
COISA RUIM
não há gente pior que americano
nem covarde pior que o nazista
complicado do que o analista
perseguido maior que o cigano
amor grande igual ao de romeu
mais briguenta do que o amor meu
e um poeta maior que zé da luz
nem traíra maior do que silvério
lugar triste que nem o cemitério
e o martírio sofrido por jesus.
A saudade que doi e não se acaba
A sabença que vem do oriente
A beleza maior que o sol poente
E o rodar infinito na caaba
O cabrito mamando numa cabra
Dando soco puxando o leite quente
A lembrança de quem está ausente
o morrer solitário lá na guerra
pois quem morre sozinho não se enterra
desespero da mâe com o filho ausente
não ter agua mais dentro da cabaça
ver a fome entrando casa a dentro
a injustiça servindo de fermento
pra quem do desespero acha graça
o secar de um litro de cachaça
com bodegas a léguas de distância
a mulher que só vive na inconstãncia
quem quer tudo na vida e nada tem
um corrupto na missa diz amém
e o bandido que rouba nossa infãncia
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MARIA CAIXA DE PÓ
Rodando pelas calçadas
Com seu laço de filó
Uma alma estasiada
Maria caixa de pó
Exalando singeleza
Alegria de francesa
Dizendo vou me casar
Só me falta um noivo rico
Tá faltando só um tico
Juazeiro vai fechar
Parecia uma menina
Navegando no seu sonho
Lábios da cor de bunina
Com um sorriso bizonho
Era louca! tem certeza?
Será que na sua mesa
Todo mundo é sadio?
Quem nunca devaneou
No vazio escorregou
E no calor sentiu frio?
Quando penso eu só lembro
Das estórias de criança
Cinderela, chapeuzinho
Rapunzel e suas tranças
Lembro dona baratinha
Com dinheiro na caixinha
Sempre querendo casar
Dom ratão ou mesmo o burro
Que dizia no seu zurro
Agora encontrei meu par
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NO CALOR DO ABRAÇO…
Sentir o calor do corpo é meu sossego
Diga-me sempre e eternamente
Que nunca terei a dor do vento
Que me traz a saudade e o desapego
Vem forte e cobre meu corpo
no afago do abraço verdadeiro
E diga alto e pungente
Que teu coração explode
no carinho derradeiro
sou um menino perdido
na noite fria e escura
mas teu abraço me aquece
cheio de amor candura
vem meu amor me abraça
me tira do pesadelo
fica sempre nos meus braços
ouve meu grito de apelo
diga ao mundo que o abraço
move a terra do lugar
cura a doença mais triste
remédio igual não existe
só ele pode curar
o abraço vem da mãe
do pai, do filho, do amigo
confirmando a humanidade
que somente esse carinho
sabe ensinar o caminho
de dividir joio e trigo
somos feitos no abraço
do amor apaixonado
que nos envolve no laço
do carinho sem pecado
somos feito uma criança
que abraça sem temor
mostrando a humanidade
que o sonho da verdade
são braços cheios de amor.
DR. ZÉ CUTIA
Eu ta va lá no São Paulo
Praça da consolação
E apariceu um rapaiz
Todo chei de ispricação
Dizendo, tu qué sê gente?
Nunca mais í pro só quente
Vivê na base do imbroma?
Eu tiro tu da inxada
Dessa vida aperreada
Vou te vendê Um diproma.
Eu sei qui vivê na roça
É trabaio do capeta
Bom mermo é vivê na rua
No inrrola e na mutreta
Se tivé quinhentos conto
Ainda dô um disconto
E daqui tu sai foimado
Vai sê um grande ingenhero
Orguio dos brasilero
Ou intão adevogado
Moço eu fiquei foguiado
Cum aquela arrumação
Eu saí da roça burro
Sem rumo nem direção
E aquele iscroto paulista
Todo mitido a artista
Vai me fazê maioral
Vortá lá pro meu tipi
E vê o povo se ri
Dizendo queu sô o tal
Tu já pensou meus irmão
Me chamando de doto
Doto de Chico de rosa
Cambitero e agricultor
Mãe dizendo pás vizinha
Eu imaginno tonhinha
Querendo casá cum eu
Zé cutia é do passado
Dotô Zé adevogado
O prinspe qui Deus me deu
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A SAUDADE DE TE AMAR
Sem saber eu fui um dia, um alegre sabiá
Tinha um sonho, um amor, uma vida, um sonhar
Nada tinha de valores somente o brilho do olhar
E você que me invadiu com seu jeito de luar
Fez um doce de saudade e caramelou meu sonhar
Sem me dizer que um dia ia assim me abandonar
Agora só o amargo, a tortura de sonhar
De lembrar que minha vida nunca vai me consolar
Esse ardor essa loucura esse medo de falar
De saber que a vida inteira tenho tempo pra chorar
Vou derreter a saudade e no limbo vou ficar
Sabendo que morre o peito por não te poder amar
Existe esse amor desfeito esse abismo a me atirar.

COMO FUI ENGANADO PELA MÃE DO CÃO
Em um dia de chuva morrenta, dessas que molha devagazim, até a aima do vivente, eu montei numa cangaia jogada no meu aipendre. Enquanto cortava fumo pra enrolar um braço de Juda, fiquei matutando como seria de verdade a mãe do cão. Todo mundo tem mãe, ele também deve ter. Agora, se ela tiver a forma de gente, deve ser a coisa mais feia do mundo, imagino que seja a cara da minha sogra. Ou parecida com Maria conceição Tavares, ou será linda como a Flávia Alessandra que fez a mãe de pantanha, no filme “o homem que enganou o diabo”. Pensamentinho besta esse meu, mas é muito curioso saber quem foi que pariu o cão. Argum capeta que inferniza aqui na terra,todo mundo conhece a mãe, o pai, isso já é ôta istóra, mãe de capeta não tem lealdade a ninguém, e uma trepadinha sem compromisso não faz mal hora nenhuma. Lá pras bandas da serra do mãozinha, dizem, tem um homem que comeu uma côa, nasceu uma menina com cara de porca que corre nas estradas, nas noites de lua cheia. Meu tio, chimbé, já viu muito e até foi mordido pela mardita. Mas, voltando ao meu aipendre, um vulto veio chegando por baixo do meu pé de coité, e eu pensei qui fosse meu jegue polodoro, um jumentinho que me ajuda a carregar água pra encher o pote, era não, moço, a bicha roncando baxinho tomou o meu rumo e como num encantamento foi se levantando e quando deu pra ver o rosto, eu vi que era a coisa mais linda do mundo, uma muié pra quinhentas cuié , comprida,lôra, da boca de bunina, com uns ói derreter praga de viúva, um pedaço grande do maió dos pecado.
