STAND-UP COM POESIA

CHEQUE AO PORTADOR

O Brasil de hoje é um cheque ao portador sem provisões de fundos.

Nem sei se o meu Brasil
Querido, está no fundo
Ou mesmo se estão
No fundo do meu Brasil
Sei que nesse fim de mundo
Deste país varonil
A nossa maior carência
É a provisão de fundos
O verde, amarelo, azul-anil
Das cores da nossa bandeira
Pintaram num fundo roxo
Com um vermelho nas beiras

Estamos carentes de fundos!

* * *

ADEUS

Teu adeus machuca
Doe dentro de mim
É sempre assim
Me falta inspiração
Fico numa encruzilhada
E preciso escolher
Melhor seria
Que não tivesse adeus
Que não me faltasse você

Você me faz falta poesia.

* * *

SEM ÓCULOS

Aos sem óculos, o que é dos cegos.
O tato.
Aos poetas, a liberdade de escrever
Os fatos.

Sem óculos
Não escuto nada
Não sinto a brisa,
Não tem gosto a comida
Só o tato das minhas mãos
Percorrendo seus desvãos
Ainda faz sentido.

Somente isso, mais nada.

* * *

MENINO DE RUA

Um menino cruzou
O meu caminho
Fraco, mirradinho
Esperança perdida
Quase sem vida
Semidespido
Olhar perdido
Melancólico, absorto
Uma ruga no rosto
Marca da desilusão
Me disse baixinho
Senhor, por favor
Me dê um trocado
Pra comprar um pão

Além da esmola
Dê-lhe um sorriso
Velho e surrado
Mas era preciso
E eu tinha de sobra
Ele saiu correndo
Dinheiro na mão
Talvez pra comprar droga.

Dei a costa
Ao menino de rua
Meio perdido
Mas com a sensação
Do dever cumprido


STAND-UP COM POESIA

SE O TEMPO VOLTASSE

Se de repente
Subitamente
O ontem voltasse
Criança eu virasse
Se você quer saber
Eu não queria crescer
Se o tempo voltasse
Eu faria uma casinha
Ia brincar de médico
Só nós dois, eu e você.

* * *

LEILÃO

Quem me dá
Um tostão furado
Num coração quebrado
Sem chance a vista
De ser recuperado

Quem arremata
Esse exemplar da raça
Boêmio, notívago…
Dormindo na praça

Quantos reais
Valem a prenda
Façam oferendas
Quem dá mais?

Façam seus lances
Que não seja o mínimo
Deem uma chance
Que de lábia ele é o fino

Ninguém se habilita
Estou mal na fita
Essa minha desdita
A mim inquieta
Ninguém quer comprar
O coração de um poeta?

* * *

MEU LIMITE

Meu limite
Está no infinito
E no desvão
Entre o principio
E o fim, estou eu
Pintando o sete…
E está você
Sem o que fazer
Julgando a mim.

* * *

ÓCULOS ESCURO

Usei óculos escuro
No meio da noite
A injustiça me cega
E se você não sabia
Ela também acontece
À luz do dia.

E sem óculos
Eu não a enxergo.


STAND-UP COM POESIA

SER OU NÃO SER

É fácil ser Lewandowiski
Toffoli e Gilmar Mendes
Nem precisa competência
Basta aval do presidente
Nesse Brasil jurisconsulto
De povo frágil, belo, inculto…
Difícil mesmo é ser gente

* * *

MEUS DELÍRIOS

Em meus delírios
Chego a aspirar
Fortuna.
Quando estou sóbrio
Não desejo
Coisa alguma.
Tenho alguém
Que por si só
Já me completa
Esteja sóbrio
Ou delirando.
Eu sou poeta.

* * *

ORGASMO DE AMOR

O Sol ejaculou
No útero da terra
Luz e calor
Pela primeira vez
A terra teve
Um orgasmo
Em flor

Era primavera.


STAND-UP COM POESIA

ÚLTIMO

Ah! Fosse meu:
Teu ultimo beijo
Teu último abraço
Tua última caricia
Teu último amasso
Teus últimos ais
Nos meus braços…
Só para descobrir
Neste espaço inútil
Depois do último
O que vem depois
Antes do fim

Ah! fossem meus.

