Especialista em generalidades, extremista de centro, peruador sem compromisso, dono de um currículo sem qualquer
saliência digna de nota, autor de uma obra perfeitamente dispensável, azeitador do eixo do sol, ensacador de
fumaça, fiscal de feiras, carnavalesco e cachacista, Papa da Igreja Católica Apostólica Sertaneja
Casamos com a opção de não termos filhos. Durante 33 anos ainda não nos arrependemos. Logo no começo encontramos uma ótima secretária. Passou a morar conosco, fizemos freqüentar a escola, assinamos sua carteira e demos o tratamento merecido e respeitoso. Hoje aposentada e ainda fiel ao trabalho com salário dobrado. Certo dia… Uma gravidez. Fizemos um balanço da situação e resolvemos que não seríamos desumanos em interromper nenhum dos contratos, o da vida e nem o do emprego. Nasceu uma flor chamada Deise. Luz e vida no correr da casa. Cresceu e formou-se em Propaganda e Marketing. Casou-se feliz e fez seu cantinho. E um outro dia chegou… O da partida para vôos maiores com o companheiro sendo convocado a uma transferência. A flor que sem querer, foi também filha, fez falta, e o “tio” espremendo o peito regurgitou sua dor de saudade:
DEISE
As flores silvestres nascem em campo de ninguém como os amores colhidos por corações anônimos.
Nascestes uma açucena regada em água de vida ao sabor do vento vento que te trouxe a exalar virtudes bailando à luz de uma ribalta ardente.
Nascestes pra não ficar como o vento que não tem canto não tem tempo e nem dono.
Fostes pr’outros campos campos de ninguém no vento sem dono sentar noutro canto pra nasceres de novo.
Que ames como te amei para viver te amando enquanto viverei.
Segue o sétimo número da série “Tesouros do Cariri”. Dedicado a uma das vozes mais bonitas da Paraíba – Sandra Belê, a Marco di Aurélio Produções foi buscar lá em Zabelê, cidade do cariri paraibano, as imagens que preenchem nossas almas de vigor e estima.
Cenas tomadas na Fazenda Santa Clara trazem à tona uma pérola do cancioneiro regional, envolta em voz, violão e zabumba. O violão com Romério Zeferino, a zabumba com Gregg Mervine, e a voz maviosa dessa menina que nos encanta.
Espero que gostem e merecidamente divulguem nossos valores. Em breve teremos o oitavo número da série – João de Amélia.
Repare o que vou dizer de quem tem olho rasgado da terra do sol nascente de cabelo arrepiado que vai ser nosso tormento correndo atrás de jumento no meu sertão descampado.
Qual praga de gafanhoto pixilinga de galinha coceira de sarna braba pereba de passarinha vão invadir nosso campo pra pegar um bicho santo e vender numa latinha.
É bem desmoralizante pr’esse magote brejeiro que não sabe ser nação muito menos brasileiro incapaz de um pensamento para salvar um jumento de servir no estrangeiro.
Eu digo: tem nada não! Um dia inda vou ver um cristão num hospital na beirinha de morrer precisar de um ungüento que só tem em um jumento que se foi sem ninguém ver.
É ordem e é progresso! A ordem é comer gente quando estiver no batente ocupada no Congresso. Progresso nesse recesso é ter comida pra rato um rato pra cada prato representando a nação pois rato num é ladrão enquanto não ver um prato.
O bichim foi comedido queria comer um dedo mas quebraram seu segredo fazendo grande alarido e o pé foi socorrido cuidado com atenção e a desratização foi logo encomendada para acabar com a cambada de rato sem eleição.
Um ladrão cabra safado fez um rapa num museu saiu de Serra Talhada roubou tu e roubou eu botando no matulão os óculos de Lampião abriu dos peito e correu.
Desse tipo de ladrão eu repuno e arrenego se ele usar o picinei uma praga eu delego é ele botar na cara vai precisar duma vara pra andar depois de cego.
