4 setembro 2017 MARY ZAIDAN

FATOS SATÂNICOS

Há uma semana o noticiário político do país se ocupa em anunciar que até um dia antes do feriado da Independência o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, vai apresentar nova denúncia contra o presidente Michel Temer. O fato é, de fato, só o anúncio de um provável fato. Mas o uso de um sucedido não acontecido tem sido suficiente para criar fatos.

Temer pode vir a ser denunciado novamente e tudo indica que será. Pode ser culpado, virar réu, ser condenado. Não é disso que se trata.

A questão central é que os fatos deveriam determinar o processo, e não a conveniência do denunciante – no caso, Rodrigo Janot, cujo mandato expira em 14 dias corridos. E que, acelerado contra o tempo, empenha-se em divulgar que tem em mãos fatos futuros. Dá comida a oportunistas e a incautos, alimentando-os com a promessa de fatos que embasam todo tipo de especulação.

Enche a pança de quem lucra com isso.

Não é a primeira nem será a última vez que isso ocorre. Não raro, com fatos mais chochos do que a expectativa deles.

Assim foi com “a delação do fim do mundo” de Marcelo Odebrecht e seus 72 asseclas, que abalou mais o universo antes do que depois das oitivas. Também com a do ex-ministro Antonio Palocci, que nem chegou a acontecer, mas que revelaria fatos arrasadores, capazes de provocar hecatombe no sistema financeiro. Ou mesmo com a primeira denúncia contra Temer, cujos fatos, ainda que graves, ficaram aquém do frisson inicial – e muitos deles sequer foram confirmados.

Sabedor de que para ganhar apoio é preciso construir audiências, Janot incentiva o clima de suspense. Uns e outros vazamentos de “fontes da PGR” garantem isso.

Depois de ganhar pontos com a denúncia contra Temer e perdê-los parcialmente com o descalabro da liberdade total concedida aos irmãos Batista, o procurador-geral tem pouco tempo para angariar aplausos. Talvez por isso, busca obtê-los escancarando a opção por um lado. Pelo menos é o que parece. E se não é isso, não deveria deixar parecer que é.

Além da segunda denúncia anunciada contra Temer, sob medida para a apoteose do adeus, Janot não abrirá procedimentos de apuração sobre a dinheirama que Joesley Batista disse ter desviado para o PT, para o ex-presidente Lula e sua pupila Dilma Rousseff. Deixará tudo na conta do ex-ministro Guido Mantega, que já está mexendo pauzinhos para contar pelo menos parte do que sabe, se livrar da cadeia provisória e de processos futuros.

Dentro da ótica de saída do PGR, somando fatos com não fatos e a criação de fatos, tem-se que depois de quase 14 anos de apropriação do Estado, de corrupção institucionalizada em todas as empresas públicas, obras, fundos de pensão e investimentos, quem chefiava tudo era o PMDB do vice de Dilma.

Mas, da mesma forma que o ex execra o juiz Sérgio Moro, Temer, para a alegria de Janot, rendeu-se ao exercício da demonização do acusador. Jogou fora a chance de mostrar a diferença entre a ocorrência real, como é o caso de Lula – investigado em cinco processos, julgado e condenado em um deles – e uma acusação ainda não consumada. Provavelmente porque, assim como Lula, não tem como soltar o rabo.

Ainda que flor malcheirosa, com contas a prestar à Justiça, não dá para imputar a um vice de um partido coadjuvante a culpa de todos os males. No arranjo com o PT, o PMDB de Temer deu guarita a vários capetas dele e do parceiro, mas não era ele quem dominava o inferno. Lambuçou-se com as benesses e serviu de esconderijo para o diabo.

21 agosto 2017 MARY ZAIDAN

ANDA-SE PARA TRÁS

O presidente da República respira por aparelhos. Ministros da Corte Suprema metem o bedelho onde não devem, preferem o som da própria voz à fala nos autos. Parlamentares empenham-se em escapulir da Lava-Jato, em fazer leis para surrupiar mais dinheiro do contribuinte e garantir caixa de campanha. Difícil imaginar saídas para um país que agoniza em condições tão lastimáveis. Muito menos quando os “salvadores” em campanha antecipada são o mesmo do mesmo. Até aqueles que se acham diferentes.

Apresentado como outsider, o prefeito de São Paulo, João Doria, se vendeu na campanha de 2016 como gestor exímio, em contraponto aos profissionais da política. Agora, rendeu-se à partilha de cargos para atrair o PSB e o PR, repetindo no município o modelo de coalizão que ele demonizava, e trocou a gerência da cidade por uma maratona de viagens para angariar apoio de políticos tradicionais dentro do estilhaçado PSDB e fora dele.

Foi se articular com o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), que carrega o nome do avô e sete décadas de história na política conservadora da Bahia. Passou pelo Paraná, governado pelo tucano Beto Richa, filho do governador e senador José Richa, e pelo Ceará do senador Tasso Jereissati, presidente em exercício do PSDB, que governou seu estado por dois mandatos. E tem mais uma dezena de viagens programadas.

E, assim como os piores políticos que ele tanto criticava, Doria mente: faz joguete com a candidatura à Presidência da República em 2018, à qual se lançou a todo vapor, fingindo não postular a indicação para disputar o cargo. Ainda faz pose ao lado de seu padrinho Geraldo Alckmin, candidato à mesma vaga, que hoje prova do veneno que ele próprio formulou.

Alckmin não pretende encarnar o novo. Nem poderia. Mas incrementou sua agenda de viagens a outros estados e tem feito esforços para mostrar exatamente o inverso do que pregava quando inventou o seu pupilo para a prefeitura paulistana: tenta disseminar que faltaria a Doria o atributo experiência que ele, em seu terceiro mandato como governador de São Paulo, exibe.

Jair Bolsonaro (PSC-RJ), deputado federal desde 1991, também se imagina fora do grupo dos “famigerados” políticos profissionais. Com discurso moralista, próximo ao fascismo, faz a alegria da extrema direita, e pratica com o dinheiro público o que critica: tem usado a cota de representação parlamentar para custear a sua pré-campanha, algo, para dizer o mínimo, ilegal.

Marina Silva (Rede) que se enxerga acima do bem e do mal, mas que costuma se esconder quando o caldeirão ferve, aparece na TV pregando a “operação lava-voto”, entregando-se à pegadinha marqueteira. E Ciro Gomes (PDT) abusa de sua língua ferina na luta para virar notícia, ainda que esteja discursando para plateias de meia dúzia.

Empoleirado em palanques, Lula está em campanha desde sempre. E lidera todas as pesquisas eleitorais nas duas pontas – maior preferência e maior rejeição. Mas consegue reunir cada vez menos gente em torno dele. Até no Nordeste, onde o PT esperava torcidas maiores e mais comprometidas para a caravana reeditada que o ex começou na semana passada, Lula brilha menos do que o PT e ele próprio imaginavam.

No discurso, repete a cantilena, sempre na terceira pessoa, de que todos estão contra Lula, as elites e a mídia. E se supera na egolatria. No passado, se comparou a Jesus; agora, no interior da Bahia, aos deuses da bola: o argentino Messi, do Barcelona, e Neymar, nesse caso ao assegurar que terá protagonismo nas eleições de 2018 mesmo se for impedido pela Justiça de disputar o pleito. “Serei o cabo eleitoral mais valioso deste país – como o Neymar está para o PSG eu estarei para eleições de 2018”.

Pode até ser, embora os fatos apontem o inverso. Na primeira partida que disputou com a camisa do PSG, Neymar jogou um bolão e marcou contra o Guingamp. Já Lula estreou com derrota do candidato petista Jailson Souza nas eleições suplementares na pequena Miguel Leão, interior do Piauí, para quem o ex gravou vídeo de apoio. Foi um desastre.

Lula vive em realidade paralela. E os demais candidatos em campanha, todas elas personalistas, também não trazem qualquer alento ao eleitor e ao país. Repete-se a mesmice. Ou pior, anda-se para trás.

7 agosto 2017 MARY ZAIDAN

REFORMAR PARA PIOR

Depois de a Câmara dos Deputados rejeitar a continuidade das investigações da denúncia de corrupção contra o presidente Michel Temer, as reformas voltaram à baila. Mas com sinal invertido. As da Previdência e tributária, essenciais à saúde econômica do país, têm menos chance de sair do papel do que o arremedo de reforma política que o Congresso pretende aprovar até 2 de outubro, data limite para alterar regras quanto ao pleito de 2018.

Até aí, nada de novo. O script sempre se repete no ano que antecede eleições, com o digníssimo propósito de garantir benefícios aos que já têm mandato. O eleitor? Ele que se dane. Melhor ainda se ele não questionar as mudanças e seus propósitos.

Claro que há boas ideias. Mas, por contrariar interesses dos eleitos, elas acabam engavetadas.

Em novembro do ano passado, o Senado aprovou a cláusula de barreira, mecanismo que impede a proliferação endêmica de partidos políticos, e o fim das coligações em eleições proporcionais. As matérias não foram votadas pela Câmara, que, pelas mãos do deputado Vicente Cândido (PT-SP), se debruça em outro projeto de reforma, sob o argumento de ser mais ampla.

E ela até poderia ser caso o interesse não fosse o de garantir a própria pele. A tentativa de emplacar a “emenda Lula”, que proíbe prender políticos até oito meses antes da eleição, é prova cabal disso.

O relatório, que deve ser votado na comissão especial ainda este mês, prevê instrumentos inéditos no Brasil, alguns bastante avançados como a possibilidade de recall para revogação de mandatos de presidente, governador, prefeito e senador. Traz ainda a combinação de voto proporcional com distrital, neste caso com candidatos definidos previamente pelo partido e apresentados em lista fechada, escondendo-os do eleitor. Em sintonia com o século 21, autoriza a propaganda paga na internet, e retrocede décadas ao aumentar as regalias de gênero, estabelecendo mais vantagens para candidatas.

Mas o ponto central, o único que interessa aos políticos, é o financiamento público das eleições, pago pelo contribuinte sem perguntar ao eleitor se ele topa ou não custear candidaturas.

Se aprovada – talvez até com esquisitices como o Distritão, que só existe na Jordânia, no Afeganistão e em duas ilhas do Pacífico, Vanuatu e Pitcairn, mas é defendido por Temer e por parcela significativa dos seus apoiadores –, a matéria terá de voltar ao Senado. Lá, pode ser corrigida ou ainda mais vitimada.

Entre os senadores, a tese do parlamentarismo ressurge – o que sempre acontece quando o país se vê diante de crises – e pode se tornar mais robusta se o tucano José Serra assumir a relatoria da Comissão que tratará do tema.

Ideia, no mínimo, extemporânea. Não devido ao fato de o sistema ter sido rejeitado em plebiscito por duas vezes, em 1963 e 1993. Mas pela necessidade de, antes de adotá-lo, estabelecer vínculos entre o Parlamento e o país, elo que se perdeu há tempos e que não será fácil reconstruir.

Ainda que o parlamentarismo seja um regime de governo com características democráticas indiscutíveis, sua adoção depende de premissas que o Brasil não exibe hoje. E está longe de alcançar. A primeira delas é ter um Legislativo em que o cidadão confie. Que verdadeiramente represente os interesses do eleitor e não o dos que lá se assentam.

Para tal, além de antídoto para sem-vergonhice, seria obrigatório rever os critérios de proporcionalidade, revogando de vez o Pacote de Abril do governo Geisel, e o sistema eleitoral, adotando voto distrital puro ou misto, mais compatível com o parlamentarismo. O modelo também não combina com o voto obrigatório. Portanto, seria imprescindível facultá-lo ao eleitor.

O país teria muito a ganhar em um debate sobre regime de governo e sistemas eleitorais, mas nunca se faz isso a sério. Entra ano, sai ano, de eleição em eleição, todos são unânimes em dizer da essencialidade da reforma política, de se aproximar o eleitor do eleito. E o que se tem é a aprovação de remendos que só aumentam esse fosso.

Estejam certos, desta vez não será diferente.

Batizado com o nome pomposo de Fundo Especial de Financiamento da Democracia, que, coitada, é aviltada cotidianamente, vem aí mais subvenção pública para custear campanhas eleitorais que o país não quer ver, com dinheiro que o país não tem.

3 agosto 2017 MARY ZAIDAN

TEMER – HAJA FÔLEGO!

Seis votos acima da maioria simples, 79 a menos do necessário para processar qualquer mudança constitucional. O placar de rejeição na Câmara dos Deputados ao prosseguimento da denúncia contra Michel Temer – 263 x 227, 21 ausências e duas abstenções – aponta mais do que a absolvição prévia do presidente. Revela se ele terá ou não fôlego para aprovar reformas imprescindíveis, a começar pela da Previdência, sem a qual o país quebrará em curtíssimo prazo.

Na ponta do lápis trata-se de uma empreitada ainda mais difícil do que a vencida para salvar a própria pele. Além de manter os que votaram em seu favor na sessão desta quarta-feira, Temer terá de arrebanhar mais 79 deputados para chegar ao quórum qualificado de 342 votos, número mínimo obrigatório para alterar a Constituição.

Uma tarefa para lá de complicada, em especial nas portas de entrada de ano de eleição, no qual os senhores deputados correm longe de temas polêmicos e, por certo, farão de tudo para não ter de mexer no vespeiro aposentadoria.

No melhor esforço aritmético, somando tudo a favor – totalidade dos votos do PSDB, do PMDB e de uns e outros deputados de 16 siglas que votaram contra Temer, mas que não se oporiam, pelo menos em tese, à reforma da Previdência – têm-se 78 votos a mais do que o presidente conseguiu a seu favor. Um a menos dos dois terços necessários para aprová-la.

Vitorioso na Câmara, mas contaminado pela suspeita de corrupção. Paira sobre Temer a ameaça de uma nova denúncia, resultado do fatiamento feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. E a hipótese de inclusão de seu nome no inquérito sobre o PMDB que corre no Supremo, pedido feito por Janot no exato momento em que a Câmara iniciava o processo de votação sobre a denúncia contra ele.

Temer está espremido, quase sem saída. Terá de apostar tudo na aprovação da reforma da Previdência, por mais impopularidade que ela acrescente ao seu mandato já imbatível nesse quesito.

Inadiável, econômica e socialmente, já que daqui a pouco não haverá dinheiro para pagar as aposentadorias, mesmo desfigurada e um tanto mambembe, essa é a única tábua de salvação de Temer. A partir dela ele alimenta sonhos de obter algum reconhecimento – no tom dos que ouviu nos microfones de quem votou a seu favor – e de entrar para história pelo menos pela portinhola lateral, infinitamente melhor do que a do fundo ou do buraco de lama.

Para tal, terá de batalhar por ela com vigor ainda maior do que demonstrou para sobreviver. De preferência com armas e métodos menos vis.

24 julho 2017 MARY ZAIDAN

DE RABO PRESO COM MADURO

Gente que dorme e acorda na porta dos mercados para comprar comida que acaba antes de a fila andar. Falta de remédios, ataduras e até de soro fisiológico. Famílias que vasculham lixos e assam animais de estimação para servir no jantar. Mais de uma centena de mortos pela repressão em manifestações contra o governo. Essa é a Venezuela, cujo regime e seu ditador, Nicolás Maduro, receberam apoio incondicional do PT e PCdoB, e parcial do PDT, signatários da resolução final da 23ª reunião do Foro São Paulo, realizada na Nicarágua.

A solidariedade ao regime totalitário de Maduro, expressa em viva voz pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman, há uma semana, na abertura do Foro, causa repulsa diante da tragédia humanitária do país vizinho. Tão grave que não comporta qualquer tipo de defesa ideológica.

E, ao que tudo indica, ideologia está longe de ser de fato a inspiração para as falas.

Os discursos petistas sempre deram trela ao faz de conta que o ex-presidente venezuelano morto, Hugo Chávez, chamou de socialismo do século 21. Mas, no ver e crer, as identidades do PT com essa turma se consolidaram em outras searas.

Chávez, o gênio que conseguiu parir um golpe sobre si para se tornar presidente, obteve do Brasil do ex Lula tudo e muito mais do que podia esperar. Traduzindo em miúdos, usufruiu de trocas maravilhosas, favores envolvendo fortunas – US$ 98 milhões só na conta de corrupção da Odebrecht, declarados pela empreiteira em oitiva à promotoria dos Estados Unidos.

