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Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

PEQUENINOS

Estamos ouvindo as cançonetas nostálgicas das caixinhas de música e todos nós sentimos vontade de chorar. Somos quinze ou dezesseis (às vezes me perco) a perambular por dentro deste casarão antigo, ao qual estamos confinados por vontade própria. Gostamos daqui. Viemos para cá quando a construção se iniciou, no final do século dezenove. Nós sempre nos reunimos por afinidade, ninguém jamais nos deu ordens. Temos, em comum, o gosto pelas flores no jardim, o cheiro de tabaco, o som dos pianos de cauda tocados pelas moças mais novas, as caixinhas de música… Há uma energia comum que nos une, e eu diria que é a força do pretérito, de um mundo já superado pelos próprios habitantes da casa, que o preservaram com dedicação carinhosa e à qual devotam toda a sua capacidade estética.

São engraçadas, essas pessoas. Nascem, crescem, desde cedo vivem na angústia e na dor, mas revelam laivos de sentimentos refinados, sofisticados, e os dessa casa só os encontram quando escarafuncham o passado… deles, porque nós mesmos não temos passado. O tempo é, para nós, uma ficção.

Somos, de certa maneira, seus companheiros de jornada. Eles não nos vêem e não conseguem nos levar em conta. Com exceções, é claro. Nós os amamos porque, enfim, é da nossa natureza amar a todos os habitantes da Concessão Física, e a nós mesmos, oriundos de outras esferas. Não estamos aqui para ajudá-los na dor da existência, e muito menos dar-lhes um norte diante da insensatez que manifestam com incrível freqüência. Poder-se-ia perguntar, mesmo, qual a nossa real motivação ao insistirmos em ocupar esta casa, na nossa forma própria, e eu diria que nada além do prazer que o passado deles nos proporciona.

Dia desses, estávamos todos (foi aí que contei uns quinze ou dezesseis dos nossos), à beira do piano, ouvindo o ensaio com que a menina Cristina nos presenteou em um final cinzento de tarde. Que maravilha! Que talento! Seus sentimentos sutis, manifestados nos seus gestos de virtuose, transformavam-se em vapores suavemente coloridos e prazerosos, tão comuns na nossa esfera, mas tão raros no próprio mundo deles; somente alguns os captam com relativa precisão.

Cristina possui um parente, o Sérgio, que produz o mesmo fenômeno ao escrevinhar alguns versos românticos que acaba por oferecer a uma mulher da noite, de um outro sítio onde os vapores têm mais peso e onde é bem mais difícil penetrar. Os sentimentos desse rapaz, contudo, fazem daqueles versos verdadeiros archotes a destruir toda a treva que envolve a vida da sua amada, e, quando ele os leva até ela, todo o ambiente ao derredor se ilumina e, por um momento, todos os presentes, gente cinza e dura, se comprazem com pensamentos de bondade e paz. (Não estão acostumados a isso).

Eles próprios, então, se assustam de cogitarem, por um átimo, em algo que não seja prazer físico e velhacaria. Mas, ali, o Bem não dura para sempre, pelo contrário. Aquela mulher pintada, contudo, vai aos poucos redirecionando suas pretensões e expectativas, diante de tanta luz emanada dos versos de Sérgio.

Um dia, temos certeza, aqueles dois se unirão em sítio próprio e terão chances de experimentar o amor, privilégio de tão poucos, aqui na Concessão. É mais fácil, para os humanos, apagar luzes benéficas, desfazer essas laborações. Eles são frágeis, imaginam-se ludibriados e traídos, todo o tempo, e por isso insistem em dominar e manipular, de uma forma ou de outra.

Nós os observamos, neutros, porque não sentimos a tristeza deles, não entendemos isso. Para nós tudo é aventura na direção do progresso. Para eles também seria… Mas, como sofrem!

E assim, para não cairmos na rotina dos comportamentos repetidos, procuramos nos acercar daqueles que se diferenciam, seja pelo gosto estético, seja pelas aspirações. A maioria dos habitantes e visitantes desta casa está mesmo a cultivar as experiências já vividas até pelos seus próprios ancestrais. Estão determinados a isso. Nada os faz desistir dessa intenção. E é aí que vamos encontrar os sentimentos mais refinados, a ingenuidade e a beleza.

Nós dissemos que nenhum deles tem a capacidade de nos ver, apenas como exceção. Pois bem: esta exceção apareceu. É Genoveva, a moça que porta acepipes. Ela agora visita todos os dias esta casa, trazendo os doces e salgados que os donos apreciam, e tem se divertido muito a nos observar, em todos os cantos. Vira-se para um e outro de nós e pergunta coisas do tipo: “Ei, pequenino, o que é que você está fazendo aqui?” Ninguém responde porque, se responder, vai acabar estabelecendo uma conexão emocional com ela, e essa gente humana, apesar de frágil, pode ser muito perspicaz e envolvente. Por outro lado, nós não temos licença para nos comunicar diretamente com eles. Incidentes aconteceram. Contaram que um de nós, perdido de encanto por um deles, respondeu ao contato, e aí sobreveio a dor eterna de entrar neste reino de agonias, onde eles se debatem. Nós não estamos preparados para as trevas.

Genoveva, de fato, é um encanto, uma luz rara que jamais conhecemos. Tenho rogado aos meus mentores que ela não se acerque de mim, jamais, e simplesmente não me dirija a palavra. Mas ela sorri, para mim e para os outros, em qualquer lugar onde estejamos: no depósito das frutas, dentro da caixa gelada onde eles guardam os alimentos, ou no meio dos vapores úmidos dos banhos.

“Pequeninos, pequeninos!”, ela nos chama (meu Deus!, como alguém pode ser tão bela?…), com sua graça de fada. “Venham conversar comigo, eu sou uma de vocês, eu entendo vocês…”

Uma de nós, será?

E, fora ela, quem da Concessão nos iria realmente entender?

Eu olho para Genoveva e fico imaginando que certas danações podem valer muito a pena.

Do livro “Allegro” – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003


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O HOMEM VERMELHO EM SEU CAVALO BRANCO

O homem vermelho em seu cavalo branco atravessava todo o bairro, duas vezes por dia, de manhã cedinho e no fim da tarde, oferecendo um delicioso produto: leite.

O homem vermelho era vermelho mesmo, parecia que havia saído de uma manhã na praia; diziam que aquela cor da tez se devia a ancestrais holandeses.

Para não fazer pipocar a pele frágil, o homem vermelho vestia um chapelão de abas largas, marrom-claro, até às cinco da tarde. Como usava sempre a mesma roupa, cáqui, calça e camisa da mesma cor, e botinas pretas de soldado, o homem vermelho mais parecia um dèjá-vu: todas as vezes que o víamos, imaginávamos um outro momento da vida, em um outro tempo, há três, quatro anos, porque ele era sempre igual. Isso causava uma certa aflição nas pessoas.

O cavalo branco não era um puro-sangue, longe disso, mas um belo pangaré, imenso, de crinas fartas, alvo como um fantasma, que puxava com vigor a carroça com os galões de leite e o homem vermelho em cima, guiando o veículo com maestria, batendo de porta em porta.

“Leite puro, do peito da vaca!”, gritava o homem vermelho.

Às vezes, faziam fila, com seus litros nas mãos, esperando o líquido branco, quase pastoso de tão gordo, e que desprendia um odor nostálgico de curral.

O homem vermelho sorria para todo mundo, das crianças aos mais idosos, dos deficientes mentais aos cegos. Certa vez, meu primo Antenor, que me acompanhava na fila do leite, estranhou muito uma determinada cena.

“Olha lá”, cutucou-me o meu primo, “o homem vermelho está sorrindo o tempo todo para o cego…”

“E por que ele não iria sorrir, Antenor?”

“Ué… porque não adianta.”

Um dia soubemos que o homem vermelho se candidatara a vereador pelo partido da situação. Ficamos satisfeitos: era uma pessoa que conhecia os problemas do bairro, rua a rua, que ouvia as queixas das pessoas e que, com certeza, possuía uma boa experiência em administração, já que vivia há anos da sua pequena criação de vacas leiteiras em plena cidade e da distribuição do produto. Aquela roupa sempre igual dava a idéia de um homem muito limpo. Mais: era sem dúvida um incansável trabalhador, mourejando de sol a sol – ordenha vaca, enche os tonéis, dá ração, toma banho, sela o cavalo, vende, compra ração, lava os tonéis, recolhe o esterco pra vender…

O homem vermelho foi cumprimentado por todos os moradores do bairro, recebeu centenas de promessas de apoio, e a cada dia se tornava mais risonho, mais confiante.

Veio o pleito e, após a contagem, o homem vermelho descobriu que recebera um voto. Não quis acreditar, pediu recontagem, as pessoas estavam ansiosas (“Como é? Quantos votos?”), até que um dia o homem vermelho chegou em casa com os olhos também vermelhos. Chamou Tina, sua mulher, e disse a Seramir, rapaz de quase 30 anos, filho único, muito desconfiado por causa do choro inédito do pai, que depois o chamaria também.

A portas fechadas, o homem vermelho olhou com firmeza para a mulher e declarou que preferia morrer a se sentir traído, após quarenta anos de casamento.

“Eu, trair você? Mas quem iria olhar pra mim, homem de Deus? Estou tão gorda e sem graça…”

“Eu me refiro à eleição.”

“Que aconteceu?”

“Tive um voto: o meu.”

“O quê? Foi seu nada! Foi o meu. Você deve ter errado o voto. Porque eu votei em você. Eu tenho mais estudo, não erro.”

O homem vermelho não disse mais uma palavra e foi cobrar do filho.

“Pai, eu não votei porque o senhor não iria agüentar a vida de político… Iria ficar longe da gente. Depois iria se envergonhar do curral…” (Mais tarde, o homem vermelho soube que o rapaz tomara um pileque na véspera da eleição e que acordara após as cinco da tarde, quando já se encerrara o pleito.)

O homem vermelho voltou à sua vida de sempre, vendendo o leite, só que não era mais o mesmo. Na roupa, antes sempre limpa e impecável, perceberam que algumas sujeirinhas apareciam com freqüência. O cavalo branco deixou de ser escovado e ter as crinas penteadas. Um dia o viram mancando, até, com a ferradura mal-ajustada. E o leite passou a apresentar uns pontinhos escuros muito suspeitos. “Coliformes fecais”, insistiam as más línguas.

Muita gente se perguntou o que havia acontecido, eu inclusive, e acabamos chegando à conclusão de que o homem vermelho não era tão popular assim; pelo contrário: aquela sensação de dèjá-vu que ele sempre passava o associava a fatos desagradáveis e constrangedores, como se ele tivesse o dom da onisciência e estivesse presente a todos os momentos das nossas vidas.

Mas a explicação fundamental era bem mais simples: ninguém sabia o nome do homem vermelho, e nem se preocupara em perguntar até o dia da eleição. Muita gente chegou em frente à urna, pronta para votar nele, e acabou descobrindo que só o conhecia como “o homem vermelho”.

Eu cheguei a me oferecer para dar-lhe essas explicações todas, mas quando fui procurá-lo senti um certo bafo de cachaça. Hum, era uma coisa que ele jamais fizera antes. A depressão é o mal do século, pensei. Acabei desconversando. Uma pessoa alcoolizada não compreenderia ponderações mais ou menos sofisticadas, apesar de reais, sobre o maior fracasso da sua vida.

No caminho de volta, lembrei-me de que, mais uma vez, não lhe perguntara o nome.


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O REVERTÉRIO

A manhã, que já ia alta, estava especialmente quente na varanda do casarão, e Djair cochilava, deitado numa das redes, ainda de pijama, recuperando fragmentos de sonhos eróticos que tivera durante a noite com Eneida, a vizinha. Se alguém lhe perguntasse o que é ser feliz, aquele momento teria grandes chances de servir de modelo.

Tinha dezenove anos, acabara o curso médio e se preparava para entrar na Escola de Contabilidade. O professor particular vinha sempre depois do almoço, ficava duas horas; depois, ele estudava um pouco até as seis da tarde. Tomava um longo banho, usando cremes e águas de cheiro, jantava frugalmente (não tinha o menor apetite) e, por volta das oito da noite, quando a maioria das pessoas da casa se recolhia e os irmãos mais velhos ganhavam a rua, ele escalava o muro de trás e ia ter com Eneida, no próprio quarto dela. A mocinha, de dezesseis anos, já o esperava de janelas entreabertas.

Não eram encontros perfeitos, ainda, pois Eneida não abria mão da virgindade, mas aquilo, ele sabia, era uma questão de tempo. O maior risco, na verdade, era dele: e se ela engravidasse pelas coxas? Gostava de riscos. Não era por outro motivo que estava ali, no quarto contíguo ao do major Vilella, pai da moça, chefe de polícia e desafeto de seu pai, o amanuense Figueiras. O major andava armado, já dera tiros para assustar um namorado da filha mais velha, que acabara por fugir de casa. Djair podia ouvir o ressonar do velho e o ranger da cama no quarto ao lado, mas isso não o incomodava: Eneida tinha seios redondos, gostava de tirar toda a roupa para que ele a apreciasse e, nos momentos mais íntimos da relação, excitava-o ao máximo sussurrando com um sotaque próprio: “Djair, vem d’gente, vem d’gente…”

Possível ser mais feliz? Pensando bem, sim. Se fosse quebrada a rotina. Se um risco maior surgisse; encoxar Eneida era pouco. Sua vida havia se transformado numa rotina agradável, mas rotina: saía do quarto de Eneida por volta das onze da noite, pulava o muro de volta, ia direto para o próprio quarto, que dividia com Zito, o irmão mais velho. À noite, sonhava com a amada. De manhã, tomava um café reforçado e, ainda de pijama, caía na rede da varanda para ler, entre cochilos, um romance vagabundo, de capa e espada, que o atraía pelo lado romanesco. Djair sempre se identificava com o herói principal.

O amanuense Figueiras criava os filhos assim: o que vale é a satisfação dos sentidos e a realização dos sonhos. Não se pode descuidar de um bom ganha-pão, mas isso não é o mais importante. Já para as filhas, o discurso mudava radicalmente: o que importa é um casamento próspero, após o que poder-se-ia pensar na satisfação de necessidades exclusivamente espirituais, como a arte, sobretudo o piano, e o atendimento social aos desvalidos. Já dona Clara, a mãe, discordava pacificamente de tudo isso. Para ela, só a igreja, o padre de plantão e o Papa importavam. Era uma família de bem e de posses: três moças e quatro rapazes que adoravam os pais e, no geral, davam bons exemplos à comunidade.

Só o major Vilella implicara com o amanuense Figueiras e o insultava junto a amigos comuns, chamando-o de ladrão, por causa do patrimônio e nível de vida desproporcional ao cargo de funcionário público. O amanuense, na verdade, recebia muitos presentes e era amigo de políticos e homens de negócios influentes. E daí? Major da polícia, reagia o amanuense, só serve mesmo para ter filhas gostosas.

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MAMBO-JAMBO DEVE MORRER

Será que ele havia bebido ou cheirado alguma coisa? Ou o sucesso costuma deixar as pessoas com cara de espanto, os olhos arregalados?

Estávamos lá, eu, que sou o novelista, e Júnior, o ator, na porta do meu apartamento. Eu o havia chamado. Convidei-o a entrar. Ele se apressou, como se estivesse sendo perseguido.

“Que foi isso, Júnior? Viu fantasma?”

“Quase fui linchado, carinhosamente linchado, aqui embaixo, no calçadão. O povo me reconheceu. E acho que, na confusão, bateram a minha carteira.”

‘Que coisa’, pensei. ‘Este moleque tem pouco mais de vinte anos, era um atorzinho de teatro infantil, agora ganha uma fortuna e ainda reclama do povo, que o ama! O pior é que a culpa é minha. Fui eu que o fabriquei’.

Essas coisas acontecem muito quando se trabalha com comunicação de massas. Na minha novela, uma verdadeira bosta, assim como todas as outras anteriores, pois novela só presta para veicular anúncios e enriquecer a emissora, inventei um personagem meio doido, meio hippy, chamado Mambo-Jambo; um sujeito vazio, louco por ritmos latinos. Ajudei o diretor a escolher o ator e acabamos topando com Júnior, todo pobrezinho, tímido, com dicção péssima e presença de palco zero, mas com uma cara de cubano que justificava tudo.

Mambo-Jambo, o personagem, sujeito pobre, do morro, mantinha um namorico com Cleres, a filha mais nova do empresário Acácio (toda novela é igual). Pois bem: com dois meses de apresentação, eu já era obrigado a passar metade do tempo inventando situações para o casal, tal a popularidade deles. E aí, sem ter mais o que criar, joguei Mambo-Jambo no campo e o transformei num líder camponês, pronto para invadir as terras do próprio sogro que, naturalmente, era o maior filho da puta.

Pronto: o comportamento de Mambo-Jambo (ou Mam-Jam, como alguns fãs-clubes preferiam), passou a ser imitado na vida real: fazendas foram invadidas por todo o país e os militares que detinham o poder mandaram chamar o dono da emissora.

“Dê um sumiço nele!”, disseram a seu Feitosa, o dono, português esperto, mas ignorante que se transformara no maior empresário de comunicação do continente.