Te vejo como o céu vê a terra, com serras que se mostram nas cores florescentes, com grutas que escondem os segredos dos cristais.
Te vejo nas marcas indeléveis da escrita, na paixão da letra que se troca no horizonte das cercas que o limitam.
Te vejo como vejo o mundo e a hora, sem tempo de razão que se explora, sem fato de criar-se um novo mito.
Te vejo numa voz que é o próprio grito, no desejo que todo o universo te ame como ama-se as estrelas, e ao fim, bem assim por bem querê-las, te vejo no sol de toda aurora, me perco sem ter rumo em tantos versos, perdido sem o tempo e suas horas.
Fotografia de Roseli Ferreira, a “papisa” aqui de casa
Na vereda da vida que eu venho tantas léguas tiranas já andei quanto mais conheço inda não sei dessa roda que roda esse engenho quanto mais nesse mundo me embrenho eu descubro o primado da beleza que aos poucos esqueço da tristeza ao saber que nascendo nordestino uma estrela escolheu o meu destino quanto é grande o poder da natureza.
Se no mundo existir uma outra vida que tal vida se faça o mesmo fim eu desejo essa mesma vida em mim como a luz num espelho refletida minha história eu desejo repetida como o sol se repete em realeza renovado eu serei outra proeza rebentando de novo no sertão encourado em perneira e em gibão como é grande o poder da natureza.
Vai ser pedra, água e fogo
o trovão vai ribombar
corisco riscando o céu
a terra vai se rachar
quando o sol for se bulir
e a lua quiser cair
eu corro para escapar.
Me escondo no Cariri
quando o fim tiver começo
quem quiser rezar que reze
gastando as contas do terço
eu não tou pra me findar
tenho história pra contar
e acho que eu mereço.
Quem quiser pode falar
que eu tou dizendo besteira
já toquei com João de Amélia
zabumba no meio da feira
e hoje estou lhe narrando
que o mundo tá se acabando
e eu vou subindo a ladeira.
Vou traçar o meu riscado
que pra mim não é problema
vou correr um resultado
construir meu teorema
continuando a pregar
o sertão seria mar
se não fosse a Borborema.
Sobre um asteróide (2011MD), 50m x 20m, que passou a 12 mil quilômetros da Terra, nas proximidades do Atlântico sul, no dia 27.06.2011, por volta das dez e meia da manhã.
Dez e meia da manhã
em plena segunda-feira
um doido joga uma pedra
não sei com que balieira
e a bicha passou zunindo
e ainda tirou um fino
quando passou na carreira.
Dizem ser um asteróide
2011 MD
que no céu desgovernado
botando o mundo a correr
pregando susto na gente
ele vai ligeiro e quente
sem saber onde morrer.
Vade retro pedra bruta
não mexa com minha sina
caia num planeta morto
onde melhor lhe combina
deixe a Terra sossegada
pra cumprir sua jornada
para o fim que se destina.
* * *
Lembrei de um cordel que compus sobre o fim do mundo…
Lá vai!
Nos idos do Big Bang
quando o mundo apareceu
não tinha Campina Grande
nem Zefinha de Memeu
muito menos lamparina
quanto mais a gasolina
vou contar o que se deu:
Um pipoco da moléstia
clareou o céu escuro
foi banda pra todo lado
se não foi eu esconjuro
e o mundo azuretado
fumaçava afogueado
feito fogo de monturo.
Era gás incandescente
era ferro derretido
era luz encandeando
era zoada e zumbido
era enxofre escapando
era o mundo se formando
no meio desse rangido.
Os olhos produzem versos
a gaita embala a toada
maracá balança o braço
derrama o som na calçada
a feira se extasia
a manhã vira poesia
sem precisar mais de nada.
João de Amélia – Um João que por mim achado, na feira lá de Monteiro, ficou comigo guardado com aquele jeito matreiro, fecho os olhos e arrepio, ouvindo aquele rio correr que nem fosse inteiro.
Um trovão rebentando sem estalo
um sovaco de serra sem ladeira
correnteza bonita sem ribeira
uma rede num terraço sem embalo.
Um soldado já idoso sem ter calo
um fuzil esquecido de dar tiro
com o cão escorado num biliro
esperando na seteira sua hora
que depois do pipoco vai embora
sem direito sequer a um suspiro.
Que seria do sino sem badalo
igreja sem padre e sacristão
uma missa rezada sem perdão
uma vela, ou flor sem ter o talo.
Um turíbulo aceso sem embalo
uma velha rezar sem ter carreira
uma noiva sem flor de laranjeira
uma filha de Maria sem fofoca
ou um circo safado sem pipoca
com uma rumba tocando sem rumbeira.
Que seria das terras do sertão
sem inverno de água molhadeira
sem cabaço dando em trepadeira
São Caetano sem ser nome de melão.
Sem juá beliscado por cancão
sem açude pelo balde se escoando
sem menino na ladeira escorregando
feito lombo de jumento sem ter cela
sem cachorro se embeiçando na cadela
sem alguém lhe tanger sem ser gritando.
Que seria dessa minha condição
sem haver de vocês boa vontade
procurar meus escritos na cidade
protegendo essa nossa tradição.
Debulhar meu cordel com precisão
divulgar pra quem ele se destina
e ao sair desse pátria nordestina
se espraiando em letras pelo mundo
o estrangeiro dirá: isso é profundo!
O Cordel é - literatura fina.
Seguindo a provocação do Soneto “As Quatro Velas” de Dedé Monteiro,e profetizando o nascimento de um estilo que batizei “Soneto Dedediano”, venho colaborar com a composição abaixo, esperando ver futuramenteum roçado de rimas a partir das letras desse grande poeta.
OS QUATRO CANGACEIROS
Dos quatro cangaceiros numa moita
misturados no raso do sertão,
o primeiro levantou uma questão:
“Onde é que o bando hoje pernoita?”
O segundo assuntou na escuridão:
“Ninguém dorme, o vento nos açoita!
E quero ver quem é que se afoita,
se a lua sustentar esse clarão.”
O terceiro já meio arrependido,
dedilhando o seu terço encardido
repunou sua vida e seu destino,
viu o quarto cangaceiro levantar,
mandando Virgulino ir se lascar,
dessa vez Lampião cagou foi fino.
Entre 23 e 27 do mês de fevereiro ocorreu uma semana cultural na cidade de Monteiro, no cariri paraibano.
Alimentei os olhos e a alma ao ver tantos eventos vindo do povo. O povo que faz acontecer os folguedos, tais como a mazurca, ciranda, pífano, repente, coco e embolada.
De sobra ainda assisti, sob a sombra de um umbuzeiro carregado, a saída dos encourados para uma pega do boi na cidade de Zabelê.
Voltei carregado de encontros e bons momentos, como os das fotos que se seguem.
Minino a coisa foi feia
o Papa vei por aqui
e só foi ele chegar
pro céu todo se encobrir
foi pipoco, foi estrondo
foi trovão e foi ribombo
a chuva botou cair.
Papa Berto nem dormiu
passou a noite rolando
com duas mangas de chuva
o chão da terra fofando
a janela clareava
e o céu daqui se rasgava
com o trovão trovejando.
Eu sube que na lagoa
foi água pra canga-pé
foi agouro e foi promessa
foi vela e fita com fé
morreu sapo, até socó
e pra se apertar o nó
foi boi beber água em pé.
Dessa vez eu não sei não
o Papa vai repunar
é perigo ele não ter
mais vontade de voltar
pras terras de João Pessoa
pra não morrer na lagoa
se o boi não beber por lá.
Toque…
Mas toque com a alma!
Toque com o cheiro de terra que o vento levanta
toque com louvor
louvor dos anos que juntaram as pedras
o louvor das ladainhas…
Toque uma incelência com gosto de choro…
Toque o embu
a poupa do juá toque na língua
toque pra quem tem sede
pra quem se entrega ao cair da tarde
pra quem se bota ao sereno da lua fina.