Muitas transações ainda carecem de explicações, se é que elas existem.

Em um país povoado por denúncias cotidianas, poucos se lembram da festa patrocinada por Lula e Chávez para lançar a pedra fundamental da construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que teria 60% dos US$ 2,4 bilhões orçados para a sua construção custeados pela PDVSA, estatal petrolífera venezuelana.

Isso foi em 2005. Dois anos depois, Chávez se apropriou dos ativos da Petrobrás na Venezuela e, mesmo sem ter colocado um único centavo, reclamava do atraso das obras pernambucanas. Em 2013, Dilma Rousseff anistiou as dívidas da Venezuela com a obra, que, nesta altura, já custava cinco vezes mais: US$ 13,4 bilhões.

Uma aventura de comunhão bolivariana com custos e prejuízos fenomenais para o Brasil, que jamais serão pagos. Ainda inconclusa, a refinaria já consumiu US$ 18 bilhões dos brasileiros e produz menos da metade da previsão inicial de 230 mil barris de petróleo/dia.

Chávez morreu em março de 2013, sem ver as consequências desastrosas da gastança populista que promoveu nos anos em que o petróleo batia recordes de preço no mercado mundial.

Assim como Lula e depois Dilma, ele se regozijava de ter eliminado a miséria. Em 2011, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) chegou a divulgar que o chavismo reduzira 50% da pobreza do país. Cinco anos depois, o percentual de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza atingiu 81%, embora os dados manipulados pelo regime apontem 18,3% de redução da miséria em 2016.

Além da mentira quase infantil das estatísticas oficiais, facilmente desmanteladas pelo cotidiano – um salário mínimo venezuelano consegue comprar comida para apenas três dias, isso quando encontra produtos à venda -, a ditadura Maduro luta contra muitas outras frentes. E a pior delas não é a oposição formal, a qual ele tenta derrotar a tiros, literalmente, e com a convocação surreal de uma Constituinte, cujo objetivo é mantê-lo no poder.

Está tendo de enfrentar as vítimas do populismo subsidiado pela ignorância e custeado pelo petróleo, sem ter fartura e muito menos inteligência para fazê-lo.

Abusa da repressão, das milícias armadas, promove a matança, estimula uma guerra civil. Ainda assim tem apoio da esquerda brasileira, irrestrito quando se trata do PT.

Talvez porque os rabos do presidente venezuelano e do PT estejam enrolados em uma trama de difícil equação para ambos.

Maduro foi apontado por Mônica Moura, mulher de João Santana, marqueteiro de Lula e de sua pupila, como pagador de pacotes de dinheiro ilícito, em espécie, para remunerar o trabalho da dupla durante a campanha vitoriosa da Dilma de Chávez. Tudo com conhecimento e aval do governo petista.

O PT de Lula – que gravou vídeo em favor de Maduro na disputa de 2013, que se arvorou a falar em nome do “povo brasileiro” ao defendê-lo, em abril, quando a chancelaria nacional propôs a suspensão da Venezuela do Mercosul, e que agora se solidariza e apoia a realização da Constituinte pró-Maduro -, é cúmplice e parceiro da ditadura venezuelana.

De um lado, usa a crença bolivariana para alimentar a fé cega dos seus. De outro, busca evitar a derrota fatal de um companheiro – não de armas, mas de “malfeitos”-, que pode lançar ainda mais lama nos 13 anos de governos petistas. Não importa quantos mais Maduro mande prender ou matar.

16 julho 2017 MARY ZAIDAN

COMPLEXO DE PINÓQUIO

O desprezo do PT pela democracia dispensaria novos exemplos. Mas seus integrantes fazem questão de exibi-los com alucinada frequência. Se geralmente já se postam como vítimas de um inimigo invisível, quando acuados pelos fatos reagem com ameaças. A da vez é de que não aceitarão uma eleição presidencial sem Lula.

Só não dizem como. Com greves gerais? Quebradeira? Luta armada?

Feita da tribuna do Senado pela presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, na quarta-feira, 12, a bravata se repetiu no dia seguinte, quando Lula convocou a imprensa para uma suposta entrevista coletiva na qual foram vetadas perguntas dos jornalistas. Antes do monólogo, Gleisi lançou a nova campanha petista: eleição sem Lula é fraude.

O mote e a peça, já impressa, estarão em todos os cantos. Nas viagens de campanha programadas por Lula (o circuito começa em agosto e inclui 22 cidades) e nas tentativas dos ditos movimentos sociais de colocar gente na rua, a primeira delas na próxima quinta-feira, 20.

Diante da sentença do juiz Sérgio Moro condenando Lula a nove anos e seis meses de prisão, é até compreensível o esperneio do PT. Tentar empolgar a militância, manifestar, ocupar as ruas é parte saudável da democracia. Mas fazê-lo tendo a mentira como premissa são outros quinhentos.

O slogan “eleição sem Lula é fraude” é exatamente isso: ludibrio, tapeação. E agride frontalmente a Justiça, um dos tripés da organização do Estado democrático.

Lula foi denunciado, exerceu seu direito de defesa e, ao fim e ao cabo, considerado culpado no primeiro dos cinco processos que correm contra ele. Poderá recorrer em liberdade, uma concessão que nem todos têm. Se sua sentença for mantida em segundo grau, ficará inelegível, impossibilitado de disputar eleições.

No máximo, vai se igualar a outros tantos que tiveram suas candidaturas impugnadas. Só em 2016, a Lei da Ficha Limpa barrou 2.300 candidatos. E isso não fez com que o pleito do ano passado fosse considerado uma farsa.

Mas o PT não vislumbra alternativas. Vai insistir na falácia de que Moro persegue Lula assim como fez com a presidente deposta Dilma Rousseff, quando transformou um rito constitucional em golpe.

O patético protesto de ocupação da mesa diretora do Senado, liderado por Gleisi, interrompendo a votação da reforma trabalhista, que acabou aprovada por acachapantes 50 votos a 26, encontra-se na mesma linha torta de apelo antidemocrático.

Sem argumentos, substituiu-se o legítimo direito à obstrução parlamentar por vandalismo. Tivesse algum juízo ou inteligência, a votação seria impedida dedicando-se, por exemplo, a ocupar a sessão com a leitura da CLT. Instruída não pelos votos que recebeu dos paranaenses, mas pelo presidente da CUT, Vagner Freitas, Gleisi nem pensou nisso.

A atenção da primeira mulher a presidir o PT pairava em outra seara, mais precisamente no primeiro processo em que uma senadora se tornou ré. Ao lado do marido Paulo Bernardo (ex-ministro de Comunicações de Dilma e do Planejamento de Lula), Gleisi é acusada de receber doações ilícitas com dinheiro desviado da Petrobras. Arrolou Lula como testemunha de defesa e dele obteve apoio total na oitiva realizada em São Paulo, a mando do ministro Edson Fachin, cinco dias antes de ela reincidir na ameaça à nação caso o ex fique fora da disputa em 2018.

Define-se aí uma ligação de lealdade que extrapola o dia a dia da política. Ambos são fiadores e devedores um do outro.

Gleisi é uma militante aguerrida. E Lula usa e abusa da energia dela. É hoje a melhor – talvez única – ponta de lança do ex, que parte para o confronto e se esgoela na tribuna do Senado.

Ali ela tripudia adversários, anima partidários, fala aos fiéis. Grita contra Moro, chamando-o ora de “animador de torcida”, ora de “covarde”. Critica a mídia, que, segundo ela, é o público que o magistrado curitibano queria agradar ao proferir a sentença contra Lula.

Encarna o que o PT sabe fazer de melhor: empina o nariz, deixando-o livre para pinoquiar.

2 julho 2017 MARY ZAIDAN

FORA OS FORA DA LEI

Os elogios causaram estranheza e eram desnecessários. Mas, goste-se ou não, o ministro Marco Aurélio de Mello acertou ao devolver o mandato ao senador Aécio Neves, suspenso pelo ministro Edson Fachin desde 18 de maio. O tucano, flagrado pedindo dinheiro ao delator Joesley Batista, pode até ter culpa no cartório, mas suspeição não é critério (ou não deveria ser) para interromper um mandato popular, seja de quem for. Quanto mais quando um único juiz decide fazê-lo.

Mais de três dezenas de senadores são alvos de investigação no Supremo. Só Renan Calheiros (PMDB-AL) tem 12 delas nas costas. O ex-líder do PMDB, que ao ver o presidente Michel Temer abatido migrou para a oposição, exemplifica bem os pesos e medidas do STF. Acusado de peculato, virou réu em dezembro do ano passado e não foi suspenso, continua a exercer seu mandato. É o que a lei prevê até ser julgado e ter a sua sentença proferida.

Diante do gigantismo da bandidagem, os bilhões afanados e a cada vez mais sofisticada rede do crime de corrupção, a descrença popular nos políticos é compreensível. Para muitos, a melhor solução é linchar todos, jogar na cadeia os 32 senadores investigados e a outra centena de deputados. Prender o presidente Temer e seus auxiliares. Justiçar em vez de fazer Justiça.

Apedrejar sem investigar remete a práticas da Idade Média, que só perseveram entre uma minoria fundamentalista do Islã. Mas, de certa forma, é o que tem sido feito por aqui. Delação virou prova, vazamentos determinam as sentenças populares, na maior parte das vezes tecida por torcida, ignorância, má-fé ou tudo isso.

Tem-se uma briga de facções, todas arremessando pedras, usando a suspeita ou a investigação de crimes ainda não comprovados para destruir seus oponentes. E o fazem sem medir consequências – todas elas danosas à democracia e ao Estado de Direito.

Para proteger o ex Lula, também enrolado em cinco processos, um deles perto de ser finalizado na primeira instância, os que apedrejam Temer o fazem sob o mesmo argumento que o presidente tem usado contra a Procuradoria-Geral da República (PGR): a perseguição. E os que querem ver Lula na cadeia possivelmente amargarão a frustração de o ex ser condenado por Sérgio Moro, mas continuar em liberdade. Não por bondade do juiz de Curitiba, mas por ser réu primário. É a lei.

Lula fora da cadeia causará tanta indignação e descrença na Justiça quanto a soltura de Aécio ou a possível – e até previsível – decisão da Câmara de Deputados de não autorizar que o processo contra Temer ande.

Se isso ocorrer, vão proliferar as teorias de um grande acordo para livrar todos, algo almejadíssimo, mas quase ficcional.

Um acordão é desejo de 10 em cada 10 investigados. Frequenta jantares de Brasília. Mas amarga a mais doce das sobremesas quando os convivas se confrontam com a imensa impopularidade de uma eventual anistia.

Há ainda os que se consideram senhores da concertação e se arvoram a falar em nome da salvação nacional – que não deixa de ser um acordo, visto que à margem da lei.

Gente do porte do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que recentemente passou a só ver saída com eleições gerais, tese que atraiu apoio de Lula e Renan, e outros tucanos de alta plumagem, que pregam parlamentarismo-já, rejeitado em plebiscito há pouco mais de uma década.

Gente que teria responsabilidade de apregoar a Constituição e que escolhe fazer pouco dela. Gente que deveria saber que é na crise que se revela o valor da Carta. Que mudá-la açodadamente é permitir que ela se mova de acordo com a força do vento – diga-se, de um aventureiro qualquer.

Não deveria existir condenação sem investigação e prova – ainda que imaterial, já que corruptos não passam recibo. Não deveria existir alternativa fora da lei, muito menos fora da Constituição. Pior: quando a sensação geral é a de que há mais bandidos do que mocinhos, qualquer um acha que pode encarnar o xerife.

18 junho 2017 MARY ZAIDAN

PERDÃO INDIGESTO

Chave-mestra para as investigações da Lava-Jato, o instituto da delação premiada pode ganhar nova interpretação nesta semana, fragilizar a operação e adicionar mais uma guerra às já deflagradas entre os poderes.

Desta vez opondo a Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal, caso o plenário da Corte decida rever os termos das colaborações dos irmãos Batista, beneficiados com imunidade absoluta.

A questão será analisada na quarta-feira. A hipótese de a tese de revisão ser aprovada reduz o poder de negociação da PGR – uma arapuca para a Lava-Jato, que os investigados pela operação tentam com afinco, mas que acabou armada pela própria Procuradoria.

A PGR pode até espernear, mas se algo mudar será única e exclusivamente pela frouxidão do acordo firmado com os donos da JBS.

Por mais que o Procurador-Geral Rodrigo Janot afirme e reafirme que o teor da delação compensava todas as benesses, nem especialistas, quanto mais o cidadão comum, conseguem compreender como a instituição que comanda o combate à corrupção acabou por fazer valer o dito de que o crime compensa.

Ainda que tenham gravado um diálogo nada republicano com o presidente Michel Temer e outros com Aécio Neves, e combinado ações com a Polícia Federal para efetuar flagrantes que complicam Temer e o senador tucano afastado, os Batista ditaram e obtiveram regalias inexplicáveis. Sem parâmetros no mundo.

Causaram escárnio as imagens do apartamento de luxo de Joesley em Nova York, de seu jato particular e do embarque de seu iate de US$ 10 milhões para os Estados Unidos; a confissão de que corrompera 1.893 políticos. Todos os crimes perdoados – enfiados goela abaixo dos brasileiros pela PGR.

Criada no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999, no bojo da Lei 9.807 sobre Proteção a Testemunhas e Colaboradores, a delação premiada reaparece na Lei 12.850, que define organização criminosa, assinada pela então presidente Dilma Rousseff, em 2013. Uma lei não anulou a outra. E entre uma e outra as mudanças mais significativas se referem ao detalhamento das delegações dadas ao Ministério Público e à Polícia Federal para formalizá-las.

Mas o que chama atenção é o pouco caso que se faz da legislação. O parágrafo 1o da Seção I da lei de 2013 — “a concessão do benefício levará em conta a personalidade do colaborador, a natureza, as circunstâncias, a gravidade e a repercussão social do fato criminoso e a eficácia da colaboração” – fornece, por exemplo, elementos de sobra para que a PGR negasse os termos exigidos pelos irmãos Batista no pacto. Mais adiante, o parágrafo 3o do Artigo 6º fixa a manutenção do sigilo do acordo até o recebimento da denúncia, preceito inútil para quase a totalidade das delações no âmbito da Lava-Jato.

No Supremo, a tendência é de revisão do acordo dos Batista. Mas em alguns termos, algo bem pontual. Difícil será fazê-lo sem colocar em risco acordos já firmados e outros que estão em negociação. É nesse ponto que a defesa da PGR deve se ater: a segurança jurídica.

O STF avaliará também se a homologação de delações pode ou não ser feita pelo juiz relator do processo ou se é sujeita, obrigatoriamente, a deliberação colegiada. E se o inquérito para investigar Temer e o ex-deputado Rodrigo Loures (PMDB-PA) continuará ou não com o ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato. Na contramão do desejo de Temer, têm-se como favas contadas a vitória de Fachin.

Seja qual for a decisão do STF na quarta-feira, uma coisa é certa: o país não suporta mais a corrupção, mas também não tem estômago para delações que premiam excessivamente criminosos confessos. Cabe à Justiça evitar essa indigestão.

5 junho 2017 MARY ZAIDAN

DIRETAS-JÁ MERECEM RESPEITO

Ulisses Guimarães, Praça da Sé, São Paulo, em 25 de janeiro de 1984, durante o movimento Diretas Já

Por ignorância, esperteza ou má-fé, tem-se atribuído à eleição direta para presidente o status de elixir infalível, capaz de purgar todos os males que se abateram sobre o país. E, em um lastimável arremedo da História, acrescenta-se a ela o advérbio já, o mesmo usado em 1983-84, quando o Brasil lutava para emergir de duas décadas de ditadura.

Comparar os dias de hoje com aqueles é um acinte. Inadmissível até para os mais jovens, que não vivenciaram os limites e os horrores dos tempos de exceção. Quanto mais para os que combateram o regime que extirpou milhares da vida nacional, torturou e matou. Que impedia ir, vir, reunir, escrever, falar, cantar, atuar, pensar.

Longe de ser um movimento para beneficiar candidaturas de um ou outro, as diretas-já de 1983-84 pressupunham retomar direitos usurpados pelos militares. O que unia diferentes ideologias era a derrubada do regime. E, ao contrário da Rússia ou de Cuba, e das metralhadoras de José Dirceu e Dilma Rousseff, mirava-se a democracia – e a arma era o voto.

