OS MICOS QUE PAGUEI
Mais uma vez aqui estou, na frente da tela do meu PC, martelando sem dó nem piedade o seu teclado, a fim de registrar alguns micos que paguei durante minha caminhada nesta vida até aqui. Claro e evidente, depois de consultar a emoção e a razão. Contarei apenas os que o bom senso permitir.
O trabalho duro (na lavoura), a disciplina rígida, o lazer na hora certa, a educação com autoridade por parte dos meus professores, as sabatinas acompanhadas pela palmatória, (terror de todo estudante da época), formaram minha personalidade. Não aconselho ninguém criar filhos assim, até porque os tempos são outros; porém, não condeno meus pais pelas palmadas aplicadas no lugar e hora certa.
Os bons e os maus momentos são passageiros; o barato é tirar deles lições para nossa vida. Aprendi muito com as pessoas com quem convivi. Apr endi que o trabalho dignifica, o amor santifica e a sabedoria abre todas as portas quando usada para tal fim. Mas, pode fechá-las se for usada com esperteza (malandragem).
Todo esse enunciado é para falar “dos micos que paguei”. Num dos primeiros que me vêm à lembrança, fui apenas coparticipante. Lembro-me das palavras do meu velho: “Quem trabalha na roça, enquanto descansa, carrega pedras”. E eram verdadeiras as palavras do meu pai. Quem trabalha na lavoura, quando não está preparando a terra, esta plantando a semente; quando não está plantando a semente, está limpando a lavoura; quando não está limpando a lavoura, está colhendo os frutos; quando não está fazendo nada disso está praticando alguma atividade inerente. No nosso caso, tirando madeiras (cedros: madeira abundante na região) para confecção de armários, guarda-roupas, depósitos de cereais e outros. E foi exercendo essa atividade que vi meu pai pagando um grande mico, levand o-me junto e me mostrando como sair de uma situação embaraçosa sem perder a pose.
Enquanto meu pai arreava os animais, eu e meu irmão, 10 e 12 anos, muito jovens para o trabalho que se avizinhava, o acompanhávamos naquela tarefa. É observando que se adquire a experiência necessária para usá-la no futuro: dizia meu velho. Depois de uma caminhada exaustiva durante seis horas, chegamos ao local do acampamento. Uma roça com bastante milho verde, um feijoal cheio de vagens maduras, um pequeno rancho coberto com palhas de babaçu e mata virgem em volta. Meu pai inspecionou a mata e contou cinco árvores que, ao amanhecer do próximo dia, seriam vítimas da sanha predadora do fio de nossos machados.
Desarreamos os animais, peamo-los para que não se evadissem das proximidades do rancho e a convite do meu pai seguimos por uma trilha dentro da roça a fim de colher umas espigas de milho e algumas vagens de feijão. No retorno para o rancho, numa curva do cam inho, encontramos o dono da roça.
– Boa tarde, seu Raimundo!
– Boa tarde, seu Ezequiel!
Depois dos cumprimentos de praxe, meu pai apressadamente procurou explicar, meio sem jeito, a atitude incorreta de colher as vagens e as espigas de milho, sem autorização do proprietário.
– Eu colhi algumas vagens do seu feijão para tirar sementes para o próximo plantio. Não possuo essa variedade de feijão e me parece muito boa.
– Seu Raimundo, esse milho verde é também para tirar sementes? – Perguntou seu Ezequiel.
Meu pai, de vermelho ficou amarelo e, em seguida, branco como uma folha de papel. Deu um sorriso meio forçado e resmungou algumas palavras ininteligíveis. Depois se apertaram as mãos, deram boas gargalhadas do fato. Colher algumas espigas de milho e algumas vagens de feijão, naquela época e naquele lugar, não constituíam crime algum, pois havia em abundância.
No meio popu lar há muitas formas de malandragens ou espertezas. Muitas delas são por uma questão de sobrevivência. Uma espécie de instinto, em que o mais fraco, debatendo-se pela vida, tenta escapar dos mais fortes, utilizando sua inteligência; outras, por puro mau-caratismo. Nas feiras livres espalhadas por todo o Brasil é onde se concentra o maior número dessas duas espécies; os malandros querendo a qualquer custo se darem bem às custas da ingenuidade dos mais humildes: geralmente, gente da roça, pequenos produtores vendendo seus produtos diretamente ao consumidor, tentando ganhar um dinheirinho extra para complementar a renda familiar, normalmente muito baixa.
Numa dessas feiras livres (Mercadinho de Imperatriz – MA), paguei meu segundo “mico”. Sem meu pai por perto, tive de engolir minha própria arrogância. Bem feito! Perdi uma ótima oportunidade de fechar a minha “matraca” e deixar de querer ser mais sabido que os caboclos escolados pela vida. Ao co mprar algumas raízes de macaxeira, querendo tirar onda com o vendedor, pessoa muito simples, perguntei:
– Essa macaxeira cozinha, caboclo?
– Senhor, toda macaxeira cozinha. Umas amolecem, outras não.
Essa foi a resposta do vendedor. Restou-me meter a viola no saco e me retirar ante as gargalhadas de ironia de outros vendedores.
Com filhos fazendo faculdade no Rio de Janeiro, sempre dávamos um jeito de custear as despesas muito altas com a faculdade e a estada deles, antevendo, é claro, um futuro promissor quando terminassem o curso.
Sempre que havia oportunidade íamos visitá-los, levando alimentos regionais não perecíveis de que tanto gostavam: tapioca, polpa de frutas, carnes… Lá chegando íamos ao supermercado para abastecer a geladeira, normalmente vazia: coisa comum a todo estudante. Numa dessas visitas, minha esposa resolveu comprar algumas panelas: coisas simples e de pouca duração. Fomos a uma feira livre e depo is de inspecionar uma frigideira, ver o tipo de material, espessura…, minha esposa perguntou o preço.
– Quanto custa esta frigideira, moço?
– Dezoito reais, respondeu o feirante.
Mais uma vez, perdi a oportunidade de ficar calado e não passar vexame.
– E com desconto?
– Vinte e oito reais, senhor.
– Como assim? Você está querendo me gozar?
– Perdão senhor, não foi essa minha intenção – respondeu o vendedor. É que dezoito com dez contos são vinte e oito, qualquer criança sabe disso.
Este diálogo foi suficiente para minha esposa, “rodar a baiana,” “chutar o pau da barraca”, e sair dali amaldiçoando o vendedor. E quanto a mim, me pus a pensar: os bancos da faculdade me ensinaram muito, mas não me ensinaram a me sair de certas situações que só a escola da vida ensina. Eu ri muito, ri não só com os lábios; ri com a alma; ri da minha cara de bobo, com a sabedoria daquele homem simples, com a resposta pronta na ponta da língua; ri do doutor aqui, com um diploma no bolso, mas que, naquela hora, não foi capaz de sair daquela situação embaraçosa.
Restou-me o consolo: Rir faz bem!