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CLAUSURA

Vivo enclausurado
Na doçura dos teus beijos
Nas curvas fechadas
Do teu corpo nu…
Quando começo a viver
Me embaraço de desejo
Porque me mato de amor
No momento que te vejo.

QUANDO EU DIGO

Quando eu digo
Vou embora
É porque fico
E jamais vou
Meu a Deus
Significa
Uma oferenda
Ao Criador.
Quase sempre
Uma oração
De um pecador

VERBOS A PARTE

O homem divide-se
Em três partes,
A primeira é barro
É terra fria,
A segunda é arte,
É alma é poesia.
A terceira sou eu
Quem diria.

VAZIO

Meu peito está vazio
Não tem mais coração
Substituí por fibra ótica
Pra levar minha paixão

COISA DE LOUCO

Esta tua boca
Feita só de lábios
Coisa de louco…

Estas tuas mãos
Quando me afaga
Me deixa elétrico…

Este teu corpo
Cheio de curvas
É um perigo…

Dentro do teu peito
Não tem coração
Tem fibra ótica
Para transmitir
Tamanha paixão

Mas, se não fosse
Pecado, pecar…
Não houvesse castigo
Talvez, quem sabe
Casar-me-ia contigo.

NÃO DIGA

Não diga “por conta de”
Nem também, “sou de menor”
Para a língua não ferir
Diga sim, “por causa de”
E “eu sou menor, ou maior”

Não diga, “moro na rua”
Procure outro lugar
“Moro à rua”, por favor
Morar na rua é perigoso
Você pode se machucar

Não diga, “sentei na mesa”
A mesa pode quebrar
“Sente-se à mesa”, por favor
Ou procure outro lugar.

Não diga, “fui no banco”
“Fui ao banco”, por favor
Mostre que está antenado
E pela língua tenha amor.

Pode falar o que quiser
Mas, só diga onde
Se souber aonde
E só diga aonde
Quando não souber

Quem fala errado produz afta


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LATROCÍNIO

No pescoço da vítima
Havia um fio de cabelo
Suponho, a arma do crime

Mas, só depois da autopsia
Pude comprovar o latrocínio
Roubo, seguido de morte.

O coração estava sem cor,
Frio, frágil, flácido, vazio…
Sem nem um pingo de amor.

A criminosa havia fugido
Deixando um coração ferido
E um cenário de horror

Quem não ama, não sofre por amor.

A DISTÂNCIA QUE NOS SEPARA

A distância que nos separa
É infinitamente pequena
Mas não dá pra medir
No olho-a-olho
Preciso de régua
Para medir as léguas
Que separa nós dois
A distância exata
Confirmarei depois.
Não é muita coisa
Isso posso afirmar
Quem se meter entre nós
Vai se machucar
Quer pagar pra ver?
Se meta e verá

RIO TOCANTINS

Carrego comigo
Parte desse rio
Por isso sorrio
E me ponho a pensar
Se hoje sou rio
Um dia serei mar.

COISA DE POETA

Um poeta na rua
No meio da madrugada
Uma janela entreaberta
Duas tranças penduradas
Um balde de água fria
Acaba com a poesia
Duma cena inusitada…
As tranças se recolhem
O poeta todo molhado,
Põe a viola no saco
Já é tarde, vai embora

DESENCONTRO

Quando a alegria bate
na nossa porta da frente,
A tristeza sai pela nossa
porta do fundo.


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TROCA, TROCA

Troquei a fechadura da porta
Depois que você entrou
Troquei os lençóis da cama
Depois que você usou…
Os beijos trocamos nós
Depois de fazer amor.

MEIO BARRO, MEIO HOMEM

Barro amassado
Ainda meio argila
Já meio homem
Deus soprou-lhe
Nas narinas
Deu-lhe a vida,
E livre arbítrio
Foi descansar
No sexto dia
Sem imaginar
Que o trabalho
Bem acabado
Ainda não havia.

LEVO A VIDA

Levo a vida que eu levo
Da vida eu não levo nada
Minhas angústias relevo
Deixo uma obra inacabada

LÍNGUAS

Conheço bem
Duas línguas
A minha e a sua
Eventualmente
Conheci outras
Sapecas, marotas…
Puras, impuras,
Às vezes inseguras
Nem por isso
Menos línguas

DESPUDOR DA LUA

O Sol debruçou-se
Sobre o firmamento
Esperando a Lua
Pro acasalamento
A Lua chegou
Grávida de sonho
Vazia de pudor
Cheia de astros
Minguante de amor
E foram dormir
Em quarto crescente
O Sol coitado
Esperando a Lua
Chegar nova(mente)
Nem vazia, nem cheia
Lua simples(mente)


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CONFISSÃO DE DÉBITO

“Devo, não nego
Pago quando puder”
Não sou desclassificado
Mas se não puder não pago
Eu sou pobre e analfabeto
Mas, não costumo dever
Eu quero pagar todo teto
Uma parte quando eu morrer
A outra eu mando de lá
Bote seu endereço completo
Pru mode eu poder pagar.
Agora que está tudo certo
Bote uma, pra comemorar

MINHA POESIA

Minha poesia
Se faz e se desfaz
Todo tempo
O tempo todo…

No seu labor
Mostra-se em cor
Deixa-se ver
Deixa-se ler
Com todo ardor

Se não a mostro
Ela se guarda
Na vanguarda
Deste meu peito
Até que a posto

Quando acontece
Não é mais minha
Mas leva a marca
Por onde for
Deste poeta
Que a gerou

PERDAS

Minha primeira perda
Foi o útero materno
Depois o leite do peito
E ainda não satisfeito
Em seguida perdi o colo
Tive que dormir no solo
Sem as cantigas de ninar…
Criei meu próprio canto
E inventei o meu pranto
Pra quando eu quiser chorar

Vou refazer minhas pegadas
Em busca do tesouro perdido
Embora saiba, não ache nada

Tomara, eu esteja, errado.
Tomara, meu Deus, tomara!

DESCOBERTA

Descobri que as alturas
Já não mais nos tenta
Por isso aqui mesmo
No chão do nosso quarto
Eu te tento, tu me tentas
De modo tão contínuo
Continuamos tentando
Sem nenhum medo de cair
Assim passamos o tempo

Pois você é uma tentação!


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MEU DESTINO

Meu destino
É fazer poesia
De tudo que é perene
De tudo que fenece
De tudo que é efêmero
De tudo que apodrece

CALVÁRIO

Tive um dia
Extra(ordinário)
Não fosse o calvário
Porque passei
Quem sabe, talvez
Só fosse poesia

ODE AOS OLHOS

Teus olhos castanhos claros
Os teus cabelos castanhos
Parecem uma tentação
Quando você sai do banho
Meu Deus! Que provocação

Teus olhos azuis celeste
Tinta que sobrou do Céu
Presente que tu me deste
Acobertado com um véu

Os teus olhos verdes mata
Eu comparo a um rio mar
Se parecem duas cascatas
Quando começam chorar

Termino esta ode aos olhos,
com os versos de Castro Alves.

“Teus olhos são negros, negros
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos
Como o negrume do mar”.

RIO TOCANTINS

Hoje sentei-me
No corredor da saudade
E lavei o meu rosto
Com os dejetos da cidade

Dos tempos de invernia
Só restou a saudade
E matéria pra poesia.


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DESCONSTRUÇÃO

Desmanchei
Com minhas mãos
O que Deus fez
No sexto dia
Reconstrui-me
Com o que tinha:
As manhãs frias
As noites sem lua
Os dias de chuva
Sem sol, sem poesia

Perdi, quase tudo:
A mulher amada
Fiquei meio surdo,
Não enxergo nada,
Alterei a estética
E desconstruído
Fiquei meio louco
Pensei um pouco
Meio arrependido
Fiquei meio poeta.

NOSSO ESPETÁCULO

Quando as cortinas se fecham
Com aplausos ou vaias
O espetáculo se encerra
E você me pede que eu saia.

Na verdade, é sempre assim:
Meu respeitável público
Afastem-se do púlpito
Nós chegamos ao fim.

QUEM SOU?

Eis quem sou:
Aquele que pecou
Para ter a humildade
De te pedir perdão.

Difícil é me manter puro
Deslizando nas tuas curvas
Com os faróis apagados
Na mais completa escuridão.

Uma força centrífuga
Me afasta.
Uma força centrípeta
Me atrai.
Sigo desgovernado, sem direção.

BRASIL

Credo em cruz,
Te desconjuro,
Tanto aumento de preço
Tanta cobrança de juro
Nem sei onde vai parar
Se assim continuar
Esse país no futuro.

No fundo do poço,
não é.
No fundo do fundo,
já estamos.

ESCASSEZ

Quando a bunda não abunda
é porque não há bunda
nem esperança.
Pois a bunda só abunda
quando há bunda
em abundância.

NOITES & DIAS

Nas minhas noites sem lua,
qualquer luz de vagalume é dia.
Nos meus dias inférteis, qualquer
verso de pé quebrado é poesia.


STAND-UP COM POESIA

EU QUERIA SER PLURAL

No abraçar, no beijar,
No riso, nas lágrimas,
No toque, no olhar,
Na cama ao deitar,
No leito, do meu jeito…
Eu queria tanto, tanto
E de tanto eu querer
Acaso eu não consiga
Quero você, do mesmo jeito.

ANTES DOS OLHOS

Sempre projetei meus olhos
Para chegar antes de mim
Mas, como estava escuro
Eu tropecei em você
Chegando antes dos olhos
Acho, foi melhor assim

PENA DA PENA

Não me dá pena quando a pena
Seca pra dar vida ao poema.
Mas, me dá pena quando a pena
Seca pra não dar vida a cena.
Aí dá dó.

BAÚ DE POESIA

Levei alguns anos
Para descobrir a senha
Secreta da minha essência
Foram apenas alguns dias
Para perdê-la novamente.
Hoje amargo a agonia
Sem saber aonde se esconde
O meu baú de poesia.

O POETA

Na aridez dos meus dias
Eu não tenho fome de pão
Minha fome é de poesia


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RECEITA PARA AMAR

Comece pela testa
Detenha-se nos lábios
Deslize as mãos pelo corpo
O resto você já sabe.
Não?
Vem que te ensino.

QUERO

Quero que teus encantos
Fiquem em algum canto:
No quarto, na sala,
Ou na escrivaninha…
Onde escrevi estes versos
Só te peço como castigo
Me deixe uma lembrança
Ou então, me leve contigo.

GUARDADO

Guardo comigo
Um pedaço de ti
Pra tatear a noite
Antes de dormir
Pra sentir teu jeito
Quase perfeito
De me fazer sorrir

A VOCÊ

Amei a ti uma só vez
Mas com tanta intensidade
Que durou a vida inteira.

ESPELHO

Eu quero sim, um espelho
Que reflita a minha essência
Não somente a aparência
Que conheço e sei de có
Quero ver o meu xodó
Motivo da minha alegria
Guardado com muita calma
Nos recônditos de minh’alma
Eu quero ver minha poesia

POESIA

Tivesse eu que me acabar
Na mais cerrada escuridão
Queria eu ter às mãos
Um livro de poesia.


STAND-UP COM POESIA.

SEI NÃO…

Só sei que não sei não
Se foi da noite pro dia
Do dia pra noite, foi não
Só sei que o que eu sei
O certo é que de repente
Eu sei que me apaixonei
Não me pergunte mais nada
Porque é só isso que eu sei.

Quase nada.

* * *

VOCÊ

Eu trago o meu coração
Na ponta de cada dedo
Na mente trago um enredo
Na minha mão uma pena
Para escrever um poema
Guardado como segredo
E ai me aparece você
E eu escrevo o poema
Pois você é o meu tema
Não há mais nada a fazer

* * *

O PINTADOR DE DESASTRE

Pinto a noite enluarada
Da janela do meu quarto
Divido, parto e reparto
Fico com a pior parte
A que causou o desastre
Do Tocantins a agonia
Depois da Ave Maria
Pinto a dor, pinto o frio
“Sem lápis pinto meu rio
Só usando a poesia”

Mote encontrado aqui no JBF


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PROCURA-SE

Procura-se um puxador de palmas
Para o tema, salvar o Têmer
No Congresso Nacional
Que está cheio de problema

* * *

PAGA-SE BEM

Passagem para Curitiba
Só de ida, não tem volta
Em um jatinho da FAB
Acompanhado, com escolta

Entrevista com Sergio Moro
Àquele da LAVA JATO
Papo de alto nível
Com um juiz de fino trato

Se a sorte lhe favorecer
Depois do procedimento
Verá, quadrado o sol nascer
Durante ainda um bom tempo

Depois de toda essa história
Para refletir, ficarás a sós
Não se preocupe com o ônus
Pois este, pagaremos nós


STAND-UP COM POESIA

ATRAÇÃO

Dizem que os opostos se atraem,
Mas, quando se tocam se incendeiam.
Por isso mesmo eu prefiro os iguais.
Eu mais você, igual a nós dois.

* * *

COMO SOMOS

Somos como:
Unhas e esmalte
Lábios e batom
Tímpanos e som
Ferimento e dor
Nariz e odor
Sutiã e seio…
Até que a morte
Nos separe
O resto não sei.

A quem interessar possa:
Estamos felizes, todos nós
Conseguimos desatar os nós
Que nos prendia a vós.

Anulamos nossos votos.

* * *

GOSTO PELA POESIA

Ainda implume fiz
meus primeiros versos.
Hoje emplumado,
meus versos me fazem.

* * *

NOSSOS PECADOS

Jesus morreu
Pregado numa cruz
Viveu momentos
De grande agonia
Foi sepultado
Ressuscitou dos mortos
No terceiro dia
A cruz continua lá
Aonde nós o pregamos
Com nossas ações impuras
Todos os dias.

* * *

PRIMEIRA VEZ

Primeiro contado com o amor
Me deixou tonto
Eu não estava pronto
Fiquei bem alto do chão
Metade de mim era pecado
A outra metade era perdão
Metade de mim dizia vai
A outra metade dizia não…
Minha maior dificuldade
Depois que tudo passou
E que até hoje eu estou
É juntar as duas metades

Uma me diz que estou certo
A outra que estou errado.

* * *

A CARA DO PAI

Minha poesia é a minha cara,
mesmo quando não se parece
comigo.

Poesia é essência.


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MEU HABITAT

Meu poema é brejeiro
Minha poesia é de taipa
Meu verso de chão batido
Sem luxo, sem megabytes…
Só assim ela faz sentido
Minha vida nesse habitat.

* * *

TUDO EU

O projeto da Dilma
Nem eu mesmo aguento
A maneira correta
De estocar o vento

Nem ata,
Nem desata
Nem prende,
Nem esquece
Ou vida ingrata
A vida do Aécio

Esse chove,
Não molha
Não há
Quem engula
O tríplex
Do Guarujá
É da OAS
Ou do Lula?

Eu faço
Eu mando
Eu quero
Eu posso
Eu estou
No comando
Eu prendo
O Palocci

Eu temo
Que o Têmer
Age com desprezo
Não teme
O que eu temo
De vê-lo preso

* * *

SINO OU SINA

As badaladas do meu peito
Plangem igual as do sino
Quando te vejo menina
Não sei bem se é direito
Mexer comigo desse jeito
Se é meu sino ou tua sina

* * *

O QUE EU QUERIA E O QUE EU QUERO

Quando eu era criança
Tudo que eu queria, era:
Um rolamento estragado
Uma câmara de ar furada
E um cavalo de pau.
Era tudo que eu precisava
Pra construir o meu sonho

Adulto o que eu quero
Um mundo decente
Feito essencialmente
Sem choro e sem dor
Construído com argamassa
Da essência do amor.

E se mais te posso pedir
Eu te peço Senhor
Constrói um mundo de paz
Pras gerações do porvir


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HISTÓRIA DE AMOR

Quando nos casamos
Você não tinha nada
Eu tinha menos ainda
Juntamos o teu nada
Com o menos que eu
Ainda tinha, e vendemos
Com o lucro do apurado
Até hoje nós vivemos
Quarenta anos depois
E ainda temos estoque
De amor pra mais quarenta.

* * *

SACIEM-ME

Não concordo:
Que matem a sede
Que matem a fome
Exterminem o homem…
O crime não compensa
Prefiro que saciem.
mas se querem matar
Sugiro que mudem
Proponho um desvio
De verbas da saúde,
Corte na educação,
Sucateiem a segurança…
São maneiras de matar
Sem ferir e sem sangrar
Pela supressão do sonho

* * *

RESISTÊNCIA INÚTIL

Resisti enquanto pude
Mas cedi aos teus encantos
E como sou homem rude
Não te ofereci meu pranto
Só minha alegria, meu canto,
Meus versos e minha poesia
No momento isso me basta
O resto faremos juntos:
O que você acha?

* * *

CORAÇÃO DEFEITUOSO

Meu coração criou calo
Batendo dentro do peito
Quando viu você passar
Remendo não dá mais jeito
Ele só vai bater direito
No dia que você voltar.

* * *

MEU SONHO

Eu tenho um sonho
Me perder contigo
Num lugar a sós
O Céu como abrigo
Não sabe os fazeres?
Não se preocupe
O tal sonho é meu
Pergunte, eu te digo


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RESPINGOS

No meu quarto
Respingou você
Resta saber

Se entrando
Ou saindo
Se entrando
Se abanque
Crie raízes
Me ame depois

Se saindo
Me leve
Ou então
Seja breve
Volte depois

O mundo foi feito
Pra viver a dois.

* * *

SE PRA TE AMAR…

Se pra te amar
Tenho que te aprender
Hei de te aprender.
Se pra te aprender
Tenho que te amar
Hei de te amar.

Se algum dia
Eu não mais te ver
Hei de te sentir.
Se pra te sentir
Eu tenho que te ver
Hei de te ver.

Se eu
Não te aprender,
Não te amar,
Não te ver
Não te sentir.
Hei de te sonhar,

E se pra te sonhar
Eu tiver que dormir
Hei de dormir

Se esse é o preço
Eu pago o castigo.

* * *

COLISÃO FRONTAL

Você vinha quente
Eu estava fervendo
Você ardente
Eu derretendo
Na rota de colisão
Você inexperiente
Abalroo meu coração
Entre feridos e mortos
Todos viraram cinza


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POETA LOUCO

Às vezes me sinto louco
Às vezes me sinto poeta
Quando sou poeta louco
Eu não me sinto

Às vezes eu sou passado
Às vezes eu sou presente
Quando eu sou futuro
Não me reconheço

Será quem sou?

* * *

ARREPENDIMENTO

Deus
Quando fez o homem
Pensou em tudo
E certamente
Não se arrepende
Só não deve ter pensado
Que da sua imagem e semelhança
Sairia o Gilmar Mendes

* * *

ENVELHECIMENTO

Envelheceu o meu corpo
Cabeça, tronco e membros
Só para citar as partes
Que no momento eu lembro
Por isso recorro a ti poesia
Quem sabe tenha um remédio
Pra minimizar meu tédio
E embotar a minha dor
Quem sabe, talvez, um verso,
Talvez, quem sabe, a fantasia…
Ou quem sabe, talvez, o amor.

* * *

QUEM FUI? QUEM SOU?

Já fui sardinha num coletivo
Viajando para o trabalho
Oprimido, pisado, espremido…
Antes de ser aposentado

Passei vexame, passei fome…
Para atingir minha meta
Só consolidei meu nome
Quando me tornei poeta

Sem mais nada pra fazer
Fiz poesia pra sobreviver

Estou vivo, querer mais o que?


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TENTAÇÃO

Você se despia
À beira do lago
Não me vê fingia
Virava às costas
Eu ficava de lado
Só pra te olhar
Mais uma vez
Depois perguntar:
Tem gente aí?
Embora soubesse
Que só tinha você.

* * *

NOSSOS ÓRGÃOS

Meu coração
É uma bomba
Que explode
Quando te vê

Teu corpo
É uma brasa
Que incendeia
Quando me toca

Nossos encontros
Só resta cinza
Incendiado
Pela paixão

Moral da história
Somos uma brasa
Mora!

* * *

NORDESTINO

Nordestino não nasce
Estréia
Quando o nordestino
Estréia
Nordestino não chora
Declama
Quando as cortinas da vida
Se fecham
Nordestino se recolhe
Pra escrever poesia.

* * *

AMEAÇAS

Tô sofrendo ameaças
De vida longa
Durante o dia
Mesa e banho
Durante à noite
Quarto e cama
Corpo em chamas
Com teu beijo quente
E com o sol nascente
Do outro dia
Se você quer saber
Tudo de novo
O mesmo sacrifício
Fazer o que
Só se submeter
São ossos do ofício…

Oh Deus!
Tende piedade da gente.


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PEDIDO DE AJUDA

Tô sofrendo ameaças
De vida longa
Durante o dia
Mesa e banho
Durante à noite
Quarto e cama
Corpo em chamas
Com teu beijo quente
E com o sol nascente
Do outro dia
Se você quer saber
Tudo de novo
O mesmo sacrifício
Fazer o que
Só se submeter
São ossos do ofício…

Oh Deus!
Tende piedade da gente.

* * *

EU QUERIA SER…

Eu queria ser um pássaro
Para atingir as alturas
Numa fantástica aventura
Olhar com ironia pra baixo…
Não sou.

Não sendo eu queria ser
Um renomado poeta
Sendo eu queria escrever
Poesias lindas pra você…
Não sou

Eu queria ser uma criança
Numa aventura incrível
Acreditar que sou livre
Como manda os estatutos
Não sou

Pequei por ser um adulto

Não sendo nada vou sendo
O que nunca pensei em ser.

* * *

TIRA TUDO

Amor: Tira estas tuas vestes
Que me impede de ver tuas curvas
Tira tudo, tira às meias, tira as luvas…
Já não há mais pecado em se despir
Vem comigo, espera só, o sol nascer
Se você ainda quiser, pode se vestir.

* * *

SILÊNCIO

O meu poetar
Quem sabe, talvez
Não seja tudo

O meu cantar
Talvez, quem sabe
Também não sei

Outros poetam
Os pássaros cantam
E também encantam

O que mais dói
É o que eu penso
Quando não falo
E que me desconstrói

O pior de tudo
É este silêncio
De um poeta mudo.

* * *

QUANDO ÉRAMOS… QUANDO

Quando éramos crianças
Olhávamos, brincávamos
Tocávamos, abraçávamos
Beijávamos sem maldade
E na maior simplicidade
Íamos nos conhecendo
Quando éramos… quando
Tudo sem, querer querendo
Acabávamos fazendo sexo
Eu acho.

Aquilo sim, era poesia
O que escrevo hoje, não


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CHEQUE AO PORTADOR

O Brasil de hoje é um cheque ao portador sem provisões de fundos.

Nem sei se o meu Brasil
Querido, está no fundo
Ou mesmo se estão
No fundo do meu Brasil
Sei que nesse fim de mundo
Deste país varonil
A nossa maior carência
É a provisão de fundos
O verde, amarelo, azul-anil
Das cores da nossa bandeira
Pintaram num fundo roxo
Com um vermelho nas beiras

Estamos carentes de fundos!

* * *

ADEUS

Teu adeus machuca
Doe dentro de mim
É sempre assim
Me falta inspiração
Fico numa encruzilhada
E preciso escolher
Melhor seria
Que não tivesse adeus
Que não me faltasse você

Você me faz falta poesia.

* * *

SEM ÓCULOS

Aos sem óculos, o que é dos cegos.
O tato.
Aos poetas, a liberdade de escrever
Os fatos.

Sem óculos
Não escuto nada
Não sinto a brisa,
Não tem gosto a comida
Só o tato das minhas mãos
Percorrendo seus desvãos
Ainda faz sentido.

Somente isso, mais nada.

* * *

MENINO DE RUA

Um menino cruzou
O meu caminho
Fraco, mirradinho
Esperança perdida
Quase sem vida
Semidespido
Olhar perdido
Melancólico, absorto
Uma ruga no rosto
Marca da desilusão
Me disse baixinho
Senhor, por favor
Me dê um trocado
Pra comprar um pão

Além da esmola
Dê-lhe um sorriso
Velho e surrado
Mas era preciso
E eu tinha de sobra
Ele saiu correndo
Dinheiro na mão
Talvez pra comprar droga.

Dei a costa
Ao menino de rua
Meio perdido
Mas com a sensação
Do dever cumprido


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SE O TEMPO VOLTASSE

Se de repente
Subitamente
O ontem voltasse
Criança eu virasse
Se você quer saber
Eu não queria crescer
Se o tempo voltasse
Eu faria uma casinha
Ia brincar de médico
Só nós dois, eu e você.

* * *

LEILÃO

Quem me dá
Um tostão furado
Num coração quebrado
Sem chance a vista
De ser recuperado

Quem arremata
Esse exemplar da raça
Boêmio, notívago…
Dormindo na praça

Quantos reais
Valem a prenda
Façam oferendas
Quem dá mais?

Façam seus lances
Que não seja o mínimo
Deem uma chance
Que de lábia ele é o fino

Ninguém se habilita
Estou mal na fita
Essa minha desdita
A mim inquieta
Ninguém quer comprar
O coração de um poeta?

* * *

MEU LIMITE

Meu limite
Está no infinito
E no desvão
Entre o principio
E o fim, estou eu
Pintando o sete…
E está você
Sem o que fazer
Julgando a mim.

* * *

ÓCULOS ESCURO

Usei óculos escuro
No meio da noite
A injustiça me cega
E se você não sabia
Ela também acontece
À luz do dia.

E sem óculos
Eu não a enxergo.


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SER OU NÃO SER

É fácil ser Lewandowiski
Toffoli e Gilmar Mendes
Nem precisa competência
Basta aval do presidente
Nesse Brasil jurisconsulto
De povo frágil, belo, inculto…
Difícil mesmo é ser gente

* * *

MEUS DELÍRIOS

Em meus delírios
Chego a aspirar
Fortuna.
Quando estou sóbrio
Não desejo
Coisa alguma.
Tenho alguém
Que por si só
Já me completa
Esteja sóbrio
Ou delirando.
Eu sou poeta.

* * *

ORGASMO DE AMOR

O Sol ejaculou
No útero da terra
Luz e calor
Pela primeira vez
A terra teve
Um orgasmo
Em flor

Era primavera.


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa