CIDADÃO HONORÁRIO

 

Geraldo de Majella, Kátia Born, ex-prefeita de Maceió e Fernando Costa, ex-vereador de Maceió

Senhor presidente,
Senhoras e senhores vereadores,
Minhas amigas, meus amigos:

“A história da gente alagoana é a história de uma gente quase anfíbia”. Foi assim que, no distante ano de 1948, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre definiu os alagoanos.  Eu e quase todos os presentes no plenário da Casa de Mário Guimarães fazemos parte dessa “gente quase anfíbia”.

A gente alagoana – para usar a expressão de Gilberto Freyre − tem nas águas, ou na sua falta, o que há de mais significativo em sua identidade.

Nasci em Anadia faz pouco tempo, no janeiro de 1961, há 51 anos, na margem direita do rio São Miguel, e aos sete anos aportei nesta belíssima cidade, em 1968, para morar com a família, fixando residência no bairro do Vergel do Lago. Aí residimos pouco mais de um ano, mudamo-nos e por um menor tempo ainda moramos no bairro do Prado. De 1970, até hoje, fixamos residência em Jatiúca, e creio, só sairei de lá para ser enterrado em Anadia.

A minha trajetória é “quase anfíbia”, pois com as águas mantenho uma relação de perfeita harmonia e prazer; assim venho vivendo e viverei até o último dia da minha existência. Criei-me entre as águas do rio São Miguel, a lagoa Mundaú e o mar de Jatiúca. No rio São Miguel aprendi a nadar e também contraí xistossomose, curada a tempo. Nas águas do mar e da lagoa vivo sempre a me banhar.

A imensidão do mar que avistei pela primeira vez da rua Dias Cabral, da porta da casa das primas Bebé e Eunice Carneiro Moura − quase irmãs de minha mãe − foi o meu primeiro alumbramento. Hoje tenho plena consciência desse fato. Socorro-me com o poeta Manuel Bandeira, quando diz no poema Estrela da Vida Inteira:

“Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento”.

A praia do Sobral tem esse significado em minha vida. Foi o meu primeiro alumbramento de criança.

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores vereadores:

Meus pais, minha irmã e eu, aos domingos, durante muitos anos, passeávamos pelas ruas do centro de Maceió, olhávamos e contemplávamos atentamente a beleza das vitrines das lojas. A nossa família de classe média baixa, pai comerciante do interior e mãe professora primária da rede estadual de ensino, não é necessário dizer que apenas contemplávamos as belas vitrines e ao final do passeio parávamos para saborear os gelados deliciosos da sorveteria Gut-Gut.

Pelos becos, ruas, avenidas e praças de Maceió, conheci pessoas que muito me influenciaram na vida. Aqui na praça Deodoro, onde está localizada a Câmara de Vereadores, eu, ainda muito jovem, conheci poetas, estudantes, cantores, cantoras, artistas, atores de teatro e jovens rebeldes que desafiavam como podiam a ditadura militar ou mesmo transgrediam as normas de condutas sociais da época. 

O Teatro Deodoro e o Tribunal de Justiça, construções centenárias e belas, compõem o formidável conjunto arquitetônico projetado pelo italiano Luigi Lucarini. A vetusta e imponente Academia Alagoana de Letras, palco de manifestações artísticas e literárias, faz parte do cenário do centro da cidade.

Recordo-me de um fato um tanto prosaico acontecido em 1978. O líder metalúrgico Luiz Inácio da Silva veio a Maceió e foi impedido de falar para os seus companheiros sindicalistas. Era, na expressão contemporânea, “um sem-teto”, mas talvez por ironia do destino a casa que abriu as portas e o salão nobre para Lula e para os alagoanos que o acompanhavam foi a Academia Alagoana de Letras.

O centro da cidade sempre me fascinou. Andei e continuo a andar pelas ruas centrais de Maceió como se ainda fosse criança ou adolescente. É como se estivesse em busca do tempo perdido, procurando as livrarias Ramalho, Castro Alves, José de Alencar, Segal, Livro 7 e Caetés. Não as encontro mais. Todas fecharam suas portas. Os motivos foram diversos. Mas o fato relevante nessa história é que ficamos mais pobres com o fim das livrarias.

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores vereadores:

A cidade mudou, as ruas ficaram estreitas e pequenas para tantos carros, bicicletas e motocicletas, e até mesmo carroça de burros. O casario vem sendo paulatinamente demolido, espigões são erguidos, outros continuam de pé, mas em profunda decadência, aos pedaços. Estacionamentos de automóveis proliferam onde antes eram casas residenciais ou comerciais. Esta cidade a que me refiro, se não cuidarmos dela, em pouco tempo será apenas uma miragem, fruto da nossa memória.

A fase mais significativa de minha vida se passou em Maceió, onde estudei e obtive um diploma universitário. Mas a minha formação como cidadão, os meus pequenos cursos foram todos obtidos nas ruas, nas praças, na biblioteca estadual, nos bares, no teatro. Era onde melhor me sentia e onde me realizava plenamente.    

Maceió me foi apresentada pelos amigos do bairro, pelos parentes, como um centro de lazer, cultura e convivência. Assim, para quem tinha como universo a cidade de Anadia, ampliei bastante o meu horizonte de vida e as minhas perspectivas.

O tempo foi passando, e eu conheci mais pessoas e lugares na minha nova cidade. Maceió para mim era imensa e lúdica. Pelas noites da cidade vim a conhecer poetas e boêmios; intelectuais e trabalhadores; loucos e malandros; religiosos de várias ordenações; políticos, jornalistas e revolucionários.

Se eu um dia fosse perguntado o que faria por Maceió, decerto responderia desejar que as praças da minha nova cidade voltassem a ser agradáveis, os jardins e passeios bem cuidados e floridos, como foram no passado recente. 

Quanta gente inteligente e bem intencionada conheci na praça Deodoro e na sorveteria Gut-Gut, entre o bar Gracy e a macarronada Eureka, entre o mercado público e a padaria Nossa Senhora das Graças e entre o Palácio do Trabalhador e o bar do Maurício. Esse é um dos meus roteiros sentimentais.

E para minha surpresa e alegria, entre 1983 e 1988, vim trabalhar aqui na Câmara Municipal de Maceió. De início, com a jovem e bonita vereadora Kátia Born; em seguida, com o irrequieto jornalista João Vicente Freitas Neto, um autêntico vereador de Bebedouro e da cidade, tragicamente morto com a esposa, Gracinha, e dezenas de outros passageiros, num desastre aéreo no mar do Caribe em 1997. 

Os vereadores do PCB, partido em que militei por vinte anos, são por mim sempre lembrados: o sapateiro Renalvo Siqueira, tantas vezes preso e barbaramente espancado, os jornalistas Nilson Amorim de Miranda e Freitas Neto.

Recordo ainda de outros representantes do povo e da cidade com quem convivi diariamente: Jarede Viana, Edberto Ticianelli, Guilherme Falcão, Francisco Holanda, Fernando Costa, Camucé Falcão, Galba Novaes, Hermínio Cardoso, Braúlio e Tito Cavalcante, Freitas Neto, e Kátia Born, que anos depois foi eleita prefeita de Maceió em duas oportunidades; entre outros nomes.

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores vereadores:

O Poder Legislativo é, entre os poderes, o mais aberto às criticas, às reivindicações e aos apupos populares. Muitas vezes injustamente, e outras nem tanto. É, pois, ao Poder Legislativo municipal que ficarei eternamente devedor por me transformar num Cidadão Honorário de Maceió.

Os meus agradecimentos vão em larga escala ao vereador Ricardo Barbosa, representante do Partido dos Trabalhadores na casa de Mário Guimarães. Vereador dedicado e defensor dos interesses das camadas mais empobrecidas da cidade. Entre as causas defendidas por Ricardo Barbosa estão a qualidade e o preço justo para o transporte coletivo. Que sem favor algum é um dos piores do Brasil. 

  Sem falsa modéstia, tenho dúvidas se sou merecedor de tal honraria; mas o fato é que fui escolhido pelo vereador Ricardo Barbosa, e o meu nome contou com a aprovação do plenário da Câmara Municipal de Maceió.

A forma elegante e fraterna com que fui tratado pela assessoria do vereador Ricardo Barbosa, e em especial por José Nivaldo Mota, me faz mais uma vez agradecer a todos e a Vossa Excelência, de quem somos velhos conhecidos.

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores vereadores:

O poeta Lêdo Ivo, todos são sabedores, mantém uma relação íntima, profundamente amorosa, com a cidade de Maceió. No poema “Minha Terra”, publicado em 1972, no livro Finisterra, o poeta revisita Maceió e diz assim numa das estrofes:

“Minha pátria é onde os goiamuns
pressentindo o cair da noite
buscam as locas entre os mangues.
No meu país palustre
o peso das chuvas encurva os cajueiros
e o sol calcina as lágrimas”.

Senhor Presidente,
Senhoras e senhores vereadores,
Minhas amigas e meus amigos:

Para minha honra, desço da tribuna da Casa de Mário Guimarães feliz e na condição de cidadão maceioense.

Muito obrigado.


COMENDO À BEIRA DA LAGOA

Há lugares em Alagoas pouco conhecidos, mas de uma beleza desconcertante. Entre as duas grandes lagoas que circundam Maceió (Mundaú), Marechal e Pilar (Manguaba), há um lugarejo chamado de Riacho Velho, habitado por pescadores e tiradores de coco. A prefeitura melhorou a infraestrutura, calçou a única rua; a igrejinha e a praça estão bem cuidadas.

O manguezal que ornamenta a região está quase intocado. A preservação não é fruto de uma consciência coletiva mas creio que no fundamental os mangues não foram violados pela baixa exploração e pela ausência de especulação imobiliária. Está preservado, e espero que se mantenha assim para sempre.

À beira do canal do Riacho Velho fica o bar do Messias. É um desses botecos em que o proprietário é polivalente e desempenha várias atividades simultaneamente. A comida é honesta. São servidos frutos do mar, camarão de água doce e salgada, galinha de capoeira, preparada a molho pardo ou guisada. O forte é o feijão-de-corda, tropeiro. A carapeba, espécie de peixe de que o alagoano gosta e o tem na condição de um prato de primeira classe, é o carro-chefe do bar.

Quem tem paladar, gosto sofisticado e não quer fazer concessão ao gosto popular, por favor não vá almoçar no Bar do Messias. Melhor buscar um restaurante da sua preferência. Mas se deseja mudar de ambiente e saborear comida caseira simples, como se come na casa das avós, no interior, então procure conhecer o bar do Messias. É local para almoçar à beira da lagoa, tomando cerveja ou cachaça. Agora, caso seja abstêmio como eu, vá de refrigerantes e água.

Bom apetite.  

Local: Riacho Velho, Marechal Deodoro − Alagoas.

Como chegar: Estrada do Broma.


ANILDA LEÃO E O LIVRO PERDIDO

Conheci Anilda Leão Moliterno primeiro como seu leitor; depois fui apresentado a ela pelo amigo comum, o jornalista Nilson Miranda. Dessa data em diante – certamente final de 1979 ou início de 1980 –, nos tornamos amigos. Dessas amizades que um não vai à casa do outro, mas quando se encontram comentam fatos e se tratam com carinho e respeito.

Na mais remota lembrança que registro como leitor de Anilda Leão, ainda não havia acontecido a anistia política e o Brasil era governado pelo general Ernesto Geisel. A agenda política nacional girava em torno da abertura política, adjetivada de lenta, segura e gradual. Em Alagoas contavam-se nos dedos de uma das mãos os intelectuais que se arriscavam a declarar-se favoráveis à anistia para os presos e perseguidos políticos.

O senador Teotônio Vilela andava pelo Brasil em peregrinações pelos cárceres, conhecendo a dura realidade daqueles brasileiros feitos prisioneiros políticos, fato admirável e digno de respeito e comoção. O velho e imortal senador alagoano abriu as masmorras e dialogou em companhia de outros parlamentares, religiosos e advogados com os presos políticos e seus familiares.

Aqui nas Alagoas, os estudantes universitários, secundaristas, alguns intelectuais, advogados e pouquíssimos políticos (parlamentares) e religiosos faziam declarações abertamente pelo retorno dos exilados e banidos e pela liberdade dos prisioneiros.

O jornal Boca do Povo, na edição de outubro de 1978, estampou nas páginas 6 e 7: “Alagoanos pela anistia!” As personalidades entrevistadas foram: Heloisa Ramos, ativista política e viúva do escritor Graciliano Ramos, a escritora Anilda Leão, o arquiteto e professor Marcos Vieira, o professor e crítico de cinema Elinaldo Barros, o advogado e ex-preso político José Moura Rocha, o líder dos estudantes e presidente do DCE da UFAL Enio Lins, o médico e professor da Ufal Gilberto Macedo, o estudante Renan Calheiros e o presidente do sindicato dos jornalistas de Alagoas, Freitas Neto. Anilda Leão fez a seguinte declaração:

“A luta pela democracia em uma nação jamais atingirá seu objetivo se não contar com a participação de todos os setores da sociedade, destacando a classe trabalhadora. Nessa questão eu vejo a importância da anistia ampla, geral e irrestrita para todos os presos políticos, que lutaram justamente para que o país se torne democrático. Todos os crimes políticos cometidos no país durante o período de arbítrio deverão ser apurados e julgados, para que posteriormente sejam punidos os responsáveis”.

Naquele período a escritora Anilda Leão era diretora do Departamento de Assuntos Culturais – DAC, órgão vinculado à Secretaria de Educação e Cultura do estado de Alagoas – Senec, o equivalente, hoje, ao cargo de secretário de Cultura. É importante lembrar este detalhe: só um ano após as declarações da escritora ocorreu a anistia tão ansiada, que veio ao encontro da nação e dos brasileiros.

Faço questão, neste momento, de rememorar esses fatos que já me parecem distantes, pois a história das pessoas é em geral realçada a partir dos títulos e das láureas recebidas. Para os brasileiros de Alagoas que estavam engajados na luta pela redemocratização do Brasil, aquelas declarações serviram de encorajamento.

O tempo foi passando, mais rápido que o necessário; fui me aproximando da escritora e, em 2007, decidi organizar um livro sobre o jornalista Jayme Amorim de Miranda. Uma das pessoas que procurei foi Anilda, que prontamente me recebeu em sua casa e aceitou escrever um texto sobre o seu amigo de juventude, Jayme Miranda.

Em poucos dias recebi o texto, li e me emocionei com a beleza e as revelações contidas em duas laudas datilografadas – ela não usava computador. Fui pedindo artigos a vários escritores, consegui um bom material, mas o pior aconteceu. Perdi o livro. Recuperei alguns textos que me foram enviados por e-mail, mas não o texto de Anilda Leão.

Primeiro fiquei chateado com o meu próprio descuido, e depois fiquei esperando uma oportunidade para falar com Anilda e dizer-lhe que havia perdido os originais do livro. Cheguei até a conversar com o seu filho, Carlos Moliterno, e explicar que estava envergonhado pelo acontecido. O sentimento de culpa involuntariamente foi se apossando de mim e eu fui deixando o tempo passar.

A sua morte, Anilda Leão, obriga-me a voltar a pensar no projeto do livro, que já que não contará com o belíssimo texto. Pelo menos lhe dedicarei o livro Jayme Miranda, um revolucionário alagoano.

Que a terra lhe seja leve.


DAS VÁRIAS FORMAS DE LER, EXPOR, VENDER E APRECIAR LIVROS EM MACEIÓ: MEMÓRIAS

Sobreviventes das Alagoas – os sebos de livros

Os sebos em Maceió têm crescido nos últimos anos e vêm se tornando um “mercado promissor”. Fazem-se visíveis as livrarias de usados em um improviso generalizado, funcionando em logradouros públicos. São locais onde se vendem livros, dicionários, almanaques, discos, cd-rom, dvds, revistas e outros produtos culturais. A maioria deles está localizada nas ruas dr. Pontes de Miranda, marechal Roberto Ferreira, do Imperador  e barão de Atalaia. São dezenas de barracas encostadas no gigantesco  paredão da Assembléia Legislativa e alhures. Nessa área concentra-se a maioria dos sebos da cidade, mas há os diferenciados.

Um dos primeiros sebos da cidade
 
O crescimento dessa atividade em Maceió tem contribuído para a difusão da cultura, mas por ironia do destino o aparecimento, da forma descrita por mim, ocorreu de uma maneira não usual – pela singularidade. Um dos primeiros comerciantes nesse tipo de atividade foi uma pessoa simples, do povo, “de poucas letras”, que havia frequentado alguns poucos anos de salas de aula, e que antes de descobrir esse filão exercia uma atividade profissional típica dos excluídos, dos pobres: a de carroceiro.
 
Benedito Ferreira Lima, o Biu, como era conhecido, se tornou o primeiro, creio, vendedor de livros usados estabelecido no paredão da Assembléia Legislativa, em meados da década de setenta. O livro, para Biu, não passava de uma mercadoria que ele comercializava a preço baixo em relação aos das livrarias legalmente estabelecidas. Dessa forma o ex-carroceiro sustentou a si e à sua família.
O livro evolui como parte do processo de desenvolvimento das civilizações, até chegar ao que atualmente conhecemos, passando por várias fases: a do papiro, a do pergaminho, chegando ao papel manufaturado, confeccionado a partir de trapos, e alcançar a fase do papel industrializado, feito de pastas de madeira, para hoje tornar-se virtual. O nosso livreiro jamais soube desta longa e difícil trajetória, mesmo que de forma remota ou ilustrativa, mas o fato é que ele conseguiu involuntariamente estimular o que hoje podemos denominar de corredor cultural do “Paredão da Assembléia”. 

O surpreendente início

No começo, Biu negociava com papel velho, garrafa, lata e outros objetos, hoje em dia denominados “recicláveis”. Um certo dia comprou, a preço módico, uma biblioteca, de uma tradicional família alagoana desejosa de livrar-se finalmente daquele estorvo. Biu iniciou o transporte em sua carroça, por ele próprio puxada – conhecida como “burro sem rabo”. Cansado, parou na praça Dom Pedro II, em frente à estátua do imperador, um belo monumento construído em homenagem a Sua Majestade; ao arriar a carroça, pesada, cheia de livros, os transeuntes, vendo a inusitada cena, foram parando e aglomerando-se em torno da carroça: iniciava-se ali mesmo a venda dos livros, adquiridos inicialmente como papel imprestável, destinado a embrulho.

Ao despertar o interesse dos “clientes” que transitavam apressados pela praça, ato contínuo Biu percebeu sua nova e repentina aptidão, sem sequer saber ao certo como deveria chamá-la, mas o fato inquestionável é que agora ele inaugurara nova atividade comercial.