* * *

PRIMAVERA

Foi-se o inverno
E você voltou
Mais rubra
Mais cheia de cor
Do que já era
E eu seu amor
A sua espera
Pra te dar calor…
Seja bem-vinda
P R I M A V E R A

* * *

CONCAVO X CONVEXO

Já rolamos na lama
Na grama, na cama
No serrado na fama
Continuo côncavo
Você hoje convexa
Já nem rola mais

DE ONDE VIM

Eu vim de um amor e tanto
Da sapiência de um Deus
Misericordioso e perfeito
E do acasalamento de dois
Seres humanos imperfeitos

Deus me deu a vida
Me deu corpo, me deu alma
E o encanto de ser livre

Meus pais me ensinaram tanto
Todavia, por enquanto
Tô aprendendo ser feliz


STAND-UP COM POESIA

ISTO SOU EU

Eu sou assim:
Interiorano,
Indefinido
Abstrato,
Vazio,
Mal escrito
Sem fim…
Acho que sou
Um rascunho de mim

Isto sou eu

* * *

EU QUERIA

Queria te amar mais
Muito mais do que te amo
Queria te ver mais
Muito mais do que te vejo
Queria te desejar mais
Muito mais do que desejo
Queria te sentir mais
Muito mais do que te sinto
Queria ter mais você
Muito mais do que já tenho
Queria te encontrar mais
Muito mais do que te encontro…
Estes são só alguns pontos
Do que eu queria, enfim…
Como não posso querer mais
Te quero um tantão assim

* * *

TEU CHEIRO

Teu cheiro
Ficou impregnado
Nas paredes
Do meu quarto.
Exala de cada dobra
Contidas nos meus lençóis
Fechei janelas e portas
Para que teu cheiro dure
E a paixão me segure
Enquanto você não volta

* * *

OBRIGADO DEUS

Obrigado Deus
Por me dar a vida
Por me dar o corpo
Por me dar a alma
Por me dar o riso
Por me dar o pranto
E por esse encanto
De me fazer feliz.

Obrigado Deus!

* * *

O QUE EU QUERO

Eu quero um mundo
Onde o ódio definhe
Onde o amor germine
Dê frutos dez por um

Eu quero um paraíso
Sem cobras, sem castigo
Sem frutos proibido
Pois eu adoro maçãs

Eu quero um mundo
Sem eira nem beira
Se não for pedir demais
Eu também quero você
Sem folhas de parreiras


STAND-UP COM POESIA

BANHO EXÓTICO

Ensaboa-me
Com teus beijos
Enxagua-me
Com teus abraços
Enxuga-me
Com tuas carícias
Torce-me
Com teus amassos
Depois fica de sentinela
Enquanto seco-me no varal
Em frente a tua janela
Cuida para que as outras
Não levem a mim pra elas.

* * *

ENCONTRO D’ALMAS

Minha alma
Foi ao encontro
Da perdição
Da tu’alma
Nua em pelo

Tomara que
O encontro
D’almas nuas
Dê prazer.

Tomara!

* * *

ABSTINÊNCIA

Se não queres
Falar comigo
Como castigo
Eu te pego
Te beijo
Te amasso
Te acaricio
Te abraço…
Terás que falar
Embora seja
Para dizer:
Pode parar


STAND-UP COM POESIA

DEVASTAÇÃO

Os jovens escrevem
Seus nomes nas árvores
Corações entrelaçados
Tornam-se adultos
E por nem um minuto
Ficam parados.
Dilaceram os corações
E destroem as árvores

* * *

EU E VOCÊ

Você:
Exagerou no decote
Eu o olhei de viés
A mim você ignorou
E eu saí de fininho
Triste, segui sozinho
Lamentei o desperdício
E minha falta de sorte

* * *

O VICIADO

Já usei COCA
Fui um viciado
Vivia drogado
Eu estava perdido
Hoje arrependido
Só uso PEPSI

* * *

REALIDADE

Nos caminhos estreitos
Da minha infância
Cabia meus medos
Cabia meus sonhos,
Cabia muito mais…

Nas estradas largas
Do meu mundo adulto
Os medos se acabam
Os sonhos se esvaem
Cabem só as lembranças
Os percalços, nada mais.

* * *

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

No dia da criação
Éramos os últimos da fila
Chegada a nossa vez
Acabou o material
Com a obra incompleta
Descansar Deus não podia
Com infinita sabedoria
Deus amassou argila
De mim Deus fez poeta
De você Deus fez poesia


STAND-UP COM POESIA

ASSASSINATO

Fiz sexo com a gramática
Sem usar preservativo
Grafei palavras sem nexo
Gerei frases sem juízo
Meus parágrafos desconexos
Geraram textos inconclusos
Meu livro ficou incompleto
Com um assunto confuso
Assassinei a gramática
Por desconhecer seu uso

* * *

CARNE FRACA

Se a carne não fosse tão fraca
Não fosse tão curto teu vestido
Se você não fosse tão bonita
Nada disso teria acontecido

Tudo culpa da carne!

