Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
JOAQUIM BATISTA DE SENA – UM CONTINUADOR DA TRADIÇÃO DOS MESTRES DO CORDEL

O selinho do Centenário é criação do poeta e editor Klévisson Viana

2012 é o ano do centenário de um dos maiores expoentes da Literatura de Cordel, o paraibano Joaquim Batista de Sena, que durante mais de quatro décadas palmilhou o Nordeste inteiro produzindo, imprimindo e revendendo seus folhetos. A partir da década de 1950 instalou o seu ‘quartel general’ em Fortaleza, onde fundou a Tipografia Graças Fátima, responsável pela publicação de seus próprios cordéis e também boa parte da criação literária de José Camelo Rezende, de quem adquiriu diversos originais. Romancista de primeira linha, Sena procura seguir a mesma trilha deixada por Camelo, Leandro, Athayde e outros gênios da poesia popular.

Mas não desdenhava o folheto-reportagem que também foi um de seus trunfos para conquistar a simpatia popular. Qualquer crime hediondo, enchente, desastre automobilístico, aparecimento de entidades sobrenaturais não escapava ao seu poder de observação, como se vê no folheto ‘O monstro do Cemitério São João Batista’ que trata de um curioso tema: a necrofilia. Entretanto, foi na passagem da imagem milagrosa de Nossa Senhora de Fátima, em 1953, que alcançou o seu apogeu como editor, percorrendo todo o itinerário da imagem pelo Nordeste afora. Ganhou tanto dinheiro que acabou batizando sua folhetaria com o nome de “Graças Fátima”. Antes disso, no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um naufrágio na baía de Quebra-Potes, no Maranhão, quando o navio em que viajava foi perseguido por um submarino alemão. Conseguiu salvar-se nadando, mas perdeu uma preciosa mala contendo diversos originais, dos quais não possuía outra cópia.

Hoje a obra de Sena parece naufragar em outros mares… o mar do esquecimento, do ostracismo a que vem sendo relegada a sua valiosa produção poética. Nada mais justo que a Tupynanquim Editora faça essa justa homenagem ao poeta, relançando três expressivos romances de sua lavra na passagem do seu centenário.


 
Capas das obras que serão relançadas pela Tupynanquim Editora

JOAQUIM BATISTA DE SENA – nasceu no dia 21 de maio de 1912, em Fazenda Velha, do termo de Bananeiras, hoje pertencente ao município de Solânea-PB. Faleceu no distrito de Antônio Diogo (Redenção-CE) no início da década de 90 do século recém-findo. Autodidata, adquiriu vasto conhecimento sobre cultura popular e era um defensor intransigente da poesia popular nordestina. Começou como cantador de viola, permanecendo três anos neste ofício, no final da década de 30.

No início da década de 40, vendeu um sítio de sua propriedade e adquiriu sua primeira tipografia, que funcionou algum tempo na cidade de Guarabira-PB, transferindo-se depois para Fortaleza, onde atuou durante muitos anos. Dizia-se discípulo de Leandro Gomes de Barros e era admirador incondicional de José Camelo de Melo. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando viajava de navio de Belém a Fortaleza, foi vítima de um naufrágio da Baía de Quebra-Potes (Maranhão). Salvou-se nadando, mas perdeu uma mala de folhetos, contendo diversos originais. Na capital cearense sua tipografia adotou o nome de “Graças Fátima”. O poeta explicava a razão desse título: durante a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima pelo Nordeste, na década de 50, ele conseguiu ganhar muito dinheiro vendendo folhetos sobre a visita da santa, ampliando consideravelmente seus negócios.

Em 1973 vendeu sua gráfica e sua propriedade literária para Manoel Caboclo e Silva e tentou estabelecer-se no Rio de Janeiro, também no ramo da literatura de cordel, mas não foi bem sucedido. De volta ao Ceará, ainda editou alguns folhetos de sucesso, como o que escreveu em parceria com Vidal Santos, sobre o desastre aéreo da Serra da Aratanha (Pacatuba-CE), onde faleceu, dentre outros, o industrial Edson Queiroz.

Sena era um grande poeta, de verve apurada e rico vocabulário. Conhecia bem os costumes, a fauna, a flora e a geografia nordestina, motivo pelo qual seus romances eram ricos em descrições dessa natureza. Pode-se dizer que com a sua morte, fechou-se um ciclo na poesia popular nordestina e o gênero “romance” perdeu um de seus maiores poetas. Só agora, no início deste novo século, surgem novos romancistas que pretendem dar continuidade à trilha deixada pelo mestre.

Dentre as suas obras de maior aceitação popular, destacamos: A filha noiva do pai ou Amor culpa e perdão; A morte comanda o cangaço; As sete espadas de dores de Maria Santíssima; Estória de Manoel Seguro e Manoel Xexeiro; História de João Mimoso e o castelo maldito; História de Braz e Anália; Os amores de Chiquinha e as bravuras de Apolinário; História do assassinato de Manoel Machado e a vingança do seu filho Samuel; História do Príncipe João Corajoso e a princesa do Reino Não-vai-ninguém.

(In “Acorda Cordel na Sala de Aula”, Arievaldo Viana)

FOLHETOS DE JOAQUIM BATISTA DE SENA

 

Folhetos de Joaquim Batista de Sena, editados em Juazeiro do Norte, na Tipografia CASA DOS HORÓSCOPOS, de Manoel Caboclo e Silva


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
PREMONIÇÃO E PROFECIA NA LITERATURA DE CORDEL

 

Em princípios da década de 1980 eu já fazia os meus primeiros versos e dava os primeiros passos para criação de folhetos. Geralmente eu fazia copias datilografadas que eram distribuídas entre parentes e amigos. Certa feira, visitando meu tio Luiz Viana, na Fazenda Cacimbinha, ele me surpreendeu com a seguinte pergunta:

- Poeta, o que diz do próximo inverno?!

Fiquei sem entender a pergunta e ele completou…

- Os poetas populares geralmente dizem profecias sobre o inverno. Não conhece os almanaques de João Ferreira de Lima? De Manoel Caboclo e Silva?

Realmente ele tinha razão. O poeta popular sempre teve uma afinidade com o profético. João de Cristo Rei, poeta que viveu em Juazeiro do Norte, deixou muitos folhetos de profecia e se dizia inspirado pelo Padre Cícero Romão.

Um folheto que fiz, despretenciosamente, em parceria com Pedro Paulo Paulino acabou tornando-se “profético”. Trata-se de “A caveira do ET encontrada em Quixadá”, escrito em novembro de 2005. Nessa sátira fazemos várias referências ao cinema e chegamos mesmo a citar o ator Henry Ford (que vive o famoso Indiana Jones no cinema) e o diretor Stevie Spilberg. Um novo filme traz à tona a velha história dos ET’s de Quixadá. Trata-se de “Área Q”, que estreou este ano nos cinemas. Eis uma síntese do filme:

SINOPSE DE ÁREA Q

A busca incessante de um pai para encontrar seu filho o leva a uma descoberta extraordinária que irá mudar sua vida para sempre.

Thomas Mathews (Isaiah Washington, de Grey´s Anatomy, Romeo Must Die, Clockers, True Crime) é um repórter reconhecido no círculo jornalístico como o homem que vai atrás dos fatos para revelar a verdade. Ele é o vencedor do Prêmio Conscience-in-Media por expor um escândalo de derramamento tóxico por uma grande corporação.

A vida de Thomas dá uma guinada quando seu filho Peter desaparece. Um ano se passa e Thomas não descobriu nada sobre o sequestro. A busca obsessiva por uma pista que pudesse explicar o desaparecimento de Peter vira a vida de Thomas de cabeça para baixo. Thomas está prestes a perder sua casa e seu emprego. Seu chefe e amigo, Dylan, a fim de ajudar, oferece a ele um projeto especial em que Thomas terá que investigar casos de avistamentos de OVNIs, contatos imediatos do primeiro, segundo e terceiro grau, e até de abduções. O único problema é que Thomas terá que ir ao Ceará, estado localizado no Nordeste do Brasil. O jornalista definitivamente não quer deixar Los Angeles, porque uma nova pista sobre seu filho pode aparecer a qualquer momento. Depois de pensar muito a respeito, Thomas decide ir.

No Brasil, ele investiga histórias sobre os avistamentos de alienígenas que ocorreram nas pequenas cidades de Quixadá e Quixeramobim, conhecidas como Área Q. Durante a investigação, Thomas conhece João Batista, (Murilo Rosa, de Araguaia, Orquestra de Meninos), um caboclo que tem muitas respostas sobre o que está acontecendo nessa área e também sobre o filho de Thomas.

Uma série de eventos inesperados acaba com o plano original de Thomas, que é escrever a matéria e ir embora o mais rápido possível e o jornalista se vê lutando para acreditar no que tem visto. Pouco a pouco, ele começa a perceber que está prestes a vivenciar a maior descoberta de sua vida.

A caveira do ET encontrada em Quixadá

Ufólogo de Quixadá exibe a caveira do suposto ET

Lembram da estranha ossada encontrada na cidade cearense de Quixadá, em novembro de 2005? Ufólogos juravam de pés juntos que se tratava da caveira de um extra-terrestre. É que em Quixadá existe até pista para pouso de discos voadores e não são poucos os relatos de aparições de ET’s por aquelas bandas. Pois bem… O fato ganhou projeção nacional, foi notícia em muitos blogs e jornais e saiu até no programa do Ratinho, no SBT.

O cordelista não perde a oportunidade de escrever sobre um assunto tão curioso. Faz parte de seu ofício. Otávio Menezes, conhecido “poeta-repórter” de Fortaleza, fez um folheto baseado nas matérias que saíram no Diário do Nordeste. Usou, inclusive, a mesma foto do jornal na capa de seu folheto.

Convidei o poeta Pedro Paulo Paulino para escrever um folheto sobre o tema, mas abordando a coisa de maneira ficcional, com fortes doses de gracejo, enfim, uma verdadeira sátira à altura de uma notícia tão bizarra. O resulto foi o melhor possível…

Na famosa Quixadá
Terra da “Galinha Choca”
De Rachel e Aderaldo
De baião e de paçoca
U’a velha desocupada
Encontrou uma ossada
Escondida numa loca.

Era uma ossada estranha
Com gente não parecia,
De bicho também não era,
(Isso a velha garantia)
Era um esqueleto gigante
Com estrutura semelhante
À ossada de uma jia.

A cabeça muito grande
Parecendo imenso ovo,
Os ossos se desmanchando
(Não era um “defunto” novo)
Mal a velha viu aquilo
Foi pulando feito um grilo
Espalhando para o povo:

- Meu povo preste atenção
Que eu tenho novidade!!!
Encontrei uma caveira
Na saída da cidade
Um esqueleto medonho
Tão grande que eu suponho
Ser uma “calamidade”.

- O espinhaço da bicha
Mais parece um “garajau”
As canelas muito curtas
É vê dois tocos de pau
De dente ela tem um mói
E pela caixa dos zói
Parece com um bacurau!

A velha logo juntou
Uma multidão de gente
Todo mundo curioso
Para ver aquele ente
Em cidade populosa
Notícia assim cavilosa
Se espalha rapidamente.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
LANÇAMENTO DO BAÚ DA GAIATICE (3ª Edição)

Após um longo período de gestação (leia-se captação de recursos – que ainda não chegaram, diga-se de passagem) convencemos às editoras Assaré e Prêmius, dos amigos Francisco Bezerra e Assis Almeida, a fazer uma tiragem de 2 mil e quinhentos exemplares da 3ª edição de “O baú da gaiatice”, ícone do humor cearense, que deverá ser lançada por todo este mês de abril. A gráfica comprometeu-se a entregar os livros até o dia 13/04. A partir de então, vamos programar uma série de lançamentos em Fortaleza e cidades do interior do Ceará.

É provável que o livro dê o ar de sua graça na BIENAL BRASIL DO LIVRO, em Brasília-DF, no próximo dia 16/04, evento para o qual fomos convidados. O ideal é que já fosse apresentado no dia 14/04 no II Webfor, megaevento que acontecerá em Fortaleza, para o qual fui convidado na condição de mediador de uma mesa de debates. O Webfor é um evento destinado às mídias alternativas e deverá reunir uma legião de blogueiros e editores de fanzines. A seguir, alguns personagens (e causos selecionados) do livro O Baú da Gaiatice:

ZÉ FREIRE: DE MÉDICO E DE LOUCO…

Compadre Zé Freire é um caboclo arretado, bom de conversa, desses que a gente encontra com certa facilidade no sertão. Dizem que de médico e de louco todos nós temos um pouco, mas Zé Freire exagerou na dose. Costuma atacar de veterinário com diagnósticos dignos de figurar nas melhores revistas do gênero. Quando surgiu na região a terrível mosca de chifre (inseto portador de um par de antenas, que ataca o gado e provoca inúmeras mazelas no rebanho), Zé Freire entendeu que era “mosca de chifre” porque atacava os cornos das reses. Pela sua lógica, quanto maior fossem os chifres do bovino, maior o risco de ser atacado pela mosca. O que fez então? De posse de um serrote, e como muita lábia, convenceu inúmeros fazendeiros a “mochar” seus rebanhos, inclusive o nosso amigo Carlos Alberto Martins, na época vice-prefeito de Canindé. Não foram poucos os que caíram na conversa do Zé Freire e mandaram o danado extirpar os chifres dos rebanhos.

Onde ele chega, tem alegria e zoada. Metido a mandingueiro, possui algumas orações que segundo ele são infalíveis. Segundo o próprio, vive atualmente com a 32ª mulher, mas agora parece haver encontrado o par ideal:

- A bichinha, tendo jantado e calçado as chinelas, só pesa 32 quilos. É carinhosa, jeitosa, a gente pode até forrar a cama dela com biscoito cream craker que no dia seguinte não tem nenhum quebrado. A seguir, algumas poderosas orações que Zé Freire utiliza para conquistar os favores do sexto oposto… Vejamos:

OS DEZ MANDAMENTOS DA MULHER QUE QUER ARRANJAR MARIDO, SEGUNDO ZÉ FREIRE

1  Respeitá-lo, já que deixou alguém por aquele homem;
2 – Recebê-lo com carinho, amor e massagem na sola do pé;
3 – Usar de grande economia;
4 – Confiar e não ter ciúme. O ciúme, a cachaça e a ‘ignorãnça’ são as três desgraças que atrasam o progresso do Brasil;
5 – Não derrubar o cabelo sem avisar ao peão;
6 Trazer a bruguelada tinindo de asseada, sem canteiro no pescoço nem catarro na ponta da venta;
7  Não fumar nem assistir novela na presença do peão, principalmente novela mexicana;
8  Ficar mais cheirosa do que altar do mês de Maria antes das camaradagens;
9  Evitar amizade com vizinha fofoqueira;
10 – Só o amor constrói e prá frente é que as malas batem.

ORAÇÃO DE ZÉ FREIRE PARA ARRUMAR MULHER

Rezar todo dia 30 de Fevereiro, às seis da manhã e às seis da tarde, ou dia de São Nunca de tarde:

Meu Deus, dai-me a saúde de um jumento, a beleza de um pavão e a potência de um touro chuíte, que caia uma peste de mulher na minha vida maior do que 14 açudes arrombados em grota pequena. Que toda mulher que aparecer na minha vida apresente 16 sinais de beleza: olho verde, pescoço aveludado, boca pequena, nariz afilado, cintura de pilão, garupa arrebitada, cabelo comprido batendo nos quartos, que seja bem ‘ubrada’, que tenha as coxas grossas e roliças, etc. etc… Amém.

MIGUEL CARPINA: UM MESTRE DO HUMOR

O canindeense Miguel Carpina foi imortalizado nas páginas de ‘SERTÃO ALEGRE’ obra do grande Leonardo Mota, graças a seu bom humor e inteligência invulgar.  A ele são atribuídas inúmeras anedotas que ainda são repetidas com alegria e estardalhaço nas rodas de conversa que se formam nas praças e no mercado público de Canindé.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
ENCONTRO DE GÊNIOS

Biografia de Luiz Gonzaga (cordel ilustrado) será lançada na Feira do Livro de Brasília

O novo livro da dupla Arievaldo Viana – Jô Oliveira, “O Rei do Baião – do Nordeste para o mundo – uma biografia de Luiz Gonzaga” no formato cordel ilustrado, deverá ser lançada no dia 14 abril na Feira do Livro de Brasilia pela editora Planeta Jovem, antecipando as comemorações de seu centenário, que ocorrerá no dia 13 de dezembro de 2012. A equipe da editora está trabalhando arduamente para que o lançamento aconteça dentro do prazo previsto e as primeiras provas gráficas já chegaram às nossas mãos. Na imagem acima, uma das propostas para a capa (ainda não é definitiva). Eis o texto da contracapa:

“Ele nasceu em 1912. E se estivesse vivo em 2012, Luiz Gonzaga completaria 100 anos!  Existem dois nordestes brasileiros: um antes e outro depois do Rei do Baião: em vez de região nordeste, tudo se confundia e o nordeste se fundia com a região norte: “sou do norte”, “esta é comida lá do norte”.

Além de divulgar suas músicas com temas sobre o sertão, o velho Lua apresentou a cultura brasileira para os quatro cantos do país. E ritmos como xote, baião, forró e xaxado, tornaram-se conhecidos e influenciaram outros ritmos, criando novas gerações de cantores e compositores.

Em O Rei do Baião – Do Nordeste para o Mundo, o poeta cearense Arievaldo Viana “cordeliza” a vida de Luiz Gonzaga através de versos que ganham cor e sensibilidade através das gravuras do pernambucano Jô Oliveira.”

* * *

CORDEL DE MARCUS LUCENNA HOMENAGEIA CHICO ANYSIO

Capa: Ciro Fernandes (PB)

Em 2005, durante a comemoração dos 73 anos do humorista Chico Anysio, o poeta potiguar (também cantor e compositor) Marcus Lucenna foi convidado por seu irmão Elano de Paula para fazer uma apresentação musical. Lucenna, é lógico, ficou muito motivado com o convite e aproveitou o ensejo para saudar o mestre com esse belíssimo cordel, que tem a capa do grande xilogravador Ciro Fernandes, paraibano de Uiaruna. Por coincidência (feliz coincidência), Lucenna estava em minha casa e sabia que eu havia lançado um livro intitulado “São Francisco de Canindé na Literatura de Cordel”. Levou, autografado, um exemplar do dito livro, sabendo que Francisco Anysio de Paula, cearense de Maranguape, era devoto (apesar de dizerem que ele era ateu) de São Francisco das Chagas. A verdade é que, durante todo o aniversário, Chico passeou diante das câmeras (amadoras), ora folheando o meu livro, ora com o dito cujo debaixo do braço. Lucenna escreveu um ótimo folheto com sua biografia, cuja capa é do conceituado xilógrafo Ciro Fernandes (prometo postar o folheto mais adiante).

Chico Anysio foi (e ainda é) um dos meus ídolos da infância. Bem antes da famosa “Escolinha do Professor Raimundo” eu já curtia o Chico City (programa que ele fez na Globo nas décadas de 70/80) e os discos que gravou ao lado de Arnaud Rodrigues, que faleceu tragicamente num acidente de barco em Tocantins.

A seguir, alguns trechos do cordel de Marcus Lucenna:

Chico Anysio – O Gênio Brasileiro
(Marcus Lucenna – RJ, 12/04/2003)

Quando nasce no mundo um grande artista
O universo conspira nessa hora
O sol brilha no seio da aurora
E ao se por embeleza nossa vista
Vem pra luz, pro sucesso e pra conquista
Traz os dons de um ser abençoado
Quem nasceu pra viver iluminado
E através do poder da inspiração
Ser parceiro de Deus na criação
E deixar o seu tempo autografado

Chico Anysio nasceu como mais um
Nordestino filho do Ceará
Um bichinho daqueles dacolá
No dia doze de abril de trinta e um
Mas não veio pra ser um ser comum
Trouxe a luz de um farol da humanidade
Um vulcão de gênio e capacidade
Que lá de Maranguape se insurgiu
Ganhou mundo, destaque e explodiu
No Brasil para orgulho da cidade

Num domingo de sol ele nascia
Que é um dia por deus abençoado
E um coro de pássaros pousado
Numa árvore fizeram cantoria
Sua mãe Dona Aidê assim dizia:
“O Chiquinho vai ser muito feliz
Pois canários, golinhas e concriz
Entoaram pra ele os seus cantos
Esse filho meu, não vai pegar quebrantos
E será sempre assim porque deus quis”

(…)

Dona Malga de Paula a companheira
De seu Francisco Anysio nessa hora
Nós saudamos a força da senhora
Que convive com o homem e o artista
A mulher essa grande equilibrista
Do dever, do carinho e do labor
Que no teste da vida com louvor
Já passou desde a mais antiga aurora
A mulher que é sensível, luta e chora
É quem enche o nosso mundo de amor

Findo aqui essa homenagem pequena
Com a minha singela poesia
Pra você Chico Anysio que um dia
Percebeu o “grande na coisa pequena”
Eu sou, o cantador Marcus Lucenna
Sou de ti profundo admirador
Eu tentei decantar o teu valor
E espero que tenha conseguido
E o cordel foi o modo escolhido
Um abraço desse humilde trovador


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
ANTOLOGIA DO CORDEL BRASILEIRO REÚNE ANTIGOS EM NOVOS AUTORES

Desde que passou a despertar o interesse dos estudiosos, a chamada Literatura de Cordel (poesia popular narrativa impressa, na definição do estudioso Manoel Diégues Jr.), tem sido contemplada com a publicação de centenas de estudos e diversas antologias que buscam compreender melhor esse gênero literário tão presente na cultura do Nordeste brasileiro. Apesar disso, o cordel continua cercado por mitos infundados, definições equivocadas e total incompreensão por parte de algumas pessoas dos meios acadêmicos. Alguns (a maioria) torcem o nariz para a chamada poesia popular por considerarem-na uma subliteratura, coisa de pouco ou nenhum valor, de acordo com a definição corrente na maioria dos dicionários.