O destino da carga foi subitamente alterado, e a “montanha” de livros comprados das famílias ilustres de nossa capital teria destino glorioso: a difusão da cultura. Não mais papel para embrulhar mercadorias vendidas no Mercado Público, em bancas fedorentas de peixes, mariscos, verduras, frutas, crustáceos, além dos embrulhos de sabão, prego, material de construção etc.

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JATIÚCA, ESSA É A MINHA PRAIA

[...] Como o mar de Jatiúca
Vive trágico, vive aflito
Perguntando se os coqueiros
E as jangadas vão restar
Pra passear no mar [...]  

(Música de Beto Leão)

A urbanização de Jatiúca, iniciada na década de setenta, mudou o bairro definitivamente: foram abertas avenidas, ruas; conjuntos habitacionais construídos e inaugurados. O saneamento básico na área central do bairro foi efetuado. Os sinais de modernização chegaram com a urbanização dessa região que vivia apartada do resto da cidade.  

Em pouco tempo ocorreram mudanças tão significativas, que alteraram toda a paisagem e a vida do então bucólico bairro de pescadores.

A beleza natural estava escondida da maioria dos habitantes da cidade, mas com a urbanização houve a descoberta do belo − poucos tinham o privilégio de desfrutá-lo. O coqueiral, o mar e a Lagoa da Anta, ao serem apresentados ao grande público, pareciam um objeto exposto à venda na vitrine da loja.

Os pobres, que se banhavam nas águas mornas da Lagoa da Anta, sobreviviam − muitos deles − retirando o sustento da família do mar, do lindo mar de Jatiúca. Passaram a observar o desempenho das máquinas aterrando os manguezais, derrubando os coqueirais, alterando a paisagem do lugar.

O acesso à praia foi aberto pelas avenidas Álvaro Otacílio, João Davino e pelas outras que passaram a fazer a ligação entre o bairro e a praia: Amélia Rosa, almirante Álvaro Calheiros, Jatiúca e deputado José Lages. Foi dessa maneira que definitivamente Jatiúca entrou no mapa da cidade.    
 
A longa barreira formada por coqueiros gigantes foi destruída. As novas gerações não têm a ideia de quanto era bonito o coqueiral que vigiava a orla de Jatiúca. Mas, infelizmente, as denominadas urbanização e reurbanizações foram engolindo os coqueiros e a faixa de área marinha. A prefeitura vem se dedicando sistematicamente a derrubar os coqueiros, a impermeabilizar o solo e usar cada vez mais o asfalto, desnecessariamente. 

O sociólogo pernambucano Gilberto Freyre disse que o alagoano é um povo anfíbio. No entanto, isto não sensibilizou o governador e o prefeito quando entregaram a Lagoa da Anta aos proprietários das Casas Pernambucanas, à família Lundgreen, que aterrou a lagoa e sobre as suas águas ergueu o imponente Hotel Alteza Jatiúca. O primeiro cinco estrelas de Alagoas nasceu engolindo as águas mornas e límpidas da Lagoa da Anta.

A outra margem foi entregue ao ex-governador de Sergipe, para construir um conjunto habitacional, o Parque Jatiúca. Hoje a região é um bairro consolidado. A ironia é que um dos hotéis recentemente construídos chama-se Ritz Lagoa da Anta. 
 
O crime perpetrado deixou, como todos os crimes, suas marcas. Restou da Lagoa da Anta apenas um espelho d’água poluída e represada que, “generosamente”, o Hotel Jatiuca protege. Os turistas tiram fotos e se admiram da beleza do local.  

Em dias de maré alta a praia amanhece com os surfistas se equilibrando em pranchas que deslizam sobre o dorso das ondas que crescem e vão quebrar no Mata Garrote, nome primitivo dessa área da praia de Jatiúca que foi substituído pelo “carioca” Posto 7.
 
Na antiga Lagoa da Anta, os casais de namorados às tardes e noites andavam desviando-se dos coqueiros e estacionavam à sombra ou sob a luz da lua. Abriam as portas do carro para a brisa fresca do mar entrar. O som que se ouvia eram as ondas quebrando na areia.

Os coqueiros foram derrubados e em seu lugar foram erguidos edifícios que passaram a ser vistos como a paisagem do bairro. É um novo bairro, aquele bucólico sumiu, restando o apenas o mar, o lindo mar de Jatiúca.

Andar a cavalo à beira-mar, pescar, jogar futebol, acampar, subir nos coqueiros são coisas de um passado cada vez mais distante.
 
A orla está decorada com alguns poucos coqueiros, sobra daqueles coniventes das tardes e noites de amor livre. É possível, sem muito esforço físico, contá-los.
     
A beleza tem sido punida em Maceió. É uma tara nefanda. Não duvidem se um dia qualquer for publicado no Diário Oficial decreto municipal com os seguintes termos: “Fica terminantemente proibido olhar a beleza do mar em Jatiúca”.
 


CASAMENTO SECRETO

A dedicação à família para Adroaldo está em primeiro plano. Nada é mais importante para ele que a mulher e as duas filhas. As suas curtições sempre foram as rodas de sambas, tomar cerveja com os amigos nos finais de semana na praia de Guaxuma, jogar futebol e praticar atletismo. Não pensa em juntar dinheiro, e muito menos formar um patrimônio material expressivo. Vive para o trabalho, para a família e para curtir a vida.

Casado com Lúcia há 25 anos, no entanto, a relação do casal nos últimos cinco anos não andava bem.  Até o dia em que Lúcia decidiu levar a sério o que já vinha falando: “quero me separar”. Os motivos, os dois sabiam, pois não carecia de maiores delongas. A separação ocorreu de maneira consensual, sem traumas. As filhas, adultas, ficaram − por decisão delas − com a mãe. São estudantes universitárias: uma estuda engenharia e a outra, odontologia.

Adroaldo, após se consumar a separação, logo no primeiro dia foi caminhar na orla, como faz habitualmente. Nada mudou em sua rotina. O assunto da separação só foi tratado com alguns poucos amigos, os mais íntimos, mesmo assim com reserva, duas semanas depois.

A hora mais sentida para ambos foi a da partilha do patrimônio. O que lhe coube, aliás, o que Adroaldo escolheu foi: a biblioteca com três mil livros, muitos raros, cerca de cinco mil CDs de música clássica, MPB, regional, e trezentos discos de 78 RPM, um acervo invejável. Ainda lhe couberam mil e quinhentos DVDs.

O que mexeu com o emocional foi a hora em que foram retirados das paredes os quadros por ele pintados, alguns inacabados, e sobretudo as obras de artes herdadas de sua mãe, bem como alguns quadros comprados durante o casamento.

A caixa com os álbuns de fotografias antigas da família materna e paterna foi incorporada ao seu patrimônio. E, por último, o campo de futebol de botão lhe foi entregue pelas duas filhas com largos sorrisos, pois sabiam o quanto o pai adora futebol de botão e da sua devoção pelo time do Santos Futebol Clube, bicampeão mundial de futebol.

A poupança aberta para as filhas quando nasceram era fato conhecido da ex-mulher e até registrado num testamento feito depois que sobreviveu a um incrível acidente de automóvel no carnaval de 2000. Os cartões das poupanças com as respectivas senhas foram passados para as filhas na presença de Lúcia.

O caminhão-baú da empresa de mudanças estacionou na porta do que ele passou a considerar como ex-residência. Três trabalhadores iniciaram o carregamento dos pertences, e em poucas horas tudo foi acomodado e o caminhão deu partida. O desejo de viver em liberdade, tão ansiado por Adroaldo, se consumava. Ele balbuciou baixinho: “é a vida que segue, me sinto um homem livre”. 

Agora solteiro, passou a ir a lugares na cidade que já não reconhecia e de que até mesmo havia perdido a intimidade. O retorno à boemia, amanhecer o dia nos bares, restaurantes e casas de samba, andar pelos salões, foram um novo mundo que se descortinou.  E a possibilidade de azarar a mulherada, tomar um porre sem culpa, até parece que lhe devolveu o gosto de viver. Não se lembrava mais do último porre, por exemplo. 

Acontece que a vida encaminha as pessoas nem sempre para lugares planejados; muitas vezes, o planejamento que é importante para as empresas, bancos, administração pública, quando se trata do amor não serve ou pelo menos não tem a mesma eficácia.

Passou a ser convidado para festas e aniversários − não que antes não o fosse, mas o clima era outro. Os seus olhos viam tudo diferente. Evidência disso é que no dia 10 de junho fora convidado por Marise, amiga de longa data, para ir ao seu aniversário.

À vontade, Adroaldo, toma uísque, conversa animadamente, mas é para uma moça – que ele ainda não sabe quem é – que as suas atenções se voltam. Os olhares se cruzam, risos contidos são dados um para o outro.  Ao perceber que a garrafa de uísque estava distante e o braço da moça não a alcançava, como um bom cavalheiro se levantou e foi servi-la. Olhando nos seus olhos, perguntou o nome. A resposta: Helena.

A partir daí passaram a se falar, e num passe de mágica, ao sentir que tinha uma cadeira vazia junto dela, Adroaldo se aproximou, e seguiram conversando. Era o início desejado.

A festa alcançou a madrugada, que lentamente foi dando lugar à manhã ensolarada do verão em Maceió. O tempo foi passando, e muitos convidados se foram.  Marise, percebendo a aproximação entre os amigos comuns, sem que ambos notassem, tornou o ambiente ainda mais aconchegante juntando as mesas. Tudo estava concorrendo para aproximá-los, pois juntos os dois se paqueravam mais e melhor. Os acordes extraídos do violão do Luisinho Sete Cordas se tornaram indispensáveis e mantinham o clima de boemia e ternura dos últimos resistentes da festa.  

O sol raiou.  Adroaldo e Helena se despediram e foram tomar o café da manhã no Bodega do Sertão. Sentaram-se a uma mesa do restaurante, comeram cuscuz, ovos com inhame, carne do sol, refestelaram-se nas cadeiras confortáveis e arremataram um prato de arroz-doce – para cortar o uísque. O cheiro do café quente fez com que bebessem xícaras de café com leite. Pagaram a conta, e Helena, olhando nos seus olhos, convidou-o para dormir em seu confortável apartamento.

O namoro teve início na primeira madrugada e no primeiro encontro. Daí em diante passaram a sair juntos, almoçam três vezes por semana num restaurante vegetariano, e os outros dias alternam entre as casas em que vivem.

Desde que Helena lhe propôs casamento não tem pensado em outra coisa que não o exato momento do casamento, definido por ela como secreto. Apenas os dois nubentes sabem; óbvio, ninguém mais será convidado, e menos ainda saberão de tal fato. Para os familiares e amigos eles são namorados. 

A cidade vive o clima de Natal. As festas de final de ano são bem definidas: ceia de Natal é sagrada, na casa dos pais de Helena. Mas no réveillon cada um faz o seu programa. Em geral, os sobrinhos vão para a orla assistir ao espetáculo da queima de fogos; os irmãos organizam uma festa de passagem de ano na praia de Guaxuma. Para Adroaldo e Helena era o momento ideal: na presença de familiares eles casariam secretamente. Perfeito. Tudo foi pensado por eles; compraram champanhe, roupas brancas, inclusive as íntimas, vestido transparente, biquíni e flores.

Os fogos espocaram anunciando o ano, e o novo casal entrou com o pé direito nas águas mornas da praia de Guaxuma, com taças de champanhe, brindando e se beijando demoradamente. Os familiares em volta comemoram também a chegada do ano novo. Os abraços apertados são dados, ouvem-se choros de emoção incontida de um dos sobrinhos, outro agradece a Deus pela graça de ter sido aprovado num concurso público.

De mãos dadas mergulham, como se fossem golfinhos; brincam, pulam, abraçam-se e beijam-se, comemorando o casamento secreto e aquático.


DIANA REJEITA A NET

A humanidade como num passe de mágica se tornou devassável. As fofoqueiras que habitaram em tantos e tão distantes lugares hoje são figuras quase bizarras, perderam a razão de ser. O mundo virtual tem os olhos e os ouvidos conectados na rede mundial de computadores, a internet. Todos estamos expostos. 

Quem não estiver conectado numa dessas redes sociais não é parte integrante desse universo fantástico chamado de humanidade.

Diana é economista, trabalha duro como consultora de empresas, era a última pessoa no trabalho e entre os amigos que não havia se familiarizado com as salas de bate-papo, os sites de relacionamentos, o orkut, o twitter e o facebook, as tais redes sociais.

As explicações usadas por ela sempre foram taxativas: “não tenho interesse em me relacionar com ninguém virtualmente”. De tanto ser cobrada pelos amigos e pelo chefe imediato, tinha sempre e invariavelmente a mesma resposta, um mantra: “não tenho interesse em me relacionar com ninguém virtualmente”. Resposta pronta para qualquer ocasião e pessoa. E ponto final. Dizia sem alterar a voz.
 
O dia a dia estressante fez com que as férias fossem antecipadas. Promoções de passagens aéreas e facilidades no pagamento, resultado óbvio da estabilização da economia, conduziram a dedicada profissional às praias de Alagoas.
 
Esse destino turístico não foi escolhido aleatoriamente nem foi indicação de agentes de viagens. Em Maceió, reside há muito tempo Ambrósio, o primo com quem Diana, desde a infância, se relaciona. Nunca brigaram, e mesmo vivendo afastados mantêm permanente contato, pois ela é madrinha de um dos seus filhos, Carmela.
 
A oportunidade apareceu, era baixa estação, preços acessíveis das passagens e ainda tinha hospedagem garantida na casa do primo querido. Esse conjunto de fatores foi determinante; restou tão somente arrumar a mala, colocar as roupas de banho e aterrissar em Jatiúca, bairro moderno que dá nome à praia. O metro quadrado mais bonito do litoral alagoano.
 
Todos esses atrativos e mais a companhia querida da família fizeram logo no primeiro dia com que ela esquecesse a pesada agenda de compromissos, o relógio, o celular, instrumento de escravização moderna, e pasmem: o notebook, máquina inseparável. A rotina dura de trabalho foi rapidamente substituída por copos de cervejas e petiscos. Exposição ao sol brilhante, compras rápidas de um novo guarda-roupa de praia. A consultoria de moda-praia foi feita pela “prima”, Ângela. Short colorido, coladinho na pele, camisetas decotadas, adereços para os cabelos foram algumas das compras feitas na primeira noite.

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O BURACO DA ZEFINHA, TERRITÓRIO DO SAMBA E DO AMOR

As rodas de samba aconteceram durante vários anos em Jaraguá, bairro boêmio de Maceió. O Buraco da Zefinha, botequim que reunia a fina flor da boemia do bairro e que atraiu uns tantos representantes da classe média, professores universitários, médicos, agrônomos, poetas, filósofos, arquitetos, assistentes sociais, nutricionistas, mas também acorriam para as rodas de sambas, trabalhadores, mecânicos, portuários, catraieiros, estivadores, motoristas e, vez por outra, apareciam umas meninas de profissão duvidosa, que eram aceitas sem nenhuma discriminação.

Para alegria geral eram elas as mais animadas. Tinham o samba no pé e o coração dadivoso, levando muitos dos marmanjos para dançar no apertado salão, entre as mesas. 

Duas personalidades se destacavam no botequim: um era o cantor José Paulo, negro, voz grave; os óculos ray ban eram a sua identidade − aquele negrão alto se impunha pela elegância e pelo sorriso largo. O poeta Paulo Renault era o outro. Os dois, cada um a sua maneira, agregavam amigos, bambas para as tardes de sábado no Largo do Mercado de Jaraguá.

Ritinha, médica pediatra, era uma frequentadora assídua das tardes de samba no Buraco da Zefinha. Acostumada ao trabalho intenso no consultório e nos plantões em dois hospitais, de uma coisa ela não abre mão: das rodas de sambas nos dias de sábado. É o momento da sua vida em que ela se permite o prazer, sem que tenha possibilidade alguma de pensar em trabalho.

A profissão é tudo o que tem de mais significativo e importante para Ritinha e para a sua família. Nasceu numa família pobre, proletária; os pais são trabalhadores, a mãe, lavadeira, está aposentada por invalidez; adquiriu uma hérnia de disco que a incapacitou para o trabalho, inclusive o doméstico. O pai, que iniciou a vida como pedreiro, hoje é mestre de obras e anda cada vez mais animado com o boom da construção civil.

A única filha é médica – orgulho para os pais, uma espécie de troféu −, a única de toda a família. Bem-humorada, festeira, dança todos os ritmos, mas é o samba o ritmo de que mais gosta. É portelense como ninguém. Quando vai se aproximando o carnaval, procura aprender o samba-enredo da Portela, escola em que desfila há dez anos.

O seu jeito independente e alegre tem erguido barreiras entre os casais no botequim. As mulheres não costumavam lhe dar conversa, talvez por insegurança, medo, quem sabe, de que em algum momento um dos maridos possa ser fisgado pelos olhares e trejeitos da mulata fatal do Buraco da Zefinha.

Os olhos castanhos da mulata se fixaram num arquiteto-boêmio e poeta bissexto. Passaram muitos finais de semana um jogando com o outro. Houve um ex-militar e escritor que se jogou na direção de Ritinha, mas não logrou êxito. A pediatra fez a sua escolha, atendeu aos batimentos do coração: os olhares correspondidos entre ela e um negrão frequentador assíduo do botequim.

Florisvaldo é um malandro de fala mansa, conhecido na área, com anos de rodagem. Talvez por essas características tenha sido o escolhido pela pediatra, que deixa aos sábados o estetoscópio em casa e sai despojada com um tamborim para tocar na roda de samba. Fulô, como é conhecido por todos, é tido como um cara esperto, “safo”, um cobra-criada na roda da malandragem. Trabalhador, catraieiro, vive desde muito jovem no porto de Maceió. Acostumado às intempéries.  

Mas foi pego de surpresa. Primeiro, não imaginou que Ritinha o chamasse para dançar, e muito menos, num segundo momento, lhe dissesse ao ouvido, sussurrando: “Você é meu, gatão. Estou de olho em você faz tempo”.

O samba entrou pela noite, cervejas e cachaças foram tomadas, elevando o grau alcoólico. No final, Ritinha pagou a conta integralmente e o convidou para sair pela noite. Outra surpresa, a terceira em poucas horas: foi levado do botequim para uma noitada a dois num dos motéis da cidade.

De encontro em encontro, os dois passaram a ter uma relação mais séria, mas cada um vivendo em sua casa. A pediatra mora no mais elegante bairro de Maceió, a Ponta Verde, e Florisvaldo de Jesus, numa casa de Cohab, no Jacintinho, bairro popular. O relacionamento impactou a vizinhança; o jeitão desleixado de Fulô logo caiu na boca dos porteiros e de algumas fofoqueiras de plantão do condomínio. 

Nada que incomodasse a ilustre moradora. Pagava as suas contas em dia, para ela isso era o que importava. Acontece que o fato de ser bem-humorada e de bem com a vida, falar com todos indistintamente, para Florisvaldo, que não tinha esse tipo de relação com as suas outras namoradas e muito menos com a ex-mulher, passou a incomodar e não demorou a explodir uma tremenda crise de ciúmes.

Depois de cinco meses de namoro, um verão passado juntos, Ritinha, na roda de samba, fala para os amigos que vai novamente desfilar na sua escola do coração: a Portela. A partir desse momento o caldo foi entornando: olhares de desaprovação e cenas explícitas de ciúme se tornaram públicas.

Desavisado, Mário, amigo e ex-namorado, havia chegado de uma viagem; não sabia do namoro e não havia percebido o clima de ciúme explícito. Chamou-a para dançar, e o pedido foi prontamente aceito. Os dois foram acintosamente observados pelo namorado.    

A cena foi vista, de longe, pelas despeitadas mulheres que acompanham os maridos, marcando-os severamente. Os comentários rapidamente foram feitos de mesa em mesa. A altivez da pediatra não permitia passar recibo; dura, enquadrou o namorado ciumento. E disse-lhe em voz alta que iria ao Rio de Janeiro, como já havia ido nos últimos nove anos. Fez questão de apresentar ao amigo o namorado e ressaltar a sua atitude infantil.

O carnaval estava próximo. As passagens estavam reservadas, inclusive a de Florisvado de Jesus, que nem sabia que seria presenteado. Era a surpresa que a amada iria lhe fazer.

A proximidade do carnaval foi aumentando o ciúme, e o clima piorou. Ritinha decidiu acabar com as cenas. Chamou-o para uma conversa e lhe disse que o amava, mas que era uma pessoa independente e que pagava um alto preço por ser assim. E não seria ele quem iria quebrar um compromisso com a sua escola e estragar o prazer em desfilar no carnaval carioca.

A reunião colocou um ponto final no namoro. As lágrimas correram dos olhos do casal. Mesmo diante de tanto choro, Ritinha foi desfilar. Antes, passou na sua cabeleira, se depilou, cortou os cabelos, fez massagens. Um pouco antes de viajar, passou na casa dos pais para se despedir e deixou dinheiro para eventualidades. Procurou ocupar o tempo, mas o seu negrão não lhe saía do pensamento. O avião voando a doze mil pés de altitude, e Ritinha chorando baixinho, quase soluçando, com lágrimas rolando pelo rosto, manchando a maquiagem, toma uma atitude. Batuca na mesinha e cantarola baixinho um samba preferido: “Vem, meu novo amor/Vou deixar a casa aberta/ Já escuto os teus passos/Procurando o meu abrigo”.   


UMA TARDE DE SAMBA

O crepúsculo todos os dias é inexorável. Ao passo que o sol vai se escondendo, magistralmente vem despontando a lua − senhora da noite e dama indispensável do amor. Mas naquela tarde de maio o samba era o senhor dos corações e aspergia alegria, contagiando a todos que estavam no salão, tanto os que dançavam quanto os que, sentados às mesas, bebiam, conversavam e namoravam.

Ao sair de casa, Romualdo pensou alto: “Vou em busca de uma namorada”. Talvez ficando plantado num local onde tivesse uma visão panorâmica do salão, por certo, lhe deixaria uma visão do alvo a ser escolhido. A batida do surdo era para ele o som que vinha do coração. A dupla de cantores interpretava músicas consagradas, e todos no salão, em uníssono, cantavam ou cantarolavam, o que só fazia crescer o clima de animação e alegria.

O Oráculo, faz tempo, se tornou um palco referencial para os sambistas e para os que curtem samba em Maceió. O clima de alegria é propicio para se dançar e também, quem sabe, para iniciar um namoro. Foi numa tarde de sábado, não sei precisar, que avistei uma bela mulher, de meia idade, que me chamou a atenção: dançava animadíssima, sorridente; fiquei olhando, acompanhando os seus movimentos, mas feito um raio em dia de céu aberto, sumiu e não consegui mais vê-la. Procurei por todos os cantos, me pus a andar, mesa por mesa, olhando atentamente. Perdi-a de vista.

Qual não foi a minha surpresa, no fundo do salão, quando a encontrei sentada, tomando água de coco, conversando animadamente com as amigas. Permaneci a meia distancia, novamente acompanhando os seus passos. O que me restava fazer era esperar a oportunidade para abordá-la.

A mulher ansiada tinha traços fisionômicos semelhantes aos de uma outra pessoa que não conseguia identificar com clareza. Será que realmente a conhecia? Será que ela é uma médica que trabalha numa casa de saúde onde faço exames regulares? Tudo ia ficando confuso, e a minha memória não ajudava. Chego a pensar que ela trabalha contra mim, pois quando eu mais necessito dela, como nesse momento, ela não é precisa, clara. Deixa-me ainda com mais dúvidas.    

Romualdo resmunga, e diz: “Nada nessa hora pode me atrapalhar”. O que estava se desenhando em sua cabeça era encontrar um meio rápido para sentar àquela mesa com tantas mulheres bonitas e alegres. E entre elas a que lhe chamou a atenção, a que passou a ser desejada.

Os requebros, as pernas torneadas, olhar sensual, silhueta definida pelo vestido jeans azul, tudo enfim é motivo para fantasiar; e ela, leve, calma, risonha, não imaginava que houvesse olhos tão atentos e virados em sua direção.

Sumiu no meio da multidão. Foi embora para casa, saindo à francesa. Mas nada como a sorte: havia uma amiga comum que o socorreu, ao ser indagada sobre quem era e qual o nome da amiga. Os contatos foram feitos, números de telefones foram passados, e em poucos dias aconteceu o melhor: o encontro ansiado num restaurante.

A mulher até então desconhecida e que sambava passou a ser a senhora do coração de Romualdo.

Daí em diante a vida é puro amor.


A MULHER DO COLANTE LILÁS

Os cuidados com a saúde têm sido assunto de todos em todos os locais, públicos e privados, nas empresas, botequins e nas fazendas, nas capitais e no interior. O Brasil é um país onde há uma real preocupação com a saúde. Os médicos não se cansam de recomendar os necessários cuidados para se ter uma vida saudável.

O bem não amanhece nas televisões. Podemos visualizar apresentadoras loiras e saradas dizendo o que devemos fazer para manter a saúde: caminhadas regulares, pelo menos três dias por semana, durante uma hora, de preferência em locais agradáveis. Além das providenciais recomendações de que teremos de reduzir a ingestão de bebidas alcoólicas; gorduras trans, nem pensar, pois esses venenos matam o sujeito pelo simples fato de pensar em ingeri-los (o açúcar deve ser substituído por adoçantes), arrematando com a severa reprimenda: fumar faz mal, adverte o Ministério da Saúde.
 
Os programas não perdem o foco: vida saudável. A minha meta é alcançar, pelo menos, a metade da idade de Matusalém. Há programas nas tvs pagas exclusivos e destinados às diversas faixas etárias, seja melhor idade, crianças, adolescentes, bem como para os de meia-idade. Os que desejam viver bem têm de comer melhor. Aliás, essas são as condições sine qua non para atingirmos a melhor idade em boa forma.
 
Obediente às orientações médicas, tenho acordado cedo, disposto a superar qualquer tipo de obstáculo que venha a causar transtorno à minha frágil saúde. Nunca me imaginei tão frágil assim. Mas diante das consultas médicas a que venho sendo submetido anualmente fiquei com essa impressão, ou certeza, melhor dizendo. Tenho caminhado regularmente cerca de seis quilômetros nos sete dias da semana.
 
Sinto que tem havido melhoras consideráveis na minha condição física, mas o que mais me faz sentir bem é quando os meus olhos avistam a mulher de roupa colante. Não é mais uma ninfeta, está na casa dos quarenta; para ser mais preciso: passa dos quarenta e cinco anos.
 
A turma de cinquentões que caminha disciplinadamente todos os dias segue as recomendações dos cardiologistas: passos largos e olhos atentos ao movimento; o que faz mudar o papo descontraído é uma mulher que se veste sempre com colantes, variando apenas as cores. Para eles evidencia-se a preferência dela pelo lilás, embora todos estejam convictos de que ela tem mais de uma peça no seu guarda-roupa.
 
O corpo da mais admirada entre tantas mulheres que caminham na orla de Maceió, pelas manhãs, apresenta curvas perfeitas, bem definidas, e que são atraentes de longe ou quando se aproxima num cadenciado jogo de pernas e sensualidade que muitas vezes quebra o ritmo da caminhada dos seus indisfarçáveis admiradores matutinos.
 
A mulher de colante lilás não precisa seguir as recomendações das apresentadoras loiras das tvs; ela é sarada e cuida bem da saúde, não se deixar iludir pelo merchandising dos programas televisivos. O corpo escultural, cheio de sensualidade, que vem e passa todas as manhãs pela orla de Jatiúca é, para os cinquentões, o melhor remédio para o controle da pressão arterial, regula o colesterol nas suas duas vertentes, HDL e LDL, além de exercer um fantástico estímulo para se viver bem e com saúde.
 
Caminhar pela manhã faz bem à saúde − é uma recomendação do meu cardiologista.


AMIZADES

Amizades se fazem durante a infância e juventude. Pode parecer uma frase de efeito, mas não é, pelo menos eu penso assim. Durante a vida, longa ou breve, cada um de nós evidentemente que pode conquistar amizades, no trabalho, na vida militar – para os que foram ou são militares −, etc. É possível ficarmos muitos anos sem que encontremos um amigo sequer da juventude, quando vivíamos intensamente as farras, brincadeiras, viagens, peladas. E quando acontece o reencontro é como se retornássemos àqueles anos de convivência diária.

A vida nos obriga a tomarmos caminhos diferentes, e perdemos os laços que eram tão próximos, íntimos, até. Não temos notícias um do outro. O reencontro é algo renovador, restaurador. As lembranças dos anos em que fui estudante – nas três fases: primário, secundário e universitário – são recorrentes. Muitas vezes uma palavra nos transporta para um tempo que achávamos adormecido em nossas memórias.

Os quatro anos vividos como estudante no Colégio Marista de Maceió deixaram marcas em minha vida. Jamais os esquecerei por completo, a não ser que o Alzheimer, esse maldito alemão, se apodere de mim. Mas como o meu santo é forte, dou-lhe um pontapé no saco e ele sai rápido de perto. Vai baixar em outra freguesia.

Nunca participei de eventos nostálgicos, não sou dado a esse tipo de convivência. Mas como continuo morando em Maceió, e morar em cidade pequena significa, entre outras coisas, encontrar com pessoas conhecidas, vez por outra me encontro com o Waldson Peixoto, amigo desse tempo. Em geral, na sorveteria Bali. E ele sempre com a ideia de reunir a turma, pois anos se passaram sem que nos encontrássemos com frequência.

A minha resposta foi sempre afirmativa, mas intimamente não me via presente nesse tipo de ação. Até que o mundo virtual do Facebook me aproximou de inúmeros amigos de quem não ouvia falar e de alguns de quem não me lembrava. A minha memória nunca foi boa o suficiente para memorizar nomes de pessoas, e quando se trata de quantidade. então me sinto órfão. Recorro à malandragem, do tipo: “e aí, tudo bem, meu irmão”. Ou à mais usual: “Ah, quanto tempo não nos vemos, vamos marcar um encontro”. E não passava disso.

Agora me vejo completamente comprometido com um ambiente que já não é mais virtual, mas real. O primeiro encontro, que denominamos de preparatório do Encontrão, foi uma maravilha de rememoração de acontecimentos. Creio, até, que foi um estagio de regressão, não digo ao útero, mas à infância e à adolescência, já tão distantes. Afinal, somos mulheres e homens, alguns avôs, outras avós, uns casados, outros descasados, outros casados por mais de uma vez, mas todos ávidos por lembranças de fatos comuns às nossas vidas de adolescentes.

No dia do encontro preparatório, Alagoas ficou submersa; mesmo assim um grupo de cerca de 20 pessoas saiu, cada um em seu bote, e foi ao Divina Gula, beber e comer e jogar conversa fora.

O incrível de tudo isso, pouco ou quase nada tratamos de nossas vidas pessoais ou profissionais na atualidade. Quanto a essa fase, sinto não ter criado nenhum tipo de curiosidade ou mesmo de interesse. Queríamos era reviver um tempo a que jamais voltaremos, a não ser quando o rememoramos, e nada mais.

A página criada no Facebook, Alunos do Marista 1979, tem sido alimentada com avidez, e para minha surpresa, muitos comentários sugerindo como devemos realizar o Encontrão. Preciso ressaltar o papel de duas figuras que no meu entendimento têm sido fundamentais para agregar os amigos: o Waldson Peixoto e a Thereza Vieira.

Há também os que mantêm acesa a chama: é o caso do Omar Coelho, do Plínio Goes, da Tereza Holanda, da Aline Marta, do Sérgio Costa, do Alberto Jorge, do Sérgio Quintela, do Aderson Mendonça e do Elton Rocha, entre outros.

Enquanto não chega o dia do Encontrão, continuaremos a brincar como se fossemos adolescentes, através do Facebook, prosseguindo na busca dos amigos que ainda não foram contatados.


O MAR DA BARRA DE SÃO MIGUEL É DO GILDO MARÇAL BRANDÃO

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Gildo Marçal Brandão, na redação da antiga Tribuna de Alagoas

Ontem (domingo, 7/8), no final da tarde, o mar azul da Barra de São Miguel recebeu as cinzas do jornalista e professor alagoano Gildo Marçal Brandão, falecido no dia 15 de fevereiro de 2010, em São Paulo. Atendendo a um dos seus desejos, foi cremado, e na tarde de ontem as cinzas foram lançadas ao mar.

Mas antes pediu a sua companheira Simone Coelho que as jogasse num local especifico, onde sempre tomava banho, quando vinha durante as férias anuais ou em passagem por Alagoas. Estiveram presentes os seus familiares: pais, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, neto, a mulher e amigos, que fizeram a entrega das cinzas ao mar, numa tarde ensolarada.

Saí da Barra de São Miguel com a certeza a de que todas as vezes que voltar àquele ponto da praia vou me banhar na mais bela e ampla sepultura que um ser humano desejou e conquistou. E logo ele, Gildo, nascido no alto sertão em Mata Grande, que havia andado por muitos lugares no Brasil e em outros países, optou pelo mar azul da Barra de São Miguel. De uma coisa não posso discordar: da sua escolha, pois o litoral da Barra de São Miguel é excepcionalmente belo. E o Gildo, cá pra nós, tinha muito bom gosto. 


A MÚSICA E O VIOLÃO DE JOSÉ LUIZ POMPE

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José Luiz Pompe no violão e Beto Batera

José Luiz Pompe [1955], jornalista e músico, nasceu em Sorocaba−SP, no dia 6 de março de 1955, filho de Oscar Pompe e Anna Christina Leite Pompe. O casal teve cinco filhos: Terezinha, Hélio, José Luiz, Carlos e Maria Aparecida. A música, quando José Luiz nasceu, era uma atividade amadora na família Pompe, mas aos sete anos de idade, ao passo que era matriculado na escola primária, passou a ter aulas de piano clássico, sob os cuidados da primogênita Terezinha Pompe.

Porém o que lhe chamou a atenção foi “seu” Oscar dedilhando no violão “Abismo de Rosas” e “Marcha dos Marinheiros”. O tempo foi passando, e o violão se tornou uma grande paixão, agora sob a influência de Hélio, seu irmão, que toca baixo no conjunto de bailes do Seminário de Sorocaba. Desistiu das aulas de piano com Terezinha, adotou o violão, instrumento que, junto com outro irmão, Carlos, passou a estudar.

A decisão de aprofundar os estudos de violão foi tomada na certeza de que poderia se aprimorar no domínio do instrumento e, quem sabe, se tornar um violonista profissional. Mas para tanto haveria de sair da então tranquila Sorocaba e do convívio familiar, no início da década de 1970, para se matricular no respeitável Conservatório Carlos Gomes, de Tatuí (SP).

Quando adolescente, em Sorocaba, reunia os amigos em torno de seu violão, numa atitude de contestação política à ditadura militar, cantando músicas como “Calabouço”, do paulista Sérgio Ricardo, “Apesar de você”, de Chico Buarque, “Viola enluarada”, dos irmãos Marcos e Sérgio Valle, e muitas outras do gênero. Tocar violão e cantar passaram a ser desde muito cedo uma atividade lúdica e quase profissional.

 Antes de 1978, ano em que veio morar em Maceió, participou de festivais de música no interior de São Paulo, musicou − em Curitiba (PR) − a trilha do filme “Catadores de papel”, de Homero Carvalho (premiado em Fortaleza como a melhor trilha sonora), e também compôs para peças de teatro, entre elas o jogral “Cantaremos”, de Walmor Marcelino.

“Enfrentávamos então o frio de Curitiba, quando revi um postal da ensolarada Maceió enviado pelo nosso amigo Mauro Braga, ator teatral alagoano que morou em Sorocaba e que tinha retornado a Maceió. Decidimos visitá-lo na capital alagoana, onde continuo até hoje (meu irmão Carlos Pompe voltou para São Paulo em 1981 e atualmente mora em Brasília)”, revela Pompe.

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O CINÉFILO DAS ALAGOAS

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Elinaldo Barros

Elinaldo Soares Barros [1947], crítico de cinema, cinéfilo, jornalista e professor de educação artística, nasceu em Maceió, dois dias antes do natal de 1947, no dia 23 de dezembro, filho do casal José Soares Filho e Elita Soares Barros. Estudou no Colégio Estadual e na Universidade Federal de Alagoas, onde iniciou as suas atividades político-culturais, sendo eleito segundo secretário do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes (ILA), na gestão de Élcio Verçosa, no biênio 1968/69.

Licenciado em Letras pela Ufal em 1970, trabalhou como professor do Colégio Guido de Fontgalland e a partir de 1974 no Curso de Educação Artística do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac).

A segunda metade da década de 1960 foi o período em que a ditadura militar recrudesceu e a censura às manifestações artísticas e políticas atingiu o seu ápice. Nesse momento difícil, um grupo de jovens cinéfilos organiza o Cinema de Artes em Maceió, tendo à frente Radjalma Cavalcanti, Gildo Marçal Brandão e Imanoel Caldas.

Todos esses jovens tinham em comum o gosto pelo cinema e pelas artes, alguns também pela política. Nem todos eram vinculados à política, mas ao movimento estudantil e suas vertentes.

Elinaldo, estudante de Letras e já cinéfilo, frequentava desde a infância os cinema de bairro, que existiam naquela época: o cine Lux, na Ponta Grossa, o Ideal, na Levada, e o Royal, no centro. Integrou essa turma de difusores da sétima arte em Maceió.

O jornalismo na década de 1960 em Alagoas ainda tinha um aspecto romântico e boêmio. Nem todas as seções do jornal eram profissionalizadas; o caderno de cultura era uma dessas áreas do jornalismo que necessitavam de colaboradores, e foi a partir da critica de cinema e até mesmo das crônicas esportivas que intelectuais e jovens universitários passaram a colaborar mais assiduamente.

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O GOLPE MILITAR, 47 ANOS DEPOIS

O historiador Geraldo de Majella concedeu entrevista exclusiva à Tribuna Independente, na qual revela fatos importantes sobre o golpe militar de 1964. Por Emilia Bezerra

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Jayme Miranda, jornalista e dirigente do PCB, desaparecido des de 5 de fevereiro de 1975

O historiador Geraldo de Majella, 50 anos, em 1964 tinha apenas três anos de vida. Nascido em Anadia, distante 90 km de Maceió, a cidade discretamente “contribuiu” com cinco presos políticos, nos primeiros dias de abril de 64. Desde criança conviveu com ex-presos: eram pessoas comuns, do convívio familiar e que nunca lhe chamaram a atenção, pelo menos como os militares golpistas acreditavam ou fingiam acreditar que se tratar de gente perigosa.  O interesse pelo golpe militar de 1964 e seus desdobramentos tem início antes mesmo de quando decidiu, em 1981, fazer vestibular para o curso de história na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Maceió.   

Bem-humorado, fala dos ex-presos, seus conterrâneos: “um advogado no exercício do mandato de deputado estadual, um motorista de caminhão, um ferroviário, um trabalhador rural e um açougueiro que exercia o mandato de vereador. Mas de uma hora para outra foram transformados em agentes de Moscou e de Havana em Anadia, uma piada quando observamos com a distância de quase meio século”.

Desenvolveu um trabalho meticuloso e constante à procura de documentos – nas suas mais variadas formas: fotografias, recortes de jornais, documentos pessoais de militantes políticos e ou sindicais, gravações de depoimentos.

Passados tantos anos do início da pesquisa, “etapa que ainda não foi concluída, e não sabe se algum dia será concluída, visto que os estudos históricos são permanentes, não há prazo definido para acabar”, diz o sorridente Majella.

Rubens Colaço: Paixão e vida – A trajetória de um líder sindical [Edições Bagaço, 2010, 252 páginas] é o primeiro volume da série de depoimentos. O segundo volume: Mozart Damasceno, o bom burguês, já esta na editora, com lançamento previsto para o mês de junho.

O historiador, demonstrando uma intimidade invejável com o tema – o golpe militar e a história política de Alagoas −, prepara o terceiro volume: Nilson Miranda, uma cabeça a prêmio, que será lançado em março de 2012.

“O golpe militar de 1964 em Alagoas é pouco estudado ou, para ser cauteloso, pouco se publicou sobre esse evento tão importante na história republicana nacional e sobre suas consequências no estado”.

Os motivos apontados pelo historiador Geraldo de Majella são claros e diversos. Na sua ótica, “os historiadores que escreviam até 1964 e depois do golpe estiveram de um modo geral ligados às instituições estatais ou estavam de acordo com os militares. Passado quase meio século do evento, novos historiadores inauguraram novas linhas de pesquisas; os trabalhadores passaram a ser sujeitos da nossa história, a alagoana, e os movimentos sociais também começaram a ser pesquisados. Com isso, “descobertas” importantes foram reveladas. Trata-se de uma novíssima perspectiva”, sentencia Majella.

* * *

Como foi organizado o golpe militar em Alagoas? Quais forças políticas e econômicas estiveram diretamente envolvidas?

O golpe militar que depôs o presidente constitucionalmente eleito João [Jango] Goulart foi organizado longe daqui de Alagoas e até mesmo longe do Brasil. Tudo se iniciou e tomou forma a partir de Washington. Foi lá que o embaixador Lincoln Gordon, reunido com o presidente John Kennedy, decidiu que iriam bloquear o governo democrático e popular do presidente João Goulart. O jornalista Élio Gaspari, no livro A Ditadura Envergonhada, transcreve parte da reunião do embaixador americano no Brasil [Lincoln Gordon] com o presidente Kennedy, na qual a intervenção militar é posta sobre a mesa da Casa Branca como uma possibilidade real, fato que os documentos depois comprovaram, passando a ser uma decisão do governo americano. Não só para o Brasil, mas para vários países da América Central, Caribe e América do Sul.

Isso é visto por alguns como uma criação, uma invenção.

Para alguns desinformados, eu creio que o golpe e todas as articulações conspirativas internacionais e nacionais, podem ser ainda hoje, pois se recusam a reconhecer a verdade dos fatos históricos. Isso não pode ser visto, nunca, como uma criação espetacular de historiadores de esquerda.

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CLUBE DO SAMBA

O outrora aristocrático Jaraguá Tênis Club é um clube que se tem destacado − faz muito tempo − na formação de tenistas. Esporte identificado com a elite em qualquer canto que se encontrem adeptos. O clube tem sua sede social no mais boêmio dos bairros de Maceió, Jaraguá.
 
O bairro foi revitalizado e passou por transformações quase impensáveis diante do descaso a que foi submetido durante décadas. O casario em grande parte ainda permanece com as características de quando foi construído. Hoje, além da Associação Comercial, que passou por uma completa restauração, muitos prédios foram recuperados e tiveram outras destinações: faculdades, escritórios, sede de associações de classe, com as Federações da Agricultura e a Federação dos Trabalhadores – Fetag, bares, boates, galerias, agências bancárias, correios e o Museu da Imagem e do Som – Misa.
 
O Jaraguá foi durante muitos anos um bairro onde não se dormia; os prostíbulos da cidade se concentravam nas ruas principais, secundárias e nos becos. Os marinheiros, portuários e quantos desejassem curtir as noitadas nas farras e orgias tinham em Jaraguá o ambiente ideal.

A movimentação dos freqüentadores e moradores, entre eles as prostitutas, durou até o final da década de 1960, quando a Secretaria de Segurança Pública ordenou a mudança das boates, bares e prostíbulos da região portuária para uma área da cidade completamente desabitada, o Canaã.
 
O Jaraguá Tênis Club, que era vizinho dos cabarés, resistiu e presenciou o declínio do bairro. Quando Jaraguá passou a ser restaurado, era tarde: o declínio dos clubes na cidade já era uma evidência. Os seus dias de glória são coisa do passado e fazem parte da história da cidade. O clube hoje vive da tradição e da escolinha de tênis.
 
Os cantores Wilma Araújo e Igbonan Rocha criaram o Clube do Samba, o palco e o salão do Jaraguá Tênis Club. Essa iniciativa de cantar samba, de atrair admiradores do ritmo e oferecer a oportunidade para centenas de casais dançarem é, em tempo de pagodeiros e sertanejos bregas, louvável.
 
E no Clube do Samba não importa saber se o samba nasceu na Bahia ou no Rio de Janeiro; lá, o que importa é que as mulheres tenham molejo na cintura e os homens, samba nos pés. Ao criar o espaço lúdico batizado de Clube do Samba, a dupla de sambistas oferece ao público uma alternativa nova, para dançar e agregar ainda mais os sambistas de Maceió.
        
As gerações mais novas não vivenciaram as noitadas de samba na quadra da Escola de Samba Unidos do Poço.    Os moradores do Poço, Jaraguá e de outros bairros frequentavam a quadra da Unidos do Poço, sambavam e muitos também desfilavam no carnaval pela Escola. O Clube do Samba não foi criado para substituir uma Escola de Samba, mas para alegrar a vida de muitos amantes do samba e garantir algum dinheiro para os cantores e os músicos.
  
As vozes de Wilma e Igbonan cantam o que há de melhor no samba; o repertório inclui os sambas de compositores da velha guarda, os fundadores do samba do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e de outras partes. Mas seria muito bom a dupla incluir no repertório sambas feito por compositores alagoanos.

A produção dos compositores Ricardo Mota, Juvenal Lopes, Marcos de Farias Costa, Chico Elpídio, Ibys Maceió, Robson Amorim, Fernando Marcelo, entre outros, é significativa e está disponível, gravada em CDs.

         


O POETA ZÉ DA FEIRA

José Alves Feitosa, jornalista profissional (repórter fotográfico) e poeta. Nasceu em 29 de março de 1951 na cidade de Paulo Jacinto, Alagoas. Filho do cearense Antonio Alves Barbosa e de Rosa Feitosa Barbosa. O pai “seu” Antonio, trabalhador, passou parte da vida entre Alagoas e o Ceará, mas em 1960 o velho artesão toma uma decisão definitiva na vida: fixou-se em Paulo Jacinto, região serrana no agreste alagoano. Estabelecido na cidade montou uma pequena fábrica de calçados de couro.
 
A produção da semana era vendida aos sábados nas feiras de Viçosa e aos domingos em Paulo Jacinto. Os chinelos, as alpercatas e os sapatos eram de boa qualidade, rapidamente formou uma boa clientela nas duas cidades. O negócio era pequeno, não dispunha de capital suficiente para comprar matéria prima em quantidade suficiente para obter maior lucro. Mas mesmo assim criou a família com o suor do seu trabalho.

José, o segundo dos filhos, depois de perambular como cigano com o pai entre Alagoas e juazeiro do Ceará, e também após o falecimento da mãe, dona Rosa em 1963, foi estudar em Viçosa, cidade vizinha onde morava o avô paterno “Seu” Camilo. O contato com os cantores, a música popular e a poesia de cordel, abriu uma janela na vida do adolescente que mais tarde se tornaria poeta.

O ambiente de boemia em Viçosa, terra de grandes figuras, como o músico Zé do Cavaquinho, Teotônio Vilela, Octavio Brandão, José Maria de Melo, José Pimentel, José Aloísio Brandão, Alfredo Brandão, Sidney Wanderley, Denis Melo, Eloi Loureiro Brandão, Nelson Almeida e outros. Feitosa, diz sempre que: “Foi em Viçosa que iniciou o aprendizado do jornalismo e de minha profissão de repórter fotográfico.”

Trabalhou como repórter fotográfico em todas as redações de Alagoas, dos extintos Jornal de Alagoas, o mais antigo do Estado, que pertencia a cadeia dos Diários Associados e Jornal de Hoje, até os atuais Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, na primeira fase do jornal, quando foi inaugurado e pertencia ao saudoso senador Teotônio Vilela. Novamente está trabalhando como repórter fotográfico na redação do jornal Gazeta de Alagoas.

O fotógrafo desenvolveu habilidade e apurou a sensibilidade no dia-a-dia: cumprindo pautas, fotografando a seca, a miséria no sertão de Alagoas ou em Maceió, captando cenas cruéis de crianças saciando a fome catando resto de comida no lixo para comer em bairros periféricos. O olho de repórter e a sensibilidade de poeta caminharam juntos, sempre e desse feliz casamento nasceu um grande fotografo e cidadão.

O dia-a-dia na redação de um jornal é, para muitos, enfadonho, sem grandes perspectivas, mas para José Feitosa, essa rotina foi superada com os projetos que desenvolveu. O afastamento temporário das redações aconteceu em vários momentos. Primeiro vieram as campanhas eleitorais, ao ser tratado para cobrir campanhas de candidatos majoritários tanto ao governo de Alagoas como ao senado da República, em 1982 e 1986.

Nas eleições de 1982 entregou-se de corpo e alma, passou a ser fotógrafo e poeta oficial dos candidatos José Costa e José Moura Rocha. O Brasil desde 1966 não elegia os governadores dos estados, a ditadura militar havia acabado com as eleições diretas através do voto popular, os governadores passaram a ser escolhidos pelas assembléias legislativas.

A década de 1980 entrou com esperanças de que o país superaria a ditadura militar. José Feitosa foi eleito dirigente sindical, em diversas oportunidades e para diversos cargos na diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas. O movimento sindical brasileiro havia crescido, greves eram proibidas, mas os trabalhadores vinham realizando movimentos paredistas em vários estados e categorias, os jornalistas de Alagoas também fizeram a sua em 1979.

A luta contra censura nas redações era uma das principais bandeiras dos jornalistas. Em todos esses momentos esteve presente o jornalista e poeta José Feitosa, o Zé da Feira.


ROBSON AMARAL AMORIM

Robson Amaral Amorim (1948), músico e compositor. Nasceu em Recife no dia 13 de novembro de 1948. Filho de Aderson Evaristo Amorim e Diva Amaral Amorim. Estudou no Colégio Marista de Recife. Aos dez anos, acompanhado dos pais e das irmãs, deixou a cidade e foi morar em São Paulo, cidade onde passou a viver com a família.

O pai, Aderson, trabalhava como vendedor da Guararapes Tecidos em Recife. Chegando em São Paulo, continuou trabalhando como atacadista de tecidos. A mãe, dona Diva, trabalhava como cabeleireira.

Robson continuou os estudos em São Paulo no Colégio Mackenzie. Ao sair da adolescência, procurou um trabalho. Deixou, assim, por falta absoluta de tempo, os estudos. Trabalhou em várias empresas, mas foi na Crusoé Discos – época de vinil – onde trabalhou duro por dezoito anos.

Ter trabalhado como vendedor em uma loja de discos influenciou Robson para a música. No entanto, alguns anos depois, reconheceu que sua formação musical e também o gosto pela composição foram moldados no trabalho na loja Crusoé Discos.

As conversas frequentes com clientes, músicos, colecionadores, professores e gente simples que cultuavam bom gosto musical definitivamente abriram um novo horizonte na sua vida, e até mesmo a perspectiva de um dia viver como músico profissional.   

A música sempre esteve presente em sua casa. A mãe e as duas irmãs tocavam piano. O trio musical da família era composto pela mãe Diva e pelas irmãs Rose Mary e Sonia Maria do Amaral Amorim.

Mesmo com a influência musical na família, o verdadeiro interesse pelo violão surgiu por meio dos festivais de músicas da TV Record e da TV Tupi nos anos de 1960, período de efervescência da música popular brasileira.

São aproximadamente 130 composições musicais, compostas desde o tempo em que trabalhou na loja de discos em São Paulo, onde começou a compor e encontrou o seu primeiro parceiro, o músico Paulo Viana. A maioria das composições com letras foi feita com Paulo Viana. A outra parte são músicas instrumentais. Até o ano de 2010 foram gravadas 10 composições deste tipo.

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A VOZ QUE ENCANTA AS NOITES

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Micheline Deise de Almeida, ou simplesmente Micheline, nome artístico da cantora que tem encantado as noites maceioenses há treze anos. Por onde canta enche a casa, seja em barracas de praias, restaurantes ou bares alternativos. Homens e mulheres ficam atraídos pelo seu repertório e pela sua beleza.
 
É provavelmente a mais sensual das cantoras de sua geração −. atributo associado a sua voz afinada e seu repertório muito bem montado, vem cada vez mais atraindo admiradores.
 
A vida das cantoras e cantores que trabalham na noite não é nada fácil: cantam em pequenos palcos − quando não em calçadas −, isso para não falar de ambiente onde a acústica é imprópria. Em meio a tanta falta de condições de trabalho, são obstáculos e desafios superados através de artifício vocais e/ou performáticos.
 
Trabalhar na noite nunca foi moleza, não. Em qualquer época. Diante das dificuldades encontradas, a sorridente Micheline solta a voz e levanta o público. Nesses anos de estrada conquistou uma fatia de público e de fãs de causar ciúmes e dores de cotovelos às colegas de ofício.
Isso fica evidente, pois a cada casa em que se apresenta uma rede de fãs passa e repassa mensagens anunciando o novo ponto de encontro. É público garantido e casa lotada.  
 
Não faz muito tempo abriu o show da cantora Ângela Rô Ro, no SESC – Poço, e a plateia a recebeu com entusiasmo e louvação. Sinal, quero crer, de empatia entre o público − que já a conhecia das noitadas – e o repertório montado com algumas canções clássicas da MPB, outras de compositores alagoanos, aliado a sua performance no palco.
 
Micheline encanta. “Som de uma saudade” é o titulo do cd que lançou em 2008; são dezoito músicas gravadas, de vários estilos e épocas. Os compositores alagoanos Marcondes e Marcos de Farias Costas, e Robson Amorim – este paulista que já se alagoanizou − são interpretados por Micheline.

Onde canta:

Be Cat Bar e Petiscaria
Avenida Jatiúca, 109-A
Maceió – Alagoas


AOS 50 ANOS, O BALANÇO – III

[Deixa a vida me levar, vida leva eu!]

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O escritor Rubens Jambo, o cantor Paulinho da Viola e Geraldo de Majella, em 1985

O Partidão

Eles eram poucos.
E nem puderam cantar muito alto a Internacional.
Naquela casa de Niterói em 1922.
Mas cantaram e fundaram o partido.
Eles eram apenas nove, o jornalista Astrojildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermógenes.
E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois.
Em todo o país eles eram mais de setenta.
Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.
Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do Ocidente, nem mesmo do Brasil.
Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem de falar dele.
Ou estará mentindo.

Ferreira Gullar

O mergulho na militância política foi para mim uma alternativa real em contraponto à vida fácil, da boemia, por um lado, e de emprego garantido como funcionário público, sem que houvesse a necessidade de prestar concurso, por outro. A generosa oferta foi por mim recusada; preferi caminhar em sentido contrário.

O entendimento que adotei conscientemente indicou um rumo diferente das orientações familiares. Num primeiro momento causou um choque, no mínimo um espanto, mas como tinha iniciado no final da década de 1970 os contatos com a militância de esquerda emergente no movimento estudantil, a partir de 1979, descortinou-se a oportunidade de entrar para o PCB em Alagoas. O fato de fazer parte do pequeno núcleo reorganizador do Partidão fez com que eu amadurecesse rápido em todos os sentidos.

Passei a dividir responsabilidades com outros companheiros, alguns bem mais velhos, outros nem tanto, mas a vontade de organizar o Partido ocupava todo o meu tempo, apesar da minha insegurança, fruto essencialmente da pouca idade e da grande responsabilidade que me impus em trabalhar diuturnamente na reconstrução de uma organização política que andava totalmente desarticulada no estado, o que me deixava tenso.

Os embates internos deram outra dimensão aos primeiros anos de militância partidária. Os castelos erguidos por mim foram caindo, e outras realidades se sobrepuseram. Fui me dando conta de que aqueles homens eram comuns e passíveis de erros e de acertos, com vícios e vicissitudes também. Nada que fosse de um outro mundo; tudo era normal e, para tanto, a superação dos entraves organizacionais só foi possível com a entrada de novos militantes para, como se diz habitualmente, oxigenar o ambiente.

A vontade de criar uma nova estrutura partidária provocou inevitavelmente atritos, e a relação de amizade e camaradagem em muitos instantes foi rompida. A possibilidade de alterar a “hegemonia” interna passou a ser um objetivo a ser perseguido por mim e pelos companheiros. Tudo era doloroso. Estavam envolvidas relações afetivas e emocionais que acabavam por ter um peso significativo na estruturação e condução do trabalho de (re)organização do PCB.

Os contatos desse núcleo reorganizador com a direção nacional aos poucos foram ampliando a figura do “assistente da direção”. Antes, em 1980, duas visitas, a do jornalista Gildo Marçal Brandão e a do médico e sindicalista Agrimeron Cavalcanti da Costa a Alagoas, abriram veredas que pareciam largos caminhos em direção ao centro do Poder.

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AOS 50 ANOS, O BALANÇO – II

[Deixa a vida me levar, vida, leva eu!]

Tenho me distanciado de Anadia; não é caso pensado, no primeiro momento vim morar em Maceió, voltava durante as férias. Fiquei com a sensação de que deixei a cidade, mas a cidade não saiu de dentro de mim.
 
Nas férias, revia os amigos, caminhava pelas ruas, rememorava fatos vividos durante a infância e adolescência. Fui percebendo: quanto mais o tempo passava e as minhas idas se tornavam raras, quase bissextas, a cidade crescia em minhas lembranças.

Vivendo em Maceió, estudante na década de 1970, a volta, mesmo que fosse rápida, era um encantamento. Fazia comparações entre uma cidade e outra. Procurava sempre encontrar uma situação nas comparações que fosse favorável a Anadia, claro. Isso tinha a importância semelhante a um pagamento, pois eu estava quitando uma divida sentimental, certamente por ter deixado de viver na cidade onde nasci.

Se em Maceió há praias, naquele tempo, o rio São Miguel era comparativamente melhor para mim. A lembrança da praia do Sobral nunca me saiu das retinas, desde o primeiro instante em que a avistei, sentado na mureta da casa da Bebé Carneiro de Moura, prima querida, na rua Dias Cabral. Que visão mágica!

Fui crescendo e passei a conhecer os meandros da malandragem e da boemia na capital. Sentia-me um adulto, sem emprego, vida de estudante, com pouquíssimo dinheiro, mas com relativa liberdade, conquistando novos amigos, alguns ricos, outros remediados. Essas diferenças de classe não me diziam nada até então.

A praça Deodoro era um point de estudantes, boêmios, artistas, jovens intelectuais. Fui aos poucos conquistando espaço naquele meio; tudo era novo e perigoso também: rolavam drogas, o álcool predominava entre as drogas, sendo a maconha, entre as ilícitas, a que mais era consumida.

O clima político que o país vivia era de opressão; a ditadura militar exercia controle sobre as pessoas e sobre as coisas. A turma heterogênea da praça ficava entre a banca de revista e os botecos do entorno; a figura destacada do cantor negro César Rodrigues, vestido como se fosse um sósia de Fidel Castro, Marcos de Farias Costa, Marcelino Máximo Dantas, e os discursos alucinados do dr. Rui Sales.  
  
Nada me continha, porque o desejo de conhecer o mundo, pelo menos o mundo que estava em minha volta, tinha de ser conhecido, vivido, correndo riscos − e os corri. Entendo hoje que foram necessários. Havia pois um certo grau de responsabilidade em tudo ou quase tudo que eu fazia. Pode parecer uma incoerência, mas, creiam, não me joguei de cabeça em tudo.

A frase tantas vezes dita por meu pai ecoava em minha cabeça; ainda hoje reflito a esse respeito: “Tenha cuidado com quem você anda e o que faz, pois não tenho dinheiro para lhe tirar da cadeia. Não vou suportar vê-lo na cadeia”.

Para o meu pai, homem do interior, quem tinha dinheiro não era preso; mesmo durante a ditadura militar, a força do dinheiro ditava tudo na vida. A vida me ensinou que o velho não estava de todo errado, não. Nunca fui preso ou detido para averiguações.

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AOS 50 ANOS, O BALANÇO – I

[Deixa a vida me levar, vida, leva eu!]

Quando eu nasci, em 2 de janeiro de 1961, a cidade de Anadia (Alagoas) não dispunha de maternidade e nem sequer médico havia na cidade. O serviço público de saúde era precário, existia apenas um pequeno posto de Puericultura. As gestantes de risco não tinham alternativa a não ser recorrer aos serviços voluntários das parteiras.

A gestação da minha mãe não estava incluída nas de alto risco, mas num parto normal para o qual a Nina Chagas já estava de sobreaviso. “Mãe” Nina, como passei a chamá-la desde muito cedo, fez algumas centenas de partos na cidade e na zona rural.

Católica fervorosa, depois que nasci, rezou, me limpou e foi logo dizendo para os meus pais que eu seria protegido por Senhora Santana. A baixinha, carinhosa, de voz mansa, experiente nessa atividade tão nobre, todas as vezes que se encontrava comigo – desde criança e depois já adulto – me benzia com ramos de arruda ou fazia o sinal da cruz com o polegar direito. E dizia: “Senhora Santana é quem lhe protege, Geraldo”.

O casal, meus pais, havia passado por um momento de profundo pesar com a morte prematura do meu primeiro irmão, que se chamou, por alguns poucos dias, Geraldo de Majella.

O parto foi complicado e por pouco minha mãe não morreu; ele foi extraído a fórceps numa maternidade em Maceió. Da segunda gravidez de minha mãe nasceu a minha irmã Rosa Maria, e eu ao nascer acabei herdando o mesmo nome, pois meu avô Salvador Elísio Marques, que era devoto de São Geraldo, pediu aos meus pais que voltassem a colocar o nome do santo no próximo filho homem. Sobrou para mim o nome.
          
Anadia é uma cidade centenária, construída pelos portugueses próximo à margem direita do rio São Miguel. Os colonizadores escolheram o bonito e amplo vale que, quando visto do alto – da escadaria da igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade – se tem a visão geral no horizonte da serra da Morena e do São Miguel.

O São Miguel nasce nas terras altas e frias de Mar Vermelho; as águas correm em direção à foz, no Oceano Atlântico, na encantadora Barra de São Miguel, riscando ao meio o vale, fertilizando as terras nas vazantes, pastagens que os holandeses em 1643 disseram ser os mais belos pastos de todo o Brasil, evidentemente do que se conhecia no período colonial.

O rio São Miguel para mim sempre foi um encantamento, e em suas águas calmas no verão e revoltas no inverno, os meninos diariamente saíam em bando, num desafio infanto-juvenil, para mergulhar em todas as direções.

Saltar das árvores mais altas, as ingazeiras preferencialmente. Seria impossível recordar quantas vezes me senti um escafandro mergulhando sem qualquer aparelho, entre as suas pedras, numa profundeza que muitos adultos não se arriscavam; mas menino é assim, indomável, desconsidera o perigo. Para mim e para a maioria dos amigos, nada nos continha.

Saltos ornamentais, ninguém na cidade tinha a menor ideia do que fosse, mas eram dados durante os períodos de enchente, quando o rio transbordava inundando a parte baixa da cidade, a rua do alagadiço ou o sertãozinho.

Meninos e adultos, postados em fila da ponte do Urubu, sobre o São Miguel, saltávamos como se ali fosse uma plataforma, e nós os competidores, acrobatas.

As idas diárias ao rio era quase uma religião. No período de estiagem tomávamos banhos, observávamos o trabalho duro das lavadeiras, com trouxas imensas de roupas sendo lavadas, estendidas sobre o capim ou nas cercas de arames farpado, sob o sol escaldante para quarar.

A nossa diversão se dava em meio ao trabalho das mães, das filhas lavadeiras de ganho. Quando adolescente, tendo superado a ingenuidade dos tempos de criança, nossas presenças vespertinas na beira do rio tinham outros interesses não confessáveis: pegar lances picantes das lavadeiras; nos banhos nos finais de tarde, não era raro presenciar algumas delas nuas ou seminuas.

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A BELEZA FEMININA DESFILA NA SORVETERIA BALI

Faz alguns anos que eu escolhi a sorveteria Bali como o meu escritório, e em suas cadeiras e mesas tenho passado as tardes, na maioria das vezes. É para mim o melhor lugar que encontrei na cidade de Maceió. A sorveteria fica na praia de Pajuçara, de onde se pode contemplar a beleza do mar esverdeado e sentir a brisa que sopra do oceano para a terra.
 
Sentado, tomando sorvete, café e jogando conversa fora − essa tem sido a minha gostosa rotina nos últimos treze anos em Maceió. Uma ressalva: quando saio do trabalho, claro. Os amigos que passam, sentam e conversam; fala-se de coisas interessantes da vida de cada um e da vida alheia, lógico.

Entre os meus muitos e queridos amigos há um com quem religiosamente sento para conversar e tomar sorvete: é o escritor e cronista Carlito Lima. O mais entusiasta entre os amigos pelas coisas de Alagoas, pelo mar, pelas comidas, pelos bens imateriais e, mais que qualquer um de nós, um admirador da beleza feminina.

No dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, telefonei para ele, como faço diariamente, e perguntei: − Capita, vamos à Bali, olhar as mulheres bonitas?

Ouvi a resposta pronta: − Vamos, meu irmãozinho.

Tomamos sorvetes de sapoti, mangaba e pitanga, pedimos depois café com leite e arrematamos com pão de queijo. Passamos uma boa parte da nossa tarde e início da noite refletindo sobre uma situação que já tínhamos observado, mas nunca havíamos nos debruçado sobre o tema, seriamente.

Talvez por estarmos na antevéspera do Natal e nos acharmos mais atentos para o movimento da sorveteria, o entra-e-sai de crianças, jovens, mulheres e casais. Em menos de vinte e cinco minutos, quatro homens − um italiano, um alemão, um francês e um português − acompanhados de lindas mulheres brasileiras e negras.

Esse fato realmente chamou a nossa atenção; talvez haja acontecido outros encontros, mas num espaço de tempo maior e não tínhamos notado como hoje.

A satisfação e o encantamento deles − dos gringos − pelas mulheres era visível, indisfarçável. Não havia possibilidade de fingimento. Mas não foram apenas esses quatro casais que estivemos, eu e Carlito, a observar extasiados como se fôssemos fiéis defensores da mulher brasileira, e da alagoana em especial, uma espécie de defensores tardios de uma exclusividade imaginária.

Sem que combinássemos, cada um de nós ergueu muros intransponíveis para que os estrangeiros, mesmo os portugueses, fossem impedidos de escalar, ou seja, namorar as “nossas ‘mulheres; no meu caso, particularmente, as mulheres negras, e muito menos ainda namorar em nossa presença. Pairou um sentimento de ciúme extremo. 

Esse delírio ou crise de ciúmes tardio pode ser imputado aos cafés. As nossas imaginações, sonhos; posso falar sem pudor para os internautas: os nossos ciúmes chegaram ao ápice durante a tarde.

Silenciosamente passamos a tarde da antevéspera namorando aquelas belíssimas mulheres negras, e nenhuma delas nos dirigiu o olhar, nem por compaixão; balbuciávamos palavras de afeto, até juras de amor eterno; prometemos em voz baixíssima e nem assim elas percebiam a nossa presença. Estavam cegas para nós dois, e mesmo sentados em posição estratégica na sorveteria, de nada valeu.

Ensaiamos um concurso particular e estipulamos notas por atributos anatômicos. Os quesitos obrigatórios, como bumbum, seios e coxas, foram votados na maioria dos casos com notas máximas: dez, com louvor e distinção.

A noite foi caindo, os casais felizes com suas negras saradas e ditosas foram saindo em direção as suas alcovas, imagino, e nós, membros de um júri fictício, pagamos a conta e fomos cada um para a sua casa, assistir ao Jornal Nacional e à novela das oito.


SÃO PAULO, MEU AMOR

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O compositor Adoniran Barbosa

Augusta, Angélica e Consolação

Augusta, graças a deus,
Graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Augusta, que saudade,
Você era vaidosa,
Que saudade,
E gastava o meu dinheiro,
Que saudade,
Com roupas importadas
E outras bobagens.
Angélica, que maldade,
Você sempre me deu bolo,
Que maldade,
E até andava com a roupa,
Que maldade,
Cheirando a consultório médico,
Angélica.
Augusta, graças a deus,
Entre você e a angélica
Eu encontrei a consolação
Que veio olhar por mim
E me deu a mão.
Quando eu vi
Que o largo dos aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição,
Eu fui morar na estação da luz,
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.

Tom Zé

São Paulo é uma das cidades que mais gosto, me sito bem quando volto e me sentia melhor ainda durante os anos em que morei em Sampa. Nunca dei atenção, jamais fiquei maldizendo a vida na metrópole, por ser agitada, movimentada.

A cidade se transformou ao longo do século XX, deixou de ser uma cidadela e entrou para o rol das metrópoles. As vantagens e desvantagens podem ser contabilizadas, alguns saudosistas lembram do passado calmo, tranqüilo e seguro. Outros xingam, esbravejam os dias em que vivemos, barulho, insegurança, desemprego, tudo é motivo para se falar do gigantismo de São Paulo.

Eu sinceramente me amparo na beleza poética de Sampa, um dos hinos não oficial de São Paulo, composto por Caetano Veloso:

“[...[Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva [...]”

Não me zangava, de um modo geral, algumas vezes, sim, pois não sou de ferro; ao ficar preso durante horas no trânsito cada vez mais infernal. Ou durante as constantes enchentes que muda o humor da população e destrói vidas e esperanças. Procurei e ainda procuro- quando estou na cidade – relevar os dissabores ou melhor dizendo: o caos urbano que o paulistano vem sendo submetido.

As mazelas procuro tirar por menos. O que me atraia e continua a me atrair, seduzir em São Paulo é o multiculturalismo. Mesmo depois de tanto tempo continuo admirando a tolerância que há entre as muitas nacionalidades e etnias que convivem pacificamente na cidade.

Os nordestinos – meus conterrâneos – que vieram trabalhar na construção civil como operário, engenheiro, motorista, porteiro de edifício, professor, militar etc, ajudaram anonimamente na construção da maior cidade do país e numa das maiores metrópoles do mundo.

Deixando muitos deles em condições adversas, correndo da fome e da seca no sertão, mesmo assim chegaram na cidade com vontade de construir um mundo novo, uma civilização novíssima, trouxeram enfiado na matula os seus costumes, as tradições, culturas e a memória da sua terra, além da vontade indomável de trabalhar.

São Paulo me ganhou pela boca ou pelo estômago, como queiram. Os restaurantes, as cantinas, os bares, as doçarias, as sorveterias e a leiteria americana; que já não existe mais. A diabetes me obrigou a mudar de vida e de hábitos alimentares. Mas não me tirou o prazer de comer e viver.

A relação é enorme, alguns me ocorre, e não fica bem deixá-los de lado. O Parreirinha, na general Jardim foi ponto de encontro de Jamelão e de outros sambistas, inclusive de Paulinho da Viola. Na rua Aurora, 100, é servido o melhor chope da cidade, no Bar do Leo.

O filé do Moraes é inigualável, é sinônimo de boa refeição. Na esquina da avenida Consolação com rua Maceió, é o endereço do Bar das Putas, cerveja, cachaça e costelas é servida no capricho.

O Bom Retiro, bairro de poucas ruas, tradicional endereço da comunidade judaica em São Paulo, tem bons restaurantes dois me atraiam: O Acrópole, é servida a tradicional comida grega e o Cecília, é um restaurante especializado em comida judaica.

Em Moema, na zona Sul a tradicional choperia Joan Sehn, se mantém freqüentada pelos antigos e novos apreciadores de chope. O Bexiga abriga inúmeras cantinas mais a Montechiaro é quem melhor serve o cabrito ítalo-paulistano, é a minha recomendação.  
    
As livrarias, os museus, os shows, os teatros, os sebos tudo tem na cidade. “ Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”, o verso leva ao Bar Brahma, onde tantas e quantas vezes atravessei as avenidas famosas para tomar chope e jogar conversa fora.

São Paulo é uma coroa de 457 anos, se eu falar que está enxuta, estou mentindo pois tem chovido sem piedade, mas hoje em dia se pode dizer que é uma coroa sem garoa.

Salve São Paulo! 

 


JOSÉ INÁCIO ACIOLI: OURIVES, RELOJOEIRO E BOÊMIO

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Juca Pedrosa, José Inácio e Eduardo Correia

Foi registrado no cartório como José Inácio Acioli, mas toda a cidade e até as pedras das ruas, os paralelepípedos, o conheciam pelo segundo nome: Zé da Quininha. Aprendeu dois ofícios, o de ourives e o de relojoeiro. Trabalhou durante muitos anos. Não posso afirmar que tenha se dedicado integralmente, mas por bons anos foi das duas profissões que se manteve.

Quininha era, em geral, bem-humorado. O bom humor e a alegria contagiavam o ambiente onde estava. O pendor pela boemia era maior do que qualquer outra atividade, inclusive as de ourives e relojoeiro.

O silêncio que o trabalho de relojoeiro requer, a precisão na montagem e remontagem de engrenagens de relógios era, pois, incompatível com o seu temperamento. A solidão do trabalho causava-lhe certo desconforto.

Os dois ofícios, aprendeu quando jovem na condição de ajudante de outros profissionais na cidade de Anadia. Era num tempo em que não havia cursos profissionalizantes e a escola pública era restrita.

Autodidata em tudo na vida, também aprendeu a tocar violão e a cantar. Os seus mestres foram os boêmios que conheceu, e de muitos deles tornou-se amigo e, excepcionalmente, rival de alguns poucos. O motivo não foi a música, mas as mulheres.  Não frequentou escolas, seguiu intuitivamente os ensinamentos dos sambistas Noel Rosa e Vadico, que dizem: “batuque é um privilegio/ninguém aprende samba no colégio [...]”

Exerceu cargos públicos. Foi eleito vereador algumas vezes, duas pelo menos. A atividade parlamentar não o atraía nem era encarada como uma labuta que lhe causasse constrangimento em faltar a uma sessão da egrégia Câmara Municipal de vereadores, quando o motivo da ausência fosse plenamente justificável: está se iniciando uma farra ou nela está há tempos embalado com o seu inseparável violão.

Esse tipo de sacrifício os seus eleitores não lhe pedissem tamanha renúncia. O mesmo acontecia se clientes fossem procurá-lo para trabalhar em meio à sagrada boemia. A resposta estava pronta: “Deixe na relojoaria e depois vá buscar”.

No entanto, chegou um tempo em que os ofícios de ourives e relojoeiro foram totalmente abandonados, pois recebera uma oferta irrecusável: um emprego como funcionário público. Agora, sim, teria todo o tempo possível e não haveria incompatibilidade de tempo entre a boemia e o trabalho. Passou a ter um salário pequeno, mas certo ao final do mês. Desta forma gastou os últimos anos de sua longa vida.

O repertório por ele definido era quase imutável. Não adiantava solicitar músicas novas, que estivessem, por exemplo, sendo tocadas nas rádios. Esse tipo de coisa deixava-o injuriado. Fazia que não ouvia. Caso o pedido se repetisse, dizia simplesmente que não sabia.

A marchinha “Lancha Nova” de João de Barros, o Braguinha, e Antonio Almeida foi lançada na década de trinta, ganhou os salões durante os carnavais. Mas, desde muito jovem, Zé da Quininha incorporou-a ao seu repertorio até o final da sua vida.

Os amigos de copo e de cruz, os boêmios de Anadia, subiram as duas ladeiras íngremes levando-o para o cemitério, entoando “Lancha Nova” e outras canções de que tanto gostava e cantava nas mesas, salas e no cabaré. Aliás, era no Pernambuco Novo onde melhor cantava, com mais desenvoltura.

“Ô, ô, ô, ô,       
Lancha nova no cais apitou
E a danada da saudade
No meu peito já chegou
Adeus, oh! linda morena
Não chores mais, por favor
Partindo, eu morro de pena
Ficando, eu morro de amor.”


BAIXO JATIÚCA

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Botequim Paulista

A Avenida Amélia Rosa tem se transformado na área mais procurada de Maceió, é o point da boemia. Em toda a extensão da avenida – cerca de 1,2 km − o que predomina são bares e restaurantes. A vida boêmia que havia na avenida e seu entorno está cada vez mais agitada.

Alguns motivos são apontados como fatores de tais mudanças; a expansão imobiliária é um deles. A consequência é o crescimento do setor de serviços, pois estão sendo atraídos para a região lojas, lanchonetes, restaurantes, bares, padarias, sorveterias etc.
 
O número de bares com música ao vivo tem crescido e com isso aumenta a concorrência. Os músicos da noite veem crescer o mercado de trabalho. Os estilos e gêneros são variados: samba, pagode, chorinho no final de tarde − no happy hour –, seguindo pela noite; há também o velho e bom rock and roll e a MPB.
 
O público que antes frequentava as barracas de praias tem vindo para as noites, não só nos finais de semanas, mas em todos os dias da semana.
 
Essas transformações vêm ocorrendo não tão devagar como pode parecer. O público tem sido atraído também pelos ambientes mais sofisticados, podemos assim dizer, mas há muitos outros botequins onde a cachaça e os tira-gostos populares são servidos e nem por isso a frequência é menor.

A cachaça é a bebida mais antiga que conhecemos, mas no entanto recai sobre essa tão popular bebida um terrível preconceito social e econômico: nos bares da moda, por exemplo, não se encontra nos cardápios a aguardente. Deve-se isso à associação feita preconceituosamente de que cachaça é bebida dos pobres, portanto barata.

Motivo “suficiente” para excluir a bebida mais popular do Brasil de cardápios e mesas pretensamente sofisticadas. O Botequim Paulista é um dos estabelecimentos do Baixo Jatiúca onde é servida a cachaça com tira-gostos de picles, cebolinhas em conserva, azeitona, charque. 
        
O Bar do Camarão é um dos mais antigos em funcionamento no bairro. Funciona durante as manhãs e tardes, se mantém fiel ao horário e não abre mão das poucas mesas na calçada. A cachaça é o seu carro-chefe, além dos tira-gostos, que são recomendados para os que não têm restrições alimentares: caldinhos de dobradinha, feijoada, peixe, mocotó, feijão caseiro com charque, farinha, pimenta malagueta.
 
A simpatia do proprietário é uma das chaves do sucesso e da longevidade do bar. Os clientes, muitos deles, se tornaram em velhos amigos que com o passar do tempo também aumentam as cruzes no sangue. E como diz o ditado popular, tornam-se efetivamente amigos de copo e de cruz.
 
O bode é um animal resistente à seca, vive no semiárido nordestino, tem uma carne saborosa, sendo a base da alimentação do sertanejo. Em Maceió são poucos os bares e restaurantes que o têm em seus cardápios, e para o apreciador de caprinos que desejar saboreá-lo o local mais indicado é o Bode’s Bar. É servido como tira-gosto e como prato para almoço e jantar.

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AURÉLIO, SINÔNIMO DE DICIONÁRIO

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Aurélio Buarque de Holanda

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira [1910-1989] nasceu no norte de Alagoas, na pequena Passo de Camaragibe. Quando jovem, morando em Maceió, iniciou a sua vida profissional como professor de português. Na década de trinta foi estudar direito em Recife, onde se bacharelou.

Em Recife estudou com quatro alagoanos que se tornaram amigos de toda a vida: Aloysio Branco, Antonio de Freitas Cavalcanti, José Moraes da Silva Rocha e Mário Gomes de Barros Rêgo. 

Bacharel em direito, não atuou como advogado. Dedicou-se ao magistério tanto como professor primário quanto como professor de literatura portuguesa e francesa. Trabalhou ainda como funcionário público municipal em várias funções, desde Oficial de Gabinete do prefeito Edgar de Góes Monteiro até Diretor da Biblioteca Municipal e, cumulativamente, ocupou a função de diretor do Departamento de Estatística e Publicidade da prefeitura de Maceió, em substituição a Rui Palmeira. 

Mestre Aurélio fez parte de uma geração de grandes intelectuais nascidos em Alagoas, como Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, Humberto Bastos, Jorge de Lima, Aloysio Branco, Carlos Paurilio, Manuel Diegues Júnior, Mário Brandão, Rui Palmeira, Raul Lima e Théo Brandão.

Acrescente-se a essa relação Graciliano Ramos, o mais velho entre eles, e os aqui residentes Raquel de Queiros, José Lins do Rego e Tomás Santa Rosa, cearense e paraibanos, respectivamente.

A vida de mestre Aurélio em Maceió e no Rio de Janeiro esteve sempre envolvida com a língua portuguesa, seja ensinando, ou como revisor de livros e jornais, seja traduzindo de línguas estrangeiras para o português, ou escrevendo contos e pesquisando.

O saber popular ajudou o mestre a criar tantas palavras e verbetes. Vivia anotando tudo, principalmente a gíria cotidiana do povo. O dicionário Aurélio foi responsável por democratizar e desmitificar nossa língua, assimilando palavras de uso coloquial e do cotidiano até então ignoradas pelas pesquisas lexicográficas.

Em 1975, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa – sua principal obra − foi lançado. A partir desse momento tornou-se o livro mais vendido no Brasil, fazendo de Aurélio sinônimo de dicionário.

Mas quem pensa ou pensava que a vida dessa figura era de clausura, está ou esteve enganado. Um novo Aurélio sempre deixou a mesa de trabalho para sentar em outra: a da boemia. Aquele homem aparentemente circunspeto desde jovem, era conhecido como boêmio na Maceió provinciana das primeiras décadas do século XX.
 
Na capital alagoana, muitos amigos da época de juventude se tornaram parceiros nas rodas literárias e/ou de boemia. A maior parte da sua vida foi vivida na cidade do Rio de Janeiro, mas quando vinha passar férias em Alagoas era inevitável entrar na boemia.

Aurélio reunia-se com o jornalista Arnoldo Jambo, o teatrólogo Bráulio Leite Júnior, o poeta Carlos Moliterno, o cronista e político Teotônio Vilela, o industrial Napoleão Moreira, o escritor Emer Vasconcelos, a poeta e atriz Anilda Leão, dentre outros.

Esses encontros literorrecreativos ocorriam em residências de amigos ou nos bares, como o antigo Bar das Ostras, no banho da Bica da Pedra ou apreciando a lagoa Mundaú, bebericando no Pontal da Barra.

As honrarias e o reconhecimento em vida aconteceram e foram muitos, mas a maneira simples de viver e de encarar a vida o imortalizou. As academias − brasileira, alagoana de Letras e a brasileira de filologia e outras instituições a que pertenceu − não foram mais importantes do que o reconhecimento popular.

A imorredoura consagração aconteceu naturalmente fruto do valor de sua obra, sem que houvesse qualquer campanha de marketing. O reconhecimento popular de um trabalhador intelectual no Brasil não é tão comum assim. Aurélio conseguiu.

Indicação de leitura:
Marcos Vasconcelos Filho
Marulheiro – viagem através de Aurélio Buarque de Holanda
Maceió -Edufal, 2008, 339 p.


APOSENTADORIA

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O lugar onde se nasce tem significado especial; é comum a exaltação, cada pessoa fala da cidade onde nasceu – seja grande, média, pequena ou até mesmo uma aldeia; lugar distante, esmo da zona rural −, mas nem por essas circunstâncias, esquecido.
 
Se o indivíduo é um andarilho, viajante, marinheiro mercante ou funcionário de companhia aérea, andou por mares, desembarcou e conheceu portos e aeroportos em lugares distantes e exóticos, nunca deixa de pensar em sua terra; quando não deseja retornar, mesmo que fosse em férias.
    
Essa criação humana chamada cidade tem mudado rápida e intensamente. É comum encontrar, e não são poucos, os que nasceram na zona sul do Rio de Janeiro, por exemplo. Outros nasceram na periferia, mas o cidadão é carioca. O nascido na periferia diz logo que é suburbano.

É “lúdico”: grandes figuras do samba que nasceram lá, cantavam e cantam as suas origens com reverência. Essa região apartada da cidade se liga através da música, no caso do Rio de Janeiro. Mas não se identifica como periferia.

Há sutilezas na identificação do território. O suburbano não é, e não quer ser, identificado como morador da periferia.  As dificuldades materiais de cada morador ou da maioria deles indica em determinado momento da vida o grau de animosidade com a cidade.

O atraso no transporte coletivo, a violência urbana, a falta de emprego ou o baixo salário fazem com que o cidadão extravase uma certa dose de raiva da cidade. Maldiz a vida que vai levando.

É comum sentar num botequim ou em outro lugar qualquer e alguém dizer: “É impossível continuar morando aqui.” Ou coisas do tipo: “Viver nessa selva de pedra, aguentar o barulho, a poluição, a violência, chega! Estou contando os dias para me aposentar e ir morar numa cidade sossegada.”

Há momentos de desagradáveis notícias, quando a ira e até mesmo os ressentimentos predominam. Mas esse sentimento humano, da raiva, do desprezo é substituído por lembranças afetivas; brotam então do pensamento as memórias da infância já distante, mas que não são e que jamais serão esquecidas.

Muitas vezes os versos da Canção do Exílio, do maranhense Gonçalves Dias, rompem o silêncio imposto pela saudade e pela distância da terra amada, maltratada, nunca esquecida − versos tantas vezes recitados na infância, que lembrados, retornam com a força de um furacão:

“Minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá;
as aves, que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá”.

Essa briga constante com a cidade é comum; não significa uma ruptura total, mas um desabafo dos que amam e também odeiam; uma relação ambígua que segue vida afora. Nessa relação não é permitido bater. Isso nunca.
 
O trem que atrasa, a greve de ônibus, as rebeliões nos presídios, os apagões frequentes, tudo enfim de ruim ocorre e, no mais das vezes, quase simultaneamente. A denúncia do atraso dos trens que vão e vêm do e para o subúrbio, no caso carioca, é um tema recorrente de sambas. O Trem atrasou, de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho, serve como meu apoio. 

“Patrão, o trem atrasou
Por isso estou chegando agora.
Trago aqui um memorando da Central
O trem atrasou, meia hora
O senhor não tem razão
Pra me mandar embora”.

Até o dia em que o sujeito se aposenta e vai embora da cidade. Aliviado, diz orgulhoso: “Vou comprar um molinete, anzóis, todos os apetrechos para me dedicar à pesca.” Mas o zumbido da cidade permanece como se fosse um despertador rebelde que todos os dias dispara.

A cidade, seja metrópole ou não, permanece presente, num sinal evidente de um mundo vivido que resiste em abandonar o pescador aposentado, o caminhante de todas as manhãs ensolaradas à beira-mar.
 


CANTORIA, CASA DE BAMBA

O samba é a maior expressão da música brasileira. No entanto, os locais para ouvir e dançar são restritos em Maceió.  O Bar Cantoria tem sido, nos últimos cinco anos, o palco onde o samba desfila e os sambistas têm o abrigo necessário na cidade. Encravado entre casas e quintais, bambas catam e tocam samba em Mangabeiras. 

Nelson Sargento, compositor carioca diz que: “o samba agoniza, mas não morre”. Isto tem sido observado ao longo dos tempos: as modas aparecem do nada e abafam o samba momentaneamente. Mas, a exemplo da Fenix, o samba reaparece, emerge do mergulho imposto, volta garboso aos palcos, aos botequins, no carnaval.  É exaltado nas ruas, nas rodas de sambas, em casas pobres bambas mantém a tradição, renovando-o, sempre. 

É nesta fase de afirmação que se encontra o samba em Maceió. A resistência é explícita. Diante da segregação das mídias, tem sido tocado e cantado durantes as tardes, noites e pelas madrugadas no Bar Cantoria.

O bar sobrevive faz cinco anos, comemorados no último 25 de outubro. Música ao vivo tem em muitos lugares, nos quatro cantos da cidade e em quase todas as encruzilhadas, mas é raro um cantinho como o Cantoria.

As mesas espalhadas pela rua formam um ambiente descontraído, cerveja gelada, tira-gosto. Aos poucos vão chegando boêmios, músicos dispostos a cantar, oferecendo canjas semanais. 

Há entre os assíduos freqüentadores um que se destaca sem fazer força, é o infant terrible, Marcos Farias Costa, poeta, compositor e pesquisador de música popular.

Marcos pode ser considerado – sem que tenha reivindicado – o compositor da casa. Suas músicas, gravadas por Ibs Maceió, são cantadas. Tudo transcorre num clima de camaradagem. Boêmios de várias gerações sentam lado a lado, alguns cantam, outros bebem, mas há um traço comum entre todos: o samba, a boa música.

O poeta Fernando Fiúza, larga a lide acadêmica e vem sorver cerveja gelada ao som de cavaquinho e violão numa mesa que nos Clubes é denominada como: “da diretoria”, a que fica em frente aos músicos. 

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LIVRARIA SODILER: MANTENHA DISTÂNCIA!

O fim das livrarias em Maceió foi decretado. Restam poucas, sete apenas. Quatro pertencem à rede Nossa Livraria Editora, de Pernambuco, duas são do conglomerado nacional Laselva/Sodiler e uma da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal).
 
Há em Alagoas inúmeros escritores e não seria possível afirmar quantos são. Mas certamente já ultrapassa a casa dos quinhentos escritores. São poetas, contistas, romancistas, memorialistas, historiadores, sociólogos, juristas, antropólogos, cientistas sociais e políticos, geógrafos, arquitetos, agrônomos, teatrólogos, músicos − para ficar apenas nessas áreas.
 
No entanto, a Livraria Sodiler desconhece olimpicamente a existência dos escritores alagoanos. O escritor alagoano está vetado nas livrarias da rede Laselva/Sodiler.
 
No domingo, dia 2 de maio, fui ao Maceió Shopping e me dirigi à Livraria Sodiler. Qual não foi a minha surpresa, encontrei numa prateleira destinada a escritores regionais algo em torno de 15 autores alagoanos, que faço questão de nominar: Divaldo Suruagy, Hidelbrando Gentil de Oliveira, Alfonso Dacal, Kátia Oliveira, Ivanksuel Amorim, Miriam Rodrigues, Solange Lages, Devis Melo, Roberval Davino, Vinicius de Paula, Maria de Lourdes do Nascimento, Silvio Teles, José Coelho Neto e Sheila Malta Amorim.
 
Os autores citados são autores alagoanos ou residem aqui e não deveriam estar na categoria dos escritores regionais.
 
Dirigi-me a um dos funcionários e perguntei se na livraria tinha algum livro de Graciliano Ramos, Jorge de Lima ou Lêdo Ivo.

Depois de consultar a listagem no computador, veio a resposta, lacônica:

− Não temos.

Fiz mais uma pergunta:

− Há previsão de quando esses autores estarão à venda? 

− Não, não há, senhor.

Para finalizar, arrematei:

− Tem o dicionário do Aurélio?

Novamente o funcionário pesquisou na listagem do computador.

− Infelizmente, não temos, senhor.

Agradeci e fui embora tomar um café, boquiaberto com a inusitada situação.      
 
O que devemos esperar de uma rede de livraria que não dispõe de uma obra sequer de quatro grandes escritores da literatura e da língua portuguesa?
 
É notória a intenção – no meu entendimento − de burlar a lei municipal, de autoria do vereador Silvio Camelo, que estabelece um percentual mínimo de 10% de autores alagoanos a serem comercializados nas livrarias de Maceió.
       
Leitor, amigo, mantenha distância da livraria Sodiler!
 


O MESTRE ROBERTO MENEZES

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A partir da esquerda Roberto Menezes e Ronaldo Brito

O futebol atrai multidões pelo mundo afora, transformando os seus praticantes em ídolos e arrebatando corações em todo o planeta Terra. Esse esporte, nascido na Inglaterra, catalisou a paixão e a alma do povo brasileiro, passando a ser considerado um símbolo da nossa nacionalidade.
 
O Brasil tornou-se a grande potência do esporte no decorrer do século XX. Conquistou 5 campeonatos mundiais e atualmente é um dos grandes exportadores de atletas profissionais para todos os continentes. Através do futebol, o Brasil conquistou o Japão, com Zico, e até mesmo a superpotência norte-americana rendeu-se ao encanto de Pelé, o mais espetacular atleta de todos os tempos. Eles foram os responsáveis, os desbravadores, uma espécie de bandeirantes contemporâneos e civilizados. 

A alegria e o prazer da prática do futebol são também transferidos para os torcedores e espectadores. O futebol coloca o mundo em tomo da bola, reverenciando-a. 

Graças ao mundo globalizado, a magia do futebol percorre os mais longínquos cantos do planeta terra. Nas Alagoas, à beira-mar, o CRB revelou para o futebol um garoto loiro, mais parecendo um alemão, contrastando com os negros que em geral são os donos absolutos da prática do futebol.  Na Pajuçara, Roberto Menezes nasceu para o esporte tomando-se, talvez, o principal ídolo da historia do CRB, pelo menos na minha época de torcedor regatiano. É a minha visão de torcedor e, portanto, merece ponderação.

Pioneiro, conciliava a sua vida de jogador de futebol com sua outra atividade, que desempenhava com o mesmo afinco: o curso de engenharia civil na Ufal. Foram inúteis as propostas que recebeu para continuar jogando, mesmo depois de formado. Interrompendo a carreira que iniciara, preferiu construir o seu futuro distante dos gramados, da bola e da torcida, deixando precocemente órfãos os torcedores e os admiradores do seu belo futebol: no CRB e, fugazmente, no CSA, clube em que jogou apenas por um ano.
 
Definir um jogador como craque é algo que pode ser apenas paixão, nada mais. É comum entre os torcedores acontecer esse tipo de definição: “Fulano é um craque de bola”. No caso do Roberto Menezes essa definição foi mais fundamentada. Algumas características definem um craque: a regularidade com que atua em campo, a elegância com que passa a bola para os companheiros, e a principal delas: o craque se diferencia do restante dos jogadores em campo por antever as jogadas, por enxergar os espaços vazios à frente, colocando-se ou mesmo passando a bola aos pés ou na cabeça dos companheiros. 

Parece simples, mas é o grande diferencial entre os profissionais do futebol. Há, claro, os jogadores que são verdadeiros showmen em campo, pelas cambalhotas, pela forma de interagir com a torcida, mas não são efetivamente craques. Por mais que se queira explicar o craque, corno diz Tostão: “craque não tem explicação, ele é”.
 
Por mais que os técnicos, hoje, saídos das academias, das escolas, saibam que futebol é o esporte das multidões, pelo menos no Brasil, devem se guiar pela máxima do Nelson Rodrigues, que fala de craques: “O tempo é uma convenção que não existe, nem para o craque nem para as mulheres bonitas”.
 
O futebol é um balé praticado, no Brasil, por pobres e negros, na sua maioria, e portanto, tornou-se um ramo artístico. Seja no balé ou numa orquestra, você era o líder, Roberto, o maestro. A difusão dessa atividade artística ocorre através de milhões de críticos apaixonados que à beira do campo berram, choram, xingam a mãe do juiz, do bandeirinha, do ídolo, do cartola, mas, à semelhança de um raio, rapidamente reconciliam-se com todos no momento supremo do gol.

Sem o aparato tecnológico que hoje há à disposição dos praticantes do esporte − na década de 70 (a TV Gazeta é inaugurada em 75) não havia televisão em Alagoas –, Roberto Menezes conseguiu projetar-se como um ídolo, ultrapassando a fase anterior ao vídeoteipe. Logo, a memória do torcedor e a mídia escrita registraram o dia a dia da sua prodigiosa carreira de craque e mestre do futebol. O povo foi o melhor cronista do seu tempo de atleta, e através da memória popular o seu nome continuará rompendo o tempo como um virtuoso do esporte bretão.


EDER JOFRE, O GALO DE OURO

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O primeiro título mundial de boxe conquistado por Eder Jofre [1936] faz 50 anos, quando o brasileiro de 24 anos, 50 kg e 1,64 m de altura, se apresentou para o mundo como um gigante. Em menos de 20 minutos e no sexto assalto, na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, derrotou o mexicano Eloy Sanches.

O Gigante do Parque Peruche volta para São Paulo, sua terra natal, onde será recebido por uma multidão de mais de 20 mil admiradores.

O dia 18 de novembro de 1960 entrou para o calendário esportivo mundial como um grande dia, um dia inesquecível para Eder e para o boxe brasileiro.
 
Eder Jofre é filho de Aristides Jofre [Kid] e Angelina Zumbano, nascido numa família de boxeadores. Eder aprendeu muito cedo a gostar do boxe e seguiu a tradição da família, pois seu pai, seus irmãos e uma irmã, seus tios e seus primos foram lutadores de boxe.

O pai, Kid, aos cinco anos de idade levou Eder para brincar no ringue da academia, e este aos dezesseis anos se tornou profissional. Corria o ano de 1957.

Aristides (Kid) era argentino e veio morar no Brasil ainda na década de 1920. A família se dedicou ao boxe e ao trabalho como estofadores na periferia de São Paulo. A união da família Jofre com a Zumbano deu origem à maior dinastia do esporte brasileiro. Os tios de Eder eram sete; à exceção de Valter, todos foram pugilistas: Higino, Waldemar, Erasmo, Antonio [Tonico] Ricardo,Valter e Ralph. Erasmo morreu muito moço, de tuberculose.

Tonico foi campeão brasileiro de médio profissional; Ralph se destacou nas Olimpíadas de 1948, em Londres. Os descendestes de italianos tanto do lado dos Jofres quanto dos Zumbanos tiveram de trabalhar no pesado para sobreviver.

Waldemar Zumbano foi, durante décadas, militante do Partido Comunista Brasileiro [PCB], em São Paulo. A política, muitos anos depois, foi um caminho de passagem do bicampeão mundial de boxe, Eder Jofre, que se elegeu vereador na cidade de São Paulo.
    
 Eder Jofre é muito mais conhecido internacionalmente que em sua pátria. Faz parte da lista dos melhores pugilistas de todos os tempos, mas vive quase no anonimato no Brasil.

O pugilista japonês Masahiro Fighting Harada derrotou Eder em duas lutas, por pontos − Eder nunca perdeu lutas por nocaute −, e na disputa do titulo de peso galo, em 1965. Em outra categoria Eder sagrou-se campeão mundial em 1973, em Brasília, como peso pena.

Os números na carreira de Eder Jofre não têm registro oficial definitivo, vejamos:

O Record Book, de Nat Fleischer, editado em Nova Iorque, registra:

78 lutas
72 vitórias por nocaute e 13 por pontos
4 empates
2 derrotas por pontos

A Federação Paulista de Pugilismo registra:

81 lutas
75 vitórias, 53 por nocaute, 22 por pontos
4 empates
2 derrotas

O primeiro cinturão de ouro faz 50 anos. Saúde e paz, Eder Jofre.


A VOZ QUE NÃO SE CALA

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Mendonça Neto

Antonio Saturnino de Mendonça Neto [1945 - 2010], jornalista, advogado, professor, político e escritor. Nasceu no dia 10 de março de 1945, em Rio Novo – Minas Gerais, filho do casal Antonio Saturnino de Mendonça Júnior e Cloripes Matos Mendonça. Morreu no dia 10 de novembro de 2010.
 
Mendonça Neto passou a infância entre Minas Gerais e Alagoas; a adolescência e juventude, viveu-as no Rio de Janeiro, e foi na antiga capital federal que ele se aproximou do ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda. A influência política do udenista carioca moldou a sua vida como jornalista e político.
 
Ao regressar a Alagoas em 1973, Mendonça Neto se filia ao antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e, nas eleições de 1974, candidata-se a deputado estadual e se elege como o mais votado do estado de Alagoas.
 
A força dos seus discursos, a coragem em denunciar as violências cometidas pelos militares e seus seguidores civis em Alagoas, rapidamente o colocaram no centro da cena política local.
 
As tardes no plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas eram de um marasmo tumular. Esse clima foi quebrado com os discursos do jovem e elegante deputado oposicionista.
 
As denúncias feitas contra o sindicato do crime, organização clandestina que assassinava políticos e quem mais os chefes políticos entendessem como obstáculos em suas vidas. A voz do bravo Mendonça Neto se voltou contra esses antigos donos da vida e da morte nas Alagoas do século XX.
 
Quando ninguém no plenário da Casa de Tavares Bastos falava pela Anistia aos presos políticos, a voz que ecoou foi a de Mendonça Neto. E quando os crimes prosperavam sob o comando dos agentes da segurança pública era Mendonça Neto que cobrava, exigia, denunciava aos gritos e se postava ao lado das famílias enlutadas.
 
Foi assim que ocorreu quando assassinaram o estudante Jailton dos Santos, pelo fato de casualmente ter presenciado a execução de José Cândido, portador de deficiência mental e seu amigo. Ambos foram assassinados por policiais civis. Ao lado das famílias, lá estava o deputado Mendonça Neto.
 
O clima de violência dominava Alagoas. As eleições de 1978 foram fraudadas, como de resto as anteriores. O candidato da oposição ao Senado, José Moura Rocha, comandou a campanha da oposição e o MDB; foi derrotado pela soma dos votos de legenda. Mesmo assim, individualmente foi o mais votado. A bancada de deputado federal foi formada por Mendonça Neto e José Costa, os dois mais importantes parlamentares de Alagoas, naquela época, com origem na oposição ao regime militar.

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MARCUS VINÍCIUS

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O jornalista, poeta, cantor e boemio Marcus Vinicius

Marcus Vinicius Maciel Mendonça [1937-1976], jornalista, poeta, compositor e desenhista, nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, no dia 14 de fevereiro de 1937. Filho de Aldemar de Mendonça e Zelina Alves Maciel. Estudou inicialmente em Pão de Açúcar. Em 1949, transferiu-se para Maceió, onde continuou os estudos. O seu primeiro emprego foi no extinto Fomento Agrícola, órgão do Ministério da Agricultura, na função de desenhista, em 1955.

Mas foi como jornalista e músico que se tornou uma figura conhecida e querida dos boêmios e da intelectualidade alagoana a partir da segunda metade da década de cinquenta. Em 1959, entra para o Diário de Alagoas, órgão do grupo político do governador Sebastião Marinho Muniz Falcão.
 
Foi com o pseudônimo de Ícaro que ficou conhecido na imprensa de Alagoas, tanto no Diário de Alagoas como na Gazeta de Alagoas, para onde se transferiu em 1964, sempre encarregado pela edição do que na época se chamava de “Sociedade”, e que depois passou a ser a coluna social.
 
Já conhecido nas rodas sociais de Maceió, figura requisitada para os eventos sociais, festas, reuniões e bailes nos principais clubes da capital alagoana, Ícaro era um dos mais importantes e assíduos frequentadores do Bar Jaqueira. Os seus amigos de boemia e música eram Aldemar Paiva, Nelsinho Almeida, Bercelino Maia, Reinaldo Costa, Juvenal Lopes, Setton Neto, entre outros.
 
A sua permanência na imprensa diária durou cerca de quinze anos [1955-1970]. Foi em 1970, ano em o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, que deixou de trabalhar como jornalista profissional e retornou à antiga função de funcionário público federal como desenhista do Ministério da Agricultura.
 
O radialista, compositor, humorista e escritor alagoano Aldemar Paiva, um dos seus melhores amigos, escreveu a respeito, ao saber que Marcus Vinicius havia morrido de câncer na noite do dia 7 de maio de 1976:

“Ícaro, ele se assinava assim, o meu amigo Marcus Vinicius Maciel Mendonça, 39 anos, jornalista, seresteiro das Alagoas.

Meu amigo de Maceió morrendo às 23 horas do dia 7, seu corpo sendo levado para o Parque das Flores. Um lugar lindo, que andei visitando outro dia, em Maceió. Lugar bom para se ficar enterrado. Comércio de flores… Ouvindo orações… Tranquilo, belo, sossegado. Ali está Ícaro, o meu amigo.

Ícaro pegava o violão com o mesmo desembaraço com que usava a máquina de escrever e compunha. Ele não queria ser um profissional. Era o seresteiro anônimo.”

A nota triste foi Marcus Vinicius não ter conseguido deixar registrado em forma de disco a sua voz. Pesou talvez para Marcus e para muitos outros as dificuldades financeiras e práticas em gravar um long-play (LP). Resta-nos a memória dos que conviveram e ouviram a voz desse importante intérprete alagoano.    

Fontes: Pão de Açúcar – Cem anos de poesia – Coletânea. Etevaldo Amorim [organizador], Ecos Gráfica e Editora, Maceió, 1999, p. 65/66.


PELÉ SETENTÃO

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Geraldo de Majella e o rei Pelé

O dia 25 de outubro de 1970 transformou-se para os alagoanos numa data importante, pois foi inaugurado o Estádio Rei Pelé, o Trapichão. A Seleção Alagoana de futebol enfrentou o Santos Futebol Clube, o melhor time do século. O jogo inaugural terminou com a vitória esmagadora do Santos de Pelé, por 5×0, sobre a Seleção Alagoana.

O Estádio estava lotado, foram mais de 40 mil espectadores que pagaram – criança entrava de graça, por isso afirmo que havia mais espectadores. Um desses expectadores mirins era um menino de nove anos, que havia chegado de Anadia, com a família, para estudar em Maceió, em 1969. Esta criança era eu.

A minha mãe permitiu que eu fosse sob os cuidados de um vizinho, adulto, e de outros amigos. Saímos de casa logo após o almoço. Tínhamos de chegar cedo para pegar um lugar onde de pudéssemos ver o jogo bem. Ficamos na arquibancada central – depois transformada em território do CSA, que tem no CRB o maior adversário. Enfrentamos filas enormes, conseguimos entrar, sentar e ficar de frente para o sol escaldante.

A alegria de criança nunca é esquecida, e a minha, em especial, jamais será. Nem com Alzheimer esquecerei aquele jogo e as jogadas de Pelé.  Enquanto esteve em campo, deixou embevecido mais de 40 mil súditos.

O Estádio Rei Pelé durante alguns anos figurou como um dos mais modernos estádios de futebol do Brasil. Outros craques estiveram jogando por aqui. Vi muitos grandes jogadores, como Paulo César Caju, Ademir da Guia, Rivelino, Zico, Dirceu Lopes, Piazza, Roberto Menezes, Nei Conceição, Pedro Rocha, Silva, Soareste, Reinaldo, Joãozinho Paulista, Djair, Espinosa… É infinita a relação de bons jogadores que vi jogando no Trapichão.

Mas nada foi tão marcante quanto o jogo Santos x Seleção Alagoana.
 
Muitos anos depois, já adulto e pai, anos 1990, numa noite de boemia em São Paulo, saindo do Bar Biroska, na Avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros, em companhia do amigo Gilson Souza Leão, demos de cara com o rei do futebol. Ele estava muito bem acompanhado com duas lindas loiras.  Ninguém encostava, os seguranças não permitiam. Mesmo assim tentei um autógrafo, não foi possível. Levei um drible, claro.

Em junho de 2010, Alagoas recebeu por algumas horas o rei do futebol. Pelé foi convidado pelo governador Teotônio Vilela Filho para a reinauguração do Estádio Rei Pelé. Os dois principais clubes de Alagoas, CSA e CRB, fizeram a festa em campo. No entanto, foi Pelé quem atraiu as atenções do público, dos políticos, dos atletas e ex-atletas. Esteve presente na solenidade o ex-ponta direita Douglas, autor do primeiro gol no Trapichão. Douglas também foi homenageado na calçada da fama, deixando junto com Pelé as marcas dos seus pés para sempre.

Em meio a uma multidão de jornalistas, políticos, crianças, filhos dos presentes, estava eu e minha filha Isabela, tietando o Rei Pelé. O empurra-empurra foi grande, mas conseguimos chegar perto do Rei. O nosso objetivo era tirar uma fotografia ao lado de Pelé.

Conseguimos! Confesso que contamos com a ajuda dos seguranças do governador e com a solicitude de Pelé, que atendeu a todos indistintamente, tanto se deixando fotografar como autografando camisas, bolas, livros, pedaços de papel, em qualquer objeto que lhe fosse chegando às mãos.

Essa figura mítica que é Pelé completou, no dia 24 de outubro, 70 anos de glória e amor ao esporte. Continua dando exemplos de decência e cidadania por onde tem passado no planeta Terra.

Pelé é brasileiro, nosso irmão, o cidadão mais querido do nosso planeta. Isto não é pouco: é o atleta do século.
 
Vida longa ao Rei do futebol.

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MEMÓRIA & HISTÓRIA − A VOZ DO POVO

O semanário A Voz do Povo, órgão do Partido Comunista Brasileiro – PCB em Alagoas, começou a circular no dia 1º de maio de 1946. A redação de A Voz do Povo desde a sua fundação funcionou até a sua destruição, em 1º de abril de 1964, no nº 606 da rua do Comércio, num imóvel que pertenceu à histórica dirigente comunista Maria Augusta de Miranda (Marinete).

O primeiro diretor foi o jornalista e advogado André Papini Góes. Em 1947, Papini foi eleito deputado estadual constituinte pelo PCB. A redação era inicialmente constituída por jovens, alguns ainda estudantes, como Arnoldo Jambo, Floriano Ivo Júnior, Hélio de Sá Carneiro, Murilo Leão Rego e George Cabral, todos militantes do PCB.
 
As dependências d’ A Voz do Povo eram compartilhadas com a direção regional de Alagoas. A ocupação destes espaços evidenciava a ligação umbilical que havia entre o PCB e a administração, redação e oficina do jornal.

A máquina que durante décadas imprimiu o semanário era uma Marinoni com muitos anos de uso. Os tipógrafos, além dos seus afazeres, inúmeras vezes consertaram a máquina depois dos sucessivos empastelamentos.

O jornal teve três diretores durante os dezoitos anos de existência [1946-1964]: André Papini Góis, Osvaldo Nogueira e Jayme Amorim de Miranda.
 
Em vários momentos de sua vida o jornal teve de ser impresso em gráficas clandestinas em Maceió e no Recife. Esses fatos ocorreram durante os governos de Silvestre Péricles [1947-1951], Arnon de Mello [1951-1956] e Luiz Cavalcante [1961–1966]. O único período em que A Voz do Povo não sofreu com atos violentos foi no governo de Sebastião Marinho Muniz Falcão [1956-1961].
 
Nilson Miranda, antigo dirigente comunista e repórter d’ A Voz do Povo, testemunhou: “O jornal circulou durante anos em condições precárias. Mesmo assim era distribuído e lido nas fábricas, nos bairros populares de Maceió e em outras cidades de Alagoas. Foi uma escola de jornalismo.”

No dia 1º de abril de 1964 a sede do semanário foi invadida e destruída; os seus bens foram saqueados e a gráfica foi destruída. Os seus diretores foram presos. Terminou assim uma longa trajetória.

A invasão foi comandada pelos delegados Rubens Quintela e Albérico Barros, e o responsável pelo ato violento foi o comandante do golpe militar em Alagoas, o governador Luiz Cavalcante.

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O ENFANT TERRIBLE

A década de 1980 do século XX no Brasil foi considerada pelos economistas como uma década perdida. O mesmo não se pode dizer de Alagoas quando o assunto é produção cultural. Houve a aparição de um grupo de jovens poetas e escritores estreando e assumindo na cena cultural alagoana um papel de contestação da ordem estabelecida. 
 
A liderança de grupos muitas vezes é exercida por escolhas, em geral através de votação; no caso, a geração de poetas e escritores que se apresentou ao público nos anos 80 fugiu à regra. A liderança exercida por Marcos de Farias Costa ocorreu naturalmente, sem nomeação, de forma consensual. Havia entre eles uma concordância no pensamento e em algumas das ações práticas. 
 
A insubmissão aos cânones estabelecidos era o combustível que movia a todos, pelo menos nos primeiros momentos, mas a contestação na forma e também no conteúdo do que se produziu, na época foi ressaltada por grandes poetas e escritores da literatura nacional; a prova disso são as inúmeras correspondências trocadas com os poetas alagoanos.
 
Ao avalizar os textos desta geração, estimulando-os ou criticando-os, vários intelectuais de peso no cenário nacional serviram de estímulo e também, em certa medida, conferiram o reconhecimento para jovens que produziam poesia, apesar das adversidades expressas na desconfiança de intelectuais conservadores locais.

Essa nova geração se agrupava num estilo anárquico e, talvez por esse motivo, tenha sido tão malvista pelos cânones que entre nós reinavam − alguns vivendo de um passado sem muitas glórias, mas estabelecidos em pontos estratégicos nas instituições de cultura e manejando poderes que se espalhavam em muitas áreas do aparelho estatal.
  
A rebeldia juvenil dos poetas era expressa pela imprensa escrita, quando conseguiam.Mantiveram-se sempre diante dos olhos atentos e vetustos daqueles intelectuais de província que também mantinham influência – um quase controle − nos cadernos de cultura dos jornais locais. O cerco havia sido formado, às vezes sem a devida percepção por parte dos rebeldes. Como rompê-lo?

Essa pergunta demorou a ser respondida com acerto e serenidade. E não se pode dizer com certeza se houve resposta. Um outro tipo possível de resposta foi dado e não demorou muito para chegar em verso e prosa.   
 
A figura do poeta Jorge Cooper serviu de inspiração para essa nova geração de poetas, seus admiradores, com quem semanalmente se reuniam em torno de uma mesa para comer, discutir literatura e bebericar.

A diferença de idade entre Cooper e os demais era abissal, mas isso jamais os distanciou; ao contrário, aproximava-os cada vez mais, pois os jovens tinham em Cooper um mestre e um cúmplice.  
  
A liderança dessa geração foi exercida por dois lideres que, repito, nunca receberam votos ou tiveram algum mandato formal para representá-los. O líder orgânico foi Marcos de Farias Costa, e o espiritual, o velho poeta Jorge Cooper, que “atuava” na retaguarda. 

A influência − há muito reconhecida − não significou necessariamente apoio às ações práticas dos seus seguidores. O estilo de vida pessoal e literário de Cooper foi, creio, muito impactante na formação daqueles jovens poetas.

A concepção de mundo do velho poeta de origem inglesa era o que os atraia, além, claro, da sua produção poética, então quase totalmente inédita. O estilo de viver quase enclausurado o diferenciava dos seus contemporâneos. O fato de existir um poeta tão vigoroso, alagoano, que havia morado em vários estados e por tanto tempo passou a ser uma espécie de talismã, sobretudo sendo um homem de esquerda.

Até aquele momento − a década de 1980 − Jorge Cooper era o que o poeta paulistano José Paulo Paes disse a seu respeito: “O mesmo poeta que ao longo da sua vida não se empenhou em impor sua presença no palco do merchandising literário porque desdenhava ser ator de si mesmo, começa agora, com a maior discrição, a tornar-se um esquecido incomodamente inesquecível.” Ou o que dele disse a filóloga italiana Luciana Stegagno Picchio: “Um cacto solitário da poesia alagoana.”

O grupo liderado por Marcos de Farias Costa era constituído por Sidney Wanderley, Marcondes Costa, Diógenes Tenório Junior, Elício Murta, Luis Costa Pereira Junior, Susana Souto, Luzia Helena Wittmann, Norton Sarmento Filho. Como todos os grupos ou gerações, não firmaram compromissos nem juras de união eterna. A vida e as discordâncias os separaram. E cada um correu atrás dos seus sonhos e foi ganhar a vida como podia.

A verve afiada do enfant terrible Marcos de Farias Costa é um matraquear contínuo de uma metralhadora que girava em torno da renovação literária, nem sempre conseguindo acertar o alvo. Não é possível se conceber mudanças sem que haja dor, ruptura, lágrimas até. Esse caminho Marcos de Farias percorreu sobre brasas e álcool.
 
Tudo aconteceu, é justo que se diga, com acentuada dose de impetuosidade, ao verbo transmitida. Passados os anos, hoje com os cabelos dando sinais de que estão discretamente ficando brancos, é possível analisar aquele período de embates lítero-culturais com serenidade. Para tanto não significa negar os fatos, mas podem-se rever posições sem mudar de lado.

A geração de 1980 deixou como saldo dois grandes poetas e esgrimistas: Marcos de Farias Costa e Sidney Wanderley. Se me fosse dada a oportunidade de realizar um balanço, diria que o saldo foi extremamente positivo. Valeu, e muito, a pena ter brigado.

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TESTAMENTO DIANTE DA MORTE

A morte é uma ave agourenta que vive sobre as nossas cabeças. É uma certeza que temos, e ninguém duvida que um dia vai morrer. É a única certeza na vida. No meu caso em particular, venho espantado esse bicho de tempos em tempos, que se aproxima e tenta me bicar. É um bicho feio, sem nenhum ponto de candura ou beleza. É tristeza pura. Voos rasantes, confesso, sobre a minha cabeça, essa ave agourenta fez, mas não logrou êxito, até o momento, evidentemente.
 
O primeiro encontro com a morte. Quando eu tinha quase 15 anos, num carnaval em Anadia, num gesto em que misturei afoiteza e irresponsabilidade, montei num cavalo em pelo, sem arreios e cela, açoitando o animal, que desabalou como se estivesse competindo numa raia do Jóquei Clube. Ao tentar fazê-lo parar, ocorreu o pior: bruscamente o cavalo parou, e o “jóquei” anadiense se desequilibrou e caiu de cabeça no chão. O resultado foi a quase morte: um corte profundo entre a testa e o meio da cabeça, restando uma poça de sangue em terra batida e um corte de grande profundidade. Levei 22 pontos.
 
Perda dos sentidos, remoção para Maceió e o fim dos festejos carnavalescos para a minha família; preocupação, dor, sofrimento, tudo causado por mais umas das minhas peraltices. A morte andou pertinho. Vi-a pessoalmente. Dei um chega pra lá e sobrevivi sem sequelas. Restou o trauma de andar a cavalo.
 
O segundo encontro. Adulto e morando em São Paulo, no dia 14 de maio de 1993, no Hospital do Servidor Público Municipal, nascia Isabela Camargo, minha filha. Apreensivo para que não houvesse troca do bebê – crime usual nos hospitais brasileiros –, me informei antecipadamente por onde a criança passaria obrigatoriamente e em posição de sentido me postei. Naquele momento não era um pai, mas um soldado, um guarda pretoriano.
 
Isabela nasceu, a enfermeira gentilmente me mostrou e pediu que olhasse a pulseira que a identificava. O meu contentamento era incontido, a enfermeira se dirigia para o berçário e o pai, “tonto e babão”, sem se aperceber acompanhava até ser educadamente impedido de entrar no ambiente dos recém-nascidos.
 
Tudo era alegria, em companhia dos amigos Luiz Augusto Cannizzaro [Guto] e Paulo de Tarso Dutra, o PT, fomos à noite a boate Blue Note, na Avenida São Gabriel, assistir ao show do músico Muri Costa. Tomei todas, e lá pelas três da manhã saímos eu e Guto. Qual não foi a nossa surpresa, no escuro da rua tropeçamos num assaltante que agia calmamente. A nossa alegria, a minha mais do que a dos amigos, se transformou num tormento.
 
O bandido, que tentava arrombar um automóvel de arma em punho, nos acusava de bandidos e com a arma engatilhada apontou na direção do Guto e o atingiu pouco abaixo do olho esquerdo. O sangue escorreu pelo rosto, molhando a camisa; ato contínuo, se vira para mim apontando o trabuco e vociferando impropérios e as gírias paulistanas.
 
Esses poucos segundos duraram uma eternidade. A alegria do nascimento da filha, a possibilidade de morrer de graça por um assaltante que se arvorava em autoridade, e nós, dois jovens bêbados e cheios de vida, iríamos ficar estendidos no asfalto de uma das ruas do Jardins paulistano− bairro nobre, nós pobres. Quanta coisa passou pela minha cabeça naqueles instantes fatídicos. O desespero contido diante da ameaça de morte me ocorreu, interrompendo “respeitosamente” a falação do bandido, quase pedindo licença.

Entrei na dele e falei calmamente: “Ô mano, nós somos da área, você tá fazendo o seu, cara. Estamos indo pra casa, deixa a gente.” O dialogo foi curto, da minha parte; na deixa, o Guto, que estava com as mãos no rosto e tinha muito mais conhecimento das gírias paulistana, também falou, suplicando diante da fera. O resumo da quase tragédia foi o seguinte: saímos com vida, como bandidos, e em direção ao hospital 9 de Julho para cuidar do ferimento do amigo.

Ás 5 da manhã, mais ou menos, tomamos a última cerveja numa padaria perto do hospital e fomos cada um para a sua casa.

O terceiro encontro. Acordei cedo, como é meu hábito, tomei banho e me dirigi para o Flat do Hotel Jatiúca às 6h30, para o café da manhã com o amigo Ricardo Aragão. O café foi tomado, conversamos, e como Ricardo tinha pressa para chegar a Delmiro Gouveia, cidade localizada no sertão, a 320 km de Maceió, nos despedimos e marcamos novo encontro para o dia seguinte.

Dirigi-me ao estacionamento e encontrei um dos pneus do meu carro baixo. Iniciei o trabalho para a troca do pneu, senti uma dor no peito, mas na hora não a identifiquei bem. Mesmo assim continuei a troca, suado, e fui para casa tomar banho e trocar a roupa.

A dor persistia; tomei banho, troquei a roupa, pensativo e tenso, senti que poderia ser algo sério. Vi-me diante da possibilidade de que a dor poderia ser sinal de um infarto. Mantive a calma, aparente, fui ao quarto da Isabela, acordei-a e pedi que fosse comigo ao hospital, porque estava me sentindo mal.

Fui dirigindo para o hospital da Unimed. Durante o percurso, passei a minha carteira com os documentos e cartões de crédito para Isabela, e pedi-lhe que anotasse o número das contas e as senhas dos cartões de créditos. Iniciei o que eu estou denominando de testamento oral. Aos dezessete anos, Isabela anota as informações que vou passando. Percebo que os seus olhos vão ficando vermelhos e lágrimas descem pelo rosto. Situação dura para ela, uma adolescente que foi acordada para vivenciar tal situação.

A intenção era não criar nenhum tipo de revoada de amigos ou parentes até o hospital. Por isso mesmo recomendei à Isabela que não avisasse aos nossos parentes de Alagoas e que não telefonasse para São Paulo, onde mora a sua avó [minha ex-sogra] materna, sua mãe e seus tios. Nada de alarme. Serenidade era tudo o que eu estava querendo. Ainda no trajeto até o hospital da Unimed, pedi que ligasse para o meu colega de trabalho, Rodrigo Marques; é um cara “safo” e poderia, como de fato ocorreu, me ajudar naquele momento quase desesperador.

Fui atendido pelo Dr. Cid, amigo dos tempos em que estudávamos no Colégio Marista. Rapidamente me socorreu e diagnosticou o infarto. Perguntou quem era o meu cardiologista, e eu lhe disse que era o Dr. José Wanderley Neto. Sem perder tempo ligou para o setor de cardiologia da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, avisou ao Dr. Mário Salustiano, médico da UTI coronariana, que eu estaria chegando para os procedimentos médicos necessários.

Deitado num leito do hospital da Unimed, continuei o meu testamento oral, para Isabela. Pedi a Rodrigo que ligasse para o camarada Júlio Bandeira, médico e amigo, pois ele também se encarregaria de me ajudar. Imediatamente Júlio se comunicou com o Dr. Wanderley, que estava em Palácio, pois havia assumido interinamente o Governo de Alagoas. Mesmo assim ligou para o grupo de colegas que trabalha com ele na Santa Casa, recomendando o meu caso e se dirigiu para a Santa Casa. Isto vim a saber quando estava indo para a UTI.

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JORGE OLIVEIRA, REPÓRTER E CINEASTA

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Jornalista Jorge Oliveira

Jorge Oliveira é jornalista profissional há 46 anos; nasceu em 1948 no bairro do Prado, na cidade de Maceió. Iniciou a carreira como repórter em Alagoas, passou pelas principais redações dos jornais impressos e rádio: Diário de Alagoas, Gazeta de Alagoas e Jornal de Alagoas e Rádio Difusora. Na década de 1970, muda-se para o Rio de Janeiro, onde vai trabalhar nas redações do Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Jornal de Brasília, Rádio Nacional, Radio JB e Radio MEC.

O espírito irrequieto − uma das suas características − e a disposição incansável de repórter, frequentou quase todas as editorias. Em 1973, com pouco mais de três anos no Rio de Janeiro, ganhou o prêmio DER de reportagem − o primeiro da carreira −, quando trabalhava no jornal O Globo. 

O prêmio Esso é o mais cobiçado dos prêmios pelos jornalistas; Jorge ganhou dois. O primeiro em 1980, com uma série de reportagens sobre energia nuclear, pelo Jornal de Brasília. Em 1981 ganhou novamente o prêmio Esso, desta vez em equipe e pelo Jornal do Brasil.

Em 1978 foi enviado pela Editora Três a Alagoas para fazer uma reportagem sobre o “Sindicato do Crime”, organização criminosa com longa atuação no Estado. Nesta oportunidade, foi preso por policiais civis e levado para uma Delegacia de Polícia, onde foi barbaramente torturado.

Quando foi solto, recebeu a solidariedade de amigos jornalistas, apesar de continuar recebendo ameaças dos policiais. Sua família também foi ameaçada, numa clara indicação de descontrole do aparelho de segurança.

O Coojornal, jornal mensal editado em Porto Alegre pela Cooperativa dos jornalistas do Rio Grande do Sul, publicou a reportagem; o Jornal de Alagoas e o semanário Desafio republicaram a matéria. Nessa época andava em curso uma intensa atividade criminosa com origem na cúpula da Secretaria de Segurança Pública.

O governador de então, Divaldo Suruagy [1975-1978], diante da repercussão negativa do fato criminoso ocorrido contra o jornalista alagoano, convidou formalmente o torturado para um almoço em palácio. No dia agendado para o almoço, ocorreu o inesperado: o governador havia concedido uma audiência à cúpula do “Sindicato do Crime,” que às portas fechadas discutia amistosamente, e ao final os “dirigentes do Sindicato do Crime” são recepcionados pelo Chefe do Executivo. Num clima descontraído o jornalista é formalmente apresentado aos “capos” alagoanos.
 
A “audiência de desagravo” foi a fonte inspiradora para Jorge Oliveira descrever o “casual encontro” entre o jornalista, o “Sindicato do Crime” e o governador de Alagoas. O texto é uma peça histórica que, passados tantos anos, continua atual, com pequenas modificações. O que não se alterou foi a presença de criminosos investidos de mandatos parlamentares transitando pelos corredores palacianos nas Alagoas do século XXI.

O governador Divaldo Suruagy, após o almoço, despede-se dos “coronéis”, conduz o jornalista até o seu gabinete e sentencia:

 − Veja só, como podemos acabar com o Sindicato do Crime? Acabamos de almoçar com ele.

Retrucou o jornalista:

− Mas, Governador, não existe uma maneira de sanar esse problema, uma velha mancha em Alagoas?

Arremata o Governador:

 − É muito difícil. O Sindicato é composto de chefes políticos influentes em regiões importantes do Estado, com os quais precisamos nos relacionar para fazer política.

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POETA, COMPOSITOR E BOÊMIO

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O poeta Paulo Renault (fumando), com o compositor e parceiro Chico Elpidio

Paulo Renault Braga Villas Boas [1958-2003], poeta, compositor, funcionário público, trabalhou na Fundação Cultural Cidade de Maceió e Fundação Teatro Deodoro – Funted. Antes havia trabalhado como vendedor da Brahma. Nasceu em Maceió no dia 29/10/1958 e faleceu em Maceió no 19/11/2003. Filho de Renault Paranhos Villas Boas e Leda Braga Vilas Boas. Cursou até o 3º período de administração de empresas no Centro de Estudos Superiores de Maceió – CESMAC. Casou-se com a professora Márcia Maria Lima Villas Boas; o casal teve dois filhos, Rodrigo e Sergio Lima Villas Boas.
 
A política foi um dos assuntos que mais atraiu Paulo Renault, além da poesia e da boemia. Tinha nas veias o sangue do histórico militante comunista Júlio de Almeida Braga, seu avô e um dos fundadores em Alagoas do Partido Comunista Brasileiro – PCB, razão fundamental de tanto falar do avó e de relatar em segunda mão as proezas do velho comunista nas prisões e durante a vida de operário e inventor de instrumentos mecânicos.
 
Paulo Renault ousou na juventude entrar para a militância política no antigo PCB, mas logo admitiu não ser essa a sua opção de vida. Pediu “baixa” do PCB e seguiu o seu caminho de poeta e compositor. O que de fato estava certo, pois a política partidária não seria o melhor caminho para ele trilhar. 
 
Paulo Renault foi parceiro de Chico Elpídio, Eliezer Setton, Marcondes Costa e Carlos Moura, dentre outros. Das músicas compostas em parceria com os amigos, algumas foram gravadas. A temática de suas composições foi sempre focada na condição social do ser humano, seus desejos e suas fraquezas, com influências da bossa nova, da música de raiz nordestina e da MPB.

Integrou um dos mais importantes grupos musicais de Alagoas, o Grupo Terra. Esse conjunto musical foi criado no final dos anos 70 e permaneceu até o início dos oitenta. Márcia, sua companheira, diz que ele “possuía aguçado senso musical e uma voz privilegiada, com um agudo incomum, e que a sua relação com o violão – instrumento de sua predileção − era apenas a de um pretenso tocador, pois não se dedicava com a profundidade que gostaria ou deveria”.
 
Os músicos que constituíram o Grupo Terra se tornaram uma referência da sua geração. Entraram de corpo e alma na produção de música alagoana, com forte influência do estilo regional. Durante a década de 70 despontavam no cenário artístico nacional grupos musicais como o Quinteto Violado e a Banda de Pau e Corda ambos pernambucanos. 

A motivação dos músicos era também a do compositor Paulo Renault, que tinha como uma das suas características pessoais o entusiasmo e a grandiloquência. Talvez por ser dessa maneira, “mergulhava de cabeça” em tudo que escolhia.

A passagem pelos vários órgãos públicos de cultura era, além do seu oficio, um caminho para tentar se expressar politicamente no ambiente artístico e cultural das Alagoas.

Autodidata

O temperamento irrequieto o conduziu por toda a vida – curta, é bom que se destaque. Morreu com apenas 45 anos. Era autodidata; sem que nunca houvesse estudado direção teatral, codirigiu com Paulo Déo, em 1995, uma peça do consagrado escritor gaúcho Moacyr Scliar, Introdução à Prática Amorosa.

Três anos depois, em 1998, ajudou a montar o espetáculo Maceió Cidade Aberta, com o seu amigo o cantor e compositor Chico Elpídio. Esse show foi baseado numa de suas obras, e os poemas foram musicados por Chico Elpídio. A direção ficou a cargo do experiente diretor José Márcio Passos.

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