“Mas, senhores”, reagiu seu Feitosa, “em toda a minha vida jamais fiz mal a uma mosca. Digo, fisicamente.”

“Não, porra”, gritou o general Assis, segundo o testemunho de quem assistira à reunião, “não é para matar o ator, e sim o personagem.”

“Mas isto é com o Zé Oliva”, ponderou de novo o português.

Eu sou o Zé Oliva. Ex-redator de publicidade, ex-vendedor de carros, mas sobretudo ex-alcoólatra, que vendo o meu talento para enganar as massas. Seu Feitosa ligou para mim, logo que voltou da reunião, que ocorrera na capital. E foi taxativo:

“Quero que acabes amanhã com o Mambo-Jambo, ou eu estou fudido!”

Tentei convencê-lo de que seria muito pior, inclusive para os próprios militares, porque o povo não aceitaria a morte de um fenômeno de popularidade do dia para a noite. Mas seu Feitosa estava histérico:

“Olha aqui, Zé Oliva, se você não matar o personagem, eu mando matar o ator. Não quero problema com os milicos.”

“Da noite pro dia não dá”, apelei. “Tenho de preparar a morte dele.”

“Então tá bom. Uma semana.”

“Quinze dias.”

“Dez dias e não se fala mais no assunto!”, disse aos gritos o português mais poderoso do continente, encerrando a conversa.

Foi aí que chamei Júnior ao meu apartamento e o povo lá embaixo quase o matou de paixão. Contei toda a história a ele, exceto que o português havia ameaçado matá-lo de verdade.

O rapaz ouviu, pensativo. Eu já sabia que ele não era o idiota que eu imaginara, quando o conheci. Naquela época, coitado, parecia incompetente porque não havia estudado, ou treinado o suficiente. Com o tempo revelara-se com certa sensibilidade artística. Mambo-Jambo tinha muito dele. Não se é popular à-toa.

“Bem. Você está me dizendo que Mam-Jam está morto. Que posso fazer? É você que escreve a novela.”

“Não, cara, eu quero outra coisa. Eu quero que Mambo-Jambo me diga se aceita ser eliminado, assim, desta forma estúpida.”

“Não entendi.”

“Caralho: eu pensando cá comigo que você não é uma besta e você não entendeu. Eu quero a opinião do personagem, tá? Eu quero que Mambo-Jambo dê declarações sobre o perigo que está correndo.”

Júnior levantou-se do sofá, pediu licença para desligar a televisão, que ficava no mute o tempo todo, pegou um copo de água no bar, serviu-se, aí se encaminhou à sacada, olhou a inacreditável paisagem da baía, com seus milhões de luzes e, quando voltou, não era ele. Ali estava Mambo-Jambo, minha criação. Até a cor da pele era outra, trigueira e sofrida. Fiquei perplexo.

“O pai quer falar comigo?”, ele começou, com a voz e os cacoetes do personagem.

Repeti tudo o que já havia dito ao Júnior. Mambo-Jambo não conseguia pensar sem se manifestar fisicamente. Dava socos na própria mão espalmada, ajeitava as calças, fechava e abria o zíper da braguilha (gesto que levava as fãs ao delírio). Ficou assim um tempo, andando de um lado para outro.

“Pai, acho que devemos ao povo uma revolução.”

“Como é que é?”

“Vamos não só invadir fazendas como viajar até a capital e exigir que os militares organizem eleições democráticas!”

“Ah, é? E quem vai cuidar do cu do papaizinho aqui, durante a guerrilha promovida por você, Che Guevara de araque?”

“Aí é que está, meu pai”, ponderou Mambo-Jambo, “nosso país é uma grande mentira, o povo prefere acreditar nas ilusões, nossa gente admira as pessoas que aparentemente não existem, como eu, Mam-Jam.”

“Como, aparentemente?”

“Porque, de alguma forma, existimos. Eu sou tão forte que você, meu criador, veio me perguntar se deve me matar ou não. Se eu pedir uma revolução, tenho certeza de que a receberei. Você não imagina o que acabou de acontecer aí embaixo, no calçadão.”

Mambo-Jambo acabou de falar, correu até a sacada, e gritou daquele jeito que tanto influenciava os jovens da idade dele: “Vamos derrubar a ditadura, povo meu!”

Eu tinha de pensar um pouco na hipótese. Porque, na verdade, este foi o meu primeiro impulso, usar o personagem para iniciar uma reação popular contra a tirania.

Bem, se desse errado, seríamos presos, os militares invadiriam a estação, só que arcariam com o ônus da impopularidade. Matar alguém que milhões de pessoas amam?

Complicado, claro. Mas poderia dar certo. Nossa moderna democracia começou aí.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003


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AFINAL, O QUE É SER HOMEM?

As tentativas de compreender como o macho do passado, acusado de oprimir as mulheres e ditar as regras, lida com um novo status e com compromissos que englobam ajudar a cuidar da casa, reservar uma hora no esteticista, levar os filhos à escola e preparar o jantar.

Não há dúvida: o homem – ou o masculino – passa por uma grande crise. Já faz algum tempo, até, mas os sintomas estão se agravando. O diagnóstico é quase unânime, segundo as ciências humanas e as artes, em especial a literatura e o cinema. O que varia é a percepção do tamanho dessa crise e o fato de que alguns consideram a palavra inadequada, radical. Em vez de crise, transformações. Profundas, no entanto.

Muitos do gênero sofrem bastante, de fato; as mulheres competem de igual para igual no mercado, enquanto eles se tornam cada vez mais caseiros, cozinheiros, babás. Alguns, heterossexuais ou não, assumem o que se convencionou chamar de metrossexuais: malham, usam cremes no rosto, ficam horas no cabeleireiro, fazem a festa de perfumistas e alfaiates. Aí, no entanto, não há unanimidade: há quem diga que o metrossexualismo é apenas estratégia de mercado.    

O homem, porém, não é mais o mesmo. Inclusive no sexo. Será que é ele quem dita as regras do jogo? Não é verdade que suas parceiras passaram a exigir performances diferenciadas, dando um nó em sua cabeça? Ou não é nada disso e ele continua macho, dominador e ainda considera o feminismo e congêneres partes de uma teoria da conspiração alimentada pela mídia?

Nesse assunto, que não é apenas um, mas vários, os terrenos são pantanosos, para não dizer movediços. De início, especialistas em geral não gostam, realmente, de usar a palavra “crise”, que inclui ruptura e – mais complicado – revertério. Crise é revolução, mas, na verdade, estaríamos falando apenas de mudanças (para alguns especialistas, muito antigas), definidas melhor pela expressão “processo”. 

Na vida dos masculinos, então, consideremos que há reviravoltas, e elas constituem um processo sem retorno. Vamos começar expondo o que seria o senso comum – ou o mais próximo disso.

Quem poderia negar, por exemplo, que o feminismo deixou os homens bastante acuados? Nos anos 1960/1970, foram acusados de vilões, opressores de mulheres. Egoístas, arrogantes, tiranos “falocentristas”, para usar um pouco de terminologia freudiana.

A escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), citada pela colega americana Susan Sontag (1933-2004) no livro Diante da dor dos outros, foi quem enfiou o dedo na ferida do jeito mais doloroso, afirmando que a guerra não é uma questão das mulheres, porque nunca foi desencadeada por elas.

O feminismo, assim, fez muitos homens repensarem a si próprios, mas boa parte das feministas radicalizou o discurso – e o macho ficou perdido. Ou se acomodou, fingindo que não era com ele. Por outro lado, logo após o feminismo, o movimento gay – do qual apenas hoje vemos os resultados mais evidentes – ajudou também a modificar nossa concepção de humanidade.

Enfim, após esses dois movimentos, o que entendíamos por homem mudou completamente. Em compensação, mudou também o que parecia mulher. O processo, no entanto, teve participação maior de mulheres e homossexuais. E aconteceu à revelia dos homens heterossexuais. 

Tudo isso com sérios agravantes: a partir dos progressos da ciência e da tecnologia, fala-se hoje em seres pós-humanos, pós-orgânicos, e lentamente vamos realizando a tenebrosa fantasia de nos tornar cyborgs.

Pior: está na moda falar do sumiço da figura paterna. A antropóloga americana Margaret Mead definiu a família como “a mulher e sua prole”. Talvez ela tenha radicalizado um pouco: as tarefas de cuidados com os filhos continuam femininas – a tal maternagem –, mas, desde os anos 1960/1970, notam-se homens extremamente dedicados aos seus pimpolhos. Dê uma olhada em um shopping center ou parque de diversões da sua cidade. Não é cada vez maior o número de papais “fofos”? 

Nosso senso comum pode considerar que a crise vai além do masculino e é, de fato, uma crise geral de identidade. Quem negaria que está todo mundo meio perdido, vivendo relações amorosas cada vez mais complicadas? Pelo jeito, nesse particular, as mulheres se repensaram melhor, estão mais centradas. Afinal, não ocorreu, ainda, um “movimento masculinista”.

Concorde: hoje e sempre, ser homem é uma missão difícil, já que a maior parte dos grandes valores viris desabou. Os otimistas diriam que há a vantagem de assumir-se frágil e precário. Mas isso leva a uma pergunta básica: o que significa realmente, de fato, sem dúvida, ser homem, hoje?

Daí, talvez, surja a figura do metrossexual. Metrossexual, sabe-se, é uma invenção recente, de 1994, do jornalista inglês Mark Simpson, a partir da junção de duas palavras: metropolitano e heterossexual. É aquele sujeito maníaco por sua aparência, incluindo o terno de corte perfeito, nó de gravata impecável, a cútis tratada pela mais avançada cosmética e o abdômen melhor delineado do que os tanquinhos em que mulheres lavavam roupa no século 19.

Esse conceito, porém, não cabe exatamente em um senso comum. Pessoas distintas, como o médico e agitador cultural Paulo Carvalho, do Recife, e a professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), Heloísa Buarque de Almeida, simplesmente negam o fenômeno.

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SONHOS

“A primeira cena de que me lembro, nesse sonho, é Natália se levantando de uma cama ao lado da minha (por algum motivo eu não estava dormindo com Júlia).’’

“Natália? Ah, desculpe, doutor, esqueci que é a minha primeira sessão com o senhor. Eu lhe disse, troco de analista como quem troca de roupa, eh… Natália é minha advogada, desquitada, gostosa, me ama. Júlia, o senhor sabe, é minha esposa. Cerimonioso esse ‘esposa’, não?”

“Mas Natália levantava-se da cama e subia uma escada, de camisola curta, as coxas aparecendo. Ela é magra, cheia de costelas, como eu gosto. Lembro-me de que eu observava com muita atenção as coxas dela, em especial a direita, nossa, que beleza aquele músculo comprido, visto de lado, estufando a carne branca. Ela caminha muito no parque. Eu a chamei, baixinho, cheguei perto dela, tomei até coragem para tocar nas suas coxas, mas ela estava apressada. Ainda conseguiu dizer uma coisa que me deixou intrigado: ‘Desculpe, João Pedro, mas fiz uma grande besteira…’ Ora, ora, pensei, ela é esperta, conhece bem as leis, não faz besteiras de tamanho nenhum. Sua única cagada foi a de ter-se casado com um traste, um filho da puta que estourou a praça com duas empresas fantasmas!”

“Aí, não sei de onde, surgiu Júlia. Nos sonhos, o senhor sabe, as pessoas aparecem de repente, sem nenhum motivo, em especial a mulher da gente. Aliás, motivo tem, mas aí quem interpreta é o senhor. Eu fiquei pensando que a grande besteira de que Natália falou poderia ser um e-mail que ela tivesse passado a Júlia por engano, achando que era o meu endereço. No e-mail ela dizia que me amava e me queria. Mas Júlia chegou, com uma cara normal, sentou-se do meu lado, conversamos abobrinhas. De repente (sonho é foda!), lá vinha Natália descendo a escada, de roupa, cabelo molhado, e com uns papéis na mão, manuscritos, provavelmente uma carta. Nem olhou para mim, dirigiu-se a Júlia, deu-lhe os papéis, Júlia deixou-os cair e eles se espalharam no chão.”

“Eu lhe peço desculpas, Júlia”, disse Natália, “mas está tudo aí explicado. Leia”. Júlia fez cara de vítima. E eu, babaca, olhando para as duas e boiando.”

“Não, doutor, nada mais aconteceu. Foi só isso. Aposto que o senhor vai dizer que eu sofro de complexo de Édipo, mas é o óbvio, e não vou aceitar; talvez diga de uma forma diferente, mais cortês, que não me fixo em mulheres, em função das minhas relações com mamãe, mas isso foi o que o outro analista falou e eu o mandei se roçar nas ostras.”

“Aquele sonho, então, pulou para um outro tema, bem mais agradável. Agora era Vanessa, mulher de um amigo meu, o Zeca. Vanessa é outra gostosa; certa vez quase que a gente se engata, numa festinha lá em casa, e no sonho ela aparecia em close, só o rostinho lindo, sorrindo, estava feliz, e eu a beijava com muito carinho, na boca, nas bochechas, depois a minha mão começava a agir… bem, o senhor sabe como acabam essas coisas… Está vendo como gosto de mulher?”

“Se consumei o ato? Infelizmente não. O sonho foi interrompido no melhor e lá estava eu e Júlia viajando para um hotel numa cidade do interior. Acho que a gente ia ver uma propriedade, o senhor sabe, invisto em imóveis também. Súbito, estávamos já acordando, e eu achei esquisito o fato de o quarto ter crescido tanto. Havia outras camas em espaços mais ou menos iguais, divididos por paredes leves, de compensado, e num desses espaços vejo duas mulheres com três crianças. As crianças correm na minha direção e pulam na minha cama, eu tento dissuadi-las, brincando, as mulheres não se mexem, aí eu percebo que todos os quartos estão ligados entre si e que há todo tipo de gente no hotel, confraternizando, e não são somente os quartos, mas todos os cômodos do prédio são interligados. Isso me assustou muito, doutor, o que significaria? Medo de que um candidato de esquerda ganhe as eleições?”

“Onde estava Júlia? Sei lá. Nos momentos mais doídos ela não se faz presente. Também, foda-se. Não sinto falta. Não quero ninguém se imiscuindo nos meus sonhos. Aliás, nesse sonho, eu é que saio à procura dela, a encontro no hall, conversando com os porteiros, um monte deles. Eu a chamo para dar uma volta, saímos, mas o pneu do meu carro estoura, coisa que jamais acontece com esses utilitários esportivos importados. Descemos, nós dois, e voltamos a pé para conversar com a multidão de porteiros. Peço para chamarem um borracheiro. Dizem que não há, num domingo. Como não há? Aí um deles nos diz que o único borracheiro da cidade é um tal de Jeremias que, nos dias de folga… (o sujeito faz um gesto com a mão direita virada para baixo, dedos unidos, a mão subindo e descendo).”

“Porra, não dá pro cara trepar em dia útil à noite e atender clientes desesperados num domingo?”, eu pergunto, irritado.

“Não”, diz o capiau, “ele só gosta de fazer isso domingo” (e repete o gesto).

“Achei, doutor, uma ousadia, aquela conversa diante da minha esposa, mas o tal hotel era meio surubento mesmo. Como Júlia reagiu? Sei lá. Por que o senhor quer saber? Aliás, o que é que o senhor pensa de tudo isso? Um outro analista, não o último, o do complexo de Édipo, mas o anterior, insinuou que eu precisava trabalhar uma possível tendência homossexual, mas pera lá, o senhor acha que isso são sonhos de viado? Bem, esse foi o resultado da noite de ontem. Toda noite tem frege. Aí eu me acordo com essas histórias na cabeça, e fico pensando o dia inteiro nelas, no que significam, se o meu casamento acabou, se as fantasias são normais… Isso me inquieta muito, doutor, e eu não consigo trabalhar direito…”

“Sim, eu sei que sou ansioso, sou assim desde criança. Há um outro sonho recorrente, da infância, mas acho que não vou contar pro senhor, não. Tenho vergonha. Talvez, se o senhor insistir… Fico temeroso, sabe? O senhor pode vir com interpretações que me agridam moralmente e eu não pago uma fortuna aos analistas para ser caluniado e ofendido. Pode tirar seu cavalinho da chuva.”

* * *
Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003


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Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

O GENE

A notícia de que Ivana e Maninho haviam decidido, finalmente, se separar, caiu como um raio na reunião semanal que dona Marise, mãe de Maninho, fazia com as amigas.

O encontro das velhas senhoras era famoso na cidade, e até no Estado, por que ali, de certa maneira, juntavam-se as representantes de quarenta por cento do PIB da região sul. Elas, as matriarcas, quase todas viúvas, detinham a maioria das ações das maiores empresas, de todos os setores. Seus filhos, genros e noras, ou executivos contratados, comandavam as operações naturalmente, mas cada uma delas presidia os respectivos conselhos de administração; ou seja, na prática, eram as donas do poder.

E tudo isso por causa de dona Marise. Pequenina, magra, de gestos ansiosos e timbre de voz acima do normal, a velha senhora infernizava os executivos que tocavam suas empresas, todas na área de metalurgia. Demitia-os se não apresentassem crescimento anual de, no mínimo, dez por cento. E premiava quem ultrapassasse esse limite. Metia-se em tudo, desde a cor do uniforme dos operários até as aplicações na Bolsa de Nova York. Convencera as amigas não a fazer o mesmo, porque ninguém acompanharia o seu pique, mas a não entregar o poder jamais a filhos e outros parentes.

“Nem que você se aconselhe com auditores e consultores”, ponderava às velhinhas menos afeitas às artes corporativas. “A intuição está sempre conosco, com a alma feminina. Se tiver de tomar uma decisão sozinha, pergunte ao seu Eu Superior.”

Quando alguma herdeira não queria mesmo saber de trabalho, como era o caso de Geórgia Matilde, dona de um império de comunicação, ela  mesma, Marise, assumia as grandes decisões daquele grupo, com o aval pleno e meio sonolento da amiga. Poderia não ser a maior empresária do mundo, mas, em suas mãos, as porcentagens cresciam muito além da média do mercado. “A custa do terror”, diziam seus inimigos,  afinal inócuos, boa parte trabalhando nas próprias empresas, e ainda lembravam, desconsolados, que ela era uma das mais jovens do “grupo das  bruxas”: acabara de completar setenta e três anos.

Por tudo isso, a notícia que sua amiga Glorinha acabara de lhe dar, de que Maninho finalmente decidira pedir o divórcio a Ivana, mexeu com os nervos já tensos da supermãe. Glorinha era a herdeira de um dos maiores escritórios de advocacia do País. Exatamente o que estava cuidando, em sigilo, dos papéis da separação.

“Não acredito! Você tem certeza, Glorinha?”, perguntou dona Marise, revelando certa palidez.

“Sou muito bem informada pelos meus executivos-administradores, como, aliás, você me ensinou. Segundo o pessoal, seu filho Maninho não está com jeito de quem vai voltar atrás.”

“Pois vai!”, sentenciou dona Marise, sentindo-se humilhadíssima de que terceiros soubessem dos segredos do próprio filho e ela não. “Por bem ou por mal!”

“O que quer dizer ‘por mal’, Marise?”, quis saber Tereza Brotas, dona de uma cadeia de lojas de departamento.

“Não sei, ainda”, dona Marise quase gritava, “vou pôr o meu Eu Superior para funcionar.”

“Maninho não seria mais feliz se resolvesse o problema?”, quis saber Januária, proprietária dos Estaleiros Golfinho.

“Disseram-me que ele está apaixonado…”

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CARINHO

Mulher abre a porta do apartamento. De robe azul celeste. Tem 40 anos. É bonita.

“Tá bom, Belmonte, pode entrar. Mas acho estranho você aparecer por aqui. Sabe quando nos vimos pela última vez? Mês e meio atrás.”

“Você sabe, estou enrolado, Luíza. Serviço. Viagens.”

Homem com pasta de executivo na mão vai entrando e se joga numa poltrona. O apartamento é bem arrumado, decoração de móveis modernos. Muita fibra de vidro.

“Mentira, Belmonte. Eu sou realmente uma idiota. Há quase vinte anos que você mente. E eu ainda aceito ouvir suas histórias…”

“Luíza, hoje você pode achar o que você quiser. Se quer me chamar de mentiroso, OK, eu sou. Diga o que lhe vier à cabeça. Xingue. Eu lhe pedi socorro. Preciso falar com alguém que não seja da minha rotina, sobretudo que não seja da minha casa…”

“Aí escolheu sua amante de plantão.”

“Vá em frente, xingue. Solte os cachorros.”

“Seria dar muita importância a você. Você não merece. Quer beber?”

“Nem água.”

Mulher se levanta, serve-se moderadamente de uma dose de uísque.

“Então tá, Belmonte. Você tem alguma coisa a dizer? Hoje não sou amante. Sou ombudsman.”

“Não brinca. Estou cheio. Farto. Não tenho mais nada para dar. Sou vampirizado todos os dias, de todos os lados, em casa, no trabalho, na rua. Você é a única que não me pede nada, nunca me pediu.”

“É que eu só tenho dado esse tempo todo.”

“Para com isso, Luiza. É sério. Eu hoje me dei conta da dimensão do problema: foi logo depois que a mulher me pediu um ‘automóvel japonês’. É possível uma coisa dessas? Um carro japonês?”

“De que marca?”

“Aí é que tá. Esta foi a minha primeira pergunta. Mas ela não especificou.”

“Qualquer um?”

“Para ela, carro japonês é um sedan de mau gosto, meio brilhante, com os faróis sobressaindo… sei lá.”
“Você comprou?”

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GRITOS DE PRAZER

O gato Querêncio apareceu na janela e Claudius Federico teve certeza de que sua amada voltara pra casa. Até que enfim! Ela sumira havia três dias e levara Querêncio junto para uma misteriosa incursão, sabe-se lá onde e para fazer o quê. Claudius Federico não se conformava com esse comportamento da namorada, mas ela fora muito clara: “comigo é assim, eu sou livre.” Bem, pelo menos só fizera isso uma vez.

Mas, que seja livre. O amor que lhe devotava transcendia tudo: convenção social, família e até sexualidade. Rossana era a pessoa mais estranha que ele já conhecera em seus trinta anos malvividos e por quem se apaixonara de uma maneira disparatada, demente, insensata. Contra tudo e contra todos. Ela, que não chegara ainda aos vinte e seis, parecia muito mais vivida do que ele. Só que ninguém sabia o que ela havia realmente vivido. E com quem.

“Gosto de fazer umas brincadeiras de vez em quando. Você se importa, Claudius?”

“Depende da brincadeira, meu amor.”

“Não gosto que me chame de ‘meu amor’, Claudius. Prefiro assim: ‘sua vadia’!”

“OK, sua vadia! Por que você quer ser… insultada?”

“Para ter raiva de você, sempre.”

“O que foi que eu fiz?”

“Nada. Mas vai fazer um dia. Homens não são confiáveis.”

“Que é isso, meu amor…”

“Está vendo? Voltou a dizer bobagem, mesmo tendo prometido que a evitaria. Homens são inconfiáveis, são falsos. Você vai passar a vida inteira jurando fidelidade e vai me cornear por trás.”

“Acho melhor ficar calado diante desse radicalismo.”

“Também acho melhor você ficar calado, sim, Claudius, o timbre masculino da sua voz me cansa.”

Era morena jambo de cabelos lisos e longos, corpo cheio de curvas, altura média, rosto comprido e delicado, um nariz escultural, reto, como o de uma estátua antiga. O mau gênio poderia ser sugerido pelos lábios mais finos e o mistério pelo olhar sempre distante, vendo além do objeto enquadrado. Morava sozinha com a mãe, dona Iwone, proprietária e principal funcionária de uma escolinha maternal na cidade, havia trinta anos. Dona Iwone era uma pessoa doce, mas reservada.

Quando começaram o namoro, procuraram fugir dos olhares curiosos do lugar, afinal era uma cidade do interior, não mais do que cem mil habitantes. Claudius Federico nem lhe havia tocado na mão, nem Rossana lhe dera qualquer esperança de intimidade. Andaram em direção a um dos bosques próximos do pequeno zoológico, falando sobre o assunto preferido dela: bichos. De repente, já haviam entrado em uma reserva de mata atlântica, ela começara a lhe dar aulas sobre ruídos que identificam insetos, eventuais cobras, pássaros e roedores, quando, como um felino raivoso, pulou sobre ele, arrancando-lhe os botões da camisa, mordendo-lhe os lábios e o peito, desvairada, misturando afagos com violência.

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HISTÓRIAS

Os dias são abafados, insuportáveis; as noites são amenas e às vezes frias. Vá entender. O tempo mudou, radicalmente, nos últimos quarenta anos. Mas os meteorologistas insistem em afirmar que não há surpresas. Tudo o que acontece agora já aconteceu décadas atrás, garantem. Pra cima de mim… Como se, décadas atrás, houvesse estatísticas.

Há uma revolução na meteorologia, eu vivo dizendo isso, mas meu pessoal prefere acreditar que estou meio pirado. É natural. Eles são habitantes do interior do Brasil, e eu, a vida inteira, andei pelas cidades grandes. A minha lógica não bate com a deles.

Pois são eles que veem, quase todos os dias, os tais dos objetos voadores. Outra coisa de que não se ouvia falar muito, antigamente. É inacreditável o número de relatos: são objetos em forma de disco mesmo, ou de pratos; são charutos; feixes de luz; cometas. Há de todos os tipos, todas as formas; provocam as mais diferentes reações.

E eu aqui, debaixo de um céu repleto de astros normais e esplendidamente visíveis. Chegando aos oitenta, mas com uma lucidez que jamais experimentei antes, lendo as almas das pessoas a partir das suas expressões fisionômicas. Um sábio. Meu corpo, é claro, deixa muito a desejar, e visito mais os médicos do que os amigos. Meus gestos são lentos. A mente é um azougue.

Deixei de ironizar uns e outros, porque eles não entendem nada, coitados. Gozando-os eu acabava tendo a impressão de que gozava a mim mesmo. Já pensou? Você faz uma piada aqui, outra ali, e seu interlocutor continua sorrindo, cândido, como se você o elogiasse. O que é o chiste, uma boutade, se o outro não entende? Aí você percebe que a única vítima é você. E decide adaptar-se ao meio.

Foi o que fiz. Sentei-me, nas noites longas, e apenas ouvi histórias. Mais de oitenta por cento delas falavam dos objetos. Incrível.

A mais empolgante, no entanto, foi-me contada ontem. Narizinho, um aqui da região, apelidado assim por causa do seu nasal exageradamente arrebitado, estava voltando do estábulo às seis da tarde, exausto da labuta do campo, quando ouviu um silvo estranho. No primeiro momento imaginou que fosse uma cobra nova, depois sentiu que não era som deste mundo. Virou-se, assustado, e bem diante dele, no chão, estacionada, como se uma carreta fosse, estava a nave. Em forma de um disco ovalado, com muitas luzes piscando por dentro e por fora. Por dentro, sim! Uma imensa porta, aberta, mostrava um interior metálico, cinza-claro; e, de pé, sorrindo para ele, um homem vestido e uma mulher pelada. Narizinho conseguiu sobrepor seu deslumbramento ao natural susto que experimentara. Jamais vira mulher mais bela na sua vida. De rosto, quero dizer. De corpo, então…

“Que é isso, sô?”, foi a única coisa que Narizinho conseguiu dizer.

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CONSELHOS JOGADOS FORA

Quando voltei ao Brasil, a juventude sumida, o físico bombardeado, muito deprimido com o fim de um casamento sem filhos, encontrei-o quase que exatamente do jeito que o deixei, quando completei vinte e um anos e, radiante, peguei um avião para Nova York.

Lembro-me bem dele naquele dia distante, no aeroporto. Ali estava o folclórico Genival, a figura da família, o mais velho dos oito irmãos do meu pai. Comportava-se com aparente discrição, sempre, mas costumava se vestir com algo que chamava – e muito, às vezes – a atenção do público. Naquele dia da minha despedida gloriosa, a estrela da despedida foi um chapéu dos anos trinta, marrom, de abas, que imediatamente associei aos filmes de gângster. O tio ficou igual a um guarda-costas de Al Capone. Era viúvo e tinha quatro filhos adultos que fugiam dele socialmente; não o entendiam e sentiam-se envergonhados, apesar de ele ter sido, sempre, um ótimo pai. Anos depois, eu entenderia que o tio quis marcar minha memória, no dia mais importante da minha vida. Que chapéu, aquele!

“Marcelo”, disse-me, no aeroporto, nos intervalos dos soluços da minha mãe, “eu acho que você não voltará tão cedo. Gosto muito de você, que é o único sobrinho inteligente que tenho, mas você, infelizmente, é americanófilo. Você se deixou corromper pelos musicais coloridos e acredita na porra do capitalismo. Se existem demônios no mundo, para dar sentido a Deus, são eles, os Estados Unidos”.

Tio Genival sempre aprontava alguma em todas as suas aparições, e naquele dia perdeu mais uma amizade: foi a do meu irmão mais novo, Oscar, por causa da frase sobre ‘o único sobrinho inteligente’. Oscar, arrogante e desagradável desde muito pequeno, cortou-o de sua vida para sempre.

O tio sentia, realmente, certa predileção por mim. Segundo ele, astrológica. “Aquarianos e geminianos se dão bem, é histórico”, afirmava. Para ele, a Astrologia era a única ciência que se devia levar a sério, a mãe de todas as outras. Costumava discorrer, durante horas, sobre a lógica das estrelas; costumes de sociedades antigas; e líderes contemporâneos que se guiavam pelos mistérios do Zodíaco. “Até os filhos de Lúcifer, como Hitler.” Eu ria, com generosidade quase piedosa.

Agora, lá estava eu, quinze anos depois da minha partida, voltando ao mesmo aeroporto, ampliado e modernizado, com ar-condicionado até nos salões de recolhimento de malas. Eu peguei meu saco de viagem, muito usado, que havia comprado numa casa de produtos de caça, e que disfarçava sua indigência com o charme militar dos mil bolsos com zíper, e fui saindo de fininho, com medo de ser reconhecido por alguém do meu tempo. Não havia avisado a nenhum dos meus irmãos da minha volta. Nossos pais haviam morrido há anos e eles jamais perdoaram a minha ausência nos enterros. Oscar, o ‘não-inteligente’, parecia o mais revoltado. Eu ainda tinha alguns amigos, sim, como o João Sinfrônio, com quem jamais deixei de me corresponder. João se transformara em um empresário de muito sucesso e vivia me chamando para ajudá-lo na ‘divisão internacional’ da sua empresa, produtora de sucos de frutas tropicais. Havia outros, um ou dois, mas João era o mais próximo da minha necessidade de sobrevivência. Ele foi um dos poucos a me visitar nos Estados Unidos.

Tudo o que acontecia com as pessoas queridas vinha em forma de pequenas notícias que minha mãe escrevia. Ela não gostava de falar comigo ao telefone porque isso lhe dava a estranha ilusão de que eu jamais saíra da cidade. Meu tio figura jamais me escreveu ou telefonou, mas eu sempre recebia os recados dele, nas cartas da minha mãe: “diga ao Marcelo que não nos comunicamos fisicamente, através de papéis, mas que eu tenho certeza de habitar seu pensamento, assim como ele passeia pela minha mente”.

Era verdade. Eu o sentia sempre ao meu lado e, o que é mais incrível, dando-me conselhos. Ele insistia, surgindo como um guia virtual, que se intrometia nos meus mecanismos mentais. Chegava a ser invasivo, às vezes, repetindo que eu não deveria me casar com Joyce Lee, por exemplo. “Vai lhe cornear de todas as formas, com todos os seus amigos ou conhecidos”, era a voz do tio imiscuindo-se entre meus pensamentos, sempre irônico, o chapéu de Al Capone meio penso para um lado.

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LEVEMENTE DEVASSA

Fico olhando estas meninas, aqui no Jóquei, e não saberia dizer se as desejo ou se elas me encantam apenas esteticamente, como se eu manuseasse um luxuoso álbum de fotografias.

Acredito que não seja eu somente que, aos sessenta e seis anos, tenha perdido a noção da própria sexualidade. Pergunto a alguns amigos mais íntimos e eles revelam a mesma perplexidade. Já não sabem mais o que são: se homens ou sátiros.

As meninas, neste verão, têm-me assustado com suas ousadias: já não existe mais aquela peça tão sensual, insinuante, clássica, chamada sutiã. Elas se expressam de seios nus, de biquinhos colados aos organdis, lãzinhas ou sedas puras; as saias já não são mini, mas micro. E as atitudes deixariam envergonhada minha mulher, tida como bastante avançada, nos anos sessenta, a primeira a ensinar em uma escola de engenharia para plateias noventa por cento masculinas.

Quantos anos estas meninas têm? Dezoito, vinte e um… Não passam disso. Mas é incrível o que falam de palavrões; o jeito profissional de pegar um cigarro; o descuido ao revelar os fundos das próprias calcinhas.

Sou um homem velho, mas magro e esguio e ainda, no meu rosto, notam-se fulgores da juventude. Enfim, sou um velho bonito, como diria Carol, meu último caso extra-conjugal, morta o ano passado, coitada, de esclerose múltipla.

Talvez por isso, por essa consciência, eu não tenha feito cara de trouxa ao ser abordado por uma das meninas de álbum colorido que vejo passar, incólumes, diante da minha mesa e da minha dose light de uísque.

“Posso sentar com você?” (Branquinha de cabelos negros, sorriso infantil, cintura finíssima, bundinha empinada, coxas de aço, seios como sentinelas, camiseta distraidamente aberta, deve malhar o dia todo.)

“Claro, minha filha.” (Poderia ter dito “minha neta”.)

O garçom, muito jovem, veio correndo atendê-la, e percebi que estava especialmente interessado nos seus seios venusianos. Olhou-os do seu ângulo privilegiadíssimo, levou um tempão para escrever a bebida e salgadinhos de queijo na comanda. Não pude deixar de me irritar.

“Está com alguma dificuldade de escrever, meu jovem?”

“Não, não senhor. A caneta está falhando.”

“Sei.”

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O ESCURO, O CLARO

Todos ali já esperavam a desgraça. O bando ameaçara invadir Tolentino várias vezes e se não o havia feito, ainda, era porque seu chefe, o capitão Zé Crispim, tornara-se devoto da Santa.

Logo na entrada da vila, o major aposentado Bento Camargo, o maior sitiante de Tolentino, montara uma gruta sempre florida acolhendo a imagem negra de Nossa Senhora Aparecida. Ele, sempre muito esperto, sabia que o capitão jamais arrasaria lugar onde houvesse a Santa por perto. Era o que todos comentavam.

Mas os macacos da polícia pegaram o capitão e parte da cambada lá na foz do São Francisco; e nem dos garotos tiveram pena, como um de quinze anos, chamado Itaguaçu. Os corpos chegaram ao Instituto Médico Legal da capital com mais de cinquenta buracos cada.

O finado Zé Crispim não era o mais importante dos chefes, naquele fim de mundo calorento, mas a morte dele foi comemorada pelo governo com foguete, cachaça grátis para a macacada e missa de ação de graças nas principais cidades do estado.

No entanto, toda Tolentino, onde não cabia mais do que mil almas, chorou em vez de festejar: o capitão tinha prestígio. Até Bento Camargo ficou revoltado com a chacina. “Mesmo bandido merece morrer com decência”, criticou. O tenente aposentado também insistiu para que jamais deixassem a Santa sem flores, já que ela, em si mesma, era uma proteção.

Uma semana depois, um novo bando de cangaceiros apareceu no pé da Serra da Capivara. Neco Choroso veio dar os recados à cidadezinha.

“Me mandaram dizer que não querem ninguém armado, nem o major Bento. É pra jogar todas as armas na porta da igreja, arrumadas. Rifle junto de rifle. Pistola junto de pistola.”

“Quem é o chefe do grupo agora?”, perguntou Elesbão, que moldava bonequinhos de barro.

“O Escuro. É um dos homens do finado capitão Crispim. Parece índio guarani. O que restou do bando se partiu em dois.”

“Quer dizer, Neco, que vamos nos desgraçar duas vezes?”

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CABRITO COM BRÓCOLI

Cansei de dizer a Sizenando que o paladar é uma questão de educação, de repetição e de estudo. O paladar, em si mesmo, é uma força positiva, talvez uma dádiva. Eu sempre tive bom paladar, sempre consegui captar nuances de sólidos e líquidos, as marcações subliminares, o salgado mas nem tanto, o falso doce – e o agridoce.

Nasci assim. E foi por isso que me transformei em um dos maiores críticos de restaurantes do País. Se não fosse modesto, diria O maior!

Foi uma época feliz, a que vivi com Sizenando no começo do nosso caso. Eu já completara cinquenta e dois anos e Sizenando nem chegara aos vinte e cinco. É comum, eu sei, o “cabeça do casal” ser um pouco mais velho e possuir um poder aquisitivo estruturado. É comum também que o mais velho possua cultura, e o outro seja, digamos, emergente. Talvez fosse comum que o mais experiente, como era o meu caso, tivesse nascido no Sudeste, enquanto o companheiro fosse um nordestino ou um nortista.

Sizenando era nordestino. Que homem incrível! Eu o encontrei fazendo faxina numa loja de vinhos. Olhei para ele: um metro e oitenta de altura, apolíneo, o rosto esculpido em pedra, lindo, de uma beleza definitiva. Aproximei-me dele, perguntei da sua vida, e percebi, coitadinho, o quanto era carente. Não tivera pai, pouco vira a própria mãe, aos seis anos já andava pelas ruas da capital do seu estado pedindo comida. Ou seja, todo o seu encantamento e a sua estética natural (abdômen definido como jamais o vira, nem em fotos) provinha da Natureza, do acaso, ou, numa análise mais profunda, de Deus.

Eu o convidei a me visitar no meu apartamento, apesar do perigo que poderia estar correndo: quantos de nós, boa parte da minha geração, não haviam sido assassinados por meninos jovens, drogados, ou simplesmente gananciosos, à procura de tesouros escondidos nos nossos antiques de bichonas?

Tantos… E foi por isso que engoli o calmante da moda antes de Sizenando chegar. Tadinho: ele veio de calça cáqui que havia comprado na feira de Santana dos Aflitos, sua cidade, e de camisa alegre, com motivos quase carnavalescos, muito desbotada, apesar de ter sido lavada poucas vezes, como me confessou depois. A camisa se abria naturalmente por causa da largura dos seus ombros gregos. Eu, que já me sentia fisgado, fiquei mais. E ao contrário de um assassino de homessexuais, Sizenando foi tão doce!

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TANGO NOTURNO

Era simpático, o… velhinho, eu escrevi velhinho, mas doutor Fausto não poderia ser chamado assim. Ele não tinha idade, quer dizer, não se pensava nisso ao conversar com ele. São poucos os idosos desse grupo.

“Dema”, meu pai dizia, quando eu ainda era adolescente, “os seres não têm idade; você precisa assimilar, neles, a energia, o astral. Você já percebeu que os grandes poetas não envelhecem? Eles podem ter oitenta, noventa anos, mas nós os vemos como uma energia comunicativa e não como pessoas físicas normais”.

Pai dizia isso e me dava exemplos vivos, de gente nas quais não enxergávamos a aparência, apenas a expressão poético-espiritual.

“Mas eu lhe estou apontando, Dema, gente famosa”, pai continuava. “É fácil de ver, neles, a energia. Quero que você aprenda a sentir isso nas pessoas comuns. Há jovens extremamente alquebrados, porque renunciaram à vida, espiritualmente falando. Há aqueles que se entregaram às drogas – estes são zumbis. Você precisa reconhecer os especiais. Só que, para isso, sua própria energia precisa vibrar em harmonia com a deles.”

Todos os dias eu descobria uma lição nova do meu pai. Doutor Fausto foi uma delas. Ele comprou o sítio ao lado do nosso, e sua primeira providência foi nos visitar.

(Este sítio vizinho já havia feito história. Na verdade me pertencera, anos atrás, quando vim para a região, após o fracasso de um casamento. Este meu sítio atual fora comprado por um sujeito engraçado chamado Amadeo, que se incomodava com presenças espirituais no terreno e me propôs uma troca. Aceitei, lógico, o dele era bem maior e mais bonito que o meu…)

“Muito prazer”, disse o novo vizinho, com um largo sorriso. “Meu caseiro me disse que o senhor e sua esposa são pessoas maravilhosas. Jovens cultos que decidiram viver trabalhando a terra. Este foi um sonho meu que jamais realizei, por covardia pura. Preferi trabalhar em multinacionais. Quase arrasei a minha saúde e o dinheiro que ganhei só me comprou problemas, mas aqui estou eu de volta ao sonho.”

Era simpático sim, e deveria sentir, em mim, a tal energia benéfica, para se abrir desse jeito.

“Neste lugar”, eu lhe disse, devolvendo a confiança, “o senhor terá muito tempo para encontrar as razões que o levaram a trilhar um outro caminho. Minha mulher e eu poderíamos estar nas mesmas multinacionais, mas decidimos aprimorar nossos espíritos. Assim, cuidamos de algumas vacas, de galinhas e gansos… É o suficiente para nos manter.”

“E comprar muitos livros…”

“Comprar alguns livros, ligar o computador permanentemente à internet, porque jamais vamos fugir do mundo…”

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AS FADAS CONTRA AMADEO

Era um canário belga estabanado. Sempre saía do ninho num voo rasante, passando em alta velocidade entre as roseiras, e eu temia por Nancy. Fadas possuem um coração muito frágil, assustadiço, mas Nancy exagerava. A qualquer prenúncio de trovão, ou latido de cachorro, mesmo longínquo, o pequeno ser gritava um “uiii” dolorido, como se uma abelha a picasse, e aí desfalecia. Se fosse um ser terráqueo, gritaria “ai, meus sais”, como as damas antigas ao desmaiar.  No fundo, Nancy era mesmo uma fresca.

Mas, em se tratando de uma pequena fada, que possui asas e voa, a vertigem pode levar a uma situação mais perigosa: não que Nancy corresse o risco de se esborrachar no chão, ela nem tinha peso para isso, mas mesmo caindo suavemente, até com uma graça de bailarina, os cães seriam atraídos pelo cheiro de flor que as fadas exalam, e algum entre eles poderia abocanhá-la.

Claro, fadas não morrem, mas os cães, assim como quaisquer outros animais, não devem se traumatizar com manifestações esporádicas do Mundo Superior. E como se sentiria um cão, ao abocanhar uma coisa que parece uma flor, se essa coisa lhe some da boca? As leis naturais exigem respeito, e os seres do Mundo Superior, por definição, jamais devem interferir na faixa de onda em que vivemos. Fadas, como outros seres do Mundo Superior, possuem um desenvolvidíssimo “sistema imunológico”, autopreservação automática, que as fazem pular de uma dimensão a outra ao menor sinal de incongruência. Não é natural um cachorro mastigar uma fada.

É por tudo isso, aliás, que a nossa comunicação com o outro lado é tão complicada.

Eu não conhecia nada disso, e muito menos os via, os do outro lado, ou me comunicava com eles, até que ganhei um vizinho novo: Amadeo.

O antigo dono da chácara ao lado da minha, um bondoso executivo francês aposentado, havia morrido um mês antes. No dia da sua morte, senti a minha primeira desconfiança de que algo estranho acontecia no pedaço de terra ali ao lado.

Seu Galdino, o caseiro, veio me contar da morte do patrão. Chorava, coitado, e pediu-me para ir até a casa e telefonar para alguma autoridade, um médico, ou a polícia. Galdino era um homem muito simples e não sabia como tratar a morte dos superiores.

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DA LIVRE-INICIATIVA E SUAS EXCELÊNCIAS

Bestunto tomaria conta da porta. Ele era mesmo o mais inteligente do grupo, e sabia conversar com as pessoas. Por exemplo: se, na hora do assalto, alguém quisesse entrar no restaurante, Bestunto daria um jeito de afastar esses clientes. E tudo na conversa, com calma.

Eu (meu nome é Debandinha, porque ando meio torto, pendendo para um lado por causa de uma bala que se alojou pra sempre no meu quadril esquerdo) e o Acuado renderíamos primeiro os manobristas, depois o caixa e os garçons. Eu me concentraria no caixa, apontando o revólver pra cabeça dele. Minha especialidade é a concentração. O assaltado sente quem é frio e quem não é. Sou frio: jamais tremi com um revólver apontado para o outro. No caso, o caixa deveria ser o próprio dono do restaurante, e os donos sabem mais do que ninguém que é melhor não reagir. Eu estava muito seguro, como sempre. Acuado seria o encarregado de pôr todos os empregados e alguns clientes (claro que haveria alguns clientes) na cozinha. Ele não é tão inteligente como Bestunto, mas é jeitoso, pede “por favor”, sem deixar de mostrar a pistola.

Praga de Mãe seguraria o pessoal na cozinha. Praga sabe fazer bem isso, segurar, até porque a cara dele assusta até bicho.

A gente imaginava chegar por volta das duas da manhã, talvez um pouco antes, quando só estivessem por ali alguns clientes meio bêbados e os garçons.

Mas ninguém estava feliz. Antigamente, um pequeno grupo, como o nosso, reunia-se, conversava, escolhia a estratégia, e assaltava. Tudo na hora. No impulso, está certo, sem grande planejamento, mas com aquela vontade de acertar, de enfiar um monte de dinheiro no bolso. Minha porcentagem pessoal no ano passado foi muito boa: quarenta e cinco assaltos, sessenta por cento dos quais limpos, sem mortos ou feridos. Meu faturamento, no entanto, não chegou a ser alto: cento e sessenta mil dólares. Mas, comparado a este período de agora, o ano passado foi uma glória. Já estamos em outubro e eu realizei apenas vinte e uma operações, com faturamento de oitenta mil dólares brutos (estou levando em conta o rateio, em partes iguais, menos para o coordenador, que leva quinze por cento), sem contar as taxas de vinte por cento, que antigamente não havia, é claro, quando a gente ainda era iniciativa individual.

A diferença é que, a partir deste ano, passamos a trabalhar sob comando do Partido. Não planejamos mais nossos próprios assaltos: vem tudo preparado da Comitê Central, e temos apenas de cumprir as ordens. Por exemplo: o assalto a este restaurante foi um trabalho da Diretoria de Planejamento. Escolheu o objetivo, estudou a melhor estratégia e apresentou o projeto ao Comitê Central, que, por sua vez, nos escalou para a execução.

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MEU RAPAZ

Quando o carcereiro me chamou na cela, eu me levantei e olhei a cara do homem ao lado dele; aí me lembrei de uma cena do passado, dois, três anos atrás, que ficou muito marcada na minha mente.

Aquele homem ali, muito bem vestido, ao lado do carcereiro, era o advogado. Nós fomos apresentados, ou melhor, eu me apresentei a ele durante um assalto. Que eu pratiquei, é claro. Não me lembro do carro dele, mas era um importado de último tipo, rendeu uma nota. Na época, eu fazia dupla com Pixulé.

O advogado tinha mãos brancas, de mulher, e tremia muito, e gaguejava, tentando me levar no bico. Me lembrava Tabaréu, meu vira-latas de estimação, quando eu era bem criança. Tabaréu tremia e chorava quando meu velho batia na minha mãe.

Pena do advogado não tive. Meu velho me dizia que advogados são uns filhos da puta; até o que ele contratou, para tirá-lo da cadeia, o enganou e roubou, além de comer sua mulher na época.

Por isso olhei para o mão branca ali, pensei no meu velho, e não tive pena do cara. É isso: pena não tive, mas ódio não senti. Jamais senti ódio de alguém e motivos não me faltaram. O meu velho poderia ter sido o primeiro ódio da minha vida: o que ele fez com a gente, a mãe e três irmãos, não se faz nem com cachorro.

O advogado estava acompanhado de uma garota de uns dezoito anos, uns vinte a menos do que ele. Pixulé, meu bom amigo, que um ano depois iria morrer feito uma peneira, foi logo dizendo: “É caso”.

Olhei bem pro casal e falei: “Não é”.

Conheço piranha. Aquela não tinha cara nem jeito e se vestia decente, apesar dos tempos terem mudado e das meninas de escola estarem se prostituindo.

Mesmo assim, sou curioso pra caramba. Perguntei ao advogado: “Tás comendo a menina?”

“Minha filha.”

“Então puxou à mãe. Não se parece com o senhor.”

A mocinha não se mexia, não falava. Como se já tivesse passado por aquela situação outras vezes. Achei engraçado que ela andava com muito cuidado ali no terreno baldio. Como se tivesse medo de pisar em bosta.

“Puxou mesmo à mãe. É minha filha… fora do casamento”, disse o advogado. “É sobretudo por causa dela que vou pedir, meu rapaz: não mate a gente; estou tentando conseguir um emprego melhor para a menina, que nem terminou a faculdade ainda…”

Pixulé, que já havia puxado a pistola, ponderou: “Vamos bobear, não. Testemunha viva…”

Mas meu coração sempre foi mole e fiquei com pena do advogado e da filha. Sabe, o que mexeu comigo foi ser chamado de “meu rapaz”. Pixulé falou que eu estava louco, porque até carona dei praqueles dois, deixei eles num ponto de táxi.

Agora, dois, três anos depois, eu todo danado, aparecendo até na televisão, assaltante perigoso, etc., o carcereiro vem me trazer o homem da mão branca. Todo bem vestido. Um príncipe. Ele sorriu para mim de longe:

“Lembra-se? Nós nos conhecemos…”

“Pois é.” (Fiquei com medo de que viesse mais bronca.)

“Tô tirando você daqui…”, ele disse, enquanto o carcereiro abria a cela. “Não há provas contra você”.

Antes de me dispensar, o policial de plantão me falou no ouvido, todo bronqueado: “Você tem grandes amigos, mas a gente ainda te pega”.

Na rua, o advogado ainda me deu um monte de dinheiro.

“Não vou lhe dar conselho nenhum”, disse. “Mas nem sempre vou ficar sabendo quando lhe pegarem. Se souber, faço o possível pra livrar sua cara…”

“O senhor é bacana, doutor. O senhor sabe o que é uma amizade. Um favor. Só bandido age assim. Quer dizer, a maioria.”

“Vou ficar por aqui…”, ele sorriu. “Boa sorte”.

Me cumprimentou e fiquei de novo impressionado com a brancura das mãos dele. O aperto era frouxo, também.

“E a menina?”, eu perguntei. “Já se formou?”

“Menina… ah, sabe, preciso lhe confessar uma coisa…”

“Era comida.”

“Era.”

“Pixulé tava certo… Eu entrei… Coração mole.”

“Você teria feito a mesma coisa no meu lugar, meu rapaz. Tentei salvar minha pele.”

“Sim, claro. O senhor é um filho da puta, meu velho dizia que todo advogado é filho da puta. Mas o senhor é um filho da puta legal.”

O advogado riu alto e eu acabei rindo, também. Seria ótimo se a gente se encontrasse de novo. Mas assim, pra tomar uma quentinha num boteco.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.


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BOSSA-NOVA

“Sabe, dona Glorinha? Tem alguma coisa estranha com esse padre.”

“Tem nada. É um santo.”

“Eu ouvi.”

“Ouviu o que, Jandira?”

“A cantoria às três, quatro da manhã.”

“Melhor você se aquietar e não ficar espionando o homem, ouvindo por trás das portas.”

