12 maio 2012 INDEZ - Ésio Rafael


ENFIM OS CEM ANOS DE CANCÃO

(E… Por Quem os Sinos Dobram?)

Pernambuco está vivendo em 2012 o centenário de alguns de seus filhos Ilustres.  Uns menos, outros mais cortejados, ao passo que outros nem mesmo são lembrados.  Por exemplo, Luiz Gonzaga e Nelson  Rodrigues, um já está rolando, no caso do Luiz, outro a imprensa já começa a pressionar para que haja alguma atitude das autoridades constituídas, no momento em que já saiu até entrevista com Nelson Rodrígues carreada por Geneton Moraes, hoje, correspondente da “Globo” em Londres. Justo! Nada mais justo. Afinal, Luiz por motivos óbvios merece todas e mais homenagens não só através do governo, mas do povo em geral. Nelson saiu daqui muito pequeno, o povo não o conhece, mas foi ele um Ilustre pernambucano que mudou a história (dentre outras funções) do teatro brasileiro.

Claro que existem outros centenários dignos de comemorações. Apenas são desconhecidos. Mas, ninguém vai ficar catando “centenaristas” por aí. Devem existir outros pernambucanos ilustres que lá do túmulo estão aniversariando também, mas nunca fizeram questão em vida, quanto mais em outra esfera. Há também aqueles proscritos que foram Ilustres tanto quanto os mais badalados.

Mas nós estamos aqui para falarmos dos Cem Anos de um fenômeno poético, bastante conhecido nas regiões do Cariri paraibano e principalmente do Pajeú pernambucano, trata-se do poeta João Batista de Siqueira, conhecido por Cancão, nascido no Sítio Queimadas, município de São José do Egito-PE, em 12 de maio de 1912. Apelidado de Cancão por ter sido um menino irrequieto e buliçoso, tal qual o pássaro, comum no nosso Estado. O maior contraste do Cancão já homem feito: contido, angustiado, sofrível e por demais  generoso.

Cancão – o Pássaro Poeta foi criado por ali mesmo nas atividades do  campo em contado direto com os pássaros e a natureza, personagens mais  fortes dos seus futuros  poemas. Vejamos o que disse Francisco Coutinho Filho, escritor, pesquisador, funcionário público federal, autor do livro, hoje um clássico – Violas e Repentes, publicado em Recife em 1953: ”Cancão é um agricultor pobre, de mãos calosas. Acentuadamente introspectivo, vive preso à tristeza e conformado no árduo trabalho da roça e no doce cultivo da poesia”.

Começou sua vida poética tocando viola e cantando de improviso até que em 1950 largou a profissão trocando a viola por um bico de pena, depois de perceber “que não dava pro serviço”. Com essa decisão ganhou a poesia, ganhou a região e todos nós. “Se acaso existisse um Deus da poesia, nas regiões do Pajeú e Cariri, seu nome com certeza, seria Cancão”.

Cancão é referência na boca e no sentimento poético das velhas e novas gerações, como destaque poderíamos registrar dois exemplos  recentes: O músico Tonino Arcoverde gravou um CD exclusivo com poemas de Cancão; e o poeta Lirinha vocalista da ex-banda Cordel do Fogo Encantado, gravou o poema “Tempestade”, além de recitar este e outros poemas de Cancão em seus shows. Em Natal-RN, o poeta egipciense,  Gilmar Leite, em ensaio escrito em 2009, diz: “Sempre encontrei em prefácios de livros de poesia, mais conceitos literários do que o sentido fenomenológico do mundo vivido pelos poetas. Esses conceitos cristalizados geralmente determinam a concepção do belo ao induzir os leitores a uma opinião já formada, desviando a sua capacidade de mergulharem com as suas próprias percepções”. Mais adiante do texto, o poeta Gilmar encerra o seu ensaio poeticamente: “Cancão, pureza da alma, exemplo de humildade, encantador que usou a poesia para elevar nosso espírito, pincel vernáculo dos poemas campesinos, voz singela dos humildes, plantador de sonhos e fantasias. Obrigado por nos proporcionar um mundo belo, cheio de auroras e esperanças, nesses tempos de tantos  ocasos  e  incertezas. Acredito que o poeta do “Pajeú das  Flores”  deve  estar nesse instante no paraíso celestial da  poesia, declamando poemas, acendendo estrelas e jogando orvalhos nas madrugadas celestiais”.  

Como poderia um homem simples mortal como Cancão que não chegou a concluir o curso primário nas bancas das difíceis escolas da época, numa cidade que embora historicamente “propícia às musas”, distante do poder, das decisões, das academias literárias, do foco da mídia. Ele, um misto de suposto submisso junto aos seus pares, caminhantes das feiras livres, em direção à bodega onde a literatura de cordel representava o avanço literário e tecnológico dos mais assíduos leitores, num vai-e-vem das cidades esquecidas pelos homens de BENS, ser considerado – O Deus da poesia? Apesar de todas as especulações ainda não foi bem explicado o fenômeno – Cancão. Um poeta incomum de linguagem sofisticada e incompatível com o dialeto em que fora criado,  adiantando-se que ele teria lido apenas, apenas? Fagundes Varela, Cassimiro de Abreu e Castro Alves. Todavia, isso não autoriza certos escritores e pesquisadores afirmarem categoricamente que Cancão psicografava os seus escritos, numa tentativa talvez inconsciente de não se conformarem com a capacidade intelectual do mestre, subtraindo-lhe a essência inata metafórica de sua poesia.

No livro: PALAVRAS AO PLENILÚNIO, do poeta Lindoaldo Campos, onde reúne a obra pulicada de Cancão e mais alguns textos, o poeta adverte: “Desde logo, ressalte-se, todavia, que a evidenciação de tais aspectos não tem por propósito filiar o Vate Egipciense a qualquer escola literária, mas, apenas e tão somente, delinear o seu estilo através de uma fórmula concisa, em que sejam ressaltados seus aspectos mais relevantes. Neste sentido, poder-se-ia ousar dizer que ela se ajustaria a uma espécie de impressionismo, tendo em mira que é sedimentada, toda ela, na pormenorização plástica dos elementos naturais, em que ressai a vivacidade de cores fortes e nítidas, que glorificam a variedade e a exuberância de minudências da natureza. Depois o poeta cita: Raul Brandão “na tentativa de retratar seus sítios ignorados, termina por confessar:

“o que eu queria dar só o podem fazer os pintores – os tons molhados, os reflexos verdes, o galopar das nuvens fugindo sobre a imensa superfície polida, e, por fim, ao cair da tarde, a agonia dolorosa da luz.”

Ora (continua), não é precisamente isto que Cancão logra fazer?  Então vejamos:

A água branda descia
Pelo pequeno gramado
A relva, fresca e macia,
Era um tapete rendado
Se ouvia lá da colina,
Soluçar uma cascata
E o sol com seus lampejos,
Dava os derradeiros beijos
No rosto verde da mata

(Depois da Chuva)

Em meados dos anos setenta, aconteceu um fato digno de registro. Estávamos em visita à “Velha Grécia”. Corria um sábado dia de feira. Dez horas da manhã, o sol já trêmulo. Fomos à casa de Cancão localizada no quadro da feira, para uma visita evidentemente poética e de prazer: Eu, Celis e Marcos Nigro (todos de Sertânia). Lá o encontramos nu da cintura pra cima, de mãos espalmadas tateando na parede do corredor da casa, em direção à cozinha. Embriagado 10h da matina? Imaginamos silenciosamente.  A mãe dele havia morrido há 15 dias. Era esse o motivo do desespero. Cancão chorava feito criança e dizia inconformado: – Eu quero mamãe!

Sua esposa, dona Amélia nos recebeu com o mesmo calor do sertanejo  comum.  Foi até o quarto do casal e nos trouxe uma caixa de sapatos repleta pelas bordas de poemas escritos pelo mestre em variados tipos de papéis. Inesquecível!

Esse é o perfil do homem que “viajou” em 1982, julho, precisamente.  Cancão deixou três livros: Musa Sertaneja (1967) com o prefácio do sertaniense, Wlisses Lins de Albuquerque; Flores do Pajeú (1969); Meu Lugarejo (1979). Acreditamos que publicado pela UFRPE, quando o poeta Joselito Nunes era diretor da gráfica daquela Instituição.

Em 2007, o escritor, Lindoaldo Campos prestou esse impagável serviço à população leitora de poesia e pertencente à irmandade, Cancão, ao compilar os poemas do mestre malassombrado, em um só livro: “PALAVRAS AO PLENILÚNIO” para o deleite de todos nós. Livro este, patrocinado pelo governo da Paraíba – UFPB (edição esgotada).

O projeto 100 ANOS DO PÁSSARO POETA, idealizado pelo poeta egipciense Marcos Passos, coordenado por ele, Ésio Rafael e Lindoaldo Campos, encontra-se  na: Secretaria de Cultura do Governo do Estado.  É um projeto de pequeno porte, onde consta uma estátua do mestre, a ser erguida em São José do Egito-PE, oficinas literárias, rodas de glosa, debates e o lançamento da segunda edição do livro “PALAVRAS AO PLENILÚNIO”, também encaminhado à CEPE. É a oportunidade do Governo do Estado fazer com o poeta Cancão o que o Governo do Ceará fez com Patativa do Assaré, que hoje é reputado como o maior poeta popular da América Latina.

Convocamos algumas pessoas que possam nos ajudar, pois, não é mole, concorrer com aniversariantes mais visíveis. Cancão está longe, são mais de quatrocentos quilômetros de distância daqui para São José do Egito: “A Velha Grécia”, no dizer de Wlisses Lins no seu discurso de posse na Academia Pernambucana de Letras. Estamos longe da claridade e do foco da pilha, dos que têm a chave do poder. O Projeto: Pernambuco Nação Cultural nos têm dado apoio logístico, no sentido de divulgarmos os Cem Anos de Cancão na confecção do selo: Cem Anos do Pássaro Poeta, momento em que fomos à Nazaré da Mata para traçarmos um perfil biográfico do poeta, divulgando o seu nome na Mata Norte pernambucana. No próximo dia 16, vamos à Petrolina, na região do São Francisco para fazermos a mesma coisa, desta feita, numa cidade sertaneja, onde já se conhece Cancão, inclusive professores universitários residentes naquela cidade sertaneja que cultivam o gosto pela poesia do mestre. Tudo isso com o apoio do escritor: Wellington de Melo,  Coordenador de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado, que  conhece  e reconhece Cancão.  E… SALVE CANCÃO!

3 abril 2012 INDEZ - Ésio Rafael


AVANTE! SIBA

Tão intimista quanto ampla, eis a dança das letras e dos toques musicais do novo CD do poeta – Siba Veloso: Avante, já na praça. Siba é um “velho” conhecido daqueles que cultivam a boa pesquisa, a boa música e a boa poesia da cena pernambucana.

Intimista de tal maneira, que é preciso segurar as emoções na hora de pensar em escrever algo sobre o seu novo trabalho. Mas, como viver é tirar por menos, diante de qualquer situação imposta pela vida, vamos tentar conter do volume emocional preso ao peito, à evasão de uma lágrima oscilante entre a garganta e os olhos.

A crítica especializada não tem potencializado o foco alvo de: Avante, no que concerne à homenagem do artista aos cantadores poetas do poder da palavra de improviso. Siba Veloso tem dedicado parte da sua vida às manifestações populares dos brincantes, do maracatu, do coco, do cavalo marinho, das sambadas. Da rabeca, um instrumento que acompanha a fisionomia psicológica dos artistas e do povo da região, porque é um instrumento que ri e chora, geme como um homem e late como um cão.

Siba deixou temporariamente o povo alegre e sofredor da Mata Norte do Estado de Pernambuco para atravessar os rios: Ipojuca, Moxotó até o mergulho batismal nas águas do feiticeiro rio Pajeú com a benção dos Deuses da poesia. O produto final está registrado no belo presente para a cultura poético musical popular do Estado, onde o artista celebra de uma maneira poética e criativa em gênero de cantoria de viola, a região do Pajeú, como se fosse um cantador nascido por ali mesmo. Siba é recifense. Com o lançamento do CD, Siba dá uma prova inconteste de que esse papo de demarcação de terra foi uma invenção da burguesia (perdão pelo termo. É que eu já fui comunista durante três legislaturas), pois quem é poeta aqui, é na extensão das Américas, Europa e no Oriente.

Caso Siba Veloso entendesse de pegar no gogó duma viola, ia mexer com os brios de uma porção de gente. Em: Avante, o poeta exagerou, deu a corda toda. Uma riqueza de imagens poéticas, no caso, propícia à cantoria de viola. “Pagou o mote e deu a chave”.

Na música: Preparando o Salto, talvez a mais intimista do composto: canção/poesia, o poeta já começa com a preocupação de todos, em qualquer instância, do homem rude ao intelectual. Chora o “leite derramado”, reclama, esperneia, desacredita, tomba, mas no desfeche final, renasce, limpa a poeira junta os cacos e se ergue de corpo limpo …”E eu me levanto renascido e cru”. Usando a Quadra como gênero poético, ele vai compondo a letra fugindo à regra comum tradicional, que difere da Quadra simples, dupla, cruzada, persa etc…  elaborando uma sequência de medidas, durante a alternância das “linhas” ímpares com doze sílabas, enquanto que as pares, ele fecha com dez. Solidificando rima, ritmo, cadência e imagens poéticas:

Não vejo nada que não tenha desabado
Nem mesmo entendo como estou de pé
Olhando um outro num espelho pendurado
Que reconheço mas não sei quem é

Não ouço passos de ninguém entre os escombros
Nem mesmo insetos revirando o pó
Um vento seco me arrepia, encolho os ombros
Mas na verdade estou queimando só

Depois do fogo, restam só fumaça e brasas
E eu tiro as cinzas do meu peito nu
Daqui a pouco meus dois braços serão asas
E eu me levanto renascido e cru.

O que chama permanentemente a atenção no trabalho de Siba é um detalhe penoso, mas que acontece com os cristãos. Ele não se rende aos encantos tentadores e tendenciosos dos órgãos que infelizmente dominam o mercado musical no País.  Ele não cede o que lhe pertence e lhe é mais sagrado – o bem imaterial, o tumulto da sua alma, que lhe mantém de pé. É o que suponho. Siba não aceita subtrair a sua capacidade criativa, em troco do vil metal, do “papel bordado”.  O pior disso tudo, é como diz um dos maiores filósofos brasileiro, Millôr Fernandes: A moral do homem mora no estômago.

Avante é o CD de 2012. Pelo menos nesse particular. Particular este que me atinge ao meio, por defender de maneira não exótica, purista, a poética/musical dos cantadores…

Na música: Cantando Ciranda Na Beira Do Mar, Siba vai de intertexto, inspirado no gênero: – Galope à beira mar, criado pelo poeta cearense José Pretinho (não é o mesmo José Pretinho da famosa peleja com o cego Aderaldo), morador da Fazenda do “coronel” José Ambrósio, em Morada Nova. Diz-se que, ao visitar Fortaleza e o mar (praia de Iracema) pela primeira vez, José Pretinho encantado com a visão, e ao observar a pancada das ondas, fez um comparativo com as passadas dos cavalos do patrão. Daí estava criado o – Galope à beira mar.
 
Trata-se de uma décima na vertical, composta de onze sílabas em cada “linha”, na horizontal. Esse gênero é usado em cima das coisas relacionadas à praia. Foi aí que Siba fez: Cantando Ciranda Na Beira Do Mar, todo dentro da métrica.  Na verdade, a métrica usada pelos cantadores, difere da métrica acadêmica. O cantador encomprida ou encurta um verso, de acordo com o seu fôlego, ritmo e cadência.  Tudo isso acontece, mas sem atropelar o verso.  Pelo contrário, em qualquer deslize do cantador, o próprio colega que por acaso esteja assistindo o embate, imediatamente o censura, com certeza. Além do “ouvinte de cantoria” que está de prontidão para corrigir possíveis erros dos poetas e também atento para o surgimento de algum “balaio” (verso decorado empurrado pelo cantador, por motivos de cansaço ou pela falta de aptidão).
 
Na mesma música, na “linha” onde o poeta Siba se expressa:- Mas no Oceano que tem mais criatura. A considerar que o rigor da métrica (de onze silabas) exige as acentuações tónicas nas: segunda, quinta, oitava e décima primeira sílaba, o verso está desmetrificado porque no caso, a acentuação tônica cai na nona sílaba, fazendo com que o verso saia de onze para doze sílabas. Agora, caso o poeta tivesse retirado o: Que Tem Mais para: De MAIS criatura. Ou seja: Mas No Oceano De Mais Criatura aí, vê-se o parafuso encaixar no final da rosca vedado com força. O exemplo supra fora apenas para mostrar o quanto é necessário cumprir as regras na cantoria de viola, o que não é propriamente o caso de Siba, mas se é “galope”, tem que seguir a regra, com o detalhe de que há os cantadores que a obedece rigorosamente mesmo sem ter nenhuma fundamentação teórica imposta pelas academias. Certa vez, em uma cantoria, pedi para que João Paraibano – O Herdeiro dos Astros fizesse um improviso em décima.  Foi quando ele me respondeu: E o que é décima Grapiúna? Ora! Ninguém faz uma décima melhor do que João Paraibano. Morri de vergonha, mas aprendi.
 
Na música: Avante, que dá título ao trabalho, Siba canta no gênero – sextilha, que representa selo e cartão de visita do cantador. O cantador viaja com a sextilha na cabeça e a viola a tiracolo. Poesia e música. Etéreas e divinas. Apesar de a sextilha ter sido originalmente uma criação dos poetas clássicos (também atribuída ao poeta popular Silvino Pirauá, que teria acrescentado duas “linhas” na Quadra, formando assim a Sextilha) como de resto, a Quadra, a Décima e o Martelo (referente a Jaime Martelo, Professor da Universidade de Bolonha) os cantadores absorveram essas modalidades, de uma maneira tão uníssona que elas já lhes pertencem até mesmo por decurso de prazo.
 
Avante, dentro dessa celebração aos cantadores é a expressão mais fiel por ele escolhida, aos herdeiros de João Nunes da Costa- o Judeu Cristão Novo (Sec. XVI) que correndo da Inquisição, desbravou a serra do Teixeira, plantou frutas, mandioca, Cana de Açúcar. Seu descendente Augustinho Nunes da Costa, pai de Augustinho Nunes da Costa Filho e avô de Ugolino, considerado o primeiro cantador que se tem notícia no Nordeste, que teria fugido de casa aos 18 anos para “viver do improviso”.  Siba antecede a sextilha dando toda carga em: Um Verso Preso, na voz primorosa e inconfundível de Lirinha. O acompanhamento é exatamente o mesmo que os violeiros fazem ao iniciar um “baião de viola”. Só que nessa introdução, as guitarras executam o papel das violas e não lhes devem nada, assim como em se tratando de forró, a rabeca nada tem a dever à sanfona.
 
Antes de Siba entrar de fato nas sextilhas, o arranjo musical é a grata surpresa, mais parece um rock da pesada. Surpreende-nos porque é bonito. Pois, para quem iniciou com: Um Verso Preso, acompanhado de um som monocórdio não esperava uma mistura que para os puristas, não dava e nem dá certo. Claro que dá certo – Arte é revolução.  É como falou o nosso grande Roberto Freire (não confundir com o político pernambucano) psicanalista, autor do clássico Cleo e Daniel – O negócio é o seguinte: amar e criar. O resto é comer e cagar.
 
No momento em que Siba entra na sextilha aí o golpe fatal. Entra sim, a maior surpresa do mundo para os mais atentos nessa história. Ou de propósito ou não (vamos conferir isso com o próprio Siba) ele abre com chave de ouro, ao cantar exatamente na toada (modo individual de expressão do cantador) do – Manoel Xudu, um dos maiores violeiros do nordeste brasileiro, nascido no Pilar-PB, conterrâneo de um outro cantador, João Lourenço que iniciou sua vida cantando – coco e de José Lins do Rego. Ele parece que incorpora o espírito de Xudu, não só na toada, mas na expressão vocal, na cadência, no ritmo, nas imagens poéticas e nas “pegadas” de mestre. Vejamos alguns exemplos criados pelo poeta em Avante.

Desata o nó das entranhas
Se estica a musculatura
O pulmão força e sustenta
O ar na goela se apura
A língua recebe a carga
Larga depois que tritura.

Desfeita a trava dos dentes
A boca escancara e canta
O rosto inteiro estremece
Em vez de sorrir, se espanta
Feito um canhão que ribomba
Com ferrugem na garganta.

Da mesma forma que o bafo
Precede o ronco da fera
Ou como a noite é parida
Da gravidez da cratera
A voz esparrama aonde
Até então não coubera.

Quem escreve mergulha e quem mergulha se integra para dentro de si e posteriormente para o público. Esse dualismo (corpo e alma) gera uma expectativa que o autor só vai tomar ciência com a resposta e consequente autorização desse público.  O único que lhe autoriza lamber a “cria” com maior ou menor intensidade. Pois, Quem enche a pança do povo/ Não chora de bucho cheio.

Os artistas nordestinos nesse exato momento (e como sempre) tem dado uma excelente contribuição ao povo brasileiro, com destaque para Pernambuco, que está impondo o nosso sotaque na ponte aérea Pernambuco/ Sudeste com: Pupillo, Neilton, Otto, Lirinha, Júnio Barreto, Fábio Trummer e o próprio Siba Veloso. 

A participação definitiva e definidora do artista cearense – Fernando Catatau, em: Avante, foi de fundamental importância para “confeitar” o trabalho como um todo.

14 março 2012 INDEZ - Ésio Rafael


SÓ ESCAPA QUEM AVOA

Tenho 63 anos, e desde criança que ouço dizer: “A vida vai melhorar”. “A esperança é a última que morre”. Claro que hoje a gente escuta frases mais atualizadas: “Assim é foda”. Ainda bem que a persistência dos políticos nos dá mais um combustível. Dizem eles: “O povo brasileiro é um povo honesto, bom, ordeiro, trabalhador, de raça, perseverante. Basta dizer que no Brasil não há guerras”.

Eu mesmo, como patrício, já não tenho tanta fé assim nos meus irmãos brasileiros. A labuta e o convívio não me têm permitido assumir essa fé, perante alguns exemplos indigestos para quem só dispõe de um estômago. Se fosse pelo menos um ruminante. Sendo pobre ou rico, cada um contribui com a sua parcela de dignidade ou não, em todas as instâncias sociais: a direita; bom, a direita no fundo é praticamente a mesma. Você conhece pela cara de boo dog. As esquerdas; bom, as esquerdas têm mais significações: esquerda macrobiótica, ligth, açúcar zero, diet, virtual…

O fato é que o cidadão comum ou não, não pode contar com os serviços essenciais necessários para suprir as necessidades do seu dia-a-dia, porque não tem em quem confiar, mesmo com dinheiro no bolso para pagar os reparos. E é aí que nos vêm uma apatia, uma angústia, uma sensação de impotência, uma dor: “Essa febre que não passa”. A começar pelas coisas mais táteis e susceptíveis em estado de permanência. O encanador já lhe chega antes de saber o que irá fazer com um olhar malicioso matutador; o pedreiro larga o serviço antes de terminar, e ainda leva o seu dinheiro. O cara que vem consertar o seu computador, e como raramente alguém entende de alguma coisa, você não sabe exatamente o que ele consertou, e vai pagar o que não deve.  A oficina mecânica, pé-de-escada, ou sofisticada, não lhe imprime a mínima confiança. Essa é a verdade, porque qualquer vacilo, neguinho dança na parada. Não existe o mínimo respeito, a mínima consideração. E veja que você não está pedindo favor algum.

A agência de automóvel é a mais sacana. São falsos moralistas que dizem mesmo assim: aqui meu amigo, essa agência aqui, vem desde os nossos avós, é de pai para filho. Vacile não poeta, que você toma direitinho no fresado. Eles garantem por seis meses: motor e câmbio. Você leva o carro e, com poucos dias, começam a surgir todo tipo de problemas, fora do material de garantia. Não são todas. Aliás, temos de dizer isso, porque se não eles ainda vêm nos processar.

É a educação de base que esses canalhas têm para repassar para os seus filhos. É a Lei da vantagem. E lá na frente? Poderá vir o castigo. O filhinho tão bem criado, que não lhe falta nada, não está se comportando bem lá fora.

E o trânsito? Ah! O Recife talvez seja a capital única no Brasil, onde a contramão é legalizada para: carroceiro, carroças de burro, de mão, bicicleta.  O guarda, nem, nem. Alguns ainda empurram a carroça pra cima do seu carro. Agora, trisque num porra desse! Os vendedores de alhos, amendoim, flanelas, caju, jambo. Um aglomerado de gente onde dá de tudo: malandro, mulher com menino emprestado. Às vezes são crianças fazendo “cobrinhas” em meio aos automóveis formando assim uma verdadeira Febem do Asfaldo. Ainda aparecem aqueles supostos mudos-surdos que nunca vimos calcular tão bem.  Eles engancham tiras de confeitos no retrovisor do seu carro, com uma distância considerável,  depois retornam no tempo exato do sinal abrir, com o detalhe de não perder uma tira de bala.

Os  flanelinhas ameaçando o cidadão que passa para a vida e ainda tem de engolir água no para-brisa, que o assusta na hora que eles jogam água, que parece que vai bater na sua cara, numa atitude de intimidação, sem que ninguém tenha solicitado seu “serviço”. Enquanto isso, os guardas de trânsito multam aleatoriamente qualquer cidadão que tenha cometido uma infração porque estava apenas desatento. Caso  um motorista seja flagrado pelo bafômetro e optar pelo plano “B”, vai ter de desembolsar “por fora”, 350 “real”.  É a pedida, para consolidar aquilo que seria menos provável  em um País mais justo, honesto e educado. É surreal essa história.

Isso é café pequeno para o livro que concluímos a sua leitura agora, e que nos provocou essa matéria. Trata-se de: Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro JR. Garanto, mesmo caros leitores, que corri para engolir um Losartana de 100. Esse livro trata de assuntos de “peixe grande”, como: Documentos secretos sobre os assaltos ao Patrimônio Público brasileiro. É de tremer nas bases. Fortunas tucanas, enriquecimento ilícito de Ricardo Teixeira, paraíso fiscal nas Ilhas Virgens Britânicas, sabotagem do PT com o PT, na campanha eleitoral da Presidenta Dilma. Um horror!

Mas, “Nada de novo embaixo do sol”. O teórico, jornalista, poeta, cronista, Afonso Romano de Sant’ Anna, aquele que participou de movimento de vanguarda nos anos 60. O mesmo que nos anos 70 quebrou lança para implementação da música popular e da poesia marginal a nível de Universidade, escreveu Que País É Este? Momento em que levantou questões históricas no Brasil em voga até hoje.

Os políticos brasileiros são os verdadeiros vilões neste País. Mas, é aquela velha história: Cuidado com o outro no trânsito. Cuidado com o outro nada! Cuidado com você, porque você é o outro. E você que não é politico, mas,  já encontraram piaba  no leite que você vende?

Peixe grande é peixe grande. Vejamos os cartões de créditos. O cidadão é roubado literalmente, e não tem governo que dê jeito. Chegou em nossa conta uma quantia a pagar de um tal Instituto Airton Senna, ninguém sabia nem o significado disso sem que tenhamos assinado nenhum contrato, sem sermos  avisados, informado, etc… Pois bem, pagamos uma conta que não devíamos, depois de várias tentativas para sustá-la, não havia quem nos atendesse além de uma “secretária eletrônica”, que não adiantou, nem adianta nada reclamar. A conta do seu celular, quem soma, quem fiscaliza? E você reclama a quem? Sem drama, mas, a mulher que roubou leite no “Bom (bom?), Preço”, para alimentar o filho ainda está presa.

Enquanto a nossa Nação não investir na Educação de base, para que sejam criados homens de bem e não de “bens”, vamos continuar pisando em lâminas e lama, com deficiência moral e cívica. Recentemente, para que fosse liberado um mísero aumento salarial para os Professores da Nação, foi o maior rebu.  Um salário de miséria, mesmo depois do aumento. Os governadores que não cumpriram com as suas obrigações, inclusive o de Pernambuco, pagaram na marra. Num Estado nordestino onde um técnico de futebol ganha a “bagatela” de 150 mil reais por mês. Quanto ganha um médico, Professor ou mesmo um cientista?

Mil e quatrocentos “real” passou a perceber um Professor.  Puta que los pários! O caso foi bater na Câmara Federal , no Senado e no Ministério da Educação. Pelo menos os Professores vão comprar com mais tranquilidade: papel higiênico roubado na metragem, pimentão com agrotóxico, feijão “verde” pintado, cebola podre, gasolina “batizada”.

Estamos em pleno: 1984 ( livro clássico de:  George Orwell) ou no:  (Big Brother).

Porra!  Esses assuntos já estão me provocando uma tosse alérgica. Ou é a seda Colomy que já não é mais a mesma?

31 janeiro 2012 INDEZ - Ésio Rafael


SERTÃO, SEM FANTASIA

Meu caro Luiz Berto:

Agora me dirijo ao escritor. Rapaz, eu sou de Sertânia, com todo sentimento de um sertanejo do Moxotó, da vegetação rasteira, da poesia popular, do poder da palavra improvisada, e mais outras coisas históricas responsáveis pela nossa composição física e intelectual.

Pois bem, nesse vai-e-vem constante entre Sertânia e Recife, lá se vão mais de quarenta anos. Meu motor é 6.3. Caro escritor, eu estou muito à vontade para falar da minha região, da minha própria casa, e tenho todo o direito. Então, isso significa dizer que conheço praticamente todo o rango e bebidas alcoólicas do caminho, durante esse tempo todo.

Não há mais um queijo de coalho que preste, principalmente depois que aboliram o uso do abomaso do bode ou do mocó, no processo de fabricação. Agora é um pozinho químico. Mas, tudo bem. Tem outras coisas mais limpas, pelo menos. O queijo de coalho está cada vez mais difícil. É uma “borracha” fedorenta que você coloca na frigideira, ele fofa, incha, e se acaba ali mesmo. Não tem gosto de nada! Lembro-me da minha infância, na casa de Madrinha Dudu, em Pesqueira, que quando dona Alzira me levava pra lá, três horas da tarde, saía uma “farofa de queijo de manteiga”, direta da Fábrica, aquela raspa quentinha saborosa, derretia-se na boca.

Hoje, transitando por Sanharó, você passa obrigatoriamente, por vários pontos de revendas desses produtos, de várias origens da redondeza. Não tem um que preste. Você compra porque faz parte do ritual, para dizer aos amigos que aqui ficaram: – Eu trouxe queijo do Sertão (com a boca cheia), eu mesmo já fiz isso. A “farofa de queijo”, de péssima qualidade, parece mais um punhado de massa de cuscuz crua, melada com margarina (pelo menos em relação à farofa que falamos supra).

O “queijo de manteiga”. Ave Maria! Só tem batata. Quer dizer, na medida em que o cabra vai enricando, vai enfraquecendo o produto, aumentando o negócio e ficando com “o olho grande”.  Sabemos que isso acontece em todas as instâncias, mas estou falando da minha. 

Antes de chegar em Sanharó, nos locais de revenda desses produtos, do lado direito no sentido de quem vai daqui do Recife. Tem uma “Santa”, gorda, feia, mal feita que, pela qualidade do trabalho do artista que a confeccionou, ela deve ser a protetora dos queijos de coalho, e de manteiga da região. Sugerimos até que haja um contato para um possível caso amoroso, entre ela e outra Estátua, a do Bandeirante: Borba Gato, localizada no bairro de Santo Amaro, São Paulo, capital.

Verdade também que, por exemplo, carne não pode ser falsificada, mas o cidadão ainda vende carneiro por bode, pra não “perder a viagem”.  Embora que por aqui, na metrópole, há quem venda cachorro por bode. Fica peixe!

Pois é meu caro Luíz Berto, essa visão exótica do sertão não cabe mais. Aliás, algum sertanejo como eu poderá dizer:  êpa caboco! Eu sei onde tem queijo de coalho bom no sertão. Claro, “toda regra tem exceção”. Né pra rimar? Luíz Gonzaga já previa mudanças nos quadros sertanejos quando cantava: – Você precisa conhecer a terra boa, você precisa conhecer o Moxotó. Pra ver um cabra entrar no mato encourado, derrubar touro amontado… Pegar “cobra” e dar um nó. Hummmm.

5 dezembro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


O SIMPLES NÃO É FÁCIL

Então vamos a um passeio poético pelo sertão como se fosse uma visita de final de ano. Não só poética, mas uma visita de cortesia e saudade daqueles que marcaram a fisionomia cultural de cada pedaço de terra da região sertaneja. A resposta em cima da bucha, rápida, ligeira no gatilho, são apetrechos que compõem a paisagem espiritual e geográfica de um povo destinado a lidar com os contrastes. Pra quem está longe, um pingo de saudade do los hermanos.  Acrescentamos que como sertanejo do Moxotó Pernambucano (Sertânia), não temos aquela visão exótica, paternalista, as vezes patética dos que defendem os poetas sertanejos como os maiores do mundo. Bobagem, pura bobagem.

Isso é notado também na expressão musical, nas composições. É uma competição que não procede. Principalmente por parte daqueles que enchem a boca e dizem: – Eu não tenho anel de doutor, sou analfabeto, chamo pro mode, pro via. Isso é um complexo de inferioridade que felizmente está se extinguindo com o surgimento de poetas cuja visão transcende essa besteira. Faça o seu meu irmão. “A história me julgará”.
           
Quem é poeta aqui, é nas Américas, no Oriente. Na verdade existe uma defesa, tanto pelo lado dos que defendem a chamada poesia popular, quanto de alguns bestas metidos a eruditos, cheios de palavrórios que quando entram no jogo não acertam nem no grupo.
           
Vamos então às visitas, começando por Manoel Filó, só para matar um pouco a saudade dele. Essa foi do artista, poeta, Maciel Melo que esteve ontem aqui na minha home, depois de algum tempo. Dona Rita, a mulher que vende cerveja, minha vizinha, já estava estranhando a ausência do “Neguim”, que “não havia mais aparecido”.
           
Manoel Filó deu uma carona a poetisa Rafaelzinha,  de Petrolina a São José do Egito. Claro que rolaram muitas histórias e poesias no percurso. E, claro, também que ambos eram vivos, e em plena nirvana poética. Rafaelzinha, tudo levava acrer, que tinha um “cheiro de queijo” platônico por Filó, de modo que em meio a viagem Rafaelzinha saiu-se com esta:

Eu queria que esse dia
Nunca mais amanhecesse
São José ficasse longe
Ou essa estrada crescesse
Nós dois não ficasse velho
Nem eu e nem tu morresse.

Manoel Filó residia em Paulo Afonso-BA. Ao viajar para o Recife a negócio, saia de lá fazia um auto-horário em  São José do Egito, só para convidar Jó Patriota para lhe fazer  companhia. Claro, saiam de São José entornando logo uma “fininha”, até porque não havia bafômetro. Eles iam fazendo o que eles mais sabiam fazer: versos. Inspirados na batida do  motor do carro, diante de um sertão seco esturricado, a vegetação rasteira pedindo clemência, os garranchos secos de pegar fogo. Folhas verdes, só de ariú, caso o cabra precisasse se limpar, mesmo assim não seria a mais apropriada porque é muito lisa se assemelhando ao plástico.   No Cruzeiro do Nordeste (Placas, distrito de Sertânia), tome “fininha”. Fora quando (como diz Zé de Cazuza), Jó Patriota visualizou uma rolinha solitária, de bobeira, a céu aberto. Um estímulo para o primeiro verso do dia:

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30 setembro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


MEU LOURO

 A METÁFORA DA MORDAÇA – Wilson Freire

Duas páginas, 661 palavras (deixando de fora o título e a dedicatória). Foi o suficiente para Ésio Rafael narrar toda uma época. De medo. Censura. Silêncio. Subversão. Enfrentamento. Sonhos. Pesadelos. O conto tem 30 anos. “Foi pensado e escrito no tempo da ditadura”. Ele era estudante da “Rural” – Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE – do curso de Ciências Biológicas, “agitava” como militante da política estudantil, Diretor do Departamento de Cultura, do Diretório Central dos Estudantes. Tinha lido quase tudo que Dalton Trevisan publicara. Quase que escondido. Era perigoso ler esses caras. Podia ser enquadrado, desaparecido, se fosse pego com literatura subversiva. Falar era perigoso. Pensar, ixi, bote perigo nisso.

Viver, nem se fala. Quer viver seguro? Faça assim,diziam alguns pais. Era preciso ser craque na utilização das palavras, para driblar a censura e fazê-las chegarem a quem não queria viver assim. Papagaio, nosso louro, fala, ou repete algumas palavras que falamos. No conto “Meu Louro”, Ésio se utiliza da figura emblemática do papagaio, que carrega em suas penas as cores verde, azul, amarelo e branco, do nosso pavilhão, para denunciar como viviam “os filhos deste solo, mãe gentil, pátria amada, Brasil”. Ave faladeira para gritar sobre mordaça. “Meu Louro” tem ritmo. Dá um roteiro. Dá filme. Dá cinema. Dá vídeo. Dá animação. É corte seco o tempo todo, “eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês…”, sem fusão, do “fade in” ao “fade out”.. Um falso “plano-sequência”, que engana quem pensa que histórias de Louros são sempre piadas. Um “travelling”, um “Flashback” que scan-cara nossa recente memória. A metragem é a do leitor: longa, média ou curta o que aguentar. Não tem um “the end”: é plano aberto para o leitor continuar a escrever sua própria história.

* * *

MEU LOURO

em memória de, Manfredo Nigro

Morava numa república de estudantes. Tomava o café da manhã já com os meninos, na maior “zona”. Subia-lhes aos ombros, e tome pão molhado no café com leite. Era estimulado a apelidar, perguntar pelas namoradas, e a fazer discursos subversivos. Fim de semana, sufoco pra meu louro. Dormia aos pedaços, e nem bem cochilava, chegava um estudante para o desabafo. Geraldo, líder estudantil se mantinha mais constante nos diálogos. “Me dá o pé”! Apertava-lhe no peito, coçava-lhe, beijava-lhe a cocuruta, um tanto deprimido.

Quarenta e oito horas depois, o silêncio se fazia dobrar na república, literalmente abandonada. Meu Louro com fome e solitário teve a complacência do compadecido vizinho. Colocaram uma corrente em seus pés, que o deixou triste, calado, de olhos fechados e fofo. Do fundo do quintal, a espera, a ânsia pala liberdade, a greve de fome.

Sem opção, tiveram de soltá-lo. Foi o suficiente. Meu Louro voou o mais alto possível, até se confundir com manchas cinzentas do espaço. Vôo da liberdade. Meu Louro juntou-se a um bando que já era atração na cidade nas tardes de cinco horas. Exibiam vôos rasantes, unidos a dois metros do chão. Um espetáculo acrobático. Fazia uma boa quantidade entre, selvagens e domésticos. Turistas de máquinas na mão, notícias nos jornais.

Era uma chamada para o crepúsculo em seguida. Em coro, soltavam frases confusas, soltas incompreensíveis, meio “gutural”. Até que um dia, geraram o maior tumulto na cidade. A comunidade ficou surpresa com a nitidez das palavras. O ato já não era exclusivo de louros. Foram vistos, araras, gangarros, jaçanãs e periquitos:

-Ninguém assume.

-Ninguém faz greve.

Interrogações nas esquinas.

O caso foi à Câmara de vereadores.

O Padre se posicionou na missa.

Amaldiçoou-os.

O Delegado em meio à repercussão mandou intimar todos os proprietários de papagaios residentes na cidade. – Estado de Sítio para os domésticos, – os selvagens ganharam o campo. Meu Louro, não foi contido, se mandou com os selvagens. Treinamento de guerrilha, na mata. Tudo voltou ao normal. Mas, ficaram os comentários:

Mesa de bar, os intelectuais; Sinuca, os neuróticos de guerra, junto aos malandros; na praça, os desocupados. Antes de esfriar de tudo, nova investida, novo bando com mais contingentes. A notícia se espalhou sumariamente. As frases se espalharam dentre os colegiais, operários, motorista de caminhão. Por conta disso, a primeira prisão de um popular, por ter ele repetido as frases de dentro de um carro em movimento.

Nova intimação.

- Eu não possuo mais papagaio.

- O meu, tive pena de matá-lo, dei para um parente do interior.

- Os nossos aqui, Doutor Delegado, não têm mais nada na cabeça, eles estão é rezando muito.

O Delegado, temendo repercussão, convocou todo o corpo policial, no sentido de invadir a mata para o possível extermínio de tudo relacionado a papagaio. Quanto a – Meu Louro, a ordem era apreendê-lo vivo, para que ele dissesse quem lhe ensinou a dizer palavras de ordem subversiva.

Os “home” vasculharam toda a mata, de ponta a ponta; atiraram em todas as posições. O chão ficou verde. Não só no chão, havia muitos atravessados por entre os galhos das árvores. Os pássaros de outras espécies, assombrados fugiram como puderam.

Meu Louro, contido chumbado. Festa no batalhão: – Filho da puta! Tu agora vais falar perante o Delegado. Quase que enforcando – Meu louro.

Mata deserta, calada.

- Me traz uma agulha, aí..

- Louro não pensa.

- Mas, apertando, diz o que decorou.

- Dá pistas.

Picaram-lhe os pés- A dor!

Picaram-lhe todo o corpo, devagar.

Saiu tudo: Aula prática, horário de reunião, café com leite, Estudo do solo, Anatomia, 477, José, Antônio, Carlos, “Chulé”. “Boião, Guevara, o “Comandante”.

Meu Louro começou a perder sangue. Sentiu sede:

- Meu Louro quer água. Voz fraca.

- Júlio! Júlio! Júlio! Água Júlio. Meu Louro tá com sede.

- Água Júlio! Meu Louro tá dodói.

- Enfiaram-lhe a agulha em suas vias respiratórias até apontar na cabeça.

Geraldo, em prisão clandestina, chorou muito quando soube da notícia.

16 setembro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


VEM AÍ OS CEM ANOS DO POETA CANCÃO

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No dia 12 de maio do próximo ano, se vivo fosse, o poeta João Batista de Siqueira, conhecido como Cancão, estaria completando exatamente cem anos. Justamente no mês das noivas, das novenas. Mês de Maria (a mãe de Jesus, o Sumo Bem), de quem Cancão era  supremamente devoto.

Os sertões do Pajeú pernambucano e Cariri paraibano terão a oportunidade de celebrar o aniversário do seu particular Sumo Bem. Pois, como alguém já disse, caso existisse um Deus da poesia naquelas regiões, esse Deus teria nome e seria Cancão, o Pássaro Poeta.

Não é pra menos, já que o Pajeú pernambucano e o Cariri paraibano contam com a magia do Pajeú, o rio feiticeiro e o garboso desfile da Serra da Borborema, com suas carregadas baterias (contrafortes), e a proteção parcimoniosa dos Deuses da poesia, que ecoa na ressonância das casas e taperas de seus habitantes.

Se a língua portuguesa nasceu do brado das largas discussões do crochê popular, se a língua portuguesa nasceu da prática oral e não dos textos eruditos da Roma Imperial, então, podemos tomar o Pajeú e Cariri como autênticos precussores da oralidade poética da nossa língua pátria/sertaneja, da nossa língua mãe, tendo o Homem Pássaro como o nosso eterno interlocutor poético, comum aos dois gêneros.

João Batista de Siqueira foi um homem simples fora da medida. Um homem comum nos hábitos, no ritual da vida, na sucessão dos dias, no gestual, no vestir. Um homem do campo, um agricultor.

Começou tocando viola, para depois ver que não dava para o “serviço”, largando-a a posteriori para se valer de um bico de pena, de um lápis, de um pedaço de papel de balcão para escrever seus poemas, suas revelações, para guardá-las dentro de uma caixa de sapatos.

Homem de choro frouxo, de sentimento exposto a toda prova. Afeito à natureza dos cactos, das macambiras, dos irmãos pássaros, à relva. Daí, fora um pulo para o fortalecimento de suas asas, até alçar voos de maior amplitude, mais rasantes, profundos, longínquos.  Rápidos. Na demonstração de um poeta completo, de sentimento assombroso, iluminado.

De João, a João Batista, como qualquer brasileiro, veio a se transformar em um poeta incomum, escritor de uma linguagem metafórica, sideral e sofisticada. Portador de uma habilidade que passava por cima das Academias de Letras, das teorias literárias, saindo da “ Velha Grécia” sertaneja do Pajeú, até aportar no solo e na mitologia grega, de fato:

És das regiões polares
A mais delicada planta
Vives igual uma santa
Entre as toalhas lunares
Os gênios dos longos mares
Dão-te atração soberana
És a mais gentil liana
Em forma de criatura
Nasceste da ninfa pura
Da maresia indiana

Foi dessa forma, lendo os poemas de Cancão, que alguns estudiosos e pesquisadores chegaram a insinuar a não autenticidade de sua obra, por uma possível psicografia dos seus escritos, justo que,  um homem do sítio que só teria lido Fagundes Varela e Cassimiro de Abreu, não teria bagagem suficiente para evocar a mitologia grega. Puro engano. O poeta, escritor, jornalista e boêmio Rogaciano Leite teria se negado a dar depoimento por escrito sobre Cancão, alegando que não seria capaz. Isso com o detalhe de que Rogaciano fora amigo e conterrâneo do poeta.

O poeta, escritor e político de Sertânia, Moxotó pernambucano, Wlisses Lins de Albuquerque, fora quem apresentou o primeiro livro de Cancão: MUSA SERTANAJA. Em seu discurso de posse na Academia Pernambucana de Letras, também não tirou por menos, exaltando a região e os poetas do Pajeú e Cariri, de Pernambuco e da Paraíba, respectivamente, como fenômenos poéticos localizados.

O poeta e escritor, estudante de Filosofia, o egipciense Lindoaldo Vieira,  condensou uma comunhão de textos dos três livros publicados de Cancão  em um  só,  no sentido de oportunizar  uma leitura digna dos poemas do mestre, para facilitar uma visão mais acurada do leitor – PALAVRAS AO PLENILÚNIO. Título retirado de um poema do poeta.  Lindoaldo  usou uma linguagem dentro dos parâmetros básicos  das Academias, como de resto, teorias  literárias como quem dá suporte e almeja subsidiar o leitor mais exigente, embora que causando estranhamento, mas para que o Brasil possa conhecer um poeta “cachorro da mulesta”, que foi Cancão.

Acreditamos que com atraso, Pernambuco e suas autoridades literárias constituídas façam justiça colocando Cancão no lugar que merece, e fazendo dele o que o Ceará fez com Patativa do Assaré, que hoje é conhecido como o maior poeta popular da América Latina. Embora que Cancão tenha carregado em si essa dupla nacionalidade intelectual por ter sido um homem popular, e um poeta “erudito”. Duas celebridades vizinhas.

Nós que somos partes pelo menos das aspirações literárias, vamos fazer um grande esforço, bater em todas as portas, no sentido de viabilizar a grande festa dos CEM ANOS DO PÁSSARO POETA, a ser realizada na cidade de São José do Egito em maio de 2012. Se Deus quiser…

11 agosto 2011 INDEZ - Ésio Rafael


ESCREVER…

Para mim escritor e poeta mesmo são aqueles que já nascem para o madeiro. Não existe demarcação de terreno literário. A chave para os escritos está dentro de si mesmo e pronta para ser chamada naturalmente. O exercício da leitura de um bom livro, de um bom autor, amplia a capacidade perceptiva de quem lê, mas não lhe garante escrever bem.

Os elementos que formam o bom escritor flutuam na sua alma, no gestual, no emotivo, no se mover, no vestir, no falar, nos laços familiares. Tudo em ebulição na chaleira fervente. Todos têm o direito de escrever, de por pra fora os impulsos da alma.

Essa demarcação de letras precisa ser revista como revistos devem ser as sucessões dos dias que nos competem. Afinal, todos somos também críticos de alguma coisa, e não necessariamente, os profissionais. O espectador tem total liberdade de criticar um filme que assistiu, sem que por isso seja pago. O leitor muito mais. Há críticos de literatura que são autênticos bossais, individualistas. Por vezes uns atravessadores que quando colocam o time em campo, não acertam nem no “grupo”.

Todos podem e devem escrever sem receios e sem receitas. O mundo literário não se extinguiu com Dostoievski, Balzac, Machado, ou Guimarães. .

A poesia é inacabável, inesgotável em qualquer instância, pelo menos até o dia 21 de dezembro de 2012, quando teremos o fim do mundo segundo o calendário Maia. Dia em que Eduardo Dusek ( Carlota me serve um café que o mundo acabou) vai morrer de xícara na mão.

Erasmo Rodrígues, poeta de Ouro Velho, cariri Paraibano, ao responder uma pergunta por mim formulada propositalmente redundante, para ser publicada no JC Cultural. Perguntei-lhe então: – Poeta, pra você o que é a poesia? – É a oração que Deus escuta. Diante da minha bandeirosa emoção, ele virou-se pra mim e disse:- Ôxe! E tu vais publicar essa besteira?

Veja, caso a resposta tivesse saído da boca de um poeta de renome, seria a resposta do fim do século XX (à época  estávamos entrando no terceiro milênio) independente de crença. Alberto Cunha Melo, falava mesmo assim:- Poeta, poesia independe de literatura. Ainda bem que não fui eu.

João Paraibano, cantador de Princesa Isabel, radicado e cidadão de Afogados da Ingazeira, Pajeú Pernambucano, não sabia ler e aprendeu a pronunciar as palavras corretas, observando a expressão labial do colega na hora do improviso. João – O Herdeiro dos Astros, talvez tenha consolidado as palavras do grande poeta Pernambucano de Jaboatão, Alberto, no dia em que fez essa rara beleza poética de improviso:

Eu estava no sertão
Balançando em minha rede
Vendo o açude vazio
Com três rachões na parade
As abelhas no velório
Da flor que morreu de sede.

Vou por aqui parar pra não forçar o meu rim arrimo de família.

11 julho 2011 INDEZ - Ésio Rafael


O CABELEIRA – UM HERÓI FICHA SUJA

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A Paulo Carvalho

O romance: – O CABELEIRA, de autoria de – Franklin Távora é um clássico da literatura brasileira. A história se passa no decorrer dos anos 1770, na Província de Pernambuco. Um romance baseado em fatos verídicos. Franklin Távora foi um cearense nascido na cidade de Baturité em 1842. Assim como, Castro Alves, Tobias Barreto (um baiano e um sergipano), Franklin Távora teve uma vida bastante competitiva em Recife, quando aqui veio residir com os seus pais. Depois de ter estudado em Goiana e Recife, onde concluiu o curso de Direito, portanto, uma das Faculdades mais famosa do País, principalmente pela sua relação com a Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo de São Francisco, e a troca de figurinhas entre os intelectuais ligados à literatura e à poesia. 

Advogado, jornalista, teatrólogo, político, deputado provincial, fundador em 1872 de: – A Verdade, semanário do Recife. Uma marca também histórica em sua vida, fora o fato de fazer parte da transição entre o Romantismo e o Realismo. Defendia com unhas e dentes o Regionalismo Literário brasileiro. Escreveu com vontade e força sobre o sertão nordestino. Desafeto do seu conterrâneo José de Alencar, por discordar publicamente do seu romantismo idealista, e dos romances: Iracema e O Gaúcho.

O CABELEIRA foi publicado em 1876, tornando-se dessa forma, o trabalho literário de maior abrangência do autor. Entre sangue, suor, crueldade, matas e rios que cortam, ou cortaram a nossa cidade, O CABELEIRA nos transmite uma noção clara da saga de um assassino, 22, da história de Pernambuco, assim como revela o conhecimento de um forasteiro que muito bem curtiu e apreendeu a nossa história como de resto, os nossos traços sociais.

José Gomes, o CABELEIRA, foi um assassino cruel e sangrento. O Recife inteiro se ressentia com a sua presença. Nascido em Glória do Goitá, o CABELEIRA fora criado dentro de duas concepções de vida, e uma só opção porque fora induzido, obrigado pelo pai a matar e beber o sangue caso fosse necessário. Primeiro, atirar nos passarinhos aos sete anos de idade, e aqueles que tombavam ao chão, mas vivo, teriam suas titelas espetadas de um lado a outro com um pedaço de pau fino. “Cantado em mil canções por trovadores anônimos, um homem belo, insinuante, dono de vasta cabeleira cacheada e caída sobre os ombros:

“Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também”

Mas, o CABELEIRA tinha o lado puro de sua alma herdado da sua mãe que tinha dotes poéticos, generosos. Discordava da alma sebosa do marido – Joaquim, mas não tinha como defender o filho, porque a sua vida poderia estar por um fio a qualquer momento, caso discordasse do marido assassino. O conflito habitou a vida do filho de Joana, até a sua morte. Então, que coisa incrível! Um assassino poeta, violeiro, capaz de amar Luisinha, uma vizinha de infância, que fora capaz de abrandar um coração dividido ao meio: bom e mau.

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24 maio 2011 INDEZ - Ésio Rafael


NASCIMENTO GRANDE, O CAPOEIRA – UM BANDIDO FICHA LIMPA

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José Nascimento da Silva

Nascimento Grande nasceu em 1842 e dançou, em 1936. Reputado como o maior capoeirista de Pernambuco de todos os tempos, O Capoeira, como  era conhecido, foi manchete  no principais jornais do Recife. Negro, dois metros de altura, longo bigode, gentil, educadíssimo, olhar de Bruce Lee, maneiro, veloz, incompatível com a sua estatura física e peso – 120 quilos. A imprensa da época depois de reunir todos os prós e contra do Capoeira, concedeu-lhe o título de Herói Popular, baseado no fato dele só ter lutado durante toda a sua vida única e exclusivamente para se defender.
 
Nascimento enfrentava um pelotão de polícia, brigava, usava as pernas, saltava de banda, quebrava telhados, escalava muros, quando era depois, procurava o soldado mais fraco da corporação e se entregava.  Exemplo de honestidade, integridade, valentia e nobreza de sentimento. Nascimento Grande ganhou a simpatia de todas as classes sociais, além do meio cultural e literário, não só do Recife, mas de outros Estados: Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Ah, bom! Câmara Cascudo, José Mariano, pai do poeta Olegário, Gilberto Amado. Eles não só tinham estima pelo Capoeira, como conheceram-no pessoalmente. Gilberto Freyre chegou a reclamar do governo uma homenagem ao saber do falecimento de Nascimento Grande, aos 94 anos de idade, em Jacarepaguá, Estado do Rio de Janeiro, em 1936.
 
Esse operário do Porto do Recife, na função de estivador, era também conhecido como portador de uma força descomunal. Poderia ser o João Valentão da música de Dorival Caymmi. Claro, ele tinha seus momentos. Costumava parar em uma Igreja para uma oração. Consultava Pai de Santo, e costumava dizer para os amigos:

- Siga ligeiro pra casa/ Vá procurar “Pai João”/ Vá fazer o que lhe digo/ Mas também não tema não/ Compre maconha e jurema/ Faça uma defumação.
 
A fama de Nascimento Grande despertou curiosidade entre os valentões mais famosos do Brasil. Sua coroa era cobiçada por ninguém menos que: – Pirajé ( Pará); Manezinho Camisa Preta (R.J); Pajeú (Sertão pernambucano); e João Sabe Tudo. Esse era nó cego, e vivia a desafiar o Capoeira, convocando-o para briga com local e hora marcada. O pior é que eram amigos, promoviam festas juntos no Hotel Sobrado Grande, localizado na Rua Camboa do Carmo, bairro de Santo Antônio, Recife.

A maior e mais violenta briga dos dois, foi marcada com antecedência em frente à Igreja do Carmo. Cacete comeu até certas horas. Já parecendo dois galos de brigas, ao terminar a luta, Nascimento Grande colocou o seu parceiro nas costas e o levou para o hospital banhado de sangue.

Conta José Mariano (Jornal do Commercio – Recife, 20/02/36), que aos 93 o Capoeira foi até a feira livre de Paraguaçu, e lá comprou um abacaxi a um Português dono de barraca. Verificando a idade muito avançada do Capoeira, o Portuga colocou um abacaxi com um pedaço podre, enrolou e entregou-lhe na mão. Em casa, quando Nascimento verificou a sacanagem, voltou com a “inflorescência” na mão e foi reclamar do Portuga, que não lhe deu a devida atenção. Desafiou o velho. A mancada foi do Portuga, né véi? Nascimento foi na goela dele, do jeito que os capoeirista do Recife da época faziam com os “marinheiros”. O Portuga só não morreu porque ficou respirando pelo bigode.

O poeta popular também se pronunciou em verso Sete Linhas sobre o Capoeira, como foi o caso de João Martins de Ataíde, segundo Câmara Cascudo:

Nascimento ficou velho
Seu cabelo embranqueceu
Mas o seu rosto enrugado
Um homem nunca bateu
Sendo assim tão iracundo
Com honras viveu no mundo
Honrado também morreu.

“Hércules é um mito, Nascimento Grande existiu de verdade. Suas façanhas estão narradas nos jornais do Recife”.

Ofereço esta matéria ao autor da frase supra – Bernardo Alves, pesquisador autodidata, sério, honrado, competente zeloso e incisivo, de saudosa memória. Começou a sua vida literária consultando este que vos escreve para depois ser meu Professor.  Morreu e deixou vários trabalhos. Livros, textos e matérias escritas em revistas e jornais. Seu livro: – A PRÉ-HISTÓRIA DO SAMBA, ainda vai mudar os conceitos relacionados à origem do samba, aqui nesse Brasil.


ÀS NOSSAS MÃES

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Esse assunto de mãe vem de longe e é interminável. Cada um que cuide da sua, né véi? Aliás, quem dá as cartas no mundo inteiro é a mulher. Todos a temem, em qualquer instância. Desde o negão que abriu um azar num bar do Subúrbio. Foi mesa pra todo lado, cadeiras também. Só sobrou o negão e o dono do bar no local da briga, quando de repente, surgiu uma velhinha com um xale enrolado no pescoço, 90 anos:

- Safado! Já pra casa. Recitou a velhinha com a voz trêmula de raiva. O todo poderoso negão baixou a crista, e ainda ouviu uma repetição da voz, dando o ultimato – Já pra casa safado, e solte a faca. Claro que o negão deu linha.

Mãe nunca deixou de causar polêmica, até que o psicanalista alemão, Sigmund Freud e seus seguidores, abraçaram a causa envenenados pelo ”complexo de Édipo” que começou o rolo. Édipo descobre que assassinou o pai (Laio), deixando viúva a mãe, Jocasta, que também se mata, ao passo que Édipo arranca os próprios olhos. Se essa lenda, tivesse sido processada por aqui, estávamos nós diante da tragédia: “Coração de Luto”, vulgo “Churrasco de Mãe”, do saudoso compositor do Rio Grande do Sul, Teixeirinha.

Mas, vamos ao mês de maio, mês das noivas, das novenas, e consequentemente, mês das mães, na visão dos cantadores, independente de crenças, ideologias, interpretações e teorias diante do fato, mas comprometidos com a simbologia e fixação das Deusas da fertilidade.

Então, vamos começar por Zé Catota, cantador de São José do Egito, momento em que ele estava em uma roda de improviso, acompanhado de outros poetas, numa vendinha da cidade, quando chegou a sua mãe. Sentindo a presença dela e do seu estado emocional, pegou o fato no ar e improvisou na medida da emoção de sua genitora:

Estão vendo esta velhinha
envolvida neste manto
com os olhos rasos d’água
o rosto banhado em pranto
cantava quando eu chorava
hoje chora quando eu canto.

João Paraibano é o – HERDEIRO DOS ASTROS (Título de uma Monografia, na UFPE, no Curso de Pós-Graduação em Literatura Brasileira), então, dispensa comentários. Por falar em mãe, vejamos o que essa fera disse com a mãe dele, mas que vale para todas as crianças, principalmente do interior. Nós já publicamos esse verso aqui no JBF, mas como é o mês das mães…

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22 abril 2011 INDEZ - Ésio Rafael


QUADRAS E SEXTILHAS MEMORÁVEIS

Tanto a quadra quanto a trova são estrofes de quatro versos, com pequenas diferenças entre ambas, quando o assunto gira em torno da arte poética.
      
Algumas pessoas criticam a quadra por limitar a expressão poética do autor. Depende. Às vezes, em uma “simples quadra”, se consegue dizer o que não se diz em um tratado filosófico, com todo seu aparato e exigência.

Querem ver? Então vejamos o que disse em uma quadra o poeta/repentista Jó Patriota, considerado O Último dos Liricos do repente, de São José do Egito:

O mar que no bojo guarda
Todo os mistérios  seus
Inda é um grão de mostarda
Perante os olhos de Deus.

Quer dizer, somente um poeta da dimensão de Jó, teria condições de colocar o mar em tamanha insignificância.

O poeta Adelmar Tavares, de Jaboatão dos Guararapes (ou Goiana, mata norte?) fez essas duas quadras a seguir, que representam o que há de mais belo dentro da expressão poética:

A cigarra está dizendo
No tronco do velho oiti
Que a vida seria um sonho
Se se se si si si si.

Tres Marias três amores
Passaram pelos meus dias
Ficou Maria das Dores
A dor pior das Marias.

Essas quadras, com certeza, irão mexer com o emocional dos leitores/poetas mais sensíveis.
 
O poeta, Antônio Marinho, de São José do Egito, bisavô de  Marinho, filho de Zeto e Bia, na década de 40 improvisou esta eterna quadra:

O amor e a amizade
Vestidos numa só túnica
Tiveram uma filha única
Deram-lhe o nome saudade.

Existem sextilhas  (agora são sextilhas),  memoráveis,  difícil é  escolher as melhores. Tudo a depender do assunto, do momento, e do gosto de quem se propõem jogá-las na rede. Desde o homem simples, do poeta simples, até os mais sofisticados, o mais importante, quem dá as cartas é a comunicação, o modo de se expressar, e que seja compreendido por aqueles que recebam as mensagens.

Reclamando da sorte, o poeta do campo é capaz de passar pra frente uma reclamação, um desejo não obtido, embora que evocando aquele que poderia exercer a missão de solucionar o problema. Não sabemos o autor (alguém pode ajudar?), mas vejamos o que disse o poeta a seguir:

A minha vida está torta
Feito eivado de foice
A sorte me dá patada
O destino me dá coice
E eu peço as coisas a Jesus
Mas ele faz que nem oice.

Contou-me o poeta Joselito Nunes que  numa pequena cidade tinha dois intrigados de sangue a fogo. Um tinha o nome de Paulo. Pois bem, Paulo estaria dormindo em sua casa, antes do dia amanhecer, quando alguém batera em sua porta para lhe passar uma notícia que já rolava na cidade desde a boca da noite.
 
- Paulo, Paulo, Paulo. Abra a porta. Falou com a voz áspera, o de fora.
 
- É fulano  ôxe! O que aconteceu a essas horas?
 
- Paulo rapaz! Eu vim aqui para lhe pedir um único e último favor. Afinal, fulano está às portas da morte em sua casa, o padre já chegou para a extrema unção. Como sou amigo dos dois, e sei que vocês não se falam há 30 anos, o perdoe. Afinal de contas, o homem tá morrendo. Por favor, Paulo, você o perdoa em nome de Deus!

Paulo, depois de abrir somente a porta de cima, acendeu um “pacáia”, e respondeu:

Quando esse Paulo morrer
Se eu for pro enterro eu cegue
Eu fico é em casa pedindo
Que o Satanáz lhe carregue
E a cruz que eu boto na cova
É a caceta de um jegue.

A sextilha a seguir, tem várias versões. O verso oral é assim mesmo, cada um tem o seu “verdadeiro” pra dizer. E ainda existem aqueles que afirmam categoricamente que estavam no local. Isso é comum. Essa versão que vou passar pra frente foi o poeta  Daudete Bandeira quem me disse, ou melhor, recitou, embora que conheço outras:

Já fiz muitas travessuras
Quando ainda era menino
Roubei gogóia na feira
Cortei a corda do sino
Só não dei o fê-o- fó
Mas andei tirando um fino.

Vamos encerrar por hoje. Eu enchi essa linguiça (com o perdão do “Papa” e dos leitores), porque hoje está sendo um Domingo morgado, chuvoso, dia de clássico em Recife: a “Coisa,” vai jogar com a “Boneca”. Mesmo porque, um técnico de futebol com um mísero salário de 150 paus! mensal, vai sofrer muito caso o seu time perca. Enquanto isso, quanto ganha um Professor, um cientista?

8 abril 2011 INDEZ - Ésio Rafael


CANTADORES DE PRAIA

cantador

Eles não são levados a sério por ninguém: nem pelos próprios colegas de profissão, nem pelos admiradores da cantoria de viola nordestina. Chegam a “encher o saco” dos banhistas que no final de semana vão pegar um bronze na praia, entornar uma loira suada, ou uma cachacinha com peixe frito nas praias da capital e do litoral de Pernambuco. São chamados – Cantadores de Praia. Aliás, a maioria dos banhistas bronzeados não gosta desse tipo de artista relacionado à cultura do povo, preconceituosamente chamados “ratos de praia” por não estar de braços com a mídia, e nem fazer parte da novela das oito. Mas, não fica só por aí.

Os próprios colegas de profissão não têm simpatia pelos divulgadores de “versos decorados”. Não é bem assim. Apesar deles em certo momento encherem realmente o nosso saco, com o atenuante de venderem falsos produtos, esses cantadores fazem um esforço tremendo para complementar seus parcos salários, exercendo a profissão de cortadores de cana, de modo que, nos finais de semana eles migram para o Recife e se espalham pelas praias, ruas e restaurantes da capital com as violas à tira colo, em busca de um complemento que lhes garantam o sustento da família.  

Na verdade, não existem cantadores de viola (no caso de Pernambuco), somente na região do Pajeú, mas nas cidades de: Carpina, Limoeiro, Camutanga, Cumaru, Glória do Goitá, Aliança, todas da Mata Norte. Eles compõem um bloco de cantadores nativos, que promovem Festivais de Viola, na medida deles, para a comunidade deles. Comunidade que já é familiarizada com o improviso dos seus nativos brincantes e mestres de maracatus, com suas – Sambadas. Alguns cantadores são funcionários das prefeituras da região. Estes engrossam o cordão para a realização dos Festivais.

Os cantadores de praia são credenciados no momento em que uma boa parte pertence a – Associação de Poetas Repentistas de Olinda, mas nem por isso deixam de ser discriminados por aqueles que se consideram os donos do improviso. Eles dificilmente são chamados a participar de Congressos de Cantadores, sendo também incomum a participação de mulheres repentistas nestes mesmos congressos, onde os participantes, são legitimados pelos ouvintes, têm um poder aquisitivo bastante considerável, e renda mensal superior a determinados gestores. Isso é verdade.

Tem um grupo seleto de cantadores, principalmente aqueles que rodam as premiações entre si, obtendo a primeira ou a sexta premiação que levam uma vida privilegiada, e com todo o direito. São artistas de primeira, e merecem sim. Mas, nem todo jogador de futebol é Romário. Os demais jogam também, têm famílias pra sustentar, e o espaço dá para todos. Mas, dizer que existe solidariedade entre eles, aí, são outros quinhentos.

A visão política, social e cultural do País, é privilégio de poucos cantadores. Isso é uma coisa, tirar lama do porão é outra. O cantador – José Rosa, mais ou menos 70, funcionário da Prefeitura de Aliança, promoveu vários encontros de cantadores de pequeno porte. Isso significa muito. A comunidade da região já possui uma visão prática de versos de improviso porque conhece os seus conterrâneos que lidam com as Sambadas, com a musicalidade ritmada, e cadenciada através de seus brincantes, mestres de maracatus.  É uma região rica, privilegiada.

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28 março 2011 INDEZ - Ésio Rafael


PINTO DO MONTEIRO: INESGOTÁVEL

É sempre prazeroso falar sobre Pinto, faço isso há, no mínimo, 30 anos. Em jornais, revistas e palestras, melhor dizendo, papos. Pinto foi um homem incomum, poeta inesgotável, há sempre algo de novo na sua longa trajetória de vida, história de verso e de prosa. Todos têm um verso, uma história pra contar, ou escrever sobre esse genial cantador.
 
Pinto foi o maior de todos. Os registros em livros, o testemunho vivo de seus contemporâneos, os versos na boca do povo, a estima dos cantadores em reuniões poéticas, nos Festivais de Violas, nos quartos dos hotéis, nas rodas de amigos. De modo que não existe discórdia nesse particular a não ser por ciúme ou por questão de preferência. 
 
Homem de fibra, seco, monossilábico, arrasador, sintético. Capaz de “acabar” com um cantador, na primeira linha depois da “deixa”. Todo mundo sabe disso, todavia há sempre uma novidade quando alguém fala alguma coisa em torno do mestre. E aqui não vai nenhum demérito com relação aos demais cantadores. Todos tiveram e têm seus espaços, seus estilos de épocas. Agora, como em toda profissão, em toda atividade humana, há os que marcam suas passagens por aqui, com uma dose a mais do que os outros.
 
Dos Estados da Nação brasileira, Pinto só não conheceu o Rio Grande do Sul. Em Recife, foi auxiliar de enfermagem no Hospital da Tamarineira; vendedor de cuscuz, e claro, cantador. Residiu em Vitória de Santo Antão, e foi conhecido também como: Pinto de Vitória ( essa eu não sabia). Morou em Caruaru, e fazia ponto na Churrascaria de propriedade de Nair, sua amiga, e bota amiga nisso. Ele a chamava de Lindinha. Segundo informações de Wellinton Branco, ator, filho de Nair, ela guardava em seu baú, várias correspondências de Pinto endereçadas a ela. Por falar em Caruaru, há duas histórias que merecem ser recontadas aqui, porque sempre há alguém que não as conhecem. Portanto, como dizia Zeto, não é redundância repetir um verso, ou uma história que mereça ser recontada.
 
Cantando em Caruaru, com o famoso Zé Soares, cantador respeitado por todos, momento em que Soares estava prestes a fazer uma viagem profissional passando pelo Pajeú pernambucano e pelo Cariri paraibano, fazendo dupla com diversos cantadores da região.  Soares então disse:

Vou viajar com saudade
Da minha camaradagem

Ao que o mestre respondeu:

Soares nessa viagem
Vá com deus seja feliz
Atravesse o Pajeú
Volte pelos Cariris
Não apanhe de cantador
Faça do jeito que eu fiz.

Na década de 50, século passado (Ave Maria!), foi realizada uma cantoria na Rua Preta, em Caruaru. A Rua Preta era conhecida à época, como Moscouzinho, pelo fato de lá residir uma porção de operários, de esquerda. Essa cantoria está registrada no livro de Francisco Coutinho: Violas e Repentes, hoje um clássico do nosso cancioneiro popular, publicado em Recife. Só tinha fera: Pinto, os irmãos Batista, Rogaciano Leite dentre outros; e Cancão, que na época tocava viola, sendo que depois notou que não dava pro “serviço”, trocou a viola pela caneta, e fez muitíssimo bem.
 
A cantoria esquentou, e no momento em que cantavam exatamente, Pinto e Cancão, chegou José Faustino Vilanova, segurando a mão de uma criança, seu filho Ivanildo Vilanova, essa fera que todos nós conhecemos na cantoria de viola nordestina. Zé Faustino era um cantador diferenciado pelo seu nível intelectual (como assim o é Ivanildo, nos dias de hoje). Cancão, muito generoso ao notar a presença de Zé Faustino, levantou-se para ceder o assento para o cantador. A princípio, Zé Faustino recusou o convite, mas sentou para continuar a cantoria com Pinto. Vejamos então, o que aprontou Pinto com Zé Faustino, já que ele fora quem “rompeu” o desdobramento da contenda:

Eu já cantei com cancão
Um pássaro do bico fino
Este voou foi embora
Agora sentou Zé Faustino
Com esse eu acabo logo
Depois enforco o menino.

Essa “sutileza” foi uma constante na vida da – Cascavel do Monteiro.  De fato, não há quem esgote esse manancial que ainda hoje jorra nos confins do Cariri e Pajeú. Não existia rima rica, e nem pobre para Pinto:

O gado bravo bebia
No Olho d’Água do Cunha
Só bebia à meia noite
Ia na ponta da unha
Ia beber não bebia
Quando notava que havia
Vaqueiro por testemunha.

Em Monteiro, sua terra natal cantando no cabaré da cidade com Joaquim Vitorino, pai das feras, Lourinaldo e Diniz, quando de repente surgiu um pingucinho falando alto, atrapalhando a cantoria. Nunca deixou de existir essas figuras elementares. Todo comício, por exemplo, tem de ter um bebinho pra puxar palmas. Todo pé de palco carnavalesco, tem um bebinho exímio passista, capaz de vencer qualquer concurso de frevo. Percebe? Pois bem, quando o pingucinho começou a perturbar o ambiente, Joaquim conhecido pela sua valentia, irritado, percebeu que ele era primo de Pinto. Foi o suficiente para Joaquim pensar: – Pronto, agora lasquei Pinto, vou lascar Pinto agora! Aí terminou um verso dizendo:

Pra ser bebo basta ser
Primo de Pinto ou Heleno (este,irmão de Pinto)

Nossa! E a resposta de Pinto? Ora, Pinto sabia que o próprio Joaquim bebia, e mais gente de sua família. Foi o bastante:

Você bebe até veneno
Seu pai é um bom troaqueiro
Manuel um ébrio afoito
Vive apanhando em Monteiro
Quem tem uma corja dessa
Não fala de cachaceiro.

Mas, ainda tem um curioso detalhe no desenrolar dessa história. Embora que por engano, o grande cantador, Joaquim Vitorino, morreu envenenado.

Pedro Bandeira, outro excelente cantador, tem mais três irmãos que cantam, dentre eles, Daudete. Isso vem de longe, o avô deles, Galdino Bandeira é a grande referência da família de cantadores. Pedro Bandeira, conhecido como – O Príncipe dos Violeiros, cantando com Pinto, quis assanhar a cobra evocando a sua família, quando terminou um verso dizendo:

Eu além de ser o príncipe
Lá em casa inda tem três

Pra que? Não se cutuca cão com vara curta. Como eu havia falado supra, Pinto já começou arrasador. Querem ver? Então lá vai:

Desse grupo de vocês
Cantava o velho Bandeira
Mas deu a traça no pano
E o cupim na madeira
Morreu e deixou os netos
Só pra dizerem besteira.

Algumas vezes nos deparamos com determinadas figuras que apesar de bem intencionadas, enchem o saco. É incrível, mas é verdade. Porra! Dá uma empatia ter de suportar essas situações em que você fica com sinais de impotência diante do fato. Com Pinto, não. Ele resolvia logo a parada. Certa vez chegou um suposto admirador de cantoria transitando por Sertânia, quando resolveu se informar onde se localizava a casa do mestre. Depois de acertar o endereço, com muita satisfação manteve o inédito contato com o poeta. Pinto sacou logo que se tratava de um babaca, infelizmente. Depois de várias perguntas, quase sem respostas, o rapaz perguntou se Pinto conhecia Pedro Bandeira: – Pinto, o Senhor conhece Pedro Bandeira, o Príncipe dos Violeiros, o maior de todos cantadores? Pinto só fazia resmungar quase inaudível. – Mas, seu Pinto, não o conhece? Pedro Bandeira rapaz, já deu até nos jornais. – O Senhor não conhece Pedro Bandeira? Não acredito. – É UM QUE ABOIA?  Respondeu Pinto com um olhar contrafeito.

Quando Ademar de Barros era Governador do Estado de São Paulo, ele que gostava de cantoria, convocou um grupo de cantadores nordestinos para uma visita ao Palácio dos Bandeirantes. Que chic! Uma caravana das mais representativas partiu do Nordeste. Todos, de paletó, claro, não seria pra menos: Os irmãos Batista, Pinto e outros.  Pois bem, foram recebidos com todas as pompas do mundo. A Assessoria do homem, já os esperava. Ao adentrarem no Gabinete do Governador, foram surpreendidos pelo próprio, que em tom de brincadeira fez a pergunta:

- Que vieram fazer aqui, bandidos?

– Visitar o Chefe.

Quem respondeu? Pinto né? O governador se levantou, abraçou a todos, e ainda encheu seus bolsos de grana.

Uma turma de formandos em jornalismo, da Universidade Católica de Pernambuco, resolveu homenagear Pinto, convidando-o para ser seu paraninfo. Já em cadeira de rodas, ele veio ao Recife na data marcada. Eu o acompanhei até a Universidade. Sou de Sertânia, Moxotó pernambucano, onde o mestre residiu por esticado tempo. Sertânia se limita com Monteiro. O assédio em torna do mestre se iniciou com uma jornalista que estava cobrindo as homenagens. Depois de se apoiar na cadeira do poeta, de microfone na mão disse várias coisas em “78 rotação” num só fôlego: -  Severino Lourenço da Silva Pinto, o – Pinto do Monteiro, maior repentista do País, homenageado no Festival de Cinema de Guarujá-SP, veio do Cariri paraibano para ser paraninfo da turma tal, de Jornalismo. Deu uma paradinha renovou o oxigênio, e perguntou: – Pinto, o que acha da vida? – NADA! Simplificou o poeta.

Outro jornalista, do Recife, viajou até Sertânia, e fez uma extensa matéria com Pinto a ser publicada no jornal em que trabalhava. Uma matéria que desfiava a vida nômade do cantador, além de um razoável perfil biográfico. Com a matéria já publicada e no decorrer dela, o jornalista chamou-o de: Semianalfabeto. Pinto ao ler toda a matéria em Sertânia, resolveu fazer um bilhete para o profissional, à moda da casa: – Meu caro fulano de tal, semianalfabeto pode ser você, eu sou ANALFABETO.

Oliveira de Panelas me contou que Pinto foi cantar em um sítio, e lá, ele “se engraçou de uma morena meio gorda”. De vez em quando o mestre corujava-a na plateia. No intervalo da cantoria, Pinto chegou perto da pretendida e cochicharam um pouco. Depois, desapareceram. Abriram uma porteira e foram olhar o gado do curral. E cadê Pinto que não voltava para dar continuidade ao baião de viola? Chegou, sentou-se. O seu parceiro como quem estava aprontando um “balaio”, no ouvido do mestre perguntou: – E aí Pinto, comesse aquela gorda ? – SUMIU-SE. Ô meu Deus! Que resposta mais sintética?

Bom, vamos parar por aqui, porque falar sobre Pinto do Monteiro é querer esgotar uma cacimba com uma cuia safada.

21 março 2011 INDEZ - Ésio Rafael


O BRASIL É UMA RIMA?

Claro que sim. Não é só no Nordeste que se fala rimado, metrificado e cantando. Aí seria a receita completa, independente da opção pela música, literatura ou poesia dita popular, e erudita. Essa forma de comunicação e expressão ocorre no linguajar mais especificado, no sotaque desenvolvido através das expressões regionais.  Dentro do nosso Estado, por exemplo, quem é de origem interiorana, canta. Quem é da capital chia. Os descendentes das junções das duas origens, cantam e chiam ao mesmo tempo. Todavia, a cadência, o ritmo, o compasso, se identificam para que possamos ser semelhantes.
 
Os nordestinos que residem no sul ou sudeste do País durante o tempo suficiente para distinguir as expressões de cada indivíduo sabem identificar sem dificuldade, quem é de origem pernambucana, paraibana, do Maranhão ou Piauí. Basta que falem. No que concerne à rima e  métrica, os traços se assemelham como um todo, inegavelmente, aqui e alhures. Na imprensa pernambucana, alguns jornalistas, repórteres, ao exibirem suas manchetes nos jornais, sendo eles de formação acadêmica e metropolitana, nem por isso negam suas origens, embora que indiretamente. Então vejamos:  no – Jornal do Commercio, não relembro a data, saiu uma manchete no caderno de Esportes: – HOMERO LACERDA PARTE/ EM DEFESA DO SPORT.  Ora, isso é um mote setessilábico devidamente metrificado, sem que o jornalista tenha tido essa intenção.  No “Commercio” do dia: 17 de março/11 (Bem fresquinho), no caderno de – Economia, vejamos a manchete:-  SUPREMO MANTEM AVISO/ DIRETO AO CONTRIBUINTE.  Eis aqui outro mote para cantador nenhum botar defeito.
 
No Programo do radialista – Paulo Roberto, Rádio Jornal, 5h da matina, ele citou  – Millôr Fernandes, carioca do Méier, como o autor da frase/mote:  -  QUEM MORRE DE TRABALHAR/ MERECE MESMO É MORRER.  Não sabemos exatamente porque em  sua biografia  não consta ser ele um dos grandes Filósofos do Brasil. Com relação ao mote supra, está matada a charada, pois o seu nome de batismo é – Milton Viola. Precisa mais alguma coisa?  Eis uma prova viva de que não podemos fugir das nossas origens, mesmo que tenhamos certo preconceito contra a nossa própria cultura. Mesmo que sejamos  metidos a merda. De modo que, a cozinha da nossa casa nunca será esquecida, nem o cu que se coçava na intimidade do corredor da casa onde nascemos.

No caso da Música Popular Brasileira (MPB), de Roberto Carlos a Chico Buarque; da música brega à romântica e de protesto, a maioria puxa para a rima porque faz parte das nossas origens musicais culturais e literárias. Não tem porque se esquivar dessas características porque nos pertencem e nos unificam. Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Walter Franco, Marcone Notaro,  levaram a termo os seus recados, mas não se afastaram sobremaneira da cultura, da música, e da poesia dos seus pares.

O SITE, INTERPOETICA, comandado por  Sennor Ramos, Cida Pedrosa e Raimundo Moraes, em: – Corda Virtual, tem contemplado  direitinho essas  situações levantadas aqui.  Geralmente o site coloca um determinado mote na rede, em sete ou decassilábico , para serem glosados pelos leitores  cuja participação tem se estendido não só pelo Nordeste mas, por outros estados de culturas diferenciadas da nossa.

Inteligentemente eles provocam a participação dos ouvintes, levando-os a se fundirem dentro de uma perspectiva tanto “erudita”, quanto “popular”, no momento em que surge mote como: – MERGULHEI PRA VER NARCISO/ NO ESPELHO DO MEU LAGO. A partir daí começa a reciprocidade de participação de pessoas de origem acadêmica, e popular. O mote é sofisticado pelo fato de evocar uma lenda baseada na mitologia grega, que foi desdobrada pelos profissionais da Psicanálise. Mas é popular porque envolve os  afeiçoados pelo verso de improviso utilizado pelos cantadores, que conhecem a disposição Psicológica do público ouvinte, seguindo as regras digamos assim, Ibérica.

Várias personalidades do mundo literário, artístico e poético de Pernambuco já marcaram suas presenças em:-B Corda Virtual, dentre elas: César Leal, Samico e Lirinha (vocalista da extinta banda Cordel do Foge Encantado).  Com isso, ganha o leitor que entra em contato com pessoas desde a cidade de Marabá no Estado do Pará até João Pessoa-PB, nosso vizinho.  “A massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. Assim falou Oswald de Andrade. “Sai pra lá, peste”. Assim falou Luís Gonzaga.

12 março 2011 INDEZ - Ésio Rafael


ALBERTO…

Alberto da Cunha Melo

Entre convivência, trabalho, amizade, porres e viagens, foram 10 anos nessa pisada: Eu e José Alberto Tavares da Cunha Melo, mais conhecido como: Alberto da Cunha Melo. Ícone da chamada: Geração 65 de Poetas Pernambucanos; um dos maiores poetas do Brasil contemporâneo. Como todos já sabem, o poeta faleceu num sábado (13/10/07). Ele se submeteu a um transplante de fígado, depois teve uma série de complicações, até que os seus pulmões entraram em cena, e aí, foi o seu fim.
 
Não é tão difícil falar sobre Alberto, no meu caso não, até porque o Alberto que conheci continua o mesmo, na minha cabeça. Não porque é Alberto, com Manoel Filó acontece do mesmo jeito, a gente fala sobre ele, sempre, a imagem é a mesma.  Esse negócio de morrer meu irmão, só tenho medo mesmo, é da tal da “Maria Angica”. Dizem que é uma espécie de formiga que primeiro fura o caixão. Acompanhada de suas comandadas ela começa a devorar o cabra, pelo ânus, ou seja, pelo fopa. Conversei muito com o poeta Alberto sobre essa situação. Eu e os amigos dele, de Sertânia ou de Alagoinha, agreste pernambucano, como o Professor Jairo Galindo. Tínhamos um relacionamento além de amistoso com o poeta. Falávamos sobre a morte, e aí, Alberto dizia: “quero não companheiro, quero morrer não, lá, dizem que não tem um bar”. Simples como uma “rolinha chumbada”. Alberto sempre bem humorado dizia frases que sempre serviam para nós. – Companheiro, o necessitado não agrada a ninguém; pobre não tem direito nem de escolher alguém para casar, casa com o vizinho.

Diretor de Assuntos Culturais da FUNDARPE, local onde tive a honra de ser seu Assessor, o poeta me convidava para almoçar praticamente todos os dias úteis da semana. Momento em que alguém poderia pensar que ele fosse para o Restaurante Leite, até porque ele exercia cargo de direção. O “Leite” localizado perto da Casa da Cultura. Não, imagina, pegávamos uma transversal da “Dantas Barreto”, um beco, que dava no sentido Pátio de São Pedro. Lá tomávamos alguns conhaques e depois pegávamos aquela gororoba, gostosa que hoje não passa de “seis mi réis” A garçonete nunca sabia a quem estava servindo, chamava o poeta de Delegado. O dono do barraco apertadíssimo, era, ou é, um cidadão tranqüilo, torcedor da “Coisa”. Do lado de fora do barzinho, num beco estreito, havia uma frase escrita no muro de frente, com os dizeres: “È proibido cagar”.
 
Assim era Alberto. Um dia, comentando com ele a respeito de um jovem valor que estava surgindo no meio intelectual do Recife. Momento em que eu me queixava, dizendo pro Alberto: Poeta, você não acha um exagero, fulano, que aos 18 anos de idade, paparicado por todos e todos tirando o chapéu. Mas, quando lhe perguntei se ele conhecia, Balzac, ele respondeu em cima da bucha, “li tudo, tudo de Balzac”. Meu irmão! Assim falei, na idade dele, acredito piamente, que, nem os personagens do brilhante escritor, que são pra lá de dois mil, ele teria idade pra ler. Rapaz, progredi, Balzac, era mais célebre no estrangeiro do que na França. Quando a sua glória chegou à Rússia, em 1838, Dostoievski, em carta a um irmão, disse que havia lido, quase tudo, do gênio, Dostoievski, Alberto.  Então, Alberto “fechou o verso”: Companheiro, isso é típico do jovem, nessa idade, “sabe-se de tudo”, é normal, deixa-o dizer que leu tudo de Balzac, como ele é muito novo, quem sebe? Um dia ele vai entender “A Comédia Humana”.
 
Jornalista, Sociólogo e, claro, poeta. Alberto sem dúvida, era o mais querido. Admirador e cúmplice dos poetas Independentes. Já o vi escrever prefácio para livros, apoiando papel de rascunho nos joelhos, em mesa de bar, com um conhaque de lado, que “ninguém é de ferro”, e o jovem autor doido pra ver o seu livro publicado, para ter o direito de lamber a primeira cria. O grande detalhe, é que ele morreu na véspera do quinto aniversário da morte do poeta Zeto. A quem, Alberto admirava, e tinham uma música em parceria, que era bastante cantada nas apresentações de Zeto. Era um samba: “Este morrer muito morrer demais. Este abrir de portas, se não tem portas, no meu desabrigo…”.
 
Certa vez viajávamos de automóvel, cinco pessoas. O destino eram os Sertões do Pajeú e do Moxotó, 17:30h, quando o ocaso começou a dar as caras nas imediações de Arcoverde. De repente, a lua já se postava no céu, mas somente com aquele pedaço de unha. Foi quando Alberto provocou um improviso puxando o assunto: “Êita poeta a lua está só com a bundinha do lado de fora”. Peguei na deixa e disse: A lua quenga safada/ Que no cabaré do céu/ “Se cobre toda de véu/ pra dar o cu intocada”. Respondeu o poeta e artista, mestre de mamulengo residente em Itapecerica da Serra, em São Paulo, Valdeck de Garanhuns, componente da caravana. Na Casa da Cultura, os Funcionários, comentavam em grupo, certas atitudes de Alberto, ao passar por um local e ver uma planta solitária, além do mais invasora, brotando de um rachão safado num pé-de- parede úmido da Instituição, Alberto se acocorava, olhava pra trás, e dizia: “Poeta bote uma aguinha aqui, a coitada tá com sede. A planta, não era cortejada nem pelos pardais “cheira cola”.
 
É isso o que tenho a dizer agora, sobre esse poeta maravilhoso. A sua obra literária ainda vai ser analisada, dissecada através dos críticos literários. Mas, passar o que passamos juntos é privilégio de poucos. Admirador e amigo dos poetas /repentistas, visitou Lourival Batista em São José do Egito, por várias vezes. Amigo de Jó Patriota, Lourinaldo Vitorino. Alberto colocou uma pá de terra na badalada frase do teatrólogo pernambucano, Nelson Rodrigues. Não, Nelson, nem toda unanimidade é burra. Não Senhor. Alberto foi, e é unanimidade, na condição de poeta, de homem honrado e de tudo. E, ainda existe outra unanimidade, a mais recente. Ele está no céu, “O mesmo da Minha Infância”, o mesmo de Jaboatão dos Guararapes. 

José Alberto Tavares
Por  que fostes tu embora
Pra muito além do crepúsculo
Deixando aqui a aurora
Vais encontrar Benedito
Celina no céu bendito
Onde Carlos Pena mora.

Areias, outubro/07.
                          

24 fevereiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


NA CAMINHADA – ALTA, MÉDIA E BAIXA SOCIEDADE

ALTA: No Parque da Jaqueira.

- Bon jour!

- Este é o meu terceiro estágio antes desse objetivo. Passei na clínica médica para aferir minha pressão, verificar meus níveis de colesterol, triglicerídeo e glicêmico. Tudo sob controle. Para isso, temos um excelente Plano de Saúde. E vocês, estão bem? Eu, nem tanto. O stress do mundo Ocidental não engana ninguém.
           
Estamos com um probleminha em família, acreditamos ser de ordem passageira, mas incomoda. É que o meu cunhado, uma pessoa bem criada, ótima formação familiar e religiosa. Um padrão de vida financeira bastante confortável, escola de primeira classe. Agora anda envolvido com má companhia. Daí, o que se esperava: foi flagrado durante uma operação policial com dois quilos de pasta de cocaína. A droga estava dentro do seu carro, a polícia, deu ordem de prisão e o algemou na hora.
 
Meu esposo está aflito, afinal de contas, é sangue do seu sangue. Foi uma pressão, uma correria durante a noite toda. Muitos telefonemas para advogados, pessoas influentes na sociedade. A tarefa mais importante é abafar o caso para que não chegue a ser publicado na imprensa. Difícil. Não acredito. Falei com meu esposo que a saída poderia estar em conduzi-lo a uma Clínica de Repouso. Mas, é difícil. Logo com esse governo que aí está, colocando rico na cadeia?
          
Estou tensa, tenho de deixar a companhia de vocês. Vou ligar para o meu motorista vir me apanhar. Ele está sabendo de tudo. Ironicamente falou: – Calma madame, todos os mortais estão sujeitos a situações como esta. Olhando-me de soslaio com aquela sobrancelha do cão. Darei notícias, bom final de caminhada.

MÉDIA: Campus Universitário.

- Bom dia!

- Quase que não vinha caminhar com vocês hoje. Minha pressão foi lá pras alturas. Meu colesterol está alterado. Aperreio. È aperreio em cima de aperreio. Meu marido não foi trabalhar hoje. O seu irmão mais novo foi em “cana” durante uma blitz na Vila. Ele estava dentro de um táxi conduzindo um quilo de maconha. Uma tal de: – Manga rosa. Já ouviram falar? Foi o suficiente. Algemado na hora, e levado para a prisão. Uma merda! Que mancada. Essa foi a segunda vez que ele fez essa besteira. Sabem, o cara sempre foi problema. Caçula, os pais separados, revoltado. Só podia dar nisso. Essa semana foi carregada. Cortaram a energia elétrica lá de casa, sem nenhum aviso. E fica por isso mesmo. Cadê os 11% que eles tiraram dos consumidores? Por que não pagaram de uma só vez? E o que é isso? Manda quem pode, minha filha! O meu cartão de crédito estourou. A população não dispõe mais de dinheiro nem pra comprar pão. Os grandes Supermercados engolem tudo. E nada acontece. Isso é o que?  Agora acontece essa merda, e o meu cunhado sabe que não tem proteção nenhuma. O que ele fez foi muito menos do que fazem os cartões de créditos com o bolso do consumidor. 
         
O caso já deu no jornal. A rua está cheia. A fofoca tá comendo no cento. Meu marido não tem a mínima condição de contratar um advogado, nem de porta de cadeia. Ele conhece um vereador, mas vereador além de não ter cacife pra isso, não iria se meter nessa onda. Já falei para o meu marido: teu irmão vai mofar na cadeia. Que horas tem? Vou-me embora, além do mais, daqui a pouco a parada de ônibus vai estar lotada, e eu ainda vou buscar o meu netinho na escola. Tô sem crédito no celular. Outro roubo, ou não? Darei notícias pra vocês, através do orelhão. Até logo, rezem por mim.

BAIXA: Na Mata do Uchôa.

- Mulé, quase que eu não vinha hoje medir passadas com vocês. Meu coração está quase pulando pela boca. Fui me receitar no posto médico. Cheguei de madruga para pegar uma ficha. O rapaz que vende o papelzinho, “fura fila”, lavrou porque avisaram que os home tava querendo pegá-lo. Pracabar de acertar, o Doutor falou que eu estava com o sangue grosso, cheio de gordura e, pelos sinais, melado de açúcar. Sofrimento. Sofrimento! Tu achas mulé, açúcar porra nenhuma! Eu pisei foi em rastro de corno. E o Doutor médico ainda disse que eu tinha porque tinha de andar uma hora por dia, sem parar. Depois, ele veio com uma conversa pra eu deixar de comer cuscuz. Quase que eu respondia: mai minino, e a mãe Doutor, vai deixar de comer cuscuz também? Mas como sou uma pessoa educada… Nem deixo de comer cuscuz, nem o quarentinha.
          
O macho lá de casa, passou a noite mordido e sem dormir. Não foi nem pro trampo hoje. Ele já amanheceu com os pentei na goma. Deram o flagra no irmão dele na favela, com trinta pedras de crack na cueca. Meia-noite mais ou menos. Os home deram o baculejo e caiu mei mundo de gente. Grampo minha irmã, cana dura na hora. Essa droga ainda vai acabar com nossos filhos, se os home não tomarem de conta. Colocaram logo uma pulseira de baiano, e tacaram ele na cadeia.

Agora veja, o cara nunca deu um prego numa barra de sabão. Não trabalha, não estuda, e só anda com alma sebosa. Taí no que deu! A mãe viúva ganha um salário mínimo da pensão do ex-marido pra segurar a barra de seis bocas pra cumer dentro de casa. Aquele frango vendeu os bagulhos  de casa pra comprar droga. Até o único ventilador da mãe doente. Num lugar de calor maruim e muriçoca. Deus me perdoe, mas eu só desejo é que ele encontre aquele negão dentro da cela. Sabe de que Negão eu tô falando, né mulé?

Vou-me embora, o sol está esquentando, e eu vou a pé. Quero chegar a tempo de ver a manchete pela televisão no Programa de Cardinot, com aquele esparro todo. Até mais meninas, fiquem com Deus.

19 fevereiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


ZÉ DE CAZUZA – UM CORPO DE CÉLULA E VERSO

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Zé de Cazuza: “Eu gosto  mesmo é de priquito”

Não há necessidade de outra referência. É só chegar à cidade da Prata, situada no Cariri paraibano, região marcada por talentos de expressão e conotação de peso, como foram os casos de “Pinto”, o maior cantador de todos os tempos, nascido em Monteiro; Zé Marcolino, poeta, compositor, da cidade de Sumé, tendo deixado quinze músicas gravadas em parceria com Luís Gonzaga, além de ter feito escola na região.
 
Ouro Velho é outra cidade onde as suas dimensões geográficas são bastante limitadas para suportar o peso de seus próprios talentos. Alguns já se foram: Chico de Dedês, morto recentemente, Delvita, Severino de Lídia, Cabo João, Zé Miúdo, Erasmo Rodrigues. Sem contar com incursões periódicas de uma das mais respeitadas figuras folclóricas da época, Major Sinval, da Farmácia Francesa de Caruaru, por ter laços familiares na cidade. Portanto, ao chegar na Prata qualquer cidadão informará onde se localiza o Sítio São Francisco. É lá onde reside Sua Excelência José Nunes Filho, 80 anos, Zé de Cazuza.
     
Os números não são oficiais, mas não há notícias de que exista outra pessoa com mais versos poéticos na cabeça do que Cazuza. Conhecido como O gravador humano, apelido adquirido por justa causa, no tempo em que era privilégio de poucos possuir um aparelho tecnológico capaz de gravar voz e som de uma só vez. O pesquisador Francisco Coutinho, durante o processo de escolha de material para o seu livro VIOLAS E REPENTES, hoje clássico, publicado na década de 50, em Recife, ficou surpreso e emocionado ao contar com Zé de Cazuza, um suporte valiosíssimo para que fosse devidamente viabilizada a publicação do livro. Mas, a emoção do escritor não teve como impedir as frustrações de testemunhas, que cobraram, e ainda cobram uma justa co-autoria no livro, vez que uma vasta percentagem do escrito saiu da cabeça de Cazuza.
     
Os desafios de viola, as cantorias de pé-de-parede, levadas a termo sob a luz de candeeiro em sítios, fazendolas e pequenas cidades sertanejas, eram absorvidos quase que totalmente por Zé, configurando-se no que poderíamos chamar de fenômeno ou uma particularidade extremamente atípica. Graças a ele, ainda hoje, apesar da distância das décadas, e das transformações sociais, circulam versos imortais que dignificam nomes históricos como: Antônio Marinho, Pinto do Monteiro, Manoel Serrador, Fabião das Queimadas, Zé Duda do Zumbi, e os cegos Aderaldo (imortalizado por Glauber Rocha) e Cezário de Pontes.
     
Bom, mas não há quem faça uma estimativa aproximada de quantos versos, narrativas e histórias de cantadores existem na cabeça de Zé de Cazuza. Sabe-se que ele é capaz de passar dias declamando sem parar e sem repetir um só verso. Mas existe um outro fator mais impressionante ainda. Aí é quando Zé se distingue, faz a diferença e o contra ponto. Ele cita passagens inteiras de livros épicos e de poetas que fizeram a história da humanidade, fora do seu contexto e de diferentes origens: Baudelaire, Camões, Bocage, olha quem, Mallarmé, Zé Régio, Fernando Pessoa. Talvez Zé de Cazuza venha a ser um dos raros poetas populares que declama Drummond e  Manoel Bandeira, justo que alguns poetas populares não têm lá suas sintonias com esses modernistas. Já um vaso chinês… 
     
Elogiado por Câmara Cascudo quando da sua visita à residência do mestre em Natal- RN, depois de enfrentar uma fila razoável, Cazuza se desculpou:

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11 fevereiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


ARROCHA NEGRADA

Só para justificar o título: é que a alegria da garotada era grande quando chegava um circo pobre, a céu aberto, numa cidadezinha do interior. O palhaço perna de pau saía pelas vias da cidade, acompanhado por uma “reca” de meninos, para divulgar o espetáculo. Era o Clube do Bolinha. Não havia meninas. No calçamento, ouvia-se o toc toc das pernas de pau, e aquele longínquo homem na frente, com um megafone na mão chamando as famílias às portas e janelas para anunciar as atrações da noite, dentre elas, o palhaço, a rumbeira e a peça de teatro A Louca do Jardim, um verdadeiro clássico utilizado pela dramaturgia circense de pequena monta.

A gurizada fazia a festa. Cada um mais esperto que o outro. Todos com as canas dos braços carimbadas, que se constituíam no passaporte para a entrada no circo, junto à recompensa de um lúdico trabalho:

- Ô raia o sol/ suspende a lua, cantava o palhaço.

- Olhe o palhaço no meio da rua, respondia a meninada! E aí, o melhor:
 
- Arrocha negrada!

- Uuuuuuuuuuu, gritavam em uníssono a todo vapor os participantes improvisados e coadjuvantes do espetáculo ambulante. Descalços, de calção e camiseta, ou no ritmo dos nus da cintura para cima, a meninada ia compondo e incorporando seus sonhos infantis. Sonhos inesquecíveis às futuras lembranças.

À noite, na porta de entrada do circo, outra festa. Tomados banho, cabelos penteados, orgulhosamente exibiam ao porteiro a marca do trabalho. Entravam sem problemas. Aqueles despossuídos de carimbos atravessavam o arame farpado, levantavam a lona e entravam no interior do circo por baixo do poleiro. E olhe que ainda sobravam-lhes as coxas das mulheres, sentadas em tábuas finas e desconfortáveis, exibindo calcinhas de pano com muitos botões.  Enfim, o título é em homenagem a todas as crianças pobres que passaram por esses momentos.

Então, vamo nessa?!

Os filhos de pobre, os mais trelosos, “quebravam o cabresto” com animais, justo que os animais são alvos e presas fáceis para a gurizada.
 
Galinha, por exemplo, já está incluída no folclore brasileiro como portadora de cu quente, mas só dava certo com clientes bem novinhos, se não morreria. No outro dia, haja a mãe a desconfiar que o bicho teria mordido a penosa que amanhecera morta. Mas, musa mesmo de verdade, o símbolo da molecada, é a jega. Ainda hoje (pasmem!) a sua passividade, simplicidade, mansidão, o ar de tô nem aí arranca a preferência dos Meninos do Brasil.

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6 fevereiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


CANTORIA HISTÓRICA

ROMANO NÃO ERA BRANCO
E NEM INÁCIO ERA NEGRO

Os fatos históricos que derivam para o domínio público se dissipam, condensam-se, viram lendas, e se distorcem. Sejam eles remotos ou atuais, tudo a depender da capacidade, credibilidade e poder de comunicação de seus interlocutores. No caso da comunicação oral, tomando os violeiros do nordeste como referência, é praticamente impossível publicar-se a obra completa de um cantador, posto que, superaria qualquer Dicionário da Língua  Portuguesa, dado ao volume de palavras  ejetadas de suas bocas, igualmente a uma cachoeira de versos.   

Outra realidade complicada que vem se arrastando desde finais do Século XIX se encerra no que diz respeito à originalidade dos versos captados tanto pelos ouvintes de cantoria, quanto pelos aparatos científicos, como gravador e vídeo. É que apesar da fidelidade do aparelho na hora do repasse, ou seja, quando uma pessoa passa para a outra, fica igual aquela brincadeira do cochicho no ouvido.   

Todavia, o melhor está por vir. Poderíamos chamar de fenômeno, um detalhe muito importante para a história da poética-musical sertaneja. Apesar da alteração do verso original, nunca se ferem os princípios básicos da expressão poética, e nem a qualidade imagética criada pelo poeta-repentista. Quando um ouvinte de cantoria esquece uma estrofe, ou linha, como é chamada entre os cantadores, ele automaticamente cria outra, mas, sem fugir da métrica, rima ou expressão do autor. E o que mais impressiona é que, ao alterar o verso, as características estritamente pessoais do repentista são conservadas em sua essência, seja ele da escola romântica, lírica ou surreal do repente. Claro que isso tem um preço. È um exercício de longas datas e de total conhecimento não só do autor, mas dos caminhos da cantoria de viola.  

A grande e histórica peleja entre Inácio da Catingueira e Romano da mãe d´água, ocorrida em 1870, Patos-PB, foi amplamente divulgada não só por especialistas no assunto, mas por intelectuais das estirpes de Orígenes Lessa- FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA- Rio de Janeiro/1982; Padre Otaviano, escritor, pesquisador, pertencente a ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS, reputado como o mais fiel pesquisador da famosa dupla de repentistas, e da  contenda.  Essa cantoria ainda não se encerrou, como ainda não se encerraram as especulações sobre a origem genética da dupla, como veremos mais adiante. O mesmo acontece com relação ao desaparecimento de pessoas famosas. Por exemplo: as mortes dos presidentes Juscelino e Castello Branco, bem como a morte de PC Farias, ainda hoje são questionadas. Quem colocou areia de “dique”, no motor do Avião em que viajava Marcos Freire? Hemingway atirou na tábua do queixo ou alguém apertou o gatilho? Jimmy Hendrix, se consumiu via droga ou foi “consumido” pela máfia? São especulações que provavelmente não teremos respostas exatas, mesmo com todo o aparato dos apetrechos modernos.   

A propalada peleja teria acontecido em um mercado na cidade de Patos-PB, com a duração de oito dias, segundo informações tidas como fiéis, de personalidades como Leonardo Mota, o Leota, e Francisco Coutinho. Mas, há quem diga que a cantoria realmente teria acontecido na casa de um coronel, com a duração de apenas um dia. De fato havia na época, uma preocupação dos estudiosos no sentido de preservar a cantoria para que no futuro as coisas não se distorcessem. Daí, a necessidade de uma pesquisa de campo. Foi o que fizeram. Os pesquisadores exerceram longas viagens à cata de informações dignas de confiança. Nada melhor do que ouvir nomes como Ugulino Nunes da Costa, José Porfírio, Silvino Pirauá Lima (autor da sextilha), Manoel Carneiro e Germano da Lagoa, celebrado em uma música de Alceu Valença. Esse grupo de poetas populares, amigos e discípulos da dupla, são os responsáveis definitivamente pela imortalização de ambos, até então maiores nomes do repente nordestino. Os pesquisados nasceram e viveram em localidades próximas das origens de Inácio e de Romano.  

Estava pronto o material que seria refinado pelas mãos do Padre Manoel Otaviano. Rodrigues de Carvalho, autor do livro Cancioneiro do Norte, Fortaleza, 1903, chegou a se chocar com a notícia repassada por um amigo seu, onde o mesmo garantia que essa peleja jamais existira de fato. Rodrigues não levou muito a sério a notícia, e foi colher mais informações através  do Paraibano Romeu Mariz, um nome até então abalizado na região. Leonardo Mota, poeta escritor, funcionário público, nascido em Pedra Branca, Ceará, Maio de 1891, morreu em 1948 deixando uma obra considerável, sendo Violeiros do Norte, 1926, a mais famosa, publicada pela Editora- Monteiro Lobato, São Paulo. Francisco Coutinho, autor do hoje clássico: Violas e Repentes, Recife, 1953. Tanto Leonardo quanto Coutinho, escreveram sobre a cantoria.    

O vai-e-vem de informações fez com que outros elementos fossem incorporados na história contada pelos admiradores de Romano e por aqueles que engrossavam o cordão de fãs de Inácio. Silvino Pirauá deixou cópia de “Cantadores e Poetas Populares”, calhada nas mãos de Chagas Batista que cuidou de transcrever e publicar em 1929. Pirauá, discípulo de Romano chamou a responsabilidade para si, atribuindo a Romano do Teixeira a vitória da peleja. O escritor teria propositadamente escolhido aqueles versos que dariam a vitória ao poeta da “Mãe d´água”:

Meu Deus que tem esse negro
Que no canto se maltrata
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata

Francisco Coutinho fora mais criterioso em torno do assunto, ao realizar pesquisa entre os anos de 1941 a 1943, e, para que a importante peleja não tomasse rumo diferente, confrontou todas as versões captadas por ele, nos locais onde os poetas viveram, deixando o leitor à vontade para que eles pudessem tirar as suas próprias conclusões.

ROMANO, ERA BRANCO MESMO?

Tudo é possível no planeta azul. Mais difícil era o mapeamento do genoma. Elefante ser parente do sapo, quem diria? Romano, que durante a cantoria evocou tanto a origem negra de Inácio, chamando-o de “negro cativo”. Mas, ele não tinha lá sua pele tão branca, seu cabelo era “ruim”, Inácio sabia de tudo, mas, guardou a “carta na manga da camisa”, para o momento exato do bote. O momento veio à tona depois que Romano tentou decidir a parada:

Negro cante com mais jeito
Vê a tua qualidade
Eu sou branco tu és vulto
Perante a sociedade
Eu vir cantar contigo
Baixo de dignidade

Era tudo que Inácio espreitava:

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25 janeiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


OUVINTE DE CANTORIA & MOTE

O mote, segundo o dicionário de Aurélio, é uma palavra, conceito ordinariamente expresso em dístico ou numa quadra, para ser glosado. No caso da cantoria de viola é uma forma de expressão poética.

O mote, quando é destinado ao glosador, ou ao cantador de viola, chega aos seus ouvidos já metrificado – quando este parte do chamado, ouvinte de cantoria – ou quebrado – quando parte  do expectador mais incauto da platéia. Portanto, o mote é um tema, um assunto com métrica. Uma coisa é a dupla de violeiros receber da platéia uma solicitação oral ou escrita, para que eles falem sobre o recinto em que estão cantando. Esse é o assunto. Outra, é a solicitação chegar até eles com duas estrofes, ou linhas metrificadas, comumente em sete, ou dez sílabas, as mais utilizadas. Esse é o mote.

Existe o chamado “meio mote”, ou seja, de uma só linha. Por exemplo:

“A parte que iluminou”

O mote é coisa séria, não é fácil. É o material metafórico, subjetivo e poético de uma cantoria, principalmente quando se trata de uma platéia heterogênea, onde há pessoas divididas entre: ouvintes de cantoria, apologistas e promoventes. Três categorias semelhantes, porém diferentes.

O ouvinte de cantoria é poeta, cúmplice, divulga e imortaliza o cantador. O apologista, gosta, promove e ajuda o violeiro. O promovente é o comerciante que começa a fazer – Pé-de-parede pra ganhar dinheiro no seu comércio, mas termina gostando, e em conseqüência disso se apaixona pelo repente, até naturalmente mudar de posto chegando a ser um apologista ou até mesmo, um ouvinte de cantoria. Tudo a depender da habilidade e profissionalismo da dupla de violeiros, que pela experiência sabe muito bem a origem do mote que chegou em sua mão. Claro que uma só pessoa poderá exercer as três funções.

Os cantadores também se destacam por uma particularidade que os caracterizam como profissionais da viola e do repente. Enquanto uns são mais cantadores, ou seja, cantam em qualquer estilo, têm uma visão acima da média, atendem ao mercado. Outros são mais poetas em sua essência:

“Me lembro da minha mãe
Dentro do quarto inquieta
Passando o dedo com papa
Nessa boca analfabeta
Sem saber que um dedo rude
Tava criando um poeta”.

“Fui trovador e o ter sido
Hoje me dói como um crime
Todo poeta é um louco
Porem um louco sublime”.

A dupla de violeiros está ali para absorver a qualidade dos motes. Quando ele é considerado ruim, passa mais rápido porque não inspira. A dupla improvisa o suficiente como resposta ao dinheiro colocado na bandeja. Portanto, faz parte da labuta. Há motes que pouco ajudam na materialização poética do improviso. Todavia, quando ele é considerado bom, levanta uma cantoria por vezes morgada. A inspiração vem à tona naturalmente, de modo que os cantadores sentem na alma a essência poética e criativa com maior facilidade.
 
Aí, é por onde entra a figura essencialmente necessária do ouvinte de cantoria.  São os poetas que em tese não improvisam, não fabricam versos, mas os têm na alma, entendem de métrica, rima e oração. Conhecem as características individuais dos cantadores, opinam, dão pitaco, sabem o que é balaio, cantar ciência, armar a rede, ou coisas do ramo. São exímios motistas. Aliás, há mote que já é um poema:

“Fiz da vida um eterno carnaval
Terminei Pierrô da solidão.”
       (Cicinho Gomes)

“Um minuto a mais na vida
É mais um  minuto a menos.”
       (Antonio Marinho?)

O mote engraçado não só existe, como “tempera” o humor da platéia:

“Uma mulher menstruada
Enche o bucho do vampiro”

Os ouvintes de cantoria têm um particular histórico. Quando não havia gravadores, alguns tinham a estupenda capacidade de gravar uma cantoria inteira, na cabeça. Cantoria que teria rolado durante uma noite. É o caso de Zé de Cazuza. Dessa forma, com uns motes dessa magnitude a dupla de violeiros fica agraciada, capaz de criar verdadeiras pérolas para a posteridade.

O ouvinte de cantoria não envia mote desmetrificado, e nem mesmo quebrado.  Outro assunto para um capítulo inteiro. Aí, camarada é quando o ouvido fala mais alto. Por vezes acontece em um decassílabo, por exemplo, onde a acentuação tônica cai nas: terceira, sexta, e décima silabas, o mote está devidamente metrificado, mas “força”, como assim falava, Manoel “Filósofo”.

Certa vez, em Recife, no IPSEP, numa paralela à Av.Recife – Churrascaria do Amigão, cantavam Ivanildo Vilanova e Sebastião Dias. O Nordeste ainda ressentido pela morte de Gonzagão. Lá pro meio da cantoria surgiu um mote, evidentemente da platéia:

“Na gaiola oculta do espaço
Ouço o eco da voz de Gonzagão.”

Prato cheio para os feras, não? Estávamos nesse pé-de-parede. Os poetas inspirados, os versos rolando feito cachoeira, um cantador entrando dentro do outro, numa velocidade incrível! Pois bem, na mesma semana recebo a visita em minha home, de nada mais, nada menos que Jó Patriota – O último dos líricos, vindo de São José do Egito. Oportunidade em que lhe falei sobre a cantoria e o mote. Ele escutou tudo calado, e no final do papo, disse-me:

- Ésio, “Na Gaiola oculta do espaço/Ouço o eco da voz de Gonzagão”. É certo, tá dentro da métrica, pode contar nos dedos. Agora, tem algo doendo no meu ouvido kric. Essa palavra: OCULTA, faz um arco, “força” B. Agora, se fosse assim Grapiúna (meu apelido): -Na Gaiola ABSTRATA…

Nesse exato momento, parece que eu estava vendo o parafuso entrar na rosca até a última volta. Mas, tomei como exemplo o fato de ter de ralar muito para entender de: rima, métrica, mote, cantador, e ouvinte de cantoria.

18 janeiro 2011 INDEZ - Ésio Rafael


A SERRA QUE ECOA POESIA

O CARIRI PARAIBANO E O PAJEÚ PERNAMBUCANO GUARDAM O PODER DA PALAVRA IMPROVISADA

Abrindo alas para o desfile da garbosa Serra da Borborema, com as suas “baterias” (cadeia de montanhas), a – Serra do Teixeira -, situada entre dois Estados nordestinos/sertanejos: de um lado, o Cariri paraibano; do outro, o Pajeú pernambucano. Acolheu, deu proteção, resguardou e imprimiu a sua marca registrada, naquilo que seria, no futuro, o maior acervo e patrimônio cultural da sua história: a poesia popular, a cantoria de viola e, consequentemente, o poder da palavra improvisada.

Tudo começou a partir do século XVI, com a chegada de João Nunes da Costa, um descendente de Judeus Ibéricos, que ali fez morada com sua família, fugindo da caça ferrenha da Inquisição.
 
Saulo Passos, de Itapetim-PE, ao prefaciar o livro do poeta Itapetinense, José Adalberto Ferreira – No Caroço do Juá, chamava à atenção para um assunto muito importante, dentro de uma visão geográfica das regiões do Pajeú e do Cariri. Diz ele: “No Brasil, é evidente que o traçado geográfico escrito pelas culturas populares, através dos tempos, não coincide com sua geografia política elaborada com base nas divisões das águas”.
 
O Dr. Ulisses Lins de Albuquerque, poeta, escritor e pesquisador, da cidade de Sertânia, Moxotó pernambucano – fronteira com Monteiro, Cariri paraibano -, fez uma observação digna de registro, ao afirmar que “a incidência dessa cultura, era claramente percebida ao longo da Cordilheira da Borborema, ramificando-se pelos seus contrafortes, sem, contudo, conferir uma presença maciça em todo nordeste”. No caso da Serra da Borborema, é um holograma que, ao se distanciar do seu eixo, enfraquece a cultura e reduz sobremaneira o “poder de fogo” da comunidade de poetas/repentistas. Ao passo que, ao aproximar-se da espinha dorsal da serra, aumenta o potencial poético de seus habitantes.
 
O “Pico do Jabre”, ponto mais alto da Serra do Teixeira, é o divisor de águas. Os riachos ao leste vão formar a bacia geográfica do “Taperoá”; os riachos ao norte vão fazer parte da bacia do Rio Açu; e os riachos ao Sul vão fazer parte do Rio Pajeú, em cuja nascente se inclui o município pernambucano de Itapetim, adianta Saulo Passos.
 
As interrogações e exames continuam: como foi que surgiu esse fenômeno? De onde vieram esses poetas, que comportam traços fortes, e se equivalem, ao redor de uma serra?  Os traços fenotípicos e poéticos se ramificam com as famílias tanto do lado do Pajeú pernambucano – Itapetim, São José do Egito, Afogados da Ingazeira, Tabira – como do lado do Cariri paraibano – Ouro Velho, Prata, Sumé, Monteiro, além de Patos que fica bem perto do todo que envolve o “repente”-. São indagações que rondam as cabeças das pessoas, pertencentes ou não às regiões que envolvem a serra dos dois lados. As violas, os pífanos, as rabecas, os costumes, os mitos e lendas. Herança judaica. O aboio do vaqueiro. O desenho no gibão. O falar, a pedra do anel no dedo, a “mão fechada”, a figa, a “estrela de David” (de cinco pontas) no chapéu do cangaceiro. Aliás, quem é nordestino de origem sertaneja já deve ter feito, ou pelo menos visto, o seu avô lavar os pés com uma bacia d’água ao seu lado, esfregando os calcanhares no cimento áspero da calçada. Isso é herança judaica, aqui, no nordeste.
 
Os nordestinos têm, sem sombra de dúvidas, uma herança judaica bastante forte, a partir do momento em que eles aqui aportaram, fugindo da Inquisição.

AS PESQUISAS

Vários estudiosos, pesquisadores e interessados, tanto brasileiros quanto estrangeiros, vêm empreendendo esforços e emprestando seus serviços ao aprofundamento das questões referentes à origem da poesia popular dos nossos cantadores e de tudo o que é Árabe no nordeste brasileiro. Isso já foi mais explorado do que se pensa. O Estado da Paraíba foi onde existiu a maior concentração de Judeus no País, no século XVI. Tanto que já foi tido por muito tempo como “Terra de Judeus”. Ali era uma região onde eles eram menos observados, circulavam com mais liberdade, por ser uma Capitania menos desenvolvida economicamente do que a Capitania de Pernambuco, que dava mais visibilidade aos perseguidores, por ser mais movimentada, deixando os Judeus mais vulneráveis aos olhares das “Aves de Rapina”.
 
A permanência dos judeus na Paraíba também rendeu dividendos que ainda hoje mexem com egos. Em estudos já no século XX afirma-se que as mulheres paraibanas seriam bonitas porque teriam “sangue Israelita”; a carne de porco virou piada do tipo: “você hoje não almoça, porque hoje é carne de porco e você é paraibano” (Maria de Lourdes Nunes Ramalho).
 
O Historiador Humberto Cavalcanti de Melo, responsável pela assinatura da apresentação do livro RAÍZES IBÉRICAS, MOURAS E JUDAICAS DO NORDESTE, comenta que a “bibliografia paraibana apresenta várias obras historiográficas, muitos livros de genealogia, diversas ontologias”. O livro citado tem a autoria de Maria de Lourdes Nunes Ramalho, escritora, pesquisadora, poeta e teatróloga (“As Velhas, encenada em vários estados do Brasil, inclusive na cidade de Recife). Lourdes Ramalho é bisneta de Ugolino Nunes da Costa, de lá, da Serra do Teixeira, conhecido como o primeiro cantador do nordeste, que teria fugido de casa aos 18 anos para ser Cantador de Viola. Tivemos a oportunidade agradável de fazer uma entrevista com Maria de Lourdes, em sua residência, em Campina Grande-PB, como parte das filmagens do documentário “ARABESCO SERTANEJO”, texto de Èsio Rafael e Wilson Freire( texto e direção)  que está em fase de conclusão.

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