* * *

CICLO DO AMOR

Pediste um abraço
Eu te dei
Insaciável tu és
Pediste um beijo,
Um carinho, um amasso…
Não te neguei.

Devolvesse dobrado,
Eis o ciclo do amor
Os benefícios recebidos
Serão devolvidos
Dobrados.

É dando que se recebe.

* * *

LIMPO E PURO

Emergi das Águas
Agora, quem diria
Puro, sem mágoas
Para fazer poesia

* * *

JURAS FALSAS

Já chorei de saudade
Já jurei não mais chorar
Jurar falso, é falsidade
Na minha instabilidade
Eu jurei não mais jurar

* * *

CARNE FRACA

Se a carne não fosse tão fraca
Não fosse tão curto teu vestido
Se você não fosse tão bonita
Nada disso teria acontecido

Tudo culpa da carne!


STAND-UP COM POESIA

AS MÃOS

“Uma mão lava a outra”
“As duas lavam o rosto”
As nossas quatro mãos
Escorregam pelo corpo
Fazendo tantas coisas
Só de pensar me dá gosto

Depois, do disse me disse
Rapaz deixa de tolice
Só o natural que atrasou
O côncavo virou convexo
Mas, não teve nada de sexo
Foi tudo feito com as mãos…

Me engana que eu gosto!

* * *

O ANORMAL

Sábio que fui
Me apaixonei
Tornei-me poeta.
Poeta que fui
Perdi o amor
Tornei-me louco.
Louco que fui,
Poeta também
Sem sabedoria
E sem ter você
Vaguei pela noite
Fazendo poesia.

Você voltou
A mim encontrou
Um poeta-louco
Boêmio e inculto
Vagando na noite
Dormindo na praça
O bolso vazio
Sem nenhum tostão
Sem norte, sem rumo
Movido a paixão

Alguém sabe
O que devo fazer
Para ser normal?


STAND-UP COM POESIA

AS MÃOS

As mãos semeia
As mãos colhe
As mãos afasta
As mãos acolhe
As mãos falam
As mãos vêem
Esbofeteia,
Acaricia,
Faz piada,
Faz poesia…
Ah as mãos!
Órgão sexual
Dos impotentes
E se às mãos
Faltar um dedo
Ainda se tornam
P R E S I D E N T E.

* * *

FUNDIÇÃO

Desperto como o Sol
Desvirginando as nuvens
Vai ejaculando luz
Para iluminar os corpos

Ao me fundir contigo
Produzimos luz e calor
Creio não haver perigo
Acredito que seja amor

* * *

MINHAS COISAS

Quando amealho palavras
E discorro sobre a emoção
Alguns dizem que é poesia
Outros dizem que é paixão
Na realidade com palavras
Amealhadas na minha lavra
Faço da vida uma canção

* * *

“DE POETA E DE LOUCO TODOS NÓS TEMOS UM POUCO”

De poeta eu tenho um pouco.
De médico nada que o valha
Humanamente e de louco
É o resto do meu DNA.
Pouco demais pra ser humano
Muito para não ser louco.

* * *

ÉPOCA DIFÍCIL

Comi o pão que o diabo amassou
Época difícil que quero esquecer
Tribulação vivida, mas tudo passou
Hoje amasso pão pro diabo comer


STAND-UP COM POESIA

SÓ METADE

Regurgitei o meu amor
Duma só vez na tua boca
Eu gostei, você gostou
Prazer demais, coisa louca
Fusão de alma e de corpo
Pra mostrar que na verdade
Nós dois somos só metade
De uma mesma laranja.

* * *

NUS

Tu me despes
Com teu olhar
Sem que eu perceba.
E quando nu
Sou mais puro
Mais seguro
E sem soberba.
Nus, estávamos
Nus, ficamos
Nus, estamos
Nus, beijamos
Nus, amamos
Sempre nus.
Porque nu,
Sou mais eu
Sou único
E proibido
Mais libido
Todo seu

* * *
INSOLÚVEL

Triste não é saber
Que não há
Solução à vista.
Triste é descobrir
Que a vista
Já não avista
A solução.

* * *

AMASSAMENTO

Se nos amássemos mais
E nos amassácemos menos
Certamente teríamos paz


STAND-UP COM POESIAS

SÓ POESIA

Teus olhos
Me olham
Me despem
Me profanam
E de dentro
Do teu peito
Teu coração
Me espia
E teu amor
Emana.
E todo teu ser
Se desmancha
Em poesia.

* * *

“DOIDO VARRIDO”

Minha loucura
Quem sabe,
Tenha cura
Com teu abraço
Meu caso é grave
E inspira cuidados
Talvez, quem sabe
Ministrando carícias
E beijos na boca
Eu seja curado.
Já vi uma louca
Doida varrida,
Maltrapilha, ferida…
Sendo curada

* * *

OPÇÃO

Tentei ser mar
Não consegui
Tornei-me doce
Hoje sou rio.


STAND-UP COM POESIA

NÓS

Sonhando nós nos despimos
Nus, nós nos beijamos
Acordados nós descobrimos
O quanto nós nos amamos
Juntos nós ficamos juntos
Até que a morte nos separe
E juntos até hoje estamos
Até hoje nós não morremos

* * *

EM TERRA DE CEGO

Em terra de cego
Quem tem um só olho
Está impedido de vêr
Só enxerga metade
De toda beleza
Que existe em você
Ainda bem, certamente
Que em terra de cego
Tenho menos concorrente.
Mas o que me causa aflição
É que os meus concorrentes
Para enxergar
Em qualquer lugar
tem que passar a mão.

* * *

DESCOBERTA

Descobri por acaso
A saída de incêndio
Do teu corpo molhado
Relutei um bocado
Mas resolvi ficar
E morrer queimado
É preciso superar
O medo de morrer
Quando estou
Impregnado de você.


STAND-UP COM POESIAS

ROUPAS SEM ELA

Adoro ver roupas
Estendidas, molhadas,
Passadas, dobradas
Indicam que a dona
Encontra-se pelada
O poeta, quem diria
pensando, parado…
Escrevendo poesia
Se não fosse comigo
Idiota, eu diria
Vê se pode!

* * *

DOENÇA DE CHAGAS

Dei nome as minhas chagas
Chamei “perebas” as do meu pé
Das nádegas chamei “curubas”
Mas não dei nome as “feridas”
Pois na minha face querida
Tá lisa, igual bumbum de bebê
Limpa e pura.


STAND-UP COM POESIAS

NADA A VER NEM HAVER

Moço, não tem nada a ver
Juro, o cu com as calças
Se a cueca está no meio.
Assim como não tem haver
Na minha conta bancária
A dita está no vermelho.

* * *

QUEM SOMOS

Todos somos
Como somos
Cromossomos
Mal nascemos
Somos sonhos
Mal andamos
Tropeçamos
E caímos
Levantamos
E seguimos
Mal crescemos
Envelhecemos
E nada somos
Mas já fomos

* * *

BONS LADRÕES

Quando nos encontramos
Bebemos e fumamos
O cachimbo da paz.

Pecado eu não vejo
Te roubo um beijo
Aproveito o ensejo
Pra te roubar algo mais

Você, por sua vez
Me rouba um abraço,
Um carinho, um amasso…
To nem aí, tanto faz.

Se pecamos os dois
É pra não pecarmos só
Peco eu e você
Pecamos nós.


STAND-UP COM POESIA

SEI DE NADA

Pouco sei
Do porvir
Do passado
Já esqueci
Do presente
Nada sei
Sei de nada
Dessa gente
Se pecador
Ou inocente
“Eu só sei
Que nada sei”

* * *

SEM SAÍDA

Eu nado, nado e nada
Não encontro a saída.
Pra liberdade, pra vida
Se eu corro eu canso
Se ando não alcanço
Ajo mais por instinto
Não quero, não consinto
E nesta vida de contos
Vou sentar-me e pronto
E esperar que a saída
Venha ao meu encontro.

* * *
LUA

Oh Lua!
Qual é a tua?
Desfilando nua
Outra vez.
Cruzou com o Sol
E se deu mal
Não fez pré-natal
Foi pro hospital
E pariu um raio.
Hoje anda distante
Triste, minguante
Pedindo pensão.
Não vem que não tem
Não te dou um vintém
Comigo não
Procure outro alguém.

* * *

SÓ DEUS

Quando te vejo
De frente, de costa…
Pergunto a você:
Como se pode fazer
Um ser tão perfeito
Com uma costela torta

Só Deus mesmo.


STAND-UP COM POESIA

ENROLAÇÃO

Embrulhei meu estômago
Com papel de jornal
Quando minhas vísceras
Leram as notícias
Coitadas, passaram mal

* * *

VISGO

O visgo com que eu visgava
Os vim-vins da minha infância
Não era tão visgoso assim
Quanto este visgo gostoso
Extremamente visgoso
Que hoje visga você a mim

* * *

SE VOCÊ QUISER

Se você deixar
Eu me apaixono
Se você quiser
Não te abandono
Se você pedir
Ficaremos juntos
Ligado um ao outro
Na hora do sono
Das noites sem lua
Eu não reclamo
Se você quiser
Ainda direi te amo.

* * *

DESENTENDIMENTO

Meu coração acelerado
Te disse quase tudo
Tua mente lenta
Não entendeu quase nada
Sem mais nada pra ser dito
Postei tudo por escrito
No WhatsApp


STAND-UP COM POESIA

GARI X CATADOR DE LIXO

GARI: é o sujeito que cata o lixo da rua e deposita num lugar comum.

CATADOR DE LIXO: é o sujeito que traz o lixo do lugar comum novamente para a rua.

* * *

ESPELHO, ESPELHO MEU…

Olhei-me no espelho
Vi uma imagem repetida
O mesmo plágio da vida
Ouvi o mesmo conselho:
Essa vida é muito curta
Levante-se e vá à luta
Aproveitei o ensejo
Para não ver mais o que vejo
Melhor quebrar o espelho
Quebrei-o-o

* * *

DANÇANDO A SÓS

Dançamos nós
A dança dos amantes
Dançamos o antes
Dançamos durante
Somente o depois
Eu dancei a sós.

* * *

TUDO LOUCO

A boca da noite
Está com afta
A madrugada
Com torcicolo
O sol ao nascer
Quer que o dia
O carregue no colo


STAND-UP COM POESIA

SOU DE PAZ

Não sou guerreiro
Sou de paz
Nunca puxei um gatilho
Não me apraz
Puxei uma enxada
Me satisfaz
Uma nação se constrói
Com calos nas mãos
Com cimento e tijolos
E com educação.

* * *

SENTENÇA

Sentencio você
Tem que me amar
Só tem até hoje
Para pensar

Amanhã será outro dia…

* * *

CÉU DE ESTRELAS

No Céu de estrelas
Na imensidão flutua
Ciosas de afetos
Literalmente nuas
Obra de Arquiteto
Para um só Sol
Para uma só Lua

* * *

PRIMA(VERA)

Quando a prima(vera) chega
Os ipês se desfolham
Se enchem de flores
Para recebê-la
Meu coração dis(para)
Com a chance rara
De tê-la


STAND-UP COM POESIA

LÁGRIMAS

A lágrima sincera
Não se enxuga com lenço
Enxuga-se com o dorso da mão
É assim que eu penso

* * *

EXCEÇÃO

Ter a mão naquilo
Ou ter aquilo na mão
Tanto faz, é pecado
Mas há exceção
Se consentido
Há perdão

Faz sentido

* * *

PEDIDO

Fiz um poema
Pra mandar pra Deus
Os correios em greve
Eu não mandei
Pra minha surpresa
Deus me respondeu
Pedido indeferido
Você não mereceu.

* * *

LUTA DESIGUAL

Me desperta
Me despe
Me aperta
Me beija
Me sacoleja
Me acerta

Diz que me ama
Me alucina
Me chama
Me leva pra cama
Me aplica um direto
Me leva a nocaute
Mas pelo amor de Deus
Me devolve agora
Meu cartão de crédito.


VIDA, O QUE FOI E O QUE É

Meu instrumento já foi a enxada
Já foi a semeadura da semente
Já foi, a chuva a colheita dos frutos
Já foi um paiol cheio de alimentos

Meu instrumento já foi a parede,
Tijolo, massa, da casa levantada
Foi água de pote pra matar a sede
Foi um alpendre, uma rede armada

Hoje, é roupa de grife, é agasalho
É volante de um carro que leva e trás
É ônibus lotado rumo ao trabalho

É dor, é exame, é receita, é remédio,
É abstinência séria, é repouso é cura…
É incapacidade é esse maldito tédio


STAND-UP COM POESIA

TE QUERO MAIS

Se você soubesse
Que quando escrevo
Eu nem sei se devo
Te afago te beijo
Te abraço, te amasso…
Ao som dos teus ais
Dos teus quero mais
Dos meus outra vez
Pra encontrar o tema
Aí eu perco a rima
Você sai do clima
E eu encerro o poema

Mas te quero sempre mais.

* * *

PASSADO, PRESENTE, FUTURO…

Toda vez
Que tento mudar
Me aparece o passado
Pra me atrapalhar.

Aponta meus erros
Com ele guardado
Rir na minha cara
E vai-se embora

Apaga minhas pegadas
Pra que eu não possa voltar.

Me deixa sozinho
Sem norte, sem rumo
Me sinto inseguro
Sigo para o futuro
A partir daqui
Desisto de mudar o mundo
A partir de mim.

* * *

PERDIDOS E ACHADOS

Perdi o meu amor
Só sabe a dor
Quem já perdeu
Quem achar
Por favor
Devolva-me
O amor é meu.


STAND-UP COM POESIA

TEMOR

Temo
Que
O Têmer
Acabe
Com
O que
Ainda
Temos

* * *

DIVISÃO JUSTA

Dividi:
O pão
O peixe
E o vinho
Só não dividi você
“A fome era negra”

* * *

CASO PERDIDO
Sou um caso perdido
Sou “sem eira nem beira”
Eu só faço besteira.
Quando estou contigo
Reconheço a culpa
Te peço desculpas
Insisto, persisto…
Me finjo de enfermo
Quando você me perdoa
Dá o primeiro passo
Para o próximo erro
Sou mesmo um caso perdido

* * *

PESADELO

No meu sonho
Te vejo despida
Impura, nua e crua
Parece mentira
Quando acordo
Te vejo vestida
Pura, crua não sei
Matéria proibida


STAND-UP COM POESIA

DESOBEDIÊNCIA

Desobedeci a doce concordância
Anulei o sentido e a grafia
Desse pálido espelho da minh’alma
Minha singela e amada poesia

* * *

O MELHOR DE MIM

Mostro aos olhos do mundo
Na íntegra minha aparência
Derramo no que escrevo
Porções da minha essência
Na certeza de que um dia
Eu serei somente poesia

* * *

LIÇÃO DO MAR

Receber águas sujas das valas
Ou águas azuis das piscinas
Sem, porem, diferenciá-las
É isso que o Mar nos ensina

* * *

MEU POEMA

Ontem perdi um poema
Nem fez sol, nem choveu
Só um poema se perdeu
Gastei tinta, papel e pena
Esse foi o meu problema
Vasculhei ao meu redor
Derramei lágrimas e suor
Procurando esse poema…
Deserdei “o filho pródigo”


STAND-UP COM POESIA

O PENSADOR

Penso que penso, logo existo
Descubro que penso, depois desisto
Sonho que sonho, na madrugada
Acordo do sonho, não acontece nada

Dizem que o homem é um produto do meio, quero confirmar essa assertiva: eu sou um produto do meio do meu pai e da minha mãe.

* * *
ASSIM SOU EU

Me faço poeta
Por medo do ostracismo
E clamo e declamo
Em cores e ao vivo.

* * *

SONHO

Sonho,
Porque meu sonho alimenta
Estoco o excedente
Para quando estiver acordado
E ceder para os amigos,
Emprestado

* * *

MEUS DESEJOS

Quando eu era menino
Ansiava por ser homem
Depois da faina dos anos
Me sinto tão pequenino
Cresci, hoje sou homem
Anseio por ser menino

Ah se o tempo voltasse!


PERGUNTAR NÃO OFENDE

Perguntei ao fundo do poço
Se ainda havia aonde ir
Ele disse assim seu moço
Ainda temos o pré-sal

Lá o petróleo a(bunda)
É como o rio São Francisco
Pra irrigar o Nordeste
Basta fazer um canal

Então você me esclareça:
Como ninguém pensou nisso?
Olha moço, eu sou o fundo
Aqui quem pensa é a cabeça.

Por incrível que pareça
Demorou mas entendi
É que os nossos governantes
Estão de ponta-cabeça


STAND-UP COM POESIA

CONSELHO

OUTUBRO ROSA

Por vocês me fiz poeta
Pra vocês já fiz poesia
Só não faço por vocês
M A M O G R A F I A

NOVEMBRO AZUL

Saímos do outubro rosa
Entramos no novembro azul
Identifique o câncer de próstata
Com uma dedada no …

Garanto, meu camarada
Boto fé e lhe dou crédito
É rápido e não dói nada
Pelo menos no seu médico

Mas, para aqueles que tem medo
E prefere não arriscar
pra quem tem pavor de dedo
Faça então um PSA

Às vezes funciona.
TELEFONIA CELULAR
Eu te amei como ninguém jamais amou.
CLARO!
Comovia-me até quando te ouvia dizer:
OI!
Hoje VIVO desolado com o passado
Que se foi.
Só o “TIM, TIM” dos aparelhos a mim restou
E muito raro.


MORTE CONSENSUAL

Estou pensando em matar-me
Só não sei qual arma eu uso
Se beijo-te até sufocar-me
Confesso que estou confuso

Se matar-me é meu destino
Que seja por claustrofobia
Teus lábios os meus premindo
Provocando em mim asfixia

Esse desejo de matar-me
Não é um desejo de agora
Faltava escolher as armas

O modus operandi já escolhi
Eu quero morrer como vivi
Morrer, deveras, te amando


DUPLO SONHO

Eu te sonho e tu me sonhas
Sem nenhum medo de colisão
Neste quarto escuro, suponho
Que não sonhamos sonhos vão.

Vez por outra nossos sonhos
São sonhados em desalinho
Quando os sonhos que sonhamos
Se perdem pelos caminhos

Sonhos sonhados sem zelo
Só, sem presente, sem futuro…
Não são sonhos, são pesadelos

Nossos sonhos não foram em vão
Destaco os sonhos acordados
Sonhos sonhados, com as mãos


QUEM SERIA EU?

Acho que sou um composto
Lunático, psicótico, apoplético…
E se todo poeta é meio louco
E de todos eles tenho um pouco
Acho, sou um louco, meio poeta

E se eu não fosse um poeta
Se eu não escrevesse poesia
Talvez, quem sabe, eu seria
Quem sabe, talvez, poeta

Eu não vejo outro caminho
Talvez, quem sabe, a seguir
Talvez não sendo poeta
Nem soubesse aonde ir

Talvez, ainda, eu te peça
Um rumo, talvez, uma meta
Vênia para meus versos
Quem sabe, talvez, eu peça
Talvez, para ser poeta

Pois minha vida é só festa
Boate, bebida e orgia
Vinho, poesia e prazer
Talvez eu só seja poeta
Por outra coisa não ser


DIA DO POETA: 04 DE OUTUBRO

Sou um poeta meio louco
Ou talvez, quem sabe…
Dispensando a simplicidade
Seja um meio louco, poeta

Veja porque a seguir

NÃO SEI SE ME VOU OU SE ME FICO

Agora que me vou é que me fico
Me fico em cada canto do teu quarto
Me vou, me parto, mas, me justifico
Pois me fico, cada vez quando me parto

Me fico, quando me parto, na saudade
Saudade dos beijos que foram tantos
Me parto, porque preciso, sem vontade
Mas a saudade se explica nesse pranto

Não me fico, porém, me vou dividido
Parte de mim fica e eu levo a saudade
De todo tempo que eu me fiquei contigo

Todo dia quando me parto deste porto
Com meu coração batendo desesperado
Só querendo me ficar nesse teu corpo

Dedico este soneto a todos os poetas do JBF, parabenizo a todos eles, esses encantadores de palavras.


STAND-UP COM POESIA

TAÇA COM FEL

Confesso que trago um trago
Do trago que a Cristo deram
Se queriam fazer estrago
Deviam ter dado a Nero

* * *

CONSIDERAÇÃO DE UM POETA

Não costumo questionar
O preço de um objeto
Mas sou dado a reclamar
Do bolso vazio dos poetas

* * *

QUEM SOU EU

Acho que sou um composto
Lunático, psicótico, apoplético…
E se todo poeta é meio louco
De todos eles tenho um pouco
Pois sou um louco, meio poeta

* * *
SAUDADES DO MEU PASSADO

Quero o passado de volta
Para encerrar este assunto
E matar minhas saudades
Quero minha tenra idade
Passado e presente juntos.


EU TE AMO

Eu te amo, antes, durante e depois
E você nem precisa fazer nada
Eu te amarei, então, por nós dois
É só você, deixar-se ser amada

Pensar, em outro alguém, nem pensar
Não aprovo, não me move, nem me apraz
Se não sou o alguém que tu procuras
Serei teu fiel vassalo e muito mais

Amar assim, meu Deus! Quem me dera
No outono, no verão e no inverno….
Antes, durante e depois da (prima) vera

Nasci poeta, cresci poeta, quem diria
Entre versos e entre rimas me criei
É normal que me apaixone por poesia


STAND-UP COM POESIA

SÓ NÓS DOIS

Tatue um verso teu na minha pele
Sele, chancele, à noite, a luz do dia
No fim, será só o fim, nada mais, enfim:
Será só nós, a sós, só tu e eu, poesia.

* * *

OUÇA O SEU CORAÇÃO

Se uma brisa suave
Roçar o seu rosto
Não se assuste
Não se agrave
Silencie, nada fale…
Ouça o seu coração
Pelo sim, pelo não
Descubra pois, a verdade
Aja com simplicidade
Quem sabe, seja eu
A sua outra metade

* * *

VISÃO DISTORCIDA

Vestida, nada vejo
Além da aparência
Não é esse meu desejo
Quero ver a essência.

Despida a luxuria
Me impede de vê-la
Com decência .
Desisti de você.


STAND-UP COM POESIA

NÃO SEI REZAR

Quando você foi embora
Embora eu não soubesse
Soubesse nada de prece
Prece para qualquer hora
Orei pra Nossa Senhora
Nossa Senhora te peço
Te peço traga-a de volta
Se precisar de escolta
Estarei sempre por perto
Quem sabe, assim dê certo

* * *

ESTOQUE DE AMOR

Estoquei o meu amor
Pra usar nas nossas crises
Que crise? Não houve crise
Mas houve amor a fartar
Houve tempo de menos
Pra um peito tão pequeno
Que esqueceu-se de amar

* * *

EU

Se eu, não fosse eu, juro, queria ser eu;
Como já sou eu, não há do que reclamar
Toco a vida para frente, pedindo a Deus:
Se eu voltar, quero ser eu novamente, tá


STAND-UP COM POESIA

DO CHORO

O pranto sincero
Não se enxuga com lenço,
Seca-se com o dorso da mão.
É assim que eu penso.

* * *

ALMA DE CARANGUEJO

Desmontei um caranguejo
Pra degustar-lhe as patas
E sua alma cor de prata
Saiu andando de banda

* * *

EU SÓ ACREDITO, VENDO

Essa vida é um mistério
Coisas que eu não entendo
Político falando sério
Eu só acredito, vendo.

* * *

FEIJOADA

Eu fiz uma feijoada
Com feijão, bacon e afins
Na hora minha namorada
Queria comer, era a mim

* * *

ASSÉDIO

Só por mostrar o polegar
Fui acusado de assédio
Depois só pra contrariar
Eu mostrei o dedo médio


TRÊS POEMETOS

CONHEÇA-ME

Para me identificar:
Mergulhe em mim
Nos desvãos de minh’alma
Lá eu permaneço
Intacto, virgem, puro,
Sertão, várzea, monturo…
Lá você encontrará
A geografia completa
Tudo que Deus me deu
Verso, poema e poeta
Isso tudo sou eu.

* * *

INEVITÁVEL

Eu sempre desconfiei
Do amor que tu me tinhas
Por isso sempre guardei
Fora do alcance das crianças
Mas nem por isso evitei
Que nós dois tivéssemos cinco
E só para ser sucinto
Se não fosse essa crise
Juro, que tinha mais um
Não gosto de número ímpar

* * *

AMOR A TERRA

Uma casa antiga
Um batente alto
Piso chão batido
Rua sem asfalto
Um poema escrito
Com letras de fogo
Com amor à terra
Não está em jogo
Paz e a harmonia
Encerro meu poema
Prenhe de poesia


TATUAGEM COMPARTILHADA

Apague as marcas de batom
Espalhadas pelas minhas vestes
Minhas roupas estão marcadas
Mas, não sou só eu que não presto

Eu me encontro, limpo e puro
Ressalve-se, meu pensamento
Não boto no fogo a mão, nem juro
Nem agora, nem noutro tempo

Quiser me marcar me marque
Marque a hora, marque agora,
Marque fora, mas me marque

Tatue no teu corpo um verso
Encoste teu corpo ao meu
E grave o verso ao inverso


ESTOQUE DE AMOR

Estoquei o meu amor para usar nas nossas crises

Faz muito pouco tempo que te disse sim
Ainda é muito cedo para te dizer não
O meu sim, foi até quando eu por um fim
Ao estoque de amor do meu coração

Por enquanto vou relevando teus defeitos
Da tua parte pode ir relevando os meus
Não posso imaginar sequer, outro jeito
Separação! Nem pensar. Você prometeu

Prometeste que só a morte, essa sim
Da minha parte eu achei muito pouco
Em se tratando que a morte não é o fim

Tudo bem! Mas lembre-se, não foi o acaso
Quem uniu você a mim, deveras, foi o destino
Cabe ao próprio destino, prorrogar o prazo


DISSE ME DISSE

Disseram que a mata é virgem
Cujo motivo eu desconheço
Talvez, quem sabe, seja possível
Dizem que o vento de lá é fresco

Soube que a água está presa
Trancada entre quatro paredes
Crime? Sim, em legitima defesa
Soube que a água matou a sede

O Sol agrediu a Lua, outra vez
Ciúmes? Talvez, seguramente
Ninguém sabe o que a Lua fez

Disse me disse, conversa fiada
Presumo, a inocência dos réus
Até as provas serem encontradas

Dedico este soneto ao emérito (sábio) juiz, Dr Marcos Mairton, com ele o veredicto final.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa