RELATÓRIO DE INQUÉRITO POLICIAL EM VERSOS

Os meios jurídicos viram-se surpreendidos com a notícia de que o delegado de polícia Reinaldo Lobo, da 27ª DP, no Riacho Fundo, em 27.07,11, elaborara em versos o seu relatório final, em um inquérito policial sobre crime de receptação. Essa peça final, única feita em poesia, não foi aprovada pela Corregedoria de Polícia e teve que ser refeita.

O relatório dizia respeito a um crime de receptação, ocorrido na noite de 22 de julho, quando um homem foi flagrado por policiais militares na garupa de uma motocicleta roubada: “O preso pediu desculpa/disse que não tinha culpa/pois estava só na garupa/foi checada a situação/ele é mesmo sem noção/estava preso na domiciliar/não conseguiu mais se explicar”, escreveu o delegado sobre a abordagem ao suspeito. Eis a íntegra do relatório:

R E L A T Ó R I O

Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo
O plantão estava tranqüilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar
Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado
Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranquilão
Estava em uma motocicleta com restrição
A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação
O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa
Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa fé era furada
Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante
Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população
A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada
Já hoje aqui esteve pra testemunha
A vítima, meu quase chará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho
As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar
Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia
Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão

Riacho Fundo, 26 de Julho de 2011
Del. REINALDO LOBO

Sob o aspecto puramente estético, vê-se que a peça do delegado é muito fraquinha, igual disse o Nelson Jobim da Ideli Salvati. Qualquer quadrinha aqui do JBF dá de dez  a zero nela.  Embora pretensiosa, é literariamente pobre e simplória; contém erros de ortografia e de gramática (escreve chará quando deveria ter escrito xará, e utiliza adjetivo no lugar de advérbio – “má afamada” em vez de “mal afamada”); tece considerações desairosas sobre alguém que até então era mero suspeito (“sujeito folgado” e “ele é mesmo sem noção”), desrespeitando-lhe os sacrossantos direitos da pessoa humana e ofendendo-lhe a dignidade (onde estás, Goiano, quando o poder público oprime as massas inermes, os descamisados e os pés-descalços? – não é só algema que gera abuso de autoridade).  O receptador do Riacho Fundo também mereceria respeito desses policiais “folgados” e “sem noção”, que só pensam em algemar  ladrão e corrupto esquerdista.

Se você, prezado leitor, não tiver dinheiro, for mau e tiver fama, nem pense em se arriscar pelas bandas do Riacho Fundo, lá em Brasília, pois o delegado da 27ª DP poderá passar-lhe o rodo – e sair contando a história em versinhos cativantes  (“a fiança foi fixada / E, claro, não foi paga / E enquanto não vier a cutucada / Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada”). Pelo texto destrambelhado do delegado, todo sujeito mau que tenha fama deverá ser recolhido ao xilindró local. Falando nisso, como seria o patronímico de Riacho Fundo? Fluminense-aprofundado?

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SANTOS 4 X FLAMENGO 5: EU ASSISTI A ISSO EM 1957

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Já foi dito que futebol não é uma questão de vida ou morte: é muito mais do que isso, algo que – ao menos em princípio e com as exceções que só fazem confirmar a regra geral – é absolutamente inapreensível e inalcançável pelas mulheres. Parodiando a “Elegia”, de John Donne, o futebol é, para o ser feminino, um “livro místico”, que apenas a algumas, “a quem tal graça se consente”, é dado lê-lo.

Em verdade, no futebol, não buscamos só a vitória. Ansiamos pela beleza, pelo estético que nos maravilhe e extasie. Mas ansiamos, ainda mais, pelo épico. Somos sôfregos por emoção e por paixão (segundo Nelson Rodrigues, sem paixão não se chupa nem um mísero chicabon). Amamos o drama e a tragédia, o apocalipse que se esboça e é aparentemente irreprimível, mas que, por força dos heróis e concessão dos deuses, é superado após atingir seu mais amplo paroxismo. Imploramos pela agonística diferente, que transcende e sublima. Pelo fora do comum, pelo extraordinário, pelo surpreendente. Todo jogo de futebol, assim, é uma permanente proposição de Ilíada ou de Odisséia.

