CRASE

Exageros à parte, você é quase tão necessária quanto o ar que respiro, mas tenho dificuldade de lidar com você; falta intimidade, cumplicidade, querência, adivinhação do que está querendo para aquele momento.

Confesso que não a tenho entendido direito, apesar de haver estudado um pouco sua anatomia; estou muito longe de saber o que você quer e quando quer ser usada. Gostaria de ter uma relação mais íntima, pois, com certeza o nosso relacionamento melhoraria significativamente.

Tenho muitos defeitos, bem sei! Um deles é não procurar conhecê-la melhor e com isso tenho estragado nosso relacionamento. Por causa desses defeitos tenho escutado duras críticas.

Os tempos mudaram, tudo evoluiu, só você não arreda pé de sua postura gráfica; até acordos ortográficos já fizeram, tirando a acentuação de algumas palavras. Você, não! Você continua a mesma, fiel sempre a seus princípios. Bem, apesar de tudo, tenho sido forte o suficiente para vencer todos esses obstáculos que se interpõem em meus caminhos. Devo vencer mais essa dificuldade. Um dia vou colocá-la no seu devido lugar, e minha comunicação ficará mais simples, mais objetiva, mais agradável e mais inteligível.

Oh “crase”, como você me dá dor de cabeça! Um dia eu a decifro! Pode crer!

Crase é um dos metaplasmos
Em face da supressão de fonemas
Que as palavras estão sujeitas
Aprendê-la vale a pena.

Trocando tudo em miúdos
Vejam só como se faz
Diante de palavras femininas
E na junção de dois “as” (A+A).

A junção da preposição “a”
Com o artigo definido “a(s)”
Assistirei “à” peça com você
Se algum tempo me sobrar.

Há ainda aqueles casos
Em que a crase é obrigatória
À medida, à noite, às vezes…
Use a crase, sem demora.

Alguns motivos me motivam
Usar a “crase” no que escrevo
Outro tanto me priva:
Tê-la presente, não devo.

Antes de palavras femininas
Quando admitem o artigo (A)
Desde que o termo regente
Uma preposição exija.

“Devo obedecer às leis”
Vigentes do meu país
Preciso dar bom exemplo
Dos meus atos sou juiz.

“Vou à cidade fazer compras”
Veja como é fácil usar
Identifique a preposição
Usando o verbo voltar.

(Voltei da cidade)

A CRASE E OS PRONOMES:

A crase não é do pronome,
Mas de um caso especial
Junta-se a preposição “A”
Com o seu “A” inicial.

Pronome Aquele:

Com os demonstrativos
Encontre a preposição “A”
Irei àquele cinema
Quando esta chuva passar.

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LIVROS

Juntas, uma palavra à outra,
Separadas por vírgulas ou pontos
Se unidas formarão as frases
E estas os parágrafos e pronto

Os parágrafos por sua vez
Juntos no mesmo contexto
Versando sobre o mesmo assunto
Unidos formarão os textos

Textos que um dia livros serão
E contarão muitas histórias
De lutas, fracassos e vitórias

Livros que encherão estantes
E antes mesmo de serem lidos
Pelas as traças serão comidos


MAL DE ALZHEIMER

Quando não há mais certeza possível,
Só o amor sabe o que é verdade (Lisa Gênova)

Tributo de amor a quem amou e esqueceu.

No princípio eram três:
Você a luta e a vida,
Juntas lutaram e venceram
Depois de uma batalha renhida

Cerziram as imagens da vida
Com fios dourados dos sonhos
Amealharam com a lida
Porções de perdas e ganhos

Mas às vezes a vida acaba
Sem acabarmos de vivê-la
Como se ainda possuíssemos
Quando acabamos de perdê-la

As cores vivas esmaecem
Sonhos viram pesadelos,
Os ontem a gente esquece
Os amanhãs não vamos tê-los

Assim restou só você
A luta está perdida
O tempo te fez esquecer
A vida, efêmera vida.

Dedico este texto a: Auta Fernandes de Miranda (minha sogra), 92 anos. Portadora do Mal de Alzheimer. Como todo portador deste mal, a vida existe, como se não existisse vida; coisas dizem, como se não dissessem coisa alguma; amigos têm como se não houvessem amigos… 


PARA

Para tudo
Para o tempo
Para a chuva
Para o vento
Para o ônibus
Para o centro
E escreve os “paras”
Sem acento.


GRAFIA DAS PALAVRAS

O “hífen continua vivo
Nos compostos singular
Cujo, segundas palavras
Começa com a letra “H”

Exemplo:

Mal-humorado, super-homem,
Anti-higiênico e co-herdeiro…
Cuidado, observe a regra,
E não entre em desespero.

Do pré-primário ao pró-reitor
O tracinho permanece
Vai até a pós-graduação
De além-mar os cidadãos
Emocionados agradecem

Com os prefixos “além,
Ex, pós, pré, pró e sem,
Recém e vice”, o correto
É usar o hífen também.

O maroto (hífen) continua:
Eu explico e justifico
Se a vogal final do prefixo
Igualar-se a inicial do sufixo

Exemplo:

Não sofra um “contra ataque”
Por desconhecer as regras
Use o hífen, e “contra-ataque”
Não use a gramática às cegas

Não queime seu “micro-ondas”,
Sem hífen, pode queimar
Separe o “micro das ondas”
Juntos sem hífen não dá


NOVA ORTOGRAFIA

TREMA:

Tranquilo perdeu o trema
Mas continua tranquilo
Não vejo nisso um problema
Tranquilo mesmo sem trema
Permanece tranquilo

Escreveu linguiça com trema?
Contenha-se, não faça isso!
Quem coloca trema em linguiça
Está cometendo um desperdiço  

HÍFEN:

Suma com o “hífen”
Da sua “minissaia”
Grafe-a com dois “SS”
Se não quiser levar vaia.

“Anti-rábica” legítima
Duplica-se o “RR”
Abole-se o “hífen”
Lembre-se, não erre.

REGRA GERAL:

Lembre-se que os prefixos
Terminados em vogal
Juntados as outras palavras
Por “R” ou “S” começadas
Abole-se este sinal (-)
Duplica-se o “R” ou o “S”
Pra seu português não ir mal

Mas o “hífen” continua vivo
Abordaremos posteriormente
Ainda neste ano letivo
Para alegria dos discentes


DÊ-ME O QUE ME FALTA

Dê-me uma alavanca
Eu já tenho o apoio
Moverei o mundo
Se preciso for.
Para onde houver paz
Esperança e amor.

Dê-me o Sol
Todo amanhecer
E antes dele posto
Conquistarei um lugar
Com meu trabalho
E o suor do meu rosto

Dê-me uma praia
Eu já tenho a areia
A maré vazante, a maré cheia
E por acréscimo o Mar
O sol forte e a lua cheia
E o tempo para desfrutar

Dê-me um pouco de fé
Do tamanho de um grão de mostarda
O Deus eu já tenho
E Ele é quem Ele é
Uno, trino e imutável;
Luz, esperança e mister

Do que me serve o apoio
Se a alavanca faltar.
O amanhecer de cada dia
Sem um sol pra brilhar,
Se não tenho praia
Do que me serve o mar
É como o Deus que acredito
Se não puder confiar.


TÔ NEM AÍ

Tô nem aí
Pro final do mundo,
Pra Bacia de Campos
Com petróleo no fundo
Assusta-me mais
O final do mês
As contas a pagar
Todas de uma vez

Tô nem aí
Pra quem pintou o Céu
Quero é o resto da tinta
Uma tela e um pincel
Pra pintar a vida
Antes que a vida acabe
Da cor da esperança
De repente, quem sabe?

Tô nem aí
Pro final da espécie,
Limpar a terra
A natureza agradece.
Repovoar o planeta
Preocupa-me mais
Erramos uma vez
Duas vezes é demais

Tô nem aí
Pras previsões Maia
Tenho por certo a morte
Os aplausos, as vaias…
Meu futuro é uma incógnita
Por isso vivo, tão somente
Esquecendo meu passado
E vivendo meu presente.


OS MICOS QUE PAGUEI

Mais uma vez aqui estou, na frente da tela do meu PC, martelando sem dó nem piedade o seu teclado, a fim de registrar alguns micos que paguei durante minha caminhada nesta vida até aqui. Claro e evidente, depois de consultar a emoção e a razão. Contarei apenas os que o bom senso permitir.

O trabalho duro (na lavoura), a disciplina rígida, o lazer na hora certa, a educação com autoridade por parte dos meus professores, as sabatinas acompanhadas pela palmatória, (terror de todo estudante da época), formaram minha personalidade. Não aconselho ninguém criar filhos assim, até porque os tempos são outros; porém, não condeno meus pais pelas palmadas aplicadas no lugar e hora certa.

Os bons e os maus momentos são passageiros; o barato é tirar deles lições para nossa vida. Aprendi muito com as pessoas com quem convivi. Apr endi que o trabalho dignifica, o amor santifica e a sabedoria abre todas as portas quando usada para tal fim. Mas, pode fechá-las se for usada com esperteza (malandragem).

Todo esse enunciado é para falar “dos micos que paguei”. Num dos primeiros que me vêm à lembrança, fui apenas coparticipante. Lembro-me das palavras do meu velho: “Quem trabalha na roça, enquanto descansa, carrega pedras”. E eram verdadeiras as palavras do meu pai. Quem trabalha na lavoura, quando não está preparando a terra, esta plantando a semente; quando não está plantando a semente, está limpando a lavoura; quando não está limpando a lavoura, está colhendo os frutos; quando não está fazendo nada disso está praticando alguma atividade inerente. No nosso caso, tirando madeiras (cedros: madeira abundante na região) para confecção de armários, guarda-roupas, depósitos de cereais e outros. E foi exercendo essa atividade que vi meu pai pagando um grande mico, levand o-me junto e me mostrando como sair de uma situação embaraçosa sem perder a pose.

Enquanto meu pai arreava os animais, eu e meu irmão, 10 e 12 anos, muito jovens para o trabalho que se avizinhava, o acompanhávamos naquela tarefa. É observando que se adquire a experiência necessária para usá-la no futuro: dizia meu velho. Depois de uma caminhada exaustiva durante seis horas, chegamos ao local do acampamento. Uma roça com bastante milho verde, um feijoal cheio de vagens maduras, um pequeno rancho coberto com palhas de babaçu e mata virgem em volta. Meu pai inspecionou a mata e contou cinco árvores que, ao amanhecer do próximo dia, seriam vítimas da sanha predadora do fio de nossos machados.

Desarreamos os animais, peamo-los para que não se evadissem das proximidades do rancho e a convite do meu pai seguimos por uma trilha dentro da roça a fim de colher umas espigas de milho e algumas vagens de feijão. No retorno para o rancho, numa curva do cam inho, encontramos o dono da roça.

– Boa tarde, seu Raimundo!

– Boa tarde, seu Ezequiel!

Depois dos cumprimentos de praxe, meu pai apressadamente procurou explicar, meio sem jeito, a atitude incorreta de colher as vagens e as espigas de milho, sem autorização do proprietário.

– Eu colhi algumas vagens do seu feijão para tirar sementes para o próximo plantio. Não possuo essa variedade de feijão e me parece muito boa.

– Seu Raimundo, esse milho verde é também para tirar sementes? – Perguntou seu Ezequiel.

Meu pai, de vermelho ficou amarelo e, em seguida, branco como uma folha de papel. Deu um sorriso meio forçado e resmungou algumas palavras ininteligíveis. Depois se apertaram as mãos, deram boas gargalhadas do fato. Colher algumas espigas de milho e algumas vagens de feijão, naquela época e naquele lugar, não constituíam crime algum, pois havia em abundância.

No meio popu lar há muitas formas de malandragens ou espertezas. Muitas delas são por uma questão de sobrevivência. Uma espécie de instinto, em que o mais fraco, debatendo-se pela vida, tenta escapar dos mais fortes, utilizando sua inteligência; outras, por puro mau-caratismo. Nas feiras livres espalhadas por todo o Brasil é onde se concentra o maior número dessas duas espécies; os malandros querendo a qualquer custo se darem bem às custas da ingenuidade dos mais humildes: geralmente, gente da roça, pequenos produtores vendendo seus produtos diretamente ao consumidor, tentando ganhar um dinheirinho extra para complementar a renda familiar, normalmente muito baixa.

Numa dessas feiras livres (Mercadinho de Imperatriz – MA), paguei meu segundo “mico”. Sem meu pai por perto, tive de engolir minha própria arrogância. Bem feito! Perdi uma ótima oportunidade de fechar a minha “matraca” e deixar de querer ser mais sabido que os caboclos escolados pela vida. Ao co mprar algumas raízes de macaxeira, querendo tirar onda com o vendedor, pessoa muito simples, perguntei:

– Essa macaxeira cozinha, caboclo?

– Senhor, toda macaxeira cozinha. Umas amolecem, outras não.

Essa foi a resposta do vendedor. Restou-me meter a viola no saco e me retirar ante as gargalhadas de ironia de outros vendedores.

Com filhos fazendo faculdade no Rio de Janeiro, sempre dávamos um jeito de custear as despesas muito altas com a faculdade e a estada deles, antevendo, é claro, um futuro promissor quando terminassem o curso.

Sempre que havia oportunidade íamos visitá-los, levando alimentos regionais não perecíveis de que tanto gostavam: tapioca, polpa de frutas, carnes… Lá chegando íamos ao supermercado para abastecer a geladeira, normalmente vazia: coisa comum a todo estudante. Numa dessas visitas, minha esposa resolveu comprar algumas panelas: coisas simples e de pouca duração. Fomos a uma feira livre e depo is de inspecionar uma frigideira, ver o tipo de material, espessura…, minha esposa perguntou o preço.

– Quanto custa esta frigideira, moço?

– Dezoito reais, respondeu o feirante.

Mais uma vez, perdi a oportunidade de ficar calado e não passar vexame.

– E com desconto?

– Vinte e oito reais, senhor.

– Como assim? Você está querendo me gozar?

– Perdão senhor, não foi essa minha intenção – respondeu o vendedor. É que dezoito com dez contos são vinte e oito, qualquer criança sabe disso.

Este diálogo foi suficiente para minha esposa, “rodar a baiana,” “chutar o pau da barraca”, e sair dali amaldiçoando o vendedor. E quanto a mim, me pus a pensar: os bancos da faculdade me ensinaram muito, mas não me ensinaram a me sair de certas situações que só a escola da vida ensina. Eu ri muito, ri não só com os lábios; ri com a alma; ri da minha cara de bobo, com a sabedoria daquele homem simples, com a resposta pronta na ponta da língua; ri do doutor aqui, com um diploma no bolso, mas que, naquela hora, não foi capaz de sair daquela situação embaraçosa.

Restou-me o consolo: Rir faz bem!


CONVERSANDO COM DEUS

Estive conversando com Deus,
Aproveitei e falei de você.
Pra minha surpresa e agrado
Deus disse te conhecer.

Falou de certas particularidades,
Do amor que você tem pra dar;
Falou com tanta propriedade
Que não tive como contestar.

Disse-me que sempre esteve ao teu lado,
Nas dificuldades te carregou no colo,
Quando passou a tempestade,
Suavemente te colocou no solo.

Disse-me ainda que te ama muito,
Que não quer vê você triste,
Que nesse mundo cheio de ódio
O amor ainda existe,

Que se você precisar Dele
É só abrir seu coração,
Fechar os olhos pra ver
O Senhor Deus em seu irmão.

Disse-me com prazer profundo
Que nunca pensou em abandono:
Que “Ele é o dono do mundo,
E você, é a filha do dono”.

Dedicatória:
 
Com reiterado carinho
A Luciane Trevejo
Um abraço apertado
Seguido de um grande beijo. 


ME (DITANDO)

Parei
Pensei
Escrevi
Publiquei
Se alguém leu
Não sei.

Parando
Pensando
Escrevendo
Publicando
Alguém lendo ou não
Continuarei escrevendo

O tempo urge
A inspiração surge
O poeta é o meio
A poesia a porta
Quem quiser conhecê-lo
Leia o mundo à sua volta


VERDADES

Gosto do olho no olho
Pra começar a questão
Gosto dos toques, dos gestos
Oponho-me a rejeição

A verdade tem que ser dita
Embora a verdade doa
Mais vale a verdade explícita
Que uma mentirinha a toa

Suporto bastante as falhas
Pois não sou infalível em falhar
Agüento os porres alheios
Até permito-me embriagar

Por isso às vezes me recolho
No meu canto a ruminar
Cogito, reflito, penso…
E me ponho a gargalhar


EU E MEUS TEXTOS

Existe um antigo adágio popular que diz: “ De poeta e de louco todos nós temos um pouco”.  Nunca, em momento algum da minha vida, acreditei nesse ditado, pois nunca imaginei ter alguma coisa, nem de louco, nem de poeta. Nunca apresentei qualquer sintoma que me levasse aos palcos da vida para executar a arte da poesia, muito menos fui a um hospital para tratamento de loucura. Tenho escrito alguns textos, é verdade; apelidados de poesias por alguns amigos, escritores e poetas (e outros nem uma coisa nem outra, mas talvez todos bem mais loucos que eu).

De tanto apelidarem-me de poeta, senti-me na obrigação de estudar os grandes poetas, Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves  Dias, Fernando Pessoa … O resultado é que me apaixonei pela poesia, percebi que o nordeste não é só o berço da poesia , o nordeste é muito mais que isso. O nordeste sempre foi, é e sempre será o habitat  dos grandes poetas, humoristas, artistas, e outras pessoas do gênero.  Hoje, “Sou quase poeta, falta pouco; Sê-lo-ei um dia, ou louco”.  Todo esse Bla, bla, bla. É só para partilhar a minha alegria com a comunidade fubânica  pela homenagem feita a esse “quase poeta”, pelo Colégio COC de Imperatriz, durante o IV Sarau Literário –Canta e Encanta Imperatriz em  Verso e Prosa- . Veja a seguir o que escreveu e publicou em alguns jornais locais, a diretora do COC.  Digam se não é motivo para ficar exultante de alegria com uma homenagem dessas. 

* * *

Academia Imperatrizense de Letras recebe homenagens em evento literário

Francisco Itaerço, aluno do COC e Agostinho Noleto

“Choveu dentro de mim e amoleceu meu coração”. Foi assim que o poeta Itaerço Bezerra se apresentou aos alunos do Colégio COC, na manhã chuvosa de quinta-feira. De forma leve e divertida, Itaerço teve a companhia do historiador e vice-presidente da Academia Imperatrizense de Letras, Agostinho Noleto, na palestra que faz parte da programação do IV Sarau Literário do Colégio COC.

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NATAL

“Só o impossível é digno de ser sonhado. O possível deixa-se colher no solo fácil de cada dia.” (Abgar Renault)

Eu vi!
Ninguém me contou
Quando o ano findou,
Num doce abrigo
Uma companheira, um filho,
Tão raro, um avô,
Ou mesmo um amigo,
Celebrando o amor.
 
Eu vi!
Famílias reunidas,
Celebrando a vida,
Deixando fluir
De dentro de si
Um amor generoso
Num heroísmo estranho
Beijar um leproso
Como São Francisco beijou.
  Lembrei-me
De que há no mundo
Criaturas de Deus
Sem um companheiro,
Sem o avô tão raro
Sem um beijo de mãe
Ou de um filho, talvez
Ou até sem um livro,
Que substitui um amigo.
 
Eu vi!
Ninguém me contou
Uma estrela no Céu
Brilhando, tão linda
E tive olhos ainda
Abertos para ver
A esperança renascer
No sorriso de uma criança
Neste ano que finda.
Eu vi!
Ninguém me contou
Quando o ano findou
Excessos de abraços
Escassez de calor.
Abundância de vinho
Para o banquete fatal
Do final do ano
Ou do ano final.
Acordei, era sonho…
Sonho de Natal. 
 


HOMENAGEM

Na segurança das tuas decisões, eu sinto o Sol se inclinar, e ouço as cantigas antigas, cantigas que vêm do mar.

Tivesse a minha poesia aroma, e as estrofes fossem flores;
Tivessem os meus versos mil fragrâncias femininas,
E a minha tosca rima, o aroma que acalenta:
Das rosas, dos jasmins, dos cravos e das boninas…
Ainda assim seria pouco, para homenagear a Presidenta.

Portanto, Presidenta, hoje te darei um ramo cheio
De essência tropical com aroma transcendente;
E com a devida vênia, sem nenhum recheio,
Oferto-o, hoje, feliz e alegremente.

Mas, como do poeta, a voz lastimosa
Não pode transformar-se em flores ou em perfumes
Porque as rimas não possuem a beleza das rosas,
E as estrofes não contêm das estrelas o lume…

Aceita, portanto, estes meus versos sem cor,
Tal como um buquê de violetas que caem
Dos meus lábios um sorriso – é pobre o mimo e sem valor,
Mas é de coração, Presidenta! Aceita, por favor!

Homenagem a Edna Ventura, Presidenta da Academia Imperatrizense de Letras, pela passagem do seu aniversário, dia 11/11.


FÁTIMA

“Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos fere e nem cicatrizes deixam,
mas há pessoas que simplesmente aparecem em
nossas vidas e nos marcam para sempre.” (Cecília Meireles)

A primeira vez que fitei você,
Eu disse moça, permita lhe oferecer
O Céu azul e a Lua cor de prata.
E uma noite linda pra nos conhecer!
Prazer eu disse a tremer com a fala.

Você, corando, murmurou: prazer.

No final da noite, eis que apareceu
Da alcova cálida um cavalheiro
Inda beijando uma mulher sem véu
Era eu… Era você, contemplando o Céu. 
Prazer lhe disse, conservando-a presa…

Você murmurou: o prazer é meu!

Mas o destino nos pregou uma peça
Depois de muito amor e de promessas
Parti chorando, lhe dizendo adeus
Antes lhe disse – “Voltarei!… descansa!
E você chorando mais que uma criança

Entre soluços murmurou: adeus!

No exílio quando a saudade apertava
Tantas vezes me flagrei pensando em você
Correndo ao meu encontro e eu ao seu
Entre abraços e beijos, conseguia dizer:
Te amo tanto, e um dia voltarei.

Você respondia: A te esperar sempre estarei!

Quando eu voltei já era primavera
Fechei os olhos e vi na minha frente
Duas mãos estendidas a minha espera
E uma voz sussurrando docemente:
Leva-me contigo, se partires fores.

Descansa moça, ficarei pra sempre!

Dedico este texto a mulher (Fátima) que divide o mesmo espaço físico comigo há mais de 30 anos e pretendemos continuar juntos por mais 30. Fátima esteve aniversariando dia 24/10/2011.


RECORDAÇÃO

Eu lhe asseguro, seu dotô,
Cuma era bunito meu sertão
Vê a fugueira queimano
A gente as batata assano
Nas noite de São João

Meus dez fio, dez muleque,
Eram dez muleque ao meu lado
Hoje dispois de criscido
Só resta dois véio sufrido
Os muleque tão ispaiado

Chega sê bom arrecordar
E arrecordano agradeço
A Deus do Céu nas artura
Se passei tamanha agrura
É pruque, Deus, eu mereço.

Era bunito de uvi
O tum-tum-tum do pilão
Quando a muiezada pisava
Quebrano o da lavra
Prumode fazer pirão

De tarde ficava sastifeito
Quando vortava do roçado
Eu incontrava o terrêro
Inté parecia um polêro
Intupidim de gado

Eu ficava ispiano
Meus fio, ispiava mais eu
Um nó na guela do gado andano
Era a cumida vortano
Cumida que os bois cumeu.

A noitinha quando eu via
Despregano do horizonte
O brilho pálido da Lua
Sem tuaia, quage nua
Como sereia na fonte

Minha véia do meu lado
Butano os zoio in neu
Eu butava os zoio in nela
E pra fazer um agrado prela
A Lua eu dizia adeus

E nois intrava pra dento
Uvino a voz do riacho,
Só pra manter aquele clima
Eu fechava a porta de cima
E ela a porta de baixo

Logo eu apagava o candiêro
E omentava a iscuridão
Nois fazia o nome-do-pade
Incumendava os cumpade
Dispois duma oração

E nois drumia garradim
Só ocê veno pra crer,
Quando o dia quilariava
E a passarada acordava
Nois dois si ria, num sei de quê.


ESPERO QUE O CÉU ME ESPERE

Sem alimento, sem água:
Eu vivo!
Sem fazer poesias:
Não vejo motivos!

A poesia está em toda parte:
Rarefeita!
À espera do poeta:
Pra ser feita!

Plantei árvores, gerei filhos:
Com prazer!
Só ainda me resta alguns versos:
Pra fazer!

Espero que o Céu me espere:
Um pouco mais!
Viver neste mundo louco:
Ainda me apraz!


SUBLIME MISSÃO

“Dê ao teu próximo o melhor de ti, nem sempre serás recompensado. Não importa, dê o melhor de ti”. (Belmiro Braga)

Abriga em teu seio
Filhos indolentes,
Desperta, oh tu que dormes!
Vem, emerge do teu ócio
E aos desgraçados socorre.

Construtores esparsos
Pela face da Terra,
Tuas pegadas em esquadrias,
Os laços indissolúveis
Encerram uma filosofia.

Sulca este solo,
Suplanta teus vícios,
Ergue templos às virtudes,
Rega as obras com teu suor
Para que pelos teus exemplos
Os povos mudem.

Esparge a tua paz,
Premia com tua luta
O povo de toda a terra.
Tua ilibada conduta
Um idealismo encerra.

Congrega homens probos
E persegue a perfeição
Pela reverência às coisas sagradas,
Pela a exaltação às virtudes,
Pelo respeito aos irmãos.

Trava lutas gloriosas
Sem objetivar mérito algum.
Serás olhado pela sociedade
Com respeito e temeridade
E, no fundo, no fundo,
És um homem comum.

Do livro, Cada Poesia Uma História, 10/2001. 


ÚLTIMO PEDIDO

Se algum dia eu morrer
Amigos, façam-me um favor
Enterrem-me com todas as honras
Das quais o poeta é merecedor.

Se quiserem chorar, chorem
Não se façam de rogados
Deixem um punhado de lágrimas
Pra chorar pelos meus pecados

Não me tragam flores, por favor
Flores colhidas, fenecem…
Plantem roseiras ao meu lado
Roseiras plantadas, florescem…

E se uma brisa suave
Roçar vossos rostos
Não se assustem:
É a minha gratidão
Assediando a todos vós


ASSALTO AO POETA

Assaltaram um poeta
Durante uma caminhada
Vejam só que palhaçada
Assaltarem à luz do dia
Alguém que só faz poesia
Sem ganhar ouro nem prata
Olha quanta gente ingrata
O nosso planeta empesta:
Quem rouba de um poeta
Vendo Jesus, fere e mata

A mim, não roubaste nada
Pois de nada sou portador
Carrego somente o amor
Aqui dentro do meu peito
E se ainda não sou perfeito
Não tenho a mente nefasta
Que do bem sempre afasta
O homem cheio de arestas:
Quem rouba de um poeta
Vendo Jesus, fere e mata

Quem rouba de um poeta
Rouba a alma e a poesia
Rouba a paz e a alegria
Rouba a pena e o tinteiro
Cala a voz de um seresteiro
Rouba o verde desta mata
Rouba ouro, rouba prata…
Rouba as barbas do profeta:
Quem rouba de um poeta
Vendo Jesus, fere e mata.


DISCURSO DE POSSE

Tributo de agradecimento a essa gente que aqui veio para assistir este ato solene de posse, gente que vê a grandeza de Deus numa gota de orvalho, no trinar de um passarinho, no nascer e por-do-sol, num abraço apertado ou num simples aperto de mão. Canção a esse bravo povo. Povo alegre e feliz que trabalha de sol a sol para promover o progresso de Imperatriz.

A solenidade que estamos assistindo faz-me sentir integrado ainda mais à sociedade imperatrizense, aos seus sonhos, às suas aspirações e aos seus objetivos, nem sempre fáceis de serem alcançados, mas não impossíveis.

Fui sempre um sonhador, e sempre agi de acordo com os meus sonhos. Sempre muito obstinado, mas não muito ambicioso. Todos esses sonhos, aspirações, objetivos… foram regidos pela batuta do maestro, Raimundo Alves Bezerra (meu pai).

Hoje, ao ultrapassar o umbral da porta desta Casa de Letras, além da presença de todos os senhores e senhoras, sinto, também, a presença dele, bem pertinho de mim.

Meu pai era uma pessoa, aos filhos, onipresente. Estava onde quer que estivesse um filho seu, física ou espiritualmente; a sua presença sempre foi muito forte em minha vida e, agora, não está sendo diferente.

Por isso, hoje, meu grande desejo, ao transpor a porta desta Casa, é transpor, também, tempo e espaço, voltar lá para minha infância e ouvi-lo dizer: você conseguirá tudo que desejar, basta sonhar e lutar. 

– Se lutarmos, mudamos as coisas; se nos acomodarmos, mudamos nós.

– Filho, o mundo é para quem nasce para vencê-lo e não para quem apenas sonha conquistá-lo.

Foi com meu pai que aprendi que as dores, erros, sofrimentos e mágoas que se alternam; as alegrias e tristezas, êxitos e fracassos vivenciados em cada etapa da nossa jornada representam o fole, a bigorna e o martelo utilizado pelo artífice da vida para ir forjando a nossa personalidade e o nosso caráter.

Meu pai fez-me acreditar, ainda, que não importa em que estágio da vida eu esteja, o meu futuro estará sendo escrito, naquele instante, por mim mesmo. Por acreditar que o nosso futuro é construído a cada instante da nossa vida, e por nós mesmo, é que exclui do meu vocabulário a palavra “realizado”. Esta soa em mim como fim, e “fim” não deve acontecer enquanto respirarmos. Creio que a cada vitória alcançada é apenas uma batalha vencida. A guerra ainda não está ganha, a vida continua. Sobre isso transcrevo o pensamento Daniel Basílio.

– “Quando a vida passa ligeira… seja pelos pés que andam lento, pelas palavras que não dizem nada ou pelos gestos que fazem pouco; quando ela se remete ao vazio do agir repetido, um cotidiano mastigado, imperfeito. Uma vida, assim vivida, é derradeira em cada minuto.

Ainda hoje ecoa nos meus tímpanos, as palavras do meu pai – Eu não te disse: “Tudo que desejares, conseguirás, basta sonhar e lutar”.

Senhores acadêmicos, amigos queridos que me trouxeram a esta Casa para mais próximos compartilharmos nossas vidas e o amor à literatura. Agradeço a todos, a unanimidade do bem-querer. Esta alegria tão minha se transforma em dupla alegria pela partilha.

Termino minhas palavras com a poesia de um poeta ausente, mas tão presente e oportuno neste momento, “Sanzio de Azevedo”.

“Há momentos na vida que compensam
A grande, imensa turbulência porque passamos
De angustia e de agonia.
São clareiras de luz na selva escura,
Frestas abertas na aridez dos muros.
Há momento que vale por toda uma vida…”

E este, é um deles, acadêmicos desta Casa.


MINHA LOJA, MEU REFÚGIO

Cheguei até a Ti
seguindo pegadas indissolúveis
de homens livres e de bons costumes.(Itaerço)

Majestoso templo de justiça e paz,
Lenificador das agruras da vida,
Congraçamento de homens virtuosos,
Sedes luz, pelos íngremes caminhos,
Para encontrar a palavra perdida.

És o mais sublime estigma
De respeito e amor ao próximo.
Hei de ver brotar de tuas colunas
Obreiros plenos de força e sabedoria,
Aptos a lutar por um mundo próspero.

Exemplo de compromisso ratificado
Em cada elo da cadeia de união,
Pacto de amor fraterno,
Gotas do Orvalho de Hermon
Ungindo As Colinas de Sião.

Que o mundo não julgue que acobertas
Articuladores na construção de um mundo novo,
Mas que tu sejas um marco nesta caminhada
E que de Ti reluza lampejos de luz sagrada
Iluminando o caminho de um povo.

O teu secretismo a poucos não agrada,
Mas muitos te respeitam e te admiram.
Hoje quase balzáquia, envelhecestes com os anos;
Conservas, porem, o vigor da juventude.
Que sejas tu eterna aos que te amam.

Do livro: CADA POESIA UMA HISTÓRIA. 29/10/2001.
Texto dedicado à loja maçônica, União e Fraternidade de Imperatriz Nº 10,
Ao completar 33 anos. 1º /Set./2000.
 


PELOS CAMINHOS QUE TRILHEI

“Nossa vida é uma balança com duas conchas iguais:
Numa a alegria descansa , na outra descansa a os ais.”
(Belmiro Braga)

Dei meus três primeiros passos,
Emergi da escuridão,
Submeti minha vontade,
Lutei em busca da verdade,
Trilhei os caminhos da perfeição.

Sorvi a taça sagrada
Da boa e da má sorte,
Jurei fidelidade,
Respeito às coisas sagradas,
Enfrentei a lida, combati a morte.

Com vigorosos golpes de malho,
Desbastei a pedra bruta do meu ser.
Com desvelados critérios,
Descobri da vida os mistérios,
Tornei-me um escravo do dever.

Procurei alguns atalhos
Pelos caminhos aonde andei,
Foram erros involuntários:
Eu perdi, perdeu o mundo,
O certo é que eu pequei. 

Foram levianos meus passos
Na minha vertiginosa ascensão,
Por desvirtuadas medidas,
E pra levitar o meu fardo
Fiz chorar alguns irmãos.

Foi infecundo meu sacrifício,
Pois no balanço dos meus feitos
Olho o caminho percorrido,
Vejo gramas de virtudes
E toneladas de defeitos.

Criança, fui justo inconsciente;
Homem, sou consciente imperfeito,
Cônscio, da patética fragilidade humana
Aprendi que nesse mundo perverso
Só o Mestre dos Mestres é perfeito.

Mas, se os teus exemplos
Em detrimento das más cenas
Sufocarem toda desgraça
Que avassala toda essa gente
Tua luta terá valido a pena.


A HERANÇA

“Ele me invocará, dizendo: Tu és meu pai, meu Deus…” (Salmo 89:26).

Pai,sou teu fã, teu fruto, teu sangue, teu hoje, teu amanhã: sou teu filho… Sou “homem feito”, mas sou um menino imperfeito; continuo bebendo da fonte de tua sabedoria e sentindo a necessidade do teu direcionamento na minha vida. Continuo sentindo falta do teu jeito imperfeito ou quase perfeito de me ensinar coisas. Foste tu que me ensinaste a amar a Deus sobre todas as coisas e ao meu próximo quase como a mim mesmo. Eu disse “quase”, porque como tu mesmo dizias: não é possível ensinar a alguém coisas outras que não sabemos.

Não sei por que no fim da estrada de nossos velhos, eles ainda têm de se preocupar com a nossa segurança, com o nosso futuro. No teu olhar sempre severo, no teu jeito reservado, tu nunca conseguias esconder de mim tua preocupação com essas coisas. Pai, nunca foste dono de posses materiais, bens terrenos…, mas deixaste para mim bens infinitamente maiores. Herdei de ti as lembranças, as doces conversas à beira da fogueira, do barulho gostoso das reses no curral remoendo os alimentos, das manhãs à mesa, do café bem encorpado, adoçado com rapadura, do leite fresco e do queijo quente.

E a saudade? Eu quase ia me esquecendo da saudade. Saudade daqueles dias em que te via tão feliz, com um apito nas mãos para dirigir uma partida de futebol (tua maior paixão). Pai, tu parecias um rei! Cada assopro no apito era como uma ordem aos teus vassalos.

As debulhas do feijão nas noites enluaradas e tu contando histórias assombrosas; o estrume em tuas alpargatas quando entravas em casa sob os protestos de minha mãe dizendo – ome, a casa está bem limpinha, deixe os chinelos lá fora, e vá logo tomar seu banho; assim, desse jeito, não há mulher que agüente. E tu, na calma habitual: – Ô mulher! Você já não ouviu falar que o homem é feito de barro? Se começar a lavar demais, gasta? Não percebe o quanto já estou gasto?

Tu sempre tinhas a última palavra, muito embora, imediatamente fosse para o igarapé tomar teu banho para atender tua rainha. Estas lembranças ninguém as tira de mim.

Ô pai! Rabisquei essa dor e em nenhum momento mencionei as palavras: “eu te amo”, outra marca tua. Sempre dizias eu te amo com a alma e nunca com as palavras. Acredito ter herdado de ti, isso também. 


QUE PAI SOU EU?

“Tornar-se pai não é difícil, Difícil é sê-lo.” (Wilhelm Busch)

Será que sou pai?
Impondo condições,
Sempre com a razão,
Que reprime, que briga,
Que cobra, que castiga,
Que determina: me siga…
Oh! Senhor, estou sendo pai?

Que pai sou eu?
Que tolhe a liberdade,
Faz valer a paternidade
Por conveniência, com autoridade,
Em nome de minha realidade.
Muda-me, Senhor!
Quero ser pai de verdade.

Meu filho, não sou tão imaculado!
Na minha peregrinação
Tenho errado.
Os meus ensinamentos
São limitados.
Nunca ouvi a razão,
Nem o teu lado.
Se um dia fores como eu,
Estarás errado,
Foste vencido,
Não realizado.
E eu me sentirei copiado.

Com a palavra, Luciane Trevejo. Será que sou pai?

Do livro: Cada Poesia Uma História. 29/10/2001. 


ANTES, DEPOIS

Primeiro a inspiração
Seguido da poesia
Depois o olhar
Antes da magia.

Lábios entreabertos
Demonstrando desejos
Úmidos, frêmitos…
A procura de um beijo.

Respiração ofegante
Entrecortada por ais
Excitante, efervescente…
À procura de mais.

Um longo suspiro
Corpos suados
Relaxamento total
Fim do primeiro ato.

Se cerceássemos o antes
Ao menos um de nós dois
Evitaríamos certamente
As conseqüências do depois.

Do livro, MEIAS METADES, HISTÓRIAS DE VIDAS CONTADAS EM PEDAÇOS.


A COR DOS TEUS OLHOS

Os teus olhos castanho-claros
Claro que me chamam atenção,
Mas o castanho-claro dos teus olhos
Não me provocam paixão.

Os teus cabelos castanhos
Parecem uma tentação.
Quando você sai do banho,
Meu Deus, que provocação!

Os teus olhos castanho-claros,
Os teus cabelos castanhos
Chamam-me a atenção, é claro,
Mas não me provocam paixão.

Nem a força da minha entrega,
Nem a fraqueza da tua negação,
Nem esse amor que me cega
Me provocam tanta paixão.

A essência da tua alma
O que sai do teu coração,
Isso, sim, me tira a calma
E me desviam da razão.


AGONIA DE UM RIO

E um ocaso
Nasce dentro de mim a cem por hora
Para acelerar a tristeza d’alma
Pelo deslavado desprezo às tuas águas (Itaerço)

Corre lento, ô, Tocantins!
Lambe a terra que te assoreia
As margens nuas, sem capins,
E o leito inteiro cheio de areia.

Beija a areia, bate nas fragas!
Choram tuas ondas, choram em vão.
É inútil e triste o choro das águas,
Só enche de mágoas meu coração.

Duvido que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que meu clamor.
Ouço tua voz, agonizante, moribundo…
No homem eu sinto só desamor.

É a morte negra que se avizinha
Com capuz no rosto e foice na mão.
Ah, Tocantins, que sorte mesquinha!
Piedade, amigo, peço-te perdão!

Ah, que saudade do Gorgulho da Rita,
Onde as crianças pescavam piaus!
Saudades infindas das areias límpidas
Lembram-me ainda a Praia do Cacau!

Meus nefastos atos do teu leito eclodirão,
Dos quais eu mesmo, me envergonho
Entre agonia, desespero e pranto em vão,
De ferir de morte o rio onde tomo banho.

É meu desejo e aqui a Deus imploro:
Tuas águas voltem a ser puras e cristalinas,
As gerações futuras não chorem com eu choro,
Suas lágrimas não sejam tristes como as minhas.


QUERER DE POETA

Quis a poesia, que eu não morresse
Imortal ficasse, no que eu escrevo
E as gerações futuras percebessem
Que pra sempre vivo, no meu acervo

Quis o poeta escrever mil poemas
Que fossem leves, claros e sucintos
Nas noites de luar, claras e belas
“Regados à vinhos – se possível tinto”

Mas o poema não quis ser cativo
Quis ser de todos, sem ser de ninguém
Sem ficar preso as páginas dos livros…

Quis o poema ser mais que um poema
Brilhar bem mais que o seu criador
Acabei desistindo de fazer poemas


FACA DE DOIS GUMES

“Se há um país desenganado, envergonhado de si mesmo,
Vencido, faminto, nu, doente, analfabeto, irritado, é este.” (Rachel de Queiroz)

Pra que lei do divorcio?
Se a família é uma instituição falida,
Se o juramento de amor infinito
É pura cláusula protocolar,
Fica o dito pelo não dito.

Oh Deus! Legalizar aborto pra quê?
Se a doença, a fome, a miséria,
Com seu furor insano
Dizimam nossas crianças
Antes de completarem ano.

Imunidade no trânsito,
Balas perdidas e drogas,
Na verba da saúde o maior corte,
O flagelo das favelas:
Pra que pena de morte?

Onde estás, ó país tropical,
Terra de samba, futebol e carnaval,
Nação de encantos mil,
De solo fértil, exuberante floresta? 


CUMPLICIDADE

Numa noite de embriaguez
Minha chave fez outra vez
Amor com a fechadura
E eu do lado de fora
Esperei mais de uma hora
Ah meu Deus, quanta tortura!

Lembro-me fui conivente
Com aquele ato indecente
Porque estava embriagado.
E foi sem querer, querendo
Que acabei permanecendo
Do lado que estava errado

Foi longa a minha espera
Bem sei que tarde já era
Pois a Lua brilhava no Céu.
E eu segurando uma vela
À noite cúmplice chancela
Dos dois em lua de mel

Beber, já nem bebo mais
Fumar, jogar, comer, tanto faz…
Vou me livrar desses entraves.
Esperar fora não me conforta
Por favor, abram-me a porta
Eu não carrego mais chave.


AMOR PLATÔNICO

Quero amar você como os poetas amam
Pois sinto por você mais que amizade
E a chama ardente que do teu peito emana
Ora me inunda, ora me alaga, ora me invade…

Não quero ter você só por um momento
Tenho em mim teu rosto em tela: pura arte
Diante de tão rica obra, meu encantamento:
Chorar ou sorrir, ficar ou partir: faz parte

Quero recriar do nada a cria e o Criador
Reproduzir em tela meu contentamento
E pela a minha obra morrer de amor

E se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus, a dor do pranto
Vem matar essa paixão que anda comigo


ACONTECEU VIROU CORDEL

Tsunami no Japão
Terremoto no Haiti
Enchente no Piaui
Lampião chegando ao Céu
Noticias do mundo inteiro
No nordeste brasileiro
Aconteceu virou cordel

Mensalão a luz do dia
Corrupção em cores e ao vivo
Farra com cartões corporativo
Políticos em lua-de-mel
Noticias do mundo inteiro
No nordeste brasileiro
Aconteceu virou cordel

Morre José de Alencar
Nardonis assassinam filha
Trem bala descarrila
Tráfico no Morro do Borel
Noticias do mundo inteiro
No nordeste brasileiro
Aconteceu virou cordel

Avião cai na Amazônia
Pescadores se perdem no Mar
Greve do Corpo de bombeiros
Soldados detidos no quartel.
Noticias do mundo inteiro
No nordeste brasileiro
Aconteceu virou cordel

Sangrando e inconsciente
Homem foi socorrido
Com ferimento no tornozelo
Por picada de cascavel.
Noticias do mundo inteiro
No nordeste brasileiro
Aconteceu virou cordel.


ORAÇÃO

“A força da poesia inspirada
Pelos céus é grande” (shakespeare)

Oh Deus, meu Criador, meu Pai!
Fazei, com tua sabedoria,
Que em cada momento da vida
Encontrem-se amor e poesia

Que deste acasalamento
Ecoe um canto de paz
Espalhando amor pela Terra
Guerra, desarmonia, jamais.

Que eu te possa pedir, meu Senhor:
Que todos se dêem às mãos
Onde houver paz, profunda paz.
Possa fluir teu perdão.

Que eu tenha um único propósito
Amar a Ti e ao meu próximo
Permita meu Deus, eu existir
Pela ação do Pai Nosso

Que o poeta que existe em mim
Não possa nunca morrer
Enquanto ainda houver
Um único verso a fazer.

Do livro: Cada Poesia uma História. 29/10/2001  


SALMO 133

“Tudo é bom saindo das mãos do Criador (…).” (Rousseau)

Ah! Como é salutar aos olhos do Senhor
Que eu viva em paz, harmonia e amor;
Que, derramado sobre a cabeça de Aarão,
O precioso óleo seja como uma bênção
Para que eu habite em união com os irmãos.

Que o cristalino orvalho de Hermon,
Que banha as longínquas colinas de Sião,
Lave de mim todo orgulho e vaidade
E que a repercussão das minhas atitudes
Seja benéfica a toda humanidade.

Óleo derramado sobre a fonte,
Escorra suavemente sobre o corpo,
Purifique e odorize a minha mente
E pelo teu poder de conversão
Eu possa viver fraternalmente.

Do livro “Cada Poesia Uma História” 29/10/2001


A MORTE DA MORTE

Ainda hei de assistir
O velório triste da morte
E com um pouco de sorte
O seu enterro também

Ironias da minha parte
Levarei com carinho
Uma coroa de espinhos
Sem flores brancas, amem.

Meu desejo é poder carpir
Um punhado de lágrimas
Externar minhas magoas
Pela má sorte da morte

Se algum dia eu morrer
O que acho pouco provável
Que seja um fato notável
Depois que a morte morrer


O PAGADOR DE IMPOSTO

Pago pelas ondas do mar
Pela brisa soprando na praia
Pelo clarão pálido do luar
Pelos aplausos e pelas vaias

Se pago um dia pra andar
Ando o que pago por um dia
Pago até pra versejar
Pago pra fazer poesia

Pago pedágio na estrada
Porque ouvi alguém dizer
Ôh verba bem empregada!
Estou pagando pra vê

Pago pelo meu consumo
De água e de energia
Depois que faço o resumo
Paguei mais do que devia

Paguei imposto na fonte
Do salário nada sobrou
Restituição? Nem lhe conto!
Porque a fonte secou

Pago por tudo que como
Como pouco do que pago
Pago por filé mignon
Como feijão com quiabo

Pago no supermercado
Tudo, tudo que consumo
Metade pelo comprado
Outra metade de insumo

Pago por todos e por tudo
Pelos políticos e por mim
Na verdade, nem discuto
Porque sempre foi assim

Pago por você e por mim
Pelo milagre e pelo castigo
Sou um consumidor mirim
Sonegar eu não consigo


TUDO O QUE VI

Vi pássaros presos
Vi ladrões soltos.
Vi médicos curando,
E mulheres praticando aborto.

Vi o povo se abraçando,
Seus representantes brigando
O palácio do Planalto vazio,
E o presidente viajando.

Vi crianças com fome,
Vejo-as pedindo, chorando…
Pessoas passam apressadas:
Poucas estão ajudando.

Vi rios poluídos:
Sem vidas, só dejetos.
A humanidade agonizando,
Consumindo seus restos.

Vejo drogas nas ruas:
Não está mais escondida.
Crianças se prostituindo
Que droga de vida!

Vi velhos nas filas
Recordando a infância
Madre Tereza partindo,
Levando nossa esperança.

Vi os deputados
Aumentarem seus salários.
Ouvi o presidente da república
Me chamando de otário.
(ou foi vagabundo?
Nem lembro mais).

Pelo o acima exposto,
Tenho mil motivos pra chorar.
Lama respingando no meu rosto.
Há pouco o que comemorar.

Do livro Cada Poesia Uma História 29/10/2001


CAMINHE

“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
procede tal e qual o avozinho infeliz:
em vão, por toda parte, os óculos procura,
tendo-os na ponta do nariz!”
(Mário Quintana)

Caminhe com alegria
Mesmo que te seja difícil a estrada.
Não te detenhas pelo caminho,
Não pare – não te adianta nada –
Nem de ninguém tomes a frente:
Apenas caminhe.

No teu caminhar profícuo
Irás encontrar empecilho.
Quando um obstáculo surgir,
Lembra-te, terás de vencê-lo,
Ninguém o fará por ti.

Se em tua árdua caminhada
Alguém mal te quiser,
Não porfie, apenas caminhe:
A gloria do ser bom só é boa
Pelo bem que tu fizeres.

Se tropeçares pelo caminho,
Não desanime, apenas caminhe.
A vida é mesmo assim:
Tropeçar, cair, levantar e seguir.
Não tente fazê-la diferente,
Você não vai conseguir.

Lembra-te que a felicidade
Não está no final da jornada,
Mas em cada curva do caminho.
Portanto não tenha pressa.
Sem caminhar, não te adianta nada.

Deixo-te meu fraterno abraço
Dizendo-te cordialmente:
Não vai muito longe o dia
Em que muitas lágrimas verti,
Em que muitas vezes tombei
Por não caminhar como devia.

Do livro: Cada Poesia uma História. 29/10/2001


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