Toque pra fora
o que bem sente por dentro.
Toque a distância das cordas
junte as notas num solfejo comprido.
Espiche
e veja a trilha derramada no pote do mundo.
Toque sem medo
sem tempo e sem escolha
toque no sentido da brisa
na direção dos sonhos
em campo sem porteiras…
Toque como se fala
sem se ouvir o que se diz.
Toque sem saber pra quem
toque pra si
deixando que o mundo ouça.
Numa das viagem que fizemos ao cariri paraibano, falávamos de soberba, quando em tom de brincadeira compusemos uma obra, que perigou ter mais letras para os autores que mesmo para o próprio texto.
Ícaro quis ir pro céu
com duas asas de cera
chegando perto do sol
viu que fez uma besteira
a cera se derreteu
caiu aquela porqueira.
Roseli Ferreira
Marco di Aurélio
Oliveira de Panelas
Passa o vento sobre a terra
e a pedra fica nua
passa o sol e passa a lua
de um jeito que não erra
passa nuvem sobre a serra
passa a rês que não se laça
o horizonte se embaça
de vermelho no poente
e quem for sobrevivente
é quem vê o que se passa.
Um trovão rebentando sem estalo
um sovaco de serra sem ladeira
correnteza bonita sem ribeira
uma rede num terraço sem embalo
um soldado já idoso sem ter calo
um fuzil esquecido de dar tiro
com o cão escorado num biliro
esperando na seteira sua hora
que depois do pipoco vai embora
sem direito sequer a um suspiro.
Que seria do sino sem badalo
igreja sem padre e sacristão
uma missa rezada sem perdão
uma vela, ou flor sem ter o talo
um turíbulo aceso sem embalo
uma velha rezar sem ter carreira
uma noiva sem flor de laranjeira
uma filha de Maria sem fofoca
ou um circo safado sem pipoca
com uma rumba tocando sem rumbeira.
Tentei de tudo pra me lembrar pra quem foi que fiz esta loa.
Não consegui.
Tem nada não.
Estou perto dos 60 e já me encontro no direito de esquecer o que ouvi, e de repetir aquilo de que não mais me lembro. E se você tem mais de 60 também já tem direito de ler novamente sem ter a obrigação de se lembrar de onde foi.
Vi rato virar morcego
lagarta em borboleta
vi bode virar churrasco
seu couro virar vaqueta
vi cacho amadurecer
e nunca deixei de ver
um Saci sem ser perneta.
Vi briga de faca e foice
por cima d’um galinheiro
um bebo bebendo o gás
todinho dum candeeiro
botando fogo da venta
puxando mais de setenta
por dentro d’um marmeleiro.
Mas nunca que tinha visto
reclamação de um fulêro
gritada de um minarete
das bandas de Limoeiro
e o coro gritando atrás
ajuda aqui Satanás
na cura desse encrenqueiro.
Menino! Deixe o cortejo
se espichar no mei da rua
quem sabe esse fulêro
não é o dono da lua
que vei pra nos ensinar
beber, comer e cagar
e nossa raça evolua.
Por ordem do Criador
tapando as fuças do incréu
mandou descer de repente
rasgando o pano do véu
uma chuva benzedeira
aguando a capoeira
de boca aberta pro céu.
Aonde se via xêxo
agora tem redemunho
água tomou de conta
enxada terá seu punho
a chuva que cai agora
se mede, metro por hora
janeiro ganhou de junho.
Passarim voa pesado
cururu lateja o papo
espingarda quebra coco
na mira dentro do mato
um preá foge arredio
com inverno para o cio
no feijão que enche o prato.
De verde se enche o mundo
graveto dobra frocado
fica tudo bem vestido
de botão bem perfumado
abelha e aripuá
bota tudo a se ocupar
no favo adocicado.