Cria-se, portanto, a imagem errônea que o cordel para ser “autêntico” tem que ser impresso em papel de baixa qualidade, tem que ter obrigatoriamente a capa em xilogravura e deve ser exposto pendurado em barbantes. Na verdade, o que deve ser levado em conta é o seu estilo inconfundível enquanto gênero textual e também as suas formas fixas, que são métrica, rima e oração. Entenda-se por “oração” que o cordel é essencialmente poesia narrativa (impressa) e consiste na arte de rimar histórias com começo, meio e fim.

O poeta e pesquisador baiano Franklin Maxado, em seu livro “Cordel Televivo – Futuro, presente e passado da Literatura de Cordel”, publicado em 1984 pela Editora Codecri (do Pasquim) trata, num dos capítulos, da “extrema unção” que foi dada ao cordel pela maioria dos pesquisadores na década de 1980 do século passado.  Eis um resumo da opinião de Maxado:

“Muitas universidades já estudam, colecionam, divulgam, editam e ditam influências aos autores da Literatura de Cordel. Também o surto de turistas estrangeiros, preferindo os de capas xilogravadas, cria normas. Em ambos os casos, o folheto é visto como uma coisa exótica. Uma peça de museu que deve ser conservada em sarcófagos, sem ter mais ação. Parado no tempo e espaço, morto e mumificado. E muitos pesquisadores decretam o seu falecimento, encerrados em seus gabinetes e bibliotecas.”

Em 1950, no Sudeste, o cordel foi descoberto como bom negócio e a editora Prelúdio (atual Editora Luzeiro) começou a publicar folhetos no formato 13×18 (um pouco maior que o tradicional), com capas coloridas, em papel de boa qualidade, tornando-se o alvo de críticas veementes de alguns pesquisadores desinformados, embora mantivesse um time de poetas de primeira linha como é o caso de Manoel D’Almeida Filho, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho, Minelvino Francisco, só para citar alguns.  Esses poetas, geralmente, eram ignorados pelos organizadores de antologias de cordel, que levavam em conta não a qualidade do texto, mas a aparência do suporte no qual estava impresso. O escritor baiano Marco Haurélio, um dos grandes expoentes da nova geração de poetas de cordel, pesquisador de renome, com diversos livros publicados, repara essa injustiça com a publicação de “Antologia do Cordel Brasileiro” (Editora Global, 256 páginas).

Ele coligiu os textos de maneira que o resultado mostrasse ao leitor quanto está apurada a literatura de cordel no Brasil, contemplando 15 autores de diferentes gerações. Pela primeira vez, uma antologia do gênero reúne num mesmo volume obras dos pioneiros Leandro Gomes de Barros e José Pacheco, dos geralmente esquecidos (e discriminados) Manoel D’Almeida Filho, Antônio Teodoro dos Santos, Manoel Pereira Sobrinho e Minelvino Francisco Silva e dos novos expoentes do cordel, dentre os quais destacam-se quatro autores cearenses: Rouxinol do Rinaré, Evaristo Geraldo da Silva, Klévisson e Arievaldo Viana. A obra reúne também trabalhos de Pedro Monteiro e do próprio Marco Haurélio, que fecha a relação dos 15 títulos enfeixados com o seu excelente romance “As três folhas da serpente”.

Arievaldo Vianna e Rouxinol do Rinaré

Um dos fatores que levou muitos pesquisadores a decretar a morte do cordel foi um hiato na produção que durou entre 1975 a 1995, período em que morreram grandes expoentes da antiga geração de poetas cordelistas e as principais editoras de folheto do nordeste foram à falência. Disseram mesmo que o gênero “romance” estava extinto e que havia sobrevivido unicamente o folheto-reportagem de oito páginas. O que ninguém previa é que havia uma novíssima geração de poetas em formação, só aguardando o momento de publicar as suas obras, fato que verificou-se a partir da segunda metade da década de 1990. Todos os poetas contemplados nessa antologia, antigos e novos, cultivam o gênero “romance”, com sua narrativa cheia de encantamento, amores impossíveis, reis, princesas, fadas, duendes, gênios e gigantes, que são personagens frequentes da boa Literatura de Cordel.

O livro é totalmente ilustrado com xilogravuras de Erivaldo, um dos nomes mais representativos dessa arte e o responsável por mais de uma centena de ilustrações em livros e folhetos de cordel. No texto de apresentação da obra, os editores asseguram que “essa Antologia do Cordel Brasileiro” sinaliza com clareza a injustiça que seria classificar o cordel como arte a ser resgatada, como se ela tivesse caído em desuso e fosse necessário reabilitá-la”. Convém lembrar que, mesmo nos períodos mais críticos, nomes como José Costa Leite, Antônio Américo de Medeiros, Apolônio Alves e Gonçalo Ferreira da Silva, só para citar alguns, continuaram escrevendo e publicando folhetos regularmente, inclusive romances.

O texto retromencionado conclui, de maneira enfática: “O que este livro aponta é a certeza – com beleza – de sua força inabalável. A criatividade flagrante dos cordéis aqui selecionados indica que o fio que os une ao longo do tempo não corre o risco de se partir e que esse gênero de nossa poesia popular, parafraseando o mestre Lourenço Capiba, é ‘madeira de lei que cupim não rói”.

Títulos e autores que integram a Antologia do Cordel Brasilleiro:

O Soldado jogador, de Leandro Gomes de Barros

História do caçador que foi ao inferno, de José Pacheco

A guerra dos passarinhos, de Manoel D´Almeida Filho

A Sereia do Mar Negro, de Antônio Teodoro dos Santos

Os três irmãos caçadores e o macaco da montanha, de Francisco Sales Arêda

No tempo em que os bichos falavam, de Manoel Pereira Sobrinho

O valente Felisberto e o Reino dos Encantos, de Severino Borges Silva

O feiticeiro do Reino do Monte branco, de Minelvino Francisco Silva

João sem Destino no Reino dos Enforcados, de Antônio Alves da Silva

João Grilo, um presepeiro no palácio, de Pedro Monteiro

O reino da Torre de Ouro, de Rouxinol do Rinaré

O rico preguiçoso e o pobre abestalhado, de Arievaldo Viana

O conde mendigo E a Princesa orgulhosa, de Evaristo Geraldo da Silva

Pedro Malasartes e o urubu adivinhão, de Klévisson Viana

As três folhas da serpente, de Marco Haurélio

Mais informações: Editora Global


 
Poeta Marco Haurélio, organizador da Antologia

Sobre o organizador: Marco Haurélio, poeta popular baiano, professor, folclorista e editor, é um dos nomes de maior destaque na literatura de cordel da atualidade. Ministra oficinas e palestras sobre cordel e cultura popular em todo o Brasil. É autor de vários livros para adultos e crianças. Pela Global Editora, publicou Meus romances de cordel, uma coletânea de suas melhores composições.

Título: ANTOLOGIA DO CORDEL BRASILEIRO
Organização: MARCO HAURÉLIO
Editor: Gustavo Henrique Tuna
Páginas: 256
Preço: R$ 37,00
Público-alvo: Público em geral, sobretudo estudiosos e pesquisadores da cultura popular


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
DUPLO SENTIDO X PORNOGRAFIA

MEU CASAMENTO
(Zenilton)

Seu moço eu inventei de me casar
E fui morar numa casinha bem singela
Minha mobília era uma cama quebrada
Duas panelas furadas, três pratos e uma tigela
A minha noiva ela também é pobrezinha
Ela só tinha uma cabacinha
Eu fui buscar água nela
Veja seu moço, tinha um toco no caminho
Eu tropecei no danadinho
E quebrei a CABAÇA DELA…

Quebrei, quebrei, quebrei a cabaça dela
Quebrei, quebrei, quebrei a cabaça dela.

A grita é geral. Os amantes da boa música não se conformam com o circo de horrores que se tornou a música popular brasileira nos últimos 30 anos. Há que se entender que não se trata necessariamente do gosto “musical” das novas gerações, mas de uma imposição mercadológica capitaneada por uma verdadeira máfia. 90% das rádios, que são concessões públicas, fazem parte desse esquema nojento de só tocar música descartável mediante o velho jabá. Aqui no Nordeste, por exemplo, muitas emissoras são propriedade dos empresários das tais “bandas de forró de plástico”. As músicas de Zenilton, Genival Lacerda e João Gonçalves, consideradas superimorais nas décadas de 1970-80 hoje soam inocentes diante de tanta baixaria.

Na verdade há uma enorme diferença entre DUPLO SENTIDO e PORNOGRAFIA. No duplo sentido, o artista cria uma situação inteligente para dizer as coisas de forma subliminar. A coisa era tão bem feita, que em plena vigência da Censura, no auge do Regime Militar, eles conseguiam dar o seu recado sem passar pela tesoura dos milicos. Até Luiz Gonzaga, tão arraigado à defesa da antiga moral sertaneja, andou se rendendo a tentação e produzindo algo nessa linha como as irreverentes “Ovo de Codorna”, “Capim Novo”, e, já no final da carreira, a impagável “Deixa a tanga voar”.

No pornoforró e no funk, a coisa é mais direta que um coice de mula no testículo esquerdo do tangedor. A cantilena sempre descamba para uma letra chula, ofensiva à mulher, contendo apologia ao sexo sem compromisso e ao consumo excessivo de bebidas. Em suma, um verdadeiro acinte ao bom gosto. O refrão de uma dessas pérolas já diz tudo: “É rapariga! É cabaré! É bagaceira…” No carnaval deste ano, a desgraça “musical” ficou por conta de um tal “Enfinca”, lançada pela banda ‘Aviões do Forró’. Como sou macaco velho e não costumo meter a mão em cumbuca, evitei sair para as praias nesse carnaval, não sintonizei nenhuma rádio, não frequentei bares de periferia, não andei de “topic”, não passei perto de paredões de som e fui poupado desse estupro auditivo. Foi uma amiga minha, jornalista, que narrou estupefata essa aberração musical que tomou conta do litoral cearense (talvez de outros estados) e passou quatro dias martelando os seus ouvidos, para onde quer que ela fosse.

Mas a coisa vem de longe… Para os ardorosos defensores da chamada Velha Guarda, aqueles saudosistas que dizem que a música morreu na década de 1960, é bom destacar essa pérola que fez sucesso no carnaval de 1920, intitulada “Na minha casa não se racha lenha”…

É por estas e outras que eu ainda tenho preferência pelo duplo sentido nordestino. Vejam esta outra de Zenilton, e me digam se não é uma verdadeira aula de História e Geografia:

Mudança Das Capitais

A capital do Equador é Quito
Nunca mudou, é sempre Quito (bis)

Ouro Preto mudou pra Belo Horizonte
Teve mudança em diversas capitais
Rio de janeiro mudou para Brasília
Brasília é no Estado de Goiás
Alagoas mudou pra Maceió
e Maceió é terra dos marechais

A capital do Equador é Quito
Nunca mudou, é sempre Quito (bis)

Oeiras mudou pra Teresina
Paraíba se mudou pra João Pessoa
São Cristóvão se mudou pra Aracaju
Até Coimbra se mudou para Lisboa
Sais e Menfis mudaram para o Cairo
Eu fui ao Cairo e achei a cidade boa

A capital do Equador é Quito
Nunca mudou, é sempre Quito (bis)

A capital do Equador é Quito
Nunca mudou, é sempre Quito (bis)

(repete tudo)

*  *  *

RARIDADE DO MESTRE LEANDRO

Não posso afirmar que o poeta paraibano Leandro Gomes de Barros conhecesse a teoria de Charles Darwin sobre a evolução das espécies. Mas para um homem bem informado como ele, leitor frequente de livros, jornais e revistas, é quase improvável que não soubesse. Cheguei a tal conclusão depois de ler seu curioso poema intitulado “A creação do mundo”, publicado em 1910 no jornal O Rebate, de Juazeiro do Norte-CE. Ainda hoje me surpreende com a sua acuidade mental e as suas ironias bem elaboradas. Leandro foi sobrinho e aluno de um latinista, o padre-mestre Vicente Xavier de Farias( seu tio materno); foi compadre de Chagas Batista, dono de livraria na capital da Parahyba do Norte, foi sogro de Pedro Batista, um homem de letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, e ainda tem quem diga que cordel é coisa de matuto analfabeto.  Bom… Cada qual tire as suas conclusões, após a leitura de uma obra como esta.

A CRIAÇÃO DO MUNDO…

…Na visão do poeta paraibano
Leandro Gomes de Barros (1865-1918)

Fui ver se estudava a forma
Como foi a Criação
Quase pude conseguir
Como ela foi então,
Faltou-me achar a parteira
Que pegou o velho Adão.

Antes de nada existir
Cousa alguma não havia,
Nem céu, nem terra, nem mar,
Nem luz nem ar existia
Mas nos diz a Escritura
Deus sobre as águas vivia.

Aqui faço reticência…
Nada valeu o estudo
Quem for pensar nesse dogma
É capaz de ficar surdo
Porque se existia água
Assim, não faltava tudo.

Porque nos diz a história
Céu e terra não havia
A mesma história confirma
Que Deus nas águas existia
Porém não diz onde eram
As águas onde Deus vivia.

Creio que Deus disse um dia
Vou fazer a Criação
Mas o céu já estava feito
Que era a sua habitação
Deus não morava nas águas
Que não era tubarão.

Deus fez a terra e o mar
Mandou que a terra criasse
O gênero da animália
Que sobre ela pisasse
E o mar criasse peixe
Que em suas ondas nadasse.

Depois que a terra enxugou
Ele fez uma olaria
Fez o diabo e o homem
Sendo Adão da parte fria
E fez o diabo da quente
Que o fogo lhe competia.

Disse o diabo ao Senhor:
– Com isso não vos ataco
Vossa obra até aqui
Deixa-me dando o cavaco
Fizeste a mim e ao homem
Mas ainda falta o macaco.

O Senhor disse ao diabo:
– Não entre nos meus assuntos
‘Tá vexado por macaco?
Espere que faço muitos
Visto você ‘tá vexado
Então o faremos juntos.

E o diabo ali ficou
Que só quem ‘tá com ressaca
Disse mais, entrando ali:
– Aquela obra sai fraca
Pegou a atropelar Deus
Lá fizeram uma macaca.

Deus disse: – Eu não queria
Que tu metesses a mão!
Disse o diabo: – É verdade
Erramos aqui, então…
Chamaram a bichinha Eva
Pôde casar-se com Adão.

Eis a principal história
Porque foi tudo erigido
A mulher veio do macaco
Do barro veio o marido
O que não pensar assim
Saiba que está iludido.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
QUADRAS E GLOSAS INSPIRADAS

Antônio Anastácio Leitão, vulgo “Pintassilva”, foi um o trovador popular que residiu por muitos anos na Fazenda São Pedro, em Canindé. Era natural da Fazenda Trapiá, no mesmo município. Muitas glosas do velho menestrel foram recolhidas pelo Chico Walter, contra-baixista e vocalista da banda “Outros Toques”, um admirador incondicional da cantoria e da cultura popular.

Pouco antes do velho poeta falecer, Chico Walter recebeu das mãos dele um caderno com suas glosas, e retém na memória grande parte desses escritos. Informa-nos ainda, que o senhor Otávio Silva, amigo de “Pintasilva”, foi a um casamento na localidade de Porrote, situada depois do Felão, na zona rural de Canindé, e por lá passou muita fome. O Porrote é um lugarejo distante e de difícil acesso. Como diria o meu primo Flaubert Viana, experiente agrimensor e conhecedor de todos os quadrantes de Canindé: “O Porrote não fica propriamente no inferno, mas dá pra escutar os diabos conversando bem pertinho”.

Pois bem, o Otávio passou fome de cachorro amarrado, porque os noivos foram casar na matriz do Canindé e estavam demorando a voltar. Depois das sete da noite, cansado de tanto esperar, o convidado resolveu voltar pra casa do jeito que foi, ou seja, com fome. No caminho, encontrou com o amigo Pintasilva e relatou seu infortúnio. Pinta transformou o drama do amigo em versos, dos quais pinçamos estas duas estrofes:

“Para um casório de nome
Um dia fui convidado
Para assistir a um noivado
Quase que morro de fome…
Na casa que não se come
Caneco não vai ao pote
Uma surra de chicote
Não paga o mal que eu passei
E nunca mais que eu irei
Casamento no Porrote.

Quando um dia um urubu
Enjeitar carniça quente,
A galinha criar dente,
Criar cabelo em muçu,
Gato enjeitar gabiru,
E cobra enjeitar caçote,
Se acabar pedra em serrote,
Leão deixar de ser rei,
Só nesse dia eu irei
Casamento no Porrote.”

As glosas do “Pintassilva” tem o sabor do cajá silvestre, tira-gosto predileto de quem aprecia uma boa aguardente. A marca registrada do poeta era o bom humor, a irreverência e, sobretudo, o senso de observação sempre distoante da mediocridade. Por ser um poeta matuto, pouco afeito às luzes dos teatros, palco para onde a cantoria migrou desde os tempos dos irmãos Batista (Lourival, Dimas e Otacilio), Pintasilva sempre preferiu as feiras, as latadas e as bodegas, onde deu vazão ao seu estro de poeta autêntico e inspirado.

Agora uma quadra recolhida por Leonardo Mota no balcão de uma bodega, no interior do Rio Grande do Norte, atribuída a Moysés Sesyon (há quem afirme que a produção é de Quintino Cunha). Cansado de vender fiado, o bodegueiro pediu ao poeta que lhe fizesse uma quadrinha capaz de inibir a freguesia velhaca. Eis a pérola:

Para não haver transtorno
Aqui em nosso balcão
Só vendo fiado a corno
Féla-da-puta e ladrão.

Esta outra, meu amigo Geraldo Amâncio assegura haver encontrado servindo de epitáfio na cova de uma sogra, num cemitério do interior do Ceará:

Aqui jaz a minha sogra
Que viveu me enchendo o saco
E a falta do que encher
Veio encher este buraco.

E para finalizar, uma preciosidade recolhida pelo mestre Alberto Porfírio, no seu impagável “Poetas populares e cantadores do Ceará”, de 1978. Num festival de cantoria realizado em Fortaleza e divulgado semanas seguidas na TV, a meta era escolher o maior repentista do Nordeste. Haveria apenas um vencedor e não uma dupla, como é comum hoje em dia. Depois de vencer diversas eliminatórias, contando mais com a sorte que o talento, o cantador Luiz Pereira Naum sagrou-se campeão e ficou “cheio de pernas”, como se diz por aqui. Dias depois, cantando com Geraldo Alencar, um dos poetas derrotados no concurso, Naum resolve fazer um auto-elogio de modo jactancioso:

“Fui eu quem ganhou a taça
Sou o campeão do Norte!”

Geraldo Alencar, bom repentista, resolveu vingar-se do colega com essa estrofe magnífica:

“Você teve muita sorte
Em ir a televisão
Cantou ruim, foi mal julgado
Trouxe a taça e um milhão
Onde tem juiz cavalo
Qualquer burro é campeão!”


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
MORREU MARIA PREÁ

Eis uma expressão muito popular em todo o Nordeste, sobretudo aqui no Ceará, mas poucos sabem a sua verdadeira origem. Existem explicações fantasiosas para o adágio mas até hoje a que mais me convenceu foi a versão fornecida pelo saudoso Marcos Belmino, o “Ponhonhón” que foi meu diretor na extinta TV Manchete, onde fazíamos um programa apresentado pelo Ênio Carlos.

Contava o Belmino que em certa cidadezinha do interior cearense, ali pros lados da Região Jaguaribana, havia um virtuoso sacerdote que acabou caindo em tentação devido os atributos generosos de uma viúva chamada Maria Preá. O romance era mantido sigilosamente até o dia em que o xereta do sacristão os flagrou em pleno delito, num dos cômodos da Casa Paroquial. Chantagista por natureza, o inescrupuloso auxiliar do vigário passou a atormentá-lo a partir desse dia, usando como arma o seu cabeludo segredo. Por qualquer coisa o ganancioso sacristão exigia dinheiro do vigário, ameaçando dar com a língua nos dentes a respeito da Maria Preá.

Um certo dia, o padre resolveu ir à igreja em horário pouco habitual, logo após o meio-dia, procurar um objeto que havia esquecido na sacristia. Geralmente ele aproveitava o começo da tarde para uma merecida sesta, coisa que era do conhecimento do sacristão.

Ao entrar na sacristia qual não foi o seu espanto ao constatar que o seu auxiliar estava profanando aquele recinto sagrado, no maior chamego com um garotão. Diante da cena patética, vendo o dito cujo de quatro, sendo enrabado pelo outro, um lampejo de alegria brilhou na cabeça do vigário que, abrindo os braços de felicidade exclamou:

- A partir de hoje, ‘morreu’ Maria Preá!

O sacristão, é lógico, deu-se por vencido e a situação só não se inverteu porque o padre não era vingativo nem afeito a chantagens.

* * *

DOIS COICES DE BACORINHO

Bacorinho, como todos sabem, é a maneira como o filhote do porco é chamado aqui no Nordeste. A primeira historinha aconteceu com uma velha rezadeira que conheci no interior de Quixeramobim… Ela criava um porquinho para vender e sabendo que um marchante estava de passagem pelo local foi procurá-lo para oferecer o dito animal.

- Quando custa o seu porco, dona Maria?

- Eu estou pedindo 50 para deixar por 45, disse a velhota, antes mesmo do homem pedir um abatimento no valor.  Era um bicho magro, atrofiado, feio de causar dó. Ao ver o porquinho o marchante retrucou:

- Mas seu bacorinho é muito pequeno, dona Maria!

- É pequeno mas é velho!!! Disse ela, encerrando a questão.

* * *

Vamos à segunda. Numa campanha eleitoral que presenciei no município de Itatira-CE, aí pelos idos de 1988, disputavam a prefeitura os candidatos Pedro Guerra e Afonso Machado. Eleição das mais acirradas, as preferências foram se dividindo, vizinhos se intrigavam por causa de seus candidatos, mulheres arengavam no meio da rua. Até morte houve, por causa de discussões motivadas pela política.

Os eleitores mais fanáticos não perdiam oportunidade de expor publicamente o nome de seu candidato preferido, embora alguns mais espertos usassem de uma estratégia maquiavélica. Permitiam que determinado candidato pintassem sua logomarca nas paredes de sua casa, mediante o pagamento de uma certa quantia, mas mantinham uma foto do adversário num quatro, acima da cama ou do oratório e quando este vinha lhe fazer uma visita faziam questão de mostrar o retrato posto em local tão privilegiado.

Certa feita, voltávamos de um comício na carroceria de uma caminhonete, quando um bacorinho saiu alvoroçado do quintal de uma residência e atravessou a estrada, faltando apenas alguns centímetros para morrer atropelado sob as rodas do veículo. O motorista, atento à cena, freou bruscamente evitando a morte do porquinho, mas provocou um tumulto na carroceria do carro, com os passageiros pegos de surpresa, caindo uns por cima dos outros. No exato momento da freada, o espirituoso motorista gritou:

- Sai do meio, Afonso Machado! Numa clara ofensa ao candidato adversário. O dono do bacorinho, que por sinal vinha na mesma carrada, saiu em defesa do seu animal:

- Home, respeite meu porquinho, num compare o bichim com aquela praga não!


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
JOSÉ DE ALENCAR EM CORDEL

 

José Martiniano de Alencar (Messejana, maio/1829 — Rio de Janeiro, dezembro/1877)

A escritora, artista gráfica e editora cearense Arlene Holanda, premiadíssima em diversos certames literários, realiza mais um projeto coletivo envolvendo ilustradores e poetas de cordel. Trata-se da adaptação de oito romances do escritor cearense José de Alencar para a arte de Leandro Gomes de Barros. Oito poetas populares, inclusive a própria Arlene, trabalham nessas adaptações que serão publicadas pela editora cearense Armazém da Cultura. Convidado a fazer parte do projeto, eu escolhi “O Tronco do Ipê”, obra que conheço desde a infância, de enredo muito apropriado para um bom romance de cordel, com suspense, traição, amor, sofrimento e perdão.

O Tronco do Ipê foi publicado em 1871 e logo ganhou novas reedições, graças à sua aceitação. A história acontece em uma fazenda cujo o nome é Nossa Senhora do Boqueirão. O projeto inicial da editora previa que cada cordel deveria ter, no máximo, 100 estrofes em sextilhas ou setilhas. Tendo eu optado pelas setilhas e, para não prejudicar o encadeamento da história, tive que extrapolar o número de estrofes, chegando a 130. Vejam a seguir, alguns trechos da adaptação:

Quando as musas do Parnaso
Resolvem me visitar
Eu escolho um bom romance
E me ponho a folhear…
Como este que se lê
O livro “O TRONCO DO IPÊ”
De José de Alencar.

Mergulhando na leitura
Nas profundezas do sonho
As musas vão me guiando
E a nada disso me oponho
Tudo que vou lendo em prosa
Eu transformo em rima e glosa
E para o “CORDEL” transponho.

Foi no século dezenove
No tempo da escravidão
Na região fluminense
Ali viveu um barão…
De belas terras se apossa
Sua fazenda era Nossa
Senhora do Boqueirão.

Tinha uma filha somente
Um anjo louro e mimoso
Alice era o seu nome
Tinha o sorriso bondoso
No verdor de sua infância
Dava maior relevância
Ao cenário majestoso.

Ali vivia um garoto
Pelo barão adotado
Seu pai fora muito rico
Porém morrera arruinado
A sua mãe adorada
Era como uma agregada
Isso o tornou revoltado.

Mário, o menino falado,
Brincava em companhia
De Alice e uma amiga
Mil travessuras fazia,
Porém, quando se zangava
A menina destratava
Com desprezo e ironia.

Apesar de tudo isso
Alice não se importava
Porque desde pequenina
Ao Mário ela estimava
Com carinho e paciência
Na flor de sua inocência
Não sabia que o amava.

Mário tinha treze anos
Já era um adolescente
Alice era mais jovem
E tinha onze, somente,
Era feliz e risonha
Na quadra que a gente sonha
Do jeito mais inocente.

Numa belíssima manhã
Saíram os três animados
Por um pajem e mucamas
Muito bem acompanhados
Visitar “Pai Benedito”
Num sítio um tanto esquisito
De mistérios insondados.

(…)

O projeto ALENCAR NAS RIMAS DO CORDEL visa editar oito livros com adaptações em cordel de romances do escritor cearense José de Alencar (1829-1877), selecionados entre os títulos mais relevantes de sua produção literária. Levando em conta a diversidade de temáticas, foram escolhidos três romances indianistas, três urbanos/de costumes e dois regionalistas.

O projeto foi vencedor do EDITAL MECENAS II da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará;

Títulos da coleção/adaptado por:

LIVRO 1 – Iracema – Stélio Torquato
LIVRO 2 – O Guarani – Klevisson Viana
LIVRO 3 – Ubirajara – Godofredo
LIVRO 4 – Lucíola – Marco Haurélio
LIVRO 5 – A viuvinha – Rouxinol do Rinaré
LIVRO 6 – Senhora – Josenir Lacerda
LIVRO 7 – O sertanejo – Evaristo Geraldo
LIVRO 8 – O tronco do ipê – Arievaldo Viana


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
A GUERRA DE CANUDOS NA LITERATURA DE CORDEL

JOÃO MELCHIADES E A GUERRA DE CANUDOS

A visão do poeta João Melchíades Ferreira da Silva, um dos pioneiros da Literatura de Cordel, sobre a Guerra de Canudos não poderia ser outra. Ele era militar, membro do Exército Brasileiro e ex-combatente de Canudos. Também lutou no Acre, durante a questão que envolveu o Brasil e a Bolívia, em 1903. Em 1905 foi reformado como Sargento e passou a dedicar-se à cantoria e à Literatura de Cordel até 1933, ano de sua morte.

Como militar, é natural que assumisse a defesa da República, contra a ideologia pregada e praticada por Conselheiro e seus adeptos. Diferentemente de Euclides da Cunha, ele não viu nenhum mérito naquele grupo de valentes sertanejos que se insurgiu (e venceu, em algumas ocasiões) o Exército brasileiro. Eis alguns trechos do poema, possivelmente o primeiro escrito sobre a tragédia que abalou os sertões da Bahia:

A GUERRA DE CANUDOS*

No ano noventa e seis
o Exército brasileiro
Achou-se então comandado
Pelo general guerreiro
De nome Arthur Oscar
Contra um chefe cangaceiro.

Ergueu-se contra a República
O bandido mais cruel
Iludindo um grande povo
Com a doutrina infiel
Seu nome era Antônio
Vicente Mendes Maciel.

De alpercatas, um cajado
Armado de valentia
Seu pensamento era o crime
Outra coisa não queria
Agradou-se de Canudos
Que é sertão da Bahia.

E para iludir ao povo
Ignorante do sertão
Inventou fazer milagres
Dizia em seu sermão
Que virava a água em leite
Convertia pedra em pão.

Criou-se logo em Canudos
Um batalhão quadrilheiro
Para exercitar os crimes
Desse chefe canganceiro
Então lhe deram tres nomes
De Bom Jesus Conselheiro.

(…)

Um dos momentos mais brilhantes da narrativa, onde Melchíades se vê forçado a reconhecer a bravura dos conselheiristas, trata-se justamente do momento da fuga desesperada do General Tamarindo:

No Angico, Tamarindo
Terminou sua partida
Foi varado de uma bala
Dizendo: ” – Pela ferida,
Dou quatro contos de réis
A quem salvar minha vida!”

Senhor Major Cunha Matos
Tome conta da brigada
Sustenta o fogo de costas
Com a mesma retirada
E não me deixe morrer
Nas mãos dessa jagunçada.

Escapa, escapa soldado,
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra.

* A íntegra do poema pode ser encontrada na Antologia da Literatura de Cordel, de Sebastião Nunes Batista, publicada em 1977 pela Fundação José Augusto, de Natal-RN. Acreditamos que o mesmo tenha sido publicado na Popular Editora, de Chagas Batista, depois que Melchíades foi reformado do Exército e passou a se dedicar ao cordel e à cantoria.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CHIFRE E MACHISMO, A INFIDELIDADE NO CORDEL (PARTE 2)

Na coluna de hoje, publicamos o restante do poema O Verdadeiro ABC dos cornos, de Zé da Galha e trechos do impagável folheto “Porque faz medo casar”, de Alceu Cabral de Vasconcelos, concluindo a postagem iniciada em 03 de janeiro de 2012.

Confiram:

(F) -  Feliz da vida é o corno
Que puxa, encolhe e repuxa
Teima e  não larga a traíra
Finca o pé e estrebucha
Dizendo para os vizinhos
Eu não largo os meus baixinhos
Eis aí o corno Xuxa

(G) – Galheiro é o chifrudo
Que além de corno é tapado
Além de tapado é lerdo
Além de lerdo, abestado
Corno assim não tem mister
Pra se vingar da mulher
Se transforma num veado

(H) – Homem que é homem não chora
Diz o dito popular
Porém se levar um chifre
Não pode se controlar
A lágrima teima em correr
E não tendo o que fazer
O seu remédio é chorar

(I) – Interesseiro é o corno
Que só pensa no cifrão
Libera a sua mulher
Pra passear com o patrão
Pensando no cheque ouro
Ganha peruca de touro
Porém ganha o seu tostão.

(J) – Juramentado é o corno
Cujo  destino é traçado
Antes mesmo de casar
Quando inda é namorado
Antes, durante e depois
Três chifres ao invés de dois
Este é o corno pré-datado.

(L) – Lamenta o corno chorão
Que a mulher o deixou só:
“ – Só resta um fio de cabelo
Grudado no paletó”
Vive a dita namorando
E o coitado escutando
Chitãozinho e Chororó.

(M) -  Mulher também leva chifre
Mas ninguém lhe discrimina
Pois nesse mundo machista
O homem é quem domina
E paga o preço da fama
Porque se for ruim de cama
O chifre lhe contamina.

(N) – Narram os livros de história
Casos de chifre em seu texto
Até Euclides da Cunha
Se insere no contexto
Com dois chifres bem vistosos
E dentre os cornos famosos
Citam também Dom João Sexto

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CENTENÁRIO DE MANOEL BARBOSA LIMA, MEU “AVÔHAI”

Manoel Lima

Zé Ramalho assegura que compôs a canção “Avôhai” em homenagem ao seu avô, responsável por sua criação desde os dois anos de idade, quando perdeu o pai, boêmio e seresteiro, que morrera afogado num açude. O velho José Ramalho foi então, a partir daí, avô e pai para o pequeno órfão, pois a mãe entrara em depressão devido a morte do marido. Felizmente eu não precisei perder meu pai biológico para ter uma relação semelhante com meu avô paterno, Manoel Barbosa Lima, nascido aos 14 de janeiro de 1912 na fazenda Campo Grande, no município cearense de Quixeramobim. Se vivo fosse, meu velho estaria completando um centenário.

Mesmo querendo fugir dos clichês é inevitável dizer que foi um modelo de homem simples, trabalhador, extremamente honesto e correto em seus negócios. Quando me entendi por gente ele tinha um próspero comércio – uma bodega sertaneja – com balança de pratos e fiteiro no balcão, onde vendia gêneros alimentícios, bebidas, tecidos, papelaria e miudezas em geral. Naquele tempo distante, início da década de 1970, o vi acordar algumas vezes no meio da noite para vender um pedaço de pano para fazer mortalha para um “anjinho”, pois naquele tempo a mortalidade infantil era aterradora. De cada dez crianças nascidas, duas ou três não chegavam a completar o primeiro mês de vida.

Trabalhador incansável desde a infância, Manoel Lima ficou órfão na adolescência, primeiro de mãe (que morreu de parto de um de seus muitos irmãos) e depois de pai, que morreu de um ataque cardíaco fulminante aos cinqüenta anos de idade. O irmão mais velho já era casado. Coube a ele, com apenas 14 anos, a guarda e o sustento das irmãs e de seus manos menores (Paulo, Antônio, Raimundo, Sebastião e outros que não lembro o nome). Empregou-se na construção de açudes, mas uma febre terrível quase lhe ceifa a vida antes de completar 20 anos. Uma irmã fez promessa para que ele sobrevivesse, oferecendo a sua própria vida em troca da dele, que era pés, braços e arrimo de família. Essa moça realmente morreu na flor da idade e na mesma semana em que ela expirou ele levantou-se do seu leito depois de quase um mês alheio do mundo. Todas as vezes que íamos a Canindé ou Quixeramobim, meu avô passava na sacristia da paróquia e encomendava missas para os seus pais e para os irmãos já falecidos, em especial para essa jovem que numa prova extrema de amor fizera a tal promessa para salvar a sua vida.

Admirador da cantoria e das canções de Luiz Gonzaga – que também fará centenário este ano – vovô era meio desentoado. Gostava de cantarolar umas coisas – velhas quadrinhas que aprendera na infância – num tom quase inaudível. Tinha pudor de soltar a voz, pois sabia que o canto não era o seu forte. Já meu pai, Evaldo de Sousa Lima, cantava bem e gostava de decorar romances de cordel, cantigas de Jackson do Pandeiro e canções de viola para solfejá-las na labuta diária, ora botando água em lombo de jumentos, ora cuidando do gado de leite e também de um roçado, pois até 1980 viveu unicamente da agricultura, até se estabelecer em Canindé e dedicar-se ao comércio.

Já próximo de completar 25 anos de idade, Manoel ainda não procurara uma companheira pois ainda não se libertara da tarefa de criar e educar os irmãos menores. Mas um dia, indo a uma missa em São José da Macaóca, acompanhou um grupo de moças onde destacava-se uma pela alvura de sua pele, pelo azul cristalino dos olhos e pelos cabelos castanhos, quase alourados. Era moça fina, filha de pais arranjados, pertencente a uma classe social mais elevada que a sua. Ora, ele pobre órfão que era, possuía de seu apenas um cavalinho de sela, artefato este já bem surrado, que serviu de chacota para os irmãos de sua pretendida. Além do mais a moça já estudara na cidade e ele, ainda analfabeto, não tivera tempo nem oportunidade de estudar… Quando foi visitá-la pela primeira vez, não quis retirar o coxim de cima da sela justamente para não expor seu estado lastimável. Os futuros cunhados, por maldade, foram lá e pediram o tal coxim para guardar, sem disfarçar o riso de mofa em seus rostos.

Mas Manoel era homem sobrando e não se deixava abater ante as dificuldades que apareciam. Aprendera, desde muito cedo, que a vida é dura para quem é mole. Levou o namoro adiante, mesmo com a desaprovação dos cunhados que exerciam forte influência sobre o pai da moça. Alzira de Sousa Viana, sua eleita, também se encantara pelo rapaz, que apesar de pobre e analfabeto, era bonito, trabalhador e tinha modos cavalheiros (quando queria, era um verdadeiro “gentleman”, mas quando estava afobado, parecia uma abelha assanhada).

Resolveu pedir a moça em casamento e diante da sua franqueza o velho Fitico (Francisco de Assis de Sousa), pai de Alzira, ficou acanhado em negar a sua mão. Disse que faria o casamento. Assim que meu avô deu as costas, os irmãos da moça caíram em cima do velho reprovando o seu ato e dizendo que a irmã jamais casaria com aquele rapaz. Pressionado, o velho Fitico fez uma carta para o rapaz e mandou um portador alcançá-lo antes mesmo de chegar à casa de seu tio e padrinho Bené Barbosa, também um homem de alguma posse e muito brio, diga-se de passagem. O velho Bené leu a carta e ficou indignado com a atitude covarde dos familiares da moça. Disse ao sobrinho e afilhado que a esquecesse e procurasse outra jovem para casar. Manoel ouviu tudo calado e, secretamente, mandou perguntar a moça se ela concordaria em fugir. Dito e feito! Não deu outra… Numa noite de lua clara apareceu no oitão da velha casa da fazenda Castro e raptou sua amada. Antes havia combinado com um primo da mesma, o fazendeiro Raimundo Chagas, de deixá-la em sua guarda enquanto corria a papelada do casamento. Raimundo Chagas, homem rico da Várzea Grande, já casado e pai de família, foi a partir daquela data um dos grandes amigos de meu avô.

E casaram mesmo, na matriz de Canindé, aí pelos idos de 1937. Em 1938 nasceu o José Oswaldo, o filho primogênito e depois dele mais dez. Ao todo, nove se criaram e dois faleceram ainda crianças. Alzira fora deserdada pela família (dona de muito gado e terras) e não possuía sequer uma vaca para dar leite aos filhos. Seu gado fora confiscado, em represália a sua fuga. Meu avô não gostava de relembrar essa história e até reclamava com minha avó quando ela fazia qualquer referência a esse período de suas vidas. Fazia isso para não magoar os familiares dela e também para não manchar a memória de seu pai, de quem se tornou amigo. Uma de suas raras vaidades, se é que isso pode ser considerado “vaidade”, era dizer que o pouco que possuía ganhara trabalhando, à custa de muito esforço e suor.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CHIFRE E MACHISMO

A infidelidade no Cordel

Um tema que sempre teve largo espaço na Literatura de Cordel é a infidelidade feminina, a popular “cornagem”. Para a sociedade machista, a infidelidade do homem é tolerada e até incentivada, enquanto a da mulher é vista com censura, além de tornar o marido “corneado” alvo de chacota.

Apesar dos alardeados avanços da tal globalização, Lei Maria da Penha e outros mecanismos de combate ao preconceito o ranço do machismo ainda não desapareceu de nossa cultura inclusive entre as mulheres, que, em alguns casos, chegam a ser mais machistas que os próprios homens. Vejam esse engraçado exemplo de machismo, extraído de A intriga do Cachorro com o Gato, do grande José Pacheco, escrito em 1937, um folheto que mistura elementos da fábula com o gracejo. A cena se desenrola na bodega do Gato, no exato momento em que este, esquecendo seus deveres de comerciante, embriaga-se na companhia do Cachorro:

“Embebedaram-se ambos,
garrafas, secaram três.
Cachorro fez um discurso
Falando idioma inglês,
Gato embolava no chão
Discursando em francês.

A Gata, mulher do Gato,
Saiu do quarto, veio cá,
E disse muito agastada:
- Vocês dois procedem ‘má’
O Gato disse: – Mulher,
Da porta do meio pra lá!

Chifre nunca sai de moda. Daí é que surgem títulos como O verdadeiro ABC dos Cornos, Viagem ao País de São Cornélio, Porque faz medo casar e muitos outros. Só o poeta José Costa Leite, de Condado-PE, deve ter uma meia centena de folhetos com essa temática.  Um caso ilustrativo é o já citado Viagem ao País de São Cornélio, uma sátira ao clássico de Manoel Camilo dos Santos, o imortal Viagem ao País de São Saruê, escrito pelo espírito de Antenor Galhudo, psicografado por Klévisson e Arievaldo Viana. Vejamos algumas estrofes:

“Doutor H. Romeu Pinto
Me disse: – Antenor, você,
Viaje pra São Cornélio
Para poder conhecer
Maravilha de país
Que nesse mundo se vê.

Desde pequeno e sambudo
Eu sempre ouvia falar
Nessa país São Cornélio
Me danei a viajar
Para poder conferir
As belezas do lugar.

De bagagem preparada
Dia de São Nunca à tarde
Esperei a condução
Sem fazer nenhum alarde
Para entrar no cata-corno
A cabeça ainda arde…

Porque o chifre enganchou
Na porta da condução
O motorista, outro corno,
Soltou o freio de mão
E saiu me arrastando
No meio do quarteirão.

O carro seguiu adiante
Sempre seguindo viagem
Passamos em Pé-de-pano
Um lugar bem fuleiragem
Ao chegar em Cornolândia
Tomei banho na barragem.

Passamos Sítio Galheiro
Pertinho de Corno Manso
Na Ponte da Traição
Vimos bonito remanso
No lugar Costura-Fora
Pertinho de Enforca-Ganso.

Adiante uma metrópole
Como nunca vi igual,
Toda enfeitada de chifres
Ia ter show no local
De Waldick Soriano
Bem na praça principal.

Num letreiro de néon
Vi mensagem verdadeira:
‘Prefeito, só quatro anos,
e corno é pra vida inteira,
Welcome to Saint Cornell,
Uma terra de primeira!’

Uma grande cornucópia
Bem na praça principal
Mostrava toda abundância
Dos produtos do local
De maxixe e graviola
Eu enchi o meu bornal.

O rei lá de São Cornélio
Até que me tratou bem,
Disse: – Aqui o rei é corno,
Quem chega é corno também!
E se gritar: – Pega o corno!
Aqui não fica ninguém…

O boi lá é tal na Índia,
É um animal sagrado,
Ali naquelas paragens
Todo mundo é ‘Rei do Gado’
Só não é sagrado o bode
Porque é bicho safado.

Por lá, nem cavalo escapa,
Tudo lá tem primazia,
Lá se cria o unicórnio
Que vem da mitologia
É um cavalo chifrudo
Com beleza e simpatia.

Lá quem paga toda conta
É o pobre do Ricardão,
Corno vive é pra gozar
De prazer e diversão,
E o pobre do Ricardo
É só quem perde a questão.

Lá eu vi uma estátua
Do grande Bartô Galeno
Outra de Genival Santos
Chifrudo e fazendo aceno,
Porque lá não faz sucesso
Cantor do chifre pequeno.

Roberto Carlos por ser
Um chifrudo elitizado
No país de São Cornélio
Coitadinho, é desprezado,
Lá, o Rei da Juventude
É o Raimundo Soldado.

(…)

 

O Verdadeiro ABC dos cornos, de Zé da Galha, também é muito interessante:

Corri o dicionário
Descambei pela gramática
Procurando inspiração
Sem jamais mudar de tática
Desprezando tema morno
Resolvi falar de corno
Embora não tenha prática.

E vendo que o alfabeto
Possui vinte três sinais
Afora pontos e vírgulas
Das classes gramaticais
Descrevo para você
Neste singelo ABC
Os problemas conjugais:

(A) – A pior coisa do mundo
É amar sem ser amado
Diz Waldick Soriano
Compositor Inspirado
Ouvindo este seu lamento
Compreendi o sofrimento
De um corno apaixonado

(B) – Bebendo de bar em bar
Cana, conhaque e cerveja
Com duas galhas no crânio
É dura a sua peleja
Foi traído por seu bem
São Cornélio diz amém
Os anjos dizem: Assim seja!

(C) -  Corno é marca registrada
Um verdadeiro estropício
Ainda assim vê vantagem
Em ser corno e ter um vício
Diz em meio aos desenganos
Prefeito é só quatro anos
Corno é cargo vitalício!

(D) – Demora a chegar em casa
Fazendo cera no bar
Enquanto o negão faz festa
Dentro do seu próprio lar
Este é o corno abelha
Merece um puxão de orelha
Pra poder se rebelar…

(E) – E o que bota a mão no fogo
Dizendo: – Eu não me enrasco,
A mulher ficou em casa,
Fui ver o jogo do Vasco!
São Cornélio o consagrou
E um amigo o batizou
De corno manso churrasco.

Façamos aqui uma pausa para não tornar o assunto maçante. Na próxima semana, publicaremos a segunda parte desse texto, com mais algumas estrofes de “O verdadeiro ABC dos cornos”.

(In “MALA DA COBRA – ALMANAQUE DA MOLECAGEM”, livro inédito de Arievaldo  Viana)


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
ACORDA CORDEL EM BOA VIAGEM, CEARÁ

A convite do prefeito Fernando Assef e da Secretária de Educação e Cultura professora Lucirene Castelo Branco realizamos oficina de capacitação do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula para 40 professores da rede municipal de ensino no município de Boa Viagem-CE. O aproveitamento foi espetacular. Apesar da curta duração (apenas 8 horas/aula), conseguimos transmitir um pouco da história da literatura de cordel, suas regras básicas, sua influencia nas outras artes (música, cinema, teatro etc) e ainda produzimos um folheto coletivo contando a história do município de Boa Viagem desde a sua fundação até os dias atuais.

UMA CIDADE QUE NASCEU DE UM ROMANCE

Boa Viagem começou de uma grande história de amor… Em meados do século XVIII, o casal Domingues e Agostinha, como no famoso “Romance de Mariquinha e José de Sousa Leão”, teve de fugir para se casar. Levavam em sua companhia apenas uma escrava, ama de leite de Agostinha e eram perseguidos tenazmente por um grupo de jagunços que estava sob o comando do pai da moça. Num dado momento, Domingues teve que deixar a noiva e a criada num local que julgava seguro para ir até certa cidade (uns afirmam que foi Recife, mas é improvável, devido a distância e os meios de transporte da época) para buscar uns documentos a fim de realizar o matrimônio. Quando retornou ao esconderijo, Agostinha estava faminta e assustada e a pobre escrava havia sido devorada por uma onça perigosa.

NOVA FUGA E A PROMESSA REDENTORA

Fugiram mais uma vez, perseguidos pelo grupo de cangaceiros, até que o cavalo em que viajavam cansou e morreu na beira de uma lagoa… Segundo os historiadores, essa lagoa situava-se no lugar onde hoje encontra-se erguida a igreja matriz de Boa Viagem. A construção da referida capela foi uma promessa de Domingues e Agostinha com Nossa Senhora da Boa Viagem. Foram atendidos, pois uma febre começou a dizimar o grupo perseguidor que acabou desistindo da perseguição. Os detalhes dessa história fantástica estão minuciosamente descritos no folheto coletivo produzido na oficina.

Todos os participantes da oficina receberam um kit contendo o livro ACORDA CORDEL, o CD com 10 faixas (tiragem feita especialmente para esse evento) e caixa com 12 folhetos de vários autores. Fizemos a leitura coletiva do folheto “A intriga do cachorro com o gato” e explicamos a diferença entre CORDEL e POESIA MATUTA. Os professores se encantaram com a declamação do poema “EU E MARIA” do poeta Geraldo Amâncio, que coincidentemente nos ligou no momento da oficina dizendo que estava assistindo entrevista de Arievaldo Viana na TV Cultura.

Dentre os professores participantes, destaque para o poeta Toinho, já traquejado na arte do verso, autor de estrofes como esta que veremos a seguir:

“Se eu fosse o presidente
Deste país tropical
Eu baixaria um decreto
De valor fenomenal
4 dias de quaresma
40 de carnaval.”

Segundo Toinho, o vigário é que não gostou muito da idéia…

INTERESSADOS EM CONTRATAR UMA OFICINA DO PROJETO ACORDA CORDEL devem entrar em contato conosco através do e-mail: acordacordel@ig.com


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
BIBLIOTECA NACIONAL FAZ CAMPANHA PARA ARRECADAR FOLHETOS DE CORDEL

A Revista de História da Biblioteca Nacional nº 75, de dezembro de 2011, traz anúncio de página inteira divulgando a campanha “Cordel na Biblioteca Nacional” em prol do depósito legal de folhetos e outras publicações relacionadas com o gênero. Infelizmente, a visão que se tem da poesia popular nesses meios ainda é muito distorcida. Ou seja, continuam confundindo literatura de cordel com poesia matuta. Pelo menos é o que se deduz desse trecho do anúncio:

“Por isso, meu sinhô, faça-nos um favor.
Mande para cá a sua literatura de cordel.
Assim sua história não se perde ao léu”

Teria sido bem melhor se a Revista de História tivesse pedido a produção desse texto a um cordelista – Mestre Azulão, Gonçalo Ferreira e outros expoentes moram no Rio de Janeiro e com certeza fariam coisa bem melhor… Entretanto temos que admitir que a iniciativa é louvável, embora o poeta popular já venha buscando essa aproximação com a BN desde os tempos de Manoel Camilo dos Santos e Manoel D’Almeida Filho. Camilo, por exemplo, registrou todos os seus escritos na Biblioteca Nacional a fim de evitar plágios e inibir a pirataria de sua obra.

Os trabalhos devem ser enviados para o seguinte endereço: FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL – DEPÓSITO LEGAL – Avenida Rio Branco, 219 – Centro – Rio de Janeiro (21) 2220-1899 / 2220-1892 / ddl@bn.br

* * *

LANÇAMENTO DE “O JUMENTO MELINDROSO” NESTA QUINTA, 22/12

 

Finalmente o ‘Jumento Melindroso’ saiu na tão esperada versão livro infanto-juvenil, com o patrocínio da Fundação Sintaf e apoio cultural da AAFEC e do SINTAF-CE. O lançamento será no dia 22 de dezembro, durante o NATAL DOS FAZENDÁRIOS, no Círculo Militar de Fortaleza. A história, ambientada no final do século XIX, quando ainda governava o imperador D. Pedro II, é ambientada no Sertão Central do Ceará e fala de um astucioso jumento que afronta os saberes acadêmicos de dois renomados cientistas europeus.

O livro saiu com o selo editorial da PREMIUS EDITORA, de Fortaleza, com tiragem inicial de 2 mil exemplares. Texto e ilustrações do autor, que contou com a colaboração de EDUARDO AZEVEDO na composição de algumas cenas.

Breve nas melhores livrarias de Fortaleza.

Pedidos para: acordacordel@ig.com.br

DESCONTOS ESPECIAIS PARA ESCOLAS QUE QUEIRAM ADOTAR A OBRA COMO LIVRO PARADIDÁTICO.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
TREZE DE DEZEMBRO, A CANÇÃO

Começam hoje (oficialmente) em todo o país, especialmente no Nordeste, as comemorações alusivas ao centenário de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, a voz mais expressiva da música nordestina e uma das principais matrizes criativas da MPB.

Em 05 de fevereiro 1953 no auge de sua parceria com Zedantas, Luiz Gonzaga volta a gravar uma música instrumental, coisa que vinha abandonando aos poucos desde que começara a fazer sucesso como cantor. No lado “A” do bolachão de cera estava o sucesso “Xote das meninas” e no lado “B” a bela composição instrumental. Trata-se do chorinho “Treze de dezembro”, referência explícita à data de seu nascimento, gravação de insuperável beleza, lançada em maio do mesmo ano (80-1108-B, matriz BE3VB-0008). A composição nascera um ano antes, quando Gonzaga completara 40 anos e o amigo Zedantas surgiu com o tema quase pronto… Digo “quase” porque faltava a música receber o toque mágico, a roupagem tecida pela sanfona do mestre “Lua’, que prova de maneira incontestável ser um grande instrumentista nessa ótima gravação.

Muito tempo depois, numa singela homenagem ao mestre, o compositor baiano Gilberto Gil resolveu colocar uma letra na canção que acabou sendo gravada por Elba Ramalho num de seus melhores discos, o CD “Leão do Norte”, de 1996.

Elba Ramalho

TREZE DE DEZEMBRO

Melodia de Luiz Gonzaga e Zedantas
Letra de Gilberto Gil
Gravação de Elba Ramalho no CD Leão do Norte

Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze de dezembro
Nasceu nosso rei
O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei jamais.

* * *

No site Forró em Vinil esta gravação de Elba encontra-se disponível


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
PELEJA DE PINTO E MILANÊS, UM CLÁSSICO DO CORDEL

Severino Milanês da Silva

Um dos poetas que eu mais lia e gostava na minha infância era Severino Milanês da Silva. Li a sua célebre peleja com Severino Pinto (totalmente escrita por Milanês), li “O príncipe do Barro Branco“, “Romance das 3 princesas encantadas“, “O príncipe Guidon e o Cisne Branco“, enfim, sempre fui admirador desse vate sertanejo pela riqueza de imagens que utiliza na descrição dos cenários e dos personagens.

Severino Pinto foi um grande repentista, mas não escreveu cordel. Aliás, segundo as pessoas que o conheceram, dizem que ele mal sabia assinar o nome. Jamais escreveu coisa alguma, pois era um amante do improviso. Alguns apologistas dos improviso costumam enaltecer as qualidades do repentista em detrimento do poeta de bancada, ignorando que uma peleja do quilate desta que foi produzida por Milanês, está repleta de grandes momentos poéticos.

Na opinião do pesquisador Roberto Benjamim, Severino Milanês, pernambucano de Bezerros (18 de maio de 1906 – Vitória de Santo Antão, 1956/1967) “tanto era bom no improviso da cantoria, quanto nos romances, e alguns deles ficaram imortalizados na memória popular, visto sua predileção pelas histórias de amor e de príncipes e princesas de reinos imaginários.”

Milanês não era muito cuidadoso com a geografia nem com a história. Vez por outra abusava da “licença poética” na composição de seus romances, que às vezes beiram o surrealismo, mistura gênios e fadas com índios guerreiros e gigantes desaforados que chamam o herói de “cabrinha” e outros xingamentos tipicamente nordestinos no auge da luta. Deve ter sido leitor assíduo do livro “O mártir do Gólgota”, do espanhol Enrique Pérez Scrich, pois freqüentemente fala da Palestina com a mesma graça e beleza… Confesso que quando vi as primeiras fotos da terra de Nosso Senhor Jesus Cristo fiquei deveras decepcionado, pois na descrição de Scrich e Milanês é o cenário mais bonito do mundo:

O Reino do Barro Branco
É detrás de uma colina
Cercado por quatro rios
De água potável e fina
Fica nos confins da Ásia
Bem perto da Palestina.

O Príncipe do Barro Branco, por ser um dos clássicos mais procurados da Literatura de Cordel, foi reescrito por Manoel Pereira Sobrinho, para editora Prelúdio, de São Paulo

Outras obras de Severino Milanês:

- Estória de Rosa e Maximiano;
- História de dois amigos – Joãozinho e Nequinho;
- História de Ubirajara e o índio Pojucan;
- História de Valentão do mundo;
- Romance de Noêmia e Luís;
- Romance de Amédio e Lucinda;
- O valor do dinheiro e a beleza da mulher;
- O rapaz que mamou na onça.

PINTO DO MONTEIRO, REI DOS REPENTISTAS

Severino Pinto, paraibano da cidade de Monteiro, é uma verdadeira legenda no mundo da cantoria. Alguns cantadores da atualidade chegam mesmo a dizer que ele foi o maior repentista de todos os tempos. Nunca escreveu uma linha para cantar, fazia tudo de improviso, pegando na deixa e fulminando os adversários que pretendiam desbancá-lo. É presença obrigatória em qualquer antologia de cantadores que se pretenda escrever.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
SANTO ANTONIO NA LITERATURA DE CORDEL

Verificando o número de visitantes do nosso blog ACORDA CORDEL, cujo link está no cabeçalho desta coluna,  constatei centenas de visitas de leitores de Portugal, muitos dos quais interessados em textos sobre a literatura de cordel portuguesa, principalmente textos que trazem alguma referência sobre Santo Antônio de Lisboa, que também tem sido citado com freqüência no romanceiro nordestino.

No meu folheto “Romance de Luzia Homem“, adaptação da obra do escritor cearense Domingos Olympio, resgato a poderosa oração “Responso de Santo Antônio“, que vi minha avó Alzira de Sousa Lima recitar centenas de vezes, principalmente quando desejava encontrar um objeto perdido. Não sei se devido a sua fé no Taumaturgo Português, ou pela força da oração, o objeto perdido em questão era encontrado logo depois… Eis alguns trechos do “Romance de Luzia Homem” e a famosa oração extraída de um livro chamado ‘Escudo Admirável’, que era um novenário reunindo os principais santos da igreja católica:

Luzia pega a tal carta
Mostra ao promotor então
Crapiúna com cinismo
Se livra da acusação
Saiu contente o soldado
E Alexandre foi levado
Às grades da detenção.

Luzia seguiu pra casa
Bastante contrariada
Terezinha então lembrou
De uma velha afamada
Que sabia adivinhar
Mas precisava levar
A quantia estipulada.

Responso de Santo Antônio
A poderosa oração
Que para as pessoas cultas
Não passa de um abusão
Pra muitos funcionava
Era o que a velha usava
Para descobrir ladrão.

Eis o teor do “Responso”
A poderosa oração,
Vovó Alzira a rezava
Com fervor e devoção,
Faz até gosto se ler
Se o leitor quer aprender
Escute-a com atenção:

RESPONSO DE SANTO ANTONIO

Se milagres desejais,
Recorrei a Santo Antônio,
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

Todos os males humanos
Se moderam, se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os paduanos.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
A IMPORTÂNCIA DA IMPLANTAÇÃO DE CORDELTECAS NA FORMAÇÃO DE NOVOS LEITORES NO BRASIL

Segundo os indicadores do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1940 as taxas de analfabetismo no Brasil eram alarmantes. Na faixa etária entre 15 e 19 anos, esse índice atingia 54,5% (ver gráfico). Nas pessoas com mais de 50 anos, esse índice ultrapassava a barreira dos 60%. A população da região Nordeste do Brasil sempre foi o indicador demográfico mais afetado pelo problema.  Aliás, ainda hoje o Nordeste é a região que mais sofre com analfabetismo e ainda tem, segundo dados recentes do IBGE, índices de até 28% em cidades com menos de 50 mil habitantes*.

Tomando por base essa estimativa do IBGE podemos deduzir que na década de 1940 pelo menos 70% da população nordestina com mais de 15 anos era formada por pessoas que jamais freqüentaram escolas. Curiosamente, nesse mesmo período, a Literatura de Cordel atingia o seu apogeu nas mãos do poeta-editor João Martins de Athayde, detentor dos direitos de edição dos maiores clássicos do gênero. Nessa época, uma tiragem de folhetos como “Romance do Pavão Misterioso”, “Chegada de Lampião no Inferno”, “Batalha de Oliveiros com Ferrabrás”, “Juvenal e o dragão” não saia com menos de 50 mil exemplares que esgotavam rapidamente nas feiras do Nordeste.

O jornalista Jackson Pires Barbosa, genro do lendário editor José Bernardo da Silva, de Juazeiro do Norte-CE, disse-me em entrevista concedida em 2000, que em meados da década de 1950 a Tipografia São Francisco, editora de José Bernardo, costumava enviar regularmente um caminhão carregado de folhetos para abastecer os agentes distribuidores de Recife-PE e outras capitais nordestinas. E nessas levas os clássicos do gênero sempre tinham pedidos entre cinco e dez milheiros cada título. Como explicar então esse fenômeno? Como uma população pobre, esquecida pelo poder público, sem acesso a Educação, consumia um tipo de literatura com tanta avidez?

Em primeiro lugar é preciso informar que o livreto de cordel já foi chamado oportunamente de “professor folheto”, por ser responsável pela alfabetização (informal) de milhares de nordestinos. Numa época em que as famílias eram bem numerosas, sempre havia algum membro que freqüentava a escola e fazia a leitura em voz alta para os demais. Os que não podiam freqüentar a sala de aula acabavam aprendendo alguma coisa nesses folhetos, com ou sem a ajuda de instrutor, movidos unicamente pelo desejo de decifrar os versos contidos nessas publicações de aparência tão singela.

Talvez tenha sido características como estas que motivaram o poeta Carlos Drummond de Andrade a afirmar em crônica publicada no Jornal do Brasil de 9 de Setembro de 1976, que o poeta Leandro Gomes de Barros era quem verdadeiramente merecia o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros, por ser muito mais lido que Olavo Bilac (eleito pela revista Fon-Fon para esse posto) e outros grandes expoentes da poesia brasileira.

A respeito do potencial do folheto como ferramenta auxiliar no aprendizado é oportuno reproduzir esse texto do pesquisador Ribamar Lopes, renomado estudioso da Literatura Popular em Versos, extraído do prefácio do livro Acorda Cordel na Sala de Aula:

“Em meados de 1940, estudante no grupo escolar da minha cidade no interior do Maranhão, caíram-me às mãos os primeiros folhetos de cordel de que tive conhecimento. Afeito à prática semanal da leitura em voz alta na classe, o ouvido era habituado ao ritmo e à sonoridade dos versos recitados nas sessões literárias, também semanais, em sala de aula, adotei, de pronto, o folheto, incluindo-o entre minhas leituras prediletas. Encantaram-me, além da sonoridade, do ritmo e da harmonia das estrofes, a maneira descontraída como eram contadas histórias fabulosas, de amor ou de aventuras, ou, ainda, de gracejo e de cunho picaresco, e a objetividade e simplicidade dos textos, elementos que eu já identificara e apreciara, certamente por muito se aproximarem da nossa linguagem coloquial. Logo me vi, nas tardes de domingo, lendo folhetos para famílias da vizinhança, entre as quais não havia pessoas alfabetizadas, ou que, se as houvesse, preferiam a leitura com o entusiasmo, a desenvoltura e a interpretação que eu sabia imprimir àqueles versos.”

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CORDEL E CIDADANIA

A Editora CORAG – Companhia Rio-grandense de Artes Gráfica publicou, numa tiragem de 10 mil exemplares,  adaptações para o cordel do Estatuto do Idoso e do Estatuto da Criança e do Adolescente, ambas de autoria de Arievaldo Viana, com ilustrações de Jô Oliveira. Os folhetos foram distribuídos gratuitamente durante a 57ª Feira do Livro de Porto Alegre. Vejam, a seguir, trechos do ESTATUTO DO IDOSO EM CORDEL:

Cidadania é um termo
De efeito maravilhoso
Praticá-la é um dever
Melhor é ter o seu gozo
Por isso quero tratar
Do Estatuto do Idoso.
 
A origem do Estatuto
Quero dizer a vocês
Foi uma Lei promulgada
Em outubro, dois mil e três,
O Presidente aprovou
O Estatuto de vez.
 
As pessoas que já têm
Sessenta anos ou mais
Podem usar o Estatuto
Com seus poderes legais
Todo idoso tem que ter
Direitos fundamentais.
 
São seus direitos sagrados:
Saúde física e mental,
Condições de liberdade
Aperfeiçoamento moral,
Espiritual e também
Social e intelectual.
 
Lazer, esporte e cultura
Representam a liberdade
Trabalho e cidadania
Lhe dão mais dignidade
Para conviver feliz
Em meio a sociedade.
 
Diz o Capítulo Primeiro
Vigente em toda a Nação
Que a família do idoso
Terá por obrigação
Lhe dar a prioridade
Em toda e qualquer ação.
 
E não somente a família
Também a comunidade
Bem como o Poder Público
E toda a sociedade
Assegurar ao idoso
Em tudo a prioridade.
 
Preferencialmente ter
Em órgão público ou privado
Imediato atendimento
E individualizado
Em todo e qualquer serviço
Que a ele seja prestado.
 
Ter preferência também
Nas políticas sociais
Integração, inclusão,
E respeito dos demais
É válido a qualquer idoso
Do sertão às capitais.
 
A família do idoso
Deve se conscientizar
Que a máxima prioridade
Para ele deve dar
E só levá-lo ao um asilo
Se não puder sustentar.
 
Aos serviços de saúde
Garantir o seu acesso,
Pois ele já trabalhou
Contribuiu com o progresso
Apoiá-lo é um dever
Para que tenha sucesso.
 
Ele tem prioridade
Também perante a Fazenda
Quando da restituição
Do seu Imposto de Renda;
Faça valer seus Direitos
Sem precisar de contenda.
 
O Artigo quarto combate
Crueldade, negligência,
Qualquer discriminação
Opressão ou violência;
Precisa a sociedade
Desse artigo ter ciência!

(…)

Biblioteca Nacional se dá conta da importância da Literatura de Cordel

Por e-mail, o pesquisador José Paulo Ribeiro, de Guarabira-PB, enviou-me a informação de que a Biblioteca Nacional, depois de duzentos anos de existência, atentou para a importância da Literatura de Cordel e está realizando campanha para que os poetas populares façam o Depósito Legal de suas obras na instituição. José Paulo lamenta que isso tenha ocorrido tardiamente, uma vez que há mais de 50 anos a Biblioteca do Congresso dos EEUA coleciona folhetos de cordel, possuindo atualmente um dos maiores acervos do gênero, com mais de 20 mil títulos. Recentemente, o poeta Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC, esteve nos Estados Unidos ministrando uma palestra na Biblioteca do Congresso Norte-Americano sobre a importância do cordel na alfabetização de milhares de nordestinos. Gonçalo destacou a importância do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula e falou também da implantação de diversas cordeltecas, em vários estados do país, com acervo doado ou vendido pela ABLC.

Eis a nota postada no site da Biblioteca Nacional:

“Biblioteca Nacional quer abrigar literatura de cordel – A Biblioteca Nacional quer incorporar a arte de cordelistas a seu acervo. A Divisão de Depósito Legal, que cuida do recebimento de todas as publicações editadas no país, está convidando os artistas que produzem cordel a enviarem cópias de suas obras para a BN. Com a ação, a Biblioteca pretende abrigar e preservar boa parte da memória produzida em cordel, assim como lembrar a importância da Lei do Depósito Legal. Informe-se através do telefone (21) 2220-1892 ou no e-mail ddl@bn.br.”

Site:  Biblioteca Nacional


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CORDEL ÀS PAMPAS

Cultura nordestina se entrelaça com a cultura gaúcha

 

Poeta Arievaldo Viana ladeado por dois continuadores da cultura regional dos pampas

Vou repassar, com exclusividade para os leitores do “Jornal da Besta Fubana” meu diário de viagem ao Rio Grande do Sul, onde estive participando, juntamente com o ilustrador pernambucano Jô Oliveira, da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, a maior feira de livros a céu aberto do Brasil e uma das mais antigas do país. Nossa estada nos pampas, no período de 02 a 05 de novembro, deveu-se, principalmente, a continuação de um projeto de adaptação dos livros do escritor e folclorista gaúcho João Simões Lopes Neto para a Literatura de Cordel. O povo gaúcho, como se sabe, cultua a trova, o verso de sete sílabas, então a mensagem do cordel lhe soa totalmente familiar.

02 de novembro – Cheguei a Porto Alegre por volta de 9h00 da manhã, após uma noite insone, pois o vôo fez conexão em Campinas e eu não consigo pregar o olho quando viajo de avião. Resultado, mesmo cansado não quis dormir. A curiosidade para dar uma olhada na feira e manter os primeiros contatos com os seus organizadores falou mais alto, então, após tomar um banho restaurador, comecei minha incursão pela feira, em pleno Dia de Finados. A partir das 14h00 começou a chegar uma verdadeira enxurrada de gente e esse movimento durou além das 22h00. Como não tinha nenhuma atividade programada para essa data, resolvi tomar uma garrafa de um excelente vinho produzido em Bento Gonçalves. Encontrei os escritores Fábio Sombra e João Marcos Parreira. O primeiro é um artista multimídia… músico, ilustrador, escritor e cordelista, premiado em vários concursos. João Marcos também escreve e desenha, é mineiro de Ipatinga, boa gente, roteirista da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa.

Já perto da meia-noite, quando eu pensei que iria recuperar as 48 horas de sono perdido, eis que chega de Brasília o amigo Jô Oliveira, ilustrador de quase todos os meus livros, e ainda me toma umas duas horas conversando e tomando o resto do tal vinho.

03 de novembro – Oito da manhã já estávamos a postos, prontos para primeira tarefa, uma oficina do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, agendada para 25 professores da rede pública, dentro do projeto “Todo mundo pode”. Foi uma beleza… Pessoas interessadas, interativas, procuraram absorver o máximo das informações que pude transmitir no pequeno espaço de apenas 3 horas. Falei da história do cordel, suas regras básicas, exibi algumas imagens no data-show. Todo mundo se encanta com os trechos de “Proezas de João Grilo”, “Pavão Misterioso” e “Chegada de Lampião no Inferno”, textos que costumo utilizar nas oficinas. Encerrei com o meu folheto “O batizado do gato” e já tinha um carro da prefeitura de Barra do Ribeiro nos esperando para nos conduzir até a escola João Evangelista Pinós, onde aconteceu a segunda atividade do dia. Pegamos a BR 116 e após um rápido almoço já estávamos a postos no auditório da escola onde fomos recebidos com banda de música, espetáculos de danças tradicionais gaúchas, declamações e até uma adaptação para o teatro do nosso livro “A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau”. Foi uma beleza. Mais de 400 alunos participaram da atividade e o resultado foi gratificante.

Mas a maratona não parou por aí… O melhor ainda estava por vir. 7 e meia da noite já estávamos no Memorial do Rio Grande do Sul para o lançamento dos “Casos de Romuldo em Cordel” e “Estatutos da Criança e do Idoso em cordel”.

Eis um resumo do que ocorreu:

Dia 03 de novembro, aconteceu o tão esperado lançamento dos Casos de Romuldo em Cordel durante o coquetel da Editora CORAG. Em toda a minha carreira como escritor eu nunca havia me sentido tão prestigiado… Estavam presentes o Governador Tarso Genro e a Primeira-Dama do Estado Sandra Genro; o presidente da CORAG, Homero Paim; Luiz Antonio de Assis Brasil, Secretário Estadual da Cultura (e mais tres secretários de Estado), o conselheiro do Instituto João Simões Lopes Neto, Sr. Fausto, a Patrona da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, Jane Tutikian e outras autoridades.

Meu parceiro Jô Oliveira, emocionado com a calorosa acolhida, disse que o Nordeste faz fronteira (emocional e cultural) com o Rio Grande do Sul, apesar da distância geográfica e citou, com muita razão, o apego dos gaúchos pelas suas tradições culturais, caso que também se verifica em Pernambuco, seu estado natal e em todo o Nordeste.

Além dos livretos “Quinta de São Romualdo” e “Romualdo entre os bugios” foram lançados também o Estatuto do Idoso e o Estatuto da Criança e do Adolescente em cordel.

Jane Tutikian, patrona da feira, nos brindou com esse texto maravilhoso:

“E, então, o cordel se faz integração nacional! A aventura do poeta em busca de melhor sorte fez com que ganhasse o oco do mundo, e passou pelos estados do Nordeste, pelo Sudeste, e pelo Sul, até chegar ao Rio Grande, que, de repente, virou seu norte.

É que, aqui, através de um guri, o mestre Simões Lopes Neto lhe oferece os Casos de Romualdo, autografado e tudo, e pede, por um bilhete, que os transforme em cordel. E o menestrel Arievaldo – “bom poeta e escritor / um dote que recebi / das mãos do meu Criador” cumpre o desafio com “Romualdo entre os bugios” e “Quinta de São Romualdo”.

A história dentro da história salta aos nossos olhos de leitor desacostumado e se faz ponte e puro encantamento. Nos oferece a mão dos irmãos nordestinos e, juntos, caminhamos pelo poema: dessas magias instantaneas que só a literatura nos pode proporcionar.”

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CORDEL CEARENSE NA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

No decorrer desta semana, no período de 02 a 05 de novembro o escritor cearense Arievaldo Viana e o ilustrador pernambucano Jô Oliveira estarão novamente na Feira do Livro de Porto Alegre lançando quatro obras pela Editora CORAG. Duas delas são adaptações de textos do livro “CASOS DE ROMUALDO”, do escritor e folclorista gaúcho Simões Lopes Neto.

Os outros são adaptações do Estatuto do Idoso e do Estatuto da Criança e do Adolescente para o cordel. Além dos lançamentos, a dupla realizará palestras, oficinas e visitações escolares. Todas as obras lançadas pela CORAG terão tiragem superior a 20 mil exemplares e serão distribuídas em escolas públicas do Rio Grande do Sul, contribuindo sobremodo para difusão e consolidação da Literatura de Cordel na Região Sul do país.

Arievaldo Viana ao lado do ilustrador e parceiro  Jô Oliveira na Bienal do Rio 2011

O informativo oficial da Feira de Porto Alegre publicou esse texto em julho deste ano:

“A literatura de cordel ao alcance de todos. Um projeto promovido pela Companhia Rio-Grandense de Artes Gráficas (Corag) em parceria com a Câmara Rio-Grandense do Livro publica livretos com obras adaptadas à linguagem de cordel. A ação, que ocorre pelo segundo ano consecutivo, distribui o material na Feira do Livro de Porto Alegre e em escolas. Neste ano, o texto escolhido para ser adaptado ao cordel é Casos de Romualdo, de Simões Lopes Neto. A adaptação foi realizada pelo escritor cearense Arievaldo Viana e as ilustrações são do pernambucano Jô Oliveira.

No ano passado, Arievaldo Viana e Jô Oliveira também trabalharam com os contos de Lopes Neto. Na ocasião, os textos escolhidos foram “300 Onças” e “Melancia e Coco Verde”, publicados e distribuídos em 14 mil exemplares. Neste ano, serão adaptados os contos “Romualdo entre os Bugios” e “Quinta de São Romualdo’, também da obra do pelotense, considerado o maior escritor regionalista gaúcho.

Arievaldo Viana e Jô Oliveira contam com diversas obras e prêmios em seus currículos. O mais recente foi a indicação da obra “A verdadeira história do navegador João de Calais e sua amada Constança” para o PNBE 2012. Arievaldo é o criador do Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos. Viana também é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e venceu, em 2002, o V Prêmio Domingos Olympio de Literatura. Já o ilustrador Jô Oliveira tem em seu currículo um prêmio no Festival de Curta-Metragem, em 1968, no Rio de Janeiro, com desenho animado e participações nas 9ª e 10ª edições do Salone Internazionale del Animazione dei Comics em Lucca, na Itália, em 1973 e 1974.

Autor e ilustrador estarão presentes na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorrerá de 28 de outubro a 15 de novembro. No evento participarão de encontros com alunos e professores. Além disto, Arievaldo ministrará uma oficina sobre cordel, dentro do Ciclo Todo Mundo Pode. A oficina acontecerá no QG dos Pitocos, espaço da Feira do Livro destinado a crianças em idade pré-escolar.”

* * *

AGENDA de ARIEVALDO e JÔ OLIVEIRA:

Dia 03/11 – 9h00 – Sala de Vídeo: Palestra “Cordel na Sala de Aula – a literatura popular como ferramenta auxiliar na educação”; 19h30 – Coquetel da Editora CORAG, lançamento de Casos de Romualdo em Cordel;

Dia 04/11 – 10h30 – Lançamento do Estatuto da Criança e do Adolescente e Estatuto do Idoso em Cordel, local: Arena das Histórias; 15h30 – Bate papo com alunos, na Arena das Histórias, seguido de seção de autógrafos.

* * *

Confira abaixo um trecho de Romualdo entre os Bugios, conto de Simões Lopes Neto, adaptado para o cordel Arievaldo Viana e ilustrado por Jô Oliveira:

Fui ao Rio Grande do Sul
Para tomar chimarrão
E comer um bom churrasco
Feito num fogo de chão
Quando chegou um guri
Com um pacote na mão.

Chegou e disse: – Quem é
O senhor Arievaldo?
O mestre Simões me disse
Que és poeta de respaldo…
E lhe mandou, de presente,
Os CASOS DE ROMUALDO.

Desembrulhei o pacote
Que vinha bem amarrado
Vi o livro de Simões
Lopes Neto autografado
E dentro vinha um bilhete
Com o seguinte recado:

“Tu que és bom trovador,
Um perfeito menestrel
Quero que o nobre amigo
Transponha para o papel
Os CASOS DE ROMUALDO
No formato de cordel.”

A carta de Simões Lopes
Veio mexer com meus brios
Confesso que este foi
O maior dos desafios,
Vou transpor para o cordel
“Romualdo entre os bugios”

Primeiramente apresento
O famoso ROMUALDO
Sujeito que muito andou
Por isso ganhou respaldo
Até Barão de Münchausen
Pra ele, não dá um caldo!

(…)


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
O PROFESSOR FOLHETO NA ALFABETIZAÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS NORDESTINOS

São muitos os artistas consagrados da Música Popular Nordestina que tiveram influências da Literatura de Cordel em suas carreiras e até mesmo em seu processo de alfabetização. O paraibano Vital Farias é um desses casos e faz questão de ressaltar isso em todas as entrevistas que concede. Ednardo, autor de “Pavão Misterioso”, “Boi Mandingueiro”, “Rock Cordel” e outras músicas claramente influenciadas no romanceiro popular nordestino é um cearense de classe média, nascido em Fortaleza. Seu pai era dono de colégio na capital cearense, mas nem por isso deixou de beber na mesma fonte. Segundo ele, sempre que o pai viajava para o interior do estado trazia folhetos e os colocava na biblioteca do colégio, um reconhecimento pioneiro ao papel do folheto de feira como ferramenta útil ao letramento. O próprio Ednardo dá esse testemunho no programa “Salto para o futuro”, da TV Brasil (TV Escola) do qual eu fui consultor.

Alceu Valença também rezou pela mesma cartilha… Em recente entrevista concedida ao programa Globo Rural, sobre Literatura de Cordel, aparece deitado numa rede lendo a famosa “Chegada de Lampião no Inferno” e destacando o cordel como uma de suas leituras prediletas na infância. Na biografia de Jackson do Pandeiro constatamos que a sua leitura preferida (talvez a única) eram os romances de cordel que comprava na Feira de São Cristóvão (RJ). Aliás, na infância, Jackson foi amigo de um ceguinho folheteiro na feira de Campina Grande, de quem teria ouvido muitos romances rimados.

Belchior chegou a mesmo a se apresentar como cantador de feira, fazendo improvisos, ainda no início da carreira. Jorge Mello, piauiense da mesma geração, é cordelista e também faz um show à base do repente. Deu provas disso no programa do Jô Soares. Fagner, Geraldo Azevedo, Elomar todos eles beberam na fonte cristalina do cordel em maior ou menor escala.

De Vital Farias, o exemplo que melhor se enquadra em nossa pesquisa, colhemos interessantes informações em seu próprio “sítio”, mostrando que o cordel teve papel preponderante na sua vida como estudante, como leitor e sobretudo como artista da música, do cinema e do teatro. Vamos pinçar alguns trechos e comentar em seguida:

No começo, em Taperoá

Vital Farias fez seus primeiros estudos em casa, com seus irmãos mais velhos, lendo folhetos de cordel, ainda na Pedra D’Água, sítio onde nasceu, no município de Taperoá – Paraíba. Logo depois, começou seus contatos com a cidade de Taperoá, onde cursou o primário no Grupo Escolar Felix Daltro. Fez exame de admissão e parte do ginásio na Escola Professor Minervino Cavalcanti, que funcionou no mesmo grupo escolar, idealizado pela então benfeitor e amigo de todos nós Dr. Adonias de Queirós Melo (dentista, homem de muito amor pelas causas educativas).

Em entrevista concedida ao jornal O Povo, de Fortaleza, no final da década de 1980, Vital Farias diz que se comunicava por telefone com a mãe, já velhinha, declamando (ele e ela) trechos do folheto de Cancão de Fogo.

Ave de arribação

Migrou para João Pessoa para servir o exército brasileiro (15º Regimento de Infantaria), onde passou dez meses e quinze dias. Saindo do exército, continuou seus estudos no Lyceu Paraibano em plena ditadura militar. Nesse tempo já compunha e já se sentia um cantador, pois as suas origens reclamavam da cultura do seu povo e trazia nas suas memórias, desde criança, muitas cenas em Taperoá e nos sertões vizinhos da profunda covardia do sistema capitalista que esmaga e oprime o trabalhador. Mas, por força das circunstâncias “lei da sobrevivência” formou um conjunto de iê-iê-iê juntamente com Floriano, Cecílio Ramalho e Golinha ao estilo The Beatles, que na época incendiou com suas canções belíssimas o mundo inteiro.

Apesar disso, Vital não se esqueceu das cantigas de seu povo, das ladainhas, das incelenças e cantilenas e paralelamente desenvolvia um trabalho onde contemplava suas origens. E dessas origens a mais forte talvez seja a voz dos folheteiros e as toadas dos cantadores de feira.

Suando a camisa

Na década de 70 foi professor do estado, ministrando aulas de teoria e violão por música, tendo como orientador Fidja Siqueira, Pedro Santos, Gerardo Parentes, Bento da Gama, entre outros. Paulatinamente conviveu e participou no Teatro Santa Rosa de vários trabalhos teatrais: ora como músico, ora como ator, ora como criador. Realizou alguns trabalhos de cinema. Com essa experiência, anos depois já no eixo Rio-São Paulo participou do premiadíssimo filme O Homem que Virou Suco (primeiro lugar no festival internacional de Moscou-1981). Atuou como diretor musical e roteirista poético.

O Homem que virou suco, que tem José Dumont no papel de um cordelista/folheteiro atuando em plena cidade grande, Vital Farias colocou uma carga muito grande de influências do cordel. Uma das canções é a belíssima “Bate com o pé xaxado”, clássico do repertório do artista.

No Pau-de-Arara

Em 1975 rumou para o Rio de Janeiro. Lá chegando, participou da peça do Diretor Luis Mendonça Lampião no Inferno juntamente com Pedro Osmar, seu companheiro de viagem e ex-aluno, Elba Ramalho, Tânia Alves, Kátia de França Imara Reis, Tonico Pereira, Madame Satã, Hélio Guerra, Joel Barcelos, Walter Breda, Damilton Viana, entre outros.

* * *

A chegada de Lampião no Inferno”, de José Pacheco, tem sido um dos folhetos mais revisitados pelo teatro, a TV e o cinema, embora muito pouco se saiba sobre o seu autor. Texto irreverente, impregnado de bom humor, “A chegada” tem sido vitima ultimamente da ditadura do polticamente correto, porque José Pacheco retratou um inferno cheio de negros. Por outro lado, não há como negar a genialidade de seu autor, que retratou as “profundas” como uma grande repartição pública, com escritórios, gabinetes, livros de ponto etc…

O Vigia disse assim:
- Fique fora que eu entro
Vou conversar com o chefe
No gabinete do centro
Por certo ele não lhe quer
Mas conforme o que disser
Eu levo o senhor pra dentro.

(…)

Houve um grande prejuízo
No inferno, nesse dia,
Queimou-se todo o dinheiro
Que satanás possuía
Queimou-se o livro de ponto
Perderam seiscentos contos
Somente em mercadoria.

O mais curioso é que Lucifer e Satanás, como bons ditadores, botaram o povo para se matar na briga contra Lampião e vieram assistir de camarote, como convém a gente dessa classe:

Lucifer mais Satanás
Vieram olhar do terraço
Tudo contra Lampião
De cacete, faca e braço
E o comandante no grito
Dizia: – Briga bonito,
Negrada, chega-lhe o aço!


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
BLOGS, OS NOVOS ALMANAQUES

O que são os blogs, senão verdadeiros almanaques de variedades? Vejamos por exemplo o caso deste Jornal da Besta Fubana – Uma gazeta da bixiga lixa… São dezenas de colaboradores tratando dos mais variados assuntos: música, política, artes gráficas, cultura popular nordestina, história, curiosidades, enfim, um verdadeiro balaio de informações, com um ótimo diferencial que é a qualidade e bom humor com que cada assunto é tratado.

O que é um ALMANAQUE?

Visitando o site ALETRIA  encontramos maravilhosas referências sobre ALMANAQUES e a suas origens:

“O criador da palavra foi o filósofo e frei franciscano, Roger Bacon. Também conhecido como Doutor Mirabilis, que significa professor maravilhoso. Este Bacon foi homem da ciência e da fé, um luminar das falsas trevas da Idade Média. A palavra Almanac ou Almanach foi usada para designar textos relativos à astrologia e aos eventos ligados à passagem do tempo. Vem daí uma das fontes para o nome: al manak que significaria “a conta”, ou seja, a contagem dos dias, como um calendário. Mas não seria a única possibilidade: será que o nome não teria origem do pedaço de madeiro onde era traçado o curso lunar (al managht), ou a união de duas palavras egípcias (al + men, que seria cálculo + memória)? Mais ainda, em saxão al-monac seria uma variação de al-mooned (que significaria todas as luas). Existem ainda aqueles que admitem a palavra árabe “Manah”, uma variação encontrada na península espanhola, como sendo a fonte, e cujo possível significado seja calendário. E se olharmos em um dicionário, encontraremos a palavra “al-manakh”, que significa clima. Ainda assim, dois dicionários com o título de Dicionário etimológico da Língua portuguesa, mas de autores diferentes, identificam a palavra como tendo origem árabe, mas significando: lugar onde o camelo se ajoelha. Indicando os locais onde os camelos e os viajantes repousariam e trocariam informações. O grande problema é que qualquer que seja o significado, a palavra Almanaque não é encontrada em textos árabes, o que fez alguns linguistas sugerirem que Bacon inventou um neologismo, relacionando-o com árabe por meio do “al” por que no meio filosófico medieval, assuntos relacionados à astrologia e a matemática adquiriam status ao serem relacionados ao árabe, da mesma forma que a retórica é ainda muitas vezes relacionada com o latim.

Em Portugal, o primeiro almanaque foi publicado em 1496, em Leiria, por Abraão Zacuto e foi batizado de Almanach Perpetuum. Os almanaques foram se tornando cada vez mais populares, na medida na qual a ciência tornava-se mais exigente. Mesmo que Benjamin Franklin tenha editado seu próprio almanaque, quando chegamos ao século XX, o conteúdo havia se tornado mais e mais abrangente, apresentando curiosidades, com leitura simples e rápida. Não é tão importante a precisão acadêmica, é mais importante a forma de apresentar a curiosidade, portanto, o lugar onde o camelo se ajoelha é bem mais interessante que folhinha do tempo.” 

Almanaque popular publicado em Juazeiro do Norte-CE por Manoel Caboclo e Silva

Os ALMANAQUES e a Literatura de Cordel

Essa ligação da Literatura de Cordel com os almanaques é muito antiga… Na primeira metade do século passado já circulava em todo o Nordeste o famoso ALMANAQUE DE PERNAMBUCO, do poeta e editor João Ferreira de Lima, que era um verdadeiro livro de cabeceira dos matutos de outrora. Basicamente eram informações sobre a quadra invernosa, os melhores dias para o plantio, receitas caseiras, remédios medicinais, astrologia, tábua das marés e curiosidades. A matriz parece ter sido o famoso LUNÁRIO PERPÉTUO que, segundo Câmara Cascudo, era uma das leituras prediletas do povo nordestino no século XIX, exercendo grande influência sobre os cantadores e poetas populares que exerciam o ofício de “cantar Ciência”, modalidade muito apreciada nos primórdios da cantoria.

No seu rastro surgiram outros almanaques similares, escritos e editados por poetas populares, como é o caso de Costa Leite, Vicente Vitorino de Melo e Manoel Caboclo e Silva. Destes, o único que ainda se encontra em atividade é Costa Leite, editando seu vetusto almanaque pela Editora Coqueiro.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
LEANDRO E O REAPROVEITAMENTO DE TEMAS NO CORDEL

O poeta Leandro Gomes de Barros, considerado o pioneiro na publicação de folhetos rimados aqui no Brasil, aproveitou-se de muitos temas correntes, alguns deles seculares, geralmente compostos em quadras, que circulavam de forma manuscrita pelo Nordeste, para deleite dos folcloristas da época, que raramente se preocupavam em apurar sua origem para saber a autoria. Um caso evidente dessa afirmativa é o folheto “O soldado Jogador” que já existia em quadras com o título de “Obra de Ricarte”.

No livro “Cancioneiro do Norte”, do folclorista paraibano Rodrigues de Carvalho (1867 – 1935) aparece uma versão em quadras da história do Soldado Jogador intitulada “Obra de Ricarte” (do arquivo de João Carneiro Monteiro) que, seguramente foi escrita quando Dom Pedro I ainda reinava no Brasil e seu irmão D. Miguel reinava em Portugal, após usurpar o trono de sua sobrinha Maria da Glória. Esse livro é possivelmente a primeira obra sobre folclore brasileiro impresso fora do Rio de Janeiro (foi ao prelo em 1903, na Typografia Minerva, em Fortaleza-CE). Referido poema é composto de 65 quadras e apresenta evidência dessa afirmativa na estrofe de número 55:

“Se pego num Rei de Paus
Me aparecem dois reis,
D. Pedro, rei do Brasil
D. Miguel, rei Português.”

A versão do Soldado Jogador, escrita por Leandro data das primeiras década do século XX. O exemplar mais antigo que se encontra preservado apresenta o seguinte endereço: Rua do Motocolombó, 28, Bairro de Afogados, Recife-PE. Até 1906 Leandro residia em Jaboatão. A partir deste ano fixa moradia no Recife, inicialmente no Beco do Sousa, mudando-se posteriormente para a rua que aparece na capa desta publicação.

O folheto de 16 páginas, foi impresso na Tipografia Mendes, Rua das Laranjeiras e dele existe cópia preservada no acervo da Casa de Rui Barbosa. Isto significa dizer que Leandro transpôs para as sextilhas e atualizou uma obra que já deveria ter mais de setenta anos de existência. É lógico que a versão de Leandro é muito mais rica e interessante. Ele só aproveitou o tema e deu o seu toque pessoal. O mesmo aconteceu com a “Cantiga do Vilela” que também foi recriada a partir de quadras por Chagas Batista e, possivelmente, também por Leandro. É que a versão que chegou aos nossos dias continua sendo atribuída a João Martins de Athayde, embora existam controvérsias.

É possível que a versão em quadras nunca tenha sido publicada em folheto, dela circulando apenas cópias manuscritas como esta que pertencia ao acervo de João Carneiro Monteiro e foi gentilmente cedida a Rodrigues de Carvalho, para enfeixá-la no seu “Cancioneiro do Norte”. É uma pena que o jovem folclorista (estava com 36 anos no ano de lançamento de sua obra) não tenha feito qualquer comentário a essa obra-prima da pré-história da Literatura de Cordel no Brasil. Vejamos como começa a versão em quadras:

“Havia um soldado em França
Chamado ele Ricarte,
Que vivia no baralho,
Nele achava a melhor arte.

Chamava o sargento à igreja
Para a missa vir ouvir;
Ele pegava no baralho
E se punha a divertir.”

Versão de Leandro, em sextilhas, extraída do folheto acima mencionado, impresso na Typografia Mendes:

“Era um soldado francês
Que se chamava Ricarte
Jogador de profissão
E nunca foi numa parte
Que não trouxesse no bolso
O resultado da arte.

Os franceses nesse tempo
Tinham por obrigação,
O militar, o civil,
Seguir a religião
O papa deitava (sic) a lei
Botava em circulação.”

Nesta mesma obra de Rodrigues Carvalho, encontramos outra variante do poema, com apenas 19 quadras, recolhida no Ceará, intitulada “O Baralho”. Como se vê, o reaproveitamento de temas, ainda hoje freqüente na poesia popular é um costume que vem desde os primórdios da chamada Literatura de Cordel.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
LUIZ GONZAGA E LAMPIÃO

Ilustrações: Rafael Lima Verda

A figura lendária de Lampião fascinava Luiz Gonzaga desde a infância. Em meados da década de 1920, quando o Rei do Cangaço passou com seu bando pela Serra do Araripe rumo a Juazeiro do Norte, o futuro Rei do Baião desejou ardentemente conhecer o temível bandoleiro e, quem sabe, tocar algumas músicas para a cabroeira dançar. O velho Januário, mais sensato e comedido, resolveu ouvir os apelos de Santana e foi se refugiar no mato com a família, com medo dos cangaceiros. Outras famílias fizeram o mesmo.

Se estabeleceram sob uns pés de oiticica, fizeram um foguinho de trempe para cozinhar o feijão e esquentar o café, enquanto as coisas se acalmassem. O que aconteceu a seguir, eu descrevo em cordel, trechos de um livro que acabo de lançar pela coleção “Do Nordeste para o mundo”, coordenada por Arlene Holanda, intitulado “Luiz Gonzaga, o embaixador do sertão”. A obra, vencedora de um prêmio literário promovido pela Secult, acaba de ser lançada pela Editora Íris.

O EMBAIXADOR DO SERTÃO (trechos)

Certa feita Lampião
Passou lá no povoado
O povo da região
Ficou muito apavorado,
Seguia pra Juazeiro
O cangaceiro afamado.

As famílias se esconderam
Com medo de Lampião
Januário e sua gente
Arrumaram o matulão
E foram se esconder
Sob um pé de “sombrião”.

Passados então dois dias
O Gonzaga disse assim
Eu vou lá no povoado
Ver se a coisa está ruim
Eu vou e volto escondido
Podem confiar em mim.

Nisto o velho Januário
Que admirava a coragem
Lhe disse: – Vá com cuidado
Pela margem da rodagem
Observe o movimento
E faça breve viagem.

Luiz foi, observou,
Lampião tinha saído,
Ele que era travesso
Um molequinho enxerido
Voltou em grande carreira
Fazendo um grande alarido:

- Corre gente! Corre tudo
Que Lampião vem chegando!!!
Com mais de cinqüenta cabras
Já vem se aproximando!
Foi enorme a correria
E a meninada chorando.

A rir dessa confusão
Gonzaga então começou;
Mas o velho Januário
Daquilo desconfiou
E devido a brincadeira
Um castigo ele levou.

Foi uma surra e tanto, conforme o próprio Gonzaga declarou mais tarde ao escritor Sinval Sá, autor de “O sanfoneiro do Riacho da Brígida”, a primeira biografia do ‘Lua’, publicada em Fortaleza em 1966.

O CANGAÇO DITA A MODA – A roupa dos cangaceiros, aqueles chapéus de couro vistosos, cheios de medalhas e penduricalhos era o que mais fascinava o menino Gonzaga. Por isso, depois de consolidar sua música e projetar-se em todo o Brasil, Luiz Gonzaga cismou de se apresentar na Rádio Nacional vestido de cangaceiro, o que lhe valeu uma séria advertência do diretor Floriano Faissal. Advertência não, proibição sumária.

Mas Gonzaga era teimoso e continuou usando o seu chapéu de cangaceiro nas capas dos discos, nas fotos promocionais e em tudo que era show onde se apresentava. Sua persistência prevaleceu e o figurino incorporado por ele passou a ser imitado por quase todos os cantores do gênero que surgiram nas décadas de 1950 a 1970.

* * *

Ilustração: Jô Oliveira

CANINDÉ DEVE UMA HOMENAGEM A GONZAGA

Uma música maravilhosa, de autoria de Julinho e Luiz Bandeira é “SÃO FRANCISCO DO CANINDÉ”, a segunda homenagem que o Rei do Baião prestou à famosa romaria cearense. A primeira, como todos já imaginam, é o clássico “Estrada de Canindé”, que fez em parceria com Humberto Teixeira. Curiosamente, a cidade de Canindé nunca rendeu uma homenagem a Luiz Gonzaga. Não tem sequer um beco ou ponta de rua com o seu nome.

E o pior é que pessoas insensatas e desinformadas enxergam na letra de “Estrada de Canindé” um verdadeiro insulto ao progresso da terrinha: “automóve lá nem se sabe se é home ou se é muié, quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé…”  Tremenda ingratidão, pois o velho Lua até frequentava e animava a tradicional Missa dos Vaqueiros.

Até o projeto feito pelo Governo do Estado para “melhorar” a vida dos romeiros que fazem o trajeto a pé leva o nome de “CAMINHOS DE ASSIS” (cidade da Itália), quando deveria se chamar, naturalmente, “Estrada de Canindé”. Se há uma coisa com a qual eu não me conformo é com a burrice oficializada!

(Texto publicado na revista Nordeste Vinteum)


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
FRAGMENTOS POÉTICOS DE UM MENESTREL ITINERANTE

Poeta sei que sou, porque a genética não faz curvas (a gramática, sim), conforme explicou-me pacientemente o saudoso professor Laurismundo Marreiro. Meu bisavô Francisco de Assis – o véi Fitico, fazia testamentos de Judas e compôs também a Onça da mão torta e o Boi Vermelhinho, dois cordéis de grande repercussão no limiar do século XX, que circularam somente de forma manuscrita em cadernos de família. O velho era danado… Possuía uma pequena, porém ótima biblioteca com livros editados no Brasil, Portugal e até Alemanha.

Foi seminarista no famoso Seminário da Prainha, devoto de Padre Cícero Romão e protetor do Padre Azarias Sobreira, o melhor e mais fidedigno biógrafo do padre do Joaseiro, quando este ainda menino passou adoentado por Quixeramobim e recebeu sua acolhida durante meses, até recuperar-se e poder viajar para o Seminário, pois era esse o seu itinerário. Minha avó era leitora contumaz dos clássicos do cordel e papai um apaixonado por cantoria que não aventurou-se pelo mundo com uma viola às costas porque a família (meu avô, principalmente) não foi de acordo. Mas adquiriu um vasto cabedal de livros e folhetos que decorava com grande facilidade e lia ou declamava para os filhos sempre que tinha tempo. Dois de meus irmãos também fazer versos com grande facilidade, são eles Klévisson e Itamar.

É por isso que me pego fazendo versos no meio da noite, quando bate a insônia, ou mesmo no interior dos ônibus quando viajo para o sertão. Raramente empreendo uma viagem sem uma caneta e um pedaço de papel, pois às vezes surge o esboço de um poema, o rascunho ainda bruto de um novo cordel que irei trabalhar em seguida, então faço as anotações básicas para retornar ao tema mais adiante.

Também gosto de ‘esquecer’ folhetos de cordéis nos transportes coletivos. Pode ser que uma criança ache, goste e se torne um bom leitor. É um trabalho meio quixotesco, de formiguinha, mas que me dá um grande prazer.

Eis algumas produções esparsas que encontrei numa velha caderneta e resolvi passar a limpo:

A MÃE DA BEZERRA DE MENEZES

Um sábio muito profundo
Me disse umas quatro vezes
Que o bicho maior do mundo
A mais bonita das reses
Que nesse mundo se viu
Foi a vaca que pariu
A Bezerra de Meneses.

DA SÉRIE ‘É TUDO UMA COISA SÓ’

Ariano Suassuna
Cancão, João Grilo, Chicó,
Astúcias de Malazartes
João Leso e João Arigó,
Trupezupe e Canhotinho
Falando de Amarelinho
É tudo uma coisa só.

Tabajara, Janduhy,
Gê, Xavante e Pataxó
Kariris e Kanindés,
Botocudo e Carijó,
Tapebas e Tremembés
Krejês e Kantarurés
É tudo uma coisa só.

Ruela, boga e foquite
Anel de sola e bozó
Forébis, bichim que apita,
Carretel e fiofó
Roscófi, ânus, furico,
Buraquinho que faz bico
É tudo uma coisa só.

Macumba, feitiçaria,
Da “Nêga dum peito só”
As artes da pulutrica
O poder do Catimbó
Os segredos da magia
Raulzito já dizia
É tudo uma coisa só.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
O CORDEL E A NOVELA…

 jj

A magia dos versos encantados

Em janeiro de 2008 a escritora Glória Perez, autora da novela “Caminhos das Índias“, publicou um curioso texto no seu blog ‘De tudo um pouco’ sobre o casamento de pessoas com animais na Índia, uma tradição tribal que subsiste até hoje e que tem um significado especial naquele país exótico. Foi o suficiente para que eu convocasse o poeta Klévisson Viana, meu irmão e parceiro frequente, para fazermos uma sátira em cordel do texto apresentado pela rainha da dramaturgia brasileira.

Quando a televisão se consolidou como um grande veículo de entretenimento, ainda na década de 1960, o poeta popular já flertava com os dramas apresentados pela telinha. Aliás, as novelas populares no rádio, como Jerônimo, o Herói do Sertão, de Moysés Weltman, ínspiraram vários poetas a apresentar versões em folheto para seu público. Foi assim que Joaquim Batista de Sena fez “A verdadeira história de Antônio Maria“, Caetano Cosme da Silva compôs “Laços de Sangue” (baseada na saga de Jerônimo) e Manoel D’Almeida Filho, na década seguinte, fez o volumoso folheto “Gabriela“, publicado pela Editora Luzeiro.

O namoro entre o folhetim da teledramaturgia e o folheto de feira estava consolidado… O casamento ocorreu quando Dias Gomes escreveu Saramandaia e resolveu escolher “Pavão Mysteriozo”, releitura do cantor/compositor cearense Ednardo para o clássico de José Camelo de Melo / João Melchíades Ferreira. O sucesso foi tanto que ajudou a Rede Globo a consolidar sua hegemonia nessa área. Aguinaldo Silva, discípulo e parceiro de Dias Gomes, também usou e abusou dos elementos, tipos e tramas do cordel, à exemplo do que fez Ariano Suassuna em suas peças de teatro. Diziam que a TV iria matar o cordel… ou melhor já haviam dito isso quando surgiram os primeiros jornais nas cidades interioranas e quando o rádio se popularizou. As mídias interagiram e as previsões fracassaram miseravelmente, para sorte dos amantes e praticantes da poesia popular.

Voltando ao “Caminho das Índias“, acho oportuno apresentar, integralmente, o texto de Glória Pérez, publicado na sua página ‘De tudo um pouco’,  para que o leitor deste blog tenha uma idéia mais próxima de como ocorrem tais intercâmbios, interatividades e adaptações…

* * *

Casamentos à indiana (26 de janeiro de 2008)

 lll

 Pouco tempo atrás, todo mundo viu nos telejornais a notícia do casamento do indiano Kumar com a cadelinha Selvi, no templo de Ganesh, em Manamadurai Os noticiários mostravam a cena sublinhando o bizarro, mas não explicavam seu significado dentro da cultura indiana.

Andei pesquisando o assunto e encontrei coisas muito interessantes -aliás, quanto mais a gente mergulha na cultura da Índia mais coisas interessantes encontra. E olha que ainda nem pisei lá.

Aprendi que o casamento de humanos com cachorros é uma herança tribal, e tem uma função: proteger a pessoa, afastar algum mal que esteja presente, ou que possa vir a estar presente em sua vida

No caso de Kumar, quando tinha 18 anos, ele sacrificou dois cachorros com requintes de crueldade. Hoje, depois de um derrame, tornou-se deficiente físico, e atribui tudo o que lhe aconteceu de ruim à maldição que o acompanha em consequência da crueldade praticada contra os dois animais. Um astrólogo foi consultado e recomendou o casamento como expiação necessária para o alívio de seu karma.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
A PARANÓIA DO 11 DE SETEMBRO

tgg

Na revista Domingo, do jornal O Globo de 11 de setembro, li um interessante artigo do ator e comediante Antônio Pedro (o ‘seu’ Bicalho) do humorístico Escolinha do Professor Raimundo, sobre a paranóia criada em torno da data 11 de setembro. Nesse artigo, o genial artista fala sobre enquadramento, mudança de comportamento das novas gerações e a ditadura do “politicamente correto” que se acelerou mais ainda após a data fatídica da queda das torres gêmeas do World Trade Center.

Dentre outras coisas, Antônio Pedro queixa-se que não pode mais chamar o amigo escurinho de “negão”, não pode mais chamar a sua nêga de “nêga”, não pode mais contar piadas de árabes, judeus e portugueses e qualquer dia desses vai ser multado pelo Ibama por contar piadas de papagaio. Por fim, Antônio Pedro faz um comparativo entre essas esquisitices de hoje e a liberdade de expressão que gozava em tempos idos, sobretudo após a queda da Ditadura Militar. Os programas humorísticos da década de 1970 sabiam driblar a censura magistralmente e vez por outra davam uma cutucada nos milicos.

Eu estava no Rio de Janeiro e havia participado no dia anterior do lançamento da coleção “Era uma vez… em Cordel”, ao lado do ilustrador Jô Oliveira, no estande da Editora Globo, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Pela manhã, li esse maravilhoso texto na recepção do hotel e logo em seguida dirigi-me ao aeroporto do Galeão, onde deveria pegar uma conexão Rio-São Paulo-Fortaleza. O avião que me transportou para São Paulo seguia para Caracas e levava pessoas de diversas nacionalidades.

Fomos olhados com certa desconfiança pelas pessoas que faziam a segurança do aeroporto. Um rapaz brasileiro, recém-chegado de Londres, disse-me que saíra da capital da Inglaterra sob esse mesmo clima pesado. Sua mochila foi milimetricamente farejada e babada por uma dupla de cachorros treinados. Eu trazia, como lembrança do lançamento, um banner (vide foto) onde aparecem as capas dos dois primeiros livros da coleção: “A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau” e “O coelho e o jabuti”. Resolvi trazê-lo como bagagem de mão.

tgg2

No aeroporto do Rio passei sem problemas mas ao chegar no aeroporto de Guarulhos o “bicho pegou”. Fui abordado por seguranças que queriam porque queriam que eu retornasse ao check-in a fim de embarcá-lo juntamente com a bagagem. E não adiantou de nada argumentar que eu era um poeta, pacifista por natureza e que vinha trazendo uma simples e inofensiva lembrança do meu lançamento. As filas eram imensas, o avião com destino a Fortaleza já estava embarcando os passageiros e eu não tinha como retornar ao check-in para embarcar meu precioso banner. Tive de deixá-lo nas mãos dos seguranças que certamente o jogaram no primeiro recanto empoeirado do aeroporto (se não tiver ido diretamente para a lata do lixo!)

Em 2001, época do terrível atentado, fiz um folheto de oito páginas em parceria com o mano Klévisson Viana que está esgotado há bastante tempo. Não adianta reeditá-lo, pois não compensa fazer segunda edição de folheto-reportagem, sobretudo muito tempo após o ocorrido. Na época, a Folha de São Paulo, se não me engano, fez uma ampla matéria sobre isso e conseguiu reunir mais de 10 folhetos de diferentes autores em todo o Brasil. A maioria dos autores lamentavam o trágico ocorrido, mas criticavam a política imperialista dos Estados Unidos, sempre prontos a interferir onde são e também onde não são chamados.

Voltando ao lançamento e o episódio do dia seguinte no aeroporto, vale ressaltar que eu estava de muito bom humor por conta do sucesso dos livros e a acolhida maravilhosa do pessoal da Editora. Então, abri mão da minha ‘lembrança’ e prossegui a viagem sem olhar para trás. Acabo de saber que aconteceu a mesma coisa com o amigo Jô Oliveira, que também levava um banner a tira-colo, porém teve mais sorte, pois o segurança que o abordou foi mais inteligente, retirou as duas varetas das extremidades, enrolou o baner e entregou de volta ao meu parceiro, que viajou tranquilamente para Brasília com sua relíquia.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
CORDEL SE CONSOLIDA NO SUDESTE

 plj

A PELEJA DE CHAPEUZINHO VERMELHO COM O LOBO MAU

Não resta mais dúvidas de que o cordel conquistou de vez o Brasil de Norte a Sul. Além do sucesso da novela Cordel Encantado, duas escolas de samba terão o cordel como tema em 2012: a Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro e a Gaviões da Fiel, de São Paulo, que homenageará o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Um dos destaques do desfile será a presença de Lula na Literatura de Cordel, cujo enredo é inspirado no livro do poeta Crispiniano Neto.

CORDEL NA BIENAL DO RJ – No dia 10 de setembro, a partir das 14 horas, Arievaldo Viana e Jô Oliveira estarão na Bienal do Livro do Rio de Janeiro lançando os dois primeiros títulos da coleção “Era uma vez… em CORDEL”, no estande da Editora Globo, onde os livros foram publicados.

A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau” e “O coelho e o jabuti” são dois contos tradicionais bastante conhecidos, mas estas novas versões em versos têm um desfecho surpreendente e uma linguagem acessível à públicos de todas as idades, dos 8 aos 80 anos! Este lançamento, por uma das maiores editoras do país, é uma prova de que a Literatura de Cordel está conquistando de vez o seu espaço fora dos estados da Região Nordeste.

Em novembro, a dupla irá participar pela segunda vez da Feira do Livro de Porto Alegre-RS, lançando mais dois folhetos de cordel pela Editora CORAG, adaptados do livro “Casos de Romualdo”, do folclorista Simões Lopes Neto.

Chapeuzinho em Cordel – Sinopse:

Contada e recontada inúmeras vezes, a aventura da garotinha que encontra o lobo a caminho da casa da avó está entre as histórias mais populares de todos os tempos. Desde o século 14, este conto de fadas clássico tem se apresentado em diversas versões, sendo que as mais antigas, assustadoras e violentas, eram voltadas ao público adulto.

A trama que chegou aos nossos dias, com a presença de um caçador que salva a menina e sua avó e garante o final feliz, foi publicada pela primeira vez em 1812, no livro Contos da criança e do lar, dos Irmãos Grimm. O antigo conto ganha agora nova roupagem. A Editora Globo acaba de lançar o livro A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau, que traz como novidade a estrutura do relato: o texto foi escrito em cordel, poema de origem na tradição oral e bastante disseminado no Nordeste brasileiro.

Como manda a tradição cordelista, a história é contada em setilhas, estrofes compostas de sete versos. Com graça, cadência e deliciosas rimas, as aventuras da menina vestida de vermelho proporcionam uma leitura prazerosa e instigante. Os versos do cearense Arievaldo Viana, integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, e as belas ilustrações do artista pernambucano Jô Oliveira, prendem a atenção do leitor do início ao fim – e dão tempero bem brasileiro para o clássico da literatura infantil.

clj

COLEÇÃO “ERA UMA VEZ… EM CORDEL”

O Coelho e Jabuti – Sinopse

Não é possível precisar o momento em que as crianças começaram a se encantar com as fábulas, antigos relatos que trazem como personagens animais com características humanas e em geral terminam com uma lição, a moral da história. Algumas são bastante famosas e ganharam mais de uma versão, como é o caso da que conta a curiosa disputa de velocidade travada entre o ágil coelho e o calmo jabuti.

‘O Coelho e o Jabuti’ não relata a conhecida prova na qual o coelho dorme e a tartaruga o ultrapassa, alcançando primeiro a linha de chegada e vencendo pela persistência e constância. Nessa versão, o jabuti arquiteta um plano para derrotar o presunçoso oponente e para isso conta com a ajuda de sua numerosa e parecidíssima família.

O episódio é contado em cordel, um poema com ritmo simples que em geral se baseia em relatos conhecidos e prende a atenção do espectador tanto pela trama quanto pela cadência. Tradicional na região nordeste do Brasil, o estilo chegou à literatura infantil e ganhou cuidadosa execução pelas rimas do cordelista cearense Arievaldo Viana e pelas ilustrações do artista pernambucano Jô Oliveira.

TRECHOS DO CORDEL:

Destinei-me a consultar,
Sob um céu azul anil,
Nossas lendas populares
Dos confins do meu Brasil
E assim resolvi compor
Mais um CORDEL INFANTIL.

Vou transmitir com carinho
Aquilo que aprendi,
A história é bonitinha,
Simples como eu nunca vi:
Fala de uma aposta entre
O COELHO e o JABUTI.

Os bichos, antigamente,
Falavam com maestria;
Viviam perfeitamente
Em total democracia
E, por terem consciência,
Prezavam a ECOLOGIA.

Não depredavam a floresta
Não caçavam sem razão
Não poluíam os riachos
Pois viviam em comunhão
Com a MAMÃE NATUREZA
Na floresta e no sertão.


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
GONZAGÃO NA REVISTA NORDESTE VINTEUM

A revista ‘Nordeste Vinteum’ que circula esta semana traz um texto que escrevi sobre o centenário de Luiz Gonzaga, que deverá acontecer em 2012.

foto-21

REMINISCÊNCIAS – De onde vem o baião? Segundo Gilberto Gil “vem debaixo do barro do chão”. Barro este que serve também para rebocar as casas de taipa do sertão, que antigamente eram inauguradas sob a luz de quatro candeeiros, ao som de um fole ‘véio’ gemedor. A sala de reboco (de taipa ou de alvenaria) foi o templo sagrado aonde nasceu o forró, a legítima música nordestina divulgada nacionalmente por Luiz ‘Lua’ Gonzaga. É título de um belo xote composto pelo Rei do Baião em parceria com o poeta Zé Marcolino, um de seus parceiros mais inspirados.

GONZAGA E A TROPICÁLIA – Gonzaga passara por um período de ostracismo. Não propriamente no Nordeste, terra onde sempre foi amado, mas nas emissoras do eixo Sul/Sudeste, por conta da invasão da Bossa Nova e, posteriormente, da Jovem Guarda. Quem estimulou o seu retorno foi o movimento seguinte, a Tropicália, graças a um boato plantado na imprensa por Carlos Imperial: os Beatles iriam gravar Asa Branca em inglês! De repente, todos os holofotes da mídia se voltaram para o Rei do Baião…

A recém-nascida revista Veja o entrevistou nas páginas amarelas. Os tropicalistas Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Caetano Veloso destacavam influências bebidas na cacimba cristalina da música de Gonzaga. Geraldo Vandré, ícone das esquerdas naquele período conturbado da recém-implantada Ditadura Militar, em plena vigência do AI-5, regravou Asa Branca como se fosse uma canção de protesto. Humberto Teixeira percebeu a ocasião e voltou a compor com o parceiro, de quem andava afastado há algum tempo. Uma das músicas dessa nova fase é a emblemática “Bicho eu vou voltar”.

OS CEARENSES EXIGEM O ‘PÉ-DE-SERRA’ – Ai veio o show no Teatro Thereza Rachel, incensado e badalado pelos novos discípulos, mas o Gonzaga não estava nem aí… Desfiava o seu talento alheio à ideologia de seus novos fãs e até fez uma homenagem ao então Ministro da Justiça Armando Falcão, presente ao show. Quem não conhecia a história de Luiz Gonzaga estranhou aquela ação. Mas quem sabe dos primórdios da carreira do Rei do Baião, há de lembrar que ele tocava tangos, valsas e boleros no mangue, na zona do baixo meretrício, passando um pires após as suas apresentações. Certa feita, Armando Falcão e outros estudantes cearenses, seus fãs, alguns da região do Cariri, vizinha a Exu, fizeram uma exigência:

- A partir de hoje, só botaremos dinheiro no seu pires se tocar um negocinho lá do nosso pé-de-serra. Aqueles ‘sambas’ executados num fole de oito baixos pelo velho Januário.

Foi assim que Gonzaga preparou dois números para apresentação seguinte baseado no que ouvia seu pai tocar: ‘Pé-de-Serra’ (um xamego, sem letra, diferente do que seria composto em parceria com Humberto Teixeira) e ‘Vira e Mexe’, música com a qual tirou a nota máxima no programa de auditório do exigente Ary Barroso. A partir daí, as portas do sucesso foram se abrindo de par em par para aquele Nordestino danado, que tinha “uma banda pernambucana e outra banda cearense”, como sempre costumava dizer. É que sua terra natal, Exu, fica nas ‘biqueiras’ de Crato e Juazeiro, cidades com as quais sempre teve forte ligação. Aliás, foi do Crato que Luiz Gonzaga partiu, ainda menino, para sentar praça no 23º BC, em Fortaleza.

E foi para o Ceará que ele compôs (ou gravou, de outros compositores) pérolas como “Estrada de Canindé”, “De Juazeiro a Crato”, “Eu vou pro Crato”, “Adeus Iracema”, “No Ceará não tem disso não”, “Viva meu Padim”, “Beata Mocinha” e tantas outras do seu maravilhoso repertório.

CENTENÁRIO DO LUA: O CEARÁ PARTE NA FRENTE – É, portanto, com muita justiça, que o Ceará parte na frente nas comemorações de seu Centenário, que só ocorrerá no dia 13 de dezembro de 2012, mas por aqui, a revista Nordeste Vinte e Um e a Editora Assaré já começam a se movimentar para festejar essa data em grande estilo. Isso porque o Ceará é também o verdadeiro berço do forró. Sabiam não? A primeira gravação a utilizar essa terminologia foi realizada pela dupla “Xerém e Tapuia”, cearenses de Baturité, no distante ano de 1937.

Luiz Gonzaga só gravaria o seu primeiro disco em 1941 e só utilizaria o termo “forró” em suas músicas a partir de 1949, com a gravação de “Forró de Mané Vito”. Xerém (codinome de Pedro de Alcântara Filho) foi lembrado recentemente pelo jornal Diário do Nordeste justamente devido ao seu centenário, ocorrido no dia 5 de agosto de 2011. Convém lembrar, entretanto, que o pioneirismo de Xerém em nada ofusca os méritos do Rei do Baião, verdadeiro difusor do gênero e responsável maior pela sua projeção em todo o país.

xxrr1

Pedro de Alcântara Filho, o Xerém


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
A FÁBULA E O GRACEJO NA LITERATURA DE CORDEL

Humor e moralismo no sertão nordestino

mc1

A literatura popular em versos, também chamada “de cordel” possui uma variedade de temas e estilos que expressa, através da ótica popular, diversas escolas da Literatura Erudita, inclusive a Fábula, cujos expoentes maiores são Esopo e La Fontaine. Atribuir qualidades e defeitos do ser humano a animais que falam, inserindo nisso um cunho moral, é uma prática que os poetas populares desenvolvem desde os tempos de Leandro Gomes de Barros (1864 – 1918), pioneiro na publicação de folhetos rimados no Nordeste.

São de Leandro, por exemplo, folhetos como “Casamento e divórcio da Lagartixa”,  onde uma família de lacertílios (calangos, tejos, teús e lagartos afins) representam os dissabores de um casamento mal-sucedido. A lagartixa, personagem central do drama, troca o calango seu marido por um papa-vento e os dois terminam-se batendo num duelo, de sangrento desfecho, enquanto a adúltera sorri da desgraça de ambos. O cunho moral da história fica por conta do trágico final destinado a leviana lagartixa, que é devorada por um gato, enquanto deleitava-se com as desgraças ocorridas durante o duelo. “Isto resulta à pessoa/ que sorri do mal alheio”, garante Leandro ao final da narrativa.

mc2

José Pacheco da Rocha, poeta pernambucano de Correntes*, nascido na última década do século XIX, foi o mais fiel seguidor de Leandro no que diz respeito à irreverência e jocosidade na elaboração de folhetos de “bichos que falam”. Outro grande expoente dessa escola foi o piauiense Firmino Teixeira do Amaral, autor de “As aventuras do Porco Embriagado” , um folheto que fala de alcoolismo, violência e exclusão social no Reino da Bicharada.

De José Pacheco, existem duas obras primas nessa área – “A festa dos cachorros” e “A intriga do Cachorro com o Gato”. No primeiro folheto, os melhores momentos são o namoro do Cachorro com a sua prima Cadela e a carta por ele enviada logo após o primeiro encontro. Eis algumas estrofes cuidadosamente pinçadas para ilustração deste artigo:

“Havia um cachorro velho
Chefe da localidade
Os outros lhe veneravam
Com respeitabilidade
Tanto porque era o chefe
Como pela sua idade

Tinha uma filha bonita
Trabalhava em seu socorro
Dessas que se diz assim:
Por aquela eu mato e morro
Capaz de embelezar
O coração de um cachorro

Certo dia um primo dela
Vindo de uma batucada
Passando pelo terreiro
Ela estava acocorada
Catando pulga e matando
No batente da calçada”

A empatia entre os dois é imediata. A flecha de Cupido acaba provocando um “namoro pesado”, no dizer de José Pacheco. O melhor de tudo é a carta que o Cachorro escreve, assim que chega em sua casa…

mc3

O forró dos bichos (xilogravura de J. Borges)

“E palestraram bastante
Cada qual mais satisfeito
Foi um namoro pesado
Porém com muito respeito
Mas para se apartarem
Quase que não tinha jeito.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
“LOS INDIOS TABAJARAS”

itb1

Dois artistas cearenses que conquistaram o mundo

O Ceará sempre teve bons instrumentistas. De Nonato Luis a Vilamar Damasceno, de Manassés a Macaúba, de Cirino a Luzirene do Cavaquinho, sempre tivemos artistas que se projetaram dedilhando instrumentos de corda, mas nenhuma história se compara a dos índios Mussaperê e Herundy, dois remanescentes da nação Tabajara, nascidos em Tianguá, que apesar de serem ilustres desconhecidos em seu Estado natal, projetaram-se no mundo inteiro como virtuoses do violão, chegando a se apresentar nos maiores teatros da América do Norte e da Europa, além de terem gravado dezenas de discos pela RCA norte-americana.

No site da gravadora “Revivendo”, responsável pelo relançamento de alguns de seus discos (através do selo Again) encontramos esse texto que serviu como base para produção de uma biografia em CORDEL, narrando a fantástica saga de “Los Índios Tabajaras”. Essa biografia em versos deverá ser lançada ainda este ano.

“A trajetória dos Índios Tabajaras dificilmente encontrará paralelo com qualquer outra, vindo de onde vieram e alcançando, no chamado mundo civilizado, o que alcançaram. Tudo pareceria a criação de um delirante ficcionista, não fosse a mais concreta realidade.  Primeiro, por suas origens. São índios brasileiros autênticos, da raça tupi-tabajara, nascidos na remota e agreste serra de Ibiapaba, dentro do então isolado município cearense de Tianguá, na divisa com o Piauí.

Na língua tupi, receberam os nomes de Mussaperê e Herundy, que significam O Terceiro e O Quarto, pois estavam nessa ordem de nascimento dos filhos do cacique Ubajara, ou Senhor das Águas, ao todo trinta e quatro irmãos.

(…)

itb2

A FANTÁSTICA TRAJETÓRIA DE ‘LOS INDIOS TABAJARAS’

Os cearenses que conquistaram o mundo

Autor: Arievaldo Viana

(Trechos)

Brisa que sopra na serra
Onde cantam as águas claras
Que descem num véu de noiva
Banhando as lindas Iaras
Dai-me rimas pra contar
A vida dos TABAJARAS.

Nos contrafortes da serra
E no topo da Ibiapaba
A brava Nação Indígena
Ali ergueu sua taba
O índio via a fartura
Dentro de sua igaçaba.

Viçosa, Guaraciaba,
São Benedito, Ubajara,
A linda bica do Ipu
Com sua beleza rara,
Frecheirinha e Tianguá
São da Nação Tabajara.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
HOMENAGEM AO MESTRE LUIZ CAMPOS

llcp3

Luiz Campos em caricatura de Tulio Ratto (revista Papangu)

Em 2007 eu tive a honra de ilustrar e criar o projeto gráfico do livro “Nos Campos de Luiz”, antologia poética reunindo parte da obra do cantador/repentista/cordelista e poeta matuto Luiz Campos, de Mossoró-RN. Luiz projetou-se no mundo da cantoria com pérolas como esta:

Eu nasci em Mossoró
Me criei num Landuá
Tô servindo é de rebolo
Pro Cão derribar juá
Vim descobrir que sou gente
D’um tempim desses pra cá.

Vejam só quanta irreverência e humor contidos nessa sextilha. O juá é uma fruta insignificante, comida de bode no sertão e costuma ser derribada usando-se um rebolo de pau. Ao “servir de rebolo pro cão derribar juá” Luiz satiriza os percalços e desventuras que vem sofrendo nessa vida, sem perder a rima e a graça. Ele é autor de diversos clássicos da poesia matuta, dentre os quais destacam-se “Carta a Papai Noel” e “Me enganei com minha noiva”. Eis o texto que produzi para orelha do livro de Luiz Campos:

O RISO E O DRAMA, NOS CAMPOS DE LUIZ

O trovadorismo popular é uma frondosa árvore de muitos ramos, cujas raízes estão infiltradas no coração do povo. A cantoria, a literatura de cordel, a poesia matuta, a embolada, a canção, a glosa, o repente, a “incelença”, as cantigas de eito, o aboio do vaqueiro, o coco de improviso são galhos distintos que brotam desse tronco milenar. Luiz Campos, um dos maiores nomes da poesia potiguar, transita com facilidade em vários desses ramos.

Na cantoria, é o repentista ágil e espirituoso que já semeou verdadeiras pérolas, para deleite das platéias e admiração dos folcloristas, pesquisadores e apologistas da arte do improviso. Também glosa com desenvoltura, com ou sem viola, qualquer tema que lhe for apresentado. Produz canções de alto nível poético e melódico e tem dezenas de folhetos de cordel já publicados.

Mas é o poeta matuto, autor de “Me enganei com minha noiva” e “Carta a Papai Noel” que mais se destaca, conquistando a simpatia do público e dos maiores declamadores da atualidade. Amazan, Chico Pedrosa, Daudeth Bandeira, Jessier Quirino, Dedé Monteiro, Moreira de Acopiara – só para citar alguns – todos admiram e fazem reverências ao velho mestre de Mossoró.

Humorista de verve apurada, crítico social e filósofo por intuição. Seus poemas contém gracejo e irreverência, mas não esquecem de uma forte dose dramática e, na maioria das vezes, tornam-se uma sátira impiedosa aos costumes de hoje. Como Charles Chaplin, Luiz Campos conhece bem a receita e sabe misturar, na dose certa, o riso e o pranto. É isso que o torna um mestre no ofício de poetar, um nome que, seguramente, já figura no mesmo panteão de Catulo da Paixão Cearense, Zé da Luz e Patativa do Assaré.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
O SABUGO RECICLÁVEL

sabugo

Não há registro nos anais de nossa família, de alguém que goste mais de acumular catrevagem que a tia Filismina. Desde sofisticadas latas de biscoito vazias a cuias remendadas com barbante e cêra de abelha, não há cacareco que resista a sua cobiça. Cangalha, pote, esteira de jumento, ferro de engomar a brasa, fuso, almofada de bilros, lamparinas, urupembas, alguidás, bolandeiras e outros artefatos medievais convivem pacificamente em  sua despensa com um moderníssimo rádio ABC canarinho à válvula, comprado na Copa do Mundo de 62 pelo finado Salustiano, seu marido. É a peça mais nova de sua coleção. Seu primogênito, o Percival, herdou as manias da mãe. O rapaz vive adquirindo folhetos de cordel, discos de cêra, sela de chifre, exemplares da revista FON-FON e do Almanaque BRISTOL, uma coleção de cartuns do “Amigo da Onça” além, é claro, de radiolas 78 RPM e da obra completa do Coroné Ludugero, de quem se diz fã incondicional. Discos do Barnabé e do Velho Facêta também povoam este acervo. Este menino só pode ser fruto de um romance casual de Tia Filismina com o Nirez…

Recentemente, a tia recebeu uma carta do Procélio, seu caçula, que mora há mais de 10 anos em São Paulo. Lá todo mundo tem nome começando com a letra “P”: Praxédi, Policarpo, Ponciano, etc. Junto à missiva uma passagem via ITAPEMIRIM, sem baldeação, para tia passar o natal e o ano novo na terra dos bandeirantes.

Na bagagem da velha, que por sinal fez escala lá por casa antes do embarque, havia de um tudo! A noite que antecedeu a viagem foi uma comédia. Com a ansiedade própria de quem vai viajar, tia Filismina não dormiu. Passou a noite inteira remexendo as bagagens.

Mamãe, curiosa como 99,9% das mulheres, foi bisbilhotar a bagagem da velha usando para tanto o velho pretexto da “ajuda” (aquela que não é mulher do Judas, mas vem a calhar em circunstâncias como esta). Havia de tudo: garrafa de manteiga da terra, queijo de coalho, mel de jandaíra, uma “imbiricica” de preá salgado, três dúzias de avoantes (alô, IBAMA!) e, pasmem: UM SACO CHEIO DE SABUGOS!!!

Indagada acerca da utilidade de tão curiosos acessórios, a velha foi taxativa:

— Minha fia, eu morro e num me acostumo com exi tal de papé higiêni… o bom do sabugo são as muitas serventias: limpa, coça e dá o penteado!!! 

(In “O baú da gaiatice”, de Arievaldo Viana – Editora Varal, 1999)

* * *

A TRISTE SINA DE ZÉ LEGAL

Estava eu em Salvador-BA, quando narrei esse episódio dentro de uma van repleta de cangaceiros(as) — explico, nessa topic eram transportados dona Expedita Ferreira, filha legítima de Lampião e Maria Bonita, sua filha, a escritora e jornalista Vera Ferreira e mais meia dúzia de pesquisadores do cangaço. Não sei se estava inspirado nesse dia ou se meu público estava predisposto para o riso… O que sei é que o elevador Lacerda e o Mercado Modelo quase vieram abaixo com o barulho das risadas do mulherio que viajava no referido transporte.

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
NOVIDADE DA SEMANA

nova-capa-bau

O BAÚ DA GAIATICE foi meu livro de estréia, escrito em 1998 e publicado em maio do ano seguinte pela Editora Varal, com apoio da Reitoria de Pró-Extensão da UECE.  O sucesso foi imediato. Tivemos ótimas críticas na imprensa e vendagem rápida, já que a primeira edição esgotou em menos de um ano. Em 2000 lançamos a segunda edição com tiragem de 3 mil exemplares que também esgotou nos anos seguintes.

Depois de um período sumido das livrarias, o Baú voltará em grande estilo, em novíssima edição revista e ampliada. Semana passada participamos de uma interessante reunião com o jornalista Francisco Bezerra (o Bezerrinha) e o pessoal da Editora Assaré (responsável pela publicação da revista Nordeste Vinte e Um) para acertar detalhes da publicação da terceira edição do livro O BAÚ DA GAIATICE.

Tudo indica que a irreverente e badalada arca da molecagem cearense sairá mesmo daqui para setembro, com novos ajustes nas dobradiças e na fechadura. Quando o baú for aberto novamente, vai ser um pipocar de risadas!

TRECHOS DO LIVRO:

TOPA TUDO POR DINHEIRO

silvio-santos

Caricatura de Silvio Santos – Baptistão

Quando abriu mão da merenda – um copo de garapa de murici e duas maria-malucas – para comprar o bilhete da Telesena, ‘Imbrúi de Prego’, dedicado operário do ramo da construção civil, jamais poderia imaginar que estava se tornando naquele justo momento mais um bafejado pelos ares da sorte, tornando-se o mais novo milionário da quarta etapa do Conjunto Ceará.

A bem da verdade, o bilhete premiado sofreu alguns revezes. A sogra de ‘Imbrúi de Prego’, cega de guia, confundiu a Telesena com um encarte das Lojas Paraíso e levou o malfadado papel para a “casa de força”, causando com isto verdadeiro transtorno. Foi necessário fazer uma lavagem à seco para o bicho ficar semi novo. Só não perdeu a catinga e a “marca d’água” impressa pela velha.

Quando o Abravanel anunciou os 25 números premiados, foi aquela algazarra. O bodegueiro Chico Leandro, quando soube da novidade, reabriu o crédito do felizardo proscrito, fornecendo meia grade de cerveja e um galeto para a comemoração. Entrega à domicílio e tudo… É o fraco!

Não demorou muito e chegaram pelo Correio as passagens aéreas que possibilitaram ao novo milionário ir assistir ao vivo e a cores o “TOPA TUDO POR DINHEIRO”. Imbrúi, que desde a mais tenra idade acalentava o sonho de conhecer o Sílvio Santos pessoalmente, quase morre de emoção quando viu seu sonho de 45 anos realizado. É o novo!

Viagem como esta requer uma série de preparativos e a primeira providência de Dona Veridiana, mulher do servente-milionário, foi comprar uma penca de bananas e fazer uma lata de farofa. Desconhecedor das regras de etiqueta, ‘Imbrúi’ não sabia que era falta de educação falar com a boca cheia, portanto haja farofa no paletó do Ex-Senador Mauro Benevides, que teve o infortúnio de viajar lado a lado com o emergente do Conjunto Ceará. “Vai mais uma bananinha aí, senador?”

Sentiu-se mal após meia hora de viagem e dirigiu-se à aeromoça:

- Trocadora, abra aqui a jinela desta onça, mode eu vomitar!!!

Finalmente nos estúdios do SBT, resolveu assistir as gravações do programa do Gugu, quando foi convidado a substituir o Batoré na prova da banheira. Quando estava lá no rala e rola, atracado com a Sheila do Tcham, prestes a passar-lhe o prumo e tirá-la de nível, recebeu um balde d’água na cara…

- Acorda, coisa ruim… Vai trabalhar! Chega bêbo de madrugada e depois quer dormir até meio dia!

Era Veridiana, a mulher do Imbrúi, lhe chamando para mais um dia de batente. Como diria Moreira da Silva, “foi um sonho, minha gente!”

(Crônica publicada na revista VARAL em 1998)


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
AS ANEDOTAS DA “MALA DA COBRA”

crrt3

CARRÃO DO DIMUNDO

“ – Luriu, luriu, luriu,
Lá vem o Lauro do Liu,
No seu Chevrolet Brasil
Que vem com mais de mil!”

O caso a seguir é, segundo meu compadre Tarcísio Matos, tão verídico quanto as oblações de um rabo-de-burro circuncidado na Mesopotâmia lacustre. Quando surgiram por aqui os primeiros caminhões, a profissão de chauffeur, termo abrasileirado para chofer, dava um status danado. Pense na ruma de mulher atrás do sujeito!…

As moças  casadoiras  suspiravam nas janelas toda vez que ouviam o ronco de um motor. As viúvas enxeridas e esperançosas cuidavam em aprontar um café e acender uma vela para Santo Antônio. As traíras aproveitavam a ausência do mói-de-chifre para acenar com a mão. Algumas mais atiradas pegavam carona na boléia e ganhavam o oco-do-mundo fazendo inveja às moças prendadas que não podiam cair na gandaia.

Edmundo Cândido, residente na localidade de Bandeira, município de Itatira-CE, era chofer de caminhão na sua juventude e, como os demais colegas de guidão, devia ser namorador feito a peste. Quem me contou este episódio foi o amigo Expedito Neco, de Cacimbinha (município de Madalena-CE). Expedito teve a dita de namorar com uma jovem de Cachoeira que era um verdadeiro pitéu.

Coxas grossas e roliças, boa linha de lombo, cabelo batendo na cintura, mas, como diria o Zé Adauto Bernardino,  tinha um pequenino defeito: já havia namorado com o Edmundo Cândido e ganhara o apelido de Maria  Gasolina. Pior que isso: as mexeriqueiras de plantão juravam que ela não era mais moça, ou seja, já havia pegado umas quedas de corpo com o chofer.

O Expedito, por sua vez, além de não provar da fruta “proibida”, ainda tinha o azar de ouvir os suspiros apaixonados de sua querida, toda vez que um carro zoava na estrada. Um menino irmão da moça fora incumbido da tarefa de “pastorar” o namoro e também era fã do ex-namorado da irmã. A peste do garoto fez um caminhãozinho de madeira igualzinho ao do Edmundo e, para tortura do Expedito, trazia o infame brinquedo para encostado do casal. De vez em quando, puxava-o pelo cordão, estacionava-o bem nos pés do Expedito e dizia:

- Carrão do Dimundo!!!

* * *

UMA CORRENTE PARA SUA SANTIDADE

Mocózinho é um engraxate muito popular em Canindé-CE. Faz ponto nas imediações da Casa Campos e é bastante querido por todos. Certa feita, umas ratazanas de igreja passaram nas imediações do seu ponto e se danaram a conversar. Foi justamente naquele tempo que o Papa João Paulo II sofreu um atentado à bala. Tudo que foi de beata se reuniu para fazer uma corrente de oração. Uma delas, que era amiga do Mocó, foi logo convidando:

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
O HUMOR NA CANTORIA – PARTE II

(Relaxo e Glosa)

ld12 ld221

Luiz Dantas Quezado e o folclorista cearense Leonardo Mota / ao lado, capa do livro Glosas Sertanejas

O cantador, via de regra, gosta de pabular-se, enaltecer seus próprios feitos, delimitar seus territórios poéticos com Marcos e Fortificações e gabar-se  de qualidades que chegam às raias do exagero. Pelejas como a de Cego Aderaldo com Zé Pretinho, Romano com Inácio da Catingueira, Pinto com Milanês e José Gustavo com Maria Roxinha são verdadeiras batalhas verbais, onde cada contendor arma laços e estratégias para derrotar seu oponente.

Mas como toda regra tem exceções, alguns de nossos menestréis levam a coisa na base da brincadeira e satirizam seus defeitos, suas fraquezas e a sua própria condição de poetas populares. Eis como se apresentava o velho glosador Luiz Dantas Quezado (paraibano de Antenor Navarro, onde nasceu aos 5 de julho de 1850. Viveu a maior parte de sua vida no Ceará, onde faleceu):

“Eu me chamo Luiz Dantas
Meu natural eu não nego,
Nasci na ‘Tábua Lascada’
Me criei na ‘Caixa-Prego’
Apanhei d’um aleijado,
Corri com medo d’um cego!”

Seu livreto Glosas Sertanejas, peça rara de colecionadores, acaba de ganhar uma reedição especial, fac-similar de uma edição lançada em 1925. A feliz iniciativa foi de seu sobrinho Paulo Quezado, advogado e atual presidente da OAB-CE.

Como Luiz Dantas, centenas de poetas populares cultivam o bom humor e a irreverência em suas produções. Dentre os mais irreverentes destacamos Zé Limeira  O poeta do absurdo, cantador imortalizado pelo escritor Orlando Tejo, João Mandioca, Louro Branco, Calixtão de Teresina (Franciné Calixto), José Mota Pinheiro, Zé Amâncio e Pintasilva, poeta canindeense falecido na década de oitenta do século passado.
 
Zé Limeira, criador da escola do absurdo na cantoria, teve a sua obra pesquisada e registrada por Orlando Tejo, sem censura ou meias tintas. Os demais, permanecem no anonimato, excluídos de quase todas as antologias de cantadores. Alguns autores de livros desse gênero conhecem de cor os versos proibidos desses poetas e os recitam em rodas de amigos, mas não ousam publicá-los. De certo modo, esse cuidado é compreensível. O público tradicional da cantoria é conservador e não gosta de livros que consideram atentatórios a moral e aos bons costumes.

Parte dessa produção maldita foi reunida para ilustrar esse capítulo do livro “Mala da cobra – Almanaque Matuto”. São versos irreverentes e desabusados, glosados a partir de temas sugeridos para satirizar determinada situação ou criados no calor do desafio, com o intuito de ridicularizar o parceiro. Existem ainda aqueles que são fruto da ingenuidade do poeta e acabam virando anedota na boca dos cantadores e apologistas, como esta que aconteceu com o repentista Chico Ivo:

Clique aqui e leia este artigo completo »


Arievaldo Vianna visto por Jô Oliveira
http://www.acordacordel.blogspot.com/
O HUMOR NA CANTORIA – PARTE I

lloo1

Luiz Antonio foi um dos cantadores mais espirituosos que conheci. Faleceu há pouco tempo. Residia em Mossoró-RN, onde presidiu por algum tempo a Casa do Cantador do Oeste Potiguar. Sempre que eu ia àquela cidade costumava encontrá-lo na recepção da Rádio Rural, aguardando o início do programa do poeta Crispiniano Neto. Já idoso, nunca havia publicado um folheto de cordel. Eu estava reunindo, na época, adaptações em versos para uma antologia composta de contos populares recolhidos pelo eminente folclorista Luís da Câmara Cascudo.

Essa tarefa culminou com a publicação da caixa “12 contos de Cascudo em folhetos de cordel”, pela Editora Queima-Bucha, de Gustavo Luz. Coube a Luiz Antonio adaptar o curioso conto “Couro de piolho”, que na sua versão transformou-se em “O rapaz que encheu um saco de mentiras”.  Versejador desembaraçado, fez uma adaptação brilhante do referido conto por mim indicado, terminando por compor um dos melhores folhetos da coleção.

Portador de uma propalada feiúra, mas humorista incorrigível, brincava com a própria falta de atributos físicos que lhe negara a natureza. Certa feita viajava de ônibus e uma velhinha começou a rodeá-lo, querendo puxar assunto. Depois de olhar fixamente na sua cara, saiu-se com esta:

- Estou lhe achando parecido com uma pessoa?!…

O poeta respondeu, em cima da bucha:

- Eu sou uma pessoa, dona!

Essa outra quem contou-me foi Crispiniano Neto, ex-Secretário de Cultura do Rio Grande do Norte e inspirado poeta:  Quando o Café Kimimo ainda era do empresário paraibano conhecido como Pitéu, eram comuns os bingos em Mossoró. Quando o governo os proibiu, Pitéu que tinha feito muitos deles, não se deu por vencido. Bolou uma excelente ideia de marketing. Fez um bingo onde ninguém comprava a cartela. Quem chegasse com dez embalagens de Café Kimimo vazias, ganhava a cartela e ia concorrer a inúmeros prêmios. No dia marcado, lá ia o poeta tentar a sorte. Quem sabe, um carrinho para viajar e fazer cantorias. O bingo era de manhã. Terminou e o poeta não chegou nem perto de armar, quanto mais de bater. Voltava a pé, pois os coletivos, diante da imensa demanda de um final de bingo, não tinham uma vaga nem pelo amor de Deus. Já perto de casa, após andar vários quilômetros a pé, suor empapando a camisa, cansado e morto de fome, eis que uma vizinha lhe aborda aos berros:

- “Seu” Luiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiz, foi pro bingo de Pitéééééu????????

- Fui. Respondeu o poeta num fio de voz que denotava o seu imenso cansaço e desgosto.

- E tirou alguma cooooooisa?

- Tirei…

- O quêêêêêêêê, “Seu” Luiz?

- Tirei o dia pra ser besta!

 Sempre houve um certo preconceito contra o cantador de viola, sobretudo a partir da década de 1960, quando surgiram os primeiros ecos da jovem guarda e a moçada daqui do Nordeste passou a imitar desbragadamente as modas ditadas pela mídia do Sudeste. Lembro de minhas tias, agarradas com revistas de fotonovelas, suspirando por Wanderley Cardoso, Roberto Carlos e Jerry Adriani e copiando os modelos dos vestidos das atrizes da época. Luiz Gonzaga e cantoria nem pensar! Cordel era coisa de velho, sinônimo de atraso.

Clique aqui e leia este artigo completo »


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa