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TESTAMENTO

Vou deixar minha choupana
Pra quem tiver precisão,
Um “sôim” de estimação
Um patuá de cigana.
Como não possuo grana
Para guardar em poupança,
Deixo um galo por lembrança
Um burrego e um jumento
Tá feito o meu testamento
Que vou deixar como herança

Já deixei tudo anotado
Pra quem quiser fica um pote
Um reidão, um cabeçote
Um chifre do boi rajado
Um caldeirão amassado
Que comprei na maré mansa
Uma chibata de trança
Um pinto velho gouguento
Tá feito o meu testamento
Que vou deixar como herança

Deixo na minha palhoça
Um banco de aroeira
Um gibão, uma perneira
Enxada de limpar roça
Deixo uma mão de carroça
A pedra de uma balança
Pra quem quiser segurança
Um cachorro rabugento
Tá feito o meu testamento
Que vou deixar como herança


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MEU CINQUENTENÁRIO

Foram tantas veredas pedregosas
Na roleta do tempo não há fugas
Minha face marcada pelas rugas
Minhas mãos resistentes já calosas
Palmilhando por trilhas perigosas
Nem pensava que aqui eu chegaria
Mas com força, coragem e teimosia.
Vou chegando no meio da escada
Meio século de vida é muita estrada
Obrigado meu Deus por mais um dia

Entre flores, tropeços e espinhos
Adentrei-me na casa dos cinquenta
Nessa estrada longínqua e poeirenta
Vou cantando que nem os passarinhos
Se derrapo nas curvas dos caminhos
Não recuo jamais na travessia
Toco o barco buscando a calmaria
Com esperança e alma renovada
Meio século de vida é muita estrada
Obrigado meu Deus por mais um dia

No percurso da minha trajetória
Precisei de um irmão e dei abrigo
Recebi o calor de um ombro amigo
Que embalou-me no rumo da vitória
Na calada compus a minha história
Enfrentando sol quente e ventania
Mato a fome com o pão da poesia
Trago o verso na mão como uma espada
Meio século de vida é muita estrada
Obrigado meu Deus por mais um dia

Obrigado meu Deus, muito obrigado
Pela dádiva sagrada da família
Pelas horas constantes de vigília
Que estivestes comigo lado a lado
Pelos sonhos que eu tenho conquistado
Por mostrar-me na dor sabedoria
Pelos grandes momentos de alegria
Pela força da fé inabalada
Meio século de vida é muita estrada
Obrigado meu Deus por mais um dia


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CASA VELHA ABANDONADA

Casa velha abandonada
De ti só resta lembrança
Em seis anos de estiada
Não restou nem esperança
Nela não tem mais galinha
Um jegue que papai tinha
Morreu de sede também
Além de um gato faminto
Ouço lamentos de um pinto
Vagando no armazém

Essa tapera esquecida
Nos confins desse sertão
Guarda uma história de vida
De descaso e precisão
Um pé de coco gigante
Ficou como vigilante
Pastorando seus escombros
Numa cisterna rachada
Ficou água baldeada
Onde bebe os “malassombros”

Nesse pequeno ranchinho
Feito com muita escassez
Uma manta de toucinho
Era a refeição do mês
Por entre as brechas das ripas
Mamãe pendurava as tripas
Junto a tisna do fogão
De fome quase eu me acabo
Eita coisa ruim do diabo
É uma seca no sertão

Esse casebre escondido
Construído por meus pais
Virou museu demolido
Onde ninguém mora mais
Como um herói que esmorece
Um xique-xique adormece
Sobre uma cerca quebrada
Numa paisagem deserta
Um pote com a boca aberta
Implora a Deus invernada

Aqui não tinha riqueza
Nessa casa de pau torto
Mas não se via tristeza
Mesmo não tendo conforto
Em meio ao triste cenário
Vejo os restos de um armário
Onde um fantasma se abriga
Olhando pro seu terreiro
Só encontro formigueiro
Por entre uns pés de urtiga

Nesse castelo de sonhos
Vivi toda a minha infância,
Gozando dias risonhos
Sem pesadelo e sem ânsia.
Em todo canto que eu chego
Só vejo rato e morcego
Rondando pelos frechais
Se já fostes bem cuidada
Casa velha desprezada
Por que ninguém te quer mais?


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VIVA O POETA


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VIVA O POVO NORDESTINO

Sou eu um Zé nordestino
Cheio de birra e pantim
Comedor de rapadura
Com fava quente e “toicim”
Sou versos de Fabião
Sou Elino Julião
Nas unhas do guaxinim

Sou nordestino, não nego
Sou Arlindo, sou João Bá
Genaro, sou camarão
Sou o coroné caruá
Eu sou pife de taboca
Nas mãos de Zabé da loca
Tocando em Taperoá

Eu sou cavalo marinho
Sou matuto campesino
Sou o reflexo de Valença
Num espelho cristalino
Vaqueiro e festa de gado
Eu sou o barro amassado
Pelas mãos de Vitalino

Sou do torrão nordestino
Água bebida em cumbuca
Sou humor de Ludugero
Eu sou ferrão de mutuca
Novena no mês de maio
Eu sou feira de mangaio
Pelos dedos de Sivuca

Sou da terra nordestina
Sou raiz de marmeleiro
Sou rama de jitirana
Sou xique-xique e facheiro
Fuba de milho e coalhada
Eu sou madeira talhada
Nas mãos de Chico Santeiro


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RATUMANOS

O homem acende a centelha
Do pesadelo da guerra
O céu cospe labaredas
A boca da morte berra
O bonde da paz enguiça
E o vendaval da cobiça
Espalha o ódio na terra

Guardiões sanguinolentos
Escarnecem a fé alheia
Um míssil parindo ogivas
Rasga o céu e serpenteia
Uma sirene em alerta
Desnuda a noite deserta
O sangue jorra da veia

Nos guetos filas de ratos
Alimentando os seus vícios
Rasgando risos de raiva
Nas bocas dos precipícios
A morte ainda criança
Corta o pulso da esperança
Nas portas dos edifícios

O poder segue o seu rito
Serve a sua realeza
Rapinando os desvalidos
Roubando o pão da pobreza
Tirando dele os seus custos
Bebendo o suor dos justos
No prato da safadeza

Perdida, a humanidade
Geme de alma vazia
Cultuando falsos deuses
Vomitando hipocrisia
Sem leis severas que a dome
Sedenta e morta de fome
De paz, amor e harmonia.


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A CHAVE DO MUNDO

Na Coréia Kim Jong declara a guerra
Apontando seus misseis para o mundo
E os states rebate num segundo
O tratado de paz ali se encerra.
Falta pouco pra gente ver a guerra
Entre um louco e um doido fariseu
Que amedronta o planeta e resolveu
Fazer medo com seus fuzis caducos;
Deram a chave do mundo aos malucos
E o mundo, sem culpa, enlouqueceu.


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O HOMEM E SUAS PROEZAS

O homem polui o mar
Solta gás na atmosfera
Bota fogo nas florestas
O nosso clima se altera
Destrói nosso patrimônio
E a camada de ozônio
Aumenta a sua cratera

Com o seu instinto de fera
Destrói os mananciais
Tira a vida de inocentes
Com suas bombas mortais
Cultiva o ódio e faz guerra
Aniquila a paz da terra
Como se fossem animais

As suas armas letais
Trucidam mesmo distante
Jogam veneno nos rios
De forma repugnante
Dizima a vida silvestre
Aquece o globo terrestre
Em um cenário alarmante

Ameaça o semelhante
Munido de arrogância
Pra ele a vida na terra
Não tem sequer importância
Rouba, fere e assassina.
Deixando o mundo em ruína
Pela chaga da ganância


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QUERO O MEU FORRÓ DE VOLTA

Me criei ouvindo Elino,
Jackson, Marinez, Gonzaga,
Heróis que ninguém apaga,
Do cenário nordestino.
Como se fosse algum hino
A gente ouvia uma canção
Mas hoje essa tradição
Só nos provoca revolta
Quero o meu forró de volta
Animando o meu são João

Quero muitas brincadeiras
Resgatando o nosso brilho
Matuto comendo milho
No braseiro das fogueiras
Os sambas de gafieiras
Tocando em cada salão
O povo com animação
Sem precisar de escolta
Quero o meu forró de volta
Animando o meu são João

Não pode deixar de fora
O forró de seu Luiz
Nesse cenário infeliz
Hoje o nordestino chora
A ganância que explora
Fere o povo do sertão
É grande a desolação
Com tanta reviravolta
Quero o meu forró de volta
Animando o meu são João

Quero ver um zabumbeiro
Tocando em festa junina
Com pandeiro e concertina
Na latada do terreiro
Tem que ter um triangueiro
Sertanejo eu não vou não
E o nosso traque e rojão
Se deixar a gente solta
Quero o meu forró de volta
Animando o meu são João


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O AMOR DA MÃE DA GENTE

Só uma mãe se dedica,
Dando a vida pelos filhos.
Sem temer os empecilhos,
Por ele se sacrifica.
Seu amor se multiplica,
Se um filho está doente.
Jamais fica indiferente,
É grande a bondade sua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Se um filho sai pra brincar,
Na companhia de um amigo,
Pensa logo no perigo,
E o aconselha a ficar.
Jamais pensa em confiar,
Mesmo que seja parente.
Desconfiada e temente,
Vai procurá-lo na rua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Seu abraço verdadeiro,
Tem o carinho mais puro,
Deixando a gente seguro,
Nos tomando por inteiro.
Não há valor em dinheiro,
Que supere este presente,
Nem calor mais envolvente
Que a nossa alma usufrua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.

Carrega sempre a doçura,
O coração sempre amável,
Numa fonte inesgotável
De amor e de ternura.
Se mostra sempre madura,
Se um filho é confidente.
Se aconselha é prudente,
Não se zanga e nem se amua;
Não há quem substitua
O amor da mãe da gente.


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CARDÁPIO DE JUMENTO

Antes da semana santa
Me falaram num sussurro:
Vão botar carne de burro
Pra preso comer na janta.
Essa notícia me espanta
Esbravejou um detento;
Não gosto desse alimento
Prefiro comer carniça
Do que morder a linguiça
Do diabo desse jumento.

Já se encontra no mercado
Nos bares de Apodi
Porção de burro grelhado
Jumento a catupiry
Tem lombo na frigideira
Jerico ao molho madeira
Ovo de burro na brasa
Bisteca de jegue preto
Tripa assada no espeto
Como franquia da casa


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A SEMENTE DO MAL

O fracasso do mundo se acelera
Num cenário de guerra e de motim
Bombardeios, granadas, gás sarim…
Os anseios da paz já não prospera
Numa cena que choca e dilacera
Criancinhas suspiram pra morrer
Indefesos sem chance pra correr
Sai dos braços do pai pra sepultura
“A semente do mal está madura
Quem plantou se prepare pra colher”


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O BOM CONSELHEIRO E O CRENTE RAPARIGUEIRO

Um folheto da autoria de Zé Ferreira e Hélio Crisanto

Fundada em fatos reais
E de teor verdadeiro
Trazemos para o leitor
Do nosso Brasil inteiro
Uma história bem recente:
“O conselheiro e o crente
Que virou raparigueiro.”

O crente, que era obreiro,
Nunca fugia da raia
Lutava contra a fraqueza
Tida por rabo de saia
Um dia se descuidou
O sapirico o tentou
E ele caiu na gandaia

Certo dia ele desmaia
De tanta fornicação
O encontraram caído
De calça ainda na mão
Foi salvo por um amigo
Que depois desse castigo
Fez nele um grande sermão:

* * *

Bom Conselheiro

Você que era evangélico
Nas terras de Santa Cruz
Diz que virou agnóstico
Perdendo da vida a luz
Vi que deixou sua crença
Se metendo em desavença
Qualquer mulher te seduz

Crente Raparigueiro

Seu comedor de cuscuz
Saiba você me chateia
Olhar a vida dos outros
Isso é coisa muito feia
Virei sim raparigueiro
Vou gastar o meu dinheiro
Quem brincar entra na peia

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CARNE FRACA

Comer preá no sertão
Parece coisa nojenta
Tomar leite de jumenta
Tripa assada com feijão.
Mas carne com papelão
Nunca comi satisfeito
Não lhe digo por despeito
Prefiro comer tacaca
Porque hoje a carne é fraca
Não alimenta o sujeito

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CARNAVAL DE MATUTO


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CINQUENTA REAIS

Me criei ouvindo Elino,
Jackson, Marinez, Gonzaga,
Heróis que ninguém apaga,
Do cenário nordestino.
Cada canção era um hino,
Tinha letra e melodia,
Mas hoje essa porcaria,
Não vale um bujão de gás;
Não dou cinquenta reais
Nas músicas de hoje em dia

Só se vê a gurizada
Dançando naquela zorra
Sobe e desce, vai cachorra,
Libera nêga safada.
Aqui só tem preparada.
Outra música já dizia,
Com tanta verborragia
Ninguém aguenta mais
Não dou cinquenta reais
Nas músicas de hoje em dia.

Se escuta num paredão:
Sarra na pista novinha,
Tira logo essa calcinha,
Diz a letra da canção.
Nas letras de um “safadão
Só se vê muita heresia
E toda essa latomia
Polui nossos carnavais
Não dou cinquenta reais
Nas músicas de hoje em dia

Tanta música sem futuro
Que por ai só se escuta,
Chamando a mulher de puta,
Por isso mesmo eu censuro.
Tem uma tal de cú duro,
Que se dança na Bahia,
É tanta pornografia,
Que abusa a gente demais
Não dou cinquenta reais
Nas músicas de hoje em dia


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BICHO HOMEM


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O ENTERRO DO VERÃO

Quando a chuva sacode a cabeleira,
Da cabeça pendida de um serrote,
Sertanejo depressa limpa o pote,
Colocando-o debaixo da biqueira.
Um garrote berrando na porteira
Festejando o enterro do verão,
Os pedaços perdidos de um trovão
Se amontoam num galho de jurema;
Cada ponta de espinho é um poema
Enfeitando as veredas do sertão


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A LINGUAGEM DO AMOR

É triste e me causa dor,
Me desatina e me prende,
Que a linguagem do amor
O homem já não entende.
Com medo do abandono,
Um cavalo perde o dono,
Chora e sente desenganos…
(…) São verdadeiros sinais,
Que os pobres dos animais,
Sentem mais que os humanos.


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FELIZ ANO NOVO


© 2007 Besta Fubana | Uma gazeta da bixiga lixa