Ainda que seja um dos maiores instrumentos da expressão popular, o voto direto por si só não garante a democracia. Muito menos a liberdade e os direitos do cidadão. A vizinha Venezuela que o diga.

Desde Hugo Chávez sufoca-se qualquer um que discorde do mandatário. Criam-se distritos, juntas e leis eleitorais ao bel-prazer do presidente, convocam-se eleições a qualquer hora, muda-se a Constituição.

Ou seja: a urna tem pouca ou valia alguma se servir a casuísmos de eternos donos do poder, populistas e ditadores que nela se escoram para referendar seus desmandos.

Por aqui, as eventuais mudanças constitucionais de ocasião serviriam a propósitos igualmente duvidosos, abrindo precedentes perigosíssimos.

Em nome de se fazer o bem, como muitos creem, abrem-se janelas para o mal.

Se é urgente alterar a Constituição para resolver o pós-Temer – evento circunstancial, que duraria pouco mais de um ano se o presidente caísse hoje – quanta loucura bolivariana, fascista, de extremismos à direita e à esquerda não poderia ser feita amanhã, com respaldo em imediatismos?

Dirão alguns que o atual Congresso, com pelo menos um terço dos seus envolvidos em falcatruas, não teria legitimidade para escolher um presidente de forma indireta. Cabe a questão: e por que esses mesmos parlamentares seriam legítimos para aprovar uma emenda constitucional pelas diretas?

Agora, o tema diretas ganhou força pela fragilidade do presidente, abatido pela delação de Joesley Batista, o canalha, alcunha imposta pelo ex Lula em discurso no 6º Congresso Nacional do PT, que terminou ontem.

Aliás, Joesley conseguiu quase o impossível: ser igualmente odiado por Lula e Temer. E por todo o país, que considera excessivo o benefício que a ele foi concedido, rico, leve e solto. É o canalha que Lula mimou e a quem entregou R$ 12,8 bilhões de dinheiro dos brasileiros, via BNDES. E o carrasco de Temer, que estrangulou o presidente e o país.

Mesmo encurralado, Temer continua presidente, o que torna surrealista falar de eleições para sucedê-lo, sejam elas indiretas ou diretas.

Apresenta-se como um sobrevivente que tem conseguido, com aparelhos, manter a respiração. Perdeu fôlego no Congresso, mas não o suficiente para ser impedido, algo que pode vir – se vier – do TSE, que marcou para terça-feira, 6, o julgamento da ação do PSDB de cassação da chapa Dilma-Temer. Mas nada aponta que será condenado de imediato e, se for, que sairá rápido do Planalto, dadas as possibilidades de recursos.

Falar hoje em diretas-já avilta o movimento que enterrou a ditadura. Confunde as bolas. A não ser que os defensores da tese de eleições diretas para substituir Temer pretendam retirar o presidente à força. Aí, adeus democracia.

24 maio 2017 MARY ZAIDAN

PAÍS DE AMADORES

Não fosse uma imensa tragédia para o país, tudo o que envolve a delação dos irmãos Batista seria apenas uma fantástica ficção, entre o terror e a comédia.

Exceto Joesley, Wesley e seus advogados – um deles recém-saído da PGR, ex braço direito do procurador-geral Rodrigo Janot -, os demais envolvidos parecem um bando de amadores: de Michel Temer a Aécio Neves, do Ministério Público ao Supremo Tribunal, além da Polícia Federal.

Primeiro, os Batistas conseguem fechar o acordo mais dadivoso de que se tem notícia, por aqui e no mundo. Corrompem, compram a República, embolsam dinheiro dos impostos de quem trabalha em empréstimos generosíssimos do BNDES e da Caixa, patrocinados por Lula e Dilma, e se mandam livres, leves, riquíssimos para os Estados Unidos, com aval da PGR e do Supremo.

Joesley grava, por conta própria, conversa nada republicana com Michel Temer, tarde da noite, no Palácio do Jaburu, e, já orientado pela Polícia Federal, outras com Aécio Neves e seus comparsas. Malas e mochilas de dinheiro entregues a mando de Joesley aos supostos cupinchas do presidente e do senador receberam um chip da PF para rastreamento, e o dinheiro teve suas notas de série marcadas.

Embora ainda não se saiba por que as investigações sobre a JBS ficaram atreladas à Lava-Jato, a PF revelou o seu orgulho com as primeiras ações monitoradas para a produção de provas no âmbito da operação.

Mas não foi bem assim: os R$ 500 mil que chegaram às mãos do deputado Rocha Loures se perderam. A mochila não tinha chip e o dinheiro desapareceu do radar, exigindo esforços de busca.

A gravação que fez o governo Temer desabar é um capítulo à parte.

A Procuradoria-Geral da República incluiu o áudio na peça da denúncia sem uma perícia técnica prévia, embora tivesse à disposição a melhor equipe para tal. Com isso, patrocinou a celeuma em torno de edição, o que pode pôr todo o processo a perder.

Provocou ainda uma ridícula guerra de versões nas empresas jornalísticas, cada uma se dizendo dona da verdade, o que prova que ninguém sabe em que lugar a verdade está.

A Folha de S. Paulo contratou perito que garante que a gravação teve mais de 50 edições; O Estado de S. Paulo ouviu outro que afirma ter 14 trechos duvidosos. E O Globo garante, com escarcéu também no Fantástico e replique no site do jornal, que o áudio não foi adulterado.

O pedido oficial da defesa de Temer fez com o que o Supremo exigisse a perícia técnica do áudio. E aí, mais uma trapalhada: o país descobre que Joesley entregou a gravação, mas ficou com o gravador – na verdade, gravadores, conforme revelou a PF ao tentar recuperar o equipamento.

É estranhíssimo, para dizer o mínimo, que a PGR não tenha confiscado o aparelho usado para a gravação. Por que deixar prova do crime nas mãos do criminoso?

Embora sua defesa aposte nisso, o fato de a gravação ter sido editada não muda a gravidade do bate-papo de Temer com o empresário bandido.

Mas põe a PGR, que, por açodamento ou algum motivo ainda não explicado, cedeu mundos e fundos aos Batistas e preferiu correr o risco de usar um áudio sem conferência. Pior, deixar que os delatores levassem a arma do crime.

Expõe também o Supremo, que, por meio do ministro Edson Fachin, homologou a delação, autorizou os inquéritos e liberou os criminosos.

As notícias dão conta de que Joesley e sua mulher saíram de Nova York e estão em local não sabido. Ninguém dá conta de seu paradeiro. Bandido profissional, ele faz chacota deste país de amadores.

22 maio 2017 MARY ZAIDAN

COM O DIABO NO CORPO

Michel Temer, 76 anos, quase 40 deles dedicados à política, não se enquadra na categoria dos desprecavidos. Não teria sobrevivido se o fosse. Muito menos na dos ingênuos, o que torna inexplicável ter se deixado enredar na armadilha de Joesley Batista, para quem Temer, na noite de 7 de março, abriu os portões do Palácio do Jaburu e do inferno, lançando nas chamas ele próprio, o seu governo e o país.

Ainda que monossilábico, o presidente da República ouviu disparates de um investigado pela Justiça, concordou com o inconcordável, postou-se como cúmplice de relatos criminosos. Nada fez.

E deu muito mais do que os irmãos Batista precisavam para selar a delação premiada junto ao Ministério Público Federal: um diálogo cifrado, no qual Joesley poderia introduzir recheio de qualquer sabor.

Ao relatar a Temer que estava de bem com Eduardo Cunha, Joesley não cita a que se refere. Não fala de compra, de dinheiro, de valores – permitindo que ele dê a sua versão aos procuradores, como os tais R$ 400 mil que teriam sido pagos pelo silêncio de Cunha, com conhecimento do presidente. Algo que não está no escopo da conversa e, portanto, não aparece na gravação.

Há mais dúvidas do que certezas nessa hecatombe provocada pela delação dos donos e diretores da JBS, a maior processadora de carnes do mundo, uma das campeãs nacionais selecionadas por Lula da Silva e Dilma Rousseff, com direito a generosíssimos recursos do BNDES e da Caixa.

No que tange a Temer é incompreensível o fato de ele ter aceitado encontrar-se com Joesley no tardar da noite, em sua residência e sem testemunhas. Ter deixado a conversa se enveredar por temas nada republicanos – ao contrário, criminosos. De não ter desconfiado da armação. Teria rabo preso? Culpa? Medo?

Na outra ponta, a delação dos Batistas abre dezenas de questionamentos – a começar pelos dadivosos termos do acordo que os livrou de qualquer pena.

Além dos ganhos de milhões no entardecer da quarta-feira, 17, dia D do vazamento da delação, com compra de dólares e manipulação de ações, objeto de cinco investigações abertas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os donos da JBS – que estão livres, leves, ricos e soltos – acumulam discrepâncias entre o que dizem e o que deixam de dizer.

Eles são capazes, por exemplo, de afirmar com precisão cartesiana que beneficiaram 1.829 políticos via dinheiro sujo, mas não conseguem lembrar os nomes dos cinco parlamentares – apenas cinco – que teriam recebido R$ 3 milhões cada para votar contra o impeachment de Dilma, depois de recusar o pedido para comprar 30, que eles também não dizem quem são.

A JBS teria gasto quase R$ 600 milhões para financiar políticos, menos de 2% de forma lícita. Aécio Neves, enrolado até o último fio de cabelo pela gravação em que aparece pedindo dinheiro e acertando, como um meliante, a entrega das notas em espécie, teria levado mais de R$ 60 milhões. Gilberto Kassab, José Serra, Fernando Pimentel e outros 15 governadores estariam na lista de receptores. Os Batistas dizem possuir uma bancada invejável: 167 deputados federais e 28 senadores, 179 deputados estaduais em 23 estados.

Questionado sobre um juiz que ele teria no bolso e que citara a Temer, Joesley diz que inventara esse fato ao falar com o presidente – e o dito parece ter sido convincente. Em outro ponto, o delator afirma que só com Lula e Dilma foram gastos US$ 150 milhões (mais de R$ 320 milhões). Um recorde absoluto. Ainda assim, sabe-se lá por que, as transações com os dois ex não se tornaram objeto de denúncia específica.

Michel Temer, 76 anos, político experiente, foi incisivo no pronunciamento que fez na última quinta-feira, 21 horas depois do vazamento do teor da gravação, uma hora antes de oficialmente o áudio de seu encontro com Joesley ser liberado pelo ministro-relator da Lava-Jato no Supremo, Edson Fachin.

Após ouvir a gravação, o presidente teria voltado a respirar. Como dissera pouco antes, não havia menção alguma quanto à compra do silêncio de Eduardo Cunha. Mas continha tudo o que não podia: silêncio, concordância e cumplicidade com um empresário corrupto.

No sábado, Temer voltou a se dirigir à nação. Anunciou que sua defesa protocolaria pedido de suspensão do inquérito contra ele até que a gravação – objeto de edição revelada por peritos contratos pelos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo – fosse oficialmente periciada.

Abre-se assim um novo flanco de dúvidas. Pior, capaz de ferir de morte o MPF, ao qual cabe atestar a veracidade de provas-chave de delação e de abertura de inquérito.

Algo gravíssimo caso seja confirmado. Mas, ainda que venha a servir como extintor para as chamas que Temer lançou sobre si naquele 7 de março, não conseguirá apagar a revelação de que ele já havia se rendido ao diabo.

15 maio 2017 MARY ZAIDAN

SAUDADES DO TRIPLEX

Quando os 78 executivos da Odebrecht – incluindo Emílio, dono da empreiteira, e seu filho Marcelo – fecharam acordo de delação com a Lava-Jato, acreditava-se no fim do mundo. Tratava-se do desbaratamento de um sistema organizado e sólido de corrupção em obras públicas – moldado no Brasil e com braços e pernas em outros 12 países – que existia há décadas, mas que se vitaminou e ganhou músculos nos governos petistas.

Dois meses depois, o marqueteiro João Santana e sua mulher Mônica Moura revelaram detalhes ainda mais sórdidos de como esse mundo particular se movia, expondo como a dinheirama ilícita teria corrido nas campanhas de Lula e Dilma, com conhecimento e comando deles.

Agora será a vez do ex-ministro Antonio Palocci, e, com ele, a explosão do mundo.

Sua provável delação, já em negociação, tem potencial para detonar de vez seus ex-chefes Lula e Dilma, além de gente do mercado financeiro e de empresários que ganharam mundos e fundos durante os mandatos petistas.

Palocci é peça-chave de quase todos os que se apresentam aos procuradores da Lava-Jato.

O ex-ministro da Fazenda de Lula e da Casa-Civil de Dilma aparece nos depoimentos como quem cuidava do cumprimento dos acordos paralelos, dos pagamentos clandestinos, das generosidades para empresas amigas, que devolviam os agrados com juros e correção na campanha eleitoral seguinte.

Está em voga também na operação que a Polícia Federal deflagrou sexta-feira, para apurar o repasse de R$ 8,1 bilhões do BNDES à JBS, empresa líder mundial de carne e contribuinte eleitoral dadivosa.

E Palocci nunca está sozinho. Na maior parte das vezes seu nome vem atrelado ao de Lula, o chefe, tão citado nos depoimentos dos marqueteiros que vieram à tona na última quinta-feira.

Para Lula e o PT, a ameaça Palocci é o que mais devastador poderia acontecer em uma semana em que só colheram reveses.

A começar pelo depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro, no qual o ex-presidente até conseguiu cravar algumas vitórias para a plateia de fiéis. Mas que foi um desastre para a sua defesa, com várias contradições, abuso de “não sei” e de responsabilidade jogada sobre o túmulo de sua mulher, Marisa Letícia. Oportunista, desrespeitoso, covarde, patético.

Nas ruas de Curitiba, os 100 mil que o PT e os “movimentos sociais” prometeram arregimentar somaram perto de 5 mil. E o que Lula pretendia transformar em um embate entre ele e Moro, o nós versus eles, única linguagem com a qual sabe lidar, se desmoronou diante do clima de respeito de ambos durante a audiência.

Quisera Lula e o PT que os problemas se resumissem a incongruências sobre o tríplex no Guarujá, primeiro dos cinco processos a que Lula responde, ou até mesmo do sítio em Atibaia. A terra começou mesmo a tremer no dia seguinte com a liberação, pelo ministro Edson Fachin, dos depoimentos de Santana e Mônica.

A forma com que os dois falam de repasses da Odebrecht para contas no exterior, pagamentos acertados com Palocci, de dinheiro vivo recheando meias de entregadores, amontoado em caixas de sapatos, em mochilas, é espantosa.

O que mais choca nem é a quantidade dos milhões de dólares – e não são poucos –, mas a naturalidade da confissão. Como se não houvesse crime, até porque quem patrocinava o crime eram a própria Presidência da República e seu partido.

Os prejuízos de Santana e Mônica a Lula, Dilma e o PT ainda não podem ser de todo contabilizados. Ao que parece, Mônica aproveitou-se das informações privilegiadas que diz ter recebido de Dilma não para apagar rastros, mas para se documentar e aliviar as penas de seu marido e dela.

Apresentou documentação farta, extratos bancários que batem com as delações da Odebrecht, cópia registrada em cartório de mensagem trocada com Dilma em e-mail secreto, notas, nomes e apontamentos de sua agenda. Tem bala na agulha.

Palocci tem mais, muito mais. A ponto de fazer Lula sonhar em ser apenas o proprietário de um tríplex no Guarujá e de um sítio em Atibaia.

24 abril 2017 MARY ZAIDAN

IN VINO VERITAS

Dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva experimentou um prazer raro: bebeu um Romanée-Conti 1997, um dos vinhos mais caros do mundo, presente do marqueteiro Duda Mendonça. Um mimo como tantos outros que Lula já aceitara – e continuou aceitando depois de eleito -, provavelmente custeado pela propina que irrigou o caixa dois de sua campanha.

Lula ainda não tinha chegado ao Planalto, o que aconteceu dois meses e meio mais tarde. A comemoração antecipada se deu pelo desempenho que tivera no debate da TV Globo, do qual também participaram José Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho.