Assinatura divina
sem carecer de pincel
sem odor e sem ter cor
nem salgada, nem de mel
essa chuva caideira
ta pintando uma ladeira
que dá na boca do céu.
Há quem diga que a largura nos fascina
e que o estreito nos faz por refletir,
a primeira como se fosse uma cretina
e a segunda para o prêmio do porvir.
Dimensões não se mensuram com palavras
não se desenha a essência de um ser,
a humanidade se comporta como ladra
desejando o inatingível do saber.
Padrões se revezam noite e dia
e ao universo não interessa essa mudança,
pois há milhões de anos ele cria
imensidão que imaginando o homem cansa.
O viver e o saber não se conquistam
o fluir do existir não se constrói,
nem mesmo o poder de um alquimista
entenderia a maravilha de dois sóis.
Deixemos que a vida nos alcance,
que fique de lado a utopia,
faz parte o acontecer de alguns relances
para formar mais ainda uma harmonia.
Contrariando o pensar de um novo mundo,
continuamos a escrever coisas banais,
se comparadas ao canto mais profundo
da estrutura bonita dos cristais.
Janeiro primeiro
como Janeiro que abriu anos,
Janeiro que fecha o tempo
de raios que espantam pombos,
Janeiro que traz o ano,
Janeiro que traz o tolo,
é o mesmo que marca o tempo,
o tempo que o faz de bobo.
Janeiro que cresce o lírio,
o riso antes da morte,
o vento que vem do pólo,
na chuva que vem do norte.
Janeiro que molha o chão,
na face que rega e corta,
no canto que a chuva cai
forrado de folha morta.
Janeiro
que abre um tempo,
com a chave que não existe,
portal imaginário
criado pra quem insiste.
Como se o tempo tivesse tempo,
capaz de ser dividido,
contendo em pouco espaço
medidas de um indivíduo.
Janeiro foi quem me trouxe,
Janeiro vai me levar,
nas somas que os outros fazem,
querendo fazer lembrar,
que tenho idade no tempo,
dos Janeiros que passei,
como se velho ficasse,
nas contas que alguém fez.
Se eu fosse um coiteiro de tristeza
ouvinte abobalhado de ingresia
um besta que fizesse de seu dia
o sumago de toda safadeza
teria na boca um par de presas
não tinha no juízo essa saúde
seria na terra um bicho rude
não tava com a chave de meu tempo
nem dava pro mundo esse exemplo
nem mesmo meia quarta de atitude.
Na cantilena dos grilos
no sossegar do sertão
depois da chuva do dia
depois de muito trovão
o juazeiro esquecido
no mundo verde tingido
se perde na imensidão.
No mêi de tanto verdor
quem pode dizer agora
daquele mais resistente
vivente de toda hora
se o mundo explode de vida
da água que foi caída
que até as pedras fuloram?
São João, São João
São João do Cariri
sou feliz por ser vivente
e por ter nascido aqui.
Caixa fechada de longas histórias
terra fecunda de gritos e glórias
aqui São João fizestes altar
com graça divina trazendo esperança.
Os Cariris ?
Povo da terra, a mais soberana,
distância vencida, veredas infindas
de léguas compridas, as vezes tiranas
com almas felizes na terra mais linda
que os anjos te guie
janelas se abram
que todos se enfeitem
pra tempos de águas
que as casas se mostrem
vestidas de riscos
que sejam apriscos de todas as almas
Oh ! Meu São João
te faço uma prece com todo fervor
sustentes no campo o homem do eito
aqui na cidade o trabalhador
que nosso futuro tenha o passado
que nossa história de índio e caboclo
se faça presente na estima do peito
e que o dito e o feito seja de louvor.
Entrego-me ao dorso
de teu corpo seco
no leito errante onde és vereda
piso de areia onde és riacho
que ao sol à pino
viras labareda.
Quedo-me cansado
pela busca insana
devo-me de alma
sem contar medidas
e depois de léguas
léguas tão tiranas
já perdi as contas
de muitas minhas vidas.
Recebas este corpo
e o guarde protegido
em tua areia fina
por baixo dos perigos
e sobre minha dívida
estendas tua paga
na hora em que deságua
as águas de tua vida.
Um olhar de graça
que de graça assim recebo
que aos poucos cresce
por miúdos entremeios
enche minh’alma
sem ser de galanteios
prova de amor
que não se acha pouco
que tal recebo
feliz por ser olhado
sem ser fiado
sem paga e sem ter troco.
Para alguns jovens já sou um velho,e por um olhar recebido com um fraternal carinho,sobram-me palavras a erigir poemas.
Não vivo sem meu sertão
pois é assim que respiro
Lampião não viveria
sem poder dar nenhum tiro
Conselheiro não pregava
se não fosse o que pensava
quando estava em seu retiro.
Eu me quebro de suspiro
quando vejo o sol já posto
vendo o dia assim morrendo
sinto em mim um contragosto
mas levanto a minha fé
quando salta o caburé
em seu mundo tão disposto.
Saio desse desencosto
credo em cruz, ave maria
vejo um canto de parede
onde uma aranha fia
um sapo no pé do pote
o choro de um garrote
começando a noite fria.
Se enreda uma latumia
de um cachorro vira-lata
se embrenhando na jurema
um tatu lhe desacata
e a lua leve e fina
ilumina lá de cima
toda brecha dessa mata.
Minha rede me desata
desse mundo adormecido
e me leva pr’outro canto
um lugar desconhecido
onde vou desfigurado
sem ser leve nem pesado
pra voltar sempre esquecido.
Se você me der por lido
entendeu minha intenção
a saber que estou perdido
sem viver de emoção
Lampião não viveria
sem a sua artilharia
que nem eu sem meu sertão.
Eu sair de minha casa
com a prova de cidadão
c’uma camisa de festa
de todo bom coração
pra tá na boca da furna
botando fé numa urna
que a lista é só de ladrão?
Eu não!
Não voto nulo nem branco
nem no nome de ninguém
vou justificar meu voto
quem pensar se abstém
pois de pior a pior
já dizia minha vó
vergonha é pra quem tem.
No histórico de minha família, precisamente a família direta, ou seja, os de dentro de minha casa, completou-se hoje o nono assalto à mão armada, entre revólveres e facas.
Eu e minha mulher sofremos seis assaltos, três em bancos com direito a tiros e uma morte de um vigilante, outro quando nos levaram o automóvel e um outro em plena rua, acossado por um menor com um 38 em punho.
Um arrombamento em minha residência quando saí por três horas para almoço em um final de semana, e, que ainda hoje não sei o que me levaram, pois não ficou um recanto intacto, desta feita me levaram até a feira do mês.
Uma moto com dois boys enquadrarou minha mãe quando chegava de carona, outra investida contra uma filha de criação levando seu celular quando chegava em casa, e agora, há poucas horas atrás a filha de criação mais nova foi acuada e afanada em alguns reais que levava na bolsa.
O intrépido delegado que me assiste no bairro, quando da terceira vez que fui registrar boletim, teve a petulância de dizer que eu era muito azarado. Coitado. Eu que sou o azarado. O cabra nem tem competência pra desconfiar que o problema é a quantidade de ladrões, e não as vezes que passo por esses prejuízos.
Sei não. Acho que já tenho direito de cobrir o vácuo que as autoridades constituídas não cobrem. Com Lampião foi assim. Faltava justiça e ele a tomou por conta e risco. As milícias nascem por conta desses desequilíbrios. Repito e treplico: pena de morte não é coerção, é limpeza. Pena de morte não provoca medo em quem não tem medo. Portanto, que venham todos os desviados ao crivo de meu patrão, e na passagem eu aproveito pra empurrar de mundo abaixo, tampando a tampa da caldeira merecida. Encontrarei muita gente conhecida quando eu chegar no forró!