DOMADOR DE LOBISOMEM

Quem na vida conheceu um contador de histórias como tive a felicidade de conhecer o amigo Bodó, pode dizer que  ouviu causos que  até o Cão duvida. Ao passar de fronte a casa dele, numa sexta-feira, há alguns anos atrás, assim que o cumprimentei ele veio ao portão. Enquanto puxava o trinco para que entrasse para a área da casa da irmã, com quem morava, foi logo dizendo.

- Oi, Gerardinho, por hoje ser sexta-feira, e ainda com esse luar descarado, me veio agora na cabeça uma história que o finado pai João me contava e que é de dar até arrepio. O pai até evitava contar esse causo, acontecido quando nós morávamos lá na Fazenda Santa Rosa, , que se deu justo numa sexta-feira de uma noite de lua cheia como você está vendo aí. Vamos chegar pra cá que eu já vou puxar a memória e contar do jeitinho que o pai me contou.

- Puxa vida, Bodó! Deve ser mesmo um caso do Arco da Velha – disse eu curioso por mais esta pérola que ele, grande contador de histórias, sabia contar como poucos.

- Isso já faz muito tempo, mas você deve ter ouvido falar de um  tal  Júlio Damasceno. Ele era carroceiro  da Fazenda Santa Rosa, em Timburi, onde você também morou quando criança, mas  acho que isso aconteceu antes de você nascer.

- Ouvi falar dele, sim. Até havia uma lenda que ele virava lobisomem e passeava pela colônia fazendo grande alvoroço – confirmei.

- Aí que está o nó da questão. Que lenda, que nada! Até era engraçado que ele só andava de camisa de manga comprida pra esconder o esfolado dos cotovelos, sempre calejados da peleja de lobisomação.

- Não brinca, Bodó. Isso é coisa séria. Mas como foi ? O seu pai chegou a ver ele virando lobisomem?

- Não. O pai não chegou a ver essa transformação, mas teve prova de que ele virava lobisomem e saía assustando meio mundo, uivando no meio da cachorrada que o perseguia. Às vezes invadia o galinheiro, e era aquela gritaria que assustava a colônia inteira. Mas aconteceu de uma vez a carroça passar por cima do pé dele. E não é que gangrenou? Aquilo arruinou de tal modo que ele teve que ir para um hospital de Ourinhos e, como não havia outro jeito, cortaram uma perna dele.

- Nossa! Parece-me ter ouvido meu avô  contar esse fato – assenti.

- Foi isso mesmo. Foi seu avô, o seu Manuel, que era administrador do Sylvestre Egreja, que encaminhou ele para mais  recurso. Ele até resolveu o problema, mas aí  não pode trabalhar mais. Só ficava em casa. Em casa é modo de dizer, conforme vou lhe contar, tim-tim por tim-tim.

- Isso mesmo. Pode contar que sou todo  ouvidos, Bodó.

- Pois passado um tempinho que ele havia chegado, já com uma perna cortada,o pai escutou um banzé no terreiro: cachorrada latindo, galinhada num escarcéu danado e um uivo que rasgava no compasso do vento toda a colônia. O pai, como você conheceu, era homem de coragem. Passou a mão num pedaço de pau e foi para botar ordem no terreiro. Quando menos o meu pai deu fé, viu um cachorrão com três patas fazendo o maior fuá no meio da cachorrada. Aí o pai perdeu a paciência. Foi lá dentro de casa, passou a mão no laço e laçou o bitelo de três patas.  Digo, o lobisomem Júlio Damasceno e trouxe ele para a lamparina para uma conversa de homem pra homem. Ou melhor, de homem para lobisomem. Mesmo naquela situação, o pai tinha dó desse infeliz, que era um pai de família e até compadre de um tio meu, o Tio Marcos. Aquele cão enorme, de olho amarelo,  só podia ser o seu Júlio Damasceno. E o pai não teve dúvida nenhuma e se pôs a dar conselho pra ele: “Júlio, eu sei que cada um traz uma sina, mas agora você já está exagerando. Mesmo tendo perdido uma perna você insiste nessa lida de lobisomem, assustando todo mundo. Sofrendo agora nessa chuva fria de agosto. Eu não sou homem de julgar ninguém, porque Nosso Senhor recomendou nunca julgar o próximo. Mas eu tenho um quartinho de arreio aqui do lado da área (e o cachorrão, com o laço no pescoço, parecia ouvir atentamente ) – e vou deixar você pernoitar aqui, porque desde que me conheço por gente, meu pai falava para nunca negar pouso a quem estivesse precisado de um abrigo. Júlio, procure o padre amanhã e peça conselho pra ele. O Padre é um homem santo, que vai saber resolver essa questão. Talvez seja algum pecado que você deve. O Padre pode perdoar e você fica livre. Porque agora, Júlio, com três pernas só, seu castigo ficou maior do que qualquer pecado que você possa ter feito, ao cumprir essa penitência de viver vagando a estas horas da noite. “

- Puxa vida, quanta coragem do seu João, seu pai – elogiei.

- Ah, você conheceu o pai e não me deixa mentir que o pai não tinha medo de nada. Nem de vivos, nem de mortos e  nem do Cão. Pois aconteceu que o pai prendeu o lobisomem no quartinho e, na madrugada, ele arranhava a porta e uivava num som que espantava meio mundo. O pai enfezou, abriu a porta e ele saiu que saiu louco, gritando na noite até sumir no grotão do Bastião Batista.

- Puxa vida. Essa história até que acabou bem, mas dizem que se o lobisomem mordesse alguém passava a sina de lobisomem para quem ele mordesse. É verdade isso, Bodó?-inquiri.

- Isso é verdade, sim, mas não era qualquer lobisomem que se atreveria a morder meu velho pai. Mas para encerrar a história, confirmando que era mesmo o Júlio, no outro dia, logo cedinho, apareceu lá o seu Júlio, de muleta, pedindo emprestado um pires de sal. Tudo confirmado, esse era o sinal que  dava  o lobisomem quando  ia numa casa.

