MADRINHA SUNÇÃO E MADRINHA ROSÁRIA

Quem em sua infância não teve medo de bruxas? E as bruxas eram sempre associadas às velhinhas.

Madrinha Sunção (Maria de Assunção) e Madrinha Rosária (Maria do Rosário) eram irmãs, porém, completamente diferentes fisicamente.

Madrinha Sunção. Para os familiares delas eram Madi-Ção e Mãe-Zara.

Madrinha Sunção era uma velhinha bem corcunda, de pernas longas e finas, pescoço curto, seios fartos e caídos, olhos pequeninos e um pouco de bruxa do bem. O volume da parte de cima do corpo contrastava com os braços longos e finos. O queixo era bem saliente e o lábio inferior carnudo, nariz grosso e pequenino onde se assentava os velhos óculos de armação fina e lentes redondinhas.

Madrinha Rosária era o oposto da irmã. Tinha o corpo esbelto, magrinha, quase esquelética, rosto delicado e tinha suavidade no falar e no andar. E não era apenas na aparência que elas eram diferentes. Madrinha Rosária era quieta, calada e quase não saía de casa. Fazia bolos e broas de goma para vender e ajudar no sustento da família. Em dias de missa, de jogos de futebol ou de festas ela complementava com o gostoso cafezinho e chá. Vendia tudo.

Madrinha Sunção gostava de conversar, de passear, de ir apreciar as festas dançantes e visitar amigos e parentes.

Toda vez que Madrinha Sunção queria visitar uma pessoa que morasse distante e não tivesse na família dela alguém disposto a acompanhá-la, ela vinha pedir uma das filhas da minha mãe para fazer-lhe companhia na viagem. E mamãe me mandava acompanhá-la. Era o dia todo visitando casas, andando a pé distâncias de até dois quilômetros de uma casa para outra. Era ela, sua bengala, uma bolsa para colocar o que ela ganhasse na viagem e muita disposição para andar. A cada casa que chegávamos uma refeição ou um lanche era servido e ela não rejeitava nenhum.

Quando íamos visitar minha avó materna (Antônia Silva Sousa), pessoa de quem Madrinha Sunção gostava muito, ela aproveitava a viagem e visitava quem morasse próximo ou no mesmo itinerário. Sacrifício era voltar com o que ela ganhasse (queijo, goma, farinha, nata, banha de porco, feijão, carne…) um pouco de cada coisa.

A fama de gostar de passear ficou e lá em casa quando alguém (eu) pedia para ir algum passeio a resposta vinha de quase todos da família: -“A veia Sunsão já quer braiar (andar) nas estradas”. Ou, -“Ainda, veia Sunção”. – Quando se referiam a ela como veia, em vez de madrinha, eu já sabia que era a comparação. Recentemente fiz uma viagem ao interior e projetei outra, não escapei da comparação.

Cada uma das irmãs tinha um filho. O filho da Madrinha Rosário atendia pelo nome de Valdemar, Vavá para amigos e familiares. E o da Madrinha Sunção atendia pelo apelido de Bedi. Acho que o nome de batismo dele era Benedito.

Madrinha Sunção era a benzedeira (rezadeira) do nosso lugarejo. Caso uma criança adoecesse era motivo para chamá-la a curar com suas orações. Ela rezava sempre sustentando em suas mãos ágeis ramos verdes de pião ou de vassourinha, com os quais traçava no ar cruzes sobre a cabeça e o ventre do doente. Diagnosticava a doença como quebranto, mau olhado, ou vento caído. Também ensinava simpatias e havia quem dissesse que ela fazia magia e mandingas, práticas que aprendera com uma velha tapuia na Região Amazônica.

Outra arte desta inesquecível velhinha era a confecção de bonecas de pano, ela as fazia com muito capricho e depois presenteava as crianças das famílias visitadas.

As duas irmãs acompanharam seus maridos que fugiam da seca no Ceará e foram recrutados para fazerem parte dos Soldados da Borracha (Saga dos Arigós). Madrinha Sunção sempre dizia que seu marido e o da Madrinha Rosário tinham sido engolidos pela Sucuri, no entanto, a família relatava que eles tinham sido acometidos pela sezão (malária) e as duas escaparam e voltaram ao lugar de origem, juntamente com os filhos.

É impressionante e louvável o ato de solidariedade e amor cristão de Madrinha Sunsão, pois o marido dela tivera um relacionamento extraconjugal com uma tapuia que lhe deixou um filho como fruto de sua aventura. Madrinha Sunção não rejeitou a criança, pôs-lhe o nome de Valdivino (hoje com 92 anos), o trouxe consigo e o criou juntamente com o Bedi.

.As duas irmãs chegaram apenas com os filhos e sem meios para criá-los, pois naquela época não havia aposentadoria para os trabalhadores rurais, nem para quem se aventurava nas terras distantes. As viúvas ficavam sob o cuidado da família ou se tornavam pedintes. No caso das duas citadas a família acolheu e os filhos começaram a trabalhar para o sustento delas.

Vavá casou-se e Madrinha Rosária ficou morando com ele pelo resto da sua vida.

Os filhos da Madrinha Sunção, o Bedi e o Valdivino, também se casaram e ela ficou morando sozinha em uma casinha de taipa bem próxima da casa de seu irmão, a quem chamávamos de Cumpade Victor (compadre).

Madrinha Sunção fez uma quinta (um jardinzinho) dedicado à Santa Rita dos Impossíveis (Santa Rita de Cássia), onde realizava novenas mensais, ao lado da casa do seu irmão (o Cumpade Vitctor).

A quinta era cercada com varas serradas igualmente e de pouca altura. Na entrada um pequeno portão de tiras de tábua, aferrolhado por uma tramela de madeira. De um lado e outro da cerca, na parte de dentro, Madrinha Sunção plantou margaridas amarelas, intercaladas por Mal Me Quer Bem Me Quer. Ao redor do altar da santinha ela plantou dois tipos de roseiras brancas. Do lado de fora da quinta, em cada canto da cerca, havia Jasmins e Maravilhas que exalavam um suave perfume ao anoitecer.

Trepadeira Primavera

A trepadeira, que conhecíamos pelo nome de Primavera revestia a pequena cerca, dando graça e singeleza ao ambiente. O oratório de madeira e com porta de vidro era colocado no altar que foi construído de pedra e em forma de concha.

Era um contraste muito grande ver aquele florido e bem cuidado jardim na sequidão do Sertão Central do Ceará, onde as precipitações pluviais são muito raras, só perdendo para a Microrregião dos Inhamuns no mesmo Estado.

Bedi, o filho da Madrinha Sunção, bebia muito e logo adoeceu de tuberculose. Foi operado de um dos pulmões e a cirurgia não cicatrizava. Apesar dos médicos proibirem ele continuava bebendo, então mulher o abandonou e ele passou a morar com a mãe até falecer. Depois da doença do filho Madrinha Sunção passou a viver da ajuda dos familiares e dos vizinhos.

Para facilitar a vida da Madrinha Sunção uma casinha foi construída para ela bem próximo a Igreja de São José de Macaóca. Ela estava com idade bem avançada e o lugar onde morava era do outro lado do rio, não existindo ponte para atravessá-lo na época chuvosa.
A proximidade da Igreja dava a ela mais oportunidade de ser assistida por todos que participassem dos atos religiosos, pois Madrinha Sunção era muito querida naquele lugar.

Para nós, meus irmãos e irmãs e eu, sempre que encontrávamos as duas velhinhas, tomávamos a bênção em sinal de respeito. Era como se elas fossem da nossa família.

ASSALTOS NÃO SÃO COMO ANTIGAMENTE

Assalto é um dos tipos de violência contra o patrimônio ou posses do cidadão. Há assaltos que terminam de maneira trágica, acompanhado de violência física e até culminando em assassinato da vítima.

Há algum tempo, não muito distante, no bairro Passaré em Fortaleza-CE, ocorreu um assalto que terminou de forma inusitada. A vítima era o meu primo Júnior. Ele seguia a pé para o trabalho, pois mora próximo da Empresa em que trabalha, quando foi abordado por um meliante. O único pertence que levava era um simples celular, modelo bem antigo.

Mesmo assim o assaltante o queria e ordenou que meu primo o entregasse. Era o celular, ou a vida. E meu primo aceitou entregar o dito aparelho, desde que pudesse retirar o chip onde continha toda sua agenda. Incrivelmente o meliante concordou com o pedido, mas antes revistou o cidadão, para verificar se havia alguma arma ou dinheiro escondido em suas vestes. Esperou que o chip fosse retirado e tomou o aparelho, empreendendo fuga em desabalada carreira.

Ao ver o assaltante correndo, meu primo deu-se conta que ficara com a parte traseira do celular em suas mãos, então gritou:

– Ei rapaz, eiiiiiiiiiii!

O meliante se virou e meu primo gritou:

– Esqueceu a tampa do celular, macho!

Então o assaltante voltou e o cidadão de bem entregou livremente o restante do aparelho.

Depois do ocorrido ainda contou para a família como tinha sido o assalto e registrou um boletim de ocorrência na Delegacia local. Ao ser questionado por ter entregado o restante do celular, meu primo retrucou:

– Pra que eu quero uma tampa de celular?


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