Reparem os amigos como bastou um jogo de futebol épico para nos resgatar, magicamente – e a todos, não apenas flamenguistas e santistas – das frustrações e desencantos a que fomos condenados pelo ridículo da seleção brasileira na Copa América, pela apatia medíocre de nossos craques, nos últimos tempos, e pelas monótonas peladas em que se converteram os jogos dos Brasileirões, qualquer que seja a letra da série, A, B, C e D. Na quarta-feira, foi como se tomássemos um jorro de adrenalina na veia, ressuscitássemos de um torpor de morte, readquiríssemos um novo sentido para a vida.

Há muitos e muitos anos não sabíamos o que era uma partida em que os dois times protagonizam desempenhos tão admiráveis, num jogo em que, nos primeiros momentos, se imaginou a confirmação de uma goleada; em que, pouco depois, se assistiu a uma improvável reação, e que, por fim, restou decidido no imponderável de um pênalti desperdiçado e em lances que poderiam ter dado a vitória a um ou a outro dos contendores. Havia muito, muitíssimo tempo, que astros como Neymar e Ronaldinho Gaúcho não respondiam a um desafio de forma tão intensa e fulgurante, reafirmando seu talento. Que duas equipes se exibissem tão empenhadas em jogar bem, fazer gols e vencer.

Há quanto tempo não víamos uma disputa de jogo com as duas equipes atuando bem, em estado de magia, ambas com gana uruguaia – e com times jogando em busca do gol, em que estes saíam não por conta de falhas ou vacilos de um lado ou de outro, mas pelas cintilações magníficas de jogadores em estado de graça? A partir de certo momento, o jogo tornou-se tão eletrizante e tão surreal que ninguém mais conseguia se afastar da tela do televisor, aguardando a nova jogada com a respiração suspensa. Afinal, rigorosamente qualquer coisa podia acontecer. O placar de 5 x 4 poderia ter sido 6 x 5, ou 8 x 6, para qualquer dos lados.

Quando absolutamente nada indicava que esse tipo de evento pudesse ocorrer, e tão rápida e inesperadamente, eis-nos subitamente devolvidos, por uma única partida, à dimensão épica do futebol. E épico de verdade, com genialidade, superação, esforço, sorte, entrega. Com gênios e guerreiros, heróis e vilões. Em que não apareceu empáfia, tripudiação, lamento ou cabeça baixa, porque não houve derrotados: todos os contendores saíram de campo reconhecidos como vencedores. A magnitude daquele espetáculo provocou impacto mesmo em torcedores de outros times, que não puderam deixar de reconhecer sua singularidade, pela consciência de que ele restaurou em cada um de nós nosso amor-próprio diante do futebol.

Dito isso, posso então comentar: meninos, eu vi. Bem, ver, propriamente, não vi. O ano era 1957, eu tinha dez anos, e não morava nem no Rio ou em São Paulo, e não existia TV. Mas ouvi e acompanhei pelo rádio, com um aparelho cheio de válvulas e chiadeira. O que me dava, aliás, grande vantagem. Sem imagem, amplia-se a dimensão do mágico e da fantasia. Temos que ir recompondo a narração do locutor, e de repente entramos em campo, participamos do gol de nossa equipe, travamos o chute do atacante do outro time, enfiamos o pé no adversário abusado, tomamos satisfações do árbitro, comandamos a reação de nosso time, recusamo-nos a aceitar a possibilidade de derrota. Em certos momentos, essa magia se converte em pura realidade, o sonho não é mais sonho, é a própria coisa-em-si.

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O TERRORISTA DE OSLO E O EFEITO AL CAPONE

É de sabença geral que Alphonsus Gabriel Capone, aliás Al Capone, o mais famoso e glamurizado dos gângsters da Máfia, poderia ser enquadrado em qualquer das páginas dos diversos códigos penais dos Estados Unidos, muito especialmente o de Illinois, onde fica Chicago, a cidade onde instaurou seu império criminoso. Por sinal, de fato foi. Só que jamais chegou a ser condenado por quaisquer dos crimes graves que as polícias estaduais e o célebre FBI de Eliot Ness e os Intocáveis lhe atribuíam, mas que jamais chegaram a conseguir provar.

Sempre se soube que Capone era comandante de um gigantesco império criminoso, matou e mandou matar, fez contrabando de bebidas, explorou jogatina e prostituição, corrompeu tudo quanto era tipo de autoridade, subornava policiais e juízes, cobrava “taxas de proteção” e promovia outros tipos de extorsão. Era processado, mas, na “hora H”, misteriosamente fugia por entre os dedos de policiais e promotores, escarnecendo de seus perseguidores.

Um belo dia, Capone foi intimado a depor numa audiência. Como não queria ir, arrumou um atestado de que se encontrava enfermo, que assim não poderia comparecer. Só que o FBI o fotografou em Havana, nesse mesmo período, bebendo e pegando sol na praia. Resultado: foi processado por desacato e, pela primeira vez, preso. Com ele no xilindró, o FBI conseguiu por as mãos em seu contador, que abriu o bico – e Capone foi finalmente condenado, mas por sonegação de impostos.

E aí é que entra o detalhe para o qual se quer chamar a atenção: pela sonegação de impostos, após seu recolhimento, Capone só poderia (e deveria) ser condenado a uma pena diminuta. Entretanto, quando se viu processado e julgado, ele acabou condenado não pelo que efetivamente praticara e se conseguiu provar sua culpa, mas por conta de tudo aquilo que se sabia que ele havia também cometido, mas que jamais se conseguira provar. Ou seja, “aproveitou-se” a sonegação para que justiça fosse feita em relação a todo o resto da extensíssima folha corrida do mafioso. Ele acabou condenado a 11 anos de cadeia, em 1931.

Algo parecido está ocorrendo (ou se pretende que venha a ocorrer) agora na Noruega, a propósito de Anders Behring Breivik, autor confesso da explosão no centro de Oslo e do massacre na ilha de Utoya, que juntos deixaram 76 mortos na Noruega. Primeiro, a maior pena para homicídios múltiplos ou terrorismo na Noruega é de 21 anos. Aliás, essa foi a acusação inicial feita a Breivik, e, ao menos em princípio, não tem como ser ampliada, pois é o que prevê presentemente a legislação penal do país. Pelo princípios da legalidade estrita e da irretroatividade das leis penais, não se pode criar uma lei para aplicação a casos anteriores à sua edição e aumentar a pena de um delito só vale para casos ocorridos da nova lei em diante.

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SHE-WOMAN E OS PODERES DE GREYSKULL

Nosso Goiano Braga Horta, agora com a adesão do Raphael Curvo e de outros preeminentes fubânicos, anda a capitanear um movimento que visa fazer com que a comunidade da ICAS, primeiro, e todo o povo brasileiro, em seguida – diante do mais acintoso surto de corrupção cínica que já grassou, e grassa, em Terras de Santa Cruz, com ratazanas cevadas após oito anos de Lula – reajam a esse estado de coisas entupindo a caixa postal de nossa presidente Dilma de mensagens de apoio a essas suas iniciativas de curetagem (aliás, sugiro que nesses mails ela seja tratada logo como “presidenta”, essa bobagem que ela encafifou, pois será estrategicamente útil: ela tenderá a receber as missivas com mais simpatia e a reagir a essa pletora mais entusiasticamente).

Segundo assegura Goiano, em sua disposição de pregar uma reforma corretora no seio da revolução zisquerdo-petista que, desembestada (sem ironia com nossa Besta), perdeu o rumo da História, essa solução é garantida e relativamente fácil. Atuando como um Jacques-Pierre Brissot na liderança dos girondinos da Revolução Francesa, Goiano acha e afirma que corrigir tais distorções não tem segredo e nem demanda esforços excepcionalmente especiais. Confiante nas boas intenções da “presidenta”, basta que ela seja explicitamente apoiada nesses propósitos de moralização, ou seja, para que ela aja, e atue como um trator da cidadania, basta o apoio das massas. Isso será mais que suficiente para que ela enquadre o PT e a súcia aliada, contendo-lhes os excessos e expurgando todo o mal do governo.

Em suma, bastará que a “presidenta” Dilma tome consciência de que é apoiada nos seus anunciados propósitos de saneamento, assegurando-se que tem o combustível necessário para a missão, e, voilá, tudo se ajeitará:

“Já sabemos que forças ocultas, mas não tão encobertas assim, estarão trabalhando em conjunto para anular as providências que Dilma Roussef adote ou queira usar para liquidar com os esquemas desonestos que existem em vários setores, corroendo desde o dinheiro que serviria para importantes obras nacionais até às verbas de que necessitam a saúde pública, a educação, a merenda escolar e tudo o mais a cargo do governo.

É preciso que Dilma saiba que nós estamos com ela. Que, como cidadãos, lhes daremos todo o apoio para as providências drásticas que ela precisa usar e que poderão até mesmo ameaçar a sua estabilidade na presidência.

Mas, esperamos que Dilma reafirme que quem manda no seu governo é ela e que exclame: “Pelos poderes do Povo, eu tenho a Força!”, que nós a daremos a ela, com o apoio incondicional contra os corruptos e a corrupção.”

Portanto, no exato momento em que ela se convencer de que está solidamente respaldada pela esmagadora maioria dos brasileiros, ela então arregaçará as mangas, dará um piparote na “herança maldita” herdada de Lula, assumirá sua heróica dimensão ética e moral, e se tornará o martelo implacável que esmagará Jalins Rabeis, Pagots, Valdemares Costas Netos, Carons et caterva e tudo o mais que esteja podre no reino de Pindorama. Quem sabe, até se livre de Elenices Guerras, Delúbios Soares, Josés Genoínos, Idelis Salvatis e Josés Dirceus. Mais ainda: talvez tenhamos a sorte de que ela, numa manobra arrasa-quarteirão, nos livre de todo o espectro do mal e do Lado Negro da Força, pulverizando Josés Sarneys, Renans Calheiros, Fernandos Collores, Antonios Pallocis, Romeros Jucás, Blairos Maggis e Tarsos Genros.

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AQUELA BELEZA SERENA E FLÁCIDA

No corpo do artigo que compunha solitariamente, no fim de noite de uma redação quase vazia, batucando intrepidamente na sua intimorata Olivetti semiportátil, o jornalista resolveu enfiar o relato da visita que fizera, no dia anterior, a um de seus mais diletos e constantes amigos, onde se discutira de um tudo, de política a literatura e de futebol a mundanidades. Tragando fundo o cigarro em busca de inspiração, teclou.

- Ontem, estive em visita ao casal Helena-José Fleury, os dois, como de hábito, excelentes anfitriões…

Parou. O olhar se perdeu em desconsolo, o cenho restou franzido. Girou o rolo da máquina, apanhou a lauda, amassou-a e a dispensou no cesto. Que diabo de início de parágrafo era esse?!? Não, não. Que coisa clichê, sem graça. Pobre, sem poesia, sem evidenciar talento. Aquilo desatendia a seus mais rudimentares padrões de qualidade. Lembrou-se do desconhecido que, dias antes, o abordara na rua e se derramara em elogios às suas crônicas e artigos. Mais, ainda, não era um admirador ocasional. Fazia menção a partes inteiras de seu texto, confessando-se (e revelando-se) leitor assíduo e atento. E sincero. E como podia ter certeza dessa sinceridade? Simples: o entusiasta admirador, em suas observações, demonstrava que, mais do que simplesmente ler, tinha sido capaz de captar precisamente aquilo que pretendera dizer quando criou o texto.
 
Sim, o tal fã era um esteta, aquilo com que todo artista e intelectual sonha secretamente, aquela pessoa que, ao mero esbarrar no texto ou na obra artística, captura-lhe plenamente o sentido e a beleza, em especial aquilo que se situa fora da visão e da sensibilidade dos desatentos e filisteus. Enfim, aquele tiete que produz elogios sinfônicos, ou seja: a música que você gosta, no tom em que você mais aprecia.

Sem dar-se conta, mas aos poucos dando-se consciência disso, esse leitor entusiasta se tornou sua referência pessoal, como um superego introjetado. Afinal, se aquilo que produzisse agradasse a ele, isso já constituiria a certeza de excelência definitiva. Desde que esse admirador o abordara, nunca mais havia conseguido produzir nada sem cobrar-se do efeito que essa produção causaria nele, não podia se arriscar a decepcioná-lo.  <>

Foi por conta disso que rejeitou aquele parágrafo. O que iria pensar dele esse admirador, caso se defrontasse com algo tão abaixo de sua justa expectativa? Fazia-se portanto urgente e imprescindível burilar a idéia até que pudesse ter a convicção, para muito além de qualquer dúvida, de que seu enunciado passaria incólume pelo ISO 9000 desse leitor-referência. Até o imaginava lendo seu texto e concluindo: “Mas como continua escrevendo bem! Mas, afinal, nem podia ser diferente”. Esmagado pela obrigação perfeccionista, tornou ao artigo. Lembrou-se do texto de Eduardo Galeano, sobre a coqueteria e a volubilidade das palavras e das idéias. Como era mesmo? Lembrou-se. “Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas; elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido”.

Foram intermináveis os cafezinhos e os cigarros, mas, de repente, sua mente iluminou-se. E as palavras brotaram, de repente, num jorro. Reconstruiu tudo, com leveza, ritmo, delicadeza, poesia, iniciando assim o parágrafo:

- Chego à casa de José Fleury. Confiro as horas; ainda não é tarde. Bato à porta. Atende-me Helena, com aquela sua beleza serena e plácida….”

Terminado o artigo, o caminho de casa, a cama convidativa, o sono profundo pela obrigação cumprida.

Horas depois, o despertar sobressaltado, o pijama ensopado de suor.

- Meu Deus! A revisão não vai acreditar. Em vez de “serena e plácida”, vai acabar saindo “serena e flácida”!

Existem santos que velam particularmente pelos loucos, pelas crianças e pelos bêbados. Certamente, concluiu, algum existia que cuidava de articulistas. Levantou-se, vestiu a roupa. Ainda dava tempo, se fosse o caso. Com a ansiedade da premonição, aflito, irrompeu pelas oficinas do jornal. Sonhos não mentem. Para seu horror, suas suspeitas restaram confirmadas. Mas bastou uma rápida troca de palavras, e tudo foi ajeitado. A beleza de Helena tornou à sua placidez de sempre. E o admirador, mais tarde, iria ter atendidas suas expectativas: seu cronista favorito continuava a escrever tão bem como jamais poderia deixar de acontecer.

CHÁVEZ VAI SOBREVIVENDO NA SHANGRI-LÁ DO SOCIALISMO

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 Brejnev/Honecker e…

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…Chávez/Fidel em carícias socialistas

Não cheguei a acompanhar, pessoalmente, a trajetória em vida do grande guia genial das massas da então URSS, Joseph Stálin. Quando ele bateu as botas, no Kremlin, em 1953, eu só tinha seis aninhos. Mas a partir de então, com Khrushev, Brejnev, Andropov e Chernenko, que se revezaram até 1985, sempre procurei me manter atualizado com a governança da grande pátria-mãe do socialismo.

O que eu achava curioso é que nenhum deles ficava gripado, era internado, passava mal, espirrava, apanhava constipação, caspa ou bicho-de-pé. Se chegavam a adoecer, jamais ficávamos sabendo. De vez em quando, o governante não era visto, circulavam rumores, mas nenhuma notícia ou informe transpirava. Nada se sabia, só se podia especular. Um belo dia, o Pravda e o Izvestia davam a manchete de que o gerente da vez daquele paraíso do proletariado havia, inesperadamente, abotoado o paletó e já havia sido substituído. Nada mais era dito e muito menos perguntado.

Algo similar está a acontecer agora com o inefável coronel Hugo Chávez, ditador de plantão da Venezuela e ícone bolivariano, sobre o qual divulgou-se ter ido a Cuba no início do mês. Como Chávez é arroz de festa do regime cubano e volta e meia está por lá, o fato não chegou a chamar a atenção. Dias após, vazou a informação de que ele havia sido operado por lá de um “abcesso pélvico”, e aí – ao melhor estilo soviético – o noticiário cessou e melou o meio de campo.

Um velho amor não se esquece nem se deixa. Cuba continua nostalgicamente fiel ao figurino soviético. Deixa pingar fragmentos de informação, em doses homeopáticas, e que só fazem agravar as suspeitas. Fidel é um fantasma. Não se sabe onde nem como está; de vez em quando circula um vídeo ou uma foto sua, num agasalho esportivo. O mesmo se dá agora com Chávez, em torno do qual se montou uma pantomima que cada vez mais se torna difícil de sustentar e de engolir. E o artificialismo das medidas só faz piorar o quadro, tratando todos os seus destinatários como perfeitos imbecis latino-americanos.

Vejam o noticiário, from Cuba:

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DUPLIPLENSAR E O CHIFRE IDEOLÓGICO

Quando por aqui andei criando a expressão “corno ideológico”, jamais imaginaria a polêmica, a cizânia e o furdunço, os sismos tectônicos que a coisa acabaria por despertar na comunidade fubânica. Claro, já tinha reparado que o clero fubânico, nas pirraças e provocações interna corporis, nada fica a dever às intrigas do Vaticano, aquele outro, o romano. Nessa hora, cardeais, bispos, núncios, monsenhores, párocos, diáconos e até sacristães se engalfinham animada e encarniçadamente em defesa de seus pontos de vista, com aquele vigor missionário e o entusiasmo messiânico com que antigamente petista debatia orçamento participativo e denunciava corrupção nos governos Sarney, Collor, Itamar e FHC.

Mas, pelo que devo me confessar desatento e abobalhado, quanto mais o fenômeno era explícito e solar, menos eu me dava conta dele. Shame on me, como sobre as cabeças daqueles esquerdistas que ainda acreditam na ditadura do proletariado; quanto mais anacrônica ela é, mais firmemente crêem. Que pena que eu seja assim um cara muito do distraído e meio temporão para essas coisas, de que só me dou conta muito tempo depois que a ficha caiu para os demais. Caso já soubesse ou sequer suspeitasse disso, como adoro um rasga-faca provocativo-intelectual, já teria dado curso a essas idéias há muito mais tempo. E teria me animado a já assumir uma coluna aqui no JBF, o que ora estou a fazer.

Segundo o filósofo do futebol Nenen Prancha, jogador pra ser bom tem que ir na bola como quem vai num prato de comida. Fubânico que se preze, pra ser realmente bom, tem que gostar de sangue e ir em polêmica com aquele furor com que cara que gosta de mulher investiria na Ivete Sangalo depois de receber uma piscada mais provocativa, sem medo de ser feliz. Mas, ainda que com retardo, fiz enfim essa descoberta, que se me revela das mais agradáveis e entusiasmantes.

Coloquemos, assim, mais lenha nessa saudável fogueira. Provoquemos mais. Ao contrário dos proletários, que Marx convida a se unir, já que o único risco que nisso correriam seria perder seus grilhões, retruco eu que intelectuais, reais ou soi-disants, devem mesmo é bater boca, trocar caneladas, deixar que aflorem seus instintos mais primitivos, tal qual zagueiro do Peñarol decidindo Libertadores. Jogar no caldeirão da bruxa, além de dente de dragão e asa de morcego, o máximo de ironia, sarcasmo, veneno e provocação.

Devem divergir o mais acaloradamente possível, sem tréguas, como em briga de lavadeira. Jamais terão nada a perder. Da discussão sempre nascerá luz ou ao menos diversão. Confronto de vaidades, choque de egos, contraposição de conceitos e idéias, é algo salutarmente agonístico. Aumenta a endorfina, melhora a pressão e a libido, elimina colesterol, atenua falta de dinheiro, ressuscita de depressão, adoça a fisionomia. É como a vitória de seu time na final do campeonato nacional ou, melhor ainda, a desclassificação humilhante de seu odiado rival na Libertadores da América.

São indescritíveis as delícias do schadenfreude, aquele sentimento de origem alemã, indizivelmente prazeroso, que se obtém com a desgraça dos rivais e inimigos. É bem verdade que se trata de uma alegria fugaz, que sabemos sem base real, sem sentido lógico, mas que é absoluta e infinita enquanto dura. Portanto, que nosso clero da ICAS entre em ebulição feliz e construtiva.

Retomo, assim, com volúpia e certa luxúria, o cerne da discussão, the bone of contention, o osso que estamos a abocanhar, que era e é a cornitude ideológica. Portanto, falemos mais sobre chifres, com o risco de discorrer sobre corda em casa de enforcado. Ou por isso mesmo.

Para início de conversa, ninguém se torna corno. Corno é destino. Há o equívoco de se dizer “a ocasião faz o ladrão”. Bobagem. Ocasião no máximo faz o furto, pois ladrão já nasce feito. Em tema de traição, é a mesma coisa: a ocasião pode até propiciar o chifre, mas não cria nem faz aparecer a condição de corno. Esta preexiste à traição, ao ato do chifre, que quando ocorre se torna apenas sua confirmação e consumação. Ninguém se torna ou passa a ser corno. Em linguagem jurídica, poderíamos dizer que a condição de corno é de natureza declaratória, não constitutiva. Seus efeitos não são ex nunc, ou seja, passariam a existir a partir do ato efetivo de traição. Ao contrário, são ex tunc, retroagem à origem, existem desde sempre.  É coisa fatalística, inexorável, maktub. Os cornos seguem a teoria calvinista da predestinação: o ato material do chifre não é da essência da condição; constitui tão-somente um sinal dela.

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