O pai foi curto e grosso:

- Olha aqui, Júlio – disse meu pai – eu já lhe aconselhei a sair dessa vida. Lembra o que eu falei para você, ontem, aqui em casa. Acho que pouco adiantou, porque você podia esperar raiar o dia e evitar a chuva que estava forte e depois ir pra sua casa.

- Não sei do que o senhor está falando, seu João – disse Júlio Damasceno chorando.

O pai – que quando ficava bravo virava uma fera – sapecou:

- Saia daqui seu lobisomem duma figa. Nunca mais passe aqui na minha porta, que eu tenho criança pequena. Se aparecer aqui de novo, vou dobrar o laço e dar uma surra tão grande em você para  nunca mais atormentar nenhum cristão.

Depois disso, nunca mais o lobisomem beirou o quintal de nossa casa, mas o seu Júlio acho que ficou magoado com o meu pai. Nunca mais foi visitar a gente, mesmo em estado normal, e até a família dele se afastou de nós.

 

VOTO COMPULSÓRIO: IMPOSIÇÃO INDEVIDA

É comprovado que  a esmagadora maioria dos seres humanos são limitados e eivados de interesses próprios, seja  individual ou grupalmente. Ressalta a evidência da  impossibilidade em agir com equanimidade  em se tratando de causas e interesses  próprios.

Situação que se encaixa como uma luva sob medida é a Reforma Política, na qual a ingenuidade tem levado muitos de nós a esperar melhorias na representatividade e no processo eleitoral. Nestes quase 30 anos de democracia plena, no malabarismo de formatar maiorias,  os chefes de Poder Executivo – por absoluta ausência de outro expediente – se obrigam a lotear cargos para acomodar interesses parlamentares, nem sempre os melhores ao alvitre da razão pura.

Mas,  antes que se perca o mote – a verdade nua e crua – salvo honrosas e raras exceções – a nossa Reforma Política, de incumbência do Congresso, a ser levada a efeito por políticos,  é nada mais do que colocar a raposa para vigiar o galinheiro.

A obrigatoriedade do Título Eleitoral e os óbices  impostos pela legislação aos que não querem exercer esse “direito”, embute uma contradição de termos entre direito e dever. Em sã consciência democrática, a qualquer cidadão no gozo de direitos políticos seria óbvio e lógico exercer também o direito de  não votar, como o consagrado direito de ir e vir.

Ainda que pulule aos olhos dos políticos, em todas as esferas, um desinteresse generalizado do povo pela política partidária – numa Nação de partidos sem cara, sem cores definidas, matizados pelo fisiologismo e locação de legendas – a classe política não leva em conta a aferição dos índices de  abstenção eleitoral e do número de votos brancos e nulos.

Mesmo agora, com a urna eletrônica, em que anular ou voto ou votar em branco está restrito à lei do maior esforço, ainda assim é grande o número dessas opções por parte dos eleitores.

O que a democracia brasileira hoje tem de expressivo, e num verdadeiro contrapeso aos atos dos agentes políticos que nem sempre bem consultam o interesse público, são as organizações de classe, entre as quais se destaca a Ordem dos Advogados do Brasil, – entre outras – como exemplos de atuação enérgica, com prestígio e lastro de credibilidade suscitando debates e fazendo a sociedade conscientizar-se do que melhor convém ao  Brasil e aos brasileiros.

De nenhum modo seria justo generalizar a classe política – mormente do Poder Legislativo – como sendo de má fé ou desnecessária. Ocioso é afirmar que qualquer Parlamento é melhor do que qualquer ditadura. Mas é inegável o ônus que todos pagamos por essa acomodação de interesses,  hoje e sempre, que já vem dos tempos do Império, e cuja solução está muito longe de se efetivar.

Fazer de cada cidadão um eleitor compulsório não honra a democracia que tanto prezamos e ora completa sua maturidade. Até mesmo para os trâmites do Imposto de Renda exige-se o Título de Eleitor como componente regular de cidadania fiscal, que nada tem a ver com cidadania eleitoral.

O VAI E VEM DA NATUREZA

Certo dia o poeta pendurou a lira e o cantor silenciou a voz; o sábio emudeceu a pena; o rico desprezou o dinheiro – que lhe negou a felicidade –  e o pobre não se importou com a própria escassez, sempre tão preocupante.

Por que o poeta deixou os versos por fazer, e o cantor, sua música por cantar? Por que o sábio enclausurou-se e todos se anonimizaram diluindo o toque da individualidade?

Simplesmente porque o poeta sentiu não ser poeta, e o cantor se deu conta de que seu canto não encantava. O rico não se sentiu abastado nem o pobre se julgou em condição de carência.

Sim! A poesia dos pássaros, transfeita em canto, envergonhou ao poeta e ao cantor. O vento a farfalhar nas folhas executou sinfonias inimitáveis no teclado estrelado da noite.

O rico sentiu a inutilidade do amealhar contínuo, ao constatar que a Natureza nada guarda para si mesma. O opulento contemplou o rio caudaloso a serpear pelas margens a fertilizar os campos, a emprestar ao céu os vapores de sua água para a chuva sobre bons e maus. Ainda constatou o homem rico a árvore frondosa pender-se de frutos e a esparzir sombra e aromas, e a doar de seu tronco a madeira para um berço ou um esquife, tudo de forma natural e anônima.

O pobre interrompeu a colheita pressurosa e viu que o Universo era rico e ele próprio era o universo.

O sábio, não por desaponto nem por despeito, recolheu-se ao íntimo e descobriu a verdadeira sabedoria. Pôs de lado os livros e contemplou as abelhas construtoras ocupadas  numa colmeia; as formigas no afã de fundar e manter um formigueiro. A semente muda a erguer-se do solo pelos braços da luz do sol.

O sábio pensou e até se sentiu mais útil. Em vez de procurar entender os átomos pelos olhos da ciência, passou a conhecê-los pelas lentes do amor. Cantou os versos do poeta e cantou as canções do cantor no palácio do rico e na choupana do pobre. Assim o eterno dia continuou….

As nuvens devolveram ao rio a água, em forma de chuva que este lhe confiara em forma gasosa. As plantas perfiladas às suas margens também sorriram em verde agradecido. Assim seguiu o rio por entre árvores frutíferas e figueiras bravas, de forma impessoal, na certeza da continuidade natural da vida. Ciente de que “no Universo de Deus nenhum gesto fica sem paga.”, como disse Emerson.

SABENÇAS DE NEGO VEIO

Lá pelos anos de 1950, viveu e morou  num sítio no município de Timburi –SP,  um Pai de Santo, conhecido como CAPIXABA. Ele fazia sucesso com enorme clientela que vinha de perto e de longe.  Era um negro já idoso, que morava num rancho, só ele e a mulher. Ele atendia  sua freguesia ali mesmo na varanda, ou,  quando o caso era mais reservado, a pessoa entrava numa saleta onde ele tinha um altar com santos e santas  pra todos os gostos. Certo dia apareceu em sua tenda um moço um tanto estouvado, que parecia estar passando por um sério problema, apesar da boa aparência.  Capixaba, grande psicólogo, sentiu a delicadeza da situação e fez o consulente entrar para a sua Sala de Milagres.

- Ei, Zinfiio, ce tá fromoso, mais tem arguma coisa que num anda bem na vida do zinfiio. Pai Capixaba vai dá jeito pa zinfiio. Pode desembuxá !

- Sabe, Pai Capixaba, eu e minha mulher vivíamos muito bem. Pra dizer a verdade pro senhor, Painho, a gente vivia como dois irmãos. Tudo na santa paz.

- E aí, Zinfiio. O casamento do zinfiio num deu mais certo, e o pai Capixaba já vai dizê porquê. É o que acontece com todo casá que vira irmão.

- O que aconteceu Painho? Por que foi acontecer isso comigo? Minha mulher fugiu com o Jorjão Empreiteiro do sítio das Palmeiras e não me deixou nem notícia.

- Zinfiio num devia istranhá, não – disse Capixaba soltando uma enorme baforada do pito de fumo forte.- Agora o zinfiio arrumô mais um parente.

- Como assim, Painho Capixaba?

Ela arrumô um cunhado pra ocê. Hó, Hó, Hó… Agora vassuncê arruma uma cunhada pra ela e fica tudo do memo tamanho.

ESCONDERIJO PROSAICO

Leontino, sempre que possível, rumava para  a casa do seu  Tio Juca,  residente em Paraguaçu Paulista . Por coincidência, para ele muito feliz, foi designado inspetor do banco onde trabalhava. Obrigava-se a viajar muito, o que assim fez amiudar visitas à  vivenda dos seus queridos parentes.

Fidalgos e bons, seu Juca e dona Regina tinham Léo como o  sobrinho predileto. Conheciam os seus pratos preferidos de longa data. Encabeçando a lista de sua  preferência gastronômica figurava o frango caipira, iguaria em que D. Regina podia se dizer pós-graduada.

A cada semana, quando muito, lá estava Léo  de novo, ferrenho no jogo de buraco, no que parecia levar muita sorte. Como tais parentes eram aficionados por baralho, a pretexto de contentar-lhes, Léo tornou-se um especialista em canastras – limpas e sujas – e até não se tornou novidade quando ganhou algumas quedas.

Para completar o quarteto, eis que entra nesta história  uma personagem a qual  propiciará maior sustentação ao presente enredo. Tratava-se da vizinha Judith, inquilina de tio Juca, que se tornou a parceira regular de Léo naqueles jogos que faziam o tempo voar. Era uma mulher de seus trinta anos de idade, dona de um escritório de contabilidade, casada com um caminhoneiro. Sua condição, a rigor, era aquela de viúva de marido vivo, pois Juvenal viajava, praticamente, trinta dias por mês.

Passado a inspetor de banco, com frequência regular àquele cassino improvisado, Léo e Judith entabularam  laços cada vez mais estreitos,  de familiaridade a toda prova. E desse patamar de cordialidade, a relação subiu por  degraus cada vez mais próximos de um  completo envolvimento.

Certa vez, quando deram por si, o relógio da copa (onde jogavam) marcava duas horas da manhã. Léo sentiu que Judith olhava-o de modo carinhoso, no que não tardou  adivinhar, por seus olhos súplices, uma enorme carência afetiva com endereço certo. 

Como estava chovendinho, embora a casa de Judith  fosse bem  próxima da casa de seus anfitriões, Léo tomou do guarda-chuva e pretextou levá-la até seu domicílio.

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PIDONCHO DE BARRIGA CHEIA

Fins da década de 1960 (do século passado). Contando então vinte anos de idade, mudei-me para Paraguaçu Paulista por motivos estudantis e profissionais. Por esse tempo, nessa cidade havia  muitas casas de madeira e, não raro, uma privada no fundo do quintal. Geralmente ficava longe da porta da cozinha, como é de boa praxe para efeitos higiênicos.

Minha avó, Dona Benedita, com quem então eu morava num desses domicílios de antanho,  sempre foi uma mulher caridosa. Dar de comer a quem tem fome para ela se tratava  de um mandamento divino. Eis senão quando aparece, numa tarde em que vovó acabara de assar pães, um mendigo lá no fundo, do outro lado da cerca, perto da privada e interpela-a:

- Oi, Dona… – chamou alguém com aparência de  mendigo, ainda que de feições coradas.

Vó Benedita, mais que depressa, tomou de meio pão caseiro, ainda quente,  e foi em  socorro da fome do peregrino que chegara em boa hora. No instante em que ela estendeu-lhe o pão, embrulhado num papel, pois estava saindo do forno, ele disse numa voz sufocada:

- Ai, minha senhora. O povo de Paraguaçu  é muito bom e me entrouxou de comida. Perdoe-me, mas eu dispenso o pão.  O que quero, por caridade, é que a senhora me dê somente o papel e me deixe usar esta privada aqui.

Não com tanta boa vontade, vovó acedeu ao pedido e já ia indo abrir o portão quando o mendigo apurado  saltou pelo balaústre como um pássaro em fuga e, sem  tempo de fechar a porta, esvaziou da barriga o fruto de suas petições  pela cidade.

EFEITO RETARDADO

- Não, seu Antônio! Desista disso!  Esqueça esse  passado! Para que vingança, seu Antônio – insistia Paulo desesperado, vendo a inutilidade de seus argumentos face à inapelável  decisão do colega.

- Ah! Essa é boa! Não foi com você, né? É fácil falar para me esquecer! Eu, hein? Jamais esquecerei a humilhação por que passei! Se não fosse a minha sogra – justamente a minha sogra…

- Sim, seu Antônio! Eu já ouvi essa sua história. Se não fosse a sua sogra a família teria passado fome – Atalhou Paulo com visível impaciência.

- História  não,  Paulo ! – berrou o amigo! História, não! São fatos, Paulo! Chagas que trago aqui, neste coração humilhado, sofrido e que clama por vingança, Paulo! – disse o amigo aos berros. – Ah! Se não fosse a minha sogra. Meus filhos teriam morrido de fome!

– Suas palavras ecoavam num tom alucinado.

- Mas não morreram, não, seu Antonio. O importante é que todo esse seu drama já passou. O senhor mesmo sempre me diz que seus filhos estão todos bem de vida – atalhou o interlocutor, mesmo ciente de que palavras pouco valiam para aquela alma atribulada.

- Paulo, nada de panos quentes! Você sabe muito bem o que aqueles americanos me fizeram! Será que preciso contar-lhe toda a história novamente? – indagou seu Antonio erguendo o indicador em riste por sobre quase o nariz de Paulo.

- Pelo amor de Deus, seu Antônio. O senhor já me contou essa história um milhão de vezes. Pára com isso, seu Antônio! Deixe dessa besteira, para não se arrepender depois – obtemperava o amigo tentando encontrar uma calma que já não possuía.

- Não, Paulo! É hoje que vou me vingar daqueles americanos! A bomba está aqui, Paulo. Embaixo da minha cama, Paulo!

Os olhos de seu Antônio fuzilavam em sua munição vermelha de ódio. Um ódio incontido, pronto a explodir na face como a prometida bomba para a qual apontava com os lábios!

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QUEM SOU EU?

Muitas pessoas são prontas em acolher, contra mim, a versão injusta  dos que não me apreciam. Desde cedo aprendi sobre a impossibilidade em contentar a todos. Impossível passar pela vida  ileso a toda e qualquer crítica ou malquerença.

São muitos entre os que me chamam de escandaloso, quando num frêmito, às vezes, faço crestar as águas do mar num rebojo de vagas impetuosas. Talvez assuste a pescadores, como Pedro e seus amigos  àquela altura da vida,  a quem o Mestre repreendeu pela pequenez da fé.

Muitos me taxam de indiscreto quando passo a varrer as ruas e o pudor das mulheres, entre aquelas que preferem  saias e vestidos. Nada me é estranho, nem sou parcial em meus gostos, pois também passeio pelas praias  onde os trajes se fazem menores.

Alguns, literatos mais soturnos , definem a minha voz como um uivo. Porém, os verdadeiros poetas,  à minha passagem,  sabem encontrar a melodia que faço subir desde o chão até as árvores e torres,  nos altos edifícios ou nos campos.

Outros, ainda, me definem como um amante precipitado quando levo em meu colo  a chuva enamorada.

Na  verdade, porém, tais comentários resultam do despeito que inspiro aos inertes, aos acomodados, aos que não sabem quão saborosa é a distância que cobre lugares diferentes.

Passo invisível entre multidões que me olham e me escutam. Elas percebem  tão só  os efeitos da minha passagem.Sou um arrastador de nuvens, e um carregador  de papéis,  que alguém – negligente ou distraído – deixou cair sobre a calçada.

Não há quem me veja ou detenha.. Ninguém me dá a mão ou sequer um aceno. Sou um visitante a chegar sempre sem convite por quase todos os lugares.

Contudo, a quem me quiser ver com bons olhos, sem favor nenhum,  contemple as plantas, cujo pólen transporto por distâncias sem fim, para florir jardins e pomares, apesar dos que  imprudentemente, em sua ignorância, me amaldiçoam e me recriminam..

Como me faz feliz o chamamento  que me dispensou o grande Francisco de Assis, ao me denominar, juntamente com o lobo, o sol e a lua, pelo carinhoso e verdadeiro  tratamento  de IRMÃO VENTO.

QUEM SOU EU 2 ?

Na observância de um decreto irrevogável,
Sou atento aos preceitos
Do descanso do  sétimo dia
Em todos os meus dias da semana.

Enquanto isso
Os meus críticos não descansam
Em lançar-me às costas os seus impropérios;
Atirando-me pedras de argumentos chochos
Invejosos desta minha forma de vida
Que bem queriam ter adotado.

Não quero  em causa própria advogar,
Nem realçar neste mundo o meu valor,
Mas a quanta gente faço ocupada
Na criação de comodidades,
desde a invenção da roda,
Até o controle remoto,
No engenho incessante
De  novos confortos
No afã de simplificar a vida
E incrementar o consumo.

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A CIDADE SILENCIOSA

Vivemos tão embriagados pela vida terrena, a ponto de não darmos  conta de sua implacável efemeridade. Movemo-nos num torvelinho que nos ilude com sua aparente permanência. Vez por outra,  praticamos um ato social de solidariedade,  para acompanhar ao último pouso,  o corpo de alguma pessoa que se despede do cenário humano.

Cruzamos o portal onde descansa uma multidão silenciosa. De pessoas que em seu tempo revelaram-se igualmente ansiosas e preenchidas de urgências a requerer-lhes cuidados a cada minuto. Moveram-se, quase todas elas,  por intentos e anseios que bem conhecemos e igualmente priorizamos em excesso. Por coisas e situações freneticamente buscadas, não raro penhorando o próprio e melhor que a vida pode oferecer neste plano de manifestação.

O silêncio absoluto desses corações, a dormir sob os jazigos centenários ou covas rasas, atestam-nos à exaustão sobre a inutilidade de um sem-número de preocupações. De um rol enorme de apreensões  infundadas ou temores sobre males que a vida não disporia de tempo e condições para nos acontecerem.

Ouvindo a voz do silêncio

Na cidade silente, de vielas estreitas e cruzes em procissão pelas quietas e ensombradas alamedas, experimentam-se um ambiente de recato e discrição, de reserva e sensatez. Na  solidão da necrópole, erma e queda em si mesma, transmitem aos transeuntes do lado de cá a consciência nítida da transitoriedade da vida com todos os seus zelos.

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ESTE ESTAR NO MUNDO

Tenho apenas no trecho
Pavimentado de dias,
Em mão única, o desfecho,
De minhas dores e alegrias;
O próprio sentido  deixo
Invisível em minhas vias.

Sobre os meus dias vividos
Cobertos serão de um véu,
Como sobre os não-nascidos
Sobre o mar, a terra ou o céu.

Talvez em momento miúdo,
Só em pílulas de lembrança
É o que restará  de tudo
Sobre o meu fantasma mudo:
Saudade sem esperança.

Nem mesmo as belas imagens
Construídas de olhar ou sonho,
Levarei na viagem das viagens
De um mundo que eu quis risonho
Na realidade e em miragens.

A saída não lamento,
Faz ela parte do jogo,
É por isso bem aceita.
Não haverá mais tormento,
Inda que a fé seja um logro
Espero ouvir a trombeta,
E se a vida for malogro
Foi uma farsa bem feita.

CONSUMIDOR

Para acender tochas
Já me cobram taxas,
Até para o pasto
Impõe-se um imposto;
Vem sisas anexas,
E até empresto
Para andar em dia.
Corro e não invisto.

É alto o preço
Do luxo de paço.
E eu pago tudo
Para nunca usar!
Eu quem pago a onda
Do mar que desanda,
Eu quem pago a chuva
Para nos chover!
Eu sou uma chave
Feita em carne viva,
Sou consumidor.

QUEM SOU EU 1?

Eu trago uma marca atávica
Como uma cicatriz da História,
Desde os seus  fios  primordiais,
Antes mesmo, talvez,
Que todo esse progresso  chegasse.

Dou trabalho, reconheço,
No bom e no mau sentido.
No aspecto menos feliz,
Basta-me tão só declarar
O subofício que exerço.

Mas, a partir  da taramela
E do ferrolho,  estou  gerando empregos
Cuido de  levar levas e levas de pessoas,
Avaras sem dizer sequer “muito obrigado”.

Graças a mim
Quantas portas se fazem
Num mundo feito de casas,
Cada vez mais fechadas.

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RETORNO À SEMEADURA

Há muitos poemas plantados,
Há versos colhidos,
Prosas esparsas
No vapor das conversas…

É preciso primeiro
Que a mão volte ao chão
E plante
Mais do que uma canção,
A espiga, o grão,
A alimentar o mundo inteiro.
É preciso criar
O que falta
Fazer  a sementeria
E mudar as bocas
E ventres vazios
Em risos nos lábios
Com melhores cardápios

Neste Brasil vasto.
É preciso mudar de vez,
Para o mundo viver
Cimentado na paz
E mudar
Cada pranto em sorriso,
Ainda que demore,
Ainda que não vejamos
Para juntos, comer e cantar

ÉBRIA PAISAGEM

Molha em cada beco
Num trago, a goela,
Em escura viela
Cai num baque seco.

Num resmungo passa
O seu canto mole
E o sonho encolhe
No vazio da taça.

Vai em ziguezague,
Como a vida sua
Despojada e nua
Pede a alguém que pague
A pinga no prego
Carência insinua
Cambaleante e cego

Sonho amanhecido
Ao rés das calçadas,
Restam suas pegadas
Das mágoas guardadas
Num bar esquecido.

A RESPOSTA DO PADRE JOÃO

Pois é, tive um amigo, o Padre Joãozinho – por sinal primo segundo de minha ex-mulher, que era um barato. Eu coloquei essa questão de como ele ministrava curso para noivos e desenvolveu uma sólida consultoria sobre casais, sendo celibatário por determinação eclesiástica.

Ele me respondeu com seu jeito maroto: “Escuta aqui, o pianista nem sempre sabe afinar o piano. Eu, no caso (afinador) sei o que faço quando aconselho.”

De outra feita, morreu um parente dele, por via colateral, num acidente de carro, Isto se deu lá pelos fins da década de 70.

Como se tratava de uma família rica, a viúva mandou um dos  seus carros, com motorista,  ir buscar o  Pe. Joãozinho em Presidente Prudente, a 600 km de distância.

Joãozinho, apesar de ressacado dos vinhos da igreja, em cada posto fazia o motorista parar para beber um trago de branquinha. Se houvesse da amarela também descia.

Nem bem chegou, a viúva perguntou: ” o que você  me diz disso,  Primo Joãozinho? será que foi algum castigo para a nossa família?

Ele não me acompanhava às missas e deixou o supermercado aberto quando passava um enterro. Será que foi isso? – perguntava ela, confiante numa resposta confortadora do parente e líder espiritual.

Joõazinho, com sua voz grave por natureza e fanhosa pela manguaça, arrematou à queima-bucha

- Foi um minuto de bobeira!

PERMANÊNCIA OU EXTINÇÃO DEFINITIVA?

Estou cheio de mortos,
Meus e alheios,
Conhecidos e desconhecidos,
Anônimos e queridos.
De mortes  estou cheio.

Pleno  de mortos
Por diversos meios,
acolho-os sem receio
Para abraçá-los
Ainda que sem corpos,
A eles ouço
E com eles falo
Numa fala sem osso.

Porém a vida,
Em ocasiões tais
Me dá uma sacudida
E um arrepio me traz
A evidência doída
Para deixá-los,
Além dos valos,
No descanso em paz.

Mas no entanto,
Essa minha procissão
De ausentes em número tanto
Insiste  a povoar-me
A alma e o coração.

Haverá, contudo,
irrecorrível decisão:
quando me for a hora chegada,
Num dia quieto e mudo.
Eles e eu seremos tudo,
Ou em inversa situação,
Imergiremos no eterno Nada
Nessa definitiva conclusão.

ZÉ TOCO, O REI DO LAÇO

Ao leitor peço licença
E às Musas, inspiração
Para falar com imensa
Saudade e dedicação
Sobre a vida de um caboclo,
Apelidado “Zé Toco”,
Um boiadeiro campeão.

Na lida desde criança,
Sempre foi bom no pialo,
Até onde a vista alcança
Ele alcançou com o cavalo,
Chegou até a ser eleito
Para o cargo de prefeito
De Ipaussu que soube amá-lo.

Homem de mãos calejadas,
Da luta não teve medo,
Rasgando as madrugadas
Da vida tinha o segredo:
Para vencer é preciso
Muita luta, muito juízo,
Dormir tarde e pular cedo.

Foi ele um sábio do povo,
E sempre tinha um ditado:
“Tem que se quebrar o ovo
Para depois ser fritado”.
Sempre dizia: “Afinal,
O risco que corre o pau
Corre também o machado”.

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O BERRANTE E A BUZINA

Pendurei a minha espora
Lá no alto do esteio,
Silenciou minha viola,
Hoje já não mais ponteio;
A boiada já não existe,
Restou neste rancho triste,
Meu velho laço e o arreio.
 
Fui boiadeiro feliz
À cavalo viajando;
Quem me viu hoje não diz
O que fiz em outros anos;
Agora velho e cansado,
Meu cavalo aposentado
E o cabelo branquejando.

Já tive gosto na vida,
Mas não lamento esta sorte;
Continuando minha lida
No Brasil de sul a norte
Meu filho está na estrada
Com a jamanta carregada
Leva os bois de leite e corte.

Com sua enorme carreta
Que Deus o proteja, eu peço,
Na Imigrantes ou Anchieta,
Deixa rastros de progresso,
Santos ou Paranaguá
No volante, ele é  baguá,
Continuando o  meu sucesso.

O SILÊNCIO DA VIOLEIRA

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Pelo seu modo simples de falar, pela espontaneidade nos gestos, puros ao feitio de sua  alma cabocla, ela nos era familiar. Como alguém que a gente conhecesse a vida toda e não se cansasse de admirar, respeitar e venerar.. De coração valente, sua alma se blindou ao longo de tantas lutas, sem jamais recuar na esperança e sem nunca prescindir da sua viola. Da viola com que ela sabia fazer a mágica da beleza sem partituras, do som divino de seus rasqueados e guarânias, filhos legítimos do pujante Mato Grosso. Helena Meirelles foi fazer inveja aos anjos com seus ponteados eternos.

Interessante como essa artista parecia ignorar o próprio valor de sua genialidade, ao contar de forma singela toda a sua trajetória de vida, que também vale por uma sinfonia. O Mato Grosso do Sul, que nos deu Helena numa sexta-feira 13, não chorou sozinho no momento em que partiu para os pousos celestes a nossa inesquecível  Primeira Dama  Mundial da Viola. Ao Brasil inteiro, a todos quantos tenham ouvido suas músicas, foi impossível ficar indiferente à harmonia de seus acordes. Os causos que só ela sabia contar motivavam ricos e pobres, analfabetos e intelectuais.

A magia no manejo das cordas – que ela dominava de forma absoluta – encantava já da primeira vez os que a ouviam. E ouvem, pois seus discos aí estão para merecidamente imortalizá-la e nos trazer nas ondas da saudade o som que era só dela, que só ela sabia tirar no choro das cordas. No dia 29 de setembro de 2005,  há poucos dias do reflorir  da primavera, Helena Meirelles se encantou em definitivo, após encantar o mundo com sua presença e sua música. Tudo nela era forte, num molde brasileiro no que apresenta de melhor e mais peculiar.

Mesmo vivendo à margem da mídia, até mesmo fugindo do sucesso pelos recantos mais inusitados, sua música foi bater ponto nos Estados Unidos. Isto aos sessenta e nove anos de idade e de simplicidade, rusticidade até. Mas ainda que tardio, o sucesso chegou, tarde  mas merecidamente. É de se esperar agora, que as emissoras de TV e rádio, no interesse de nossa brasilidade mais legítima, prestigiem-na, expondo em todas as cores e tons a sua viola inimitável.

Felizmente, ainda temos muito por que nos orgulhar do nosso país, quando uma pessoa como Helena Meirelles, a Dama da Viola, na sua humildade de berço e vida, mostra ao mundo o que temos de  nosso. Reconhecida pela plebe e pelos nobres, de garis a intelectuais e estadistas,  seu nome se insere no panteão de nossos maiores, e se faz numa estrela cantante num espaço bem nosso, onde já  mora uma saudade. Saudade que dói mais fundo quando corto as estradas do pujante Estado do Mato Grosso.

ANTES DE PARTIR…

Se não te encantas por mais nada nesta vida,
Saiba que ainda não morreu a última rosa,
Apenas ocultou-se nas dobras do inverno,
Para aos beijos do sol, numa explosão de luz,
Ressurgir perfumando a primavera em flor.

Se agora a solidão mortifica a tua alma,
Pense ao menos ouvir a última canção
Que ainda não saiu do bojo de tua lira;
Adie o quanto possas a hora da partida.
O passaredo em bando ainda não ensaiou
O último gorjeio para o entardecer.

Se pesadelos sobre ti se desabaram,
Destroçando esperanças por acontecer,
Espera só um pouco mais, dê um tempo ao sol
Pra trazer nova aurora do seio da noite
Sobre o colo azul do céu inteiramente novo.
Não pense hoje em ir embora deste mundo,
Antes que nos jardins todas rosas floresçam,

Antes que a imensa orquestra  de que é feita a vida
Te enseje ouvir então seus últimos acordes!
Fique mais um pouco, não deixe este cenário,
Antes que o derradeiro pássaro da tarde
Venha pousar as suas asas em gorjeios
Sobre o último galho do último silêncio!
Não vá embora ! Não vá embora ! Não vá embora
Antes que todos  os teus sonhos aconteçam.

OFERENDA MAIOR

Ao  se falar sobre amor e paixão
Entre amantes famosos ou anônimos,
Suavizando os termos usam-se sinônimos,
Tais como afirmar: “é teu meu coração”.

Assim se exprime o poeta e o louco,
A valer-se desta gasta expressão
Que não traduz legítima atração
E sobre a entrega nos diz muito pouco.

A linguagem aí sugere, mas não diz
Por um ancestral complexo,
Mas a verdade que melhor condiz
É dizer assim : “é todo teu meu sexo”!

Assim os termos em valor absoluto
A paixão traduz o seu maior reclamo,
Eis que te dou inteiro o meu fruto,
E as sementes para ti que eu amo.

Mais que o coração onde há saudade,
No sexo há vida e multiplicação
Da geração na própria eternidade
No prazer real do amor que é paixão.

O MAIS ANTIGO EQUIPAMENTO TERAPÊUTICO

Não só o mais antigo, tanto quanto atual e indispensável. E ao longo do tempo sofreu mínimas modificações ou adaptações, desafiando os ímpetos da tecnologia alucinante deste século. Trata-se de um acessório doméstico que acompanha a raça humana de longa data. Por seu histórico, bem que merece um monumento gigantesco, talhado em ouro maciço. Refiro-me à cama, ao leito – ou sensualizando um pouco mais o termo, a alcova. O seu uso se traduz no primeiro expediente para qualquer doença ou indisposição. Os centros de saúde bem que deveriam oferecer  camas e mais camas a serviço dos doentes que esperam nas filas de atendimento. Ademais, quantas e quantas pessoas se restabelecem ao simples ato de deitar-se sobre um colchão sobre a mesma? Doutores e pós-doutores esfalfam-se em seus laboratórios no intuito de fazer milagres científicos a cada momento, destarte engrossando a lista dos medicamentos – genéricos e específicos – e eis lá a cama. No quarto da casa, nos acampamentos de peões, nos presídios e hospitais, como recurso insubstituível a cada um dos usuários. Antes, quando parteiras assistiam a domicílio, poder-se-ia dizer que a maioria dos seres humanos nasciam e morriam na cama. A alcova dos nubentes  se firma a sua finalidade maior, na tentativa de perpetuidade da espécie. Ah! Que pena não haver no calendário o DIA DA CAMA! Congressistas, não percam tempo e oportunidade ! Exaltem o que é de mérito para homologar de público o valor dessa peça de samaritana dedicação aos seres humanos de todos os quadrantes. Os motéis já fizeram sua parte, guarnecendo seus aposentos com as famosas camas redondas, sem arestas, de feição mais feminil em seu design. Hospitais – no pouco que evoluíram nessa matéria – guarnecem os leitos reguláveis, com colchões d água para maior eficácia na cura e manutenção do paciente em decúbito dorsal.Todavia, algo tão perfeito, como todas as coisas simples, não evolui de forma esnobada ou modista. É um móvel democrático onde todos se igualam na horizontal. Como me recordo, e  com saudades,  do meu ruidoso  colchão de palha, lá na Fazenda Santa Rosa. Palhas que vestiram espigas – complemento alimentar da tropa de meu avô, do nosso bode de estimação, do galo cantor das madrugadas, das galinhas em cacarejo anunciando postura de ovos, ou ralhando com o redor em defesa dos pintainhos! Sim, vamos valorizá-la sem a parcialidade própria dos que a vêem como cúmplice  de preguiçosos e valia ociosa de vagabundos.

Sem o sono, em verdade, a vida seria dupla. Mas, se por um lado essa duplicidade nos garantisse mais tempo de existência ativa, onde a cama inexistisse, por certo nossas dores seriam também duplicadas por sobre este Vale de Lágrimas.

Que a cama seja respeitada em seu ofício múltiplo, no descanso ao sadio e no repouso ao doente, ou palco dos amantes. Continue ela na ajuda à recuperação dos bilhões de humanos da face da Terra, tão carentes de tantas coisas. Que não falte em cada lar o leito sagrado, território indevassável do sono e dos sonhos, na saúde e na doença.

O BOÊMIO

O bar ainda está aberto, com suas portas escancaradas para a madrugada. Não há mais ninguém nas ruas, feitas de cidade pequena, que folga seu aconchego na noite deserta, isenta de humanos passos.

Só o boteco ali na esquina insiste em ser uma ilha povoada em meio ao arquipélago de casas dormentes. Ali, um pequeno número de fregueses, entre os mais insistentes a enfrentar o sono ou fugir da solidão, insiste em molhar as palavras com o amargor gostoso e suave da cerveja preferida.

Nessas horas o boêmio se esquece dos próprios pensamentos. Não pensa nada. Apenas ouve e responde conversas que os seus iguais jogam por sobre as mesas. Ali se posta sob aquele teto amigo, que o recobre para os tantos compromissos e rituais que a vida tem no seu dia a dia. É ali, sob o reinado do bar-man e no convívio com seus iguais, que ele se encontra consigo mesmo.

É nesses momentos que o boêmio encara os seus fantasmas de medo, apreensão e incerteza, afogando-os doses sobre doses. Descobre-se mais forte ante os espantalhos que o  afligiram no dia que já se foi.

A procissão das horas de tantas outras vidas termina sobre o leito. Os dramas de um sem-número de pessoas encontram-se em intervalo, na trégua que o repouso proporciona como um anestésico eficaz.

Quanto ao boêmio, está quase a dormir. Quase a apagar-se com as luzes de quase todos os retângulos das janelas sonolentas.

Vão-se os últimos fregueses após inúmeras saideiras. O taberneiro também tem sono. É de carne e osso e nada mais que um voyer das bebedices. Acaricia o guardanapo sobre os ombros. Pergunta se o último freguês quer algo mais.

Este, entendendo a mensagem, apenas diz: “Boa Noite, Seu Ramiro. Até amanhã”…

À saída, sente fechar a porta daquele mundo atrás de si, que agora há pouco lhe soava como o melhor lugar do mundo.

Numa marcha indiferente, desprezando a linha reta do caminho, a custo chega à porta da casa aonde mora. Amanhã será outro dia. Trará outra noite. O pior será apenas voltar para casa e desperdiçar os restos de pedaços de noite já fundidos com a madrugada.

O PRISIONEIRO DA FÉ

Em pouco tempo a igrejola se levantou dos alicerces. Era a prova viva de que a fé removera montanhas de entulho naquele fim de rua suburbano. Certamente, na medida em que sobrava crença, faltava, contudo, o engenho e arte dos construtores.

A maioria leigos em construção civil, a começar do pastor. Já ia o pequeno templo para a fase conclusiva. Naquela mesma tarde chegara a tão desejada porta para o sanitário, cuja privacidade dos usuários se fazia apenas por uma taboa  de pinho improvisado, de tirar e pôr no batente. Zaqueu, o doador da nova porta foi quem a assentou,  com direito a maçaneta e chave.

Eis que já à noitinha, um pouco antes do culto, apareceu Merquinho. Viera pelo faro dos rastros da nora que pontificava na igreja como diaconisa. O Pastor Denílson, que se postara no portão de entrada, foi quem o recebeu efusivamente:

- Irmão Merquinho, há quanto tempo não dá o ar da graça! Hoje é a Noite da  Cura e o senhor vai gostar muito.

- Ah, Pastor, de saúde até que eu vou indo regular. Só o que me dá de vez em quanto é uma danada de uma dor de barriga que me faz sair correndo pro banheiro. Depois sossega.

- Pois é, irmão! Mas nós também temos a pregação da palavra e o senhor fez muito bem em vir para a nossa igreja – complementou Pastor Denílson.

O Culto Tem Início

Tudo transcorria normalmente. À altura do sermão do Reverendo Denílson, Merquinho, atendendo à primeira cocheada de ventre, adentrou ao banheiro recém guarnecido da nova porta.  O pastor continuou sua fala: “nós estamos felizes, porque nossa igreja, mais do que de pedra, é feita com a fé dos nossos corações etc.etc.”

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AVISO AOS NAVEGANTES

O Boteco do Pereira  até que é bem surtido. Razoável variedade de caninhas sobre a pequena prateleira com a ação dos cupins à mostra. O balcão, esfolado como sola de sapato de muito uso, religiosamente com dois dedos de poeira a encobrir os estragos do tempo, acomoda baleiros recauchutados com durex e tampas remendadas com cola haraldite. Na hora de abrir o “estabelecimento”é preciso esperar pela chegada de algum freguês para ajudar segurar um lado da porta, enquanto a mesma é empurrada para dentro para dar o encaixe da chave. Função esta que igualmente cabe ao último freqüentador (normalmente um bêbado ) na hora de fechar a espelunca. As vitrines de vidros partidos, foscos pela sujeira e pela idade, a custo permitem divisar uma Maria-mole ou um pé-de-moleque em seu habitat, mais com função de esconder do que de expor os produtos. Finalmente, a caixa registradora, feita à mão, de tantos maus tratos traz o tampo quebrado e. para não destoar do cenário, também está esfolada, soltando fiapos de madeira e expondo nós sucessivos em sua contextura.

Assim é O Boteco do Pereira, conforme uma pichação estrategicamente colocada em letras vermelhas sobre fundo amarelo-sujo na parte superior do batente da porta, melindrosa para abrir e fechar, mas, quando aberta, sempre de coração amplo para receber a fiel freguesia.

Bem lá no fundo, entre velharias sem uso, em posição visualmente estratégica, estes dizeres vazados em letras garranchais:

A inveja mata…

* * *

Do livro HUMOR MORENO (2011)

VIOLÊNCIA SÓ MUDA DE LUGAR

Sei que este JBF atravessa fronteiras, mas tem suas raízes fixas, na pessoa de nosso Prelado Mor, D.Berto I, aí nas terras fortes de Pernambuco, que vale dizer, do nosso bravo Nordeste, muito  brasileiro, na melhor acepção do termo.

Por falar em Nordeste, a coisa nunca está como a gente deseja na plenitude da idealização. Eis que segundo a Imprensa em geral, as notícias não são as melhores sob o aspecto da violência urbana.

Pelo que constatei, os sociólogos e estudiosos do assunto, parecem apenas ter constatado esse quadro, mas não conseguiram nomear as causas do aumento de criminalidade.

Talvez, em grande parte, o fato se dê pela convergência para centros urbanos maiores, onde se processam transformações das quais advém vários transtornos, mormente os de natureza econômica.  Constata-se um crescente aumento, principalmente, em homicídios. Essa tabulação não vem, contudo, de um pequeno período, mas abarca, ao que li, uns dez anos mais ou menos.

A rigor, São Paulo, o meu Estado natal, comemora os números de redução da violência, principalmente na capital paulista. Essas estatísticas, ainda que verdadeiras, não são tão tranqüilizadoras quanto à primeira vista nos pode parecer.

Aqui pensando com os meus botões, sou levado a considerar que o paulistano, na verdade, se retraiu, ou se contraiu em suas casas, e até acostumou-se (teve que acostumar-se) a não enfrentar ser contemplado com assaltos e quejandos.

O medo é tanto que as pessoas se acostumaram a essa ilocomoção para as ruas. Os mais vividos (com bom senso) não saem gratuitamente às ruas, a não ser para o trabalho ou no cumprimento de outros deveres.

Os jovens, em idade de mais afoiteza e destemor (ou menos responsabilidade e senso de perigo) ainda se constitui na maioria que afronta as incertezas para colocar-se nas ruas e, coincidentemente, são os que mais sofrem a violência de latrocínios ou se tornam vítimas de torcidas esportivas  irracionais.

Um outro ponto a se considerar é que o interior paulista já está se tornando menos pacato, menos tranquilo do que foi até a pouco tempo.  O Governo do Estado, desde Serra e agora com Alckmin, houve por plantar penitenciárias em municípios onde a violência vista era apenas na televisão e nos jornais.

O megapresídio mais recente já está licitado para ser construído na cidade de Bernardino de Campos, distando poucos quilômetros de Ipaussu, Santa Cruz do Rio Pardo, Fartura e outras cidades vizinhas.

Claro que será mais uma dor de cabeça para os interioranos desses e de outros lugares do interior paulista. 

Todo o panorama sofreu drásticas modificações em seus entornos. Instalaram-se  e continuam a instalar, verdadeiros barris de pólvora contra  pessoas e famílias amantes  da paz, mas que, infelizmente, se acostumou a dizer Amém.

Não só nas missas domingueiras, mas também nos projetos autoritários de  governantes que se apressam em maquiar soluções e destinar a sujeira sob os tapetes da incúria e da irresponsabilidade.


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