir inquérito e enviar ao juiz da comarca de Tuparetama e lá vai seu Vicente depor na audiência, diante de um juiz novinho, que tinha idade pra ser o seu neto e um nó na gravata, na tábua do queixo, do tamanho de um ferro de engomar:

– Seu nome?

– Vicente de tal!

– Sua profissão?

– Trabaio na agricultura.

– Viu o acidente?

– A barruada? Vi, sim, senhor!

E tome pergunta e seu Vicente agoniado, pensando nos bichos com sede no sítio, e tome pergunta. O juiz dispensou seu Vicente, ele correu pro sítio, pensando que tudo tinha acabado ali. – Quem disse? Um mês depois, lá vem outra intimação e lá vai o coitado depor outra vez, agora já era um novo e desconhecido juiz.

No outro mês, a mesma coisa:

– Seu nome!

– Vicente de tal!

– Profissão?

– Testemunha!

– Como testemunha?

Seu Vicente “pegou ar”:

– Doutor, o senhor é o décimo juiz que me faz essas perguntas e o meu gadinho que tá lá no sítio com fome e sede não quer saber disso, não. Vamo fazê assim: o senhor me prenda logo, que é mió, pois todo dia eu vou tá aqui pra depor na sua frente!

O SERTANEJO E O INVERNO

A televisão, quando chegou lá pelo sertão, bagunçou com a cabeça dos matutos. E, se brincar, até hoje tem gente que não acredita caber tanta gente ali dentro.

Na primeira ida dos americanos à lua, Zé Quelé, ex- cangaceiro e ex-soldado, que era irmão de Quelé do Pajeú, já com quase oitenta anos, e morando na Prata da Paraíba, puxava o punhal pra quem dissesse que aquele foguete que ele vira entre chiados e chuviscos das TVs da época, tinha realmente pousado na lua.arca de noé

– Tá doido! Como é que um troço grande desse jeito, senta num troço tão pequeno daqueles, dizia se referindo à lua.

Chico de Dedês, em Ouro Velho, não só gostou, como aprovou a televisão. E descobriu coisas novas:

– Num sei como é que esse povo da rua gosta de ver briga de murro, parêia de carro e o pior, matam e morrem por causa de home jogando futebol.

Na verdade, o sertanejo, mudou os seus conceitos, a partir da magia da televisão.

Mas nem sempre foi assim. Enquanto hoje, principalmente nas grades cidades, o assunto que prevalece entre os homens é cem por cento futebol (mulher nem pensar) os velhos sertanejos gostavam mesmo era de falar de inverno de pegas de boi e… de mulher.

– Visse as calça de Maria?

– E eu lá tive essa sorte!

Conversavam os dois matutinhos de Jessier na feira de Itabaiana.

Contam que um bando de sertanejos toda tardinha se reunia num cantinho lá no céu pra falar de inverno e chuva (já que no céu deve ser proibido falar de mulher). Ficavam ali jogando conversa fora até a boquinha da noite, quando se recolhiam.

– Pense num inverno grande foi aquele de 37!

– Foi nada. Aquilo foi lá chuva! Chuva mesmo foi em 28!

Nisso passava um velhinho baixinho branquinho com a barba branca quase arrastando no chão, que nunca parava pra conversar, só dizia:

– Vocês nunca viram chuva!

Ficava todo mundo puto, por que ele nunca conversava com ninguém, só passava, entrava na conversa dos outros e ia embora, até que um dia um deles perguntou pra um dos mais velhos:

– Me diz uma coisa, quem é esse velho abusado que não quer conversa com ninguém e fica dizendo que nós nunca vimos inverno?

O outro respondeu:

-Sei quem é não, dizem que é um tal de Noé!

LÉ PINTOR

Hermes de Siqueira Santos era o seu nome de batismo.

Era pintor, letrista, contador de histórias, alfaiate e boêmio ungido pela graça do Divino Espírito Santo. Seu tipo físico de estatura baixa, barriga saliente, sua cor branca e seu nariz comprido, lembravam o célebre Toulouse-Lautrec, pintor da “belle époque” francesa, também boêmio, muito popular, famoso e querido pelas mulheres do “Moulin Rouge“.

Lé, como era chamado, viveu intensamente nos cabarés e bebeu na boemia de São José do Egito, até quando Deus, impaciente com tanta demora, resolveu chamá-lo, até meio antes do tempo. Devia ter uns sessenta e poucos quando deixou este mundo velho.

O sargento Chiquinho foi mandado de encomenda para ser de­le­gado de São José, numa época de contendas “brabas”, na agitadíssima política de lá. E mandou ver: fechou bares, prendeu gente, reprimiu o jogo e decretou o célebre toque de recolher, prática muito usual nas ditaduras da desvalida “nuestra Latino-América”.

Numa de suas rondas noturnas, lá pelas dez da noite, quando tudo já deveria estar fechado, como mandava a lei, e até a luz (de gerador), já estava apagada, o sargento foca a sua lanterna na cara de Lé, que acabara de sair de casa, cumprindo a sua rotina de notívago, numa ronda onde a noite mal começara.

– Pra onde o sr. pensa que vai?

– Vou pro cabaré, sargento!

– O sr. tá doido? Não sabe que eu mandei fechar tudo?

– É, mas essa é a minha hora e eu só vou dar uma olhadinha por lá!

– O senhor é quem escolhe: quer voltar pra casa ou dormir na delegacia?

Diante de tão “convincente” argumento, Lé não discutiu e foi voltando pra casa, quando já estava com a chave na fechadura, voltou-se e perguntou para o delegado:

– Ô sargento Chiquinho, eu não tenho costume de dormir a essa hora da noite, como o sr. tá mandando. Será que eu posso me deitar e ficar com os ói aberto?

O SERVAGE

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Poeta Gregório Filó

Gregório Filó é irmão do poeta Manoel Filó. É um sujeito cheio de histórias engraçadas, grande poeta e conhecedor como poucos daquela matutada dos Cariris e Pajeús.

É amigo, compadre e velho companheiro de Antônio de Catarina.

Antônio reconhece o poeta que habita na alma de Gregório mas contesta a sua calma e tranquilidade. Segundo Antônio, o compadre Gregório nem sempre é calma e tranquilidade, bote coentro na sua comida ou pise no pé dele.

Foi por isso que Antônio lhe botou o apelido de “Servage”.

Um dia saíram os dois de São José e foram “tomar uma” na vizinha de Itapetim. Lá, beberam, declamaram versos contaram histórias e discutiram. Discutiram feio, por motivos que nem um dos dois lembrou depois e Gregório levantou-se e ameaçou ir embora. Antônio pegou na palavra:

– Pode ir, agora sem mim , eu fico aqui e não vou com você não!

Gregório entrou no Passat e deixou o compadre/amigo na mesa do bar acompanhado somente da sua garrafa.

Antônio deu um tempo, mandou chamar um táxi e avisou:

– Não quero pressa, pode ir devagarinho.

A estrada que liga São José a Itapetim, parece uma cobra em movimento de tanta curva que tem e foi numa delas que o apressado Gregório sobrou e desceu rolando aterro abaixo. Como não sofreu nenhum ferimento, deixou o carro lá embaixo e subiu pra pista, em busca de socorro.

Coincidentemente, foi na hora que o táxi de Antônio ia se aproximando.

Ao ver Gregório acenando com a mão o taxista foi diminuindo a velocidade pra socorrer o poeta. Foi quando Antônio, que já tinha reconhecido o companheiro interveio:

– Não pare não, não pare que aquilo é um assaltante perigoso.

O motorista que nada sabia da briga dos dois, ainda tentou contornar:

– Mas seu Antônio, não é seu Gregório?

– Não pare de jeito nenhum !

O taxista obedeceu e tocou em frente.

Antônio chegou em casa, tomou um banho, puxou a cadeira de balanço pra calçada e ficou aguardando as notícias do acidente, uma vez que o companheiro fatalmente passaria na frente da sua casa que fica na avenida que liga a Itapetim.

Não deu muito tempo e lá vem o Passat puxado por um reboque improvisado que trazia também o “Servage” que fez questão de virar o rosto, pra não ver o compadre e seu sorriso de ironia.

Horas depois, já estavam os dois no bar de Lindalva, na rua da Baixa, tomando “umas” declamando versos e contando histórias, coisas que sempre souberam fazer muito bem.


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