Passados 15 anos, nem o Romanée-Conti, que custou R$ 6 mil à época (hoje, raridade vendida a mais de R$ 40 mil), resistiu ao tempo: a garrafa vazia tomada por Lula, exibida como troféu na elegante Osteria Dell’Angolo, em Ipanema, foi furtada em 2009. Garotinho e Duda há muito se enrolaram com a Justiça, Ciro já anunciou que receberia a turma do juiz Sérgio Moro à bala e Lula se afunda na lama a cada frase de delatores.

Advogados do ex-presidente, notas do Instituto Lula e do PT, tentam fazer crer que delações e depoimentos que envolvam o nome dele são tirados a fórceps. A força-tarefa da Lava-Jato e Moro seriam torturadores que extraem dos detidos o que querem ouvir.

Emílio Odebrecht, que expôs sem qualquer cerimônia as facilidades que obteve nos governos petistas e o caráter de bon vivant do ex, mentiu. Marcelo Odebrecht, que aportou mais de R$ 700 milhões ao PT e aliados, também mentiu. O amigo Léo Pinheiro, dono da OAS, inventou que Lula pedira para que ele destruísse provas de dinheiro repassado ao PT.

As mentiras que forçaram os delatores a dizer não parariam por aí. As luxuosas reformas do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia não foram feitas sob a orientação da mulher de Lula, Marisa Letícia, e muito menos para agradá-lo. As empreiteiras investiram em projetos, engenharia, materiais e obras sem motivo algum. Talvez para agradar ao proprietário de fachada do sítio ou então para aumentar o valor de venda de um apartamento que a OAS nunca pôs à venda.

E, daqui a alguns dias, ao que tudo indica, o país pode conhecer as falácias que o ex-ministro Antonio Palocci tem a acrescentar no rol dos que mentem para se livrar da cadeia.

Mas se tudo é invencionice quando Lula é o acusado, vira verdade quando os alvos são os “golpistas” Michel Temer, ministros e políticos do PMDB e do PSDB. Chega a ser patético.

Mesmo sem sustentação lógica, esse continuará a ser o discurso.

Paralelamente, os fiéis a Lula contam com a própria Lava-Jato e seus delatores para enfiar mais gente no lamaçal, ampliando a sensação de que Lula, ainda que esteja enrolado, é só um entre centenas.

Querem fazer crer que ele estaria podre como os demais – ou até menos.

A redução de 14 pontos percentuais na rejeição a Lula na última pesquisa Ibope, em que aparece com 30% de votos consolidados para 2018, prova que a tática está dando certo.

Ainda há muita água para correr debaixo da ponte e também muita lama para mexer no curso da água até 2018.

Resta ainda saber se Léo Pinheiro apagou rastros, eliminando parte do entulho que pode enterrar de vez qualquer pretensão de Lula.

Hoje, sabe-se que o Romanée-Conti 1997 não foi exceção, e sim a regra.

10 abril 2017 MARY ZAIDAN

LULA E A LEI

O ex Luiz Inácio Lula da Silva se diz ansioso para depor ao juiz Sérgio Moro. Sua pupila e sucessora, a presidente cassada Dilma Rousseff, se “preocupa muito que mudem as regras” e prendam o seu padrinho. Combinados, eles fazem o jogo do contrário: o claro é escuro, o dia é noite.

Assim como os demais enrolados e arrolados pela Lava-Jato, Lula quer distância de Moro, mas não pode correr de uma intimação. E Dilma apenas engrossa a conhecida lengalenga de perseguição a Lula. Condená-lo não seria aplicação da lei, mas ação deliberada para impedir seu retorno à Presidência.

Ambos descem a lenha no Ministério Público Federal e na atuação da Justiça e, ao mesmo tempo, têm a desfaçatez de se dizerem defensores da Lava-Jato.

Há quase um ano, Lula, Dilma e o PT tentam convencer o mundo de que o Brasil vive em estado de exceção. Com algum sucesso, até conseguiram apoio internacional na campanha contra o “golpe” que afastou Dilma.

Neste sábado, na Universidade de Harvard, em Boston, em evento organizado por alunos brasileiros, Dilma repetiu a ladainha. Acrescentou a pregação que o PT e Lula têm batido nas redes sociais e nas ruas: uma eventual condenação de Lula seria uma armação para tirá-lo da “parada” em 2018. E misturou – por confusão, má-fé ou ambos – regras eleitorais com prestação de contas à Justiça.

Além de ser mais uma afronta às instituições brasileiras, especialmente à Justiça, a tese reforça a intocabilidade que Lula e aqueles que o cercam exigem para o ex.

Ele estaria acima de qualquer lei. Acima de qualquer coisa. Na verdade, sempre se considerou assim.

Reforçar esse discurso do injustiçado pela Justiça, que quer cassar os direitos de Lula de concorrer no ano que vem, é a saída que resta para a possibilidade cada vez mais palpável de o líder maior do petismo ser condenado em um ou mais dos cinco processos nos quais é réu.

Tem-se ainda uma corrida contra o relógio. Nada a ver com a oitiva de Lula por Moro no dia 3 de maio, quando o PT pretende colocar tropas em Curitiba, mas com as delações do marqueteiro João Santana e sua mulher Mônica Moura. E, de quebra, com os estragos que o também marqueteiro Duda Mendonça pode fazer ao falar com o MPF, audiências premiadas que começam em breve.

Até José Dirceu, preso em São José dos Pinhais, teria feito considerações de que serão delações explosivas, com potencial de colocar Lula e Dilma na cadeia. Para fazer frente a elas, o ex-capitão do time petista crê que é preciso ocupar as ruas.

Mobilizar, colocar os aparelhos das centrais sindicais e dos ditos movimentos sociais na rua é o menor dos desafios. O problema real está no teor das delações, nos documentos e cruzamentos de dados que incriminam Lula.

Está na objetividade da acusação que o ex tenta dizer que é subjetiva quando se remete às trapalhadas do powerpoint do procurador Deltan Dellagnol, que, em setembro do ano passado, apontava Lula como beneficiário central da Lava-Jato, apoiado em “convicção”.

De lá para cá Lula e seus advogados sabem das novas diligências, das novas delações e das cooperações internacionais firmadas. Do rastreamento das palestras milionárias pelo mundo combinados com os contratos que a Odebrecht conseguiu nos “países amigos”. Do sorvedouro de dinheiro público para financiar campanhas, luxos e mimos do ex, de sua afilhada e de aliados, incluindo gente que hoje eles acusam de “golpista”.

Para os fiéis, Lula, Dilma e o PT deverão recrudescer o discurso do “todos contra Lula”, sempre sem dizer quem são os “todos”. Paralelamente, assim como fez na semana passada, Lula vai aliviar a fala em relação a Moro. Fará outros elogios, repetirá que Moro “cumpre papel importante”.

Firulas petistas à parte, ao Brasil só interessa que a Justiça seja justa. Que absolva inocentes, condene e coloque na cadeia aqueles que surrupiaram o país. Seja quem for, seja ou não um Lula.

2 abril 2017 MARY ZAIDAN

INTELIGÊNCIA QUE DÁ MEDO

Condenado a mais de 15 anos de cadeia, o ex-deputado Eduardo Cunha volta a assustar. Não porque tenha poder de fogo – é carta fora do baralho, teria dificuldades até mesmo para firmar um acordo de delação premiada -, mas pelo teor da sentença que o condenou. A peça confronta a sofisticação dos crimes cometidos com os avançados padrões de inteligência para rastreá-los, com indiscutível vitória da investigação.

A leitura da sentença é didática. Em 536 tópicos, 109 páginas, o juiz Sérgio Moro resume as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, realizadas com apoio da Suíça, indicando cada um dos documentos comprobatórios da acusação.

A remessa para Cunha de dinheiro originário da compra, pela Petrobras, de um campo de exploração em Benin, na África, feita em parceria com uma empresa sem qualquer expertise no setor e muito menos fundos, e que não produziu uma única gota de óleo. O cruzamento entre contas bancárias oficiais e não declaradas mantidas no exterior com cartões de crédito e de compras, de depoimentos, telefonemas, contas de terceiros citados pela defesa do ex-deputado, dados da Receita Federal. Tudo ali unido, pontos e pontas.

Provas fartas, difíceis de serem rebatidas. Desmoronamento de falsos álibis e das teses de nulidade pretendidas pela defesa, a maior parte delas, como Moro faz questão de citar, negada pelo então relator da Lava-Jato no Supremo, ministro Teori Zavascki, morto há pouco mais de dois meses.

A sentença mete medo porque não há acusação sem prova. Nem mesmo apoio na tese de domínio de fato, tão contestada na época do mensalão. Não se embasa em relatos de delatores (embora os use para corroborar os delitos), mas em documentos, extratos, assinaturas.

E como os investigadores e a origem dos delitos são os mesmos, fica claro que também será assim no Supremo para aqueles que gozam de privilégio de foro.

Ainda que já tivessem sido alertados para o requinte que as investigações adquiriram, políticos enrolados com a Lava-Jato aparentemente continuavam sem crer nisso. Especialmente os que passaram ao largo do mensalão, processo restrito à instâncias superiores, sem a montagem de uma equipe especial de primeiro grau para as apurações. Na época, também não se viu colaboração internacional do porte da que se tem hoje.

Tanto é assim que a roubalheira não cessou pós-mensalão. Como as penas mais severas recaíram para os operadores do esquema e não para os políticos, imaginava-se que mesmo diante de um escândalo de maiores proporções valeriam as regras da impunidade e da incapacidade de a investigação produzir provas.

“Nem Eduardo Cardozo, quando era ministro da Justiça da Dilma, acreditava que a Polícia Federal fosse capaz de rastrear isso”, diz um agente federal que participou das investigações da Lava-Jato.

Sem falar uma única palavra sobre o teor das apurações – para as quais defende sigilo absoluto -, ele diz que governo algum, nem Lula, nem Dilma, nem Michel Temer, tem como interferir no trabalho da PF. Nem para o bem nem para o mal. Eles “desconhecem o nível do desenvolvimento dos setores de inteligência da PF”, que começou a interagir com o que há de mais sofisticado em matéria de rastreamento de dinheiro no planeta a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, um marco para a cooperação das polícias em todo o mundo.

Em cada novo ato do MPF, da PF e de Moro, o apavoramento se agudiza.

Na mesma quinta-feira em que Moro sentenciou Cunha, parlamentares do PT, Zé Geraldo (PA), Wadih Damous (RJ), e do PSB, Danilo Forte (CE), se revezaram em acusações grosseiras ao juiz, convidado especial para um debate na Câmara dos Deputados sobre o novo Código Penal.

Fora a descortesia, a virulência dos ataques revela o despreparo (e o desespero) dos deputados para lidar com a situação posta: Moro vai julgar fatos a partir de provas apresentadas pelo MPF e pela PF.

Não importa quem é o réu. Na quinta-feira foi Eduardo Cunha, o ex-todo-poderoso do PMDB. Em um futuro próximo, o ex-presidente Lula, hoje sem a regalia do foro de função. E, ainda que apeláveis ao Supremo, as decisões de Moro têm sido na maior parte das vezes referendadas pela Corte superior.

E – justiça seja feita – nada disso seria possível sem a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, sem a inteligência. São elas que propiciam que o martelo da Justiça possa pôr fim à impunidade.

27 março 2017 MARY ZAIDAN

LULA E AS PERNAS DA MENTIRA

Com pernas muito mais longas do que o dito popular proclama, a mentira sempre foi parceira dos políticos, por vezes confundida com esperteza e até sabedoria. Mas verdade seja dita: só foi institucionalizada no Brasil a partir do governo do ex Lula, que a ela conferiu requintes de mestre.

Lula mente com convicção.

“Não acredito que o mensalão tenha existido”, disse Lula em 2012 em entrevista ao The New York Times. O mesmo Lula que, com olhos marejados, pediu desculpas aos brasileiros pelas falcatruas cometidas por companheiros. E que, entre “indignado” e “traído”, assegurava nada saber.

O mesmo Lula que, com palco e pompa produzidos pelo PT, tenta agora destruir a Lava-Jato – “uma moeda que tem a cara da Globo, de outros jornais, da Polícia Federal, do Sérgio Moro, e não tem a cara do povo que tá sendo prejudicado”.

Embora sem pé nem cabeça – como o povo estaria sendo prejudicado por uma operação que escancara as vísceras da corrupção? -, a frase remete à grande conspiração, em que tudo, todas as ações do Ministério Público, da Polícia Federal, da Justiça e da imprensa, têm como objetivo banir Lula da vida política nacional. E, com ele, toda a “esquerda”.

Essa foi a inspiração do seminário “O que a Lava-Jato tem feito pelo Brasil”, realizado pelo PT sexta-feira em São Paulo: dar solidez ao estado conspiratório.

E, claro, fermentar a campanha Lula 2018, melhor antídoto encontrado para protegê-lo dos processos em que é investigado, aos quais petistas e simpatizantes atribuem o caráter de perseguição.

Não fosse pela gravidade de se promover um evento para negar fatos, vários deles já julgados e com condenações, o seminário, de tão estapafúrdio, teria lugar de honra na galeria do riso.

Ali se gritou contra o vazamento criminoso de denúncias que envolvem roubalheira de companheiros e a favor daquelas que enredam gente do PMDB e do PSDB.

A Lava-Jato foi taxada como operação criada para “quebrar a Petrobras”, como acusou José Maria Rangel, presidente da Federação Única dos Petroleiros. Ou para inviabilizar o desenvolvimento do Brasil, segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, economista responsável pela criativa definição de neoliberalismo: “é regime de regulamentação para apropriação do Estado pelos interesses privados”.

Isso dito diante de um ex-presidente e de um partido que desenvolveram um primoroso know-how em apropriação do Estado para interesses partidários ou, simplesmente, para rechear os bolsos.

Sem ter como se livrar das denúncias que cada vez ficam mais encorpadas, o PT – Lula à frente – tenta tirar proveito da segunda lista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na qual há mais gente do PMDB, PP, PTB e até PSDB do que petistas, presentes com fartura no mensalão e no rol inicial do MPF, há dois anos.

Transformado em golpista, o ex-aliado PMDB, com quem Lula e Dilma subiram de mãos dadas ao Planalto, teria se enveredado em falcatruas por conta própria, sem conhecimento ou chancela dos petistas que comandavam a tropa. Mais: PROS, PRB e PC do B não venderam seus horários eleitorais para Dilma, embora tenham entregado todos os minutos à campanha dela.

Mas nada se compara à desfaçatez de Lula.

Como se fosse um jogo cujo placar trará vitorioso x derrotado, ele desrespeitou o juiz Sérgio Moro, o coordenador da força-tarefa da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, e a Polícia Federal ao desafiá-los em uma disputa inexistente. “Eles deram azar porque foram mexer com quem não deveriam ter mexido. Nem Moro, nem Dallagnol têm a lisura e a ética que eu tenho nesses 70 anos de vida”, disse Lula.

E, como se a Justiça tivesse qualquer intenção de barganhar com ele, transformou a obrigação de depor em Curitiba, dia 3 de maio, em ato de luta: “Eu vou nessa briga até o fim. Eu não tenho negociata”.

É assim que Lula dá elasticidade às pernas da mentira. No passado, isso funcionou junto ao grande público. Hoje, limita-se aos fiéis seguidores. Dificilmente impressionará a Justiça.

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23 maio 2011 MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

ENTE QUE MENTE

Avalista da estabilidade econômica nos primeiros anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Antonio Palocci sempre foi mais bem quisto pelo capital do que por boa parte de seus companheiros de legenda. Chegou a ser acusado de neoliberal, o que até 2002 era pecado imperdoável dentro das hostes petistas, pelo menos da boca para fora.

Como prefeito de Ribeirão Preto foi privatista, primeiro governante a entregar a telefonia à iniciativa privada. Como político namorava tucanos, sendo louvado e admirado pela alta plumagem que nunca – e até hoje – lhe poupou elogios.

Como ministro da Casa Civil repete o filme que encenou ao auxiliar Lula: no primeiro sinal de crise se omite, mistura seus negócios privados com os de Estado, exige proteção total do governo, enrola. E, por fim, mente.

Foi assim em 2005, quando seu ex-assessor Rogério Buratti o denunciou como beneficiário de uma cota mensal de R$ 50 mil pagos por uma empreiteira. Repetiu a dose ao ser descoberto como freqüentador da casa de prazeres do Lago Sul de Brasília, sede das traquinagens da República de Ribeirão Preto, e quando o sigilo do caseiro Francenildo Pereira foi quebrado.

Naquela época como agora, Palocci ficou quieto, mudo. No máximo soltou notas desencontradas à imprensa.

O passo seguinte foi mentir. Mentiu na Comissão de Assuntos Estratégicos do Senado e na CPI dos Bingos, negando peremptoriamente todas as acusações. Mais tarde, denunciado à Polícia Federal por Jorge Mattoso, então presidente da Caixa Econômica, onde o sigilo de Francenildo fora arrombado, mentiu de novo ao afirmar que nada sabia.

Um mentiroso contumaz. O que não é nada alvissareiro: mesmo se vingar algum dos 10 requerimentos de convocação protocolados pela oposição no Congresso, a chance de o ministro manter o padrão é enorme.

Até então e sabe-se lá até quando, Palocci está tendo tudo o que quer. Mesmo dilapidando o patrimônio amealhado por Dilma Rousseff nos primeiros cinco meses, para defendê-lo não se poupam unhas nem dentes. O empenho do governo é tamanho que as pulgas não param de pulular detrás das orelhas.

Em 2006, Palocci só caiu dezenas de mentiras depois.

Perdeu no Planalto, ganhou na planície. Multiplicou por 20 seu patrimônio, algo que não conseguiria fazer nem se fosse ministro até o fim de uma vida muito longeva. Curiosamente, preferiu abdicar da consultoria nababesca para voltar a ser assalariado.

Sua vida deve estar um inferno, como dizia dois dias antes de rolar Ministério da Fazenda abaixo. Mas, ao contrário da época em que saiu quase ileso, a economia não está no céu.

11 abril 2011 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

DISCRIMINAÇÃO E PRIVILÉGIO

Discriminação e privilégio são opostos que se atraem. E com tamanha força que se tornam inseparáveis. Como ovo e galinha, nunca se saberá qual vem primeiro, muito menos qual entre os dois exerce supremacia sobre o outro. Se a discriminação endossa preconceitos e nega paridade entre iguais, o privilégio age em favor de uns sempre discriminando outros. Portanto, não há como fugir: privilegiar é discriminar e vice-versa.

Mas o Brasil insiste em não enxergar isso. Reincide e institucionaliza erros. Da máxima do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem o senador José Sarney não é “uma pessoa comum”, o que, implicitamente, lhe dá permissão para infringir leis, aos foros especiais que transformam políticos com mandato e ocupantes do primeiro escalão em seres quase intocáveis, tudo conspira em favor dos privilégios. Até mesmo quando se quer combater a discriminação.

Iniciadas sob a égide do então presidente Fernando Henrique Cardoso e acatadas em universidades federais com velocidade vertiginosa durante o governo Lula, as cotas raciais são o exemplo mais bem acabado disso. Em nome de atender aos que se declaram negros, criam-se privilégios que discriminam aqueles que não são negros nem se dizem pardos. Jovens de outros matizes, brancos ou amarelos, pagam a conta. Como tiro que escapa pela culatra, se a cor da pele continuar a valer mais do que o mérito, o risco é de se estimular o preconceito. Não pela cor em si, mas pelo privilégio que ela confere.

Com as mulheres não é diferente. De lutadoras aguerridas pela igualdade, parte delas passou a correr atrás de privilégios. Na quinta-feira conseguiram mais um: a aprovação na Comissão da Reforma Política do Senado da ampliação da cota obrigatória de candidatas mulheres dos já injustificáveis 30% para absurdos 50%.

Isso depois dos resultados pífios da tal cota. Instituída em 1988, não mostrou a que veio: em 1990, 25 deputadas, outras 33 em 1994, e 42 em 2002. Em 2010, mesmo com uma candidata vencedora à presidência da República, só 45 deputadas foram eleitas, uma a menos do que em 2006. Fora o aperto dos partidos que, para registrar suas chapas, caçam mulheres a laço. Enfiam nas listas nomes que nada representam, mas que têm o direito de lá estar apenas pelo gênero.

Caberá ao Supremo Tribunal Federal decidir sobre a constitucionalidade das cotas raciais, julgamento previsto ainda para este semestre. Quiçá será instado também a se pronunciar sobre as regalias eleitorais femininas. A cada um de nós cabe avaliar se queremos conviver e estimular uma sociedade moldada em discriminações e privilégios.

28 março 2011 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

QUALI X QUANTI

Com 27 siglas registradas no Tribunal Superior Eleitoral, outras sete na fila de espera, duas pré-aprovadas – Partido Democrata Nacional (PDN) e Partido da Mulher Brasileira (PMB) – e outra, o Partido da Pátria Livre (PPL) quase pronta, o Brasil é um dos campeões mundiais em número de partidos políticos. Portanto, um a mais, seja do ex-democrata Gilberto Kassab ou da hoje opaca estrela da última eleição presidencial, a ex-petista e verde Marina Silva, deveria fazer pouca ou quase nenhuma diferença.

Mas faz. Vitaminam a descrença popular na atividade política, já tão surrada por todo tipo de estripulias: casuísmos, mentiras, safadezas, roubalheira.

Da burla à lei da fidelidade partidária à satisfação de interesses pessoais, e outros fins inconfessos, como simplesmente fazer caixa, o que não falta são alegações, não raro espúrias, para criar novas agremiações. Vale tudo, menos o interesse público.

A legislação que regulamenta a fundação de um partido até parece rígida, mas, ainda que o TSE tente tapar, tem brechas de sobra.

Para obter registro provisório basta o aval de uma centena de pessoas, que respondem pelos diretórios municipais e estaduais. Já para o registro final exige-se quase 470 mil assinaturas em nove Estados. O número assusta, mas não desencoraja porque não há prazo para fazê-lo e a capacidade de fiscalização é limitada. Há quem seja filiado a um mesmo partido em dois ou mais Estados ou a duas ou mais siglas, sem que uma ficha elimine a outra.

Não bastasse, ser dono de partido político virou um excelente negócio. Graças ao aporte de R$ 100 milhões feito pelo Congresso ao fundo partidário, as cotas para grandes e nanicos ficaram ainda mais sedutoras. O Partido Trabalhista Cristão (PTC), por exemplo, representado por apenas um deputado federal, recebeu, nos dois primeiros meses do ano, repasses de R$ 350 mil. O Partido Social Liberal (PSL), também com um parlamentar só, outros R$ 315 mil. Sem representar nacionalmente um único eleitor, PCB, PSTU e PTN embolsaram R$ 117 mil, R$ 137 mil e R$ 175 mil.

Há ainda os que criam partidos para aparecer na televisão e ganhar um dinheirinho extra nos períodos eleitorais, quando negociam coligações ou, por fora, alugam a sigla para denegrir adversários daqueles que lhes engordam o bolso.

Sem lastro ideológico ou proximidade de pensamento, algo que também está na lei, mas que ninguém leva em conta por ser critério subjetivo, os partidos continuarão a se multiplicar. Anda-se, assim, na contramão do melhor senso. Democracias vigorosas preferem qualidade à quantidade.

14 fevereiro 2011 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

BRASIL, PAÍS RICO É…

Governantes adoram bordões publicitários. Crêem que eles podem imortalizá-los. O Brasil já viu vários deles. Alguns, assertivos, como o lema dos “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek. Outros nem tanto, mas que asseguraram seu lugar na história, como o nefasto “Brasil, ame-o ou deixe-o”, de Garrastazu Médici, linha dura do regime militar.

Os mais recentes, criados pela geração de ouro da marquetagem política, poucos ou quase ninguém se lembra. É o caso do “Brasil, união de todos”, do presidente cassado Collor de Mello ou do “Avança, Brasil”, de Fernando Henrique Cardoso.

O “Brasil, um país de todos” de Lula pode ou não ter o mesmo destino. Mas já começa perdendo força ao ser substituído pelo “país rico é país sem pobreza”, anunciado pela presidente Dilma Rousseff na quinta-feira, em inédita cadeia nacional de rádio e TV.

Embora a criação de um novo slogan custe alto para o contribuinte, já que a partir dele se muda tudo – de um simples papel timbrado a todas as placas de obras -, é exigir muito que governos, mesmo os de continuidade, mantenham a identidade visual do anterior. Cada governante quer impor sua marca.

O lema de Dilma é correto. Chove no molhado, mas traduz exatamente o que ela prega desde o primeiro dia: a batalha diuturna para combater a miséria.

Mas se é mesmo para pingar em pingo pingado, o melhor mesmo seria “Brasil, país rico é pais sem corrupção”. Afinal, é na corrupção que se esvai a maior parte da riqueza brasileira – de 1,38% a 2,3% do PIB, segundo pesquisa da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) divulgada no ano passado. Algo entre R$ 41,5 bilhões e R$ 69,1 bilhões ao ano.

Os números assustam. Equivalem ou são maiores do que o corte “duro” de R$ 50 bilhões que o governo Dilma acaba de anunciar. Ultrapassam, e muito, o impacto do reajuste do salário mínimo ou dos aposentados. Pagam com folga o que se arrecadava com a famigerada CPMF.

Se o custo real sensibiliza pouco, o que dirá então do custo moral. Para esse, ninguém liga.

País rico, presidente Dilma, é o que não se dobra à corrupção, que não tolera a impunidade. Que abomina aqueles que se aliam a corruptos, que acobertam companheiros e abraçam Erenices, que fazem gestos de cortesia a um ex-presidente cassado por corrupção; que mantêm e engordam o reinado de gente como Sarney, que reabilitam Delúbios e Dirceus.

País rico é país digno. Onde o pato não é pago apenas pelos não apaniguados do poder. Onde quem rouba, mesmo sendo rico, político ou amigo, também vai para a cadeia.

7 fevereiro 2011 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

É O BREU

Sete estados do Nordeste – Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará — ficaram às escuras na virada de quinta para sexta-feira, primeiro apagão do governo Dilma Rousseff, quarto desde novembro de 2009.

Ironicamente, poucas horas antes, a presidente acreditava estar começando a desatar os nós das estatais elétricas – disputadas a socos e pontapés entre os seus -, mais uma vez valendo-se do homem mais poderoso da República, o tetra-presidente do Senado e sempre fiel a qualquer governo, José Sarney.

Dilma ainda respirava aliviada por ter acabado com a guerra letal de Furnas, nomeando Flávio Decat, para quem o filhinho do papai Fernando Sarney pediu colocação em 2008.

Nenhuma surpresa. Sarney domina os bilhões do setor elétrico há tempos e não há qualquer indicação de que algo vá mudar. A começar pelo compadre ministro Edison Lobão, a quem nada acontece mesmo depois de ele se dar ao desplante de dizer aos milhões de nordestinos que ficaram no completo breu que “não houve um apagão, houve uma interrupção temporária de energia”.

Explicado genericamente como uma falha “rara” no sistema que o ministro define como “robusto” (imaginem se não fosse), o apagão de agora se soma a outros que também foram banalizados pelo governo.

Em 10 de fevereiro de 2010, no oitavo ano do governo Lula, o Nordeste apagou por quase uma hora. Em janeiro foi a vez de Acre e Rondônia, que ficaram sem luz por uma falha na linha nova que conectava os dois estados ao Sistema Interligado Nacional. Dois meses antes, 18 estados apagaram atingidos pela queda de transmissão de Itaipu.

Seja por falhas, ainda que raríssimas, ou por pressão da demanda sobre a rede, parte significativa dela obsoleta ou carente de manutenção, a corrente de responsabilidades está indiscutivelmente plugada ao rei Sarney. Ainda que o seu Maranhão tenha, por ironia do destino, sido poupado do último apagão.

Melhor seria se a presidente Dilma, recém incensada pelo Financial Times por sua competência gerencial, não repetisse o seu antecessor nos pedidos de arrego a Sarney. E parasse de lutar com tanto afinco para se manter longe de qualquer polêmica, seja nas reformas essenciais, como as tributária, política ou previdenciária, seja na composição ou na arbitragem de seu próprio governo.

Presidente que teme choques, mesmo os de baixa voltagem, acaba por estimular curtos circuitos muito mais danosos.

27 dezembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

IRMÃOS DE ALMA

Estamos entrando na última semana de 2010, ano que coroou de glórias o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas nem os sucessivos recordes de popularidade e o fenomenal feito de inventar e moldar sua sucessora fazem de Lula o maior vitorioso do ano. Há tempos, esse título pertence ao senador José Sarney, um ex-arquiinimigo de Lula que se tornou “conselheiro” e “companheiro leal, correto”.

Sarney atravessou 2010 em céu de brigadeiro. Superou de vez o seu inferno astral. Safou-se das denúncias que chegaram a somar 11 processos na Comissão de Ética do Senado, todos arquivados sem análise de mérito ainda em 2009. Mesmo diante de fatos inequívocos, alguns com culpa assumida, como os atos secretos, as nomeações de parentes em escala geométrica, a composição salarial acima do teto e as irregularidades que acabaram por afundar a fundação que levava seu nome, Sarney continuou incólume.

Reelegeu sua filha ao governo do Maranhão, prorrogando por mais quatro anos o domínio absoluto que tem sobre um dos mais atrasados estados do país, 26º colocado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. E ainda driblou os reveses de seus aliados no Amapá, quando a Operação Mãos Limpa desvendou podres do ex-secretário de Justiça e Segurança Pública, Aldo Alves Ferreira, e prendeu o ex-governador Waldez Góes.

Mais do que isso. Sem qualquer alarde, provou quem de verdade tem o poder de mando.

Emplacou sem qualquer dificuldade dois ministros no governo Dilma. Edison Lobão nas Minas e Energia e, no Turismo, o deputado octogenário Pedro Novais, que enfiou nas contas da Câmara gastos feitos em uma farra coletiva em um motel próximo à capital maranhense. Uma história que até seria cômica se não fosse financiada com o dinheiro do contribuinte.

De quebra, Sarney conseguiu ainda afastar seu maior rival na disputa por um novo mandato como presidente do Senado, despachando Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) para o pepinoso Ministério da Previdência. E, ao que tudo indica, não perderá um milímetro sequer de espaço nas estatais que já domina, em especial no setor elétrico. Terá braços no BNDES, uma coisinha ali na Caixa, outra no Banco do Brasil e, com certeza, na Telebrás ressuscitada e na novíssima estatal do pré-sal.

Neste ano de ouro, Sarney nem precisava de tantos mimos adicionais de Lula, alguns de tal monta que o dono do Maranhão jamais imaginou receber. Lula, que recomendou um psiquiatra para o repórter que lhe perguntara sobre agrados à oligarquia Sarney, não cansa de babar-se em elogios. Chegou a chamar Sarney de “irmão de alma”.

Embora muito longe dos ditos de 1987 – “Adhemar de Barros e Maluf podem ser ladrão (sic), mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que ele faz”; “Sarney é um impostor que chegou à presidência assaltando o poder”-, Lula tem mesmo laços cada vez mais fraternos com aquele que chamava de ladrão. E ambos fiaram-se neles para se proteger de denúncias que expunham ao público suas malversações.

Mas se hoje essa parece uma irmandade proveitosa, é certo que Sarney colherá mais vantagens dela, pois pouco ou quase nada tem a perder para a história. Já Lula cravou no peito uma mácula sem volta: aliou-se ao atraso, ao que há de pior no país. Fez o “ladrão” de “ irmão”.

20 dezembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

REGISTRADO, MAS QUEM DÁ FÉ?

De todas as idéias marqueteiras utilizadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – e olha que não foram poucas – é difícil achar uma mais desprezível do que a de registrar em cartório os feitos dos oito anos de mandato, ainda por cima com festa, pompa e circunstância. Lula sempre gostou de uma folia. Lançou programas ao vento, como o Fome Zero, assinou atos que não saíram do papel, inaugurou e reinaugurou pedras fundamentais de obras de seu governo e dos anteriores. Abusou de todas as leis para fazer sua sucessora, acobertou e encheu de honras quem não merecia. Mas nunca tinha ido tão longe: registrar em cartório milhares de páginas para tentar provar que fez o que não fez.

Além de ofuscar os méritos do que realmente fez – benfeitos não precisam de confetes lançados sobre a própria cabeça -, o truque do cartório tem a pretensão de ser genial, mas é uma besteira em todos os sentidos. Se cotado no sentido exato, o registro, no mínimo, trai o presidente. Será que Lula, que usurpou idéias e realizações de governos anteriores, algumas delas expressas no balanço sem qualquer referência aos autores, teme que lhes roubem as genuinamente suas?

Há momentos em que o documento afronta o cidadão. Fala de infraestrutura aeroportuária como se caos aéreo fosse uma invenção maluca dos usuários dos aeroportos brasileiros. As rodovias federais aparecem em condições invejáveis, com pavimentação de primeira, segurança e controle de risco de fazer inveja aos países mais avançados do mundo. Na saúde, tudo está em ordem. Na educação, os dados apresentados conseguem suplantar até mesmo os divulgados pelo próprio Ministério da Educação, que, ao contrário do balanção de Lula, apontam redução anual do número de matrículas no ensino médio e resultados pouco ou quase nada animadores no aprendizado, aferidos em exames nacionais e internacionais. Conseguiram errar até na área social, onde os méritos de Lula são inequívocos.

Traz ainda mentiras explícitas, como a do trem-bala, que teve sua licitação adiada e nem mesmo tem preço final definido, ou a ferrovia Transnordestina, nem iniciada nem terminada nessa gestão. Isso sem falar nas loas que faz ao combate à corrupção, como se algum tipo de morfina fizesse o país esquecer de waldomiros, dirceus – reabilitadíssimo, chafurdando feliz no convescote palaciano -, mensalão, aloprados, quebras de sigilos fiscal e bancário, ou os conluios familiares tão recentes da ex-ministra Erenice Guerra.

Tudo bem. Trata-se de um documento de governo, feito para dar publicidade aos atos de governo. Legítimo em seu fim.

Mas daí a dar créditos cegos a ele, como sugeriu o presidente, é demais. Só seria assim, como bem disse Lula, na imprensa da China ou de Cuba, que pertencem ao governo.

E, definitivamente, não precisava da baboseira de registrar livros em cartório, brincar de reconhecer firmas de ministros; mentir para o tabelião, fazer de conta para o país. O presidente mais popular da história não carecia de se expor a esse tipo de expediente barato.

Mas Lula é insaciável. Sempre quer mais. Quer tudo e mais um pouco. E, com isso, abre flancos para a contestação.

Tivesse este país uma oposição, ela hoje estaria denunciando o documento de balanço no cartório de protestos.

13 dezembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

O PAC NO ESGOTO

Ninguém precisa de lupa para achar buracos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Muito menos de engolir piadinhas do presidente Lula – “Levantem pela manhã procurando defeito na sua mulher para ver quantos ela tem. E se ela levantar procurando defeito no marido, aí é que vai ter” -, tentativa grotesca de disfarçar o atraso, o investimento aquém do prometido e a má-gestão do programa, carro-chefe da campanha eleitoral que elegeu Dilma Rousseff presidente do país.

Os números falam por si. Mais de 30% das obras do PAC estão atrasadas, algumas atrasadíssimas e outras nem mesmo saíram do papel. Sem contar a quantidade de suspeições que pairam sobre licitações e contratos. E se há setores como transportes, com 70% das metas cumpridas, ou energia, com 51%, outros são de envergonhar qualquer gestor. Em saneamento, só 8% das obras estão concluídas.

Em meados de agosto, quando o IBGE divulgou a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008, com dados alarmantes – 56% dos domicílios sem qualquer ligação de esgoto e apenas 28,5% com tratamento -, Dilma desconversou. Disse que eram números de gestões anteriores e que o PAC já tinha mudado essa vergonhosa realidade. “Esperem os resultados de 2009 e 2010”, desafiou a então candidata. Já eleita, cabe saber como ela explica o fato de saneamento ser justamente a área com o pior desempenho do PAC e com o menor volume de investimentos.

Mesmo longe de cumprir as metas fixadas há quatro anos, o governo Lula lançou com pompa e circunstância o PAC 2, combustível eleitoral aditivado que, entre outras maravilhas, inclui a construção do trem bala, trilhos de ligação entre as cidades de Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, prometido para 2014, ano da Copa. Outras dezenas de obras gigantescas têm de acontecer até a data do mundial de futebol, com ganhos para toda sorte de bolsos, menos do contribuinte, é claro.

Vislumbram-se, portanto, poucas chances para o incremento de obras que garantam coleta e tratamento de esgoto.

Se o cumprimento das metas do PAC deixa a desejar, os ganhos políticos do programa parecem ser infinitos. Depois de colher os frutos para a sua pupila, Lula quer o programa como vedete do próximo pleito. Por esse motivo, não quer nem ouvir falar em ajustes.

O PAC é também a prova dos nove de que Lula não pretende, nem de longe, ficar afastado da Presidência. Ao desautorizar o anúncio de cortes para o ano que vem feito pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, Lula pôs todos os pingos nos “is”, deixando claríssimo que dará ordens mesmo depois de descer a rampa. E Dilma não reagiu. Fechou-se em copas, em absoluto silêncio.

A serviço de dois senhores, Mantega meteu o rabo entre as pernas. Disse que não disse o que disse e tudo ficou do jeitinho que Lula queria. Ninguém mais fala em cortes. No máximo, admite-se uma desaceleração da segunda edição do programa, que, lembrem-se os leitores, ainda ensaia sair das pranchetas. Ou seja, pura ficção.

Enquanto isso, 34,8 milhões de domicílios continuam sem esgoto. E nada indica que canos serão enterrados, já que, definitivamente, saneamento não é puxador de votos. Os Sarneys que o digam: mandam e desmandam no Maranhão há décadas mesmo ostentando a lanterninha em ligações de esgoto, com apenas 1,4% das moradias conectadas à rede.

Uma explicação convincente para o governo Lula deixar o esgoto em último lugar. Haja sujeira.

6 dezembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

A DESGRAÇA DA MENTIRA

12 de agosto de 2005. Lula vestiu o semblante de vítima e foi à TV. Em rede nacional, no horário nobre, o presidente pediu desculpas pelo envolvimento do governo e dos seus no que o país apelidou de mensalão. “Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos de pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas…”.

Um ato digno, raro, quiçá único, de reconhecimento de erros, que, agora, Lula joga no lixo. Quer transformar toda roubalheira e baixeza do mensalão em tentativa de golpe. Para tal, chega a conferir créditos à oposição. A mesma que, de tão frouxa, pouco ou nada fez.

Nem importa se à época ministros caíam como frutas podres, parlamentares da base aliada renunciavam no afã de evitar a exposição na lista de morte do publicitário Marco Valério, o mineiro operador da dinheirama, que continua solto por aí.

Muito menos se o presidente, secretário-geral e tesoureiro de seu partido fossem o próprio olho do furacão. Dane-se. Se há cinco anos agia-se pela sobrevivência, agora o que importa é purgar máculas de seu governo, ser consagrado.

As chances que Lula tem de reescrever a história do jeito que lhe convém são enormes. Até porque usa uma fórmula já testada e aprovada.

Em Paris, pouco mais de um mês depois do estouro do escândalo, Lula encenou uma patética entrevista no quintal da embaixada brasileira, em que uma repórter fantoche perguntava o que lhe fora instruído, e ele, que sempre fora rebelde, respondia conforme o ensaiado.

Ali, chancelou a armação que começara dias antes: a de que não havia mensalão e sim caixa 2 de campanha ou, nas palavras do tesoureiro petista Delúbio Soares, “recursos não contabilizados”. Um crime comum, que todo mundo comete. “O que o PT fez é o que é feito sistematicamente por outros partidos”, explicou o presidente.

Por essa lógica torta – usada e abusada pelo governo Lula -, se todos roubam todo mundo pode roubar.

Confundir mensalão com caixa 2 foi uma saída de mestre. Atribuída ao então ministro da Justiça, Márcio Tomáz Bastos – um gênio nos meandros jurídicos, que aparece sempre em bastidores ou nas luzes de casos polêmicos, como o da estranha morte do prefeito de Celso Daniel, de Santo André, ou na quebra do sigilo do caseiro Francenildo -, a estratégia foi espetacular.

Chegou ao ponto de o marqueteiro Duda Mendonça oferecer-se à CPI instalada no Parlamento para confessar que seu pagamento da campanha de 2004 era fruto de caixa 2 e fora depositado no exterior. Dois crimes. E revelados de graça. Nem o mais ingênuo dos patinhos acreditaria nesse circo.

A oposição, fora a meia dúzia de sempre, fingia reagir. Por medo da balbúrdia popular – chantagem confessa do presidente Lula -, ou por ter contas no mesmo cartório ou por motivos inconfessos. Assim, o mensalão foi se confundindo com caixa 2, a CPI que o apurava nem mesmo foi concluída, os “40 ladrões” ainda aguardam julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.

Com tudo parado, quase esquecido, nada deveria motivar o presidente a atiçar podridões de seu governo. Quer livrar os seus? Teme o julgamento, previsto para 2011 e 2012, quando suas possibilidades de intervenção estarão, obviamente, mais reduzidas?

São hipóteses possíveis, mas que não conseguem bater a idéia de que o que Lula quer mesmo é idolatria total. Quer bater no peito, ser glorificado.

Assim como o seu vizinho Hugo Chávez – que deve lhe causar um tanto de inveja pelas sucessivas reeleições que consegue aprovar -, quer dizer que venceu os que desejavam surrupiar-lhe o mandato; que venceu preconceitos, moveu montanhas, multiplicou peixes e, se ainda der tempo, andou sobre os mares.

Mas, verdade seja dita, Lula segue à risca o que disse na entrevista de Paris: “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou.”

14 novembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

TROLOLÓ

Decididamente, o período de transição da presidente eleita Dilma Rousseff não começou bem. Nem para ela – que assiste a brigas entre partidos aliados, com graus de virulência acima do esperado, e até já teve, antes mesmo de pensar na formação do novo governo, de se desfazer de gente da equipe acusada de corrupção -, nem para ninguém. Nas duas primeiras semanas pós-eleição foram despertados demônios que voltaram a infernizar o país, entre eles a CPMF, hipóteses de alterações na lei de responsabilidade fiscal e uma orgia geral por aumento de salários nos altos escalões dos três poderes.

Em todos os casos, com o contribuinte pagando o pato. Como sempre.

Mas se o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teve peito para bancar a discussão sobre o renascimento da CPMF, travestindo-a como uma reivindicação dos governadores, o mesmo não fez com o aumento dos provimentos. Ao apelar pela aprovação de reajuste para a sua sucessora, Lula abriu a porteira, dando metros e mais metros de corda para que todos cobrassem o seu quinhão. Uma conta que pode elevar em 14,8% os vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e, a partir daí, reajustar todos os magistrados e subir para valores de até R$ 28 mil os salários de senadores e deputados, com efeito dominó nos 27 legislativos estaduais e nas mais de 5,5 mil câmaras municipais de todo o país. Projetos nesse sentido já tramitam no Congresso, e agora, depois do sinal de Lula, passam a ser defendidos sem qualquer pudor.

Dilma, por sua vez, aproveitou a deixa para dizer que nada quer para ela, mas sim para os seus ministros. “Alguma coisa tem de ser feita em relação ao salário dos ministros, porque caso contrário nós não vamos ter ministros para ser ministros do Brasil”, disse ela, durante a sua primeira viagem ao exterior como presidente eleita.

Sem levar em conta o tropeço na construção da frase, já que não se importam ministros de outros cantos do planeta para serem ministros no Brasil, Dilma quer fazer o país crer na falácia de que um ministro de Estado recebe apenas os R$ 11,7 mil que lhe são atribuídos no holerite. Ela própria recebia mais do que o dobro disso para participar de conselhos de administração de empresas estatais, alguns deles, como o da Petrobras, que ela presidiu, com o pagamento de mais de R$ 5 mil por reunião. Sua sucessora, Erenice Guerra, nome que ela procura apagar da memória e que definitivamente quer que o país esqueça, recebeu quase R$ 34 mil para participar de cinco reuniões do conselho do BNDES no ano e exatos R$ 5.122,00 por reunião do Conselho de Administração da Eletrobras, onde também está o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci.

Há espaço para todos. Um dos recordistas é o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, com assento em vários dos mais disputados, como o do BNDES, que também abriga Miguel Jorge, do Desenvolvimento Econômico, e Carlos Lupi, do Trabalho. Dirão alguns que os conselhos e suas rechonchudas remunerações complementam o salário de um ministro. Mas é inimaginável, para não dizer um acinte, permitir que conselhos administrativos cumpram esse fim.

Um dos argumentos da presidente eleita para reivindicar o reajuste é exatamente o de que os salários dos ministros estão defasados em relação ao mercado. Isso é fato. E não só no Brasil. Na maioria dos países desenvolvidos a remuneração da atividade pública nem mesmo se aproxima da dos dirigentes das grandes corporações privadas. A natureza da coisa pública é outra e, embora os ganhos devam ser dignos, jamais se equivalerão aos daqueles que competem por lucro. Sem falar no caráter político da atividade, da carreira e do prestígio pessoal. Se o salário não é lá estas coisas, quando um ministro migra para o setor privado – e no Brasil a quarentena é nula ou quase mínima – aumenta, e muito, seu valor de mercado.

Ou seja, ao fim e ao cabo, ao contrário do que Dilma quer fazer crer, ser ministro compensa. E ela, mais do que ninguém, sabe disso.

Sabe também que a conta será depositada no colo do contribuinte. O resto é trololó.


9 novembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

O CAMALEÃO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é mesmo incorrigível. Quer tudo e muito mais. Não lhe basta ser o mais popular governante que o Brasil já teve; é preciso ser unânime. Tampouco lhe é suficiente vencer; é preciso tripudiar, expor as vísceras dos derrotados. E quando não é de todo cruel – aquele que quer “extirpar” de vez quem se opõe a ele – age com requintes de esperteza.

Na curta semana que passou, Lula voltou a deixar isso claro em pelo menos quatro oportunidades: na aparição que fez ao lado da presidente recém-eleita, na reunião ministerial de quinta-feira, na formatura dos novos diplomatas e na inusitada convocação de cadeia nacional de televisão para cumprimentar “a companheira Dilma”.

Sem perder o estilo palanqueiro, Lula, mesmo dizendo que não queria ofuscar a sua sucessora, insistiu nas loas a ele próprio – o mérito de tudo de bom do país lhe é exclusivo e o que não deu certo à oposição pertence.

Como raposa em pele de cordeiro, trouxe novamente à tona a famigerada CMPF, desta vez travestida em reivindicação de governadores. E, mesmo vitorioso absoluto, voltou a vestir a outra velha pele, a de vítima, falso legado que, ao que parece, pretende transmitir à Dilma. Aos olhos de Lula, ela teria sido trucidada durante a campanha eleitoral, simplesmente por ser mulher. Assim como ele, por ter sido torneiro mecânico.

Ora, verdade seja dita. Se há algo que sempre agiu a favor de Lula, quer nos idos das greves do ABC, quando despontou como líder sindical, quer nas campanhas eleitorais ou no exercício da presidência, foi ter sido metalúrgico. Muito menos houve qualquer discriminação de gênero em relação a Dilma. No máximo, foi “acusada” de ter sido guerrilheira. E daí? De fato, ela optou por esse caminho, assim como tantos que, à época da ditadura militar, apostavam no sucesso da luta armada, enquanto outros preferiam a via institucional.

Só mesmo quem criou e moldou Dilma poderia pensar em lhe impor uma aura de discriminação, e ainda por cima, por ela ser mulher. Chega a ser um acinte às mulheres que todos os dias, horas a fio, lutam, às vezes com poucas armas, em jornadas duplas ou triplas, para manter os seus filhos, lares e empregos. Ser mulher e ainda a primeira a presidir ao país será sempre algo que contará a favor de Dilma – e Lula bem sabe disso. Mas, arisco, finge que não.

No dia seguinte, na reunião com os seus ministros, Lula mudou de bicho, mas repetiu a dose. Depois de criticar opositores e encher-se de elogios, disse, por meio do ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que vai lutar como um leão pela reforma política, tema pelo qual não mexeu palha alguma em quase oito anos de mandato. E, como mede o mundo por sua régua, apelou aos seus auxiliares que façam um balanço detalhado das ações de governo para que sejam registradas em cartório. Como se temesse que a minoritária e dócil oposição, ou até mesmo a sua sucessora, pudessem lhe roubar feitos, como ele próprio fez com o seu antecessor.

O presidente terminou a semana soltando os cachorros para cima de ex-embaixadores, rosnando feio para os críticos de sua política externa. Paradoxalmente, horas depois, defendeu, em pronunciamento na TV, o respeito mútuo, e a divergência madura e civilizada entre governo e oposição, como se não fosse ele um transgressor permanente dessa pregação.

De novo não se importou em quebrar regras e abusar de um direito de Estado em nome de seus interesses. Em cadeia nacional, cumprimentou “a companheira Dilma” pela vitória, um desrespeito aos brasileiros que, mesmo tendo conferido a maioria dos votos à sua candidata, não pertencem, obrigatoriamente, ao seu partido ou à sua turma.

Seja qual for o animal que escolherá daqui até o final de seu governo e durante o governo de sua sucessora, Lula, há tempos, encarnou o camaleão, que, de acordo com o público, assume a forma e a cor que lhe convém.

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18 outubro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

SÍNDROME DE ESCORPIÃO

Se no final de 2007 a derrota da CPMF no Senado – indício claro de que não conseguiria aprovar o desejado terceiro mandato – levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a desenhar uma das mais ousadas estratégias eleitorais para permanecer no poder, a soberba lhe turvou os capítulos finais. E coloca em risco o epílogo e a glória.

Lula apostou tudo e muito mais. Escolheu uma candidata que era a encarnação da improbabilidade. Desconhecida, com jogo de cintura zero, tida como autoritária e antipática até mesmo por seus pares. Sem qualquer pudor, Lula passou por cima de tudo e todos. Desrespeitou as leis, o cargo que ocupa e o país, em nome de fazer a sua sucessora. Quase aniquilou o seu partido em algumas regiões.

Mas o script parecia não ter qualquer falha.

Da mesma cartola de que sacou Dilma Rousseff, o presidente retirou as alianças e as regras que aplicou nas eleições estaduais, imolando o PT quando conveniente, como fez em Minas ou no Maranhão. Foi taxativo na defesa da eleição plebiscitária, do nós x eles, do Fla x Flu.

Imaginava que a divisão do país se daria na proporção de sua imensa popularidade. Venceria de balaiada.

Embora tenha chegado pertíssimo, surpreendeu-se ao final do primeiro turno. Descobriu que muitos daqueles que lhe ensurdeciam com palmas, fogos de artifícios e pontos nas pesquisas – nem sempre assim tão confiáveis -, desaprovavam a continuidade a qualquer preço.

Lula tem tudo para ganhar a eleição. Sua candidata venceu o primeiro turno e lidera. Não tem conforto ou folga, mas mantém-se à frente sem ameaça direta do adversário. Ainda assim, todos em sua seara agem como se a derrota lhes tivesse subido à cabeça. Chegam a distribuir culpas, ora para o marqueteiro João Santana, ora para o aliado PMDB, para o próprio PT, para a candidata Dilma e até para o presidente.

Nada parece suficiente para lhes devolver o ânimo. Em suas aparições, Lula está cada vez mais rancoroso. E continua insistindo no que talvez tenha sido um dos seus maiores erros – a divisão do país. Esse mundo imaginário de elites que agem para derrubá-lo, para impedir a vitória de Dilma e o seu êxito.

Sua candidata é beneficiária do bolsa-família e da ascensão real de milhões de brasileiros. Mas esse público passa anos-luz de distância do discurso da luta de classes, da rixa entre pobres e ricos que o presidente tanto quer reinventar. Roupa velha e usada, que não repercute nem mesmo entre aqueles que o seu próprio governo auxiliou a evoluir.

Pesquisa realizada pela Plano CDE, empresa especializada na base da pirâmide social, mostra que por autodefinição ninguém no Brasil se considera pobre ou rico. Quem está na classe A não se considera rico e sim mediano. O mesmo comportamento se repete nas famílias de classe E. Ninguem se diz pobre, são todos classe média. Prova-se assim que a realidade corre longe do antogonismo classista.

Mas Lula insiste. Usa vocabulário cada vez mais chulo, apela para comportamentos ainda mais esdrúxulos, para menções religiosas; bota Deus no meio, atribuindo a Ele a derrota de oposicionistas, faz sinais da cruz.

Parece não ter aprendido que o eleitor não é como público de auditório movido a plaquetas de aplausos.

Lula pode e tem grandes chances de vencer. Mas, seja qual for o resultado, pagará o preço de encarnar o escorpião, que se camufla, agride sua própria espécie e pratica o canibalismo quando lhe falta alimento. E inocula-se com seu próprio veneno.

 

27 setembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

OS CARAS-DE-PAU

A política sempre atraiu caras-de-pau. Tem centenas deles por aí. E não são apenas os folclóricos Tiririca, Mulher Pera ou Mulher Melão. São os Collor de Mello, “o defensor dos descamisados”, Paulo Maluf, que mesmo pego com a boca na botija insiste que não tem dinheiro no exterior, José Dirceu, “vítima de golpismo”, e outros tantos Sarneys, Jaders, Newtões, Renans ou Arrudas. Mas difícil será bater Joaquim Roriz, um dos ícones entre os fichas sujas, banido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e responsável pelo recurso que provocou o julgamento de 0 x 0, ou melhor, de 5 x 5, no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a validade ou não da lei Ficha Limpa nas eleições deste ano.

Com uma velocidade impressionante – menos de 24 horas depois da longa sessão do STF que deveria definir o destino não só de Roriz, mas dos demais candidatos espremidos na cesta suja -, o ex-governador renunciou à sua candidatura e colocou sua mulher, dona Weslian, como substituta. Distribuiu um manifesto abominável, uma verdadeira afronta aos eleitores do Distrito Federal e a todos os brasileiros, e ainda teve o desplante de confirmar, com todas as letras, que escolhia uma candidata-laranja para o seu lugar: “a eleição correrá em meu nome e o povo de Brasília me honrará, elegendo minha amada esposa…”.

Na entrevista à imprensa, recheada de impropérios, alguns beirando a doidice pura, como o de dizer que existia uma “orquestração” para instalar o socialismo no Brasil e que ele seria um entrave, Roriz deve ter provocado engulhos até nos seus correligionários: “Nunca avancei sobre o patrimônio público, nunca sujei minha mão na lama onde chafurdam os corruptos”.

Ainda que provoque asco, o episódio Roriz é pedagógico. Por um lado sabe-se que a renúncia só ocorreu porque ele vislumbrou a proximidade de sua primeira derrota eleitoral, e ainda por cima para o petista Agnelo Queiroz. Por outro, mostra que, mesmo se não valer para o próximo domingo, a existência do Ficha Limpa e o entendimento do TSE sobre a lei, impugnando candidatos, já funcionou como alerta para o eleitor. Líder absoluto nas pesquisas por meses a fio, Roriz despencou devido a sua ficha suja, seja ela constitucional ou não, válida ou não para 3 de outubro.

Outra lição, e essa mais funda, tem a ver com a frouxidão moral de que o país se tornou refém. Se sempre mostrou ser cara-de-pau, Roriz desta vez foi mais longe possivelmente porque a sensação de impunidade – ou a impunidade real – é cada vez maior. Se nada acontece nem mesmo quando o presidente da República infringe descaradamente a lei, por que aconteceria algo com um ex-governador, um mero candidato, ainda por cima historicamente popular?

Se o presidente Lula pode dizer que o mensalão foi golpe para depô-lo, se comparando a Getúlio, Jango e Juscelino – e assim o fez na entrevista ao Portal Terra, concedida na última quinta-feira – por que Roriz não falaria sandices como a de armação de um golpe socialista? Uma afirmação tão ou mais surrealista que a outra. Se o presidente acusa a mídia de persegui-lo, por que Roriz não usaria argumento semelhante?

Para os mais afoitos, ressalta-se que nem de longe Lula pode ser comparado a Roriz.

Mas, ao insistir em desrespeitar todo o tipo de regras para vencer o jogo, a qualquer preço e custe o que custar, o presidente abriu um caminho perigosíssimo: jogou leis no lixo, abusou do cargo, praticou e avalizou o vale-tudo. Estimulou os caras-de-pau e, ainda que sua candidata vença, como tudo indica, perdeu a chance de descer a rampa do Planalto de cara limpa.

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20 setembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

O GRANDE SATÃ

Desde o escândalo do mensalão, habilmente transformado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em caixa 2, e, pouco depois, em uma trama das elites preconceituosas, o script adotado pelo lulo-petismo para livrar-se dos crimes que comete é sempre igual.

De início, nega-se a denúncia ou alega-se ignorância, o tal “eu não sabia”. Na cena seguinte, se coletiviza o delito: “afinal todo mundo faz”. Em seguida, garante-se a apuração rápida e a punição exemplar que, dita com o tom de “doa a quem doer”, nunca vem. E entregam-se cabeças quando a barra pesa.

É sempre assim, nunca muda. Mas nada é tão recorrente quanto jogar a culpa dos malfeitos na mídia.

Do filme de 2004 que expõe o ato de extorsão de Waldomiro Diniz às denúncias das propinas mensais regiamente ofertadas a parlamentares, feitas pelo então aliado Roberto Jefferson (PTB), tudo de ruim que acontece no seio do governo Lula foi e é engendrado pela grande imprensa.

Esse satã cuja única missão é impedir a eleição de Dilma Rousseff já no primeiro turno, ferindo o brilho do grand finale de Lula, o presidente mais popular que o país já teve.

Sendo assim, é da imprensa a responsabilidade da quebra do sigilo fiscal de milhares de brasileiros, entre eles os de familiares do candidato da oposição.

Como já era puro golpismo jornalístico a existência do caseiro Francenildo, arrombado em seu sigilo bancário por asseclas do então ministro Antônio Palloci, hoje um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff. É também obra dos jornalistas anti-Lula as tramóias dos filhos da recém defenestrada ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

Como a desfaçatez não tem mesmo limites, a grande imprensa é o mal em si só quando a conveniência assim o dita. E enche-se de credibilidade quando é para mostrar os feitos do governo.

Chega a ser patético ver os mesmos que criticam a mídia aplaudir o programa eleitoral de Dilma na TV. Ali, usa-se e abusa-se das manchetes do Estadão e da expressamente odiada Folha de S. Paulo, jornal que inspirou dilmistas digitais a fazerem pelo menos dois grandes movimentos orquestrados no twitter. Ainda que bem humorada, a mobilização “#meentrevistafolha” tem um só objetivo: tentar ridicularizar o jornal.

Há de se perguntar por que os marqueteiros da candidata oficial preferem usar manchetes da Folha às dos blogs governistas que se auto-entitulam como progressistas. Ou por que o coordenador da campanha de Dilma e assessor especial para Assuntos Internacionais do governo Lula, Marco Aurélio Garcia, prefere bradar raivosamente que a grande imprensa não deu bola para as denúncias da revista Carta Capital ao invés de usá-las.

Se a denúncia é quente, tem lastro e a revista tem crédito, por que não incluí-la nos mais de 10 minutos de horário gratuito que a candidata oficial tem na TV, corrigindo assim a danada da imprensa golpista?

Não o fazem porque não há lógica alguma que sustente o discurso da demonização da mídia. É só uma boa brincadeirinha que serve aos companheiros pagos e de cola para os militantes crédulos. Um falatório barato para dizer que a maléfica grande imprensa está a serviço de alguma força oculta, etérea, que o governo Lula adora chamar de elite.

Mas que elite? Emissoras de TV e de rádio, jornais e revistas de circulação nacional estariam, todas eles, conspirando contra o presidente? Agiriam contra Lula e sua candidata – que bate recorde atrás de recorde na arrecadação de campanha – os bancos, os grandes investidores estrangeiros e nacionais que se deliciam com as benesses do governo, nunca antes tão fartas?

Quais seriam mesmo as forças retrógadas a apoiar os jornalões e a grande imprensa, se os Sarneys, Collors e Jaders estão todos com Lula? Quais e quem seriam os beneficiários de uma derrota de Dilma?

Onde está esta gente tão poderosa que consegue financiar toda a mídia e ao mesmo tempo é tão incompetente que não é capaz de convencer mais de 4%?

A história não se faz em um mandato ou dois, muito menos em uma eleição. Mais cedo ou mais tarde corpos bóiam, crimes aparecem, máscaras caem. Afinal, como consagrou com toda a sapiência o presidente norte-americano Abraham Lincoln “pode-se enganar a todos por algum tempo, pode-se enganar alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos todo o tempo”.

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14 setembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

O EIXO PERDIDO

Se há divergências entre os geofísicos quanto aos níveis de deslocamento do eixo terrestre, tema que ganhou repercussão depois dos terremotos do Haiti e do Chile, difícil é ter dúvidas quanto à movimentação do eixo que deveria balizar a política.

Parece ser um fenômeno mundial. Nos Estados Unidos, a oposição ao democrata Barack Obama pinta-o como um comunista de carteirinha. Na Europa, berço da social-democracia, a onda conservadora continua a banhar a maior parte dos países do continente. Na América Latina convive-se, em pleno século 21, com um esquerdismo primário e juvenil encabeçado pela ditadura Chávez.

No Brasil então, o eixo virou pelo avesso, perdeu-se. Já nem pode mais ter seus graus aferidos. Tudo está fora de lugar, seja no terreno ideológico, legal, constitucional ou moral.

Do ponto de vista partidário, o PT arrota regras de cima para baixo, incentivando todo tipo de peleguismo político. Um partido que abriu mão de qualquer princípio ideológico – se é que realmente os tinha – em nome de se perpetuar no poder. Mesmo que seja com Dilma Rousseff, cristã-nova, mas que, imposta goela abaixo pelo presidente Lula, tudo merece.

E não há greve de fome ou desfiliações de petistas históricos capazes de consertar o eixo torto. O partido se rendeu ao pragmatismo de Lula, vendendo-se aos Sarneys, Jaders, Collors e Malufs. Rendeu-se a tudo. Arrepia-se com a hipótese, hoje tida como remota, de perder o conforto dos cargos públicos para milhares dos seus.

Mas, mesmo aliado ao que há de mais retrógrado na política nacional, o petismo continua bradando-se como a única esquerda confiável do país. E não se cansa de tentar constranger os que ousam dele discordar.

O PSDB, a anos luz de distância das premissas da social-democracia e do parlamentarismo que pregava, nem mesmo sabe onde guardou a bússola. Distancia-se cada vez mais do DEM, seu aliado histórico e debita todos os reveses da campanha presidencial ao candidato José Serra, sem fazer mea-culpa de sua omissão.

Não ousou a se opor à popularidade de Lula quando podia e quer agora, em pouco mais de 20 dias, fazer o que não fez em oito anos. Uma missão quase impossível.

Nem Marina Silva escapa. Após 3 de outubro, pouco deverá sobrar do seu véu de santidade e pureza. E o PV, ao qual se filiou na bacia das almas, há muito abriu os seus filtros ideológicos para conseguir melhores resultados eleitorais. A assunção de Marina na sigla foi apenas mais um deles.

As campanhas? Essas então são um desatino total. Nunca antes neste país se viu eleição tão despolitizada. Algo que só favorece a candidata oficial, cujo papel ensaiado é o de expor um país de cinema, uma Hollywood, ainda que tropical. Mostram-se números e realizações, em geral sem lastro; um futuro promissor, de Brasil grande. A mesma cara do Brasil dos militares, do “ame-o ou deixe-o”, base do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao reclamar da “turma do contra” que não ama a pátria.

O absurdo é tamanho que o presidente da República transforma o “Brasil, um país de todos”, slogan original de seu governo, em “Brasil, um país daqueles que estão do lado do Lula”. E tem o desplante de taxar como preconceituosos todos os cidadãos que não apóiam a sua candidata e a ele próprio.

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6 setembro 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

A BANDA PODRE

Quando um presidente da República trata a quebra de sigilo fiscal do adversário como “futrica”, e sua candidata, líder absoluta nas pesquisas eleitorais, define esse crime como um simples “malfeito”, algo vai mal, muitíssimo mal. Mas sempre foi assim: quanto maior é o escândalo, mais o maestro e seu coro vigoroso tentam esconder os podres da banda. E como ela há anos reina sem concorrência, continua a agradar a maior parte dos convivas.

Ensaiados às pressas para uma contenda que não se imaginava vir à tona agora, os tocadores de bumbo, surdo e prato atravessaram brabo na melodia. O presidente da Receita, Otacílio Cartaxo, um dia disse uma coisa – “não há indícios de motivação política na quebra de sigilo” – , noutro fez outra, sempre sendo desmentido pelos fatos poucas horas depois.

A Receita desentoou de novo e quase implodiu a fanfarra quando garantiu provas de que fora Verônica Serra, filha do candidato do PSDB José Serra, quem pedira seus dados fiscais em uma agência de Santo André. Algo que um maestro experimentado como Lula sempre soube que não cabia nem em cantiga de ninar.

Para fugir da conotação eleitoral do enredo de horror instalado na Receita, o ministro da Fazenda Guido Mantega chegou a admitir que a então respeitada instituição pela qual deveria zelar é uma espécie de casa de mãe Joana, onde o número de quebras de sigilo é muito maior do que o dos políticos tucanos arrombados. Em qualquer país sério isso seria motivo de sobra para entupir a tuba.

Mas os ensurdecedores acordes desconexos não foram suficientes para inibir os animadores da banda. Ocupando todos os espaços possíveis, não faltaram trompas petistas para reverberar a falseta de que o próprio Serra teria armado o golpe contra a sua filha para obter ganhos eleitorais. Algo que só quem está acostumado com os labirintos dos esgotos poderia elucubrar.

Do outro lado, a trupe de José Serra continua sem achar o tom. Ora bate, ora assopra. Chega a produzir letra e música para o adversário, fornecendo-lhe todas as armas, como o fez ao entrar na Justiça Eleitoral para impugnar a candidatura de Dilma.

Hora e lugar errados.

Nada como uma sentença do TSE para embasar o discurso de que as vítimas são os algozes e que o PSDB queria era ganhar no tapetão. Melhor teria sido recorrer a outras esferas da Justiça, buscando não os trunfos eleitorais de que tanto precisa, mas o Estado de Direito. Cedo ou tarde o país aplaudiria.

Mas se Serra peca, o pecado capital vem do presidente Lula, que sempre se supera. Entoa a cantiga que quer. E nem se importa se desafina. Como general-mor da banda, faz o que o seu tino de poder manda. A seu bel prazer dispõe os melofones, fliscornes e pistões. E eles fazem tanto barulho que parecem ter êxito em esconder a desfaçatez de Lula ao admitir que soubera no início do ano – e dito pelo então governador de São Paulo – da hipótese de violação dos dados fiscais de Verônica. Nada fez, e ainda joga a culpa em Serra. “Ele não me alertou, ele se queixou”. E sua candidata Dilma Rousseff, é claro, segue a mesma partitura.

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23 agosto 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

TOLERÂNCIA ZERO

O presidente Luis Inácio Lula da Silva sempre gostou de conferir rótulos para popularizar os seus prediletos. Foi assim com o então ministro da Casa Civil José Dirceu, a quem atribuía a função de técnico insubstituível do time, até rifá-lo na conta dos escândalos dos Correios e do mensalão. Ou com o craque Antônio Palocci, estrategicamente retirado de campo depois da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Com Dilma Rousseff não foi diferente.

Ungida mãe do PAC, o programa que deveria acelerar o desenvolvimento, mas que continua empacado na baixa execução – vexaminosa para qualquer gestor, mesmo o mais medíocre -, a candidata do PT é a mãe que o povo ganhou de presente para cuidar dele e conduzi-lo. Um povo que, para Lula, precisa de permanente tutela – dele e de sua sucessora. Está lá na canção melodramática que o programa de sua candidata veiculou durante a semana.

Um povo órfão. E é o próprio Lula, o primeiro e único presidente a ter uma aprovação quase unânime desse mesmo povo, quem diz, depois de governá-lo por quase oito anos.

Sua estupenda popularidade tudo transforma. Dirceu e Palocci já são ex-pecadores. Voltaram com força e confiança total. E Dilma, responsável por um PAC que tem apenas 13% de suas 13.958 ações concluídas, de acordo com o site Contas Abertas, ou 41%, se excluídas as obras de saneamento e habitação, como gosta de contabilizar o ministério da Casa Civil, crê que pode se apresentar como administradora competente. Chega até a confessar seu analfabetismo eleitoral para tentar vender sua pretensa experiência executiva.

Com que resultados?, deveria se perguntar o eleitor. Mas parece não haver espaço para tal. Se nem mesmo a oposição tem coragem de contestar a propaganda oficial, porque os eleitores o fariam?

Além de recuperar vilões que há muito deveriam estar banidos, entre eles o clã Sarney e até mesmo Collor de Mello, inimigo número 1 do país, Lula consegue como ninguém criar as verdades que a conveniência lhe dita. Não só o país não existia antes dele, como tudo que se tem hoje – da estabilidade econômica à telefonia celular (ainda que esta seja resultado da satânica privatização) – foi feito pelo seu governo. E quando o script não lhe é favorável, sempre usa as máximas: não sei de nada, todo mundo faz, é fruto da mídia golpista.

Pior: estimula, sem qualquer constrangimento, a beligerância contra aqueles que tentam lhe fazer oposição.

É a tolerância zero, onde adversários são inimigos que devem ser combatidos a qualquer preço. Por essa cartilha, ninguém deveria se arvorar em criticar o governo, Dilma e muito menos Lula. É crime, coisa dos 4% que ousam discordar, contraditar. De gente que ousa ser minoria.

Não há democracia quando a maioria tenta impor a mudez à minoria, quando o poder tem um único dono e ele só escuta a sua própria voz.

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16 agosto 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

O SHOW DO BILHÃO

Caríssima, não raro maçante, mas considerada por 11 entre 10 analistas como essencial para a decisão do eleitor, a propaganda eleitoral de rádio e TV, que começa na terça-feira e se estende por 45 dias, repetirá a fórmula ultrapassada e mal-engendrada que, há anos, alimenta vícios danosos ao país. Estimula coligações sem pé nem cabeça, institucionaliza legendas de aluguel e pasteuriza a política. Tudo a um custo altíssimo, nada compatível com um país que, ao contrário do que o governo do presidente Lula quer fazer crer, ainda está bem longe de alcançar o nirvana.

Nada sai de graça. Além dos milhões que os principais candidatos pagam aos marqueteiros e suas produtoras, as emissoras, mesmo sendo concessões públicas, têm benefício fiscal por veicular o horário dito gratuito. De acordo com o site Contas Abertas, neste ano elas devem deixar de recolher mais de R$ 850 milhões aos cofres públicos. De 2002 até hoje as isenções ultrapassam a casa dos R$ 3 bilhões.

Mas isso é pouco perto do estrago que o horário gratuito provoca ao debate político, à qualidade da representação e, consequentemente, ao fortalecimento das instituições democráticas.

Os candidatos ao parlamento – sejam federais ou estaduais – são apresentados quase sempre no modelito que ficou conhecido como Lei Falcão, adotado pelo regime militar: foto, partido, número. Algumas estrelas de legendas com maior minutagem têm a chance de uma palavrinha, algo entre 12 e 25 segundos. O mais comum, no entanto, ainda é a foto ou uma microgravação acrescida de uma palavra de ordem do tipo “pela educação”, “por mais saúde”. E um letreiro com o nome do candidato majoritário, o que em alguns casos mais complica do que esclarece as coisas para o eleitor, vista a barafunda das coligações partidárias.

Os nove partidos que formam a coligação de apoio a Dilma Rousseff, conferindo-lhe 10m38s duas vezes ao dia e mais 229 inserções de 30s ao longo dos 45 dias de propaganda, pouco ou quase nada têm a ver entre si. Pragmático e decidido a fazer política de resultados, o presidente Lula apostou alto em aliados, mesmo nos mais incômodos. Impôs um alto custo para o PT, que teve de abrir mão da disputa em diversos Estados, mas multiplicou palanques e minutos.

O PSDB de José Serra também não fez diferente. Embora o DEM seja um parceiro tradicional, foi a ameaça de perder tempo na TV e no rádio que determinou a escolha do vice. Para garantir seus 7m18s reuniu seis siglas e alguns desconfortos, a exemplo do deputado Roberto Jefferson (PTB), ex-aliado de Lula, cassado junto com José Dirceu (PT) no escândalo do mensalão.

Sem coligação alguma, a verde Marina Silva terá parcos 1m23s. Espantosamente, já gastou mais de R$ 3 milhões na produção de sua propaganda, embora tente demonstrar que não acredita em marqueteiros.

Tendo ou não fé neles, o formato do horário eleitoral que o país insiste em manter ao marqueteiro pertence.

José Serra até esboçou alguma reação a esse fato ao defender a cara lavada, a apresentação do candidato, e só ele, diante da câmera. Mas é sabido que nada disso será feito. Seria inovador, divertido, se não fosse completamente improvável. Nem mesmo Plínio Arruda Sampaio, que tanto agradou com sua irresponsável irreverência no debate da Band, usará assim os seus 1m01s.

Fora os cinco candidatos de si próprios com o tempo de 55s, todos vão usar e abusar dos marqueteiros e, cada um a seu modo, contribuir para empobrecer o já tão pobre debate político.

Nas regras marqueteiras, não importa como o candidato é, mas como o eleitor quer que ele seja. Sendo assim, o revolucionário e barbudo Lula vira Lulinha Paz e Amor, a durona Dilma converte-se na doce mãe de todos.

Enquanto os políticos não se coçarem para mudar as regras desse show, o eleitor continuará condenado a essa ficção.

 

9 agosto 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

MAIS DO MESMO

Até o próximo debate, e há pelo menos outros quatro ou cinco planejados, muito ainda vai se falar sobre o primeiro embate televisivo da campanha de 2010. Da estréia meio trôpega, mas sem maiores tropeços de Dilma Rousseff, à confirmação do carisma quase zero do candidato José Serra, pouco ou quase nada deverá ficar na memória do eleitor.

Não demora muito, os minutos de fama do ex-democrata cristão, ex-emedebista e ex-petista Plínio Arruda Sampaio, hoje no PSOL, vão virar pó. E ninguém mais dará importância à performance titubeante e pouco convincente de Marina Silva, para quem todas as soluções para o Brasil passam por “estratégias de integração”, seja lá o que isso queira dizer. Muito menos terá algum valor a poesia que a verde declamou ao final, algo que dividiu as opiniões entre o sensacional e o patético.

Folclores à parte, o que importa mesmo são os dois principais concorrentes. Nenhum deles foi propriamente brilhante ou desastrosamente mal. Tiveram seus altos e baixos, não frustraram nem agradaram tanto às suas torcidas, embora ambas tenham saído cantando vitória, algo recorrente, sobretudo em disputas acirradas.

Dilma gaguejou, enrolou em frases, deixou várias inconclusas. Pecou nas obviedades, nos chavões, em especial ao falar de educação e saúde. E, embora tenha citado repetidamente o “nosso governo”, estranhamente falou pouco, muito pouco, do presidente Lula, sua maior, senão única, credencial para a disputa. Escondeu o seu criador, aquele que lhe fornece luz, ar e fôlego. Até foi alertada, mas já era tarde. Com isso, perdeu. Ou, no mínimo, deixou de ganhar.

Serra, por sua vez, se não negou de todo, como fizera em 2002, demonstrou constrangimento ao ser interrogado sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso. Preferiu a frase de efeito – “não olhar para o retrovisor” – à defesa de seu mais fiel correligionário.

É fato que o tucano defendeu a privatização, pelo menos das telecomunicações. E até criou algum mal-estar ao citar o apoio do coordenador da campanha de Dilma e ex-ministro da Fazenda de Lula, Antônio Pallocci, à política econômica de FHC. Mas titubeou ao, de saída, negar o passado, permitindo o melhor momento de sua adversária.

Perdeu a chance de recuperar e reivindicar FHC para si.

E cabe aqui uma curiosidade.

Mesmo sem disputar votos há três eleições, Fernando Henrique Cardoso continua sendo estrela de primeira grandeza em todas elas. É o principal parâmetro do PT e de Lula – por ele derrotado duas vezes consecutivas e, ainda por cima, no primeiro turno. Tudo que o governo Lula faz, mesmo quando marca os seus gols, tem FHC como referência.

De alguma forma, Lula e o PT inventaram o índice FHC de qualidade. Medem tudo por ele.

E o PSDB entra no jogo. Parece não entender que essa é uma métrica que poderia lhe render frutos ao invés de reveses.

Outros debates virão. Possivelmente, mais do mesmo. Pouco atraentes, modorrentos, com a repetição de regras que privilegiam o relógio ao bom embate. Aliás, o calendário prevê uma concentração deles – MTV, Record, SBT, TV Gazeta/Estadão, TV Globo e portal UOL –, com ou sem a participação dos candidatos Dilma e Serra. Mas, certamente, com os astros Lula e FHC.

26 julho 2010 DEU NO JORNAL, MARY ZAIDAN

UM TEXTO DE MARY ZAIDAN

GUANTÂNAMO NUNCA MAIS

A dignidade humana não é negociável e qualquer afronta a ela deveria causar aversão, repulsa. Em especial quando o agente da agressão é o Estado. E não interessa se o ofensor é a ilha de Fidel, um reino de aiatolás ou o império do tio Sam. Ninguém tem o direito de desculpar torturas, encarceramento injustificado, cerceamento de liberdade. E muito menos defender pecados de alguns porque há muitos que pecam.

Mas a candidata do PT, Dilma Rousseff, parece não saber disso.

As atrocidades cometidas contra os presos de Guantânamo não perdoam a tirania do regime castrista, os assassinatos de inocentes cometidos por Mahmoud Ahmadinejad ou a perseguição insana de Hugo Chávez aos seus adversários. Todos merecem o repúdio e a condenação de qualquer um que tenha a mínima noção do que, de verdade, são os direitos humanos.

Mas Dilma parece não saber disso.

Na entrevista solo à TV Brasil, a candidata do presidente Lula chegou a ficar irritada. Para desculpar a esquizofrênica política externa do governo de seu padrinho, seja em relação a Cuba, ao Irã ou à Venezuela, Dilma primeiro tentou o lugar comum de que o Brasil não se mete em quintal alheio. Depois se enrolou com Honduras e, mais tarde, contra-atacou: “E em Guantânamo, se respeita os direitos humanos?”

Uma frase juvenil, ingênua, que não teria lá grande importância se não fosse da candidata à Presidência do Brasil, país que sob a batuta de Lula não aderiu à condenação pública de Guantânamo, feita pela ONU em 2006 e apoiada por dezenas de nações. Talvez pelos laços de amizade fraterna do criador de Dilma com o então presidente George W. Bush.

Mas é verdade, Dilma. Não há desculpas para Guantânamo. Assim como não as há para as prisões de Cuba, para os desvarios do Irã, as barbáries do Sri Lanka, da Coréia do Norte, de Mianmar (ex-Birmânia) – um regime militar que se arrasta há 20 anos, condenado pela ONU por manter mais de dois mil presos de etnias minoritárias. No entanto, o governo Lula decidiu instalar lá uma embaixada brasileira, o que também deve acontecer na Coréia do Norte.

Não, Dilma, em Guantânamo não se respeitam os direitos humanos. Mas isso não justifica as condições subumanas em que presos políticos são mantidos na mesma ilha ou em qualquer outro lugar do planeta.

É imperativo que o mundo cobre de Barack Obama a promessa de acabar de vez com a prisão dos horrores, algo que já devia ter acontecido. E o Brasil, ao lado de outros países que defendem o Estado de Direito, deveria exigir isso. Mas não se credenciará para tal se insistir no Estado ideológico, no esquerdismo barato e ultrapassado. Só poderá fazê-lo se parar de vez de incensar regimes totalitários como os de Fidel e seu irmão Raúl, ou democracias de mentirinha como as do Irã e da vizinha Venezuela.

É verdade Dilma, Guantânamo não respeita direitos humanos. Mas a insistência em usar esse truque maroto para proteger regimes amigos, ainda que opressores e cruéis, atenta contra tudo e todos. Quem os defende flerta com o autoritarismo. Só podem ser ideólogos do atraso ou antidemocratas declarados.

 


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