Ela pensou que eu num tinha visto o desencantamento, e se chegou como quem vem pedir chamego a marido novo. Ora, seu moço, eu tava pra mais de seis anos que morava sozinho naquele fim de mundo, sem nunca ir na rua e sem receber visita nem de fiscá de renda. Ela passou a mão no meu peito e foi descendo pelo entre-pernas, agarrou no meu cacete e ficou amolegando como quem pega numa milonga. eu fiquei zonzinho e não contei conversa, tirei as calça e já fui me abufelando com ela. Rebolei ela no chão e procurei vaga pra enfiar a bicuda naquele priquito de luxo, Ela ficou se torcendo e remexendo sem deixar eu acertar o rumo do que eu pesava ser o céu de cabelo e pinguelo.
Quando eu dei uma folguinha, ela virou-sede costas e levantou aquelas anca que mais parecia a Ivete dançando. aí, eu me animei e ela me engoliu todinho, gemendo mais que moça parindo, mas, sua bunda era tão linda que eu não resisti e num relance de caipora eu arrochei todinho no rabo, chega ela peidô. Ora, quando ela sentiu a chibata rasgando as pregas do furico e quis se soltar e eu não deixei, ela saiu do encantamento e voltou e ser uma porca, grandona, vermelha, gorda e fedorenta. Sortosse de mim, mordeu minha perna e quase arranca minha rôla. Aí fiquei ali no terreiro, todo sujo de lama, cansado, mufino, com uma raiva da peste, eu podia tê me contentado com uma bucetinha linda e ter dado a melhor trepada da paróquia, tarvez até eu escapasse e não nascesse uma coazinha nova, eu nem ia me importar, fui bulir no cu. Me fodi. caralho! Agora é só andando com uma corda, toda noite de lua, procurando aquela fuçadeira, sem nem ter rumo de achar. Eita côa covarda da peste. Danousse.

INLEITÔ CONSIENTE
Vixe!!
Chegou a hora de putariá, Dizer mintira, lorota, Casá safado cum pilantra, E se benzê rezando pro cão. Agora é seguir a fila dos fila da puta e cantar a musiquinha laralaiada do candidato campeão em ladroagem e safadeza .
Tá na hora de votar no chibungo que come bola e imbola o nosso istambo cum a cara mais lisa do mundo. Vamo andá na corda tesa que joga contra a esperança. agora é fechá os óio e atirá no premero qui sortá uma nota de cinqüenta.
Eu lá quero sabê do Brasil!!! Eu vô é ganhá o da verdura e do frango tanajura. Meus minino que se lasque!!! Quando eles crescê eu já tô plantado lá no parque são João batista e nada vai acontecer de milhô pra ninguém.
Tarvês eu inté ache um honesto pra dar uma vaia de arrombar e cagá no chão e limpá o cu cum o santinho dele. Honesto!!! É mesmo é um grande cu cagado qui nunca vai aprendê a viver mió.
Vamo mermo é afuleimá o calamengau, e quem vinhé atráis que bata a cancela. O qui é???
Tu tá achando rim??? Vai pá puta qui ti pariu e leve argúem pá í cunvesando abestado!!! Ilarilarilariê ô ô ô… votá dereito???! Aaahhhh!!!
.

VAQUÊRO
Sentado num tamborete
Meio dobrado inculhido
Apoiado de falsete
Munto cansado intanguido
O gibão velho rasgado
O peitorá isfolado
As pernera cor de breu
Alpercata virgulina
Ou então uma butina
De solado de pneu.
Um chapéu bem cachiado
O documento do macho
Na vida só dois pecado
Um inriba e um inbaxo
Ispora de oito dente
Aquele triste vivente
Parece sem serventia
O corpo acusa a idade
Mais se tem nissicidade
Ele mostra a valentia
Seu cavalo é só a grade
A sela parece um lixo
É garrancho, ispim de frade
Gitirana e carrapicho
No arfoje num vai nada
Só a puêra da istrada
Nos óio tristeza e dô
Amaigura duma vida
Cum cicatriz e firida
Dexada pur um amô
Os braço munto cumprido
As perna de muriçoca
O ispinhaço duído
Onde chega tá de coca
Um gabiru sem distino
Na cara um bigode fino
Uma feia criatura
Faiz um cigarro de paia
Fechado cum a navaia
E amarrado na cintura
Mais quando tá amuntado
É um bravo, é um valente
Seu grito levanta o gado
E acorda todo vivente
Nada barra seu trabaio
Nem cipó, istaca ou gaio
Diminui sua carrera
Troce tudo, faiz balcêro
E o cobertor do vaquêro
É o rastro de puêra
Pega a rédea na direita
Deita o corpo no cavalo
Voa na vereda estreita
Chega o vento faiz abalo
É assim seu dia a dia
Seu vivê, sua aligria
Seu lugá, o seu torrão
Essa é a grande riqueza
A força e a singeleza
do bravo herói do sertão
O vaquêro é um gigante
Retrato do sertanejo
Um bruto, um troço possante
No aboio e no vaquejo
Um centauro nordestino
Um rei, um bicho, um minino
Sempre calado e sizudo
Vaquêro meu grande irmão
Devia pissui tudo
Das riqueza do sertão
.
QUEIRA-ME
Queira-me amor eternamente
Sem que a sombra da saudade nos invada
Dá-me teu calor, teu peito ardente
Afaga nosso amor com mãos de fada
Não te ausentes, meu amor, da nossa história
Quebra o silêncio, esse torpor que me apavora
Manda uma mensagem que me amas
Pelo vento que vagueia noite afora
Eu sou tão pobre por viver sem teu carinho
Nem mesmo a lua me consola, a noite é fria
Viver sem ti é ter o mundo e não ter nada
Sem ti a dor me corta o peito em agonia
Por isso queira-me amor, não me abandone
Fique comigo nessa vida e no eterno
Nem mesmo a morte vai por fim ao nosso amor
Rio que corre mundo a fora em pleno inverno.
.
OLHA PRA MIM
Amor…
Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meu peito aberto é um abismo a te buscar
Cega-me com o brilho da paixão ardente
Que cego estou, por ti querer amar.
Vagueia por meu coração trêmulo
E canta e dança no meu peito extasiado
Grita bem alto teu canto doce e apaixonante!
Enche meu peito de amor e de pecado.
Deita-me no teu colo; em tua boca
Faz dormir minha alma e o meu cansaço
Dá-me teu amor, teu corpo inteiro
Faz-me passarinho em teu regaço .
Diz tudo o que somos nesse dia
Afaga meus cabelos com teu beijo
Entrega-me teu corpo, a noite é nua
E o tempo tão fulgaz é só lampejo.
Não te afastes meu amor, fica comigo!
Que o horror da tua ausência é meu tormento,
Sou uma folha ressequida pelo outono
Sem direção, levada a esmo pelo vento.
Amoi !!!
UM ROÇADO SERTANEJO
Seu moço é trabaio duro
Luitá na agricultura
Pro mode se tê fartura
E garantí o futuro
Premêro faça uma broca
E levante uma maloca
Pá sombra do mei do dia
Pudê queimá a panela
E discançá a chinela
E cumê cum aligria
Junte os mato pinicado
E vá fazendo as coivara
Pá se limpá um roçado
Pricisa sujá a cara
Toque fogo no acêro
Qui o fogo corre ligêro
Queimando tudo na frente
Dexa tudo bem limpinho
Peleje divagarinho
Até vê o só puente
Uma roça só pum home
Tem qui tê cinco tarefa
Tem qui virá lubizome
Qui nem chiquinho de zefa
Prante mio e o fejão
E uns pé de argudão
Caroço de melancia
Maxixe e uns girimum
Semeie de um por um
Tudo dento de trêis dia
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MENINA FAVO DE MEL
Já vi tanta coisa linda
Quando rodei pelo mundo
Mais não sabia que ainda
Precisava ir mais fundo
Correr o sertão afora
Conhecer a luz da aurora
Ver uma santa na terra
E saber que a luz divina
Tinha a forma de menina
Deus é perfeito e não erra
A brancura do algodão
Do leite tinha a alvura
Seu rosto era só candura
Sua voz uma canção
Foi a coisa mais bonita
Num vestidinho de chita
Iluminando o sertão
Era tanta singeleza
Que as moças sertanejas
Não tinham comparação
Quando eu avistei seus olhos
Quase morri de desejo
Sua pele muito branca
Eu imaginei seu beijo
Sua boca de bunina
E o jeitinho de menina
Com um sorriso de céu
As bochechas bem rosada
O seu lindo olhar de fada
Com doce gosto de mel
Era tão grande a beleza
daquela doce donzela
que até a rosa amarela
com inveja e com tristeza
murchava e perdia a cor
e despencava de dor
sumindo na correnteza
tinha o cabelo tão lindo
cachoeira de riacho
que descia se ondulando
e ia se terminando
num grande ninho de cacho
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A CORAGE E O GUARÁ
Nas biboca do sertão
Onde mora o azulão
E o mocó faz sua toca
vive seu Zé Paraíba
La no barranco de riba
da ladeira da imboca
sertanejo de corage
mais qui ôto dia quage
ia melando o calção
é que num dia de lua
inventou de ir pra rua
no seu cavalo cardão
Zé Paraíba comprou
e no arfoje amarrou
quatro ou cinco rapadura
bebeu um lito de cana
e saiu todo bacana
com a noite já iscura
chegou na ponta da rua
ficou procurando a lua
pra lumiá o camin
mas tava iscuro de breu
e dipressa ele correu
querendo chegá cedim
quando chegou no baxio
já tava correndo o frio
qui refresca a madrugada
e na curva do ingá
toposse com um guará
na berada da estrada
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EU VÔ SÊ UM DIVOGADO
Mãe eu num vorto pá roça
Nem dibaxo de chicote
Ora bom basta minino!
Eu já tô é di pinote
Vô minborá pá cidade
Hoje eu to é invocado
Mãe eu vô virá dotô
Eu vô sê um divogado
Me dê meus pano de bunda
Queu já to saindo fora
Vô percurá ôto rumo
Já cansei de sê caipora
Derde antonte eu penso nisso
Eu vô percurá sirviço
lá pás banda da cidade
e só vorto divogado
mãe eu tô munto cansado
de misera e caridade
mode pudê sê dotô
é preciso munto istudo
sê valente sê raçudo
tê marra de agricultor
fazê as tuia de livro
promode passá no crivo
do tá do vestibular
mais tenho fé em Jesuis
vô carregá essa cruiz
mais um dia eu chego lá
da roça só levo calo
e a saudade da sinhora
passo a perna no cavalo
saio no romper da aurora
e quando aprender a ler
eu iscrevo pá dizer
da vida e do meu futuro
pois somente na iscola
se rasca o saco da irmola
sai do cisco e do munturo
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A SINA DE ZÉ DO MATO
Seu moço eu venho da roça
Da minha pobre paiôça
No mais triste grutião
Minha vida é só misêra
Acuado que nem fera
Pela fome e a precisão
Não nego que sou do mato
Nem conheço o fino trato
Do salão lá da cidade
Nunca tive na escola
Minha língua intá inrrola
Me farta a portunidade
Meu roçado é piquinino
Mais luto desde minino
Percurando uma miôra
Dou duro que nem um burro
Na inxada dô meu murro
Mais a vida só piora
Já tenho 40 ano
E vivo fazendo prano
Prá me casá cum toinha
Uma cabôca xerosa
Munto bunita e vaidosa
Da casa vizin a minha
Boto os oi in riba dela
Chega meu coração gela
Que nem chuva no capim
Mais minha sorte é ingrata
Sem o leite nem a nata
Ela nem óia pra mim
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O AGREGADO
Se é pá vivê desse jeito
Eu vô e cai na tora
Vô fazê minha boroca
e no jegue eu vou mim imbora
e só levo minha inxada
a foice e a roçadêra
e meu machado Colin
que tem cabo de premera
eu vivo dento da roça
puxando cobra pos pé
trabaio de só a só
prutigido no chape
da praia de carnaúba
derrubando imbaúba
minha roça é bem limpinha
pranto mio e argudão
a macaxeira e o fejão
e a fava bem arvinha
mais tudo que tiro dela
o dono da terra qué
sem trabaia nenhum dia
sem nunca prantá um pé
só deus vê meu sacrifiço
vivo só no meu siuviço
pa vê tudo se perde
é triste o pobre agregado
vivê limpando um roçado
sem tê direito a cumê
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LADRÃO DO DIREITO
Seu moço a pior desgraça
Que existe em cima do chão
Não é guerra nem cachaça
O medo ou a precisão
Ou a saudade tirana
A mentira que difama
Ou a falta de respeito
A desgraça desse mundo
É político vagabundo
Que rouba nosso direito
Ele chega de fininho
Todo pronto e arrumado
Num terno bem alinhado
Pisando devagarinho
E quem tem leitura pouca
É fisgado pela boca
Com lorota e com mutreta
Nessa conversa bonita
O inocente acredita
No ladrão da roupa preta
Diz agora eu acredito
O doutor é gente boa
Eu mais a minha patroa
Com fé em são Benedito
Quando chegar a eleição
Com nosso título na mão
Nosso voto vamos dar
Esse sim é nosso amigo
Agora temos abrigo
Nossa vida vai mudar
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O BANDIDO LAMPIÃO
Quem conheceu o sertão
Há muitos anos atrás
Que sabe da precisão
Que a seca maldita trás
Viu de perto a violência
Manchando toda a inocência
E a fama de lampião
Esconde o rumo da história
Quem lhe atribuir glória
Peca até por omissão
No cangaço ele vivia
Cercado de pistoleiro
Espalhando seu braseiro
Semeando a agonia
Roubando e fazendo o mal
Matando e metendo o pau
No camponês inocente
Seduzindo e estuprando
Invadindo e saqueando
E marcando a ferro quente
Chegava numa fazenda
quebrava os pau da porteira
Junto com a cabroeira
Se arranchava na moenda
Mandava chamar o dono
Para lhe pagar o abono
No açoite e no chicote
Matava vinte galinha
Devorava com farinha
E depois quebrava os pote
Não respeitava mulher
E nem tão pouco donzela
Dizia se eu quizer
Vou deixar tudo banguela
Abusava de criança
Fazia toda lambança
Desgraçava a vida alheia
Destruía até roçado
E o sertanejo coitado
Vivia de levar peia
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DRAGÃO DO MAR
Bravo jangadeiro
Que enfrenta a procela
Desfralda sua vela
Na frágil jangada
Vive sem ter nada
Pescando o seu pão
Enfrenta o tufão
de lua apagada
dos peixes do mar
conhece o ardil
e do céu de anil
conhece as estrelas
a pele de cobre
fundida no sol
tu és a escol
da raça guerreira
o grande alencar
e o nobre catulo
cantaram teu pulo
nas ondas do mar
disseram no verso
teu bravo destino
e o teu desatino
num triste penar
sem ti minha terra
não tinha bandeira
e a linda guerreira
pela mata erra
a doce iracema
ouvia teu canto
caia em pranto
na encosta da serra
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VIDA DE CÃO
Um cachorro vagabundo
Que vivia no mercado
Dormindo num canto imundo
Sozinho e abandonado
Me contou a sua istória
E eu guardei na mimõra
E agora vou lhe dizê
Pá você ficá ciente
Que cachorro é feito gente
Tem leitura e tem sabê
Aprendeu a fazê conta
Na banca do açoguêro
Do lápi fazia a ponta
E anotava ligêro
Mais o tá do magarefe
Deu nele um pá de tabefe
E quase cortô seus grão
Só prumode uma custela
Quato kilo de muela
E um osso de pirão.
Toda noite ia na praça
Vê cachorra de madame
Tinha lá de toda raça
Ficava o maió inxame
E ele todo facêro
O maió dos beradero
Já partia pó namoro
Mais o chicote cumia
O miserave gania
Gaitando de dô no côro
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UMA DE AMOR…
Vem cá bichinha linda
Vem cá meu frasco de xêro
Pois eu num te disse ainda
Do meu grande desespero
Mode te vê faço tudo
Deixo meu coração mudo
Ingulo légua cumprida
Venço quarque istirão
Não tem cumprideza não
Mode eu vê tu! Minha vida
Esse rebanho de légua
Que inseste no mei de nóis
Me faz um besta um égua
Nas moita dos avelois
Meu juízo se aperta
Percurando tua fala
O brio dos teu zoinho
O teu cabelo fininho
Que nem zunido de bala
Tua boca de anjo dorado
E esse doce rostinho
Teu nariz tão delicado
Como um fruto bem docinho
Argúem pode me dize
Como pôde deus fazê
Eu aqui tu acolá
Ele sisqueceu das asa
Pra eu ir na tua casa
E dipressa lá chega
Mas vem cá, vem de supresa
Chega na asa do vento
Dispeja tua beleza
Aqui no chão pueirento
Separa o grude e o cisco
Eu já tô só por um trisco
Da sardade matadera
Vem me dá teu aconchego
Teu carinho teu chamego
De moça namoradera
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ME CASEI COM UMA BRUXA
Quem come mel sai melado
Já dizia meu avô
E eu sempre fui inxirido
Metido a namorador
Mas eu caí na fraqueza
E lhe digo com certeza
Me lasquei de vante á ré
Me meti num “ribuliço”
Só por causa do feitiço
Dos olhos duma mulher
Fui falar com o pai dela
Fui muito bem recebido
Todo mundo da família
quis conhecer o marido
a sogra com alegria
de carinho me cobria
me tratando com respeito
já tava cheio de plano
e pensei no outro ano
a minha vida eu ajeito
comprei uma casa boa
lá na rua principal
mobiliei a casa toda
com móveis da capital
sem me conta do laço
aonde eu meti o braço
que nem macaco novato
pois foi nesse mesmo dia
que chegou a mãe a “fia”
dois cachorro e oito gato
eu já fiquei tiririca
com aquele rebanho de bicho
bulindo por todo canto
furando o saco do lixo
e fui conversar com ela
ali no pé da janela
onde ela passava o dia
ela se virou pra mim
me disse agora é assim!
E deixe de putaria.
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PEREIRETE
Eu comheci um rapaz
Por nome josé pereira
Das banda da missão velha
Nascido na gameleira
Na gameleira do pau
Ele só qué ser o tal
Mais eu tô disconfiado
Que ele é gey é viado
Gosta de andá de ré
Queima a rosca e o furico
Só faiz cocô no pinico
Não é chegado em muié
Quando ele era minino
Gostava duma chupeta
Só andava cum pantico
Filho de zé carrapeta
E quando fazia lua
Brincava no mei da rua
De agarrá os minino
Era muito dilicado
Só andava pintiado
E sabia falá fino
Era fã de clodovil
Inté as unha pintava
Se agarrava nas buneca
E os cabelo ajeitava
Era um grande bailarino
Só dançava cum minino
Usava meia soquete
Tinha seu nome de guerra
Era famoso na serra
Se chamava pereirete
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SÃO JORGE E O CRAMUNHÃO
Eu me sentei no batente
Escutando meu radinho
Todo feliz e contente
Quando avistei no caminho
Uma nuvem de poeira
Levantando pelas beira
Folha seca e muito lixo
Dentro vinha um cramunhão
Preto que nem um tição
Era o mais feio dos bicho
Ele esbarrou na porteira
Ficou olhando pra mim
Alisando a cabeleira
Que parecia um crispim
Abriu a tranca e entrou
Deu um suspiro e roncou
Bem debaixo do meu pé
Eu dei um pulo de costa
Nessa hora eu vi a bosta
Escorrer no meu xulé
Gritou eu vim te buscar
Se apronte bem ligeiro
Hoje tu vai almoçar
Casca de pau e lageiro
Já chegou a tua hora
Eu vou te furar de espora
Vou te bater de chicote
Acabou-se o teu inverno
Vou assar o teu cangote
Na fogueira do inferno
Chamei por nossa senhora
Protetora do sertão
Saltei pro lado de fora
Tentando fugir do cão
E no pé de juazeiro
Que tem lá no meu terreiro
Dei de garra de uma foice
E me virei pra brigar
O bicho quis me pegar
Mordendo e me dando coice
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A FEIRA DO JUAZEIRO
A maior feira do mundo
Ao redor do mundo inteiro
Não fica na Inglaterra
Nem lá no mundo estrangeiro
Caruaru é sopinha
Feira grande é nossa, é minha
È na terra do Padim
É aqui no Juazeiro
O mais grosso dos balseiro
Por esse mundo sem fim
Não digo que é perene
Pois não se faz todo dia
São cinco festa no ano
Com a maior alegria
Começa em fevereiro
Março,julho e setembro
Na festa da padroeira
A mais linda a mais primeira
E se encerra em novembro
Uma cidade inteira
Se transforma em alegria
Se prepara se arruma
Pra viver a romaria
o Padim Ciço abençoa
E a Mãe de Deus coroa
A nossa festejação
E os ferante nordestino
Homem mulher e menino
Tem aqui seu grande pão
São barracas coloridas
Vendendo modernição
Novidade da Europa
E os troço do Japão
Vem produto lá da China
De tudo quanto aqui ai.
Mais apesar da mistura
Que trás a modernitura
Tem isteira e tem chucai
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A FESTA DE RENO E JOEL
Me chamaro punha festa
lá no sítio são José
de um tá Reno Feitosa
e do minino Joé
dissero queu fosse só
mode pegá um pexão
mais lá só tinha traíra
cabra fei qui só manbira
e forró do avião.
Me prometero bibida
munta iskó e ypioca
uísque de quinze ano
iscondido numa loca
mais lá só tinha zinebra
e um pescoço de peba
pro mode queimá o dente
fiquei disaconsoado
cum arroz e augu quente.
Adonde tá o carnero
E a galinha no môi
A custela no brazero
Cadê a carne de boi
Será qui sai um café
Sem bolo de macaxera
Eita festinha fulêra
Deis home pá treis muié
Um macharal da mulesta
Muié só tem as de casa
Ispeto qui só a peste
Mais no fogo só tem brasa
Se era pra passá fome
Num chamasse esse home
Mode passá precisão
Só tem pimenta e sal grosso
De carne só vi o osso
De quente só o carvão
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ZÉ DO RUSARO
Seu moço essa minha istôra
É de cortá coração
Mais eu conto a todo mundo
Pra que sirva de lição
A misera de nois home
Que se alimenta da fome
Do orguio e da mardade
Carrega nossa isperança
Acaba a fé das criança
Nessa tá humanidade
Eu vi passá na istrada
Que passa no meu terrero
Uma famia todinha
Paricia um fuimiguero
O casá ia na frente
Dois rapaz e cinco moça
Três minino miudinho
E no colo um bebezinho
Levava um saco e uma boça
Era tudo má trapilo
Tudinho de pé no chão
Ia andando sem rumo
Atravessando o sertão
Me pidiro uma posada
Ali na minha morada
Na berada do açude
Tudo mago lazarino
Home, muié e minino
Tudo cuberto de grude
Eu mostrei o meu paió
Que tava disocurpado
Dei a eles um sabão
E tratei do cuzinhado
Cumero cum aligria
Os minininho se ria
Quando viro a cumida
Seu moço me dueu tanto
Qui num sigurei o pranto
Pensando na minha vida
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TRISTEZA DO CARIRI
Meu cariri já foi rico
Da mais bela natureza
Mais o machado do home
Cum toda a sua crueza
Butô nossa mata abaxo
Já poluiu os riacho
isburacou nosso chão
acabou cum a passarada
nem mermo na invernada
se vê mais um gavião
o clima tá diferente
é só quintura e mormaço
quando eu olho o só nascente
só vejo concreto e aço
nimguem vê bico de prata
nem mais se iscuta na mata
trinca-ferro e zabelê
o gola e o bem-ti-vi
já se mudaro daqui
e a saudade é de duê
cadê o galo campina
e o belo caboclo-lino
lá no brejo o abre-fecha
ninguém vê mais se bulindo
agora só tem pardal
acabôsse o pica-pau
não tem mais a juriti
nosso verde nosso ôro
nossa casaca de coro
na florada do piqui
e o mais pió de tudo
é o visgo e a chaplan
o passarinho cativo
num canta mais dimanhã
a gaiola e o vivêro
o ladrão passarinhêro
prendeu o cantô da mata
canário e sabiá conga
o crispim e a araponga
vive na prisão ingrata
e o viado fuboca
a cutia e o jacu
num tem mais preá na loca
nem canta mais a nambu
cadê o tatu galinha
o peba e a tisorinha
o três-pote e os macaco
o soin da cara preta
o sonhaço e o careta
nem o mocó no buraco
mermo assim os caçadô
num dá trégua nem discanço
é cachorro e ispingarda
ispantando os bicho manso
nas ispera de viado
fica o home camufrado
atirando nos bichinho
mata cibito e tiú
no tabulêro as lambú
e na serra os passarinho
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AQUI NÃO ENTRE MEGERA
Foi assim que aconteceu
Uma velha fuxiquêra
Fedorenta e macumbêra
Bateu as bota e morreu
Na rua qui ela morava
Fez-se a maior algazarra
Teve fogo e cantoria
Mandaram chamá cirano
Zé do fole e pé-de-pano
Foi um mês de putaria
Enterraram a velha in pé
Com medo dela voltar
Botaram pó de café
Na cova prá semear
Semente de pião roxo
Na terra deram um arrocho
E cercaram de arame
Prá garantir que a infame
Nunca mais ia voltar
Quando a velha se acordou
Prá viver a outra vida
Disse eu vô subir pro céu
Sei que lá acho guarida
E partiu muito ligeira
Toda feliz e fagueira
Naquela estrada florida
Sem se lembrar que na terra
Só tinha deixado intriga
Bateu na porta do céu
Foi gritando por são Pedro
Dizendo cheguei mais cedo
Mostre logo meu lugar
Eu num quero perder tempo
Me bote logo prá dento
E mande chamá jesuis
Com o seu manto de Luiz
Queu quero isclaricimento
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VALENTÃO
Eu vô contá uma istora
De quando eu era minino
Eu me alembro direitinho
De Francisco lazarino
Era um sujeito aloprado
Munto disabunitado
Paricia uma varapau
Vivia arrumando intriga
Por tudo fazia briga
Dizendo que era o tal
Um dia na rua grande
No bar de Chico viola
Entrô um pobe coitado
Mendigando uma irmola
Pois o cão só pó mardade
Sem tê dó nem piedade
Surrou o tá disgraçado
A todos ameaçava
Quarqué muié que passava
Ele dizia um ditado
Sempre falava gritando
Sem dá sossego a ninguém
Batia munto nos fio
Dava na muié também
Assustava a visinhança
E arrumava imbuança
Era o terror do lugá
Só vivia no batente
Dando uma de valente
Ninguém podia passá.
Mais toda essa valentia
Era só pá dá nos fraco
Que nem raposa ardilosa
Que se isconde no buraco
Só ameaçava idoso
E o povo receoso
Só vivia amedrontado
Esse diabo bunequero
Obrigava os budeguêro
A le vendê no fiado
Mais toda panela tem
A sua tampa, seu texto
Jumento só obedece
Quando se bota o cabresto
E o tá do lazarino
Aprendeu a falá fino
Nas unha de zé fulo
pagou dobrado a mardade
e viu de perto a verdade
gritando de tanta dô.
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A RESSACA DO CAPETA
O satanás munto triste
Cum a bagunça do inferno
Arrumou uma maleta
Mandou ingomá o terno
E subiu aqui pá terra
Chegou inrriba da serra
Na bunita gravatá
E munto disiludido
Com o chife dolorido
Foi logo entrando num bá
Ficou coçando a verruga
Espiando o ambiente
Arrancou mais uma pulga
E matou ela no dente
Disse valente num corre
Hoje eu vou tumá um porre
Lá no bar de Daniel
Vô chamá nêgo carrim
Celso nobre e arroxadim
Pá nóis fazer iscarcéu
Pediu um lito de cana
Mandou assá um preá
E sentado no balcão
Começou a biritá
Bebeu rum e jurubeba
Cumeu um pirão de peba
Depois tumou um frizante
Pidiu zinebra e cinzano
O diabo e seu disingano
Numa tristeza bufante
Pensando no seu distino
De cuidá da banda ruim
Desde quando o king Kong
Era somente um soim
Recebia os idiota
Os veiáco e os ajiota
Assassino e invejoso
Veio suvina e marvado
Sogra,madrasta e cunhado
Muito pió qui o tinhoso
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ORELIANA
Conheci oreliana
Lá no sítio catolé
Na reza de Zé cabôco
Casado com isabé
Meu coração desparô
Os osso tudo istralô
Quase perdi o sintido
E pensei Com meus botão
No festejo de são João
Eu quero sê seu marido
Ela tava num vestido
todo amarrado de fita
Parecia santa Rita
Num artá munto florido
Eu fiquei ali ôiando
De mão posta ela rezando
Junto das ôtas muié
Mais nada se acomparava
Pruquê nenhuma amarrava
A chinela dos seus pé
Aquele anjo sem asa
Só podia vim do céu
seu cabelo era dorado
que nem um favo de mel
Era um sonho de criatura
Feita de amô e candura
O imbrema da natureza
Só podia sê jesuis
Que com seu pince de Luiz
Pintou aquela beleza
Duas safira briava
No seu rosto de princesa
Quando seus oio me oiaram
Nos dois juntinho na mesa
na hora eu perdi a voz
então vi que entre nós
já nascia um bem-querer
mais na minha condição
de matuto do sertão
não sabia o que fazer
eu corri po pé da porta
só pá senti seu perfume
eu paricia um caçote
namorando um vagalume
quando ela passô por mim
toda xerando a jasmim
minha vista iscureceu
senti o mundo rodando
vi as istrela briando
na noite escura de breu
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CANÇÃO DO EXILADO
Minha terra tem palmeiras?
Não tantas quanto devia
Agora já estão cercadas
Já se foi a poesia
E aquele sabiá
Que lá vivia a cantar
Já se foi pra outra terra
Só fugindo da gaiola
E do trator que degola
Foi se esconder lá na serra
Ainda avisto as palmeiras
sozinhas sem companhia
Sem sabiás e tiés
Sem nada sem alegria
E a mata tão verdejante
Vive hoje agonizante
Meu deus que fizemos nós?
Que mal fez a natureza
Guardando tanta riqueza
Para entregar ao algoz
Se aquele grande poeta
Voltasse a viver um dia
Choraria de tristeza
E apagava a poesia
Pois aqui na sua terra
Somente o bezerro berra
No pasto do fazendeiro
E as belezas que cantou
Já se foi já definhou
Já virou tudo brazeiro
E o grande povo timbira
Fugiu para o gurupi
Levou seu canto de morte
Seu orgulho de tupi
Já misturou sua raça
Não tem pesca não tem caça
Não tem mais o seu cocar
Sucumbiu ao inimigo
Perdeu seu lar seu abrigo
Sua voz o seu cantar
Sua língua sua fala
Já se perdeu no cinzento
Seu Brasil seu maranhão
Hoje é lugar poeirento
E o lindo mearim
Banheira do curumim
Perdeu até sua cor
Poluído e maltrapilho
E o rio corda seu filho
Já agoniza de dor
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O AMÔ
O amô faiz ingrisia
Mode pegá o cristão
Bota cabresto na cara
E tombém no coração
Dexa o cabra todo atado
Num canto de chão jogado
Sem pudê nem se bulí
E quem tenta se sortá
Munto mais vai se amarrá
Qui nem bode em jiquirí
Bota fojo e arapuca
Faiz tucaia e joga o laço
Dexa a cabeça maluca
Amarra a perna e o braço
Quando o sujeito dá conta
Tentando incrontá a ponta
Pá disfazê o nuvelo
Ele se zanga e arroxa
Se indurece e acocha
Num iscuta nem apelo
Pá se sortá é preciso
Dexá o tempo passá
Matutá cum munto tino
Num jeito de se livrá
Iscapulí de fininho
vuá qui nem passarinho
Pá discarregá o peito
Mais se num tivé coidado
De novo tá amarrado
Sem nunca pudê dá jeito
E o mais interessante
É qui o sujeito gosta
Faiz qui foge mais num foge
Faiz Carrera e cai de costa
Se agarra e faiz carinho
E o coração miudinho
Infunca e pula de amô
Qui nem pinto no terrêro
Piando no Galinhêro
Beliscando o siscadô
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ANGU DE CAROÇO
Seu moço a dô mais duída
É a dô do coração
Quando se perde na vida
a nossa grande paixão
é pontada munto fina
é a dô qui disatina
tira o juízo da gente
faiz o corpo istremecê
dá vontade de morrê
no fogo qui dá na mente
eu vivia tão feliz
mais meu amô, minha vida
no riacho da pimenta
perto da peda caída
cuidando da criação
zelando da prantação
numa aligria sem fim
Maria era tão mimosa
Tão bunita e carinhosa
Sempre pertinho de mim
Mais toda felicidade
Um dia chega no fim
Meu céu virou um inferno
E tiraro ela de mim
A mardade do distino
Esse monstro lazarino
Abriu meu peito na marra
Distruiu minha aligria
Na sua vingança fria
Enfiou a sua garra
Um tá de Chico mascate
Sujeito dissimulado
Da boca de alicate
Dos óio de cão danado
Rodava pelo sertão
In riba dum caminhão
Comprando bode e carnêro
Comprava cabra e cabrito
Farinha e goma de litro
E também fejão ligêro
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JOSÉ IRLANDO MORAIS – JUAZEIRO DO NORTE-CE
Pirão de boi
Minino eu vô te contá
como tua mãe morreu
hoje tu vai iscutá
do jeitim que aconteceu
num vô iscondê nadinha
vô dizê a ladainha
do inferno queu vivia
fui iscravo disgraçado
apanhava do cunhado
da sogra e da tua tia
sempre fui munto zeloso
vivendo nessa pobreza
mais nunca faltou fejão
in riba da nossa mesa
eu trabaiava dobrado
mau ingulia o bucado
vortava no mermo rastro
era um vaquero decente
quando o só tava nascente
já tinha muido o pasto
só tumava meu café
depois qui o gado cumia
eu mastigava di pé
e avexado sumia
apartava a bizerrada
dava banho na vacada
de seu zuza de morais
tangia lá pó roçado
pois sei trabaiá cum gado
do jeito qui um home faiz
mais todo dia eu sufria
agüentado disaforo
se tua mãe tinha raiva
discontava no meu coro
vivia me isculhambando
e me dirmoralizando
só me levava na vara
até mermo a vizinhança
assistia as imbuança
vendo eu apanhá na cara
quando ela me batia
mais a sogra e o irmão
dava de pau e chicote
cutucava de ferrão
eu cansava de apanhá
de mororó e jucá
e cipó de quina-quina
quando ela se aquetava
tua vó continuava
com uma galha de bunina
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JOSÉ IRLANDO MORAIS – JUAZEIRO DO NORTE-CE
atenção!!!!!!!!!!!!!
morreu na tarde de ontem, em los angeles, california. o maior de todos os papafigos do mundo, ele comia criançinhas (do sexo masculino) no café da manhã e na merenda das três.
gostava especialmente de infantes loiros e de olhos azúis. ufa!!!!!
até que emfim mas, quando morre um papafigo, nascem outros dois na sua cova.
cuidado!!!!!!!!!! vem novos papafigos devoradores de crianços é crianços. para assustar, fazer boquete e comer biblicamente nossos crianços.
proteja-os.
R. Eu ouvi dizer que tem gente nesse mundo que gostava muito dele e do tipo de presepada que ele fazia. Tinha uma popularidade maior que a de Jumento Falante, pois vendeu centenas de milhões de discos no mundo todo. Enfim, lá como aqui, tem gosto pra tudo. Aposto que Natan adora a “obra” dele.
Quando anunciaram ontem o seu desencarnamento, eu me lembrei do carnaval de 1996, em Brasília.
Meu sobrinho Hugo Leonardo, filho da debochada da minha irmã Lúcia, saiu fantasiado do mesmo jeito que o papa-figo que morreu ontem, todo de preto feito um urubu, e uma placa pendurada no pescoço: “Well Come Crianças”.
JOSÉ IRLANDO MORAIS – JUAZEIRO DO NORTE-CE
Ispricação de matuto
Eu tava ali iscuiendo
um talinho de capim
mode palitá os dente
quando se chego pra min
um sujeito de liforme
todo dento dos conforme
po seu joça percurando
inquanto eu me acocorava
e os dente palitava
fui logo li ispricando
Entrando aqui as isquerda
nesse arremedo de istrada
é ajeitá o chape
e sortá a caminhada
vá sem pressa ô agunia
saia no raiá do dia
leve áqua e rapadura
se benza e ande cum fé
qui as chinela dos pé
vão te légua cum fartura
Mais na frente um bom pedaço
Na baxa das oiticica
Vois micê pegue as dereita
Onde canta uma peitica
E pode andá sem coidado
arroxe no caminhado
apruveitando a discida
e quando chegá no brejo
si iscuitá argum frejo
é aima da ôta vida
Mais pode passá sem medo
sem tê aguniação
é uma aima de luz
do vaquêro Damião
qui mora lá na baxada
ali perto da manada
de seu Zuza de morais
dexe um cigarro de paia
pindurado numa gaia
e num olhe nem pa tráiz
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JOSÉ IRLANDO MORAIS – JUAZEIRO DO NORTE-CE
Zé arigó no são Paulo
Fugindo da precisão
Que assola no nordeste
Abandonei o sertão
e fugi para o sudeste
e fui procurar serviço
pra sair do sacrifiço
miorá a minha vida
juntá dinheiro e sê rico
e vivê qui nem pantico
qui casô cum margarida
Cheguei na cutelaria
de fazê faca e facão
garfo cuié prataria
e panela de pressão
alicate e roçadêra
fazia tombem cadêra
dessas qui é feita de aço
e lá tinha uma fornaia
chega a vista se atrapaia
na quintura do mormaço
Um tratô ia levando
as peça qui tava pronta
dois nego in riba contando
midino e fazendo conta
e na ala da pintura
qui tinha a merma laigura
dum campo de futibó
a turma era primêra
na pistola bem legêra
ia inté se pô o só
me levaro po setô
qui fazia fechadura
tinha mais de cem motô
só fazendo furnitura
o baruio era inferná
nunca tinha visto iguá
mais paricia uma querra
aquela ruma de ferro
bufando e sortando berro
qui nem bode em pé di serra
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JOSÉ IRLANDO MORAIS – JUAZEIRO DO NORTE-CE
cuzinha sertaneja
já na entrada da porta
qui dá pra dento de casa
tem uma panela veia
chorando um fogo de brasa
acompanhando a parede
uma corda feito rede
fica sigurando os pano
pindurado numa ripa
tem um arame de tripa
do poico do mei de ano
tem uma fila de pote
cum o pescoço pintado
tudo cum pano na boca
e um cordão amarrado
dibaxo de cada pote
tem uma lata de crote
e pro riba é os copinho
tudo bem infilerado
limpinho bem ariado
reluzindo o aluminho
lá no canto da parede
a lenha toda rachada
uma garrafa de gás
e a lamparina apagada
sirvindo de partilêra
tem uma taba linhera
cum lata de todo jeito
fejão, farinha e tempero
numa mistura de xêro
qui inebria o sujeito
Um fugarêro de barro
aguidá grande e piqueno
na janela tem um jarro
cum a verdura nascendo
um girau do lade fora
apoiado numa iscora
fazendo o lugá da pia
uma cabôca feitiço
do braço grosso ruliço
puxando uma canturia
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