“Faço isso, não, dona Glorinha. Mas é que sofro de insônia, também. Ontem mesmo tomei quase um litro de chá de folha de maracujá, e nada, nada. É um inferno. Aí fiquei rodando pela casa, feito alma penada, e aí ouvi: ele cantando umas músicas de… amor.”

“De amor nada. É bossa- nova.”

“Ué, mas falava de ‘meu amor, minha coisinha, minha namorada’.”

“E o que é que você tem com isso, Jandira?”

“Deus me perdoe, tenho nada não. Tou dando graças ao Pai de ter arrumado esse trabalho depois de ter feito cinquenta anos. Tava me vendo na rua, pedindo esmola… Se a senhora quiser eu paro de falar. A senhora é minha chefa.”

“Que chefa, Jandira. Sou a coordenadora da Casa Paroquial, e só.”

“Hum… poderosa a senhora é. Mas eu tenho, sabe, a maior simpatia pelo padre Bicalho. Só achei engraçado ele ficar cantando às quatro da manhã, lá no quarto dele.”

“Olha, Jandira, você é bem esperta. Vou contar pra você, mas que isso não saia daqui; se eu ficar sabendo que você fofocou, você tá na rua.”

“Eu, fofocar? Credo em cruz!”

“Sabe, Jandira, isso é amor.”

“Amor? Amor de quem? Como?”

“O padre é um zumbi. Não dorme. No máximo, duas ou três horas por noite, só. Pensando na sirigaita.”

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BANA EU

Sempre tenho a impressão de que estes caras estão mortos, embora se movimentem, prazenteiros, por todos os cantos do Chez Camille.

O Chez Camille, vocês sabem, talvez seja o melhor restaurante da América do Sul. Que é o melhor do Brasil, não tenho dúvida. Um almoço sem vinho, individual, não sai por menos de cento e cinquenta dólares. Eu posso pagar, o meu convidado não.

Mas esses zumbis me incomodam. Há alguns anos, eram donos de fazendas, fábricas e até alguns bancos. O fim da inflação e a abertura das importações os destruíram. De repente, viram-se diante de produtos estrangeiros de alta qualidade, vendidos pela metade do preço das merdas que eles fabricavam. Estão aí, agora, gastando o dinheiro dos impostos sociais, que eles não pagam, para fingir que continuam ricos. Conheço todos eles, absolutamente todos. De vez em quando aparece no Chez Camille uma exceção: alguém que já trabalhava com competência, antes do fim da inflação, e que agora precisa apenas manter o ritmo.

Nunca gostei dos Estados Unidos, mas lá os caras ficam ricos unicamente porque trabalham. A maioria não gasta tempo para corromper políticos, não passa a mão nos impostos. Se puderem, os americanos te comem vivo. Mas sabem trabalhar.

Esse cara que vem aí é um desses sanguessugas. O pai dele já havia torrado a fortuna da família, acumulada na primeira leva da industrialização do país, à custa do sangue e da miséria dos operários. O puto está atrasado quinze minutos. Tudo isso é para me impressionar.

Enquanto a família desse corno começava a declinar, a minha iniciava sua aventura capitalista no campo, lá no Nordeste. Não sei bem qual foi a sacanagem que o meu pai fez, porque ele não tinha um puto no bolso, mas em dez anos se transformou no maior produtor de laticínios da região. Nunca me esqueci dos políticos que nos visitavam: meu pai fazia a sala, dava comida, abria litros de uísque, certamente lhes dava algum dinheiro, e depois nos dizia, a mim, meus irmãos e minha mãe, que tinha vontade de vomitar, só de pensar neles.

Que figura, meu pai! Tão simples, direto, empreendedor, valente. Diferente desses mortos-vivos, a pedir especiarias francesas, beber e arrotar, pagos pela poupança dos seus próprios avós. Meu pai foi até a capital, certa vez, só para perguntar a uns colegas dele de infância o que havia de melhor no mundo (“mas de melhor mesmo”, ele insistia) em matéria de educação. Alguém lhe disse que era Harvard. Ele voltou pro sertão, eu adolescente, e me disse: “Carlito, você vai estudar na tal de Harvard. Nem que eu me foda todo.”

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FRANÇOISE NUA

Gostaria de oferecer, todos os dias, uma corbeille de flores a Françoise. Tenho-a em alta conta, ou, melhor dizendo, sou apaixonado por ela. De certa forma. Isso tem atravessado os séculos. Infelizmente, é a minha própria inconsequência que não me deixa aprofundar um sentimento que poderia evoluir até, quem sabe, à coabitação e mesmo ao matrimônio.

(Talvez seja pretensão minha; como posso ter certeza de que ela concordaria com minhas ilusões?).

Não saberia dizer qual fora o melhor momento da minha amiga, em todo esse tempo imemorial. Talvez tenha sido em fevereiro de 1894, em Paris: ela posou nua para o fotógrafo americano Nick Jones, apesar do frio terrível que fazia naquela tarde e da insistência do rapaz em levá-la para a cama, após a sessão de fotos. Nick ficou literalmente enlouquecido ao contemplar aquela deusa em brasas de sedução e charme. Mesmo nua (e o gringo repetiria isso pelo resto da sua vida), Françoise jamais perdera a majestosa elegância (como se a nudez fosse, em si mesma, uma espécie de traje). Mesmo quando, todo o corpo eriçado de frio, ela se recostou em uma maravilhosa chaise longue – as pernas cruzadas, o cotovelo direito apoiado no encosto da cadeira; aí foi levando a piteira à boca, jogando a cabeça um pouco para trás. Há quem diga que esta foi a imagem de nu artístico mais sensual que a elite francesa vira naqueles tempos.

Mas talvez tenha sido numa outra a ocasião em que a figura de Françoise se fixou na energia cósmica indelevelmente. Teria acontecido durante a Segunda Guerra, em 1942, e já no Brasil, quando, diante de uma briga cruenta entre marinheiros, em algum ponto do porto do Recife, ela se elevou a um palco improvisado, feito de caixotes de material importado e, com a leveza das musas, iniciou um strip-tease, ao som de uma flauta doce que tocava trechos de obras de Chiquinha Gonzaga. A briga parou quase que de imediato. Primeiro, os marinheiros postaram-se imóveis, incrédulos diante do inopinado, porém inesquecível, espetáculo. Depois, quando ela jogou longe a própria blusa (não usava nada por baixo), alguns começaram a urrar, incontidos, e um outro grupo, este de estivadores amigos dela, foi obrigado a formar um cordão de isolamento. Infelizmente, não havia fotógrafos ou cinegrafistas na ocasião. Mas eu estava lá, também, na pele de um comerciante judeu, estabelecido com armarinho em rua próxima.

Então, garotos, o que estamos vendo aqui, nesta praia deserta, e agora, já no limiar do século vinte e um, é apenas mais uma performance da minha amiga Françoise. Vocês estão rindo de quê? Há mulheres que nascem para nos encantar. Olhem bem para ela. Pensem nas suas namoradas. Com todo o respeito: quem, dentre todas, possui o corpo mais belo? Quem foi brindada com seios tão bem proporcionados e tesos que, mesmo ao balanço do corpo, acompanhando a música, quase não se movem?

Parem com isso: Françoise não é uma vagabunda. E se o fosse? Quem teria essa graça, essa esbelteza de ninfa e essa capacidade única de despertar paixões insuspeitadas em qualquer tipo de homem? Eu garanto a vocês: somente Françoise. Ninguém mais. Pobre de mim, que a acompanho há tanto tempo e que ainda não me decidi a lhe ofertar algo mais do que desejos vagos ou corbeilles de flores… Mas posso estar aqui falando asneiras: talvez ela não me tenha percebido, sequer, e este meu sentimento atarantado. E talvez se contente em que eu a tenha, tão somente, em alta conta.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.


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SOB PANOS AZUIS

Muito tempo se passou e eu jamais entendi por que ela usava unicamente azul. Em tons quase sempre suaves. Devia ser coisa da bruxa. Mas, como provar? Ainda hoje me arrependo de não ter feito um escarcéu maior quando Silvinha adoeceu novamente, após parecer curada. E também quando aconteceu o grande mistério do seu sumiço. Havia alguma coisa errada naquela casa, ah, se havia!

Quando se mudou para o último e o menor dos sobradinhos da nossa rua, Silvinha já veio doente. Lembro-me do táxi chegando devagar, o motorista descendo para carregá-la nos braços e entrar na casa. A mãe ao lado, levando uma das malas.

Eram só Silvinha e a bruxa da mãe, que preferia ser chamada de tia Sérgia, e, tempos depois, um homem que só aparecia aos sábados, depois do almoço. Tinha bigodes muito grossos e negros; cabelos negros, também, penteados para trás. Era magro e encurvado, mas as mulheres da rua diziam que era bonito. Diziam também: é o amante da bruxa; um homem casado que almoça em casa, do outro lado da cidade, pega um ônibus e aparece aqui aos sábados. E era apenas aos sábados, fuxicavam as mulheres, que aqueles dois faziam amor. Mas faziam sem parar, elas completavam, rindo muito.

Eu nunca entendi direito porque deram o apelido de “bruxa”, assim, automaticamente, à mãe de Silvinha. Era feia, sim, muito feia. Mas não parecia má pessoa. No entanto, até eu só me referiria a ela como “a bruxa”, durante nosso tempo de convivência.

Silvinha, no dia em que chegou, já tinha uns quinze anos, mas parecia um pouco mais velha. Talvez pela altura, um metro e setenta, ou o rosto sofrido, apesar da expressão imaterial, os traços muito retos de estátua ou de pintura, olhos enormes, negros, de cílios longos. E cabelos tão bem encaracolados, como se tivesse acabado de chegar de um cabeleireiro. Mas, nela, sobressaía a palidez que, além de revelar sua grave doença, a colocava na categoria dos Querubins. Não era bonita. Ao mesmo tempo, no entanto, era linda e única pelo que expressava, emitia, transmitia.

Eu não me apaixonei por Silvinha, como vocês podem estar imaginando. Algo muito intenso (tanto quanto o amor-paixão) me aproximava dela. Mas nosso mútuo querer não era coisa desta terra. Jamais soube definir exatamente este sentimento, nem para mim mesmo. Era amor, lógico, mas de um outro naipe, como se nós dois fôssemos seres de um planeta distante e vivêssemos uma vida paralela, juntos, da qual não tínhamos sequer consciência. OK, era como se fôssemos irmãos, mas siameses.

Do lado dela, o sentimento era exatamente o mesmo, a meu respeito. Naquele primeiro dia em que chegou, nos braços do motorista, trocamos um olhar antigo, de quem se conhece há séculos, e sorrimos juntos, um para o outro. Era como se disséssemos “enfim, aí está você”.

Já no dia seguinte, bati na porta e a bruxa me atendeu. Não sei como fiz isso. Tinha dezesseis anos, um a mais que ela, e era muito tímido. Não disse nada à mulher. Nem foi preciso. “Silvinha me falou que você viria procurá-la”, ela anunciou, sem sorrir. “Vou deixar você entrar, mas procure não cansar muito a menina. Ela precisa atender outras pessoas.”

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ESPECTROS

Via cavalos bravios a correrem por dentro da sala; ouvia o tropel deles, cascos sobre o piso de cerâmica.

Via cegonhas (ou seriam emas?) voando à altura do lustre trabalhado em cristal e seu Romão se espantava de que nada quebrava, nada saía do lugar. Por um motivo simples, talvez: as imagens em movimento nada tinham a ver com o fundo. Tratava-se, tão somente, de uma justaposição.

“Alguém já lhe disse, minha filha”, perguntou ele a Gezinha, ali perto, “que existem mundos sobrepostos, cada um vivendo sua própria energia? Que coisas radicalmente diferentes acontecem ao mesmo tempo, no mesmo espaço, no meio desta casa, por exemplo?”

Gezinha já ouvira falar nisso, é claro. Aprendera, desde criança, a respeitar as esquisitices do pai, ao contrário dos seus irmãos que agora riam do velho. De fato, Jovelino e Maria Antônia não tinham mesmo jeito: continuavam crianças, a rir de tudo, encarando a vida como uma festa. E o velho pai apenas servia de animação, talvez a mais criativa.

Mas seu Romão sempre fora assim. Antigamente, quando ainda era viva, a mãe dele, vó Augusta, é que contava, história atrás da outra, coisas que o filho fazia desde criança. O causo mais famoso era o do falso coronel Diogo Ascânio, o herói da cidadezinha, Santana do Monte, e do seu retorno triunfal ao povoado, após uma sangrenta batalha com os índios. Estes, normalmente pacíficos, haviam sido massacrados pelos brancos, liderados pelo coronel: era bala contra arco, flecha e borduna; mas as flechas estavam envenenadas.

Os brancos voltaram eufóricos. Haviam contado apenas uma baixa, de um almocreve sem prestígio, meeiro das roças de baixo, as piores e mais alagadas. Sabiam, apenas, que se chamava José. Levara uma flechada no meio do coração. O resto dos atingidos estava apenas ferido: João Sertão, com uma pancada na cabeça, roxa de as moscas quererem pousar; Sifrônio, com um rasgão nas costas, de flecha também, e já medicado com óleo de copaíba, para neutralizar o poderoso veneno; e um mestiço, Leô, que, no meio da briga, pisara em cobra de veneno fraco.

Santana do Monte ouviu os gritos e as risadas longe dos homens voltando a quase dois quilômetros de distância. As mulheres também riram, as crianças se alvoroçaram. Todos estavam preocupados, no entanto: deveria haver uma baixa ou outra, e não fazia sentido tanta alegria. O menino Romão, que não tinha mais de treze anos, virou-se para sua mãe Augusta e disse, olhando os olhos dela:

“Convém esperar, mãe. Não se fie pelas risadas.”

“Esperar o que, Romão?”

“O espectro. A primeira figura que aparecer na cidade não é um cavaleiro; ele e o cavalo são espectros, feitos pela mágica dos índios que estão agonizando.”

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SUJEIRA

Linda e disponível. Doidinha também, como hoje em dia são essas meninas. Talvez porque, estimuladas, quando ainda crianças, pela erotização promovida pela tevê, sintam-se mulheres feitas aos dezoito, dezenove anos. Aí vêm para estágios nas empresas e começam a paquerar homens mais velhos, experientes e vividos. Como eu.

Morena, seios duros, pontudos, coxas polposas que a minissaia potencializa e exalta, apesar das meias grossas; boa altura, cabelos cheirando a capim-limão. Ela não precisa me dizer nada, basta sorrir. Seu sorriso diz tudo.

Não chegou a ser direta, comigo, mas deu todas as dicas. Ofereceu-se numa bandeja oriental, cruzando as pernas à minha frente, ajeitando-se na cadeira de forma a fazer tremer os seios; sempre sorrindo.

“Aqui, na nossa empresa”, eu comecei a cantá-la, do meu jeito enviesado, não fosse eu um diretor de pessoal, “temos muita preocupação com o assédio sexual. Não o permitimos, sob nenhuma hipótese. Você é uma jovem estagiária, muito bonita, insinuante, e se for vítima de alguma investida, por favor, não deixe de falar comigo…”

“De tudo o que você disse, doutor Cláudio, o que eu ouvi melhor foi ‘você é bonita, insinuante’, porque eu gosto muito do senhor, e também acho o senhor bonito.”

Filha da puta, pensei. Inteligente, vai superar o estágio. Deixou-me à vontade para ir direto ao ponto. Com todo o cuidado possível. Havíamos tido problemas na empresa com alguns relacionamentos. A câmara instalada cientificamente (ninguém conseguia detectá-la) nos dois elevadores do prédio flagrou um amasso de cinema entre a secretária da Engenharia e o gerente de Informática. Casados, os dois pilantras. Como faziam tudo aquilo em poucos segundos de viagem era coisa para figurar no livro dos recordes. Eu, excitadíssimo, via e revia aqueles filmes, infelizmente em preto e branco e de péssima definição. Flagramos também seu Spina, chefe da manutenção, a manusear intimamente o garoto Figueiredo, coitado, que se fingia de morto com medo de perder o emprego. Despedimos todos, discretamente, dando um tempo entre uma demissão e outra e alegando outros motivos. Menos o garoto, é claro. Uma vítima.

Então, eu precisaria tomar muito cuidado com a minha nova estagiária, que se chamava Alba, mas que atendia pelo sensual apelido de “Banã”. Para conquistá-la, teria de estar a sós com ela, em algum lugar que não a minha sala. Iraídes, minha assistente há séculos, começara a desconfiar do jeito da moça e, o que é pior, da minha atitude condescendente. Iraídes era fiel e ciumenta, além de desprovida de qualquer encanto pessoal.

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O OLHO AUSENTE

“Gisele, lembra? Gisele Longano. Amiga lá do pessoal do Partido Comunista, na faculdade.”

“Gisele. Claro que lembro! Alta e magra, longilínea. Hoje seria modelo. Parece que a estou vendo, Armando.”

“Nem diga isso, Gustavo. Esse foi o meu problema, ontem. Há quanto tempo você não vê Gisele?”

“Ora, desde a faculdade. Espera: vi uma foto, dois anos depois da formatura, ela se casando.”

“Com Jocimar, um dos caras do PC.”

“Lembro dele também. Moreno escuro. Parecia hindu. Mas qual é o problema com a Gisele, Armando? Aconteceu alguma coisa com ela?”

“Gustavo, somos amigos há quarenta e cinco anos, desde a faculdade…”

“Não precisa me lembrar.”

“É íntimo, o que vou lhe dizer. A Gisele e eu tivemos um affair.”

“Agora?”

“Não, Gustavo. Logo depois da formatura. Ela queria me converter.”

“Por favor, piada não. Você, comunista?”

“Uai, ela tentou. Não sei se deu pra mim por causa disso ou se ficou envolvida.”

“Você não se envolveu?”

“Nunca. Na vida, só amei e amo a Camila.”

“Mas comeu a Gisele”.

“Quem não comeria a Gisele naquela época, Gustavo? Linda, de coxa comprida, seios mínimos, durinhos. E… ardente. Tomava a iniciativa. Você não imagina.”

“Imagino”.

“Foram seis meses de trepação desenfreada”.

“Meu Deus! A gente se via todo fim de semana, naquela época, e eu nem desconfiei. Come-quieto você, hem? Me conta, Armando: quem mais você traçou?”

“Não é o caso”.

“Don Juan. Barba Azul. Ricardão.”

“Para. O problema é outro, Gustavo. É que encontrei a Gisele ontem. Lá na Hípica.”

“Opa! Recuerdos. Excitação. Uma taça de Chateau Margot para comemorar…”

“Nada disso. Eu a reconheci, cumprimentei, apresentei-a à Camila. Gisele estava acompanhada de um filho mais velho. Rapaz simpático, empresário, exportador.”

“Filho do comunista?”

“Não. O casamento com o comunista durou pouco. Deve ter faltado o essencial. Ela casou pra valer foi com um fazendeiro, o João Roxo. Mais conservador impossível.”

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A SOLUÇÃO

O diretor de segurança perguntou a si mesmo muitas vezes, naquela semana, porque havia aceito aquele maldito cargo no condomínio gigantesco. Cinco prédios. Mil e quinhentas pessoas. O presidente do condomínio, major Setúbal, preferia dizer “mil e quinhentas almas”. O diretor achava engraçado: como se estivessem todos mortos.

De certa maneira era verdade. O próprio major, com a idade que tinha, e os achaques cada vez mais frequentes, não parecia exatamente um ser vivente. Mas como enchia o saco!

O major-presidente vivia sobressaltando a todos, no meio das reuniões da diretoria, quando, após qualquer contrariedade, era tomado de ódio tragicômico, avermelhava o rosto e caía duro, literalmente. Quando todo mundo entrava em pânico (“morreu! morreu!”) e a ambulância chegava à esquina, se esgoelando, o major abria os olhos e repetia velhas perguntas de romances arcaicos: “Onde estou? O que aconteceu?”

Conviver com o major e com a velharia toda que o acompanhava na administração já não era fácil. E agora, com aquele mistério das tulhas de cocô que alguém fazia aparecer em locais realmente insuspeitados, como o refeitório (duas vezes), a academia de ginástica, e a “sala dos brasões”, um espaço ridículo que só existia por força da vaidade provecta do major e dos seus amigos; eles, que formavam um certo “Clube dos Cavaleiros”, contemplavam aquelas imagens de escudos esquisitos, mostrando leõezinhos de rabo virado, coroas, bandeiras, e outros desenhos estranhos, e afirmavam que, ali, naquelas figuras, reconheciam sua verdadeira origem.

“Não tem curiosidade de saber de onde vem sua família, seu Maia?”, perguntavam-lhe os velhinhos.

“Nenhuma”, respondia o jovem diretor de segurança, para espanto deles.

Era, verdadeiramente, um estranho no grupo e isso só se justificava pelo fracasso do último diretor que, aos setenta e seis anos, além de ter-se dado um tiro no próprio pé (literalmente), durante uma confusão entre adolescentes, usava o cargo para obter favores sexuais das empregadinhas. Apelidado de “Kid Gatilho”, transformou-se numa espécie de atração turística do condomínio. Os rapazes pregavam-lhe peças, estourando bombas juninas à sua passagem, passando-lhe trotes por telefone ou enviando-lhe revistas pornográficas.

O condomínio carecia, realmente, de uma nova liderança e o Maia que, além de jovem, jogava futebol com a molecada e reclamava de tudo, foi o escolhido. Eleito por unanimidade. Tentou cair fora, mas o major Setúbal fora duro e direto:

“Se não aceitar o cargo, jamais lhe darei direito a uma reclamação, seja qual for…”

Ele pensou bem, e aceitou. Mas agora a coisa se complicara. Superara, sem grandes traumas, os trotes que começou a receber: do outro lado, alguém gemia, como se estivesse em pleno ato sexual, e lhe pronunciava o nome, com interjeições devassas. O pior: era mulher. Conversou com uns amigos na companhia telefônica e acabou descobrindo a origem: a casa do respeitável Doutor Rebouças, que vivia ali com esposa e duas filhas. Convocou as duas, que não passavam dos vinte anos, comunicou-lhes a descoberta e concluiu:

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e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

ESTE CONVITE CAIU DO CÉU

Maria do Socorro recebeu o convite no final do mês, quando entrou no mercadinho para comprar carne-seca para o marido, Cristóvão. Um homem parecendo cigano, alourado, de cabelo muito comprido, amarrado com elástico num rabo-de-cavalo, chegou bem perto dela e sem a menor cerimônia começou a examinar-lhe o rosto. Maria, já acostumada com aquilo, fingiu que não viu. Na hora de pagar, o homem ficou atrás dela na fila e lhe disse, em voz baixa:

“Acho que tenho um bom emprego para a senhora; mas é preciso ver se resolvemos o problema da sua família.”

“Minha família não tem problemas”, respondeu ela, mal-humorada, sem se virar nem olhar para o cigano.

“Sei que não tem”, o homem insistiu. “O emprego é bom, mas a senhora seria obrigada a passar a vida viajando.”

Maria do Socorro voltou-se para ele como quem leva um beliscão.

“É um circo, moço?”

“É. Como a senhora adivinhou? Será que eu tenho cara de empresário de circo?” O homem sorriu de dentes recapados. “Ou pareço um palhaço?”

“A gente vê que o senhor é artista. Por causa do rabo-de-cavalo.”

“Ah, bom. Mas o que me diz? A senhora é casada?”

“Bem casada. Estou levando carne-seca pro meu marido. Mas a gente vai ver, seu…”

“Michel.”

“Com x?”

“Então, seu Michel, a gente vai estudar. Quando é que lhe dou a resposta? Onde encontro o senhor?”

“Ué… mas eu nem lhe disse o salário. É bom, mas a senhora nem sabe…”

“Antes de qualquer coisa, tenho de falar com o Cristóvão. De que adianta salário bom se ele não deixar?”

“É verdade. Qual é a sua graça?”

Ela ficou confusa. Olhou para os lados.

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QUEIMA DE VELAS

 “São energias sutis”, disse o Mestre, “as que você vai experimentar em Portal das Canoas. Elas podem ser fenomenais ou não. Mas o que acontecer sairá de dentro de você, e será ditado pelo seu Eu Superior.”

Não tenho por que duvidar do Mestre. Já o fiz uma vez, e quase encerrei minha experiência no planeta. “Acautele-se com relacionamentos apenas brilhantes”, ele me advertira, e eu fingi não entender que Sidnéia era um relacionamento assim.

Mas como deveria interpretar o “apenas brilhante”? Tá bom, Sidnéia não chegava a ser um gênio, mas sua exuberância carnal e seu desempenho na cama fariam qualquer um esquecer esses preconceitos. O que me importaria se ela não soubesse discutir comigo sobre os últimos avanços da filosofia clínica ou as origens do politeísmo dos druidas? Ela falava a língua contemporânea do rock pesado ou da música tecno, das malhações e dos shoppings, uma atleta sexual incansável, insaciável, quantitativa. Eu e ela, recriando nossa própria Sodoma, com muito gelo no uísque, ao som do Guns N’Roses, uma fixação dela.

Aí tocaram a campainha. Fui atender enrolado numa toalha, ainda ofegante das flexões da minha amada. Relaxado, nem perguntei quem era, antes de abrir a porta, e, quando o fiz, a Delegacia de Entorpecentes em peso passou por cima de mim, como um tufão. “Está presa! Presa! Sissi do Pó, finalmente!”, eles exultaram, os brutamontes, mandando a moça se cobrir rápido, mas sem deixar de admirar suas formas. A mim, só me olharam com desprezo, gritando: “Se vista, panaca!”

Meu advogado precisou valer-se de um amigo importante para evitar que eu dormisse na cadeia, naquela noite, e fosse enrabado pelos marginais. Cobrou-me uma fortuna por isso.

Como eu poderia saber que estava envolvido com uma traficante? Juro, nunca cheirou na minha frente! Quando se trancava no banheiro, era apenas pra satisfazer necessidades fisiológicas, mesmo. Nem se preocupava em fechar a porta. Jamais ouvi batidinhas de gilete no vidro, ou fungadas, ou vestígios naturais que os cocainômanos deixam. “Claro”, esclareceu-me o doutor Massa, meu rico advogado, “ela é apenas traficante, e competente; os competentes não cheiram.”

Agradeci o esclarecimento, paguei com cheques pré-datados e fui correndo procurar o Mestre. E aí ele me relembrou o precioso conselho que eu já esquecera: “fuja do que é apenas brilho.”

“Vou me dar um tempo”, respondi, amuado como uma criança. “Por muito pouco, Mestre, não perdi a invencibilidade. O senhor precisava ver a cara dos malandros na cela. Olhavam pra mim e babavam!”

“Culpa sua, meu caro.”

“Sabe, Mestre, é um problema sério, esse meu. Sou heterossexual exaltado. Olho pra mulher e saio do sério.”

“A maioria dos homens sábios que eu conheço tem vida sexual, mas normal.”

“E não é normal namorar com uma gostosa que me aparece?”

“Não a Sissi do Pó”.

“Juro que não sabia”.

“Precisa desenvolver seu terceiro olho. A intuição. Ela aponta o que é apenas brilho.”

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GUERRILHEIRA

Olho para Genoveva assistindo novela de tevê. Observo como ela sorri, o coração empanturrado de ternura, ao ver aqueles arremedos de atores dizerem um pro outro ‘eu te amo’, ‘não posso viver sem você’ e patati, patatá. A idiotia da sensibilidade de Genoveva me deixa deprimida, pois nela eu vejo milhões de brasileiros da terceira idade (ou até das idades anteriores) a aceitar, como carneiros, as ordens ditadas pelos donos do poder.

Essa grande quadrilha, que se chama a si mesma de elite, hoje representada por meio por cento da população, vem conseguindo nos escravizar há séculos; os péssimos artistas que falam merdas, e recebem a aprovação emocional de inocentes úteis como Genoveva, são apenas um símbolo da nossa dependência.

Mas tenho de me segurar diante de Genoveva. Ela está chegando aos oitenta e os sinais de senilidade são evidentes. (Quando eu chegar a esse ponto, e não falta muito, engulo uma caixa de antidepressivos; e aí já me deito de roupa preta para que não tenham sequer o trabalho de vestir meu cadáver.)

Não posso me irritar tanto com a bobinha: é que estou morando mais ou menos de favor, desde que renunciei à pensão que meu irmão Geraldo, major reformado do Exército, me deixou de herança.

Foi engraçado. Liguei para aquela revista semanal, que é nojenta, vendida ao sistema, mas é lida por dois milhões de pessoas, e perguntei aos jornalistas se queriam ouvir uma denúncia contra o governo. É claro que a revista é governista, mas precisa manter as aparências. Aí um moleque, novato na profissão, despreparado, chegou aqui uma hora depois. Expliquei que, como irmã de militar, havia herdado o direito, depois da morte do meu irmão, de receber a pensão dele – um trocado miserável, mas pensão. E como já auferia outros rendimentos, mais miseráveis ainda, da minha aposentadoria como professora, não achava justo que o povo brasileiro me pagasse duas pensões. Assim, havia assinado um termo de renúncia, ou melhor, um termo de doação da pensão militar para a minha faxineira, Jurema, que, além do marido doente, era obrigada a sustentar quatro filhos e até um neto, filho de sua menina mais velha, que virou mãe solteira. (‘Mãe solteira’, como definem as estatísticas dessa prefeitura fascista, como se pudesse ser de outra forma. Imagine Cidinha, filha mais velha de Jurema, subindo no altar de véu e grinalda!)

A revistona não me deu muito espaço, só uma notinha irônica, mas foi o suficiente para que outras publicações, ainda não compradas pela quadrilha, corressem atrás de mim. Como me diverti!

“Mas a senhora vai viver de quê?”, perguntavam os repórteres.

“Ué: da minha segunda pensão, que é uma bosta, mas eu sou sozinha e dona do meu apartamento. Não preciso de mais dinheiro. A Jurema sim, coitada, é muito mais fudida do que eu, sem contar que nasceu nos Alagados da Bahia e não teve o apoio do Estado desde criança. Aliás, o Estado não comparece aos Alagados.”

E por aí fui. Jornais menores, jornais de outras regiões, boletins de partidos políticos de oposição (tão perniciosos como o oficial), rádios e até uma tevê me visitaram. Gastei o vestido preto de viúva de tanta entrevista que dei. A melhor delas saiu no Correio do Norte, de Belém, uma página inteira, sob o título “Guerrilheira”. Minha prima Belinha, que mora por lá, mandou-me o recorte, com um bilhete: “estou orgulhosa de você”. Logo Belinha, uma reaça casada com um nazista, Cláudio, que esteve ligado aos aparelhos de repressão nos anos setenta. Mas as pessoas julgam a fama das outras somente pelas aparências e não pelo conteúdo. Apareci no jornal, já sou famosa. Elitista. É um dos sintomas dessa apatia política, generalizada, em que vivemos.

O general Gouveia me ligou. Ele, que ainda estava na ativa, era amigo do meu irmão e foi muito atencioso comigo quando Geraldo morreu. Conseguiu, inclusive, que um estafeta me levasse o cheque da pensão em casa, dispensando-me de ir até o quartel, onde a burocracia me fazia perder uma, duas horas de espera.

“Estamos revoltados com suas declarações aos jornais, dona Crimeia! A senhora não está à altura da memória do seu irmão, sempre correto e patriota, uma pessoa solidária e amiga…”

“Um pobre diabo, um inocente útil como o senhor e um monte de gente que conheço, a serviço do grande capital, enquanto brinca de guerra, feito criança, com aqueles brucutus, bem velhinhos, por sinal, ou então joga futebol de salão o dia todo. Sabe o que vocês são, militares? Fantoches, macaquitos, lacaios do capitalismo internacional, usando essas roupas ridículas, emerdalhadas…”

O general bateu o telefone, mas eu ainda gritei “e se mandar me perseguir, chamo a imprensa!”

Confesso que foi um exagero, o homem era gentil, no passado, mas nessa gente você tem de bater primeiro. Ou nos envolve com umas conversas esquisitas e toma nossa razão.

Coincidência ou não (mas não vejo onde meus inimigos teriam tido participação nisso), meu condomínio foi subindo enquanto o governo dava aumentos abaixo da inflação para os aposentados. Chegou a um ponto que para pagar o condomínio, seria obrigada a fazer uma refeição por dia.

Genoveva apareceu, nossos pais eram amigos no passado, e eu me dava bem com ela, apesar do seu aparvalhamento crônico. Aí ela me ofereceu um quarto no seu próprio apartamento, enquanto eu alugaria o meu e aumentaria minha renda. Topei, apesar de humilhada. Pensei comigo, ‘puta que o pariu, eu sempre fui ativa, brilhante, intelectual, meus alunos estão aí, alguns são uns fascistas, reconheço, mas foram bem formados por mim, são pessoas bem preparadas, profissionalmente, enquanto eu preciso de favor pra viver; temos de revolucionar este país o quanto antes e entregar o poder ao povo!’

Mas estamos vivendo bem. Ela passa o dia na frente da tevê e eu leio, leio, leio. Agora estou empenhada na tradução, do inglês, de uma receita para construir um artefato de alto poder destrutivo. Foi Lenildo, um vizinho aqui do primeiro andar, e que pensa parecido comigo, que conseguiu na internet. Inacreditável: os gringos são loucos, dominam o mundo, mas deixam umas brechas para que os verdadeiros revolucionários atuem; dão receitas, pela internet, de como fabricar engenhos explosivos.

Quando estiver pronta, pois parece que não é muito difícil de montar, talvez Lenildo me ajude a carregar o material até um prédio público qualquer, ou a um banco estrangeiro, ou sei lá onde. Vamos escolher com cuidado nosso alvo, observando quem melhor simboliza a tirania, a política escravagista a que estamos submetidos no Brasil. Candidatos é que não faltam.

* * *

Do livro “Memórias Embriagadas” – Editora Noovha América, São Paulo, 2008.


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NÃO ERA UM SORRISO

Chegou devagar, gravata frouxa, jeito relaxado, à mesa da nova menina do Departamento de Criação (era mesmo uma menina, apesar de ter-se formado em publicidade havia um ano). Ela examinava umas fotos, de uma rua ou de uma feira; ele viu pelo olho periférico, mas não conseguiu definir. Reparou bem nela: cabelos supernegros, jeitinho clean (como quase todas ali), vinte por cento dos peitinhos aparecendo na blusa de verão. Sorriu ao lembrar como seu pai a definiria: um pitéu. Tinha aquele cheirinho de fundo de perfume seco, igual a todas. Ele pôs os cotovelos na mesa, seu rosto ficou muito próximo ao dela. Era o dono da agência, podia fazer qualquer coisa.

“Tô a fim de você”, disse com firmeza, mas em meia voz, para não chamar a atenção da outra garota na mesa do lado.

Ela levantou os olhos, nem a cabeça mexeu. Encarou-o, séria:

“Quantos centímetros?”

“O quê?”

“Quantos centímetros?”

“Não entendi. Centímetros…?”

“De membro viril. Pênis. Caceta. Quantos?”

Impossível evitar a pausa constrangida. Ela continuava a fitá-lo nos olhos, sem dor nem expectativa.

“Não foi minha intenção magoá-la. Uma brincadeira.”

Ela usava aquele batom meio escuro que lembra bocas de vampiros. Será que ele teria visto um sorriso nascendo sutil nos movimentos das suas bochechas, um pouco mais cheias do que deveriam?

“Você não me magoou. (Veludo de voz…) Tenho estreitamento vaginal e não posso perder tempo com homens de pau um pouquinho além do normal”.

Ela continuou a encará-lo, enquanto ele dava meia-volta e sumia da sala, apressado. (Teve certeza: aquilo não era mesmo um sorriso a nascer no rosto da moça).

Pelo vidro azul da janela, o dono da agência viu o trânsito parado lá embaixo. Pensou no crescimento difícil da empresa, nos sócios americanos complicados. Naquela semana, não iria escapar de uma ou duas noites de trabalho. Sua mulher gastava cada vez mais nos cartões de crédito e o seu caçula destruíra o segundo automóvel importado. Filho da puta.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.              


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TRANSIÇÃO

Comecei a vê-los hoje. No começo, apenas um, parado em frente ao portão da empresa, olhando os passantes, que são milhares, àquela hora da tarde. Não me assustei, nem me sobressaltei, pelo contrário: à visão dele, que vestia roupas lisas e claras, e no rosto imberbe transmitia doçura e paz, senti-me realizado. Ver, enxergar outras realidades: isso, sim, era o maior dos privilégios. Será que atingira, finalmente, a sonhada transição? Perdera a conta dos anos em que me lamentei por não conseguir atravessar os portais da mente, de ser obrigado a conviver apenas com a matéria óbvia. Estava cansado de vislumbrar outros mundos através de sonhos confusos.

Sorri, então, olhando-o de perfil: no rosto moreno havia traços orientais, como se ele fosse um mestiço de japonês e brasileiro. Não se parecia com uma pintura renascentista. Era apenas um homem/mulher que se encantara.

Sim, porque era assexuado. Sua face de rapaz-moça-mestiço-jovem lembrava-me adolescentes indefinidos, de cabelos curtos, que tantas vezes observara em vários lugares do mundo.

Eu já sabia da existência deles, por intuição, porque sentia sua presença nos lugares mais estranhos. Cheguei até a ver um deles, certa vez, mas não na forma basicamente humana que, pelo jeito, costumam usar quando nos visitam. Aquele tomou o corpo de uma gata.

Foi quando Beatriz morreu. Era a minha amiga mais íntima, desde os nove anos de idade, no curso primário. No primeiro dia de aula nos encontramos e conversamos durante todo o recreio. Como se fôssemos irmãos.

Seguimos nossas vidas, a família dela era rica, tudo era fácil, tudo acontecia para Beatriz. Casamos mais ou menos na mesma época, o marido da minha amiga era bonito e influente, mas apaixonado por todas as mulheres, além dela. Beatriz foi obrigada a conviver durante décadas com o problema. Teve um único filho; o marido morreu cedo, intoxicado de tanta farra. Quando o filho cresceu e, por sua vez, casou, Beatriz lhe passou toda a fortuna.

A partir daí, empobreceu. Não lhe davam tratamento médico, nem mesmo alimentação suficiente. Eu, que a visitava de vez em quando, desconfiava até que a espancavam. Nos últimos anos, sua única companhia, seu único prazer era uma gata branca, sem raça.

Quando Beatriz morreu, cheia de manchas roxas pelo corpo, e eu, em prantos, cheguei ao velório com mais alguns amigos comuns, vi exatamente uma gata branca deitada numa cadeira próxima ao caixão. Percebi, espantado, que não era a gata de Beatriz, que nem mesmo se tratava de um animal real, mas a forma que um daqueles resolveu usar.

A gata olhou para mim e trocamos uma breve comunicação. Todos a viram e estranharam o fato: como uma gata, tão parecida com o bicho de estimação da falecida, que com certeza permanecera no apartamento, poderia entrar num velório e acomodar-se daquele jeito?

‘Será’, pensei comigo, ‘que eles, os algozes, estão percebendo a sutileza dessa mensagem?’

Tenho minhas dúvidas. Mas, de verdade, a gata foi o primeiro deles que vi. Agora vejo este outro, na porta da empresa. Não olhou para mim, estava muito preocupado com os pedestres, como se orasse por cada um deles, enfrentando essa loucura que é viver na Terra, sobretudo em uma grande cidade.

Minha surpresa maior aconteceu no estacionamento ao lado, quando fui pegar o carro. Havia dois, um negro e um branco, tão iluminados como seu colega ali perto. Observavam, também, as pessoas a pagar, nos dois caixas, e os manobristas a correr de um lado para o outro, recolhendo os carros. O negro chegou a trocar um olhar comigo, e não foi preciso dizer nada – eles transmitem toda a beleza do seu próprio mundo, de que temos tanta necessidade, mas que permanece tão distante, sempre, por nossa culpa.

No caminho de casa, vi outros, atravessando as ruas, sempre com as roupas leves, cabelos longos ou curtos, todos de sexo indefinido, quase lânguidos, como eu sempre imaginei que fossem. Talvez se materializassem daquela forma para atender às minhas expectativas.

‘Meu Deus’, pensei comigo, ‘o que fiz de bom para merecer isto?’

Foi estranho o trajeto do trabalho para casa; quase não o senti, distraído com as lembranças daquelas visões. De repente, “acordei”, andando pela minha própria rua, em direção ao prédio. Já não havia humanos por ali, somente eles. Em grupos de dois, três, ou andando sozinhos, cruzando comigo na calçada, sentados diante dos edifícios, ou ainda olhando o movimento através das sacadas das janelas.

Comecei a chorar, de pura felicidade, acho que pela primeira vez na vida. Na entrada do prédio, no lugar do porteiro, encontrei uma mulher de rosto jovial, sorrindo para mim. Era a única que não fazia parte da multidão angelical que tomara completamente o bairro. Era Beatriz, quarenta anos mais jovem.

“Quantas saudades, meu querido!”, ela me disse somente com o olhar, sem pronunciar uma palavra.

E foi aí que eu entendi tudo.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.


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NEM UMA GOTA

Era ele! Ali, a uns dez metros do alcance do meu rifle. Estava muito escuro, eu tinha medo de abrir um pouco mais a janela, só que não tive dúvidas: pum! Acabei levando um coice da coronha da arma, coisa com que não contara, uma dor aguda tomou-me todo o ombro direito e correu espinha abaixo, até o cóccix. Liana Maria já chegou gritando “o que foi, Grotão?”, e o bebê começou a berrar no berço.

Fiquei fora de mim por algum tempo, acho, mas, quando abri os olhos, Liana Maria já havia acendido todas as luzes da casa, e o pior, os spots do terreno em volta. Doía muito, o ombro, mas me levantei, cambaleando. Liana Maria, que apanhara o rifle do chão, corria em direção a um vulto caído perto da caixa d’água. O menino, no berço, dobrava o choro, agora.

“Pera aí, Liana, pera aí! Tem cuidado que o monstro pode estar só ferido… Mas que eu acertei, acertei!”

Quando cheguei perto da minha mulher e do vulto no chão, fiquei gelado. Ali estava uma ovelha, que se desgarrara, não sei como, do curral. Dura e morta. O focinho branco, branco, de um jeito que nunca vira antes. Não restara uma gota de sangue na pobrezinha. Nem com as primeiras vítimas, as galinhas, um mês atrás, acontecera desse jeito. Assustador. E o bicho não levara nenhum tiro.

Liana Maria estava uma fera. Logo comigo. Jogou o rifle no chão e veio de dedo pra cima de mim.

“Seu merdinha, como é que me dá um susto desses no meio da noite?”

“Pera aí, Liana, eu estava tentando matar o chupa-cabras!”

“Pois antes que você o matasse, bobão, o bicho traçou essa aqui, ó. Mais um prejuízo e, além disso, um baita susto… Você tem é de pegar quem está fazendo isso, ô cara! Que chupa-cabras coisa nenhuma…”

“Liana, o menino está se esgoelando.”

“E você acha que eu sou surda, Grotão? Você é que deveria ir até lá, dar o peito pra ele…”

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A LUZ DO SEU SORRISO

Comecei a sentir uma grande simpatia pela mocinha depois de vê-la por umas três semanas distribuindo seu produto no sinal das avenidas Barreto Mota e Inconfidência. Aqueles sinais demorados, de um minuto.

Tinha uns dezenove, vinte anos. Sempre de calças jeans muito justas, de cintura curta, deixando aparecer uns dez centímetros de barriga. A blusa leve delineava os pequeninos seios, revelando a ausência de sutiã, mas ela, apesar do esforço, não era mesmo sexy. Seu sorriso, por exemplo, era luz pura, radiosa, benfazeja, definitivamente espiritual. Ela me parecia incompetente para vender as “supergatas do Club for Men”.

Mas lá estava, um anjo em meio à corrupção: alguns homens, na verdade umas bestas, com expressões de abutres, abriam os vidros para receber o cartão com o endereço do clube e depois insultá-la com grosserias; ela respondia com aquele sorriso de converter gentios.

Tinha a idade da minha filha mais nova, Clara, e eu comecei a especular sobre o que a havia feito cair naquela esquina espúria da cidade, ser obrigada a se fingir de prostituta e suportar as velhacarias dos canalhas e infelizes a caminho dos seus desconcertos.

Imaginei-a cumprindo o expediente de transgressões para depois se apresentar na escola noturna de um subúrbio distante, viajando horas nos ônibus lotados, mas iluminando a tudo e todos com a expressão divinal do seu rosto de criança.

‘Não deve ter um pai’, pensei, ‘e precisa cuidar dos irmãos mais novos; a mãe lava o chão de alguma firma, ela sonha em cursar Direito (não sei por que pensei em Direito) e aí aceitou distribuir esse lixo na rua’.

Houve um dia de trânsito congestionado em que pude observá-la um pouco mais. Passou próximo à minha janela, mas, com certeza, devo ter cara de quem jamais frequentaria um clube de sacanagem. Talvez pelos meus cabelos brancos. Não sei.

Abri o vidro e cheguei a chamá-la, “venha cá, querida”, e logo me arrependi: os bárbaros que a assediam poderiam chamá-la assim. Ela apressou o passo, evitou o carro imediatamente atrás do meu e foi entregar seu cartãozinho para um rapaz da idade dela, alguém que não teria dinheiro para frequentar um bordel mais ou menos luxuoso.

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LAMBER OS BEIÇOS

Meti meio pão francês com manteiga na caneca cheia de café; deixei encharcar um pouco, até a manteiga vazar e manchar o líquido escuro, e aí fui puxando com os dentes pequenos nacos do pão, que ora chupava, ora deixava desfazer na boca. Não existe nada mais delicioso neste mundo do que isso.

Ando gostando muito de comer, fico até preocupado. Não posso me entregar a prazer algum, não vou amolecer, distrair-me. Daqui a pouco o herdeiro vai entrar pela porta principal do restaurante, com os dois seguranças. Tenho certeza de que vai escolher a mesa próxima do toalete, que é a mais protegida, apesar do cheiro de mijo que se espalha por uns três metros quadrados. Mas o herdeiro é gordo e glutão: quando come, não vê nem ouve nada, não sente cheiro de porra nenhuma. Por isso será fácil matá-lo. O problema são os seguranças. O gordo os troca a cada quinze dias.

Estou na campana há muito tempo, desde o final do ano passado. Sei tudo desse filho da puta obeso. Sei, inclusive, que a sua pior tara é a de só se excitar quando vê sofrimento. Por isso bate tanto nas mulheres. Há certas pessoas que não deveriam vir ao mundo, eu talvez seja até uma delas, mas esse gordo é pior do que eu. Eu, pelo menos, tenho a minha ética e jamais apaguei um pai de família ou alguém reconhecido pela comunidade como um benfeitor. Tive de encarar Brejo Preto, quando ele veio me contratar para queimar o juiz.

“Sabe quantas crianças estão vivas por causa daquele doutor, Brejo Preto?”, eu perguntei, porque até meu irmão Lourenço tinha mandado dois órfãos para a casa de caridade que o juiz mantinha.

“Tô cagando.”

“Tá não, Brejo Preto. O homem cuida de sessenta crianças, levanta dinheiro até do padre Júlio, que é a pessoa mais avara que já conheci. Se esse homem morre, quem vai tocar o orfanato?”

“Que se foda.”

Acabou de falar e os miolos foram parar no teto. Dizem que uns pedacinhos pretos estão lá até hoje, grudados. Os três capangas que vieram com ele nem esperaram pra carregar o corpo. Olharam pra mim com cara de bunda e saíram correndo. Não se faz mais capanga como antigamente. Eu mesmo me surpreendi com aquilo. Será que agi de reflexo? Acho que foi. Não suporto ver gente egoísta, porque o mundo é uma massa que só se move quando todos empurram. Quer dizer, um depende do outro e é o povo que dá a direção. Tem que ter gente nesta merda pra cuidar dos abandonados. O juiz mandou três amigos meus pra cadeia, mas é um homem decente.

Nossa! Agora, cheguei até a lamber a ponta dos dedos e passei a língua nos beiços. Que pão gostoso, caceta! Torradinho, saído do forno inda agora. E a manteiga… daquelas de Minas que só se vende em lata.

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O MAR AMNIÓTICO

Não acreditei quando vi o apartamento. Um por andar, quatrocentos metros quadrados e de frente pro mar. Aquele mar com que eu sempre sonhara, desde criança, mar das piscinas naturais, o local mais valorizado da praia inteira, onde os muito ricos haviam construído suas casas suntuosas. Um mar de sonho, numa avenida de sonho.

Aquele ponto, centro do trecho das piscinas naturais, a gente só conhecia de passar de ônibus, isso desde criança. De repente, chega um homem de paletó e gravata, que se diz advogado do espólio do meu falecido marido, e conta que herdamos, eu e meus filhos, um apartamento naquele paraíso.

“Mas… mas como?” – eu, atônita.

Mário Lúcio, o falecido, era um batalhador, não se podia dizer que fosse pobre, que fôssemos pobres, mas de que jeito ele comprara um apartamento na Avenida da Beira?

O advogado pigarreou, desconversou, mas acabou deixando claro que Mário Lúcio, que me largara havia muito tempo, possuía uma segunda mulher (ainda bem que não era uma segunda família) a quem ele oferecera o apartamento na praia, mas não lhe passara no papel. Ou seja: era nosso, meu e dos meus três.

Naquela época, eu morava com Josias, o meu querido, o meu caçula. Cleide e Ribamar, mais velhos, já se haviam casado e até saíram da cidade, de uma forma estranha, como se fugissem da mãe e do irmão. Ciúmes, apenas ciúmes.

Ninguém vai me dizer que não há preferências entre pais e filhos. Ninguém. Talvez eu tenha exagerado na minha preferência, que assumo, mas não sou a única. Que posso fazer? Sempre amei e me sacrifiquei por Cleide e Ribamar. Quando eles eram pequenos, vivemos os nossos piores anos, um tempo em que acordávamos sem saber se havíamos melhorado de situação ou se estávamos condenados a pedir esmolas. Ser um pequeno empresário industrial, numa confecção, não é nada fácil. Eu é que sei.

Mas, quando Josias nasceu, a situação era muito diferente. Éramos pressionados, até, a comprar o sobrado do lado para ampliar a fabriqueta. Já trabalhávamos com força total, vinte e quatro horas por dia, mas isso são coisas do Brasil. Um dia, fracasso; dia seguinte, esplendor.

Depois é que fui entender: Mário Lúcio se sentira tão rico que, após deixar a casa (ou antes, sei lá), arrumara uma putinha e se instalara com ela no apartamento da Avenida da Beira. Bem, devia gostar muito dela, pois não se dá um espaço daqueles a quem não se tem paixão. É o mais caro metro quadrado da cidade.

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Este é um recanto só de histórias, pequenas, médias, mini, humanas e animais, com ou sem lógica, delirantes, esquizofrênicas
e paranoicas, frequentemente subversivas, mas a maioria delas só quer mesmo é lhe entreter.

VIAGENS

Seu Louzeiro chegou, sorridente, amparado pelo filho. Zé Izidro, o cabeleireiro, exultou. Os clientes andavam rareando e aqueles dois representariam um bom faturamento.  O filho viera um dia antes para negociar o corte do cabelo do pai. Agora, lá estavam, muito adiantados no horário. Zé Izidro pediu desculpas pela inevitável espera.

“Por mim, não há problemas”, disse o velho, que já passara dos oitenta. “Os mortos não têm compromissos”.

O cliente que cortava o cabelo naquele momento, seu Onofre, já passara dos sessenta, não gostou nada da pequena manifestação de humor negro. “Cada figura que você arruma, não, Zé?”, ele resmungou.

E seu Louzeiro acabaria sendo responsável por um outro momento interessante, naquela tarde, ao folhear uma das revistas de mulheres nuas que Zé Izidro deixava distraidamente ao alcance dos seus fregueses, todos homens.

“Júnior!”, gritou o velhinho para o filho, que examinava um jornal do dia, do outro lado da sala, “esta revista aqui está cheia de mulher com a xoxota de fora!”.

“Vai em frente, pai”, disse Júnior, mais interessado em uma reportagem sobre fundos de investimentos. “Na revista inteira tem mulher assim…”

“Muito cara, esta revista, Júnior?”

“Baratinha. Se o senhor quiser…”

“Não, não. Agradeço.”

‘Velhinho do interior visitando a capital’, concluiu o cabeleireiro que, de vez em quando, dava uma olhada para examinar, divertido, o afã com que seu Louzeiro passava e repassava aquelas páginas coloridas. Até que chegou a vez dele.

Era um velho cabeludo e meticuloso. Gastou um bom tempo para dar as instruções de como queria o corte. Só no capítulo das costeletas (“curtas, muito curtas”) repetiu várias vezes que não conseguia mantê-las do mesmo tamanho, por mais que tentasse apará-las com o barbeador.

Quando iniciou o corte propriamente dito, o barbeiro fez a pergunta clássica:

“O senhor é daqui mesmo, do Estado?”

“Da França.”

“Ah, o senhor é francês? Mas está aqui há muito tempo, não? Não tem sotaque nenhum…”, foi dizendo Zé Izidro, convencido de que havia algo estranho com o velhinho que, com a mão esquerda, segurou-o pelo avental branco e puxou-o para si, fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador direito:

“Sabe”, sussurrou, “meu filho não gosta que eu conte a minha vida a estranhos. Medo de sequestro. Mas o senhor, ora, o senhor é confiável. Tem cara de homem honesto. Eu voltei ontem da França. Da minha terra. Estou até meio tonto por causa do fuso horário. Mas, meu caro, vamos falar nós dois aqui, bem baixinho.”

“Tá bom, tá bom”, disse o cabeleireiro, baixando o tom. E emendou:

“Puxa, o senhor deve levar uma vida bastante cansativa…”

“Ah, não me goze… Como é o seu nome mesmo?”

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AO SOL DAS QUATRO DA TARDE

“Mesmo que essa história tivesse alguma lógica, um menino e uma menina não poderiam ser tão amigos assim”, ouvi meu pai dizer à minha mãe.

Meus pais sempre me pareceram muito ingênuos. Imaginavam que eu não entendesse as ideias, os olhares, as expressões dos rostos deles. Mas a prova maior da babaquice deles era esta: estavam certos de que eu dormia, a partir das dez da noite e, assim, falavam o que queriam depois daquela hora. Já ouvi coisas de arrepiar.

Ultimamente, o assunto era Maria Tereza, minha amiga, minha irmã e namorada, única razão de ser da minha vida. Eu me encontrara com ela no primeiro ano primário. Nos olhamos, sorrimos, e nunca mais largamos um do outro, onde quer que estivéssemos. Agora, aos onze anos, nossa amizade era contestada. De certa maneira, eu estava muito tranquilo, muito mesmo, porque guardava, no meu íntimo, a certeza de que nada neste mundo, muito menos pai e mãe, conseguiria nos afastar.

E, se nos amávamos em definitivo, havia, dentro de nós, um outro amor, extraordinário, profundo, inefável: o amor pelo mar.

Sim: o mar!

No começo, quando ainda éramos muito crianças, colecionávamos conchas. Os pais de Maria Tereza possuíam uma casa ampla na praia, quase à beira d’água, e ela tinha facilidade de juntar búzios, estrelas-do-mar e outras recordações. Havia um búzio imenso que ela dividia comigo: ouvíamos, durante horas, todo o movimento dos oceanos do mundo. Aquilo era maravilhoso, melhor do que uma sessão de cinema.

Além daquela casa, os pais de Maria Tereza possuíam uma outra, na cidade, de dois andares. Na garagem, três carros do ano. Minha amiga se vestia bem, viajava – ocasiões em que ela e eu sofríamos as piores saudades. Mas nunca senti inveja. Meus pais andavam de ônibus, nossa casa era um sobrado modesto. Nada disso influía na nossa paixão.

O último segredo que contei à minha mãe foi justamente sobre o búzio que Maria Tereza havia arrumado. Ela fez uma cara de susto, depois começou a chorar.

“Olha, Queixinho, nunca mais me fale nessa Maria Tereza, está ouvindo? Eu não aguento mais!”

Aí fui eu que fiz cara de susto e quase chorei também. Como ousava minha mãe interferir numa amizade-amor? Por que, ao contrário, não ficava feliz pelo fato de seu filho único ser capaz de sentimentos profundos e doces?

No dia seguinte, depois que ela e o meu pai conversaram um monte de bobagens a meu respeito, o velho me procurou para saber um pouco mais da minha intimidade com Maria Tereza.

“Queixinho, você já tem onze anos, seu corpo vai começar a se modificar, vêm aí uns hormônios infernais, e eu gostaria que você me desse detalhes sobre essa menina.”

“Não somos nada do que o senhor está pensando, pai. Esse assunto é pra daqui a três anos.”

“Nossa, que precisão, Queixinho! Mas, vocês não… assim, você não pensa nela de um outro jeito, como namorado?”

Aí eu fui obrigado a lhe contar nossa última aventura, na semana passada. Maria Tereza e eu, tontos de saudades do mar, planejamos pegar um ônibus até a casa de praia dos pais dela, onde trocaríamos de roupa e passaríamos algumas horas mergulhando na nossa paixão. Mas, para isso, tínhamos de inventar que haveria aula à tarde no colégio, torcendo para que nossos pais não tivessem a ideia de ligar para a diretoria; roubaríamos algum dinheiro para pagar o ônibus e realizaríamos nosso desejo. Deu tudo certo. Maria Tereza conseguiu tirar uns trocados da carteira da mãe dela, que andava sempre cheia. Dona Lina era distraída: nem percebia quando faltava algum dinheiro.

Nesse dia, eu revelei a Maria Tereza certa expectativa minha, com relação ao sol das quatro da tarde.

“Que é que tem, Queixinho?”

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CALCINHAS DE ATROPELAMENTO

Tia Isaurinha gostava de poucas coisas: da Rússia (mesmo naquela época, jamais citou a expressão “União Soviética”); dos grandes marginais; e de lingerie quase exclusiva.

Suas parcas rendas eram investidas em livros, boa parte erudita, e em sutiãs e calcinhas. A roupa normal, ela não dava a mínima. Se as irmãs a presenteavam com saias, blusas, vestidos tomara-que-caia e terninhos, todos bastante usados, a tia agradecia com um gesto irônico de cabeça, acompanhado de um “muuuuuito obrigada, alma boa”. Como poderia ser vaidosa somente “por baixo”?, eu me perguntava.

Era a irmã mais nova do meu pai, e é claro que jamais tive a pretensão de entendê-la, assim como o resto dos meus tios. Havia, neles todos, um traço de tragédia que não consigo explicar direito, algo assim como uma constante preparação para quebras inesperadas de rotina. Quem poderia imaginar, por exemplo, que um louco furioso invadisse a nossa casa, com um punhal nas mãos, procurando uma próxima vítima? Pois meu pai previu uma cena dessas. Sempre trancava o portão a cadeado, isso às dez da manhã, e nos batia, a mim e ao meu irmão, se não tomássemos o mesmo cuidado. “Um dia um doido vai nos atacar a punhal!”, berrava ele.

Pois, um dia, um pobre homem em farrapos, os olhos esbugalhados, como se fosse um ator fazendo papel de louco, irrompeu pela nossa rua com um punhal na mão. Diante do pânico total, gente correndo e batendo portas, mães histéricas gritando pelos filhos que andavam livres no bairro, meu pai gritou, do terraço da casa: “Aqui você não vai entrar, imbecil! Experimente, experimente!”.

O pobre homem nem chegou perto. Foi atingido no ombro e no pescoço pelos chumbinhos da espingarda do vizinho ao lado e, quando viu o próprio sangue, largou o punhal, sentou-se na calçada e começou a chorar baixinho.

Morávamos numa mesma casa, imensa, com jardins na frente e largos oitões, meus pais, meu irmão, eu e tia Isaurinha. Mas todos os meus tios e tias moravam por perto. Eu era o preferido da “doidinha”.

“Você vai ser intelectual”, ela me dizia, brincando, “porque é preguiçoso demais. Deve pensar mais do que os outros.”
Certa vez, aproveitando a liberdade que ela me dava, e perturbado pelo mistério da lingerie de alto padrão, que vivia comprando, especulei:

“A minha mãe me disse que a senhora iria sair amanhã para visitar o comércio. Posso saber o que vai comprar?”

“Idiota. Você já sabe o que eu compro: só livros e as minhas calcinhas de atropelamento.”

“De atropelamento?”

“Bem, compro uns sutiãs também. Mas o importante são as calcinhas. Meu filho: você sabe que eu sou míope mas me recuso a usar óculos na rua. Aí eu saio tateando por aí, me distraio, não vejo o carro, e pum! Lá vou eu jogada a cinco, dez metros de distância, caio no asfalto, morta, ensanguentada. Na queda, a minha saia se levanta e quase me cobre o rosto. Então os populares cercam meu corpo. E comentam: ‘vejam só que mulher relaxada; olha as calcinhas dela, que horror!’ Não, não, meu sobrinho, isso jamais acontecerá comigo! Quando os populares olharem para o despudor do meu corpo defunto, vão ter o prazer de apreciar as mais belas calcinhas da cidade…”

Essa mania de morte violenta era recorrente nela (tia Isaurinha costumava afirmar que a maior solidão que um ser humano poderia experimentar era a de morrer esticado no asfalto), assim como no resto da família. Meu pai, além da história do louco com o punhal, imaginava-se num avião que começava a cair, “e eu no banheiro, sentado na privada e com vergonha de abrir a porta”.

Tia Rosinha, outra irmã dele, não permitia que nenhum homem desconhecido entrasse na sua casa carregando uma mala. “Vai me matar e me fazer em pedacinhos e sair pela rua sem que ninguém desconfie.”

Morreram todos na cama; se não como passarinhos, quase. A única exceção foi mesmo tia Isaurinha. Acho que ela se tornou a primeira vítima de bala perdida no Brasil. Vinha pela rua, atrapalhada pela miopia, as roupas gastas, carregando um exemplar de “Nostra Señora de Rusia”, de um escritor argentino maldito, quando uma bala de fuzil a atingiu pelas costas. Nas ruas, estudantes reagiam ao golpe de 1964 e alguns soldados começaram a atirar neles. Nenhum estudante saiu ferido. Tia Isaurinha, a quase dois quarteirões de distância, acabou atingida.

Já chegou morta no pronto-socorro. Os médicos perceberam que seu sutiã era francês, de rendas bicolores delicadíssimas. E que o bordado das suas calcinhas era de dar inveja a atriz do cinema. Mas não havia populares entre os que a viram naquele estado de graça.

* * *

Do livro “Allegro”  – Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2003.


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A TRAIÇOEIRA VÍBORA DA JUVENTUDE

Da última vez que a vi, ela me falou do poncho de estimação que lhe havia emprestado naquela viagem inesquecível a Machu Pichu.

A viagem fora feita com um grupo grande de jovens vibrantes, todos preocupados com as mesmas questões espirituais. Gracinha fazia parte daquela turma e já parecia estranha: guardava uma expressão sempre acabrunhada, era a última a aparecer no café da manhã da modestíssima pousada.

Fomos apresentados, na época, pelo meu melhor amigo, o Gilvan, que estudara com ela durante anos, num colégio chique da capital. Eu conhecera Gilvan durante o trote da faculdade e nos ligamos como se fôssemos irmãos.

“Sabe, Geraldo, eu, lá no fundo da amizade, amo esta Maria das Graças”, confessou-me, em Machu Pichu, no meio de uma trilha luminosa, admirando a graça com que ela escalava as pedras. Foi aí que reparei no potencial de Gracinha para semear emoções fortes. “Você não a acha linda?”, Gilvan me perguntou.

Eu não poderia dizer a verdade: que, para mim, ela jamais fora um ser humano, mas, sim, algo mitológico, fora do planeta, inatingível. Nem pensava direito se era alta ou baixa, mais pra gorda ou pra magra, e se usava óculos. Sua imagem me surgia, integrada, e era só vida, viço, uma deusa que eu deveria reverenciar. Se fosse descrevê-la fisicamente, diria apenas que era morena, de cabelos lisos e longos.

“Ela tem… muito charme”, respondi. “Por que será que está sempre parecendo mal-humorada?”

“Porque é mal-humorada, nasceu assim. Gracinha, eu acho, tem sérios problemas não resolvidos com o pai.”

“Já ficou com ela?” Eu tinha toda a intimidade com Gilvan para lhe fazer uma pergunta dessas.

“Já. E não foi bom. Sem detalhes.”

“Perdão. Eu só…”

“Esquece, Geraldo. Fui eu que puxei a conversa e me abri com você.”

Naturalmente, aquilo era um sinal para que não tocássemos mais no assunto e eu respeitava meu velho amigo. Como fazíamos parte do mesmo grupo de buscadores, eu haveria de me encontrar com Gracinha outras vezes, em vivências ou passeios a sítios especiais, todo mundo de mochila nas costas e muita disposição para grandes caminhadas. Gilvan estava sempre comigo.

Nas duas últimas viagens, leváramos as namoradas que, como um símbolo da nossa irmandade, eram gêmeas idênticas. Fomos obrigados a ouvir, e reagir com bom humor, as maldades: “Vocês não se confundem?”

E Gracinha sempre do mesmo jeito: atrasada para o café e de cara fechada. Lembro-me de uma vez que ela chamou a atenção por ficar conversando (nervosamente, a julgar pelos gestos que fazia) num telefone celular.

E aí veio a grande viagem ao deserto do Atacama. Desta vez, não havia namoradas gêmeas e nem Gilvan, doente de cama com uma ridícula catapora.

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ZOMBARIAS

José da Assumpção acabara de completar doze anos quando uma linda, angelical figura de mulher (em tamanho natural, mas de forma estranha, levemente transparente, tanto que os raios do sol a transpassavam, vestindo um manto azul sobre um outro manto branco, cabelos longos aureolados por uma luz colorida, imprecisa, que, quando em vez, tomava forma de guirlanda de flores do campo) surgiu para ele, sobre um outeiro repleto de coroas-de-frade. O primeiro pensamento de José da Assumpção foi de cuidado para com a ilustre dama: que ela não machucasse os pés nos espinhos da planta.

“Se avexe não”, disse a figura, adivinhando os pensamentos do menino, “as coisas da terra não podem me ferir”.

“Você é quem eu estou pensando?”, perguntou o garoto, muito famoso na região por sua esperteza.

“É claro, Zé”, disse a aparição, com a voz bondosa de santa mesmo. “Vamos ter de trabalhar”.

“Em quê?”

“Curando o povo doente desses confins.”

“Que é que eu tenho de fazer?”

“Tu me vens com a doença e eu passo o remédio…”

“Quanto eu ganho com isso?”

“Que menino interesseiro… Tu não ganhas nada! Esse vai ser um trabalho nosso: fazer o bem para o povo…”

José da Assumpção pensou um pouco, coçou o queixo, olhou de lado. Não havia ninguém ali, por enquanto, muito menos àquela hora em que o sol escaldava.

“Posso perguntar uma coisa, dona?” Ele estava meio sem jeito.

“Depende. Nem tudo posso falar.”

“Por que eu? Por que a senhora me escolheu? Não sou bom menino não, andei pecando hoje mesmo o tal do ‘pecado solitário’ que o padre me disse…”

“Eu sei. Você precisa parar com isso ou vai ficar magro feito uma vara e todo cansado, sem vontade de ir pra escola.”

“Mas, por que eu?”

“Ah, você é o mais esperto daqui…”

“Por isso mesmo não quero. Me tira dessa, dona santa. Se eu contar ao povo a verdade, que vi uma senhora de azul, do jeito que a senhora é, vão dizer que eu tô é doido. Fizeram isso com Chico Jurema, coitado. Foi até preso porque andou vendo uma senhora parecida com a senhora… Não foi a senhora mesma, não?”

“Pior é que foi, menino. Mas Chico Jurema aprontou comigo. Tentou me usar. E mentiu pro povo, disse que eu andava rodeada de Anjos. Cê tá vendo algum Anjo por aqui, tá?”

“Eu é que não.”

“Pois é. Eu apareço sozinha.”

“Mas a senhora poderia tentar uma outra pessoa maior do que eu. Zé do Coco, por exemplo. Se ele disser que viu a senhora, todo mundo vai acreditar. Ele já viu saci, lobisomem e a Mãe de Fogo…”

“Mentira. Viu nada. E você pensa que eu não tentei? Apareci pro Zé há uns três meses, assim, de noitinha, lá na casa dele.”

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